Última atualização: 12/08/2017

Capítulo 1

’s POV


O sol surgia por cima do mar de nuvens, ao leste. Sempre ao leste. Já estávamos quase pousando em Liverpool e o clima frio lá de fora já era visível na janela do avião, que começava a ficar meio embaçada. Suspirei novamente, dando adeus a minha querida Paris mais uma vez. Desliguei o celular como pedia a aeromoça, dizendo que estávamos prontos para aterrissar e qualquer interferência eletromagnética poderia afetar o voo e blá, blá, blá.
Bem que alguém poderia desobedecer essa regra e fazer com que o avião caísse de uma vez; menos 20 pessoas ridiculamente vazias nesse mundo.
Segurei-me mais forte ao braço do banco quando o avião encostou o chão com um solavanco. Odiava viajar de avião. Talvez porque avião era meu meio de transporte mais frequente nos últimos tempos. Desde que meus pais se separaram, eu estive indo e voltando, indo e voltando. França, Inglaterra, França, Inglaterra. Mas dessa última vez foi diferente. Consegui convencer meu pai de trocar minhas férias com ele por mais tempo com mamãe. Então, durante o ano letivo, eu estudaria em Londres.
O tempo em Liverpool estava gelado, como sempre. Morei na cidade adorada pela Rainha por mais de dez anos e jamais havia me acostumado com aquele clima terrível. Paris, entretanto, estava maravilhosamente climatizada em seu trópico temperado. A brisa que corria pelas praças sequer chegava aos pés dos ventos daqui. O Liverpool John Lennon Airport estava movimentado, como sempre, e meu pai estava lá, com seu sorriso sua plaquinha com meu nome.
Não era a maior fã de passar tempo com meu pai, mas confesso que sentira saudades de nossos momentos juntos. Nesse mundo de tristeza e corridas capitalistas, era bom sentar com meu pai frente à clareira de pedra que havia na sala e ler algum clássico da literatura inglesa com uma xícara de chá ao lado.
- Seja bem vinda, . – Disse meu pai, abraçando-me pelos ombros. Apenas sorri de volta e arrastei minha mala para algum carrinho que havia ali perto. Meu pai me acompanhou de longe, parando de vez em quando para ver alguma coisa em seu celular.
- Arranjou um brinquedinho? – Falei, olhando seu aparelho móvel de última geração. Ele rapidamente desligou e guardou no bolso.
- Algumas coisas mudaram. – Sorriu seu sorriso idoso. Ver meu pai sorrir era uma das coisas que eu mais gostava de ver. Algumas rugas se formavam no canto de seus olhos e um leve vinco entre as sobrancelhas, seu sorriso era carregado por um charme que eu não sabia decifrar, coisas da idade. Meu pai era bem conservado para seus 47 anos de vida. Seu corpo era bem distribuído em 80 quilos de tênis de quadra três vezes por semana às 10 horas da manhã.
Nem tantas coisas mudaram assim.
- Você, por outro lado. – Ele completou, abrindo a porta do carro para mim. Olhei-me em meu reflexo e sorri, satisfeita com o que via.
Eu não era uma garota como tantas outras por aí. Meus jeans rasgados deixavam meus joelhos e parte da minha coxa à mostra e minha blusa do John Lennon mostravam meu lado revolucionário. All Star surrado, meu cabelo desalinhado estava preso em um rabo de cavalo improvisado com um elástico que eu havia achado no fundo da minha bolsa. Não havia maquiagem em meu rosto, apenas, talvez, meus olhos marcados por um lápis de olho forte. Eu gostava de demarca-los daquele modo. Os olhos são as janelas da alma. Clichê, mas verdadeiro.
Dei de ombros para meu reflexo e para o comentário de meu pai. Entrei no carro e coloquei o cinto de segurança. Meu pai colocou suas músicas para tocar. Elas se resumiam em Beatles, Oasis e Queen. Meu pai era o que podia ser chamado de: patriota. Mas dos antigos. Eu acho inclusive que ele era um Beatlemaníaco em sua época. Fiquei observando a paisagem passar como um borrão por nós enquanto meu pai dirigia para nossa choupana no litoral de Liverpool. Era sempre assim, nossas férias estavam sempre envolvidas com a cidade do Pop. E, apesar de faltar apenas um dia e meio para o começo do ano letivo, meu pai insistia em ficar ali.
- Pai? – Chamei, quando li a placa que indicava a divisa de estado de Liverpool e o condado de Cumbria.
- Sim? – Ele abaixou o volume da música.
- Onde estamos indo? Quero dizer... Liverpool fica para lá. – Apontei para trás com o polegar. Ele riu de mim e bagunçou meu rabo de cavalo.
- Você logo verá, docinho. – Disse ele, sorrindo de leve, meio ansioso. Ajeitei-me em meu banco e assenti, atenta à estrada.
Ali parecia o caminho para o fim do mundo. Não se via nada além de plantações na beira da estrada. Não tinha gente ali, não tinha casa à vista. Nada. Por um momento achei que meu pai estivesse brincando comigo.
Duas horas se passaram e nada de chegarmos ao nosso destino. Porém, enfim, a civilização resolveu dar as caras e adentramos os limites de uma cidade chamada Carlisle. Não era nada mal, na verdade. Parecia ser muito mais pacata que a grande Londres, disso não tenho dúvidas, mas, vamos lá, a cidade tinha um castelo à vista!
O Castelo de Carlisle, lembrei-me, rindo comigo mesma. Garfield tinha algo em cultura, enfim.
Não estava dando a mínima para aquela cidadela até meu pai entrar em uma rua residencial e estacionar o carro na garagem de um grande casarão branco com telhado cinza. Oi?
- Pronta? – Meu pai sorriu abertamente para mim antes de destravar as portas. Ele saiu primeiro e pegou minha mala, entrando naquela casa em seguida. Fiquei paralisada, tentando entender o que significava tudo aquilo, mas cheguei à conclusão de que só saberia se fosse até lá.
Saí do carro e adentrei também a grande casa.
- Bom dia! – Uma mulher alta, loira e terrivelmente bonita disse. Ela devia ter seus 30 e poucos anos, mas não aparentava muito. Usava um vestido branco justo e sapatilha na mesma cor, seus cabelos dourados caiam em cascata até pelo menos a metade de seus ombros. – Você deve ser a .
- Sou. E você quem é? A nova empregada? – Franzi o cenho, largando meu casaco no sofá.
- Oh, não! – Meu pai saiu da cozinha e foi para o lado da mulher. – , essa é Maryl, minha esposa.
- Sua... O quê?
- Você pode me chamar de mãe, se quiser. – Ela disse, chegando mais perto, porém eu me esquivei.
- Não vou te chamar de mãe! Eu tenho uma mãe! – Olhei para meu pai, desesperada, esperando que ele desmentisse aquela bizarrice. – Pai?
- Foi o que você propôs, querida. – Meu pai disse, sorrindo de canto.
- Eu não propus que você se casasse com a Barbie! – Minha voz saiu duas oitavas mais alta. – Quando foi o casamento?!
- Mês passado. – Disse ele. – Você não quis vir...
- Não coloca a culpa em mim, Robert! – Chamei meu pai pelo nome. – Você tinha que ter me contado!
- Querida...
- Não! Pai... O que mais tem para me contar?! Vai me mandar para um internato?! Eu tenho um meio-irmão?!
Ele abriu a boca para falar e depois a fechou. Disparei escada acima, me deparando com o corredor extenso, cheio de portas. Abri uma de cada vez, encontrando dois banheiros, um quarto de casal, um armário, um menino semi-nu...
- Ei! – Ele reclamou, quando eu escancarei a porta com violência.
Fechei a porta rapidamente e fiquei segurando a maçaneta por alguns segundos. Eu tinha mesmo visto aquele garoto só de toalha? Larguei a maçaneta e segui para as próximas portas. Um quarto todo branco e rosa. Tudo. Meu estômago revirou quando pensei que aquele seria meu quarto. Tinham mais duas portas. Abri uma e vi outro quarto de casal, que parecia ser a que meu pai dormia com aquela mulher. Fechei-a sem cerimônia e parti para a última.
- Mas que merda... – Deixei a frase no ar e logo em seguida fechei a última porta, dessa vez com força. Voltei pelo corredor, indo em direção às escadas.
- O que... Ei, garota! – O menino saiu do quarto assim que eu atingi o primeiro degrau da escada. Apressei o passo e cheguei ao primeiro andar da casa, meu sangue fervendo nas veias.
- Você está gravida?! – Perguntei à Barbie, que estava sentada com meu pai no sofá. Ela me olhou como quem está constrangida, mas não respondeu nada.
- O que tá rolando? – O garoto estava atrás de mim. Girei nos calcanhares e recuei um passo quando me vi quase colada nele. – Quem é a maluca?
- Maluca é a sua...
- ! – Meu pai gritou. – Já chega!
Olhei-o diretamente, desafiadora. Dentro de mim já não havia porque ser a filhinha do meu pai. Esse cargo já não cabia mais a mim. Agora ele tinha outras pessoas para amar. Ele se aproximou, de ombros baixos, porém com determinação no olhar.
- Esse é Liam, seu meio-irmão. – Disse meu pai, colocando uma mão sob o ombro do tal Liam. – E sim, Maryl está grávida.
- Algumas coisas mudaram, hein pai? ALGUMAS! – Carreguei minha voz no melhor tom que eu tinha: ironia.
- Espera! – O garoto falou. – Ela é sua filha?
- Dã! – Respondi. Ele me fitou por um longo segundo, ponderando algo. Não pude deixar de analisa-lo do mesmo modo como ele fazia. Sua blusa da Hollister era justa, deixando seus ombros largos e seus braços definidos destacados, calça preta e All Star branco. Nada mal. Ele era bonito.
- , sabíamos que você não ia aceitar tão bem essa situação. Na verdade, sua reação foi um pouco além do que esperávamos. Não esperamos que você se acostume tão cedo. – Disse meu pai, fazendo-me virar para ele novamente. Cruzei os braços, deixando bem claro meu descaso e deboche.
- E?
- Resolvemos que seria melhor te matricular na mesma escola que seu... Irmão. – Completou ele, abraçando a Barbie-prenha de lado.
- Não me venha com essa de “achei melhor para você”, você não sabe o que é melhor para mim!
- você vai sim, porque eu sou seu pai e eu estou dizendo que você vai! – Ele levantou a voz para mim.
Silêncio.
- Vai ser ótimo te ter por lá, irmãzinha. – Liam disse, um pouco atrás de mim. Olhei mais uma vez meu pai nos olhos antes de me virar. Esbarrei de propósito e com força no ombro de Liam ao passar por ele. Subi as escadas correndo e tranquei-me em “meu quarto”.
Em que tipo de inferno eu fui me enfiar?

POV
Me atirei em minha cama e apaguei a luz do abajur bem na hora em que Minerva abriu a porta para fazer sua checagem noturna de férias antes de apagar as luzes do corredor. Ela fez o mesmo de sempre: espiou para dentro do quarto e, logo em seguida, fechou a porta e saiu. Idiota.
Bufei e revirei os olhos, me livrando das minhas cobertas e indo em direção à janela. Às vezes parece que estou no exército, pensei, e não em só mais um colégio de gente rica e babaca.
Abri o vidro e subi na janela, virando as pernas para o lado de fora e pulando bem em cima dos arbustos que já eram amassados por amortecer minha queda toda noite. Era mais ou menos dois metros e meio de queda, mas eu já estava acostumada a isso. Me levantei, batendo as folhas das minhas calças, e atravessei a área aberta que separava dois pavilhões, o dormitório das garotas e o dos garotos enquanto tirava uma folha de árvore dos cabelos. A noite estava bonita, apesar de meio fria. Ao chegar na árvore que me servia como escada para chegar até a janela do quarto 169 do dormitório masculino, escalei-a em questão de segundos. Depois de chegar até a janela, dei duas batidinhas e Louis logo abriu a janela para mim, e pulei para dentro do quarto caindo em cima da cama de Harry.
- Você demorou hoje – Harry disse, sem se dar ao trabalho de desgrudar os olhos do jogo que jogava em seu play 2.
- Minerva demorou a passar. – falei, sentando no chão ao seu lado e pegando o controle que sobrava.
- Ainda bem que veio, eu estava cansado de ganhar do Louis.
Eu ouvi! – Louis, que já estava deitado em sua cama e todo coberto, gritou.
Eu ri.
- Então se prepare para levar uma surra.
- Vai sonhando – Harry debochou e me empurrou com o ombro.
Harry Styles era um idiota. Ele também era meu melhor amigo desde que usávamos fraldas, e isso se devia ao fato de nossas mães serem vizinhas e amigas desde, sei lá, sempre. Aí ficaram grávidas, com cerca de um mês de diferença, e crescemos juntos aprontando pelo bairro onde morávamos. Estudamos juntos desde que entramos no colégio, e eu não lembrava de uma vida onde Harry Styles não estivesse em volta na maioria do tempo. Era como se fôssemos irmãos que moravam em casas diferentes.
Então, quando tínhamos 15 anos, cansamos da vida de cidade pequena de Holmes Chapel, pegamos nossas economias para a faculdade e decidimos fugir. Ideia dele, claro, porque foi a coisa mais imbecil que já fizemos na vida.
“7:00 na estação de trem amanhã” foi o que o email que ele me passou dizia. Desnecessário, porque já haviamos combinado aquilo mil e quinhentas vezes. E nós até chegamos longe! Fizemos as malas, saímos sem ser notados, e nos encontramos. Mas acontece que a mãe de Harry acordava cedo, e quando notou a ausência do filho resolveu procurar por algo no seu computador. E Harry não era a pessoa mais esperta do mundo: nunca apagava seus emails e deixava a senha salva.
Resultado? Nos fizeram terminar os estudos no internato mais bem falado da Inglaterra, e aqui estávamos nós, há mais de dois anos naquele inferno.
Logo que chegamos, Harry caiu nas graças das meninas e logo virou o cara mais popular do St. Bees. Clássico, eu sei. Ele tinha jeito com isso, não dava para negar. Tinha um charme natural, e era o ídolo de todas as meninas. Principalmente as do ginásio, o que podia ser bem irritante.
Pelo menos estar com ele ali tornava as coisas um pouco melhores.
- Você viu que sábado tem a inauguração do novo JourneyQuest, certo?
- Sim, por quê? – perguntei, apertando em alguns botões e acabando a partida por ali. Ele esbravejou e logo começou uma outra partida.
- Porque precisamos ir, dã.
- Ah, e você acha que vai sair alguma coisa no shopping de Carlisle? Vai demorar dois meses até vir para cá. E ao não ser que dê um jeito de irmos para Londres...
- Eu disse para ele. - Louis falou, de sua cama.
- Vocês dois são muito pessimistas.
- Você que sempre vê o copo meio cheio, quando é só um copo pela metade! - Falei e ele revirou os olhos. - Não podemos sair de qualquer jeito, esse fim de semana não é livre.
Além de tudo, no St. Bees só podíamos sair dois fins de semana por mês e voltar até no máximo às duas da manhã. Os outros anos tinham seu limite de horário ainda menor, o que fazia parecer que tínhamos privilégios por ter sobrevivido até o último ano.
Deixei-o ganhar da segunda vez, porque se eu bem o conhecia e ele perdesse por mais de uma vez seguida, desistiria e ficaria irritado. E fomos nesse jogo por mais alguns minutos, até ficarmos com sono.
- Acho que vou voltar para o quarto e me preparar psicologicamente para o nosso primeiro dia de aula amanhã.
- Isso é o melhor que podemos fazer – ele assentiu e desligou o videogame, me dando a mão para que eu levantasse.
- E se prepare também para conhecer sua nova colega de quarto.
Bufei. Minha antiga roommate era louca, mas pelo menos eu a conhecia. Agora que havia saído do colégio, eu precisaria dividir o quarto com uma desconhecida.
- Boa descida, Sunshine.
Sentei na janela e virei as pernas para fora.
- Valeu. – Olhei para a cama de Louis, onde ele mexia no celular. - Boa noite, Lou. - Disse, antes de pular.
- E boa noite! – ouvi Harry lá de cima e sorri.
Fiz meu caminho de volta para o meu quarto, desejando que o tempo demorasse mais para chegar até amanhã. Eu não sentia que estava pronta para enfrentar o que provavelmente seria meu último ano naquele inferno, mas por outro lado queria que passasse de uma vez. Amanhã teríamos o começo das aulas para nós, veteranos, o que consistia em passar o dia todo ouvindo palestras sobre como dar as boas vindas aos mauricinhos que viriam no dia seguinte – ou seja: os novatos. E eu acho que era a única garota daquele colégio que não esperava ansiosamente para ver os novos rostos que veria pelo resto do ano. Todas elas tinham a esperança de ver algum cara bonito o suficiente, ou achar alguém para deixar seus dias menos tediosos, mas para isso eu já tinha meus amigos.
Ao chegar em meu quarto, me atirei na cama e dormi mais rápido do que esperava, apenas para acordar na manhã seguinte sentindo como se tivessem se passado apenas cinco minutos desde que dormi.
Me levantei, fiz minha higiene, vesti uma roupa confortável e algum moletom largo o suficiente, e prendi meus cabelos castanho-claros em um rabo de cavalo alto e firme. Logo depois de sair do quarto e andar pelos corredores pouco movimentados até chegar ao pátio central, vi Louis, Liam e Harry de longe. Eles meio que se destacavam pela risada escandalosa de Louis e pelo bolinho de meninas que se formavam um pouco afastadas para cochichar sobre eles. Eu só podia pedir por um novato que fizesse com que elas esquecessem um pouco dos meus amigos.
- E aí – dei oi para todos antes de me escorar no mesmo muro em que eles estavam, e logo Minerva passou por nós olhando para os lados à procura de sua próxima vitima. Ao me ver, ela veio direto em mim, como se encher o meu saco fosse a coisa que mais lhe desse prazer.
- Srta. ...
- Minerva.
Ela sorriu e me olhou de cima a baixo.
- Será que eu vou ter que falar mais uma vez que pelo menos uma peça do uniforme deve ser usada hoje?
- Mas tecnicamente as aulas de verdade só começam amanhã – Louis protestou ao nosso lado.
- Regras são regras Sr. Tomlinson. – ela disse.
- Sem problemas – dei de ombros, me virando para Liam e tirando sua gravata do seu pescoço, colocando em volta do meu. – assim á bom?
Minerva suspirou, parecendo cansada de mim logo no primeiro dia de aula.
- Não me dê muito trabalho esse ano, . – ela disse, antes de se virar e sair à procura de mais alguém para incomodar.
- Será que dá para devolver minha gravata agora? Estou me sentindo seminu.
Olhei-o e ri. Dava para ver um pedaço do seu peito.
- Não. Ela fica melhor em mim - pisquei para ele. - Além disso, estou fazendo um favor às suas fãs - fiz um gesto para as garotas mais ao longe, soltando risinhos.
- Prontos para mais um ano, gente? – Louis falou, enquanto o Vice-diretor subia no palco improvisado para fazer aquele conhecido discurso que já havíamos decorado.
- Não. - Respondemos em uníssono.

’s POV
- Ai meu Deus, mais um ano! – suspirou ao meu lado, deitando a cabeça por cima dos braços cruzados em cima da mesa de pedra.
- Pelo menos começamos bem. – Eu disse. – Veja, o sol está brilhando! – Inclinei minha cabeça para trás, fechando os olhos para aproveitar a sensação quentinha do sol em minha pele.
- Poderia estar chovendo. – Concordou ela comigo, ajeitando seu rabo de cavalo e sua franja logo em seguida. Olhei da cabeça aos pés mais uma vez. Ela havia mudado algo, eu podia ter certeza. Talvez tenha sido a cor de seus cabelos, tinha a impressão de que estavam mais claros, ou sua franja estava mais retinha em cima de seus olhos maquiados com uma sombra rosa clarinha e rímel alongador. Ou talvez, até mesmo, aquela tatuagem em seu pescoço, logo na raiz do cabelo, um pouco abaixo da orelha.
Com certeza era aquela tatuagem.
- Como conseguiu isso? – Perguntei, tocando o pequeno desenho com a ponta do indicador.
- Uma aposta com Mandy. – Suspirou.
- O que vocês apostaram? Quem pega clamídia primeiro vence? – Brinquei, mas com um pingo de verdade.
- . – Repreendeu-me ela.
- Gostei dela, de qualquer forma. – Confessei. me lançou aquele sorriso angelical e perfeitamente pintado com um rosa clarinho que dava a ela um tom natural de saúde e delicadeza.
Observei a movimentação no pátio da St. Bees School naquela primeira manhã de aula do ano. Não tinha muita gente, como era de se esperar. Os alunos novatos chegariam em poucos minutos. A escola providenciava transporte de Carlisle até a costa de Cumbria para aqueles que não sabiam como chegar aqui.
- Será que teremos gente interessante dessa vez? – Perguntei a minha amiga, que estava retocando alguma coisa desnecessária em seu espelhinho de bolsa.
- Eu realmente espero que sim. – Fechou o pequeno espelho e o guardou na bolsa. – Alguém que resolva enfrentar a Maria-João.
Olhei para onde ela olhava também. Vi Harry e tocando uma bola de futebol, só os dois. Liam e Louis estavam sentados em cima da mesa, com os pés nos bancos de pedra, assim como eu, observando a vida acontecendo no pátio da escola. Quando trocamos olhares, acenei para eles com um sorriso. Liam sorriu e acenou de volta e Louis me mandou um beijinho. parou de jogar por um instante e procurou a pessoa com quem falavam os amigos, e, quando ela nos viu ali, era quase como se eu pudesse ouvir seus olhos rolando nas órbitas.
- A consegue ser legal quando ela quer. – Defendi a menina. e nunca foram amigas. O motivo? Bom, o único que me ocorre é que odeia meninas muito... Meninas. E é, definitivamente, esse tipo de garota. – Vocês nunca se deram a oportunidade de se conhecerem.
- Nem quero, muito obrigada.
- Então não reclame.
- De que lado você está? – Ela fez um biquinho.
- Do lado perfumado e pintado de gloss, florzinha do campo. – Apertei suas bochechas e estalei um beijo em sua testa coberta pela franja. – Mas... Você tem que concordar comigo, vocês nunca se deram bem. Alguém deveria mudar isso.
- Você é a embaixadora da paz, , não eu.
- Tanto faz. Eu ainda pago para ver o dia que vocês vão precisar uma da outra e vão ter que engolir esse orgulho.
- Você fala como se eu e ela tivéssemos uma grande amizade no passado.
- Na verdade é mais como uma visão do futuro. – Pisquei para ela, que revirou os olhos.
- Então está na hora de marcar uma visita ao neurologista, porque seu cérebro está com defeito. – Rebateu ela, usando um leve tom ácido na voz.
- Me ame menos. – Pedi, mandando um beijinho para ela.
- Oi, ! – Uma garota passou por mim e acenou. Acenei de volta, sentindo-me mal por não lembrar seu nome. rolou os olhos ao meu lado, soltando uma risadinha debochada.
Zayn's POV
Joguei o ombro para cima para poder arrumar a alça da mochila preta que estava pendurada em um ombro só, já que a outra mão carregava minha mala-sacola. Malas com rodinhas eram coisas para viados. Assim, só minha opinião.
Eu não era o único novato a chegar naquela hora, até porque um ônibus surgiu do meio do nada e uma porrada de gente desceu dali. Era o ônibus que vinha de Carlisle, eu acho. Eu estava dentro de um carro há mais ou menos três horas, esperando ansiosamente por minha nova escola pela segunda vez naquele ano. Olhei para trás, certificando-me de que meus pais já haviam ido embora. Já sim, eles estavam ansiosos para se livrarem de mim.
Melhor para mim.
Coloquei meu Ray-ban preto, apesar do sol ali ser menos presente que em Bradford. Adentrei os muros da grande e antiga St. Bees School; um dos melhores internatos do país. E aí você se pergunta nessa parte da história: o que um suburbano estava fazendo numa escola para mauricinhos? Resposta curta e rápida: mãe.
Ela havia matado uns e outros leões para conseguir uma bolsa de 50% da mensalidade. Não faria diferença mesmo, eu já estava me formando, só tinha que terminar o colegial e estaria livre daquele inferno para comprar meu carro, encher o tanque, correr por aí, fumando quantos cigarros quisesse por dia, bebendo e fodendo garotas como um porco. Esse era meu propósito de vida: não ter propósito. Mas minha mãe insistia em querer um futuro promissor para mim.
Fiz uma inspeção geral quando cheguei ao pátio daquele lugar que mais me lembrava a estrutura de um castelo medieval. O lugar tinha uniforme, para meu total desgosto. Regra número 1: eu odeio regras. Os garotos usavam um uniforme extremamente social, paletó azul, gravata na mesma cor, calça bege e sapato ali parecia liberado. Pelo menos. Um bando de mauricinhos, deveriam estar acostumados a usar aquela porcaria de roupa.
- Bom dia! - Um garoto me parou, com uma folha em mãos e um sorriso idiota na cara. - Seja bem vindo! - E dizendo isso estendeu a mão para mim, em cumprimento. Olhei para ela por dois segundos, ponderando se queria parecer um cara simpático ou se largava a boa educação e agia como sempre agi.
Com um "ok" mental, peguei a folha de papel de sua mão e ignorei a que estava estendida para mim, continuando meu caminho como se não houvesse sido interrompido. As pessoas começaram a me lançar olhares nada discretos. Eu estava acostumado com isso, afinal. Eu sempre fui o... Bad Boy.
Os caras começaram a me olhar atravessado, como se minha presença incomodasse. E então, as meninas começaram a me olhar com aquele olhar que dizia "estou no cio, me coma" e sorrisinhos pervertidos nos rostos. Bem vindo à alta elite de seu país.
Ignorei todos eles. Não tinha porque me importar. Nenhum deles me pagaria uma boa garrafa de rum Bacardi.
- Aqui! Novatos! Aqui por favor! - Uma moça em roupas sociais nos chamava no centro do pátio. Ela estava em cima de um palco pequeno, cheio de membros do corpo docente daquela escola. Olhei a mulher de cima a baixo, certo de que se St. Bees tivesse mais professoras como ela, minha estadia aqui poderia até mesmo ser suportável. - Bom dia. - Ela sorriu, exibindo um sorriso branco.
Todos estavam reunidos no pátio. Até os veteranos uniformizados.
- Sejam bem vindos à St. Bees School. Eu sou Olívia Campbell, sua diretora. – Ela se anunciou. Arqueei uma sobrancelha, impressionado. Então ela era diretora, o que houve com os senhores carecas e as mulheres rechonchudas que mandavam e desmandavam as escolas de Bradford?
Ela começou a dar avisos básicos, sobre horários, dormitórios e, para meu segundo desgosto daquela manhã, regras de conduta. Foi algo breve e eu consegui pegar os pontos mais importantes: dois alunos por dormitórios, sem pessoas do sexo oposto nos quartos, aulas começam às 9h40min e terminamos às 16h40min, nada de brigas, manifestações de namoro que fossem inconvenientes não seriam toleradas. Ah, a diretorinha perdeu pontos comigo, pode ter certeza.
- Vocês estão liberados para conhecerem seus dormitórios. – Disse ela, finalizando seu discurso cansativo. Olívia deu meia volta e desceu do palco. Bunda boa.
- Desculpe! – Uma garota virou-se para mim e disse quando esbarrou em mim. Foi sem querer, eu sabia, mas não respondi. Ela também não pareceu se importar e voltou a falar com a amiga. Espere... Aquela garota tem algo... Algo de muito familiar. Observei a menina se afastar, tentando puxar pela memória o que era aquela sensação.
- Hey! – Ouvi uma voz feminina atrás de mim. Girei nos calcanhares e dei de cara com uma garota loira. Vai começar... – Você é novato, não é? Quer ajuda para encontrar seu quarto? – Ela quis saber, passando o braço por meu pescoço, brincando com a gola de minha blusa xadrez azul.
Muito tentador, gracinha, mas...
- Posso achar meu próprio quarto. – Sorri de lado e me esquivei dela, fazendo meu caminho para o prédio onde apenas garotos estavam entrando.
O papel que eu havia recebido tinha algumas informações, do tipo: o número do meu quarto e o nome de meu roommate, assim como a chave, estariam em um mural perto da entrada do prédio. Segui para lá, ignorando a movimentação que os rapazes faziam na frente do mural. Larguei minha mala no chão e bufei alto. Alguns olharam para mim, outros continuavam concentrados no mural.
- Zayn? Zayn Malik? – Ouvi meu nome sendo gritado no meio da multidão. Olhei em volta, querendo saber quem era e como me conhecia. Um cara alto, grande com cara de bebê saiu do alvoroço com um papel em mãos e um envelope. - Você é Zayn Malik?
- Quem quer saber? – Perguntei de volta, desinteressado na resposta.
- Liam, Liam Payne. – Ele estendeu a mão e fez um toque comigo. – Sou seu roommate.
- Ah. – Peguei minha mala de volta e segui o cara até a terceira porta à direita do segundo andar do dormitório masculino. O corredor era bem iluminado por janelas enormes e tinha alguns murais vazios na parede oposta.
Um bando de marmotas estavam correndo para lá e para cá, alguns uniformizados, outros não. Tinha um engraçadinho que estava andando pelo corredor só de cueca. Xinguei a vida mentalmente: era só o que me faltava! Preso por um ano com um bando de boiolas.
Entrei no quarto que o cara... Liam? Liam, isso, havia entrado. O quarto era até razoável, tinha o essencial para dois marmanjos curtirem a vida. Um banheiro no canto esquerdo do quarto, um closet médio, duas camas, duas cômodas, duas escrivaninhas, um carpete bacana, cheiro de menta, suor e testosterona.
- Espero que não ligue, mas sou meio organizado. – O cara se desculpou, explicando sua escrivaninha organizada com alguns dos materiais para o ano escolar.
- Organização é bom, muito bom. – Murmurei, largando minha mala em cima da cama disponível, na metade direita do quarto.
- As aulas começam hoje ainda. Uniformes na segunda porta, toalhas na parte de cima e... É só isso. O almoço sai às onze. Boa sorte aí, cara.
Assenti por cima do ombro e ele saiu do quarto, sem muita cerimônia. Dei graças a Deus por meu colega de quarto ser, pelo menos aparentava ser, macho. Não sei se aguentaria dividir quarto com um gay. Seria desconfortável.
Fui até a porta do quarto e a abri sem fazer barulho, dando uma olhada no movimento do corredor. Já não tinha tanta gente como antes, acho que todos foram dar uma volta pelo campus. Fechei a porta de novo, trancando-a. Corri até a janela do quarto e a escancarei. Puxei a carteira de cigarros do bolso e acendi um, sentindo meu corpo implorando por aquela merda.
’s POV
O balanço do carro não ajudava muito em minha tentativa falha de dormir até chegar ao novo colégio onde eu ficaria a partir de agora. A única coisa que eu sabia a respeito do lugar era ser um internato conhecido do país. Não que me importasse muito. Eu já passara por tantos, e eram todos basicamente iguais.
Dei uma breve olhada ao cara que dirigia o carro no banco da frente. Alto, loiro, rosto vermelho. Reconheci ele por trabalhar com meu pai em Hamburg, mas não sabia o que diabos ele fazia na Inglaterra. Então minha mente rapidamente vagou até meu pai e onde ele estaria agora. Eu sabia que a clínica ficava em Londres, tinha o endereço escrito em algum pedaço de papel na mochila... Mas não tinha certeza quanto a algu dia ir visitar o local.
A verdade era que, bem, ele era meu pai e eu o amava por ter me criado sozinho quando eu sei que tornei seu trabalho muito, muito difícil nos primeiros anos. Ele era forte, bravo, um ótimo pai, um ótimo empresário e uma ótima pessoa. Até que algo aconteceu. Até que ela aconteceu. E então bastava uma garrafa de Whisky para quebrá-lo completamente. Acho que tínhamos isso em comum.
E esse era o motivo pelo qual sua assistente social achou melhor para mim que eu o visse de tempos em tempos, enquanto ele tentava se recuperar de seu vicio. E era aí que a St. Bees School entrava na história. Eu nem tentei protestar, para falar a verdade. Não tinha melhores planos de qualquer forma.
Enquanto olhava as plantações e os campos verdes passarem pela janela do carro, eu me peguei sentindo saudade da Alemanha. Lá o tempo não era tão instável: se chovia, chovia, e se fazia calor, fazia calor. Na Inglaterra estava frio, e quando você piscava o sol já tinha aparecido e deixado tudo iluminado e aquecido outra vez. Isso, é claro, no verão. Porque o inverno era tão rigoroso quanto o de Hamburg.

- Srta ? – o motorista chamou, e só aí abri os olhos outra vez. – chegamos. - Dei uma olhada pela janela, e me dei conta de que o carro havia parado em frente a uma propriedade rodeada por muros enormes. Abri a porta e desci do carro, colocando as mãos nos bolsos de trás de minha calça jeans e parando em frente àquela escola gigantesca à minha frente, enquanto ele pegava minhas malas.
O homem me entregou as duas malas e sorriu amarelo.
– Boa sorte.
Acenei com a cabeça, tentando sorrir de volta sem muito sucesso. Fomos até perto da entrada e o homem pigarreou. Entregou-me um envelope branco de dentro do bolso e acenou, voltando para o carro. Abri o envelope encontrando uma foto de mim com meu pai e atrás a letra dele, com a frase "desculpe não estar com você. Nos vemos em breve".
Meu pai era alto, branco e loiro, como qualquer alemão. Sua pele adquiria uma coloração vermelha por qualquer coisa, seja o sol, o frio, ou até mesmo quando estava com vergonha, e eu agradecia por não ser como ele nesse aspecto. Minha mãe não era alemã, ela era uma mistura, com a pele morena e cabelos escuros. Então eu fiquei no meio termo, como leite com chocolate. Era alta como meu pai, mas tinha cabelos negros e a pele um pouco mais escura do que a dele. Uma pele normal, creio eu. Nem tão branca, nem morena. Absolutamente normal.Suspirei, guardando a foto no bolso e caminhando até o portão de entrada.
Alguém pegou minhas malas e me entregou um folder com coisas sobre a escola e um pequeno mapa do lado de dentro, e outro papel com informações como o meu quarto, o meu armário e a senha do mesmo. Logo depois, uma mulher gordinha, baixinha e de terninho marrom me empurrou gentilmente até um grupo de alunos também meio perdidos que seguiam na direção de um grande saguão de entrada. Eu os acompanhei, olhando em volta às vezes. Esse com certeza era o grupo dos novatos. Tinham muitos alunos. Desde dez ou onze anos até a minha idade.
Fomos até o tal saguão de entrada onde ouvimos a monitora-chefe nos dar as boas vindas e falar mais daquelas drogas que estavam escritas no folder que eu não me dei ao trabalho de ler, e então nos guiaram até o pátio onde pudemos ver centenas de rostinhos curiosos de todos os tamanhos espalhados por lá, tentando ver o que os novatos desse ano os proporcionavam. Ficaríamos por ali até as portas dos dormitórios se abrirem e podermos procurar nossos quartos e nos familiarizar com tudo antes do almoço.
Logo que o breve discurso da diretora do colégio – Olivia Campbell, se é que entendi certo - sobre regras e outras coisas inúteis, segui as garotas do meu grupo de novatos até o prédio do dormitório feminino, e me aproximei da multidão formada ao redor dos murais na parede onde continham nossos nomes e os nomes de nossos rommates. Depois de várias meninas procurarem por seus nomes e saírem em busca de seus quartos, eu finalmente pude chegar até o mural para tentar achar meu quarto. Coloquei o dedo e fui descendo até a minha letra ... , ali estava. Ao lado, o nome estava escrito, e antes mesmo de eu tentar tirar alguma conclusão pelo nome de minha colega de quarto, uma mão com unhas muito bem feitas pousou levemente em meu ombro.
- Ei, você é ? – uma voz doce de menina perguntou, e me virei para encarar de quem veio.
Na hora, não tive duvidas de que aquela era , simplesmente soube. Era uma garota com cabelos longos e bem arrumados, e uma tiara xadrez com um top na cabeça, uma maquiagem leve que deixava suas bochechas rosadas e um rosto com traços leves e infantis, quase como uma criança. Assenti para ela.
- Sou , sua rommate, mas pode me chamar de . – ela me disse, seguindo-me em passos largos enquanto eu andava pelo corredor à procura do quarto.
- Ok, . – só concordei com a cabeça, ocupada demais olhando as placas douradas em cima das portas com seu devido número.
- Nosso quarto é esse, . – ela disse, dando dois passos à frente e abrindo a porta de um dos quartos para mim. Olhei-a por alguns segundos, parada na porta segurando-a aberta para mim com um sorriso meigo nos lábios. Logo depois entrei no quarto, e ela fechou a porta atrás de nós.
Fui até a cama que não tinha uma calça jeans dobrada em cima, e que provavelmente era a minha, soltando minha mochila e vendo minhas duas malas pretas ao lado da cama. Eu fiquei com o lado direito do quarto.
- Posso te chamar de , certo? – perguntou tranquila, enquanto guardava sua calça de cima da cama dentro da cômoda que se encontrava do seu lado do quarto.
- Pode. – disse, pegando meu horário antes de tudo, no meio dos papéis que recebi na recepção.
- Ei, será que posso ver seu horário? – ela se aproximou de mim, curiosa, e ficou na ponta dos pés para espiar o papel com meu horário de aula. Eu abaixei o papel para que ela visse direito. – hum, vai começar com Educação Física? – ela deu uma risadinha. - Sorte a sua. Eu tenho botânica depois do almoço.
- Me parece uma boa maneira de começar nesse... lugar.– falei, mais para mim mesma, fitando as palavras “educação física” no papel em minhas mãos.
- Não é tão mal assim, . Você vai ver. Só é ruim até você se acostumar, e depois passa rápido. Quando se der conta, você já vai estar se formando e indo para a faculdade. – ela deu de ombros, esticando mais o seu jogo de cama vermelho sangue. Não tenho tanta certeza quanto a isso.
- Você é veterana. – concluí.
Ela assentiu.
- Temos vinte minutos, e você não vai querer chegar atrasada à cantina. – Ela explicou.
- certo – suspirei.
- Seu uniforme está dentro de seu armário, e se quiser tomar um banho tem toalhas na cômoda. Vou sair por uns minutos, mas se quiser esperar aqui, eu volto daqui a pouco e te levo até a cantina.
Apenas assenti para que ela saísse logo do quarto, e foi o que ela fez. Peguei o uniforme e não pude conter um palavrão, ao ver aquelas roupas ridículas. Meia-calça azul, sapatilha preta, saia de pregas azul e camisa branca de manga curta. Tinha até uma gravatinha azul pendurada dentro do armário. Qual é?! Respirei fundo, contando até dez antes de voltar a abrir os olhos. Apenas mais um ano, .
's POV
- Qual o número do nosso quarto? – Perguntei à , quando ela voltou para perto de mim, com o papel em mãos. Ela levantou a cabeça, me olhando com um olhar meio triste e um biquinho desgostoso. – O quê?
- Não estamos no mesmo quarto. – Disse ela. – É uma tal de ...
- Quem é ? – Perguntei, com deboche. Não acreditei naquilo. Eu sempre ficava no quarto de ! Sempre, sempre, sempre desde que eu havia entrado naquela escola. – Não é justo, !
- A gente pode tentar pedir para trocar... – Ela tentou me acalmar.
- Não! – Ouvimos a inspetora do dormitório feminino gritar em sua mesa, na sala que havia logo ao lado da porta de entrada. – Não vamos trocar ninguém de seus quartos!
- Fala sério! – Fiz bico.
- Não vai chorar, vai bonequinha? – passou ao nosso lado, com um sorriso extremamente venenoso. Nem ao menos me dei o trabalho de olhar para ela, apenas revirei os olhos e ignorei a provocação.
- Vamos procurar meu nome. – Pedi, puxando pela mão até o mural com as listas dos quartos. Passei o indicador pelos nomes, à procura do meu. O dedo gordo e com unha terrivelmente malfeita se chocou com o meu e eu sabia exatamente quem era. – Com licença?
- O mural é todo seu, princesa! – respondeu, com aquela arrogância natural dela. Marca registrada, quase. Ignorei-a e procurei meu nome.
- O quê?! – Quase gritei quando achei meu nome.
- Que foi, ? – se aproximou de mim novamente, preocupada.
- A princesa não pegou o melhor quarto? – provocou de novo. Já previ meu novo apelido para aquele ano: princesa. Seria aceitável se não saísse da boca dela. Ano passado ela me chamava de Cerejinha, porque um belo dia eu resolvi usar meu shampoo de cereja e bem... Pegou.
era do tipo de garota ridícula que não podia ver alguém meio diferente. Aliás, ela criticava tudo aquilo que não tinha nela. Ela só era melhor amiga de Harry Styles e só, era a única grande coisa sobre que você iria saber. Ah, e, é claro, que seu pai gostaria de ter um menino ao invés de menina. Por isso que é meio... Menininho.
- Que foi, princesa? A bruxa comeu sua língua? – riu um pouquinho de sua piada sem graça e voltou-se para olhar a lista de nomes. – Hein? Isso aqui tá errado por acaso?
- Que foi, Enfant? – Abri um sorriso cínico, escolhendo meu apelido para ela também. – A bola de futebol quebrou todos seus dentes?
- En o quê? – perguntou.
- É francês, chéri. Enfant significa garotinho. Não vou ficar traduzindo sempre não, ok? – Aumentei meu sorriso cínico. ficou visivelmente irritada com o apelido, mas pareceu se segurar.
- Não vou ficar no mesmo quarto que você. – Disse ela, mudando de assunto. – Não mesmo!
- Olha, também não é a minha melhor opção.
- Gente, a Minerva não vai trocar ninguém. – interveio, sem ajudar muito.
- Mas que... – quase xingou. Eu esperava que ela soltasse um palavrão horrível ali mesmo, mas não o fez. Ela tem um pouco de classe, afinal.
- Não é justo. – Repeti mais uma vez, pegando minha mala e levando-a para o terceiro patamar de escadas. Quase morri, já que minha mala estava um peso que nem Deus na causa.
- Quer ajuda, princesa? – passou ao meu lado, carregando sua mala com uma facilidade que até me deu inveja.
- Não, obrigada. – Tentei sorrir, mas meu cabelo caiu sobre meus olhos, o que indicava que meu rabo de cavalo não era mais tão rabo assim.
- Caiu aí! – parou ao meu lado, apontando para meu cabelo. Lancei um olhar quase homicida para ela.
- Ah, você jura, ? – Perguntei, irônica. Sentei-me em cima de minha mala e arrumei o bendito rabo de cavalo. – E a sua colega de quarto?
- Senhorita Sinistra. – Disse ela, fazendo uma careta.
- Nenhum desafio que você não consiga cativar. – Revirei os olhos.
- Lembra do que eu falei sobre você e a ? – encostou-se à parede do meu lado e me olhou com aquele olhar que te induzia a fazer qualquer coisa que ela pedisse. – Pega leve com ela.
- ?
- Ai, ! Por favor! Não quero ouvir vocês brigando a noite inteira! – Ela fez bico.
- Seu quarto é aqui também?
Senti a pontinha de esperança crescer dentro de meu pequeno e inofensivo coraçãozinho.
- Não.
E minha pontinha de esperança na verdade era um espinho que detonou meu coração. Ok.
Drama.
- Juro que tento não matar ela. – Falei, abrindo um sorrisinho.
- Tenho certeza que a princesa não iria querer quebrar as unhas fazendo isso. – piscou.
- !
- Olha o tempo! Meu Deus, temos que nos arrumar! Vinte minutos, !
- Droga! – Levantei-me de minha mala e corri para meu quarto.
Entrei o quarto, observando a decoração desse ano. Estava um pouco melhor que o salmão horrível das paredes do ano passado. Agora as paredes eram brancas e o enxoval era vermelho sangue. Os móveis também tinham uma coloração de madeira meio avermelhada. Larguei minha mala perto da cama de solteiro que estava disponível e observei despejando parte do conteúdo de sua mala em cima da cama. Fechei os olhos por um segundo, imaginando quão horrível aquele pesadelo desorganizado seria.
- O que está procurando? Quer ajuda? – Perguntei, tentando ao máximo ser simpática.
- Vai cuidar da sua vida, princesa. – Respondeu ela, grossa. Respirei fundo e fui cuidar da minha vida no closet. Depois eu reservava algum tempo para arrumar minhas coisas, precisava do uniforme o quanto antes para não ter problemas com horário.
Entrei no banheiro e me troquei com alguma pressa. Quase caí quando fui calçar minhas meias 5/8 pretas do uniforme e minhas sapatilhas também pretas. Terminei de abotoar minha blusa social branca quando saí do banheiro e dei de cara com na porta do banheiro, com cara de tédio.
- Finalmente! – Ela segurou meu ombro, me puxou para fora do banheiro e entrou. Meu Deus, educação mandou beijos!, pensei.
Fui para minha mala e tirei minha nécessaire lá de dentro, procurando meu estojo de maquiagem. Abri-o e comecei com a sombra, sempre começava por ela. Não gostava de nada muito forte, só não gostava de estar com a cara lavada para enfrentar um dia puxado na escola. Minha mãe sempre me disse que tudo deve ser feito com alguma classe, que toda mulher deve saber valorizar sua feminidade.
Niall's POV
Encostei meu violão ao lado da minha cama com todo cuidado do mundo. Aquele era o maior tesouro que eu havia trago comigo e não me perdoaria se algo acontecesse com ele. Coloquei as mãos na cintura e sorri para o bom trabalho que havia feito. Arrumei todas as minhas coisas em menos de uma hora, isso sim eu chamo de recorde!
Tirei do fundo da mala minha pasta de originais. Eram apenas esboços, mas ainda assim eram meus. Tem gente que escreve, tem gente que lê, tem gente que pinta, tem gente que esmurra sacos de areia. Eu escrevo canções para extravasar as frustrações. E tinha algum orgulho delas, eram boas.
Josh Devine – meu roommate – havia saído para fazer social com seus amigos. Não o condenava, eu era do tipo de cara que não sabia muito bem como se enturmar. Ele já era um veterano, como pude perceber. Já estava até uniformizado quando cheguei.
Aproveitei aquela sobra de tempo e vesti-me também. Tinham cadernos, canetas e alguns livros divididos em quantidades iguais, um em cada lado daquela parte do guarda-roupa. Não sabia qual Josh gostaria de usar, mas também não liguei. Se ele quisesse ter prioridade, que pegasse seu montinho de livros primeiro. Larguei aquele monte de coisa em cima da minha escrivaninha e saí do quarto, preparado para desbravar aquela escola imensa.
E então descobri um monte de coisa, apenas observando as pessoas de longe.
Eu tinha um armário. Tinha que pegar o segredo e meu horário na secretaria da escola. Aqueles livros eram tudo que eu teria para o ano escolar. Fiquei bem satisfeito, afinal, odiava carregar mil livros num dia só. Descobri também o refeitório. Eu acabaria achando aquele lugar de uma forma ou de outra, já que era enorme. Mas quanto antes, melhor.
Entrei no refeitório e senti aquele cheiro maravilhoso de comida sendo preparada. Senti minha fome apertar meu pobre estômago contra os músculos da minha barriga. Olhei em volta, procurando alguma máquina de chocolates ou chips, mas não achei nada. Apenas uma mesa recheada de variadas frutas. Infelizmente, não havia nenhuma informação se eu podia comer aquilo.
- Só um! – Ouvi um cara me dizer, detrás de uma pequena janelinha que me permitia ver um pouco da parte interna da cozinha. Olhei para ele, confuso e o cara riu, apontando para a mesa de frutas. Ah! Assenti e abri um sorriso aberto. Escolhi algo suculento e que demorasse para acabar.
Peguei um cacho de uvas verdes e saí do refeitório satisfeito, com minhas uvinhas.
Ainda faltava algum tempinho para começarem as aulas. De acordo com meu celular, vinte minutos. Voltei para o dormitório a tempo de terminar meu cacho de uvas verdinhas e suculentas. Josh estava saindo do quarto quando cheguei.
- Conheceu o lugar? – Perguntou ele, tentando ser bacana.
- Mais ou menos. – Franzi o cenho. Josh riu pelo nariz, bagunçou meu cabelo e seguiu andando pelo corredor, batendo três vezes numa das portas daquele corredor. Quando ele foi recebido por um garoto só de cueca, decidi que era a hora de entrar no quarto.
Escovei os dentes com todo o cuidado que usar um aparelho pedia e sorri para meu reflexo no espelho, soltando uma risadinha sem graça em seguida. 'Você é o cara, Nialler!', lembrei do que meu pai dissera antes de me colocar dentro de um avião e me mandar para cá.
Voltei para o quarto, peguei meus livros e segui para meu novo armário. Ele devia ter o tamanho do tronco de uma das garotas miudinhas daqui. O meu era na metade de cima da altura total, deixando-me totalmente confortável para guardar minhas coisas sem conseguir um torcicolo ou algo do tipo. Peguei os materiais que minha aula me exigia, guardei-os na mochila e segui pelos corredores, procurando pela sala de número 224, aula de química experimental. Ou seja, laboratório.
Liam's POV - Não vão pra aula? – Levantei da cama e fui para a porta. Harry e Louis nem tiraram os olhos da TV, o video-game estava muito mais animado.
- Não. Hoje as garotas do segundo ano vão ter o primeiro tempo de educação física. – Harry respondeu, virando seu corpo um pouco quando o carro fez uma curva na pista. – Vai ficar aí?
- Hoje não. Tenho uma irmãzinha para olhar.
- Fiquei sabendo do rolo lá com tua mãe. – Louis disse, virando-se um pouco para me ver.
- Vai apresentar ela pra gente, né? – Harry quis saber, colocando a língua para fora, concentrado no jogo.
- Você é o último cara que ela vai conhecer. – Ri comigo mesmo. Eles pausaram o jogo e viraram para mim, sérios e curiosos.
- Que isso? Um dia e já tem ciúme da menina? – Louis sorriu de canto.
- Não, cara. - Harry bateu no ombro de Louis. – Não tá vendo que o que ele quer é uma chance com a menina?
- Como você é esperto, Harry! Me pegou! – Rolei os olhos.
- Obrigado. – Ele abriu um sorrisão.
- Não tá vendo que ele te sacaneou? – Louis deu um tapa na cabeça cacheada de Harry.
- Enfim. – Falei, abrindo a porta. – Vejo vocês mais tarde então!
Saí do quarto sem esperar a resposta deles e saí do prédio dos dormitórios. Era uma boa caminhada até o prédio onde ficavam as salas de aula. Mas eu sempre gostei da vista, na verdade. A costa do St. Bees Lake District era simplesmente algo que valia a pena parar para ver. Vi, um pouco mais abaixo dali, a área das crianças, que ficava significativamente separada do nosso bloco do complexo que é essa escola.
- Opa! – Falei, segurando pelos ombros quando ela esbarrou em mim. – Aonde vai com tanta pressa?
- Hein? Liam? Ai, não, me solta, vai! – Ela se mexeu um pouquinho e eu a soltei. – Tenho aula de química!
- Química? Jura? – Sorri de lado. – Também tenho química. E devo te dizer que você está indo para o lado errado.
Ela olhou em volta e bufou. Aquela menina era engraçada, tudo que acontecia, era motivo para ela bufar. Eu acho que ela estava em um constante estado de mau humor. Olhei-a de cima a baixo, notando que ela substituíra seu All Star surrado pelo par de sapatilhas pretas, o jeans pela saia e as blusas de bandas pela blusa social branca. Aquele uniforme lhe caía muito bem, devo notar. Eu podia ver parte de suas costas enquanto ela andava e suas pernas eram bonitas, o jeito que ela andava; rebolando. Aquilo era a cara dela: atitude. Segui-a de perto, com as mãos nos bolsos, sem me preocupar com materiais. Era o primeiro dia de aula, não precisaríamos usar livros e cadernos.
- Oi, Liam! – Dora passou por mim com um sorrisinho no rosto e dois botões a mais da blusa branca abertos. Pisquei para ela, com outro sorriso.
- Bom dia, Liam. – Ella espalmou as mãos no meu peitoral e sorriu. Fiquei de costas e ela seguiu caminho, olhando para mim. – Andou malhando? – E piscou de um modo muito sexy. Continuei seguindo enquanto falava com algumas meninas no caminho.
- Liam! – Sally parou à minha frente. – Eu... Preciso de uma ajudinha... A janela do meu quarto está... Emperrada e, hum, você pode me ajudar a empurrar com força? – Mordeu o lábio.
Não respondi, apenas abri um sorrisinho e pisquei para ela.
- Uau, hein? Você tem algum apelido? Devo te chamar de womanizer? – A voz sempre irônica de me disse, sem olhar para trás, apenas seguindo reto toda vida.
- Nossa sala é a próxima. – Avisei, antes que ela passasse reto. – E não, não me dê apelidos.
- E elas então? Chamo de vadias? – Ignorou meu pedido.
- Não chame de nada, você não conhece essas meninas. – Fiz careta. Entramos no laboratório de química.
- Não preciso de um dossiê psicológico para saber o que essas meninas são, o que fazem e por que fazem. – Ela disse, sentando-se em uma das últimas bancadas. A sala estava parcialmente cheia, ainda faltavam cinco minutos para o sinal tocar. Sentei-me ao lado dela.
- Quem muito julga sempre tem algo a esconder, Srta. Guevara. – Cochichei para ela, fazendo draminha. Ela revirou os olhos e me fitou por alguns segundos.
- Você vai mesmo ficar aí? – Ela perguntou. – Não quero que se sente comigo.
- Hm, só lamento. Não tem mais outro lugar para mim. – Fiz um biquinho. E mesmo se tivesse, eu não sairia dali, estava adorando ser irritante. Na verdade, só era engraçado porque ela se irritava rápido demais.
O sinal tocou e os alunos entraram na sala aos punhados. Todos se ocuparam em suas devidas bancadas segundos antes do professor entrar em sala.
Louis POV
- E aí, Blue? – Harry acenou para outra menina que passou por nós durante nosso trajeto até o pátio.
- Ei, garotos! – uma familiar voz masculina nos chamou, e olhamos para trás.
- E aí, Josh – nos demos um tipo de cumprimento estranho.
- Como vão as coisas? – perguntou. – pelo jeito pensaram no mesmo que eu. – ele olhou para o ginásio e sorriu, sacana.
- Pode crer, meu irmão. - Harry respondeu e dei de ombros, concordando.
- E então, continuam no mesmo quarto? – Josh perguntou.
- Para nossa sorte, sim. Ouvi dizer que todos estão trocando, Liam pegou um novato. – Harry respondeu.
- Eu também. – Josh assentiu. – um pequenininho lá, cara de... irlandês.
Eu ri.
- Como alguém tem cara de irlandês?
- Quando você ver ele, vai sacar.
- Pelo menos não se parece com a figura que Liam descreveu para nós do colega de quarto dele: arrogância em pessoa que se acha o fodão.
- E o pior – Harry gritou, alguns passos à nossa frente, enquanto descíamos a ladeira que levava ao ginásio. – adivinhem com quem a ficou?
- Com a Cerejinha! – falei para Josh, que riu.
- Só espero que elas sobrevivam.
- consegue se controlar quando quer – Harry deu de ombros.
- O milagre vai ser se ela quiser.
Chegamos à pista de corrida que ficava fora do ginásio, e ao ver que as meninas do segundo ano já estavam lá fora, só de shortzinhos e tops brancos se alongando, fomos até a parte mais alta da arquibancada e ficamos sentados quietinhos só aproveitando a aula. Apesar de já ter um garoto sentado ali, bem no canto superior da direita, aquilo provavelmente era melhor do que a aula de biologia em que deveríamos estar agora.



Capítulo 2


Zayn’s POV
Aula de História? Nem fodendo que eu iria perder uma hora da minha vida em uma sala de aula com um velho tapado falando de gente que já morreu.
Larguei minha mochila no quarto mesmo e saí dali, disposto a andar pelo colégio e arranjar um lugar bom para matar a aula. Avistei o ginásio em um plano mais baixo que o resto do terreno da escola. Seria ali, parecia meio abandonado para o horário e com certeza era grande demais para alguém me procurar lá dentro. Isso é, se sentirem minha falta.
Entrei na grande construção e me vi na beira de uma quadra enorme, o piso lustrado quase refletia minha própria imagem. O lugar estava escuro, entrava luz somente de algumas janelas laterais, bem próximas do telhado. Perfeito, pensei, abrindo um sorriso largo. Subi a arquibancada, almejando o lugar mais alto e mais afastado da porta de entrada.
Sentei-me esparramado no último degrau e tirei a carteira inseparável de cigarros do bolso, acendendo-o logo em seguida. Não havia nada mais satisfatório para um cara como eu ter silêncio enquanto fumava. Não deixei minha mente se desconcentrar do cigarro em minha mão e a nicotina amortecendo meus músculos. Esse ano vai ser uma merda, pensei mais uma vez, rindo com desprezo para o lugar vazio.
De repente as luzes se acenderam e ouvi movimentação vinda da porta. Suspirei, soltando a fumaça pela boca lentamente. Não me movi um músculo, estava na parte mais escura do ginásio e também não estava dando a mínima se iria ser pego ou não. Na minha vida só me arrependo do que deveria ter feito.
Um monte de garotas entrou na quadra, usando shortinhos colados e regatas brancas justas, mas a maioria delas usava aquilo como se fosse um top, de tão curta e apertadas que eram. Esbocei um sorrisinho, começando a achar aquilo interessante. Coloquei um pé em cima do outro e voltei a me recostar à parede, apreciando a vista das meninas começando a se alongar. Nesse momento, um grupo de garotos entrou no ginásio também, olhando as garotas com interesse. Todos eles usavam o uniforme do mesmo jeito: a blusa meio aberta, gravata frouxa e All Star branco. All Star? Por favor, aquilo se tratava de bichinhas. Eles subiram os degraus rapidamente e se acomodaram no mesmo que eu, só que mais longe, olhavam as garotas como pedaços de carne suculentos. Elas eram... Mas aquilo era tão patético que só me fez sentir pena das garotas por serem desejadas por esses caras.
- Meu Deus, olha os peitos da Sally, aquilo era daquele tamanho ano passado? – Ouvi um deles dizer, vidrado no que via.
- Não sei cara, mas eu definitivamente gosto do novo uniforme das meninas. – Outro disse, abrindo um sorriso no mínimo safado. Rolei os olhos para aquela coisa amadora.
- A Thiffany ficou muito melhor depois da plástica no nariz. – O de cachos afirmou, pensativo, enquanto olhava as meninas lá embaixo.
Plástica? Então as garotas eram tão patéticas quanto os viadinhos daqui? Deixei uma risada seca escapar, achando aquilo patético.
- O que você achou engraçado? – O de cachos virou para mim, entortando o nariz com uma cara de desgosto. Senti as faíscas começarem dentro de mim, revivendo uma parte mais selvagem de mim: a disputa de testosterona. Olhei para ele, entediado com a conversinha deles.
- Bem que eu imaginei que nesse colégio só existissem viadinhos como vocês. – Respondi olhando diretamente para eles.
- Como é que é? – O cara de cabelo bagunçado pra caralho pareceu ofendido. A carapuça pareceu servir no cacheado e ele se levantou, numa demonstração patética de orgulho ferido. Logo depois o outro levantou, acompanhando a namoradinha.
- Será que você pode se levantar e repetir o que disse na minha cara? – O cacheado continuou me olhando daquele jeito superior. Aquele merdinha tava achando que era o quê? Levantei de meu confortável lugar para ir até aquele moleque. Ele não tinha me pego num dia bom, porque geralmente eu deixaria aquela coisinha patética passar sem confusões.
- Eu disse... – Arreganhei o lábio superior, em puro escárnio. – Que é típico nesses internatos só ter viadinhos como você.
- E quem você acha que é para falar comigo assim, novato? – Então ele se revoltou com a vida e me empurrou pelos ombros. Vacilei um passo para trás, sentindo meus músculos enrijecerem e a vontade de quebrar a cara daquele merda me invadiu.
- Um novato que já comeu mais garotas do que você. – Fui categórico, empurrando-o de volta.
- Ei! – O garoto de cabelos bagunçados se meteu no meio e abriu os braços, impedindo-me de voar no pescoço daquele otário. – Por que você não vai achar algumas vadias para comer, se se acha tão bom nisso, e não nos deixa em paz?
Eu ouvi certo?
- Típico de vocês arregarem. O que foi, tá com medo que sua namoradinha aí apanhe? – Provoquei, achando aquela merda toda divertida. Nem para uma briga serviam, imagina pegar mulher... No caso, ninfetas.
- Eu não como meninas. – Disse o cacheado, com cara de nojo e ofensa. – Isso sim é que é coisa de gente suja como você.
Comovente.
- Falou como um típico maricas, garotinha. – Repliquei, insistindo na sexualidade duvidosa do infeliz.
- Acho melhor você sair daqui antes que ganhe uma marca no seu amado rostinho, dude. - Falou a mocinha que tentou me afastar do amiguinho, agora me empurrando também.
- Vai me bater, é, mocinha? – Empurrei-o também. Já tinha me decidido, não ia deixar barato para esses mauricinhos invocados. – Você e mais quantas amiguinhas suas?
- Ei, cara, a gente tá aqui quieto no nosso canto, só sai daqui e nos deixe em paz antes que todos nós nos encrencamos! – O outro que até então não tinha honrado as calças para ajudar os amigos se pronunciou. Estava até cogitando o apelo do moleque arregão, mas o cacheado partiu pra cima. Perdi o equilíbrio e caímos no degrau de baixo. Além de otário, viado, o moleque ainda tem que ser gordo! Vai pra puta que te pariu!, senti vontade de gritar quando senti a dor invadir minhas costas. Os amiguinhos dele tentaram nos afastas, mas não deu muito certo. Desviei a cabeça para o lado quando o cacheado tentou me acertar no nariz, e quando ele vacilou para frente, girei e fiquei por cima dele, acertando um soco em seu maxilar, já que ele não para de se mexer. Ele desistiu de tirar meus braços de sua gola e acertou uma de direita no meu olho. Ouvi os gritinhos começarem, o que significava que havíamos sido notados. Segurei a gola dele novamente e o puxei mais para perto, encarando-o diretamente nos olhos, dando meu alerta. Da próxima vez não seria tão bonzinho. E larguei-o com violência no chão,sendo puxado pelo seu coleguinha. Vi a professora chegar perto de nós, apitando a porra do apito.
- Todos vocês! – A treinadora gritou. – Para a detenção comigo! Já! – Ela me segurou pelo braço e nos tirou do ginásio. A professora era pequenina e até um pouco rechonchuda, mas tinha um aperto muito forte ou ela sabia que ali era meu tendão. Acho que a segunda opção era a mais aceitável.
Ela nos deixou na sala da detenção e saiu pisando duro. Sentei-me o mais distante possível daqueles imbecis, recebendo olhares furiosos do cacheado de vez em quando. Não demorou muito e a professora da educação física voltou, agora trazendo uma garota.
E que garota.
Suas pernas estavam todas à mostra, devido ao fato dela não usar a meia que as outras meninas usavam, somente a sapatilha preta que contrastava com sua pele branca. E era só aquilo que eu conseguia ver: aquele par de pernas que ficariam muito mais bonitos em volta da minha cintura enquanto...
- Dê algum trabalho a esses delinquentes! – A professora sugeriu ao cara que estava nos olhando, antes de sair da sala. A garota revirou os olhos e bufou, indo sentar. Leia: ela rebolou até uma cadeira no canto oposto da sala. Ela parecia do tipo... Do meu tipo. Quieta, calada, na sua. Até alguém provocar, imagino.
Não pensei em ir lá e fazer contato. Gente como nós dois não anda em bandos.
Notei os outros moleques olhando a menina também, de um jeito mais assustado que o meu, que apreciava o que via. Mas sei muito bem que eles a acharam gostosa pra caralho, assim como eu. Pelo menos tinham bom gosto, porque bons de briga...
's POV
Eu juro que até ponderei a possibilidade de colocar um calção de ginástica minúsculo e um top menor ainda e ir me alongar e correr vinte voltas em uma quadra debaixo daquele sol, mas... Mas era só olhar para a minha cara para notar que eu não faria isso nem fodendo.
Enquanto todas as garotas trocavam de roupa no vestiário, eu peguei minha mochila parcialmente vazia e saí por uma pequena porta no fundo do vestiário que dava acesso a um corredor que eu não fazia ideia de onde ia parar, mas continuei em frente até sair do corredor e perceber que estava do lado oposto do ginásio, em frente a uma porta meio aberta, que dava acesso ao ar livre.
Saí do ginásio e olhei em volta: eu estava do lado de trás do pavilhão, e não existia praticamente nada ali além de metros e mais metros de grama e uma pequena ladeira que, pelo que eu vi, descia até uma grade que rodeava um enorme lago. É claro, o lago de St Bees. Era uma vista bonita, realmente, não dava para negar. E com a pouca probabilidade de alguém resolver fugir da aula como eu fiz, me senti livre para me sentar na grama e ficar esperando pela troca de períodos ali.
Depois de alguns segundos aproveitando o vento refrescante de olhos fechados, abri meus olhos outra vez e peguei minha mochila, tirando de um pequeno bolso no exterior dela um cigarro fino, enrolado a mão. Peguei o isqueiro também e o acendi, sentindo o cheiro da maconha penetrar minhas narinas no mesmo instante.
Levei-o à boca e dei uma tragada, saboreando o gosto e os efeitos da droga, antes de soltá-la outra vez devagar pela boca. O segredo da maconha é saber quando parar. Auto controle é tudo, e isso é uma das únicas coisas que eu tenho. Algumas pessoas gostam de ler, ouvir música ou dormir para relaxar. Para mim, não havia nada mais relaxante do que um baseado quando tudo parecia estar errado. A sensação de tranquilidade e liberdade, por mais que dure por pouco tempo, compensa qualquer coisa pela qual você passou nas ultimas horas.
Dei mais duas ou três tragadas no cigarro antes de ouvir alguém atrás de mim me assustar com sua voz:
- Ah, você está a... – a voz parou abruptamente, provavelmente assim que me viu, e eu me virei para trás rapidamente para ver quem era.
Uma garota loira e alta, com o uniforme da aula, estava parada na porta pela qual eu saí.
- Ei! – ela falou, apontando para o baseado no vão de meus dedos, e eu me levantei em seguida. Ela estava com um sorrisinho sacana nos lábios. – Você tá chapada? Sinto o cheiro daqui. – ela riu. Parecia se divertir. – A treinadora vai amar saber disso! Bom começo, novata.
A loira riu outra vez antes de se virar e voltar correndo de onde havia vindo. Joguei o cigarro no chão e pisei em cima dele rapidamente, praguejando antes de pegar minha mochila e seguir a garota. Não que eu pudesse fazer alguma coisa àquela altura.
Ao chegar junto às outras alunas na quadra, todas olhavam torto para mim enquanto a loirinha apontava para mim e dizia algo à treinadora, que me olhava com uma expressão nada feliz.
- Obrigada, Thifany – a mulher falou. – Srta. , me acompanhe.
- Eu... – tentei protestar, mas fui interrompida.
- Egora! – ela disse, virando de costas e indo em direção aos prédios do colégio. Fui atrás dela, e ao passar pela tal de Thifany esbarrei em seu ombro, a fazendo reclamar. Vadia.
- Dá pra sentir o cheiro dela de longe – ouvi ela dizendo para as outras. – maconheira.
Apenas revirei os olhos. Como se elas não fizessem coisas piores nas festas em que iam. Segui a treinadora em silêncio até entrar em um dos prédios. Há essa hora, os corredores se encontravam vazios, mas dava para se ouvir os professores dando aula dentro das salas de aula.
Entramos em uma sala ao final do corredor onde estava escrito “detenção” na porta, e eu suspirei ao ler. Começo de ano grandioso, , pensei para mim mesma.
Entramos na sala e eu não era a única a já estar ali no primeiro dia: quatro meninos estavam espalhados pela sala em silêncio, enquanto um homem inspecionava na mesa em frente à sala.
- Mais uma aluna sua, treinadora? – ele falou, com as sobrancelhas arqueadas.
- Dê algum trabalho a esses delinquentes! - Ela esbravejou, antes de sair da sala. Bufei, encontrando um lugar para sentar na sala.

Niall’s POV
A sala se encheu rapidamente e todos ocuparam seus lugares. Sobrou apenas um lugar vago e ele era ao lado de um cara bizarro, com dreads na cabeça e chinelos de dedo. Não sabia se ele estava dormindo ou se estava acordado, por isso não me preocupei em dizer ‘bom dia’. Sentei-me ali e tentei me concentrar no que o professor falava, mas não estava dando muito certo, eu estava realmente longe. Folheei a apostila que havia em cima da mesa.
Nada de interessante estava acontecendo ali. Pelo que consegui ouvir, o professor falava sobre cadeias carbônicas.
- Quero que façam o experimento da terceira página. Qualquer dúvida, chamem. – O professor sentou em sua cadeira. Olhei para o cara ao meu lado, certificando-me de que o cara não ia mesmo acordar e interagir.
- Ok. – Falei sozinho e peguei o erlenmeyer médio que era o primeiro item pedido para o experimento.
Segui os passos descritos na apostila, me divertindo sozinho com o que estava fazendo. Meu Deus, isso soou extremamente depressivo e solitário. Estava na hora de ligar minha habilidade social e... Espere, eu não tenho nada disso. Mas também não ligava, sempre me saí melhor sozinho. Tinha meus amigos em Mullingar, uma cidadezinha pequena do noroeste da Irlanda, mas podia me virar sem amigos pelo menos até arranjar algum.
Coloquei o bicarbonato de sódio dentro do recipiente e adicionei o vinagre. Tinham mais alguns ingredientes na bancada, mas tenho certeza de que eram para a próxima aula de algum dos anos mais novos.
- Cala a boca! – Ouvi a menina da bancada ao lado dizer a seu parceiro. Olhei para eles, espantado. Sempre me disseram que os britânicos eram polidos... Quero dizer, bom, você cria algum tipo de estereótipo, certo?
- Você é meio chatinha, né? – O outro respondeu. Achei estranho aqueles dois estarem na mesma bancada. Quero dizer, a garota parecia uma daquelas garotas de roda punk; uma revoltada, como se ela tivesse nascido no século errado, deveria ter nascido durante o período iluminista. Já o cara... Ele parecia um dos daqueles caras que fazem o que querem, quando bem querem. Não sei se tem um nome para isso... Playboy? Enfim, de qualquer forma, ambos não combinavam em dupla.
- Chata é a voz da senhora sua mãe!
- Ei! – Ele pareceu se ofender. – Você podia pegar mais leve com seu pai, não podia?
- Isso não é da sua conta, Payne!
- Claro que é! Seu pai casou com minha mãe, é inteiramente da minha conta como você vai tratar ela!
- Meu Deus, o womanizer tem coração! – A menina gritou. À essa altura o professor já estava de pé ao lado da bancada, olhando os dois com aquela cara de “vocês não se tocaram de que eu estou aqui ainda?” e com as mãos na barriga gorda.
- Já pedi para não me chamar assim!
- Eu chamo do jeito que quiser! Eu sou uma pessoa livre e autônoma, não me diga o que fazer!
- Você é um porre, isso sim!
- Eu sou um porre? Eu só queria colocar o bicarbonato de sódio antes de colocar o vinagre, por Deus! – Ela levantou as mãos, exasperada.
- Claro! Você queria entupir o erlenmeyer com a coisa! – O garoto retrucou.
- Ei, vocês dois! – O professor gritou, parando a briga.
- Ele é insuportável! – Ela gritou para o professor. Todos na sala já olhavam para a cena, alguns se divertindo, outros chocados, poucos nem ligavam. Até o cara do meu lado acordou para ver o que estava acontecendo, revelando uma poça de baba quando levantou a cabeça.
- Eu? Ela que não quer fazer a coisa direito!
Olhei para meu experimento, certo de que continuar e não ficar fuçando a vida dos outros seria a melhor opção. Decidi colocar mais um pouquinho de bicarbonato, já que suspeitava que havia errado a medida que a apostila pedia. Estendi a mão para pegar o vinagre, mas o grito da menina me distraiu.
- Caralho, professor, você não está vendo que a culpa é dele?! – Ela estava visivelmente furiosa enquanto o garoto reprimia uma risadinha. Aquilo estava irritando mais a menina, isso era claro. Peguei a garrafinha com o líquido e despejei dentro do erlenmeyer, segurando-o com uma mão para não derramar.
- Como que é? – O professor olhou incrédulo para a menina, obviamente por causa do xingamento dela.
Senti o recipiente ferver em minhas mãos. Soltei-o e baixei o olhar para ele, vendo a coisa borbulhando e começando a reagir numa cor estranha e um cheiro insuportável saiu do vidro. Quando inspirei aquilo, senti uma forte tontura e por impulso levantei-me do banco, tentando me afastar daquela coisa fedorenta. O garoto ao meu lado reclamou do cheiro. Dei um passo desesperado para trás e acabei batendo as costas numa estante cheia de instrumentos do laboratório, fazendo alguns béqueres caírem no chão. Todos na sala pararam para me olhar.
Eu não havia feito por mal. Todos me encaravam, inclusive a dupla problema ao lado e o professor, que àquela altura estava furioso. E então eu ri.
E aquilo pareceu a gota d’água para o professor.
- Os três: detenção.
- Mas eu... – Tentei me defender, mas ele me cortou.
- Agora! Fora da minha sala! Andem, os três! – Ele apontou para a porta, em ordenação. Balbuciei mais algumas coisas, mas quando vi que os outros dois não iam bater o pé comigo e estava indo para a porta, suspirei e os segui de longe, para não acabar atingido por alguma discussão deles.
Seguimos por um corredor espaçoso e longo, que no fundo tinha uma porta com a plaquinha “DETENÇÃO”. Entramos por ela e nos deparamos com uma mulher – que eu julgo professora de educação física por causa do uniforme de ginástica – discutindo algo com o cara que provavelmente cuida da detenção. Olhei em volta, surpreendendo-me ao ver que a sala estava relativamente cheia para um primeiro dia. Reconheci meu colega de quarto ali, sentado com um garoto de cachinhos e outro de cabelos arrepiados e expressão resignada. No canto esquerdo ao fundo, um cara calado encarava a parede da sala, parecendo nervoso e calmo ao mesmo tempo... Uma calma controlada. E no outro canto oposto, uma menina encostada à parede, olhos semicerrados, observando a discussão dos professores com tédio.
Sentei-me numa cadeira mais à frente, sem querer me meter muito com aquele pessoal. Os dois que estavam brigando antes se dispersaram pela sala. O menino foi se sentar com, o que me pareceu, seus amigos, o meu parceiro de quarto e os outros dois meninos. A garota sentou-se perto da porta e enfiou a cabeça nas mãos.
Ok, Niall, que grande merda.
's POV
Justo na primeira e única vez na vida que coloquei meu uniforme direito, estava em tempo de chegar à minha sala de aula sem atrasos e estava até um pouco empolgada para ver o que o dia reservava para mim, resolveu complicar minha vida.
- Ei! – ela gritou, quando eu estava jogando a mochila em cima do ombro e indo para a porta. – você vai mesmo deixar seus calçados jogados no meio do quarto?
Me virei para ela devagar, suspirando e mandando a mim mesma que mantivesse a calma.
- Vou, por quê? – levantei uma sobrancelha.
A menina bufou e colocou as mãos na cintura, batendo o pé no chão.
- Olha, . Esse quarto é metade meu, e eu quero organização. As coisas não vão funcionar se...
Ri.
- Espera, você está tentando provar para mim quem manda aqui? – perguntei, com deboche. – então temos um problema, porque eu também sou metade dona desse quarto, e adoro desordem. - Estreitei os olhos para ela.
- Eu não preciso provar nada a você, Enfant. – disse, antes de vir até meus tênis que estavam jogados no meio do quarto e chutá-los para baixo da minha cama. - Mantenha sua desordem para você.
- Então é assim que você quer jogar? – falei, um pouco alto demais e soltei minha mochila no chão. Apesar de não sair de sua pose, pareceu um pouco assustada.
Fui até a cômoda que ficava no meio, entre a minha cama e a dela, e empurrei seu estojo preto de maquiagem.
- O quê...? Sua idiota! – ela gritou, antes de juntar o estojo do chão e sujar as mãos com o pó que saiu dele. – Olha o que você fez!
- Você não quer brincar, princesa?! – debochei. – não quero essas suas coisinhas do meu lado do quarto.
- Não estava do seu lado! – ela me olhou, furiosa. – estava no meio!
- Assim como meus tênis.
- Sabe qual o seu problema? – ela perguntou, ficando de pé bem na minha frente, mas mesmo assim tendo que olhar alguns centímetros para cima para me encarar. – Você tem inveja de tudo aquilo que você não é!
- Olha, ... esse discurso comigo não rola - ri. – por que eu iria querer ser uma sósia da Barbie como você?
- É só olhar para você que qualquer um responde sua pergunta. – ela falou, revirando os olhos e virando de costas para mim para largar seu estojo em cima de sua cama. – Maria-João.
Essa última palavra saiu como um murmúrio da boca dela, mas fez meu sangue ferver e minhas mãos se fecharem com força.
- O que foi que você disse? – perguntei, tentando manter a calma.
Ela se virou para mim, meio assustada. Acho que não estava em seus planos que eu ouvisse seu xingamento.
- Eu disse... Maria-João. – Disse . Ela parecia espantada com a própria ousadia quando levantou a cabeça e me encarou. Aquele apelido me fez quase ser expulsa uma vez. E eu estava pronta para fazer com que ele me expulsasse de vez quando a porta se abriu e entrou no quarto.
- Ei, , você não vai para a... – Ela parou ao nos ver.
- É melhor você se cuidar, . – vociferei antes de pegar minha mochila no chão do quarto e jogar nos ombros outra vez.
- Ou o quê? – ela disse, atrás de mim. – você vai me bater?
- Não faça perguntas retóricas, princesinha.
- Eu não tenho medo de você, ! Eu sei me defender!
- Ah é? Como? – sorri, agora curiosa para saber a resposta.
- Eu... eu falo para a Olivia que você está me ameaçando.
Ri e ela semicerrou os olhos. - Você estaria me fazendo um favor.
- Não mente, Enfant. Eu já ouvi falar que sua cota de detenções já se esvaiu há tempos. Mais algumas vezes que seus pais sejam chamados e você é expulsa do colégio.
Ok, aquela me pegou de surpresa. Como ela sabia disso? Harry foi o único para quem eu contei que já havia assinado três vezes a “lista negra” como chamávamos, e se assinasse mais uma, eu seria expulsa. Não que eu não quisesse sair dali, mas sabe-se lá para onde meus pais me mandariam se eu fosse expulsa. Eu não queria saber, então era melhor que andasse na linha, já que os diretores, vices, secretários, monitores e, tudo bem, uma boa parte dos alunos daquele colégio não iam muito com a minha cara. Eu havia assinado pela primeira vez quando eu e Harry pulamos a grade que rodeava o lago para dar uma refrescada no meio da noite. Tudo bem, não tínhamos muita coisa para fazer, então fomos procurar encrenca. Daquela vez, ele assinou junto. Mas da segunda vez, só eu assinei por quebrar o nariz de uma menina que me chamava de “Maria-João” sempre que me via. Para o meu azar, a garota era filha de um burguês de Londres, e ele pediu que alguma providencia fosse tomada porque eu significava risco para os alunos do St Bees. Pelo menos a menina nunca mais passou por mim sem olhar fixamente para o chão até eu estar longe o bastante. E a terceira foi quando, depois de perder uma aposta com os meninos, tive que botar laxante no chá da Minerva. Eu só não me lembrava que o corredor onde ela ficava durante a noite tinha câmeras.
- O gato comeu sua língua, Enfant? – me debochou com sua voz irritantemente chata, e eu pensei que meu cérebro fosse derreter se a ouvisse outra vez.
Soltei a mochila de novo no chão, com as mãos fechadas em punho, e fui até ela, pronta para pular em cima dela, eu acho. - se você falar qualquer coisa...
- Ei, ei, ei! – , que estava parada na porta observando tudo, veio até nós e ergueu as mãos para mim. - Parem com isso já! , se controle!
- Ninguém te chamou aqui, garota!
- Não fala assim com a , ! – disse. – você é mesmo incapaz de ter o mínimo de decência, não é?!
- Eu juro que te mato se você falar qualquer coisa para a Olivia, entendeu, ? – falei, ignorando seu insulto e puxando seu braço.
- Me solta! – ela gritou demasiadamente alto.
- Parem com isso, as duas! Eu vou chamar a Minerva! – gritou, indo para a porta.
Nem precisou chamar, a velha apareceu na porta uns dois segundos depois devido aos gritos daquelas duas rainhas do drama.
- O que está acontecendo aqui?! – ela gritou.
Não precisava ser muito inteligente para perceber o que estava acontecendo ali, de qualquer maneira.
- Ela quer me bater! – apontou para mim.
- Srta. ...
- Minerva! – gritei. – ela me chamou de Maria-João!
Minerva arqueou as sobrancelhas e olhou para outra vez.
- Eu... – ela tentou falar algo, mas não podia negar.
- As três para a detenção.
- Mas eu nem fiz nada! – disse, indignada.
- Tirando o fato de estar fazendo um escândalo e metida em uma briga, , vocês todas estão pelo menos vinte minutos atrasadas para a aula. Então é melhor irem andando antes que sua situação piore.
Todas nós ficamos olhando para ela por um tempo.
- Vão logo! Antes que eu mude de ideia e mande vocês direto para a direção!
Bufei e grunhi, passando por Minerva e fazendo o caminho que eu já conhecia. Eu sempre acabava parando lá por algum motivo, mas logo no primeiro dia de aula? Esse era meu recorde.
E não era um dos bons, dessa vez.
’s POV
- Que maravilha, hein Cas? – Murmurei para , que andava ao meu lado, a cabeça tão baixa quanto a minha. – Primeiro dia!
- Foi ela quem começou, eu juro! – Ela murmurou de volta, baixinho e manhosa.
- Não quero saber! Por que eu estou aqui? É tão injusto!
- Desculpe, ! – Fui abraçada pelos ombros.
- Boa detenção. – Minerva abriu a porta no final do corredor e a manteve aberta para nós. foi a primeira a entrar e depois acompanhei . Ela estava meio para baixo, nunca havíamos estado na detenção antes.
- Muito obrigada, princesa. – Ouvimos sibilar antes de se sentar em algum lugar da sala. Olhei em volta, vendo como ela estava cheia naquele dia. Primeiro dia de aula e todo mundo aprontando? O que é isso?
- Mais? – O senhor que cuidava da detenção (cujo nome eu nunca tive oportunidade de saber) olhou assustado para Minerva, que apenas assentiu e nos deixou na sala. – O que deu em vocês, hein?
- A culpa é da escola, isso é injusto e eu não sei por que estou aqui. – Ouvi dizer.
- Que bom que pensa assim, Srta. . – Disse o homem. – Terá um bom tempo para refletir sobre quem é o culpado por suas atitudes erradas. Queiram se sentar, sim? Vou passar uma atividade para vocês.
suspirou e sentou ao meu lado nas duas primeiras carteiras das filas do meio da sala. Dei uma rápida olhada pela sala, reconhecendo alguns rostos, outros não. Vi no canto e sinceramente não me surpreendi com isso. Havia mais três novatos, os quais eu não conhecia.
- Vocês vão se sentar em uma roda e vão discutir o que fizeram nas férias. No final, eu quero a resposta de cada um numa folha de papel. – Ele mostrou as folhas em branco sem pauta e as jogou em cima da minha mesa. – Você é a responsável por me entregar isso antes que bata o sinal da próxima aula.
Assenti, meio assustada pela sua expressão zangada e olhei para , que mal parecia respirar.
- Podem começar! – O professor disse. – Agora! – Ordenou quando viu que ninguém moveu um músculo. Pude ouvir cadeiras e mesas sendo arrastadas e alguns murmúrios de insatisfação e logo estávamos sentados em uma roda no meio da sala, cada um sentado em uma cadeira, olhando para a cara um do outro.
- Então... – Pigarreei. – Alguém aí tem uma caneta?
Os olhares todos caíram sobre o menino de jaqueta de couro preta que rodava uma caneta simples nos dedos, olhando distraidamente para algum ponto no chão. Ele levantou os olhos e nos viu o encarando. Murmurou alguma coisa e jogou a caneta para mim.
- Obrigada. – Tentei abrir um sorriso simpático e tudo que recebi em troca daquele menino foi um par de olhos revirados. Pelo menos você é bonito, senhor Educação, pensei. – Então, quem vai começar?
Silêncio. Não acredito que as coisas iam ser tão difíceis assim. Olhei para e lhe pedi ajuda com o olhar. Ela suspirou e cruzou as pernas, mostrando que ela não estava confortável.
- O que fizemos nas férias, é isso? – Ela quis se certificar. Assenti e a encorajei a falar. – Bom, eu estive na Bélgica e na Alemanha até da última semana...
- Ninguém quer saber o roteiro da sua viagem, princesa. – revirou os olhos. – Diga algo de interessante.
- Como você conseguiu a tatuagem? – Perguntei, de repente achando que aquilo seria legal para escrever em sua resposta.
- Tatuagem? Na ? – riu. – Por favor...
- Deixa a menina responder? – Uma garota que até então não havia se pronunciado falou. Olhei para ela com simpatia, gostando da atitude dela de cortar a implicância de . A menina parecia meio rebelde. Seus cabelos eram perfeitamente desgrenhados, os olhos bem marcados por uma maquiagem forte e no braço esquerdo, duas pulseiras de borracha, uma branca e uma preta. não respondeu.
- Já disse, apostei com a Mandy e perdi. – suspirou.
- Sobre o quê era a aposta? – Eu quis saber.
- Nem lembro, era algo insignificante.
- Como sempre. – Suspirei.
- Como sempre. – Ela concordou comigo, baixinho. Escrevi alguma besteira sobre a tatuagem dela, falando que era uma aposta de quem comia mais queijo branco e que perdeu porque é alérgica a lactose e ela teve que fazer a tatuagem no pescoço.
- Ok, quem é o próximo? – Perguntei.
- Eu aprendi a tocar bateria. – Liam disse, sorrindo graciosamente para mim.
- Passou as férias todas fazendo isso? – Indaguei, tentando complementar a resposta.
- Uhum. – Sorriu mais.
- Fiquei em Paris com a minha mãe. – Ouvi a menina que interrompeu antes. – Até eu visitar meu pai e descobrir que estou presa com a família perfeita da Barbie.
- A minha mãe não é a Barbie! – Liam olhou feio para ela.
- Vocês são irmãos? – olhou para Liam.
- Infelizmente! – Liam murmurou.
- Meio-irmão! Não tenho nada a ver com esse daí! – A outra revirou os olhos.
- Ok, qual seu nome? – Perguntei.
- . .
- Prazer, . Vamos todos falar nossos nomes para ela saber quem somos, ok?
- Harry Styles. – Disse Harry. – Eu, Louis e fomos esquiar na Noruega.
- Noruega? – abriu um sorriso. – Eu estive lá ano passado! Como estava o tempo?
- Gelado, né, inteligência?! – respondeu por Harry.
- Você também foi esquiar? – Harry ignorou o comentário de .
- Fui, mas pegamos o final da estação, então ficamos em Oslo mesmo. – Ela fez um biquinho.
- Que chato.
- Pois é.
- Ok, mais alguém? – Perguntei, voltando o foco à atividade. – Você? – Apontei para o menino de preto, que acompanhava a conversa com certa cara de tédio.
- Se querem tanto saber, passei metade das minhas férias dentro de um reformatório. – Ele respondeu, um pouco ríspido. Assenti e esperei um segundo. – Zayn Malik.
- Marginal. – Harry disse em meio a um espirro fingido.
Zayn Malik lançou a Harry um olhar homicida, carregado de puro ódio e talvez até um pouco de descaso e pena. Ok, talvez ambos estivessem ali por um motivo em comum, não duvido muito que Harry mexeu com o cara errado.
- ? – Virei-me para a garota extremamente calada ao meu lado. Ela me olhou com aquele olhar morto e sem brilho que tanto me assustava e deu de ombros.
- Nada a declarar. – Disse, simplesmente e eu aceitei aquilo de bom tamanho.
- Ok, eu estive em Londres ajudando uma ONG a fazer o natal de algumas crianças. – Falei, sorrindo abertamente ao me lembrar dos bons momentos que passei ali.
- Não cansa fingir ser boa moça, não? – quis saber, fazendo careta de nojo para mim.
- Não finjo, . – Suspirei, atenta em minha caligrafia enquanto escrevia as respostas na folha.
- Hunf. – Ouvi-a bufar e se ajeitou na cadeira.
- Já terminou? – A voz de Zayn ecoou na sala, apesar de ser baixa e controlada, sempre com um quê de arrogância no fundo. Olhei para ele e assenti. Então ele se levantou e voltou ao seu lugar no canto da sala.
- Antissocial. – Louis murmurou.
Seguindo o exemplo de Zayn, todos se afastaram da roda e se espalharam pela sala. também voltou a se sentar numa das primeiras cadeiras e ficou a mexer em seu rabo de cavalo nervosamente, olhando o celular a cada cinco segundos, parecia louca para sair dali. Sabia que aquilo era por causa da insistência em falar de Mandy, por isso a deixei quieta.
Olhei em volta, procurando alguém que pudesse interagir. Vi um loirinho duas cadeiras depois da que eu estava, atrás. Ele me parecia novato, já que eu não o reconhecia de lugar algum.
- Oi. – Cochichei, fazendo-o levar um susto. – Desculpe.
- Tudo bem. – Ele riu. Seu sotaque era diferente.
- Você não é daqui, é?
- Sou irlandês. – Explicou, no mesmo tom baixinho que o meu. Reparei em seus olhos grande e azuis.
- Prazer, sou , mas pode me chamar de . – Estendi a mão.
- Sou Niall, mas pode me chamar de Niall. – Ele riu. – Desculpe, não tenho apelidos. Niall é um nome pequeno por si só.
- Não faz mal. Gosto de Niall.
Ele abriu um sorrisinho para mim e assentiu. Acho que ele estava sem graça... Ou suas bochechas que eram naturalmente rosadas?
- Então, você é novo por aqui?

Louis POV
- Aí, será que alguém pode me dizer quem é aquela novata que foi pega com maconha no ginásio? Porque ela é simplesmente... – deixei as palavras no ar, porque não consegui pensar em algo que explicasse como ela era gata. Não era só gata, ela era gata e exótica.
- Ouvi falar que o nome dela é – Josh disse. Esse era o melhor de ter Josh como amigo. Ele “ouve falar” de tudo sobre todos. – , na verdade. . Vem da Alemanha.
- Ela é gata mesmo... – Harry concordou.
- Mas ela não é pra vocês. - Olhei-o e ele prosseguiu, com um sorrisinho. -A garota tá metida em coisa suja. Ouvi falar que arrancou as bolas do último namorado. - Arregalou os olhos.
Parei de caminhar e fiquei olhando para Josh com os olhos arregalados.
- O quê?!
- Foi o que eu ouvi... cá entre nós, ela é meio assustadora.
- Não... não, isso não é verdade - ri fraco, voltando a andar. - As pessoas dessa escola aumentam tudo.
- Então ela deve ter arrancado só uma das bolas - Harry riu.
- Para onde vocês vão agora?
- Eu tenho oratória – falei.
- Física – Harry ergueu o braço.
- Tenho história – Josh falou. – então até mais, caras.
Cada um de nós foi para um lado assim que chegamos ao fim do corredor, e ao chegar na sala – dois minutos atrasado, mas nada muito sério -, sentei em qualquer lugar no fundo da sala, procurando algum rosto familiar por ali. O único que conheci foi Liam, no lado oposto e mais para o meio da sala. Para um primeiro dia de aula, aquilo foi um saco. Eu realmente não sabia se conseguiria concluir aquele ano direito, estava de saco cheio de tantos estudos!
Ao chegar no quarto, logo depois do término das aulas, Harry já estava lá tentando tirar algum som que preste de sua guitarra. Não que ele fosse mal, mas precisava de algum incentivo para aprender a tocar coisas novas.
Peguei uma roupa e minha toalha, tomei um banho rápido e relaxante, e ao sair Styles jogava uma partida de Cross Fire junto com Liam.
- não vem hoje? – perguntei, me deitando na cama de Harry que ficava de frente para a TV e ficando mais ou menos no meio deles, só que na cama enquanto eles estavam no chão.
- Acho que não – Harry deu de ombros. – Ela deve estar meio neurótica pelo jeito que agiu na detenção. Estava estranha, vocês não viram?
- Você não sabe o que é uma garota neurótica, ainda não conhece . – Liam bufou.
- Ela é tão mal assim, é? Pelo menos é gata.
- Cala a boca. – revirou os olhos.
- Não seja possessivo. – reclamei. – Jesus disse para dividir o pão.
- O pão, e não as irmãs gostosas – Harry gargalhou.
- Eu não estou com ciúmes, e dá pra parar de assediar minha meia irmã?!
- Ela não é sua irmã há nem bem 24 horas. Como já se apegou tanto?
- Não me apeguei, mas infelizmente é isso que ela é. E ela é um saco. Acho que tem alma de noventa anos, é sério.
- Mas o corpo não... – Harry falou.
Ri e deixei os dois discutindo sobre , indo para a minha cama para dormir. Eu geralmente era o que dormia mais cedo enquanto e Harry jogavam, e eu quase nunca a via ir embora. Não sei como eles conseguiam, eu precisava dormir pelo menos oito horas para estar disposto cedo da manhã no dia seguinte. Caí no sono em segundos, ouvindo Liam reclamar sobre seu colega de quarto que havia socado a cara de Harry.
No outro dia, nem acreditei que estávamos há duzentos e poucos dias para o fim do ultimo ano letivo de minha vida, e ao pensar nisso, senti uma preguiça imensa. Mesmo assim levantei, fiz minha higiene, botei o uniforme e fui para o refeitório para tomar meu café. Ainda era cedo, e poucas pessoas estavam por lá, e era por isso que eu preferia acordar mais cedo: para evitar ver as caras feias que provavelmente veria pelo resto do dia. estava lá, e ela foi a única pessoa conhecida que vi. Mas dei graças a Deus que eu estava terminando minha refeição quando a Sra. Sinistra apareceu por lá e se sentou perto de onde eu estava. Não queria dá-la nenhum tipo de motivo para pensar em arrancar minhas bolas, eu queria ter filhos algum dia.
Depois voltei para o quarto e Harry já estava pronto para o café. Arrumei meus materiais enquanto ele foi para o refeitório e depois encontrei com Josh no corredor e ficamos batendo um papo até bem tarde, Josh estava me deixando a par de suas noticias diárias. Incrível como ele funcionava melhor do que um jornal matinal.
Depois, pegamos nossos materiais para ir sofrer por algumas horas dentro de salas de aula e encontramos com Harry e Liam, para ir até o prédio escolar.
- Não, sério, ele fuma praticamente o tempo todo - Liam disse, sobre o tal de Zayn. – pelo menos ele tem o bom senso de abrir a janela, porque sério, eu estaria morto agora.
- Eu meio que dei sorte. Peter era um cara legal – Josh falou, sobre seu companheiro do ano passado. – mas esse Niall também aparenta ser gente boa. Ele quase nem fala, eu tenho que puxar assunto o tempo todo.
- Ele é nerd? – Harry perguntou.
- Não, na verdade.
- Então ele faz o que durante a noite? – perguntei.
- Ele fica só... tocando violão e anotando coisas em um caderninho, ou lendo algum livro. Sei lá. Pelo menos foi isso que fez noite passada. Ele não curte muito falar, acho que é meio tímido.
- Sorte a sua – Liam bufou.
- Vai nessa, acho que o Liam curte um bad boy – Harry deu um soco no braço de Liam.
- vai se foder, cara – ele riu e o empurrou de volta.
Em seguida, eu e Josh entramos na onda também, gritando coisas alternativas e empurrando uns aos outros enquanto riam alto demais. Liam, que estava do lado oposto de mim, empurrou Josh muito forte, e ele se chocou contra mim, me empurrando também para trás e eu me bati com alguém. De repente, as risadas cessaram. Olhei estranho para eles, que se calaram do nada e me virei para pedir desculpas a seja lá quem for que eu quase caí em cima, e...
Quando me virei, os olhos escuros e profundos daquela garota maluca me encaravam, e meus órgãos internos viraram pedras de gelo enquanto eu pedia internamente para ela não arrancar minhas bolas.
- De-desculpa. – Levantei as mãos e pedi.
- Você não vê por onde anda, otário?! – ela reclamou, se abaixando para pegar uns livros que caíram. Decidi me abaixar e ajudar, porque eu precisava parecer uma pessoa legal para não entrar em sua lista negra, certo?
- Aqui, seu livro... – peguei um dicionário de francês do chão e ofereci a ela, que puxou das minhas mãos de maneira ríspida.
Levantei, dando alguns passos para trás para sair da zona do perigo logo, e cheguei até os meninos outra vez, seguindo em frente.
- Isso foi simplesmente hilário! – Liam murmurou.
- Louis, você estava todo cagado – Harry riu.
Acho que eu era o único que não via graça.
- Ok, chega.
- Só faltou você sair correndo, mano!
- Não enche! – empurrei Josh e cheguei finalmente até meu armário, enquanto Liam e Harry continuavam em frente até chegarem aos seus, ainda rindo. Josh parou ao meu lado, em frente ao dele, ainda rindo um pouco também. Pegamos nossos livros e fomos até o armário dos outros, que ainda pegavam seus livros.
- Acho melhor cuidar bem das suas bolas, Louis. – Liam disse, fazendo os outros dois rirem de novo.
- A garota é muito estranha, é sério. – Josh disse, um pouco mais baixo, e nos fazendo chegar mais perto para ouvir. – dizem por aí que ela tem uma tatuagem enorme de um símbolo satânico nas costas.
- Nas costas? – Harry semicerrou os olhos.
- É, cara!
Liam riu.
- Tipo onde ficam as tribais? – perguntei.
- Isso.
- No fim da espinha – Liam assentiu.
- E falam que o ex dela é traficante, o que explica a maconha.
- Todo mundo consegue maconha por aqui – Harry revirou os olhos. – ou em qualquer lugar.
- Bom, é o que dizem.
- Legal, Sherlock, tem mais alguma teoria? – Harry perguntou a Josh.
- O que tá rolando? – ela olhou para cada um de nós, e só aí percebemos que estávamos em um círculo e falando baixo.
- Nada... – fui dizendo, mas os outros resolveram contar o que estava rolando, me enchendo de vergonha. - , né? – deu uma boa conferida na menina. – rolam boatos de que ela vende maconha.
- Caralho, coitada da menina – Liam disse. – ela não deve ser tudo isso, não, gente! Para mim, só parece uma garota que sofre com mau humor e gosta de ficar sozinha.
- Ei, essa aí não é a definição da sua irmã? – perguntou e nós rimos.
- De qualquer jeito, o garanhão aí quase ficou de joelhos para ela. – Josh riu. – “Por favor, não arranque minhas bolas!” – ele imitou minha voz.
- Não fode, cara – fiz uma careta para ele. Eu preferia não falar nada, mas iria provar que não tinha medo de uma garota.
Nessa hora o sinal tocou e cada um de nós foi para um canto. Eu, como tinha aula de francês, tive que dar a volta no corredor e entrar na sala antes que ela se enchesse demais e alguém pegasse meu lugar no fim da sala.
POV
- Tem o que agora? – perguntei a Harry.
- Geografia.
Assenti, dando a entender que eu tinha o mesmo, e seguimos para a sala de geografia que ficava no fim do corredor.
- Onde você se meteu?
- Como assim, esperteza? – ri. – não podemos sair do colégio, lembra?
- Você sumiu ontem, nem apareceu lá no quarto de noite.
- Eu só estava cansada – suspirei.
- E preferiu ir dormir cedo e no mesmo quarto que ?
- Sim, Harry, e vamos falar sobre outra coisa! – exclamei. - Você tá estranha – ele me olhou com os olhos semicerrados. – qual é, me conta.
- Contar o quê, cara?
- O que aconteceu. Porque aconteceu alguma coisa. Você sai sem dizer nada da detenção e não me procura mais desde então, não vai jogar, diz que dormiu cedo, e depois aparece toda sorridente, e quando eu pergunto o que foi você pede para mudar de assunto. Algo aconteceu.
- Não me enche o saco! – empurrei-o e apressei o passo para entrar na sala logo e pegar um lugar longe dele, mas a sala ainda não estava muito cheia, então ele pode sentar na minha frente.
- Eu te conheço bem, . – ele disse.
- Você vai mesmo continuar com isso? – olhei para ele, séria.
- Tá – suspirou. – vamos mudar de assunto. Mas isso não acaba aqui!
Ri.
- Ok, quer ouvir minha teoria? - Perguntou e eu assenti, dando brecha para Harry contar mais uma de suas piadinhas sem graça. De todas as suas virtudes, senso de humor não era uma delas, eu podia dizer com certeza depois de ter crescido ouvido piadas contadas da maneira errada.
- Ah, qual é, ri! Foi engraçado!
- Não foi nada engraçado. – falei, mas eu comecei a rir da risada dele e isso me entregou. Ele começou a apontar para a minha cara e gritar “você tá rindo, eu ganhei!”, o que me fazia rir mais. Harry era um idiota.
- Oi, Hazza. – Carly Patriks falou com voz de bebê e sorriu para ele, sentando ao nosso lado. Ele sorriu para ela de volta, e ergueu uma sobrancelha, fazendo-a ganhar o dia com suas covinhas idiotas.
Depois disso, decidi que prestar atenção em nossa professora de geografia certamente era mais interessante do que ver Harry flertando.
Liam’s POV
Joguei meu livro de biologia no armário e dei graças a Deus por menos um dia para acabar o ano letivo. Ir para a detenção com a louca da não foi a experiência mais fascinante da minha vida. Fui com os meninos para o refeitório para jantarmos. Mais um ano na depressiva St. Bees School. Aquele lugar me dava raiva e desgosto só de olhar, era sempre a mesma coisa!
Pelo menos longe dos pais, essas meninas se vêm no direito de se soltarem mais um pouco. E aí – diga-se de passagem – o Liam aqui fatura alto nos fins de semana.
Ok, isso soou péssimo, mas qual é! Sou um adolescente com os hormônios à toda! Quero aproveitar minha vida.
- Sai da frente, maninho. – passou por mim e fez questão de esbarrar em mim. Qual era o problema daquela garota? Fala sério!
- É ‘com licença’! – Gritei, fazendo algumas pessoas pararem para olhar. Ela levantou a mão por cima do ombro, mostrando o dedo do meio.
- Educada, essa daí. – Louis comentou.
- Ela voltou da França se achando o Che Guevara. – Falei, rindo fraco.
- O Che Guevara não é cubano? – Josh franziu o cenho. Parei de rir da piadinha e revirei os olhos. Eu estava sendo tirado pelo Josh! Fala sério!
- Cala a boca e curte a piada. – Falei.
Entramos no refeitório e nos sentamos em nossa parte mesa de costume. O refeitório não mudou nada. As mesas coloridas continuavam dispostas aleatoriamente pelo lugar, e as cadeiras também coloridas contrastando com o chão e as paredes brancas. No fundo, os expositores iluminados e as mesas com os pratos adiantavam a porta enorme da cozinha e ali acabava nosso lindo refeitório. Que de lindo não tinha nada, mas pelo menos havia comida.
- To sentindo uma coisa... – Louis começou.
- Sentou num prego? – Harry olhou para baixo.
- Não, ô anta! – Louis revirou os olhos. – To sentindo que esse ano vai ser uma merda.
- Não acho. – Falei, largando minha mochila em cima da mesa. – Acho que esse ano promete muita coisa!
- Claro, você tem uma nova meia-irmã gostosa! Pra você é fácil falar. – Josh argumentou.
- Podem por favor parar de falar sobre a beleza da minha irmã por um minuto e encarar a coisa séria aqui?
- Ih, ele tá na TPM hoje. – Louis riu e fez um toque com Harry.
- Vão se foder. – Falei.
- Ok, ok. Vamos falar de outra coisa para não irritar a donzela, aí! – Louis pediu, bebendo um gole da coca que pegou na máquina do refeitório antes de nos sentarmos.
- Claro, por que não falamos de seu ato de bravura mais cedo? Com a Sra. Dark? – Sugeri, vingando-me de Louis. Harry começou a rir e Josh fez um barulho estranho com a boca, parecendo uma sirene.
- Ele se borrou de medo, não vamos lembra-lo se não ele tem pesadelos à noite! – Josh riu. Louis revirou os olhos.
- Eu não estava com medo! – Louis se defendeu.
- Ele pareceu uma garotinha! – Harry concordou, limpando uma lágrima que já escorria.
- To indo comer, beijo pra vocês. – Louis arrastou a cadeira e se levantou rapidamente. O barulho de metal e plástico caindo no chão fez o refeitório olhar para nós e o silêncio reinou. Vi Louis ficar branco ao olhar para trás, tomando conhecimento de quem ele havia atingido.
A roupa da menina – , eu acho – estava toda suja de suco de uva, pela cor e apesar de tudo havia pouca comida no chão e acho que era esperado, todo mundo ali sabia que ela mais cheirava cocaína que comia comida. Ela levantou o olhar de sua blusa para Louis e, cara, eu podia ver ele queimando no inferno dentro dos olhos dela.
- Des...
- Você por acaso é retardado? Tá me perseguindo ou algo do tipo? – Ela perguntou. Sua voz era baixa e cortante, quase como um sussurro. Todos no refeitório guardavam o silêncio, olhando a situação tensa ali.
- Desculpe eu não...
- Presta atenção! Até um elefante é mais delicado que você! – E dizendo isso ela chutou a bandeja que estava no chão e marchou para fora do refeitório. E, automaticamente, o lugar retomou sua vida normalmente, e somente Louis permaneceu de pé.
- Vou comer. – Ele disse baixinho e foi pegar sua janta.
Troquei um olhar com os meninos. Josh reprimiu uma risada, o que não deu muito certo, já que todos começamos a rir depois. Balancei a cabeça negativamente e vi me encarando fixamente por alguns segundos antes de se levantar de sua mesa no canto e sair do refeitório também.
Essa garota tem problema, só pode.




Capítulo 3


’s POV
Quarta-feira. A aula de literatura corria normalmente, sem nenhuma inconveniência que não fosse os roncos de meu vizinho de bancada. Eu estava me divertindo, é claro. Estávamos discutindo a obra francesa Os Miseráveis, um clássico do romantismo francês. A verdade era que tudo que vinha da França me fascinava e ver aqueles imbecis perdendo a oportunidade de ouvir aquelas coisas me fazia borbulhar de raiva.
Eu já havia entendido qual era a dos alunos desse colégio interno: um punhado de filhinhos de papai que só estavam ali para “dizer que estavam” e fazer social. Ninguém ali realmente se importava com o que estavam aprendendo. Patético, o mundo não podia ser governado por gente desse nível. Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo, ouvindo a professora recitar em francês perfeito um trecho original da obra.
- Com licença? – A diretora Campbell entrou na sala, receosa e cordial. Ela carregava um tablet na mão e um sorriso genuíno nos lábios. Foquei meu olhar nela; será que ela realmente sorria porque queria ou porque o papel lhe exigia? Digo, eu não sorriria nem para metade dos idiotas que estão nessa sala.
- Nós continuamos depois, classe. – A professora disse, sentando-se em sua mesa. A diretora dirigiu-se para a tribuna da sala de literatura. Ela apoiou seu tablet ali e sorriu para a sala de novo.
- Bom dia. – Campbell saudou. – Creio que os veteranos já saibam o motivo de minha visita. – Sorriu de novo. – Bom, não vou me demorar aqui, só venho fazer um pequeno aviso. – Levantou a tablet e nos mostrou a tela. Era vermelha e tinha alguns desenhos desconexos por ela e algo como “Oficinas” escrito no meio, eu estava longe por isso não conseguia ler tudo. – As atividades extracurriculares estão oficialmente abertas para inscrições até sexta.
Houve um murmurinho de animação e de reclamação ao mesmo tempo e me perguntei se aquilo era de alguma forma obrigatório.
- Corram e façam suas inscrições! – Disse ela, tentando parecer animada. Ok, ela fazia aquilo porque o papel exigia. Ela forçava demais. – Boa aula a todos, nos vemos na hora do almoço. – E dizendo isso saiu da sala de aula.
- Gostosa. – Ouvi o cara que estava do meu lado murmurar, depois de coçar... Bem, vocês sabem.
Revirei os olhos e tomei algumas notas que a professora havia passado na lousa. O meu “colega” pareceu estar totalmente desperto depois da visita da nossa diretora e me encarou por dois segundos.
- Ei, depois você me empresta...
- Não. – Respondi, sem olhar para ele.
- Mas eu nem...
- Não enche, cara. – Pedi, soltando meu cabelo e deixando que ele fizesse uma cortina entre eu e aquele palerma.
O resto do dia passou rápido e eu me peguei várias vezes pensando em quais cursos de atividades extracurriculares aquele colégio esquecido por Deus podia nos oferecer. Talvez se houvesse algum grupo de teatro, eu poderia ocupar algumas de minhas tardes com aquilo.
“Queridos alunos, por favor dirijam-se todos ao pátio central para um anuncio da diretora.”, alguém anunciou nos alto-falantes da escola. Fechei meu armário depois de pegar meu celular e fui empurrada pela multidão de alunos até o pátio. No centro do pátio, havia a diretora e algo alto coberto por um pano de algodão cru.
- Boa tarde, queridos. – Disse a diretora. Aquela mulher estava começando a me dar enjoo com todo aquele fingimento. – Bom, muitos de vocês já devem saber da história do nosso colégio, mas creio que nossos calouros não sabem. Bem, há cinco séculos atrás, um homem chamado Edmund Grindal conseguiu que a Rainha concedesse uma licença para ser construída uma biblioteca aqui e...
Ela realmente contou toda a trajetória do colégio até os dias de hoje. Observei as panelinhas enquanto ela não parava de falar. A primeira que vi foi a de meu “irmão”, já que era um dos poucos que não estavam quietos e riam descontroladamente de alguma coisa, juto com uma garota, que, por sua vez, olhava várias vezes para algum ponto em comum mais adiante. Procurei o que ela tanto olhava e vi o objeto de fascínio da garota. Não pude evitar de rolar os olhos quando reconheci o garoto: Zayn Malik. Todo mundo falava dele naquela escola porque ele estava causando alguns distúrbios com o grupo de amigos do meu irmão; os populares. Zayn Malik era o tipo perfeito de babaca: se acha o fodão, maltrata as garotas que come, fuma, bebe, grosso... Ok, grosseira eu também sou. Mas isso não vem ao caso. Zayn Malik não passava de mais um dos casos perdidos da sociedade nessa escola.
- E então, por isso, nós fizemos esta homenagem ao fundador da St. Bees School! – A diretora guinchou um pouco e isso me fez voltar à realidade. E dizendo isso, alguém puxou o pano de algodão e revelou um pedestal, com um busto em cima de um cara meio careca, barbudo e principalmente preto, o busto todo era “pintado” de preto. Aquilo me deu arrepios. Alguns alunos aplaudiram, outros riam e apontavam, e, outros, que nem eu, não faziam nada.
Os alunos começaram então a se dispersar, alguns indo para o refeitório, outros para os dormitórios e outros indo vagar pelo campus. Virei-me também e andei em direção ao refeitório, sem prestar muita atenção no que acontecia à minha volta.
- Ai, desculpe! – Ouvi alguém dizer depois de esbarrar em meu ombro. Olhei para trás instintivamente, pronta para dilacerar o pescoço do infeliz que... Era uma garota. Relaxei um pouco e abri um meio sorriso.
- Não foi nada. – Garanti, esfregando o ombro rapidamente.
- Desculpe, mesmo. – Reforçou. Assenti e continuei meu caminho. – Ei! – A garota me chamou. – Você está sozinha?
- Eu... – Abri a boca para falar algo legal, mas nada me veio à cabeça. Não queria que ela pensasse que eu era excluída e antissocial ou algo assim. Não que eu me importasse, mas era algo que eu não queria que eu fosse.
- Almoça com a gente. – Ela sorriu. Eu deveria mencionar como aquela garota e a amiguinha dela pareciam extremamente o oposto de mim? Quero dizer, elas eram patricinhas declaradas! A outra abriu um sorrisinho mais tímido que o da amiga, mas assentiu com a cabeça também. – Prazer, sou .
- . – A outra abriu um sorriso maior.
- Não sei...
- Vamos esperar por você do mesmo jeito. – avisou e agarrou o braço de , saindo de perto de mim com um sorriso nos lábios pintados de brilho labial.
Balancei a cabeça, pela “social” mal sucedida. Adentrei o refeitório tentando não fazer contato visual com ninguém, não devia nada àquela gente. Atravessei as mesas espalhadas pelo lugar e cheguei ao expositor. Não estava com tanta fome quanto havia imaginado que estava. Peguei uma bandeja, meu prato e me servi de algumas coisas mais leves.
- Já está se enturmando, irmã? – Liam estava atrás de mim na fila, servindo-se de alguma coisa com muito queijo e molho. – A é muito legal.
- Quem?
- . . Vi vocês conversando lá no pátio.
- Está me vigiando? – Coloquei um pouco de molho para a salada que tinha ali. Aquilo me lembrava da França e sua paixão por molhos específicos.
- Claro, tenho que me certificar de que a pirralha não vai fazer nada de errado. – Ele sorriu, debochado. Revirei os olhos, tentando não brigar com Liam, de novo. Já tive experiências de que brigar com ele só me levava a um lugar: detenção. – Eca, folha. – Torceu o nariz para a salada que eu colocava no prato.
- Melhor do que essas coisas gordurosas que você colocou no prato. – Olhei sugestivamente para seu prato nada saudável.
- Você parece uma lagarta, com todas essas folhas aí. – Riu.
- Não, quer saber? Continua comendo essas porcarias, espero que esse queijo obstrua suas artérias e você sofra um infarto. – Sorri, cínica e saí da fila, andando pelo refeitório sem realmente procurar um lugar para me sentar.
Avistei, sem querer, as meninas que me chamaram mais cedo. Elas não estavam olhando para mim, na verdade pareciam absortas em uma conversa. Olhei para trás discretamente e vi que Liam vinha em minha direção. Apressei o passo e sentei-me com as meninas, aliviada quando o Master Idiota passou reto pela mesa.
- Oi. – Falei, chamando a atenção delas para mim.
- Olá! – se virou para mim e sorriu. – Sabia que sentaria aqui. – Disse. Mas que convencida! Abri um sorrisinho sem graça e peguei meu garfo para começar a comer. – Então, eu e a estávamos conversando sobre as atividades extracurriculares. Você vai se inscrever em alguma?
- Hm... – Pensei seriamente no que iria responder. – Isso é obrigatório...?
- Na verdade... É. Todo mundo precisa de alguma ocupação durante os períodos da tarde, duas vezes por semana. – comprimiu os lábios, como se não aprovasse aquela regra.
- Entendi. Eu não sei ainda no que vou me inscrever, quais são as opções de vocês? – Perguntei, sentindo-me satisfeita por conseguir dizer algo que continuasse a conversa.
- Queremos o clube do teatro. – Sorriu . – É a melhor coisa para se fazer aqui.
- Imagino. – Franzi o cenho.
- Eu sei que essa não é a escola mais legal do mundo, mas você vai aprender a gostar dela, eu juro. – garantiu, abrindo outro sorriso espontâneo para mim. Que mania de sorrir! – Meu Deus, esses cupcakes estão uma delícia! Vou pegar outro, já volto.
saiu da mesa, deixando-me sozinha com . Senti um pouco de dificuldade de achar alguma coisa para dizer, mas por minha sorte mencionou o quão ridículo foi aquela homenagem ao fundador da escola e então eu tive uma brecha para ser mais descontraída.
Niall’s POV
Terminei meu almoço rapidamente e saí do refeitório para procurar aonde seriam feitas as tais inscrições para as atividades extracurriculares e rezava internamente para que tivesse alguma coisa relacionada à música. Precisava unir o útil ao agradável e ganhar nota com alguma coisa que eu amasse fazer.
- Boa tarde. – Um homem me cumprimentou quando parei no balcão da secretaria do colégio. – No que posso lhe ajudar? – Perguntou. Seu crachá indicava que ele era professor, não secretário, mas ele poderia me ajudar mesmo assim, certo?
- Eu gostaria de saber como faço para me inscrever nas aulas extracurriculares. – Informei, cordialmente.
- Ah, sim. – O home sorriu. – Há um mural perto da biblioteca. Lá tem todas as listas de vagas de todas as aulas. Já sabe o que quer fazer? – Ele quis saber, dando a volta no balcão e logo estava ao meu lado, guiando-me para fora da secretaria.
- Tem algo com música? – Perguntei, inseguro.
- Claro que temos! Está falando com o professor de música do colégio! – Ele soltou uma gargalhada alta. Dei-me um momento para apreciar minha sorte e a personalidade do professor. Ele realmente tinha aquela aura de gente que mexe com arte. Não aquela melancolia e depressão que os acompanha em suas obras mais dramáticas, mas aquela de quem gosta do que faz e é bom nisso. O cara devia ter seus 30 anos de vida, tinha barba malfeita e vestia um paletó pardo, meio puído, meio desgasto. Típico músico. – Sou David Clark.
- Niall Horan. – Sorri, apertando a mão que ele me estendia. Adentramos o Bloco C da escola e nos deparamos com as portas de vidro fumê da biblioteca. No mural ao lado das portas, várias folhas com campos a serem preenchidos e como título tinham os nomes das atividades.
- Esse aqui é o meu. – Apontou para a folha que carregava a grande palavra “Música” como título. – E aí? Você toca? Compõe? Canta? Amante da história da música...?
- Toco, componho e consigo arranhar algumas notas. – Fui modesto. As pessoas sempre me diziam que eu tinha dom para a música, que minha voz parecia de um anjo, mas eu nunca acreditei. Mania de cidade pequena aumentar as coisas que acontecem por lá.
- Não seja despretensioso, meu rapaz. – Ele deu tapinhas em minhas costas. – Conseguimos colocar sua voz no lugar em uma semana. Caneta? – Estendeu-me uma caneta prateada.
“Você fez um belo marketing”, pensei. Aceitei a caneta e retirei o papel do mural, apoiando-o numa mesa que havia ao lado para poder escrever meu nome – o primeiro nome da lista. Estava satisfeito com a visão que eu projetava do futuro.
- Sei lá. – Harry Styles e uma garota vinham em nossa direção, continuando uma conversa que estavam tendo no caminho. Dei espaço para que eles olhassem as folhas no mural, que era claramente o que queriam fazer ali. – Teatro não faz seu estilo, .
- Não me diga o que faz meu estilo, Harry. – Ela revirou os olhos. Terminei de preencher meu campo com os dados que me eram pedidos e recoloquei a folha no mural.
- Ei! – Harry Styles apontou quando eu saí da frente da folha que tinha acabado de pregar. – Música! É uma boa!
- Você? Fazendo música? Por favor, Harry! – A tal da rolou os olhos novamente.
- Por que não? – Ele pareceu ofendido. – Hey, você não é o colega de quarto do Josh? – Apontou para mim, como que notando minha presença e esperando uma brecha para falar comigo. Ajeitei a alça da mochila no ombro.
- Sou sim. – Respondi, meio tímido. Devolvi a caneta ao professor, que analisava com curiosidade o que acontecia ali. – Vai fazer música?
- Ah, estou pensando seriamente... – Ele riu, coçando o queixo.
- Caneta? – O professor ofereceu a mesma caneta ao Harry Styles e eu reprimi a vontade de soltar uma risada.
- Por que não? – Ele se perguntou e aceitou a caneta da mão de David.
- Você não tem jeito, Harry. – A menina riu pelo nariz e voltou a observar as folhas, passando o dedo pelas listas de nomes de vez em quando, soltando grunhidos de aprovação ou desaprovação. – Parece que o teatro está muito concorrido. Só tem mais três vagas. – Informou ela, estalando a língua.
- Acho teatro muito válido. Estou tentando desde o ano passado! – Uma voz familiar preencheu o lugar quando a porta do prédio foi aberta e três garotas entraram por ela, conversando animadamente sobre, é claro, as atividades extracurriculares. Era e outras duas amigas. Acho que fomos apresentados, mas eu sinceramente não lembrava os nomes. Uma senhora vinha atrás delas e eu a reconheci como a professora de teatro porque havia esbarrado com ela mais cedo no corredor.
- Como estão nossas inscrições? – Ela cantarolou, animada. Abriu espaço por entre Harry e a outra garota e foi checar sua lista de inscritos. – Oh! Só mais três vagas!
- Professora Dorothy, já tem sua turma fechada! Pode colocar nossos nomes aí! – Uma outra amiga de disse, com um sorrisinho. – , – apontou para si mesma – e .
- Não! – A garota que acompanhava Harry gritou, parecendo indignada. – Nem pensar nisso! Eu também quero entrar para o teatro!
- Entra na fila, querida. – apontou para trás de si com o polegar.
- Eu estava aqui antes de vocês, querida. – Respondeu a outra, com veneno na voz.
- Já acabaram as vagas para o teatro? – Ouvimos uma voz murmurar, alheia à pequena discussão que se instalara ali. De repente me perguntei o que eu estava fazendo no meio do fogo cruzado. A freak (como a escola estava a chamando) estava parada na porta, segurando uma alça de sua bolsa e um lábio sendo mastigado por seus dentes brancos perfeitos. Aquela garota era simplesmente linda. Um pecado para os hormônios e um agrado para os olhos.
- Uh! – A professora disse. – Parece que temos um problema a resolver.
- Você não pode abrir mais vagas? – perguntou.
- Infelizmente não, querida . Apenas três de vocês poderão entrar, lamento.
- Não acredito. – pareceu murmurar, meio chateada.
- Não vou fazer teatro com essa daí. – A amiga de Harry apontou para , que abriu um sorriso cínico.
- Ótimo, menos uma para ocupar vaga. – Respondeu.
- De jeito algum! – A outra se exaltou.
- Meninas, meninas! – Sra. Dorothy pediu, levantando os braços. – Resolvam entre si, não quero saber. Apenas três de vocês entrarão e quando chegarem a um acordo me avisem. Antes disso, nenhuma das cinco entrará no meu clube.
Após decretar isso, a professora saiu em marcha para fora do prédio e eu a segui, certo de que havia escutado demais.
- Isso me cheira a problema. – O professor Clark também estava saindo do prédio. – Deixar cinco garotas se resolverem, sendo de algumas delas claramente se odeiam, é furada para mim.
- E como você resolveria? – Perguntei sem querer ser rude, apenas curioso.
- Algum tipo de teste, competição, não sei. Mas deixa-las por conta própria estaria fora de questão. – Suspirou, não aprovando a atitude da colega de trabalho. – Foi bom te conhecer, rapaz. Vejo você na aula semana que vem. – Ele estendeu a mão e fizemos um cumprimento.
Chutei uma pedrinha que achei no caminho de volta para o Bloco B, onde ficavam as salas de aula. Era comum Niall Horan fazer amizade com seus professores porque não se relacionava bem com gente da sua idade.
’s POV
- Vou mandar a real. – interrompeu nossa conversa durante o jantar, sentando-se à nossa mesa como se tivesse sido convidada, tamanha era sua naturalidade. Mas a hostilidade ainda emanava dela e daqueles cabelos caíam sobre seus olhos em cascata, dando-me pouca visão de seu rosto. – Eu vou fazer o teatro, nem que seja a última coisa que eu faça.
- E vai ser a última coisa que você vai fazer, porque você vai ser expulsa depois de outra detenção. – Sorri para ela, cínica.
- Isso é uma ameaça?
- Encare como quiser. – Dei de ombros, começando a ignorar sua presença a partir daquele momento.
- Enfim. – Revirou os olhos. Virando-se para falar com . – Quem vai desistir?
- Se apenas uma de nós desistir do teatro, , você ainda vai ter que convencer a a desistir. E acho que não seria agradável de sua parte fazer isso. – Ela cruzou as mãos sobre a mesa e abriu um sorriso meigo para .
- Então duas desistem. – A brutamontes respondeu, como se fosse óbvio e se virou para . – Que tal você? Por que você não tenta uma ioga ou algo do tipo? Ouvi dizer por aí que você é muito nervosinha.
- Eu achei que estava em uma escola, e não num spa. – respondeu, seca e sarcástica, deixando claro para que ela não abriria mão do teatro.
- Tá, olha, isso não precisa dar problema, não é? – Perguntou , tentando acalmar os ânimos ali. – Hey, ! – Ela chamou a garota que estava passando por nossa mesa naquele exato instante.
A garota deu uma guinada e estancou no lugar, olhando para nós em seguida. Não conseguia entender como uma garota tão linda como ela podia ter aquele olhar. Quero dizer, meu Deus, ela é linda demais! Mas aqueles olhos chegavam a doer, ao serem encarados. Era como se ela estivesse tão morta que nem seus olhos tinham mais vida. Ela era... Fosca. Não brilhava nada, nela. Nenhuma faísca de vida.
- Sim? – Ela chegou perto, meio receosa. Sua voz, no entanto, era tão hostil quanto a de . Era quase engraçado ver como ela era… selvagem. Como se o mundo fosse uma selva e ela precisasse sobreviver a qualquer custo.
- Estamos... Discutindo sobre a questão do teatro. – sorriu, empurrando a cadeira da frente com o pé, meio que a convidando para sentar-se conosco.
- Ah. E vocês já chegaram a um acordo? – Quis saber.
- Você podia fazer parte do coral, ou algo do tipo. – sugeriu a ela, que a lançou um olhar cheio de faíscas.
- Está caçoando de mim?
- Não! Claro que não. – riu. – Eu só quero dar opções a vocês. Eu quero muito entrar para o teatro.
- Por quê? – Perguntei, não aguentando mais aquela menina perto de mim. – Você quer aprender a fingir melhor que não é apaixonada por seu amiguinho?
- O quê? – A voz dela subiu duas oitavas. – Por favor, princesa, não seja tão ridícula.
Revirei os olhos. Quem ela achava que estava enganando? O tapado do Harry tudo bem, até minha bisavó conseguia enganar ele, mas, por favor, ela estava falando com outras garotas. E as garotas percebem tudo. Mas, espera, não é o que consideramos garotas, então está justificado. Ela simplesmente não sabia das nossas regras.
- Enfim. – bufou e mordeu outro pedaço de sua cenoura em palitinho.
- Não abro mão do teatro. – disse, encostando-se à cadeira e cruzou os braços, com um sorrisinho mínimo, mas desafiador.
- Nem eu. – Falei, rapidamente e decidida.
- Teremos um problema. – concluiu, categoricamente.
- Mas não queremos problema. – reforçou.
- Claro que não. – Sorri fraquinho e me coloquei de pé, com uma ideia em mente. – Com licença.
- Aonde ela vai? – Ouvi perguntar, mas não teve resposta. Saí pela saída lateral do refeitório, que dava para um corredor que ia parar justamente na porta de vidro do prédio da biblioteca.
As portas se fecharam atrás de mim e eu me pus a caminhar em direção à biblioteca, disposta a terminar com aquilo de uma vez por todas. Ouvi as portas se abrirem e a voz irritante de se fez ouvir.
- Aonde a senhorita pensa que vai? – Ela quase gritou, correndo até mim. Apressei o passo, sem correr.
- Eu? A lugar algum.
- Uhum, e eu vou para Nárnia. – ironizou.
- Vá e nunca mais volte. – Sorri, rebatendo seu desaforo.
- Você não vai colocar seus nomes lá. – Disse ela, entendendo meu plano.
- Ah é, e quem vai me impedir? Você? – Parei de andar e girei nos calcanhares, dando de cara com ela, que me encarava de cima, por ter dois centímetros a mais que eu.
- Você quer apostar? – Desafiou.
- Ei, ei, ei. Nada de brigas! – veio correndo até nós, com e, pasmem, atrás.
- Essa vaca ia colocar os nomes de vocês, achando que eu não ia perceber! – parecia ofendida.
- Vaca foi a mulher que te colocou nesse mundo! Eu não ia fazer nada demais!
- , por favor. – me lançou um olhar repreendedor.
- É, , por favor. – abriu um sorrisinho.
- Argh, eu não aguento mais você, ! – Gritei, controlando a vontade de bater nela. Girei nos calcanhares e saí do abrigo do telhado do corredor, indo para o gramado, em direção aos dormitórios.
- Eu que não te aguento mais! Primeiro você pega o meu quarto, depois me leva pra detenção e fala que eu gosto do Harry! Que saco, você!
- Eu não falei nada sobre o Harry, Enfant. – Não me contive e virei para ela, que vinha atrás de mim. Ela parou de andar e ficou sem fala por dois segundos de estática. – Você é tão patética que nem sabe gostar de um menino, tenha dó. – Revirei os olhos e voltei a andar.
Cheguei ao chão pavimentado do pátio, onde o busto horroroso do cara que fundou a escola estava exposto. Cortei caminho, atravessando o grande círculo de cimento. Senti um par de mãos em meu ombro e fui empurrada para frente com força, indo contra a escultura de pedra negra. Estiquei os braços e me segurei nas bordas do pedestal que sustentava aquilo antes que meu rosto se chocasse contra o mármore.
- Você ficou louca? – Gritei, quando me recompus e vi atrás de mim, bufando de ódio.
- Nunca mais ouse me chamar de patética, ! – Ameaçou ela, tirando o cabelo do rosto.
- Vocês duas podem, por favor, parar? – pediu, estarrecida.
- Pede para a sua amiguinha, aí! – gritou com ela.
- Não grita com ela! – Berrei.
- Sabe o que eu acho, todas vocês estão loucas! – gritou, querendo dar um basta na discussão.
- Fica na sua, Che Guevara! – apontou para .
E então começou a confusão de verdade. chegou mais perto de e achei que as duas fossem se bater, mas elas apenas começaram a discutir e aí eu ouvi meu nome no meio.
- O que tem eu? – Eu perguntava ao mesmo tempo que tentava separar e , enquanto as duas gritavam coisas que nem eu mesma que estava perto conseguia entender. Ouvi a voz da garota sinistra, a , algumas vezes, baixinho, pedindo para que parássemos, mas ninguém realmente queria dar o braço a torcer ali.
- Vocês podem parar? – pedia, ficando cansada. Segurei-a pelo braço e a coloquei perto de mim, preocupada com o estado dela. Não era saudável que ela se irritasse tanto.
- Só porque você é amiguinha da patricinha irritante você acha que pode vir aqui e apontar o dedo na minha cara, garota?! – berrou.
- Já chega! – se colocou no meio das duas e abriu os braços. – Chega!
Nisso, e , perdendo o equilíbrio quando as afastou, apoiaram-se na estrutura de mármore, e ela caiu no chão com o baque. Todas nós ficamos em um silêncio mortal, observando a cabeça do fundador da escola balançando até parar, apoiada pelo nariz no chão.
- Ai meu Deus. – foi a primeira a falar, soltando o ar pela boca numa lufada só.
- Estamos ferradas. – foi a próxima.
- Vamos levantar isso, gente! – ficou de joelhos num piscar de olhos e fez o mesmo, enquanto nós três ainda estávamos chocadas demais.
- Você é uma gorda, ! Você deixou o busto na beira quando caiu em cima dele na primeira vez! – murmurou.
- Eu sou gorda? Ou você que é agressiva demais?!
- Gente! – gritou, já do lado das meninas. – Não estamos mais na hora de briga, vamos colocar isso no lugar.
Assentimos e fomos ajudar a levantar. Com esforço, já que aquela coisa era pesada, conseguimos colocar o busto de volta em seu pedestal, bonitinho. As meninas começaram a se afastar quando eu pisei em algo e não era uma pedra, porque o pátio era pavimentado e não havia pedras ali. Peguei o celular e me agachei para poder ver melhor e amaldiçoei a nossa sorte por aquilo.
- Gente? – Chamei.
- Que é agora, ? – bufou e chegou primeiro, por estar mais perto de mim. Ela agachou e eu iluminei o pequeno pedaço de mármore para que ela pudesse ver. – Ah, droga. – Trocamos um olhar cúmplice e preocupado. – Droga, droga, droga. – Ela pegou o nariz na mão.
- O que foi? – parecia impaciente. levantou a pedra e levou a mão à boca.
- O que a gente faz agora? – Perguntei.
- Colar com chiclete não é realmente uma opção, é? – se pronunciou depois de alguns segundos de silêncio coletivo e tirou uma cartela de chicletes do bolso da saia. Tentei ignorar o fato de que eram aqueles chicletes que ajudam a combater o vício da nicotina.
- Não temos escolha. – arrancou a cartela da mão dela e destacou um chiclete dali. Apertou minhas bochechas e enfiou a goma na minha boca.
- Ei, por que eu?! – Perguntei, cuspindo de volta a pastilha de chiclete na mão.
- Anda logo, Cas! – agitou as mãos, olhando em volta.
Suspirei e coloquei aquilo na boca, mastigando rapidamente.
- Só um é suficiente? – Perguntei, cuspindo o chiclete na mão e coloquei na base quebrada do nariz do cara.
- Muitos deixariam um aspecto grotesco. – Disse .
Assenti e apertei o nariz quebrado contra o rosto do busto. Meu Deus, que isso dê certo!, implorei. Soltei cuidadosamente e soltei um gritinho quando ficou, mas enfiou aquela mão horrenda na minha cara e tapou minha boca.
- Vamos sair daqui. – Disse , quase sussurrando. – Biblioteca.
Todas assentimos e seguimos em um pequeno grupinho para a biblioteca. Nela, havia uma antessala, que meio que precedia de verdade a biblioteca. Ali era a ala comum da escola, tinha vários sofás, pufes, mesinhas, uma máquina de café em um canto e até mesmo uma lareira. Todos ficavam ali jogando conversa fora nos momentos livres como horário de almoço e janta. Sentamos no jogo de sofás mais afastado. Ninguém queria dizer nada, ainda mais com os olhares curiosos que recebíamos dos alunos. Éramos o grupo mais improvável daquela escola. A começar por , que sentava exatamente ao meu lado, separando-me de , que fitava o chão e somente ele. E então tinha a , que apesar dos pesares, não era tão estranha assim, e . Essa sim daria o que falar.
A melhor amiga de Harry Styles. A meia-irmã de Liam Payne. As inseparáveis e . E , a Freak. Todas juntas, na ala comum da escola, todas tensas e silenciosas.
- O que acontece se descobrirem? – Perguntei baixinho. O silêncio sempre me matava mais que os motivos dele.
- No mínimo seremos suspensas. – Disse , fitando todas nós agora.
- Não posso ser suspensa! – protestou.
- Não começava com a encrenca então! – sibilou, chateada.
- Olha aqui... – se exaltou, mas eu segurei seu ombro, pedindo por um pouco de paz naquele momento.
Seria cômico, se não fosse trágico: eu pedindo a que não brigasse.
- Ninguém vai contar, certo? – Aquilo não foi uma proposta, foi mais uma intimação. – não pode ter mais uma suspenção e o resto de nós não queremos ganhar um problema desse porte, não é?
- Não. – e responderam automaticamente. Não sabia os motivos de , mas queria se candidatar a líder do Grêmio e tenho certeza de que não poderia se descobrissem que ela estava envolvida naquele acidente.
Olhamos para , que se pôs ereta no sofá, alerta com tantos olhares para ela.
- Não vou contar. – Garantiu, com a voz dura e vazia.
- Ótimo. – Suspirei. – Vamos torcer para que não descubram. E... Eu não quero mais fazer teatro, então... – Sorri brevemente.
- Nem eu. – confessou, baixinho. – Acho que depois disso...
- Depois disso tudo você me vem com essa? – inclinou-se para frente, indignada.
- Desculpa, gente. – deu um sorriso sem graça. Sabe que sorrindo ela era até bonitinha?
- O que passou, passou, gente. Agora está feito. Pelo menos não teremos mais brigas por causa disso, certo? – interviu. – Eu preciso dormir. – Ela se levantou com a mão na cabeça e seguiu para a porta da saída. Levantei-me também e fui atrás dela, dar-lhe apoio.
’s POV
Pelo menos os diretores daquela porcaria tinham bom senso em nos dar o primeiro fim de semana livre. Então no sábado de tarde, logo depois do almoço, eu e Louis já estávamos prontos, esperando o Harry terminar de se arrumar para sair.
- Qual é, vai dar uma de noiva? – espiei para dentro do banheiro de seu quarto, que estava com a porta entreaberta.
- Já saio!
- Você disse isso há dez minutos atrás – Louis disse, deitado na cama encarando o teto com as mãos debaixo da cabeça.
- Qual é? Não é como se algum de vocês fosse ter um encontro.
- Viu como ele acha que é a última bolacha do pacote? – Olhei para Louis e ele me olhou de volta e riu, assentindo.
- Por que vocês não vão sem mim já que estão com tanta pressa?
Eu e Lou nos entreolhamos e demos de ombro, indo para a porta.
- Ei!
- Sai logo, assim ele se sente obrigado a sair também – Louis sussurrou me empurrando e sorri, saindo do quarto e carregando o skate debaixo do braço.
Harry acabou nos alcançando assim que saímos do prédio do dormitório, com uma camisa do Nirvana, como se ele escutasse aquele tipo de música. Harry era um idiota.
Um fluxo de alunos saía pelo portão enorme da escola, então era necessário se esquivar de um ou outro de vez em quando. Sem querer, ao desviar de um grupo de garotas, esbarrei com alguém e respirei fundo, me preparando para o comentário engraçadinho ao ver que era Sally Hyland.
- Ei, , o certo é se levar a bolsa debaixo do braço... ah, espera! Você não usa esse tipo de coisas. – Disse a garota, sorrindo.
Parei de andar.
- Ei Sally, o certo é usar o cérebro dentro da cabeça, e não um sutiã de enchimento! – Respondi, a fazendo revirar os olhos e se afastar, rebolando para longe. Ficamos parados por um momento enquanto eu imaginava arrastar os cabelos de Sally no chão, e como isso seria genuinamente legal.
- Seria errado se eu enfiasse a minha mão na cara dela fora dos muros da escola?
- Só finge que você é uma moça educada e ignora. – Harry riu fraco e deu um soquinho em meu ombro, seguindo em frente.
- Mas eu sou super educada! – Exclamei, fazendo Harry gargalhar, como se fosse uma piada. Talvez fosse, mesmo.
- Vamos lá – Louis me deu um tapinha no ombro.

Logo que saímos definitivamente de dentro dos muros do St. Bees, entramos no táxi que nos esperava, e o taxista parecia tão chateado com a demora de Harry quanto nós.
Ao chegarmos em Carlisle, descemos pouco antes de chegar ao centro, pois não era lá que queríamos ir. Era um dia bonito e ensolarado, e sendo uma coisa muito rara na Inglaterra, decidimos aproveitar um pouco em um parque ao ar live. Ainda era cedo, e aquele era o melhor lugar para estar. Então, depois de um tempo em que conversávamos sobre as nossas esperanças para esse último ano no colégio, enquanto eu deslizava tranquilamente na pista com o skate e ouvia os dois garotos sentados no banco mais próximo, Harry decidiu que queria tentar andar também. E aquilo, eu sabia, seria um desastre.
- Ah, Styles, você é que deveria me ensinar, não acha? – reclamei, estendendo minha mão para ajuda-lo a levantar.
- Eu vou conseguir.
- Sim. Quando eu tiver cinco netos. – Louis suspirou, se deitando no banco do parque de novo.
- Louis, seu imprestável, pelo menos eu estou fazendo alguma coisa!
Gargalhei.
- Não leva pro lado pessoal, Curly boy. - Avisei.
- Sim, você está tentando quebrar o nariz. Acho melhor você desistir, Harry. Contente-se com o fato de que você não pode ser bom em tudo.
Eu pude imaginar a careta que Harry fez sem nem olhá-lo. Eu sabia bem, por anos de experiência, que ele odiava que o dissessem que não podia fazer algo, apesar de que, nesse quesito, ele não conseguiria de jeito nenhum.
Peguei o skate e subi em um dos lados da rampa. Pisei na parte da frente do skate e ele se deitou, escorregando rampa abaixo até subir no outro lado e parar lá em cima, fazendo meus cabelos voarem no trajeto. Honestamente, eu era boa em qualquer tipo de esporte, mas o skate era o que me fazia sentir mais livre, desde que eu era criança.
- Leva essa bunda gorda pra pista e não sai de lá até acertar. – entreguei o skate para Harry outra vez e o empurrei para frente. Sentei ao lado de Louis e observei.
- Ele vai cair de novo – Louis disse para mim e assenti, sorrindo e olhando para o garoto tentando fazer o que eu fiz há segundos atrás.
- Vai.
- Quando você acha que ele vai desistir? – ele bocejou.
- Quando quebrar um braço. – dei de ombros e ouvi o barulho do skate caindo outra vez. Louis balançou a cabeça e gargalhou, batendo palmas para o tombo da vez.
’s POV
- Meu Deus, ! Olha essa cor! – Mostrei a ela um estojo de maquiagem que tinha um blush perfeito para a minha pele douradinha como se fosse um dia quente de verão e o sol beijasse minha pele delicadamente. Ok, exagero, mas eu sou mais bronzeada que muita gente que vive no norte da Inglaterra. Reclamam que em Londres não há sol; experimenta morar em Carlisle.
olhou o que eu mostrava e riu.
- É linda, você deveria levar!
- E vou! E você? Não vai levar nada? – Olhei para as mãos dela, que não tinham nada, apenas o casaco vermelho xadrez que ela havia usado na escola já que viemos diretamente para cá.
- Não, estou bem. Você que precisa de maquiagem depois que a...
- Não. Nem termina. Não diz o nome dela que é capaz do bicho aparecer por aqui! – Levantei as mãos em sinal de “STOP”. – Não estrague um dia perfeito de compras falando o nome da Enfant.
franziu o cenho.
- Enfant? ? – Ela perguntou, parecendo juntar os pedaços e eu sabia que ela ia me repreender por isso. Porque eu pelo menos tinha uma amiga que tentava me manter gente, enquanto a outra lá tinha o macaco do Harry, que ria das piadas infames que ela fazia. Ew. – ...
- Eu sei, , mas esse ano ela está me chamando de princesa! Você sabe como eu odeio esse apelido! O Owen me chamava assim! – Choraminguei.
- E por isso você revida... Chamando-a de menino?
- Menininho. – Corrigi, levantando um dedo enquanto esperávamos na fila para ser atendidas. – De que lado você está, ? Poxa, aquela menina faz da minha vida um inferno desde que nos conhecemos. Ela se acha dona do mundo só porque é amiguinha do Harry Styles e pode me dizer o que bem quiser? Não é assim que as coisas funcionam!
- ...
- Não, ! Se ela quer guerra... Vamos ter guerra. Eu mereço um pouco de respeito. A começar por um pouco de espaço no meu próprio quarto!
- Quanto drama, . – Disse por fim, revirando os olhos. – Sonho com o dia em que vocês duas vão sair andando pela escola de braços dados, rindo como boas amigas, cantando U2.
Quando ela falou U2, eu não me aguentei e soltei uma gargalhada gostosa, apoiando-me na minha amiga para não cair.
- Não ria! O Bono é um cara legal! – defendeu.
- Não... Ah, . Espere sentada por esse dia, porque não quero que você canse.
- Cansada está a atendente que está te chamando pela terceira vez, , walk! – Ela me empurrou pelo ombro.
- Rá, rá, rá! Que piadinha mais hilária, ! Como você é engraçada! – Ironizei, enquanto colocava os produtos no balcão. A moça sorriu, simpática, e começou a passar as coisas.
Eu estava guardando o cartão de crédito na carteira quando me cutucou nas costelas, fazendo-me rir um pouco. Dei um tapa em sua mão e ela me cutucou de novo, no braço. Ela apontou discretamente para a vitrine da loja. Olhei para lá e vi aquele rosto. O bad boy. Como era o nome? Todos estavam falando dele, eu deveria lembrar... Hm, Zayn? Isso! Zayn Malik. Então, o Zayn Malik estava fora da loja, olhando diretamente para nós, com alguma coisa no olhar que me fez prender a respiração enquanto um calafrio percorria minha espinha. Ele sorriu de canto e se virou, indo embora, com as mãos nos bolsos. Virei-me para , confusa.
- O que foi isso? – Perguntei, sem entender nada. Peguei minha sacola com minhas coisas e puxei para fora da loja, olhando para os lados, procurando o creepy bad boy.
- Ouvi dizer que ele observa e segue suas vítimas antes de estuprar e esquartejar para dar de comida para os cachorros.
- Ui, está chamando a atenção de psicopatas? Tá podendo, hein gatinha? – Pisquei para ela, dando meu melhor olhar de “minha amiga arrasa”.
- E quem disse que ele estava olhando para mim? – O sorriso no rosto dela era indescritível, quase vitorioso.
Fechei a cara para a ideia. Era simplesmente assustador. Ela não podia estar sendo séria. Digo, sobre nada! Nem mesmo se ele estivesse interessado nela, isso não é coisa que se diga sobre alguém com tamanha naturalidade. Eu podia estar em risco. Ela podia!
- Não tem graça, . – Falei, fazendo um biquinho, enquanto ela teve um acesso de riso.
- Errado, : isso é hilário! – Ela disse entre uma risada e outra.
Revirei os olhos, arrastando minha amiga comigo, perto, olhando para todos os lados. Não era possível que eles deixassem um psicopata entrar na escola, certo? Certo?! Ótimo, colocou isso na minha cabeça. Ótimo, nunca mais vou poder olhar na cara do garoto. Ótimo.
- Eu quero um milk-shake, vamos. – Falei, atravessando a rua com ela no meu encalço, ainda se recuperando do momento.
Não precisamos andar muito até achar uma sorveteria, pequena, ao lado de uma igrejinha protestante na esquina de uma rua. Estava escurecendo e, por nada, mas a igreja ficava um pouco assustadora daquele ângulo. me puxou para dentro, indo direto para o balcão fazer os pedidos enquanto eu fui me sentar na mesa do canto, perto da vitrine, que exibia alguns doces e opções de sorvete.
Lá fora, a cidade se preparava para a vida noturna que, sinceramente, é o modo de sobrevivência de pelo menos nove em cada dez cidades do interior da Inglaterra. Os pubs acendiam suas luzes neon, as lojas de souvenires colocavam ainda mais objetos curiosos em suas vitrines e as luzes do castelo eram acesas. Todos queriam ver o castelo.
Vi , Harry e Louis subirem a rua, passando reto pela sorveteria, sem me reconhecer na vitrine, graças à minha tentativa de passar despercebida que nunca falha: virar o rosto na hora. Eles entraram em um pub, rindo como os loucos que eram. Suspirei, lembrando-me da raiva que aquela menina me fez passar e olhei para minhas mãos, tentando pensar em outra coisa.
- Eu pedi iogurte para você, porque eu sou uma amiga linda e sei que você ama. – se sentou à minha frente, colocando meu frozen yogurt na minha frente e puxou seu milk-shake para si. Nós fizemos um brinde e comemos, falando sobre trivialidades da vida.
Harry’s POV
Eu e Louis ficamos sentados debaixo de uma árvore comentando sobre alguma coisa vez ou outra enquanto andava um pouco mais de skate. Dias razoavelmente ensolarados eram raros para nós, ainda mais se fossem fins de semana, então era preciso aproveitar, e sabia o quanto ela gostava de fazer aquilo. Além disso, na escola não havia pista de skate.
Enquanto a observávamos, eu ficava me perguntando como ela conseguia ter aquela disposição natural para qualquer tipo de esporte. Eu tinha que admitir, por mais que meu orgulho ficasse ferido, que minha amiga era melhor em esportes em geral do que eu. Eu não entendia como conseguia ser um homem melhor do que eu, era frustrante, mas ao mesmo tempo admirável.
Por fim, quando começou a escurecer resolvemos sair dali e procurar um tipo de programa que todos nós pudéssemos participar. Um dia fazendo nada pelo simples prazer de estar com os amigos em Carlisle era como remédio para nós, que passávamos o ano todo presos dentro dos muros de St. Bees.

Entramos e nos aproximamos do balcão, cada um pediu alguma coisa e ficamos por ali por mais um tempo. Alguns alunos estavam ali também, era um lugar bastante frequentado por estudantes no fim de semana, e pude reconhecer um em especial sentado em uma mesa no canto escuro do bar com uma menina praticamente em seu colo. Zayn Malik. O babaca que chegou achando que mandava em algo no meu colégio.
Tentei ignorar sua presença, apesar de que, eu precisava admitir, era meio impossível ignorá-lo quando estávamos no mesmo local porque ele simplesmente me tirava do sério.
- Então. – Louis disse, depois de pedir uma cerveja para cada. – Quem vai com quem no baile de outono?
- As aulas mal começaram e você já está pensando no baile? Vai com calma, cara. – deu um tapinha em seu ombro, e Louis deu de ombros.
- Eu tenho que começar a pensar agora, ou quando chegar lá não vai ter sobrado mais ninguém.
- É, mas por que a gente não pode ir em grupo como sempre foi? – Comentei, dando de ombros e pegando uma das garrafinhas de cerveja quando o barman entregou.
- Porque, Harry, você sempre encontra uma garota nos primeiros cinco minutos da festa e a gente acaba sobrando pelo resto da noite. – Louis disse e me olhou, entediado. Franzi o cenho, mas depois abri um sorriso de canto. Era verdade.
- Ok... então vão juntos. – Dei de ombros. – É mais fácil do que vocês dois acharem um par – debochei e ri, e olhei dele para . – Além disso, vocês se suportam, já é uma grande coisa.
- Tá vendo? Ele achando que é a última bolacha do pacote de novo? – apontou para mim e a empurrei fraco. – Fique sabendo que se eu quiser encontrar um par eu vou encontrar um par, Harry Styles. – Ela me olhou, vangloriando, e arqueei uma sobrancelha tomando um gole da cerveja.
- É, mas ameaçar bater no cara não vale. – Ri. – Além disso, metade dos caras que você convidassem iriam por medo.
me olhou por um segundo, piscando.
- Qual é... – Balancei a cabeça. Odiava quando ela fazia aquilo. – Não aja como se eu não tivesse razão. – Pisquei para ela. Todo mundo sabia que afastava os garotos.
Aí ela abriu um sorriso cínico e bateu sua garrafa intocada no balcão.
- Muito obrigado, senhor da verdade. – falou e, em seguida, deu meia volta nos calcanhares e saiu do bar.
- O que foi que eu fiz? – levantei os braços olhando para Louis.
- O que você acha, gênio? Não parece, mas ela ainda é uma garota, lembra? – Louis revirou os olhos. – você não pensa, Harry. Na boa.
Vez ou outra reagia de forma exagerada a um comentário inocente que eu fazia. Era assim desde, sei lá, quando começamos a crescer e, quando ela não gostava de algum comentário meu sobre ela, decidia bater o pé e ir embora. Devia ser TPM, ou sei lá, mas eu sempre ficava pensando o que ela achava que eu havia falado de errado. Éramos melhores amigos e eu gostava de ser honesto com ela, como sempre fui! Na maior parte do tempo ela levava na boa, mas às vezes fazia uma cena e ia embora. Aí, um dia depois, voltava a me procurar normalmente, então seguíamos a vida.
’s POV
Não entendo porque eu não havia nascido um homem de uma vez. Só nasci mulher para ter as coisas ruins desse sexo, como menstruar, ter cólica, tirar a sobrancelha e fazer depilação. Ah, sem contar a pior parte: sentir os hormônios pulando dentro de você quando um cara gostoso passa.
Tipo Zayn Malik.
Não, fala sério. De verdade. Ele era uma coisa de outro mundo, nunca alguém como ele pisou no St. Bees. Ele era um completo babaca, isso já podia-se perceber desde o seu primeiro dia, mas acho que era esse o charme. Ele parecia exalar algum cheiro irresistível ou sei lá. Todo mundo virava o rosto para olhar quando ele passava. E, Deus, eu nunca havia sentido aquilo por um cara antes, era assustador. Eu sabia que era puramente físico, quer dizer, não estava caindo de amores por ele, não era uma paixão platônica ou sei lá o quê. Mas, cara, eu o queria. Muito.
Quando o vi na detenção eu não conseguia parar de encarar. Percebi naquele momento que, de todos os caras no colégio, aquele foi o primeiro que teve minha atenção, e eu o queria, mas aí meus amigos faziam comentários como os de Harry, como que para me lembrar de quem eu era, e eu sentia vontade de explodir.
Saí do bar depois do comentário infeliz de Styles, minha noite havia acabado por ali. Enquanto caminhava até um ponto de táxi, minha mente girava em busca de alguma solução para o que eu estava sentindo.
Eu vira Zayn no bar assim que chegamos, e como sempre, não consegui parar de encarar por um tempo. Quando a garota que estava quase dando para ele, diga-se de passagem, foi embora, eu pensei por um segundo apenas em me aproximar. Mas aí eu quase ri de mim mesma, ia ser uma humilhação pública horrível. Eu não tinha a mínima ideia de como se aproximar de um cara como ele.
Entrei em um táxi que estava parado e dei o endereço da escola, e enquanto ele andava, pensava no que Harry havia dito sobre mim. Reconheci dentro de mim um pouco de ressentimento, como geralmente era. Mas aí eu percebi que sabia o que tinha que fazer para me sentir bem outra vez. Eu precisava provar que ele estava errado.
E, tudo bem, eu não era feminina, eu não era bonitinha e não fazia a mínima ideia de como seduzir um cara, esses dotes não estavam no meu DNA. Mas uma coisa eu tinha. Eu tinha persistência, foco e determinação, e eu tinha a capacidade de conseguir o que eu queria, fosse o que fosse. E, se eu conseguisse encarar aquilo como mais um jogo e Zayn como meu prêmio, então eu conseguiria alcança-lo, uma hora ou outra e de um jeito ou de outro.
Tudo que eu sabia era que eu precisava ter aquele garoto. Como, ainda não sabia. Mas eu o teria.
Zayn’s POV
Carlisle tinha uma vida noturna agitada e aquilo estava me agradando. O pub estava lotado e bem frequentado por algumas garotas indiscutivelmente gostosas. Se eu parasse para puxar um pouco da memória sobre alguma delas, lembraria de tê-las visto na escola.
- Gostei do seu cabelo. – Disse a garota que eu havia arranjado como acompanhante para aquela noite. Ela até era legalzinha, beijava bem e ficava se esfregando em mim sem que eu tivesse que me esforçar muito. – Parece uma onda de piche.
Olhei para ela, indignado com o comentário. O que aquela garota tinha de beleza tinha de acefalia.
- Você é mais interessante calada, me chupando, sabia? – Murmurei, a contragosto e ela me olhou meio assustada, meio ofendida, não sei, não me interessava. Mas por fim abriu um sorriso safado e se apertou mais contra meu corpo. Vadia. – Traz um shot pra mim.
Sem hesitar, ela foi, rebolando por entre a multidão. Acendi um cigarro e traguei, observando a movimentação do lugar. Avistei, indo para a saída do bar, a amiguinha do Styles. Ela me lançou um olhar, meio perdida, como se pensasse em outras coisas enquanto me fitava. Deixei que prosseguisse com sua observação, aquela situação era divertida e massageava meu ego... Apesar de aquela garota ser... Aquela garota.
- Aqui está. – A garota voltou com meu shot de tequila e eu o virei no mesmo segundo. Apaguei a ponta do cigarro no copinho vazio enquanto a menina se encaixava entre minhas pernas novamente. – Então... – Ela começou, mas perdi o foco dela quando meus olhos captaram a imagem dos cabelos vermelhos dirigindo-se para o centro da boate.
Ela subiu no palco que havia ali e rodou na barra de pole dance, rindo um pouco. O palco não era distante da minha mesa, eu estava assistindo aquilo de camarote. Ela se soltou da barra e começou a se balançar no ritmo da música, enquanto uma aglomeração se formava à sua volta basicamente por marmanjos necessitados.
Mandy sugou meu lábio inferior e abriu um sorriso, olhando-me nos olhos..
Afastei a morena de mim para poder focar melhor a fantasia que via. Sua mão esquerda segurava seu cabelo para que não caísse nos olhos enquanto a direita passeava por seu corpo, apertando coxa, cintura e seio, descarregando ali o desejo que eu sabia que se formava nela quando dançava daquele jeito. Seus quadris balançavam de um lado para o outro, como um pêndulo, me hipnotizando.
- Você gosta disso, gato? – Sugou-o de novo. Reprimi um gemido; aquela garota simplesmente me levava à loucura...
Não conseguia desviar meus olhos. Ela estava ali, era real de novo e não uma projeção de um dos meus sonhos mais imundos. Ela, a protagonista das minhas maiores fantasias, a garota que eu quis tanto de volta para mim estava ali, rebolando seus quadris deliciosos a alguns metros.
- Geme para mim, gato. – Ela rebolou em meu colo, esfregando-se em mim, animando meu amigo. Dei um basta às provocações dela e girei-a na cama, ficando por cima. Arranquei as roupas íntimas dela e abocanhei seu pescoço, começando a minha diversão.
Desceu até ficar de joelhos na mesa e depois ficou de quatro, empinando a bunda quando jogou o cabelo para a trás, fazendo sua plateia ir ao delírio. Ela abriu um sorriso tão genuinamente safado que eu não tive dúvidas: ela não estava bêbada. Ninguém a conhecia como eu, cada detalhe daquele corpo esculpido já esteve sob minhas mãos. Engatinhou até chegar em um cara e o beijou com violência, típico dela. Eu o reconheci. Mauricinho engomado.
Como um soco na boca do estômago, meu sangue ferveu em minhas veias e minha visão ficou vermelha. Aquela vadia filha da puta! Desgraçada! Seus olhos se abriram no meio do beijo e ela focou diretamente em mim, aquela diversão maníaca flamejando, queimando seus olhos e minha alma, enquanto ela enfiava a língua na garganta do playboy.
Não acreditava no que via. Aquela vadia estava me esnobando?
Olhando mais um pouco em seus olhos tempestuosos, eu me dei conta de algo, algo muito bom.
Abri um sorrisinho quando ela afastou o cara apenas para respirar e tirar a jaqueta de couro que usava, depois voltaram a trocar saliva.
- Você não perde por esperar, Amanda .



Capítulo 4


’s POV
Quando eu acordei no domingo, minha roommate já havia saído do quarto. Eu gostava de acordar um pouco mais tarde por isso. Era sempre ótimo ter o quarto para mim. Antes eu dividia com , mas agora dividia com a Srta. Fantasma. Chamo ela assim porque só a vejo quando acordo muito cedo e quando vou dormir, porque ela também dorme cedo.
Fui para o banheiro com calma e troquei de roupa, escovei os dentes rapidamente e saí do quarto, abraçando meu próprio corpo agasalhado por meu casaco favorito de lã.
Era outono na Inglaterra – e no resto de todo o hemisfério norte. O sol apareceria mais vezes, mas ainda haviam manhãs premiadas para fazer aquele frio terrível. Esse domingo era um desses dias. Apesar de tudo, ainda era uma manhã como qualquer outra. O colégio estaria vazio até umas dez horas da manhã, quando a maior parte dos alunos teria acordado de verdade e sairiam de seus quartos em direção ao refeitório, clamando por comida. E então, de novo, ficaria vazio, porque muita gente ia para a cidade no final de semana.
Atravessei o campus, em direção ao bloco das salas de aula. Meu armário era um dos primeiros, fato que eu vivia por estudar nessa maldita escola desde o ginásio. Abri a porta de metal e tirei minha bolsa de remédios dali de dentro, onde eu deixava meus remédios matinais. Os remédios noturnos ficavam comigo no meu quarto. Fui para o refeitório, em busca de um copo de água.
- Bom dia, . – Disse a Srta. Campbell, quando cruzamos no corredor. Ela estava simples naquele dia, sem seus terninhos e os óculos de armação escura. Era apenas... Uma moça passeando pelo campus.
- Bom dia, Srta. Campbell. – Sorri, constatando mais uma vantagem de ser uma das melhores alunas do colégio. E uma das únicas que queria participar do Grêmio estudantil. Somente os mais aplicados se inscreviam, na verdade, e não havia muito em quem votar, então fazíamos um time com os cinco que se inscreviam, mas esse ano eu tinha a leve impressão de que seria concorrido. Quem estivesse no Grêmio, tinha cadeira reservada na comissão de formatura.
Cheguei ao refeitório e fui direto ao filtro que havia na parede, no canto, com copos em cima de uma pequena mesinha ao lado. Olhei para as pessoas que estavam sentadas nas mesas do lugar enquanto enchia um copo d’água para eu tomar meu remédio.
- Hey. – Falei baixinho, quando me aproximei de uma mesa, perto da parede, embaixo do grande vitral misto que adornava aquele lado do refeitório, as luzes coloridas pintando de uma cor diferente cada pedaço de . Puxei uma cadeira e me sentei.
- Hey. – Ela levantou a cabeça e sorriu para mim, tirando o cabelo do rosto.
- O que está fazendo aqui? Achei que ia passar o domingo com seus pais, como todo ano. – Falei, um pouco confusa com o novo calendário dela. me deu um sorriso murcho.
- Minha mãe está em Bristol. Eles brigaram feio no Natal. Ela está com meus avós, sem previsão para voltar. – Suspirou, olhando para o livro que estava lendo. Olhei o exemplar com um pouquinho de atenção, A Sombra do Vento. Não sabia que ela lia best-sellers. – Por isso meu pai está em Liverpool, trabalhando como um louco. Mandy está em qualquer lugar com Owen e eu estou aqui. – Abriu um sorrisinho no final dessa frase.
- Ah. – Foi tudo o que eu pude dizer para sua breve explicação. Tentei mudar o tópico do assunto para algo menos doloroso. – E a Mandy, como ela está?
- Hm... – Murmurou, antes de olhar em volta. Isso, , um assunto menos doloroso, huh? – Ela está bem, digo... Hm, ela e Owen estão mais firmes que nunca.
- Bom... – Pensei rápido, tentando achar algo bom para dizer no final de tudo isso. – Pelo menos ele não está mais com cara de quem vai trair.
E ponto para ! Parabéns por dizer a coisa mais estúpida da sua vida para sua melhor amiga!
- Sinceramente? Ele está com cara de quem vai morrer, se não parar de usar aquelas coisas nojentas que ele usa.
- Ele ainda está usando drogas? – Abaixei o tom de voz, quando ouvi alguém entrar no refeitório. olhou por cima do meu ombro e assentiu, voltando a olhar para mim.
- Acho que agora ele só cheira, mas ainda tenho minhas dúvidas. Quando Amanda traz ele para casa, o cheiro de maconha ainda está impregnado nele. – Disse ela, olhando fixamente para seu livro.
Senti meu coração se partir em dois. Ver como ainda notava em todas essas coisas de Owen me fazia querer quebrar a cara dele. Quebrar em mil pedacinhos, depois juntar tudo e jogar no lixo, que era onde ele merecia estar. Ao invés disso, coloquei minha bolsinha de remédios em cima da mesa e cheguei mais perto para ler o que ela lia.
- Eu odeio você, não consigo mais ver o garoto sem achar que ele é psicopata. – Ela sussurrou assim que puxei a cadeira e me sentei ao lado dela, estávamos bem perto.
- O quê? Quem? – Levantei o olhar e olhei em volta, encontrando menos pessoas do que da última vez que olhei. Apenas um loirinho sentado exatamente do outro lado do refeitório, parecendo escrever alguma coisa, uma outra garota em seu notebook e o tal do Zayn Malik, parecendo quase dormir no lugar onde estava, mas hora ou outra tirava o celular do bolso para ver alguma coisa. – Ai meu Deus, . Isso é patético!
- Não é patético quando ele realmente encaixa nos padrões de um maníaco! – Ela devolveu, cochichando.
- Quais são os padrões, ? – Eu quis saber.
- Não sei, mas ele se encaixa! Poxa, ! – Ela choramingou, voltando a olhar fixamente para o livro.
- Quer que eu vá lá perguntar se ele é maníaco? – Propus, fazendo-a arregalar os olhos.
- Não! ! – Ela segurou meu braço com força. – Não.
- Mas ...
- Vamos sair daqui.
- Não, eu vou. Fica aí lendo o livro do vento que tem sombra. – Ri fraco e ela revirou os olhos, mas não protestou. – Vou procurar a , deixei meu fichário com ela na sexta, preciso dele agora.
- Ok. – Ela me deu um sorrisinho pequeno e esticou o pescoço para me dar um beijinho na bochecha. Depois sentou-se normalmente, debruçando-se sobre seu livro e voltando a ler. Dirigi-me à porta do refeitório. – Bom dia. – Disse a Zayn Malik ao passar por ele, com um sorriso enorme no rosto. Ele apenas me olhou por um ou dois milésimos de segundo e assentiu.
Saí do refeitório me sentindo bem. Quem sabe eu não seria a ponte de conexão entre os dois? Não sei que tipo de ideia louca estava se passando na minha cabeça, mas isso parecia possível.
- Hey, ! – Acenei quando a vi saindo da porta do prédio dos dormitórios. Ela me olhou e deu um meio sorriso, se aproximando de mim como um zumbi. Analisei-a de cima a baixo, eu gostava do estilo dela. Aquela calça jeans escura e justa ficava legal com a blusa branca do Pink Floyd e o casaco de mangas ¾ que ela usava, sem deixar de notar, é claro, seu All-Star, meio surrado, os desenhos de caveiras quase desaparecendo. – Você está com meu fichário?
- Hein? – A voz dela estava arrastada. Alguém ainda não acordou... – Ah, sim, está no meu armário. Eles já serviram o café?
- Não. – Segurei as mãos na frente do corpo e sorri para ela, tentando não parecer muito inconveniente.
- Ok, vamos pegar então. – Ela franziu o cenho, parecendo estar acordando aos poucos.
Caminhamos lado a lado até seu armário, as pessoas começaram a aparecer aos poucos, como de costume, já passava das dez horas. Cumprimentei todas aquelas que me olhavam e sorriam. Era algo espontâneo de mim, digo, tentar ser legal. As pessoas não precisavam acordar e logo pela manhã dar de cara com pessoas emburradas e ranzinzas.
- Bom dia, . – Liam apareceu. Liam era dos meus, acordava com um sorriso no rosto. Ele me puxou pela cintura e me deu um beijo na bochecha. – Bom dia... Ah, oi .
- Vai para o inferno, Liam. – Disse ela, enfiada em seu armário, procurando meu fichário.
- Tchau. – Ele arqueou as sobrancelhas e falou baixinho para mim, se afastando depressa.
Havia três pessoas que ligavam eu, e . A garota tinha algum selo negro marcado em , seu melhor amigo, Harry, parecia respeitar as amizades e inimizades da amiga e não falava com também. Mas Louis, Liam e Josh, não se deixavam abalar pelas escolhas de e falavam com a gente numa boa. Bom, pelo menos comigo, numa boa. tenta não falar muito que é para não atrair briguinhas com .
Era um ecossistema muito delicado entre as duas, eu não ousava interferir.
- Hey, , você vai fazer alguma coisa hoje? – saiu de dentro de seu armário, com meu fichário em mãos. Neguei com a cabeça, pegando-o. – Eu... Você poderia me ajudar com literatura? Acho que não peguei algumas das reflexões do professor.
Ri fraco, dando de ombros. E assim passei meu primeiro domingo livre do ano: estudando literatura com . Que não era tão ruim afinal, ela só era... Do jeito dela.
Mas o ano só estava começando.
’s POV
Abri a janela de meu quarto e deixei o sol aquecer minha pele quando sentei no parapeito da janela para olhar lá para fora. Quase ninguém estava ali, todos haviam saído para fazer alguma coisa sem sentido algum fora dos muros da escola. Eu não tinha porque sair.
Peguei um de meus cigarros de emergência, hoje era um dos dias que só aquilo me deixaria mais calma. Era só um dia comum, mas estar ali sozinha enquanto todo o resto do mundo estudantil parecia ter um propósito para aquele sábado ensolarado me fazia pensar, talvez um pouco demais, sobre o que diabos eu estava fazendo. Porque diabos estava ali. E qual era meu plano.
Eu precisava de uma boa festa, decidi. Música alta, pessoas bêbadas e sem um propósito de vida, que não faziam ideia do que estavam fazendo tanto quanto eu. Pessoas que não pertenciam. Alguns remédios desconhecidos e fortes o suficiente e uma garrafa de tequila. Era disso que precisava: me sentir acolhida, estando com pessoas tão perdidas quanto eu.
Encarei a ponta do cigarro queimando e soltei a fumaça, me sentindo mais relaxada. Aproximei a ponta do cigarro do dorso de minha mão, sentindo o calor do fogo, e suspirei, o afastando. Imagine o quão simples seria morrer de overdose, pensei. Tomar algumas pílulas e depois misturar com uma bebida forte, dormir e não acordar mais. Como se fosse uma morte inocente, porque você simplesmente queria apagar. Morrer sem querer, no meio de uma brincadeira.
Esses pensamentos percorriam minha mente às vezes. Houve uma época em que eu não duvidaria de minha capacidade de fazer algo do tipo, mas agora eu tinha minhas dúvidas. Pensava sobre suicídio não porque era suicida, mas porque queria descobrir se podia ser. As pessoas diziam que era meu modo de chamar atenção mas, sinceramente, eu não ligava. Tudo que queria, na verdade, era me tornar invisível. Não queria que ninguém vesse, mas esse tipo de coisa, esse tipo de pessoa como eu atrai a atenção das pessoas. Elas gostam de um bom show de horrores. O que eles não sabiam era que eu era como a maioria deles, mas não tinha medo de admitir, de mostrar. Exatamente como todos eles. Apenas outra pessoa vazia andando no mundo sem propósito. Mais um fantoche ocupando um espaço vago.
Bem, em resumo, meu fim de semana passou assim. Fiquei no quarto, devaneando, entre um ou outro baseado, um ou outro comprimido, e muitos sonhos sem sentido, esperando a segunda-feira chegar e renovar as coisas.
Harry’s POV
Entrei em minha sala de biologia o mais rápido possível, mas ainda assim fui o ultimo, recebendo uma reclamação da professora, e praguejei baixinho ao ver ao lado de quem estava a única carteira disponível. É claro que estava disponível, eu preferia sentar no chão do que ao seu lado.
Fui relutante até lá e me aproximei devagar, para dar bastante aviso de que estava me aproximando para sentar ao seu lado. A Freak, como estão chamando, acho que é o nome, apenas me olhou de canto de olho antes de voltar a olhar para frente escorada na parede ao seu lado, sem nenhum indicio de que estava prestando atenção na aula. Na boa, ela era gata demais! Eu tinha até medo de olhar muito e não conseguir parar, e dar motivos para ela me botar em sua lista negra também. Seus cabelos negros e lisos caiam por seus ombros até a metade do braço, formando uma cortina entre nós e escondendo seu rosto. A sua camisa branca tinha o ultimo botão desabotoado e era mais curta do que a das outras meninas, então quando ela estava sentada, ela subia um pouco, permitindo a vista de sua cintura fina. Os dois primeiros botões de cima também eram abertos, e nunca vi aquele uniforme cair tão bem em uma garota antes. E também tinha o jeito como ela ignorava a meia calça e botava só a saia de pregas, que hoje era cinza, como uma saia de cintura alta, ficando um pouco mais curta do que o normal. Era como se aquelas pernas implorassem, me olhe!
- Você sabe o que tá rolando? – perguntei baixinho perto dela, pigarreando. virou o rosto em um movimento lento para mim, como se não tivesse certeza de que eu estava falando com ela.
- Hum?
Ou talvez ela só estivesse chapada.
- Na aula? O que tá rolando?
Ela olhou para a professora, que caminhava de um lado para o outro na frente da lousa, observando seus próprio rabiscos e esperando algo da turma que estava em silêncio. Acho que a garota também não sabia, pois precisou olhar atentamente para a cena e pensar por um tempo.
- Ele quer uma resposta. – ela respondeu, por fim, chegando a uma conclusão.
- Pra quê?
- Para aquilo – disse, impaciente, e apontou para os rabiscos que, na minha mente, deviam parecer com alguma parte do corpo humano cheia de pontos de interrogação em volta.
- E o que é aquilo?
A Freak suspirou e me lançou um olhar irritado.
- Vai ver é isso que ele quer saber. – foi, claramente, sua resposta final.
Lancei um olhar para seu caderno em branco quando ela voltou a fitar a janela, e percebi que se eu não sabia, sabia menos ainda do que a aula se tratava.
Pelo menos tínhamos algo em comum. Já era um começo. Não que eu tivesse esperanças de ter uma daquelas na minha cama. As garotas com quem eu ficava geralmente não eram tão espertas.
Louis’ POV
- Você o quê? – perguntei a Harry, que chamara minha atenção com sua última frase.
- Eu disse que te inscrevi para a oficina de musica também.
- E você me perguntou antes se eu queria? Porra Harry, não sei tocar nada!
- Você pode cantar, ou sei lá. – ele deu de ombros, saindo do banheiro e vindo até a cama, pegando sua mochila e a jogando no ombro.
- Você nem me consultou antes, cara! – reclamei, me levantando também e pegando minha mochila. – Não vou cantar porra nenhuma!
- Você pode tirar seu nome e se inscrever na marcenaria outra vez, para passar o ano todo fazendo relógios e casas para pássaros. – ele deu de ombros, e saiu do quarto, fui seguindo-o de perto.
- Tudo bem, talvez musica não seja tão mal assim.
- Não vai ser, eu garanto.
- E você vai fazer o que?
- eu sei tocar guitarra. – Ele deu de ombros.
- Não sabe, não. – ri.
- Claro que sei, você já viu várias vezes.
- Louis – ouvi aparecer ao meu lado assim que saímos do prédio dos dormitórios masculinos e senti um tapa forte no ombro. – diz pra ele que saber jogar Guitar Hero não é saber tocar guitarra. – ela disse, me fazendo rir.
- Eu vou provar para vocês dois que sei tocar. – Harry bufou.
Entramos no prédio das aulas e o corredor já estava cheio, as pessoas conversando ao redor de seus armários pegando livros. Eu e conversávamos sobre um assunto qualquer, quando Harry parou de repente no meio do corredor a nossa frente, nos fazendo parar também para não bater nele.
- Aí, vou vazar. – Harry disse, olhando brevemente por cima do ombro. – Não quero me atrasar de novo. – E dizendo isso, apertou o passo para sua sala.
Eu e nos olhamos estranho por um momento.
- Suspeito...
Ri e concordei.
- O que você tem agora?
- Geografia, e você?
- Oratória – revirei os olhos. – Você se inscreveu para algo?
- Eu vou tentar uma vaga no futebol, de novo. Desisti do teatro só para descobrir que a turma da treinadora já estava completa.
- Ah, certo! Eu ouvi falar dessa história entre você e as garotas. Mas você sabe que eles é que vão implorar para te ter no time. Você é a salvação desse colégio. – Pisquei para ela e sorri.
Ela sorriu.
– Mas fala a verdade, , por que queria isso? Teatro nunca foi sua praia.
- Eu queria isso para provar pra quem é que manda! Questão de honra, sabe? Ela já dominou meu quarto com maquiagens, cremes, flores, arco-íris, cheirinhos em spray no quarto todo, eu não aguento mais! Tenho que abrir a janela para dormir, porque sério, aquele cheiro me dá dor de cabeça.
Ri.
- E como ela não conta que você sai?
- Porque ela dorme cedo. – riu. – Espero ela dormir para sair. Idiota. – bufou.
- Bem, então boa sorte com isso. Harry me inscreveu na música com ele, não sei o que eu vou fazer lá.
- Você pode ser roadie, sei lá. – ela riu.
- Não sei... Hum, mas, e aí, por que não almoçou com a gente ontem? – perguntei a . - Não te vimos em lugar nenhum do colégio no intervalo, achei que você tinha morrido.
Ela gargalhou.
- Ah. Eu estava... eu fui na... – ela parecia estranhamente tensa, de repente. Todos foram indo para sua sala devagar. – Eu tenho que ir, não quero me atrasar. Até o intervalo. – acenou e se afastou andando de costas.
- Suspeito. – Disse a mim mesmo, antes de seguir o meu caminho.
Zayn’s POV
- Sr. Malik! Até que enfim resolveu se juntar a nós nesse maravilhoso dia nublado! – Disse o Sr. Callum. Toda a turma de marcenaria levantou os olhos para mim, curiosos. Olhei para o velho gordo que tinha as mãos na cintura e me olhava de volta, desafiador e autoritário. Não respondi o tom venenoso dele, apenas me dirigi ao único lugar vazio daquela maldita aula. Pobre homem, nenhuma mulher deve querer dormir com esse saco velho de gordura.
Não sei como é a sensação de ser rejeitado, mas entendo que estar na seca deve acabar com o bom humor de um homem.
Pobre Sr. Callum.
- Muito obrigado. Bem, agora que estamos completos; em suas bancadas há uma apostila com todo o esquema, todos os critérios e todas as formas de avaliação desse semestre na classe de marcenaria. – O homem ia dizendo, enquanto andava de um lado para o outro, agitando a apostila no ar. Não que eu estivesse interessado ou que fosse dedicado, mas passei os olhos pela bancada à procura da tal apostila e me senti um pouco injustiçado pela vida quando não achei.
Isso deve ser algum tipo de bullying da vida. Ou é só o claro ódio que o professor está começando a nutrir por mim.
- Aqui. – Uma voz feminina disse e qual não foi minha surpresa quando notei que veio do meu lado. Levantei os olhos e não pude acreditar na minha sorte. ao meu lado, estendendo a apostila para mim, uma expressão de nada no rosto.
Que os jogos comecem.
- Hm. – Murmurei quando peguei a apostila, dando uma rápida olhada antes de jogá-la de volta na bancada. Examinei a sala com os olhos e achei muito estranho o fato de que, tirando a mini- aqui do meu lado, só havia uma garota nessa classe. O que me leva a perguntar por que apenas duas meninas estão aqui. Na minha antiga escola, marcenaria era algo mais homogêneo. Não que eu esteja reclamando: vou ter tempo suficiente para me garantir com a .
E então, quando eu atingir Amanda , ela não vai nem saber quem foi.
Ia ensinar àquela vadia uma simples lição sobre Zayn Malik: ninguém me trai e sai impune dessa.
- Vou passar uma folha em branco e vocês anotem seus nomes e suas respectivas bancadas. Por hoje quero que conheçam melhor seus parceiros.
Esquece o bullying.
Oh vida, eu sei que sou maravilhoso, não precisa colocar tudo a meu favor.
Mentira.
Mas minha sorte é de ouro e ninguém pode negar. Não fiz movimento para conhecer minha parecei a e tampouco ela. Ao contrário do resto da classe que explodiu em cochichos e murmúrios de repente. E aí minha sorte resolve abandonar meu barco quando eu percebo que eu terei que tomar a iniciativa com minha parceira e futura arma de vingança. Virei-me para ela, o mínimo possível e arqueei a sobrancelha quando vi que ela estava no celular. Estou sendo ignorado?
- Então. – Comecei, chamando a atenção dela, que levantou a cabeça e procurou pela pessoa que estava falando com ela. – Nome?
Pf, como se eu não já soubesse.
Ela abriu a boca para responder, mas a fechou logo em seguida. Eu estava com um pouco de pressa, mas resolvi não falar nada, ela podia ter algum tipo de doença mental e eu não queria estragar minha imagem com ela logo de cara.
- . E o seu? – Perguntou de volta, mas alguma coisa em seu rosto me disse que ela já sabia meu nome.
- Jorge. – Respondi, curioso por sua reação. Ela franziu o cenho e olhou para mim como se soubesse que havia algo errado. – Estou brincando, Zayn.
- Ah. – Ela revirou os olhos e abriu um sorrisinho. – Jorge não combina com você.
“Pela sua cara eu pude reparar”, pensei.
- O seu nome, ao contrário, combina perfeitamente. Posso te chamar de ? – Abri um sorrisinho de canto, sabendo que ela não resistiria.
- Eu acho que não. – Ela respondeu, olhando para o quadro negro.
Ok, eu não estava esperando por essa. Era só o que me faltava: a menina ser grossa e egocêntrica.
- Por que não?
- Você não me conhece, eu não te conheço. Tenho certeza que não gostaria se eu te chamasse de Z ou de Zaza...
A resposta dela foi tão absurda que eu não consegui segurar minha risada. Não acredito que ela disse “Zaza”! A menina olhou para mim, com uma cara de não-entendi-a-graça e eu tentei me recompor, mas estava particularmente difícil. Eu estava aliviado: ela não era uma dessas garotinhas cretinas que se acham as donas do mundo, ela era simplesmente estranha.
- Primeiro: as garotas só me chamam de Z depois de uma noite muito incrível de... – Eu ia falando, mas minha voz morreu quando ela arqueou a sobrancelha e finalmente se virou para mim, esperando eu terminar. – Dança.
A sobrancelha dela não abaixou, o que me disse que ela não caiu nessa. Ok. Passo errado, Zayn, você foi um pouco convencido demais.
- De qualquer maneira. Não seja por falta de intimidade que eu não possa te chamar de . – Abri um sorriso sugestivo. Um leve rubor subiu às bochechas dela, mas ela não me respondeu, apenas revirou os olhos e voltou a olhar o quadro negro.
E então, eu não me contive em comparar as irmãs . Enquanto uma era totalmente louca, sexy, provocante, autoritária e dominadora; a outra era completamente o oposto. Completamente. Mandy era aquele tipo de mulherão que te faz babar dos pés a cabeça e ter as pornografias mais improváveis na sua mente a noite inteira – a menos que, claro, você as realize com ela. Já a mais nova, parecia mais uma boneca do que qualquer outra coisa, daquelas que se você imaginar nua parece um crime e ela vai para a igreja rezar por sua alma. E aquela franjinha não deixava dúvidas sobre isso.
Numa observação totalmente não intencional, percebi que o lábio inferior dela estava tremendo um pouco. Ela estava com medo de mim?
Oh fuck.
Ela não podia ter medo de mim. Droga. Isso acabaria com minha tentativa de conseguir alguma coisa com ela. O que eu faço agora? Malditos boatos, maldita reputação de bad boy. Se bem que eu gostava dela. Mas não nesse momento. Tentei mudar o rumo daquela conversa.
- Por que só tem duas garotas nessa classe? – Perguntei, sem conseguir pensar em outra coisa.
- Marcenaria é coisa para homem. – Respondeu rapidamente.
- Mas você está aqui.
- Falta de opção.
Droga. Eu não estava habituado com situações como essa. Para mim sempre foi fácil, as garotas sempre vinham com assuntos aleatórios e eu somente tinha que acompanhar como a coisa se desenvolvia até eu terminar entre as pernas dela e gemidos ecoando em algum banheiro das boates.
Enquanto eu pensava em alguma coisa extremamente incrível para dizer, o alto-falante da sala tomou vida e a voz da nossa – gostosa – diretora se fez ouvir, chamando todos os alunos para o auditório principal e que não seria admitido nenhum aluno fora da reunião matando tempo. Comemorei internamente, salvo pelo gongo.
- Ok, pessoal, sem tumulto, todos em fila única saindo da sala. – O professor nos instruía enquanto as bancadas, uma por uma, iam saindo da sala. Não perdi tempo e fiquei ao lado de , forçando-a a aturar minha companhia.
- Você não tem ninguém para estripar não? – Ela perguntou quando eu me sentei ao lado dela no auditório. Veja: não porque eu quis, mas porque não havia outro lugar vago num raio de dois metros. E, definitivamente, ela estava com medo de mim.
- Na verdade não. Eu só estripo pessoas no final de semana, você sabe como é...
Os olhos dela dobraram de tamanho e eu soltei uma risada.
- Estou brincando, . – Sorri.
- É . – Ela insistiu.
Revirei os olhos. Essa garota até que era divertida, um pouco nervosa, mas engraçada. Ela ficava fingindo que não sofria nenhum efeito das minhas investidas. Mas era só questão de tempo até ela vir se arrastando para mim, implorando para ser comida.
Aproximei-me dela, em direção ao ouvido dela. Abri um sorriso de canto quando senti seu corpo tenso próximo ao meu.
- Não precisa ter medo de mim, . – Soprei, fazendo-a se arrepiar de um jeito que eu julguei bom. Suficiente para começar a fazer cair aos meus pés. Ela se afastou de mim, sacudindo-se um pouco, e focou no que a diretora estava dizendo há um tempo atrás.
Resolvi olhar também e acabei parando na metade do caminho, vendo Harry desviar o olhar da cena que eu havia criado com e balançou a cabeça negativamente, como se eu estivesse fazendo algo de errado. Reservei o lugar dele no inferno mentalmente e dei atenção à diretora lá na frente.
-... O que eu e o corpo docente da St. Bees School estamos querendo dizer é: nós estamos cientes que alguém da escola cometeu o vandalismo de quebrar o busto do nosso fundador. E queremos deixar bem claro que não vamos tolerar esse tipo de ação. Então, os delinquentes que fizeram isso, queiram, por favor, se apresentar à minha sala até sexta-feira. Ou medidas mais severas serão tomadas.
- Temos vândalos nessa escola, huh? – Virei-me para , tentando brincar um pouco, mas ela não me parecia no clima para brincadeiras. Havia algo de estranho com ela agora que eu não quis particularmente mexer. Ela virou o rosto para mim e me pareceu algo mais mecânico que um pescoço humano sendo articulado.
- Parece que você não é o único aqui. – Disse. Eu quase podia ver o veneno escorrendo do canto de sua boca. Vadia, quem ela pensa que é para falar assim comigo?
- Parece que não. – Respondi, tão ácido quanto ela. – Mas quem sabe eu não descubra alguma coisa e limpe minha ficha contando quem é?
- Boa sorte.
- Vai por mim, , eu tenho um ótimo olho para reconhecer esse tipo de gente.
- Jura? – Ela arqueou a sobrancelha, tirando o celular do bolso e abriu uma mensagem antes de se virar para mim. – Eu sugiro que olhe de novo, então.
Ela piscou e se levantou, trocando de fileira, sentando-se num lugar mais perto do palco, ao lado de uma amiga. Franzi o cenho para o que ela disse. O que queria dizer? Será que... Não, não pode ser. Ela não seria capaz disso. Como eu já havia notado, era uma bonequinha tão frágil que poderia ser carregada por uma pluma.
’s POV
Ok, então eu estava no clube de teatro. Ótimo. Eu ainda não me via sendo uma aluna muito participativa nessa oficina, mas... Bem, seria interessante. É, seria.
- Ótimo. – murmurei para mim mesma, batendo o lápis em minha própria coxa e mordendo o lábio inferior.
Empurrei a alça da mochila mais para cima de meu ombro e dei meia volta, desgrudando os olhos de meu nome recém escrito na ficha de inscrição para o teatro. Ao me virar, dei de cara e quase esbarrei com uma garota do meu tamanho. Ela deu um passo para trás e levantou os olhos. Quando me viu, pareceu hesitar e ficar tensa.
- Foi mal. – falou baixinho, antes de ir para o mural atrás de mim estudar as oficinas disponíveis.
Suspirei. Os boatos sobre mim estavam mexendo com a cabeça de alguns mais do que outros.
Quer dizer, era interessante observar a reação das pessoas quando eu passava. Algumas eram previsíveis, algumas irritantes e algumas engraçadas. Mas depois de um tempo, ficava cansativo. O bom dos boatos, eu já sabia, era que eles eram esquecidos facilmente. Alguns nem tanto, mas... O jeito era esperar.
Minha sorte era não dar a mínima.
Andei até a sala onde seria minha próxima aula, que ironicamente era alemão. Para mim, que vim da Alemanha, aquela ser minha matéria preferida era meio óbvio. Era a única aula que me chamava a atenção. Talvez por eu não precisar me puxar para ser boa, eu tinha o alemão mais fluente do que o próprio professor.
Não conhecia ninguém dos meus colegas daquela aula por nome. Já havia visto alguns deles no corredor, mas outros eu poderia ver na rua algum dia que nunca reconheceria.
Eu era a única na sala, porque há essa hora todo mundo estava tomando um sol no pátio ou almoçando. E eu não sentia a mínima fome. Então tudo que fiz foi ficar batucando na mesa com meu lápis e esperando o sinal tocar. Mas antes que isso acontecesse, um garoto entrou na sala e sentou em uma das mesas mais distante do resto da sala, lá no fundo. Era loiro e baixinho. Ele era um daqueles que eu nunca havia notado antes.
’s POV
O auditório estava relativamente vazio. Um pequeno grupo de pessoas se aglomerava em cima do palco ao fundo e alguns adultos estavam nas cadeiras da primeira fileira, conversando. E foi para lá que me dirigi, com a relação de horários por semana que eu teria aquela atividade extracurricular.
- Oh, , querida! – A professora Dorothy cantarolou meu nome. Eu tinha a mais leve sensação de que ela adorava cantarolar as coisas. – Achei que não tinha se inscrito.
- Não, eu consegui minha vaga. – Respondi, sorridente. Olhei para o palco, procurando mais algum rosto bem conhecido e achei parada perto das cortinas, de braços cruzados, olhos atentos a tudo.
- Que ótimo. Bom, já que você está aqui, vamos começar, sim?
- À vontade. – Sorri ainda mais, subindo os degraus laterais do palco e me juntei à turma.
- Boa tarde, crianças! – A professora saudou e nos esperou responder. – Bom, como devem saber, o clube do teatro é uma tradição muito importante nessa escola, desde 1989...
Ela começou o discurso, enquanto um a um de nós sentava no chão de madeira lustrada do palco para ouvir o falatório. Eu me aproximei de e a cutuquei no braço, sorrindo para ela e depois me sentei, ela repetindo meus atos.
A porta no final do auditório foi aberta com um estrondo e uma pessoa ofegante entrou, correndo um pouco. Era . Eu já imaginava que ela fosse demorar, visto que ela ficou na sala depois do sinal, tentando conversar com o professor de literatura para trabalhos extra. Deve ter almoçado tarde, também.
- Hey. – Ela sussurrou, ajoelhando-se ao meu lado, dando um sorrisinho claramente educado para e sentou-se por fim, controlando a respiração.
- Que bom que se juntou a nós, , isso? – A professora notou.
- Sim, peço desculpas pelo atraso. Não vai se repetir. – Garantiu ela, abrindo um sorriso que eu julgaria encantador. Provavelmente usado somente para momentos de extrema necessidade, não era muito de sorrir abertamente; ela parecia mais do tipo que preferia abrir sorrisos de canto e ser irônica o tempo todo.
- Assim eu espero e como eu estava dizendo... – Ela voltou ao seu discurso sobre futuros trabalhos.
’s POV
- Observar. Planejar. Atacar. – era o que nossa treinadora dizia, apontando para seu quadro negro com uma régua. – observamos o time adversário. Planejamos uma estratégia de ataque. Botamos nosso plano em prática. Isso é tudo que precisam saber, é o básico, é assim que todos os times se planejam. Mas o segredo da vitória não está aí.
Não conseguia ficar na mesma posição que as outras, a meia estava fazendo coçar minha panturrilha. Tive que me abaixar para arrumar enquanto a treinadora passava na frente de cada uma das meninas, que estavam com a postura impecável e as mãos para trás. Por que diabos isso parecia um treinamento do exército?
Depois de arrumar a meia, me levantei e dei de cara com aquela régua enorme apontando para minha cara.
- Qual é o segredo da vitória, ?
- Trabalho em equipe. – respondi. Eu não precisava de treinamento, era o mesmo blá blá blá todo ano. Aquela cena toda era só para assustar as garotas novas.
- Exatamente, garotas. Trabalho em equipe. Confiança umas nas outras. Conhecer suas parceiras. Saber a próxima jogada com apenas um olhar...
E lá vamos nós. Ficamos pelo menos quinze minutos ouvindo o discurso inicial da treinadora antes de irmos para a prática. É disso que eu gosto, prática! Correr vinte voltas na quadra de corrida! Treinar pênaltis umas com as outras! Desviar de cones e pular entre pneus. Suar. Cansar. Trabalhar. Nada de ficar quieta.
E lá estava eu, toda molhada de suor, com aquele uniforme ridículo de futsal que por algum motivo é bem confortável, e correndo minha décima quarta volta na quadra quando perco o foco para notar um garoto em cima da arquibancada, no canto mais afastado, sentado acompanhando nosso treino com um cigarro no meio dos dedos. Foi inevitável não ver a pedra bem na minha frente e tropeçar. O bom foi que recuperei o ritmo tão rápido quanto o perdi, e me certifiquei de que ninguém viu. Mas em minha décima quinta – e ultima – volta, tive certeza de que, pelo menos por uns segundos, foi para mim que ele olhou. Minhas mãos não soaram nem o coração disparou ou essas merdas, eu só me senti bem. Zayn Malik olhou para mim. Isso era novidade.
E eu corri. Chutei. Pulei, desviei, soei e cansei muito. Mas estava realizada. Não sei como pensei que aguentaria fazendo teatro, pensei comigo mesma sorrindo, enquanto subia a ladeira do ginásio para o pátio lá em cima, entre os prédios de aula e os de dormitórios. Eu não conseguiria sobreviver sem um bom esporte o ano todo. Não tem pista de skate no colégio, o que eu realmente acho uma pena, e a única vez que tentei andar na pista de corrida, quase levei uma suspensão de Minerva. Então o futebol era, realmente, meu melhor amigo ali.
Depois de subir a ladeira eu vi os cabelos inconfundíveis do meu melhor amigo do outro lado do murinho de pedra. Sempre me perguntava como é que os cabelos dele ficaram tão cacheados entre os sete e oito anos de idade. Na mesma época em que seus olhos mudaram do tom azulado para o verde. Era magnífico. Desde aquela época, a conversa era sempre sobre ele, na sua casa ou na minha. “Como os olhos dele são lindos, parece um anjinho!” “como pode os olhos mudarem de cor assim?! É incrível!” “seus cabelos formaram cachinhos, ele parece um príncipe!”.
Eu costumava odiar Harry em segredo nessa época apesar de adorá-lo. Lembro-me de pensar, rindo sozinha comigo mesma, que ele estava virando uma garota aos pouquinhos enquanto eu roubava as suas habilidades de garoto, como correr mais rápido, escalar mais rápido, não chorar quando me machucava e jogar futebol melhor.
Hoje em dia, queria poder trocar isso de volta. Mas pensar nisso ainda me fazia rir.
Ele estava escorado no muro, que dava na altura de seu quadril, com os braços cruzados na altura do peito e conversando com alguém sentado na mesa de pedra à sua frente, provavelmente era Louis.
Fui até atrás do murinho e subi nele, pulando nas costas de Harry e me segurando nele com as pernas em sua cintura para não cair. Garoto molengo.
- Que isso, , sua gorda!
Ele hesitou para a frente e depois segurou minhas pernas, eu sabia que estava o sufocando com os meus braços em seu pescoço então logo desci, rindo.
- Você tem que começar a malhar, cacheado.
Ele riu e se escorou no muro outra vez, recuperando a cor normal no rosto, seu sangue voltando a circular. Dei oi com um aceno de cabeça para Liam, que era o menino sentado na mesa que só sabia rir de mim e Harry, os braços cruzados na frente do peito, com os músculos que faziam as garotas enlouquecerem à mostra. Liam tinha um bom físico. Ele gostava de praticar esportes, eu sabia, apesar de não ser algo tão frequente. Mas as garotas aprovavam.
- Vocês são escandalosos. – ele disse, olhando em volta para as pessoas no pátio que nos observavam.
- Como se você não amasse a atenção – revirei os olhos para Liam.
- O que deu em você? Anda tão bipolar ultimamente. Numa hora me ama, na outra me odeia... É TPM ou alguma coisa do tipo? – Harry perguntou.
- TPM? – franzi o cenho. – isso é frescura. E você sabe que odeio você, Styles – Chutei suas pernas.
Ele riu.
- Ei, vou te fazer uma pergunta.
- Faz.
- Por que você não tenta fazer algum esporte ou coisa de macho pra ganhar uns músculos? Música, Harry?
Ele revirou os olhos e me deu um tapa na cabeça.
- Eu sou bom em música, vou provar para vocês.
Revirei os olhos. Liam riu.
- Do que tá rindo, palhaço? Você que tem o físico de um quarterback tá tocando bateria como um idiota. – revirei os olhos.
- , quando formos deuses do rock você vai se arrepender. – Liam disse, mas seu tom também era brincalhão.
– Ok, agora é sério. Quem vai ser a sortuda da vez que os dois babacas vão comer no baile de outono? – sorri e dei uns passos para trás para colocar meu pé em cima do banco e amarrar o cadarço da chuteira, mas me esbarrei com alguém e virei de costas.
Bufei ao ver Sally, com cara de nojo para mim. Na verdade, acho que aquela era sua expressão para tudo. Acho que seu cirurgião plástico errou em alguma coisa, ou sei lá.
- Olha por onde anda, gurizinho. – ela rosnou para mim. Eu não gostava de encontrar com Sally por um motivo, e um motivo apenas: Não queria perder o controle e pular em cima dela só para acabar sendo expulsa.
A resposta já estava naturalmente na ponta da língua, mas antes mesmo de responder, fui interrompida por Harry:
- Merda Sally, não enche!
A garota olhou para Harry com cara de cachorro sem dono – que, convenhamos, era o que ela era – e piscou algumas vezes. Respirei fundo, tentando pensar em coisas felizes para não ataca-la.
- Desculpa, Harry. – Respondeu como se ronronasse, sorrindo um pouco para ele e se afastando, depois de me lançar um olhar homicida.
Voltei a olhar para Harry e suspirei. Odiava que ele tomasse minhas brigas, mas às vezes acabava vindo a calhar.
- Com certeza não vai ser ela. – ele respondeu minha pergunta anterior.
Abri um meio sorriso e terminei de amarrar os cadarços.
- Tenho que tomar banho.
- E eu tenho que achar o Louis, vambora?
Assenti.
- Você vem, Liam?
Liam apenas fez que não com a cabeça e bati em seu ombro, me afastando.
Harry passou os braços pelos meus ombros e nos afastamos, andando para longe. Ele começou a soltar o peso do corpo em cima de mim e ri, o empurrando um pouco.
- Ei. – virei e apontei para Liam enquanto nos afastávamos. – Já te disse que você devia entrar no exército?
Ele riu.
- Eu teria que cortar o cabelo. – fez uma careta.
Eu e Harry nos afastamos, e Harry sussurrou em meu ouvido.
- Gay.
- Quem, você?
Harry me empurrou com o cotovelo e eu continuei arrastando-o até a entrada dos dormitórios masculinos e depois continuei até meu quarto. Só em pensar que veria a insuportável da lá, meu humor se esvaía aos poucos.
Niall’s POV
A sala de música era grande, maior do que eu poderia imaginar quando me disseram que havia uma sala de música. Os instrumentos eram postos nas paredes, suspensos por suportes de metal ou apenas encostados à parede, em algum tipo de pedestal para evitar o contato com o chão.
- Boa tarde, Sr. Horan. – O professor Clark falou, quando eu entrei na sala. Ele tinha uma pequena mesa no canto da sala, perto do quadro branco. Ele estava com seu paletó puído e a barba malfeita.
- Bom dia, Sr. Clark. – Respondi, olhando diretamente para ele. Fui até sua mesa e fizemos um cumprimento.
Sentei-me no melhor lugar segundo meu julgamento e contei no relógio os segundos para que o sinal tocasse. Quando tocou, muita gente entrou, animada, conversando, rindo e fazendo brincadeirinhas de empurrar. Reconheci meu colega de quarto e alguns amigos.
- E, olha só, é um cara! – Disse um deles, parecendo ser o mais alegrinho. – Tá me devendo dez pratas, Josh!
- Ah, dude, vai se foder, nem era uma aposta séria! – Josh respondeu, dando soquinhos no ombro do outro.
- Meninos. – O professor chamou a atenção deles e apontou para as cadeiras vazias ao meu lado, onde os caras, em silêncio, foram se sentar. Josh deu outro soco no ombro do amigo antes de se virar completamente para frente. – Ótimo, bom. Sou David Clark, mas para vocês, pode ser só David, Sr. Clark, Sr. C. Não tenho problemas com apelidos, só quero o bom e velho respeito. Hm, e... Bem vindos à aula de música.
Ele introduziu sua aula de maneira sucinta, o que só me fez gostar mais do cara. Ah, qual é, aqueles professores que falam e falam no primeiro dia de aula chegam a ser chatos, até. Mas eu também deixo você achar que eu só estava ansioso pela aula.
- Então, o que eu vou querer de vocês, para esse semestre, é muito simples: eu quero uma invenção. – Ele olhou em volta para a turma, que estava calada. – A melhor coisa que vocês podem fazer em uma aula de música: cantar, tocar, compor.
Houve um murmurinho de entusiasmo pela turma, assim como teve o murmurinho de desapontamento. Eu me impressionava com a rapidez que essa gente cansa do curso que escolheu.
O que eles esperavam? Era uma aula de música!
- E como vai ser... Você divide os grupos ou...? – Outro amigo de Josh perguntou, sem levantar a mão nem nada, interrompendo a próxima fala do professor.
- Na verdade, eu vou deixar a critérios de vocês. Nessa aula quero fazer apresentações. – O Sr. Clark sorriu, puxando uma cadeira vazia na frente do amigo cacheado de Josh, Harry Styles, e a virou ao contrário, sentando-se. – Diferentes. Façam um círculo com suas cadeiras, quero ver do que são capazes.
Eu virei minha cadeira e abri um sorrisinho para Josh, que colocava sua cadeira ao lado da minha para moldarmos o círculo. Quando todos estavam sentados, o professor bateu palmas e sorriu, ansioso, cheio de expectativas.
- Quando chegar sua vez, quero que pegue algum instrumento, o que você quiser, e me mostre alguma coisa. Também não precisa tocar, pode só cantar ou... Enfim, me surpreendam! – Ele exclamou. – Niall, você começa?
Pelo meu lugar, eu estava com medo de que ele fosse dizer isso. Assenti pela falta de opção e girei na minha cadeira, alcançando o violão que estava atrás de mim. Coloquei-o no colo e respirei fundo, tentando esquecer que toda aquela gente estava perto de mim, me observando, esperando alguma coisa de mim.
Dedilhei as primeiras notas que vieram à minha mente. Eu não queria me exibir, mas era meio impossível. A música era o melhor lado de mim. E não havia como não se impressionar.
Toquei só os primeiros acordes do solo de Nothing Else Matters, do Metallica, mas foi suficiente para me trazer em conexão com a música. Aquilo me fazia muito bem.
- Ê, cara! – Josh me deu um empurrão no ombro.
Sorri fraco e passei o violão para ele, já que era sua vez. Ele negou com a cabeça e passou a vez para seu amigo, cujo nome eu lembrei, Liam Payne, que por sua vez, também negou.
- Minha área é outra, loirinho. – Ele se levantou e se dirigiu para o pequeno conjunto de percussão no fundo esquerdo da sala.
Liam fez um som maneiro, batendo tão rapidamente em cada um dos tambores, num ritmo muito bem marcado, eu abri um sorrisinho, acompanhando a batida com a cabeça e fingi dedilhar alguns riffs em acompanhamento. Ele sorriu para mim e assentiu, dando-me permissão para realmente fazer aquilo.
- Isso foi demais! – O professor disse, batendo palmas quando eu e Liam terminamos nossa pequena exibição. – Demais. Próximo!
’s POV
- Cinco minutos. – Eu falei, pulando no sofá ao lado de , que organizava uma pilha de folhas com uns desenhos estranhos. – O que é isso? Está aprendendo a fazer máquina de tortura?
- Só umas apostilas da aula de marcenaria. – Ela bufou e colocou as mãos em cima das folhas, parecendo irritada.
- Oi, oi. – apareceu, seguida de , colocando a bolsa na mesa de centro e se sentou.
Estávamos todas reunidas no mesmo conjunto de sofás da antessala da biblioteca, cochichando por nossas vidas, compartilhando um segredo, mas ainda assim cada uma trancada em suas próprias bolhas.
- Eu tive que chamar vocês. – começou quando enfim se juntou a nós. – A diretora Campbell estava comentando hoje... Sobre a estátua.
- Como você sabe? – colocou uma das mechas de cabelo que escapavam do rabo de cavalo malfeito dela. Ela estava meio nojenta, suada e descabelada.
- Eu estou tentando me candidatar ao Grêmio. – Disse ela, calmamente, ignorando a petulância na voz da outra.
- E o que ela estava dizendo? – Eu perguntei a coisa que todos queriam saber.
- Bom, ela estava dizendo que estava muito orgulhosa e todas essas coisas, acho que ela ainda não viu o estrago. – falou, com algumas pausas entre as palavras. – Mas...
- Nós mexemos no objeto sagrado da escola. – disse, olhando para o chão, séria.
- É. – concordou, olhando para todas nós.
- E o que fazemos? – perguntou, parecendo um pouco assustada.
- Nada. – Eu disse, como se fosse óbvio. – A menos que você queira que a gente se entregue.
- Não! – olhou para mim, ainda mais assustada.
- Então. Vamos esperar que eles descubram. Vai que ninguém nunca fique sabendo? – Propus. – É melhor continuarmos com o plano de ficar caladas. Eu não vou contar se vocês não contarem. Certo?
- Ok. – foi a primeira que concordou comigo, parecendo decidida sobre a situação toda.
- Eu não quero mais ter que falar sobre isso. – Falei, cortante. As meninas olharam para mim. Todas tinham esse mesmo desejo que eu, mas ninguém se candidatava a dizer porque é “inconveniente”. Mas eu não queria nem saber. Já tinha meus problemas, não precisava compartilhar um. – Somente se descobrirem e quiserem nos interrogar. Aí, sim, eu vou tocar nesse assunto de novo.
- A está certa. – disse. – Não podemos ficar simplesmente sentadas aqui com medo de tudo. As pessoas vão reparar. Supostamente, e se odeiam.
- E nós nos odiamos, obrigada por perguntar. – respondeu, afirmando a “suposição” e balançou a cabeça, confirmando também. – Então, eu não quero que vocês me coloquem no mesmo ambiente que ela de novo, entendido?
- E eu quero ficar sozinha. – disse.
De repente todo mundo arranjou suas desculpas para não termos que fazer isso de novo.
- Então eu acho que temos um acordo. – Sorri, satisfeita com o rumo das coisas. – Tchau.
Liam’s POV
- Oi Liam. – Um grupinho de garotas do primeiro ano me cumprimentou quando passei por elas no corredor da biblioteca. Assenti com a cabeça e abri um sorriso de canto, deixando-as para trás, ouvindo as risadinhas escandalosas e os cochichos.
As vantagens de ser um pegador.
Façam uma biografia minha, o resto do mundo deve saber quais são os truques.
Parei no outro corredor, na frente da seção S. Era muito estranho estar dentro da biblioteca, digo, para realmente pegar um livro. O professor de literatura nos fez ler Hamlet. Não sei porque eu estava levando isso tão a sério, estudar. Talvez fosse pelo quê o Sr. Clark disse sobre manter notas para poder continuar nas atividades extracurriculares. Era um pouco decepcionante, se você me permite dizer, ter que estudar. De verdade.
Não quando eu passei 13 anos da minha vida empurrando com a barriga, estudando um dia antes da prova, passando na média.
Isso seria uma tortura para mim.
Peguei o exemplar de Hamlet e me dirigi para o balcão da bibliotecária, apresentando meu cartão – que nunca fora usado antes – para poder alugar o livro. A moça até me olhou com curiosidade, perguntando-me se eu era novato, o que eu estava achando da escola e coisa do tipo. Eu quase ri.
Quando eu saí da biblioteca, a vontade de tomar um cappuccino me invadiu e eu parei um pouco na antessala para pegar um na cafeteira que havia lá. Mas assim que atravessei a sala para chegar até a máquina, uma coisa absurdamente bizarra me chamou atenção, eu tropecei na perna cruzada de um cara que estava apoiado no encosto de um sofá com sua namorada.
- Opa, foi mal, cara. – Pedi, levantando a mão para reparar qualquer dano; um ato reflexo. Eu estava atordoado.
Fui até a máquina e me virei um pouco para olhar para a imagem no canto mais afastado da antessala. , , , e . Todas juntas, sentadas muito perto umas das outras, conversando seriamente sobre alguma coisa.
Toquem as trombetas, é o Apocalipse.
Ou não.
Elas estavam planejando alguma coisa. Era uma reuniãozinha. Mas acontece que não faz reuniõezinhas com . Nunca. Essas duas se odeiam.
E o que diabos estava fazendo ali no meio?
Aquilo não cheirava bem.
Tirei o telefone do bolso e apontei para elas, discretamente, com o aplicativo da câmera aberto, dando zoom. Capturei uma foto e a mandei para Harry com a legenda “Descubra o que é isso”.
Dois segundos depois, quando meu cappuccino ficou pronto, ele me respondeu.
“What the hell...?”.
“A te contaria...”, eu respondi de volta.
“Eu vejo você no jantar. Fale com sua irmãzinha gostosa.”.
Revirei os olhos para o jeito como ele falava dela e voltei a olhar para as meninas, mas levei um susto ao ver que elas não estavam mais lá. Levei meus olhos até a porta e vi saindo, dando um tchauzinho para alguém que a chamou.
- Interessante. – Eu disse, antes de tomar um gole da minha bebida, sentindo-me num daqueles filmes de espionagem.
Apressei o passo para alcançar onde quer que ela estivesse. Por sorte, eu a achei numa mesa do pátio, virada para o lago, olhando para ele enquanto tinha na mão uma caixinha de Nerds. Aproximei-me, tentando ser descontraído e despreocupado, mas a curiosidade estava levando o melhor sobre mim.
- Hey, . – Chamei, fazendo-a se virar para mim.
- Liam. – Ela soltou o ar bruscamente e se virou de novo para frente.
Se ela não fosse tão gata, eu nem perderia meu tempo falando com ela.
- Eu queria te fazer uma pergunta. – Andei mais um pouco e me coloquei na frente dela, que levantou o olhar para mim, daquele jeito, sabe, superior.
- Eu tenho opção?
- Depois do que eu vi? Honestamente, não.
- Então...? – Ela arqueou uma sobrancelha.
Eu não sabia como perguntar aquilo a ela sem que parecesse muita intromissão da minha parte. E se elas fossem realmente amigas? Simples amigas? Tipo, não é impossível, é?
Mas aí eu lembrei da indo parar na detenção com porque elas brigaram então: não. Não é possível. Então eu tentei o melhor de mim que eu pude:
- Você precisa de ajuda com alguma coisa? – Perguntei, com as mãos em meus bolsos. Ela me olhou, com as sobrancelhas erguidas, a boca levemente aberta, como se eu a tivesse pego de guarda baixa.
- N-não. – Ela gaguejou, parecendo levemente confusa.
- Certeza? Qualquer coisa? Você se meteu em alguma encrenca ou...
- Eu estou bem, Liam. – limpou a garganta, me olhando com outra expressão agora.
- Tudo bem então... Eu só... – Limpei a garganta também, procurando as palavras certas. – Eu só achei que você podia... É.
- Estou bem. – Então ela sorriu.
E cara, que sorriso.
- Ok. – Sorri também, incapaz de fazer do contrário.
se colocou de pé, abriu outro sorrisinho mais fraco para mim e se afastou da mesa de pedra, me deixando lá, sem nem um ‘tchau’.
- Maluquinha. – Arqueei as sobrancelhas e falei para mim mesmo, fazendo graça com a cara dela.
Mas infelizmente, um desperdício, uma pena, uma gata.
’s POV
- Boa sorte para mim. – Falei, saindo do quarto de e fui para o meu próprio, do outro lado do corredor.
Abri a porta e uma blusa caiu aos meus pés. Olhei para cima e vi sentada na cama, rodeada de algumas roupas que estavam no chão, dela, que me olhava com um olhar de desculpa e diversão ao mesmo tempo.
- Foi. Mal. – Dizia ela, mordendo o lábio inferior para não rir. Parecia uma criança fazendo bagunça quando a mãe chega antes da hora que ela disse que ia chegar. – Eu estava tentando acertar o cesto de roupa suja. – Apontou para o cesto perto da porta, quase nos pés da minha cama.
Suspirei e peguei a roupa do chão, colocando-a no cesto.
- Não dá para levantar? – Perguntei, tirando alguns casacos de cima da minha cama e fui até o guarda-roupas, pendurar em cabides.
- Hm, não. – Ela arrastou a voz e afundou mais no meio das roupas. – Muita preguiça.
E voltou a arremessar as roupas em bolinhas. Revirei os olhos, tirando meu exemplar de Hamlet da estante da minha escrivaninha e me joguei na cama para poder ler. agora estava jogando bolinhas de meia e eu tentava apenas ignorar.
- Droga! – Ela sibilou, quando errou uma. Levantei os olhos do meu livro para vê-la tentando mais uma vez.
mordeu a língua, colocando-a para fora num sinal claro de concentração, fitando o cesto, ajeitando a mão na melhor posição para fazer o melhor arremesso. Depois de um minuto de tensão; ela jogou. A bolinha de meia bateu na beirada do cesto, pingando e eu gritei um “Vai!”, e então ela entrou no cesto.
- Yeah! – Eu e dissemos juntas, comemorando o acerto.
Eu olhei para ela na mesma hora que ela olhou para mim e o clima ficou... Constrangedor.
De tudo que eu já passei com e por causa da , constrangimento nunca chegou perto da gente. Mas agora eu só olhei para o meu livro e ela se levantou para pegar as roupas que não conseguiu acertar no cesto.
Eu havia me acalmado e terminado de ler uma página quando pousou alguma coisa no canto da minha escrivaninha e voltou a se sentar na cama dela, dobrando outras roupas. Olhei o que era e vi meu batom Ruby Woo da MAC lá, sozinho, representando a bandeira da trégua. Ela pegou meu batom do chão e o colocou em cima da minha mesa. Assim, simples assim.
Por favor, eu esperava mais que ela tacasse aquilo em mim.
Mordi o lábio, sentindo a urgência de responder àquele gesto.
- ? – Chamei, levantando um pouco meu livro, mordendo ainda mais o lábio.
- Hm?
- A gente podia... Sei lá... Você sabe...
- O quê? – Ela parou de dobrar as roupas e olhou para mim, colocando uma mecha do cabelo molhado atrás da orelha.
- Hm, dar uma trégua? – Fechei os olhos, sentindo-me meio idiota por pedir aquilo da minha “arqui-inimiga”.
Muito embora eu não acredite nessa coisa de arqui-inimigos. Isso é coisa de filme. Não há alguém na Terra que viva exclusivamente para te ver triste ou para baixo. As pessoas não têm arqui-inimigos, as pessoas pedem tréguas também, não pedem?
- Trégua?
- É... Bom, eu estive pensando... – Pausa. Eu esperava que ela dissesse alguma coisa ofensiva com essa, mas ela parecia estar absorvendo minhas palavras. – Eu estive pensando que já que vamos dividir um quarto pelo resto do ano... Poderíamos... Você sabe, parar de discutir.
- Trégua... – Ela repetiu a palavra. Não como uma pergunta, mas como se estivesse analisando a palavra, os prós e contras, como uma proposta. A proposta que fiz.
- É... – Murmurei, eu mesma já desistindo da ideia com a demora dela.
- Eu... É uma boa. – Ela disse, por fim. Olhei para ela, que encarava suas roupas. – Mas você tem que prometer que não vai me deixar quebrar sua maquiagem de novo. – Ela condicionou fazendo uma careta e em seguida levantou uma blusa branca grande com o sinal da paz em preto e uma mancha enorme rosa, azul e roxa de maquiagem.
Com ou sem trégua, eu ri alto.




Capítulo 5


’s POV
Aula de Filosofia Ocidental. Provavelmente eu era a única realmente interessada naquela aula. Não que eu fosse nerd ou filosofia fosse minha matéria favorita, mas eu, realmente, via porque isso era importante para algum tipo de formação.
Mas eu estava atrasada. Os corredores já estavam vazios e aquilo só me deixava ainda mais apreensiva. Eu odiava estar atrasada para a aula. Eu sabia que esse tipo de incidente ia para o meu histórico e era bem isso o que eu gostava de evitar.
O histórico era, depois do ACT, a parte mais importante para ser admitida em uma universidade americana. Esse era meu maior sonho: estudar nos Estados Unidos. Ninguém nunca entende; a Inglaterra é o país dos sonhos. Bom, nem tanto. Na verdade esse país me irrita, minha mãe não nos teria deixado se ele fosse totalmente incrível como todos dizem.
Ok, mas voltando ao problema atual: atraso. Eu só podia culpar uma pessoa e uma pessoa apenas. . Mesmo com nossa ‘trégua’, ela continua sendo uma pedra no meu sapato. Honestamente, eu não sei o que ela faz trancada no banheiro por tanto tempo: ela não usa nenhum produto extra para beleza. Sim, maquiagem. Ela não usa então o que ela faz lá?
Bati na porta da sala de Filosofia e entrei, olhando em volta à procura da professora. Ela me olhou assim que fechei a porta atrás de mim, reprovando-me pelo atraso. Logo depois de chamar a atenção de toda a turma, fui até sua mesa e entreguei a autorização para entrar em sala que peguei na secretaria e, então, fui para o único lugar disponível da sala que era obviamente no fundo.
Sentei-me na cadeira do melhor jeito que pude, tentando enxergar o quadro. Tirei um caderno e uma caneta da bolsa, pousando em cima da mesa logo em seguida. Todos na sala estavam concentrados em alguma coisa, um texto que a professora havia passado, pelo que eu podia ver. Estiquei-me para tentar ler do que se tratava e minhas coisas caíram no chão. Grunhi e passei as mãos pelo cabelo, enfiando o rosto nas mãos.
- O dia mal começou e já está assim? – Ouvi a voz masculina ao meu lado comentar, logo em seguida o som das minhas coisas em minha mesa. Levantei o olhar para o loirinho sentado ao meu lado, o braço estendido enquanto ele empurrava meus materiais mais para o centro.
- Pé esquerdo. – Concordei, sorrindo um pouco para ele, agradecida. – Esse texto...
Ele rapidamente estendeu a folha dele para mim.
- Tira uma foto. – Sugeriu, passando-me a folha. Sorri novamente enquanto tirava o celular da bolsa. – Eu me chamo Niall. – Ergueu a mão para mim.
- Eu sei. Eu sou a . – Apertei sua mão macia e quente.
- Eu também sei disso. Você é tipo popular aqui. – Ele me lançou um olhar cauteloso. Reprimi o impulso de erguer uma sobrancelha.
- Eu tipo sou, mas nem tanto. Se você quer popularidade, está falando com a pessoa errada. Harry Styles é o nome certo para você tratar. – Informei, focando a câmera do celular na caligrafia simples de Niall.
- Não, eu... Não estou atrás de popularidade. – Ele coçou a nuca, sem graça.
- Jura? Você é o único nessa escola. E eu não estou contando com as pessoas que chamam a atenção sem querer.
- Como assim? Quem?
- Zayn Malik. – Respondi, num murmúrio. Ele assentiu, parecendo entender o que eu queria dizer. – E . – Completei, lembrando-me de como ela chamava a atenção. Não só por ser incrivelmente linda, mas pelos seus olhos. Frios e opacos. Eu não conseguia não lembrar desses olhos quando pensava nela.
- Ela é linda. – Ele comentou, quase que automaticamente e eu tive que assentir, concordando com ele. – E estranha.
- Tem realmente alguma coisa com ela que me faz duvidar, mas ela é... Legal, se você for com ela.
- Todo mundo é legal se for recíproco. – Niall franziu o cenho, pegando de volta a folha para si.
- Acho que com ela é uma regra excepcional a ser seguida. – Dei de ombros, tirando um marca texto da bolsa. – O que é para fazer com isso?
- Ler e... Responder aquelas perguntas. – Ele apontou para o quadro.
- Finalmente algo que condiz com a aula, Sr. Horan. – A professora falou, de repente, parada a duas cadeiras de distância. – Agora, façam!
Assenti para ela antes de trocar um olhar com Niall, me segurando para não rir por motivo algum. Abri meu caderno e coloquei a foto do texto na tela do meu celular, começando a fazer a atividade que me foi imposta. Pelo canto do olho, pude ver o loirinho concentrado no texto, mas logo abaixou a cabeça no braço e ficou desenhando no canto da folha.
Terminei de ler o texto e olhei para o quadro, lendo a primeira pergunta. Não fazia muito sentido, mas eu teria que achar uma resposta.
O sinal não demorou a tocar, eu estava compenetrada na minha tarefa quando isso me assustou. Todos se levantaram e entregaram as folhas para a professora então apenas coloquei meu nome na minha e fiz o mesmo.
- Hey. – Ouvi alguém me chamar e quando me virei vi Niall logo atrás de mim, antes de sairmos pela porta. – Tenho certeza que seu dia melhora na hora do almoço.
- Jura? Por quê? – Perguntei, interessada na resposta.
- Comida. – Ele me abriu um sorriso enorme e adorável antes de se virar e ir para o outro lado do corredor.
Sorri também, sozinha. Ele tinha razão. Era disso que eu precisava. Eu precisava de comida.
Mas quem teria comida agora? Antes do almoço?
Uma pessoa. E foi muita obra do destino quando eu a vi andando pelo pátio rapidamente, indo para o prédio C.
- !
Zayn’s POV
- Senhor... – O professor de História voltou para a sala com um papel na mão, lendo-o com dificuldade. – Malik?
Desviei o olhar da janela e olhei para o velho que me olhava de volta, com aquele leve ar de repugnância que eu já estava acostumado a receber dos professores. Ele me olhava sério, esperando que eu me pronunciasse ao mesmo passo que eu esperava que ele me dissesse logo o que queria.
- A direção requisitou sua presença. – Ele falou, amassando o papel e o jogando na lata de lixo. – Você está liberado da aula.
Direção? Puta que pariu.
O olhar que o professor me lançava era muito significativo, acusador. O velho sabia de alguma coisa e estava me julgando. Minha mente correu para o dormitório, onde eu tinha minha caixa de cigarros em um fundo falso na minha mesa, junto com outras coisas que eu mantinha comigo por precaução. Liam surtaria se visse o que havia ali.
Fechei a porta da sala com um pouco de força e caminhei pelos corredores vazios. Nenhuma alma viva transitava por ali. Se eu não estivesse dando duro por minha mãe, matar aula nesse silêncio seria a melhor coisa merda droga de quartel.
- Entre. – A secretária me conduziu até a sala da diretora-gostosa Campbell. A dita cuja estava me esperando lá dentro, sentada em cima de sua mesa, as pernas cruzadas, encurtando a saia, dando-me uma bela vista. Abri um sorrisinho antes de levantar os olhos para seu rosto. Ela não estava nada feliz.
- Zayn Malik. – Ela disse de um jeito tão autoritário que chegou a ser sexy. Imagina essa vadia na cama... – Tivemos informações de que você tem feito coisas erradas nessa escola.
Ela descruzou as pernas e cruzou os braços. Tive que me esforçar para não desviar o foco de seu rosto enquanto tentava entender o que ela queria dizer com coisas erradas.
Sabe, “coisa errada” é muito relativo. Depende do ponto de vista. Se para ela é errado foder algumas garotas no vestiário do ginásio para ninguém ouvir, fumar, guardar cervejas no armário e mandar aquela estátua de nariz bizarro do fundador dessa escola ir pro inferno toda manhã... Bom, então eu estava muito errado. Mas, para mim, nada disso passava de meros detalhes da vida. Não havia nada de errado. Eu sou autêntico.
- Do tipo? – Não evitei o sorriso.
- Vandalizar o patrimônio escolar. – A diretora Campbell saltou da mesa e foi para trás dela, pegando alguns papéis de uma gaveta.
Vandalizar...?
- Você...
- Srta. Campbell. – Ela me corrigiu rapidamente, tirando os olhos dos papéis por um segundo antes de balançar a cabeça negativamente e voltar aos papéis.
- Srta. Campbell – eu corrigi, mas a palavras saíram um pouco distorcidas, mero acaso da minha arrogância. – Por mais que eu amaria fazer tal interferência no ambiente escolar, eu não fiz nada. Por mais que suas paredes implorem por uma nova pintura, algo mais moderno, eu não toquei nelas. Sou inocente.
A diretora franziu o cenho, parando de perscrutar os papéis e olhou para ele.
- Paredes? – Ela ecoou a palavra. – Não foram mencionadas paredes, Sr. Malik. O busto do fundador foi vandalizado.
Ah.
O busto. Que busto? O único tipo de busto que eu sei é...
- A estátua. – A diretora explicou, provavelmente adivinhando o que se passava em minha mente.
Ah. A estátua. Tudo faz sentido. Aquele busto, estranho de nariz bizarro, torto.
- O cara do nariz torto? – Segurei uma risada.
Ela suspirou.
- Esse mesmo. – A voz dela estava cansada. – Tudo bem, Zayn. Você me parece realmente inocente, mas eu vou manter um olho em você. Pode ir.
- Eu tenho que voltar para a sala? – Fiz um biquinho, tentando minha sorte.
- Tem. E direto para a sala, por favor.
- Mas qual é a diversão nisso?
- É escola e não a Disney World, Sr. Malik. Por favor, eu tenho outros alunos para ver. – A diretora rolou os olhos e acenou para que eu deixasse a sala. Cara, sério. Imagina essa mulher na cama, em cima de você, implorando por mais.
É uma coisa que eu até pagaria caro para experimentar.
Levantei-me da cadeira e saí da sala... Um pouco aliviado. Não queria ter que pegar detenção – de novo – por besteira. Minha mãe não merecia passar por isso. Eu posso ser um bom filho... Bom, eu posso pelo menos tentar, certo?
Coloquei as mãos nos bolsos da calça e andei o mais devagar possível em direção ao corredor principal, onde ficavam os armários. O som ritmado de meus passos no corredor vazio me levou a uma música qualquer que eu estava ouvindo mais cedo e comecei a cantar qualquer parte da letra que me viesse.
Eventualmente, eu parei de cantar.
Dobrei o corredor da direita num ponto onde todos os quatro corredores se cruzavam e não contive o sorriso malicioso quando vi em seu armário, concentrada demais, aparentemente, para me notar ali.
Parei atrás dela, bem perto. Ela realmente estava concentrada demais em algum livro que estava procurando lá dentro. Existe coisa nesse mundo mais engraçada que assustar garotinhas estúpidas e ingênuas que nem ela? Vamos testar...
- Bom dia, parceira. – Falei, inclinando-me para seu ouvido. Contive a risada quando ela pulou no lugar, assustada e girou nos calcanhares para me encarar, com a mão no peito e os olhos arregalados. Quase ouvi um xingamento escapar de seus lábios.
- Meu Deus, Zayn! – Ela respirou fundo, recompondo-se.
- Eu te assustei? – Sorri um pouco, olhando-a de cima.
- Meu Deus, sim!
O sinal tocou em algum lugar acima de nós e o corredor explodiu, as salas de aula vomitando alunos pelas portas. olhou em volta, meio atordoada, preocupada ou até mesmo confusa, sei lá, o que viesse primeiro.
- O que você estava fazendo aqui fora de sala, boa garota? – Perguntei, aproximando-me um passo dela para que ninguém esbarrasse em mim.
- Esqueci meu... Eu não devo explicações a você. – Ela arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços. – O que você estava fazendo aqui fora? Matando aula? Fumando? Matando alguém?
- Não que eu deva explicações a você... – Imitei seu tom arrogante e depois abri um sorrisinho. Fui empurrado mais para perto dela, quando alguém esbarrou em mim. – Mas eu estava na diretoria, para sua decepção. Eu não matei alguém. – Esbarraram em mim de novo. – Ainda. – Grunhi, olhando para trás para ver quem era o filho da puta.
- O que estava fazendo na diretoria? Sabe, eu não quero ter um parceiro num trabalho importante com um cara que não está em bons termos com as autoridades. – O tom dela era mais e mais afiado. Estava começando a me incomodar. Por que tão defensiva, querida?
Outra pessoa esbarrou em mim.
- Não estou em maus termos. Não havia nada do que me culpar, não fui eu quem vandalizou a estátua de nariz torto. – Ri fraco, lembrando-me daquela estatua medíocre, não tinha nem um nariz bom. Ela, porém, pareceu bastante afetada. Preocupada, eu diria. – O quê? Você acha que os sentimentos da escola foram feridos? Como eles chamam isso mesmo? Valores? – Ri, seco.
- Não... Não, não é... – Ela gaguejou um pouco e depois fechou os olhos, mordendo o lábio inferior. – Esquece, eu não devo explicações a você. – Repetiu, pegando qualquer coisa de seu armário e o fechou com uma força um tanto desnecessária. Arrumou a bolsa no ombro e saiu andando.
- Vejo você mais tarde, gracinha. – Falei, alto o suficiente para ela e a metade do corredor ouvir. Ela olhou por cima do ombro, parecendo desconsertada.
Como eu devo ter dito alguma vez, era alvo fácil.
’s POV
Senti alguns olhares quando bati a porta de meu armário com uma força desnecessária. Como sempre, ignorei-os completamente e andei em direção à sala de matemática. Por algum motivo desconhecido eu gostava dessa matéria. E, o que era mais estranho, o professor parecia gostar de mim também. Não conseguia entender como ou porque, mas eu não reclamava.
Eu fui uma das primeiras a entrar na sala, o que era bom porque podia escolher o lugar onde sentar. Fui para uma das carteiras da parede, mais ao fundo da sala e esperei o resto dos alunos entrarem enquanto tentava organizar a bagunça que minha mochila era. Eu acho que havia coisas ali que não eram tiradas desde minha primeira semana.
Por fim, quando a porta foi fechada desisti e só peguei uma caneta qualquer que achei por ali e o caderno.
O professor levantou, checando em seu caderno alguma coisa e então se aproximou das classes, enquanto todo mundo ainda falava demasiadamente alto sem se dar conta de que havia alguém ali na frente querendo atenção. Olhei para onde o maior tumulto se concentrava: como sempre aquele cara que tinha algum grau de parentesco com , o tal de Liam Payne e seu amiguinho que eu não tinha ideia do nome e que sempre andava correndo atrás dele, de Harry Styles e Louis. Liam tinha uma risada alta e estava sempre falando e falando sem parar com os amigos, sentado em cima de uma classe e com os pés na cadeira enquanto batucava com as mãos em algum lugar.
Ainda com todo o barulho, o professor chegou em frente à minha mesa.
- Senhorita .
Ergui os olhos para ele.
- A diretora Campbell está te convocando à sala dela.
Franzi o cenho, mas não fiz muito caso. Soltei a caneta e levantei da cadeira.
- Se voltar a tempo de ver a aula por favor traga a autorização. – ele avisou e concordei com a cabeça, saindo da sala.
Os corredores estavam vazios. Caminhei até a direção, imaginando as possibilidades do que poderia ser. Tá certo, entre todos os alunos daquele colégio eu não era das melhores. Mas tinha certeza que gente como , por exemplo, tinha mais histórico do que eu. Tentei lembrar de algum momento em que deixei alguma brecha que desse a alguém a chance de reclamar dos meus cigarros ou, talvez, das minhas saídas pela porta de incêndio no meio da noite. Bem, eles não podiam me culpar por ter um vício e nem muito menos por querer um pouco de ar puro, não é?
Quando parei na porta da direção foi que percebi que eu não ligava. Eu só me preocupava que fosse mandada para um lugar um pouquinho pior se fosse expulsa dali. Talvez um lugar com gente retardada (eu quero dizer, que foi comprovado pela medicina, porque eu me sentia rodeada de retardados ali também). Ou, talvez, eu fosse internada assim como meu pai em um lugar cheio de pessoas emocionalmente instáveis ou com problemas sérios. Bom, entre pessoas doentes e irrelevantes em um hospital psiquiátrico, e em um colégio interno eu optava pelo segundo. Pelo menos aqui eles agem como se não soubessem o que realmente são. Triste realidade.
A secretária de Olivia Campbell me direcionou até a sala da dita cuja logo depois que pisei lá dentro, e a porta foi fechada atrás de mim. Mesmo a contragosto,
me senti obrigada a sentar no único lugar possível da sala: a cadeira em frente à mesa da diretora. Eu me sentia em algum tipo de interrogatório, e não era confortável.
- Bom dia, senhorita . – ela disse por cima de seus óculos quadradinhos, sem levantar o olhar daquela papelada toda.
- É. – falei, pigarreando e me ajeitando na cadeira.
- Eu serei direta, , assim como acredito que você também seja – ela disse, com um tom sério. Pelo menos ela não ia enrolar. – Alguém vandalizou o busto do nosso fundador.
Senti meu corpo gelar por dentro e enrijecer, porém, graças à minha facilidade e naturalidade em parecer desinteressada, tenho certeza que isso não ficou visível.
- Já chamou as autoridades? – perguntei, com um tom de indiferença e um pouquinho de curiosidade para mascarar. A primeira coisa que eu iria fazer ao sair daqui seria encontrar e aquelas outras no refeitório. Se eu fosse levar a culpa, que não fosse sozinha.
Ela me encarou seriamente por um segundo, e pensei ser pega. Mas mantive a confiança, até hoje ninguém duvidou de minha expressão indiferente. Então, Olivia se apoiou nos antebraços em cima de sua mesa e me lançou um olhar de quem está decidindo como julgar algo o alguém.
- Eu quero que seja sincera, . Eu posso garantir que admiro muito mais alguém sincero, do que alguém inocente.
Esperei que ela terminasse a frase, mas pelo jeito ficou por aí mesmo.
- Diretora C – suspirei. – eu não sei quem foi que aleijou o nariz da sua estátua.
Ela se desescorou e sentou para trás em sua cadeira, balançando-a levemente para os lados com um pequeno sorriso.
- Você está me dizendo com toda sua sinceridade que não sabe quem foi que depredou o busto do fundador?
Não.
- Sim.
- Ótimo. – ela assentiu, voltando para perto da mesa e lendo algo em uma folha. – É tão curioso que você e o senhor Malik tenham quase a mesma reação ao serem perguntados sobre isso. Até mesmo sobre o nariz os dois falaram.
Espera... Malik? Ela quer dizer... Zayn Malik? O encrenqueiro?
Franzi o cenho e isso ela percebeu. Então quer dizer que diretora Campbell estava fazendo sua lista de possíveis vândalos sem nenhuma pista em que se apoiar, e julgando apenas pela reputação de cada aluno? Quase que soltei uma risada sarcástica. Se for assim, querida diretora, as verdadeiras culpadas serão as últimas pessoas a passarem pela sua cabeça. Exceto, talvez, por .
- Algum problema, ?
- Na verdade – me revirei na cadeira. – Sim. Então, eu não acho que tenha algo realmente a ver com Zayn Malik, mas... A senhora realmente está achando que pessoas como eu e ele perderíamos tempo quebrando o nariz de uma coisa feia daquelas?
- Só o jeito como fala da propriedade já diz muito sobre como julga ela por si só.
Revirei os olhos sem conseguir me conter.
- Por favor, diretora. Veja bem – me inclinei um pouco para frente, apoiando as mãos na guarda da cadeira. – Tá certo que a gente não tem muito a fazer além de estudar feito condenados ou agirmos feito detentos dentro dessa... – olhei em volta, torcendo o nariz. – Escola, mas...Realmente não faz o nosso estilo sair por aí quebrando estátuas pelo simples prazer do vandalismo. Pelo menos não faz o meu estilo. E se fizesse, eu posso garantir que faria um trabalho melhor do que aquilo na cara daquele pedaço de pedra.
- Já chega, senhorita . – ela fecha os olhos por um segundo. – Eu exijo que use mais respeito ao falar...
- E eu exijo que reveja seus conceitos de respeito, quando está claro que apenas chamou os primeiros nomes que passaram à sua cabeça quando pensou em vandalismo. – levantei-me da cadeira, agora um tanto irritada.
- Senhorita . – ela se levantou também, indo para a porta e abrindo-a para mim. – Por favor, acompanhe Cintia até a sala da detenção. Eu tenho certeza que lá a senhorita terá bastante tempo para se acalmar. – chamou a secretária com a cabeça e a mesma se levantou prontamente. – E mais tarde, talvez, você possa voltar aqui se desejar compartilhar algo que ache importante sobre os acontecimentos dos quais conversamos.
Bufei outra vez, agora completamente de saco cheio da petulância da mulher. Abri mais a porta para poder passar e segui a passos firmes até a tal sala, antes mesmo da secretária ter tempo para me acompanhar.
Que divertido, . Você não podia mesmo ter calado a boca, não é?
’s POV
- Abram os livros na página quarenta e cinco e resolvam os exercícios. – O professor de matemática disse, escrevendo no quadro negro as questões que ele queria. Apoiei o rosto nas mãos e olhei para a janela, o tempo lá fora estava meio duvidoso. Uma chuva podia cair a qualquer momento. Internamente, desejei que a chuva caísse e fizesse a energia cair também. Estava imaginando o que eu estaria fazendo se estivesse na França agora quando uma mão me cutucou. Olhei para o lado e vi um garoto com pelo menos mil furos na orelha direita inclinado na minha direção.
- Você sabe fazer o exercício cento e sete? – Ele apontou para o livro, fazendo meus olhos se fixarem ali.
- Tente tirar a matriz. – Falei e voltei a olhar a janela. Mas ele voltou a me importunar.
- Como se tira a matriz? – Perguntou de novo, coçando a orelha de ferro. Não respondi. Talvez, se eu ficasse calada, ele veria que não estava afim de falar com ninguém hoje. – Hein?
- Eu não sei explicar. – Abri um sorriso vago. – Pergunte ao professor.
E o garoto fez isso. Aproveitei o momento de distração do professor com o garoto bizarro para checar minha caixa de mensagens do celular. Eu tinha, pelo menos, quinze mensagens não lidas de Scarlet. Mas eu não iria ler essas mensagens. Ela escolheu ir comer o namoradinho dela ao invés de passar minha última noite na França comigo. Ela fez a escolha dela, não havia perdão. Mas não havia nenhuma mensagem dele.
- ! – Ouvi o professor me chamar da mesa dele. Levantei a cabeça rapidamente e olhei para ele, um pouco assustada. O que eu menos precisava agora era outra detenção. – Venha aqui.
Levantei-me devagar. O menino com a orelha furada já estava de volta ao seu lugar e me abriu um sorriso solidário. Filho da puta, ele havia me dedurado! Provavelmente o lance da matriz não deu certo e ele disse que fui eu quem falou para ele fazer isso! Cheguei à mesa do professor com certo pesar.
- De onde saiu a ideia de achar a matriz no exercício cento e sete? – Ele quis saber, cruzando as mãos na frente do peitoral. Seus olhos me escrutinavam e eu estava começando me sentir desconfortável com o brilho em suas orbes.
- Eu... Eu apenas vi os cinco números e a incógnita e... – Eu comecei a me embolar, nervosa. Ele balançou a cabeça e fez menção para que eu parasse de falar.
- Você sabe que matriz é um conteúdo que ainda não vimos, não sabe? – Ele riu consigo mesmo e tirou um bloco de folhas amarelas de uma das gavetas da mesa. Não, eu não sabia, eu quis dizer. Na verdade, eu já havia visto Matrizes na série anterior, na França. – Quero que vá ao bloco 3, na sala 12B e mostre isso ao professor desta sala. – Entregou-me a folhinha amarela. – Às 15h.
- Mas eu tenho extra...
- Apenas vá até lá, . – Ele sorriu um sorriso que deixou à mostra seus pés de galinha e outras rugas. – Pode se sentar agora.
Voltei ao meu lugar timidamente, analisando o papel amarelo que ele havia me dado.
- O que é isso? – O garoto me perguntou quando eu me sentei novamente. Entreguei a folha para ele. – Ah, é a Srta. Clank. Ela é professora de matemática. Acho que eles estão tendo um caso. – Fofocas à parte. – É a turma de Matemática Avançada da escola.
Matemática Avançada.
Mordi o lábio inferior, reprimindo um sorriso. Peguei o papel de volta da mão do garoto e me virei para frente, fitando o quadro negro e as fórmulas que o professor colocara ali para ajudar a resolução dos exercícios. Eu fui indicada para a turma de matemática avançada! Naquele momento, tudo o que eu queria era sair pulando. A felicidade que eu estava experimentando... Não, não felicidade. Mas algo proporcionado pelo reconhecimento... Prazer. O prazer de ser reconhecida, o prazer de ser elogiada, o prazer de ser condecorada. Ok, não há nenhuma medalha, então nada de condecoração para mim, mas... Ah!
Tirei o celular do bolso e abri a pasta de mensagens que trocava com minha mãe. Comecei a digitar a mensagem contando as novidades, mas logo o gás foi diminuindo e meus dedos pararam no meio de uma palavra. Eu não podia contar à minha mãe! Ela iria achar que eu estava feliz demais aqui e não iria querer me levar de volta para a França! E isso... Isso seria insuportável. Seria terrível não ter minha mãe ao meu lado quando tudo o que eu mais queria era ficar longe do meu pai e sua nova perfeita família feliz.
Soltei então meu celular em cima da mesa e olhei para o céu lá fora.
Eu estou perdida.
O barulho de estática preencheu a sala silenciosa e todos olhamos para a caixa de som em cima do quadro, esperando que o aviso fosse dado.
- Atenção, alunas e , compareçam à sala da direção. – Disse a voz feminina na caixa de som. Houve um pequeno silêncio para uma troca de olhares entre os estudantes daquela sala e então o lugar explodiu em murmurinhos e risadinhas animadas, sussurros e gritinhos afobados. Lancei um olhar questionável ao garoto bizarro e ele apenas balançou a cabeça, voltando sua atenção ao dever de matemática. Uni as sobrancelhas, curiosa. Esse era o jeito dele dizer que sabia o que estava acontecendo, mas não aprovava e não queria contar...?
Então pensei em , e direção na mesma frase.
E o anúncio da ciência da direção outro dia no auditório sobre o acidente. Acidente esse que eu, , , e fomos as culpadas e agora as duas estão sendo chamadas à sala da diretora! Então! Ai. Meu. Deus!
Meu celular vibrou no meu colo, fazendo-me dar um pulo na cadeira. O garoto bizarro olhou para mim de um modo estranho por alguns segundos. Abri um sorrisinho e coloquei o cabelo atrás da orelha. Peguei o celular, lendo o nome que indicava ser o dono da mensagem que eu recebera. Era Liam. Franzi o cenho.
e arrumando a festa... Cara, essa vai ser escrota! Vou cair de boca naquela gostosa da Clarisse hehe”.
Meu queixo caiu. Antes que eu pudesse processar o que eu li, outra mensagem chegou, também dele.
“Puta que pariu. Número errado! Foi mal, irmãzinha!”.
Aquele filho da Barbie...
Voltei de novo na primeira mensagem, lendo com atenção um pequeno detalhe que acalmou meus nervos. Festa. Liam disse festa. e estarão organizando a festa... Que festa? Não. Não importa.
- Estou discutindo comigo mesma. – Coloquei os dedos indicadores sobre as têmporas e fechei os olhos.
- Está falando sozinha? – O garoto bizarro olhou para mim, duvidando da minha sanidade mental. Abri a boca para falar, mas eu estava cheia de alívio e medo ao mesmo tempo, por isso mantive minha boca aberta, tentando provocar algum som, mas nada saiu. Ele balançou a cabeça duas vezes e voltou ao dever.
Afundei em minha cadeira, sentindo-me ainda mais estúpida.
Quando o sinal tocou, recolhi minhas poucas coisas que estavam em cima da mesa e disparei para a porta sem me importar com os olhos do garoto bizarro em mim. Abri a primeira porta das escadas de incêndio que vi e a fechei atrás de mim. Ali estava escuro, e calmo. Bem calmo. Escorreguei até o chão e puxei os joelhos para o peito.
Eu precisava relaxar.
’s POV
- Então desistiu mesmo do teatro, né? – ele perguntou enquanto chutávamos uma bola desanimadamente no pátio ensolarado da escola.
- É, não é para mim.
- Pensei que já tinha descoberto isso na quinta série...
- Não ouse me lembrar desse episódio vergonhoso, Styles.
- Tudo bem. – ele riu. – Só quis dizer que você é muito melhor no futebol, e sabe disso. Com você no time, a taça do campeonato é nossa de novo!
Sorri enquanto buscava a bola que ele chutou para longe.
- Você acha mesmo? – eu só queria ouvir essas palavras vindas dele outra vez.
- É claro, as outras garotas têm medo de você. – ele riu, e meu sorriso sumiu.
Harry me fazia lembrar o quanto eu sou patética o tempo todo. Mas raramente ele percebia essas coisas, e quando percebia ele não sabia como agir.
Voltei a chutar a bola, com mais força agora, e ele me olhou confuso e foi correndo buscar mais longe. Enquanto voltava correndo, eu olhei em volta e percebi Zayn, encostado em uma árvore, com seu habitual cigarro. Aquele menino não cansava de fumar nunca? Mesmo assim, era inevitável perder o olhar nele. Era simplesmente... demais.
- Você lembra aquela vez no terceiro ano, quando roubamos aquele chocolate da loja da Srta. Pearson?
- E nós comemos ele tão rápido com medo de sermos pegos que vomitamos a noite toda. – assenti, voltando a olhar para ele com muita dificuldade.
Harry concordou e riu.
- E gente aprontava cada uma... Lembra quando derrubamos a casa da árvore?
- E sua mãe saiu correndo atrás de você com uma vassoura, gritando que ia quebrar o resto na sua cabeça. – chutei a bola para ele de volta, mas dessa vez pegou em suas canelas.
- A gente ficou limpando os restos dela do meu quintal por uma semana... Bons tempos.
- É. – disse, apenas. - Você já pensou se...
- O quê?
- Nada. – balancei a cabeça.
- O que, ?
Que cabeça, a minha. Harry é a pessoa mais curiosa que eu conheço.
- Se tivéssemos fugido aquele dia, a três anos atrás. Onde será que nós estaríamos?
Ele deu de ombros, chutando a bola diretamente em minhas mãos.
- Em algum lugar legal. Mais legal que aqui, pelo menos. Mas olhe pelo lado bom, agora temos o Louis para carregar nossa mochila. – ele se direcionou a Louis com um aceno de cabeça, e eu vi que o garoto se aproximava de onde estávamos calmamente.
Ri fraquinho.
- Talvez tivéssemos voltado, não acha?
Olhei para ele, tendo que estreitar um pouco os olhos para enxergá-lo contra o sol.
- Quer dizer, nós não sabemos nos cuidar sozinhos. Somos encrenqueiros. E só tínhamos uma mochila com roupas e quatro Twix e o seu skate. Ninguém sobrevive assim.
- Tínhamos um ao outro. – murmurei, baixinho, chutando a bola nele outra vez, mas meu chute foi torto, tamanha minha frustração repentina e Louis a pegou no ar antes de ela acertar seu rosto. Me jogou outra vez.
Nessa hora o sinal bateu e soltei a bola no chão, em frente aos meus pés.
- Tem razão. – concordei com a cabeça e chutei a bola com o intuito de deixar junto com aquele chute toda a frustração repentina que sentia. Acabou saindo forte demais.
E acertou no lugar decididamente errado, fazendo Harry se curvar de dor levando as mãos ao meio das pernas e se jogar no chão. Louis exclamou algo antes de ajudar Harry.
- Cacete, ! – Louis me olhou meio assustado, e levantei as mãos.
- Para de frescura e levanta logo. – falei, pegando minha mochila do chão ao lado do corpo dele, e me virando de costas. – temos um teste de francês, Louis. Vamos.
Louis me encontrou alguns segundos depois, já longe de Harry.
- Acha que ele vai ficar bem?
Que se dane ele. E eu? Ninguém pensa em mim? Ninguém se lembra que, porra, eu também tenho sentimentos? Suspirei pesadamente e balancei a cabeça.
- Ele sempre fica bem.
’s POV
Hora do almoço. Finalmente eu estava livre para voltar ao meu dormitório e trocar a maldita saia que Liam fez questão de molhar durante a aula de química. Laboratórios, eu e Liam não combinávamos na mesma frase. O cheiro de permanganato de potássio era tudo que eu podia sentir, me causando náuseas.
Os corredores do dormitório estavam vazios por causa do horário, apenas uma ou duas pessoas passaram por mim por todo o percurso até a porta do meu quarto, minha mente ignorando qualquer influência externa enquanto eu listava as coisas que precisava.
Tirei a chave da mochila e a posicionei corretamente na fechadura, mas a porta já estava aberta. Franzi o cenho, aquilo não era esperado. Na verdade, nem um pouco esperado. Quem havia entrado no meu quarto sem permissão minha?!
Entrei no quarto com um pouco de desconfiança, atenta como se a minha própria casa tivesse sido arrombada.
A única diferença é que aqui o ladrão teria alguma coisa para levar enquanto em Rouen encontrariam apenas um vão vazio, o segundo andar estaria vazio também e sem sinal de habitação anterior se não fosse pelo bilhete pregado ao lado da porta dizendo que a Itália era realmente interessante e ela só voltaria daqui um ano.
- Oi? - Chamei em voz alta ao entrar, olhando em volta.
Um barulho vindo do banheiro me assustou. A porta se abriu e por ela saiu uma garota (o que mais eu esperava em um dormitório feminino?) de cabelos vermelhos. Ela tinha um olho maquiado e o outro não.
- Que foi? - Ela colocou as mãos na cintura.
- Quem é você? - Perguntei, aço dentro de mim avisando que eu já não fui com a cara dela. Cruzei meus braços, indignada com a audácia dela.
- A pergunta é quem é você. - Enfatizei o ‘você‘. - E o que está fazendo no meu quarto?
Depois de um segundo, ela pareceu entender o que eu havia dito.
- Você é a minha colega de quarto? - O tom dela não insinua nada demais, mas os olhos dela se estreitaram quando a palavra você saiu de sua boca.
Oh, que alegria.
Não poderia ser melhor estar presa em um colégio interno. Eu tinha que ter a adolescente sexualmente ativa como colega de quarto.
Se bem que todo mundo hoje em dia é sexualmente ativo. Interessante dado para a preocupação dos pais.
Ela me olhou dos pés à cabeça de novo e tirou as mãos da cintura.
- Qual seu nome?
- . E o seu?
- Rebekah.
- Prazer. - Murmurei, sem realmente querer dizer aquilo, mas não estava com paciência para ser grossa e começar uma pequena discussão. Ela me respondeu com alguma coisa ininteligível e voltou para o banheiro.
Fui até o meu lado do closet e peguei outra saia do uniforme de lá. Minha paciência já estava no limite e eu honestamente acho que poderia arrancar a cabeça do Liam com os dentes se esbarrasse nele no corredor. Troquei também o All Star branco que agora estava roxo por causa da substância idiota da aula de química. Juntei a roupa suja num canto da minha cama e fui para a porta. Girei nos calcanhares para perguntar à Rebekah se ela queria que a porta fosse trancada por mim ou se ela tinha a chave, mas eu me descobri incapaz de me importar com isso e saí do quarto. Meu estômago me implorando para receber alguma coisa e assim fiz.
O refeitório estava cheio, como de costume, a fila para pegar a comida estava tumultuada e o cheiro, sem ajudar, estava ótimo.
Avistei e sentadas numa das mesas no centro, rindo de alguma coisa com algumas pessoas em pé ao redor da mesa. O preço de ser popular, eu imagino. Deve ser um inferno. Assim como a mesa do Harry Styles, a única diferença sendo a presença dominante das garotas enquanto e eram rodadas de garotos e garotas. Não podia negar, até eu gostava de para entender aquilo.
Esse tipo de gente que atrai pessoas para perto.
Bem diferente de mim, pensei, enquanto ia para a fila. Diferente para mim e para a Freak sentada sozinha no extremo canto do refeitório, sozinha, sempre sozinha, e fones de ouvidos. Eu tinha minhas sérias dúvidas sobre aquela garota. Consequência desastrosa de uma sociedade monstruosa. É, eu tinha pena dela.
Na verdade todo mundo nessa escola era digno de pena.
Peguei minha bandeja e comecei a me servir. O almoço hoje parecia delicioso e eu não queria arruinar aquele momento sagrado por nada, nem mesmo por...
- Batatas não são saudáveis, Srta. Boa Alimentação. - A voz veio de trás de mim. Fechei meus olhos, tentando controlar a vontade de, de fato, arrancar a cabeça dele com os dentes.
- Jura? - Respondi, colocando um pequeno pedaço de pão no prato.
- Está faltando ferro nesse prato. - Ele espiou por cima do meu ombro.
- Não se o molho for seu sangue. - Respondi automaticamente, sem mostrar emoção alguma, sem me incomodar de virar para ele. Peguei um pedaço de carne ao molho.
- Tenho certeza que você gostaria de engolir outro líquido meu. - Ele sussurrou, chegando muito perto de mim. Arregalei meus olhos, chocada com o que ele disse.
- Liam! - Sussurrei de volta, horrorizada. Ele caiu na gargalhada.
- Por favor , você não encostaria a boca na minha glória nem se você fosse a última pessoa nesse mundo. - Ele ficou sério, até um pouco decorado.
- Nem se eu quisesse, Liam, eu prefiro algo grande e grosso. - Abri um sorriso cínico e fui até o refrigerador pegar uma lata de Sprite.
Fiquei satisfeita ao notar que ele não me seguia. Achei uma mesa vazia, passando pela mesa das meninas fingindo que estava com pressa, não queria ter que me sentar com todas aquelas pessoas. Sentei-me sozinha e me concentrei na comida, aliviada por estar colocando algo para dentro desde a noite anterior.
- Como as notícias correm por essa escola! – Rebekah sentou-se ao meu lado e abriu um sorriso estranho... Algo que eu classificaria como um sorriso devasso.
- O que você quer? – Fechei meu livro e olhei para ela, sem a menor vontade de fazer isso.
- Fiquei sabendo de seus laços familiares...
- Vá direto ao ponto. – Cortei-a, mesmo sabendo aonde ela queria chegar.
- Você pode me apresentar para o seu irmãozinho? – Ela acenou com a cabeça para a mesa de Harry, onde Liam estava sentado, comendo sua refeição nada saudável. Ela queria que eu fosse uma espécie de canal entre os dois? Não, obrigada. Se ela queria ir para a cama com o troglodita do Liam, que ela tentasse por si só. Eu que não iria ajudar o Liam a espalhar seus ovinhos por aí.
- Vou ver o que posso fazer. – Forcei um sorriso para ela e ela me sorriu alguma coisa de volta, não muito convencida com minha resposta. Bom, eu não ligo. Sem mais nenhuma palavra, voltei minha atenção ao livro.
- Srta. , pode me acompanhar? – Uma senhora de cabelos grisalhos tocou meu ombro suavemente. Levantei o olhar para ela e acenei com a cabeça, reconhecendo a secretária da direção.
Ela nos conduziu até a sala da diretora e abriu a porta para mim.
Fodeu, pensei. E agora?
Era a minha vez de ser interrogada e eu nem havia perguntado à ou à o que elas haviam respondido à mulher.
Esbocei algum sorriso para a senhora e entrei na saleta, tentando manter a respiração. A diretora Campbell estava sentada em sua cadeira, assinando papéis. Sentei-me na cadeira em frente a ela e cruzei as mãos sobre o colo.
Pigarreei.
- Ah! – Ela levantou a cabeça e fixou seu olhar em mim. – Srta. , certo?
Assenti.
- Ótimo; mandei que te chamassem. Espero que não tenha interrompido seu almoço, estou sem outro horário disponível para recebe-la.
- Ah... Eu fiz algo de errado? – Perguntei. Meus amigos sempre me diziam que eu era a maior cara de pau. Sabia mentir como ninguém, mas dessa vez era diferente. Havia muita coisa em risco como ser expulsa da escola e, consequentemente, perder ainda mais meu pai para a família perfeita dele.
- Isso é o que eu quero saber. – Ela me olhou com o semblante sério, substituindo o sorriso.



Capítulo 6


Harry’s POV
- Tá todo mundo falando. – Josh voltou a falar, empolgado como sempre. – Ela é gostosa pra caralho, é demais!
- O que tem no lanche especial? – Louis perguntou, se curvando na cadeira para chegar mais perto e me perguntar.
- Um hambúrguer enorme. – apontei para o hambúrguer em meu prato. – devia ter pego.
- Estava falando de que mesmo, Josh? – Liam voltou da máquina de bebidas com uma lata de refrigerante e sentou ao lado de Josh.
- Da garota nova. Como vocês ainda não viram? Ela é incrível!
- Tenho certeza que ele está exagerando porque a garota deve ser gostosa. – Louis concluiu.
- Gostosa é apelido para aquela garota.
- E o que já descobriu sobre ela nesses três períodos desde que ela entrou no colégio? – Liam perguntou.
- Ela é filha de um chefe do exército. – Josh respondeu com a boca cheia de pão com molho, sem se importar em espalhar seus germes pela mesa toda. – Um ricaço qualquer de Londres. Dizem que foi mandada para cá porque nem o cara aguenta mais ela. Já foi parar na detenção na primeira aula porque estava pintando as unhas durante a aula de álgebra, e o Diego disse que ouviu o Robert falar que a Olivia disse que não pode fazer nada com ela porque o pai dela tá pagando muito caro para manter ela aqui.
- Você é uma menininha muito fofoqueira, Josh. – debochei.
- Por que não mandou ela pra um colégio militar ou algo assim então? – Louis fez careta.
- Vai ver já tentaram isso. Sei lá.
- Você definitivamente não sabe o que é um colégio militar, Josh. – Liam falou, afastando sua bandeja de comida e sentando para trás na mesa. Pegou as baquetas de seu colo e começou a batucar na mesa, como sempre fazia. – Quando vamos falar com o loirinho para ver as tais músicas que ele escreve?
- Se vocês disserem que fui eu quem contei que são músicas ele vai saber que eu andei fuçando nas coisas dele. – Josh alertou.
- Mas você andou. – falei.
- Mas não quero que ele saiba.
- Qual é a surpresa em descobrir que você é fuxiqueiro? – Liam rebateu, e eu ri.
- O que ele pode fazer se descobrir? Se trancar no banheiro e chorar? – Louis revirou os olhos. – O cara é tranquilo.
- Dez pratas que ele não compõe nada que preste. – Liam disse.
- Dez pratas. – Louis apontou para ele.
- Você sempre acha que todo mundo tem um lado bom, Louis. – Liam revirou os olhos.
- Nisso eu tenho que concordar. – Josh falou. – Quer dizer, olhem a Sally por exemplo. O lado bom dela é o das costas.
Todos caíram na risada, sendo Liam o que mais chamava a atenção por isso.
- Boa, irmão. – fiz um toque com ele.
- Ali, olha! – Josh quase pulou na cadeira e apontou para a porta do refeitório, onde uma garota alta entrou. Os cabelos vermelhos caiam sobre os ombros em cascata, e sua camiseta social do colégio já havia sido estilizada por ela, meio aberta em cima e meio aberta embaixo, deixando a pele à mostra e causando imaginações férteis a cada cara daquele refeitório. Havia um pequeno pircing preto no lado esquerdo de seu lábio inferior, e eu me imaginei arrancando-o com a boca.
- Qual você disse que era mesmo o nome dela, Josh? – perguntei, sem desgrudar os olhos da garota.
- Ele não disse... – Liam me respondeu, também com o queixo no chão olhando para a garota.
- Rebekah. Rebekah Murray.
- Rebekah... – eu e Louis falamos ao mesmo tempo.
- Curti o cabelo dela. – uma voz feminina me acordou quando alguém me empurrou para o lado no banco e sentou ao meu lado, indo direto para meu bolinho de laranja em minha bandeja.
- Oi, .
- Oi, Harry. – ela respondeu com o mesmo tom cínico enquanto eu reclamava de dor no braço por ter levado um empurrão. Voltei o olhar à novata gostosa. – Come – enfiou o bolinho na minha cara com o chantilly virado para mim. Ela odiava chantilly. Quem em sã consciência odeia chantilly, cara?
Comi a cobertura branca de cima do bolinho e ela comeu o resto.
- Desde quando você nota no cabelo de alguém? – disse, tentando voltar ao planeta Terra quando a novata sumiu de vista.
- Não tem como não notar essa menina. Só falta ela andar por aí com a cara pintada de roxo. Além disso, sou bem detalhista. Noto que você não penteia o cabelo desde o mês passado.
Fiz careta para ela.
- Você sempre usa o mesmo tênis e vem falar de mim?!
Ela deu de ombros.
Olhei em volta no refeitório bem movimentado, procurando a tal Rebekah outra vez. Quando a vi sentada ao lado de , que estava sozinha na mesa, como se isso fosse um comportamento normal, como se as pessoas simplesmente sentassem ao lado da irmãzinha sinistra de Liam Payne o tempo todo, tive que encarar por um tempo para decidir se era real. Aquela cena foi tão interessante, que tive que prestar atenção. estava entretida com um livro, e passava o indicador devagar pela borda do copo descartável em que tomava água enquanto balançava a perna cruzada e os olhos percorriam pela página do livro. Havia acabado de terminar o almoço, ao que parecia. A tal Rebekah sentou ao lado dela e falou algo perto de seu ouvido, o que fez levantar o olhar para ela. Ficou em silêncio por um tempo, talvez tão surpresa quanto qualquer um por alguém ter sentado ao seu lado, e depois seguiu o olhar de Rebekah que parava, adivinhem, bem em nossa mesa, em Liam. Ela forçou um sorriso e assentiu para seja lá o que for que Rebekah disse. A novata sorriu de volta e saiu do refeitório.
Isso era no mínimo curioso.
Louis’ POV
Nossa mesa era, sem dúvida alguma, a mais barulhenta de todas. Tirando eu mesmo, Liam e Josh tinham uma risada escandalosamente alta. Nos poucos segundos de silêncio que se seguiam, alguém lembrava de um fato interessante do dia e todos caíam na gargalhada de novo.
- Mas a garota nova é gostosinha. – Liam comentou.
- Gostosinha? Ela virou meu sonho de consumo. – Josh olhou para todos e depois largou o bolinho inglês que tinha na mão e levou a mão para baixo da mesa com um olhar malicioso.
- Ah, por Deus, Josh! – fiz careta e joguei uma uva verde nele. O garoto riu.
- Pelo menos ele não tem medo de chegar perto das garotas. – Harry comentou e todos olharam para mim e gargalharam.
- Quando é que vocês vão esquecer disso? – revirei os olhos. – Em minha defesa, Rebekah não é nem um terço tão assustadora quanto... Vocês sabem. – olhei para a mesa mais afastada de qualquer ser humano no refeitório e encontrei a garota de costas para nossa mesa, com o corpo encostado na parede, alheia a qualquer coisa no ambiente.
- É mais fácil você se acostumar, Louis, não vamos esquecer. – Liam falou e piscou para mim, o que me fez ouvir alguns suspiros vindos das garotas da mesa de trás, coisa tão usual que nós já estávamos acostumados a ignorar.
- Qual é, a Freak nem é tão assustadora assim – Josh disse mais baixo e olhou por cima do ombro para ela. Eu a observei revirar uma maçã em sua mão por um tempo, mas logo desviei o olhar. Josh voltou a olhar para todos com um olhar amedrontado. – Será que a tatuagem de demônio no final das costas é real?
- Bem que você queria ver – Liam deu um soco no braço dele e os garotos riram de novo, engatando em uma conversa de “e quem é que não queria” e comentando sobre as diversas curvas de .
- E você? – cutuquei , que geralmente era a mais falante da mesa e hoje estava quieta. – Qual é o problema?
- Dor de cabeça.
- Ah é? – levantei uma sobrancelha e ela apontou para o próprio olho.
- Levei uma bolada na cara.
- Isso deve ter doído. – fiz careta.
- Não foi o que doeu mais. – ela sorriu e voltou a comer. Senti uma leve insinuação na sua voz, mas não falei mais nada. Eu podia ser louco, e sei que Harry conhecia há muito mais tempo que eu, mas sentia que às vezes eu era a pessoa com quem ela tinha mais facilidade em conversar de verdade. Por mais que não fôssemos do tipo que compartilhavam segredos e arrumavam o cabelo um do outro.
- Aí, aí, aí! – Josh chamou a atenção de todos chamando baixinho, e os outros pararam de conversar e o olharam. – a gostosinha tá vindo de novo.
- Tenho quase certeza que isso que vocês estão fazendo é assédio sexual, sabiam? – comentou, mas Josh fez “shhh” para ela, que o jogou um guardanapo amassado.
Todos os olhares se voltaram para ela e acompanharam a tal de Rebekah até a fila, agora não tão grande, para pegar a comida. Ela passou por algumas pessoas sem se importar em esperar sua vez, e pediu o lugar do garoto bem lá na frente. Ele cedeu, é claro, quem não cederia para uma gostosa daquelas com uma saia tão levantada que metade das suas coxas ficavam livres? A garota olhou para o balcão e escorou os braços ali, deixando aquela vista gloriosa para todo o refeitório, e escolheu um bolinho de chocolate. Então, saiu rebolando e foi até a mesa de umas garotas do segundo ano. O pessoal da minha mesa voltou a conversar, e apenas eu continuei cuidando a cena, sem nada mais interessante que prendesse minha atenção. Rebekah então sentou na mesa das garotas sem nem pedir permissão e cruzou as pernas, sorrindo para uma das garotas e pegando uma caneta que havia no bolso da mesma. Pegou um guardanapo dessa mesma garota e escreveu algo. Ela passou o guardanapo para a garota e falou algo, e então a menina olhou de relance para a nossa mesa e fez que sim com a cabeça. Olhei para todos da mesa, para me certificar de que eles também haviam visto. Mas só quem prestara atenção além de mim foi Josh, que me lançou um olhar confuso. Liam e Harry tratavam de um assunto qualquer e terminava de comer.
Rebekah saiu do refeitório provocando olhares, e só alguns segundos depois o grupo de garotas da mesa onde ela sentara levantaram e se aproximaram da nossa. Aquilo sim era estranho. Ninguém nunca se aproximava da nossa mesa, era uma regra. Uma regra que estava no ar, apesar de ninguém ver, todos a conheciam.
A menina que segurava o guardanapo apenas o soltou perto de Harry e todas elas passaram reto, saindo do refeitório. Josh ao lado de Harry, praticamente pulou de entusiasmo. Talvez ele pensasse que seria para ele e a garota se enganou. Coitado.
Harry pareceu acordar de sua conversa com Liam e olhou em volta para tentar descobrir de onde o bilhete veio. Ele pegou o guardanapo e o leu, e então amassou e guardou no bolso. Como eu esperava, alguns segundos depois terminou de tomar seu refrigerante e se levantou, dizendo um “até mais tarde”.
- E lá vai ele... – Liam seguiu Harry com o olhar. – Filho da puta sortudo.
Josh riu, meio desanimado, e concordou com a cabeça.
Percebi que não era apenas Josh que ficou desanimado. olhava para a porta enquanto Harry sumia de vista, com uma mão no bolso e a outra colocando os cabelos no lugar. Quando ele enfim sumiu, ela olhou o visor de seu celular e tomou o resto de seu suco e amassou o copo, levantando da mesa.
Eu me sentia tão mal por às vezes. Quer dizer, os dois eram amigos de infância, há muito mais tempo do que eu a conhecia, obviamente. Mas nos dois anos em que nos tornamos amigos ela também virou uma amiga especial. Geralmente éramos eu, Harry e sempre juntos. Inseparáveis. E eu não queria que Styles estragasse tudo, mas como eu disse, ele era um tapado e fazia isso o tempo todo. Um dia cansaria de ser magoada. E talvez eu tenha percebido isso antes mesmo do que ela.
Quando ela sumiu de vista perto da porta, no meio de toda aquela multidão de adolescentes barulhentos, Liam me olhou estranho.
- O que há com ela?
Outro tapado.
- Dor de cabeça. – dei de ombros e voltei a comer.
’s POV
Eu estava concentrada em um pequeno exercício de leitura enquanto comia um palitinho de cenoura quando se aproximou da nossa mesa fazendo barulho. Tudo bem que quase ninguém ouviu, mas para mim e para foi um susto e tanto, já que nossa mesa ficava consideravelmente perto da porta onde era mais quieto. Larguei o palitinho laranja, observando a garota puxar uma das cadeiras vagas em nossa mesa e se jogar ali, parecendo no mínimo atordoada.
olhou para mim, notando a mesma coisa.
- Hey, . – Abri um sorriso, fechando meu livro de bolso, mostrando que minha total atenção estava voltada para ela.
- Alguém tem o número da ? – Ela perguntou, tirando uma mecha do cabelo do rosto, de modo selvagem, mas não menos incrivelmente elegante. Um dom que só ela tinha: ser perfeita em tudo que fazia corporalmente.
- Hein? – franziu o cenho antes de tomar um gole de seu suco de manga. emitiu um som com a garganta, como se estivesse com raiva demais ou impaciente demais.
- O número da , ! – Repetiu, puxando os cabelos para trás e o prendeu num rabo de cavalo frouxo. – ! – Ela esticou o braço e chamou a garota antes que ela saísse do refeitório. parou na porta, segurando-a com um olhar desconfiado.
- O que foi? – Ela quis saber, soltando a porta e parou junto à nossa mesa.
- Chama a ! – voltou a pedir, olhando para , que assentiu e rapidamente tirou o celular da bolsa. Digitou algumas palavras e se inclinou um pouco para olhar a mesa mais no centro do refeitório onde a mesa de Harry ficava e, consequentemente, .
olhou para o celular e terminou de tomar seu suco, numa lentidão quase mórbida. Ela se colocou de pé bruscamente e disse alguma coisa para Louis quando esse franziu o cenho e provavelmente perguntara aonde ela iria.
- Que é? – se jogou na cadeira ao lado de .
também sentou, como se decifrasse em um segundo o que estava acontecendo e olhou para .
- O que houve? – Ela quis saber, os olhos grudados na outra. Meu queixo caiu quando eu me dei conta do que se passava ali. também estava tensa ao meu lado, os olhos arregalados e a boca levemente aberta. sentou-se direito.
- ? – Balancei a cabeça como que para encorajar a terminar de dizer o que quer que fosse.
- A diretora hoje chamou o Zayn Malik na sala dela.
- Ai, meu Deus! – deu um grito ao meu lado, pulando na cadeira. – Sim! Eu sabia que estava esquecendo alguma coisa! Droga! O Zayn foi chamado na diretoria! Como eu pude me esquecer?!
- Ok, . E o que tem isso? Ele é problemático, a diretoria deve ser a segunda casa dele! – soltou, revirando os olhos.
- Não. Não. Gente! – respirou fundo. olhava fixo para ela, esperando que ela contasse o que ela já sabia, parecendo, de alguma maneira, grata pela atenção ter sido desviada dela. – Ele foi chamado lá por causa da estátua. – O tom de voz dela diminuiu um pouco.
- Merda. – disse, passando as mãos pelos cabelos. – Merda, merda, mil vezes merda!
- É. – concordou. – Mas a pior parte é que eu fui chamada em seguida.
- Calma. – levantou as mãos. – Quer dizer que ela está selecionando os principais suspeitos?
- Aparentemente. – comprimiu os lábios. – Eu ganhei uma detenção por causa dessa acusação.
- Você disse isso a ela? – arregalou os olhos enquanto mostrava sua passividade diante dos fatos.
- A vaca não é das melhores em aceitar críticas. – Ela murmurou em resposta, mas abriu um sorrisinho contido. se jogou contra as costas da cadeira, estática.
- O que vamos fazer agora? – Ela quis saber, cruzando as mãos no colo. – Se ela está selecionando, eu serei uma das próximas pessoas...
- Hey, calma. – Falei, tentando segurar as pontas do problema. – Estamos todas juntas nessa e não podemos deixar as coisas irem de mal a pior. Pelo menos não até o fim do ano. Ok? Muitas de nós aqui precisam de cobertura.
As outras garotas na mesa assentiram, sem dizer uma palavra, caindo em seus próprios pensamentos. Segurei o braço de quando senti uma leve vertigem tomar conta de meu corpo, a sensação de rodar também se fez presente e fechei os olhos por alguns segundos.
- ? – Ela me chamou, baixinho, preocupada. – , você tomou o remédio?
Não respondi, mordendo o lábio inferior. Eu não queria mais tomar aquele remédio. Era ruim e me fazia sentir mal, fazia minha cabeça pesar por algum tempo e ter vontade de vomitar. Eu não precisava deles, eu estou bem! Eu queria poder dizer aquilo a , mas sei que ela nunca me deixaria parar de tomar.
- De novo? – Ela ralhou, soltando um som frustrado pela boca e colocou a mão na minha testa. – Droga.
- O que há com ela? – Ouvi perguntar, mas fechei os olhos para tentar controlar a vertigem.
- Ela está passando mal. – respondeu, as mãos ainda na minha cabeça, pesando uma tonelada. – Liam! – Ela chamou. Que? Quem é Liam? Liam? Liam... Liam... Nenhum rosto conhecido se passava pela minha cabeça ao pensar naquele nome. Tentei abrir os olhos para ver quem era, mas não conseguia mover um músculo. – Me ajuda a levar ela para a enfermaria!
- ? – A voz grossa se materializou perto de mim e o perfume forte me atingiu em cheio, fazendo minha mente ficar mais turva. Minha respiração ficou descompassada. – Ela vai desmaiar.
Fui suspensa da cadeira e logo o ar gelado me soprou o rosto, fazendo a vertigem melhorar de algum modo, mas ela voltou com ainda mais força.
- Leva ela para a enfermaria, eu vou ao quarto dela. – Ouvi ordenar antes de sua voz sumir completamente.
- Vamos lá, , comigo! – A voz do tal Liam estava perto, tão perto que eu podia deduzir que era ele quem me segurava no colo. Ele começou a andar para algum lugar enquanto minha mente ficava mais turva e a sensação de rodar se intensificou. Minha cabeça tombou para trás, pesada demais.
- Lola... – Consegui murmurar antes do silêncio invadir minha mente e a escuridão tomar conta.
Louis’ POV

Então, aula de filosofia. A única aula que eu via rostos conhecidos na mesma sala que eu, como Josh e Liam – que não havia chegado até agora. E também , mas essa não era lá muito próxima a mim. Também gostava dessa aula, pelo fato de que eu não precisava fazer nada o ano todo além de ouvir discursos sem fim de minha professora, porque ela mesma dizia que não tinha o direito de julgar ao próximo sem saber seus motivos, então era só inventar uma história bonitinha para não ter feito as tarefas.
Hoje, em especial, estávamos ouvindo ela falar sobre a importância do nome. Ou pelo menos deveríamos estar.
- Enfia isso aqui no seu... – Jack, um jogador idiota do time de lacrosse da escola quase gritou de repente no meio da sala.
- Senhor Devine! – ela chamou a atenção de meu amigo. Jack estava irritado por Josh não parar de colocar bolinhas de papel em seu ouvido. – Quieto, por favor.
Jack lançou um olhar homicida para Josh e voltou a se sentar, abandonando a posição de macho que estava prestes a partir pra cima de alguém. No caso, fazer Josh engolir uma bola de papel.
- Como eu estava dizendo, é muito importante que vocês mesmos tenham em mente a origem dos seus nomes e o significado deles. A próxima pessoa a ler o que descobriu é...
- Me encosta de novo e eu arranco todos os seus dedos. – foram essas palavras que fizeram a professora parar de falar. Foram ditas baixinho e vindas do outro lado da sala, onde uma garota de cabelos compridos e olhos marcados de preto estava escorada na parede rabiscando algo na última folha de seu caderno. . Pelo que se percebe, seu colega de dupla estava querendo dar uma de espertinho. Mesmo assim, ela deu um único aviso que o fez recuar.
Eu não me impressionava. Assim como eu, vários outros garotos naquele colégio estavam tentando achar um jeito de se aproximar dela porque se recusavam a se sentir intimidados por uma garota, ou só porque ela era gostosa pra cacete. Apesar de que, tenho que admitir, ela dava um puta medo na gente. Alguns deles claramente não sabiam como se aproximar e cometiam erros, como esse daí.
- Senhorita , acredito que tenha feito a tarefa imposta na última aula? – a professora voltou a falar.
- Não. – ela respondeu apenas, voltando a rabiscar no caderno.
- Eu insisto que nos conte algo sobre a origem do seu nome. Deve ter algo que você já pesquisou ou perguntou aos seus pais.
Ela levantou o olhar duro e vazio para a professora e a encarou em silêncio daquele jeito que te faz querer sair correndo por uns cinco segundos.
- Nada.
- Nunca perguntou à sua mãe como foi que ela escolheu seu nome?
- Não.
- Ah, vamos lá, . Você tem que saber alguma coisa.
Ela suspirou impaciente. Jogou a caneta em cima do caderno e falou:
- Minha mãe não tinha um nome para mim. Então chegou no cartório e pediu para colocarem o último nome que havia sido registrado.
Ouvi Josh atrás de mim rir junto com algumas outras pessoas que se aventuraram a rir baixinho.
- Imagina só se o nome dela fosse Carlos. – ele murmurou para mim, um pouco alto de mais.
Tanto quanto a professora e os outros alunos olharam para ele, sérios. Um silêncio reinou por alguns segundos, e soube que Josh desejou não ter dito nada.
Pigarreei.
- Você já contou piadas melhores, Josh. – disse em alto e bom tom. A garota me olhou por uma fração de segundos e voltou a encarar a professora.
- Por que sinto que você não está levando minha tarefa a sério, ? – a mulher mais velha perguntou.
- Porque eu não estou. – ela levantou um pouco a manga de seu suéter cinza e olhou em seu relógio de pulso. – Se me dá licença, tenho reunião do grupo de teatro. – e antes de receber uma resposta, se levantou e foi para a porta.
- Você não pode sair da sala sem uma justificativa por escrito. , por favor. Pelo menos peça com licen... – mas já era tarde. O estrondo da porta batendo foi o suficiente para cortar a frase de minha professora. Ela suspirou, cansada. – Mais um caso perdido. – disse baixinho, antes de se concentrar na aula outra vez. – Quem é o próximo?
Liam’s POV
- Ela vai ficar bem, foi apenas um ataque de estresse. – A enfermeira falava enquanto analisava alguns papéis. – Incrível, duas semanas e vocês já estão desmaiando...
abriu um sorriso condescendente para a mulher e suspirou, girando nos calcanhares para ver a amiga deitada na maca. estava dormindo, por isso teve que tomar os remédios que trouxe na veia. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, mas esperava que ela ficasse bem logo.
- Você pode ir, Liam. – cruzou os braços e suspirou novamente. – Vou ficar aqui com ela.
- Tem certeza? – Olhei em meu relógio de pulso. Eu estava atrasado para a primeira aula de música, mas no momento a saúde de me parecia mais importante. – Eu posso ficar se você quiser, se precisar de alguém para leva-la ao quarto...
- Não, sério. Você não precisa perder uma aula por isso. Na verdade, eu acho que você precisa focar nos estudos esse ano, viu? – Ela riu um pouco, dando um leve soco em meu ombro e eu abri um sorriso meio sem graça. – Estou falando sério.
- Eu vou me esforçar, Cas. – Prometi, segurando a mão dela na minha, como um aperto de mão.
- Quero ver, hein? Não estou afim de ter que te dar aulas de reforço de novo. – Ela franziu o cenho.
- Mas aquelas aulas foram ótimas, principalmente porque aquela que a gente não estudou nada. – Pisquei para ela que ficou vermelha como um pimentão.
- Você é ridículo, Liam. – Ela riu, sem graça. – Agora vai, eu vou ficar aqui com a até ela acordar.
- Boa sorte aí. – Desejei e dei um beijo em sua bochecha. – Até mais.
Ela acenou e virou de costas para mim. Fechei a porta da enfermaria e me dirigi à entrada do bloco B, onde aconteciam a maior parte das atividades extracurriculares. Achei rapidamente a sala de música, a terceira depois do banheiro feminino, e entrei devagar, sem querer perturbar a aula que já acontecia.
- Junte-se a nós, Liam. – O professor David falou sem olhar para mim, concentrado demais nos papeis em cima de sua mesa. Harry e Louis me olharam como se eu fosse algum tipo de bicho, perguntando em silêncio onde eu estava.
- desmaiou. – Falei baixinho quando me sentei entre Harry e Josh.
- O quê? – Louis inclinou-se para frente para poder olhar para mim enquanto falava. – Quando foi isso?
- No final do tempo do almoço. Eu estava indo pegar o livro de filosofia quando a me pediu ajuda.
- Por isso você não foi à aula de filosofia? – Perguntou ele.
- É. Ela estava muito mal, cara. – Falei, lembrando-me de como ela estava parecendo gelatina em meus braços.
- E o que ela tinha? – Harry quis saber de repente. Arqueei as sobrancelhas, surpreso por ele querer saber de algo sobre .
- Não faço a mínima ideia. – Dei de ombros. – Mas e aí, o que tá rolando na aula?
- Ele está separando os módulos do trabalho. – Harry olhou fixamente para o cara na mesa.
- Explica. – Pedi.
- O trabalho será dividido para a turma de modo igual. Ele pediu para todos formarem grupos de cinco pessoas e não vamos poder escolher. Ele nos dará a tarefa. – Josh cruzou os braços e se encostou no braço da minha cadeira.
- Bom, turma. – O professor gritou de repente. – Aqui estão as tarefas. Eu quero que uma pessoa de cada grupo venha aqui e puxe um cartão. – Mostrou algumas folhas dispostas em leque em sua mão. – Ah, grupo do Harry, está faltando uma pessoa no grupo de vocês.
- Ah, perdoe meus amigos, professor. Eles não sabem contar. – Louis colocou a mão no peito e algumas pessoas riram do comentário dele. Revirei os olhos enquanto Harry deu um tapa na nuca dele.
- Muito engraçado, por isso, Louis, pode vir aqui pegar um cartão. – O professor não pareceu gostar da brincadeira. Louis se levantou e foi até ele, tirando um papel do meio. – Pode voltar ao seu lugar e leia para nós.
- Montar uma banda. – Louis leu rapidamente e olhou para o professor, depois para nós.
A ideia me atingiu em cheio e, sem pensar, comemorei. Harry olhou para mim como se eu fosse louco e assim também fez o Josh. Lembrei de me pedindo para levar as coisas um pouco mais a sério.
Bom, aí estava a minha oportunidade.
’s POV
- Alguém tem alguma pergunta a fazer?
Levantei a mão, virando minha atenção e meu corpo para a frente da sala pela primeira vez desde que entrei lá dentro.
- O que é aquilo? – apontei com o lápis para a lousa, me referindo à fórmula cheia de números e símbolos desconhecidos por mim até então.
Sra. Sharbino seguiu a direção do meu lápis, e depois de ver para onde ele apontava ela suspirou pesadamente e deixou os ombros caírem com desânimo.
- Você ouviu alguma palavra que eu falei até agora, ?
- Eu ouvi “alguém tem alguma pergunta a fazer?”. – respondi, categórica, e algumas pessoas riram.
A professora miudinha deu um tapinha no ar e me deu as costas, voltando à sua mesa.
- Você é um caso perdido.
Dei de ombros e voltei a virar para trás.
- É sério, o que é aquilo? – murmurei para Liam.
- É a fórmula, .
- Ah, mas que surpresa, gênio! Como você chegou até aqui sem reprovar nenhuma vez, Liam?
- Eu te pergunto o mesmo. – ele riu baixinho.
- Está aqui a mais tempo do que eu.
- Eu desconfio que meu pai traga algumas libras a mais na carteira quando vem nas reuniões de pais.
- Ainda se minha mãe viesse... – disse, desanimada, e fitei seu caderno. – E então, o que é?
- É a fórmula da força magnética atuando sobre uma carga elétrica em movimento. – Liam leu o que anotou em cima da fórmula que copiou da lousa.
- Tá. Um exemplo.
- Eu não sei... – fez careta. – Imãs? Imãs com rodinhas?
Gargalhei e balancei a cabeça, mas fui interrompida pela breve estática do autofalante.
- Aluna Marie , por gentileza dirija-se à direção.
Qualquer indício de sorriso sumiu do meu rosto, e fui tomada por um nervosismo repentino, mesmo já sabendo do que se tratava. Liam me olhou apreensivo.
- O que você aprontou? – levou a mão ao meu ombro.
- Eu... Não sei, vai ver elas descobriram sobre minhas fugas noturnas para o quarto do Harry. – sussurrei, dando uma desculpa, e virei a cabeça para a direita quando senti olhos me observando. – O que perdeu por aqui, Sally?
A garota apenas deu um sorrisinho imprudente com a borracha da ponta do lápis entre os dentes e voltou a olhar para seu caderno. Bufei. Enxerida.
- Você ouviu, senhorita . – Sra. Sharbino.
- Boa sorte – Liam desejou em uma voz quase muda e me levantei.
Passei pelas classes ao meu redor até chegar na porta, e ao sair para a quietude do corredor meu coração começou a bater forte. Só percebi que eu estava levando o lápis na mão quando cheguei na metade do caminho, e respirei fundo, tentando parecer calma.
Eu não podia pôr tudo a perder. Não estava dando a mínima para aquelas garotas, mas se eu fosse incriminada pelo incidente da estátua, era certo que seria expulsa. E por mais que eu abominasse aquela escola, era o mais próximo que eu tinha de uma casa nos últimos anos. Eu preferia a ideia de morar ali para o resto da vida do que ter que voltar para casa em Holmes Chapel, uma cidade que nunca cresce, que foi esquecida pelo mundo há tempos, forçada a ficar sem meus amigos, sem Louis, sem Liam, sem Harry. Até mesmo Josh. Eu não conseguia pensar nisso sem sentir um nó na garganta e um enjoo no estômago. Além de medo do que faria quando as aulas acabassem.
Por algum motivo, ao pensar em futuro, a única imagem que vinha à minha mente era a de mim e Harry em algum lugar bem longe como devia ter sido quando tentamos fugir. Talvez até Louis, se ele não tivesse planos. Nós três. Em qualquer lugar longe daqui. E esse era o único plano que eu tinha. Que nem bem um plano era, pois envolvia o futuro de mais duas pessoas que não estavam a par das minhas ideias mirabolantes.
- Senhorita ? – Cintia me acordou dos pensamentos assim que botei os pés na diretoria.
- Sim?
- A diretora Campbell te espera. – ela disse, parada em frente à porta que dava para o escritório da diretora, e abriu a mesma com um gesto que me convidava a entrar.
Eu o fiz sem pestanejar, tentando agir naturalmente. Não havia nada mais natural em mim do que agir sem pensar e me mover rápido demais. Uma vez minha mãe gritou comigo e disse que eu parecia um pavão. Nunca mais esqueci.
Fui até o centro da sala e sentei na cadeira em frente à escrivaninha de mogno polida, ciente de que aquilo seria um interrogatório com a intenção de incriminar a alguém, e nesse momento, esse alguém era eu.
- .
- Diretora C.
Olivia ergueu o olhar para mim, com um indício de sorriso divertido no rosto. Algo me dava a sensação de que ela achava toda essa situação de familiaridade em eu estar na sua sala (mais uma vez) meio cômica. Se isso fosse um desenho animado, certamente sua próxima frase seria “enfim nos encontramos outra vez, velha amiga”.
- O que andou fazendo na noite de quarta-feira da semana passada, no horário da janta?
Agora ela já tinha até o horário? Posso ver que a investigação havia dado um salto.
- Eu estava jantando? – falei com um tom retórico e interrogativo.
- Não brinque comigo, . Eu te conheço muito bem.
- Então deve saber que eu sou louca pela sopa de ervilha maravilhosa que as cozinheiras fazem na quarta, certo?
Eu nunca havia colocado aquela coisa nojenta na boca na minha vida inteira.
Olivia olhou-me outra vez, como se me avaliasse. Pelo menos ela já sabia que piadinhas faziam parte de tentar arrancar uma confissão de mim. Na verdade, ela nunca precisou tentar arrancar nada.
- , você sabe por que está aqui?
- Eu tenho minha teoria. – dei de ombros.
- Conte-me. – encostou-se em sua cadeira e cruzou os braços, esperando minha resposta.
- Bem – respirei fundo e me escorei no encosto também. – No ano passado eu coloquei laxante no chá de Minerva e briguei com a... Qual era mesmo o nome dela?
- Senhorita Archblod.
- Isso, isso. E eu andei ouvindo boatos sobre a senhora estar interrogando os suspeitos mais prováveis de terem quebrado o nariz da Coisa, então...
- Escultura. – ela corrigiu, fechando os olhos com impaciência.
- Isso, a escultura. E eu te dou toda a razão em pensar que eu estou metida nisso. Se eu fosse a senhora, teria me chamado em primeiro lugar. Eu até me senti ofendida em ter sido substituída por Zayn Malik. Mas você sabe, diretora C, que eu não gosto de esconder minhas aventuras. Tenho orgulho delas. Fui a primeira a me gloriar sobre o laxante ou a surra na guria, ou o skate na pista de...
- Eu deprecio sua falta de respeito com os outros, . Sem apelidos aos seus colegas ou às esculturas da escola ou a qualquer coisa enquanto estiver na minha sala, entendeu?
Levantei as mãos, em sinal de rendição.
- Eu só quis dizer que posso garantir que dessa vez não fui eu. E eu adoraria entregar o desgraç... – olhei-a e pigarreei. – O infeliz que fez um trabalho tão notável quanto os meus, mas eu não sei quem foi.
Olivia parecia descrente, mas ainda esperava que eu falasse mais.
- Eu estava no refeitório. – respondi sua primeira pergunta. – com Louis, Harry e Liam. Josh jantou mais cedo na quarta-feira. Então eu não indicaria que a senhora os chamasse, pois eles estavam comigo e só vão garantir tudo que eu te disse.
A diretora Campbell me encarou nos olhos por um momento inacabável, e por dentro eu sentia meu sangue gelar. Seu olhar ponderava eu estar mentindo, mas honestamente eu agira como sempre agi em sua presença: demonstrando honestidade. Esse era o primeiro ato que eu escondia de Olivia, pois odiava mentiras. Se ela soubesse que eu sabia que seria expulsa caso aprontasse mais uma, ela sacaria a verdade. Mas ela não sabia, e foi isso que me salvou.
- Você está sendo honesta, . – ela disse por fim, depois de seu longo julgamento. – Está dispensada.
Sorri e pulei da cadeira, batendo meu lápis na mão livre.
- Se me dá licença, eu estava estudando sobre força magnética e preciso chegar a tempo de ouvir a explicação da Sra. Sharbino. Foi bom te ver – fiz continência e saí da sala, ouvindo Olivia rir e me sentindo dez mil vezes mais leve.
Respirei fundo e peguei o celular do bolso.
“Estou livre. Conte às outras, acho que nos safamos dessa.”
Pesquisei pelo número de e cliquei. Enviar.
’s POV
- Cheguei. – anunciei o óbvio quando parei de pé ao lado de junto com os outros membros do grupo que estavam sendo supervisados por .
- Com licença, desculpem o atraso gente. – ela imitou minha voz, vindo para perto de mim. – Imagina, , estávamos só te esperando para podermos começar. – ela respondeu por seus personagens imaginários.
Rolei os olhos.
- Não enche o saco, .
- Seja pontual, . E mais educada, se me permite falar. Já falamos sobre isso na semana passada.
- Não, eu não te permito falar. É melhor ficar calada. – avisei. Eu definitivamente estava no clima para revoltas, e se me enchesse o saco, a coisa podia fugir do controle. Eu não suportava a petulância que emanava até com o jeito como se movia.
- O que foi, ? – ela parou em minha frente, brincando com a caneta em sua mão. – Acabou sua erva?
- Você é patética. – observei com desdém. Queria dizer mais. Queria dizer que sabia que ela julgava todos que via porque não conseguia encarar o que via no espelho, mas de nada adiantaria dizer isso enquanto ela não percebesse por si só o quão patética era.
- Não sou eu quem boto medo nas pessoas por temer contato humano. – suspirou, ignorando meu comentário.
Pensei em responder, mas não valia a pena levar aquilo em frente, ela não merecia um segundo de minha atenção. Já não era a primeira vez que me espetava com seus espinhos. Eu a suportava nas poucas vezes em que nos reuníamos com as garotas, porque era uma obrigação, mas nada mais do que isso. Eu sabia o que diziam sobre mim, mas não queria que ela duvidasse da minha capacidade de entrar em uma briga.
- Meninas, meninas... – enganchou o braço no meu e olhou para , parecendo ainda um pouco frágil pelo desmaio mais cedo. – Está um dia lindo para darmos uma trégua e trabalharmos em paz, não acham?
A morena apenas riu e se virou, se afastando de nós outra vez e começando a falar com o grupo todo.
- Então é o seguinte, ficamos combinados que eu e vamos ajudar a reajustar o roteiro escrevendo ele de novo e dando um ar mais moderno. Por enquanto, temos que nos concentrar apenas nos cenários e nas roupas. Essa peça é para daqui meses, então ainda temos tempo, não podemos desapontar ninguém. Não vai ser a peça mais importante de nossas vidas, mas com isso podemos mostrar que a gente serve para alguma coisa... – ela me deu uma olhada de canto. – Pelo menos alguns de nós. Ah, ainda temos que preencher alguns papéis. Pouquíssimos garotos se inscreveram para o teatro e os poucos que temos não sabem encenar nada. Então, fica com Rachel e Maggie a tarefa de organizar as audições, procurar candidatos e escolher algum. Qualquer que sejam suas escolhas, me avisem antes. Eu quero ser avisada de tudo, entendido?
As duas garotas que deviam ser Rachel e Maggie concordaram.
- Bem, então, antes de prosseguirmos, quer dar um lembrete sobre algo importante.
Ela assentiu para , que deu um passo à frente recebendo todos os olhares.
- Consegui me candidatar ao grêmio e este ano eu vou estar organizando o comitê do baile de outono e de boas vindas com a ajuda da . Quem quiser se juntar a nós só precisa me procurar. – ela sorriu graciosamente.
e . Dois completos opostos para mim: uma delas me encantava. A outra, me repugnava.
Niall’s POV
- Cara, isso vai ser totalmente demais! – Liam batucou as mãos no armário mais próximo, olhando para os amigos que andavam mais à frente. – A gente devia montar uma banda. Totalmente. Uma banda. A gente ia ganhar nota máxima! A gente ia ganhar vinte!
- Vinte? – Louis franziu o cenho, como se aquilo soasse absurdo. E soa, meu caro. Tentei não rir no meu lugar, andando devagar atrás deles, lendo o roteiro do trabalho de Música que nos foi passado na aula de hoje. – A nota máxima não seria um dez?
- Mas o nosso trabalho seria tão sensacional que o professor se apaixonaria por nós e nos daria vinte! – Liam abriu os braços, como se fosse óbvio.
- Liam, lamento quebrar sua bolha... – Louis começou. – Mas nem exatamente todo mundo quer te comer nessa escola.
- Quem é o sonho de consumo mesmo é o Harry, conseguiu a Srta. Murray. – Josh devolveu, bagunçando o cabelo dele.
Ah, a nova garota. Eles estavam falando dela e, como de se esperar, Harry havia conseguido a menina. Ela era definitivamente bonita. Você sabe, em todos esses jeitos masculinos de achar uma garota bonita. Não sei me expressar desse jeito cheio de testosterona e nenhum respeito pelo sexo oposto. Não consigo, meu pai se fez muito claro quando me disse que mulheres eram a coisa mais importante do mundo. Sem elas, não haveria humanidade.
E, cara, isso fazia sentido.
- Olha por onde anda, seu inútil. – Ouvi a voz baixa e quase animal quando, sem querer, esbarrei no ombro de alguém. Olhei para frente a tempo de ver aquele cara, o Malik, me fuzilando com o olhar.
- Foi mal, dude... – Tentei me desculpar, virando-me para ele, mas acabei atingindo sua cabeça com o braço do meu violão, que estava nas minhas costas. Cara, se olhares pudessem queimar, eu seria um montinho de cinzas agora.
O Malik largou a mochila no chão e veio para cima de mim, me olhando de cima, me peitando. E, não vou negar, eu sou um franguinho. Não tenho a menor chance contra ele. Levantei as mãos em defesa, tentando colocar algum espaço entre nós, mas ele pareceu ignorar, fechando as mãos em punho. Pronto. Estou morto. Era a primeira vez que meu violão me ferrava desse jeito. Eu sou um cara morto por causa de um violão que não pode nem apanhar por si só.
- Ei! Ei! Malik! – Liam apareceu na frente de Zayn, segurando-o pelo ombro. – Ele não fez nada demais, cara, deixa para lá.
Wow. Por essa eu não esperava.
Tudo bem, um pouco humilhante ter que ser defendido por outro cara – muito embora a ideia de uma mulher me defendendo me parecer pior – e não poder lutar por mim mesmo, mas eu fiquei agradecido. Não estava preparado para entrar em coma hoje.
Zayn olhou para mim uma última vez antes de se livrar da mão de Liam com um safanão e pegou a mochila do chão. O corredor ficou em silêncio quando o som do sapato dele sumiu por completo em outro corredor. Liam girou no calcanhar e me deu tapinhas no ombro quando passou por mim, indo em direção ao seu grupo, que estava estático prestando atenção no que aconteceu. Josh balançou a cabeça, como que preocupado, vai entender.
Arrumei a alça da queise do meu violão e sorri, sem graça, passando por eles logo em seguida, evitando comentários. Eu havia simplesmente encarado a morte nos olhos, não estava em condições de falar.
Quando entrei no quarto, corri para minha escrivaninha e tirei meu caderno de lá. Veja, um caderno de músicas é a coisa mais gay que você pode desejar a um garoto da minha idade, mas aquilo era, literalmente, tudo o que eu tinha. Era música. Bati a tampa da caneta na testa, pensando em algumas palavras e notas que me vieram à mente logo depois do incidente.
Não tinha como eu ser menos Taylor Swift fazendo isso.
Eventualmente, eu acabei desistindo de completar a nova música que estava surgindo e então eu decidi tocar um pouco. Have A Nice Day me pareceu legal e propícia demais para o momento então dedilhei os acordes antes de soltar a voz.
Meu celular interrompeu meu transe, gritando histericamente por um pouco de atenção.
- Alô? – Murmurei, atendendo sem nem olhar o visor.
- Niall? – Era meu pai. Sentei-me direito na cama, todo ciente de que ele estava me ligando depois de duas semanas desde que cheguei aqui. Cocei os olhos, para ter certeza de que não estava sonhando. Não eram tempos fáceis para ele, nem para mim.
- Pai. – Cumprimentei, sério. – O que foi?
O silêncio que se seguiu pareceu me corroer por dentro, lenta e dolorosamente. O silêncio de meu pai era sempre tão cheio de segredos e mistérios, os olhos escondiam muitas coisas, levavam anos no semblante e ainda assim...
- Eu... – A voz dele falhou. – Estou sentindo tanta falta dela. – Falhou de novo. Ouvi alguns soluços.
No próximo silêncio que foi instalado, algo quebrou dentro de mim. A simples ideia de ver, ouvir, imaginar, meu pai chorando... Aquilo acabava comigo. Como ver seu herói sucumbir, prostrar-se de joelhos, dobrado pela vida, duras pancadas. Apoiei os cotovelos nas pernas, encarando o chão entre meus pés. Eu também sentia falta dela. Mais que tudo, estar longe de casa me matava a cada segundo.
- O Greg e a esposa vão passar alguns dias nas Ilhas Maldivas. – Ele continuou, pigarreando, tentando voltar ao normal. – Ele me pediu para ligar, saber se você queria alguma coisa.
Suspirei.
Quando eu achei que meu pai ia finalmente se abrir, sair daquela casca grossa que ele havia formado em volta de si mesmo, ele volta ao normal dele. Talvez a culpa fosse minha, talvez eu não fosse um filho tão incrível como Greg era, talvez não fosse tão importante na vida dele como minha mãe foi. Com certeza ele fala dela com Greg. Meu maxilar travou, eu não ia me permitir chorar porque era incapaz de ser alguém completo. Alguém significante.
Merda.
- Eu quero um ukelele. – Falei, pensando no que eu poderia ganhar de um lugar como aquele.
- Boa pedida. – Ele comentou. Outro silêncio se fez presente, esse mais desconfortável porque ninguém tinha nada que falar e ambos sabíamos que era um absurdo que pai e filho não se falassem.
- Eu... Eu tenho muito dever de casa para fazer. – Falei, tentando pensar numa desculpa coerente para desligar.
- Certo. Boa tarde. – E então ele desligou.
Coloquei o celular de volta na escrivaninha, sem tirar os olhos dele, como se a qualquer hora ele pudesse gritar para mim que eu era um covarde.
Meu pai estava sofrendo e eu não era capaz de dizer uma palavra para mudar isso.
Harry’s POV
E justo quando eu pensava que ser Harry Styles era o maior chamativo de garotas que poderia existir, descobri que ser Harry Styles saindo da aula de música era ainda melhor.
Música por si só já era um grande chamativo de garotas. Se usada pela pessoa certa, é claro. Afinal, Niall estava ali para provar o contrário, ninguém olhava para ele.
O campus parecia borbulhar hormônios quando saí do bloco das oficinas em direção à calçada de pedras que atravessava o pátio de fora a fora. Eu juro que não era exagero, mas era como se, quando eu andasse, pudesse sentir constantemente um túnel de garotas ao meu redor. Instintivamente meus olhos ignoravam os caras e só conseguiam ver as garotas, em destaque aquelas que olhavam para mim.
Mas naquele dia em especial, algo estava diferente. Um burburinho constante era ouvido por onde eu passava, e era diferente do burburinho habitual ou daquele de quando eu andava sozinho, como estava andando agora. As pessoas não estavam se perguntando porque eu estava sozinho. Era uma coisa diferente. Algum boato.
Parei em frente à máquina de bebidas colocadas no pátio ao lado da parede do bloco C em dias ensolarados e saquei algumas moedas do bolso. Enfiei-as na máquina e digitei o número de uma lata de Coca-Cola.
Senti uma pancada nas costas e olhei para trás, vendo a bola de futebol caída nos meus pés. Segui a trilha reta de onde a bola viera e encontrei os outros babacas do time masculino de futebol da escola, lançando um olhar duro a Lance, o capitão.
Eu não gostava do cara desde o primeiro ano, quando se tornou a capitã do feminino e toda a escola cismou que eles precisavam ficar juntos. não era garota para aquele tipo de mauricinho. Um dia, durante a aula de filosofia, eu cheguei a um triz de meter o punho na cara dele, mas Louis me convenceu de que não valia à pena. Depois, as pessoas esqueceram daquele lance idiota e nós dois começamos a odiar um ao outro de longe. As pessoas diziam que ele era “o próximo na sucessão do trono”, conforme as palavras de Clarie Houldwing, uma garota com quem fiquei no baile de verão do final do ano passado. “Depois de você, é claro, Harry. Enquanto você estiver no colégio, Lance não vai ser nada comparado à lenda que você é.”
Eu não podia fazer nada se as garotas gostavam de me falar essas coisas por livre e espontânea vontade.
Fiz menção em pegar a bola, mas fui impedido por outro alguém que pegou mais rápido.
- Calma aí, garotão. – Louis disse, chutando a bola para Lance de novo. – Fica na sua, Hammings! – ele gritou para o cara e se virou para mim, me dando um soco no braço. – O que estava fazendo até agora com David lá dentro?
- Por que, tá com ciúme? – Debochei. Voltei minha atenção à máquina. - Ele pediu para mim e um cara lá desmontarmos aquela bateria e montarmos outra mais nova para deixar na sala. Você pode acreditar nessa merda? – bufei, chutando a máquina. – Roubou minhas moedas!
Chutei a máquina mais algumas vezes com raiva.
- Se você parar de espancar a máquina talvez ela tente te ajudar.
Bati a mão em punho em cima da mesma por pura raiva e a latinha caiu, fazendo barulho ao descer até a saída. Olhei para Louis e ri.
Peguei minha Coca-Cola e fui em direção aos outros caras, que estavam sentados no muro de pedra.
- Você sabe o que tá rolando? – perguntei a Lou, voltando a ouvir os sussurros quando passava.
- Não. Eu queria ver se você sabia.
- Onde está o Josh? Ele deve saber.
- Acho que o Josh realmente foi em sua missão suicida que consiste em tentar entrar no quarto de e Rebekah para... Sei lá, cheirar alguma calcinha delas.
Ri e fiz careta.
- Esse cara é pavoroso.
- Eu disse a ele que se quisesse uma calcinha da Rebekah era só pedir para você conseguir ela ontem.
Tomei um gole do refrigerante e olhei em volta, tentando ignorar o falatório até chegarmos ao muro.
- E aí. – cumprimentei Liam e os caras que falavam com ele, mas logo eles sumiram, deixando apenas nós três ali. Olhei em volta. – Cadê a ?
- Ela não tá aqui porque isso é conversa de macho. Anda, conta logo sobre ontem.
- O que tem ontem?
- Você tá enrolando a gente desde o almoço, Styles! – Liam reclamou, ansioso demais para se aguentar, o que me fez rir. – Como ela é? É boa?
- É um furacão. – ri e sentei na mesa à nossa frente, tomando outro gole da Coca. – Mas é facinha demais. O negócio foi rápido porque foi na salinha de limpeza e alguém podia entrar a qualquer momento...
- Na salinha de limpeza? – Louis fez careta. – Essa superou o banheiro do ginásio. Não tem nem onde se apoiar.
- Tem paredes. É o suficiente.
- Ninguém quer saber se você estava confortável ou teve uma porra de uma cãibra na bunda, idiota. – Liam me deu um tapa e eu ri. – Como ela é?
- Ela é boa, eu já disse! Caí de boca naqueles...
- Vocês não vão acreditar! – Josh apareceu de repente, gritando mesmo ainda estando há uns dez metros de distância.
- Ih, acho que ele conseguiu a calcinha. – Liam comentou.
- Dez libras que ele foi chutado de lá pela sua irmãzinha. – Louis disse e os dois tocaram as mãos em sinal de aposta aceita.
- E aí, como foi? – Liam perguntou assim que Josh chegou até nós. – Conseguiu a calcinha?
- Conseguiu pelo menos entrar no prédio?
- Não, aquela vaca da Minerva me espantou de lá a pedradas. – ele fez careta. – Mas não é disso que eu estava falando!
Olhei para Louis e Liam e ri da aposta mal sucedida.
- O que foi? – perguntei a Josh.
- Sabe qual boato tá rolando aí? Que você tá comendo a .
- De novo? – praguejei. – Mas que porra?
- A Sally espalhou que ouviu da própria boca da ela dizer que vai pro seu quarto de noite, e...
- Ah, não. – Liam bateu a própria mão no rosto. – Ela falou isso na aula de física hoje mais cedo. A vadia da Sally distorceu as coisas.
- Aquela lá tá querendo uma boa foda de novo. – revirei os olhos, procurando pelo grupo de Sally em algum lugar no gramado. Aquela garota era, honestamente, a garota mais nojenta e intrometida que eu conhecia. Em vez dela, vi se aproximando. – Não comentem nada com a . Isso é desagradável demais.
Os três olharam para onde eu estava olhando e a viram se aproximar.
- Então, hum... sobre o que estavam falando antes? – Josh trocou de assunto.
- Sobre a novata gostosinha.
- E como o Harry caiu de boca nela dentro da salinha de limpeza, segundo ele. – Louis completou, divertido.
- Não, cara! – Josh virou para mim com o queixo no chão. – Sério?
- Seríssimo. E digo mais: Essa Rebekah sabe o que faz com a boca.
Liam, Louis e Josh explodiram em comentários empolgados e risadas altas depois disso, e eu puxei um assunto qualquer com para que ela não precisasse ouvir as barbaridades que aqueles caras falavam sobre cada garota de quem eu dava detalhes.
’s POV
- Filha da...
- Fica calma, ! – treinadora Rogers me afastou de Catlin com um empurrão no peito. – Chega pra você por hoje. Vai cuidar disso aí.
Me afastei da garota bufando para ela. Idiota.
Subi as arquibancadas da quadra aberta de futebol com a mão na testa, tentando estampar o pequeno corte do tombo que levei. Era a segunda vez naquele dia que eu já levava um hematoma provocado por falta, o primeiro foi quando Valerie chutou a bola na minha cara e quase pulou em cima de mim para pegar. E agora a vadia da Catlin me deu um tranque e caí de cara no chão. Qual era o problema dessas garotas afinal? Alguém devia avisar a elas que se inscreveram para o futebol, e não para o boxe.
Fui para o ginásio, onde uma turma de garotas do fundamental jogava vôlei. Algumas delas me adoravam por ser amiga de Styles, outras me odiavam pelo mesmo motivo.
Entrei em um vestiário, lavei o rosto para tirar o sangue do machucado e senti meu supercílio inchando pela bolada que levei. Eu me sentia explodindo de raiva simplesmente porque hoje não era um dia bom. Já comecei chegando atrasada na primeira aula, perdi uma avaliação que não podia ser recuperada em física, e agora isso. O universo conspirava contra mim.
Molhei os cabelos, os prendi em um rabo de cavalo alto, e peguei meu uniforme, jogando-o de qualquer jeito na mochila. Saí de lá para ir tomar banho em meu próprio quarto, eu odiava ter que tomar banho em um vestiário com varias outras meninas, aquilo logo se tornava uma competição de quem era a mais gostosa e eu não gostava de perder.
Ao subir a ladeira para o pátio, percebi que a cor cinza avermelhada do céu indicava que o sol já havia sumido e logo a noite cairia.
Encontrei meus amigos no mesmo lugar de sempre, conversando empolgados sobre as coisas que eles geralmente conversam.
Me aproximei e Harry veio até mim, um pouco afastado do resto dos garotos.
- E aí – falei desanimada, fazendo um toque rápido com Liam que me estendeu a mão.
- O que aconteceu com a sua cara? – Harry perguntou e riu. – Parece que você sofreu um acidente.
Olhei-o com os olhos semicerrados.
- Levei uma bolada.
- É?
- E um chute. – me escorei na mesa de costa para os meninos e coloquei o pé no banco para dar um nó no cadarço da chuteira.
- Poxa...
- Quais são as novas? – Perguntei.
- Temos um trabalho irado de música para programar para esse trimestre. – Harry explicou. – Vocês não ganharam trabalho nenhum?
- Nosso trabalho é vencer dos Lincolns do St. James. – cruzei os braços e olhei-o.
- Fiquei sabendo que as oficinas vão ter trabalhos grandes a cada trimestre e é isso que vai te dar cem por cento da nota. Não tem mais como empurrar com a barriga.
- Estamos no último ano, o que você esperava? – falei, dando de ombros. - Bom... – me levantei. – Eu vou tomar um banho e achar um saco de gelo. Até mais.
Virei de costas e me afastei.
- Calma aí. – Harry apareceu do meu lado cerca de meio segundo depois, pegando minha mochila e colocando no próprio ombro.
Nós andamos devagar sem falar nada por um tempo. Uma das mãos dele segurava a alça da minha mochila, e a outra estava no bolso. Eu sentia uma atmosfera suspeita no ar, os olhares para nós dois estavam um pouco mais irritantes do que normalmente já eram. Mas decidi, para meu próprio bem, ignorar.
- Como você tá? – ele perguntou, de repente.
- Bem? – olhei-o, em dúvida com a pergunta.
- Ouvi dizer que anda fazendo novas amizades.
- O quê?
- A , ? – ele me olhou, duvidoso.
- Não somos amigas. Só colegas de quarto. E demos uma trégua.
- Não foi o que eu fiquei sabendo.
- Você tem que se informar melhor, então. – cortei-o.
Mas Harry era uma das poucas pessoas que não se intimidava com meu mau humor.
- Liam me disse que viu você e ela juntas na biblioteca, com , a irmãzinha gostosa dele, e a freak. – ele me olhou, e tentei fingir indiferença. Puta merda, como eu ia explicar? Juramos não falar sobre isso pra ninguém. – A freak! – ele exclamou, incrédulo.
- O que, agora você manda me espionar? – disse, chateada. – Liam também virou seu pau mandado agora?
- Ah, qual é. Eu só quero saber. Me conta – ele me empurrou pelo ombro. - Eu não conto pra ninguém.
Ah, eu sei. Harry era legal, mas era o cara mais fofoqueiro que eu conheço. Não tinha nada que ele não contasse a Louis, e era aí que a merda estava feita. De Louis, a noticia passava para Liam, e aí Josh ficava sabendo, e todo mundo conhece a fama de jornal matinal do Josh. Aquele lá era pior do que pombo correio.
- Não é nada. Nós... – eu precisava sair disso logo. – Não é nada.
- Você me contava as coisas antes.
Fiquei quieta. Vamos lá, Styles, esquece isso logo...
- , tem certeza que você tá bem? – ele parou, quando chegamos na porta no dormitório feminino.
- Harry, você pode parar de encher o saco? – alterei a voz, olhando-o de saco cheio. Era incrível como ele só me procurava se quisesse algo de mim, seja alguma matéria, uma companhia ou só uma fofoca. Eu estava realmente em um dia ruim, e de saco cheio dele e da sua mania de pensar que podia ter o que quisesse quando quisesse. Eu não ia ser mais uma das suas escravas como ele dava um jeito de transformar todos os seus amigos.
- Eu estou preocupado com você! Você está agindo estranho desde que as aulas começaram, e... Eu só quero ajudar.
- Não, você só quer fingir que se importa. – tomei minha mochila das suas mãos. – Mas não precisa. Eu estou bem. Por que não vai comer alguma vadia?
Virei as costas e deixei que ele tirasse suas próprias conclusões, marchando impaciente para meu quarto. Dia péssimo, final pior ainda.
Niall’s POV
- Cantor ou compositor. – Falei baixinho, olhando o mural de anúncio dos alunos. Harry e sua trupe estavam à procura de membros para a banda e amanhã, na hora do almoço, ocorrerão as audições.
Abri um pequeno sorriso para mim mesmo, enxergando aí minha grande chance. Unir o útil ao agradável, fazer o que gosto e me tornar popular. Pode ser até meio patético um cara do meu tamanho e idade querer ser popular, mas me parecia o único jeito de ser notado, conseguir algo e encher meu pai de orgulho.
Subi correndo para o dormitório e larguei a mochila em cima da cama, dirigindo-me ao banheiro. As horas de trabalho na academia depois da ligação desastrosa com meu pai surtiram efeito, eu estava exausto. Não ia à academia desde que saíra da Irlanda e a falta de exercício físico estava começando a me fazer falta, eu estava começando a desenvolver os músculos quando tive que interromper e agora teria que começar tudo de novo. Eu sabia que Harry e Liam iam para a academia também, depois do jantar. Por isso, ao assinar um termo de rotina com a moça, preferi o horário mais cedo, logo após o término das aulas extracurriculares.
Tomei um banho rápido e me vesti mais rápido ainda, morrendo de fome. Peguei o celular e baguncei os cabelos com as mãos antes de sair do quarto. Os corredores estavam vazios, provavelmente, todos os alunos estavam no refeitório já, comendo.
- Hey, Niall! – Ouvi uma garota me chamar quando saí do dormitório. Girei nos calcanhares e vi se aproximando de mim com um sorriso simpático no rosto. Eu sorri também, incapaz de fazer diferente. Eu estava satisfeito que havia conseguido algum tipo de afeto por parte dela. Isso já era meio caminho andado em direção à popularidade. Talvez eu fosse conhecido como o amigo preferido de . – Achei que depois daquele discurso sobre comida mais cedo, você seria o primeiro a jantar.
Eu ri do tom sugestivo dela.
- Eu adoraria, mas eu estou ocupado das cinco e meia até as seis e vinte. – Dei de ombros, esperando que ela estivesse ao meu lado para continuar andando em direção ao refeitório. – E eu, por outro lado, achei que depois do conselho que te dei, você também já estaria comendo.
- Eu? Ah, não. A diretora Campbell me designou um cargo de organizadora do baile de outono, eu estava vendo como estaria a disponibilidade do ginásio para o mês que vem. – Ela explicou rapidamente, me abrindo um sorriso caloroso no final. – Você vai ao baile, né?
- Bom, considerando que eu nem sabia que isso ia acontecer... Acho que sim. – Franzi o cenho.
- É uma tradição. – Os olhos dela brilhavam.
- Se é tradição... Quem sou eu para quebrar? – Abri um sorrisinho e olhei o sol se pondo no horizonte, os raios laranja refletindo na água. Talvez a melhor coisa nessa escola fosse a vista que tínhamos do lago. – A gente pode ir lá? – Perguntei sem pensar.
- O que?
- Ao lago, podemos ir lá? – Repeti.
- Ah, não. É proibido. Só podemos ir lá acompanhados de professores ou funcionários da escola. Dizem que um aluno morreu afogado por lá, por isso, quem infligir a regra, é suspenso por um bom tempo.
- Jura? Que história...
- Aí eu não sei. Não gosto desse lago. Essa história me assusta. – Ouvi o tom zombeteiro em sua voz. – Que coisa idiota...
- Não. Está tudo bem ter medo de uma história boba. – Falei rapidamente.
- Não deixe ninguém saber que você tem fraquezas. – Ela riu para si mesma. – O que será que teremos para o jantar hoje?
- Não sei você, mas eu quero algo bem gorduroso. – Abri um sorriso só de imaginar um sanduíche do McDonald’s, com muito cheddar, cebola e...
- Ew, Niall! – gemeu ao meu lado. – Isso é nojento.
- Você deveria aprender a se divertir, . – Falei, sério, sem me importar de estar invadindo seu lado pessoal.
- Eu sei me divertir. – Ela colocou as mãos na cintura e me olhou de cima a baixo. – Não sou eu aqui quem sonha com hambúrgueres ao invés de sonhar com pessoas.
- Comida é mais legal que muita gente.
- Ouch. Obrigada pela parte que me toca. – Colocou a mão no peito.
- Você não é uma dessas pessoas que eu trocaria por comida. Na verdade, eu trocaria a comida por você. – Levantei a mão, dando minha palavra. Ela abriu um sorrisinho e olhou para o lado. Já estávamos na entrada do refeitório e paramos à porta.
- Bom... Eu tenho que encontrar a ...
- Ah... – Por um segundo eu me esqueci que e eu vivíamos em mundos diferentes, por mais clichê e piegas que soasse. – Claro, vai lá.
Ela sorriu e entrou primeiro no refeitório, cumprimentando alguém logo que entrou. Enquanto isso, eu coloquei as mãos nos bolsos e dei de ombros, entrando também no refeitório. Rapidamente, avistei a mesa que mais me interessava no momento.
Harry e Louis estavam sentados, já comendo, enquanto Liam e Josh estavam na fila para pegar seus pratos. A garota que estava sempre com eles, dessa vez, não estava ali, mas eu nem liguei. Quanto menos gente, melhor. Eu só precisava falar com Harry ou com o Liam. O que viesse primeiro. Puxei uma cadeira vazia e me sentei, para a surpresa dos dois que já estavam ali.
- O que será necessário para as audições amanhã? – Perguntei, direto ao ponto. Harry olhou para Louis como se eu fosse louco e largou o garfo no prato, juntando as mãos em cima da mesa.
- É sobre a banda? – Ele quis saber. Não, palhaço, é sobre o cargo disponível de cérebro na sua cabeça.
- Sim. – Respondi.
- Não creio que você vá se interessar, estamos procurando músicos de verdade. – Louis olhou para mim, petulante.
- Eu sou músico de verdade. – Defendi-me.
- Jura? O que você faz? – Liam perguntou, sentando-se à mesa com Josh.
- Eu toco. – Falei rapidamente. – Não é suficiente?
- Uou, uou. – Louis levantou a mão. – Vai com calma, rapaz, tecnicamente, todos aqui tocamos. – Ele piscou, rindo em seguida com sua trupe de imbecis. Torci o nariz, realmente desinteressado nos assuntos sexuais deles.
- O que você toca? – Harry quis saber, depois de se recompor de um pequeno acesso de risos.
- Violão e bateria. – Respondi, sentindo orgulho de mim mesmo. Harry arqueou as sobrancelhas, parecendo satisfeito e impressionado. Liam, por outro lado, olhou rapidamente para os amigos.
- O quê? Não! A bateria já é minha! – Ele protestou.
- Eu posso tocar outra coisa. – Sugeri.
- Traga amanhã sua proposta. No auditório principal, ao meio-dia. – Louis falou, deixando bem claro que aquele era o argumento final da conversa. Balancei a cabeça negativamente e me coloquei de pé.
- Ah, só mais uma coisa. – Apontei com a cabeça para Josh. – O que ele vai fazer? – Não tive uma resposta. – Exato. – Abri um sorriso vitorioso e saí da mesa, colocando minhas mãos nos bolsos novamente.
- Ah, qual é gente! – Ouvi Josh choramingar. – Eu sou útil, não sou?
Reprimi uma risada e me dirigi até a fila para pegar o prato. Para uma escola que recebia uma mensalidade consideravelmente alta, o sistema de funcionamento do refeitório me lembrava uma escola pública dos filmes americanos.
- Você acha que eles estão tendo alguma coisa? – A garota da frente perguntou à amiga, ambas olhavam alguma coisa no salão.
- Eu acho que não. – A outra respondeu. – Duvido até mesmo que ela goste de homens. – Reprimiu uma risada maldosa com a amiga. Olhei em volta também, procurando quem seria a tal garota lésbica.
Vi a amiga do Harry, , sentando-se à mesa deles, sorrindo abertamente.
- Ela é tão bi-
- Ei, é a sua vez. – Falei antes que ela completasse qualquer comentário maldoso que tinha para fazer. A garota olhou para mim como se fosse eu quem estivesse falando mal dos outros e deu um passo à frente, pegando seu prato.
’s POV
, , e me olhavam. Essas reuniões depois do jantar estavam ficando cada vez mais comuns. Se a diretora parasse de chamar todo mundo para perguntar, quem sabe, eu não precisaria estar aqui.
- Então, você foi chamada? – perguntou, quebrando o silêncio que havia se formado entre nós.
- Foi mais um interrogatório. – bufou.
- Só falta você agora, . – falou.
- O quê? Vocês foram chamadas, também? – olhou para as duas. deu de ombros e suspirou.
- Ela nos chamou por causa do baile de primavera. Mas disse que se soubéssemos de algo, devíamos falar com ela.
- Só que a gente não sabe de nada. – se apressou em dizer, abrindo um sorrisinho contido. – Não iremos contar nada.
- Droga, estamos completamente fod-
- , não seja tão pessimista. – ralhou. – Se ela não tiver a quem culpar, vai ter que aceitar as coisas como estão, certo? Vamos esperar até o fim da semana.
Todas assentimos e então, uma a uma, levantaram-se e saíram em direções diferentes. e saíram da biblioteca. e se enfiaram em algum corredor de estantes. E eu fiquei sentada no sofá, aproveitando meu cappuccino. Peguei um exemplar de um romance água com açúcar que haviam deixado na mesinha ao lado do sofá e abri na primeira página.
- Não sou fã de livros, mas ouvi dizer que esses são os que reviram seu coração. – Rebekah se jogou no sofá à minha frente, cruzando as pernas. Não pude deixar de notar que sua saia, já curta, curtíssima, na verdade, subiu mais um pouco e que, ao contrário de , que também usava uma saia curta, Rebekah não usava short por baixo. Baixei meus olhos para o livro novamente, com desdém. Que va... – Você não me parece do tipo que lê essas coisinhas melosas. Você me parece do tipo que pensa.
Fixei meus olhos nela, procurando algum sinal de cinismo ou o mais leve indício de brincadeira. Mas não achei. Por isso, naquele momento, eu tive certeza do tipo de pessoa que ela era: esse tipo de pessoa que sabe exatamente o que te dizer, que sabe exatamente o que você quer ouvir e que quer algo em troca com isso.
- O que você quer, Rebekah? – Perguntei, fechando o livro e o jogando na outra extremidade do sofá. Era óbvio que ela queria algo.
- Eu gosto de você, . – Ela abriu um sorriso caloroso. – Gosto de como vai direto ao ponto e por isso eu vou direto ao meu: seu irmão.
- Não tenho irmão. – Respondi de volta.
- Tecnicamente, não. – Ela revirou os olhos. – Mas tem um meio-irmão...
Soltei um suspiro, sabendo exatamente onde ela queria chegar.
- Se você quiser transar com o Liam, terá que pedir a ele. O que eu não acho má ideia, porque ele não se importa de enfiar aquilo no primeiro buraco que aparece. – Dei de ombros e ela soltou uma risada.
- Eu sei que eu poderia apenas pedir, mas... – Ela mordeu o lábio. – Estou tentando mudar de vida. Não vou dormir com um cara que nunca conheci.
- Não foi bem isso que houve com o Harry, né.
- Bom, depois desse momento eu decidi mudar. – Ela soltou uma risadinha.
- Foi mal, Rebekah, mas eu não vou me tornar responsável pelas conquistas sexuais do meu meio-irmão que, aliás, eu odeio. Ele sabe disso e com certeza desconfiaria.
- . Por favor. Apenas tenta? Ele parece ser um cara legal...
- Você está realmente interessada apenas nisso?
- Não... Quero dizer sim. Mas... Não sei. Algo maior pode sair disso.
Ela me olhou com a ansiedade brilhando em seus olhos. Eu realmente não estava afim de me meter nessa história, Rebekah me parecia do tipo que dormiria com qualquer um.
- Você sabe que eu não acredito em você, não sabe?
- Eu sei. – Ela fez um muxoxo de desaprovação. – Vai me ajudar mesmo assim?
- Você não pode estar tão desesperada assim...
- Não. – Ela olhou para cima, mordendo o lábio. – Mas Liam realmente chamou minha atenção e geralmente eu como o que eu quero. Ou melhor, quem eu quero.
Meu Deus, ela é tão...
Rebekah.
Não há palavra para descrever o nível de promiscuidade.
- Ok. Eu vou te ajudar. – Falei, depois de debater um pouco internamente. Rebekah abriu um sorriso largo e levantou as mãos para comemorar. – Mas... – O sorriso em seu rosto diminuiu. – Ficará me devendo um favor.
Ela ficou séria por um instante, mas logo o sorriso estava de volta ao seu rosto e ela levantou, piscou para mim e saiu andando sem nem ao menos arrumar a saia. Olhei em volta apenas para confirmar que o olhar de todos estavam em suas pernas mais expostas que nunca.
Liam’s POV
- Ok, obrigado... Carl Condom. – Harry franziu o cenho quando releu o nome do cara que acabara de cantar I Love Rock and Roll, da Joan Jett. Louis quase cuspiu a coca que estava tomando quando ouviu o sobrenome do cara.
- Esse é mesmo o sobrenome dele? – Ouvi Louis perguntar a Harry quando se inclinou para ver a lista dos nomes. Rolei os olhos. Muito discreto, Louis.
- É artístico. – O cara com sobrenome de camisinha cruzou os braços.
Olhei para Josh, que me olhou de volta, achando aquilo tudo muito estranho. Harry e Louis olharam para ele como se fossem verdadeiros sábios do mundo da música, mas eu sabia que na cabeça dos dois, eles sabiam que tudo o que a gente menos precisava era de um aspirante a Axl Rose com sobrenome de camisinha. Louis pigarreou quando o silêncio começou a ficar longo demais e puxou a cadeira para mais para perto da mesa.
- Obrigado, Carl. Vamos analisar sua performance e entraremos em contato se você for o escolhido, sim? Obrigado. A saída por ali. Próximo! – Louis falou rapidamente, sem dar chance ao cara de responder qualquer coisa. E ele saiu parecendo indignado. Talvez ele não tivesse esperado tanto profissionalismo; Louis parecia um jurado do The X Factor ou algo assim.
- Próximo! – Harry reforçou e houve alguma movimentação nas cadeiras atrás de onde os “jurados” estavam.
- Oi! Eu, aqui. – O próximo era o cara loirinho, colega de quarto do Josh. Arqueei as sobrancelhas, não é que o garoto estava determinado a estar nessa banda? Ele puxou um banquinho que estava no canto do palco para o centro e se sentou.
- Horan. – Harry cruzou os braços e abriu um sorriso.
- O que vai ser? Cantor ou compositor? – Louis quis saber.
- Eu posso fazer os dois, na verdade. – Niall Horan riu e passou os dedos pelas cordas do violão, checando o tom. – Não vou precisar da bateria, dude. Valeu. – Ele se virou minimamente para mim e depois se voltou para frente. Dei de ombros e descansei as baquetas em cima de um tambor.
- Vai cantar uma música sua? – Josh quis saber, inclinando-se para frente, parecendo interessado.
- Always, do Panic At The Disco. – Ele respondeu, simplesmente, como se fosse uma piada interna ou algo assim.
Niall esperou Harry ou Louis dizer algo, mas nenhum deles abriu a boca, esperando que ele começasse. Então ele começou a dedilhar as cordas do violão. Eu não conhecia a música, mas parecia ser boa e tranquila.
Enquanto o garoto seguia com sua apresentação, avistei o Malik sentado na última cadeira do canto superior do auditório. Havia pouca luz iluminando o local, mas dava para ver que ele estava bem entediado. Perguntei-me há quanto tempo ele estaria ali, mas resolvi não ligar. Pelo menos ele estava aqui e não transformando meu quarto numa fogueira. O cara não tinha o menor escrúpulo. Outro dia, entrei no meu quarto e ele estava tirando uma caixa de papelão média, fechada, com a logo da Marlboro numa lateral.
Talvez, se eu pegasse alguns panfletos sobre cirrose na sala da orientadora educacional...
- Isso foi ótimo, Horan. Muito obrigado. – Louis abriu um sorriso cordial para o garoto e abaixou a cabeça para a folha sobre a mesa.
Niall pendurou o violão nas costas pela correia e desceu do palco, sem dizer uma palavra. Ao mesmo tempo, o professor de música entrou no auditório e desceu a rampa central a passos largos até onde estavam Harry e Louis. Colocou as mãos na cintura enquanto lia algumas das folhas na mesa.
- Parece que vocês estão levando isso a sério. – Ele comentou, observando Niall Horan guardar seu violão na case.
- A nota do seu trabalho é só a metade da nota semestral. – Revirei os olhos, como se ele não soubesse disso.
- Teria colocado maior porcentagem da nota se soubesse que meus alunos seriam tão aplicados. – O Sr, Clark riu. – Qual o estilo da banda?
- Fado português. – Josh bateu palmas e riu da própria brincadeira.
- Rock. – Harry respondeu, ignorando Josh.
- Rock, hein? – O professor abriu um sorrisinho. – E isso não tem nada a ver com garotas... Ou tem?
- Garotas? Claro que não, claro que não. Eu nem havia pensado nisso. – Harry abriu o sorriso que se abria automaticamente quando o assunto era o sexo oposto.
- Garotas são só efeito colateral de um trabalho árduo e com muita dedicação. – Josh levantou a mão, como se jurasse. Louis e ele trocaram risadinhas. Balancei a cabeça, apreciando o quanto meus amigos eram idiotas.
- Certo... E já escolheram o guitarrista? Uma banda de rock não é uma banda de rock sem o guitarrista.
- Serei eu. – Harry piscou para o professor.
- E o vocalista?
- Bom, acabamos de receber alguns possíveis candidatos. – Louis cruzou os braços e apontou com a cabeça para Niall, que estava saindo do auditório naquele instante. – Uns muito bons, outros péssimos. Eu achava que essa escolinha tinha mais talento.
No fundo, o Malik soltou um ruído qualquer e apagou um cigarro no braço da poltrona. Não sei se a intenção dele era continuar no anonimato, mas chamou a atenção de todos que estavam no auditório. O professor cruzou os braços e fitou o babaca.
- Você também fez audições? – Ele perguntou e então Zayn começou a rir. Não rir, gargalhar. Alto.
Eu nunca vira aquele cara rir tanto.
- Eu jamais faria parte dessa viadagem. – Foi o que Zayn disse, colocando os braços atrás da cabeça.
- Viadagem? – O Sr. Clark repetiu o termo com certo espanto. – Eu não sei qual seu conceito de “viadagem”, mas eu não acho que Mick Jagger, Axl Rose, Steven Tyler, James Hetfield, Kurt Cobain e outros grandes do mundo do Rock eram gays.
Harry cruzou os braços e abriu um sorriso debochado para Zayn Malik, que apenas o encarou de volta, sem mostrar muitas emoções.
- Freddie Mercury era. – Rebateu.
- E foi um cara incrível. Homofobia é crime, rapaz. – O professor argumentou.
- Ah, faça-me o favor, ninguém ofendeu nenhum boiola aqui. – Ele bufou. – Vocês são tão obcecados com essa coisa de provar o que são e o que não são que me dá vontade de fumar mais um cigarro.
O Sr. Clark descruzou os braços e sorriu.
- Já que você é tão seguro assim da sua sexualidade, por que não vem aqui e canta I Don’t Wanna Miss A Thing para nós? – Ele desafiou o garoto que agora tinha os pés na poltrona da frente.
Um segundo de silêncio se seguiu enquanto Zayn parecia ponderar quais eram suas opções.
- Tá. – Ele se colocou de pé de repente e desceu a rampa central a passos curtos e vagarosos. Pareceu levar uma eternidade para ele chegar ao palco e se situar no centro dele. – Tentem não engolir moscas.
- Vai nos matar de tédio, Malik? – Harry provocou.
- Não é por isso que vão ficar de queixo caído. – Ele soltou uma risada baixa antes de segurar o microfone e estalar os dedos para marcar o compasso.





Capítulo 7

Zayn’s POV

- Você está babando, Styles. – Falei antes de descer do palco e depois me joguei a duas poltronas do professor de música cujo nome eu não sabia e muito menos me importava.
- Você detonou, cara! – Josh se jogou ao meu lado e deu um soco leve no meu ombro. Em algum momento eu já disse que esse cara me irrita? Olhar para a cara dele me dá vontade de chutar algum cachorro na rua. – Eu acho que não há dúvidas. Nós já temos nosso vocalista!
O quê?!
- O quê?! – Harry verbalizou meu pensamento.
- Não, valeu. – Respondi.
- Acho que o Josh está certo. – O professor disse. – O que acha, rapaz?
Arqueei uma sobrancelha e fitei o professor. Eu não estava matriculado na aula de música. Eu não queria fazer parte de nenhuma banda. Eu não queria esse tipo de atenção toda voltada para mim. Seria tipo o fim. Nunca mais teria tempo a sós para fumar meu cigarro em paz.
- Não, valeu. – Repeti.
- Por mais que eu odeie dizer isso. – Louis começou. – Acho que você é o melhor que já passou por nós aqui.
- Não, valeu. – Mantive minha resposta.
- Poderia ser útil ter um parceiro da banda dormindo no meu quarto. – Liam olhou pra mim e abriu um sorrisinho.
Cara, isso foi nojento.
- Não.
- Existe algum jeito de te fazer entrar nessa banda?! – Louis cruzou os braços.
Por um ou dois segundos, eu pensei na proposta. Pelo tom dele, o cara faria qualquer coisa para me ter na banda. Eu poderia me aproveitar um pouco disso, mas duvido que aqueles maricas teriam algo que pudesse me agradar. Porém me recusei a desistir de achar algo que pudesse lucrar.
- Na verdade, existe. – Falei por fim, fazendo os olhos de todos se fixarem em mim. Olhei para Harry e sorri de canto. – Implore.
Do nada, Josh explodiu em risadas e todos olharam para ele.
- Caralho, dude, eu jurei que você ia querer chupar ele ou algo assim. – Ele disse entre gargalhadas. – Que porra de sorrisinho foi aquele?! – E riu mais.
Nota mental: ficar longe desse Josh.
- Cala a boca, Josh! – Liam gritou, esfregando as têmporas. – Você só fala merda, cara.
E o garoto não parou de rir.
- E então? – Resolvi ignorar o som perturbador da risada de Josh e olhei para Harry, esperando que o mauricinho pedisse pela minha estada na banda.
- Não vou implorar nada. – Foi o que ele disse. – Não a ele.
- Não? Ah, poxa, magoou meus sentimentos. – Fiz um biquinho, cínico. – Bom, sendo assim, adeus.
- Harry! – Louis pediu.
- Arranjem outro vocalista! – Harry revirou os olhos.
- Cacete, Harry, um dia você ainda nos ferra por seus caprichos. – Liam murmurou.
Harry ignorou os protestos de suas bixinhas-seguidoras e não mudou de ideia. O professor de música resolveu se pronunciar então.
- Você pode ganhar notas extras. – Ele me disse. Como se notas extras fossem o que eu mais queria. – Notas extras são boas; acrescentam em seu currículo, em cartas de recomendação para as universidades, dão bolsa na mensalidade...
Ele continuou dizendo as maravilhas das notas extras, mas eu só me concentrei na parte que dizia “bolsa”. Eu não sou do tipo de cara que dá bola pra muita coisa, mas dinheiro é algo comovente. Dinheiro dos meus pais então. Dinheiro dos meus pais, gasto na mensalidade da porcaria da escola particular: é sagrado. Um aumento no desconto da bolsa, que eu já tinha, aliviaria a barra dos meus velhos.
- Ok. – Foi minha declaração final antes de me levantar e dar as costas para toda aquela ideia de merda de banda.
Saí do auditório perguntando-me que tipo de cigarro eu havia fumado mais cedo para ter aceitado tal proposta. Tipo, cacete, Zayn Malik não canta, Zayn Malik não dança, Zayn Malik não liga pra arte. Arte é coisa pra quem não tem o que fazer da vida. Eu tenho o que fazer da vida. Fim de papo.
E, um dia, aquele mauricinho ainda vai se humilhar para ter algo vindo de mim.

Liam’s POV

O refeitório estava enchendo quando entrei nele. Algumas pessoas já estavam comendo, algumas pessoas ainda estavam dormindo e a minha mesa estava vazia, apenas estava sentada à mesa, uma maçã intocada à sua frente enquanto ela olhava algo em seu celular.
- Bom dia, raio de sol. – Esfreguei minha mão em seu cabelo antes de me sentar na cadeira ao seu lado. emitiu um ruído com a boca, mas não levantou os olhos do aparelho. – Hey, .
- Oi, Liam. – Ela finalmente bloqueou a tela e olhou para mim. Não precisei olhar muito para saber que ela não dormiu as oito horas de sono necessárias.
- Passou a noite no Harry de novo? – Perguntei casualmente.
- O que? – Ela virou o rosto tão abruptamente para mim que se tivesse feito um pouco mais de força teria quebrado o pescoço. – Ah, isso? – Apontou para as olheiras. – Não, eu... Não consegui dormir.
- E por que não? – Cruzei os braços atrás da cabeça.
- Bom... Por que... Bem, eu... Eu estava com muita dor de cabeça. – Ela olhou para a mesa.
- Você mente muito mal, . Talvez o tapado do Harry caia nas suas, mas eu não. – Cruzei os braços na frente do peito.
Ela olhou para mim com pesar e sorriu um pouco.
- Você quer a verdade? – Ela olhou para mim, bem no fundo de meus olhos, como se quisesse encontrar a si mesma ali. – Tive pesadelos a noite inteira. – Falou baixinho, chegando mais perto.
- Que tipo de pesa-
- O que as duas velhas estão cochichando aí? – Louis largou um livro enorme de biologia em cima da mesa, chamando a atenção de quase o refeitório inteiro com o barulho.
- Nada, Lou. – abriu um sorriso e jogou uma bolinha de guardanapo amassado nele. – O que faz de pé tão cedo?
- Vivendo uma vida que eu chamo de “não posso reprovar”. – Olhou para o além como se vislumbrasse algo e colocou as mãos na cintura. Depois de cinco segundos na mesma posição, troquei um olhar com e limpei a garganta.
- O que tá fazendo, Louis? – Perguntei, puxando seu braço para que ele saísse da posição ridícula.
- Sendo contemplativo. – Ele murmurou, sem se mover. – A conselheira da escola disse que é bom ter uma visão do futuro.
- Você foi falar com ela? – piscou duas vezes. – Eu achei que ela era meramente figurativa... Quer dizer que ela é realmente útil?
- Eu estou começando a achar que não, . A menos que você ache útil ficar parecendo uma estátua de Michelangelo no meio do refeitório.
Louis olhou para mim e se sentou, deixando a coisa de pose contemplativa para lá e me olhou com curiosidade.
- Agora, meu caro Liam, eu não sabia que você conhecia o trabalho de Michelangelo. – Louis apontou para mim. – Acho que essa ideia da conselheira funcionou para algo.
- Você vai realmente dar os créditos a ela quando eu não ganho nada por simplesmente prestar atenção na aula de artes? – Arqueei uma sobrancelha.
- Não, você ganha a minha admiração. – Ela colocou a mão no queixo. – Então era sobre isso que ela falava? O progresso da minha amizade com o Liam?
- Você fala como se ela tivesse feito uma previsão do seu futuro, cara.
- Mas ela previu meu futuro. – Ele franziu o cenho. – Disse que se eu não estudasse, eu ia acabar trabalhando no caixa de algum supermercado. Vocês sabem como minha mãe é, ela me mataria se eu fosse um pé rapado... Então tecnicamente ela previu meu futuro, muito obrigado por entenderem meu desespero.
- Ficar parado olhando para o nada não vai te lavar a lugar algum. – Argumentei.
- É, talvez eu tenha que melhorar minhas táticas progressistas.
- Você tá estranho, Lou, andou tomando alguma coisa? – olhou com atenção para ele. – Você tá falando palavras difíceis.
- Incrível como vocês não acreditam na minha capacidade. – Louis colocou a mão no peito, ofendido.
- Louis, chega, né. – revirou os olhos.
- Mas, gente!
- Ok, eu vou comer. – Revirei os olhos e me levantei com logo atrás de mim.
- Esse é o projeto de vida dele dessa semana? – cochichou para mim.
- Aparentemente sim. E tenho medo do que virá. – Ri comigo mesmo. – Daqui a pouco ele dá a louca e diz que quer mudar a vida da Freak. É só o que falta. – Ri de novo e riu um pouco mais comigo.

’s POV

- Guten Morgen, Klasse. – a professora que adentrou a sala era baixa, cheinha e quase albina de tão branca. Apesar disso, seus olhos eram escuros.
Franzi o cenho e olhei para o cara ao meu lado, na carteira da direita.
- Aprendemos sueco nesse colégio?
Ele deu uma risada, como se fosse uma piada, e voltou a conversar com o cara à sua frente. Não era uma piada.
Voltei a rabiscar riscos sem forma no canto da classe onde eu sentara, como estava fazendo desde que entrara naquela sala há dois minutos. Atrás da professora, vários alunos entraram na sala, que ficou cheia rapidamente. Eu não lembrava de conhecer nenhuma daquelas pessoas mais do que de longe, e algumas delas pareceram achar minha presença lá estranha também. Mas a maioria nem me olhava.
- Heute ist das Wetter schön ist, ist es nicht?
Olhei em volta quase rindo, para me certificar de que não era só eu que estava achando aquele idioma uma piada. Mas ninguém mais ria. O garoto ao meu lado encarava a professora com animação.
- A gente ainda não é bom assim, Sra. Aurich.
- Pois bem, Marcus. – ela riu e sentou em sua cadeira, abrindo uma pasta. Voltei aos rabiscos. – Feche a porta, sim, Maura? – ouvi-a pedindo a alguém.
A porta se fechou, e junto com o barulho suave que ela fez, o silêncio vagarosamente foi dominando o lugar e cada um sentou em sua mesa. Eu olhei em volta outra vez. Ou estava acostumada demais ao caos que meus amigos causavam ao redor, ou aquela turma era um ano mais nova. Os segundos anos geralmente eram mais calmos.
Alguns segundos depois, quando as conversas altas se resumiram a sussurros, a professora começou sua lista de chamada, chamando o nome de uma garota com a letra A. Ela foi interrompida pela porta se abrindo.
- Guten Morgen, .
Levantei os olhos para o nome, e não fui só eu.
A garota de cabelos escuros e longos disse algo na língua estrangeira que soou como um pedido de desculpas e se direcionou à classe atrás de mim, que era uma das únicas livres. Nesse momento, me dei conta de que era Alemão, e não sueco ou sei lá. veio da Alemanha.
Também não era uma aula do segundo ano.
Alguns meninos do outro lado da sala acompanharam-na com os olhos, mais precisamente suas pernas, e eu senti uma pontinha do que reconheci como inveja. Não pelo olhar daqueles perdedores. Mas pelo jeito como ela andava, que parecia gracioso e decidido ao mesmo tempo, como se fosse parte da cena de um filme, com uma aura ao seu redor e um vento batendo de frente.
Voltei a encarar minha classe. Algumas pessoas simplesmente nascem assim. Outras, nem um pouco.
A lista de chamada terminou, e ninguém comentou sobre minha estadia estranha naquela sala. A professora pareceu não notar.
- Hoje vamos fazer um trabalho diferente.
Ótimo. Eu fujo de uma aula para me safar desses “trabalhos diferentes” para isso.
Algumas pessoas reclamaram baixinho, soltando suspiros fortes e desanimados.
- Não foi a turma de vocês que reclamou na coordenação sobre as aulas de alemão serem muito “secas”? Bem, seja quem for, ouvi boatos de que meus alunos fazem comparação entre mim e o Sr. Piot. Sei o quanto amam as aulas dele. Eu tenho que estar à altura, certo? – ela sorriu. – Bem, enfim. Façam duplas. Mas não as duplas de sempre, duplas diferentes. Eu vou separar se ver alguns espertinhos querendo me passar a perna. Depois, quero que contem ao parceiro alguma história que vale à pena ser contada de seu passado, algo que tenham orgulho de contar ou que traga boas lembranças. Depois, resumam-na do melhor modo que conseguirem em uma folha e me entregue. Vale nota, sim, antes que perguntem. E é melhor que façam.
O garoto ao meu lado levantou a mão.
- Sim, Marcus?
- Escrever em Alemão?
Até eu revirei os olhos. Sempre tinha um engraçadinho.
Ela sorriu, mas não fez questão de responder e voltou para sua mesa. Um segundo depois, a conversa começou, enquanto todo mundo procurava sua dupla. Eu percebi que não conhecia ninguém nem por nome naquela sala. De fato, não sabia nem como eu fora parar ali. Eu só dei meia volta quando vi Louis e Josh no final do corredor antes que eles me vissem, sem a mínima vontade de me juntar a eles naquela manhã.
- ? – falei, virando-me para trás. Ela não tinha cara de quem tinha amigos, e ninguém mais naquela sala tinha cara de quem teria coragem de convidá-la para uma dupla.
Ela levantou os olhos para mim e me olhou por um segundo. Depois, deu de ombros.
Eu dei de ombros também e arrastei minha cadeira para trás até chegar ao lado da dela. Puxei a classe também, e aí. E aí? O que acontecia agora?
Acho que ficamos no silêncio constrangedor até que todos tivessem sua dupla. A professora trabalhava arduamente separando as duplas de pessoas que já eram íntimas umas das outras e continuou sem notar em mim.
Suspirei, e então espalmei as mãos na mesa e escorei as costas atrás na cadeira.
- Por que você não começa contando a sua história?
Era quase engraçado. Alguém pedindo a que contasse sobre a sua vida. Era meio como insistir que Zayn Malik beijasse um cara, ou sei lá. Só parecia uma questão sem propósito.
- Por que você não conta a sua? – sua voz era entediada.
Pensei por um momento, já sabendo que história contar. Eu pigarreei, colocando os cabelos atrás da orelha, e cruzei os braços.
- Meu nome é . Eu tenho dezessete anos e sou a filha do meio dos três filhos dos meus pais. Um deles ganhou bolsa em Oxford e o outro é algo como um prodígio da matemática. Eu sou a ovelha negra. – sorri. – Quando tinha quatorze anos, eu queria participar dessa competição de skate em uma cidade vizinha à nossa, mas meus pais não deixavam de jeito algum. Então, no fim de semana da competição meu melhor amigo simplesmente me propôs que fugíssemos. Que fossemos para a droga do torneio e fizéssemos o que queríamos. Bem, o que eu queria. – dei de ombros e olhei-a. tinha a cabeça apoiada em uma mão e me olhava. Continuei. – A gente nem gostava de morar lá, nós dois éramos a parte errada da família, nunca éramos o suficiente para os nossos pais. Então eu pensei “foda-se, pior do que isso não pode ficar, eu não posso perder nada que já não tenho”. E aí eu fui. Fugimos pelo fim de semana, com uma mochila cheia de barras de cereal e a outra com dois pares de roupas e uma garrafa de água. E a gente se sentiu o máximo! A gente achou que ia ser fácil. Primeiro de tudo, não conseguimos carona de jeito nenhum. Ninguém parava. Foi um caos. No meio dia de sábado já estávamos famintos e cansados, até que finalmente conseguimos uma carona até a cidade no final do dia. A gente dormiu na carroceria de uma caminhonete que nem sabíamos de quem era, e no domingo bem cedo, sem banho, sem nada, fomos até a tal competição. Eu participei. – olhei para cima, para o teto da sala. – Como o esperado... Caí da rampa, quebrei a perna, torci o ombro, ralei o rosto, trinquei uma costela.
Pensei ouvir rir por um momento. Bem, eu sei que eu ri. Era bom relembrar. Ainda era tão engraçado, porque me lembro de rir e chorar de dor ao mesmo tempo naquele dia. Foi o pior e o melhor momento de minha vida quando eu me sentia incapaz de me mover e respirar no chão, e enquanto a ambulância chegava, Harry estava pulando em volta, tentando imitar o meu tombo para me fazer rir, e mesmo sem achar possível, eu ria.
- E?
Olhei-a.
- E... que meus pais nos buscaram no hospital no final de domingo. Se eu não estivesse quebrada eles me quebrariam inteira... Mas no fim eles acabaram esquecendo umas semanas depois. Daí, como éramos idiotas ao extremo, eu e Harry achamos que aquele fiasco foi um plano que obteve sucesso. Nós achamos que nos demos bem com uma mochila cheia de barras de cereal e outra com água e roupas, e foi daí que surgiu a ideia de uma fuga de verdade, para longe de qualquer coisa, longe das nossas famílias, sei lá para onde, só para a gente ser feliz. Tipo... ele do seu jeito e eu do meu. – olhei-a, explicando. Ela assentiu. – E um ano depois, tentando fazer isso, foi assim que a gente veio parar aqui nesse colégio. – dei de ombros. – Mas quando me lembro disso às vezes eu acho que valeu a pena. Mesmo toda quebrada, naquele dia eu soube que era bom arriscar, sabe. A vida pode ser uma porra com todo mundo, mas a gente pode tentar mudar isso se tiver coragem – dei de ombros outra vez, acabando a minha história.
voltou a sentar reta na cadeira. Eu também. Não falamos nada por um tempo, e comecei a me perguntar se eu não fora meio dramática demais. De qualquer jeito, eu não me importava.
O silencio ultrapassou os três, quatro minutos. Comecei a me sentir mal. O que eu estava fazendo, contando a minha vida para uma pessoa que nem conhecia em prol de um trabalho de uma matéria que nem frequentava?
De repente, pigarreou. Ela sentou as costas para trás como eu, e continuou olhando para o nada à sua frente, sem me encarar. Não pude evitar notar que, apesar de linda, ela carregava essa beleza como um fardo. Não havia outro jeito de explicar senão esse. Sua beleza parecia um fardo.
- Eu... – pigarreou outra vez. – Uma vez namorei um cara. Ele se chamava Kurt.
Era muito estranho ouvi-la falar, sua voz era profunda e baixa. Mas apenas fiquei em silêncio.
- Ele era considerado... perigoso. Por algumas pessoas. – encolheu os ombros. – Não para mim. Mas eu não sei o que fazia com ele. Era só um passatempo, sei lá. – sua voz diminuía no final das frases e era difícil ouvi-la por cima das outras vozes da sala. – Ele era um imbecil. Me tratava como nada, e isso me incomodava como incomodaria há qualquer pessoa. Mas eu não me importava na maioria das vezes. Era mais pelo status, pela imagem que ele queria passar.
Assenti, para demonstrar que ouvia. Ela não me olhava.
- Um dia ele me humilhou na frente dos amigos e de mais um monte de gente em um pub. Me chamou de vadia maluca. – ela soltou um som parecido com uma risada. Uma risada. Sobre algo assim. Franzi o cenho, mas comprimi qualquer comentário. – Todos riram, e eu soube que ia ficar conhecida como a vadia maluca de Hamburg no dia seguinte, e não havia nada que eu pudesse fazer.
Ela fez uma pausa. Era isso? Apertei as mãos, em curiosidade.
- E aí? – não me contive em perguntar.
Ela hesitou, mas continuou a história.
- Já que não havia nada que eu pudesse fazer, que eu fizesse isso valer. – ela me olhou por um segundo e voltou a olhar para frente. Respirou fundo, e quando voltou a falar sua voz era mais forte. – Então, naquela noite, eu peguei o carro dele, bati em algum poste, entrei na sua casa e queimei todas as suas roupas. Eu coloquei-as em sacos de lixo preto no meio da rua e ateei fogo. Escrevi na sua porta antes de ir embora “eu sou mesmo uma vadia maluca”. – ela sorriu, com algo parecido com presunção. Era como se falasse sobre uma que não existe mais, e isso era visível até para mim.
- E ele não te encontrou?
- Eu não estou mais lá, estou? – ela me olhou.
Encarei-a por um segundo. Depois eu sorri. Dei uma risada.
- Boa. – balancei a cabeça. – Foi muito boa.
Ela assentiu com a cabeça em agradecimento. Por um breve momento foi como se tivéssemos uma pequena ligação.
- Bem. – ela puxou um lápis e uma folha. – Agora isso é um trabalho.
Eu havia esquecido que aquela não era minha sala. Ela começou a escrever seu nome no topo da folha sem mais delongas, porque sabia que eu não era daquela sala.
Como se fosse um lembrete disso, a porta se abriu e a conversa cessou brevemente. Minerva botou metade do corpo para dentro e, quando seus olhos me encontraram, ela os cerrou. Sorri amarelo.
- , váagoraparasuaauladeoratóriasuagarotinhairresponsávelesemescrúpulos! – ela berrou na porta sem nem respirar de tão rápido que falou. – Você não vai escapar, .
Levantei, pegando a mochila da cadeira e indo para a porta.
- Vai ter que apresentar aquele trabalho, sua covardezinha sem vergonha!
Saí da sala revirando os olhos, e ouvi risadas quando a porta se fechava.
Enquanto Minerva me escoltava até a sala de oratória, eu percebi uma coisa: sabia que eu não era daquela turma. Me contou um pedaço de sua vida mesmo que não fosse necessário.
Eu pensei que ela fosse mais seca do que aquilo.

’s POV

Tirei o lápis de olho do pequeno estojo de maquiagem e me aproximei do espelho para contornar os olhos. Depois fui ao batom cor de boca. Eu podia classificar garotas que devotam suas vidas à maquiagem como superficiais, mas isso não significa que eu não podia ser um pouco vaidosa. Sorri para meu reflexo e bati mais uma vez no cabelo para deixá-lo bagunçado. Do lado de dentro da porta do banheiro, Rebekah tomava o banho da eternidade, estava lá desde que acordei. E do lado de fora do nosso quarto alguém bateu na porta.
- Liam? - Franzi o cenho para meu meio-irmão apoiado ao batente da porta, os braços cruzados, óculos escuros e sorrisinho no rosto. - O que você quer?
- Bom dia a você também, irmãzinha. - O sorriso dele aumentou quando tirou os óculos e piscou para mim.
- O que você quer, Payne? - Revirei os olhos, ignorando o charminho dele.
- Ah, , as pessoas não podem nem ser legais umas com as outras?
- Não acredito em solidariedade genuína. - Abri um sorriso cínico e cruzei meus braços, desafiando-o a cortar o papo furado. Ele me encarou de volta e, após alguns segundos de confronto visual mútuo, ele finalmente desistiu.
- Você tem uma bandana? - Ele perguntou de má vontade.
- Você veio aqui para isso? Por que não pediu um dos seus amigos?
- Nenhum deles tem.
- Jura? Nem aquele Harry? - Sempre o achei meio Mick Jagger.
- Nem ele. Vai, , você tem?
- Por que eu te emprestaria?
- Porque hoje tenho uma reunião importante da banda e eu quero estar a caráter.
- Você vai fazer o quê? Limpar o chão? - Reprimi uma risada maldosa.
- Bateria. - Abriu um sorriso orgulhoso, ignorando meu comentário.
- Baterista, sério? - Arqueei as sobrancelhas. Aí está algo que eu não esperava. Cogitei a ideia por alguns segundos. Talvez eu pudesse colocar um pouco de decência naquele garoto. Os caras mais fodas das bandas de rock são, depois dos guitarristas, os bateristas. E, olhando bem, Liam tinha... Bem, físico para ser baterista. - Vou ver se trouxe alguma. Ele abriu um sorriso e acenou com a cabeça, parecendo uma criancinha por um segundo. Revirei os olhos para o absurdo que era aquele garoto e, dando-lhe as costas, fui até o closet.
Ali, algumas das minhas coisas ainda não estavam desembaladas, acho que porque eram mais lembranças do que coisas que eu realmente precisaria no dia-a-dia. Eu falei a Liam que ia ver se havia trago alguma, mas eu sabia que havia trago uma. Minha mãe havia dito que meu pai era parecido comigo quando era mais novo - o que é extremamente difícil de acreditar.
- Nada como tomar um banho pela manhã... – A porta do banheiro foi aberta e Rebekah saiu enrolada em uma toalha. Olhei para ela por cima do ombro, tentando dar o mínimo de atenção à sua presença devassa. Ela sorriu para mim e pegou outra toalha no armário, essa para secar os cabelos vermelhos.
- , pode ir um pouquinho mais rápido? – Liam me apressou do lado de fora do quarto. Rebekah levantou o rosto, meio surpresa ou em choque. Na verdade, ela parecia um predador que acabara de sentir o cheiro de sua presa. A presa seria o Liam, no caso. Rolei meus olhos e arranquei a bandana do Nirvana do fundo da gaveta.
Rebekah foi até a porta, ainda vestida em sua toalhinha de rosto, e escancarou o pedaço de madeira, dando a Liam a completa visão de seu corpo. Fechei a porta do closet e revirei os olhos.
Seja uma pessoa legal, . Garotas aqui são como bonecas infláveis. Não julgue.
Eu tentava repetir para mim mesma.
- Liam Payne. – Rebekah se apoiou ao batente da porta e enrolou uma ponta da toalha nos dedos, brincando. – Achei que jamais te conheceria.
- Hm... Eu? Ah... Foi mal... Sou um cara ocupado. – Ele soltou uma risada rouca. Eu não sabia que Liam sabia dar uma risada como aquela.
- Está ocupado o tempo todo ou pode abrir uma “exceçãozinha”? – Ela sorriu minimamente. Sabe, eu poderia sentar em minha cama e assistir os dois flertando o dia inteiro, e Liam nem ao menos se lembraria de que tinha uma reunião hoje ou que queria uma bandana.
- Eu posso abrir qualquer coisa, gata. – Ele deu um passo à frente, ficando um pouco mais perto dela.
- Ok. – Segurei a maçaneta da porta e estendi a bandana para Liam. – Vou ficar fora essa noite, ok? Vocês podem terminar isso mais tarde, quando eu não estiver aqui, quando vocês não puderem me fazer querer vomitar. Obrigada. – Liam olhou para mim com algum tipo de diversão perversa nos olhos. – Tchau, Liam.
Puxei Rebekah para dentro do quarto e fechei a porta.
- Ei! – Ela guinchou, cruzando os braços.
- Hoje não, Rebekah. – Bufei.
Ela não respondeu, mas me encarou por alguns segundos. Não me dei ao trabalho de olhar de volta. Eu tinha todo o direito de ficar enjoada com aqueles dois no mesmo ambiente. Eu podia sentir o cheiro dos hormônios borbulhando. Ew.

Louis POV

Entrei rapidamente no laboratório de química, mas para meu azar o professor já me esperava com uma cara feia. Xinguei Harry interiormente por me atrasar para terceira a aula.
- Sente-se, Sr. Tomlinson.
Assenti e olhei para a turma, todos me olhavam. O único rosto conhecido era Josh, no final da sala, mas a carteira ao lado da dele já estava ocupada por uma garota gorduchinha e de óculos, que me lembrava da Velma do Scooby Doo. Procurei por algum lugar vago, e só aí entendi o sorrisinho irônico no rosto de Josh: o único lugar vago para mim era ao lado da freak.
Respirei fundo, xingando internamente mais uma vez, e me sentei ao seu lado cuidadosamente, largando minhas apostilas enquanto o professor voltava a falar, sem fazer movimentos bruscos, e depois tentei prestar atenção ao que o velho falava.
Depois de uma breve introdução ao que iríamos tentar fazer, ele nos mandou abrir o livro na página 65 e fazermos o que se pedia. Eu demorei propositalmente para achar a página, com a esperança de que a garota achasse primeiro e tomasse as rédeas, mas ela não parecia muito afim de fazer um experimento químico.
Tá, Louis, sem pânico. Peguei o frasco em formato de um cilindro e tudo que precisaria para fazer aquilo. Pelo que entendi aquele liquido tinha que ficar com cheiro de baunilha sem de fato ser usada essência de baunilha, e fiquei me perguntando se o professor queria que fizéssemos mágica.
- Hum, onde tá essa coisa? – perguntei para mim mesmo ao ver um dos líquidos verdes na ilustração do livro sem conseguir distinguir na minha frente qual era o certo.
- Esse? – apontou para um frasco em frente a ela. Sua voz era mais grossa do que eu me lembrava, era baixa e um pouco rouca, meio sexy.
- É, obrigado. – sorri, mas ela não pareceu notar.
O livro estava no meio de nós dois, então ela acompanhava nele o que eu fazia na mesa, me alcançando os materiais quando necessário.
- Pode segurar aqui, por favor? – pedi. Ela assentiu e segurou o frasco de pé e eu peguei os dois frascos redondos, cada qual com a mistura correta. A dupla do lado já havia tentado e feito uma espuma bem grossa, algo deu muito errado na mistura deles. Vamos descobrir agora se eu fiz algo errado também. Suspirei. – Vamos lá.
Virei os dois líquidos azuis fracamente, e a mistura dos dois efervesceu por alguns segundos e por fim virou um liquido em azul forte e cresceu mais do que devia, borbulhando um pouco e derramando de dentro do frasco de vidro. Assim que fez contato com as mãos de , ela soltou-o fazendo derramar em toda a mesa, e pegou um pouco em minhas mãos também.
- Ai, droga! – ela chacoalhou as mãos.
- Acho que eu fiz algo errado, hum, talvez se eu tivesse...
- Você acha? – ela bufou.
- Desculpa, eu só... – eu queria pedir para ela não me odiar muito, mas era verdade, sempre que ela estava por perto, de algum modo nós nos batíamos ou eu derrubava algo em cima dela. E sempre sentia vontade de sair correndo, como agora.
Fomos os dois para a pia no fundo da sala e ela abriu a torneira, eu esperei para usar depois. usou sabonete, mas a coloração azul não saiu de sua pele.
- Não vai sair tão cedo. – o professor passou por nós e comentou, com uma risadinha. – Vocês erraram feio.
- Como a gente faz pra tirar isso da pele?
- Só lavem e esperem. Em dois dias sua pele está normal de novo.
- Dois dias?! – reclamou.
Lavei minhas mãos me amaldiçoando muito, por que é que isso tinha que acontecer justo com ela? Voltei para nossa mesa onde já estava, limpando a sua cadeira com um papel toalha para poder sentar.
- Foi mal mesmo, tá legal? Não era minha intenção. – eu falei, enquanto limpava a mesa com um dos panos que encontrei na pia. Por algum motivo, toda vez que eu a via acabava derrubando algo nela. Ela nem falou nada, mas o clima não era dos melhores. – Bom... – tentei puxar assunto. – Será que pelo menos tem cheiro de baunilha?
Peguei o frasco e o cheirei, escondendo uma careta logo em seguida. Parecia que eu havia cheirado sal amoníaco ou coisa pior, o cheiro entrou nas minhas narinas e queimou minha via respiratória, quase me fez chorar. Olhei para que conteve um sorrisinho discreto. Larguei o frasco na mesa com cuidado, e o professor chamou nossa atenção por um tempo.
- Quero que vocês escrevam sobre a experiência que fizeram hoje, o que usaram, em que quantidade usaram, em que ordem usaram, porque acham que deu errado e o que acabaram criando. Ninguém aqui conseguiu fazer algo remotamente parecido com cheiro de baunilha, então temos que treinar mais isso. Quero seus trabalhos amanhã. Até a próxima, turma.
O sinal do intervalo bateu no mesmo momento em que ele se despediu, e todos saíram da sala quase correndo. estava na minha frente.
- Ei, . – chamei.
Ela parou de andar e eu a alcancei em alguns passos.
- Quando podemos fazer esse trabalho? Você tem horário de tarde, depois da aula?
Ela me olhava incerta. Eu até podia fazer isso sozinho, mas precisava enfrentar essa coisa bizarra de ter medo de uma garota absolutamente normal. Ou pelo menos ela parecia normal.
- De tarde... Não dá. Eu tenho... Não dá. – ela falou, por fim.
- Então quando?
olhou em volta e suspirou pesadamente.
- Pode ser agora, se você achar que consegue fazer isso em vinte minutos.
- Acho que vinte minutos estão ótimos.
Com isso, ela virou as costas e se afastou, sem me dar chance de falar qualquer outra coisa.
Segui para o refeitório, pensando em como diabos eu a encontraria.

’s POV

- Não, eu quero as dálias brancas! – Insisti, segurando o celular contra o ouvido com mais força, para ver se assim eu conseguia entender o que o cara do outro lado estava dizendo com um sotaque polonês horrível. – Sim, os potes de acrílico, sim!
olhou para mim antes de se voltar para a planta do ginásio. Mais uma vez, eu me perguntei por que eu dei a ideia de mudarmos os papéis dessa vez; eu ficava com a decoração e ficava com a logística do lugar. Não que eu subestimasse a capacidade matemática de , mas aquela parte era a que eu fazia de melhor. Ela, do contrário, era ótima em decorar. No baile de primavera de 2009, ela surgiu com essa ideia de fazer toda a decoração em origami. Porta copos, porta velas de LED, arranjos de flores, guardanapos, cortinas, enfeites de mesa, havia até um pequeno lago cheio de barquinhos com mensagens e doces. Enfim, era apenas a melhor que eu conhecia. Por isso, eu continuava achando que minha ideia de encomendar flores para o baile de outono desse ano... Era simplesmente ridícula!
- Sim! Dálias brancas! Estou tentando te dizer isso há horas, Sr... – O sobrenome dele morreu na minha garganta enquanto eu tentava me lembrar como se pronunciava. O homem apenas riu do outro lado da linha dizendo “por que mesmo minha mulher quis vir para esse país de pessoas arrogantes” e coisas do tipo. Bom, honestamente, eu também não sei por que você veio se não sabe nem ao menos falar inglês direito! – Passar bem! – Desliguei. – Eu juro que se essas flores não estiverem aqui na semana do baile...
- Ei, , calma. – sorriu para mim. – Vai dar tudo certo. Tem certeza de que não quer arrumar o desenho das mesas no ginásio? – Ela olhou para mim com aquele semblante que me dizia “estou fingindo que não, mas estou desesperada”.
- Acho que um desafio será bom para nós, Srta. . – Pisquei para ela.
- Não acho que você esteja em posição para querer desafios, Srta. . – Ela comprimiu os lábios, falando sério.
- Ah, qual é! – Dei um tapa em seu ombro. – Eu estou bem, juro.
- Semana que vem temos que ir à farmácia, não me deixe esquecer. – Pediu.
- Não vou, mamãe. – Murmurei.
Ela apenas riu e dobrou a planta. O sinal tocou quando ela levantou e então eu me pus de pé também. Economia era a única matéria que tínhamos juntas. Juntei minhas coisas e caminhei lado a lado com pelos corredores, até nossa sala.
- Sabe, ... – começou. – Você devia arranjar um namorado.
Segurei uma gargalhada.
Não por ser engraçado, mas por ser ridículo.
- Garotas como eu não namoram, . – Falei num tom monótono.
- Não sei de onde você tirou essa teoria absurda.
- Lola enfiou ela na minha cabeça. – Murmurei.
- Ok, , não vamos por esse caminho. – Ela revirou os olhos. E eu nunca entenderei por que esse assunto a deixa tão incomodada. Era a minha vida amorosa, não a dela! Que por sinal, era mil vezes mais badalada que a minha.
Não que eu esteja criando teias, mas... Simplesmente, não dá. Não agora.
- Não mereço. – Ouvi murmurar.
- O que foi?
- “Enfant” Lee também está nessa aula? – O tom de indignação na voz dela era quase gritante.
- Primeiro; o nome dela não é Lee. Segundo: sim, ela esteve tentando mudar de classe para algo mais fácil, mas não conseguiu.
- Como você sabe disso tudo? – Ela me olhou pelo canto do olho.
- Intuição. – Falei e entrei rapidamente na sala, indo para nossos lugares de costume.
- Não me venha com essa de intuição, ! – soltava fumaça pelos ouvidos. – Você andou falando com ela!
- O que há de mal nisso, ? – Suspirei, tirando meu caderno da bolsa.
- Eu não gosto dela! Você, como boa amiga, deveria me acompanhar! – Ela fez bico.
- Eu não tenho problema com ela. E, honestamente, não sei ainda ao certo qual é o seu com ela. Vocês não fizeram uma trégua?
- Mas não somos amigas. Ela me colou na cadeira no primeiro ano!
Outra vez, segurei o riso.
- ! Não ria!
- Foi mal, ! – Falei, mordendo o lábio inferior para não rolar de rir. – Mas aquilo foi... A sua cara... Aquele dia foi impagável.
Ela fechou a cara e cruzou os braços.
- Bela amiga eu fui arrumar. – Revirou os olhos, encarando o quadro negro.
Acenei rapidamente para , que estava do outro lado da sala.
Algum dia, essas duas ainda se entenderão.

’s POV

- Tchau, tchau botânica! – Joguei o livro de Biologia dentro do armário e peguei o livro de Geografia. Coloquei o livro dentro da bolsa e fechei o armário sem a menor cerimônia. Eu era quase a única aluna no corredor e já estava dois minutos atrasada para a próxima aula depois do almoço.
Obrigada, fila do banheiro feminino!
Revirei os olhos ao lembrar a quantidade de meninas que me fazem esperar em uma fila para apenas se olharem no espelho! Quero dizer, puta que pariu! Eu realmente queria usar o banheiro e elas... Empacando por causa de um espelho!
Joguei a mochila no ombro e caminhei em direção à ala norte. Eu sabia que havia um programa de monitores de corredor, mas não dava para ligar para isso naquele momento. O professor de Geografia é um cretino e se eu não aparecesse, ele descontaria na minha nota.
O professor, cretino, fingiu que nem notou minha entrada, mas eu sabia que ele anotaria algo em seu caderninho preto de couro surrado. Maldito seja. Ele é desse tipo de cara que te faz acreditar que você pode fazer o que você quiser, que ele não vai brigar. Ele não briga. Mas se vinga de cada detalhe.
Revirei os olhos e me dirigi à cadeira vaga na terceira fileira.
Procurei por algum rosto conhecido naquela sala, mas não reconheci um ser vivo. A secretaria me orientou a trocar Matemática Básica por outra aula equivalente, já que teria nota extra na aula de Matemática Avançada. Era algo que eu precisaria conviver por apenas um ano. Apenas um ano.
- Bem, como eu estava dizendo na aula passada... Ah, Srta. por favor, pegar a matéria com algum colega. Bom, a França é um dos países mais importantes da Europa por diversos motivos...
Ótimo. Sentir falta de casa não era suficiente. Eu precisaria aprender a medir espaços, tipos de terra, hidrografia, clima, vegetação, a geopolítica da França.
Aquele lugar é perfeito, apenas tomem como verdade e sigam, humanos. Foi o que pensei enquanto o professor transcrevia uma bíblia no quadro negro.
Todos estavam apodrecendo de tédio quando a porta abriu abruptamente e ninguém mais que meu meio-irmão entrou na sala, com uma cara que traduziria perfeitamente o termo “hot mess”. A blusa estava abotoada errada, a gravata estava torta e o cabelo, mesmo curto, bagunçado. Um leve cochicho tomou conta da sala. O professor apenas olhou para o lado e indicou a Liam que entrasse e se sentasse.
Tentei não olhar muito para ele. Ele sabia de algo. Ou ao menos suspeitava. E isso era a pior coisa que podia acontecer. Liam Perfeito Payne saber alguma merda minha. E das meninas, claro. Havíamos conversado mais cedo, quando ele pediu a bandana emprestado, mas... Aquilo me ocorreu somente agora.
Eu tinha um inimigo de Estado.
Somente quando ele piscou para mim foi que eu me dei conta de que eu estava olhando. Filho da...
- Srta. ! – O professor elevou o tom de voz, arrancando-me dos meus próprios pensamentos. Olhei para ele automaticamente, assustada. – Pode, por favor, responder a pergunta?
- A-ah... – Gaguejei. Olhei para o quadro em busca de pistas de qual seria a maldita pergunta, mas não achei nada. – Qual seria a pergunta...?
- Quem foi o penúltimo presidente francês? – Ele repetiu, fazendo parecer ser a coisa mais difícil de ser feita. Babaca.
E eu não lembrava a droga da resposta.
- Não era a sua mãe. – Murmurei, um pouco alto demais, porque a turma explodiu em risadas.
Mas o professor não pareceu achar tanta graça.
- Srta. . – Ele voltou à sua mesa e escreveu alguma coisa. Depois olhou duramente para mim. – Por favor, saia.
Ótimo. Simplesmente. Ótimo.

Zayn’s POV

Tirei o caderno preto da mochila só para ver qual horário eu estava perdendo naquele momento. Não que me importasse muito, mas só para saber. Mas eu tinha que admitir que estava começando a criar uma afeição por Física. Por isso, não queria estar perdendo essa matéria.
Mas, ao mesmo tempo, o cigarro era muito mais convidativo.
Você nunca sabe o quanto pode ficar dependente de uma coisa até provar.
O cenário atrás do ginásio era legal.Nunca fui um cara de ficar admirado com a beleza da natureza e coisas do tipo, mas aquele lago trazia algo de bom para o ambiente. Na verdade, aquele lago era o que tornava essa droga de escola... Suportável. Minha mãe tinha razão, esse ar fresco me poderia fazer bem. Eu podia pensar com mais clareza e saber exatamente o que eu queria fazer.
Sem querer, minha mente vagou para a garota . Ainda não sabia como ela poderia me ajudar, mas com certeza acharia algum jeito e então seria apenas questão de tempo para virar o jogo contra Mandy.
Trouxe o cigarro novamente à boca e traguei, fechando os olhos, sentindo a fumaça enchendo minha boca e soltando lentamente. Finalmente, eu havia encontrado alguma paz nesse maldito colégio. E tinha que aproveitar enquanto podia, por causa daquele maldito dever de casa estúpido da aula de música daqueles viadinhos. Mal conseguia pensar na validade do motivo pelo qual entrei nessa roubada.
- Ah, fala sério. - Falou alguém à minha direita.
Abri os olhos e olhei naquela direção, notando a garota que segurava a alça da mochila de uma maneira um tanto nervosa. Ela me olhava de cima e com certo ar de indiferença ao mesmo tempo. Eu a reconheci de imediato. Você sabe, numa escola onde fofocas correm mais que o Usain Bolt, não era difícil descobrir quem era a freak sexy que todos comentavam. Também conhecida como .
- Tem alguém brincando aqui? – Respondi ao seu murmúrio e ela revirou os olhos. Deu um passo à frente e largou a mochila no chão, deitando-se sobre ela em seguida.
- O lugar está ocupado. – Falei, sério. Ela olhou para mim com aqueles olhos manchados de piche em volta e depois olhou para o lago. Ignorando completamente minha presença, tirou um maço de cigarros da lateral da bolsa e acendeu um, na maior calma do mundo.
- Eu sei que você pode me ignorar tão bem quanto eu posso te ignorar. – Ouvi-a murmurar por detrás do cigarro em sua boca. – E eu já venho aqui desde o começo das aulas.
- Garota de vícios, huh?
- Garoto fuxiqueiro, huh? – Ela remedou.
- Gosto de segredos. – Dei de ombros.
- Tenho certeza que deve haver um nome e uma pensão do governo para essa doença mental que você tem. – Retorquiu.
- Nada como uma conversa agradável para acompanhar o cigarrinho da manhã... – Suspirei, provocando. Não entendi muito bem o porquê de tanta defensiva, mas resolvi apenas brincar com a raivinha dela.
- Nada de conversinhas. – Disse ela, fria.
- Zayn Malik. – Apresentei-me.
- Legal.
- Muito prazer em te conhecer, .
- Ótimo, até você lê as revistas de fofocas.
- Coisas que as vadias dessa escola gritam no meu ouvido quando eu estou fodendo elas. – Abri um sorrisinho de canto. – Sabe, né, elas perdem a noção de tudo.
- Tenho certeza que sim. – Revirou os olhos, ainda sem se virar para mim.
- Então, freak... – Olhei para ela para ver como reagiria ao apelido, mas nenhum músculo foi movido. – Existe algum motivo para esse singelo e carinhoso apelido?
- Comi as bolas do último cara que tentou ficar de gracinha comigo. – Disse. Mesmo sabendo que esse tipo de coisa é dito em brincadeira, a expressão dela me deixou na dúvida por alguns segundos.
Levantei os braços, derrubando toda a cinza da ponta do cigarro no chão.
- Tudo bem, não vou julgar. Todos têm gostos e preferências, alguns mais saudáveis, mas...
- Vai se foder, Malik.
- Pode repetir? Meu nome ficou muito sexy na sua voz. – Pisquei.
Ela murmurou algo e tirou os fones de ouvido da bolsa, colocando-os antes que eu pudesse continuar com meu passatempo. Ela ficou lá, deitada, imóvel, de olhos fechados e o cigarro na boca. Aquela garota era uma gata, mas parecia uma estátua. Fria e dura como uma estátua.

’s POV

Voltei da pista de corrida do ginásio só quando estava ficando escuro demais para eu enxergar por onde corria, ofegante, suada, toda grudenta, mas me sentindo bem. Correr era ótimo para manter o fôlego e também para ficar sozinha e pensar claramente. Era algo que eu, periodicamente, precisava.
Fui até meu dormitório e ignorei a careta mal disfarçada de a me ver entrar no quarto, toda suada. Fu direto para o banho, demorando quase meia hora aproveitando a água quente e relaxante que escorria pelo corpo. O final de uma sexta-feira como essa era tão agradável quanto o final de um domingo podia ser deprimente.
Saí do banheiro com uma toalha no corpo e instantaneamente começou a reclamar de eu ter deixado a porta aberta, do vapor, do tempo que levei e de eu estar pingando agua em tudo com os cabelos. Só bufei, ignorando para meu próprio bem. Eu sentia falta do tempo em que a antiga diretora me achava desequilibrada demais para ter uma colega de quarto.
também parecia tão incomodada quanto eu. Ela saiu do quarto antes que eu tivesse tempo de procurar uma roupa e secar o cabelo.
Dez minutos depois, eu já entrava no prédio C outra vez. Quando entrei no corredor que dava acesso ao refeitório, encontrei Harry, Liam e Louis indo na mesma direção e segui-os de perto, sem interagir no assunto desconhecido.
- Ali, ali tá ele. – Louis deu uma cotovelada em Liam e os três se aproximaram de Josh, um pouco mais à frente, abraçando-o pelos ombros e começando a zoar ele por algum motivo.
Mesmo sem entender, eu ri. Comecei a andar ao lado de Josh e Liam, e enquanto ele reclamava com a cara fechada e tentava afastá-los, o resto dos garotos continuava rindo alto como idiotas.
- Chega! – Josh exclamou, levantando as mãos, e nesse momento vi qual era o motivo da piada: sua pele estava azul como se ele tivesse mergulhado em algum tipo de piscina de corante. Comecei a rir.
- Que merda é essa?
- Josh agora é o Papai Smurf!
- Louis passou um trote nele – Liam me explicou, mais perto do meu ouvido.
- É claro. – concordei com a cabeça, rindo um pouco.
Uns dez metros mais à frente eles começaram a cantar uma música idiota, o que parecia fazer com que a cabeça de Josh fosse explodir, e balancei a cabeça.
Pude perceber Zayn Malik escorado em um armário uns centímetros à frente, e quando ouviu o barulho, ele franziu o cenho e olhou para trás por um momento. Quando passamos ao seu lado, eu pude ouvi-lo resmungar alguma coisa e voltar a prestar atenção na pessoa à sua frente. Ri um pouco do comentário, e olhei para trás para vê-lo de frente; meus olhos não se contentavam em vê-lo apenas de longe, ele era maravilhoso.
Mas quando vi que a pessoa parada na sua frente era minha colega de quarto, foi a minha cabeça que quase explodiu. !
Revirei os olhos, era óbvio. Quer dizer, não tão óbvio assim, mas talvez parte da minha raiva fosse algo parecido com inveja. era uma princesinha, ela podia até negar, mas tinha quem bem quisesse nas mãos, mesmo tentando manter a aparência de santa. era linda, e a metade do ódio que eu sentia por ela naquele momento era por esse motivo: ela era toda enfeitadinha, feminina, bonequinha, parecia uma Barbie, era encantadora. Não era de se espantar que até Zayn Malik – por mais estranho que aquilo fosse – quisesse tirar uma prova dela. De certo era sua aparência de inocente que o excitava.
O fato é que nunca senti uma atração física tão grande por alguém como sentia por ele, e isso era tão estranho que eu me sentia atordoada. Se minha mãe soubesse disso ela provavelmente ficaria tão espantada quanto eu – fora o fato de que o alívio por saber que sua filha mais nova não era lésbica seria enorme. Mas admitir isso até para mim mesma fora muito difícil. Sentir atração por alguém não era algo normal para mim, não acontecia quase nunca, e o fato de esse alguém ser alguém como Zayn Malik me fazia sentir duplamente mais estúpida. Admitir isso para qualquer outra pessoa me parecia impossível até alguns dias atrás, mas agora já não parecia mais tão impossível. Eu estava entrando em um período estranho, desconhecido por mim mesma. Um período de mudança. E, sinceramente, não sabia o que fazer.
Suspirei ao puxar uma cadeira da nossa mesa no refeitório, sentindo todos os olhares do local em mim e meus amigos.
Talvez estivesse certa. Talvez eu fosse mesmo uma Enfant.

’s POV

Início de sábado, tempo duvidoso e totalmente acinzentado. Um indício de vento levemente frio do começo de outubro soprava as cortinas, e eu ponderei entre ficar na cama por mais um tempo. Mas tinha muito a colocar em dia e ainda não estávamos nem na metade do trimestre, e prometi a mim mesma que tentaria me organizar melhor no sábado, único dia em que eu tinha certeza que não seria importunada por outros afazeres do colégio.
Às vezes parecia que o tempo passava mais rápido de dentro dos muros daquele colégio. Ao mesmo tempo em que os dias se arrastavam por horas infinitas, quando eu parava para pensar mais uma semana havia ficado para trás e isso não podia ser mais gratificante. Sete dias a menos do resto da minha vida.
Ao virar minimamente o relógio digital de para mim, percebi que ainda eram oito e meia da manhã. Apesar disso, ela já não estava mais na cama e seu lençol e cobertor já estavam estendidos no colchão com perfeição. Pude perceber que ela estava no banheiro pelos pequenos ruídos da porta do armário que vinham lá de dentro.
Empurrei o cobertor para o lado e sentei na cama, procurando algum elástico para prender o cabelo bagunçado e tirá-lo do rosto. Lá fora, pouca movimentação era ouvida. Aos sábados a vida social só começava depois das dez lá dentro.
Levantei da cama e fui de pés descalços até o armário, peguei uma camisa xadrez escura e a vesti por cima da blusa bem quando saiu do banheiro.
- Bom dia, .
- Bom dia – disse e entrei na porta de onde ela saíra, trancando a porta.
Fiz minha higiene e depois de lavar o rosto abri a porta do armário. Alguns frascos de remédio caíram em cima da pia, e praguejei. Eram os de , eu suponho. Eram remédios controlados, eu acho. Mas não tinham mais o rótulo, então eu não poderia saber com certeza. Eles sempre ficavam em uma fileira milimétricamente organizada do lado dela do armário; já os meus, eram uns em cima dos outros. Tomei um comprimido qualquer dos meus com a ajuda da água da torneira e saí do banheiro. organizava a sua cômoda e eu fui arrumar a minha cama para fazer a minha parte na organização do quarto.
- Você não tira a maquiagem antes de dormir, né?
Olhei por cima do ombro e franzi o cenho.
- Seus olhos são marcados por causa disso. – ela deu de ombros. Não respondi. – Foi só um comentário.
- Eu esqueço. – disse.
- Eu sei. Eu também esqueço às vezes.
Ficamos em silêncio.
- As pessoas comentam sobre os seus olhos, mas é só uma questão de estética. Não é genético, quer dizer. Não são os seus olhos, é só a sua maquiagem. Dá um ar bem... Profundo.
- Eu nem faço por querer. – dei de ombros, alheia ao fato de que ela não estava me vendo por estar de costas para mim.
Terminei de arrumar a cama e peguei dois cadernos em minha mochila, jogando em cima da cama com um estojo e sentando lá para copiar a matéria que eu havia perdido da aula de química. Peguei uma caneta e enquanto lia algumas anotações que eram as únicas coisas que eu tinha, eu mordia a tampa sem nem perceber. Dois minutos se passaram até eu decidir que não ia entender de jeito nenhum se alguém não explicasse o que era aquilo e o que eu quis dizer com aquelas palavras rabiscadas.
- A gente não faz a mesma aula de química?
- Não. Temos professores diferentes.
Suspirei e passei as mãos no rosto. Estudar sempre me deixava estressada. Ou tentar estudar.
- No que você precisa de ajuda? – perguntou, sentando ao meu lado na cama.
- Classificação das cadeias carbônicas.
- Eu estudei sobre isso. Tenho várias questões prontas em um formulário de estudo, eu fiz para me preparar para a prova. – ela levantou de novo e foi até os livros na cômoda. Revirou e levantou alguns até tirar de lá uma pasta amarela de folhas plastificadas com o nome “química” na frente.
Aquilo era o tipo de coisa que eu nunca conseguiria fazer. Organização nos estudos.
- Obrigada.
passou o resto daquela hora tentando enfiar na minha cabeça um pouco sobre a matéria, e eu tentando fazer esforço para entender. Minha cabeça se perdia em outras coisas fácil demais, e isso era um dos meus problemas. Mas como ela fez o melhor para ajudar, eu fiz o melhor para colaborar. No final, mesmo sem entender a metade, eu agradeci e concordei com tudo que ela disse.
Pelo menos o meu caderno estava um pouco mais em dia, e me senti bem por isso. Agora só faltavam mais uns dez cadernos, mas decidi deixar para depois.
- Como é lá na Alemanha onde você morava?
- Eu morava em Hamburg. – falei, empilhando os cadernos para coloca-los com os outros em um canto do meu armário com a mochila.
- E era legal lá?
- Uhum.
- A quanto tempo de Berlin? Eu passei um feriado em Berlin no ano passado. É uma cidade bonita.
- Três horas de Berlin.
- É grande?
- A segunda maior do país.
Coloquei as coisas no armário e ao fechá-lo virei para a cama de novo e percebi que eu estava fazendo de novo: dando apenas respostas curtas e deixando as pessoas desconfortáveis.
- Hum, eu morava no subúrbio. Com o meu pai. – expliquei, mexendo nas mãos.
- Ah, que ótimo. Meu pai vai sempre para a Alemanha por trabalho, é um país realmente lindo.
- É.
Eu realmente não sabia mais o que falar. Não fazia por querer, eu simplesmente não sabia manter uma conversa.
A porta do nosso quarto se abriu sem mais nem menos nesse momento, e nós duas olhamos para lá meio surpresas. Era costume que as pessoas batessem na porta, mesmo que fosse , que era a única pessoa que nos visitava geralmente.
Porém, hoje não era . Era a garota nova. Rebekah, acho.
- Oi? – franziu o cenho.
- Oi. – ela sorriu, dando um passo para dentro do quarto, ainda escorada no batente da porta. Ela ainda sorria quando me olhou de cima a baixo como quem checava alguma coisa.
Ninguém falou nada. me olhou, e eu dei de ombros.
- Sim? – voltou a perguntar.
- Minha roomate, , pediu pra avisar que quer fazer uma reunião com o clube de teatro no lugar de sempre na primeira hora da tarde.
- Hum... – me olhou de novo, e dessa vez foi ela quem deu de ombros. – Tudo bem.
A garota ainda estava ali.
- Era só isso?
- Era.
- Você passa recados para todo mundo ou só para a ? – perguntei, me sentindo incomodada com sua presença e seu olhar petulante.
- Eu só queria conhecer a famosa freak de quem todos estão falando. – riu. – Sou nova por aqui.
- É claro. – soltei as coisas que ainda tinha em mãos e fui para perto dela. – Aparentemente, todo mundo quer conhecer a Freak. Até mais, – falei por cima do ombro e passei pela garota, caminhando impaciente até o final do corredor.
As pessoas desse colégio me tiravam do sério.

Liam’s POV

- Cheguei. – Anunciei, jogando-me no sofá ao lado de Harry.
Estávamos reunidos eu, Harry, Louis, Josh e o Malik. Para quê?
Discutir o que será daquelas pobres almas que se apresentaram para nós naquele dia.
Zayn havia entrado para a banda definitivamente. Acho que as notas extras que o professor de música prometeu fizeram o cara pensar direito antes de dizer não. Até eu teria dito sim.
Porque, né, são notas extras!
E, na boa, o trabalho vai ser tão legal que será como ser pago para ficar popular com as garotas.
Todos sabem que garotas adoram caras de banda.
É o charme da coisa.
- Até que enfim, Liam! – Josh abriu os braços, exasperado. – Onde estava? Comendo alguém no armário do zelador?
- Não fica com ciúme, Josh. – Pisquei para ele, que riu.
- Podemos começar? – Louis pediu. – Não estou perdendo a soneca da tarde para ouvir vocês discutindo sua relação secreta. O que vamos fazer com os caras que foram lá?
- A gente podia mandar um SMS falando “não deu, foi mal”. – Josh propôs.
Olhei para ele, surpreso com a desconsideração. Ok, o cara que tinha sobrenome de camisinha nem era tudo isso. Mas alguns se salvavam.
- Josh, o que você vai fazer na banda, mesmo? – Perguntei.
- Eu... Ahn... – Ele se enrolou.
- Exato. – Falei e gesticulei indicando que ele calasse a boca.
Josh sabia tocar bateria. E ele era realmente bom. Mas eu tocava bateria também e eu queria estar na banda mais que ele. Não seria justo comigo. Aliás, ele poderia fazer outras coisas.
- Tipo o quê? – Ele perguntou, olhando fixamente para mim.
Arregalei os olhos, assustado. Todos estavam olhando para mim.
- Eu disse isso em voz alta? – Franzi o cenho.
- Disse. – Harry sorriu de canto para mim, caçoando.
- Ah... Bom, então... O Josh podia... – Tentei achar uma solução. Todos esperaram.
- Ser o vocalista. – Josh propôs.
- Zayn é o vocalista. – Louis rebateu.
- Podia tocar guitarra. – Josh.
- Harry faz isso. – Louis.
- Baixo?
- Eu toco.
- Eu podia compor. – Josh piscou, achando sua ideia maravilhosa.
- Você não consegue nem responder uma questão dissertativa, dude. – Harry olhou para ele como se Josh tivesse sérios problemas para lidar.
- Você também não sabe fazer muito disso aí, não! – Josh se defendeu.
- Já sabemos que o Josh não serve para nada. – Louis começou, cruzando as mãos. Josh gritou “ei!”. – Mas ele nos deu um cargo importante a preencher.
Compositor.
Era verdade. Harry mal podia compor um poema. A caligrafia de Louis era triste. E eu sou bom com números. E Zayn... Bom, eu para começo de conversa, acho que o cara nem tem coração.
E um coração é importante para se compor uma música.
- Niall Horan. – Falei rapidamente e todos olharam para mim de novo. – Vocês ouviram Josh no outro dia, ele tem um caderno de composição; então ele compõe.
- É, mas nossa banda não é de losers, Liam. – Harry sorriu, cínico.
Coitado do cara, eu quis dizer.
- Zayn é um loser. – Falei, por reflexo, e ele cravou os olhos em mim. – Foi mal.
Desviei o olhar.
- Muito embora Harry tenha contribuído com essa observação impressionante, não acho que nossa banda deva ser cheia de “não losers”. E não acho que o Niall Horan seja um. Ele só é estranho. E um pouco solitário. Mas o cara tem o que queremos. E não somos mesquinhos a esse ponto, somos? Vamos superar as diferenças e ter o que queremos do cara estranho. – Louis bateu o punho na mão.
- Você sabe que o seu discurso estava emocionante até você declarar que somos interesseiros, não sabe? – Harry arqueou uma sobrancelha, sem demonstrar nenhuma emoção.
- Sei. – Louis não olhou para ele ao dizer isso.
- Então. Niall Horan? – Perguntei, um pouco incerto.
- Sim, meu caro Liam, Niall Horan. – Louis abriu um sorriso.
Não entrarei em detalhes de como aquele sorriso ficou maníaco na cara dele.
- A gente devia fazer algum ritual de iniciação com ele. Para saber se o cara é resistente e tal. – Disse Josh.
- Boa. O que você tem em mente? – Harry perguntou, animado.
- Sei lá, algumas bebidas, uma caça ao tesouro nojenta...
Josh foi interrompido por uma risada seca do Malik.
- Tem algo a dizer, vocalista? – Era engraçado como Harry se recusava a dizer o nome dele.
- Vocês são patéticos. – Foi o que ele disse. Harry bufou.
- Ideia melhor? – Josh desafiou.
- Talvez. – Malik abaixou o olhar e abriu um meio sorriso.
- Desembucha. – Louis esfregou as mãos.
Zayn levantou o olhar e olhou para cada um de nós – um olhar carregado de ódio para mim e para o Harry, claro. E disse:
- Vamos fazer uma aposta.

Niall’s POV

Ok. Prático e direto, Niall. Prático e direto. Eu tinha uma coisa a fazer e apenas uma coisa. E então a banda seria minha. Ou quase. Não importa. Eu estaria dentro de algo importante e com a minha cara ao mesmo tempo.
Era a minha chance.
- Como vai fazer isso, loirinho? – Josh estava ao meu lado, caminhando comigo para o dormitório depois do fim das aulas. Sério, aquele cara dava nos nervos. Como ele era amigo daqueles caras e eu não?
- Não sei. – Falei baixo.
- Eu acho que você deveria ir até...
- Vou achar um jeito mais fácil de fazer. E então vou entrar na banda. – Cortei-o, abrindo a porta do quarto. Ele riu e coçou a nuca, jogando-se em sua cama.
- É bom ver que você está empolgado para isso.
Fitei-o por um segundo, medindo níveis de cinismo, ironia ou sarcasmo. Quando não achei nenhum, falei, convicto:
- Você nunca viu ninguém tão dedicado quanto eu.
E era verdade. Posso ser um zé-ninguém na cadeia alimentar das escolas, mas eu sei o que quero e agora que tenho o queijo e a faca na mão, não vou deixar uma apostazinha me impedir de ser alguma coisa. Agora não era hora de ser bonzinho ou politicamente correto. Agora era um jogo e eu precisava jogar as regras daqueles caras e principalmente daquele Zayn Malik. O cara era um escroto de primeira, por isso, quanto mais baixo o nível das atitudes, melhor.
Eu posso ser assim.
Josh não disse mais nada e entrou no banheiro para tomar banho, segundo ele. Sentei em minha cama e coloquei a cabeça entre os joelhos, tentando me concentrar no que iria fazer. Sem rodeios, o negócio é fazer o que tem que ser feito e sair inteiro dessa. Pronto. Não precisa doer, não precisa machucar ninguém.
Enquanto eu pensava, meu celular vibrou em meu bolso. Peguei-o rapidamente e abri a mensagem que havia recebido. Era de , mandando uma foto do chocolate quente com muffins que ela estava comendo em algum café da cidade.
“Você deveria vir para cá. Está uma delícia! Você tinha razão: comida melhora TUDO!”, ela dizia. Soltei uma risada e respondi “Sou um gênio ;)”. Então ela “Convencido haha”.
E a conversa acabou por aí.
Deitei na cama e fechei os olhos, colocando meu braço por cima deles, para tapar a luz.
tinha razão, eu deveria ir para lá. Tomar um café forte e comer uns cupcakes. Isso melhoraria minha vida, com certeza. Além, claro, da companhia dela.
- Espero que toda essa concentração resulte em algum plano produtivo, Horan. – Josh saiu do banheiro com a toalha na cintura.
- Acho que já falamos sobre você andar pelado por aí, não? – Falei, apontando para sua imagem.
- Não estou pelado, Horan, estou de toalha. Considere isso um avanço. – Apontou para mim, arqueando as sobrancelhas. – Quem sabe da próxima eu não saio vestido? Huh?

’s POV

Talvez telefones públicos sejam mais glamorosos na capital, mas em Carlisle eram a mesma sujeira de sempre. Mas eram acessíveis, eu não podia negar. Havia pelo menos um em cada esquina, pichados ou caindo aos pedaços, com cheiro de mofo ou de bebida velha e chiclete mascado.
Caminhei algumas quadras até encontrar algum em mais ou menos em bom estado. Enfiei umas moedas e disquei o número do papel amassado em minha mão, mordendo os lábios enquanto esperava o número chamar.
Eu não sabia ao certo porque me importava em ligar. Mas eu me importava, então simplesmente liguei.
A conversa com meu pai fora curta e meio constrangedora, como sempre era. Ele não parecia estar muito diferente do que sempre fora, exceto o fato de estar sóbrio, que por si só já era um grande avanço.
Depois de um tempo grande de silêncio, ele disse que precisava “ir” e passou o telefone para a assessora.
- Como você está, ? Como está indo no colégio? Seu pai sempre pergunta por você.
- Estou bem. Como ele está indo?
- Está tendo progresso. Alguns dias são melhores que outros, você sabe. Às vezes ele enlouquece e precisa tomar uns remédios para apagar. Mas vez ou outra fica bem e quer sair daqui, ver você.
Cutuquei a tinta verde que descascava do telefone, sem saber o que falar ao certo. Não era exatamente como se eu sentisse falta dele. Ele nunca fora tão presente, assim como eu também não. Talvez não seja por sua culpa que eu sou como sou, mas sim por minha culpa que ele é como é. Então, estávamos quites. E éramos iguais.
- Ele pergunta pela sua mãe.
Apertei o telefone na mão, sem conseguir pensar na mulher.
- Hum, enfim... Por que está ligando de um telefone público?
- Deixei o meu no colégio. Eu não tenho créditos.
- Estou me responsabilizando em debitar na sua conta um dinheiro para você todo mês. Seu pai pediu para que eu fizesse isso sempre. Você sabe, não é?
- É, eu sei. Só não ligo para ninguém, então não preciso.
- Certo.
Mais silêncio, e ouvi um grupo de adolescentes passarem por mim empolgados com alguma coisa. Olhei para trás e percebi que estava escurecendo rápido.
- ... Você não está se metendo com coisa errada de novo, está?
Revirei os olhos.
- Eu não conseguiria mesmo se quisesse.
- Ótimo. É por isso que seu pai deu um jeito de te mandar para o St Bees. É um lugar de confiança, é rígido e... Seguro.
Balancei a cabeça. Se algum perigo quisesse me achar... Ele me encontraria. Eu sabia muito bem. Tinha certeza disso.
- Não estou com medo.
- Eu sei que não. Mas é melhor ficar em segurança. Você não pode andar por aí dando bobeira.
- Estou em um país diferente, com um sobrenome diferente e vivo em um colégio interno. Rosalie, eu não poderia estar mais segura. – disse. – Se meu pai mandou você dizer tudo isso, diga a ele que estou tranquila.
- Tudo bem. Então, só se cuida. Eu conheço você há anos, e acredito que você nunca esteve melhor do que está agora. Quero que continue assim.
- É, tá. – olhei para os lados. – Vou desligar.
- Tudo bem. Se cuida.
- Tchau. – disse, e botei o telefone no gancho.
Virei as costas enquanto pensava em tudo isso. Em tudo que podia voltar a me assombrar há qualquer momento, e não estava em minhas mãos para eu controlar. Minha única opção era esperar que tudo continuasse como estava.
Caminhei pela rua até encontrar um bar levemente cheio. Era o tipo de lugar que eu gostava de frequentar, com pessoas mais velhas ocupadas demais com suas próprias vidas para me notar. E a melhor parte, era que eu não reconhecia nenhum daqueles rostos de meu querido colégio.
Sentei no balcão e pedi uma bebida. Enquanto esperava, observei o lugar e as pessoas em volta. Meu tipo de lugar preferido era esse em que havia pessoas de todos os tipos. Em um canto do bar, o canto mais afastado de mim, havia uma mulher, o cabelo escuro e curto, meio arrepiado, meio desarrumado. Usava uma blusa justa e de seu ombro desnudo descia o desenho do caule de uma flor de lótus. Eu podia ver um pedaço das pétalas, a tatuagem pintada de um vermelho cor de fogo. E seu olhar brincava com o meu.
Eu aproveitava de minha bebida enquanto meu olhar cruzava com o da mulher algumas vezes. Tomei alguns drinks, meu corpo se aqueceu, e eu continuei bebendo. O clima estava bom lá dentro, e eu me sentia aconchegada.
Mas aquele mesmo grupo de adolescentes animados entrou no bar minutos depois, estragando qualquer clima. Olhei por cima do ombro e constatei nada mais do que arruaceiros. Não me dei ao trabalho de estudar mais detalhadamente e voltei à minha bebida, tentando ao máximo ignorar a conversa alta que vinha da mesa deles.
Um tempo depois, como eu já previa, um deles foi encorajado a se sentar no banco ao lado do meu. Senti seus dedos gelados tocarem em minha cintura que aparecia pela blusa ser curta, e impacientemente olhei para o garoto ao meu lado. Talvez ele tivesse minha idade, talvez um pouco mais, mas o sorrisinho presunçoso em seu rosto me enjoava e me fazia querer empurrá-lo para longe.
- Meus amigos apostaram uma cerveja que você me dá um beijo. – disse, a voz arrastada que só me deu pena.
Peguei a garrafa de cerveja cheia que acabara de pedir e entreguei-a na mão dele.
- Então me faça um favor e entregue isso a eles.
Ele sorriu mais, e revirei os olhos.
- Por que tanta defensiva, docinho? – Disse, já se aproximando da curva do meu pescoço e cheirando meu cabelo. – Sei que no fundo você quer.
Eu o afastei com o braço.
- Sinto muito, mas não. – Disse sincera.
- Por quê? Não gosta de homens como eu? – Mordeu o lábio enquanto descaradamente seus olhos percorriam cada centímetro do meu corpo.
Senti muita vontade de dar-lhe a triste notícia de que ele não era um homem, mas ignorei isso. Voltei a olhar para a mulher do outro lado do bar, sentada no balcão e, que surpresa, ela ainda me olhava.
- Na verdade, não gosto de homens. – Disse, levantando e tomando minha cerveja da sua mão.
Sua expressão disse tudo. Era descrença e surpresa ao mesmo tempo.
Não era exatamente uma verdade, realmente, mas ele não precisava saber.
Então o deixei para trás e dei a volta no balcão até chegar à mulher que me encarava. Ela era atraente, de verdade. Para mim era fácil admitir algo assim. Era quase normal.
Me encostei no balcão e sorri para ela, que sorriu para mim.
- Me parece que precisa de uma ajudinha? – ela apontou para o lugar onde ficou o garoto que deixei para trás.
- Talvez você possa ajudar?
Em um momento, ela se curvou para frente e me beijou.
Fechei os olhos, percebendo que sentira falta da sensação de viver algo insano. Há tempos que eu não sentia o gosto de uma boa dose de loucura.
Então, matando a saudade que senti, eu sorri.



Capítulo 8

’s POV

- Esse aqui é bem estiloso. – Liam ergueu um longboard preto com detalhes em verde da prateleira que estava atrás de mim.
- Prefiro skateboard. – disse, voltando a atenção para a prateleira à minha frente.
Na verdade, eu estava passeando na frente dos skates enquanto cuidava o movimento na rua lá fora.
Com a chegada do outono, e como estávamos na Inglaterra, sete horas já era noite lá fora. E por algum motivo, naquele sábado em especial, o comportamento social das garotas da minha idade me interessou. Enquanto observava cada uma que passava pela loja, eu listava algo de diferente entre mim e elas.
Primeiro: Raramente alguma delas parava para prestar atenção em uma loja de skate.
Segundo: sessenta por cento delas estava com algum garoto ou falando de um, e os outros quarenta por cento estavam com as amigas, conversando sobre aquele tipo de coisa que eu não tenho ideia do que seja.
Terceiro: Todas, sem exceção, eram mais bonitas que eu.
Notei também que o simples fato de uma garota razoavelmente bonitinha ter a iniciativa de se arrumar já a deixava mais bonita. E, de todas as que passavam por mim, a maioria usava roupas parecidas, de estilos parecidos, e falavam coisas parecidas. Seguindo o padrão, a moda ou sei lá.
Sempre gostei de ser diferente, mas ultimamente estava ficando bem chato.
- ... Volta pra terra. – Liam chamou enquanto passava pela prateleira ao meu lado.
- Hum, o quê? O que é? – olhei-o, voltando a prestar atenção nele.
- Eu te perguntei por quê. E depois comentei que estava faminto.
- Por que de eu preferir um skate normal? – fui até o seu lado na prateleira dos tênis. Tênis e skate eram duas coisas que literalmente andavam juntas, mas no meu caso, o quanto mais velho e surrado fosse o tênis, melhor se enquadrava. – Bom, porque o skate me dá mais equilíbrio e é melhor para manobras, enquanto o long é mais como um meio de transporte. Tipo uma bicicleta. Entendeu?
Ele assentiu.
- E quanto a eu estar com fome, ?
Ri. Olhei no relógio em meu celular e me espantei com a hora que já era. Nem parecia que passamos a tarde toda dando voltas em Carlisle procurando por coisas interessantes a fazer.
- Caramba, Liam! O que a gente fez a tarde toda?! Já são sete e meia!
- Eu não como nada há três horas e meia, então é melhor a gente sair logo daqui. Quero um hambúrguer. – Liam pousou a mão no meu ombro e foi me direcionando para a porta da loja.
Eu também estava com fome, para dizer a verdade. Por isso, nós decidimos encontrar alguma rede de fast food que pudesse matar a vontade de comer alguma porcaria gordurosa.
- Não sei como você mantém esse físico de atleta comendo como um porco. Você é a pessoa menos saudável que eu conheço. Devia ser gordo.
- , quem nasce pra ser gostoso...
- Não termina essa frase. – ri.
Sendo gostoso ou não, Liam perdeu o fôlego muito mais rápido do que eu subindo uma ladeira que dava para a rua principal do centro da cidade.
- Você acredita que estamos no terceiro ano? Parece que foi ontem que entrei naquele colégio. Ainda não decidi se vou sentir falta de lá ou não.
- Ah, eu vou. Talvez eu não sinta falta de algumas coisas, como as semanas de provas, as aulas, os professores...
- Afinal do que você sentiria falta em uma escola? – revirei os olhos e ri.
- Não é como se você não concordasse comigo, .
Sorri.
- me lembra da treinadora. Vou sentir falta do futebol.
- Você não pensa em seguir com isso?
- Seria o mesmo que te perguntar se você pensa em seguir com a bateria. – olhei-o e subi na calçada quando um carro vinha descendo.
- Talvez eu pense... – ele sorriu para mim, categórico. Fiz uma careta. – Tá legal, eu sei que ninguém tá realmente levando a sério esse negócio de banda. Nem eu estou. Mas para falar a verdade, é algo que me empolga. Eu ainda não tive coragem de parar para pensar no que vou fazer depois que sair do St. Bees. Meus últimos seis anos foram lá dentro, com aquelas pessoas, aqueles quartos, aqueles muros. É meio complicado, entende?
Assenti. Eu entendia bem. Estava lá há apenas três anos, e já me sentia assim. Sem ter ideia de por onde começar a pensar em uma vida fora de lá.
- Lembro até hoje de quando entrei no colégio.
- Eu também, você e o Harry eram um par bem curioso. Não tinham, e ainda não têm cara de gente que frequenta esse tipo de escola.
- Você definitivamente tem! – ri. – No começo, eu te achava o metido.
- Ainda acha. – lembrou-me, e eu concordei com a cabeça.
- Bem lembrado.
- O Harry sabe como fazer amigos. E o Louis falava sobre vocês para nós todos os dias. Ele pensava que vocês namoravam.
Deixei um som escapar, e ele me olhou, curioso.
- Todo mundo pensava, até conhecerem bem o Harry. Eu digo, até ele se juntar com a gente.
- Doce ilusão. – Ironizei.
Senti o olhar de Liam em meu rosto, mas continuei olhando para a calçada enquanto andava, me perguntando se falei demais.
- Enfim, às vezes penso se seríamos os mesmos se faltasse um de vocês. Quando entrei no colégio, o Louis e o Josh já conheciam tudo. Eles me aceitaram de braços abertos. Isso é gay, mas é verdade. – Ele riu lembrando-se de algo e olhou para cima. – na minha segunda semana de aula Josh já havia me ensinado até a como subir no sótão do ginásio de onde nós podíamos ver as meninas se trocando no vestiário sem sermos pegos. Bons tempos... Há três anos que a gente não cabe mais lá dentro.
Gargalhei.
- O Josh pode ser o que for, mas é necessário. – Concordei. – Foi ele quem me ensinou os truques de pegar mais sobremesa do que os outros no refeitório.
Ele balançou a cabeça, e segui seu olhar quando parou de caminhar e olhou para algo do outro lado da rua.
- Aquelas não são a e a ?
Estreitei os olhos para enxergar por entre o reflexo de luz no vidro, e reconheci as duas sentadas na janela.
- É, por quê?
- Vamos lá dar um oi.
Quando eu ia responder que nem em sonho, Liam já estava do outro lado da rua.
Corri para alcançar seus passos largos.
- Payne, você tá querendo alguma coisa, não tá?
Ele abriu um sorrisinho que eu raramente via, mas não julguei ser confiável. Olhei-o, incrédula.
- Liam?!
- , não custa você tentar ser mais sociável com as garotas. Elas são legais. – Disse e, com isso, me puxou para dentro.
Eu sabia bem dos motivos pelos quais ele gostava de ser sociável com garotas em geral.

Harry’s POV

Cheguei finalmente em meu quarto depois da janta e a primeira coisa que fiz foi me atirar em minha cama deixando a porta aberta. O corredor estava um tanto movimentado pelo fluxo de alunos indo para seus quartos ou indo jantar.
Respirei fundo e soltei a respiração, deitando a cabeça em cima dos meus braços e olhando para o teto. Minha cama ainda estava bagunçada da manhã, e parecia que faziam dias que eu havia estado aqui da última vez, mas foi há menos de vinte e quatro horas; produto de um dia cansativo. E para um sábado, o dia fora bem cansativo mesmo. Todo o negócio da banda nem era bem uma ideia concreta ainda, mas já tomava bastante tempo.
Ao pensar na banda e na reunião que tivemos hoje à tarde, não pude deixar de rir sozinho. Malik podia ser imprestável, mas a ideia da aposta até que foi divertida. E eu estava curioso com como Niall Horan iria proceder.
Agora que parei para pensar em o que me deixou tão exausto, eu não tinha uma resposta exata. Não consegui pensar em nada que me cansasse muito fisicamente, fora o fato de que eu provavelmente havia andado por todos os cantos daquele colégio durante o dia.
O fato de que devia estar naquela semana complicada do mês para as pessoas da espécie dela era exaustivo, porque estava com um humor dos infernos. Josh andava por aí resmungando como um velho e eu simplesmente odiava gente mal humorada perto de mim, além do fato de toda aquela história da banda e do Malik estar metido nisso. Eu sentia que era o único naquele trabalho que tinha algum escrúpulo na cabeça – e, o que era estranho, era que o merdinha parecia ser o único que concordava comigo nisso. Quer dizer, a banda era uma ótima ideia, me deixava todo empolgado, mas o fato de ter ele no meio estragava boa parte da empolgação. Zayn Malik era nada mais do que um ego enorme andando por aí com um cigarro na boca.
Uou, meu dia fora cansativo mesmo.
Olhei para a porta quando Louis entrou e a fechou.
- Sabe o quê mais, Harry?
- Hum.
- Eu não tenho um baixo. – ele riu e tirou os tênis se jogando na cama ao lado da minha, também olhando para o teto. Suspirou. – Isso não deve ser um problema, deve?
- Você ouviu o Josh. Todo mundo pode tocar um baixo. Aquilo só tem quatro cordas e, pelo que eu sei, você só usa uma na maior parte do tempo.
Ele fez um barulho com a boca.
- Tanto faz. Já tenho meu lugar nessa banda e por enquanto é o que importa. Acho que essa confusão com quem vai pegar o último lugar sobrando vai me dar tempo suficiente para aprender o básico.
Concordei com a cabeça.
- Tô empolgado, cara.
- Eu também. – sorri. – Acho que nenhum de nós consegue parar de falar nisso. Vai ser doido, cara!
Louis se mexeu inquieto em sua cama e riu. Um minuto depois, sentou no colchão e pegou os tênis no chão enfiando-os nos pés.
- Eu vou dar uma passada lá no Liam. Você vem?
Fiz que sim e levantei. Eu podia reclamar de estar cansado, mas não conseguia ficar sentado fazendo nada enquanto eu podia estar por aí com meus amigos.
Fechei a porta do quarto e segui Louis até o corredor de Josh e Liam. Ao chegar lá entramos porta adentro sem avisar, mas o quarto estava vazio.
Fiz uma careta ao sentir o cheiro de cigarro. Não era extremamente forte, mas era facilmente perceptível. Além disso, o quarto todo estava razoavelmente em ordem. Liam podia ser o que fosse, mas gostava das coisas do jeito dele.
- Ah, que droga. Será que o Josh tá no quarto?
Olhei para o lado de Zayn do quarto.
- Onde você acha que ele guarda as armas?
Louis precisou olhar para onde eu olhava para entender do que eu falava. Ele riu.
- Junto com o diploma de babaca.
Empurrei Louis com o cotovelo e ri.
- Idiota. Eu juro que se tivesse certeza de que ele não vai entrar por essa porta há qualquer momento, viraria esse quarto do avesso para encontrar alguma coisa que o mandasse direto pra rua.
- Aí a gente ficava sem vocalista. Tá certo que o cara é um merda, dude, mas agora a gente tem o dever de pelo menos suportar ele.
- Cantor a gente encontra aos montes nessa escola. Tem cara por aí que até aprenderia a cantar na marra pra participar disso com a gente, Louis. Ou a gente podia botar uma gatinha gostosa no lugar. Nem precisava cantar bem. – ri. – Se eu tiver uma chance de tirar o Malik desse colégio, não penso duas vezes.
- É, bom, foi mal, mas eu sou mais afim de ir pelo modo mais fácil. Eu não sei como diabos, mas o Malik sabe cantar.
Bufei. Aí olhei em volta de novo e percebi que estávamos parados no meio de um quarto que não era nosso fazendo nada.
- Quer zoar o Liam? – olhei-o e sorri.
- Bora – ele riu e foi para perto da cama.
Louis puxou os forros de cama e jogou-os em um canto da parede enquanto eu empulhava as coisas de cima da cômoda dele no mesmo canto, no chão, formando uma pilha crescente de coisas. Abri seu armário e peguei os livros, colocando lá também e eu e Louis congelamos no lugar quando a porta se abriu.
- Aí Liam, você-
Josh parou na porta segurando a maçaneta e olhando para nós dois por um segundo, piscando parado no lugar. Depois de um momento, deu de ombros e veio até nós.
- As gavetas. – eu disse, e ele abriu as gavetas da cômoda de Liam empilhando o conteúdo delas no chão junto com o resto.
- O que veio fazer aqui? - Perguntei para Josh enquanto ele terminava de escorar o colchão de Liam na parede.
- Vim ver se ele e a já chegaram. Tem uma festa irada rolando em uma casa perto do antigo trilho dos trens de Carlisle. Vocês não viram? Sally mandou fotos para todo mundo convidando. O convite, no caso, são os peitos dela pulando da blusa.
Louis pegou o celular do bolso.
- Liam e estão juntos?
- Saíram hoje de tarde. Talvez a gente devesse ter ido também.
Louis e eu o olhamos.
Dei de ombros.
- Bom, então vamos também. Estou ansioso por uma boa festa. Quero beber até a sua cara ficar menos feia – disse, ao passar por Josh e dar uns tapinhas em seu rosto.
Saí do quarto de Liam e fiz o caminho até nosso quarto para botar uma roupa. Quando vasculhei em minha caixa de mensagens encontrei as fotos de Sally.
A festa prometia. E aqueles peitinhos, também.

’s POV

- Definitivamente, essa foi a melhor ideia que você teve essa noite, . – Falei, mexendo o colarinho de espuma da xícara de café à minha frente. Em outubro, o clima começava a esfriar. O inverno se aproximava e o outono apenas nos dava a sensação de ficar mais frio gradativamente. A natureza costuma pensar em tudo, é o que eu acho.
- Minhas ideias sempre são ótimas. – Ela deu de ombros, pegando um cookie de açúcar do pratinho. – Mentira. – Mordeu um pedaço do cookie. – Esses cookies são ótimos. – Constatou.
- Achei que você não comia açúcar. – Franzi o cenho e ela revirou os olhos.
- Achei que você não julgava os outros. – Rebateu, jogando uma gota de chocolate em mim.
- Hey, ! – Desviei do doce e fiz cara feia para ela, que começou a rir.
- Eu estou comendo normalmente agora. Cansei de fazer dietas. – Ela suspirou.
Segurei-me para não revirar os olhos. não precisava de dieta, ela precisava de uma nova irmã que não a ligasse toda vez que subisse na balança. As duas pesavam quase a mesma coisa, mas Mandy era mais alta e tinha o corpo mais delineado. era mais miúda e delicada.
Era uma eterna competição. Principalmente quando a mãe das duas resolveu lançar uma linha de roupas para boutiques e escolheu Mandy como modelo. Nessa época a garota ainda era normal, cabelos claros e pele ainda inteira, sem furos ou tatuagens. Não que isso faça alguém ser uma pessoa ruim, mas parece que aquelas foram apenas consequências da vagabunda que ela estava se tornando.
- Liam! – gritou de repente, fazendo-me dar um pulo na cadeira, assustada. Ela acenou e sorriu para ele. O sorriso dela murchou um pouco quando viu que o acompanhava, mas tentou esconder isso. – Oi! – Ela miou quando eles chegaram mais perto da mesa.
- Hey, . Hey . – Ele nos deu beijinhos na bochecha. apenas acenou e abriu um sorriso desconcertado. – O que estão fazendo de bom?
- Comendo. – levantou um cookie para ele. – Vocês estão indo a algum lugar? Tomem um café com a gente.
Franzi o cenho para . Ela estava muito doce hoje.
Mas eles não perceberam isso e apenas puxaram cadeiras para sentar-se conosco. Liam logo pediu um expresso e pediu uma água, por causa dos treinos que estava praticando, era melhor se manter hidratada, ela disse.
- Então, o que estão fazendo na cidade hoje? – Liam perguntou quando seu café chegou.
- Resolvemos sair para ir à farmácia e comer alguma coisa. – Resumi nossa empolgante noite. Liam assentiu com a cabeça, enquanto nem parecia que estava nesse mundo, mexendo em seu celular.
- Eu vou matar aquela vagabunda! – grunhiu de repente.
- O que foi? – Perguntei.
- A Sally está espalhando por aí que eu estou transando com o Harry!
- Que? Eca. – Liam falou, com cara de nojo.
- Ei! – protestou em sua defesa.
- Não você... É você e o Harry! Vocês são quase irmãos.
- A gente tem que falar disso, Liam? De novo? – comprimiu os lábios numa linha rígida e revirou os olhos.
- E o que vocês estavam fazendo por aqui? – resolveu mudar o assunto.
- Ah... Estávamos procurando algo legal para fazer...
- Mas não achamos. Tipo. Nada. – suspirou.
- Foi-se a época em que esse lugar era agitado. Quando foi isso? – Perguntei, franzindo o cenho.
- Ano passado. Aí a gente entrou pro último ano e a diversão acabou. – apoiou o queixo na mão e suspirou.
- Ah, verdade.
- Quando nossos professores passaram de Tias legais do jardim de infância a velhos cuspidores mal-humorados. – olhava para a rua sem esboçar expressão alguma. – , quando voltar pra St. Bees, avisa?
- O quê? Já quer ir embora? – Liam abriu os braços, parecendo ofendido. – Eu sou tão ruim assim?
- Claro que não, Liam. – garantiu-lhe e se virou para . – Aviso sim, vamos só passar na casa dos Bennets porque o pai da Zoe disse que ele tinha algumas luminárias que poderiam ser usadas no baile de outono, né, ?
Eu nem me lembrava disso.
- Claro. – Sorri, tentando não transparecer que eu não podia estar fazendo isso de maneira pior.
Dentro de mim, eu estava implorando para que quisesse tirar a decoração de minhas mãos.
- E isso vai demorar? – perguntou.
- Hm...
- Ah, qual é! Vocês não vão dormir cedo como boas filhinhas de papai, vão?! – Liam estava indignado. – Estamos na Inglaterra, esse lugar não dorme!
- Não estamos em Londres, Liam. – revirou os olhos.
- Mas Londres está em nós! – Ele abriu um sorriso. Nota pessoal: Liam deveria ser proibido de abrir sorrisos daquele jeito. Quase suspirei. – Nossa, isso foi profundo. Enfim, gente! Tem que ter alguma festa rolando em algum lugar!
- Nós saberíamos, não? – olhou para ele, desafiando, mas igualmente interessada.
- Vocês não estão procurando nada! Como podem saber? Se a gente achar alguma festa, vocês topam de ir?
- Quem sabe. E você sabe de alguma coisa? – Perguntei, já me sentindo cansada.
Eu não era assim. e eu éramos as garotas mais incríveis daquela escola. E não digo por me gabar, a gente sabia que era e todos faziam questão de mostrar, de estar conosco, de estar na nossa lista de contatos. A festa não começava até estarmos lá. Esse foi um dos motivos pelos quais nos elegeram membros do comitê de organização dos bailes da escola. Éramos lendas.
E então...
- Não. – Ele estalou a língua. – Mas eu sei quem deve saber!
E, dizendo isso, ele tirou o celular do bolso, com o maior sorriso vitorioso do mundo.

Liam’s POV

A casa de não-sei-quem estava lotada. Harry havia dado o endereço certo, apesar de parecer muito bêbado ao telefone. Pela porta da frente, saíam pessoas e mais pessoas e ainda assim não parecia suficiente para mudar a impressão de que aquele lugar estava duro de gente. e estavam do meu lado direito enquanto , parecendo desinteressada, estava do lado esquerdo. Cutuquei o braço dela e abri um sorrisinho, encorajando-a a se animar.
- Ei, cara, de quem é a festa? – Perguntei a um baixinho tomando algo escuro num copo de plástico.
- Não sei, cara, to tão perdido quanto você. – E começou a rir.
Assenti e me afastei do cara bêbado.
- Vamos procurar o Harry. – Sugeri às meninas. e assentiram enquanto revirou os olhos.
- Vou procurar algo para beber.
E se enfiou no meio da multidão de adolescentes bêbados e excitados. Andamos um pouco mais e vimos a cabeça cacheada pulando freneticamente no meio de uma roda de garotas.
Eis o estado de meu amigo, Harry Styles: bêbado, claro, em cima de uma mesa de centro. Sem camisa, a calça caindo e descalço. O cabelo parecia um ninho, de verdade, nunca achei que aquilo aconteceria com o cabelo dele. Estava suado e com dois copos de bebida na mão. Eu achei a imagem repulsiva, mas as garotas que o cercavam pareciam estar adorando o que viam.
- Ei, Harry! – Gritei, sem chegar muito perto, com nojo.
Ele parou de dançar e olhou para nós, com um sorriso tapado no rosto. Desceu da mesa de centro e veio cambaleando até nós, gritando alguma coisa no processo. As garotas riram.
- Cara, você parece um monte de merda daquelas raves que rolam na Holanda. – Torci o nariz.
- Liam, meu caro, aproveite a vida. – Harry me deu um de seus copos, jogou um beijo para as meninas e voltou para a rodinha. – Estamos no último ano!
- Quer saber? Ele tem razão! – gritou e abriu um sorriso empolgado.
- ... – começou, mas apenas levantou as mãos, como se indicasse para que ela não dissesse nada e se virou, misturando-se na multidão.
- Ela está bem? – Perguntei quando notei o olhar melancólico de na direção de onde a amiga se foi.
- Não. – Ela desviou o olhar, fitou rapidamente o chão e depois sorriu para mim. – Mas vai ficar.
- Vamos andar um pouco. Ficar de olho na e na . – Sugeri, imaginando que assim ela se sentiria melhor. Ela olhou em volta e sorriu, assentindo. Enroscou seu braço no meu e nos guiou por dentro da massa de indivíduos.
- Não sabia que você era o papai das festas. – Ela gritava por cima do ombro, vez ou outra se inclinando para trás para poder falar em meu ouvido.
- Não sou. – Garanti, soltando uma risada que só eu pude ouvir. – Mas estou com três das garotas mais importantes que tenho, preciso estar atento. – Falei, tentando controlar minha voz entre algo que parecia uma cantada e algo que parecia uma declaração de puro afeto. olhou para mim por cima do ombro e sorriu, desenhando “awn” com os lábios rosados. Ela desenroscou seu braço do meu e me segurou pela mão quando chegamos à cozinha da casa. Ali, o som estava um pouco, bem pouco, mais baixo. – Faz tempo desde a última vez em que te vi numa festa clandestina, Srta. . – Observei.
- É verdade, Sr. Payne.
- E por que isso? – Alcancei duas cervejas no balcão onde paramos e dei uma a ela, largando o copo contendo líquido duvidoso, que Harry me deu mais cedo, num canto. Brindamos e ela tomou um gole. Uma das coisas que te surpreende sobre é o fato de ela gostar de cerveja. Não combina nem um pouco com sua fisionomia delicada.
- Hm... – Ela mordeu a pontinha do lábio inferior e encarou o nada, franzindo o cenho por alguns segundos, pensando na resposta. – Foi um acordo. Mudança de hábito. Eu precisava focar no que eu queria para a minha vida e... Isso foi o melhor. – Deu de ombros e tomou outro gole.
- Você mudou. – Deixei escapar e ela fingiu que não ouviu.
- Como está a aula de música? – Ela mudou de assunto. – Ouvi dizer que vocês têm que montar uma banda. – Entornou mais alguns goles da bebida.
- Ah... Estamos bem. Já achamos um vocalista, um compositor...
- E você, vai fazer o quê? Até onde eu me lembro, você não é peixe grande no mundo da música. – Provocou, batendo seu ombro no meu. Eu ri e a empurrei de volta.
- Eu sou... – Abri os braços, exibindo-me. – O baterista.
Ela abriu um sorriso e depois revirou os olhos, como se dissesse: é claro!
- Não sabia que você tocava. – Disse, olhando para mim com certa admiração.
- Eu aprendi durante o verão. – Dei de ombros.
Caímos em um silêncio desconfortável para ambos. Eu sabia que não deveria ter dito aquilo daquela forma, mas apenas escapou de mim. E não era menos verdade por eu não poder dizer, havia mudado muito no período de um ano para cá. E eu não sabia dizer exatamente o que era.
- Então... – Dissemos em uníssono e rimos após trocarmos um olhar travesso.
- Você primeiro, pode falar. – Ela mordeu o lábio e olhou para o chão.
- Como estão seus pais? – Perguntei a primeira coisa que me veio à cabeça. Ela tentou disfarçar a surpresa e pigarreou.
- Estão bem, digo, meu pai está. Minha mãe anda me atualizando por e-mail, sabe como ela é. – Rimos.
A mãe de era meio diferente. Nunca entendi muito bem como funcionava o relacionamento dos pais dela, mas sempre ficava entre “casados que não se encontram muito” e “casados que dividem uma casa e filhos”. Mas eu sabia que era muito ressentida com isso e julgava o caso como abandono.
Pelo menos foi isso que Mandy colocou na cabeça dela.
- E sua mãe? Como está sendo com a ? – Ela perguntou de volta. – Ela não é muito fácil.
Bufei.
- Não mesmo, mas estou me acostumando. Tenho que me acostumar, de qualquer jeito.
- Entendo... Eu queria fugir de novo, lembra disso? – Ela olhou para mim, seus olhos brilhando como se a lembrança fosse recente. Abri um sorriso e acenei com a cabeça.
- Não foi bem uma fuga, né, ? – Ri. – Nós pedimos ao motorista do seu pai para nos levar à praia. – Franzi o cenho.
- É. – Sorriu. – Mas passamos o dia inteiro lá... Foi ótimo.
- Você pisou numa água-viva. – Discordei.
- Tirando essa parte!
- E a parte que meu pé quase grudou nas pedras por causa do sol e do sal da água. – Balancei a cabeça.
- Não sei por que está detonando aquele dia. Você não parava de sorrir. – Ela se virou de frente para mim, cruzando as pernas em cima do balcão.
- Eu tinha um bom motivo. – Falei, sem olhar para ela, sentindo algo dentro de mim se aquecer. Quando finalmente olhei para ela, encontrei seu olhar me fitando de volta.
- Aos velhos tempos, Payne. – Ela levantou a garrafa de cerveja. Bati a minha na dela e tomamos outro gole. Não consegui desviar meus olhos dela enquanto ela olhava a multidão à nossa volta, poucas pessoas me fazem sentir como a amizade dela me faz e eu gostava tanto disso que me preocupava às vezes; por ela eu perdia essa marra de player e queria apenas ser um ombro amigo, alguém que ela sabia que estaria lá sempre que precisasse.
- ? – Saltei do balcão e fiquei de frente para ela, que se virou para mim, dando-me toda sua atenção. Abri a boca para falar algo, mas nada saiu e ela esperou. Coloquei minhas mãos em suas pernas, movido por algum instinto, desejo. – ... – Repeti, baixo, ela mal podia ouvir. umedeceu os lábios como se previsse o que estava prestes a acontecer.
Quando ela fechou os olhos, tomei a liberdade de tê-la para mim.

Louis’ POV

A batida da música tocava tão alto que ressoava até em meus órgãos dentro de mim. Parecia que faziam horas que a mesma música tocava sem parar, mas todas eram iguais.
Há alguns momentos, como se fosse possível que a festa ficasse ainda mais fora de controle, o repertório de músicas mudou, as luzes se apagaram e aquilo virou literalmente uma rave. Nesse momento, com o movimento frenético de todo mundo pulando em volta de mim na casa inteira, como se o mundo todo tremesse, comecei a me sentir enjoado.
Havia mais pessoas do que eu julgaria possível caber dentro daquela casa se ainda estivesse em condições de julgar qualquer coisa, mas a quantidade de álcool que bebi já afetava até meu cérebro, e mesmo assim eu não bebera nem a metade do que Josh bebera. Harry havia tomado tantas, que há horas eu o perdi de vista e só o que achei dele em algum lugar foi a camisa e os tênis.
Depois de ter ficado tanto tempo perto da caixa de som em algum cômodo daquela casa, eu sentia que para o bem dos meus tímpanos eu precisava sair de lá de dentro. Lá dentro era abafado e cheirava a suor e atrito humano, e eu não parecia ter obtido muito sucesso com o grupo de garotas dançando ali perto naquela noite.
Com muita dificuldade, depois de dez minutos e levando empurrões e cotoveladas no rosto, consegui sair do cômodo onde estava. Soltei o copo semi cheio de cerveja em uma mesinha e me apertei entre todo mundo até conseguir enxergar a porta.
Eu tinha quase certeza de que havia visto Liam e em algum lugar, há horas atrás. Mas agora, no escuro e com a pouca luminosidade dos globos de lasers piscantes, era quase impossível reconhecer qualquer ser humano à minha volta.
Quando eu estava chegando perto da porta, senti uma grande massa de gente me empurrar e se apertar mais em um lado da casa – o lado onde eu estava. Fiquei na ponta dos pés para ver o que estava acontecendo do outro lado, e um pequeno espaço foi aberto no meio da galera, aparentemente alguém havia vomitado no chão naquele lugar.
Poucos segundos depois, porém, outras pessoas voltaram a pisar lá sem nem perceberem algo de errado.
Apertei os olhos enquanto me esquivava tentando chegar até a porta, e por um piscar de olhos eu jurei que vi uns cabelos ruivos enrolados que eram conhecidos pulando no meio de todo mundo. Cambaleei com um empurrão e esbarrei na garota, segurando seu braço para não cair. Ela estava de costas para mim e pulava freneticamente no ritmo da batida junto com um grupo de outras pessoas desconhecidas.
- ? – berrei em seu ouvido, tentando ser escutado, mas quando a garota virou para mim com uma cara feia percebi que não era ela.
Caramba. Eu precisava sair dali.
Estava desesperado para encontrar alguém conhecido, e também um pouco bêbado.
Quando finalmente consegui chegar à porta da casa, mais uma massa de gente se espremeu no espaço da porta comigo e todos nós resvalamos para fora como se estivéssemos sendo vomitados.
Depois de respirar ar puro, ao olhar em volta pela primeira vez me espantei ao perceber que no jardim havia mais um monte de gente bêbada dançando. Mas lá pelo menos era mais tranquilo.
Caminhei até perto da rua prestando atenção em um grupo de pessoas em volta de um esguicho de barril de chopp, quando um dos caras virou de cabeça para baixo apoiado no barril e seus amigos esguicharam a bebida em sua boca.
Fiz uma careta, e me assustei ao olhar para frente e perceber que quase esbarrei em uma garota.
Segurei-a pelos ombros antes que ela subisse em cima de mim sem perceber, e ela estacou no lugar. Quando levantou o rosto, eu senti um alívio tomar conta de mim.
- ! – gritei para ela, que tinha uma expressão de tudo, menos felicidade.
- Louis, me tira daqui! – Ela gritou, e ao tirar a mão do rosto eu percebi um cortezinho minúsculo na sua bochecha. Assenti e a puxei pelos ombros até o outro lado da rua, quase sendo cegado por um carro de faróis altos que buzinou para a gente.
Sentamos no cordão da calçada do outro lado. Foi um alívio sair um pouco de perto de tudo aquilo, meu estômago pode voltar ao seu lugar de origem.
- O que aconteceu com você?! – Falei, dessa vez um pouco menos alto. Ela pressionou o dedo contra o corte e depois tirou, não estava sangrando.
- Um cara derrubou uma garrafa de vodka na cozinha. Não sei como saí viva de lá. – Ela suspirou, aliviada, e depois de um segundo pendeu a cabeça para baixo e começou a rir convulsivamente. Franzi o cenho, e só nesse momento pude prestar atenção em .
- Você está bêbada. – concluí. Foram pouquíssimas as vezes em que eu vira perder o controle com a bebida. Ela nunca tomava demais, nunca se alterava. Pelo menos não com a ajuda do álcool.
Ela tocou o indicador debilmente em minha boca para me calar e levantou a cabeça.
- Todo mundo está bêbado. Todo mundo naquele lugar está pi-i-ra-do. – Ela fez uma careta estranha e riu.
Também fiz uma careta. Aquilo era incomum.
- Nós devemos voltar para o colégio. Perdi o meu relógio, mas eu sei que já passamos muito da hora do toque de recolher.
riu de novo, mas mais fraco.
- Com certeza. – Disse, e depois de encarar a casa do outro lado da rua por um grande momento, suspirou e deitou a cabeça no meu ombro.
- Você beijou alguém? – ela perguntou.
- Ah, hoje não. E você?
Ela fez que não, balançando meu ombro.
- Beijar alguém lá dentro é como beijar o Harry. A saliva dele tá na boca de todo mundo da casa à uma hora dessas.
Não pude evitar rir, e concordei. Provavelmente era verdade.
enroscou o braço no meu e segurou o meu braço com a mão quente.
- Isso não faz sentido, não é? Não faz muito sentido... – disse tão baixo que quase não escutei.
- O que?
- Nada. Harry.
Baixei o meu olhar para ela em meu ombro e voltei a encarar a casa depois de um tempo.
- É. Harry não faz mesmo sentido. – concordei, depois de um tempo raciocinando. Eu estava um pouco lento.
Ao pensar nisso, bocejei e passei a mão livre no rosto. Tateei em meu bolso da calça ao lembrar que trouxe o celular, e vi no visor que eram quatro e meia da manhã. Duas horas e meia mais tarde do que devíamos chegar na escola.
- Nossa. , temos que ir. – Falei, voltando a guardar o celular no bolso. – E foda-se o Josh e o Harry. Nem se eu os amasse muito eu voltaria àquele inferno por eles. Já estamos fodidos, mesmo.
Esperei por um segundo, mas nenhuma resposta veio.
- ?- Chamei, ao sentir que ela permanecia imóvel.
Olhei para o seu rosto encostado em meu ombro e a vi de olhos fechados. O único movimento do seu corpo era sua respiração leve.
- Ah, ótimo. Você dormiu. – Praguejei. – ? Eu não consigo te carregar. Você é pesada.
Sem resposta.
- ? – Choraminguei.

’s POV

- Isso aí. Põe tudo pra fora. – Louis passou as mãos em minhas costas, permanecendo sempre uns bons passos longe de mim para que o vômito não pegasse em seus calçados.
Depois de finalmente sentir que não havia mais um único pingo de álcool dentro de mim, consegui me levantar, ainda apoiada no muro de pedra do colégio.
- Vou admitir, vomitar na frente desse lugar horrível até que foi bom. – disse baixo, ainda enjoada com o gosto horrível em minha boca. Passei a mão no cabelo e Louis me entregou uma garrafa com água mineral, ainda com uma careta.
Derramei a água na boca, bochechando e cuspindo no chão para ver se melhorava. Ajudou um pouco, e eu já me sentia mais sã.
Eu não conseguia entender como chegamos ali. Tanto porque não lembrava muito depois que me convenci a engolir toda aquela garrafa de vodka, quanto porque eu tinha certeza de que encontrara Louis tão bêbado quanto eu, e ele nem em sonho conseguiria me carregar.
- Melhor?
Assenti e tomei uns goles de água. Minha cabeça começava a pesar, e os olhos ardiam como se tivessem areia.
- Já está amanhecendo? Há quanto tempo nós estamos perambulando? Minhas pernas doem.
- A culpa não é minha se nenhum de nós tinha dinheiro para táxi. As poucas moedas que tínhamos nós juntamos e conseguimos pagar a metade da água. O vendedor teve pena de você, por isso nos vendeu por tão pouco. Agradeça que não nos atropelaram pela rua.
- Você ainda tá falando mais alto do que o normal. – disse, fazendo uma careta para ele e me aproximando dos portões do colégio, com Louis em meu encalço. Ele deu uma risadinha.
Quando chegamos lá, os portões foram abertos por um dos vigias, que nos olhou com tal cara de reprovação que tive que desviar o olhar.
- Eu quero cair na minha cama já dormindo, e acordar só mês que vem. – Louis comentou, enquanto nos arrastávamos pelo caminho até os dormitórios. Eu estava com dor no estômago de tanto vomitar, com a cabeça pesada, cansada, com sono e, para ajudar um pouco mais, ainda um pouco tonta.
- É, eu também. Espero que os meninos cheguem bem. – Comentei e ele concordou com a cabeça.
Quando chegamos ao lugar onde devíamos nos separar, eu me virei para Louis.
- Boa noite, . – ele riu. Olhei para o céu que já ganhava uma coloração rosada pelo sol que ameaçava surgir. Ri e o abracei. Bem, eu não era a pessoa mais afetuosa, mas estava meio bêbada e realmente grata de ter um amigo como ele. Louis era pirado, mas tinha um bom coração.
- Boa noite, Lou. E me manda notícias. Você sabe, se sobreviver.
Ele riu e assentiu, já se afastando. Fiquei parada no lugar por um tempo, pensando no que fazer a seguir. Acabei por seguir até o dormitório, afinal eu só queria fazer o que Louis disse e deitar em minha cama macia.
Enquanto ia até lá, não consegui evitar pensar em Harry. Sempre que ele bebia demais, eu me lembrava de uma vez em que nossos pais deram uma festa e ainda éramos crianças. Ele tomou tanto refrigerante com energético que vomitou a semana toda depois daquilo, e eu ficava na janela vendo se ele melhorou e perguntando para sua mãe quando poderíamos brincar. Ele demorou a se recuperar, e eu pensei que não fossemos mais brincar juntos. Fiquei triste para caramba. Daí, um dia, ele chegou ao parquinho derramando areia no meu cabelo e eu me lembrei de como Harry era duro na queda. E desde aquela vez eu vinha me certificando de que ele sempre ficasse bem, sempre voltasse. Por incrível que pareça, ele sempre se recuperava do porre que fosse.
Ao chegar ao quarto, eu me preparei psicologicamente para ver brava como uma macaca por eu ter infringido as regras do colégio. Mas ela não estava lá. Sua cama estava bagunçada como se ela houvesse deitado, mas sem ficar muito tempo.
Dei de ombros, sem conseguir me preocupar o suficiente. Sentei na cama, tirei meus tênis, soltei o cabelo preso em um rabo de cavalo apertado, respirei fundo fechando os olhos e, lentamente, para saborear a sensação boa, eu deitei no colchão macio.
Sorri um pouco, me deliciando com o conforto. Fiquei por uns dois segundos assim, até que...
- !
Pulei na cama com o berro em meu ouvido. Levantei a cabeça para olhar, mas não fora em meu ouvido. Minerva estava parada na porta com sua melhor cara de velha mal comida.
- Para a direção, ! Já!

’s POV

Dos ombros para baixo, eu estava deitada em um lugar duro. Meu pescoço estava sobre algo meio duro, meio macio. E se movia, para cima e para baixo, para cima e para baixo; parecia algo respirando. E havia um cheiro de gente moribunda.
Abri meus olhos com dificuldade, a conhecida, porém antiga, sensação de ter elefantes dançando em minha cabeça e o corpo todo dormente. Além do gosto amargo no fundo da boca. E, quando meu cérebro parou para dar atenção ao gosto, senti meus lábios formigarem. Eu sabia que aquilo significava apenas uma coisa: eu havia ficado com alguém.
- Droga. – Murmurei quando consegui achar minha voz, que saiu como um miado grogue e baixo. Dei uma olhada à minha volta e percebi que eu estava deitada em cima de um corpo. E, com isso, eu me assustei e me sentei rapidamente, causando uma forte tontura. – Ai...
Apoiei os cotovelos nos joelhos e enterrei meu rosto em minhas mãos.
Quando me senti melhor para voltar a ver a luz do dia, levantei a cabeça devagar e olhei para a pessoa com quem acordei. Prendi a respiração quando o reconheci.
- Droga, droga, droga! – Consegui elevar um pouco minha voz. Coloquei-me de pé, o mundo ainda girando, mas eu conseguia me equilibrar.
À minha volta, o lugar onde eu me encontrava, era um caos. Todas as pessoas que entupiram a casa na noite passada, dançando, bebendo, conversando, estavam agora esparramadas pelo chão, dormindo ou desmaiadas. Com todos num nível mais baixo, dava para ver o que rolou na festa. Bebidas inacabadas, carretas de cocaína e cigarros ainda acesos nos cinzeiros, dentro de copos, havia um cigarro apagado até dentro de um sapato. Eu estava na sala, pelo que podia ver. Mas tinha certeza de que eu e Liam estávamos na cozinha. Não fazia a menor ideia de como havíamos parado ali. E somente quando o vento gelado que entrava pelas janelas abertas entrou em contato com meu corpo foi quando eu notei que estava sem camisa. Meu sutiã era a única peça de roupa que cobria meu tronco.
Voltei a xingar quando girei nos calcanhares, à procura de minha blusa ou, ao menos, meu casaco.
Por que as pessoas têm que festejar como animais? Droga! Mas o pior era pensar que eu e Liam havíamos feito alguma coisa. Não que isso fosse algo completamente ruim, mas o passado é passado e deve ficar ali. Balancei a cabeça, tentando, inutilmente, espantar os pensamentos acusadores enquanto eu tentava chamava um táxi por meio de um aplicativo que até hoje eu julgava inútil.
Bufei para mim mesma. Fazia tanto tempo que eu não ia a uma festa assim que havia até me esquecido da frustração que é ter que procurar suas roupas no dia seguinte. Desisti de achar minhas próprias coisas e acabei pegando qualquer coisa que achei no chão. Não era aceitável, mas teria que servir. Tinha que voltar para a St. Bees. Eu estava literalmente ferrada.
Entrei em um pequeno dilema se deveria ou não cutucar Liam. Mas a empatia falou mais alto e balancei seu braço. Ele murmurou alguma coisa e, depois de duas ou três cutucadas, ele acordou. Tive algum cuidado de não olhar em seus olhos enquanto ele vestia a camisa e abotoava sua calça. Estar no mesmo cômodo que Liam nunca foi tão constrangedor.
Saímos da casa em silêncio e, por algum milagre e competência do motorista, o táxi já nos esperava. Apontei o táxi para Liam e ele assentiu com a cabeça, tão quieto quanto eu. O taxista nos olhava, julgando nossas aparências. Além do fato de que o gramado da casa estava nojento, cheio de garrafas, copos e até mesmo roupas.
No fundo, ele tinha alguma razão por nos olhar não com repulsa, mas com reprovação.
Meu Deus, minha cabeça vai explodir!, pensei comigo mesma, fechando os olhos enquanto Liam dava o endereço para o taxista.
- Eu pago. – Disse Liam quando saltamos do táxi. Eu ia protestar, mas resolvi ficar na minha. Passei as mãos pelos cabelos e pela blusa amassada que gritava em preto e branco num fundo vermelho “Ride or die”. Ajustei a bolsa no ombro, desistindo da ideia de passar um batom ou diminuir minha cara de ressaca. Na verdade eu só queria enfrentar a bronca na sala da diretora e ir direto para meu dormitório.
Eu estava com dor de cabeça demais para me importar com uma advertência. O pensamento que me dominava era “ok, chegamos tarde, mas chegamos bem; e eu. Vamos tomar isso como uma lição e apenas seguir nossas vidas, não é como se alguém tivesse morrido e...”. O pensamento morreu quando eu me dei conta de uma coisa.
Eu não estava com a .
Não esperei por Liam enquanto o motorista contava o troco. Entrei na escola a passos largos e apressados, tudo passando como um borrão à minha volta enquanto eu procurava minha melhor amiga por todos os lados, e, também, minha mente trabalhava fervorosamente em busca de minhas últimas lembranças com ela na noite passada.
Mal percebi que estava fazendo o caminho para os dormitórios, onde minha mente lutava para acreditar que acharia ela. Quando alcancei a maçaneta com as pontas dos dedos – já trêmulos pela adrenalina e preocupação – Minerva apareceu no meu campo de visão, braços cruzados e olhar acusador.
- Deveria estar na sala da direção, mocinha. – Ela disse, impedindo-me de entrar.
- Eu sei, eu sei. – Disse rapidamente, tentando driblar a monitora, mas ela foi mais rápida que eu e me segurou pelos ombros, girando-me nos calcanhares, assim eu estava de costas para o dormitório.
- Não vai fugir dessa, Srta. . Mesmo os mais corretos se corrompem. – Disse ela. Revirei os olhos, sem paciência para a lorota dela. Livrei-me de suas mãos sob meus ombros e caminhei por mim mesma até a sala da diretora. Peguei um copo d’água gelado no meio do caminho e encostei a superfície fria na testa, sentindo certo alívio imediato.
Parecia que eu e Liam não éramos os únicos que se atrasaram. Na verdade era comum gente atrasada. Até mesmo umas – olhei em meu relógio – cinco horas atrasados. Reconheci de imediato Louis e , Liam já estava lá também. Outras pessoas entraram, mas eu estava absorta demais em pensamentos especulativos.

Harry’s POV

Acordei com os batimentos acelerados ainda no ritmo da batida da música que nem tocava mais, e quando pulei com o susto que levei bati a cabeça em algo, o que fez parecer que meu cérebro havia pulado de minha cabeça.
Esbravejei alguma coisa, baixinho, e passei a mão na cabeça algumas vezes. Abri os olhos, sentindo o clarão me acertar em cheio como uma pedrada na cabeça, e com isso, os fechei com força de novo.
Depois de prestar atenção por um momento, percebi o motivo do susto: Alguma coisa vibrava no bolso da minha calça. Quando percebi isso, a coisa parou de vibrar. Suspirei e deitei minha cabeça devagar tocando a testa em algo gelado. Abri os olhos de novo, e dessa vez percebi onde eu estava. Era longe de ser um lugar para alguém dormir, e eu provavelmente desmaiei lá ou algo assim. Fato é que eu estava deitado nos degraus de uma escada, arrepiado e tremendo de frio.
- Cadê as minhas roupas? – pensei alto com uma careta quando olhei para mim mesmo. Como uma resposta, alguém gemeu atrás das minhas costas. Olhei por cima do ombro e o corpo de Sally se materializou ao meu lado, também deitada – ou jogada – nas escadas como eu.
Eu meio que tomei um susto e me virei para ela, sentando em um degrau. Olhei para sua figura: Sua blusa que parecia um top estava erguida até quase os peitos, servindo muito mais como um sutiã do que qualquer outra coisa – até porque eu suspeitava de que ela não estivesse usando um. Me perguntei se eu fiz aquilo.
- Ai meu deus – levei a mão à cabeça. Eu comi a Sally nas escadas daquela casa?
Ela sorriu um sorriso safado, como se lesse meus pensamentos.
- Não ainda, garanhão. Mas uma hora vou te pegar de jeito outra vez. – piscou um dos olhos.
Ela era uma delícia, era verdade. Seus cabelos loiros desgrenhados e sua roupa tão amassada que parecia ter sido mastigada a deixava bem sexy. Sua cara de ressaca era sedutora, e o sorriso de Sally era o mais perverso de todos. Mas ela era uma vagabunda, e vagabundas só têm graça uma vez ou quando você tá bem, bem bêbado como eu estava.
Um momento depois, aquela coisa começou a vibrar outra vez, fazendo um barulho tremendo sob a madeira das escadas. Me virei e enfiei a mão no bolso pegando o celular e o atendendo.
- Alô – disse, a voz mal saindo de tão rouca.
- Harry, onde você se meteu, seu imbecil? Já é de manhã! Porra, volta pro colégio. Agora! A diretora quer todo mundo na sala dela! – Louis gritou, e sem me dar tempo para digerir uma palavra, desligou.
Sentei com a cabeça entre os joelhos nas escadas e fiquei por um tempo assim. Minha cabeça pulsava como se carregasse uma bomba relógio. Depois de tomar coragem, eu me levantei e dei uma boa olhada em volta. A casa era uma zona sem igual. Lixo, comida, líquidos desconhecidos e pessoas estavam jogadas por todos os cantos da casa. Eu não fora o único que bebi até cair em algum lugar e não levantar mais, porque havia gente empoleirada nos sofás, nas mesas, no carpete, na bancada, no fogão...
Levantei e comecei a vagar por entre a bagunça procurando pela pessoa que eu precisava achar. Dei uma boa olhada em todos os rostos conhecidos, e fui chutando a bunda de todo mundo que percebi sendo do colégio. Quando eu finalmente encontrei Josh, algumas das pessoas que cutuquei já estavam acordadas. Eu o puxei pelo braço até que ele estivesse de pé.
- Caramba, mano! O que aconteceu aqui?! – ele gritou, depois de um tempo que levou para acordar e abrir os olhos.
- Precisamos voltar para o colégio. A diretora tá chamando todo mundo. – Falei para quem precisava ouvir, enquanto tateava em busca de minhas roupas no meio da zona. – Aí, alguém viu minhas roupas? – Fiz uma careta e cocei a cabeça, olhando em volta. – Tô com frio, porra. – reclamei.
- Hum... Acho difícil que você as encontre. – Josh falou, calçando os tênis perto do sofá.
Bufei.
- Vamos logo. Precisamos voltar antes que sejamos expulsos.

’s POV

Passei pelos portões enormes do St. Bees desperta como nunca. Os comprimidos ainda faziam um pouco de efeito, e faziam com que a fraca luz do sol que ainda nem havia surgido por completo ficasse mais forte.
O ar gelado do início do dia arrepiou meus braços, e tratei de vestir a jaqueta que tinha em mãos. Não pertencia a mim, e eu não fazia ideia de quem era. Estava com muitas pessoas desconhecidas na festa em que frequentei, e podia ser de qualquer um deles.
- Senhorita. – ouvi uma voz chamar assim que dei dois passos para dentro, e olhei para trás. – A diretora Campbell convoca todos que chegaram atrasados à sua sala na diretoria. Por favor, se dirija até lá.
Eu não estava surpresa.
Assenti, e voltei a andar. Eu estava a algumas quatro horas de distância do toque de recolher que era às duas da manhã. Mas às duas da manhã minha noite estava apenas começando.
Sorri sozinha. Aconteceu que a garota do bar conhecia mais pessoas interessantes. Quando percebi, eu estava em um carro com mais uma sete pessoas, sentada no colo de alguém, dividindo um baseado e uma garrafa de whisky. Chegamos a uma casa que, de fora, pareciam ruinas, mas por dentro tremia até os últimos tijolos com a música ensurdecedora. Dancei e bebi, e aceitei quando alguém soltou dois comprimidos de LSD em minha palma.
Por um tempo, me lembrei do único motivo pelo qual eu gostava de viver.
No meio disso, mais algumas coisas das quais eu não me recordava muito bem aconteceram. Acabei sendo deixada na esquina do colégio pelo mesmo carro que me levou até a festa. Eles eram pessoas de rua, sem um propósito maior, assim como eu. Estavam “em busca da festa perfeita”, como Megan, a garota do bar, disse em meu ouvido. Eu fiquei muito tentada a aceitar sua proposta de seguir a busca com eles. Mas uma partezinha dentro de mim me fez descer do carro.
E aqui estava eu.
Segui até a sala da direção sem mais delongas. Eu queria me livrar logo da lição de moral que provavelmente ganharia para poder tomar um banho em meu quarto.
Ao chegar lá, eu novamente não me espantei ao perceber que não era a única. A turminha de sempre estava lá, uns com cara de sono, outros tão agitados quanto eu. Liam, escorado em uma parede perto da janela, batucava a mão no batente parecendo um tanto nervoso, enquanto , ao seu lado, batia o pé e mordia a ponta do polegar esperando ansiosamente por algo. e Louis, sentados nas duas cadeiras na frente da mesa de Olivia, estavam praticamente despencando.
A porta se abriu silenciosamente atrás de mim antes que eu pudesse ser notada na sala, e pude ver quando olhei por cima do ombro Zayn Malik entrando também.
- . – ele assentiu com a cabeça.
- Malik. – fiz o mesmo, sem me prolongar nele. Quando ouviu o barulho, rapidamente levou os olhos de Zayn para mim, me notando lá.
- ! – ela veio até mim, apressada. – Você viu a ? Sabe onde ela pode estar?
- Por que eu saberia? – Dei de ombros. Eu não fazia ideia dos lugares que ela frequentava, apesar de saber que não eram os mesmos que eu.
pareceu desapontada e ainda mais ansiosa.
- Ela sumiu! – Choramingou. – Eu...
Antes que ela pudesse continuar, a porta foi aberta com força e bateu na parede atrás de si, provocando um baque.
- Aí, da próxima vez tratem de marcar reunião depois de o sol nascer! – Harry Styles entrou gritando, sem camisa ou sapatos, sendo seguido por Josh, que ria sem parar de algo que o amigo fez, e por mais um grupinho de algumas pessoas do colégio, que tinham a cara da ressaca. – Porra, parece que um trem passou por cima de mim e para ajudar esse imbecil do Josh não para de rir há cinquenta minutos!
Dessa vez até eu fiquei chocada. Ele estava seminu. Devia estar congelando.
- Styles, abaixe o tom na minha sala! – Ouvi pela primeira vez a voz firme de Olivia Campbell ordenar, e dei alguns passos para frente para poder vê-la e ser vista por ela.
A diretora correu os olhos por sua sala lotada de alunos, a sua maioria em estados deploráveis, e sua expressão era de alguém nada contente.
- Acho que não há mais muitas pessoas a chegarem. – ela disse, batendo a ponta de seu dedo na mesa.
Ficou em silêncio por mais um segundo, até que todo mundo se aquietasse e o silêncio decaísse sobre todos na sala. Depois, continuou, saindo de trás de sua mesa.
- Palavras não podem descrever o quanto eu estou decepcionada com todos vocês. – ela fez uma pausa, em que todos se olharam. – Eu já tive suas idades, e sei bem como é. Tolero alguns minutos de atraso, tolero algumas pessoas levemente alegres entrando no colégio de madrugada, mas não posso tolerar o que fizeram hoje. Não posso tolerar uma massa de alunos chegando depois do nascer do sol, embriagados e fora de si, muitos deles sob o efeito de alguma droga nociva. Eu já tive as suas idades, e sei como é. Mas vocês precisam entender que nós somos os responsáveis por qualquer coisa que os aconteçam dentro ou fora dos muros de Carlisle desde o momento em que se matriculam neste colégio e seus pais assinam os termos de convívio do colégio. Nós lhes damos o privilégio de um final de semana inteiro livre duas vezes por mês, coisa que várias outras escolas não permitem sem a permissão direta dos pais, porque confiamos em vocês, alunos. Ou pelo menos eu confiava, até hoje.
Mais silêncio. Eu cruzei os braços e me escorei em uma estante enquanto continuava inquieta ao meu lado.
- Quero que vocês entendam que os fins de semana livres não são um direito seu, mas sim um privilégio que pode ser a qualquer hora tirado sob minhas ordens, e o único momento em que vocês poderão sair é quando tiverem a permissão de seus pais, coisa que duvido que consigam com apenas uma ligação do colégio informando-os do ocorrido de hoje. Eu só não estou tornando isso um comunicado público, pois sei que as atitudes de alguns que estão dentro dessa sala poderiam servir como exemplo para todo o resto dos alunos, e não é isso que quero.
Praticamente todos os olhos se voltaram para Harry e Louis. Comprimi os lábios.
- Uma de nossas alunas ainda não voltou para o colégio. Já estão completando doze horas que ela saiu, e isso é muito preocupante. Alguns alunos serão liberados para procurá-la, e se ela não for encontrada em até uma hora no máximo, nenhum de vocês terão mais liberdade para sair dos muros deste colégio até as férias de natal, e eu não quero ouvir nem uma reclamação. Está claro?
Algumas pessoas murmuraram um “sim” baixinho, e Olivia assentiu.
- Ótimo. Estão todos dispensados. – Ela disse, por fim, e voltou até atrás de sua mesa enquanto todos se direcionavam para a saída.
- . – me chamou quando eu estava saindo, e voltei até ela. – Você vem com a gente?
Fiz uma careta.
- Sinto muito, , mas eu não seria útil. Não faço ideia de onde esteja.
Ela assentiu, parecendo triste, e dei-lhe um tapinha fraco no ombro.
- Boa sorte.
Segui até os dormitórios esperando profundamente que alguém encontrasse . Eu não aguentaria ficar presa no St. Bees por tanto tempo sem nem um gostinho de liberdade.

Zayn’s pov

A ruivinha sumiu.
Bacana.
Mas o que eu tenho a ver com isso?
Exatamente: porra nenhuma.
Agora, se eu quiser sair dessa merda de lugar por uma mísera noite, eu tenho que ajudar a achar a amiguinha da . Sério isso?
Bom, eu podia picar a mula e ir dormir um pouco, como a fez. Mas aquela era outra oportunidade de sair, agora legitimamente, por mais o quê? Quanto tempo mesmo aquela mulher nos deu? Ah sim, uma hora. Não é muito, mas deve dar para alguma coisa.
Eu já estava novamente em Carlisle. O motorista de uma van da escola nos levou até o centro para procurarmos a menina lá. Todos partiram para lugares onde ela poderia estar, mas eu preferi não dar a mínima e ir pro meu canto, uma parte mais imunda daquela cidade.
O cheiro de bebida e urina marcava aquelas bandas, mas eu realmente não me incomodava, aquilo até me dava uma desculpa para acender um cigarro e “disfarçar” o cheiro. E foi o que eu fiz. Acendi e traguei um. Depois outro. E mais outro. Eu devia estar andando sem rumo há bons 20 minutos, nada em minha mente, apenas o gosto da nicotina na minha boca. Tirei a carteira do bolso novamente e estalei a língua quando vi que eu não tinha mais nenhum cigarro para fumar.
Continuei andando, olhando para os lados à procura de alguma mercearia ou algum bar imundo que vendesse cigarros a preço de batata. De repente alguém saiu de dentro de uma loja de penhores e eu quase a atropelei. Eu quase xinguei a pessoa, não o fiz porque vi que se tratava de uma garota. Quando ela se virou para mim, aí sim eu xinguei.
- Malik. – Disse ela.
- . – Abri um sorrisinho.
- ! – Ela me corrigiu, como sempre. Ignorei seu protesto e olhei para ela de cima.
- O que a princesinha faz aqui desse lado da cidade? – Perguntei, curioso de verdade. Jamais imaginei aquela garota naquele lugar. Ela era como um pontinho brilhante no meio de sujeira, lixo e gente pobre. Deslocada.
- A princesinha está procurando a amiga dela, muito obrigada. – Ela bufou.
- E o que traria sua amiga, outra princesinha, aqui? – Arqueei uma sobrancelha.
- Ela... – hesitou como se fosse dizer algo que não devia. – Não sei. – Mordeu o lábio inferior. – Acho que estou apenas imaginando o pior.
- Tipo... Algum mala sequestrando ela...?
- Algo do tipo. – Concordou, sem olhar para mim.
- É, quem sabe. – Dei de ombros. – Boa sorte, Walkie-talkie. – Continuei meu caminho, passando direto por ela.
- Ei! – Ela gritou por mim e correu até meu lado. – Não vai me ajudar a procurar?
- Nop. – Estalei o “p”.
- Por que não?
- Porque não tenho nada a ver com isso.
- Mas... Mas você não vai poder sair pelo resto do semestre!
- Por quê? Tá considerando nunca mais achar sua amiguinha? – Sorri de canto.
- Claro que não! Asshole. É só que existe uma comoção, uma humanidade...
Virei-me para ela abruptamente.
- O fato de eu não procurar sua amiguinha não faz de mim um monstro. O fato de você tê-la perdido de vista, faz de você uma péssima amiga.
Ela olhou no fundo dos meus olhos, desafiando-me enquanto buscava algo para dizer em resposta.
- Olha, você não quer ajudar? Ok...
- Já está na defensiva? Foi você quem começou a julgar a humanidade.
- Ok, Malik. Ok. Obrigada. É sempre um desprazer falar com você. – Ela acelerou o passo, claramente chateada. Não demorou muito até ela tropeçar numa rachadura na calçada e quase cair. Olhei para o céu, perguntando-me “por quê?”. Respirei fundo e andei mais rápido para alcança-la. – O que você quer?
- Você não dura nem um minuto sozinha aqui. – Afirmei. Ela revirou os olhos.
- E você vai fazer o quê? Ser meu segurança? – O tom na voz dela estava entre escárnio e deboche.
- Não, , na verdade, eu sou o cara que você deveria sair correndo para bem longe. – Abaixei o tom de voz.
- Muito engraçadinho você. – Ela retrucou, mas sabia que ela tinha um pouco de medo. Exceto as que sentiam tesão por isso, a maioria das pessoas fugia de mim. E eu gosto disso. – Vai me ajudar? – Mudou de assunto.
- Como você disse, sair aos finais de semana estão nas mãos da garota desaparecida. Já vou estocar bebida e cigarros no armário.
- Você deveria ser um pouquinho mais positivo, Malik. Faria bem a você. – Ela observou, acusando-me.
- Chega de sugestões e julgamentos, ...
- . – Corrigiu-me rapidamente.
- Sua amiga. Lembra? – Completei, ignorando-a.
Ela voltou a olhar para frente. Tomei aquilo como um sim e aproveitei o silêncio da garota birrenta ao meu lado. Deus, o que eu não daria por um cigarro agora. Minha cabeça ainda estava doendo.
- Vamos entrar aqui. – Sugeri, cruzando seu caminho e entrando primeiro no que parecia ser uma mercearia. entrou logo depois, olhando para os lados freneticamente, procurando a amiga perdida. Parei em frente ao balcão e estendi uma nota de cinco libras ao atendente que lia uma revista de fofocas da família Real. – Cigarro. – Falei, apenas.
A garotinha – porque é isso o que ele era, uma garotinha no corpo de um garoto – se colocou de pé e me olhou de cima a baixo, medindo-me.
É muito foda ser gostoso, puta merda.
- Qual? – Sua voz era afeminada também.
- O que valer cinco libras. – Respondi, como se ele fosse retardado. Ele me olhou torto, mas vi que abriu um sorrisinho antes de se virar. Viado safado, gostava de ser maltratado.
- Ela não está aqui. – se colocou ao meu lado de repente, parecendo mais apreensiva que antes.
- Eu sei que não.
- Oi? E por que entramos aqui ent... – Ela parou de falar quando o garoto colocou o maço de cigarros no balcão. Uma pequena pausa. Ela olhou para mim. – Sério? – Bufou e saiu da mercearia. Nem olhei para onde ela estava indo, apenas peguei a carteira de cigarros e coloquei no bolso da jaqueta. O garoto propositalmente esbarrou seus dedos nos meus quando me deu o troco.
- Mulheres... – Ele suspirou. – Você devia tentar coisas novas.
- Fica para a próxima. – Falei e dei as costas para ele.
Saí da mercearia me perguntando se todos os gays eram iguais a ele. Bom, eu só conhecia o Styles, então os gays não estavam com tantos pontos assim comigo. Tirei um cigarro e o acendi. Quando levantei a cabeça, vi passar a mão no rosto rapidamente. Ela estava de braços cruzados, na calçada, aparentemente me esperando.
- Vamos perguntar naquele bar. – Falei, numa breve tentativa de amenizar a situação com a menina. Ela murmurou qualquer coisa e atravessou a rua, indo em direção ao bar ainda mais miserável que a mercearia que acabamos de entrar. Fui atrás dela guardando uma distância segura. Sei lá, vai que ela decide pular em mim e destroçar minha garganta. Eu reconheço, às vezes eu vou um pouco longe demais.
O bar era uma bosta. Tipo aqueles que se vê em filmes medievais. Só faltaram os anões grotescos e alguns orcs, talvez. Aquilo estava ficando cada vez mais fodido e eu deveria ter ficado na minha quando ela ficou bravinha por causa da minha brincadeira.
- Malik! – segurou o tecido da manga da minha jaqueta e correu para algum canto do lugar, ficando de joelhos aos pés de uma pessoa sentada num banco, parecendo meio morta. – Chama um táxi. – Ela nem olhou para trás.
Olha essa vadia, achando que pode me dar ordens!
Virei-me para o cara servindo uma bebida a algum miserável no canto.
- Chama um táxi. – Repeti a ordem para ele.
- Vai se foder, otário. – Ele respondeu de volta e sumiu por uma porta que devia dar no inferno, que era onde ele deveria estar agora.
- Cacete. – Murmurei, tirando o celular do bolso. Disquei o número de um táxi que estava fixado em um quadro de avisos numa parede próxima a mim e chamei a porra do táxi.
- ? – chamava. – , fala comigo!
A garota murmurou alguma coisa. De onde eu estava, seja lá o que ela disse, não saiu em um tom muito amigável. Ouvi choramingar o nome da amiga de novo e, mais uma vez, a garota murmurou. Então, finalmente, se virou para mim e disse as palavras que eu nunca achei que sairiam da boca da princesa do Reino dos Unicórnios, :
- Nós precisamos apagar ela.
Um minuto de silêncio.
- É o quê?! Que merda é essa ?! Puta que pariu! – Comecei a xingar, que é basicamente o que eu faço sempre, mas principalmente quando fico puto. – Você enlouqueceu?!
- Por favor! É urgente!
- Como urgente?! Você quer que eu apague a menina assim? Sem mais nem menos?
- Zayn! – Ela insistiu.
- Vai pra puta que te pariu, ! – Berrei, andando rapidamente até as duas e levantei a porra do meu punho. arregalou os olhos e se levantou num pulo, segurando meu braço e meu ombro, parecendo aterrorizada.
- Você ficou louco?! – Ela olhava para mim, incrédula. Eu parei. – Você acha que eu quero que você nocauteie minha melhor amiga? Você enlouqueceu?
- Caralho, ! Você vira para mim e fala para apagar a menina, mas que bosta...? E eu que fiquei louco?!
- Eu achei que você sabia outro jeito! – Ela se explicou.
- Não tem outro jeito. Ou você carrega morfina nessa sua bolsinha?
- Vamos apenas tirá-la daqui. – Ela passou o braço da amiga por seus ombros.
Peguei o outro braço da garota e tropeçamos até a porta do bar.

Niall’s POV

Havia um clima de fofoca na escola naquele domingo. No refeitório, as pessoas não estavam falando tão alto como de costume. Nos corredores, as pessoas se amontoavam em rodinhas e risadinhas. Essa parecia ser uma rotina casual, todos pareciam bem demais com o fato de estarem comentando alguma coisa que não lhes dizia respeito.
Eu só fui saber do que se tratava na hora do almoço.
andava apressada pelo campus, carregando uma pequena bolsa vermelha. Apressei o passo para alcança-la e, quando o fiz, ela se assustou com minha aproximação.
- Ah. Oi, Niall. – Ela abriu um sorriso murcho, parecia ansiosa. – Tudo bem? – Perguntou, mas não parecia muito disposta a ouvir uma resposta ou manter uma conversa.
- Tudo. Por que a pressa? – Perguntei como quem não quer nada.
- Eu preciso levar isso à enfermaria. – Disse rapidamente.
- O que é?
- Remédios.
- Para quê?
- Para curar.
- Posso ir junto?
- Niall. – Ela parou de andar e ficou de frente para mim. – O que está fazendo?
- Tentando ser um amigo. – Dei de ombros.
Ela sorriu.
- É. Acho que você pode vir junto. – Ela disse, puxando-me pela mão voltando ao passo apressado.

Não demorou muito e chegamos à enfermaria. Eu nunca estive lá, mas parecia ser um lugar bacana. Tranquilo. Quando entramos na sala, a primeira pessoa que vi foi Zayn Malik. Ele estava sentado numa cadeira, a cabeça apoiada na parede e as mãos nos bolsos da jaqueta. Ele abriu apenas um olho para ver quem havia entrado e depois o fechou, com um sorriso arrogante no rosto. Ignorei-o e foquei em e no que eu poderia ajudar.
Foi só quando ela correu para detrás de uma das cortinas que dividiam uma parte da sala que eu vi a garota deitada na maca. Os cabelos desalinhados, a maquiagem borrada e um balde no chão que devia ser a fonte do cheiro de vômito.
- Niall? Pode pegar um copo d’água, por favor? – pediu, ainda de costas para mim.
- Claro.
Ela se virou para sorrir para mim e lançou um olhar de desgosto para Zayn, como se tivessem brigado. Peguei o copo e levei até ela.
- Não! – choramingou quando me viu e virou o rosto. – Não acredito que você fez isso, !
- Shh, , não se preocupe com isso, ok? Ele é amigo. – tentou confortar a amiga. – O Malik também te viu...
- Ninguém fala com Zayn Malik! – Ela rebateu.
- Bom, se isso te consola, ninguém fala comigo também. – Cocei a cabeça, tentando ajudar.
olhou para mim e passou as mãos no rosto, limpando algumas lágrimas, o que borrou ainda mais a maquiagem. Ela viu a mancha preta em suas mãos e soltou uma risada triste. Deu de ombros e engoliu as pílulas que deu para ela.
- Pior não dá para ficar, né? – Ela tentou um sorriso.
Um silêncio caiu sobre nós quando tirou um creme da bolsa e começou a passar no rosto da amiga com um pedaço de algodão, a maquiagem saía à medida que ela passava. Abri um sorriso, levantei o polegar e pisquei para , que abriu um sorriso e riu um pouco.
Em silêncio, Zayn levantou-se e abriu a porta da enfermaria para sair.
- Obrigada, Malik. – Disse , olhando para ele.
- Você fica me devendo. – Ele disse e saiu.
- Sério? – perguntou para o nada.
- Desculpa por isso, . Agora você tem uma dívida com o psicopata. – mordeu o lábio, como se falasse sério.
- Não faz mal, . Por você, qualquer coisa. – piscou e segurou a mão da amiga. – Bom, vou pegar seu almoço. Niall, você pode ficar? Era o Malik que estava fazendo isso para mim, mas como você pôde ver, ele não estava sendo muito proativo...
- Tudo bem, . – Assenti. Ela sorriu para mim e saiu rapidamente da sala, deixando-me a sós com a .
Sentei-me na cadeira onde estava sentada e olhei para a garota que me olhava de volta.
- Você parece estar se sentindo péssima. – Falei a primeira coisa que veio à minha cabeça.
Não foi a melhor coisa a se dizer para uma garota que mal conheço e que se encontra nesse estado.
- Eu estou péssima. – Ela afirmou. – Já ficou de ressaca?
- Já. – Mentira. Não que eu não bebesse, mas nunca ultrapassei minha quota.
- São horríveis, né? Ugh! – Ela deitou a cabeça rapidamente e soltou um gemido de dor.
- Ainda dói? Quer algum analgésico? – Prontifiquei-me.
- Não precisa. Os remédios já vão me fazer dormir. Você tem trinta minutos com a acordada, aproveite! – Ela brincou.
- Você tem que se cuidar, mocinha. – Falei, fingindo tom de reprovação.
- Eu sei. – Revirou os olhos. – Mas... Já sentiu uma enorme necessidade de fugir de tudo aquilo que... Aquilo que te aprisiona? Todos os dias, controle, controle, o futuro, o passado... Todos os dias... – Ela baixou o olhar tão rápido quanto levantou a cabeça rindo de si mesma. – Olha só para mim, dopada, falando da minha vida para um completo estranho. – Riu mais um pouco.
- Eu não preciso ser um completo estranho. – Sugeri, abaixando a voz, suave.
- Mas é o que você é. – Ela franziu o cenho. – Por que fingir que você não é o que você é? Não faz sentido, é errado. É errado e só machuca as pessoas. É tão fácil fingir. – Fez um biquinho.
O remédio parecia estar fazendo efeito antes do tempo.
- Não é curioso como a vida corre aparentemente sem rumo, mas em algum momento ela parece que toma um sentido? Tipo, antigamente era sem sentido, mas agora não é mais porque você entende o que aconteceu. A vida sempre foi sem sentido ou nunca será? Por exemplo, você, aqui, agora, é sem sentido. Mas será que um dia esse momento será a chave para todos os outros e então desencadear um novo destino, um novo futuro? – Um vinco se formou em sua testa de tão pensativa que estava. – Isso não faz sentido, né?
Parei para pensar um pouco.
- Não, , isso faz todo sentido. – Falei, assistindo seus olhos se fechando e ela caiu no sono profundo. – Todo sentido.

’s POV

A leve brisa que entrava pela janela me refrescava. Minha pele estava um tanto úmida, pois eu recém saíra do banho, e meus braços se arrepiavam com o contato do ar.
O parapeito de nossa janela era grande o suficiente para alguém ficar sentado nele. Era uma queda e tanto até lá embaixo, percebi, ao olhar para o chão que cercava o prédio do dormitório feminino.
Eu ainda estava com a cabeça na festa de ontem. Fora tão bom, e eu já havia esquecido a sensação. Sensação de estar completamente perdida, e ao mesmo tempo se sentir livre, como eu não me sentia em qualquer outro lugar.
Balancei a cabeça.
Mesmo se eu fosse fumar na janela, o vento traria o cheiro para dentro. E sentar ali era bom, mas eu não estava satisfeita. Sentir aquela brisa me fez sentir vontade de ficar ainda mais sozinha do que com a companhia silenciosa de . Mais no escuro, e no quieto.
- ? – olhei para dentro do quarto, iluminado apenas pelos abajures em cima da cômoda.
- Hum?
- Se importa em não falar se eu sair por um tempo? – fiz um gesto para fora do prédio. – Já guardamos um segredo em comum de qualquer jeito. – sorri.
Ela me olhou por um momento, piscando, parada no lugar. Depois assentiu.
- Tudo bem. Sem problemas.
- Obrigada. – desci do parapeito e calcei os tênis. Peguei uma carteira de cigarros de dentro da gaveta e o isqueiro, e botei-os no bolso do casaco. Eu saí do quarto e fui em direção à saída de incêndio.
A porta fazia um barulho bem alto, mas duvidei que Minerva fosse se deslocar de um lado do corredor ao outro apenas para checar o que era. Desci as escadas com cuidado e, ao aterrissar no chão ao lado do prédio, meu cabelo foi soprado para trás.
Respirei fundo. Poucas sensações se igualavam às de ar livre. Às vezes eu percebia semelhanças minhas com um animal selvagem. Gostar de ser livre.
Tirei um cigarro da carteira e coloquei-o na boca enquanto acendia o isqueiro. Eu parei de caminhar por um segundo para acendê-lo, e voltei a andar em seguida, dando a primeira tragada. Senti a ansiedade dentro de mim se esvair enquanto liberava a fumaça.
Com as mãos nos bolsos, eu caminhei pelo pátio deserto e escuro. Era como uma praça de uma cidade pequena à noite, iluminada por postes de luz alaranjada, tão altos e separados, que mal era iluminado. Mas o cenário me agradava mais do que qualquer outro que já conhecera no colégio, pelo simples fato de estar vazio. O silêncio era, realmente, o melhor descanso para a mente.
Comecei a andar na direção do ginásio, mas fiquei incerta em descer até lá. Era um tanto longe, e não havia iluminação alguma. E provavelmente eu não conseguiria ver muito mais do lago do que via daqui de cima, de qualquer modo. Apenas uma grande escuridão reluzente.
Fiquei sentada por bons minutos no muro que ficava junto às mesas de pedra, bem no início da descida que ia até o ginásio. Depois de um tempo, eu já queria acender outro cigarro. Levantei e, lentamente, comecei a fazer o caminho contrário de volta ao dormitório. Quando estava perto de lá, acompanhando a parede de trás do prédio até chegar às escadas de incêndio, eu peguei minha carteira de cigarros outra vez. Mas um barulho que não combinava com os outros me chamou a atenção, e esqueci-me de fumar por um momento, enquanto procurava de onde vinha.
Eu parei, quando vi que me aproximava mais do barulho, e tentei ouvir melhor. Parecia vir de... Cima?
Olhei para cima bem a tempo de ouvir um galho se quebrando na grande árvore ao meu lado e alguém despencar de cima dela, soltando um gemido de dor. Dei um passo para trás, assustada.
- Filho da puta. – ele xingou baixinho, e enxerguei seu rosto.
O que diabos Harry Styles fazia em cima de uma árvore do dormitório feminino às onze e meia da noite de uma terça-feira?
Ele se levantou com dificuldade e bateu a grama e a terra das calças. Só então foi que me viu. Ficou parado por um tempo em minha frente, me olhando, e eu olhando para ele. Nunca havia trocado uma palavra com aquele garoto na vida, e não fazia ideia de porque justo ele estava ali.
O silêncio se arrastou por mais uns segundos.
- Eu agradeceria se não contasse isso a ninguém. – ele disse, encolhendo os ombros com uma careta.
- Tem... – apontei para o meu cabelo e ele passou a mão no dele, tirando um galho verde pendurado no meio de seus cachos e jogando no chão. Me olhou de novo. Dei de ombros. – Eu não vi nada.
- Valeu. – ele disse, e depois de olhar para a janela acima de si na parede, xingou algo baixinho e passou por mim, indo embora dali.
Eu ainda fiquei por um momento parada, pensando no quão curioso aquilo fora, mas depois dei de ombros e acendi o cigarro. Antes de voltar a andar, porém, olhei para cima e contei as janelas desde a do meu quarto até a que ele olhou, para me situar. Tinha quase certeza que era o quarto de .
Voltei a andar e balancei a cabeça. Lembrei-me da aula de alemão que tive com na semana passada. Harry Styles gostava dela muito mais do que ela talvez imaginasse.
Mas aquilo não era um problema meu.



Continua...




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