Última atualização: 12/08/2017

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Capítulo 15

’s POV
O lugar em que seria a apresentação não passava de um pub mediano, mas já era uma grande coisa para uma banda tão recente como a dos garotos. Ao que todos nós adentramos o local, pudemos perceber uma quantidade de pessoas muito maior do que imaginávamos lá dentro.
Louis e Harry foram estacionar a Kombi ao lado da saída dos fundos do local para poderem descarregar os equipamentos, enquanto Niall e Liam entraram conosco para procurarem o gerente do local, que era conhecido do professor de música e autorizou a apresentação, e Malik, é claro, fora diretamente para o bar.
A conversa lá dentro era alta. As mesas estavam todas ocupadas e cheias de bebida em cima, e os grupinhos sociais eram visíveis, cada qual dentro de uma conversa animada. Caminhamos até um pouco mais ao fundo do local, quando me avisou que ela e iriam ao banheiro e eu assenti, sentando em um dos bancos afastados do bar.
- Uma cerveja.
Olhei para o banco ao meu lado, onde sentava e escorava os antebraços no balcão. Trocamos um olhar amigável e o atendente a entregou a cerveja depois de ver sua identidade. Ela tomou um gole e me ofereceu, e fiz que não com a cabeça.
Ficamos em silêncio durante um tempo, em que eu observava o local me acostumando às pessoas. Poucas vezes na vida eu viera há Londres, e era sempre empolgante estar na capital.
Um tempo depois os garotos subiram ao palco para montar os equipamentos, enquanto as pessoas continuavam conversando empolgadas.
- O significado de hormônios. – comentou, e segui o aceno de cabeça que ela fez, olhando para umas garotas em uma mesa próxima ao palco, encarando Zayn em cima do palco ajeitando os pedestais e cochichando. Ri fraco. Eu já estive aí.
- Elas claramente não conhecem ele – olhei para , que assentiu concordando enquanto tomava outro gole de cerveja. Riu fraco pelo nariz e eu a acompanhei, balançando a cabeça.
Definitivamente depois dessa viagem eu a via um pouquinho diferente do que antes. Ela parecia mais... humana.
soltou a garrafa mais uma vez no balcão e olhou para algo além de mim, sorrindo quase imperceptivelmente.
- Eles estão falando de você.
Olhei para onde ela estava olhando e encontrei uma mesa no canto do pub, onde quatro caras olhavam para onde nós estávamos. Balancei a cabeça, fazendo que não. Óbvio que não. estava bem ao meu lado, e ela pensava que eles olhavam para mim?
- É de você.
Ela fez que não com a cabeça, e acenou com a cabeça outra vez. Virei o rosto para o lado da mesa de novo, e um dos garotos havia levantado e se dirigia para perto de nós.
Eu realmente pensei que fosse com ela, mas quando ele parou em minha frente e sorriu, percebi que estava errada. Olhei para , que sorriu para mim se levantando e afastando-se com sua cerveja. Senti meu rosto esquentar. Ok, essa era a parte que eu nunca treinava.
Ter caras olhando para mim ainda soava como alguma pegadinha. Fruto de costumes que eu tive pela vida toda, acho. Quando um cara me olhava, eu era acostumada a me igualar a ele, e não a pensar como uma garota. Sempre pensava que eles queriam encrenca, porque ao lado de Liam e Harry não era difícil arranjar briga com outros caras.
- Apostei com meus amigos que te pagaria uma bebida.
Ok. Ele até que era bem bonito. E as frases prontas pareciam as do Zayn. Não devia ser tão diferente assim, afinal. Não dizem que homens são todos iguais?
Respirei fundo e relaxei os ombros. Olhei para a mesa de seus amigos, que tentavam disfarçar que estavam olhando, e sorri um pouco.
- Acho que vai ganhar uma grana, então. – Respondi, e assenti para o banco ao meu lado. Ele sorriu mais e sentou de frente para mim.
Tudo bem. Até aí estava indo razoavelmente bem. Vamos manter nessa linha.

O nome dele era Kurt. Kurt morava em Londres, dividindo apartamento com sua irmã mais velha. Cursava o segundo ano de direito em uma universidade e ia ali com os amigos toda semana, para curtir o happy hour. A vida de Kurt era tão, mas tão distante da realidade da minha, que gostei de conversar com ele. Na maior parte do tempo eu esquecia completamente que existia um mundo fora dos muros do St. Bees, o que teria que mudar muito em breve, se eu passasse de ano.
Em resultado à nossa conversa, Kurt pareceu realmente se interessar em minha breve história: garota do interior, estuda em colégio interno, está no último ano. Eu não contei muitos outros detalhes além desses. Com o tempo, a conversa foi fluindo e me senti mais confortável e mais satisfeita com como estava me saindo. Até dei umas risadas de alguma história ou outra que ele contou.
Foi então que Harry apareceu.
- está te procurando. – Ele apontou, parado há poucos metros de nós. – Vem, precisamos de você.
Olhei para o garoto sentado à minha frente e de volta para Harry.
- Tudo bem, vai lá. Nos vemos depois. – Kurt me assegurou, tocando meu braço.
Levantei do banco e, por um momento, fiquei parada sem saber o que fazer. Então me aproximei dele e beijei seu rosto, e ele passou o braço brevemente por minha cintura.
- Até mais, linda.
Sorri e me afastei, seguindo Harry até atrás do pequeno palco no fundo do pub. Quase todos os meus colegas estavam lá, e me escorei em uma caixa de som ao lado de .
- O quê?
Ela me olhou, parando de enrolar um fio de alguma coisa no braço.
- O que o quê?
- Você me chamou.
- Não. Eu só perguntei onde você tava, e aí a disse que estava no bar – ela deu de ombros, voltando a enrolar o fio.
Pisquei algumas vezes, e ainda demorou uns segundos para a ficha cair. Olhei para Harry, falando alguma coisa para Niall do outro lado da pequena sala em que estávamos, aparentemente alheio a todo o resto.
Aquele babaca do Harry.


Niall’s POV
- Dude, isso aqui está cheio. – Louis desviou sua atenção da caixa de som por um instante e admirou o lugar.
Dali de cima do palco era, realmente, fantástico.
Havia uma música pop tocando enquanto as apresentações não se iniciavam. Éramos a primeira banda de um circuito de cinco, o que não nos deixava nem um pouco menos nervosos ou intimidados. Tínhamos apenas três músicas bem treinadas e, no mínimo, prontas para serem reproduzidas com um número baixo de erros. Não é excelente, mas é o que temos. E tinha que ser o suficiente para impressionar, já que a responsabilidade de animar o povo era nossa, a primeira banda da noite.
- Nossa estreia em grande estilo! – Liam bateu uma baqueta na outra, parecendo tão animado que nem pareceu que teve só cinco horas de sono.
Isso normalmente até seria suficiente, mas não se sua cama for, na verdade, um banco de uma Kombi. Aí não é nada confortável nem suficiente. A noite passada foi a mais bizarra que tive em toda minha vida, pode ter certeza.
- Está nervoso? – me arrancou de meus devaneios sobre a noite passada. Ela girava entre os dedos uma das baquetas-reserva de Liam.
- Nervoso? Eu? – Ri com certo desdém e ela me olhou com expectativa, como se esperasse que eu lhe dissesse “estou ótimo, nasci pronto”, mas eu não iria dizer aquilo porque não era bem verdade. Eu estava surtando.
- Tudo certo, então? – Ela sorriu.
- Bom, eu acho que sim. Eu vou ficar bem.
- Ok, mas eu estava me referindo ao palco. – Ela apontou para o cara perto de nós. Era o gerente e, aparentemente, ele queria que começássemos logo.
- Ah, ele falou algo?
- Hm, temos um horário. – Ela leu algo em uma folha que tinha na outra mão e depois olhou o relógio. – Vocês entram daqui dez minutos e saem... bom, saem dez minutos depois.
- Como vocês são iniciantes, não vamos dar mais que isso. – Explicou o gerente, aproximando-se de nós. – Marc nos alertou sobre isso, mas lidamos com amadores o tempo todo. Está tudo bem. As outras bandas são quase profissionais. Vocês podiam aprender algo com eles.
- Claro. – Abri um meio sorriso. O jeito como ele falou aquelas coisas me deixou ofendido.
- Ele sabe que vocês nunca se apresentaram antes? – cochichou para mim assim que o gerente, com um sorriso, se afastou de nós.
- Difícil dizer. – Estreitei os olhos. – Mas acho que deve saber, senão não teria falado comigo desse jeito.
- Calma, ele não estava tirando sarro de ninguém. – esfregou meu braço. Sorri para ela, que me retribuiu e sustentou meu olhar. Dei um passo em sua direção a fim de diminuir o espaço entre nós, mas Liam derrubou um prato e isso a fez recuar, como se tivesse voltado a si mesma. Pigarreou e apontou para o piso abaixo do palco. – Vou estar ali.
- Vou jogar uma toalha suada para você. – Brinquei.
- Vou torcer a toalha e tomar banho nesse suor. – Ela rebateu e ambos fizemos careta. – Eca, isso foi nojento!
- Foi! – Rimos.
- Ser tiete é um trabalho árduo. – Colocou as mãos na cintura.
- Você consegue, sei disso, somos muito bons, você não vai nem precisar fingir. – Pisquei.
- Uhum. – Revirou os olhos, rindo fraco. – Bom, vou estar lá. Boa sorte. – Ficou na ponta dos pés para me dar um beijo na bochecha e desceu do palco.
- Niall e , sitting on a tree, K-I-S-S-I-N-G! – Louis começou a cantar e logo todos estavam cantando também e me dando tapinhas nas costas, bagunçando meu cabelo e me empurrando.
- Ok, chega! Vamos começar! – Um cara com um ponto eletrônico e um walktalk bateu palmas. – Posicionem-se, vocês vão entrar.



’s POV

- O Louis disse que temos mais uma hora aqui! – Foi o que Niall disse quando atravessou a multidão para vir falar comigo. Sorri para ele e lhe passei a cerveja que havia me dado sob o pretexto de que eu precisava me soltar um pouco. Ele agradeceu e tomou um gole.
- Sem querer inflar seu ego, mas vocês arrasaram lá em cima! – Gritei para ele. Outra banda estava no palco, apresentando-se, por isso o barulho tornava impossível qualquer conversa normal. Niall soltou uma gargalhada e tomou mais um gole da cerveja. Limpou o canto da boca com a mão e falou algo, mas eu não consegui entender. – O quê?! – Gritei e ele repetiu. – O quê?! – Ainda não conseguia entender.
- Eu sei que somos demais! – Ele repetiu; dessa vez puxando-me pela cintura e falando em meu ouvido. De um jeito esquisito, mas bom, senti um leve frio na barriga, extremamente consciente de cada parte de sua mão que tocava a minha cintura. Por um momento, eu me esqueci de responder seu comentário metido.
- Para uma banda de garagem... – Deixei a provocação morrer enquanto observava a diversão em seu rosto.
Falar com Niall era tão bom, era tão leve e despretensioso; era como se não precisasse de esforço para manter qualquer assunto e até mesmo o silêncio não era desconfortável. E, no fundo, eu sabia que gostava disso mais do que seria considerado normal ou “apenas uma companhia agradável” ou “apenas amizade”. Pelo amor de Deus, eu mesma o beijei há apenas algumas horas atrás!
- Banda de estúdio de dança, mais precisamente. – Riu em meu ouvido, sua mão ainda segurava minha cintura de forma que estávamos muito pertos um do outro.
- Trabalho da escola. – Dei outra definição para a banda deles, fazendo-o rir.
- Dever de casa. – Encolheu os ombros e piscou para mim. – Será que vamos reprovar?
- Se vocês variarem um pouco o repertório, algo além de In My Place, com certeza! – Belisquei seu braço.
- Ouch. – Ele fez um biquinho. – Isso não é tão fácil quanto parece, ok? Estou ensinando o Harry a tocar violão, e olha...
- A gente fucking detonou aquele palco! – Harry apareceu de repente, pulando em cima de Niall, fazendo-o se afastar. – Você é fodão, né, Horan! – Ele riu e bateu no peito de Niall, que apenas riu junto e balançou a cabeça.
Pelo que eu podia conhecer de Harry, ele estava para lá de bêbado. E eles só desceram do palco há meia hora. No palco, o vocalista estendeu uma nota para acompanhar o fim da música e, muito provavelmente, o fim da apresentação; a bateria e a guitarra também aumentaram, formando um barulho alto e até irritante. De repente, eles pararam e todo mundo no pub foi à loucura, aplaudindo os caras.
- Vocês só tocaram três músicas. – Revirei os olhos, rindo de Harry, que me deu a língua.
- E você estava gostando muito, eu vi! – Apontou para mim, vitorioso.
- Eu também vi. – Niall me deu um sorriso de canto, quase íntimo.
- Gostei sim, não nego. – Ri. – Só gosto de abaixar tua bola. – Impliquei.
- Você não pegou uma cerveja para ela, Niall? – Harry mudou completamente de assunto, franzindo o cenho para o amigo. – Não tem como te defender, cara! – Ele riu.
- Ela não quis. – Niall se defendeu.
- Como assim, ?! Hoje é festa! Precisamos comemorar! – Ele levantou sua garrafa para cima e gritou para o resto do bar. – Hoje, o Tabern! Amanhã, o mundo! – Brindou e todo mundo, pelo menos os que ouviram, olhou para ele como se fosse um louco.
- Vai com calma, Cérebro, você não consegue nem falar o nome do pub corretamente. – Niall riu. – Quem dirá dominar o mundo!
- E o que eu disse? – Harry fez um bico enquanto pensava. – Ah, isso não importa! – Ele deu de ombros e foi pulando em direção à multidão.
- Esse Harry... – Niall riu consigo mesmo.
- Você se acostuma. – Abri um sorrisinho.
De repente, ouviu-se um agito perto do palco, algumas pessoas batendo palmas e gritando, quando uma garota subiu ao palco e beijou o cantor que se apresentava. Ele, com os olhos vidrados nela, que olhava para algumas pessoas abaixo do palco, pediu que ela cantasse uma música com ele. A garota, obviamente, ficou toda sem graça, mas acabou aceitando quando o rapaz pegou sua mão e a colocou em seu coração, dizendo-lhe algo com o olhar.
Por um segundo, foi desconfortável assistir àquela cena.
Ele então começou:
- Let’s Marvin Gaye and get it on... – Cantou e algumas garotas que estavam no pub soltaram gritinhos.
A guitarra e a percussão então começaram a acompanhar a melodia e, assim, a música começou, e todos no bar formaram duplas para dançar aquela música mais... Calma.
- Argh! Essa música é horrível! – Niall jogou a cabeça para trás e gritou, fazendo-me rir de sua expressão.
- Não seja tão chato!
- Eu duvido que dez pessoas aqui saibam quem é Marvin Gaye. – Arqueou as sobrancelhas.
- Você ficaria impressionado. Dizem por aí que quem frequenta pubs são os mais intelectuais... – Argumentei. – Vamos apenas dançar. – Sugeri, puxando-o pelos ombros. Ele pareceu um pouco surpreso no início, mas, por fim, colocou suas mãos em minha cintura e começou a mover seus pés. Abri um sorriso para ele. – Viu? Não é tão ruim.
- Você já viu o clipe, né? – Ele riu, incrédulo.
- Está com medo de acabar me beijando, Horan?
De onde essa veio, eu não faço ideia.
Ele sorriu.
- Ansioso, eu diria. – Deu de ombros e me segurou pela mão, fazendo-me rodar em torno de meu próprio eixo. Segurou-me pela cintura novamente, só que mais perto. – E você?
- Mal posso esperar. – Falei, provocando risadas vindas de ambos.
Então, do jeito mais natural possível, Niall soltou um lado de minha cintura e a pousou sobre minha bochecha, acariciando-a com o polegar. Traçou uma linha até meus lábios, onde acompanhou o formato com a ponta do dedo e levantou o olhar para mim com seus olhos azuis. Eu podia sentir meu coração acelerado, batendo contra meu peito e, por um segundo, eu achei que fosse passar mal, sem ar, ou sofrer um infarto, o que viesse primeiro.
Mas, primeiro, vieram seus lábios.
Ao fundo, várias pessoas aplaudiram e gritavam quando a música acabou, mas, para mim, ela havia apenas parado no tempo, como aquele momento em que eu sentia a maciez e a pressão de sua boca contra a minha. E sua mão, que acariciavam gentilmente minha cintura, trazendo-me para perto o quanto fosse possível. As minhas mãos, ansiosas e pacientes, ao mesmo tempo, emaranhavam-se em seus cabelos curtos e macios, tentando, também, traze-lo para perto de mim.
- Ahn... – Alguém pigarreou atrás de mim, interrompendo nosso momento. Afastei-me de Niall, meio contra a vontade, e olhei para a pessoa que chamava nossa atenção. Era . – Eu realmente não queria interromper esse momento mágico... – Ela se segurava para não rir da cara que eu estava fazendo para ela. – Mas, , você precisa ir. Agendamos o check-in para as sete horas, lembra?
Ah, droga. O hotel.
Eu ia ficar em um hotel por causa da entrevista que eu tinha amanhã na Universidade de Oxford.
Eu precisava estar bem para essa entrevista.
- Ah, sim. Obrigada, ! – Sorri para ela, afastando-me de Niall quando me puxou pelo braço em direção à saída do pub. – Tchau, Niall! – Virei-me para trás, despedindo-me. Ele estava lá, com um sorriso no rosto e acenou para mim, parecendo meio aéreo.
Quando já tínhamos nos despedido de todos e estávamos longe o suficiente, ou seja, no táxi em direção ao London Bridge Hotel, olhou para mim daquele jeito curioso.
- Ai. Meu. Deus. ! – E assim ela começou as perguntas sobre o que havia interrompido no bar.
Como eu amo a minha melhor amiga, pensei antes de começar a contar todos os detalhes que ela queria saber.


Louis’ POV
Nós havíamos acabado de nos apresentar pela primeira vez. Apesar de sermos a banda mais inexperiente do local, o resultado foi muito satisfatório, relacionado ao que eu imaginava que seria. Tocamos bem. E além disso, a sensação de estar no palco era simplesmente irada!
Descemos do palco e desplugamos nossos instrumentos rapidamente, para dar lugar à próxima banda. Os primeiros cinco minutos depois da apresentação foram uma loucura total, precisávamos levar tudo para a Kombi e liberar espaço para as próximas bandas, então nem tivemos tempo para comentar praticamente nada.
Então nós finalmente paramos, e podemos respirar pela primeira vez.
- Cara, isso foi demais! – Liam disse, batendo em meu ombro e fazendo um toque com Harry.
- Foi ótimo. Foi irado. Foi foda! – Concordei, dando tapinhas no ombro de Niall, que estava em minha frente. – Aí, cara!
Ele riu, concordando comigo.
- Foi bem melhor do que eu imaginava. Achei que o nervosismo ia cagar com a gente, mas acabou ajudando.
- Garotos, foi ótimo. – se aproximou sorrindo. – De verdade, eu me diverti! E também vi as pessoas lá na frente se divertindo.
- Valeu, ! – Liam agradeceu a abraçando pela cintura. A careta que ela fez pelo abraço repentino dele me fez rir. Liam era enorme perto da .
Estávamos todos muito agitados, e ninguém estava realmente pronto para ir embora, apesar de ninguém ter dito nada em relação a isso. Estava meio que pairando no ar. Todos pareceram ter se divertido com a gente, o que era ótimo. Menos uma pessoa, que não estava ali.
Olhei em volta, e parei ao sentir uma mão em meu ombro.
- Vocês foram foda! – riu, me abraçando brevemente. – Eu adorei, foi ótimo. Estou orgulhosa.
- Valeu! – Ri correspondendo o abraço. Ela se afastou e deu alguns tapinhas em meu braço. estava realmente diferente, e agora eu já estava mais acostumado com isso. Era inegável que ela estava mais bonita. Ela parecia brilhar mais. Só o fato de podermos ver seu rosto com clareza, os olhos azuis... Ela era linda. Só que antes não deixava ninguém ver. – Quando for famoso eu não vou esquecer de você. Não se preocupa, não.
Ela riu.
- Se esquecesse eu te quebrava.
Ri e balancei a cabeça.
- Aí... você viu a ? Por que ela saiu no meio da música?
- Eu não vi – ela disse, olhando em volta e parecendo perceber que ela sumiu apenas agora.
Fiz uma careta, incomodado pelo fato de que, sem explicação nenhuma, ela fora a única que perdeu quase toda a apresentação.

Estávamos do lado de fora do pub, na porta dos fundos próximos à Kombi. Zayn e Liam terminavam de guardar a bateria, enquanto os outros se preparavam agora para cada um seguir o seu caminho. Harry catava suas coisas espalhadas por dentro da Kombi e enfiava tudo em uma mochila só, enquanto , com a ajuda de e , separava as coisas dela do porta malas.
Dei a volta pelo pub, indo até a porta da frente, onde havia uma leve movimentação. Dava para ouvir a música da outra banda soando lá dentro. Comecei a me perguntar se havia sumido, fugido, sei lá, até que a encontrei fumando um cigarro escorada na parede do outro estabelecimento fechado ao lado do pub.
Fui até lá com as mãos nos bolsos e, ao me ver parar em sua frente, ela abaixou a mão com o cigarro e soprou a fumaça para outro lado.
- O que te deu?
Ela apenas deu de ombros.
- Eu esperava que você fosse assistir. Pensei que tínhamos um trato.
- Eu disse que ia considerar assistir. – Ela me lembrou.
- E por que decidiu não assistir? Ia perder o quê?
Cara, ela me deixava tão curiosos. As suas atitudes, elas não tinham sentido nenhum para mim. Ela era confusa demais. Eu queria saber se era só eu que não entendia porque ela fazia as coisas que fazia.
suspirou, tragando de novo o cigarro pacientemente. Bufei e tomei o cigarro da sua mão e ela me olhou, surpresa por um momento. Depois deu uma risada, com um sorriso divertido.
- Que rebelde, Louis.
Revirei os olhos.
- Por que você fica fugindo das coisas?!
Ok. Agora eu me sentia a mulher da relação.
respirou fundo e olhou para algum lugar longe de nós.
- Não gosto daquela música.
Franzi o cenho.
- In My Place? - Ela assentiu. - Por quê?
- Devolve o meu cigarro. – Ela estendeu a mão para mim. Hesitei por um tempo, até ver que ela falava sério, e devolvi. bateu a ponta para as cinzas caírem e tragou outra vez. Depois voltou a falar. - Você já ouviu alguma música que não lembrava que existia, mas quando ouviu te fez lembrar de algum momento do passado?
Não, mas eu entendia o que ela quis dizer, então assenti. Ela assentiu de volta, dando a entender que fora essa a situação.
Pensei por um momento, e então balancei a cabeça.
- Ok. – Concordei, por fim. Eu sabia que não adiantaria perguntar. era difícil. – Vai fazer o quê agora? – Perguntei, por fim.
- Eu... – Ela franziu o cenho. Pareceu hesitante sobre algo. – Queria ir a um lugar. Visitar uma pessoa.
- Tá bem. Vou chamar um táxi pra você. – Disse, já tirando o celular do bolso. agradeceu, depois de terminar seu cigarro. – Você volta? Se quiser carona de volta para o colégio, eu vou voltar. Fiquei de responsável por devolver a Kombi, em Carlisle.
Ela sorriu fraco.
- Não sei se volto.
- Bem... – olhei a hora no celular. – Acho que vou ficar aqui vendo o resto das apresentações, de qualquer jeito. Se você decidir voltar... vou ficar até as oito.
- Louis, não precisa ficar...
- Quero ver as bandas – apontei para dentro do bar e sorri para ela. Não era verdade, mas eu também não estava ansioso para fazer toda aquela viagem de volta sozinho. – Até as oito. Vou esperar. – Disse, me aproximando dela e beijando seu rosto. não se esquivou e nem me xingou, o que já era um grande passo.
Eu voltei para perto de meus amigos torcendo para que ela voltasse para o pub até as oito horas.

's POV
Não sei o que me levou a pensar que visitar meu pai seria uma boa ideia. Realmente, eu não sei. Tentei lembrar dos motivos pelos quais eu achei que aquilo valeria a pena, mas ao chegar lá, aquilo ficou óbvio. Foi a pior ideia que já tive.
Esperei no hall do hospital por quase duas horas até ele ser considerado "apto a receber visitas", e quando entrei, meu pai mal se lembrava de mim. Ele mal me reconhecia. Não lembrava meu nome. Estava tão chapado, com sei lá quantos tipos de calmantes, que se aquilo era estar apto eu não conseguia nem pensar em como ele estava antes.
O problema maior foi que eu me vi nele. Naquela situação, eu só consegui imaginar a mim mesma, e isso começou a me desesperar. Era como se fosse uma doença hereditária, que tomou conta de nós dois... A partir do momento em que ela foi embora.
Não consegui ficar lá por muito tempo, por mais egoísta que eu fosse, porque aquilo estava me sufocando. Meu pai era literalmente a única pessoa que eu tinha, e vê-lo daquele jeito era sempre destrutivo. Eu nunca conseguiria me acostumar. Então, depois de apenas dez minutos, me despedi dele e saí do hospital.

Precisei respirar fundo e pensar sobre o que faria a seguir. Meus planos não eram passar o resto do ano sozinha no St. Bees, mas para falar a verdade eu não tinha outros planos.
Olhei no relógio, e eram sete da noite. Balacei a cabeça e suspirei. Eu ainda tinha Louis.

Acabei me dando por vencida e peguei o táxi de volta ao pub, torcendo para que não houvesse perdido minha carona. Estranhamente, depois de ter estado à beira de um ataque de nervos daquela forma, eu me sentia mais confortável com a ideia de voltar ao colégio com ele do que de ônibus.
Ao chegar no pub a primeira coisa que vi foi a Kombi, ainda estacionada no mesmo lugar. Entrei no bar, que estava ainda mais lotado, mas apesar de procurar com atenção por Louis em meio às pessoas, não o encontrei, então saí de novo e fui até a Kombi.
E ele estava lá dentro, apenas com a luz do rádio acesa no escuro, conversando com uma garota no banco do carona.
Quer dizer, conversando mesmo. Deviam estar falando sobre algo interessante, porque não estavam nem relativamente próximos ao corpo um do outro, e eu nunca havia visto isso entre duas pessoas que se conheceram em um pub. Mas, apesar de eu ter visto eles por, no máximo, cinco segundos, soube que ela não estava ali para conversar, e definitivamente não esperava que sua noite fosse terminar assim.
Mas ia.
Abri a porta do carona e os dois viraram para mim, um tanto surpresos.
- Ei... Ah. Foi mal.
- , ei! - ele sorriu e a garota olhou para ele, e depois para mim, e depois para ele.
- Ela...
- É minha amiga, que eu estava esperando. - ele explicou. - então, está pronta? Vamos?
Assenti, e olhei para a garota esperando que ela descesse.
- Hum, ok. Bom. Foi legal te conhecer - ela disse, aproximando-se para beijá-lo, e ele tocou o ombro dela e desviou o rosto, a abraçando brevemente e arregalando os olhos para mim. Ri fraco.
A garota desceu da Kombi e desapareceu, voltando para o pub, e tomei o lugar dela.
- Ahn... Que constrangedor. - ele pigarreou, dando partida no carro.
Balancei a cabeça.
- O que...?
- Não sei. Não pergunte. Muita coisa estranha pode acontecer quando você passa uma tarde toda em um pub.
Ri, olhando pela janela.
- Estávamos falando sobre Star Wars. Quer dizer... Star Wars! - ele exclamou, parecendo indignado consigo mesmo, e um bom tanto aliviado por ter se livrado daquela situação desconfortável. Eu não conseguia parar de rir imaginando a cena. - quer dizer, eu estava falando, acho. Deus.
Comprimi os lábios e suspirei, me recompondo. Olhei para ele, que me olhou de volta e riu, me fazendo rir de novo.
- Acho que estava certa. No fim sou eu que sempre te devo algo.
- De nada. - dei de ombros, sorrindo.

A viajem correu tranquilamente por bons minutos. Eu estava cansada, provavelmente Louis também, mas ainda tínhamos caminho a percorrer.
- Você comeu?
- Não desde o almoço. - respondi.
- Tem um saco de pipoquinhas lá atrás, acho.
Tirei o cinto e virei para trás, alcançando o pacote e o puxando para frente. Eu realmente estava com fome. Ofereci a ele, que pegou um pouco com uma mão.
- Me conta sobre a sua tatuagem. A das costas.
- Hmmmm... - coloquei algumas pipocas doces na boca, sentindo mais fome do que antes. - Eu estava bêbada quando fiz. Significa algo em arábico. Acontece que a sóbria realmente gostou. - dei de ombros e ele me olhou e riu.
- Você não sabe o que significa?
Fiz que não.
- É uma letra de música. Eu só não lembro qual parte da música.
Louis gargalhou. Ficamos em silêncio por um tempo, até que ele perguntou:
- O que te lembra In My Place? - me olhou, esperando uma resposta, mas não consegui dizer nada. Quando aquela música tocava, me transportava de volta àquele momento, como se eu estivesse lá. Eu podia sentir o ar gelado daquela tarde. Eu podia sentir o cheiro da grama cortada. Depois daquele dia, durante meses aquela música me perseguiu e, quando a ouvia, eu praticamente pirava. Levou muito, muito tempo para alcançar a estabilidade em que eu me encontrava agora. Perto do que já fui, eu estava praticamente perfeita. Mas sempre havia aquele sentimento de estar com um pé na beira do abismo. Isso nunca acabaria.
- É muito ruim, não é? - ele continuou quando eu não respondi. - . – Chamou.
Assenti, esperando que apenas um aceno de cabeça fosse o suficiente para que ele esquecesse daquele assunto.
- Tudo bem, não vou insistir. Mas quero que saiba. Eu queria te ajudar.
- Não tem porque me ajudar.
- Não tente dar uma de garota perdida comigo, . Eu conheço você, agora. Você é melhor do que aquela pessoa que dizem. Não tem porque fingir ser essa pessoa.
- Você não me conhece. Eu sou exatamente aquela pessoa, Louis. - olhei-o. Queria que ele entendesse de uma vez por todas. - Se fosse inteligente, se afastaria.
Lou sorriu fraco.
- Inteligência nunca foi muito a minha praia.
Suspirei. Louis não fazia ideia de quem eu era. E o pior era que ele achava que sabia, e achava que eu era melhor do que aquilo. Ele me via diferente. Eu queria ser quem ele enxergava em mim, mas não era, e nem seria.
- Ok. Vamos esquecer esse assunto. - ele disse, levando a mão para aumentar o volume do rádio. Trocou de estação por algum tempo até encontrar alguma música decente, e deixou que o som preenchesse o silêncio entre nós.
- Ugh, amo essa música - falei e aumentei bastante o volume, ao ouvir os primeiros acordes de Robbers, The 1975. Era uma banda bobinha, pouco conhecida, mas a música era ótima.
Louis começou a acompanhar o ritmo da música batendo os dedos no volante, e eu abri o vidro da janela e fechei os olhos, sentindo o ar gelado em minha pele. Naquele instante, durante a primeira parte da música, aquela melodia me preencheu. Ao fechar os olhos, eu era a música, eu sentia a música. Ela estava dentro de mim.
Depois do primeiro refrão, senti a velocidade em que estávamos aumentar e, consequentemente, o vento soprar com mais força ainda em meu rosto. Abri os olhos e olhei para Louis, que também tinha o vidro da sua janela aberta e balançava a cabeça, enquanto seus cabelos voavam. Ele me olhou e abriu aquele sorriso atrevido, de quem está planejando alguma coisa.
Ele se virou para frente novamente, e só pude notar o ponteiro apontando para os cem por hora, quando Louis fechou os olhos e soltou o volante, colocando a cabeça para fora da janela e gritando:
- Now if you never shoot you’ll never know!
Arregalei os olhos e segurei o volante rapidamente, antes que o carro saísse da estrada, que estava completamente vazia.
- Louis!
- And if you never eat you’ll never grow! – Ele gritou lá fora.
Revirei os olhos e prestei atenção à estrada, e ele voltou a sentar direito no banco, segurando o volante com uma mão.
- Canta! - Você tá maluco? Vai matar nós dois!
Louis piscou algumas vezes, me encarando ainda com aquele sorriso.
- Pensei que fosse isso que você queria.
Abri a boca para dizer alguma coisa, mas o quê? Eu entendi onde ele queria chegar. Louis queria me fazer viver.
Levei a mão ao botão do volume e botei no máximo, bem quando a música parava por um segundo, só para voltar ainda mais alta no segundo seguinte. E , como ele pediu, eu cantei. Simplesmente cantei, esquecendo de qualquer coisa. Louis me acompanhou, e logo éramos dois malucos, gritando a letra de uma música há mais de cem quilômetros por hora em uma rodovia vazia.
- Now Everybody is dead! - Cantamos o mais alto que pudemos, com a música gritando mais alto do que nossa voz.
- And they’re driving past my old school. And he’s got his gun, he’s got his suit on.
Tirei o cinto e fiz igual a ele, colocando boa parte do corpo para fora da janela, sentindo o vento empurrar meus cabelos para trás. A estrada estava completamente deserta e extremamente escura. O vento gelado ameaçava cortar minha pele. Mas precisei dar o braço a torcer e sentir aquilo. Porque, exatamente como ele planejava, eu me sentia viva. Doía, e machucava, e não era nada como eu me lembrava. Mas era terrivelmente bom.

“She says babe you look so cool... You look so cool... You look so cool...”


Liam’s POV

- Babaca! – Maddison gritou quando eu ultrapassei um cara que havia me fechado no trânsito.
Olhei para ela de soslaio, observando sua atitude.
- Eu não gostaria de descobrir se aquele cara tem uma arma, então... – Subi seu vidro pelo comando que tinha em minha porta. – Vamos manter essa janela fechada, ok? Ok.
Por cinco segundos inteiros, pude sentir seus olhos queimando a minha alma.
- Você não manda em mim. – Declarou. – Além disso, a minha vida também foi colocada em risco por aquele babaca, por isso, parte do protesto cabe a mim, também.
Olhei para ela, novamente, decidindo-me se realmente valia a pena responder.
Desde que voltamos de Londres, ela estava um pé no saco. Nada estava bom.
Acontece que, ao que parece, não queria nada de surpreendente no Natal, ouvi alguma coisa sobre isso quando ela chamou o pai para conversar em seu quarto depois que ele e minha mãe anunciaram que teríamos a família para as festas de fim de ano conosco. A casa é grande, temos muita comida e amor para dar. Mas não acha isso.
Óbvio.
Mas eu meio que entendia; era a minha família, não a dela. Na verdade, eu nem imaginava até que grau a família dela se estendia, mas me parecia que ela não tinha mais que os pais e, quem sabe, algum avô ou avó. Uns tios, no máximo. Apesar da curiosidade, não faria perguntas sobre isso. Não a ela, pelo menos.
- Olha se cabe. – Pedi a ela antes de girar o volante do carro. De onde eu estava, parecia que ia caber, mas, do lado dela, eu não tinha tanta certeza.
- O papai travou o meu vidro. – Debochou.
Destravei os vidros e abaixei o dela, sem responder.
- Acho que dá. – Disse, colocando a cabeça um pouco para fora da janela.
Manobrei o carro e o posicionei para que entrasse na vaga.
- Holy fuck! – Gritei quando o retrovisor da porta de quase se chocou com o retrovisor de outro carro. – ! Você disse que ia dar!
- Ops. – Ela soltou uma risadinha cínica.
- Você sabe que esse carro é do seu pai, não sabe?!
- Meu pai está só um pouco acima de você na minha lista de coisas favoritas nesse mundo. Ou seja...
- Pelo amor de Deus, . – Bufei antes de sair do carro rapidamente, irritado.
Ela fechou a porta também e puxou os cabelos para trás, num rabo de cavalo alto.
- Suas orelhas vão congelar. – Falei ao passar por ela.
- Eu quero meu cabelo assim, então ele vai ficar assim. – Ralhou. – E não vou ficar aqui fora, anyway.
Esbarrou em meu ombro ao passar por mim e continuou andando, à frente, em direção à entrada da Debenhams. Minha mãe havia feito uma lista de presentes naquela loja, então nosso serviço ali era só escolher alguns, pagar e tchau. Peguei meu celular novamente para ver quais parentes minha mãe me pediu para presentear. É claro que, tecnicamente, quem estava presenteando era, na realidade, minha mãe, mas ela insistia em dizer que, se era eu quem entregava então o presente era meu.
- Ele tem uma lista de presentes aqui. – Ouvi dizer ao atendente que se ofereceu para ajudar.
- Nós temos uma lista de presentes aqui. – Corrigi, abraçando-a pela cintura. – Ainda não se acostumou com o pronome, Sra. Payne? – Falei para ela, fingindo que éramos um casal de recém-casados.
- Ugh. – Ela tirou minha mão dali com um tapa.
- Maryl Payne, por favor. – Pedi, rindo. O atendente olhou para mim e depois para ela, parecendo se decidir do que fazer, ou como nos tratar.
- Um minuto. – Ele, por fim, sorriu e foi buscar alguma coisa.
Depois que ele voltou com um tablete com a lista de presentes, eu e fomos à caça.
- Ainda não entendi porque eu tive que vir. – Ela murmurou, cutucando uma toalha.
- Eles estão tentando fazer a gente virar amiguinho. – Declarei.
- Estão perdendo tempo.
- Por quê? Na escola você parecia bem de boa comigo. – Franzi o cenho, olhando-a por cima do ombro.
- Você é tão inocente! – Provocou. – Só é necessário falar “escola” para significar falsidade.
Revirei os olhos.
- Bom, minha mãe não marcou nada dessa sessão. – Olhei as camas montadas e os manequins vestidos de roupão.
- Ótimo. O que ela marcou? – tirou o tablet de minhas mãos. – Um vaso de cristal? – Fez careta.
- Tia Roxy gosta de cristais. – Defendi a escolha de minha mãe.
- Tia Roxy deve criar vinte e sete gatos e cuidar do jardim o dia todo.
- Bom, ela tem um jardim, mas é alérgica a gatos. – Dei de ombros. Ela bufou e mudou a tela do aparelho. – Não vou responder suas provocações, . – Avisei.
- É uma pena. Você fica um gato quando está bravo. – deu dois tapinhas em meu ombro antes de passar por mim.
Segui-a até a sessão de decoração, onde pegaríamos mais dois presentes além do vaso. parou de frente a uma mesa cheia de cristais de diversas formas e finalidades; alguns cinzeiros, vasos e aqueles animais ridículos que esculpem na pedra, e pegou um vaso de cristal parecido com o que se via na tela do tablet.
- Aí está! – Jogou o vaso para mim.
Peguei o vaso num reflexo, quando ele estava quase perto do meu peito, e tive que me segurar para não xingar.
- Você está maluca?! – Perguntei, indignado.
- Deixa de drama. – Disse, rindo. – Risca o vaso da lista. – Virou-se de costas e voltou a andar pelos corredores. – Qual é o próximo? Um quadro, né? – Virou-se para mim, andando de costas.
- Hm, sim... , cuidado. – Falei.
- Você é tão mandão. – Bufou e virou-se de costas para mim novamente. – Quadros. – Apontou para o corredor, que tinha uma placa indicando “quadros” em letras garrafais pretas, pelo qual ela passou reto.
- Obrigada, Captain-Obvious! – Fingi continência e entrei naquele corredor, sem realmente me importar aonde ela iria.
Olhei atentamente em todas as prateleiras em busca do mesmo quadro que minha mãe pedira. Agachei-me para poder analisar os quadros das prateleiras mais baixas.
- Por que sua mãe não mandou entregarem? – As pernas de , protegidas apenas por uma saia e meia-calça, entraram em meu campo de visão. Olhei para cima e a vi encostada à estante com os braços cruzados.
- Ela é do tipo antigo, sei lá. – Respondi.
- Do tipo antigo que faz uma lista de desejos em um site? – Insistiu.
- Qual é o ponto nisso tudo? – Levantei-me quando, enfim, achei o quadro e, mais que isso, achei o quadro dentro de sua respectiva caixa.
- Apenas conversar, Payne.
- Parece mais que você está tentando ofendê-la ou algo assim.
- Eu? Jamais! – Defendeu-se, mas, honestamente, eu não acreditava tanto assim em sua inocência. – Ela parece bem expert nisso de fazer compras...
- Vamos parar com os julgamentos? – Pedi, já impaciente.
- Ok, Liam, mas ela parece! Que mal há de falar assim? Parece, sim, que ela é uma consumista compulsiva! Às vezes as pessoas parecem fazer coisas, mas eu não estou dizendo que ela é um monstro por fazer isso! E eu nem sei se ela faz! Por isso eu estou te perguntando! Para obter informações e, então, acabar com julgamentos! É assim que a vida segue! Vivendo e aprendendo, vivendo e aprendendo! – Ela colocou as mãos na cintura, exasperada. – Qual é o próximo presente?
- Um jarro de biscoitos no formato de um Bulldog. – Franzi o cenho.
Eu sabia que ela ia falar alguma coisa sobre aquilo.
- Você tem certeza de que a sua família é normal?!
- Ahn... – Tentei achar alguma desculpa, mas, por fim, apenas levantei o quadro que havia pegado da lista que dizia “Lembre-se de que, até onde todo mundo sabe, nós somos uma família normal”. Abri um sorriso.
Surpreendentemente, após um ou dois segundos encarando o quadro, ela riu.
- Você é ridículo, Payne. – Suspirou entre uma risada e outra. – Vamos pegar esse Bulldog e ir para a sessão de jardinagem, porque é o que você provavelmente vai ganhar de algum parente normal que você tem.
- E você, que não vai ganhar nenhum presente? – Arqueei uma sobrancelha.
- Garotinhas más vão aonde querem. – Rebateu sem nenhum sorriso no rosto. Ela apenas assumiu a cara fechada de sempre e continuou andando.
Ótimo, Liam. Ótimo.


’s POV

- , querida, pode me passar a pimenta moída, por favor? – Pediu Adhira enquanto mexia uma panela com uma colher de pau.
- Claro. – Levantei-me da cadeira e peguei o pequeno frasco com o tempero, entregando-o a ela. Sentei-me novamente em minha cadeira e voltei a ler meu livro.
Pelo canto do olho, num momento de distração, vi quando Adhira colocou a pimenta na panela e o cheiro ganhou outro aroma, totalmente diferente, mas inconfundível para mim. Fechei o livro – que eu já havia deixado de ler há muito tempo, tamanha era minha dificuldade de me concentrar naquele momento – e fitei a parede da cozinha. O calendário de minha mãe, sempre colorido e abarrotado de post-it, decorava aquela parede, ao lado da janela que dava vista para o jardim, que agora era apenas um punhado de plantas sem folhas e sem cor. Minha mãe chegava hoje da Holanda, onde estava hospedada por alguns dias para relaxar.
O Natal era sempre um estresse.
Meu pai estava dormindo, ainda. Quando ele tirava férias da construtora, ele dormia até duas horas da tarde do dia seguinte. Eu não o culpava, estava sempre de um lado para o outro do país, fechando contratos ou em conferências de empreendedores bem sucedidos ou congressos científicos. Ele era o meu orgulho, de verdade. Eu já o admirava quando era apenas o dono da Construction Company, mas, quando ele se engajou na vida acadêmica, também, e começou a publicar suas pesquisas em congressos e revistas acadêmicas, eu talvez entrasse em combustão espontânea cada vez que ele adicionava um novo certificado em seu currículo.
Desviei minha atenção para a miúda indiana que pré-cozinhava a nossa ceia de natal.
- O que você está fazendo? – Perguntei, indo para seu lado.
- Sua mãe pediu molho béarnaise para acompanhar o filé mignon. – Explicou enquanto mergulhava a pequena panela do molho numa panela maior com água.
- Vamos ter filé mignon para o Natal? – Franzi o cenho. – Nós nunca temos filé para o Natal.
- Bom, sua mãe foi bem específica quando me passou a lista de compras da ceia, . – Adhira continuava falando sem se dar conta da raiva que ia me tomando.
- Ela escolheu isso? – Olhei para a panela com o molho. O cheiro estava maravilhoso e eu podia, pelo aroma, revisitar memórias e sensações que eu nem sabia que tinha guardadas em minha mente.
- Sim, acho que ela quis mudar um pouco. – Deu de ombros.
Encarei a pilha de vasilhas que iam para a geladeira. Cada uma tinha seu post-it, claro. E lá estava o papelzinho verde-limão, gritando “filé” em letras garrafais pretas. Adhira teria folga até a segunda semana de janeiro, por isso estava deixando a comida pronta. E lá estava o filé. Apoiei meu peso na bancada, sentindo tudo ficar meio turvo. A moça ao meu lado estava completamente alheia e agora falava sobre algum passeio que faria com seus sobrinhos antes do Ano-Novo, mas eu não conseguia focar em suas palavras. O maldito filé parecia preencher toda a cozinha. Eu me sentia sufocada, como se não houvesse espaço para mim e aquela vasilha com seu post-it.
- Bom dia, querida. – A voz de meu pai me tirou de meu transe. Seguindo o som, levantei a cabeça e o encontrei parado na porta da cozinha, vestindo seu roupão azul escuro e pés descalços.
- Boa tarde. – Respondi com um pouco de dificuldade. Abri um sorriso ao ir ao seu encontro para dar-lhe um abraço, sentindo-me automaticamente bem.
- Como foi a viagem? – Perguntou enquanto passava as mãos em meus cabelos. – E a entrevista? Vamos, finalmente, mexer naquela poupança?
Afastei-me dele, indo de volta para a mesa.
- Muito em breve, meu caro. Não sei se já saiu nos jornais, mas elogiaram minha eloquência. – Gesticulei a palavra com toda a glória que poderia existir naquela observação da entrevistadora.
- Oh, sua eloquência, claro, como não notar? É o que mais chama atenção em você! E eu achando que boas notas e ambição influenciavam alguma coisa... – Entrou no meu teatrinho.
- É um mundo novo, pai. Toda essa coisa do século 21. – Passei minha mão em seu ombro, confortando-o. – Todo esse wifi, Wikipedia e Kim Kardashian... São novos tempos, Sr. !
- Quem é Kim Kardashian? – Ele parou a brincadeira, franzindo o cenho.
- Não foi a última ganhadora da Medalha Fields, com certeza. – Ri.
- Falando nisso! – Meu pai exclamou com um semblante de quem parece se lembrar de algo extremamente incrível. – Estive com o homem que ganhou a Medalha do ano passado.
- Sério? Isso é incrível, pai. – Abri um sorriso sincero para ele, que me retribuiu com um brilho no olhar.
Antes que ele pudesse ir além, a porta da frente da casa foi aberta e era possível ouvir as vozes de, pelo menos, umas quatro pessoas. Dentre elas, minha mãe.
O monstro em cima da bancada da cozinha gritou e caiu por cima de mim como uma manta, cobrindo cada parte de mim e entorpecendo cada membro.
- ! – Minha mãe entrou na cozinha.
Ela estava radiante.
Levantei-me, honestamente feliz por vê-la. Eu podia dizer isso com todas as letras.
Eu não tinha raiva da minha mãe. Ela foi tão vítima quanto eu. O que realmente tornava as coisas difíceis era ter que aceitar que ela seguiu em frente. E eu não.
O filé abriu uma cratera em mim.
O filé que ela mandou comprar.
O filé que ia estar na ceia de Natal.
E Catherine não estaria.
- Como foi Oxford? – Ela sorriu.
- Elogiaram a eloquência dela. – Meu pai comemorou, meio jocoso.
- Essa é a minha . – Minha mãe passou as mãos em meu rosto. – E como está a ? O pai dela está bem? E a mãe dela?
- Estão todos bem, mas os pais dela brigaram e agora a mãe dela está em Bristol. – Suspirei ao pensar no drama pessoal de minha melhor amiga.
- Não foi um ano fácil para ninguém. – Ela concluiu. – Bom, eu já volto. Querido, as minhas amigas estão aqui. Poderia vestir algo mais apropriado, por favor? – Pediu.
- Ah, claro. Tudo bem. Achei que fosse gostar do seu homem assim. – Piscou para ela e eu fingi que não vi aquela cena.
- Só para mim. – Ela entrou na brincadeira.
- Então. É ótimo ver que vocês ainda se amam e tal... Mas eu não tenho estômago para isso. – Fiz careta, provocando risos neles. Fui até a geladeira e abri a porta, procurando algo para comer.
- Sua tia virá amanhã. – Falou minha mãe. – Por isso, preciso que você fique aqui pelo menos até meio dia para recebê-la.
- E para onde eu iria? – Tirei uma pequena vasilha com um cacho de uvas e comi uma enquanto observava minha mãe abraçar meu pai pelo pescoço, dando-lhe um beijo na bochecha.
Então éramos uma família feliz novamente, pensei.
Adhira pediu licença para colocar as vasilhas da ceia no freezer, o que voltou toda minha atenção ao problema que havia me dominado mais cedo. Olhei para a vasilha fixamente antes de olhar novamente para meus pais.
Como eles ousavam agir daquela forma?
Como eles ousavam esquecer?
O ar pareceu faltar por um breve momento e parecia que as paredes estavam se fechando em mim.
Meu celular apitou, como de costume, àquela hora, lembrando-me de que eu precisava atender as exigências de minha condição. Suspirei antes de voltar à geladeira e pegar uma garrafa d’água. Minha mãe falava com meu pai sobre quem mais viria para o feriado. Parecia uma grande festa.
Dirigi-me à porta da cozinha e, antes de sair, parei no lugar e chamei minha mãe.
- O filé ao molho béarnaise. – Falei. – Não é justo.
E saí.


’s POV
Eu ouvia a risada de Harry. E a de Gemma também. E a voz de Josie e Anne. Todas abafadas no andar de baixo.
Bocejei e sentei na cama, passando as mãos nos olhos e piscando algumas vezes, me acostumando ao quarto escuro antes de levantar da cama quentinha. Abri a cortina da janela e olhei para o dia, levemente claro, mas terrivelmente frio lá fora. Me perguntei como ainda não nevava.
Meu quarto não era nada como eu me lembrava de quando morava em casa. Há cada ano que vinha para casa nas férias havia algo um pouquinho diferente, e dessa vez, ele estava praticamente irreconhecível. Ele se tornara um quarto de hóspedes, apesar de que, se eu falasse isso em voz alta, minha família pensaria que eu estava fazendo drama.
Claro que eu estava. O quarto de Josie permanecia intocado!
Coloquei um casaco mais quente e uma pantufa, fui até o banheiro social do corredor, escovei os dentes e prendi o cabelo para tirá-lo do rosto. Enquanto descia as escadas eu ouvia a conversa ficando mais alta, vinda da cozinha, juntamente com o cheiro de café recém passado.
- Você sabe que eu vou descobrir eventualmente... – Anne dizia sentada à mesa ao lado do filho, enquanto Gemma e Josie lavavam e secavam a louça e minha mãe servia chá a Harry, que ria.
- Ah, bom dia, ! – Anne me viu e levantou para me dar um abraço apertado. – Quase nem te vi ontem quando chegaram. Como você tá diferente! – Ela sorriu, e correspondi o sorriso. Passou a mão em meu braço e voltou a sentar. – Estávamos falando sobre suas notas, Harry não quer me contar como está. – Ela estreitou os olhos para ele, que revirou os dele.
Fui até o outro lado da mesinha redonda e sentei na cadeira vazia, pegando uma torrada e a geleia de uva.
- Isso porque ele está ferrado – Gemma cutucou, fazendo Harry bufar.
- Se você rodar, vai ter que pagar a mensalidade do colégio sozinho – Anne avisou a Harry, dando-lhe um tapa no braço. Ele balançou a cabeça tomando um gole do chá.
- Claro, mãe. Se depender de mim, eu vou super pagar para continuar preso naquela escola.
Anne o ignorou, voltando a olhar para mim.
- , como andam as notas do Harry?
Abri a boca, sem saber o que responder, e olhei para ele. Eu diria que estavam medianas, como sempre foram, mas não podia ter certeza, porque não nos falávamos há bastante tempo. Quer dizer, éramos como dois icebergs um com o outro. Quase congelamos a cabine do trem que nos trouxe a Holmes, não trocamos uma palavra decente a viagem inteira. Foi um horror.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele soltou a xícara e respondeu:
- Ela não sabe. Não falamos sobre isso há algum tempo.
Anne o olhou confusa, e ele deu de ombros.
- Viu, mãe, nem a precisa ficar o tempo todo me questionando sobre as minhas notas.
Minha mãe riu na frente do fogão.
- Deixa seu filho em paz, Anne!
Anne fez cara de afetada, mas riu com todos nós e balançou a cabeça. Por um momento, troquei um olhar com Harry. Talvez ele não quisesse que soubessem a verdade tanto quanto eu. Era constrangedor, desconfortável, chato demais sequer pensar em explicar tudo que estava rolando para nossa família. Sabia que ele sentia o mesmo que eu em relação à nossa casa... Nossa família era uma família decente, e sabíamos que nos amavam, mas nós fomos as ovelhas negras. Eles tinham seus filhos prodígios, que não precisaram mandar para um internato. Nunca nos sentimos inteiramente parte de tudo aquilo.
- Isso aqui é uma delícia, Carla. Tem mais? – Harry perguntou a minha mãe, erguendo o pote de biscoitos, e ela prontamente trouxe outro pacote dos biscoitos, enchendo novamente o pote.
Josie e Gemma terminaram a louça e minha irmã sentou ao meu lado, secando as mãos em um pano.
- A gente devia sair hoje à noite. Só os mais jovens, procurar alguma festa, sei lá. As festas da universidade são legais, mas tem todo aquele negócio das fraternidades, e é um saco. – Ela fez um bico e olhou de mim para Harry. – Você tá um gatinho, Harry. Devia sair com a gente e rever umas antigas colegas – ela riu. – Vai ser legal!
- Se você me quer, não precisa criar a desculpa de me arrastar para uma festa – Harry piscou para minha irmã, que riu.
- Se ao menos eu não houvesse trocado suas fraldas, Styles.
- E eu troquei a de todos vocês. – Gemma comentou.
- Não. Nós trocamos a de todos vocês. – Minha mãe disse, referindo-se a ela e Anne, que concordou.
- Já sabemos que vocês são da idade da pedra – comentei, levando um tapa de Anne.
Acho que elas eram amigas desde sei lá quantos séculos. Suas vidas passadas deviam ter sido melhores amigas ou sei lá.
- Mãe, tem mais chá? – Perguntei, virando para trás para vê-la. Ela trouxe o bule de chá e o soltou em minha frente, voltando ao fogão. Olhei para Harry estreitando os olhos e ele deu de ombros para mim.
Aquele favoritismo dela me dava nos nervos.
- Como vai ser a ceia, mãe? – Josie perguntou.
- Igual à do ano passado. Aliás, tenho que arrumar os lugares, então preciso que me confirme se Desmond vem. - Ela olhou para Anne.
- Ah, sim. Sim. Ele ligou ontem, está vindo de Londres amanhã.
- Desmond está vindo? – Sorri. – Meu pai já sabe?
- Sim, ele já deve ter preparado todo o final de semana romântico perfeito para eles – Anne revirou os olhos e riu. – Ir para o clube pescar, voltar todo acabado...
- Argh. Não tenho mais energia para isso. – Minha mãe suspirou. – Espero que os dois não aprontem muito.
- Ok, eu definitivamente não quero participar dessa conversa. – Harry disse, levantando da mesa com uns biscoitos na mão. – Vou dar uma volta.
- Harry... – Anne chamou, olhando para trás, mas ele já estava saindo pela porta da sala.
Anne suspirou. Harry não tinha o melhor dos relacionamentos com o pai biológico.
- Você pode falar com ele? – Ela me pediu, e engoli em seco, tomando um gole de chá para disfarçar.
- Hmm...
- Eu vou. – Gemma disse soltando o pano que tinha nas mãos. –Harry é tão dramático – ela revirou os olhos, saindo da cozinha também.
Bem, isso era verdade.

Quando éramos crianças, antes dos pais deles se divorciarem, nossos pais eram super amigos. Quando Des foi embora, por um tempo Harry ficou devastado, mas logo veio aquela fase de rebeldia em que ele decidiu que odiava o pai. Robin chegou alguns anos depois, e ele praticamente substituiu o amor paterno de Desmond pelo do padrasto, eles sempre se deram muito bem. Mas Robin e Anne se separaram há alguns meses por causa do serviço dele. Pelo que ela dizia não era nada definitivo, mas estava durando mais tempo do que o previsto. Eu entendia que Harry estivesse confuso, porque agora seu pai estava vindo passar o natal com a gente, como nos velhos tempos, enquanto Robin estava longe dali. Era confuso para todo mundo, mas como a boa família Buscapé que sempre fomos, sempre cabia mais um. Minha mãe adorava a casa cheia.
Terminei de tomar café e tirei nossas coisas da mesa, levando para a pia. Deixei as mulheres conversando e peguei um casaco grosso pendurado no cabideiro da porta e saí, para dar uma volta lá fora.
Nossas casas eram vizinhas, e apesar de a minha ser um pouco maior, a de Harry sempre foi mais confortável. A janela do seu quarto dava para a do quarto de Josie, e às vezes de noite conversávamos por mímica lá de cima quando éramos crianças. Eu nunca entendi bulhufas do que ele queria dizer.
Atrás da minha casa tinha dois balanços e uma roda de parquinho, onde eu e Josie brincávamos. Eles costumavam ser coloridos, mas pelo jeito meu pai esqueceu que aqueles brinquedos existiam há muito tempo. Ao dar a volta na casa, encontrei Harry e Gemma sentados na roda, lado a lado, a girando levemente enquanto conversavam. Fui até lá parando na frente deles.
- Tudo bem com vocês?
Ela fez que sim, sorrindo para mim.
- Como... estão? Em relação a isso?
- Eu estou bem – Gemma deu de ombros. – Mas o Harry aparentemente tá tendo dificuldade em aceitar.
Olhei para ele, que revirou os olhos.
- Eu não sei você, mas passei toda a minha infância ouvindo nossa mãe reclamar do quanto ele fez mal a ela e há toda nossa família. E agora o Robin não tá aqui e ele vai passar o natal com a gente?!
- Harry... Achei que você já estivesse velho o suficiente para entender que às vezes os adultos falam coisas com outro significado. A nossa mãe amava o nosso pai e ele a magoou. Não quer dizer que ela não ame o Robin, só... que agora ela e o pai são bons amigos.
Harry olhou para Gemma.
- Bons amigos. Pf. É isso que vamos ver.
- Ai, Harry, vê se cresce! – Gemma o empurrou. – Mesmo que você nunca entenda, é a vida deles, e não diz respeito a você. Ele ainda é seu pai. – Ela levantou. – Vou voltar para dentro, não vou ficar congelando aqui fora pra tentar mudar a sua cabeça. Você é mais teimoso que uma mula!
Gemma passou por mim voltando para dentro da minha casa, e eu suspirei antes de decidir sentar na roda molhada, sem saber o que falar. Harry continuou girando a roda devagar com os pés.
- Não quero lição de moral.
- Não vou te dar, de qualquer jeito – dei de ombros. Ficamos em silêncio e olhei para cima, suspirando. – Mas você realmente é bem teimoso.




Capítulo 16

’s POV
O colégio estava praticamente deserto. Eu estava sentada em minha cama, aproveitando do silêncio e do quarto vazio, lendo umas partes do roteiro do teatro enquanto a luz do dia cinzento ia embora lá fora e um vento gelado entrava pela porta aberta do quarto, quando Louis apareceu na porta gritando meu nome, fazendo-me olhá-lo.
- Pega o seu bagulho e me segue – foi o que ele disse, sumindo tão repentinamente como apareceu.
Olhei para a porta por uns segundos, esperando por algo, e ri. Voltei a olhar para o roteiro, quando ele gritou lá de fora:
- ! Rápido!
Soltei o ar pela boca e fechei o roteiro, levantando da cama e pegando meu casaco enquanto enfiava os pés nas botas. Antes de sair lembrei que ele pediu que eu levasse... O meu bagulho?!
- Ah, Louis. – Balancei a cabeça, abrindo a gaveta da cômoda e passando a mão por baixo das meias, no fundo da gaveta, pegando uma caixinha velha de fita cassete e enfiando nos bolsos.
Saí do quarto fechando a porta atrás de mim. Eu duvidava que tivesse alguém além de mim naquele corredor, por isso não me preocupei em trancar a porta do quarto. Segui pelas escadas onde Louis já estava descendo, até encontra-lo me esperando no último degrau.
- Quer minha ajuda pra ficar chapado ou o quê?
Ele abriu um sorriso tranquilo e estendeu uma mão para mim.
- Só segura a minha mão.
Soltei uma risada abafada, balançando a cabeça. Louis não precisava de maconha para ser completamente doido. Ele puxou minha mão e a segurou, enquanto me guiava para fora dos dormitórios. Meu corpo todo se arrepiou quando senti o ar gelado do pátio soprar meus cabelos, e soltei o ar fazendo vapor. Louis apertou o passo sem soltar minha mão, e apenas permiti que ele continuasse, o seguindo.
- Posso saber aonde a gente vai? – Perguntei, mas é claro que ele não respondeu. Às vezes Louis achava que vivia um filme, eu tenho certeza.
Subimos até o prédio das aulas, que permanecia aberto para que tivéssemos acesso ao refeitório e à biblioteca, e Louis continuou andando pelos corredores vazios, me guiando até o lado sul do prédio, que tinha as escadas para o auditório.
- Ok, Louis. – Parei antes que descêssemos a escadaria e puxei minha mão. Ele me olhou. – Obviamente a gente não pode entrar aí, e mesmo que você queira dar uma de rebelde, não tem a... Minhas palavras morreram quando ele tirou um molho de chaves do bolso e o balançou em minha frente, sorrindo maroto. Comprimi os lábios.
- Não sei se quero saber como você conseguiu isso.
- Vamos lá. – Ele disse, descendo as escadas em seguida até as grandes portas de madeira do imenso auditório do St. Bees. E é claro que eu o segui. Eu adorava aquele lugar, seria hipocrisia negar. Fiquei parada do lado de dentro da porta até Louis encontrar o disjuntor e ligar todas as luzes do local. Olhei para fora, mas ninguém parecia estar daquele lado do prédio, então fechei a porta de madeira e o segui até perto do palco.
- O que você planeja fazer comigo e o meu “bagulho”? – Perguntei a Louis já em cima do palco e ele estendeu a mão para me ajudar a subir. Segurei sua mão e Louis me puxou para cima do palco.
- Dar um festa.
- Claro. – Sussurrei. O observei se ajoelhar no chão e posicionar seu celular dentro de um pequeno amplificador de som para o Iphone. Colocou tocar uma música e me olhou, sorrindo como se fosse um gênio.
- Ah, entendi. Você me trouxe aqui para fumar maconha ao som de Twenty One Pilots.
- Eu não tinha nenhuma do Bob Marley no celular. – Deu de ombros. – Acende isso aí logo – riu.

Não demorou muito para a erva fazer efeito em Louis. Talvez eu fosse mais resistente ou talvez estivesse tão chapada quanto ele, mas eu começava a rir de qualquer coisa que ele dizia ou fazia.
Em poucos minutos Louis já estava tentando se equilibrar andando na beirada do palco enquanto tentava cantar a parte rápida de Screen, que definitivamente não estava dando certo.
- Música é o nosso lance.
- Não sabia que tínhamos um lance – levantei a cabeça olhando para ele por uma fração de segundos.
- É claro que temos um lance.
Voltei a deitar, encarando o teto alto do auditório, com algumas estrelas e fita adesiva penduradas nele, parte da decoração do teatro que deixamos pela metade antes das férias. Louis veio até o celular e voltou a música para tentar cantar de novo. Fez isso mais duas vezes até conseguir cantar que “enquanto você está indo bem há pessoas como eu que acham muito difícil passar por essa vida, então nos dê licença enquanto cantamos para o céu.”
Sim, eu estava chapada. Mas era errado me sentir feliz? Talvez as coisas pudessem mudar. Não é?
Balancei a cabeça, por um breve momento voltando a mim mesma e lembrado de porque as coisas não podiam mudar. Mas antes que eu pudesse começar a me martirizar de novo, ouvi um baque e olhei a tempo de ver Louis se estatelando no chão.
- Eu estou bem. – Ele disse, abafado, do chão em frente à primeira fileira de cadeiras, e gargalhei.
Ficamos lá por algumas horas. O cheiro de maconha se espalhara pelo local, e tudo era meio que um borrão para mim. A música alta, as risadas, as frases sem sentido nenhum. Acho que em algum momento tentamos dançar, mas aquilo era tudo, menos uma dança. Eu sentia a pele dele em contato com a minha na maior parte do tempo, em minhas mãos, meus braços, meus ombros. Ele gostava de me tocar, e minha pele gostava que ele me tocasse. Há tempos não me sentia assim, e tentei simplesmente curtir.
- Devíamos jogar strip poker – Louis falou, sentado em minha frente com as pernas cruzadas antes de tragar de novo.
- Não temos cartas.
- Então a gente apenas tira a roupa. – Riu. - Vai precisar se esforçar mais do que isso – pisquei para ele, pegando o cigarro dos seus dedos. – Vai viajar?
- Sim, vou para casa. – Ele deu de ombros e me encarou por um tempo. – Já sei. Você vai ficar, né? - Fiz que sim. – quais são seus planos?
- Trancar a porta do quarto e dormir. – Dei de ombros, batendo a porta do cigarro.
- Não. Não vou te deixar passar os feriados trancada no quarto.
- É, bem... você não vai poder fazer muita coisa.
Louis pegou seu celular do amplificador e eu o observei digitar alguma coisa. Meu celular vibrou em meu bolso quando ele guardou o dele e o olhei de olhos semicerrados enquanto pegava-o do bolso.
Primeira mensagem do resto da minha vida. Vou te mandar todos os dias, e se você não responder, vou encher a sua caixa de mensagem como você nunca viu antes.”
Ri e o olhei.
- Louis, você é péssimo com ameaças.


’s POV
- Está pronta? – Amanda abriu a porta do meu quarto e se apoiou no batente da porta, com os braços cruzados. Parei de desenhar o contorno dos meus lábios, colocando o lápis vermelho na penteadeira. Fitei minha irmã por alguns segundos antes de pegar o batom e passar. Ela estava lá, linda, maravilhosa, completamente desalinhada e completamente perfeita. O cardigã preto aberto por cima da blusa branca com um decote generoso e a calça jeans justa mais os cabelos presos em um rabo de cavalo bagunçado davam a ela o mais completo ar de “eu não ligo”. E ela estava incrível. Eu odeio admitir, mas minha irmã mais velha é linda. – Não? – Insistiu, mas eu não respondi. – Que foi, careta, o gato comeu sua língua?
Tornei a olhar para ela, segurando-me para não gritar.
- Não me chame assim. – Foi o que eu disse. Ela soltou uma risada e entrou em meu quarto, indo em direção ao closet.
- Eu chamo do jeito que quiser. – Declarou enquanto analisava o armário de sapatos. – Hm. – Pegou um par de ankle boots.
- Nem pense nisso. – Falei ao imaginar o que se passava em sua cabeça.
- Tarde demais. – Ela riu novamente e sentou-se em minha cama para calçar as botas. Dentro de mim, senti a raiva se espalhar pelo meu corpo como se ela se misturasse ao meu sangue e corresse por minhas veias, chegando a cada extremidade.
- Estou pronta. – Falei, sem emoção. Meu pai havia pedido que eu e Mandy fôssemos buscar a vovó Sophie no aeroporto. Por mais que eu quisesse, não pude rejeitar.
- Eu também. – Mandy sorriu, cravando seus olhos em mim, daquele jeito feroz, esperando pela minha próxima reação.
Desci as escadas atrás dela, que parecia mais do que alegre por estar indo buscar a vovó, mas nada que vinha dela me convencia e eu sabia que Mandy só queria se certificar de que sua presença me incomodava.
E, de fato, incomodava.
Quando entramos no carro, Mandy tirou o celular do bolso e o colocou no suporte para eletrônicos no para-brisa e o desbloqueou. Ela tomou mais tempo que o necessário para abrir o aplicativo de GPS apenas para que eu visse seu papel de parede, que era basicamente ela enfiando a língua na goela de Owen. Mas o bastardo parecia estar gostando. Suspirei e desviei o olhar, pedindo ao universo que aquela pequena viagem até o aeroporto não fosse absolutamente terrível. Ela deu partida no carro e começamos nossa jornada até nossa querida vovó.
- Então, . – Eu odiava o som do meu nome na boca de Mandy. Ela pronunciava todas as letras e soava como uma cobra. Virei meu rosto minimamente para ela, esperando que aquela não fosse a ruína de perfeitos vinte minutos de silêncio entre nós desde que o carro começou a andar. – Como está a escola?
- Fantástica. – Falei.
- Oxford vai rolar? – Insistiu na conversa.
- Harvard. E sim, vai rolar. – Menti. Ainda não tinha feito o ACT e também não tinha sido respondida pelos reitores da universidade, mas as expectativas eram boas, pelo menos.
- Que importante. – Ela disse, mas não havia nada de elogio ou prestígio em seu tom de voz. – E aquela sua amiguinha... – Soltou no ar, esperando que eu completasse, mas eu fiquei calada e esperei que se enrolasse nos prováveis palpites que ela tinha. – Enfim, aquela sua melhor amiga, como ela está?
- Bem.
Ali a conversa morreu.
Dado por entendido que a coisa não ia evoluir mais que aquilo, voltei a olhar para fora do carro, observando a neve acumulada na beira da estrada.
- Pelo amor de Deus, , você não pode ficar brava comigo para sempre! – Mandy falou de repente, o tom de voz um pouco mais alto. Olhei para ela, sentindo o bolo se formar em minha garganta.
Mandy era assim. Ela fazia uma manutenção esporádica das feridas, aqui e ali, sempre que tinha a oportunidade. Ela precisava ter certeza de que eu continuaria sentindo aquilo por mais tempo. Então, minha irmã teria o trabalho de fazer comentários ou deixar “pistas” por aí que fizessem você lembrar o que ela te fez.
- Você tem que crescer, . – Ela continuou. Arqueei as sobrancelhas para ela. – Aconteceu, é passado! Você precisa seguir em frente e aceitar que eu e o Owen estamos juntos.
- Mas antes estava comigo. – Lembrei.
- Mas não está mais! Você precisa parar de se agarrar a memórias tão antigas e rasas...
Rasas?
- Amanda, por favor, não seja tão cínica. – Revirei os olhos, segurando tudo que havia dentro de mim para que eu não explodisse e começasse a chorar. Como eu sempre fazia. Ela estacionou o carro e eu desci assim que pude.
- Como assim cínica?! – Ela veio atrás de mim, correndo com as minhas botas e me parou.
- Você não pode vir aqui e pedir que eu não me sinta mal ou que eu volte a ser sua irmãzinha quando eu também estou machucada! – Mordi o lábio já prevendo o choro que seguiria aquela cena.
- Machucada? ! Vocês não se gostavam! – Ela jogou as mãos para o céu. – Ele não gostava de você! E, honestamente, você pode culpá-lo? – Abriu um sorriso condescendente.
E ali estava o golpe de misericórdia. Mas que não tinha nada de misericórdia. Na verdade, se Mandy fosse uma caçadora, seus golpes seriam qualquer coisa, menos de misericórdia. Mas, enfim, lá estava ela. A verdade.
Eu não podia competir com ela. Não dava. Ela era incrível demais, misteriosa demais, sensual demais, atraente demais. Ela era absolutamente tudo que eu não era. Colocada ao lado dela, eu era apenas a filhinha do papai e a bonequinha da mamãe, cheia de mimos e vontades... Eu era só a princesa que até via em mim. Talvez quem eu sou tenha saído de moda e as Mandys são a nova tendência. E quem podia culpar Owen por ser atraído pelo canto da sereia?
- Siga em frente, . – Ela me segurou pelos ombros e me sacudiu levemente, olhando em meus olhos. Senti meus olhos marejarem e o nó na garganta se intensificou, chegando a doer. – Vovó! – Ela olhou por trás de mim e me soltou, passando por mim.
Só então eu percebi que estava segurando a respiração.



Niall’s POV

- Niall, poderia passar as batatas, por favor? – Denise pediu. Ela estava sentada na outra extremidade da mesa e perto dela estavam alguns vegetais crus. – Theo só come batatas amassadas por enquanto. – Explicou ela, fazendo todos à sua volta soltarem suspiros apaixonados pelo bebê sentado na cadeirinha.
Peguei a travessa ainda cheia de batatas cozidas e passei para meu pai, que, com um sorriso diferente no rosto, entregou a Denise. Ela colocou algumas batatas no pratinho redondo e colorido de Theo, que olhava para a comida. Ele ainda era pequeno e bochechudo, gordinho, não se parecia nem um pouco com Greg, mas era a cópia de Denise.
Observando aquela cena enquanto comia meu último pedaço de frango, constatei que Greg e sua família faziam um bem enorme ao meu pai. Quero dizer, eu não o via sorrir assim desde o enterro de minha mãe, apesar de não fazer tanto tempo. Mas, por outro lado, o fato de minha mãe não poder ter visto seu neto e sua nora... Talvez isso devastasse meu pai, também, mas eu nunca saberia por causa das incríveis habilidades de esconder sentimentos que ele possuía.
Terminei meu refrigerante e coloquei o guardanapo por cima do prato, dando-me por satisfeito.
- Nós voltaremos para abrir os presentes. – Melissa disse, levantando-se de seu lugar na mesa, acompanhada de outras duas amigas. Ela era filha de um dos amigos de Greg que veio passar o Natal com eles esse ano. A casa estava cheia, eu conhecia alguns dos amigos de escola de Greg e alguns familiares, mas muitos dos outros eram desconhecidos para mim.
- Aonde vocês vão mesmo? – Perguntou sua mãe, limpando a boca com o guardanapo.
- Candance está dando uma festa hoje, já dei os detalhes, mãe. – Ela revirou os olhos.
- E vocês vão sozinhas? – A mãe arqueou a sobrancelha.
- Qual o problema?
- Vocês não podem ir sozinhas a essa hora. – O pai dela declarou, fazendo a filha soltar um barulho de desgosto.
- Ah... – Greg se adiantou, apontando para mim. – Niall pode acompanhar as garotas, não?
- Hoje é Natal, Greg. – Meu pai censurou.
- Você se importa, Nialler? – Greg insistiu, olhando diretamente para mim. – Não vejo problema, vocês são todos jovens, já comeram conosco, os presentes só serão abertos pela manhã, então, qual o problema? – Desabafou.
- Então...? – Melissa pressionou, sorrindo para mim com um pouco de esperança nos olhos.
- Hm, claro. – Falei, arrastando minha cadeira para trás, meio de má vontade, mas tentei esconder isso.
Eu nem queria sobremesa, mesmo, obrigado Greg. Obrigado mesmo.
Acompanhei as meninas até a porta e saímos para o frio terrível que fazia lá fora. Segurei-me para não xingar quando o vento gelado bateu em minhas bochechas e cruzei os braços, protegendo-me. Olhei para as garotas que caminhavam à minha frente, animadas com a festa e o que poderia acontecer lá. Elas usavam vestidos curtos, todas, e eu não sabia como não estavam congelando, porque eu estava.
- Hey. – Melissa diminuiu o passo para andar ao meu lado.
- Hey. – Respondi, colocando as mãos nos bolsos da calça.
- Obrigada por isso. – Ela sorriu e colocou o cabelo atrás da orelha.
Wait.
Ela estava flertando?
- Não há de quê. – Falei. – Lá estava bem chato, mesmo.
- Sim, eles são tão parados. – Ela riu, mas eu não soube o que responder àquilo. – Desculpe. Estou brincando, eu os adoro. Conheço o Greg desde que era uma criança e sei que meu pai e ele só não são mais unidos porque são heterossexuais. – Riu de novo e eu tive que rir um pouco também.
- É bom ter amigos assim. – Falei e ela concordou.
- Candance é meio chata com quem entra nas festas dela, por isso, posso dizer que você é o meu namorado?
- Ah... Eu não preciso entrar, está tudo bem. – Sorri, sem graça.
- Não! Vai ser legal, venha com a gente. – Abraçou meu braço e riu de novo. – Por favor.
- Mas... Eu nem a conheço, não faz o menor sentido. – Franzi o cenho.
- Deixe de ser bobo, vai ser legal e você vai ver. – Apontou para a casa no final da rua que estávamos entrando. À nossa frente, as amigas dela andavam juntas e gargalhavam, jogando-se uma em cima da outra. Perguntei-me se elas haviam tomado algo antes de sairmos, mas aquilo seria loucura.
- Ok. – Dei de ombros. – Vai ser legal. – Concordei, fazendo com que ela desse um pulinho de comemoração.
Subimos os degraus da entrada da casa e fomos recebidos por uma garota negra com um black power enorme. Por um momento, tive que tomar tempo para observar a figura à minha frente, pois ela era muito bonita. As luzes que vinham de dentro da casa pareciam refletir em sua pele e ela parecia estar realmente brilhando.
- Melissa! – Ela gritou, abraçando a garota pelos ombros.
- Candy! – Melissa retribuiu o gesto, abraçando-a.
As outras meninas a cumprimentaram com o mesmo calor e logo os olhos da garota caíram sobre mim.
- E você é...?
- Meu namorado! – Melissa veio para o meu lado e segurou meu braço, dando-me um beijo na bochecha.
- Melissa, sua safada! Por que não me disse que tem um namorado?! – Candance olhou para a amiga como se ela tivesse cometido algum crime ou algo do tipo.
- Estou contando agora!
- Ok, ok! Vamos entrar porque só estava faltando vocês! – A garota nos puxou pelo braço e nos colocou dentro da casa.
A temperatura lá dentro quase me fazia querer voltar para o frio do lado de fora da casa. Ali dentro estava abafado e com cheiro de suor. As pessoas se espremiam umas nas outras tanto devido à música quanto pelo espaço em si. Havia comida em uma mesa num canto, mas parecia intocada e até esquecida pelos integrantes da festa. A música estava muito alta e as pessoas pareciam estar sob o efeito de alguma substância.
- Uau. – Disse a Melissa, aproximando-me para me fazer ouvir. Deixamos nossos casacos no armário perto da porta e seguimos para a sala.
- Eu disse que seria legal! – Ela gritou de volta, rindo. – Vamos pegar algo para beber.
Assenti e deixei que ela me guiasse para a cozinha. Passamos da melhor forma que podíamos entre as pessoas que simplesmente conversavam ou que estavam dançando. Passamos por um casal ao lado da porta da cozinha; eles estavam praticamente se comendo e, antes que eles sumissem do meu campo de visão, a mão dele estava fazendo seu caminho para dentro da calça dela.
- O que você prefere? Cerveja ou destilado? – Ela levantou uma garrafa em cada mão, mostrando as opções.
- Cerveja. – Apontei para a garrafa verde e ela me passou. Foi até o armário e pegou um copo e um mixer, depois foi até a geladeira e tirou uma garrafa de limonada da geladeira e gelo do freezer. Não pude deixar de observá-la enquanto ela se esticava para pegar as coisas; ela não se parecia nada com as garotas do St. Bees. Nem , nem e muito menos . – O que é isso? – Aproximei-me dela.
- Tequila. – Disse ao virar a garrafa no mixer. – Limonada e gelo. – Sorriu ao colocar certa medida do suco e os cubos de gelo no recipiente. – Pode mexer para mim? – Entreguei a ela minha cerveja e sacudi o mixer. Enquanto eu mexia, ela pegou um pote com sal e se aproximou. – Coloque aqui. – Levantou o copo e eu despejei a bebida ali. – Agora... – Ela inclinou minha cabeça para o lado e colocou um pouco de sal na base do meu pescoço. – Quietinho... – Disse. Tomou um gole de sua bebida e então lambeu o sal que colocou em mim.
Holy fuck.
Senti todos os meus músculos enrijecerem e ela riu em meu ouvido antes de dar uma leve mordida em meu pescoço e se afastar, salpicando sal por cima de sua bebida.
- Ah, é assim que é servido. – Apontei para o sal que ela jogava em sua bebida.
- É. – Ela cravou os olhos em mim, provocando. – Mas eu gosto mais do jeito que eu te mostrei. – Mordeu o lábio inferior.
- Eu também. – Murmurei para mim mesmo.
- Vamos. – Pegou minha mão e me puxou de volta para a sala.
Entramos no meio do aglomerado de pessoas que dançavam perto de uma mesa com o aparelho de som e começamos a dançar. Talvez pela falta de espaço – e pelo efeito do álcool – ficamos próximos demais e ela colocou minhas mãos em sua cintura, dançando extremamente perto de mim. Eu estava bebendo minha cerveja quando ela virou de costas e começou a rebolar, em mim. Quase cuspi a cerveja por causa da surpresa e minha única reação foi segurar sua cintura novamente, dançando com a garota. Entre uma dança e outra, ela virou o copo e o jogou em algum canto, depois segurou os cabelos com as mãos livres, parecendo estar sentindo a música. E outra coisa...
Ela se virou para mim e colocou os braços em volta do meu pescoço, sorrindo com malícia.
- Você não quer me beijar? – Sorriu ainda mais, seus olhos queimavam os meus.
Por alguma razão, eu senti uma forte sensação de dejá vu. Mas tentei afastar aquilo e focar naquele momento com aquela gata.
Qual é! Aquilo nunca acontecera comigo!
Puxei-a pelo pescoço e a beijei. Imediatamente, suas mãos foram parar em meus cabelos, puxando-os à medida que o beijo ficava mais violento e selvagem.
Melissa se afastou um pouco, rindo.
- Eu quase me esqueci! – Ela tirou algo de um bolso em seu vestido que eu não havia notado até então.
- O que foi? – Perguntei.
- Para ficar melhor. – Abriu um sorriso malicioso. Ela destacou um pequeno papel de uma cartela colorida e colocou o pedacinho na língua. Depois me chamou com a mão e me beijou novamente, passando o papelzinho para mim. – Deixa embaixo da língua. – Disse entre um beijo e outro. Fiz o meu melhor para fazer aquilo enquanto ela continuava me beijando, mas acabei conseguindo.
Depois disso, a noite passou como um borrão.



Harry’s POV
Eu encarava os cabelos grisalhos de meu pai do outro lado da mesa, ao lado de minha mãe que ria alegremente de alguma besteira. Ele estava sentado ali, do lado dela, sorrindo e contando piadas em plena ceia de natal, com todo mundo da nossa família, como se fôssemos uma família feliz. Voltei os olhos para minha irmã, sentada ao lado de Josephine mais no canto da mesa com outros primos, gargalhando de algo como se aquilo tudo não estivesse acontecendo. Traidora.
Ela devia odiar nosso pai. Se me deixasse sozinho nessa, eu ia parecer o errado.
Eu não era o errado.

A mesa da sala de jantar de Carla e Max era gigantesca. Era a mesa especial usada apenas na ceia de natal, o dia mais esperado do ano para Carla, e ela fazia basicamente daquilo uma grande tempestade em copo d’água. Fora assim toda a minha vida. Acho que nunca passamos uma ceia em nossa própria casa desde que eu nasci, e não podia negar que ela realmente mandava muito bem. A comida era impecável, nunca pensei que eu conseguisse comer tanto na minha vida. Mas ao olhar para junto com nossas irmãs do outro lado da mesa concluí que de todos os natais, aquele era o que menos se parecia com um.
A janta passou com conversas aleatórias de final de ano, as mesmas de sempre. Eu estava entediado, mas as férias de natal eram um tédio do início ao fim, então não me incomodei muito. Levantei da mesa depois da sobremesa com a desculpa de ajudar na louça para sair de lá de uma vez, eu não aguentava ver meu pai sendo o centro das atenções. Eles não estavam juntos, e ele logo iria embora.
Ao chegar na cozinha, me deparei com e sua mãe arrumando a pia e conversando sobre alguma coisa.
- Como vai o Louis, aquele maluco? – Carla perguntou. – A única vez que esteve aqui ele estava com a perna quebrada porque pulou da janela.
Ri e sentei no balcão as observando, lembrando daquela vez. Bons tempos.
- Ele está mais comportado agora, eu acho. – deu de ombros secando uns copos. – Acho que ele gosta de uma garota.
- Coitada dela – Carla murmurou.
- Coitado dele! – Respondi, rindo. – Ela é maluca.
- A é legal. – defendeu, me olhando.
- Ela é maluca.
- Maluca? – Carla franziu o cenho. – Então é perfeita para ele.
- Não, não esse tipo de maluca. Ela é... só diferente – dei de ombros. Eu não queria assustar nossos pais com os tipos de pessoas que frequentam nosso colégio. Eles pensavam que o St. Bees dava algum tipo de tratamento militar, acho.
- É, e você tem problema com situações diferentes, não é? – retrucou, e queimei-a com o olhar. Nós sabíamos do que se tratava, mas Carla riu por pensar que era sobre meu pai.
- Harry, isso logo vai passar – ela soltou o pano no ombro de e veio até mim apertando minhas bochechas. – Você se acostuma. Vou voltar para a sala, vocês terminam aqui?
Fiz que sim e ela assentiu e foi em direção à sala. jogou o pano de prato em mim e o peguei no ar antes que atingisse meu rosto. Suspirei pesadamente, não querendo estar ali. Era a primeira vez na vida que me sentia tão desconfortável na casa delas.
Pulei do balcão e fui secar alguns pratos que ela tirava da lavadora de louças. Desde a primeira manhã desde que chegamos em casa, pelo menos parecíamos estar nos falando de novo. Foi difícil ignorar aquilo que aconteceu no carwash por um tempo, mas resolvi relevar muita coisa entre nós depois de perceber que ela até tinha alguma razão em me tratar daquele jeito. Não que eu achasse menos estranho como havia mudado, mas sua mudança realmente afetava algo em minha vida? Porque se a resposta fosse sim, então o problema devia ser eu.
Não é?
- O que você vai fazer depois? – Perguntei e ela deu de ombros, colocando mais louça na lavadora. – A gente... quer fazer alguma coisa? – Tentei, dando de ombros. Era difícil imaginar nós dois fazendo algo juntos agora, porque antes tudo que fazíamos envolvia coisas que agora ela não faz mais. Mas Holmes Chapel me trazia tantas lembranças, e eu não queria que se tornasse uma estranha para mim. Porque éramos inseparáveis e isso nunca esteve em meus planos, e também porque era como se estivéssemos quebrando de vez a tradição de família. Acho que na cabeça de nossas mães nossos futuros filhos deveriam crescer e se tornarem melhores amigos também.
- Acho que eu vou só dormir. – Ela disse, e respirei fundo recolhendo meu orgulho.
- Ok.
Pior conversa da minha vida. Logo que terminei de secar alguns pratos, saí da cozinha pela porta dos fundos. O tempo fora estava congelando até a minha alma, mas não era tão cortante quanto uma conversa com a “nova ”. Respirei fundo e me encostei ao muro baixo que dividia nossas casas. Peguei meu celular para ver quantos graus faziam, e na tela tinha uma notificação de uma mensagem de Louis ainda da tarde, que esqueci de responder. Abri o teclado e disquei seu número, esperando chamar. Eu precisava falar com alguém familiar para mim.
O telefone chamou algumas vezes, mas Louis não atendeu. Bufei, guardando o celular no bolso de novo e levando as mãos para a frente da boca, assoprando-as para voltar a sentir meus dedos.
Ouvi passos e vi se aproximando, abraçando os próprios braços com um casaco fino demais para aquele clima. Respirei fundo e esperei que ela chegasse perto o suficiente, tentando imaginar a grande conversa que teríamos dessa vez. Ela parou em minha frente e suspirou pesadamente.
- O que a gente faria?
Dei de ombros, sem entender porque ela estava fazendo aquilo. nunca teve dificuldade em cortar o meu barato quando não estava afim de algo.
- Eu não sei. Só estava querendo ser educado.
- Sabe, você não precisa sair de casa e vir se esconder como uma criança toda vez que as coisas não são do seu jeito.
- Eu não fiz isso. – Revirei os olhos. – Só queria ficar sozinho, .
- Dá pra ficar sozinho lá dentro, onde é quente – ela cruzou os braços.
- Por que, tá preocupada comigo? – Sorri de canto e ela revirou os olhos.
- Ok, morra congelado – disse, ameaçando virar as costas e segurei seu cotovelo antes de ela se virar. Olhou para mim de novo e pensei na primeira coisa que me passou pela cabeça.
- Video game?
Ela revirou os olhos de novo. Houston, we have a problem.
- Qual é. – Bufou.
- Eu... argh, sei lá! – Joguei as mãos para cima. Estávamos fazendo um grande esforço para fazer aquilo funcionar, eu podia ver. Mas não estava dando certo, e vi que ela esperava mais de mim. De repente senti como se estivéssemos no lugar de duas outras pessoas, como se não nos conhecêssemos e ela fosse uma garota qualquer e eu um cara qualquer, e eu não sabia como agrada-la. E eu precisava agrada-la. – Batalha naval. Monopoly!
Ela riu fraco. Já era alguma coisa. Levei minha mão para o seu braço e apertei seu cotovelo de leve, me encostando no muro outra vez e sorrindo.
- Qual é, me diga o que fazer.
me encarou de um modo estranho por um momento, e então seu sorriso sumiu e ela fechou os olhos, respirando fundo.
- Não faça isso.
- Isso o quê?
- Começar com o seu joguinho, Harry. Não faça isso. Não... me trate como outra qualquer das suas garotas.
Pigarreei, recolhendo minha mão de seu braço e guardando-a no bolso. Eu realmente havia feito aquilo. O tom da minha voz. E aquele sorriso no meu rosto. Meu Deus, eu não fazia isso com a . Simplesmente não fazia. Era automático, mas com outras garotas, com ela não.
O clima pesou novamente quando isso aconteceu, e voltamos à estaca zero. Estávamos de pé sobre uma linha muito tênue entre um relacionamento razoavelmente aceitável e algo péssimo, e eu não sabia mais como agir.
Então, como que para nos salvar do pior momento de nossas vidas, olhei para o seu rosto e um vento fraco soprou, trazendo pequenos flocos de neve ao rosto dela. olhou para cima, surpresa, e sorriu um pouco.
- Ah... Uau. Tá nevando. – Abriu a mão no ar fazendo com que alguns flocos caíssem em sua palma. – Precisamos entrar.
Respirei fundo e concordei, me pondo de pé.
- Ok. Scrabble? – Dei de ombros e ela riu.
- Vamos assistir um filme, Harry. Que tal? – Disse, me chamando com a cabeça para dentro da casa.
Ótimo, íamos assistir a um filme.


’s POV
Sétima mensagem: Já se passou uma semana desde aquela noite no auditório e minha fome ainda não passou.
Li a mensagem quando meu celular vibrou e ri fraco, recebendo um olhar curioso da garota sentada ao meu lado. Ela não devia ter mais de quinze anos, e me perguntei qual o motivo de uma garota daquelas estar sozinha em plena ceia de natal, o feriado mais importante para os britânicos depois da Ação de Graças. Quer dizer, comparando-a a mim, ela parecia perfeitamente normal.
Louis estava mantendo sua palavra de me mandar pelo menos uma mensagem por dia. Na verdade ele me mandava muito mais de uma mensagem por dia, pois assim que eu respondia a primeira ele nunca mais me deixava em paz. E, indo contra o que eu acreditava que fosse possível, ele realmente conseguiu me fazer ir à ceia de natal do colégio. Para ser sincera, não foi muito difícil. Eu estava com fome, o cheiro estava bom e eram só funcionários, tirando a mim e à garota ao meu lado, que parecia realmente ansiosa por estar sentada ao lado da freak, e eu ainda não havia descoberto se era por um motivo bom ou ruim.
Você é bem fraco. Respondi, esperando a mensagem que se seguiu dele.
Você realmente está na ceia??? Eu queria ver isso.
Por que, é tão difícil de acreditar que gosto de comida de gente normal?
Para ser sincero, é difícil acreditar que você gosta de gente normal. Ele mandou essa e, em seguida, mais uma mensagem: você sabe. Seu único amigo sou eu.
Eu ia dizer que não é verdade, mas talvez seja.

Me sentia uma adolescente idiota, mas até que era legal. Olhei para as pessoas na mesa comprida do refeitório, enfeitada com enfeites de natal e cheia de comidas muito bem preparadas. Ninguém parecia estar incomodado com o fato de que eu estava usando o celular na mesa, o que era bom. Devia haver uns vinte funcionários ali, a maioria deles eu nunca vira na vida. É claro que eu não estava jantando com os professores, a maioria na mesa eram jardineiros, cozinheiros e pessoas da equipe de limpeza, e eles pareciam empolgados com aquela ceia. De algum modo, era reconfortante saber que nenhum deles conhecia minha reputação de garota problema, ninguém me olhava torto ou se perguntava porque eu estava ali. Pelo menos não aparentava.
- Você pode me alcançar o sal? – A garota ao meu lado perguntou, a voz doce e baixa, e quando a olhei para entrega-la o saleiro ela tinha o rosto como um pimentão. – Obrigada. Eu... adoro o seu cabelo.
- Valeu – murmurei, sorrindo um pouco. Me perguntei há quanto tempo ela estava se preparando para falar aquilo, então olhei de novo para ela. – Eu gostei... das suas unhas. – Comentei, a fazendo sorrir.
Legal, . Quase parece uma pessoa decente.
Quer dizer que eu subi de colocação? Agora somos amigos.
Olhei para o celular outra vez e sorri, respondendo:
O que está fazendo aí, Louis?
A resposta veio em um momento.
Tomando chá com um monte de mulheres... Basicamente a minha família. Entende por que preciso andar rodeado de garotos na escola?
sinto muito. Respondi, balançando a cabeça com a imagem que me surgiu. Louis no meio de um monte de garotinhas loiras e bonecas. Voltei a mandar outra mensagem um minuto depois: Isso parece estar meio chato, contanto a rapidez com que me responde.
Parabéns, Sherlock. Ele respondeu, me fazendo rir. Me mande uma foto da sua ceia, preciso de provas.
Olhei para a mesa, onde todo mundo conversava animadamente. Ok, aquilo ia ser no mínimo estranho. Apoiei o celular na mesa e tirei uma foto do purê de batatas e das saladas em minha frente, enviando a ele em seguida.
Agora quero ver sua rodinha de chá.
Ele me mandou uma foto de uma sala de estar escura, onde podia-se perceber que estava sentado no sofá ao lado de um pinheiro iluminado, que era o que fazia luz à sala. Em uns pufes no chão em sua frente duas garotinhas loiras e, em cima do seu joelho sobre a calça de moletom azul, uma mão feminina com unhas bem feitas.
Ok, isso é constrangedor. Deveríamos estar trocando nudes.
Boa tentativa. Respondi antes de bloquear o celular e guarda-lo no bolso. Tentei pelo menos ouvir a conversa ao meu redor para fingir estar participando da ceia. Logo os pratos foram recolhidos e algumas sobremesas foram postas na mesa, e peguei um pacotinho de balas de goma azedinhas antes de sair do refeitório.
Os corredores estavam iluminados, mas completamente desertos e o silêncio era estranho. Pensei na semana seguinte, quando as aulas voltavam, e em tudo que estava pendente em meus cadernos, enquanto caminhava para fora do prédio. Ao chegar no pátio acendi um cigarro que tinha no bolso, sentindo meu corpo esquentar em contraponto ao clima terrivelmente frio. Nevava um pouco e o gramado estava completamente branco, e eu precisava cuidar onde pisar para não resvalar, mas caminhei tranquilamente pelo caminho que levava ao prédio dos dormitórios femininos. Na Alemanha também era tão o mais gelado nessa época do ano, e era a época em que eu menos conseguia ficar em casa. As ruas de Hamburg, mesmo congeladas e praticamente desertas, eram mais acolhedoras do que estar em casa no Natal.

Quando estava descendo a ladeira até o outro prédio meu celular começou a tocar e o peguei, atendendo.
- O bom dos celulares é isso. Nem todo mundo lembra, mas eles ainda fazem ligação.
- Ah, eu esqueci desse detalhe. Não posso simplesmente ignorar suas mensagens.
- Tem razão – a voz de Louis disse em meu ouvido, e quase desejei que ele estivesse ali. Segurei o celular com mais força, apertando-o contra o ouvido e esperando que ele falasse mais. – Você não responde há mais de quinze minutos e fiquei preocupado que estivesse tentando fazer social ou sei lá. E que tenha falhado terrivelmente.
- Eu não ousei tentar. Não sabia muito sobre técnicas de jardinagem ou cozinha... – suspirei, coçando a testa, fazendo-o rir.
- De qualquer forma, eu quero te desejar um feliz Natal em pessoa. Bem... pelo telefone.
- Ok...
- Escuta... Phoebe, só um minuto, eu estou no telefone – ele sussurrou para alguém. – Escuta, .
- Diga. – Joguei o cigarro no chão pisando na ponta e empurrei a porta do prédio, entrando no corredor aquecido e sentindo-me mais confortável.
- Sinto muito se estou sendo um pé no saco. Mas você é realmente... interessante. E eu gostei desses últimos dias. E feliz Natal.
Ri fraco, enquanto subia as escadas devagar.
- Ok. Feliz Natal, Louis. E você realmente é um pé no saco. – Declarei. – Mas eu até que curto.
- Jura?! – Ele disse, e ri. Ouvi um bipe no celular. – Espera um segundo, chegou alguma coisa aqui.
Afastei meu celular do ouvido abrindo uma nova mensagem de um número desconhecido que acabara de chegar.
Encontrei você, vadia. É bom estar preparada, temos assuntos a tratar. Não se esqueça de mim. Feliz natal, Kev.
Parei de caminhar no meio do corredor, encarando a mensagem escrita em alemão, cada palavra brilhando excessivamente para mim. Engoli em seco com o nó que se formou em minha garganta, minhas mãos tremiam. Naquele momento, ali, eu tive medo. Eu não estava mais segura no St Bees.

- sam? – Aproximei de volta o celular do ouvido quando ouvi Louis chamar, caminhando depressa até meu quarto. – Você está aí?
- Eu preciso ir. – Disse. – Não posso mais falar.
- O que... – Desliguei a chamada, entrando no quarto escuro e fechando a porta. Passei a chave duas vezes, por mais que aquilo fosse ridículo, ele não estava ali. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar o celular. Arranquei a capa de trás com dificuldade, puxando o chip de dentro do celular e o quebrando com as unhas antes de joga-lo pela janela nos arbustos lá embaixo.
Mas aquilo também era em vão. Ele já sabia como me encontrar.


’s POV

O pequeno leão de pelúcia me encarava de volta enquanto eu desfiava uma fita de cetim que eu havia pegado do chão durante a entrega de presentes. Depois da ceia de Natal, os parentes de Liam fizeram a troca de presentes; cada um tinha alguns presentes definidos, de forma que ninguém ficasse sem entregar e receber presentes, mas como eu não fiz muita questão de participar daquilo, fiquei sentada numa poltrona mais afastada apenas observando as coisas acontecerem.
Mary – a Barbie – entregou a meu pai um porta retrato com uma foto dela, a barriga e Liam. Depois, ela deu ao filho um pequeno cartão-presente, para que ele pudesse gastar da forma que quisesse. Meu pai, por outro lado, deu uma bolsa cara para a sogra e um livro de edição de colecionador para o esposo de uma irmã de Mary. A jarra de biscoitos com formato de pug foi para uma mulher excêntrica, pare se dizer o mínimo. Ela apareceu com um chapéu que parecia ter saído de um filme dos anos 20, um vestido preto no estilo Bonequinha de Luxo e botas de combate. Não que eu fosse uma “fashion police”, mas... Come on!
De qualquer forma, todos ganharam seus malditos presentes. E, no fundo, eu sabia que não ter ganho nada havia me deixado chateada. Digo, nem meu pai! O homem biologicamente obrigado a demonstrar algum afeto... Quando tudo acabou e os adultos resolveram tomar chá – com certeza não era chá... – na sala de estar, não me preocupei em dar boa noite ou dizer qualquer outra coisa que indicasse que estava me retirando; apenas subi a escada e fui para o meu quarto.
E foi aí que a coisa mais esquisita aconteceu.
Liam veio correndo atrás de mim, com uma cara esquisita. Ele me chamou e eu o esperei, sem realmente me importar com o que ele tinha para dizer. Não percebi que ele tinha uma pequena caixa em mãos até o momento em que ele trouxe o embrulho à altura dos meus olhos.
- Não sei por que eles fazem parecer tão inofensivo quando, na verdade, eles mordem até quando se tenta fazer carinho. Achei tão parecido com você que precisei comprar. – Disse, entregando-me a caixa e, em seguida, deu as costas e voltou para o andar debaixo.
E, quando eu abri, lá estava o leãozinho, encarando-me com olhos grandes e pretos.
Eu quase ri.
Aquilo era uma metáfora, claro.
Eu era como esse leão de pelúcia; fofinho aqui, mas, na verdade, mordiam.
Ah, era um elogio também.
Tive que reprimir um sorriso.
E, agora, eu estava encarando novamente o presentinho. Já passava das três horas da manhã e apenas as arandelas do meu quarto estava acesas, atenuando o clima melancólico em que me encontrava. Eu pensava em algum motivo plausível para minha mãe não me ligar desejando feliz Natal, mas não conseguia encontrar nenhum, o que tornava tudo pior.
A única pessoa que me deu algum tipo de importância foi o cabeça-de-vento.
Um pensamento me ocorreu: eu tinha que dar alguma coisa para ele?
Levantei-me de minha cama, decidida a encontrar alguma distração. Pensei em ir até a cozinha e pegar algum doce que elevasse o nível de serotonina em meu corpo. Parei antes de sair do quarto, dando-me conta das roupas que estava usando. Eu havia trocado o jeans e a blusa por um casaco de flanela extralargo afim de ter a noite mais confortável possível; era suficiente, pois cobria minhas pernas até pouco acima dos joelhos, era quase um vestido.
Dei de ombros, tentando me preocupar menos com aquilo, afinal de contas eu iria para a cozinha e não dar um tour pela casa.
Desci as escadas e fui em direção à cozinha. Sem distrações, sem pausas para ver quais das tias loucas ainda estavam na sala, onde meu pai estava e coisas do tipo. Abri a geladeira e examinei seu conteúdo em busca de algo doce, mas, primeiro, peguei uma garrafa d’água.
- Ainda estamos com visitas, . – Meu pai entrou na cozinha e foi até o bar.
- Pai, por favor, você só consegue ver meus joelhos. – Rolei os olhos.
- Já é muito. – Declarou enquanto lia o rótulo de uma garrafa de vinho.
- Vocês não iam tomar chá? – Arqueei a sobrancelha.
- Não é para tomar agora, é um presente. – Disse.
- Ah, claro. Um presente para alguém importante que seria imperdoável não presentear.
Ele tirou os olhos da garrafa e me fitou, como se tentasse descobrir alguma coisa. E, depois de pelo menos dois minutos de interação silenciosa, ele se aproximou e deu um beijo no topo da minha cabeça.
- Você tem razão, seria imperdoável. – Esfregou a mão em meu ombro.
E saiu da cozinha.
Balancei a cabeça para clarear os pensamentos e tentar entender qual era o problema dele.
Talvez ele estivesse tão ocupado com a nova família que não tivesse mais tempo de pensar sobre sua antiga; a que ele deixou para trás.
Talvez eu devesse deixar também, mandar aquela bosta toda para o inferno e ir viver a minha vida. Sem pai, sem mãe, sem malditos presentes de Natal.
Larguei a garrafa na pia e, sem cumprir meu objetivo de engolir algum doce, subi as escadas rapidamente. Encontrei Liam saindo de seu quarto, mas resolvi ignorá-lo e o olhar que ele me deu quando passou os olhos pelo meu corpo.
Qual é! Mal dava para ver as coxas!
- Quanta classe. – Falei, indo direto para o meu quarto, mas ele se adiantou e bloqueou a passagem para a porta. – Sai da frente.
- Quanta classe. – Remedou, zombando de mim.
- Está tarde, Payne, eu quero dormir. Sai da frente.
- Só saio quando me disser que bicho te mordeu. – Arqueou uma sobrancelha, provocativo.
- Com certeza não foi aquele leão que você me deu. – Abri um sorrisinho cínico.
- Ah, vejo que se deu bem com Bartolomeu. – Ele abriu um pouco a porta para olhar dentro de meu quarto, provavelmente à procura do leãozinho. Aproveitei o momento de distração para empurrá-lo e entrar no quarto rapidamente. Ele segurou meu braço, mas eu me desvencilhei, daí ele agarrou minha cintura e nós dois caímos no chão. – Sai! – Sibilei, tentando me soltar dele.
- Meu Deus... – Ele começou a dizer, mas eu empurrei sua cabeça, então ele acabou me soltando. Levantei-me rapidamente e corri para minha cama, mas, novamente, o paspalho me segurou pela cintura e me prendeu contra seu peito. – Você quer parar?
Ouvi a porta ser fechada e ele soltou uma risadinha.
- Bartolomeu. – Cumprimentou o leão de pelúcia, como se fosse alguma piada interna.
- Se não me soltar agora, Payne, eu juro que corto suas bolas enquanto estiver dormindo. – Ameacei. O que havia de errado com ele, afinal?!
- Ouch, assim você fere meus sentimentos.
- O que você quer?
- Eu vi que você ficou chateada com seu pai. – Disse rapidamente.
- E...?
- Queria saber se havia gostado do presente, mas... Quando você apareceu no topo da escada, vestindo isso, bom... – Soltou outra risadinha, só que mais baixa, em meu ouvido.
- Você é um pervertido, Payne. – Bufei. – Está no joelho!
- É aí que está a graça. – Riu novamente, encostando os lábios em meu pescoço. Senti meu corpo enrijecer. Fechei os olhos com força, sem saber se me sentia sem graça ou enfurecida por estar sem sutiã. – Imaginar o que não dá para ver... – Seus lábios roçavam minha pele à medida que falava, causando-me arrepios.
Lutei contra aquelas malditas sensações e me afastei dele.
- Qual é o seu problema?! – Tentei não gritar.
- Ah, por favor, . – Ele bufou. – Eu não entendia qual era o seu problema até agora! Sempre brava e de mal humor!
- Hm, e qual a sua conclusão? – Cruzei os braços.
- Falta de sexo. – Disse, apenas, como se fosse óbvio.
- Uau, você não podia ser mais machista.
- Realista. Você é humana, tem necessidades, acontece. Apenas admita. – Apontou para mim. – Além disso, toda essa tensão sexual...
- Tensão sexual?! – Tive que me segurar para não rir. – Ok, você tem sérios problemas. De onde você tirou que existe qualquer indício de que eu queira ter alguma coisa com você?
- Instinto.
- Instinto? O mesmo instinto que te diz que eu sou assim por falta de sexo? – Arqueei uma sobrancelha.
- Ok, eu me enganei com essa, mas você não pode negar. – Abriu um sorrisinho presunçoso. – Você quer isso.
- Yeah. – Ironizei. – Vai fundo.
- Eu faria você gritar.
Abri a boca para responder, mas nada saiu.
- Isso foi nojento. – Eu disse depois de um ou dois segundos de atraso.
Ele riu novamente e se aproximou de mim. Alguma parte do meu cérebro gritava “afaste-se!”, mas a outra parte, a que comandava, de fato, os movimentos, não fez nada e ele parou a apenas alguns centímetros de mim.
- Apenas deixe. – Sussurrou, olhando fixo em meus olhos. – Deixe que eu te faça sentir bem essa noite.
- É a fucking noite de Natal, Payne.
- É um presente meu. – Sussurrou, puxando a barra do meu casaco para cima, seus dedos roçando a pele das minhas coxas e só parou quando chegou à minha cintura.
- Você perdeu a cabeça. – Falei, tentando manter o único traço de sanidade que me restava àquela altura. Ele não se conteve com aquele comentário, pelo contrário, subiu ainda mais as mãos e, quando eu senti que havia tocado a base de meus seios, eu o empurrei com força. – Chega! – Declarei, encontrando dificuldade para controlar a respiração e os batimentos cardíacos.
- Você não quer? – Perguntou, parecendo obstinado a conseguir algo daquilo tudo. – Diga que não quer e eu te deixo em paz.
Eu não conseguia falar.
O choque da verdade me paralisou.
Eu queria.
Muito.
- Era só o que eu precisava ouvir. – Falou antes de acabar com o espaço entre nós e me pegar no colo. Sentou-se na cama, minhas pernas estavam uma em cada lado de seu corpo e suas mãos já estavam embaixo do meu casaco, apertando minha cintura, trazendo-me para perto. Ele me olhou nos olhos por um breve momento e eu pude ver a luxúria e o desejo queimando ali dentro. No instante seguinte, seus lábios estavam nos meus; urgentes e rápidos, mas, principalmente, macios. Liam se deitou e eu deitei com ele, por cima dele. De repente, ele nos virou e eu acabei ficando por baixo dele. Mordeu meu lábio inferior antes de beijar meu pescoço e colocar sua perna entre minhas pernas, fazendo-me gemer. – Eu vou fazer você implorar por isso. – Sussurrou em meu ouvido. Mordi meu lábio inferior, cravando minhas unhas em suas costas. Senti suas mãos em meu casaco, desabotoando-o.
Eu podia jurar que meu coração pararia a qualquer momento.
Ele terminou com o casaco e começou a descer os beijos. Eu estava ansiosa para que ele chegasse aonde ele queria chegar. Era tudo tão bom e ao mesmo tempo tão devagar que eu estava começando a cogitar implorar que ele terminasse logo aquilo.
- ? – Chamou meu pai do outro lado da porta do meu quarto.
Eu e Liam congelamos.
Ele estava com a cabeça entre os meus seios quando a levantou e trocou um olhar desesperado comigo.
A realidade me atingiu como um soco.
Olhei de volta para Liam.
- Diga alguma coisa! – Cochichou.
- Só um minuto! – Gritei, ofegante e aterrorizada ao mesmo tempo. Se meu pai entrasse ali e nos visse daquele jeito, não sei o que ele seria capaz de fazer. – Estou... trocando de roupa!
- Ah. – Foi só o que meu pai disse, mas não entrou.
Empurrei Liam de cima de mim, fazendo-o cair na cama. Ele se levantou rapidamente e foi para trás da porta, para se esconder. Fechei meu casaco rapidamente para que ele não visse meus seios nus.
- Você é patético! – Gesticulei as palavras para ele enquanto abotoava o casaco. Juntei os cabelos num nó no alto da cabeça e me olhei no espelho ao lado da janela. Meu Deus. Minha boca. Parecia que eu havia sido esbofeteada. Segurei a maçaneta, mas não abri a porta. – O que você quer?
Senti-me mal imediatamente. Eu sabia que se ele achasse que eu estava totalmente brava, ele não entraria, mas não havia motivos de verdade para falar assim com ele.
- Ahn... Uma coisa... Para você. – Disse ele, sem graça.
Apaguei as luzes das arandelas e abri a porta, esperando que o escuro despistasse minha boca vermelha. Ele tinha um pequeno embrulho em mãos e me recebeu com um sorriso franco.
- Para você. – Falou novamente. – Eu ia te entregar amanhã, mas... Agora me pareceu a hora certa. – Deu de ombros. – Feliz Natal, querida.
Ele sorriu de novo e foi para o seu quarto, sem muita cerimônia.
Fechei a porta do quarto e segurei o embrulho com as duas mãos, pesando a caixa.
- Outro presente. – Liam observou.
- Que perspicaz. – Rolei os olhos. Ele riu um pouco. Tirei o laço do topo da caixa e a coloquei em cima da cama. Olhei para Liam novamente. – O que você ainda está fazendo aqui?!
- Quero ver o que é.
- Tchau! – Falei, mas ele cruzou os braços e permaneceu onde estava.
Respirei fundo e abri a caixinha.
Tirei de lá a pulseira cheia de pingentes. A maioria eram miniaturas de pontos turísticos famosos de vários países, outros pingentes eram de objetos específicos; um microfone, um floco de neve, uma pena.
- Pulseira bacana. – Liam comentou. Uma lágrima caiu sem que eu percebesse que havia sequer se formado. – O que foi?
- Ela devolveu ao meu pai antes de assinar a papelada do divórcio. – Falei, apenas.

Zayn’s POV
- Zayn Malik está na cidade, senhoras e senhores! – Ouvi alguém dizer atrás de mim enquanto eu terminava o cigarro na varanda da casa de Aakar. Podiam-se ouvir, lá de dentro, as conversas animadas e a música não muito alta que saía de algum aparelho de som. Olhei para trás e encontrei Victor parado à porta que dava acesso à casa, segurando uma garrafa de cerveja numa mão e um cigarro na outra. – Achei que nunca mais veria você por aqui, mofo.
- Eu achei o mesmo. – Respondi, seco. Ele soltou uma breve risada antes de se juntar a mim, sentando-se ao meu lado na mureta que separava a casa do quintal. - Eu quase fiquei emocionado por um instante. – Riu. – Por que veio se não sentiu falta?
- Camile mandou uma mensagem. – Dei de ombros. – Disse que iam reunir todos... - E você não tinha o que fazer e resolveu vir. – Concluiu.
Dei de ombros novamente trazendo o cigarro à boca. Victor não era de falar muito, mas o silêncio dele era sempre incômodo. Havia algo na forma como ele se posicionava que te fazia questionar suas ações com medo de estar fazendo algo errado ou inapropriado; apesar de ele mesmo não ser nenhum modelo a ser seguido.
- Como foi o reformatório? – Perguntou de repente.
- Como você imagina que foi?
- Honestamente, eu imagino você de quatro na mão dos fodões de lá. – Disse e começou a rir.
Não pude evitar uma risada. Foi uma merda, mas aquilo era o que eu imaginaria de qualquer amigo meu que tivesse ido para um lugar bosta como o que fui mandado. - Apanhou muito? – Insistiu.
- Não do jeito que você está insinuando. – Joguei a ponta do cigarro num vaso de flores ali perto.
Caímos em silêncio novamente. Não me incomodaria se não fosse por esse rodeio todo. Ele queria dizer algo, apenas não conseguia fazê-lo; ou estava enrolando mesmo. Mantive meus olhos baixos, fitando não muito além do chão à minha frente. Lá dentro, alguém gritou que faltavam apenas dez minutos para a meia noite e, consequentemente, para o Ano Novo.
- Sabe... – Victor quebrou o silêncio. – Muita coisa mudou desde que você foi levado.
- Hm.
- Aakar parou de fumar, Mae foi morar com os avós, Otto...
- Otto? O que havia de errado na vida de Otto? – Questionei, com alguma inveja. - Otto disse aos pais que não iria para Oxford e que queria seguir sua carreira de fotógrafo.
Claro. Problema de gente rica.
- E toda essa mudança incrível foi graças à minha prisão? – Arqueei as sobrancelhas, ironizando a balela que ele estava contando.
- Todos nós começamos a pensar na vida que estávamos levando, só isso, Malik.
- Uau.
- Achávamos que éramos invencíveis, imortais. Aí você foi levado. – Riu, seco. – Afinal, que fim teve o cara?
- Sete pontos no nariz, mas ele conseguiu a Mandy.
- Mandy? Aquela vadia...
- Ela me paga. – Jurei.
- Vai com calma, Justiceiro. – Deu dois tapas em minhas costas. – Você já pode ser preso. De verdade.
- E ela também.
- Damn, Zayn! O que aconteceu com você? – Victor se levantou, naquela pose paternal dele. – Nunca passamos das nossas festas. Tudo bem que tivemos nossos exageros, mas você... Você passou dos limites! Roubar um carro? Apagar um cara na porrada? O que aconteceu com o cara gente boa que só queria sair da aba dos pais e se tornar arquiteto?!
- Veio me julgar? – Levantei-me também.
- Vim falar com você, cara! Ficamos preocupados. Você saiu, mudou de cidade, entrou numa escolinha riquinha e nunca mais deu notícias! Éramos uma família, dude!
- Eu sei bem que tipo de família que éramos: incentiva o rolo do caladão com a vadia, assim ele nos consegue as drogas. – Reproduzi a fala de Zuri.
- Onde ouviu isso? – Ele pareceu ofendido, mas, na verdade, apenas foi pego na mentira.
- Não fode, Victor. – Revirei os olhos. – Vocês gostavam tanto do que eu tinha com a Mandy que sequer sabiam aonde eu estava indo.
- Você nunca reclamou. – Defendeu-se.
Ri novamente do absurdo de tudo aquilo.
- Isso não importa de verdade, Zayn. Você sabe que não. Você está aqui. Por que veio, então?
- Sem melhor opção.
- Porque nós somos a única coisa que você tem! – Levantou os braços. – Olha, o que éramos e o que não éramos, isso já passou. Agora é o que importa.
- Você devia escrever cartões motivacionais. – Soltei uma risada seca.
- Mate, pare com isso...
- Feliz Ano Novo, Victor. – Passei por ele e entrei na casa no mesmo instante em que eles terminavam a contagem regressiva. Houve uma explosão de confetes e champanhe espirrando, além de muita gritaria. Todos se abraçaram gritando votos de boas coisas no ano que se iniciava. A música reiniciou, mais alta que antes. Olhei para o lado a tempo de ver Mae vindo em minha direção com um enorme sorriso.
- Zayn! Feliz Ano Novo! Há quanto tem... – Puxei-a pelo pescoço e a beijei. Lembrei-me de que ela sempre teve uma queda por mim. Mae não sabia que eu sabia; nunca foi muito boa em esconder as coisas ou mentir. Estive sempre ocupado seguindo o rabo de Mandy para dar muita atenção a qualquer outra coisa que não fosse ela.
Empurrei-a para a parede e puxei sua perna para a minha cintura. Honestamente, tudo que eu mais queria naquele momento era um bom sexo e Mae parecia perfeita para isso. Além disso, mataríamos as saudades – se é que havia alguma.
- Vamos arranjar um quarto. – Sugeri. Ela olhou para mim, ofegante, seus olhos estavam cheios de desejo e ela sorria.
- Tire as mãos dela! – Alguém gritou atrás de mim e senti meu corpo ser puxado para trás. Virei-me para o filho da puta que nos interrompera, mas fui atingido no olho antes que pudesse sequer ver o rosto dele. – Eu vou matar você!
- Thomas! – Mae gritou quando eu cheguei ao chão. Ela o segurou pelos ombros, mas ele a empurrou.
- Está defendendo ele?! – Ele gritou, virando-se para ela. Ali do chão, a cena era aterrorizante; o tal do Thomas devia ser o dobro do tamanho dela e vê-lo se impondo parecia primitivo e brutal. – Estava gostando? Não tem namorado, não?! Sua vadia! – Gritou novamente antes de dar um tapa em seu rosto. O som da pancada me deu náuseas. Ela cobriu o rosto com a mão, mas, quando voltou a olhá-lo, o sangue em seus lábios era visível.
Em poucos segundos, o cara estava imobilizado, sendo segurado por mais uns três caras, que gritavam várias coisas para ele. Mae chorava, encolhida em um canto, rodeada de outras garotas que tentavam acalmá-la.
Eu ainda estava no chão, meu olho esquerdo doía o inferno, mas eu não conseguia fazer muito além daquilo: ficar no chão. Um milhão de pensamentos corriam pela minha cabeça.
Era tudo minha culpa.
A noite de todo mundo havia acabado e a culpa era só minha.
Levantei-me rapidamente quando os olhares de todos começaram a me incomodar. Avistei Victor parado na porta, olhando para a cena toda como quem não estava surpreso com o que havia acontecido e sentia náuseas só de pensar que essa sua “não surpresa” poderia ser tanto para “não é a primeira vez que Mae apanhava do namorado” quanto para “Zayn só faz merda”.
- Zayn... – Mae me chamou, olhando-me com seus olhos cheios inchados de tanto chorar e a boca cortada pelo tapa.
Não tive coragem de olhar para ela.
Não tive coragem de olhar para nenhuma outra pessoa naquele lugar.
Arrumei a jaqueta, arquitetando minha saída.
O que poderia fazer?
Pedir desculpas?
Dar razão ao Victor? Dar a ele o gostinho de estar certo sobre eu fazer merda atrás de merda?
Bom... Não.
Essas coisas acontecem. Se não fosse comigo, seria com outra pessoa. Mae só teve o azar de namorar um cara da mesma laia do pai dela. Ela ia sair dessa, ia se recuperar.
Por um momento, fiquei cheio de alegria quando me lembrei do que Victor dissera mais cedo, sobre Mae finalmente ir morar com os avós. Ela lutou, ela saiu de casa, ou do inferno, como eu chamava quando ela aparecia com um corte ou algum hematoma pelo corpo. Por isso, Mae iria superar aquele babaca que arranjou. De qualquer forma, aquilo não era problema meu.
Não mais.
O corte em sua boca podia ser minha culpa, mas não meu problema.
Não. Não era minha culpa.
O cara me bateu; isso eu merecia. Bater nela foi requinte de crueldade, fruto do brutamontes que ele era.
Cansado de pensar tanto em um autor para a culpa, peguei uma garrafa de cerveja do balde com gelo e saí pela porta da frente, deixando o silêncio sepulcral atrás de mim.
Andando pela calçada em direção ao centro de Bradford, tirei o celular do bolso como se esperasse encontrar as respostas para a vida, mas só havia duas chamadas perdidas de minha mãe.
Senti um aperto no peito.
Minha mãe.
Minha casa.
Minha família.
Olhei em volta, as ruas desertas, mas havia muito barulho nas casas. Era Ano Novo, todos estavam comemorando alguma coisa e eu sozinho.
Parei perto de um portão de metal baixo para abrir a garrafa de cerveja. Quando tomei o primeiro gole, meu celular começou a vibrar em minha mão. Olhei o visor e franzi o cenho.
Isso só podia ser brincadeira.
- Alô? – Atendi, surpreendendo-me com a voz que saiu de mim.
- Feliz Ano Novo! – gritou do outro lado da linha e depois falou com outra pessoa. – Sim, Amanda, mais um! Eu tenho amigos e vou desejar um bom ano a todos eles, sinto muito se você não tem nenhum! – Gritou e eu pude ouvir a risada cínica ao fundo, fazendo meu sangue ferver. – Desculpe, minha irmã é... Enfim. – Riu fraco.
Endireitei-me, sentindo-me confiante num instante.
- “Shortcake” está me ligando para desejar um bom ano? – Abri um sorrisinho de canto. Voltei a andar, mas devagar. Já podia ver as luzes vindas do City Park, onde as pessoas comemoravam o Ano Novo na rua.
- E você está sóbrio o suficiente para atender o telefone e me alfinetar. É, milagres podem acontecer. – Riu. – Apenas tenha um bom ano, ok?
- Você também, Shortcake.
Ela riu baixinho e desligou.
Abri um sorriso, sentindo-me revigorado.
Ela está tão na minha.
E a outra vai me pagar.





Capítulo 17

’s POV
- Finalmente. – comemorou quando eu saí do quarto. Havíamos combinado de nos encontrarmos no corredor para ir tomar café e contarmos melhor como foi o feriado uma da outra. – Que demora! – Riu, fazendo gracinha. Eu só estava três minutas atrasada; graças ao maldito chuveiro daquela espelunca que não conseguia nos fornecer água quente no início da manhã. Por isso e pelo comentário ignorante de , eu fiquei calada e apenas caminhei ao seu lado em direção à saída do dormitório. – Então... Como foi? Você disse que sua mãe está melhor.
- Muito melhor. – Falei. – Ela até pediu para Adhira fazer filé mignon! – Passei as mãos pelos cabelos, alterada. Só a lembrança daquele maldito prato cheio de carne e molho me dava náuseas, tirava-me do sério!
- O que tem o filé mignon? – franziu o cenho, olhando para frente enquanto andávamos pelo pátio.
- Como assim “o que tem o filé mignon”?! ! Era o prato preferido da Catherine! Como você pôde se esquecer?! – Olhei para ela, acusando-a.
- Hey, desculpe! Eu me esqueci. – Desculpou-se e me abraçou pelos ombros. – Se ela pediu para fazer esse prato, quer dizer que ela está melhor. – Ela concluiu.
- Sim.
- Então, por que foi tão ruim? – Seu tom de voz era delicado, como se ela fizesse questão de me fazer entender que ela estava sendo compreensiva e companheira.
- Ela podia ter ao menos perguntado se eu estava bem! – Quase gritei, indignada. – Ela simplesmente me aparece com aquela coisa e acha que está tudo bem? Acha que todo mundo esqueceu o que aconteceu? Acha que é fácil assim?!
- Entendi. É, realmente, ela deveria ter falado com você, seria o correto. Mas, talvez, ela achasse que você estava bem, também. Você sabe que está muito melhor agora.
- Eu não estou bem! Eu nunca vou ficar bem, ! – Afastei-me dela, sentindo-me completamente ofendida.
Como ela podia pensar assim?! Eu realmente parecia bem? Realmente parecia que eu, um dia, me recuperaria? Como ela podia achar que minha mãe se importaria de checar o menor detalhe em mim?! Ela não conhecia minha mãe e o monstro frio e desalmado que ela se tornou depois de tudo o que aconteceu?! , como minha melhor amiga, devia saber disso tudo, devia me entender e ficar do meu lado.
De que lado ela estava?!
- Não fale assim, , é claro que você...
- Você não sabe como é, ! Não sabe como é aqui dentro! – Apontei para a minha cabeça.
Ela olhou em volta ao mesmo tempo que me puxava para perto. Os corredores estavam praticamente vazios, mas ainda havia gente circulando e elas estavam olhando para mim, curiosas. Tive vontade de mandar todo mundo ir à merda, mas me contive numa tentativa ridícula de controlar minha respiração.
- Isso não importa. – Falei entredentes, forçando um sorriso. me escrutinou com os olhos, desconfiada. – O que é? – Desafiei, fazendo-a pular de susto com meu tom novamente hostil.
- Estou preocupada! – Ela cruzou os braços. – O que achou que fosse?
- Você está me julgando.
- O quê? Claro que não! – Ela jogou as mãos para o ar, exasperada. – Podemos apenas tomar café? Não precisamos mais falar sobre isso. – Propôs.
Ponderei por um segundo.
- Certo. – Falei, por fim, voltando a andar a seu lado. Ficamos em silêncio por alguns instantes, criando um clima chato entre nós. Senti algo dentro de mim revirar; nós não éramos assim. Somos melhores amigas, desde quando brigávamos? Suspirei enquanto me obrigava a engolir meu orgulho e meu mau-humor. – Como foi seu feriado, ? – Perguntei, controlando minha voz. Ela olhou para mim, como se tentasse decidir se dava para falar comigo numa boa ou não.
- Minha avó passou o Natal conosco. Ela foi a grande estrela da noite, já que não passava o feriado com o lado de cá da família. – Começou.
- E a Mandy? – Perguntei.
- Insuportável. Mais que antes, se possível. Não nos falamos muito. Bom, eu não falei muito, ela insistiu em agir como se nada estivesse acontecendo.
- Vadia. – Murmurei, sentindo raiva da irmã da minha melhor amiga.
Aquela garota merecia todos os prêmios de pior pessoa do mundo.
E umas porradas.
- Mas não dá para negar, . – suspirou. – Eu não superei tudo isso. E não sei quando vou superar.
- Uma hora. – Garanti, abraçando-a pelos ombros.
Entramos no refeitório em silêncio – um silêncio confortável. O prédio estava quase vazio, como de costume naquele horário. O cheiro de café tomava o ambiente e estava me causando um pouco de náusea, mas o cheiro de pão, em contrapartida, estava delicioso.
- Olha! É o Niall! – cochichou para mim, apontando discretamente para o garoto numa mesa mais afastada. Como uma bomba de adrenalina, meu coração acelerou e eu fixei meu olhar nele. Era o Niall. Ele estava lá, sentado, ouvindo música com fones de ouvido, anotando algo em um caderno ao lado do prato. começou a andar na direção dele, deixando claro que teríamos aquela refeição em sua companhia. Automaticamente, fiquei consciente de todo e qualquer detalhe em minha aparência naquela breve caminhada até a mesa. – Niall! – Ela o cumprimentou, chamando sua atenção.
- ! ! – Ele sorriu e nos apontou as cadeiras vagas à sua frente. Sentei-me bem de frente a ele, tentando conter meu sorriso bobo.
Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim.
Tão boba e sentimental.
Eu nem me lembrava mais por que estava tão mal humorada.
- Então, Niall, como foi o feriado? – perguntou, iniciando uma conversa.
Eu não falei nada, apenas mantive meu olhar em seu rosto, apreciando cada detalhe. Ele riu fraco e anotou alguma coisa em seu caderno antes de responder.
Perguntei-me do que se tratava aquele caderno, o que ele escrevia lá, por que escrevia lá.
Alguma coisa dentro de mim implorava ao universo que fosse sobre mim, que ele estivesse escrevendo uma música ou algo do tipo e que eu estivesse lá, que o momento que tivemos no bar estivesse ali em algum lugar, da mesma forma que estava em meus pensamentos quase o tempo todo.
- Ah, você sabe... Nada demais. – Abriu um sorriso sem graça. – Algumas festas, família, meu sobrinho roubando toda a atenção.
- Alerta ciúme. – riu e ele a acompanhou.
- Não, o pilantrinha até que merece a atenção. – Balançou a cabeça, rindo consigo mesmo.
Ele tinha um sobrinho?!
Segurei-me para não derreter naquele exato momento.
- Qual o nome dele? – Perguntei, sorrindo.
- Theo. – Respondeu, abrindo um sorriso para mim. – E o de vocês? Aproveitaram muito?
- Eu me ocupei em não matar minha irmã mais velha. – revirou os olhos, mas acabou rindo. – Ela é insuportável.
- A sina dos irmãos, é verdade. – Niall concordou.
- Passei o feriado tentando entender como minha mãe e as amigas dela conseguem beber tanto vinho e não desenvolver uma cirrose hepática. – Soltei uma risada fraca. – E comendo. Muito.
- É a melhor parte. – concordou comigo.
Olhei para Niall, esperando que ele concordasse também, mas ele apenas riu e escreveu alguma coisa em seu caderno novamente.
Eu estava começando a me sentir esquisita sobre tudo aquilo. Por que ele não falava comigo?
- O que você tanto escreve aí? – perguntou, esticando o pescoço.
- Só algumas besteiras que aparecem na minha cabeça de vez em quando. – Deu de ombros.
- Coisas da banda?
- Algumas sim, outras só ideias de arranjos. – Ele desconversava, modesto.
- Sério? – Ela abriu um sorriso e ele sorriu para ela.
Opa.
O que estava acontecendo ali?
O que estava acontecendo comigo?
Por que a não parava de sorrir?
Ela sempre foi assim?
Isso é tão irritante!
Por que ela não para de sorrir?
Ou será que ela estava flertando com ele?
- Sim. Olha esse. – Ele pegou o caderno e mostrou a ela.
Quando ele se virou para mostrar a ela, eu vi a marca roxa, quase verde, em seu pescoço. E, então, eu entendi o que estava acontecendo ali.
Sem que eu me desse conta, de repente, eu me levantei de meu lugar e os dois pararam para olhar para mim. Abri a boca para falar algo, mas nada saiu por alguns instantes, até que meu cérebro resolveu funcionar.
- Eu acabei de me lembrar! – Balbuciei, buscando as palavras certas. – Eu... Eu tenho que falar com o professor de Física... Eu preciso ir. – Balancei a cabeça.
Saí rapidamente do refeitório sem olhar para trás. O vento fresco da manhã me saudou assim que saí, dando-me um choque de realidade.
Niall e eu... Nunca iria acontecer. Ele não gostava de mim. Não daquele jeito.
Eu me senti idiota naquele momento: eu inventei tantas coisas na minha cabeça! Como se tivéssemos um futuro inteiro pela frente e aquela noite no pub fora só o começo. Ele me deu todos os sinais de que iria acontecer alguma coisa, mas eu sabia que, no fundo, apesar de estar tão chateada como eu estava, tão desencantada, tão decepcionada, eu sabia que não era culpa do Niall se eu havia inventado tanta coisa.
Engoli meu orgulho e minha raiva pela segunda vez naquele dia.
- Apenas esqueça isso, . – Falei para mim mesma, respirando fundo, enquanto fazia meu caminho até o dormitório.
Minha nuca estava começando a doer e eu sabia que precisava de um analgésico. Sentia minha sanidade esvaindo de mim como um rio deságua no mar, gota por gota, eu estava à beira de um colapso. E o fato de não ter minha cartela de remédios não facilitava nem um pouco toda a situação.
Fechei a porta do meu quarto e me joguei em minha cama, esperando que aquele não fosse um presságio para uma semana horrível.

Louis’ POV
Meus amigos já ocupavam nossa mesa no refeitório enquanto tomavam café e riam alto de alguma coisa quando entrei no local. Eu havia dormido tarde, e por isso perdi a hora, porque geralmente era o primeiro de todos eles a tomar café.
Peguei uma bandeja e coloquei umas fatias de pão, queijo, uma geleia pequena de uva, dois cupcakes e uma xícara de café com leite e me direcionei à mesa, sentando em frente a Liam e ao lado de Niall.
- Bom dia.
- Que cara horrível, Louis.
- Valeu. – Mordi um pedaço de pão. – Sobre o que era o assunto?
- A gente tá pensando em comemorar nosso sucesso e o sucesso do pegador aí – Liam riu para Niall e segui o olhar até o garoto ao meu lado. – E dar uma festa no fim de semana.
- Festa, no primeiro fim de semana depois das férias. – Disse enquanto comia, ponderando. – É, é disso que eu preciso. – Assenti.
A conversa eventualmente mudou, e eu apenas acompanhava enquanto eles falavam. Estava ocupado comendo, e mesmo que não estivesse, eu estava cansado demais para entrar no assunto, e ainda tinha o dia todo de aulas pela frente.
- A menina era a maior gostosa, eu juro por Deus. – Josh disse, procurando uma foto da suposta garota que pegou durante as férias no Facebook. – Ela tinha uns peitos... Aqui!
Terminei meu cupcake e me estiquei para tentar ver a foto sem muito sucesso. Liam explodiu em uma gargalhada que ecoou pelo refeitório, e eu peguei o cupcake de chocolate do prato de Josh; eu não tinha visto que tinha de chocolate!
- Sem chance que você pegou ela! Isso aí deve ser um fake, Josh, a gente não dá de cara com uma mulher dessas em uma loja de decorações de natal.
- Eu estou te dizendo, dude...
- Louis, você tá bem? – Harry me olhou, com a sobrancelha erguida, e parei de mastigar o encarando.
- Quê?
- Tá comendo feito um condenado.
Liam me olhou e olhei para ele também, dando de ombros.
- Você tá se drogando com a ?
Olhei dele para Harry de novo.
- Não? – Respondi, ainda de boca cheia. Dei de ombros e terminei de mastigar. – É segunda-feira, eu já tô sem saco pra estudar e preciso repor as energias.
- O que você fez nas férias, mesmo?
Soltei a embalagem do bolinho na bandeja, olhando para Harry.
- Fui babá das minhas irmãs. O tempo não colaborou pra gente ir esquiar e minha irmã estava doente. Eu não botei o pé pra fora... Foi uma bosta.
- Por isso tá na TPM? Ou brigou com a namoradinha? – Josh riu, guardando o celular.
- Pelo menos a é real, Josh. – Pisquei para ele levantando e pegando minha bandeja. – Você passou as férias batendo uma pra uma foto fake. – Dei um tapa em sua nuca e ri, me afastando enquanto deixava o resto deles zoando com a cara do Devine. – Até mais tarde na aula de música!

Ao me aproximar do lugar onde depositávamos as bandejas encontrei conversando baixinho com a e parei para dar um oi.
- E aí garotas, como foram as férias?
me olhou, meio desanimada, e apenas assenti.
- É, as minhas também. – Ri fraco. – Ei, vocês viram a ? Não ouço dela desde a ceia.
- Ele já tá com saudade! – Josh disse, chegando perto da gente com sua bandeja também. Olhei-o de olhos semicerrados e riu fraco.
- Eu ainda não a vi. – comentou e depois virou para ao soltar sua bandeja. – Estou atrasada, nos vemos depois. – E com um aceno, ela se afastou de nós.
Acompanhei-a com o olhar por um momento.
- Ela tá bem?
- Ela é sempre assim, mas quem aqui está realmente bem, não é? – balançou a cabeça. – Acho que todos nós estamos um pouco ansiosos.
Franzi o cenho e assenti, devolvendo minha bandeja também. Depois me dei conta que devia ser por causa das entrevistas com universidades, e meu desespero usual também bateu.
- Ah, é. Isso. – Resmunguei e olhou-me enquanto, inconscientemente, seguia a mim e a Josh para fora do refeitório.
- Como vocês estão, falando nisso? Alguma carta ou entrevista?
- Só recebo cartas de fãs, gata. – Josh disse e, em seguida, nós três rimos.
- Piada boa. – Comentei.
- Ok, ainda não é verdade, mas logo mais vai ser. Aí, , você viu o vídeo da apresentação da banda? Eles arrasaram!
- Foi ela que gravou, dã. – Bati em sua nuca de novo e ele me olhou, bravo.
- Eles foram realmente bons. Sabe... – olhou-nos. – Vocês deviam criar uma página! No Youtube! – Ela sorriu, parecendo ouvir sua própria ideia pela primeira vez e gostar do que ouviu. – Muita gente fica famoso com covers na internet hoje em dia, é só ter os instrumentos e os contatos certos, e vocês podem ganhar um número grande de visualizações em pouquíssimo tempo.
- Quer dizer tipo o Justin Bieber? – Franzi o cenho.
- Não, cara, é uma boa. – Josh me olhou. – A gente podia dar essa ideia hoje na aula.
- De nada. – falou, jogando o cabelo para o lado e fazendo uma cena. Depois riu e tocou o braço de Josh ao lado dela, nos olhando. – Eu vou indo também, garotos. Comportem-se. – Apontou antes de virar no corredor. Josh parou de caminhar por um segundo e eu parei também, o esperando. Depois de um momento ele me olhou.
- Você acha que ela tá afim de mim?
Soltei uma gargalhada genuinamente verdadeira, o que só me fez rir mais, e bati em seu ombro.
- Nunca em um milhão de anos.
Continuei andando corredor adentro e Josh me seguiu.
- Mas ela...
- Não.
- Mas, você não viu? Ela me tocou!
Gargalhei outra vez.
- Só porque somos amigos de verdade eu vou te poupar dessa humilhação e vou guardar isso entre nós. – Disse, ao chegar em meu armário, ouvindo Josh bufar.
Aquele cara era uma peça.

’s POV
As aulas haviam recomeçado há apenas um dia, e eu já estava atrasada. Uma das minhas metas para o novo ano era tentar me organizar melhor para o meu próprio bem, mas aparentemente eu já começara com o pé errado quando, na manhã de segunda-feira ignorei meu despertador, acordando vinte minutos depois em um pulo, ao lembrar que tinha aula.
Pulei da cama puxando um conjunto limpo do uniforme de dentro do armário e o vestindo às pressas. Olhei no relógio e constatei que, devido à hora, eu tinha tempo para fazer apenas uma coisa: ou me arrumar, ou tomar café. Mas quando meu estômago se manifestou roncando alto decidi que quem precisava de rímel àquela hora da manhã, certo? Além disso, rímel era um inferno de passar. Ô, coisinha chata.
Então, depois de me escovar e lavar o rosto, vestir a camiseta, a meia calça, a saia e as sapatilhas, peguei a mochila, o celular e dois livros e saí correndo do quarto, descendo as escadas em disparada. Eu tinha quinze minutos para tomar café antes da primeira aula do dia começar.
Ao descer as escadas encontrei com , que também saía do prédio naquele momento, e acabamos por ir tomar café da manhã juntas. Eu estava curiosa sobre como devia ter sido as férias dela com Liam, aquilo devia ter sido no mínimo interessante. Mas, claro, não perguntei, porque isso talvez fizesse com que ela perguntasse sobre as minhas, e era isso que eu queria evitar.

Segui para o laboratório de biologia depois do café, para fazer umas experiências relacionadas a fotossíntese, e acabei fazendo dupla com Niall, que era uma das pessoas que ainda não tinham dupla na sala. Uma hora depois, ainda estávamos frustrados com o resultado pouco satisfatório da nossa experiência.
- Eu preferia quando a gente só tinha que plantar grãos de feijão.
- Cara, eu era boa nisso – ri e balancei a cabeça, fechando meu livro de biologia e guardando dentro da mochila junto com o caderno. – Ei, mas e aí, como estão as coisas depois daquela apresentação? – Olhei para Niall, enquanto ele guardava suas coisas se levantando também.
- Estão legais. A gravou a apresentação e eu mandei para o professor durante as férias, então acho que vamos ter algum veredicto hoje na aula – ele deu de ombros e riu. – Admito que estou curioso.
- Eu não sei se te disse, mas vocês foram realmente bons – falei, enquanto andávamos até a porta da sala. – Se eu fosse a Cheryl Cole, daria um sim a vocês.
Ele riu.
- Valeu. Vou levantar essa ideia do X Factor na aula.
- Faça isso! – Disse e balancei a cabeça. Chegamos na frente da sala de aula e dei tchau a Niall enquanto nossos caminhos se separavam.
- Ah, – ele chamou, e virei de costas de novo. – Você está bonita hoje. – Disse e piscou para mim, e sorri em agradecimento, voltando a caminhar. Ri fraco, avaliando Niall brevemente. Ele estava ficando bom nessa coisa de agradar as garotas.
Dobrei no corredor para chegar até meu armário e, do outro lado do corredor, ainda distante de mim, estava Harry. Havia um monte de gente circulando no meio de nós, e ainda estávamos há alguns metros de distância, mas era inevitável notar que estávamos andando um na direção do outro, e não deu para fingir que a gente não tinha se visto.
Mas aparentemente as coisas estavam bem entre a gente, então não havia motivo para isso, certo?
Parei na frente do meu armário, colocando o segredo e o abrindo, empurrando um livro para dentro dele. Harry chegou um segundo depois, abrindo o terceiro armário depois do meu e pegando algo de dentro dele. Fechei a porta do meu com cuidado e virei para ele, que fechou a porta do seu também e, parecendo meio atrapalhado, sorriu para mim. Sorri de volta. Seria estranho simplesmente sair andando sem trocar uma palavra, então me aproximei um pouco.
- E aí.
- Ei. – Ele se escorou no armário e cruzou os braços. – Cabelo legal.
Toquei na ponta de uma mecha do meu cabelo automaticamente, me perguntando o que havia de tão especial nele naquele dia. Nota: passar no banheiro depois daqui.
- Obrigada. Como está o Louis?
- Bem, ele chegou ontem bem tarde. Disse que não foram esquiar porque as gêmeas estavam doentes.
- Pelo menos não foi só a gente que não fez absolutamente nada nessas férias – encolhi os ombros.
- Ei, não desmereça o Duro de Matar! – Ele franziu o cenho, por um momento parecendo uma criancinha.
Ri, mordendo o canto do lábio e concordando com a cabeça. O que era para ser apenas um filme de ação com Harry depois da ceia de Natal acabou virando uma maratona de Orange Is The New Black no Netflix quando Josephine apresentou a série a nós dois. Viramos a noite e passamos boa parte do dia vinte e seis deitados em minha cama assistindo a série enquanto conversávamos. Conversas legais, interessantes, com conteúdo, como a gente nunca tinha conversado antes. O tempo passou voando, e aquilo poderia ter sido realmente... interessante, não fosse o fato de minha irmã estar deitada no meio de nós babando no ombro de Harry. Então, depois que assistimos todas as temporadas, ele foi para sua casa e depois daquilo nossas conversas se resumiram a diálogos medianos. E foi como se aquela noite não tivesse acontecido.
- Tem razão. – Balancei a cabeça.
Harry abriu a boca para falar algo e pareceu hesitar por um instante.
- Ei, você acha...
- Ei, . – Virei para o lado quando um garoto parou em minha frente, apoiando um braço no armário ao meu lado. Era Lance, do time masculino de futebol. – Tudo bem?
- Ei, Lance. – Sorri. Lance conseguira o título de capitão do time esse ano, o que acabava fazendo com que nos encontrássemos às vezes quando precisávamos resolver algo relacionado às interserires, já que eu era a capitã do feminino. Apesar de sempre ter sido simpático, ele nunca havia trocado palavras comigo sem nenhum motivo antes.
- Eu estou organizando uma reunião com os caras fora do colégio no fim de semana, e queria saber se talvez você e o seu time quisessem se juntar. Vai ser tipo um happy hour, nada muito grande, só... – Ele deu de ombros. – Pra relaxar. O que você acha?
Assenti com cabeça, pensando no assunto.
- É uma boa ideia, a gente andou conversando sobre discutir algumas táticas com vocês. E as garotas são apaixonadas pelo seu time – revirei os olhos e ri, ele me acompanhou.
- Tudo bem, então... Vamos conversar para combinar isso? – Ele sorriu e tocou meu ombro. Alerta! sempre dizia, “se um cara te toca enquanto fala com você ele te quer”. Ri fraco com esse pensamento e concordei com a cabeça. – Legal. Até mais, capitã!
Observei Lance se afastando pelo corredor até Harry pigarrear, puxando minha atenção de volta a ele.
- Oi!
- Oi. – Ele balançou a cabeça.
- Desculpa, o que você ia dizer antes?
- Ah, é, que... – Harry tirou o celular do bolso e olhou alguma coisa. – Eu já estou atrasado. Mas a gente conversa depois, né?
- Claro – dei de ombros, me afastando do armário e ele fez o mesmo.
- Ok – tocou meu braço de leve enquanto passava por mim, indo em direção a alguma sala de aula. Suspirei, fazendo meu caminho até o banheiro feminino mais próximo, enquanto tocava o meu ombro no lugar onde Lance me tocou. Aquilo só podia ser besteira. Não tem como saber quais as intenções de alguém só pelo modo como ele te toca. Certo?
Ao chegar no banheiro olhei meu reflexo no espelho. Meus cabelos estavam soltos e meio bagunçados, mas não de um modo ruim. Eles estavam um pouco ondulados também pelo modo como dormi com ele preso, e meus olhos azuis contrastavam com meu rosto limpo de qualquer tipo de produto. Toquei em meu cabelo outra vez, gostando dele daquele jeito. Ele estava... como o de . Sempre me perguntei como ela conseguia deixar daquele jeito, e acontece que ele ficara daquele modo sem que eu precisasse tentar.
Acho que devia ser sorte.

Liam’s POV
- Sério, Harry, de onde você tirou essa lata velha?! – Louis perguntou, indignado, quando teve que sair do carro para abrir a porta de trás por fora. Harry apenas riu e se virou para nós no banco de trás.
- Encontro vocês lá dentro, vou estacionar essa belezinha. – Acariciou o volante e acelerou um pouco, causando um barulho horrível vindo do escapamento do carro.
- Belezinha?! Tá mais para banheira! – Gritei a tempo de sair do carro e desviar do tapa que Harry tentou me dar.
Todo mundo que estava do lado de fora do club nos lançou um olhar esquisito como se tivéssemos acabado de sair de dentro de um carro de palhaço. Acenei para alguns caras que conhecia e que estavam lá fora, mas, honestamente, eu queria um buraco para enfiar minha cara.
- Harry me paga. – Josh falou, ao meu lado, sorrindo para as pessoas que estavam ali.
- O espertinho disse que ia estacionar para não aparecer saindo daquela coisa! – Louis soltou uma risada e entrou na casa de festas depois de apresentar sua identidade falsa para o segurança. Fui atrás dele e Josh veio comigo.
Lá dentro, a coisa estava insana. O lugar estava lotado, a música explodia das caixas de som, as únicas luzes que iluminavam o local vinham dos lasers, das luzes coloridas e do globo prateado gigante no teto. Num canto, estavam distribuindo tinta fluorescente e drinks coloridos com gelo seco. Três garotas dançavam em cima do balcão comprido do bar, enlouquecidas, com garrafas de alguma coisa em mãos e, ocasionalmente, despejavam a bebida nos copos de alguns bêbados que paravam para admira-las. Josh me cutucou, apontando Niall parado falando com uma loira gostosa no canto do bar. Descemos as escadas e entramos na multidão ensandecida.
- E aí? – Pisquei para uma garota que esbarrou em mim. A garota era linda e havia pintado os lábios com a tinta fluorescente também. Ela sorriu e me segurou pelos ombros e puxou para perto, mordeu meu pescoço e depois deu um beijo demorado. – Te vejo por aí. – Sorri e me afastei dela, certo de que a marca de sua boca estava em meu pescoço, brilhando. Ela riu e piscou para mim, voltando a se juntar ao seu grupo de amigas.
- Nialler! – Louis berrou, assustando o menino. A loira já havia se afastado, mas nós vimos quando ela escreveu seu número num guardanapo e entregou a ele. – Tá fazendo sucesso, hein! – Ele riu e deu dois tapas na bochecha esquerda de Niall.
- Cadê o Harry? – Niall quis saber, rindo.
- Ele já vem. – Garanti. – Viu o Malik por aí?
Niall arqueou as sobrancelhas, em um ar sugestivo, e apontou para outro canto da boate. Não vimos Zayn, mas vimos a porta da sala escura e então entendemos tudo.
- Ele disse que já voltava. – Niall deu de ombros. – Olha lá! – Apontou novamente e vimos, por fim, o garoto saindo dali, ajeitando a gola da jaqueta. Ele começou a andar em nossa direção, parecendo entediado e nem ao menos notou a garota que saiu da sala, também, ajeitando o vestido curto e justo, olhando para os lados, procurando o Romeu que a comeu.
- E aí. – Zayn acenou com a cabeça e pediu alguma coisa no balcão. – Cadê o Styles?
- Vindo.
- Quatro cervejas, por favor. – Pedi para o barman.
- Então! – Harry apareceu do nada, abraçando-me pelos ombros, com um sorriso na cara. – Quer dizer que você conseguiu?
- Eu já havia conseguido. – Niall se gabou. – Mas vocês quiseram ver.
- Eu devo admitir, Horan, eu subestimei você. – Zayn começou a falar. – Achei que não ia conseguir, mas você foi lá e pegou a menina.
- Duas vezes. – Niall insistiu.
- Você não esperava mesmo que fôssemos acreditar sem provas, né? Um selinho no porão daquela maldita casa não era exatamente do que estávamos falando quando dissemos que você tinha que ficar com a .
- Confesso que faltaram detalhes nas regras da aposta, mas você foi lá e fez mesmo assim. – Louis riu e bagunçou o cabelo do loirinho.
- Mas agora o Niall está no topo da cadeia alimentar! – Harry abriu um sorriso e apontou para Niall. – Agora ele é um predador!
- Vocês viram o tamanho do chupão que ele tinha no pescoço na segunda?! – Gritei, abrindo os braços como que mostrando o tamanho da marca.
- Tu é foda, hein! – Josh fez um toque com Niall.
- Então – Louis calou todo mundo e passou os copos de cerveja que eu pedi para cada um. Levantou seu copo, propondo um brinde. – Agora é oficial! O loirinho aqui agora é um membro da banda!
- Agora estamos completos e renovados! – Josh comemorou. – O resto dos instrumentos chegam segunda!
Todos gritamos e batemos uma garrafa na outra.
- Cara! – Harry gritou. – Renewed!
- Quê? – Franzi o cenho.
O Harry era esquisito, puta que pariu!
- O nome da banda! – Ele completou, sorrindo feito um otário.
- É, gostei! – Josh disse.
Todos logo concordaram e batemos as garrafas novamente.
- Renewed. – Repeti a palavra, como se pudesse sentir seu gosto.
Balancei a cabeça, sentindo-me uma menininha sentimental. Olhei pros caras à minha volta, rindo e ainda mexendo com Niall, bagunçando seu cabelo, beliscando e gritando o nome dele como se ele tivesse salvado a Terra nos quarenta e cindo do segundo tempo.
Eu amo esses bostas.
Tirando o Malik.

Harry’s POV
Afastei a garota em minha frente apertando sua cintura e ela se afastou do beijo, sorrindo com malícia para mim. A luz negra e os desenhos brilhosos em seu rosto tornavam difícil enxergar muitos detalhes sobre ela, e tudo que eu sabia era que ela era gostosa. Era o suficiente.
Larguei o copo de vodka vazio no balcão quando Firestone começou a tocar e absolutamente todo mundo foi à loucura, e a garota se afastou depois de beliscar minha coxa e se juntou à multidão dançando a música do Kygo. O lugar estava lotado, era um caos. Daquele tipo bom de caos. Poucas coisas me faziam sentir mais a vontade do que estar praticamente bêbado em meio a uma multidão enlouquecida como aquela.
Abri espaço entre as pessoas que pulavam enquanto me aproximava do meio da pista, tendo minha atenção roubada por absolutamente cada garota pintada com tinta neon que passava por mim. Todas, naquele momento, pareciam gostosas. Talvez eu já tivesse bebido demais, mas estava apenas começando a diversão.
Uma garota com um vestido branco que cegava minha visão esbarrou em mim, e precisei olhar para trás para acompanha-la enquanto ela se afastava, e foi aí que bati de frente com alguém e olhei para frente, segurando a pessoa pelos ombros quando a reconheci.
- ! – Sorri.
- Ah! Você!
- Mais entusiasmo ao encontrar um velho amigo! – Gritei, mas ela franziu o cenho dando a entender que não havia me ouvido, então a puxei comigo até o canto do salão, onde estava um pouco menos lotado.
Enquanto me seguia ela se mexia com a música, e quando paramos um de frente para o outro, ela continuou dançando um pouco. Seu rosto estava respingado de tinta roxa e verde como se alguém houvesse balançado um pincel na frente dela, mas parecia estranhamente com uma galáxia inteira. Em seus braços e mãos havia desenhos em espirais de cores diferentes. Olhei para o seu rosto e a peguei me observando observá-la.
- Você bebeu?
- Por quê, não posso dançar? – Ela sorriu.
- Quando você bebe, você pode tudo! – Disse e ri quando levei um tapa no ouvido.
- Essa música é ótima!
- É, eu sei! – Gritei de volta. Com certeza ela havia bebido, não dançava, por mais que aparentemente não fosse uma má ideia para ela. – O que está fazendo aqui?
- Vim com o time depois do happy hour. E você? Os outros também estão aqui?
- Sim. Viemos batizar o Niall, e comemorar sua entrada oficial na banda.
- Achei que ele já fosse da banda. – Ela estreitou os olhos. – O que fizeram ele fazer?
Ri.
- Longa história, você não vai querer saber.
deu de ombros e continuou dançando um pouco. Aquela era uma música um pouco mais lenta, mas ainda com uma batida boa, e percebi que também estava me mexendo com a música. Não dá para ficar plantado feito um poste no meio de uma boate, né?
Se fosse qualquer outra garota eu a seguraria pela cintura e dançaríamos mais próximos. Bem próximos. Era isso que aquela música pedia. Era isso que aquele momento pedia. Antes que eu pudesse pensar, as palavras saíram da minha boca.
- Você quer... – mas elas morreram quando outro cara se aproximou dela e passou a mão por sua cintura, a virando para ele.
- Ei, onde você estava?
- Conseguindo o que você queria – Lance riu, entregando a ela uma dose de vodka com limão, e aí ele pareceu me notar ali. – E aí, cara! – Bateu em meu ombro.
Assenti com a cabeça, tentando dar um sorriso satisfatório para, mas acho que aquilo parecia uma careta.
- Vi os seus amigos lá atrás – ele comentou enquanto tomava a dose em goles grandes. Tirei os olhos dela e assenti para ele.
- O que você ia dizer? – Ela me perguntou, entregando o copo vazio a Lance e mordendo a fatia do limão.
- Nada, só que o Louis perguntou de você. – Gritei sobre o volume da música. Lance agora tinha as duas mãos em volta da cintura dela, e começou a beijar o lado do rosto de , perto do ouvido, ao que ela tentava - não com tanto afinco assim - se afastar, talvez só um pouco envergonhada. Aparentemente os dois estavam gostando daquilo, e quem sobrava ali no meio era eu. Ela o afastou um pouco rindo e me olhou.
- Se eu o encontrar falo com ele. Ouvi falar sobre um negócio entre ele e a na escola...
- Vamos dançar! – Lance pénosaco pediu, a puxando de novo, e ela virou o rosto o fazendo voltar a beijar seu rosto. riu e, quando me olhou, eu levantei uma mão.
- Vão dançar! Eu também vou fazer isso.
Não precisei falar duas vezes. Porque dois segundos depois eles já estavam na pista, dançando juntos, como eu planejava... imaginava...
Esquece.
Por um momento fiquei parado no mesmo lugar observando os dois, que dançavam como se só existissem eles no mundo. Passei a mão no cabelo suado o colocando para trás, tentando relaxar meus punhos tencionados e processar tudo o que havia acontecido, e tentando parar de pensar em como seria prazeroso naquele momento socar a cara de Lance. Depois desse breve momento, me recompus e saí em busca de alguma coisa mais forte pra beber e alguém para me divertir.
Encontrei uma roda de gente animada no meio da pista de dança, vibrando por algo, e ao abrir espaço para ver, vi um cara fazendo um body shot na garota que estava comigo no bar antes, que segurava um shot de tequila entre os peitos, só de sutiã. Quando ele pegou o pedaço de limão da boca dela e se afastou, sendo ovacionado por quem assistia, eu afastei o próximo garoto na fila e tomei o lugar dele, segurando a cintura dela e me abaixando, passando a língua pela gota de tequila que escorria por sua barriga e subindo até seus peitos, onde peguei o copo com a boca e o virei também. Ela pegou o copo e eu peguei o pedaço de limão de sua boca, o jogando fora e a puxando pela nuca, a prendendo em um beijo. A “plateia” novamente vibrou.
Àquela altura, qualquer uma servia para mim.

Charlie’s POV
- Você não vai acreditar! - Uma garota saiu apressadamente de seu quarto, indo em direção à sua amiga, que também saíra de seu quarto, nos dormitórios. Uma tirou o celular do bolso e mostrou algo à outra e as duas arfaram, surpresas e espantadas. Havia aquele sorriso estampado em cada rosto do corredor, aquele que dizia "eu não acredito!", daquele jeito que ninguém nunca sorri quando a surpresa é sobre si.
Revirei os olhos e respirei fundo, tentando não ter uma reação exagerada àquele hábito insuportável de fofocar que parecia contaminar cada adolescente do mundo.
O que quer que fosse a tal novidade, eu tinha certeza de que nada tinha a ver com a vida delas. Tranquei a porta do quarto e, quando me virei para me dirigir às escadas, vi um grupo de garotas desviarem seus olhares de mim imediatamente, rindo baixinho. Balancei a cabeça constatando que as pessoas só ficavam cada vez mais e mais idiotas. Recebi uma mensagem de dizendo para encontrá-la na biblioteca o mais rápido possível. Não entendi a urgência de sua mensagem, tampouco entendi por que não explicitar na mensagem qual era o problema ou ela mesma vir ao meu encontro. Por que a tinha que sempre ser tão mimada e egoísta a ponto de nem se dar ao trabalho de vir até mim para dizer o que era tão importante.
Mas, de qualquer forma, eu comecei a fazer meu caminho até a biblioteca.
- Eu não acredito que ele fez isso! - Ouvi o assunto que estava sendo discutido no grupinho de meninas que estavam olhando antes.
Suspirei para o que parecia ser mais fofoca.
Saí do prédio dos dormitórios. Lá fora, os alunos se amontoavam nas mesas do pátio, normalmente, alguns apenas jogavam conversa fora, outros aproveitavam o calor do sol daquele sábado, mas, hoje, todos estavam aglutinados em pequenos grupinhos olhando para seus celulares e rindo, depois comentavam alguma coisa entre si, rindo ainda mais.
O que havia com as pessoas daquele lugar?!
A luminosidade ali estava me matando, iniciando uma dor de cabeça que me mataria mais tarde. Tirei o estojo de óculos escuros da bolsa e os coloquei, sentindo alívio imediatamente. Aquilo pareceu atrair a atenção de todo mundo para mim, pois todos pararam o que estavam fazendo e me olharam. Uma garota baixou os olhos para o celular e depois para mim, cobrindo a boca com a mão livre.
Eu comecei a ficar preocupada quando a maior parte das pessoas começou a cochichar entre si, muitas sem ao menos desviar o olhar de mim.
Vi Rebekah sentada em uma das mesas, ela também me fitava e comentava algumas coisas com outras pessoas, mas não se moveu quando eu comecei a me aproximar dela.
- Ela colocou os óculos escuros para que ninguém visse como ela estava chorando! - Um garoto qualquer falou, baixinho, quando eu passei por ele. Deu para ouvir, idiota!, eu queria dizer, mas tive que me controlar. Pelo menos até eu saber do que se tratava tudo aquilo.
- Rebekah. - Cumprimentei a menina que me encarava com uma expressão no mínimo intrigante; ao mesmo tempo que parecia chocada, ela parecia estar se divertindo com o que quer que fosse. - Sim? - Ela abriu um sorriso para mim, como se tivesse muita coisa a oferecer. E, antes que eu pudesse dizer o que queria, ela pegou o celular da mão de um garoto que estava ao seu lado e me entregou.
Quando eu li o conteúdo da mensagem e em seguida vi a foto que fora anexada, meu sangue ferveu e algo dentro de mim se rompeu, mas eu me esforcei para não demonstrar muitas emoções. Devolvi o aparelho ao seu dono, que me olhava como se eu fosse uma fera se preparando para o ataque. Dei as costas a eles e fui atrás da pessoa que provavelmente era responsável por tudo aquilo. Na minha cabeça, enquanto eu vasculhava a escola, mil pensamentos ocorriam, xingamentos e juras de morte. As salas já estavam todas vazias, o refeitório estava lotado, mas não achei o que queria ali. me esperava na biblioteca e, quando eu apareci lá, ela resolveu me seguir na minha jornada.
Eu não sabia mais onde procurar quando eu vi o antigo prédio do ginásio.
- Charlie! - me chamava, parecendo desesperada. - Charlie espera! Não dá pra fazer nada de cabeça quente! - Ela tentava me parar, mas, honestamente, eu não estava nem aí; queria que tudo fosse para o inferno de uma vez. - Você nem sabe se é verdade!
- Ah, nós já vamos descobrir. - Abri um sorriso para ela, olhando para trás pela primeira vez desde que ela começou a me seguir, e, pela expressão dela, eu tinha certeza de que eu parecia uma maníaca desvairada daquele jeito. parou de andar por um instante, mas voltou a andar. Finalmente cheguei ao prédio e escancarei a porta, entrando de uma vez. Lá dentro, a iluminação era péssima, mas eu vi que todos os garotos levaram um susto quando eu entrei. Harry e Louis estavam sentados no sofá acabado, Liam estava sentado atrás de sua bateria, conversando justamente com a pessoa que eu queria ver - e matar.
- Niall. - Chamei, alto e bom som, olhando unicamente para ele como se os outros nem estivessem presentes.
Ele se virou para mim e franziu o cenho antes de abrir um sorriso para mim e para , que se colocou ao meu lado. Depois seus olhos voltaram para mim e o sorriso se desfez, como se ele soubesse que algo estava errado.
- É verdade? - Foi só o que perguntei. Apesar de eu não ter dito mais que aquilo, o silêncio que se seguiu indicava que todos ali haviam entendido do que se tratava e aquilo me surpreendeu. Era verdade, então.
Todo mundo sabia?
Olhei para , pedindo explicações, mas ela me retornou um olhar tão perdido e confuso quanto o meu próprio, faltando ali apenas a raiva que me preenchia até o último fio de cabelo. Harry e Louis não disseram uma única palavra, mas havia expectativa em seus rostos e isso era suficiente para eu saber que eles sabiam de tudo.
- Charlie... - Niall começou a falar, mas eu o interrompi quando me encontrei incapaz de sequer ouvir sua maldita voz.
- Como você pôde?! - Eu sibilei, com nojo.
- Charlie... - Ele repetiu, mas eu o interrompi novamente.
- Cala a boca! - Gritei. - Nada do que você tem para me dizer vai consertar ou sequer amenizar a humilhação que eu estou sentindo, seu monte de merda!
- Pelo menos escute o que eu tenho a dizer! - Ele gritou de volta, parecendo desesperado.
- Não! - Gritei novamente. - Quem mais sabia disso, Harry Styles?! - Virei-me para ele, que se assustou.
- A-ah... Eu... - Ele gaguejou.
- Fala logo! - Demandei, impaciente.
- Charlie! - me censurou, mas eu não dei a mínima.
- A banda toda sabia! - Harry conseguiu dizer. - Foi depois das audições. Niall é muito bom, mas não dava para deixar ele entrar assim, de boa!
- E transar com a Charlotte Wilson é exatamente a prova de que ele é merecedor! - Não foi uma pergunta, na verdade era um pouco de sarcasmo misturado com a verdade. Harry abriu a boca para falar, mas nada saiu.
- Ele não tinha que transar com você! - Harry levantou as mãos. - Era para ser só um beijo! Eu também fiquei surpreso quando Zayn disse que seria só um beijo...
- Zayn?! - quase gritou em choque.
- O que tem de errado com vocês?!
- Charlie, eu sei, foi uma péssima ideia. - Niall disse, olhando para mim.
- Péssima ideia?! - Eu soltei uma gargalhada que fez todos me olharem como se eu tivesse acabado de dar um tiro em alguém e aberto um sorriso. Andei até Niall, até ficar a alguns centímetros dele. - O que vocês acham que eu sou? Um objeto? Que vocês podem colocar a prêmio? Aliás, nem prêmio eu sou, não é? Só um desafio. Por quê? Por que eu fui a escolhida? É tão difícil assim estar comigo? Ou alguém querer alguma coisa comigo? Tem que ser um desafio? Eu sou repulsiva? O que tem de errado comigo para eu ser colocada numa maldita aposta como medida de merecimento?!
- Não é nada disso, Charlie... - Niall começou, mas nunca chegou a terminar aquela frase, pois minha mão o impediu de dizer qualquer coisa. Foi automático, quando ele negou, eu apenas levantei minha mão e desferi o tapa, acertando em cheio sua bochecha esquerda.
- Nunca mais ouse falar comigo, Niall Horan. - Sibilei, olhando no fundo de seus malditos olhos azuis.
- Charlie... - Ele tentou novamente dizer alguma coisa, mas eu o interrompi mais uma vez:
- Vocês mexeram com a vadia errada. E eu faço questão de provar isso a cada um de vocês. - Prometi.
Niall me olhava de volta, um misto de preocupação - não chegava a medo - estampava seu rosto. Harry e Louis estavam nos observando, impotentes, assim como , que tinha as mãos cobrindo a boca, como se ela tivesse as esquecido lá enquanto assistia à cena. Girei nos calcanhares e fiz meu caminho até a porta a passos largos. não veio atrás de mim.
- Charlie! - Niall tentou mais uma vez.
- Queime no inferno, Horan. - Falei antes de abrir a porta e sair para a claridade do lado de fora.


Capítulo 18

’s POV
- O que tem de errado com você?! – Eu perguntei quando encontrei Zayn sentado na arquibancada do ginásio fumando um cigarro e contemplando o nada. Ele virou a cabeça para mim, de pé na quadra.
- Well, bom dia para você também, Shortcake. – Riu sem humor algum, voltando a olhar o vazio da quadra. Subi os degraus necessários para ficar de frente para ele, olhando-o seriamente. Zayn suspirou e apagou o cigarro no espaço do banco ao seu lado e olhou para mim. – O que eu fiz de errado agora?
Dei-lhe a bofetada que estava planejando dar desde que Harry disse que a ideia fora de Zayn.
- Wow! – Ele gritou, colocando-se de pé com a mão na bochecha. – Para quê isso?! – Ele me olhou como se eu tivesse cinco cabeças. Lutei para controlar a vontade de lhe dar outro tapa.
- O que tem de errado com você?! – Repeti, só que dessa vez minha voz saiu mais alta e exasperada.
- Muda o disco, , você já disse isso. – Revirou os olhos. – Fuck. Você arruinou meu bom humor. – Completou.
- Eu arruinei seu bom humor?! Eu? Sério, Zayn? Você consegue ser tão babaca assim?! – Coloquei as mãos na cintura, já impaciente.
- Não dá para te levar a sério quando você coloca as mãos na cintura, Shortcake. – Observou, olhando-me como se eu fosse uma criancinha birrenta. O deboche e o descaso fizeram meu sangue ferver novamente e eu levantei a mão para bater novamente nele, mas Zayn foi mais rápido e segurou meu pulso. – Vamos parar com os tapas! – Demandou, olhando-me feio. – O que é tudo isso?!
- Como assim você fez uma aposta com o Niall para entrar naquela maldita banda de vocês? – Cuspi as palavras, fazendo com que ele, finalmente, entendesse do que se tratava e tomar a atitude com a seriedade que merecia.
- Ah, isso. – Murmurou.
- É. Isso. – Confirmei, cruzando os braços. – Eu poderia trucidar você em um milhão de pedacinhos... – Comecei, mas ele arqueou as sobrancelhas, caçoando de mim com o olhar. – Acredite, eu poderia. – Reforcei, lançando a ele um olhar homicida, sentindo a raiva tomar conta de mim mais uma vez. Respirei fundo. – Mas eu estou te dando o benefício da dúvida, Zayn. Eu sei que você fez isso, mas eu quero acreditar que você não fez isso simplesmente por ser o babaca que você é. Então, diga, por favor, que foi uma ideia sem escrúpulos, que você não queria magoar ninguém e que não vai se repetir. Diga. Porque eu quero acreditar nisso, Zayn.
Ele fez silêncio por alguns segundos sem tirar os olhos de mim, mas desviou o olhar e balançou a cabeça.
- Eu, honestamente, não me importava, . – Disse, cruzando os braços também.
- Importava? – Indaguei, com uma pontinha de esperança.
- Não me importo. – Reiterou, olhando-me de cima. Mordi a parte interna do lábio inferior, realmente surpresa com a declaração. Balancei a cabeça sem acreditar no absurdo daquilo. Como alguém podia ser tão... – Você quis a verdade, . – Ele se defendeu. – Eu sou assim.
- Não me venha com essa coisa... – Soltei um grunhido. – Quem você acha que é? Hein? Acha que é algum tipo de ser superior que pode brincar com as coisas que quiser? é um ser humano, Zayn. Um ser humano muito incrível, por sinal. E você simplesmente a usou desse jeito como se ela fosse um tipo de prêmio.
- , por favor. Era só um beijo. – Revirou os olhos.
- Ela foi iludida, Zayn! – Juntei as mãos na frente da boca, segurando-me para não gritar.
- A culpa não é minha se ela...
- Quer saber, chega! – Interrompi-o antes que pudesse soltar aquele absurdo que estava prestes a sair. – Eu deveria vir aqui com o mesmo olhar assustador e com uma ameaça na ponta da língua da mesma forma que a fez ao ir atrás do Niall, mas, ao invés disso, eu quis te dar a chance de se explicar. Só que parece que nem a explicação vale a pena.
- Ingenuidade sua pensar que eu não sabia o que estava fazendo, . – Zayn riu seco, tentando, ainda, sair por cima daquela situação, como se a culpa não fosse dele ou como se aquilo fosse inevitável porque “isso é o que ele é”. Balancei a cabeça novamente.
- Faça-me um favor: nunca mais fala comigo. – Eu pedi, mas acabou saindo como uma ordem. Não que eu acreditasse que falar comigo fosse algo muito essencial para Zayn e aquela seria uma consequência ruim que o faria repensar suas atitudes, mas, na verdade, eu só não queria mais contato com aquele tipo de pessoa. O tipo de pessoa que Zayn era.
Por um segundo, eu me lembrei de Mandy. A mesma manipulação, as mentiras, a falta de responsabilidade... Ele era um mini-Mandy. E eu já tinha uma Mandy inteira para acabar com cada parte da minha vida; não precisava de mais um doente para me azucrinar.
Zayn não respondeu, apenas cravou os olhos em mim com os braços cruzados, dando todos os indícios de que não ia dar o braço a torcer. Ótimo, eu pensei. Naquele momento, não conseguia elencar nem três razões para ter esperado qualquer coisa diferente vinda dele; era tão óbvio que ele não iria tomar outra atitude... Realmente, foi ingenuidade minha.
Dei meia volta e desci os degraus da arquibancada, dirigindo-me à porta de saída enquanto um arrependimento tomava conta de mim. Por que eu vim aqui, mesmo? O que eu achava que ele iria dizer? Eu realmente esperava que ele ia pedir desculpas? Abri a porta pesada e fui recebida pelo sol do lado de fora, ferindo meus olhos com a claridade. Antes que a porta se fechasse atrás de mim, pude ouvir o som de algo se chocando contra outra superfície, parecendo explodir ou algo do tipo. De alguma forma, eu sabia do que se tratava e, por isso, balancei a cabeça negativamente, passei as mãos pelos cabelos, começando a sentir como se estivesse à beira da loucura, irritada e um pouco contente, ao mesmo tempo. Droga, eu queria sorrir, mesmo sabendo que não devia, a vontade era maior que a raiva por aquele ser desprezível. Mordi o lábio inferior, lutando com todas as partes opostas dentro de mim.
“Ele é um babaca que gosta de jogar com as pessoas”, reforcei em minha mente.
Mas agora eu sabia: ele se importa.


Liam’s POV
- Acho que hoje o amigo do professor Clark vai dar a avaliação da nossa apresentação. – Josh estava falando enquanto esperávamos Harry e Louis se juntarem a nós. Sentei-me de costas para a mesa de pedra para poder olhar a movimentação no campus. Havia uma energia no ar naquele sábado que eu não sabia exatamente o que era, mas parecia estar definindo algum tipo de fenômeno social na St. Bees. As garotas estavam mais reunidas que o normal, conversando em grupos mais fechados, olhando para os lados enquanto riam. Alguns caras também conversavam entre si com aquele olhar que só denunciava uma coisa: fofoca.
Eu não fazia ideia do que se tratava e, também, pouco me importava o que era. Josh era o jornal do grupo, não eu. Mas notei que, estranhamente, Josh não havia tocado em qualquer assunto que pudesse parecer suspeito ou que explicasse aquele comportamento todo.
Enquanto observava as pessoas, eu também procurava uma pessoa.
estava me evitando desde o momento que tivemos em seu quarto no Natal. Não somente pelo amasso, mas pelo choro depois que o pai lhe deu a pulseira de sua mãe. Era a segunda vez que via chorar e, honestamente, não me surpreendia; ninguém pode ser tão insensível. Nem mesmo ela. E aposto que tinha um coração também, mas o dela não me intrigava tanto quanto o da minha meia-irmã. Não que o coração dela fosse realmente da minha conta, mas não sou esse tipo de babaca sangue-frio que não dá a mínima ao ver uma garota chorar.
E, além do mais, o jeito como ela lutava para dizer não enquanto está louca para dizer sim era uma diversão e massagem sem medidas para o meu ego. E era o que me puxava para perto dela também.
Não conseguia tirar da cabeça a imagem dela embaixo de mim e o cheiro quente e floral de sua pele macia. Fuck, eu até sonhava com o resto. Eu estava enlouquecendo, para dizer o mínimo. Aquilo precisa ser terminado. Só assim eu poderei seguir em frente com minha vida.
- Cara! – Harry se jogou no banco ao meu lado, barulhento como sempre, arrancando-me de meus pensamentos. – Vocês não vão acreditar na merda que acabou de acontecer. – Ele começou a contar.
- Todo mundo já sabe, Harry. – Louis o cortou, revirando os olhos.
- O quê? – Perguntei, curioso de repente. Talvez toda a agitação fosse sobre isso.
Harry abriu um sorriso debochado para Louis, que revirou os olhos e se sentou também.
- A descobriu tudo, dude. – Harry balançou a cabeça.
- O quê?! – Repeti a pergunta, mas dessa vez eu simplesmente não acreditava na resposta.
- Ah, é! – Josh estalou os dedos. – Era sobre isso que eu queria falar hoje, mas não lembrava! – Riu de si mesmo. “Tá explicado”, pensei. – Recebi a mensagem ontem, depois que voltamos da Hybrid.
- Cacete, isso é... – Comecei a dizer, mas não consegui definir a situação.
- Uma merda. – Louis terminou para mim, concordando e se virou para Josh. – Por que você não contou pro Niall?
- Eu achei que ele tinha recebido também. – Josh deu de ombros. – Além disso, a ia querer a cabeça dele, não a minha.
- Ah, você pode apostar! Ela apareceu lá na sala da banda! Os olhos dela, cara... – Harry jogou os cabelos para trás. – Cacete, eu achei que ela ia arrancar as bolas do Niall ali na hora...
- Ela está puta assim? – Perguntei, franzindo o cenho. Não parecia a que eu conheço.
- Ela tá muito puta. E tem mais: ela ameaçou cada um de nós. – Louis cruzou os braços, fazendo uma cara de sério pela primeira vez desde que o assunto estava sendo discutido. Harry balançou a cabeça, confirmando.
- Eu nunca a vi daquele jeito. – Harry reforçou.
- Quem será que vai ser o primeiro? – Josh levantou a dúvida.
Eles começaram a falar sobre aquilo, perguntando-se o que aconteceria ou se, de fato, aconteceria, mas parecia que eles estavam completamente preparados para o pior ou algo assim. Não ouvi o resto das especulações, pois minha atenção se voltou totalmente para a garota que atravessava o pátio rapidamente, costurando entre as pessoas, dirigindo-se para o prédio das salas de aula, o que era esquisito, pois é sábado e não temos aula. Murmurei um rápido “já volto” para o pessoal e me levantei antes que pudesse sequer planejar o ato; mas acho que meu corpo já estava pronto para fazer isso assim que a visse.
Segui-a de longe, com as mãos nos bolsos, num passo calmamente planejado. Olhei em volta antes de entrar no prédio para me certificar de que ninguém me notara ou vinha nessa direção também, mas todo mundo parecia absorto demais no que estava rolando na escola naquele dia.
Os corredores estavam vazios e tinha como iluminação somente a luz do sol que entrava pelas janelas das salas que tinham as portas abertas. Nunca havia visto a escola daquela forma e havia algo até poético nas sombras e no silêncio que tomavam conta do lugar. Ouvi o barulho metálico e logo notei que vinha do próximo corredor. Dobrei à direita, encontrando encarando seu armário aberto como se tentasse decidir alguma coisa, mas ela percebeu minha chegada e soltou um muxoxo de desgosto.
- O que você quer, Payne? – Ela disparou, voltando a olhar seu armário como se ele fosse mais interessante que eu. Abri um sorrisinho, tomando aquilo como um incentivo para me aproximar.
- Bom dia, também. – Provoquei antes de me encostar ao armário ao lado do dela, divertindo-me com o olhar frio que ela me lançou. – Eu vi você vindo para cá e fiquei intrigado.
- Curioso você saber o que é isso. – Observou, finalmente tirando alguma coisa de dentro do armário; um livro grande e pesado de História.
- Curioso você resolver estudar História num sábado. – Apontei para o livro.
- Você devia tentar também. – Abriu um meio sorriso com as sobrancelhas arqueadas, sugestivamente e secretamente tirando sarro. Revirei os olhos e me aproximei um passo dela, que não pareceu se importar.
- Outro dia. – Pisquei.
- Claro. – Disse como se não acreditasse. Olhou mais uma vez para o armário e tirou outro livro de lá, dessa vez o de Biologia.
- Biologia também? Isso é...
- O que você quer? De verdade. – Ela fechou o armário ruidosamente e se virou de frente para mim, abraçando os livros com força, impaciente.
Uma risada baixa escapou de mim e eu olhei diretamente em seus olhos.
- Achei que não fosse perguntar assim. – Tirei os livros de sua mão e os deixei escorregar pela minha perna até o chão para não fazer barulho. Ela me lançou um olhar confuso, que logo se transformou em surpresa quando eu segurei sua cintura com firmeza e a puxei. – Eu quero você. – Declarei.
Ela olhou para o jeito que estávamos antes de me olhar nos olhos, a confusão dando espaço para outra coisa.
- Aquilo foi um erro. – Disse, mas não me convenceu.
- , , . – Soltei um suspiro divertido. – Eu sei quando vocês querem alguma coisa.
Ela cavou um buraco na minha cara com o olhar que me deu em seguida à minha fala. Afastou-se com um empurrão e me deu as costas, bufando.
- Você é patético, Pa-
Puxei-a pela cintura. O choque de suas costas contra meu peito fez soltar o ar pela boca. Segurei cada lado de sua cintura com as mãos, pressionando o local com rigidez, e lhe falei ao ouvido:
- Especialmente, eu sei que você quer. – Ri fraco. – Tanto quanto eu.
Sem dar chance para que ela se soltasse, afastei o cabelo dela, deixando seu pescoço à mostra, e tracei uma trilha com a boca até sua orelha com, beijando, mordendo e usando a língua de vez em quando. Atento às suas reações, notei a pele de seu braço arrepiada. Invadi sua blusa, sentindo a pele de sua barriga sob meus dedos, a curva de sua cintura, o tecido de seu sutiã. Ela tombou a cabeça para trás quando eu comecei a fazer o contorno daquela pequena peça de roupa, ameaçando tocar seus seios por debaixo dela. Sua respiração estava irregular e, pelo que eu podia ver, seus olhos estavam fechados.

’s POV
Eu não sabia onde estava e mal conseguia me lembrar de como havia ido parar naquele lugar com Liam, mas eu também não conseguia acessar a parte do meu cérebro responsável por se importar com qualquer um daqueles detalhes.
Meu suéter escapou de mim em um segundo e mais rápido que isso só os lábios de Liam de volta aos meus, beijando-me com urgência e volúpia. Suas mãos seguraram minha cintura com força e me pressionaram contra seu corpo, permitindo-me sentir sua ereção por debaixo da calça jeans, e eu não consegui conter um gemido contra seus lábios, o que o fez sorrir e subir as mãos para meu sutiã. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo ali. Quero dizer, eu sabia muito bem o que estávamos fazendo, mas não sabia aonde aquilo ia parar, quais as consequências, mas meu corpo insistia em não ligar para nenhuma daquelas coisas e focar somente nos beijos quentes e vorazes de Liam contra a pele de meu pescoço. Aquilo ia deixar marcas.
Liam me pegou pela parte detrás de minhas coxas e me sentou em algum lugar, abriu minhas pernas e se colocou entre elas, depois me puxou novamente, colando nossos corpos de uma forma que só seria melhor se ambos estivéssemos sem aquelas malditas roupas. Eu arfei, olhando para baixo, sentindo um frio na barriga ao ver o estado em que nos encontrávamos. Quis brincar e dizer a ele que sua camisa ainda cobria seu tronco, mas, de repente, a ideia de falar parecia dar um ar mais “íntimo”, quase descontraído, ao que estávamos fazendo e nós dois sabíamos que aquilo não era sobre sentimentos – eu odiava Liam e o que ele representava mais que tudo – e sim sobre desejos. Por isso, apenas puxei a barra de sua camisa para cima e o despi, mordendo o lábio para evitar que eu soltasse qualquer barulho constrangedor ao ver seu corpo perfeito. Era quase um desrespeito alguém ser tão gostoso. Arranhei seu peitoral, descendo até o cós de sua calça e o puxando mais para perto naquela região. Um som saiu de sua garganta, quase estrangulado, como se ele estivesse sofrendo ou segurando muito alguma coisa, mas tinha seus olhos fechados e sua mão me segurava no lugar, como se me incentivasse a fazer o que quer que eu estivesse fazendo.
Voltei a beijá-lo, fazendo, involuntariamente, um movimento de vai e vem, quase rebolando em cima da mesa, esfregando-me nele, enquanto minha língua explorava sua boca lentamente, ajudando-me a conter os gemidos que se formavam à medida que eu sentia aquela pressão no meio das minhas pernas. Senti a mão dele abrindo o primeiro botão da minha calça jeans. Segurei seus ombros e joguei a cabeça para trás, gemendo alto quando sua mão escorregou para dentro da minha calcinha.

Zayn’s POV
Enquanto fazia meu caminho para o dormitório feminino eu observava cada janela do prédio de cinco andares. Eu procurava o quarto de e esperava que, por algum acaso da vida, talvez tivesse a sorte de vê-la passando pela janela ou que, por intuição, eu simplesmente soubesse. Não poderia perguntar a , já que era colega de quarto da , e muito menos poderia perguntar à própria . Nesse momento, eu provavelmente era a última pessoa que ela queria ver.
Contornei o prédio a fim de entrar pela porta de emergência e, quando cheguei lá, esperei com todas as forças que as portas não estivessem bloqueadas – porque é possível, sim, que certas pessoas muito estúpidas bloqueiem as portas de emergência. Mas, para minha sorte, não estavam. Puxei a porta, já me perguntando como faria para falar com , especialmente àquela hora da noite.
Para minha total surpresa, no entanto, eu encontrei sentada no último degrau da escada fumando seu cigarro. Ela parecia dormir já que seus olhos estavam fechados, mas os dedos de sua mão livre estavam balançando repetidamente; e foi só então que percebi que ela estava ouvindo música em seus fones de ouvido.
- Hey. – Dei um toque em seu joelho, despertando-a de seus pensamentos. Ela abriu os olhos e me olhou como se eu estivesse ali para brigar.
- O que você quer?
- Preciso da sua ajuda. – Falei, sem rodeios.
- Para quê? Quer apostar quem fuma mais cigarros?
- Quê? – Franzi o cenho. – Fala sério, .
Ela soltou uma risadinha fraca e balançou a cabeça, fechando os olhos novamente.
- É proibido sexo oposto nos dormitórios. – Disse.
- E nós ligamos muito para regras. – Revirei os olhos.
- Estou tentando me manter longe de encrencas, Malik.
- Tente de novo. – Tirei o cigarro de sua mão e o traguei.
- Você não tem coisa melhor para fazer além de torrar a minha paciência?
- Você não tem essa coisa de paciência, , não viaja. Isso é só para afastar as pessoas.
- Pelo visto não está funcionando. – Ela me lançou um olhar sugestivo.
- Não mesmo. – Dei de ombros e me acomodei no degrau em que estava sentado. – Só saio daqui quando você disser que me ajuda.
- Eu não devo nada a você.
- Ainda. – Levantei um dedo. – Qual é, . O que você tem a perder?
- O que você tem a perder?
- Só responde, . – Revirei os olhos.
- Não seja tão mandão, Malik. Eu faço as perguntas. – Ela apontou o cigarro para mim. Parecia que seu interesse pela conversa havia aumentado e o interrogatório iria apenas começar, apesar de que ela não fazia muito o tipo de interrogatórios.
- Fala sério. – Bufei, jogando a cabeça para trás.
- Como diabos você pretendia ganhar a garota com esse tipo de joguinho?!
- Como é? – Voltei a olhar para ela.
- Brincar com a melhor amiga dela! Sério? Você é tão estúpido assim?! – Ela parecia querer rir, mas parecia mais com indignação e escárnio. – Eu acho que sim! Porque, ainda por cima, você acha que eu posso te ajudar a fazer as pazes! Por favor, fala o que fez você pensar que eu poderia te ajudar?
- Você é uma fucking garota. – Falei, como se fosse óbvio.
- Isso é tudo? Malik, eu tomo pílulas para apagar simplesmente porque eu não quero sonhar. É assim que eu lido com os meus problemas!
- Qual é, , você deve ter um coração aí dentro.
Ela arqueou as sobrancelhas, mas não respondeu.
A verdade é que eu estava desesperado. Pra caralho.
- Sabe, Malik, para mim, duas coisas resolvem a maioria dos problemas: pílulas e sexo. Era assim que eu resolvia os meus. Deve ser assim que você resolve qualquer coisa; o sexo, claro. – Rolou os olhos. – Se você está tão desesperado assim, você devia comer a logo. Nada segura mais uma pessoa que sexo. Eu me lembro das garotinhas de 15 anos que ficavam aos pés do Kevin depois de uma noite com ele. Era nojento. Pareciam cadelas no cio. E ele? O Kevin não ligava mesmo para elas, faltava pouco para pisar nelas e... – De repente o rosto dela perdeu toda a expressão e os olhos dela adquiriram de novo aquele tom pálido e frio. Ela parou de falar subitamente.
- Kevin? – Insisti, mas ela permaneceu calada. – Quem é? Namoradinho?
- Ninguém.
- Ah, ela ficou triste! – Fingi estar com pena. – Senhoras e senhores, e seu mais novo sentimento expressado ao vivo e em cores: tristeza! Muito original, , mas não estamos falando dos seus namoradinhos e, sim, da .
Apesar de que era evidente que havia muito mais que tristeza por detrás daquele olhar morto de . E, agora que foi mencionado, esse Kevin devia ter muito a ver com isso. Se não fosse ele mesmo o problema. Também não seria nada inesperado que a tivesse sido uma dessas garotinhas idiotas que caem aos pés da primeira transa e, no final, se deu muito mal. Mas, a julgar pela própria imagem da garota sentada à minha frente, deu muita merda. E isso matou a pessoa que havia dentro dela.
De repente, pareceu voltar a si e olhou direto para mim.
- Mas – prolongou o “s” – a não é esse tipo de garota! Então, basicamente, você está fodido. Acabou. Supera, Malik. Existem outras virgens no mundo.
- Infelizmente você já foi violada, não é? – Abri um sorrisinho para ela, cínico, decidindo deixar passar aquela brecha que ela deu sobre seu passado.
- Vai pro inferno. – Rebateu.
- Não quero saber como você reage às merdas da vida, . O que, aliás, dá para ver pela sua cara. Eu não vim aqui para ouvir o que você acha da minha vida.
- Eu não vim aqui para ser incomodada pelo senhor-babaca, mas parece que nem tudo é como a gente quer, não é mesmo?
- Você me deve uma. É simples.
- Ah! – Ela arqueou as sobrancelhas. – Eu te devo uma. Pelo quê, mesmo?
- Um dia você irá precisar de mim e, nesse dia, você vai desejar estar me devendo uma.
- Essa sua estupidez... Isso é uma doença ou você adquiriu ao longo da sua inútil existência?
- Eu conto se você me contar a sua. – Rebati, abrindo um sorriso sarcástico. Ela, por sua vez, mostrou-me seu dedo médio. – Quanta classe. – Zombei e bati a ponta do cigarro para que as cinzas caíssem antes de tragar novamente. – Chega de papo. Sim ou não?
- Awn, você está tão desesperado para transar que chega a ser cômico, Malik. Que garota de sorte essa ! – Ironizou.
- Também posso arranjar um horário para você, não precisa jogar esse ciuminho para cima de mim, . – Pisquei para ela, que revirou os olhos.
- Você me enoja. – Fez um barulho com a garganta e uma careta. – E não vou te ajudar a arrumar essa merda que você fez. Aliás, o que eu poderia fazer? Olha para mim, Malik, depois olhe para ela. Não combina.
- Você pode falar com ela. – Dei a única sugestão que não parecia inimaginável para se sujeitar a fazer.
Foi nesse momento em que ela começou a rir.
Puta que pariu.
Até uma ferrada como a tinha motivos para rir de mim.
Mas aquilo me fez querer ainda mais ter a .
- Olha – comecei a falar e ela parou de rir ao ouvir meu tom de voz, que nem eu reconheci. – Eu realmente preciso de alguma ajuda nesse momento. Pense como quiser, , mas eu gostaria muito de conseguir me aproximar daquela garota de novo sem que ela queira me enfiar uma faca no pescoço porque eu mexi com a melhor amiga dela.
Para minha surpresa e completa decepção, não falou nada. Muito pelo contrário, caímos em um silêncio profundo enquanto ela cavava um buraco dentro de meus olhos.
Caralho, aquela garota era um enigma. Honestamente eu não fazia ideia do que estava passando pela cabeça dela e, até onde eu sabia, ela podia estar simplesmente viajando em seu próprio mundo.
- Vamos fazer um acordo. – Os olhos dela tomaram um brilho diferente. Assenti, indicando que ela prosseguisse. – Eu penso no caso se você me contar por que quer tanto ser amiguinho e, que Deus livre essa garota, ser o namoradinho dela.
Estreitei os olhos, analisando atentamente todos os possíveis prós e contras daquele acordo que mais me parecia uma armadilha. abriu um sorrisinho para mim, instigando, apressando, desafiando.
O plano, na verdade, era muito simples: ficar com a para chegar à Mandy e a colocar contra a parede. Ela não escaparia dessa vez. Eu faria a vadia implorar para me ter de volta.
- Parece justo. – Falei, por fim. Que mal poderia fazer? Quem acreditaria nela, caso ela falasse? Para quem ela iria falar? Por favor. Ela aumentou um pouco mais seu sorriso. – Mas, sua ajuda deve ser efetiva. Nada de trapaças, .
Ela olhou em meus olhos.
- No dia que eu precisar “te dever uma”, é bom você estar lá, Malik.

’s POV
Era muita coisa acontecendo em pouco tempo.
- Ei, ! – Alguém gritou, e virei de costas bem a tempo de pegar um papel que Rebekah enfiava na frente da minha cara. – Festa semana que vem! – Ela sorriu e foquei em seus cabelos vermelhos presos em dois rabos de cavalo frouxos, caindo um em cada ombro. Até que ela me abraçou pelo pescoço e começou a andar me puxando para onde estava indo, e precisei de um momento para me situar. – Já notei que festas escolares não são muito a sua praia, mas estava esperando que você aparecesse por lá e, você sabe, levasse um pouco do seu material, ou talvez o cara com quem consegue as suas coisas, para dar mais diversão a esse povo...
- Não vai rolar, Rebekah. – Disse, tirando seu braço de volta do meu pescoço. Ela me olhou, com uma expressão de conformidade.
- Já sabia. Mas tentar é sempre de graça – ela disse, dando de ombros, e piscando para mim em seguida antes de abrir um sorriso atrevido e se afastar. Rebekah era o tipo de pessoa que flertava até com um poste se ele estivesse perto o bastante. E ela era boa nisso. Balancei a cabeça, voltando a seguir meu próprio caminho.
Como disse, muita coisa acontecendo. A história da aposta, que parecia estar fazendo todo mundo ficar puto com todo mundo em volta de mim. e seu probleminha que, por um descuido meu, acabou sendo meu problema também. Malik e seus favores, que eu definitivamente não devia ter acatado para mim, que já tinha meus próprios (e grandes) problemas. E agora algum babaca tem a brilhante ideia de dar outra festa!
Ia tudo virar um caos naquela merda. Mas eles só queriam saber de encher a cara.
Estava saindo do prédio das aulas, onde o pátio estava relativamente cheio para um dia cinza e úmido. Era horário de almoço, e eu só queria um tempo livre para tentar botar a cabeça em ordem. Era muita coisa em minha cabeça, e eu ainda tinha que tentar enfiar o conteúdo das aulas em algum lugar, quando só queria tomar alguma merda forte o bastante para apagar por uns dias. Dar um reset no cérebro. Como se meus problemas fossem sumir enquanto eu estivesse fora. Esse era meu erro toda vez, agir como se os problemas se resolvessem sozinhos.
Sentei em um banco um pouco afastado de onde todo mundo se aglomerava, perto de umas árvores que disfarçavam minha presença ali, e acendi um cigarro. Relaxei um pouco, mas há dias nicotina já não era mais suficiente para me acalmar. Eu precisava sair daquele colégio. Comprar um novo chip para o meu celular, ligar para alguém, descobrir o que estava acontecendo, se eu estava ficando louca com a mensagem que recebi no natal ou se aquilo era real. Precisava pensar em alguma coisa, em como fugir daquela situação. Eu nem conseguia imaginar o que aconteceria caso...
Balancei a cabeça, havia tanta coisa! Não dava para pensar nas consequências daquilo, eram muito grandes.
Apoiei a testa na mão, fechando os olhos e soprando a fumaça, respirando fundo, tentando segurar tudo aquilo por mais uns dias dentro de mim. Pelo menos até que tivéssemos um dia livre e eu pudesse sair para fazer o que fazia de melhor, que era encontrar algum modo de esquecer de tudo por um tempo. Finalmente me dar um presentinho, depois de tanto tempo andando razoavelmente na linha. Eu já sentia a fome por me auto destruir novamente. Sentia falta da dor.
- Você está fugindo de mim. – Ouvi a voz de Louis dizer muito perto de mim, mas não quis abrir os olhos. E também tinha aquilo. Ele. Um problema que eu definitivamente não queria resolver agora.
Abri os olhos contra a vontade e encontrei seu rosto perto do meu. Ele estava parado de pé na frente do banco, curvado para perto de mim. Quando o olhei, ele se endireitou.
- A questão é por quê.
Suspirei pesadamente. Aquela era a hora que eu vinha esperando há algum tempo, quando ele começou a se aproximar e eu deliberadamente deixei.
- A gente simplesmente não vai rolar, Louis. – Falei, tragando o cigarro. Encarei seu rosto, seus olhos azuis estavam meio opacos naquele dia cinzento. Ele me fitou por um momento sem esboçar reação, e então balançou a cabeça.
- Boa tentativa. Você não vai conseguir me af...
- Não estou te pedindo para fazer nada. – Falei e me levantei. – Eu vou ser clara com você. Cansei desse joguinho de criança, eu não sou sua paciente, e você não precisa mais tentar desvendar os meus mistérios. Todo mundo já te viu perto de mim. – Dei de ombros. - Já provou seu objetivo. Eu agradeceria se pudesse me dar um pouco de espaço agora.
Comecei a caminhar em direção às pessoas, para ir ao refeitório. Dentro de mim, eu desejava que aquilo tivesse acabado por ali. Que ficasse por isso mesmo, e ele não tornasse tudo mais difícil do que precisava ser. Mas percebi que não seria assim tão fácil quando ouvi seus passos atrás de mim.
- – Louis chamou. – Eu não quero provar nada. Você é uma pessoa com quem gosto de passar o tempo. Eu gosto de conversar com você, eu gosto de você! Por que é tão difícil de aceitar que você é uma pessoa legal? Você não é tão antissocial quanto pensa ser, e eu só... Ugh, para! – Exclamou, segurando meu pulso e me fazendo virar para ele. – Estava tudo bem até o dia da ceia, e então você...
- Eu quero que entenda uma coisa. – Disse, puxando meu pulso de sua mão e jogando meu cigarro no chão. Podia sentir a plateia se formando em volta, as conversas cessarem e os burburinhos começarem. – Eu não preciso que você me diga o quão incrível pra caralho eu sou, Tomlinson. A questão é que eu simplesmente não quero você. – Parei por um segundo apenas, só para constatar que agora, sim, ele estava sem palavras. – Deus! – Disse um pouco mais alto e ri com escárnio. Não era um show que todo mundo queria desde o dia em que eu entrei naquele colégio? Ver a freak dando jus ao apelido? – Deixa de ser tão desesperado, Louis! É óbvio para todo mundo que eu e você simplesmente nunca vai rolar. Pessoas como eu não querem pessoas como você – disse, um pouco mais baixo, mas ainda o suficiente para que todos pudessem ouvir, no silêncio mortal em que o pátio estava. – Pro seu próprio bem, para de correr atrás de quem não quer você.
E então eu virei as costas e continuei andando. Agora sim com a certeza de que ele não estava atrás de mim, simplesmente pelo olhar em seu rosto enquanto me ouvia dizer aquilo. E eu estava satisfeita. Um problema a menos a resolver.
Quando entrei no prédio levei a mão ao peito, sentindo algo incomodar em minha garganta, como um sufoco. Respirei fundo, desabotoando um botão de meu uniforme, e foi aí que percebi que aquilo não era físico. Era remorso. Eu estava sentindo remorso pelo olhar no rosto dele. Por saber que ele acreditava nas minhas palavras. Porque, mais do que qualquer pessoa, eu sabia que, na verdade, tudo que acabara de dizer era a mais ridícula das mentiras que já contei.
Eu gostava de Louis, e essa era a verdade.

’s POV
- Ninguém se manifestou ainda? – Ouvi a voz da Srta. Campbell vinda de algum canto. Levantei a cabeça, movendo minha atenção do celular para o que estava à minha volta, não achando a mulher quando a procurei.
- Não, e acho que ninguém vai. Esses moleques são uns pilantras, devem estar acobertando uns aos outros. Aposto que foi aquele Lance e sua trupe de babuínos. – Outra voz, dessa vez masculina, disse. Finalmente, localizei a fonte e me coloquei de lado para ouvir melhor.
Não havia mais ninguém nos corredores e os adultos em questão estavam em uma sala de aula, falando claramente sobre o incidente da estátua do fundador da escola – incidente para mim e as meninas, vandalismo e crime para a diretora da escola. Fiquei um pouco espantada pela forma como o homem chamou os amigos do Lance: babuínos. Será que eles eram malvados com todos os alunos ou só aqueles que aprontavam?
- Se eu conseguisse canalizar toda essa cumplicidade para uma causa maior e mais profunda... – A diretora suspirou, frustrada.
- Essas crianças não saberiam ver uma causa maior e mais profunda nem se ela lhes desse um soco na cara. Estão ocupadas demais se embebedando e transmitindo doenças venéreas pelo mundo. – O outro riu, amargurado.
- De qualquer forma, Sr. – Estiquei-me para poder ouvir seu nome. – Pieterson, agradeço novamente pela sua disposição a nos ajudar a resolver esse impasse.
- Eu que agradeço, Srta. Campbell, de certa forma, não há muita ação no jardim de infância. – Riu novamente. – E eu sempre quis dar umas lições no Lance.
- Apesar de eu reconhecer seus esforços, não sabemos quem foi o culpado, por isso, sem marcação. – Repreendeu a mulher. – Agora, eu ainda não tive acesso às câmeras de segurança da escola. Nós temos câmeras de segurança no pátio, certo?
- Eu preciso verificar isso. – Respondeu ele. – O pessoal da informática nunca foi muito eficiente.
Meu Deus, que homem babaca.
- Consiga essa informação e traga à minha sala até o fim do dia. – Disse ela em um tom definitivo, claramente finalizando a conversa. Demorou um ou dois segundos para eu me dar conta de que eles iriam sair da sala a qualquer minuto e eu estava ali, espiando.
Girei nos calcanhares rapidamente e entrei na primeira sala que tinha a porta aberta, colando minhas costas na parede para me esconder. Pude ouvir os saltos da mulher ecoando pelo corredor enquanto ela se dirigia à saída do prédio, seguida pelo homem de terno azul escuro.
- Espere, aquela sala está aberta. – Disse ela, parando de repente e refazendo seu caminho, vindo em direção à sala em que eu estava. Prendi a respiração, sentindo a adrenalina invadir minha corrente sanguínea, reagindo à tensão daquele momento. Deslizei para o chão, entre uma cadeira e outra, encolhendo-me como uma bola. Rapidamente, tracei um plano. Esfreguei meus olhos e não parei até sentir o rímel borrar e grudar na pele logo abaixo dos olhos, dei alguns tapinhas nas bochechas para deixa-las avermelhadas, depois coloquei meus fones de ouvido. Abracei meus joelhos e esperei para encenar alguma coisa dramática, caso a diretora me encontrasse ali. – Você tem a chave? – Perguntou depois de fechar a porta, sem parecer me perceber encolhida naquele canto.
- Não. – Disse o outro, apenas. Ela fez um barulho com a boca e disse:
- Vamos fazer cópias das chaves e entregar aos professores. Eles precisam ter controle sobre quem entra e quem sai nas suas salas de aula.
Vocês também estavam numa sala de aula, fofa!, tive vontade de responder a ela, mas abaixei a cabeça.
O cara respondeu alguma coisa, mas não pude ouvir o que era, pois ele já estava se afastando da sala de aula. A diretora pareceu deixar a situação como estava, mas eu podia apostar que ela iria à frente com essa coisa de chaves para todos os professores. Ela se afastou também e, apenas quando eu ouvi a porta da entrada do prédio sendo fechada, eu me coloquei de pé, soltando o ar pela boca.
Não me demorei mais por ali, com medo de ser pega. Tomei o caminho para a saída de emergência, pelos fundos do prédio e me dirigi ao refeitório.
Lá dentro, o ar era mais quente e a animação invadia as conversas dos alunos. Não vi nem , apenas estava sentada na mesa com Lance e alguns amigos, conversando e dando risadas com eles. Dirigi-me até lá e a tirei dali segurando-a pelo pulso para fora do refeitório.
- Ei, ei, ei! – Ela reclamou, soltando-se de mim com um puxão. – O que é isso?
- Onde estão e ? – Perguntei, ignorando seus protestos.
- Não sei, não as vi até agora. Saíram cedo. Ou eu que dormi demais. – Ela soltou uma risadinha, como se caçoasse de si mesma.
- Tá, tá. – Passei as mãos pelo cabelo, bagunçando-o freneticamente quando toquei o couro cabeludo.
- O que foi? – me olhou como se eu fosse louca. – Parece que você tomou Ritalina.
- A diretora quer ver as câmeras de segurança! – Falei, cruzando os braços para conter o nervosismo.
- Ela quer ver o quê? Nós temos isso?! – percebeu a magnitude do problema assim que eu disse e fiquei agradecida por não ter que dizer de novo.
- Como eu vou saber?! – Levantei as mãos para o céu. – Eu sou a caloura aqui.
- Onde ouviu isso? – Quis saber.
- E isso importa? – Bufei. – Eu ouvi a diretora conversando com um tal de Pieterson numa sala de aula.
- Pieterson? Aquele monte de...
- O que tem ele?
- Ele é o coordenador do Jardim de Infância.
- Achei que você não havia feito o jardim de infância aqui.
- Não fiz, mas as histórias dele são tipo lendas aqui. O cara é um escroto. – Ela fechou a cara. – Ela pediu a ajuda dele?
- Sim. E parece que ele suspeita do Lance.
- É, também já ouvi falar dessa marcação.
- Ok! Voltando ao assunto: existem câmeras de segurança naquele pátio?
- Eu não sei, nunca reparei!
- Nós precisamos avisar as outras meninas.
- E descobrir se tem mesmo essa coisa de câmeras lá.
- Isso. – Passei a mão pela testa e isso atraiu a atenção dela para o meu rosto.
- O que houve com os seus olhos?
- Nada. – Bufei. – Eu vou atrás da e da . Você procura a .
- Ok. – Ela bateu uma leve continência.
- Vamos nos encontrar na biblioteca, ok?
- Ok. – Repetiu.
Assenti e dei meia volta, indo em direção aos dormitórios na esperança de encontrar a dupla inseparável por lá.

Zayn’s POV
Pisei na ponta do cigarro enquanto pensava no que acabara de ouvir.
Quer dizer então que aquilo no pátio foi culpa delas?
Era interessante, apesar de não saber muito bem ainda o que fazer com a informação.
estava oficialmente puta comigo. Não que eu quisesse ser o melhor amigo dela, mas, com certeza, tê-la chateada comigo não me ajudava em nada. E parecia que estava muito perto para eu poder – finalmente – tentar qualquer coisa. Mas o que eu esperava? A parte mais difícil com certeza seria conquistar a garota; o resto vinha por acréscimos.
Como eu fui idiota de não pensar no que poderia resultar aquela maldita aposta?
Não que eu ligasse, mas deveria saber que não é o melhor jeito de conseguir a simpatia de alguém.
Claro que eu não esperava que alguém fosse dar com a língua nos dentes.
Merda.
De onde eu estava – na lateral externa do refeitório, coberta suficientemente pela sombra das árvores para eu ir ali fumar por um tempo e acalmar os nervos – dava para ver o pátio inteiro. encontrou e as duas trocaram algumas palavras. Acho que nunca verei o dia em que irá, realmente, se importar com alguma coisa. O olhar que ela deu foi tão indiferente que o queixo de quase caiu.
Ri por dentro, divertindo-me com a cena.
Só pode ser brincadeira que não dá a mínima.
Ela deve estar chapada.
É, deve ser isso.
Na outra extremidade da área aberta, chegou ao prédio do dormitório feminino e entrou.
Onde será que está agora?
Provavelmente secando as lágrimas da amiga.
Fala sério.
Meu celular vibrou em meu bolso, indicando uma mensagem.
Que tal Screen, do Twenty One Pilots?”, Harry sugeriu no fucking grupo de conversa que ele criou em um aplicativo qualquer para tratar dos assuntos da banda. Eu nunca tive paz de novo; parecia que o moleque nunca tinha uma hora para dormir ou uma punheta para bater.
Puta que pariu.
Tentei puxar a música pela memória e descobri que me recordava apenas do início da música. Pelo menos ele não estava sugerindo Justin Bieber ou Britney Spears. Ninguém respondeu a mensagem dele, mas, eu sabia que eu era o único que não estava com eles naquele momento. Não fazia questão de estar; as duas horas três vezes por semana naquela sala de ginástica eram suficientes para eu querer matar cada um deles toda vez que a música era interrompida. É bom que eu ganhe esses pontos extras que o professor de música me prometeu.
Fine.”, respondi à mensagem dele. Que seja. Sem mim aqueles caras não passam de uma bandinha razoável de garagem.
Recebi outra mensagem dizendo para ir até a sala de ginástica.
Bufei, sem a menor paciência para aquela merda.
Eu precisava começar a agir rápido se quisesse voltar a falar com a mini-. Não havia tempo para ensaiar musiquinhas idiotas para uma apresentação falsa para um público que não está nem aí – sim, estou falando do trabalho final da aula de música deles. Tínhamos alguns meses para ficarmos fodas para impressionar o professor.
Balancei a cabeça negativamente, rindo de minha própria desgraça.
Eu não nasci para isso.
Mas, apesar de toda essa bosta, eu não tinha nada melhor para fazer, por isso fui até a sala. Entrei sem a menor cerimônia, encontrando cada um afinando seu devido instrumento.
- Alguém gosta de sexo selvagem, huh. – Apontei para a marca vermelha na bochecha de Niall, que apenas me olhou como se fosse me matar, mas, ao invés de gritar e dizer o quão filho da puta eu era por sugerir aquilo, ele disse outra coisa:
- Nós estamos fodidos, cara.
’s POV
- O que vamos fazer? - Amy perguntou assim que eu entrei no quarto, naquela noite.
Depois da descoberta da aposta, Charlie se trancou no banheiro de seu quarto e chorou como uma criança desolada. E eu fui atrás de Zayn, mas isso foi apenas uma perda de tempo.
Então voltei para o quarto de Charlie para poder dar-lhe alguma assistência ou conversar um pouco, mas ela acabou dormindo no meu colo em meio aos seus soluços. Fiquei preocupada; ela não podia estar tão apaixonada assim... poderia? Quero dizer, ela e Niall não haviam passado tanto tempo juntos assim, certo? Mas eu sabia, também, o quanto Charlie poderia se intensa em alguns aspectos.
Olhei de volta para , sentada em sua cadeira acolchoada, em frente à escrivaninha, olhando-me atentamente.
Como se eu soubesse a resposta para todas as perguntas do mundo!
- Não faço ideia, não estou com cabeça para isso. - Murmurei, indo em direção ao banheiro, decidida a esquecer aquele dia com muita água quente e óleos vegetais para relaxar. girou a cadeira para acompanhar meu movimento.
- Precisamos pensar em alguma...
- , eu não sei! - Falei, soltando os cabelos do elástico que os mantinha preso numa trança lateral.
- Você não está entendendo, , eu não posso ser pega, eu vou ficar muito...
- Então você deveria pensar em alguma coisa, honestamente. Eu não consigo pensar em nada além daquela maldita aposta e o estado em que eu acabei de deixar minha melhor amiga em seu quarto.
- A aposta. Eu ouvi falar. - Ela mordeu os cantos internos das bochechas.
Então eu percebi algo.
- Você sabia, não sabia? - Inqueri.
- O quê?
- Sabia que eles haviam feito essa aposta.
- O quê?! Claro que não, ! - Ela fez uma careta, como se tivesse sido ofendida. - Foi só um beijo, chill .
- E é por isso que eu não acredito em você! Aqueles garotos não tinham o menor direito de fazer aquilo com a Charlie!
- Ninguém tinha o direito de fazer isso, . - Suspirou. - E eu não sabia de nada.
- Até parece! A fiel escudeira de Harry Styles não ia saber o que ele estava aprontando? Por favor.
- Em defesa do cabeça de vento, a ideia foi do Zayn.
- Olha aí! Como você sabia disso? Fala sério, !
- Almocei com Louis e com o Josh hoje. Eles me contaram o que aconteceu na sala de ginástica.
- Claro. - Bufei.
- ! Por favor, dá para relaxar?! Se estou dizendo que eu não sabia é porque eu não sabia .
Cruzei os braços enquanto analisava atentamente sua expressão à procura de algum indício de mentiras. Apesar de Mandy ser uma mentirosa compulsiva, eu sempre sabia quando ela estava mentindo. Alguns detalhes apenas entregam. Estreitei os olhos e, por fim, dei-me por convencida, deixando os ombros caírem em derrota e cansaço.
- Como alguém pode querer machucar alguém como a Charlie? - Desabafei.
- Alguém como Zayn Malik: sem escrúpulos ou coração. - Lançou-me um olhar condescendente, como se quisesse me dizer algo mais.
- Eu queria acreditar que ele não é essa pessoa. - Confessei num fio de voz.
- ... - Ela me chamou.
- O que é? - Olhei para ela, esperando.
apenas balançou a cabeça e riu fraco, voltando aos seus estudos. Tombei a cabeça de lado, confusa.
- O que foi? - Insisti.
- Nada. - Disse num tom de quem encerra a conversa.
Suspirei, deliberadamente cansada. Entrei no banheiro e apoiei as mãos na bancada da pia, fechando os olhos e respirando fundo.
- ? - me chamou novamente, do outro lado da porta.
- Sim? - Não me movi, apenas respondi.
- Você gosta do Zayn?
A pergunta dela me pegou completamente de surpresa e eu abri os olhos e levantei a cabeça tão rápido que fiquei tonta por um segundo. Olhei para o par de olhos assustados que me encaravam de volta, sentindo meu coração acelerar quando não consegui definir a resposta tão rápido quanto eu gostaria.




Capítulo 19


[ATENÇÃO! É altamente recomendado pelas autoras que a partir deste ponto toda e qualquer música citada na história seja ouvida pelos(as) leitores(as), possibilitando uma melhor vivência da fanfic e um melhor entendimento do estilo da banda. Para facilitar, colocaremos os links de direcionamento de todas elas ao longo do texto. Modéstia a parte, todas as músicas são de extremo bom gosto. Gratas!]
Niall’s POV

- Posso falar com você? - Toquei o ombro de para desviar sua atenção da conversa animada que tinha com outras garotas no corredor externo do prédio das salas de aula.
virou-se para mim com um sorriso no rosto, mas logo desfez o gesto, colocando ali um olhar duro e acusador.
- O que é? - Perguntou quando as meninas se despediram rapidamente e saíram de perto de nós. Algumas pessoas nos lançavam olhares curiosos, como se soubesse do que se tratava a aproximação.
- A gente pode dar uma volta? - Pedi gentilmente.
- Primeiro você me diz do que se trata. - Cruzou os braços.
- Você sabe do que se trata. - Garanti.
Ela tomou um ou dois segundos para ponderar e finalmente decidir. Por fim, guardou sua bolsa no armário, indicando que aceitara meu pedido.
- Como ela está? - Tomei coragem para perguntar depois de um minuto de caminhada silenciosa em direção ao lago. Olhei de soslaio para à espera de sua reação, mas nunca veio. Ela mantinha o rosto impassível e indecifrável.
- Está melhor. - Foi o que disse.
- O que houve com ela?
- O que houve com ela? - Perguntou num tom quase ofendido. - Você houve.
- ... - Deixei a frase morrer no ar, sem conclusão.
- Honestamente, Horan, não sei nem como tem coragem de querer falar comigo.
- Eu precisava saber como ela está! E nós dois sabemos que você não é do tipo que guarda rancor.
Ela soltou uma risada seca.
- Você não sabe nada sobre mim.
- ...
- Aliás, você também se aproximou de mim só para chegar à ou o que?
- Você não teve nada a ver com isso. - Prometi, mas ela não esboçou reação alguma. - Eu realmente só queria saber como ela estava. E ver se ainda tenho alguma chance de ainda ser seu amigo...
- Sabe qual a pior parte, Niall? - Ela parou de andar assim que chegamos à cerca que contornava o perímetro do lago. Virou-se para mim. - Ela realmente gostava de você.
- Sério?
- Sim. E eu nem sabia disso. Eu nem fazia ideia do quanto era. E, Niall, eu sou a primeira a lhe dizer para nunca colocar sua felicidade nas mãos dos outros, não é responsabilidade deles como você se sente, mas, agora, eu não consigo repreender a de jeito nenhum porque foi você quem agiu de má fé desde o início, você nem se preocupou com os sentimentos dela! Ela não devia ter se apegado tanto, mas, como não? A primeira coisa boa em cinco anos! Você foi tão injusto! Nada disso foi justo! Vocês podiam ter mexido com qualquer uma, mas vocês escolheram a pessoa que nunca deu motivos para qualquer sacanagem de qualquer tipo.
Ela terminou de falar abruptamente, puxando o ar com força, juntou as mãos no rosto, como que se segurasse muito para não me bater ou algo do tipo. Coloquei as mãos nos bolsos da calça, extremamente desconcertado.
- A vai te perdoar, eventualmente. - Ela continuou, sem olhar para mim. - É, ela é legal assim.
Não disse mais nada e se afastou de mim.
Respirei fundo, tentando pensar no que havia acabado de escutar da garota. Ela realmente ficou chateada com aquilo – pelo menos ela não quebrou nada meu.
Olhei para a garota que se afastava, agora indo em direção à biblioteca.
Eu nem sabia o que estava fazendo.
Quero dizer, eu deveria ficar na minha, manter distância ao máximo, a menos que quisesse ter outro objeto quebrado ou pior. Mas, honestamente, eu precisava saber o que estava acontecendo. A simplesmente surtou! Meu violão e o estoque de coisas ilícitas do Malik! Nem dele ela tinha medo.
Não a via desde sábado, quando ela me confrontou na sala da banda. Ela estava assustadora; eu poderia jurar que iria levar mais do que o tapa que levei. Chutei uma pedrinha no chão, desinteressado e perdido nos meus pensamentos. Estava começando a me convencer de que, realmente, nada daquilo havia sido uma decisão sábia e, ao mesmo tempo, estava certo de que jamais concordaria com Zayn novamente antes de pesar todos os prós e contras de todas as palavras ditas.
Cara maluco.
Onde eu estava com a cabeça?!
- Dia maluco, huh? – A voz vinda da minha direita me fez pular no lugar, assustado. Olhei para o lado e vi Rebekah tomando impulso para sentar-se em cima da cerca. Ao se equilibrar, levantou os olhos para mim e abriu um sorriso encantador.
- Até que não. – Dei de ombros, sentando-me ao seu lado.
- Fiquei sabendo do violão. – Disse.
- Josh é um fofoqueiro. – Bufei, parecendo irritado, mas passando longe disso. Ambos rimos em concordância.
- Você é um tremendo palerma, Niall. – Ela observou, olhando para a escola e todo o movimento frenético que ela ostentava nos dias semanais.
- Obrigado, Capitain-Obvious!
- Honestamente, eu teria medo de Zayn usar isso contra mim, se fosse você. – Refletiu. – Ficaria bastante preocupada. Até pensei que tivesse sido ele quem contou à , mas, quando ela me perguntou o que estava acontecendo, eu soube que o bastardo não teria a menor coragem.
- Ele não tinha. Eu a beijei, foi minha culpa.
- Fiquei sabendo que foi ela quem te beijou no dia da apresentação de vocês na capital.
- Você fica sabendo de coisas demais, Rebekah.
- Uma garota precisa se manter informada. – Ela abriu um sorriso misterioso. – Quando se cresce em meio ao mundo das grandes corporações e negócios de magnatas poderosos e agressivos, você aprende a enxergar o que existe de mais valioso para essas pessoas que têm tudo.
- E o que é?
- Seus segredos. – O sorriso se alargou quando ela olhou para mim pelo canto do olho.
- Você os vende. – Afirmei, num claro chute. Odiava enigmas.
- Eu os coleciono.
- E isso tem a ver comigo por quê...?
- Não tem. Não sei nada sobre você. Ninguém sabe, na verdade.
- É um trabalho realmente difícil me manter longe do alcance dos radares. – Garanti, sarcástico.
- Eu achava que você fosse... Diferente.
- Mas aí eu apostei um beijo.
- É, aí você apostou um beijo. Isso é baixo. Até para mim.
- Não para o Zayn.
- Com certeza não, mas para você, sim.
- Você esperava o anjinho de bochechas rosadas e cabelo louro.
- Você é tão perceptivo. – Ela colocou a mão no peito, fingindo comoção.
- Estereótipos, huh? – Bufei.
- Você vive no mundo real, Horan, já pode descer do seu mundinho. Estereótipos estão por aí e você deveria se acostumar com eles.
- Uau, eu tenho certeza de que você é a única que pensa assim por aqui.
- Não tenha tanta certeza. – Rebekah esticou as pernas e abriu um sorriso enorme, como se me mostrasse a si mesma. – Eu sou um.
- Qual é você?
- A puta.
Na mosca, pensei.
- E eu?
- O garoto bonzinho, legal, meio quieto...
- Mas eu já provei diferente, e agora?
- Provou mesmo? Por que estava se retratando com a , então? Planejando o próximo golpe, Sr. Coração de Pedra? – Sorriu com escárnio.
- Estava me espionando? – Franzi o cenho.
Ela soltou uma risada e saltou de onde estava. Aproximou-se e colocou algo no bolso do meu casaco, esbanjando um sorriso nada discreto.
- Seu segredo está seguro comigo, badboy. – Piscou para mim e sorriu novamente, dando-me as costas, afastando-se de mim.

’s POV
Um rap antigo que eu nem sabia que tinha no iPod tocava em meus ouvidos enquanto eu corria minha penúltima volta pela pista de corrida. Estava frio, mas devido à atividade física, eu só sentia calor. Uma mecha de meu cabelo havia se desprendido do elástico e estava atrapalhando, mas eu não queria cortar a concentração e perder o ritmo e a respiração, então persisti até chegar ao final do meu circuito.
Pensava em no percurso, e em como talvez aquela “amizade” excêntrica com Zayn significasse algo a mais. Se estivesse normal eu poderia conversar com ela quanto a isso, estava preocupada com o que poderia estar passando na cabeça de . Aquilo definitivamente não era uma boa ideia – aceite de alguém que já esteve naquele lugar com Zayn Malik. Não que eu em algum momento tivesse chegado a gostar dele de verdade, mas ele definitivamente não era o tipo de cara que saberia tratar bem uma garota como . E isso era preocupante.
Mas, e agora voltando a , ela não estava normal. Outra coisa que eu não entendia bem. Quer dizer, toda aquela coisa da aposta e como ela descobriu foi uma droga, mas... Eles eram garotos e, bem... Era isso que faziam. Porém, ao me colocar no lugar dela não era difícil de entender toda aquela raiva.

Ouvi passos atrás de mim na pista me tirando dos meus pensamentos e logo Lance me alcançou na corrida, correndo ao meu lado. Olhei para o garoto ao meu lado e sorri, ao passo em que ele sorriu de volta.
- Você perdeu o ritmo.
- Não preciso que você venha botar defeito!
- Só estou fazendo o meu trabalho.
- Vai cuidar do seu time, Lance. – O empurrei fraco, tentando não diminuir a velocidade, e ri. – Eles precisam mais do que eu.
- Outch. Meu time está em perfeito estado!
- Seu atacante só consegue chutar com a esquerda e eu ganharia uma corrida do seu goleiro correndo com uma perna só.
- Suas garotas se perdem no meio do jogo com a mais simples das distrações. Se algum dia você sair do campo, elas não vão saber nem para que lado correr.
Fui diminuindo o ritmo à medida em que chegava ao final da minha última volta, até que paramos de correr e começamos uma caminhada. Respirei fundo e olhei para ele, balançando a cabeça.
- Até quando vamos ficar falando apenas sobre futebol sempre que nos vemos?
Ele apertou o passo e parou em minha frente, me fazendo parar de andar. Se aproximou e, com uma mão em minha nuca, me puxou para um beijo que durou alguns segundos. Quando se afastou, encarou meus lábios e em seguida meus olhos, se afastando um pouco.
- Que tal hoje? Jante comigo.
Ri.
- Claro. Com você e com o resto da escola.
- Pegamos uma mesa sozinhos.
Puxei o iPod de onde ele estava preso em meu braço e olhei a hora. Ainda era cedo, e fazia pouco que as aulas haviam acabado. Meu último período foi de educação física, e depois do treino fiz meu circuito de corrida.
- Então é melhor você ir para lá e ficar sentadinho guardando uma mesa desde agora. – Pisquei para ele e toquei o indicador em seus lábios, antes de passar por ele em direção à arquibancada.
- Isso é um sim? – Ele gritou e virei para ele, rindo. Fiz que sim com a cabeça. – Te espero lá!
As pessoas estavam dizendo que éramos o novo casal da escola, quando eu não tinha certeza nem de que éramos, de fato, um casal. Havíamos saído juntos pela primeira vez há três dias e tudo meio que aconteceu. Ignoramos completamente o resto do time durante o happy hour e continuamos a conversar, e depois fomos para uma festa, uma coisa levou à outra, e acabou acontecendo. Era divertido, eu não podia negar. Nos entendíamos, porque gostávamos das mesmas coisas. Lance sempre foi uma figura ativa do St. Bees, mas nunca nos falamos muito por conta da rixa entre ele e Harry pelos seus lugares na hierarquia da escola. Depois de nós, o grupo dele era o mais conhecido por causar encrenca, daquele tipo bom de encrenca. Eles sempre estavam em todas, assim como nós, mas nunca nos misturamos. Até agora.
Fui para o vestiário feminino do ginásio e tomei um banho rápido, vestindo uma roupa quente depois. Quando saí novamente, o dia já estava quase virando noite. Eu odiava o inverno, era tão depressivo!

Subi a ladeira até o pátio principal e encontrei umas garotas do time no percurso, conversando sobre a aula enquanto caminhávamos. Estávamos indo para o prédio das aulas quando avistei Malik caminhando na direção contrária, prestes a passar por nós.
- Vão indo, eu vou depois – Avisei as garotas, me afastando delas e caminhando em direção a ele.
Quando me viu se aproximar ele revirou um pouco os olhos, e passei meu braço pelo seu que tinha a mão no bolso, segurando o seu cotovelo.
- Veio para me dar um sermão também ou o quê?
- É bom falar com você também, Zayn! – Forcei uma voz animada, ironizando, e caminhando ao lado dele.
- A mandou vir me dizer que eu sou um babaca?
- Nós dois sabemos que você não precisa que ninguém te lembre disso.
- Você parecia gostar quando...
- É, tem razão. Seja um babaca, Malik. Continue comendo as garotas no armário do zelador, tratando-as como idiotas, quebrando todas as regras. É isso que elas adoram. – Parei de andar, o fazendo parar também e parando em sua frente. – Mas uma aposta, Zayn? Quantos anos você tem? Nove?
- Devo sentar para ouvir o discurso? – Ele me olhou, entediado.
Encarei seu rosto por um momento.
- Agora eu entendo porque a tá tão puta. Você realmente conseguiu alcançar um novo nível de babaquice. A ficou arrasada, Zayn, eu nem sabia que ela gostava tanto assim do Horan. – Contei.
A expressão de Zayn continuava impassível, sem remorso ou culpa alguma. Não que eu esperasse que ele fosse sentir algo. Mas pelo menos fingir ele podia!
- Já acabou?
- Quando é seu aniversário? – Cruzei os braços. – Vou te dar um coração.
- Eu sei que não veio aqui só para me falar o que eu já sei. De todas vocês, você é a única que não está fazendo uma tempestade em copo d’água sobre isso, porque sabe que é um drama desnecessário. Logo ela esquece, e vida que segue. – Deu de ombros.
Aquilo era tudo verdade, para ser sincera. Como ele sabia, eu não tinha ideia, mas parecia meio óbvio. Suspirei.
- Flourescent Adolescent.
- Hein?
- É o nome da música que Harry queria que eu lembrasse para sugerir a vocês. Faz o estilo da banda. – Dei de ombros.
- Ah, é, eu percebi que João e Maria voltaram a se falar – ele comprimiu os lábios, em um olhar brincalhão e que ao mesmo tempo insinuava algo. Decidi ignorar.
- Mas o que eu realmente queria dizer a você, Zayn, é outra coisa que você já sabe. – Retomei a postura, parada em frente a ele. – A não é o tipo de garota com as quais você brinca. Ela tem um coração. E ela não merece isso. E, sim, eu me importo. Então por favor, Malik, pensa antes de fazer qualquer merda. Nem todo mundo merece provar essa sua amargura.
Nos encaramos por um segundo e ele não disse nada, então aproveitei para deixa-lo sozinho e seguir o meu caminho. Eu provavelmente estava sendo ingênua ao desejar ter colocado um pinguinho que fosse de juízo na cabeça de Zayn. Me importava com mais do que eu esperava, e ela realmente não merecia aquilo, porque caso acontecesse alguma coisa, para um deles não acabaria bem. E não era para Zayn.
Cheguei no refeitório e Lance já estava lá, sentado em uma mesa no canto, encarando o celular. Sorri, balançando a cabeça enquanto ia até lá e sentei na sua frente.

’s POV
- “Mas não um tolo como vós, se é certo que a mim vos referis”. – Li em voz alta a fala de Catarina, franzindo o cenho; era tão difícil praticar teatro sem um parceiro.
Naquela mesma cena, Catarina tem um diálogo com Petrucchio – um dos melhores diálogos da peça, na minha opinião. E eu não conseguiria alcançar o tom certo praticando sozinha. Fechei os olhos por um instante, sentindo o vento gelado bater em minhas bochechas. Não queria praticar no meu quarto, pois Rebekah estava lá, fingindo que lia alguma coisa, mas na verdade estava conversando com alguém no celular e soltando risadinhas afetadas. Por isso, vim ao pátio para recitar minhas falas ao vento.
Era um pouco constrangedor, no fim das contas.
- Um tolo como vós... – Li novamente, refletindo sobre a entonação e o que a personagem estaria realmente sentindo naquele momento do texto.
- Eu acredito que ela esteja um pouco desdenhosa nessa parte, não irritada. – Uma voz soou atrás de mim, fazendo-me saltar de susto. Girei nos calcanhares e encontrei um par de olhos verdes que nunca havia visto antes.
O garoto me olhava com diversão, esperando por minha reação, que demorou um pouco para vir devido ao choque e à vergonha que me atingira.
- Catarina está sempre irritada. – Defendi minha atuação.
- Errado. – Disse categoricamente antes de estreitar a distância entre nós com um passo, colocando as mãos nos bolsos do jeans puído. – Ela sempre quer estar por cima. – Ele abriu um sorrisinho para mim, encolhendo os ombros como se dissesse “é verdade, acredite em mim”.
Involuntariamente, tombei a cabeça de lado e abri um sorriso travesso.
- E o que te faz pensar isso?
- Eu apenas sei. – Deu de ombros, balançando a cabeça. – Fui eu quem deu a ideia ao autor, sabe. – Brincou.
- É claro, ele jamais conseguiria pensar nisso sozinho. – Rolei os olhos, acompanhando sua brincadeira.
Ficamos em silêncio por um breve segundo e ele apontou para o livro em minhas mãos com o queixo.
- Shakespeare, huh? – Observou.
- O dramaturgo dos dramaturgos. – Anunciei, encenando uma reverência que fez o garoto rir.
Abri um sorriso sincero; eu me sentia bem por estar conversando com alguém que entendia do que se tratava o teatro. Observei melhor meu intruso, percebendo detalhes como o amarelo queimado de seu cabelo curto e meio ralo e seu maxilar definido, sustentando o sorriso bonito que ele me dava.
- . – Estendi a mão, tentando ser educada.
- Maximus. – Disse, apertando minha mão. – Não é um nome muito popular, todos me chamam de Max. – Piscou.
Tive a urgência de reprimir um sorriso bobo.
- Gosta de dramaturgia, Max? – Soltei sua mão e me recompus, voltando a atenção para o livro que eu segurava.
- Nah, apenas tive que ver 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você umas mil vezes com minha irmã. – Revirou os olhos dramaticamente e rimos.
- É um bom filme.
- Os americanos são bons em algo, afinal.
- Parece que sim. – Concordei, sentando-me no banco que havia ali perto, sendo acompanhada por ele.
- Então você é a estrela do show? – Quis saber.
- É só um teste. – Expliquei. – Provavelmente vão dar o papel à por bom comportamento. – Revirei os olhos.
- Garotas más vão aonde querem. – Ele disse como se me confidenciasse um segredo de Estado.
- Inclusive para a cadeia. – Cortei o barato dele. Odiava esse tipo de pensamento descontrolado e desenfreado que colocavam na nossa geração. Temos que aprender alguns limites. Limites são bons de vez em quando.
- Tenho certeza de que renderia uma ótima história no final das contas. – Insistiu.
- Isso se ela sair de lá. – Insisti também.
- Você tem que acreditar no melhor. – Sugeriu. – Se não vai ter o mesmo final que a Catarina. – Apontou com o queixo para o texto em minhas mãos.
- O que tem de errado com o final da Catarina?
- Foi domada.
- Talvez ela não estivesse certa o tempo todo, sabe.
Ele me olhou por um breve segundo e soltou uma risada.
- O quê? – Inquiri.
- Você é engraçada.
- Por quê? Porque eu não caí na sua armadilha para me conquistar com conversinha feminista? – Cruzei os braços. Ele arqueou as sobrancelhas, sorrindo, mas não respondeu. – Xeque mate.
- Você é boa. – Disse. – Mas, sério, eu queria mesmo era levantar esse debate...
Involuntariamente, eu o empurrei pelo ombro, sentindo-me idiota logo em seguida por aquilo. Que intimidade eu achava que tinha? Por favor.
Ele, por outro lado, pareceu achar engraçado e riu novamente.
- De que ano você é? Acho que nunca te vi nas minhas aulas. – Falei, tentando mudar o foco das coisas.
- Na verdade, nós temos aula de Economia juntos. – Corrigiu.
- Ah, desculpe, eu...
- Relaxa. Eu sou calouro, de qualquer forma. – Riu fraco.
Agora eu estava impressionada?
O que essas crianças comem hoje em dia? Hormônios?! Tive que olhar mais uma vez para ele para me convencer que a figura ao meu lado era dois anos mais novo que eu. Não podia ser.
- Não faça essa cara, você não parece ter a idade que tem, também. – Bufou, como se estivesse ofendido.
- E quanto parece que tenho? – Arqueei uma sobrancelha, desafiadora.
- Quinze. – Abriu um sorriso travesso.
Agora que eu sabia sua idade, ele ficava cada vez mais e mais “menino”.
- Até parece. – Ri pelo nariz.
- Pergunte a qualquer um. – Insistiu.
- Você não está falando sério.
- Não. – Confessou. – Você parece ter uns vinte e cinco anos.
- Ok, eu não quero mais ouvir sobre isso. – Rolei os olhos, rindo brevemente.
Caímos em um silêncio não muito desconfortável, mas eu sentia que ele queria alguma coisa e aquela demora toda para chegar ao ponto já estava me dando nos nervos.
Eu me sentia uma garota de quinze anos: inexperiente e nervosa. Mas eu não precisava estar; aquilo não era um flerte, era?
- Eu posso te ajudar com as falas, se quiser. – Ofereceu como quem não quer nada.
Abri um sorriso involuntário, genuinamente feliz por ele ter dito aquelas palavras. Eu precisava de ajuda e ele parecia alguém que poderia me ajudar.
- Você? – Arqueei as sobrancelhas, provocando um pouco.
- Quem mais? Tem uma fila? – Riu, entrando na brincadeira.
- Claro que tem: você pode pegar sua senha e ir se sentar lá no lago, que é onde a fila termina. – Ri.
- Droga, será que chega a minha vez a tempo de você ensaiar a primeira cena do beijo?
Aquilo me pegou desprevenida e eu quase soltei uma gargalhada, de tão nervosa que estava.
Ok, era um flerte, mas eu estava gostando.
- Acho que você vai ter que esperar para ver. – Encolhi os ombros, olhando-o diretamente nos olhos e ele manteve o contato com um sorriso nos lábios.
- Acho que sim. – Concordou, aumentando o sorriso.
Quebrei o contato visual voltando minha atenção ao texto.
- Podemos pegar outra cópia na sala do teatro. – Olhei de volta para ele.
- Então é um sim?
- É um talvez. Vou precisar da sua foto com as referências e, é claro, de uma audiência. – Falei em tom sério.
- Nada mais justo. – Concordou, tão sério quanto eu.
- E você não é só o Petruchio. – Levantei o indicador em alerta.
- Será um prazer representar todo o quadro da peça.

Harry’s POV
Desde que acordei naquele dia havia uma música em minha cabeça, que apesar de todos os meus esforços eu não conseguia reconhecer qual era. A melodia ficava rondando e rondando minha mente sem parar, e o quanto mais eu pensava nela, mais para longe ela fugia.
Levantei, me arrumei, saí do quarto e fui tomar café. Tínhamos ensaio da banda no mínimo três vezes por semana agora, apesar de que o de hoje em especial era mais como uma reunião para tratar de assuntos importantes. Era sábado, e apesar de o fim de semana não ser livre, o campus estava um tanto movimentado, cheio de grupos de trabalhos estudando ali e aqui.
Depois do café decidi não me enrolar em ir para a antiga sala de ginástica, eu já estava atrasado e sabia que ia levar esporro de alguém. Mas antes precisava passar em meu armário e pegar o caderno com alguns rabiscos que eu fazia de vez em quando e, o mais importante, com a lista de possíveis músicas que podíamos aprender a tocar. Fui até aquele corredor cantarolando baixinho aquela melodia que teimava em não desgrudar de mim.
Ao me aproximar do armário notei na frente do seu, com metade do corpo escondido atrás da porta aberta do armário mexendo lá dentro. Parei ao lado dela e me escorei nos armários, cruzando os braços.
- Oi.
deu um pulo, batendo a cabeça com força na parte de cima do armário e fazendo uns papéis caírem no chão, e soltou um grunhido. Fiz uma careta rindo fraco. Ela me olhou, se afastando um pouco do armário e passando a mão na cabeça com uma careta.
- Ah, oi, Harry.
Me abaixei para juntar suas folhas.
- Foi mal, não queria causar um traumatismo craniano.
- Eu estou bem, só acho que vai nascer uma segunda cabeça aqui.
Ri, a entregando as folhas, e ela riu também.
- E aí, o que tá aprontando?
- Vou ensaiar com os caras, e você?
- Vou tentar abrir o livro de química e manter ele aberto por mais de três segundos – disse, indicando o livro que estava puxando do armário. – Eu fiquei de repassar a matéria com a . Espero que a gente não se mate.
- Ah, você vai se dar bem – dei de ombros. – Ela anda mais calma, parece. Não vi ninguém chorando pelos corredores essa semana... – Comentei, fazendo gargalhar.
You’re just to good to be true. Can’t take my eyes off you. You’d be like heaven to touch, I wanna hold you so much... Era essa a bendita música! Assim que lembrei da letra, a assimilei àquele filme que passava o tempo inteiro e eu já havia assistido várias vezes em casa. Era uma música legal, bem famosa até.
Quando fechou seu armário e virou para mim uma mecha do seu cabelo caiu de trás da sua orelha e, sem pensar, levei a mão até lá e a coloquei no lugar. Um segundo depois que fiz isso um calor insuportável subiu pelo meu corpo até o meu rosto e arregalei os olhos quando percebi o que estava fazendo. Que merda foi essa?! Me senti tão idiota, que sem nem conseguir pensar eu simplesmente dei um jeito de vazar dali.
- Eu... já estou atrasado – falei simplesmente, saindo dali como quem fugia do diabo, sem pegar caderno nenhum e deixando-a para trás, evitando pensar naquilo para fingir que não havia acontecido.

Dois corredores depois, eu ainda não acreditava no idiota que estava sendo. Eu devia precisar urgentemente de sexo, ou sei lá. É isso, né? Só pode ser isso. Me xinguei internamente pela milésima vez, sentindo a vergonha crescer dentro de mim novamente quando revivi o momento. Ficava cada vez mais difícil encarar , cada vez que estávamos bem novamente outra coisa desse tipo acontecia.
Grunhi, frustrado e irritado, e empurrei a porta da sala de ginástica no final do corredor, encontrando meus amigos que pararam de rir de alguma piadinha e me olharam.
- E aí, donzela. Trouxe o setlist?
- Sim. Tá aqui – apontei para minha cabeça, me atirando em um canto do sofá que conseguimos para a sala.
- E seu cérebro tem serventia? Uau. – Liam debochou e o olhei fazendo careta. Todo meu humor havia fugido de mim. – Ok, acordou com a macaca.
- Vou deixar passar a piadinha com sua mãe, porque ela é gente boa – avisei, piscando para ele e fazendo Josh rir.
- Podemos agilizar? Tenho um trabalho de física com uma certa irmãzinha para fazer. – Louis disse, abrindo um sorrisinho para Liam.
- Você é um imbecil – o outro rebateu.
- Ok! Agilizar. – Disse, pegando meu celular e abrindo no bloco de notas, em uma nota já feita. – Temos essas músicas, por enquanto.
Passei o celular a Louis, ao meu lado, que franziu o cenho depois de passar os olhos pela lista.
- Quem foi que botou Alabama Shakes aqui?
- Eu. – Dei de ombros, olhando para o resto, e por fim para a cara de Zayn, que basicamente deixava explícito que não ia cantar aquilo. Asshole.
- Ah, qual é...
- Não! – Praticamente todos falaram em uníssono.
- Beleza, então sem The Fray pra você – apontei para Louis.
- The Fray é legal, até. – Niall defendeu, dando de ombros. – Mas parecem uma banda de covers.
- Eu não vou cantar essa merda, arrumem alguma coisa boa. – Zayn reclamou, sentado/quase deitado em uma poltrona ao lado da mesinha com o cinzeiro, posicionado ali especialmente para a chaminé ambulante.
- E o que é música boa na sua opinião? – Josh inqueriu, me fazendo olhar para o excelentíssimo senhor vocalista, curioso.
- Deixa eu ver isso aí – ele se curvou, estendendo a mão para Louis, que terminava de digitar algo em meu celular. Arranquei o celular da sua mão e olhei na tela, para a música que ele havia acrescentado à lista, no lugar de Alabama Shakes: Screen, do Twenty One Pilots.
- Não podemos tocar isso, Louis, nem temos um teclado.
- Louis tem – Niall disse, concentrado acompanhando a conversa enquanto batucava com os dedos nos joelhos. – Disse que pediu para sua mãe colocar no correio.
- Já deve ter chegado – ele me olhou e concordou. – Se chegasse na hora nas reuniões você saberia, meu caro.
- Você é meu roommate, não acha que podia já ter me contado? – Levantei uma mão, entregando o celular a Malik com a outra.
- Vocês estão falando de Screen? Porque estávamos ouvindo antes, e acho que todo mundo aqui aprova. – Liam disse, olhando para Zayn. – Não é? Tem uma pegada diferente, pode ficar no meio do circuito e ser aquela música de “descanso”. Passa uma vibe boa – ele deu de ombros.
Malik assentiu positivamente, lendo as músicas da lista. Depois começou a mexer na tela, claramente apagando alguma coisa. Passei uma mão na testa, coçando a cabeça e respirando fundo.
- Legal, então já temos uma. Só falta, no mínimo, quatro e temos um show em três semanas. Alguma ideia? – Dei de ombros.
O grande “show”, ou no caso uma mera apresentação no acampamento anual de estudo das ciências naturais que o St. Bees fazia, ia ser a primeira apresentação em que tocaríamos cinco músicas. Basicamente um show, só que para três turmas de último ano. Mas podia ser o início do que nos levaria ao Garden! Assim, tentando ser (bem) otimista. Mas acabava por ser importante para a gente, por ser a primeira oportunidade de deixar com que a escola e com que nossos colegas nos conhecessem como uma banda. Por isso, aquela setlist era tão importante. Precisávamos achar a identidade da banda, o som que queríamos fazer. Aquele era basicamente o único assunto que tivemos durante toda aquela semana, cada um com um milhão de ideias diferentes, mas ao chegar ali, no momento da decisão, nada.
Momentaneamente todo mundo ficou em silêncio.
- Ah! Tem aquela... – Josh colocou a mão no queixo. – Como é mesmo... Ah, sim! – E então ele começou a fazer um barulho bizarro com a boca imitando uma guitarra e “tocando” com as mãos, me fazendo rir.
- Eu sei qual é! – Liam disse, pegando o celular do bolso.
- So one, two, three, take my hand and come with me, because you look so fine that I really wanna make you mine. - Niall cantarolou. – Are You Gonna be My Girl, do Jet.
Liam colocou a música tocar em seu celular e todos ficaram quietos ouvindo por um tempo. Logo no início da música praticamente todos os instrumentos tinham evidência, o que era um ponto forte. Começava com a bateria e o baixo, e então entrava a guitarra, e a letra e o vocal eram igualmente poderosos. Todo mundo acabou concordando com aquela muito facilmente, e anotei no celular, que Zayn me entregou.
- Anotei um nome aí, que a pediu pra passar. – Zayn avisou. – Ela disse que você tinha pedido.
Flourescent Adolescent, do Arctic Monkeys. Eu, Liam, Louis e Josh conhecíamos bem aquela música, apesar de não sabermos de quem era ou qual era o nome. Acontece que ela tocou no rádio enquanto todos nós e voltávamos de uma festa no ano anterior, muito depois do toque de recolher, em uma lata velha tão acabada que precisamos empurrar para que pegasse. Foi a noite mais insana, engraçada e divertida, e a música tocou praticamente no momento perfeito, sendo quase que como a nossa “música do túnel”, naquele momento. Pedi que procurasse e descobrisse qual era, porque ninguém mais estava sóbrio o suficiente para ainda lembrar a letra, depois daquela noite.
Apesar de Niall e Zayn não estarem naquela noite, a aceitação da música na playlist foi unânime. Era o tipo de som que todos nós queríamos tocar.
Nós acabamos fugindo do assunto e perdendo o foco por um bom tempo depois daquilo, empolgados com a ideia de já ter boa parte de nossa tão esperada setlist montada. Agora só faltava aprender, efetivamente, a tocá-la, mas isso era detalhe. Estávamos muito melhores em dominar os instrumentos agora, depois de ensaios quase diários.
Quando finalmente voltamos a sentar, uns bons cinquenta minutos depois, e tentar focar em encontrar as outras músicas que faltavam, Liam se pronunciou.
- Aí, tenho uma. – Ele levantou o celular. – Perguntei para uma música nos nossos termos que não podia faltar em sua playlist.
- O que a tem a ver com a nossa banda, cara? – Josh o olhou, levantando as mãos.
- tem o melhor gosto desse colégio, Josh.
Ri fraco, e Louis na mesma hora falou os meus pensamentos em voz alta:
- Você que o diga, né Payne?!
- Como é? – Niall parecia curioso, olhando de Louis para Liam, com um sorrisinho como se se divertisse. Meus olhos involuntariamente foram parar em Malik, que não perdia nada, tão atento à conversa quanto o resto de nós.
- Liam e namoraram um tempo – Josh explicou.
- Não brinca! – Niall riu, parecendo surpreso.
- Não namoramos, a gente só...
- Se pegavam bastante e eram o casal mais popular da escola. – Falei. – Basicamente, ainda tem gente do seu fã clubezinho que torce que vocês fiquem juntos. – Brinquei, e então olhei para Zayn, que parecia meio incrédulo. – Eles conheceram até os pais um do outro, sabia?
- Todos nós conhecemos os pais uns dos outros, Styles – Liam me olhou, querendo me fuzilar com os olhos por estar botando lenha na fogueira. Era óbvio que Zayn, por algum motivo obscuro, estava interessado na coitada da .
- Mas não é a mesma coisa, Liam. – Ri para ele. – Deus me livre se fosse, não quero sua língua na minha garganta ou coisa pior.
Louis gargalhou.
- Cara, por essa eu não esperava! – Niall disse ainda impressionado. – Quer dizer, sempre notei que vocês eram próximos, mas...
- Qual é a música? – Zayn o cortou rispidamente, e Liam prontamente olhou para a tela do celular, aliviado em fugir daquele assunto.
- Mr. Brightside, do The Killers.
- Vamos tocar. – Malik disse por fim, acabando com o dilema por ali.
- Aparentemente, isso não é uma democracia – comentei baixinho com Louis, achando hilário todo aquele... Atrito.
A música era boa, praticamente clássica, e não tinha mesmo muito o que discutir, então ela entrou sem problemas.
- Mais alguma sugestão de alguma garota? – Perguntei a Liam, que negou com a cabeça.
- Ok, eu tenho uma sugestão também. – Niall soltou depois de um momento de silêncio, tirando o próprio celular do bolso e procurando alguma coisa. – Vai dar um ar diferente à apresentação, pra quebrar esse ar de banda de garagem norte americana. Podemos fazer nossa própria versão, diferente da original... – Ele disse e levantou os olhos para a gente quando colocou a música tocar. Ouvimos o começo, atentos, e então ele disse: - Stolen Dance. Milky Chance.
- É boa, eu curti – dei minha opinião, dando de ombros, e o resto dos caras concordou. Niall olhou para Zayn, que assentiu positivamente para a música, aparentemente absorto em outros pensamentos.
- Então... fechamos cinco! – Liam levantou os braços. – Vencemos, caras!
Comemorei também. Provavelmente aquela foi a primeira vez que sentei com o intuito de começar e terminar algo e de fato comecei e terminei. Olhei a hora no relógio, e já era tarde da manhã.
- Bom, então se vocês me dão licença eu vou comer, porque ainda nem tomei café. – Louis disse.
- Vou também – Niall falou, se levantando e fiz o mesmo. Eu não tinha maiores planos, então ia acompanha-los.
- Eu tenho uma requisição. – Ouvi a voz de Malik falar, ainda no mesmo lugar saboreando seu cigarro, e todos nós viramos para ele. Zayn se levantou da poltrona. – Radiohead. Fake Plastic Trees.
Todos nós nos olhamos brevemente. Aquilo sim era inédito. Zayn Malik tendo preferências musicais e, quem diria, românticas, ainda por cima. Bem provavelmente aquilo tinha algum motivo por trás. Mas Liam assentiu para nós depois de um momento e assentimos também, afinal, ele tinha indiretamente o direito de escolher a música que bem entendesse; era ele quem cantava.
- Beleza. Podemos colocar essa também.
- É.
- Legal.
- Certo – ele disse, amassando a ponta no cigarro no cinzeiro e passando por nós em direção à porta. Ele saiu, e deixou a porta aberta para a gente, sem falar mais nada.
- Creep... - murmurei um momento depois também saindo pela porta, fazendo os caras rirem.

’s POV
Olhei para a cama vazia de e, então, para a cama vazia de , perguntando-me se era possível que a ausência das duas naquela manhã de sábado fosse causada por um programa em comum, mas, apesar de gostar de , ela e a não tinha muita coisa em comum. Não a esse ponto. E, além do mais, teria me avisado que iria sair, não?
Aparentemente, não.
Troquei o peso de um pé para o outro, incomodada com a situação diante de mim: depois de uma semana conturbada, ela some.
Eu não estava vigiando; estava apenas cuidando. Eu era a única pessoa nessa escola que sabia como ajuda-la caso fosse necessário e, por isso, eu precisava estar por perto para ser a amiga que devo ser. A amiga que ela sempre foi para mim. Mordi o lábio inferior ao decidir entrar no quarto delas e esperar um pouco – pode ser que ela tenha ido apenas tomar alguma coisa na cafeteria do refeitório.
Deitei-me na cama bagunçada de e fitei o teto, como se buscasse ali alguma resposta ou, pelo menos, alguma paz. Mas não demorou muito para que eu começasse a me sentir entediada e, consequentemente, voltando a me sentir preocupada. Tirei o celular do bolso da calça jeans para ver se não havia nenhuma mensagem que eu não havia visto ou que o aparelho não tivesse avisado, mas não havia nada e acabei apenas checando a hora. Que hora eu cheguei, mesmo? Fechei os olhos tentando me lembrar.
Decidida, levantei-me da cama e saí do quarto. Em minha mente corria a lembrança de tê-la encontrado naquele bar imundo. Em algum lugar dentro de mim, eu sabia que alguma coisa estava errada.
Respirei fundo quando saí do dormitório feminino, passando reto por algumas garotas que me cumprimentaram, mas só me dei conta disso alguns metros depois, quando eu finalmente parei para pensar onde eu estava indo: a sala da banda, que ficava um pouco longe dali no prédio anexo ao ginásio.
O sol brilhava forte e, mesmo que estivesse nublado, a clareza refletida nos objetos e no chão de pedra faziam meus olhos doerem. Quando cheguei ao prédio, tirei meu celular novamente de meu bolso, ainda esperando por um milagre em forma de mensagem dizendo que estava no colégio e que estava bem, mas, novamente, não havia nada. Guardei o celular e abri a porta de madeira.
Tive que me esforçar para disfarçar o alívio – e até um pouco de alegria – ao vê-lo sentado no sofá puído fumando um cigarro e lendo um livro. Mais uma vez, tive que disfarçar minha surpresa.
Ele levantou os olhos para a porta assim que entrei e, honestamente, não sabia se sua expressão era de surpresa – tanto quanto a minha – ou de irritação por ter interrompido ou ter aparecido assim, do nada.
Preferia apostar na primeira.
Ele me olhava e eu o olhava, sentindo uma vontade imensa de ir até ele e lhe dar outra bofetada. Como ele podia ser tão idiota?!
- O que é? – Ele quebrou o silêncio, fechando seu livro. Espiei a capa por alguns instantes antes de ele a esconder ao lado de suas pernas.
Havia algo na luz que entrava na sala pelos basculantes em cima da parede espelhada que fazia o ambiente ter um toque de mistério e eu mesma me sentia uma clandestina indo até o cara das coisas ilegais e perigosas para resolver meus problemas. E Zayn não ajudava nada com aquela cara de cafajeste e o cigarro queimando em sua mão.
Cruzei os braços e assumi uma postura firme, durona.
- A sumiu. – Anunciei.
- E?
- Preciso da sua ajuda. – Falei rapidamente. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso e até um pouco jocoso. Concentrei-me em não perder o foco daquela situação.
- Isso é sério? – Ele perguntou depois de alguns segundos me fitando.
- Seríssimo.
- E por que eu te ajudaria?
Eu esperava por esse tipo de comportamento, mas... Como ele tinha a audácia de fazer uma coisa dessas?
- Porque você deve isso a ela.
- Eu devo a ela? – Arqueou as sobrancelhas novamente. – Por que você não consegue só imaginar que, sei lá, ela foi até o quarto do Niall arrancar as bolas dele?
- Se ela tivesse feito isso, você ia dever um par de bolas ao Niall. – Rebati tão rápido que até eu me surpreendi. – Você começou com essa palhaçada de apostar.
- Ah, e o Niall não tem a menor culpa nisso? Eu que fui lá e o obriguei a aceitar a aposta, né? – Ironizou.
- Sério? A coisa que ele mais queria no mundo? Isso não seria suficiente para você?
- Para de defender ele. – Bufou.
- Você quer que eu te defenda?!
- Não precisa me defender, mas atribua a ele a parcela da culpa dele! – Respondeu com indignação.
- Tá, tá! – Respirei fundo. – Ainda assim preciso da sua ajuda.
- Pode esquecer, shortcake, eu sou a última pessoa que sua amiga quer ver. – Declarou.
- É a sua chance de se redimir pelo que fez! – Barganhei.
- Do jeito que você fala parece que eu matei alguém. – Ele revirou os olhos, jogando a cabeça para trás.
- Zayn. – Chamei-o. – Por favor. Você deve estar adorando me ver aqui, depois do que você fez, implorando sua ajuda para achar uma pessoa que você machucou.
Ele olhou para mim, parecendo ponderar as coisas por alguns segundos. Depois, finalmente, colocou-se de pé e veio até mim.
- Honestamente, por que eu? – Segurou meus ombros e cravou seu olhar no meu.
- Você me ajudou daquela vez.
- Eu estava à procura de cigarros.
- Mas estava lá. – Mordi o lábio inferior, sentindo um nó se formar em minha garganta. – Eu só quero achar minha amiga, Zayn. Por favor.
- Você vai ter que me pagar uma caixa de cigarros. – Falou, por fim, fazendo-me rir. Livrei-me de suas mãos em meus ombros e apoiei minha testa em seu peito, segurando as lapelas de sua jaqueta numa tentativa de conter minha vontade de chorar e ele, por sua vez, passou um braço por meus ombros e o outro pela minha cintura, abraçando-me. Inspirei a fim de clarear os pensamentos e fui tomada pelo perfume dele; um misto de colônia masculina e tabaco. – Vamos acha-la. – Prometeu.
Assentindo, afastei-me dele, meio sem graça por minha reação.
- Vamos fazer algumas perguntas. – Sugeri, indo em direção à porta da sala. – Alguém tem que ter visto ela.

Zayn’s POV
- Não, eu não a vi hoje, . – tomou outro gole de seu café. – E mesmo que tivesse, duvido que ela diria algo. Do jeito que ela estava toda nervosinha e estressada esses dias, era bem capaz que tivesse me dado um chute ou algo do tipo. – Completou em tom de sarcasmo, arqueando suas sobrancelhas. Eu me lembrava do dia em que o professor de Francês nos colocou para sentarmos juntos e fazer qualquer bosta que ele tivesse sugerido para a aula, e eu me recusei porque ela parecia um garoto. E, cá entre nós, eu sou muito mais chegado num belo par de seios apertados num decote.
Mas, agora, parecia algum tipo de mágica. Ela estava andando mais com a , notei isso uma vez. Essa deve ser a resposta para essa pergunta. estava absurdamente mais gata do que quando eu cheguei aqui. Ela estava usando umas calças mais apertadas, mesmo as de camuflagem, e mais decotes. Naquele momento, ela usava uma blusa preta de alcinha e uma calça jeans que me permitiam imaginar cada pedaço daquele corpo. Sem contar no cabelo, que estava diferente, meio amassado, meio rebelde, parecendo que ela havia acabado de dar pra alguém no armário do zelador.
- É verdade. – concordou, pensativa. – Ela tem andando muito nervosa. – Suspirou, ainda parecendo perdida em pensamentos.
- Zayn, você está me incomodando. – disse. Olhei para ela, que abriu um sorrisinho cínico. – Eu estou aqui em cima. – Observou, apontando para seu rosto.
- Mas eu queria estar aí embaixo. – Apontei para seus peitos. Ela revirou os olhos e mudou de expressão ao fitar .
- O que é? – perguntou. Virei-me para , que tinha os olhos arregalados como se tivesse visto um fantasma.
- Ela tem estado muito nervosa! – Repetiu, como se fizesse todo sentido. – Como eu não percebi isso antes?!
Não fazia o menor sentido.
- O que tem? – A outra quis saber.
- Vamos, Malik. – me puxou pela manga da jaqueta e se levantou. – , muito, muito obrigada!
- Ahn... Ok. – Ela respondeu enquanto observava se afastar. – Ele vai te ajudar?
- Ele está tentando se redimir. – justificou. Assenti, meio sem saber o que fazer.
- É... Redimir, isso aí. – Pigarreei.
- Certo. – Ela franziu o cenho, não parecendo acreditar muito naquilo. E eu não podia culpa-la, nem eu acreditava. Na verdade era só a oportunidade perfeita para conseguir sua confiança e amizade novamente. – Qualquer coisa, liga!
murmurou alguma coisa e me soltou assim que saímos do prédio.
- Meu Deus! – Ela passou as mãos pelo cabelo. – Ela esteve nervosa a semana inteira!
- Ok, disso todos nós já sabemos. O que tem? – Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta enquanto caminhava ao seu lado.
- Ela não estava tomando seus remédios! – Olhou para mim. – Você entende a gravidade disso? Ela precisava estar tomando cada um...
- Ei, ei, ei! Calma! – Parei à sua frente. – Uma coisa de cada vez. A toma remédio controlado?
- Sim! Um monte deles! Tem horários, dias, até cores para ela não confundir as pílulas! Ela tem que tomar cada pílula, Zayn. – Disse a última parte como se fosse um pedaço de um mau presságio.
- Ok, então, ela estava sem as pílulas. O que acontece daí?
- Nada bom. – Ela suspirou.
- O que acontece? Ela começa a gritar por aí...
- São vários remédios, eu não sei os detalhes! – Passou as mãos pelo rosto. – Ela não fala muito disso.
- Claro. – Bufei.
- Claro. – Concordou. – Eu só a vi sem os remédios uma vez. – Cravou seu olhar em algum ponto no chão. – E foi tão assustador que eu prometi a mim mesma que jamais veria minha melhor amiga daquele jeito novamente. Ela parece virar outra pessoa...
- O quê? Tipo dupla personalidade? – Franzi o cenho.
Cara, que porra fodida.
- É... Não nasceu com ela... É um efeito colateral de outra coisa... Não me faz explicar, por favor. – Ela olhou para mim. – Não é minha história para contar...
Ah, a tal da lealdade.
Bullshit.
- Ok. – Segurei-me para não soar desdenhoso. – Então ela está louca, sem remédios, solta por aí.
- Isso.
- Ela está desequilibrada. – Concluí. – Ela não pode ter feito muita coisa errada, pode?
- Não faço ideia, mas nós a encontramos naquele bar... – Deixou a frase morrer, sugestivamente.
- Aquilo foi por causa dos remédios?
- Não. Ela só bebeu demais. – Cruzou os braços. – Olha, eu não sei do que ela é capaz quando está assim, mas não devíamos esperar muito para descobrir.
- Certo.
- A próxima pessoa que pode saber de alguma coisa...
- É a . – Terminei a frase para ela, seguindo sua linha de raciocínio. Ela assentiu e recomeçou sua caminhada até o dormitório feminino.
- Ela não estava no quarto quando eu fui atrás da , mas pode ter vol...
O toque de meu celular interrompeu sua análise.
- Alô? – Atendi, esperando que fosse Louis do outro lado da linha, mas, para minha completa surpresa, era o Styles. – O que é?
- Cara... – Alguém gritando ao fundo o interrompeu. – Niall, cala a boca! – Ele gritou de volta. Afastei o telefone da orelha imediatamente, xingando o filho da puta.
- Se fosse o seu violão, você não estaria tão tranquilo! – Niall rebateu.
- Você está vendo alguém tranquilo aqui?! – Continuou gritando.
- Styles, eu ainda estou aqui. – Falei, contando até dez para que aquela palhaçada não me tirasse do sério.
- Ah. – Voltou a falar como uma pessoa normal.
- O que é? – Perguntei novamente.
- O violão do Niall... Está todo lascado, cara. – Harry falou, preocupado.
- Você me ligou para falar do violão do Horan? – Arqueei uma sobrancelha. – O que eu tenho com isso?
- É muita coincidência. – Riu um pouco. – Ela está atrás de vocês, caras. Vocês estão tão fodidos. – Riu mais um pouco. – Sem violência, Nialler. Onde eu estava? Ah, sim. O Liam disse que tem umas paradas esquisitas saindo do seu armário.
- No meu armário? – Parei de andar e olhei para o prédio do dormitório masculino.
- Liam disse que viu alguém saindo do quarto quando ele terminou o banho dele. E não era você.
Não era mesmo, eu havia saído antes que o cara tivesse ao menos acordado.
- Estou indo para lá agora mesmo. – Garanti antes de desligar o celular.
- O quê? Não! Vamos ver a . – cruzou os braços.
- Não sabia que você era tão mandona. – Provoquei.
- Tão mandona que tenho até punições para quem não me obedece! Vamos ver a agora!
- , Harry disse que o Liam viu a essa manhã. – Sugeri no meu melhor tom persuasivo.
Ela mordeu o lábio inferior, como se estivesse deliberando entre tirar a amiga da forca e ir, sei lá, tomar chá com biscoitos. Como se fôssemos realmente achar a garota no quarto, lendo, como se nada tivesse acontecido. Até onde eu sabia, a garota estava solta, louca por aí fazendo Deus sabe lá o quê.
- Certo, mas rápido. – Decidiu, por fim, e passou por mim rapidamente, em direção ao dormitório masculino.
Caminhei logo atrás dela, sem muita pressa, apesar de estar curioso para saber o que era. Mas meu melhor julgamento era para não estar ansioso para descobrir coisas ruins; esse tipo de antecipação já me colocou no fundo do inferno várias vezes. Da última vez, passei seis meses lá.
- Não posso entrar. – Disse ela ao parar na grande porta de entrada.
- Fala sério. – Bufei e a puxei pelo braço, entrando no prédio cinza.
- Sério! – Desvencilhou-se num puxão e começou a voltar para a porta, mas eu a impedi.
- O tal do cara que devia nos vigiar nunca está vigiando bosta nenhuma. – Assegurei.
- Mas do jeito que eu dou sorte...
- Do jeito que você dá sorte, você consegue no máximo alguém falando “poxa, !”. – Retruquei, subindo as escadas com ela no meu encalço.
- Vamos logo com isso. – Disse, por fim.
Abri a porta do quarto sem a menor cerimônia, apenas entrei e fui direto para o armário.
- What the... – Comecei a falar, mas não cheguei a terminar, pois reconheci o que era assim que vi do que se tratava. O chão estava sujo e o quarto agora cheirava como um pub.
- Isso é cigarro? – torceu o nariz e se inclinou para olhar mais de perto.
A porta do armário estava entreaberta e pela fresta saíam montinhos de tabaco e retalhos do papel fino que era usado para enrolar o cigarro. Havia um monte daquilo saindo do armário e, por debaixo de tudo, manchando o tapete, havia um líquido escorrido. Abri a porta apenas para constatar o que eu já sabia: todo meu estoque de cigarros e algumas garrafas de bebida alcóolica estavam destruídos.
- Que cheiro! – reclamou.
- Agora faz sentido. – Falei, observando a cena. Minha mente estava calma, mas parecia mais como um controle exagerado de minhas reações do que calma de verdade. Meu corpo estava rígido, eu precisava de um cigarro para esquecer que os meus cigarros estavam destruídos.
Puta que pariu.
- O quê? – Ela quis saber.
- O violão do Niall está destruído. Harry disse que ela está atrás de nós. – Expliquei.
soltou uma risada seca.
- O quê? ? – Outra risada. – Vocês fazem soar como se ela fosse uma psicopata em busca de vingança.
- E o que você acha que é isso? – Apontei para a bagunça aos nossos pés, sentindo a “calma” ir fugindo aos poucos.
- Vingança. – Disse como se tentasse provar alguma coisa. – Mas não que ela é uma louca fugitiva.
- . – Falei em tom alto. – Ela está louca. E sumiu. – Declarei, contrariando. – Vamos falar logo com a . Agora você me deve muito mais.
Saí do quarto antes dela; não olhei para trás, mas sabia que ela estava me seguindo.
No dormitório feminino, não falou nada sobre garotos não serem permitidos. Apenas entrei atrás dela, com uma mínima parte de mim se importando se a monitora estava lá vigiando ou não. Se sabia de algo, eu também queria saber. Agora era pessoal.
- ! – gritou ao entrar no quarto da amiga e encontrar a colega de quarto sentada em sua cama mexendo em seu celular como se não houvesse amanhã.
- Hey, . – Respondeu ela, sem emoção. – Malik. – Acrescentou quando me viu.
- . – Cumprimentei também.
- Você viu a ? – Perguntou.
pareceu pega de surpresa por um breve momento, mas logo se recompôs e falou com aquela sua voz fria:
- Hm, ela disse que ia passar numa farmácia.
- Sabia! – mordeu a ponta do dedão, apreensiva. – Quando ela saiu?
- Eu não estava acordada. – Disse, com uma cara de quem não estava gostando daquele interrogatório.
- Ela não disse nada? Você não viu a hora que ela colocou o alarme na noite anterior? – insistiu.
- , eu não sei, ok? – respirou fundo, impaciente. Algo em mim dizia que ela queria mais que tudo se livrar daquela conversa.
- , ela sumiu! Simplesmente sumiu! Você deve ter alguma coisa que possa nos ajudar! – começou a implorar. Na parte do “nós”, arqueou as sobrancelhas para mim, como se aquilo fosse uma grande piada ou mentira de mau gosto.
Uau, a confiança das pessoas em mim era perturbadora.
Mas eu não podia ligar menos, tudo que eu sabia era que eu teria de volta depois de toda essa palhaçada e meus cigarros seriam restituídos.
Fim de história.
- Qualquer coisa.
abriu a boca para falar, mas não disse coisa alguma.
- Eu a vi anotando algumas coisas em uma agenda. – Disse, por fim, indicando com a cabeça um caderno em cima da mesa. não hesitou antes de pegar o caderno e folhear as páginas cheias.
- Aqui! – Gritou. – “Encontrar Sebastian. 9 p.m. Fundos da Willowholme Gardens”.
Fez-se silêncio depois que ela parou de ler.
Para mim, estava óbvio do que se tratava. Troquei um breve olhar com a , que permaneceu impassível, quase imóvel, esperando a próxima ação de .
Honestamente, não ia sacar o que estava rolando ali.
- Mas... Não é na farmácia. – Ela franziu o cenho. e eu ficamos calados. A garota era mais esperta do que eu pensava. – Quem é Sebastian? Por que nos fundos da... – parou de falar por um momento. – Onde ela conseguiu isso?!
- O que é? – fingiu não entender.
- Ela vai encontrar um traficante, não é? – perguntou para mim e eu assenti, vendo pelo menos três emoções diferentes passarem pelo rosto dela naquele instante. – Por que ela iria até um traficante?! Ela tem receita, pelo amor de Deus!
- , já sabemos onde ela está. – Tentei acalmar a garota. – Vamos apenas busca-la e resolver qualquer que seja o problema dela. – Sugeri.
assentiu, um pouco dispersa e girou nos calcanhares para sair do quarto. Fui atrás dela, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta, mas eu me virei novamente para antes de sair do quarto:
- Você é uma péssima influência, . – Acusei, falando baixo para que não ouvisse. – Não é assim que se faz novos amiguinhos.
- Não é assim que se expurga os demônios, Malik. – Rebateu. – Ela nunca vai perdoar você.
- Não tenho tanta certeza quanto a isso, estou fazendo um ótimo trabalho aqui. – Abri um sorrisinho de canto. – Mas, com certeza, ela jamais vai te perdoar por indicar seu traficante pessoal para a amiga dela.
não respondeu, apenas me queimou vivo com seu olhar sinistro, mas eu sabia que ela se importava. No fundo, tinha um coração, só não sabia como usar.
Dei-lhe as costas e saí do quarto.


Capítulo 20

Liam’s POV
- Ele disse se era aço ou náilon? – Perguntei a Harry enquanto observava atentamente os preços dos violões pendurados na parede da loja de música. – Ele é bem interessado nessas coisas, não acho que “qualquer um serve”. – Comentei ao passar os dedos pelas cordas de um violão preto com bordas brancas. Senti falta da resposta de Harry. – Harry? – Chamei, mas não ouvi resposta. Girei nos calcanhares, mas ele não estava ali.
Por que eu vim logo com ele?
Era para ser uma coisa rápida, já que ainda tinha um monte de trabalhos para fazer ainda nessa tarde. Saímos do colégio logo depois de almoçarmos para ir até a cidade sem o intuito de demorar na tarefa que nos foi dada.
Respirei fundo, procurando o palerma com os olhos. Avistei-o no meio dos teclados, apertando algumas teclas, observando-as como se fosse muito conhecedor sobre teclados em geral. Balancei a cabeça e fui até ele, rindo um pouco, até.
- Você tem o foco de um gato, dude. – Falei, olhando o teclado que ele olhava.
- Gatos são muito focados.
- Só no que é interessante para eles.
- Exato.
Franzi o cenho, ele tinha razão.
- Bom, a banda deve ser interessante para você também, então imagino que esse violão merece sua atenção. – Argumentei. – O que Niall disse sobre o violão?
Niall nos deu algumas instruções sobre como queria seu violão novo, já que tínhamos algum dinheiro no caixa. O problema era só que eu não lembrava o que ele disse. “Com esses detalhes não tem como errar”, disse ele antes de irmos embora, já que ele ia ter que ficar.
- Eu não me lembro. – Disse Harry, sem demonstrar interesse.
- Se não veio ajudar, por que veio então?
- Ah, e você lembra o que era?
- Fui eu quem sugeriu vir comprar o violão dele. – Defendi-me.
- Aliás, por que ele não está aqui?
- Ficou decidido que ele e Louis iriam afinar o baixo e a guitarra para o ensaio de amanhã.
- Eu poderia afinar a guitarra!
- Se chegasse cedo nas reuniões, talvez teria opção de opinar.
- Isso é um complô contra mim!
- Até o Zayn chega na hora, Harry. Por favor, melhore.
- Ele é desocupado.
- E você não é?
- Existe uma diferença. – Bufou. – E hoje eu cheguei atrasado porque parei no caminho para falar com a .
- , huh? Vocês voltaram a se falar? – Abri um sorriso, animado com o sinal de normalidade à vista.
- Faz algum tempo, cabeça de vento. – Revirou os olhos.
- Eu só queria oficializar. – Dei de ombros. – E como está sendo? É difícil não encarar os peitos dela, não é?
- Dude! – Ele quase gritou e depois olhou para os lados, preocupado que alguém tivesse me ouvido. Não consegui conter a gargalhada que veio a seguir. Joguei a cabeça para trás, tentando puxar o ar. Harry apenas murmurou qualquer coisa e me deu as costas enquanto eu me envergava para a frente, segurando minha barriga. Por que diabos foi tão engraçado? Vai saber, só foi.
- Mate... – Chamei, indo atrás dele quando consegui me recompor, limpando uma lágrima do canto do olho. – Harry. – Chamei de novo ao parar ao seu lado em frente à parede de violões. – Sua cara foi impagável! Pareceu que eu tinha dito que ia comer sua mãe! – Solucei algumas vezes, lembrando-me da cena e tendo vontade de rir mais. - Você é uma peça, Harry.
- Acho que ele queria de aço. – Disse, sem nenhum humor no rosto. – Nunca mais coloque “comer” e minha mãe na mesma frase. – Ameaçou, mas não parecia tão ameaçador, apenas bravo.
- Já ouvi algumas coisas sobre como violão de aço tem vantagens. – Comentei.
- Ele disse a cor? – Perguntou.
- Deve ser igual ao antigo dele.
- E que cor era?
- Por favor, né, Harry?
Pedi ao cara, que estava apenas nos observando de longe, para pegar o violão com gradiente em direção ao centro, meio marrom.
- A gente podia ficar por aqui e ir tomar alguma coisa. – Harry sugeriu quando já estávamos no táxi.
- Os caras estão esperando a gente. – Declinei a oferta.
- Os caras podem esperar mais um pouquinho. – Insistiu.
- Credo, Harry, que fossa é essa? Que necessidade de ficar bêbado. – Critiquei.
Ele resmungou algo e ajeitou o violão em seu colo, fechando os olhos.
Fiz o mesmo e, quando os abri novamente, já estávamos nos portões da St. Bees.
- Harry. – Bati em seu ombro, fazendo-o saltar. – Chegamos.
- O que aconteceu com a delicadeza?
- Não sou sua mãe. Vamos. – Entreguei o dinheiro ao taxista e saltamos do carro.
- Você está falando demais da minha mãe pro meu gosto, Payne.
- E aí?! Vamos relaxar? – Pedi franzindo o cenho.
Adentramos a escola sem muita cerimônia ou demoras – geralmente cumprimentávamos os guardas das portas que se seguiam. Fomos direto para o pátio, que é caminho para a sala da banda. Harry cantarolava a melodia de uma das músicas que estavam na nossa setlist, sem parecer ter maiores preocupações para assombrar seus pensamentos.
- What the... – Comecei a falar, mas me interrompi, observando a cena no pátio.
- Falou comigo? – Harry parou de cantarolar e olhou para mim.
- Eu já encontro vocês. – Falei antes de entregar-lhe o case do violão.
- Quê? Por quê? – Ele começou a perguntar, mas eu lhe dei as costas e fui em direção ao bando de pedra onde e um cara estavam sentados, rindo e segurando folhas de papel.
Algo dentro de mim me impelia a ir lá e tirar aquela história a limpo.
O quê? Eu não fazia ideia, mas parecia que alguma coisa estava errada.
- Posso falar com você, ? – Falei assim que parei em frente aos dois, que só notaram minha presença quando me pronunciei. Ela olhou para mim e franziu o cenho.
- Fala. – Disse, o sorriso desaparecendo.
Por que ela faz isso?
- A sós. – Enfatizei, olhando diretamente para o fulano.
Ela pediu licença e me seguiu até o prédio das salas de aula. Quando chegamos num corredor vazio e afastado, eu me virei para ela, que me olhava com uma cara de poucos amigos.
- O que estava acontecendo ali?! – Perguntei, mais nervoso do que pensava.
- Como é? – Ela cruzou os braços ao me lançar um olhar confuso.
- Cheia de gracinhas e sorrisinhos pra cima daquele playboy! – Cruzei os braços também.
- Wow! O que está acontecendo aqui? Liam, eu não sou sua propriedade!
- Ninguém está falando isso!
- Não. – Disse em tom irônico antes de molhar os lábios e, de repente, lançar-me um olhar acusador. – Você está com ciúmes?
- Ciúme?! Não seja ridícula, ! – Bufei e ela riu com escárnio.
- Liam, por favor! Eu posso me envolver com quem eu quiser.
- Então você está se envolvendo com ele?! – Acusei.
- O quê?! Não! Argh! Liam! Não estava acontecendo nada ali e, se estivesse, não seria da sua conta também! – Revirou os olhos. Soltei um grunhido, frustrado. Eu estava num dilema terrível dentro de mim: parte queria brigar e gritar quanto absurdo era aquilo tudo e outra parte, cada vez maior, apenas queria grudar seu corpo no meu e beijá-la. – Não dê uma de irmão mais velho agora, seu imbecil.
Foi o que bastou, meus movimentos reagiram mais rápido que os pensamentos. Puxei-a pela cintura, chocando seu corpo contra o meu, e depois a colei contra a parede ao lado da porta de uma sala. Ela arfou e olhou para cima, para mim. Segurei seu pescoço e a beijei antes que pudesse medir meus atos. Tive que apertar minha mão em sua cintura; ela era como uma droga, parecia melhorar mais e mais cada vez que a beijava. Gemeu quando escorreguei minha mão para sua bunda e apertei.
De repente, ela me empurrou, olhando-me como se fosse me matar e arfante.
- Você tem que parar de fazer isso! – Ordenou entre uma respiração e outra.
- Só quando você parar de responder tão bem. – Pisquei para ela, que grunhiu.
- Você é cheio de joguinhos. – Disse, revirando os olhos.
- E você adora jogar.

Louis’ POV
estava linda naquela tarde de sábado. Ela estava passando sozinha pelo pátio, saindo do prédio das aulas e se direcionando à ladeira que dava ao ginásio. Usava um casaco longo preto, calças folgadas, um cachecol bege apenas pendurado em volta do pescoço e uma blusa justa, que deixava a mostra um pedaço da sua pele acima da barra da calça. Eu queria correr até lá, começar um assunto qualquer e caminhar com ela até o lago, que sabia que era para onde ela andava.
Era até meio estúpido que eu estivesse tão aficionado em uma garota que sabia que era demais para mim. Era clichê. Era uma péssima ideia. E apesar de já conhece-la como ninguém ali dentro conhecia, eu ainda nem a havia beijado, pelo amor de Deus! Mas vontade, eu precisava admitir, não faltava.
pigarreou ao sentar no banco de pedra em minha frente na mesa onde eu estava, e olhei para ela que soltava uns livros e cadernos na mesa.
- Desculpa atrapalhar sua apreciação. – Comentou, começando a erguer os cabelos dos ombros para prender com um elástico.
- Tudo bem, você também não é tão ruim. – Brinquei, a fazendo me lançar uma careta.
- Ah, qual é. Se interessar pela freak é como carregar uma granada no pescoço. É até patético, vindo de você. – ela levantou os olhos da mesa. – Sem ofensa.
Dei de ombros.
- Há pessoas que diriam que se interessar por seu irmão postiço também é patético. – comentei, folheando meu caderno, e um momento depois subi o olhar para os olhos dela, que eu sabia que me queimavam. – O quê? Foi mal, eu não sei ser sutil.
- Eu não... Ah, por favor, Louis. – Ela revirou os olhos, fazendo pouco caso. Ri.
- Ok. Sem julgamentos, então. – Assenti para ela, como quem lançava uma regra à mesa. – Pronta para umas horas de fotossíntese? Eu digo, literalmente. – Disse batendo a palma da mão na capa do livro de biologia.
- Vamos nessa, antes que meus neurônios pifem. Acabei de sair de duas horas de estudo de química com a .
- É, já está na hora de começarmos a levar esse negócio de estudo mais a sério. – Suspirei, e riu fraco.

era legal. Nada parecida com Liam, é claro, até porque não eram parentes de sangue, mas ela não era uma companhia tão detestável depois que você se aproximava mais. Nos conhecemos no car wash naquela vez, e depois daquilo trocávamos cumprimentos no corredor, conversávamos na fila do refeitório e vez ou outra nos encontrávamos nas aulas, e foi quando eu lhe lancei a ideia de estudarmos um pouco do conteúdo de biologia juntos. Ela era uma pessoa sensata quando se tratava de estudar. Era alguém ideal para um cara como eu, que não conseguia se concentrar sozinho e nem muito menos com meus amigos por perto. Ela mantinha o negócio sério, e me forçava a ter que estudar também durante os minutos em que estávamos juntos.
Passamos mais uma hora e meia repassando os conteúdos naquela tarde, enquanto o tempo ainda estava razoável. Porém o tempo começou a mudar rapidamente, o sol deu lugar a nuvens carregadas e um ar gelado começou a soprar, fazendo com que todos que estavam lá fora fossem para dentro dos prédios novamente.
- Bem, essa é minha deixa. – fechou o caderno e começou a empilhar com os livros e o estojo. – Preciso de algo doce e um banho quente. Mas valeu a tarde. – Ela assentiu para mim, já levantando do banco.
- É, valeu. – Concordei, fechando meu caderno também. – Vamos fazer isso de novo, você é uma boa companheira de estudos. – Pisquei para ela, que sorriu.
parou depois de pegar todos os seus materiais, antes de se afastar, e me olhou.
- Vai ficar aí sentado?
Não havia mais ninguém no pátio, como notei ao olhar em volta, e dei de ombros.
- É. Eu entro depois.
Ela riu fraco.
- Você é estranho mesmo. – Comentou, antes de virar as costas e se afastar.
Arqueei as sobrancelhas.
- Disse aquela que é normal. – Comentei sozinho, começando a enfiar meus materiais na mochila com calma.
Depois de levantar e jogar a mochila no ombro, fiquei parado por um segundo até me obrigar a admitir que eu estava ali porque planejava ir atrás de onde fora há horas atrás. Talvez ela ainda estivesse por lá. Eu não tinha nenhum plano quanto àquilo, não sabia o que dizer a ela. Nem sabia se realmente devia dizer algo a ela, talvez ela realmente estivesse entediada e cansada de mim, como dissera naquele dia na frente de todo mundo. Mas não fazia sentido, quando eu pensava em o quão bem estávamos indo durante o feriado de Natal. E eu tinha quase certeza que aquela cena toda fora para me afastar, como ela fazia com todo mundo. Aquilo talvez significasse que eu conseguira ir longe o suficiente com ela.
Comecei meu caminho até o ginásio, mas ao chegar lá não consegui ver uma alma viva sequer perto da cerca do lago. A única pessoa lá embaixo, constatei ao me aproximar mais da pista de corrida, era , fazendo seu treino diário com fones nos ouvidos, correndo a uma velocidade mediana do lado oposto de onde eu estava na pista.
Me aproximei mais do local, colocando as mãos nos bolsos e esperando enquanto ela dava a volta, até se aproximar o suficiente. Quando ela estava há alguns metros de distância me notou ali e foi diminuindo a velocidade, até chegar perto de mim.
- Run, Forrest, run! – Gritei, a fazendo rir e tirar os fones ao parar em minha frente. Olhei para sua camisa de corrida, toda molhada de suor. – Credo, você tá nojenta.
- E você cada dia mais hétero. – Zombou, me fazendo estreitar os olhos para ela.
- O que está fazendo aqui ainda? – Perguntei, ao pegar seu pulso e puxar para ver os quilômetros percorridos no seu relógio. – Nossa, já correu pra semana inteira.
- É o jeito que eu tenho de pensar. – Deu de ombros, começando a alongar os braços. – Liberar a mente.
- Mente tumultuada, docinho?
se curvou para alongar as pernas.
- Tanto quanto a de qualquer um de nós, não é. – Ela virou para alongar a outra perna. – Garanto que você também não está aqui atoa.
- É... – olhei para além dela, respirando fundo. – Acho que finalmente a idade está me alcançando.
- Até que enfim – ela riu, terminando de se alongar e enganchando um braço no meu, começando a andar para longe dali. – Achei que você ia ter oito anos para sempre. – Me olhou. – O que te aflige?
Dei de ombros.
- Coisas. – Disse, e continuou me observando por um momento. Olhei para ela. – E você?
- Coisas. – Disse também, concordando. Ri. – Ah, sei lá. As coisas estão diferentes. Não necessariamente de um modo ruim, também. Acho que a maioria de nós está descobrindo coisas novas sobre nós mesmos.
- É, você que o diga. Toda namorando, e felizinha. – Sorri para ela, que sorriu de volta, genuinamente. – É bonito, . É bom te ver feliz. Aproveitando. Uma hora um de nós ia ter que sair da sombra do Harry – comentei. – Provar um pouco do Sol também.
Ela cutucou minha costela.
- E agora é sua vez.
- Ainda não. – Disse, rindo fraco. Olhei para longe, e continuamos caminhando em direção aos dormitórios.
- Ele está estranho. – Ela comentou depois de um tempo. – Eu não sei... Ele...
Olhei para ela quando ficou quieta por muito tempo, e não soube ler sua expressão. Tinha algo ali que eu não estava por dentro. Algo que eu havia perdido.
- O quê?
Ela balançou a cabeça.
- Nada. Eu não sei o que se passa pela cabeça dele. Isso sempre foi tão frustrante. – Suspirou.
Parei de andar quando nosso caminho se dividia em dois, ao lado do prédio feminino.
- Mas não é importante, . – Toquei seu braço. – É o Harry, se estiver com problemas vai arrumar um jeito de fazer com que nós soframos com ele também. Como sempre. – Ri, e ela concordou com a cabeça.
- É...
- Foca em você. Tá indo muito bem nisso. – Pisquei para ela, me aproximando e beijando seu rosto. – E vai tomar um banho, você tá fedendo!
- Ah, Louissss! – Ela riu, segurando meu rosto com as duas mãos, me impedindo de me afastar, enquanto eu continuava tentando com uma careta. – Vem cá! – Aproximou o rosto do meu.
- Não... Você não ouse, ...! – Gritei quando vi qual era sua intenção e ela riu mais, puxando meu rosto com força e virando minha bochecha para ela, dando uma lambida em meu rosto. – Não! NÃO!
me soltou e eu passei a manga do moletom freneticamente no rosto enquanto ela ria.
- Você é a pessoa mais nojenta que eu conheço! – Disse, apontando para ela.
- Ah, eu sei que você me ama. – Ela piscou para mim ainda rindo, e começou a se afastar. – Até mais Lou. Se cuida, ok? – Acenou.
Balancei a cabeça rindo, enquanto tomava meu caminho também. Eu ficava aliviado que ela não houvesse mudado tanto assim. Por dentro ainda era nossa .
Ao olhar para cima antes de me afastar do prédio feminino como um costume que eu havia adquirido, vi na janela de seu quarto, bem quando ela desviou os olhos e saiu da janela. Suspirei, continuando a andar.

’s POV
Enquanto Stevie Wonder cantava um de seus maiores sucessos no aparelho de som do carro do taxista que nos levava de volta à escola, eu mantinha meu olhar atento ao que acontecia lá fora, mas minha mente insistia em permanecer presa dentro desse carro e repensar tudo que acontecera até aquele momento. se movimentou um pouco em seu sono, cobrindo-se um pouco mais com meu casaco e se aconchegando mais no ombro de Zayn. Olhei a cena com raiva, ainda indignada com tudo. Revirei os olhos quando Zayn virou o rosto para mim.
- . – Ele chamou cochichando. Não respondi, apenas mantive meu olhar na paisagem fora da janela. – Você vai mesmo ficar brava comigo? – Perguntou, revoltado.
Olhei para ele.
- Você beijou minha melhor amiga, Malik! – Rebati, justificando-me. Como se eu precisasse disso, honestamente.
- E isso te incomoda. – Observou com um breve sorrisinho, e eu já sabia exatamente o tipo de coisa que estava passando por sua cabeça naquele momento. Por isso, adiantei-me em revirar os olhos mais uma vez e balançar a cabeça.
- Você se aproveitou! – Acusei, sem muitos fundamentos. Eu estava um pouco desesperada com o fato de que eu não sabia o que, de fato, incomodava naquilo.
- Qual é, ! Você estava lá! – Bufou, voltando a olhar a janela.
- Ela me odeia. – Declarei. E era verdade, ela me odiava mais que tudo.
- Ela é sua melhor amiga. – Zayn disse, como se discordasse.
- Você sabe do que estou falando.
- Sei. – Olhou para mim novamente.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, cada um perdido em seus próprios pensamentos.
Olhei para minha amiga dormindo no ombro do cara que me ajudou a encontra-la. Ela parecia em paz, descansando e um pouco feliz, até. Vai saber que tipo de cansaço emocional ela esteve sentindo esse tempo todo? Puxei a manga do casaco para cobrir a parte de trás do braço dela que estava descoberta e fria. Eu estava tão aliviada por tê-la encontrado, mesmo sob as circunstâncias em que estávamos. Não sabia o que faria se não a encontrasse. Eventualmente ela voltaria à escola... Ou não.
Como ela pôde ir até lá? Por que foi sozinha? Por que não me pediu ajuda?
Eu não podia evitar me sentir traída pela minha melhor amiga, apesar de tudo. Eu estava aqui por ela, claro, mas não era justo comigo, aquilo também havia me ferido e eu não conseguia ser melhor e aquilo e não me sentir chateada ou magoada.
- Você é uma boa amiga. – As palavras mais improváveis saíram da boca de Zayn, como se ele pudesse ler minha mente naquele exato momento. Ele não olhava para mim, mas para a paisagem que passava por nós enquanto o carro corria pela estrada. Sua fala me pegou de surpresa e eu demorei mais tempo do que o normal para responder, por isso ele me olhou. – O que é?
- Nada. Você me pegou de surpresa, só isso. – Ri fraco, olhando para minhas mãos em cima da bolsa. Ele soltou uma risada seca, também, e balançou a cabeça, voltando a olhar lá fora. Levantei a cabeça, intrigada com seu gesto. O quê? Ele ficou chateado com o que eu disse? – Eu tento ser uma boa amiga. – Falei, tentando ignorar o clima pesado que se instalou de repente.
- Hm. – Murmurou, sem me olhar.
Contive, surpresa, talvez até assustada, a vontade repentina de segurar seu rosto entre as mãos e fazer com que ele olhasse para mim. Por que ele não olhava para mim? Cruzei as mãos e fechei os olhos em busca de algum controle sobre minhas atitudes.
Meus pensamentos me levaram a outro ponto importante que deveria ser discutido sobre aquele dia.
- Eu tenho que pedir que você não comente isso com ninguém. - Falei, sem coragem de olhar para ele.
- Pode ficar tranquila, ninguém quer saber. – Disse, com aquele tom desdenhoso e indiferente ao mesmo tempo.
Olhei para ele, atingida, pessoalmente, por seu comentário de mau gosto.
- Você não precisa ser um babaca o tempo todo, sabia?
- Mas isso você esperava de mim, não é? – Outra risada seca.
Estreitei os olhos, tentando entender o que estava acontecendo ali.
- Se você tem um coração, deveria mostrar mais vezes, Malik. Eu não posso adivinhar quando você se importa ou não. – Sugeri.
- Fala sério, sua melhor amiga está dormindo no meu fucking ombro há mais de meia hora. Se eu não me importasse, não estaria nem aqui.
- Eu achei que só queria se desculpar...
- O problema é que você acha demais.
- Não, o problema é que você só mostra o que você quer para que as pessoas construam essa imagem de babaca sem coração e sem escrúpulos. E a gente constrói mesmo, Zayn, e, por isso, não dá para esperar essas coisas vindas de você. – Falei. – Se você não quer que esperem sempre o pior de você, que tal começar a mostrar o que tem de melhor?
Ele não respondeu, apenas soltou outra risadinha seca e balançou a cabeça, como se eu tivesse dito as coisas mais estúpidas do mundo.
Puxei o ar com força, eu mesma me segurando para não soltar uma risada nervosa, cansada de tentar dar a ele o benefício da dúvida.
Damn, Zayn. Você está me deixando maluca.
Suspirei, sentindo o ar pesado dentro do carro se moldando à minha volta, pesando sobre meus ombros e pesando sobre meus ombros. levantou a cabeça de repente, parecendo desnorteada, olhou para mim e para Zayn e voltou a deitar no ombro dele e caiu no sono de novo. Sem querer, olhei para Zayn e encontrei seu olhar por um breve instante. Ambos viramos o rosto para a frente. Eu envergonhada, ele apenas desinteressado.
Vi os portões da escola surgir à nossa frente, as grandes e douradas letras SBS que adornavam as barras de ferro brilhando com a luz do farol. Já passava das sete horas da noite e o sol já estava no horizonte, mais algumas horas e logo estaria completamente escuro. O bom do horário em que estávamos chegando era que a escola estaria meio vazia, a maioria estaria ou no refeitório ou nos dormitórios.
- São trinta e quatro libras. – O taxista avisou, virando-se minimamente para trás. Sorri polidamente antes de abrir minha carteira, mas Zayn foi mais rápido e entregou a quantia ao homem. Olhei para ele, que se recusava a olhar para mim. – Boa noite.
Abri a porta do carro e chamei para acordar. Ela saiu do carro lentamente, meio grogue, desnorteada. Entrelaçou seu braço no meu e sorriu um pouco quando passamos pelos portões. Zayn estava ao meu lado, calado e seu rosto não dizia nada, mas não desviou o caminho até estarmos na porta do dormitório.
- Precisa de ajuda para subir as escadas? – Perguntou à , que apenas balançou a cabeça, sem graça e riu um pouco.
- Isso é tudo sua culpa, Zayn. – disse, sem humor, apesar de ter o sorrisinho no rosto.
- Qual é, eu fui te salvar! – Ele soltou uma risadinha.
- Não está tudo bem. – Disse ela antes de entrar no prédio.
Zayn ficou olhando a porta por onde ela entrou. Quando percebi que ele não ia falar nada, girei nos calcanhares e abri a porta de vidro para entrar também.
- Ah. – Algo dentro de mim falou mais alto e eu precisei voltar para falar aquilo. Duas garotas saíram do prédio, passando entre mim e ele, nos lançando olhares curiosos. Fechei a porta quando elas se afastaram e me aproximei dele, indo para perto de uma árvore do jardim em frente ao prédio. Cruzei os braços quando ele fez seu caminho para onde eu estava. – Desculpe se te disse algo que... Desculpe.
- Eu nunca achei que viveria para presenciar essa cena. – Disse ele, debochando.
Meus ombros caíram.
- É isso que você tem para dizer, sério? – Arqueei as sobrancelhas.
- Você não disse nada demais. – Deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos. – É sua opinião.
- Você não pode ouvir a opinião – fiz aspas com os dedos – de alguém sobre você e simplesmente dizer “nada demais”. Você precisa reagir, sério.
- O que você quer que eu faça? Que eu comece a chorar e conte meus problemas de infância? Não, valeu.
- Você podia apenas dizer se eu estava certa ou não. – Sugeri.
- Isso significaria te contar algo sobre mim e, cá entre nós, Shortcake, não é bem o que eu gosto de fazer.
- Vou tomar como um sim. – Desafiei, abrindo um sorrisinho.
- Eu nunca conheci uma pessoa tão dedicada a estar sempre certa.
- Eu nunca conheci um babaca com um coração tão mole quanto o seu.
- Agora eu tenho um coração? – Arqueou uma sobrancelha.
Sem pensar, estendi a mão e toquei seu peito esquerdo, sentindo seu coração abaixo da palma da minha mão. De novo, senti – e reprimi – um impulso de fechar minha mão em sua blusa e o puxar para mais perto. Recolhi a mão.
- Parece um coração para mim. – Falei, rindo um pouco, escondendo o nervosismo.
O que tinha de errado comigo?!
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que outras pessoas saíram do dormitório fazendo barulho e eu voltei à realidade e me lembrei do que queria fazer quando voltei para falar com ele.
- De qualquer forma... – Comecei, trazendo sua atenção para mim. – Eu queria agradecer pela sua ajuda.
- Também não esperava por essa. – Riu.
- Parece que achamos que sabemos demais sobre o outro, mas, na verdade, não. – Abri um sorrisinho quando o sorriso dele desapareceu, sentindo-me bem por, finalmente, estar por cima daquele joguinho.
- É o que parece. – Concordou, sério, mas havia algum humor em sua voz.
Silêncio mais uma vez.
Passei a mão pelo cabelo e esbocei um sorriso pequeno.
- Boa noite. – Falei, passando por ele, indo em direção à porta do prédio.
- . – Ele me chamou. – Não vou contar a ninguém. – Prometeu.
Olhei o garoto parado embaixo da árvore com as mãos ainda nos bolsos, olhando para mim. Ali, naquela cena, ele parecia apenas um garoto normal, inofensivo, como qualquer outro garoto de sua idade. Mas havia tanto mais nele que não era mostrado; e essa parte era fascinante para mim.
- Obrigada. – Falei, com um sorriso e entrei no prédio sem mais demoras.

’s POV
Estava quase escurecendo e aquela rua estava vazia. Quando abri a cabine telefônica um cheiro forte de umidade e sujeira me atingiu, e peguei o cabo do telefone público segurando-o com a ponta de meu moletom cinza. Puxei o papel do bolso da calça e digitei o número que constava nele, esperando que chamasse por um momento até ser atendido por uma voz feminina em alemão, proferindo o nome do estabelecimento, uma cafeteria meia boca em um bairro afastado de qualquer coisa nos confins de Hamburg.
Perguntei por Liv, e a garota que atendeu pediu que eu esperasse. Enquanto isso, mordisquei a ponta da unha do meu polegar, um pouco aliviada por saber que ela ainda estava lá. É claro que Liv estava lá, era a pessoa mais perdida que eu conhecia depois de mim mesma. Ela não tinha outro lugar para ir.
- Wer ist das?
- Não reconhece a voz de uma velha amiga? – Perguntei, esperando o silêncio que se seguiu.
- . – Ela disse, depois de um tempo. – É verdade o que dizem, que quem é vivo sempre aparece!
Soltei uma risada seca, balançando a cabeça.
- Onde diabos você se meteu, merda?! Eu pensava que...
- Eu sei. Não posso explicar agora. – Respirei fundo, impaciente e nervosa. - Preciso perguntar uma coisa. – Disse, olhando para o tempo escurecendo rapidamente lá fora.
- O que é?!
Depois de um momento olhando para fora eu voltei a virar para o telefone em minha frente, cutucando uma rachadura na tinta da cabine com a unha.
- Ele saiu?
A resposta não demorou muito a chegar, na voz afobada de Liv.
- Saiu ainda no final do ano. Bom comportamento.
Fechei os olhos, comprimindo os lábios para não soltar um palavrão e bati o punho no aparelho do telefone.
- Como isso aconteceu?!
- Eu não sei, merda, eu não faço as regras!
- Ele te procurou?
- Veio perguntar onde você estava.
- E o que disse? – Inqueri, ansiosa.
- Que não sabia, é claro. O que mais eu podia dizer, ? Nem sabíamos se você estava viva, para começo de conversa...
- É claro que eu estou viva, porra. – Reclamei.
- E como eu ia adivinhar?! Você sumiu do dia para a noite feito uma condenada! Pensamos que tinha bebido até morrer em algum lugar por aí, sabe que não era um mau palpite!
Dei de ombros, momentaneamente concordando com aquela afirmação. Respirei fundo e voltei a focar no que eu precisava saber.
- Então não disse nada demais?
- Eu disse que não sabíamos de você há meses, mais de um ano. Ele começou a esbravejar feito um louco, como sempre, e... Afinal, o que porra aconteceu naquele dia? Você estava junto? , você tem alguma coisa a ver...
- Não. – Respondi rapidamente. – Ele acha que eu o dedurei. Só isso.
- Bem, então se realmente foi você, eu indico que se esconda muito bem, porque eu nunca vi um cara tão furioso em toda a minha vida. Ele vai te achar.
Passei a mão livre no rosto, afastando os cabelos para trás depois. Estava um pouco tarde para aquilo.
- Onde você está, ?
- Não... não posso dizer.
- Você por acaso ficou maluca? Está participando daquele programa de proteção a testemunhas ou o quê? Mudou de nome, de cabelo, de país? Que merda está fazendo? Por que não volta para casa?
- Essa não é a minha casa. – Respondi, baixo. Hamburg nunca pareceu casa para mim. Lugar nenhum pareceu. – Eu preciso desligar.
- Espera aí, merda. – Liv xingou pela enésima vez. Ela, ao que parecia, não havia mudado praticamente nada. – Pelo menos me diga se está bem.
- Lively, alguma vez eu deixei de saber sobreviver?
- É, tem razão. – Ela ficou quieta por um momento. – Sinto sua falta, doof. Continue sobrevivendo.
Assenti com a cabeça, como se ela pudesse me ver. Depois de um momento sustentando aquele silêncio, encarei o teclado numérico em minha frente ajeitando a postura.
- Você também, Liv.
Coloquei o telefone no gancho terminando a chamada e saindo para o tempo estupidamente gelado lá de fora. Dois homens passaram por mim em determinado momento do trajeto, assoviando e falando besteiras enquanto encaravam, e não me incomodei em olhar em suas direções, apenas lancei o dedo do meio.
Peguei um cigarro do bolso do moletom e o levei à boca, enquanto descia a ladeira da rua, completamente deserta e parcialmente escura, não fossem os fracos postes de luz. Acendi o cigarro e dei a primeira tragada, pensando naquilo. Em tudo que deixei para trás quando me mudei, e em como não podia cometer o erro de puxar tudo aquilo de volta para a minha vida. Nenhuma parte daquilo, e isso incluía Kevin.

Cheguei a um ponto de táxi, entrando em um para me levar de volta ao St. Bees, e em menos de meia hora eu estava lá. Minha mente estava tumultuada enquanto eu pensava nas diversas possibilidades do que acontecia agora, e quando vi já estava subindo as escadas do prédio dos dormitórios, me aproximando do quarto.
Ao chegar lá peguei a chave, mas a porta já estava aberta, o que me fez pensar em , e entrei no quarto desejando imensamente vê-la lá. Seria uma coisa a menos com o que me preocupar. Soltei a chave, a carteira de cigarros e o isqueiro na ponta da cama olhando em volta no quarto, e percebi a luz do banheiro acesa. No mesmo instante, a porta foi destrancada e saiu lá de dentro enrolada em uma toalha.
- Jesus – soltei, indo até ela em passos largos. - Onde você se meteu?! – Perguntei, aliviada e até um pouco indignada segurando-a pelos ombros.
É de se imaginar minha preocupação acentuada quando minha colega de quarto sumiu após eu tê-la indicado o endereço do meu traficante, mas com aquela história toda de aposta, seu comportamento cada vez mais instável e seu humor decadente, eu me senti na obrigação de fazer aquela por ela. Mas logo depois de ter feito isso, passou pela minha cabeça que eu devia ter conseguido os remédios sozinha ao invés de mandar uma garota frágil, debilitada e completamente indefesa à casa de um traficante.
Ao observar melhor seu rosto, apesar de parecer bem melhor, ela parecia exausta e acabada. Soltei-a logo depois de perceber que eu estava definitivamente exagerando e dei um passo para trás, recolhendo minhas mãos.
riu baixinho e foi para sua cama, sentando lá.
- Eu não sei direito. Podemos conversar amanhã? – Ela fez uma pausa para bocejar. – deve saber nos explicar o que exatamente aconteceu.
Dei de ombros, assentindo.
- Claro. Hum... vou tomar banho. –Avisei, apontando para o banheiro antes de entrar e trancar a porta. Sentei na tampa do vaso sanitário e abaixei a cabeça, apoiando o rosto em minhas mãos e respirando fundo. Pelo menos uma parte do drama mexicano daquele dia havia acabado bem. Só faltava todo o resto.
’s POV
Tudo que eu sabia naquele momento era que estava extremamente faminta. Depois de passar o domingo retomando a matéria de biologia, fiz meu treino e depois concluí um trabalho de sociologia enquanto lutava contra o sono na biblioteca, eu estava exausta. Não era acostumada a devotar tanto do meu tempo aos estudos assim, por mais irônico que fosse. Quer dizer, eu vivia no colégio! Mas antes sempre tinha algo mais inútil para fazer do que estudar; agora não havia muita coisa a fazer num sábado.
Lance havia ido para a casa pelo fim de semana, para o aniversário da mãe. estava fazendo alguma coisa relacionada às aulas, ocupada demais para me dar atenção durante o dia. Então aproveitei para colocar as coisas mais urgentes em dia.
Entrei no refeitório indo direto para a fila do bufê, havia bastante gente ali naquele horário. Era início da noite e a janta havia acabado de ser servida. Peguei uma bandeja, um prato, talheres, guardanapo e esperei minha vez impacientemente, sentindo aquele cheiro bom revirar meu estômago. Um cutucão em minhas costelas me fez pular, e olhei para trás encontrando Liam.
- E aí, ?
- Credo, assombração. – Murmurei.
- Quanta hostilidade. Como vai? – Perguntou, colocando um prato em sua bandeja e me seguindo quando a fila andou.
- Bem, e você?
- Com fome, mas vivo. – Comentou e eu sorri, servindo meu prato com arroz, molho vermelho, um bife, purê de batata, uns pedaços de cenoura e um pedaço de lasanha que parecia incrível. O prato de Liam era composto de basicamente a mesma coisa mas em porções maiores, e quando partimos para a parte da sobremesa e vimos um último pedaço de torta de limão eu o empurrei quando ele levou a mão para pegá-la e peguei eu mesma, colocando o pratinho descartável em minha bandeja. – Merda! – Ele xingou, me empurrando fraco de volta, e gargalhei.
Liam escolheu uma porção de mousse de maracujá enquanto eu pegava uma garrafinha de suco para mim.
- Ei, venha sentar com a gente – convidou, assentindo com a cabeça para sua mesa de costume e olhei para lá vendo o resto dos garotos. Mas Harry estava lá, e lembrei brevemente do nosso encontro na manhã de sábado. Eu queria mais era fingir que aquilo nunca aconteceu, porque foi... mais do que estranho. Mas não queria voltar para a fase em que estávamos nos evitando, uma hora ou outra nós dois teríamos que voltar a conseguir conviver no mesmo ambiente. Então, segui Liam até lá.
Quando sentei em um lugar vago na mesa entre Harry e Niall me lembrei que não sentava com eles desde... bem, desde o baile.
Sorri para Niall em forma de cumprimento e Liam sentou na cadeira ao lado de Josh, enquanto este terminava de fazer um comentário sobre alguma música. A conversa eventualmente morreu.
- Você tá bonita hoje, . – Liam comentou, piscando para mim quando eu o olhei, e Louis logo concordou, de boca cheia. Niall assentiu também, e então Louis e Liam deram umas cotoveladas em Josh, que pareceu se ligar, e pigarrear levando a mão à boca cheia, concordando com a cabeça.
- Ah, é, verdade. Uma gata. – Falou depois que engoliu.
Encarei-os por um momento e depois gargalhei, jogando meu guardanapo nele.
- Como vocês são sutis! – Comentei, ainda rindo. – Bom, valeu, mesmo assim. Não posso dizer o mesmo quanto a vocês, mas...
- Ah, ela tá se achando o gás da Coca! – Louis levantou as mãos me fazendo rir mais ainda. – Tá ruim aqui pra você, minha querida? Quer que eu te dê uvas na boca? Abane seu rosto?
- Você é um idiota – comentei, sem conseguir parar de rir. Eu sabia que nunca devia subestimar meus amigos em questão de quebrar o gelo e tornar uma atmosfera mais leve. Eles eram os melhores nisso e, nossa, eu senti falta dali. Niall me acompanhou nas risadas enquanto os comentários dos outros garotos ainda perduravam, para ele aquilo ali também devia ser meio novo.
- E aí – comentei com ele, ao meu lado, depois que o assunto voltou a surgir entre eles. – Então agora você tem um lugar na mesa dos populares? Tá chique, hein?
Ele deu de ombros, fazendo uma caretinha. Nesse momento lembrei porquê, exatamente, Niall tinha um lugar na mesa dos populares. Por causa da banda que, por sua vez, ele só conseguiu entrar pela aposta. Caramba. Olhei em volta, para ter certeza que nem e nem estavam por ali, porque eu seria a maior das traidoras por estar no meio deles naquele momento. Elas ainda não haviam superado aquilo tudo. Acho que por eu ter vivido a maior parte da minha vida entre garotos, eu era mais acostumada com essas atitudes babacas. Nunca estive no lado da da história, então certamente eu não entendia a sua revolta.
Terminei de comer tentando me inteirar dos assuntos deles, mas na maioria do tempo eu só os ouvi. Harry, ao meu lado, estava quieto naquela noite. Eu tentava ignorar o clima estranho entre nós e fingir que não existia, mas era difícil... Talvez fosse só uma sensação minha, e eu estivesse errada. Não é? Talvez eu só precisasse quebrar o gelo.
- Hum... – Provei um pedaço da minha torta de limão virando para ele. - E como foi aquela...
- Eu vou pro quarto, tô cansadão. – Ele avisou a todos antes que eu pudesse falar, levantando da cadeira e pegando sua bandeja. – Boa noite – disse, olhando para todos nós por um momento, e depois se afastou dali.
Arqueei as sobrancelhas. Acho que não era só uma sensação.

Depois de jantar fui para o dormitório também, em nenhum momento tirando aquilo da cabeça. Harry era tão bipolar, e eu estava tão cansada de não conseguir me desvencilhar dele. Da nossa amizade, agora complicada, de todos aqueles... sentimentos... confusos. Era inútil negá-los, disso eu sabia. Mas em nada isso ajudava a como conseguir entende-los.
Entrei no quarto, encontrando deitada em sua cama lendo um livro. Ela me olhou quando fechei a porta por cima do mesmo e abriu um sorrisinho, me encarando por um momento antes de voltar a ler. Fui até minha cama devagar e sentei na ponta da cama, tirando os calçados e os jogando em algum lugar, soltando os cabelos do coque que eu havia feito, tirando o casaco... tudo em marcha lenta enquanto minha mente estava longe dali. Depois deitei, encarando o teto com as mãos debaixo da cabeça por um tempo. Olhei para em sua cama, com os olhos no livro, mas ainda na mesma página enquanto os dedos batucavam no canto da folha. Ela também não estava muito mais focada do que eu.
- ... – Chamei, a fazendo acordar com um suspiro fundo e me olhar.
- Oi?
Levantei da cama em um impulso sentando na cama dela em sua frente, com uma perna dobrada. Ela abaixou o livro e me olhou.
- O que significa quando um cara é legal com você, e depois é um idiota?
Ela soltou um riso fraco.
- Acredite, eu também queria saber. – Me disse, com um sorriso que me fez rir também. – Por quê? Foi o Lance? – Perguntou, se ajeitando na cama e sentando como eu em minha frente. Puxou um fiapo de uma mecha do meu cabelo, com a atenção total em mim.
- Harry. – Respondi, mordendo o lábio, vendo sua expressão mudar para aquela que dizia “de novo isso?”. – Não, é só que... A gente está voltando a se falar aos poucos, você sabe. Mas as vezes ele age... estranho.
- Você é uma pessoa completamente diferente para ele agora, . E ele também, pra você. Vocês estão se vendo com outros olhos, e... – Ela olhou para cima gesticulando com a mão, procurando as palavras. – É normal ser estranho no início.
Assenti, concordando, depois de ouvir suas palavras.
- Mas e o Lance? Como vão as coisas com ele? Hein? – Ela perguntou, empurrando meu ombro fraquinho, me fazendo rir. – É nele que você tem que estar pensando! Um cara legal, bonito, gente boa, que parece estar gostando de você e você dele.
- Ok, ok... – Suspirei, pensando em Lance. – Hm... Acho que está indo bem? Eu não sei! Nunca tive um namorado antes. – Encolhi os ombros, então levantei os olhos para ela quando um pensamento me ocorreu. – Mas você já, não é? Como era? – Perguntei, curiosa.
Algum resquício de algo que eu não reconheci passou pelo rosto de , e fez parecer que ela não queria voltar àquilo. Mas passou um segundo depois. Ela respirou fundo, arrumando o cabelo.
- Era normal. Era... legal. – Ela lançou, procurando as palavras. – Hm... era bom. – Admitiu, sorrindo para mim com cumplicidade e um pouco de... pesar. – Era bom ter alguém. Saber que eu tinha alguém. Essa é a melhor sensação. Saber que você... sabe... não está sozinha nisso tudo.
Assenti, acompanhando.
- E ele gostava de você?
Ela comprimiu os lábios por um momento, enquanto encarava o colchão, e depois soltou o ar pela boca.
- Eu não... não sei. Parecia que sim. – Respondeu, mais baixo. Percebi que aquilo a estava incomodando, e concordei com a cabeça disposta a trocar de assunto, mas ela segurou meu braço antes disso, me fazendo olhá-la. – Amar é bom, . Não é para ser complicado, nem cheio de joguinhos ou desconfortos. É pra ser bom, e simples. Eu... eu acho – ela franziu o cenho, incerta sobre aquilo. Balançou a cabeça, me olhando de novo. – Bom, de qualquer forma, pense nisso. Tenha em mente que ter um compromisso com alguém é algo que deve te fazer sentir bem, segura, e confortável.
- Ok. – Assenti, entendendo, e ajeitando a postura. – Você tá certa.
- E quando eu não estou? – Jogou o cabelo para trás do ombro me fazendo lançar uma careta a ela antes de pular de volta para a minha cama.
- Não enche muito a bola, princesa. – Comentei, a fazendo rir.
Ri junto, deitando e pegando o celular para fazer qualquer coisa.

Zayn’s POV
O professor já falava há alguns minutos e não havia chegado ainda. Ela nunca se atrasava, isso era inédito. Eu não a via desde sábado, não ouvi falar dela, não falei com ela.
Balancei a cabeça, sorrindo com a lembrança daquela noite. Já era. Ela já estava caidinha; agora era só finalizar. Não foi fácil chegar até aqui, mas, a satisfação que senti ontem à noite, quando ela se aproximou daquele jeito e depois ficou toda nervosa... Aquilo não tinha preço. Logo eu estaria cara a cara com aquela vadia da Mandy.
De repente, a porta foi aberta e apareceu por detrás dela, pedindo licença para o professor.
- Que não se repita, Srta. . – Alertou o homem acompanhando-a com o olhar enquanto ela vinha em direção à bancada.
Ela se sentou ao meu lado, sem dizer nada, quase como se eu não estivesse ali, e começou a tirar seus materiais da bolsa. Acho que era a única pessoa na sala toda que tirava um caderno da bolsa para fazer anotações sobre a matéria. Eu achava desnecessário, honestamente, tudo parecia intuitivo demais para mim.
Mas isso é porque eu sou foda, né.
Quando ela colocou um bloco de post-its em cima da bancada, eu peguei sua caneta e o bloquinho e escrevi uma informação que me parecia útil e, também, um quebra-gelo. Escrevi “teremos um teste prático semana que vem. Me pegou de supresa”. Passei o bloco de volta para ela, que olhou para ele como se nem tivesse percebido que eu o havia pegado. Rapidamente puxou para si e respondeu:
”Estou mais surpresa com o fato de que você estava prestando atenção na aula. Que dia?”, e me devolveu.
Olhei para o homem que falava lá na frente sobre alguma coisa.
”Não sei”.
Ela soltou uma risadinha quando leu, balançando a cabeça, mas não voltou a responder a mensagem. Apenas apoiou o rosto na mão direita e olhou para o professor sem demonstrar muito interesse.
Olhei em volta, meio impaciente, meio intrigado por sua postura desanimada e esquisita. não era assim normalmente. Baixei o olhar por sua figura, tentando ser discreto, observando seu corpo inclinado sobre a mesa e sua mão esquerda que tentava retirar do rosto uma mecha de seu cabelo que insistia em cair. Continuei o caminho para baixo: sua cintura marcada pela saia, as pernas escondidas por debaixo de sua meia-calça azul escura e o tênis – era quase inacreditável vê-la de tênis. Demorei-me em suas pernas; como eu nunca havia visto aquele par?, eram compridas e até grossas para o porte dela. Mas meus olhos acabaram caindo sobre sua bolsa meio aberta no chão ao lado de seu banco e algo me chamou atenção.
Havia uma pasta transparente com alguns documentos, alguns deles carimbados, outros apenas com enormes códigos de barras. Pude ler do que se tratava o primeiro documento, o que era possível ver por causa do material transparente da pasta. Era um pedido de retirada de carro, o documento era cunhado pela polícia, um depósito de carros. O modelo desejado era um Opala SS laranja.
Arqueei as sobrancelhas.
Nunca se esquece duma garota que dirige um Opala SS laranja.
Mandy era uma bela de uma filha da puta.
Finalmente ela foi pega pela polícia naqueles rachas imundos que ela participava.
Mas por que aquilo estava com ?
Voltei a olhar para a frente, sem ouvir de fato qualquer coisa que saía da boca do homem falando. Mil coisas invadiam a minha mente de uma vez; lembrei-me da primeira vez que vi Amanda, das loucuras dela, das drogas, de todas as garotas com quem ela ficava apenas para me provocar, as lembranças apenas vinham, algumas me causando espanto, outras repulsa, enquanto outra parte de mim apenas continha o puta desejo de fazer todas aquelas merdas de novo com aquela vadia. Como um solavanco, lembrei-me da temperatura extremamente gelada da chuva na noite que eu peguei os dois na cama, eu quase podia sentir o frio e o calor que lutavam dentro de mim naquela hora, o ódio que me consumiu em apenas um segundo e todo resto era apenas um borrão de policiais me tirando de cima do corpo desacordado e ensanguentado do filho da puta que teve o azar de estar comendo a vadia mais escrota da face da Terra.
Pulei de susto quando alguém tocou meu braço e eu abri os olhos apenas para encontrar me olhando com apreensão.
- Você está bem? – Perguntou, recolhendo a mão, cruzando os braços.
Olhei em volta, percebendo que a aula havia acabado, não havia mais ninguém na sala além de nós. Olhei para a mesa, notando o quão acelerado meu coração estava e vi minhas mãos fechadas em punho, os nós de meus dedos embranquecidos pela pressão e força. Num ímpeto, levantei-me e recuou um passo. Comecei a jogar alguns materiais na mochila, sem paciência.
- Ótimo. – Respondi, sem conseguir olhar em seu rosto. A menor semelhança entre as duas me faria perder o controle ali mesmo.
- Tem certeza di...
Foi o que bastou.
Sem pensar, virei-me para ela e a peguei pelas pernas, sentando-a na mesa e me encaixando entre suas pernas. Ela me olhou nos olhos, assustada. Não era medo, como eu estava acostumado a ver ali. Ela estava surpresa, curiosa, dava-me toda sua atenção. Tive que olhar para baixo, olhar para a distância quase inexistente que separava nossos corpos. Franzi o cenho, voltando a mim, quando percebi que algo em mim se recusava a fazer qualquer coisa daquela forma com ela. O movimento rápido de seu peito, de sua respiração, chamou minha atenção. O hálito dela soprava em meu rosto e eu podia sentir que ela esperava alguma coisa de mim. Voltei a olhar seu rosto; seu queixo, sua boca, seu nariz, os cabelos caídos nos ombros, e, finalmente, seus olhos.
Ela me olhou de volta.
Levantei a mão e toquei eu peito, onde eu podia sentir seu coração.
- Você vai enfartar. – O comentário simplesmente saiu de minha boca, roubando-lhe uma risada e rompendo o contato visual. Sem pensar, pela segunda vez naquela tarde, passei meus braços por sua cintura e descansei minha cabeça na curva de seu pescoço, segurando-a firme contra mim. Ela estava tensa embaixo de mim, como uma pedra, sem reação.
Puta que pariu, ela vai enlouquecer por minha causa. Mas naquele momento eu não estava nem aí. Eu só queria aquilo.
Zayn Malik, seu egoísta filho de uma puta.

’s POV
- Ouvi dizer que ele estava bêbado. – Disse Wanessa com um sorrisinho de “ele sempre faz isso”. Soltei uma risadinha, olhando para a foto do cantor regando alguns arbustos com cerveja.
- Ele está sempre bêbado. – Outra, cujo nome eu não sabia, disse enquanto digitava algo em seu celular.
- Credo, não fala assim! – Wanessa franziu o cenho. – Só vemos o que sai nas fotos e na mídia, não é, ?
- É verdade. Para mim, ele tem cara de ser mais legal do que aparenta ser. – Encolhi os ombros.
- Sabe o que isso me lembrou? – A outra garota pulou no lugar e sorriu. – Aquela festa na casa do Lucas Willis!
- É verdade! – Wanessa riu ao se lembrar da mesma coisa. – Só que a gente tentou encher a piscina com cerveja!
Elas gargalharam juntas, eu apenas as observava já que não sabia do que falavam, mas era engraçado.
- Muito mais provável e útil que regar plantas com cerveja! – Riu Wanessa e a outra concordou.
- Oh, , onde você estava naquela noite?! Foi insana! – A outra garota passou as mãos pelos cabelos crespos.
Eu estava prestes a responder seu questionamento – buscando alguma desculpa, na verdade – quando vi Niall sair do refeitório. Ele carregava um case em formato de violão e olhava para um caderno em sua mão, distraído com o que tinha ali.
- Ah, eu tinha alguma prova muito importante para fazer na semana seguinte. – Inventei, levantando-me do banco e peguei minha mochila. – Vejo vocês mais tarde! – Despedi-me rapidamente e fiz meu caminho até Niall.
Apertei a alça da mochila no ombro e engoli em seco. O que eu pretendia com aquilo? Não fazia ideia do que dizer, mas algo dentro de mim dizia que eu precisava dizer alguma coisa. O céu já estava ficando laranja, o sol já se punha e o vento ficara mais frio.
- Niall! – Chamei, sem pensar muito naquela ação.
Ele parou de andar, não muito à minha frente, e girou nos calcanhares. Não consegui ler seu rosto, mas ele provavelmente estava preocupado, pois segurou a alça do case com mais força e, também, engoliu em seco enquanto esperava eu me aproximar. Dei-lhe um sorriso, mas tenho certeza de que saiu mais como uma careta. Suspirei.
- Hey. – Segurei a barra de meu blazer. Droga, o nervosismo estava começando a me tomar. O que você está fazendo, ?!
- Hey. – Respondeu, sem olhar diretamente para mim, mas para algum ponto atrás de meus ombros. Ele esperou que eu prosseguisse, mas eu travei, pensando em várias coisas que poderia dizer, pensando no que ele fizera comigo e como eu me sentia por dentro agora com todos esses sentimentos de raiva e afeto misturados como uma coisa só. Eu acabei não dizendo nada. – . – Chamou como se eu estivesse perdida no mundo da Lua.
- Ahn... – Pigarreei. – Eu gostaria de pedir desculpas. – Ele franziu o cenho. Respirei fundo e olhei para ele, em seus ohos. – Não devia ter quebrado seu violão.
Ele abriu a boca, mas não falou nada. Por fim, ele apenas soltou uma risada seca.
- Desculpas? Por quebrar meu violão? Você faz ideia de como eu gostava daquele maldito pedaço de madeira?
- Eu... – Fiquei desconcertada, não sabia o que dizer.
- Não temos mais nenhum caixa na banda, muito obrigado, .
A paciência e misericórdia sumiram de mim num piscar de olhos.
- “Muito obrigado”? – Estreitei os olhos. – “Muito obrigado, ”?! Seu violão nunca teria sido destruído se você não tivesse aceitado aquela aposta!
- Fine! Eu tenho minha parcela de culpa, mas você não?! Achei que você fosse mais adulta.
Sério?!
- Quem você é para me chamar de infantil?!
Eu não estava acreditando no rumo que aquela conversa estava indo! Eu apenas queria me desculpar, que mal havia em simplesmente dizer “ok, , tudo bem”! Ele também não foi nenhum santo!
- Vocês! – apareceu ao meu lado, sorrindo, olhando para nós dois. – Já estamos de bo... – A fala sumiu quando ela notou que nenhum de nós ouvia o que ela dizia. Mantive meu olhar nos olhos fulminantes de Niall, esforçando-me para lhe dar o mesmo recado. – Niall? ?
- Você não estava pedindo desculpas, ? – Niall provocou mais.
- Estava tentando, mas já vi que foi um erro. – Respondi.
- Niall? – olhou para ele. – Você disse que queria ficar de boa.
- Mudei de ideia. – Ele disse rapidamente.
- Idiota. – Murmurei antes de girar nos calcanhares e me afastar dali.
- Ei! – veio atrás de mim. – O que foi aquilo?!
- Eu tentei pedir desculpas e ele...
- Você o quê?
- Eu...
- ! Não é você quem tem que pedir desculpas!
- ! – Virei-me para poder olhar para ela. – Eu preciso! Eu preciso! Não me lembro de nada que não tenha que pedir desculpas! Eu não tinha que ter destruído o violão dele! Nem os cigarros do Zayn, nada! Eu fiz algo errado mesmo que tenham feito algo errado comigo antes! Um erro não justifica o outro!
- A gente pode conversar sobre isso? – Ela me olhou com cara feia.
Eu já sabia do que se tratava.
- Não dessa vez, . Estou tomando a responsabilidade pelas minhas atitudes.
- Não é sua culpa, !
- É o que todos dizem. – Murmurei, dando as costas para ela.
Ouvi dizer alguma coisa, mas não dei muita atenção. Segui em direção à biblioteca, sem pensar em algum lugar melhor para ir. Como que para me convencer de que realmente queria estar lá, pensei no cappuccino da cafeteria e abri um sorriso, distanciando-me cada vez mais do confronto com Niall.
Entrei no local sempre mergulhado em silêncio e fui direto para o meio das estantes abarrotadas de livros. Respirei fundo quando me coloquei entre a última estante e a parede, fechando os olhos por um segundo. Nunca me sentira tão cansada quanto estava nesses últimos dias.
Meu celular vibrou.
“Desculpe por perder a paciência. Filme aqui mais tarde? x”, era . Respirei fundo, considerando a proposta, mas quando ela mandou uma carinha com biquinho, soltei uma risada e respondi com um “ok”.
Olhei os livros à minha frente, sem realmente enxerga-los. Respirei fundo e me icei da parede, ficando de pé. Fui até a cafeteira e preparei um cappuccino descafeinado; precisaria de uma boa noite de sono. Sem pensar muito sobre o que estava fazendo enquanto ia em direção ao dormitório, mandei uma mensagem para avisando-a que demoraria a chegar. Não que ela se importasse, tenho certeza, mas me sentia no dever de dizer algo, pelo menos por enquanto, depois do meu sumiço.
- Eu tinha medo de vacas quando era mais nova. – Ouvi dizer quando abri a porta do quarto dela. estava deitada em sua cama e ria de , que estava sentada no chão com o notebook no colo. Ela virou o rosto para a porta e me viu, abrindo um sorriso em seguida. Sorri de volta, meio pesarosa.
- ! – me saudou.
- Hey. – Sorri e fui me sentar ao seu lado. – E aí...
- queria saber se eu já havia me aventurado na selva antes. Pelo visto eu pareço fútil e frágil demais para uma vida na fazenda. – estreitou os olhos para .
- Qual é! Vamos passar um final de semana inteiro na mata! Eu precisava saber se você ia gritar toda vez que tivesse que encarar uma minhoca! – Bufou a outra, fazendo graça.
Tive que intervir.
- Primeiro: minhocas são nojentas e horrorosas. Não é nenhuma fraqueza admitir isso, . – Falei, tentando manter todo meu ar de seriedade. Ela arqueou uma sobrancelha e riu mais.
- Ignora, uma hora ela para. – jogou uma almofada na colega de quarto. – Vem escolher o filme comigo. – Ela me chamou, abrindo os braços.
Sorri mais uma vez e fui me sentar ao seu lado.
- Oba, filme! – veio se juntar a nós. – Esse!
Eu e olhamos para ela na mesma hora.
- Amor a Toda Prova? – Franzi o cenho. – Uau.
- O quê? – Ela abraçou os joelhos e fez um biquinho.
- Não prefere Um Amor Para Recordar? – provocou.
- Ou Titanic? – Completei, segurando o riso.
Ela revirou os olhos.
- Vocês são más. – Disse. – Eu posso gostar de filmes românticos!
- E eu posso ter medo de vacas. – abriu um sorriso vitorioso.
- Parece justo. – Observou , dando de ombros. – Podemos ver outro...
- Não! – Antecipei-me em dizer. – Eu quero ver esse. É bom!
- Ok. Então vai ser esse! – deu play no filme.
- Calma! – levantou-se num pulo e correu até seu armário, tirando de lá um pacote de chips e balas. Eu e lançamos outro olhar esquisito a ela. – Parem de me olhar assim! Ter essas coisas no armário é coincidência. Isso não é uma festa do pijama, pelo amor de Deus. – Começou a resmungar. Soltei uma gargalhada e me seguiu.
- É você quem está dizendo, . Você. – tinha um sorrisinho zombeteiro.
Eu estava entrando na brincadeira.
- . – Chamei. – Isso é mais sério que pensávamos. Ela precisa ser iniciada.
- Iniciada? – perguntou entre uma batata e outra.
- Sim... – parecia pensativa e de repente abriu um sorriso, olhando para mim. – Iniciada.
- Quinta? – Perguntei, planejando algumas coisas em minha mente.
- Amanhã. – sugeriu. Assenti, sorrindo.
- Meu Deus, vocês são assustadoras. – comeu uma jujuba. – Vão me dizer do que se trata ou não?
- Você verá. – Foi só o que eu disse, aconchegando-me mais no tapete felpudo e nas almofadas apoiadas contra a parede.
Sorri uma última vez por motivo nenhum e o filme começou.


Niall’s POV
- É sério, dude. – Josh voltou a falar. – Você devia passar um creminho aí.
Tive que olhar novamente para Louis, que esbanjava uma enorme pereba – era uma espinha, mas era gigante – no queixo. Louis lançou um olhar homicida e até um pouco entediado para o amigo.
- E você devia tentar ficar cinco minutos de boca fechada! – Revirou os olhos. – Consegue?
Josh não respondeu e foi para trás da câmera fotográfica apoiada em um tripé.
- Ok, Harry. Você não se mexe! Fica bem aí! – Josh apontou. – A luz está ótima. – Parou de falar por alguns segundos. Harry olhou para nós como se ele estivesse ficando maluco. – Cacete, Harry, as garotas vão chorar só de te ver.
- Eu sempre soube que você era gay. – Zayn estava parado na porta, a mão ainda na maçaneta. Ele parecia enojado, mas havia algum traço de diversão em seu rosto.
Entrou na sala e veio se jogar no sofá ao meu lado.
- O que tá pegando? – Perguntou.
- Nada demais, só o vídeo da banda! – Liam abriu os braços. – Qual é, cara! Estávamos esperando você!
- Já estou aqui. – Foi o que Zayn respondeu, sem demonstrar muita vontade de recuperar o tempo perdido. – O que vamos tocar?
Era sempre uma surpresa quando Zayn nos colocava na mesma frase com ele.
- Flaws. – Louis respondeu, estendendo uma folha com a letra para ele. – Do Bastille.
Zayn não respondeu, apenas pegou a folha e passou os olhos por ela.
- Você não vai tirar essa verruga da cara, não? – Perguntou a Louis, apontando o seu próprio queixo.
- Come on! – Louis gritou e Josh caiu na gargalhada.
- Eu te disse! – Josh se gabou. – Podemos chamar a Rebekah, ela deve estar por aí...
- Controle seus hormônios, câmera men. – Liam apontou para ele com a baqueta.
- Você não vai precisar disso, Liam. – Harry apontou para a baqueta, rindo.
- Ah, é! – Liam largou as baquetas no banco da bateria e veio para perto de nós.
Olhei para a cena. Não ficaria nada legal num vídeo. Todos amontoados no sofá; era bem provável que o braço do violão batesse na cara de alguém de vez em quando. Levantei-me e comecei a andar pela sala, procurando coisas em que pudéssemos nos sentar mais separadamente.
- Que foi, Niall? – Louis perguntou quando eu fui até a bateria de Liam e peguei a banqueta. Coloquei-a ao lado da única poltrona que tínhamos ali.
- Harry, você na poltrona. – Falei, mas ele não pareceu me ouvir. Todos olharam para ele, esperando que se tocasse, mas isso não aconteceu. – Harry!
Ele levantou a cabeça e nos olhou assustado.
- O quê?
- Poltrona. – Louis disse. – O que você tem, hein? Tá pensando na morte da bezerra, é?
- Não fode. – Bufou Harry antes de levantar e ir se sentar na poltrona. – Tá bom aqui?
- Legal. – Afirmei e olhei para o sofá. – Liam, cajon, certo?
- Fechou. – Foi até um canto e pegou o cajon, depois voltou e se sentou em cima do instrumento, perto da ponta onde Zayn estava sentado.
- A câmera está pegando todo mundo? – Perguntei a Josh.
Ele levantou o polegar em sinal positivo. Assenti e fui me sentar ao lado de Zayn no sofá.
- Eu fico aqui mesmo, mamãe? – Zayn tinha um sorrisinho provocativo no rosto, mas eu o ignorei, rindo fraco.
- Todos sabem o que fazer, né? – Louis certificou-se antes de sentar-se e esticar a calça jeans, como que se preparando para fazer parte da percussão com suas mãos.
- O violão está ligado? – Perguntei, olhando para baixo, garantindo que o cabo estivesse bem plugado. – E o seu, Harry? – Olhei para ele que assentiu. – A porta está trancada?
Josh correu até a porta e girou a chave, trancando-a. Assenti, olhando-o voltar ao seu posto atrás da câmera.
- Então, vamos. – Josh falou. Fez uma pequena contagem regressiva nos dedos e, quando chegou no um, a luz vermelha da câmera acendeu.*
Por um ou dois segundos, nada aconteceu. Olhei para os meninos e depois todos olhamos para Zayn, que era quem deveria dar a deixa, mas ele estava com a cabeça baixa, os cotovelos apoiados nas pernas como se ele estivesse sofrendo, chorando, ou algo assim. Então ele começou a cantar:
When all of your flaws...
Subitamente eu entendi: o bastardo estava fazendo um teatrinho.
Balancei a cabeça, rindo comigo mesmo e entrei com o violão.
Tentava me concentrar na música e somente nela, mas aquilo era tão maior que o resto que eu não conseguia não pensar nos acordes, na batida do Cajon, no estalar de dedos que Louis dava sistematicamente, e também me impressionei quando Harry começou a fazer uma segunda voz por debaixo da voz de Zayn – e, mais impressionante ainda, foi o fato de ter ficado bom.
Aquilo era grande, maior que eu ou cada um dos meninos, ou até mesmo maior que todos nós juntos. Depois de semanas de treino e prática, finalmente estávamos bons suficientemente para fazermos a nossa coisa, do nosso jeito. E estava acontecendo, havia música acontecendo ali; ela escorria por meus dedos, vibrava com o Cajon. Até Josh sorria e nos olhava como se algum tipo de mágica acontecia.
A música se estendeu até seu fim, não era muito comprida, mas possuía vários elementos que a tornavam difícil e até especial. Harry fazia arranjos mais agudos com seu violão, ele parecia bastante compenetrado, bem mais atento do que estava há alguns minutos.
Josh foi para trás da câmera novamente e, quando Zayn parou de cantar, a luz vermelha se apagou e nós nos entreolhamos, a expectativa enchia nossos rostos e contagiava o ar. Até Zayn parecia animado, olhava para Josh enquanto ele tirava a câmera do tripé e se sentou no sofá. Passei o notebook que estava escondido atrás do sofá para ele.
- Vamos ver como ficou essa belezinha. – Josh cantarolou, os olhos vidrados na tela do notebook.
Por quatro minutos ficamos em total silêncio, apenas ouvindo e vendo o vídeo. A qualidade do som estava até boa, mas a imagem ficou bastante escura, mas achei que dava um ar de “underground” ao vídeo e à banda também e eu gostava disso. Tenho certeza que os outros caras também acharam isso, pois ninguém reclamou ou colocou defeito em nada.
- Ok, eu vou editar isso e postar hoje. – Josh começou a se levantar.
- Olha lá, hein, Joshua. Não vai fazer merda! – Louis alertou, parecendo falar sério.
- E eu sou tua mãe, por acaso? – Josh rebateu. Louis se levantou tão rápido que Josh se assustou e saiu correndo com o notebook e a câmera ainda em mãos.
- Ei! – Liam gritou. – Ei! Cuidado com o material, cara!
- Sorte sua que você tem algo que preste contigo agora! – Louis apontou para ele.
- Ui, ele está bravinho! – Josh começou a fazer caretas.
Eles continuaram com as provocações. Olhei para Harry, que olhava seu violão, com certo pesar.
- Hey. – Chamei sua atenção. – Tudo ok, dude? – Perguntei.
- Sei lá, cara... – Ele começou, mas não terminou. Esperei um pouco, mas quando notei que ele não ia completar, desisti e voltei a assistir a bagunça das crianças na sala.
Lembrei-me da conversa com mais cedo – e o desastre que foi. Eu havia dito à que queria fazer as pazes, etc., mas quando ela me chamou e começou a pedir desculpas para fazer eu me sentir ainda pior pelo que fiz, eu perdi a calma e a cabeça. Só piorei as coisas, mas, honestamente, não estava me importando tanto com isso.
- O que você acha, Niall? – Liam me perguntou, chamando minha atenção de volta à realidade. Todos me encaravam, inclusive Harry, que parecia estar de volta à Terra também.
- Sobre?
- O acampamento. – Liam acrescentou.
- O que tem?
- Nós vamos bombar.


*Se quiserem ter uma noção de como ficou esse video dos meninos, assistam a esse video aqui.


Capítulo 21

>Esquema das equipes e tarefas do acampamento.<
’s POV

- Ah, droga! – Exclamei ao me dar conta do que havia esquecido. – Vai na frente, eu encontro vocês lá! – Disse à , que apenas assentiu e continuou andando. Girei nos calcanhares e subi os degraus da escada de dois em dois, apressada sem razão específica, já que estávamos adiantadas quanto ao horário de partida dos ônibus.
Voltei ao quarto e tranquei a porta atrás de mim, olhando em volta para ver se ainda estava por lá. Ignorei a leve decepção ao ver sua mochila encostada ao pé da cama ao fazer meu caminho para o banheiro em busca de um dos calmantes que veio no meu “pacote” quando comprei diretamente com um traficante. É óbvio que não era parte do que meu médico havia prescrito para eu tomar... Mas, com certeza, estava surtindo algum efeito sobre mim e eu odiava me sentir tão dependente de um remédio.
Encarei o frasco por algum tempo, deliberando entre leva-lo ou não. Parte de mim não queria aceitar e a outra gritava livremente em minha cabeça: leve-o. Cruzei os braços, pensativa.
Se eu o havia esquecido, queria dizer algo, certo? Talvez eu não devesse mesmo levar.
Mas eu havia me lembrado dele. Então...?
Descruzei os braços e passei as mãos pelo rosto, frustrada com minha reflexão exagerada.
- É apenas um remédio idiota. – me fez pular no lugar. Virei-me para a banheira, que era de onde sua voz vinha. – Hey. – Murmurou antes de tomar outro gole de sua bebida em uma garrafa térmica. Enquanto retomava o compasso de meus batimentos cardíacos, observei a figura de : ela estava deitada dentro da banheira, uma perna pendia para o lado de fora e balançava um pouco provavelmente na batida da música que possivelmente estaria saindo do fone de ouvido que ela usava, seu cabelo estava uma bagunça – e não uma daquelas bagunças legais e atraentes – de tão emaranhado e armado.
- Yeah. – Foi o que eu disse, voltando a olhar para o frasco alaranjado, quase caindo em meus devaneios, mas logo fui puxada à realidade e me virei para ela de novo. – ! – Fui até ela, ajoelhando-me ao seu lado.
- Ah, não! Não, não, não! O fato de nos darmos bem, , é o fato de que você não interfere nas minhas coisas. Vamos manter assim, obrigada! – Ela se enrolou com algumas palavras, mas de alguma forma conseguiu passar sua mensagem.
- Eu acho que já passamos da fase de colegas de quarto, . Agora somos amigas. – Rebati, tirando a garrafa térmica de sua mão. Tentei dar uma olhada para ver o que era, mas o cheiro forte entrou em contato comigo primeiro que a visão da bebida e isso me fez colocar a garrafa imediatamente no chão. – O que diabos é isso?! – Fiz uma careta.
- Não enche o saco, . – Ela bufou.
- Ouch. – Murmurei. – . – Chamei, mas ela não olhou para mim, mas continuei mesmo assim. – Hoje é o dia do acampamento.
- E?
- Você não pode faltar. – Falei categoricamente.
- Really? – Ela me lançou um olhar desdenhoso.
Franzi o cenho; nunca havia visto daquele jeito.
- Sim. E você vai.
Ela soltou uma risada e se movimentou dentro da banheira, parecendo se aconchegar melhor lá.
- Ok. – Coloquei-me de pé. – Você não me deixa escolhas. – Avisei. – Serei obrigada a chamar aqui a única pessoa que pode te tirar desse modo mula-empacada.
olhou para mim por um segundo, como se aquilo tivesse lhe chamado a atenção de alguma forma, mas rapidamente desviou o olhar.
- Essa pessoa está para nascer. – Murmurou em resposta.
Fiz um barulho com a boca, indicando resposta errada.
- Essa pessoa já existe. – Abri um sorriso vitorioso. – Eu já volto, vou procurar o Louis.
Girei nos calcanhares e fiz meu caminho até a porta.
- ! – Ela me chamou, agora sentada na banheira, as mãos segurando as bordas. – Não.
- Ah, é? – Cruzei os braços e sorri. Ela revirou os olhos e bufou, começando a se colocar de pé.
- Você não vai levar o maldito remédio? – apontou o armário da pia com a cabeça enquanto saía da banheira. – É inútil fugir disso, você sabe. Só assim eles vão embora. – Ela me garantiu, agora me olhando nos olhos.
- Quem vai embora? – Franzi o cenho.
- Os fantasmas. – Ela disse num tom que me fez questionar se alguma parte nela gostava de ser assombrada pelos “fantasmas” dela. Como se alguma parte dela se sentisse diferente dos outros, quase superior, por tê-los. As pessoas ficariam surpresas como o sofrimento também cria corações duros como pedra, esnobes e soberbos. Eu esperava que não fosse uma dessas pessoas e que aquele comportamento dúbio fosse apenas parte da bêbada que eu não estava acostumada a ver.
De alguma forma, o ar pareceu ficar mais denso dentro do banheiro enquanto ela me cravava os olhos. Olhei-a de volta, decidida a encerrar aquele assunto que também não me agradava.
- Você é muito sortuda, . – Eu disse, finalmente. – Os meus nunca somem.
Dei-lhe as costas e saí do banheiro, depois saí do quarto sem olhar para trás.
Eu não precisava daquele remédio estúpido.
“Lide com eles, .”, eu me ordenava.
No meu bolso, enquanto eu fazia meu caminho até o estacionamento da escola, meu celular vibrou de modo mais intenso, indicando uma mensagem de texto e não uma notificação de um aplicativo qualquer. Quase soltei uma risada ao pensar que agora era raro receber SMS no celular ou até mesmo uma ligação. Ignorei o que havia recebido, no entanto.
Foi somente quando cheguei perto de e o grupo de pessoas que se formou ao redor dela que peguei o celular para ver do que se tratava.
- Hey. – Cumprimentei, mas ela conversava sobre algo com outras pessoas e não me ouviu. Também não liguei, focada na mensagem de texto que havia recebido.
Era uma foto. Pulei a mensagem para a legenda, que dizia apenas “SPOTTED” em letras garrafais. Voltei então para a foto, analisando-a. Havia duas pessoas muito próximas, provavelmente estariam se beijando, mas não era possível ver muita coisa, já que havia um coração gigante tampando a cabeça da garota.
- Hey! – Repeti para , que agora me ouviu. – O que é isso? – Mostrei-lhe o celular.
- Todos estamos querendo saber! – Ela me mostrou seu celular também e depois pegou o aparelho de alguém e me mostrou a mesma mensagem. – Todo mundo recebeu.
Comprimi os lábios numa linha severa, lembrando-me da última vez que alguma coisa foi espalhada de modo viral pela escola: a aposta de Niall. Não gostava disso, mas precisava admitir que a foto me deixou curiosa sobre a identidade do casal da foto.
- Gostei da bota dela. – Uma garota olhava a tela de seu celular, passando o dedo por ela, dando zoom. – Mas eu tenho um palpite de quem é.
Todo mundo olhou diretamente para ela, que pareceu de estar no centro das atenções ali. De repente, lembrei-me de seu nome: Brenda Patel, uma pseudo-repórter do jornal falido da escola. Era uma das minhas propostas fazer uma reforma na estrutura do jornal para o novo Grêmio.
- Eu acho que esse é o Liam. – Ela abriu um sorriso.
- E a garota? – Outra menina disse com um sorriso ainda maior depois de ouvir o nome de Liam.
- O coração fez um bom trabalho tampando a cara dela. – Um garoto disse, fazendo um biquinho.
Olhei para , que apenas ouvia a conversa.
- Já pegou os lugares? – Perguntei a ela.
- Já. – Despediu-se das pessoas e passou o braço pelo meu, levando-nos em direção ao ônibus. – Pegou o que havia esquecido?
- Ahn... – Olhei para o chão, sem saber o que lhe dizer. era minha melhor amiga e eu nunca me senti tão distante dela como me sentia nesse momento porque, provavelmente, ela jamais entenderia como eu me sentia. – Eu não havia esquecido. – Menti. – Foi só uma impressão.
me soltou e parou à minha frente, uma expressão triste no rosto.
Droga.
- , eu sei que você tem estado muito chateada recentemente e que eu tenho dado mais atenção à , mas...
- . – Eu a interrompi. – Isso não tem nada a ver com...
- Deixe-me terminar. – Ela levantou a mão. – Eu sei que está tudo muito difícil ultimamente; seu Natal foi esquisito, Niall foi um babaca, as eleições do Grêmio não foram tão boas...
- Não preciso que você faça uma retrospectiva do que deu errado. – Cruzei os braços.
- Você não me conta mais as coisas! – Ela choramingou. – !
- Isso não é verdade, ! – Arqueei as sobrancelhas.
- Então por que não me contou do traficante? Por que não pediu minha ajuda? E os remédios? Você nem havia me dito que gostava do Niall!
- Shh! – Tampei sua boca com minha mão, mas ela a afastou com um tapinha. – Olha... Isso tudo que está acontecendo é difícil, eu não sei lidar com essas coisas! Você sempre me ajudou e obrigada por isso! Mas... Não sei o que está acontecendo, . Tenho que pedir desculpas pelo modo como eu venho me comportando, eu não queria nada disso! Eu te amo e você é minha melhor amiga. E... – Cruzei as mãos, incapaz de olhá-la nos olhos, mas podia sentir o seu olhar sobre mim. – Você realmente tem passado mais tempo com a .
- Oh, ! – Ela choramingou novamente e me puxou para um abraço. – Desculpa, desculpa, desculpa!
Abracei-a de volta.
- Vamos marcar algo só nós duas, ok? – falou em meu ouvido.
- Eu adoraria. – Abri um sorriso para ela. – Mas, antes, precisamos iniciar a .
Ela soltou uma risada curta, balançando a cabeça.
- Aquela prova surpresa de Álgebra realmente nos ocupou durante a semana. – Disse ela, suspirando.
- É, você acha que a ficou chateada de não termos conseguido fazer na quinta-feira?
- Acho que ela nem notou. – encolheu os ombros e soltou uma risada. Voltou a andar ao meu lado com o braço enlaçado no meu.

Harry's POV

- A gente não ia tomar café lá? - Louis perguntou ainda resmungando por estarmos atrasados e mordi minha maçã enquanto saíamos do refeitório.
- E você acha que eu ia sobreviver em jejum por duas horas? - balancei a cabeça negando, eu precisava pelo menos forrar o meu estômago. Além disso era cedo demais. Ninguém conseguia pensar há essas horas do dia sem nada no estômago.
- Não mesmo... Eu to levando uns Sneakers. Você sabe - ele me olhou e piscou, fazendo joinha. - Mata sua fome.
Ri balançando a cabeça. Louis ainda tinha a cara meio amassada e os olhos um pouco inchados de dormir, sem contar o seu cabelo que parecia um ninho de passarinho, mas aquilo eu achava que era proposital. Geralmente ele ficava uns minutos na frente do espelho para, no final, sair com o cabelo daquele jeito. Era, tipo, a marca dele andar como se não visse um pente há anos.
- Liam me mandou uma mensagem avisando que guardaram lugar pra gente no primeiro ônibus.
- Ainda estamos em tempo, relaxa. - comentei, ainda apreciando de minha maçã.
- Hey, Harry! - uma garota acenou passando por nós e indo em direção ao refeitório quando saímos no pátio e pisquei para ela em resposta, olhando mais ao longe, perto dos portões, para os ônibus que já estavam estacionados lá com vários alunos ao redor.
- O que você acha sobre a apresentação? Porque honestamente eu não me sinto cem por cento seguro. - Olhei para o garoto ao meu lado, caminhando despreocupadamente enquanto olhava alguma coisa no pátio.
- Nem eu. - Ele me olhou brevemente antes de dar de ombros. - Mas eu acho que estamos bem para o pouco tempo que tivemos para ensaiar toda a setlist.
- A mais difícil pra mim é a do Jet.
- Screen - ele disse, balançando a cabeça. - Tocar o teclado me traz lembranças de quando eu tinha cinco anos e ficava o dia todo trancado no quarto tentando fugir das minhas irmãs. Era. Um. Inferno. E eu não conseguia me concentrar, por isso é tão difícil para mim tocar uma música inteira até hoje. - Ele balançou a cabeça parecendo indignado, o que só me fez rir.
- Foi você quem quis essa música, podíamos muito bem ter achado outra...
- Mas ela é legal.
Dei de ombros, concordando.
- É.
- No momento, cara, eu to mais preocupado em saber se os instrumentos vão chegar lá inteiros. - ele disse, me fazendo concordar. Eu ajudei a carregar na noite passada as partes da bateria, os cabos, as caixas de som, microfones e todo o equipamento na parte de baixo onde o ônibus carregava as bagagens, mas minha guitarra iria comigo la em cima, mesmo que fosse apertado. De um modo idiota, mas a gente se apegava aos instrumentos que tocava, mesmo. Eu entendia um pouco o Niall agora.
- Relaxa, a gente prendeu bem. Eles vão... - fui cortado quando nossos dois celulares apitaram alguma notificação ao mesmo tempo. Peguei o meu do meu bolso abrindo a notificação de mensagem, encarando uma foto borrada e em má qualidade de um casal, com a legenda "SPOTTED". Não dei muita atenção aos detalhes, olhando em volta e percebendo que praticamente todo mundo por perto tinha seus celulares na mão e conversava sobre aquilo.
- Na boa, essas coisas me lembram aquela série de garota que dava na TV. - Louis comentou, guardando o celular no bolso depois de um tempo. - Que tinha a voz da Kristen Bell e aquela loira gostosa que fez o filme do...
Ignorei a voz de Louis na minha mente quando nos aproximamos mais do primeiro ônibus e vi, em uma das janelas daquele lado, sentada ao lado de rindo de algo. Prendi meu olhar a ela por um momento, e então ouvi a voz de Lance ao nosso lado, junto com dois caras do seu time se direcionando à entrada do ônibus como nós.
- Só há mais três lugares nesse. - A professora que estava parada na porta do veículo anotando algo em sua prancheta avisou, sem se dar ao trabalho de levantar os olhos.
Joguei o resto da maçã fora e andei os dois passos que nos afastavam da entrada do ônibus alcançando o palhaço e sua trupe, o empurrando com o ombro para longe da porta antes de pisar no primeiro degrau.
- Você ouviu, grandão. - Virei para ele, gostando de ver quando o sorrisinho sumiu da sua cara. Levantei dois dedos no ar fazendo sinal de "andando" para eles. - Não tem mais lugar aqui. - lancei-lhe um sorriso antes de subir os degraus, com Louis logo atrás de mim.
Liam e Josh vibraram feito idiotas lá atrás quando nos viram, e soltei um riso baixo ao pensar na cara do babaca outra vez.
Sentei ao lado de Josh na última fileira, e o idiota levou a mão ao meu cabelo o bagunçando como um cumprimento.
- Hum... Oi. - Louis disse, sentando no banco em minha frente e virando para trás, me encarando. - O que foi aquilo?
Revirei os olhos.
- Aquilo o quê? - Liam perguntou.
- Você ouviu, só tinha mais os nossos lugares - dei de ombros.
- E precisava toda aquela hostilidade? Eu acho que não! - Ele abriu um sorriso implicante para mim, me fazendo grunhir.
- Vai chupar um...
- Iha! - Josh gritou, levantando os braços quando o ônibus foi ligado, quase estourando meus tímpanos e sendo acompanhado pelo entusiasmo de Liam.
- Partiu, roça!
Olhei de volta para Louis, mas ele só me lançou um olhar e virou para frente. Suspirei pesadamente, olhando pela janela e tentando encontrar aquele entusiasmo todo dentro de mim também. Aquilo era uma lenda do último ano do St. Bees. Precisava valer a pena.

Zayn’s POV

Estar dentro do prazo não era bem uma marca registrada minha e, considerando o horário de partida do ônibus, eu havia acordado relativamente cedo. Joguei algumas peças de roupa dentro da mochila, também algumas meias, cigarros e a escova de dentes.
“Satisfatório”, pensei, recuando um passo para olhar a mochila e parte do conteúdo que era possível ver através da abertura. Não estava indo passar o resto da minha vida naquele lugar, de qualquer forma. Fechei a mochila, pendurei-a no ombro e saí do quarto, pegando meus óculos de sol no caminho, em cima do criado-mudo.
Ainda havia muita gente no prédio. Claro que nem todo mundo da escola ia para esse tal acampamento, mas ainda assim, acho que eu não estava acostumado a acordar na hora e ver outras pessoas pontuais fazendo as coisas na hora certa. Geralmente, quando eu saía do quarto, todo mundo já estava prestes a entrar em suas salas de aula.
Soltei um muxoxo de desgosto ao me dar conta de toda essa reflexão idiota enquanto ia em direção ao estacionamento onde os ônibus aguardavam os alunos.
- Bom dia, Zayn. – Uma garota me cumprimentou quando passou por mim. Apenas balancei a cabeça de volta em cumprimento e tive que reprimir uma risada; é foda ser gostoso.
O estacionamento estava cheio de gente amontoada em rodinhas e suas conversas animadas se tornavam um único barulho que empesteava o lugar inteiro mesmo que ali fosse um lugar a céu aberto. Malditos adolescentes. Ignorei os grupinhos, passando reto por eles, em direção à porta do primeiro ônibus da fileira de três, o único aberto, também.
Entrei sem cerimônias, olhando as poltronas vazias ao longo da extensão do veículo. Rapidamente fiz a avaliação do lugar: nas primeiras cadeiras, um punhado já preenchidas, estavam algumas pessoas que eu não fazia ideia de quem são; no meio, estavam algumas garotas que eu já vira por aí, mas não fazia muita diferença para mim, também; e no fundo estava a bagunça acompanhada de Harry e sua trupe.
Por fim, tomei minha decisão.
Coloquei minha mochila no compartimento no teto para acomodar bagagem de mão. Tirei meu celular e meus fones de ouvido de lá, depois guardei os óculos de sol e, por fim, sentei-me na poltrona.
- A poltrona não está vaga. – falou, voltando sua atenção de seu celular para mim. Olhei para ela, um pouco desinteressado.
- Eu sentei em cima de alguém? – Afastei-me um pouco do encosto e olhei para trás. – É, acho que não.
- Estou guardando para . – Continuou ela.
- Tem muitos outros lugares vagos no ônibus. – Encolhi os ombros.
- Não. Está. Vago. – Cruzou os braços.
- Eu já disse que não adianta fazer essas coisas, Shortcake, não dá pra te levar a sério. – Apontei para seus braços cruzados sobre o peito. Ela piscou duas vezes.
- Você não vai sair daí, não é?
- Não. – Abri um sorrisinho.
- Fine.
Voltou a mexer em seu celular. entrou no ônibus acompanhada de . As duas me viram ali, ao lado de , quebrando seu sagrado círculo de convivência, mas nenhuma pareceu se incomodar. Na verdade, eu podia jurar que havia um pequeno sorriso no rosto de , que passou por nós e foi se sentar na poltrona de trás, com .
- Viu? Acho que ela não se importa. – Cochichei para , que revirou os olhos.
- Só porque estamos de boa, Malik, não quer dizer que você pode continuar sendo um babaca. – Respondeu antes de bloquear o celular e o guardar na bolsa em seu colo.
- Você tem que ser fiel a quem você é, . Não me peça para mudar! – Fingi mágoa, colocando a mão sobre o peito. Ela soltou uma risada seca e balançou a cabeça negativamente.
- Esse já está cheio! – Gritou a professora de Educação Física para alguém fora do ônibus. A pessoa lhe respondeu outra coisa. – Então, vamos!
O ônibus roncou embaixo de nós e de repente começou a andar. Todos os palhaços sentados no fundo do ônibus uivaram em comemoração.
O silêncio que caiu entre e eu não era desconfortável, mas eu queria manter sua atenção em mim. De qualquer forma, enquanto pensava, peguei meu celular, conectei o fone de ouvido e abri um aplicativo de música. Eu ainda não sabia o que falar quando, para minha surpresa, foi ela quem disse algo:
- O que você está ouvindo? – Virou-se para mim. Antes que eu pudesse responder, ela se inclinou em minha direção e colocou a mão em minha perna para se apoiar. Olhei para sua mão, sentindo todo o sangue em meu corpo descer para um lugar só e a urgência de puxá-la para um beijo teve que ser reprimida rapidamente. Ela olhou para baixo, para sua mão, e a tirou de lá. – Desculpe. – Ela corou, sem graça.
- Quando quiser, é só pedir, Shortcake. – Pisquei para ela, que revirou os olhos, mas suas bochechas continuavam rosadas.
- Você é um porco. – Murmurou, mas acabou rindo de si mesma.
Dei de ombros e coloquei o outro fone de ouvido em sua orelha. Ela rapidamente ergueu a mão e tirou o fone de minha mão, colocando-o ela mesma. Quando olhou para mim, esperando, dei play na música. Ela fixou seu olhar nas costas da poltrona à sua frente enquanto ouvia a música com atenção. Quando a batida entrou na música, ela fechou os olhos. Eu não conseguia tirar meus olhos de seu rosto; era fascinante vê-la tão concentrada por causa de uma música – principalmente por ser uma música que eu lhe mostrava. Já na metade da música, ela balançava a cabeça no ritmo da música. De repente, abriu os olhos e, percebendo que eu a encarava, virou o rosto para mim e me deu um sorriso, mas seus olhos continuavam perdidos, indicando que ainda estava prestando atenção na letra.
Quando a música acabou, ela chegou mais perto novamente, tentando olhar meu celular.
- Qual o nome dessa música? – Ela apertou o botão de desbloquear do celular e olhou a tela, que trazia o nome de outra música agora.
Enquanto ela voltava para a música anterior, fiquei parado no meu lugar, apreciando a graça daquela cena. O cheiro de seu cabelo – ou era seu perfume? – era muito bom e me fazia querer passar a mão por eles e, mais uma vez, puxá-la para um beijo.
Damn, eu estava ficando desesperado.
Quando foi a última vez que havia sequer tocado numa garota?
Olhei novamente a silhueta de , que agora anotava o nome da música em seu próprio celular. Dali eu podia ver seu progresso e ela riu baixinho quando se embolou com as palavras.
- Right My Wrongs, do Bryson Tiller. – Ela repetiu o nome da música. – Obrigada.
Soltei uma risada, o que a fez virar seu rosto para mim. Não havia percebido quão perto um do outro estávamos, como se alguma coisa estivesse nos empurrando lentamente para perto, inconscientemente. Ela sorriu um sorriso torto, como se não entendesse o motivo de minha risada. Voltei minha atenção para o celular antes que minha mente começasse a pensar novamente em como seria beijar .
- Próxima. – Falei, escolhendo uma das últimas que foram adicionadas à biblioteca de músicas.
- Eu adoro essa! – Ela olhou para mim de novo, em meus olhos.
Droga, o que essa garota tinha com contato visual?
Esforcei-me para olhar novamente o celular, vendo o título da música: Mr. Brightside.
- Ah. – Foi só o que eu disse, lembrando-me do por que daquela música estar ali.
- Eu pedi a Liam que vocês cantassem essa! – Sorriu para mim.
É verdade. Lembrei-me da conversa cheia de indiretas sobre o namoro dele e de .
- Você e Liam são bem próximos, huh? – Falei, jogando verde para cima dela.
- Ele é um bom amigo. – Ela encolheu os ombros. Eu esperei um pouco, dando-lhe tempo para acrescentar qualquer coisa mais profunda que aquilo, mas ela não disse mais que aquilo.
Resolvi deixar aquilo morrer, então.
- Gostei da indicação, aliás. – Confessei, fixando meu olhar na tela do celular, mas pude sentir que ela me olhava.
- Obrigada. – Eu podia imaginar o sorriso em seus lábios. Algo entre lisonjeado e presunçoso. – Às vezes é difícil ser eu. – É, definitivamente, presunçoso. Eu ri novamente.
- Deve ser um fardo imenso. – Fiz pouco caso e ela se jogou na poltrona ao meu lado, voltando a sentar-se corretamente.
- Como você vai cantar? – Perguntou, apoiando seu cotovelo no braço movediço de plástico que dividia sua poltrona da minha. Sua atenção estava toda voltada para mim.
- Como assim? – Franzi o cenho, analisando a foto do álbum do The Killers.
- Vão fazer uma nova versão ou você vai passar lápis preto nos olhos e arrasar em cima do palco como uma estrela do rock? – Sua voz era divertida.
- Eu estava pensando mesmo em quebrar algumas guitarras no palco, mas o Styles não iria gostar. – Zombei.
- Ele ficaria arrasado. – Concordou, dramatizando.
- Provavelmente chore se estiver de TPM. – Ri.
- Não brinque com isso, Malik. – Ela ficou séria de repente. – Os hormônios existem e eles são poderosos. – Avisou-me, mas riu um pouco no final.
- Sou o único irmão de três garotas. Acredite, eu sei disso. – Balancei a cabeça afirmativamente, lembrando-me de minhas irmãs e minha mãe também. – O último feriado que passei em casa antes de ir pro reformatório; Doniya acabara de ser admitida em seu primeiro bom emprego e minha mãe queria celebrar tudo de uma vez só, mas acabou pegando uma gripe. E acabou sobrando para Waliyha e eu fazermos o tão importante jantar, por isso, como nenhum dos dois era exatamente chefs de cozinha, arranjamos umas três receitas da internet e resolvemos fazer. No final das contas, Waliyha estragou a primeira receita e eu descobri que ela estava na TPM porque ela não conseguiu seguir para as próximas receitas porque começava a chorar e dizer que estava tudo perdido...! – Soltei uma risada, sem me dar conta de que estava tagarelando. – No final das contas, acabamos todos sentados ao redor da lareira velha comendo Cup Noodles.
A história acabou e soltou uma risada, mas não parou de me olhar. E, por alguma razão, aquilo me incomodou um pouco.
- O que é? – Perguntei.
Ela levou alguns segundos para responder.
- Nada. – Desviou o olhar, mas riu fraco, depois voltou a olhar para mim. – Acho que é a primeira vez que você me contou alguma coisa sobre você.
Ah.
- Ah. – Foi o que eu disse, de repente me dando conta daquilo. – Bom, eu...
- Relaxa, Zayn. – Ela se controlava para ficar séria. – Não vou dizer a ninguém que você é um péssimo cozinheiro. – Sentou-se corretamente mais uma vez e arrumou o fone de ouvido na orelha. A música que ouvíamos acabou e logo começou outra: The A Team, do Ed Sheeran. Ela arqueou as sobrancelhas, provavelmente surpresa por eu ter Ed Sheeran no celular, mas eu não me envergonhava, o cara era foda mesmo.
Mas, subitamente, eu tive um insight. Talvez ali estivesse a oportunidade perfeita de quebrar essa coisa que havia à minha volta, afastando . As pessoas têm essa coisa de querer ver que os outros são tão vulneráveis quanto elas mesmas. Gostam de ver os outros como um nervo exposto, à deriva. Isso parecia dar a elas essa sensação de conexão, de pertencer a alguma coisa maior, uma coisa comum.
Olhei para ela, que agora olhava a paisagem passar como um borrão por nós. Acabei me perdendo na paisagem dentro do ônibus, observando os detalhes de seu pequeno brinco dourado, a pele de seu pescoço exposto, sua clavícula, o suave movimento de subida e descida de sua respiração, seus lábios movimentando-se rapidamente, acompanhando a letra da música conhecida...
Por um momento, eu quis estar vulnerável para ela.
Sorri um pouco antes de me aproximar dela.
- Na verdade, Shortcake, eu sou um ótimo cozinheiro.

Liam’s `POV
- Cara, isso tá muito chato. – Falei e Harry soltou um muxoxo de irritação. Tenho que admitir que era a quinta vez que eu dizia aquilo. Mas o que eu podia fazer se não melhorava nos próximos cinco minutos?
Louis suspirou dramaticamente e começou a olhar os compartimentos no teto do ônibus. Nós estávamos bem na última fileira de poltronas do ônibus. De especial, ali, além de nós, só havia um filtro portátil e copos descartáveis. Uma garota se levantou de seu lugar e veio até esse filtro, pegou um copo d’água e voltou a se sentar.
Pelo menos tem utilidade, pensei.
- Ouvi dizer que tem uma cachoeira lá. – Josh disse.
- Ouviu dizer de quem? – Harry indagou.
- Um cara que se formou ano passado. Disse que não foi fácil achar, que os caras não dão a localização porque é “perigoso demais”. – Fez aspas com os dedos, debochando.
- Cara, se eles dizem que é perigoso é porque deve ser perigoso. – Falei, forçando seriedade. Josh fechou a cara para mim e arqueou uma sobrancelha. Mantive o contato visual, desafiando-o, mas, inevitavelmente, o riso começou a escapar num barulho ridículo e todos começamos a rir. – É perigoso demais! – Repeti entre uma risada e outra e Josh fez uma careta. – O que pode acontecer? Uma cobra aparecer e morder nossas cobras? – A risada só aumentava dentro de mim, eu mal podia respirar.
- Ah, cara! – Harry me deu um murro no ombro.
- Fala sério, dude! – Josh parou de rir. – Qual a necessidade?! – Ele cobriu o saco com as duas mãos. – Porra!
- Eu vou sonhar com isso! – Disse outro cara que acompanhava a bagunça, com uma careta de dor e desespero.
- O quê? – Parei de rir, sem entender. – O que foi? – Poxa, a cena foi hilária na minha cabeça!
Não... Pensando bem...
- Uau! – Louis exclamou, chamando nossa atenção. – É sério que a única coisa que eu vou encontrar aqui é um cabide?! – Puxou o cabide do fundo de um dos compartimentos.
- Já sei! – Josh se levantou num pulo e arrancou o cabide das mãos de Louis. – Podemos abrir e cutucar as pessoas na orelha! – Olhou para o pedaço de arame encapado com expectativa, visualizando a potencialidade daquele objeto.
- Quê?! – Louis guinchou, franzindo o cenho. – Cai fora, Devine! – Empurrou Josh de volta ao seu lugar. – Cabides não são para cutucar, são para pendurar roupas! – Lançou a ele seu melhor olhar de “estou lhe dizendo o óbvio porque você é burro demais para perceber isso”.
- Cara, o que vamos querer com um cabide? – Perguntei.
- Pendurar roupas. – Gary falou, imitando a cara de Louis.
- Que roupas? – Harry revirou os olhos.
Então, finalmente, foi nesse momento em que todos nós tivemos a mesma ideia. Sei disso porque todo mundo abriu um sorrisinho enquanto olhava para o cabide.
- Estão pensando o mesmo que eu? – Louis perguntou com uma risadinha.
- Sim! Obrigado, dude, eu estava achando que ia ter que segurar meu casaco a viagem toda. – Gary balançou a cabeça, rindo, enquanto se levantava com seu casaco de camurça.
- Por que você está aqui? – Perguntei para ele, que claramente não entendera o negócio todo da roupa e do cabide. O sorriso sumiu de seu rosto e ele voltou a se sentar, sem entender muita coisa.
Louis, rindo um pouco da cena, pendurou o cabide no corrimão que havia logo abaixo desses compartimentos no teto e cruzou os braços, fazendo pose de segurança ao lado do cabide pendurado. Gary olhou para mim e depois para o cara parado no meio do corredor.
- Observe e aprenda. – Louis falou baixo.
Um garoto se levantou e veio pegar água ao meu lado, naturalmente, sem impedimentos. Louis virou-se de lado e deu espaço para ele passar. Mas, quando uma garota se levantou e veio até o fundo do ônibus, Louis estendeu o braço e segurou o encosto do bando de Gary, que era uma fileira à frente do nosso, barrando a passagem dela.
- Com licença? – Ela olhou para ele como se Louis tivesse algum retardo mental.
- Qual é a palavra mágica? – Louis abriu um sorrisinho. A garota revirou os olhos, alisando impaciente a saia jeans que usava. Aliás, belas pernas.
- Por favor? – Se ela tentasse ser um pouco mais debochada, teria cuspido na cara dele.
- Errado.
- E qual seria? – Cruzou os braços, mas rapidamente os descruzou para poder se apoiar na poltrona ao lado quando o ônibus deu um solavanco.
- Suéter. – Louis sorriu abertamente agora, provocando a garota. Depois apontou com a cabeça para o cabide. O queixo da menina caiu e todos os caras que acompanhavam a cena soltaram um “uh” baixinho, como se a tensão do momento fosse muita e todos estivessem ansiosos para ver o final.
- Isso é ridículo. – Bufou.
- Sua sede passou? – Josh quis saber.
- Definitivamente, animais. – Murmurou e deu meia volta, indo em direção ao seu lugar.
Louis se virou de costas e eu lhe lancei um sinal de “joia” com a mão e ele assentiu com a cabeça, sorrindo. O cara era bom, eu precisava admitir.
- Acho que não deu certo, hein! – Um garoto importunou.
- Mas vai dar. – Harry falou, apenas observando o resto do ônibus.
- Até parece... – O mesmo cara desdenhou.
- Observe. – Eu disse. – Ela vai dizer às amigas o que aconteceu aqui. Logo, logo, elas vão olhar para cá, algumas indignadas, outras curiosas. O negócio vai se espalhar e, pelo menos uma vai vir aqui se sacrificar pelo bando.
- Se vai se espalhar, vai chegar na professora de Educação Física e ela vai vir aqui. – Gary apontou.
Fez-se silêncio por um segundo.
- Pode vir, só vai passar se tirar uma peça de roupa. – Falei, levantando uma mão e todo mundo começou a urrar de empolgação, avacalhando.
A professora, de seu acento na primeira fileira do ônibus, olhou para trás, para nós e rapidamente paramos de gritar e começamos a rir, de uma forma mais normal, e comemoramos baixinho quando conseguimos despistá-la.
Assim, quando nos acalmamos e Louis reassumiu sua postura de guarda-costas, uma garota, Willa Maynfred, colocou-se de pé e veio andando até nós com um olhar decidido.
- Cara, ela é muito gata. – Josh cochichou para mim, discretamente.
E ela era.
Sua pele negra reluzia à luz pálida que vinha de fora e isso era muito sexy. Além disso, ela usava uns dreads coloridos que davam um ar de inocente e boba, e isso era muito sexy. Fora isso, eu não sabia muito mais que o nome dela e que eu totalmente a pegaria um dia.
- Qual a palavra mágica? – Louis repetiu a mesma pose de antes.
Ela abriu um sorrisinho e levantou um pouco o suéter amarelo que usava, colocando suas mãos por trás. Ninguém fez nenhum barulho enquanto ela fazia algo em suas costas, todo mundo focado demais em seus movimentos. E ela apenas sorria para nós, como se fôssemos uma atração de circo ou coisa assim. Então, ela levantou um pouco a blusa na frente e mexeu nas mangas do suéter por dentro, depois, levantando um pouco mais a blusa, arrancou o sutiã, segurando-o na altura dos olhos de Louis, que estava estático.
- Eu nunca vou entender como elas conseguem fazer isso. – Cochichei para Josh enquanto ele a olhava como se ela tivesse acabado de dizer que queria dormir com ele. Quase soltei uma risada, mas estava concentrado demais em conseguir ver algum pedaço a mais de seu corpo.
Quando a blusa caiu de novo, voltando ao normal, o suéter marcou seus peitos sem sutiã e eu pude jurar que ouvi alguém choramingar dizendo que aquilo era bem melhor que Grand Theft Auto.
Os grandes e castanhos olhos dela queimavam os olhos de Louis, que abriu um sorrisinho, eventualmente.
- Posso passar ou não? – Desafiou ela.
Louis tirou a mão e a deixou passar.
Josh quase subiu no meu colo quando Willa veio ao meu lado pegar o seu copo d’água. Achei melhor não encarar o par de peitos que estavam bem à minha vista ali, já que estava muito perto e ela poderia me dar um tapa ou qualquer coisa do tipo. Quando terminou de encher o copo, virou-se e passou por Louis para ir de volta ao seu lugar, mas o guarda a chamou primeiro. Ela girou no calcanhar e o olhou, mas Louis não disse nada, apenas tirou o cabide do corrimão onde estava pendurado e mostrou a ela, que revirou os olhos antes de passar a alça da peça pelo arame do cabide, pendurando-o ali. Assim, quando ela se virou para, finalmente, voltar à sua poltrona, Louis ergueu o cabide com o sutiã e todos nós começamos a berrar novamente, como se fosse a final da Liga dos Campeões e nosso time favorito tivesse marcado o gol da vitória nos 45 do segundo tempo!
Josh me deu pelo menos uns cinco soquinhos no ombro, gritando mais que todo mundo. Eu ria e fazia toques com todo mundo que estava perto, comemorando nosso gol de gaveta.
Cara, realmente, nós somos uns animais, fala sério.
- O que está acontecendo aqui? – De repente nós ouvimos a voz da professora de Educação Física vinda de trás de Louis, que rodou no lugar e escondeu o sutiã nas costas. Botei o pé numa alça e puxei a peça para o chão, chutando-a para baixo do banco logo em seguida.
- O Gary não está com gonorreia. – Louis falou rapidamente e todo mundo explodiu em risadas. Menos Gary, claro.
A professora pareceu extremamente desconfortável com a informação.
- Bom, meus parabéns, Gary. – Deu-lhe uma rápida olhada. – Façam menos barulho, por favor, meninos.
- Claro. – Todos respondemos em coro e ela nos deu uma última olhada autoritária, depois se virou e voltou para seu lugar.
- Você é foda, cara! – Fiz um toque com Louis quando ele veio se sentar entre mim e Harry.
Ele apenas encolheu os ombros e soltou uma risadinha.
- Uh, uh! Já sei! – Um garoto começou a falar. – Verdade ou desafio, Gary!
Que péssimo dia para ser o Gary.
- Ah... – Ele pareceu perdido por um instante. – Verdade.
- Você realmente transou com a...
- Desafio! Desafio! – Gary se corrigiu rapidamente e todos rimos um pouco, dizendo que não valia aquilo, mas acabamos deixando para lá.
- Ok, então! – O garoto que propôs a brincadeira olhou em volta, animado. – Já sei! Eu desafio você a dar em cima da... – Ele parou um pouco, olhando para o ônibus.
- A ! – Alguém falou.
- Não, dude, eu vi o Malik sentando com ela, melhor não!
- A ! – O outro insistia.
- Já foi apostada! – Josh falou ao meu lado, rindo e eu, por puro reflexo, dei-lhe um soco no ombro.
- Qual é, cara?! – Olhei feio para ele.
- Já sei! – O garoto do desafio voltou a falar. – A .
Todos concordaram, animados com a ideia. Eu ri um pouco também, Harry cumprimentou Gary, desejando-lhe boa sorte, mas ele não parecia tão confiante. Diante disso, comecei a atormentar o pobre coitado.
- Tá com medo, cara? – Ri da cara dele.
- Ela deve morder! – Alguém disse.
Gary não parecia nem um pouco afim de fazer isso.
- Ah, qual é? Vai amarelar? – Levantei os braços, provocando.
- Ih, pó, pó, p-p-pó! – Louis começou a imitar uma galinha e todos rimos mais.
- Qual é?! O máximo que ela pode fazer é te dizer um não! – Gritei, rindo ainda mais por dar aquela dica falida que todos dão. Mas Gary olhou para mim e assentiu; os olhos ganhando um novo brilho, um sorriso se formando.
Liam, seu bastardo, você e sua língua gigante!
- Desafio aceito. – Declarou, colocando-se de pé.
- Tu é o cara! – Alguém disse e assim começou uma horda de incentivos e encorajamentos enquanto Gary ia em direção à poltrona onde estava sentada. Ele se ajoelhou ao seu lado, já que ela estava sentada na poltrona do corredor. Gary sorriu e coçou a nuca quando ela se inclinou e olhou para trás. Todo mundo ao meu redor mandou um “tchauzinho”, mas ela tinha seus olhos cravados em mim e um quê louco de diversão neles.
Puta que pariu.


’s POV

Virei-me novamente, dessa vez voltando a olhar o garoto que falava comigo. Gary era seu nome e ele era bonitinho com seu sorriso branco e alinhado. Abri um sorriso para ele, também, enquanto me lembrava de Liam sentado no último banco do ônibus e o olhar que ele me deu quando eu lhe dei um olhar travesso. Com certeza aquela palhaçada tinha suas origens naquele grupo idiota.
Mas eu queria aquela gracinha, de certa forma. Liam insistia em vir atrás de mim e ter muito bem o que queria e depois me colocar de lado como qualquer coisa, indo pegar outras garotas depois, como foi o que eu vi na última aula de Educação Física da semana, quando ele começou a conversar com uma garota qualquer e depois acabou em uns amassos atrás do ginásio. Se ele achava que eu era só um brinquedinho, com certeza não se importaria de ser tratado da mesma forma. E os limites precisavam ser impostos, antes de tudo. O que havia entre nós era apenas físico, seria bom que ele visse que eu não estava caída por ele nem nada do tipo. Isso seria patético e a oportunidade de afirmar isso diante dos olhos dele me parecia irresistível.
Gary se dirigiu à garota ao meu lado, chamando-a pelo nome, que eu nem ao menos sabia. Pediu a ela que fosse se sentar lá no fundo, no lugar vago dele. Honestamente, eu achei que a garota ficaria extremamente ofendida e daria um bom fora nele, mas, para meu completo espanto, ela se levantou e, com um sorrisinho, chamando-o de “idiota”, dirigiu-se ao lugar dele. Talvez fossem amigos; era o que parecia. Eu ainda precisava me acostumar com a dinâmica desse colégio em que tem garotos como Harry e seu grupo que são adorados por todos, bem como garotas como , e, agora, que também colecionavam o afeto de muitas pessoas.
- Ouvi dizer por aí que você veio da França. – Ele começou depois de se sentar no antigo lugar da garota.
- Paris, é verdade. – Dei de ombros, com um breve sorrisinho.
- Estive em Paris no Natal. – Falou, dando-me um sorriso sonhador.
- Sério? – Virei-me para ele, interessada. – Eu amo Paris no Natal. Não há nada mais bonito do que a árvore de Natal iluminada em frente à Catedral de Notre Dame!
- Ah, não sei. – Riu fraco. – Eu ainda não consegui ver algo mais surpreendente do que a Torre Eiffel decorada para o Natal.
- Por favor, não seja um turista cliché. – Revirei os olhos.
- Eu não posso evitar. – Abriu um sorriso como quem se desculpa. – Sou um romântico irredutível.
- Acho que vou ter que perdoar essa.
- Obrigado. – Colocou a mão no peito, emocionado.
- E você, de onde vem? – Perguntei, meio sem querer.
- Eu sou de Preston. – Falou ele, arrumando a gola de sua camisa.
- Preston?
- Perto de Liverpool.
- Ah, sim.
- Já esteve lá?
- Preston? Não. – Respondi, já cansando daquela conversa fiada. De repente, Liam passou por nós, indo em direção à poltrona onde estava sentada com o Zayn e se inclinou para falar com ela, mas, antes de olhar para ela, seus olhos vieram em minha direção por um breve instante e depois ele deu atenção a ela.
- Eu gosto da minha cidade, é bem maior e melhor que esse fim de mundo que meus pais...
- Claro que deve ser! Você podia me mostrar um dia! – Eu o interrompi, exclamando com exagerada animação e encostei minha mão no braço dele quando Liam fazia seu caminho de volta ao seu lugar e passou por nós.
Isso foi patético, .
- Claro, mas, vamos com calma, ok? – Ele piscou para mim e abriu um sorriso.
Sorri de volta, notando quão galinha aquele cara era e achei graça ao perceber que estava sendo usada tanto quanto ele estava sendo usado.
- Claro, não é como se fôssemos namorar, nem nada. – Tranquilizei-o. – Aliás, não é isso que você veio procurar aqui, é?
- Não mesmo. – Respondeu tão rapidamente que me surpreendeu. – Quero dizer, não que você não seja namorável ou algo do tipo...
- Eu entendi. Você não quer nada sério. – Ri de seu embaraço. – Tudo bem, eu também tenho outros planos. – Pisquei para ele, que riu um pouco, sem entender muita coisa.
O celular dele apitou e ele leu alguma coisa ali. Coloquei meu cotovelo sobre o braço de plástico que dividia as poltronas e apoiei meu queixo na mão, pensando em uma forma de tornar aquilo tudo visível. Gary franziu o cenho para seu celular e soltou uma risada depois, como se o que estivesse ali fosse absurdo.
- O que é? – Perguntei, inocentemente, ainda pensando em outras coisas.
- Nada... – Soltou outra risada, balançando a cabeça.
- É uma piada? – Insisti, tomando algum interesse.
- Não. – Bloqueou o celular, mas pareceu pensar sobre algo e olhou para mim. – Você não entenderia.
- E por que não? – Franzi o cenho.
- Você não entenderia de futebol, é uma garota. – Respondeu, abrindo um sorrisinho contido.
Fiquei meio sem reação por um segundo.
- Bom, isso é uma pena, você acabou de passar muito perto do gol, meu goleiro vai jogar a bola de volta ao seu lugar, lá no fundo do ônibus, que é onde você e o seu time idiota não deveriam ter saído. – Falei, revoltada com sua insinuação machista.
Ele, por outro lado, pareceu ainda mais desconcertado, sem entender muita coisa, meio contrariado, mas se colocou de pé e lhe dei espaço para que pudesse passar para o corredor, de má vontade, indignada com tanta babaquice. Quando ele colocou o pé no corredor, o grupo de garotos do fundo do ônibus vaiaram e soltaram risadas zombeteiras para Gary, que ainda parecia não saber o que houve.
- Você não gosta de piadas machistas? – Ele se virou uma última vez para perguntar, baixinho. Meu queixo caiu; agora eu estava ofendida.
- Claro que não! Quem em sã consciência gosta? Quem te deu essa ideia mais idio...
Daí, minha mente fez um “click”, juntando alguns pedaços.
Liam.
Merda!
Eu não ia cair nos joguinhos, nas gracinhas dele. Ele estava muito enganado se achava que somente ele iria ter as vadiazinhas dele, como se eu fosse uma qualquer – novamente, um brinquedo.
Levantei-me e, sem falar nada, puxei Gary pela gola da camisa e o beijei. Os garotos no fundo do ônibus começaram a gritar e fazer baderna. Era um desafio, claro. Esses meninos não têm mais o que fazer, mas eu não me senti mal, apesar de tudo. Havia conseguido meu showzinho também e esperava que minha plateia estivesse apreciando cada detalhe, principalmente quando parti o beijo mordendo e puxando o lábio inferior do garoto, que estava ofegante.
- Ok! Ok! Já chega! – A professora de Educação Física nos separou. – Gary, volte para o seu lugar! Vocês sabem muito bem quais são as regras da escola!
- Não estamos na escola! – Alguém disse e todo mundo riu.
A garota voltou ao seu lugar, ao meu lado, sem graça. A professora me mandou sentar e eu o fiz, mas não antes de olhar no fundo dos olhos de Liam e fazer um aceno com a cabeça, mas que, para mim, era muito mais como uma reverência por causa do show. Por fim, abri um sorriso triunfante.
Aí sim, eu me sentei.




's POV
Cheguei ao pátio a tempo de pegar o último ônibus prestes a partir para o acampamento, entrando no veículo e procurando por um lugar vago no meio das pessoas estranhas. Dali de dentro eu conhecia talvez uns dois ou três rostos no máximo, mas só de longe. Mas todos eles pareciam saber quem eu era, ou pelo menos pensar que sabiam.
Como no fundo já estava tudo cheio, me acomodei à poltrona da primeira fileira de bancos no lado da janela, onde estava livre. Soltei a mochila nos meus pés e me ajeitei no banco, tirando os óculos escuros que usava e os colocando no bolso do moletom de onde tirei meu celular, com os fones de ouvido enrolados.

O caminho foi extenso, mas a paisagem até que era legal. Pude perceber que o lago do St. Bees se estendia por muito mais espaço do que eu imaginava, e que o inverno ali era diferente do da Alemanha. Ali, mesmo nos dias mais frios, as coisas ainda pareciam vivas. Nas partes que eu conhecera da Alemanha era tudo gelado e... Cinza.
Foi olhando a paisagem que caí no sono, só acordando novamente com o solavanco que o ônibus deu ao estacionar. Mesmo estando na primeira fila deixei que todos descessem enquanto eu me situava e tentava me acostumar às pontadas de dor na cabeça que aquela maldita bebida causou. Desci do ônibus depois que todo mundo já estava lá fora, e de algum modo o barulho que eles faziam parecia mais alto do que todo o colégio junto. Peguei os óculos do bolso novamente os colocando para ajudar com a claridade, enquanto me infiltrava no meio de todo mundo tentando encontrar um lugar bom para ver e ouvir os monitores que estavam organizando todo mundo. Constatei que um deles fazia uma chamada, dividindo os alunos em grupos, enquanto outros dois apenas continham os alunos mais empolgados ali.
- Hey - senti um empurrão fraquinho no ombro e olhei para o lado, vendo . Ela me olhou e franziu o cenho, seu sorriso sumindo brevemente. - esses óculos são meus?
Não respondi, apenas continuei a olhando enquanto pensava que ela não devia estar enxergando os meus olhos. Ela não devia saber com certeza nem que eu a estava olhando. - apenas... Não quebre, ok? É o meu preferido. - ela disse fazendo um biquinho.
Seu nome foi chamado pelo monitor que fazia a chamada e foi até lá, sendo dirigida a um dos três grupos que estavam formando. Eu esperei pacientemente até que a chamada chegasse em minha letra e então segui até o grupo em que me colocaram, esperando novas instruções. Terminada essa parte, cada um de nós recebeu um lenço quadrado, que no meu grupo tinha a cor vermelha e nos outros dois eram azuis e amarelos. Depois de uma breve introdução, de um cara irritantemente empolgado, fomos direcionados ao interior da enorme casa onde nos hospedaríamos. Enquanto caminhávamos até lá percebi que em meu grupo a maioria eram garotos. Contei nove garotas, entre elas eu e , e o resto que deviam ser mais ou menos vinte, eram garotos.
Apertei um pouco o passo ao notar a figura inconfundível usando uma jaqueta de couro mais à frente até alcançá-lo, caminhando ao seu lado.
- Preciso de uns cigarros.
- Seja menos desesperada, . - Zayn me olhou de canto. - Eu não trouxe.
- Eu sei que você trouxe - fiz uma careta para ele. Como se Zayn Malik fosse ficar o fim de semana todo sem tragar nicotina uma única vez. Até onde eu sabia ele devia ter um estoque grande o suficiente para contrabandear para o colégio inteiro.
Zayn suspirou pesadamente, olhando para o outro lado.
- Vou ver o que posso fazer. - disse e eu revirei os olhos. - Pelo que sei você não fez a sua parte do nosso trato.
- Porque você estava tão desesperado que nem me deu tempo de fazer alguma coisa.
- Para a sua informação quem me procurou foi ela. - Ele me olhou e arqueei as sobrancelhas.
- Uau. Assim não dá pra defender a garota. - soltei um riso fraco. - Ela tá mais desesperada que você.
Zayn fez uma cara que eu não soube decifrar. Era algo entre "você tem razão" e "tavez a culpa seja minha" e não entendi muito bem. Entramos não tão ordenadamente pela porta da grande casa. Era um lugar legal. Luxuoso, eu diria. Pelo menos para mim, que vi poucos lugares grandes e caros na vida, mas eu sabia que a maioria daquelas pessoas já estava acostumada a lugares assim. Ao olhar para Zayn, notei que ele provavelmente tivera os mesmos pensamentos que eu sobre aquele lugar.

Balancei a cabeça levantando as mãos, voltando à conversa, a última coisa que eu queria era ter que carregar a merda dos outros também.
- Trato é trato, espero ainda ter a sua palavra.
- Relaxa, . Quando precisar de alguém pra enterrar algum corpo eu sou o cara pra quem você vai correr.
O olhei franzindo o cenho.
- Idiota - murmurei antes de me afastar um pouco, seguindo o resto do grupo para o refeitório, que era onde todo mundo estava se sentando. De onde eu sentei, eu tinha uma boa visão da equipe de pessoas que pareciam ser os organizadores daquele evento. Depois de uma breve introdução, outro monitor tomou a palavra com uma folha em mãos começando a explicar na prática como aquilo tudo funcionaria.

- Bom dia, alunos do St. Bees School. - Ele disse no microfone. - Eu sou Martin, e eu e meus colegas estaremos auxiliando a sua equipe de professores nas atividades que vamos desenvolver durante esse fim de semana.
Observei a agitação dentro do local lentamente ir acalmando até que todos estivessem ouvindo o cara com clareza.
- Vamos começar pelas regras básicas do nosso acampamento. - Levantou uma das folhas até a altura dos olhos e começou a ler. - Basicamente é muito simples, nada muito diferente do que estão acostumados. Os dormitórios serão divididos entre masculino e feminino nos dois grandes chalés. O almoço será servido ao meio dia e a janta às seis. Não é permitido andar sozinho pela floresta, os alunos sempre devem estar acompanhados. A comida, assim como a organização do nosso evento e outras tarefas, será de responsabilidade de vocês, como veremos a seguir. - Ele abaixou o papel. - Como vocês devem ter percebido, nós os dividimos em três grandes equipes para melhor organizar a gincana e cada aluno recebeu um lenço com a cor da sua equipe. Essa será como... A sua casa de Hogwarts durante esse fim de semana, então não percam o lenço.
Uma garota ao meu lado riu. Prendi meu lenço a uma das tiras de prender o cinto na calça jeans, em minha cintura, com um nó.
- Nos painéis espalhados aqui pelos corredores, vocês encontrarão tabelas com suas tarefas, os horários de jogos e alguns desafios que rendem pontos. - Voltou a ler o papel. - São estes: plantas e animais difíceis de encontrar, bem como um mapa do tesouro escondido em algum lugar nessa propriedade que leva ao maior número de pontos da competição!
Revirei os olhos com a empolgação.
- Cada equipe deve entregar os itens coletados para o seu professor supervisor. O horário de recolhimento de itens coletados é até a meia noite de sábado, a partir daí os itens não serão mais recebidos, para que seja feita a contagem dos pontos. É importante lembrar que, durante os jogos, a torcida de cada equipe também rende pontos. E como sabemos que vocês são espertinhos, a equipe que for pega com qualquer substância ilícita durante esse fim de semana perderá pontos. A equipe que encontrar algo do gênero deve imediatamente relatar ao seu supervisor. Hum... - ele continuou correndo os olhos pela folha. - obviamente não serão permitidas brigas ou discussões, desentendimentos ou intimidações de qualquer espécie entre as equipes, mediante punição por perda de pontos.
Olhei em volta novamente, e a maioria dos alunos pareciam atentos ao que ele dizia.
- Agora vamos ao que interessa, o prêmio. - Com essa palavra houve um pequeno alvoroço, que fez o monitor rir. - É, galera... Como sabem o prêmio do nosso acampamento sempre é bom, e dessa vez não seria diferente. À equipe vencedora da gincana desse ano será dado, além das despesas de formatura todas pagas... - houve um silêncio para fazer suspense. - também uma viagem de um final de semana a Paris!
O alvoroço em volta de mim foi grande, e foi aí que percebi que esse fim de semana seria como uma guerra. Ninguém ali estava para brincadeira. Ofereça aos terceiranistas algo a ver com a formatura e eles enlouquecem, era como se depois que o colégio acaba não houvesse mais nada... Como se a formatura fosse a recompensa de todos os anos perdidos para os estudos. E eu pensando que aquilo seria apenas uma brincadeirinha estúpida.
O homem ficou quieto por um momento, enquanto todo mundo se acalmava.
- Então é isso, pessoal. Na saída do refeitório a cada um de vocês será atribuída uma tarefa para realizarem em seu tempo livre: cozinha, organização, horta ou cuidados dos animais. Também receberão um folder com a programação do fim de semana e com todas essas regras que acabei de citar. Qualquer dúvida podem nos procurar há qualquer momento do dia. Mantenham seu lenço sempre visível e muito boa sorte a todos.
Suspirei, ao levantar do banco onde eu estava para sair dali. Quando finalmente consegui chegar à porta, uma das monitoras me entregou um pequeno crachá com a palavra "cozinha" e o folder do acampamento. Guardei os dois no bolso olhando em volta, me perguntando o que fazer em seguida.
Esse seria o fim de semana mais estranho de todos.

Niall’s POV

Fora do ônibus a claridade era até espantosa.
Quando chegamos na tal Fazenda St. Bees, o sol resolveu aparecer, mesmo que de forma tímida e o vento frio parecia vencer a batalha com os raios solares. Enquanto eu coloquei minha mão aberta na testa para tapar a luz do sol, outros alunos tiravam seus óculos de sol dos bolsos e bolsas e colocavam, fazendo tudo parecer um grande comercial de perfume francês. Avistei Harry e o pessoal da banda perto do terceiro ônibus e fui até eles.
- E aí, mate. – Cumprimentei Harry.
- Yo, Niall! – Ele bateu sua mão na minha. – Cara, onde você estava?! Você perdeu o trote mais épico da história!
- Eu perdi a hora, entrei no último ônibus. – Foi o que eu disse, mas a verdade era que eu estava evitando a .
- Poxa, cara, que bosta! Foi demais! Teve um cabide e depois um sutiã e... Você conhece a Willa Maynfred? Cara...! – Ele abriu a boca pra falar, mas nada saiu dali, tamanho era seu êxtase em estar contando aquela história. Louis fez uma careta.
- Cara, melhore. – Balançou a cabeça para Harry. – Até parece que nunca viu um par de peitos!
- Os peitos dela! – Josh retomou de onde Harry parou, tomando o embalo do que Louis disse. – A gente tinha que ter gravado!
- Ninguém achou que ela fosse realmente tirar uma peça de roupa! – Harry se defendeu.
- Uau, parece que eu perdi algo aqui, huh? – Falei, sem entender muito bem o que de fato aconteceu, mas decepcionado por ter perdido o que quer que fosse.
Tudo por causa de .
- Ok, ok! Eu sou Martin Ross, o grande coordenador por trás dessa montanha de bagunça que vamos fazer nesse final de semana! – Um homem que aparentava ter uns quarenta anos saltou de um quadriciclo amarelo e sorriu para nós quando conseguiu a atenção de todos. Montanha de bagunça? – Bem vindos à Fazenda St. Bees! – Ele abriu os braços e olhou em volta, instigando-nos a fazer o mesmo.
Tomei um tempo para olhar o local que nos cercava. Primeiramente, atrás de nós e de frente para o cara, havia uma fonte no meio de um gramado circular. Eu não consegui identificar se eram pombos ou anjos cuspindo água, mas isso não me parecia realmente importante, por isso continuei olhando adiante. Atrás dessa fonte estava a maior casa que eu já estive hospedado em toda minha vida. Ela parecia a junção de três prédios numa coisa só e realmente parecia servir seu propósito de hospedar muita gente; parecia um hotel. Havia um bloco central que abrigava a porta de entrada e, de cada lado desse bloco, estendiam-se dois retângulos cheios de janelas e sacadas brancas que contrastavam com as pedras cinzas da alvenaria que ia até o chão. Ao final do retângulo esquerdo havia um bosque que se estendia até onde a vista alcançava e, já no retângulo direito, podia-se ver uma pequena trilha que levava até um pequeno gazebo de madeira branca com algumas cadeiras e uma mesinha de chá.
- Então! – Continuou o homem. – Como sabem, essa é uma experiência que a escola oferece apenas aos últimos anos do ensino médio e consta no currículo de vocês como disciplina extracurricular. Por isso, teremos um programa especial que mistura o que há de mais divertido com o que há de mais educativo!
- Só pode ser brincadeira. – Ouvi Harry murmurar ao meu lado.
- Vocês estão se perguntando: o que isso significa, exatamente, Martin? – O cara fez uma voz fininha e enjoada, fazendo todo mundo rir com o ridículo daquilo. – Eu respondo imediatamente! Isso significa que vocês terão tarefas especiais enquanto estiverem aqui! Mas isso são detalhes que eu quero explicar lá dentro! Vão, vão, vão! – Ele começou a gritar e todo mundo se dirigiu à entrada do prédio tomando cuidado para não pisar no gramado da fonte.
- Só falta eles nos colocarem para limpar cocô de bicho. – Josh riu com Louis enquanto fazíamos o caminho com a multidão de alunos.
Quando entramos, todo mundo começou a fazer comentários baixinhos sobre o interior da casa. Como todo bom adolescente, dedicamos muito de nossas habilidades a subestimar e deplorar tudo que viesse daqueles que nos oprimem; a escola é um ótimo exemplo disso e, sendo assim, todos ficamos impressionados com o interior da casa.
As paredes eram todas brancas e iluminadas por pontos de luz da iluminação indireta e o chão era de madeira polida escura. O saguão da casa era ornamentado apenas por uma alta mesa de centro com um arranjo de flores majestoso de rosas vermelhas. Como que dividindo a casa, uma grande escadaria levava ao segundo andar. À direita havia uma porta de vidro que dava acesso a um grande escritório-biblioteca com as paredes abarrotadas de livros, o chão coberto por tapetes felpudos e poltronas de couro escuro espalhadas pelo cômodo.
- Essa sala me lembra a casa mal-assombrada. – Liam cochichou para mim, olhando a biblioteca pelo canto do olho, como se de repente algo fosse sair de lá e nos atacar. Apenas concordei.
À direita um grande portal de mármore escuro precedia um imenso salão de jogos; havia mesas de bilhar, mesas de pôquer, estantes cheias de caixas de jogos de tabuleiro, mesas de ping-pong, um extenso sofá diante de uma grande tela de projeção e um projetor pendurado no teto e conectado a um console de PlayStation 4, uma parede de vidro que dava vista para os fundos da imensa propriedade.
- Isso é demais! – Um garoto se adiantou para entrar correndo na sala, mas Martin o chamou.
- Mais tarde. – Disse ele sem abrir mão do sorriso. – Sigam-me todos para o refeitório!
O refeitório tinha uma cara mais moderna e era enorme, devia ter capacidade para umas duzentas pessoas. Todos nos sentamos nas cadeiras em volta das mesas espalhadas e esperamos o cara – que agora havia se juntado a uma equipe – começar a falar o que queria falar.
- O colégio St. Bees dá prioridade ao ensino integrado e tem como pilares a educação, o aproveitamento prático concreto da educação e a socialização. Por isso... – Martin começou a falar e eu automaticamente me desliguei do que ele dizia quando uma mensagem fez meu celular vibrar.
Franzi o cenho quando vi que a mensagem era de Rebekah.
“Você nunca me ligou.”, era o que dizia com uma carinha sugestiva.
Levantei a cabeça e olhei em volta, procurando-a.
Sem querer, pousei meus olhos em , que estava sentada numa mesa perto da porta e comentava alguma coisa com Zayn. Na mesma mesa, estava sentada ao lado de , que percebeu que eu a olhava e me encarou de volta.
Eu jamais conseguiria explicar como aquele maldito pedido de desculpas dela me fez perder a cabeça. Ela realmente achava que seria algo como... Colocar o rabinho entre as pernas e me pedir desculpa por quebrar meu violão e eu perdoaria? O que há de errado com essas garotas que acham que podem fazer qualquer coisa com a gente e depois só colocar a culpa na TPM?
Por favor.
- Alguém se voluntaria? – Ouvi Martin dizer com uma animação um pouco exagerada.
- e Niall! – Alguém gritou atrás de mim.
Opa.
O quê?
- e Niall. – Martin repetiu os nomes enquanto os anotava em sua prancheta.
- O quê? – Perguntei, em voz alta.
- Já que decidimos o que era de prioridade, podemos seguir para as regras do jogo.
Olhei para e ela olhou para mim.
Virei meu rosto para frente a tempo de pegar todo mundo da mesa olhando para mim, segurando risadas.
- Isso vai ser show! – Josh deixou escapar antes de engolir o riso e voltar sua atenção para o instrutor.
Olhei novamente para com um pouco de receio de receber outro olhar feio, mas ela não estava olhando para mim. Na verdade, tinha seus olhos cravados no chão e mordia o lábio inferior, parecendo prestes a chorar ou gritar ou os dois.
Balancei a cabeça para mim mesmo, desviando o olhar.
Vai ser um longo fim de semana.
Puta que pariu.
Inevitavelmente, pensei no novo violão que estava no bagageiro do ônibus e comecei a me preocupar com o que poderia acontecer.
De novo não.

Liam’s POV

- O que fazemos aqui? – Fui o primeiro a perguntar sobre a tarefa que nos foi passada. Eu e o pequeno grupo de sete pessoas estávamos no grande celeiro da fazenda com uma instrutora gata. O nome dela era Marina. E eu estava prestes a dar nome à bunda dela se tivesse a oportunidade de olhar novamente.
- Bom, como vocês devem saber, nós temos um inverno intenso. – Balançou a cabeça como se aquilo fosse algum tipo de piada interna. – Por isso, utilizamos muito feno por aqui.
- Vamos ter que ficar cortando grama? – Uma garota franziu o cenho, parecendo indignada ou até mesmo confusa. Como ela sabia como se faz feno?
- Alguns de vocês, sim. – Marina cruzou os braços enquanto nos dava um olhar sugestivo. – Outros vão entrar naquele depósito e colocar o feno lá fora. E, depois, mais tarde, todos vamos forrar o pasto. – Apontou para os fundos do celeiro.
O lugar era imenso, com duas grandes portas paralelas, tinha três andares e um pequeno anexo cheio de máquinas menores e ferramentas. Metade estava cheio de cubos de feno e a outra metade estava relativamente vazia. Olhei, então, para o nosso pequeno grupo e achei, de certa forma, absurdo que tivéssemos sido sorteados. Era mais que óbvio que aquele trabalho braçal todo mataria as garotas do grupo e, também, alguns caras. Nem todos naquela escola estavam acostumados a fazer exercícios alheios aos exigidos em uma academia fitness.
- Algum voluntário para a poda do capim? – Marina prosseguiu com um sorriso no rosto, olhando-nos com expectativa agora.
- Vamos usar máquinas? – Um garoto perguntou.
- Nós temos ceifadoras que fazem esse trabalho de cortar, mas como vocês não podem nem conseguem dirigir uma ceifadora, reservamos um pequeno pedaço do campo para que vocês possam usar um cortador de grama especial. – Explicou.
Quatro pessoas levantaram a mão para fazer essa parte do trabalho, mas Marina explicou que só havia trabalho suficiente para três pessoas, então uma pessoa teve que desistir e entrar no grupo do resto.
- Vocês – ela se dirigiu a nós, o resto – vão retirar o feno.
Não havia muito para ser explicado sobre aquilo, por isso ela juntou o grupo da poda e os guiou para fora do celeiro, instruindo cada um a pegar um cortador de grama e uma ferramenta engraçada cheia de dentes para juntar o capim.
- Começamos por cima ou por baixo? – Lance, a única pessoa que eu conhecia por nome ali, perguntou a nós enquanto olhava o trabalho que nos aguardava.
- Quanto, exatamente, devemos retirar? – Complementei a pergunta, tentando não transparecer o quanto eu não gostava daquele cara.
- No mínimo cinquenta, garotos! – Marina apareceu rapidamente na porta do celeiro e nos deu um sorriso antes de sumir de novo.
- Tem uma garota aqui! – Uma garota disse, logo atrás de mim. Virei-me para ela, surpreso.
- Liam Payne. – Estendi uma mão para ela, que sorriu um pouco e me cumprimentou de volta.
- Camille Scopelli. – Respondeu, pronunciando seu sobrenome com um sotaque italiano maneiro.
- Prazer. – Disse. – Não vamos contar se você quiser se sentar um pouco e...
Ela revirou os olhos e soltou uma risada seca.

- Idiota. – Foi só o que disse antes de tirar a jaqueta jeans que usava e jogá-la em um canto, depois amarrou os cabelos cacheados num rabo de cavalo. – Vamos começar por baixo, deve ter sido o primeiro patamar preenchido, ou seja, deve ser o mais velho dos três andares.
- Sim, senhora. – Lance bateu continência, mas não moveu um músculo, assim como eu e o outro garoto que estava conosco. Nós três apenas olhávamos a garota caminhar até a metade cheia do térreo, agarrar um cubo de feno pela rede amarrada e o erguer da pilha. Ela girou nos calcanhares e nos encontrou ali, encarando.
- Vocês vão ficar aí me olhando como se eu fosse um ET ou vão pegar os outros quarenta e nove cubos que precisamos levar lá para fora?
- Um de cada vez. – O garoto desconhecido brincou, arrancando dela uma risadinha divertida, e tirou sua jaqueta também, dirigindo-se para onde ela estava segurando o feno.
É, hora do trabalho.
Puxei meu moletom pela gola e o joguei no mesmo canto onde as outras peças de roupa estavam também e peguei um cubo de feno. Puta merda. Isso deve pesar uns vinte quilos!
Não que eu não estivesse acostumado a levantar pesos mais pesados que esse, mas eu não estava preparado. De qualquer forma, arrumei minhas mãos ao longo da rede de modo que pudesse distribuir o peso igualmente e levei o cubo para a parte de fora do celeiro, largando-o no primeiro espaço que vi, arfando como se eu fosse um fumante de longa data. Alonguei um pouco os braços e o tronco e voltei para dentro. Lancei um olhar para Camille enquanto me perguntava como ela havia conseguido levar aquele cubo de feno para fora sem ter morrido.
Acho que subestimei a garota.
- Aposto que consigo levar mais que todos vocês. – Lance provocou, brincando.
Reprimi a vontade de revirar os olhos para aquele babaca.
- Eu acho que não, hein. – Camille rebateu.
- Ei, ruivinho, qual seu nome? – Perguntei ao garoto.
- Cory. – Respondeu.
- Que tal assim? – Camille começou enquanto puxava outro cubo de feno do chão. – Eu e o Liam contra Cory e Lance. – Propôs. Arqueei as sobrancelhas, surpreso com a escolha de time dela.
- Achei que eu fosse idiota. – Peguei outro cubo. Quando me virei, pude vê-la sorrindo um pouco para mim, com certo deboche, mas divertida ao mesmo tempo.
- Um idiota cheio de músculos. – Argumentou. Abri um sorrisinho para ela. – Apesar de eu ter mais culhões que vocês, não posso negligenciar a força física.
- Ah, você acha que tem mais culhões? – Cory soltou uma risada. – Ok, então. Game on!
- Ok, estamos todos zerados. – Camille disse, largando seu feno no chão. Fui até seu lado e larguei o meu no chão também. Lance e Cory pegaram seus cubos e se alinharam conosco também. – Cinquenta. Um, dois, três e... Valendo! – Ela gritou e se abaixou. Fiz o mesmo rapidamente e corri, colocando-me à frente de Lance, atrapalhando sua passagem.
- Sai daqui, cara! – Ele gritou e eu apenas soltei uma risada, avacalhando.
Camille já havia colocado seu cubo do lado de fora e já estava voltando quando eu larguei o meu junto ao dela e voltei correndo também. Fizemos um toque antes de pegar outro cubo e sair correndo novamente.
Passamos os próximos cinco minutos naquilo e eu já estava me sentindo exausto, mas nem fazia ideia de quantos cubos já havíamos colocado para fora. Apenas continuava correndo de um lado para o outro, puxando, carregando, empilhando e voltando para dentro do celeiro para pegar o próximo, e mais outro, e outro...
- Ok! Eu desisto. – Cory gritou, colocando a mão no peito e se jogou em cima de uma pilha de feno mais afastada dentro do celeiro. Eu e Camille comemoramos e fizemos outro toque. Lance, que já estava quase do lado de fora do celeiro xingou e sumiu, depois apareceu de novo balançando a cabeça e rindo, derrotado.
- Chega! – Ria um pouco, arfando. – Chega. Eu tenho um jogo daqui a pouco. – Sentou-se em uma pilha.
- Yes! – Bati minha mão na mão de Camille e pisquei para ela. – Você é demais!
- Eu sei escolher o time certo. – Gabou-se, chegando mais perto para um abraço comemorativo.
- Tem que ter talento para isso. – Concordei.
- O que há de talento em olhar para você e ver o potencial? – Riu um pouco, dando-me uma olhada de cima a baixo.
Dude...
- Eu também vejo muito potencial em você. – Retribuí o olhar. E ela tinha. Não tinha olhado para ela naquele sentido até aquele momento, mas ela era bonita com seu corpo mais farto que o das demais garotas.
- Estou no quarto 9. – Piscou para mim.
Eu ia responder qualquer coisa – provavelmente diria “não tranque a porta essa noite” – quando Marina voltou para dentro do celeiro batendo palminhas.
- Sessenta e dois! Galera, vocês foram demais! – Ela sorriu para nós. – Depois do almoço vocês voltam para cá e forramos o pasto. Podem ir curtir!
Eu vou, pensei, olhando Camille novamente.
Cara, ela era diferente das garotas magrelas e loiras daquela escola e isso era algo extremamente atrativo nela. Ela não era que nem a , por exemplo! A tinha essas pernas longas e delineadas que ela teimava em esconder atrás daquelas meias-calças pretas que ela insistia em usar – e que eram quase impossíveis de tirar – nos dias mais frios; e tinha também aquela cintura com aqueles ossinhos da bacia aparecendo de forma bem discreta; ela tinha essa boca que ela só usa para o mal – mas usa muito bem...
Balancei a cabeça, voltando à realidade de repente.
Por que diabos eu estava comparando as duas?!
Balancei a cabeça de novo, aturdido.
Um sino foi tocado em algum lugar distante de nós do celeiro. Marina entrou novamente.
- Almoço!
Todos nos dirigimos ao refeitório, sem muita conversa, pois nenhum de nós era realmente muito chegado no outro. Camille e eu não falamos mais nada, mas eu sabia que nossa pequena reuniãozinha estava confirmada para mais tarde.
- Parceiro! – pulou no meu braço assim que eu entrei no refeitório. Olhei em volta, observando a multidão de adolescentes aglomerados em volta das ilhas onde a comida estava servida. Vi Harry falando com , ambos olhando para uma das ilhas, fazendo gestos sobre alguma coisa. Depois vi Louis e Josh andando juntos até uma mesa, já com pratos em mãos, os joelhos de suas calças sujos de terra.

Pois é, parece que todo mundo está levando o trabalho a sério!
- Hey, toupeira! – Baguncei seu cabelo e a abracei de lado.
- Toupeira? – Fez uma careta para o apelido.
- É, você é uma das toupeiras da horta, não? – Franzi o cenho.
- Ah! – Ela riu e me deu um soco nas costelas.
- Ouch! – Curvei-me um pouco, pego de surpresa.
- Idiota. – Riu de novo. – Ew, o que você estava fazendo? Você está fedendo. – Afastou-se de mim tampando o nariz.
- Estou? – Cheirei meu ombro rapidamente. – Eu estava no celeiro, carregando feno.
- Que sex appeal. – Piscou para mim. – Isso explica o suor e o cheiro. Já conseguiu alguma garota com isso?
- Já está marcado. – Abri um sorriso presunçoso.
- Eu não acredito!
- O papai aqui não perde tempo!
- Não mesmo! Isso é inacreditável! As garotas gostam de você mesmo todo nojento assim? Ew!
- Ok, , agora estou ficando preocupado com a minha aparência.
- Hey, hey, hey! – Lance se colocou no meio de nós. – Eu não ganho nenhum “oi”? – Perguntou a .
- Não com essa cara. – torceu o nariz e eu quase soltei uma risada para a expressão que o Lance fez.
- Mas você falou com ele. – Lance apontou para mim com o polegar.
- Eu não tenho segundas intenções com o Liam, tenho? – arqueou uma sobrancelha, sugestivamente, e saiu andando, deixando Lance plantado no lugar. Ri fraco, balançando a cabeça; era uma garota espertinha.
Ele se virou para mim.
- Ela disse o que eu acho que ela disse?
- O que você acha que ela disse?
- Segundas intenções. – Ele abriu um sorriso como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
- Dude, me deixa fora disso, ok? – Fiz uma careta ao imaginar Lance em cima da ... Mas depois o desgosto me tomou. Lance comendo a ? Nem pensar! – Ela não é pro teu bico.
Balancei a cabeça negativamente e o deixei lá também.
Se tinha alguém que devia ficar, esse alguém era...
- Harry! – Gritei quando o vi saindo de perto de , que não parecia nem um pouco feliz com a conversa que eles estavam tendo. Harry veio até mim e fez uma careta.
- Cara, o que houve com você? Você foi pra guerra?!
- O que tem de errado em carregar feno?! – Levantei as mãos, exasperado.
- Você tá cheirando a curral. – Ele reprimiu uma risada. – Não vão te deixar chegar perto da comida com essa cara.
- Pois é a única que eu tenho!
- Não, não é. Se fosse, você ainda seria virgem, meu amigo. – Balançou a cabeça. – Vamos, você pode se limpar na cozinha.
Ele me guiou até a cozinha do refeitório, disse algo sobre eu lavar as mãos para alguém e saiu. Olhei em volta, procurando rostos conhecidos ou a pia, o que viesse primeiro. Reconheci que, com um avental preso à cintura, mexia com uma colher um caldo em uma enorme panela de metal. Aquela cena era quase cômica de tão inacreditável. Vi, também, Zayn. Ele estava atrás de um balcão e picava um monte de vegetais rapidamente. Estreitei os olhos: outra cena inacreditável.
Por fim, achei a pia.
Despejei um pouco de detergente na palma da mão e comecei a ensaboar toda a extensão do meu braço até os cotovelos. Depois de enxaguá-los, passei um pouco de água na nuca e no rosto, vendo a água ficar marrom no fundo da pia – ok, talvez eu estivesse sujo mesmo.
Virei-me para pegar um pano para me secar, mas, antes que eu pudesse sequer tocar no pano de prato mais próximo, alguém me estendeu papel toalha.
- Nem pense em se enxugar com panos de prato, Payne. – Era . Olhei para ela, pego de surpresa.
Peguei o papel toalha e comecei a enxugar meu rosto e nuca, olhando-a de cima a baixo discretamente.
Cara, eu nunca me cansaria de secar aquela garota.
Ela não trocara de roupa depois de ir ao quarto para deixar a bagagem, como foi o que todo mundo fez depois que chegamos e ouvimos as instruções dos monitores. Ainda usava uma calça jeans escura muito justa e uma blusa de manga comprida que caía de um ombro, que me fez sentir uma vontade enorme de morder seu ombro e depois seu pescoço e...
- Perdeu alguma coisa? – Ela cruzou os braços quando reparou que eu estava olhando.
Cacete, , você não pode ser legal por um segundo?
- Obrigado pelo papel toalha. – Respondi, ignorando sua indelicadeza.
- Disponha. – Olhou de novo para mim, nos olhos, desconfiada.
Suspirei e me endireitei, jogando o papel toalha no lixo mais próximo.
- , eu estive esperando esse acampamento desde que entrei nesse maldito colégio. Será que podemos não tornar esse final de semana um inferno particular um para o outro? – Pedi.
Ela recuou um passo.
- Claro. – Descruzou os braços e os colocou nos bolsos de trás da calça jeans apertada. Desviei o olhar, de volta para seu rosto. – Desculpe.
Toda vez que eu ouvia essa palavra sair da boca de era um espanto.
Aquela palavra parecia suja e diabólica vindo dela.
Mas eu também não dava uma folga à garota.
- Quer companhia para o almoço? – Ofereci, como sinal de trégua. Ela abaixou a cabeça, mas eu pude ver o sorriso em seus lábios.
- Eu já almocei. – Voltou a olhar para mim. – Todo mundo da cozinha já almoçou, na verdade. – Gesticulou para as pessoas em volta.
- Ah. – Assenti com a cabeça, sem graça pelo pedido sem jeito. – E o que você fez?
- Aqui? – Mordeu o lábio inferior. Desviei o olhar novamente. – Fiz as batatas gratinadas. Acho que eles não confiam nas minhas habilidades gastronômicas. – Riu de si mesma e eu ri com ela apenas para aproveitar o momento raro em que ambos podíamos rir um com o outro.
- Deve estar delicioso.
- Modéstia à parte está sim. – Piscou para mim, com uma risadinha sem graça.
- Eu te digo o que achei. – Prometi, abrindo um sorriso para ela, sentindo-me repentinamente bem por vê-la com a guarda abaixada.
- Ok. – Sorriu também um sorriso raro dela.
Afastei-me da pia e fui até a porta da cozinha, ainda sorrindo um pouco, feliz pela trégua de dois dias.
podia ser legal e era divertido descobrir essas coisas sobre ela. Parecia até que ela estava se tornando alguém possível de se namorar ou algo do tipo.

Louis’ POV
- Cara, por que ninguém avisou que a gente ia fazer isso depois do almoço? Eu teria comido menos, parece que vou explodir. Tive que abrir a minha calça e tudo.
Parei de cavocar na terra e olhei para Josh ao meu lado, fazendo uma careta.
- Quando você vai aprender que algumas coisas a gente guarda pra si?
Josh me lançou um olhar entediado e eu voltei a olhar para o buraco que fazia na terra. Eu, ele e algumas outras pessoas de equipes diversas ficamos responsáveis pela horta da fazenda, e fazíamos o procedimento que os monitores estavam ensinando para plantar sementes de tomate. Não era um trabalho super divertido, mas levando em conta que nenhum era exatamente assim, aquele ali estava bom para mim. Além disso, eu fiquei com Josh e , mas ela não estava ali porque estava se preparando para o primeiro jogo da gincana, que era futebol, e começaria em alguns minutos.
Eu havia ficado na equipe amarela, como mostrava o meu lenço amarrado no antebraço. Já Josh tinha seu lenço azul enrolado na cabeça, feito um doente mental. Mas quanto a isso ninguém mais se incomodava, todo mundo ali sabia como ele era. Ele e ficaram na mesma equipe, mas ele era inútil demais para jogar futebol, por isso só iria para torcer. Enquanto na minha equipe as pessoas conhecidas eram Niall, e Rebekah, na dele havia a , o Liam e a . Harry ficou na vermelha, junto com , , Zayn e Lance, com boa parte do time de futebol masculino.
Em nossa rodinha de apostas, eu e Josh apostávamos na vitória do time azul. Quer dizer, o vermelho estava forte, com todos os caras do time e tudo mais... e eles eram bons nessas coisas. Mas o time azul tinha e Liam, além de uns amigos nossos e umas garotas do time feminino. E eu definitivamente apostava na capacidade dos meus amigos, até porque a gincana não era só sobre capacidade física. Josh apostava neles porque queria ganhar o prêmio também.
Pensando bem sobre toda aquela rede de apostas que alguém havia criado, eu não tinha muita certeza se aquilo era permitido, sendo que as regras não falavam nada sobre isso. Eu acreditava que não, mas de qualquer modo, não tinha muito a perder. Acho que ninguém apostava na nossa equipe de qualquer maneira, ficamos com as pessoas menos habilidosas do colégio para esse tipo de coisa, eu estando incluído nesse grupo. Quer dizer, eu também era um inútil. Estava ali há quinze minutos e tinha quase certeza que aqueles tomates não estavam plantados corretamente.
- Candice, olha! – Josh se levantou segurando uma minhoca na mão, que se revirava em sua palma. – Olha, olha! – Ele disse, se aproximando do grupinho de garotas que estava ali e as fazendo se afastar correndo com gritinhos. Tirei meu cabelo da frente dos olhos e ri, balançando a cabeça ao ver a cena. Algumas coisas nunca mudam, não importa quantos anos a gente tenha.

Depois que o professor que estava monitorando a atividade controlou a situação de pânico com a minhoca, Josh voltou a plantar seus tomates até que o sino fosse tocado indicando que o jogo ia começar.
- Você vai vir? – Ele perguntou, se levantando e batendo as mãos.
- Assim que eu for liberado aqui. – Assenti e ele fez um joinha, se afastando.
As equipes que jogariam hoje eram a azul contra a vermelha. Todos os meus amigos estariam lá, ou jogando ou torcendo, e eu não fora designado a nenhuma atividade secundária da equipe amarela depois que terminasse ali na tarefa da horta. Então quando finalmente terminamos, lavei minhas mãos em uma torneira que todos haviam feito fila para usar, tentando tirar o máximo de terra possível de debaixo das unhas, e depois parti para o campo de futebol onde o jogo já rolava. Tentei localizar Josh de longe nas arquibancadas improvisadas do lado azul, enquanto me aproximava de lá, mas não encontrei ninguém.
- Louis! – Alguém chamou, e virei para trás localizando de onde viera a voz. Harry acenou e fui até lá, sentando ao seu lado onde havia algum espaço. – Onde você estava?
- Fazendo buracos na terra. O que você ficou fazendo?
- Fiquei com a equipe de organização. A gente teve que arrumar isso aqui para poder sentar – ele apontou para os bancos de madeira em que estávamos em cima. – E arrumamos as mesas para as refeições. Sabe o que isso significa? A gente e a galera da cozinha tem que levantar antes de todo mundo! – Contou, indignado.
- Nossa, cara! – Dei tapinhas em seu ombro. – É a primeira vez na vida que você não fica com o melhor. Foda quando a vida não é como a gente quer, né?
- Vai a merda – ele riu. – Eu acho que não pensaram bem antes de distribuir essas funções. Você tá ligado que botaram a e a na cozinha? Com facas! Cara, elas vão matar alguém.
Gargalhei, concordando com a cabeça, fazia sentido. Então pensei em , com aquilo. Fazia algumas semanas que a gente não se falava, e eu não fazia ideia de como ela estava. Só parecia distante... e diferente. Como sempre era. Então eu não tinha mesmo como saber se ela estava bem.
- Ela tá na sua equipe, né?
- Quem? – Ele me olhou. – A ? Sim. O pessoal estava falando sobre botar ela catar umas plantas. Se reconhece maconha, ela deve reconhecer uma folha de chá – deu de ombros rindo fraco, mas eu não o acompanhei. De repente o nosso lado da torcida vibrou e olhei para o campo, tentando me inteirar sobre o que estava rolando ali. Os times eram feitos tanto de garotos quanto garotas.
- Como tá o placar?
- Zero a zero, por enquanto. O casal do momento foi que determinou os times. Não sei na azul, mas na nossa equipe ele tá mandando em tudo como se fosse o dono.
- O Josh disse que na deles quem está liderando são a e o Liam. Mas é mais como uma democracia por lá. – Ri fraco.
- E na de vocês? – Ele olhou.
- Somos todos comunistas. – O olhei e dei de ombros, fazendo Harry rir.
Eu tentava ignorar aquele ciúme escorrendo da boca dele o tempo todo, porque às vezes parecia que ele nem percebia o que estava fazendo. Mas, por dentro, eu estava rindo.
O jogo estava interessante. Na equipe azul havia , duas ou três garotas do seu time, Liam, uns dois caras que a gente conhecia e o resto eu não conhecia bem. Na de Lance havia duas garotas que mandavam muito bem, aliás, e o resto eram basicamente do seu time. Por esse motivo a equipe azul estava sofrendo um pouco em conseguir atacar, porque o time de Lance era bom, mas todo mundo sabia que era melhor em planejar estratégias. Depois que o segundo tempo começou eles conseguiram abrir um pouco de vantagem depois que Lance perdeu um dos seus jogadores para um cartão vermelho, e o time de conseguiu atacar mais. Os dois levavam o jogo a sério, mas dava para ver que competição à parte, eles se divertiam com aquilo. E, como eu já havia dito para antes, era muito bom ver ela feliz com alguém que parecia bom para ela. Quer dizer, o grupo de Lance e o nosso grupo já tiveram desavenças, mas aquilo ficou no passado. Menos para Harry, aparentemente.
Foi só na metade do segundo tempo que o gol aconteceu, quando Liam lançou uma bola certeira a uma das garotas do time deles e ela marcou. Foi bonito, e todo mundo do outro lado do campo comemorou. Eu bati umas palmas até perceber que estava na torcida do adversário, e então fiquei no meu canto.
O resto do jogo continuou acirrado, mas a equipe azul conseguiu chegar até o final sem permitir que o outro time marcasse gol. E foi aí, durante a comemoração da equipe azul, em que vi todo mundo que usava coletes azuis se abraçando e se dando tapinhas no meio do campo, que se afastou da sua equipe e correu até Lance, o beijando e o fazendo a levantar do chão. Todo mundo em volta fez barulho para os dois e sorri um pouco com aquilo, balançando a cabeça e batendo as mãos, até lembrar de Harry ali. Mas quando olhei para o meu lado, ele já havia levantado e saía do meio da torcida, se afastando de lá.


’s POV
- Fomos bem no jogo mais cedo. – Comentei, enquanto terminava de comer minha barra de proteína com sabor de morango, com os olhos presos no papel em minha mão. – Se você é tão bom baterista como era jogador, até que esse negócio de música pode dar certo.
- Se isso é um elogio, então obrigado, ! – Liam me olhou.
- É, mas você ainda pode melhorar. – Comentei. – Agora... O que diabos eles querem dizer com esse “exercício em equipe”? Isso aqui é muito vago. – O mostrei o folder com a programação das provas da gincana, com a unha do meu polegar indicando a última prova do dia, que era para onde todos estávamos rumando. – Eles têm que ser mais específicos, a gente pode não estar preparado pra o que vamos ter que fazer...
- Talvez seja esse o propósito? – Ele deu de ombros e o olhei, tentando entender seu ponto de vista, mas Liam olhava para algo lá na frente, afastado de nós. – Pra que pessoas como você não venham preparadas e acabem deixando todo mundo para trás.
Estalei a língua.
- Bullshit. Eu só quero ganhar essa viagem. E também, claro, livrar a nossa equipe de precisar falir os nossos pais para bancar toda aquela merda de formatura.
Ele riu fraco, mas a conversa ficou por aí. Depois de termos passado quase o dia todo juntos por sermos da mesma equipe, acho que Liam não aguentava mais me ouvir falar dos jogos. A gente era bem próximo um do outro, mas não éramos acostumados a andar tão juntos assim, e acho que eu estava enchendo o saco dele.
- Ok. – Dobrei o folder novamente e o enfiei no bolso de trás da calça jeans. – Eu vou parar de falar.
- O que? – Ele me olhou. – Desculpa. Desculpa. Eu só estava pensando em outras coisas. Também quero ganhar esse negócio, eu não esperei todo esse tempo estudando no St. Bees para chegar aqui e perder.
Levantei a mão no ar e ele me deu um high five. Eu não sei o que seria de mim tentando coordenar aquela equipe sem Liam, ele estava sendo meu braço direito. Era fato que eu era bem competitiva e a melhor, modéstia a parte, em jogos e derivados. Por isso acabei ficando meio que como a tomadora de decisões da equipe, eu que dividi os grupos entre quem jogaria, quem formaria grupos para procurar os objetos que valiam pontos, e tudo mais. Liam era inteligente e prático, e estava me ajudando a pensar nas melhores decisões a tomar. Nós dois queríamos ganhar, era uma coisa importante para nós.
- No que você estava pensando? – Troquei de assunto.
- Que eu queria um bolo de chocolate.
Ri, balançando a cabeça.
- Adoro como você é focado, Liam.
- Me deixa, eu carreguei feno feito um burro de carga e também tive que jogar futebol com vocês. Fazia um tempo que eu não saía da moleza assim. Quero só deitar na cama e apagar.
Começamos a nos aproximar de onde os instrutores da gincana estavam, parados no meio do gramado com pranchetas na mão organizando os alunos todos juntos. Caminhamos até onde todo mundo da equipe azul estava e entramos no meio das pessoas, e olhei para o céu por um momento observando que a luz do Sol já estava se preparando para desaparecer, apesar de o dia ainda estar claro. Aquilo não deveria demorar muito, e eu provavelmente era a pessoa mais preocupada ali em me dar bem naquela prova. Talvez eu deixasse a competitividade me dominar um pouco, e só um pouco, quando se tratava de interséries, gincanas ou coisas do tipo. Eu não podia evitar, era uma característica minha.
Dei tapinhas nos ombros de Liam e me posicionei entre uma garota e Josh, na roda que formamos de acordo com o que os instrutores estavam mandando.
- Ok, galera. Essa prova se chama Nó Maluco e é para treinar a capacidade em equipe de vocês. – Martin, o coordenador da gincana, estava parado mais longe de todos nós com um megafone em mãos. Não achei aquilo necessário, estava todo mundo meio em silêncio. Era tarde e o pessoal só queria comer e ter um tempo de paz. – Os professores e instrutores perto de vocês serão responsáveis por cuidar para que ninguém quebre as regras. Quero que todos se deem as mãos.
Fizemos o que ele pediu, dando as mãos às pessoas ao nosso lado, e Josh piscou um olho para mim quando o olhei, me fazendo sorrir.
- Pronto? Ok. Agora, quero que memorizem a pessoa à sua esquerda e a pessoa à sua direita. – Ele parou por um momento, enquanto todo mundo se olhava. A garota à minha esquerda se chamava Joyce, e ela fora a primeira namoradinha de Harry na escola, dois anos atrás. – Ok? Legal. Agora, soltem as mãos e comecem a andar uns em volta dos outros, se misturarem.
Franzi o cenho, mas segui todo mundo que estava fazendo o que ele mandou, simplesmente andando uns entre os outros e se misturando, em um bolo de gente meio descoordenada. Fizemos isso por uns dois minutos, esbarrando uns nos outros, mas sempre todos próximos.
- Beleza, podem parar! Estátua! – Martin gritou no megafone, fazendo todos reclamarem do barulho agudo. – Ops. Desculpem. – Ele riu fraco. – Ok. Agora, quero que sem sair do lugar, todos vocês localizem as pessoas que estavam ao seu lado e se deem as mãos, com as mesmas mãos de antes.
Localizei Joyce segurei sua mão direita com a minha esquerda, e Josh segurou minha outra mão. Logo, todos da equipe estavam de mãos dadas, meio enrolados, com braços passando na frente dos rostos das pessoas e gente muito próxima uns dos outros. Que situação hilária.
- O objetivo do exercício é que, a partir do momento em que a buzina soar, vocês se desenrolem e voltem ao círculo original sem, em momento algum, soltarem as mãos um do outro. As regras são simples: não podem soltar as mãos nem troca-las de lado, de resto, vale tudo. Se os instrutores verem alguém roubando, a equipe é desclassificada. A primeira equipe que conseguir voltar à posição original vence a prova. Muito boa sorte, e... valendo! – Ele avisou, apitando a buzina que tinha na mão livre.
- Ok, todo mundo para quieto! – Disse alto, antes que qualquer pessoa pudesse se mexer, e todos ficaram imóveis. – Vamos fazer isso com calma. Grudem essas mãos uma na outra, se alguém soltar vai apanhar de mim. Vamos lá, a gente consegue, time!
- Sem pressão – Josh comentou, rindo.
E então começamos. Aquilo era, sem dúvidas, engraçado. Às vezes alguém se metia em uma situação crítica, tendo que passar as pernas por cima dos braços de alguém, e em determinado momento uma garota caiu, quase soltando a mão do seu colega e levando algumas pessoas junto para o chão como um efeito dominó. Mas apesar de eu tentar me focar, não conseguia parar de rir das reclamações e risadas de alguns deles, com as situações engraçadas em que ficávamos.
Aquilo durou mais do que eu imaginava, e já passava dos dez minutos quando Liam me chamou e olhei por cima do ombro para ele que estava com o braço de alguém passando pelo meio das suas pernas. Ele acenou para a equipe vermelha com o queixo e segui seu olhar, notando que eles estavam bem à frente, quase todos soltos.
Xinguei baixinho e tentei me concentrar, mas não foi o suficiente. Josh e eu estávamos em uma situação impossível, dependíamos de mais metade da equipe para conseguirmos sair daquele lugar, e apenas mais dois minutos se passaram até que ouvimos a gritaria da equipe vermelha comemorando que venceram.
A buzina novamente soou e suspirei pesadamente, soltando as mãos de Joyce e Josh, e todos nós nos desvencilhamos.
- E a equipe vermelha sai vencedora da segunda prova! – Martin exclamou. – Parabéns, galera! Agora vocês estão livres para a janta, e o resto da noite é livre até o toque de recolher. Amanhã tem mais. Bom descanso, pessoal!
- Tudo bem, galera. Foi bom. – Assenti, soltando o elástico do meu cabelo que já estava quase caindo e o prendendo novamente mais firme.
Vi todo mundo começar a se dirigir ao refeitório com uma pressa característica de gente com fome, e eu mesma comecei a caminhar até lá seguindo quem passava por mim imersos em conversas empolgadas. De repente senti um braço ao redor da minha cintura e uma mão pousar em minha barriga me puxando para trás e arfei, perdendo o equilíbrio momentaneamente e dando passos para trás, até me chocar contra Lance.
- Ei!
- Peguei você com a guarda baixa, é isso?!
O empurrei com o cotovelo e me afastei, estalando a língua. Lance riu e aproximou o rosto do meu, beijando meu maxilar e ainda segurando minha cintura.
- Vem comigo?
- Só se for para o refeitório comer uma boa janta.
- Ah, qual é... A comida ainda vai estar ali em uns minutos.
- O que você pretende fazer comigo em uns minutos? – Arqueei uma sobrancelha o olhando de canto e ele riu, levantando uma mão.
- É você quem está fazendo suposições aqui, vamos deixar isso claro.
Fiz uma careta para ele, mas acabei rindo. Ele colocou uma mecha solta do meu cabelo para trás da orelha e beijou meu rosto novamente.
- Eu quero um tempo só com você. Esse dia foi agitado.
Olhei em volta, percebendo as pessoas que passavam por nós sem se importarem em prestar atenção, e percebi que nenhum professor ou instrutor nos olhava naquele momento. Acabei concordando e deixei Lance me puxar pela mão para longe do fluxo de gente, costeando o lado do prédio do refeitório até estarmos longe de todos e suas conversas parecerem mais baixas. Ali, ao redor do prédio, não pegava nenhuma luz e com o sol já quase sumindo no horizonte estava um pouco escuro. Passamos por uma árvore comprida próxima ao prédio e paramos ali, onde a árvore nos cobria. Encostei-me na parede de tijolos do prédio e, antes mesmo de poder falar alguma coisa, Lance já me beijava. Não pude evitar sorrir pela surpresa, mas não fiz objeções e o retribuí passando os braços pelos seus ombros.
- Eu devia estar brava com a sua vitória. – Falei entre o beijo.
- Você devia é saber separar negócios de romance. – Ele respondeu rindo fraco. – Estamos quites. Você venceu de mim no meu próprio esporte.
- Espera só até eu ganhar essa gincana.
- Era para me provocar? – Ele se afastou um pouco, me olhando no rosto. Seu cabelo meio fora do lugar o deixava ainda mais bonito, e Lance tinha sempre aquela aparência de quem estava pronto para a guerra. Eu não podia negar que achava aquilo excitante. E que estar com ele era bom, não só bom fisicamente, mas tínhamos tanto em comum e eu sentia que ele me entendia. E me ouvia. Se interessava em me ouvir. E a cada vez que ficávamos o friozinho na minha barriga crescia um pouco mais, porque era bom. – Porque, eu tenho que admitir, a sua auto confiança na verdade é muito sexy.
Gargalhei, o fazendo rir também e olhar em volta para se certificar de que ninguém estava por perto.
- Eu só quero que se prepare para quando sua equipe estiver chorando. – Continuei, enquanto ele começou a deixar beijos em meu ombro e subir para o pescoço.
- Isso é o que veremos, . Você vai ter que me perdoar quando ver que estava errada.
- Você é que vai ter que me perdoar por interromper isso aqui, mas se eu não comer alguma coisa agora mesmo eu vou desmaiar. – O empurrei pelo ombro, o afastando de mim, e pisquei um olho para ele antes de dar-lhe um selinho. – Vamos.
Lance resmungou de alguma coisa, mas me seguiu sem reclamar. Quando entramos no refeitório as mesas já estavam cheias, e fechei os olhos com o cheiro bom que vinha da comida. Naquele momento eu só conseguia me preocupar com a minha fome.

Zayn’s POV

Depois do jantar, depois de limpar a cozinha e deixar algumas coisas do café da manhã prontas para agilizar a vida, fomos liberados para termos algum tempo livre antes do toque de recolher, às dez da noite. Aproveitando esse tempo, eu estava deitado na minha cama do quarto que dividia com Liam, de novo, fumando um cigarro e ouvindo música. Estava tão cansado que nem me preocupara em colocar os fones de ouvido e deixei a playlist tocar nos alto-falantes do celular sem pudor algum, não havia quem me repreendesse.
Aliás, não havia ninguém porque Liam sumira desde o jantar.
Com apenas um corredor distanciando os garotos das garotas, com certeza ele estaria comendo alguém nesse momento.
Afastei o cigarro da boca e bati a ponta no cinzeiro, trazendo-o de volta à boca em seguida, apreciando toda a singularidade de fumar com uma trilha sonora ao fundo. A música que tocava parecia perfeita para o momento e me dava uma sensação de nostalgia diferente, estava mais para saudade de alguma coisa que eu não vivi, mas que me fazia falta de algum modo. Beautiful War, do Kings of Leon, era o tipo de música que seria foda demais cantar com aqueles caras da bandinha de garagem.
Ia ser demais.
Afastei novamente o cigarro para poder observá-lo enquanto um pensamento se formava em minha cabeça; tímida, quase que negando estar sendo germinada, mas, de repente, tomou forma e me colocou sentado na cama. Encarei o celular que brilhava, mostrando a foto do álbum na tela e emitindo a música. Que porra de sentimento era aquele? Não sabia responder, nem queria, honestamente, apenas me mantive sentado na cama ouvindo os últimos acordes, as últimas palavras. E foi somente quando a música acabou que eu me coloquei de pé, vesti o casaco novamente, peguei a carteira de cigarros e o isqueiro, depois saí do quarto.
Achar não foi tão difícil.
Na verdade, ela estava ainda onde eu a havia deixado mais cedo, depois dos preparativos da cozinha. Sentada na cadeira mais afastada da mesa, ela mexia em seu celular e tinha fones de ouvido nas orelhas. Droga, aquilo era quase como um escudo, era difícil fazer tirar aqueles fones para lhe dar alguma atenção. Da última vez que tentei falar com ela e tinha fones de ouvido envolvidos na parada, eu acabei falando sozinho até perceber que ela estava me ignorando.
Sorte a minha que vim preparado.
Parei ao lado da mesa, ao lado dela, de pé. Ela me notou, mas não virou o rosto para mim ou se moveu, apenas continuou rolando a página de alguma rede social qualquer. Ri um pouco de sua insolência; por que a tinha que ser tão... ? Balancei a cabeça e estendi a mão para ela, mostrando-lhe o maço de cigarros e o isqueiro. Finalmente, ela olhou para mim e, com um estalo na língua, contrariada, tirou os fones de ouvido.
- Olá, princesa das trevas. – Abri um sorriso cínico e aberto. – Vamos dar uma volta?
- Estou confortável. – Voltou a olhar seu celular.
- Não estamos na escola, mas acredito que fumar ainda seja proibido por aqui. – Encolhi os ombros, sugestivamente.
fixou seu olhar em algum ponto antes de se levantar, guardar seu celular no bolso e ir comigo até a varanda atrás do refeitório. Lá fora fazia frio; a temperatura provavelmente próxima de zero e, para piorar, ventava. A garota ao meu lado abraçou os braços cobertos por um fino casaco e xingou baixinho.
- Aqui. – Entreguei-lhe um cigarro e estendi o isqueiro para acender a droga.
Depois de tragar uma, duas vezes, parecia mais relaxada e até parecia sentir menos frio, quase havia um sorriso em seu rosto ao mesmo tempo em que seus olhos escrutinavam a noite na fazenda. Dei-lhe algum momento para aproveitar a sensação, lembrando-me de meu breve momento no quarto, há alguns minutos, enquanto fumava e ouvia música.
Finalmente, ela quebrou o silêncio.
- Eu não vou transar com você, se é o que quer em troca disso. – Olhou-me rapidamente pelo canto do olho.
- Geez, . – Balancei a cabeça, soltando uma risada abafada, pego de surpresa por seu comentário afiado. – Nem todo mundo está tentando te foder o tempo todo. A não ser, é claro, pelo Louis. Aquele cara está tentando se enfiar nas suas calças. – Outra risada curta.
- Você tem uma boca muito grande, Malik. – Disse ainda sem olhar para mim. – E muito suja também. E dela só sai porcaria.
- Vai me dizer que o cara não é um pé no saco? – Arqueei uma sobrancelha; ela estava defendendo Louis? – Ou que ele não é grudento? Ou insistente?
- Não tenho o que dizer. – Murmurou, fingindo certo desinteresse.
Ela matou a conversa, de certa forma. Eu a olhava com interesse, observando suas expressões à medida que eu ia dizendo as palavras. Caímos no silêncio novamente, ambos absortos em pensamentos: eu pensava sobre como dizer o que queria dizer, afinal de contas, e o que ela pensava era um total mistério.
- Quem quebrou? – Perguntei, finalmente, arrancando de seu transe particular. Levantou os olhos e os direcionou a mim com uma expressão de leve confusão e espanto.
- O que disse?
- Quem quebrou? – Repeti.
- O quê?
- O busto.
- Ah. – Foi o que disse antes de mergulhar em seus próprios pensamentos de novo. – O que você sabe?
- Sei quem deve ser atualizado dos progressos da diretora.
- Que são...
- Você sabe que eu sei, , deixa disso. – Revirei os olhos. – Se eu quisesse ferrar você, já teria ido à diretora.
Ela soltou uma risadinha desdenhosa.
- Isso não é misericórdia, isso é ser cauteloso. Você é esperto demais para descartar uma informação dessas, Malik. I know you. – Olhou para mim como se nada do que eu lhe dissesse pudesse surpreendê-la.
- É verdade. – Dei de ombros.
- E você não vai sair por aí dando com a língua nos dentes. – Garantiu.
- Ah, é? E o que te faz ter tanta certeza disso? – Desafiei antes de tragar o cigarro uma última vez. Ela voltou a olhar a fazenda e sua extensão, abrindo um sorrisinho cheio de significados.
- Porque sua queridinha está envolvida e seria o fim de o quer que seja isso que você está tentando fazer com ela.
- Uau! – Exclamei, sarcástico. – Você realmente acha que eu gosto tanto dela assim? Isso é até engraçado, .
- Você está. – Garantiu mais uma vez. – Não só gosta, você está de quatro por ela.
- Por favor...
Virou-se para mim e me olhou no fundo dos olhos, com um brilho de “eureca!” iluminando o rosto, como se, de repente, tudo fizesse sentido.
- E não importa quais são seus planos diabólicos por detrás dessa conquista, Malik, isso não é mais sobre o troféu que você esperava. Isso é sobre ela. – quase levantou a mão e apontou para mim. – E esse papinho de tentar usar essa informação como ameaça ou o escambal é tudo faixada, você só quer estar por dentro de tudo que tem a ver com a .
Tive a urgência de soltar uma risada. Não podia acreditar que a fala mais longa que ouvi dizer fora tamanho absurdo.
- Aproveita seu cigarro, . – Balancei a cabeça, rindo. – Não tenho muito mais que isso. Aliás, seu traficante faz delivery? Você tá precisando de alguma coisa, não está batendo bem da cabeça. – Sugeri.
- Você é um babaca. – Riu pelo nariz e fez seu caminho de volta para o refeitório. – Ah, só para você saber: fomos todas nós. E se quiser mesmo fazer alguma coisa com isso, pensa duas vezes. Você nem imagina como quebramos aquele busto, não hesitaríamos em quebrar a sua cara.
E entrou, deixando aquela sutil ameaça no ar.

’s POV

Isolei a chave dourada e a encaixei na fechadura da porta do refeitório, sendo incapaz de esconder meu descontentamento quando a chave mal girou e travou na fechadura. Aquela era a quarta tentativa e eu ainda tinha mais cinco chaves para testar até conseguir abrir as grandes portas do refeitório.
- Que tal etiquetar suas chaves, hein, Gary? – Resmunguei enquanto dava atenção ao trabalho fundamental de manter as chaves já testadas longe das outras a serem tentadas.
Havia mais de cinco minutos que eu estava tentando abrir as portas para poder dar início à organização do refeitório para o café da manhã. Primeiro achei que o problema fosse alguma falha da porta, já que uma monitora disse que a chave dourada abriria a porta; depois percebi que havia mais chaves douradas no chaveiro que me fora confiado. E, a cereja do bolo, era o fato de que só eu estava acordada naquele lugar. Claro que eu me ofereci para abrir o refeitório às seis e quinze da manhã. Óbvio.
O sol nem havia nascido ainda.
- Etiquetas são para os fracos, alguém diria. – Continuei resmungando. – Bom, parece que não!
- Sempre soube que você tinha algum problema, mas isso já é demais. – Ouvi a voz jocosa vinda de trás de mim. Imediatamente, quase sem querer, reconheci o dono da voz e me virei para ele. Zayn estava encostado ao batente da porta da antessala que precedia o refeitório. Ele usava um moletom cinza e calça jeans; bonito, foi o que me contive a observar.
- Problema? – Coloquei as mãos na cintura, mas rapidamente me lembrei do molho de chaves e choraminguei quando vi que elas haviam se misturado novamente.
- Sim, você faz essa coisa de olhar para mim e babar. Supus que fosse alguma doença. – Encolheu os ombros. – Ou eu sou realmente muito gostoso. – Fez-se de desentendido.
- Não está muito cedo para seu ego inflado se manifestar? – Não pude esconder a falta de interesse na piadinha que ele estava fazendo.
- Alguém acordou com o pé esquerdo hoje. – Observou, vindo até meu lado.
- Zayn. Agora não. – Voltei a olhar o molho de chaves em minhas mãos como se pudesse deduzir qual daquelas chaves era a próxima que eu deveria testar.
- O que é isso?
- Chaves.
- Me deixe tentar. – Tomou o molho de chaves de minha mão.
- Duvido você conseguir. – Revirei os olhos, cruzando os braços.
- Desafio aceito. – Riu consigo, ainda olhando as chaves. – O que eu ganho? – Desviou os olhos para mim com curiosidade e outra coisa que eu não conseguia distinguir exatamente o que era.
- Acesso à cozinha. – Respondi rapidamente.
- Só?
- O que mais você queria? – Arqueei uma sobrancelha, curiosa.
- Algo mais difícil de conseguir.
- Tipo?
- Você é bonita...
- Ew. Zayn. – Torci o nariz. – Você é nojento.
- Eu ia dizer que você é bonita e por isso tem influência sobre garotas bonitas.
- E desde quando você precisa de ajuda para dormir com alguém? – Revirei os olhos, incomodada com a verdade daquelas palavras.
- O que é isso? Ciúme? – Provocou.
- Ciúme da sua cara de pau, só se for. – Rebati.
- Ok, então, vou guardar esse prêmio. Quando eu decidir, aviso. – Piscou para mim. Engoli em seco, sentindo minha garganta ficar seca.
Eu estava tão brava, tão frustrada com aquelas reações que eu tinha quando ele fazia ou dizia algo...
- Já conseguiu? – Apressei-o.
- Definitivamente você caiu da cama. – Riu sozinho. Inclinou-se para a porta, colocando a chave na fechadura e a girando. A porta foi destrancada. – Voilà!
- Inacreditável! – Estreitei os olhos. – Você já sabia qual era a chave!
- O quê? Claro que não! – Levantou as mãos. – Você só está querendo fugir do desafio, Shortcake. – Olhou para mim como se pudesse me ler como um livro aberto.
- Eu? Por quê? – Arqueei uma sobrancelha e fui até ele. – Não é como se você fosse me pedir nada ousado, não é? – Pousei minhas mãos em seus ombros e, ignorando a vontade de tocar seu pescoço e seu cabelo, olhei no fundo de seus olhos, provocando-o de volta. Ele não respondeu, apenas me olhava de volta, tentando decifrar o que eu estava fazendo. Fiquei nas pontas dos pés. – Quem sabe o que eu sou capaz de fazer? – Sussurrei em seu ouvido. Afastei-me dele, sem olhá-lo, e entre no refeitório.
Fazendo meu caminho em direção ao armário onde eram guardados os aventais e outros utensílios, eu tremia de puro nervoso, com uma adrenalina esquisita passando por meu corpo. Tensão sexual nunca fora meu forte e brincar com isso jamais seria meu conselho mais sábio, mas, por alguma razão, eu queria estar por cima daquela brincadeirinha que Zayn gostava de brincar com as garotas.
Bom, isso é por todas aquelas que foram tratadas como lixo.
- O que você está fazendo acordado tão cedo? – Perguntei quando me virei e vi Zayn sentado em cima do balcão da cafeteria do refeitório, onde eram vendidos sucos, refrigerantes, água e, claro, café fora dos horários de refeição.
- Eu tive um AVC e me candidatei para colocar os pães no forno antes do café da manhã. – Deu de ombros. Olhou para a cafeteira automática ao seu lado e pulou do balcão. – Café? – Ofereceu.
- Expresso. – Aceitei, com um sorriso mínimo. – Você sabe mexer nisso?
- Tenho alguma experiência. – Desconversou.
Puxei o carrinho que estava no canto do armário e comecei a tirar as pilhas de pratos das prateleiras e as coloquei no carrinho. Eu gostei de ter ficado com aquela tarefa, era tranquila na maior parte do tempo e não exigia mais habilidades que contar e saber um pouco sobre etiqueta. Harry, por outro lado, o único que eu realmente conhecia no grupo, não gostava nem um pouco de estar ali. Ele detestava acordar cedo e achava o trabalho idiota. Eu sabia o quanto Liam e queriam ganhar aquela gincana e eu também queria, por isso daria meu melhor onde pudesse. Quando terminei de colocar os sessenta e cinco pratos no carrinho, fechei as portas do armário e comecei a andar pelo refeitório, parando em cada mesa para colocar os pratos em cada lugar.
- Aqui. – Zayn veio para o meu lado e me estendeu o copinho de isopor com o café.
- Estou impressionada. – Comentei, rindo um pouco.
- Tenho meus dotes. – Gabou-se um pouco e olhou em volta, tomando um gole de seu próprio café. – Então é você quem dobra os guardanapos como barcos?
- Ah, não. Quem faz isso é o Herbert. – Abri um sorrisinho. – Ele tem talento. – Observei. – Eu mal consigo dobrar uma roupa. – Ri de mim mesma.
- não sabe fazer dobradura. – Zayn falou como se não acreditasse.
- Você ficaria surpreso com a quantidade de coisas que eu não sei fazer. – Ri fraco.
- Mas eu achei que você fosse perfeita. – Cruzou os braços. Eu sabia que ele estava brincando, o que me dava mais coragem para falar as coisas em tom de brincadeira, mas que tinham sua cota de verdade. – Já ouvi estórias incríveis sobre , pode acreditar em mim.
- As pessoas gostam de inventar coisas. Eu podia falar com os animais, segundo alguns fãs fanáticos. – Brinquei, soltando uma risada. Empurrei o carrinho para a próxima mesa do refeitório.
- O quê? Isso é mentira? – Colocou a mão no peito, fingindo mágoa. – Vai me dizer que você também não consegue tomar dez garrafas de cerveja sem ficar bêbada?
- Tudo mentira. – Balancei a cabeça, rindo. – Ah, eu também não consigo assobiar.
- Ouvi dizer que você e faziam competição de quem ficava com mais caras nas festas. – Disse, questionando a veracidade daquela curiosidade sobre mim.
- Ah! – Coloquei as mãos no rosto, envergonhada de repente. – Isso é verdade. – Levantei os olhos para ele, constrangida. – Nós fazíamos isso, mas a sempre ganhava.
- Não acredito. – Abriu um sorrisinho esquisito.
- É verdade, ela sempre foi muito mais extrovertida e legal e... Sei lá. – Deixei parte da frase no ar. – Só fizemos isso duas vezes. Foi tão idiota... Todo mundo sabia o que estávamos fazendo e todo mundo aproveitava, claro. Duas garotas caçando por esporte, quem não quer? – Bufei, sem graça. – Eu não conseguia simplesmente ficar como a fazia. Eu não ficava com ninguém! Eu não conseguia. A primeira vez foi um desastre e ganhou.
- E a segunda? – Zayn parecia interessado na história. Coloquei mais alguns pratos em cima de uma mesa e comecei a distribuir pelos lugares.
- Aí eu decidi que, para conseguir, eu precisava pelo menos conversar com o cara antes, saber seu nome e essas coisas. – Zayn soltou uma risadinha, como se não concordasse, e eu sabia que, para ele, isso era balela. – Enfim, eu resolvi fazer isso. E assim eu passei a noite inteira conversando com o cara que se tornaria meu namorado uma semana depois daquela festa.
- Liam. – Zayn disse. Não era bem uma pergunta, mas uma afirmação que pedia uma confirmação.
- Liam. – Abri um sorrisinho, lembrando-me um pouco daquela época. – Éramos tão infantis. Nem eu, nem , gostamos de falar sobre isso, por isso... – Coloquei o indicador sobre os lábios, indicando silêncio. Zayn assentiu com a cabeça, divertido.
- Você e Liam, huh? – Ele comentou, com certo desinteresse. Reprimi o impulso de apenas perguntar o que tinha de errado com ele naquela manhã.
- Ciúmes? – Devolvi a mesma provocação que ele fizera mais cedo. Abri um sorrisinho. – Pode ficar tranquilo, você é meu badboy favorito. – Pisquei antes de me virar para a mesa e terminar de colocar os pratos.
- Mas o Liam não durou e você pulou para o namorado da faculdade. – Ele voltou ao assunto, adicionando um novo elemento a ele. Franzi o cenho enquanto arrumava os pratos; as pessoas falavam tanto assim sobre mim?
- Quem? – Perguntei, não sabendo de quem ele falava.
- Um tal de Owen. – Deu de ombros.
Ah.
- Ah. – Hesitei um pouco antes de acrescentar qualquer coisa sobre Owen. Fiquei um pouco surpresa ao me dar conta de quanto tempo havia desde a última vez que pensara nele. Quero dizer, de quando a lembrança dele ainda era dolorosa e sacrificante. – Ele não é da faculdade.
- É?
- Ele não está morto. – Franzi o cenho, estranhando o questionamento dele. – Apesar da surra que ele levou numa briga há um tempo.
- Briga?
- Sim, foi algo feio, pelo estrago que fez no rosto dele na época. – Balancei a cabeça lembrando-me dos curativos em seu rosto. Eu sabia disso porque eu ainda fizera papel de trouxa ao ir visita-lo no hospital durante seu período de observação. Zayn soltou uma risadinha e eu olhei para ele.
- Coitado do cara. – Ele se recompôs.
- Você deve saber, não foi por isso que você foi para o reformatório? Por bater num cara?
- Calma lá, Shortcake, um boato de cada vez. E é a sua vez agora. – Levantou as mãos.
Revirei os olhos, mas ri um pouco, gostando daquele momento que estávamos tendo. Terminei de arrumar os pratos e voltei para o armário para pegar os copos e xícaras. Zayn ficou ao meu lado, ajudando-me a encher o carrinho e me deixando surpresa com sua atitude legal.
- E foi por isso que você terminou com ele? Porque o cara é problema? – Ele quis saber.
- Ele me traía. – Falei rapidamente, incapaz de olhar Zayn. – Com minha própria irmã. – Engoli em seco.
É, quem sabe a lembrança dele ainda era um pouco dolorosa.
- ...
- Não. – Ri um pouco. – Ele teve o que merecia.
- Com certeza. – Ele concordou, parecendo não saber o que dizer além daquilo. – E sua irmã...
- Se você a visse, você entenderia. – Continuei falando, ainda sem olhar para ele. – Ela parece bem o tipo de garota que te agradaria.
- Estou começando a achar que eu gosto muito mais de outro tipo. – Disse e, sem querer, eu dirigi meus olhos a ele, encontrando os dele em cima de mim. Abri um sorriso fraco.
- Faz bem. Se eu não fosse irmã dela, gostaria de tê-la bem longe de mim. – Suspirei. – Mas eu não devia estar falando assim, ela é minha irmã. Não se abandona a família, não é? – Encolhi os ombros.
O clima ficou pesado e eu me culpei por isso. Não devia ter despejado meus problemas domésticos em cima de alguém que não tem nada a ver com isso. Quando o carrinho estava cheio de copos e xícaras, saímos do armário e começamos a andar pelo refeitório.
- Você sabe que não vai ganhar nenhum ponto a mais por estar me ajudando, não sabe? – Perguntei, tentando amenizar o clima.
- Você sabe que eu não estou nem aí para essa gincana, não sabe? – Piscou para mim com um sorriso.
- Paris não é suficiente para o príncipe das trevas?
- Como se você nunca tivesse visitado o país umas mil vezes. – Rebateu.
- Vai ser divertido estar lá com amigos. – Sorri. – Liam e .
- Liam e . – Repetiu, concentrado no que fazia. – Sabe, eu gosto quando você prende o cabelo assim. – Mudou de assunto, olhando para mim dessa vez.
O elogio me pegou de surpresa.
- Ah. – Passei a mão pela trança embutida que eu tentara fazer com muito desleixo, mas que produzira um resultado legalzinho no final. – Você está esquisito.
- Damn, . Você pode só aceitar o elogio? – Ele olhou para mim como se não fosse segurar a grosseria caso eu soltasse outro comentário daquele.
Abri um sorriso, assentindo.
Ele puxou a manga do moletom para ver a hora em seu relógio e estalou a língua.
- Tenho que colocar o pão. – Disse, pousando um copo em frente ao prato e ao lado da xícara.
- Você vai queimar a cozinha inteira. – Falei, sem querer.
- Ouch. Obrigado pelo voto de confiança.
- Era brincadeira. – Mordi o lábio inferior, querendo rir um pouco. – Caramba, Zayn, você está muito esquisito. – Não consegui me conter e comecei a rir da cara que ele fez para mim.
- Chega. – Saiu de trás da mesa que ele estava arrumando e veio em minha direção com uma cara de poucos amigos. – Agora você vai ver quem vai ficar esquisito.
- Ei, ei, ei! – Quando ele me pegou pelas pernas e me jogou por cima de seu ombro, fiquei um pouco assustada, mas, pelo nervoso, e, principalmente, pela proximidade, eu sentia uma vontade absurda de rir. – Me coloca no chão, vai!
Zayn andou até a porta da cozinha enquanto eu apenas implorava ao universo que ninguém entrasse no refeitório naquele momento e presenciasse aquela cena. Somente quando estávamos dentro da cozinha e perto da despensa de comidas, Zayn me colocou no chão e, antes que eu pudesse dizer alguma coisa ou me situar, vi apenas a mão dele vindo em minha direção cheia de uma coisa branca e jogar aquilo na minha cara. Era farinha branca.
- Zayn! – Gritei, limpando os olhos para poder abri-los. Tossi um pouco quando a farinha entrou na minha boca. Olhei para ele, que me olhava de volta, superior. – Eu juro que eu posso te matar agora mesmo. – Falei, tão calma que até eu me assustei com a combinação do tom com as palavras.
Então, subitamente, ele começou a rir da minha cara. Passei a mão no meu rosto e passei a farinha que tinha ali no rosto dele, que parou de rir na mesma hora.
- Quem está esquisito agora? – Ele perguntou, sorrindo.
De perto, tão perto, o sorriso dele era a coisa mais linda do mundo.
- Nós dois. – Respondi.
- Agora parece justo.
- Você continua esquisito. – Insisti.
- Eu me sinto esquisito. – Disse, olhando-me.
- Por quê?
- Não sei. – Desviou o olhar e se afastou um pouco, limpando o rosto com a mão. – Aqui. – Jogou-me um pano de prato para limpar meu rosto.
- Obrigada. – Passei o pano pelo rosto. – Então, onde estão os pães que você tem que assar?
Zayn foi até o refrigerador e tirou uma grande bacia quadrada cheia de formas empilhadas com pães congelados para serem assados.
- Foi você quem fez? – Perguntei, chegando mais perto da bacia para olhar dentro. Os pães eram brancos e pequenos.
- Eu ajudei um pouco. – Deu de ombros.
- Posso colocar? – Apontei para o grande forno industrial que havia na cozinha.
- Você pode se queimar. – Negou com a cabeça.
- Tá brincando, né? – Arqueei uma sobrancelha.
- Tenta, então.
- Desafio aceito. – Sorri. – O que eu ganho?
- O que você quiser. – Respondeu rapidamente, mas depois levantou a cabeça e olhou para frente, parecendo refletir sobre o que disse, e, por fim, não disse nada.
- Eu posso ser exigente. – Avisei.
- E eu posso ser esforçado.
Não respondi e peguei a fôrma com alguns pães para serem assados. Ela era mais pesada do que eu esperava que fosse e quase a desequilibrei por um segundo, mas consegui chegar até o forno que já estava aquecendo. Segurei com mais firmeza a fôrma com uma mão e, com a outra, abri a porta pesada do forno e coloquei os pães lá dentro.
- ! – Zayn gritou ao meu lado e eu gritei junto, levando um susto. Daí ele começou a rir.
- Idiota! – Briguei, dando um soco em seu ombro. – Babaca!
- Ok! – Ele lutou para se controlar. E eu apenas cruzei os braços e esperei que terminasse.
Era sempre tão esquisito ver Zayn rindo daquele jeito.
- Pronto? – Perguntei quando ele cruzou os braços, me imitando, tentando não rir.
- Pronto. – Fechou a cara.
- Idiota. – Revirei os olhos.
- Tem farinha no seu cabelo ainda. – Falou, aproximando-se um passo e começou a passar a mão no topo da minha cabeça.
- Claro que tem, você é um idiota que não cansa de ser idiota. – Bufei.
- Tem muita farinha aqui. – Começou a mexer com mais força em meu cabelo, destruindo minha trança, as mechas de cabelo caindo em meu rosto.
- Não! Zayn! Ah! Que droga! – Eu dizia, tentando me desvencilhar de suas mãos, enquanto ele bagunçava mais e mais meu cabelo em meio a risadas. – O que tem de errado com você hoje? – Perguntei e ele fez uma careta, fazendo-me rir um pouco.
Tentei me afastar dele, mas acabei tropeçando nos meus próprios pés e me desequilibrei para trás. Zayn foi mais rápido e passou o braço pela minha cintura, mas eu continuei me esquivando dele e acabamos caindo no chão, em meio a risadas, com ele em cima de mim.
- Você é muito pesado! – Eu disse, empurrando-o pelos ombros, mas ele não saiu de cima de mim, apenas apoiou o peso do corpo nos cotovelos.
- Eu gostei desse ângulo, você fica muito bem embaixo de mim. – Sorriu para mim.
- Ugh, você é repulsivo! – Protestei, mas acabei rindo e ele também. – Sai... de... cima... – Parei de falar quando percebi que ele me olhava, sem expressão no rosto que pudesse me dizer o que se passava em sua mente. – O que foi?
Mordi o lábio inferior quando finalmente me tornei consciente de toda aquela situação. Ele estava em cima de mim; nós deitados no chão da cozinha do refeitório da fazenda da escola. Só eu e ele e aquele jeito esquisito que ele esteve agindo desde que apareceu. Seu perfume tomava todo o ar ao meu redor e tudo que eu via eram seus olhos castanhos a poucos centímetros do meu rosto.
- O que é? – Repeti, minha voz saindo baixa.
- Acho que... – Olhou para outro lugar e depois voltou aos meus olhos. – Acho que já sei o que eu quero como prêmio daquele desafio.
- E o que é? – Perguntei, pela terceira vez.
Zayn não falou mais nada, apenas passou a mão por meu rosto, tirando as mechas de cabelo que estavam por ali, soltando uma risadinha fraca, depois acariciou minha bochecha. Meu coração acelerou em antecipação ao que estava prestes a acontecer ali. Umedeci os lábios, atraindo sua atenção para aquele ponto. Ele olhou para mim novamente e abriu um sorriso sem graça, depois olhou para minha boca mais uma vez antes de se aproximar ainda mais.
Meu coração ia sair pela boca se ele não me beijasse no próximo segundo.
- Eu disse que ela ia furar com a gente! – A voz de Harry surgiu do nada, um pouco abafada pela porta da cozinha.
- Mas o refeitório está aberto, Harry. – E Rebekah estava com ele.
Zayn levantou-se num pulo e me ajudou a levantar também. Meu coração, definitivamente, ia sair pela minha boca e fugir correndo pela porta dos fundos.
- Seu cabelo. – Zayn falou, indo em direção à bacia de pães.
Eu ainda estava aturdida. Como ele havia se recuperado tão rápido?!
Balancei a cabeça e tirei o elástico que prendia a trança e passei os dedos pelo cabelo, arrumando-os.
Eu estava mais confusa que nunca.
Fui até a pia e arrumei uma bandeja com alguns copos que estavam no escorredor.
- ! – Harry irrompeu pela porta da cozinha, estranhamente radiante. – E Zayn. – Franziu o cenho, mas deu de ombros. – Não é que você abriu mesmo o refeitório?
Soltei uma risada fraca.
- Eu sempre cumpro minhas promessas, Harry.

’s POV

- Bom dia, Cookie! – Abri a portinhola da baia do celeiro-anexo que estava abrigando a ovelha prenha da fazenda. – Como você está se sentindo hoje? – Agachei-me ao lado de seu corpo esparramado por cima da cama feita de feno. Cookie era o nome da ovelha e ela estava chegando ao quinto mês de sua gestação.
Eu nem pude acreditar quando Martin deu ouvidos aos alunos que sugeriram que eu e Niall ficássemos responsáveis pelos cuidados das ovelhas e, especialmente, da ovelha que esperava um cordeirinho, mas, no final das contas, nenhum de nós falava muita coisa enquanto estávamos executando a tarefa e muito menos quando estávamos em equipe. E, honestamente, aquilo não me desagradava nem um pouco, pois sentia que à menor provocação eu poderia descer a mão na cara dele de novo.
Cookie soltou um barulhinho e rolou por cima das costas, colocando-se de pé com pouca dificuldade.
- Onde está o pai desse cordeiro, hein, Cookie? – Perguntei enquanto acariciava sua pelagem macia. – Ele devia estar aqui para te ajudar, não? – Bronqueei. Ela apenas desviou o olhar de mim e eu me coloquei de pé. – Tudo bem, eu entendo, os exemplares masculinos desse mundo são uns trogloditas.
Dei as costas para ela por um segundo para abrir a portinhola da baia para que ela pudesse sair para o pasto, mas acabei dando de cara com Niall, que estava apoiado à portinhola, assistindo a cena. Trazia consigo um sorrisinho no rosto, como se achasse graça do que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, dizendo-me que estava ali há um tempo.
- Mudando para o outro time? – Ele perguntou, provocativo.
- Se for para não cruzar com caras como você, talvez seja um bom plano. – Devolvi, rolando os olhos. – Ela precisa sair, com licença. – Indiquei a portinhola.
- Já colocou sal no feno?
- Vou trocar o feno quando ela sair. – Disse, de má vontade por sentir que estava dando satisfações a ele.
- Eu já troquei.
- E por que não colocou o sal?
A ideia de que ele estava levando a sério a tarefa meio que me tirava do sério. Era como se eu quisesse que ele fosse um completo babaca e péssimo em tudo, que não merecia nada, nem sequer consideração por uma atividade bem feita. E não era a primeira vez que aquele sentimento me ocorria; aconteceu a mesma coisa na noite anterior, quando ele e Louis tentaram coordenar a dinâmica antes do jantar.
Ele podia facilitar a minha vida e ser detestável, não?
Mas não adiantaria muita coisa, eu sei. Mesmo que ele tenha sido o maior imbecil da história, eu ainda sentia por ele aquilo que sentia antes do recesso de fim de ano. E me odiava a cada vez que minha mente divagava e me trazia qualquer lembrança estúpida que envolvia ele, como a primeira apresentação deles no pub de Londres, ou, pior, aquele beijo na mesma noite.
- Lucy começou a latir, tive que ir ver o que era. – Respondeu, tirando as luvas grossas. – Fiquei preocupado de ser algum lobo.
- E foi sozinho salvar o mundo? – Arqueei uma sobrancelha.
- Alguém tinha que ir. As outras ovelhas já estão no pasto. – Deu de ombros e abriu a portinhola, entrando no cubículo.
- Que herói. – Bufei, voltando minha atenção para Cookie, que bebia água em um balde. – Está fresca? – Apontei para a água no balde.
- Sim. – Niall pegou um pote de plástico branco de cima de uma prateleira na parede e jogou o pó branco em cima da ração dela.
Dei dez segundos para Cookie ir até o cocho e comer, mas ela não foi.
- Bom, parece que ela quer sair. – Anunciei, vitoriosa por ter sido minha ideia inicial antes de Niall me atrapalhar.
Ele revirou os olhos e fez uma reverência exagerada, indicando a passagem livre. Ignorei-o e abri a portinhola.
- Cookie! – Chamei, com uma voz mais fina. – Ei, menina, vamos! – Continuei chamando a ovelha até que ela veio e saiu da baia.
Caminhei ao lado da ovelha, que ia em direção à saída, para o pasto. Niall andava um pouco mais atrás, mas ia conosco. Lá fora, a galera responsável pelo feno forrava um pedaço do pasto enquanto as vacas ainda estavam no curral e um pedaço também do que era destinado às ovelhas.
Acenei para Liam, que acenou de volta quando me viu e, depois, um breve aceno para Lance. Tive mais contato com ele nesses últimos dias, já que ele e tinha uma... Coisa. E ele até que era legal, mas não sentia que eles iam durar muito.
- Ah, Marina esteve aqui mais cedo. – Niall quebrou o silêncio, andando um pouco mais atrás de mim. – Disse que podemos tosquiar uma ovelha hoje. Só pela experiência.
- Nem pensar. – Falei.
- Por que não?
- Porque estamos no inverno. – Para mim era óbvio e isso ficou claro para Niall.
- Mas ela disse que não havia problema. – Insistiu.
- Use o bom senso, Horan. A ovelha vai morrer de frio se tirarmos a lã.
- Elas dormem dentro do celeiro, . – Rebateu.
- Não. – Finquei pé.
- Como se você decidisse algo por aqui.
- Engraçado, você também não decide nada.
Balancei a cabeça assim que as palavras saíram da minha boca. Eu odiava ser grossa com alguém, mas Niall estava simplesmente implorando por algumas patadas.
- Só a metade. – Barganhou.
- Legal, além de passar frio, você também quer fazer a ovelha passar vergonha. – Ri ironicamente.
- Teimosa. – Ouvi-o murmurar, mas resolvi ignorar.
Quando chegamos ao pasto das ovelhas, abri a porta da cerca que fechava o perímetro do espaço delas. Cookie entrou devagar, tomando seu tempo e sua estrutura inflada por causa da gestação.
- Ei! – Liam chamou, vindo correndo até nós. Deu-me um beijinho no rosto e fez um toque com Niall. – Cara, ela esta enorme! – Olhou a ovelha prenha andando no pasto entre as outras ovelhas.
- Yeah. – Sorri, olhando-a também.
- Quando vai nascer? – Perguntou a nós com expectativa. – Será que ainda vamos estar aqui?
- Espero que não. – Niall torceu o nariz.
Rolei os olhos para seu comportamento infantil, apesar de concordar com ele; partos de animais são extremamente nojentos. Quando eu era menor, minha cadela teve filhotes e eu fiquei no meu quarto durante todo o processo, enjoada demais depois de assistir o primeiro filhote sair.
- Ela está entrando no quinto mês, acho que não vamos estar aqui. – Suspirei teatralmente.
- Que pena, cara! Deve ser coisa de outro mundo o parto! – Liam abriu um sorriso grande e eu não pude evitar sorrir com ele.
- Pois é, cara, acho que estão te chamando ali. – Niall apontou para o grupo que forrava o pasto maior.
- Onde? – Liam se virou para olhar.
- Eu vi alguém acenando. Melhor você ir. – Deu dois tapinhas nas costas do amigo.
- Melhor eu voltar, mesmo. – Riu sozinho. – Me mantenham informado, por favor. – Referiu-se à ovelhinha.
- Claro. – Sorri e ele se despediu de nós, dando-me outro beijinho na bochecha e acenando para Niall rapidamente.
Balancei a cabeça, sorrindo. Liam era tão adorável e era, provavelmente, meu garoto preferido daquela escola.
- Sem furar olho, hein. – Niall insinuou.
- O quê? – Olhei para ele, já irritada.
- e ele namoraram. – Disse.
- Eu sei. – Coloquei as mãos na cintura. – O que você está tentando dizer? – Olhei-o de cima.
- Não fique caidinha por ele. – Falou com certo desinteresse, como se não estivesse dizendo nada de mais.
- Rá! – Soltei uma risada forçada. – Dadas as circunstâncias, seria ótimo ter uma quedinha por ele. – Bufei e passei por ele, voltando para o celeiro. Ao pensar no que acabara de dizer, xinguei-me internamente pelas palavras que usei; se ele se esforçasse um pouquinho, perceberia que eu havia declarado que tinha uma queda por outra pessoa e, se se esforçasse mais, perceberia que era por ele.
Balancei a cabeça, sentindo-me idiota e estúpida.
Ao entrar no celeiro, tirei a forquilha do gancho na parede. Trocar o feno do cocho não era tão difícil já que Niall havia desmontado um cubo de feno no dia anterior e o deixara num canto para facilitar o trabalho. Por isso, apenas tive que tirar o feno antigo de dentro do cocho e jogar mais um pouco ali dentro com a ajuda da forquilha. E, por último, depois de trocar o feno de todas as baias, joguei o sal por cima da comida das ovelhas.
Aquilo estava me distraindo, minha mente estava ocupada com medidas e detalhes do que precisava ser feito para cuidar das sete ovelhas da fazenda. Eu não precisava pensar nas coisas que me rondavam ultimamente.
- . – Ouvi Niall me chamar, não muito longe de onde eu estava. Fechei os olhos e contei rapidamente até cinco, depois me virei. Ele estava a uns três passos de mim, com as mãos nos bolsos e me olhava nos olhos. Não parecia saber o que dizer, pois abria a boca várias vezes, mas nada dizia. Por fim, suspirou e olhou para o chão. – Desculpe. – Disse.
- Por? – Cruzei os braços.
Niall balançou a cabeça.
- Pelo que fiz. Ter entrado naquela aposta.
- Por que isso agora? – Arqueei uma sobrancelha para ele.
- Porque eu fui um babaca e não queria admitir isso. – Levantou a cabeça, como se estivesse pronto para encarar as consequências.
- Eu não devia ter quebrado seu violão. – Repeti o que havia dito a ele quando tentei me desculpar a alguns dias atrás.
- Eu mereci. – Encolheu os ombros. – Trégua?
- Não vamos ser amiguinhos, espero que saiba disso.
- Tudo bem, eu só não quero esse clima pesado e que a gente se odeie para sempre.
Respirei fundo, ignorando as borboletas no estômago que surgiram por vê-lo tão desarmado.
- Trégua. – Concordei. Ele me estendeu a mão e eu a apertei, selando o acordo.
- Pelo bem da Cookie, temos que ser bons tios do filhote que ela espera. – Piscou para mim, abrindo pequeno um sorriso sem graça. Sorri também, com intensidade ainda menor que o dele. – Sabe, não vamos ser amiguinhos, eu sei, mas gostaria que soubesse que eu gostava de ser seu amigo. E todo esse clima chato entre nós... Tenho me esforçado para mantê-lo assim. E não é pouco. Você é uma pessoa legal, , e é muito difícil ser um babaca com você. – Confessou.
- Não pareceu difícil quando apostou um beijo meu. – Revirei os olhos, impaciente, mas tentando, de alguma forma, não transformar aquilo em uma discussão.
- É, mas eu não me arrependo nem por um segundo de ter te beijado. – Coçou a nuca, sem jeito. – Foi muito bom.
As borboletas voltaram em questão de segundos com as palavras que saíam da boca dele.
- Foi. – Concordei da forma mais casual e desinteressada possível.
A conversa morreu ali. Ele começou a trocar a água dos baldes de cada baia e eu terminei de colocar o sal na última baia e saí do celeiro, pela saída que dava acesso à casa principal da fazenda.
Encontrei subindo as escadas que davam acesso aos quartos da casa e corri um pouco para alcançá-la.
- Hey. – Passei meu braço por seus ombros e a abracei de lado, fazendo-a se assustar um pouco e depois soltar uma risadinha.
- Hey, pumpkin!
- Um passarinho me contou que você tem algumas coisas para me contar. – Provoquei.
- Deve ter sido o passarinho da mensagem que eu te mandei. – Revirou os olhos, mas riu.
- Tem ou não?
- Tenho. Mas você está com cara de que aconteceu alguma coisa. – Parou para me olhar antes de abrir a porta de seu quarto e entrar.
- Hoje foi dia premiado! – Fingi empolgação. – Mas vamos começar pelo seu, porque aposto que começa com “Za” e termina com... – Ele gritou meu nome e me puxou para dentro do quarto antes que eu pudesse terminar a palavra e fechou a porta.
’s POV

O calor do sol se misturava ao vento fresco, quase frio – fazia um belo dia para o inverno – que soprava pelo gazebo onde eu lia um exemplar da Agatha Cristie que havia encontrado na biblioteca da casa principal da fazenda. E, por isso, talvez, um sentimento insistia em se manifestar sempre que eu via meus cabelos voando e entrando no meu campo de visão, bem como o aroma de algumas flores silvestres que vinha com o vento, também. Um sentimento de vazio e, ao mesmo tempo, de plenitude. Desviei os olhos da leitura e apreciei a paisagem que me cercava, buscando tocar e definir o que sentia, imaginando-me dentro de um filme adaptado de alguma obra de Jane Austen. E o ambiente seria perfeito para, de fato, acreditar nisso se não fosse pelo celular ao meu lado, na mesa de ferro pintado, e os ônibus estacionados num descampado não muito longe dali.
Mas o sentimento tomava conta de mim e eu tinha certeza de que se tivesse chá e um pouco de música ambiente, eu estaria me sentindo uma verdadeira dama pertencente à aristocracia inglesa do século 18. O pensamento me roubou um sorriso involuntário.
Fechei o livro, colocando-me de pé num pulo, decidida a dar uma volta pela fazenda e conhecer o que havia de bom nela. Eu tinha duas horas antes do almoço e não desperdiçaria esse tempo de liberdade por nada.
À minha esquerda o bosque se estendia até onde a vista não podia alcançar. O interior da mata se tornava apenas o cenário convidativo de algum thriller de cinema à medida que a luz parecia penetrar com mais dificuldade pela copa das árvores. Desviei o olhar da densidão verde e mudei um pouco o passo para contornar um canteiro de flores. Por algum motivo – e talvez fosse a hora – do lado de fora da casa tudo estava tranquilo.
Caminhei sem direção certa, mas parecia que eu sabia bem onde estava indo. Já estava próxima do celeiro quando me dei conta daquilo.
Lá dentro tudo estava bastante quieto. O grande pavilhão de madeira parecia aumentar à medida que eu entrava nele e havia feno por toda parte, no chão, em cima dos meus tênis, nos andares mais acima, perto da porta. O cheiro, no entanto, não era agradável; feno misturado com vida animal. Girei nos calcanhares, admirada, quando olhei para cima e vi claraboias com ventiladores.
- Ficar quieto. Harry. Louis. Eu. Zayn. – Liam entrou no celeiro contando algo nos dedos. – Quieto. Harry. Louis. Eu. Zayn. – Repetiu mais uma vez. – Harry, Louis... – Parou de falar ao levantar a cabeça e me ver parada ali no meio do celeiro. Não parecia saber o que dizer, mas abriu um sorriso. Já eu nem queria saber quão boba estava parecendo ali, parada no meio de um mar de feno, com um livro na mão e a jaqueta jeans amarrada na cintura por cima do vestido de malha. – Bom dia. – Disse ao passar por mim e pegar uma ferramenta que parecia ter congelado no tempo de tão velha que parecia.
- Vai atrás de algum vampiro? – Brinquei, acompanhando-o com o olhar.
- Van Helsing nunca dorme. – Entrou na brincadeira.
- Van Helsing?! Onde? – Olhei em volta, tirando sarro dele.
- Rá, rá! – Revirou os olhos, mas soltou uma risada.
Abri um sorriso; eu adorava isso nele. Liam estava sempre de bom humor.
- Para quê isso? – Apressei-me em acompanha-lo para fora do celeiro, para a parte de trás do celeiro.
- Mexer com feno. – Respondeu.
- Você parece um caipira. – Zombei. – Falta só o macacão jeans e a blusa branca manchada de gordura.
- Você está vendo filmes americanos demais. – Rebateu antes de se curvar e enfiar a ferramenta em um bloco de feno, que se desfez. – Por aqui, um cara com macacão e uma blusinha morreria congelado. – Deu-me um sorriso superior.
- Sinto muito para os caipiras dessa nação, mas você está bem americaninho. – Imitei o sotaque americano, enrolado e carregado.
- Você, por outro lado, não parece nada preparada para um dia de fazenda. – Observou, passando os olhos rapidamente por mim.
- Eu fico na cozinha. – Dei de ombros e me encostei à cerca de madeira que rodeava pedaço do terreno em que ele trabalhava com o feno, espalhando-o pela área. Por um breve momento refleti sobre o tom daquela conversa tranquila e despreocupada; quase natural. – O mais perto que vou chegar de uma vida de fazendeiro é matar uma galinha com facão num tronco.
- Essa eu queria ver.
- Eu não. – A careta se surgiu de forma involuntária. – Ouvi dizer que um frango viveu por mais de um ano sem cabeça. – Liam fez uma careta para mim. – Ouvir dizer, também, que depois que corta a cabeça dela, a galinha ainda realiza movimentos por uns...
- Que bom que seus ouvidos funcionam, . – Liam me interrompeu, enojado. Eu soltei uma risada e continuei.
- Existem vídeos delas correndo sem cabeça até caírem mortas.
- Droga, , acho que você acabou de me tornar vegetariano.
- Não seja tão molenga, Liam. – Ri. – Nós estamos no topo da cadeia alimentar.
- Agora não parece uma coisa tão boa.
- Não? Lembre-se das almôndegas que você comeu com seu macarrão ontem à noite. Geralmente funciona. – Mordi o canto da bochecha. – Mas tudo bem se você quiser parar de comer carne, é uma decisão sua.
- Obrigado. – Respondeu, achando graça.
- É uma boa mistura. Proteína e carboidrato. Apesar de ser uma digestão mais lenta, você também se sente mais saciado. Parece um bom plano, mas tem médico que acha que é ruim justamente por essa demora, já que muitas das pessoas que se interessam por esse pequeno detalhe são aquelas que querem perder peso, mas, ainda assim, eu li num jornal que...
- ! – Liam se virou para mim, parecendo exasperado, mas ele ria e balançava a cabeça. – Onde que desliga o seu botãozinho de falar? O que deu em você?
Rapidamente me recuperei do choque da interrupção e abri um sorriso, olhando em volta.
- Esse lugar é incrível. – Eu disse apenas.
- Eu nunca te vi assim. – Comentou, voltando ao trabalho.
- Eu sou assim. – Joguei minha cabeça para trás, tentando observar o céu, mas o tempo estava nublado e as nuvens formavam um lençol branco imenso que machucava minha visão. Voltei a olha para frente, encontrando Liam me encarando. – O que é? É verdade.
- E quem você é na outra parte do tempo? – Quis saber.
- Sou o reflexo do tempo daqui. – Suspirei. – Dias nublados nublam em mim.
- É uma pena que estejamos na Inglaterra. – Disse com solidariedade.
- Estou começando a me acostumar. – Abri um sorrisinho.

Harry entrou cozinha com mais uma bandeja cheia de pratos e copos, equilibrando-os de forma cuidadosa enquanto vinha até mim e depositava a louça na pia. Esbocei um sorriso sem dentes para ele.
- Só está começando. – Disse ele, descansando um pouco ao meu lado.
- É você quem está suando, Harry. – Observei, de gozação.
- E ainda assim as pessoas custam a acreditar que eu estou trabalhando! – Reclamou.
- Ah. – Soltei uma risada abafada. – Louis me disse que você ficou “com a parte mais fácil”. – Soltei o prato na pia e fiz aspas com as mãos molhadas.
- Boçal. – Revirou os olhos. – Eu ainda vou provar meu valor.
Não contive uma risada.
- Como? Vai deixar que eles fiquem sentados enquanto você os serve? – Brinquei, voltando à louça.
- Melhor. – Ele tinha um sorriso no rosto e não olhava para mim. Chegou mais perto como que para contar um segredo. – Eu vou pegar...
- Harry! – Rebekah irrompeu pela porta da cozinha chamando por ele, interrompendo o que quer que ele fosse dizer em seguida. – Precisamos de mais guardanapos!
- Pode deixar. – Disse e, antes de se desencostar do balcão ao lado da pia, piscou para mim como se dividíssemos um segredo. – Aguarde. – Prometeu para mim.
Ri comigo mesma enquanto voltava a lavar a louça com mais rapidez. A professora veio até a pia e despejou ali um pequeno pote cheio de facas para descascar e facas para vegetais. Ela sequer olhou para mim, apenas jogou ali como se fosse minha obrigação vitalícia lavar a louça daquele lugar; o que me deixou um pouco indignada, mas eu jurei que não ia deixar coisa pouca arruinar o bom humor que eu conservara até agora. Terminei de lavar a pilha de pratos que estava lavando antes e passei para as facas, concentrada para não me revoltar – os talheres eram sempre a pior parte de lavar louça para mim, por isso os lavava rapidamente.
- Ouch! – Guinchei quando, sem querer, enquanto passava a bucha pela extensão da faca, a lâmina cortou a base do meu dedo indicador da mão esquerda. Mordi o lábio para evitar um gritinho de dor quando meu corpo inteiro pareceu se dar conta do que havia acontecido e o machucado começou a latejar. Olhei ao meu redor à procura de algo que pudesse estancar o sangue e servir de curativo improvisado.
- O que é isso? – A professora apareceu ao meu lado e tomou minha mão, analisando o corte. Ninguém mais na cozinha parecia estar ciente do que estava acontecendo no cantinho da pia. Ela tirou uma flanela comprida do bolso do avental e enrolou na minha mão, depois deu um nó. – Dói? Consegue continuar?
Assenti com a cabeça. Não estava uma loucura ali, quero dizer, às vezes Harry vinha com mais louça, mas não era como se a quantidade de pessoas fosse aumentando o tempo todo, como num restaurante. Não, era um refeitório com um número fechado de pessoas, então, mais cedo ou mais tarde, tudo ficaria tranquilo.
- Preciso disso limpo. – veio rapidamente à pia e depositou um prato enorme branco na bancada da pia e saiu. Até com a voz de morte dela aquilo soava como uma ordem.
- Claro, com tanta educação assim, quem se importa de lavar? – Murmurei enquanto pegava a bucha para lavar o prato. Tentei segurar o prato com a mão esquerda com o máximo de firmeza e cuidada possível, mas o corte latejou novamente e o prato escorregou de minha mão, caindo dentro da pia, mas não quebrou, e o nó da flanelinha desatou e expôs o corte que ainda sangrava. – Merda. – Resmunguei e peguei uma ponta da flanela, tentando segurar a outra ponta com os dedos da mão esquerda, mas não estava conseguindo muito progresso.
- Pronto? – voltou, parando um pouco atrás de mim.
- Não. – Respondi, focada ainda no curativo.
- Eu preciso dele agora, . – Ela demandou.
- Tá, tá. – Bufei e deixei a flanela de lado. Enfiei minha mão embaixo d’água para lavar o sangue e quase morri quando começou a arder. Depois, voltei a pegar o prato, com mais cuidado ainda.
Eu não estava no meu melhor ritmo, mas com certeza estava fazendo um bom trabalho dadas as circunstâncias.
- , o suflê! – Alguém gritou.
- Pronto?! – brotou ao meu lado, fazendo-me pular de susto e desequilibrar o prato. Consegui segurá-lo, no entanto, por pouco tempo, pois, quando consegui retomar o controle, a borda fina do prato encostou bem na abertura do corte e, por reflexo, eu larguei o prato.
O único problema é que a pia não estava exatamente no mesmo lugar em que eu deixei o prato cair e aí ele se espatifou no chão entre eu e a .
- O suflê! – A pessoa repetiu, parecendo alheia ao prato em pedaços no chão.
Na verdade, pouca gente fez mais do que olhar e voltar aos seus afazeres.
- What the hell, ! – esbravejou.
- Me dá um tempo, ! Não tá vendo que eu me cortei?! – Levantei a mão à altura dos olhos dela, que não pareceu se comover muito.
- Achei que isso de se cortar era mais coisa da . – Zayn observou num tom debochado e provocativo, depois soltou uma risada, mas nós duas o ignoramos.
- Tá fazendo o que aqui se cortou a mão?! Seja profissional, pelo amor de Deus. – Bufou ela, olhando em volta.
- Profissional? Pelo amor de Deus digo eu! – Soltei uma risada de escárnio. – Isso aqui é uma gincana, . Não sei se reparou! Ou será que seus ácidos estão derretendo seu cérebro?
Ela parou de procurar o que quer que fosse e me cravou um olhar petrificante.
Rá, a perfeita representação da Medusa.
- Como é? – Deu um passo à frente, pisando os cacos de vidro, fazendo os pedaços soltarem um barulho horrível ao serem esmagados no chão.
- Ficou surda? – Dei um passo também, levantando o queixo para encará-la.
O sangue corria como lava por minhas veias (e para fora também, vale ressaltar, pelo corte na minha mão). Cerrei os punhos, quase indiferente à dor nos músculos já inchados ao redor do corte.
- Meu Deus, , vá procurar a enfermeira Josie. – A professora nos afastou. – Nada de pânico nem brigas na minha cozinha! Não foi nada, não é para tanto!
Com certeza não, mas “oh, vamos ser profissionais, por favor!”.
Rolei os olhos para e lhe dei as costas, indo em direção à porta dos fundos pisando duro. A adrenalina do confronto fora tanta que eu estava me sentindo paranoica, olhando para trás duas vezes a cada três passos para me certificar que a maluca não veio atrás de mim para tentar me ensinar a ser profissional.
- Ugh! Que ódio! – Grunhi para mim mesma enquanto fazia meu caminho tortuoso em direção à casa principal.
Ótimo. Arruinou meu humor.


Harry’s POV
- Ei, cuidado com isso aí. – O instrutor que tomava conta de nós pediu, me olhando com cara feia. Ele sinceramente achava que eu não tinha capacidade de carregar uma bandeja de copos?
Revirei os olhos e bufei, vendo mais à frente organizando os guardanapos ao lado de cada prato em uma das grandes mesas do refeitório.
- Ei , olha só – chamei e ela me olhou por cima do ombro enquanto eu jogava o pano de prato no ombro e com a outra mão levantava a bandeja dos copos, a segurando perto da altura da cabeça com a palma da mão. – Fala sério. Eu não poderia ser um barman? – Sorri para ela chegando ao seu lado e começando a soltar os copos de um a um em frente a cada prato.
Ela riu, concordando com a cabeça.
- Com certeza, Harry. Mas tome mais cuidado com isso, mesmo, eu tenho certeza que eles podem te cobrar por qualquer coisa quebrada.
A olhei brevemente e fiz um bico, nem ela acreditava na minha capacidade. Qual é, até um macaco sabia fazer aquilo. Olhei para o resto do enorme refeitório, todas as outras mesas estavam praticamente prontas como essa e Rebekah terminava de arrumar os talheres em uma mesa afastada dali. Eu, ela e éramos os únicos mais próximos que ficamos com aquela tarefa da organização. e outros dois garotos que estavam na cozinha traziam porções de salada para dispor nas mesas. No canto onde estavam os carros de buffet onde as comidas eram expostas, o resto do pessoal da cozinha trazia as comidas em grandes panelas e as largavam dentro das bandejas, tampando em seguida para manter o calor. Aquele cheiro já estava fazendo meu estômago ganhar vida própria.

O relógio marcava dez para meio dia e logo o sino do almoço soaria, e aquele lugar estaria cheio de gente. Enquanto terminava de trazer os copos da cozinha, eu pensava em minha equipe que tinha sérias chances de ganhar, de acordo com as apostas, pelo menos. O negócio estava acirrado entre a nossa e a equipe azul, e eu mesmo havia colocado minhas dez libras no negócio esperando que aquilo nos trouxesse sorte. Aquilo definitivamente valia uma viagem a Paris com tudo pago, mesmo que as únicas pessoas mais próximas de mim na equipe vermelha fossem Zayn, e . Pelo prêmio eu até faria novos amigos, pensei rindo fraco comigo mesmo.
- Tudo pronto por aqui?
Assenti para quando terminei de arrumar os copos.
- Só preciso trazer mais três que faltaram naquela mesa... – apontei e a olhei de volta. – Damos uma bela equipe, toca aqui. – Levantei a mão no ar e ela riu e correspondeu meu high five.
- Eu vou lavar as mãos para almoçar, estou faminta. – Comentou, apontando para o banheiro mais ao fundo do salão, já se afastando. Aproveitei enquanto arrumava uns detalhes para notar que Rebekah agora estava no canto do buffet, flertando descaradamente com o nosso instrutor diga-se de passagem, pois aquele sorrisinho no seu rosto era inconfundível. Ri fraco, observando um pouco a cena. Aquela garota era linda, gostosa, e sabia usar o seu corpo até da maneira mais simples, o que a fazia parecer bem o tempo todo. Mas isso foi algo que só me passou na cabeça por um segundo, quando imaginei que tipo de pessoa Rebekah era de verdade por trás da máscara de “groupie”. Porque eu não a conhecia, e duvidava que alguém ali a conhecesse também. Mas aquilo não era bem um problema meu, era? Cada um tem seus hobbys, e se aquele era o favorito dela, quem era eu para me meter.
Parei de enrolar e fui para a cozinha pegar os três copos que faltavam, e parei ao lado de em uma das pias que havia ali.
- Preciso de mais três, você lava para mim?
- Sim – ela disse, indo pegar mais três copos em uma das diversas portas do armário aéreo que forrava toda uma parede da cozinha. Me encostei na pia enquanto isso e olhei em volta, havia uma boa equipe na cozinha, onde grande parte era do meu time, o vermelho. Zayn estava lá, juntamente com , e ambos almoçavam junto com boa parte do resto das pessoas que estavam na cozinha em uma mesa disposta ali só para eles, já que durante o almoço para o resto das pessoas, eles precisavam trabalhar.
voltou com os copos que eu pedi e, ao solta-los na mesa para passar uma água, um deles escapou da sua mão caindo dentro da pia e quebrando em dezenas de pedaços. Ao mesmo tempo em que ela xingou eu pulei um passo para trás para me esquivar de qualquer estilhaço de vidro, e senti o olhar de todo mundo na gente.
- Tudo bem aí? – Uma das professoras que estava supervisionando a cozinha perguntou.
- Sim, sim! Foi só um copo, escapou da minha mão. – respondeu rápido, acalmando a professora que voltou ao que fazia com outra aluna em uma das panelas no fogão.
Me aproximei de novo a vendo xingar mais uma vez e ligar a torneira, colocando a mão debaixo da água corrente. Vi um pouco de sangue descer pelo ralo e fiz uma careta.
- Caramba, ! – Peguei o pano de prato pendurado na minha frente em cima do escorredor e me aproxime dela a afastando um pouco da pia. – Foi fundo?
- Shh! – Ela me olhou, olhando para a professora por cima do ombro em seguida. – Não foi nada, não precisa fazer um escândalo.
Levantei as mãos brevemente antes de puxar sua mão da baixo da água e pressionar o pano em cima do corte.
- Tá doendo?
- Não, foi só um cortezinho. – Ela negou, segurando o pano sozinha quando eu soltei. – Pega umas pedras de gelo ali? – Apontou com o queixo para um freezer do outro lado da cozinha e fui até lá, abrindo a tampa e sentindo o ar gelado bater em mim. Peguei um saco de gelo pequeno que já estava pela metade o levando até a pia e tirando umas pedrinhas, colocando dentro do pano que ela abriu, e depois fechou fazendo uma trouxinha para por em cima da mão. – Obrigada.
- Tudo bem. – Dei de ombros, olhando sua mão por um momento. – Tá sangrando ainda?
me mostrou o corte tirando o pano de cima brevemente, mas era mesmo pequeno e já estava fechado.
- Vai sobreviver – brinquei e ela sorriu fraco, concordando. Até que quando ninguém estava vendo parecia legal. Quer dizer, nós nunca havíamos trocado muitas palavras, mas tínhamos amigos em comum... se é que dá para chamar ela e o Liam de amigos. Mas ela e o Louis definitivamente eram algo próximos a isso. Peguei os cacos de vidro de dentro da pia os colocando no lixo para ela depois peguei os copos que eu precisava levar ao refeitório.
- Qualquer coisa grita, falô? – Disse antes de sair dali, e ela me olhou assentindo.
- Obrigada, Harry.
Pisquei para ela saindo da cozinha bem quando o sino soou. Aproveitei enquanto ninguém ainda havia chegado e fui ao banheiro, saindo um tempo depois com o local já lotado de gente e barulho, diferente de dois minutos atrás.
Peguei um prato que estava sobrando no canto de uma mesa ali perto e fui me servir no buffet. Depois procurei por meus amigos nas mesas, sendo logo atraído por um dos locais mais barulhentos do refeitório, e encontrei Liam e Josh, seguidos de Louis e . Ao seu lado estava Lance e uns dois caras da nossa equipe e que também eram do time dele na escola, e precisei respirar fundo antes de ir até lá.
Não era ciúme... Mas resolveu brincar de namoradinho justo com o cara com quem nunca nos demos bem em todo esse tempo no St. Bees. Era uma piada de muito mal gosto. Mas eu estava farto de ouvir deboches dos caras, então precisava parar de me preocupar com aquilo. Caminhei até lá com isso em mente e sentei ao lado de Josh, no final da mesa, pegando o final de alguma piada que fez todos rirem.
- E aí, cara. – Josh me olhou.
- Eu disse – Liam falou a ele, me olhando por trás das costas de Josh. – Ele tá só na moleza.
- Quem, eu? – O olhei. – Cara, eu tô aqui arrumando essas mesas desde o ano passado!
- Você sabe quantos malditos cubos de feno eu carreguei só na última meia hora?
- O que foi, Liam, a vida de fazendeiro não tá as mil maravilhas pra você? – debochou fazendo um beiço para ele.
- Fica quieta, você e o Josh só comem minhoca! – Ele xingou, a lançando um guardanapo.
- Cara, comer já é exagero. – Louis disse de boca cheia. – Eu tenho terra debaixo das unhas pra tapar um caixão.
- O ponto é que, como sempre, o privilegiado ficou com o mais fácil! – Ele voltou a dizer erguendo a mão para mim indignado.
Eu ia responder, quando Josh se meteu na frente.
- Mas tinha que ser assim, o que mais o cérebro do Harry ia saber fazer? – Deu de ombros fazendo o resto deles rirem.
Entendi que foi uma piada, mas agora eu estava puto. É sério? Estava todo mundo achando que eu ficava ali comendo na cozinha enquanto eles trabalhavam?!
- Vai a merda, Josh! – Xinguei, o olhando indignado. – Ontem eu e a pegamos umas trezentas farpas na mão de colocar aqueles bancos pra arquibancada do jogo!
- Ai, coitadinho! – Respondeu rindo de mim enquanto Liam fazia barulho de choro.
Definitivamente naquele dia eu não estava no clima para as brincadeirinhas infantis daqueles caras. Era tudo uma brincadeira para eles? Pois bem, para mim foi pessoal. Harry era sempre o inútil. Como se precisasse de muita inteligência para cavar na terra ou carregar mato.
Ignorei suas vozes em volta de mim enquanto almoçava e pensava em um jeito de provar que não era inútil.





Continua...




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Nota da autora: Nota das autoras:

Laís: Gente... e a minha paixão por esse capítulo? E a minha paixão por ZASSIE?????! Não to bem! Estou ansiosíssima pelo próximo cap, onde vai ter ainda mais emossaum com essa galera. Já prometo pra vocês, assim, de cara, que vai ter um mega momento da e do Harry, que é pra vocês não me xingarem muito no Twitter depois que leram essa primeira parte. O próximo sai loguinho, prometo, então comentem e digam o que estão achando!!
Maria: Bom dia, boa tarde, boa noite! Espero que relevem a demorinha, pois essa parte é bem cheia de detalhes e de mimos e por isso levamos mais tempo pra escrever. E aí, gostaram? Cara, esse capítulo do acampamento promete muito e vocês não perdem por esperar! Essa galerinha do barulho vai aprontar demais na telinha da sua TV! (Hahahah) Enfim, quais suas apostas para a outra parte? Será que vai ter beijo? Será que vai ter declaração? Será que vai ter tapa? Será que esse monte de mato vai atrapalhar a galera? Quem será que vai ganhar a gincana? Ah, e aquele momento Gossip Girl no início do capítulo?, o mundo adolescente é cruel, né? Enfim, esperamos que tenham gostado e nos contem o que acham que vai acontecer! Xo OBS: no Tumblr onde também postamos a fic, a pedido das leitoras nós começamos a adicionar uma pequena nota antes de cada capítulo relembrando o que aconteceu no último. Vocês gostariam disso aqui no FFOBS também, para não precisar reler o último para lembrar de tudo? Por favor, respondam aqui embaixo!


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Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






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