Última atualização: 12/08/2017

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Capítulo 9



’s POV
- Você já escolheu sua roupa para o baile?
Passei pelas garotas no ginásio enquanto se alongavam e fui em direção à porta de trás da grande construção. Nas últimas semanas eu comparecera fielmente a todas as aulas, até botara a roupa de ginástica extremamente justa e desconfortável e tudo mais. Eu decidi melhorar, passar de ano e me livrar logo desse pesadelo. Me convenci de que eu era – tinha de ser – capaz de fazer isso.
Mas hoje queria relaxar. A professora de sempre faltara e uma substituta que não sabia que devia manter um olho em mim ficara em seu lugar.
Senti alívio ao ouvir o burburinho feminino empolgado pelo tal baile se extinguir quando saí do ginásio e a porta se fechou. Meus ouvidos agradeceram.
Sentei na grama, no mesmo lugar de sempre, abri a mochila e peguei um cigarro.
Eu não tinha mais cigarros.
Respirei fundo, decidida a não deixar isso afetar meus nervos. No sábado eu só precisava ir até a cidade e reabastecer meu estoque.
Peguei, então, a pequena caixinha de plástico transparente semelhante a uma caixa de fita de rádio antiga e a observei. Bati a ponta do dedo nela, ponderando ou não fumar meu último cigarro de maconha. Mais uma vez, me convenci de que não faria nenhum mal. Primeiro, porque não era difícil conseguir mais em Carlisle sábado, e segundo, porque depois daquela aula eu tinha álgebra e gostei mais da ideia de estar chapada do que de ter que me forçar a estudar.
Por outro lado, enquanto acendia o cigarro, eu imaginava que já devia ter um grande OBS em negrito ao lado do meu nome em minha ficha na diretoria. Eu já fora para a detenção mais de três vezes, e isso não devia ser coisa boa. Nem a quantidade gorda de dinheiro que automaticamente era depositada na conta do colégio todo mês devia pagar algumas coisas.
Mas não me importei o suficiente.
Não adianta tentar evitar, . Droga, para mim, era sempre como uma pizza seria aos olhos de um faminto. Principalmente algo inofensivo como maconha.
Ao sentir o cheiro, sorri com presunção e todo meu corpo relaxou.
Deixei-me levar pelos efeitos do cigarro deitada no gramado olhando para o céu nublado. Meus dedos formigavam, e logo minha cabeça parecia flutuar separada do meu corpo.
No final do baseado eu não saberia dizer quanto tempo se passou. Fiquei deitada, ora de olhos abertos, ora fechados, sentindo o corpo girar parado no lugar, tendo a sensação de que o tempo parou até o sinal de troca de período tocar e eu tomar um susto.
Lentamente, me levantei. Joguei a mochila no ombro e, como se me movesse em slow motion, eu subi a ladeira para os prédios das aulas e vi o fluxo de alunos no pátio aumentar, como era hora do almoço.
Um grupo de garotos que eu não conhecia bloqueavam a passagem para dentro do prédio, e quando passei por entre eles, abrindo um sorriso de canto e olhando para cada um, pude sentir o tom de surpresa em seus cochichos por eu ter... Sorrido, talvez.
Os comentários que eu ouvi a meu respeito enquanto ia até o refeitório me divertiam.
Esbarrei em alguém ao entrar no refeitório e olhei brevemente por cima do ombro.
Era Louis Tomlinson, de novo. Eu pensei em continuar reto, mas ao notar o olhar tenso e divertido dos seus amigos para mim, voltei até ele e parei na sua frente.
- Olá Louis. Que surpresa você esbarrando em mim. – olhei para sua bandeja e peguei uma maçã verde que havia ali. Cara, eu estava começando a sentir uma fome... Passei os olhos por cada um deles, que me olhavam quietos, e voltei a Louis. – daqui a pouco vou começar a pensar que é de propósito. – pisquei um olho e dei uma mordida na maçã me afastando.
Fui em direção a no início da fila servindo seu prato com legumes, ignorando o resto da fila atrás de mim.
- ...
- Ei! A fila é lá atrás, Freak! – uma menina atrás de mim guinchou. Levantei a mão em palma na altura de seu rosto sem olhar para ela de fato.
- Ah, oi... . – sorriu quando me viu.
- Preciso da chave do quarto. Eu perdi a minha.
- Tudo bem, mas vai precisar fazer uma cópia para o caso de não me encontrar. – ela disse, tirando a chave do pequeno bolso no peito do uniforme feminino e me entregando.
- Essa garota é ridícula, não é? Quem ela pensa que é?! – ouvi o sussurro atrás de mim.
- Faço isso amanhã na cidade. – Peguei o objeto da mão de . – Obrigada.
Eu saí da fila, mas antes de sair do refeitório olhei para a menina atrás de mim.
- Eu sou , aliás.
- Todo mundo sabe quem você é, Freak. – olhou-me com desdém.
- Tá aí uma diferença entre eu e você. – apontei para ela e virei as costas.
Enquanto caminhava pelo pátio os olhares continuavam. Eu não sei ao certo o que estava diferente em mim, mas algo era espantoso: Até tem bom humor às vezes.

’s POV
Quanta tralha podia guardar dentro de um espaço tão pequeno?
Continuei revirando as suas gavetas da cômoda para achar algo, qualquer coisa que me fosse útil e parecesse familiar. Mas, sério, tudo aquilo era coisa que meninas como ela usavam, ou ela era uma espiã do governo que precisava de ferramentas bem discretas? Peguei um estojinho de camurça rosa fraco e abri seu zíper, que tinha um chaveiro de sapato de salto pequeno pendurado.
- Mas que...? – peguei um negócio que eu jurava que podia ser passado despercebido em cima de uma mesa de cirurgia. Só não tinha nada pontiagudo.
- , você viu o... – a porta do quarto foi aberta rápido e me deu um susto, me fazendo pular e sentar na cama ainda com seu estojo na mão. parou e me olhou por um tempo. – O que está fazendo com as minhas coisas? , eu juro que se você sabotou alguma das minhas maquiagens eu...
Levantei a mão para ela que se aproximava da cama rápido.
- Não, não, não. Eu não sabotei nada. Eu só estava procurando o... o... – estalei os dedos, tentando me lembrar do nome de qualquer coisa que eu precisaria mexer em suas gavetas para encontrar. Olhei para a gaveta de novo e vi o pedaço do fio elétrico de alguma coisa. – O secador de cabelo.
- O secador? – ela pareceu confusa. – E acha que ele caberia em um estojo desse tamanho? – ela apontou para o estojinho na minha mão.
- Não, é claro que não. Mas é que... – dei de ombros, minhas desculpas haviam acabado.
– Ok, digamos que seja verdade, desde quando você usa secador de cabelo?
- Eh, é que nossa treinadora disse que se alguém ficar doente, não podemos jogar. Eu só queria evitar dormir com o cabelo molhado. – dei de ombros, esperando que ela comprasse aquela.
- Hum... – ela fechou a gaveta de baixo com o pé e se virou de costas, começando a dobrar algumas roupas dela que estavam em cima da sua cama. – O secador tá no banheiro. Sempre fica lá. Mas por favor, não mexe nas minhas coisas antes de usar, e me peça se quiser. Somos colegas de quarto, eu só preciso saber quando pega as minhas coisas.
- Tá, é claro. – falei, observando-a e girando meus pés com meus tênis timberland marrons. – Hã, ?
- Hm?
- O que é isso aqui? – ergui a mão quando ela virou para me olhar, e mostrei aquele negócio estranho que achei no estojo.
Ela riu, como se eu tivesse contado uma piada. Me olhou sorrindo por um tempo e depois seu sorriso sumiu.
- Você não sabe mesmo o que é?
Fiz que não.
- Meu Deus do céu, , em que mundo você vive?
Revirei os olhos quando ela começou com o drama. Ela sempre fazia isso.
parou na minha frente de pé.
- Isso é um curvador de cílios, . – ela me disse, pegando-o da minha mão, e falando comigo como se fosse uma criança que não sabia de nada.
- E...?
Ela me olhou por mais alguns segundos. Geralmente precisava de alguns segundos para raciocinar. Depois, sentou ao meu lado e levantou o tal curvador.
- E, que ele serve para aumentar os cílios. Deixar maior.
- Por que alguém gostaria de aumentar os cílios? – ri.
Ela escondeu o rosto com as mãos.
- Meus ouvidos vão sangrar. – choramingou. Não disse? Drama. – Olha, , por que esse interesse todo em maquiagem agora?
Aí você me pegou, princesinha.
- Curiosidade.
- Mas você nã-
- Tá, quer saber? Deixa pra lá, eu vou é dormir. – fiz menção em me levantar, mas ela me parou com a mão.
- Tá legal. Vou te mostrar.
Ela pegou um espelho pequeno de dentro do estojo em minhas mãos e usou o curvador, colocando os cílios entre eles e apertando. Depois, pegou outro produto de dentro do estojo e passou nos cílios. Tá, isso eu conhecia. Era rímel. Minha mãe me deu um uma vez.
- Viu a diferença? – piscou para mim.
- Vi. Mas realmente faz diferença? Ter os cílios grandes ou não?
- É lógico que sim, Enfant. – ela revirou os olhos. – Olha só a diferença! – apontou para o próprio rosto. – Fica mais delicado, mais... bonequinha. Você tem cílios grandes, é uma pena que não saiba como usá-los. É um charme. – sorriu.
- Isso foi um elogio, ou...?
- ! – fez cara feia. - Cílios grandes são um charme.
- E eu sempre pensei que “bonequinha” não fosse um elogio.
balançou a cabeça.
- Então, vai me contar de verdade porque esse interesse todo agora, ou não? – se levantou de novo e me olhou.
Dei de ombros e engoli em seco.
- Eu só queria saber...
- Pra quê?
- Pra... ora, pra saber, ! – me levantei e fui até a porta do banheiro. – Só isso. Cada dia uma nova descoberta, não é? – encostei a porta, mas deixei uma fresta aberta enquanto me olhava no espelho.
- Parabéns, a lição de hoje foi a introdução à arte de usar os cílios. – ela riu.
- Não pode fazer tanta diferença assim. – disse a mim mesma, enquanto me curvava para frente para ver melhor meus olhos no espelho.
- Você que pensa. O poder de cílios bem levantados sobre os garotos é inacreditável. Experiência própria.
Passei o polegar de leve sobre os meus cílios de baixo para cima. Eram grandes perto dos dela, mesmo. Encarei meus próprios olhos. Azuis. Bem azuis. Isso devia ser uma coisa boa. Pelo menos em algo a genética me privilegiou. Mas o que eu estava fazendo, afinal? Nunca encanei tanto na minha aparência, eu precisava parar com isso. Essa não era eu.
- Então você é do tipo que seduz os garotos ou o que?
- Que seduz? Não, eu não seduzo ninguém. Tem uma diferença entre seduzir e encantar. É diferente.
- Uau. Você é sempre tão humilde assim, ou hoje está demais?
revirou os olhos.
- Tem um jeito certo de conseguir alguma coisa dos garotos. É a base da sabedoria feminina. Todas as garotas sabem disso. São regras.
Suspirei e me afastei do espelho. Desliguei a luz do banheiro e saí, ela estava terminando de dobrar as roupas e as empilhar separadamente em cima da cama. Enquanto as minhas, como dei uma olhada, estavam jogadas em um monte enorme ao lado da minha cama. Tirei os tênis e me joguei na cama, querendo esquecer disso logo. Eu estava fazendo comparações demais hoje, e precisava parar.
Me virei para o lado contrário do dela e encarei a parede, puxando o cobertor vermelho por cima de mim.
- Não vai tirar o uniforme?
- Não enche o saco.
Ficamos em silêncio. Por um bom tempo, devo dizer. Mas eu não conseguia dormir, nem sequer fechar os olhos. Enquanto perambulava pelo quarto, eu me revirava na cama tentando parar de pensar em tudo aquilo que me incomodava há dias. Depois de um tempo, ela apagou a luz e deixou apenas o abajur pequeno ao lado da sua cama que liberava uma luz amarelada fraquinha.
- ?
- O que?
- Você já teve que andar equilibrando livros na cabeça alguma vez?
Ela riu.
- Só uma vez, na aula de balé.
Fiquei quieta.
- As garotas já nascem sabendo ser garotas, . Elas só têm que praticar. Só isso.
Ficamos em silêncio depois disso, e ela desligou o abajur.
Eu não era parte desse grupo.

Harry's POV
- Aí, você lembra do fim de semana que a gente fugiu pra uma competição de skate? - coloquei a língua para fora e virei o corpo juntamente com o carro que eu controlava no jogo de videogame.
- Uhum. - respondeu apenas.
Ela não parecia estar muito falante naquela manhã em especial, mas não dei muita importância. às vezes tinha dessas.
Continuamos quietos até o final daquela partida de corrida, enquanto Louis assobiava uma melodia boba.
- Chupa, otário. - Louis simulou um chute em mim quando viu chegar três milésimos de segundos antes de mim. Eu empurrei a sua perna.
bocejou. Se jogou para trás caindo deitada em minha cama, onde estávamos sentados.
- Não quero estudar. Não quero estudar nunca mais. Eu quero ir embora daqui.
- A gente já passou dessa fase, Sunshine. Não deu certo. Supera. - bati em seu joelho.
- Mas eu não. Eu fujo com você, . Só diz onde e quando. E eu vou fazer dar certo, porque o tonto aqui é o Harry.
- Que lindo. Tirando o fato de que você não tem perfil nem para balconista do Starbucks. - ela respondeu a ele e eu ri da sua cara, apontando para ele para tirar sarro. Até Louis riu.
- Mas a gente podia, tipo, ir morar na praia. A gente pescava. E tem água a vontade.
- Vou anotar na minha lista. - bocejou de novo.
Levantei da cama para procurar uma camisa limpa do uniforme para vestir. Todos já estavam vestidos, menos eu.
- Aí, sobre o baile. Vocês dois vão, né?
- Lógico, e os nossos planos de zoar a noite toda? Eu não perco por nada. - Louis revirou os olhos e começou a arrumar seu cabelo, na frente do espelho do banheiro. - Esses bailes eram interessantes até o primeiro ano, quando a gente nunca sabia o que esperar, com quem ia ficar e tudo mais.
- É. - Abri uma porta do lado do Louis do armário, e uma pilha de roupa amassada caiu nos meus pés. Localizei uma camisa branca entre elas, e a peguei do chão sacodindo no ar. - Agora a gente já pegou todo mundo e já sabe que vamos ver os mesmos rostos.
- Mas mesmo assim, a gente vai. Porque, tipo... Somos os donos dessa merda de colégio.
Ri.
- Somos o exemplo não confiável. Afinal, não tem ninguém acima de nós. - comentou.
- Só sei que eu vou ir comer umas porcarias e depois vou voltar e dormir. Tenho a vida toda de sono acumulado para botar em dia.
- Que grande exemplo, Louis. - ela riu.
Terminei de vestir a camisa e saí chutando uns calçados, procurando uma gravata. Eu não era muito fã delas, mas no outro dia levei uma bronca e uma quase suspensão por não usar.
- Você vai? - Olhei para , ainda atirada em minha cama.
- Hmmm...
- É claro que ela vai. A vai ser o meu par.
- Eu vou? - Ela tirou as mãos do rosto e fez uma careta para Louis. - E você planejava me contar quando...?
- Estou contando agora. Você vai ser o meu par. Cansei de sobrar lá na mesa tendo que ouvir as merdas que o Josh fala. E o Liam não vai estar, o que torna esse baile o mais chato da história.
- Ô! Nada disso de par, aí. A gente vai em grupo. Quando é que a gente precisou de um par?
- Harry, o nosso "grupo" só dura até você ir comer alguém no vestiário. Toda. Santa. Vez.
Olhei para , mas ela concordou com a cabeça, não ficando do meu lado nessa.
- E o Liam vai também.
- E aí só sobra eu e a , porque o Josh... bom, ele tenta, né. Garanto que amanhã ele vai ficar perseguindo a Rebekah o baile todo.
Ri.
- E nem eu nem o Lou sabemos dançar.
- Então você não sabe como é... o baile fica uma merda.
- Vocês estão me dando um bolo! - Eu retruquei, incrédulo, ainda rodando o quarto à procura da gravata. sentou na cama e puxou uma gravata azul debaixo do meu travesseiro.
- É o que você faz com a gente no meio do baile.
- Tá. Quer saber, vão como um par. E fujam juntos. E vivam felizes para sempre. - fiz um drama casual. cheirou a ponta da minha gravata antes de me entregar, e fez uma careta.
- Harry você cheira a pasta de amendoim vencida. E Louis, não vou como seu par. Eu nem sei se vou. Acho que vou ficar estudando, e não ri de mim - apontou o indicador para a minha cara antes que eu tivesse a chance de me pronunciar.
Pendurei a gravata no pescoço e parei por um segundo olhando para meus amigos. , sentada na ponta da cama, também nos olhava, para mim e para Louis, ambos de pé na frente dela.
Nós três nos encaramos por um momento.
Eu ri.
- Vamos todos juntos. Se você resolver que vai, já tem com quem ir. - disse para . - E você já aguentou o Josh por oito anos, não vai morrer dessa vez. - falei para Louis, tentando o meu melhor para dar um nó decente naquela porcaria de pano azul marinho.
- Foda-se. - Louis deu de ombros e foi procurar um calçado.
- Harry, você é tão inútil. - levantou e puxou a gravata, empurrando as minhas mãos do caminho.
- Ainda bem que você é super prestativa. - Eu pisquei para ela.
Com agilidade ela arrumou a gravata no meu pescoço, mas apertou tanto que eu fiquei azul.
Na quinta série, no colégio lá de Holmes Chapel, a teve uma fase de usar roupa masculina mesmo. Tipo gravata e camisetas do pai dela, que iam até o joelho. Era engraçado. Mas ela acabou aprendendo a usar a gravata, e eu não. Mas era um capricho meu; eu tinha ela para ajeitar para mim todas as vezes.
- Valeu. - tossi, frouxando o nó.
- Vamos, a gente vai se atrasar - puxou a mochila, jogando no ombro, e foi saindo do quarto.
Eu terminei de calçar meu sapato e Louis foi saindo atrás de mim. Fechei a porta enquanto Louis fazia a frente.
- Partiu oratória! - gritou.
fez uma careta de "ele é doente" para mim e assenti, rindo.
Abracei a pelos ombros.
- Ainda bem que você é bem legal, Sunshine. - esfreguei os nós dos meus dedos na sua cabeça, a sentindo reclamar, e ri.

’s POV
- Esse é mais bonito. – Apontei para a segunda planilha de cor que tinha em mãos. Ela havia se desculpado mil vezes por pedir nossa ajuda tão em cima da hora e, como estava ocupada demais com a parte dela do baile, sobrou para nós. Ela apenas parava algumas no corredor e dava as opções “um” ou “dois” para elas escolherem. Essas pessoas apenas olhavam para ela como se ela fosse louca, mas no fim todos respondiam tão animados e simpáticos como se estivessem colocando a conversa em dia.
- Tem certeza? – Ela mordeu a pontinha da unha do polegar. – Não estou muito certa sobre o tema...
- Um pouco tarde para ter dúvidas sobre o tema do baile, não? – Franzi o cenho, jogando meu cabelo para o outro lado.
- Que diferença faz? Você não vai estar aqui. – Ela falou com certo pesar.
- Ah, nem me fale. – Bufei; passar o final de semana com o casal Barbieworld não era o projeto de fim de semana que eu havia planejado também.
- Você tem se dado bem com Liam? – Ela perguntou de repente, virando as páginas do catálogo. Algo em sua postura me dizia que ela não estava prestando muita atenção e talvez aquilo fosse educação demais. Mas, com , não dava para saber. Ela era assim o tempo todo.
- A gente se dá bem quando cada um está na sua. – Comentei brevemente.
- Não parece muito produtivo. – Observou, ainda sem olhar para mim. Viu só? Ela estava ouvindo.
- Mas é o que tem funcionado até agora. Não consigo ficar na mesma sala que ele sem querer voar em seu pescoço. – Bufei de novo, sentindo-me patética por admitir aquilo.
Agora levantou a cabeça e me fitou rapidamente, balançou a cabeça e voltou a olhar o catálogo. Franzi o cenho, achando aquela ação muito estranha. Desci da mesa de pedra – que parecia o point de e naquela escola quando não estava chovendo ou nevando ou simplesmente muito frio – e alisei a saia rapidamente antes de pegar a mochila e coloca-la nas costas. olhou para mim e sorriu, desejando-me boa aula.
Arrastei-me pelos corredores em direção à aula de Química. Liam foi meu parceiro de laboratório no primeiro dia de aula, mas aí acabamos indo para a detenção e então o professor nos separou, trocando nossos pares; o que eu achei muito bom. Exceto pelo fato de que eu estava com uma garota burra e fútil então quem fazia todo o trabalho era eu.
Esse mínimo detalhe que tornava minha aula de química um saco.
- Bom dia, . – Margareth me cumprimentou quando eu me sentei ao seu lado no balcão. Ok, ela era simpática. A garota não era toda chata, mas às vezes parecia forçado demais. O que ela esperava de mim? Dormir com meu meio-irmão que nem minha colega de quarto?
Por mais nojento que seja, descobri que há uma fila de pessoas – sim, pessoas: garotas e garotos. – querendo pegar Liam. Que tipo de ser vivo quer aquele idiota? Pois é.
- Bom dia. – Respondi, apenas, tentando me livrar da imagem de Liam e Rebekah juntos...
O professor entrou na sala apenas alguns minutos depois de mim e largou sua pasta em cima da mesa, parecendo cansado. Naquele momento, dei-me conta de que nunca me toquei sobre onde era o dormitório dos professores. Será que eles iam para casa? Ou havia um prédio só para eles? De qualquer forma, não conseguia imaginar nenhum professor dividindo o quarto com outro. Ao meu lado, Meg, como ela gostava de ser chamada, abriu a apostila de Química Inorgânica.
A aula passou voando por mim, não prestei atenção em muita coisa, minha cabeça estava a alguns quilômetros daqui, na casa do meu pai e a nova família dele. Agora ele teria uma criança... Filha dos dois. Agora eles teriam uma história juntos e alguém compartilharia o DNA dos dois.
E eu ainda me lembrava da noite em que eles me disseram que estavam se separando. Não é como se eu ainda pensasse que eles um dia voltariam a viver debaixo do mesmo teto; imaginar isso seria criar um cenário perfeito para uma guerra mundial. Não daria certo e eu estava tranquila com isso, mas o difícil mesmo era imaginar meu pai seguindo em frente. Minha mãe já havia trocado de namorado algumas vezes desde que se separaram; já meu pai, eu nem sabia que ele ainda estava na ativa.
De repente a aula acabou.
- Tem um carro nos esperando... – Liam apareceu ao meu lado e deixou a frase no ar, focado demais em algo em seu celular.
- Certo. – Murmurei, jogando minhas coisas dentro da bolsa de qualquer jeito, mais por desatenção do que qualquer outra coisa.
- Vou procurar o Harry, vamos dar uma carona para ele até o centro. – Disse.
- Ok.
- E é para você levar algo mais formal. Para se vestir, digo. – Acrescentou.
- Ok.
- Você geralmente aceita tudo que te dizem ou...? – Retrucou.
- Que diferença faz brigar agora? – Suspirei. Isso chamou a atenção dele para mim.
- Não precisa ir se não quiser, .
- Ah, é. – Ironizei, sentindo raiva só de pensar na delicadeza da situação. Quem disse que eu não queria chutar o balde e mandar meu pai ir pastar? Quem disse?! – Com certeza. Que hora é para estar no carro?
- Depois do almoço. – Respondeu, a voz baixa, como se meu tom o tivesse deixado sem graça.
Saí da sala e fui para meu quarto. Não tinha muita coisa para levar para a casa deles, já que alguma parte das minhas coisas ficaram por lá e eu também não estava com saco nenhum para pensar em que roupa usar para impressionar a burguesia inglesa. Rebekah não apareceu durante todo o tempo que eu estive no quarto. Não fui almoçar, não tomei banho, não troquei de roupa. Apenas peguei meu iPod e fone de ouvido antes de me jogar na cama e ouvir qualquer coisa que abafasse o barulho que os alunos daquela escola faziam por onde passavam.
- ! – entrou no quarto correndo, fazendo-me dar um pulo na cama. – Liam está louco atrás de você!
- O quê? – Perguntei, grogue. Ótimo, eu caí no sono. – Que horas são?
- Quatro da tarde. – Ela olhou o relógio.
- Puta merda! – Levantei da cama, passei as mãos pelos cabelos, limpei a baba do canto da boca, peguei minhas coisas e saí do quarto, correndo. Ouvi gritar “tchau”, mas não respondi. Quase tropecei nas escadas enquanto descia e dei de cara com um Liam furioso assim que cruzei a porta principal. Ele estava – gato – usando uma blusa de manga três quartos preta e jeans da mesma cor, de braços cruzados e olhar acusador. Ótimo. – Oi!
Sim! Eu falei com toda a empolgação que pude arranjar dentro de mim. E ele não gostou. A carranca dele pareceu ficar pior.
Liam apenas me deu as costas e foi andando em direção ao estacionamento, que não ficava tão longe dos dormitórios. Ajeitei a alça da bolsa no ombro e fui atrás dele, aumentando o passo à medida que o bolo de ansiedade crescia em meu estômago.
- Bom dia, Bela Adormecida! – Harry estava sentado no banco de trás, no meio. Entrei de um lado e Liam do outro. – Não é uma boa hora?
- Onde você vai ficar mesmo? – Liam quis saber, ignorando sua pergunta.
- No shopping. Preciso de um terno, cara. – Ele passou as mãos no rosto.
- Você é muito enrolado, Styles. – Liam revirou os olhos.
- E você tem uma meia-irmã g... Ouch! Pra que isso, cara? – Harry esfregou o braço.
- Medida preventiva contra as palavras que saem da sua boca. – Liam ainda estava de cara amarrada.
- O que tem eu? – Perguntei, cutucando Harry.
- Nada... – Murmurou.
- Valeu, Liam. – Murmurei também.
- Vai se foder, ! – Liam explodiu, fazendo Harry pular. O motorista pareceu nem se incomodar com o movimento no banco de trás.
- O quê?! Desculpa se eu atrasei, ok?! – Levantei as mãos, exasperada. – Não precisa estragar a viagem!
- Como se você não fizesse isso!
E lá vamos nós...

’s POV
Descobri que eu fazia francês com Zayn Malik.
Era a terceira aula que eu frequentava naquele ano. Comecei a sentir falta do idioma extra assim que eu participei daquela aula de alemão com no outro dia, e depois de fazer brevemente as contas eu percebi que faltava uma matéria. Geralmente, até o ano passado eu aprendia espanhol. Na verdade, eu estudava espanhol, mas não aprendia muito mais do que “buenos dias”.
Mas aí descobri que em minha grade curricular estavam o espanhol, o francês e o alemão como alternativas. E como em três anos no St. Bees eu já havia me mostrado um desastre em espanhol, decidi por optar pela outra aula.
Era muito estranho que eu já houvesse perdido mais de um mês de aula sem ninguém me procurar para saber o porquê, mas depois de uma breve pesquisa eu descobri que meu nome não estava na chamada do professor de espanhol que era novo na escola.
Eu até pensei em passar despercebida pelo resto do ano, mas certamente alguém iria perceber uma falta considerável de notas – mais do que o normal – nos meus históricos. Então, fui lá e “troquei” para o francês. Além disso, eu estava tendo aula de química orgânica no lugar do idioma extra, mas como não percebia a diferença entre química normal e química orgânica, eu só achava que estava fazendo um período a mais dessa matéria.
Mas realmente, isso não vem ao caso.
Francês tinha tudo a ver com e , tanto que elas também faziam essa aula. Mas com Zayn Malik... definitivamente não tinha nada a ver.
A fixação que eu tinha por aquele garoto era inacreditável. E o mais curioso era que ele era um tipo detestável de cara, e eu sabia disso. Ele era, tipo, muito pior do que o Liam ou o Harry. E eu entendia bem que tipo de caras Liam e Harry eram quando o assunto eram garotas. Mas era tudo uma questão puramente física, e meu corpo se recusava a ignorar Zayn Malik, por mais que eu odiasse o tipo dele.
Não me pergunte o quão bizarro isso era para mim.
- Vocês sabem o que mais? Não vou deixar que todas as aulas de francês sigam desse jeito. – O professor soltou de repente, batendo sua caneta na mesa e chamando a atenção daqueles alunos que cochilavam escondidos atrás do livro. Tipo eu. – Nós vamos fazer uma dinâmica.
O coro de infelicidade se espalhou pela sala.
- Isso mesmo. Uma dinâmica. Levantem-se, agora. Façam duplas, um menino e uma menina. Vamos.
Por algum motivo, meus olhos correram para lá do outro lado da sala, mas ela já estava juntando a mesa com o tal de Niall. sentou com outro cara que eu não sabia o nome, e logo as duas pessoas que eu conhecia na sala não estavam disponíveis, por mais que nós não pudéssemos sentar juntas de qualquer jeito.
Eu ia dar um jeito de encontrar algum cara, só que todo mundo naquela turma parecia ser, tipo, melhor amigo de infância. Já estavam todos se juntando e fazendo barulho demais. Bufei e, quando algo me ocorreu, dei uma olhada em volta.
Como eu imaginava, a única pessoa que estava sobrando como eu era Zayn Malik. Voltei a olhar para frente e apertei os olhos, balançando a cabeça. Aquilo só podia ser um pesadelo.
Respirei fundo, e bastou que eu abrisse os olhos para ouvir o professor bem perto de mim falar:
- Vocês dois. Zayn. . Se juntem.
A turma ficou parcialmente em silêncio. Dei uma olhada por cima do ombro, e Zayn ainda estava muito bem jogado em cima da sua cadeira com os braços cruzados como se não pretendesse mesmo sair de lá. O negócio todo ficou meio – bem – tenso, e eu quis mandar todo mundo se foder.
Que situação horrível.
- Zayn. – O professor assentiu para a minha mesa. Há essa altura, eu sentia quase todos os olhares em nós. Ótimo, ótimo. – Está esperando o quê?
- Você disse que era um garoto e uma garota. – disse, como se fosse óbvio.
Umas risadas baixas ecoaram pela sala, e tudo que eu pude fazer quanto aquilo era me sentir patética. Meu rosto ficou quente, e eu não tive como reagir àquilo porque, afinal, o que eu podia fazer? Sair correndo?
Definitivamente não.
Não mesmo.
Eu só fiquei quieta esperando que o olhar severo do professor valesse de alguma coisa e então, depois de bufar, Malik veio até a minha classe carregando uma cadeira.
E o resto da aula não foi muito mais interessante. Foi uma merda, na verdade. Eu só fiquei lá ouvindo sobre a dinâmica e me sentindo um garoto ao lado de Zayn Malik. E ele foi realmente ótimo em fingir que eu não estava lá, porque foi isso que eu senti. Que não existia para ele, que era invisível e ele não era capaz de me ver, como se fôssemos de mundos diferentes onde eu sou só... uma mesa na percepção dele. Tipo uma mesa imóvel e... dura.
Daí, meu ego ferido falou mais alto em minha cabeça. E ele me disse que Zayn Malik ia, sim, me enxergar. Muito em breve. Não importa o que eu tivesse que fazer para isso.
A aula terminou e depois de esperar todo o tumulto de pessoas passar, segui para o refeitório para almoçar. Eu peguei minha bandeja e me servi no automático, porque minha cabeça estava longe.
Incrível como uma humilhação pública te faz pensar na vida.
Peguei uma lata de refrigerante e equilibrei em cima da bandeja, indo em direção à mesa de sempre. Mas parei no meio do caminho, olhando para onde estava indo. Em volta de mim o refeitório estava lotado, cheio de conversas para todo lado, e ninguém me enxergava parada ali. Lá na minha mesa, Louis engolia um hambúrguer enquanto Liam e Harry faziam uns gestos estranhos e gargalhavam de chorar.
Pela primeira vez eu não queria fazer parte daquilo. Eu não era um garoto. Não podia mais ser um garoto.
Olhei para as outras mesas de relance, até encontrar . Ela estava rindo de algo sentada na frente de , apenas as duas na mesa, e em volta várias pessoas prestavam atenção nas duas com admiração e um monte de outras coisas nos olhos. Era como se fossem famosas, como se fossem exemplos. Sei lá de quê, mas era de algo bom.
Tomei aquela decisão em dois segundos, e então eu marchei até lá, puxando a cadeira ao lado de e fazendo um barulho alto. Ela me olhou assustada, e sentei ao seu lado soltando minha bandeja.
- , tem gente te chamando lá.
- Onde?
- No pátio.
- No...
- me olhou como se me repreendesse.
- . Vaza. – Ela me lançou um olhar afetado e revirei os olhos. – Por favor. Aqui, toma meu bolinho. Agora vaza.
- Dá pra pedir pra sua colega de quarto ser mais educada? – ela olhou brava para .
- Eu já tentei. – deu de ombros e me olhou. – Você quer falar a sós comigo, é isso?
- Era só ter pedido. – avisou, levantando de sua cadeira. Ela ficou parada de pé por um segundo, mas antes de sair pegou o bolinho, me olhando meio brava ou algo assim.
Peguei uma batata frita do meu prato e a mastiguei, sentindo os olhos de em meu rosto.
- O que foi, ? – perguntou, impaciente.
Terminei de mastigar e a olhei.
- Você vai fazer uma coisa para mim.
Ela levantou uma sobrancelha, duvidosa.
- O que você quer?
Abri minha latinha de refrigerante e desviei os olhos dela.
- Ser uma garota.

Niall’s POV
Como um cara eu tenho a maior e mais absoluta dispensa da sociedade para não ligar para coisas como roupas e sapatos e cabelo. O baile de hoje era a maior prova disso. No pátio, até haviam, sim, garotas, mas nem tantas. Nas quadras, ginásio e halls, o sexo masculino imperava. Havia também uma leve agitação no ar; carros importados com vidros muito, muito escurecidos paravam, esporadicamente, nos portões da escola e de lá desciam homens que pareciam mordomos ou o que fossem e entregavam sacolas e caixas para alguns alunos que os esperavam. Acho que eram os empregados do povo rico que ia entregar smokings, vestidos e coisas do tipo, bem como, obviamente, era assim que os alunos conseguiam bebidas alcóolicas e batizavam as coisas do baile. Bom, pelo menos esse seria meu plano, já que parecia que essa escola lambia o chão daqueles mais ricos.
Mas cuspir no prato em que se come também não é recomendável.
E eu, como o resto do povo, estava nas quadras. Era a vez do grupo que eu fazia parte entrar para terminar a partida de mata-mata que estava rolando. Futebol era uma coisa que eu era particularmente bom. Meu time estava ganhando e estávamos com uma vantagem de um jogador a mais, já que um cara do outro time resolveu dar um beijo no chão de cimento ao invés de chutar a bola. Não tive mais que o tempo de olhar para checar se minhas coisas ainda estavam no chão, perto da quadra, e vi carregando uma caixa, descendo as escadas de pedra que davam acesso ao ginásio. Gritei qualquer coisa parecida com um “tenho que ir, valeu” e peguei minha mochila do chão, indo atrás da garota.
- Bom dia. – Falei, cutucando-a de um lado, mas aparecendo de outro; ela cambaleou, levemente confusa e depois soltou uma risada.
- Bom dia, Niall. – olhava para frente, mas sorria. – O que faz acordado tão cedo? Já está se arrumando para a festa?
Rolei os olhos e sabia que ela havia visto, pois ambos soltamos uma risada sarcástica. Coloquei as mãos nos bolsos e respirei fundo.
- Está animada? Ouvi dizer que é a primeira vez que você cuida da parte da decoração. Tipo, você e a são aquela dupla dinâmica...
- É, sim, mais ou menos. Esse ano nós invertemos as responsabilidades... Não sei se vai ficar tão legal assim. - Ela deu de ombros.
- Com certeza estará. - Garanti, olhando para frente. Ela desequilibrou a caixa de papelão e murmurou alguma coisa. Tirei as mãos dos bolsos e tentei pegar a caixa de sua mão. - Deixe-me pegar isso. - Ofereci, mas ela recusou, desequilibrando de novo. Insisti e ela por fim deixou que eu pegasse. - Meu Deus, o que tem aqui?!
Ela riu.
- Sidra.
- E isso pode?
- Se você não ficar doidão com suco de maçã. - Ela provocou, falando como se eu fosse deficiente mental.
- Não subestime os sucos. Conheço muita gente que fica assim com suco de cevada. - Fingi seriedade.
- Suco de cevada? - Ela franziu o cenho, sem entender. - Ah! - O rosto dela se iluminou antes de soltar uma gargalhada. - Você realmente disse isso?
Ri com ela enquanto entrávamos no ginásio. A equipe que estava arrumando tudo não deixava outros alunos entrarem lá. Sei disso porque uma garota ruiva com sardas expulsou um garoto de lá aos berros quando ele entrou procurando o celular que havia esquecido ali na aula de educação física da sexta-feira. Como eu estava carregando aquela caixa para , ninguém berrou comigo.
À primeira vista, a quadra estava uma zona. Havia balões, fitas, caixas, cadeiras, mesas e muitos rolos de fita crepe. Uma equipe velha demais para ser de alunos trabalhava em quatro mesas nos cantos, montando arranjos de frutas, petiscos e bebidas. acenou para alguém e um cara veio tirar a caixa das minhas mãos, levando-a para perto de uma das mesas com taças de acrílico.
Avistei com uma prancheta em mãos, girando tanto nos calcanhares que podia jurar que ela cairia no chão a qualquer momento. Ela acenava e apontava para homens de preto, fortes e altos, indicando onde ela queria que eles colocassem a mesa que estavam carregando. Na outra saída do ginásio, a que dava para o estacionamento dos fornecedores da escola, um cara de meia idade, óculos espelhados e headphone vermelhos entrou empurrando um carrinho equipado com uma picape e caixas de sons, com vários cabos caindo pelos lados, arrastando no chão; o DJ da festa. cumprimentou-o e guiou o cara até o local onde ele deveria instalar toda sua aparelhagem.
Ela me viu e abriu um sorrisinho, acenando. Acenei de volta.
- Niall. - me chamou. - Você pode ir se quiser. - Sorriu.
- Ah... - Cocei a nuca, decidindo o que fazer. - Hm, vou ficar aqui. Precisa de mais ajuda?
- Pode ser, como você pode ver, mal tenho ajuda aqui. - Ela olhou para todas as pessoas fazendo alguma coisa e rimos. - Estou brincando, obrigada por se oferecer.
- Imagina. É bom poder passar um tempo com pessoas realmente legais. - Dei de ombros, pegando uma toalha de dentro de uma caixa.
É muito bom.

Louis’ POV
- Me diga de novo como foi que você me convenceu de que isso era uma boa ideia. – encarei Josh encostado em uma parede de tijolos de um prédio sujo de Carlisle.
Devine revirou os olhos para mim.
- Dá pra parar de encher o saco? Eu sou genial e você está adorando.
- Ser um stalker? Eu tinha coisas melhores a fazer.
- Tipo o quê? Escolher uma porra de um smoking? Já sei, comprar a droga de um corsage para botar no pulso do Harry!
- Josh, me poupe das suas tentativas de ser engraçado. – fiz careta para ele, mas Josh apenas me ignorou completamente e fez gestos de “fica quieto” para mim olhando para um ponto do outro lado da rua.
Olhei por cima do ombro e vi saindo do telefone publico de onde estava enfiada há cinco minutos. Quando ela começou a andar em direção ao final da rua, Josh se desencostou do muro e voltou a colocar o capuz na cabeça. Revirei os olhos tão teatralmente que doeu.
- Você é patético.
- Você também está seguindo ela, o que te torna tão patético quanto eu.
- Ninguém é tão patético quanto você, Josh. – retruquei. Mas mal ou bem eu o seguia, o que dava a ele uma pontinha de razão.
Estávamos matando tempo em um posto de gasolina com um pequeno grupo de alunos do colégio naquela manhã de sábado. Enquanto metade do colégio estava à procura de vestidos para o baile, alguns de nós resolvemos aproveitar do sol do outono na cidade. quando Josh viu passar por ali e achou que era uma boa ideia seguir seus passos para ver o que ela ia fazer. Primeiramente eu ri da cara dele, mas depois de pensar por um momento sobre o que fazia em suas horas vagas sozinha na cidade, eu fui o trouxa que sou e concordei com Josh.
É sério. Quem concorda com o babaca do Josh?!
Eu não estaria ali se meus outros amigos não estivessem sendo ridículos. Liam foi para a casa dos pais com a irmãzinha gostosa, o que o tornava um ridículo por nos deixar sozinhos na porcaria que era o baile. Porque nós todos sabíamos que a única coisa que tornava os eventos do colégio menos ruins era estarmos em grupo.
Harry tinha umas tarefas de física para pagar e ficara preso na sala de aula com outros perdedores que eram tão burros quanto ele em pleno sábado-livre-pré-baile. Então só me restava o imprestável do Josh.
E até que dávamos uma boa dupla de idiotas.
- Acha que ela está fazendo o que?
- Escolhendo o vestido para o baile é que não é. – comentei e enfiei as mãos nos bolsos de meu abrigo cinza, o tempo estava meio frio. seguia caminhando em passos firmes e graciosos como era de seu feitio, nem rápidos e nem lentos, há uns bons trinta metros de nós, sem ter a mínima noção de que estava sendo seguida. Porque quem em sã consciência seguiria a Freak há algum lugar tendo coisas melhores a fazer? era o mistério do colégio, sim, mas ninguém lá dentro se importava o suficiente com ninguém além de si mesmo a ponto de seguir uma pessoa.
Eu riria da cara do merdinha que estava seguindo se tivesse a chance. Por isso, estava tentando agir não só como se não estivesse seguindo ela, mas como se não estivesse seguindo alguém no geral, porque isso era vergonhoso demais.
Mas tinha uma pontinha de diversão, então continuamos para ver até onde aquilo daria.
Nada estava acontecendo e eu estava ficando entediado até que ela soltou o cigarro que fumava e pisou na ponta antes de entrar em um pub minúsculo ao lado de um beco.
Esperamos uns dois minutos e entramos também, e segui Josh até o canto mais afastado do balcão, perto de uma janela. Josh apontou para ela discretamente, longe o suficiente e com pessoas o suficiente entre nós e ela para que fossemos notados.
Me perguntei se era assim que Josh conseguia descobrir tudo antes de todo mundo no St. Bees. Porque, cara, se ele era bom em algo na vida, era em espiar as pessoas.
Escorei meus braços no balcão e abaixei a cabeça, de um modo que visse tudo por baixo do braço e meu rosto ficasse meio escondido. Não que ela fosse me ver, porque estava meio virada na direção contraria.
tinha os braços também apoiados no balcão e girava um copo com uma dose de alguma coisa com os olhos perdidos em algum ponto sem importância. Mascava o canto do lábio como ela geralmente fazia quando estava presente apenas fisicamente em algo, como nas aulas de filosofia que fazíamos juntos.
Deus, eu era mesmo um stalker.
Será que isso dava dinheiro?
Josh pediu uma água com tônica para não sermos expulsos de lá e ri de sua cara.
- Cala a boca. Não lembrei de trazer a identidade falsa hoje. – revirou os olhos, ironizando.
Apenas balancei a cabeça e estava pronto para responder quando ele fez um gesto com a cabeça apontando para . Virei-me a ponto de ver um cara sentando ao seu lado.
Ele devia ter uns vinte e poucos anos. Usava uma touca e um óculos quadrado, um abrigo cinza, mascava chiclete e tinha aparelhos nos dentes. Ele era tipo um geek.
Sem chance que aquele cara tinha algo com ela.
E se tivesse, eu me decepcionaria de verdade com o gosto de para homens.
Mas pelo jeito o negócio deles era outro. tirou umas libras do bolso da calça e deslizou até ele no balcão, e ele a entregou dois saquinhos plásticos tocando a mão em seu joelho. Em um deles uns comprimidos e no outro maconha. Nós pudemos ver porque estávamos em um local privilegiado, mas qualquer pessoa que não estivesse perto de onde estávamos não conseguiria enxergar nada.
pegou os saquinhos e enfiou nos bolsos da jaqueta. O cara pediu à balconista uma carteira de cigarros qualquer. Trinta segundos depois ela já estava sozinha de novo, como se nada fosse mais natural do que aquilo.
Terminou sua bebida com tranquilidade, soltou o dinheiro no balcão e saiu também.
Encarei Josh e arqueei as sobrancelhas. Ele riu depois de um tempo com a mesma expressão que eu.
- Bem, é justo. Enquanto o resto do colégio tem sua diversão no baile hoje à noite, vai ter a dela sozinha no dormitório.
Balancei a cabeça, sem conseguir imaginar aquilo. Eu podia ser um trouxa e tudo mais, mas drogas realmente eram um mundo muito longe do mundo que eu vivia. Eu não via cabimento em alguém usá-las. E não era bem uma surpresa que as usasse, mas... Não sei. Foi só a imagem dela tomando comprimidos sozinha em seu quarto que me pareceu profundamente triste.
Pela primeira vez eu pensei em de um modo que ninguém mais havia pensado. Apenas uma pessoa triste.
Josh bateu em meu ombro.
- Tudo bem, mate? Vamos voltar antes que alguém encomende o seu vestido para o baile.
Empurrei sua mão para longe de mim e ele riu.
- Babaca. – ri também.

Liam's POV
Tia Carmen havia chegado há uma hora e não largava minha mãe por nem um segundo, dizendo coisas sobre bebês, livros para bebês e comida para bebês. Em outro mundo paralelo e feliz, Harry mandava fotos das garotas de roupa íntima nas janelas dos dormitórios, provando mil vestidos para o baile. No fundo, eu acho que elas sabiam que tinha gente bisbilhotando em suas janelas.
Minha mãe havia pedido – quase implorado – para que eu não ficasse enfurnado dentro do meu quarto, mas eu não podia evitar. Meu quarto era muito melhor que toda aquela conversa de maternidade de hospital. Honestamente, eu estava feliz pela minha mãe. Ela estava feliz também. Mas nada me impedia de querer que o cara com quem ela havia se casado fosse o pai da . Aquilo era quase o fim. Não que eu ficasse chateado com isso porque ela era uma gata e se – e somente se – eu quisesse, sei lá, ficar com a mina, bom, eu não poderia, porque ela é, tecnicamente, minha irmã. E isso provavelmente seria muito nojento.
Mas a verdade é que a é uma chata. Não sei o que as maravilhosas escolas da França ensinavam para as meninas lá. Provavelmente ela tomou aulas extras para ser chata. Porque era isso o que ela era. Deve haver algum motivo para isso.
A mãe dela deve ser louca.
Deve ser isso.
Porque o pai dela é normal. Ou pelo menos aparenta.
Mas minha mãe saberia que estava casando com um cara louco. Ou se casando com um cara normal com uma filha louca?
Não sabia?
Esfreguei os dedos nos olhos, tentando parar de refletir tanto sobre um assunto. Não faz bem pensar muito em algo, você pode se tornar neurótico ou até mesmo paranoico. E não são a mesma coisa, segundo uma cartilha sobre Bullying que a orientadora da escola passou no sexto ano.
- Liam? – Minha mãe abriu uma fresta e passou a cabeça por ali. Sorri, sem motivo, e me levantei da cama. – Está tudo bem? Onde está a ? Já ligou para o seu pai?
- Uou, calma, mãe. Perguntas demais. – Um ex-marido, um filho e um novo marido; ela deveria saber que só posso fazer uma coisa de cada vez. – Está tudo bem. Eu não sei. E vou ligar. – Indiquei a sequência das respostas nos dedos. – Uma hora.
Ela soltou um suspiro pesado e entrou no quarto, o salto ressoando no assoalho de madeira.
- Você tem que falar com ele. – Ela cruzou as mãos no colo quando se sentou à minha frente. – É seu pai.
- Ele não pagou a pensão. De novo.
- Ele é assim...
- Você só diz isso porque o Robert está nos sustentando agora. – Revirei os olhos, incapaz de sentir qualquer tipo de empatia por meu pai. Minha mãe abriu a boca para responder, mas não disse nada. Pude ver algo como vergonha ou orgulho ferido passar por seu rosto e, por um instante, achei que fosse chorar, mas qualquer vestígio daquilo, ela apagou, assumindo uma cara brava.
- Liam Payne. Desça agora. – Levantou-se e foi a passos largos até a porta. – E ligue para seu pai! – Saiu.
Meu pai eram outros quinhentos que eu gostaria de apagar da minha vida.
Fiz meu caminho até a porta e saí do quarto após olhar para os lados para ver se não havia ninguém que pudesse falar comigo ou vir apertar minhas bochechas dizendo o quanto eu cresci. Honestamente, essas pessoas saem de suas casas para amassar a cara de netos e sobrinhos. É para isso que eles vivem. Mas, ao contrário do esperado, no corredor só havia o ser humano que beirava o suportável. Ela estava na porta do quarto dela, amarrando o cabelo num rabo de cavalo alto e desgrenhado – não aquele desgrenhado sexy, parecia mais que ela estava maltratando o cabelo e fez um penteado inspirado em um manicômio. A meia calça estava rasgada na parte interna da coxa e o vestido – adivinha só – preto era curto demais para um evento de família.
Mas é claro que não ligava. Aquela não era a família dela.
- Parece que você magoou a Barbie. – Ela comentou de repente, lançando aqueles olhos acusadores para cima de mim.
- O quê? – Franzi o cenho.
- Sua mãe. – Ela rolou os olhos como se fosse óbvio. Ah, é, claro. – O que disse para ela? Que espera que o bebê se pareça com você? – Sorriu com escárnio.
- Para início de conversa, se a criança fosse um pouquinho parecida comigo, ela seria muito feliz. E segundo, ela seria mais feliz ainda por não ser como você.
- Ai, Liam. – Ela colocou a mão no peito, fingindo ofensa. – Sem ofender os parentes.
- Agora somos parentes? – Arqueei as sobrancelhas.
- Seria muito conveniente da minha parte, não? – Ela riu. Na parte da risada, comecei a me perguntar se ela estava sob efeito de alguma droga.
- Na verdade, sim. – Coloquei as mãos nos bolsos. – O que você tem?
- Maconha. Quer? – Sorriu de novo.
- Você não tá falando sério.
- Ah, estou sim. – O sorriso dela apenas aumentava, como se estivesse tentando reprimir uma risada com um sorriso. Ela se aproximou e tirou um cigarro fino de um dos bolsos do vestido. – Só assim para aguentar essa porcaria de festinha. – Soltou uma gargalhada, mordendo a ponta do cigarrinho. Segurou a gola da minha camisa e me puxou de volta para dentro do meu quarto, fechando a porta atrás de si.
sentou-se na cama como uma criança, cruzando as pernas e acendeu o cigarrinho, dando uma longa tragada.
Eu quase me dei um soco na cara por achar aquilo muito sexy.
Sentei-me ao seu lado e tirei o cigarrinho de sua mão, fumando também.
- What a bad guy, Liam Payne. – Ela riu, olhando para mim atentamente. – Acho que isso vai fazer mal para seu teste para o time.
Puta merda, o time. Tossi, quase me engasgando com a fumaça. Ela riu e eu, sem conseguir me conter, ri junto.
- Ainda bem que não fazem teste antidoping. – Franzi o cenho e riu de novo. – Se não eu estava ferrado, .
- Não, você estaria chapado! – Rimos. – Entendeu? Chapado!
Parecia que ela estava se movendo em câmera lenta e isso fazia tudo ficar mais engraçado. Ela caiu com a cabeça no meu ombro e puxou o cigarro para a boca. Ficamos rindo, olhando para a parede, fazendo comentários idiotas e fumando.
Havia algum tempo que eu não fazia algo idiota assim.
- Liam? – Ela chamou quando o cigarrinho se acabou em um montinho de cinzas.
- Diz. – Olhei para ela.
- Eu quero muito te beijar agora.

Louis’ POV
- Harry... Foi você que marcou essa pontuação? – gritei para Harry no banheiro do nosso quarto, segurando o controle desgastado do videogame em mãos, sentado no chão em frente à TV. O controle devia ser preto, mas já descascava nas pontas de tanto que era usado.
- Hum, qual? – ele gritou de volta. Já saíra do chuveiro porque não havia mais barulho de água.
- Na versão pirateada do Pac Man.
Ouvi uma gargalhada vinda do banheiro.
- Tá jogando mesmo essa porcaria?!
- Foi o único que sobrou. Os outros perderam a graça. Me lembre de, na próxima vez que formos à cidade, comprar uns jogos decentes em vez de ficar bêbado.
- Isso se houver próxima vez, depois do episódio da semana passada. – Harry saiu do banheiro com uma samba canção e passando a toalha no cabelo. Parou ao meu lado, de pé, na frente da TV. – Só a joga essa droga. Ela diz que vicia.
- E é verdade. – Concordei, olhando para cima e me arrependendo no mesmo momento. – Por Deus, Styles! Bota uma calça! – fechei os olhos com força e fiz uma careta.
Ele riu e me ignorou, jogando a toalha em cima de sua cama e se jogando por cima.
Soltei o controle ao meu lado no chão e me levantei com um pouco de dificuldade. estava certa. Eu precisava de um pouco de exercício. Levantei os braços e me alonguei, sentindo o pescoço e as costas estalarem.
Eu e Josh voltamos ao colégio antes do meio dia. A cidade estava tão caótica quanto a escola, só que aqui tinha comida de graça. Só o que se ouvia falar, em cada canto, era baile. E não tinha uma garota gostosa sequer para olhar; todas haviam sumido.
Fui até a janela e puxei uma ponta da cortina fechada, espiando para fora. O sol brilhava ainda mais forte do que de manhã, o que era algo inédito para o outono na Inglaterra.
- Caramba, dude, temos que parar de ficar fechados no quarto ou qualquer dia vão dizer que você tá me comendo no lugar da .
- Não muda muita coisa. – ele soltou uma risada seca. – Eu não comeria nenhum de vocês.
Depois de um tempo olhando o movimento, soltei a cortina e olhei para ele atirado de bruços em sua cama.
- Talvez o Liam. – concluiu, a voz abafada pela bochecha estar amassada no colchão.
Gargalhei.
- Vai mesmo ficar aí jogado feito uma ameba?
Harry não se deu ao trabalho de responder, só resmungou. Esperei por um momento. Ele suspirou pesadamente e sentou na cama com dificuldade – ou preguiça, o que vier primeiro.
- Vou ficar e treinar um pouco a guitarra. Niall me emprestou um caderno de acordes.
Arqueei as sobrancelhas.
- Tá bom. Você que sabe. Vou pegar uma vitamina C lá embaixo.
Tirei a roupa amassada que eu usara para dormir e coloquei uma bermuda clara e uma regata verde com um abrigo preto por cima. Assim como o sol estava presente, podia não estar mais quando eu chegasse lá embaixo. Aqui o clima era assim.
Saí do dormitório masculino caminhando com calma, aproveitando do momento, sem pressa alguma. Eu resolvi ir até o refeitório, que era um lugar bem quieto depois que o horário do almoço acabava. Eles geralmente deixavam uma mesa de frutas durante a tarde, depois da sobremesa. Afinal, de algum jeito ou de outro tinham que nos sustentar com comida de verdade, e não as porcarias de dentro das máquinas dos corredores.
Como eu preverá, lá estava a mesa com as frutas quando cheguei ao refeitório. Havia apenas uma pessoa lá dentro. Uma garota, no canto mais longe, na mesa mais afastada da porta. Parecia dormir por cima dos braços, na mesa. Dei de ombros. Cada um sabe dos seus problemas, pensei.
Peguei uma maçã verde ainda um pouco molhada por ter sido lavada há pouco e saí de lá, fazendo o caminho até o pátio, onde estavam boa parte dos alunos do colégio. Afinal, o que mais fazer durante um sábado de tarde, senão fazer social e pegar uma luz? Eu era uma das pessoas que tentava ficar o mais longe possível de qualquer sala de aula ou coisa que me lembrasse que, na segunda, aquele lugar voltava a ser uma escola, e não um grande campus de convivência de jovens.
Depois de oito anos no St. Bees, você se acostuma.
Estava aproveitando de minha maçã e olhando em volta para ver se encontrava um rosto conhecido, enquanto passava pelo pátio. Com certeza Liam estava aqui fora em algum lugar.
De repente, junto com a fria brisa que soprou vinda do lago, veio uma folha de papel que se prendeu à minha perna enquanto eu andava, com a força do vento. Me abaixei e peguei a folha de fichário simples com uma caligrafia fina em tinta preta. Levantei e meu olhar seguiu para o lugar de onde ela veio.
estava sentada no gramado embaixo de uma árvore que fazia uma sombra grande acima dela. Não havia mais ninguém perto dali, e também não achei que haveria, porque todos estavam aproveitando o sol. E além disso, ela era a única com um fichário aberto em cima dos joelhos.
Interessante.
Caminhei os cinco passos até lá e entreguei-lhe a folha. Ela levantou o rosto, tirando uma mecha do cabelo que o vento soprou no rosto, parecendo não ter sentido falta da folha até então. Subiu o olhar da folha de papel em minhas mãos para meu rosto.
- Obrigada. – sua voz seca respondeu, pegando a folha de minha mão e enfiando-a entre as outras no fichário. Voltou a olhar para baixo, para o livro aberto entre seu fichário.
Eu fiquei impressionado. Não sabia que ela fazia o tipo que lia. fazia o tipo que lia. A Freak não.
Olhei em volta por um momento logo depois de lembrar de ultima vez em que tive um contato direto com . Foi na entrada do refeitório na quinta feira, quando eu não fui o único que fiquei mais do que chocado com sua atitude de... Flertar comigo, ou algo do tipo.
Então, percebendo que ninguém sequer notava nós dois daquele lado do pátio, eu tomei uma decisão de súbito.
Passei as mãos na bermuda, e sentei ao seu lado.





Capítulo 10



’s POV
- Vamos entrar nessa aqui. - Falei, apontando para uma loja de roupas mais finas que achamos em Carlisle. É claro que todas as outras meninas já haviam comprado seus vestidos enquanto , é claro, escolheu ficar jogando qualquer jogo de videogame estupido com Harry. E, com isso, seria muito mais difícil achar alguma peça bonita... Ou pelo menos original. Sei que não é muito ligada no mundo das garotas, mas tenho certeza de que ela se sentiria igualmente incomodada se estivesse com o mesmo vestido que outra garota no baile. Essa era minha chance de colocar algumas coisas que são, sim, importantes para uma garota. Não essenciais, claro, mas é legal ter cuidado com sua pele, passar um filtro solar, pelo menos. De qualquer maneira, não quero ninguém triste ou chateado no baile.
- Não tem ninguém para abrir a porta para nós? Seu nível em lojas está caindo, hein? - debochou, puxando a porta para entrar. Revirei os olhos e fui com ela para dentro da loja com decoração rústica. Olhei em volta, analisando possíveis peças.
- Bom dia, como posso ajudar? - Uma atendente veio nos receber com um sorriso artificial no rosto. me deu um olhar nervoso, fazendo-me tomar a frente da situação. Sorri de volta e imitei seu cumprimento.
- Gostaríamos de vestidos para festa.
- Oh, sim. - Ela juntou as mãos e nos guiou até uma das várias araras. - Alguma preferência de cor?
- O que você tiver aí...
- Por favor, a cor ideal para o tom de pele dela. Eu estava pensando em alguma escala de preto ou verde escuro.
A moça pareceu pensar bem sobre meu conselho e seguiu para outra arara com vestidos longos. Eu não sabia se tinha preferência de comprimento ou cor, mas ela havia me dado plenos poderes sobre o dia de hoje então seria do meu jeito. O que, claro, significa o melhor jeito.
- Vamos experimentar esses. - Puxei três vestidos e passei para , que, relutando um pouco, dirigiu-se ao provador. - E não se acanhe, , quero ver todas as opções que temos. - Falei por cima do ombro, meus olhos ainda dando atenção aos vestidos nas araras. Ela murmurou algo e então fechou a cortina. Virei-me para a atendente. - Vocês vendem sapatos?
Ela sorriu e negou com a cabeça.
Ótimo, pensei.
Precisava me organizar: tinha que fazer o cabelo e as unhas e a maquiagem, tudo isso no intervalo de quatro horas. E eu também precisava me arrumar.
Fiz as contas mentalmente, vez ou outra xingando por deixar tudo para a última hora.
- . - Ouvi me chamar. Pelo som de sua voz pude deduzir que ela não gostou.
E nem eu gostei quando olhei para ela.
- Adorei a cor. - Falei, mas torci o nariz. - Você ficou sem peito.
Ela soltou uma risadinha seca.
- Eu não tenho peito. - Disse, revirando os olhos.
- , por favor. - Passei a mão pelos cabelos. Aquilo não era verdade. Ok, ela não era nenhuma Kim Kardashian, mas ela era bonita e tinha um corpo legal. - Apenas mude de vestido. Se isso te fizer sentir melhor, compramos um sutiã de enchimento para você.
Ela fechou a cara e jogou uma luva em mim. Joguei de volta e apontei para o provador.
Voltei a garimpar as araras atrás de algo que não despeitasse minha colega de quarto. experimentou o segundo vestido e eu quase chorei quando ela puxou o tecido com a mão, mostrando que havia pano para fazer outro vestido ali. E então ela foi provar o terceiro.
Isso vai ser mais complicado que deveria ser.
- , vista sua roupa, vamos à Lanes Shopping Center... Não, calma. - Tirei um cabide da arara. - Vista esse.
Passei o cabide para ela, que puxou minimamente a cortina para pegar o vestido. Revirei os olhos, era cheia de frescuras quando se tratava disso.
Esse fato me levou a pensar sobre outro detalhe importante: como ela vai reagir quando tiver olhares voltados para ela nessa noite? Porque, modéstia à parte, ela vai ficar linda quando eu acabar meu trabalho. Como ela vai reagir quando Harry olhar para ela e enxergar que, por debaixo das roupas largas de times de futebol, dos jeans rasgados e do tênis All Star surrado, há uma garota linda?
- Hm... ? - Chamei. Quando ela murmurou de volta, eu prossegui. - O que você faz para aliviar o nervosismo? - Perguntei, como quem não quer nada.
- Ah, não sei... Depende da situação. Por quê?
- Nada. Apenas pense sobre isso.
- As pessoas vão olhar para mim, não vão? - Ela saiu do provador, o semblante melancólico. - Como se eu existisse ou valesse alguma coisa.
- Não fale desse jeito... - Olhei o vestido que havia dado para ela provar. - Ele fecha atrás? - Não esperei sua resposta e fui até ela, dando a volta em sua silhueta. Puxei o zíper para fechar e arrumei um ou dois fiapos que estavam saindo da gola de trás por causa da renda que revestia o vestido. - Vire-se para o espelho, .
Ela fez o que eu disse e parou de frente para o espelho, olhando-se como se fosse outra pessoa no reflexo. Às vezes, é pura besteira essa coisa de "o vestido perfeito", mas esse era um dos momentos raros em que dizem "é esse o vestido". E eu não podia descrever como ela estava. Ela apenas estava linda.
- ... - Ela passou as mãos pelo vestido.
- Vamos levar esse. - Anunciei, tirando minha carteira da bolsa. puxou a etiqueta do vestido e suspirou.
- Não vou deixar que você pague quatrocentos e cinquenta libras num vestido. - Disse.
- Ainda bem que não estou pedindo permissão. - Abri um sorriso cínico para ela e estendi o cartão de crédito para a atendente. suspirou de novo e entrou no provador. - Não é isso que está te incomodando, não é?
- Não. - A resposta demorou um pouco para vir. Cruzei os braços e encarei a cortina de veludo azul escura, como se isso fosse suficiente para cavar um buraco nas costas de . Esperei que ela completasse, mas ela não disse nada.
- Aqui está. – A atendente me devolveu o cartão e pegou o vestido que acabara de jogar por cima da cortina para embalar. Agradeci brevemente e troquei o peso do corpo de um pé para o outro, já impaciente.
- , por favor. Ainda precisamos de sapatos! – Olhei o relógio de pulso, calculando novamente o tempo que nos restava.
Ela saiu tropeçando do provador, vestindo o casaco de time – que eu tinha quase certeza que era do Harry. Peguei a mão dela e a arrastei para fora da loja. Acenei para o primeiro táxi que vi e entramos nele sem cerimônias.
- E o vestido...? – perguntou vagamente.
- Eles entregam na escola.
- Tá brincando. – Ela cruzou os braços e olhou para mim.
- Por que eu estaria? Não é nada prático carregar a capa com o vestido, ok?
- E se eles não entregarem?
- Eles vão entregar, . Relaxa. – Dei dois tapinhas em sua coxa antes de me virar para o motorista. – Vamos para o Lanes Shopping.
- Você está tentando me sabotar, ? – Ela me olhou, desconfiada.
- O quê? Claro que não, Enfant. – Rolei os olhos. – Você pediu minha ajuda, certo? Boa pessoa que sou, estou ajudando.
- E muito modesta também. – Observou.
- Detalhes. – Ri fraco.
O silêncio caiu entre nós e, estranho ou não, eu não queria que aquilo acontecesse. Primeiro: estávamos apenas eu e ela e meu celular estava com vinte por cento de bateria. Segundo: eu realmente queria seguir o conselho de e tentar, pelo menos um pouquinho, ser amiga da . E terceiro: porque esse tipo de silêncio que se seguiu é realmente desagradável.
- Há quanto tempo você gosta dele? – Perguntei, de repente, porque me pareceu o tipo de coisa que rende conversa. Mas, ao contrário da reação normal, pareceu que eu havia lhe dado um tapa quando ela se virou para mim.
- O quê?
- Harry.
- Como você sabe?!
- Por favor, , acho que todo mundo sabe. – Revirei os olhos. Ela olhou com horror para mim. – Ok, nem todo mundo. Talvez as pessoas afim dele ignorem o fato de vocês serem muito colados e tal. Bom, é minha teoria.
Quando ela viu que eu não ia desistir da ideia dela gostar dele, suspirou.
- Tanto faz, não é recíproco. – Murmurou.
- Besteira. Talvez ele goste de você, só não sabe ainda...
- Duvido. – Ela não olhava para mim enquanto falava. Lá fora, o shopping ficava cada vez mais próximo. – Ele gosta de outro tipo de garota.
- O Harry não tem isso de tipo. Você sabe. – Olhei para ela.
- É. Qualquer um, menos o meu.
- E qual é o seu?
- O tipo que ele jamais pensaria como garota. – Um certo tom de amargura encheu sua voz. – Eu sou a “melhor amiga”.
Por um pequeno instante, minha vontade era de rir. Quem diria que mulheres também poderiam sofrer com a tal Friendzone. Era quase triste ver alguém assim. Harry devia imaginar com um pênis, pelo menos. Mas contive minha vontade malvada e repentina de rir e olhei para ela, tentando mostrar empatia.
- Você é como um irmão para ele. – Assenti, mordendo o lábio.
- Você é um monstro, você quer rir! – Ela parecia que ia me bater e eu não aguentei, tive que rir. – Vai tomar no c...
Não ouvi ela terminar a frase, pois ela saíra do carro assim que o taxista estacionou em frente ao shopping. Entreguei o dinheiro ao motorista e saí do carro, recompondo-me. Olhei em volta à procura de , mas não a vi, por isso entrei no shopping.
- Aí está você. – Comemorei quando a achei sentada em um banco, mexendo em seu celular. – Que gracinha, , você está vermelhinha. – Apertei sua bochecha.
- Não fode, princesa.
- Ok, . – Suspirei ao ouvir o apelido que ela tinha para mim. – Desculpe. É só que é estranho o Harry selecionar tanto assim.
- Eu não sou que nem você.
- Isso significa que ele ficaria comigo? Ew. – Torci o nariz e ela olhou para mim, meio com raiva. – Não estou desdenhando, é só uma questão de gosto.
- Tanto faz.
- Olha, eu só quero uma coisa de você, . – Falei e ela olhou para mim. – Seja lá qual for o motivo dessa sua vontade de mudar... Seja algo que você sentiu, percebeu ou se foi algo que alguém te falou... Não faça isso se não achar que não vale a pena, ok? Não vale a pena mudar sua aparência por causa de um garoto...
- Isso não é por causa do Harry...
- Ok, . Não estou julgando. Só quero que faça isso pelos motivos certos, ok? Se quiser parar, tudo bem...
- Não quero parar, . Eu quero mudar.
Olhei atentamente para ela, esperando francamente que ela não estivesse fazendo isso para chamar a atenção do Harry. Mas, talvez, eu estivesse tirando conclusões rápido demais. Talvez ela realmente estivesse precisando de um pouco de um outro mundo para descobrir algumas coisas. Então, depois de um ou dois segundos refletindo, esperei que um dia ela pudesse me contar seus motivos e, ainda, dizer se valeu a pena.
- Ok. – Disse apenas e sorri para ela, tentando passar alguma confiança.

’s POV
Eu estava tendo sucesso em ignorar a presença de Louis Tomlinson parado em pé à minha frente, presa em minha leitura e com os fones nos ouvidos, quando ele resolvi sentar.
Levantei a cabeça, surpresa.
- O que está fazendo? – virei o rosto para ele.
- Sentando.
- Por quê? - meu tom soou inquisitivo.
- Não disse que estou sentando com você, . – Ele falou, como se fosse óbvio, e virou o rosto para o outro lado, encarando o movimento do pátio, encostando as costas no tronco da árvore. – Só sentei aqui.
Eu ainda o encarei por um tempo, queimando seu rosto com meus olhos, mas ele não voltou a me olhar.
Depois de um momento, resolvi que me recusava a sair dali. Eu chegara primeiro. E não podia chutá-lo dali. Eu acho.
Então, botei o fone de novo e voltei ao livro.
Virei a página.
A música acabou. Outra começou no lugar.
Virei a página de novo, e...
- O que está escutando? – ouvi abafado por trás do som da música.
Pensei em ignorar. Se eu não falasse com ele, talvez ele simplesmente fosse embora dali. Mas infelizmente não consegui me concentrar com seus olhos em meu rosto.
Deus, proximidade me deixava desconfortável.
Tirei um dos fones e o olhei. Ele levantou uma das sobrancelhas.
- Alguma banda gótica? – Seu rosto se iluminou, tentando adivinhar. – Já sei. Black Veil Brides.
Simplesmente balancei a cabeça, segurando a vontade de revirar os olhos.
- Você se impressionaria. – respondi, apenas, encarando meu livro sem de fato ler as palavras.
- O que é, então? – Sua voz irritante quebrou o silêncio logo depois.
Olhei-o, exasperada.
- Não somos amigos!
Ele riu.
- Eu não disse que somos. Deus! Que difícil, .
Realmente fiquei chocada. Eu não conseguia deixar de encarar o seu rosto. Tentar pegar algum sinal de que aquilo era brincadeira. Devia haver algum motivo pelo qual ele resolveu me alugar, justo a mim. Talvez uma aposta.
- Olha, não sei o que você está fazendo, mas...
Louis se curvou e virou a cabeça, aproximando o ouvido de meu peito tão abruptamente que dei um pulo para trás.
- Mumford and Sons! – Ele disse e sorriu presunçoso, voltando ao lugar.
Agora, honestamente, eu estava mais do que chocada. Eu estava quase que literalmente encarando-o de boca aberta, mas era mais como uma careta.
- É... – concordei, sem saber mais o que dizer, me preocupando. Talvez ele simplesmente tivesse algum retardo.
- É, também gosto deles. Legal. – ele voltou a se encostar na árvore. – Você tem bom gosto.
Depois de fita-lo por um tempo e ter certeza de que ele não iria pular em mim de novo, voltei os olhos para o livro.
Mas foi só por um segundo.
- Shakespeare, né? – comentou. – Você tem uns gostos diferentes do que eu imaginava.
Olhei-o. Ele espiava meu livro com o canto dos olhos.
- É para o teatro. – fechei o livro, enfiando um papel dobrado dentro dele.
- É? Bom, eu gosto. Era minha história preferida quando...
- Não quero falar com você. – cortei-o. Quando ele ficou quieto eu o olhei, aliviada.
- Por quê falou comigo daquele jeito na frente dos meus amigos, então? – me olhou, meio confuso e meio petulante.
- Eu estava chapada. – fechei o fichário e puxei com agilidade o fecho, rodeando-o. Levantei. – Mas não somos amigos. Espero que entenda.
Ele abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas fui mais rápida:
- E não faça isso de novo. – Segurei o fichário com as duas mãos e dei um passo para trás. – Não. – balancei a cabeça e virei as costas, me afastando a passos rápidos.
Fechei os olhos e respirei fundo. Olhei em volta enquanto caminhava, só para ter certeza que ninguém havia visto. Só faltava as pessoas verem e pensarem que podiam fazer o mesmo.
Eu não precisava disso.

’s POV
Há mais de uma hora eu estava sentada em uma cadeira giratória em frente a um espelho no salão com .
Desconfortável era como eu me sentia. Minha bunda devia literalmente estar quadrada, porque há muito tempo eu não levantava, e não era permitida nem de me mexer muito. As mãos, os pés e a cabeça estavam imóveis. Isso por si só já era um tipo de tortura para mim, alguém que não aguenta ficar quieta por muito tempo.
Eu olhava tudo pelo espelho, mas não reconhecia muita coisa. Não fazia ideia do que o cabeleireiro estava fazendo, porque ele parecia estar fazendo tudo errado, para o lado errado. Até o meu cabelo ele penteou para cima. Cara, quem faz isso com o cabelo dos outros e por quê?
Mas sua habilidade e o rosto tranquilo de na cadeira ao meu lado me tranquilizavam um pouco.
- Quietinha, já estamos terminando. – o cabeleireiro segurou minha cabeça e me fez virar para frente de novo. Olhei para pelo espelho, dessa vez, quando ela me olhou por cima da revista que lia.
- Colabora, . Já estamos atrasadas. Ainda tem a maquiagem.
Meu rosto beirou o terror.
- Ainda tem mais?!
Ela riu.
- Não aqui. A maquiagem eu vou fazer. Para começar, nada muito exagerado, sabe? Para as pessoas acostumarem. E você, também.
Suspirei profundamente, aliviada.
- Ô! – Puxei a mão em um impulso, quando algo cutucou a pele do meu dedão, e olhei rápido para quem mexia nela. A mulher sentada em um banco com um alicate na mão me olhou como quem pedia desculpa.
- Meu Deus! – o cabeleireiro deu um pulo para trás na mesma hora e me olhou horrorizado. Eu o encarei pelo espelho. – Eu quase faço um buraco na sua cabeça, queridinha!
Levei a mão temporariamente livre até o rosto, e deixei o ar escapar dos pulmões, perdendo a paciência e a sanidade também.
- .
- , agora não dá para parar. Eu te avisei antes de chegarmos aqui.
Ela estava certa, mas eu não estava fazendo isso por ela, nem por Harry, nem por ninguém. Eu estava fazendo por mim, e agora eu fazia questão de não desistir. Concluindo isso, contei até três, engoli em seco e respirei fundo, me recompondo e voltando a sentar ereta na cadeira. O cabeleireiro atrás de mim voltou a picotar meus cabelos agilmente, e a garota da unha voltou a cutucar meus dedos.
- Vou ter que usar postiças aqui, . Os dedos dela são maiores do que a unha.
Dei uma olhada cuidadosa para meus dedos, sem mexer muito a cabeça. Era verdade. Algumas das unhas ficavam na metade do dedo, enquanto a ponta do dedo era o dobro delas. Era uma compulsão, eu simplesmente era incapaz de evitar.
- Bota, só coloca uma base com gosto ruim por cima. Assim ela não rói as postiças também, o que acha, ?
Dei de ombros, já cansada de discordar de . Ela estava fazendo muito por mim, e sabia bem o que estava fazendo.
Uma meia hora depois, terminamos. Os cabelos de já estavam prontos e não muito diferentes do normal, só um pouco enrolados nas pontas. Eu estava com dor de cabeça, como resultado do quanto puxaram meus cabelos com a escova.
Dei uma olhada para , que observava a minha reação, e cheguei mais perto do meu reflexo, passando a ponta dos dedos neles com cuidado. Estavam um bom tanto mais curtos. Não estavam retos e inteiros como sempre foram, e nem eram mais completamente castanhos. Eles tinham um tipo de reflexo mais claro, com alguns fios louros que mal apareciam entre eles, e as pontas também estavam mais picadas e um pouco enroladas como as de . Ele também não estava mais dividido na metade, como eu fazia, mas sim jogado um pouco para o outro lado.
Eu perdi alguns segundos mexendo neles, sem reconhece-los como meus. Depois, me afastei do espelho e encarei todos que me olhavam com expectativa.
- Tá legal. – assenti, sem saber o que mais dizer.
- Ótimo. – bateu as mãos.

Nós voltamos de táxi para a escola, e antes de descer eu hesitei um pouco. Não estava pronta para que me vissem daquele jeito
- Deixa de besteira e desce logo, . Temos três horas antes de o baile começar e a deve estar fula da vida me procurando.
Eu pulei do carro e a acompanhei pelo longo caminho até o nosso dormitório olhando para frente, mas sem olhar para ninguém ao redor para ver se me olhavam.
foi procurar pela um tempo depois de chegarmos, e enquanto isso eu tomei um banho – sempre cuidando muito, muito, muito! Para não desarrumar o cabelo – e depois de sair fiquei encarando o vestido e o sapato na cama.
Olhei no relógio e ainda faltava pouco menos de duas horas para o baile. Fiquei dando voltas pelo quarto e olhando pela janela, e me olhando no espelho, e olhando para o relógio, e sentada na cama me perguntando se eu realmente queria fazer aquilo.
Quando alguém bateu na porta eu me levantei abruptamente, ainda segurando apenas a toalha enrolada no corpo, e olhei para lá por um momento.
- ?
Porra. Harry.
Eu fiquei imóvel olhando para a porta, a boca comprimida em uma linha rígida, para não deixar nenhuma palavra escapar mesmo que fosse sem querer.
Depois de um tempo, ele bateu na porta de novo.
- ? ?
Continuei imóvel. Um minuto se passou, e eu vi a sombra por baixo da porta se afastar. Soltei a respiração que nem percebi que eu segurava, e fui até o banheiro. Eu me tranquei lá dentro e sentei na tampa da privada, segurando o rosto por vários minutos.
Cara, eu precisava fazer aquilo. Não tinha mais volta mesmo.
Eu ia botar um lembrete no telefone para mandar um email agradecendo minha mãe por ter sido a pior mãe do mundo. Como é que Josie era a pessoa mais feminina, e bonita, e simpática e inteligente do mundo? Ela provavelmente roubou isso dos outros filhos que nossa mãe pretendia ter, porque para mim não sobrou nada.
E aí, dezessete anos depois, aqui estava eu passando por essa situação.
- , você tá aí?
Saí do banheiro assim que reconheci a voz de de volta no quarto, e ela me olhou.
- Tá bem? Parece que viu um fantasma.
Fiz que não com a cabeça e prontamente sentei na ponta da sua cama, em sua frente.
- Me maquia.
Ela me olhou estranho e riu.
- Ok. Mas antes se veste, gênia. – disse, enquanto pegava seu estojo.
Levantei e peguei o vestido pendurado dentro da capa na porta do armário. Eu fui para o banheiro, porque não tinha o mínimo interesse em deixar que me vesse pelada. Vesti o vestido preto no corpo e saí do banheiro. me olhou e sorriu, vindo até mim e fechando o fecho nas minhas costas.
Nós duas encaramos a garota no espelho.
Era até engraçado. O vestido encaixava em mim como uma luva na mão. Era colado, e não era confortável como um uniforme de futebol, mas era... firme. Virei um pouco de lado para encarar meu próprio corpo enquanto alisava o vestido. Nunca pensei em meu corpo como algo bonito ou escultural, eu pensava nele como puramente atlético. Minhas pernas eram grossas e firmes, e fiquei espantada com o quanto aquele vestido deixava a minha bunda e os peitos – que eu mal sabia que tinha – maiores. Minha cintura era puramente reta, mas em compensação eu tinha o abdome definido. Era tudo resultado de anos e anos de futebol e muito treino. Eu nunca fora uma pessoa sedentária ou gordinha, e naquele momento pela primeira vez isso mostrou um resultado satisfatório.
Ao sair de meu devaneio e olhar em volta, percebi que não estava mais lá. Talvez tivesse saído para me dar algum espaço, mas como a porta estava entreaberta eu percebi que ela não pretenderia demorar.
Então voltei ao espelho, porque eu precisaria de tempo para me acostumar com aquela imagem bonita de mim.

’s POV
- Emergência. – entrou no meu quarto sem bater na porta. Desviei os olhos do espelho e abaixei o baby-liss para prestar atenção nela. olhou para ela por cima do livro que estava lendo e, como se fosse ninguém, voltou a ler. – é mais branca que eu! Droga, eu não tinha pensado nisso!
- E...? – Perguntei.
- E que eu não tenho base ou BB cream ou pó para passar nela sem que ela fique parecendo um experimento mal sucedido de bronzeamento artificial. Sério. Ela é muito branca.
- Ah. – Entendi. – Pode pegar um pouco do meu, se quiser. – Ofereci, puxando meu estojo de maquiagem para perto.
- Tomara que ela não fique parecendo um camarão...
- Hey, Cas. Relaxe. – Falei. – Respire fundo algumas vezes, ok?
- Ok. – Revirou os olhos. – E como você está? – Perguntou enquanto mexia no meu estojo.
- Estou bem, obrigada...
- Tem tomado os remédios?
- Sim, mamãe. – Bufei. Ela veio se ajoelhar na minha frente, segurando minhas mãos nas suas.
- Cuide-se um pouquinho, por favor? – Implorou, olhando-me nos olhos. Assenti, tentando ignorar o fato de que estava no quarto e que ela provavelmente estava achando tudo aquilo muito estranho. – Obrigada. – Abriu um sorriso fraco e se levantou, pegando o pote com base líquida. Deu um beijo em minha testa e se virou para sair e, antes que pudesse passar pela porta, eu a chamei. – Sim?
- Você sabe que dia é amanhã? – Perguntei, incapaz de olhar para ela. Minhas mãos estavam entrelaçadas no meu colo. A resposta dela demorou um pouco, por isso levantei os olhos e vi que ela me encarava como se escolhesse bem o que iria dizer.
- Eu queria não saber. – Respondeu e saiu do quarto.
Suspirei e voltei a fazer meu cabelo.
Em sua cama, se mexeu, parecendo meio desconfortável. Estranho era parecer desconfortável. Geralmente era ao contrário. Soltei mais uma mecha do cabelo e posicionei o aparelho para fazer o cacho, tomando cuidado para não me queimar.
- Vai ao baile, ? – Perguntei, casualmente.
- Não. – Virou a página do livro. Nem sabia que ela gostava de ler.
- Por que não?
- Não faz meu tipo.
- Nem só... Ir e curtir a música? – Franzi o cenho. Pelo espelho, olhei para ela, que levantou o celular com o fone de ouvidos pendurado nele e me lançou um olhar sugestivo. Assenti e ri fraco, pensando no quão difícil era manter algum tipo de conversa com ela. O que me fez pensar em como seria um relacionamento com ela. Tipo, um namorado, ou sei lá. Ela não era muito de falar. – Você já namorou?
- Sim. – Virou outra folha. Ela lia rápido. Peguei outra mecha.
- E como era?
- O quê? – Ela finalmente levantou a cabeça para mim. Por um momento, ela pareceu ter sido pega de surpresa pela pergunta.
- Você sabe... Vocês eram o tipo apaixonadinhos ou... Amor e ódio? – Não pude evitar um sorrisinho afetado.
- Ah... Não sei... Não sei definir como a gente era. – Falou.
- Hm... – Murmurei, aplicando um pouco de laquê no cabelo, depois passei a prancha por cima. – Namoros são difíceis.
- São mesmo. – Concordou, voltando a ler seu livro.
Alguns minutos depois, ela colocou o livro na cama e se levantou, indo em direção à porta. Antes mesmo de sair, ela já havia acendido o cigarro. E então era só eu no quarto. E tudo ficou muito quieto. Eu já podia sentir a neurose se rastejando em minha direção, por isso peguei tudo o que eu precisava para me arrumar e corri para o quarto da , sentindo-me terrível e insanamente bem lá dentro, mesmo que a primeira coisa que ouvi ao entrar fora “Puta que pariu, , isso dói!”. E eu ri.
- Algum problema se eu ficar aqui? – Perguntei, instalando minhas coisas na pia do banheiro.
- Pega suas coisas e vaza. – falou, revirando os olhos. – Claro que não tem problema.
Ri fraco de sua brincadeirinha e puxei um banco para continuar cacheando meu cabelo.
- A base deu certo? – Perguntei.
- Acabei de testar. – abriu um sorriso. – Mostra pra ela, .
virou o rosto para mim e levantou o queixo, mostrando-me o local onde havia passado a base. A região estava uniforme e parecia aveludada então acho que deu certo.
- Ficou ótimo. – Sorri. – Você vai ficar maravilhosa, . – Garanti.
- Amém! – Ela enfiou o rosto nas mãos e soltou um gritinho de dor. – Cara...
- Foi você que puxou! – se defendeu e eu ri. – Char, você pode fazer aquele coque em mim? Aquele que você fez para a formatura da sua prima?
- Claro. – Cantarolei. Ela piscou para mim e abriu um sorriso caloroso, como se me dissesse que estava adorando tudo aquilo. E eu retribuí o sorriso, sentindo-me da mesma forma.
Eu me sentia em casa.

Zayn’s POV
Arrumei meu topete mais uma vez no espelho de um dos ambientes que foram montados no ginásio da escola, certo de que nenhum fio estava fora do lugar. Precisava estar irresistível naquela noite – não que eu precisasse me produzir para ser irresistível –, precisava fazer aquela princesinha me reparar, porque ela parecia imune às minhas táticas. Girei nos calcanhares e varri aquela festinha patética com o olhar. Nada de interessante acontecendo, todo mundo se comendo, bebendo ou dançando. Típica festa de escola.
- E aí, cara? – Josh apareceu ao meu lado, com um copo de bebida na mão, a gravata azul estava presa à cabeça e sua blusa social estava metade para dentro da calça e a outra metade não. Ele estendeu a mão para fazermos um toque, mas apenas esperei que ele dissesse o que tinha para falar.
- Que foi?
- Fiquei sabendo que tem alguém te procurando... – Josh começou a desembuchar, falando errado algumas vezes, sinal que a bebida estava fazendo efeito.
- Vá direto ao ponto.
- Thifany Ferguson. – Ele abriu um sorriso sacana e me deu tapinhas nos ombros. Olhei para onde ele batia repetidas vezes e ele logo recolheu a mão.
- Quem é essa? – Perguntei, dando trela para Josh abrir o bico sobre como a garota era gostosa, peituda, não era muito de falar e, pelo que eu entendi daquele falatório, a vadia chupava qualquer um que pedisse. – E por que ela está me procurando?
- Você é o escolhido da noite, cara! Tem noção de quantos daqui esperam para ela levar para o quarto nessas festas?
- Não pode levar ninguém para o quarto. – Não que isso impedisse qualquer merda.
- Mas essa noite a Minerva e o Robert estão aqui.
Então aquilo significava passe livre para a cama das vadias do St. Bees School. Hm, isso significa que eu posso sair da seca se me esforçar um pouquinho. Não que eu esperasse que a fosse fazer qualquer merda comigo, mas eu podia terminar rápido com ela e ir resolver alguns assuntos pendentes com essa tal de Thifany boazuda.
- Quem é ela? – Perguntou Josh, olhando para um lugar qualquer que não era o chão que eu encarava.
- Quem? – Perguntei, voltando à realidade. Ele apontou com a mão que segurava o copo e eu segui. Vi parada na porta de entrada do ginásio, petrificada, olhando todos aqueles que lhe devolviam o olhar.
O que fizeram com a menina que eu dei um fora na sexta?
Ela estava sexy. E era a melhor descrição que eu podia ter e somente essa. Gostosa. Pra caralho. Vi aparecer ao seu lado, sorrindo e lhe dizendo algo ao ouvido, fazendo a outra abrir um sorriso maldoso.
- Ela tá gata demais! – Falou Josh, se fazendo presente mais uma vez. Olhei para ele, entediado e me afastei, indo em direção ao bar. Se for fazer o que estava prestes a fazer, precisava de uma dose forte, que queimasse meu fígado.
Pedi a melhor bebida que eles tinham, mas, é claro, maioridade aqui é regra e ele me deu uma batida sem álcool. Bufei alto e virei aquela porcaria de uma vez só. Vai no seco mesmo, pensei, me afastando do bar e fui atrás daquela garota. Afastei algumas pessoas enquanto andava, como se eu as repelisse naturalmente. Talvez sim.
Achei-a sozinha em uma mesa, bem afastada das outras, o som nem era tão alto dali. Abri um sorriso satisfeito, seria mais fácil sem seu fiel escudeiro para atrapalhar.
- Você não parece estar se divertindo. – Soltei quando me aproximei suficiente para ela me escutar.
- Você parece desesperado por um beijo. – Ela respondeu, naquela arrogância dela e cruzou as pernas, deixando a mim uma visão maravilhosa de suas coxas grossas e fartas. Quem diria... Harry Styles deveria estar se revirando nas calças uma hora dessas, sabendo que nunca se deu conta de que essa garota estava ao seu lado e não a comeu quando teve a oportunidade.
Ah, não, espera. Ele não come garotas. Viado de merda.
- Então por que a gente não pula logo para o finalmente? – Arqueei uma sobrancelha, parando bem à sua frente. levantou a cabeça para me encarar com uma expressão sarcástica, quase como diversão. Ignorei essa e baixei os olhos para seu decote, que estava muito mais exposto agora. Mordi o lábio, imaginando coisas não muito ortodoxas que eu poderia fazer com aquele par.
- Por que você não tenta me convencer? – Ela me desafiou. A garota estava brincando com fogo e não sabia. Achei que Styles iria lhe dizer para ficar longe.
Estendi a mão para ela, que a aceitou imediatamente. Puxei-a de uma vez só, fazendo seu corpo chocar com o meu. Envolvi sua cintura com um braço enquanto com a outra mão segurei seus cabelos pela nuca e capturei sua boca.
- Que tal se você me mostrar um lugar mais reservado aqui? – Perguntei, sussurrando em seu ouvido, seguido de uma leve mordida no lóbulo de sua orelha. Ela assentiu, provavelmente incapaz de falar por causa da nossa proximidade. Eu já estava acostumado com aquele tipo de reação das mulheres, eu era simplesmente... Foda.
Ela segurou minha mão e nos levou para o corredor dos vestiários do ginásio. Ali estava realmente vazio e escuro, ninguém se aventuraria por lá por enquanto, a festa mal havia começado.
- Aqui está bom? – Ela quis saber, virando-se para mim.
- Ótimo. – Segurei-a novamente pela cintura e pressionei meu corpo contra o dela, chocando-a contra a parede. Ela segurou meu braço com força, me beijando em seguida. Segurei seus cabelos novamente e invadi sua boca com minha língua, sedenta por um bom beijo e meu corpo, sedento por uma boa transa, ou ao menos um bom amasso.
Desci minhas mãos para suas pernas, trazendo-as para minha cintura, deixando-a suspensa. Alisei suas coxas com força, sabia que deixaria marcas, mas não ligava, ela que quis brincar. Por debaixo do vestido, apertei sua bunda e ela deixou escapar um gemido entre o beijo. Soltei sua boca e desci um pouco para seu pescoço, trabalhando ali com a língua e com os dentes, dando chupões enquanto ela segurava com força meus cabelos, provavelmente bagunçando-os. Não fiquei feliz com aquela possibilidade e tirei suas mãos de lá, direcionando-as para a base da minha camisa social preta. era uma garotinha esperta e rapidamente alisou minha barriga por debaixo da blusa, usando as unhas de vez em quando. Voltei aos seus lábios novamente quando ela se remexeu um pouco em minha cintura e aquilo me excitou mais, despertando meu amiguinho.
já estava se mexendo em meu tronco, para frente e para trás, enquanto subia e descia suas mãos por meu peitoral, o que significava que ela já estava tão acesa quanto eu. Prendi seu lábio inferior entre os dentes e o puxei, sentindo aquela sensação gostosa que se tem quando morde algo macio. Outro gemido dela, eu já estava começando a ficar louco. Ela segurou meus ombros e mordiscou meu maxilar, descendo depois para meu pescoço. Senti suas mãos abrirem os primeiros botões da minha camisa e eu me animei ainda mais. É hoje, pensei. Apertei suas coxas mais uma vez, tentando descontar meu prazer ali, já que não podia de outra forma por enquanto. Quando ela se endireitou novamente, avancei em seu decote, beijando toda a extensão de seu colo e a parte exposta de seus seios que no momento eram a coisa mais deliciosa e incrível do mundo. Trilhei um caminho até sua boca novamente, mordiscando-a.
- Ei! Vocês dois! – Ouvimos a voz gasta e velha gritar. Soltei a boca de para poder encarar quem era o empata foda da vez. Mas que merda!, xinguei internamente. – Malik? ?
Era Robert. Como ele nos descobriu ali? Ouvi um muxoxo de desgosto de , que foi literalmente uma massagem no meu ego, não que eu precisasse ouvir seus gemidos para saber o que eu já tinha certeza: eu sou o cara. Soltei suas pernas e ela escorregou para o chão, arrumando seu vestido rapidamente. Quando ela se virou para ir embora, segurei seu braço.
- Você sabe que isso acaba aqui, não sabe? – Perguntei, certificando-me de que não teria a garota correndo atrás de mim como um chiclete no sapato.
- Você sabe que eu só queria um beijo. – Ela falou, olhando-me de cima. Melhor que ela pensasse assim, eu não ligava. Soltei seu braço, satisfeito com sua resposta e ela seguiu pelo corredor, rebolando em seus saltos.
Arrumei a gola da minha inseparável jaqueta de couro e rumei para fora do corredor, enxergando a luz cada vez mais forte à medida que eu me aproximava da saída. Quando pude finalmente ouvir a música novamente, senti outra presença perto da porta do corredor, como se me observasse. Olhei para trás e vi Harry me olhando com algum tipo de olhar homicida nos olhos.
Na hora eu entendi, mas quis provocar mais um pouquinho. Era um passatempo divertido, ver até onde Harry Styles chegava por causa de seu orgulho inflado.
- Ela sabe o que fazer com a boca, deveria experimentar. – Abri um sorriso sacana para ele. Harry me lançou outro olhar, seus olhos pareciam injetados de sangue. Ele se aproximou e me puxou pelo colarinho da blusa, segurando-me perto e incisivo. – Uh, a não foi tão bruta assim, vai com calma, Haroldão, eu não curto essas coisas que você curte, não.
Por um momento achei que ele ia me bater. E eu desejei que fizesse, mas ele pareceu seu controlar muito para não fazer isso.
- Fica longe dela. – Ele sibilou, olhando em meus olhos.
- Será um prazer. – Sorri, sarcástico e maldoso. Ele me largou com brutalidade, empurrando-me para trás e saiu, pisando duro até a mesa onde estava sentada, com sua cara de tédio de antes.
Foda-se, pensei, realmente não ligando para aquela merda.
- Olá, bonitão. – Senti um par de unhas arranharem minha barriga por trás e por debaixo da jaqueta. A voz sussurrou em meu ouvido com uma tonalidade extremamente sexy e excitante. Virei-me lentamente, pensando em quem poderia ser. Dei de cara com uma garota morena com corpo esculpido por algum tipo de deus da orgia e do prazer. Seu decote saltava aos meus olhos, assim como seu quadril largo, mas definido.
- Deixe-me adivinhar: Thifany? – Perguntei, sorrindo de canto minimamente. Já ela me abriu um sorriso largo.
- Eu estava te procurando. – E, dizendo isso, pousou o dedo indicador em minha boca e, com a unha, traçou uma linha até o meu cinto, puxando-me por ele, e mesmo com nossos corpos colados, ela invadiu um pouco mais minhas calças, fazendo aquele meu apetite despertar.
- Espero que consiga achar seu quarto no escuro. – Sussurrei em seu ouvido antes de apertar sua bunda e beijar-lhe a boca com ferocidade.
Isso teria de ser rápido. Eu não podia desfocar de meus planos nesse baile.

’s POV
A foto de Zayn e ficou meio escura, mas dava para notar quem eram as pessoas envolvidas naquele "momento". Havia uma página ridícula chamada "Spotted" no Facebook onde vários, vários mesmo, alunos postam fotos ou fofocas de outros alunos. Mas é claro que quando há fotos tudo fica muito mais verídico. Mandei a foto por mensagem privada ao administrador da página e bloqueei o celular. O negócio todo era meio Gossip Girl e fora parcialmente minha ideia. Eu gostava daquilo. me contou sobre o que ele havia feito com ela na aula de francês e acho que ele ficou surpreso.
Mas aí o plano parece uma furada porque no final, ele se deu bem! Quase engoliu a . Mas ela também queria isso então meio que faz sentido.
Zayn era um troglodita que conseguia fazer com que todas as garotas babassem por ele. E honestamente eu não entendia aquilo. Ele era muito bonito, é verdade, mas isso não substituía a personalidade dele e o fato das pessoas parecerem ignorar isso me preocupava um pouco. Mas também é assim com a Sally ou com a Tiffany.
Vai entender.
- Bu! - Alguém soprou no meu ouvido, fazendo-me pular na cadeira. Não precisei virar para ver quem era, pois ele arrastou uma cadeira e se sentou ao meu lado. - Boa noite, .
- É . - Corrigi-o rapidamente.
- Ótima festa. Especialmente quando você quer ir pegar comida e tem que desviar da festa inteira até chegar lá.
- Dá um tempo, Malik.
Tudo bem, talvez eu não devia ter colocado aquela quantidade de mesas na frente da mesa de comidas... era melhor nisso em muitos aspectos, mas é assim que se aprende. Zayn pegou meu coquetel e virou num gole só, fazendo cara feia no final.
- O que tem aqui?
- Sidra. - Falei rapidamente, olhando meu copo vazio. - Ou tinha.
- Chamam isso de bebida?
- Coquetel, para ser mais exata. - Cruzei os braços e olhei em volta, procurando alguém que pudesse me tirar dali. Mas estava em algum lugar desde o início da festa e eu não a vi mais. estava na pista de dança, e Liam estavam na casa dos pais. - O que você quer, Malik?
- Apenas sua agradável companhia pelo resto da noite. - Sorriu para mim, de lado, como se alguma piadinha interna o divertisse.
- Pelo resto da noite é muito tempo. E você tem um chupão no seu pescoço. Qual é o seu nível de promiscuidade, Malik?
- Isso está em aberto. - Deu de ombros.
- Incrível. - Revirei os olhos.
- Como está sua noite, ?
- . - Corrigi. - E estava aceitável até agora.
- Que tal se você parar de ser tão defensiva e a gente ter uma conversa agradável?
- Que tal você dar o fora?
- Você não quer isso.
- Ah, não? - Arqueei as sobrancelhas. Ele manteve o sorrisinho inconveniente. – Ok. Então, vamos conversar se você quer tanto isso. De onde você vem?
- Bradford. - Respondeu rapidamente.
- Minha irmã já esteve lá. - Comentei, brevemente. - Mas isso não vem ao caso...
- Não mesmo. - Ele abriu aquele sorriso estranho de novo. - E você? Mora por aqui?
- Meus pais se mudaram para cá quando eu tinha três anos. Quantos anos você tem?
- Dezessete.
- Parece ter mais.
- Eu sei.
- Posso me sentar? - Harry puxou outra cadeira e se sentou do meu outro lado, interrompendo minha conversa nada promissora com Zayn. - Preciso ficar de olho nesse aí.
Zayn revirou os olhos e escorregou na cadeira, praticamente deitando nela. E depois abriu o sorrisinho maligno. Harry, por outro lado, estava rígido e tenso, parecia uma bomba prestes a explodir... Ou prestes a voar no pescoço do Zayn.
- Ah... - Murmurei. - E por quê?
- Ele pode atacar você também.
- Hein?
- Eu devo acrescentar que foi ela quem me beijou primeiro. - Zayn parecia se divertir muito.
- Ah. Isso. - Não pude evitar uma risada. Harry olhou para mim como se eu o tivesse traído. - Não sabia que você gostava da . - Falei para Zayn e ele soltou uma risada de escárnio.
- Gostar é para os fracos, . O que aconteceu foi apenas físico. - Abriu um sorriso de lado.
Olhei para na pista de dança com uma rodinha de pessoas. Todos dançando e se divertindo, como se nunca tivessem feito aquilo antes. Com certeza para aquela era como a primeira vez. E, querendo ou não, eu gostava daquilo. Gostava não só do fato de que ela estava mais feminina - ninguém é tão altruísta assim, transformar ela em algo parecido comigo, pelo menos por fora, foi algo que eu adorei por mim - mas também o fato de que ela estava se abrindo para coisas novas.
- Certo, você é um canalha, Malik. - Repreendi, mas ele não pareceu se incomodar com a crítica. - E, Harry, a é bem crescidinha. Ela sabe o que faz e onde coloca a boquinha dela. - Olhei para ele.
- Qualquer um, menos ele. - Harry se defendeu.
- Você está bancando o papai, Harry. - Falei.
- Ele queria que ela chamasse ele de papai enquanto ele...
- Zayn! - Cortei antes que ele pudesse fazer tudo ficar muito constrangedor.
- É, Zayn. - Harry bufou.
- E você, Harry? Está aproveitando a festa? - Perguntei.
- Estou em êxtase. - Foi sarcástico, lançando um olhar homicida pro Zayn.
De verdade, qual era toda a confusão por causa do Zayn? apenas ficou com ele. No big deal! Uma garota não pode mais ficar com um garoto sem ser investigada? Se Harry estava apenas bancando o irmão ciumento, bom, ele deveria parar.
- Como está a banda, Harry? – Mudei de assunto, já que estava muito claro que falar sobre o baile não estava dando muito certo.
- Melhor impossível. Na verdade, poderia ficar. Se ele não estivesse nela. – Apontou para Zayn com a cabeça.
- Ok, para mim já chega. – Empurrei a cadeira para trás e me coloquei de pé, olhando feio para os dois idiotas que resolveram se sentar comigo. – Podem ficar alfinetando um ao outro.
Afastei-me da mesa rolando os olhos. Tirei o celular da bolsa-carteira e verifiquei as notificações. Pelo menos umas dez vinham do Facebook, por isso abri um sorriso grande, imaginando do que se tratava. Peguei outro coquetel da bandeja de um garçom que passou perto de mim e tomei um longo gole desejando, por um breve segundo, que aquilo fosse feito de algo mais forte que sidra. Mas aí eu pensei no outro dia com Liam e tirei esse pensamento da cabeça, considerando os benefícios de estar sóbria.
- Qual a graça de estar sóbria? – Zayn brotou do meu lado, interrompendo minha linha de raciocínio e me dando um susto.
- Eu disse isso em voz alta? – Franzi o cenho, após me recompor rapidamente. Ele assentiu. – Vem cá, por que você está me seguindo? Não estava ocupado irritando o Harry?
- Na verdade, ele estava ocupado me irritando. – Defendeu-se. – Eu apenas queria passar uma noite agradável com uma bela companhia.
Eu tive que me virar para ele a fim de encara-lo por alguns segundos, analisando o quão sério ele estava sobre aquilo que disse. Naquele momento, Zayn me pareceu mais misterioso que nunca, como se cada passo que ele tomasse tivesse sido precisamente calculado, e então calculava o próximo e assim por diante.
- Agora, sério. Por que você fica me perseguindo com todos esses joguinhos? – Coloquei uma mão na cintura, mas ele deve ter achado isso engraçado, pois mordeu o lábio inferior para não rir. Frustrada, deixei minha mão cair ao lado do corpo e respirei fundo. – Se você quer um autógrafo, é só pedir!
Ele riu baixo. Soltei um grunhido baixo e dei as costas para ele, indo em direção à saída de emergência. Quem sabe se ele visse que estava me irritando a ponto de me fazer sair do ginásio, ele pararia de me seguir.
Do lado de fora, o vento frio da noite me recebeu sem piedade e eu me encolhi debaixo do fino tecido do vestido, mas a sensação era boa, quase como alívio. Ali fora estava calmo, o barulho da música era abafado pela grande porta corta-fogo vermelha do ginásio. Mas logo o barulho voltou quando a porta foi aberta e depois parou, quando foi fechada.
- A verdade é que somos muito mais parecidos que você imagina. – Zayn estava logo atrás de mim.

Louis’ POV
- Você vai ficar aí parado a noite toda?
Tirei os olhos da mesa de comidas da festa, olhando brevemente para Josh antes de voltar ao salgadinho de queijo.
- Por quê? Vai me tirar pra dançar? – enfiei uma das bolinhas gordurosas na boca, engolindo de uma vez. Era a única coisa do buffet que prestava de verdade. Bem coisa das organizadoras, pedir comidas estranhas e saudáveis.
- Tá parecendo um poste parado aí.
- Não vai me deixar em paz hoje, Josh?
- Esse baile tá um saco, caso você ainda não tenha notado. – peguei mais uma bolinha e virei para ele, com um copo da bebida mais forte que encontrei na mão.
Josh olhou em volta, um pouco perdido. Ou apenas meio tonto, como era de costume dele.
- Realmente... cadê as garotas de biquíni tomando banho de espuma?
Ri.
- Isso é um baile de escola, e não uma festa em Ibiza.
Josh bufou.
Olhei em volta, para as panelinhas que se formavam na pista de dança, em volta das mesas, perto do palco. O resto dos alunos pareciam se divertir entre amigos, mas os meus haviam evaporado. Desde o início da festa eu não vira mais Harry. Liam não estava no colégio nesse fim de semana, e eu não enxergava desde o fim das aulas na sexta, então tudo que me sobrava era Josh, que não era lá muito suportável para se estar por muito tempo. Não que ele não fosse legal, mas...
- Tô entediado. Acho que eu vou pro quarto jogar um Assassin’s Creed.
- Você é deplorável, hein Tomlinson. Com tanta gatinha sozinha aí e voc...
- E você tá fazendo o que aqui, garanhão? Vai achar uma gatinha por aí.
- Só se você for perseguir a freak – riu.
Franzi o cenho para ele e limpei a mão em um guardanapo.
- Cara, foi sua a ideia de seguir ela hoje de tarde...
- E você acha que eu não ouvi as pessoas falando de vocês dois sentados juntinhos no pátio?! – olhou-me acusativo, levantando o tom agora, empolgado com a “discussão” em que engajamos.
Praguejei, fazendo com que o sorriso de satisfação crescesse no rosto de Josh.
- Por um momento eu subestimei sua capacidade de fazer fofoca.
Ele gargalhou.
- Louis e sentados numa árvore... – ele começou a cantarolar. Pedi que fizesse silêncio, olhando em volta. Eu não queria que ninguém pensasse que eu estava afim da freak. Tá, ela é gostosa, mas aparentemente não vale à pena. – B-E-I-J-A-N-D...
Avancei em Josh, impedindo que ele continuasse, e ao invés de continuar cantando ele estourou em risadas.
- Josh! Vai incomodar outro. – olhei em volta. – Ali, olha o Harry. Ele tá parecendo bem infeliz. Vai lá. Ou vai procurar o seu colega de quarto, ele não deve estar fazendo nada de melhor da vida.
Ainda rindo, felizmente, Josh me deixou em paz e se afastou. Balancei a cabeça, e voltei às bolinhas de queijo.
A música tocava alto, e eu acompanhava o ritmo com a cabeça. Planejava só encher o estômago e vazar, aquela festa não estava com nada para mim.
Em um certo momento, senti um cutucão no ombro e uma garota chamar meu nome. Virei e olhei rapidamente, encontrando cabelos louros balançarem atrás de mim. Pensei ter ouvido errado e voltei a olhar para a mesa à minha frente.
- Louis, seu babaca! – ela me puxou bruscamente e, nesse instante, encarei o seu rosto.
Dei uma guinada e estaquei.
- Em-?! – arregalei os olhos.
Para minha surpresa, ela era a dona dos cabelos louros. E do vestido colado também, e dos saltos altos também, e da maquiagem e do corpo...
- O QUE ACONTECEU COM VOCÊ?! – Berrei por cima do barulho da música.
- Me alcança um copo de ponche.
- Eu te vi ontem! Ontem de tarde! E agora você... – não pude evitar deixar meus olhos descerem até os seus pés de novo. Devia haver algum engano.
- Louis. Ponche.
- Mas... eu... – continuei resmungando enquanto virava de costas e enchia um copo descartável com o ponche. Eu não estava entendendo mais nada. Eu pensava que nem estava naquele baile, para começo de assunto. E aquela ali não se parecia em nada com ela.
- Valeu – ela agradeceu quando eu a entreguei o copo cheio, tomando um gole enquanto passava as mãos na nuca afastando os cabelos, parecendo sentir calor.
- O que foi que rolou com você? – precisei perguntar. Talvez eu só estivesse perdendo alguma aposta ou sei lá. nunca faria aquilo. Ela parecia... a .
- O que você acha que rolou, Louis?
Sinceramente, eu não sabia. Por isso, dei de ombros.
- Olha, eu vou voltar. – apontou para a pista de dança. – Valeu. – Agradeceu de novo e, me entregando o copo vazio, ela sumiu outra vez.
Fiquei parado no lugar por um bom tempo, tentando entender. Depois de uns minutos eu resolvi sair dali e tomar um ar, voltar para o quarto e jogar videogame até o outro dia.
Saí pela porta principal do ginásio e agradeci ao ouvir a música ficar mais baixa e distante. Havia poucas pessoas em volta do ginásio e perto das arquibancadas ao ar livre, mas ninguém pareceu me notar.
Lá fora os postes de luz estavam acesos, mas isso não mudava o breu total que vinha da direção do lago. Coloquei as mãos nos bolsos e fui em direção à subida para os dormitórios, que estavam bem iluminados lá em cima. Mas antes de subir, algo me chamou atenção. Eu parei de andar e dei meia volta para olhar novamente em direção ao lago, e notei uma luz vinda de perto do poste de luz mais afastado da cerca que cercava o lago.
Estreitei os olhos. Parecia um celular, e...
- Se aquilo lá não é um vagalume, definitivamente é um cigarro. – falei para mim mesmo, dando passos em direção à cerca.
Havia um pequeno corte na grade ao lado do poste. Aquele corte estava lá desde que eu entrara para o St Bees, eu sabia, mas nunca me pareceu com um convite para passar para o outro lado. Aquilo cheirava a encrenca. Talvez fosse porque, no ensino fundamental, os professores gostassem de frisar o quão expressamente proibido era a entrada no lago sem a companhia de um responsável, e eu acabei pegando um certo trauma.
Mas naquele momento aquilo me pareceu meio bobo. Porque – é claro, quem mais poderia ser? – estava sentada na grama, com o celular em uma mão e o cigarro na outra, tão despreocupada que me fez parecer meio estúpido.
Passei pelo vão da cerca e senti o ar vindo da água em direção a mim.
- Definitivamente um cigarro.
Ela se virou ao ouvir a minha voz. No momento em que me viu, eu imaginei seus olhos rolando e ela bufando mas isso não aconteceu, e até achei estranho. Ela só se virou de volta e eu sentei ao seu lado.
Quando percebi o que estava fazendo (de novo), eu xinguei Josh em minha mente. Ele estava certo sobre o que eu ia fazer, e nem eu percebi.
Mas é que ela tinha algo de instigante. Devia haver algum motivo para tanta defensiva, para ela ser como era, esquiva. E aquilo intrigava, era curioso demais. Eu precisava descobrir. Ou ao menos tentar.
tossiu fraco e continuou com os olhos no lago.
- Estou tentada.
- Isso é maconha? – apontei para o cigarro. Ela assentiu.
- Quer? – me ofereceu, e neguei.
- Está tentada a que? – fitei-a.
apenas fez um gesto para o lago.
- O que? – eu a encarei, incrédulo. – a entrar ali? – Ri.
- O quê?
- Pensei que você só fingisse que é louca.
Ela me encarou por muito mais tempo do que geralmente fazia com qualquer pessoa, e aquele olhar me queimou. Desviei os olhos.
Nesse meio tempo, entre um silêncio meio estranho, ouvi alguns passos e uma conversa na grama atrás de nós. Um grupo de quatro ou cinco pessoas, em sua maioria garotos, passaram pelo mesmo vão que eu e se afastaram conversando, andando pela margem do lago e se empurrando.
Balancei a cabeça e praguejei. Aquilo ainda ia dar merda. Essa gente não sabe ser original.
tragou uma última vez o cigarro que já estava no fim e o apagou na grama, se levantando.
- Vai fazer o que? – eu a olhei. Seu rosto estava limpo, claro, estranhamente mais leve apesar dos olhos vermelhos. Seu cabelo estava bagunçado e meio enrolado, meio rebelde, de um jeito que eu não havia visto ainda. Ela me lançou um olhar e tirou o cardigan que usava, deixando que caísse de seus ombros para o chão ao meu lado.
- ...
Ela tirou os calçados.
- Eu realmente não acho que é uma boa ideia. – disse, me levantando. Eu não podia simplesmente deixar que a freak corresse para a água como uma doida.
Mais gente se aproximava, e eu não sabia se me preocupava com a quantidade de pessoas infringindo as regras para imitar nós dois ou com a garota, que estava seriamente preparada para entrar na água.
Só que ela fez algo que eu não esperava: tirou a blusa em minha frente, e enquanto eu olhava para todos os lados para me certificar de que eu não era o único que estava vendo aquilo ali, ela já desabotoava a calça.
- O que diabos você está fazendo?! – peguei as suas roupas, que ela simplesmente empurrava para mim.
- Sendo a freak.
Ela sorriu um sorriso dissimulado e sexy pra caralho, antes de entrar na água gelada.
Dessa vez, eu estava certo de que mais pessoas viram porque o alvoroço foi grande.
E dois segundos depois as pessoas presentes estavam fazendo o mesmo.

Zayn’s POV
- Você vai mesmo ficar aqui? - perguntou, parecendo impaciente.
- Se você vai ficar aqui, eu também vou. - Dei de ombros.
- Você é tão irritante, Malik. - Ouvi-a suspirar.
- Sugiro que se acostume.
Ela se virou para mim rapidamente, uma expressão bizarra em seu rosto.
- Eu já lidei com garotinhos obcecados como você. Sugiro que você pegue suas coisinhas e caia fora. Você não vai conseguir de mim o que quer que você queira.
- Uou. - Levantei as mãos, em defesa. - Calma aí. Quem disse que quero alguma coisa? Eu só queria um amiga, .
- . - Corrigiu, por força do hábito. E depois soltou uma risada de descrença. - Você, Zayn Malik, procurando amigos? Ou pior, forçando amizade? Essa eu queria ver.
- Você está vendo.
Dentro de mim, parecia que eu estava sendo açoitado por causa do rumo que aquela conversa estava levando. Minha intenção não era parecer um carente desesperado em busca de amiguinhos. Eu não preciso de amigos. Muito menos de amigos como a .
Caralho, ela estava olhando pra mim daquele jeito, como se eu tivesse pelo menos quatro cabeças e estava nascendo mais uma no meu pé. Provavelmente eu nunca fiz um papel tão grande de otário na minha vida. E o pior de tudo era que ela estava acreditando que eu era um otário. Podia ver a pena surgindo.
Cara... Isso tem que dar certo.
- Malik...
Segurei seu braço e a puxei para mim assim que ela abriu a boca para retrucar. Passei um braço por sua cintura enquanto a outra mão segurou sua nuca. O beijo foi rápido, não durou três segundos e ela me empurrou com força, afastando-se como se eu a tivesse ofendido ou batido ou algo assim.
- Qual é o seu problema?! - Ela gritou.
- O quê?
- Você ficou com a !
- E daí? – Dei de ombros.
- Você...! - Ela soltou um grunhido de frustração.
- , relaxa. Isso acontece o tempo todo...
- Com você! Não posso fazer isso com ela!
- Não fizemos nada, . - Revirei os olhos. - Relaxa. Aliás, qual a dimensão dessa coisa que ela sente por mim?
- Você é inacreditável. Por que eu ainda falo com você?
- Porque sua melhor amiga passou a noite com o novato e você não tem tantos amigos com quem passa muito tempo.
Ela piscou duas vezes.
- Você está me observando?!
- Qual é, somos parceiros de classe. – Revirei os olhos.
- Só tivemos algumas aulas.
- É possível conhecer muito sobre alguém em algumas aulas.
- Você é assustador, Malik.
- Eu sabia que você tinha medo de mim. - Declarei, vitorioso por dentro.
- Todo mundo tem medo de você. - Ela revirou os olhos.
- Ouch. - Fiz um biquinho. - Chega disso, . Você vem cheia de não-me-toques quando falo com você, seria muito mais fácil para nós dois se você fosse um pouco menos...
- Preconceituosa? - Ela me cortou, parecendo abalada pelo termo que eu ia usar. Ela cruzou os braços e comprimiu os lábios. - Desculpe.
Por essa eu não esperava.
- Ok... Apenas...
- Nunca aconteceu. Esse beijo.
- O quê? Por quê? – Levantei as mãos.
- ...
- Você não precisa deixar de viver por causa do tesão dela.
- Péssima escolha de palavras...
- Foda-se. Ela sai e pesca os peixes dela. Não tem nada a ver com você.
- Ela pescou você. - Fez careta ao dizer isso.
- E me jogou de volta no oceano. – Dei de ombros.
Essa noite fiz três coisas que jamais achei que faria: fiquei com uma garota que rejeitei; fiz papel de otário e estou tendo uma conversa motivacional com uma garota que eu tenho que pegar, mas fazer parecer que não tô pegando. Tipo aquela parada de fazer sexo e fazer amor que pra mulher é diferente, mas pra homem é a mesma bosta porque você tá comendo alguém do mesmo jeito.
- Essa conversa deveria acabar por aqui. - Ela colocou a mão na testa como se estivesse pensando muito sobre o assunto. Dei um passo em sua direção, passando minhas mãos por seus braços, tentando acalmá-la. olhou para minhas mãos e depois olhou para mim. Tentei evitar contato visual até sentir que ela estava calma. - Zayn...
- Caralho! Essa festa tá muito... Opa! - Um grupo de garotos abriu a porta corta-fogo abruptamente, fazendo a música ficar muito mais alta e até mesmo o calor podia ser sentido. Eles nos viram e começaram a dar meia volta, mas foi mais rápida e passou por mim e por eles, entrando de volta no ginásio. O cara de cabelo grande e copo na mão olhou para mim. Ele estava simplesmente muito bêbado. - Foi mal, cara!
Respirei fundo e comecei a caminhar na direção deles para entrar no ginásio também.
- Ela é difícil, cara! - O bêbado falou quando passei por ele. - Desde que aquele babaca terminou com ela, ninguém mais se enfia debaixo daquela saia.
- Que babaca? - Opa, informação útil.
- Qual era mesmo o nome? - Perguntou aos amigos. Eles pareciam saber muito menos. - Era... Michael... Não... Jordan? Não, esse é o tio do basquete!
- Nossa, o cara é muito foda! - Outro comentou e então eles começaram a fala entre si.
- O cara! O nome dele? - Exigi, voltando a atenção deles para mim.
- Ah sim.
- Fala!
O garoto pareceu pensar por um momento.
- Owen Hastins.
Arregalei os olhos. Puta merda.

’s POV
A água gelada, de algum modo, me fazia sentir ainda melhor. Meu corpo estava arrepiado dos pés à cabeça, e cada vez que o vento soprava o corpo todo tremia, mas era um sentimento bom de certa forma.
Ao meu redor, ninguém prestava muita atenção em nada além de si mesmo, e eu não esperaria outra coisa de alguém ali. Mas era considerável o número de alunos que apareceram para fazer o mesmo desde que eu entrara na água.
Louis Tomlinson ainda estava lá na margem, hesitando para fazer qualquer coisa. Eu não prestava muita atenção nele. Até o toque da água em meu corpo me fazia sentir vontade de rir.
Geralmente o efeito da erva variava muito. Algumas vezes ela me provocava calma e até sonolência, outras provocava exatamente o contrário. Dessa vez, tudo estava passando mais lento por mim, inclusive a água e o vento.
Estar fora de si era o melhor sentimento do mundo. Era não precisar conviver com a sua mente.
Eu olhei para Louis na margem do lago outra vez, os braços meio cruzados ainda segurando as minhas roupas. Definitivamente esperava mais dele, por algum motivo.
Me aproximei da margem, e a água foi diminuindo de profundidade. Ele me olhou.
- Eu pensava que você tivesse coragem.
Ele estreitou os olhos.
- Tenho coragem. Só não sou estúpido.
Tinha algo nele. Só podia ter. Ninguém mais era tão insuportavelmente insistente.
Passei a língua pelos lábios gelados.
- Seja estúpido. – eu fiz um gesto com a cabeça o chamando.
Como imaginei, ele hesitou.
Dei de ombros, e virei de costas.
- Não pensei que você viria, mesmo.
Vinte segundos foi o que ele levou para entrar.
- Você duvidou de mim. Tive que entrar.
- Eu manipulei você. É diferente. – passei a ponta dos dedos pela água enquanto entrava mais fundo no lago.
Ele só me seguiu e não falamos nada. Perto de nós, um casal se jogava água como em uma guerra.
- Por que tá diferente agora? - ele me olhou como se me estudasse.
- Eu estou drogada. – dei de ombros.
- Não é uma justificativa.
- Não espere justificativas de mim.
Aquele olhar de quem estudava continuou me encarando. Levantei uma sobrancelha para ele, e o encarei firmemente até que ele quebrou a expressão de disputa. Eu joguei água no seu rosto.
Louis virou a cabeça, e quando virou para mim de novo pronto para revidar levantei um dedo.
- Não vamos abusar do contato humano.
Ele me olhou estranho. E aí começou a rir.
Eu não falava brincando, mas no estado em que me encontrava e com a sua risada ecoando por quase tudo em volta, tive que rir também. Não foi difícil. É isso que a maconha faz.
E ignorando a minha fala, ele revidou.

Não demorou para que eu saísse da água, o efeito estava passando e o frio começava a me vencer, eu mal sentia os meus pés e mãos. A quantidade de gente havia dobrado, e julgando pelos vestidos e calças jogadas na grama o baile havia acabado daquela maneira para muitos.
Comecei a praguejar quando pisei fora da água e comecei a tremer. Eu sempre tinha as piores ideias quando estava chapada. Sempre. Não conseguia evitar isso.
Coloquei minha calça jeans e apertei um pouco o cabelo o fazendo parar de pingar tanto. Eu coloquei minha blusa de volta, e Louis já estava ao meu lado se vestindo também.
Sempre as piores ideias, .
- Você vai ficar doente.
- Só preciso de um cigarro. – respondi, procurando nos bolsos do cardigan.
- , você vai morrer de pneumonia. – Ele disse, com convicção.
Olhei-o.
- Eu sei me cuidar. – garanti a ele.
Louis terminou de colocar sua camiseta e passou as mãos nos cabelos o colocando todo para trás. Juntou o seu blazer do chão e o colocou sob os meus ombros.
Eu suspirei.
- Legal. Valeu. – disse, apenas. Se ele queria ir por esse caminho, eu não ia cortar o seu barato. Mas realmente não estava interessado no seu blazer. Ou na sua falsa preocupação.
- Leva pro quarto, outra hora você me devolve. – ele deu um tapinha em meu ombro e se virou para colocar de volta os sapatos.
Espera. Cadê o resto?
Balancei a cabeça.
- Por que está fazendo isso? – eu o perguntei, levantando a ponta do blazer para indicar do que eu falava. Louis me olhou como se fosse óbvio demais para eu ter perguntado.
- Hum... porque não quero que você congele?
Essa me surpreendeu. Um cara que não tentou tirar vantagem. Preocupação genuína. Eu pensava que fosse só uma lenda urbana.
- Hum, tá. – dei de ombros, e peguei meus tênis, dando meia volta.
Parei quando um feixe de luz cruzou o meu rosto.
- Essas crianças estão tão encrencadas! – A voz de Minerva causou um silêncio repentino em todos e, em poucos segundos, todo mundo foi se retirando da água.
- Ótimo – praguejei.

’s POV
- De novo. – Niall olhou para mim antes de pegar dois bombons na mesa de doces, um para mim e outro para ele. Soltei uma gargalhada e peguei o doce de sua mão, sentindo-me leve como uma pluma, boba como um filhotinho de cachorro. – Juro que não trapaceio dessa vez.
- Ah, acho bom, Sr. Horan. – Mordi a língua em meio a um sorriso. – No três a gente abre. – Ele assentiu. – Um, dois, três!
Comecei a abrir o bombom de cereja rapidamente, atrapalhando-me com as várias camadas de papel que o envolvia. Quando Niall – finalmente – pegou o bombom que eu – quase me matei para – encomendar, ambos nos surpreendemos com a dificuldade que foi abrir aquele negócio. Minha cara trincou antes de cairmos em gargalhadas. É claro que ele levou apenas um minuto para abrir aquele troço, mas eu levei pouco mais que isso. E então a competição começou. Estávamos tentando de novo porque Niall havia trapaceado; ele rasgou os papéis do bombom dele e “acidentalmente” esbarrou na minha mão e meu bombom caiu no chão.
Clássico.
- Acabou! – Gritei, levantando meu bombom no ar. Niall balançou a cabeça, rindo e continuou abrindo. – Niall! Qual é! Meu bombom tá peladinho! Eu ganhei!
Ele parou e olhou para mim.
- Peladinho? – Ele segurou uma risada. – Peladinho?
- É, idiota. – Revirei os olhos e mordi meu bombom.
- Isso é tão estranho. – Ele riu.
- Apenas coma seu bombom... Sabendo que eu ganhei a corrida. – Vangloriei.
- Seus dedos são mais ágeis e menores que os meus. Fico todo atrapalhado. Como uma aranha tentando sapatear.
- What? – Joguei a cabeça para trás, rindo. – Meu Deus, Niall! Que exemplo bizarro!
- Melhor que seu “peladinho”.
- Não mesmo. A gente deveria ter apostado. Eu poderia ter pedido para ver uma de suas músicas.
- Contar que escrevo músicas foi provavelmente o pior erro da minha vida.
- Jamais. Você ainda vai me mostrar tudo. Escreve isso.
- Vou fazer uma música sobre isso.
- Vá em frente, Taylor Swift. – Alfinetei.
- Ei! Isso não é justo. Ela não é a única cantora que escreve sobre experiências de vida, ok? Então, por favor, se for me comparar com alguém que seja com um dos caras do The Script ou o Bono, falou? – Niall reclamou.
- Faltou só o biquinho. – Ri. – Ok, ok. Bono. – Arqueei uma sobrancelha. – Não sei o nome dos caras do The Script. Gosto mais de U2, nessa situação.
- Valeu. – Arrumou a gola do paletó. – Agora sim me sinto muito melhor. Viu só? Até a autoestima se destaca! Olha! Estou brilhando! Nada como ser o Bono por um dia.
- Uma noite.
- Que seja.
Um grupo de garotas passou rapidamente por nós, em direção à saída lateral do ginásio. Não só elas, como outros grupinhos saíram também. Niall e eu nos entreolhamos e demos de ombros, sem entender nada.
- Poxa, a festa é aqui! – Gritei para as pessoas, que provavelmente não escutaram por causa da música alta. Niall riu fraquinho.
- Deve estar rolando alguma briga lá fora. – Especulou ele, colocando as mãos nos bolsos.
- Uhum... – Concordei, brincando com o papel do bombom. – Ei! – Exclamei, fazendo Niall se dar conta do absurdo.
Corremos para a saída do ginásio e passamos pelas portas vermelhas e não encontramos nada. Ouvimos uma gritaria vinda detrás do prédio.
- Ai meu Deus. – Soltei de uma vez só quando chegamos ao topo da pequena ribanceira que dava para o lago. Havia tanta gente entrando e correndo para a água que eu duvidei que ainda haveria gente dentro do ginásio. Algumas pessoas estavam entrando só de roupa íntima, outras nem se davam ao trabalho de tirar qualquer coisa; amontoados de roupas e também de pudor (ou frio) eram deixados na beira do lago enquanto seus donos corriam para os braços de uma pneumonia. Ao meu lado, Niall jogou o paletó no chão. – O que você está fazendo?!
- Estou fazendo meu último ano valer a pena. – Ele respondeu categoricamente enquanto tirava os sapatos.
- Pegando uma doença? – Franzi o cenho.
- Qual é, . – Ele olhou para mim, jocoso. – Faça algo louco!
- Na última vez que fiz algo louco, acabei no balcão de um bar de quinta na periferia de Carlisle.
- Eu cuido de você. – Ele respondeu, tão natural quanto dar bom dia.
E aquilo me pegou de surpresa. E era devastador. Num instante eu estava incrédula, criticando cada um que entrava na água e cá estava eu, tirando meus sapatos e dando um nó na barra do meu vestido. Niall pegou minha mão e me puxou para descer a ladeira coberta de grama, que estava terrivelmente gelada, por sinal. Quando chegamos na beira do lago, eu já estava arrependida até a alma por ter caído naquela enrascada. O vento era muito mais gelado ali e a água mal tocava meus pés, mas eu já podia prever sua temperatura quase negativa. Niall parou quando viu que eu não ia entrar de primeira.
- Vamos! – Ele tentou me puxar de novo, mas eu não me movi.
- Tá muito frio, Niall! – Falei, encolhendo-me quando outra rajada de vento passou por nós.
- Tem que ir de uma vez só! – Ele levantou nossas mãos, apontando para a água.
- Não! – Choraminguei.
- Não! – Uma garota gritou nos braços de um garoto que corria com ela em direção à agua.
Segui-os com o olhar até eles sumirem atrás de Niall, que me olhava com um sorriso perverso no rosto.
- Não. – Declarei, dando-me conta do que ele muito provavelmente estava pensando. – Não. Não e não. Nem pense nisso.
- No quê? – Ele chegou mais perto, o sorriso aumentando.
- Niall! – Envolvi meu corpo com meus braços quando ele soltou minha mão. – Não. Fica longe de mim!
Rapidamente, eu estava em seus braços, assim como a outra pobre garota estava. Tentei espernear um pouco, mas ele não recuou. Logo a água estava em sua cintura e tocando meus calcanhares.
- Meu Deus, que gelo! – Ele gritou no meu ouvido e eu me agarrei em seu pescoço, tentando me proteger do que viria a seguir. Eu soltei uma risada nervosa e choraminguei um pouco no meio de tudo isso. – Vamos lá, ! No três, hein? Um...
- Niall! – Pedi.
- Dois...
- Niall, por favor!
- E... Três!
Emergimos antes que eu pudesse fazer qualquer outra objeção.
Frio. Era tudo o que eu sentia. Tudo estava frio demais. Tão frio que eu já sentia meus músculos entorpecendo. Niall não me soltou e logo emergiu comigo, gritando como um louco. Fora da água, o vento parecia ainda mais gelado, e então eu comecei a tremer.
- Que... Frio. – Eu dizia, batendo o queixo. Niall não estava muito melhor que eu, mas soltou uma risada gostosa.
- Vamos sair daqui. – Disse ele, nos levando para a terra seca novamente. Subimos rapidamente para onde nossos acessórios secos estavam e nos cobrimos desesperadamente com casacos e paletós secos. – Veja!
Ele apontou para um grupo de lanternas que iam apressadamente em direção ao lago. Reconheci Minerva pelo jeito meio manco de andar e comecei a tremer, sentindo a adrenalina em meu corpo. Niall nos puxou para mais perto da parede dos fundos do ginásio de modo que ficássemos fora da luz dos postes, ele ria baixinho atrás de mim. Quando eles estavam completamente de costas para nós, gritando e brigando com todo mundo lá embaixo, comecei a torcer as partes do vestido que davam para serem torcidas.
- Vamos. – Niall pegou minha mão de novo e me guiou para o pátio que dava acesso aos dormitórios. – A festa acabou. Para todo mundo.
- Eu só quero minha cama quentinha. – Murmurei, o frio era demais para gesticular bem as palavras. – Depois de um banho bem, bem quente.
- Amém, irmã! – Ele riu e espirrou. – Droga.
- Tenho alguns remédios para gripe, se quiser...
- Melhor não, já brincamos demais com nossa sorte. Eles devem estar mandando todos para os quartos, vai que me pegam na ala feminina?
- Você tem razão. – Suspirei. A ideia de deixar Niall sem ajuda me parecia algo muito errado, ele merecia toda gentileza do mundo. – Prometa que vai se agasalhar e tomar algo quente no dormitório.
- Prometo, mamãe. – Revirou os olhos. Já estávamos em frente à porta do dormitório feminino e ainda estava vazio. Talvez Minerva estivesse recolhendo nomes. – Boa noite, .
- Boa noite, Niall. – Sorri francamente para ele. – Eu me diverti muito. Apesar dos meus lábios estarem roxos e eu estar à beira de uma hipotermia... – Rimos. – Foi um dia legal.
- Foi mesmo. Desculpe pelo frio e tal. – Ele encolheu os ombros, não parecendo arrependido de nada.
Apenas ri e entrei no dormitório, deixando toda aquela noite louca lá fora.

Liam’s POV
- Tenham um bom dia. – Disse o motorista quando paramos em frente ao portão da escola. saiu rapidamente, sem responder, e bateu a porta com força. Nada me dava mais certeza de que aquela garota vivia constantemente na TPM.
- Obrigado, você também. – Respondi e saí do carro, jogando minha mochila nas costas. “Isso é pela minha mãe”, pensei. Tentei me lembrar de como ela parecia extremamente feliz no outro dia, acariciando a barriga constantemente e sempre de mãos dadas com Robert. Ele seria bom para ela, afinal de contas.
Ao cruzar a porta principal e o corredor de paredes de pedra, adentrei o pátio sentindo aquela estranha tranquilidade de estar em um lugar que se conhece bem. E notei que, para um domingo, aquela escola estava vazia e calma demais. Apenas algumas pessoas se amontoavam em cantos, debaixo de árvores e nos corredores cobertos, outros saíam do refeitório e sempre havia um e outro que ia em direção aos armários para pegar algum material de estudo.
- Bom dia. – As pessoas me cumprimentavam enquanto eu caminhava tranquilamente em direção ao dormitório. Tinha planos para hoje: estudar um pouco de Álgebra e praticar bateria. Talvez eu reunisse a galera para resolver coisas da banda.
À medida que me aproximava da grande porta de madeira, que sempre ficava aberta, eu olhava em volta em busca dos meus amigos, mas nenhum deles estava à vista. Então eu acabei entrando sozinho no dormitório e subi as escadas sem cerimônia, afinal, não estava nem um pouco ansioso para encontrar meu colega de quarto.
Aliás, por mais curto que fosse um final de semana, passar um tempo longe da escola fez com que eu percebesse como não sentia a menor falta daqui. E era estranho porque acho que passei maior parte da minha vida aqui do que em qualquer outro lugar. Tirei a chave do bolso e destranquei a porta do meu quarto compartilhado. Lá dentro, tudo estava quieto; o Malik ainda dormia, de costas para a entrada e o resto parecia em ordem. A escrivaninha dele bagunçada como normal e a minha estava do jeito que eu havia deixado. Pelo menos ele não mexera em nada meu. Larguei a mochila em cima da cama e tirei o celular do bolso, pronto para acordar um dos meninos.
Saí do quarto e apertei o botão de chamar.
- Alô? – Harry atendeu.
- Bom dia, flor do dia! – Exclamei, não muito alto. Ele murmurou do outro lado da linha e estava prestes a me xingar. Na verdade, ele me diria o horário e então me xingaria. Dei meia volta e comecei a caminhar em direção ao fim do corredor.
- Nove e quarenta e dois, puta que pariu, Liam! – Resmungou. – Não basta a porra do Louis ter me acordado às sete horas da manhã, agora você!
- Por que o Louis acordou tão cedo? – Franzi o cenho. Abri a porta do quarto de Harry e desliguei o celular. Meu caro amigo estava meio sentado, meio deitado, apoiado pelo cotovelo no colchão, a cabeça caída para baixo e o celular numa mão que não parecia ter muita força para realizar tal ato. Ele também estava sem camisa e muito provavelmente pelado debaixo das cobertas.
- Hein? – Ele levantou a cabeça, assustado. – Quando você entrou?
- O Louis, Harry. – Lembrei, sentando-me na cama de Louis.
- Ah. Ele está na detenção. – Harry largou o celular na mesa de cabeceira e voltou a deitar. – E gripado.
- Por quê?
- Algo a ver com o lago. – Murmurou.
- Lago? Harry, você tá falando grego.
- Olha só, se você quer fofoca de qualidade, vai atrás do Josh. Ou aceita minhas informações ou me deixa dormir, cacete! – Ele abriu os braços, claramente revoltado. Apenas ri e balancei a cabeça. – já está acordada?
- Pro inferno com a . – Enfiou a cara no travesseiro.
- O quê? – Fiquei preocupado de repente. Havia algum tempo que não via a dupla dinâmica brigada. E Harry não costumava ser o que ficava agressivo só de ouvir o nome, essa pessoa era a . Ele era mais do tipo que ficava tentando convencer ela a ficar normal de novo.
- Pro inferno ela e toda aquela maquiagem e salto alto e vestido e pro inferno também com o filho da puta do Zayn Malik! – Explodiu, fazendo menos sentido que um porco voador montado numa minhoca.
- Grego...
Ele se sentou na cama, exasperado. Pronto, ele ia começar a explicar. Numa versão ainda melhor do que eu conseguiria de Josh. Fiquei calado, ouvindo a horda de reclamações e exclamações dele, todos os detalhes estranhos e interessantes. Tentei não me desligar do que ele dizia várias vezes, até porque a estória era interessante, mas tudo aquilo me fazia pensar na cabeça de Harry como um grande espaço oco cheio de ideias e pontos de vista esquisitos. Principalmente os comentários e observações. Por exemplo, como um decote pode se parecer com o bico de uma bota?! Pois é, reflexões de Harry.
- Ok. – Falei quando ele parou de vomitar a história de vida dele em cima de mim. – Recapitulando: a estava de salto?
- Foi só isso que você ouviu?! – Indignou-se.
- Claro que não, mas... Uau! – Arregalei os olhos. Eu não conseguia imaginar aquilo.
- Não “uau”! E sim “what the fuck”?! Não é a nossa !
- Nossa descobriu o universo feminino. E daí? – Cruzei os braços. – Não vejo a justificativa desse seu comportamento.
- Como não? – Passou a mão pelo rosto. – Ah, esquece, você não entende.
- Verdade, vou deixar você entrar em depressão sozinho, então. – Dei de ombros. Era muito simples para mim: ela cresceu. Fim de papo. Mas se Harry queria quebrar a cabeça com tudo aquilo, boa sorte para ele. – Daí você disse que rolou uma festinha no lago? Como foi isso?
- Cara... Eu tinha que estar lá. Louis só faltou babar quando entrou no quarto, ontem. O tapado estava todo molhado. Vi no Spotted que ele estava com a quando ela entrou no lago. Só. De. Calcinha. E. Sutiã.
- Não. – Arregalei os olhos.
- Sim.
Parecíamos duas velhas fofocando. Mas... Uau. de salto e Louis vendo de roupa íntima.
- Onde eu estava nessa hora, puta que pariu! – Soltei uma risada nervosa. Caralho! Quando eu estou aqui, nada disso acontece!
- Numa casa com a gata da sua irmã! – Harry me lançou um olhar malicioso.
- Lá vem. – Revirei os olhos.
- Pegou ou não pegou?
- Se orienta, Harry. – Bufei.
- Rolou ou não? – Insistiu. Não respondi, apenas desviei o olhar, covarde que sou. – Ca-ra-lho. Tu pegou a menina! Não acredito!
- Cala a boca, Harry! – Comecei a ficar irritado.
- Não estou entendendo, você fica com a menina e não quer nem um título por isso? Vai se foder, cara! Tem uma lista de gente querendo ser você nessa escola! – Ele argumentou. Balancei a cabeça, ele era simplesmente impossível. – Não esquenta, seu segredo tá seguro comigo.

Harry's POV
só podia estar ficando louca. Ou isso, ou aquilo era tudo coisa da .
Mas a nunca ouviria uma ideia daquelas, muito menos vinda de . Então só me restava a primeira alternativa: só podia estar ficando louca.
Como é que pode alguém simplesmente aparecer irreconhecível depois de apenas algumas horas longe? Eu a havia visto na manhã de hoje, e ela estava completamente normal.
E agora isso. Vestido curto e cabelo solto e maquiagem e... Zayn Malik.
Todo mundo seguia o Spotted, e quando a notificação de post novo apareceu na minha tela, eu abri no automático. Precisei ler os comentários para entender que aqueles eram Zayn Malik e . Mas eu custei a acreditar. Devia ser um daqueles boatos, como os que rolam sobre mim e ela.
Só que o jeito como as pessoas começaram a se comportar em volta dela, e o jeito como ela continuava sorrindo e confirmando tudo, começou a ficar ridículo.
Então eu fui falar com ela, mas se enfiou no banheiro feminino e não saiu de lá por mais dez minutos. Bastou eu virar as costas e ir procurar outra coisa para ela sair de lá, e voltar à pista de dança com mais ou menos metade do colégio em volta de si.
Foi aí que eu fui procurar ele.
- Styles, não me culpe de algo que ela quis que eu fizesse.
- Você é um merda, Zayn.
Por mais que tudo que eu mais quisesse era acertar a cara dele com um murro outra vez, pelo bem daquele trabalho estúpido da aula de música eu estava tentando manter o controle.
- Eu peguei a gostosa que estava na sua frente o tempo todo, enquanto você estava comendo moscas. Eu que sou o merda? Sinceramente, cara. - riu, debochado.
Eu não pude responder. nunca seria um pedaço de carne para mim. Ela era tipo a minha irmã. Ninguém consegue pensar essas coisas de uma irmã.
A festa acabou para mim no momento em que Malik sumiu do ginásio, indo atrás de . Eu esperava mais que eles todos explodissem. Que merda de noite fora aquela. Eu só queria dormir para ver se acordava na manhã seguinte em um mundo que ainda fazia sentido e a minha amiga não fosse mais uma garotinha.
Porque nunca seria uma garotinha. Ela simplesmente não nasceu com essa capacidade. E eu achava aquilo legal. Nunca havia parado para pensar, porque até hoje era tão natural que fosse daquele jeito como era natural que eu fosse do jeito que sou. Ela já havia nascido assim, era quem ela era. Mas agora que eu havia parado para pensar, eu achava legal.
E não queria que mudasse.
Primeiro de tudo: nunca imaginei a com outro cara. Porque eu nunca a vi com outro cara de verdade. Nunca vi a beijando um cara. Nunca vi ela abraçada com um cara, ou sorrindo diferente para um cara. Ela não era o tipo de garota dos caras.
O segundo era que: a era esperta o suficiente para saber que tipo de cara era o Malik. Ela não era tipo aquelas garotas estúpidas que caem na onda de gente como ele, o que só me fazia pensar, por mais incabível que aquilo soasse para mim, que ela também queria, e só por isso aquilo aconteceu.
Eu virei o celular até de cabeça para baixo quando vi a foto dos dois, para ter certeza de que eram eles. Mas não havia duvida, e o colégio inteiro já sabia. E agora, depois de como tudo procedeu, eu não sabia como agir. Ela precisava de alguma ajuda? Queria que eu a defendesse daquela atenção toda, ou foi tudo proposital?
Porque se foi, eu nem fazia questão de dar ajuda nenhuma. A com quem eu cresci nunca seria esse tipo de garota. Então aquela não era mais ela.
Eu deixei a festa bem cedo, e ao chegar no quarto tirei a roupa desconfortável e fui tomar um banho. Depois de deitar, eu apaguei na mesma hora. Era muita coisa para pensar, e me recusei a encarar aquela situação estranha. Tinha certeza que no dia seguinte tudo estaria normal de novo, e eu faria questão de dizer à como foi estúpida a sua ideia de ter uma "noite diferente" só por causa daquele babaca.
No outro dia levantei em meio ao caos do "incidente do lago", do qual eu não fazia nem ideia, e precisei de um tempo para entender tudo que rolou. Aquela era, provavelmente, a primeira vez que eu não estava metido em algo do tipo no St Bees.
- Estão dizendo por aí que foi a Freak e o Louis que começaram tudo, mas você sabe que nem tudo é verdade. - A garota que andava sempre seguindo a professora de teatro me explicou, no refeitório, enquanto eu servia minha bandeja.
Eu tomei café sozinho, porque Louis estava começando a pagar o seu castigo junto com a metade do colégio.
Pelo resto do dia não vi nenhum deles. Eu fiquei no pátio com um grupo de caras da aula de música com quem eu nunca havia conversado antes, mas depois fui para o dormitório e dormi pelo resto da tarde.
Não vi pelo resto do dia.
Foi um fim de semana bem estranho, e eu nem sabia por onde começar a processar.
Acordei atrasado na segunda e não tive tempo para tomar café antes de ir para a aula de geografia.
- Harry! - Dei um pulo com meu nome sendo chamado na classe atrás de mim, e virei para ver quem era.
Que foi? - pisquei para Sally.
Aquela ali não valia nem um centavo do que seus pais pagavam pela mensalidade daquele colégio. Ela provavelmente já havia passado pela cama de todos os caras do colégio, incluindo a minha. Mas o que tinha de vadia tinha de gostosa. Ela era gostosa pra caralho. Não dava pra negar.
Sally se curvou em sua mesa e colocou a ponta do lápis na boca.
- Vai me contar o que está acontecendo com a sua amiguinha agora? Tá todo mundo querendo saber. - Mexeu na ponta do cabelo, enquanto seus peitos praticamente saltavam à minha vista, seu colo apoiado na classe.
- Aliás, onde ela se meteu? Todo mundo só fala nisso, é um mistério. - Olhei para a mesa do lado, onde Rebekah havia acabado de sentar, virada para mim e com os ouvidos atentos na conversa. Suas pernas estavam cruzadas e eu tinha uma boa visão de suas coxas fartas.
Uou. Espera aí. Muita informação e muita mulher gostosa ao mesmo tempo, muito cedo da manhã.
Era simplesmente demais.
Fechei os olhos de balancei a cabeça por um momento.
- Não sei. - Foi tudo que consegui dizer, antes de voltar a virar para frente. Aquelas duas davam um bom par...
Meus pensamentos foram interrompidos quando o professor entrou na sala, seguido dos alunos que faltavam, entre eles . Em uma blusa curta e justa do uniforme da escola por dentro da saia... e com uns calçados muito estranhos.
- Ela deve achar que é a princesa Mia. - ouvi Sally comentar com alguém.
Não consegui evitar a careta.
Meu Deus do céu. Minha cabeça ia explodir.



Capítulo 11

’s POV

- Ugh! Ele é tão lindo! – A menina quase gemeu, mordendo o lábio inferior. Existe uma máxima quando o assunto é biblioteca: tudo que se diz, é ouvido por alguém. Não dá para não ouvir. Ali é silencioso demais. Mas, além do meu desdém, tive a reação de procurar em volta pelo alvo de tamanha demonstração de hormônios borbulhando. E, para o meu total e insano desespero, Liam estava lá, apoiado na no balcão da ilha, jogando conversa fora com alguns amigos enquanto esperavam que a bibliotecária efetuasse o empréstimo de alguns livros que eles tinham em mãos.
O que era mais surpreendente: ver Liam na biblioteca ou ver Liam e seus amigos na biblioteca alugando livros?
Quando eu demorei mais de um segundo olhando para ele, os olhos dele vieram em minha direção, parecendo ser sem querer, mas apenas me reconhecendo ali naquele momento.
Antes que pudesse desviar o olhar e voltar a procurar um livro de Artes Naturais, tive inveja do olhar de Liam. Ele parecia não ter nenhum arrependimento neles. Como se nada do que tivesse feito fora errado ou não corresponderam expectativas. Não fosse por seu jeito cavalheiro e educado, eu diria que ele era irreverente e desafiador. Mas, talvez, até sua educação se tornasse intrigante, visto que a maioria dos caras hoje em dia são trogloditas.
Eu invejei Liam porque ele não parecia arrependido de ter me beijado na festa da mãe dele.
Voltei, então, minha atenção aos livros, procurando o título que a professora havia indicado. Ri comigo mesma ao lembrar-me do questionamento que ela fizera na aula, perguntando se havia alguém ali que nunca assistira o filme “Uma Noite No Museu”.
- Qual é a graça? – Liam brotou do meu lado, fazendo-me pular de susto. Ele riu enquanto eu coloquei a mão no peito.
- Nenhuma. – Falei, respirando fundo.
- O que você está procurando? – Perguntou, espiando o papel com o título por cima do meu ombro. – Artes?
- Sim. – Respondi.
- Naturais?
- É. Sabe que livro é esse?
- Hm... Não.
- Então vaza. – Revirei os olhos.
- Já está brava? Ainda são dez da manhã! – Ele me olhou com certa intensidade e sorriu um pouco, indicando que estava brincando.
- Já aconteceu muita coisa.
- É? Tipo...
- Achei. – Peguei um livro qualquer e abri um sorriso forçado para ele. Não me despedi, apenas passei reto por ele, em direção à ilha de atendimento. Meu coração estava a mil. Entreguei o livro à bibliotecária e esperei, impacientemente, que ela efetuasse o empréstimo. Quando ela me devolveu, Liam apareceu do meu lado novamente. Os amigos dele ainda estavam no balcão e nos lançaram um olhar curioso. – Babaca. – Falei para Liam e saí da biblioteca, sem cerimônia.
me esperava do lado de fora da biblioteca, vendo alguma coisa em seu celular. Passei por ela, gesticulando para chamar sua atenção.
- Ei, calma! – Ela se levantou do banco e correu um pouco para me acompanhar. – O que foi? Até parece que viu um fantasma...
- Nada demais. – Dei de ombros. – Só achei que estava atrasada, mas acabei de lembrar que não tenho o próximo período. – Aquilo era verdade e eu quase me senti feliz por poder voltar para o meu quarto e dormir até a hora do almoço.
- Sortuda. – Ela deu uma risadinha. – Ei, você viu a hoje?
- Não. Não tivemos aula juntas hoje.
- Entendi. Acho que ela está sobrecarregada. As eleições estão chegando.
- Ela ainda está focada nisso?
- Demais. – Ela suspirou. Às vezes eu achava que a se preocupava demais com a . Às vezes parecia quase maternal. Tudo bem que elas eram amigas, mas não precisava daquela proteção toda. Talvez uma concorrência saudável fosse fazer bem à .
- Hey. – se juntou a nós, amarrando os cabelos num rabo de cavalo alto.
- Hey. – Respondemos de volta e puxou o assunto do campeonato.
Já faziam algumas semanas, uma ou duas, na verdade, desde que mudou de... Estilo. Ela estava muito diferente, de um jeito bom, mas eu realmente queria saber qual a verdadeira motivação por detrás daquela mudança. Ela estava ficando com o Zayn, todo mundo já sabia disso. Mas ele não é um cara para namorar, então, se o objetivo dela era arranjar um namorado, ela está procurando essa agulha no palheiro errado. Por isso eu não caía no “estava cansada da minha cara de sempre!”. Quem cansa da cara de sempre corta o cabelo, pinta ele ou compra roupas novas. Não tudo isso ao mesmo tempo! Parecia aqueles filmes americanos em que a menina leva um fora e ‘BAM!’, decide mudar até de DNA.
- Ah, , você viu a hoje? – perguntou.
Ah, ...

’s POV

Quando a porta da despensa bateu, tudo ficou um breu lá dentro. Mesmo sendo meio dia e o sol estando parcialmente brilhante do lado de fora, supõe-se que uma despensa seja sempre assim, escura.
E era mesmo.
Gemi quando me encostei na parede, porque estava mais gelada do que eu esperava e o choque térmico com meu corpo me arrepiou. As duas mãos nada delicadas de Zayn apertaram minha cintura enquanto ele avançava em mim. Em minha boca, meu pescoço, meu peito. Meus olhos estavam fechados com força. Era sempre mais surreal quando eu fechava os olhos, não parecia estar acontecendo de verdade. Não consigo me decidir se isso era bom ou ruim.
Levei uma mão à sua nuca e segurei seu ombro com a outra. A mão dele que não estava entre meus cabelos, ele usou para levantar minha coxa e a encaixar em sua cintura.
Cheirava a produto de limpeza lá dentro. Cheirava a banheiro limpo.
E era tudo tão rápido com ele, tipo, como se a gente estivesse correndo de um furacão, fazendo aquilo com pressa porque talvez não houvesse tempo de terminar – o que era verdade, eu sabia. Tinha treino em vinte minutos e ainda tinha que comer. E mesmo que eu tivesse o período inteiro, não deixaria que levássemos as coisas tão longe. Não mesmo. Eu ainda tinha alguma integridade.
Quando seus lábios liberaram a minha boca, eu sorri com o pensamento que me ocorreu.
- Última vez?
- U-hum. – ele parecia gostar dos meus peitos. Era uma coisa legal, tipo, para o ego. Zayn pareceu muito ocupado para responder melhor que aquilo.
- Essa é a terceira última vez só nessa semana.
- Por que você não cala a boca, ? – ele voltou a me beijar.
Aquilo era tudo muito novo para mim. Eu não conseguia nem me importar em deixar um babaca como Zayn me mandar calar a boca, porque não era como se ele não estivesse gostando muito daquilo. E cá entre nós, eu também gostava. Bem, meu corpo gostava. Mesmo sendo rápido demais, eu me sentia bem comigo mesma – o que era bem contraditório. Eu me sentia bem ao saber que tinha a atenção dele, que tinha a atenção de alguém daquele jeito. E que estava obtendo sucesso em tudo que queria. E que tinha o controle da situação.
Era tudo muito bom. De resto, Zayn não me servia para muita coisa, e esse sentimento era certamente mútuo.

Acho que no fundo Zayn sabia que eu não ia deixar passar de uns amassos. Eu não estava pronta para um negócio desses de jeito nenhum, muito menos com alguém como ele. Por isso, mesmo depois de passados dez minutos naquela sala estreita e minúscula, quando ouvimos alguém forçar a maçaneta, ele ainda não havia tentado nada muito arriscado.
Falo sério, eu podia derrubar um cara como ele bem fácil.
Eu saí da despensa antes dele. Arrumei a saia (porque agora eu usava saia; elas não eram nada práticas), passei a mão no cabelo e respirei fundo ao olhar para os dois lados do corredor. Estava bem vazio, porque a uma hora dessas todo mundo estava almoçando.
A primeira coisa que me perguntou quando disse a ela sobre nossos encontros casuais foi:
- Uma despensa, ?! Não tinha algo mais clichê?!
Apenas dei de ombros.
- Foi a primeira porta que a gente viu.
- Uau. Aparentemente vocês estão no auge do relacionamento. – riu. – parece a minha irmã. Nada te segura.
Não dei importância para o comentário, nem muito menos entrei na questão “isso é algo bom ou ruim vindo dela?”. Eu estava passando por uma semana muito estranha. Definitivamente era a semana mais estranha da minha vida, e eu havia decidido relevar tudo que requeresse que eu pensasse muito em minha atual situação, pelo menos até eu conseguir acostumar com tudo aquilo.
Pelo menos com as botas. As botas eram a pior parte. Assim que eu acostumasse com elas, eu estaria pronta para pensar sobre todo o resto.
Corri para meu dormitório. Peguei duas barras de cereal e engoli uma enquanto colocava a roupa do treino e prendia o cabelo. A outra eu engoli enquanto ia para o ginásio.
As pessoas me olhavam muito agora. Elas sempre me olhavam, mas eu sabia que era porque eu era a melhor amiga de Harry Styles. Agora elas me olhavam porque eu estava diferente, e a sensação era ótima.
Eu não falava com o melhor amigo em questão desde o dia do baile, e estaria mentindo para mim mesma se dissesse que não era difícil. Quando eu parava para respirar, nos momentos que me sobravam de ócio, eu sentia falta dele. Dele e de todo o resto dos garotos. Ser diferente agora também requeria que eu sentasse com . Na verdade, foi uma escolha minha. Simplesmente não ia rolar sentar na mesa deles. Haveria muitas perguntas às quais eu não saberia responder, entre muitas outras coisas.
Mas não era nada fácil fingir que eu gostava de ouvir Cas e conversando sobre maquiagem ou filmes ou o livro da aula de sociologia. Quer dizer, elas pareciam gostar de falar daquilo. E eu sabia que era normal sentir falta deles. Eu só precisava acostumar. Com sorte, isso aconteceria rápido.
- Boa tarde, Cinderela. – a treinadora disse, sorrindo para mim como se estivesse vendo uma piada em pessoa. – vou te dar vinte flexões por cada minuto de atraso da próxima vez. Combinado?
Eu apenas assenti, sabendo que tudo que eu falasse voltaria contra mim.
- Como vocês sabem, o campeonato do colégio está se aproximando. Por isso, quero que deem o seu melhor para fazer um bom trabalho. Como treinadora de dois times, eu sei que é injusto que mostre favoritismo, pois estou jogando vocês literalmente uns contra os outros. Quero só deixar claro que vou trabalhar duro com as duas equipes, mas são vocês quem precisam dar o seu melhor para o bem do time.
Olhei para umas novatas, que eram novas no time e pareciam meio tensas. Era sempre assim no começo.
A cada dois anos no St. Bees havia um campeonato dentro do próprio colégio para escolher qual seria o time A e o time B. Era justo, pois em dois anos um aluno poderia melhorar ou piorar um monte. Eles também consideravam muito cada jogador separadamente, porque não convinha para o colégio escolher o melhor time, mas deixar alguns dos melhores jogadores no time B.
O time A era, basicamente, aquele que participava dos torneios regionais e estaduais, enquanto o B era só o estepe e o que jogava nas interséries contra os times B de outros colégios.
O treino foi bem intenso naquela tarde. Eu fiquei esgotada, e quando fomos para o vestiário me obriguei a tomar banho lá mesmo. Eu não gostava daquela ideia, mas não dava tempo de voltar ao dormitório.
Quando saí do box, algumas garotas conversavam enquanto trocavam de roupa em um canto. Abri meu armário e peguei um par do uniforme do colégio que deixava lá por precaução.
Ouvi as garotas abaixarem a voz gradativamente enquanto falavam, até deixarem claro que estavam falando obviamente de mim.
Vesti a blusa, depois as duas meias três quartos e uma saia.
- Hum, ? – foi Briana quem me chamou. Ela estava no time desde o primeiro ano, entrara no mesmo ano que eu e continuara firme desde então. A gente nunca trocou muitas palavras.
- Hum? – passei a toalha pelos cabelos que pingavam.
- É verdade que você... e o Zayn Malik estão ficando?
Olhei para ela e ri. Foi mais como um riso nervoso, mas elas não precisavam saber.
- Sim – dei de ombros. Me virei para estender a toalha no varal que passava por cima de nossas cabeças. O que me diria para fazer? Alisei a toalha e olhei por cima do ombro. – Mas é segredo. – pisquei com um olho e sorri.
Todas elas riram para mim, como cúmplices.
Saí do vestiário depois de dar tchau a todas elas.
Segredo, tá. Em quinze minutos todos que ainda tinham dúvidas estariam sabendo.
Mas era esse mesmo o propósito.

Zayn’s POV

- Ali... – Ouvi algumas garotas soltando risadinhas ao passarem por mim.
Ótimo, pensei. É claro que não ficaria calada sobre aquilo, não agora que estava tendo todas as atenções para si. Não que me afetasse tanto, afinal, eu estava levando vantagem também. Ela era meio inexperiente, mas fazia muito bem o pouco que sabia.
A escola estava em um clima esportivo insuportável, cheia de bandeiras e panfletos grudados nos murais de avisos: o campeonato interno será essa semana. Não que eu fosse jogar ou torcer por alguma coisa, mas todo mundo estava animado, como se fosse alguma tradição estúpida.
- Bom dia, Zayn. – veio ao meu lado, saindo de uma sala rapidamente para me acompanhar. Olhei para pelo canto do olho para ela, que tinha um sorriso tranquilo no rosto. – Niall me pediu que, se visse você, avisasse que Harry já deu os horários em que ele está disponível e que vocês precisam conversar sobre os ensaios da banda.
- Você e o Horan estão amiguinhos, hein? – Abri um sorrisinho debochado.
- Ele é legal. – Ela deu de ombros e sorriu. – Mas, hein, por favor, fale com eles. Você sabe que é importante; tanto para você quando para eles.
- Quem é você? A orientadora educacional? – Franzi o cenho e ela riu. Ri um pouco também, achando sua companhia estranhamente agradável e... Serena.
- Serei a nova presidente do Grêmio Estudantil. Preciso conhecer meus protegidos. – Abriu um sorrisinho debochado.
- Sou seu protegido? – Eu estava me divertindo com aquilo.
- Sim, você está ficando com a e ela é tipo minha amiga então você é tipo meu amigo. – Explicou.
- E tipo-amigos são beneficiados?
- Isso soa corrupto vindo de você. – Riu.
- Eu sei. E não estou ficando com a . – Revirei os olhos para a necessidade de me explicar para ela, na esperança de que aquilo fosse comentado com mais tarde.
- Não?
- Não desse jeito... monogâmico.
- Ah, entendi. Por isso você beijou a no baile. – Falou mais para si que para mim.
- Ela te contou isso? – Arqueei as sobrancelhas, bastante surpreso que ela estava falando de mim para .
- Claro, né! Somos melhores amigas, Malik. – Revirou os olhos.
- Ah... – Deixei o assunto morrer enquanto atravessávamos o último corredor que nos separava do refeitório. não pareceu incomodada com o silêncio ao caminhar ao meu lado, parecendo também não notar os olhares que recebíamos, ela tinha uma naturalidade tão acentuada que parecia até estranho.
era gente boa, concluí.
Coloquei-a na lista das pessoas para as quais dou a mínima.
- Quem é Owen? – Perguntei de repente, quando entramos no prédio, o cheiro de comida caseira nos recebeu. estava na mesa habitual e quase engasgou quando viu andando ao meu lado, em direção à fila.
- O quê? Owen? Que Owen?
- Hastins. – Respondi, ficando impaciente. Ela comprimiu os lábios e depois os umedeceu, parecendo não saber o que dizer.
- Ah... – Arrumou o cabelo. – Ele é o ex-namorado da . – Disse rapidamente.
Informação antiga.
- Por que eles terminaram? – Eu só queria uma confirmação.
- Traição. – Disse apenas, claramente dando o assunto por encerrado.
Bom, o casalzinho se merece.
Olhei para , em sua mesa lendo algo, e, por alguns instantes, eu me senti no mesmo barco que ela.

’s POV
- O que é isso? – Zayn Malik sentou – se jogou – ao meu lado no banco de pedra, pousando o braço no encosto do banco atrás das minhas costas. – Uma metáfora? – sorriu para mim, levantando a sobrancelha.
Eu o olhei. Girei a ponta do cigarro na boca com a língua e então entendi do que se tratava.
- Perdi o meu isqueiro.
Zayn olhou um pouco por cima do ombro, mas ninguém estava realmente interessado em nós dois. O pátio estava relativamente vazio, por assim dizer. Ele pegou seu isqueiro do bolso e me ofereceu.
Peguei da sua mão e acendi o cigarro.
- De que você precisa? - devolvi o isqueiro e ele guardou. Dei a primeira tragada e afastei o cigarro, soprando a fumaça.
- Você não pode acreditar que eu estava só send-
- Não. Do que precisa? – cortei-o.
Zayn se mexeu no banco.
- De informações da sua colega de quarto.
Desviei os olhos da folha de papel que eu tinha em mãos e olhei para o seu rosto.
- É o quê? – franzi o cenho.
- . . A melhor amiga da...
- . – assenti. Bufei e dei outra tragada no cigarro. – não podia só ser maconha? – dei de ombros.
- , por favor, não me subestime. Eu poderia muito bem encontrar minha própria droga. Quer dizer, se eu fosse patético a esse ponto.
Pigarreei.
- Vamos lembrar que é você quem precisa de um favor meu aqui. – bati a ponta do cigarro para caírem as cinzas.
Ele assentiu, levantando um pouco a sobrancelha.
- Owen . Ex namorado da . Preciso saber mais sobre porque eles terminaram.
Encostei minhas costas no banco e pensei naquilo por um momento. Era no mínimo –bem - suspeito. Primeiramente porque, pelo que eu ouvira, Zayn estava ficando com , que por sua vez agora era amiguinha de . E depois porque... por que ele poderia estar interessado nisso? Mas cheguei à conclusão de que 1) provavelmente só era algum plano do qual eu não queria fazer parte e 2) eu não me importava.
- Tá levantando a ficha da garota?
Zayn me lançou um olhar entediado. Levei meu cigarro à boca de novo.
- Ok, vou levar isso como um sim. Hum... E o que eu ganho com isso?
Eu não me importava, mas estava curiosa.
- Digamos que eu fico te devendo uma.
Balancei a cabeça, medindo a possibilidade, e por fim acredito que um leve sorriso se projetou em meus lábios. Eu o olhei.
- É uma boa, apesar de eu não gostar da ideia de me meter nas suas merdas.
- Eu não gosto dessa ideia muito mais do que você. – Sua resposta veio de prontidão.
- Devo perguntar...?
- Não. – outra resposta instantânea.
- Melhor assim. – dei de ombros e voltei a levantar a folha que tinha em mãos.
- Beleza. Você deve ter o meu número. Se não tem, é só pedir pro seu namoradinho. – Ele disse, já se levantando. Travei o maxilar. – Me manda uma mensagem.
Não tirei os olhos da folha.
Zayn foi se afastando, mas depois de dar um passo, virou-se outra vez.
- A propósito, você arrisca muito fumando aqui fora a essa hora do dia.
- Esse é o propósito. – levei o cigarro à boca.
Ele se afastou em seu andar leve, e só depois que estava longe o suficiente dei uma olhada para o seu lado. Franzi o cenho e balancei a cabeça, pensando no que fora aquilo. Em quando foi que eu comecei a fazer favores para as pessoas daquele colégio.
Mas saber que Zayn Malik me devia uma podia ser muito útil.
Voltei à tarefa árdua de tentar entender a letra de minha dupla da aula de biologia.
- Mit...
- Mitose. É um processo contínuo de divisão celular. – Uma voz sussurrou em meu ouvido.
- Que droga. Uma garota não pode mais ter paz nem para estudar nesse colégio. – olhei por cima do ombro.
O pior era que Louis Tomlinson não estava sozinho, dessa vez. Ele estava com uns de seus amigos.
- De nada. – deu de ombros e voltou a se virar para os outros, em pé atrás da outra mesa de pedra ao lado da que eu estava.
Eu decidira, logo depois de acordar sem voz na segunda-feira, que já havia deixado a situação com o cara ir bem longe. Por isso, começaria a me afastar sutilmente. Não dava para ser rude com Louis Tomlinson. Era como um chiclete grudado na bota. O quanto mais rápido você tentasse desgrudar, mais grudado e nojento ele ficava. Por isso tinha que ser sutil.
Ou jogar água quente em cima.
Ele pareceu enganchar na conversa com seu amigo e levantei da mesa, apagando o cigarro e levando minhas coisas para longe dali. Com sorte, eu teria mais alguns minutos de sossego antes de voltar às aulas.

Harry’s POV
Enquanto voltava para o quarto pelo corredor pouco movimentado, eu estava concentrado em exercícios mentais para não sair esmurrando alguma coisa. O dia já começara péssimo, mas se mostrou ainda pior do que era possível quando tive que ficar durante o jantar refazendo um trabalho que “para começar, a única coisa original que constava nele era o meu nome”, segundo a professora de ciências políticas.
Ela estava certa, mas não era só eu que copiava. A internet existia para todos.
Era simplesmente um dia ruim, daqueles que todo mundo tem. Eu estava impaciente, e Louis não ajudava em nada reclamando o tempo todo que eu andava “esquentadinho demais” nos últimos dias. Mas estávamos a uma semana da primeira semana de provas do ano, eu tinha muita coisa para me preocupar, e não bastasse isso o mundo parecia estar conspirando contra mim.
Meu celular tocou quando dobrei o corredor, me aproximando mais do quarto. Vi a foto de minha mãe na tela e atendi.
- E aí, mãe.
- Oi, amor! Tudo bem com vocês? Como andam as coisas?
O tom de voz hiper carinhoso de minha mãe sempre me deixava meio incrédulo. A mulher me jogou em um colégio interno há mais de três anos e ligava uma vez a cada trimestre, basicamente para descobrir se havia algum risco de eu reprovar de ano e causar mais gastos, e ainda falava daquele jeito? Não que eu não acreditasse no que ela sentia por mim, mas obviamente eu não era o filho preferido.
- Ah, está tudo ótimo. Demais.
- Verdade? E os estudos? E a ?
Revirei os olhos. Ela tinha a mania de esconder uma pergunta com a outra.
- Ah, os estudos estão indo bem.
- Oh, não. – Minha mãe pareceu meio pesarosa.
- Quê? – Era possível que ela soubesse que era mentira?
- Você respondeu direto sobre os estudos. Brigou com a , foi?
Ri, meio debochado.

- Não. - Harry, sabe que eu te conheço, né? Além disso, a sua irmã me mostra as coisas que postam sobre o colégio de vocês na internet...
- Você e a Gemma ficam monitorando a minha vida daí?! – Perguntei, incrédulo.
- Olha, Harry, se você e a estão brigados é melhor se acertarem logo, tá? A Carla quer fazer uma festa de aniversário de casamento em novembro e ela vai chamar os dois, mas não vai ser legal chegarem aqui br...
- Não quero ir para festa nenhuma. Eu tenho coisas a fazer aqui. E a Carla não é minha mãe, não me importo com quantos anos de casada ela está fazendo.
- Eu sabia que você ia dizer isso. A Carla e o Max cuidaram de você por um tempão, Harry! E não quero saber de você e a brigados, ela é uma garota legal, nós devemos muito aos pais dela por aturarem você quando...
- Mãe... – olhei em volta e falei baixo, a última coisa que eu precisava era que alguém escutasse aquela conversa constrangedora.
- E, além disso, Harry, você tem que entender. Existe um tempo na vida de uma menina em que ela começa a ver as coisas de outro modo e a mudar...
Estreitei os olhos e diminuí o passo.
- A Gemma tá aí, não tá? Ela tá te dizendo essas coisas. Tá querendo me foder.
- Harry Edward!
- Passa pra ela. Quero contar tudo sobre como vocês encontraram ela em uma lata de lixo.
Minha mãe riu por um momento. Aquela era uma piada antiga, mas minha irmã sempre chorava quando era criança ouvindo isso.
- Vou pensar sobre ir nessa festa, desde que a gente não tenha nunca mais que ter essa conversa de novo.
- Ok. Se cuida, tá bom? Te amamos.
- Ok. Obrigado. Tchau.
Desliguei a chamada e coloquei o celular no bolso já em frente à porta do quarto. Virei a maçaneta e descobri a porta aberta, Louis já devia estar ali.
Quando entrei, porém, Lou não estava sozinho. Ele estava sentado em sua cama e na minha, ambos escorados com os cotovelos em suas pernas e curvados para frente, para ficarem mais perto. O cabelo dela estava solto e eu não via o seu rosto, mas os dois riam de algo e escrevia algo na mão de Louis.
Quando percebeu que eu cheguei, o Louis me olhou ainda rindo.
- Cara, você tem que ver isso!
Ela me olhou também sorrindo, divertida como ele, e empurrei a porta a fechando.
- Não tô afim. – falei e me direcionei ao banheiro.
Demorei mais do que o necessário no banho para ver se ela ia embora ou sei lá. Não que eu de repente tenha começado a odiar a . Ela era minha melhor amiga e tudo mais, mas estava sendo muito estúpida, e eu acho que esperava que ela se desse conta disso e voltasse ao normal. E talvez eu esperasse que ela me pedisse desculpa por ser idiota. Não que isso fizesse sentido, mas eu esperava. Eu esperava alguma justificativa e algo como “você tinha razão”. E também seria ótimo se isso acontecesse antes do campeonato, porque eu estava mesmo afim de ir, mas não tinha porquê ir se a gente ainda estivesse de mal um com o outro.
Saí do banheiro e para meu azar ela ainda estava lá, agora deitada em minha cama contando algo a Louis. Passei a toalha no cabelo molhado e a estendi na porta do guarda-roupa.
- É que é engraçado pensar em você namorando, tipo, até ontem eu pensei que ninguém em sã consciência ia te querer.
- Até ontem eu pensei que você usava cueca.
Ouvi um barulho e logo ela riu. De canto de olho, vi Louis jogando de volta o travesseiro para ela.
- Não estou namorando, e é melhor você parar de me zoar, porque Zayn Malik é um pouco pior do que .
- Ah, para com isso, Louis! O que pode ser pior que ela?! Ela parece um fantasma!
- , o Zayn é uma chaminé ambulante. E esse é o menor dos seus defeitos, quer dizer, você já olhou para ele?
- Você é tão gay. Não sei como as pessoas acreditam que você tá pegando ela. Ela é mais homem que você.
Fui até a minha cômoda e peguei um par de meias.
- Eu não estou pegando ninguém. É assim que as coisas funcionam no St. Bees: converse com uma esquisitona e você vai ser lembrado para sempre. Eu estava fazendo um favor a ela.
gargalhou. Queria me juntar à conversa e gargalhar também, aquela era a melhor das piadas.
- Não vou nem começar a contestar isso. Você já olhou para ela?! Ela é super gostosa!
- Não deixa a te ouvir, ela vai te expulsar do clube das mocinhas. – não consegui evitar responder àquilo.
Ambos me olharam.
- Que foi? – dei de ombros.
sentou na cama e alisou a saia. A saia. Eu não lembrava de ter visto as pernas de tão expostas em toda a minha vida.
- Você está sendo infantil.
- Você está sendo a . – rebati.
- A não tem nada a ver com isso! Eu escolhi isso, não ela.
- Tá – ri para ela como quem diz “até parece”. – Te conheço melhor do que isso, .
Ela levantou, de repente na defensiva.
- Exatamente, Styles. Eu pensava que você me conhecesse melhor do que isso. Nós dois estamos errados.
- A única coisa errada aqui é essa massa corrida na sua cara.
- Eu vou dar uma mijada. – Louis pulou da cama quase dentro do banheiro e fechou a porta.
- Por que é tão difícil para você simplesmente aceitar isso?! – ela me perguntou, ignorando Louis, sua voz subindo duas oitavas. – o fato de eu ser desejável te incomoda tanto assim?
Gargalhei, e aquela risada saiu tão naturalmente de mim que nem parecia que por dentro havia uma pedra de gelo de duas toneladas pesando em meu estômago. Aquilo tudo era inacreditável. A cada segundo eu reconhecia menos de nela.
- Desejável, ?! Por favor, deixa de ser patética! Eu era amigo de uma garota legal, e não de outra qualquer que tem um estojo de maquiagem no lugar do cérebro!
Ela parou por um segundo. Tipo, congelou. Pude praticamente ouvi-la engolindo em seco. Depois, pegou sua mochila do chão ao lado de minha cama e a colocou no ombro.
- Tá certo nessa parte. Você era amigo dela.
Em seguida, ela se virou e saiu do quarto. Pela porta, não pela janela.
Ainda fiquei por um tempo parado no lugar.
Balancei a cabeça e tentei clarear minha mente. Aquela era , minha melhor amiga. A gente nunca brigava muito sério. Uma hora ou outra ela ia perceber e tudo ia voltar ao normal. Eu não tinha com o que me preocupar.
Ou ao menos eu esperava que não, mas a cara de Louis para mim ao sair do banheiro não me animou.

’s POV

Eu sentia frio.
Não era uma grande coisa, se ignorasse o fato de que ninguém mais sentia frio no laboratório de química e o dia estava relativamente bonito lá fora. Mas mesmo assim meus dedos tremiam, tornando impossível que minha letra ficasse legível ao que eu tentava anotar a data de entrega de um trabalho que estava escrito na lousa.
A aula havia acabado de começar quando Louis Tomlinson entrou na sala, fazendo barulho e quebrando o silêncio em que a turma se encontrava. Ele nunca precisou olhar em volta para vir sentar ao meu lado, mesmo tendo outros lugares vagos. Eu também já esperava que ele o fizesse, por isso me aproximei mais da parede e, por algum motivo, também arrumei a postura.
- Tinha que ser o Tommo babaca! – Josh gritou lá de trás, fazendo alguns rirem e Louis se virar para trás. Toquei meu ombro na parede e meu corpo se arrepiou.
- Obrigado pela participação produtiva, senhor Devine. Agora, por favor, copiem e resolvam os problemas da página dezenove. – O professor disse, sentando em sua mesa e colocando seu óculos para ler uns papéis.
- Tem seu livro aí? – Louis me olhou. Peguei meu livro debaixo da carteira e o entreguei, olhando em seu rosto. Má ideia. – Nossa, você parece péssima. Também se gripou?
Eu odiava o tom sempre genuíno da voz de Tomlinson. Decidira isso agora. Me perguntava, toda vez, se era só comigo ou se ele demonstrava falso interesse com todo mundo. Fiz que não com a cabeça e recolhi as mãos que tremiam, olhando para a janela.
- Bem, precisamos fazer isso aqui. – Continuou falando. – Eu não sei você, mas eu estou precisando da nota...
Enquanto continuou falando qualquer coisa, voltei a pensar no que meu corpo sentia. Eu sabia que não era realmente frio. Também não estava gripada. Eu estava ansiosa, era esse o problema. Não me sentia assim há algum tempo, e acho que parte de mim acabou achando que isso havia acabado. Mas é claro que não. Não passaria, nem agora e nem depois, e era um equívoco meu pensar o contrário.
- ? - Por um momento sua voz soou como a do meu pai. Calma e delicada demais ao falar comigo. Como se eu fosse uma bomba relógio. Louis tocou minha mão com seus dedos quentes, e nesse momento me puxou de volta para a realidade. Pisquei algumas vezes. – Nossa, você tá tremendo. E parece um fantasma. Tem certeza que está bem?
Apenas fiz que sim com a cabeça.
- Só preciso... – Havia um nó em minha garganta. Tentei engolir, mas a voz não saía. – Só preciso...
- Ok, espera aí. – Ele se virou para trás e precisei espiar para ver o que estava fazendo. – Bota isso, não quero que tenha uma convulsão.
Olhei para o moletom nas suas mãos e revirei os olhos.
- Você consegue me ver andando por aí com o seu moletom?
Louis comprimiu os lábios e abriu um sorrisinho.
- Para falar a verdade não, mas achei que sua teimosia pudesse dar uma trégua. Qual é. Você tá suando. Ou tá com quarenta de febre, ou... – lançou-me um olhar cauteloso.
Balancei a cabeça antes que ele pudesse concluir.
- Eu estou bem. – Garanti. – Não vou ficar andando por aí com as suas roupas. Não sei o que você quer que pensem sobre nós, Louis, mas não gosto da ideia. Se você puder parar de sentar na minha mesa no intervalo ou me seguir nos seus momentos de ócio, eu agradeço.
Ele não respondeu por um momento, e eu soube que havia o deixado sem resposta. Puxei o livro para perto e segurei a caneta firmemente, começando a copiar uma questão.
- Tanto faz, isso é uma questão de saúde. – Ele largou seu moletom no meio da mesa, como uma criança emburrada. Balancei a cabeça, sem parar de copiar, e dei uma risada seca. Minha saúde. Ele queria falar sobre a minha saúde.
Depois de ter copiado a primeira questão inteira, parei e olhei para a letra em meu caderno, comparando-a com a letra das linhas de cima, tremidas e tortas. Minha mão parara de tremer, com minha atenção voltada àquela conversa confusa que tivemos.
A aula passou rápido. Não falamos mais nada até que faltassem poucos minutos para a troca de período e todos começassem a guardar o caderno.
- Você deve estar sabendo do campeonato de futebol. – Louis comentou, guardando um caderno na mochila. – Vamos estar lá para apoiar a ... Eu acho – franziu o cenho. – Bom, de qualquer forma, seria legal ter você lá. Você sabe, pegar um sol. – Olhou no meu rosto e riu um pouco, enquanto eu levantei uma sobrancelha.
Assenti com a cabeça. Até parece.
- Valeu, . Até logo – falou, se levantando e saindo da sala com a mochila no ombro.
Levantei também, quando a sala já estava praticamente vazia. Peguei minha mochila pela alça, mas antes de sair, olhei para o moletom verde em cima da mesa. Olhei para a porta, mas Louis já estava muito longe.
Balancei a cabeça, pegando o moletom, e não pude evitar um sorriso.

’s POV

Apoiei minha bandeja de comida na ponta de uma cadeira e abri a porta do freezer da cantina, pegando uma lata de refrigerante. Soltei a porta e botei a latinha em cima da bandeja, caminhando com ela nas mãos em direção à minha mesa.
Parei há alguns passos da mesa, franzindo o cenho por não encontrar nem . Elas sempre sentavam ali. Era literalmente o centro do refeitório, onde todas as outras mesas pareciam orbitar em volta daquela enquanto as pessoas observavam as garotas de ouro do St. Bees. E agora eu, aparentemente, era uma delas. Ou, pelo menos, andava com elas.
E Niall também, ao que parecia, pensei, ao vê-lo sentado na mesa central sozinho. Fui até lá e sentei na cadeira à sua frente.
- Oi, . – Ele sorriu, tomando um gole de suco.
- E aí. Onde estão a e a ?
- Elas foram juntas na secretaria resolver um problema e me pediram para “guardar a mesa”. Não que alguém fosse ter coragem de sentar aqui, se me permite. – Ele riu.
Olhei em volta enquanto pegava os talheres e assenti.
- Tem razão. – Mexi no meu arroz com molho. – O comportamento das pessoas é interessante, não acha? – Puxei assunto. – Quando se trata de popularidade.
- Se os adolescentes respeitassem todas as demais regras como respeitam a hierarquia do ensino médio, a nossa espécie seria muito mais organizada.
Ri. Concordei com a cabeça e coloquei um pouco de arroz na boca, abrindo a latinha de Coca enquanto mastigava. Percebi que Niall olhava meu prato enquanto comia também.
- Eu não mudei minha alimentação. – Comentei, ele provavelmente estava pensando nisso. – A me enche o saco, mas eu posso usar a justificativa de que pratico exercício, e ela não. – Ri. – Então eu disse que começaria a comer salada se ela começasse a correr comigo toda tarde. Adivinha só.
- Sem salada. – Ele respondeu e riu. Ri também.
Ficamos em silêncio enquanto comíamos por um tempo.
- Como vai a banda?
- Ah, legal. A gente não fez muito progresso ainda, mas já temos um lugar para ensaiar. – Encolheu os ombros. – Já é uma coisa.
- Com certeza. – Respondi no automático.
Ouvi um grito de Josh e a risada escandalosa de Louis vir da mesa que ficava há duas mesas de distância dali e suspirei, pegando uma batata frita com a mão.
- Deve ser difícil trabalhar com o Zayn.
- Até que está sendo fácil por enquanto. Ele finge que gosta da gente e a gente finge que suporta ele.
Ri.
- Não sei como conseguem.
Niall me olhou e piscou duas vezes. Eu fiz uma careta.
- Quem sou eu para falar. – Dei de ombros, concordando com a cabeça. – Tem razão.
- Eu não disse nada. – Ele riu. – Mas você deve ser mais acostumada do que eu. Convive com todos eles há anos. Se você soubesse compor, com certeza estaria na banda no meu lugar.
Gargalhei.
- Sem dúvidas.
- Você sente falta deles? – Niall perguntou. Foi bem direto, tanto que me surpreendeu. Nós não nos conhecíamos bem. – Desculpa.
Dei de ombros.
- Sinto falta deles porque são meus amigos. Quer dizer, foi bem radical pular diretamente da mesa dos trouble makers para o lado da princesa do colégio. – Comentei e Niall riu. – Mas eu gosto daqui. Estou me esforçando. – Disse e tomei um gole do refrigerante.
- A é legal. E a é...
- A é uma figura. – Completei quando ele fez uma pausa. Eu o observei por um momento. Me perguntava de qual delas ele estava afim. Claramente estava ali por um motivo, e apesar de eu ter minhas dúvidas sobre a sua sexualidade às vezes, era simples concluir que ele estava afim de uma delas. E eu achava que era de .
Um pouquinho depois chegou, seguida por e , e sentou-se ao meu lado. apenas sentava com a gente quando seu humor permitia, caso contrário ela ficava sozinha. Eu agradecia por isso, porque devia ser um saco aturá-la em dias ruins.
- Preciso de uma festa. – comentou em algum momento, abrindo um tópico na mesa que fez com que a conversa fluísse pelo resto do almoço.

Louis’ POV

Cachorro quente. A melhor invenção dos americanos.
- Me lembre de escrever uma carta à Casa Branca para agradecer por eles terem inventado essa belezinha aqui. – Comentei com Harry, me escorando na barraca de cachorro quente e dando uma mordida na ponta do meu. – Eu espero por esse campeonato todo ano sonhando com o cachorro quente...
- Realmente. Mas tenho que acrescentar que ele parece mais saboroso na sua mão do que mastigado dentro da sua boca. – Styles fez uma careta de nojo e olhou para outro lado enquanto eu comia.
O jogo de estava prestes a começar, e apesar de os outros jogos estarem interessantes até agora, era por ela que estávamos ali. Ou pelo menos eu, agora que os dois bebês estavam irritadinhos um com o outro. Eu tinha que admitir que toda aquela mudança repentina de também me pegou de surpresa, assim como ao resto do colégio.
Mas eu acho que, no fundo, todo mundo meio que esperava que um dia isso fosse acontecer. Menos Harry, é claro. O cara resolveu bancar o irmão mais velho do nada e sem avisar a ninguém, e como já era a figura mais orgulhosa do planeta, essa briga estava levando mais tempo do que o normal. Da última vez que brigaram assim, quebrou nossa TV com as rodinhas do seu skate e jogou o vídeo game pela janela, o que acabou sendo bem injusto comigo, que não tinha feito nada. Mas o que me preocupava, era que dessa vez parecia estranhamente calma e certa do que estava fazendo. Ela não parecia ter dúvida alguma.
- Aí, o jogo já vai começar – Liam falou ao voltar com uma Coca Cola de uma barraca que vendia bebidas. - É melhor achar um lugar ou a gente vai ter que ficar de pé. – Nos chamou com a cabeça e seguiu para as arquibancadas.
Harry o seguiu e eu dei outra mordida em meu cachorro quente antes de pensar em sair de lá. Me desencostei da barraquinha e arrumei o óculos de sol no rosto, o dia estava excessivamente claro. Comecei a seguir Harry de longe, porém parei quando vi no meio de uma pequena multidão.
E sorri.
Minhas irmãs gostavam de dizer que meu talento era vencer no cansaço. Cara, eu era bom.
Olhei para o cachorro quente em minhas mãos e de volta para , e suspirei. Eu não queria parecer mais babaca do que ela já pensava que eu era.
- Foi mal, carinha. – Suspirei e soltei o alimento dentro da primeira lata de lixo que vi. Passei a mão na boca enquanto caminhava até ela.
Ela estava bonita, percebi enquanto andava a distância significativa que nos separava. Pálida demais, de um jeito não saudável e meio doente. Mas ela sempre parecia assim, como se estivesse prestes a ter uma convulsão ou sei lá. E mesmo assim era a coisa mais bonita que eu conseguia ver.
Ótimo, Louis. Que droga.
Balancei a cabeça. Meu subconsciente conversava comigo enquanto eu caminhava.
Desde quando eu precisava parecer legal para me aproximar da freak? Cara, eu podia ter ficado com aquele cachorro quente. Não preciso provar nada a ela.
Ao me aproximar mais, notei sua roupa. Era diferente do uniforme do colégio. Uma calça jeans escura e uma regata azul marinho, os cabelos pretos caindo nos ombros, uma pequena tatuagem escura se sobressaindo na pele branca, atrás do ombro esquerdo. Espera, uma tatuagem? Interessante.
Eu poderia dizer que repensei minha existência inteira enquanto chegava perto de , e isso definitivamente não era uma coisa normal. Porém, ao chegar atrás dela e uma brisa bater, trazendo seus cabelos e o cheiro da sua pele até mim, eu parei.
Aquilo valia a barraquinha de cachorro quente inteira.
- Realmente pensei que você não vinha.
Ela não pareceu muito surpresa com minha presença, ou se esforçou para não parecer. Virou de frente para mim, as mãos dentro dos bolsos de trás da calça.
- Eu também.
- E o que te traz aqui?
- Pensei que eu precisasse tomar um sol. – Deu de ombros.
Sorri. É, com certeza precisa.
- Tomlinson... – Sua voz era limitadora. Olhei para seu rosto novamente, percebendo só naquele instante que eu estava, sem querer, sorrindo para os seus peitos.
- Foi mal. – Balancei a cabeça. – Quer sentar? já vai entrar no campo – toquei seu cotovelo rapidamente e segui para o canto da arquibancada, que já estava quase cheia.
Olhei por cima do ombro para me certificar de que ela me seguia. Sentei em um dos lugares mais altos e sentou ao meu lado no canto. Tirou do bolso uma pequena cartela de chiclete verde e colocou um na boca, me oferecendo um.
Neguei com a cabeça e olhei para o campo, tentando encontrar no time feminino de nossa escola, posicionado no campo e esperando o apito do juiz para o começo da partida. E lá estava ela, no meio do campo de olho na bola.
- Você vai adorar isso. Harry costuma comparar a um leão seguindo a caça durante os jogos, ela não para até marcar gol. É uma certeza. – Comentei, seguindo a bola quando o juiz apitou e a partida começou.
- Quem são eles? – Apontou para o outro time.
- O outro time da escola. Estão disputando quem vai para as regionais. – Expliquei.
Ela ficou quieta depois de meu comentário empolgado, e eu a olhei. balançava o pé no ar com a perna cruzada. Parecia entediada e eu praguejei internamente.
- Sério, o que faz aqui? Não me faça pensar que veio só pra matar a saudade de mim. – Sorri, debochado.
- Ah, não pense. – Ela disse, me olhando com seriedade. – Eu vou dar uma saída. Só resolvi passar antes, por curiosidade.
Franzi o cenho.
- Não é fim de semana livre.
- É importante. – Ela concluiu, voltando a olhar para o campo.
- Tem um show do The Fray em Londres amanhã. Também é importante, mas Olivia não vai me deixar ir só por isso.
encarou-me, entediada. Voltou a encarar o nada um segundo depois e fez uma bola com o chiclete.
- Bem, eu tenho os meus contatos.
- Eu tenho certeza que sim. – Comentei e ri.
A arquibancada toda vibrou com um chute do St. Bees que pegou na trave, e eu quase dei um pulo no lugar, gritando alguma coisa. Voltei a olha-la e ela me encarava estranho.
- Que foi?
- Por que disse isso?
- Isso o quê? – Ri. – Você, tipo... usa uns negócios. Tem que tirar isso de algum lugar, né?
Ok, eu não quis dizer isso. Foi meio que um reflexo.
- Eu sou...
- Não, não quis te chamar de drogada. Você é... tipo, não é drogada de um jeito ruim, é tipo... – Eu mexia as mãos tentando explicar. Pô, Deus, me dá uma força aqui embaixo?! – Tipo...
- Tipo?
- Ah... – Pisquei duas vezes olhando para ela. – Não estou julgando, juro. – Certifiquei para ela. – Você com certeza tem os seus motivos.
Pior do que estava não podia mais ficar, de qualquer jeito.
riu. Foi uma risada meio incrédula e meio seca, mas ela não parecia furiosa, como eu esperava que estivesse. Ela não parecia o tipo de pessoa que aceitava críticas.
Um silêncio se instalou entre nós. Eu não sabia para ela, mas para mim foi constrangedor.
- Então... – Pigarreei. – Por que você... faz... isso?
- Drogados não gostam de falar sobre os seus problemas. – Ela respondeu, curta.
Assenti. Quando eu estava nervoso as piores coisas eram capazes de sair da minha boca sem consentimento algum. Meu filtro falhava.
- Tem razão. É só que... isso parece te fazer mal. – Disse, tentando contornar, e olhei para o seu rosto. – Você tá sempre pálida. Gelada. Com olheiras. Às vezes meio amarela.
- Estou meio amarela agora? – Ela aproximou um pouco o rosto do meu e pude sentir o cheiro de hortelã de seu chiclete. Engoli em seco.
- Não, mas parece chapada.
- Por quê? – Franziu o cenho.
- Porque nunca se aproxima de mim sem uma boa dose de maconha.
sorriu. Se afastou novamente e olhou para longe.
- Preciso ir. – Disse, sem de fato sair do lugar.
- Por quê?
- Você está começando a me conhecer demais. – Me olhou.
Por um momento, aquilo apenas aconteceu.
E então ela levantou.
- Espera, você vai mesmo? – Toquei seu pulso, olhando-a de baixo.
- Tenho um traficante a pagar. Shh. – Piscou para mim e virou de costas, descendo a arquibancada.
Eu a segui com os olhos até a arquibancada toda explodir em gritos e xingamentos por motivos que perdi em relação ao jogo.

Niall’s POV

- Obrigado. – Peguei o copo de refrigerante que a moça passou para mim. Atrás das lanchonetes improvisadas, o campeonato ia a todo vapor. Todas as categorias estavam disputando suas respectivas vagas como time titular da escola e todas eram fortes concorrentes. Das poucas pessoas que eu conhecia, o pessoal do basquete e eram meus favoritos. É claro que, devido a problemas internos, eu não passava tanto tempo com quando estava resolvendo coisas da banda com os garotos. Mas, quando eu estava com e , eu tinha a oportunidade de conhecê-la melhor. De vez em quando.
Voltei para o meu lugar, olhando atentamente o campo de futebol. O time de estava disputando uma semifinal para decidir quem abriria o jogo decisivo com vantagem. Para mim, era uma enrolação: só havia dois times disputando a vaga então por que não fazer logo o jogo final? Era realmente necessário jogar contra um real adversário para escolher seu melhor time? Mas eu entendia que o futebol era o esporte mais popular da escola então, talvez, a diretora tivesse pensado por aí.
O placar ainda estava um a um e faltavam apenas vinte minutos para o segundo tempo. Tomei um gole da bebida, sentindo-me revigorado com a energia que vinha das pessoas que estavam na arquibancada. e estavam ao meu lado, tão focadas no jogo quanto eu. Uma parte de mim realmente admirava aquelas garotas pela dedicação que elas davam à . Era como se elas sempre colocassem a amizade em primeiro lugar e a manutenção delas era simplesmente impecável. E isso porque elas se tornaram amigas há pouco tempo.
- Belo jogo, huh? – O professor Clark apareceu ao meu lado, sentando-se no lugar vago. – E aí, como vai a banda?
- Hm... – Pensei um pouco. – Bem, estamos tendo algum progresso.
- Sabe, estou realmente criando grandes expectativas em cima de vocês. – Ele sorriu, olhando para o campo.
- Ah... – Bom, você não está ajudando, professor!
- Vocês já têm algum dos instrumentos?
- Ainda não. Precisamos de dinheiro. – Suspirei, voltando a olhar para o jogo.
Ele bufou.
- Esse deveria ser o menor dos problemas de vocês! – Riu. – Por que não fazem uma arrecadação ou trabalham um pouco, para variar?
Quer dizer que estamos julgando aqui, hein?, pensei.
- Não temos tanto tempo assim...
- Bullshit! Planejando direito vocês conseguem qualquer coisa!
Ele continuou com aquela cara de “vocês são um monte de bundas mole” durante o jogo. - É o seu professor? – teve que gritar para se fazer ouvir.
- É... – Respondi, ainda pensativo sobre o que o professor falara. Talvez ele estivesse até certo. Se nossos pais não nos dariam os instrumentos, nada mais justo que nós mesmos corrermos atrás disso. – É o professor de música.
- Ah. E o que ele queria? – Perguntou, dando-me um sorriso sincero.
- Dar um incentivo. – Abri um sorriso de volta, percebendo que esse seria o jeito, no fim das contas.
- E funcionou?
- Acho que sim. – Soltei uma risadinha e ela aumentou o sorriso.
Voltei a prestar atenção no jogo.
estava agachada, um joelho no chão e o outro dobrado, apoiando seu braço. Ela estava curvada sobre uma colega do time, que por sua vez estava deitada no chão, com as mãos na cabeça e o peito subia e descia em ritmo frenético como se ela buscasse ar, mas não estivesse tendo muito sucesso. Havia uma pequena aglomeração em torno dela e o juiz dizia algo para ela, que concordava. parecia preocupada.
- O que houve?! – Perguntei ao me dar conta de que perdi algo importante.
- Uma cavala do outro time deu uma joelhada no peito da Lauren. – estalou a língua. Ah, Lauren, a garota no chão. comprimiu os lábios, compadecendo-se da situação. – Acho que vai ter que sair do campo.
- Que droga. – Comentei, esticando o pescoço para tentar ver melhor o que se passava. Elas estavam indo tão bem!
Logo alguns paramédicos entraram no campo com uma maca e a levaram para os vestiários, com certa pressa. E então o jogo continuou; a jogadora machucada fora substituída. era atacante e não saía da grande área do time adversário. Ela chegou a chutar duas vezes para o gol, mas os dois bateram na trave e saíram dos limites do campo.
O juiz apitou. Intervalo.
- Já volto. – Avisei as meninas e saí da arquibancada, puxando o celular do bolso rapidamente. “Pátio. Agora.”, enviei para o resto do pessoal da banda.
Sentei-me em uma das várias mesas de pedra circular que preenchiam o pátio. O sol estava forte e ventava bastante, um clima perfeitamente agradável que não combinava com minha jaqueta jeans. O primeiro a aparecer foi Louis. E depois Harry.
- E aí, loirinho. Que foi? – Louis bagunçou meu cabelo e se sentou ao meu lado e Harry ao lado dele.
- Falei com o professor... – Comecei.
- E...? – Harry parecia meio entediado, como se estivesse ali por obrigação e se sentisse um estranho no ninho. Estranho era ele parecer daquele jeito.
- Precisamos nos mover. – Falei, quando Liam sentou-se ao lado de Harry, abraçando-o pelos ombros e gritou um “Yo”.
Expliquei a conversa que tive, se é que se pode chamar de conversa, com o professor Clark e dei algumas ideias aos caras, que pareceram curtir o que estava sendo proposto. Josh apareceu não muito depois, com dois crepes suíços nas mãos, parecendo feliz com sua situação. Concordamos que ele seria nosso tesoureiro e nada mais justo que incluí-lo naquela ideia.
Zayn, é claro, não fez questão de aparecer dez minutos depois que mandei a mensagem.
Zayn's POV

- E aí, o que tá rolando? – Sentei no banco de pedra, atrás dos garotos que estavam sentados de costas para mim, na mesa. Louis foi o primeiro a se virar e bufar. Ah, como é bom ser bem recebido, não?
- O intervalo do jogo já vai terminar. – Josh falou, entediado, sentando-se no banco e ficando de frente para mim, como que culpando-me por demorar. Porque aparentemente eu era o único a ter coisa melhor para fazer. Depois de alguns segundos, os outros concordaram, observando a movimentação das pessoas no campus da escola – Aliás, ultimamente não fosse por esse campeonato a escola estaria um porre. Não acontece nada de legal aqui. Ninguém briga, ninguém faz guerra de bolinhas de papel higiênico molhado, nenhuma garota anda por aí sem blusa... E está quente. Por que não tem ninguém de biquíni?!
- Porque isso aqui é uma escola, e não um clube de strip-tease, Josh. – Ouvi Liam murmurar, ainda de costas para mim.
- Podia ser. Eu ia adorar ver a sua irmãzinha esquisita rebolando só de calcinha e sutiã. Imagina a cena: eu colocando uma nota de vinte entre os peitos dela e ela em cima de mim, rebolando... Suada...
- Olha a boca, Josh! – Liam rosnou, levantando-se num pulo e Josh se encolheu um pouco, mas sem perder o ar de graça.
- Pode ficar com ela para você, Payne. Não me importo, vou ter muita garota para me preocupar em breve. – Josh deu de ombros.
- Sabe... – Comecei, observando uma formiga atravessar a mesa. – Se ninguém vai mexer com essa escola, nós mexemos.
- O que quer dizer, Malik? – Louis sentou-se como Josh e me fitou. Liam fez o mesmo, só que um pouco mais simpático e Harry continuou encarando alguma coisa que eu não podia ver.
- Tem um galpão a nove quilômetros dessa escola. Fica nos arredores do vilarejo de St. Bees.
- E? – Liam instigou.
- De onde eu venho, no verão, fazemos concurso da camiseta molhada. – Abri um sorrisinho, lembrando-me de alguns episódios.
- Isso sim é legal! – Josh abriu um sorrisão e levantou a mão para fazer um toque comigo, mas, sabe como é, não gosto de contato físico masculino.
- Só que não estamos no verão. Na verdade, é quase inverno. E você acha que alguma garota aqui vai se dispor a usar camiseta branca, sem sutiã, e serem molhadas? – Louis arqueou uma sobrancelha.
- É pelo bem da comunidade docente da St. Bees. – Encolhi os ombros.
- Você é muito espertinho, Malik. – Liam balançou a cabeça negativamente, rindo baixo.
- Qual é? Vocês não querem ver gatinhas molhadas?
- Podíamos ter um motivo mais nobre. – Ouvi o Styles murmurar, finalmente sentando-se como os amigos.
- Tipo...? – Liam franziu o cenho.
- Precisamos de dinheiro para comprar os equipamentos da banda, como o professor disse. – Niall falou de repente, parecendo que tudo se encaixou em sua cabeça. – Meus pais não vão me dar um centavo para nada, Harry precisa de uma guitarra nova...
- E ele – Harry apontou para mim – não tem um centavo sequer.
Matei o Styles pela décima quinta vez em minha mente. Aquele viadinho de merda insistia em me provocar. Respirei fundo.
- E o que você sugere, gênio da lâmpada? – Perguntei, sarcástico. – Que a gente venda roupas às garotas ao invés de tirarmos as delas?
- Podíamos lavar carros. – Harry fora categórico, mas havia um quê em sua voz que me dizia que ele estava adorando me confrontar.
- Não quero ver um bando de macho molhado. – Josh reclamou.
- E quem disse que nós precisamos fazer alguma coisa? – Styles sorriu, virando-se um pouco e chamou uma garota que estava passando por nós.
- Oi, Harry. – A garota sorriu, animadinha.
- Quer me fazer um favor? – Ele jogou as pernas para o outro lado do banco e abraçou a menina pela cintura.
- Faço até dois, se quiser. – A menina abriu um sorriso sem graça e safado ao mesmo tempo, se era possível. Até que ela era gata, queria só ver o que o viadinho ali ia fazer.
- Que bom, então vou usar um agora e mais tarde a gente vê o que fazemos com o outro. – Ele também sorriu e acariciou a cintura da garota por debaixo da blusa. – Eu e os meninos precisamos comprar nossos instrumentos para o nosso projeto da aula de música. Sabe, a banda? Então. E a gente estava pensando em lavar carros.
- Sei... – A garota parecia estar acompanhando o raciocínio dele. Não acredito no que estava rolando.
- Mas aí eu pensei: que tipo de gente quer vários marmanjos com mãos grandes, pesadas e brutas para lavar seus queridos carros? – Harry franziu o cenho e a garota concordou com a cabeça. – E então, vi você passando e eu fiquei inspirado: Por que vocês não ajudam a gente nessa?
- Ah! – Ela concluiu o pensamento com ele e sorriu. – Claro! Claro que podemos ajudar! Não sabia que vocês estavam numa banda!
- É surpresa! Shh! – Harry piscou para ela, que começou a brincar com seu cabelo. – Pode ser?
- Claro que pode, duh. – Ela revirou os olhos. – Posso chamar minhas amigas para ajudarem também?
- Por favor. Quanto mais, melhor.
- Ok.
- Posso contar mesmo com você?
- Claro que sim. Pode deixar! – Ela bateu palminhas e se afastou um pouco dele, olhando em volta, provavelmente procurando e localizando as primeiras pessoas a quem contaria o “plano”. – Tchau, Hazz. – Deu-lhe um beijo na bochecha e saiu saltitando.
Bufei, patético.
- Gatinhas lavando carros? – Josh abriu um sorriso. – Você é genial, cara!
Ele e Harry fizeram um high-five.
- Essa foi boa. – Louis riu e fez um toque com Harry.
Ótimo, todos babando ovo nesse otário. Ele uniu o útil ao agradável, grandes merdas.
Levantei do banco e me afastei dos caras, colocando meus óculos wayfarer pretos, já que aquele sol todo estava deixando minha visão embranquecida. Ouvi Harry me chamar com um grito, fazendo todos olharem para nós. Viado, adorava chamar atenção.
- Não vai esquecer! – Ele gritou, dando início aos cochichos dos outros alunos, perguntando entre si o que eu não podia esquecer. Revirei os olhos e o ignorei, continuando meu caminho de volta às arquibancadas.

Liam’s POV

- Precisamos pensar num local bom. – Niall dizia enquanto digitava alguma coisa em seu notebook.
- Deve ser grande e aberto, com espaço para estacionar vários carros e... Água! Precisamos de água! – Harry enumerou os pré-requisitos nos dedos das mãos. Concordei com a cabeça e cocei a barba, pensando em um possível lugar que atendesse a todas as exigências.
- Onde vamos achar algo assim? – Perguntei, mais para mim mesmo. Louis encolheu os ombros, tão pensativo quanto eu.
- Podíamos ligar para lugares que promovem esse tipo de coisa e... – Niall começou a falar e eu parei de escuta-lo quando vi a garota de cabelos loiros andando pelo pátio de braços dados com sua melhor amiga.
- Já volto. – Falei ao me levantar da cadeira e seguir em direção às meninas. – Cas! Cas! – Toquei seu braço suavemente para faze-la parar. – Hey.
- Oi, Liam. – Ela sorriu, assim como ao me cumprimentar.
- Você é justamente quem eu queria encontrar. – Sorri também. – Preciso da sua ajuda.
- O que é?
- Estamos com um projeto para a banda e precisamos de alguns locais para fazer um car wash. O Harry disse que precisa ser grande, com água, espaço, o clima tem que estar bom também, uma tenda, lugar pra estacionar, mais águ...
- Calma. – Ela levantou as mãos em sinal de “stop”, rindo um pouco de mim. – Calma. Por que você acha que eu sou a pessoa certa para isso?
- Porque você é a melhor nessas coisas. – Dei de ombros.
- Verdade. – Abriu um sorriso, presunçosa. – Mas... – Levantou um dedo. – Eu vou tentar.
- Você é demais, Cas! – Dei um beijo em sua bochecha. – Não deixe que ela esqueça, ! – Pisquei para a ruivinha, que assentiu, rindo. Girei nos calcanhares e corri de volta para a mesa onde os meninos estavam reunidos.
- Você é um moleque babão. – Louis zombou.
- Não precisamos mais nos preocupar com o lugar. – Garanti. – Já cuidei disso.
- Ah, é? E como? – Ele arqueou uma sobrancelha.
- Tenho meus contatos. Não se preocupe. – Dei de ombros. – O que falta agora?
- Bom... – Niall começou. – Se seus contatos conseguirem nos arranjar clientes suficientes para arrecadarmos... Harry, você tem certeza de que precisamos de uma Gibson de duas mil libras? – Questionou Harry novamente com um olhar acusador.
- Sim! Precisamos ser os melhores e...
- Cara, é só uma banda da escola. – Louis colocou a mão em seu ombro.
- É, dude. – Josh torceu a boca. – Tem essas aqui e duzentas libras...
- Mas o baixo do Louis custa setecentas libras! Não é justo eu ter que ficar com o mais barato.
- É realmente muito injusto a gente ter que sacrificar alguns dos nossos caprichos pelos outros, não é mesmo, Harry? – Balancei a cabeça, sarcástico.
- Não enche. – Revirou os olhos.
- Ok. Seu limite é de trezentas libras, pode ser? – Josh abriu uma página com algumas opções de guitarras mais baratas.
Após uma breve análise da página, Harry bufou e aceitou a proposta, apontando a opção que havia escolhido. Dei um tapinha em suas costas e garanti que ele seria ótimo mesmo com uma guitarra mais barata.
- Agora, Liam, já escolheu a bateria? – Josh pegou o celular e começou a digitar alguma coisa.
- O que você está fazendo? – Louis perguntou ao esticar o pescoço para espiar o aparelho.
- Aprendi a mexer nesse aplicativo noite passada... – Disse, concentrado. – Ele me permite criar algumas planilhas...
- E você está fazendo uma planilha agora...? – Perguntei.
- Ah, não. – Olhou para nós. – Já criei, estava apenas atualizando alguns dados.
- Atualizando? – Harry fez uma cara de surpresa.
- Sim. Niall e eu estávamos procurando algumas lojas em conta e agora que Harry aceitou algo mais modesto que sua guitarra de ouro, o valor que precisamos arrecadar diminuiu também. – Voltou a olhar seu celular. Troquei um olhar com Harry e Louis, segurando uma pequena risada. Josh estava fazendo contas? Esquisito é pouco. – Ah! – Ele levantou a cabeça e apontou para Niall. – Se esticarmos um pouco mais, podemos fazer aquela viagem!
Os olhos de Niall brilharam.
- Não acredito! Cara, isso vai ser ótimo! Quando acharmos os primeiros clientes, vou fazer algumas ligações e reservamos o palco do pub e...
- Opa! Opa! – Louis levantou as mãos. – O que tá rolando aqui?!
- Que viagem? – Perguntei, desconfiado.
- Só vocês dois são os colegas de quarto aqui. Precisam nos consultar e nos comunicar de vez em quando, sabia? – Harry fez bico.
- Own, tá com ciuminho? – Josh segurou o rosto de Harry entre as mãos e fingiu que ia morder sua bochecha. – Vem cá, bebê! – Abraçou sua cabeça.
- Sai. – Harry empurrou Josh. – É sério. Se vamos precisar lavar quinhentos carros, vou querer saber. Obrigado.
- Tá, tá, tá. Niall e eu falamos com o professor de música e ele nos deu a ideia de tocarmos em um lugar que ele disse que é famosinho por aceitar amadores bem amadores. Achamos que seria uma boa chance...
- Quê?! Nós nem conseguimos tocar dó-ré-mi-fá sem parecer que um gato está sendo estripado vivo e vocês planejam uma apresentação pública?! – Louis gritou, exasperado. Soltei uma risada, sentindo-me um pouco nervoso com a situação toda. O quê? Tocar em público? Agora? No way!
- Calma, gente...
- Vocês não podem fazer isso com a gente! – Harry passou as mãos pelo rosto.
- Ok. Ok. Calma. Acho que podemos pensar nisso com calma, certo? – Louis estava pensativo.
Alguns segundos de silêncio prosseguiram. Niall e Josh olhavam para nós em expectativa e nós olhávamos de volta, cada um querendo matar os dois de uma forma diferente.
Isso porque Zayn ainda nem havia sido levado em consideração nessa discussão toda.
Com certeza o cara ia surtar.
- Acho que podemos falar disso depois do car wash. – Falei, recompondo-me.
- Certo. – Niall e Josh responderam em uníssono.
- Eu posso concordar com isso, se ensaiarmos bastante. – Louis falou.
- Eu também. – Harry disse.
- Certo. – Niall abriu um pequeno sorriso, parecendo mais feliz com isso.
- Ah. – Levantei um dedo, fazendo um lembrete. Todos olharam para mim. – Vocês falam com o Malik.

’s POV

Todo mundo gritava.
Duas pessoas me seguravam sentada nos ombros enquanto pulavam, juntamente com todo o resto do St. Bees, que havia invadido o campo de futebol no momento em que o juiz apitou o final do jogo. Era um jogo contra o próprio colégio, mas todo mundo adorava aquela etapa das intersséries.
Eu ainda me sentia meio tonta, por isso os pulos que chacoalhavam meu corpo estavam me deixando nauseada, então pedi para descer.
Meus pés tocaram o chão com força e fechei os olhos, levando a mão à cabeça e fazendo uma careta. Uma mão pesada pousou em meu ombro e sorri ao ouvir em meu ouvido:
- Parabéns, capitã!
Abri os olhos e pulei em Liam, sem saber de fato exatamente qual era meu objetivo. Meu Deus, eu não o via há dias! Nem parecia que estudávamos na mesma escola.
- Porra, Liam! – Ri enquanto ele me abraçava – onde você se meteu?
- Estava esperando para aparecer no momento certo! – Ele gritou para ser ouvido sobre todo o barulho das pessoas em volta de nós, me afastando para me olhar. – Ganhou de novo, ! Você não cansa nunca, não é?!
Ri e balancei a cabeça, procurando em volta por um instante. Olhei para ele em seguida.
- Não sei onde ele está – Ele falou, mais baixo e deu de ombros.
Josh surgiu de trás de Liam abrindo os braços e fazendo uma cara hilária para mim, me fazendo rir. Eu o abracei quando ele chegou perto e me levantou uns centímetros no abraço de urso. Logo me soltou e nós demos um high five.
- Mandou bem, gatinha, como sempre! Apostei cem em você com o Scott! Tô rico! – Gritou, recebendo alguns olhares.
- Algum dia você vai apanhar do Scott e eu só vou rir.
- Não enquanto você continuar sendo a melhor jogadora desse colégio! – Apontou para mim e piscou. – Então trate de arrasar nos estaduais, por favor.
Ri e balancei a cabeça.
- Onde está o Louis? – Perguntei, olhando por cima do ombro de Josh.
- Eu vi ele com Harry da última vez. – Liam respondeu.
Revirei os olhos. Eu não podia dizer que estava surpresa por Harry não estar ali. Precisava admitir que achei que o fim do campeonato fosse aproximá-lo outra vez, mas obviamente não ia rolar. Mas o que mais me irritava era Louis não estar ali. Harry, eu entendia. Louis estava simplesmente agindo como a sombra de Harry, que é o que sempre faz, sem pensar por si próprio.
Levei uma mão à cabeça novamente.
- Você tá bem? – Josh perguntou.
Fiz que sim.
- Levei uma pancada de alguém. Argh!
- Aí, ... Sobre o Harry, – Liam começou. – Louis me contou o que está...
Alguém me puxou pelo cotovelo e no momento seguinte eu estava no meio de uma roda de garotas do time pulando e gritando “é campeão!”.
Só consegui me liberar daquela loucura uns dez minutos depois, e não consegui mais encontrar Liam nem Josh, então fui para o vestiário. Tomei um banho rápido e lavei os cabelos, que estavam completamente molhados de suor.
- – a treinadora chamou quando saí do box de uma das duchas enrolada na toalha. – Vista-se e venha comigo. Tem alguém querendo te conhecer.
Assenti e esperei ela sair para me vestir. Coloquei uma regata e uma calça jeans que achei em meu armário e saí do vestiário secando a ponta dos cabelos que pingavam. Encontrei a treinadora e a segui até fora do ginásio, soltando a toalha em qualquer canto. Eu estava curiosa.
Ela me levou até um grupo de pessoas, entre elas algumas mais velhas e algumas jogadoras do outro time.
- , esses são Ryan e Branditt, representantes do time de futebol do Queen Mary University of London.
Olheiros. Quase tive um espasmo.
O homem estendeu a mão para mim, que a apertei sem cerimônias.
- É um prazer, . Nós assistimos o jogo, e gostaríamos de falar com você. – Sorriu.
Ok. Isso ia ser interessante.

’s POV

Havia três livros velhos empilhados em minha cômoda, dois terminados e um pela metade. E eu me perguntava quando foi que virei o tipo de pessoa que lê descontroladamente desse jeito. Era estranho porque eu nunca me interessei muito por literatura antes, e do nada comecei a ler insaciavelmente para poder escapar um pouco do mundo real. Era, realmente, um modo mais culto e saudável de fugir da realidade do que os outros métodos que eu costumava usar – e que eram proibidos na escola, motivo por eu não estar usando. Mas acho que a verdade era que o vício em leitura apenas provava meu grande problema de autocontrole. Eu simplesmente viciava em tudo que me fazia viajar assim.
Mas não estava conseguindo progredir na leitura hoje. Era noite e a temperatura estava amena. Eu já havia saído para fumar duas vezes, pegado muito mais ar fresco do que realmente era necessário e , sentada em sua cama estudando, começava a me olhar estranho, com aquele seu olhar genuíno de preocupação que eu não suportava.
Além disso, eu não estava mais conseguindo controlar meus membros. As mãos, os pés ou os dedos precisavam estar batendo, tremendo ou tamborilando, e eu ia e voltava constantemente do banheiro só para me certificar de que não havia mais nenhum comprimido para tomar (e quem sabe assim me acalmar o suficiente para dormir).
Eu já passara por abstinência de diversas drogas. Algumas vezes deliberadamente e algumas vezes a força, o que acabou sendo bom de qualquer modo. E todas as vezes no começo havia sempre esse estágio em que eu percebia o que estava prestes a acontecer e começava a me desesperar. Porque eu sabia que a droga havia acabado e sabia que precisava de mais, e que tudo ia só piorar a partir daquele ponto.
Mas também sempre havia um estágio em que eu pensava que podia controlar.
Sentei na cama, impaciente por minha própria falta de sono, e me encostei na cabeceira, encolhendo as pernas e passando as mãos nos cabelos para trás.
- ... – Chamei, planejando tentar fazer algo de útil que me ajudasse a desviar a atenção de mim mesma. – Se lembra de quando me perguntou se eu namorava?
Ela pareceu meio surpresa por meu repentino interesse em conversar. Olhou-me e concordou com a cabeça, segurando uma caneta marca texto na mão direita.
- Sim. O que tem?
- Você nunca disse se já namorou.
- Ah... – Ela suavizou a expressão e voltou a olhar para o livro didático na cama. – Namorei uma vez. Não deu certo. – Riu fraco.
Mordi o canto do lábio. Como chegar àquele assunto? Ah, Malik, você só me traz problema.
- Relacionamentos só parecem fáceis – comentei. – quando são os outros.
Ela assentiu com a cabeça e me olhou.
- Tem razão. – Soltou o marca texto e se virou na cama, ficando de frente para mim, com a cômoda entre as camas nos separando. Eu tinha sua atenção completa. – Por que você terminou?
- Hum... – Bom começo para uma boa mentira. – Mudei de cidade. Você?
- É. Ele mudou também. De escola. – Deu de ombros. Era tão mentira quanto a minha, e nós duas sabíamos, mas nenhuma contestou.
- E a ? Já namorou?
fez que sim e deu de ombros.
- Por que?
- Sei lá. Ela é legal como você. Parece o tipo de pessoa que se dá bem em um relacionamento – bullshit.
riu e fez uma expressão de “nem tanto”.
- Eu acho que sim, mas ela escolhe as pessoas erradas... Entende? Acho que a não percebe o quão legal ela é. Acaba escolhendo gente que não merece ela. Pelo menos é o que eu acho.
Assenti, demonstrando que entendia o raciocínio.
- Tipo... gente que trai?
me olhou estranho. , você definitivamente não sabe o que é ter uma conversa com outro ser humano.
- É... Quer dizer, isso pode acontecer com todo mundo. Mas com ela parece que é meio pessoal. – Franziu o cenho e se virou para frente outra vez, voltando a pegar a caneta marca texto. – Eu digo, não podemos escolher a família. – Pigarreou.
Pela primeira vez parecia mais desconfortável em uma conversa do que eu. E eu entendia que ela não queria abrir o jogo sobre a vida pessoal da melhor amiga, mas já deu para entender um pouco com o que ela falou.
Dei de ombros e passei as mãos nas pernas, abraçando meus joelhos.
- É. Acho que você tá certa.
O assunto morreu por ali. Eu estava certa de que não havia descoberto muito mais do que Zayn já sabia, mas mesmo assim, antes de dormir enviei uma mensagem a ele:
“Não esqueça que me deve uma.”

Harry’s POV

Cheguei na antiga sala de ginástica seguido de Malik para uma reuniãozinha da banda. Aparentemente aquele era o único lugar que o professor Clark conseguiu liberar para a banda ensaiar, tinha isolamento de som e era longe de tudo. Mas em compensação era praticamente uma caixa de poeira, que eu duvidava que tivesse sido usada alguma vez na última década.
- O Niall já está trabalhando em umas composições... – Liam explicava, enquanto seguíamos uma pauta de assuntos a resolver.
- E como vai a nossa aposta? – Zayn interrompeu-o. – Digo, ele não é oficialmente da banda enquanto não fizer o combinado...
- Aparentemente, ele está focando na pessoa errada... – Louis comentou, e Niall olhou de Zayn para ele. Estavam falando do cara como se ele nem estivesse ali, mas de algum modo era engraçado.
– E aí, Niall, o que nos diz?
- Ah, qual é. – Liam suspirou. – no momento precisamos mais de um compositor do que de uma aposta idiota. Depois a gente volta a focar nisso.
- Concordo. – murmurei. Eu já estava ficando entediado daquela conversa. – Podemos ir logo para a parte interessante? Vamos começar a ensaiar?
- Fiz uma lista de músicas que a gente pode começar tentando tocar. – Liam levantou e foi até uma mesa meio quebrada ao lado da porta da sala. Pegou uma folha de papel e voltou, passando para todos nós, começando por mim.
- Hey Jude? Sério? – Arqueei as sobrancelhas. Liam deu de ombros. – Nem tem bateria nessa música... Tem? – Franzi o cenho.
- Não é como se a gente já fosse sair tocando como profissionais, Harry. A gente nunca nem tentou isso antes de verdade.
Não respondi; era verdade.
Passei a lista para os outros assim que terminei de lê-la e, depois de uns minutos enrolando com assuntos fora do contexto, a gente começou a preparar os equipamentos.
Ligamos a guitarra e o baixo a uma caixa de som, mas Louis concordou em deixá-la no volume mínimo. Nós tínhamos uma noção de como o primeiro ensaio poderia soar horrível, e ninguém ia querer ouvir aquilo muito alto.
Depois de tudo preparado e mais uns minutos de conversa fora, finalmente começamos, lá pelo início da lista de músicas: Big Me, do Foo Fighters. A melodia daquela música era, literalmente, a mais simples que podia existir. Peguei meus acordes em cinco minutos enquanto Liam pegava o compasso da bateria e Louis me acompanhava com o baixo. Niall tocava basicamente a mesma cosia que eu no violão, só que era um som mais de fundo, fazendo a base inicial da música.
- Essa letra não faz sentido nenhum. – Zayn reclamava, enquanto lia a letra e ouvia a música nos fones, com uma careta. – Que porra...
Todos nos preparamos e Liam fez a contagem, batendo as baquetas.
Para resumir, o ensaio correu como esperávamos: Foi terrível. Nós tentamos passar para diversas outras músicas ao longo da tarde, mas nenhuma ficava nem minimamente parecida com a original. Ninguém se acertava. Eu sabia que eu estava fazendo certo, mas eles não seguiam meu ritmo, e vice versa. Nada encaixava, uns estavam no começo enquanto outros estavam na metade, Zayn não conseguia saber quando começar a cantar, ficava tendo que gaguejar e voltar umas palavras para acompanhar a bateria... Era como ouvir o barulho do caos.
Josh saiu da sala logo depois da tentativa número três para pegar uns cafés. Durante aquele ensaio, eu senti vontade de desistir daquela ideia. Era maluquice. Existia um motivo pelo qual nós não pensamos em ter uma banda antes: não nascemos para isso. Mas guardei isso para mim, mesmo sabendo que os outros estavam pensando a mesma coisa, enquanto tentávamos sem sucesso acertar qualquer melodia.
- Tá, por que a gente não começa de um por um? Assim, eu começo na bateria... toco a primeira parte duas vezes... fico repetindo... Aí o Harry entra com a guitarra... O Louis com o baixo... ficamos no looping até o Zayn conseguir entrar...
- Liam, você tá querendo a gente fazer igual às menininhas do primeiro ano pulando corda. Uma pessoa começa a girar a corda e a outra tem que entrar pulando na hora certa.
Gargalhei com o exemplo de Louis e sentei no braço do sofá, dando um longo suspiro, decepcionado com o modo como aquilo estava correndo. Eu sabia que não podia esperar demais de um primeiro ensaio, mas todas as outras vezes quando imaginei aquilo na prática, correria muito melhor do que de fato foi.
Niall coçou a testa e foi sentar no sofá também, respirando fundo como eu fiz.
- Talvez a gente não tenha se preparado o suficiente individualmente. Acho que a gente tem que treinar mais sozinhos... E depois tentar de novo. – Niall olhou para todos. Como ninguém tinha uma ideia melhor e ninguém queria dizer o que todos estávamos pensando - que era “vamos esquecer essa ideia de banda e seguir em frente, não vai rolar” – todos concordaram com ele.
- Vamos desmontar os equipamentos. Nem sabemos quando vamos voltar, é melhor deixar organizado.
- Ou se vamos voltar – Louis disse, levantando para ajudar.
Eu e Niall também começamos a nos movimentar para ajudar. Fui para a caixa de som e comecei a desplugar cada um dos fios de trás dela para poder desligar.
Por um momento, todos ficamos quietos e pude ouvir passos e um assovio no corredor, se aproximando da porta. Logo Josh apareceu de novo com uns copos de isopor com café e fechou a porta com o pé, assoviando uma melodia qualquer.
- Demorou, hein, empresário? Vai ter que ser mais rápido que isso se quiser...
- Shh. – Niall se levantou de onde estava abaixado enrolando um fio e levantou o indicador para Louis, pedindo silêncio. Todos olhamos para ele, inclusive Josh, que parou de assoviar. – Não, você continua – ele disse a Josh.
- Quê foi?! – Zayn perguntou, depois de um momento, atirado na poltrona.
- Continua a assoviar, Josh.
Josh franziu o cenho, mas voltou a assoviar a melodia.
- O que tem de mais? Ouvi na rádio. – Deu de ombros.
Niall sacou o celular do bolso e escreveu alguma coisa enquanto eu olhava interrogativo para o resto da sala. Liam deu de ombros para mim, me olhando da mesma forma.
- Essa música é bem simples. Tem uma batida tradicional de bateria e um solo com base no sol no piano que repete. E é só isso. É muito simples, acho que a gente consegue.
- É, só falta uma coisa: O piano. – Louis falou o óbvio.
- E alguém que toque o piano. – Eu completei, já começando a ficar irritado com aquilo. Não sabíamos tocar. Fim. Será que dava para eu ir embora e comer alguma coisa agora?
- Eu toco piano. – Niall levantou os olhos para mim. Depois deu play em algo no celular e a melodia foi a mesma que Josh assoviava, só que mais concreta.
- Eu conheço essa música... – Liam disse.
- Niall, não temos um piano. Lembra?
- Dá pra fazer na guitarra também. E é muito fácil. – Niall sorriu, dessa vez. – Esqueci completamente dessa música. Foi a primeira que consegui tocar com os caras em Dublin.
Olhei para Louis, que me olhou de volta. Todos ainda pareciam meio céticos.
- Harry, pega a guitarra. – Niall pediu. Eu a peguei enquanto ele pegou o violão. – É um dedilhado simples. Me segue, é assim: Sol, sol com fá, si bemol, ré e repete.
Olhei enquanto ele tocou as notas pausadamente duas vezes, e então fiz junto. A guitarra tinha o que o violão não tinha, e o que era preciso em músicas como essa: ela prolongava as notas. Quando toquei com as notas prolongadas foi possível notar a melodia se formando.
- É do Coldplay, não é? – Liam disse, finalmente lembrando da música, e indo para trás da bateria.
Niall acompanhou a melodia mais umas vezes comigo até eu pegar o ritmo e então soltou o violão e foi para Louis, pegando o baixo e entregando na sua mão. Ele mostrou quais acordes tocar para acompanhar a guitarra e Louis encaixou o som com o meu.
- Bota no início da música de novo. – Liam pediu, concentrado em suas baquetas. Niall o fez.
Zayn acordou nessa hora, levantando da poltrona como se decidindo o que devia fazer, e puxou o celular do bolso para procurar a letra.
Quando a música recomeçou, Liam levantou a mão em sinal de pare e Niall parou. Parei de tocar e Louis fez o mesmo. Liam ainda encarou os pratos por um momento enquanto o encarávamos com expectativa, e então ele mexeu a cabeça e começou. Bateu no prato maior e começou o ritmo com o pedal, começou a bater no prato menor juntamente com o pedal e repetiu duas vezes o ritmo. Ele me olhou de trás da bateria e levantou as sobrancelhas.
- Começa! Vocês começam no prato maior. Vou de novo.
Ele fez de novo as duas vezes, e quando começou a terceira eu comecei a melodia do início da música, a mesma que Josh estava assoviando.
Fizemos toda a melodia uma vez e Niall levantou uma mão para Zayn, para impedi-lo de começar a cantar antes da hora. Ele fez um gesto com a outra mão para que continuássemos, e então, no final da segunda volta da melodia, Zayn olhou no celular e cantou as primeiras palavras:
- In my place, in my place...
Nessa parte o ritmo mudava, por isso paramos.
Josh bateu as mãos e riu.
- É isso aí, caras! Dez segundos de música que deu pra reconhecer!
Olhei dele para Liam e nós rimos.
- Isso foi legal! – Louis comentou. – Vamos de novo?
Assenti e olhei para Liam, esperando que desse a deixa.
Dez segundos de música fizeram a diferença no resto da tarde.





Capítulo 12

Zayn’s POV

Levantei a blusa de e passei as mãos por sua barriga e costas enquanto ela passava a língua em meu lábio inferior. Puxei sua cintura para mais perto de mim.
As coisas já estavam ficando com um ar de seriedade e até as outras garotas já olhavam mais contidas para mim. E insistia em me evitar mais ainda porque eu estava comendo a amiguinha dela. Só que eu não estava. E isso não deveria importar tanto.
Não acredito em relacionamentos muito monogâmicos. O único que achei que ia dar certo não deu.
Então que todo mundo seja de todo mundo nessa bosta.
Se fosse pra acabar com essa relaçãozinha, que seja agora.
- Acho que já deu. – Soltei entre uma mordida em seu pescoço e outra. Ela não respondeu de primeira, mas senti seu corpo reagir à informação.
- Por mim, tudo bem. – Disse com a voz mais firme do que eu esperava. – Estava ficando chato mesmo.
Hein?!
Passei as mãos por detrás de suas coxas e a tirei do chão, colocando suas pernas em volta da minha cintura, troquei nossos lugares e a pressionei contra a parede. Ela arfou e levantou os olhos para mim, meio desnorteada. Tracei um caminho entre seus seios expostos pelo decote e seu pescoço, mordiscando sua clavícula no caminho.
- Você estava dizendo...? – Murmurei contra sua pele.
- Ok, ok, Zayn, você não é nada chato. – Ela apertou meus ombros.
Ri baixo, voltando a beijar seu pescoço.
- Foi divertido. – Eu me sentia na obrigação de falar algo para ela. – Ahn... Algum cara vai ter a sorte de ter você e...
- Malik. Por favor. – Ela revirou os olhos e riu. – Pode me poupar desse discurso ridículo que, realmente, não faz seu estilo.
Soltei uma risada junto com ela, sentindo-me aliviado por ela não ser esse tipo de garota que quer explicação para tudo...
colocou as mãos em meu peito e me empurrou, caindo de pé no chão. Ela arrumou a saia e amarrou os cabelos num rabo de cavalo alto.
- Eu não faria isso se fosse você. – Apontei para seu pescoço, onde havia uma pequena marquinha roxa. Ela cobriu o pescoço com a mão e xingou baixinho.
- Você é um animal. – Murmurou.
- Obrigado. – Provoquei e, em troca, recebi um murro no ombro.
O armário do zelador tinha cheiro de mofo, ironicamente, mas era o único lugar onde se podia de fato ter alguma privacidade. Não que isso fosse de suma importância, mas devido às circunstâncias eu preferia fazer isso às escondidas. O melhor de tudo é que as garotas não parecem se importar.
Ah, os hormônios.
São o gatilho e o fim de tudo no mundo dos adolescentes.
Felizmente ou não, eu era a prova ferrada disso.
alisou a blusa e me deu um sorrisinho fraco ao me empurrar para o lado e passar por mim.
- Sabe, um dia você vai achar uma garota legal e aí vai parar de comer garotinhas no armário do zelador.
- Você sabe que é uma dessas garotinhas. – Arqueei a sobrancelha.
- Sei. – Abriu um sorrisinho quando colocou a mão na maçaneta da porta. – Foi divertido. – E saiu.

’s POV

Bocejei pela décima quinta vez na mesa do refeitório enquanto almoçávamos e me olhou.
- Cansada, ?
Respondi com um gemido.
- Não dormi nada essa noite. Essas provas estão fodendo comigo antes mesmo de começarem.
Ela riu.
- Posso te ajudar a estudar, se quiser.
Dei de ombros.
- Char, você disse que ia me ajudar com álgebra. – lembrou. – Podemos estudar juntas.
- Yupi – murmurei e afastei o prato pela metade de mim, apoiando o cotovelo na mesa e a cabeça na mão. – Vai ter que fazer milagre pra me fazer entender.
- A Char é muito boa nisso – sorriu.
Meus olhos focaram em Zayn se aproximando por trás de com sua bandeja de comida. Nosso “momento” no armário do zelador há alguns minutos não foi exatamente uma surpresa para mim. Eu também estava esperando aquilo dele, pois não sabia exatamente como fazer eu mesma. Como falei, foi divertido, mas não tinha sentido algum continuar com aquilo. Eu apenas estava orgulhosa de mim mesma por ter provado que podia ser quem quisesse, e mais importante: ter quem quisesse.
Ele passou por nossa mesa, indo em direção ao lugar onde ia sentar, e soltou para ao passar por ela:
- Bom dia, . Até a aula.
revirou os olhos e ri fraco. Ela me olhou, irritada.
- Olha... – peguei uma batata frita do seu prato. – Nós “terminamos” – fiz aspas no ar – hoje cedo, então se você gosta dele não precisa mais se preocupar.
- Cala a boca, . Não gosto dele.
- Ai, nossa. , você já viu ela nervosinha assim?
riu comigo e fez uma caretinha para nós.
- Superem isso, não tem graça nenhuma em fazer piadinhas com aquele troglodita. – Ela comeu um pedacinho de cenoura. – Mas vocês terminaram mesmo? Por quê?
Dei de ombros e antes de poder falar Rebekah me cortou:
- Oi, garotas - apareceu em nossa mesa segurando uns folders e soltando um para cada uma de nós. – Estamos organizando um car wash para a banda dos meninos...
Puxei o folder para perto, apertando o papel na mão e fazendo uma bolinha no automático, mais concentrada na conversa com , que ainda me olhava. era a única que lia o folder.
- Ah, , você sabe, não era um relacionamento. – Dei de ombros. – A gente só...
- , você já acabou? – A voz ácida de Rebekah me cortou outra vez e olhei para ela, impaciente. Ela segurava minha bandeja e franzi o cenho, fazendo que sim. – Legal.
Rebekah puxou minha bandeja e a soltou em uma mesa próxima à nossa, recebendo olhares estranhos. Se segurou no meu ombro e levou o pé à cadeira vazia ao meu lado, subindo nela e em seguida na mesa, ficando de pé na mesa do refeitório bem em cima da minha cabeça. Olhei para cima e logo desviei o olhar, eu não precisava enxergar sua calcinha.
- Atenção, queridos! Atenção aqui! – Ela disse alto, recebendo olhares confusos e curiosos de todo mundo. Rebekah fazia o uniforme do colégio parecer um uniforme infantil, o que estranhamente parecia muito sexy nela, então eu entendia os olhares masculinos que ela recebia onde quer que fosse naquela escola. Ela levantou um folder no ar. – Isso aqui é feito com papel, que vem da árvore, que nos dá oxigênio. E também gastamos dinheiro para fazer essa merda, então eu agradeceria se parassem de jogar fora sem nem se dar ao trabalho de ler!
O burburinho foi imediato. Ela não tinha vergonha de parecer uma louca, apesar disso.
- Agora todas as garotas que se importam minimamente com sua vida social venham até aqui, por favor. – Todo mundo continuou se olhando, e eu dei de ombros para a expressão confusa de para mim. – É sério, gente se mexe! Anda. Venham. Tem a ver com Harry Styles.
No mesmo momento, quase todas as garotas das mesas levantaram e vieram para a nossa mesa, e balancei a cabeça para toda aquela merda. Rebekah desceu da mesa, realizada, e foi cercada por uma dezena de garotas curiosas falando alto demais.
Ela começou a explicar da tal lavagem de carros e que precisava do maior número de pessoas possíveis, e bastou que explicasse para ajudar a quem era tudo aquilo que todas aceitaram participar de bom grado.
- Como estava te falando – toquei a mão de e ela voltou a atenção a mim. – A gente nem tava namorando, e se você e ele...
- ...
- Você e Zayn terminaram? – Uma garota se meteu na conversa e perguntou, chamando a atenção de outras.
- O quê? Você e Zayn terminaram? Não estão mais juntos?
- Ah, já era hora! – Uma delas comentou com a amiga, enquanto se afastavam de nossa mesa. – Eu super quero ele, mas tinha medo de apanhar da sapatona.
Fiz uma careta para todas elas e olhei para , grunhindo para ela. Ela sabia o quanto eu odiava essa situação.
- Vou para o treino, até mais tarde. – Avisei a ela e toquei o ombro de , me afastando dali.

’s POV

- Vejo vocês mais tarde. – Mandei um beijinho no ar para e Lauren, uma amiga nossa da aula de Economia, enquanto me levantava da mesa onde estávamos estudando alguns teóricos ingleses. A semana de provas estava quase chegando e não podíamos perder tempo. Por isso, depois do showzinho de Rebekah no refeitório e ir treinar chateada com as garotas da escola, e eu nos encontramos com Lauren para estudar no tempo que nos restava do período do almoço.
Fiz uma lista mental enumerando as coisas que precisava fazer antes de ir para a aula de marcenaria: passar no armário, aproveitar a proximidade e ir ao banheiro, entregar os catálogos e as contas do baile na secretaria e devolver um livro de Biologia. Em trinta minutos eu seria capaz de fazer tudo.
Deixei os livros pesados e os cadernos desnecessários dentro do armário e fui ao banheiro. Analisei meu reflexo no espelho; apenas meu cabelo estava mais bagunçado do que devia – apenas conseguia aquele desalinhado bonito daquele jeito. Passei as mãos por ele com uma mão enquanto procurava uma escova de cabelo na bolsa com a outra mão. Como não achei, peguei o estojo de maquiagem e tirei um gloss de lá, retocando meus lábios. Como que sabotando a mim mesma, eu odiava pensar que encontraria Zayn na próxima aula, fazendo parecer que eu estava me arrumando para ele, mas, outra parte de mim, sabia que eu fazia tudo aquilo naturalmente, com ou sem Zayn Malik ou qualquer outro garoto. Não precisava disso para querer estar bem comigo mesma.
O que me lembrava . Que parecia um caso bem diferente. Mas eu não podia julgar, vai que ela realmente quis mudar por si mesma.
Alisei a saia do uniforme e alinhei a meia-calça xadrez, terminando minha inspeção. Logo, logo o dia acabaria e eu não precisaria me preocupar com tudo isso, apenas dormir. Coloquei a bolsa no ombro e dei uma rápida olhada no espelho antes de puxar a porta e sair.
- Eu imagino o que leva uma garota a demorar tanto tempo no banheiro. – A voz masculina me fez pular de susto, ainda mais pela proximidade, logo ao meu lado, antes mesmo de estar totalmente fora do banheiro. Olhei para o lado e o vi lá, escorado à parede, uma mão no bolso e a outra segurando um cigarro aceso.
- Um dia você será expulso por fumar nas dependências do colégio. – Constatei, virando na direção contrária a ele.
- Você não deixaria. – Ele me seguiu.
- Quer apostar? – Arqueei uma sobrancelha, sem olhar para ele.
- Um beijo.
Respirei fundo.
Nunca deva algo a alguém. Ou pelo menos não faça algo que vá servir de arma aos outros. Ou, ainda, seja muito seguro de si e não dê a mínima àqueles que irão usar algo contra você.
Infelizmente, eu não era o sujeito de nenhum desses conselhos e, por mais que tenha sido ele quem me beijou, eu não era tão segura de mim a ponto de não ligar. tinha uma quedinha por ele e agora éramos amigas e... Eu estava gostando das coisas do jeito que estavam.
- Por que você não vai embora? – Perguntei, segurando-me para não choramingar.
- Porque temos aula juntos agora, . – Ouvi a diversão em sua voz.
- . – Respirei fundo, segurando mais forte a alça da bolsa.
- Às vezes eu acho que você quer repetir a dose.
- Às vezes eu acho que você caiu de cabeça quando era criança.
- Não precisa ficar na defensiva, ... – Ele passou o braço pela minha cintura e falou em meu ouvido, os lábios roçando o lóbulo da minha orelha. – Eu não vou te morder.
Parei no lugar, frustrada.
- O que você quer, afinal de contas? – Cruzei os braços e olhei diretamente em seus olhos. - Eu acho que está claro demais, . – Um sorriso se formou em seus lábios, jocoso. Eu quase me senti ofendida.
- Você está brincando comigo? Eu não vou fazer isso com você!
Ele me olhou, estático. Por um momento, eu achei que ele ia explodir em gargalhadas. Até eu me senti patética no momento em que aquelas palavras saíram de minha boca.
- Isso pode parecer estranho, mas... Eu não quero comer você. – Ele franziu o cenho.
De um jeito estranho e difícil de explicar... Aquilo não era o que eu esperava ouvir. Quero dizer... Ele quebrou as minhas pernas. De duas, uma: ou eu passaria por convencida ou eu passaria por doida. Porque, para mim, estava mais que óbvio que ele estava apenas tentando me conquistar para depois...
Era mais que óbvio.
Eu estava incrédula.
E com um pouco de vergonha.
Pela cara dele, eu o peguei de surpresa.
- Sim, isso parece estranho. – Falei, finalmente, engolindo os cacos do meu orgulho.
- Caralho, que situação. – Ouvi-o murmurar. – É o seguinte: eu preciso de nota. – Arqueou as sobrancelhas, como se aquilo dissesse tudo.
E dizia.
É claro que dizia.
- Ah. – Foi só o que consegui dizer. Se minha vida fosse um show tipo Lizzie McGuire, minha bonequinha estaria varrendo e catando os farelos da minha cara.
Mas é claro que, por outro lado, ele poderia estar sempre mentindo e se fazendo de inocente porque foi pego na mentira.
Mas nesse momento, eu estava muito envergonhada para tomar qualquer posicionamento.
- Achei que se fôssemos algo como amigos... Você me ajudaria. – Continuou se explicando e, pela cara, estava odiando fazê-lo.
- Esse é o seu conceito de amigos? Beijos e investidas?! – Franzi o cenho, retomando minha coragem.
- Olhe... Eu sinto muito, ok?
- Você é esquisito. – Torci o nariz e dei as costas para ele, dando a conversa por encerrada.

Zayn’s POV

Puta merda.
Caralho.
Fodeu tudo.
Não, eu não consigo pensar em uma única frase nesse momento que não envolva um palavrão e uma necessidade enorme de dar um tiro na minha própria cabeça.
Puta que pariu.
“Eu não quero te comer”?! Que merda foi essa?!
Caralho, eu faço qualquer coisa pra essa garota ficar de quatro por mim.
E eu só preciso que ela fique de quatro por mim.
Cacete.
Deixei-a ir à frente e acendi outro cigarro, tentando pensar direito.
O que eu faria a seguir?
Passaria duas horas sentado ao seu lado e...?
Cheguei à sala um pouco depois da loirinha nervosa e – muito provavelmente – confusa. Sentei-me ao seu lado e, após largar a mochila em cima da mesa, esparramei-me na cadeira. Pelo canto do olho, podia ver os olhares irritados que ela lançava para mim enquanto o professor explicava a atividade do dia: um abajur em MDF.
- Eu faço a base. – Falei, pegando a pequena tábua de madeira fina.
Ela apenas assentiu.
Contive o desejo de xingar, contando até três. Depois coloquei os óculos protetores e peguei a serra circular. O MDF não estava pronto, é claro, por isso precisava cortar a chapa de madeira de tirar o ângulo para fixar o suporte do abajur. tirou um elástico da bolsa e prendeu os cabelos, depois puxou uma folha grande de papel cartão e começou a tirar as medidas para fazer a cúpula, sem dizer nada. Revirei os olhos e liguei a lixa. Afastei-me um pouco e me inclinei, antes de ligar a serra.
Ao encostar o aparelho no pedaço de madeira, a serragem começou a se espalhar por toda a mesa, fazendo olhar para mim com cara feia. Dei um meio sorriso, sem muita paciência para lidar com ela. Liguei novamente a serra, girando a peça para poder cortar no formato que foi sugerido pelo professor.
- Você se esqueceu de suas luvas, Sr. Malik. – O professor passou por nossa mesa e disse enquanto olhava o desenho de . – Muito bom, Srta. , apenas não se esqueça da proporção com a base. – E então saiu andando. Continuei meu trabalho, ignorando o professor. Eu precisava de quatro fitas de largura média para formar a base e já estava na quarta. Inclinei-me ainda mais para ficar no nível da mesa e observar com precisão o corte. O corte horizontal era o mais delicado e precisava de atenção.
- Pronto! – Anunciei. – A base vai ter alguma inclinação ou reta? – Perguntei, observando atentamente meu trabalho.
- Tanto faz. – Ouvi-a dizer.
Olhei para o céu e assenti para mim mesmo, peguei uma ferramenta que parecia uma navalha e tirei a medida do ângulo entre a base e o plano da mesa. Perguntei ao professor qual a melhor forma de juntar as tiras de madeira e ele falou que a melhor forma era com pregos.
- , preciso que você segure aqui para mim. – Mostrei para ela, que apenas olhou sem o menor interesse.
- Você vai pregar meu dedo nesse troço. – Ela arqueou uma sobrancelha.
- Ok, eu seguro, você bate. – Propus.
Ela se levantou de seu banco e veio em minha direção, pegando o prego e o martelo de cima da bancada.
- Segura firme. – Ela avisou.
- Apenas pregue bem. – Respondi.
Ela posicionou o prego e se preparou para bater. Eu esperava com todas as minhas forças que ela não acertasse minha mão ao invés de bater no prego.
- Aqui está bom? – Ela se assegurou.
- Sim.
Olhei atentamente para o prego, esperando para ver como aquilo iria sair. Talvez fosse melhor usar uma pistola de pregos...
- , o prego está muito na bei... – Comecei a falar, mas ela já havia soltado a mão e bateu o prego, que, por estar muito na beira e um pouco inclinado, atravessou o MDF e foi parar na minha mão. Fechei a boca e os olhos, segurando tudo que havia em mim para não gritar e fechei a outra mão em meu pulso, como se aquilo fosse fazer a dor parar. – Puta que pariu! – Berrei, olhando para o prego cravado no dorso da minha mão. soltou o martelo e cobriu a boca com as mãos, estática.
- Ai meu Deus! – Ouvi-a arfar.
- Enfermaria! – O professor saiu de algum canto e veio analisar minha mão. – Andem.
Sem pensar duas vezes, passou seu braço no meu e nos puxou para fora da sala.
- Zayn. Eu. Sinto. Muito. – Ela falou bem umas quinhentas vezes no caminho até a enfermaria. E eu repetia “tudo bem”, para todas elas. Nunca antes ela havia dito meu primeiro nome tantas vezes.
A enfermeira não fez muito. Primeiro ela tirou o prego. Doeu pra caralho, depois ela limpou, o que doeu mais um pouco e então jogou a bosta de uma coisa transparente que parecia que estava queimando minha mão por dentro. Aí, depois que parou de arder, ela colocou uma gaze e esparadrapo. Ela me deu, ainda, uns comprimidos antitétano. Fomos liberados da aula por meio de um atestado que deveríamos entregar para o professor na próxima aula e saímos da enfermaria.
- Eu ainda não acredito que eu fiz isso. Por favor, me desculpe. – Ela juntou as mãos, o rosto carregado de uma visível preocupação. Coloquei o comprimido na boca e tomei um gole do copo d’água que havia arranjado para mim.
- Está tudo bem. Poderia ter sido pior. – Estiquei e cruzei minhas pernas. Ela estava toda encolhida ao meu lado, o corpo todo virado para mim. – Sério, .
- Ok. – Ela balançou a cabeça, como se tentasse se convencer de que estava tudo bem.
- Foi minha culpa também.
- Você estava sem luva. – Observou.
- Também. Mas não era isso o que eu ia dizer. – Ri seco. – Eu falei que estava bom onde o prego estava.
- Ah sim, verdade. – Ela mordeu o lábio inferior. – Está doendo? A enfermeira disse que você tem que tomar o antitétano de três em três horas.
- Eu ouvi.
Ela entrelaçou as mãos no colo e olhou para os lados, parecendo aflita e ansiosa.
- Pode dizer, .
- Mesmo?
- Sim.
- Me desculpe! – Choramingou, pegando minha mão e a elevando ao nível de seus olhos para observar melhor. – Ai, que dó! – Abraçou minha mão com força, repetindo “que dó, que dó, que dó”.
A cena com certeza estaria estranha para alguém de fora, mas, de alguma forma, aquela era a coisa mais bizarra e... Fofa. Por um momento eu nem me importei que minha mão estava entre seus seios ou que aquela demonstração de afeto dela não combinava com o tom defensivo que era a marca registrada de nossa “amizade”.
- Está tudo bem. – Repeti, reprimindo um sorriso.

Harry’s POV

Foi engraçado quando Rebekah apareceu, ainda há duas semanas atrás, antes do campeonato e tudo mais, e disse que ia nos ajudar a organizar o car wash.
- Seguinte – Rebekah abriu espaço entre Liam e Josh na pequena roda que fizemos em frente ao meu armário e sorriu para Liam quando ele desceu o olhar por ela. – Vou ajudar com a lavagem de carros.
Olhei por cima do ombro, meio espantado.
- Nós tivemos essa ideia há literalmente dez minutos.
Ela deu de ombros.
- As notícias correm. Já tenho um grupo de garotas dispostas a ajudarem com a divulgação. Consigo fazer folhetos e espalhar para o pessoal da cidade sem problemas. As garotas estão animadas, vai ser um sucesso.
- E o que exatamente você ganha com isso? – Louis arqueou a sobrancelha. Eu estava pensando no mesmo, então olhei para ela, curioso.
- Se eu fizer um bom trabalho e essa banda ganhar algum sucesso... Em breve vou ter a minha recompensa. – Disse e piscou para Liam, ao recuar de nossa roda. – Por enquanto, ficam me devendo uma. De nada! – Disse, já rebolando corredor afora.
Liam assoviou baixinho, acompanhando Rebekah com os olhos enquanto ela se afastava. Segurei uma risada ao ver a cara de espanto de Josh, que sequer piscava desde que ela chegara.
- Calma, cara, respira. – Louis tocou o ombro dele.
- Meu Deus. Essa garota...
- Não é pro seu bico, camarada. – Liam riu.

E agora que eu parara para pensar sobre isso, não teria mesmo dado certo sem umas mãos femininas dando apoio. Tudo que nós, da banda, precisamos fazer, foi divulgar pelo colégio e continuar falando sobre isso. E nem todos nós fizemos – não é difícil de imaginar quem não participou.
Ainda não sei como Rebekah conseguiu organizar tudo tão bem, mas de acordo com as informações de nosso Gossip Girl pessoal, ela tinha seus contatos, o que era muito bom para a nossa banda.
Aquele era apenas o segundo fim de semana livre depois do que aconteceu com , e todo mundo andava se comportando bem demais. Mas mesmo assim tivemos que falar com a diretora Campbell sobre liberar os alunos e que essa era uma causa nobre, etc.
Quando chegamos à lavagem, há poucos quilômetros do centro de Carlisle, o lugar já estava cheio de garotas do colégio vestidas em roupas muito melhores – e menores - do que nosso uniforme. Eu não podia negar, o dia estava frio. Mas admirava - entre diversas outras coisas, se é que me entende - a força de vontade de todas elas.
- Dude, isso vai ser da hora. – Liam passou as mãos uma na outra.
- Sabe o que falta aqui, Liam? – Olhei ao redor e sorri quando as garotas comemoraram o primeiro carro da tarde.
- Hum?
- A sua irmãzinha. – Dei duas batidinhas no seu ombro e ri, me afastando.
A lavagem ficava na esquina de uma rua pouco movimentada, em um grande terreno plano, e do outro lado da rua havia um posto de gasolina. Eu, Josh e Niall ficamos por lá, na sombra, enquanto observávamos as garotas trabalharem. Eu ainda não acreditava no quão fácil aquilo estava sendo. Realmente ficaríamos devendo uma das grandes à Rebekah.
Em poucos minutos a rua lotou de carros. Elas organizaram duas filas, e mesmo assim vários motoristas esperavam sua vez, e por culpa disso até o posto de gasolina ficou lotado.
- Você acredita nisso, cara?! – Josh dizia, empolgado, ao meu lado.
- Será que vamos conseguir todo o dinheiro? – Niall perguntou.
- Quanto elas estão cobrando?
- Quinze libras. E mesmo assim está chovendo gente.
Vimos Rebekah atravessar a rua vindo em nossa direção, e Niall riu baixo.
- Calma aí, parceiro. – Ele apertou o ombro de Josh, que empurrou sua mão e praguejou. Eu e Niall rimos.
- Ei, Harry. – Ela chegou até nós e sorriu abertamente. Nenhum de nós três pudemos evitar dar uma olhada nela. Rebekah sabia disso, e gostava da atenção.
O que parecia era que ela havia aberto seu guarda roupas e pegado o modelo “lavagem de carros”. Estava vestindo um calção jeans realmente curto e uma regata rosa meio molhada e transparente, amarrada com um nó em um dos lados da cintura. Seus cabelos vermelhos estavam presos dos dois lados em cima dos ombros, dando um ar de menininha, tudo que ela não era. E ela estava sensacional. Eu quase conseguia entender a reação petrificada de Josh, mas já havia perdido meu encanto em Rebekah desde a primeira vez que a conheci.
- Como vocês conseguiram tanta gente?! – Niall perguntou.
- Colocamos a Sally e a Brandie segurando placas na saída da interestadual. – Ela riu e apontou para a direção da estrada. – Já arrecadamos uma grana! Vocês vão conseguir ainda mais do que precisam.
- Você superou as nossas expectativas. – Comentei.
Ela sorriu, presunçosa.
- Que bom. Acho que já sabem a quem recorrer nas próximas, então? Eu precisava mesmo de um agito. – Disse, olhando para a lavagem do outro lado da rua.
Escorei-me na parede atrás de mim e cruzei os braços.
- Eu estava pensando, na verdade, e já que nós já aceitamos o Josh como tes... – parei de falar ao olhar para o lado e perceber que nem Josh nem Niall estavam mais ali. – hum, bom, ainda precisamos de uma “assessora”. – Fiz aspas e sorri torto para ela.
- Vou pensar na sua proposta, senhor Styles. – Ela me sorriu da mesma maneira e enrolou uma mecha do cabelo no dedo. Mas perdi seu rosto de vista quando foquei o olhar atrás dela, mais precisamente do outro lado da rua, onde quatro garotas chegavam juntas. Franzi o cenho e Rebekah seguiu meu olhar.
- Por favor, diz que ela não vai lavar carros... – Levei uma mão ao rosto, já preparado para o pior.
- Não... – a ruiva deu meia volta e também cruzou os braços, observando. – Mas julgando por aquelas pernas, ela nos daria muito lucro. Com licença, rock star! – Disse e, virando para me dar um beijo rápido na bochecha, voltou de onde havia vindo.
Minha expressão não era das melhores. Eu literalmente fazia uma careta como se tivesse provado algo amargo, mas era difícil conter aquela reação ao ver vestida daquela maneira. Acho que havia esquecido que ela era assim agora, já que da última vez que a vi ela estava com seu usual uniforme do time, correndo pelo campo.
Suspirei e desviei o olhar, dando uma olhada rápida em , e que estavam junto com ela.
- Aí, dude... Aquela é a ? – Louis cortou sua frase pela metade. Eu olhei para ele, com uma garrafa de cerveja na mão.
- Não. Me diz quando reconhecer aquela garota.
Niall e Josh voltaram de onde foram com uma garrafa cada, também.
- Qual é, Styles. Se ela fosse qualquer outra garota, você não perderia tempo! Já teria comido ela na despensa, como qualquer outra. – Josh disse, sem nem pensar em selecionar as palavras.
Não que eu esperasse que ele fosse selecionar, porque era o Josh.
- Vai se foder. E me dá isso aqui. – Puxei a garrafa de sua mão, quando ele fez cara feia.
Infelizmente ela não era qualquer outra. Se fosse, seria bem mais fácil engolir o fato de que estava... bonita.

Zayn’s POV

- Puta merda. – Murmurei ao abrir os olhos e ver o relógio de cabeceira marcando uma hora da tarde. Levantei, sem muita pressa, mas também não tão devagar e me dirigi ao banheiro. Eu não havia dado cem por cento de certeza de que estaria na lavagem de carros, mas havia dentro de mim alguma intenção de aparecer por lá. Enfiei a escova de dente na boca enquanto dava descarga e abri o registro do chuveiro, preparando-me para o banho.
Peguei a primeira camiseta que vi no quarto – e ela estava no chão. Cheirei a peça e, depois de jogar um pouco de perfume nela, vesti. A calça estava embolada dentro do guarda-roupas, então foi rápido; o que mais levou tempo para achar foram meias limpas. E, como não achei, fui para o guarda-roupas de Liam.
- Foi mal, dude. – Balancei a cabeça e peguei um par de meias cinza. – Melhor você não ter chulé. – Murmurei para as meias.
Peguei os óculos de sol e desci para o térreo do dormitório e então, saí.
Estávamos quase no inverno, mas o dia estava relativamente bonito. Algumas poucas nuvens, o sol brilhava forte, iluminando a maior parte do pátio. Por algum motivo, peguei o caminho que passava pelo dormitório feminino. Olhei para cima enquanto contornava o prédio e, parecendo uma assombração, vi em uma das janelas, olhando o dia, uma mão brincando com a outra num ritmo frenético.
Eu tive que subir.
Durante o dia, ao que parecia, a inspetora do prédio era mais de boa com relação a visitas, por isso a velha disse apenas um “seja rápido”. E eu subi as escadas com um pouco de pressa, preocupado em perder o carro da escola que partia para Carlisle em alguns minutos. Achei o quarto de com alguma dificuldade, mas podia me recordar vagamente de ouvir dar a entender que elas dormiam no mesmo quarto e, por , eu sabia que quarto era. Confusão da porra.
- Bom dia, flor do dia! – Entrei no quarto sem o menor pudor, escancarando a porta. virou o rosto minimamente para mim.
- Pegue seu bom humor e vaza. – Foi o que disse.
- Você é uma péssima anfitriã. – Observei, indo até ela. O quarto estava escuro, apenas a janela em que ela se encontrava tinha as cortinas abertas. – Tá virando morcego?
- Se isso funcionar... – Deixou a frase morrer. Parei à sua frente e olhei para ela.
- Meu Deus. – Torci o nariz. – You look like shit.
- Sempre um cavalheiro, huh? – Ela revirou os olhos.
- Tanto faz. Parece que você foi pisoteada por uma manada de bodes.
Ela não respondeu, apenas continuou fitando o mundo lá fora. Suspirando, peguei seu par de botas que estava no pé da cama e coloquei à sua frente.
- Vamos, você precisa de ar fresco. – Cutuquei seu braço. Ela não se moveu. – , esqueça essas malditas pílulas e levanta.
Aí ela olhou para mim, um lampejo de ofensa em seus olhos.
- Quem disse que isso é droga?!
- E o que seria então? Olha, pra mim você não parece uma dessas garotas que sofrem por amor então...
- Você é insuportável. – Sibilou.
- . Levanta. – Aquilo já estava me desgastando. Por que eu estava aqui, afinal de contas? Ela me olhou fixo por alguns instantes.
Mas, por fim, levantou-se do canto onde estava amuada e começou a calçar as botas.
- Tanto faz, contanto que você não encha a porra do saco. – Ela bateu seu ombro no meu quando passou por mim.
Tanto faz, , eu ganhei. Como sempre. Coloquei as mãos nos bolsos e a acompanhei escada abaixo.
Eu estava começando a pensar em como uma amiga. Mas não perderia a oportunidade de me enfiar por entre suas pernas, claro. Ela era maravilhosa, apenas Deus sabe de onde surgiu tanta beleza; ela seria o melhor dos melhores troféus que alguém exibiria em toda sua vida. Segui-a de perto em direção ao portão da escola. Entramos no carro sem trocar muitas palavras e eu dei o endereço para o motorista, que não pareceu muito feliz de ter que ir tão longe. - Não acredito que você está indo para aquela merda. – Ela murmurou.
- Você deveria estar feliz, seu namoradinho vai estar lá. – Provoquei.
Ela fechou a mão trêmula em punho e eu quase soltei uma risada. Estava começando a ficar claro que o garoto a incomodava demais. Mas eu não ligava muito para aquilo. Na verdade, um cara paradão que nem o Louis poderia ser algo bom para ela. Ou muito ruim para ele...
De qualquer forma, aquela garota precisava de algo não radical em sua vida.
De qualquer forma, eu não queria dar a mínima.
Quando chegamos, as pessoas encararam. Óbvio. foi para o posto de gasolina e logo desapareceu dentro da loja de conveniências e, talvez, quem sabe, aquela tenha sido uma ideia de merda porque ela provavelmente estava indo em direção aos cigarros ou às bebidas naquele mesmo instante.
Mas, honestamente, não havia muito que eu podia fazer.
- Hey, Zayn. – As garotas por quem eu passava me cumprimentavam, com sorrisos abertos e safados. A maioria delas estava de biquíni e short, a outra parte estava com mais roupas, mas também curtas e, de verdade, aquela era a melhor coisa desde que cheguei nessa cidadezinha. - Boa tarde. – Pisquei, abrindo um sorrisinho. Cheguei ao, não único, grupo de machos naquele lugar e balancei a cabeça, em cumprimento. Eles me saudaram de volta.
- Resolveu aparecer? – Liam perguntou, parecendo se divertir.
- Pelas garotas, não por vocês. – Rolei os olhos.
- Você poderia fazer algo de útil e ir ajudar. – Harry resmungou.
- Como vocês? Ah, beleza. – Respondi, dando a mínima pro tapado querendo dar lição de moral.
Afastei-me deles e fui para perto da fila de carros sendo ensaboados, sem realmente ter um objetivo a cumprir. Talvez eu conseguisse ver algum par de peitos molhados ou duas garotas se beijando, quem sabe.
- Quer ajudar? – Uma garota com a parte de cima de um biquíni branco e short jeans me passou uma esponja encharcada. Dei de ombros e comecei a ensaboar a janela da picape. Seria até divertido se eu estivesse realmente afim de molhar a barra da calça e os braços. As garotas deveriam estar molhadas, não eu. Garotas chamam atenção... Eu também, mas isso não vem ao caso.
Olhei em volta, reconhecendo a área. Muitos carros, muitos caras babando, muitas meninas seminuas, um grupinho em uma área coberta contando dinheiro e comendo. Até que estava bem organizada a coisa. Avistei e grupo no meio de uma pequena aglomeração em volta de um carro de luxo. O dono era um aluno do colégio e as garotas parabenizavam ele... Vadias interesseiras.
estava lá também, parecendo um peixe fora d’água. O que me lembrava que, para fazer progresso com , precisava parar de ir ver a amiguinha dela no armário do zelador. E foi o que me levou a um término. E, por mais fodido que fosse, eu e não tínhamos nada sério então não foi difícil terminar aquilo. Eu poderia muito bem ter bancado o escroto filho da puta que sou, mas isso faria ficar puta e ela ia acabar fazendo minha caveira para e isso era algo que eu realmente não precisava agora. Principalmente depois que a guria enfiou um prego na minha mão e isso meio que nos aproximou.
Um fucking prego nos aproximou.
Soltei a esponja no balde e dei um meio sorriso para a garota que me olhou preocupada. - Você fica melhor fazendo isso do que eu. – Falei. Ela riu fraquinho e me olhou de cima a baixo.
- Vamos concordar em discordar. – E me deu um sorriso safado.
Putas.
Todas putas.
Dei as costas para elas e fiz meu caminho em direção à parte coberta.
Mas algo me pareceu muito mais convidativo. Uma das garotas estava enchendo um balde grande d’água e não me parecia certo ver aquelas meninas tão sequinhas. É claro que eu precisava interferir naquela cena. Por isso, peguei o balde quando a garota se virou e fui, esgueirando-me entre os carros, até o conversível do playboy.
Ele estava encostado no capô do carro, sentindo-se o rei da Inglaterra, olhando de perto um colar no pescoço de uma loirinha. Ele estava quase babando. E as outras garotas conversavam animadamente entre si, como se não houvesse amanhã. Como eu disse, secas demais.
- Ouvi dizer que todo mundo tem que se envolver. – Falei, chamando a atenção das meninas. Elas olharam todas para mim no mesmo instante que joguei a água que estava no balde. Gritinhos e mais gritinhos, mas as garotas que mais importavam ali estavam me olhando com uma cara de morte – e muita surpresa.
Apenas soltei uma risada e larguei o balde, traçando minha rota de fuga.
- Caralho, Malik! – Louis bateu em minhas costas, rindo.
- Eu jurei que a ia pular em seu pescoço. – Liam me olhava sério, mas estava igualmente incrédulo e se divertindo com aquilo tudo.
- Ela não ousaria. – Dei de ombros.
- Você não existe, dude. – Niall riu.
- Quando você falou de garotas molhadas e carros eu não achei que estava falando nesse sentido! – Josh abriu um sorrisinho de canto.
- Bom, todas elas estão molhadas agora. – Falei.

’s POV

Agora eu entendia porque rímel a prova d’água era tão valorizado. A primeira coisa que fiz ao levar o banho de água gelada de Zayn foi passar a mão debaixo dos olhos, aterrorizada. Não pelo fato de ficar feia, mas era porque quando aquela merda pegava nos olhos ardia que era uma beleza. Fiquei aliviada quando meus dedos não ficaram sujos de preto, e riu da minha cara.
- O rímel da Mac é à prova d’água. Provavelmente inventaram essa ideia pensando em idiotas como o Zayn. – Ela bufou.
- , quando estava com ele você podia ter aproveitado pra explicar que certas coisas não são necessárias. – falou, apertando a ponta dos cabelos que estavam um pouco molhados. Eu sorri para ela, meio sem graça.
Era diferente falar sobre ficar com Zayn com aquelas duas, porque elas sabiam como as coisas estavam indo de verdade enquanto estávamos ficando. Não era apenas um boato para elas como era para o resto do colégio.
- Vem, vamos pegar umas toalhas. – tocou meu cotovelo e nós três atravessamos a área dos carros na lavagem, indo para baixo de um telhado aberto onde ficavam todos os produtos de limpeza, em uma mesa grande de madeira.
Já estávamos lá há algum tempo conversando com outras pessoas do colégio. Alguém havia ligado uma música eletrônica em algum lugar, e algumas garrafas de cerveja rolavam pelo meio das pessoas meio às escondidas, mas não eram muitas. Na mesa dos materiais de limpeza, eles abriram e limparam um espaço para colocar uns salgadinhos e doces só para o pessoal que estava organizando a lavagem e recebendo o dinheiro.
A conversa estava legal, mas para mim tudo aquilo ainda era meio fútil. Eu não morria de dar risada conversando com elas como era com meus amigos, mas já que não estava mais tão próxima deles, aquilo era o que me restava. E não era bem uma questão de escolha, como todos pensavam. “ trocou todos os seus amigos pelas garotas populares de repente”. Não era bem assim. Elas eram o que me restava.
As meninas da escola estavam se revezando na lavagem. Algumas saíam e se secavam para ajudar no “caixa” enquanto as outras iam lavar os carros. Assim como os meninos da banda, estava lá, sentada em um canto observando tudo, tão linda que doía, com aquele seu olhar perdido. Às vezes eu queria fazer como ela, e quando abrisse uma brecha, simplesmente escapar, sumir. Mas sentia que precisava ficar mais um pouco, porque fui eu que pedi por aquilo.
- Três toalhas, por favor? – pediu a Rebekah, que estava sentada em uma ponta da mesa, as pernas cruzadas, conversando com Liam. Ela levantou e trouxe o que pediu.
- Aqui está, princesinha. – Piscou, como se fossem cúmplices.
- Só pra mim que tudo que vem dela parece meio duvidoso? – sussurrou, e eu ri baixo. Peguei uma toalha e me virei quando um ombro tocou no meu.
- Ah, ótimo, Zayn. Isso não era nem um pouco necessário. – Revirei os olhos, passando a toalha no rosto.
- Shh. – Ele ergueu um dedo, colocando um salgadinho na boca. – Você fica ótima toda molhadinha. – E piscou, com um sorrisinho prepotente.
Fiz uma careta de nojo para o comentário idiota.
- Babaca. – Murmurei, sozinha.
- Olá, . – Ele sorriu para a garota ao meu lado, antes de voltar a sumir.
Comecei a passar a toalha em meu cabelo e olhei estranho para .
- Sério. O que vocês dois têm?
Ela deu de ombros.
- Eu juro que não sei.
- Não fica chateada, . – se meteu no assunto. – Ele é um stalker. Ela até pregou a mão dele, literalmente. Ele não desiste!
Arregalei os olhos para e ri.
- Foi um acidente. – Ela fez bico.
- Não estou chateada, vai por mim. – Fiz outra careta e comi um salgadinho. – Mas ele é meio... creepy com você.
Continuei secando as partes mais molhadas do meu corpo enquanto e engataram em uma conversa sobre algo delas, aquele tipo de conversa que eu não participava. Peguei mais um salgadinho enquanto isso, e fiz careta quando senti que tinha sal demais. Eu podia ouvir a conversa de Louis e Harry, sentados em um murinho baixo do outro lado da mesa, ao lado de umas bebidas que estavam dentro de uma caixa de isopor no chão. Eu me perguntava se eles sabiam que estávamos no outono.
- Me alcança um copo, Lou? – Pedi, segurando a toalha com o antebraço.
Louis olhou para a caixa de isopor no chão, mas Harry respondeu antes que ele saísse do lugar.
- Pede pro seu namorado. Ele que conseguiu o trago. – Acenou com a cabeça para a outra ponta da mesa, onde Zayn parecia mais realizado do que nunca, enchendo o copo de uma garota (já cheio de refrigerante) com uma garrafa de Red Label.
Franzi o cenho. Aquela era ?
Olhei para Harry, decidida a relevar aquela infantilidade.
- Você está sendo ridículo. – Disse. – Desculpa. Esqueci que você é o centro do universo. – Comprimi os lábios.
Dei a volta na mesa e parei ao lado de Louis, estendendo a mão para tomar um gole do seu.
- , você não devia fazer isso.
Olhei para Harry, entediada.
- Vai dar celulite!
- Vai se foder, Harry. Quantos anos você tem? Na boa. Por que eu te incomodo tanto?
- Gostava mais de você antes da lavagem cerebral. – Deu de ombros, os braços cruzados.
- Você é tão infantil. – Tentei manter minha voz no mesmo tom. Eu não me importo, eu não me importo. – A única coisa que mudou foi minha aparência, Harry. Você saberia disso se falasse comigo.
Tomei o copo da mão de Louis e tomei o resto da bebida, me sentindo nervosa e subitamente com raiva. Nervosa pelo confronto, e com raiva por estar nervosa. Por ainda me sentir assim perto dele.
- Olha só, vocês dois são ridículos. Dá pra parar? – Louis olhou de Harry para mim e de mim para Harry. – Vocês são amigos há mais de...
- Me poupe do discurso, Louis. tem outros amigos agora. – Ele olhou para mim. - Foi você que mudou. Você escolheu isso. – Deu de ombros de novo.
- Então é isso? Tá com ciúme de mim? – Sorri. – Se sente minha falta, é só pedir desculpa.
- Se eu sentir a sua falta, só preciso encontrar qualquer garota por aí. Dá no mesmo, não é? – Ele riu.
Apenas quem estava realmente próximo de nós ouvia aquilo, o que me deixava mais tranquila. Mas não tirava a tensão dos meus músculos.
- Quer saber por que eu mudei, Harry? Eu mudei porqu-
- Porque não conseguia arranjar um namorado? Na boa, era só me pedir uma ajudinha. Eu quebrava esse galho pra você. – Piscou para mim.
Meu rosto estava em chamas.
Era isso que ele sempre fazia. Já era tão usual me sentir derrotada com seus comentários, que não sei como aquele em especial me atingiu com tanta força.
- , vamos sair daqui. – chamou, há poucos metros de mim do outro lado da mesa, e percebi que a conversa em volta de nós havia cessado.
- Eu não vou perder meu tempo com você. – Disse baixo e controladamente para ele, virando de costas.
- Isso, obedece ela. Eu não esperava outra coisa de você.
Vi a expressão incrédula e irritada de para Harry.
Agora eu não me sentia mais nervosa. Apenas com raiva.
Virei para ele de novo.
- Fala isso de novo? – Minhas mãos estavam fechadas em punho. Louis se levantou e saiu da minha frente.
Harry levantou também. Nossa, fazia tempo que eu não socava alguém. Pro caralho com os bons modos, eu queria quebrar o nariz daquele babaca.
- O que foi, , tanta química estragou sua audição?
Eu nem havia pintado o cabelo tanto assim!
- Você é um filho da p...
- Já chega, porra. – Precisei olhar para trás para ver que era Zayn puxando meu cotovelo. Sério? Zayn querendo apaziguar uma briga? Como se ele se importasse com alguma coisa que estivesse do lado de fora da minha roupa! - Não estraguem o evento, tem muita grana em jogo nessa merda.
- Escuta o Zayn, . Sério. – Harry aparentava mais calma do que realmente sentia, e eu sabia disso porque o conhecia bem demais. As veias de seu pescoço sempre saltavam quando ele estava nervoso. – Afinal, não era ele o seu objetivo? Quer dizer, eu tenho que admitir que esperava mais de você do que isso. Fazer toda essa merda só para ser tratada como uma vadia.
Puxei meu braço, e Zayn soltou sem resistência alguma. Aproximei-me de Harry, agora estranhamente me sentindo calma depois de perceber o quanto ele estava tenso, o quanto aquela situação toda o afetava. Porque percebi que, entre nós dois, eu tinha o controle.
Meu rosto estava há um centímetro do dele, quando eu disse:
- Dá uma boa olhada em mim e memoriza esse momento. Porque eu sou a vadia que você nunca vai ter.
Virei as costas e voltei para o lado de e , e enquanto nós caminhávamos para longe, ainda entre um silêncio constrangedor da parte de todos os que presenciaram, eu me senti bem.
Meus lábios se curvavam em um sorriso discreto.

’s POV

- Ali! – Apontei para placa que praticamente berrava “CARWASH” em letras garrafais com cores em misturas tipo laranja fluorescente, verde e roxo. Que coisa horrorosa, pensei. O cara com quem eu dividia a moto assentiu e fez um sinal indicando o caminho para seus parceiros e, então, fez a curva.
Na minha cabeça, chegar em cima de uma Harley Davidson, com um cara gordo, barbudo e todo tatuado junto com sua gangue de trogloditas sem escrúpulos, seria foda. Mas aquilo ali era bem melhor.
A primeira pessoa que vi foi Liam.
Ele estava sentado em um balde virado de cabeça para baixo e se colocou de pé num pulo quando ouviu o ronco do motor das motocicletas. Mordi o lábio inferior, impedindo-me de abrir um sorriso de vitória enquanto meu amigo barbudo estacionava sua moto em uma das filas de carros. Tirei o capacete depois que desci e baguncei o cabelo com as mãos.
- Você riu da minha cara, disse que não tinha por que me ajudar e ainda por cima traz uma gangue pra estragar tudo?! – Liam veio ao meu encontro, bufando de raiva. Cruzei os braços, um sorriso de escárnio em meus lábios.
- Reze para eles não terem ouvido isso, Payne. – Avisei. – E, sim, eu não tenho motivos suficientes para querer te ajudar. Mas esses caras precisavam lavar suas belezinhas e não é que eu sabia de um lugar que estava oferecendo serviço barato e garotas seminuas? De nada, irmãozinho. – Sorri novamente e dei dois tapinhas em seu peito, passando por ele em seguida. Ponto para mim, Payne.
Fui até onde e estavam, cumprimentando-as. Estávamos em uma espécie de toldo, que cobria apenas uma pequena parte do campo onde o carwash estava acontecendo; mais algumas pessoas se reuniam ali e vi Rebekah conversando com Josh em um balcão que deveria ser o caixa. e estavam conversando com outras garotas que olharam para mim e depois para os caras das motos e saíram andando, fazendo carinha de nojo.
- Sério? Eu trago mais clientes e é assim que sou retribuída? – Abri os braços, honestamente ofendida.
- Não são exatamente as pessoas com quem o pessoal da escola está acostumado, mas não deixam de serem clientes, né? – deu de ombros para mim, sendo condescendente.
- Onde você arranjou... eles? – franziu o cenho, como se fosse dizer algo ofensivo.
- Na verdade eu rodei Carlisle inteira à procura dos piores clientes. No final, eles foram os escolhidos.
- Então você só queria sabotar...?
- Não! Claro que não. Só queria instigar o debate das diferenças sociais que assolam o mundo, mesmo! – Revirei os olhos. – É claro que eu queria sabotar um pouco. Liam merecia um pouco de confusão.
- Do tipo que envolve a polícia? – arqueou uma sobrancelha.
- Esses caras são de boa. Eu conversei com eles por pelo menos duas horas, ok? – Sério? Não sou louca assim.
deu de ombros e continuou bebendo seu refrigerante.
Olhei em volta, sentindo aquela sensação esquisita de novo.
Além de e – e, infelizmente, Liam também – eu não tinha mais ninguém para fazer nada ali. Aproximei-me da grande caixa térmica no chão e tirei uma lata de Soda lá de dentro, abrindo-a e tomando um gole em seguida para fingir que estava fazendo algo de interessante. Olhei as meninas de biquíni lavando os carros. Havia tanto conversíveis quanto carros populares. E as motos, claro. Elas estavam sujas de lama, as marcas indicavam algum tipo de rali, mas eu realmente duvidava que eles eram do tipo que faziam esportes radicais, mas vai saber.
- Eu devia ter encontrado caminhoneiros. – Murmurei contra a lata de refrigerante, pensativa.
- Eu acho que seria difícil de lavar, não? – Um garoto falou ao meu lado, fazendo-me pular no lugar de susto. – Foi mal. Eu tenho essa mania. – Riu.
- Tudo bem. – Falei. – Quem é você? Uma das paquitas do Harry?
- Ouch. – Colocou a mão no peito. – Eu tenho nome.
- Então diga.
- O que há de errado comigo? Não consigo achar uma garota que fale direito comigo? – Queixou-se.
A culpa me atingiu em cheio.
- Nossa. Desculpe. – Virei-me para ele. Eu estava sendo grossa com ele por nenhum motivo aparente. – Sou a .
- Eu sei quem você é. Uma das garotas mais... – Ele se interrompeu rapidamente. – Comentadas. – Completou.
- Ah, é? E o que dizem?
- Ah, nada de mais. – Pigarreou.
- Eu quero saber. – Tentei sorrir, encorajando-o.
- Você parece diferente. Só isso. Sou Louis, a propósito.
- Diferente?
- É. Amiga da Cas e da , mas diferente delas. Só isso. – Falava rapidamente.
- Ah... – Franzi o cenho. – O que há de errado com essa gente? Posso muito bem ser diferente e andar com pessoas diferentes de mim, não? – Balancei a cabeça.
- Hm...
- Não precisa responder, era uma retórica. – Ri sozinha.
- Ah... – Ele balançou a cabeça, parecendo pensar um pouco sobre tudo aquilo.
- Enfim, foi um prazer te conhecer, Louis. Desculpe, eu sabia quem você era, mas não sabia seu nome.
- Engraçado, como posso ser algo para alguém que não sabe meu nome? Digo, se meu nome não é a primeira coisa que me representa...
- Seu nome não importa, Louis. Não estamos mais no século 18, pode largar os títulos de nobreza e os sobrenomes. – Ri fraco, achando engraçado o modo como ele parecia extremamente lerdo, mas fez um comentário interessante.
- Bom, para mim, importa. Gostaria de lembrar-me o nome das pessoas a quem desejo o bem. - Ninguém realmente faz isso. – Rebati.
- Você deveria tentar alguma vez.
- Talvez um dia. – Dei de ombros tomando outro gole do refrigerante.
- Vamos ter mais conversas assim? Se sim, vou precisar prestar mais atenção às aulas de filosofia...
- Você deveria fazer isso porque faz bem. – Sorri como se fosse óbvio. Para mim era.
- Acho que não. Meu professor parece bem maluco, se quer saber. – Louis coçou a barba malfeita.
- Por que você anda com o pessoal idiota do Liam? – Perguntei, reflexiva. – Você é legal.
- Eles são meus irmãos. Você não escolhe a família. – Encolheu os ombros, melancólico. – Eles são legais, juro. Você não pode falar dos meus amigos. Você trouxe um bando de motoqueiros para um evento quase acadêmico.
- Ok, ok. Você venceu. – Revirei os olhos e depois ri um pouco.
- ! – me gritou. – Vamos lavar alguma coisa!
- Isso! – Ouvimos um garoto comentar em algum canto daquele lugar. Olhei para Louis, que me olhava como quem se desculpa.
- Não seja esse cara. – Avisei, entregando a ele minha lata de refrigerante.
Joguei minha jaqueta em qualquer lugar e tirei um elástico do bolso do short para amarrar o cabelo num rabo de cavalo alto.
- Você sabe que estamos dando um show gratuito para eles, não sabe? – Perguntei a , enquanto me abaixava para pegar uma esponja quadrada gigante de dentro de um balde preto perto do carro. Ela olhou para mim, tão sapeca quanto uma criança fazendo arte.
- Gostaria de cobrar, então? – Riu e, sem querer, ri junto.

Liam’s POV
- Vou dar uma ajudinha. – Levantei-me ao me sentir repentinamente disposto a ajudar com alguma coisa. Ninguém pareceu me ouvir e eu também não dei a mínima e fiz meu caminho até o Peugeot 308 branco embaixo de uma árvore. Os carros estavam estacionados em fileiras paralelas de forma que pudéssemos ter algum controle e espaço suficiente para algumas manobras até a pista.
Peguei um balde no meio do caminho e parei para enchê-lo com uma mangueira. O tédio era algo forte e, geralmente, era o que me impulsionava a fazer metade das coisas que eu costumava fazer. Quando a água estava quase transbordando, desliguei o registro da mangueira e icei o balde do chão até perto da roda traseira do carro. Despejei um pouco de detergente especial para carros e mergulhei a esponja no balde, fazendo espuma. Comecei então pelo teto, esfregando até onde meu braço alcançava.
É um bom carro, pensei. Não sabia muito sobre os carros da Peugeot, minha mãe nunca teve um desses e meu pai nunca se deu ao trabalho de me ensinar a me barbear, quem diria de me ensinar sobre carros. Mas, no final das contas, era um carro bonito e parecia aguentar muita coisa uma vez que as portas e rodas estavam cobertas de lama. Isso ou o cara não respeitava os limites de seu carro.
Peguei o balde e joguei a água no teto, fazendo espirrar água para todos os lados.
- Ah, merda! – Falei quando vi a bosta que havia feito: a água que estava no balde tinha detergente, ou seja, eu apenas dei um banho de espuma no carro. – Você é bem inteligente, hein, cara. – Murmurei para mim mesmo e estalei a língua, pensando no que fazer. Eu podia continuar esfregando e depois tentar puxar a mangueira até aqui e...
- Você...! – A voz de surgiu de algum canto. Levantei os olhos e ela estava na frente do capô do carro, fuzilando-me com os olhos e seu cabelo parecendo que havia feito dreadlocks por causa da água.
Em algum lugar atrás de mim, ouvi risadas escandalosas dos meus amigos.
- Opa. – Foi só o que consegui dizer quando me dei conta de que eu a havia molhado.
- Você é doente?! – Ela quase berrou. Acho que se ela ficasse um pouquinho mais nervosa, sua cabeça explodia. – O que deu em você para fazer isso?!
- E-eu estava lavando o carro e...
- Eu estava lavando esse carro, seu palerma! – Ela gritou, levantando os braços, exasperada.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, meu cérebro se deu conta de que estava molhada. E ele notou que eu precisava ver isso com meus próprios olhos. Por isso, olhei-a dos pés à cabeça e então eu sabia que ia sonhar com isso mais tarde. Ela estava com uma daquelas blusas brancas super cavadas com a logo de uma banda e um top preto por baixo e shorts super rasgados. Tudo isso: molhado e grudado em seu corpo.
- Desculpe. – Foi só o que eu consegui dizer quando fui pego analisando seu corpo. Seu olhar ia acabar abrindo um buraco na minha cara de tanta raiva.
- Eu não acredito nisso! – Ela grunhiu ao torcer um pedaço de sua blusa. – Eu estou toda molhada!
- Estou vendo..
. - Como é?! – Ela rosnou.
Você está morto, Liam.
- Ahn... Toma, pega a minha blusa. – Segurei a barra da camisa para tirar e dar a ela.
- Não quero sua blusa! – Ela torceu o nariz.
Ouch.
- Por que não? Ela está seca. – Inclinei a cabeça para o lado, tentando entender aquela monstra parada à minha frente como se fosse me matar.
- Porque é sua, dã. – Revirou os olhos.
- Deixa de ser besta, . – Puxei a camisa de uma vez e estendi a ela. – Toma. Vista.
- Fala sério. – Bufou, mas não pegou a camisa.
- . Desculpe, não foi minha intenção te molhar. Agora, por favor, vista essa camisa. – Olhei no fundo dos seus olhos.
Ela olhou para a camisa e depois para mim e então para a camisa de novo.
Por fim, eu venci e ela tomou a camisa de minhas mãos, bufando.
colocou a camisa entre as pernas, segurando-a, e tirou a blusa branca, ficando só com o top.
Eu gelei na hora.
- Valeu. – Obrigou-se a dizer quando terminou de vestir a camisa. Jogou os cabelos para o lado e os torceu para tirar a água deles.
Foi só quando ela terminou de torcer a blusa que eu voltei a mim mesmo e pigarreei.
- Você quer a minha calça?! – Ouvimos Josh gritar de longe.
Ela olhou para mim com aquele olhar de novo.
- Obrigada mesmo, Payne. – Expirou com força e voltou para detrás do carro.
- Eu não sabia que estava lavando esse carro. – Expliquei-me. – Na verdade, achei que você já havia ido embora.
- Não fui. – Respondeu.
- Agora eu sei. – Cocei a nuca, sentindo-me bobo. – Posso ajudar?
- Estou segurando sua mão? – Disse sem olhar para mim. Ela estava de joelhos lavando a calota do pneu dianteiro do carro.
- Vou ajudar só porque você implorou muito. – Provoquei e peguei a esponja dentro do meu balde.
Ela não respondeu e continuou seu trabalho nas calotas. Eu, por minha vez, ocupei-me com as janelas e as portas. Um silêncio caiu sobre nós e estava me incomodando um pouco. Talvez porque eu havia molhado a garota toda. Isso não era nada legal.
- Sabe quando nosso irmão vai nascer? – As palavras saíram da minha boca sem eu ao menos me dar conta.
- Não. – Sua voz indicava que ela não estava nem aí para o assunto.
- Em fevereiro. Acho que será um menino.
- É? – O desdém era claro.
- Minha mãe sempre quis uma garotinha para fazer casal comigo, mas ela não teve a oportunidade. – Ri comigo mesmo. – Quando eu era criança, eu queria um irmãozinho. Você tem irmãos?
- Minha mãe diz que deveria ter me abortado quando está nervosa. – disse sem olhar para mim. Seu tom de voz ficou esquisito e por isso eu não sabia se ela estava brincando ou não.
- Ah.
.. - É brincadeira, Liam. – Ela disse, olhando-me por cima do ombro.
- Ah. – Pisquei duas vezes e ela soltou uma risada.
Tipo, uma risada de verdade.
E ela nem estava chapada.
- Acho que isso nunca esteve nos planos da minha mãe. – Ela deu de ombros.
- Mas você queria? – Insisti.
- Talvez. – Ela encolheu os ombros novamente.
- Eu queria um irmão mais velho que me ensinasse a me barbear. – Falei baixo.
Epa, estou falando das merdas da minha vida com a garota que chama minha mãe de Barbie?!
- Seu pai não te aguentava? – Ela rebateu tão rápido que até me assustou. Não consegui responder, tanto porque era meio verdade quanto porque ela me pegara de surpresa. Ao sentir falta da resposta, ela olhou para mim. – A-ah, desculpe, eu não imaginav...
- Ahn. – Pigarreei. – Não faz diferença, é verdade. – Dei de ombros. – E você nunca imagina nada. – Completei, chocando-a um pouco.
não respondeu e voltou a trabalhar nas calotas.
- Quando eu tinha treze anos, ouvi minha mãe dizendo a um cara na porta de casa que eu não era a filha dela, apenas a filha de uma amiga que teve que ir ver a avó no hospital e não pôde levar a menina. – falou de repente, sem olhar para mim.
Uau, o negócio estava ficando intenso aqui.
- Mas ela me ama, eu sei. – Ouvi-a dizer, mais baixo. – Por que pessoas assim se dão ao trabalho de serem pais? – Disse para si mesma, mas talvez tenha se esquecido de que eu não estava tão longe assim. Eu estava parado no meu lugar, olhando para ela; eu nunca imaginei que veria tão vulnerável assim um dia. A monstrinha tinha um coração, afinal de contas.
- Pelo mesmo motivo que você arrisca pular de bungee jump e depois se arrepende no meio do caminho, mas não há mais volta. E o que resta é enjoos, alguns hematomas e um sentimento de que não valeu a pena e “nunca mais!”.
- Péssima analogia, mas eu concordo com você. – Soltou uma risada rouca. Ela olhou rapidamente para mim e mergulhou a esponja novamente no balde.
Voltei para minhas portas também, um pouco perdido em meus próprios pensamentos.
- Sabe, Maddi... – Virei-me para falar com ela, mas não a encontrei mais lavando as calotas. Girei nos calcanhares e também não a vi por perto. Dei a volta no carro e então a avistei indo em direção à parte coberta. Ela pegou sua bolsa e fez seu caminho para a “saída” do terreno. – Isso não pode ser sério... – Falei sozinho enquanto a observava. À nossa volta só havia galpões de empresas e alguns prédios fechados por conta do final de semana. não podia simplesmente sair por aí andando.
Quando ela dobrou a esquina do prédio mais próximo, eu saí do lugar.
Tentei não chamar muita atenção, andei rápido em direção ao local onde ela sumira, sentindo-me um tanto preocupado.
Avistei-a na rua meio deserta, alguns carros que vinham para a lavagem de carros passavam por ela, alguns caras assobiavam ou buzinavam de leve. Bufei, impaciente.
- ! – Gritei antes de correr até ela, que andava de cabeça baixa e um pouco rápido. – Hey! – Parei à frente dela, que só pareceu dar-se conta de que eu estava atrás dela naquele momento.
- Eu quero ir para casa. – Disse, franzindo o cenho.
Ela parecia uma pequena e indefesa criancinha.
- Andando?!
- Não, eu estava esperando a rua ficar deserta para eu ativar meus poderes e sair voando. – Respondeu soando mais desolada do que irônica.
- ...
- Eu preciso ver meu pai! – Ela soltou de repente, olhando para mim. – Eu preciso lhe dar um abraço! Eu fui tão má! Eu só tenho ele! – Gritou com os olhos cheios d’água. Segurei seus braços e a abracei. – Eu só tenho ele! – Sua voz diminuía enquanto ela repetia isso até que estava com o rosto totalmente enterrado em meu peito, seu top molhado e gelado em minha barriga apenas me fez lembrar que eu estava sem camisa. Passei minhas mãos em suas costas, tentando consolar a monstrinha. E aquela sensação era esquisita. Abraçar era esquisito.
Ela também deve ter sentido isso porque, após alguns segundos, ela me afastou e limpou os olhos, um pouco borrados pelas lágrimas.
Parecia estar travando uma batalha muito dura para não chorar.
- Você se aproveitou de mim! – Acusou, mudando totalmente o tom da voz.
- O quê?!
- Você se aproveitou da minha situação vulnerável para tirar uma casquinha!
- ...
- Seu monstro!
- Caramba, você não dá uma folga, hein! – Olhei para ela, incrédulo. – Eu só vim ajudar!
- Aham! Você começou a falar de pais e aí tocou num assunto delicado e me deixou triste para vir aqui e me abraçar e... É assim que você consegue com todas as outras? Acha que é fácil assim? Vir aqui e revirar um monte de coisa que todo mundo tentar guardar para ser feliz e aí você vem aqui e... Que droga, Payne, o que você está fazendo? – Ela quase gritou enquanto eu me aproximava.
- Shh. – Passei as mãos em seus braços, tentando acalmá-la. – Shh. – Repeti. Subi as mãos para seu pescoço, fazendo movimentos circulares com os polegares. Acariciei seu rosto com uma mão e com a outra coloquei seu cabelo para trás da orelha enquanto a lembrança da tarde em que ela me beijou invadia minha mente. Voltei a acariciar seu ombro e pousei minha mão em sua cintura, acariciando-a, percebendo como minha mão parecia encaixar perfeitamente na lateral de sua cintura, como aquela curva era suave e perigosa para meus sentidos. Por um momento eu parei de raciocinar e tudo o que eu mais queria era beijar aquela garota novamente. Voltei a mim e passei as pontas dos dedos em seu cabelo, todos os sentidos voltados então para esse detalhe, provando cada sensação; o cheiro, a maciez, a cor de seus cabelos. Meu corpo tremia em antecipação, como se previsse o inevitável dali em diante.
- É isso que você faz com todas as outras? – sussurrou. Olhei para ela, que estava de olhos fechados e a cabeça tombada levemente para trás.
Aquilo era revigorante, a maneira como ela estava ali, pronta para qualquer coisa que eu fosse lhe oferecer. Parecia tão fácil e também era tudo o que eu mais queria naquele momento: dar-lhe qualquer coisa.
E, ao mesmo tempo, era perigoso. estava certa; ela estava vulnerável, sensível. Seria errado tentar qualquer coisa. Seria a segunda vez que nenhum dos dois estaria são o suficiente para analisar qualquer ato...
Mas, droga, eu queria tanto beijá-la...
Sendo assim, tomei minha decisão.
- Isso. – Falei-lhe ao ouvido e apertei delicadamente sua cintura. – Eu jamais faria com qualquer outra. – Assegurei tão carregado de certeza que até eu me assustei. – Volte para lá, , it’s too cold outside for angels to fly.
Dei-lhe um beijo na bochecha e pude sentir seu corpo respondendo ao toque.
Virei-me e voltei para o terreno onde acontecia o car wash.
Enquanto eu andava, eu me sentia idiota.
Caralho, eu citei Ed Sheeran para ela?!

Niall’s POV

- Duzentos e noventa e três e... – Josh estava contando uma das pilhas de dinheiro. – Trezentos! Harry, sua guitarra tá aqui! – Ele entregou as notas ao amigo, que recomeçou a contagem. – Cacete! É muito dinheiro!
Assenti, rindo comigo mesmo enquanto contava outra pilha.
- Anota aí: duzentos e quinze. – Falei ao terminar e Josh anotou na planilha em seu celular.
Eu estava em êxtase: arranjamos uma lata para servir de caixa na manhã daquele fatídico sábado e tivemos que nos virar para arranjar outro lugar para colocar o dinheiro. Ao fim do dia, esvaziamos três tipos de recipientes cheios de notas amassadas, moedas e até alguns cheques.
- Se nada der certo na minha vida, vou lavar carros a cinco libras. – Liam brincou sem tirar os olhos do dinheiro em suas mãos. – Aqui tem trezentos e setenta e cinco libras.
- Como estão as moedas? – Perguntei a Louis e , que estavam contando as moedas. Ambos estavam sentados no chão, em volta de um carretel grande de madeira que estava lhes servindo de mesa.
- Brotando! – Louis fingiu estar desesperado e soltou uma risada ao seu lado.
Sorri também, achando a cena um tanto contagiante. Pelo tempo que passei com , ela não era muito do tipo que soltava risadas. Talvez ainda estivesse se acostumando com o ambiente e tal, mas ela devia fazer aquilo mais vezes. Aquela garota é bonita.
- Continuem contando. – Encorajei.
- Zayn! – Olhei para ele, em busca de novidades. Ele cortou minha vibe na hora que levantou os olhos das notas em mãos e me olhou com uma cara de tédio. – Ok. – Assenti, abrindo um sorrisinho.
Josh riu ao meu lado e me cutucou, indicando-me o trabalho a ser feito.
- Hey. – sentou-se ao meu lado no chão, cruzando as pernas. Ela estava tomando um refrigerante direto da garrafinha de vidro. Como ela conseguiu aquilo? Não sei. A galera pareceu só ter trazido bebidas destiladas e álcool mais barato. – Contando rios de dinheiro?
- Demais. – Afirmei, rindo com ela.
- Essa já foi contada? – Ela perguntou e eu neguei. Então colocou uma nota de cinco libras em cima daquela pilha. Eu ia protestar, mas ela segurou meu braço antes que eu pudesse tirar a nota dali. – Eu também ganhei um banho, não é mesmo, Malik? – Ela levantou a voz e se virou um pouco para olhar para ele, que olhou para ela e piscou, rindo pouco. – É por minha conta. – Garantiu, virando-se para mim. Sorri para ela, assentindo. Eu estava me sentindo um pouco incomodado, mas eu não me atrevia a olhar para trás, eu sabia que Zayn estava cavando um buraco nas minhas costas com aquele olhar homicida dele.
- Obrigado. – Abracei-a de lado, que sorriu ainda mais.
sentou-se ao lado de e pegou uma pilha de dinheiro para contar, fazendo uma pose de quem estava esbanjando.
- Estamos ricos, ? – Pisquei para ela.
- Vamos comprar a Lua. – Ela piscou de volta e riu.
Cara...
- Cas, pode me passar uma liga? – Pedi, apontando para um saco de ligas de prender dinheiro.
- Claro. – Ela se colocou de joelhos e se esticou para pegar o pacote. – Podíamos fazer algo depois daqui.
- Tipo o que? – Harry se intrometeu.
- Cecilia disse que ia rolar alguma coisa na casa dela, hoje. – deu de ombros, como quem quer nada. – Podíamos montar grupos e ir.
- Estou com o carro dos meus pais! – Um garoto rodou uma chave no dedo indicador.
- Eu também! – Outro disse. E depois uma garota se prontificou e mais alguns outros.
Tentei não me mostrar espantado; parecia que era comum todos serem tão abertos e disponíveis para aquele grupo de alunos do St. Bees. abriu um sorriso para todos eles como se cada um fosse seu amigo de longa data e estivessem compartilhando um plano ousado. Todo mundo começou a se organizar enquanto eu e os meninos ficamos contando o dinheiro.
- Você vai, né? – se virou para mim e perguntou, com aquele mesmo sorriso receptivo e caloroso.
Era impossível lhe dizer não.
Sorri com ela, assentindo.
- Cento e vinte. – colocou a pilha na mesa e pegou outra. se colocou de pé e saiu. – Passa outra, Niall. – Ela pediu, sentando-se mais perto de mim.
- There you go. – Entreguei-lhe outra pilha e ela começou a contar imediatamente.
- Valeu. – Sorriu. – Essa foi realmente uma boa ideia.
- Créditos ao rabugento ali. – Baixei o tom de voz.
- Será que ele vai cobrar direitos autorais? – franziu o cenho e sorriu ao mesmo tempo, parecendo um coelhinho sapeca. Ri um pouco e estalei a língua.
- Acho que ele é preguiçoso demais para isso. – Supus.
- Tomara. – Riu. – Aqui tem setenta libras. – Colocou a pilha em cima do carretel.
- Acabamos! – Louis gritou, levantando as mãos para o céu.
- Temos trezentos e cinquenta libras em moedas. – levantou um saco cheio de moedas.
- Agradecemos aos seus amigos, . – Falei para ela, que abriu um sorriso e encolheu os ombros.
- Não foi nada.
Logo todos terminaram de contar as pilhas e Josh anotou os valores e fez o somatório.
- Cacete! – Ele gritou.
- Quanto deu? – juntou as mãos, em expectativa.
- Precisávamos de mil e quinhentas libras para arcar com as despesas urgentes da banda. Como a nos conseguiu o terreno do tio do pai dela, só precisamos pagar dois por cento do montante como aluguel. Obrigado de novo, . – Josh prosseguiu com seu raciocínio.
- Quanto deu, afinal de contas? – Harry apressou.
- Tirando o aluguel: duas mil duzentas e sessenta e sete libras são nossas! – Josh gritou.
Puta merda!
Todos nós comemoramos. ficou de joelhos e me abraçou pelo pescoço e nós quase caímos no chão, rindo. Os outros garotos se cumprimentaram, rindo e gritando.
- Fucking awesome! – Harry gritou.
- Vamos encher a cara! – Louis gritou também, levantando a mão em punho no ar.
- Só bora! – Algumas pessoas gritavam e riam.
- Demais, Niall! – Os garotos me diziam ao me cumprimentar com um toque.
Eu ria e comemorava junto deles enquanto guardávamos o dinheiro nas latas. me ajudou a guardar as moedas em uma mochila e as latas em outras bolsas. e Louis limpavam o ambiente recolhendo garrafas e pacotes de salgadinhos e doces. Harry e Liam guardavam os baldes e enrolavam as mangueiras. Josh veio me ajudar e Zayn ficou parado, de braços cruzados, olhando para nós como se fosse muito superior a tudo aquilo, mas ele não conseguia disfarçar a satisfação em seu rosto.
Parei por um segundo para olhar à minha volta, como se eu fosse um expectador daquela cena.
E, pela primeira vez, eu me senti parte daquilo.

’s POV

segurou minha mão e eu a apertei com força enquanto passávamos em frente ao Castelo de Carlisle indo em direção à festa de Cecilia. A casa dela ficava no subúrbio e do outro lado da cidade, por isso era necessária a volta pela cidade.
Eu odiava castelos.
Odiava cada um deles.
Com todas as minhas forças.
- Hey! – Niall colocou a mão em meu ombro, chegando mais para frente no banco de trás para poder falar comigo. Seu gesto me trouxe de volta à realidade e eu pude notar como meu corpo estava rígido e tenso, minha mandíbula também doía por causa dos meus dentes, que rangiam. Bruxismo. Eu odiava esse nome também. Lembro-me que muitos dos meus amiguinhos não gostavam de dormir na minha casa quando éramos menores. O ranger de dentes incomodava, claro. Explicar porque isso era chamado de bruxismo era um desafio.
Mas o pior de tudo eram os gritos.
Os gritos sempre rasgavam a noite e a deixavam sangrar até o raiar do dia.
E então meus amiguinhos iam embora e minha mãe ficava.
Minha irmã costumava ficar também.
Mas, se eu falasse sobre isso, rasgava também o coração da minha mãe. E depois ela ia chorar no quarto, baixinho. E minha irmã ia consolar ela também.
- ! – A voz de Niall me trouxe à tona de novo.
- Desculpe. – Pedi soltando uma risada curta. – O que foi?
- Não me deixe sozinho esta noite. – Ele pediu. A intensidade na voz dele me obrigou a virar-me para olhar seu rosto. – Por favor. – Abriu um sorriso.
- Ah... – Minha voz ficou presa na minha garganta. Não sabia bem ao certo por que estava olhando em seus olhos, mas sabia que estava olhando mais do que seria necessário. Talvez eu parecesse meio creepy, demorando a responder e encarando. Mas eu não conseguia desviar o olhar ou falar.
- Vou aceitar isso como um sim. – Ele piscou, rindo um pouco ao se recostar de volta no banco. – Vocês parecem do tipo que sabem festejar. – Olhou pela janela.
Observei as luzes da cidade iluminarem seu rosto enquanto o carro seguia, parecendo nunca chegar ao destino. Ele olhou rapidamente para mim e depois abriu um sorrisinho, como se pensasse que eu estava espiando. Talvez eu estivesse.
Uma grande parte de mim teve que conter um impulso – ou apenas um pensamento – de passar para o banco de trás, ao seu lado, e deitar em seu colo ou pedir um abraço. Tudo naquele momento era convidativo demais. Eu só queria um pouco de carinho e Niall parecia o tipo certo para fazer isso.
Voltei a olhar para frente, sentando-me direito no banco. ria de algo ao meu lado enquanto conversava com o resto do pessoal no carro. Ela já não segurava minha mão e eu nem havia reparado; o castelo já estava muito atrás de nós.
Alguns minutos depois, o carro parou. Olhei para a casa do outro lado da rua, um pouco cheia por causa da festa e, de alguma forma, aquilo me fez sentir quase bem. O que havia de mal em festejar?
Tirando a probabilidade – altíssima – de todos aqui estarem fugindo de seus próprios problemas, claro.
Bom, tirando essa probabilidade, não havia nada de errado.
- Estou esperando por você. – Avisei a Niall antes de sair do carro. Não o esperei sair também, apenas fiz meu caminho até a porta de entrada.
Olhei para trás e vi Niall cumprimentando Harry e Louis, que chegaram em outra caravana. Eu sabia que aquela noite não passaria de mais bebidas do que éramos legalmente permitidos e risadas vazias, mas sabia que ali era o início de alguma coisa.

Louis’ POV

- Cara, olha isso, olha isso! – Harry puxou a manga de meu casaco até a calçada na frente do terreno onde ocorreu a lavagem. Estava quase escuro agora, com os últimos resquícios do sol formando um crepúsculo rosado no céu, e era difícil de enxergar todo mundo. – É uma fucking minivan. Não sei de onde isso surgiu! – Ele riu.
Acho que Harry estava meio bêbado. Bebida era o mais fácil de se conseguir ali no meio de todos nós, e depois daquele chute épico que ele levou da , eu não o culparia por encher a cara.
- Isso não é dos pais do Scott?
- Quem liga? Vamos, é o último carro saindo pro centro da cidade. A gente tem que encher a cara, dude, isso foi um sucesso!
- Nem todas as partes, eu diria – comentei para mim mesmo, entrando no carro e sentando em um dos últimos bancos livres com Harry no meio, do lado de um cara com moicano bem estranho.
- Os outros caras foram no outro carro? – Olhei para as pessoas em volta, conversando animadamente. Estavam ali alguns garotos que foram chegando ao longo da tarde, e a maioria eram meninas que estavam lavando os carros. Eu tinha certeza que aquela minivan estava com bem mais gente do que o permitido.
Um cara e duas garotas entraram nos bancos da frente ao mesmo tempo e bateram a porta.
- Espera aí que só tem mais uma – uma delas avisou, e o cara ligou o motor. Esperaram por uns segundos e apareceu na porta, segurando na mão metade de uma garrafa de vodka e um cigarro aceso. Ela parecia sã, apesar disso.
Olhou em volta mas não tinha mais lugar, então um engraçadinho disse lá da última fileira:
- Tem lugar aqui no meu colo, gracinha!
não se deu ao trabalho de olhar para de onde veio a voz. Empurrei rapidamente Harry para cima do cara do moicano e ele reclamou.
- – chamei. Ela me olhou instantaneamente. Toquei a mão no espaço mínimo ao lado da minha perna, era o melhor que eu podia oferecer. O carro começou a andar, e se segurou com força no banco da minha frente para não cair. Deu um passo e, bem com cuidado ela sentou... Em meu colo.
Eu gelei por dentro na mesma hora, e precisei concentrar todas as forças dentro de mim para me controlar. Soltei um pouco de ar pela boca, ela tinha o rosto tão perto do meu que assustava, naquele contato visual alucinante, seus olhos escuros meio opacos... Sua boca rosada. Ela tinha hálito de hortelã e álcool... e era sexy.
tragou o cigarro e quebrou o contato visual, soprando a fumaça para outro lado.
- E aí, – Harry sorriu um pouco para ela e se aproximou. – Quer dividir essa belezinha?
Ela entregou a garrafa para ele, que parecia mais feliz do que nunca, e fiquei até meio aliviado por Harry ter alguma distração agora e não quebrar nosso momento. Para mim estava meio constrangedor, principalmente o quanto eu estava gostando daquilo, de tê-la em meu colo, mas acho que não estava se importando com isso. Me peguei pensando em quantas vezes aquela garota já se encontrou perdida assim, em colos de caras desconhecidos, em carros de pessoas estranhas, indo para um lugar que não conhecia. Provavelmente aquilo já era normal para ela. E era estranho, porque acho que o mistério de tanta insensibilidade por parte de era o que havia de mais atraente nela.
O carro fez uma curva e ela se segurou mais forte no banco da frente, seu corpo enrijecendo. Ela terminou o cigarro e tomou mais uns goles da vodka, dividindo com Harry. Eu estava ali meramente para fazer o trabalho de um banco, mas era um trabalho mais do que satisfatório. Ela não disse nada, e também não encontrei palavras até o final do trajeto, em momento algum sequer soltei o braço da poltrona, tenso. Foi só quando o carro parou e se levantou que decidi que eu deveria ter dito alguma coisa. Era uma oportunidade e tanto, ela estava ali, literalmente no meu colo, e não falamos nada.
Me senti idiota.

Saí do carro e segui todos os outros para dentro do bar, que estava lotado de gente do colégio que deixaram o car wash em carros de outras pessoas. Logo encontramos Josh e Liam, e Harry se juntou a eles gritando alguma coisa.
Dentre outras coisas, Harry também era o rei das festas. Na vida social do St. Bees, qualquer festa só era considerada boa quando Harry Styles – e por consequência seus amigos – apareciam. Ele era do tipo que sabia curtir uma festa até o último segundo, eu não podia negar. Eu também me entregava, mas não como Harry. Ele era divertido. Parece que nascera para aquilo, para ocupar o topo da hierarquia do ensino médio, longe de qualquer outro concorrente, brilhando lá em cima.
Pena que o colégio não durava para sempre, e esse não era exatamente um cargo que você levava para a vida. Acabava logo após a formatura. Mas isso era algo que eu não queria dizer a ele. Ainda tínhamos alguns meses.
Fiquei um pouco bebendo com os caras perto da porta, até que aos poucos eles se dispersaram dali, e também fui dar uma volta. Estávamos em um tipo de bar, só que não era um bar. Era meio que um open house com bebida liberada e um bar montado no canto da sala. Alguma hora isso ia dar ruim, muito ruim, todo mundo ali era de menor. Mas a gente sempre acabava no meio de tudo.
Dei uma volta pelo cômodo, procurando por alguém conhecido. No fundo eu estava procurando por , eu sabia, não conseguia esquecer do momento na van, mas não queria admitir isso. Ela era bem fodida, todo mundo via isso, e eu não queria entrar naquela onda, podia acabar mal. Mas era meio inevitável. Ela me puxava como um buraco negro, eu não conseguia fugir.
Encontrei-a no bar, e reconheci por seus cabelos escuros e longos, mas antes de me aproximar notei Zayn sentado ao seu lado, conversando alguma coisa.
Ah, o Malik. Mas é claro que ele não podia ficar sem tentar.
Tentei me consolar pensando que era mais inteligente que as garotas que caem na dele. E eu sabia que ela era, era muito inteligente. Ela só cairia na dele se quisesse. O problema era se ela queria.
Balancei a cabeça e ri fraco comigo mesmo. Estúpido. Esqueça da freak, Louis. Ela era só diferente, só isso. Essa fixação logo passaria.
Virei de costas e no mesmo instante bati com Rebekah, que estava passando por ali.
- Oi, gatinho! Eu queria mesmo falar com você... – Pegou minha mão, me puxando para algum lugar.
Eu a segui sem pensar. Era a opção que eu tinha.

Zayn’s POV

- Olha quem eu encontrei por aqui. – Sentei-me ao lado da garota na banqueta do balcão do bar improvisado naquela casa.
- Ah, é você. – Ela me olhou com uma cara de tédio, depois me analisou de cima a baixo e deu uma risadinha seca, quase cínica.
- Eu mesmo. – Respondi, sinalizando para o barmen que me trouxesse uma bebida qualquer.
- Que interessante. – Ela revirou os olhos. – O encrenqueiro e a freak se encontram no bar.
- Formamos um belo casal, não acha?
- Me poupe das suas cantadas, ok?
- Mau humor tão cedo, ? – Abri um sorrisinho de canto, incapaz de não provocar.
- Vai para o inferno.
- Já estou nele. – Respondi automaticamente.
- Então somos dois. – Ela suspirou.
- Vida de merda? – Puxei assunto, pegando o copo do balcão assim que o cara deixou à minha frente. Deduzi ser vodca com gengibre, pelo gosto e pelo cheiro. – Bebida de viado.
- Duas cervejas, por favor. – A garota pediu ao barmen que assentiu e piscou para ela. Abri um sorrisinho, gostando da atitude daquela garota. – Não estou nos meus melhores dias. – Ouvi-a falar baixo, mas ainda consegui escutar por cima do barulho alto da conversa das pessoas no resto do bar.
- A porra tá difícil para todo mundo. – Tranquilizei-a, lembrando-me do meu impasse com a menina .
- Um brinde à merda da vida. – Ela propôs, levantando a garrafa de cerveja e eu peguei a minha, brindando na dela em seguida.
- Então, ... Quais são seus problemas?
- Você está achando mesmo que eu vou te contar? – Ela sorriu com escárnio.
- Quem divide uma cerveja, divide uma vida. – Expliquei levantando a garrafa para ela antes de dar um gole. Ela revirou os olhos. – De qualquer forma, você não precisa falar muito para saber que você tem probleminhas pessoais. Basta olhar essas cicatrizes que você tenta esconder por debaixo de roupas de manga comprida, mas está sempre tão absorta nos seus pensamentos tristes que nem se dá conta de que puxa as mangas até os cotovelos antes de fazer anotações no caderno.
Terminei meu discurso com um tom despreocupado, mas sabia que havia pegado ela em cheio. Tanto que tentou puxar discretamente a manga do suéter mais para baixo, mas eu balancei a cabeça negativamente.
- Você é bem observador. – Ela concluiu, desconfortável. – Quieto e observador.
- Prefiro fazer outras coisas com a minha boca. – Exagerei no tom de voz malicioso.
- Quantas garotinhas inocentes já foram parar na cama de Zayn Malik? – Ela forjou uma voz, como se narrasse uma história.
- Quer ser a próxima?
- Malik.
- Força do hábito. – Ri pelo nariz, dando de ombros. – Sei que você é a garota do Louis.
- Não sou de ninguém! – Ela grunhiu.
- Tenho certeza que não. Mas ele está te derretendo. Todo esse gelo que você construiu aí dentro, tudo isso vai por água baixo se você deixar alguém quebrar. – Aconselhei.
- Fala como se soubesse exatamente do que fala. É aquela garota? ?
- O que tem ela? – Perguntei, forçando meu desinteresse no assunto repentino.
- Ela já quebrou você? – Ela imitou minha voz, fazendo aspas com as mãos. – Já está te mudando?
- Meu pau que aquela garota me muda. – Bufei.
- Onde está aquela porcaria toda de “o amor muda todo mundo”...
- Ninguém aqui falou de amor. – Sorri, maquiavélico.
- Vai à merda, Malik.
- Você é bem simpática, né?
- Gosto de estar sozinha. – Ela explicou friamente.
- Sozinha tudo bem, mas não é solitário? – Eu quis saber, tomando um gole da minha cerveja. Ela levantou a cabeça na hora e me lançou um olhar homicida.
- Quem é você para me dizer alguma coisa desse tipo, Malik? – Ela rebateu. Ia responder, mas ela não me deixou. – Acha que eu não vejo como você pula de cama em cama tentando esquecer alguma merda que você fez no passado? Pensa que eu não sei que essa sua pose de machão é só para impressionar todo mundo? Só porque uma garota ferrou com a tua vida, não signifi-
- Você não sabe de nada. Absolutamente nada da minha vida, . – Falei, não aguentando ouvir aquele discurso dela. Mas no fundo eu sabia que ela me via melhor que muita gente e as chances dela estar certa eram altas.
- Então é bom se certificar de que os teus demônios estão bem enterrados no fundo do inferno, Malik, porque eles sempre voltam. – Ela me alertou, tão alterada quanto eu.
- Algum problema aqui, moça? – O cara do outro lado do balcão colocou um braço no tampo de madeira como se esperasse uma deixa para pular em cima de mim. Ele olhou de mim para ela, que não tirava os olhos de mim. balançou a cabeça negativamente e o cara nos observou novamente antes de sair.
- O que você fez de errado, ? – Perguntei, absorto em minha curiosidade.
- E você, o que fez?
- Invadi a casa de uma garota e apaguei um cara na porrada. – Contei a melhor parte da minha história. A parte em que eu fiz algo que eu realmente estava afim de fazer.
- Como você é mau. – Revirou os olhos.
- Não julgue um livro pela capa.
- E reflexivo, não vamos esquecer.
- Você é muito marrentinha. Aposto que já se meteu com tráfico. – Apostei alto. Toda aquela atitude dela, aquela marra, aquela pose de quem não se assusta com nada nem com ninguém. Comecei a duvidar do que aquela garota realmente vira na vida. Ela endireitou a coluna e me lançou um olhar indecifrável.
- Não tente adivinhar meu passado.
- Trágico. Deve ser manchado de sangue. – Deduzi. Ela suspirou, balançando a cabeça, mas não como se discordasse, apenas como se quisesse afastar algum pensamento.
- Vamos falar de outra coisa? – Ela pediu. Assenti, mas por dentro eu comemorava minha vitória. Havia chegado em seu ponto fraco.
- Quer sair daqui? – Perguntei, abrindo um sorrisinho.
- Não vamos transar, Zayn.
- Uma pena, eu podia te fazer esquecer essas merdas aí.
- Quanta modéstia.
- Nenhuma garota reclamou de mim até hoje. – Encolhi os ombros e me levantei, esperando que ela fizesse o mesmo. – Vamos voltar para a escola.
- Por favor, me erra. – Revirou os olhos.
- Um dia seus olhos vão sair daí de tanto que você os revira.
- Desculpe se não posso ser tão perfeitinha como a . – Ela debochou.
- Não fode, .
- Uh, ele me chamou pelo sobrenome. – Ela zombou.
- Intimidade é uma merda. – Observei.
- Não somos íntimos.
- Apenas trocamos informações que ninguém mais deve saber. – Falei sério, esperando que entendesse o recado.
- Sou um túmulo, Malik. – Ela me garantiu.
- Até mesmo os túmulos são revirados. – Avisei.
não disse nada, apenas se levantou e saiu, deixando-me lá, de pé, parado, como se eu nem ao menos tivesse dito algo.

’s POV

Meus dedos tremiam, tornando impossível digitar a mensagem de texto. Respirei fundo, tentando conter os tremores. Olhei em volta, apertei as mãos em punho, engoli em seco e tentei de novo.
“Preciso do pacote hj. No lugar d sempre. Estou aqui”
Era ridículo o quanto eu havia piorado em minutos. Desde que saíra daquela festa sem fundamento e vim parar nesse pub, movida pelo vício e pelo nervosismo que a falta de droga me causava, eu já estava um trapo. Tremia sem conseguir controlar e sabia que não era frio, era apenas a ansiedade de saber que não tinha minha válvula de escape em mãos, o medo de não consegui-las o mais rápido possível. Era isso que acontecia depois de um longo período de tempo em paz. Eu voltava ao começo.
Olhei no relógio detrás do balcão. Eram nove e quarenta e cinco.
Respirei fundo de novo e apoiei a cabeça em uma mão, segurando o copo com a outra. Tentei acalmar a porcaria dos nervos que tomavam conta no momento.
Eu sabia que estava demorando demais até a primeira crise acontecer. Os últimos meses haviam sido tão calmos que o que viria em seguida não podia ser bom. Mas por um tempo ignorei, esqueci esses detalhes. Por um tempo pensei que o St. Bees havia sido uma boa ideia, que ia ser diferente. Não sei como acreditei naquilo. Talvez eu simplesmente quisesse muito acreditar.
Era difícil acreditar e impossível de admitir que aquilo estava sendo causado por uma pessoa. Por isso, eu ignorava a todo custo esses pensamentos. Tentava controlar meus nervos sem pensar no que havia causado aquele colapso. Não podia ter nada a ver com ele.
Balancei a cabeça encostada na mão, involuntariamente pensando no assunto proibido.
- A regra era clara, . Apenas ficar sozinha. – murmurei para mim mesma. Tomei em um gole só o resto da dose de Whisky e empurrei o copo no balcão, pedindo mais. Aquele era o melhor lugar para mim em St. Bees, ninguém lembrava que leis existiam.
Quando recebi de volta o copo cheio, eu o segurei forte com a mão trêmula.

Minha cabeça pulsava como se um martelo ressoasse dentro dela. Meu nariz sangrava quando acordei, e por isso me arrastei até o banheiro e liguei a água, limpando o rosto e o sangue que escorria. Eu ainda sentia o gosto do pó dentro da boca, e lembrar do que acontecera na noite passada fora mais fácil do que nunca.
Não conseguia me manter em pé, era simplesmente difícil demais. Meu corpo doía, esgotado. Eu sentia o desespero já conhecido ao sentir o corpo no limite.
Levantei o rosto e passei a mão molhada no espelho sujo, tentando enxergar meu reflexo. A água em nada adiantara para limpar os olhos manchados de preto.


Ao terminar a segunda dose eu olhei no relógio de novo. Chequei se havia alguma resposta no celular, mas não havia nada. Grunhi e bati as mãos no balcão, chamando a atenção do barman. Ele me olhou e voltou até mim, pegando o copo vazio.
- Outra?
Assenti.
Ele encheu e empurrou de volta para mim. Olhou para minhas mãos trêmulas e eu as puxei para baixo do balcão.
- Você está bem?
Tomei um gole generoso da bebida.
- Ótima.
Ele deu de ombros. Se afastou e voltou a secar alguns copos, o bar ainda estava vazio. Era cedo até mesmo para um lugar como aquele começar a encher, mas devido ao tempo, lá fora já era escuro há tempos.
Acendi um cigarro. Nicotina em nada ajudaria a ansiedade monstruosa em minha garganta, mas eu tentava me enganar. Era de algo mais forte que eu precisava. Algo que apagasse.

Abri o espelho do armário do banheiro e alguns frascos despencaram. Praguejei pelo barulho. Peguei os três frascos e os abri, um por um, mas todos estavam vazios. Uma risada baixa e nervosa escapou de minha garganta. Voltei a vasculhar pelo armário. Esbarrei a mão em outros frascos, eu os abri, todos estavam vazios.
Minha cabeça continuava latejando cada vez mais forte e meus olhos ardiam pela luz do dia que entrava pela janela. Arfei, me apoiei na pia, ouvi a água correndo por um segundo e tentei me acalmar. Meus braços começaram a tremer. Não consegui lembrar da última vez que comi alguma coisa.
Uma batida na porta me fez pular, e comecei a enfiar os potes de remédio de volta na o armário.
- .
Fechei a porta e sentei na tampa fechada do vaso.
- Die tur offnen!
Apoiei a cabeça nas mãos e arfei, tentando pensar, tentando acalmar a euforia que tomava conta de todo o meu corpo.
- ! Offnen!
Levantei e parei em frente à porta. Destranquei-a depois de uns segundos, e no mesmo momento ele a abriu.
- Que porra você tá fazendo, merda?!
Seu sotaque era fortíssimo. Não seria possível entender se eu não falasse as duas línguas. Ele puxou-me para fora do banheiro pelo braço, e me afastei empurrando-o de perto de mim.
- Preciso das pílulas! Preciso de mais delas! – Berrei para ele. Meus olhos já estavam embaçados, eu não conseguia enxergar, a euforia dava lugar ao desespero.
- Você tem que entender quando parar, porra!
- Você me botou nessa merda! – gritei de volta, empurrando seu peito, ignorando-o. Eu não conseguia escutar nada.
- Eu não te dei a porra do meu produto pra você virar uma vadia viciadinha, merda! – pegou meus braços outra vez e me chacoalhou. Não senti nada além da cabeça ameaçando explodir. – Você tem que saber quando parar! – repetiu.
- Você me botou nessa! Sie mussen mir! Você precisa me dar. Eu preciso delas.
Eu podia ver o ceticismo no seu rosto. A raiva. Por que ele não entendia? Ele também usava.
Segurei os seus ombros e encarei-o, bons dez centímetros mais alto. Tentei me acalmar.
- Eu preciso delas. Eu preciso delas, Kev. Por favor, é a última vez. Eu prometo. Eu só preciso delas hoje, só hoje, eu preciso apagar, minha cabeça está me matando, não posso ficar acordada. Eu preciso apagar. – Ele continuava cada vez mais cético, por isso minha voz continuava a aumentar de tom e eu continuava a pedir. – Kev! Por favor!
Ele fez que não e livrou-se de minhas mãos, me empurrando na cama atrás de nós.


- .
Abri os olhos. De volta ao bar, os nós de meus dedos doíam pela tensão com que eu segurava o copo.
Olhei para o banco ao lado do meu.
- Você trouxe?
Ele assentiu. Tirou do bolso três frascos brancos pequenos e me passou, calmamente. Peguei-os e enfiei dois no bolso, abrindo o terceiro e tirando duas pílulas. Engoli com a ajuda do whisky.
- Você não devia tomar isso aqui. Vai acordar amanhã sem saber como apagou.
- Você se surpreenderia com o que eu posso aguentar. – respondi de volta, antes de tomar o resto da dose e afastar o copo.
Ele deu de ombros.
- Sou apenas o fornecedor. Agora me dá a grana e eu vou sumir.
Tirei as notas meio amassadas do bolso. O simples fato de eu ver os frascos, de tê-los em meu bolso, já fazia com que meu corpo parasse quase que instantaneamente de tremer. Entreguei-lhe o dinheiro e levantei do banco, deixando uma das notas no balcão.
- Até a próxima. – ele disse antes que eu saísse pela porta.
Eu me sentia mais leve.




Capítulo 13

’s POV

As aulas de teatro ficaram mais interessantes depois que li uma versão de A Megera Domada que encontrei na biblioteca do colégio. E agora que todo o elenco para a peça já estava escolhido, duas vezes por semana fazíamos ensaios e uma nós focávamos em trabalhar nos cenários e figurinos.
A razão pela qual as aulas de teatro eram minhas preferidas era que, na maior parte do tempo, eu só precisava ficar atirada em algum canto ou fazendo algo irrelevante e ninguém notava, ou parecia se importar.
- Ok pessoal, vamos ver rapidinho as pautas para hoje antes de começarmos logo com os ensaios. – pediu, chamando a atenção dos grupinhos distintos conversando em cima do palco. Rapidamente todo mundo se juntou e sentou em uma roda no chão, e eu não fiz diferente. – Para começar, arrumamos as luzes dos holofotes esse fim de semana, e a vai ficar responsável pelos efeitos de luz. Então hoje vamos poder ensaiar com a luz! – Yay, fui promovida. Ela olhou para o tablet em sua mão e mexeu em alguma coisa. – A professora Dorothy volta da licença médica em uma semana e pediu para nós a mantermos a par dos acontecimentos dessa semana, e... hum...
- chamou.
- Ah, é! Eu e a conseguimos patrocínio para as roupas da peça e um pouco da decoração também. Então devemos estar trazendo os materiais ainda antes das férias para a gente começar a arrumar essa parte. E a última coisa que tenho aqui, é lembrar vocês que temos mais uma semana de ensaios... e depois só voltamos no ano que vem. Sei que a maioria de nós está nervosa com as provas dessa semana, mas vamos tentar manter os problemas fora do palco. Acima de um trabalho, o teatro deve ser um momento de lazer, pra gente relaxar. Ok? Ok, acho que era isso por hoje – ela voltou a encarar o tablet, depois levantou os olhos. – Alguém tem alguma coisa a acrescentar?
Levantei uma das mãos que apoiava meu corpo e ela me olhou.
- Louis pediu para colocar isso no mural – entreguei a ela o papel dobrado que estava em meu bolso de trás. Ela abriu e correu os olhos pelos escritos rapidamente.
- Ah, é. No final de semana a banda dos garotos vai estar se apresentando pela primeira vez nesse pub perto de Londres. É importante para eles, e quem quiser ir, ouvi dizer que estão oferecendo caronas. Vou deixar no mural para quem quiser saber mais.
Então ela se levantou, e todos levantaram juntos. Levantei também e segui para as escadas de trás do palco, subindo até a salinha lá de cima onde haviam os equipamentos de som e luz do auditório. Não era nenhuma arena, mas dava para o gasto. Enquanto isso entregava o roteiro para todos eles.
A salinha dos equipamentos era pequena e estreita, com apenas a mesa de luz e som, uma janelinha que dava para o palco lá embaixo e uma cadeira na frente da mesa. Meu trabalho lá em cima também era ridiculamente fácil, o que me deixava realmente satisfeita. parecia pensar que eu não servia para fazer nada mais do que aquilo, mas eu não me importava, porque talvez ela estivesse certa, e eu gostava de não precisar fazer nada mais do que aquilo.
Sentei na cadeira e liguei o equipamento, abrindo uma das gavetas da mesa. Ninguém ia lá em cima, então fumar não era um problema. Acendi um e fumei lentamente enquanto esperava todo mundo se localizar no palco.
- Vamos voltar ao ato um, cena dois. Catarina, deita aí – pedia. – Petrú... cadê o Petrúquio?
- Aqui – Trevor levantou a mão. Aquele cara era uma piada. Ele queria estar lá menos do que eu queria, não sei o que o convenceu a fazer a audição, e ele foi escolhido por falta de opções, na verdade. Depois de ler a obra, odiei ainda mais o cara. Ele era a pior pessoa do mundo para ser o protagonista. Faltava-lhe... Ânimo e emoção.
- Você fica ali. Prontos? – Ela perguntou e se afastou um pouco do palco, fazendo um sinal com a mão para que começassem.
Folheei minha cópia do roteiro e encontrei a tal cena, e enquanto acompanhava eu fumava o meu cigarro. Posicionei minhas mãos no botão quando eles se aproximavam da parte onde a luz entrava, e Trevor lentamente se posicionou em cima do X feito com fita branca no chão do palco, parando em cima dele.
- Mas não um tolo como vós, se é certo que a mim vos referis. – Ele disse. Abaixei as luzes gradativamente e liguei o holofote em cima dele.
- Não, para. – pediu, entrando no meio da cena. – A luz tá errada. Vamos de novo, ok? Do início – disse e voltou a se afastar, fazendo novamente o sinal.
Liguei a luz e desliguei o holofote. Apaguei meu cigarro na ponta da mesa e respirei fundo, esperando chegar novamente ao momento.
- Mas... Hum, ok, ok. Mas não um tolo como vós, se é certo que a mim vos referis! Fiz novamente a mesma coisa de antes.
- Não, não. Tá errado – disse, olhando em seu roteiro. – , dá pra fazer seu trabalho direito? – Ela disse alto e direcionou o olhar à janela atrás da qual eu estava. Revirei os olhos.
Me aproximei da mesa e apertei no botão do microfone que era ligado aos autofalantes, e a luzinha vermelha se acendeu.
- A única coisa errada é você no meio do palco – disse e ouvi minha voz ressoar pelo auditório.
Todos olharam de volta para , que me queimaria com os olhos se pudesse me ver. Ri fraquinho. Trabalhar com era... quase insuportável, às vezes.
- Apenas siga o roteiro, ! É muito difícil?
Apertei novamente o botão.
- Não seria se você o escrevesse direito.
Pude ver que ela grunhiu.
- Está escrito direito. – Olhou para seu roteiro. – Está bem na segunda folha!
- Eu sei ler, bonitinha. – Respondi para todo o auditório. – E o efeito de luzes vem depois da fala.
- Será mesmo que você tá sempre drogada? O. Tempo. Todo? Aqui não fala sobre efeito de luz nenhum!
Respirei fundo. Aquilo era definitivamente demais.
- Quer subir aqui e engolir esse script?
Sem pestanejar, entregou suas folhas a Charlote, que parecia um tanto nervosa, e foi para trás do palco. No momento em que ela sumiu de minha visão ouvi seus passos fortes na escada e virei a cadeira giratória para a porta, segurando o roteiro nas mãos.
Ela irrompeu pela porta em um segundo e me olhou com aquele olhar homicida.
- Tá aqui – entreguei as folhas a ela, que leu a frase e depois bufou. – Esse aqui é o roteiro antigo! – Jogou as folhas de volta em meu colo. – Você saberia disso se lesse alguma mensagem no grupo do teatro que criamos.
- Eu silenciei o grupo. Já é chato demais ouvir você pessoalmente, meu celular não merecia as suas mensagens também.
- Escuta aqui, , você está aqui porque quis. Se não quer colaborar, levanta a bunda dessa cadeira e dá o fora daqui que você vai estar nos fazendo um fav...
a interrompeu entrando na sala também. Nunca aquela salinha esteve tão cheia.
- Ok, já chega, vocês duas. , fica com o meu roteiro, e olhou para a garota. – Não vale a pena. Vamos descer e continuar, foi um mal entendido.
Peguei o roteiro de e voltei a olhar para , sustentando seu olhar irritado até que ela virou as costas e saiu.
franziu o nariz um momento antes de sair da sala também.
- Que cheiro... – olhou para mim e desfez a careta. – Ah.
Soltei uma risada seca. Ela acenou rapidamente e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.

Harry’s POV

- Mais uma vez.
- Eu vou quebrar esse violão.
- Styles, é tão fácil. – Niall retrucou, me forçando a lançá-lo um de meus olhares de “vai pro inferno” automaticamente.
- Porque você é a porra de um gênio do violão, Horan.
- Obrigado pelo elogio. – Ele assentiu, se ajeitando no banco à minha frente e girando a palheta roxa no vão dos dedos. – Vai, do início. Só praticando você aprende.
Respirei bem fundo para tentar tirar de algum lugar de mim paciência para continuar treinando no violão. Niall insistia que para ser um bom guitarrista você, primeiro, tinha que ser um bom violonista. Mas eu não conseguia enxergar Jimi Hendrix ou, vamos lá, Jonny Greenwood sofrendo como condenado para aprender os simples acordes do começo de Here Without You.
Posicionei de novo o violão em minha perna e Niall me entregou a palheta. Devagar, tentei de novo. Lá menor. Fá com quinta. Sol. Repete. Tá legal, essa era a parte fácil. O dedilhado que era impossível de fazer perfeitamente, e me deixava simplesmente frustrado. A música era foda, e quando você ouvia ela parecia muito fácil. E, se quiséssemos aprender ela, eu teria que aprender a tocar primeiro, porque sou o guitarrista. Assim, sem pressão, Harry, mas temos uma apresentação marcada e mal sabemos tocar duas músicas.
Às vezes eu queria jogar tudo para o alto e desistir daquela palhaçada.
Continuei tocando até perder completamente o ritmo de novo e Niall levantar uma mão me fazendo parar. Ele pegou o violão de mim e posicionou na perna dele, tocando a intro da música com perfeição. Suspirei.
Felizmente (ou não), Niall sabia tocar bem pra caralho. Se ele fosse um pouco mais sociável, roubaria meu lugar na banda. Fiz uma nota mental: manter Niall próximo, mas nem tanto.
Olhei para o relógio velho pendurado na parede da sala de ginástica e percebi já ser tarde. Lá fora devia estar escuro, já. Por isso eu estava com tanta fome, não comia desde meio dia.
Levantei e entreguei a palheta a ele.
- Outro dia continuamos. Vou jantar, você vem?
Ele fez que não, ainda dedilhando.
- Vou ficar mais um pouco. Depois entrego a chave.
Dei de ombros e saí da sala, fechando a porta e deixando Horan e o som do violão para trás. Caminhei despreocupadamente pelos corredores praticamente vazios daquele lado do colégio. Eu duvidava que alguém lembrasse da existência de uma antiga sala de ginástica além de nós. E no fim das contas a sala era quase perfeita, tinha um isolamento natural. Tudo que precisávamos.
Era ali que a magia acontecia.
Bom, por enquanto não era bem uma magia. Talvez uma mágica de segunda mão, do tipo tirar o coelho da cartola. Mas era inacreditável o quanto melhoramos nas últimas semanas, e sabíamos disso porque gravávamos todos os ensaios, e vez ou outra fazíamos alguém de fora escutar e dar um veredicto. Louis disse, alguns dias atrás, que falou que “quase nem parece mais um animal apanhando”. E aquilo, eu sabia, era um elogio.

Cheguei ao refeitório, que estava bastante cheio por ser hora da janta. Peguei uma bandeja e enchi de porcarias pouco saudáveis, e depois olhei em volta para ver se encontrava alguém conhecido, mas a única pessoa que encontrei foi , milagrosamente sozinha, que mexia na comida em seu prato com o garfo em uma mão enquanto a outra segurava um lápis. Quando sentei em sua frente ela levantou o rosto da folha de caderno e me encarou, surpresa.
Eu também ficaria surpreso. Desde que estudo no St. Bees, essa é a primeira vez que sento perto de sem causar a terceira guerra mundial entre nossos amigos. Tudo que eu sabia de , além de que era a fiel seguidora de , era que ela mandava ver nas festas. Uma vez, em uma das únicas festas não relacionadas à escola que fui, eu a vi de relance no meio de uma roda tomando uns seis shots de tequila de uma única vez. Talvez eu já estivesse bêbado demais, mas tinha quase certeza que foi ela que vi.
- ... Harry!
- ! – Disse, pegando os talheres e mexendo em minha comida. – Como vai?
- Hum... bem, e você?
- Legal. Não quero atrapalhar. – Apontei para o caderno.
- Ah, é. – Ela soltou o lápis e sorriu. – Só estou repassando o conteúdo.
- Eu deveria seguir o seu exemplo – falei enchendo a boca. Dei de ombros.
- Está preparado para as provas de amanhã?
- Se por preparado você quer dizer preparado para se foder.
Ela balançou a cabeça e voltou a comer, mas riu baixinho. Trocamos algumas palavras, mas em poucos minutos terminou de comer e saiu da mesa, pedindo licença. Eu estava prestes a limpar o prato também quando um papel em vermelho voou em minha direção e caiu ao lado de minha bandeja. Estava dobrado como um convite e tinha um laço dourado envolvendo-o. Reconheci de cara e levantei a cabeça para encarar , parada de pé em frente à mesa.
- Obrigado pela educação.
Ela sorriu, cínica.
- Minha mãe mandou entregar.
Olhei para o papel outra vez e balancei a cabeça.
- Ela nunca cansa de tentar fazer uma festa decente.
- Pelo jeito não.
- Pelo menos dessa vez tem um laço.
- É.
- Espero que não encontre um urso cantando Jingle Bells quando eu abrir.
- Pois é.
- Ela parece bem focada em...
- Harry, você vai ou não? Ela quer que confirme.
Olhei para ela outra vez. Os cabelos soltos, mas arrumados e não no rosto, e sem boné nenhum. E eu acho que preferia minha gravata em volta de seu pescoço no lugar daquele colar idiota com um E brilhoso. Balancei a cabeça e voltei o foco ao assunto.
- Ela tem lugares marcados?
- Ela sempre tem – revirou os olhos.
- Ok. Acho que vou. – Dei de ombros, tentando parecer o mais casual possível.
- Legal. – Ela disse e virou as costas.
- . – Chamei, antes que ela pudesse se afastar. virou de novo para mim, e vasculhei os cantos empoeirados de meu cérebro para pensar em qualquer coisa para falar. – Diz para ela fazer o mousse de morango.
Ela assentiu e então foi embora.
Terminei de jantar lembrando dos jantares de fim de ano dos pais de e de como eles eram estupidamente ridículos, e nós conseguíamos torná-los divertidos, mas apenas para nós dois. Cada ano era como uma edição diferente. E nós sempre excedíamos expectativas.
Nem queria saber como seria o desse ano.

’s POV

- Já sei. – Repeti enquanto tirava o pequeno molho de chaves de um bolso da bolsa. Equilibrei o celular entre o ombro e o ouvido para poder abrir a porta.
- Suas provas já começaram? – Minha mãe perguntou, do outro lado da linha. – Tem estudado? E o ACT? Ah, não, é a quem quer o ACT. Ela está bem? Vai conseguir? E você? Oxford ou Cambridge?
Soltei uma risada seca, minha mãe tinha essa mania peculiar de encorajar seus sonhos e colocar toneladas de pressão em suas costas ao mesmo tempo. Eu gostava e odiava ao mesmo tempo. Era algo único dela, mas nem sempre era um momento bom para ouvi-la falando assim. Ah, além de não ser nada legal sua mãe trocar seus objetivos com os da sua melhor amiga.
Mas eu não podia culpa-la, era chocante até para mim. e eu fazemos tudo juntas desde a quinta série, era de se esperar que fôssemos, inclusive, fazer faculdade juntas. No entanto, vamos adicionar um oceano de distância entre nós e esperar que a nossa amizade seja mais forte que isso.
- Sim, ela está indo bem. Vai conseguir todas as tentativas e no final vai ter que escolher a que quiser. – Abri um sorrisinho.
- Bem . – Ela observou, soltando uma risadinha.
- Bem . – Concordei, finalmente abrindo a porta do quarto. – Vou mandar algumas cartas semana que vem para outras universidades. Oxford e Cambridge vão esperar um pouco.
- Mas o plano era ao contrário. – Eu podia ver a marca de expressão que se formou em sua testa por causa da confusão.
- Eu sei. – Acendi a luz do quarto e joguei a bolsa em cima da cama. Lá fora, nada se via mais. Eu estava agradecida pelo relógio marcar oito horas da noite e aquilo me dava uma margem socialmente aceitável para dormir cedo. Sexta-feira era sempre o dia mais puxado da semana, eu tentava me dedicar a mais tarefas extracurriculares para ter maior crédito quando fosse a nova presidente do Grêmio Estudantil.
- Hm... – Ela murmurou ao perceber que aquele tópico havia se esgotado. – E como você está?
- Estou... bem. – Eu não estava tão certa disso, mas não podia preocupar minha mãe. Ela achava que eu já estava bem.
- Ela não apareceu mais? – Minha mãe abaixou o tom de voz e eu soube imediatamente que ela não estava mais sozinha no cômodo.
- Não. – Olhei por cima do ombro, para a porta, que eu havia deixado aberta sem querer. Atravessei o quarto a passos largos e fechei a porta sem cerimônia. Falar sobre aquilo me deixava mais que paranoica.
- Mesmo? – Insistiu.
- Não. – Garanti, apoiando-me contra a escrivaninha. – A sua já foi embora? – Rebati, venenosa, mas me arrependi assim que as palavras saíram da minha boca. Ela não respondeu. – Eu... Mãe... Perdão. – Passei a mão pela testa à medida que um bolo se formava em minha garganta. Ela continuou em silêncio. – Desculpe-me. – Sussurrei, começando a sentir aquela maldita sensação de que estava perdendo algo.
- Tudo bem. – Ela respondeu, por fim, parecendo estar se controlando de verdade para dizer aquelas palavras. – Tudo bem. – Repetiu. – Seu pai chegou, quer falar com ele?
- Não... Depois eu ligo para ele. – Falei.
- Ok.
- Mãe?
- Sim?
- Eu amo você. – Fechei os olhos.
- Eu também amo você, sweetie.
- Boa noite. – Mordi o lábio inferior para não chorar.
- Boa noite. – Respondeu.
Quando a linha ficou muda, eu respirei fundo sentindo meus ombros pesarem toneladas.
Obriguei-me a retomar minha rotina, secando algumas lágrimas teimosas que insistiram em cair mais cedo. Tirei o pijama de baixo do travesseiro antes de me dirigir ao banheiro para tomar um longo e relaxante banho. Já debaixo do chuveiro, deixei que a água lavasse todas as mágoas e frases não terminadas que restaram daquela conversa com minha mãe, algo que acontecia sempre que passávamos muito tempo sem nos falar.
Limpei o espelho com a mão e encarei, por alguns segundos, o reflexo que me encarava de volta.
Quando aquela sensação ia sumir?
Desviei o olhar para a escova de dentes e a pasta. Franzi o cenho para aquela cena estupidamente cotidiana; até quando eu precisaria daquilo? Após terminar os dentes, enchi um copo d’água e abri o armário para tomar os remédios que precisava tomar.
- What the... – A frase ficou no ar enquanto eu olhava o armário vazio. – Mas...
Franzi o cenho e fiquei daquele jeito por algo que me pareceram minutos.
De repente, aquilo me tomou. Aquele pavor simplesmente apareceu e precisei segurar a bancada da pia para não cair.
Eu precisava daqueles remédios. “Não posso dormir sem toma-los. Não posso dormir!”, minha mente girava e meus pensamentos eram todos desordenados e pessimistas.
.
O nome veio à minha mente sem mais nem menos, mas logo eu juntei algumas peças.
Ela deve ter mexido em alguma coisa. Bom, em tudo, obviamente. Devia estar procurando algo e viu meus remédios e deve tê-los pego por engano.
Senti meus músculos relaxarem com aquela sequência de pensamentos. Os efeitos colaterais de fazer sentido para si mesma. A lógica era como um refúgio para mim, quando as coisas faziam algum sentido e eu podia explicar pelo menos um pouco do que acontecia, eu sabia que estava bem.
Recuperando a normalidade da respiração, vesti-me sem pressa e saí do banheiro. Pendurei a toalha antes de me sentar na cama. Para passar o tempo, escolhi um livro qualquer que havia em minha pequena estante ao lado da escrivaninha.
Já estava na metade do livro quando entrou no quarto, vestindo uma jaqueta preta com capuz, que ela usava, uma bolsa preta e botas enlameadas.
- . – Fechei o livro, abrindo um sorriso para ela.
Arranquei aquele sorriso de meu rosto imediatamente, sentindo-me desequilibrada por um segundo.
Mas quando ela jogou a bolsa na cama, algo dentro de mim vibrou com excitação e o sorriso voltou aos meus lábios. A sensação era revigorante, quase como a sensação de uma criança que sabe que vai ganhar seu brinquedo e sabe que ele está perto. Ou a sensação de um leopardo que cerca sua presa e se aproxima majestosamente, pronto para dar o bote, mirando sua jugular e...
- ! – elevou a voz, olhando para mim como se eu estivesse pirando.
- O-oi. – Respondi.
Eu estava perdendo meu controle.
E odiava sentir que precisava daquele maldito remédio.
- Cara, para quê você precisa de antidepressivos?
Bom, ela me pegou de surpresa.
- Você também toma. – Falei. – Achei que havia algum tipo de acordo entre a gente. Eu não falo das suas pílulas, você não fala das minhas.
- Eu compro as minhas no fucking mercado negro. Não tenho receita. – Ela tirou um frasco do bolso. – A Dra. Follmann parece do tipo que prefere remediar do que prevenir. Isso aqui só não tem mais morfina porque não é um vidro de morfina! E tem um para ansiedade. E outro para distúrbios de humor. O que ela vai te receitar depois? Ritalina?
Eu estava sem reação.
Na minha mente, uma sirene soava, quase ironicamente, enquanto eu pensava em uma explicação razoável.
- ... É uma... Longa história. – Tentei começar, mas o olhar dela parecia perfurar minha pele.
- Olha, eu sei que não é da minha conta... – Ela fechou a boca e pareceu pensar um pouco. – Ok, é da minha conta sim se minha colega de quarto for surtar durante a noite e me matar. Eu gostaria de saber o que está acontecendo aqui.
Mesmo no meio de toda aquela confusão, eu não pude deixar de notar quantas palavras saíram da boca dela. Era sempre uma novidade ver falar tanto, apesar de ela estar se soltando ultimamente.
- Eu já disse: longa história. – Repeti, sentindo-me derrotada. Não havia como contornar aquela situação.
- Bom. – Ela se jogou em sua cama e cruzou as pernas. – Pode começar. Não planejava dormir cedo, mesmo.
- Você não quer realmente saber.
- Na boa, , só desenrola. Ainda estou sob o efeito de alguma porcaria que eu tomei na rua, então, por favor, não desperdice esse tempo. Está na hora de estabelecermos algum laço aqui.
Franzi o cenho.
Aquilo não soava como a que eu conhecia.
Mas ela parecia bastante disposta a realmente tirar alguma informação de mim.
- Ok. Mas, primeiro: eu preciso dos remédios. Onde estão? – Estendi a mão.
Ela olhou fixamente para mim antes de responder aquilo que eu temia:
- Eu vendi.

Liam’s POV

- Precisamos falar sobre a banda. – Harry se sentou ao meu lado com sua bandeja cheia de uma pizza que eu definitivamente não havia visto e agora estava chateado.
- Ou sobre as condições do seu coração. – Louis apontou para o prato de Harry e arqueou uma sobrancelha.
- Não enche. – Revirou os olhos. – Enfim, eu estava pensando e me dei conta de uma coisa.
- E o que é? – Perguntei com a boca cheia de macarrão.
- A banda não tem um nome ainda!
- Cacete! – Louis bateu a mão na testa. – É mesmo!
- Sério? Ninguém tinha percebido isso ainda? – Arqueei uma sobrancelha.
- Então por que não levantou esse tópico antes? – Harry apontou o garfo para mim.
- Não sei. Não achei que fosse dar certo isso de banda...
- Ouch. – Josh sentou-se ao lado de Louis. – Bom, a questão é que deu certo e cá estamos. Com banda e sem nome. Então vamos colocar as cacholas para pensar e arranjar um nome legal. Até porque vamos nos apresentar no final de semana que vem.
- Quê? – Franzi o cenho.
- Ah, fala sério! Eu conversei sobre isso com vocês, falei que eu e Niall tínhamos conseguido falar com o cara do bar. – Josh olhou para nós, inconformado.
- A única coisa que não me lembro de ter entendido sair da sua boca foi anteontem quando estávamos jogando aquela partida de FIFA e... – A voz de Louis foi diminuindo de tom até sumir totalmente quando ele se deu conta de que foi esse o momento em que Josh falou conosco.
- Por falar nisso, tá me devendo cinco pratas. – Joguei uma bolinha de guardanapo nele.
- Eca, dude! – Ele torceu o nariz.
- Enfim! A questão é que vai rolar. Por isso... – Josh apontou para a cabeça.
- Eu tenho uma ideia. – Harry atraiu a atenção para si quando falou aquilo. – Extraordinharry!
- Pf. – Soltei uma gargalhada e fui acompanhado dos outros. – Você não existe, cara.
- Não. – Louis limpou uma lágrima.
- Não? – Harry fez cara de quem foi pego de surpresa.
- Não mesmo. – Dei dois tapas em seu ombro. – Foi mal, mas você não é a Rainha da Inglaterra.
- Ok, ok. Foi só uma ideia. Não precisam cair matando.
- Ok. Obrigado pela contribuição, Styles, aprendemos uma coisa nesse dia: sem ideia bosta, ok? Ok. Mais alguém quer dar palpite?
- A gente podia só pegar palavras aleatórias no Urban Dictionary e ver qual tem um significado massa por trás e aí... – Comecei, mas a cara de paisagem do Louis me fez parar de falar. – Que foi?
- Devíamos estar fazendo isso com toda a banda. – Ele repreendeu.
- Os mais importantes estão aqui. – Harry deu de ombros.
- É, mas o Josh faz o quê?
- Ei! – Josh reclamou.
- Que bom que todo mundo aqui é foda, né, mas, cá entre nós, as únicas pessoas que, de fato, fazem algo bem aqui é o Niall e o Malik. – Louis levantou as sobrancelhas. – Vamos parar de ser babacas e pelo menos dizer a eles que precisamos de um nome.
- Tá, Louis. – Harry quase revirou os olhos, tirando o celular do bolso para mandar mensagens. – Pronto. Se alguém tiver uma ideia, compartilha.
- Doeu? – Louis provocou.
- O que vai doer é a minha mão na sua cara. – Harry rebateu.
Ri um pouco.
Louis estava sendo aquela velha chata desde a briga de Harry e no car wash. Eu não gostava de me meter nas brigas dos outros, mas Harry estava mesmo sendo um escroto com .
Quero dizer, uma hora ela ia ter que mudar!
Só ele não previa isso.
E o pior, para ele, é que ela nem havia mudado. Ela continuava sendo a mesma de sempre. Aposto que poderia jogar uma bola de lama nela que logo estaríamos numa guerra de terra molhada. Porque aquela era apenas a . Nossa boa e velha ... Num corpo gostoso, mas continuava sendo a . Não é como se a gente fosse parar de falar com ela por medo de querer...
- Que foi? – Harry perguntou quando eu o encarei de repente.
É, falha minha.
- Hã? Nada. – Limpei a garganta, voltando a comer meu macarrão.
Avaliei algumas possíveis questões:
Será que aquele drama todo era porque ele quer ficar com ela?
Harry e ficando...? Pouco provável.
Será que era ciúme?
Bom, nunca teve outros amigos além de nós. Harry tem um ego do tamanho do mundo... Talvez ele estivesse se sentindo trocado.
estava de fato nos trocando? Ou trocando o Harry, pelo menos?
Muito pelo contrário. Era o Harry quem estava a afastando.
Terminei minha breve análise, sentindo-me satisfeito por ser um bom amigo e ser capaz de analisar o que está acontecendo com cada um deles. Agendei uma análise mental para a situação do Louis com a freak para dali a dois dias. Dois dias é suficiente? Sim. É. Também preciso pensar nos meus problemas.
E, ultimamente, eles têm nome e sobrenome.

’s POV

- É claro que eu não sei o que deu em mim! – Sussurrei, pressionando o celular contra a orelha, como se aquilo pudesse fazer Elaine me ouvir melhor.
Eu não era bem do tipo de pessoa que tinha uma melhor amiga ou alguém super próximo para contar fofoquinhas e assuntos da vida, mas eu precisava falar com alguém e, além do mais, eu estava com saudade de casa, da língua, dos meus não-melhores amigos normais.
Elaine foi só a primeira pessoa que apareceu na lista de contatos.
Fitei o fundo de metal do meu armário enquanto ouvia a garota rir do outro lado da linha, começando a pensar que aquela fora uma péssima ideia.
- Eu não acredito. – Foi só o que ela disse antes de outro ataque de risos.
O que havia de tão engraçado, afinal?
- Ele é seu meio-irmão, . – Ela tentou controlar a voz.
- Se você pudesse vê-lo, com certeza não falaria assim... – Murmurei, fazendo-a soltar uma risadinha afetada.
- . E o Oliver? – Elaine abaixou o tom de voz.
Fechei os olhos. Droga. Oliver.
- Não fizemos nenhuma jura de amor. – Revirei os olhos, tentando não me sentir magoada com aquilo.
- Eu sei, mas...
- Eu sei. – Concordei, dando-me por vencida.
- Vocês se falam ainda?
- Muito pouco. – Suspirei. – Às vezes ele manda algumas mensagens antes de dormir.
- Não acredito! – Eu podia imaginar Elaine dando pulinhos e batendo palminhas onde quer que ela esteja.
- É... – Deixei a frase morrer, estava ocupada demais tentando reprimir o sorriso estúpido que vinha toda vez que eu pensava naquele idiota.
Se ele tivesse ao menos ido até o aeroporto...
Tirei o celular da orelha para ver as horas rapidamente e vi que havia uma mensagem do Liam na barra de notificações.
- Depois eu te ligo, Elaine. – Falei antes de desligar a chamada.
- Finalmente. – Alguém falou ao meu lado quando bati a porta do armário para trancar. Virei a cabeça e vi parada no armário logo ao lado, parecendo entediada e cansada.
Alguma parte de mim congelou perguntando-se quanto daquela conversa toda ela ouviu.
Eu não confiava naquela garota.
- O que foi? – Perguntei, cruzando os braços e olhando em seus olhos.
- pediu para te entregar isso. – Estendeu uma apostila de capa preta para mim. – É da oficina de teatro.
- Ah, agora você é garota de entregas. – Falei, tentando parecer casual, mas saiu mais grosseiro do que eu queria.
- E você é a garota louca pelo irmão? – Respondeu no mesmo tom.
- Não sou... – Franzi o cenho. Merda. Revirei os olhos para a garota que, acreditem se quiser, estava com um sorrisinho para mim, debochado. Dei-lhe as costas e segui para o refeitório.
Ótimo, , faça inimigos.
É assim mesmo que se faz.
Droga.

’s POV

- O que está fazendo? – Niall apareceu ao meu lado de repente, provocando-me um susto.
- Tirando cópias. – Falei, reprimindo um sorriso. A máquina de copiar apitava ao meu lado sempre que uma nova cópia saía.
- Isso eu posso ver, mas para quê? – Cruzou os braços.
- Teatro.
- Ah. – Balançou a cabeça.
- Nem todos podem ter uma banda e serem astros do rock. – Suspirei dramaticamente, arrancando-lhe uma risada.
- É uma dádiva para poucos. – Acenou, com falso descaso e sorriu, colocando as mãos nos bolsos da calça. – Mas ainda não sou oficialmente parte da banda.
- Não? – Franzi o cenho.
- É, os meninos estão fazendo vista grossa. Não sou do grupo deles então é isso o que recebo. – Comprimiu os lábios. – Meritocracia.
- Reclamar não combina com seu tom de pele, sabia? – Fiz um biquinho e baguncei seu cabelo. – Eles são assim mesmo, mas são caras legais.
- Sei disso. É até divertido ter que provar meu valor. – Deu de ombros. – Mas e a peça, sobre o que é?
- Hã? Ah. A peça. É sobre A Megera Domada. Na verdade, é uma adaptação do livro então a peça é A Megera Domada, não sobre ela. Mas a história original também é sobre ela, mas... Eu estou tagarelando, não estou? – Fechei um olho e mordisquei o lábio inferior. Niall riu antes de tirar as mãos dos bolsos e pegar a pilha de folhas que ficou pronta na máquina de copiar.
- Não faz mal.
- Ei! – Dei um tapa leve em seu ombro. – Você não negou!
- Foi mal! Não se pode mentir para uma donzela. O Peter não mentia.
- O Peter também não tinha jeito com garotas e olha só você. – Rebati, arqueando uma sobrancelha em desafio.
- Touché.
- É só uma adaptação. Você provavelmente vai ver a mesma coisa que via nos filmes. – Garanti, sentindo-me levemente idiota por fazer parte do clube de teatro. Mas a sensação passou tão rápido quanto apareceu. – Só que sem os efeitos especiais. – Acrescentei.
- Já tem os atores ideais?
- Dizer “ideais” seria exagero. – Suspirei enquanto pegava as folhas de suas mãos e comecei a separar e grampear os roteiros de cada participante do clube. – Mas são tudo o que a gente tem. E eles fizeram teste. E eu não sou a dona do clube, então minha opinião não é a única que conta.
- Mas você não é a contrarregra?
- Sim, mas não a diretora.
- Vocês têm pessoal suficiente para ocupar cada cargo de um teatro profissional?
- Não... – Olhei para ele, sentindo-me tola por causa de seus constantes questionamentos.
- Então...?
- Somos uma equipe. Ponto final, Niall. – Revirei os olhos.
- Ei, calma. Só estava perguntando. – Ele levantou as mãos em defesa.
Mantive meu olhar em seu rosto, decidindo-me se tentava fazer aquela irritação passar ou a usava como desculpa para ficar sozinha.
Eu realmente poderia fazer bom uso de um tempo sozinho agora...
A semana de provas estava aí e eu não me sentia completamente segura sobre algumas matérias.
Mas o que eu iria fazer nesses... trinta e dois minutos que me restavam?
Ler uma ficha?
- Desculpe. – Suspirei.
Droga, . As aspirinas não eram suficientes? Tinha que pegar todos os remédios?!
- Você parece sobrecarregada.
- É só essa semana de provas...
Parei de falar quando ele se colocou atrás de mim e afastou meu cabelo de meus ombros, jogando-os para um lado só. Seus dedos pressionaram suavemente meus ombros, dando início a movimentos suaves e repetitivos. Logo suas mãos apertavam toda a região dos ombros e braços e eu estava de olhos fechados, apenas sentindo meu corpo relaxar mais e mais.
- Bom? – Ele perguntou quase sussurrando.
- Uhum... – Murmurei.
A risadinha que ele soltou em seguida me fez voltar à realidade.
Abri os olhos com um sobressalto e olhei em volta, certificando-me de que ninguém testemunhara aquela cena... Esquisita. Mas não havia ninguém realmente nos dando atenção naquele momento. Voltei a grampear os papeis enquanto tentava me recompor.
- Sente-se melhor? – Continuou perguntando.
- Sim, obrigada. – Respondi sem olhar para ele.
- Disponha. – Eu podia imaginar o sorriso que se formava em seu rosto. – Tem aula de que agora?
- Literatura. – Chequei a hora em meu relógio de pulso. – Ah! Droga! – Praguejei.
- O que foi? – Niall me fitou com preocupação.
- Não li o maldito livro!
- Que livro?
- A Revolução dos Bichos. – Passei a mão na testa como se isso fizesse com que minha mente funcionasse mais rápido. – Droga. Precisava fazer um fichamento.
- Eu já li esse. – Ele disse. – Posso te ajudar a ir explicando os capítulos e fazemos o fichamento juntos. O que acha?
- Acho ótimo! – Grampeei o último bloco de folhas, juntei-as em uma pilha só, coloquei-a debaixo do braço e puxei Niall para fora da biblioteca.

’s POV

Algo cutucava meu rosto em todas as partes, mas eu estava sonolenta demais para abrir os olhos. Tentei virar para o outro lado, mas algo pesado caiu sobre mim e gemi. Abri os olhos com algum esforço e pisquei algumas vezes esperando a visão de Louis em minha cama se focar.
- Jesus Cristo, é um pesadelo – resmunguei e tentei puxar o cobertor por cima do rosto, mas ele estava em cima, impossibilitando o movimento.
Louis riu.
- Vamos acordar, Sunshine. O sol está brilhando lá fora...
Olhei para cima e a luz da janela era acinzentada, o céu estava carregado de nuvens escuras. Olhei de novo para ele e arqueei a sobrancelha. Louis deu de ombros.
- Ai, para! – Estapeei sua mão que ainda me cutucava e tentei sentar na cama, Louis fez o favor de sair de cima de mim e me dar algum espaço para respirar. – Ah, por favor. São nove horas. O que você quer essa hora da madrugada, Louis?
- São nove horas e eu já estou entediado, . O que vai ser do resto do meu fim de semana assim?
- E o que eu tenho a ver com isso? Você devia ter alguma consideração por seus amigos e deixá-los dormir. É sábado.
- Eu tenho – ele sorriu. – Harry está desmaiado lá no quarto ainda.
Cocei os olhos e bocejei, depois olhei para ele.
- Anda, levanta. Vamos tomar café. Não conversamos há algum tempo, você se distanciou. Sabe, eu não sou o Harry.
Soltei uma risada seca.
- Mas é a mesma coisa. – Louis fez uma cara afetada e revirei os olhos. – Esquece, tá legal?
- Só estava pensando, e não devemos deixar essa briguinha de vocês intervir entre nós, né? Harry não é seu único amigo. Espero que esse novo... estilo de vida te permita ainda ser amiga da gente.
- Está falando exatamente igual a ele – fiz uma careta e cruzei os braços, encostada na cama.
- Ah, tá legal , levanta e vai lavar essa cara, tá parecendo um trapo. Vamos tomar café.
Ri e levantei da cama indo até o banheiro. A cama de já estava feita, ela devia estar acordada há algum tempo já, andando por aí com .
Lavei o rosto e escovei os dentes, passei um creme e prendi o cabelo, depois saí do banheiro e peguei uma roupa confortável para vestir no lugar do pijama. Louis estava tão concentrado em seu celular que me vesti parada atrás dele e ele nem percebeu. Calcei uma sapatilha e peguei o celular, e depois fui para a porta.
- Psiu. Vem. – Chamei com a cabeça e Louis levantou, guardando o celular e me seguindo para fora do quarto.

- Então... como você tá? E a banda? E a freak?
Louis fez uma careta para mim.
- A banda... tá indo. Por incrível que pareça, tá dando mais certo do que eu imaginava, sabe?
Assenti.
- E não sei da , não nos falamos mais desde ontem.
- Desde ontem?! Nossa, hein, Lou! Que recorde! – Debochei e Louis deu um tapa em minha nuca. – Você tá super afim dela, só admite.
- Mas quem não é afim dela? Isso nem seria uma novidade – ele deu de ombros.
- Não, Louis. A freak é incrível, ela tem algo que, tipo... encanta todo mundo. Garotas e garotos. E alguns ela meio que apavora. Mas estar afim dela é diferente. Sair por aí conversando com ela como se fossem melhores amigos... só você faz isso.
Louis balançou a cabeça.
- Eu não sei se estar afim é o termo certo. Ela é... uma incógnita, e eu me envolvi. Agora tenho que resolver.
- Em outras palavras, está afim dela – concluí. Apertei os olhos quando saímos do prédio dos dormitórios e a luz do dia me cegou.
- Qual é o problema nisso, que todo mundo fica falando? Eu não posso estar afim de ninguém? – Louis soou indignado e eu ri.
- Você pode, Tommo, pode sim. Só que é meio inédito, você nunca ficou caído por uma garota desde que te conheço. Não assim, pelo menos. E estou muito chocada que saiba o significado de incógnita.
- Vai à merda - ele murmurou e me empurrou fraco, eu ri.
- E aí, qual é a boa? – Liam nos encontrou no pátio e me abraçou pelos ombros, começando a nos acompanhar.
- Vamos tomar café, você vem?
- Já tomei, mas comer é sempre bom. – Ele assentiu e sorri. Olhei para seu braço em meus ombros.
- Anda malhando, Liam? Tá tomando bomba, né?
- Não é só você que tem o direito de ficar gostosa de repente, . Exceto que eu sempre fui gostoso.
- Seu ego tá me esmagando – eu o empurrei para longe e ele riu se afastando.
- E qual é a boa, afinal? – Louis olhou para Liam. – Cadê sua irmãzinha gostosa?
- Ok, tá na hora de escolherem outro apelido carinhoso para , porque isso já cansou. – Ele apontou para Louis e eu ri fraco. Esse grupo era pirado, um pior que o outro. Louis correndo atrás da freak, Liam afim da própria irmã (porque ele era bem estúpido se pensava que escondia), e eu... Eu fiquei com Zayn Malik, qual era o meu problema, afinal?
Estávamos nos aproximando do prédio do refeitório quando Louis parou de súbito e olhou para o gramado onde vários alunos aproveitavam o dia.
- Aquela é a garota que roubou meu dever de química! – Apontou para algum lugar no meio das pessoas e foi se afastando sem mais nem menos. – Ei, você! Você tá com meu dever sobre hidrocarbonetos!
Olhei para Liam sem entender nada. Ele deu de ombros e continuou andando. Com Louis na maior parte do tempo o lema era “vamos apenas ignorar”.
- Mas e você e o Harry? Depois daquele climão no car wash... Nunca vi brigarem assim.
- É, nem eu. – Dei de ombros.
- Já sabe o que vai fazer no feriado? Vocês sempre vão para casa juntos no natal. Vai ser estranho.
- Ainda não sei como vou fazer isso. Ir para casa com ele, passar o feriado junto, como se nada tivesse acontecido. E ainda ter que explicar a todo mundo? – Balancei a cabeça. – Vai ser o pior natal de todos. Harry passou dos limites. – Suspirei. – Tá, chega desse assunto. Mas e você? Vai ir para casa com a ?
- Não sei, mas é provável. Minha mãe faz questão, sabe como ela é...
Ri fraco. Ah, a mãe de Liam. Eu e boa parte de nossa turma do segundo ano sabíamos bem como ela era. Teve uma noite naquele ano, perto da formatura, em que decidimos que precisávamos ter uma festa de verdade antes do ano letivo acabar. Como a casa dele era a mais próxima do colégio, apesar de ser longe, nós alugamos vãs e levamos todos os segundos anos para a casa de Liam. Por algum motivo aquilo pareceu uma ideia boa, de início. Seus pais estariam viajando pelo final de semana, então nós nos divertiríamos e tudo, milagrosamente, daria certo. Como se fosse assim mesmo, né?
Sua mãe chegou mais cedo e basicamente tirou todos a vassourada de dentro da casa. A maioria dos alunos voltou para a escola de madrugada com as vãs, mas nós, o “grupinho” responsável por tudo, fomos encarregados de limpar cada centímetro da casa até o dia clarear. Mas a mãe de Liam era muito legal, ela era sim. Ela se importava com ele, e era muito amorosa. Liam tinha sorte... pelo menos alguém em sua família dava a mínima para ele.
Por um momento pensei em como tudo era diferente há apenas um ano atrás. e eram simplesmente as rainhas do colégio. Não havia uma festa boa em que as amigas inseparáveis não estivessem, e se bem me lembro, em boa parte delas estava bêbada ou quase lá. A , ela simplesmente pegava fogo. Do jeito dela, sempre, sempre divertida, como um fogo de artifício. Ela definitivamente se acabava, era uma lenda. A lenda das festas do St. Bees. Liam, Harry, Louis e Josh estavam sempre por trás de tudo, na melhor e na pior das festas. E eles também aproveitavam demais. Bem, essa parte não mudou tanto, mas as garotas...
E era tudo sobre status e imagem. Todo mundo era tão fútil no segundo ano.
Era engraçado o que apenas um ano fazia com a gente.
Chegamos no refeitório e servi meu café, indo sentar com Liam na mesa que ele havia escolhido.
- Está tudo... quieto demais. Não acha? – Ele falou, meio baixo, observando o movimento no local. – É o último ano. Cada fim de semana devia ser como o último.
- Bem, se você me permite, esse tem grandes chances de ser meu último fim de semana. Sabe quantas provas tenho marcadas para a semana que vem?
Liam fez uma careta.
- Não queria lembrar disso.
Ri e mordi meu pãozinho. Olhei em volta como ele fazia.
- Devíamos fazer uma festa de arromba.
- Dessa vez, na sua casa. – Ele foi logo falando e ri.
- Bem pensado.

’s POV

- Então, você estudou ou não? - estava de pé à minha frente, os braços cruzados e o livro de química nas mãos. Pisquei duas vezes, voltando à realidade, e fitei o livro para me lembrar do que falávamos. Ah, Química Orgânica.
- Sim, sim. - Falei, balançando a cabeça, tentando esquecer a conversa que tive com mais cedo; ela havia contado tudo para a .
- Pode me ajudar? - Ela pediu, mostrando-me um exercício pela metade. Peguei o livro de sua mão e dei uma rápida olhada.
- A prova é no próximo período. - Olhei para ela, quase bronqueando. Ela revirou os olhos.
- Eu sei! Mas eu estudei. Só não consegui mesmo essa questão.
- Hm... - Murmurei enquanto tentava achar a solução.
Tentei ajudar ela da melhor maneira possível, mas acabamos criando um pequeno conflito, pois eu também havia me esquecido de como escrever a maldita reação exotérmica daquele maldito composto.
- Droga. - Praguejei.
- Calma, onde estão suas anotações?
- Eu nunca trago para a prova. Elas me deixam nervosa. - Suspirei ao me lembrar da última vez que havia levado os resumos para a prova... Tive que fazer a prova com a orientadora, pois eu havia saído um pouco do controle quando percebi que não sabia explicar o que eu havia anotado quando uma pessoa pediu ajuda. - Adam provavelmente sabe o que tem de errado aqui. - Apontei para um dos melhores alunos da turma de química.
- Ok. - Ela saiu para pedir ajuda a ele.
- De nada. - Murmurei antes de entrar na sala para escolher o lugar perto da janela.
- Hey! - Josh estava na segunda cadeira ao lado da janela. Acenei e sorri brevemente enquanto arrumava minha mesa.
Enquanto esperava o professor entrar e começar o teste, podia sentir os olhos de Josh queimando minhas costas.
Às vezes ele me assustava, apesar de eu saber que ele não ia muito além da fachada de garoto bobão e extrovertido.
Olhei para trás, por cima do ombro, algumas vezes e ele sempre desviava o olhar quando eu espiava. Talvez ele quisesse alguma coisa. Ou não, talvez eu só estivesse sendo um pouco convencida demais. Tirei uma mexa de cabelo dos olhos quando o professor chegou e largou o pacote de provas em cima da mesa de madeira escura e antiga, deu algumas instruções e pediu a um aluno que entregasse as provas para todos.
Anotei todas as fórmulas das quais era capaz de me lembrar no canto da folha de rosto da prova; uma tática velha, mas eficiente. Tendo isso feito, virei a página e comecei a minha resolução.
Não muito depois que o professor anunciou os últimos trinta minutos de prova, quase dei um pulo na cadeira quando Josh me cutucou com força no ombro.
- Ei! – Cochichou ele, inclinando sua cadeira para a frente. – Qual a resposta da três?!
Passei meus olhos ao longo da prova e parei na questão três. Eu odiava cola. Odiava passar cola, odiava ver pessoas colando. A ideia de ver pessoas trapaceando para tomar o lugar das outras me dava náuseas, mas, claro, isso no meu caso de ACT, concorrência, o sonho da minha vida. Não é nada justo que alguém ganhe injustamente. Por mais redundante que seja.
Resolvi ignorar aquela inconveniência e continuar fazendo minha prova, que já estava no fim, de qualquer forma. Nada do que eu pudesse fazer ia fazer Josh conseguir uma aprovação direta.
- Desculpa por aquilo. - Josh veio até mim depois que o sinal tocou indicando o término das provas. – Eu me desesperei.
- Tudo bem. - Sorri para ele, sentindo-me sem graça. - Espero que tenha feito uma boa prova.
- Teria me saído melhor se você tivesse me ajudado. - Riu fraco.
- Fiquei sabendo que vocês vão viajar. - Mudei de assunto enquanto fazíamos nosso caminho em direção ao refeitório.
- Quem? Ah. A gente. Sim. Semana que vem.
- Onde vão tocar?
- Londres.
- Uau. - Abri um sorriso sincero, feliz pelos meninos. - Pub?
- Sim. Um pub de um amigo do professor de música. Ele que nos arranjou o contato.
- Sério? Muito prestativo da parte dele.
- Acho que ele vê em nós algum potencial ou algo assim. Não sei direito. Seja o que for, acho que vale a pena tentar.
- O que você faz, mesmo? Desculpe. - Soltei uma risadinha sem graça.
- Tudo bem. O empresário nunca é o reconhecido. - Suspirou dramaticamente depois de piscar para mim.
- Empresário? Ok, não sei quem está levando isso mais a sério: vocês ou o professor.
- Ah, , por favor. Não achou que o car wash era pura diversão, né?
- Não, mas não achei que precisavam de um empresário. Parece demais.
- Eu sei, mas desde a entrada de Niall, a banda ficou completa e o Liam já toca a bateria. Então eu fiquei por conta dessa parte emocionante. - Seu tom era de pouco descaso, mas ele não parecia triste de fato por não fazer parte da ação. - Tudo bem, até. A Rebekah está nos ajudando com alguns detalhes da viagem, então eu tenho aquela visão sem precisar fazer esforço e... Ah, foi mal.
- Que isso. Ela é realmente linda. - Concordei com ele. Do meu modo, claro. Mas o que não se podia negar é que Rebekah poderia ter qualquer um a seus pés. E ela sabia disso. Josh era só mais um. Ele também sabia disso. - Quais detalhes?
- No momento... Ela só nos ajudou a organizar o car wash, mas foi de grande valia. - Franziu o cenho, pensativo.
- Entendi. - Abri a porta do refeitório para nós. Ele entrou e depois eu entrei também, achando graça do comportamento dele.
Fazendo meu caminho em direção à fila, avistei Liam acenando em minha direção, daí ele se levantou e veio até nós.
- Justamente a pessoa que eu queria ver. - Sorriu para mim e me deu um beijo na bochecha.
- Payne, você é sempre um amor, mas, comigo, isso não cola. - Apertei a bochecha dele quando ele pegou a pasta e os cadernos de minhas mãos. - Eu conheço seu olhar pidão.
- É, Liam, desembucha! - Josh deu um soquinho em seu braço.
- Você já sabe o que é, palhaço. - Ele rebateu. - Enfim, Cas. Precisamos da sua ajuda.
- Jura? - Olhei para Josh com diversão. - Obrigada por me acompanhar até aqui, Josh, por livre e espontânea vontade.
- É sempre um prazer falar com você. - Ele se defendeu. - Menos quando a parecia que ia enfiar dardos nos nossos olhos se falássemos com você.
- Enfim. - Liam colocou a mão sobre o rosto do amigo e o empurrou para fora da fila. - São duas coisas. Primeiro, preciso de ajuda com Inglês. Segundo, preciso de uma van.
Arqueei as sobrancelhas.
Havia me esquecido de como, com Liam, tudo sempre parecia simples demais.


Niall’s POV

- Ainda não sei por que aceitei essa merda desse emprego. – Zayn murmurou ao meu lado, pisando em uma ponta de cigarro que acabara de terminar.
- Isso não é um emprego, Malik. – Chequei meu relógio novamente.
- Não sei por que isso é tão importante. – Ele voltou a retrucar.
- Porque o professor confia na gente e é uma coisa boa ter a confiança do professor. Além disso, precisamos do endereço do pub.
- Hm. – Apenas murmurou e acendeu outro cigarro.
O cara era uma chaminé ambulante.
Mas eu também gostava de mascar chiclete um atrás do outro, então acho que eu entendia a vontade.
O professor saiu de sua sala alguns segundos depois, carregando envelopes abarrotados de folhas e uma pasta de couro preta. Parecia muito trabalho para um professor de música.
- Ah, olá, Sr. Horan. – O Sr. Clark falou, abrindo um pequeno sorriso.
- Boa tarde, professor. Viemos buscar o endereço e aquela autorização que o senhor disse que poderia nos providenciar...
- Fuck! – Ele praguejou baixo, mas não tão baixo assim. – Eu me esqueci completamente! Estou ajudando a Sra. Patmore a corrigir essas malditas provas de Geopolítica e acabei me perdendo nesse monte de folha...!
- Ah... Eu entendo. – Cocei a nuca, sem graça por aumentar o fardo do pobre coitado.
- Posso mandar por e-mail? Aí você imprime na biblioteca. – Ele olhou para os pacotes de provas em sua mão, parecendo desolado por não poder ajudar mais que aquilo. Voltou a olhar para mim, esperando uma resposta.
- Ah, sim, claro! – Abri um sorriso. – Pode ser sim.
- Ótimo. Mando isso ainda hoje! – O professor saiu andando, satisfeito.
- Fantástico. – Zayn murmurou atrás de mim, quase arrogante. – Perdemos... Cinco minutos das nossas vidas.
- E o que você estaria fazendo de melhor? – Desdenhei.
- Qualquer coisa melhor do que você estaria fazendo. – Ele se afastou da parede e veio para o meu lado.
Ignorei o tom ofensivo dele e apenas caminhei ao seu lado com as mãos nos bolsos, perguntando-me como ele conseguia ser tão desprezível. E, principalmente, por que as garotas se jogavam aos seus pés? Elas gostavam de ser maltratadas? Ou elas também fazem parte do joguinho?
Um cara como eu jamais saberá a resposta dessas perguntas.
Passamos pela porta da secretaria quando passou por ela, saindo do prédio. Ela nos viu e abriu um sorrisinho, diminuindo o passo para ficar ao meu lado e nos acompanhar. Troquei um olhar com ela quando fui cutucado nas costelas.
- Ahn, estávamos pedindo uma autorização do professor para nos apresentarmos no fim de semana. – Expliquei.
- Entendi. Bom ver seu empenho, Malik. – Ela se inclinou um pouco e falou com ele com um sorriso diferente no rosto; quase jocoso, quase como se eles tivessem alguma piada interna.
- Preocupada, princesa? – Ele rebateu, olhando diretamente para ela, que revirou os olhos, mas não tirou o sorriso do rosto.
Viu?
Eu. Nunca. Saberei. A. Maldita. Resposta.
Mas eu sabia que é mais inteligente que isso.
- Ah. – Recordei-me subitamente de um assunto importante. – Você vem, não vem? – Perguntei a ela, que olhou para mim, como se esperasse algo.
- Para...?
- Para o show. – Falei como se fosse óbvio. – Não é um show. É uma apresentação...
- Sim. – Ela me cortou. – Em Londres. O que eu vou fazer em Londres?
- Assistir ao nosso show! – Levantei os braços em comemoração.
- Niall. – Ela fez um bico.
- Ah, qual é. A disse que só vai se você for. – Apelei. – Os caras estão tentando fazer ela e o Harry passar um tempo legal juntos.
- O Harry é um babaca que merece tudo o que está passando agora. – Ela retrucou.
- Cas... – Ok, contra fatos não há argumentos. – Qual é, vai ser divertido. – Insisti.
- É, Cas, vai ser divertido. – Zayn falou o apelido dela de um jeito provocativo. – Está com medo de quê?
- Quantos anos você tem? Dois? – Ela rolou os olhos.
- Sim, inclusive, estou afim de mamar. – Ele piscou para ela.
- Cara, chega. – Olhei para ele com certo desgosto.
- Relaxa, Niall. – apaziguou, apenas balançando a cabeça com alguns resquícios de algum humor.
Depois de mais alguns segundos de caminhada silenciosa, quando chegamos à bifurcação que separava os caminhos para os dormitórios, se despediu de nós.
- Vou pensar, Niall. – Ela me deu um beijinho na bochecha e evitou olhar para Zayn, dando as costas para nós em seguida.



’s POV

A vida seria muito mais fácil se eu não tivesse como família as pessoas que compõem minha família.
Eu pensava sobre isso enquanto esperava meu pai responder a minha mensagem. Ele estava digitando alguma coisa há pelo menos cinco minutos e eu não fazia ideia do que diabos ele poderia estar escrevendo; até me assustava. A maioria das pessoas estava fazendo alguma prova nesse horário da tarde, mas eu tinha esse período livre e a escola ficava muito esquisita – e melhor – estando tão deserta.
Meu pai queria que eu passasse o Natal em casa. Na casa dele, ele quis dizer. Junto com a Barbie e o asno-filho dela. Ah, é, e a coisa que está crescendo na barriga dela. Seria tudo lindo, seria tudo verde e vermelho e com cheiro de peru assado. Lindo. A não ser pelo fato de que eu não suportaria passar uma data tão... íntima com aquele projeto de família feliz.
A mensagem de resposta dele chegou, fazendo-me revirar os olhos assim que li. Se ele achava que poderia me convencer com alguma coisa que minha mãe disse a ele... Ela não falava nem comigo direito, imagina com ele. Que piada.
Mas, no final das contas, meu pai era o único dos dois que realmente me chamou para passar o feriado.
Eu nem sabia em que parte do mundo minha mãe estava agora.
Parei de andar e respirei fundo, preparando-me para escrever uma mensagem de remissão.
- Boa tarde, irmãzinha. – Liam apertou o botão de bloquear a tela e tirou o celular de minha mão, guardando-o em seu bolso em seguida.
- O que você quer, Payne? – Cruzei os braços.
- Seu pai me pediu para te avisar que vamos pegar um trem em Londres para Liverpool. – Abriu um sorriso.
- Tem três coisas erradas nessa frase: meu pai falando para você vir falar comigo, pegar um trem para Liverpool de Londres e a primeira pessoa do plural. – Enumerei nos dedos. – Pode começar a explicar.
Ele ficou de frente para mim e deu um passo para mais perto.
- Primeiro: seu pai sabe que ninguém resiste a mim, nem você. – Ele olhou em meus olhos com um sorrisinho de canto estúpido. – Segundo e terceiro: você vem comigo para uma apresentação que a banda vai fazer em Londres, aí pegamos um trem para Liverpool, que é onde vamos passar o Natal.
- E o que faz você pensar que você é irresistível e que eu vou assistir uma apresentação da sua banda estúpida?
- Porque eu falei com seu pai e disse a ele que seria uma oportunidade de passarmos algum tempo legal juntos. – Ele encolheu os ombros, mas o sorriso nunca deixava seus lábios. – Além de precisarmos de um grupo fiel de tietes.
Sem querer, eu soltei uma gargalhada.
- Tiete? Eu? – Ri de novo. – Quem mais está nessa? Vai colocar a de shortinho e cropped para dançar no palco, também?
- Ela vai, mas não para dançar, apesar de essa ser uma ideia fantástica, . – Ele deu mais um passo em minha direção e eu dei um passo involuntário para trás, tentando colocar algum espaço entre nós.
- E quem mais vai?
- Por que isso importa?
- Porque eu quero saber o que eu tenho em comum com as outras para você achar que eu vou. – Arqueei uma sobrancelha.
- Ora, , é muito simples, até. – Abaixou o tom de voz, chegando ainda mais perto, nossos corpos quase se tocando, seu perfume parecia preencher todo o espaço à nossa volta e o sorrisinho em seus lábios teimava em prender minha atenção. Aquilo não era justo, por que ele tinha que ser tão atraente? – Você vai porque você tem uma quedinha pelo baterista.
Soltei uma risada fraca, mas que saiu de forma quase embaraçosa, enquanto tentava pensar direito e sair daquele transe.
- E quem é o baterista? Harry Judd? – Respondi, revirando os olhos.
- Quem? O cara do McFly? – Ele franziu o cenho, o sorrisinho finalmente sumindo. Levantei as sobrancelhas, com preguiça de responder.
- Sim. É ele o baterista da banda de vocês? Por que se for, é, eu tenho uma completa queda por ele. – Abri um sorriso vitorioso, orgulhosa por ter conseguido passar por aquilo. – Agora, se me der licença, tenho uma mala para arrumar, não é? – Bufei e o empurrei, fazendo-o sair da minha frente.
- Então você vai? – Ele segurou meu braço.
- E eu tenho escolha? Parece que todo mundo aqui já decidiu minha vida.
- Será divertido, eu prometo. – Sorriu. Olhei para ele, estranhando toda aquela situação. Parte de mim realmente queria que valesse a pena, claro, mas outra parte não queria dar a mínima para o que estava acontecendo.
- Whatever. – Soltei meu braço e dei as costas ao meu meio-irmão-galã.
Tirei o celular do bolso para poder responder meu pai e vi que ele enviara outra mensagem.
“Estou com saudades. O papai ama você.”
Que tipo de ser humano desalmado eu seria se respondesse algo grosseiro àquela – suja, mas – carinhosa mensagem?
“Eu também te amo, pai. Eu vou.”
Enfiei o celular no bolso e fiz meu caminho para a biblioteca.



Louis’ POV

A sala de aula estava em completo silêncio. Há mais ou menos quarenta minutos eu encarava a prova de filosofia em minha mesa, sem conseguir chegar à metade do texto e não sentir sono. De dez questões, quatro estavam respondidas, e as outras seis me encaravam, esperando uma resposta.
Eu tinha dez minutos e nenhuma ideia de como concluir aquela prova. Era a última da semana, das quais eu comecei respondendo as dez, e depois fui decaindo cada vez mais. Mas se fosse parar para pensar em minhas notas, eu me jogaria da janela.
O tique-taque do relógio parecia muito alto, em relação ao silêncio da sala. Lá fora o sol brilhava, apesar de o dia estar frio feito um freezer. Olhei em volta, alguns alunos com os olhos concentrados na prova, outros tentando não pirar, e alguns dormindo. Olhei pela décima quinta vez para o relógio, que parecia estar mais lento que o usual. O professor corrigia alguma coisa em sua mesa.
Suspirei. Mais dez minutos, Louis.

Quando o sinal finalmente tocou eu quase derrubei a mesa de tão rápido que levantei. Peguei a mochila, a prova e deixei junto com as outras na mesa do professor ao passar para lá, ansioso para sair logo dali.
- Nossa, cara! – Josh me alcançou no corredor no caminho para o refeitório. – Eu viajei demais naquela prova. Apaguei, sonhei com Sócrates e tudo.
Ri.
- Como você foi?
- Péssimo. Teria sido melhor nem responder.
- É, eu também. – Fiz uma careta.
Chegamos ao refeitório, e eu nem estava com tanta fome. Peguei um hambúrguer e fui sentar em nossa mesa, onde Harry e Liam já devoravam seus pratos de comida.
- Ainda tenho mais duas provas hoje, e tô pensando seriamente em fugir do colégio. A gente nunca tá preparado pra essas provas. – Harry falou. – E olha que eu tentei estudar.
Ri, debochado.
- Ah é, eu vi. Seu caderno por acaso estava escondido dentro daquela revista da Playboy? – Disse e ele me chutou, fazendo os outros caras me acompanharem na risada.
- Não, não. Eu estava estudando anatomia. Óbvio.
- Claro – revirei os olhos. – Como não pensei nisso?
Ele assentiu, enchendo a boca de comida.
- E aí, tudo certo pra amanhã? – Liam perguntou. – Já consegui o carro.
- Argh, cara! – Josh resmungou de repente, soltando seus talheres como se estivesse puto com alguma coisa. Olhamos para ele.
- Que foi?
- Não vou poder ir! – Ele bufou. – Tenho que ir para casa amanhã. É aniversário da minha mãe, e a velha fica toda sentida se eu não estiver lá amanhã. Até parece que eu não tenho mais, tipo, um milhão de irmãos mais legais e bem sucedidos.
Ri e Liam deu tapinhas no ombro dele.
- Pensa pelo lado bom, ela não esqueceu de você.
- É, Josh. Nós gravamos para você o show. – Harry piscou para ele. – Aí, e a Rebekah não vai? A gente vai ficar sem assessor de imprensa? – Riu.
- Ela vai para casa hoje de noite. O pai dela está mandando um fucking avião particular e tudo. – Josh explicou.
- Isso quer dizer que você tomou coragem para falar com ela? Não borrou as calças, Josh? – Brinquei, e os outros olharam para ele querendo saber a resposta.
- Não, Tomlinson – ele me olhou, irritado. Depois olhou para o resto da mesa e voltou a comer, desviando olhar para a mesa. – Eu ouvi ela falando na aula.
Gargalhei.
- Um dia, Josh. Um dia.
- Como assim um avião particular? – Harry, atrasado como sempre, perguntou.
- Ela é filha de um militar ou algo assim – ele explicou.
- Ah, tá. Bom, eu vou ficar em Londres depois da apresentação. Vou pegar o trem para Cheshire.
- Falei com a – comentei, tomando um gole do meu suco. – Ela disse que vai, se a e a forem também. Elas ainda estão decidindo.
- Vai ser bom se elas forem, pra assistirem e fingirem que gostam da música de vocês. – Josh comentou. – Dá credibilidade, sabe.
- Ae, Josh! Aprendeu uma palavra nova, foi? – Liam riu.
- Chega. – Ele apontou para Liam com a faca na mão. – Quando as férias voltarem, vou procurar uma nova mesa pra sentar.
- Até que enfim você entendeu o recado! – Liam respondeu e riu em seguida. As brincadeiras e risadas continuaram, altas e escandalosas, fazendo barulho por todo o refeitório.
Avistei em uma mesa afastada e pensei sobre ela por um momento. iria, contanto que as outras duas fossem, o que provavelmente ia acontecer. Liam com certeza ia chamar a , mesmo que eu duvidasse que ela fosse aceitar. Mas ainda faltava alguém.
Pensando nisso, peguei minha lata de refrigerante e levantei da mesa, recebendo olhares de meus amigos.
- Já volto – respondi, me afastando.
A sua mesa estava vazia, e mexia no celular com a cabeça baixa, ela já havia terminado de almoçar. Sentei na cadeira ao seu lado e ela me olhou. Parecia cansada.
- Ah. Agora você senta comigo, também.
- Bom dia pra você também, ! – Disse empolgado, tomando um gole de minha Coca-Cola. – Como está nesse dia lindo?
- Sem paciência. – Ela me encarou. – Fala.
Dei de ombros.
- Ok. Quer dar uma passeada por Londres? – Arqueei uma sobrancelha, com aquela expressão de “tentar é de graça”.
Ela me olhou de novo e depois de um momento, soltou um riso baixo.
- Essa é nova. Nova abordagem?
- Não, é sério.
- Está falando do seu show?
- É uma apresentação – dei de ombros. – , e vão. – Menti. Era mais fácil convencê-las a ir do que a . - Estamos dando carona de graça para casa, depois. O que você pretende fazer nas férias?
piscou algumas vezes, e olhou de novo para seu celular quando ele apitou uma nova mensagem. Ela a leu e mordeu o lábio, olhando para mim.
- Londres, né? - Assenti. – Eu poderia usar uma carona para Londres.
- Vai visitar alguém lá? – Perguntei, curioso.
- Tenho coisas a fazer.
Franzi o cenho. Isso estava fácil demais, não podia ser sério.
- Ok, hum... Mas tenho uma condição em troca da carona – tentei, e ela me encarou nos olhos. – Você assiste a nossa apresentação. – Dei de ombros. – Como forma de pagamento.
suspirou e olhou para algum ponto atrás de mim, balançando a cabeça com um sorriso fraco.
- Não está me fazendo um favor. Sou eu quem está te fazendo um. – Falou. Depois ela guardou o celular e levantou da cadeira.
- O quê?! – Perguntei, indignado.
- Eu posso pegar um ônibus para Londres daqui mesmo, Louis. E sem precisar estar no mesmo carro que o Malik. – Pegou sua bandeja e deu de ombros, olhando para mim. – Posso considerar olhar a sua apresentação. Depois eu decido o que você vai me dar em troca – riu fraco, virando para ir embora.
Encarei minha latinha de Coca, me perguntando como, sempre que eu pensava que tinha alguma razão sobre ela, ela conseguia inverter o jogo e completamente apagar o meu cérebro daquele modo. Soltei o ar pela boca em um riso um tanto nervoso. E o pior, era que eu gostava disso.


’s POV

Viajaríamos em menos de doze horas, e eu ainda precisava fazer as malas para passar boa parte das férias em casa. Era noite, estava frio, ventava um monte... e eu tive um dia estressante e cheio de provas, só queria dormir.
estava em nosso quarto ajudando a terminar de arrumar as malas, que era o que eu também estava tentando fazer, enquanto segurava o celular no ouvido com uma mão. Minha mãe estava querendo saber quando eu ia para casa, como ia, e mais importante: se Harry ia.
- Vamos pegar carona até Londres, depois a gente pega o trem até aí. – Expliquei pela enésima vez.
- E o Harry...
- Vou estar com ele, mãe.
- Ok. Vocês estão bem? – Abri a boca para responder, mas ela continuou. – Sua irmã já chegou. Pegou o primeiro voo de Cambridge logo que as férias começaram. Fiquei preocupada que você não viesse, esse seria o primeiro ano sem a família completa. Ela está trazendo presente para toda a família – riu.
- Que ótimo. – Afastei o celular do ouvido – , me alcança aquele par de sapatos? – Apontei para o chão. No quesito bagunça eu ainda não havia mudado muito. me deu os sapatos e eu os guardei em um canto da mala.
- Com quem está falando?
- Hum... – parei por um momento. Havia uma verdade quando se tratava de minha mãe: tudo que ela sempre quis era que eu me tornasse era o que eu era agora... E eu não queria dar esse gostinho a ela. – Minha rommate. – Falei, apenas.
- Ah, tá. Bem. Então podemos te esperar, certo? Você e o Harry?
- Sim.
- Seus lugares estão marcados. Diga a ele que fiz o mousse que ele adora! Ah, saudade do Harry...
Revirei os olhos e segurei o celular no ombro para fechar a mala.
- Ok, mãe. Você vai ver seu filho preferido assim que chegarmos. E também tem eu.
- Ah, bobinha! – Ela riu. – Não sinta ciúmes do Harry. Sabe que ele poderia mesmo ser meu filho. Não é atoa que de certa forma vocês já são meio que irmãos, né?
- Tá legal, mãe. – Respirei fundo. – Vou desligar. Preciso terminar de fazer a mala, e...
- Espera, , sua irmã quer falar com você.
- Não vai rolar. – Disse, fazendo força para fechar a mala cheia. – Falo com ela quando eu chegar.
- . – Minha mãe ficou em silêncio e deu um longo suspiro, que eu reconheci imediatamente como o suspiro do “por que eu tive um segundo filho?”. – Sua irmã veio de tão longe para passar um tempo com a gente. Não a exclua. Por favor, . Ok?
Grunhi e olhei por cima do ombro, vendo e arrumarem suas coisas em silêncio. Essa era a última conversa que eu gostaria de ter na frente delas. Era a última conversa que eu gostaria de ter, ponto.
- Excluir? – Balancei a cabeça e ri. – Excluir a Josephine, mãe? Sério?
- Não começa, ...
- Eu não estou começando nada! – Sussurrei gritando, como se isso fosse possível. Merda. Deixei a mala de lado e saí do quarto, parando no corredor ao lado da porta e me encostando na parede, para poder conversar sem plateia. Minha mãe estava em silêncio há tempo demais, e eu não queria ouvir o que vinha a seguir.
- Por que você faz isso? Por que você é assim?
Engoli em seco. Aquilo era tão difícil.
- Foi você quem fez o erro, para começo de assunto.
- Não me culpe por...!
- Eu não pedi para nascer, mãe! – Disse, alto demais. Espero que ninguém tenha ouvido. Meus dramas eram apenas meus, ninguém mais precisava saber da existência deles.
O silêncio foi enorme e cruel, mais uma vez.
- Vou desligar. Sua irmã precisa de ajuda.
- Claro. – Revirei os olhos. – Vai lá.
- . – Ela chamou, e eu esperei. – Não traga essa parte de você na viagem.
Quando a chamada ficou muda, tirei o aparelho do ouvido e o encarei por um minuto inteiro. Engoli o nó que se formou em minha garganta, e dei um pulo quando a porta ao meu lado se abriu.
- Tudo bem? – perguntou, com o corpo para dentro do quarto, e eu assenti.
- Vou só dar uma volta – disse baixo, dando as costas para ela.

O problema não era ser a ovelha negra da família. Sempre gostei de não chamar muita atenção e poder ficar no meu canto, eu não conseguiria estar no lugar de Josephine, sendo o centro das atenções, tendo tanta pressão sobre os ombros.
E eu sei que também não era culpa dela eu ser esse erro. Porque era isso que eu era. Um erro que quase arruinou o casamento dos meus pais. No meu lugar, minha mãe preferia que fosse até mesmo o filho da vizinha. E meu pai via os traços de uma traição toda vez que olhava para mim.
Mas Josie, ah, ela era perfeita. Com seus cabelos escuros, a estatura miúda e um furinho no queixo, exatamente igual ao do pai. Não dava para negar, ela não tinha como pertencer mais àquela família.
Antes de sair do prédio dos dormitórios, bati os ombros com uma garota sem querer ao descer as escadas para o corredor principal. Ela me parou e segurou meu braço.
- ! – Sorriu.
Tentei lembrar do nome dela. Era do ginásio, e era um tipo de prodígio no vôlei, que estava no time A junto com as garotas do ensino médio. Trocamos algumas palavras no vestiário, mas para mim não teve importância alguma.
- Oi...
- Tudo bem? – Perguntou e eu assenti. – Ei, queria te pedir um favor... – Falou, olhando para as amigas que a acompanhavam. Se aproximou mais de mim e tirou um papelzinho dobrado do bolso, o entregando a mim. – Entrega isso a Harry Styles?
Encarei o papel e depois o rosto dela. Vaca.
- O quê? – Perguntei, a voz arrastada, sem paciência para aquelas merdas.
- Você é amiga dele, não é?
Olhei para o papel de novo e peguei-o de sua mão.
- Claro. – Disse. – Entrego, sim.
A garota pareceu realizada.
- Obrigada! Você é demais! – Me deu um beijinho no rosto depois de falar, e se afastou.
Continuei andando e rasguei o papel em mil pedacinhos ao chegar na porta do prédio.
- Vadia – murmurei, jogando o papel na lixeira.
Que grande merda, .

Zayn’s POV

Tomar café da manhã era algo esquisito para mim. Eram nove horas da manhã e, geralmente, eu estaria no vigésimo sono agora, mas eu passei a noite em claro, praticamente, pensando em algumas coisas.
apenas confirmou que ia viajar conosco na sexta, ela ligou para o Liam para confirmar sua ida. Eles conversaram um pouco sobre os preparativos, Liam deu alguns detalhes sobre rotas e horários e ele ria enquanto falava com ela e dava para ouvi-la rindo também. Enquanto eu arrumava minha mala, eu prestava atenção no que ele falava, na forma como ele falava, nas combinações de palavras. Liam tinha a confiança dela, o afeto e atenção e, querendo ou não, essas eram coisas necessárias para conseguir alguma coisa; pelo menos uma amizade.
Eu não podia contar com um prego cravado na minha mão toda vez que precisasse ter alguma conversa amigável com . Por isso, eu decidi que precisava, aos poucos, mostrar que ela poderia... Que ela não precisaria estar na defensiva sempre. Isso incluía não fazer brincadeiras sobre mamar nos seios dela.
Então, depois de uma longa noite repensando os passos da operação, decidi, primeiramente, acompanha-la no café da manhã, antes de sairmos em viagem.
E isso me levava ao banco em que eu estava sentado, esperando a garota chegar para tomar seu café. Eu sabia que ela fazia isso sozinha, na maioria das vezes. tomava um pouco mais cedo e , com certeza, não acorda na mesma hora que a colega de quarto e...
Eu estava me tornando um perfeito stalker.
Fechei os olhos e inclinei a cabeça para trás, sentindo o vento bater. Já estávamos no inverno e os termômetros já caíam para as temperaturas mais amenas. Pensei no que faria nesse feriado; meus pais não estavam planejando nada por causa dos problemas financeiros, o que me fazia pensar na porrada de provas que havia feito nas duas últimas semanas e no meu desempenho em cada uma. Eu precisava fazer valer o dinheiro que meus pais estavam investindo em mim. Mas não sei o que alguém podia esperar de mim, o cara que passou metade do ensino médio dentro de um reformatório.
- Malik. – Ouvi a voz suave de me chamar. Abri os olhos e a encontrei de pé, à minha frente, fitando-me. – Está tudo bem?
- Hein?
- Você não parece legal.
- Mas eu estou bem. – Levantei-me. – Vai entrar? – Apontei a porta do refeitório com a cabeça.
- Vou tomar café. – Disse. Assenti e, quando ela começou a andar, fiz o mesmo.
Entramos no refeitório mais ou menos movimentado e com cheiro de café. A mesa que ostentava uma variedade de coisas próprias de café da manhã ficava no centro do refeitório, cercada pelas demais mesas. As pessoas que estavam ali ou pareciam zumbis ou pareciam atletas, preparados para fazer algum exercício físico. Algumas pessoas estavam sozinhas, outras estavam em pequenos grupos, a maioria das pessoas eu não me lembrava nem de ter visto em algum momento em algum corredor. Malditas pessoas saudáveis e dedicadas à vida.
- Então... – Comecei, um pouco desajeitado. Não estava acostumado a puxar conversa com ninguém. – Vocês vêm com a gente.
- Sim. – Ela confirmou.
- Pois é... Por que mesmo?
- Hm, negócios inacabados na capital. – Piscou para mim, brincalhona.
- Não, sério. – Dei de ombros, tentando parecer casual.
- Tenho uma entrevista na embaixada norte-americana na segunda. vai porque eu pedi, mas acho que fica mais prático para ela, já que os pais vão passar o feriado no sul, com os avós dela. – Ela abriu um sorrisinho. – Mas, no fundo, a razão para irmos é porque não podemos esperar para ver vocês arrasando no palco naquele pub. Yay! – Ela fez V com dois dedos e colocou a língua para fora, fingindo um entusiasmo forçado.
- Lá estaremos com toda nossa glória. – Estufei o peito, fazendo-a rir um pouco.
se dirigiu à grande mesa e pegou uma bandeja com dois pratinhos e eu fiz o mesmo. Ela pegou algumas frutas, ovos, uma linguiça e torradas, depois pegou um chá e foi se sentar. Peguei o que deu vontade de comer, mas fiz questão de passar longe das frutas. Sentei-me à mesa com ela, que largou o pão no prato e me olhou.
- Ok, o que está acontecendo? – Ela inquiriu.
- O que?
- Você está agindo absurdamente esquisito.
- Não estou, não.
- Está sim. Nunca te vi aqui tomando café. E você está... Simpático.
Simpático?
- Simpático?
- É. Ainda não soltou nada ofensivo ou indecente.
Ah.
- Ah. – Franzi o cenho. – Sei lá, cedo demais para tudo isso, não?
Ela me olhou por mais alguns segundos antes de voltar sua atenção para seu café da manhã. Fiz o mesmo, aproveitando a sensação de estar comendo boa parte do que comia quando estava em casa.
Quase me dei um tapa por ficar me lembrando de casa daquele jeito.
Desde sei lá quando o que eu mais queria era fugir de casa e viver minha vida e, agora que eu consegui certa liberdade, ficava sentindo falta daquele inferno de cidade.
Que merda.
- Ah, droga! – murmurou de repente e se levantou rapidamente e foi até a grande mesa novamente, procurando algo.
Observei-a, de longe, olhando atentamente para cada opção da mesa, com um pratinho em mãos, mordendo o lábio inferior. Ela estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo hoje, vestindo uma calça jeans que ia até a metade de sua panturrilha, uma blusa listrada e um tênis branco, ela parecia tão leve e intocável naquele momento, escolhendo algo como uma criancinha. Finalmente, ela achou o que queria e colocou no prato, sem conseguir conter um sorrisinho e veio de novo para a mesa.
- Shortcake? – Perguntei quando ela voltou a comer sua torrada.
- Sim! – Os olhos dela brilharam. – Os daqui são os melhores, acredite. Não se encontra shortcakes como os daqui.
- E o que tem de tão diferente neles? – Perguntei, tentando me lembrar de como minha mãe fazia um desses. Não fazíamos sempre, claro, mas em ocasiões especiais, como em alguns aniversários, quando as coisas iam bem lá em casa.
- Não sei. A massa. – Ela fitou o pequeno bolo à sua frente. – O chantilly, o jeito que as frutinhas são cortadas, eu não sei! Acho que é porque eles são iguais aos da minha mãe. – Ela deu de ombros, sorrindo para o doce. – Mas, enfim, é apenas um bolinho!
- É um bolinho legal. – Senti-me na obrigação de dizer.
- Um bolinho legal? – Ela riu fraco, balançando a cabeça.
- É, um bolinho legal. – Repeti.





Capítulo 14

’s POV
O sol quase sumia ao horizonte. Algumas montanhas à minha esquerda e muita estrada à frente. Juntei mais as minhas pernas numa tentativa de dar mais espaço a Niall e tentar tirá-lo de cima de mim. Sabia que deveria ter insistido em algo mais confortável que uma Kombi. Meu Deus, eu mesma pagaria por uma mini-van, mas Harry e Louis queriam porque queriam uma Kombi. Eu jamais entenderia aqueles garotos.
- Estamos perdidos. – falou pela milésima vez, atraindo a atenção de todos. Harry olhou para ela por cima do ombro e riu.
- Confia em mim, princesa. – Piscou para ela e se virou para frente novamente. revirou os olhos, murmurando algo baixinho. – Só mais um pouquinho e chegamos a Londres.
Revirei os olhos. Ele estava falando aquilo há horas e nada de chegarmos. Encostei minha cabeça ao vidro da janela e respirei fundo, desejando mentalmente uma cama macia e quentinha nesse exato momento.
De repente senti uma mão no meu cotovelo e levantei a cabeça alarmada, procurando pelo dono da mão. Olhei em volta apenas para encontrar os olhos de Niall em mim, seus olhos azuis e seu cabelo claro contrastando com a escuridão que nos engolia lá fora. Desde quando o sol se fora? Fixei meus olhos nos dele, pedindo uma explicação.
- Você estava dormindo quando o Harry anunciou que estamos perdidos. – Ele abriu um sorriso como se ele mesmo fosse o culpado por isso.
Pisquei duas vezes. Depois soltei uma risada abafada, nervosa.
- Eu sabia. – Murmurei, ajeitando-me no banco. Gemi um pouco de dor quando senti meus músculos rígidos por ficar por muito tempo na mesma posição e Niall se inclinou um pouco mais para frente, parecendo preocupado.
- Tudo bem?
- Só minhas costas. – Respondi rapidamente, sem graça. Olhei em volta novamente. – Onde está todo mundo?
- Encontramos um... Um estabelecimento. Vem. – Estendeu a mão para mim e me puxou para fora da van. Assim que pus meu pé para fora do veículo, o vento gelado entrou em contato com a pele da minha perna, protegida apenas por uma meia-calça debaixo do short, fazendo-me estremecer.
- Se estamos indo para o sul, por que está ficando mais gelado? – Perguntei, tentando achar algum sentido naquilo. Niall olhou para mim daquele jeito sem graça de novo e murmurou algo. Colocou a mão na base das minhas costas e me guiou para dentro do que parecia ser um bar. – O que é esse lugar?
A cabana – porque era realmente o que aquilo era – era de uma madeira escura e aparentemente velha. Uma luz fraca iluminava a entrada que dizia “Joe’s” e nada mais. Algumas caixas de garrafas vazias estavam do lado de fora e o cheiro de bebida barata emanava de algum lugar na escuridão.
- Um bar. – Ele respondeu simplesmente, abrindo a porta da cabana para mim.
Fui recebida por uma lufada de ar quente e úmido. Uma música antiga, quase clássica, tocava ao fundo e o bar tinha uma péssima iluminação, mas parecia até movimentado para uma cabana no meio do nada. Uma mulher de meia idade que limpava o balcão levantou a cabeça para olhar para nós, mas não fixou por muito tempo, logo deu as costas e entrou por uma porta entre as estantes com bebidas.
- Ali. – Niall apontou para uma mesa ao canto, onde o resto do povo estava reunido. Sentei-me de frente para , que carregava um bico enorme no rosto. Na verdade, todos estavam emburrados.
- Onde estamos? – Perguntei às pessoas de cara fechadas. Mas nenhuma delas me respondeu. – ?
- Onde o jumento do Harry nasceu: no meio do mato! – Ela respondeu, acusando-o.
- A cidade se chama Aberangell, Gwynedd. – Harry ignorou e olhou para mim. – Eu me confundi, peguei uma saída errada.
- Oeste? – Perguntei, examinando o mapa de bolso que tirei das mãos de Louis
- Oeste. – Ele confirmou. Por isso o vento gelado, pensei, estávamos mais perto do mar.
- Caramba, hein, Harry, você é uma porta, mesmo! – Louis espiou o mapa por cima do meu ombro. – Como você errou desse tanto?! A gente quase foi parar na França!
- O que vamos fazer agora? – perguntou, apoiando a bochecha na mão, acompanhando uma garçonete que veio até nós com uma bandeja cheia de copos. Baixei meus olhos para os copos de refrigerante que ela colocava na mesa.
- Preciam de lugar para passar a noite? – A garota falou de repente, intrometendo-se na nossa conversa. Todos olhamos para ela no mesmo instante. arqueou uma sobrancelha, examinando a garota. Era involuntário. A garota era linda, diga-se de passagem.
- Aparentemente, sim. – falou, olhando para fora da janela. Analisei a vista também, vendo que havia uma planície atrás da cabana com algo que parecia ser um lago e uma leve neblina se formando sobre ele e rapidamente tomando parte da estrada.
- Se o senhor GPS soubesse ler placas... – falou pela primeira vez pelo que pareciam horas.
- Eu deveria ter te colocado para dirigir e quem sabe a gente não tinha parado em Cuba pra ver o Che Guevara. – Ele rebateu olhando feio para ela.
- Che Guevara está morto, idiota. – Ela revirou os olhos.
- Vamos tentar manter a calma, ok? – levantou as mãos, tentando apaziguar.
- Por que a gente não simplesmente pergunta a alguém se há um hotel aqui por perto? – Liam estava com os dedos nas têmporas, parecendo impaciente.
- Foi o que ela nos perguntou. – Niall apontou para a garota de pé na nossa mesa.
- Vocês podem parar de complicar as coisas e simplesmente ficar calados? – passou a mão pelo cabelo.
- Não fui eu quem complicou tudo quando quis parar naquele posto porque “uma garota precisa responder suas necessidades”! – Harry a imitou de um jeito caricato. Ela abriu a boca, ofendida.
- Agora a culpa é minha, Harry? – lançou a ele um olhar homicida.
- Se você não tivesse feito a gente parar, eu não teria descido do carro e ninguém teria trocado o destino no GPS. – Ele explicou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Está dizendo que alguém simplesmente nos viu parados, foi até a Kombi e mudou o destino da viagem? Assim, do nada? – olhou para ele como se ele fosse louco. Harry não respondeu nada, mas também não mudou o ar convencido. – Sério?
- Perdoe meus amigos, mas você sabe de algum lugar que possamos passar a noite? – Eu aproveitei o silêncio repentino na mesa e me virei para a garota que nos assistia com uma expressão divertida no rosto.
- Um hotel ou pousada? – completou minha pergunta.
- Ou um motel. – Zayn abriu a boca para soltar suas pérolas pervertidas seguidas de um sorrisinho de canto.
- Não temos hotéis, nem pousadas e muito menos motéis nessa cidade esquecida pela Rainha. – Ela deu de ombros, abrindo um sorriso atrevido. – Se vocês seguirem até a próxima cidade...
- Quanto tempo daqui é a próxima cidade? – a interrompeu.
- Uma hora, ou menos. – Ela deu de ombros.
- Tem muita neblina lá fora. – murmurou de onde estava.
- Não tem nada mais perto? – Liam perguntou, considerando o que havia dito.
Então o sorriso da garota abriu mais, como se ela esperasse por esse beco sem saída.
- Existe uma casa no final da terceira rua depois dessa que pode servir de abrigo para vocês. – Ela começou, com tom sugestivo. Eu estava começando a criar uma antipatia por ela.
- Sem chances. – A mulher que limpava o balcão falou em voz alta. Os olhos dela se fixaram em nós e os lábios numa linha rígida. – A casa é mal assombrada.
- Houve uma chacina lá. – A garçonete falou, reprimindo um sorriso.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Minha vontade era de levantar e sair daquela espelunca e voltar para a Kombi e dormir até a viagem de volta. O babaca do Harry nos leva até Deus sabe onde, nos enfia em um bar de quinta categoria e somos feitos de imbecis pela garçonete ridiculamente bonita. Vai pra...
- Mal assombrada como? – Niall perguntou, abrindo aquele sorriso de “não acredito”.
- Eu não sei, nunca tive coragem de ir até lá. – Ela abriu um sorriso para Niall de um modo que me deu vontade de segurar a mão dele por cima da mesa e o chamar de “amor”. Quem ela pensa que é para dar em cima dos nossos amigos? Só porque ela tem essa boca de Scarlet Johansson e a cintura da Beyoncé?
- Fechou. Vamos? – Harry esfregou as mãos e ameaçou se levantar da cadeira, mas o puxou de volta com brutalidade.
- A gente vai passar a noite na casa mal assombrada do fim do mundo? – Ela cochichou para ele, mas como estávamos todos em silêncio, acabou parecendo um grito.
- Qual o problema, ? Você está com medo? – Ele riu fraquinho antes de lançar uma rápida olhada em direção à garota. O babaca estava se mostrando. – Quem é contra?
Não há necessidade de dizer que todas as mulheres da mesa, exceto a , levantaram a mão, olhando feio para ele.
- Com a , somos seis. Vocês perderam, vamos. – Harry levantou rapidamente e puxou junto.
- Não acredito que vamos mesmo atrás dessa casa, Harry. – falou, cruzando os braços antes de entrar na Kombi. – O que você quer? Nos matar?
Harry parou na porta do passageiro da frente, Louis ia dirigir dessa vez. Ele olhou para ela como se estivesse cansado de todos os protestos dela.
- Zayn. – Ele gritou o garoto que virou a cabeça lentamente para ele, naquele jeito moroso do Zayn de se mexer. – Por favor, cala a boca dela?
- Harry! – deu um soco no braço dele. Mas Zayn se levantou rapidamente e a puxou para dentro da Kombi pela cintura, fazendo-a soltar um gritinho.
- Você está se saindo um belo carrasco, Harry. – Ralhei ao passar por ele em direção ao veículo. Não ouvi sua resposta já que Niall fechou a porta assim que eu entrei e o motor foi ligado.
- Partiu casa mal assombrada! – Harry riu com Louis na parte da frente do carro.
- Me solta, Zayn! – se desvencilhou dele a cotoveladas. Ele reclamou um pouco antes de soltá-la. – Se eu morrer essa noite, Harry Edward Styles, eu volto pra te arrastar pro...
- . – Alertei. – Não fale besteira. Ninguém vai morrer hoje. – Bufei. Depois encostei a testa no vidro novamente e respirei fundo. – Espero. – Sussurrei.

’s POV
Você pode imaginar minha decepção – já acentuada – quando a Kombi parou em frente à última casa da terceira rua depois do bar. Não era bem uma casa. Era mais ou menos um casarão. Não uma mansão, mas um casarão. Uma casa grande do tipo que você costuma ver em filmes de época americanos. Havia um caminho de pedras até a porta da frente, mas não havia cerca em volta do terreno e a grama crescia descontroladamente. A porta combinava com as duas janelas que adornavam a vista frontal da casa, todas eram de cor clara e de madeira simples, mas a tinta já estava descascando e o vidro da segunda janela estava quebrado. Uma árvore enorme se curvava sobre o telhado da casa, como se lançasse suas garras secas em direção à construção, amaldiçoando-a. Apenas a lua iluminava a casa mais afastada da terceira rua depois do bar.
Se ela era amaldiçoada, eu realmente não sabia, mas todo o cenário colaborava para suspeitar de algo. Algo que me levava a não querer, de maneira alguma, entrar naquela casa. Eu preferiria até dormir na Kombi. Seria mais... Seguro.
- Bom. – Disse Harry, arrancando todos de seus próprios pensamentos enquanto fitavam a casa. – Cada um pega suas respectivas coisas para passar a noite. – Ele abriu a porta do passageiro e só não saiu porque segurou seu braço.
- Tem certeza que é uma boa ideia? – Ela olhava para ele, o semblante em seu rosto era tão frio quanto o clima dentro de um mausoléu. E o mausoléu estava bem adiante de nós.
- , é perigoso dormir aqui fora. – Ele argumentou.
- É seguro dormir lá dentro?! – guinchou, ainda sem tirar os olhos da casa.
- Qual é, gente! Não pode ser tão ruim assim! Vocês não acreditam em fantasmas, acreditam? – Harry olhou para nós com aquele olhar superior, desafiador.
- Temos uma cidade fantasma inteira na França, me perdoe você, Harry, mas eu acredito em fantasmas e se algum aparecer, honestamente, eu direi a ele para ir atrás de você. – falou, prendendo o cabelo num rabo de cavalo alto e bagunçado.
- Se for o fantasma de uma loira gostosa, eu vou aceitar com prazer. – Harry rebateu, saltando do carro. soltou um xingamento baixinho e foi até a parte traseira do carro, pegando uma bolsa menor de dentro de sua mala.
- Aonde você vai? – Olhei para como se ela fosse louca. Talvez ela fosse.
- Não vou dormir aqui dentro, obrigada por perguntar. A casa pode não ser tão ruim afinal de contas. E eu sou uma pessoa muito boa para um espírito querer algo comigo, certo? – Ela abriu um sorriso confiante, mas este logo sumiu de seu rosto, sendo substituído por um par de lábios comprimidos em apreensão. E depois saiu da Kombi.
- Olha, o que ela disse... Até que faz sentido. – Liam disse, com a mão na nuca. – Além do mais, não podemos dormir aqui dentro, vamos ficar com uma puta dor nas costas. – Ele suspirou. – Não podemos arriscar a apresentação de amanhã.
Niall abriu a boca para argumentar, mas a fechou logo em seguida. Um pequeno silêncio caiu entre todos ainda presentes até que Zayn bufou e se colocou de pé – do melhor jeito possível dentro de uma Kombi. Todos olhamos para ele, curiosos.
- Vocês são uns viados, arranjando desculpas para não entrar na casa. – Seu tom de voz era tão baixo e acusador que até eu me senti mal pelos meninos que ainda estavam no carro. Zayn não foi o terceiro a sair dali, foi . Sem dizer nada, mas com um ar de quem estava de saco cheio daquilo, ela se levantou de seu assento e empurrou Zayn ao passar por ele no percurso até a porta. Então, em seguida, quem saiu foi Louis. – Vejo vocês no inferno. – E então Zayn saiu também.
Liam, Niall, , e eu fomos os que sobraram. Liam não estava com medo, eu podia ver aquilo em seus olhos, mas com certeza ele ainda estava ali apenas por , e eu. Aquele garoto podia ser o maior cafajeste daquela escola – agora quase perdendo seu trono para Zayn – cheia de gente imprestável, mas ele era seu perfeito “companheiro fiel”. Quando se tratava de garotas, claro.
- Vocês vão querer mesmo ficar aqui? – Liam perguntou, olhando cada um de nós nos olhos.
- Eu não gosto desse lugar, Liam. – Falei baixinho, olhando novamente a casa que parecia me encarar de volta.
- É apenas por uma noite, . – Ele me assegurou. – Nós temos que ficar juntos nessa.
De repente, pulou em seu lugar, como se tivesse acabado de lembrar de algo muito importante, e olhou para a casa.
- Harry, Louis, , Zayn e a estão lá. Sozinhos. – Ela começou, olhando com horror para a casa. – Eles vão explodir a casa! Gente! Eu repito: Harry e Louis.
- Para o termo explodir, , o correto seria observar Zayn e . – corrigiu, franzindo o cenho enquanto Niall escondia uma risada.
- Tudo bem. – Eu disse. – Eu vou entrar.
suspirou alto e se levantou.
- Vamos acabar logo com isso. Que diferença vai fazer se algum espírito quiser nos matar? Não custará nada a ele atravessar o jardim e acabar com a gente. – Ela argumentou, saindo do carro.
- Vamos logo, gente. – Falei, saindo, relutante, do carro também.
Demorou um pouquinho, mas logo Niall, Liam e saíram também. Peguei minha bolsa e a pendurei no ombro, segurando-a como se minha vida dependesse dela. segurou meu braço e murmurou algo reconfortante, não pude distinguir muito bem o que era, mas me senti agradecida por ela estar aqui comigo.
A casa por dentro era muito diferente do que você podia deduzir pela aparência de fora. Primeiro, o hall, simples, apenas o armário dos casacos e uma mesinha perto da porta. E então, o saguão. No teto, um vitral substituía o teto e a lua iluminava o chão de mármore preto e branco, formando desenhos, traços e até algumas por todo o chão até as portas de madeira escura no primeiro pavimento e a escadaria que dava acesso ao segundo. À direita, uma grande porta dupla de correr estava escancarada e à esquerda, uma porta pesada aberta revelando o que parecia ser uma biblioteca e outra porta menos lustrosa, revelando um banheiro. Os meninos já deviam ter checado todo o primeiro pavimento. Olhei para cima, para o corredor que se estendia tanto à direita da escada quanto à sua esquerda.
- Harry? Louis? – gritou, fechando a porta atrás de si.
- Aqui! – Ouvimos Harry gritar de volta, a voz vinda da direção da grande porta de correr.
- O que vocês estão fazendo? – Perguntei, aproximando-me do pequeno montinho de velas que eles estavam grudando no chão.
- Iluminando o lugar. – Louis respondeu, sem tirar os olhos de seu minucioso trabalho de derramar a parafina derretida no chão e depois colocar a vela em cima da pequena poça.
- Entendi. – Murmurei e olhei em volta para olhar o ambiente em que estávamos. – O que é esse lugar? – Perguntei em voz alta e clara, olhando a enorme tapeçaria medieval que estava estendida na parede. – ? – Chamei, incapaz de tirar os olhos da cena que o tapete trazia. Ela respondeu com um murmúrio. – Por favor, diz que essa cena... Não é a...
Ela levantou a cabeça e veio para o meu lado, examinando a peça.
- O que há de tão legal no tapete? – perguntou, parecendo entediada.
- Não é tão legal assim. – Disse rapidamente.
- É o que eu estou pensando que é? – Perguntei, quase desejando que ela dissesse não.
- O que é? – perguntou.
- A Inquisição Espanhola. – respondeu, virando-se de costas para a tapeçaria. Virei-me também e encontrei oito pares de olhos nos encarando, perguntando o que havia de interessante naquilo.
- Quando as bruxas foram queimadas. – Expliquei e apontei para a peça. E então, todos se colocaram eretos, fixando seus olhares no tapete.
- Vamos apenas ignorá-los, ok? – Sugeriu Harry, voltando de não sei onde.
- Você é doente, Styles. – Falei e fui me sentar ao lado de .
- Você me ama. Implicou comigo o dia todo. Foi mal, gracinha, mas eu não sou fura olho e muito menos aproveito os restos dos meus amigos. – Ele piscou para mim.
soltou um gemido de desgosto e eu revirei os olhos. Como eu queria que ninguém nunca mais tocasse nesse assunto! Resolvi que não iria me chatear mais com Harry e tirei minha pequena nécessaire de dentro da minha bolsa e tirei um frasco de creme facial para limpar a pele, já que não ia rolar de forma alguma tomar banho aqui.
- Você vai se limpar aqui? – Niall perguntou, olhando para mim como se duvidasse de algo.
- Só o rosto e a nuca. – Expliquei, tirando um lencinho da bolsa.
veio para o meu lado e pegou um lencinho também. Com o passar do tempo, o ambiente ficou agradável. Aparentemente nada habitava a casa e nada se podia ouvir além do vento soprando forte contra a casa. As chamas das velas eram suficientes para aquecer pelo menos um pouco quem estava mais perto e os meninos puxaram almofadas para perto de onde estávamos. Aquela sala era enorme e não estávamos nem no centro dela. Na verdade, havíamos nos alojado no canto da parede, perto da janela, onde estava sentada agora, que dava uma visão parcial dos fundos da casa. Nada me incomodava mais, além do grande rei sentado em seu trono apontando para o servo que parecia implorar por piedade enquanto alguns personagens atrás falavam “Hexe”.
- ? – Chamei a garota que parecia mais no mundo de lá que aqui.
- Hm?
- O que significa “Hexe”? – Perguntei, tentando ler o que dizia no tapete. Com certeza era alemão. Ela olhou para mim, ponderando algo e por fim me respondeu:
- Bruxa.
- De novo esse assunto? – perguntou.
- Desculpe, eu só queria saber o que aquela palavra significava. – Falei, encolhendo-me um pouco.
- Pare de olhar para aquilo! – Ralhou ela.
Não respondi nada. Apenas deitei a cabeça no colo de e fechei os olhos, implorando para que o sono me tomasse por completo o quanto antes.

’s POV
- Essa casa é enorme. Deve ter dois quartos para cada um de nós.
- Eu vou subir para olhar. – Zayn falou, pulando de cima de uma bancada de mármore da sala empoeirada e sumindo em direção ao breu da escada.
As velas acesas bem no meio do chão da sala iluminavam apenas aquele cômodo, e o vento que passava por elas de alguma respiração ou movimento brusco fazia a luz tremeluzir e as sombras na parede se moverem. Era bem bizarro, na verdade.
Quando Zayn passou pelo meio das velas, fez algumas apagarem e as outras tremerem.
- Tá legal! – falou, alto, se debruçando sobre as que estavam mais perto dela, sentada no chão, e fazendo uma barreira com as mãos para que elas não se apagassem. – alguém tem que achar o transformador dessa casa e ligar as luzes!
- Talvez não funcione. – Liam disse, encostado na parede que dava para a sala, também sentado no chão. – vai saber a quanto tempo não tem ninguém nessa casa?
- Parecia ser um lugar bonito. – comentou. – bem chique. Tem mármore por tudo, vocês notaram?
- Aquele lustre da sala deve valer uma nota... – Harry comentou. – se o Josh estivesse aqui, estaria desmontando para vender.
Os garotos riram, e eu peguei uma carteira de cigarro quase vazia amassada em meu bolso da calça.
Não dava para negar, aquele lugar tinha um ar de filme de terror. A propriedade era gigantesca, só o gramado da frente da casa dava quase um campo de futebol. Da estrada a casa nem podia ser vista, pois estava no meio da escuridão, e para trás dela só o que se via era breu. Não havia nada por perto. Nem luz, nem casas, nada.
Ouvi a reclamação quase instantânea de ao me ver pegar um cigarro, mas ignorei. era difícil. Era o tipo de pessoa com o qual eu não gostava de conviver, mas em compensação, ela era talvez a mais consciente de todos nós, o que era necessário para que essa viagem continuasse segura. À medida do possível, claro.
Estendi a mão e empurrei o ombro de Niall, que era a pessoa mais próxima. Ele se virou e eu o entreguei o cigarro, que ele pegou e encostou no fogo da vela, me entregando logo que ele acendeu.
- Então ninguém vai ir procurar o transformador?
- Não se chama transformador, . – Liam explicou. – é disjuntor. Transformador transforma a energia.
- Não complica a minha vida.
- Alguém pode levantar a bunda daí e ir procurar a droga do disjuntor pra calar a boca? – falei meio alto, e isso fez todo mundo me olhar como se visse um milagre. Revirei os olhos e soprei a fumaça, virando de volta para o vidro da janela.
- Tá legal, vamos lá. – Harry bateu as mãos nas pernas e se levantou, e Louis levantou também, como a fiel sombra que era. – alguém mais vem junto?
Ninguém se ofereceu.
- Ótimo. Se demorarmos demais, se preocupem.
- E se ouvirem gritos, corram. – Louis concluiu, o que me fez revirar os olhos de novo, olhando pela janela.
Os dois também sumiram do cômodo, e o resto do pessoal continuou falando.
Tive tempo de degustar de meu cigarro, jogá-lo por uma fresta da janela e ficar um bom tempo em silêncio, e depois sentir vontade de fumar de novo. Quando explicava algo sobre serviço comunitário a Niall, subitamente a interrompeu, o que me fez olhá-los.
- Zayn não está demorando demais?
- Por que você não vai procurar ele lá em cima? – Liam deu a ideia e riu. – eu tenho certeza que ele vai gostar.
- Você só fala merda, mesmo, Liam? – perguntou a Liam de repente, sempre direta e grossa, o que o fez parar de rir.
- Fica quietinha aí, Che Guevara.
- Gente, é sério. – voltou a chamar a atenção. – ele já saiu há alguns minutos, não é? Já teria voltado.
- Deve estar fumando – comentei auto o suficiente para que eles ouvissem.
- Acho que alguém devia ir procurar ele. – disse. – sei lá, ele pode ter se machucado.
- Quem se importaria se ele caísse em um bueiro e morresse agora mesmo? – comentou. – eu é que não.
- Eu me importaria. – Liam falou, parecendo afetado. – E Niall também. Ele pode ser um pé no saco, mas sem ele não tem voz na banda.
- A gente podia encontrar alguém para cantar sem problemas... – Niall disse, o que me fez sorrir um pouco. Afinal, Malik era mesmo detestável.
riu baixinho.
- Certo. E então?
e encararam Liam e Niall até que Liam mudasse de expressão.
- É sério? Vocês querem que nós procuremos ele mesmo?
- É claro, Liam! – disse. – essa casa é estranha. Nós não sabemos o que tem lá em cima. Pode ter um...
- Espírito?
- Um buraco! Ou algo em que ele possa ter caído.
- Por mim, ele podia cair em um vaso sanitário. – disse.
- Não se cospe no prato em que se come, ... – riu.
A resposta de já estava vindo na defensiva quando se meteu no meio.
- Eu acho que se isso aconteceu ou não, não é da sua conta .
- É claro que não. – ela disse, ainda rindo um pouco, e balançou a cabeça. – E mesmo assim vocês fizeram questão que o colégio inteiro soubesse. Então me desculpe por dar minha opinião... mas é isso que acontece quando boatos vasam.
- , você não sabe quando parar? – Liam olhou-a como se a julgasse, e ela revirou os olhos. Eu assistia àquela cena desejando que ela não estivesse ali. era apenas desnecessária.
- Vamos acabar logo com isso – Niall falou, e se pôs de pé.
Liam bufou, mas se levantou e o seguiu. Mais dois sumiram no escuro.
- Parece que só ficaram as garotas... – comentou, e suspirei, me sentindo cansada.
- E se a casa for mesmo mal assombrada? – falou, com uma voz apelativa. e a olharam. – quer dizer, vocês sabem o que dizem, as pessoas mortas que têm assuntos inacabados costumam ficar entre nós... Andando por aí, esperando pelo dia em que poderão descontar toda a raiva, a frustração e a tristeza em uma pessoa, qualquer pessoa que se meta em seu caminho, e...
- Isso não tem graça. – reclamou, quando já estava quase em cima dela.
- É a maior besteira. – disse, se aproximando de .
- uma vez, minha mãe jura que viu um espírito. Ela disse que estava tendo um pesadelo de noite, sonhando que estava sendo sufocada, e quando abriu os olhos viu uma velha entrar debaixo da cama...
- Você quer parar?! – pedi, perdendo a paciência.
- Você está com medo, senhorita ? – ela sorriu para mim.
- Eu só quero que você cale a boca. Você fala de Liam, mas tudo que sai da sua boca é...
Fui interrompida por um barulho altíssimo vindo do andar de cima, como um móvel sendo arrastado no piso de madeira e um grito de algum animal. deixou um gritinho escapar, e se levantou rapidamente, olhando para as escadas.
- O que foi isso? – disse alguns segundos depois, com expressão assustada e posicionada como se fosse sair correndo a qualquer momento.
- Se a gente soubesse não estaria assim. – falou, antes de dar um passo em direção à sala.
- Espera! Onde você vai? Precisamos ficar juntas! - falou.
- Isso não é uma porra de um filme de terror. Eu vou ver o que esses babacas estão aprontando – disse, antes de seguir a passos decididos para o pé da escada.
- , espera! – murmurou alto o suficiente para ela parar no lugar e suspirar, dando meia volta.
- Não vou ficar aqui sendo feita de palhaça. Vamos procurar eles.
Vários segundos de silêncio se passaram, enquanto as quatro se encaravam. Tirei os pés da janela e coloquei-os no chão, apoiando os cotovelos nos joelhos e esperando algo acontecer, curiosa.
- Você acha que eles estão querendo nos assustar? – sussurrou.
- Para de sussurrar, , isso não é um programa de TV. – disse.
- Eu acho que algo aconteceu. Sério. – falou.
- O que aconteceu é que eles estão brincando com a gente, . – revirou os olhos. – Vamos subir e...
- Eu não vou levantar daqui! – falou. – vamos... vamos ficar aqui e esperar todo mundo voltar, com o tempo eles vão ter que voltar.
- Eu concordo com a .
- Galera, qual é, isso é ridículo. – relaxou e voltou a encostar o corpo na parede atrás de si, fechando os olhos. – daqui a pouco eles voltam.
E nós esperamos. De início, nada aconteceu e fumei mais um cigarro, agora sentada no chão perto das velas. As outras três estavam amontoadas perto da parede, com servindo de escudo para seja lá o que fosse, e sentada perto da porta. Eu me perdi por algum momento passando o dedo em volta do fogo e sentindo o calor começar a queimar, até ser obrigada a tirar a mão dali. Enquanto contornava a luz, as sombras nas paredes mudavam, e mudavam de novo.
Depois de uns minutos, quando eu comecei a pensar que havia dormido encostada na parede, ouvimos um grito vindo do lado oposto às escadas. Era uma voz masculina e vinha de onde Louis e Harry haviam ido.
Dessa vez todas elas gritaram, e eu pulei do meu lugar, ficando de pé do mesmo modo que elas. Meu movimento foi tão brusco que todas as velas se apagaram, menos uma.
- parabéns, ! – disse. – agora estamos assustadas e no escuro.
- Não estamos totalmente no escuro.
- Não estou assustada – falou.
- Eu não estou gostando nada disso. – choramingou.
- Ok, vamos lá, vamos ver o que aconteceu logo e acabar com a brincadeira. – deu a ideia, mas as outras duas negaram no mesmo instante.
- ah, qual é! – Ela disse, bufando, e com aquele movimento a última vela se foi.
- Ótimo. – todas as nossas vozes disseram ao mesmo tempo.
Ficamos em silêncio por um segundo, enquanto eu tentava acostumar meus olhos ao escuro.
- Quem tocou em mim?! – falou, desesperada.
- Foi eu, desculpa. – sussurrou.
- Vocês podem escolher: Ou ficam aí no escuro ou vêm comigo e com a . O que vai ser? – se pronunciou.
- Eu ainda prefiro ficar aqui – falou, e concordou com um gemido.
- Tá legal. Vamos, . Você vem? – Pude perceber que a voz dela agora falava comigo e dei de ombros. Realmente não fazia diferença, mas eu não gostava da ideia de ficar esperando, então acabei por seguir a silhueta delas que eu via no escuro.
Seguimos para a escada que dava acesso ao segundo andar. Já era difícil de enxergar com as velas, agora estava quase impossível. Eu só conseguia enxergar algumas sombras de onde ficavam os degraus, e ouvir os passos de e em minha frente. Segui os seus passos até não sentir mais nenhum degrau, e ao levantar os olhos, percebi que o andar de cima era ainda mais escuro, porque não tinha a luz da lua entrando para ajudar. Simplesmente não se podia ver nada.
- Tá legal. Eles devem estar aqui em algum lugar, certo?
- Uhum, é. – disse, seguindo a sua voz. – em algum quarto.
As duas seguiram mais para frente, e percebi que eu não fazia ideia da extensão daquele corredor.
- como é que a gente vai saber se encontrar eles?
- Eu acho que a gente vai só... ouvir.
- Certo. – disse.
Ouvimos um barulho vir do outro lado do corredor e virei de costas, pulando quando alguém agarrou meu pulso e segurando um grito.
- Sou eu! Desculpa, sussurrou e fechei os olhos, xingando internamente por ter aceitado vir nessa viagem. Era tudo muito fodido, cara. Não valia a pena. – Nós não queríamos ficar lá sozinhas.
- Tá, e o que fazemos agora?! - se fez presente.
- A gente podia pregar uma peça neles. – falou, e praticamente a senti dar de ombros.
- Tenho certeza que esse é o plano deles também.
Ri fraco.
- A gente podia fazer algo de útil e encontrar o tal disjuntor – falei.
Todas ficaram em silêncio.
- Eu acho uma boa ideia. – falou. – Onde ficam essas coisas?
- Pode ser em qualquer lugar.
- Acho que fica perto da porta de entrada.
- Vamos descer de novo, então.
Fui puxada por , que ainda segurava meu pulso, e ao chegarmos ao andar de baixo minha visão se ajustou e pude enxergar melhor, me sentindo mais aliviada. Soltei minha mão da dela e apertei meu pulso, que já estava suado pela sua mão. Fiquei parada no meio da sala enquanto ia até perto da porta de entrada e tateava na parede, encontrando nada além de um interruptor que não funcionava.
também começou a tatear em uma das paredes perto de uma porta que até então se encontrava fechada, e eu e apenas olhávamos, paradas no meio da sala. Eu não via como podia ajudar, então só fiquei ali.
- Nada. Será que essa casa tem um porão? – falou.
- Eu espero que não tenha... – Ouvi a voz de vinda da parede contrária à que estávamos enquanto ela passava a mão por lá. – Deve ser um horror. Ah! Acho que aqui tem alguma c...
cortou a frase no meio e deu um grito que me fez pular. Eu odiava não enxergar bem, queria ver o que estava acontecendo, mas era quase impossível.
- Puta que pariu, porra! – Ouvi a voz de Louis gritar vinda de outra direção e, no mesmo momento, as luzes se acenderam, me cegando por completo momentaneamente.
Fechei os olhos e pisquei algumas vezes, olhando para onde estava. Agora ela estava meio abaixada com uma mão na parede segurada em uma caixinha preta parecida com um pequeno cofre (que eu imaginava ser o disjuntor) e a outra no peito, e Louis estava parado em sua frente de olhos arregalados.
- Ah, é só você, ! – Ele gritou para ela.
- Meu Deus, Louis, seu... idiota! Você quase me matou de susto!
Olhei para a porta da cozinha atrás de Louis, onde os outros quatro estavam parados.
- Bem. Acho que acabamos de solucionar um problema. – Harry sorriu.


’s POV
- Pior do que passar fome, é comer pouco e continuar com fome. – Liam disse, e concordei.
- Eu preciso de mais do que esses salgadinhos. Quem foi o filho de Deus que só comprou essas porcarias pra viagem?
- Foi mal – Louis comentou. – É que dinheiro não nasce em árvore, e não deu pra passar em uma fruteira.
Fiz careta para ele, mas relevei o assunto. O salgadinho era realmente um horror. Comer pedras de sal seria mais saudável.
- Eu só queria comer uma pizza gigante agora. Sem dividir com ninguém aqui. – Levantei as mãos. – Sozinha.
riu ao meu lado.
- Amanhã a gente procura algum lugar e toma um café reforçado antes de continuar a viagem, certo? – Liam disse, deitando no chão da sala.
- Não estaríamos aqui se não fosse o idiota do Styles. – reclamou.
- Pensei que a gente já tinha superado isso aí. – Harry bufou e estreitou os olhos para , duas pessoas separada dele na roda que fizemos no chão. Aquele grupo era a imagem do tédio. Ainda era muito cedo para dormir, mas o ambiente não era favorável a nada.
- Eu preciso de um banheiro. – Comentei. - alguém sabe onde fica o banheiro?
- No andar de cima tem um. – disse, amassando um pacote de salgadinho vazio e jogando-o em um canto.
- Vai comigo? – perguntei baixinho para .
- Nem morta que eu subo lá de novo. Esse lugar é sinistro mesmo.
- Tá, eu vou sozinha. - Me apoiei em uma mão para me levantar. – Mas achei que essa fosse tipo a regra número um do manual de como ser uma garota – brinquei.
- As regras não se aplicam a casas mal assombradas – ela riu.
Levantei e bati a calça da poeira do chão, seguindo para a escada. Agora que estava tudo aceso a casa parecia... inofensiva. Era até ridículo pensar que eu tive medo antes.
Ouvi passos me seguindo e ao olhar para trás vi Harry. Revirei os olhos e olhei para frente.
- O que você quer?
- Ir ao banheiro, ao não ser que você queira monopolizar ele ou sei lá. – Respondeu naturalmente e suspirei, continuando a subir as escadas tentando ignorar o fato de que Harry estava comigo. Quando chegamos no segundo andar, Harry passou na minha frente e eu o segui pela direita, acreditando que ele sabia onde estava indo. Apesar de rústico e abandonado, as coisas pareciam em bom estado. Não havia muitos móveis, tirando uns armários e alguns espelhos envelhecidos adornando as paredes do corredor. Porém, os quartos estavam intactos, apesar de mal preservados. As camas ainda estavam em seu devido lugar, assim como os armários, apesar de vazios.
Quando essa viagem surgiu eu já sabia que querendo ou não precisaria passar muito tempo com Harry. Iríamos para casa juntos depois da apresentação da banda, e tudo que eu menos queria era que nossa família ficasse enchendo o saco com perguntas sobre o que aconteceu, então tentaria ao máximo fingir que nada havia mudado desde a última vez que estivemos lá. Para isso, eu precisava ser matura e adulta. Tivemos uma briga? Sim, tivemos, e não éramos mais melhores amigos, mas eu ia ter de aguentá-lo até lá, então não adiantava de nada ficar mantendo distância como se ele tivesse alguma doença contagiosa. Eu sabia que meu recado já estava dado, e ele entendera bem: Nunca mais teríamos nada em comum além de uma roda de amigos.
- Olha só isso aqui... – falei, parando de repente de frente para a parede. O papel de parede já descascava, e havia uma peça parecida com o tapete lá debaixo bem acima do meu queixo.
As imagens eram meio estranhas, coisa antiga, medieval. Algumas delas me davam uma leve sensação de já ter visto antes, talvez nas aulas de história que raramente prendiam minha atenção. saberia me dizer o que é isso.
- É bizarro, não é? – Harry disse, parando ao meu lado. – quem será que morava aqui?
Dei de ombros, dando o assunto por encerrado. Eu nem conseguia controlar o fato de falar com ele, era automático, depois de uma vida inteira andando juntos. Mas quando abaixava a guarda eu me crucificava por isso, principalmente depois do que aconteceu no car wash. Tudo bem, eu continuava me dizendo que estava lidando com aquilo como adulta, sem joguinhos e besteiras, mas minha promessa a mim mesma continuaria intacta. Harry nunca, em hipótese alguma tocaria em mim. Mesmo que eu quisesse isso mais do que tudo.

Ele mexeu a cabeça e deu um passo para o lado, entrando em um quarto. Eu continuei observando o tapete, prestando atenção a algumas figuras menores e, se reparadas com atenção, meio assustadoras.
- ?
Segui a voz de Harry e entrei no quarto. Eu o encontrei abaixado em frente a um pequeno criado mudo, fuçando nas gavetas.
- O que tem aí?
- Papel queimado. E uns vidros de remédio vazios. – ele pegou com a mão três frascos laranja de comprimidos. – Navotrax, Anafranil, Tegretol... pra quê será que são?
- Garanto que a sabe.
Ele riu.
- Eu estou curioso. Vou levar uns para baixo e perguntar para ela.
Revirei os olhos e cruzei os braços.
- Tanto faz. Anda logo com isso aí, preciso usar o banheiro.
Vi Harry enchendo o bolso do moletom com frascos vazios de remédio, e enquanto isso olhei em volta e dei uma volta pelo quarto. Não havia janela naquele ali, o que era estranho, pois dava para o lado direito da casa. Abri as portas do armário e dei um pulo ao ver um rato correr de lá de dentro para um buraco na parede. Observei o armário vazio por um segundo, e depois fiquei na ponta dos pés para olhar na prateleira de cima. Não havia nada, apenas uma folha em branco. Passei a mão e peguei a folha. Ao virar, notei que era uma fotografia antiga.
- Esse lugar não falha em me surpreender... – falei para mim mesma e mostrei a ele a fotografia em preto e branco de uma família inteira, nove pessoas, todas vestidas em preto sentadas em um sofá. Ninguém sorria. – Por que essas pessoas antigas eram tão mal humoradas? Nenhuma delas sorria.
- Vai ver elas não faziam sexo com muita frequência.
Balancei a cabeça e ignorei o comentário idiota.
- Já terminou aí?
- Sim. – ele se levantou. Larguei a fotografia onde estava e fechei o armário, saindo do quarto com ele.
- O banheiro é aqui – Harry apontou, parando na porta. – vou olhar os outros cômodos enquanto isso. – disse, e eu assenti e fechei a porta.
Não demorei muito lá dentro. Depois que fiz o que precisava, eu abri a torneira, e o cano fez um barulho estranho antes de um pouco de água sair. Lavei as mãos, procurei algo para secá-las e quando não achei, passei na calça jeans. Suspirei e saí.
Quando não vi Harry eu pensei em descer outra vez, não precisava ficar esperando-o. Mas ao ouvir um barulho no corredor segui até lá por coincidência, seguindo o som e me deparando com uma porta pequena, que dava entrada a um cômodo ainda menor, com armários de alumínio em todas as paredes.
- Uma despensa?
- Uma despensa. – concordou. – Cheia de comida enlatada.
- E dá para comer?
Ok, essa foi estúpida, .
- É datada de mais de vinte anos atrás. – ele parou, olhou para cima, contou nos dedos e balançou a cabeça. – é. Vinte anos.
- É melhor não comer, então... – suspirei, virando de costas para sair dali.
Ao olhar para o chão, porém, eu paralisei. Meu corpo todo congelou, de verdade, e prendi a respiração. No chão, algo que facilmente podia ser comparada a uma peruca de cabelo estava parada, bem no meio da pequena porta.
- Harry... – chamei, sussurrando, os braços e as pernas paralisadas de medo e os olhos arregalados.
Havia um detalhe sobre mim que pouca gente conhecia. Eu era talvez uma das pessoas mais orgulhosas no mundo, mas nada, nada superava minha fobia por aranhas, nem mesmo meu orgulho do tamanho do mundo. Quando eu via um daqueles animais, tudo em mim falhava e só existia terror. É sério. Parecia besteira, mas eu esquecia de qualquer coisa ao redor. Não importava o tamanho, quando me deparava com uma delas era sempre a mesma coisa: eu ficava por dias sentindo como se aranhas estivessem andando em minha pele, e me cobria dos pés à cabeça para dormir, puxava a cama até o meio do quarto para evitar ficar perto de qualquer parede onde elas pudessem subir... eu era lunática quando se tratava desses animais. E acho que além de minha família, a única pessoa que sabia era Harry.
- Você acha que se eu levar esses pepinos pro Louis ele... CACETE! – ele gritou, dando um pulo. – Mas que porra é essa?! Alguma espécie de aranha radioativa?!
Nós dois ficamos parados por um segundo, mas eu quase tive um ataque cardíaco quando o animal caminhou em direção a nós. Pulei para trás, me chocando com Harry e empurrando-o para servir de escudo. Meu corpo todo se arrepiou e meus músculos travaram. Eu ainda mal respirava.
- Mata isso... mata isso! Mata, mata, mata, mata, mata! – Sussurrei para ele sem parar, apertando as mãos com força.
- Não dá, , olha o tamanho disso aí! Se eu for pisar, ela vai pular na minha perna!
- Eu preciso sair daqui. Eu preciso sair daqui. – Fechei os olhos e respirei fundo, soltando o ar com calma. Olhei para todos os lados, fitando as estantes. – podem ter centenas delas. Elas podem me matar. Eu vou morrer. Nós vamos morrer.
Harry se virou para mim e segurou meus braços, me olhando no rosto.
- Nós não vamos morrer. Preciasamos de um plano.
- Para de olhar pra mim e presta atenção na aranha! – gritei. – ela pode sumir!
Era um fato que uma aranha desaparecida era dez vezes mais aterrorizante do que uma aranha visível. Você nunca sabia onde elas podiam estar. Elas podiam estar no seu pescoço agora mesmo.
Passei as mãos pelo cabelo, balançando-os para ter certeza de que não havia nenhuma ali.
Harry voltou a olhar para o animal.
- E se você colocar ela dentro de um dos frascos de remédio?
- Não são grandes o suficiente.
- E se... você jogasse um pepino nela?
- Ela pode ficar zangada, .
- Ah, pelo amor de Deus Styles, seja homem! Você é macho na hora de agarrar qualquer uma, mas não consegue matar uma aranha!
- Isso não é uma aranha. É um monstro! – Ele me olhou feio.
O bicho fez menção em vir na nossa direção, e eu me agarrei ao braço de Harry, praguejando baixinho. Eu não queria estar ali. Tão perto de Harry, e tendo apenas ele como proteção contra uma aranha do tamanho daquela do Harry Potter. Eu não queria ter que precisar dele, mas Deus¸ eu estava com medo, e daria qualquer coisa para não estar ali.
- O que vamos fazer, então? – Sussurrei, sem tirar os olhos do inseto.
- Por que a gente não chama ajuda? Ou melhor, você chama. Você é a garota.
- E você tá se borrando.
Ele suspirou.
- Procura algo, algum pano, sei lá. A gente joga em cima dela e sai correndo.
- Tudo bem. – olhei em volta, procurando por algo, mas não encontrei nada utilizável.
- Tem só uma lona lá em cima, mas eu não alcanço lá. – e deve estar cheia de outros animais rastejantes, pensei.
- Tá, troca de lugar comigo.
Dei um passo para frente e Harry ficou atrás de mim, virado de costas. Ele se segurou na prateleira e subiu em cima de umas latas de ervilha, escalando dois passos, até pisar numa lata em falso e cair, me empurrando para perto da aranha e fazendo ela ir para trás.
- Caralho, Harry! – berrei. – Você não seve para nada!
- Peguei! – Disse, e eu virei de costas bem devagar, sem fazer movimentos bruscos. Ele fez o mesmo, e acabamos ficando perto demais.
Só podia ser brincadeira.
Harry me olhou de cima, e depois comprimiu os lábios e por um momento isso apenas aconteceu. Eu senti sua respiração bater em meu rosto, e eu juro... nunca senti tanta falta de algo em minha vida. Desviei os olhos e ele olhou por cima do meu ombro.
- Eu vou jogar em cima dela, fica atrás de mim. – disse baixo, como se a aranha não pudesse ouvir.
Passei por ele, encostando mais meu corpo no dele do que queria. Ele deu um passo para frente, e eu mordi o lábio, eufórica. Quando estendeu os braços para frente, subitamente a energia foi cortada e dei um berro, pulando para a frente e me batendo com Harry.
- O quê?! O que foi? – ele gritou para mim, segurando meu ombro.
- Eu me assustei... foi mal. O que aconteceu? Por que a energia caiu?
- Deve ter sobrecarregado, o disjuntor é velho. Você tá enxergando a aranha?
- Não... Isso não é nada bom.
- Eu acho que ela não está mais na porta.
- E se ainda estiver?
Harry ficou em silêncio por um tempo. Deu um passo para trás e me fez ficar colada na prateleira.
- Eu acho que a gente não vai saber até que alguém venha nos buscar.
- E então o quê? Ficamos aqui?!
- Você tem uma ideia melhor?
- Sim. Joga a lona ali e a gente sai correndo.
- Escuta, , eu estou tentando pensar... – ele bufou e senti sua testa bater na minha. Meu corpo ficou ereto. – foi mal. – Harry disse, se afastando um pouco.
Perto. Ele estava muito perto. Perto demais. Fechei os olhos e passei a mão na testa.
- Eu só quero sair daqui. É apertado demais, e...
- E você não consegue me ignorar estando tão perto. – ele resmungou como se não fosse para eu ouvir.
- Tem razão, Harry, te ignorar é minha prioridade número um, porque você é o centro do universo – Respondi, e por um momento esqueci que uma aranha monstruosa estava por ali em algum lugar. Merda, Harry era tão egocêntrico. Puxei a lona de suas mãos bruscamente e o empurrei para o lado. – Sabe, essa é exatamente a parte de você que eu não sinto falta. – Falei.
Joguei a lona e sem pensar corri por cima dela, saindo de dentro daquele lugar apertado e nojento. Saindo de perto dele.


Liam’s POV
Já fazia algum tempo que Harry e haviam saído para ir ao banheiro, mas eu estava tentando relaxar com relação a isso. A casa estava de boa agora que havia luz. e estavam conversando baixinho sobre alguma coisa enquanto Niall escrevia alguma coisa em uma folha de papel que havia trago consigo e estava na janela novamente, olhando o que se passava lá fora. Zayn disse que precisava de um cigarro e pediu a , mas ela não tinha, então ele foi buscar mais um maço na Kombi. Louis estava no celular, jogando algum joguinho idiota. E havia a , que não estava fazendo nada além de olhar o teto.
- Será que tem comida aqui? – Perguntei, apenas para quebrar o silêncio entre as partes que estavam em silêncio.
- Se tiver, meu amigo, eu sugiro que você não coma. – Louis respondeu, sem tirar os olhos da tela de seu celular. – Deve estar vencido há séculos.
- Eu dava um milhão para quem pudesse me fazer uma lasanha agora. – Comentei, sentindo minha barriga apertar por causa da fome.
- Todo mundo aqui pode fazer uma lasanha, Liam, a gente só não tem como. – respondeu, olhando um pouco para mim.
e seu dom de acabar com o assunto.
Parei para olhar minha meia-irmã. O cabelo dela estava esparramado pela almofada, seus olhos se fecharam enquanto seus lábios cheios tremiam, como se ela estivesse cantando algo. A blusa xadrez aberta caiu de um ombro e revelava a fina alça de sua blusa e de onde eu estava, eu tinha uma perfeita visão de seu decote. Eu não podia negar que era uma garota linda, atraente, gostosa. Se eu tivesse a chance de ficar com ela, faria um estrago enorme.
Primeiro...
- Olha o que eu achei! – Zayn voltou com um sorriso. Pequeno, porém raro para ele. Durante esse tempo, percebi que Zayn Malik só fica feliz por duas coisas: bebida e cigarro. Todos olhamos para ele. Em uma mão, ele tinha um saco plástico transparente, mas não dava para ver do que se tratava. Na outra mão, segurava três garrafas de Red Label. – Nunca saio sem essas gracinhas.
- Passa pra cá! – estendeu a mão e Zayn passou o saco para ela, que abriu um sorrisinho ao retirar de lá um cigarro fininho.
- Vocês vão acabar morrendo sem pulmão. – Eu falei, balançando a cabeça.
- Todo mundo morre um dia, não é mesmo? – Zayn rebateu. Colocou as três garrafas no chão e abriu uma, tomando um gole generoso.
- Se for assim, por que você não se mata? – propôs, sentando-se ao lado de .
- Eu ainda quero viver muito pra te comer, gracinha. – Zayn respondeu com tanta agilidade e naturalidade, que por um segundo acreditei que ele se interessaria por alguém como . Não que não fosse uma garota incrível, bonita e legal, mas... Qual é... Ela não fazia o tipo dele. A irmã da faria o tipo dele, não ela.
- Você é nojento. – murmurou, sentando-se mais perto de mim e de Louis e mais longe dele. Zayn apenas riu.
- Vem aqui, . – Ele a chamou.
- Para quê? – Perguntou, na defensiva.
- Quero te mostrar uma coisa. – Respondeu com um sorriso. Não gostei nada de seu tom de voz.
, ao contrário do que eu acreditava que ela fosse, não foi inteligente. Ela foi até ele e se sentou ao seu lado. Zayn mantinha seu sorriso babaca no rosto enquanto pegava a garrafa de whisky e bebeu um gole, mas não engoliu. Depois ele segurou a nuca dela e se aproximou. Eu não estava acreditando que ele ia fazer aquilo. fechou os olhos quando ele encostou na boca dela e rapidamente abriu os lábios. Um gotinha do whisky escorreu pelo canto da boca dela.
- Que porra é essa, cara?! Que porra é essa? – De repente eu me vi gritando para os dois, mas mais para Zayn. Os dois se separaram e passou a língua pelos lábios. Por um segundo eu quase me esqueci da minha raiva e fui tomado pela vontade de ser eu fazendo aquilo, mas logo a raiva voltou. Zayn olhou para mim, desafiando-me a fazer algo. – Ela é minha irmã, seu bosta!
- Meia-irmã. – Louis me corrigiu.
- Cala a boca, Louis! – Ordenei, fazendo-o se assustar um pouco.
- Ei! – falou alto, talvez a primeira vez que fez isso por livre e espontânea vontade. – Liam, calma. É só uma brincadeira.
A freak estava se divertindo com o Malik se aproveitando da minha irmã!
- Ele colocou a porra da bebida na boca dela! – Argumentei.
- Por mais que eu duvide da sua capacidade, eu tenho certeza que você já fez isso. – Zayn riu baixinho. – E já colocou coisa pior na boca de muita garota por aí.
- Ok, né! Já deu! – gritou.
- Você quer também, gracinha? – Zayn piscou para ela.
- Eu quero a garrafa, só assim pra suportar uma noite inteira com você. – Ela respondeu, inclinando-se para pegar a garrafa já aberta. E então tomou um gole enorme.
- Uou! Vai com calma, princesa! – Louis riu, tirando a garrafa de sua mão. – Não queremos que você perca a classe.
- Você vai perder um dente se não me devolver essa garrafa. – Ameaçou.
Louis apenas riu mais e tomou também um gole da bebida e passou para mim. Neguei com a cabeça e passei a garrafa adiante para Niall, que tomou um gole sem hesitar e devolveu a Zayn.
- Vai querer, ? – Zayn olhou para a garota na janela, que nos olhava com uma expressão satisfeita no rosto.
- Eu vou ficar com essa. – Disse ela, pegando uma garrafa fechada no chão e a abriu.
- Quer mais, ? – Zayn provocou, sorrindo como um tarado para ela.
- Se você tiver morfina aí, eu agradeço. – respondeu, seu tom de voz ácido.
- Morfina é com a . – Ele riu e apontou para a garota atrás de si que mostrou-lhe o dedo do meio.
- Ei! – Louis largou o celular e se sentou direito. – Vamos jogar?
- O quê? – Zayn quis saber.
- Alguém fala uma coisa que nunca fez. Quem já fez isso, bebe. Quem nunca, não precisa beber.
- Eu já vi isso em algum lugar... – provocou.
- Eu topo. – falou. Logo depois Niall e também toparam.
- Também. – Zayn falou e abriu a outra garrafa. – , vai ter que dividir. Vai jogar ou tem medo de que as pessoas descubram as merdas...
- Eu vou jogar, Malik. – Ela bufou e se sentou em cima de uma almofada.
- Também. – Falei, aproximando-me do grupo. Louis se levantou e saiu da sala, indo a algum lugar e, não muito depois, voltou com alguns copos na mão. – De onde você tirou isso?
- Da cozinha. – Ele falou naturalmente. Todos olhamos para ele. – Que foi? Eu passei uma água, ok?
- Whatever. – falou e arrancou um copo da mão dele e se serviu da bebida. Logo depois todos os copos estavam cheios.
- Ok, eu começo. – Louis estava tão animado para isso que não podia ser coisa boa. – Eu nunca tirei D num teste.
Zayn revirou os olhos, mas bebeu. não fez objeção à infantilidade do Louis, acho que pra ela, mesmo que nunca tivesse feito, ela beberia só por querer beber. Bebi um gole também, notando por um segundo que fracasso de aluno eu era. Nem , Niall, nem beberam.
- Minha vez. – disse, determinando a ordem que cada um falaria. – Eu nunca fui a um pub.
- O quê?! – guinchou. – Você só pode estar de brincadeira.
- Você não é britânica, menina? – Niall olhou para ela como se ela fosse louca.
- Ela é santinha. – Zayn provocou e bebeu.
- Estamos indo para Londres. Precisamos corromper a garotinha do papai aqui. – Louis esfregou a mão no topo da cabeça de , que protestou.
- Não há muitos pubs decentes em Carlisle, em minha defesa.
Todo mundo, menos a , bebeu.
- Eu nunca tive um caso de uma noite só. – disse e reprimiu uma risada.
- Você só pode estar brincando. – falou, olhando para a amiga.
- O quê? Eu nunca tive! Verdade! – se defendeu.
- E o cara da bebida colorida? Na formatura do seu primo! – a lembrou.
- Eu saí com ele mais duas vezes depois daquele dia. – abriu um sorriso vitorioso. – Ele era casado. – O sorriso sumiu.
- O quê?! – quase gritou. – Você nunca me contou isso!
- Isso é hora para DR? – perguntou, com seu tom entediado, mas ao mesmo tempo ela parecia interessada. Ela tomou um rápido gole e descansou o copo no chão, apoiando o queixo na mão logo em seguida.
- Devo beber por cada garota? – Zayn perguntou, levantando o copo.
- Bebe, quem sabe assim você contrai uma cirrose. – falou e nós todos rimos. Acho que a bebida estava fazendo efeito.
- Vou beber apenas um gole em homenagem ao meu caso dessa noite. – Piscou para ela e bebeu. Revirei os olhos e encarei minha bebida. É, eu tinha que beber. E se eu fosse beber por cada garota... Tomei meu gole e fiquei quieto.
- Eu nunca... – começou, olhando para todos os lados, procurando por alguma coisa. – Eu nunca fui à igreja.
- Ok, eu não estou surpresa. – falou de um jeito conformado, fazendo rir um pouco. Logo depois todos beberam um gole.
- Minha vez. – Zayn abriu um sorrisinho. – Eu tenho que dizer, não há outra coisa que não fiz. Eu nunca matei ninguém.
Todos olharam para seus copos, ninguém bebeu. Notei levar sua mão até o copo, mas quando pisquei de novo sua mão não estava mais lá. Fechei os olhos e os esfreguei com as pontas dos dedos. Esse whisky é forte, puta que pariu, eu já estava começando a viajar.
- Agora sim, eu estou surpresa. – falou, olhando para Zayn como se tentasse achar a verdade. Mas ele parecia impenetrável.
- Todo mundo na escola fala que você já matou alguém. – falou, num tom despreocupado.
- As pessoas gostam de uma boa fofoca. – falou, olhando para o tapete atrás de nós.
- Segundo as línguas do colégio, eu já te fodi umas mil vezes, . – Zayn falou num tom de deboche. – Mal sabem eles...
- Que você não tem nenhuma chance comigo. – abriu um sorriso cínico para ele e apontou para o Niall, para ele falar.
- Eu nunca havia bebido Red Label na minha vida. – Ele levantou o copo. – E eu digo que isso é a melhor coisa do mundo!
- Falou e disse, meu caro. – Zayn levantou o copo também. – Falou e disse. Isso aqui é melhor até que mulher.
- Fale por si só, Malik. – Desafiei.
- É por isso que você estava secando sua irmãzinha quando eu cheguei? – Ele me respondeu de volta.
- Eu não estava! – Falei, quase ofendido com sua acusação. E até um pouco envergonhado por ter sido pego no ato.
- Fale o que quiser. – Zayn deu de ombros. – É a sua vez.
- Eu nunca precisei de bolsa de estudos na minha vida. – Eu estava jogando baixo, mas não ligava. Zayn precisava entender seu lugar. Não era uma boa estratégia criar uma guerra com seu colega de quarto na escola, mas nesse momento, eu não podia me importar menos.
Nem , , Louis, ou Niall não beberam nada e eu queimava o delinquente com os olhos, esperando que ele bebesse o gole da amargura. Mas ele não bebeu. Viado covarde, todos sabíamos que ele só estava na St. Bees porque tinha uma bolsa.
- Liam... – começou, mas Louis, num momento raro de consciência, declarou que era sua vez.
- Eu nunca tive catapora. – Ele quase gritou e riu. – Essa palavra é tão engraçada!
bebeu, e também beberam.
- Vocês estão ferrados quando pegarem. – sorriu. – Dizem que é pior em gente adulta.
- Até nisso você teve mordomias. – observou, com acidez.
- A vida gosta mais de algumas pessoas, , se conforme com isso. – rebateu. – Minha vez! Hm... Eu nunca beijei uma garota.
Eu, Louis, Zayn e Niall bebemos, numa boa. A coisa ficou séria quando e pegaram seus copos e tomaram um gole também.
- Isso é sério?! – Louis olhou para as duas garotas.
- Não é da sua conta. – respondeu e de alguma forma pareceu concordar.
- Ah é sim! Dá um beijo nela! – Ele insistiu.
- Não! – e responderam ao mesmo tempo.
- Eu jamais beijaria uma perdida que nem ela. – apontou com a cabeça para .
- Eu jamais beijaria a reencarnação do Che Guevara. – se defendeu.
- Tá, tá. Quem? Como? Onde? – Louis insistiu ainda mais.
- Não te interessa. Foi uma aposta. – respondeu.
Vendo que essa seria a única resposta que ela daria, olhamos para a .
- Pelos mesmos motivos que vocês homens ficam com garotas. – Ela disse, simplesmente.
- Puta que pariu! – Louis meio que gritou, meio que riu. Ele parecia o mais afetado pela bebida de todos nós. e tinham o queixo no chão e Zayn mantinha aquele sorrisinho de “já sabia”.
abriu a boca para fazer sua pergunta, mas ela nunca veio. A brincadeira foi interrompida quando ouvimos o grito mais assustador e aterrorizado de nossas vidas.
.

Louis’ POV
Demorei para processar o motivo pelo qual todo mundo subiu correndo para o andar de cima. Eu já estava mais feliz que o normal, só uma boa dose de álcool para ficar de boas quanto àquela casa e aquela noite louca.
Tomei o resto dos copos que ficaram cheios no chão em goles grandes, depois juntei-os e fui para a cozinha largar onde encontrara. Havia uma porta velha que dava acesso aos fundos da casa ali, e ela estava meio aberta. Olhei para a escada e percebi não ter visto subir, então depois de largar os copos fui até aquela porta, saindo para o escuro da noite lá fora.
O gramado estava enorme e precisava urgentemente de uma máquina de cortar grama, mas em volta da casa o chão era apenas de terra batida e algumas pedrinhas em forma de losango. Fui costeando a casa até os fundos, onde encontrei sentada em uma pedra de pernas cruzadas e com a garrafa de Red Label em sua frente e um cigarro na boca.
Caminhei até lá e sentei ao seu lado, na pedra do lado da dela. Ela me olhou brevemente, parecia satisfeita com o que tinha.
- Já está bêbada? – Olhei-a e depois para a garrafa com pouco mais que a metade.
- Talvez. Você está?
- Ah... – ri. – Eu pareço bêbado? – Levantei uma sobrancelha e ela me olhou.
- Com certeza parece. – Comprimiu os lábios enquanto me olhava, e ri fraco, me sentindo entorpecido. Por um momento continuou me olhando, e então me entregou a garrafa dela. - Então sirva-se. Pessoas bêbadas são mais divertidas.
Peguei a garrafa e tomei dois goles.
- Já estou mais divertido agora? Me sinto normal.
Ela riu. Tragou o cigarro, o cheiro forte de maconha queimava meu nariz. Olhou-me outra vez.
- Ainda não tenho certeza, continue falando. – Indicou.
- Hum... acha que pessoas bêbadas ficam mais sinceras também?
- Você não precisa de vodka para ser mais sincero, precisa?
Fiz uma careta e concordei. Caímos em silêncio, e olhei para ela. tinha um cheiro bom, mesmo misturado com vodka e maconha. Ela tinha um cheiro suave de algo que parecia uma flor.
- Você é a maior gata, . – Falei e ela sorriu. Devia estar acostumada a ouvir aquilo, não era segredo para ninguém. – Quantas vezes ouve isso de outros caras?
- Raramente de quem não espera nada em troca. – Suspirou e deitou a cabeça para trás, apoiada em um braço. Tragou outra vez o cigarro, seus olhos escuros estavam vermelhos, seu pescoço branco à mostra e os cabelos lisos caindo para trás. – Ao não ser que queira algo de mim.
Dei de ombros.
- Só quando quiser me dar por prazer.
Ambos franzimos o cenho no mesmo momento.
- Caramba, desculpa – cocei a testa. – Isso soou muito errado.
Ela riu e mordeu o lábio inferior. Caralho. Como eu queria beijá-la naquele momento.
se aproximou um pouco de meu rosto e levou a mão que segurava o cigarro fino ao meu rosto, empurrando meu cabelo da testa com o polegar. Seu toque era gelado. Ela encostou o polegar em minha testa e desceu levemente o toque até minha sobrancelha.
- Como arranjou isso?
Lembrei-me que tinha uma cicatriz fina na testa e levei a mão até lá.
- Ah. História engraçada. Minha irmã tinha esse boneco de Harry Potter que vinha com uma varinha, e ela ficou meio obcecada pelos filmes... Aí um dia decidiu que eu precisava de uma cicatriz igual à dele e me cortou enquanto eu dormia. Só que como deu pra ver, só conseguiu fazer a perna do N.
riu. Eu sentia algo em meu estômago quando ela ria, era como um... orgulho? Por saber que ela ria para mim. nunca ria. Então era bom.
- Você tem irmãos?
Ela fez que não.
- Eu tenho cinco irmãs. – Ela arqueou as sobrancelhas e eu assenti, como sempre era. Todos se chocavam. – Sou o único homem da família. Deve ser por isso que me mandaram para longe – ri. tragou mais uma vez o cigarro. – Me conta algo sobre você?
Ela deu de ombros, e como não falava há algum tempo comecei a me preocupar que ela estivesse voltando a se retrair. Olhei para seu pulso da mão que segurava o cigarro na boca.
- Como conseguiu as suas?
Ótimo jeito de fazer alguém se sentir a vontade.
desviou o olhar e deu de ombros. Ela pareceu pensar por um momento, como se não se lembrasse.
- Queria sentir... – franziu o cenho e ficou em silêncio por um tempo. – Queria sentir.
Não soube o que responder. Eu queria entender o que a fazia ser assim. Com certeza seu passado era manchado... mas de quê? Por quê?
- Não acha que existem coisas melhores que podemos sentir?
me olhou. Assentiu com a cabeça e sorriu fraco.
- Tem razão. Quer sentir algo?
Sem pensar, apenas assenti.
- Quero.
levantou o cigarro e o bateu para caírem as cinzas. Tragou mais uma vez e se curvou para perto de mim, chegando há um centímetro de meu rosto. Meu estômago gelou e abri um pouco a boca, ela encostou sua boca na minha, mas não fez nada por um momento. Fechei meus olhos e ela soprou a fumaça levemente em minha boca.
Não era a primeira vez que eu experimentava maconha, mas da primeira vez foi um desastre tão grande que nunca havia sentido vontade de repetir. Mas dessa vez estava mais interessante.
Soltei a fumaça e ainda não havia se afastado nem um centímetro. Seus lábios carnudos estavam tão perto, eu queria mordê-los. Passei uma mão por sua bochecha, tocando seu pescoço e deslizando até a sua nuca. Encostei a boca na dela, mas tocou meu braço.
- Hum... – ela suspirou. – Má ideia. – Puxou minha mão de leve e afastou dela. Se afastou de mim e sorriu um pouco. – Nunca é bom beijar um cara bêbado.
Xinguei baixinho e riu fraco. Tocou minha mão de leve no chão antes de pegar sua garrafa e se levantar. Soltou o cigarro no chão e pisou na ponta, apagando o restinho que ainda queimava.
- Vamos para dentro. – Fez um gesto com a cabeça e voltou para a casa.
Precisei ficar um tempo sentado sozinho para assimilar tudo. Essa viagem estava se saindo melhor do que eu esperava.


Zayn’s POV
- O grito veio de lá, você sabe disso, não sabe? – Encostei-me ao batente da porta enquanto observava andando pelo último cômodo do corredor. Ela se virou para mim e abriu um meio sorriso. De início, eu achei que o fato de estarmos todos juntos nessa viagem ia dificultar minhas tentativas de me aproximar dela, mas com ela se enfiando em qualquer canto, sozinha, apenas facilitava minha vida.
- Eu só queria saber o que havia aqui. – Desculpou-se, virando a lanterna do celular para cima, iluminando de uma forma bastante eficiente o ambiente. Olhei o quarto rapidamente. – É um quarto muito bonito. – Falou, olhando em volta também. – Acho que era o quarto do casal. Olhe a cama. Há roupas de mulher naquela porta.
O tom de voz dela estava começando a me deixar preocupado. Será que ela tinha algum tipo de problema mental...?
- E? – Perguntei, seco. Ela olhou para mim como que me bronqueando pela intolerância. Dei de ombros, tentando mostrar que não estava entendendo aonde ela queria chegar.
- E que... A casa está toda mobiliada, as roupas, a cama. A mesa da cozinha está posta para duas pessoas. Eu queria saber... Como essa casa está abandonada? O que fez com que os donos deixassem tudo para trás? – Ela olhava em volta e gesticulava enquanto falava, parecia tão perdida em todos aqueles pensamentos que me dava vontade de ir até ela e a abraçar, dizer para esquecer tudo aquilo.
- As pessoas enlouquecem, certo, shortcake? – Lancei um olhar sugestivo e pude perceber como ela se segurou para não dar uma resposta grossa. Lembrei-me do café da manhã, quando ela ficou eufórica por causa do shortcake que pegara. simplesmente não gostava que eu lhe desse um apelido. Isso era tão engraçado que eu tinha que dar apelidos.
- Você tem que admitir que é no mínimo intrigante. – Ela me olhava, séria. Icei-me para frente e fui até ela, com as mãos nos bolsos. – Não acha?
- Eu acho que você precisa de uma boa noite de sono. – Zombei um pouco.
- Zayn, é sério! – Ela franziu o cenho, não gostando nada de eu não a estar levando a sério.
- É, , é realmente estranho que eles tenham deixado tudo para trás, mas que bom que deixaram. Se não estaríamos amontoados no chão duro e frio, com apenas um teto sobre nossas cabeças. – Fui cem por cento honesto com ela. olhou para mim e deu de ombros.
- É bom, mas... Imagina como era a vida deles. Olha essa cama, olha esse quarto, olha essa casa! – Ela suspirou. O que ela disse me deu uma ideia. Cheguei ainda mais perto dela.
- Verdade. – Falei baixinho. – Imagina a vida que eles levavam. Um casal, certo? – Perguntei e ela assentiu, franzindo um pouco o cenho quando pousei minhas mãos em sua cintura. Olhou para mim, como se me desafiasse a ir além com aquilo. – Imagine se eles ficavam assim, no meio do quarto, ele sozinho com ela, segurando sua cintura. E ele a puxa para perto. – Sussurrei em seu ouvido enquanto a puxei para perto de mim e ela pousou suas mãos em meu ombro, parecendo estar se divertindo. – E lentamente a guia para a cama.
Afastei-me um pouco dela apenas para poder ver o momento em que ela fechou seus olhos e soltar uma risadinha. Comecei a dar pequenos passos em direção à cama e a deitei nela, deitando em seguida por cima de . A cama era tão confortável quanto parecia ser e tornava minha tarefa de suportar meu peso em meus cotovelos ainda mais fácil. Ela ainda tinha seus olhos fechados.
Pensei, rapidamente, em como, estranhamente, aquele momento parecia só nosso e, apesar de ela estar sempre cortando minhas investidas, ela parecia estar gostando, entrando na minha brincadeira.
- Abra seus olhos, shortcake. – Sussurrei, incapaz de tirar meus olhos de seu rosto. os abriu e olhou para mim. – Imagine, então, quando – segurei sua mão que segurava o iPhone, cuja lanterna ainda iluminava o quarto – eles apagavam as luzes. – Tirei o celular de sua mão e virei o flash para baixo, deixando que o quarto mergulhasse na escuridão.
Levei minha mão ao seu rosto, acariciando sua bochecha do jeito que tinha certeza que garotas como ela gostavam de ser acariciadas antes de serem beijadas. Tracei uma linha invisível por seu rosto, procurando por seus lábios e, quando os achei, eu me inclinei para beijá-la, pensando, involuntariamente, na noite do baile, em que eu a beijei do lado de fora do ginásio.
Curiosamente, eu queria fazer aquilo de novo.
- O Zayn e a sumiram. – Ouvimos a voz de .
- Ela deve ter empurrado ele em algum buraco. – Ouvimos Harry falar e algumas risadas.
Como um soco no estômago, aquilo cortou todo aquele clima que eu custei a criar e colocou as mãos em meu peito e me empurrou com força para o lado. Caí ao seu lado na cama e ela se levantou rapidamente, tropeçando em algo e caiu no chão. Ouvi sua respiração agitada por alguns segundos e então ela gritou.
- ?! – gritou, ainda no segundo andar.
- Tem alguém embaixo da cama! – gritou de novo e ouvi seus passos rápidos para fora do quarto. – A respiração! Eu pude sentir a respiração dele!
Porra! Tem alguém embaixo da cama e você me deixa aqui sozinho com esse ser?
Porra !
Tateei pela cama em busca da droga do celular de para poder usar a lanterna. Quando o achei, fui até a beirada da cama, onde ela havia caído, e iluminei o chão. O alívio tomou conta de mim, mas a raiva também me dominava. Ela precisava me empurrar daquele jeito? Quem ela acha que é? Se ela não queria que ninguém visse a gente, bom, ela não conseguiu, porque acabou de chamar a atenção de todo mundo para o quarto quando era só um buraco com uma grade, soltando ar quente. Devia ser o sistema de calefação da casa antiga.
Quando ouvi todos indo em direção à porta do quarto, decidi que ia respeitar a vontade de . Ela não queria que nos vissem? Bom, então que seja. Se a vadiazinha gosta de um proibido, não sou eu quem vai negar. Desci da cama rapidamente e me deitei no chão, onde o buraco soltava ar e desliguei o celular quando ouvi mandando Harry calar a boca para ela ouvir o que acontecia aqui dentro. Fechei os olhos e me preparei para ter uma crise de risos.
- Você não se cansa mesmo, não é, Zayn? – gritou, jogando em mim um chapéu que estava pendurado num cabideiro perto da porta. Então eu comecei a rir. Eu nunca fui um bom ator, mas mentir eu sabia. – Babaca.
saiu do quarto e todos os outros a seguiram, murmurando coisas como “ninguém merece” e “por que ele veio mesmo?”. Tive vontade de responder que eu só vim porque sou o motivo pelo qual essa banda pode fazer algum sucesso. , no entanto, ficou lá, olhando para mim com aquela expressão perdida novamente.
- Não era você. – Ela gritou sussurrando, se era possível.
- Não. – Respondi, num tom de voz quase normal. – Era uma tubulação de ar. Deve ser a calefação da casa, .
- Mas se não há energia, como a calefação está ligada? – Ela cruzou os braços e me olhou desafiadoramente.
- Talvez seja termoelétrica. – Considerei.
- E quem ligou a caldeira?
- Eu não sei, ! Como eu vou saber?
- Eu também não sei, Zayn, e eu quero saber!
- Ouvi dizer que a curiosidade matou o gato. – Abri um sorriso debochado.
- Isso não te impediu de procurar minha boca no escuro, não é?
Abri minha boca para tentar responder alguma coisa, ela havia me deixado sem resposta. Merda.
Felizmente, eu não precisei responder, pois no instante seguinte a luz voltou e lá debaixo, podia-se ouvir os murmúrios de felicidade. ainda estava lá, os braços cruzados, mas os olhos no chão, onde a tubulação de ar estava. Atrás dela, eu vi algo que não combinava com a decoração antiga da casa. A parte cromada reluzia na luz fraca, mas ainda se destacava.
- . – Chamei e ela levantou a cabeça para me olhar. Apontei com a cabeça para a cômoda alta que estava perto da porta. Ela olhou também e deu um passo para trás. Fui até a cômoda e olhei o revólver mais de perto.
- Você vai pegar isso?! – Ela quase guinchou, mas baixinho, assustada.
- Essa casa é tão fodida. – Murmurei, pegando a arma gelada. Ela não estava pesada, mas abri o carregador do mesmo jeito para ver se não havia bala alguma ali. – Está descarregada. – Falei a ela.
- Meu Deus. – Ela colocou a mão na testa. – Como você sabe ver essas coisas?!
- Vamos descer. – Falei, decidido a tirar a maldita história daquela maldita casa a limpo.
Quando chegamos ao primeiro pavimento, todos estavam sentados em volta das velas, agora apagadas. tinha alguns frascos de remédio nas mãos e olhava atentamente para eles.
- Este é para delírio. – Ela mostrou o frasco mais claro, quase transparente. – E esse é para febre, não chega a derrubar nenhum animal, mas é forte para uma criança.
- Criança? – chegou mais perto para ver o frasco.
- Sim. Aqui. Está vendo esse PD? – Ela apontou para alguma coisa. – Significa pediátrico.
- Então tinha uma criança nessa casa? – Niall estava sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos e eu juro que nunca vi o mariquinha tão concentrado.
- É o que parece. – O Styles falou, cruzando os braços e apoiando-se à parede.
Tirei a arma do bolso da jaqueta e todo mundo se colocou de pé num instante, parecendo se dar conta de que eu estava no cômodo. Liam puxou pelo braço e se colocou na frente das meninas.
- Zayn, calma. – Niall falou, levantando as mãos na altura do peito.
- Não somos muito legais com você, mas não precisa disso, cara. – Louis falou, os olhos fixos na arma.
Revirei os olhos e joguei a arma para , que se esquivou rapidamente.
- Ficou louco? – Ela me olhou feio.
- Não está carregada. – Assegurei, mas ela apenas me olhou como se duvidasse e abriu o carregador para ver. – Se havia uma criança nessa casa, deve ser por isso que a arma estava em um lugar tão alto.
- Então temos frascos de remédio vazios, um revólver, uma foto de uma família, latas datadas de vinte anos atrás e tapetes medievais. Alguém quer adicionar mais alguma coisa ao circo de horrores? – falou, olhando para todos nós.
- Vamos nos dividir. – Disse Louis.
Ótimo, agora nós somos os caras do Scooby-Doo.
Niall's POV
girou nos calcanhares e sumiu porta afora. Zayn revirou os olhos e seguiu pelo mesmo caminho que ela e, por um segundo, todos nos entreolhamos, confusos. Ele não havia acabado de sacanear ela? pegou Liam pelo braço e o puxou em direção à porta da cozinha.
- Eu não ia sugerir duplas, mas... - Louis começou a falar quando revirou os olhos e passou por ele, puxando-o consigo. Harry respirou fundo e passou a mão pelo cabelo, jogando-o para trás.
- Bom... Vamos procurar um porão, Niall? - sugeriu, abrindo um sorriso nervoso para mim.
Mal não iria fazer, certo? Aliás, eu precisava passar mais tempo sozinho com ela. Talvez eu devesse chamar para sair. Seria uma boa oportunidade para tentar. Assenti para ela e a segui para fora do cômodo. Quando estávamos no saguão, ela parou e olhou para mim.
- Você não quer procurar um porão, quer? - Perguntou de um jeito meio desesperado.
- Não, na verdade não. - Cocei a nuca, meio envergonhado por bancar o covarde.
- Ótimo, porque eu odeio lugares abaixo da terra, com uma única entrada e uma única saída. - Ela abriu um sorrisinho sem graça e suspirou. - Onde vamos procurar então?
- Não sei... Será que existe algum escritório nessa casa? - Estiquei o pescoço para tentar ver por cima de seu ombro. - Para onde deve levar aquela porta?
se virou para ela e deu de ombros, indo em sua direção logo em seguida. A porta rangeu ao ser aberta e seu interior estava escuro como breu, nada era possível enxergar. tirou o celular do bolso de trás de sua calça jeans e ligou a lanterna, depois olhou para mim novamente, convidando-me com um sorriso.
É hoje. Tem que ser hoje. Involuntariamente, comecei a planejar vários jeitos de acontecer aquilo. Tinha que dar certo de algum modo. não fazia o estilo difícil.
- Eu acho que é um ateliê. - falou de repente, arrancando-me de meu transe. Olhei para ela, tentando reconhecer o ambiente. - Acho que estava pintando algo.
Aproximei-me dela para ver o que era. Não parecia uma pintura, honestamente, parecia mais a borda de um daqueles livros floreados de contos de fadas clássicos. E havia algo escrito, provavelmente com carvão, servindo de molde para pintar por cima depois, algo bem fraquinho.
- Ilumina aqui, . - Pedi, chegando mais perto das impressões. - Não acho que seja uma pintura. Acho que é uma cópia.
- Uma cópia de quê? - pareceu perguntar mais a si mesma, mas balancei a cabeça negativamente. Ela tirou a lanterna dali e iluminou o resto do cômodo, andando de um lado a outro. - Essas pessoas eram bizarras. - Disse ela de repente, iluminando o tapete pendurado na parede. A cena era de uma lenda urbana, o Lobisomem. - Para quem pendura a Inquisição Espanhola na sala de estar, essas pessoas acreditavam em vários tipos de mitologias.
- Como assim?
- Mitos e lendas são cultura pagã, enquanto a Igreja Católica condena esse tipo de coisa.
- Talvez eles fossem ecumênicos. - Dei de ombros, considerando a hipótese.
- Talvez sim. - Seus ombros relaxaram e ela parecia derrotada, olhando o chão. - Ei! O que é isso? - se colocou de joelhos e passou os dedos em cima de uma mancha vermelha no carpete claro. - É sangue. Será que é sangue?
- Aquilo é um brinquedo? - Apontei para algo entre a parede e um pequeno móvel. foi até lá tentar tirar o negócio dali. Peguei o meu celular e voltei à tela, tentando iluminar da melhor maneira possível. Com a bateria fraca, não teria muito sucesso por muito tempo. Tentei ler o que estava escrito, mas não conseguia entender do que se tratava... Parecia uma língua diferente. Apoiei minha mão no suporte de madeira e respirei fundo, concentrando-me... Eu tive algumas aulas de latim. Precisava me lembrar disso pelo menos agora, pelo menos um pouco. - Tem um livro aberto ali. Acho que é um molde. - Falei em voz alta, indo até o livro e li a primeira frase da página que estava aberta. - Definitivamente isso não é latim.
- Consegui! - se afastou do móvel e segurou o que parecia ser um chocalho improvisado. - Por que você achou que poderia ser latim... - Sua voz saiu baixa, ela estava concentrada no brinquedo em sua mão. Voltei minha atenção ao livro, achando algo muito interessante naquela página, e logo em seguida ela soltou um barulho estranho que podia indicar nojo, mas eu não tinha muita certeza. - Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus!
- O que foi? - Corri para perto dela, tropeçando em alguma coisa que estava jogada pelo chão e caí ao seu lado. - O que foi, ?!
- O negócio! Não é um brinquedo! É um... Um... Niall! Aquilo são ossos! - Ela apontou horrorizada para o objeto jogado perto da porta. - Eles eram macumbeiros! Meu Deus! Estamos numa casa... de macumbeiros!
Olhei para os ossinhos no chão e pensei um pouco. Não podia ser. Não podia ser. Macumbeiros não dariam remédios a alguém, eles fariam seus próprios remédios, não é?
- , calma. - Pedi, esfregando minhas mãos em suas costas para tentar surtir algum efeito.
- O que foi aquilo que você tropeçou? - Ela mudou de assunto de repente e se virou para o objeto que eu havia tropeçado, iluminando-o. Era um pequeno baú de madeira, bem pequenino. Ela engatinhou até ele e o trouxe para perto de mim, ambos ainda estávamos no chão. Quando subiu a tranca e abriu o baú, deixou escapar outro gritinho e largou o baú no chão num rápido movimento e recuou até encostar em mim, alojando-se em meu peito. - São. Dentes.
Meus braços estavam abertos no ar, eu ainda estava surpreso pelo movimento dela. Quero dizer... Ela veio buscar proteção em mim. Isso deveria significar algo, certo? Deve significar que eu tenho alguma chance... Fechei meus braços em volta dela e tentei acalmar seu corpo trêmulo.
- Ei, ei, calma. - Acariciei seus cabelos quando ela enterrou ainda mais a cabeça em meu peito. - Eu estou aqui, ok? Nada de mal vai te acontecer. - Prometi.
- Como você vai me proteger? Você nem tem músculos. - Ela apertou meu braço e eu juntei tudo que havia em mim para não me deixar magoar por aquilo.
- Eu tenho um cérebro. - Rebati, como se fosse óbvio. - E com o seu, somos a dupla mais inteligente dessa casa.
- Somos um cérebro e meio. O seu e o meu, respectivamente. - Ela falou com amargura na voz e eu não entendi.
- Hein? - Perguntei, confuso.
- Eu me sinto melhor, obrigada por tudo Niall. - levantou a cabeça para olhar em meus olhos e, totalmente de repente, ela encostou seus lábios nos meus, roubando-me um selinho demorado. Ela fechou os olhos, mas eu estava tão surpreso que mal podia me mover. Quando ela se afastou, seus olhos encontraram os meus e ela pareceu surpresa subitamente. - Desculpe, eu... Não devia. Eu não... Os dentes!
Sim! Os dentes! Eu estava quase me esquecendo!
- Ah, vem aqui, você precisa ver algo. - Levantei-me devagar e depois a ajudei. Levei-a até o livro que havia visto e apontei para o desenho no canto inferior da página. - Está vendo? É tribal. Os ossinhos e os dentes devem ser algum tipo de tradição.
- Tribalismo, paganismo, catolicismo... Isso é o que eu chamo de uma família ecumênica. - comentou, virando a página do livro e passando a ponta do dedo sobre os traços dos desenhos.
- Então, o que achamos aqui...?
- Sangue, mistura de crenças, ossos e um livro semi-copiado.
- Parece suficiente para mim. Vamos sair daqui? - Propus e ela assentiu.
Voltamos para a sala a passos lentos, mergulhados em um silêncio mortal. provavelmente estava pensando que o beijo foi um erro. Mas eu não podia me importar menos. Agora que havia beijado , eu tinha o lugar definitivo na banda e se ela se arrependia, bom, melhor para mim. Nada de ter que lidar com sentimentos e explicações. Tudo o que eu precisava era um beijo.
- Eu estou falando há meia hora, Malik! É tifo! - estava discutindo com Zayn quando voltamos para a sala. Ele segurava uma garrafa de Red Label que ainda tinha um pouco de bebida e tomava um gole de vez em quando.
- Você não pode ter tanta certeza, . - Ele argumentou.
- Sim, eu tenho! - Ela levantou as mãos para o alto, exasperada. E então nos viu na porta. - ! , olha! Achamos sangue na banheira e algumas fotos de jornais com pessoas com manchas pelo corpo: axilas, mãos e pés. Os remédios que encontramos, alguns para delírio, psicose e transtorno bipolar. Tudo isso pode acontecer em um ataque só em delírios. E outro para dormir, uma pessoa com tifo não consegue se manter de pé e fica muito tempo curvada, a febre não deixa dormir e a pessoa sente dores intestinais. Eu estou falando. Tifo.
- Ok, senhorita dona da razão, mas o que explica o sangue? - Zayn insistiu.
- Casos extremos de tifo podem levar à hemorragia.
- É boldo, Liam. - veio da cozinha com Liam e eles também pareciam discutir.
- Tem certeza de que não é hortelã?
- Tenho. Minha mãe ama chá de boldo. - Ela garantiu. - É bom para aliviar dor e cólica intestinal.
lançou um olhar vitorioso e um tanto debochado para Zayn.
- Pro inferno com essa merda toda, eu vou fumar antes que eu mate alguém. - Ele passou por todos em direção ao saguão da casa e logo em seguida ouvimos a porta batendo.
- Que bicho mordeu ele? - e Louis entraram na sala assim que Zayn saiu.
- E algum bicho precisa morder ele para ele ser assim? - respondeu, cruzando os braços. - E aí, o que acharam?
- Nomes. - Louis sorriu com orgulho de suas descobertas. - A mãe se chamava Amélia e o pai se chamava Edson. Havia uma criança, um garoto, seu nome era Henry. O menino nasceu em 1988.
- E aí está o fato mais curioso. - sorriu também. - Ele nasceu numa cadeia.
- Cadeia?! - abriu a boca para completar, mas nada saia de sua boca.
- Os pais eram falsários. - Louis deu de ombros.
- Por isso a cópia do livro estava tão boa. - Falei, olhando para em busca de confirmação. - Achamos um livro incompleto, estavam copiando uma espécie de bíblia tribal.

- É e haviam ossos e dentes por todos os lugares! - arregalou os olhos.
- Isso explica o crime. - Falei.
- Explica também a doença de alguém da família. - falou. - O menino nasceu em condições terríveis, deve ter sido picado por alguma pulga de rato.
- Por que o menino e não a mãe? Ou o pai? - Liam franziu o cenho.
- O quarto onde achamos os frascos não tinha janelas e a cama era pequena. - respondeu.
- Talvez ele fosse levado para lá quando estava delirando. - ponderou.
- Quem era doente era a criança. - disse, Harry em seu encalço. - Achamos mais frascos de remédios pediátricos. Mas a mãe também sofria de transtornos psíquicos. Como sabemos? Ninguém foi até o outro corredor. No final dele, há uma pequena sala de concreto, sem janelas nem cama. A mulher era do tipo maluca que esfolava os dedos nas paredes para escrever coisas com as unhas.
A porta da frente da casa foi aberta novamente e Zayn entrou na sala, segurando um pedaço de madeira.
- Conseguem ler? - Ele segurou a tábua com as duas mãos e nos mostrou. Dizia, numa caligrafia horrível, "R.I.P Henry, que os deuses nos perdoem". - Quem é Henry?
- O menino com tifo. - Louis respondeu, olhando fixamente para a tábua.
- Meu Deus, Niall! As inscrições tribais! Eles eram muito... Supersticiosos ou religiosos ou sei lá o que... Eles... O menino morreu, certo? "Que os deuses nos perdoem", isso quer dizer que eles cometeram alguma coisa errada diante dos deuses. O menino foi o castigo deles.
- Continua sem explicar por que eles deixaram a casa. - cruzou os braços.
- Lou, onde está o diário? - bateu no ombro de Louis para chamar sua atenção.
- Lá em cima... Ah! Eu vou pegar! - Ele saiu correndo.
- Eu acho que lemos algo sobre isso no diário. - sorriu.
Louis voltou quase aos tropeços para a sala e abriu o diário no chão. Virou as páginas furiosamente e de repente parou em uma.
- Aqui! - E então começou a ler em voz alta. - "Não foi fácil conseguir a casa que nos foi destinada pelos deuses. Muita gente teve que cair por terra para que isso fosse possível. A arma ainda está descarregada. Minha mulher ainda grita à noite, dizendo que não foi justo. Nosso filho ainda carrega as manchas pelo corpo. A decoração da casa não nos agrada, mas logo estaremos reformando como mandam os deuses. Como pai deste clã..." blá, blá, blá. - Louis terminou. - Só aquilo era importante.
- As tapeçarias não eram deles. A casa pertencia a outra família. - Falei, olhando o grande tapete atrás de nós.
- A foto da família antiga. - falou baixinho. - Eles mataram aquela família.
- Meu Deus. - passou a mão pelo rosto. - "Que os deuses nos perdoem". Eles queriam o perdão pelos assassinatos. A casa era amaldiçoada para eles.
O silêncio caiu entre nós, cada um mergulhado em seu próprio mundo.
- Então. - Harry falou, chamando nossa atenção. - São seis e quinze. Quem topa dormir na Kombi até meio dia e depois pegamos a estrada pro sul?
- Demorou.
- Só se for agora.
- Eu durmo no banco da frente.
- Não esqueçam suas coisas aqui.
Todos falaram ao mesmo tempo, dirigindo-se até a porta. Lá fora, ainda estava escuro, mas não tão escuro quanto antes. Podia-se dizer que o sol estava quase para nascer. A Kombi nos esperava, fiel, na calçada em frente à casa e eu podia jurar naquele momento.

Eu nunca me sentira tão feliz por ver uma Kombi na minha vida.



’s POV
Nós tomamos café da manhã em uma lanchonete de beira de estrada, mais ou menos duas horas depois de sairmos da casa sinistra. Eram agora sete e meia da manhã, e todos pareciam mais exaustos do que o normal. Todo mundo comeu em silêncio, mal trocamos alguma palavra.
Harry, que era quem dirigia, comprou também umas dez latas de energético para a viagem e tomou duas sozinho.
Depois voltamos para a Kombi e cada um dormiu um pouco do jeito que pode, enquanto Harry dirigia, com Niall como seu copiloto. Apesar de ter passado a noite em claro, eu não estava com sono. Meus pensamentos estavam tumultuados, mil coisas passavam por eles, e enquanto eu encarava a paisagem passando pela janela, me pegava sentindo aquela coisa outra vez; a usual sensação de estar tão longe de casa, sabe-se lá onde era casa... Mas era diferente dessa vez. Porque eu me sentia tranquila, apesar de tudo. Acho que, principalmente, porque sabia que naquele carro eu não era a única a estar perdida. Algo sobre isso me fazia sentir um vínculo com alguns deles.
Também pensei sobre aquela noite e como ela fora estranha, e me peguei avaliando cada uma das pessoas naquela Kombi separadamente, tentando entender porque todos estavam tão estranhos, irritados. Claro, se perder no meio do nada não estava nos planos de ninguém... Mas o modo como cada um parecia estar focando toda sua atenção em descobrir os segredos daquela casa... era quase como se todos estivessem fugindo de suas próprias histórias.

O GPS agora parecia estar colaborando com Harry, porque finalmente ele sabia para onde estava indo. Então paramos para almoçar, umas quatro horas depois, em um restaurante de posto de gasolina que já parecia muito mais civilizado do que os outros dois lugares onde paramos. Todos já pareciam mais dispostos.
Cada um serviu seu prato no buffet e sentamos em uma mesa grande, trocando algumas palavras enquanto almoçávamos. Louis sentou ao meu lado, sendo o último a terminar de se servir, e nós nos olhamos por um segundo. Ele sorriu para mim, e me permiti sorrir de volta. Então por um momento toquei a sua perna e ele segurou a minha mão. E um piscar de olhos depois, isso já havia se desfeito.
Alguma coisa sobre essa relação que estabeleci com ele me assustava demais. Cada vez eu me conhecia menos quando estava com Louis, e não sabia se isso era ruim ou, o que era pior, bom.
A partir daí a conversa toda girou em volta da banda o tempo todo. Pagamos o almoço, alguns em cartões de crédito e alguns em dinheiro, e voltamos à estrada. Louis se ofereceu para dirigir para que Harry descansasse um pouco, e eu fui sentada na janela ao lado de . Em algum momento, eu dormi, e acordei um bom tempo depois quando ela me acordou e disse que estávamos chegando.





Continua...




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Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






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