Fanfic finalizada

Capítulo Único

MAIO DE 1945
STORK CLUB, NEW YORK

Ela estava ali, sentada no bar sozinha e observando o gelo de seu whiskey se dissolver fazia mais ou menos cinquenta minutos. Constantemente sua cabeça se levantava, e ela podia sentir seus olhos se desfocando subitamente por olhar para o mesmo ponto por tanto tempo, procurando pelo relógio na parede atrás do balcão. Contudo, antes que pudesse encontrá-lo ela os desviava, temendo o que poderia encontrar escrito ali. não queria ter certeza de quantas horas eram. A mulher sabia que já devia ter passado de um certo horário, mas a ansiedade de não saber era a infinitamente melhor do que a agonia que ver as horas e confirmar o que a parte lógica do seu cérebro sabia. Está se iludindo, seu consciente dizia, você sabe que é impossível.
Sim, era impossível, mas seu coração não conseguia evitar de ter esperanças. Não sabia o que faria caso essa maldita parte estivesse certa.
era uma mulher à frente de seu tempo, muitos diriam. Ela era independente, e não havia alma viva que pudesse mandar nela. Sim, seguia ordens no trabalho (apesar de a maioria serem ridículas) mas apenas no seu ambiente profissional. Em sua vida pessoal ela era dona de si mesma. Ao contrário da maior parte das mulheres à sua volta – aquilo era os anos 40, afinal – ela não dependia de um homem para sua vida fazer sentido. Tinha um trabalho importante e significante para lhe sustentar, era grandinha já e podia se virar sozinha. Carter era o que chamariam de feminista futuramente, já que ela acreditava que era muito mais do que uma possível esposa de alguém ou geradora de filhos. queria fazer a diferença, sabia seu valor e estava determinada a prová-lo.
Porém, tudo perdia um pouco de importância comparado a ele. Não é que ela fosse contraditória ou uma hipócrita, mas a inglesa apenas tinha prioridades. Sim, ela queria ser alguém na vida, muito além do que apenas uma trophy wife, queria mudar o mundo, nem que levasse a vida inteira. Mas era exatamente por isso que ele era tão perfeito para ela. Ele entendia essa sua necessidade, porque a tinha também. Ele acreditava nela, a encorajava e torcia por seu sucesso, sempre lhe dando o respeito requerido com sua hierarquia e no trabalho deles. Constantemente se mostrando orgulhoso de suas conquistas, a incentivando a conquistar mais e mais. O ponto não era que ela precisasse disso, porque a verdade era que não precisava. Mas sim que ela queria tal apoio, e ele estava ali, pronto para lhe dar.
Juntando com a pessoa incrível que era, todas suas qualidades; sua determinação por fazer o que é certo; seu caráter, suas crenças e valores de que nada daquilo, nada daquela guerra era certo e persistência em terminá-la o mais rápido possível para acabar com todo o sofrimento; a bondade e gentileza que demonstrava a todos na SSR, desde do mais novo soldado até o general mais antigo... poderia passar a noite listando suas qualidades. Claro que ele não possuía apenas virtudes, ela tinha tantas histórias do que seus defeitos causaram; sua impaciência, louco para tomar o mundo apenas contando com um escudo de madeira; sua teimosia, a dificuldade de assumir estar errado e a insistência em fazer as coisas de seu jeito mesmo quando admitia seus erros. Sua alma de artista, que mesmo a agente amasse tanto tal seu traço, vinha acompanhada de uma tendência o drama que ela achava quase cômico. Porém, a parte irônica era que seus defeitos só o complementavam. Ele não seria essa pessoa sem eles, e era por esse motivo que os amava, pois tais defeitos só tornavam mais perfeito.
tinha certeza que mesmo que não estivesse completa e loucamente apaixonada por ele, Steve ainda seria um dos melhores homens que já havia conhecido, merecendo cada pingo de admiração que o mundo estava disposto a lhe dar. Mas ela estava apaixonada. E Steven Grant Rogers definitivamente era perfeito.
Ele era perfeito para ela. Ele era seu right partner. Era o amor de sua vida. Em um mundo ideal, a mulher se mudaria para Nova York após a guerra e eles se investiriam no relacionamento. Talvez até se casariam, cercados por seus amigos próximos. Os Howling Commandos, Howard, Coronel Phillips, Bucky Barnes... eles se casariam, ela continuaria a trabalhar como agente para a SSR, ele seguiria com sua carreira militar ou talvez voltasse para sua faculdade de artes e se tornaria um artista profissional, qualquer coisa que seus sonhos exigissem.
Passariam uns anos casados apenas aproveitando um ao outro e então, quando a hora chegasse e ela tivesse uma estabilidade no trabalho, eles poderiam ter filhos. Talvez dois ou três, sem preferência de sexo, desde que nascessem saudáveis e talvez com os olhos azuis turquesa que ela tanto amava. Eles finalmente teriam uma família, já que Steve perdeu a mãe cedo e nunca conheceu o pai, e ela que ainda estava em luto pela morte do irmão e que havia perdido o contato com a família para protegê-los durante a guerra, devido ao seu trabalho.
Eles cresceriam tão amados, com tantos “tios” que lhe contariam as mais diversas histórias sobre os pais, dois imãs para problemas. Bucky contaria todas as confusões que Steve se metia quando os dois eram crianças, suas travessuras e o que a dupla dinâmica aprontava quando os dois tinham o tamanho dos pequenos. Junto com os Howling Commandos, ele contaria histórias de guerra e como o pai deles era tão corajoso que chegava a ser insensato, a mãe tão destemida e disposta a enfrentar Deus e o mundo, e como o pai deles só tinha olhos para ela desde a primeira vez que a viu, em Camp Lehigh. Eles os ensinariam movimentos de luta e táticas, e junto com Howard os encheriam de presentes. Quando as crianças estivessem grandes o suficiente ela voltaria para o trabalho, ainda disposta a mudar o mundo, negando-se a ceder o seu lugar merecido e Steve a apoiaria, pois ele reconhecia seu valor e sabia o quanto aquilo era importante para ela. E eles envelheceriam juntos assim, sempre apoiando o outro, servindo como rocha e porto seguro, sempre uma equipe e sempre se amando loucamente. Viriam brigas, discussões, tempos difíceis e provações, mas ela sabia que os dois teriam perseverança e venceriam qualquer obstáculo, do mesmo jeito que haviam vencido a guerra.
Porém aquele não era um mundo ideal. Eles haviam vencido a guerra, mas não haviam vencido o destino. Não haviam vencido a morte. Aquele era o mundo real, e no mundo real Steve Rogers estava morto.
Com todo seu interior dilacerado com aquele pensamento, a consumindo a cada segundo e a ameaçando tirar toda a força que fazia para ficar em pé, ela soube que não podia mais fugir. Não dava mais para enganar a si mesma, pois a ilusão que criava já doía tanto quanto a realidade. Então, finalmente olhou para o relógio. Ele marcava um horário que fazia seu coração doer, o ar escapar de seus pulmões e as lágrimas formarem em seus olhos. Eram 20:35 de 17 de maio. Eram 20:35 da noite de sábado e estava sozinha. Trinta e cinco minutos se passaram, e apesar de uma parte desesperada ainda se agarrar que o homem estava atrasado, do mesmo modo de quando voltou do resgaste do 107° na Áustria, seu coração estava se deparando com a mais cruel verdade: Steve Rogers não estava ali porque ele não viria, de jeito algum. Ele não viria pois estava morto, preso em uma nave em algum lugar do atlântico, apenas com água e gelo para lhe acompanhar na mórbida eternidade. Estava em um lugar tão remoto que nenhuma expedição de busca havia achado alguma forma de vida por milhares de quilômetros. Nem a dele havia sido encontrada.
Ela virou a cabeça tão rapidamente para a entrada que pessoas do lado de fora, do outro lado da rua, talvez pudessem ter ouvido o estalo que seu pescoço deu. Seus olhos frenéticos reviravam o cômodo, desesperados para encontrar um homem loiro, alto e de olhos azuis, em seu uniforme verde e com um sorriso tímido no rosto. A cada segundo que passava o pânico se alastrava e um frio tomava conta de seus ossos, dando a impressão de que poderia estar nua na neve, tamanha era a percepção de seu interior se congelando. Uma sensação de claustrofobia lhe subiu a garganta, e ela respirava e respirava, mas nenhum ar entrava em seu corpo. estava se afogando, cada vez mais, afundando-se em suas emoções até que estivesse no fundo do oceano junto de Steve, em sua companhia e não sentada em um bar esperando alguém que não iria vir. Alguém que nunca mais iria ver.
Foi apenas quando sentiu um soluço, dois, três escaparem de seus lábios que ela voltou a si novamente. tentava controlar o choro, mas não conseguia engolir as lágrimas que saíam aos montes de seus olhos, a imensa tristeza e o vazio tomando conta de seu corpo e lhe impedindo de tomar o controle. Ela só havia se sentido assim uma vez na vida: quando viu os oficiais do exército britânico em sua porta, anunciando para seus pais a morte de seu irmão, Michael. Ela lembrava de ter tentado gritar, mas nenhum som ter saído de sua garganta, tamanha a força que ela impunha em suas cordas vocais, incapazes de reproduzirem tal som. Som que era a definição pura de desolamento, de desesperança, de um luto jamais visto antes.
Ela deveria ter se sentido grata que suas cordas vocais ainda não conseguiam reproduzir o som de seu coração sendo esmagado pela tonelada de luto que o envolvia, ou as pessoas em sua volta no bar certamente se assustariam. As pessoas sempre se assustavam com a destruição, então a mulher não tinha dúvida nenhuma que se assustariam com a tradução de toda ruína e devastação que sua alma carregava transformado em ruído. Se a morte soasse como o resto dos sonidos corporais, aquele seria o som.
Só que nem ela, uma inglesa que prezava pelo decoro, não conseguiria se importar. Tão incapacitada por seus sentimentos, apenas se sentou no banco da toalete que nem havia percebido que havia adentrado. Levantou as pernas no banco, pouco se importando com o sapato no couro ou de que ainda estava em público, ela as abraçou, abaixou a cabeça nos joelhos e chorou. Aos prantos ela soluçava, despedaçada e perdida em seu próprio mundo.
Nem quando Steve havia afundado com ela ouvindo no comunicador havia se sentido tão inútil, desesperada e desesperançada. Ela se lembrava de gritar com o comunicador, as lágrimas escorrendo como cachoeiras. Lembrava-se dos braços de alguém a envolvendo, provavelmente de Dum Dum, e a levando para longe do painel de comando. Havia passado pelo menos uma hora chorando nos braços do amigo, desolada após ouvir Steve afundando.
Ninguém havia dito nada para ela, após a mulher finalmente derramar tudo de si em suas lágrimas, a deixando em um estado catatônico, quase anestesiado após chorar tanto. Mal sabiam que a cada segundo que se passava parecia que alguma parte de si afundava junto com ele. Afogando-se em si mesma, sentindo a queimação do afogamento por todo seu corpo, sentindo o peso da água a pressionando e a comprimindo, a amassando como se quisesse esmagar sua existência ali mesmo. Não que ela se importasse. Porém ela só ficou quieta, a exaustão do turbilhão emocional dos últimos dias, junto com o que estava passando nas últimas horas, a exaurindo a ponto de não conseguir fazer nada mais que respirar. Algo que Steve não estava fazendo, se recordava de seu cérebro adicionando desnecessariamente.
Mas não, ninguém havia lhe dito uma palavra sequer. Porém, o que havia para dizer? Todos ali se importavam com Steve. Todos ali o tinham como companheiro, como amigo, como irmão. E, como quando souberam da perda de James, sabiam que não haviam palavras que amenizariam o vácuo que ele havia deixado. Era por isso que ela não se importou com a falta de consolações, e estava satisfeita com a presença que os amigos lhe faziam. Dum Dum, Gabe, Morita, Falsworth... todos, em algum momento daquele terrível dia, a abraçaram silenciosamente, a apertando alguns instantes contra eles, e ela pode sentir as lágrimas de cada um caindo em seus ombros. Talvez ela tivesse que ter se sentido melhor, vendo que não era a única ali a doer tão dolorosamente. Redundância? Não. Era que sua dor era tamanha, que a única intensidade que ela conseguia a descrever era a comparando com si mesma. Contudo, nem isso conseguia a confortar. Ao contrário, na realidade: só piorava, vendo o tamanho que Steve realmente tinha. O quanto daquela divisão era o Capitão, a importância que ele tinha e o que ele representava. E isso só aumentava o oceano de tormenta que tentava a engolir. nem tentava lutar, só deixava que ele a arrastasse cada vez mais fundo, a consumindo por completo. Ela poderia estar ali na base da HYDRA, mas para todos os efeitos, era como se tivesse sendo afogada junto com o loiro.
Depois de Phillips, ela achou que ficaria sozinha pelo resto da noite, o coronel mais velho a abraçando pela primeira vez desde que o conhecera, quase quatro anos atrás. Talvez ela tivesse achado irônico em alguma outra hora, mas naquele instante eram outros braços que ela queria em si. preferiria nunca ter uma demonstração física do chefe, que tinha quase como um pai, se significasse estar em outra situação. Se significasse que Steve estava vivo.


MARÇO DE 1942
CAMP LEHIGH, NEW JERSEY

Ela se lembrava dos primeiros dias. Aliás, da primeira vez que o viu. Estava em Camp Lehigh para auxiliar Phillips e Eskrine no recrutamento para o Project Rebirth, e por causa disso, era uma das responsáveis pelo treinamento dos recrutas. Em uma das primeiras tropas, um babaca resolveu dar uma de espertinho para cima dela, e a agente mostrou o poder de um jab de direita bem dado. Satisfeita por ter feito seu ponto ser entendido, mas sem graça por ter sido pega por Phillips, ela desviou o olhar apenas para encontrar um homem loiro, um pouco – ou talvez muito, mas quem era ela para descriminar – baixo e magro demais para estar naquele acampamento a encarando com admiração e incredulidade. Baseado no sorriso leve que tinha seus lábios, ela suspeitou que ele aprovava sua atitude. Sentiu o impulso de piscar para o rapaz na cumplicidade secreta que pareciam estar formando, mas achou melhor não o distrair do sermão que o coronel daria a seguir.
Se colocando ao lado do chefe, ela passou o tempo em que ele se dirigia aos recrutas observando o soldado loiro. Se fosse sincera, não entendia como ele estava ali, mas se sua face devota e tomada por determinação dizia alguma coisa, era que ele não seria facilmente deixado de lado. Sendo outra que lutava contra o sistema e nadava na direção contrária do rio, podia admirar a convicção que ele demonstrava em estar ali.
Os dias iam se passando, e logo ela aprendeu seu nome. Private Steven Grant Rogers, ele havia sido selecionado pelo próprio Eskrine para estar ali. Íntima e conhecendo o cientista como conhecia, ela soube respeitar seu julgamento. Se o alemão achava que Rogers deveria estar ali, ela apoiava a ideia.
Nem todos eram da mesma opinião. Phillips só sabia reclamar da presença do homem quando o via, e os outros recrutas estavam determinados que Rogers soubesse que eles achavam que o loiro não deveria estar ali, chegando até prejudicá-lo de propósito nos treinamentos. Contudo, mesmo com todos lhe dizendo não e tentando vez após vez o fazer desistir, Rogers persistia. E triunfava. Não importasse seus problemas de saúde, as desvantagens físicas que tinha em comparação aos outros e quanto tempo levava, ele sempre cumpria todos os exercícios. Cada um deles, com um esforço que parecia ser as últimas de suas forças, mas os completava. A cada dia tinha mais confiança na escolha do doutor, e cada dia sua admiração pela determinação do loiro crescia mais e mais.
A mulher não queria admitir, mas ficou realmente impressionada com a esperteza do homem ao vencer o resto da tropa no desafio da bandeira. Nenhum dos Commanding Officers acreditava que alguém pudesse pegar, não era apenas história que ninguém havia a pego em dezessete anos, quando a bandeira foi colocada ali. Mas, para a surpresa dela, invés de descansar e recuperar o fôlego ou até mesmo se meter na disputa que na verdade era apenas um esforço para mostrar quem era mais "macho", ele apenas ficou a alguns metros de distância, observando a cena com um olhar calculista. soube instantaneamente que ele estava planejando algo, mas nunca imaginaria que a resposta seria tirar o pino e esperar a pilastra cair para pegar a bendita bandeira.
A mulher quis gargalhar do olhar surpreso do supervisor e de incredulidade do resto da tropa, principalmente quando ele deu um sorriso debochado e convencido e entrou na viatura com ela. O riso acabou escapando de seus lábios quando o loiro sorriu e acenou para ela com seu capacete. Agradavelmente surpreendida, ela apenas se virou para frente ainda com um sorriso no rosto. Após alguns segundos, porém, quando chegaram na parte central da base e desceram do Jeep, ela teve que falar algo.
– Você realmente surpreendeu a todos agora pouco. Quem acreditaria que poderia ser tão fácil? – comentou a agente, a boca curvada em um leve sorriso. Ele era de sua altura praticamente, então não era difícil de olhá-lo nos olhos, e a mulher pode perceber um leve avermelhamento no rosto do rapaz, que ela sabia não ter nada a ver com o exercício anterior. Aquilo só aumentava sua vontade de sorrir. Tentando controlar suas reações ao recruta, ela se perguntou: podia ele ser mais adorável?
– Todos mal podem esperar para demonstrar sua força, que às vezes se esquecem que nem tudo se resume à bíceps e tríceps. Às vezes o músculo necessário é o cérebro. – respondeu Rogers, dando de ombros, claramente fazendo pouco caso. Aquilo sim acabou por tirar um riso dela.
– Obviamente, nem todos pensam assim. Há quem diga que você trapaceou. – ela brincou, e pode ver as bochechas dele ainda mais rubras. Não deveria, mas não conseguia não se sentir mesmerizada pelo rapaz. Rogers era tão diferente dos outros soldados na base, que ela queria mais de sua companhia. Seria uma bela diferença em comparação aos outros recrutas idiotas que só sabiam insultá-la e dar em cima dela, às vezes na mesma frase. – Estou indo pegar um pouco de chá na cafeteria, enquanto os outros não chegam. Me acompanha?
Com um tímido aceno de cabeça, a fazendo pensar que ele provavelmente nunca havia falado com uma mulher antes e se perguntar se ele um dia voltaria a sua coloração normal, os dois se dirigiram ao refeitório do acampamento. Era uma pena que ele fosse tão tímido, ou talvez ela poderia ter uma conversa interessante que não fosse sobre assuntos militares ou com tons paternalistas. Foi por isso que ela se surpreendeu quando ele voltou a falar.
– Ninguém disse como era para pegar a bandeira. Só que era para pegá-la. O método não influencia muito quando a estratégia é boa.
Em qualquer um soaria arrogante e prepotente, mas Steve havia dito com uma calma e desconexão com o acontecido que a surpreendeu, mais uma vez, naquele dia. Qualquer um dos outros recrutas estaria se gabando para quem pudesse ouvir, mas o loiro apenas caminhava quietamente ao seu lado, alternando entre observar os arredores e olhar para seus pés. podia ser nova, mas não era ingênua. Sabia que sua presença desconcertava o soldado, mas não de um jeito ruim. Como várias coisas que estava descobrindo sobre ele, só estava ficando mais curiosa pelo o que mais descobriria dele. Então, tanto no caminho de ida como de volta da cafeteria, ela foi fazendo perguntas ao loiro. Ele as respondia timidamente, sem graça, e se enrolava em algumas das frases, mas só adiantava para aumentar a nova afeição por ele ainda mais.
Enquanto esperavam os outros, Steve – por favor, agent Carter, não precisa me chamar por Private Rogers. Pode me chamar de Steve – contou como havia ido parar em Lehigh. Apesar de todos seus impedimentos físicos, ele desesperadamente queria servir. Não para brigar, não para alcançar a glória. Não, era inspirado por seu pai, que morreu na guerra anterior e por seu melhor amigo, Bucky Barnes, um Sargento do 107° regimento de Infantaria e que estava em algum lugar da Europa no momento.
– Sei que quase todos só vêem meu tamanho ou meus problemas, mas como posso ficar em casa seguro quando há pessoas lutando para que eu tenha esse direito? Quando há pessoas dando suas vidas para que eu possa viver a minha? Não. Eu preciso fazer uma coisa, e sei que posso fazer alguma coisa. Mesmo que não acreditem em mim. Provarei meu valor. – disse o homem. A convicção de antes voltou com força total, e ela teve que admitir que se sentiu meio enamorada pelo seu discurso apaixonado. Steve havia provado que não era um homem de apenas palavras, e cada vez mais tinha a certeza que ele conseguiria o que queria. Tanta teimosia tinha que dar em algo, ela bem sabia. Por isso se identificava tanto com ele. Sabia o que era ter que lutar contra o mundo para mostrar que valia alguma coisa.
Era hipnotizante a força de vontade, de caráter que ele demonstrava. Conhecia homens bons, mas a cada interação com Steve, por menor que fosse, ele superava cada e qualquer expectativa e comparação que ela tinha. Não se lembrava de pensar tão bem de alguém como Michael, e em momentos achava que ele até passava seu irmão em tais características.
Porém, determinação e convicção apenas não ganhavam a guerra. Esforço Steve já apresentava todos os dias. Coragem tinha até demais. Mas o que realmente o fez ser escolhido, já que, no final, a escolha era do Dr. Eskrine, foi o que aconteceu com a granada falsa. Steve entrou para o projeto pelos motivos que os outros como Coronel Phillips o queriam fora: por ser quem era.
Havia aos montes homens que tinham coragem de estar em campo de batalha. De voluntariamente se sacrificar, sem hesitação alguma pelos outros, mesmo que não os conhecesse, era exatamente o tipo de pessoa que Dr. Eskrine queria.
, quando viu a granada, sem pensar duas vezes foi em direção à ela para pegá-la, mas se surpreendeu ao encontrar Steve no chão, cobrindo o objeto com seu corpo, mandando todos se afastarem enquanto ele levava a bala hipotética. Parecia que não era mais surpresa ser surpreendida por Steve, mas ela não entendeu (ou não quis entender) nem pode evitar a onda de afeição que tomou seu corpo ao vê-lo no chão, veementemente querendo proteger todos ao redor. Claro que a total falta de autoproteção a preocupou um pouco, mas a mais recente prova do grande caráter daquele homem tomou toda sua atenção. Ela pouco o conhecia, mas já possuía o maior respeito por ele, e sabia que o loiro era uma das melhores pessoas que conheceria em sua vida. E Steve? Ele mal sabia, mas só por ser quem era, ele havia acabado de provar seu valor.


ABRIL DE 1946
STORK CLUB, NEW YORK

A agente queria dizer que não era uma cliente assídua do lugar, mas seria mentira. Provavelmente estaria ali todo sábado, se o trabalho deixasse. Como emergências e crimes para investigar não tinham hora para acontecer, ela não podia prever quando poderia ou não ir até o estabelecimento. Porém, de todo jeito, mesmo há apenas quatro meses morando na cidade, a staff do bar provavelmente a via mais do que qualquer pessoa que não fossem seus insuportáveis colegas de trabalho.
Na primeira vez, havia ido até ali porque pensava ser um gesto bonito para se despedir de Steve – mesmo que já tivesse dado adeus a ele mais vezes do que deveria ser aceitável –, honrando o combinado que haviam feito durante seus últimos momentos. Na hora ela não quis admitir, mas esperava ver o homem ali, e partiu seu coração quando a realidade bateu em sua porta.
Ainda doía, na verdade, e não sabia porque continuava vindo até ali. Já fazia um ano que ele havia desaparecido, e a mulher continuava indo no clube periodicamente, sempre para lembrar dele. Talvez fosse uma maneira de se sentir perto dele, mesmo que nunca tivessem estado ali juntos. Talvez fosse uma maneira de mantê-lo vivo (como se não bastassem suas lembranças, as memórias e as pequenas coisas que guardava dele).
O ponto era que o Stork Club, de alguma maneira, mesmo que machucasse cada célula do seu corpo quando ia até lá, sempre seria um lugar para lembrar de Steve. O problema era que o bar também representava o que ela nunca teria, e por isso se sentia despedaçada toda vez que ia até lá. Como não era masoquista, e já sofria com a perda do loiro o suficiente durante os dias sem aquela tortura. Só não podia evitar algumas vezes.
Foi o que aconteceu após toda a confusão que havia sido a missão com Howard. Mexer nos acervos antigos e achar o arquivo de Steve, com a foto que ela amava tanto, estar na Europa com os Howling Commandos, e, como poderia esquecer, sua desesperada tentativa de fazer um Howard hipnotizado por um psiquiatra alemão louco por vingança dar a volta com seu avião e desistir do que estava planejando. Se aquilo não era gatilho para lembranças, ela não sabia o que era.
Precisava sair. Howard havia lhe cedido hospedagem em seu apartamento em Nova York já que por sua culpa ela tinha sido despejada, mas a cobertura parecia estar se fechando ao seu redor enquanto ela processava tudo que sentia com o desfecho de sua missão. Ela precisava sair, e era o que havia feito. Parte de si sempre soube que acabaria no Stork Club. Era ali, afinal, que ia quando a falta que Steve fazia ameaçava a consumir por inteiro. Claro que ainda acontecia, mas pelo menos no lugar ela não se sentia tão sozinha. Aquele era o lugar deles, e se tinha um lugar em Nova York que a fazia se sentir perto de Steve, era o clube.
Por isso talvez não deveria ter se sentido surpresa ao sair de seu turbilhão de pensamentos e perceber que estava no bar do clube, com um drink em mãos. Para onde iria, afinal? Mas talvez tivesse sido a voz que soou atrás de si, lhe surpreendendo com a presença.
– Achei que fosse te encontrar aqui.
– Howard. – disse, soando pasma ao olha para trás e ver o cientista a olhando, lhe dando um sorriso de lado que para os outros pareceria de flerte, mas que para ela era impossível de não perceber as características tristes. – Aproveitando a liberdade e as boas graças do público novamente?
– Sempre estive nas boas graças do público, . – debochou, vindo em sua direção e se sentando do seu lado. Ele chamou a atenção do bartender e indicou que queria o mesmo que ela estava bebendo, whiskey neat. – Vocês do governo que não decidem se gostam de mim ou não.
Ela soltou uma risada pelo nariz, tomando um gole de seu copo enquanto ele recebia o dele e fazia o mesmo. Não poderia falar que era exagero ou drama, porque parecia que o governo hora amava Howard Stark, hora queria sua cabeça em um espeto. Mas, para ser justa, eles tinham todos seus aliados em tal tratamento.
– Como soube? – perguntou a mulher, sem olhá-lo, meio que imaginando a resposta. Odiava como o amigo era uma das poucas pessoas que a podia ler como um livro. Se questionava se ele por acaso a achava patética por tal comportamento. Não que se importasse, é claro, mas seria interessante saber se outras pessoas tinham a mesma opinião que ela. – Como soube que eu estaria aqui?
– Eu podia não estar presente no momento, mas eu sei o que aconteceu naquela sala de comando da Hydra, . Sei do combinado. E visto o que passamos... sabia que você estaria sentindo tanta – ou até mais, na verdade – falta dele como eu. – lhe disse o moreno, com um tom gentil, que ela raramente o ouvia usar. Ela sabia que todos os amigos mais próximos de Steve souberam do acontecido. Talvez se importasse mais com as opiniões alheias, ou se não tivesse seu próprio interesse sentimental sobre aquele momento, ela se envergonhasse, recearia que a acharia uma romântica ingênua, ou até mesmo fraca. Mas não importava. Aquele momento era dela e de Steve, e não importava o que pensavam sobre aquilo, mesmo que fossem seus amigos. Mas o tom de Howard não era de julgamento. Nem de pena. Não, ele soava apenas... triste. Como se arrependesse da situação inteira. A agente sabia que ele se culpava pela perda do Capitão tanto quanto ela, e sabia que não adiantava lhe dizer nada, porque com ela não funcionava, e o amigo era tão teimoso quanto ela.
– Eu sinto falta dele todos os dias, Howard. – admitiu. Talvez fosse a excentricidade do homem, ou a confiança nela que a deixava confortável para admitir aquilo para ele. Ou talvez ela só estivesse cansada de carregar o fardo do luto por Steve, e não se importasse mais como soaria. – O que aconteceu no seu pseudo regaste não trouxe nada de novo.
– Verdade. Mas trouxe o passado. Memórias do último dia. – retrucou o homem. Ah, como ela odiava quando ele era lógico. Por que não podia ser alheio e sem percepção do que acontecia à sua volta? Mas o milionário continuou, sua voz adotando um pequeno tom de súplica. – Por favor, , eu te conheço. Você é uma das pessoas mais fortes que eu conheço, não precisa colocar a máscara de indestrutível para mim.
– O que você quer que eu diga, Howard? – perguntou a agente em um tom cortante. Por que ele estava insistindo naquilo? Não via que ela já estava sofrendo o suficiente? E, mesmo assim, ela sentiu a necessidade de falar o que estava em sua mente. Nunca discutia aquilo, com ninguém, e era um tanto quanto sufocante suportar a falta que Steve a fazia sozinha. Maldita personalidade independente. – Que o tempo todo que eu estive com você no transmissor, eu tive flash após flash após flash de conversar com ele enquanto ele afundava? Que enquanto você voava para sua morte, eu pensava nele voando para a dele? Quer que eu fale sobre a culpa que eu senti sobre você ter conseguido voltar, mas ele ter ido para sempre?
– Eu só não quero que você se feche, . – comentou Howard, o rosto triste, a voz mais ainda. Sabia que a amiga sofria com a perda do Capitão, mas ela nunca se abria. Não para ele, não para Phillips ou os Commandos, e nem para Jarvis ou a roomate, Angie, as pessoas mais próximas dela no momento. Não era do ser humano aguentar o peso do mundo sozinho, mas insistia em fazê-lo, e isso o preocupava constantemente. – O que aconteceu, nessas duas ocasiões, foi traumático para nós dois. Mesmo sob hipnose, eu falei a verdade. Steve foi a melhor coisa que eu já fiz, em um mundo em que eu crio só destruição. Mas por favor, não guarde essa dor a sete chaves e finja que nunca aconteceu.
Os dois ficaram em silêncio. Howard esperando por ela falar algo, sabendo que não tinha mais nada que pudesse dizer que fosse a convencer, pelo menos não sem a machucar mais ainda. E discutindo se devia. Ela estava tão acostumada a manter uma fronte fechada, em separar o que sentia do resto do mundo. Se mostrasse ser impenetrável, não conseguiriam a derrubar. Mas aquilo significava que ela tinha que suportar a dor, a perda, a angústia e o sofrimento sozinha. E, após um ano fazendo isso, a mulher não sabia se conseguia mais. Era exaustivo, e só a quebrava mais e mais.
No final, ela sabia que era inevitável. Antes agora, com alguém que confiava e onde ela poderia controlar sua reação, do que esperar um colapso nervoso acontecer. Ela virou o copo em um gole só, e deu um longo suspiro.
– Dói tanto pensar nele. Dói tanto saber que eu nunca mais o verei, que eu nunca mais falarei com ele, que nós nunca... eu não sei lidar com a falta de Steve. – falou , praticamente sussurrando. Era difícil admitir em voz alta, depois de tanto tempo enterrando dentro de si. Isso sem contar de como escondia o que sentia antes mesmo dele afundar. Porém, também era bom admitir para alguém que não fosse ela. Claro, sabia que não era segredo nenhum, Howard e os Commandos sabiam como os dois se sentiam, só não era um assunto que era tocado. Até agora. E o alívio que sentia era como unguento nos ferimentos: ardia no princípio, mas logo se tornava um bálsamo para as feridas. – Faz meses, e eu sinto a mesma dor que eu senti naquela sala de comando. E ouvir você falando que havia o encontrado, que você o traria para casa... eu nunca quis tanto algo em minha vida.
Howard ouviu o que ela disse e passou alguns minutos em silêncio, ponderando se revelava sua última decisão ou não. Não queria machucá-la ainda mais, e muito menos queria lhe dar uma esperança falsa, caso ele não fosse bem-sucedido em seus planos. O que os olhos não veem, o coração não sente, não? Mas e se ajudasse? E se aliviasse um pouco da dor que ela carregava consigo dia após dia?
No fim, o homem decidiu que ela tinha o direito de saber, fosse ser de ajuda ou não. não precisava de sua proteção, pensou ele, enquanto rezava para estar fazendo a escolha certa.
– Eu também não, . – concordou, antes de tomar fôlego e colocar logo para fora o que tinha chances de curar ou quebrar sua amiga. Queria ser um covarde, para dizer tais palavras de olhos fechados e não ter que ver a esperança que elas lhe dariam, mas ele não conseguia. Encarando-a seriamente, ele completou. – E é por isso que eu decidi ir na expedição que eu havia planejado logo após a perda de Steve, mas não pude por causa dos compromissos com o exército.
Antes mesmo que pudesse terminar de falar, viu o rosto dela se transformar em uma expressão estupefata. Howard odiou a possibilidade de estar errado, mas também admitia que era melhor que a expressão desolada que ela tinha anteriormente. A mulher tentou falar alguma coisa, só que claramente ele havia a pego de surpresa. Após alguns segundos e uma arfada, ela conseguiu pronunciar algo.
– Howard... já faz tanto tempo...
– Eu sei, , mas você precisa de um encerramento. Nós dois precisamos. – concluiu o homem. E falava sério. Duvidava que seria o caso, mas ele iria mesmo que ela não aprovasse. Ele precisava fazer aquilo. Desde o fim da guerra a culpa o perseguia, mas após sua hipnose não consensual, ele não tinha um momento de paz sem pensar que Steve poderia ser salvo, e que ele estava abandonando o amigo. Porém, como previu, a agente concordou com a cabeça, os olhos finalmente derramando as lágrimas que ela segurou a conversa inteira. Tomando um pouco de ar, ela falou alguns minutos depois, assim que estava no controle de suas emoções novamente. – Você sabe ser um amigo incrível quando quer, sabia?
– Shhh, não tão alto e não em público. Vai que alguém te ouve? – brincou ele, mas feliz por ter colocado mesmo que um pequeno sorriso em seu rosto. Desde que Steve se fora, dificilmente ela sorria, pelo menos não verdadeiramente. Mais uma vez, ele rezou para que estivesse fazendo a coisa certa, antes de puxá-la para um abraço. Ouviu ela tentar segurar um soluço, e jurou para os dois: – Eu não posso te prometer que eu irei conseguir, . Mas eu posso te prometer tentar o meu máximo. Não sou nenhum Capitão América, mas é alguma coisa.


DEZEMBRO DE 1943
HYDRA FACILITY, POLAND

Quando Steve finalmente retornou à base que ocupavam na Itália, junto com os mais de quatrocentos prisioneiros de guerra que havia resgatado da fábrica de armas da Hydra e se apresentado para o Coronel Phillips com o tom meio debochado, meio sério, queria dizer muito mais que apenas “você está atrasado”. Porém, a agente sabia que ali não era nem o momento, nem o lugar para a conversa que queria ter com o loiro. Já bastava ter que reunir todo seu autocontrole para não pular em cima do homem e lhe dar o beijo que há tanto tempo queria dar, demonstrando toda preocupação que ela sentiu quando ele não respondeu ao seu chamado no transponder ou a cada vez que um relatório de voo de reconhecimento chegava em suas mãos dizendo que não havia nenhum sinal dele na área.
Contudo, estavam cercados por todo o regimento. Ela não queria, e nem podia dar um show para toda aquela audiência. Então, teve que deixar a conversa (ou seria bronca? Declaração? Ela não sabia. A cada hora mudava de ideia sobre o que queria dizer para ele) para outro momento. Só que ela sabia que o olhar que havia lhe dado, antes do Sargento Barnes puxar um coro de celebração para o Capitão, dizia tudo o que estava em sua mente. Pelo o olhar que Steve retribuiu, ele compreendeu perfeitamente a mensagem, e foi com toda força que tinha que conseguiu manter a máscara de indiferença e controlou o sangue que queria a todo custo colorir suas bochechas. Infelizmente, com a volta de mais da metade do regimento, e muitos dos homens em necessidade de atendimento médico, sem mencionar a quantidade de inteligência e informação que Steve e os homens conseguiram reunir, não houve tempo para que pudesse chamá-lo para dizer o que queria.
Do mesmo jeito, antes que completassem o debriefing, havia chegado uma inteligência dos contatos no MI6, sobre algumas localidades que receberiam encomendas, e confirmando com as informações que Steve reuniu, seria a oportunidade perfeita para prejudicar a Hydra, sendo aquela uma de suas instalações para fabricação de armamento mais importantes. Foi decidido, então, que uma pequena unidade seria enviada para a missão, já que o número de homens disponíveis para servir não estava do lado deles. Era até melhor, na verdade. Menos pessoas significava uma maior discrição na hora de executar a missão. Phillips deu a missão à Steve, agora oficialmente integrado ao regimento. O jovem capitão já havia escolhido sua equipe, já que o coronel finalmente havia se dado conta da vantagem que era ter o homem em seu comando, e deixou que ele montasse sua própria unidade para lhe ajudar nas missões. Seus escolhidos ainda não sabiam que foram selecionados para a equipe, mas aquela era a oportunidade perfeita para vê-los em prática.
Contudo, Morita estava se recuperando ainda de um ferimento na perna, e não poderia ir como o code breaker da equipe. não hesitou em assumir seu lugar, quando Phillips a indicou.
A missão em si havia sido um sucesso, mas levou tempo, bem mais do que esperavam, e muito esforço, antes de conseguirem neutralizar a base principal e as eventuais que encontraram no caminho. Sem mencionar, claro, os carregamentos que chegaram. Porém, na volta para o rendez-vous point, uma súbita nevasca os pegou, tiveram questão de minutos para achar abrigo antes que fossem soterrados pela nevasca.
Conseguiram se abrigar em uma caverna, mas não antes de terem sido encharcados pela neve. Pelos primeiros momentos, todos só recuperaram o fôlego, enquanto tremiam ao sentir o vento congelante fazendo contato com suas peles e roupas molhadas. Logo, sabendo que não iriam retomar viagem tão cedo, arrumaram um mini acampamento dentro da caverna. Tinham alguns pedaços de madeira ali, mas não o suficiente para durar a noite inteira. Cedendo seus cobertores para Gabe e Dum Dum por terem sofrido ferimentos e precisarem de torniquetes, todos estavam congelando quando a madrugada chegou. , por ser a menor e com menos massa, estava considerando a probabilidade de ficar com hipotermia. Era imensa. Ela tremia da cabeça aos pés, mas não queria falar nada quando os colegas estavam em situações iguais ou piores que a dela.
Steve não conseguindo dormir com o barulho da tempestade e vendo-a tremer durante a noite, chegou mais perto da mulher e a envolveu em um abraço, tentando aquecê-la. Ele tinha uma temperatura corporal bem mais alta que o normal por causa do sérum. Não era como se não sentisse os efeitos das frias rajadas de vento, só não era tão afetado por elas. Sem contar que sua larga silhueta protegia a agente da corrente de vento que vinha da abertura da caverna. Ao abraçá-la, ele sentiu aos pouco ela parar de tremer e relaxar em seus braços.
– Não pense que só porque estou te usando como aquecedor que eu te perdoei. – ela começou, sussurrando e com a voz falhando por estar tremendo os lábios de frio. Sabia que estavam em companhia, mas aquele era o máximo de privacidade que havia conseguido com o loiro até o momento, e mesmo que todos estivessem dormindo, as rajadas abafavam sua voz. Resolveu que dificilmente conseguiria uma hora melhor que aquela.
– Foi porque eu atirei naquele cara antes que você? Porque eu não vi que você o tinha pego primeiro. – o homem retornou o tom brincalhão, mas sabia que ela estava falando sério, e que não era sobre o ocorrido daquela missão. Steve podia sentir há dias que ela queria conversar com ele, mas nunca conseguiam um momento à sós. – Me desculpe, Agent Carter.
– Pode me chamar de . Você não é um estranho ou um recruta qualquer. – afirmou ela. Já haviam passado por muitas coisas no pouco tempo que se conheciam para se tratarem com formalidade. E se ele pudesse ver os pensamentos que tinha, com certeza não tentaria manter a distância profissional. Entretanto, logo ela ficou mais séria, e sussurrou ainda mais baixo, com o coração na boca por estar admitindo o que sentia. Graças à perfeita audição que o sérum havia lhe dado, Steve compreendeu cada palavra da mulher, e pôde até distinguir o tom angustiado que ela tomou. – Mas não pense que me distraiu. Por favor, nunca mais faça aquilo. Você quase me matou de preocupação. Eu achei que você tinha sido morto, Steve.
– Eu sei, e de novo, me perdoe. Eu não vi que o transponder havia sido destruído até que a batalha acabou e eu o peguei para te chamar. – explicou, lamentando. Odiava saber que a havia preocupado, quando ela fez tudo que podia, e até o que não podia, para ajudá-lo. Se havia conseguido salvar Bucky, era pela ajuda dela, e por isso ele lhe devia o mundo. Não dias e mais dias de preocupações, e com certeza sermões do coronel.
– Tome mais cuidado, então. – pediu . Odiava soar vulnerável daquele jeito, mas parecia que o homem não tinha senso algum de preservação, e ela não sabia se aguentaria outra missão sem comunicação de que ele estava bem. – Coloque-o em um lugar melhor. Sei que não é possível prever o futuro e garantir que essa situação nunca mais ocorra, mas por favor, tente evitar o máximo possível.
– Eu juro. – prometeu. Haviam ficado um instante em silêncio, o homem sem saber se devia dizer o que se passava em sua cabeça, e ela se odiando por mostrar que ele a afetava tanto. Por fim, Steve resolveu arriscar. O que tinha que perder? Já havia perdido sua dignidade no primeiro show da USO tour, e se onde estava era algum indicativo, não lhe faltava coragem. – Eu não sabia que você tinha ficado tão preocupada. Tudo bem, tecnicamente eu estava sob sua supervisão, mas homens são perdidos todos os dias nessa guerra. Por que eu seria diferente?
– Tirando o fato que o Coronel Phillips me esganaria e o Senador Brandt provavelmente me mandaria para a Corte Marcial em um piscar de olhos? – ironizou , perguntando retoricamente. O homem riu pelo nariz, sabendo que ela estava certa. Os dois militares a comeriam viva caso ele não tivesse voltado, e isso fez com que ele se sentisse ainda mais mal. Porém, antes que pudesse se desculpar mais uma vez, ela continuou. – É porque eu me importo com você, Steve. Você é importante para mim. Então, se você puder evitar atitudes claramente suicidas, meus nervos agradeceriam.
– Por quê? O que me distingue dos outros? Só porque o sérum me tornou diferente, você não precisa se preocupar. Quase dois anos se passaram, e eu estou bem.
– Não, Steve, o sérum não é o motivo pelo qual você é especial para mim. – afirmou convictamente a agente, mas não ofereceu mais motivo nenhum, o que o deixou mais sedento para descobrir o motivo.
– Então por quê? – insistiu. Talvez soubesse, mas precisava ouvir da boca dela. Precisava saber que não estava imaginando, que não era sua mente se rendendo aos desejos platônicos dele. Após uns segundos quieta, claramente debatendo se deveria admitir em voz alta o que se passava dentro dela, confidenciou em uma voz tímida.
– Porque você é diferente de praticamente qualquer homem que eu já conheci. Não pelo experimento, não pelo sérum. Porque você é você. – explicou simplesmente, com um pequeno aceno de ombros. A resposta era simples: era porque aquele era Steve. Steve sempre se destacaria dos outros nos olhos dela, e não pelos motivos que todos o singularizavam. Resolveu explicar, então, para que ele não pensasse que ela era mais uma das mulheres supérfluas que só se importavam com sua nova aparência. – Você tem uma bondade e um senso de justiça que eu nunca vi igual. Nunca conheci alguém tão determinado e teimoso quanto você. E, agora que seu exterior reflete o interior que eu havia visto lá em Camp Lehigh, você é praticamente invencível. Só que você continua o mesmo homem que eu conheci naquele acampamento em New Jersey.
– Você... você achava isso de mim, mesmo antes do experimento? – ele perguntou, claramente surpreso com o que ela havia dito, a deixando com vontade de rir. Steve era tão modesto e humilde que às vezes não percebia o verdadeiro efeito que tinha nas pessoas em sua volta. Era impossível não se apaixonar por ele.
– Claro. – riu, em um tom que sugeria que ela estava dizendo o óbvio. – Eu não sou superficial, Steve. Entendi quase imediatamente o porquê Dr. Eskrine queria você no projeto, e concordava com ele. Até hoje acho que não havia ninguém melhor que você. Determinado, altruísta, dedicado, esforçado e, principalmente, gentil e bondoso. Não fazem homens como você, Steve. E é por isso que você é especial.
odiava que estava soando como uma garotinha apaixonada, mas era apenas a verdade. E, se estivesse sendo honesta consigo mesma como estava sendo com ele, sabia que não demoraria muito para que declarasse o que sentia pelo loiro. Então, não era tanta surpresa estar admitindo tudo aquilo. Ela só estava constrangida por não ser do seu feitio se enfeitiçar com um homem da maneira que estava. Mesmo Steve nunca ter sido um caso normal...
– Uau. – a continuação do tom de surpresa fez que o controle dela perdesse e a agente soltasse um pequeno riso, despertando no capitão um sorriso em retorno. Ele a encarava, e se hipnotizou com o modo que o rosto dela pareceu acender com sua risada, mesmo com a penumbra intensa da noite e a pouca luz que a já decadente fogueira os presenteavam. Sua visão tendo se tornado perfeita com o experimento, ele podia ver como a face inteira da mulher se acendeu com a risada, e como as bochechas dela estavam pintadas de rubro pelo frio, pelo riso, e se fosse um pouco confiante em si, pelo tom e contexto da conversa. – Eu não sabia que você pensava tudo isso de mim. É uma honra, acredite. Muitas dessas qualidades eu vejo em você. Você é uma das poucas pessoas que eu verdadeiramente admiro, .
– Outra coisa que eu gosto em você? Você me vê como eu sou. – ela continuou, ao ouvir o que ele havia dito. Deus, como parar sua boca? Não precisava ser um gênio para ver o que ela sentia por ele, e por isso não conseguia parar. Tinha que lhe dizer o que pensava, pois não sabia se teria outra oportunidade, seja porque estavam atolados de trabalho no meio de uma guerra, ou fosse pelo pensamento que um dia ele não retornaria de alguma batalha. – Não como uma "mulher intrometida querendo brincar de soldado, que precisa de alguém para colocá-la em seu lugar", e todas as outras coisas que dizem de mim. Seu respeito não é fingimento. Sua admiração não é falsa. Você acredita que eu posso. Pode e usa meu título constantemente para fazer os outros me darem o respeito que eu mereço, sei que faz isso. E eu não preciso de príncipe algum. Sei colocá-los todos na linha, e os coloco. Sei o meu valor, e não preciso de ninguém para assegura-lo ou para que me salve. Mas é bom saber que alguém acredita em mim. Confia em mim. E esse é um dos milhares motivos pelos quais eu me importo com você.
Ela sabia da visão aprimorada do homem, claro, pois estava presente no dia que fizeram os testes e leu os relatórios, mas de mesmo modo, não pode evitar agradecer aos céus por não terem nada mais que uma fraca luz provinda do fogo mal iluminando o lugar. Sabia que devia estar completamente vermelha com tantas admissões, e sentia o rosto queimar com tudo que havia dito. Carter nunca havia sido uma mulher covarde, se orgulhava de ser uma mulher forte, mas não entendia de onde veio a coragem de admitir tanto.
– Sei que você não precisa de um protetor. Mas faço isso por eles, porque eles precisam saber como tratar uma mulher direito. Amiga, namorada, esposa, subordinada ou superior. Você é uma pessoa, e merece respeito. Como eu não posso fazer essas coisas, quando você é uma agente incrível? – declarou, compreensivo. A mulher imaginava que se a nevasca não estivesse tão alta, seus suspiros apaixonados ecoariam na caverna inteira. O quão embaraçoso e patético era aquilo? E, ainda assim, ela não conseguia se fazer se importar. – É por isso que você tem o meu respeito e minha admiração. É por isso que eu acho que todos tinham que tê-las por você. Independentemente de ser mulher ou homem, é uma honra servir com você. Não poderia pedir companheira melhor.
– Steve... – disse, mas não soube o que continuar. O que poderia falar para ele que já não tinha dito, exceto uma direta e clara declaração de amor, o que não podia fazer? Mas ele era tão... Steve. Tão atencioso, tão gentil, tão apaixonante. A mulher estava borbulhando com sentimentos que não sabia identificar, ou que preferiria não fazer, mas o que ela podia fazer, com ele ali em sua frente, sendo tudo que acreditava que um homem deveria ser?
tinha que falar algo, fazer algo, mas não conseguia. Estava dividida. Não podia negar que o queria, e, ao mesmo tempo, sabia que não podia. Não naquele momento. Ansiava pelo toque dos lábios dele nos seus, o contato de suas bocas, em demonstrar uma mínima parte do que sentia pelo capitão. Só que não podia. Porém, como explicaria aquilo? E, sem que percebesse, seus rostos foram se aproximando, milímetro por milímetro, até que ela pode sentir a respiração dele batendo em si. E ela queria. Ela queria tanto, tanto. Mas não podia. E doía ainda mais desviar dele, depositando um beijo em sua bochecha, e sussurrando contra seu ouvido.
– Steve. Eu não posso.
– Oh. Me desculpe. – o tom decepcionado dele a quebrou. Sabia que ele havia entendido errado, e queria explicar o porquê do que havia dito, mas logo o homem engatou em uma fala nervosa e constante, que se ele ainda tivesse asma, ela duvidaria que conseguiria terminar, com a rapidez e o fluxo constante com que murmurava, constrangido, dificilmente terminando as frases e a mulher teve que se esforçar para achar sentido no que ele dizia. – Eu não queria que você... não pense que eu só falei essas coisas com segundas intenções. Ou achando que pelo o que você me disse você me deve alguma cosia. Não, é que pareceu... é que teve sinais... eu só achei... bom, não importa o que eu achei. Me desculpe, Agent Carter. Foi impróprio de minha parte. E sabia que minha opinião não mudou, né?
– Steve, se acalme. – pediu a agente, quando ele finalmente parou para respirar. Sérum ou não, saúde perfeita ou não, subitamente ela estava preocupada que ele estivesse tendo uma síncope. Sabia que o afetava tanto quanto ele a afetava, mas não a tal ponto, e realmente estava preocupada. Tinha que explicar tudo antes que o coitado de algum jeito desfizesse os efeitos em seus pulmões e não respirasse mais. – Primeiramente: pode continuar a me chamar de , e, em segundo lugar não precisa se desculpar. Sei do seu caráter, sei que você não tiraria proveito do que eu disse. Você achou certo. Houveram sinais. Eu quero, Steve, o problema é que eu não posso.
O homem a olhou confuso por segundos antes de voltar a falar, dessa vez muito mais lentamente, demonstrando toda sua confusão em seu tom de voz. Ele ficava tão adorável com o cenho franzido e o rosto confuso, que a mulher teve que se segurar para não sorrir ou finalmente o beijar.
– Eu... não entendo. É por estarmos em no meio de uma missão? Porque eu posso esperar até voltarmos para Londres.
– Não, não é por estarmos em uma missão, ou em uma caverna no meio de uma nevasca. – garantiu, terminando em um tom brincalhão, e mesmo sabendo que ele era um homem que resguardava sua privacidade, teve pouco de receio que ele tentasse a beijar no meio da base, sob o olhar de todos.
– É por causa dos caras? – perguntou novamente o loiro, uma mão fazendo um gesto em círculo, indicando a companhia que tinham. – Porque eu entendo, desculpe, não deve ser muito romântico, eu me empolguei e...
– Respire, Steve. Você pode não ter mais asma, mas ainda precisa respirar. – pediu novamente. – E é e não é por causa dos nossos atuais companheiros.
– Eu ainda não entendo. – disse novamente, a confusão em seu rosto ainda maior. Seu interior queria rir, mas ela apenas suspirou, antes de explicar mais detalhadamente.
– Como você disse, eu sou uma agente mulher, e mesmo que supostamente eu devesse receber o mesmo respeito que um agente homem, não recebo. Isso sendo totalmente profissional, totalmente competente, o tempo inteiro. Pode imaginar caso alguém descobrisse que nos envolvemos? – inquiriu, o olhando fixamente, se assegurando que ele entendia cada coisa que ela dizia. Ele precisava entender que o problema não era ele, e sim a posição em que ela se encontrava. – Eu não sou o tipo de mulher que fica dando bola para qualquer um, Capitão. Sei dos meus sentimentos e dos meus interesses, e acho que os deixei bem claros para você. Posso estar parecendo direta demais, mas mesmo se arriscássemos um beijo aqui, escondidos, e caso algum dos outros vissem... eles são leais a você. Sei que não abririam o bico caso você pedisse. Mas eu tenho certeza que não seria apenas um beijo. Sempre haveria um outro, e mais outro e mais outro. Não seria problema, em teoria, porque se fosse possível, eu me envolveria com você e só você. Porém, os homens na base não pensam assim. Seja o mais novo recruta, ou o mais antigo Coronel. A maioria acha que eu... ofereço favores para ter a posição que eu tenho. Ninguém diz na minha cara porque sabem que eu não hesitaria em demonstrar do que eu sou capaz, mas eu sei dos sussurros, dos rumores e das fofocas. Inferno, Phillips é como um pai para mim, tem mais do dobro da minha idade e uma esposa maravilhosa, e ainda assim dizem que eu sou a "cortesã", para não usar outros termos. Entende, agora, por que eu não posso?
O homem passou vários momentos apenas absorvendo o que ela havia lhe dito. Lhe dava uma felicidade incomparável ao ouvir ela admitindo que sentia algo por ele, mas ao mesmo tempo o enfurecia que ela estivesse em tal posição. Claro que ele não era ingênuo e havia percebido como os homens da base a tratavam, mas nunca imaginou que fosse tão ruim. Não pode evitar uma onda de admiração por aquela mulher, que passava por aquelas provações diárias que não passaria caso fosse homem, e ainda assim fazia seu trabalho espetacularmente, muito melhor do que vários que a insultavam. Queria poder prometer a si mesmo que faria algo quando voltasse, mas ele não podia mudar a mentalidade da sociedade. Mesmo que sua vontade fosse socar todos até que entendessem a capacidade que ela, e por tabela, todas as outras mulheres da base, tinham.
– Você não pode se envolver comigo pois mancharia sua reputação. Me desculpe, , nem me passou pela cabeça. – afirmou, resignado. Queria uma solução, mas sua mente não conseguia pensar em nada. Agora entendia porque ela parecia tão frustrada.
– Eu sei, Steve, e é porque você é uma pessoa boa demais para achar isso de alguém. – sorriu a mulher, lhe tocando um rosto em um pequeno carinho. Ele fechou os olhos por um instante, apreciando o toque dela, antes de os reabrir e fixá-los nos traços que não saíam de sua mente desde Camp Lehigh. – Mas, como eu disse, nem todos são como você. Eu não ligo para o que dizem de mim, por mais curiosa que me deixe. Mas eu não poderia fazer meu trabalho direito, entende? E imagina se alguém vê? Eu seria descartada imediatamente. Há um motivo para esses rumores existirem, é porque quando eles são verdadeiros, são sérios a ponto de abrirem comitês só para apurar. E eu me orgulho da minha carreira. Por mais que eu me importe com você, eu preciso protegê-la.
– Não se preocupe, . Eu entendo, de verdade. É uma pena, mas se essa é a realidade. – afirmou, em um misto de conformidade com consolação.
Por que toda vez que estava prestes a conseguir o que queria, algo aparecia no caminho, e tornava impossível? Sua mente girava e girava, o loiro imaginava as engrenagens funcionando, tentando pensar em algo, alguma coisa, qualquer coisa que resolvesse a situação. A única que lhe vinha na cabeça não era ideal, mas era melhor do que nunca a tê-la. Ponderou por algum tempo, sentindo a convicção sobre a ideia se firmar mais e mais, antes de sugerir. Não estava completamente satisfeito, mas por , qualquer coisa valia.
Minutos se passaram com ambos apenas ouvindo o barulho do vento, que abafava todos os outros na caverna além das respirações dos dois, antes que ele sussurrasse a última coisa que ela pensava em ouvir.
– Eu posso esperar.
– O que?
– Eu posso esperar, . – declarou mais uma vez. Ao só ter o rosto pasmo dela, como se não conseguisse acreditar no que ele estava dizendo, o Capitão continuou, certo em sua decisão, mas com um pequeno sorriso demonstrando que estava ok com a ideia. – Esperar por você. Esperar a guerra acabar, e quando nossos trabalhos não estiverem tão entrelaçados, quando não houver mais nenhuma condição de subordinado e superior entre nós... eu espero até você poder me ter livremente.
– O que? Steve, não. – protestou a agente, mesmo que não quisesse. Queria Steve? Sim, mas não às custas da felicidade dele. Não era tão egoísta à tal ponto. – Não posso pedir isso de você. Não, é injusto.
– Você falou sério? Você falou sério quando disse que eu era especial para você, quando disse que se importava comigo e tinha sentimentos por mim? – perguntou o homem, mais sério do que ela já havia visto. Se fosse ser honesta, a convicção dele com a ideia a assustava um pouco. Ele não tinha um pedaço de autoproteção no corpo? Como poderia sugerir algo assim? E, mesmo assim, ali estava ele, fazendo a proposta que ela não sabia que queria, mas que agora que havia sugerido, estava com dificuldades em dizer não. Mas como podia fazer aquilo com ele?
– Eu... sim. Falei para valer. – constatou , suspirando, e mais uma vez fazendo carinho em sua bochecha com a mão gelada dela. O homem não sentiu a temperatura, concentrado demais nos olhos dela e no que diziam para notar qualquer outra coisa. – Só que, Steve, eu não posso pedir isso de você, você tem que pensar no que você precisa, no que você quer.
– Acontece que eu te quero, também.
Aquilo a havia calado. Oh, Deus, como era difícil dizer não para ele. Queria ser altruísta e pensar no futuro dele, mas toda vez que pensava, só vinha imagens dos lábios dele nos seus, imagens dos dois entrelaçados em um abraço, entre outras coisas. A cada coisa que imaginava sua determinação diminuía cada vez mais. Também não ajudava o loiro estar lhe olhando com aqueles olhos pelos quais era tão apaixonada. Tentava em vão montar contra-argumentos em sua mente, mas ela não a ajudava. Como podia negar algo que tanto queria, quando ele parecia a querer na mesma intensidade?
– Olha, . – começou ele, e pelo tom ela soube que ele havia ganhado a discussão. Sua teimosia parecia superar seu novo tamanho, e sabia que ele não desistiria até que ela concordasse. Não ajudava o fato que ela queria, também. – É a situação ideal? Não. É do jeito que eu queria? Não. Mas as coisas dificilmente acontecem do jeito que queremos. E eu prefiro esperar o tempo que for se significar que no final eu ficarei com você. Não sei se ficou claro pelo o que eu disse antes, mas eu nunca conheci uma mulher como você. E é você que eu quero. Agora ou daqui dois anos.
– Como pode ter certeza disso? – sabia que estava enrolando, e do mesmo jeito a pergunta a surpreendeu ao sair de sua boca. Ela se assustou com tamanha vulnerabilidade e esperança que sua voz transparecia.
– Me disseram que eu sou teimoso, determinado e "cheio de convicção". Duvido que eu mude de ideia. – afirmou o loiro, arrancando outra risada dela. Como não adorar aquele homem? Ela queria fingir que não aceitaria, que continuaria discutindo, queria o vencer pelo cansaço. Mas com a teimosia do homem, duvidaria que conseguiria. Toda as reservas dela contra tal ideia estavam se esvaindo a cada palavra dele, e não faltava muito para que finalmente concordasse.
– Steve...
– Eu achei minha right partner, . Agora é só esperar ela querer dançar comigo.
Não havia como discutir com tal afirmação. Em plena nevasca, ela sendo uma agente federal em meio de uma guerra, estava derretendo só com as palavras de Steve Rogers. Como ele conseguia tirar tal reação nela que a impossibilitava de dizer não, mesmo sendo a decisão mais fácil?
Não sabendo lhe dar uma resposta que competisse com aquilo, e com medo que se falasse algo, continuasse discutindo, ela acenou com a cabeça, concordando. Steve lhe deu um grande sorriso, tão animado, tão satisfeito e amoroso, que ela não pode evitar de lhe retribuir com um igual. O homem lhe deu um pequeno beijo na testa, a abraçando e a puxando para perto. Ali, escondidos pelo escuro e com quem confiavam, podiam se dar ao luxo daqueles pequenos gestos. Vários minutos se passaram, e Steve achava que ela estava quase dormindo, quando disse:
– Você andou aprendendo a falar com mulheres.
– Andei aprendendo a como falar com você. Não é como se eu estivesse preocupado em falar com as outras. – sussurrou ele, a abraçando um pouco mais apertado, arrancando mais um suspiro satisfeito dela.



SETEMBRO DE 1946
STORK CLUB, NEW YORK

deveria saber que era ingênuo da parte dela de criar esperanças, mas não era como se ela tivesse como impedir. Quando Howard disse que iria em expedição atrás de Steve, ela não queria se deixar pensar que ele conseguiria. Seria melhor ser provada o contrário e ser pega de surpresa, do que a decepção que vinha com estar errada criando expectativas. Porém, como quase tudo na vida, era mais fácil falar do que fazer.
Quando o cientista retornou da expedição, o homem a evitou durante dois dias antes que ela conseguisse o encontrar. Bastou um olhar dele e ela sabia o que ele havia encontrado: nada. Tentando controlar as lágrimas que subitamente se formaram em seus olhos, ela se virou e saiu do cômodo. Ouviu ele a chamando, mas não podia falar com o moreno naquele momento. Não estava decepcionada com ele. Estava decepcionada com ela mesma. Não devia ter acreditado em Howard. Ele era brilhante, mas não era Deus. Não podia fazer milagres, não podia trazer Steve de volta. Steve tinha ido, e ela precisava aceitar aquilo.
Ela nem fingiu não saber para onde ia. Precisava de Steve, e, sabendo que nunca mais o teria, ela foi atrás do único conforto que tinha quando a falta dele lhe doía tanto assim: lhe roubando o ar de seus pulmões, espremendo seu coração com tanta força que parecia que ele iria estourar, lhe ardendo os olhos e fazendo lágrimas e mais lágrimas escorrerem por seu rosto, parecendo cachoeiras, lhe embaçando a visão que o recepcionista do lugar perguntou se havia acontecido algo com ela. A mulher apenas acenou com a cabeça com sim, e se dirigiu ao canto do bar, onde ficaria escondida de olhares alheios e poderia deixar as gotas correrem livremente por suas bochechas.
queria fingir que não, mas imaginou todo tempo que Howard esteve fora o que faria quando ele voltasse com Steve. Sabia que o havia perdido para sempre, mas como o amigo havia lhe dito, ela precisava de um encerramento. E mesmo que fosse para o corpo sem vida de seu Capitão, ela diria o que estava entalado em sua garganta desde a interrupção da conexão da transmissão dos dois. Lhe admitiria em voz alta todos seus sentimentos. Todos seus arrependimentos. O quanto ele significava para ela, e como a vida parecia um pouco mais sem cor agora que ele não estava nela.
Mas ele nunca saberia.
Steve nunca saberia. Ele não saberia como foi estar a um oceano de distância enquanto ele morria, mal sabendo que ela havia sido quem havia ouvido suas últimas respirações. Ele nunca saberia como suas últimas palavras a assombrariam pelo resto de sua existência, exatamente como a assombravam agora, um ano depois que ele havia ganhado a guerra, mas perdido a vida. Um ano depois que ele a havia paralisado. Um ano depois que ele havia morrido
Steve nunca saberia como ela chamou por seu nome. Como ela continuou chamando seu nome mesmo depois da transmissão ter acabado, vez após vez após vez, achando que se ela continuasse o chamando, se dissesse seu nome o suficiente, ele responderia. Achando que se ela o chamasse o suficiente, ele voltaria para ela. E, com cada chamada, ela se sentia afundando com ele. Oh Deus, como ela precisava dele ao seu lado...
Steve nunca saberia como ela se arrependia. Se soubesse o que estava à frente deles, nunca teria os negado aquele tempo. Talvez se arrependesse quando tivesse que aguentar os comentários sexistas e degradantes da relação deles quando todos descobrissem – era uma base pequena, e os dois tinham uma reputação. Ela não tinha dúvida nenhuma que não ficaria em segredo, mesmo que tentassem –, mas a mulher sabia que teria valido a pena. Porque Steve valia a pena. Se ela já tinha de aguentar piadinhas sobre ser a antiga paixão do Capitão América, e aquele ridículo show de rádio sobre a “Betty Carver”, a donzela do Capitão, porque não deveria aguentar mais, se significasse que ela teria mais que alguns momentos roubados com ele? Pena que ela havia percebido tarde demais.
Estava inundada de arrependimento. Não deveria tê-los colocado naquela posição. Sempre confiaram no logo, no quando, no destino. E olha o que havia acontecido. Justamente em quem haviam confiado, o destino os passou a perna, e nunca teriam o que sonhavam, o que desejavam. Era cruel; querer tanto algo, e tê-lo tão perto que as pontas de seus dedos poderiam quase o tocar... só para escapar em um piscar de olhos. Que peça amarga o destino os havia pregado. Seria irônico se não fosse trágico. havia feito Steve esperá-la por anos, e agora o destino a fazia esperá-lo pela eternidade.
Devia ter algo na água, mesmo que só fosse a sensação dela, porque a cada instante se sentia mais fria e congelada. Como se não bastasse a sensação de afogamento que a morte de Steve trazia, todo o arrependimento, toda saudade, todo o anseio por ele que a consumia de dentro para fora... tudo a arrastando mais para baixo, mais para o fundo, onde não havia fôlego algum para que ela retomasse. A mulher só não podia evitar de pensar que se pelo menos estivesse se afogando com ele, congelando, pelo menos poderia abraçá-lo e impedi-lo que afundasse igual a ela.



FEVEREIRO DE 1944
LONDON, ENGLAND

sabia que ir até o bar havia sido arriscado. Não por sua segurança, era mais fácil ela atacar alguém que tentasse se engraçar com ela do que o contrário, sem falar que, com a base a poucos quilômetros de distância, a cidade estava enfestada de militares, e ela estava cercada por colegas.
Não, o problema era que ela não sabia seu propósito com tal ideia. Apesar de estar no exército no meio de uma guerra, ela era uma mulher vaidosa, então não era injustificável ou improcedente ela se arrumar e aparecer elegante. Não, o arriscado era ter ido até aquele bar, onde ela tinha certeza que o homem estava. Não o bastante, claro que ela teve que ir até ele e flertar em público. Não era uma puritana, mas sendo uma das únicas mulheres com uma considerável hierarquia, ela tinha que evitar dar abertura para certos boatos, rumores, fofocas. E flertar com Capitão América em um bar com certeza não era uma tentativa de evitar tais coisas.
Claro, não havia sido nada descarado. E a única pessoa que realmente presenciou tal encontro havia sido Barnes, e ela sabia que o moreno costuraria a boca antes de falar algo dela e do amigo. De mesmo modo, havia sido arriscado. E se alguém tivesse visto? E se alguém tivesse comentado? Já era difícil o suficiente ganhar o respeito dos homens na base sem que eles achassem que ela estivesse íntima do Capitão.
Na manhã seguinte ela se sentiu mais estúpida ainda quando viu Steve beijando Lorraine. Não pode evitar de se sentir uma tola por achar que a conversa entre os dois havia algo de especial – foram só palavras, Carter, não precisa se achar a única mulher do mundo –, mas aparentemente, o pouco que ela podia dar era exatamente isso: pouco.
Deve ter sido por tal motivo que atirar nele havia sido tão satisfatório. Claro que ela sabia que nenhuma bala o atingiria de fato, mas ver o olhar assustado e surpreso dele já era o bastante. O que surpreendeu ela foi que, do mesmo jeito, ele ainda continuou a olhar como se fosse ela que havia colocado o Sol no céu. Estupefata e ainda chateada com ele, ela apenas seguiu em frente e saiu do recinto. Seguiu com seu dia como se nada houvesse acontecido, porque era a verdade: nada havia acontecido. Então por que motivo ela se sentia tão decepcionada?
Tentando tirar sua mente de tais assuntos, já que eles não iriam dar em lugar algum, a agente decidiu que um drink ajudaria, e pela segunda noite consecutiva, foi ao bendito pub que a SSR e os esquadrões que a apoiavam gostavam tanto. Naquela noite estava um pouco mais calmo, considerando que haviam sido despachadas tropas durante dia, e no dia seguinte mais algumas a seguiriam. Mas isso não impediu que um par de gente aproveitasse a noite, o salão animado com a música e os casais dançando. Podia estar mais calmo que o dia anterior, mas certamente não estava deserto. Até fazia parecer que não havia uma guerra acontecendo fora das portas do lugar, caso não fosse os inúmeros soldados de uniforme, ela incluída. Era vaidosa, mas para que desperdiçar roupa em uma época tão escassa quando não havia ninguém para impressionar?
Perdida nos pensamentos por uma boa hora, só notou o quanto havia se passado o tempo quando se deu conta dos três copos vazios à sua frente. Não era o suficiente para deixá-la bêbada, mas era o suficiente para alertá-la que deveria voltar a base. Isso, era claro, seria impossível agora que havia percebido a presença ao seu lado. Revirando os olhos, mas sentindo uma satisfação crescer em si com tanta rapidez que ela teve que controlar o sorriso que ameaçava surgir no canto de sua boca, a mulher decidiu que uma dose a mais não faria mal. Principalmente quando sua companhia resolveu se dirigir a ela, agora que havia percebido que a mulher o notou.
– É bom estar aqui, sabe. Vivo. Ver as pessoas se divertido e aproveitando, mesmo que nada esteja bem. Vê-las rindo e sorrindo. Você não sabe como passa a valorizar as pequenas coisas depois de quase morrer, quando sua CO resolve fazer um atentado à sua vida. – disse Steve, em um modo tão monótono que parecia estar falando sobre o tempo. voltou a revirar os olhos com a proclamação do rapaz, se perguntando se o sérum era o que havia aprimorado sua tendência para o drama. Não era à toa o sucesso que ele fez tanto sucesso na USO tour, aparentemente. Principalmente quando parecia que ele estava se divertindo, caso o brilho no olhar e o sorriso que ele também tentava esconder serviam para indicar alguma coisa.
– Pelo amor de Nora, Capitão Rogers. Cinco balas contra seu escudo de vibranium dificilmente contam como um atentado à sua vida. Agora, podemos tentar de novo com o de madeira, caso queria. Prometo ser um pouco mais certeira dessa vez. – a mulher retrucou, o copo da bebida que havia pedido logo chegando e logo fazendo caminho aos seus lábios.
– Steve. – respondeu ele, depois de não conseguir se controlar mais e soltar uma pequena gargalhada.
– Perdão?
– Me chame de Steve, Agent Carter. Não estamos na base, e muito menos trabalhando. Considerando tudo, acho que você pode me chamar pelo meu nome em tais ocasiões. – ele respondeu ao ver o rosto confuso dela, os lábios em um sorriso gentil, um fantasma de sua gargalhada de segundos antes. Ela sabia que ele queria usar seu nome também, mas sabia que ela ainda estava brava e não arriscaria a sorte. demorou para responder, capturada pelos lábios rosados dele. Por que aquele homem tinha tanto efeito sobre ela?
– O que devemos considerar então, Capitão Rogers? Você não parecia considerar nada esta manhã. – devolveu a mulher, o rosto fechando em uma expressão desgostosa e se recusando a atender o pedido dele. Talvez fosse infantil de sua parte, mas ela tinha o direito, depois do acontecido de mais cedo.
, por favor. – ele disse, em uma pequena súplica por trégua. Uma trégua que ela não queria dar, mas Steve mexia tanto com ela, lhe causava uma tempestade por dentro que era difícil lhe negar algo quando ele a olhava de tal maneira. Ela suspirou, e acenou a cabeça, enquanto tomava outro gole de sua bebida e o olhava, esperando. O loiro entendeu o que ela queria, pois logo lhe providenciou uma explicação.
– Não durou dez segundos, . Ela me pegou de surpresa, e eu mal tinha processado o que havia acontecido quando você chamou nossa atenção. Mas, me perdoe. Eu não devia ser tão devagar assim.
– Ah, coitado. Tão ingênuo que não sabe desviar de uma investida de uma mulher. Coitado de você, deve ser exaustivo ser tão desejado. – lhe disse a mulher. Apesar de falar ironia como uma segunda língua, odiava ser debochada. Novamente, ela achava infantil, inferior e uma falta de capacidade de se expressar com segurança. Mas a cena rodava em sua cabeça e a deixava louca, apesar de acreditar em Steve e estar deixando de estar brava com o homem.
– Bom, você bem que me disse que eu não sabia nada sobre mulheres. Mesmo depois desse tempo, eu ainda não sei. – o Capitão retrucou com um sorriso que a enfuriava e a derretia ao mesmo tempo. Como ele podia ter tanta influência sobre ela?
– Mesmo depois de passar mais de ano na minha companhia frequente? – retrucou a agente, querendo disfarçar sua reação ao homem, mas ao mesmo tempo curiosa. Talvez ele havia se acostumado com ela, e ela não o afetasse mais?
– Eu quis dizer que não sei nada sobre as outras mulheres, . Mas eu sei o suficiente sobre você. Concluindo, então, que o resto não me importa muito.
A mulher detestava agir como uma adolescente apaixonada, mas não pode evitar o calor que subiu ao seu rosto, com certeza colorindo de rubro suas bochechas, muito menos o sorriso sem graça, mas muito satisfeito que queria desesperadamente sair de seus lábios, não importava o quando ela os mordesse e os fechasse para impedir. Quando perdeu a batalha e não pode disfarçar, ela baixou a cabeça querendo esconder, antes de desviar o olhar para o resto do ambiente, querendo reconquistar sua compostura. Olhar a sua volta se provou eficiente, já que o riso deixou seus lábios lentamente, enquanto observava os casais no ambiente. Todos sorrindo, flertando, se beijando. Não importava se era algo de apenas aquela noite, ou se havia promessas de um futuro.
Observando a cena a sua frente, ela teve um esclarecimento do porquê se sentiu tão afetada com o acontecido com Lorraine. Exatamente como momentos atrás, toda interação com Steve tinha que ser escondida. Suprimida. Ela não poderia beijá-lo quando bem entendesse. Não que fosse fazê-lo no meio da base como a tal secretária inconsequente, mas ela queria ter a oportunidade. Queria ter a escolha. Ela não queria momentos roubados e implícitos, atrás das cortinas e às escondidas. não queria ter que esperar, ter que fingir que nada acontecia. Só que aquele era seu trabalho. Por mais apaixonada que estivesse por Steve, aquela era sua vocação. E, infelizmente, não podia se dar ao luxo de ter tais oportunidades, pois sabia que elas diminuíram sua autoridade, sua credibilidade.
Ela não queria ser Carter, a agente namorada do Capitão América. Ela queria ser Carter, a agente que fazia o máximo para contribuir e acabar com a guerra. Para ela, não deveria ter distinção. Sabia muito bem compartimentalizar e ser as duas coisas, mas a realidade não era assim. Naquele mundo patriarcal e machista, ou ela era a namorada, ou ela era a agente. E, no final, ela tinha que ser a agente. Havia sacrificado muito para chegar até ali e desistir, mesmo por um homem que merecia tudo aquilo e muito mais.
Só que seria justo com Steve, fazê-lo a esperar pela guerra acabar, quando ela teria mais liberdade e menos gente a observando, esperando um motivo para despedaçá-la, e ela pudesse perseguir uma relação com homem? Se virando para ele e o olhando, achando-o a encarando, ela soube que não era justo. Mas infelizmente era egoísta, e ainda tinha a coragem de pedir e perguntar.
– Eu estive brava pelos motivos errados, Steve. Me desculpe. – ela começou, os olhos fixos nos deles, que a observava com um olhar profundo e a fazia tremer por dentro. – Claro, não foi divertido encontrar outra mulher te beijando. Mas o que me irritou não foi o fato dela ter te beijado. Não totalmente, pelo menos. Confio quando você diz que não foi por desejo seu, e sei que meus sentimentos por você são mútuos. Só que vê-la te beijando foi a lembrança que eu não posso fazer isso, não por enquanto. E eu quero tanto, mas preciso focar no meu papel como agente. Porém ao mesmo tempo isso me enfurece tanto, porque aqui estamos, e podíamos muito bem estar ali, dançando, demonstrando o que sentimos... me enlouquece saber que não podemos fazer isso. E, por mais que não falemos direito sobre o que vai acontecer conosco após a guerra, sei a cada olhar seu que é o mesmo que eu quero. Foi um pouco de ciúmes, mas também foi muito mais, porque vê-la te beijando só afirmou toda essa espera. E tenho medo que você não ache que eu valha ela, caso demore ainda mais. Me mata ter que esperar para te mostrar que eu sou tão certa para você como você é tão certo para mim.
, eu esperei anos por alguém. – retrucou ele. Depois de anos, conhecia a mulher em sua frente muito bem, e se ela achava que ele a deixaria pensar em motivos para não ficarem juntos, ela estava muito enganada. Aquela era uma discussão frequente entre os dois, ela se sentindo culpada por fazê-lo esperar e perdendo todas as oportunidades, e ele tentando fazê-la entender que não havia mais ninguém que ele queria. – Todos viam o cara loiro de meio metro e não queriam nada com ele. Não se importavam nem em conhecê-lo. Exceto você. Você sempre é a exceção, Carter. Você olhou para mim quando ninguém queria. Me disse assim que voltei do resgate que me queria desde antes do Project Rebirth, sem sérum, sem músculos, e alguns centímetros menor que você. – o rapaz terminou rindo.
– Aparência não é tudo, Steve. Há milhares de soldados nessa cidade, alguns extremamente bonitos, mas nenhum deles se compara a você. Não agora, com o corpo que o sérum te deu, e nem antes. Você diz que ninguém te via, mas um dos motivos que me atraiu a você, além das suas qualidades, foi que você me via também. Não com um rabo de saia, mas como um ser humano competente querendo fazer seu trabalho.
– E é por isso, , que eu não me importo de esperar. – racionalizou o loiro. Esperava uma briga maior dela quando aconteceu o ocorrido com Lorraine, mas a discussão estava indo para uma direção que ele não gostava, e ele tinha que lembrá-la do objetivo final dos dois. – Sei que você não tem as concepções românticas de as pessoas serem destinadas, mas sei que você concorda que não podíamos combinar melhor. É por isso que eu não me importo de esperar. Porque não tem quem me complete melhor que você.
– Você diz isso agora, mas Steve, você passou quase sua existência inteira perdendo coisas da vida. Tempo brincando, porque estava doente. Tempo no exército, porque ninguém acreditava que você conseguiria. Tempo com namoros, porque, como você disse, nenhuma dama queria dançar com "alguém que ela poderia pisar em cima". Você já não viveu muito perdendo as coisas, darling? – perguntou a agente, os olhos molhados por lágrimas que ela se recusava a derramar. Que tipo de pessoa era por privá-lo de tudo aquilo? O quão egoísta era de não deixá-lo viver sua vida, só porque ela não podia no momento? – Dói dizer isso, mas talvez seja a hora de você recuperar o tempo perdido. E como eu posso ficar no seu caminho e te impedir disso?
Steve não acreditava que estavam discutindo aquilo de novo. Por que ela não entendia? Não precisava de mais ninguém. De mais nada. Queria ela, e só ela. E, mesmo que não fosse o que tinha imaginado, estava disposto a esperar por aquilo. Porque ela valia a espera. Só não entendia por que a mulher não aceitava aquilo. , por sua vez, não entendia como ele podia abrir mão tão facilmente das coisas por ela. Ele, que tinha todos os motivos para fazer as coisas que ela sugeria, as negava, por causa dela. Só que a mulher receava que no final, não valesse o esforço.
– Você está no caminho, , porque é com você que eu quero recuperar esse tempo. Você é a última coisa que me falta das que eu queria antes. Eu sinto muito se te machuquei, mesmo não querendo, e juro que vou evitar cair nesse tipo de situação novamente. Mas você fugir do que nós podemos ser só porque não somos um casal normal não é a resposta. Eu sou praticamente uma arma biológica ambulante. Você é uma formidável agente em um tempo que a sociedade diz que você deveria ser no máximo uma secretária ou enfermeira, até se casar. Sei que todos usam a guerra como desculpa para viver ao máximo com medo de que não chegue o amanhã. Sei que esse é o convencional. Só que não somos convencionais. Procurar outras damas para dançar seria apenas distrações do tempo. Você é meu viver ao máximo . E é isso que eu quero. É você que eu quero. – discursou o loiro. Se os outros soubessem (com certeza, pois era certo que desconfiavam) dos dois, certamente o indagariam de onde que ele tirava as palavras para reconquistá-la quando ela tentava lutar contra e sem soar, a agente mesmo se perguntava. Steve, o eterno artista, sabia ser fácil, pois era difícil mensurar seus sentimentos em palavras, mesmo que ele tentasse.
, por sua vez, queria gritar de frustração. Toda vez que iniciava uma discussão com Steve, se esquecia do quão bom ele era com as palavras. Não era normalmente fácil de se bater em um argumento, mas Steve fazia aquilo, pelo menos em tais discussões, que eram sobre os dois, com uma facilidade que a irritava. Talvez por saber que não tentava o bastante, apenas para não se sentir mais culpada ainda, mas sempre sabendo que no final concordaria com ele. Por que era tão difícil de admitir o que queria? Era o medo da vulnerabilidade que vinha com isso? O medo de o perder? A mulher não sabia.
– Fica difícil de discutir com você quando fica todo eloquente assim. E eu ainda disse que você não sabe conversar com mulheres. – suspirou ela, e os dois sabiam que a mulher estava admitindo a derrota. Sempre admitia. Steve, por mais frustrado que ficasse, nunca conseguia ficar bravo com ela por aquilo. Sabia que ela só o fazia para tentar se livrar da culpa, sempre tendo seus melhores interesses em mente. O único problema de era que não entendia que ela era seu melhor interesse, não importava como. – Eu sei de tudo isso, Steve. Eu sinto tudo isso. Mas eu lembro de ontem e lembro do que você está perdendo por esperar essa guerra acabar para ficar comigo. Você tem outras prioridades, sim, como eu tenho. Mas, e se no meio disso você podia achar o amor, e eu estiver te impedindo?
– Você não está me impedindo, Carter, porque eu já achei o amor. E não dizem que ele é paciente e sabe a hora de acontecer? – tudo bem, aquilo havia sido clichê, e ele não pode evitar o sorriso no rosto ao falar tais palavras. A mulher deu um riso que não queria que escapasse, e revirou os olhos. Steve Rogers e seu drama, pessoal.
– Você não sabe o que está falando. Não acredita nisso. – falou a mulher, cética, mas com um sorriso no rosto. Não importava como, Steve sempre ganhava. Tudo bem que com ele ganhando, ela ganhava também, mas não teria paz de espírito se não o alertasse de tais coisas. Steve não era ingênuo, mas era idealista e um romântico no fundo. Às vezes precisava de uma dose de realidade, para lembrar que nem tudo era como se queria. O engraçado era que mesmo assim, ele continuava ganhando. Talvez se merecessem só pela teimosia dela se equiparar à dele.
Naquela altura, porém, admitia que ele estava certo. Talvez tenha exagerado na reação, mas vê-lo com Lorraine, além do ciúmes, trouxe à tona todas as inseguranças e possibilidades que ela lembrava Steve nas discussões sobre os dois. E não sabia porque fazia aquilo. Não era masoquista. Não queria sofrer de amores. Ela só estava tão acostumada a protegê-lo, que insistia em protege-lo de si mesma. Entretanto, não significava que ela não o queria. Não, só precisava se uma reafirmação. Odiava ser aquele tipo de mulher, porém em um tempo tão delicado como a guerra, nenhuma certeza era garantida. Talvez fosse aquele o motivo que discutiam tanto aquilo.
Se precisava de mais prova de que aquela discussão era inútil, ou do porquê estava inegavelmente apaixonada por Steve Rogers, a resposta que seguiu do loiro foi o suficiente. Steve tinha um jeito especial com as palavras, que nunca falhavam em deixa-la sem ar e com o coração explodindo de sentimentos pelo melhor homem que ela já havia conhecido em sua vida. Levou tudo de si, todo controle que tinha e que não tinha para não beijá-lo, para não dizer o quanto o amava, como era tola em tentar lutar contra aquilo e confessar do quanto precisava dele. Porque, no final do dia, mesmo que ela não admitisse com tanta facilidade como ele, precisava de Steve tanto quanto ele precisava dela. Ela o amava com tudo que tinha e o que não tinha, mesmo com todas as discussões. E se alguma vez se esquecesse do porquê era louca de amores por ele, o loiro sempre sabia como a fazê-la lembrar.
– Você sabe que eu tinha daltonismo, não? Então. – perguntou ele, e ao receber um aceno de cabeça dela, continuou, mal sabendo que tiraria todo fôlego que ela tinha em si, e a faria se apaixonar ainda mais por ele. – E na faculdade de artes, aliás, até antes, quando eu precisava de uma cor, mas não sabia qual era, eu pedia que me descrevessem. E sempre me descreveram o vermelho como intenso. Como forte. Como paixão. Como amor. Eu nunca pude vê-lo, mas entendia sua representação. Após o sérum, após a transformação e o Project Rebirth, minha visão se tornou perfeita, e eu podia ver tudo, todas as cores, perfeitamente. Até o vermelho. E o primeiro vermelho que vi foram os seus lábios. Foi no rubro das suas bochechas quando viu que o experimento havia dado certo. Nos tons da sua pele, no esmalte das suas unhas, até em alguns fios de cabelo quando o sol refletia neles. E a partir de tal momento, todas as vezes que eu te vi, eu via vermelho. Seja na chuva, seja no campo de batalha, seja na luz precária de nossa base subterrânea. Então, de repente, eu passei a associar vermelho a você. E todos estavam certos. Vermelho é intenso. Vermelho é forte e é paixão e é amor. Vermelho é você, .


JANEIRO DE 1947
STORK CLUB, NEW YORK

A cabeça de estava girando. Era justificável, depois da reunião que teve, a quantidade de informação que discutiram. Passar literalmente o dia inteiro no escritório não ajudava. Phillips e Howard marcaram uma reunião às sete da manhã, e ela só havia conseguido sair de lá quase duas horas depois do seu expediente acabar, às oito da noite. Howard lhe deu um olhar indicativo, claramente sabendo para onde ela estava indo quando disse que não precisava de carona até a casa, que tinha outro lugar para ir. Considerando que Steve foi parte dos assuntos da discussão, não era novidade nenhuma ela estar indo para o Stork Club. Não, a novidade era que, aparentemente, ela era a nova diretora de uma agência de inteligência.
Bem, não exatamente. Era uma ideia que os três cultivavam há algum tempo, e aquela era apenas uma reunião preliminar. Contudo, Phillips possuía contatos no governo que o asseguraram que o projeto de uma agência semi-privada seria aprovado, principalmente contando com o fato de que agora, quase dois anos após à guerra, o governo americano não tinha mais interesse na SSR. Era uma boa coisa, ela sabia. Estava animadíssima, pois sabia que poderia fazer um trabalho ainda melhor, mesmo que não tivessem decidido que ela seria a diretora.
Não, o que estava incomodando era o de sempre: Steve deveria estar ali. Ele deveria ser parte do projeto, ser parte dos planos, ser parte da agência. Mais uma coisa que ele não teria oportunidade.
Foi por tal motivo, que mesmo sendo bem cedo para decidir aquilo, ela havia pensado no nome da nova agência. Se ele não poderia estar ali na prática, estaria em espírito. A nova agência deveria ser tudo que o homem era, tudo que representava, tudo que ele defendia. Liberdade. Proteção. Justiça. Após passar a sua pausa do almoço inteiro pensando em como honrá-lo naquela nova fase, em como fazer que ele pudesse ser uma parte do que estavam construindo, ela pensou em algo.
– S.H.I.E.L.D. – ela disse, assim que a reunião foi retomada, encarando intensamente Phillips e Stark, como se os desafiassem a recusar.
– O que? – perguntou o cientista, confuso, não entendendo aonde ela estava chegando. Phillips, no entanto, retribuiu o olhar, e ela só levantou uma sobrancelha em resposta.
– S.H.I.E.L.D. – repetiu ela, falando cada palavra lentamente, provocando-os a acharem algum problema, a refutar a ideia. – Strategic Homeland Intervention, Enforcement, and Logistics Division. (Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão.)
Os dois homens ficaram quietos por vários minutos. Os dois sabiam o motivo para um nome tão grande, organizado de tal maneira que formasse tal sigla. Não estavam pensando em outras opções, não, eles também queriam honrar o homem que havia feito com que aquilo tudo fosse possível. Não, estavam apenas pensando se o nome realmente funcionava, se teriam algum problema. Claro que havia se certificado daquilo antes de sugerir, mas os deixou marinando a ideia enquanto os observava, e soube o exato momento que iriam em frente com o nome, um sorriso satisfeito adornando seu rosto imediatamente. Após minutos, não vendo problema algum, Howard soltou uma risada, enquanto Phillips apenas disse, com um sorriso no rosto:
– Bom, o que vamos esperando? Vamos colocar a S.H.I.E.L.D para funcionar.
Passaram o dia inteiro discutindo as ações preliminares, os procedimentos legais, e outros detalhes que faziam a cabeça de doer. Por fim, quando o fim da tarde chegou e foi embora, tiveram que terminar a reunião, e marcar outro dia para que pudessem continuar. Phillips estaria em Washington pelos próximos dias, e só poderia na próxima semana. Só que Howard não poderia.
Howard apenas disse que tinha uma viagem à trabalho, e que levaria uns dias para poder voltar. Não teria nada demais, não era incomum o moreno viajar o mundo inteiro à negócios, se não fosse o modo como ele havia dito. Casual demais. Isso e o fato de que ele não encarava o rosto de em nenhum momento, disse tudo que ela precisava saber sobre sua viagem. Conhecia Howard fazia anos. Se estivesse mentindo, ele a encararia forçadamente, com medo dela achar que ele estava fugindo dos questionamentos. Se fosse confidencial, o que raramente impedia Howard, ele apenas reviraria os olhos antes de desviá-los.
Não. Ele estava com medo dela. Com vergonha do que ela diria, e tendo em vista o modo de vida desinibido que ele levava, não havia motivos para aquilo. Exceto um. Semicerrando os olhos, e perguntando onde ele iria, sabia que havia algo errado, e fazia ideia do que era. Howard apenas murmurar um país e praticamente sair correndo da sala dizia tudo.
Ele iria atrás de Steve novamente.
Por quê?, ela se perguntava. Para que insistir naquilo, quando só havia trazido decepção para os dois da última vez? Ela havia fugido assim que o viu, mas só estava adiando o inevitável. Por fim, encontrou com ele, e sua curiosidade masoquista quis saber tudo sobre a viagem. Ela não sabia porque se torturava de tal maneira, mas sabia que poucas vezes havia chorado tanto quanto naquela noite. E agora, lá estava ele, fazendo o mesmo novamente. não aguentava mais decepções, mais dores, então o deixou ir.
Porém, por dentro, ela estava preocupada. Sabia que não estava lidando com a perda de Steve de modo saudável, mas ela nunca teve muita autopreservação. Mas ver Howard do mesmo jeito lhe entristecia ainda mais. Já não bastava ela estar presa ao passado, mas ele também?
Todos diziam que sua melancolia era cegante. Que sua nostalgia era exagero. Que seu sofrimento era drama. E talvez fosse. Talvez ela estivesse cega com os sentimentos e sensações remanescentes de seu breve, mas intenso tempo com Steve. Talvez as lembranças não fossem tão doces e claras como a mulher se lembrava, mas porque escolher diminuir o que sentiu e o que sentia, quando eram as duas coisas que a mantinham viva? Antes sofresse que estivesse dormente. Após um tempo da morte de Steve, quando a perda dele se registrou na mente dela, a agente se sentiu completamente anestesiada por dias, incapacitada de sentir de sentir qualquer coisa que não fosse o imenso abismo do vazio que ameaçava tomar conta de sua alma a todo instante.
Com isso, a inglesa podia garantir que sua angústia era melhor. Porque o sofrimento era a prova que ela esteve viva. Que ele esteve vivo com ela. A dormência simplesmente só lhe tirava ainda mais do que havia perdido.
Ali estava ela, julgando Howard por ir em uma caça ao tesouro impossível, mas ainda contava os dias desde que ele havia sumido, mesmo quase dois anos depois. Steve havia mudado o sentido de tempo para ela. Agora, um segundo havia se tornado a medida de sentir tanto sua falta. Cada dia sem ele parecia um dia desperdiçado em seu futuro ideal, uma respiração a mais era mais uma a separando dele.
Todos os dias era assombrada pela lembrança dele. Pelos poucos, mas preciosos momentos que havia passado com ele. Sonhava com a única vez que esteve em seus braços, sendo o incêndio que a impedia de congelar, sendo o único instante que ela teve o calor dele entre suas mãos. Sonhava com o tempo que passaram juntos, com cada instante, cada olhar, cada palavra, cada toque. Sonhava com o que sonharam juntos, uma vez no tempo. Isso estagnava sua vida, mas o que ela podia fazer? Ninguém se comparava a ele. Não por ser o Capitão América, mas por ser Steve Rogers.
Depois de sua breve estadia em Los Angeles, havia tentado algo com seu colega de trabalho, Daniel Sousa. Mas toda vez que ele a tocava, ela imaginava Steve. Toda vez que ele a beijava, pensava na única vez que o havia beijado.
Apenas uma vez havia conseguido vencer a distância até os lábios dele e ela. Apenas uma vez, e como se sentisse o que vinha pela frente, mesmo estando na retaguarda de um avião e em carro em movimento, ela o beijou com todo seu ser, com toda sua alma.
A única vez que o havia beijado, que pode sentir o paraíso em seus dedos, e ela se doou toda. Uma única vez, e Steve a teve para a eternidade. Se não tivesse a conquistado antes, naquele momento, naquele mágico momento, ela se tornou dele. Por causa daquela única vez ela passou os próximos dois anos sentido como se ele tivesse levado sua respiração com ele. Por causa daquela única vez, o medo tentava matá-la todos os dias por saber que nunca mais o teria. Uma única vez, e não havia mais nada do que aquele instante. Não demorou para que acabasse a relação com Daniel, e voltasse para Nova York. Não tinha como ficar, se cada pensamento seu era sobre Steve.
Chamaram-na de louca. Diziam que estava abrindo mão da felicidade por um fantasma. Depois de tanto tempo, todos diziam que ela deveria seguir em frente. Porém, como podia, se ele não saia de sua mente? rezava, todos os dias, para que não seguisse em frente. Pois embora seguir em frente talvez não significasse esquecer, seguir em frente significava superar. E ela não estava preparada para superar Steve.
Era por isso que se agarrava a cada marca que ele havia lhe deixado. Desenhos de seu caderno que ele havia feito dela, e que ela só soube quando estava organizando seus pertences para serem despachados para a América, após o VE Day. Legalmente, tudo, inclusive o próprio Steve, pertencia ao Exército dos Estados Unidos, mas havia coisas tão dele, tão Steve, que ela não poderia deixá-los ter. Seus cadernos de desenho eram algumas delas. Suas dog-tags eram outras, que ela não pode evitar de ter para si. Até aquele dia, não havia se arrependido de tê-las roubado, e usava as dele todos os dias, escondidos por baixo de sua blusa, descansando em seu peito. Desse jeito, ela sempre teria um pedaço de Steve para si. Ela poderia encaixá-lo naquele pequeno colar perto de seu coração a todo instante.
Não, ela nunca deixaria para trás as marcas de Steve. se sustentava em tais e mais tantas outras marcas – blusas do exército com seu nome, suas plaquetas de patente – esperando que até que ele voltasse, essas mesmas marcas lhe dariam paz. Só que não davam. Só que ele não voltaria. E cada vez que pensava nisso ela se tornava mais vazia e oca por dentro.
Por isso se preocupava com Howard indo atrás dele mais uma vez. Porque não queria que o amigo se sentisse com um vão como alma pelo resto de seus dias, como ela se sentia.


MARÇO DE 1945
LONDON, ENGLAND

O inverno de 1944 para 45 havia sido um inverno difícil. Perder Bucky foi um baque para todos, mas foi um buraco negro se abrindo dentro de Steve. Havia dias que se perguntava se o loiro não havia morrido com o amigo, já que o corpo que habitava o Capitão América parecia tão sem vida que ela achava que nunca teria Steve de volta.
Mas, então, em alguns momentos, a agente via reflexos de seu Steve ali, um sorriso doce e amoroso que ele lhe dava quando ninguém estava os observando, dedos que dançavam em suas costas nas raras ocasiões em que estavam juntos e perto o suficiente para que ninguém visse, um olhar cheio de anseio quanto ela entrava no cômodo.
Uma risada aleatória quando algum Commando conseguia o fazer rir era praticamente Mozart para seus ouvidos. Vê-lo com os ombros relaxados e o rosto calmo era como o oásis naquela época. Aos poucos, foi desistindo da ideia de que o havia perdido. O loiro só estava se acostumando à ideia da vida sem Bucky ao seu lado. entendia, já que teve a mesma reação ao perder o irmão. Barnes era o Michael de Steve, concluiu.
De mesmo jeito, o Capitão continuou lívido que a guerra lhe custou a única família que ele conhecia desde que era adolescente. Como os nazistas ousavam, ela podia ouvi-lo pensando. Steve, pela primeira vez desde que o conheceu, queria vingança. E vingança ele teve.
Saindo em missão praticamente toda semana, o homem passava todo momento acordado concentrado em acabar com a Hydra. Parte de seu processo de luto envolvia a raiva quase que maníaca contra a organização, e seu processo de aceitação constituía em aniquilá-los. sabia que não precisava dizer para o homem que nada daquilo traria o amigo de volta. Ela sabia que Steve sabia. Mas não importava. Hydra era um câncer, e eles livrariam o mundo dele. Enquanto Zola, que estava em posse da SSR não abria a boca, Steve fazia tudo para cercar Red Skull contra a parede. E, com isso, cada missão foi se tornando mais perigosa e impudente.
Após Stalingrad, em que ele quase teve um traumatismo craniano tentando – e conseguindo – libertar mais de mil prisioneiros de guerra pelos nazistas, todos lhe deram um sermão. Os Commandos, durante e logo após a missão. Phillips, ao fazer o debriefing com eles. E , que estava presente na reunião, e a cada palavra ficava mais e mais irritada e com raiva. O Capitão podia sentir tal raiva saindo dela em ondas e o atingindo com toda força, e por isso não tentou justificar suas atitudes. Sabia que estava com problemas e não queria piorar. Imediatamente após o fim da reunião, a agente pediu para ter uma palavra em particular com ele, e nenhum dos presentes fez objeção, sabendo que o loiro estava prestes a levar a maior bronca de sua vida. Por duas horas, a base inteira pode ocasionalmente ouvir gritos saindo da sala, e ninguém ali queria ser o homem no momento, pois ninguém queria sofrer a ira de Carter.
Depois desse incidente, Steve ficou mais razoável. As missões não eram mais tão arriscadas, até porque, em sua ira contra a Hydra, ele e os Commandos haviam feito praticamente todo o trabalho. Então, logo chegaram ao ponto final, ao fim da linha. Phillips convocou subitamente uma reunião, informando a todos que Zola havia aberto a boca, e que tinham menos de 24h para fazer algo se quisessem impedir que Schmidt destruísse a Costa Leste Americana inteira. Steve decretou então que no dia seguinte acabariam de uma vez por todas com a Hydra. Convocou todos, os Commandos, os oficiais de alto escalão, os recrutas – todos os militares na base para irem à missão que acabaria com aquele pesadelo. Passaram horas montando estratégias, reunindo inteligências, discutindo táticas e o passo-a-passo. Quando finalmente terminaram, o Capitão ordenou que todos estivessem prontos para partir ás 0500 horas na manhã seguinte.
Por hora, no entanto, os operativos estavam livres pela noite.
Acabaram, naturalmente, no Whip and Fiddle, o bar que parecia ser o preferido dos habitantes da base. Steve não estava com vontade de sair, ainda mais considerando que não ficaria bêbado nem se pudesse, mas os Commandos suplicaram para que fosse. Se amanhã era o dia que possivelmente encontrariam a morte, eles insistiam em ter uma última noite. Ao descobrir que , que raramente deixava a base quando não era em missão iria, ele não pode evitar de ser persuadido.
Porém, em certo ponto da noite, quando ainda não havia chegado e todos já havia tomado um bom número de drinks, Dum Dum puxou um coro que parecia ser um soco na alma do loiro. Estavam discutindo a probabilidade de sobreviverem ao dia seguinte, o que fariam, e como os que haviam perdido deviam estar ali. Um assunto meio mórbido, mas aquela era a guerra. Era inevitável discutir aquilo. Contudo, a homenagem que Dugan fez roubou todo fôlego que Steve tinha em seu corpo, e parecia que havia voltado a ser asmático.
– Ao Sargento Bucky Barnes, o melhor sniper que o exército americano já viu, e o maior jerk de todos também! – o grande homem ruivo disse, a voz solene, e os olhos brilhando. Todos sabiam que Barnes devia estar ali, porque se haviam conseguido chegar naquele ponto, era pelo trabalho de cada um, e o moreno não era exceção. – Uma vez um Commando, para sempre um Commando. Os bons se vão cedo, mas os melhores sempre serão lembrados. A Bucky Barnes! – gritou Dugan, levantando o copo de cerveja que tinha em mãos.
– A Bucky Barnes! – gritaram todos, repetindo o gesto. Obviamente Steve participou, mas de repente o lugar estava lotado demais para ele. Muita gente, muito barulho, muito quente. Precisava sair dali imediatamente.
Pensar em Bucky lhe partia a alma, mas imaginar não chegar à vitória sem ele era devastador. Não podia ficar ali, sabendo que ele não estava. Precisava achar um lugar para se acalmar, para pensar direito. A missão mais importante de sua vida inteira aconteceria dali algumas horas e ele não podia ficar naquele estado. Precisava retomar o controle.
Olhando ao redor, uma abertura escura chamou sua atenção. Se levantando, ele se dirigiu a ela, encontrando um salão tomado pela penumbra, uma parte do bar abandonada, cujo o teto havia sido derrubado em parte por um bombardeio recente. Ali estava bem mais calmo, e bem mais quieto. Pegando algumas garrafas de bebidas que estavam na bancada do bar, ele se dirigiu até uma mesa no centro do salão, e apenas... ficou ali. Tentando recuperar uma respiração que não lhe faltava, tentando controlar as emoções que não queriam ser dominadas.
Ele não sabia quanto tempo ficou ali, apenas encarando a destruição ao redor, virando copo atrás de copo, querendo sentir algo, qualquer coisa que não fosse a dor agonizante que pensar em Bucky morto lhe causava. Constantemente balançava a cabeça, como se caso chacoalhasse o bastante a imagem de seu melhor amigo caindo no abismo sairia de sua mente. Ele sabia que era impossível. A memória estava gravada em seu cérebro para sempre, e ele o assombraria até o resto de seus dias. Mas ele podia fingir tentar.
Em meio à dor, ele se tornou alheio ao ambiente a sua volta, e por isso se assustou ao ouvir uma voz soando perto de si.
– Olá, Steve.
. – disse ele, se virando ao ouvir a voz da mulher e se surpreendendo ao encontra-la ali, no meio dos escombros. Ia se levantar para lhe ceder o lugar, mas ela acenou com a mão, se aproximando e pegando uma cadeira que havia sobrevivido e estava jogada no canto, colocando-se de frente para ele. O observou por alguns instantes, procurando algo em seu rosto que ele não sabia dizer o que era, antes de abaixar os olhos e reparar na quantidade de bebida que havia na mesa. Ao ver as sobrancelhas dela se levantarem com a visão, ele continuou. – Sabia que eu não posso ficar bêbado? Posso fazer coisas que são humanamente impossíveis, mas não posso ficar embriagado.
– Sim. Seu metabolismo funciona quatro vezes mais rápido de que o normal. – ela constatou, pegando uma garrafa para si e abrindo, bebendo do gargalo mesmo. Ele se impressionaria, caso não a tivesse visto ganhar de Dugan em competições de quem conseguia beber mais em menos tempo várias vezes. – Dr. Eskrine achou que isso seria possível.
– Meu melhor amigo, a pessoa que esteve comigo a minha vida toda, morre por minha causa, e eu nem posso ficar bêbado. – ele riu sem humor. As palavras deixavam um gosto ruim em sua boca, e mesmo com o que havia acabado de dizer, ele voltou a tomar um gole da bebida, tentando lavar o sabor que elas deixaram. Não conseguiu, afinal, os problemas não eram as palavras. E sim o que elas representavam.
somente o acompanhou quieta, sabendo que nada que dissesse concertaria a situação. Então apenas bebeu com ele, desfrutando do humor introspectivo, pensando na guerra e em toda dor e sofrimento que ela trouxe. Não era certo. Não era justo. Mas estavam a ponto de acabar com ela e impedir que ela trouxesse ainda mais. Talvez devesse servir para alguma coisa, ela supunha. Não fazia diferença para ela, no final. Ainda tinha perdido seu irmão. E Steve ainda tinha perdido o dele. Para eles era tarde demais, nada nunca seria igual à antes. Só continuavam para garantir que o que aconteceu com eles não acontecesse com mais milhares de pessoas.
– Não, não é. – ela disse, por fim. Sabia que não adiantaria, mas do mesmo jeito que não a deixavam se culpar por Michael, ela não podia deixa-lo se culpar por Bucky. Baixando o copo e o encarando fixamente, como se aquilo fosse fazer que as palavras dela quebrassem a barreira de teimosia do homem, ela disse. – Não é sua culpa, Steve.
– Se você leu os relatórios, sabe que isso não é verdade. – ele riu pelo nariz, uma risada debochada e um tom irônico em sua voz. não apreciou nem um pouco, mas deixou passar. Era a dor da perda falando, e sabia que o problema não era com ela.
– Eu li o que aconteceu. Sei que você se sente dessa maneira, mas a culpa distorce nosso pensamento. – argumentou a agente, sua teimosia se equiparando à dele. Não deixaria que ele fizesse aquilo, pois sabia o tipo de comportamento autodestrutivo que tal culpa trazia. Ela tinha duas marcas de balas no ombro e o mais recente quase traumatismo do homem para comprovar. Precisava abordar aquilo em um ângulo que a mente calculista dele entendesse, não sua alma emocional. – Sargento Barnes, você disse que ele era seu melhor amigo, não? E suponho que você iria ao fim do mundo por ele?
– Em um piscar de olhos.
– Então por que não aceita que ele faria o mesmo por você? – retrucou a mulher, no mesmo tom direto e com a expressão séria que ele tinha.
– Não é a mesma coisa, . – disse Steve, revirando os olhos. No fundo, sabia que ela tinha razão, mas não queria admitir. Só que quantas vezes Bucky não havia feito algo completamente sem noção ou perigoso só porque era Steve, seu pequeno melhor amigo, que precisava?
– Por que não seria? Steve, eu posso não ter um Bucky em minha vida, mas eu sei o que o luto faz com as pessoas. E você está tão cego por ele que esqueceu uma coisa vitalmente importante.
– O que? – perguntou o homem, em um tom cético. Sabia que ela queria apenas seu bem, mas não tinha como ela entender. Ela não estava naquele trem.
– Sargento Barnes era sua própria pessoa. – começou a explicar a agente. Não queria soar superior, mas precisava relatar tudo com calma, mesmo que fosse o óbvio, para que o homem em sua frente entendesse. – Ele podia estar servindo sob suas ordens e sua supervisão, mas no final do dia, ele estava ali porque ele queria. Não estou dizendo que ele queria morrer, mas você precisa entender, Steve, que do mesmo jeito que você iria ao fim do mundo por ele, ele iria por você. A lealdade na amizade de dois é uma das coisas mais lindas que eu já presenciei. Vocês fariam qualquer coisa pelo outro. Não porque exigiriam, mas porque seria uma escolha de vocês. E é isso que você precisa fazer: respeitar a escolha de Bucky.
– Como eu posso respeitar se ela acabou o matando? – perguntou ele com uma voz baixa, derrotada, totalmente desesperançosa. Quebrou mais uma vez o coração de vê-lo de tal maneira, e ela não queria nada mais que abraçá-lo e consolá-lo, mas não era daquilo que ele precisava no momento. Steve precisava de alguém que racionalizasse seu luto, não deixasse que tomasse um caráter irracional e sem controle.
– Porque ela representa quem ele era. Porque como você, Sargento Barnes estava fazendo sua parte para fazer um mundo melhor. Ele estava trabalhando para que outras pessoas pudessem sobreviver. – disse ela, suavemente, e pode sentir começar a ficar emocionada. Não era tão próxima do homem, mas ele era uma boa pessoa, e era importante para Steve. Não tinha como alguém que se importasse tanto com o loiro não se entristecer com a perda do moreno. – É uma tragédia que ele tenha ido tão cedo, mas você não pode se envergonhar do que aconteceu. Você tem que honrar o legado dele, Steve. E não fará isso com missões suicidas. Você precisa parar e pensar direito. O que Bucky diria, se te visse desse jeito?
– Ele me chamaria de Punk, e me daria uns belos tapas por ser tão idiota... – a risada que saiu de seus lábios dessa vez havia sido mais sincera, apesar de emocionada. Steve olhou para cima, tentando conter as lágrimas, mas a perda de seu melhor amigo ainda mexia com ele com uma força que nem o Capitão América podia suportar. – Eu sinto tanta falta dele, . Ele se foi faz poucos meses e eu ainda não consigo aguentar o fato de que ele não está mais aqui. Toda hora eu olho para o lado, esperando encontrar ele com um sorriso debochado e um insulto para tirar com a minha cara. Eu me viro para pedir a opinião dele e ele não está lá. Bucky sempre esteve do meu lado desde que éramos crianças. E agora, pela primeira vez, ele não está mais. Como alguém entende, lida com algo assim?
– Oh, my darling. – chamou-o pelo carinhoso nome. Machucava tanto vê-lo daquela maneira, e as lágrimas que antes formaram-se em seu rosto começaram a rolar por suas bochechas. Como podia ela não se emocionar? – Eu sinto tanto, tanto...
– E eu não consigo não me sentir culpado. Foi a escolha dele, mas ele não teria a escolha se eu não tivesse oferecido a posição na equipe. Se eu não tivesse pedido para ele ficar. – lamentou o homem. Talvez estivesse certo, mas aquela era a magia das escolhas: você nunca sabia onde uma iria dar. Apenas era lamentável que a de Bucky havia acabado ali, mas do mesmo jeito, não continuava sendo culpa de ninguém, nem de Steve e nem de Bucky. Somente do soldado da Hydra que havia explodido a lateral do trem, talvez.
– Oh, Steve, ele ficaria de qualquer jeito. Você sabe disso. – afirmou a mulher. Qualquer um com olhos naquela base sabia como um era leal ao outro. Se Steve não fosse tão péssimo em esconder o que sentia e Bucky não flertasse com cada rabo de saia que aparecesse em sua frente, ela poderia jurar que os dois eram apaixonados um pelo outro. Na verdade, eram, mas em um sentido fraternal e platônico. – Ele nunca te abandonaria para lutar a guerra sozinho. Pelo o que você me contou, nem nas brigas do Brooklyn ele deixava seu lado. Como pode esperar que ele fosse te abandonar em algo tão importante para você como isso?
– Eu sei. Eu só não consigo parar de me sentir assim.
procurava palavras para que pudesse amenizar um pouco a dor que Steve sentia, mas elas não vinham. Ela sabia, sabia que era impossível, e ainda assim tentava, talvez por saber o quão devastador tão situação era, e não queria deixá-lo sozinho. No fim, após alguns bons minutos de silêncio, ela soube o que dizer. Era a última coisa que queria conversar sobre, mas Steve precisava entender que ela compreendia. Que ela também havia passado por aquilo e sobrevivido.
– Eu sei que nada do que eu te falar vai melhorar. Mas você não está sozinho. Você tem os Commandos, você tem o 107º, e, mais importante, você tem a mim. – esclareceu , garantindo mais uma vez que ele soubesse que tinha uma rede de apoio a todo instante, antes de puxar o ar e começar hesitantemente. – Você sabe que eu tinha um irmão, não?
– Michael, não? – pergunta Steve, lembrando das poucas vezes que a mulher mencionou o irmão.
– Isso mesmo. Michael sempre foi meu apoio. Foi sempre a pessoa que mais confiava em mim, que mais me incentivava. – disse , respirando fundo ao ser atingida por uma onda de emoção ao lembrar do irmão falecido. – Nós brigávamos feito cão e gato, não se engane, mas ele era um irmão incrível. E acreditava no meu potencial antes mesmo que eu. – completou, totalmente saudosa. Sentia falta de Michael todo santo dia.
– Você me disse que ele morreu, mas nunca me contou como. – perguntou o loiro, hesitante, pois apesar de querer saber mais sobre ela e o irmão, não queria forçá-la a conversar sobre um assunto difícil.
– Ele era da Royal Air Force. Um dos melhores pilotos da tropa. Morreu em combate em 1940.
– Eu... eu sinto muito, . – O que mais ele podia dizer? Do mesmo jeito que , palavras não amenizavam a dor da perda de alguém querido. Steve estava começando a ver que ela o entendia muito mais do que ele achava.
– Eu sei, darling. Faz cinco anos, e eu ainda sinto sua falta terrivelmente. – ela deu um sorriso triste, o qual sempre aparecia ao mencionar o irmão. Respirando fundo novamente, continuou. – Eu costumava trabalhar como uma code-breaker em Blechtley Park no início da guerra. Estava noiva e iria me casar assim que a unidade do meu noivo voltasse do treinamento. Michael veio a minha festa de noivado, e no final perguntou o que eu ainda estava fazendo ali. Eu havia recebido uma proposta para trabalhar na Special Operations Executives meses antes, e ele me disse que havia sido por indicação dele, pois sabia que eu queria lutar, que queria ajudar e participar, mais do que uma simples decodificadora. Eu disse que eu tinha um dever com nossos pais, e que tinha que ficar ali e me casar. Uma das últimas coisas que ele me disse era que eu tinha que ser quem eu queria ser, não quem nossos pais queriam que eu fosse. Duas semanas depois, dois dias antes do meu casamento, recebemos a notícia que ele havia sido morto em ação. – contou ela, a voz suave ao lembrar do período tão difícil se tornando um sussurro no final, tomada pelas lembranças e pela saudade de seu irmão.
– Uau. , eu...
– Não, Steve. – ela o interrompeu, a voz ainda suave, mas firme. Não queria que ele achasse que estava lhe dizendo a história para ganhar a pena dele. – Estou te contando isso, porque assim que eu vi aqueles dois oficiais na varanda de casa, nos dizendo que meu irmão nunca mais voltaria... a primeira coisa que eu pensei era que eu havia o decepcionando. Que ele havia morrido sem se orgulhar de mim. Então eu terminei meu noivado e aceitei a posição no SOE. E depois me alistei à RAF, como meu irmão mais velho, e eu senti orgulho de mim mesma, porque naquela hora senti que estava não só aceitando o destino que eu queria, o destino certo invés do mais fácil, e que estava o honrando daquela maneira. E a partir daí, fui conquistando postos, até chegar onde estou hoje. Mas eu não posso evitar de pensar que se tivesse feito isso antes, talvez de alguma maneira eu poderia ter alterado algo que não resultaria na morte de Michael. Ou que pelo menos ele morreria orgulhoso da irmã dele. Só que, apesar de carregar essa culpa, eu não posso mudar o passado. Ninguém pode. Eu não posso mudar minhas escolhas agora, do mesmo jeito que Michael não podia mudá-las antes de ele morrer. E fiz minha paz com isso. E agora, quando eu sinto que não vou aguentar a saudade que vem dele, ou que a culpa e o arrependimento tentam tomar conta de mim, eu me lembro que eu estou honrando a memória dele do melhor jeito possível. E não há mais nada que eu possa fazer do que isso. Entende o que eu quero dizer? – perguntou ela, quase sem fôlego no final, mas esperando que tivesse o ajudado em seu dilema. Não era uma história divertida ou fácil de contar, mas se ajudasse Steve a lidar com a perda de Bucky, ela lhe contaria mil vezes. Só esperava que com isso, a culpa que ele sentia não fosse mais tão forte. Já a dor, ela não podia fazer nada que não fosse ficar ao seu lado e lhe dar apoio.
– Infelizmente sim. – sussurrou ele em meio aos pensamentos, refletindo sobre tudo que ela havia lhe contado.
– Vai doer por muito tempo, Steve. – declarou, após alguns instantes de silêncio. – Provavelmente o buraco da falta dele nunca se recomponha. Mas fica suportável. E todo dia você pode achar novos jeitos de honrá-lo. E você pode contar comigo para isso. – garantiu ela, se aproximando e o abraçando, mostrando que suas palavras iam além de coisas que dizia da boca pra fora.
– Desculpa o clima. – sussurrou ele, contra o cabelo dela, adorando tê-la em seus braços novamente, mesmo que fosse em tal situação. – Eu sei que não sou a melhor das companhias esses dias.
– Eu sabia no que estava me metendo quando concordei com você, Steve. Com drama ou não. – brincou a mulher, mas se separando um pouco e o olhando intensamente para que ele entendesse que era verdade.
– Mesmo assim, amanhã é o grande dia. Não deveria estar lá dentro, aproveitando? – questionou Steve, meio sem graça. Ela tão próxima, sendo tão ela, lhe dava ideias que não era a hora de acontecerem ainda. Então, desconversou, esperando que ela se afastasse com a mudança de assunto, o que ela não fez.
– Bem, lá está cheio, quente e barulhento. Aqui está mais quieto, mais fresco, e eu tenho você para mim. Não é uma escolha difícil.
– Quer dizer que se lá estivesse mais vazio e sem tanto calor corporal, seria trocado por um bar e a pista de dança? – ele se fez de ofendido, arrancando uma risada alta da mulher. Como ele amava a risada dela. A guerra não era um lugar para o riso, mas assim que estivesse terminada, ele prometeu a si mesmo que a faria fazer tal som que era tão apaixonado todos os dias.
– Eu nunca fui muito exigente, e quem resiste à um bom whisky? Sem falar dos Commandos? Cheio ou não, duvido que conseguiriam afastar aqueles alcoólatras dali. Pelo menos não Dum Dum. Você teria que me dividir com eles – ela continuou com o tom brincalhão da conversa, mas não pode evitar repetir as palavras dele a seguir. Tudo estava acontecendo em uma rapidez impressionante, com uma intensidade que ela não esperava, e a deixava ansiosa para o fim. – Amanhã é o grande dia.
– Preocupada com nossas chances?
– Com você ao nosso lado? Nunca. – brincou mais uma vez, antes de adotar um tom mais sério, não deixado de encará-lo intensamente. – Ansiosa para isso tudo acabar. Sei que não será instantâneo, mas sinto dentro de mim que amanhã é o começo do fim.
– Eu também sinto, e não poderia vir em hora melhor. Até o Capitão América se cansa de lutar, uma hora. – ele disse de volta. Estavam novamente conversando o implícito futuro dos dois e, como sempre que isso ocorria, lhe dava um frio no estômago e tornava impossível que seus olhos deixassem o rosto dela.
– Bom, não se preocupe. Sinto que depois de amanhã você terá o seu descanso. – garantiu a agente, um pequeno curvar surgindo em seus lábios.
– Com você, se tudo der certo. – ele mais constatou que perguntou, mas ela não o corrigiu. Seu tom esperançoso e o sorriso tímido se espelharam na mulher, que não pode conter o sorriso ao olhá-lo.
– Comigo.
Passaram alguns instantes em silêncio, antes que o homem voltasse a falar, sabendo que se continuasse a olhá-la sem uma conversa para tentar distrair seu cérebro, ele a puxaria e diminuiria a distância entre os dois para um beijo num piscar de olhos.
– A gente nunca discutiu, não é? Sempre falamos da espera, mas nunca falamos detalhadamente o que viria depois dela. – perguntou baixo o loiro. Não era medo de serem ouvidos, mas a pressão que o assunto parecia trazer. Uma pressão de ansiedade e antecipação.
– Não, não discutimos. Acho que estávamos com medo de amaldiçoar ou desafiar o destino planejando muito. Nenhum de nós dois quis elevar muito as expectativas. – respondeu em um tom igual, ainda o olhando de um jeito que mexia com todo seus ser por dentro. Ela precisava parar de fazer aquilo, ou não aguentaria a espera. A mulher não fazia ideia do efeito que tinha nele.
– Acha que seria amaldiçoar falar disso agora?
– Bom, a sorte, as estatísticas e as probabilidades estão do nosso lado. – ponderou ela, pensando na extensa reunião que tiveram aquela tarde. – E acho que seria uma boa hora para mencionar que Philips me deu um posto efetivo na base de Nova York, assim que nosso trabalho aqui na Europa acabar.
– Você jura? – perguntou Steve, estupefato. Não havia pensado onde ficariam após a guerra, mas saber que ela iria para Nova York parecia tão certo como se fosse o plano inicial dos dois. – Isso... isso é incrível, . Mas e quanto sua posição aqui em Londres?
– Bem, no momento, tanto a SSR quanto o MI6 me utilizam como liason. Estou livre para escolher em qual dos dois quero permanecer.
– Você escolheria Nova York à Londres? Por mim? – perguntou pasmo novamente. Estaria ele sonhando? Amava sua cidade, mas abriria mão de qualquer coisa por . E ouvi-la falando o mesmo... parecia um sonho.
– Steve, sei que eu não fui a pessoa mais aberta nessa estranha relação que mantemos... mas, desde que eu possa continuar fazendo meu trabalho, eu iria à qualquer lugar por você. – ela brincou, rindo da cara de surpresa dele. Diferente do homem, não tinha apego a uma cidade só, e já havia passado um bom tempo em solo americano para saber que se adaptaria sem problemas ali. – E você não pensou em um relacionamento transcontinental, pensou? Porque eu sinto em lhe dizer darling, a realidade não é tão romântica como na teoria.
– Não, não. Eu... eu acho uma ideia incrível. Só não achei que você estaria disposta a fazer isso por mim. – riu sem graça o loiro, ainda surpreso com o que ela estava disposta a fazer por ele.
– Quantas vezes eu vou ter que te dizer, Steve Rogers, que eu faria qualquer coisa por você? Você acha que eu valho toda essa espera de anos, bem, eu acho que você vale me mudar para o outro lado do Atlântico.
– É só difícil de aceitar. De me acostumar com a ideia de que eu não estou mais sozinho.
– Pois acostume-se. Aceite. E saiba que todos os sonhos que você tinha que não achava que aconteceria, nós vamos conseguir, juntos. Ok? – perguntou retoricamente, o olhando com uma intensidade que fazia o homem tremer sob o seu olhar, e não de um modo ruim.
– Ok.
Mal perceberam que durante a conversa se aproximaram mais do que já estavam antes. Era palpável no ar que os dois ansiavam pelo toque dos lábios, e não conseguiam tirar os olhos um do outro. Tentativamente, como se estivesse se movendo em slow motion, eles aproximaram ainda mais os rostos, a ponto de que sentiam a respiração um do outro, os olhos institivamente se fechando, o coração batendo mais rápido, só mais um pouco, quase, tão perto... só para serem distraídos e se assustarem com um barulho na entrada do salão. Mesmo com a lua iluminando por onde o teto havia desabado, estava uma penumbra o suficiente para que ninguém pudesse ter visto nada, mas o coração dos dois estavam disparados como se tivessem levado um choque.
O barulho era Gabe, vindo avisar que o bar estava fechando e todos estavam voltando para base, para poderem descansar antes da missão dali algumas horas. Não confiando em sua voz, Steve lhe deu uma curta confirmação de que já estava os acompanhando.
Mudos, e Steve se encararam, assustados com o fato de que quase haviam sido pegos. Porém, na mente dos dois, o quase que importava eram os poucos milímetros que faltaram para se beijarem. Sabendo que era arriscado e não havia mais clima eles se levantaram e se juntaram ao resto do pessoal, voltando para o bar sem chamar a atenção para os dois, e logo estavam de volta à base. Steve acompanhou até a ala dos dormitórios femininos, querendo dizer, querendo fazer tanta coisa, mas sabendo que não podia. Por fim, decidiu em algo neutro, que não chegava nem perto do turbilhão de sensações que ele sentia por dentro. Contudo, como estavam na área comum da base, não podiam fazer muita coisa.
– Bom, está entregue. Boa noite, . Descanse bem.
– Boa noite, Steve. Você também, vai precisar das energias amanhã. Te vejo em algumas horas. – a agente respondeu suavemente, compartilhando do mesmo desejo. Com um aceno de cabeça, ele se virou e começou a ir em direção ao seu dormitório, mas um pensamento que lhe veio fez ser impossível evitar dar meia volta e voltar, justamente quando ela estava fechando a porta.
– Eu a... eu mal posso esperar amanhã chegar para a espera acabar. Mal posso esperar para te ter comigo. – ele confessou, sabendo que parecia bobo voltar apenas para lhe dizer aquilo, mas a proximidade dela de mais cedo ainda estava mexendo com seu sistema. A mulher, por sua vez, não achou tão tolo assim, já que deu um sorriso doce e retribuiu o desejo.
– Eu também, Steve, eu também. Só mais um pouco e podemos ficar juntos.



MAIO DE 1947
STORK CLUB, NEW YORK

estava esperando por Howard fazia pelo menos quarenta minutos. O moreno havia combinado de encontrá-la em seu clube "preferido", por sugestão dele. Normalmente, ele acabava ali por causa dela, acompanhando-a quando sua nostalgia, angústia e saudade levavam a melhor sobre ela, ou quando os dois estavam no humor de relembrar o passado. Mas nunca ele havia sugerido de espontânea vontade, até aquele momento.
A agente não acharia estranho se não fosse o fato de que Howard só havia chegado em Nova York na semana anterior, tendo estado em sua viagem desde a reunião com Phillips. Sabendo disso, e sabendo o que o clube representava para ela, a agente soube no instante que ele a convidou que, mais uma vez, não havia sido bem sucedido.
Não tinha problema. Partia-lhe o coração, mas não tinha problema. Não havia criado expectativas dessa vez, aprendendo com a experiência passada, e não havia sido devastada com tal conclusão. Ainda era decepcionante e angustiante saber que Steve estava perdido no mundo, sozinho, esquecido por todos que ele morreu protegendo? Obviamente, sim. Ela queria gritar. Queria rasgar o peito se significasse que a dor diminuiria. Mas não estava surpresa. Não foi pega despreparada. E aquilo era uma vitória.
Havia aceitado a realidade. Não achava certo. Não achava justo. Queria se comportar como uma criança, queria espernear e gritar e apenas fazer um escândalo até ter o que queria. Mas não era possível. Não havia como. Então ela se conformava em passar o resto do tempo sentindo a falta que ele fazia. Era o preço a se pagar por ter alguém tão especial quanto Steve em sua vida.
Aquele mês fazia o segundo aniversário de seu desaparecimento. Capitão América agora era uma lembrança de guerra. Lembrado pelos outros apenas quando lembrassem dela. Era a parte decepcionante de virar história, de virar lendas. Elas não eram vida. Elas só eram lembradas quando era conveniente.
Mas Steve? Steve Rogers eternamente seria a lembrança da vida dela. Steve não seria lembrado apenas quando fosse conveniente, já que o homem estava em cada pedaço dela, gravado em cada gesto, em cada atitude.
Havia aprendido a aceitar isso. Não tinha sua presença ali com ela, e tal noção era esmagadora. Mas tinha sua essência. Tinha suas lembranças. Tinha os ideais, e opiniões, e gostos dele guardados na memória. Cada traço de seu rosto. O tom de sua voz. O som de sua risada. A sensação do seu toque. Ele poderia ter ido, mas havia deixado uma parte dele para trás, com ela. Havia demorado para chegar a tal ponto de aceitação, mas estava ali. Ainda sofrendo, ainda com saudades. Mas sobrevivendo. E sabia que era o que Steve queria.
Bem, ela não sobreviveria se Howard insistisse em deixá-la plantada por muito mais tempo. Já havia pedido dois drinks, e se tivesse que pedir mais um antes que ele chegasse, o cientista não a encontraria ali quando chegasse. Pois, por mais curiosa que estivesse, não estava a ponto de esperar por uma hora sozinha o homem. Da próxima vez que quisesse falar com ela, que a procurasse. Não tinha tempo ou paciência para aquelas trivialidades.
Depois de minutos apenas observando seus arredores, olhando os casais na pista de dança, ela revirou os olhos e pediu o terceiro drink, que chegou prontamente. Ponderou se deveria colocá-los na conta de Howard por fazê-la esperar tanto, antes que sua mente fosse tomada por mais um turbilhão de pensamentos. Era sábado e por mais que estivesse de folga, sua mente dificilmente se desviava de S.H.I.E.L.D. aqueles dias. Havia muito o que fazer e só haviam começado, mas ela estava animada com o trabalho à sua frente. Por mais que tivesse aprendido muito com sua experiência na SSR, fazia muito tempo que não ficava tão cativada pelo trabalho, e aquela sensação a deixava em êxtase. Mil e uma ideias e dúvidas e notas para lembrar surgiam em sua mente, quando ela finalmente sentiu alguém do seu lado.
– Você precisa uma lição para relembrar a etiqueta do que é socialmente aceitável. – disse a mulher, se virando e encontrando o sorriso sem graça de Howard ao seu lado. Brevemente olhando o relógio na parede atrás deles, ela voltou a atenção ao homem e continuou. – Fazer alguém, mulher ou não, amigo ou não, te esperar por cinquenta e cinco minutos definitivamente não é aceitável, Howard.
– Eu sei, eu sei. Me perdoe. Mas eu tenho a desculpa perfeita que fará você me perdoar em um instante. – o homem disse, sinalizando para o bartender uma dose do whisky neat que ela tomava, antes de se virar para ela, apesar de ficar alternando o olhar entre a mulher e a entrada.
– Eu não me importo se você estava com o Papa. Uma hora, Howard. Uma hora. Eu tenho coisas melhores a fazer com meu tempo. – reclamou a mulher, analisando-o da cabeça aos pés. Ele estava bem fisicamente, apesar de parecer estar uma mistura de exausto com o tipo de animação com certeza só diversas doses de café proviam. Por que ele a teria chamado se estava naquele estado?
– Não o papa, mas quase. Você vai entender. – retrucou, bebendo um gole de seu drink assim que ele chegou. Mas ainda olhando constantemente para porta. não o via daquele jeito desde a confusão com Dottie, Howard tendo ficado paranoico que a espiã russa voltaria para uma retribuição. A agente tinha certeza que a mulher tinha outras prioridades, como evitar ser presa, mas o amigo não acreditava nela. Ela não sabia se era uma boa ideia beber álcool no estado que ele estava, e talvez fosse melhor deixar o sermão para outra hora e irem para casa. Ele não teria se atrasado tanto se fosse importante, e não estava em condições de discutir com ele. Suspirando, ela virou sua dose, e se virou para ele.
– Olha, tudo bem, imprevistos acontecem. Que tal tentarmos amanhã, depois de você ter descansado um pouco? Três drinks já estão bons demais, para falar a verdade. – Era mentira, mas tinha que tirá-lo dali rapidamente, antes que o homem desmaiasse em sua companhia. Se levantou, e tentou puxa-lo pelo braço, mas o homem não ajudava. – Howard, vamos! Por favor, coopere. Vamos para casa, e te juro que amanhã voltamos.
– Não! Não podemos ir, . – ele retrucou, e a agente soltou um suspiro cansado. Por que continuava amiga do moreno quando ele só lhe dava trabalho?
– Por que não, Howard? Você está claramente exausto e sem condições de permanecer mais uma hora longe de sua cama, e eu estou frustrada depois de te esperar por uma hora. Podemos, por favor, deixar isso para outro dia? – barganhou ela com o amigo, pedindo a Deus que um neurônio na mente brilhante do homem não estivesse bêbado em cafeína e racionasse que aquela era a melhor opção.
– Olha, , eu estou bem. Um pouco cansado, mas nada demais. – ele lhe disse, arrancando dela um riso irônico. Ela estava um pouco cansada. Howard estava praticamente um morto vivo. – Não podemos ir, porque ele está vindo.
– Quem está vindo? – perguntou, cansada, sem paciência para os enigmas e confusões dele. Deveria ter ficado em casa.
– Você vai ver. Eu queria te explicar direito, mas parece que você não vai deixar e eu não vou permitir que você tenha essa experiência arruinada por uma segunda vez. Então, saiba que eu fiz isso tudo por vocês, que eu ficarei bem, e, por favor, aproveite. Amanhã eu te explico com mais calma. – Howard falou enigmaticamente, antes de virar o copo e se levantar como ela, a envolvendo em um abraço apertado. – Demorou, mas eu consegui. E agora você vai poder ser feliz, .
– O que? Howard, você não está fazendo sentido algum. – disse ela confusa, não entendendo nada do que estava acontecendo, e muito menos o que o amigo falava. Estaria o moreno sob influência de algo mais sério que cafeína?
– Você vai entender em alguns segundos. Vai atrás da sua felicidade, . Você, mais do que ninguém, merece. – ele disse em seu ouvido, a soltando do abraço e dando um breve beijo em sua testa. estanhou, Howard nunca era afetuoso daquele jeito. Porém, antes que pudesse protestar o comportamento estranho do cientista, ele a segurou pelos ombros, e a virou em direção a entrada.
Ali, sob um arco no meio do caminho onde ela estava e a porta, estava a última visão que ela esperava ter. Um homem alto, de ombros largos e fortes, de cabelos loiros e um rosto que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo, em um terno azul escuro, a olhava com intensidade que ela reconhecia bem, mesmo estando há alguns bons metros de onde estava.
Parado e sorrindo para como se estivesse sendo vislumbrado por algo divino, estava ele, parecendo muito mais vivo do que deveria. Parecendo como se fosse em um de seus sonhos, mas milhares de vezes mais real. Parecendo tudo que ela havia sonhado, tudo que havia pedido, tudo que havia desejado, como se os últimos dois anos não tivessem acontecido.
Parado ali estava Steven Grant Rogers, em toda sua glória e perfeição, sorrindo para ela. Casualmente sendo o amor da vida dela.
nem havia percebido que o ar havia deixado seus pulmões, ou que ela estava boquiaberta, cobrindo os lábios e parte de sua expressão estupefata com a tremida mão esquerda. Tremendo também estavam seus ombros, com os soluços silenciosos que escapavam de seu corpo enquanto ela devorava a visão em sua frente, mal percebendo que chorava enquanto seu cérebro registrava o que via.
Ela se virou para Howard subitamente, querendo perguntar o que estava acontecendo e se o que ela estava vendo era verdade, mas seu choque era tanto que palavra alguma saia de sua boca. Tentando fingir que não estava emocionado e com um largo sorriso, ele acenou com a cabeça, entendendo o que ela se perguntava.
Foi o suficiente.
Sem hesitar um segundo, ela partiu em direção à Steve, não se importando que estava esbarrando nas pessoas, caminhando cada vez mais rápido, já que cada segundo longe dos braços dele era longo demais. Mal percebeu que corria nos últimos instantes, apenas registrando a sensação de estar finalmente em casa novamente ao colidir com ele e ser pega em um abraço apertado.
chorava abertamente, sentindo o choro repercutir em todo seu corpo. Não se importava se estava em público. Não se importava se estava molhando o terno dele. Nada importava, porque Steve estava ali. Depois de dois longos e excruciantes anos, depois de tanta dor, de tanto sofrimento, ele estava ali, e estava a abraçando. Ela podia sentir que ele chorava também e isso só fez com que o abraçasse mais forte, sentindo o lar que tanto ansiava no enlace de seu abraço.
– Sinto muito por estar atrasado. Sinto muito por ter perdido nosso encontro, por ter perdido nossa dança. – ele falou contra o ouvido dela, ainda em meio ao abraço, a voz embargada, mas tão, tão amorosa. – Sinto muito pelo o que eu te fiz passar. Sinto muito por ter te deixado, .
Balançando a cabeça e ainda chorando fortemente, ela se afastou minimamente, o suficiente para olhá-lo nos olhos. Mesmo tendo decorado cada ponto de seu rosto, sua memória não lhe fazia justiça. Ele parecia mais lindo ainda, simplesmente por estar ali, com ela, vivo.
– Oh, my darling. Só me importa que você está aqui. – ela disse, antes de fazer o que ansiava desde que ele havia embarcado na Valkyrie. Com seu rosto entre as mãos dela, ela o observou mais uma vez, tendo dificuldades em acreditar que aquilo era real, mas nem seus sonhos mais perfeitos faziam jus aos olhos de Steve. Fechando os olhos, deixando que mais lágrimas escorressem para suas bochechas, ela mais uma vez tocou o paraíso com seus dedos, e, aproximando seus rostos, ela o beijou.
Com toda adoração, com toda paixão e com toda a saudade, ela o beijou. Com toda a dor que sentiu ao perdê-lo, com todo sofrimento que foi passar dois anos sem ele e com todo medo que sentiu querer matá-la por ter que viver um mundo sem ele, ela o beijou.
Com todo o amor, com toda a alma e com toda a pele, ela o beijou.
E ele a beijou de volta, retomando o que todos aqueles anos separados e esperando roubaram deles. Com toda a intensidade do vermelho, com toda a ansiedade da espera, com todo o arrependimento de tê-la abandonado, ele a beijou.
Em um beijo, incêndio e paraíso se encontraram mais uma vez. E eles não planejavam que essa fosse novamente a única vez.
Terminando o beijo que os levavam em milhares de sonhos mais rápido do que gostariam, mas precisando de oxigênio, o mágico momento que voltou a transformar os segundos em saudade, agora do tempo perdido, eles se separaram minimamente. Ainda com o rosto repleto de lágrimas, sussurrou encarando-o, sabendo que nunca mais cometeria o erro de esperar pelo momento certo. O momento certo era agora, com o parceiro certo lhe abraçando com toda a certeza do mundo que nada os impediria.
– Eu amo você, Steve Rogers.
– Eu amo você, Carter.



Fim



Nota da autora: Para variar, cá estou eu, mais uma vez, sofrendo por steggy. Nada novo sob o sol. Eu não sei lidar com esse casal. Simplesmente não sei. Sofro todos os dias por causa desse ship. E, como se não bastasse a sofrência pelo otp mor da Marvel, vacilei com o tamanho de novo. Existe controle quando se diz respeito à Steve e , gente? Porque eu desconheço.
A fanfic surgiu da música Te Besé – Leonel García ft. Maria José Loyola (que aliás, é a coisa mais amor do mundo, então fica aí a indicação). A letra influencia principalmente as últimas partes, caso se perguntem porque tal coisa foi escrita de tal maneira.
Sou apaixonada por ela e a ideia surgiu no ano passado, quando eu ainda tava escrevendo meu primeiro Ficstape pro site. Sem novidade nenhuma, claro que me enrolei e não tinha como terminar ela, até vir esse projeto maravilhoso que é o Nós Existimos.
Porém, de lá para cá, não muito diferente das minhas outras histórias, a fanfic tomou um rumo que eu não tinha previsto antes, e foi para uma direção totalmente diferente. Sendo do meu casal preferido nesse mundo, fiquei satisfeita com o resultado, mas por favor, comentem dizendo o que acharam!
Besos y hasta lluego!





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