Última atualização: 12/08/2017

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Capítulo 22

>Esquema das equipes e tarefas do acampamento.<
Niall’s POV
- Hidratar. – Falei à Cookie, despejando água fresca no cocho vazio. Ela não se moveu por algum tempo, mas depois se colocou de pé e veio beber. A ovelha parecia realizar um esforço tremendo para se mover de lá para cá; tanto é que ficou menos tempo no pasto hoje. – Boa garota. – Torci o nariz um pouco, ainda mal acostumado ao cheiro da baia e da ovelha.
Já era hora do almoço, tanto para Cookie quanto para nós, humanos. já havia ido há algum tempo, deixando-me com os últimos cuidados da ovelha antes da gincana, que aconteceria nessa tarde. Tirei as luvas grossas e as joguei em um canto, sem prestar muita atenção ao que fazia. Pensava mais sobre a conversa que tivera com mais cedo, sem saber ao certo o que me levou a fazer as pazes.
Talvez eu não me ajustasse à realidade de ter uma garota como ela interessada por mim. E não que fosse surgir algo disso, até porque aquela aposta arruinou qualquer chance de ter, ao menos, uma amiga em . E talvez eu soubesse também que não seria uma boa coisa tê-la como inimiga. Essas eram as razões óbvias, claro. Mas, no fundo, eu só não queria admitir que eu havia ferido alguém para conseguir o que eu queria.
Por toda minha vida eu aprendi que se deve batalhar pelo que se quer, mas sem perder a integridade – minha mãe me ensinou isso.
De alguma forma, eu havia perdido um pouco daquilo com aquela atitude.
- Você é quem tem sorte, Cookie. – Falei à ovelha, que parou de beber sua água. – Não tem que fazer decisões, pensar em coletivo. – Suspirei, apoiando-me à porteira da baia. Ela olhou para mim brevemente antes de voltar a se deitar sobre o feno. – Até amanhã. – Despedi-me.
Saí do celeiro e fui em direção ao refeitório, que tinha uma porta lateral que dava acesso ao gramado e, depois, ao celeiro e ao pasto. Eu já estava atrasado e torcia para ainda ter comida, pensando em quem poderia me arranjar comida caso já não tivesse chance. Talvez Harry pudesse me ajudar.
Falando nele, no momento em que pensei nele, Harry saiu pela porta lateral e seguiu pelo caminho que ia dar no jardim. O cara parecia soltar fogo pelas ventas e determinado ao mesmo tempo. Franzi o cenho para a cena, mas não me preocupei tanto, já que Harry parecia ser um cara um tanto difícil de lidar às vezes. Portanto, perguntaria o que aconteceu aos meninos.
- Boa noite, cara! – Louis me cumprimentou quando eu me sentei à mesa que o resto da banda estava sentado. Abri um sorrisinho de lado e comecei a comer. – Precisamos falar sobre hoje à noite.
- Já falamos sobre isso ontem, não? – Perguntei de boca cheia.
- Acho que poderíamos nos encontrar mais cedo para começar a arrumar o palco. – Liam recostou-se à sua cadeira e cruzou as mãos em cima da barriga.
- Ok. – Dei de ombros.
- Então precisamos ser rápidos com a gincana. – Louis continuou.
- Mas não achem que por isso vou dar menos de mim na competição. – Liam apontou para mim, Louis e Josh, com um sorriso presunçoso e um ar competitivo.
- Faça o que quiser, Payne. Só não ache que vamos pra cama com você por ter ganho uma maldita gincana. – Louis revirou os olhos.
Liam soltou uma risada alta.
- Qual é, cara, que culpa eu tenho de ser tão irresistível? – Abriu os braços. – Ganhar a gincana é só pretexto para as garotas virem falar comigo, não ao contrário.
- Se é assim, então perca e veja se sua horda de fãs continuam te amando. – Josh brincou.
- Elas gostam é do que tem por dentro, dude. – Liam brincou de volta, jogando uma bolinha de guardanapo no amigo.
Soltei uma risada também e voltei a comer.
- Aonde o Harry foi? – Perguntei, lembrando-me da cena que vi mais cedo.
- Dar chilique em algum lugar. – Liam respondeu.
- Malik! – Louis chamou Zayn quando ele passou por nós. – Uma hora mais cedo hoje.
- Mais uma hora? – Arqueou uma sobrancelha. – Vocês são umas lesmas. – Alfinetou, rindo um pouco, mas havia algo diferente no tom de voz dele. Na verdade, ele parecia até um pouco simpático.
- Não fode, Malik. – Louis riu um pouco.
Zayn nos cumprimentou com a cabeça e seguiu caminho, deixando-nos com cara de bobos.
- Vocês acharam isso esquisito? – Perguntou Josh.
- Completamente. – Liam arregalou os olhos.
- Ele deve ter comido alguém ontem à noite. – Josh concluiu. Olhei para ele, enrugando a testa. – Você ficaria surpreso sobre como melhora a vida, cara.
- Como se você soubesse disso. – Louis riu da cara do amigo.
Ri junto quando Josh fez cara de bravo e começou uma guerra discreta de batata frita com Louis.
Continuei comendo enquanto acompanhava a evolução da conversa idiota deles, tocando de vez em quando na apresentação de hoje. Avistei andando pelo refeitório para lá e para cá, recolhendo pratos, levando-os para a cozinha, trocando os recipientes onde ficavam as comidas. Eu queria falar com ela, dizer que queria me desculpar, novamente, pelo que causei, pois sabia que havia machucado não somente , mas também e, honestamente, nenhuma das duas mereceu o que estava por vir.
- Hey. – Uma garota se aproximou com um sorriso no rosto. Liam sorriu de volta para ela enquanto Louis e Josh combinavam uma pausa mútua com gestos. – Precisamos de alguém que possa fazer a corrida de ovos cozidos. – Olhou para mim e para Louis. Em seu pulso estava amarrada uma fita amarela, sinalizando sua equipe, a nossa equipe.
Louis fez uma careta de desinteresse, parecendo cansada ou indisposto. Ela então se virou para mim.
- E aí? – Insistiu. – Vai começar em cinco minutos! Ou vamos perder de WO. – Fez um biquinho.
Ela estava jogando charminho em cima de mim?
Dei de ombros e tomei um último gole do refrigerante. Então me levantei e andei com a garota até o gramado onde estavam arrumando a prova.

’s POV
- Meu Deus, eu deveria chamar uma ambulância?! – Louis se jogou no banco ao meu lado no exato momento em que eu levantei o curativo para olhar o corte em minha mão. Olhei para ele, divertida, e soltei uma risada breve.
- Ligue logo para a funerária, pois estou morrendo. – Acrescentei, fechando novamente o curativo.
- Nah, podemos te enterrar por aqui mesmo. – Acenou com a mão, simulando descaso.
- Demais! Sempre achei que eu daria uma boa comida de planta!
- Droga, não tenho resposta para essa! – Louis soltou um muxoxo de tristeza.
- Na próxima você vence. – Esfreguei seu ombro com a mão não machucada. – E aí, por que você não está lá tentando achar o dado com a boca nos baldes com farinha? – Indiquei com a cabeça a competição que acontecia no gramado atrás da grande casa, não muito longe de nós.
- Acho que essa coisa de glúten não faz muito bem para a minha pele. – Passou as mãos nos cabelos, arrumando-os dramaticamente. – E você?
Levantei minha mão enfaixada na altura de seus olhos.
- Você usaria a boca se estivesse lá, isso não é desculpa. – Observou.
- Não enche, parecia a desculpa perfeita na hora. – Rolei os olhos. – O que não cola é a sua desculpa.
- Ei, glúten é coisa séria, viu? Você devia se informar.
- Com certeza. – Ri. – Vou colocar na minha lista de coisas a fazer com urgência.
- Isso, muito bem, salve sua vida. – Disse ele, sério. O que só me fez rir mais de sua expressão e logo fui acompanhada por ele. – Você devia sorrir mais, é definitivamente uma qualidade sua.
O elogio me pegou de surpresa, fazendo-me ficar um pouco sem reação e sem graça.
- Ahn... Obrigada. – Sorri. – Você continue sendo assim, pois é, definitivamente, uma qualidade sua. – Devolvi o elogio.
Ele agradeceu e ficou olhando a competição em silêncio, observando tudo com um pequeno sorriso no rosto.
- Você está pronta? – Perguntou de repente.
- Para quê?
- Quando isso acabar. – Indicou a competição.
- Ah. – Olhei também. – Não sei exatamente o que eu deveria sentir ao ver essa cena. – Arranquei de Louis uma risadinha.
- Quando a escola acabar e tivermos que encarar aquilo que o futuro nos reservou.
- Não diria que estou pronta. Acho que ninguém nunca está pronto para o que vem no dia seguinte, mas diria que estou disposta a descobrir, com certeza.
Ele desviou o olhar para mim e eu o olhei também, curiosa.
- O que é? – Eu quis saber. Vi um sorriso estampar seu rosto e tive que sorrir também, um pouco maravilhada com o jeito encantador dele. – O que é? – Minha voz saiu mais alta e eu toquei seu ombro, balançando-o.
- Você devia colocar essa frase no seu anuário. – Sugeriu. – Isso é inspirador.
- Existe um monte de frases feitas para esse tipo de coisa. – Desconversei. – Eu devia colocar algo mais descolado tipo... You only live once. – Franzi o cenho, fazendo-o rir.
- Ou alguma frase dos Beatles. – Sugeriu e eu concordei. – Clássico.
- Não pode faltar! – Ri. – Qual vai ser a sua?
- I’m a survivor, I’m not gon’ give up. – Cantarolou, fazendo caras e bocas, imitando a Beyoncé.
- Se existisse um prêmio para frases motivacionais de anuários, ele seria seu. – Declarei, balançando a cabeça, tentando não rir de sua imitação tosca.
- Seria uma honra, sem brincadeira. – Colocou a mão no peito. – Minha mãe ficaria orgulhosa.
- Sem sombra de dúvidas. O filho dela é um sobrevivente; com notas medianas e tudo mais.
- Nem tudo pode ser perfeito, eu admito. – Encolheu os ombros. – Mas pelo menos não repetiremos o ano, procede?
- Procede. – Bati continência. – E uma banda no currículo.
- A melhor parte, se me permite dizer.
- Vocês estão mesmo gostando disso, né?
- Mais do que eu deveria, com certeza.
- Está pronto para a apresentação de hoje?
- Eu nasci pronto. – Riu, mas, no fundo, não convencia. Balançou a cabeça negativamente, como que espantando alguns pensamentos e olhou as horas no celular. – Eu tenho que ir. A horta me chama.
- Ah, é você quem cuida da horta? – Apontei para ele. – Isso explica os tomates podres.
- Rá, rá. – Revirou os olhos, rindo. – Saiba que é o Josh quem tem mão podre.
Soltei uma risada.
- Ok, seu segredo está seguro comigo, Buddy. – Pisquei para ele, que riu um pouco e se colocou de pé e me deu um beijo na bochecha antes de ir para a horta.
Levantei-me também do banco e entrei na grande casa, indo em direção à escada que dava acesso aos quartos, disposta a passar o resto da tarde descansando – tomar alguns analgésicos para ver se aliviava a dor que tomava minha mão. Haviam alguns meninos fazendo bagunça na sala de jogos, gritando enquanto se podia ouvir o barulho de um jogo de futebol vindo de lá. Sorri um pouco, achando graça da paixão universal que era o futebol. E, depois, sorri por estar curtindo aquele bom humor. Fazia tempo que eu não me sentira assim e mesmo o incidente mais cedo com não estragou tanto meu humor assim.
Entrei no quarto vagarosamente, aproveitando cada segundo da paz que dominava aqueles corredores.
Quando deitei na cama, logo após tomar um comprimido de analgésico, a porta do banheiro foi aberta e Rebekah saiu de lá vestindo apenas uma saia e sutiã. Contive a vontade de revirar os olhos e os fechei para tanto, certa de que se eu não falasse com ela, ela não falaria comigo.
Era um bom plano.
- Sabe... – Começou, enquanto eu podia ouvir seus passos pelo quarto. – Você nunca me ajudou com aquela noite com Liam.
Abri os olhos quando ouvi o nome de Liam.
Ela não podia estar falando sério. Eu podia jurar que ela conseguira entrar nas calças dele por conta própria.
- Isso faz muito tempo. – Observei, olhando brevemente para ela.
- Sim.
- E você nunca conseguiu ficar com ele? – Arqueei uma sobrancelha.
- Eu fiquei ocupada no processo. – Desconversou, abanando a mão no ar enquanto procurava uma blusa na mala em cima do baú de madeira no pé de sua cama.
Uau, e eu achando que não podia ficar melhor.
- Hm, isso é realmente uma pena. – Falei, voltando a fechar os olhos.
- Sabe, eu não entendo sua relutância em me ajudar a ficar com seu irmão. – Ela enfatizou o grau de parentesco de uma forma tão indiscreta, que tive que olha-la de novo.
- O que você quer dizer com isso? – Perguntei, sem rodeios. A única forma de saber o que Rebekah queria dizer era perguntando a ela o que diabos ela queria dizer.
- É estranho. – Encolheu os ombros, fingindo descaso, mas seu sorrisinho entregava.
- Seja lá o que você estiver supondo, você está errada. – Assegurei, sentindo um bolo se formando em minha garganta.
- Whatever, , mas você continua não me ajudando aqui.
- Que obsessão é essa? Por que eu que tenho que te ajudar a transar? – Sentei-me na cama, indignada.
- Pela ironia, . É poético. – Ela abriu aquele sorriso devasso dela.
Mais uma vez, contive a vontade de revirar os olhos para ela. Respirei fundo, preparando-me para o que ia dizer em seguida:
- Eu posso falar com ele, mas não garanto que alguma coisa vá, de fato, acontecer. – Falei, disfarçando o desconforto em minha voz.
Rebekah riu.
- Deixe o assunto de adulto para os adultos. – Piscou para mim e se dirigiu à porta, mas se deteve antes de sair. – Ah, sou mulher de palavra. – Anunciou. – Eu te devo uma. – E saiu.
Ah, com certeza você me deve uma.




’s POV
- Sim, essa vai ser a do meio do circuito... depois dela vem a do Chance, e aí terminamos com...
A voz de Louis soava em minha cabeça há algum tempo, entrando por um ouvido e saindo por outro, como plano de fundo. Eu não ouvia realmente uma palavra do que ele e Josh comentavam um em cada lado meu, enquanto estávamos ajoelhados na terra cavando buraquinhos e enfiando sementes de tomate neles. Minha mente estava longe dali, divagando por coisas que não importavam, e aquele era provavelmente meu primeiro momento de sossego naquele dia, que começou com uma partida de voleibol com o time amarelo de manhã antes do almoço.
Era quase fim de tarde, e estávamos em um grupo de mais ou menos quinze alunos. Enquanto uns plantavam umas sementes de vegetais, os outros passavam adubando e molhando a terra em que foram plantadas, e estávamos quase no final daquele serviço. Eu sabia, pelo pouco que havia pegado da conversa dos dois garotos, que eles falavam sobre a apresentação da banda hoje à noite. Estava curiosa sobre como aquilo seria, pela empolgação deles eu esperava que desse tudo certo, e queria ver logo o resultado.
Logo após a apresentação deles ocorreria a fogueira do acampamento, ponto alto daquele evento todo ano. Nós nunca viemos, mas sempre ouvimos histórias das coisas mais bizarras que aconteciam nesse dia. Gente sendo expulsa por trazer bebida, gente se perdendo no meio do mato depois de ir se pegar com alguém em alguma árvore... E tudo que eu conseguia pensar sobre aquilo, era em como faria para ter certeza de que ninguém na equipe azul havia trazido ou – o que era mais fácil – seria pego por trazer bebida para a fogueira. Eu não arriscaria perder pontos por causa desse tipo de coisa. Talvez se eu conseguisse fazer uma...
- E aí, . – Ouvi Liam me cumprimentar antes de se abaixar para falar com Louis e Josh, e apenas assenti para ele voltando aos meus pensamentos enquanto fazia buraquinhos na terra. – Martin disse que vocês estão dispensados da tarefa para virem ajudar a montar o palco e passar o som.
Uma reunião com a equipe seria uma boa. Mas como fazer isso antes da fogueira começar? Depois da apresentação dos garotos seria uma zona, eu não ia conseguir juntar todo mundo, e...
- ... Saiu depois de meio dia dizendo que ia procurar não sei o quê pra equipe dele, e não o vi mais. – Liam respondeu para alguma pergunta de um dos garotos.
- Ah, é, ele saiu resmungando da mesa do almoço dizendo que não era um inútil.
- Mas a gente não devia procurar ele? – Josh indagou, e segui seu olhar até Liam, que deu de ombros.
- Vocês sabem como ele é, logo mais aparece. Deve estar comendo alguém em algum lugar. – Soltou uma risada.
- O que foi com o Harry? – Perguntei, me metendo no assunto.
- Sumiu. A gente não vê ele desde meio dia. – Liam explicou. – Mas eu tenho certeza que ele está por aí fazendo algum...
- Ele foi buscar a planta. – O cortei, batendo as mãos para me livrar da terra e levantando. – Eu sabia que ele estava estranho. – Comentei comigo mesma e olhei para Louis. – Como vão achar ele?
- O quê? – Louis me olhou como se eu estivesse falando grego. – Ah, logo mais ele aparece aí, você sabe como é o Harry.
- Ele foi procurar a planta da tabela, que vale mais pontos. Ele disse no almoço que não era inútil, e vocês ficaram zoando ele. – Expliquei. Na minha cabeça aquilo era tão obvio para eles como era para mim.
- Mas ele é inútil – Liam deu de ombros, olhando de canto para Louis e rindo. – Qual é, , não se estressa... Ele só tá dando uma de Harry. Aposto que isso é pra chamar a atenção. Ele deve estar deitado debaixo de uma árvore por aí. – Ele apontou para algum lugar.
- Vocês não conhecem o Harry? – O olhei, e em seguida para Louis e Josh. – Porque eu conheço, e sei o que ele está fazendo. Ele foi provar que pode fazer isso para curar o ego ferido dele. Foi procurar a planta. Lá na floresta. Sozinho! – Os expliquei, me frustrando quando não vi no semblante deles a preocupação que eu queria ver.
- O idiota se perdeu. – Louis concluiu, um momento depois.
- Quer dizer que ele não vai voltar a tempo para a apresentação? – Liam perguntou, agora com um fio de preocupação. Revirei os olhos.
Que se dane aquela apresentação! Harry era um bebezão, ele podia ter se metido em encrenca. Podia ter se machucado, caído, não sei. E ele ainda era alérgico a abelhas!
- Ai, droga. – Levei uma mão ao rosto afastando uma mecha de cabelo da testa ao pensar nisso. Bati a terra das minhas calças e passei pelo meio dos garotos. – Eu vou procurar ele.
Entrei na fila de pessoas esperando para lavar as mãos em uma torneira que havia ali perto, ao lado do curral, e enquanto isso olhei em volta para tentar imaginar por onde ele devia ter ido. Havia um local aberto com poucas árvores por onde os grupos de alunos estavam entrando e saindo da floresta para procurar as plantas, e provavelmente ele entrou por lá. Lavei as mãos e as sequei na blusa mesmo, indo para lá em seguida e olhando em volta, só para me certificar de que ninguém ali perto me daria uma bronca por estar entrando no meio das árvores sozinha.
Caminhei seguindo a trilha por um tempo, mas já não havia ninguém ali. Quem devia estar procurando ele eram os garotos, eles que precisavam de Harry. Mas ele era meu amigo, e pelo que eu conhecia de Harry, tinha quase certeza que ele estava perdido.
Droga, Harry.
- Provavelmente você precisa sair da trilha para se perder – pensei comigo mesma, falando sozinha. Passei a mão no cabelo e, então, virei para o lado contrário ao de onde a trilha corria, saindo dela e olhando em volta enquanto caminhava meio às cegas, sem saber exatamente para onde ir. Em certo momento ouvi um estalo no chão atrás de mim e olhei para trás, procurando por alguma pessoa ou animal.
- Harry? – Tentei, mas não havia ninguém ali, então continuei andando. Caminhei mais alguns passos e ouvi o barulho novamente, olhando para trás. Nada. Ok, aquilo era meio estranho. – Oi? – Chamei novamente.
Pelo menos eu tinha um consolo, caso aquele fosse um filme de terror. Eu definitivamente não fazia o tipo da garotinha idiota que morria primeiro. Ri fraco comigo mesma e balancei a cabeça, virando para frente para continuar a andar, mas algo caiu de cima bem na frente dos meus olhos me fazendo pular. Olhei para baixo, para onde a coisa havia caído e vi um cacho de amoras no chão em frente aos meus pés, rolando para onde o terreno descia.
- ? – Ouvi a voz de Harry chamar e olhei para cima. E lá estava ele, sentado num galho não muito alto de uma árvore. – O que você tá fazendo aqui?
- O que você tá fazendo aí, Katniss? – Balancei a cabeça para ele, franzindo o cenho, e levei as mãos à cintura.
- Olha o que eu achei! – Ele abriu um sorriso e deixou outro cacho de amoras cair próxima aos meus pés, que também rolou para onde a descida caía. – Quer umas?
- Hum, não, valeu. – Comentei, olhando do chão para ele novamente. Ao vê-lo lá em cima com aquele sorriso de quem acabou de encontrar uma mina de ouro precisei rir também. – O que você faz aqui?
Harry fechou a cara.
- Eu vim procurar aquela planta estúpida, mas tudo aqui é verde e igual.
- É porque estamos numa floresta. – Precisei comentar, e quando o olhei ele estreitou os olhos para mim levantando uma mão que segurava umas amoras, ameaçando me acertar. Precisei rir.
- Vem, Harry, desce daí. Os garotos estão te procurando. – Pedi, me aproximando da árvore onde ele estava e me escorando no tronco. O olhei e vi a expressão do seu rosto mudar para um tanto confusa.
- Mas não foi difícil de me achar, e eles sabiam onde eu estava indo... – Então sua expressão mudou outra vez, para algo mais suave, que eu não pude reconhecer, e ele se escorou no tronco atrás de si. – Você estava preocupada comigo? – Sorriu de canto, me fazendo soltar o ar e olhá-lo, incomodada.
Eu não soube responder de início.
- Você é alérgico a abelhas. – Soltei a primeira coisa que passou pela minha mente, e depois franzi o cenho balançando a cabeça confusa comigo mesma. – Eu só... Você é meio burro, Harry, é claro que eu me preocupei. Já fazia tempo que ninguém te via.
Ele riu fraco, não parecendo se preocupar com a ofensa, e se desencostou da árvore olhando para baixo e balançando as pernas.
- Sobe aqui comigo. – Convidou.
Fiquei parada por um tempo, o olhando, escorada na árvore.
- Você não acha que já tá na hora de voltar, Pocahontas?
- . Sobe. – Ele mandou, e depois acrescentou: - por favor. – Abriu outro sorriso, e se segurou no tronco da árvore abaixando a outra mão e me oferecendo.
Suspirei pesadamente, balançando a cabeça.
- Só porque você pediu carinhosamente – brinquei, me segurando no tronco e então apoiando um pé em um dos galhos mais baixos, e segurando a sua mão. Harry me puxou para cima e eu subi no tronco em frente a que ele estava com facilidade, sentando lá e me apoiando com o pé no galho de baixo.
Balancei uma perna no ar e então olhei para frente, percebendo o quão mais bonito era ali em cima, por mais que não fosse tão alto. Embaixo o chão era completamente coberto por folhas secas, e ali àquela altura, tudo à nossa volta era meio verde, meio amarelado, e se balançava fraquinho com o vento. Parecia um labirinto de folhas. Depois de olhar por um tempo em volta eu olhei para Harry, e senti meu rosto esquentar um pouco ao perceber que ele estava me observando. Engoli em seco e lembrei do que estávamos fazendo ali.
- Exatamente quando foi que você desistiu de achar a planta...?
- Há um tempo, quando eu percebi que não sou bom nisso.
Não pude evitar rir, e Harry me olhou com um bico.
- Mas, ei, eu achei amoras! – Abriu os braços e olhou para cima, onde um monte de frutinhas roxas estavam penduradas acima das nossas cabeças. Sorri e ele voltou a me olhar. – Você acha que eu sou um inútil? – Suspirou, encostando a cabeça no tronco da árvore novamente.
- Não... – Ele me lançou um olhar. – Mais ou menos. – Fiz uma caretinha. – Mas você é assim, Harry. É quem você é. A gente já acostumou.
- É... – ele concordou, meio de mal gosto. – Valeu por vir me procurar. Aqueles imbecis não vieram.
Ri fraco, revirando os olhos. No fim ele queria mesmo chamar a atenção, como previmos.
- Tudo bem. – Me aproximei e toquei a sua perna. – Mas agora... vamos? A gente nem devia estar sozinhos aqui.
Harry olhou para minha mão em sua perna, e no momento senti que precisava tirá-la de lá. Ele subiu o olhar para o meu rosto, e vi sua expressão mudar para algo parecido com surpresa, que me deu medo.
- O quê? – O olhei assustada, sentindo seus olhos em meu ombro. – O que foi, Harry?
- , não se mexe. – Pediu, e por dentro do meu corpo senti um arrepio percorrer, gelando meu sangue.
- É uma aranha?!
- Não. Se. Mexe. – Ele se movia devagar, abrindo as mãos no ar para mim, ainda com os olhos em meu ombro.
- Meu Deus, Harry, tira! Tira, Harry! – Pedi, começando a me desesperar, sentindo algo andar em meu ombro. – Ai, meu Deus! – Fechei os olhos, começando a me debater.
- Para quieta! – Ele pediu, segurando os meus braços, mas eu já estava em pânico, e não adiantou muito Harry me segurar. O que aconteceu foi o seguinte: eu continuei me debatendo, perdi o equilíbrio e caí do galho, e levei Harry junto. Senti as folhas no chão amaciarem um pouco minha queda, e logo Harry caiu sobre mim e rolamos um pouco com a descida do terreno ali.
Quando finalmente parei de rolar eu continuei me debatendo, meu ombro, meu cabelo meu braço, meu corpo todo. Só em pensar em uma aranha andando em mim eu quase sentia meu coração pular para fora do meu corpo pela boca.
- ! ! – Harry chamou, segurando meus braços, e me fazendo parar de dar tapas em meu próprio corpo. Nesse momento, quando eu finalmente parei, respirei fundo puxando o ar que eu havia perdido e, então, eu percebi a situação em que estávamos. Estávamos caídos no chão, e Harry estava... em cima de mim. Sentado em minha cintura, segurando meus pulsos no ar, me olhando com seus olhos verdes, seus cachos caindo sobre o seu rosto. Engoli em seco, mas percebi que minha garganta estava quase fechada, tamanho era o nó seco que se formou ali, não sei o motivo. Meu coração podia arrebentar o meu peito.
Por um momento parecia que estávamos congelados. Eu não consegui mover um músculo, e Harry continuou ali, imóvel, em cima de mim, e não fosse pela sua respiração que batia em minha pele eu podia jurar que ele estava petrificado. Senti ele soltar meu pulso devagar com uma mão e a apoiar ao meu lado no chão, e tudo que eu consegui fazer, não sei como e nem porque, foi levar minha mão ao seu pescoço e emaranhar meus dedos nos cabelos da sua nuca. Eu podia ver e sentir sua respiração ofegante, eu podia sentir os nossos corpos se tocando e a proximidade entre nós. Eu podia sentir ele perto de um modo que nunca senti antes, e aquilo fazia algo dentro de mim sentir tamanho frio na barriga que era quase como se eu estivesse prestes a cair de um precipício. Então, com um nó em meu estômago, eu percebi que Harry estava lentamente se aproximando do meu rosto – ou talvez eu o estivesse puxando. Eu não sei. E, o que foi pior de tudo isso: eu queria que ele chegasse até mim logo.
Mas então eu vi algo surgir em seu ombro, e ao olhar para lá encontrei uma aranha mais ou menos do tamanho do meu punho escalando a blusa de Harry, e só consegui gritar. Qualquer sinal de algo que estivesse rolando entre nós evaporou em um milésimo de segundos. Eu o empurrei pelo peito para o lado e nós dois viramos, e comecei a bater nele me afastando, saindo de cima dele, o jogando folhas, e tudo mais que uma mente perturbada por medo de uma aranha conseguia pensar em fazer.
- Ai, ai, ai, ai! Porra! , para, você tá doida?! – Ele gritou, defendendo o rosto, e então se sentou também e olhou por cima dos dois ombros procurando a aranha, depois de bagunçar os próprios cabelos. Continuei parada, imóvel, sentada no chão na sua frente, há uma distância considerável, com todos os músculos tensionados. Harry me olhou depois de um momento e virou de costas, e espiei para as costas da sua camisa, mas não havia nada de aranha lá.
Então nós nos encaramos. E bons dez segundos depois, nós começamos a rir.
Eu não sei dizer se aquele riso era um riso nervoso, embaraçoso, aliviado, ou realmente genuíno, sei lá. Mas nós dois rimos, e depois de um bom tempo rindo, minha barriga já doía.
- Eu estou... eu estou... – Tentei dizer, me recompondo, e levantei uma mão, que tremia incessantemente. Ele me olhou e balançou a cabeça também rindo.
- Você tá bem?!
- Eu quase morri do coração. Você viu o tamanho daquele bicho, eu não... – Passei a mão no cabelo, o colocando para trás enquanto olhava em volta, ainda meio paranoica. A aranha devia estar em algum lugar. – Eu não vou conseguir dormir por uma semana.
- Calma, . – Harry disse, se colocando de pé, e estendeu uma mão para mim. – Vem, anda. Vamos voltar e achar uma água pra você, ou você vai desmaiar. Está mais branca que o normal.
Ri nervosa, pegando sua mão e levantando, levando minha outra mão ao peito acelerado. Harry puxou umas folhas que estavam grudadas em meu cabelo.
Caminhamos um pouco em direção à trilha que estava ali perto em algum lugar, e só depois de bons segundos eu consegui perceber que ainda segurava a sua mão e Harry meio que me abraçava com um braço. Respirei fundo, me afastando um pouco dele, que me olhou.
- Melhor?
Assenti.
- Valeu. – Disse, mais baixo, e soltei sua mão, usando as minhas para prender meu cabelo, ele estava uma bagunça. Apesar de o momento que tivemos há alguns minutos atrás ainda rodear minha mente, e provavelmente a dele também, o silêncio era confortável.
Já estávamos vendo a trilha quando Harry pisou em algo que fez barulho de metal, e nós dois paramos. Ele se abaixou e pegou de baixo das folhas uma placa meio velha, mas conseguimos ler sem dificuldades o conteúdo nela escrito. Dizia “Cachoeira há 300 metros”, seguido de uma seta. Eu e Harry nos olhamos e ele abriu um sorriso. E eu já sabia pelo que conhecia dele que, querendo ou não, eu o seguiria para onde ele fosse agora.


’s POV
- Argh! Eu realmente preciso de um banho! – Reclamei quando entramos na grande casa, indo em direção aos nossos quartos. apenas riu e concordou comigo, enroscando seu braço ao meu e deitou sua cabeça em meu ombro.
- Nós arrasamos na prova de conhecimentos! – Ela comemorou, passando o dedo em sua própria bochecha, tirando um pouco do chantilly que ainda havia ali. – Eu só errei três e você só duas!
Era engraçado nos ver falando daquela forma, já que éramos de times adversários, mas, para nós, foi só mais um momento incrível que adicionamos à nossa coleção. E, no final das contas, foi divertido mesmo. Quem acertasse a pergunta levava o ponto, quem errasse levava um bolinho de chantilly na cara. Por isso, eu e ela tínhamos o rosto completamente branco e açucarado, bem como parte dos cabelos.
- Quem terminar primeiro vai pro outro quarto. – combinou comigo antes de prosseguir para seu quarto, que era mais adiante. Assenti, piscando para ela, e entrei em meu quarto.
não estava lá e agradeci mentalmente por isso, já que teria o quarto todo só para mim. Peguei a roupa que usaria para a fogueira e entrei no banheiro, sem pressa alguma. Coloquei alguma música para tocar em meu celular e liguei a água do chuveiro. Tirei a roupa suja, amontoando-a num canto, e entrei no chuveiro, sentindo meus músculos responderem à temperatura maravilhosa da água quente.
Demorei um pouco lá dentro, massageando lentamente meu cabelo com shampoo, trabalhando duro para tirar toda a gordura do chantilly dali. Depois passei meu sabonete favorito, apreciando o toque da esponja em minha pele. Ao encerrar o banho, depois de passar o condicionador e enxaguar os cabelos, enrolei-me na toalha felpuda. Tirei um hidratante corporal da nécessaire e me lambuzei dele, cuidando das partes mais ressecadas por causa dos trabalhos manuais com Cookie. Por fim, vesti-me, penteei os cabelos e saí do banheiro. Terminei de calçar os sapatos quando alguém bateu na porta.
- Hey. – Abri um sorriso quando vi parada no corredor, mas o desfiz quando vi que ela só havia lavado o rosto ao invés de tomar banho. – O que foi?
- A mãe da ligou quando eu estava no quarto...
- E você atendeu? – Torci a boca.
- Não. – Balançou a cabeça. – Mas vi que aquela era a quinta ligação dela, por isso fui atrás da .
- E então?
- Nada. Não a achei. – Cruzou os braços.
- Uau, você tem uma sorte para descobrir pessoas desaparecidas. – Brinquei, um pouco sombria pela verdade que havia naquelas palavras.
- É, mas isso geralmente vem acompanhado de uma busca por lugares inusitados. – Olhou-me.
- Muito inusitados. – Abri um sorrisinho sem graça, lembrando-me dos fundos do supermercado em que me enfiei para conseguir meus remédios.
- Você vem comigo? – Perguntou enquanto puxava os cabelos num rabo de cavalo alto. Dei um passo adiante, fechando a porta do quarto atrás de mim.
- Claro. – Assenti. – Por onde começamos? – Tentei esconder um pouco do entusiasmo em minha voz; nunca havia participado de uma busca antes. , por outro lado, parecia bastante acostumada com isso.
Esse fato me fez sentir mal por ela e chateada comigo mesma por fazê-la passar por isso.
Segui-a de perto pela casa enquanto nos levava para a sala de jogos. Lá dentro as pessoas estavam amontoadas nos sofás em frente às telas assistindo aos outros jogando algum videogame de futebol. Outras preferiam jogar alguns jogos de tabuleiro ou só jogar conversa fora nos sofás maiores e mais confortáveis.
- Vamos falar com Lance. – Ela me cutucou, apontando o garoto que era um dos players do jogo de futebol.
- Acaba com ele, Lance! – Um garoto gritou ao meu lado. sentou-se ao seu lado e tocou seu braço para chamar sua atenção. Ele a olhou rapidamente de lado, mas só murmurou um “Hey, ” enquanto seus dedos trabalhavam freneticamente no controle que tinha em mãos.
- Hey, Lance. – Ela respondeu. – Você viu a ?
- Hm... – Começou, com os olhos vidrados no jogo. Ele não podia estar pensando na resposta, não é possível. A demora em sua resposta, enquanto ele fazia uma jogada no videogame. Cruzei os braços, ficando impaciente à medida que questionava o quanto ele poderia se importar com . – Hm... – Repetiu, mas dessa vez inclinando-se um pouco para , mesmo que não tirasse os olhos da tela. – Não a vejo desde o almoço. – Respondeu enfim, demorando apenas o suficiente para fazer revirar os olhos e se levantar mais impaciente que antes.
- Vamos. – tocou meu braço e passou por mim, saindo da sala de jogos. – Vamos procurar os meninos. Eles devem saber onde ela está. – Supôs.
- Será que aconteceu alguma coisa? – Perguntei, acompanhando seu ritmo.
- Não sei. Acho que não. é exploradora, mas é esquisito que tenha saído sem seu celular.
- Não acho, eu mal consigo sinal por aqui, imagino que o celular dela seja tão inútil quanto o meu agora.
- A mãe dela conseguiu ligar. – Argumentou.
- Sorte. – Rolei os olhos.
- Hey. – parou uma garota que passava por nós no caminho para o lado de fora da casa. – Sabe onde estão Louis, Liam...?
- Claro! – Ela sorriu, gentil. – Estão no campo, arrumando um palco.
- Obrigada. – Eu e dissemos, sorrindo para ela.
E foi lá que encontramos Liam, Louis, Josh e Niall arrumando o palco de madeira montado no meio do gramado. Todos eles conversavam e riam bastante, parecendo completamente alheios ao sumiço de .
- Ela deve estar com o Harry. Ele não está com os meninos. – Sugeri a .
- Talvez. – Encolheu os ombros.
Quando chegamos perto do palco, Louis foi o primeiro a nos ver.
- Meninas! – Exclamou, abrindo os braços para o palco, exibindo-o. – E aí? Hein? O que acham? – Sorriu.
- Está impressionante. – cruzou os braços e abriu um sorriso para dar-lhes o incentivo correto.
- Vocês viram a ? – Fui direto ao assunto.
- Acho que ela foi atrás do Harry. – Josh falou antes de levantar uma caixa de som do chão para Niall poder plugar um fio por debaixo dela.
- Atrás do Harry? – Perguntou .
- Ele disse algo sobre achar o prêmio máximo. – Louis acrescentou.
- A planta? – Franzi o cenho, lembrando-me de qual era a prova que valia mais pontos.
- A planta. – Concordou.
- E ele foi com a . – observou, tentando acompanhar o raciocínio.
- Não, ele foi antes e aí a foi atrás dele. – Liam levantou dois dedos para enumerar a ordem dos acontecimentos.
- Ele se perdeu? – Niall finalmente disse alguma coisa, parecendo mais preocupado que seus amigos.
- Provavelmente. – Josh afirmou.
- E por que vocês não foram atrás do Harry? – Estreitei os olhos, indignada.
- Porque alguém tinha que ficar aqui arrumando as coisas para a apresentação. – Josh disse como se fosse óbvio.
- Se o Harry não voltar, não haverá apresentação. – Constatei o óbvio, ao contrário do ar debochado de Josh.
- Ele vai voltar. – Liam deu um tapinha no ar. – Ele sempre volta.
- Uau. – balançou a cabeça para ele.
- Que foi? – Liam encolheu os ombros.
- Vocês são inacreditáveis! Dois dos seus melhores amigos estão lá na mata sozinhos passando por sabe Deus lá o que e tudo que vocês se preocupam é com essa apresentação?! – abriu os braços, exasperada.
- Isso é importante, ! – Liam tentou argumentar.
- Caras, sem o Harry, estamos ferrados. – Niall disse.
- E a ! – bufou.
- Já chega! – Falei, dando um passo à frente. – Vocês vão sair desse palco agora e entrar conosco naquela maldita mata ou eu vou quebrar instrumento por instrumento na cara de cada um de vocês. – Ameacei mesmo sem saber ao certo quanto daquilo era só ameaça e quanto daquilo era verdade. Os meninos me olhavam com certo espanto, incertos do que fazer em seguida, por isso não se moveram, apenas ficaram lá, mudos. Minha paciência caiu mais um pouco. – Por acaso eu falei chinês? Agora!
Eles largaram o que tinham em mãos e desceram do palco, quietos. tocou meu braço e sorriu.
- O quê? Já acabou o trabalho? – Zayn se aproximou do palco. – Sei que me atrasei, mas...
- Zayn. – Louis o calou, apontando para nós com a cabeça.
- Meninas. – Zayn nos cumprimentou, demorando um pouco seu olhar em , que trocou o peso do corpo de um pé para o outro.
Desviei o olhar, sem me decidir muito bem sobre como me sentia com relação a Zayn ainda.
- Estamos todos aqui. Então vamos. – Falei, afastando-me em direção à mata.
- Aonde vocês vão? – Zayn quis saber, perguntando aos meninos.
- Aonde nós vamos. – Corrigi-o. – Vamos procurar . E o Harry.
- Por quê? – Zayn soltou uma risada fraca, como se não acreditasse nisso.
- Não vamos entrar nesse assunto de novo. – Cortei-o.
- Harry e estão sumidos na mata. – Louis explicou ao retardatário. – Vamos procura-los.
- Não mesmo. – Zayn fez uma careta. – Nem sabemos se eles ainda não estão lá.
- Não sei se notou, mas eles não estão aqui. – Girei um dedo no ar, indicando o espaço à nossa volta.
- Não, não. Zayn tem razão. – Liam começou. – A fazenda é cercada pela mata, eles podem ter voltado por outro lado!
- Vamos ver se alguém os viu! – Josh sugeriu, aparentando estar muito mais animado com a ideia de não ter que entrar na mata.
- Isso. – disse com ironia na voz. – Vamos causar uma comoção geral e, de quebra, penalizar duas equipes inteiras porque duas pessoas entraram sozinhas na mata. Além disso, vamos ignorar completamente o fato de que vocês, os grandes amigos de Harry e da estão morrendo de preguiça de ir atrás deles na mata.
Atrás de nós, Zayn conteve uma risada maldosa com uma tosse, mas não conseguiu disfarçar e chamou a atenção de , que se virou para ele.
- E você, que não demonstrou preguiça, mas desinteresse em ajudar qualquer pessoa no geral. – Apontou para ele, autoritária. Ele arqueou as sobrancelhas, mas, em seu olhar, havia um misto de diversão e incredulidade. – Vai com a gente, sim!
- E se eu não for? Você vai me punir? – Desafiou ele, com um tom brincalhão, mas malicioso.
- Vamos perguntar a conhecidos então. – Propôs Josh, ignorando a bolha que envolvia e Zayn.
- Em quem mais nós confiamos? Estamos todos aqui. – Niall torceu a boca, desapontado.
- Não estamos, não. – Louis apontou para a casa. Olhamos todos naquela direção bem a tempo de ver dirigindo-se até a grande porta lateral do refeitório carregando uma caixa com copos de vidro.
Senti-me mal por tê-la esquecido; e também, notei após algum tempo.
Não era como se as duas fossem as pessoas mais próximas que tínhamos, mas sabíamos que a banda nos unia de certa forma. E eu e sabíamos, também, que se podia contar com elas para casos que exigiam discrição. Não é à toa que não havíamos sido pegas pelo incidente com o busto do fundador da escola.
- ! – Liam gritou a tempo de impedi-la de entrar no refeitório. Ela olhou para nós e franziu o cenho, mas acabou por colocar a caixa no chão onde estava parada e veio até nós.
- Hey. – Abriu um sorrisinho, colocando as mãos nos bolsos de trás da calça jeans.
- Você viu o Harry ou a ? – Louis perguntou. pareceu pensar um pouco, mas balançou a cabeça.
- Acho que a última vez que vi Harry foi na hora do almoço. Por quê? Aconteceu alguma coisa? – Tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços.
- Viu? Essa é a reação normal! – Apontei para , olhando os meninos.
- Aconteceu alguma coisa. – Ela voltou a falar, agora preocupada.
- A quem mais podemos perguntar? – Josh quis saber.
- Vi sentada por aí enquanto vinha para cá. – Zayn deu de ombros. – Mas ela não...
- Vamos. – Foi Louis quem disse, tomando a dianteira do grupo, interrompendo Zayn.
- Eu encontro vocês lá. – Ouvi Zayn dizer e revirei os olhos, incrédula. Aquele garoto não era realmente capaz de fazer algo por alguém que não seja ele mesmo.

’s POV
Apesar de frio, era um dia bonito. Os pássaros cantavam, as árvores balançavam, e eu queria um cigarro. Tudo em seu perfeito lugar.
Depois da prova dos ovos da gincana senti a necessidade de me isolar um pouco, apenas para não perder o costume, porque queria ficar sozinha. Naquele dia eu estava me sentindo... nervosa, inquieta, mas não exatamente mal. E em relação ao cigarro, sabia que Zayn provavelmente só havia trazido aquela carteira da noite passada, e com certeza ela não existia mais. Minha garganta implorava por um pouco da droga, como se pedisse para sentir a queimação. Mas não havia nada a fazer sobre aquilo, então apenas respirei fundo e continuei focada às letras nas folhas que eu tinha em minha frente.
Encontrei um bom local lá fora, um banco de madeira feito de um tronco de árvore que era confortável o suficiente e afastado o suficiente, próximo às arvores por onde o pessoal entrava e saía da mata. Então trouxe o novo roteiro da peça de teatro que eu havia trazido na mochila para aproveitar o tempo livre e marcar as partes que competiam a mim cuidar com o marcador de texto. Aquilo provavelmente impediria mais discussões com a maluca da nas reuniões futuras dos ensaios.
Tentei focar no texto depois de uns cinco minutos encarando a página, mas deixando que minha mente divagasse por outros pensamentos. Pisquei algumas vezes e voltei ao início daquele parágrafo, tentando assimilar o conteúdo das palavras, mas novamente minha atenção foi roubada pela figura de duas garotas andando em minha direção em minha visão periférica. Não precisei desgrudar os olhos da folha para perceber que, pela conversa empolgada, elas planejavam sentar no mesmo banco que eu para falar sobre o tal garoto “maravilhoso” de quem estavam falando. Mas assim que começaram a se preparar para sentar, eu as cortei:
- O lugar não está livre. – Disse vendo as duas se virarem para mim e me encararem por um momento, provavelmente esperando alguma outra coisa. Depois de cinco segundos de silêncio levantei os olhos das folhas para elas, e bastou que eu encarasse a garota que me olhava duvidosa por dois segundos para que ela bufasse e segurasse o braço da amiga, se afastando dali.
Voltei a encarar a página, quase soltando um riso fraco. Eu queria saber o que elas achavam que eu faria caso elas não saíssem.
Mais uma vez, voltei ao texto. Dessa vez consegui ler um, dois parágrafos. No terceiro eu já estava atenta ao texto novamente, e foi por isso que quando ouvi as vozes se aproximando eu nem prestei atenção, até que a voz de alguém chamando meu nome me puxasse de volta. Levantei a cabeça, encontrando pelo menos cinco pessoas um pouco afastadas olhando para mim. Localizei quem havia me chamado, encontrando me olhando com ao lado dela.
- Você viu?
- Quem? – Perguntei, sentindo que perdi algo do que ela havia falado.
- O Harry e a . Viu se eles voltaram?
Balancei a cabeça e franzi o cenho.
- Onde eles foram?
Vi Josh rir fraco e comentar algo com alguém, e só então percebi quem mais estava ali: Liam, Louis e Niall. Também havia , junto com as garotas.
- Harry saiu depois de meio dia e a foi procurar ele há alguns minutos. Nós achamos que eles podem ter se perdido. – Payne me explicou, e voltei a olhar para que assentiu para mim, confirmando a história.
- Eu não vi nenhum deles. – Respondi, depois de entender mais ou menos do que se tratava, e voltei a encostar as costas atrás no banco par continuar a leitura.
- , vem com a gente. – Foi quem chamou dessa vez, e eu novamente os olhei. - Precisamos de ajuda. Os garotos se apresentam em duas horas, e ainda precisam fazer o último ensaio.
Os olhei, duvidosa. Da última vez que me juntei com aquele grupo, as coisas ficaram bem estranhas.
- Eu não...
- Não é assim que se convence a . – Ouvi a voz de Zayn se aproximando e todos nós olhamos para o lugar de onde ele vinha, com seu típico sorrisinho de canto, olhando para mim. Desci o olhar para sua mão, que ele me indicou, e me jogou algo que eu peguei no ar por reflexo, sentindo cheiro de nicotina assim que segurei. Era uma carteira de Marlboro cheinha. Passei a língua pelos lábios, levantando os olhos para ele e não conseguindo evitar um sorriso. – O que acha de vir com a gente, ? – Ele levantou um isqueiro que tinha na outra mão me mostrando, enquanto sorria.
Bastardo.
Respirei fundo, e então desdobrei as folhas que tinha no colo, prendendo a ponta da caneta a elas e me levantando.
- Aê! – Josh disse e bateu palminhas, empolgada com o fato de eu me juntar a eles. Acabamos todos por trocar uma risada baixa, e eu toquei na mão de que havia estendido a mão para mim, antes de me juntar a elas.
- Vamos achar aqueles tapados. – Zayn falou enquanto tomava a liderança do caminho, com uma determinação que nem parecia característica dele. Mas eu nem me atrevi a comentar; estava mais impressionada com a carteira em minhas mãos. Começamos a segui-lo, entrando no meio das árvores.
Cinco minutos caminhando entre o meio das árvores e eu já não conseguia mais ouvir os barulhos vindos do acampamento. A conversa que boa parte deles trocavam ali era o que preenchia o ambiente, sobre os tipos de animais que devia ser possível encontrar ali naquele local do país e naquela época do ano. Acabei ficando mais para trás para fumar meu cigarro sem soltar a fumaça para ninguém que estivesse atrás de mim, mas continuei atenta à conversa, me sentindo de algum modo como se eu fizesse parte daquilo, às vezes pensando em alguns comentários que complementassem o que eles diziam, apesar de não falar em voz alta.
Percebi então que eu não lembrava da última vez que havia me sentido assim junto há tantas pessoas antes, que eu estava praticamente à vontade em meio a um grupo de pessoas. Acho que o que contribuiu para isso foi a viagem que fizemos antes do final do ano, que apesar de ter sido em um momento em que nós pouco nos conhecíamos, acabou fazendo com que nós nos tornássemos mais próximos do que com o resto do colégio.

- Hey, you. – Ouvi alguém dizer baixinho perto do meu ouvido e ao olhar para o lado vi Louis caminhando próximo a mim. Seu cabelo bagunçado, os olhos azuis e grandes como os de uma criança, sua expressão constante de quem estava com sono ou entediado, assim como a sua roupa, uma calça xadrez vermelha, uma blusa cinza e um casaco verde musgo comprido, o faziam parecer ter recém saído de um filme dos anos 80’. Ele parecia o Paul Rudd, em Clueless, só que mais bonito. – Você parece bem.
Voltei a olhar em seu rosto e então olhei para minhas mãos, virando a carteira de cigarros nos dedos e levantando-a no ar, indicando-a a ele, que sorriu, rolando um pouco os olhos.
- Claro.
- Como você está? – Perguntei, depois de pensar por um momento sobre isso. Eu ainda sentia o peso das últimas palavras que havia dito a ele naquela manhã na escola. Tinha certeza que ele também sentia, principalmente depois de todo aquele clima que havia se instalado entre nós durante as férias de inverno.
- Bastante razoável – ele assentiu, sorrindo um pouco, e precisei desgrudar os olhos do seu rosto quando o terreno em que andávamos começou a descer um pouco, cheio de galhos no chão. – Você está muito bonita hoje, .
Um pequeno sorriso involuntário se formou em meu rosto, e o lancei um olhar cauteloso.
- Você não está nada mal.
Ele estalou a língua e abriu os braços.
- Eu sei, sempre fui bom em ser nada mal. – Riu fraco, e assenti voltando a cuidar onde eu pisava.
- Curte florestas?
- Eu sou a melhor amiga delas – respondi, com um certo tom de ironia, testando um tronco em que pisei para ver se ele aguentava meu peso. Depois passei por cima dele. – Tome cuidado par... – Fui dizer virando para ele, mas meu pé escorregou em algumas folhas e precisei me segurar em uma árvore para não ir parar no chão. Louis gargalhou, e acabei rindo também.
Me recompus e continuei em frente, agora cuidando melhor onde eu pisava.
- Será que a gente deve começar a gritar, tipo nos filmes? – Josh perguntou, enquanto brincava com um pedaço de galho em uma mão. – Harry! ! – Gritou, logo depois.
- Cala a boca, cara. Você vai irritar a minha cabeça. – Liam pediu.
- Cuidado com o buraco aqui – Zayn avisou a quem estava mais atrás, apontando para algo onde havia passado no chão.
- Perigo? Eu rio na cara do perigo! Rá! – Louis rebateu, correndo um pouco para frente e puxando as pontas do seu casaco como uma capa, fazendo todos rirem.
- Louis, tem uma folha colada na sua bunda. – avisou, apontando para ele, que a olhou sorrindo um pouco.
- O que você estava fazendo olhando para ela em primeiro lugar?
- É que faz parecer que você não conseguiu segurar... – Ela respondeu, o fazendo começar a bater na calça desesperadamente enquanto tentava enxergar a folha. e as outras garotas riram, e ela trocou um olhar comigo por um momento, algo até meio cúmplice. Entendi aquilo quando lembrei de nossa breve conversa na banheira do quarto, na sexta de manhã. Suspirei.
Um tempo de silêncio se seguiu, até que alguém, acho que Liam, começou a assoviar uma melodia conhecida. Precisei forçar minha mente a lembrar qual era aquela música, mas depois que reconheci, pareceu bem óbvia. Era Patience, do Guns n’ Roses. Niall começou a cantarolar baixinho a letra, e um momento depois Louis o acompanhou. Eu não acreditei no que estava acontecendo ali, mas eles realmente estavam cantando juntos. E foi como se a música fosse se espalhando, porque as garotas começaram uma a uma a acompanha-los também. Zayn olhou por cima do ombro para mim com um olhar de “olha isso, inacreditável” e soltei um riso fraco.
enganchou um braço ao meu e encostou a cabeça em meu ombro, me balançando um pouco com ela e , ao seu lado, enquanto cantavam.
- Said, sugar, make it slow, and we’ll come together fine. All we need is just a little patience...
Sorri para ela, mas continuei apenas curtindo enquanto eles cantavam. E Por um tempo eles cantaram, me fazendo achar até engraçado quando uns deles faziam a segunda voz para os outros continuarem a cantar quando a música dava aquela mudada.
Mas aí a música acabou, e todos ficaram quietos de novo por um momento, até que Josh começou:
- She’s got a smile...
- Não, cara, o momento já passou. – Niall o alertou, tocando em seu ombro e o fazendo parar. A cara de Josh foi hilária.
A trilha continuou. Eu me sentia bem, e estranhamente leve agora, por estar ali. Livre de preocupações, ou algo muito similar a isso. Me permiti curtir aquele momento, até ouvirmos, de algum lugar perto dali, gritos que eu tinha certeza que eram de .
Todos nós paramos de andar.


Liam’s POV
- Você tem um encontro com a Rebekah. – andou ao meu lado, olhando por onde pisava enquanto dizia aquelas palavras que me pegaram de surpresa.
- É o quê? – Olhei-a de lado, confuso. Desde quando eu tinha encontros que nem sabia sobre?
- Não é bem um encontro. – Revirou os olhos. – Ela só quer dormir com você. – Atualizou a informação.
- Quem? – Virei o rosto para ela dessa vez, sem esconder meu interesse pelo assunto.
- Rebekah. – Repetiu.
- Sério? – Arregalei os olhos. Ela assentiu, mas não disse nada mais.
Rebekah Murray. Uau. Olhei em volta, à procura de meus amigos, imaginando como seria lhes contar a novidade. Encontrei-os apontando e observando alguma coisa numa árvore. Harry já havia ficado com ela, mas não achei que ela tinha algum interesse em mim – mesmo que eu soubesse exatamente qual o tipo de interesses dela. Quero dizer, nós conversávamos, rolava até uns flertes, mas, por algum motivo, nunca havíamos chegado às vias de fato. E isso me impressionava um pouco agora que parei para pensar.
- Quando? – Perguntei a , que levou um susto com minha pergunta, parecendo ter se esquecido de que eu estava li.
- Ah... Vai saber. Você devia falar com ela. – Encolheu os ombros, acenando com a mão.
- O que você acha que ela quer?
- O que você acha? Não é tão difícil adivinhar. – Bufou.
- Mas...
- Liam! Só fala com ela, por favor! – Ela levantou um pouco a voz, parecendo irritada.
- Ei, ei! Calma! Já estamos brigando? – Segurei seu braço com leveza, apenas o suficiente para mantê-la perto de mim.
- Não estamos brigando. – Murmurou. – Só não quero ficar falando sobre isso.
Assenti, soltando seu braço, apesar de sentir certa urgência em tocá-la.
- Você vai nos ver hoje? – Perguntei, mudando de assunto. Ela olhou para mim e abriu um sorriso e eu sorri também.
- O que tem hoje? – Perguntou de volta, enrugando a testa. Meu sorriso sumiu e ela soltou uma risada. – Brincadeirinha. – Beliscou meu braço. – Claro que vou. Sempre foi meu sonho ser groupie.
- Ah é? – Entrei na brincadeira dela. – E quem é o seu favorito?
- Ah, nem pensar. – Juntou o indicador e o polegar e os passou sobre os lábios, indicando segredo.
- Qual é, . – Abri um sorriso para ela, arqueando as sobrancelhas. – Nós dois sabemos quem você quer pegar.
- Sabemos? Mesmo? – Devolveu-me um sorriso travesso.
- Quem, então?
Ela me fitou por um segundo antes de diminuir o sorriso travesso para algo presunçoso e olhou por cima do ombro, olhando para onde Louis, que caminhava com Josh enquanto conversavam com e . Mais atrás, Zayn e conversavam baixinho. Virei-me para ela, novamente, desafiando-a.
- Não está falando sério. – Desafiei. – Louis?
- Você quer apostar?
- Fala sério, . Você é louca por mim. – Soltei uma risadinha seca, incomodado por razão nenhuma.
- É o que você acha? – Arqueou uma sobrancelha.
- Fui escalado para arrumar algumas coisas no celeiro amanhã cedo. Se você realmente não estiver nem aí, apareça e tire a prova. – Propus. abriu um sorriso, aceitando o desafio.
- Talvez seja você quem tenha que provar alguma coisa.
- Só se for você. – Falei baixinho para ela, incapaz de desviar meus olhos dos seus. Ela soltou uma risada e balançou a cabeça.
- Claro. – Disse antes de reduzir o passo e ficar ao lado das meninas.
- Cacete, que tensão sexual! – Louis pulou no meu pescoço de repente, jogando-nos para frente e quase nos derrubando no chão.
- Quê?! Tá maluco?! – Tirei-o de cima de mim rapidamente, olhando para o resto do grupo, certificando-me de que nenhum ouvira.
- Ah, qual é, Liam. – Louis estalou a língua. – Tá na cara que você está louco para pegar sua irmãzinha.
- Com certeza. – Ironizei.
- Tudo bem, bro, seu segredo tá seguro comigo. – Fez um X em cima do coração, jurando.
- Não tem segredo...
- Liam. – Fechou a mão em punho na altura dos meus olhos.
- Não...
- Liam. – Fechou a mão novamente, calando-me.
- Lo-
- Ó. – Abriu e fechou a mão de novo.
- E como está o plano de conquistar a Freak? – Mudei de assunto para coloca-lo contra a parede.
- Quê? – Ele engasgou. – Não existe plano nenhum. – Riu fraco.
- É? Mesmo?
Antes que Louis pudesse responder qualquer coisa, Niall chamou a atenção de todos, mostrando um pedaço de placa em sua mão.
- Uma cachoeira, legal. – se sentou em um pedaço de tronco caído no chão, limpando o suor da testa. Ela estava engraçada; suja de terra e ainda havia chantilly em seu cabelo preso num rabo de cavalo. Acho que nunca a vira tão nojenta e isso era tipo um evento. E só mostrava que se importava com . – Há quanto tempo estamos andando?
-Uns vinte minutos. – Niall olhou em seu celular.
- Parecem horas. – colocou as mãos na cintura. Agora ela tinha o casaco amarrado na cintura, ficando apenas com uma camisa preta justa que destacava seu corpo e seu cabelo estava preso num coque no topo da cabeça, mas algumas mechas lutavam contra o penteado e caíam pelo pescoço e ombros. Quando percebi que estava encarando, tive que desviar o olhar de sua figura.
- Eles podem estar em qualquer lugar. – Josh suspirou.
- Mas estavam aqui. Foi daqui que veio o grito. – Zayn colocou suas mãos nos bolsos da jaqueta.
- E você é a rastreador agora? – Louis quis saber.
- Na periferia você se acostuma a perceber de onde gritos e tiros vêm. – Zayn respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo a ser dita.
Eu achei pesado o que ele disse.
- Certo. – Louis franziu o cenho.
- E o que fazemos agora, então? – fez a pergunta que todos provavelmente estavam se fazendo agora.
Eu não sabia responder muito bem aquela pergunta, para ser sincero. Lembro-me de minha avó dizendo para mim uma vez que, caso me perdesse, que eu não saísse de onde estava e não me mexesse muito, pois logo viriam me achar.
Mas Harry com certeza não teve o prazer da convivência com minha finada avó.
Quando Niall abriu a boca para falar alguma coisa, um barulho nos fez parar no lugar, imóveis. O barulho veio de trás de alguns arbustos selvagens que escondiam um pequeno barranco do outro lado. Não se via muita coisa através deles, pois eram robustos e densos, mas a crença geral ali era de que algum animal selvagem estava ali e sairia a qualquer momento. Dei alguns passos lentos para trás a fim de ficar mais perto do grupo quando o arbusto se mexeu novamente.
- Não se mexam. – Louis falou sem tirar os olhos dos arbustos.
O movimento cessou de repente fazendo-nos trocar olhares uns com os outros, ansiosos pelo próximo movimento.
De repente ouvimos o barulho de algo caindo no chão, como se tivesse escorregado no barranco e bateu as patas no chão, como que para recuperar o equilíbrio. O barulho parecia algo pesado batendo na terra, e só o barulho daquelas patas vindo em nossa direção foi suficiente para corrermos por nossas vidas.
Corremos sem direção e juntos, já que, por algum milagre, nenhum de nós entrou em desespero e correu para outro lado. Demos algumas voltas, correndo. Eu já sentia meus pulmões queimando dentro da caixa torácica, não pelo esforço, mas pela adrenalina que corria em minhas veias. Ao meu lado, Louis escorregou e derrapou na terra úmida, ficando para trás. Parei abruptamente e corri de volta para ajuda-lo a se levantar, depois disparamos no sentido em que os outros corriam. Vimos Niall pular um desnível e acenou para que nos escondêssemos lá. Pulei o pequeno desnível, virando-me para ajudar as meninas, mas elas pularam rapidamente, sem precisar de ajuda, e nos agachamos ali, esperando que tivéssemos despistado o que quer que estivesse naquele arbusto. Todos estávamos virados para a parede de terra e grama, ofegantes e assustados demais para falarmos qualquer coisa.
Atrás de nós, algo quebrou um galho, fazendo-nos gritar e virarmos para a fonte do som.
- O que diabos vocês estão fazendo? – nos olhava como se todos tivéssemos retardo mental. Ela tinha um galho nas mãos, agora partido em dois.
- ! – gritou e correu para abraçar a garota, que parecia não entender nada. Afastei-me do barranco também e corri para abraça-la.
Logo todos estávamos em cima de , que apenas lutava para ter um pouco de ar ou espaço.
- Cara, foi horrível! – Josh começou, levantando a cabeça para poder entrar no campo de visão de . – A começou a gritar e disse que ia matar a gente com os instrumentos, depois que ia dar nossos restos para os cachorros selvagens!
- Eu não disse nada disso! – protestou, esticando-se embaixo do meu braço.
- Disse sim! – Louis confirmou, apontando para de onde estava. – Até saiu fogo pelas ventas dela!
- ?! – olhou para a garota com certa dificuldade, dado que estava sendo esmagada por vários abraços. – Não acredito!
protestou e todos caímos na gargalhada.
- Guys. – Zayn, que, juntamente com , observava a cena, chamou a nossa atenção. Soltamos e nos voltamos para ele. – Harry está aqui também. – Apontou para o garoto que nos olhava de longe, visivelmente incomodado.
Só naquele momento eu me dei conta de que, no final das contas, estávamos atrás de Harry também.
- Que ideia de merda foi essa de sair na mata sozinho?! – Louis foi o primeiro a se afastar do grupinho em volta de e foi falar com Harry, dando-lhe um tapa na nuca.
- Ai! – Ele reclamou, descruzando os braços para massagear a região atingida. – Nossa, a recebe beijos e abraços e eu recebo um tapa?!
- É para aprender a não dar um susto desses na gente! – Esbravejei, levantando as mãos pro céu.
- Até onde eu sei, foi a quem me procurou. – Harry rebateu.
- Cara, você não tem direito a um pio! – Josh apontou para ele. – Nós quase fomos devorados por um leão agorinha há pouco! Nossas mortes estariam nas suas mãos!
- Você ao menos achou a planta? – quis saber.
- Não. – Harry disse e todos soltamos um coro de desgosto.
- Porra, Harry! – Passei as mãos no rosto. – Sério?
- Ok, ok! A gente pode acabar com a raça do Harry depois, quando estivermos lá na casa! – bateu palmas. – Por ora, gostaria apenas de sair desse lugar. Aquele animal ainda pode estar por aí.
- Falou e disse! – Josh estalou os dedos e deu meia volta para começar o caminho de volta, mas virou-se de novo para nós. – Alguém sabe o caminho de volta?

Indicamos que você ouça as músicas enquanto lê esse e o próximo POV, e aqui estão elas no Spotify pra te ajudar.
Louis’ POV
O lugar onde o palco estava montado era no meio do campo aberto, próximo aos campos onde foram os jogos de futebol e vôlei, e onde ocorriam as outras provas, que precisavam de espaço para acontecer. Era uma armação relativamente pequena de madeira, onde cabiam todos nós e os instrumentos, mas não deixava muito espaço para movimentação, não que precisássemos. Era apenas perfeito para uma primeira apresentação.
Atrás de onde Liam ficava, que era o local mais ao fundo no palco, com a bateria, havia uma espécie de fundo de madeira, onde, lá em cima, ficavam dois holofotes apontando para baixo para nos iluminar. Ao longo do pátio, ao redor de onde havia bancos de madeira e troncos disponibilizados pelo campo para o pessoal sentar, também havia iluminação adequada para que todo pudessem se enxergar. Estava tudo bem organizado, com a ajuda de alunos, professores e organizadores. A fogueira também já estava montada perto dali, mas ainda não fora acesa. Perto dela, uma grande mesa com diversos tipos de comes e bebes foram disponibilizados pelo local, para fazer parte da comemoração da noite.
Aquele era o momento pelo qual todos que estudavam no St. Bees sempre esperaram, por isso o campo já estava cheio de alunos, e os que ainda não haviam chegado, chegavam aos poucos e em grupos, vindos da casa, de onde tivemos um tempo disponibilizado para irmos nos arrumar depois das últimas provas da gincana. Depois de nossa breve aventura pela floresta, o clima entre mim e os garotos parecia de algum modo mais leve, mas o nervosismo era quase palpável no ar. Pelo menos da minha parte, com certeza era. Minhas mãos suavam, e eu não conseguia fazer meu corpo parar. Estava sempre estalando os dedos ou batendo os pés, e eu sabia que tudo que era de minha competência fazer já havia sido checado umas duzentas vezes, mas não conseguia evitar ir lá e ver se o baixo ainda estava plugado direito na caixa de som, ou se o teclado estava devidamente posicionado ao lado do palco, em cima de seus pés, em um local onde não cairia nem atrapalharia, e seria fácil de pegar quando a hora chegasse.
Aí, comecei a pensar que eu podia esquecer de como se tocava. Foi quando comecei a tocar teclado no ar, mexendo os dedos no vazio, enquanto cantarolava a melodia baixinho em minha mente, andando de um lado para o outro. Até que Liam dissesse que eu parecia um louco.
Fui até o lado do palco outra vez, onde tinha pouca iluminação, e espiei para as pessoas que estavam espalhadas pelo campo em frente ao palco, conversando alto, empolgadas e visivelmente curiosas. Era a primeira vez que algo assim acontecia no colégio. Era a primeira vez que uma banda de verdade se originava da oficina de música, com pessoas que estivessem levando isso a sério como nós estávamos.
Encontrei e conversando perto dali, no meio das pessoas. Uma delas ria enquanto a outra gesticulava excessivamente sobre algo. As duas estavam muito bonitas, eu pude perceber, apesar de que de um jeito simples. Mais leve, até, do que era geralmente na escola ou em outros dias. tinha um copo de refrigerante na mão, e comia amendoins de um pacotezinho de papel. se aproximou delas, depois, e arrumou a franja de cima dos olhos da amiga, que agradeceu. Corri mais os olhos por lá, passando direto pelo resto dos nossos colegas que não eram tão próximos, esperando que eles fossem gostar. Encontrei, também, sentada em um dos bancos mexendo em seu celular, parecendo bastante concentrada em algo. Continuei observando, procurando indiretamente por ali. Eu tinha, inconscientemente, planos para ela durante essa apresentação, e não tê-la ali acabaria com 50% da minha ansiedade em subir naquele palco.
- Cara. Tudo bem? – Ouvi Niall dizer, tocando em meu ombro, e virei para trás, o olhando.
- Oi. Tudo. – Respondi, meio mecanicamente, e ele assentiu para mim. – Tudo pronto?
- Sim. Vamos só fazer uma reuniãozinha antes de entrar – ele deu um passo para trás, me chamando com a cabeça.
O segui até o centro do espaço que estávamos usando ao lado do palco, e esperei Niall ir convocar o resto deles para falarmos. Liam girava suas baquetas nas mãos enquanto citava algum ritmo, caminhando perto do palco, com o lenço azul da sua equipe preso em volta da cabeça, jeans claros, uma regata branca e uma botina, e guardou as baquetas no bolso de trás da calça quando Niall o chamou. Harry estava sentado na pequena escada de madeira que subia até lá, com o violão de Niall apoiado no joelho, tocando alguma coisa que eu não consegui distinguir, e soltou o instrumento de lado quando foi chamado, também vindo até nós. Seus cabelos estavam desarrumados, daquele jeito que ele fazia propositalmente parecer que havia acabado de comer alguém, e eu nunca saberia como, mas agradava a todas as garotas. Olhei em volta procurando Zayn, e ele estava mais afastado de nós, perto das árvores no escuro, fumando um cigarro e com fones nos ouvidos. Ele foi o último a se aproximar, jogando o cigarro fora e arrancando os fones dos ouvidos, se enfiando entre mim e Liam no pequeno círculo que havíamos formado.
- Ok. – Niall olhou para todos nós. Ele estava se mostrando muito melhor naquilo do que nós, pelo menos na parte de manter a calma e o foco. Talvez ele já estivesse se preparando para aquilo por muito mais tempo do que nós. – Está tudo pronto, o resto é com a gente. Vamos só... subir lá e fazer o que nós praticamos. Não tem mistério.
Todos assentimos.
- Todos lembram da sequência, certo? – Ele voltou a dizer, e todos assentimos mais uma vez. – Ok. Zayn, não se esqueça do ritmo. Quatro voltas do Liam, e você entra. Baixo. Louis – ele chamou, agora, e eu o olhei. – Você vai construir o ritmo, tem que fazer certo.
Assenti. Sem pressão.
- Somos as primeiras pessoas a fazerem isso no colégio. É nossa primeira apresentação de verdade, que importa. É isso que vai nos construir na imagem deles. Precisamos agradar.
Ficamos em silêncio por um momento, e foi então que algo pareceu começar a surgir. Aquele algo que nenhum de nós sabia explicar, que, quando envolvia a música, fazia apagar tudo que éramos ou tínhamos longe dali, e transformar-nos em outra coisa. Outras pessoas.
Harry passou o braço pelos meus ombros e fiz o mesmo com Zayn quando vi que todos haviam se aproximado, e foi Liam quem quebrou o silêncio:
- Vamos arrasar, Renewed! – Disse, levantando um braço e estendendo-o para frente, no meio de nós. Cada um juntou sua mão à dele no meio de nós, eu sendo o último a fazê-lo, e então em uma contagem até três, nos afastamos como se chutássemos o nervosismo para longe e agora, sim, estivéssemos prontos.
Subimos no palco. Um por um, todos nos posicionamos em nosso lugar, com os olhares curiosos de todas aquelas pessoas em nós, enquanto suas conversas cessavam. Era muito diferente da apresentação no pub, porque todos aqueles rostos ali nós conhecíamos bem.
Fui o último a subir no palco. Peguei o baixo, que estava de pé em seu apoio, e coloquei sua faixa em volta do meu corpo, o posicionando enquanto via todos eles se arrumarem também. Na frente, estavam Harry e Zayn com seus pedestais do microfone. Niall estava na mesma linha que eu, um pouco mais atrás, só que do outro lado do palco. E lá atrás, bem no meio, estava Liam. Olhei para ele, e quando ele sentou, pegou as baquetas e as girou, se aprontando, me olhou e assentiu.
Respirei fundo. Por cinco segundos, enquanto encarava todos aqueles rostos nos olhando, eu deixei o silêncio acontecer. Passei meus olhos pelas pessoas novamente enquanto isso, meus dedos se ajustando ao cabo do instrumento que eu segurava e tomando seus lugares automaticamente nas cordas. Foi aí que localizei , lá no fundo, encostada a uma árvore. Ela olhava diretamente para mim.
Comecei a tocar.
Uma melodia silenciosa, sozinha, das cordas do baixo, que repetia, que era desafiadora. No mesmo segundo, vi o reconhecimento daquela melodia no rosto de quem nos olhava. Repeti uma vez sozinho, e na próxima as batidas do bumbo soaram, fazendo companhia ao baixo, em batidas constantes.
Vi Zayn segurar o pedestal e virar um pouco de lado, nos encarando, como se estivesse meio incerto, nervoso. Então deu sua deixa, e ele começou a cantar, baixinho:
- I’m gonna fight ‘em off. A seven nation army couldn’t hold me back. – Sua voz provocativa soou baixa, causando uma onda de animação pela nossa plateia. Não dava para negar, ele era ótimo naquilo. - They're gonna rip it off, taking their time right behind my back. And I'm talkin' to myself at night because I can't forget. – A voz de Zayn começou a ganhar força, se destacando na música e dando potência a ela. - Back and forth through my mind behind a cigarette... And the message commin’ from my eyes says ‘leave it alone!’.
Então Harry começou a acompanhar a música, entrando com a guitarra. Niall acompanhou, dando força à melodia à medida em que entrávamos no refrão. A música estava feita. E todos pareciam adorar.
Tocamos o refrão, forte e ritmado, e então quando ele acabou, ao invés de começarmos de novo, Zayn exclamou:
- Stop! - Dois segundos de silêncio, em que nós cinco trocamos um olhar. Ele olhou para trás, ainda pendurado em seu pedestal, e assentiu para Liam. - Let’s do this.
Niall pegou rapidamente a meia lua que estava posicionada perto de seus pés, tocando a introdução da próxima música. Liam reforçou, ditando o ritmo com quatro batidas das baquetas: um hino do rock atual começou a soar. Are You Gonna Be My Girl encheu os ouvidos de todos, que, exatamente como eu esperava, mas diferente do que imaginava, exclamaram gostando do que ouviam. Acompanhei com o baixo, e Zayn pigarreou, como na música. Logo Niall largou a meia lua para que ele e Harry entrassem também, trazendo o som das guitarras.
- So one, two, three, take my hand and come with me, because you look so fine
that I really wanna make you mine.

Zayn tinha uma presença de palco que ninguém imaginaria que ele tinha. Aquilo me pegava de surpresa todas as vezes, imagine então às pessoas que estavam nos vendo pela primeira vez. Era uma puta de uma carta na manga. Até os professores estavam surpresos. Ele pegou o microfone e rodou o pedestal com o pé, depois voltou a encaixar o microfone na base, olhando para os lados, para mim e Harry, antes de se voltar para nosso público.
Não pude evitar sorrir. O sentimento que eu tinha dentro de mim, aquela coisa... se espalhando pelas minhas veias. O prazer. De tocar, de estar fazendo parte daquilo, que as pessoas gostavam, e pediam mais. Era demais.
Continuamos. A música passou, as pessoas cantaram junto, ela continuou. Logo depois, ao terminar, já puxamos o começo da próxima: Flourescent Adolescent, que todos conheciam, e mais do que isso, adoravam. O aparente som de música antiga misturado à pegada atual que aquela música trazia agradava a todos. Outra grande carta na manga, indie rock sempre seria uma boa estratégia.
You used to get it in your fishnets, now you only get it in your night dress, discarded all the naughty nights for niceness...
Eu e Niall trocamos um sorriso em meio à música, em partes em que as pessoas estavam cantando junto. Aquilo era tão irado! Era como se a multidão se levantasse de uma vez só, todos juntos, olhando-nos de frente, elevando cada um de nós, dando impulso. Era como se aquilo estivesse vivo e se movesse em sincronia com cada pessoa ali.
Novamente procurei por na plateia. Ela estava lá, no mesmo local, e seus olhos ainda estavam em mim, e eu não pude evitar pensar nela em cada segundo daquela música, até que ela acabasse. Apesar de ter meus olhos nela também, aquilo não a fazia recuar, nem desviar o olhar. Ela era tão intimidadora, tão bonita. Ela era uma obra de arte.
Ao final da música, meu cérebro já relacionou automaticamente o teclado ao começo da próxima. Tirei a facha do baixo, o soltando no apoio, e virei para puxar o teclado, o colocando em minha frente. Ele estava também devidamente plugado na caixa, e então encarei as teclas por um segundo. Levantei os olhos para novamente, mas o que vi foi ela se desencostando da árvore e dando meia volta para sair de lá.
Eu não queria que ela fosse. Então apenas olhei para as teclas novamente, e comecei a tocar.
As primeiras notas de Screen soaram, e desejei que ela voltasse àquela tarde no auditório vazio novamente, porque eu voltava toda vez. Mordi o lábio, balançando a cabeça enquanto cuidava para tocar no ritmo, aquela melodia que ensaiei tanto que já sabia fazer de olhos fechados. Levantei os olhos, e a vi parada no mesmo lugar, ainda pronta para sair. Liam começou a tocar a bateria, e Niall acompanhou com o som do violão, e deu meia volta de novo, olhando diretamente para mim.
Eu sorri.
Sim, isso é para você.

Harry’s POV
O vocal de Zayn em Screen foi simplesmente sensacional, nem havia como negar. E foi tão sensacional que não me importei em admitir isso, porque aquilo que estava acontecendo ali era inacreditável.
Sei que ele deve ter treinado bastante aquela letra, principalmente a parte mais rápida, porque ficou um resultado de ótima qualidade. Na parte do “we’re broken people” o pessoal até bateu palma com a gente quando, ao notar a empolgação, eu puxei as palmas, visto que não tocava naquela parte da música. Estava todo mundo tão na vibe, curtindo tanto aquilo tudo. Era como se nada pudesse quebrar aquele momento.
Aquela música era relativamente mais leve do que as outras, em um ritmo meio que de reggae, que quebrou bastante o padrão de banda de garagem do qual não queríamos abusar. Louis foi esperto ao indicar aquela música, porque acabou dando exatamente o efeito que queríamos ao circuito.
Continuei a segunda voz no último refrão, repetindo a parte do “we’re broken people” enquanto Zayn cantava. Aquelas coisas não eram planejadas, eram simples detalhes que faziam toda a diferença, que não precisavam nem ser combinadas. A segunda voz era natural, era algo que parecia se impelir a mim.
Ao final dessa música fizemos uma pequena pausa. Louis colocou o teclado de lado novamente, Liam saiu de seu local atrás da bateria, e eu tirei a guitarra e a apoiei no canto do palco em seu apoio, e peguei o violão que estava lá. Niall auxiliou os outros dois a subirem os pequenos banquinhos de madeira para o palco, e entregou um Zayn, que foi o primeiro a sentar, arrumando seu pedestal para ficar baixo e depois o meu. Sentei no segundo banco, ao lado de Malik, e Niall sentou no seu. Todos nos olhamos, estando Liam e Louis ainda em seus instrumentos, Louis de volta com o baixo, e esperamos Niall colocar a faixa do seu violão. Quando ele estava pronto, assentiu para mim, e Zayn puxou o microfone para perto da boca, anunciando a música:
- What’s up, St. Bees?! - Liam gritou, esticando os braços como se fosse abraçar todo mundo. A platéia gritou de volta, ovacionando, batendo palmas. Algumas garotas riam, outras pulavam, alguns caras nos diziam para continuar. Troquei um olhar com Louis e sorrimos abobalhados. Aquilo não podia ser real. - Vocês estão tendo uma noite agradável? - Liam continuou, batucando um tambor da bateria. Todos gritaram novamente, mais animados que antes.
- É, cara, parece que vamos tirar um dez na aula de música. - Comentei, olhando diretamente para Liam, que soltou uma gargalhada.
Num momento que deve ter durado um segundo, sem querer, vi tocar o braço de , trocando um breve olhar. cutucou o garoto ao seu lado, sorrindo e lhe dizendo algo, que ele pareceu repetir com ela. Daí os caras ao lado dele começaram a gritar e logo todos os alunos estavam gritando: Renewed, Renewed, Renewed!
Senti o coração bater forte no peito, sendo completamente tomado pela maravilhosa sensação de aprovação que eles nos davam.
- You’re the best, guys. - Niall sorriu para o nosso público, que gritou mais uma vez.
Então, quando todos se acalmaram, Zayn anunciou a próxima música:
- Essa é Fake Plastic Trees.
Niall começou a tocar o violão, na melodia tranquila e lenta que treinamos. Eu o acompanhei, e Zayn começou a cantar.
Logo os outros instrumentos acompanharam, e eu aproveitei essa música lenta para observar a todos. Uma outra atmosfera havia sido trazida com essa música, as pessoas dispostas pela plateia, algumas sentadas e a grande maioria de pé, curtiam se balançando devagar para os lados, algumas sabiam a letra. Havia gente abraçada, também, curtindo a música, que passava uma certa tranquilidade.
, e se destacavam naquelas pessoas, todas incrivelmente bonitas sob aquela luz amarelada. As três estavam de pé, acompanhando como boas amigas, e ri fraco ao pensar que eram provavelmente nossas melhores e únicas fãs. Até agora, eu quero dizer, porque a partir de amanhã... estaríamos feitos com todas as garotas do colégio pelo resto daquele ano.
Mas perdi meu olhar em , permitindo-me observar cada detalhe dela naquela noite, enquanto tocava o violão e acompanhava Zayn no vocal em algumas partes. Senti algo tão... bom, em ver seu rosto familiar no meio de todas aquelas pessoas. me remetia a casa, a conforto e refúgio. Não era tanto sobre o lugar, mas sim sobre ela. Onde ela estava, tudo estava bem. E aquilo sempre foi assim. Eu simplesmente nunca havia parado para pensar em como ela me fazia sentir.
Porque de todos aqueles olhares que eu recebia, ali, naquele momento, o único que me via exatamente como eu era, era ela. E aquilo me fazia sentir exposto, só que de um jeito bom.
A música terminou. Respirei fundo, voltando minha atenção ao palco, enquanto Louis e Liam se juntavam a nós agora, para a próxima música. Louis trouxe outro banquinho para ele também, e Liam trouxe o cajon, sentando em cima do instrumento, ao meu lado. Ele se inclinou para perto de mim e puxou o microfone, falando nele:
- Agora eu quero ver todo mundo dançando!
O garoto se afastou e começou a bater no cajon, ditando o ritmo. Vi as pessoas que estavam sentadas se levantarem, e Niall começou a tocar o violão. Stolen Dance havia começado.
Naquela música, que assim como Screen foi posta para quebrar o clima de banda de garagem e trazer algo diferente, criamos a melodia em cima de improviso, nos ensaios. Louis encontrou um modo de apoiar a melodia da música com palmas e estalos de dedo, enquanto Liam tocava o cajon e eu e Niall o violão. Zayn deu um som diferente à musica, com o vocal diferente da original, mas sem perder a essência dela. E aquele foi o momento em que o pessoal mais dançou. As pessoas começaram a interagir, dançando umas com as outras, inclusive alguns dos organizadores com os professores também. O fato de que até eles estavam curtindo só podia significar algo muito bom, porque era difícil fazermos qualquer coisa que agradasse aos membros da organização daquela escola.
Novamente olhei para as garotas, dançando juntas de um modo engraçado, mas divertido também. ria do modo como e estavam dançando, e sorri junto. Ela abriu um sorriso para mim, levantou um dos polegares e piscou com um olho, me aprovando, e só consegui abrir um sorriso de volta. Depois da tarde de hoje, sempre que eu a olhava e via que ela também estava olhando para mim era como se uma pedra de gelo caísse em meu estômago, aquilo chegava a ser incômodo. Eu só... não sabia como lidar com aquilo. Com sentir aquilo.
Stolen Dance acabou, e nós apenas afastamos os bancos o suficiente para que conseguíssemos tocar a última música. Aquela desorganização era o máximo que conseguíamos fazer sem ninguém para ajudar na logística da coisa. Voltei a soltar o violão e pegar a guitarra, e Liam foi rápido em voltar para seu lugar na bateria. Aquela era a última música, e aquilo estava se saindo espetacular. Arrumei meu pedestal e segurei o microfone, anunciando a última música:
- Galera, obrigado por isso. Essa última vai para todos vocês.
Pisquei um olho para , quando vi que ela me olhava, e olhei para a guitarra balançando a cabeça no ritmo antes de começar a tocar a os primeiros acordes do que, provavelmente, era a música mais conhecida que tocaríamos naquela noite.
Ao ouvir o início de Mr. Brightside o pessoal gritou. É sério, boa parte deles – principalmente as garotas – simplesmente gritaram. Eu me senti foda tipo o Bono Vox. Decidi que se eu tivesse a chance de viver disso pelo resto da vida algum dia, eu definitivamente viveria.
- Coming out of my cage and I've been doing just fine, gotta gotta be down because I want it all. - Zayn cantou, sendo acompanhado de algumas das garotas. - It started out with a kiss, how did it end up like this, it was only a kiss, it was only a kiss.
Nessa última música, fomos à loucura. Não somente eu, mas vi que Zayn também, assim como os outros caras, se deram por completo, entregaram tudo que tinham. Nós já vimos que havíamos ganhado a confiança do público, era tudo que eles queriam. Então nos entregamos.
E foi foda pra caralho. Não tem outra explicação.
- Caralho, Styles, caralho! – Liam pulou em minha cabeça como um animal, quase me fazendo cair, assim que pisei os pés no chão ao descer do palco. – Você tem noção do que foi isso, cara?! Você sabe quantas gatinhas a gente vai ganhar com isso?!
Só consegui abrir um sorriso para ele, antes de sermos atacados ao lado do palco agora por Josh, que chegara, e as três garotas. Eu só queria ouvir o quanto fomos fodas, porque eu podia explodir, falar daquilo por um ano sem cansar. Meu ego estava do tamanho daquela fazenda, e poderia usar uma boa massagem naquele momento.
Abri os braços para Josh com um sorriso devasso no rosto, e ele abriu o mesmo sorriso para mim, parecendo até um psicopata, pulando em mim e me abraçando, batendo em minhas costas, bagunçando meu cabelo, tudo ao mesmo tempo.
- Você foi foda, camarada! Foda! Simplesmente foda! – Disse, me largando. – Mas, aí, cadê nosso rockstar supremo? Malik, se prepara, as garotas estão fazendo fila pra ganhar uma toalha molhada do seu suor lá na frente.
Gargalhei, olhando para a frente do palco e constatando que alguns dos nossos colegas se aproximavam para falar com a gente. Olhei para o lado, onde Liam recebia um milhão de elogios de , e , e parei ao lado dele cruzando os braços e abrindo um sorriso de orelha a orelha também.
- Harry! – disse, e em seguida também, e recebi um abraço das duas. Ri, agradecendo a todos os elogios que elas falaram em meus ouvidos, e depois nos afastamos.
- Você realmente arrasou. Eu estou orgulhosa, seu babaca. – deu um tapa fraco em meu braço, e dei de ombros.
- Eu falei que não era um inútil.
Ela riu. Balançou a cabeça para mim, e apenas nos olhamos por um momento. Aquela tensão, ela só aumentava. Eu já nem sabia como me controlar.
Nosso contato visual foi quebrado quando Niall se atravessou em nossa frente e o deu um abraço, e recuei um passo para não ser empurrado por eles.
- Ok, eu preciso de uma bebida – avisei, me afastando dali e indo em direção às pessoas que estavam na frente do palco, para pegar alguma coisa para tomar na mesa das comidas.
Parei perto da mesa pegando um copo descartável e agradecendo a alguns elogios de uma galera que estava ali, mas por dentro eu podia me ouvir dizendo “falem mais, por favor”. Amava aquilo, não podia negar.
- Quero pedir ela em namoro. – Ouvi o cara ao meu lado falar, de costas para mim, contando ao seu amigo em sua frente. Olhei brevemente para ele, reconhecendo sua blusa do time do colégio. Era Lance. – Eu sei que ela vai aceitar, cara, mas vou esperar esse acampamento acabar primeiro. Ela é meio competitiva – riu.
Engoli em seco e soltei o copo na ponta da mesa, ao que senti minha garganta fechar em um segundo. Por um momento, eu não soube o que pensar. Mas foi apenas por um momento, e então uma coisa logo me ocorreu.
Dei meia volta, passando meus olhos pelo local à procura de uma pessoa em especial.

Liam’s POV
Quando avistei vindo em nossa direção com um sorriso no rosto, desvencilhei-me do braço que Josh tinha em meu ombro e esperei que ela chegasse, de repente me sentindo extremamente ansioso para saber o que ela diria da nossa apresentação. Ela havia trocado de roupa depois que chegamos da mata e agora usava jeans, botas e um suéter largo que cobria metade de suas coxas – e, por algum motivo, aquela pouca coisa parecia ser suficiente para iluminar ainda mais sua figura. Abri um sorriso quando ela já estava próxima.
- E aí? – Arqueei uma sobrancelha quando ela parou à minha frente.
- Olha... – Ela mordeu o lábio inferior, parecendo pensar sobre o que ia dizer, mas não passava de teatro. – Até que vocês não foram nada mal. – Deu de ombros, mas aumentou ainda mais o sorriso, se é que era possível.
- Nada mal?! – Levei as mãos à cabeça, incrédulo, mas brincalhão. – Você está brincando?! Nós arrasamos!
Ela soltou uma risada, jogando a cabeça para trás enquanto eu a observava admirado.
Não sei o que estava dando em mim naquele momento; talvez fosse a vibe do show ainda correndo entre todo mundo, mas eu estava completamente fora de mim e, de alguma forma, completamente focado em à minha frente.
- Ok, ok. Eu tenho que admitir, Payne. – Descruzou os braços e me deu um soquinho no ombro, e depois me olhou com um ar completamente diferente. – Vocês foram demais! – Levantou os braços e aquela foi a minha deixa para puxá-la para um abraço apertado. – Hey! – Ela protestou, mas soltou outra risada gostosa em meu ouvido e me abraçou de volta.
Nunca vira de tão bom humor desde que a conheci – nem mesmo depois do sexo – e com certeza não veria novamente, por isso precisava aproveitar cada instante daquela totalmente diferente.
- Liam! – Louis gritou meu nome, quebrando aquele momento meu com . Ela me soltou e se afastou com um sorriso sem graça no rosto e eu imitei o sorriso, sem saber muito o que dizer depois daquilo.
- Nosso encontro ainda está de pé? – Ela me olhou nos olhos com intensidade e um quê de loucura.
- Estarei te esperando, . – Pisquei para ela antes de me virar para Louis que agora chamava meu nome imitando o som de uma ambulância.
- O que é? – Cheguei mais perto do meu grupo, que ainda parecia comemorar o que havia acabado de acontecer.
- Pega o Cajon. – Foi só o que ele disse antes de me dar as costas e ir para perto da fogueira acompanhado de uma galera.
Peguei o instrumento e fui para a fogueira também.
- Cacete! – Murmurei para mim mesmo quando vi a roda de alunos que havia se formado ali. Niall e Harry estavam afinando dois violões enquanto o resto da “banda” se acomodava ao lado deles. Louis sinalizou para eu me sentar ao seu lado. O tronco onde eles estavam sentados acabavam bem onde Louis estava sentado, tornando óbvio que eu me sentaria ao lado do tronco, no Cajon. – De quem foi a ideia?! – Perguntei sem conter a animação.
- Rebekah comentou como seria legal uma roda de violão, daí o pessoal comprou a ideia. – Explicou rapidamente, virando-se para falar com Niall.
Sentei-me no Cajon e dei três batidas no instrumento, em êxtase. O calor que vinha da fogueira era aconchegante, quase anulava o frio que estava fazendo ali no campo. Vi algumas garotas saindo da grande casa com copos de plástico e garrafas térmicas, algumas tinham pacotes de comida também. Logo todos estavam passando copos para os colegas ao lado e distribuindo as bebidas das garrafas entre eles.
Abri um sorriso para a cena que poderia ser facilmente vista em um filme. Aquela tinha que ser a melhor noite da minha vida.
- Hey, drummer boy. – se ajoelhou à minha frente com um sorriso e me entregou o copo que tinha em mãos. Era chocolate quente. – Está pronto para um segundo round? – Brincou.
- Eu nasci pronto, gatinha. – Respondi, provocando uma risada nela.
- Você não muda. – Observou antes de tirar o celular do bolso de trás da calça e virar a tela para mim. Olhei a lista de músicas que havia ali, reconhecendo a grande maioria delas. – A galera deu essas opções de música.
- Cool! – Tirei o celular de sua mão para mandar a lista para mim. – Falling In Love? McFly? Sério?
- Não vamos entrar novamente na discussão sobre os motivos pelos quais essa é uma banda boa. – Revirou os olhos, mas não abandonou o sorriso.
- Claro que não vamos entrar nessa furada. Nós dois sabemos que não é e você nunca admitiria isso. – Provoquei, fazendo-a me lançar um olhar igualmente provocativo.
- Não importa, porque você vai ter que tocar de qualquer forma. – Abriu um sorriso vitorioso. – Pronto? – Apontou para o celular em minha mão.
- Ah, sim. – Entreguei-lhe seu celular e ela voltou para seu lugar ao lado de e , que riam de alguma coisa que um garoto lhes havia dito.
- Todo mundo confortável? – Niall perguntou, fazendo as conversas cessarem e todas as atenções foram voltadas para ele. - Eu gosto dessa. – Comentou antes de tocar as primeiras notas no violão.
As meninas da roda aplaudiram e gritaram quando reconheceram a primeira música: The A Team, do Ed Sheeran. Quando Zayn começou a cantar, foi mais um episódio de euforia. Eu não tinha muito que fazer naquela música, por isso apenas ouvia a música e cantava com as pessoas quando eu sabia a letra, balançando a cabeça e acompanhando a batida do violão com tapinhas na perna.
- ...i’ts too cold outside for angels to fly... – A voz de Zayn pareceu mais alta nessa hora, chamando completamente minha atenção. Eu conhecia aquela letra, eu conhecia aquela música.
Meus olhos varreram a roda à procura de , encontrando-a perto de . balançava a cabeça enquanto ouvia a música, com um pequeno sorriso no rosto, tendo o olhar preso à fogueira, seus olhos pareciam brilhar de uma forma diferente, quase fascinante, levando-me a questionar se ela se lembrava daquele momento que tivemos no car wash, o momento em que eu citei Ed Sheeran para ela.
Balancei a cabeça, certamente eu nunca saberia qual seria a resposta àquela pergunta, mas, de uma forma ou de outra, como se sentisse meus olhos sobre ela, levantou o olhar da fogueira para mim. E, então, para minha surpresa, ela me abriu um sorriso.

Zayn’s POV
A fogueira já não estava mais tão alta quanto há uma hora atrás e, na verdade, algumas brasas já se mostravam ineficientes para manter a fogueira acesa. Niall, Harry e Liam ainda cantavam e tocavam músicas mais antigas do Coldplay com a galera. Precisei tomar água em algum momento da cantoria, pois minha garganta estava ficando seca, mas foi o que bastou para me dar uma folga e deixar o trabalho com os caras mais animados que eu. Não que eu não estivesse animado com aquela porra toda. Foi foda tocar para todas aquelas pessoas e, depois, todo o reconhecimento que nos deram e todo o apoio... Foi foda.
Mas, sinceramente, eu estava um caco. Havia acordado muito cedo para assar os pães do café, depois todas aquelas provas da gincana e ainda ter que rodar aquela mata inteira atrás do paspalho e de ... Tudo aquilo somado à apresentação era quase morte súbita. Eu precisava ficar de boa um pouco.
Tirei o celular do bolso e, por força do tédio, fui me atualizar das redes sociais das quais participava. O Facebook estava a todo vapor com várias fotos de vários alunos da St. Bees aproveitando seu final de semana exclusivo na fazenda da escola. Além de outras pessoas que eu mal lembrava quem eram. Contudo, não demorei naquele aplicativo.
Fiquei olhando para o menu principal da tela de meu celular sem muita certeza do que fazer em seguida. Acabei resolvendo limpar algumas coisas do celular, fotos idiotas que recebia e coisas do tipo – um monte de coisa que eu nem sequer me dava o trabalho de olhar. Abri a galeria de fotos e comecei a apagar fotos com piadas e mensagens motivacionais, além de alguns vídeos. Fui subindo ora apagando coisas que não eram importantes, ora debatendo internamente se fotos da matéria no quadro eram importantes ou não.
Foi em algum momento dali em diante que eu encontrei fotos antigas de Mandy em meu celular. Involuntariamente, segurei o telefone com mais força quando a foto foi ampliada e mostrada em tela cheia; a garota vestida apenas com lingerie fumando um cigarro iluminada apenas pela luz do abajur de um quarto de motel vagabundo. Diversas coisas passaram em minha mente naquela hora, várias delas dando socos em meu estômago à medida que eu me lembrava de cada momento em cada foto que via, mudando-as rapidamente. Forcei-me a parar na próxima foto que viria. A imagem de Mandy nua da cabeça aos pés na beira de uma piscina foi o que apareceu. Eu me lembrava daquela noite. Ela havia me convencido de que era uma boa ideia invadir a piscina da única casa que tinha piscina no meu bairro em Bradford. Então, quando conseguimos, no meio da noite, entrar no quintal da casa, ela tirou toda sua roupa e me disse para tirar uma foto dela, que serviria para quando eu estivesse sozinho e sentisse falta dela.
Senhoras e senhores, isso é o mais próximo de romântico que Amanda chegará em toda sua maldita vida.
Aquela vadia era maluca.
E eu era um otário por acreditar em qualquer palavra que ela já havia dito.
No final das contas, a água estava gelada e os donos da casa tinham um cachorro. Fugimos sem nossas roupas e passamos o resto da noite transando no banco de trás do carro dela para nos mantermos aquecidos – claro.
Olhei uma última vez para aquela foto certificando-me de que eu não sentia nada além de ódio por aquela garota.
Mudei a foto de uma vez por todas, imaginando que mais puto do que eu estava seria difícil ficar.
Mas sempre dava para piorar.
A próxima foto era de uma cópia de alguns números. Um monte deles. E, se eu me esforçasse um pouco, conseguiria decifrá-los mais uma vez.
Puta merda, como eu fui idiota.
- Vocês! – Niall gritou e o pessoal da roda gritou o refrão com força. Liam deu uma pancada no Cajon e os meninos voltaram a tocar os violões com mais gás que antes e todo mundo foi à loucura. Olhei de volta para o meu celular, que ainda mostrava a foto que representava a bagunça da minha vida no último ano. Balancei a cabeça, tentando espantar aqueles pensamentos raivosos de minha cabeça, mas eles eram mais fortes que eu.
Meio fora de área e no automático, olhei à minha volta, observando os alunos se divertindo, tão alheios aos pensamentos que corriam minha cabeça.
- Se eles fazem isso nos filmes, eu também consigo! – soltou uma risada enquanto segurava um espeto com um marshmallow espetado na ponta em direção à fogueira. Observei a cena por alguns segundos, sentindo-me contagiado por sua risada e a graça de todas as suas tentativas de assar o marshmallow na fogueira. Reprimi uma risada fraca para não ser pego observando a garota, mas, de alguma forma, sentindo-me mais leve.
Balancei a cabeça quando me dei conta dos fatos, do que estava acontecendo ali.
Eu não podia me permitir ficar bonzinho com só porque ela era... Ela.
Amanda merece sofrer por cada maldito dia que eu passei naquele reformatório, por cada mentira que ela me contou, por cada cara com quem ela transou enquanto estava “claramente interessada só em mim, mas não estava pronta para um relacionamento sério”. Sim, ela merece. Por cada merda que ela me fez passar.
E, por isso, eu não podia me esquecer do que estava em jogo ali.
- Zayn! – Ouvi a voz de me chamar. Despertei de meus próprios pensamentos e olhei na direção da voz só para encontrar a garota ajoelhada no chão ao meu lado. A primeira coisa que vi foi o “sanduíche” de marshmallow em sua mão e, depois, o sorriso em seu rosto. – Você tem que provar isso!
Franzi o cenho, meio perdido ainda.
- Provar o quê, Shortcake? – O apelido me fez perceber que ela não se incomodava mais com ele, pois seu sorriso só aumentou mais. Aquilo tinha que parar, tinha que haver um limite: ela gosta de mim e eu dou um pé na bunda dela. Se eu não conseguia dar-lhe um apelido sem criar algum tipo de afeto pela garota, então, certamente, eu não deveria dar apelidos, apesar de que isso dificultaria ainda mais meu objetivo de ter comendo na palma da minha mão. Com tudo isso passando pela minha cabeça, olhei novamente para suas mãos. – Isso?
- É. Muito. Bom. – Garantiu, estendendo-me o sanduíche improvisado.
Meu primeiro impulso seria fazer o que ela me disse para fazer – o que não me agradava nem um pouco. No entanto, aquilo não podia continuar daquela forma.
- Não, valeu. – Respondi, voltando a olhar meu celular, agora apagado pelo bloqueio de tela.
- Quer fazer um para você? – Ela voltou a sugerir, talvez nem percebendo que havia se inclinado um pouco para frente. – É fácil. – Garantiu.
Senti alguma coisa se apertar dentro de mim enquanto meu cérebro se questionava por que ou o quê havia de tão irresistível naquela garota e no modo como ela falava ou em seu sorriso. Com certeza era aquela mania que ela tinha de olhar em meus olhos enquanto falava comigo, como se eu fosse exatamente a coisa mais interessante ou a pessoa que ela mais queria ver no mundo.
- Não. – Falei, por fim, colocando-me de pé. Ela franziu o cenho e se levantou também. – Vou dormir.
Afastei-me dela e fui em direção à grande casa, apesar de não sentir um pingo de sono, mas eu sabia que teria uma longa noite à frente apenas para me lembrar mais uma vez do quanto Mandy merecia o que estava por vir.

’s POV
- Jelly shots.
Foi o que Harry disse quando se jogou ao meu lado no banco de madeira onde eu estava. Olhei um tanto espantada para ele, por ter chegado do nada e me tirado de meus devaneios, e depois desci os olhos para o pequeno copinho plástico de café cheio de gelatina verde em sua mão.
- Ah, é? – Peguei o copo da sua mão e cheirei, sentindo o cheiro do álcool presente. – Isso aqui é tão óbvio, como é que nenhum instrutor pegou?
Harry deu de ombros.
- Os instrutores devem ser velhos demais para conhecer essa técnica?
Ri para ele e, por um momento, encarei a gelatina batizada com vodka imaginando de quem aquilo originalmente surgira. Aquilo podia nos render uma ajuda nos pontos da gincana, mas por outro lado eu odiaria cavar mais a fundo essa história e descobrir alguém da equipe azul por trás.
- É assim, vou te ensinar, já que você parece estar tendo dificuldade. – Harry debochou, segurando minha mão que estava segurando o copinho e a aproximando da minha boca. Eu ri e virei gelatina dentro da boca, a engolindo inteira e sentindo o gosto levemente adocicado do limão em contraste com a vodka.
Olhei para Harry e ele fez o mesmo com a sua, que era vermelha. Soltou o copinho no banco ao seu lado e respirou fundo, sorrindo enquanto olhava para o céu.
- Não é possível, você já está bêbado? – Me aproximei do seu rosto, tentando enxergar suas pupilas. Graças àqueles olhos verdes era bem fácil perceber quando Harry estava alterado, mas ele parecia normal naquela noite. Virou para mim e seus olhos encontraram os meus, e senti que ele percorreu todo meu rosto com os olhos me observando por um bom momento.
O que aconteceu em seguida foi o que eu já esperava, meu sangue subiu para minhas bochechas e senti meu rosto esquentar. Ainda bem que estávamos longe da fogueira e ali todo mundo estava parecendo meio vermelho.
- O que está fazendo aqui sozinha?
- Pensando um pouco na vida. Em como as coisas estão tomando um rumo estranho, diferente do que eu imaginava. – Comentei, e o ouvi cruzar os braços na gente do peito e virar para mim, interessado no que eu dizia. Provavelmente pela primeira vez em muito tempo.
- Como assim? – Deu de ombros, franzindo o cenho com aquele sorrisinho de canto.
- Hum... –olhei para cima também me escorando para trás no banco. – Em como foi meio surreal ver vocês cantando e mandando tão bem nisso agora há pouco. Há um ano atrás nenhum de vocês acreditaria, não acha? – O olhei. – E em mim. No futebol. No futuro, sabe. – olhei para os meus pés, me lembrando de como era fácil conversar com Harry. Mais fácil do que era com ou com qualquer outra pessoa no mundo, mesmo que na maioria das vezes ele não estivesse me escutando de verdade. – Em como eu não tenho certeza de mais nada agora. – O olhei novamente. – Você tem?
Harry negou com a cabeça, e sua expressão me dizia que ele me entendia. Ele suspirou e também escorou as costas no banco, estendendo os braços no encosto dele atrás de mim.
- Pra ser honesto, a cada dia que passa eu sinto que sei menos o que quero. Por algum motivo eu ainda acho, como sempre achei, que de algum jeito a vida vai me levar para onde eu tiver que ir – deu de ombros e me olhou quando eu ri. – É verdade!
- Eu sei. Você nunca se importou muito com nada.
- Tem razão – ele comprimiu os lábios e soltou uma risada. – Mas, quer dizer, o quanto isso importa de verdade, ? O que vamos fazer, o que vamos estudar, o que vamos trabalhar, onde vamos morar? Isso é mesmo importante?
- Para o resto do mundo, é. – O olhei com um sorriso divertido.
Harry levou uma mão ao rosto, coçando o queixo e entortando um pouco a boca.
- Think outside the box. - Me olhou e eu sorri. – Li isso numa camiseta.
Soltei uma risada e continuei o encarando, ao ver que ele não parava de olhar para mim. Aquele tipo de coisa me deixava confusa.
- Você está estranho. – Comentei, por fim.
- Estranho bom ou estranho ruim? – Indagou, e eu dei de ombros sorrindo fraco.
Era o modo como ele falava comigo; como sua voz estava mais suave, como ele não se dirigia mais a mim como se eu fosse o Louis, ou o Josh, mas sim alguém que tem sentimentos e alguém que importa para ele de uma maneira diferente. Alguém que interessa a ele. E a maneira como aquilo me causava calafrios, sempre causou quando eventualmente alguma vez ele se dirigia assim a mim. Me fazia lembrar de uma parte da minha infância e adolescência em que eu gostava até mesmo de quando me machucava, ou quando algo ruim acontecia com o meu dia, e ele sentia pesar por mim e me olhava daquele jeito, e me dava alguma atenção. Eu sempre gostei tanto da atenção de Harry, muito mais do que gostava de admitir.
Um vento forte soprou e meu corpo todo se arrepiou, e levei as mãos aos braços sentindo um arrepio de frio. Longe da fogueira a noite estava bem mais gelada.
- Você está com frio?
- Você não está? – O olhei, vendo Harry abrir o fecho de sua jaqueta azul. Ele negou com a cabeça e tirou a peça de roupa, colocando em meus ombros.
- Eu acho que a adrenalina ainda está correndo um pouco nas minhas veias. – Explicou, e eu segurei as pontas de sua jaqueta a fechando contra mim.
- Por isso você tá estranho. – Respondi a sua pergunta anterior, me referindo ao casaco. – Estranho comigo. De um modo diferente.
- Eu acho que a gente não é mais a mesma dupla dinâmica de antes, não é? – Ele me olhou, dizendo aquela pergunta mais como uma resposta.
- Mas eu ainda sou a mesma . – Disse a ele, mais baixo. Aquela era a mais pura verdade, era a única coisa que queria que ele entendesse. Que eu não o abandonei, que não quis fazer aquilo por ele. Porque eu entendia a necessidade de atenção de Harry mais do que ninguém, e eu não o culpava por ter entendido errado. Aquilo tudo havia ficado no passado agora.
- Eu sei. – Ele assentiu.
- E eu quero que ainda sejamos os mesmos, porque... – balancei a cabeça.
- Eu sei, Sunshine. – Harry disse, e quando o olhei ele assentiu, demonstrando que entendia, me olhando com seriedade. Aquele olhar era raro. – Eu sei. Sei que eu fui um idiota com você. Eu digo, bem antes... bem antes de tudo. – Harry desviou o olhar, olhando para o chão, o que demonstrava o quanto era difícil para ele dizer aquilo. – Eu devia ter te dado mais valor.
Aquela parte me pegou desprevenida. Definitivamente me pegou desprevenida. Quando não disse nada Harry me olhou, e por alguns segundos nossos olhos pareceram grudados um no outro. Não havia para onde fugir, ou para onde olhar. Eu sei que eu não queria olhar para nenhum outro lugar.
Então aconteceu. Em um segundo Harry se curvou para perto de mim e levou a mão à minha nuca, colando nossos lábios em um beijo. Meu estômago congelou feito uma pedra no mesmo segundo, e ao mesmo tempo em que meu cérebro só conseguia pensar que aquele era Harry, meu melhor amigo de infância, eu precisei reconhecer a força vergonhosa com a qual desejava aquilo há muito tempo. Foi tão forte, e foi tão de repente, que eu me senti fisicamente atordoada.
No momento em que o empurrei pelo peito e me coloquei de pé em uma fração de segundos foi que eu senti o quanto sua boca era macia e quente. Quando ela não estava mais encostada na minha, percebi que eu queria mais daquilo. Que se voltasse no tempo, eu o beijaria por mais tempo.
- Eu não... isso... – Balbuciei, sem saber exatamente o que eu estava tentando dizer.
Meu coração quase pulava para fora do meu corpo de tão forte que batia, e eu não conseguia digerir aquilo, então apenas o encarei de olhos arregalados por um momento, e Harry me olhava da mesma maneira sentado em minha frente no banco, sem saber o que responder. Levei a mão ao rosto, subindo para meus cabelos e os colocando para trás, tocando a ponta dos dedos nos meus lábios em seguida.
- Eu... preciso... – Dei dois passos para trás, e quando vi que ele não diria nada, virei as costas e saí dali quase correndo.
No percurso até perto da fogueira eu estava tentando entender o que acabara de acontecer, e não vi quando fui de encontro a Niall e ele me segurou ao bater em meu ombro com força.
- Nossa! Foi mal, .
Levantei o rosto para olhar para Niall e então uma coisa passou pela minha cabeça.
- Você está bem?
- Lance. – Eu disse, e ele franziu o cenho confuso. – Você... viu ele? O Lance?
- Ah... – Ele olhou para trás, e então apontou para o escuro ao longe onde havia algumas pessoas perto das árvores, conversando. – Vi ele indo para lá.
- Valeu – murmurei, passando por ele em direção àquele lugar.
Harry me beijou. Harry. Me beijou. O Harry. O Harry me beijou. Ele me beijou. Ele.
Isso só podia significar que ele sentia alguma coisa. Que por mais estranho que fosse sentir algo por alguém que deveria ser como um irmão para mim, ele também sentia isso. Que era estranho, mas também existia dentro dele.
Certo?
Só podia ser. Ele estava sóbrio. Ele estava... normal, até onde era possível. Ele estava sendo compreensivo, e diferente, e estranho, e aquele momento na mata mais cedo foi real. Não só para mim, mas para ele também.
Certo?!
Eu não queria criar todas aquelas possibilidades e aumenta-las dentro de mim. Mas eu sabia porque estava procurando Lance naquele momento, e eu sabia que o motivo era única e exclusivamente porque não queria mais nada com ele. Porque ele era ótimo, ele era incrível, me respeitava e me fazia rir e me sentir bem, mas...
Mas ele não era...
- Ah, merda. – Ouvi uma garota dizer para outra quando estavam vindo em minha direção. As olhei, e elas sorriam uma para a outra enquanto cochichavam, me olhando de canto. – Ela não vai gostar nada.
- Eu quero ver isso. – A outra respondeu, e parei de caminhar, confusa com aquilo.
- O que foi?! – Encarei-as, intimando-as a falar o que quer que fosse logo e parar com aquela merda. As duas pararam de andar há apenas dois metros de mim e uma delas olhou para trás.
- Se eu fosse você voltaria para a fogueira. Talvez não vá querer ver o que...
Olhei para onde ela havia olhado, e então continuei andando até lá, agora com mais pressa. Eu não sabia o que era, mas não me cheirava bem. As pessoas começavam a voltar para perto da fogueira, porque ali estava mais frio e escuro, mas as luzes lá de longe ainda iluminavam o suficiente para que eu conseguisse reconhecer o rosto de todos. À medida que fui me aproximando de uns bancos da arquibancada improvisada que estava montada ali para prova da manhã seguinte eu comecei a distinguir uma silhueta, que quando me aproximei mais percebi serem duas.
Era um garoto. Em cima de uma garota. Ambos quase que inteiramente deitados na parte mais baixa da arquibancada, e quando me aproximei mais eu pude até ouvir o barulho dos beijos. Meus passos foram ficando mais lentos à medida em que aquela cena ia fazendo sentido em minha cabeça. Quando eu estava perto o suficiente, pude perceber o que era aquilo.
Era Lance. Em cima de Rebekah.
Meu estômago revirou, e pela segunda vez na noite eu não soube entender o que estava sentindo. Repulsa definitivamente era um dos sentimentos, mas havia mais. Ao mesmo tempo em que algo muito semelhante a raiva tomava conta de mim, o beijo de Harry ainda tinha a atenção de boa parte da minha mente, e eu só conseguia pensar em como aquilo que eu estava vendo, naquele exato momento, não poderia ter acontecido em momento mais oportuno.
Mas eu ainda não esperava aquilo de Lance. Porque o modo como ele me fez sentir fez com que eu criasse uma imagem dele que seria incapaz de fazer isso comigo. E eu me sentia – tinha todo o direito de me sentir – traída.
Recuei alguns passos, mas acabei pisando em algo e fazendo barulho. Percebi que eles se afastaram, mas eu não queria lidar com aquilo agora, eu não queria precisar ouvir mais, digerir mais coisas sem nem saber por onde começar. Virei as costas e corri para longe daquilo, ouvindo a voz de Rebekah sussurrar um “eu acho que era ” aterrorizado e meio enrolado.
Só parei de novo quando cheguei perto da fogueira. Me apoiei em um tronco de árvore, sentindo minha cabeça girar um pouco e algumas pessoas me lançarem olhares que podiam – ou não – significar que eles haviam visto o que eu também vi. Meu cérebro estava trabalhando em um milhão de coisas ao mesmo tempo, então fechei os olhos e respirei fundo, tentando me concentrar em uma coisa de cada vez. E a primeira coisa que eu senti foi raiva de Lance por ser um tremendo babaca, por fazer aquilo comigo.
Eu só consegui pensar, naquele momento, que não o deixaria sair dali com qualquer gostinho de vitória sobre nada. Automaticamente, um pensamento se formulou em meu cérebro enquanto eu encarava todas aquelas pessoas em volta da fogueira, com copos de bebida nas mãos, alguns obviamente mais alegres do que outros, apesar de na mesa de comidas só haver refrigerantes. Alguém, ali, era responsável por aquilo, e se não fosse alguém do time vermelho eu faria com que fosse.
Decidi colocar toda aquela confusão que passei há pouco de lado e começar minha busca procurando por Josh. Ele definitivamente saberia de algo.
Zayn’s POV
- Nem todo mundo deu o melhor de si. – Ouvi um garoto falar atrás de mim enquanto eu lavava minhas mãos na bica d’água perto do celeiro. Ignorei o comentário que certamente era para mim. Até onde eu sabia, eu não era obrigado a me enfiar nessa maldita prova de tintas.
Nossa equipe, a vermelha, não ganhou a prova, no final das contas.
Lance aproveitou que não tínhamos outra opção além de ficar juntos naquele campo esperando pelo começo da prova, e nos deu um sermão sobre como juntos poderíamos ganhar aquilo, como estávamos todos focados no mesmo objetivo, que Paris seria nossa em breve. Mas tudo não passava de baboseira; ele parecia mais esforçado para provar alguma coisa para si mesmo.
Talvez se tenha se recusado a dar para ele.
Aí ele ficou frustrado sexualmente.
É, com certeza deve ter sido isso.
Mas, de qualquer forma, eu não podia ligar menos para essa pressão toda. O final de semana aqui deveria significar algo como diversão ou, pelo menos, descanso, mas não era nada assim. Ao invés disso, estávamos trabalhando na casa e no campo, além dessa gincana sem pé nem cabeça que nos levaria a Paris por um fim de semana.
Não, valeu.
Terminando de lavar minhas mãos sujas de tinta, senti, de repente, algo atingir minha cabeça e ouvi o barulho de estouro seguido de um líquido azul que escorreu sobre minha cabeça, tronco e caiu em minhas mãos também. Pouco atrás de mim, os macacos de Lance explodiram em risadas, mas cessaram assim que eu os lancei um olhar irritado. Virei-me para quem quer que tivesse feito aquilo e encontrei rindo abertamente para mim com suas mãos sujas de tinta azul.
- Você estava tão limpinho! – Ela sorriu para mim um sorriso travesso.
- Eu planejava continuar assim. – Contei.
- Ah, Zayn, qual é! – Riu e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, deixando tanto o cabelo quanto a orelha azuis. – Uma corzinha não faz mal. Não seja tão rabugento.
- Bom, se você já terminou de me sujar, vou entrar e tomar um banho. – Levantei as sobrancelhas sugestivamente. Arrependi-me um pouco da forma como havia falado já que ela não tinha muita culpa de eu ter me lembrado de como a irmã dela é uma escrota.
- Ah, claro. Eu já terminei. – O sorriso sumiu de seu rosto. Assenti, tentando mostrar uma cara mais de boa, mas deve ter saído mais como uma careta. – Então, vão anunciar a equipe ganhadora daqui a pouco. – Ela me seguiu quando comecei a andar em direção à casa. – Está animado para ir a Paris?
- Você está muito pessimista para quem tem a no time.
- Ficarei feliz por você também. – Sorriu.
- Por quê?
- Porque somos amigos, ora. – Franziu o cenho para mim.
Segurei-me para não demonstrar reação alguma.
Amigos.
Eu queria revirar os olhos. Ou rir.
- Agora somos amigos. – Murmurei.
- O que disse? – Ela parou em frente à porta da casa e se virou para mim. Ela estava engraçada com seu cabelo azul e as roupas coloridas de vermelho e amarelo. Era engraçado perceber, também, que ela não teria sobrevivido muito tempo naquela guerrinha, e as duas cores em sua roupa branca só comprovavam isso.
- Espero que você ganhe a gincana. – Falei ao invés de me repetir.
- Por quê? – Ela arqueou uma sobrancelha como se eu tivesse um motivo sombrio para desejar aquele tipo de coisa.
Eu tinha a resposta na ponta da língua e quase ri com a ironia que era usar as palavras de alguém contra eles mesmos.
- Porque somos amigos.

’s POV
Foi só durante essa última prova que eu comecei a dar a mínima para aquela gincana, quando percebi que estávamos liderando o ranking por mais de trinta pontos na frente. Acho que foi na prova de conhecimentos gerais que abrimos a vantagem, eu lembro de Zayn ter acertado algumas respostas, mas quem realmente levou aquela prova nas costas foi , que além de inteligente era rápida com o botão.
O jogo era simples, estávamos todos dispostos no grande campo, que estava dividido em três, e em cada um de nossos campos havia um grande galão de plástico com bexigas cheias de tinta da cor da nossa equipe. Em cada campo havia onze participantes, e para aquela prova eu fora selecionada por sorteio, assim como todos os outros que estavam participando. Era basicamente uma grande queimada, quem fosse atingido uma vez estava fora, e a última equipe que resistisse levava os trinta pontos.
Durei mais do que eu imaginava, porque como eu me posicionei atrás de um tronco próximo ao galão das bexigas, consegui pegar várias e não precisei sair do lugar por um bom tempo. No começo da prova a gritaria foi grande, e ao mesmo tempo em que aquela prova era decisiva, também era nítido que todos estavam se divertindo. Antes de sair eu consegui eliminar Rebekah, com uma bexiga de tinta vermelha na panturrilha, e um garoto do time de acertando em suas costas quando ele ficou exposto no campo. Aquilo não era tão difícil assim, e eu diria que meu desempenho foi muito melhor do que até eu mesma esperaria.
Na altura do jogo em que fui eliminada aconteceu que, bem quando levantei para pegar mais bexigas, a buzina do juiz soou e todos paramos de jogar, olhando para Martin, o coordenador da gincana, que levou o megafone que usava até a boca e comunicou:
- Atenção, por favor! Alunos e Niall Horan, os dois estão dispensados da prova. Por favor, dirijam-se até o celeiro. Os alunos Claire e Max entrarão no seu lugar.
Todos assistimos e Niall soltarem as bexigas que seguravam de volta no galão e saírem do campo, enquanto os outros dois entraram. Quando estavam no meio do campo, antes que eu pudesse me preparar para voltar, a buzina novamente soou e o jogo voltou a valer. Então levou apenas um segundo para que eu acordasse e desse um passo até o galão, pegando duas bexigas com as mãos, mas antes que pudesse me mexer, senti uma bexiga azul estourar bem no peito de minha camiseta vermelha, respingando um pouco em meu pescoço e queixo também.
Procurei pelo lugar de onde aquilo havia vindo e encontrei, tentando se esconder atrás do galão das bexigas azuis, Josh com um sorrisão no rosto.
- Foi mal gatinha, não misturo amizade com negócios! – Ele soltou uma gargalhada, piscando um olho para mim.
A próxima coisa que aconteceu foi uma bexiga de tinta vermelha que acertou o ombro de Josh e o fez hesitar antes de perder o equilíbrio e cair sentado para trás. Olhei para o campo do nosso time e vi Harry, no outro extremo do campo, soltando uma risada.
- Sorry, bro!
Um apito soou ao meu lado e olhei para a instrutora que cuidava o nosso campo. Ela apontou para mim e mandou que eu saísse do campo, já que estava eliminada, então eu o fiz. Caminhei em direção ao final do campo e comecei a subir o pequeno desnível na grama, segurando as bexigas que eu tinha nas mãos contra o corpo para, com o dorso da mão livre, limpar os respingos de tinta do meu queixo. Mas uma das bexigas vermelhas que eu segurava também estourou em minha camiseta e xinguei, parando de caminhar e afastando os braços sujos de tinta do corpo. Eu definitivamente precisava de um bom banho agora.
Ouvi uma gargalhada conhecida próxima de mim e levantei os olhos até onde Louis estava sentado na grama, próximo de algumas outras pessoas que também haviam sido eliminadas, assistindo ao final da prova. Estreitei os olhos para ele, mas Louis apenas riu mais e jogou a cabeça para trás.
- Algum problema?
- Quem parece estar com problemas é você – ele falou, se recuperando, e levantei a outra bexiga que eu ainda segurava jogando nele.
- Ahhh! – Ele abriu os braços olhando para a tinta vermelha que escorria em suas pernas. – Qual a necessidade disso?!
Soltei um riso anasalado e olhei para meu próprio corpo de novo. Eu estava grudenta, e parte daquela tinta começava a secar. Olhei para a prova ainda rodando atrás de mim e então eu decidi sentar por um momento no chão ao seu lado e terminar de ver qual seria o resultado.
Senti Louis me lançar um olhar, mas eu não olhei para ele. Apenas fiquei ali, sentada, enquanto tentava me concentrar na prova.
Não falamos mais nada, e uns minutos depois a prova acabou em uma disputa acirrada entre os azuis e os vermelhos. Enquanto em nossa equipe quem sobreviveu até o fim foram Lance e uma garota, nos azuis Liam e estavam firmes, até que ela cometeu um erro e foi eliminada, mas não sem antes tirar a última garota do nosso time. Então ficaram os dois caras, e a conclusão foi rápida. Lance estava sem mais bexigas, e ele já sabia que era um movimento perdido quando levantou para pegar mais, porque não podia se esconder, visto que Liam estava escondido atrás do galão azul com todas as bexigas para si. A equipe azul ganhou, mas aquilo não acabou por ali.
Todos foram se lavar, fazendo filas nos dois chuveiros que haviam instalados ao lado do celeiro ou nas torneiras que também estavam espalhadas por ali, ou perto da horta. Anunciariam o vencedor em vinte minutos, e enquanto isso a coordenadora da equipe da cozinha veio avisar a um por um de nós que depois que nos lavássemos era para irmos direto para lá e ajudar a terminar o almoço. Então fui lavar minhas mãos e braços e as partes do meu rosto que estavam respingadas de tinta azul, e voltei para perto do campo a tempo de ouvir o resultado. Fiquei mais longe de todo mundo que estava no campo, já que não tínhamos muito tempo para voltar à cozinha, mas eu queria ver o resultado daquilo antes.
As duas equipes se juntaram no meio do campo, com Martin Ross entre eles e um clima de suspense.
- Bem, como todos podem ver, até o presente momento antes do final dessa prova, quem estava na frente por trinta e dois pontos era a equipe vermelha – ele apontou para o placar, feito de placas de números em um poste de madeira feito aqueles que haviam em fábricas para exibir há quantos dias estavam sem acidentes. – A equipe vencedora da prova das bexigas e, portanto, quem levou os trinta pontos que ela valia, é a equipe azul.
Todos agora estavam em silêncio. Apesar de logicamente a vitória ainda ser do time vermelho, por conta da minúscula diferença todos ainda estavam meio duvidosos, então esperavam ansiosamente pelo resto do que Martin estava para falar. E ele ainda fez alguns segundos de suspense antes de dizer:
- Por uma diferença de apenas dois míseros pontos...! – Ele sorriu, olhando para as duas equipes. – Quem ganha é a-
Porém antes que ele pudesse terminar a frase, e enquanto todo mundo da nossa equipe segurava o grito da vitória na garganta, uma das instrutoras da gincana chamou Martin e ele virou para trás, curvando-se para perto dela para ouvir o que ela disse. Depois de um momento de tensão, ele voltou a virar para frente e ligou novamente o megafone.
- Parece que tivemos um imprevisto aqui. – Ele pigarreou, segurando um pequeno pedaço de papel que havia recebido da instrutora. – Aparentemente alguém da equipe vermelha quebrou as regras ontem à noite ao trazer para a fogueira bebidas alcoólicas, que como vocês já estavam cientes ao lerem as regras da gincana, é uma penalidade cobrada pela eliminação do participante e deposição de pontos.
Prendi a respiração, olhando para o lado e trocando um olhar com Louis, que parecia um tanto confuso, e deu de ombros para mim. Voltei a encarar o desfecho daquela história enquanto via todos os alunos cochicharem entre si criando um burburinho. Enquanto isso, percorri os olhos pela equipe azul que estava disposta no campo ao lado esquerdo de Martin, e percebi Liam cochichando algo no ouvido de e ela concordando com a cabeça para ele. A garota tinha os braços cruzados, a expressão determinada e parecia encarar os participantes da equipe vermelha com fogo nos olhos, e eu podia ter certeza absoluta que aquilo partira dela. Quer dizer, todos sabíamos que havia bebida na noite anterior, porque todos tomamos dela, mas nem sequer passou pela minha cabeça ir atrás de quem conseguiu aquilo em primeiro lugar. me surpreendeu, porque mostrou que queria aquilo muito mais do que parecia importante para qualquer outra pessoa. Ou aquilo devia ser algo muito pessoal para ela.
Depois de um momento, Martin voltou a dizer:
- Devido à quebra de regras na noite passada, a penalidade será a cobrança de um total de vinte pontos. Sendo assim, a equipe vermelha fecha essa gincana com 122 pontos, enquanto a azul fecha com 140.
Bufei, passando as mãos nos cabelos e apoiando as mãos atrás do corpo no chão, sentando para trás. Eu nem sabia se realmente me importava com aquilo, mas agora estava no clima de competição, e havíamos perdido por algo muito estúpido. E muito bem pensado, da parte de .
- Com uma diferença de dezoito pontos, a equipe vencedora da trigésima sétima gincana anual do St. Bees School é a equipe azul!
A comemoração de todos da equipe vencedora explodiu nessa hora. Ao ver a felicidade com que todos aqueles alunos pulavam, eu precisei admitir para mim mesma que aquilo era bem mais divertido, de um modo geral, do que qualquer coisa que um simples colégio tinha a oferecer por aí. Significava algo, pelo menos para a maioria daqueles alunos. Então eu apenas me sentia bem por ver todas aquelas pessoas felizes.




Niall’s POV
E nasceu.
Enquanto Marina limpava a pequena ovelha que havia acabado de sair de Cookie, um dos caseiros da fazenda reabastecia os cochos com água e mais ração. , ao meu lado, parecia tranquila e até esboçava um pequeno sorriso com os olhos atentos aos movimentos de Cookie.
Já eu estava chocado.
Enojado.
Enjoado.
Meus pés pareciam pesar toneladas para que eu os tirasse do chão e me afastasse daquela cena toda.
Mais cedo, pouco depois que a prova dos balões de tinta começou, Marina veio nos chamar depressa, dizendo que o filhote de Cookie estava para nascer antes do tempo e que seria de grande valia que estivéssemos presentes para ter a “experiência completa”.
Ledo engano; mal sabia no que estava me metendo.
Assim, à medida que me recuperava do trauma, em silêncio, Marina e o caseiro terminavam de cuidar de todos os detalhes da baia de Cookie, para que ela ficasse o mais confortável possível com seu novo filhotinho. E eu já estava melhor, achando a cena toda quase normal quando a ovelha-mãe simplesmente se curvou sobre a placenta – que foi expelida de uma maneira não menos nojenta que o próprio filhote – e a lambeu. Naquele momento eu decidi que aquilo era demais para mim, mas estava tão firme ao meu lado que tive que me segurar para não dar meia volta e ir vomitar em algum lugar.
- Pronto! – Marina bateu uma mão na outra para limpá-las e nos lançou um sorriso amistoso. – Incrível, não?
Não.
- Incrível. – Repeti sem a emoção que ela havia usado. riu baixinho ao meu lado.
- Ela foi bem rápida. – observou, inclinando-se um pouco mais sobre a porteira fechada.
- Já é o segundo filhote dela. – O caseiro explicou. – Elas pegam a prática. O próximo não levará nem trinta minutos. – Sorriu.
Eu não conseguia nem imaginar outra cena daquelas sem sentir um leve tremor percorrer meu corpo em repulsa.
- Bom, temos que levar as outras ovelhas para o pasto. Vocês estão dispensados, só queríamos que vissem como acontece esse milagre. – Dizendo isso, Marina colocou a mão na porteira e saiu da baia junto com o caseiro. Marquei o lugar onde ela havia posto a mão, tomando o devido cuidado para não tocar aquilo.
Quando estávamos sozinhos, riu novamente.
- Você odiou isso. – Acusou.
- O quê? – Pigarreei. – Não. – Menti. – Claro que não. Isso foi... extraordinário.
- Extraordinário? – Repetiu a palavra com uma risada sutil. – Achei que você fosse desmaiar quando viu a dilatação dela.
Outro calafrio passou por mim.
- Esse celeiro inteiro passaria por ali, , você sabe disso.
Dessa vez, ela soltou uma risada mais alta.
- Não seja tão dramático. Como você acha que você nasceu? – Arqueou uma sobrancelha para mim.
- Ah, não, não, não. – Balancei o dedo indicador várias vezes em negação. – Minha mãe disse que meu nascimento foi a coisa mais linda do mundo, um verdadeiro milagre. Não isso.
- Qual é a grande diferença entre seu parto e o dessa nobre ovelha?
- Minha mãe não lambeu a placenta dela. – Falei como se fosse óbvio. me fitou por alguns segundos, como se deliberasse se minha resposta fazia sentido ou não, mas, por fim, abriu um sorriso aberto e sincero que me fez sorrir com ela, mesmo que não soubesse o motivo pelo qual estávamos sorrindo.
- Ok, ponto para você. – Voltou a olhar a ovelha.
Eu, por outro lado, não tirei meus olhos dela; . Não pude deixar de notar como ela parecia especialmente diferente naquele momento tão singular. Na verdade, ela não estava diferente, ela estava contemplativa, como se aquela situação fosse muito mais do que parecia ser. Seu rosto exposto pelo cabelo preso me dava a exata expressão de melancolia e um misto de algo mais. E me espantava o fato de que eu conseguia distinguir essas coisas nela.
- Já você lidou muito bem com tudo isso. – Declarei.
- Minha irmã nasceu em casa. – Contou ainda sem tirar os olhos da ovelha, que aninhava seu recém-nascido em sua barriga.
- Sério? – Arqueei as sobrancelhas em surpresa.
- Sim. Meus dez anos não foram suficientes para me impedir de entender o que estava acontecendo no andar debaixo. – Soltou uma risada rouca.
- Acho que não é possível inventar uma mentira muito didática para crianças sobre um parto.
- Não, não dá. Mesmo que você diga que os gritos da mamãe são porque o bebê está chutando muito porque quer sair logo. – Riu de si mesma. – Eventualmente você vai sair do quarto e ir ver o que está acontecendo. É inevitável.
- E depois ter que explicar como milagrosamente um bebê apareceu nos braços de sua mãe? Nah, foi melhor assim, você os poupou de muita deliberação não-criativa dos adultos. – Sorri para ela.
- Sim. – Soprou numa risada incompleta, quase forçada. Podia ver, de alguma forma, em seus olhos que ela revivia a lembrança.
- Não sabia que você tem uma irmã.
- Tinha. – Ela me corrigiu tão depressa que me deixou sem reação. – Desculpe. – Outra risada soprada.
- Não... – Cocei a nuca, desviando o olhar de seu rosto. – Tudo bem.
Deixei que o silêncio crescesse entre nós para dar-lhe algum espaço, mas ela se desencostou da cerca de madeira e me lançou um sorriso mecânico, como se ela ensaiasse para esboçar aquilo quando necessário. Mas, mesmo assim, não escondia o machucado que havia ali.
- Está tudo bem, Niall. De verdade. – Tocou minha mão gentilmente e eu mal pude acreditar no absurdo daquelas palavras, daquele gesto. Como ela podia falar comigo como se fosse eu quem devesse ser consolado? Sem pensar, tirei minha mão de baixo da sua e a segurei. Ela olhou nossas mãos antes de abrir um sorriso para mim, como quem se desculpa. – Depois de um tempo você percebe que as pessoas se entristecem mais do que você ao ouvir isso. Além disso, não se pode viver de luto para sempre, não é? – Ela disse essa última parte com um ar de graça, quase como se aquilo fosse algum tipo de piada interna.
- Acho que não. – Respondi num tom de voz baixo, sem saber muito o que fazer.
- Niall. – Seu tom de voz ficou sério e firme. – Por favor.
- Só porque você superou não quer dizer que eu tenha que agir da forma que você quer, . – Rebati, sentindo-me incomodado com sua persistência em me fazer sentir melhor.
- Eu não... – Fez uma pausa medindo o que diria a seguir. – Superei. – Franziu o cenho como se a palavra não fosse adequada ou tivesse um gosto ruim. – Longe disso.
Se não parecesse loucura, eu poderia jurar que seus olhos ficaram um pouco mais escuros ao dizer aquilo. Talvez mais sombrios e pesados de modo que eu pude ter certeza de que o que ela disse antes era uma “piada interna” e havia muito mais sobre aquilo do que eu podia imaginar. Constatar isso foi o fim para mim, porque um milhão de perguntas surgiram em minha mente. Nenhuma delas sendo menos invasiva que a outra.
Olhei para nossas mãos ainda juntas em cima da madeira velha e úmida, certo de que, por algum motivo, eu sentia que poderia lhe fazer cada uma delas. Não sabia como nem porque me sentia daquela forma, muito menos sabia se me daria tal abertura.
Pelo amor de Deus, há menos de algumas semanas eu havia entrado numa aposta maluca em que ela era o alvo.
não me devia nada, mas mesmo assim eu senti uma necessidade estranha de saber.
- É por isso que você precisa delas? – As palavras simplesmente saíram de minha boca sem que eu tomasse conhecimento delas. voltou o olhar para mim com uma clara interrogação em seu rosto.
- De quem?
- Das pílulas.
O silêncio que se formou em seguida fez minhas palavras parecerem cortantes e letais. não respondeu por alguns segundos.
Eu nunca a vira daquela forma; tão calada e pensativa, parecendo calcular tudo que diria ou faria. Seu rosto era uma folha em branco.
- Sim. – Ela, por fim, respondeu, para meu completo espanto. – Eu não deveria confiar em você.
- Não espero que confie em mim. Jamais. – Balancei a cabeça.
- Mas eu quero. – Franziu o cenho.
- ...
- Eu tinha uma irmã. – Ela repetiu e respirou fundo. – Eu tive uma irmã até os meus quatorze anos.
Outra pausa para puxar o ar. Ela fechou os olhos e, quando eu achei que ela iria desistir de dizer o que quer que iria dizer, abriu os olhos e continuou a me contar sua história.
- Ela foi morta. – Começou. – Nós estávamos fazendo um roteiro de visitas a castelos, como sempre fazíamos no início das férias de verão. Minha mãe tinha esse sonho de visitar todos os castelos da Inglaterra com a família dela. Era divertido. – Soltou uma risadinha, parecendo distante. – Enfim, estávamos nesse Castelo de Durham, no estacionamento, pegando a cesta com as coisas para o piquenique que faríamos no jardim do castelo, quando esse homem se aproximou de nós pedindo uma informação, direções... Enfim. Ele anunciou o sequestro em menos de cinco minutos de conversa. Colocou todos nós dentro do carro, apontou a arma para meu pai, disse a ele para dirigir... Estávamos tão longe de casa, não sabíamos aonde estávamos indo, não sabíamos onde ficava o caixa eletrônico mais próximo, o homem não parava de gritar, dava ordens sobre onde virar, quando parar, se alguém fizesse alguma gracinha ele mataria meu pai.
Vi o momento em que seus olhos se encheram d’água e a primeira lágrima caiu. Num instante, soltei sua mão e a puxei para um abraço.
- ...
- Não consigo me lembrar em que momento tudo deu errado. – Ela continuou murmurando a história contra meu ombro. – O homem estava tão nervoso. Ele gritava tanto. Catherine odiava gritos. Ela simplesmente não os suportava. Ela chorava, ele gritava. E os gritos se misturavam aos choros. Tanto barulho. – À medida que a história prosseguia, apertava os dedos contra meu casaco. Meus ouvidos zumbiam como se eu pudesse ter alguma noção do que se passara naquele momento. A forma como ela continuava sussurrando as palavras “barulho” e “gritos” me passava angústia. Ela balançou a cabeça. – De repente não havia mais barulho.
Prendi a respiração quando ouvi as palavras saírem de sua boca.
Ela soltou as mangas de meu casaco e levantou a cabeça, mostrando-me seus olhos e rosto vermelhos. Havia um vinco formado entre suas sobrancelhas, como se ela não soubesse onde estava, como se estivesse confusa.
- O barulho parou. – Ela sussurrou de novo, dessa vez com os olhos marejados.
Mantive meus olhos nos seus, sem saber o que dizer ou que fazer.
Aquilo era muito particular, muito dela. Cada detalhe, cada palavra.
- Eu nunca contei essa parte para ninguém além da . – Disse ela. Abri um sorriso fraco, apreciando aquele detalhe que ela acabara de contar. Eu gostei de me sentir especial para ela.
Mas a semântica logo me atingiu e o sorriso sumiu de meu rosto, dando lugar ao espanto.
- Essa parte? – Franzi o cenho.
- Tem mais.


’s POV
A cozinha estava em silêncio desde que chegamos ali para dar continuidade no almoço, há uns dez minutos. Depois da última prova, todos nós que ficávamos na cozinha fomos os primeiros a nos lavar para poder mexer com a comida. Tirar toda aquela tinta da pele não foi difícil, já que saía bem facilmente com água.
- Por que tivemos que voltar para cá? Todo mundo já tá livre pelo fim de semana. – Uma garota resmungou enquanto lavava folhas de alface em uma bacia de água, e a professora que passava por ali nos supervisionando a olhou.
- Porque alguém precisa fazer a comida, e os únicos alunos que já foram dispensados das suas tarefas são os da equipe vencedora.
- Maldita – Zayn, que picava uns tomates ao meu lado, murmurou me fazendo rir baixo.
Eu secava uns pratos que tirava de dentro da lavadora de louças e os apoiava em um balcão próximo a nós, enquanto pensava novamente naquela gincana toda.
Fui até o grande fogão ao lado da pia para ver se o molho que alguém fez não estava queimando, sendo essa minha única e mais importante função ali.
- Pelo menos posso dizer que vou sair desse colégio sabendo cozinhar o suficiente pra não morrer de fome – comentei, levantando um pouco a colher com molho e o soltando de novo na panela, lançando um olhar para Zayn. Depois desliguei o fogo.
Uma das garotas que estava levando a comida para o refeitório pegou a panela com a ajuda de luvas e a levou para fora da cozinha.
- Eu já sabia. Sou um ótimo cozinheiro. – Respondeu, e eu não soube decidir se aquilo foi ironia ou era verdade. O encarei por um segundo antes de voltar a secar os pratos.
- Você está mentindo.
- Não – ele me olhou e balançou a cabeça. – Eu sei o básico. Já precisei sobreviver sozinho algumas vezes.
- Eu definitivamente não consigo imaginar isso – Ri fraco, tentando imaginar Malik em casa cozinhando. - Não. Definitivamente não.
- Oh, ela fala. – Vi comentar baixinho enquanto passava por nós, debochando de mim, e respirei fundo trocando um olhar com ele. Pelo menos da minha parte o olhar dizia que eu podia mata-la facilmente, sem remorso algum.
- Eu também não imagino. – Ouvi a voz de atrás de nós, e ela se aproximou pegando outro pano para me ajudar a secar o resto.
- Você não é da equipe vencedora? – Zayn perguntou, mudando o assunto. – Tá fazendo o que aqui?
- É sempre bom ser bem recebida – Ela disse e me olhou, arqueando as sobrancelhas. Sorri um pouco. – Eu sou, mas não estamos fazendo nada demais lá fora... Resolvi vir ajudar aqui, para ver se o Harry parava de reclamar. – Falou olhando por cima do ombro e segui seu olhar, vendo Harry praticamente se arrastando para fora da cozinha e levando uns copos em uma bandeja para botar nas mesas. – E também estou com fome, assim o tempo até o almoço passa mais rápido!
- Isso aqui sobrou – a garota que havia levado a panela de molho voltou com a mesma a soltando no fogão de novo, com um pouco de molho dentro.
- O que eu faço com isso? – Perguntei, olhando em volta para ver se localizava a professora que sempre estava ali, mas ela devia ter saído pela porta de trás para fumar. O cheiro de nicotina que voltava com ela sempre que ela vinha lá de fora me deixava nervosa.
A garota que soltou a panela simplesmente deu de ombros e sumiu dali, tirando as luvas e as soltando em algum lugar com pressa de se livrar logo do trabalho. Virei para Zayn e .
- Vê se a quer um pouco. – Zayn comentou, levando um tapa dela. – Você não estava com fome?!
- Deixa eu ver isso aqui, podemos usar em alguma outra coisa. – se aproximou pegando a colher de dentro da panela, mas ela escapou da sua mão e caiu de volta no molho e espirrando em nós duas. Fechei os olhos sentindo o líquido morno respingar em todo o meu rosto e quando os abri novamente e vi o rosto dela também sujo, ouvi Zayn rindo de nós duas.
Viramos para ele, que quando viu nosso olhar sobre ele apenas riu mais, levando uma mão à barriga, como se não conseguisse se segurar. virou de volta para mim e trocamos um olhar, e enquanto ela pegava uma colher cheia de molho eu olhei para a porta de trás da cozinha para ver se a professora não aparecia por ali.
virou para Zayn jogando molho nele também, que parou de rir quando sentiu o molho pegar em seu rosto e no peito da sua camiseta branca.
- Ô! Por que vocês...? - Ele nos lançou um olhar irritado, e logo veio para perto puxando a panela pela outra alça que eu não segurava. A puxei de volta.
- Me dá isso aqui.
- Para! Você vai fazer merda.
- Zayn... – tentou o empurrar pelo peito para longe, mas ele continuou puxando a panela.
- Me dá essa panela, !
- Solta a panela!
- Vocês vão...
- Ei! O que merda vocês acham que estão faz... – Ouvi a voz de se aproximar enquanto começava seu discurso, mas a panela escapou de minha mão quando Zayn puxou muito forte e o molho virou sobre ele e , que estava atrás dele, respingando um pouco em também.
Mordi o lábio inferior tentando não rir, mas não consegui segurar a risada ao ver a cara dele toda suja de molho de tomate, e logo me acompanhou rindo junto. A cara de ... O molho pingando do seu cabelo... Eu nunca pensei que fosse rir tanto e a culpada fosse ela.

Cinco minutos depois estávamos todos sentados ouvindo a professora dar sermão sobre quantas pessoas não tinham comida em casa enquanto nós estávamos jogando fora. Pela segunda vez naquele dia eu estava toda grudenta, e nem era meio dia ainda. No final ela nos liberou, dizendo para sairmos logo dali antes que mais coisas fugissem do controle.
Terminei de passar o pano úmido no rosto tirando molho de onde eu sentia que ainda tinha, e soltei-o na pia limpando as mãos. Segui em direção ao refeitório notando que algumas pessoas já estavam lá dentro sentadas nas mesas conversando enquanto esperavam o almoço, e ao ir em direção à porta de entrada, dei de cara com Louis e Liam.
- Ei. Você tá... – Liam apontou para o seu próprio pescoço, e passei a mão no meu onde ele indicou sentindo ainda um pouco de molho na pele.
- Merda – murmurei, passando por eles.
- , espera. – Louis chamou, se despedindo rapidamente do amigo para me seguir, e não parei de andar. Eu precisava chegar no quarto e terminar de me limpar. – Ei. Escuta.
Olhei para o lado quando vi que ele me alcançou. Depois de semanas mal olhando na direção um do outro, esse acampamento começou a fazer com que nos aproximássemos de novo, e eu não sabia dizer até que ponto isso era ruim. Ou bom. E eu sabia que era melhor que ele continuasse longe, mas não sabia mais como afastá-lo. E outra parte de mim sempre queria ouvir o que ele tinha a dizer.
- Hum?
- Você tá bem? Valeu por ajudar ontem, com o Harry e a e tudo... – Agradeceu e eu o encarei.
- Tudo bem. – Assenti para ele e voltei a olhar para o chão, franzindo o cenho e diminuindo um pouco a velocidade da caminhada. Pigarreei. – Eu acabei não parabenizando vocês pela apresentação. Foi o máximo. – Olhei para ele e assenti, sendo honesta. Havia um tipo de pedra de gelo que parecia cair em meu estômago por um segundo toda vez que lembrava do arrepio que percorreu meu corpo quando ouvi as primeiras notas de Screen naquela noite. Porque era ridícula aquela minha reação, e era absurdo que uma simples música significasse muito mais do que eu imaginava que poderia significar.
- Mesmo? – Louis sorriu para mim, e só consegui assentir. Desviei os olhos do rosto dele, eu odiava como ele nem se importava em esconder o quanto gostava quando eu o elogiava ou falava com ele.
Continuamos andando.
- A gente vai estar na sala de jogos depois do meio dia. – Ele comentou um momento depois, quebrando o silêncio. – Eu, os caras... as meninas também. Vamos estar todos lá para curtir o resto do dia. Comemorar com quem ganhou.
Ontem à tarde, durante a procura por e Harry, havia sido diferente da viagem que fizemos antes das férias. Foi quase como se, mesmo que alguns de nós não fossemos muito próximos – e eu não era próxima a ninguém ali – todos fizéssemos parte de algo. Pelo menos foi isso que eu senti. Fazia tanto tempo que eu não andava com um grupo de pessoas assim, que a experiência de estar entre muitas pessoas pareceu até estranha. Mas de um modo bom, porque eles estavam tão distantes de tudo que me atormentava, que parecia outro mundo. Me fazia esquecer um pouco.
Sem contar que as coisas eram sempre muito loucas quando estávamos todos juntos.
Mas não éramos melhores amigos e muito menos o clube da Luluzinha.
- Ok. – Olhei para Louis e assenti. – Valeu.
Ele parou de caminhar e me olhou por um momento, e então assentiu.
- Ok. – Repetiu. – Até mais, . – Disse virando as costas, e voltou por onde viemos.
Continuei andando para a grande casa e suspirei.
- Ok.


’s POV
Empurrei o carrinho pelo corredor a passos lentos e tranquilos, sem a menor pressa de chegar em cada destino que precisava de novos rolos de papel higiênico ou mais papel toalha. Não sabia muito bem por que estava fazendo aquilo, já que minha equipe, a vencedora, havia sido dispensada, mas eu me voluntariei mesmo assim, já que não tinha coisa muito melhor a fazer, apesar de Liam ter me chamado para vê-lo jogar videogame na sala de jogos com os meninos.
Eu iria para lá eventualmente, mas não naquele momento.
Cheguei ao último banheiro antes do refeitório, que ficava perto de alguns armários de toalhas e outros tipos de panos para a casa. Tirei dois rolos de papel higiênico do carrinho, alguns punhados de papel toalha e um refil novo de sabonete líquido, rindo um pouco ao me imaginar em algum hotel de luxo sendo uma camareira. Imaginei que, talvez, aquele trabalho não fosse tão ruim assim; mas com certeza não era nada agradável quando a emergência não era papel higiênico, mas, sim, um desastre intestinal.
É, talvez eu esteja fazendo só a parte fácil do trabalho.
Dei a volta no carrinho, puxando a maçaneta da porta e a abri.
- Isso nunca vai sair. – Avistei Zayn de pé em frente a pia, analisando a mancha em sua camisa branca. riu de onde estava sentada; na pia ao lado dele, limpando seu pescoço com um pedaço de papel toalha. Ele ia responder alguma coisa, mas se deteve ao me notar na porta. – Oi, . – Disse, soltando a camisa e cumprimentando com a cabeça. Depois saiu, passando por mim sem dizer muita coisa.
Tentei não transparecer a confusão em meu rosto ao perceber que ele estava agindo estranho comigo. Era só comigo? Balancei a cabeça para espantar não somente aquele tipo de pensamento, mas a sensação de estar fazendo papel de idiota ali. Levei os materiais para cima da pia e olhei .
- Ainda tem molho? – Perguntei, tentando parecer simpática.
- Liam me avisou. – Respondeu, molhando o papel toalha com água e voltou a passar em seu pescoço.
- Acho que está limpo. – Analisei sua figura de onde eu estava.
Abri o refil de sabonete líquido e o despejei no frasco em cima da pia de mármore claro, enchendo o banheiro com o cheiro de lavanda. Eu tentava não pensar muito no que acabara de sentir por causa de Zayn. Quero dizer, não é muito legal sentir que alguém está te afastando ou te tratando mal, não há nada de anormal nisso.
Mas eu sabia que havia mais quando se tratava dele.
Eu era idiota a esse ponto.
- Então... – começou a falar, mas parecia sem jeito. Agora, isso é uma novidade. sem jeito. – O Malik estava me ajudando a limpar o molho...
- Claro que estava. – Murmurei depressa, mas mordi a língua, arrependida imediatamente.
What the hell?
- Não aconteceu nada. – Ela continuou, parecendo ainda mais sem graça por estar dizendo aquilo, mas eu não saberia dizer quem estava mais sem graça por estar ali naquele momento.
- , sério. – Fechei o frasco de sabonete e olhei para ela. – Não precisa me explicar nada. – Garanti.
- . – Ela mudou o tom de voz, passando do constrangedor para o acusador. – Não precisa ser nenhum gênio para ver que vocês têm alguma coisa. – Revirou os olhos. Abri a boca para refutar, mas ela foi mais rápida: – É até bonitinho. E nem adianta tentar negar.
- Vou negar mesmo assim. – Respondi. – Não sei se já percebeu, mas eu não sou bem o tipo de garota dele.
- Ninguém está te pedindo para ser outra pessoa.
- Não faz muito sentido, de qualquer forma, . Ele não é exatamente a pessoa mais educada ou mais gentil do mundo. Não nos tratamos como se houvesse algo.
Depois do que aconteceu na cozinha no sábado, achei que algo fosse acontecer, mas, provavelmente eu havia pegado os sinais errados e enchi minha cabeça de expectativas idiotas.
- Claro que não. – rebateu, cheia de ironia. – Você acha mesmo que um cara como ele demonstraria qualquer coisa que sente?
- ... – Suspirei, sentindo-me idiota por estar suspirando. – Não.
Peguei os rolos de papel higiênico e os coloquei na cesta ao lado da privada, depois me ocupei com o papel toalha.
- Você gosta dele? – Ela perguntou de repente.
Eu queria ter a resposta na ponta da língua. Uma curta, direta e decisiva resposta na ponta da língua para me livrar daquilo tudo.
Eu hesitei.
- Não é um ‘não’. – Ela abriu um sorriso esquisito, porque era esquisito ver sorrindo algo que parecia ser sincero. Ou pelo menos eu achei sincero.
- Não é nada. – Reforcei, dando-lhe as costas.
- . Você não é mais uma criança, não adianta negar as coisas, você precisa lidar com o que você tem. – Disse com seriedade, mas essa postura sumiu na fala seguinte. – Que, no caso, são sentimentos por ele. – Soltou uma risadinha. – Não pude evitar.
- Isso é absurdo. – Balancei a cabeça, sentindo-me completamente estranha, meio fora de órbita.
- Não espere nada dele, . – pulou da pia, ficando de pé ao meu lado. – Faça o que diabos você quiser fazer. – E, dizendo isso, ela saiu do banheiro também, deixando-me a sós com minha figura petrificada no reflexo do espelho.
Senti-me mais idiota ainda por perceber o que estava acontecendo ali, por fim.
Era claro, óbvio, que eu sentia alguma coisa por Zayn.
Ele é outro idiota.
E o problema dos idiotas é que eu já estourei a cota de idiotas na minha vida, e não estava procurando mais nenhum candidato no momento, obrigada.
Mas havia algo nele... Algo na forma como ele falava, algo na forma como ele tentava de todas as formas esconder coisas que parecem que para mim sempre estiveram lá, escancaradas para serem vistas, algo na forma como eu o via.
Involuntariamente, vi meu reflexo no espelho esboçar um sorriso. E foi nesse exato momento que eu senti um arrepio passar por todo meu corpo.
Eu já estive ali antes. E aquele caminho só me levou a decepções e tristeza.




Liam’s POV
- Vai, vai, vai, vai... – Josh gritava ao meu lado enquanto eu fazia a jogada no Fifa 16 contra Peter, um garoto da equipe vermelha. O cara era gente boa, mas andava com Lance, por isso a rivalidade era inevitável e isso nos influenciou de alguma forma quando decidimos revezar as partidas no videogame. No jogo, controlei o Cristiano Ronaldo de forma que ele driblasse o Suárez e chegasse na grande área do Barcelona. – Vai! – Ele balançou meu ombro. Apertei o botão B e meu jogador chutou direto para o gol, marcando o ponto. – Porra! – Josh berrou. – Esse é meu garoto, porra!
A partida acabou e eu me levantei do sofá para dar a vez a outra pessoa, assim como fez Peter também.
- Na cara daqueles mauricinhos! – Harry falou antes de levantar a mão para mim e fazer um high-five comigo.
- É! – Concordei, rindo um pouco com eles. – ! – Gritei quando a vi entrar na sala de jogos.
- Hey, parceiro! – Ela me abraçou e fizemos um toque. – Como você está se sentindo? Como um campeão?
- Não sei, acho que estou me sentindo meio francês, já. – Cocei o queixo, fingindo estar pensando sobre aquilo.
- Ok, ok! Já sabemos: vocês venceram! – Louis ficou entre e eu. – Já entendemos, não sejam tão idiotas. – Revirou os olhos.
- Sinto cheiro de inveja, Tomlinson? – Josh provocou, esfregando o punho no topo da cabeça de Louis. – Não se preocupe, traremos um croissant para você!
- Vocês são insuportáveis. – Louis ralhou, mas acabou entrando na brincadeira também e empurrou Josh pelo ombro.
Conduzi o grupo até o sofá mais próximo e nos acomodamos ali.
- Vocês não imaginam as coisas que eu tenho ouvido de vocês. – segurou meu braço e me empurrou um pouco para que eu afastasse e lhe desse espaço para se sentar contra as costas do sofá e esticou as pernas em meu colo. – Parece que vocês são de ouro ou coisa do tipo.
- Conte alguma novidade, Sunshine. – Harry abriu um sorrisinho para ela, arqueando as sobrancelhas para ela.
- Não seja tão convencido. Não ouvi muito sobre você. – Ela arqueou a sobrancelha, provocativa. – Liam é o cara da vez.
- É foda ser gostoso. – Dei de ombros, incapaz de não rir. – É a bateria, cara. – Desculpei-me para Harry, que parecia indignado com a informação.
- Agora o Zayn... – Ela começou a contar, mas ele logo entrou na sala de jogos e veio se sentar conosco.
- O que tem eu? – Esparramou-se na poltrona ao nosso lado.
- Você é repulsivo. – sorriu para ele, zombeteira, e, se eu não soubesse que, de alguma forma, tinha liberdade para falar daquele jeito com ele, eu diria que ela está ficando louca. Mas ela tinha liberdade, tanto que ele soltou uma risadinha fraca, mas não rebateu.
- Agora sério.
- Você subiu uns degraus na escada da fama do St. Bees. – Ela adicionou.
- Tudo que eu sempre quis. – Disse ele, revirando os olhos.
- Vem cá, a será nossa mosquinha por dentro do mundo feminino pra sempre? – Josh quis saber, parecendo animado com a ideia.
- Só quando eu estiver de bom humor, Devine. O que é o caso de hoje... – Ela apontou para mim e abriu um sorriso. – Porque nós ganhamos! – Bati minha mão na sua.
- Ah, fala sério! – Harry bufou. – Não teríamos perdido se alguém não tivesse dado com a língua nos dentes.
- Talvez se alguém não tivesse trazido as bebidas em primeiro lugar... – deixou a frase morrer no ar, sugestivamente.
- Aí não teríamos tomado aquelas jelly shots, Sunshine. – Harry abriu um sorriso pequeno para ela. Fiquei impressionado de saber que eles haviam bebido juntos na noite passada. Que bom que já estavam se dando tão bem assim.
Olhei para . Se ela não ia contar, eu também não iria, com certeza. Louis desconversou falando sobre o que mais sentiria falta desse final de semana: a comida.
- Nem parece que quem esteve cozinhando esse tempo todo foi o Zayn. – Josh riu para ele, imaginando que teria a mesma recepção de , mas o cara apenas o olhou sem dizer nada, o que foi suciente para Josh parar de rir.
- Cara, eu comi um bolo de laranja... – Louis fechou os olhos. – Posso sentir o sabor se me concentrar bem.
- Hey. – Niall se sentou no braço da poltrona ao lado de Harry. – Recebi sua mensagem. – Disse a Louis. – O que é?
- Vamos ficar de boa aqui! – Abri os braços para mostrar toda a sala à nossa volta. No sofá em frente ao telão, um punhado de gente se aglomerava para assistir o jogo e torcer por seus amigos. A sinuca estava ocupada também e tinha mais gente que, assim como nós, também estavam sentadas apenas jogando conversa fora.
- Alguém sabe que hora vamos embora? – Perguntou .
- Acho que quase à noite. – Niall respondeu.
- Os ônibus saem exatamente às seis e meia. – apareceu e se sentou no chão com as costas apoiadas no sofá. – Ainda temos quatro horas. Hey, , você voltou cedo para o quarto, aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou mais baixo a , que apenas balançou a cabeça, dizendo que estava cansada. – Ok. Hey, Liam.
Abri um sorriso para ela, que sorriu de volta. Eu estava gostando que e Harry estavam em paz mais uma vez, porque era muito legal ter algumas das minhas pessoas favoritas interagindo. Nunca que e estariam juntas no mesmo ambiente. Depois elas conseguiram se acertar e aí foi Harry quem não conseguia ficar perto de sem dizer alguma merda. Fala sério, até o Zayn se sentava conosco.
Se não foi a banda quem nos uniu, então eu não sei quem foi.
- Achei que fosse aproveitar mais as horas livres aqui nesse fim de semana, mas... Até que estou com saudade da correria da gincana. – Niall confessou, parecendo entediado.
- Ou da correria da apresentação. – Louis acrescentou.
- Nós estamos no topo do mundo, Niall. – Harry contou a ele, que não pegara a parte em que nos disse sobre as fofocas do lado de lá.
- Engraçado, eu não ouvi muita coisa do Harry. – franziu o cenho, olhando para como se buscasse concordância. , por sua vez, assentiu e começou a rir.
- Foi o que eu disse. - zombou mais uma vez. – Hey, ! – Ela chamou a garota que acabara de entrar no salão de jogos. – Você jogou muito bem lá fora.
- Valeu. – sorriu. – Você também estava ótima.
- Hey, puxa uma cadeira, senta aí com a gente! – Cutuquei as costelas de Louis discretamente, mas ele deu um pulo no sofá, o que chamou a atenção dela totalmente para ele. – Calma aí, cara. – Ri dele.
- Foi mal, alguma coisa me espetou. – Limpou a garganta e voltou a se encostar no sofá.
Tentei não rir da cara dele e voltei meu olhar para a garota que já havia puxado a cadeira e se sentou de frente para nós com uma expressão engraçada. Cara, eu achava hilário a forma como Louis se comportava quando ela estava por perto. Nunca tive a chance de perguntar, mas sabia que ele gostava dela. Talvez ele nunca admitisse, mas que ela mexia com ele era um fato. E ao mesmo tempo que eu até admirava isso, também me preocupava um pouco; não parecia ser o tipo que se envolve ou que cria um relacionamento ou que se relaciona de qualquer forma em qualquer situação e havia uma grande possibilidade de Louis acabar com a cara no chão no final.
- Gente, gente. – Josh chamou nossa atenção. – Eu tenho uma charada para vocês.
- Ah, não. – Louis reclamou, coçando a cabeça. – Não, Josh.
- Conta. – pediu, já rindo da cara do amigo. – Vai ser uma bosta. – Disse a .
- Numa cidade havia muitas motos Yamaha e só duas Honda. Qual é o nome do filme? – Ele abriu um sorriso em expectativa para nós.
- Dude... – Balancei a cabeça. Eu já conhecia aquela. – Não faz isso...
- Qual é? – quis saber, dando-lhe uma chance.
- Pocahondas! – Ele anunciou, rindo sozinho logo em seguida.
- Cara, isso é triste. De verdade. Eu sinto pena de você. – Louis olhou para ele com uma careta.
- Ah, fala sério! Foi boa! – Ele riu mais um pouco.
Niall tossiu um pouco para disfarçar uma risada.
- Se for pra rir dele, pode rir, man. – Avisei Niall. – Ele é assim mesmo, já veio estragado.
Aí que Niall caiu na gargalhada mesmo. Como num efeito dominó, todos estávamos rindo no final das contas; até balançava a cabeça e ria um pouco.
- Hey! – veio até nós com em seu encalço, ambas com um sorriso no rosto ao nos verem. – De quê estão rindo?
- Nem queira saber. – Harry passou o indicador pelo pescoço numa linha reta, zoando Josh.
- Uma piada sem graça. – tombou a cabeça para trás e lhe disse.
- Sério? Eu adoro piadas sem graça! – Ela abriu um sorriso adorável, fazendo-me questionar, pela milésima vez nesses anos em que a conhecia, se havia tempo ruim para .
Eu ia responder alguma coisa, mas minha atenção foi desviada quando um garoto tocou o braço de e tomou sua atenção para si, falando sobre algo com ela.
Fui levado ao nosso encontro nessa manhã. Apareci no celeiro às seis horas, como planejado. Estava frio pra cacete e vazio também. A parte onde ficava o feno era separada do resto dos anexos do celeiro, onde ficavam os animais que precisavam dormir sob um teto no inverno. Passei a maior parte do tempo trabalhando e já estava crente de que não iria aparecer depois dos primeiros trinta minutos de espera. Mas ela apareceu.
Nem consigo me lembrar exatamente quantas palavras trocamos antes que ela passasse os braços em volta do meu pescoço e me puxasse para um beijo urgente, como se ela sentisse minha falta ou só tivesse com muito desejo mesmo, mas eu não me prendi a interpretar o que diabos aquele beijo representava; eu só queria puxá-la mais para mim e tomar cada pedaço de seu corpo de uma vez só.
Cara, aquela garota tinha um dom de me deixar louco.
Louis me puxou à realidade com um beliscão em meu braço.
- Ai! – Reclamei.
- Que isso, cara? Tá morto? – Ele estalou os dedos. – Estou te chamando há eras!
- Já conseguiu me chamar! O que é? – Perguntei.
- Rebekah deu a ideia de irmos à cachoeira. – falou como se repetisse a informação. já estava livre do cara, parada ao lado de enquanto me olhava com expectativa. – O que acha?
- Vocês estão esperando só o meu voto?
- Claro, porque você é o rei da Inglaterra! – Harry esticou-se para frente para falar. – Ela disse que tinha algo para dizer e aí seu cérebro derreteu e você ficou paradão... Enfim!
- Tá, tá, tá! – Revirei os olhos. – Vamos ao que importa aqui: esse lugar tem cachoeira?!
- Nós vimos uma placa antiga lá na mata ontem. – disse e Harry concordou com um sorriso no rosto.
- Nós também. Não lembra? - me olhou. Olhei para todos sentados na roda ali.
- E por que ainda estamos aqui?

’s POV
Ainda parecia surreal que nós houvéssemos ganhado aquela gincana. Era um sentimento tão bom ganhar. Eu amava ganhar! E eu estava tão orgulhosa de mim mesma e tão feliz depois daquilo tudo, que não conseguia me importar com mais nada de ruim que tivesse acontecido.
Na verdade, se eu parasse para pensar, aquele fim de semana havia sido incrível para mim. Muitos jogos: algo que me faz muito, muito feliz. Durante a sexta e o sábado eu me diverti muito, e há algumas horas atrás ainda na cachoeira, eu nunca pensei que pudesse me divertir tanto. Estava todo mundo tão conectado, e todos riam e se divertiam tanto. Eu sempre soube que com algumas daquelas pessoas podia contar sempre, como os garotos, e agora . Mas as outras meninas também estavam lá, e foi tão bom, foi como se realmente fomos parte de algo muito maior. Foi incrível, e me lembro de ter pensado que eu queria marcar aquele momento para nunca esquecer; aquela tarde foi a prova de que o colegial valeu a pena, e eu lembraria para sempre.
Eu também me diverti com Lance em alguns momentos do fim de semana. Mas no final de tudo, apesar de ele ter sido um tremendo otário, acabou que esse problema se resolveu sozinho. Porque eu não saberia se conseguiria beijar ele de novo depois de ter beijado Harry.
E sobre isso...
Eu só conseguia pensar em todas as loucuras que aconteceram durante esses dois dias entre nós, e em como aquilo podia me afetar durante o resto do ano. Não conseguia focar nem em guardar minhas roupas na mochila no final da tarde de domingo, porque há todo momento minha mente ficava remoendo aquele momento com Harry, o beijo dele. Eu podia, quase literalmente, sentir aquilo de novo quando me concentrava, e aquilo estava me deixando louca.
Balancei a cabeça, respirando fundo para esquecer daquilo. Eu precisava (!) esquecer daquilo, pelo menos até saber como interpretar o que aconteceu e o que significava que nós éramos ou tínhamos agora, principalmente depois que nos tratamos tão bem – e tão naturalmente – na sala de jogos. Apesar de estarmos agindo como se nada tivesse acontecido, seus olhares me diziam o contrário. Eu sabia que aquilo não havia acabado ali, e precisávamos conversar. Era algo estranho, meio surreal, mas eu estava ansiosa para ver o que aconteceria agora.
Mas, então, eu acabava caindo de volta na cilada de Lance. Em como foi que eu caí naquela. Em como eu me senti ao vê-lo aos beijos com Rebekah. E essa era a parte mais confusa de todas; como eu me senti?! Porque nem eu sabia dizer. Com raiva, eu com certeza estava. Mas era muito mais porque eu me sentia traída, como qualquer um se sentiria. Eu estava magoada? Não exatamente. Eu estava... aliviada? Talvez. Ou eu sentiria falta dele? Nem um pouco.
Porque eu ficava voltando para Harry.
E assim eu ficaria louca.
- Ei. – tocou meu ombro, e olhei por cima do ombro para ela. – Eu estou indo, quer que guarde um lugar para você no ônibus?
- Hum... – voltei a olhar para minha mochila, enquanto enrolava o fio do carregador do celular na mão. – Ok. Pode ser. – Sorri para ela.
- Tá legal. – Respondeu , com a voz suave, antes de se afastar.
Ouvi a porta fechar quando ela saiu e continuei focada em terminar aquilo. Eu precisava contar a ela tudo que aconteceu, porque ninguém além de mim e do lindo casal da noite passada parecíamos saber daquilo. Rebekah, era óbvio, pelo modo como ela nem conseguia me encarar nos olhos durante nosso passeio até a cachoeira. E Lance, porque ele havia sumido completamente. Nem com seus amigos ele estava.
Mas eu só conseguia achar graça disso. Eu havia ganhado. O resto não importava.

Saí do quarto depois de terminar de recolher tudo que era meu e peguei o corredor, seguindo a grande leva de alunos que também deixavam seus quartos para sair da casa naquele momento. Lentamente, consegui me ver livre daquelas paredes ao chegar ao pátio aberto e começar a ir em direção aos ônibus. provavelmente estava no primeiro dos três ônibus estacionados ao longe no campo. Eu queria encontrar alguém logo com quem pudesse conversar, ainda não havia superado toda a empolgação que foi ganhar a gincana, e também tinha muito assunto para botar em dia com , não só sobre mim, mas também sobre ela.
- ! – Ouvi a voz de uma garota chamar e, assim que me virei e encontrei com Rebekah atrás de mim, balancei a cabeça e voltei a andar, virando para frente.
- , por favor! – Ela se aproximou correndo e puxou meu pulso, me fazendo virar para trás e lançar a ela um olhar mortal, puxando meu pulso. Rebekah levantou as mãos no ar, se afastando um passo de mim. Era muito engraçado ver como ela estava com medo mesmo de mim. Bem, minha reputação naquele colégio vinha a calhar nesses momentos. – Ei, ei... eu só quero me desculpar. Eu juro, , eu...
- O que te faz pensar que eu quero te escutar?! – Cortei-a, dando de ombros. Eu não deixaria aquilo estragar o meu dia, Rebekah não valia nada. – Escuta, Murray, eu não vou te bater e nem nada, não se preocupa, o Lance não vale tudo isso e nem você.
- Eu sei, tá legal?! – Ela respondeu, choramingando, e bateu um pé no chão, olhando em volta. Parecia desconfortável como eu nunca pensei que veria justo Rebekah estar. – Eu sei que não mereço o seu perdão, , mas eu quero deixar claro pra você que tudo que menos quero é ter você como minha inimiga. Eu não sou louca a esse ponto, ok?! Eu não queria te magoar. – Ela se aproximou, tocando meu braço. Sua expressão demonstrava arrependimento de verdade. – Poxa, eu sei, eu sei que não devia ter ouvido o Harry, eu juro que estou tentando parar de ser assim, de fazer isso com os outros, mas eu só... estava tão bêbada, e eu...
Parei de ouvi-la em algum momento daquele discurso, enquanto apenas a encarava falar e remoía aquela última parte. Por um momento apenas, a felicidade dentro de mim deu uma trégua.
- O Harry? – Ouvi minha própria voz perguntar, olhando-a, desconfiada.
Rebekah parou de falar, me encarando em silêncio por um bom momento.
- Ah... – a garota pareceu hesitar, completamente desgostosa, ao se dar conta de algo que eu não sabia (ou não queria admitir que sabia) naquele momento. – É... O... O Harry... Foi ele que me disse que o Lance estava louco para ficar comigo.
A encarei por mais alguns segundos, piscando enquanto tentava digerir aquela. Então, pesada como uma âncora, a ficha caiu. Foi uma mistura do que nós passamos no dia anterior, aqueles detalhes idiotas que não saíam da minha cabeça, e o modo como ele estava agindo, juntamente com os breves momentos naquele fim de semana em que eu havia deliberadamente abaixado a guarda, sem medo de confiar em Harry. Isso tudo, misturado ao que eu conhecia de Harry Styles, deixou tudo bem óbvio para mim naquele momento.
- , eu...
Deixei Rebekah falando sozinha, decidindo em um milésimo de segundo o que fazer e dando meia volta, andando uns passos para longe dela e então parando, no meio do campo, só para conseguir sentir a sensação de tudo dentro de mim desmoronar. Por um minuto, voltei a me sentir atordoada. Tudo que senti, tudo que pensei ou esperei nos últimos minutos havia sumido, e deixado apenas um bilhetinho que dizia “não acredito que você caiu nessa”.
Mas aquilo durou apenas um minuto. Eu tratei de levantar o rosto logo depois, sentindo, como era típico de mim, a raiva aparecer dentro de mim em primeiro lugar, antes de qualquer mágoa. Continuei então marchando a passos firmes pelo campo, olhando em volta e procurando aquele maldito moleque entre outros alunos espalhados pelo pátio. Eu podia sentir meu rosto começar a queimar como se estivesse em chamas. Tudo dentro de mim se comprimiu de repente como se fosse explodir caso eu não começasse a gritar naquele mesmo segundo.
O pátio estava lotado de grupinhos espalhados, principalmente próximos aos ônibus, conversando animadamente enquanto esperavam nas filas para guardar suas bagagens. Meus olhos varreram toda a área, rosto por rosto, à procura de quem eu queria encontrar, enquanto tentava controlar a raiva dentro de mim que ameaçava explodir. Por dentro, eu já estava gritando.
- ! ! – Alguém novamente me chamou, e não precisei nem olhar para trás dessa vez para saber que aquela era a voz de Lance. Não parei nem diminuí o ritmo, apesar de ver as pessoas mais próximas parando suas conversas para olhar a cena, enquanto ouvia seus passos quase correrem para me alcançar atrás de mim. Naquele momento eu não estava pronta para lidar com aquilo. Não agora. – ! , por favor, vamos conversar, eu posso explicar o que foi aquilo que voc-
Foi automático.
Antes que eu pudesse ouvir mais uma palavra da sua boca, uma onda de ira passou por todo o meu corpo e, sem nem pensar, quase como um movimento completamente involuntário e inconsciente, virei para trás parando bruscamente e impulsionando meu punho para frente com toda a minha força em direção ao nariz de Lance Hemmings. A pancada que se seguiu o fez estancar no lugar levar as mãos ao rosto, soltando um grunhido de dor.
Eu nem sequer senti. Nem sequer soube dizer de onde aquilo veio, mas estava lá, fervilhando em mim.
- PORRA! – Ele esbravejou com um tom de dor, a voz abafada pelas mãos. – Mas que merda, !
- Você – me aproximei um passo dele, encarando-o nos olhos bem de perto, afrontando-o. – Se chegar perto de mim ou citar meu nome novamente eu vou terminar de quebrar o resto da sua cara! – Vociferei, alto o suficiente para que ele e quem mais estivesse por perto ouvisse. – Otário! – Esbravejei, antes de dar um passo para trás de me afastar dele.
É, agora eu sabia. Eu não sentiria falta alguma daquele babaca.
Quando continuei caminhando, agora mais devagar, eu abri e fechei meu punho tensionado, sentindo a dor finalmente chegar. Mas junto com ela havia até uma pequena parcela de prazer.
Respirei fundo, riscando da lista uma coisa que eu realmente precisava ter feito.

Eu encontrei Harry no mesmo momento em que ele me encontrou. O vi parado perto do bagageiro do ônibus, conversando com os garotos enquanto esperava na fila para guardar sua mala. Ele olhou em volta, encontrando o meu olhar assim que eu o encontrei, e no mesmo segundo sorriu soltando a mala para vir até mim.
Como se nada. Estivesse. Acontecendo.
Harry deu uma corridinha para me alcançar e eu diminuí o passo, segurando minha mão que doía com a outra, massageando sua palma com o polegar. De repente eu entendi o que era se sentir traída, e o que senti em relação a Lance nem se comparava com aquilo. Aquilo ali, sim, era traição.
- Ei, Sunshine! Eu te mandei uma mensagem, ia guardar lugar pra você. – Ele disse, se aproximando e parando em minha frente, meio ofegante pela corrida. - Acho que o ônibus ainda não tá cheio, que tal vir com a gente? Liam e o Josh estão insuportáveis se gabando por essa vitória, mas a gente pode aguentar mais um de vocês... – revirou os olhos e riu fraco. Só então foi que ele parou para dar uma boa olhada em meu rosto e reconheceu que não estava tudo bem. – O que foi?
Todo o problema se encontrava bem ali, no meio da testa de Harry, na ruga de preocupação que se formava quando ele me olhava com a testa franzida e perguntava o que foi. Aquele era o centro de todos os meus problemas, desde que eu me conhecia por gente. Aquela maldita ruguinha, que fazia parecer que ele realmente se importava comigo mais do que com ele, que fazia, por um breve momento, parecer que ele percebia que não era o centro do universo, e que eu também importava. Aquela pequena ruga, que me fazia sempre perdoar qualquer merda que fosse que Styles chegasse a cometer, porque eu precisava, e estava na hora de admitir, eu nunca consegui resistir ao meu melhor amigo.
Mas aquilo ali foi definitivamente a gota d’água. A prova final de que, apesar da maldita ruga, ele não se importava de verdade. Ele sempre pensava, e sempre pensaria, primeiramente nele.
- Eu sei o que você fez. – Falei, a voz mais baixa e controlada do que eu imaginava. Mas eu não estava com raiva, agora. Eu só estava... profundamente magoada.
Harry não precisou de mais do que isso para saber do que se tratava, e no mesmo segundo aquela ruga sumiu. Ele continuou me encarando, agora com uma expressão de quem sabia o que havia feito, mas não disse nada.
Por um bom momento, vinte segundos talvez, apenas nos encaramos. Um vento bateu e empurrou meus cabelos para o rosto, e precisei coloca-los para trás antes de encará-lo novamente e quebrar aquele silêncio.
- Não sei porque esperei por um pedido de desculpas – ri fraco, falando mais comigo mesma do que com ele.
- ...
- Eu não quero saber por que você fez isso. – Continuei. – Eu não quero suas desculpas. Eu não quero ouvir mais nada, Harry. Eu cansei. – O olhei. – Eu cansei de você, e cansei desse seu modo egoísta de sempre conseguir o que quer à custa dos outros. Não me importa o que passou pela sua cabeça, ou se você acha que de algum modo fez isso para me ajudar. Eu só quero que você pare de mentir para si mesmo. Você é egoísta e manipulador, e eu não quero mais ser sua amiga. Eu não quero. – balancei a cabeça. – Eu não quero mais nada de você.
Ele apenas me encarou, sua expressão era diferente do que qualquer outra que eu já tenha visto. Mas aquela era a primeira vez que eu sentia que Harry havia me levado a sério de verdade.
Não tinha mais nada que eu pudesse dizer, então simplesmente saí dali. Caminhei em direção ao primeiro dos ônibus, esperando que e estivessem mesmo por lá, porque eu precisaria daquelas conversas supérfluas agora.
Falar aquilo foi a coisa mais difícil que eu fiz.




Capítulo 23

's POV
O despertador tocou as 8:20 da manhã de segunda-feira. Não relutei em acordar, e tampouco meus olhos estavam pesados. Eu estava disposta o suficiente naquela manhã. Peguei o celular de baixo do travesseiro, o desconectando do carregador e desligando o despertador que fazia o aparelho vibrar. Era vinte e um de janeiro, a tela do celular me dizia. Mas aquilo eu já sabia.
Teste de física, uma notificação das tarefas também avisava na tela, juntamente com a temperatura: 2 graus na cidade de Carlisle, Reino Unido.
Respirei fundo, soltando o aparelho e virando na cama, passando as mãos nos olhos e os coçando antes de me levantar, me livrar dos cobertores e sentar na ponta da cama. não estava mais no quarto, e sua cama estava perfeitamente estendida.
Levantei, calçando os chinelos, e fui fazer minha higiene. Eu tinha tempo, e pretendia tomar um calmo café da manhã naquele dia. Saí do banheiro depois de escovar os dentes e passar uma água no rosto, e peguei um par do uniforme, tirando minha roupa e vestindo a camisa social branca de manga comprida, uma meia xadrez de fio oitenta, um suéter, a saia, e, por fim, um sobretudo preto. Calcei, sem pressa, o par de sapatilhas pretas e peguei um grampo que encontrei no fundo da minha gaveta da cômoda, enrolando apenas a camada de cima do cabelo em um coque e o prendendo, para tirar do rosto. Eu já havia acostumado com aquele uniforme, observei enquanto pegava minha mochila do chão ao lado da cama, a colocando em cima do colchão e abrindo, para conferir o que havia dentro dela. Tirei um caderno de lá e guardei na cômoda, puxando de lá o caderno de física e o colocando na mochila também, eu precisaria daquele. Fui até a cama e puxei um pouco a cortina da janela, espiando para fora. A vida social do St. Bees já havia começado, e as pessoas no pátio fazendo barulho confirmavam isso.

A movimentação no pátio era bastante intensa para o frio que estava fazendo lá fora, pude perceber ao fazer o caminho até o refeitório no bloco C. Isso era porque o dia, apesar de não muito colorido, também não estava chuvoso, o que era um bônus para uma segunda-feira.
Adentrei o refeitório que estava um pouco vazio àquele horário e fui para a fila, pegando uma bandeja e colocando nela dois pratos pequenos. Havia apenas duas garotas na minha frente, então foi rápido. Peguei duas fatias de pão torrado, dois pedaços de queijo, um muffin com gotas de chocolate que tinha uma cara boa e pedi uma xícara de café preto, passando a mão em um sachê de açúcar no final da mesa de comidas em meu caminho para encontrar um lugar para sentar. Acabei parando em uma mesa próxima dali, um pouco próxima da porta, mesmo, e longe de qualquer outra pessoa que estivesse lá dentro.
Depois de sentar e começar a comer, em algum momento minha mente viajou para longe, e logo eu estava pensando em como era boa aquela sensação de comodidade da qual eu estava experimentando naquele momento. Quietude, tranquilidade, paz, e uma xícara fumegante de café. Aquilo era bom. Era bom não precisar me preocupar com nada. Apesar de tudo, eu estava me permitindo aproveitar da tranquilidade que minha vida estava. Nada parecia estar correndo errado desde a mensagem que recebi no natal.
Peguei a xícara a levando à boca, e ao sentir o aroma do café forte em contato com minhas narinas e encostar os lábios na borda da porcelana, fechei os olhos sentindo aquele sabor.

A música estava alta, as paredes da casa pareciam tremer com a batida descompassada daquele som alternativo, que parecia entrar feito uma onda do mar em meus ouvidos e balançar meu cérebro, me fazendo viajar. Não era bem a música que estava me fazendo viajar ali, eu sabia, mas aquele som parecia ajudar naquilo. Olhei meu reflexo no espelho em frente à pia e passei os indicadores molhados embaixo dos olhos, limpando o excesso de maquiagem preta dali, e tentando me livrar da palidez ao jogar um pouco de água no rosto. Eu parecia mal, mas estava firme e forte. Não planejava terminar aquela noite mal.
A porta do banheiro foi aberta e a música pareceu ficar ainda mais alta. Não precisei olhar para saber que era Lively, e ao invés disso abri a porta do armário em minha frente.
- Ele não volta. Não volta desde ontem. – Passei a mão na testa, afastando uns fios de cabelo e soltando um suspiro preocupado enquanto meus olhos procuravam por algo dentro do armário. – Ele saiu ontem à noite, e não voltou até agora.
- Você está com saudade dele ou das suas pílulas? – A loira apoiou as costas no batente da porta ao meu lado e deitou a cabeça para trás, virando um shot de gelatina de um copinho plástico. Fez uma careta e jogou o copo no chão. – Que merda é essa, arsch?
- Gelatina de limão. Vodka. Papel. – Olhei para ela, que me encarou incrédula.
- Tinha pó na porra da mesa toda! Eu sentei lá por um minuto e meu nariz quase sangrou!
Revirei os olhos e voltei a procurar alguma coisa no armário. Onde ele estava? Por que não aparecia? Ele não costumava sumir por tanto tempo assim. Algo não estava certo.
- Ele está com problemas. – Disse mais para mim mesma.
- , vá à merda. Olha aqui, olha para mim – a garota veio até mim e me virou para ela. – Você vai parar de pensar na porcaria do seu traficante e ir lá para fora dançar comigo agora.
- Ele é meu namorado.
- Foda-se essa merda. Ele é a porra do seu cafetão.
A encarei, irada, e ela arqueou uma sobrancelha.
- Ele usa você, caralho. Ele literalmente usa você. Há quanto tempo está nessa espelunca, afinal? – perguntou, olhando em volta brevemente.
Me desfiz de suas mãos e virei novamente para o armário, pegando qualquer frasco e o abrindo, pegando em minha mão duas pílulas do que quer que estivesse lá dentro.
- Eu juro que vou te chutar dessa casa se me encher o saco mais uma vez.
Engoli as duas pílulas com a ajuda da água da torneira e a fechei.
- Há quanto tempo não vê o seu pai, ? Há quanto... – Ela soltou a respiração com força. – Minha mãe disse que ele estava acab...
- Eu juro que vou. – Virei para ela, ameaçando mais uma vez antes de passar por ela saindo do banheiro. – Vou te chutar daqui.
Lively acabou me seguindo para a sala, onde mais um grupo de pessoas dançava, bebia, se pegava ou tudo ao mesmo tempo. Eram poucas pessoas. Eu apenas podia dizer que eram as mais próximas. Não eram amigos, eram literalmente apenas os mais próximos. Lively era minha única amiga ali e em qualquer lugar. Ao me virar para trás, ela já estava perto de mim novamente.
Então começamos a dançar, deixando a música abafar qualquer outra coisa, e logo aquela conversa ficou para trás. Era o que eu precisava. Era uma noite especial.

Tudo já estava fora de foco quando ele entrou porta adentro, fazendo todo mundo lá dentro olhá-lo, surpresos. Logo a expressão da maioria lá dentro se transformou em choque, e precisei de um momento para distinguir o que eu via. Alguém desligou a música, e meus ouvidos zumbiram por um momento.
- Todo mundo para fora.
Ele não precisou dizer mais uma vez. Todos ficaram petrificados no mesmo lugar por um momento, então tudo que ele fez foi levantar o canto da camisa e mostrar a pistola dentro da calça. Todos se levantaram, soltaram o que quer que tivessem em mãos, se separaram, e em questão de segundos a casa estava vazia.
- O que merda aconteceu?! – Lively foi a primeira a dizer quando ele veio em minha direção, se colocando um pouco em minha frente. Tudo que eu conseguia fazer era encará-lo, espantada.
- Vá embora daqui, sua vagabunda! – Ele rosnou de volta, mas tudo que Lively fez foi se aproximar ainda mais.
- Sabe que não tenho medo de você, seu cachorro imundo.
Ele não estava brincando. Puxou a garota bruscamente pelo braço, mas na mesma hora eu intervi.
- Kevin! – coloquei-me entre eles, separando-os, e virei para Lively. – Vá embora. Agora, vai. Vai, Lively, nos falamos depois. – Ela negou, mas eu assenti. – Nos falamos depois. – Disse mais baixo, e depois de sustentar seu olhar revoltado por um minuto, ela saiu pela porta da frente.
Assim que ouvi a porta bater eu virei para ele, desesperada.
- Kevin... O que... – Toquei seu rosto, olhando para seu corpo, sua camisa branca completamente manchada de sangue. Estava quente, ainda estava quente, eu percebi e no mesmo momento minhas mãos começaram a tremer. – mein gott... O que é... o que diabos aconteceu?! Você está machucado? O que fizeram com você?! – Perguntava desesperada enquanto tentava encontrar a fonte do sangramento, puxando a barra de sua blusa. Mas não havia nada. Seu corpo estava intacto, pude perceber uns segundos depois, enquanto tudo que ele fez foi ficar imóvel em minha frente, esperando que eu o examinasse. Então eu percebi, e olhei para seu rosto quando isso me atingiu, o encarando horrorizada. – Não é seu.
Ele negou com a cabeça, fechando os olhos com pesar.
Levei a mão à boca. Era muito sangue. Eu não conseguia fazer meu corpo parar de tremer. Era muito, muito sangue.
- Kev...
- Ei. – Ele murmurou, dando o passo que nos separava e segurando meu rosto com as duas mãos. – Eu preciso que faça uma coisa para mim. Se alguém perguntar, eu estive aqui a noite toda. Eu estive aqui a noite toda, você entendeu?
Eu não conseguia processar aquilo, minha garganta estava fechada e mal conseguia encontrar um caminho para o ar chegar até meus pulmões. Algo muito ruim havia acontecido, muito ruim.
- Kev...
- Eu preciso que faça isso por mim, você entendeu ? Você precisa. Você precisa fazer. Você está entendendo?
Encostei as palmas das mãos em seu peito quente, as observando tremer compulsivamente, e depois de um momento eu assenti positivamente.
- Sim. Claro. – Sussurrei. – Você está bem?
- Sim. – Ele murmurou de volta, e tocou os lábios em minha testa descendo-os para minha boca depois. Sentir seu hálito quente de alguma maneira me acalmou, mas meu coração ainda pulava em meu peito. Eu não conseguia pensar em perguntar o que havia acontecido naquele momento. Sabia, no fundo o que havia acontecido. Ele se arriscava demais. Aquilo era parte dos riscos.
- É meu aniversário. – Sussurrei, e ele concordou com a cabeça.
- Eu sei, kleine. Eu não esqueci. – Ele se afastou e pegou alguma coisa no bolso de trás da calça, pegando meu pulso e colocando em volta dele uma pulseira de tiras de couro marrom, que prendeu com um nó. Pendurado nos fios havia em pequenos cubinhos brancos entalhadas as letras que formavam a palavra kleine. Baby girl.
Olhei para cima e sorri fraco, e levei uma mão à sua nuca o puxando para um beijo urgente, que ele só interrompeu para voltar a falar:
- Mas o presente de verdade posso te dar agora – Sorriu, puxando com um impulso minhas pernas para a sua cintura e me suspendendo no ar, me fazendo soltar uma risada. Segurei-me em seus ombros e ele foi para o sofá.
Aquilo me fez esquecer por um tempo do choque ao vê-lo daquela maneira. Mas aquela fora apenas a primeira vez de muitas.


A pulseira de couro ainda presa em meu pulso era prova de que nada daquilo fora um delírio. Mas agora os cubinhos brancos não formavam mais a palavra kleine, e sim outra coisa. W.E.N.D.Y. Era isso que as letras diziam.
Depois de terminar meu café eu fui em direção ao laboratório de química. Ainda tinha uns minutos antes da aula começar, mas até lá eu podia revisar as coisas da última aula, aquilo podia ser útil. Ao entrar na sala, uma dupla no fundo da sala já estava formada e conversavam baixinho, um garoto estava sozinho no canto da sala e outro estava sozinho no outro canto, lendo um exemplar de um livro que parecia antigo demais para ele. Esse era Louis.
- O que está lendo? – Perguntei casualmente enquanto sentava ao seu lado, pendurando a mochila nas costas da cadeira. Depois virei para ele, e ele olhou para a capa do livro depois de me olhar.
- Os Miseráveis. Mas ainda não cheguei na parte engraçada.
- Engraçada?
- É. Qual é, precisa ter pelo menos um pouco de comédia pra ser assim tão famoso.
Comprimi os lábios o encarando, e ele devolveu o meu olhar um segundo depois. Suspirou pesadamente e fechou o livro, o empurrando para um canto.
- Droga. Eu não consigo nem enganar você, não sou esse tipo de cara.
Ri.
- Por que isso agora?
- A estava discutindo com a professora de história e elas citaram a obra. Eu fiquei curioso. Mas foi obviamente uma propaganda enganosa. – Deu de ombros, e eu balancei a cabeça demonstrando que entendia.
Olhei para minhas mãos na mesa, tentando pensar em qualquer coisa a dizer. O quanto mais eu me importava em estar perto dele, mais as palavras fugiam. Eu geralmente não falava por falta de interesse, mas agora, que queria ter algo a dizer...
- Tem um clássico alemão que tento ler desde a infância. É o Kinder-und Hausmärchen. – O olhei e ele arqueou as sobrancelhas. – Os contos de Grimm. – Expliquei.
- Eles são alemães?! – Ele pareceu chocado. – Caramba. Eu sempre pensei que fossem britânicos.
Neguei com a cabeça e sorri fraco.
- Alemães.
- Legal. – Ele se ajeitou na cadeira e me olhou, voltando a dizer depois de um tempo: - Você parece bem hoje.
- É. – Ri fraco e puxei meu caderno de dentro da mochila quando ouvi o sinal soar e a sala se encher de alunos. – É um dia especial.
Folheei o caderno e esperei pela pergunta que eu já sabia que viria de Louis.
- O que há de tão especial nessa segunda-feira?
O professor de química entrou na sala logo depois que ela se encheu, dando bom dia e fechando a porta atrás de si. Todos responderam ao bom dia animado.
- Nada demais. É meu aniversário.


's POV

Olhei para os lados quando cheguei ao pátio, apressada para encontrar Liam o quanto antes. O vento soprou meus cabelos com violência, obrigando-me a prendê-los num rabo de cavalo alto. Tirei meu celular do bolso para tentar ligar para ele, mas por alguma ironia, eu estava sem sinal para ligar ou mandar mensagens. Soltei um suspiro frustrado.
Onde esse menino se meteu?
Continuei andando em direção ao primeiro bloco de salas, testando minha sorte. Controlei a pressa e o passo na tentativa de parecer normal e não desesperada para encontrar meu meio-irmão. Eu girava nos calcanhares enquanto meus olhos percorriam a extensão dos corredores externos, sem encontrar Liam.
- Droga! - Sibilei em tom baixo para não chamar a atenção. Comecei a andar de volta em direção ao pátio quando vi Harry, Louis e Liam saírem de uma das salas de aula.
- Liam! - Chamei-o em voz alta, fazendo com que ele parasse no lugar e olhasse em minha direção. Caminhei até ele é levantei o celular na altura dos olhos dele, já executando meu plano de desculpas esfarrapadas.
- Hey, Che. - Louis me cumprimentou e não pude evitar uma careta e dar língua para ele por detestar o apelido.
- Hey, Lewi. - Pronunciei seu nome com carregado sotaque francês, que eu descobri que ele odiava por causa da similaridade com a palavra "kiwi". Ele me deu língua também.
- Que bela demonstração de maturidade. - Disse Liam, revirando os olhos. - Mas pode dizer logo o que é?
Virei-me para ele, lembrando-me do motivo por estar procurando por ele.
- Meu pai precisa falar com você. - Entreguei o celular a ele, que o pegou e franziu o cenho.
- Mas não tem chamada aqui.
- Ele quer que você ligue para ele. - Menti. - Ele tem que falar com nós dois.
Olhei diretamente em seus olhos na esperança de que ele repararia na minha urgência. Quando ele olhou para mim novamente, pareceu enxergar outras coisas ali e pude ver um brilho malicioso passar por seus olhos.
- É urgente. - Insisti para pressionar.
- Ah, sim, claro. - Pareceu sair do mundo da Lua.
- Ótimo. - Segurei seu antebraço, ignorando a deliciosa sensação de sentir seus músculos sob meus dedos. Puxei-o para longe dos outros garotos até a sala da banda, que eu sabia que ficaria vazia porque os meninos estariam ocupados demais almoçando, já que parecia que aquele momento era sagrado e eles nunca perdiam o almoço.
Quando entramos na sala e fechei a porta atrás de mim, Liam me segurou pela cintura e colou nossos lábios num movimento rápido e preciso. Mais uma vez, ignorei a habitual onda de prazer que percorria meu corpo sempre que nos beijávamos; tinha coisas muito mais importantes que um amasso para resolver com ele. Liam, no entanto, já tinha suas mãos na altura das minhas costelas e, quando já estava para invadir meu sutiã, eu tive que afastá-lo de mim com força. Sabia que se ele fizesse aquilo, não conseguiria pensar em mais nada.
- Não! - Falei para ele, levantando um dedo.
Ele me lançou um olhar confuso, mas divertido e começou a desabotoar a camisa sua escola.
- Adoro quando você dificulta as coisas. - Ele abriu um sorriso estonteante e malicioso antes de tirar a camisa por completo, mas eu consegui espalmar minhas mãos em seu peitoral antes que ele me tomasse em seus braços novamente.
- Liam! – Olhei em seus olhos com firmeza. – Nós temos que conversar.
- Sobre o quê?
Tirei meu celular do bolso do blazer do uniforme e desbloqueei a tela, mostrando-a para ele em seguida. Ele analisou o que eu lhe mostrava e franziu o cenho.
- O quê sobre essa foto? – Repetiu a pergunta, agora sobre a foto. Fui até a poltrona que ficava de costas para a porta e peguei o par de botas que havia deixado lá antes de ir atrás de Liam. – Vamos direto ao assunto? – Revirou os olhos com impaciência.
- Olha a maldita foto, Payne. – Apontei o celular em sua mão. Ele respirou fundo, como se estivesse se esforçando muito para não me deixar falando sozinha ali, mas acabou por observar a foto como eu pedi.
- Essa bota aí é... – Ele franziu o cenho enquanto aumentava o zoom da tela do celular.
- Sim! – Levantei o par de botas e o balancei, exasperada. – Somos nós, Liam! Somos nós nessa foto que está em cada celular de cada aluno dessa escola!
- Tem um emoji na nossa cara, não...
- Minhas botas, Liam!
- Isso é fácil, é só não usar mais as botas. – Sugeriu, como se fosse óbvia a solução.
- São minhas botas favoritas! – Argumentei. – E que diferença faria? A pessoa que tirou essa foto sabe que somos nós! – Abaixei o braço e deixei as botas caírem no chão, cansada emocionalmente. – Será que foi um dos meninos?
- Ninguém veio falar comigo. – Ele encolheu os ombros, olhando a parede atrás de mim, como se procurasse alguma coisa em sua mente. – Não! Louis veio falar comigo! Disse algo sobre uma tensão sexual entre a gente...
- Será que foi ele? – Mordi o lábio, apreensiva.
- Ele não brincaria com a gente assim. Não é coisa do Louis.
Prendi a respiração por um momento quando me perguntei, internamente, se era realmente possível confiar em Louis a partir daquele momento. Uma parte muito grande de mim se odiou por pensar aquilo tão imediatamente, mas outra parte, a racional e sobrevivente, disse que era a coisa sensata a se fazer.
Afinal, eu ouvira uma vez que não se deve colocar a mão no fogo por ninguém.
- Eu não acho que foi ele. – Forcei-me a dizer, ignorando o pânico que meu lado racional dizia enquanto eu me forçava a tirar Louis da lista de suspeitos.
- É tão importante assim descobrirmos quem foi? – Liam se jogou no sofá e me olhou.
- Você ainda está sem camisa. – Informei-lhe.
- E você ainda está vestida. – Rebateu tão rapidamente que arqueei uma sobrancelha por reflexo.
- Liam, você não está entendendo o que está acontecendo aqui?!
- Alguém está fazendo fofoca no ensino médio. Nada novo sob o Sol.
Caminhei até ele e coloquei uma perna de cada lado do corpo de Liam, acabando por ficar sentada em seu colo. Ele levantou a cabeça para mim, surpreso. Coloquei minhas mãos em seu peitoral e desenhei círculos com os polegares em sua pele nua.
- Nós, eu e você, somos parentes, Liam. – Olhei em seus olhos. – E não é parente de terceiro ou quarto grau. Eu sou sua meia-irmã. – Inclinei-me sobre ele, aproximando nossos lábios, meio perdida em minhas próprias ações, querendo aproveitar ao máximo aquele contato. – E, como meia-irmã, eu não devia estar tão próxima assim. – Sussurrei. – Não devia me sentar em seu colo, nem te beijar e, definitivamente, não devia dormir com você.
- Se não vai fazer nenhuma dessas duas últimas alternativas, sugiro que saia de cima de mim agora.
- O que estamos fazendo, Liam? – Perguntei a ele, honestamente perdida.
- Eu não sei. – Ele me respondeu imediatamente cravando seus olhos nos meus.
- Não devíamos fazer isso. – Desviei meus olhos para onde meu corpo tocava o dele; um pouco acima do cós de sua calça do uniforme. Olhei também seu tronco definido, mesmo largado como estava no sofá, ele parecia uma visão perfeita de alguém esculpido. Segurando um suspiro, voltei aos olhos de Liam, à procura de algo que me fizesse sentir melhor. – Você gosta de mim? – As palavras apenas saíram de minha boca.
Conscientemente, eu não esperava que Liam dissesse que sim ou que fizesse qualquer outra coisa no geral, mas o silêncio que se fez me fez prender a respiração. Umedeci os lábios, sentindo-me sem graça e sem jeito pela primeira vez na frente de Liam. Quando fiz menção de sair de seu colo, ele segurou meu braço delicadamente, mas eu me desvencilhei.
- . – Ele me chamou.
- Isso é absurdo, Liam. Não podemos continuar assim. – Falei em tom definitivo.
- , eu...
- Era só isso. – Insisti. – Casual. Ninguém precisa se machucar. – Limpei a garganta. – Agora só temos que resolver esse problema da foto. – Olhei o par de botas jogado perto da poltrona de couro velho.
- Ainda seremos amigos? – Ele quis saber, ignorando o que eu disse sobre a foto.
Soltei uma risadinha involuntária e olhei para ele ainda sentado no sofá.
- Nós nunca fomos amigos.
- Gostaria de tentar?
Abri um sorriso.
- É impossível, Payne, eu odeio você.
- Amigos, então. – Ele decidiu e se colocou de pé. Deixei que o silêncio caísse sobre nós enquanto me decidia sobre o próximo passo. – É melhor eu ir. – Voltou a dizer. – Bom, tchau. – Deu um meio sorriso. – Podemos nos abraçar? Como amigos.
Contra minha vontade de colar nossos corpos, ponderei as consequências daquele gesto. Eu ainda sentia meus nervos à flor da pele por ficar um tempo sentada em seu colo e ele ainda estava sem camisa, deixando todo seu torso maravilhoso à mostra.
Não.
- Acho que ainda não sabemos como fazer... amigos. – Atrapalhei-me com as palavras. Balancei a cabeça e recolhi as botas do chão.
- Ah, sim, certo. Também acho. – Pigarreou enquanto recolocava sua camisa. – Tchau. – Falou rapidamente e saiu da sala, deixando-me sozinha com o que sobrou de meu orgulho ferido e meu par de botas favorito.


’s POV
Fechei a porta do meu armário com força enquanto desfrutava daquele mau humor que tomara conta de mim naquela segunda feira. Eu detestava ficar de mau humor, o que apenas servia para me deixar mais mal-humorada. Mas eu não podia evitar aquele sentimento idiota que aparecia quando eu me lembrava das respostas curtas e grossas que Zayn dirigira para mim no domingo.
Quem ele achava que era para tratar alguém assim?
Soltei uma risada abafada para o que havia acabado de perguntar a mim mesma. Zayn trata as pessoas assim. Ele é assim.
Tive que balançar a cabeça para afastar aqueles pensamentos quando decidi que não valia a pena me desgastar dessa forma.
Fiz meu caminho até a sala de marcenaria; aula em que eu seria obrigada a passar duas horas sentada ao lado dele. E esse pensamento contribuiu para que um suspiro indignado escapasse sem querer por meus lábios. Talvez, se eu tivesse um pouquinho de sorte, Zayn teria faltado e eu não teria que enfrentar o Sr. Gelo. Mas eu não contava com isso de verdade.
Entrei na sala no mesmo instante que o professor passou pela porta também. Ele me lançou um sorriso agradável e acenou com a cabeça.
- Boa tarde, Srta. . - Ele me cumprimentou enquanto se dirigia à sua mesa.
- Boa tarde, Sr. Maschio. - Respondi.
- Como está o projeto? - Perguntou casualmente.
- Estamos trabalhando nele. - Senti minha garganta ficar seca com a possibilidade de ser pega na mentira. Eu sequer me lembrava desse projeto e esse fato piorava ainda mais meu humor.
- Espero grandes coisas de vocês. - Virou-se de costas para mim e começou a anotar algumas instruções no quadro. Ajeitei a alça da bolsa no ombro e me dirigi à bancada onde meu parceiro se sentava despreocupadamente escorado na parede com os olhos vidrados no que acontecia do lado de fora da sala de aula.
Larguei minha bolsa no chão e me joguei na banqueta ao lado dele, ignorando ao máximo sua presença. Tirei minha agenda de couro marrom da bolsa e procurei nas páginas alguma anotação que fosse sobre aquele projeto que, até então, eu nem tinha conhecimento. Franzi o cenho quando me deparei com a única anotação sobre a aula de marcenaria que eu tinha: uma prova sem datas ou instruções. Fechei os olhos quando me dei conta do que estava acontecendo. Respirei fundo duas vezes antes de me virar para meu colega de trabalho:
- Zayn?
- Hm? - Murmurou, sem tirar os olhos da janela.
- Aquela prova que você disse que teríamos, por acaso, não seria um projeto, seria? - Pronunciei cada palavra com o máximo de calma que minha irritação controlada permitia, mas sabia que parecia que eu estava me segurando para não pular no pescoço de alguém.
Ele manteve seus olhos longe de mim.
- Não faço ideia. - Foi o que disse.
Foi o que bastou.
- Inacreditável. - Murmurei, virando-me para frente e apoiei minha cabeça entre as mãos, extremamente frustrada.
- O que foi? - Ele pareceu finalmente se importar com minha presença e se aproximou um pouco de mim.
- Você não consegue anotar uma instrução corretamente, Zayn? - Olhei para ele abruptamente, fazendo-o recuar um pouco.
A bagunça dos outros colegas de classe era suficiente para fazer meu pequeno surto passar despercebido.
- Você também não anotou, então por que está brigando comigo? - Rebateu de forma infantil.
- Eu não estava aqui! - Recordei o dia em que eu cheguei um pouco atrasada na aula.
- Bom, da próxima vez, esteja. - Disse.
- Eu não vou perder meu tempo te explicando por que eu não estava aqui.
- Apenas não reclame, .
?
- Eu vou reclamar, sim, Malik. Nós somos uma dupla e se você estava aqui, não custava nada ter anotado certo o recado. - Bufei ao abrir a agenda na data presente, pronta para adicionar aquele compromisso. - Com licença, poderia me dizer para quando é o projeto? Eu perdi a folha em que anotei a data. - Pedi gentilmente ao garoto sentado na bancada ao lado da nossa. Ele assentiu e se inclinou para pegar algo em sua mochila.
- Qual é, todos nós já dormimos demais depois do almoço e perdemos a hora. - Zayn continuou, com desdém, sua tentativa de se safar da bronca. Virei-me para ele assim que as palavras saíram de sua boca.
- Dormindo, Malik, isso mesmo: eu estava dormindo. - Concordei com meu melhor tom de ironia. - Imagina que louco se, ao invés de estar dormindo, eu tivesse passado o horário do almoço inteiro no centro de Carlisle pagando multas de trânsito da minha irmã irresponsável porque, além de estar na Escócia dirigindo acima do limite de velocidade, ela não teve nem a coragem de vir pagá-las pessoalmente, tampouco usar o dinheiro de sua própria mesada. - Despejei as palavras em cima dele sem ao menos pensar no que dizia. Quando acabei, ele tinha seus olhos fixos em mim e havia um traço de sorriso escondido em seu rosto sério.
- E por que você pagou as multas dela? - Quis saber.
Soltei um grunhido baixo de frustração, já sentindo minha cabeça começar a doer de tanto nervosismo, e me voltei para o garoto que, sem graça pela minha falta de atenção, esperava que eu me virasse novamente. Abri um sorriso para ele.
- Terça-feira que vem. - Disse ele, gentilmente.
- Ah, claro. Obrigada. - Sorri mais uma vez e me virei para Zayn mais uma vez, já sem o sorriso em meu rosto. - Eu não quero saber o que você tem para fazer. Não quero saber se tem ensaio da banda, não quero saber se tem aquela prova impossível de química inorgânica ou se você simplesmente quer matar aula fumando seus cigarros. - Olhei no fundo de seus olhos, mantendo-me o mais séria que podia. Zayn, por sua vez, abriu um sorrisinho de canto, o que fez a raiva borbulhar dentro de mim, mas me contive. - Nós vamos trabalhar nesse projeto todos os dias até que esteja finalizado.
Ele não disse nada por alguns instantes, apenas manteve seu olhar em mim, ainda com aquele sorriso em seu rosto.
Foi somente quando minha paciência já estava se esgotando que ele se aproximou novamente.
- Eu devo te chamar de capitã ou o quê? - Soltou uma risadinha baixa.
Arqueei uma sobrancelha instintivamente.
Aquilo era um flerte?
Meu Deus, minha cabeça ia explodir.
Eu queria rir ou gritar, não sei. Queria me colocar de pé e pedir ajuda a alguém, porque eu me sentia meio confusa e perdida no meio de todos aqueles sentimentos que ele me fazia sentir. Quis perguntar, honestamente, qual era o problema dele; o que tinha de errado com ele, porque, com certeza, havia alguma disfunção em seu cérebro para ele ter tantas oscilações de uma vez só.
- Só colabore com o trabalho. Já está de bom tamanho. - Virei-me para frente, olhando atentamente o quadro cheio de instruções que o professor colocara ali no início da aula. Fiquei aliviada por ver que eram instruções sobre o projeto, guiando aspectos como tamanho, material, estilo, etc. Anotei tudo rapidamente, tentando imaginar o que de tão espetacular poderia fazer sem acabar cravando outro prego na mão de Zayn novamente.
Arranquei uma folha de papel do caderno e comecei a fazer alguns esboços, copiando alguns modelos dos livros que havia no canto da mesa; apagava-os e recomeçava sem nunca chegar a nada satisfatório, nem pedia a opinião do meu colega de trabalho.
- Eu tenho uma ideia. - Disse Zayn, depois de passar mais de meia hora em silêncio. Tirei os olhos do papel já desgastado de tanto ser apagado e olhei para ele. - É bem simples e requer poucos materiais. - Começou. - Uma adega de caixote de frutas.
- Uma adega de caixote de frutas? - Arqueei uma sobrancelha.
- Pode ser uma coisa legal. - Ele se defendeu, tirando o lápis de minha mão. Senti seus dedos roçarem os meus no processo e tive que suportar algumas borboletas em meu estômago, sentindo-me idiota por aquilo. - Pode não ser como a grande adega moderna que você tem no seu palácio, princesa, mas deve servir para essa ordinária aula de marcenaria.
Ignorei sua provocação, achando a situação toda muito irônica.
- Se você já tem o projeto em mente, então tanto faz se eu acredito que ficará bom ou não. - Murmurei enquanto arrancava outra folha de meu caderno. - Do que você precisa? - Perguntei, preparando-me para anotar a lista de compras.
Ele começou a falar e a explicar como seria a peça final, fazendo desenhos e até gesticulando com as mãos.
Eu estava fascinada com a forma como ele falava, como ele parecia entender do que estava falando e, principalmente, como ele tinha a habilidade de imaginar a coisa pronta e como ele me fazia vê-la também. No entanto, mantive toda minha admiração para mim.
Passamos o resto da aula decidindo quem faria o quê e, basicamente, eu arranjaria o material e ele faria todo o resto. Decidimos que eu participaria da montagem apenas como desencargo de consciência, porque o aprendizado é importante. Logo mais o sinal tocou e eu me virei para arrumar minhas coisas e, finalmente, voltar para o dormitório e fingir que aquele dia não existiu.
- Por que você está assim? - Zayn me pegou de surpresa com a pergunta. Olhei rapidamente para ele, admirando brevemente sua figura encostada à parede com os braços cruzados e o olhar sobre mim. Levantei-me também e o encarei.
- Assim como? - Fiz-me de desentendida.
- Brava. Irritada. Chata. - Disse o último adjetivo com um tom jocoso, quase provocativo. Soltei uma risada cínica.
- O quê? Você não achou que só você podia tratar mal as pessoas de uma hora para outra, achou? - Dei-lhe um meio sorriso.
- Não, nada disso. Achei que a Senhorita Raio-de-Sol não perdia a compostura nunca. - Rebateu.
- Estou no meu dia de folga.
- É um prazer vê-la tão à vontade em seu habitat natural. - Riu consigo mesmo. Balancei a cabeça antes de tirar a bolsa do chão e coloca-la em meu ombro. À nossa volta, o último grupo de alunos saiu da sala conversando com o professor sobre as expectativas para os projetos. - Quantas vezes já pensou em arrancar minha cabeça só hoje?
- Essa é uma pergunta bem específica; você acha que eu quis arrancar a cabeça? - Senti meu mau humor se manifestar novamente, escalando minha garganta, implorando para ser colocado para fora.
- O que mais? Minhas roupas? - Ele abriu um sorriso para mim, revelando o quanto estava se divertindo com toda aquela situação. E lá estava eu, confusa novamente, com todos aqueles joguinhos e provocações.
- O que você quer, Zayn? - Perguntei-lhe francamente, já cansada.
- O que você quer, ? - Devolveu a pergunta.
Grunhi de frustração pela segunda vez naquelas duas horas em que estive com ele.
- Eu queria que você parasse com esses joguinhos e essas frases cheias de duplos sentidos! Queria que você não me tratasse como uma completa estranha repentinamente, principalmente depois daquele momento que tivemos na cozinha da fazenda. Queria que... - Parei de falar abruptamente, lembrando-me do que me disse no banheiro da casa grande da fazenda. - Eu vou fazer o que eu quiser, Zayn.
- E o que está esperando? - Ele se afastou da parede, surpreendendo-me completamente quando consegui distinguir claramente algo em seus olhos: ansiedade.
Cruzei o espaço entre a gente com um passo apenas e, estando mais perto, levantei a mão e dei um murro em seu ombro. Sabia que não tinha força suficiente para machucá-lo, não por cima da jaqueta de couro, pelo menos, mas foi apenas um soco simbólico para que ele soubesse como eu estava me sentindo. Dei-lhe outro soco. Zayn fez uma careta.
- Engraçado, não era isso que eu esp-
Segurei a gola de sua jaqueta e o puxei para mim, encostando meus lábios nos seus. Por um pequeno momento, nossos lábios apenas ficaram pressionados e eu mantinha meus olhos fechados com medo de que, se os abrisse, a coragem iria embora. E ela foi. Abri meus olhos e o soltei, afastando-o de mim. Zayn pareceu sem reação por um segundo e eu o olhei em expectativa, já planejando minha rota de fuga da vergonha.
Abri a boca para falar alguma coisa da qual me arrependeria para sempre (já que minha cabeça estava girando), mas Zayn foi mais rápido e me puxou de volta para ele, selando nossos lábios novamente. Fechei meus olhos quando senti seus lábios se movimentarem contra os meus, que os respondiam na mesma intensidade. Passei meus braços pelo seu pescoço quando ele aprofundou o beijo, dando-me a oportunidade de sentir o gosto de seu hálito - menta e tabaco misturados. Antes eu poderia dizer que aquela mistura seria nojenta, mas, naquele momento, eu estava completamente enfeitiçada por ele. Senti suas mãos envolverem minha cintura com firmeza, trazendo-me ainda mais para perto de seu corpo. Eu estava em êxtase, sentia-me derretendo em seus braços, mas tão segura que sabia que não cairia enquanto estivesse ali.
Ele partiu o beijo quando percebemos que precisávamos de ar, mas eu não queria me separar dele.
Senti sua mão acariciar minha bochecha, mas tão logo a carícia começou, ele tirou sua mão de lá e se afastou rapidamente.
- Deixe os materiais aqui na sala, amanhã. Farei o trabalho sozinho. - Foi o que ele disse antes de se afastar por completo e sair apressadamente da sala, deixando-me completamente sozinha com meus lábios formigando e minha mente tumultuada por um turbilhão de pensamentos.
E nenhum deles era bom.



Liam’s POV
Droga, !, eu pensava enquanto fazia meu caminho até a academia do ginásio. Eu estava extremamente revoltado com todos aqueles pensamentos que me acompanhavam enquanto dava cada passo; eu não era um pensador. Eu não sou um cara que pensa demais, sou mais do tipo que vai no momento, que faz e depois pensa no que fez. E vivo bem com isso, muito obrigado.
Mas me fez pensar. E, honestamente, eu não estava nem um pouco afim de pensar no que estava acontecendo.
Por isso, prometi a mim mesmo que passaria o resto da noite na academia, queimando algumas gorduras e ignorando esses pensamentos.
Continuei seguindo para o ginásio, escolhendo a próxima música em meu celular quando fui pego de surpresa com a imagem de uma garota sentada no chão atrás do último bloco de salas de aula antes do ginásio.
- . – Chamei-a, enquanto observava sua silhueta contra a luz que vinha dos postes.
Antes de responder, tive a impressão de ouvi-la fungar, o que me deixou preocupado imediatamente.
- Hey, Liam. – Pude vê-la esboçar um sorriso.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntei antes de guardar o celular no bolso junto com os fones e me aproximei dela.
- Nada... Só pensando.
- Sobre?
- A vida.
- Isso é novidade. – Murmurei, sentando ao seu lado. – E a que conclusão chegou?
- A natureza nos sacaneou muito. – Disse com tanta convicção que eu tive que rir. – O que é? Estou falando sério. Essa coisa de viver em sociedade, de criarmos laços... Tudo balela.
- Acho que você está certa. – Franzi o cenho. – Mas pelo menos tem coisas boas. – Abri um sorriso e ela arqueou uma sobrancelha, desafiando-me a continuar. – Quero dizer: olhe para mim! Somos amigos, huh?
- É, acho que sim. – Disse após um breve momento em silêncio.
- Acha que sim? Ouch. – Coloquei a mão no peito, fazendo-a rir um pouco. – Mas, falando sério, como você está? Harry falou algo sobre uma briga entre vocês ontem, ainda na fazenda.
- Ele falou? - Ela levantou os olhos para mim, surpresa, mas desfez a expressão tão rapidamente quanto a colocou ali, trocando-a por indiferença. - Claro que falou. E provavelmente me fez parecer a bruxa da história.
- Na verdade, ele não falou muita coisa sobre isso. - Informei. Ela não me respondeu, apenas soltou o ar pelo nariz em sinal de incredulidade. - Acho que ele nunca esteve preparado para, ao menos, considerar a possibilidade de que você mudaria um dia. - Balancei a cabeça negativamente. - Não que você precisasse ou iria mudar um dia, claro. Se nunca mudasse, nós te amaríamos da mesma forma, eu garanto isso.
Ela bufou, mas percebi que não era para mim, era mais como se ela estivesse guardando uma teoria sobre isso tudo e eu tivesse acabado de errar a resposta premiada.
- O problema aqui não é o fato de que eu mudaria ou que eu mudei, Liam. - Rolou os olhos. - O problema aqui é que Harry não consegue aceitar que as pessoas podem seguir suas próprias vidas. Ou que elas vão fazer algo que não o envolva no processo. Esse é o ponto: Harry simplesmente não aceita que ele não é o centro do universo.
- Eu nunca vi as coisas por esse lado. - Confessei.
- O Harry é bom, ele é tipo o Sol, você nem está ciente de que ele está lá brilhando.
Balancei a cabeça positivamente, apesar de não me identificar com o que ela dizia. Talvez porque eu não era tão próximo do Harry como Louis e eram talvez por isso eles sentissem mais o efeito-Harry.
Caímos em silêncio por alguns segundos.
- Hey. - Chamei-a enquanto tirava meu celular e o fone de ouvido do bolso, depois lhe dei um dos lados do fone. - Olha essa música.
Coloquei uma música que eu achava que combinava com o clima.
Quando I Don't Care (I Love It), da Icona Pop, começou a tocar, jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada alta.
- Você é a pior pessoa do mundo. - Jogou o fone em meu peito sem parar de rir.
- Você está rindo, então, acho que não sou. - Abri um sorriso.
Ela parou de rir aos poucos e acabou por me prender em seu olhar.
- Por que o Harry? Por que não você? - Ela perguntou de repente enquanto seus olhos queimavam os meus com toda a brutalidade daquelas palavras sinceras demais. - Alguns poderiam dizer que somos perfeitos um para o outro. - Acrescentou.
Eu não sabia o que dizer a ela, mas eu queria poder dizer que, naquele momento, olhando em seus olhos, eu apenas sabia o que se passava dentro dela: queria ser notada. Ela existe. Ela sempre existiu, pelo amor de Deus. E ninguém nunca reparou nisso, ela sempre esteve fora da luz, sempre na sombra. Nem o bastardo do Harry a via como ela queria ser vista. Pensando nisso, enquanto enxergava nela muito mais do que eu jamais vira em toda nossa convivência, fui tomado por uma súbita vontade de dar a ela qualquer coisa que ela quisesse. Eu a notaria, daria a ela um holofote, desenharia uma janela em seu peito para que ela iluminasse tudo que havia à sua volta.
Naquele momento, eu sabia que nunca fora tão antes.
Sem pensar nem sequer um instante, inclinei-me sobre ela e beijei seus lábios.
Nunca havia imaginado beijar , nem mesmo quando ela começou a usar essas roupas coladas e tirou o cabelo do rosto, eu não sabia o que esperar, mas, definitivamente, não imaginaria que sua boca seria tão macia e quente ou que seu hálito fosse tão fresco. Ainda urgente, passei a mão por sua nuca, trazendo-a para mais perto de mim, desesperado para lhe dar qualquer coisa que ela pudesse tirar de mim.
Não posso dizer com clareza quem se afastou ou quem caiu na gargalhada primeiro, mas numa hora estávamos nos beijando e noutra estávamos rindo e balançando nossas cabeças.
- What the hell, Payne! - Ela riu uma última vez antes de se recompor e deitar no chão ao meu lado. Olhei-a por cima do ombro. - Eu pareci desesperada desse jeito?
- Pior. Juro que te prometeria a Lua se tivesse me olhado por mais alguns segundos com aqueles olhinhos brilhantes.
- Você deve achar que sou patética.
- Na verdade, você beija bem. - Abri um sorriso para ela.
- Você também não é nada mal, apesar de eu não ter nem a metade do seu repertório para poder comparar. - Murmurou em tom de graça.
- Só tinha língua demais. - Provoquei, recebendo um tapa no ombro em troca. - Ei!
Caímos naquele silêncio de novo, mas não era desconfortável. Adorava por isso, com ela as coisas não eram complicadas. Nem mesmo um fucking beijo do nada.
- Sabe, não sei o que Harry fez, mas ele definitivamente se livrou de uma surra épica. - Quebrei o silêncio, arrancando-lhe uma risada.
- Não tenho nada mais a ver com ele. - Foi o que ela disse depois de alguns segundos de risada.
- Você teria acabado com ele. - Continuei. - Aliás, sobre Lance...
- Ah, não. - Ela me interrompeu.
- A cara dele está do tamanho da bola que ele deixou de chutar hoje no treino de futebol. - Prossegui.
- Não quero falar disso...
- Eu não poderia estar mais orgulhoso de você. - Concluí.
Ela sorriu para o céu.
- Você sempre cuidou de si mesma, , e de todos aqueles com quem você se importa. - Falei. - Você é durona.
- Obrigada. - Ouvi-a murmurar com sinceridade.
- Mas não é fraqueza mostrar seu lado molenga, também. O que eu vi em seus olhos hoje; eu não quero ver aquilo nunca mais. - Olhei para ela novamente, sério. - Você existe, . As pessoas não sabem o que estão perdendo.
- Obrigada, Liam. - Dessa vez ela sussurrou ainda sem olhar para mim.
Ficamos em silêncio por mais alguns segundos antes de ser quebrado pela sua risada.
- Liam?
- Hm?
- Você não é a pior pessoa do mundo. - Disse, relembrando o que me dissera há alguns minutos.
- Não?
- Não. Você é a melhor pessoa do mundo.


’s POV
- Ei! – Senti um cutucão em minha costela e pulei na cadeira, deixando de encarar o cupcake com chantilly em meu prato e olhando confusa para ao meu lado.
- O que é?!
- Bom dia, , parece que você ainda não acordou! Hoje é dia vinte e dois de janeiro, estamos numa terça-feira, caso você precise se situar melhor. Aliás, você pode, por favor, participar da conversa pelo menos quando falamos com você?
Olhei para do outro lado da mesa em nossa frente e ela me olhava com um sorriso tranquilo e um indício de bom humor.
- , do que essa chata tá falando?
- Eu perguntei se você vai comer isso aí ou só ficar encarando. – Ela riu fraco, e eu olhei para o cupcake novamente.
- Eu não gosto de chantilly. – Respondi, desanimada.
- Nossa, traga uma maca, ela vai morrer porque tem chantilly no seu precioso bolinho. – riu fraco e eu a olhei, franzindo o cenho.
- Isso foi você sendo irônica? Tá andando muito tempo com o Zayn. – riu e revirou os olhos, me empurrando fraco de novo. Olhei para . – Ela não tá passando muito tempo com o Zayn?!
- Tá passando muito tempo com o Zayn. – concordou, entrando na brincadeira de irritar de novo, mas ela só resmungou alguma coisa. – E o seu problema não é o chantilly, não é?
Encarei outra vez.
- É quem comia o chantilly para mim. – Resmunguei também, olhando inevitavelmente para a mesa dos garotos mais ao longe no refeitório. Mas àquela hora da manhã só ele e Josh estavam tomando café lá, e como Josh parecia estar recém saindo de um coma, eles estavam em silêncio. Um momento depois Harry olhou em minha direção novamente e eu desviei o olhar. Aquilo vinha acontecendo o tempo todo desde que sentei naquela cadeira. E toda vez que nos olhávamos eu não sabia se queria matar mais a mim mesma ou a ele. Aquilo era terrível.
- . – me olhou, virando um pouco para mim. Mordeu o lábio e depois entreabriu a boca como se estivesse tentando achar as palavras certas para falar algo. – Eu sei que o Harry é um babaca. E o que ele fez é imperdoável. E ele não merece as suas desculpas. E que você provavelmente faz bem em querer distância dele, eu sei. Mas... – Ela deu uma breve olhada para com uma caretinha e voltou a me olhar. – Se você conseguir, só por um segundo, ignorar tudo isso, e só se concentrar no fato de que é óbvio que ele está fazendo tudo isso porque gosta de você e não sabe lidar com isso... Esse detalhe meio que muda um pouco as coisas.
Eu sabia depois de algumas ocasiões que eu e ele passamos juntos, que aquilo era uma hipótese a não se descartar. Mas só a ideia de Harry gostando de mim me fazia voltar a todos os momentos em que ele me fez sentir feito lixo por livre e espontânea vontade, e aquilo era péssimo. Eu não conseguia ver lógica em Harry gostar de mim. Ele provavelmente me via como sua amiga de infância, a garota que ele jamais tocaria não fosse para brigar pelo controle remoto. Nós nos víamos assim desde que nascemos. Nós dividimos o berço, ele literalmente morou em minha casa. Eu já o vira pelado, pelo amor de deus. E aquilo foi antes de todo o terror da puberdade, quando as coisas começaram a se complicar, foi quando tudo ainda era simples e eu ainda sentia vontade de vomitar quando pensava em beijá-lo.
- Você acha? – Disse mais baixo, tirando os olhos dele e voltando a olhar para . Ela assentiu com a cabeça, e senti que aquilo era mesmo uma garantia. sabia do que falava, e talvez eu precisasse escutá-la. Olhei para , e ela também assentiu.
- está certa. Ele obviamente gosta de você, e está desesperado. Não foi... meio estranho quando você descobriu que gostava dele em primeiro lugar? – Ela disse mais baixo.
- Ainda é, toda vez que penso nisso. – Admiti.
- Então, para ele deve ser ainda mais. Imagina, se coloca no lugar dele. Te ver assim, linda, de um jeito que ele nunca te imaginou! Deve ser aterrorizante. Você já botava medo nos garotos antes, . – Ela me cutucou e sorriu. – Agora intimida eles pelo motivo certo.
Não pude evitar conter um sorriso. Eu sabia agora do poder de uma regata colada. E era meio incrível quando eu conseguia usá-lo.
Ponderei sobre aquilo por um momento, me perdendo em pensamentos novamente. Voltei à Terra só quando ouvi alguém se aproximar.
- Bom dia, meninas. Ei, ! – Louis parou em frente à nossa mesa e olhou para . – Posso te pedir um favor?
- Tudo que estiver ao meu alcance. – Ela sorriu.
- É fácil. Só preciso que coloque isso nas coisas da , pode ser? – ele a entregou uma pequena caixinha retangular enrolada em papel presente, com um laço vermelho. – Quero surpreendê-la, e também não quero ser muito grudento – ele sussurrou, a fazendo rir e o olhar meio surpresa, como eu e também olhávamos. Ele nos olhou, para cada uma de nós, e depois revirou os olhos e riu. – Parem com isso. Eu gosto dela, ok, não é mais um segredo. Superem.
Nós rimos. Aquilo era ótimo, honestamente. Louis merecia ser feliz. Eu só me preocupava um pouco com a sua escolha de garota.
- Ok, mas por que um presente? está de aniversário?
- Ah, hum... É. – Ele fez uma caretinha. – Ela pediu para eu não fazer uma grande coisa disso. Mas, ei, eu confio em vocês! – Ele piscou apontando para nós três.
- Tem certeza que devia confiar nessas garotas? – disse, se aproximando dele por trás, e riu quando a olhamos, beijando o rosto de Louis antes de sentar ao lado de . – Bom dia. Do que estamos falando?
- está de aniversário. – a atualizou.
- Ela faz aniversário? Pensei que estivesse morta. – Ela riu da própria piada, e arqueei as sobrancelhas. Parecia um bom dia até para . Só eu estava na merda, mesmo. Louis a encarou, sério, e ela diminuiu o sorriso. – Ops.
Olhei para Louis.
- Ei, você está pedindo favorezinhos à ! Eu não sou mais sua melhor amiga? – Fiz um bico, e ele me encarou por dois segundos piscando antes de se aproximar de mim.
- Claro que é, posso sentar e fofocar com você sobre sua briga com o Harry e o término com o Lance? – Perguntou, se abaixando e escorando o cotovelo na mesa e o queixo na mão, piscando algumas vezes para mim.
- Babaca, sai daqui. – O empurrei e ri fraco.
Ele riu também, se afastando.
- Bem, vou indo, tenham um bom dia, meninas. Obrigado, , nos falamos depois!
Nós quatro demos tchau, e Louis pegou sua bandeja de café-da-manhã para se afastar.
- Ei, Lou! – o chamou, e ele virou de volta. Ela olhou da caixinha em sua mão para ele. – Só por curiosidade... isso não é cigarro, é?
- Não. É um mixtape. – Ele sorriu, antes de se afastar.
olhou para , e olhou para , e um segundo depois as duas trocaram um “awn!”. Eu ri e também.
- Isso é fofo. – comentou, concordando.
- Ele gosta dela. Isso pode ser muito bom para a .
- Ou muito ruim para ele. – suspirou.
- Louis devia ser mais inteligente do que isso. – comentou, como se fosse para si mesma, e tomou um gole de seu café.
- Ei, a gente podia fazer uma festa surpresa pra ela. – deu a ideia, parecendo buscar a mesma empolgação na gente.
- Ela te mataria e empalaria o seu corpo. – Comentei, quebrando o seu barato. Ela olhou para .
- Não olhe para mim, eu sou a última pessoa que ela quer ver aqui.
- Ah, qual é! – choramingou e então olhou para , estendendo a mão na mesa para ela. – ! ? – Fez um biquinho.
- Ai, ok! – suspirou, sorrindo no final. – Eu acho uma ótima ideia, . Não precisa ser nada muito elaborado, é só para ela saber que tem amigos aqui. Gente que se importa!
- Isso! – apertou a mão da amiga. – Mas vamos precisar da ajuda de todos. – Ela olhou para .
- Tá bom, ! – revirou os olhos. – Como quiser.
- . – Ela me olhou, sorrindo e arrastando a última letra do meu nome. – Vamosssss?
- Ok. – Ri, não conseguindo não achar aquilo engraçado.
- Isso! Isso! Isso! Eu adoro organizar coisas. – Ela comemorou. – Ok. Nos encontramos na biblioteca depois do meio dia.
- Certo...
Logo depois, eu voltei a encarar a mesa dos garotos, onde agora Louis estava sentado na frente de Harry. Escorei o rosto na minha mão, desanimada, e suspirei pesadamente.
- O que eu devia fazer sobre isso? – Perguntei, esperando que elas, que sabiam mais dessas coisas, pudessem me dar uma luz.
olhou por cima do ombro e logo entendeu do que eu estava falando. Bem, o colégio inteiro sabia do que havia acontecido com a minha vida pessoal e amorosa no acampamento, então ela definitivamente sabia também.
- Harry obviamente gosta de você também, é tão óbvio que chega a ser patético. – Ela comentou, e apontou para ela, olhando para mim como quem diz “eu te falei”.
- Mas eu ainda não sei o que fazer. Parece bem mais fácil simplesmente se afastar de uma pessoa do que realmente é! Ele é meu melhor amigo. Passei a minha vida toda com ele até agora. Eu não quero... – Engoli em seco e suspirei, me ajeitando na cadeira. – Eu não quero odiar ele pra sempre. Quero superar isso. Pelo menos não sentir essa coisa terrível toda vez que olho para ele. Isso só faz mal a mim. Quem devia estar se sentindo um lixo ambulante era ele!
A mesa ficou em silêncio um segundo depois, e olhei para mim mesma.
- O que diabo eu estou fazendo, isso não é Meninas Malvadas! – Me xinguei.
riu, e tocou meu braço.
- Tudo bem. – Ela me reconfortou.
Por um momento, só ouvi os talheres baterem.
- Hum. – levantou seu garfo, terminando de engolir alguma coisa e nós a olhamos. – Eu tenho uma ideia. Você já provocou um garoto antes?
- Claro que sim, mas eles nunca tinham coragem de me bater no final. – Dei de ombros. Todas se olharam, e coçou a testa fazendo uma careta.
- Ela está falando de outro tipo de provocação. – A garota explicou.
Outro tipo de...
- Ah. – Olhei para , e as três assentiram para mim. – Mas, eu... Como eu... Por quê? – A olhei, confusa.
- Porque, como você disse, está na hora dele sofrer um pouco. Harry precisa te querer mais, . Te querer muito mais. Te querer o suficiente para perder a cabeça, e desejar morrer por isso. Pelo que ele fez.
Eu gostei daquela ideia. Aquilo soava muito bem em meus ouvidos.
- Fale mais. – Pedi, tocando a mesa com as mãos.
soltou o garfo no prato e me olhou por um momento, observando os detalhes.
- Solta o cabelo. – Ela disse, e meio incerta eu o fiz. As outras duas também assistiam aquilo curiosas. – Joga ele para o lado agora. Assim. – Ela fez com o dela, e fiz o mesmo com o meu, colocando meus cabelos para um lado. – Agora... – Ela procurou por algo na mesa, e por fim pegou o cupcake do meu prato o passando em minha mão e antebraço.
- Ei! – Reclamei, olhando para o doce em meus dedos e pulso.
- Opa, foi sem querer. Agora você tá suja de chantilly! Vai ter que limpar isso.
Olhei para o guardanapo em minha bandeja, mas ela o pegou e o amassou antes que eu pudesse pegá-lo. A olhei, incrédula.
- Com a boca.
Olhei ainda incrédula para e , mas uma delas observava tudo muito atenta como quem assistia a uma série de TV e a outra estava agora com o queixo apoiado na mão, sorrindo para mim e esperando por aquilo ansiosamente.
, eu te odeio. Muito obrigada.
- Anda logo, você pode fazer isso. – sorriu mais, me encorajando.
Respirei fundo, olhando para a mesa onde eles estavam, e Harry ainda olhava para mim a cada três segundos. Eu podia fazer aquilo, sim.
- Você é a Marilyn Monroe, garota. – falou, e eu olhei para ela.
Eu sou a Marilyn Monroe.
Coloquei a ponta do polegar na boca, limpando o chantilly que havia lá, e fez um “uuuh” debochado me fazendo rir. Um pouco de meu cabelo caiu em meus olhos, e olhei para a mesa de Harry o encontrando agora olhando para mim, sem desviar o olhar mesmo quando eu o olhei. Lambi o lado do meu dedo indicador, e depois limpei o local do meu pulso que estava sujo com a língua, sem deixar de olhá-lo também, e ele não parou em momento algum.
- Update, por favor? – disse baixinho.
- Ele está encarando ela como se estivesse vendo um fantasma.
- Parece aterrorizado – falou, olhando brevemente por cima do ombro.
- Isso é ótimo. – respondeu.
Harry não aguentou mais cinco segundos daquilo, principalmente com o contato visual. Ele simplesmente levantou da mesa em um pulo, e sumiu feito um raio do refeitório e tudo que consegui foi encarar aquilo incrédula, sem acreditar que eu de fato havia feito aquilo. Encarei as garotas, de boca aberta.
- Meu Deus! – Exclamei, e então elas explodiram em risadas e comentários todas ao mesmo tempo.
Eu só conseguia rir, rir de nervoso. Aquilo era surreal. Eu vi acontecer. Eu vi a cara dele. Não acredito que eu, eu havia provocado Harry Styles. Sabia bem como provoca-lo de todas as maneiras, mas não daquela.
- Olá, bom dia, amores da minha vida! – Ouvi Liam exclamar ao se aproximar da mesa, enquanto todas nós ainda comentávamos empolgadas sobre aquilo falando ao mesmo tempo. – E . – Ele completou, olhando para a irmã.
Ela apenas respondeu com uma careta, voltando a comer.
- Por que todo o fuzuê?
- Nada. – Respondi, o olhando, e ele me olhou também, por um segundo.
- Ok... só passei para dar a melhor notícia que vocês vão ouvir hoje.
- Adoro notícias boas, desembucha! – sorriu, o olhando empolgada.
- Ok. Adivinhem quem alcançou cinco fucking mil visualizações em um fim de semana?
- Ah, meu Deus, Liam! – disse, o olhando incrédula.
- Cinco MIL?!
- Cinco. Mil!
- Cinco mil! – Exclamei, levantando e abrindo os braços para abraça-lo, e ele correspondeu ao meu abraço rindo. – Se falar sobre o que aconteceu a qualquer pessoa sobre ontem... – vociferei.
- Relaxa. – Ele murmurou e eu ri, me afastando. – Galera, é sério, vocês não estão entendendo. Nós estamos recebendo mais de cem visualizações por hora. Por hora!
- Por hora!
- Por hora! – e repetiram, uma para a outra, e só consegui rir. Era importantíssimo o apoio que dávamos a eles, mas aquelas duas, elas levavam a empolgação a outro nível. Não dava nem para comparar.
- E, então, enfim, anyway... – Liam voltou a falar. – O que vim dizer, é que vamos sair para comemorar esse fim de semana. Vai ter uma festa no Vagão na sexta à noite. Queremos todas vocês lá, isso não é um convite, é uma ordem. – Ele explicou, nos fazendo rir. – Você também, .
- Yupi. – Ela respondeu, encarando sua xícara de café em frente ao rosto.
Liam estalou a língua para ela e balançou a cabeça.
- Enfim, era isso. Preciso ir, sabe como é a vida de um rock star. – Ele disse, fazendo cena, e eu ri.
- Sai daqui, exibido.
- Cria um fã clube no Twitter pra mim. – Ele piscou para mim me mandando um beijo no ar antes de se afastar.
- Caramba, cinco mil. Isso é grande.
Concordei com a cabeça.
- Muito grande.


’s POV

- Qual o nome do pub que vamos comemorar com os meninos na sexta? – Perguntei à , interrompendo seus estudos de trigonometria. Ela levantou a cabeça e franziu o cenho tentando se lembrar.
- Hm, acho que eles não disseram. – Ela me olhou, incerta.
- Vagão. – falou sem tirar os olhos de seu livro. – Onde fica isso?
- Perto do castelo. – me lançou um rápido olhar antes de voltar a ler suas anotações.
- É um pub meio famosinho aqui. Deixam menores de idade entrar porque têm várias opções não-alcóolicas no cardápio. – Ignorei o calafrio que percorreu meu corpo quando pensei no lugar.
- Não que eles façam uso dessas opções. – sentou-se ao lado de e bagunçou o cabelo dela com as mãos.
- Óbvio. – concordou.
- Vagão, então. – Repeti a informação enquanto escrevia o nome do pub na mensagem em meu celular. – Obrigada pela ajuda. – Sorri para elas. – Encontro vocês mais tarde. – Levantei-me do banco de pedra da mesa em que estávamos sentadas no pátio e mandei um beijinho para , que me olhou quando eu me despedi.
- Aonde você vai? – Perguntou ela.
- À sala da banda. – Falei rapidamente antes de me afastar sem dar-lhe tempo de me perguntar o ”porquê”.
Caminhei sem pressa até o bloco mais afastado do campus da St. Bees, onde ficava a sala de ginástica, que agora servia de estúdio para a banda dos meninos. Niall havia me mandado uma mensagem mais cedo pedindo que eu o encontrasse lá depois do almoço. Depois que Liam anunciou que eles haviam batido cinco mil visualizações no final de semana, não tive muita exclusividade para parabenizar Niall pessoalmente. Eles estavam correndo com os preparativos da comemoração na sexta e já estavam famosos na escola.
Permiti-me abrir um sorriso enquanto apreciava a beleza daquela quarta-feira nublada, mas agradável – a temperatura de 8º estava estranhamente agradável por causa das poucas nuvens no céu e o vento mais calmo. Mas, ainda assim, fiquei agradecida por entrar no calor confortável da sala da banda.
Avistei Niall no canto da sala, perto da bateria, afinando seu violão. Ele estava tão compenetrado em sua tarefa que nem percebeu minha entrada, o que me fez soltar uma risadinha baixa, achando aquela cena adorável.
- Hey. – Chamei sua atenção quando ele tirou o afinador da cabeça do violão. Ele levantou a cabeça para mim e abriu um sorriso maravilhoso para mim. – O que está fazendo? – Caminhei em sua direção enquanto ele ficou sentado ainda com o violão no colo.
- Estava afinando o violão. Compus uma música e acabei desafinando. – Riu de si mesmo antes de levantar o olhar para mim. – Quer ouvir?
Arregalei os olhos em surpresa.
- Uau, eu adoraria! – Sorri. – Mas, primeiro, devo te parabenizar pelas cinco mil visualizações!
- Claro. – Soltou uma risada fraca e se colocou de pé. – Obrigado. – Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele passou os braços pela minha cintura e me abraçou. Fiquei sem reação por um segundo, mas logo abracei-o de volta, inalando com prazer seu perfume maravilhoso.
Droga, eu estava tão perdida nos meus sentimentos por ele que me sentia idiota.
- Significa muito para mim. – Disse baixinho em meu ouvido.
- Que isso, é um prazer vê-los fazendo sucesso. Vocês são ótimos e não há nada mais adequado que serem reconhecidos. – Respondi com um pequeno sorriso.
Por algum motivo, ele não me soltou e nem eu tirei meus braços de seus ombros, por isso, continuamos abraçados por alguns segundos mais. Tive medo de que ele pudesse sentir meu coração batendo rápido, mas não o soltaria, então me obriguei a pensar em outra coisa.
- A música! – Ele disse de repente, afastando-se de mim apenas o suficiente para me fitar. – Ainda quer ouvir?
- Sim! – Sorri e me afastei dele por completo, deixando que ele voltasse ao banquinho e pegasse o violão.
- Eu fiquei com essa frase na cabeça a noite toda, não sei o que me deu; ela apenas apareceu na minha mente e eu sabia que tinha que virar uma música. – Começou a explicar.
- Qual frase? – Sentei-me no braço do sofá mais próximo de onde ele estava sentado.
- “Those big bright eyes; she makes me believe in meant to be; she makes me believe in destiny”. – Ele falou suavemente enquanto colocava os dedos nas cordas do violão, simulando os acordes. Levantou os olhos para mim, em expectativa. Abri um sorriso para ele, que me devolveu o gesto. – Gostou?
- É uma frase bonita. – Reconheci, observando-o ajustar o capotraste no braço do violão.
- Louis e Josh estavam no quarto, falando sobre o final de semana e a apresentação... Pensei nessa frase. – Continuou contando como conseguira inspiração. Tive essa esquisita sensação de que ele evitava meu olhar.
- Foi um bom final de semana. – Concordei com um sorriso. Ele finalmente voltou a me olhar.
- Foi sim. – Sorriu. – Aliás, você vai ao pub na sexta, não vai?
Meu sorriso sumiu assim que meu pensamento se voltou ao assunto.
- Eu... não sei. – Engoli o bolo que se formou em minha garganta.
- O quê? Por que não sabe?
- Não sei. – Repeti, indicando o fim do assunto.
Mas Niall não se dava por vencido facilmente.
Sei disso porque ele ganhou aquela aposta.
- Por quê? Tem que ter um bom motivo. Todos te querem lá. – Argumentou. – Eu quero você lá. – Encarou-me. Comprimi os lábios, sentindo-me extremamente tentada a levantar e lhe abraçar novamente. Por que ele era tão absurdamente irresistível?!
- Não gosto do lugar.
- Mas todo mundo diz que é um ótimo pub! – Enrugou a testa, formando uma pequena dobra entre suas sobrancelhas.
- Não para mim. – Respirei fundo discretamente.
- , por favor. – Ele veio se sentar ao meu lado no sofá. – O que está havendo?
Balancei a cabeça, forçando-me a abrir um sorriso.
- Eu não gosto do lugar, já disse!
- Por quê?
- Niall, não...
- Só me diga o porquê e eu paro de perguntar. – Estendeu a mão para mim em sinal de acordo.
Recusei sua mão, abaixando-a com um rápido movimento.
- É perto do castelo. – Fitei a parede à minha frente.
- E o que... – Começou a questionar, mas se interrompeu quando pareceu entender. – Ah.
Houve um pequeno silêncio antes que ele voltasse a falar.
- Então você não entra mais em nenhum castelo?
- Não.
- Isso é um pouco radical, não acha? – Perguntou. Dei-lhe um olhar torto, indicando que não gostei da forma como falou. – Ok, desculpe. Não é radical... Só... Definitivo.
- É um jeito de lidar. – Garanti.
- Eu respeito isso, mas você não acha que já faz algum tempo?
- O que quer dizer?
- Quero dizer que faz tempo que aquilo aconteceu.
- E?
- Não pode ficar sem entrar em castelos para sempre.
- E por que não? – Revirei os olhos, sentindo-me uma criança birrenta, mesmo que sentisse que eu tinha a razão ali.
- Primeiro: eles são lindos. Segundo: você é uma princesa! – Ele cutucou minhas costelas, provocando-me uma risadinha. – E terceiro: você está na Inglaterra! Será difícil não topar com um imenso castelo a cada quilômetro.
- Por mais que você esteja certo em tudo que disse, afinal, eu sou mesmo uma princesa. – Soltei uma risada fraca com ele. – Eu não consigo me imaginar entrando num castelo. É um gatilho, desperta muitas coisas que eu quero deixar para trás.
- Você não pode viver com medo do passado, . – Sua voz parecia derretida quando ele segurou minha mão com delicadeza. Olhei para ele, que me olhava de volta. Senti um aperto em meu coração como se estivesse prestes a quebrar um juramento ou uma regra. – Aliás, você não vai entrar no castelo; o pub é somente perto dali!
Ele tinha razão.
- Perto o suficiente. – Soltei num fio de voz.
- Ei, eu vou estar lá com você. E não só eu: a também. E o Liam, e a ... Todo mundo.
- Eles não sabem. – Murmurei.
- Isso não importa, são seus amigos.
- Eu não-
Fui interrompida pelo toque de meu celular, indicando uma nova mensagem. Era me perguntando onde eu estava, pois a aula de teatro já havia começado.
- Eu tenho que ir. – Falei, um pouco triste. – Desculpe não ter ouvido sua música nova.
- Teremos outras oportunidades. – Sorriu-me com carinho.
- Certo. – Abri um meio sorriso. Levantei-me e soltei minha mão da sua. – Até mais.
- Ei. Vamos sair no sábado. – Propôs.
Meu coração disparou novamente.
Aquilo seria considerado um encontro?
- Claro. – Abri um sorriso.
- A gente se encontra no portão às duas horas da tarde, pode ser?
- Claro. – Repeti. – Tchau. – Acenei para ele desajeitadamente antes de me dirigir à porta.
- . – Chamou. – Você não está sozinha. – Sorriu para mim.
Sorri também, sentindo-me mais leve de repente.
- Obrigada.


’s POV
- Como será que ele é? – Liam perguntou pela quinta vez desde que entramos naquele maldito táxi naquela quarta-feira mal iluminada.
O bebê nasceu! Eba!
E, assim sendo, Liam e eu fomos convocados ao lar para receber o mais novo integrante da família -Payne.
- Liam, eu nem sei o nome dele! Imagina se vou saber te informar a cara dele! – Bufei, já impaciente.
- Seria legal imaginar comigo, não? – Fez uma careta para mim.
- Claro, criar um monte de fantasias com a... – Deixei a frase morrer quando me dei conta de que a palavra “fantasias” saiu da minha boca. Liam arqueou as sobrancelhas, esperando que eu continuasse, mas virei meu rosto para a janela na vã tentativa de ignorar o clássico sentido malicioso da palavra.
Tentei não balançar a cabeça em negativa para expressar minha frustração.
Seria muito mais fácil se apenas tivéssemos nos afastado naturalmente; colocar ponto final só tornava tudo mais impossível ainda. Parecia que havia essa imensa bolha de tensão entre nós e ela nos sufocava, ou apenas a mim, não sei, mas era insuportável.
- Oliver. – Liam falou de repente, provocando-me um susto pela familiaridade do nome.
- O quê? – Virei-me para ele rapidamente.
- É um nome legal. – Franziu o cenho para minha reação.
- Ah, sim. – Murmurei quando entendi do que ele falava.
- É o nome do Arrow. – Continuou.
- O herói? – Olhei-o enquanto controlava minha respiração discretamente.
- Ele mesmo. – Sorriu para mim. Comprimi os lábios e me virei mais uma vez para a janela a tempo de ver o motorista do táxi fez a curva que dava acesso à rua onde residia meu pai e sua família perfeita.
O silêncio caiu entre nós quando não dei continuidade à conversa que ele tentou puxar. Quando o carro parou em frente à grande casa branca de telhado cinza, voltei a lhe falar:
- Eu detesto esse nome. – Saí do carro e bati a porta atrás de mim.
Entrei na casa fria e inabitada. Larguei minha bolsa no primeiro sofá que vi e Liam trancou a porta da casa atrás de si. O dia ainda estava claro, não devia passar das quatro horas da tarde, mas o sol que iluminava o dia lá fora não era suficiente para aquecer o interior da casa. Olhei as cortinas brancas que cobriam todo o pé direito da sala e encontrava o carpete bege do assoalho com tamanha delicadeza que parecia uma cascata bem ali no cômodo.
É, eu tinha que admitir: a Barbie tinha bom gosto.
- Não tem ninguém em casa. – Constatei o óbvio. – Vou acender a lareira. – Girei nos calcanhares para encontra-lo me observando com as mãos nos bolsos da calça bege do uniforme. – O que foi?
- Nada. – Soltou uma risada abafada e assentiu. – Está com fome?
- Morrendo. – Afirmei.
- Vou preparar algo para comermos. – Deu meia volta e sumiu pelo corredor que levava à área da cozinha.
- Com muito queijo, por favor! – Gritei por cima do ombro enquanto fitava a grande lareira na sala de estar da casa. – Como eu vou te ligar? – Mordi o lábio inferior.
Olhei à minha volta em busca de alguma pista.
Vi um tablet pousado na mesa de centro, perto de algumas revistas de casamento e com bebês estampando as capas. Não pude evitar dar uma olhada mais prolongada no que estava escrito na capa dos bebês. Uma pequena parte de mim achou adorável que o pessoal estivesse se preparando para a vinda da criança; muito embora os dois não sejam pais de primeira viagem, mas quem sou eu para julgar a vontade da Barbie de criar um filho da forma certa agora, veja o desastre que se tornou Liam.
Peguei o aparelho eletrônico e o desbloqueei. O aplicativo do controle universal já estava aberto e tive apenas que ler as opções na tela antes de achar a que me agradava: a lareira. Quando apertei o botão, imediatamente, ouvi um clique vindo da lareira e no instante seguinte ela estava acesa, brilhando com um fogo amarelo e agitado.
- Santa tecnologia. – Murmurei para mim mesma. – Está ligada! – Gritei para que Liam pudesse ouvir. – Sabe se os aquecedores estão ligados?
- A água da torneira da cozinha está quente. – Gritou de volta.
- Ok! Vou tomar um banho! – Avisei enquanto já subia as escadas em direção ao meu quarto com minha bolsa em mãos.
Adentrei os muros de minha fortaleza e me atirei em minha cama. Senti todo meu corpo formigar quando me lembrei da noite de Natal.
Levantei-me rapidamente quando percebi que meus pensamentos estavam ficando mais profundos e intensos. O movimento brusco me provocou tontura e eu ri de mim mesma. Balancei a cabeça quando me senti melhor e fui em direção ao banheiro do meu quarto. Liguei o chuveiro na temperatura mais quente tinha e logo entrei debaixo d’água.
Eu só precisava relaxar e passar essa noite em casa e não na escola poderia me ajudar nisso.
É claro que a Barbie e meu pai iriam querer que estivéssemos presentes quando a criança resolvesse sair da barriga dela, mas eu não imaginava que eles fossem nos tirar da escola no dia. Tudo bem que vamos voltar logo cedo amanhã, mas ainda assim era como se eles fizessem completa questão, e, no entanto, não estavam em casa para isso.
Desliguei o registro do chuveiro contra minha própria vontade, mas obrigada a interromper meu banho sob pena de acabar com a água do mundo inteiro. Procurei minha toalha pelo banheiro, mas não a achei.
- Merda! – Sibilei para meu reflexo no espelho.
Abri a porta numa fresta, analisando o ambiente em meu quarto. É claro que eu podia simplesmente sair do banheiro e ir pegar uma toalha limpa no closet; o único problema era a porta aberta do quarto e Liam na casa. O que também não me impediria de muita coisa se não estivéssemos nesse pacto de sem contatos, provocações ou qualquer coisa do tipo.
- Merda, merda, merda. – Respirei fundo, preparando-me para a maratona que teria que correr até o closet, que ficava exatamente de frente à porta do banheiro de meu quarto. – Vai! – Abri a porta do banheiro num rompante e saí correndo do banheiro até meu closet. Não ousei olhar para fora do quarto no caminho, apenas fiz meu caminho até a segurança do armário.
Quando passei pela porta do closet, fechei-a atrás de mim e pude soltar o ar, sentindo-me muito mais aliviada por estar ali. Apertei o botão do interruptor ao meu lado na parede e vi a luz iluminar as grandes prateleiras e gavetas brancas que davam abrigo às minhas coisas. Tranquei a porta do closet apenas por segurança e me aproximei de minha gaveta de calcinhas.
Sentindo que não deveria dar asas à cobra nem tornar qualquer ocasião propícia, peguei uma calcinha grande e rosa. Depois vesti um sutiã liso bege e, então, peguei o moletom mais antigo e surrado que eu tinha. Olhei-me no espelho e sorri ao constatar que eu estava cem por cento não desejável.
Fora do closet, calcei, ainda, um par de meias verdes com tiras de silicone na sola para que eu não escorregasse pelo chão da casa, e, então, prendi meu cabelo num rabo de cavalo baixo. Satisfeita com meu visual, saí do quarto e desci as escadas, partindo para a cozinha e o cheiro gostoso que saía dela.
- O cheiro está bom. – Falei assim que entrei na cozinha, tentando ser simpática com ele, já que estava fazendo minha comida. Olhei o relógio na parede vendo que eu estava errada sobre o horário e, na verdade, já passava das seis horas da tarde.
- Obrigado. – Ele estava de costas para mim, fazendo alguma coisa no balcão da pia. – Vai querer um pouco de suco?
- Vou tomar água, obrigada. – Fui até o fogão onde bacon, salsichas e ovos fritavam todos juntos numa grande frigideira. – Você quer me matar? – Perguntei enquanto olhava o bacon reduzir de tamanho.
- Se vai reclamar da comida que fiz, sinta-se à vontade para fazer a sua. – Ele se virou para mim e eu o olhei, mas acabei desejando não ter olhado: Liam estava usando avental. Por alguma razão, ele pareceu maravilhoso aos meus olhos e eu quase xinguei baixinho, desviando meu olhar. – E aí? – Ele balançou a faca, apontando a panela.
- Ah... – Olhei a panela, meio aérea. – Não, não. É ótimo. Está ótimo. – Sorri para ele, que me olhou de cima a baixo antes de voltar a cortar uma maçã ao meio.
- O que é isso que você está usando? – Quis saber.
- É um modelo que eu gosto de chamar de “confortável-demais-para-me-importar-com-essa-sua-cara-de-deboche”. – Dei-lhe um sorriso cínico.
- Jura? Achei que fosse um modelo “empata-foda”. – Olhou-me de soslaio e soltou uma risada baixa.
- Você é muito cheio de si.
- Claro que não. Estou apenas preocupado com nosso acordo mútuo de não-sexo.
- Sei, deve ser por isso que você colocou esse avental e disse que iria fazer a comida. – Bufei, mas foi a coisa errada a se dizer, pois Liam parou de fazer o que estava fazendo e se virou completamente para mim.
- Eu não planejei isso! – Ele apontou para seu corpo. – Lamento, mas não planejei. Pelo visto, acontece naturalmente. – Riu sozinho.
- Isso é absurdo. – Rolei os olhos, de repente me sentindo idiota demais por ter me dado ao trabalho de pensar em facilitar as coisas. Tudo que eu mais queria nesse momento era estar deslumbrante e mostrando a maior quantidade de pele possível.
Mas, por outro lado, eu estaria morrendo de frio e nem mesmo Liam valia o meu conforto.
- Não se preocupe, . – Liam voltou a falar depois de um tempo enquanto olhava a frigideira no fogo e, então, a tirou do fogão. – Você poderia estar enrolada em sacola de lixo e eu ainda acharia você a pessoa mais atraente em quem já coloquei meus olhos.
Olhei para ele, que não olhava para mim.
- Eu acho que essas coisas não facilitam nosso acordo. – Constatei. – Não vamos...
- Não vamos fazer isso. – Ele me cortou. – Isso de amigos. – Olhou-me, parecendo desesperado.
- Liam. – Suspirei baixinho.
- Certo. Você está certa. Foi mal. – Pegou a frigideira do balcão da pia e colocou na bancada à minha frente. Peguei dois pratos e os coloquei na superfície de mármore enquanto Liam pegava os talheres e as bebidas. – Sua água. – Passou-me a garrafa.
- Hm, valeu. – Abri a garrafa e tomei um longo gole, jogando minha cabeça para trás. – Como eu estava com sede!
Reprimi a vontade de bater minha mão na testa em frustração; outra frase com duplo sentido! Droga!
- Quando será que veremos a criança? – Perguntei antes de colocar a comida na boca. – Hm... – Comecei, mas não terminei. Eu ia falar sobre como a salsicha estava gostosa, mas seria a pior de todas as coisas que eu já havia dito hoje. Por sorte, consegui me frear antes que aquilo saísse em voz alta.
- Hoje ainda, espero. Temos que voltar para o colégio amanhã a tempo da primeira aula. – Liam informou. – Amanhã é quinta?
- Sim.
- Droga, não vou poder praticar com os meninos; tenho que ajudar no treino do time de futebol.
- Hm... – Murmurei, sem prestar muita atenção no que ele dizia.
- Você pode... – De repente ele falou num tom de voz mais alto, mas fechou os olhos e pareceu se controlar. Olhei para ele, um pouco surpresa, apesar de não saber o que havia acontecido. – Você pode não ficar fazendo esse barulho? Pode me responder com palavras concretas e sonoras? Obrigado! – Ele passou uma mão pelo cabelo. Pisquei duas vezes para ele, sem entender. – Hm, hm, hm! Parece que você está gemendo! Mas que droga, ! Você está me matando aqui!
Pisquei mais uma vez, completamente chocada com as palavras que saíam de sua boca.
- Você está aí com essa roupa toda fofinha e confortável, achando que tá facilitando alguma coisa, mas você nem se dá conta! – Continuou falando. – Não é o jeito que você se veste ou como anda ou como fala... Droga, ! É você! É você inteira! E não sai da minha cabeça nem mesmo quando decidimos nos afastar porque isso também fica na minha cabeça porque eu achei essa proposta a coisa mais idiota do mundo! Eu não quero ser seu amiguinho. Eu quero te pegar pela cintura e te roubar um beijo, eu quero fazer gracinha, eu quero dizer que eu já te vi inteira, eu quero sentar com você na frente daquela maldita lareira e beijar seu rosto inteiro enquanto você dá risadinha, mas eu não vou parar porque eu quero ouvir sua risada, eu quero ouvir você me chamando, eu quero você, porra!
Soltei a respiração lentamente pela boca quando ele terminou de falar.
Seus olhos queimavam os meus e eu sentia toda a intensidade do que ele dizia como se fossem minhas as palavras.
Levantei-me da banqueta e fui até ele, que me acompanhava com o olhar. Peguei uma de suas mãos e beijei a palma dela antes de coloca-la sob meu moletom, sentindo a pele de minha barriga formigar exatamente onde sua mão pousou. Deixei sua mão ali e segurei seu rosto, trazendo-o para mim sem hesitar e colei nossos lábios.


Liam’s POV
- Hm... – gemeu sob meus lábios, que beijavam lentamente os seus. Interrompi o beijo para olhá-la. – Você vai ter que me ajudar a arrumar essa bagunça depois. – Ela levantou a cabeça um pouco para olhar o rastro que nossas roupas formavam da porta de seu quarto até sua cama. Olhei para elas também, por cima do ombro.
- Acho que não. – Voltei a olhar para ela e beijei seus lábios novamente. – Vestir você não é exatamente meu passatempo favorito.
- Vai me ajudar, sim. – Ela riu, ajeitando-se embaixo de mim; o roçar de sua pele nua na minha provocando um formigamento em meu baixo ventre. – Não acredito que você só conseguiu ficar dois dias sem mim.
- Não foi fácil, mas fiz o melhor que pude. – Encolhi os ombros.
- E o melhor que você conseguiu foi me atacar no primeiro toque? – Arqueou uma sobrancelha.
- Primeiro toque?! Você me beijou, . Não há como resistir. – Olhei seus lábios. – Tão macios, tão convidativos. – Beijei-os mais uma vez.
- Os seus também não são nada mal. – Ela sorriu para mim e se mexeu novamente.
- Você está desconfortável ou está querendo um segundo round? – Dei-lhe meu melhor sorriso malicioso. Ela riu fraco e me empurrou pelos ombros.
- Desconfortável. – Disse. – Você pesa uma tonelada.
- Ouch, meus sentimentos. – Coloquei minha mão em meu peito. – Você que é muito magrinha.
- Estou feliz com meu corpo, obrigada. – Mostrou-me a língua.
- E você deve estar! – Levantei o cobertor e dei uma espiada em seu corpo esguio e delineado. Ela deu um tapa em minha mão, fazendo o tecido cair de novo sob nossos corpos. Soltei uma risada e a abracei pela cintura. – E aí, vai me contar quem são nessa foto? – Apontei com o queixo a foto que se encontrava emoldurada na mesa de cabeceira de . Havia dois garotos e uma garota abraçados a na foto e todos sorriam como se estivessem rindo de uma piada muito, muito engraçada.
- O quê? – Olhou para trás rapidamente e voltou a me olhar. – É realmente necessário?
- Eu conheço cada pedaço de seu corpo; acho que está na hora de conhecer também um pouco do que se passa aí dentro. – Toquei sua testa, falando com tamanha naturalidade que até me espantou, mas mantive aquilo para mim. , por sua vez, respirou fundo e pegou o porta retrato.
- Essa é Elaine. Esses são Túlio e Oliver. – Apontou para cada pessoa.
- São seus amigos franceses?
- Elaine é minha amiga. Túlio é amigo de Oliver.
- E o que Oliver é seu? – Perguntei, interessado em saber as coisas de sua vida.
- Ex-namorado. – Disse depois uma breve pausa e recolocou o porta retrato na mesinha.
Ela tinha a foto do ex-namorado dela na mesinha de cabeceira de sua cama. Não sabia dizer exatamente o que mais me incomodava naquilo, mas senti meu corpo ficar tenso e reagir àquela informação. ficou de costas para a foto e de frente para mim, depois passou seu braço por meu pescoço, aproximando-se.
- Eu realmente não quero falar sobre eles. – Disse.
- Por que não? – Olhei para ela. – Sente saudades? – A ideia dela sentindo saudades de seu ex-namorado me irritava profundamente.
- Com certeza eu sinto saudades; mal pude me despedir deles. – Revirou os olhos.
- Correria?
- Má vontade deles. A única pessoa que veio me ver na noite anterior à minha viagem foi Oliver, mas eu não quis vê-lo.
- E por que não? – Senti a satisfação crescer em meu peito.
- Nenhum motivo especial. – Ela se sentou na cama, esticando-se até uma cadeira que havia perto de sua cama e puxou um sutiã de lá.
- O que está fazendo? – Perguntei, indignado ao perceber que perderia o contato com a pele da região que agora era tampada pela lingerie.
- Colocando a lingerie. – Olhou-me por cima do ombro com um pequeno sorriso. Esforcei-me para gravar aquela cena em minha mente; tinha certeza de que nunca uma garota fora tão naturalmente sexy na cama comigo.
- Mas por quê? – Levantei meu braço e passei a ponta de meus dedos por suas costas nuas.
- É um hábito. – Respondeu simplesmente. Tentei não demonstrar reação à informação: se era um hábito, ela fazia aquilo com frequência. E, para fazer aquilo, tinha que transar com outros caras. – Você não se veste?
- Eu me sinto à vontade com você. – Confessei, despreocupadamente. Ela parou de abotoar os fechos de trás do sutiã e me olhou mais uma vez, agora com um brilho diferente nos olhos. Com um sorriso mínimo, ela desabotoou o sutiã e o tirou, depois se inclinou sobre mim e me deu um beijo calmo, quente e macio, sem pressa. Passei meus dedos por seu cabelo quando ela aprofundou o beijo, trazendo mais urgência a ele, enquanto minhas mãos passeavam livremente por seu corpo.
- Obrigada. – Ela murmurou entre o beijo e sorriu. Segurei seu rosto entre minhas mãos, acariciando suas bochechas, sustentando seu olhar no meu. Senti-me inundado por uma paz e conforto enquanto a olhava sorrindo para mim. – O que foi? – Ela balançou a cabeça um pouco para se livrar de mim, mas eu não deixei que se afastasse.
- Seus olhos. – Foi só o que consegui dizer, incapaz de mirar outro lugar que não fosse seu rosto.
Mantivemos aquele contato visual por mais alguns segundos, ambos em silêncio. Eu tinha medo de falar qualquer coisa e estragar aquele momento. era tão bonita, tão intensa, tão inteligente, ela tinha esse frescor de liberdade em sua respiração; não havia como se cansar dela. Não para mim. Eu a adorava.
- Por que você não deixa as outras pessoas te conhecerem como eu conheço? – Perguntei sem querer, num sussurro. Ela olhou meus lábios enquanto eu pronunciava as palavras.
- Qual seria o mistério se todo mundo pudesse enxergar o que está oculto? – Respondeu também num sopro de voz, o que apenas tornava sua frase ainda mais enigmática.
Eu estava pronto para beijá-la novamente quando tanto o meu celular quanto o dela apitaram em sinal de recebimento de mensagem.
Pulamos na cama, alarmados.
- Meu Deus! – Ela colocou a mão no peito e olhou em volta.
Fiz o mesmo, percebendo de verdade o ambiente à nossa volta: a bagunça das roupas espalhadas pelo chão, os travesseiros também alguns na cama, outros no chão, os cobertores que nos cobriam estavam um pouco embolados também.
- É o meu pai. – Ela chamou minha atenção para si. – Ele quer que estejamos no hospital em meia hora. – Olhou para mim.
- Certo, certo. – Assenti.
Comecei a afastar as cobertas de cima de mim, mas puxou meu braço e me beijou mais uma vez.
- Apenas fica melhor a cada vez. – Sorriu antes de me deixar sair de sua cama. Enrolei-me em um lençol e lhe retribuí o sorriso também, um pouco perdido em meus próprios pensamentos, que estavam cheios de imagens dela.
Recolhi nossas roupas do chão e joguei as que eram dela para ela, que agradeceu. Saí do quarto atordoado, com uma sensação de não saber onde estava, mas tinha certeza de que aquilo era um efeito que só uma pessoa conseguia sobre mim; eu estava inebriado pelo cheiro dela, pelo toque de seus dedos, pela carícia que eram suas palavras ditas naquela voz baixa e rouca de cansaço.
De repente, quando eu estava com a mão na maçaneta do meu quarto, prestes a entrar, a verdade daqueles sentimentos foi tão forte que me atingiu em cheio, como uma lufada de ar fresco. Olhei a porta de , agora fechada, constatando o que eu custei para acreditar que estava acontecendo:
Eu estava me apaixonando por .


’s POV
O táxi parou em frente ao grande hospital de Carlisle e o motorista anunciou o preço da corrida. Liam prontamente lhe entregou o dinheiro enquanto eu saía do carro. Abracei meu próprio corpo à medida que pensava que o próximo nível na vida de meu pai estava lá dentro, respirando e enchendo o ambiente com cheiro de cocô e leite materno. Entrei no prédio quando Liam se juntou a mim para nos identificarmos antes de subir para o quarto da Barbie.
- Se eles forem passar a noite aqui – Liam cochichou em meu ouvido quando já estávamos a caminho do quarto 324B na maternidade do hospital – a gente volta mais cedo para casa e aproveitamos que vamos ficar sozinhos. – Terminou de me contar seu plano e eu lhe abri um sorriso travesso.
- Deal. – Parei em frente à porta do quarto dela e olhei rapidamente para Liam, que assentiu, indicando que eu devia abrir a porta.
Puxei o ar rapidamente e girei a maçaneta do quarto. O cheio de flores me recebeu, assim como a visão de meu pai sentado ao lado da Barbie em sua cama de hospital. Eles olhavam alguma coisa no celular de meu pai e só pareceram nos notar ali quando Liam passou por mim e entrou no quarto.
- Mãe! – Ele se inclinou para depositar um beijo tenro nos cabelos da mãe. – Como você está? E o bebê?
Olhei para o pequeno berço instalado ao lado da cama, onde uma trouxinha de panos deitava praticamente imóvel. No mesmo instante em que avistei o berço, uma enfermeira passou por mim gentilmente e sorriu para todos dentro do quarto. E foi só naquele momento em que percebi que eu continuava parada na porta, parecendo que eu nem da família era.
Bom, tecnicamente, aquela não é minha família. Meu pai é minha família aqui.
Ou nem isso, como parece estar sendo.
- Boa noite, queridos. – A enfermeira, que devia ter seus 30 anos e vestia um uniforme rosa com desenhos de pequenas nuvens azuis, cumprimentou o casal de pais. – Está na hora do pequeno Henry ir para o berçário.
Olhei para meu pai, imediatamente surpresa com um pequeno detalhe.
- Mas já? – A Barbie falou, fazendo um muxoxo de tristeza.
- Amanhã cedinho eu o trago de volta. – A enfermeira prometeu com um sorriso calorosamente gentil.
- Está tudo bem, já tiramos um milhão de fotos dele. Se sentirmos saudades, basta olhar. – Meu pai balançou o aparelho com um belo sorriso nos lábios, revelando aquelas rugas que, para mim, eram seu maior charme. Então era isso que estavam olhando no celular quando chegamos.
- Bom, nesse caso, como vejo que estão preparados, vou leva-lo! – Ela sorriu mais uma vez e foi até o berço e começou a empurra-lo para fora do quarto. Dei um passo para dentro do quarto para sair do caminho quando ela passou por mim.
- Tchau, tchau, meu pequeno Henry. – A Barbie cantarolou, com uma voz fininha, arrastando-me de volta para aquele detalhe.
Fitei meu pai, sentindo meus olhos começarem a ficar úmidos e um bolo em minha garganta se formou.
- Então você vai ficar aqui hoje, mãe? – Liam perguntou, sentando-se lentamente ao seu lado. Segurou sua mão e depositou um beijinho no dorso.
- Nós vamos. – Meu pai o corrigiu com um pequeno sorriso. – Tudo bem para vocês? – Ele finalmente se virou para mim e seu sorriso se desmanchou assim que seus olhos pousaram em meu rosto. – Meu amor, você está bem?
Liam e sua mãe tornaram a me olhar e eu quis saber o que meu rosto demonstrava. Bem, eu sabia que por dentro eu estava completamente sem reação e também com um pouco de vontade de chorar, mas, por fora, não saberia dizer bem o que era. Meu pai se levantou e veio colocar suas mãos em meus ombros gentilmente.
- O que houve? – Repetiu, olhando-me nos olhos.
- Vocês deram o nome do vovô a ele. – Falei quase sem acreditar.
- Nós demos? – Arqueou as sobrancelhas e eu imitei seu gesto, chocada com a falta de percepção dele. Como ele não notou que o nome do filho era igual ao nome do pai dele? – Estou brincando, querida, sim, nós demos. – Soltou uma pequena gargalhada e me abraçou pelos ombros.
- Você conheceu meu avô? – Perguntei à Barbie, que me olhava com certo carinho no olhar.
- Conheci sim, . – Sorriu. – Ele era um grande homem.
Experimentei uma mistura de sentimentos naquele momento: em parte eu gostei de ouvi-la dizer que meu avô era um grande homem porque, sim, ele era, era maravilhoso e incrível e o melhor avô que alguém poderia ter pedido a Deus. E, a outra parte, estava extremamente ressentida e irritada porque ela esteve presente nos últimos momentos de meu avô enquanto eu estava sabe Deus onde no dia em que morreu – e no dia do funeral também. Meu pai apenas me ligou dizendo que ele havia falecido.
E, agora, o nome dele estava gravado na certidão de nascimento do meu mais novo meio-irmão para sempre.
De certa forma, eu senti que aquilo me agradava tremendamente. Era uma homenagem, uma bela homenagem à altura do que meu avô merecia.
Limpei a garganta, decidida a esquecer aquele assunto que tanto me magoara no passado e que não seria revirado naquele momento.
- Ele ficaria feliz. – Foi só o que eu disse, sorrindo para meu pai.
- Ficaria sim. – Concordou e depositou um beijo em minha testa.
- Vocês viram como ele é lindo? – A Barbie falou de repente, segurando a mão de Liam.
- Não tivemos tempo, mãe. – Liam soltou uma risada baixa. – Mas com certeza, eu acredito em você quando diz que ele é bonito.
- Agora você tem um irmãozinho, meu amor... – Ela começou a falar somente com Liam e percebi que eu e meu pai ficamos sobrando no momento mãe e filho.
- Eu vou até o berçário. – Avisei assim que a ideia surgiu em minha mente.
- Vou pegar café. – Meu pai saiu comigo do quarto e passou um braço por meus ombros. – Obrigado por ter vindo. – Disse.
- Você me livrou de uma aula emocionante de Física, eu que devo te agradecer. – Brinquei, fazendo-o rir.
Sorri com ele, gostando de vê-lo tão leve e amigável. Eu sentia falta desse lado de meu pai, sentia falta de conversarmos como bons amigos tomando uma xícara de chocolate quente em frente à lareira da casa de Liverpool, discutindo sobre livros e música...
- Espero que isso não esteja sendo muito esquisito para você.
- E por que seria? – Encolhi os ombros, sem saber de algo para dizer que não resultasse em uma patada.
- Sei que foi difícil. – Suspirou. – Eu nunca tive a coragem de te contar que estava saindo com alguém. Em todas as ligações nos finais de semana, a urgência sempre aparecia, eu sabia que precisava te contar, mas nunca saberia qual seria sua reação.
- Pai...
- E nunca te pedi desculpas por isso. – Ele parou de andar e ficou de frente para mim.
- Não precisa pedir desculpas por isso. – Rolei os olhos e enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta, olhando para qualquer lugar que não fosse ele. – Não deve ser uma coisa fácil...
- Olhe você. – Segurou meu queixo e levantou meu rosto. – Você cresceu tanto em dois anos. É uma garota linda, inteligente, tem um futuro brilhante à sua frente...
- Pai. – Tentei pará-lo antes que eu começasse a ficar vermelha.
- Sinto muito que essas coisas sejam tão difíceis. Eu tenho um filho com a Maryl e – ele olhou em volta, como se procurasse as palavras para dizer o que quer que diria a seguir – isso é fantástico! – Abriu outro grande sorriso. – É maravilhoso, . – Balançou a cabeça enquanto repetia aquilo para si mesmo, como se não acreditasse. Mais uma vez, eu estava dividida entre estar feliz por ver a felicidade estampada no rosto dele e a tristeza de ver a forma como ele falava de sua nova família e como eu nunca o vira falando assim de mim ou até mesmo dos poucos momentos que tivemos antes dele se separar de minha mãe.
- Eu sei, pai. – Minha voz falhou na última palavra e eu limpei a garganta rapidamente, segurando o choro que se formava dentro de mim e fazia minha garganta doer intensamente. – Eu sei. – Forcei-me a abrir um sorriso.
- Sabe o que aconteceu quando você nasceu? – Ele pousou a mão na boca, contendo um sorriso. – Você não chorou, já chegou ao mundo dona de si mesma, você não chorou. – Riu fraco. – A doutora teve que te dar um tapinha no bumbum e aí você chorou, tão alto que eu achei graça, parecia que você estava brigando com todo mundo! Aí os enfermeiros levaram você para o banho e quando você voltou, você estava tão linda... – Ele olhou para mim, mas parecia estar a mil quilômetros de distância dali. Eu quis rir, pois estava um pouco nervosa com aquela conversa profunda que estávamos tendo no meio do corredor do hospital. – Enrolada naquela manta bordada de sol que sua mãe adorava porque ela dizia que você era o Sol da nossa vida. Quando ela te pegou no colo, meu amor, você abriu os olhos e olhou para ela, encarou sua mãe por algum tempo e então você sorriu. – Riu novamente. – Eu nem acreditava no que estava vendo... Você era um milagre, . De repente a minha vida inteira fez sentido, eu havia vivido para estar ali naquele momento e ver você abrir seu primeiro sorriso. – . – Tocou meus ombros. – Eu amo tanto você, minha filha.
Comprimi os lábios enquanto meus olhos estavam presos nos dele. Tentei não mover muito meu rosto, certa de que começaria a chorar a qualquer instante se ele ousasse dizer qualquer outra coisa sobre minha infância ou se, simplesmente, resolvesse me abraçar depois de todo aquele monólogo.
- Eu também te amo, pai. – Consegui falar, abrindo um pequeno sorriso quando uma lágrima estúpida resolveu cair. Limpei-a rapidamente. – Bom, você disse que ia pegar um café. – Abri um sorriso amarelo. Sabia que não devia me afastar assim dele justo quando estávamos tendo nosso melhor momento em meses, mas eu me sentia tão desconfortável debaixo de seu olhar, eu sabia que havia me comportado muito mal por todo esse tempo e aqui estava ele, abraçando-me e dizendo que me amava. – Eu vou mesmo ao berçário.
- Ah, certo. Você ainda não viu o pequeno campeão! – Abriu outro sorriso e eu lhe retribuí. Dei meia volta quando ele se afastou e me guiei pelas placas.
Cheguei à parede de vidro da sala do berçário e fiquei lá apenas olhando todos aqueles berços preenchidos por pequenos corpinhos vestidos de cores diferentes. Tentei identificar qual seria o bercinho de Henry, mas, de onde eu estava, era quase impossível ler as letras miúdas das etiquetas dos berços.
- São lindos, não? – A enfermeira que tirou Henry do quarto passou por mim e parou um pouco ao meu lado para observar as crianças também.
- São... tantos. – Franzi o cenho, sem saber o que dizer sobre aquela cena.
Ela soltou uma risadinha.
- Quer ver o Henry? – Ela ofereceu. Olhei o crachá preso em seu uniforme e sorri.
- Eu não sei deveria, Louise. – Dei-lhe um sorriso sem graça.
- Você é família?
- Tecnicamente. Ele é meu meio-irmão. Eu já tinha um, mas agora tenho mais esse. – Senti-me boba pela forma que estava tagarelando sobre minha vida.
- Bom, nesse caso, você é mais que bem vinda. – Sorriu novamente. – Venha, vamos te preparar para entrar.
Ela me mostrou a pequena sala ao lado do berçário que era usada para colocar touca, um avental, uma máscara cirúrgica e protetores em volta dos sapatos. Depois voltamos à porta do berçário, onde ela me fez assinar meu nome e a hora em que estava entrando no berçário em uma folha de ponto; , 11:42 p.m.
- Vou te dar trinta minutos, é só o que posso oferecer. – Disse como quem se desculpa.
- Que isso, é mais que suficiente para eu conhecer o pequeno Henry. – Era estranho dizer o nome Henry para o bebê.
- Claro. – Sorriu e abriu a porta para mim. – Ele é aquele ali. – Apontou para o último berço perto da parede. Agradeci e me dirigi até lá com cuidado para não escorregar com aqueles protetores nos sapatos.
Louise ficou parada no canto da sala, perto da porta, me monitorando, o que, de certa forma, deixava-me mais segura para o caso de eu fazer alguma besteira, teria alguém para me socorrer ou socorrer algum bebê.
Cheguei no pequeno berço e vi o nome de Henry Jacob na identificação. Vi que ele estava deitado de barriga para cima e a cabecinha virada para o lado, por isso me agachei, tendo a visão perfeita de seu rosto amassado e cheio de dobrinhas.
Abri um sorriso involuntário.
- Hey, buddy. – Encostei meu dedo indicador no cercado de acrílico que formava a cesta do berço. – Você é lindo. – Sussurrei, passando meu dedo pelo acrílico como se estivesse acariciando seu rosto. Ele mexeu minimamente a mão e por um segundo eu pude ouvir sua respiração e um pequeno suspiro e, sem querer, eu soltei uma risadinha. – Que sono gostoso, hein?
- Ele vai só dormir e mamar pelos próximos dias até que ele se desenvolva um pouquinho mais. – Louise falou, vindo mais para perto de mim. – O que achou?
- Ele é tão... – Eu queria falar algo extremamente bonito e tocante, algo que resumisse tudo aquilo que eu estava sentindo só de olhar para aquele rostinho rosinha de cabelos loiros, mas não encontrei absolutamente nada que chegasse aos pés de Henry e, por isso, reparei em outra coisa que poderia me servir de resposta para ela. – Ele é tão pequeno.
- Sim, é verdade. – Ela disse num tom gentil. – Ele é o menor que temos aqui.
- Sério? – Olhei para ela, surpresa. – Ele está bem? – Voltei a olhar a criança dormindo tranquilamente em seu bercinho. – Ele é saudável?
- Perfeitamente saudável; ele é assim, pequenininho, mas crescerá muito, você vai ver. – Garantiu.
- Você ouviu, buddy? – Voltei a tocar o acrílico. – Você vai crescer e vai correr, brincar, pular, vai ficar maior que todo mundo! – Narrei o futuro do pequeno Henry enquanto tentava imaginar como ele ficaria quando crescesse.
Será que seria tão bonito quanto o Liam?
Ouvi um suave barulho vindo da parede de vidro do berçário e vi Liam acenando para mim.
“Vamos embora?”, li seus lábios.
Olhei mais uma vez para o bebê e não pude encontrar força nem vontade de me levantar e ir embora. Virei-me novamente para Liam e fiz sinal com a mão para que ele entrasse.
- Louise, você poderia... – Virei-me para falar com a enfermeira, mas ela já estava saindo pela porta quando a vi. Ela parou ao lado de Liam e o levou até a sala onde eu havia colocado todos os protetores e, alguns instantes depois, Liam estava dentro do berçário comigo.
- Hey! – Sorri para ele, mas percebi que ele não podia ver por causa da máscara cirúrgica em meu rosto. – Vem ver seu irmãozinho! – Peguei seu braço quando estava em meu alcance e o fiz agachar-se comigo. – Ele não é a coisa mais linda do mundo?
- Vai querer beijar ele também? – Brincou, mas eu o encarei.
- Essa é a coisa mais repulsiva que você já me disse. – Briguei. – Retira isso. Retira isso agora!
Ele soltou uma risada.
- Ok, ok, desculpe! Retiro o que disse, foi só uma brincadeira! – Levantou as mãos.
- Tá, agora olha ele! – Coloquei a mão em seu rosto e o fiz olhar o pequeno Henry. – Olha essas mãozinhas! E esse narizinho?
- É tudo tão pequeno! – Disse, tocando o acrílico da forma que eu fazia.
- Ele tem o nome do meu avô. – Falei sem pensar.
- Sim, um ótimo cara. – Ele continuou olhando Henry.
- Sim. – Suspirei, sentindo-me leve e feliz de repente.
- Ele é tão feio. – Liam soltou de repente e eu lhe dei um tapa na hora. – Ouch! Qual é?! É verdade! Olha essa cara amassada! E o que é isso branco no pescoço dele?
- Chama-se vérnix. – Louise estava lá ao nosso lado novamente. – É uma espécie de pomada que o próprio bebê desenvolve para se manter hidratado enquanto está na barriga da mãe.
- Isso estava com ele lá dentro da minha mãe?! – Por um segundo, achei que Liam fosse desmaiar, pois ele ficou um pouco pálido.
- Sim. – Os olhos de Louise diminuíram um pouco de tamanho e, por isso, supus que estivesse sorrindo para nós, provavelmente achando graça de Liam.
- Isso é simplesmente nojento. – Concluiu ele.
- É a natureza, Liam. É perfeita. – Sorri para o bebê, imaginando o quanto aquele pequeno corpinho já estava preparado para as coisas que enfrentaria quando chegasse aqui.
Henry se mexeu novamente e abriu os olhinhos. Ele não focava nada, nem olhava fixamente para um canto só, mas piscou uma vez.
- Você, carinha, é um nojentinho! – Liam encostou o dedo novamente no acrílico, como se acusasse Henry de algo. O bebê por sua vez, se mexeu novamente e, para nossa completa surpresa, ele sorriu.
- Ai, ai meu Deus! – Segurei o braço de Liam. – Ele sorriu! Ele sorriu, Liam!
- Esse aí gosta de um sorriso! – Louise falou, olhando o pequeno Henry em seu berço.
- Como assim? – Perguntei a ela.
- Ele sorriu para mim quando eu o tirei do carrinho e, de novo, quando eu o deitei no berço. – Ela explicou.
- Esse é o meu irmão! – Liam fechou a mão em punho e encostou de leve a proteção de acrílico como se estivesse fazendo um toque com o Henry. – Já é um pegador...
- Não fale besteira, Liam! E não ensine coisas erradas para ele. Ele não é nojento e muito menos um pegador. – Revirei os olhos, mesmo sendo incapaz de tirar o sorriso dos lábios. – Ele é um milagre.



’s POV
- Girls, o aniversário da foi na segunda e nós não demos nada para ela. – cruzou as pernas no sofá da antessala da biblioteca.
Parecia que aquele conjunto de sofás virou nosso point de encontros casuais e não-tão-casuais da escola. estava quase deitada na poltrona, com o tronco encostado a um braço da poltrona e as pernas jogadas por cima do outro braço. Ela mexia em seu celular e tinha apenas um lado do fone de ouvido em sua orelha. estava ao meu lado no sofá maior, deitada, e estava sozinha no sofá de dois lugares.
- Ela nem nos disse que era aniversário dela. – olhou para . – Não pode se queixar de não ganhar presente.
- Tenho a mais absoluta certeza de que ela não vai se queixar de não ter recebido presentes, mas nós gostaríamos de deixa-la saber que nos importamos com estava ela e a data de seu aniversário. – argumentou.
- Certo, mesmo que vocês tenham essa necessidade absurda de conquistar o amor de nossa querida colega, digam o nome de uma coisa que vocês acham que a agradaria. – Desafiou.
Olhei para e depois para , admitindo com pesar que ela estava certa.
- Não sabemos absolutamente nada sobre ela ou seus gostos. A única pessoa que provavelmente conseguiu arriscar um presente foi Louis. – Ela continuou.
- Então damos alguma coisa genérica. – sugeriu. – Damos o dinheiro do presente a ela.
- Claro, seria a mesma coisa que dar as drogas na mão dela e dizer "Feliz aniversário, !". – rolou os olhos.
Mais uma vez, tinha razão.
- Ok, sem dinheiro! – bufou. – Você podia dar uma ajuda melhor que ficar dizendo o que não dá certo.
- Eu sou a balança do equilíbrio, vocês precisam de mim. – Abriu um sorrisinho para nós.
- Então, já sabendo que dinheiro está fora de questão, o que mais pode ser? – retomou o foco da conversa.
Ficamos em silêncio pensando em alguma coisa, e voltou a mexer em seu celular, o que me irritou um pouco.
Tudo bem que não era a pessoa favorita de , mas ela poderia, pelo menos, ajudar, não?
- De acordo com o aclamado Sr. Google, teremos uma apresentação de balé em Carlisle na sexta. – A voz de quebrou o silêncio e ela nos mostrou a homepage de um site de eventos em Carlisle.
- Balé? – franziu o cenho e olhou para mim. – Balé?
Olhei para , dando-lhe pouco crédito.
- Que foi? – Ela encolheu os ombros. – Eu posso não estar maluca! Já viram as pernas dela? Não me surpreenderia se ela tivesse feito balé em algum momento de sua vida.
- Meu Deus, você é lésbica? – fitou como se pensasse muito sobre o assunto.
- Ah, por favor! Não é como se vocês nunca tivessem percebido o quão bonita ela é. – revirou os olhos em completo descaso.
- A gente devia imprimir esse elogio e embrulhar ele para presente e então entregar para a . – Sugeri a , que soltou uma risada.
- Sério, ? – estreitou os olhos para mim e eu tive que soltar uma risada também.
- Qual é, ! Essa deve ser a primeira vez na história do mundo que você elogiou a tão abertamente.
- É verdade e você sabe. – arqueou uma sobrancelha para , que, apesar de revirar os olhos mais uma vez, riu um pouco.
- Tanto faz, era só uma idéia. Se não gostaram era só dizer não. – Ela se defendeu.
- Foi mal, , mas você estava certa, não sabemos o que pode agradar e balé é no mínimo inusitado! – Expliquei.
- Mas sabe quem pode nos dizer? – abriu um sorriso, manifestando-se depois de um tempo calada. – A única pessoa que, para começar, sabia que era aniversário dela.
- Louis! – pegou o celular e discou o número do amigo. Alguns segundos depois ela começou a falar com ele. – Biblioteca, agora. – Uma pausa. – Você vai ver quando chegar aqui. – Outra pausa. – Vem logo, Louis! – E desligou o celular. – Ele estará aqui em um minuto.
- Claro, depois desse terrorismo psicológico, até eu viria correndo. – brincou, recebendo uma almofadada de .
- Então, enquanto ele não aparece aqui... – voltou ao assunto. – Mais alguma ideia além do balé?
- Um lápis de olho novo. – murmurou.
- Eu estou impressionada com sua criatividade, ! – Ri.
- Pode ser uma boa. – concordou. – É bem simples, mas sabemos que terá utilidade.
- Não, gente, por favor! A gente se junta para dar um presente e damos um lápis de olho?! – torceu o nariz.
- Estou aqui! – Louis entrou pela porta da biblioteca num rompante e quase berrou mesmo antes de chegar onde estávamos.
- Precisamos da sua opinião. – introduziu o assunto a ele.
- Espero que esteja disposta a ouvir mais de uma. – Liam se aproximou também, seguido de Niall, Harry, Josh e até mesmo Zayn.
- Interrompemos alguma coisa? – perguntou, arqueando uma sobrancelha para o resto da trupe que chegou.
- Um ensaio, não foi nada. – Niall abriu um sorriso condescendente.
- Mas é bom que seja mesmo tão importante. – Zayn completou, colocando as mãos nos bolsos da calça.
- Até onde eu sei, ninguém te chamou. – rebateu e Zayn apenas soltou uma risadinha, como se ela tivesse falado brincando e não com a cara séria que fez.
- Enfim! – chamou a atenção de todos para si. – Louis, precisamos da sua ajuda. A plateia pode ficar se quiser.
Percebi que ela não olhava para o resto dos meninos, apenas encarava Louis. Além disso, notei, também, o quanto o comportamento dela estava estranho nessa semana. era sempre animada e comunicativa, nunca ficava muito tempo calada numa roda de amigos. Ao notar aquilo, automaticamente minha mente começou a trabalhar, esquecendo-se por um pequeno instante o que estava acontecendo à minha volta. Estava em busca de algo que justificasse sua conduta, mas não havia nada que me desse uma dica.
Será que havia acontecido alguma coisa e ela não me disse?
Não havia muita coisa que não me contava. Na verdade, eu tenho quase certeza de que sou sempre a primeira a ficar sabendo de tudo; minha experiência me assegurava isso. Mas a experiência também me ensinou que se ela não está contando algo, prepare-se, pois é bomba.
- Vamos ficar, não há muita coisa a se fazer sem que todos os membros da banda estejam juntos. – Josh fez uma careta, como se achasse estranho o que acabara de dizer.
- Prometo ser rápida. – piscou para o amigo.
Outra que estava muito esquisita; tudo bem que os motivos dela eu sabia, mas mesmo assim. Dava para ver no rosto dela que ela não estava feliz e isso só ficava mais nítido quando Harry estava no mesmo ambiente e ela fazia esforço para fingir que ele não estava ali.
- O aniversário da foi segunda. – Comecei a falar.
- Nós sabemos, o Louis ficou todo derretido com aquela fita que gravou pra ela. – Harry bagunçou o cabelo de Louis, que o afastou com um soco no ombro.
- Lindo. – Continuei. – Disso vocês já sabem. O que nós queremos é saber sua opinião sobre o presente que pensamos para ela.
- Um presente de vocês? Todas? – Louis olhou para .
- Chocado? – Ela devolveu o olhar.
- Surpreso. – Sorriu para ela. – Mas por que eu?
- Louis. – rolou os olhos. – Você gosta dela, para de fazer caso com isso toda vez que mencionamos o fato.
- Tá, tá, mas eu não sei absolutamente tudo sobre ela.
- Até parece. – Niall murmurou, um pouco alto demais, e todos nós rimos de sua reação.
- Tem um recital de balé aqui em Carlisle na sexta-feira e gostaríamos de saber se ela gostaria do presente. – completou a história toda.
- Uau! Balé? – Ele arqueou as sobrancelhas. – Bom... Ela me disse uma vez que fez balé...
- Arrá! – levantou um dedo em riste e olhou para todas nós. – Eu disse que ela poderia ter feito balé!
- Então você é mesmo lésbica. – voltou à piadinha. mostrou-lhe o dedo médio enquanto os garotos riam das duas, mesmo sem entender o que estava acontecendo.
- Então? – insistiu. Louis parecia pensativo.
- Por favor, diz que sim! – implorou. – Foi bem difícil chegar nessa opção.
- Eu acho que ela pode gostar! – Disse Louis por fim.
- Isso! – Comemorei e bati minha mão na mão de .
- Ótimo! – abriu um sorriso e se virou para . – Tem como comprar online?
- Com certeza... – voltou a mexer em seu celular.
- Cara, vocês foram bem longe com essa, hein? – Louis olhou para mim e eu encolhi os ombros.
- Foi ideia da . – Falei.
- Sério? – Ele lançou um rápido olhar para ela.
- Uhum. – Sorri.
- Legal, é muito legal da parte de vocês! – Louis parecia brilhar com a ideia de darmos alguma coisa para .
- Gente... – nos chamou.
- O que foi?
- Alguém tem um cofrinho com mil libras? – Ela levantou os olhos do celular.
- Mil libras?! – se sentou, alarmada. – Quem vai dançar? O zumbi do Michael Jackson?!
- Isso é só uma entrada? – perguntou.
- Não, são duas. Achei que não seria legal mandar a garota assistir um balé sozinha. – Encolheu os ombros.
- Ela faz tudo sozinha. – Refutei sua ideia.
- Não, não, talvez seja uma boa! É um presente nosso e não seria legal apenas darmos o ingresso como se disséssemos “toma aqui, vai se divertir”. Não, tem que ser uma coisa mais íntima! É um presente nosso, ela tem que se divertir com a gente. – estalou os dedos, sorrindo.
- Ok, alguém tem cinco mil e quinhentas libras? – arqueou a sobrancelha.
- É muito dinheiro! – Niall balançou a cabeça.
- Mas vocês não são crianças ricas? – Zayn perguntou, parecendo um pouco desinteressado, mas provocativo.
- Não é tão simples assim. – rolou os olhos. – Eu não tenho cartão, meu pai surtaria com as faturas. Liam e eu recebemos em dinheiro e, mesmo assim, nossa mesada só entra semana que vem.
- Obrigado pelos detalhes. O resto de vocês só pode dizer ‘sim’ ou ‘não’? – Zayn desdenhou e revirou os olhos.
- É o fim do mês, dude. – Josh explicou por todos.
- Não estamos em neste internato só porque tem uma boa educação. – Harry suspirou. – É uma prisão disfarçada.
- Quem ouve você falar assim até parece que todo mundo era um doido irresponsável e porra louca antes de entrar aqui. – Louis riu dele.
- Santo a gente com certeza não é. – Harry se defendeu, rindo também.
- Se for só uma pessoa, eu tenho como pagar. – Niall se ofereceu e eu lhe abri um sorriso.
- É melhor que sejam duas pessoas. – voltou a afirmar.
- E como vamos conseguir mil libras? E mais, agora? – inqueriu.
- ? – Olhei para ela, pois sabia que o limite de seu cartão era alto e ela podia usar como bem entendesse.
- Passei as últimas semanas pagando as burradas da Mandy. – Ela suspirou. – Meu pai não está no país.
- Ótimo! – Suspirei com ela, frustrada.
- Maravilha. – bufou. – Alguém aí tem um pai ou uma mãe super de boa que nos dê mil libras às nove e vinte e sete da noite de uma quinta feira?
- ! – deu um pulo no lugar.
- O quê? – Franzi o cenho.
- Seu pai! – Ela me sorriu abertamente.
- O que tem ele?
- Ele é demais! Liga para ele! Pede o dinheiro para ele! Nós te pagamos depois! – Ela sugeriu.
- Mas...
- Calma, calma! O pai da faria isso?! – olhou para mim e eu fiquei sem reação por um tempo.
- Claro que sim! Ele é o melhor! – continuou sua propaganda sobre meu pai. – Por favor, ! Só tenta!
- Isso, tenta! – Niall sorriu para mim.
Comprimi os lábios e assenti, tirando o celular do bolso da calça jeans. Disquei o número de meu pai com um pouco de receio, mas certa de que não custava tentar.
Depois de chamar três vezes, meu pai atendeu.
Coloquei-o no viva voz e o saudei:
- Boa noite, pai. – Abri um pequeno sorriso.
- , querida! – Ela me respondeu, cheio de animação. – Como está minha bolinha de algodão doce?
Senti minhas bochechas esquentarem ao ouvir o apelido que ele só usava quando estava muito feliz.
- Estou bem, pai. – Respondi. – É uma hora ruim para ligar?
- Não, que isso, querida. – Ouvimos o barulho de coisas sendo arrastadas. – Estava apenas olhando algumas plantas de um complexo que vamos construir em alguns meses. – Desconversou.
- Ah, que bom, pai. – Cocei a nuca, sem jeito. – Eu liguei para pedir um favor.
- Diga.
- Uma amiga minha fez aniversário na segunda e ela é muito fã de balé... – Comecei a história na tentativa de que, se ele soubesse os motivos, seria mais fácil conseguir que dissesse ‘sim’.
- Hm... – Murmurou e eu já soube imediatamente que ele estava dividindo sua atenção entre mim e outra coisa.
- Então eu queria saber se você poderia depositar mil libras na minha conta. – Fechei os olhos quando joguei a proposta.
Houve uma pequena pausa que me fez me perguntar se eu teria que repetir aquilo tudo de novo.
- Querida, você não está usando drogas, está? – Sua voz cortou o silêncio e eu quase não acreditei no que ouvi. Todo mundo se segurou para não rir, mas deixou escapar uma risada. – Eu estou no viva voz? Quem está aí?
- Sou eu, Sr. , . – se inclinou para mim e falou mais alto.
- Oh, ! – Eu podia imaginar o sorriso no rosto de meu pai. – Quanto tempo!
- Sim... – Ela sorriu, sem graça.
- Você não está usando drogas com a , está? – Perguntou abertamente a .
- Não, senhor. – respondeu. – É realmente para um balé! Nossa amiga praticava, mas agora apenas aprecia...
- Não precisa explicar, , eu acredito em você! – Ele riu. – Eu estava apenas brincando com a cara de vocês!
- Uau, pai. – Soltei uma risada nervosa.
- Ah, onde está seu senso de humor, gatinha? – Ele questionou.
- No mundo das pessoas normais, pai, ao qual você certamente não pertence. – Ralhei.
- Deixe de bobagem, . – Ele estalou a língua. – Mas, ok! Claro, vou transferir agora mesmo. É uma boa causa!
Todos à minha volta comemoraram em silêncio.
- Obrigada, pai! Você é demais! – Sorri.
- Sei disso. – Soltou uma risada gostosa e se despediu antes de desligar.
- Seu pai é demais! – Niall sorriu para mim e eu sorri de volta, aliviada.
É, eu sei.


Harry’s POV
- Então, nossa comemoração é hoje. – Comentei, parado em frente ao espelho do banheiro com a porta aberta.
- É... – Louis concordou, enquanto arrumava de modo bastante desajeitado a sua cama. Espiei brevemente para o quarto e voltei a encarar o espelho, levantando o queixo para tentar acertar o nó daquela maldita gravata.
- Quantas visualizações da última vez que você viu?
- Quase dez mil – ele disse, e sorri. Dez fucking mil visualizações em nosso cover de Flaws. E os comentários, então, eram uma maravilha para o ego. Eu tinha orgulho do que aquela banda estava se tornando, e era por isso que toda vez que abria o link para ver as visualizações eu precisava dar play no vídeo de novo.
Xinguei depois de um momento, arrancando a gravata de meu pescoço e encarando meu reflexo, irritado com aquilo. Derrotado, saí do banheiro apagando a luz e suspirei pesadamente, olhando para Louis.
- Eu odeio pedir. Mas você sabe colocar essa porcaria? – Perguntei, fazendo uma careta ao segurar a gravata no ar. Louis me olhou, risonho. – Sério, cara.
- Sério? Harry, você não tem mais ninguém que faça isso por você, não?
O encarei como se olhares pudessem matar, e ele voltou a alisar a cama.
- ajeitava isso para mim quase todas as manhãs. E agora aquele novo professor de literatura achou engraçado exigir que nós temos que usar essa merda na aula dele se não quisermos ser expulsos da sala.
Louis parou de ajeitar sua cama e, respirando fundo como se perdesse a paciência, veio até mim e arrancou a gravata da minha mão.
- Eu odeio você. – Reclamou, colocando a gravata em volta do meu pescoço e a ajeitando dentro do colarinho da camisa. – Essa é a única vez, encontre uma garota que faça isso por você. E a partir de agora não quero mais te ouvir reclamar quando eu te chamar de inútil, porque é o que você é.
- TPM, amorzinho? – Brinquei, apertando a ponta do nariz dele, que bateu em minha mão a empurrando para longe. Ri. Louis estava diferente ultimamente, mais... empolgado, parece. Eu sabia que era a , eles pareciam ter feito progresso. – Você pelo menos gosta de ballet?
- Por ela, eu gosto. – Comentou baixo, concentrado no nó na gravata. Só consegui abrir um sorriso de canto, era mais forte do que eu. Louis olhou para o meu rosto e revirou os olhos, apertando o nó com força desnecessária.
- Ai, caralho. – Reclamei, tentando enfiar o dedo entre a camisa e meu pescoço quando ele se afastou.
- De nada.
Louis pegou sua mochila na cômoda e jogou nos ombros, indo para a porta. O segui, depois de pegar meu celular e enfiá-lo no bolso da calça, e peguei minha mochila e o casaco pendurados atrás da porta antes de sair. Louis chaveou a porta e depois me seguiu escada abaixo, enquanto eu cantarolava alguma coisa.
- Quando você vai fazer as pazes com a ? Eu não quero ter que substituir ela em outras coisas que vocês faziam também. – Comentou e eu o olhei, franzindo o cenho, não entendendo aquele ar de suposição. Ele me olhou e deu de ombros. Talvez eu tivesse entendido errado e ele não estivesse acusando nada.
Suspirei.
- Nunca, eu acho.
- Harry, sério; o que você fez de tão grave assim? Vocês já tiveram outras brigas.
- Não como essa. – Respondi, desanimado.
- O que diabos você fez?! – Ele me olhou, curioso.
Cocei a testa, desconcertado. Eu sabia que havia feito cagada, mas contar para todo mundo não adiantaria em nada, por isso preferia manter para mim.
- Teve alguma coisa a ver com o Lance? – Ele continuou o interrogatório quando não respondi. – Você... sei lá, fez ele terminar com ela? Ou... Eu não sei, vocês pareciam ótimos até aquela última tarde no acampamento, eu não os via assim há tempos! E agora ela não consegue nem olhar na sua direção, e o Liam comentou algo sobre estar preocupado com ela, e você está calado feito um morto sempre que comentamos sobre isso... Qual é o problema com vocês? – Ele disse e, logo em seguida, arquejou me olhando de olhos arregalados. – Vocês ficaram?!
- O quê? Não! Louis! – Fiz careta, há cada segundo eu me sentia menos confortável com toda aquela situação. – Não! Quer dizer, não... não. – Balancei a cabeça. – Olha, eu... O negócio é que a ... Ela mudou. Comigo. Como pessoa. Ela mudou, ela realmente... Mas ela não mudou tanto assim, ao mesmo tempo. Sabe como, por fora, ela parece outra pessoa, mas por dentro ela ainda é a mesma? – Disse mexendo minhas mãos no ar e ele assentiu. – Isso me confunde. Isso... Dá um nó na minha cabeça. E eu não sei... O que é... – Balancei mais a cabeça, nem eu estava me entendendo ali.
- Você já pensou que talvez... – Louis hesitou e me olhou por um momento. – Você... goste...
- Não! – Neguei, e em seguida respirei fundo. – Olha... eu não posso gostar da , não tem como, ela é tipo... A minha irmã... Por deus.
- Você não acha que já deu de ver ela assim? Porque acho que ela não te vê mais assim.
- Você não entende, Louis. – Balancei a cabeça, olhando em volta para as pessoas que estavam no pátio perto do bloco C, de onde nos aproximávamos. – esteve comigo o tempo todo durante a minha vida. Eu literalmente lembro de ver ela andando de fraldas comigo por aí. Não é assim tão simples.
- Ok, mas você admite que há uma possibilidade? – ele parou de andar, se virando para mim. Fiz uma careta. Talvez estivesse na hora de começar a pensar naquela possibilidade.
- Eh...
- Olha, eu digo isso para o bem de vocês. Porque seja o que for que você sente, enquanto não entender isso aí, você vai continuar fazendo cagada e estragando a amizade de vocês. E é o último ano, Harry, se vocês se afastarem agora, talvez nunca volte a ser a mesma coisa.
Louis parecia sério, e ele tinha razão. Assenti, concordando com aquilo e decidindo que ele tinha um pouco de razão naquilo tudo. Olhei para seu rosto e vi que seu olhar já não estava mais focado ali. Olhei para onde ele olhava e encontrei , sentada em uma mesa de pedra aproveitando o fraco sol.
- Vai lá com a sua namoradinha – abri um sorriso para ele, o mesmo que eu sempre abria involuntariamente com aquilo, e ele suspirou.
- É, ok. – Riu, parecendo um pouco nervoso, e me olhou quando eu balancei a cabeça.
- Você nem nega mais quando chamamos ela de sua namoradinha.
- Se dependesse só de mim, ela seria isso.
- Uau, Louis Tomlinson! Quem diria! – Toquei as mãos em seus ombros e ele revirou os olhos. – Mas sério, agora. O que ela tem que nós não vemos? Quer dizer, eu sei, ela é a maior gata, mas o que ela tem que só você vê?
Louis respirou fundo.
- Eu também estou só começando a descobrir.
Balancei a cabeça concordando, e então soltei uma risada, o soltando. Era inédito ver aquilo, ver Louis gostando de alguém. Ele estava feliz, e talvez realmente fizesse diferença na vida da Freak, afinal suas palhaçadas faziam diferença na vida de todos nós, nem que fosse um pouco.
- Vai lá – disse, o vendo se afastar.
- Até a aula de música!
Balancei a cabeça mais uma vez e fiz o meu caminho para dentro do prédio.

Tomei meu café e fui para as aulas. Eu fiquei rabiscando umas coisas no final do meu caderno durante quase todas elas, enquanto os professores davam explicações que eu não conseguia seguir por mais de dez minutos.
Foi quando fui para a última aula antes do almoço que percebi uma movimentação diferente, as pessoas que já estavam na sala conversavam apressadamente e mostravam coisas em seus cadernos, e eu estava me sentindo por fora de alguma coisa. Sentei na janela de alguma mesa afastada e abri meu caderno de biologia – que era aquela aula – tentando procurar por algum sinal do que era, talvez eu tivesse esquecido de alguma tarefa, mas eu realmente esperava que não, porque aquela seria a quinta vez naquela aula.
Quando o sinal tocou, sentou na carteira ao meu lado e, não tendo mais ninguém conhecido ali naquele momento, me curvei para perto dela e perguntei:
- Ei! Tinha alguma tarefa para hoje?
Ela me lançou um olhar enquanto abria o caderno e soltou uma risada fraca.
- Não. Só a prova do bimestre.
Puta merda.
Aquela prova.
Eu fiquei de anotar depois, mas é claro que me esqueci.
Fechei os olhos e deitei a cabeça para trás, praguejando baixinho.
- Merda.
riu fraco de novo.
- Jura que você não sabia?
- Eu vou rodar. – Falei para mim mesmo, ignorando-a naquele momento quando o desespero tomou conta de mim. Mesmo que por um milagre eu não zerasse aquela prova, eu ainda devia pelo menos uns três trabalhos daquela matéria, sem contar todas as outras. Eu estava tão ferrado, e naquele momento o desespero usual se intensificou. Porque mesmo que eu não soubesse o que queria fazer da vida, decidisse que ia seguir com a banda, e por um milagre todos os outros quatro garotos concordassem comigo, eu ainda precisava passar de ano para isso!
E a minha mãe ia me matar!
O professor entrou na sala, e levei as mãos à cabeça resmungando. - Merda, merda, merda.
- Harry... – suspirou e balançou a cabeça, obviamente me julgando. Ela então se aproximou um pouco, enquanto o professor ia até o quadro e escrevia alguma coisa. – Na dúvida, chute na B. É sempre a B.
Ah, então eu ia marcar B para todas.
- Guardem seus materiais, quero só um lápis, borracha e uma caneta preta na mesa. A partir do momento em que eu disser para começarem, vocês terão cinquenta minutos. Quem terminar, se retire da sala.
A sala estava em silêncio total, e assim que recebi minha prova e vi as perguntas, eu comecei a suar frio. Eu estava muito ferrado.
- Podem começar.

O que eu fiz foi ler as perguntas com o máximo de atenção e tentar marcar a alternativa que fizesse mais sentido baseado no que eu lembrava, mas eu não lembrava de praticamente nada daquela última matéria, e a prova era basicamente uma coleção de perguntas enormes com termos difíceis.
Vinte e cinco minutos depois, levantei puxando minha mochila e entreguei a prova saindo da sala com a cabeça latejando. Poucas coisas eram piores do que aquela frustração de não saber de nada, e eu sabia que aquilo era inteiramente culpa minha, então era duas vezes mais frustrante por não ter ninguém mais para culpar.
Ainda tinha quase meia hora antes do almoço, então saí do prédio para tomar um ar e sentei em um banco lá fora no pátio deserto, e fiquei lá por um tempo, me culpando por não estudar. Eu sempre empurrava com a barriga, mas não podia mais fazer isso. Tínhamos seis meses antes de o ano terminar. Repetir de ano não era uma opção para mim, simplesmente não era, eu não podia ver todos os meus amigos seguindo em frente e ficar para trás. Seria a pior coisa do mundo.
- Bem, não estava tão difícil, estava? – Ouvi dizer ao sentar ao meu lado no banco um tempo depois e abri os olhos, lançando-lhe um olhar irado. O sorrisinho dela sumiu. – Acho que estava, então.
- Eu não poderia ter sido pior.
- Ah, Styles... – Ela suspirou, balançando a cabeça.
- Olha, , é fácil para você falar! Você é inteligente, você não precisa se esforçar, e você gosta disso, eu não posso dizer o mesmo para mim! Sei que parece desleixo, mas não é fácil assim para mim, eu não consigo prestar atenção, eu não consigo me comprometer! – Exclamei, mexendo as mãos no ar, irritado com o tom decepcionado que ela estava usando como se fosse minha mãe. A última coisa que eu precisava agora era alguém me julgando. - E, sabe o que mais, você pode achar o que merda quiser sobre mim, eu não dou a mínima, então ao não ser que tenha algo útil para me dizer além de sentar do meu lado e olhar para mim como se tivesse pena da minha burrice, você pode levantar e levar sua pouca humildade para longe daqui!
Ela me encarou por um momento, parecendo um pouco surpresa com meu tom, e desviei o olhar.
Se fez um tempo de silêncio entre nós, e depois de um tempo ela voltou a falar, virando um pouco o corpo para mim e apoiando o braço no encosto do banco:
- Albert Einstein disse que todo mundo é um gênio, mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai passar toda a sua vida acreditando que é estúpido. – Disse, e olhei-a tentando entender onde ela estava querendo chegar. – Você não é burro, Harry, você é... um peixe. – Deu de ombros. – Você é bom em outras coisas, como a música, ou... Ser sociável. Com garotas, principalmente. – Completou, me fazendo rir fraco. olhou para longe e soltou o ar pela boca com força. – Olha... O nosso sistema educacional é falho, e comete muitos erros. Existem diversos tipos de inteligência, e é simplesmente errado que tenhamos que decidir todo o nosso futuro baseado nesse sistema arcaico de sentar em fileiras e ouvir professores dissertarem por horas.
Assenti, acompanhando seu raciocínio.
- Mas ainda precisamos seguir esse sistema, por enquanto não tem nada que possamos fazer, então... – Ela pareceu pensar por um tempo, fazendo uma careta e colocando os cabelos para trás, enquanto parecia estar travando uma batalha interna para decidir alguma coisa. Por fim, falou, depois de respirar fundo: - Ok. Eu vou te ajudar a estudar. Eu tenho tempo, e como você disse, eu sou boa nisso.
me olhou, e só o que consegui fazer foi arquear uma sobrancelha. Ela estava se oferecendo para ser minha tutora? Até ontem tínhamos trocado, tipo, três palavras um com o outro durante o ano letivo todo.
- E por que diabos você faria isso? – Perguntei, desnorteado, com uma careta.
soltou uma risada sem humor, como não acreditasse em mim.
- Porque, Harry, eu sou sua melhor chance de não rodar de ano e você devia agradecer ao invés de me olhar dessa maneira!
Balancei a cabeça.
- Ok... Mas...
- Escuta – ela me cortou, ajeitando a postura. – Você não é exatamente a pessoa mais querida por nossos amigos agora. E eu também nunca fui. Cara, até a cai nas graças deles, você não percebe? Nós somos os menos dignos, ou sei lá! – Disse, como se fosse um absurdo, e eu soltei uma risada.
- Fale por você, senhorita antissocial!
- Todas as garotas estão secretamente te odiando pelo que você fez com a – ela apontou para o meu rosto. – E os garotos só te suportam porque você é da banda.
- Esse é o Niall. – Corrigi ela.
- Ah, Styles, por favor! Não é como se eles precisassem de você para alguma coisa agora! O Louis tem a , ele não precisa mais ficar te seguindo por aí, e o Zayn basicamente roubou a sua coroa de rei desse colégio, você não precisa mais fingir que é o popstar. Você é no máximo o... interino.
Balancei a cabeça, a olhando indignado, mas não encontrei nada para dizer, então ela arqueou a sobrancelha para mim.
Eu não acredito. A Che Guevara estava certa.
Balancei a cabeça.
- Tá, e você tá sugerindo o quê, que juntemos nossas forças dos excluídos do grupo?
- Olha, quer saber, eu só queria fazer uma boa ação para alguém que realmente está precisando, mas se você não quer... – Ela fez menção em levantar, mas segurei seu braço.
Pensei por um momento, olhando para o nada, enquanto esperava pacientemente por minha resposta.
Aquilo não podia ser real, mas o pior de tudo era que ela estava certa.
Merda.
Eu precisava de , e não sei o que ela ganharia com aquilo, mas eu não estava em condições de dizer não. Além disso, acho que ela simplesmente se sentia sozinha. Apesar de andar com as garotas, ao ouvir aquele discurso todo, por dentro parecia que tinha algum problema em se sentir realmente parte do grupo. Então, se isso me fizesse sentir melhor, eu podia imaginar que também estava fazendo uma boa ação ao aceitar aquilo. E assim, tinha pelo menos a ilusão de que eu ainda tinha o controle.
Olhei para ela, ao chegar nessa conclusão.
- Ok.
Para minha surpresa, abriu um sorriso genuíno.




Capítulo 24

’s POV
- Eu ainda não acredito que ele canta – disse uma das meninas que retocavam a maquiagem em frente ao grande espelho do banheiro feminino do Vagão. Tentei ignorar o calor que tomou parte de meu corpo, estômago e orelhas, mas não consegui me desatentar de sua conversa.
É claro que elas estavam falando dele.
Apertei o botão do recipiente que armazenava o sabonete líquido e lavei minhas mãos com certa pressa.
- É surpreendente, mesmo – a outra concordou. – Todas nós temos essa coisa por um bad boy.
Aquela afirmação me irritou e eu descontei aquilo na hora de puxar o papel para secar as mãos, dando meu melhor para que aquele comportamento não se manifestasse; tudo que eu menos precisava naquele momento eram fofocas sobre ciúme. Passei as mãos pela calça jeans que estava usando, nervosa e preocupada com a possibilidade de ter alguma coisa errada com meu look apesar de saber que não tinha como errar com skinny jeans e botas. Penteei os cachos feitos com babyliss mais uma vez antes de ter certeza de que nada estava fora do lugar e saí do banheiro, deixando as tietes de Zayn ainda falando sobre como ele era maravilhoso.
- ! – Alguém tocou meu braço assim que eu cruzei a porta e fui recebida pela agitação do pub. Girei nos calcanhares para encontrar Niall recolhendo suas mãos aos bolsos num gesto claro de embaraço. – A está lhe procurando.
- Onde ela está? – Perguntei, já procurando a garota pela multidão de gente.
- Na mesa da banda – abriu um pequeno sorriso, como se gostasse de dizer aquilo.
- Claro – sorri também. Não sabia ainda como reagir perto de Niall desde o incidente da aposta. É óbvio que eles parecem estar se acertando, ela me disse que Niall pediu desculpas pelo menos um milhão de vezes e esse até que era um número razoável para mim, mas, ainda assim, tinha medo que ele vacilasse novamente. Afastei-me dele a passos largos, voltando para a mesa onde todos os meninos estavam reunidos enquanto recebiam elogios e abraços entusiasmados de seus mais novos fãs.
e conversavam sentadas na mesa logo ao lado da deles. Aproximei-me delas com um sorriso.
- Hey!
- Eu estava procurando por você! – se levantou. – Já entregaram tudo – disse com um sorriso estampado nos lábios pintados de um batom muito escuro. Ela estava linda naquela noite, assim como .
- Que ótimo! – Espiei a mesa dos meninos por cima do ombro de . – Onde está a ?
- Foi retirar os ingressos, disse algo sobre filas e não saber fazer as coisas pelas metades – se levantou também e entrelaçou seu braço no meu. Estranhei o comportamento e olhei para ela com o cenho franzido. – Não olha agora, mas tem um cara que não para de olhar para você – falou em meu ouvido.
Levantei a cabeça rapidamente e fitei a mesa dos meninos, encontrando todos muito ocupados com as pessoas à sua volta. Senti a decepção me atingir em cheio quando percebi que não era ele quem me olhava. Ignorando isso, olhei à nossa volta e avistei o cara que lançava olhares nada discretos em nossa direção.
Achei graça de como ainda era inocente e ingênua.
- Sweetie, ele não está olhando para mim – olhei-a com carinho, sem querer tornar aquilo uma cena para ela. – Ele está olhando para você.
- O quê? – Ela olhou de volta para mim, claramente confusa. – Não, não, ele está olhando para cá! Você!
- Não seja modesta – dei um tapinha em sua mão. – Ele é um gato! – Voltei a olhar o cara, que percebeu que olhávamos de volta. – Definitivamente, é você.
- Você acha mesmo? – Ela fixou seus olhos nele por um instante.
Soltei uma risadinha e, antes que eu pudesse responder, chegou.
- Estou com eles – tirou um envelope estampado com uma pintura do universo digna de uma página do Tumblr. Dei-lhe um sorriso aberto e agradecido e ela me retribuiu.
- É muito legal da sua parte – falei.
- Seria bom limpar meu carma um pouquinho – piscou para mim, ainda sorrindo. – Bom, e cadê ela?
- Vou mandar uma mensagem para saber onde ela está – pegou seu celular.
- Como conseguiu que ela se atrasasse? – perguntou.
- Eu escondi o celular dela – olhou para nós com inocência, como se a estratégia fosse óbvia.
- Boa! – estendeu a mão para ela, que lhe retribuiu o toque.
- Ok, ela está chegando! – girou nos calcanhares. – Louis!
Paramos ao lado dos meninos, que entenderam que estava na hora. Como combinado, o barman apareceu com uma bandeja cheia de taças com sidra de maçã e distribuiu entre a gente. Se eu tivesse pensado um pouco melhor, teria pedido champanhe de qualquer jeito, já que os meninos haviam subornado o barman para arranjar cerveja, então o álcool já estava liberado há um tempo. Discretamente, para não parecermos grandes bobos, ficamos lado a lado, deixando muito pouco espaço entre nós e esperamos chegar. Louis tinha duas taças de sidra na mão, uma para si e outra para ela.
- ! – Louis gritou mais alto que toda a barulheira do pub quando cruzou a porta de entrada do pub, olhando à sua volta em busca de rostos conhecidos, ou seja, nós. Ela olhou para nós no mesmo instante e sua expressão se suavizou um pouco, quase indicando que ela estava à vontade ou, até mesmo, feliz.
Quando ela chegou bem perto de nós, gritamos “Feliz aniversário!” em uníssono e nos afastamos uns dos outros para poder lhe dar visão para a pirâmide de cupcakes que estava em cima da mesa dos meninos. Dezoito cupcakes e dezoito velas, que foram acesas imediatamente por Josh. Olhei para , que já tinha sua taça em mãos e, ao lado de Louis, que tocava sua cintura com uma mão, vi-a arregalar os olhos e lentamente abrir um sorriso magnífico.
- O que é isso? – Ela disse, por fim, ainda sorrindo.
- É para você – anunciei, apontando a pirâmide de cupcakes cobertos de chocolate.
- Mas... Como vocês sabiam? – parecia perdida e lançou um olhar para Louis, que encolheu os ombros.
- Saiu sem querer, afinal, eu precisava que você recebesse a fita – ele sorriu.
- Que bom que ele falou! – aproximou-se um passo e envolveu os ombros de num abraço caloroso. – Nós adoramos fazer coisas especiais pelas pessoas que gostamos.
Assenti, confirmando.
- Foi na segunda, mas, por ora, vamos fingir que é hoje – Liam piscou para ela.
- Honestamente, eu acho que vocês podem fazer qualquer coisa! – soltou uma risada baixa, parecendo ainda não acreditar.
- Ah, tem presente! – puxou a bolsa de e tirou o envelope psicodélico de lá e entregou a Louis, que passou o pacote a ela.
girou o envelope nos dedos compridos como se procurasse alguma mensagem, mas, pela falta de tempo, não escrevemos nada ali. Então, com expectativa, assistimos ela abrir o pequeno pedaço de papel e tirar de lá dois ingressos. levantou a cabeça, parecendo surpresa demais para falar qualquer coisa.
Eu estava dando cambalhotas por dentro, divertindo-me ao extremo com suas reações.
- Eu nunca a vi desse jeito! – cochichou para mim.
Concordei com ela.
- Balé? – conseguiu dizer.
- Sim, gostou? – perguntou, dando um passo adiante, como se fosse sua responsabilidade ouvir o feedback do presente.
- Eu... Eu gostei! – Ela balançou a cabeça negativamente em descrença.
- Ótimo! Depois você e Louis vão...
- Você vem comigo? – Ela se virou para ele. – E vocês? – Olhou para nós mais uma vez.
- O presente é nosso, mas é ele quem vai te levar – explicou Liam.
É, em algum momento da noite passada, os meninos resolveram participar da vaquinha e colaborar com o presente.
- De vocês? – Se fosse possível, diria que a surpresa dela apenas aumentava. – Todos vocês? – Reforçou. – Até você, Malik? Mas você é um pobre miserável! – Ela arregalou os olhos, mas uma risadinha escapou, denunciando sua brincadeira. Zayn arqueou uma sobrancelha, mas acabou rindo também e encolheu os ombros.
- Eu vou ter que assaltar uma ou duas velhinhas, mas, sabe como é, você tinha que ganhar um presente – ele plantou um meio sorriso nos lábios. Permiti-me olhá-lo enquanto falava, porque é possível afirmar que não havia nada suspeito nessa ação, mas rapidamente desviei minha atenção dele e voltei para .
- É tão generoso de sua parte – brincou e, de repente, a antiga pareceu voltar aos poucos e ela apontou para os cupcakes em cima da mesa. – Não me esperem para comer! – Disse como se tentasse tirar as atenções de si.
- Você tem que pegar o primeiro, senão um de nós roubará seu namorado – Niall forçou uma expressão séria e se afastou um passo da mesa. – É sério, é uma regra!
- E você não vai querer perder o Louis, né? – Josh perguntou, tornando a situação desconfortável e, por isso, todos acabamos forçando risadas.
Sem comentar nada, nem corrigir a fala de Josh, se aproximou da mesa e pegou o cupcake que formava o topo da pirâmide. Lambeu primeiro o chantilly e depois limpou os lábios com a língua, o sorrisinho mínimo que tinha ali indicava que sabia que estava sendo sedutora, uma leve brincadeira para mexer com Josh, provavelmente, mas vi Louis engolir em seco perto de mim. tocou meu ombro e fez e se aproximarem para ouvir o que ia dizer:
- Ela sabe fazer o negócio do chantilly! – Cochichou para nós e caímos na gargalhada, desviando as atenções de para nós.
- Está gostoso? – Perguntei.
- É red velvet! – abriu um sorriso, olhando o bolinho em sua mão.
- Sim, nunca falha – sorri também, satisfeita com a eficiência daqueles cupcakes.
- Bom – ela falou entre uma mordida e outra –, já podem comer!
- Por que não fazemos um brinde? – Harry propôs, erguendo sua taça como se desse um propósito inusitado a ela.
- À . – Zayn apoiou a ideia de Harry, erguendo sua taça também e abrindo um sorriso para ela.
Senti uma pontada de ciúme da cena. Apesar de ter me assegurado que nada acontecia entre eles e, obviamente, ela tinha interesse em Louis, nada impedia que Zayn nutrisse sentimentos por ela e, honestamente? Aquilo fazia muito mais sentido que ele gostar de mim. Ela é o tipo dele.
- Às malditas coisas que me fizeram me aproximar de vocês – olhou para onde eu e as meninas estávamos. – Até você, – acrescentou e revirou os olhos de forma descontraída, mas assentiu com a cabeça, educada. – À banda – olhou para Louis e, então, para os meninos.
- Aos amigos! – Josh ergueu sua taça e todos o apoiamos, gritando.
- Não... – balançou a cabeça e, então, ergueu sua taça na altura de seus olhos. – À família.


Harry’s POV
Tomei o resto de uma cerveja que estava em cima da nossa mesa em um gole quando nos aproximamos de lá de novo, soltando a garrafa na mesa com um baque.
- Vamos fazer isso!
Olhei para trás, vendo os outros caras nos seguirem para dentro do pub pela entrada de trás.
- Vocês vão cantar! – abriu um sorriso empolgado, ao ver o violão que Niall trazia do carro, sendo seguido por Louis com o cajon. Só Liam e Zayn que ainda estavam ali sentados com as garotas, nos vendo fazer todo o trabalho.
Já estávamos ali há umas horas, e o que antes eram duas mesas organizadas, agora eram várias pessoas sentadas em volta de uma mesinha redonda de madeira cheia de papeis de cupcakes amassados e garrafinhas de cerveja vazias.
- Mas é claro que vamos cantar! Tem jeito melhor de comemorar o sucesso da banda? – Liam sorriu e se levantou, empolgado, e pegou o cajon quando Louis praticamente empurrou para o peito dele. – Vamos lá, espero que gostem, fã clube! – Disse ele, virando as costas para a mesa e se encaminhando ao diminuto palco no canto do pub, que tinha apenas uma caixa de som, dois banquinhos e dois pedestais com microfones.
- Ele tá se achando o dono dessa banda – comentei, fazendo rir um pouco. era sempre bem humorada, mas algo me dizia que naquela noite ela talvez tivesse tomado alguns goles de cerveja a mais. Ou talvez ela só estivesse muito bem humorada naquela noite. De qualquer jeito, sua ideia da surpresa deu super certo, o que a dava um bom motivo para estar feliz.
Segui os garotos até o palco, e fui ajeitar um dos pedestais para ficar na altura do banco onde eu sentaria, enquanto Niall plugava o violão dele na caixa de som e afinava as cordas, e Louis soltava a caixa do meu violão no chão a abrindo e tirando o instrumento de lá.
A arrumação não demorou quase nada, porque não estávamos cheios de instrumentos dessa vez, então logo cada um encontrou seu lugar. Liam sentou em cima do cajon, Niall e eu nos bancos que estavam dispostos, e Louis e Zayn ficaram de pé.
- Boa noite, galera! – Falei no microfone, chamando a atenção do pessoal do pub. A grande maioria ali era do colégio, e quem não era também pareciam interessados em música ao vivo. – Essa semana alcançamos as dez mil visualizações no nosso vídeo no YouTube, e por isso nós convidamos todo mundo para vir comemorar!
- E, como a música é a causadora disso, é com música que vamos comemorar! – Liam continuou, abrindo os braços junto com um largo sorriso.
- Nós andamos praticando isso para vocês. – Foi Zayn quem falou, anunciando o começo da música.
Olhei para Niall, e ele passou a mão pelas cordas e bateu o pé quatro vezes antes de começar o dedilhado de uma música conhecida: Apologize.
No mesmo momento em que Zayn começou a cantar Louis começou as batidas com a bota na ponta da caixa do violão e as palmas intercaladas a estalos de dedo. Liam e eu ainda apenas batíamos os pés.
- I’m holding on your rope got me tem feet off the ground...
Bastou um primeiro verso para o pessoal começar a cantar junto, começando, é claro, pelas garotas na primeira mesa, que acompanhavam animadas. É claro que agora elas não faziam mais aquilo só porque era seu dever como nossas amigas, mas elas gostavam. Porque éramos bons, e porque era bom nos ouvir e cantar junto.
- And I’m hearing what you say but I just can’t make a sound. You tell me that you need me then you go and cut me down, but wait... You tell me that you’re sorry didn’t think I’d turn around and say...
Eu e Liam nos olhamos, e ao entrar no refrão a música mudou e entramos junto, começando a tocar a batida forte, os dois juntos:
- Take me to church I’ll worship like a dog at the shrine of your lies, I’ll tell you my sins so you can sharpen your knife. Offer me that deathless death, good God let me give you my life!
O pessoal do pub aclamou nosso mashup, batendo palmas ou soltando gritos de apoio ao reconhecer essa música também. A rouquidão da voz de Zayn, transformando-se num tom mais forte e desesperado, só ajudava nisso. Logo eles estavam cantando juntos de novo.
Fazer a segunda voz nunca foi uma tarefa incumbida a mim, mas era algo natural, que saía no momento, quando eu sentia que ajudaria a melhorar a música. Então fiz como nos ensaios e segui o solo de Zayn com um murmúrio atrás, enquanto dávamos seguimento na música. Era uma música bem difícil vocalmente falando, dava para ver no modo como ele esforçava a voz, mas em compensação ensaiar tantas vezes estava ajudando todos nós a aprimorarmos as habilidades, inclusive ele com sua voz.
Quando Take Me To Church terminou, todo mundo aplaudiu. Sorri, satisfeito, era como se nós nos alimentássemos daquilo. Podíamos ficar ali o tempo que fosse, desde que as pessoas continuassem curtindo.
- Ok... – Liam puxou meu pedestal para falar no microfone e soltou uma risada fraca quando alguém assoviou alto em algum lugar. – Legal! Vocês querem mais? Hum?
Alguns responderam um ‘sim’ em coro, em que pude ouvir a voz de no meio, enquanto ela ria na mesa da frente, e troquei um olhar com os outros caras, rindo.
- Eu achei bem fraco, o que você achou, Zayn? – Liam provocou, e Zayn puxou seu pedestal o deitando um pouco ao dar dois passos para trás.
- Fraco, muito fraco! O que queremos saber é, vocês querem mais?! – Zayn perguntou, e dessa vez a resposta foi mais forte. – Melhor!
- Para nossa sorte, nos preparamos para o sucesso – brinquei segurando o microfone quando Liam o respondeu, e abri um sorriso de canto. – Temos mais uma para vocês essa noite. Mas para a gente tocar essa aqui precisamos da ajuda de todos vocês. Queremos que cantem junto, beleza? – Levantei as mãos, e depois de fazer um joinha eu voltei a segurar o violão, acenando com a cabeça para Liam começar a batida no cajon.
Enquanto a melodia ainda era feita apenas pelas batidas de Liam, a voz de Zayn entrou dando início a Over My Head:
- I never knew, I never knew that everything was falling through, that everyone I knew was waiting on a queue, to turn around when all I needed was the truth.
O segredo era saber escolher a música. Sua banda podia ser talentosa, você podia saber tocar todos os clássicos das bandas de garagem, mas se conseguisse inovar, se trouxesse aquelas letras que todo mundo conhece, que estão cravadas no fundo do cérebro de qualquer pessoa mesmo que elas não saibam, e as fizessem cantar, você ganhava o público. Era o que conseguíamos fazer. Niall era um gênio em escolher as músicas, com uma grande ajuda de Louis nessa parte, porque Louis também era uma grande enciclopédia de músicas que eu não lembrava que conhecia.
- As you lose the argument in a cable car hanging above as the canyon comes between...
Ao chegar nessa parte, todo mundo já havia lembrado que conhecia a música e estava cantando. Mas perdi um tempo percebendo a letra daquela música pela primeira vez, e enquanto olhava para sentada ao lado das garotas na mesa, eu entendi perfeitamente do que aquela letra falava. Era sobre não reconhecer mais as pessoas à sua volta. E aquela parte, em especial, era sobre não conseguir mais evitar o precipício que se estendia mais a cada dia entre você e aquela pessoa. E eu entendia aquilo perfeitamente.
Quando a parte lenta da música chegou, apenas Liam e Louis continuaram fazendo a batida juntamente com as pessoas do pub, que agora batiam as mãos enquanto cantavam aquele refrão junto. Terminamos a música com um último refrão empolgado e cheio de vida, e fomos novamente ovacionados, inclusive pelas pessoas que estavam ali e não nos conheciam.
Ah, aquilo era bom.
Nós agradecemos. Descemos do palco, e começamos a rapidamente recolher o que era nosso para poder guardar de uma vez.
Enfiamos o cajon e os dois violões no porta malas do carro alugado que estava estacionado na porta de trás do pub, e depois voltamos para dentro afim de curtir mais um tempo lá dentro.
- Quem... quem é o cara? – Perguntei para Niall, ao meu lado, quando vi conversando com um cara no balcão do bar. Ele definitivamente não era do colégio.
- Se você não sabe eu não faço ideia. – Niall deu de ombros, e tentei olhar para ele, mas não consegui desviar os olhos de lá.
- Relaxa, cara. – Niall deu uma batidinha em meu ombro, e nesse momento olhei para ele. Ele olhava para nossa mesa, onde o restante das garotas já parabenizava os outros caras. – Vamos lá, pegar o que é nosso.
Acho que Niall estava falando dos parabéns, pensei enquanto o via se aproximar da mesa. Pegar o que é meu. Meus olhos voltaram para o balcão do bar.


’s POV
Logo depois que a apresentação terminou uma música mais agitada voltou a tocar nos cantos do pub, e enquanto os garotos iam guardar os equipamentos no carro eu decidi que precisava de uma bebida mais forte que cerveja.
Sentei em um banco alto no balcão do bar e pedi uma vodka com tônica, afinal eu também não queria ser aquela que seria carregada de volta para o colégio, meu intuito era meramente beber algo forte para me distrair de como aquela porcaria de banda estava ficando boa.
- Você está com a banda? – O barman perguntou, depois de dar uma boa olhada em mim e provavelmente decidir que eu era menor de idade. Assenti com a cabeça, e ele foi pegar a bebida.
Eu estava feliz pelos garotos, estava mesmo. O negócio era que durante toda aquela semana o simples fato de Harry existir estava incomodando algo dentro de mim. Eu não conseguia encará-lo, sabendo como dessa vez tudo havia acabado de verdade. Nossa amizade de infância, e qualquer chance de aquela coisa confusa que eu sentia acontecer entre nós, e... Eu sentia falta dele. Eu sentia muito a falta dele, e o que mais me incomodava era que eu queria não me importar, mas estava constantemente procurando em seu rosto qualquer indício de que ele sentia a minha falta também, sempre que ele estava por perto. E aquilo estava me torturando, porque eu odiava ser trouxa, porque eu não era de correr atrás de outras pessoas, e porque parte de mim queria que ele não se importasse e que eventualmente eu parasse de sentir a falta dele.
Mas era uma constante pedra pontiaguda dentro do meu sapato, que doía mais a cada vez que eu dava um passo.
O barman voltou com meu copo de bebida cheio de gelo e com um canudinho pequeno, e tomei um gole agradecendo internamente por não estar tão forte. Na mesa onde antes eu estava as garotas conversavam com Liam e Louis, que já haviam voltado, e abri um sorriso involuntário ao observar que Louis estava radiante. Eu desejava que ele realmente se desse bem, tentando deixar de lado qualquer receio sobre . Ela havia definitivamente me surpreendido naquela noite.
Mas então uma parte egoísta de mim desejou que eu também tivesse aquilo com alguém, e meu sorriso sumiu, dando lugar a um suspiro frustrado. Levei o canudo à boca novamente, mas antes de tomar outro gole eu senti um flash de luz atingir o lado direito do meu rosto e olhei para o lado, confusa.
- Frustração. – O garoto falou quase que para si mesmo, encarando a foto que tirara no monitor de sua câmera.
- Oi?! – Fiz uma careta, achando aquilo bizarro.
Ele levantou o rosto para mim e abriu um sorriso de canto.
- Frustração, é o que o seu rosto diz aqui – virou a pequena tela para mim e vi meu rosto, em perfeita resolução HD e em preto e branco, quase encostando o canudo na boca.
Não pude deixar de notar que era o garoto bonito do bar, que eu achava que estava olhando para mais cedo. Achei que ele havia ido embora, mas aparentemente só foi no banheiro.
- Desculpe, eu sou Will. Anderson. – Ele passou a mão na calça jeans e a ofereceu a mim, mas continuei o encarando confusa. Seu sorriso ainda estava ali, então entendendo minha confusão ele recolheu a mão e assentiu para a câmera. – Sou estudante de jornalismo pela Universidade de Cumbria, que fica logo ali – apontou para algum lugar, ainda sorrindo, mas eu continuava ali, parada. – Caramba, plateia difícil.
Abri a boca para falar alguma coisa, mas A) ele era muito bonito para que meu cérebro processasse qualquer outra informação e B) ele havia tirado uma foto do meu rosto.
- Você tirou uma foto de mim.
- Sim! Desculpe. Eu ia chegar lá – se ajeitou no banco como que para ficar mais confortável para me explicar algo. – Estou fazendo esse projeto para minha cadeira de registro visual, onde eu estou tentando capturar sentimentos por meio de fotos. É como... – ele olhou para cima procurando um modo de explicar. – Aquele jogo novo que todos estão jogando, de pegar Pokemóns. Só que eu estou caçando sentimentos reais.
Seu cabelo era uma bagunça, de um modo que nunca pensei que ficaria bonito em alguém, mas eu queria tocar para sentir como era. E sua barba estava por fazer, aquilo era novidade.
- É claro que não vou usar sem a sua permissão. Eu apago agora mesmo se você não permitir, mas gostaria que ficasse sabendo que essa foto não vai ser visualizada por ninguém além de mim e meu professor, e ela é... – ele olhou de novo para a câmera e assentiu. – Facilmente uma das melhores que já tirei entre todas as outras, e além disso... - Will franziu o cenho balançando a cabeça ainda encarando aquela foto. – Você é uma beleza rara.
Ah, estávamos falando de mim, agora?
Ele que tinha os dentes brancos perfeitos e usava a camiseta preta simples, com uma gola V e as mangas dobradas nos braços, e eu é que tinha uma beleza rara? Ok.
- É claro. – Assenti, abrindo um pequeno sorriso duvidoso e tomando outro gole de minha bebida.
- Você não acredita! – O garoto falou, como se agora quem não acreditasse naquilo era ele.
- O que foi? – Dei de ombros. – Seu discurso pareceu meio ensaiado.
- Já disseram que meu modo de abordagem pode ser meio creepy. Mas se eu não tirasse aquela foto naquele exato momento quando algo passou pela sua cabeça e te fez parecer frustrada, eu teria perdido essa belezinha – apontou para a câmera e abriu um sorriso.
- Hm, talvez devesse ter pegado também a minha cara de surpresa quando um maluco tirou uma foto de mim em um bar. – Disse, em tom de brincadeira enquanto agora mordiscava a ponta do canudo na boca.
Aparentemente aquilo estava funcionando, porque seus olhos dançavam entre minha boca e os meus.
- Eu já tenho muitas fotos de expressões de surpresa. Causo isso nas pessoas – apontou para si mesmo, e soltei uma risada fraca.
Ele voltou a me encarar enquanto apoiava um braço no balcão, e perguntei o que era.
- É que você... Uau. – Soltou o ar pela boca e balançou a cabeça, parecendo até um pouco desconcertado quando voltou a encarar a câmera em sua mão e logo depois olhou para mim de novo. – Eu te vi antes, com as suas amigas na mesa. Sei que são do St. Bees, eu estudei lá e conheço o tipo de gente – comentou olhando em volta, para a maioria das pessoas que enchia aquele pub. – O barulho. E eu só pensei que... Como você estava com elas... – Olhou para a nossa mesa mais ao longe, e eu assenti.
- Pensou que eu fosse parte do grupo das meninas bonitas e fúteis, e que nunca ficasse assim, sozinha longe do bando.
- Exato. – Levantou as mãos, como se eu o tivesse pegado naquela observação.
- É, é o que parece. Mas se você quer mesmo saber... – Me aproximei um pouco dele. – Eu não sou como elas, e tampouco elas são apenas bonitas e fúteis.
Will Anderson sorriu.
- É mesmo? – Apoiou a cabeça em sua mão a deitando um pouco para o lado e me encarando, curioso. – E o que mais eu preciso saber sobre você?
Eu ainda estava tentando decidir se ele era uma bagunça desleixada e sexy ou um cachorrinho fofo e perdido. Aquela mistura das duas coisas estava causando um formigamento perigoso em meu estômago. Eu queria tocar o rosto dele.
Nessas horas desejava intensamente não ser tão iniciante nessas coisas.
- Eu acho que prefiro saber sobre essa caça aos sentimentos das pessoas.
- Ah, é só uma coisa... – ele balançou a cabeça e suspirou. – É... eu sou apaixonado por fotografias realísticas e simples. Pela espontaneidade do momento, e essa beleza natural, como a que encontrei em você. É inacreditável que com esses olhos, com esse sorriso – ele apontou para meu rosto. – Estou falando profissionalmente aqui – explicou-se. – É inacreditável que você não acredite quando alguém te elogia como eu elogiei. E você genuinamente não acreditou.
- Não sou acostumada a receber elogios.
- Bullshit.
- Estou falando sério.
- Ora, e eu estou falando que isso é impossível. – Ele retrucou, batendo a mão em seu joelho.
Ri.
- Eu nem sempre fui assim. – Disse, estreitando os olhos e usando um tom misterioso, o fazendo rir.
O garoto me encarou novamente daquele jeito que estava fazendo desde que chegou, fazendo meu estômago formigar ainda mais. Tentei sustentar seu olhar o máximo possível, seus olhos eram intensos e pareciam não perder nem um detalhe do meu rosto. Há essa altura, eu nem lembrava mais do lugar onde estava ou o que havia ao redor.
- Você não me disse o seu nome.
- Até o final da noite eu pretendo decidir se vale a pena fazer isso. – Disse e ele abriu um sorriso divertido. - Então de volta ao trabalho, Will Anderson!


’s POV
- Meu Deus, esses cupcakes estão maravilhosos! – Rebekah se jogou na cadeira ao meu lado na mesa. Olhei para ela pelo canto do olho e soltei uma leve risadinha. – Ufa, como estou cansada de dançar!
- Imagino... – murmurei, sem saber muito bem o que lhe dizer. À nossa volta, o pub fervia e retumbava em conversas animadas, pessoas fazendo brindes entusiasmados, alguns dançavam, outros já avançavam todos os sinais em um beijo só. e conversavam com algumas garotas da escola que estavam por lá, havia sumido depois que os meninos se apresentaram. Falando neles, eu não os via desde a apresentação, também. Apenas Louis e era possível localizar: eles conversavam no balcão.
Era engraçado ver os dois interagindo. Louis parecia saber exatamente como se mover ao redor dela enquanto olhava para ele com certo brilho nos olhos; talvez ela nem se desse conta da forma como olhava para ele.
- Hey! – Ela exclamou de repente ao meu lado. – Adivinha só? Sua conversa com Liam deu certo! Ele veio até mim hoje e me chamou para sair!
- Ele fez isso? – Arqueei as sobrancelhas, surpresa de verdade com aquela informação.
- Sim! E não me esqueci: estou te devendo uma! – Abraçou-me de lado e me olhou. – O que você está fazendo aqui sozinha? Pensando em alguém? – Lançou-me um olhar sugestivo.
- O quê? Não! – Balancei a cabeça, mostrando-lhe meu celular. – Estava em busca de notícias sobre meu meio-irmão, ele e a mãe voltaram para casa ontem.
- Como é? – Ela franziu o cenho, como se imaginasse a cena e ela fosse muito complexa para ela entender. Olhei rapidamente sua mão e vi o copo de cerveja pela metade e compreendi sua confusão.
- Henry, meu novo meio-irmão. Ele nasceu essa semana – expliquei.
- Ah! – Pareceu entender. – Um bebê! – Soltou uma risada.
- Isso.
- Liam estava na escola o tempo todo e eu fiquei tipo “hã?” com o que você disse – explicou-se, rindo.
- Claro, eu entendo – ri fraco também.
- Mas, ele está bem, né? – Perguntou e eu assenti. – Então, tudo está bem! Você já pode se levantar e ir se divertir horrores!
- Ah...
- Por favor, ! Não finja que não sabe que está maravilhosa! Eu não fiz essas tranças à toa! – Apontou para as tranças embutidas laterais que ela fez em meu cabelo e eu passei as mãos por elas por reflexo, certificando-me de que não estavam desalinhadas ou frouxas. – Ninguém usa macacão e cropped à toa.
- Você com certeza não usa. Você é quem não dá ponto sem nó.
- E você deveria tentar de vez em quando – piscou para mim, acenando para seu próprio corpo, coberto apenas por um microvestido e meias-calças.
- E o que você sugere? Que eu me jogue na pista de dança sozinha e dance que nem uma louca? – Arqueei uma sobrancelha. – Estão tocando folk!
- Você precisa de companhia? – Desafiou. Ela sabia muito bem que eu não precisava disso.
- O que você quer, afinal de contas?
- Vamos comigo até ali – apontou para uma mesa com sofá cheia de caras bebendo e rindo entre si.
- E o que você quer ali? Uma orgia?
- É uma despedida de solteiro – informou-me, como se explicasse alguma coisa para suas intenções. – E um carinha lá achou você muito gata.
- Rebekah!
- Que foi? Eles eram os únicos solteiros!
- Um deles não está prestes a mudar isso, está? – Perguntei imediatamente.
- ! – Imitou meu tom de voz. – Eu não sou baixa assim!
- Claro – murmurei, mas, depois, decidi que poderia me divertir, sim. – Mas, ok, qual deles é o cara?
- Uh, vagabunda! – Ela deu um tapa em minha bunda, rindo, e se aproximou de mim. – É aquele de jaqueta jeans azul – apontou discretamente para a mesa, mas o cara que ela apontava lançou uma olhada rápida para nós. – Ele parece o seu tipo.
Rá, eu quis rir.
Ela não fazia ideia de quais eram meus ideais de tipo nesse exato momento, mas nunca admitiria isso.
Mas, vamos ser sinceras aqui, o cara que ela ia me apresentar era digno de quebrar meus padrões. E, que mal teria?
- Ele é mais velho... – Rebekah continuava falando como se tivesse elencado todos os motivos possíveis e impossíveis para me convencer daquilo.
- Ok, você já conseguiu – coloquei-me de pé, abrindo um sorriso tão presunçoso que me surpreendi, pela milésima vez, com o poder de saber que você é desejada por alguém. Ainda inspirada por esse poder, desejei amargamente que meus cabelos estivessem soltos para que eu pudesse bagunça-los e brincar com eles de forma sedutora, mas eles estavam presos naquelas malditas tranças. Numa tentativa alternativa de me exibir, joguei minhas mãos para o alto e me espreguicei, completamente ciente de que minha blusa subia à medida que me esticava mais e mais. Rebekah olhava minha ceninha e soltou uma risadinha ao passo que eu a ignorei.
- Ele já está babando – ela comentou, inclinando a cabeça um pouco para ver detrás de meu corpo.
Satisfeita, deixei que meus braços caíssem de cada lado de meu braço, mas acabei acertando a cabeça de alguém.
- Meu Deus! – Girei nos calcanhares para encontrar Harry com uma mão na cabeça, fazendo uma careta. – Desculpe! Você está bem? – Juntei as mãos na frente do peito sem saber se devia fazer algo para ajuda-lo.
- Isso é hora para fazer ginástica? – Ele resmungou e pude ouvir Rebekah rir alto atrás de mim.
- Não! – Soltei uma risada nervosa, constrangida pelo fracasso de meu flerte à distância. – Eu estava tentando chamar a atenção de um cara... – confessei, humilhada. Nem sabia por que estava contando isso a ele; talvez porque ele merecia uma explicação depois de levar uma cotovelada na cabeça.
- Esse cara era eu? – Arqueou as sobrancelhas.
- Não – franzi o cenho.
- Então você falhou – soltou uma risada e eu não lhe respondi. Quando ele fez menção de se virar e continuar seu caminho a algum lugar, segurei a manga de sua blusa. Ele olhou para mim.
- Esse final de semana eu tenho que voltar para a casa do meu pai, por causa do bebê.
- O mini-Liam, claro – ele falou depois de um segundo de silêncio e estalou os dedos como se tivesse se esquecido que a criança nasceu.
- Isso! – Ri. – Podemos começar a estudar na segunda, então? – Propus.
- Tudo bem por mim – encolheu os ombros, abriu um sorriso, acenou para Rebekah atrás de mim e foi embora.
Virei-me para Rebekah quando ela se colocou de pé e enroscou seu braço no meu com um sorriso muito afetado no rosto.
- O que foi? – Perguntei enquanto ela nos guiava até a mesa dos caras da despedida de solteiro.
- Vocês vão estudar juntos? – Quis saber.
- Sim, se não ele vai reprovar em algumas matérias – expliquei.
- Sei – balançou a cabeça.
Revirei os olhos para aquele joguinho.
- Só fala de uma vez, Rebekah – bufei.
- Isso vai acabar em sexo – era isso o que ela tinha para dizer.
- Uau, eu poderia até te convencer do contrário se você tivesse dito “amizade”, “romance” ou até mesmo “namoro”, mas você disse “sexo” e, por isso, eu vou só rir de você e sua falta de delicadeza.
Ela soltou uma risada ruidosa.
- Por favor, . Nós estamos no colégio, essa fórmula é mais antiga que ignorar e desprezar para conseguir a atenção de alguém.
- Uau, como ela é sábia! – Comentei para um terceiro participante invisível em nossa pequena conversa. – O mundo não está firmado em cima da sua pedra-teen, Rebekah.
- Algumas coisas não falham nunca – declarou, com um ar de sabedoria superior e, como se nada tivesse acontecido, ela abriu um sorriso malicioso e paramos ao lado da mesa dos caras. – Hello, boys!


Louis’ POV
- Tem chocolate no meio! – exclamou, a felicidade em dizer isso enquanto quebrava o cupcake no meio obviamente indicando que o que ela havia saído para fumar há um tempo atrás não era qualquer cigarro. Ela me olhou de canto. – Não me olhe assim, tecnicamente é meu aniversário.
- Só porque é tecnicamente o seu aniversário – Disse, em tom de brincadeira. É claro que eu não tinha como impedir de fazer qualquer coisa, e também não era isso que queria fazer, impedi-la de qualquer coisa, e digo. Agora eu já havia percebido que tudo que queria era poder estar ali para se algo acontecesse.
Isso significava que eu estava provavelmente fodido em relação ao que sentia por ela? Com certeza.
Mas quem liga, você só vive uma vez.
Estávamos andando sem rumo pelo estacionamento um tanto grande que tinha atrás do Vagão. O lugar era o único estabelecimento por ali que tinha luz e música ligados em plenas quatro horas da madrugada, o que tornava tudo em volta dali um breu, e por consequência deixava o céu mais estrelado.
- Você realmente gostou? Foi um tiro no escuro, o balé.
- Acho que balé é a única coisa que se manteve intacta entre os meus gostos e fases desde que eu era criança. Eu parei de praticar, mas continuo achando uma arte incrível, porque além de bonito de ver, ele é... Sofrido, e doloroso, fisicamente doloroso – ela me olhou, explicando, e assenti. – Do tipo que o quanto melhor você fica mais doloroso é o caminho até lá, e quem escolhe seguir esse caminho por amor àquela arte é praticamente... um mártir. – balançou a cabeça, chegando àquela própria conclusão enquanto falava.
- Pelo modo que fala sobre isso eu sei que nós acertamos.
- Foi um... ótimo presente. – Ela concordou, abrindo um sorriso.
Quando sorria parecia que eu estava pendurado de cabeça para baixo e que estranhamente aquele parecia ser o modo certo de ver o mundo. Era essa a sensação.
Ela caminhou então até um carro qualquer e se escorou no capô dele, e fiz o mesmo parando ao seu lado. Enquanto eu olhava para cima, a via limpar os dedos sujos de chocolate e continuar comendo aquele último cupcake.
- Eu não acho que você tenha consciência das coisas que eu já fiz. – Ela soltou, de repente. – Eu não acho que você entenda a dimensão disso, e eu não acho que compreenda que são coisas que eu não estou disposta e nem apta a esquecer simplesmente porque conheci um cara legal. Eu não acho que entenda que o que preciso não é de um príncipe encantado que me salve dessas coisas, eu não sei do que eu realmente preciso, mas não é disso.
Fiquei em silêncio, sabendo que havia mais, de onde quer que aquilo estivesse vindo.
- Mas o que eu sei, e eu não sei porque, nem como, é que eu gosto de você. Por algum motivo, de algum modo, eu gosto de você eu confio em você. E isso não é justo com você. Mas eu já tentei te avisar, e você continua cada vez mais... – Ela suspirou. – E eu só quero que saiba que aqui, nessa noite, eu estou desenhando uma linha imaginária, e que a partir desse dia, você ultrapassou essa linha e está por sua conta e risco nessa história, porque eu não posso e nem quero ter mais isso em meus ombros, a culpa de te magoar se alguma coisa acontecer, ou se eu simplesmente cansar... – Ela balançou a cabeça, e por fim começou a rir. – E não sei o que está acontecendo, nem como foi que isso aconteceu, mas tudo que eu sei é que de algum modo nós chegamos até aqui e eu estou te falando isso porque, em primeiro lugar, isso até que me deixa feliz, e em segundo lugar, eu estou tão chapada que poderia jurar que esse bolinho acabou de conversar comigo, e é o melhor chocolate que eu já comi, então eu não posso me arrepender de estar fal-
Curvei-me para perto dela e encostei os lábios nos de , cortando o fluxo incessante de palavras que, além de incomum para ela, provavelmente seria algo sobre o qual ela se sentiria constrangida mais tarde.
A sua boca era macia, ela tinha gosto de chocolate e pude sentir seu fôlego fugindo quando a beijei de surpresa, mas ela não se afastou, e tocou meu pulso com a mão. Me afastei quando precisei respirar, e voltei ao meu lugar no seu lado. não gostaria que aquilo fosse uma grande coisa, então eu tentei fazer com que não fosse. O silêncio durou por uns segundos, em que ela ficou paralisada no lugar.
- É definitivamente um ótimo bolinho. – Comentei.




Zayn’s POV
Era sábado. sequer olhava na minha cara, e, no mais, eu não tinha exatamente nada para fazer naquela maldita cidade. Nada, exceto por um bom pub. Eu sabia onde ficavam alguns pubs de qualidade por essa parte da cidade então deixei meus pés me conduzirem até um, enquanto minha mente voava para os últimos acontecimentos.

A banda estava progredindo a ponto de parecermos cada vez menos com um simples projeto da aula de música e mais como uma banda de garagem, independentes e bons no que faziam. A apresentação final estava sendo uma boa dor de cabeça, assim como projeto da aula de marcenaria; mais especificamente, minha parceira de trabalho dessa aula me dava dor de cabeça.
Mas quem estava ligando, afinal? Não é como se estivéssemos prestes a ser expulsos. Aquela escola precisava da gente, precisava do dinheiro de seus alunos. Bom, mais do dinheiro deles que do meu. Mas foda-se, eles que se virassem se quisessem acabar com nossas vidas.
- Você só pode estar querendo me foder. – Falei, para ninguém, quando avistei meu ‘destino’, mais à frente. Era o bar que encontrei Mandy pela primeira vez desde que cheguei em Carlisle.
Mas uma boa cerveja é uma boa cerveja. Por isso, continuei meu caminho.
- Fique longe de mim! – Ouvi uma garota grunhir, quando passei pelo beco que separava o bar de uma loja de espelhos. Eu passei reto. É, meu amigo, o mundo é um lugar cruel. Não é do meu governo se uma garotinha burra andou se metendo com quem não devia, ela que aprendesse sua lição. Eu que não ia me meter. Para quê? Levar uma surra sozinho? Era capaz de eu e ela acabarmos mortos. – Eu estou falando sério! – A voz dela era mais histérica agora. O que me fez parar com a mão esticada a cinco centímetros da porta do pub.
Eu conheço você, pensei, virando o rosto para o beco, de onde o som familiar viera.
Voltei alguns passos e vi a garota lá, encostada contra a parede, um cara encurralando ela com os dois braços. Ele tinha uma tatuagem enorme no ombro direito, uma cobra enrolada, se pude distinguir bem, um gorro vermelho e puído na cabeça, um cigarro na boca, um volume suspeito no bolso detrás da calça escura dele. Puta que pariu, logo com um cara desses?
- Você achou que poderia fugir de mim? – Disse num inglês porco e carregado de sotaque alemão, depois soltou uma risada sombria, tirando uma mão da parede para apertar o queixo dela entre os dedos, fazendo-a olhar para ele. Meu corpo ficou tenso em resposta ao modo como ele a tocou. – Escute com atenção, docinho, você nunca vai se livrar de mim. – Abriu um sorriso dissimulado. – Você pode me denunciar para a polícia, pode me despistar, pode me matar, mas eu nunca vou te deixar em paz. Você é minha, docinho. Sempre será. – Apertou mais os dedos em sua bochecha. Senti a adrenalina sendo jogada rapidamente na minha corrente sanguínea, fazendo-me estremecer enquanto planejava meus movimentos.
Puta que pariu, não acredito que vou fazer isso.
Aproximei-me devagar e sorrateiramente pela parede oposta do beco, sempre mantendo o cuidado de ficar atrás dele e longe do seu campo de visão. O beco não era tão largo, mas era comprido e mal iluminado, dando-me facilidade para chegar perto. Fiquei surpreso ao ver o tamanho do cara, de perto. Ele não era maior que eu, isso eu podia ter certeza. Talvez mais forte, mas não diria que ele é do tipo que luta, a arma no seu bolso de trás deixava bem claro que ele terminava as coisas do jeito mais rápido. No entanto, isso não era bom para mim.
, em que tipo de merda você se meteu?, minha mente divagava entre as possibilidades, enquanto eu contornava uma lata de lixo com o maior cuidado. Minhas terminações nervosas pareceram congelar por um instante quando os olhos dela cravaram em mim, mas rapidamente coloquei o dedo indicador na boca, pedindo seu silêncio.
Ela soltou algum palavrão para ele em alemão, o que o fez tirar a outra mão da parede e lhe atingir o lado esquerdo do rosto com força. voltou a olhá-lo de frente com rapidez, enfrentando-o. Não pude deixar de admirá-la pela coragem de enfrentar o cara. Aliás, não deveria me surpreender que nem apanhando perdia sua postura.
Agora eu estava exatamente atrás dele, na parede oposta. Ok, vamos lá, Zayn. Contei até três antes de avançar em cima do cara, com a mão na nuca dele. abaixou-se rapidamente, dando espaço para a bochecha dele se chocar contra a parede de pedra. Com a outra mão, tirei a arma de seu bolso e entreguei para a garota que engatinhou até mim e se colocou de pé rapidamente. Ele lutou contra mim, dando-me uma cotovelada nas costelas, pegando-me desprevenido, o que deu a ele uma brecha para se virar e me dar um soco no olho. Por reflexo, completamente irado com o golpe, desviei-me do próximo golpe dele e o atingi com força no estômago. Ele se curvou sobre o abdômen e aproveitei para lhe dar mais um soco, dessa vez no rosto, fazendo-o cair no chão. Puxei-o pela jaqueta, colocando-o de pé e o joguei contra a parede de novo, voltando a segurar seu pescoço.
- Mas que merda é essa?! – O cara gritou. Apertei mais meus dedos em sua nuca, pressionando com mais força o tendão que havia ali, praticamente enfiando meu dedão em sua pele.
- Eu faço as perguntas aqui, seu merda. – Dei uma joelhada em sua coxa, fazendo-o soltar um grunhido de dor. – O que você quer com ela?
- Não é da sua conta! – Respondeu, cuspindo um pouco de sangue.
- Quer bancar a criança malcriada? – Subi minha mão para seu cabelo e puxei seu rosto, virando-o para mim. Desci meu punho direito em seu maxilar, ele caiu no chão. O cara com certeza não era de luta.
se colocou atrás de mim, segurando minha jaqueta, parecendo bastante assustada. O cara se colocou de pé e tentou me dar um soco, mas eu vi que ele ia girar no calcanhar e me abaixei, agarrando-o pela cintura e o joguei na parede de novo, depois segurei-o pelo colarinho da blusa cortada que ele usava, olhando-o nos olhos.
- Se eu souber que você chegou perto dela de novo...
- Você vai fazer o que, imbecil? Ela é assunto meu, é bom que você não chegue perto dela de novo. – Ele cuspiu as palavras, com um sotaque alemão forte demais.
- Agora ela é assunto meu. – Informei, apertando mais os nós de meus dedos contra seu pescoço.
Senti algo atingir meu estômago e o larguei, curvando-me para me recuperar rapidamente da vertigem que aquilo me causou. Ele se aproveitou do meu momento de fraqueza e me deu um soco cruzado na bochecha, jogando-me no chão. A dor era horrível, eu até havia me esquecido de como essa merda toda de briga de rua não valia a dor que causava.
O cara se afastou e agarrou , puxando-a pelo cabelo. Senti a urgência de me recompor.
- Eu ainda não acabei com você, sua vagabunda. – Ele a soltou com brutalidade, fazendo-a se apoiar na parede. Arrumou a gola da blusa e saiu do beco, com aquele típico andar de traficante; prepotente e arrogante, com as mãos fechadas em punho enquanto mancava.
- Filho da puta... – Cuspi uma poça de sangue que havia se formado em minha boca.
- Zayn?! – pareceu lembrar que eu estava ali e veio me ajudar a levantar, mas eu meio que dispensei a ajuda, colocando-me de pé com um pouco de dificuldade, mas com dignidade.
Merda! Merda, merda, merda!, era só o que eu conseguia pensar quando vi que o filho da puta deixou a arma no beco, jogada perto de uma lata de lixo. Não fazia ideia do que fazer com ela, mas decidi que não perderia meu tempo pensando sobre isso; não quando minha cabeça estava a mil e eu só tentava entender o que acontecera ali.
Olhei a figura de , mesmo estando de pé parecia ter encolhido de tamanho e passava as mãos pelos cabelos com tanta força que era capaz de arrancá-los. Ela não me olhava nos olhos, mas também não focava em canto algum, atordoada. Eu também não queria olhar na cara dela enquanto respirava com dificuldade, recuperando-me. Na verdade, eu queria era mandar ela ir se foder por se meter com gente assim. Queria que não fosse essa maldita suicida que acha que merece o que esses demônios têm para dar. Eu estava com raiva da porque ela provavelmente morreria de overdose aos vinte e cinco anos, sozinha num quarto de hotel de beira de estrada, achando que o mundo é um inferno e, na melhor das hipóteses, inferno foi tudo o que esse mundo foi capaz de dar a ela, e ela aceitou. Eu estava completamente revoltado com aquela garota porque, desse jeito, ela jamais seria feliz.
Mas, antes que eu pudesse mandar a garota à puta que pariu, eu precisava saber:
- , que merda foi essa?


Niall’s POV
- ! Aqui! – Acenei para ela quando avistei sua figura chegar até o portão da escola. Ela olhou para mim e depois para o carro atrás de mim. Com um sorriso, ela se aproximou.
- Uau, de quem é essa belezinha? – Ela passou as pontas dos dedos pela lataria do carro, dando a volta no carro para chegar até a porta do passageiro.
- Era a última coisa que uma locadora de carros tinha – dei de ombros, abrindo a porta para ela, que ergueu as sobrancelhas.
- Nós vamos fugir? – Perguntou, parecendo surpresa e cheia de expectativas, brincando.
- Oh, sim, para bem longe! – Balancei a cabeça afirmativamente. – Estava pensando na Bósnia e Herzegovina ou a Tchecoslováquia.
- A Tchecoslováquia não existe mais – franziu o cenho.
- Não?! Mas e o hotel cinco estrelas que eu reservei? Como vou conseguir meu reembolso?! – Fingi desespero.
- Ah, agora é tarde demais. Da próxima vez você pode consultar o mapa Mundi desse século – piscou para mim.
- Tarde demais – suspirei pesadamente.
- Tudo bem, a gente pode visitar a República Tcheca e a Eslováquia, daí no final dá no mesmo – propôs.
- Você é um gênio, ! O que eu faria sem você?
- Correria em círculos e daria com a cara na parede esporadicamente – respondeu de prontidão, como se já tivesse pensado naquela resposta. Soltei uma risada.
- Nossa, parece péssimo.
- Eu disse esporadicamente, não é como se você fosse perder a testa ou a cabeça... – soltou uma risada baixa antes de entrar no carro. Dei a volta no veículo para entrar no lado do motorista. Ela olhava para o banco de trás quando eu fechei minha porta e dei partida no carro. – Para quê tudo isso?
- A curiosidade matou o gato.
- Eu duvido mesmo que um gato tenha morrido por ter olhado dentro de uma cesta.
- Pode ser que tinha uma cobra lá.
- Mas ele é um gato! E tem reflexos de um gato!
- Uma aranha teria um reflexo melhor?
- Não faço ideia, mas você já viu aquele filme em que o gato luta com uma naja? É bem interessante como o... Ei! Você está me deixando tagarelar para não ter que me contar para quê essa mochila gigante! – Apontou para o banco de trás.
- Você verá, , calma.
- Eu estou calma. E curiosa.
- Você gosta de morar aqui? – Mudei de assunto.
- Espertinho – fez uma careta para mim. Olhei rapidamente para ela, esperando sua resposta. – Gosto de morar aqui. É uma cidade pequena, querendo ou não. É bem menos agitada que Birmingham, pelo menos.
- Já morou em Birmingham?
- Por um tempo, mas minha mãe é daqui do norte e, por isso, viemos morar aqui. Ficamos lá até meu pai se formar em Cambridge.
- Uau, é uma família de notórios – elogiei.
- E você? Como é a Irlanda? – Mudou de assunto, parecendo ficar sem graça por falar de si.
- Gelado – zombei.
- Todos nós morremos congelados vez ou outra no Reino Unido, Horan – rolou os olhos, mas riu.
- Ok – murmurei, pensando em algo melhor para lhe falar. – Bom, a vista é de tirar o fôlego. Qualquer lugar que você olha... Não sei. É minha casa, eu sou um pouco suspeito para falar...
- E se eu estivesse pensando em me mudar para lá, o que você diria para me convencer?
- , honestamente, a Irlanda parece nos expulsar de sua ilha.
- Como?
- Sabe, em todo lugar do mundo você tem uma comunidade irlandesa, um bar irlandês, um lugar aconchegante e familiar para você se divertir tranquilamente... Estamos em muitos lugares.
- E por isso você se sente expulso de lá?
- Não é expulso... É como se estivesse na história. Muita gente deixa a Irlanda para viver em outro lugar. Mas eu amo aquele lugar e jamais falaria mal dele.
- Acredito em você – olhou para a paisagem do lado de fora do carro. – A também tem essa vontade de sair da Inglaterra.
- Jura?
- Sim.
- E você? – Ela voltou a me olhar.
- Eu? Bom... Não sei. O plano é ir para Oxford, achar o sentido de vida e ficar por aqui.
- Por que não Cambridge, como seu pai?
- Não há diversidade se não for diferente – acenou como se a questão fosse muito batida ou não tivesse importância. – E, além de tudo, a Câmara de Radcliffe tem aquela maravilhosa cúpula e eu amo a arquitetura gótica, então...
- Então você só quer entrar em Oxford pela biblioteca?
- Não é só uma biblioteca! – Ela sorriu para mim como se me desafiasse a insultar a biblioteca. – Aquilo é um santuário!
- Ok, ok.
- Diga um lugar que você acha que merece todo o amor e preservação do mundo.
- Hm... A Torre Eiffel.
- Dez vezes mais santuário! O conhecimento necessário para construir aquela torre estava lá!
- Tenho certeza que os franceses não chamaram caras ingleses para construir a torre.
- Alguém tinha que aprender alguma coisa para saber ensinar.
- E foram os ingleses que ensinaram?
- Em algum lugar tinha uma biblioteca, Niall!
- Ah! Então qualquer biblioteca é um santuário?
- Exato! – Ela sorriu e estalou os dedos.
- Chegamos – anunciei.
olhou à sua volta e, então, para fora da janela. Quando seus olhos avistaram o grande castelo de Carlisle à nossa frente, vi um milhão de expressões passarem por seu rosto delicado. Sua boca abriu algumas vezes antes que ela me lançasse um olhar vazio, como se ela não estivesse ali. E, repentinamente, ela começou a balançar a cabeça com veemência.
- Não. Não. Não. Não... – ela repetia, segurando-se à porta do carro, respirando rapidamente.
- ...
- Não! – Ela me fuzilou com seu olhar. – Não! Não e não! Você... Não! – Vi seu peito subir e descer rapidamente enquanto ela balançava a cabeça e se segurava com mais força ao banco e à porta. – Você não tinha o direito de fazer isso!
- , vai ficar tudo bem – prometi.
- Eu... – encostou a cabeça ao encosto do banco e engoliu em seco ao passo que eu comecei a ficar preocupado quando ela começou a emitir sons enquanto puxava o ar.
- ! – Arregalei os olhos quando percebi que ela não estava conseguindo respirar e abri a porta do carro com pressa, dando a volta nele e abri a porta dela. – ! – Desafivelei seu cinto de segurança e a puxei para fora do carro, praticamente carregando-a. Caímos no chão coberto por uma mistura suja de neve e brita, ela por cima de mim. – ? – Chamei-a novamente quando ela se levantou rapidamente e se afastou.
Ela pareceu não me ouvir, dando-me as costas e se afastou definitivamente do carro, indo em direção ao pequeno bosque que havia atrás do estacionamento do castelo. Coloquei-me de pé também e fui atrás dela.
- Hey! ! – Chamei, mas ela não se virou. Corri até ela e me coloquei à sua frente. – !
Ela tinha lágrimas nos olhos e abraçava o próprio corpo.
- Você está tentando me atingir?
- O quê? Não! , eu queria que você passasse por cima disso!
- Sutil! – Observou com sarcasmo.
- Eu não queria te machucar! Longe disso, ! Eu só queria que você visse que eles são... – olhei para o castelo atrás dela. – Inofensivos.
- Castelos não foram feitos para parecerem inofensivos ou bonitinhos, Niall, eles foram criados para dar medo e mostrar poder. E, posso lhe dizer, eles têm cumprido sua missão ao longo do tempo!
- É só um castelo, !
- Não, não é um castelo e você sabe disso!
- Mas você tem que superar! Isso não é saudável, !
- E você achou que aconteceria o que aqui? Que quando eu chegasse eu veria a alma da minha irmã brincando pelos corredores e eu me libertaria desse medo maldito que eu tenho desses lugares?! Bom, não deu certo!
- Não! É claro que não! Você não veria a sua irmã porque ela está morta, ! – Eu falei, exasperado, como se aquilo explicasse meu ponto, mas apenas parou no meio de seu ímpeto de me responder de volta e me encarou, chocada demais com o que eu havia dito. – Ela foi embora! Ela se foi! Há muito tempo! E você precisa entender isso, ! Não adianta! Nada disso adianta! Você está aqui e precisa seguir em frente! E, sim, isso significa entrar nesse castelo e no próximo que encontrar! Significa que você precisa ir visitar o túmulo dela de vez em quando, levar flores e admitir que você sente falta dela!
Eu não fazia ideia se ela ia ou não visitar o túmulo da irmã; aquela parte não era para ela. Aquela parte era para mim e ela entendeu aquilo, pois sua expressão suavizou um pouco.
- Você perdeu alguém também.
- Todo mundo já perdeu alguém – limpei a garganta.
- Quem era? – me perguntou com a voz derretida, assumindo aquela figura sensível e delicada, extremamente gentil.
- Minha mãe – cruzei os braços instintivamente, chutando uma pedrinha para longe.
- Oh.
- Dê uma chance, – mudei de assunto. – Por favor.
- Você não entende, Niall...
- O que eu não entendo?
- Isso pode acordar vários fantasmas. Vários. E eu quero todos eles dormindo, para sempre.
- .
- Niall – imitou meu tom definitivo.
- Por favor? Vai ficar tudo bem. Você não quer passar o resto da sua vida com medo, quer?
- Quem quer, Niall?
Estendi minha mão para ela e lhe dei um tempo para se decidir.
Não sabia porque queria tanto ajudar . Não. Não era querer, eu precisava ajudar. Parte de mim sabia que aquilo me ajudava também. Eu nunca aceitei a morte dela, para mim ainda era como se não fosse verdade. Greg havia saído de casa, o casamento fora um ano antes do falecimento dela e, por isso, foi extremamente difícil para meu pai e eu nos ajustarmos à vida sem ela.
pousou sua mão em cima da minha e eu a segurei com firmeza.
- Tudo bem? – Assegurei-me.
- Sim.
Assenti para ela. Fui até o carro, peguei a mochila que havia trazido e, então, nos conduzi até a entrada do castelo, tentando ignorar o fato de que estávamos de mãos dadas por todo o percurso – e tinha que me convencer também de que aquilo era puramente para auxiliar o processo de superação de , não outra coisa qualquer... Havia um caminho de concreto para chegar até lá, um fosso para atravessar pela ponte e, então, os portões do castelo. À medida que nos aproximávamos, a mão de se apertava na minha e, quando atravessamos o fosso e chegamos ao portal, ela estancou no lugar. Olhei para ela, paciente.
- Eu posso fazer isso – ouvi-a murmurar para si mesma enquanto seu olhos estavam grudados na construção colossal à nossa frente.
Soltando minha mão, ela seguiu sem mim e passou pelo portal lentamente, como se esperasse que as paredes fossem cair em cima dela a qualquer momento.
Quando o sol voltou a iluminá-la diretamente, ela girou nos calcanhares e olhou para mim com uma expressão lívida. Corri até ela, desviando de outros turistas que também adentravam o castelo, e parei ao seu lado.
- Você está bem? – Examinei seu rosto pálido, ponderando o que fazer caso ela vomitasse ali.
- Sim – sua resposta saiu num sopro.
- Podemos continuar?
- Podemos. Para que lado vamos? – Sua voz continuava fraca. Ela deu uma olhada no gramado coberto de neve que se estendia pelo pátio do castelo e para a rampa que nos levaria à parte superior do castelo.
Eu mesmo tomei um tempo para admirar a grandiosidade daquilo. Estava ali na segunda vez naquele sábado e, ainda assim, num espaço tão curto de tempo, a vista já me deixava perplexo. Se fôssemos pelo pátio, chegaríamos a uma construção que parecia uma casa que agora servia de museu para o castelo e, se fôssemos à direita, entraríamos no segundo nível do castelo, onde ficava a torre e as residências do povo que morava no castelo.
- Vamos à direita – decidi, começando a andar com ao meu lado.
Ela andava muito próxima de mim, como se estivesse com medo.
- Calma – pedi quando parei de andar e tirei minha mochila das costas. Abri-a e peguei rapidamente o ukelele que havia colocado ali dentro, recoloquei a mochila nos ombros e segurei o instrumento contra o peito, pronto para começar a tocar.
- O que você está fazendo? – quis saber, incrédula.
- Eu vou tocar.
- Como é? Aqui? Pode? Você ficou louco?
- Você não está se divertindo, é óbvio.
- E por isso você vai tocar?
- É para te animar. Não dizem que quem canta seus males espanta?
- Eu não vou cantar.
- Tudo bem, eu canto e você fica perto para não nos perdermos – pisquei para ela e comecei a tocar os primeiros acordes de Somewhere Over The Rainbow. As pessoas que passavam por nós lançavam olhares, alguns irritados, outros curiosos, as crianças apontavam e algumas até improvisavam danças para seus pais. – Somewhere over the rainbow, way up high and the dreams that you dreamed of once in a lullaby...
- Niall... – olhava para as pessoas como quem se desculpa, parecendo envergonhada. Mas eu não ligava, eu só queria que aquela experiência fosse tudo menos traumatizante.
Balancei a cabeça negativamente antes de continuar andando enquanto tocava e cantava aquela música. Passamos por outro portão e chegamos a outro pátio com uma torre larga e comprida, que devia ter uns quatro andares, e outras três construções em forma de casa.
Parei de cantar, mas continuei tocando.
- Está sobrevivendo a essa experiência terrível? – Perguntei.
- Se sua intenção era me deixar envergonhada demais para me importar com o passado, então, sim.
- O orgulho é sempre a resposta – soltei uma risadinha.
- Você é inacreditável, Niall.
- Não, esse lugar é inacreditável – olhei em volta.
olhou em volta por um instante.
- Eu concordo – sorriu fraco, enfiando suas mãos nos bolsos do casaco de neve. – Você já pode parar de tocar.
- Não, não. Isso vai durar o passeio inteiro – avisei.
- Ah, é? E qual outra música para ukelele você tem no seu repertório? – Ela me desafiou e, ao invés de me sentir ofendido ou até mesmo provocado, eu me senti bem por vê-la mais à vontade que quando passamos pelo grande portão do castelo.
Troquei as notas e comecei a tocar Tonight You Belong To Me, do Eddie Vadder e me lançou um olhar de surpresa e abriu um sorriso.
- Ok, a gente pode continuar indo – ela soltou uma risadinha e voltou a andar ao meu lado enquanto eu tocava e cantava a música.
- Vamos à torre – parei de cantar rapidamente e pedi, voltando a cantar logo em seguida.
- Tem certeza de que pode cantar aqui? E tocar?
- Eu já me certifiquei disso, – assegurei-lhe, pensando nas cinquenta libras que tive que desembolsar mais cedo, na primeira vez que vim aqui hoje, para poder ter meu “pequeno evento” aqui. Não me importava que tivesse pago essa comissão e os ingressos para entrar no castelo, valia mais que a pena ver ali.
Ela parou na porta do prédio medieval e me abriu um sorriso, esperando que eu me juntasse a ela quando um casal de velhinhos me parou para me parabenizar pelo meu talento e minha voz. Sorri gentilmente para eles e agradeci acenando com a cabeça. Olhei para novamente enquanto me aproximava dela, observando suas bochechas rosadas pelo vento gelado, apreciando a forma como suas botas realçavam o contorno de suas pernas protegidas pela calça justa e preta, chegando à conclusão de que não havia nada como naquele dia.


’s POV
Há quase uma hora eu já havia voltado de Carlisle com Zayn e sentado naquele banco de pedra, quando senti que precisava de um momento para assimilar tudo que havia acontecido. Mas o momento se estendeu muito mais do que o planejado, e o dia já escurecia, e eu ainda estava sentada no banco, praticamente imóvel, encarando a mesa de pedra, sem conseguir superar os acontecimentos daquela tarde, sentindo o peso do metal no bolso da minha jaqueta me lembrar não apenas do que acontecera naquela tarde, mas do que eu já fizera antes.
Essa tarde, segurei uma arma nas mãos. E enquanto a briga de Zayn com Kevin passava como um borrão em minha frente tudo que consegui fazer era encarar aquela arma nas mãos trêmulas e pensar em como parte de mim gostaria da sensação de disparar contra ele. Seria como matar o demônio que havia preso dentro de mim.
Não fora só as palavras dele, a ameaça, ou a briga. Não fora o medo terrível que me acometeu ou o alívio imensurável que senti ao ver Zayn. Foi uma onda imensa, foi um tsunami do passado, de dois, três anos atrás, tudo voltando ao mesmo tempo, sem aviso prévio, e se chocando contra mim em um impacto sem igual. Eu não consegui nem raciocinar na hora, mas agora, que estava ali, tudo estava voltando.
E isso foi o estopim.
Me levantei tão subitamente do banco que perdi o equilíbrio, ao perceber o crescente barulho em minha mente. Meu coração disparou, e eu sabia o que estava prestes a acontecer, porque já sentira aquilo antes. Respirei fundo, soltando o ar pela boca, vendo o vapor sair por ela ao se chocar com o ar gelado, e olhei para o outro lado do pátio ao sentir estar sendo observada. Encontrei os olhos de Louis me encarando, com as mãos nos bolsos junto aos seus amigos, que conversavam animadamente.
Dei as costas começando a caminhar para o primeiro lugar que me veio na mente, descendo devagar a ladeira para o ginásio, mas aumentando o passo à medida que aquela sensação crescia dentro de mim e se espalhava. Apertei minhas mãos em punho, sentindo-as quase congelarem no frio da noite, mas sem coragem de coloca-las no bolso e sentir aquela arma. Eu não fazia ideia de o que fazer com aquilo.
Só desacelerei os passos quando dei a volta no ginásio, que estava fechado, chegando na parte coberta de trás do pavilhão e parando de andar, olhando para a descida que ia até o lago. Aquele era o único lugar onde eu costumava encontrar paz naquele colégio. Mas, naquele momento, eu sentia tudo menos paz.
Naquele momento, tudo em que o meu ser se resumia era pânico.
Me tornei auto consciente de minha respiração de repente, a ouvindo tão alto em meus ouvidos como se fosse outra pessoa respirando ao meu lado. Eu só ficava cada vez mais e mais ofegante, enquanto o barulho em minha mente aumentava. Sentia agulhadas em minhas mãos, o que me fez fechar os punhos com força... E então veio a desorientação. A sensação era pura, e parecia como se o mundo fosse acabar. Bem. Em cima. De mim.
Então, depois de um tempo parada sem me mover, deixando aquilo se apossar de mim, levei uma mão ao peito sentindo todo o meu corpo doer, implorar por oxigênio, e percebi estar trancando a respiração por muito tempo. Puxei o fôlego com dificuldade, de uma vez só, como se tivesse voltado para a superfície depois de muito tempo debaixo da água, e então a onda de tudo que estava explodindo dentro de mim chegou, me fazendo soluçar e perder o equilíbrio, a sanidade, ou qualquer sentido que eu ainda tinha em mim. Respirar era difícil, eu não conseguia puxar o ar, havia uma bola em minha garganta, impedindo que qualquer coisa entrasse ou saísse. Eu queria gritar, mas aquilo não permitia. Eu sentia minha mente gritando tão alto que não conseguia ouvir ou perceber nada ao redor. Era como ter uma força presa dentro de mim, um mal, algo querendo ser expulso. Era como tentar controlar meu demônio interior, aquele que sempre estava lá, dormindo, às vezes sob controle, às vezes nem tanto; e agora havia acordado de vez.

- ? – Ouvi a voz ainda ao longe chamando, meio urgente, e levei a outra mão ao ouvido, apertando meus cabelos, querendo me livrar daquele barulho todo dentro da minha cabeça. – ? ! – A voz se aproximou gradativamente, até que me virei o encontrando parado há alguns metros de mim.
Louis parou no lugar, estático, em choque ao me ver naquele estado. Senti trilhas geladas em minhas bochechas e o encarei no lugar, a respiração ofegante e descompassada.
- Vai embora! – Exclamei, usando todo o esforço possível, o fazendo recuar um passo. – Sai daqui. Sai daqui, Tomlinson! – Gritei.
- O que você... – ele levantou uma mão para mim e deu um passo à frente de novo, cuidadosamente. – Me deixa te ajudar.
- Não – Murmurei, chegando mais perto dele, e o encarando nos olhos. Eu só precisava achar um modo de sobreviver àquilo, sozinha. – Eu preciso... eu não posso... – Tentei dizer a ele, tentei explicar que tinha que ficar sozinha. Que eu estava sufocando, me afogando em mim mesma, e não precisava de ninguém para assistir, principalmente ele. Que não havia nada que ele pudesse fazer. Mas minha voz estava presa em minha garganta. – Me deixa sozinha, eu preciso...
- Não! – Foi ele quem exclamou, firme dessa vez, como se explodisse. – Não, , não! Merda! Eu vou ficar aqui, e não importa o que você faça, eu vou ficar bem aqui! Com você! – Continuou exclamando, enquanto se aproximava de mim, e me segurou pelos ombros, determinado como eu nunca vi antes. Fechei os olhos o sentindo me chacoalhar um pouco, e desisti de retrucar, sem condição alguma naquele momento. Apertei mais a mão que segurava meu próprio moletom em meu peito quando o aperto dentro de mim se intensificou, comprimindo todos os meus órgãos por dentro, e senti as mãos de Louis subirem para o meu rosto, segurando-o firme, fazendo algo dentro de mim doer ainda mais. Era doloroso, fisicamente doloroso, tê-lo comigo. Ao mesmo tempo em que era imensamente aliviante.
Mais uma vez inspirei todo o ar que consegui quando percebi estar segurando a respiração por muito tempo, e então os soluços vieram com mais intensidade, me fazendo tremer. Com os olhos fechados com força, a imagem de Kevin há algumas horas veio à minha cabeça, me forçando a voltar àquilo, e sentir tudo de novo.
A primeira vez que tive uma reação dessas a algo fora quando ela foi embora. Quando eu tinha onze anos e, ao finalmente chegar em casa de noite depois de ter sido levada do colégio para a casa de Rosalie sem entender o porquê, encontrei meu pai desacordado na mesa da cozinha em cima de seu próprio vômito com uma garrafa de Bacardi. No quarto deles, não havia nenhum traço de que ela jamais morara ali. Nenhuma roupa, ou pertence, ou detalhe. Nem mesmo o cheiro dela estava lá. Era como se eu nunca houvesse tido uma mãe.
Pensei que nunca mais sentiria a sensação de ser despedaçada de dentro para fora, mas era algo que eu não podia evitar, ou me livrar. Aconteceu algumas vezes depois disso, sempre sem aviso, e sempre era devastador. Era um efeito colateral de ser eu, que ficava guardado em um lugar dentro de mim, pronto para, no momento certo, voltar a explodir. E era tão forte e tão catastrófico, que causava dor física, que me paralisava, e tornava impossível que eu conseguisse suportar. O tumulto em minha mente era tão atormentador, que eu me sentia como um animal irracional, incontrolável, impotente sobre meu próprio corpo. A urgência por fazer parar fazia com que eu quisesse arrancar cada fio de cabelo, cada pedaço de pele, cada gota de sangue, até que tudo ficasse mudo.
Quando percebi meus joelhos já haviam cedido e senti a grama úmida em minhas pernas e na palma de minhas mãos, mas as mãos de Louis ainda seguravam meu rosto, e ao longe eu podia ouvi-lo ali comigo.
- Shh... shh... ... ... – Ele sussurrava. – ... me diga o que fazer. O que eu posso fazer? Me diga o que fazer. – Pedia baixinho, a voz impotente, assustada, enquanto eu tentava respirar com a dor em meu peito, e os soluços ainda me acometiam com força. Levei as mãos aos seus pulsos os segurando perto de mim, e então me curvei para frente e ele me puxou me apertando com força contra o seu corpo, que tremia junto ao meu com os soluços. – Escuta... escuta a minha voz. Eu estou aqui. Eu te seguro, . Eu te seguro. – Sua voz soava perto de mim.

Por um tempo tudo que fiz foi me concentrar em tentar respirar e parar de tremer compulsivamente, mas eu ainda não tinha o controle de nada. Sentia a mão de Louis em meus cabelos, fazendo um carinho calmo com a ponta dos dedos, e tentei com tudo que havia de lúcido dentro de mim me concentrar naquilo, mas sua voz havia sumido.
Então, depois do que poderiam ser segundos ou horas, ela voltou.
- And your friends have left... – ele pigarreou. – Hum... You've been dismissed, I never thought it would come to this... And I... I want you to know...
O que... O que era aquilo? Que merda Louis estava fazendo?
- Everyone's got to face down the demons. Maybe today you can put the past away.
Ele estava mesmo cantando?!
- I wish you would step back from that ledge, my friend. You could cut ties with all the lies that you've been living in...
Por algum motivo, aos poucos, e bem aos poucos, os soluços foram se acalmando, fazendo lentamente meu corpo parar de tremer. Os nós dos meus dedos doíam, rígidos, apertando a roupa dele, e naquele momento pude ter consciência disso. Pude voltar, lentamente, a sentir meu corpo de novo. Devagar, o ar foi voltando a entrar em meu corpo.
- And if you do not want to see me again... I would understand. I would understand. I would understand... – Ele continuou, e percebi suas palavras bem próximas de mim, sua cabeça encostada na minha e sua boca há centímetros do meu ouvido.
Abri os olhos depois de um bom tempo com eles fechados, percebendo que o sol já havia sumido e em volta de nós estava um completo breu. Louis estava ajoelhado no chão em minha frente, segurando minha cabeça contra seu peito com firmeza, como se literalmente juntasse as partes de mim e as mantivesse juntas. Os meus soluços pararam e o barulho em minha mente diminuiu consideravelmente, me permitindo ter consciência das coisas ao redor.
Havia acabado, e mais uma vez eu sobrevivi.
Minha respiração acalmou até voltar ao normal, e ele ainda fazia carinho em minha cabeça e cantarolava, agora só a melodia da música. Quando senti que podia, me afastei e ele parou de cantar, levando as mãos aos meus ombros. Eu estava agora sentada na grama úmida, em sua frente, e o que senti ao encontrar seus olhos azuis foi um tipo bom de arrepio, não relacionado ao frio que eu sentia.
- Bem-vinda de volta. – Ele disse baixinho e sorriu fraco, parecendo aliviado. Afastou umas mechas do meu cabelo de meu rosto, e passei as mãos nas bochechas, as limpando. Olhei em volta brevemente, me situando, voltando a Terra.
- Você... – sussurrei, a voz saindo rouca, franzindo o cenho para ele. – O que você... – O encarei, e ele encolheu os ombros.
- Eu... queria que você ouvisse a minha voz. Mas não sabia o que falar, então... – Fez uma caretinha. – Eu não queria parecer do High School Musical. Sério. É que vi o Jim Carrey cantar num filme, pra um cara... E... – Ele parou de falar quando viu o absurdo que estava dizendo, e eu só continuei o encarando pensando o mesmo. No absurdo que era Louis Tomlinson.
Louis desceu as mãos por meus braços gelados e então olhou em volta.
- Precisamos sair daqui, . Você está congelando. – Mordeu o lábio. – Acha que consegue?
Engoli em seco e assenti, e então ele se levantou do chão, me dando a mão para fazer o mesmo. Caminhamos de volta para os dormitórios e Louis entrou comigo, aproveitando que Minerva não estava lá naquele momento, me levando para o quarto. Ao chegar no quarto vazio Louis se afastou de mim indo até o banheiro e ouvi o barulho do chuveiro ser ligado. Tirei o casaco que usava, agora tremendo de frio, e o coloquei dentro da última gaveta de minha cômoda sentindo o peso da arma se acomodar lá. Meu coração perdeu uma batida ao pensar que eu tinha aquilo guardado entre minha cama e a de . Tirei então também minhas botas, e ele abriu a porta do banheiro me chamando.
Tomei um banho quente, ficando vários minutos debaixo da água sentindo isso me acalmar, tentando não pensar muito no que havia acontecido ou na arma e saí do chuveiro vestindo apenas um roupão fino de que encontrei por ali. Louis ainda estava ali, sentado em minha cama esperando, e fiquei parada no lugar por um momento apenas o olhando. Ele sorriu um pouco para mim quando eu o encarei por muito tempo, franzindo a testa, como quem não estava entendendo. Balancei a cabeça e caminhei os passos que me separavam da cama, sentando ao seu lado e tocando seu rosto. Me aproximei e pressionei os lábios contra os seus. Louis foi pego de surpresa, mas correspondeu. Quando me afastei ele me olhou, afastando meu cabelo do rosto.
- O que foi isso?
- Não acredito que você seja assim tão estúpido. Depois de tudo que eu... – balancei a cabeça outra vez, ficando calada por um momento. – Desculpa. E obrigada. Obrigada, Louis. – Disse a ele, baixinho. Eu nunca, nunca havia dito aquilo com tamanha gratidão, mesmo. Não parecia que aquelas palavras haviam saído de mim. E talvez eu já nem fizesse mais sentido, naquele momento nem eu me reconhecia.
- Shh... – Ele sorriu fraco, dessa vez parecendo satisfeito, e puxou os cobertores da minha cama. – Você precisa dormir, .
Assenti, concordando. Levantei e puxei os cobertores também, me deitando e me cobrindo com eles.
- ? – Louis chamou, sentado ao meu lado na cama e fitando meu rosto. – Você sabe que... amanhã o que quer que tenha te acontecido ainda vai ser real. Mas... Eu queria te deixar saber disso, porque... Eu também ainda vou estar aqui. Ok? – Murmurou, e assenti com a cabeça.
- Acho que você tinha razão, musica é mesmo nosso lance. – Brinquei.
- Ah, então agora temos um lance? – Ele devolveu, abrindo um sorrisinho divertido, e provei do meu próprio veneno por um segundo. Balancei a cabeça, o empurrando de minha cama e ele levantou, rindo fraco.
Louis foi para a porta e me lançou um breve olhar antes de sair. Fechei os olhos, não sabendo por onde começar a processar tudo que aconteceu naquele dia sem pirar novamente.



Niall’s POV
O barulho que me despertou vinha do meu celular em cima do criado-mudo ao lado da cama. Estiquei-me até ele e o desliguei sem ao menos me dar ao trabalho de olhar. Só que, infelizmente, o aparelho voltou a vibrar, incomodando não só a mim como Josh também.
- Puta que pariu, Horan! Atende essa merda! – Ele resmungou antes de enfiar a cabeça embaixo do travesseiro e se virar para a parede.
Soltei um suspiro indignado e me sentei na cama antes de pegar o celular.
Era Harry.
- Alô? – Franzi o cenho ao atender, sem conseguir imaginar um único motivo para Harry me ligar às nove horas da manhã num domingo.
- Bom dia, cara! – Ele me saudou em animado tom. – Eu não te acordei, né? – Perguntou, mas não me deu chance de responder. – Eu estava pensando seriamente em praticarmos um pouco hoje, o que acha?
- Ahn... – cocei os olhos enquanto processava o que ele dissera. – Já chamou os outros caras?
- Não, não, achei que podia ser só nós dois.
- Por quê?
- Achei que poderíamos praticar violão. Ainda não estou confiante e acho que isso é ruim para nossa próxima apresentação...
- Eu toco o violão, Harry.
- Eu sei, mas ter controle sobre o violão pode me ajudar com a guitarra.
- Você está indo bem na guitarra, Harry.
- Ah, qual é, Niall?
- Cara, são nove horas da manhã!
- E?
- O que você está fazendo acordado?!
- Eu tenho metas definidas aqui, meu caro.
- Eu também tenho: dormir até meio-dia!
- Niall, tire essa bunda preguiçosa dessa cama!
Inacreditável!, pensei. Harry não ia desistir até que eu concordasse em praticar naquela manhã.
- Ok, vamos lá, essa é minha proposta: eu te encontro depois do almoço e nós praticamos pelo resto do dia – anunciei. – É pegar ou largar.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de soltar um barulho frustrado e concordar comigo.
- Tá, mas é logo depois do almoço! Nada de saidinha, nada de cochilos, nada disso!
- Ok, Harry – revirei os olhos. – Tchau! – Não esperei que me respondesse e desliguei o celular antes de jogá-lo de volta no móvel ao lado da cama e voltar a dormir.


’s POV
- Você o quê?! – Minha voz saiu duas vezes mais alta quando ouvi aquelas palavras saírem da boca de . Algumas das pessoas que almoçavam no Thin White Duke naquele domingo nos lançaram olhares discretos de desaprovação ou surpresa, mas eu os ignorei.
Eu sabia que algo havia acontecido! Só não esperava que fosse aquilo.
e eu combinamos de almoçar na cidade no domingo para termos um momento só nosso, como éramos antes de adicionar , e a ao nosso círculo de amigas mais próximas. Por isso, passamos a última hora falando sobre meu passeio com Niall no Castelo de Carlisle no dia anterior, discutindo sobre como eu me senti e o que aquilo representava para mim a partir daquele dia.
Aí chegou a vez de me contar por que estava tão esquisita.
- Eu o beijei – repetiu a informação enquanto cutucava seu salmão grelhado.
- Você beijou o Zayn – repeti para confirmar se nada havia sido mal entendido.
- Isso.
Coloquei meu garfo de volta no prato e cruzei minhas mãos embaixo de meu queixo enquanto observava minha melhor amiga com atenção.
- Você está fora de si – concluí, recebendo dela um olhar de incredulidade e cinismo.
- Eu estou fora de mim, ?! Eu estou impressionada com essa colocação; eu não disse que você estava fora de si quando você contou sobre a Lola para o Niall!
- Era uma coisa completamente diferente.
- Como?
- Eu não me humilhei diante dele!
- Perdão? – Ela arqueou as sobrancelhas para mim.
- Fala sério, ! Você é incrível, olha só para você! E ele? O que tem de mais nele? Ele é o bastardo que me propôs como prêmio de aposta!
- E você está caidinha pelo cara que aceitou a proposta.
- Ok, isso não é uma concorrência sobre quem está com o pior cara, mas, ainda assim! Ele está te atraindo para a teia de aranha dele, está pronto para dar o bote e te partir em um milhão de pedacinhos!
- Ele está me atraindo? , você ouviu muito bem: eu beijei ele primeiro.
- E? Ele ainda assim pode estar te manipulando!
- Ei, eu não sou uma cabeça de vento, ok? A disse...
- Você aceitou um conselho da ? Olha, eu adoro a , mas não é certeza de que ela estaria plena em suas faculdades mentais!
- Ela disse para eu fazer o que eu queria. E foi o que eu fiz. Eu quis beijar o Zayn e foi isso que eu fiz.
- Ok, e como você se sente agora? – Perguntei e pareceu ficar sem resposta por um segundo.
- Droga! – Murmurou, enfiando o rosto entre as mãos e depois voltou a me encarar. – Eu me sinto bem, em partes, porque eu morreria se tivesse que imaginar mais uma vez como seria beija-lo, mas, outra parte está extremamente chateada por ele ter saído da sala como ele fez.
- Ele é um babaca – declarei e ela concordou com um muxoxo de desgosto. – Ás vezes eu até acho que ele pode gostar de você, sabe, mas não consigo acreditar por muito tempo nisso. Não acho que ele seja capaz de algo tão puro e inocente como gostar de alguém.
- Você acha que ele gosta de mim? – arregalou os olhos.
- Não! ! Isso foi tudo que você ouviu?
- Você meio que soltou uma bomba aqui, desculpe!
- Ok, ok! – Soltei um suspiro frustrado e olhei para a rua pela janela do restaurante. – Então... – voltei-me para ela. – Isso aconteceu na segunda.
- Sim.
- Na aula de marcenaria.
- Depois da aula de marcenaria, mas, sim.
- E por que você esperou para me contar hoje? É domingo! Isso aconteceu há cinco dias!
- Eu estava chateada, ok?
- !
- E eu queria ver se ele iria fazer alguma coisa a respeito.
- Mas não fez nada.
- Não fez nada – repetiu, parecendo desapontada com a recordação. Peguei minha taça com água e tomei um pouco do líquido nela. – Eu acho que ele gosta da .
- O quê?! – Quase engasguei com a água.
- É o que eu acho.
- Você está maluca.
- Achei que fosse “fora de si”.
- As duas coisas dizem o mesmo: você está ficando louca!
- O quê? É tão impossível assim que ele goste dela?
- Ela gosta do Louis.
- E o que isso interfere nos sentimentos do Zayn?
- Isso – levantei um dedo em riste – se é que ele tem sentimentos!
- ! – Ralhou ela e eu não pude evitar uma risada. – Uau, você não gosta mesmo dele.
- O que ele fez foi imperdoável.
- Mas você perdoou o Niall – argumentou.
- O Niall não beijou minha melhor amiga e foi embora como se nada tivesse acontecido.
- Graças a Deus o Niall não fez isso, se não eu seria considerada fura-olho! Mas o Niall aceitou uma aposta que envolvia beijar minha melhor amiga para poder entrar numa banda! E essa minha mesma amiga perdoou ele!
- Ele está se redimindo...
- E ela aceita uma redenção porque ela quer! Enquanto isso, ela prefere odiar o Zayn porque é a coisa mais fácil a se fazer ao invés de dar a ele uma segunda chance!
- E aparentemente eu não deveria mesmo dar uma segunda chance! Ele te deixou plantada lá!
- Bom, nós não podemos culpar o garoto por não gostar de mim.
- Não começa com a autopiedade...
- Não é autopiedade! É só a verdade, ! Ninguém é obrigado a gostar de ninguém e, com certeza, não me deixaria nem um pouco confortável pensar que ele me beijaria ou gostaria de mim por pura obrigação.
- Você devia conversar com ele – sugeri.
- E me humilhar de novo? – Fez aspas com os dedos para fazer referência ao que lhe disse antes.
- Bom, pelo menos que não fique esse clima horrível entre vocês! Ele é seu colega na aula de marcenaria, ele faz parte da banda que você gosta e tem amigos nela, suas amigas gostam da banda também...
- Ok, ok, eu entendi!
- Você sabe que eu não gosto dele e que não aprovaria caso essa coisa de te beijar e sair correndo fosse uma reação por, Deus que me livre, gostar de você. – Balancei a cabeça negativamente e ela revirou os olhos. – Mas, para resolver isso tudo, só há um jeito, : conversar com ele.
- É, eu acho que você tem razão – ela disse depois de um segundo em silêncio.
- Sim – abri um sorriso presunçoso.
- Eu vou pensar no que você disse se você pensar sobre o que eu disse.
- E o que você disse?
- Que você perdoar o Niall e não perdoar o Zayn não faz sentido.
- Eu sei – suspirei. – Você está certa, .
Caímos em silêncio por um instante; eu perdida em meus próprios pensamentos sobre Zayn. Eu sempre tomei cuidado para que meus sentimentos em relação a alguém nunca fossem colocados antes do meu respeito e educação. Por isso, admitir que eu poderia estar sendo injusta com Zayn e não lhe dando uma chance de ser uma pessoa melhor era difícil para mim.
- Hey! – chamou minha atenção com o cardápio em mãos. – Sabe do que precisamos?
- O quê?
- Sobremesa.

's POV
- E acabou. – Zayn virou a garrafa de vodka para baixo, e vi as últimas gotas da bebida pingarem na grama.
- Você é egoísta – reclamei. – Eu tomei dois goles disso aí.
- E a vodka era de quem? – Ele me lançou um olhar debochado e respondi com uma careta. Era madrugada de um domingo e não estava tão frio quanto os outros dias. Eu precisava tomar um ar e colocar os pensamentos em ordem, percebi enquanto me revirava na cama tentando sem sucesso manter os olhos fechados, pensando a todo momento naquela arma na última gaveta da cômoda, me sentindo sufocada pelo peso daquele segredo, por ter aquilo tão perto de , que geralmente dormia na cama ao lado – mas não naquela noite, pois ela estava com -, e principalmente porque uma parte considerável de mim se sentia melhor com a ideia de ter algo com o que me proteger caso alguma coisa acontecesse. Eu me levantei da cama e abri a gaveta, tirando de dentro do bolso de minha jaqueta o revólver prateado que quase cabia na palma de minha mão. Era um Taurus 38, eu sabia porque ele mesmo havia me mostrado. Assim como me ensinado a usar.
Senti o peso do material em minha mão, engolindo em seco, e abri o cilindro, o vendo cheio com as cinco balas de chumbo. Respirei fundo e voltei a fechá-lo, me certificando de que a arma estava devidamente travada antes de calçar as botas de camurça e enfiar ela dentro de uma.
Peguei um casaco grosso e saí do quarto, e foi aí que percebi que o campus estava completamente deserto por ser uma noite livre.
Depois de um tempo sentada no gramado mandei mensagem para Zayn desejando que ele estivesse no colégio, e pedi que ele trouxesse o resto daquela garrafa de vodka que sabia que ele tinha, porque eu só queria ter alguém com quem trocar umas palavras. E depois dos últimos acontecimentos eu ainda não sabia como encará-lo, ou como agradecer pelo que ele fez. Era estranho; até aquele ponto eu via Zayn como um cara qualquer, que curiosamente se parecia um pouco comigo e talvez me entendesse bem. Mas depois de ontem, depois do que fez... Ele se tornara um amigo. E eu não tinha um amigo há um bom tempo.
- Obrigada. – Soltei depois de um tempo de silêncio, ainda encarando o gramado escuro mais à frente. Ele sabia do que se tratava. Eu não consegui encontrar outras palavras.
- Tudo bem. – Zayn respondeu depois de uns segundos, soltando a garrafa na grama. – Quem mais roubaria meus cigarros caso você morresse...
Sorri fraco e balancei a cabeça, grata por não haver julgamentos ou muitas perguntas vindas dele. Olhei para cima deitando a cabeça, com as mãos apoiadas para trás, e o céu parecia tão baixo, quase ao meu alcance. Depois deitei para trás, relaxando o corpo tenso sobre a grama gelada. Por um momento, só o que fiz foi olhar para a imensidão negra e estrelada acima de mim, atirada no gramado do colégio com o cara menos provável ali. Eu me sentia inquieta, o que era até reconfortante, porque era o mínimo que eu podia sentir em relação àquilo. Minha mente estava acostumada ao caos, o tumulto, a agonia e a dor. Era algo que eu precisava comigo. Dor significava ainda estar viva, era questão de sobrevivência.
- . – Zayn chamou,e encarei as costas dele. – Você tá me devendo uma garrafa de Bacardi. Eu decidi agora.
- É justo. – Assenti. Ele me olhou por cima do ombro. Respirei fundo e voltei a sentar do seu lado, enfiando a mão dentro da bota de camurça e tirando de lá a pequena arma.
Zayn olhou pra trás para se certificar de que não havia ninguém ali no mesmo momento, e tocou a mão em cima da arma abaixando minha mão.
- Merda!
- É. – Respondi, olhando para baixo e mordendo o lábio inferior. – Precisamos nos livrar disso.
- Merda, . – Ele passou a mão pelo cabelo, encarando o revólver como se fosse uma bomba instável, prestes a explodir. – Olha as porras em que você me mete.
- Zayn. – Chamei-o, decidida, e ele me encarou. – Por favor. Me ajuda a me livrar disso. – Disse cada palavra com o máximo de clareza possível. Eu não estava preocupada com meu ego naquele momento.
Zayn olhou em volta e pareceu trabalhar com todos os seus neurônios para pensar no que fazer. Por fim olhou para longe por um bom tempo, e depois voltou a me olhar, decidido:
- Vamos jogar no lago.
Abri a boca para protestar no mesmo momento. Eu não sabia o que mais poderíamos fazer, mas a ideia de ter aquela arma ali tão perto de... Tudo. Da minha nova vida, e das pessoas com as quais me importava nem que fosse minimamente... Era como ter um lembrete constante de que onde quer que eu fosse, eu traria minhas tragédias comigo.
Mas, como fora dito, eu não tinha outra escolha.
- O lago. – Repeti.
- Ninguém vai lá. Eles não mexem lá nem para fazer manutenção ou sei lá. Não existe nenhum registro de enchente, ou sei lá, ninguém é permitido de chegar perto. Só precisamos... Jogar. Ela vai sumir, e se tivermos sorte, ninguém nunca mais vai encontrar.
Fechei os olhos por um momento. Se dermos sorte, aquilo era muito relativo. Mas estávamos falando de mim ali, Zayn não tinha nada a ver com aquilo, e caso algo acontecesse, eu seria a única responsável. É claro que sim, ele já pagara pelos próprios erros, e eu nunca deixaria que pagasse pelos meus também. Abri os olhos e encarei a arma uma última vez antes de assentir.
- Ok.

- Qual é a dúvida? – Malik perguntou, quando já fazia um tempo que eu estava parada na beira da água olhando para aquela arma antes de jogá-la.
- Ela é proteção.
- Não, , ela é encrenca. Seja para que for que você use essa arma, nada de bom vai sair disso. Agora atire. O mais forte que você conseguir. Se livre logo desse peso, encare as suas merdas de frente.
Zayn estava certo. Assenti mais uma vez, e respirando fundo eu fiz o que ele falou. Atirei a arma com toda a força que consegui, e ouvimos ela cair na escuridão da água há bons trinta metros dali, graças à luz do celular de Zayn. Ele deu dois passos para frente e parou ao meu lado. Senti um vento congelante soprar meus cabelos e o olhei, com uma das mãos escondidas dentro do bolso de sua jaqueta. Zayn me olhou também, e trocamos aquele olhar como cúmplices. Não somente por estarmos escondendo um crime juntos, mas porque estávamos enterrando aquilo. E eu sabia que nenhuma palavra precisava ser dita ali; nem eu nem ele jamais voltaríamos a trazer isso à tona.
- Vamos lá, eu quero aquele wisky que você vem escondendo faz tempo. – Tocou meu ombro com o seu, virando as costas para sair dali por onde entramos.


Usamos a porta de saída de emergência para entrar no dormitório feminino, e subimos até meu quarto sem fazer barulho. ainda não estava ali, o que era bom, porque ela definitivamente não permitiria que Zayn entrasse.
Entramos no tentando não fazer muito barulho no corredor, e fiz um sinal de silêncio para ele, encostando o indicador na boca e o deixando entrar no quarto. Fechei a porta e suspirei, tirando o casaco e indo pegar a garrafa de Red Label no fundo do armário, jogando-a para ele. Zayn observou com prazer a garrafa em sua mão por um momento, então arrancou a tampa e tomou três goles de uma só vez.
- Qual é o motivo? – fui até a cama e sentei, tirando os calçados e levantando os pés no colchão.
- Do quê?
- De querer tomar um porre? não está fazendo bem o trabalho dela? – encostei minha cabeça meio pesada na cabeceira da cama, o olhando com um sorriso devasso de quem insinuava algo, provocando-o. Era bom mudar de assunto, para se livrar daquele clima pesado.
- Eu garanto que estou menos desesperado do que o Louis. – Ele devolveu a provocação, piscando para mim.
Olhei-o com uma careta.
- Sabia que ia ouvir algo assim. – massageei as têmporas. – Não temos nada, eu e ele.
- Então quem tá necessitada é você. – ele riu e tomou mais alguns goles, me entregando a garrafa em seguida.
Não falei nada, apenas olhei-o por um tempo antes de tomar uns goles também. E acho que foi o fato de eu não negar que fez Malik me olhar de volta um tanto incrédulo, antes de chegar mais perto, parecendo pensativo.
- Quanto tempo faz que ninguém te fode tão bem a ponto de te fazer esquece as suas merdas por um tempo, ?
- Dezoito anos. – Respondi no mesmo momento, ainda o encarando com a cabeça meio deitada para trás.
Foi o suficiente. Zayn soltou a garrafa na cama e sentou ao meu lado, e eu apenas segui seus movimentos com os olhos, certa de para onde aquilo estava rumando, mas sem encontrar dentro de mim alguma vontade de impedi-lo.
- Vem aqui – Chamou com a voz baixa, tocando meu braço de modo que eu me desescorasse da cama e chegasse perto dele, e eu o fiz.
Zayn percorreu meu rosto com os olhos por um momento, enquanto eu fiz o mesmo. Tenho certeza que ele ponderava se aquilo valia a pena, assim como eu, mas aquele momento durou pouco, porque nenhum de nós estava em condições de avaliar nada com eficiência. Fora uma longa noite, e cada um de nós só queríamos pensar em outra coisa. Aquilo só parecia uma boa ideia no momento, e não nos aprofundamos muito na questão. Então, depois de passar a mão por debaixo dos meus cabelos e segurar a minha nuca, seu rosto avançou para o meu e eu apenas fechei os olhos, sentindo o impacto da sua boca na minha.
Aquilo era bom, Deus, como era bom. Fisicamente bom, quer dizer, sentir o calor humano de alguém tocando a minha pele. Há tanto tempo que eu não confiava em alguém o suficiente a ponto de simplesmente fechar os olhos de deixar acontecer, que já havia até esquecido como era a sensação. Zayn era como eu. Direto. E éramos, pelo menos eu acho, algo próximo a bons amigos. Ambos sabíamos que aquilo não significava muito mais do que duas pessoas meio chapadas fazendo algo que, no momento, pareceu interessante. Não tínhamos muito a perder. Nem um de nós ali estava levando aquilo a sério.
Então deixei que prosseguisse.


Zayn’s POV
Só vai.
Segurei pela cintura, puxando-a mais para perto. Eu disse que ia ficar com ela um dia. O dia era hoje. Eu tinha que aproveitar o máximo porque sei que ela não me deixaria fazer isso de novo sem um soco na cara.
Mas, claro, se o soco fizer parte de uma brincadeira mais selvagem...
Meu pensamento foi cortado pela mão dela na minha perna, apertando meu jeans entre os dedos. Prendi o lábio inferior dela entre os dentes, brincando com ele enquanto minha mão acariciava sua perna por cima da calça jeans colada. Coloquei a mão por debaixo da sua perna e a coloquei em meu colo, colaborando tão facilmente que nem parecia ela. Ela gemeu dentro da minha boca, excitando-me ainda mais.
Levantei da cama com ela no meu colo e a coloquei contra a parede colando mais seu corpo no meu, sentindo cada curva perfeita do corpo dela em meu peito – se é que você me entende.
- Você tem que ser melhor que isso, badboy. – Ela sussurrou em meu ouvido, soltando uma risadinha rouca logo em seguida. O que era aquilo? Um sinal verde? Soltei suas pernas, apertando mais minha cintura contra a dela, mantendo-a presa na parede e sorri, malicioso, evitando os olhos dela, que me observavam com certa curiosidade. Segurei a gola de sua blusa social delicadamente, alisando-a, só para provocar e então puxei de uma vez só, separando e arrebentando alguns botões no processo e olhei para o resultado: seus peitos cobertos apenas pelo sutiã preto.
- Seu filho da puta! O que você está fazendo?! – Ela olhou para baixo, indignada.
- Sendo melhor, . Não era o que você queri-
- Você fala demais. – Ela segurou minhas bochechas e me beijou de novo, com mais vontade. Terminei de abrir a blusa dela e envolvi sua cintura com minhas mãos, subindo para seu maravilhoso destino. Ela gemeu quando eu cheguei ao sutiã e apertei um pouco, fazendo-me continuar com o grande estímulo. Minhas calças já estavam justas demais, eu queria me livrar logo delas, mas eu sabia que não me deixaria passar daquele estágio.

Ao longe, em algum lugar, ouvimos risadas altas, ficando, também, cada vez mais altas e ambos nos afastamos, assustados. Olhamos para a janela que nos mostrava duas garotas andando pelo pátio, vindo em direção ao dormitório feminino. Ouvi a risada seca de enquanto ela fechava a blusa.
- Boa sorte, Malik. – Ela murmurou antes de me empurrar pelo peito e cair de pé no chão. – a chamou para dormir aqui hoje.
- Puta merda. – Falei, alisando a jaqueta.
- É, Zayn, puta merda. – Ela repetiu o que eu disse, mas não havia preocupação ou algum traço de solidariedade em sua voz. .
Revirei os olhos, peguei a garrafa de vodka em cima da cama e sorri para ela, cínico e vingativo. Ela, por sua vez, não falou nada, mas seu rosto me disse que ela não gostou disso. Eu nunca saio por baixo.
- Zayn – ela me chamou antes que eu abrisse a porta do quarto e, meio impaciente, virei-me para ela, esperando. – Louis e . Não podemos mais fugir do que quer que tenhamos com eles. Uma hora vamos ter que encarar isso.
Assenti como se ela estivesse falando besteira e eu não tivesse entendido nada, mas, no fundo, sabia que aquilo fazia mais sentido do que eu gostaria de admitir. Sem lhe dar uma resposta, saí pela porta do quarto apressado, olhando para os lados, pensando como eu sairia dessa sem me foder com .
Se ela me visse aqui... Era meu fim. Era o fim de tudo.
As risadas ficavam cada vez mais altas e eu me vi extremamente fodido. Cacete, o que eu ia fazer?
- Merda. – Xinguei baixinho, olhando em volta novamente. – Valeu, cara. – Olhei para cima e agradeci ao tio lá de cima, hoje ele parecia estar ao meu lado. Corri para a porta da escada de incêndio no fim do corredor e praticamente voei escadaria abaixo. Sem parar nem para respirar, desci os degraus tão rapidamente de tive medo de tropeçar e perder um dente.
Apenas parei para respirar quando me achei do lado de fora do prédio, ofegando como um cachorro louco, segurando a garrafa de vodka como se minha vida dependesse disso. E, porra, dependia. Se aquela merda cai no chão e explode, ia dar merda pra mim.
Olhei para os lados antes de sair das sombras e andar pelo pátio com uma calma controlada, sem levantar suspeitas. Senti que estava sendo observado e me virei uma única vez, encontrando na janela de seu quarto e eu tive que me segurar para não parar de andar e olhar melhor. Ela estava sorrindo, aquele tipo de sorriso: você é foda, cara.
Levei dois dedos à testa, em uma espécie de cumprimento e me virei de novo, indo em direção ao meu dormitório.
No final das contas, tinha um coração.


Capítulo 25

’s POV
Em um momento, havia o metal da arma gelada em minha mão.
O dia era ensolarado, porém frio, e tinha um vento insistente de outono. Hamburg tinha um cheiro diferente, como toda cidade portuária, que para mim cheirava a casa. O local era uma pracinha rodeada de arbustos e árvores, em um bairro pobre, em um local pouco movimentado. O chão era coberto de folhas de árvore secas. O carro era um Mustang antigo cor verde musgo e meio mal cuidado, estacionado ao meu lado na grama da pracinha, e a roda de parquinho em que eu estava sentada rangia a cada centímetro que se mexia. O rádio tocava uma música antiga do Coldplay, e me fazia lembrar de quando eu era mais nova e tinha uma paixão absoluta pela música. Atualmente, não tinha mais oportunidade de ter paixões supérfluas e que me faziam bem.
Ele estava parado, mais ao longe, com dois dos seus caras, esperando os negociadores chegarem. O plano era simples. Era só pegar o dinheiro e sair.
Do outro lado do parquinho uma criança brincava. A mãe dela se afastou por um momento, para acender um cigarro, enquanto minha mente completava a letra daquela música.
Foi só um segundo. Em um segundo tudo aconteceu.
No momento seguinte, o sangue quente escorria em minha mão.

Despertei de meu sonho, sentando na cama e levando a mão ao peito instantaneamente ao sentir o nó em meu peito. Engoli em seco com dificuldade e respirei fundo. Era o mesmo sonho de sempre.
- Você está bem? – Ouvi dizer, e só aí percebi que ela estava acordada, sentada em sua cama com óculos de leitura e um livro apoiado nos joelhos, seu abajur ligado. Assenti e olhei para o relógio na cômoda, que marcava uma e meia. – Não consegui dormir, então resolvi ler um pouco para a aula. Tudo bem com você? – Ela voltou a perguntar.
Aquela não era a primeira vez e nem seria a última que acordei de um pesadelo, e sabia. Ela também não era a pessoa mais sã para falar alguma coisa, e sabia que ela entendia o que era aquilo. Devia entender bem.
Voltei a deitar, mas sem conseguir fechar os olhos, e virei para o outro lado encarando a parede. Lá fora vez ou outra o vento soprava forte e fazia um barulho esquisito. Já era a terceira vez nessa semana que eu não conseguia dormir direito. Eu simplesmente não conseguia. Talvez eu estivesse perturbada com o incidente no beco, talvez eu estivesse farta de ficar presa ali, talvez eu só precisasse de mais liberdade. Ou que aquilo tudo acabasse de uma vez.
Morrer. Era mórbido e idiota, mas morrer corriqueiramente passava pela minha cabeça, como uma curiosidade inocente. Idiota, idiota, idiota. Eu já estivera naquela estrada antes. Nunca levou a lugar bom.
Mas qual era o propósito de tudo o que eu fazia naquele colégio? Fazer peças de teatro, beber com Zayn Malik de madrugada, fazer amizades com gente como , que não merece nada de ruim nesse mundo, ajudar os garotos com aquela banda ridícula que nunca vai passar de mais um sonho inalcançável... Ficar com Louis. Eu nunca mais o veria quando saísse dali. Eu não sei nem se faria falta, ou se ele me faria falta. Louis, sempre sorridente, bem humorado, feliz. Ele merecia alguém melhor do que eu. Ele sabia disso. Eu sabia disso. E ainda assim a culpa me corroía, estar com ele era tão bom que me fazia sentir mal; por ele. Porque ele merecia alguém que estivesse livre de problemas, que fosse capaz de acompanha-lo, e não de puxa-lo para baixo. Eu não era essa pessoa, e estava ignorando isso, me deixando levar, fingindo não ser essa pessoa amarga e assombrada, incapaz de dar a ele o que ele merecia.
Eu era patética. No desespero de sentir alguma coisa, eu me enchia de pílulas e álcool, ou fazia cortes em minha pele só para sentir o alívio, e não era novidade, não havia nada sobre mim que alguém pudesse me dizer tentando me ferir que eu já não soubesse.
Levantei da cama um bom tempo depois, quando já dormia. Era impossível aguentar o barulho em minha cabeça. Vesti uma jaqueta e por cima um casaco grosso, pois nevava lá fora, coloquei luvas nas mãos e umas botas altas e quentes. Peguei o cigarro e saí.
Sentei em um banco no pátio, depois de empurrar dez centímetros de neve para o chão e abrir mais um espaço na mesa para a carteira e o isqueiro. A abri, e comecei a fumar. Naquela noite eu ia fumar.
Fumei o primeiro.
Eu estava com medo do que poderia acontecer a partir de agora, caso ele voltasse a me procurar. Eu tinha arrepios quando pensava em ele descobrir sobre Louis. Sobre alguém que me fazia bem.
Fumei o segundo.
E se de algum modo alguém descobrisse aquela arma? Zayn não podia levar a culpa. Ninguém podia saber que ele tinha qualquer coisa a ver com aquilo.
Fumei o terceiro.
Será que meu pai estava bem? Será que eu devia fazer alguma coisa, dizer alguma coisa, pedir ajuda de novo enquanto ainda tinha tempo? Ele podia voltar a aparecer. Mas ele podia, por algum milagre, ter ido embora. Ter desistido.
Quem chamou a polícia? Por que ele foi solto? Será que não descobriram a lista de coisas que ele havia feito de errado? Quem havia atirado primeiro, naquele dia? Por que eu corri?
Eu fumei a carteira inteira. Havia neve em meus cabelos. Não sentia meus dedos das mãos ou dos pés. Meus lábios estavam ardendo. Eu não fazia ideia que que horas eram. Entrei em um estado, talvez causado pelo frio, ou pelo sono, ou tudo ao mesmo tempo, em que parecia que eu havia congelado ali. O tempo corria, mas eu só estava ali. Catatônica. Encarando o monte de cinzas na mesa. Sem conseguir me mover. A luz do sol deu as caras mais tarde. Eu sabia que precisava levantar dali, mas não encontrei força, não consegui mandar meu corpo obedecer.

Fechei os olhos por algum tempo, a luz do sol refletindo na neve fazia meus olhos doerem. E não sei por quanto tempo eles permaneceram fechados, porque quando eu os abri de novo Louis colocava uma manta xadrez nas minhas costas.
- . – ele chamou baixinho, passando a mão no meu rosto, tirando os cabelos dos meus olhos e observando meu rosto por um tempo. – Deus, você está tão gelada. Vem comigo, vamos entrar. Consegue levantar?
Eu permaneci imóvel. Até duvidei da minha capacidade de me mexer. Eu estava na mesma posição há muito tempo.
Louis se abaixou na minha frente. Passou as mãos nos meus braços, tentando me esquentar por um tempo. Olhei em volta, parecendo acordar aos poucos, me dar por conta de onde estava. Havia só duas pessoas passando pelo pátio ao longe, que nos olhavam curiosos.
- .
Levantei o olhar para ele. Talvez eu o tenha encarado por dois minutos inteiros, talvez apenas alguns segundos. Ele esperou paciente que eu falasse algo.
- Estou perdida. – foi o que saiu da minha boca. Saiu baixo, rouco, quase inaudível.
- Ah, . Vem comigo. – ele me puxou, e lentamente consegui ficar de pé. Me abraçou pelos ombros, e caminhou comigo em direção ao prédio do refeitório. – Não se preocupe – ele murmurou – Eu acabei de te achar. – beijou o topo da minha cabeça, e segurou firme a manta xadrez em volta de mim.
Nós entramos e caminhamos até o refeitório. Éramos os únicos acordados àquela hora da manhã. Nos direcionamos para uma mesa perto de onde o café da manhã era servido, e nos sentamos ali.
- Você espera aqui, eu vou pegar um chocolate quente para nós dois. – ele ordenou quando eu sentei.
Não fiz objeção alguma, então Louis apenas foi pegar os chocolates. Voltou bem rápido com duas xícaras vindas direto da cozinha, porque ainda não haviam nem colocado a comida para fora devido ao horário. Ele sentou, puxando a cadeira para o meu lado, e me deu uma xícara, fazendo um gesto para que eu tomasse. Segurei-a, sentindo minhas mãos esquentarem aos poucos. Coloquei a xícara perto do rosto para sentir o vapor subindo, e então dei um gole. O líquido desceu queimando minha garganta, e não como o álcool faz. De um jeito mais literal e doloroso. Fiz careta.
- Calma aí. – ele riu. Pegou minha xícara e soltou-a na mesa.
- Como você sabia que eu estava acordada? – perguntei.
Ele encolheu os ombros.
- foi uma noite difícil, com aquele vento. Eu imaginei que você não tivesse conseguido dormir.
Franzi o cenho.
- Foi uma noite difícil para você?
Ele assentiu um pouco.
- Harry não conseguia dormir, então levantou de madrugada para jogar videogame. Ele é meio barulhento – deu de ombros.
Dei de ombros também.
- Qual é o problema, hum? – ele passou o polegar na minha bochecha e tomou um gole do seu chocolate. – Quer falar?
- Só... Não consegui dormir.
Tomei outro gole, agora conseguindo engolir sem um hematoma interno, e me escorei na cadeira. Soltei a xícara e com cuidado tirei minhas luvas, abrindo e fechando as mãos geladas. Louis soltou sua xícara e puxou as minhas mãos, as colando juntas, e segurando entre as suas. Levou até a boca e assoprou, fazendo atrito entre suas mãos para esquentá-las.
- Você precisa de um banho, tá fedendo igual o Zayn. - Soltei um riso anasalado, e ele me acompanhou. – Depois deita e dorme um pouco, a gente estuda o que você perdeu mais tarde.
Ergui o olhar da mesa, depois de pensar por um tempo, e o olhei.
- Essa noite.
- O quê?
- A vai estar no quarto das garotas. Você pode ir para lá. Podemos estudar.
Ele abriu a boca por um momento, e então suspirou pesadamente.
- Tá bom, mas estudar! – Revirou os olhos, me fazendo rir. Ele encostou o rosto em minha testa, me puxando para perto, e suspirei ao sentir meu estômago congelar por um segundo. Louis deixou um beijo em minha testa. – Vou levar um filme.
Seu cabelo tinha um cheiro bom. E aquilo só podia significar que eu estava ferrada.

’s POV
Ao entrar na cabine privada de estudos em grupo da biblioteca, Harry não havia chegado ainda. Espalhei minhas anotações sobre a mesa e decidi passar o tempo de espera lendo Moby Dick, um dos livros que estavam na bibliografia da aula de Literatura. Em algum momento, mergulhei completamente no livro e não percebi o tempo passar e foi só quando Harry abriu a porta da cabine que eu notei que se passara 40 minutos de espera. Arqueei uma sobrancelha para ele, que apenas me deu um sorrisinho contido de volta.
- Foi mal – disse.
- Não foi mal. Foram 40 minutos.
- Eu me enrolei no treino da banda.
- Sério? Eu não ligo.
- Qual é, ! – Revirou os olhos.
- Você não me rouba muito mais do que meu tempo, Harry. Mas é você quem vai bombar se não der atenção ao que está acontecendo.
- Você é sempre otimista assim ou está se esforçando muito hoje?
Não respondi sua provocação e apontei para a cadeira que o acomodaria de frente para mim.
- Vamos começar pelo mais fácil. – Passei-lhe o primeiro livro da lista de Literatura.
- A Revolução dos Bichos. – Leu o título da obra que pegou. – A gente não pode ver o filme?
- O filme nunca é como o livro – garanti. – Além disso, eu odeio live action com animais falantes.
- Eu não tenho problema nenhum. – Harry piscou para mim.
- Você não vai se safar desse livro. E se a pergunta da prova pedir uma análise do estilo do Orwell?
- Como eu vou saber qual era a moda da Idade da Pedra? – Retrucou como se minha suposição fosse insana.
- Estou falando do estilo literário.
- Ah... – murmurou, mas eu sabia que ele não fazia ideia do que eu estava falando.
- Leia isso no seu tempo livre... – Sugeri e, vendo que ele ia protestar contra aquilo, fui mais rápida e lhe lancei um olhar duro. – Arranje tempo, Harry.
- Cacete, , isso é impossível! Como eu vou fazer tudo isso até o final das aulas?
- Vi nesse artigo científico de Harvard um conceito muito complexo que foi descoberto chamado “organização”. – Abri um sorriso para ele, deixando claro que eu estava zombando dele.
- Rá, rá, rá. – Bufou. – Tá, que mais?
- Vamos para Biologia. – Anunciei, pegando as anotações da matéria e coloquei diante dele, que deu uma rápida espiada no conteúdo delas.
- O quê?! Sem anatomia?! Como eu vou ter desculpa para te ver pelada agora?
- Sabe que eu concordo com você? Sem a matéria de anatomia você nunca vai entender que seu cérebro está na sua cabeça e não no seu pinto.
- Você pode me examinar, se quiser. – Piscou mais uma vez.
- Ok, já chega. – Fechei o livro de biologia que tinha aberto diante de mim e, me colocando de pé, comecei a arrumar as minhas coisas para ir embora.
- Não, não! – Harry segurou meu braço. – Tudo bem, eu paro! Não me deixa aqui, por favor, você é a minha melhor chance de não reprovar.
Parei de arrumar os materiais e olhei para ele.
Seria cômico se não fosse trágico.
O cara não tinha mais ninguém, vamos ser sinceros. Era só vacilo atrás de vacilo e, finalmente, seus amigos perceberam que não valia tanto a pena viver na sombra dele para sempre. E agora, o cara, o fodão, o incrível Harry estava desesperado para ter alguém que o ajudasse a passar de ano, ou que ao menos lhe fizesse companhia enquanto assistia algumas coisas desmoronassem.
Eu mesma não tinha nada contra ele, apesar de ele ter sido um belo filho da puta com a , mas isso não implicava que ele era má pessoa. Só não batia bem da cabeça.
Ele só estava perdido por muito tempo e só agora se deu conta disso.
Não podia deixa-lo afundar em seus próprios problemas. Esse tipo de atitude causava uma ferida imensa na minha própria confiança e esclarecimento.
- Você jura que vai levar isso a sério? – Dei-lhe uma segunda chance.
- Você é demais! – Ele sorriu.
- Jura ou não?
- Juro juradinho. – Levantou o dedo mindinho para mim e eu não pude evitar uma risada.
- Você é patético. – Soltei, alfinetando.
- Um dos meus maiores charmes. – Passou a mão pelo cabelo e piscou.
- Ok, se vamos fazer isso, você vai ter que parar de dar em cima de mim. – Anunciei enquanto me sentava novamente na cadeira.
- Como vamos transar se eu não deixar minhas intenções claras?
- Isso não vai acontecer. – Declarei.
- Mas nós estamos estudando juntos! É tipo uma regra! Aconteceu em Um Amor para Recordar!
- Primeiro: eles praticaram o roteiro de teatro juntos. Segundo: não deu certo. Terceiro: eles não fizeram nada até o casamento. Quarto e último: como você acabou assistindo esse filme? – Enumerei os tópicos nos dedos.
- Você tem que se permitir coisas diferentes de vez em quando, ok? – Bufou.
Soltei uma risada com sua reação.
- Claro, com certeza.
- Que legal! Elas querem um cara mais sensível, mas se eu digo que vi um filme romântico e é “nossa, olha ele!”.
- Harry! – Soltei outra risada. – Calma! Não estou zombando!
- Não está! Não está! Uhum, sei.
- Calma, sua masculinidade não é tão frágil assim, ou é?
Ele me lançou um olhar severo e irritado, mas não respondeu, o que só me fez rir mais uma vez.
- Olha só, ela ri! – Alfinetou. – Que bom que sou motivo de tanta alegria.
Pigarreei, controlando-me e abri o livro de Biologia.
- Ok, ok! – Limpei o canto do olho que formava uma lágrima. – Vamos começar.

Louis’ POV
Harry soltou uma risadinha insinuante pela segunda vez, e novamente eu ignorei enquanto olhava meu reflexo no espelho do banheiro, tentando entender porque aqueles cabelos não se assentavam em minha cabeça e ao invés disso teimavam em me fazer parecer um porco espinho. Era cabelo apontando para tudo que é lado.
Harry pigarreou.
- Escuta, cara! – Soltei, já frustrado, e espiei pela porta para ele que estava jogado na cama jogando alguma coisa no videogame. – Você precisa aprender a controlar o seu ciúme por mim, porque está ficando bizarro...
- Tomlinson, se eu fosse sentir alguma coisa por você agora seria inveja.
Revirei os olhos e, desistindo da tentativa falha de fazer meus cabelos parecerem mais normais, eu saí do banheiro e desliguei a luz. Passei pela frente da TV e fui até minha cama, pegando uma pilha de livros e cadernos dela e enfiando na mochila no chão, que logo joguei no ombro. Coloquei o capuz do moletom e enfiei as mãos nos bolsos.
- Eu vou indo.
- Não esquece, oito e meia. E a camisinha, tá lev... – bati a porta do quarto e deixei Harry falando sozinho. O nosso corredor àquelas horas não era nem tão cheio e nem tão vazio, havia sempre gente indo ou voltando do refeitório ou de algum outro compromisso, por isso não era estranho que eu estivesse saindo com a mochila. A biblioteca, assim como as salas de estudo, a academia e o ginásio só eram fechados às dez da noite durante a semana.
Saí do prédio e fiz a volta por trás dele, caminhando por um terreno meio barrancoso, que descia para os muros da propriedade e os campos escuros atrás deles, que rodeavam o lago. Ali atrás era escuro porque não havia muita luz, ao não ser na lateral do prédio onde percorria uma calçada cimentada por onde devíamos sair em caso de emergência. O prédio das garotas era igual, e era para lá que eu me dirigia com um pouquinho de pressa para fugir do vento frio da noite. Ao chegar na frente da escada de saída de emergência das garotas eu olhei em meu relógio e constatei ser oito e vinte e oito. Minerva ia jantar às oito e meia, e depois voltava para conferir todos os quartos antes de ir deitar, assim como Robert no nosso prédio. Nos corredores também havia câmeras, mas ao não ser que houvesse um grande tumulto nos prédios eles não se incomodavam em procurar minuciosamente por algum intruso do sexo oposto nos dormitórios, acho que em parte porque era lógico que aquilo acontecia muitas vezes e todo mundo sempre teve o cuidado de fingir que não sabia ou nunca fez nada. E afinal eles não tinham como efetivamente impedir que alguém entrasse pela porta de trás, já que o objetivo de uma porta de emergência era, basicamente, estar sempre aberta em casos de emergência.
Exatamente às oito e meia eu me segurei na escadinha de ferro da saída dos andares de cima e fiz um certo esforço para alcançar a beirada da porta, que ficava há mais ou menos um metro do chão. Alcei-me para cima e segurei a maçaneta, e depois de puxar a porta para fora eu entendi porque era necessário esperar que a Minerva saísse: O rangido que a porta dava ecoava pelo corredor e basicamente gritava feito um alarme para abrir e para fechar, e ela com certeza teria ouvido se estivesse lá. Xinguei baixinho e entrei de uma vez no corredor, fechando a porta com rapidez e um baque no final, xingando mais uma vez e espiando se ninguém estava vindo na minha direção. Do outro lado do comprido corredor estava a porta de entrada, por onde algumas garotas entravam conversando e se dirigiam para a escada, lançando um ou outro olhar na minha direção.
Antes de sequer ter certeza de que Minerva não estava lá eu caminhei a passos largos até a escada e subi de dois em dois degraus, parando apenas quando cheguei no segundo andar e depois andando sem pressa até a porta do quarto de e . Dei duas batidinhas. Eu definitivamente não gostava da ideia de estar num prédio cheio de garotas, que podiam me entregar a qualquer momento se me pegassem ali, mas sabia que eu não era o primeiro e nem seria o último cara ali e muito provavelmente ninguém me entregaria.
abriu a porta cortando meus pensamentos, e abriu um sorriso leve ao me ver deixando espaço para que eu entrasse. Olhei em volta ao pisar dentro do quarto e ele estava um tanto escuro com apenas a luz do banheiro e do abajur acesas e as cortinas abertas. O cheio era uma mistura leve de algo que lembrava incenso e sabonete de ervas.
- Eu estava no banho, acabou de sair...
Olhei para ela quando terminei de observar o quarto e meus olhos desceram para sua roupa.
- É... da . – Ela cruzou os braços por cima da blusa surrada do Piu Piu. Ri. – É sério. Ela me empresta muita coisa, eu sou desorganizada com a lavanderia...
- Pensei que fosse um modo não convencional de me seduzir. – Brinquei, soltando a mochila na ponta da sua cama, e ao olhar para ela de novo vestia um casaco por cima da blusa.
- Se isso funcionar com você, deve ter alguma coisa errada. – Riu fraco.
Mas o que em não funcionaria para seduzir um cara? Por um breve momento me perguntei isso seriamente.
- Você trouxe o filme?
- Filme? – A olhei, depois de voltar para a Terra. – Ah, sim. Mas não encontrei nada educativo sobre a aula de filosofia que você perdeu hoje, então eu trouxe... – Abri a mochila e tirei de dentro a capa. – O Show de Truman.
- Clássico.
- Estava na seção de psicologia – dei de ombros. – E você, vai ficar aí? – Girei a capa do filme nas mãos.
- Aqui...? – Ela me olhou, curiosa. Parecia um tanto ansiosa.
- É, há dois metros de mim, de braços cruzados. – Abri um sorrisinho. Eu parecia um cara muito sábio, muito à vontade, muito legal. Parte de mim realmente se sentia assim às vezes. Mas perto dela, a maioria disso vinha de lugares de dentro de mim que eu nem reconhecia. Se não tivesse conhecido durante meses, pouco a pouco, eu jamais conseguiria falar com uma garota como ela sem gaguejar ou soltar umas pérolas muito terríveis.
- Ah.... Hum. – Ela descruzou os braços e se aproximou de mim, passando para ir até a cômoda e abrindo a primeira gaveta. – Eu peguei isso na máquina mais cedo – tirou dois pacotes de M&Ms de lá e jogou um para mim, que peguei no ar. – Já que não temos pipoca.
- Muito inteligente – abri um sorriso sentando na cama e procurando a abertura do pacote. Cara, M&Ms era muito bom.
- Não ainda! – arrancou o pacote das minhas mãos, parando em minha frente. – Nós precisamos fazer aquelas tarefas antes de você ingerir meio quilo de açúcar. Eu realmente preciso da sua ajuda com isso, sabe... – Balançou a cabeça e ri fraco.
- Tem razão. Vamos lá, então.
Tirei minhas coisas da mochila, e enquanto isso pegou seus cadernos e depois sentou comigo. Eu entreguei a ela minhas anotações da aula de filosofia e mandei as fotos dos cadernos das outras pessoas que faziam as mesmas aulas que ela durante a manhã, que eu havia conseguido sem muita dificuldade. Depois abrimos o livro de filosofia em uma página de exercícios, e fizemos alguns deles sem muita dificuldade.
- Você conseguiu dormir pelo resto da manhã?
- Sim. Acordei na hora do almoço e depois peguei as aulas da tarde. Acho que consegui um resfriado com aquilo, minha garganta dói, mas... – deu de ombros e balançou a cabeça e eu a olhei por um segundo enquanto copiava a resposta de uma questão tirada do meio de um texto.
- Se você acordar mal, vá até o refeitório na hora do café e peça um chá direto da cozinha. É o melhor remédio, eu faço isso sempre que preciso.
- Ok... Você realmente conhece todos os detalhes do lugar, hum? – Me olhou rapidamente.
- É, sabe como é. Vivi aqui durante quase toda a minha vida. – Dei de ombros.
- E não enjoa? Não cansa estar aqui?
- Bem... – Levantei a cabeça e abri a boca, pensando por um momento. – É como a sua casa, na verdade. É sempre a mesma coisa, mas... É a sua casa, entende?
Ela assentiu, mordiscando a ponta do lápis.
- E você, passou por muitas escolas?
- Eu passei por algumas, na Alemanha. E também por duas aqui, no Reino Unido. Manchester. – Ela comentou e arqueei as sobrancelhas, surpreso.
- Pensei que tivesse vindo direto da Alemanha.
- Bem, não. Foi no final do ano letivo passado. Mas eu fiquei em ambas menos de dois meses, eu não... não estava conseguindo acompanhar. Meu pai... – Ela riu fraco. – Comprou a minha aprovação, ele não queria que eu repetisse mais um ano.
- Você já repetiu um ano? Quando foi?
colocou os cabelos para trás. Olhou para o caderno e bateu a ponta do lápis na folha.
- Acho que terminamos aqui.
Olhei para meu próprio caderno, engolindo a curiosidade, e assenti.
- É.
- Uau, isso foi rápido – ela fechou o caderno. – Será que tem algo a ver com aqueles M&Ms? – Me olhou e eu olhei para os pacotes em cima da cômoda.
- M&Ms? Que M&Ms? Eu nem lembrava...
- Ok! – Ela riu. – Filme. – E se levantou, pegando o filme de cima da minha mochila e indo para perto da TV ao lado da porta, se abaixando para abrir a pequena porta onde ficava o DVD e o ligando. – Eu nunca mexi nessa coisa, não sei se algum dia foi usado.
Recolhi meus materiais e os coloquei dentro da mochila, que eu soltei no chão. Olhei para a cama ao lado, bem arrumada e vazia.
- A está...?
- Estudando com a .
- E ela não vai... Hum, ela vai...?
tirou os cabelos do rosto e olhou por cima do ombro.
- Demorar para voltar?
- É, quer dizer – De repente eu me senti embaraçado. Não queria que aquilo soasse como se eu tivesse ido ali com a intenção de conseguir qualquer coisa a mais dela, mas também não sabia como agir a partir do momento em que guardei os cadernos, quer dizer, ela queria que eu fizesse alguma coisa ou...? – Quer dizer, ela não vai ficar chateada de eu estar aqui...? Sabe como ela é toda correta.
- Ah, não, ela sabe. E tecnicamente você está do meu lado do quarto... – Abriu um sorriso e voltou a mexer no DVD, dessa vez conseguindo acessar o menu do filme. Ouvi um apito ao longe em algum dos quartos do corredor e me olhou. – É melhor você ir para o banheiro, a Minerva tá vindo.
- Como você... Aquele apito era um sinal?!
soltou uma risada fraca.
- Garotas também têm seus códigos. – Deu de ombros. – Alguém deve ter visto você entrar.
Meio boquiaberto eu levantei e fui até o banheiro, deixando a porta encostada e desligando a luz. Aquilo era genial, não podia esquecer de passar essa ideia para os caras também. Meio minuto depois a porta foi aberta e vi pela fresta do banheiro sentar na cama com o controle do DVD na mão e empurrar minha mochila para baixo da cama com o pé.
- Onde está a ? – Perguntou a voz asmática da mulher.
- Com a . Sabe como essa porcaria funciona? – bateu o controle na mão algumas vezes. – Eu nunca vou conseguir assistir esse filme a tempo de entregar o trabalho amanh...
Mas a porta já havia sido fechada de novo. Abri a porta e ri fraco indo até a cama de novo.
- Ela tem pavor de começar uma conversa com algum aluno, eu acho...
- Me lembra alguém. – Brinquei pegando um pacote de M&Ms e sentando ao seu lado. me olhou, estreitando os olhos, e eu abri um sorriso satisfeito. Deitei para trás, ouvindo o som de abertura da Paramount na TV, e derramei umas bolinhas na boca fechando os olhos. – Hum... Maravilhoso.
Senti se ajeitar ao meu lado e, depois de um segundo de silêncio, eu abri os olhos e a olhei.
- Quer? – Ofereci o pacote a ela, que olhou para minha mão e em seguida para mim por um segundo. Tirou o pacotinho da minha mão e afastou de nós dois, soltando em algum lugar.
- Quero.
Continuei deitado imóvel enquanto via ela se aproximar aos poucos e, então, encostar a boca na minha. Senti seu corpo sobre o meu e segurei sua cintura enquanto dava início ao beijo, sentindo os cabelos de caírem em volta da gente. Levei uma das mãos à sua nuca, afastando os cabelos de lá para cima do seu ombro, e mesmo que meus pulmões ardessem pela falta de ar eu não me afastaria daquele beijo enquanto ela não o fizesse. tocou uma das mãos em meu rosto e, afastando-se devagar, enrolou a ponta dos dedos em uns fios do meu cabelo. Inspiramos um pouco de ar, com alguns centímetros de separação entre nós, e antes que eu pudesse abrir os olhos ela pressionou os lábios nos meus outra vez, mordiscando meu lábio inferior de leve antes de se afastar.
Dessa vez abri os olhos. Ela continuava ali, perto do meu rosto, e de repente eu não tinha cabeça para assistir filme nenhum. Pigarreei, sentindo que minha voz falharia.
- Acho que vou virar professor de filosofia. O pagamento é bom.
soltou uma risada abafada, tocando a palma da mão no meu rosto e o empurrando para o lado ao sentar-se novamente. Ri fraco e coloquei os cabelos para trás, a observando antes de eu também sentar e empurrar os calçados dos pés, me ajeitando na cama ao seu lado.
- Devolve os M&Ms. – Pedi, puxando o pacotinho de volta para mim e me encostando nela para comer. pegou alguns também, e se ajeitou mais confortavelmente na cama ao meu lado. Eu também o fiz e passei um braço pelos ombros dela, tocando meu rosto em seu cabelo por um instante e sentindo o cheiro bom do seu shampoo. riu fraco com alguma coisa sobre o filme e encostou a cabeça em meu ombro.
Oh, e se a gente não se ver: bom dia, boa tarde e boa noite.”

’s POV
- Eu faço a introdução – anunciou . Assenti para a folha em que eu escrevia quem faria o quê do trabalho de Economia; uma das poucas aulas que tínhamos juntas.
- Não se esqueça daquela referência da Penrose! – Lembrei-a.
- Você sabe que não muita coisa a ver com o tema que escolhemos, não sabe?
- Sei, mas seria bom apenas esfregar na cara da sociedade mais uma vez como ela foi uma grande economista. – Encolhi os ombros e riu.
- Existe algum motivo especial pelo qual eu nunca entendo uma palavra do que vocês dizem? – levantou os olhos da lista de exercícios que respondia e nos fitou com curiosidade e um pouco de sarcasmo ao mesmo tempo.
- Você não faz Economia com a gente – supôs.
- É, deve ser isso. – riu. – Não tem nada a ver com aquele título de estrelas da escola que paira sobre suas cabeças enquanto se movem, falam e pensam.
- Ah! A estrelas da escola! – Suspirei dramaticamente. – Lembra-se delas, ? Tão inteligentes e donas de si! Ouvi dizer que elas não tinham amigos de verdade porque só o que sabiam fazer era estudar e usar maquiagem.
- Os estereótipos evoluíram por aqui – observou ela. – Mas é impossível esquecer delas, afinal, são uma lenda.
- Isso! E, sendo lendas, nunca existiram. – Concluí.
- Minha opinião sincera é que elas na verdade se empanturravam de doces no quarto e assistiam filmes de suspense policial o dia inteiro – ela cochichou.
- Leu minha mente, dude! – Estendi minha mão e fizemos um high-five.
- Custava só dizer que nunca foram assim? – revirou os olhos.
- Claro que não! As estrelas da escola sempre vão além – mostrei a língua para , que me devolveu o gesto, fazendo ambas caírem na gargalhada.
- As pessoas gostam de inventar coisas. Como aquela vez em que disseram que você e o Harry eram irmãos e tinham um relacionamento incestuoso. – contou com descaso, mas logo tampou a boca e olhou para com preocupação. – Foi mal! Não devia falar dele!
suspirou baixinho antes de colocar um meio sorriso no rosto e responder:
- Está tudo bem, sério, o Harry se foi.
- O Harry dorme a duzentos metros de você – disse sugestivamente.
- Não quero falar sobre ele. – olhou o lago pela enorme janela de vidro do refeitório que dava a vista para a água. – A gente devia entrar naquele lago alguma vez.
- Terminantemente proibido – falei.
- Ninguém precisa saber – insistiu.
- A temperatura da água deve atingir dois graus ao meio dia. – arqueou as sobrancelhas.
- Nós não precisamos estar sóbrios.
- Meu Deus, como ela está rebelde! – Brinquei. – Quem será que te mudou? Será que foi aquele carinha da faculdade? Como é o nome dele? Bill? Jill? Will?
- Oh, yeah! Will! – fez uma voz afetada e beliscou o braço de , que o afastou imediatamente.
- Deixem de ser idiotas – revirou os olhos.
- Nossa, , com quem ela aprendeu a revirar tanto os olhos? – continuou provocando. – Será que foi com a ?
- Rá, rá! Vocês são tão engraçadinhas que eu vou até sair daqui! – se levantou rapidamente e jogou suas coisas na mochila, mas acabou dando risada. – Vocês são idiotas. – Reforçou.
- Você nunca vai achar idiotas como nós. É por isso que você gosta tanto da gente – pisquei para ela, que riu mais uma vez.
- Vou para a aula de Biologia. – Anunciou. – Encontro vocês mais tarde!
Ela se afastou da mesa e logo saiu do refeitório, deixando-me sozinha com .
- Com certeza é o Bill. – Estreitei os olhos.
- Will. – me corrigiu.
- Ah, sim, tanto faz. Ele não vai durar.
- Quê? Por quê?
- Você sabe muito bem a razão. – Abri um sorrisinho sugestivo.
pareceu entender.
- Ah, só por cima do meu cadáver!
- Você sabe que vai acontecer... Eventualmente.
- Pois a vai ouvir o maior sermão!
- É o destino.
- E o destino também vai se ver comigo!
Soltei uma risada.
- Aquele imbecil vai ter que rebolar muito para conseguir sequer a amizade dela de volta!
- Bom, então acho que ele vai rebolar muito, porque você sabe que vai acontecer.
- Já entendi, vidente ! – Ela bufou. – Bom, preciso voltar ao dormitório antes do almoço. Vem comigo?
- Hm... Não. Preciso terminar algumas tarefas – fiz careta para minhas anotações espalhadas sobre a mesa.
- Ok – ela arrumou suas coisas e deu um beijo no topo de minha cabeça. – Qualquer coisa, liga. – Começou a se afastar da mesa, mas rapidamente voltou para onde estava ao meu lado. – Ei, não te perguntei hoje, mas você está bem?
- . Eu estava bem domingo, ontem e estou bem hoje.
- Mesmo?
- Mesmo. – Garanti, vasculhando rapidamente minha mente em busca de qualquer coisa que quisesse compartilhar com sobre aquele assunto.
Não havia muito a dizer; no almoço de domingo eu lhe contara do passeio até o castelo e lhe disse também que, honestamente, não sabia como estava me sentindo, mas “mal” era a última coisa que se passava pela minha cabeça. Acho que passei tanto tempo inerte nas minhas próprias dores que desenvolvi uma espécie de dormência e, se nunca me forçasse a sair dela, nunca perceberia que a dor passara.
A única coisa que restara foi aquele medo estranho e às vezes devastador de estar me esquecendo de Catherine.
- Bom, nesse caso, fico feliz! – Ela respirou aliviada. – Até mais tarde! – Mandou-me um beijinho no ar e se afastou, saindo do refeitório logo em seguida.
Tirei meus fones de ouvido da bolsa, selecionei uma música qualquer em minha biblioteca de músicas do celular e comecei a fazer a redação extra da aula de Inglês.
Em algum momento, senti a presença de alguém e olhei para cima para me deparar com Niall falando alguma coisa que eu não podia ouvir por causa dos fones de ouvido e a música alta que eu ouvia. Tirei-os rapidamente e sorri para ele, desculpando-me.
- O que disse? – Perguntei
- Eu quero ver. – Foi só o que ele disse.
Franzi o cenho e abaixei a cabeça, recolocando os fones e me voltando à redação, mas Niall me cutucou. Tirei os fones mais uma vez e o fitei.
- Estou falando com você, ! – Disse, parecendo um pouco inconformado.
- Não, não está. Você está delirando e é por isso que eu não vou falar com você sobre essa ideia ridícula.
- Não é ridícula. Na verdade, eu acho até que tenho o direito de vê-la.
- Rá! – Soltei. – Acho que quem decide isso sou eu, ou seja, não!
- !
- Niall! Isso é inadmissível! Você não sabe o que é para mim tê-la de volta!
- Mas...
- Eu já dei minha resposta, Niall: não!
- Um dia você vai ter que me deixar conhece-la.
- Niall... Olha... – fechei os olhos. – O castelo... Aquilo foi bom. No início foi péssimo, mas, depois, foi bom. E eu posso dizer para você, do fundo do meu coração, que eu te agradeço por ter me dado esse empurrão.
- Por nada – abriu um sorriso.
- Mas – continuei – isso não significa que eu estou pronta para revirar tudo. Ou seja, ninguém vai saber sobre ela até que eu decida o contrário. Capiche?
Niall suspirou como uma criancinha indignada faria e balançou a cabeça afirmativamente.
- Tudo bem, desculpe. Você está mais que certa e eu não posso vir aqui... É só que eu sei tão pouco sobre ela!
- Não tem muita coisa para saber – garanti.
- Isso eu só poderei ter certeza quando a conhecer.
- Nunca.
- Um dia.
Niall me encarava, desafiador e ao mesmo tempo brincalhão, e eu o encarava de volta, levando aquilo tudo mais a sério do que ele imaginava. Balancei a cabeça quando ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado e começou a falar, terrivelmente animado, sobre como tinha um milhão de coisas que ele gostaria de saber quando conhecesse a Lola.

Zayn’s POV
- Tomando sol, ? - Falei ao me aproximar da garota sentada em uma das mesas de pedra no pátio. - Tentando aquecer o sangue? - Provoquei.
- Na verdade, eu achei que assombração não aparecesse durante o dia, mas pelo visto, eu me enganei. - Respondeu ao olhar para mim por um breve segundo. Ri fraco de sua arrogância e me sentei ao seu lado.
- Sabe, , essa é a maior frase que você já dirigiu a mim. Estou lisonjeado.
- Vai pro inferno, Malik. - Ouvi-a murmurar.
- Depois de salvar sua vida, é isso que eu ganho? – Balancei a cabeça. - Como você está se sentindo hoje? – Perguntei.
- Curiosa. - Ela olhou para mim. - Você não tem nada melhor para fazer?
- Não. - Respondi e ela arqueou as sobrancelhas como se isso não fosse inédito. E não o era, de fato. - O que você tá fazendo aqui?
- A professora de Sociologia pediu que fizéssemos um perfil social individual. Tenho que voltar daqui uns trinta minutos.
- Ah... - Rolei os olhos. - Esses professores acham que são o quê? Psicólogos?
- Eu gosto do falso interesse deles. - Ela deu de ombros. - Os adolescentes reclamam por não serem ouvidos, eis a chance de serem levados a sério por um adulto.
- Quanta reflexão, isso é o quê? Maconha?
- Malik, eu estou realmente interessada no dever, quero fazer. Pode respeitar isso?
- Ok, ok. Foi mal. - Levantei as mãos em defesa.
- Você não faz isso? Não dá um giro de 360° na sua vida e vê como tudo está?
- Por que eu faria? Analisar problemas é para quem tem. - Lancei um olhar para ela, que por sua vez revirou os olhos.
- Você não tem problemas. - Não foi uma pergunta, mas notei o tom cético e desafiador em sua voz.
- Deixa disso, . Quem você é? Bob Marley?
- Você deveria pensar na sua vida. - Insistiu.
- E o que 'pensar na vida' trouxe a você? Um monte de remédios e fantasmas.
- Pelo menos eu não finjo que está tudo bem. Qual é, você matou um cara, roubou um carro. Você foi para o reformatório, ouvi dizer que lá é um inferno.
Ela me olhou nos olhos, desafiando-me a admitir que estava certa.
- E é. - Soltei uma risada seca, não por achar graça naquilo, de forma alguma, mas por força do hábito. - Mas você deveria checar suas fontes, . Não matei um cara.
- Mas roubou um carro. - Insistiu.
- O objetivo disso aqui é apontar minhas merdas? Quer que eu fale as suas também? – Apontei para a marca roxa em meu olho.
- Não leva pro lado pessoal, Malik, só acho que você não tem motivo para se gabar da vida. - Ela acenou com a mão, mostrando seu total descaso. Trinquei os dentes.
- Você não sabe o inferno que eu passei, então guarde seus pensamentos egocêntricos para você mesma. Você pode não acreditar, mas a sua vida não é a mais fodida por aqui, abaixe sua bola.
Os olhos dela queimaram os meus antes de ela falar:
- Fine. - Disse, os olhos ainda nos meus. - Diz então quão terrível tem sido sua vida nos últimos anos, eu estou morrendo de curiosidade para saber o que Zayn Malik, o Foda, passou para ser o babaca que é.
- Primeiro: eu gostei desse título. - Sorri minimamente e ela balançou a cabeça em reprovação. - Segundo: foi um pesadelo, eu peguei um ano e meio, cumpri, saí e é por isso que eu não posso reclamar da minha vida. - Enfiei a mão no bolso da jaqueta para pegar um cigarro. olhou para mim por alguns segundos.
- Acabou? - Ela piscou duas vezes.
- Acabou. - Afirmei.
- Eu esperava detalhes, isso é um pouco frustrante.
- Essa é a vida. Não tem nada de mais para se dizer sobre minha estada no reformatório.
- Você está mentindo. - Ela mal esperou eu terminar de falar.
- Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade. - Respondi casualmente.
- Não me surpreende você usar uma fala do Hitler.
- Ele era um homem de visão...
- Malik!
- Talvez ele tivesse a visão errada...
- Você é tão idiota. Nada é sagrado para você?
Acendi um cigarro antes de responder.
- Talvez... – Afastei o cigarro da boca e o observei queimar.
- Toda essa babaquice porque você foi a vadia dos garotos no reformatório, Malik? - Ela tombou a cabeça de lado com falsa inocência, um sorriso cínico e o tom venenoso.
- Vai se foder, .
- Você foi?! - A qualquer momento, ela explodiria em risadas.
- Claro que não, ! Cacete, que merda você está usando?! - Joguei o cigarro longe, com raiva.
- Então... O que de tão horrível rolou lá? - assumiu sua expressão entediada novamente.
Irritado ao máximo, tirei a jaqueta bruscamente e a larguei em cima da mesa, depois me coloquei de pé e levantei a blusa social na região da bacia, deixando à mostra minha cicatriz. me olhava assustada com minha agressividade e só depois baixou os olhos para a marca.
- Eles odeiam muçulmanos. - Foi só o que eu disse e ela olhou para mim novamente. Eu não queria a merda da pena dela, apenas queria que ela visse que a vida é filha da puta somente com ela.
Boa sofredora que é, desviou o olhar e fitou a folha de papel em cima da mesa de pedra. Não perguntou mais nada e eu meio que fiquei grato por isso. Ela também havia passado por algumas merdas na vida, por isso sabia que eu não queria falar sobre aquilo.
- A vida é uma merda. - Ouvi-a dizer depois de algum tempo de silêncio.
- O quê? - Perguntei, irritado com o fato de que ela ainda queria continuar com esse assunto.
- A vida. - Ela suspirou. - Ela é uma merda. Para todos.
- Vai escrever isso aí? - Apontei para o perfil que ela tinha que fazer para ser entregue em... Meia hora.
, no entanto, pareceu ter se esquecido da tarefa.
- Ah, isso. - Ela fez uma careta para o papel. - Talvez sim, talvez não. Não quero espalhar os segredos da vida.
- Acho que esse não é nenhuma novidade, .
- Mais um motivo para não escrever.
- Whatever. - Coloquei a jaqueta novamente e acendi outro cigarro.
- Você ainda será expulso por não usar o paletó. - Ela profetizou.
- E você por usar metanfetaminas.
- Eu não uso metanfetaminas, Malik. - Ela rebateu rapidamente.
- Pois deveria, quem sabe assim não abre um sorrisinho de vez em quando. Parece mais viva...
- Você que deveria ter morrido no reformatório. - Respondeu.
Apenas ri de sua agressividade, eu sabia que ela não queria realmente dizer o que aquilo significava.
Fizemos silêncio por um tempo.
- Melhor você correr, , ou vai se atrasar para a entrega disso aí. - Apontei para a folha com a cabeça.
Depois de olhar a hora no celular ela xingou baixinho e saiu apressada em direção ao bloco C.


Harry’s POV
A aula de filosofia estava a toda, e eu estava bem longe dali – mais precisamente lá no meio do gramado, que eu podia ver pela janela lá embaixo, conversando com aquelas garotas do segundo ano.
O barulho discreto de meu celular vibrando em cima do meu caderno chamou minha atenção para dentro da sala novamente, e peguei-o ao perceber que era um e-mail. Levei a mão para baixo da mesa e abri.
“Sr. Harry Styles.
É com enorme prazer que a equipe do The London Library entra em contato por meio deste para deixá-lo saber que você foi o grande vencedor do nosso sorteio de um pacote completo de passeio do Harry Potter realizado por meio de nossa página do Facebook...”
- O QUÊ? – Pulei na cadeira, arregalando os olhos para meu celular assim que entendi do que se tratava. Levantei os olhos com um enorme sorriso que sumiu no momento em que vi a carranca da professora.
- Pelo visto o senhor está se divertindo, Sr. Styles? Não sabia que gostava tanto das minhas aulas. Diga-me, qual é o conceito de filosofia analítica?
- Eu só estava... – Olhei de volta para meu celular, mas não consegui evitar o sorriso, que só a deixou mais puta. Soltei uma risada empolgada e olhei para cima de novo, a tempo de ver a professora Stevens parando em minha frente e esticando a mão.
- Entregue o celular.
- O quê?! Mas eu só fui ver meus e-mails!
- Entregue o celular agora, Sr. Styles. Você vai tê-lo de novo quando a aula terminar. – Eh, não era assim tão mal, pensei, entregando depois de um suspiro. Ela fechou a mão sobre ele. – Durante o resto do ano.
- Ah, fala sério... – Revirei os olhos.
- Veja seus e-mails nos momentos pertinentes da próxima vez. Tenho certeza que aprenderá o significado da palavra pertinente depois dessa aula. – Ela comentou, dando meia volta. – Como eu ia dizendo...
Vaca.
Cruzei os braços e escorei-me para trás na cadeira, mas logo o sorriso voltou ao meu rosto. Cara, eu ganhei! Nunca havia ganhado essas coisas antes! Se bem me lembrava, o pacote consistia em duas entradas para os estúdios de Harry Potter em Londres e ainda duas entradas para a nova peça de A Criança Amaldiçoada. Sweet!
É, Harry Potter podia ser visto como uma coisa meio geek pela maioria pessoas. Quase ninguém sabia que eu era louco pela saga, exatamente por causa disso, lógico, mas não podia evitar, era o que acontecia quando você crescia assistindo aos filmes e lendo aos livros da série desde que tinha uns oito anos de idade. Nunca tivemos a chance de ir nos estúdios, porque eles foram abertos pouco tempo antes de sermos colocados nessa escola, e a partir daí nós não fizemos muitas viagens em família. A única pessoa que tinha noção de como aquilo era foda tanto quanto eu era...
.
O sorriso sumiu. Nem adiantava pensar em contar aquilo para os caras, eles não iam entender e muito provavelmente também tirariam com a minha cara para sempre, porque quando se tratava de Harry Potter eu sempre teria oito anos. Eu e passamos por uma fase bastante séria onde assistimos aos filmes todos os dias depois da escola. Era sempre assim, segunda A Pedra Filosofal, terça A Câmara Secreta, quarta O Prisioneiro de Azkaban, quinta A Pedra Filosofal, sexta A Câmara Secreta, e Sábado e Domingo assistíamos a todos. Nós decoramos as falas, quando nossos pais nos empurravam para fora de casa a gente pegava galhos de árvores e fingia que eram varinhas, e quando cansávamos de “duelar” eles se transformavam em espadas ou sabre de luz e nos batíamos até alguém chorar. Até hoje e provavelmente pelo resto da minha vida eu vou saber todas as falas daqueles três filmes. Depois nós cansamos deles e nos interessamos pelos livros, para saber o que vinha em seguida na história. Lemos os sete livros juntos em um mês, a gente ficava até as três da madrugada lendo baixinho para não acordar ninguém, parando no meio das páginas para fazer comentários chocados ou ansiosos, e quando um cansava ou ficava sem voz o outro continuava. E depois dessa fase, veio a de esperar ansiosamente pelo lançamento dos outros filmes no cinema, e ir sempre na pré estreia assistir antes que todo mundo – e depois reassistir pelo menos dez vezes antes que saísse de cartaz, até que a gente pudesse fazer críticas minuciosas de tudo que havia de diferente dos livros na tela.
Nós realmente fazíamos isso. Era uma tradição, e assistimos a todos eles juntos, até o último. Pensando em tudo isso logo fiquei mais desanimado do que feliz com a notícia de que ganhara o sorteio. Eu ganharia dois ingressos para tudo e não tinha quem levar. Se arrastasse Louis comigo, ele ia reclamar para sempre. Os outros caras, nem chance. E levar alguém que eu mal conhecia não tinha sentido nenhum. era quem devia ir comigo.
O sinal soou para o final da última aula da manhã e suspirei aliviado, feliz de poder ir para o almoço agora. Mas quando ia saindo, a voz da senhorita Robins me chamou, fazendo-me parar na porta e voltar, lembrando de meu celular nesse momento.
- Posso pegar? – Aproximei-me de sua mesa, olhando para meu celular desligado na ponta dela.
- Sente-se, Harry.
Suspirei pesadamente e sentei na cadeira em frente à sua mesa, vendo os últimos dois alunos saírem da sala.
- Harry... – Ela apoiou os cotovelos na mesa e olhou para seu caderno debaixo dos seus olhos antes de voltar a me olhar, apoiando o queixo nas mãos. – Você tem uma média miseravelmente baixa na minha disciplina. Espero que esteja lembrado de que temos uma média de 75% nessa escola, cuja qual precisa atingir em todas as disciplinas para concluir os seus estudos esse ano.
- É, eu sei. – Assenti, pela primeira vez não me sentindo ansioso ao pensar naquilo. – Já providenciei isso.
- Providenciou...? – Ela balançou a cabeça, indicando que eu fora muito vago.
- Eu estou estudando. Arranjei uma parceira. Uma colega! – Corrigi, esperando que ela não entendesse errado dada a minha fama naquele colégio. – Estamos estudando juntos, ela é muito boa nessas coisas de humanas também... – balancei as mãos e a senhorita Robins ergueu uma sobrancelha. – É, hum... Então eu estou providenciando para atingir a média, você sabe. – Dei de ombros.
Ela me observou por um instante, enquanto eu batia os pés, ansioso para ir almoçar de uma vez.
- Pois bem. – Disse, por fim, e pegou meu celular me entregando. – Se eu ver você usando isto na minha aula mais uma vez eu não devolvo enquanto não chamarem os seus pais, está claro?
Soltei uma risadinha, mas fiz que sim com a cabeça pegando o aparelho. Seria mais fácil porcos voarem do que minha mãe vir até aqui por um celular.
- Entendido. – Abri um sorriso para ela e me levantei, já indo para a porta. – Até mais!

O refeitório estava cheio, mas quando saí da fila para ir até nossa mesa eu vi Josh e Liam sumindo pela porta, um deles ainda carregava um pote de sobremesa e pareciam apressados, conversando sobre alguma coisa. Franzi o cenho, tentando lembrar se eu esqueci de algo, mas nada me veio à mente. Louis também não estava lá, ou devia ter se atrasado ou já almoçara, o que tornava a mesa estranhamente vazia. Foi até estranho sentar lá sozinho enquanto comia, sem toda aquela bagunça que geralmente era na hora do almoço, mas eu almocei com calma enquanto passeava pela timeline do Facebook, sem ver nada interessante. Depois de terminar minha comida, ainda demorei um tempo comendo um pote de mousse de limão sem pressa, esperando mais uns minutos para ver se Louis não apareceria. Ainda tinha quarenta e cinco minutos de descanso, e agora o refeitório já estava bem mais vazio. Mesmo assim eu percebi sentada em uma mesa longe dali conversando alegremente com umas garotas que eu reconhecia do time de futebol feminino do colégio. Do lugar onde estava sentada eu a via de perfil, e enquanto a observava conversar eu voltei a pensar no prêmio que ganhara... Estava morrendo para contar aquilo a ela, isso eu não podia negar. Mas só em pensar no modo como me trataria caso eu tentasse falar com ela eu já murchava.
Suspirei pesadamente e então levantei, pegando minha bandeja, decidido a encontrar Tomlinson. Eu precisava conversar.

Avistei o garoto sentado em cima de uma das mesas de pedra no pátio, com os pés apoiados no banco, ao lado de onde - adivinha quem - estava. Ela tinha um caderno em sua frente na mesa e uma caneta na mão, com a cabeça apoiada na outra mão o olhando de baixo concentrada enquanto ele fazia gestos com a mão, parecendo estar explicando uma música ou algo do tipo, observei enquanto ia até lá.
- ... E depois, hum, a faixa dez eu acho que é do Simple Minds, não me lembro agora a ordem em que gravei, mas ela é mais ou menos...
- Hey - parei em frente a eles e levei as mãos aos bolsos vendo que os dois me olharam. - Queria falar com você. - disse a Lou.
- Fala aí.
Dei uma olhada para , que apenas me encarou, adotando uma posição um tanto desafiadora quando percebeu que eu queria dizer sem ela junto.
- O que tá me olhando assim?
- Você tá roubando o meu melhor amigo. – Cruzei os braços.
- Bom, talvez você precise encontrar outras pessoas para explorar agora. - rebateu ela, levando a ponta da caneta à boca com o início de um sorriso. Estreitei os olhos para ela, entendendo direitinho que no fundo aquela brincadeira carregava um cutucão também. Quem ela pensava que era, mesmo? Ela estava ali há o quê, três dias? Eu estava ali há três anos!
- Ei, ei, eu não quero que vocês briguem, senão vou ser obrigado a terminar com você. - disse Louis e abri um sorriso vitorioso para , mas só até olhar para ele e perceber que ele falava comigo. Encarei-o incrédulo. - Foi mal, ela é mais gostosa! - defendeu-se e em seguida sorriu com uma piscadinha para .
Bufei.
- Tá, você vem ou não?
fechou o caderno e recolheu as coisas da mesa colocando em seu estojo e o fechando.
- Eu vou tomar um chá, encontro você depois da aula. - avisou a Louis, dando uma leve beliscada em sua perna antes de se afastar e fazer o caminho para o bloco de aulas. A observei se afastar o suficiente e então olhei para Louis.
- A gente precisa estabelecer limites nesse seu relacionamento, né?
- Do que você tá falando, seu mané? - Louis se levantou e me empurrou com o ombro.
- Ou vocês são sérios ou não são, esse meio termo tá deixando todo mundo louco! - ergui as mãos para o céu. - Ela parece te levar a sério agora, hum? Já é uma coisa, né?
- Já te disse, Styles. A gente faz as coisas do nosso jeito.
- Tá, tá... – Dei de ombros. A verdade era que era legal Louis estar feliz. Eu nunca o vi assim antes.
- O que você quer, então? – Ele perguntou, enquanto andávamos pelo pátio. Pensei por um tempo, era uma ótima pergunta. A visão de voltou à minha cabeça.
- Posso te perguntar uma coisa?
- Você vai perguntar de qualquer jeito...
- Você acha que a mudou muito? Você... Também se assusta com como ela mudou, às vezes?
- Só que ela não mudou nada, Harry... Ela continua a mesma pessoa, quantas vezes preciso te dizer? Talvez ela use roupas diferentes, talvez ela tenha adquirido alguns costumes e comportamento mais de, você sabe, garotas, porque tipo, ela não anda mais por aí querendo bater em todas as meninas desse colégio... Mas ela continua a mesma pessoa. Eu quero dizer, acho que essa coisa tá só na sua cabeça... – Ele me olhou e deu de ombros. – Porque todos nós percebemos que ela ainda é a mesma, menos você, que afinal de contas é quem nasceu com ela.
Assimilei aquilo tudo que ele falou e tentei absorver e acreditar que ele pudesse estar certo. Chutei algumas pedrinhas quando passamos por elas e suspirei.
- Eu sinto falta dela. Como minha amiga.
- Você devia falar isso a ela, então.
- É, mas ela ia querer me matar. Ela ia, sei lá, pular em mim se eu tentasse falar com ela...
- Eu nem imagino porquê, certo?
- É sério, cara! Ela me odeia!
- É sério também! Eu não entendo o que houve com vocês. Sei que você deve ter feito uma merda e tanto, porque vocês finalmente estavam bem de novo durante o acampamento, e então quando voltaram para cá pareciam dois estranhos. Ela realmente parece te odiar. E a disse que ela está meio mal.
- Você acha que pode ser por mim? – O olhei, arqueando as sobrancelhas.
- O que foi que você fez em primeiro lugar, Harry? – Ele parou, me olhando e abrindo os braços.
- Isso é que eu não entendo! – Atirei as mãos para cima. – Eu fiz um favor a ela!
- Ai... – Louis olhou para cima, cético.
- É sério, Louis! Escuta, eu só queria ajudar...
- Ok, agora eu tô com medo. Desembucha logo, Harry. – Ele me olhou.
- Olha... Eu disse para Rebekah que Lance estava querendo ficar com ela na noite da fogueira.
Trocamos um olhar por um segundo.
- Ah! – Ele soltou uma exclamação e uma risada forçada, como se aquilo fosse inacreditável. – É claro!
- O quê! E ele ficou, Louis! Ele ficou com ela! Eu ajudei a descobrir que aquele cara era um babaca! Ele não era bom o suficiente para ela, e eu sabia!
- Ok, ok, Harry – ele levantou as mãos para mim. – Por um lado foi bom mesmo que ela tenha se livrado dele, realmente, se isso aconteceu. Mas por outro, você é um filho da puta por fazer isso. E agora deixa eu te fazer uma pergunta: Quem é que seria bom o suficiente para a ?
Abri a boca por um momento, mas não soube responder. Aí estava uma bela e importante pergunta. No mesmo momento, ninguém que pudesse ter passado pela minha cabeça parecia bom o suficiente. Ninguém que conhecíamos era. Com certeza não.
- Eu não... sei... Quem? Essa é a questão, não é?
- Já parou para pensar... – Ele ergueu uma sobrancelha para mim. – Que talvez você sinta alguma coisa... – Insinuou, deixando a frase no ar ao que eu protestei imediatamente balançando a cabeça.
A primeira coisa que passou em minha mente foi quando nos beijamos ainda na noite da fogueira, e como aquilo pareceu a coisa mais estranha que já fiz na vida, mas continuei negando para afastar a memória.
- Não. Olha – levantei as mãos. – Não. Não posso. Não posso sequer pensar nessa hipótese.
- Por quê não?! – Ele me cortou.
- Porque eu não sou esse tipo... Ela não é esse tipo... Louis. – Fechei os olhos e tentei botar a mente em ordem para falar alguma coisa que fizesse sentido. – Eu nunca estive com uma garota na vida por mais de uma semana. Eu nunca consegui, porque por mais que já tenha pensado que senti alguma coisa por alguma garota, no mesmo momento em que ela me quis de volta e começamos a ficar as coisas ficam chatas, previsíveis, enjoativas, e eu acabo não aguentando mais de três dias daquilo e me afasto para bem longe pra nunca mais ver a cara da pessoa. É assim que é. E a é minha melhor amiga, eu não posso perder ela, não assim, por uma estupidez que eu talvez possa pensar que estou sentindo... Porque ela é a única garota que eu tenho ao meu lado desde sempre, a única com quem consigo conviver, tirando a minha irmã e minha mãe, e essas duas são só porque eu sou obrigado. – Finalizei com esse pensamento, balançando a cabeça novamente como que para afastar aqueles pensamentos.
Louis soltou uma risada fraca e o olhei.
- Olha, cara... – Ele abriu a boca e pensou em como começar a explicar alguma coisa por um momento. - Eu também nunca tive nada com nenhuma garota, você sabe disso. Nenhuma! Porque eu sempre fui o cara com quem elas ficavam porque não conseguiam você, ou porque eu era aquele com quem elas ficavam nas festas por estarem bêbadas demais para se importar, ou porque eu era aquele que a amiga falava “ah, vai, talvez ele seja legal, aparência não é tudo”, ou sei lá, e quando gostava de alguém nunca passou de paixãozinha platônica de criança – Ele ergueu as mãos e fiz uma careta, me sentindo mal pelo cara por um momento. – O negócio é que... Quando você encontra alguém, Harry, você simplesmente sabe. É inconfundível esse sentimento de que algo está diferente, de que é isso que você precisa fazer, era isso que estava faltando! É como uma peça que encaixa! E o que eu quero dizer é que, talvez, pense comigo, apenas talvez... – Ele tocou a ponta do dedo em meu ombro me empurrando de leve. – Você não reconheça esse sentimento porque estava acostumado a ele por sempre ter tido a ao seu lado. Esse sentimento, esse conforto, isso que você sente falta quando estava com ela... É isso. É isso, sempre esteve ali. Você só não sabia o que era.
Por um lado, se eu ouvisse cada palavra do que Louis disse, aquilo não faria o menor sentido. Mas por outro eu consegui entender quase que perfeitamente do que ele falava, apesar de não querer pensar naquilo. Eu estava bloqueando. Eu estava bloqueando e continuaria bloqueando qualquer remota possibilidade de uma idiotice dessas passar pela minha mente por tempo suficiente para que eu acreditasse que pudesse ser verdade. era minha melhor amiga, como minha irmã, a garota que cresceu comigo, e ela era apenas isso. Havia de ser apenas isso! Porque apenas a ideia de que eu pudesse – argh – sentir algo diferente do que isso por ela era aterrorizante. Eu não podia perde-la, eu não podia. Seja qual fosse nossa situação agora, ela não era permanente, e eu não podia fazer com que fosse. Eu não podia piorar tudo com hipóteses idiotas.
Ouvi o sinal do final do almoço soar mais ao longe, e voltei para a Terra.
- Eu só preciso fazer as pazes com . Eu só preciso de minha amiga, é só isso. O que eu faço? – Dei de ombros, olhando-o sem emoção.
Louis suspirou impaciente e revirou os olhos.
- Você deixa de ser egoísta, é isso que você faz. Quando se ama alguém, e estou falando de amor aqui, Harry, de que tipo de amor estou falando é você quem vai decidir, mas quando se ama alguém, a gente não pensa no que vai nos beneficiar. A gente não se coloca em primeiro lugar. Então, é isso que você faz. Você cresce.
Louis deu meia volta e começou a andar para longe, mas parou e me olhou um segundo depois.
- Não se esqueça do ensaio hoje.
Por um tempo fiquei parado no lugar, até que a ficha sobre tudo que escutei caísse sobre mim. Então com um pouco de força engoli em seco, e lembrei que tinha uma aula para assistir.

Zayn’s POV
Nem me dei ao trabalho de tirar os óculos de sol quando entrei no refeitório, pensando que aquela seria uma boa estratégia para que ninguém visse meus olhos correndo por todo o salão à procura de .
Eu nem sabia por onde começar a explicar as coisas que se passavam em minha cabeça desde aquele maldito beijo na sala de marcenaria.
E, depois, para piorar, teve aquele amasso com a .
Droga, já havia perdido alguns minutos da minha vida imaginando como seria estar naquela situação com a Freak, mas, quando eu tive a oportunidade, eu me senti excitado e cheio de vontade de fazer tudo o que já tinha imaginado, e, ainda assim, não tinha certeza se iria até o fim.
não estava no refeitório. Consultei as horas em meu celular enquanto me dirigia à fila do almoço; eu havia chegado cedo ali, mas ela também não costumava demorar.
Como eu fui idiota!
Ela me beijou! Ela me bateu e depois me beijou.
Era tudo o que eu mais queria que acontecesse: que ela ficasse caidinha por mim. E o que eu fiz? Saí daquele jeito, como um imbecil!
Às vezes eu sentia que eu não conseguia ter controle sobre minhas ações quando estava com ela.
O aparelho vibrou em minha mão e eu rapidamente chequei o que era.
“A apresentação é hoje. Não há nada que eu possa fazer para não parecer que você fez o projeto sozinho?”, era . Inevitavelmente, abri um sorrisinho ao iniciar uma mensagem de resposta.
“Esteja na oficina de apoio em dez minutos. Eu levo o almoço.”, enviei de volta ao passo que ela me mandou um simples “ok” como resposta.


Equilibrei as duas caixas de isopor com o almoço em cima do projeto enquanto ia em direção à oficina de apoio. Era uma sala paralela à que era usada nas aulas de marcenaria, não tinha todas as mesmas ferramentas que a sala principal, mas era boa para quem apenas precisa polir e finalizar os projetos.
já estava sentada em uma banqueta à minha espera quando eu cheguei. Ela via algo em seu celular enquanto um dedo torcia uma mecha de cabelo.
— Hey. — Chamei sua atenção para mim. Ela arregalou os olhos quando me viu e, saltando do banco, veio até mim.
— Meu Deus!
— Estou bem, eu consigo...
— Alguma coisa pode cair no projeto! — Ela tirou as duas caixinhas de isopor de cima do projeto e voltou com elas para onde estava anteriormente.
— Claro. — Fui até onde ela estava e coloquei o projeto em cima da mesa.
— Obrigada pelo almoço — disse, abrindo uma das caixinhas para ver o que tinha dentro.
— Sem problema — murmurei. Tirei um bloco de anotações do bolso de trás da calça e entreguei a ela. — Você pode dar os detalhes.
— Detalhes? — Direcionou seus olhos para mim como se demandasse mais informações.
— Espessura da madeira, altura, largura, tipo de ferramenta, finalização...
— Certo, certo, entendi — interrompeu-me, depois se virou para o projeto e o analisou por alguns segundos. — Aí está ela. A adega.
— A adega — confirmei, olhando para o projeto por mais tempo à medida que o silêncio crescia na sala.
— Eu gostei do toque rústico. – Disse ela de repente.
— Eu só lixei a madeira. Achei que ficaria mais legal. E queimei alguns pontos para parecer ainda mais velha — encolhi os ombros, sem saber o que responder ao seu elogio.
— Ficou incrível.
— Mesmo? — A pergunta saiu sem que eu me desse conta e ela me olhou antes de responder.
— Sim. E também é incrível que tenha feito sozinho — voltou a olhar o caixote de madeira. — Eu poderia ter ajudado — murmurou, mas acho que essa parte eu não deveria ter ouvido. Ela apenas abriu um sorrisinho para mim e abriu o bloquinho de anotações, sentando-se de volta na banqueta e pegou o garfo para começar a comer.
Observei-a mexer os pedaços de tomate com o talher enquanto seus olhos estavam fixos na página aberta do bloco. Comecei a reparar nela enquanto imaginava algo para dizer – porque eu sentia que tinha que dizer algo. Gostei do que ela havia feito com o cabelo, parecia um tipo de coque, mas eu não tinha certeza do que era. Muitas mechas escapavam de onde quer que estivessem presas.
Cacete, eu tinha que dizer alguma coisa.
Qualquer coisa.
?
— Hm? — Respondeu sem tirar os olhos do bloco.
— Sobre o que aconteceu semana passada...
Ela levantou os olhos para mim imediatamente.
— Nada aconteceu semana passada.
— Nada? Eu me lembro muito bem de um beijo — não pude evitar um sorrisinho, o que pareceu deixa-la irritada.
— Sério? Estou surpresa que se lembre. Não pareceu se importar em falar disso em momento algum.
— Como eu poderia esquecer? Você me beijou.
— Zayn, olha, se você quiser, isso não precisa ter acontecido. Eu não vou contar se você não contar.
— Por que eu iria querer que não tivesse acontecido?
Ela largou o bloco na mesa e se virou completamente para mim. Agora a coisa ia ficar feia.
— Ok, para mim chega: o que tem de errado com você? Apenas responda. Eu não gosto disso. Não gosto de joguinhos, então me diga o que você quer de mim de uma vez.
Eu queria dizer a ela alguma coisa. Qualquer coisa. Eu precisava dizer. Aquele era o momento de conquista-la, de dar o bote final.
Merda.
Só não sabia o que dizer.
Por isso, fiquei lá, parado que nem uma droga de uma estátua enquanto ela olhava no fundo dos meus olhos como se quisesse encontrar alguma coisa. A expectativa em seu olhar era sufocante e eu precisei olhar para outro lugar que não fosse ela.
balançou a cabeça como se já esperasse pelo meu silêncio e voltou a ler o bloquinho. Merda.
— Eu quero você.
— O quê? — Indagou, mas não se virou para mim.
Limpei a garganta, sentindo-me corajoso de repente, como se aquilo fosse a coisa certa a ser dita.
— Eu quero você — repeti. Ela fez um pequeno silêncio, olhando-me.
— Por quê?
— Precisa de motivo?
Ela me fitou por um segundo antes de me responder:
— Você é um babaca inconsequente, então, sim, eu gostaria de alguns motivos. Cinco pelo menos.
Arqueei as sobrancelhas para a escolha de adjetivos dela, surpreso, mas não intimidado.
— Eu não sei, . Eu só quero.
Dessa vez, a sinceridade naquelas palavras me assustaram.
Puta merda, parecia que havia gelo correndo em minhas veias.
Aquilo era nervosismo?
— Ou seja, nenhum motivo.
...
— Você teve sua chance.
— Eu gosto do jeito que você me olha — um conjunto de palavras saiu sem meu consentimento. abriu a boca para retrucar, mas nada disse, apenas manteve seus olhos em mim, esperando. — Você vê alguma coisa em mim. Você me dá sua atenção, toda sua atenção. Como se eu merecesse, como se isso valesse a pena, como se eu valesse a pena. — Coloquei uma mão no bolso da calça. — Eu gosto do jeito como você fica brava quando tem que defender alguém. Você me deu um tapa quando descobriu sobre a aposta! Gostei da forma como você ficou preocupada quando enfiou aquele prego na minha mão.
— Desculpe por aquilo, de novo — mordeu o lábio inferior, trazendo minha atenção para seus lábios. Merda. Merda. Merda.
— Não! Eu gostei de como você cuidou de mim... — umedeci os lábios quando vi um pequeno sorriso se formando em seu rosto. Com minha atenção voltada para sua boca, achei difícil voltar ao fio da meada e continuar minha missão. — Você precisa de um quinto motivo ou eu posso...?
Não terminei a frase, mas ela rapidamente assentiu e eu eliminei o espaço entre nós, segurando seu rosto entre minhas mãos e a beijei. Sentia-me idiota por ter que admitir para mim mesmo o quão bom seu beijo era e o quanto eu parecia querer aquilo. Suas mãos envolveram meu pescoço e pude sentir seus dedos afagando meu cabelo enquanto as minhas mãos estavam em sua cintura, trazendo-a – ou a mantendo ali – para mais perto de mim.
Puta merda, eu estou tão ferrado.
Interrompi o beijo quando ela puxou meu lábio inferior com os dentes e me encolhi um pouco por causa da fina dor que causou porque acabou pegando no corte que havia ali por causa do incidente do beco. Ela me olhou com seus olhos preocupados.
— Está tudo bem — eu disse, antes de voltar a beijá-la, mas ela me afastou com as mãos em meus ombros.
— Não, não. — Balançou a cabeça.
— O que foi?
— Se vamos fazer isso, você tem que ser sincero comigo.
— O que estamos fazendo? – Eu precisava fazê-la dizer aquilo em voz alta, mas guardei minha diversão para mim.
— Isso! — Apontou para nossa proximidade.
— E...?
— Eu não vou ficar com você, Zayn, se você não me contar algumas coisas.
— Ficar comigo? — Arqueei uma sobrancelha, zombeteiro. — Quem pediu?
Ela grunhiu, claramente impaciente, e fez menção de me afastar ainda mais, mas eu segurei seus braços e a mantive no lugar, soltando uma risada baixa.
— Ok, ok! — Ergui as mãos em sinal de rendição. cruzou os braços e me olhou. — O que é isso que você quer saber?
— Onde conseguiu esse olho roxo e esse corte na boca.
— Você sabe ir direto ao ponto!
— Vai responder ou não?
— Shortcake....
— Você está metido com essas coisas de gangue?!
— O quê?
— É tráfico?!
— Não! ! Não! — Olhei para cima, pensando em como lhe contar o que houve sem entregar as merdas da para ela. — Tinha um cara incomodando uma garota na cidade...
— Você salvou uma garota? — Ela arregalou os olhos, mas havia surpresa e um pouco de admiração neles.
Coloquei as mãos nos bolsos da calça. Não esperava nenhum tipo de reconhecimento por ter ajudado a . Tecnicamente, eu nem teria parado para ver o que era se não tivesse reconhecido a voz de naquele beco.
Eu não sou um herói.
Longe disso.
— Ela não pode ser salva. — Respondi, por fim, sem conseguir pensar numa definição melhor para o que, de fato, aconteceu.
E pareceu entender isso, de alguma forma.
— Acho que nenhum de nós pode — murmurou.
Olhei para ela, intrigado, quase debochado. O que ela queria dizer com aquilo? Como ela podia sequer dizer aquilo?
não teve que aprender nada nas ruas. Ela não teve que fugir de casa para conseguir um pouco de sanidade. Não teve que aguentar as merdas que as pessoas por aí têm para oferecer. Nunca teve que temer por sua vida. Nunca teve que se livrar de uma situação humilhante, deplorável. Nem nunca lidou com a miséria; de qualquer tipo.
Tive o impulso de olhá-la de cima, de julgá-la, de questionar suas palavras, de acusa-la, mas me contive ao ver seu semblante sério, como se ela estivesse a milhas dali. Percebi que havia um mundo de coisas que eu não sabia de sua vida.
... — chamei-a, trazendo-a de volta à realidade. Ela piscou para mim e abriu um pequeno sorriso.
— O que isso significa agora? Esse... momento que tivemos.
— Eu posso fazer o que eu quiser com você agora.
— Rá! — Forçou uma risada. — Você acha que um beijo...
— Dois — corrigi.
— Vai te dar todo esse poder? — Ignorou-me e continuou falando. — Outros caras já acharam que eram meus donos por muito menos.
— Nossa, como ela é popular — debochei, fazendo-a rir.
— Exato! — Apontou para mim, entrando na brincadeira.
— Bom, de qualquer forma, acho que isso me dá liberdade de te beijar quando eu quiser.
— Isso vai se repetir?
— Já se repetiu, então, por que não?
— Hm, ok, mas... apenas me avise antes.
— Avisar? Por favor, , divirta-se um pouco! Qual é a graça se eu tiver que ficar me anunciando?
— Tá, Zayn, não avise, whatever — revirou os olhos, mostrando desinteresse, mas eu podia ter certeza de que a ideia de não ter controle sobre quando eu faria algo incomum a incomodava. Soltei uma risada e, sem aviso prévio, puxei-a para mais um beijo.
Era isso. Estava feito. Agora não tinha mais volta.

’s POV
Terminando um trabalho de comunicação pública. Negócio chato, nada interessante. Mas e você, se safou daquele teste de álgebra?”
Li a mensagem em meu celular ao pegá-lo do apoio da esteira, onde eu corria. Estava ouvindo música no fone, que fazia um barulho alto toda vez que uma mensagem de Will chegava.
”Pare de usar seu charme de garoto universitário comigo. Já disse o que penso disso! E sobre o teste: bombei.”
Respondi, com um sorriso, tentando não perder o fôlego na corrida. Não pela parte do teste, é claro, que foi triste, mas porque desde a noite em que nos conhecemos nós dois não parávamos de trocar mensagem durante todo o dia, estando ou não em aula, ou estando ou não ocupados, e já estávamos até um pouco familiarizados com a rotina um do outro.
“Bem, eu estava só tentando te seduzir a ponto de querer me ver de novo... Mas, sabe, todos esses livros e cadernos aqui na minha frente estão me desconcentrando. Uh, inclusive estou com calor... Acho que vou me abanar com esse bloquinho de notas.
Gargalhei ao ler essa, e precisei me segurar para não rolar para o chão de cima da esteira. O relógio dela marcava 24 minutos de corrida.
Abri o teclado para digitar uma resposta, mas outra mensagem chegou e cliquei nela sem querer. Era Liam.
”O que tá aprontando?”
“Academia”
, respondi e, em seguida, digitei a resposta para Will:
“Uau, você realmente sabe o poder que um bloquinho de notas tem sobre mim! Quando podemos nos ver?”
“Com certeza vou dar uma passada no festival depois de amanhã. E você? Quem sabe a gente podia ir em algum lugar depois.”

“Me espera aí? Preciso te ver”, Liam mandou, e eu respondi com um ‘ok’, voltando a Will.
“Acho que vou em uma festa depois do festival. O que acha de matar a saudade do ensino médio?”
“Tenho pesadelos com isso toda noite. Mas, é claro, por você por que não? Combinado!”

Sorri e soltei o celular, quando vi a porta da academia ser aberta e Liam entrar por ela. Tirei os fones para ouvi-lo.
- Uau, chegou rápido!
- Eu estava vindo para cá – ele deu de ombros e se direcionou à esteira ao lado da minha, subindo nela e começando a caminhar. – E aí, o que está fazendo?
- Só botando o corpo em dia – comentei, já começando a ofegar demais. – Mas e você, hein? O que quer comigo?
- Só te ver, simpatia! Por que, tá tão importante agora que não tem mais tempo para os velhos amigos?
- Ah, Liam, eu pensei que quisesse outro beijinho! – Fiz um bico para ele como quem pedia beijo e gargalhei com o olhar que me lançou.
- Eu te beijei por pena, ok!
- Ah, tem certeza?! Sei que você não para de pensar em mim!
Liam riu meio sem graça e eu ri mais, tendo que diminuir a velocidade da esteira até uma caminhada lenta para recuperar o fôlego.
- Eu queria ver se você passa aquele circuito funcional que me ensinou da outra vez. Quero gastar um pouco de energia, mas não lembro como funciona.
- Ah sim, claro. – Apertei no botão que fazia a esteira parar e peguei minha toalha de rosto, enxugando o suor do peito e pescoço. – Eu vou ajeitar os exercícios e te mostrar, e depois você se vira porque eu quero ir tomar banho. – Pisquei para ele e desci da esteira, tomando minha água em grandes goles antes de fazer qualquer outra coisa.
Prendi a ponta da corda grossa a um gancho na parede, estendi a “escada” de fachas no chão, coloquei dois estepes um em cima do outro, três cones separados em linha reta e puxei o jump e um colchonete preto. Agora Liam corria na esteira, e quando o chamei ele me olhou.
- Começa nos cones. Corre até o meio, volta de costas, depois corre até o final. Depois vai para o Jump, sobe o joelho até o umbigo, mas tem que empurrar o pé para baixo e não ficar pulando feito um canguru – disse e ele me lançou uma careta. – Depois a corda, balança com as duas mãos e faz bater no chão. Escada, dois pés dentro e dois pés fora. Depois abdominal completo, aquele de puxar os joelhos, lembra? E finaliza no step, pulando como se subisse uma escada – mostrei como fazia e ele assentiu. Depois fui até um pequeno armário e peguei de lá de dentro um timer redondo e pequeno, ligando e colocando em um minuto. Joguei para ele, que pegou no ar. – Repete tudo quatro vezes. Um minuto cada, sem falhar, ou eu vou saber e vou te perseguir pra sempre – estreitei os olhos para ele, que soltou uma risada irônica em meio à respiração entrecortada da corrida. – Segue esse circuito, Liam! Sedentarismo no more! Vou vazar. – Pisquei um olho para ele e mandei um beijo no ar, já saindo pela porta.
Lá fora estava frio, por isso fui o mais rápido possível para o quarto para tomar um banho quente e me esquentar. Demorei um tempo a mais no banho, aproveitando que não estava lá para me xingar, e quando saí havia uma mensagem dela em meu celular que dizia “Vem aqui na e traz uns chocolates! Xx”. Tirei o excesso de água dos meus cabelos molhados, estendi a toalha, vesti um casaco, peguei o celular e umas libras e saí, indo até o corredor de baixo para pegar uns doces na máquina antes de me direcionar ao quarto das garotas.
Ao chegar lá eu entrei sem bater, ouvindo a conversa delas do outro lado da porta, e encontrei sentada em sua cama e e discutindo alguma coisa na cama da outra. fechava o caderno e o guardava junto com o estojo na mochila, e eu fechei a porta atrás de mim.
- Perdi os estudos?
- Perdeu.
- Que bom – sorri e fui para a cama de , sentar na metade em que ela não estava ocupando. Tirei os calçados e dobrei as pernas em cima do colchão, entregando um pacote de minhocas azedinhas para cada. – Era só o que tinha na máquina.
- Por que demorou tanto? – perguntou, abrindo seu pacote.
- Garanto que estava falando como Bill.
- Will – eu e corrigimos.
- Isso.
- Com certeza estava falando com ele.
- Não que seja da conta de vocês – lancei-lhes um olhar cínico. – Mas é, eu estava. Ele disse que quer me ver de novo – abri um sorriso.
- Ah, ela está tão caidinha – Brincou , fazendo um biquinho, e revirei os olhos para ela.
- Ele é legal. Muito legal, na verdade. O negócio é que ele é diferente dos outros caras... Ele não quer saber que roupa eu estou usando, ou com quantos caras eu já fiquei, e ele não se importa em se preocupar com o episódio do Zayn, porque afinal ele não conhece o Zayn...
- O Lance se preocupava com isso? – gargalhou.
- Claro que sim! Ele não admitia, mas existe esse tipo de competição entre eles, eu acho. Está no ar. É sobre o ego deles. – Dei de ombros e abri meu pacote de doces.
- É que, qual é, sejamos honestas... em uma sala cheia de garotas pelo menos cinquenta por cento delas já ficou com o Zayn. – deu de ombros.
Olhei em volta.
- Mas isso não se aplica aqui.
se mexeu ao meu lado, desconfortável, e todas nós a olhamos.
- Você ficou com ele?! – Arregalei os olhos.
- O quê? – Ela me encarou. – Não. É claro que não.
Ainda nos encaramos nos olhos por um tempo, até que fui obrigada a olhar para outro lugar. Daquele tipo de afirmação tão veemente era impossível desacreditar. voltou a me olhar, e pigarreou.
- Continue.
- É, então... – Precisei de um momento para lembrar de onde eu estava. – Ah, sim. Ao invés dessas coisas idiotas, ele me pergunta como foi o dia e de fato ele escuta... Ou lê, enfim. Ele me pergunta o que eu gosto de fazer e no que gosto de pensar, o que eu acho sobre tais coisas... E ele é inteligente, do tipo inteligente sobre o mundo, ele vive lá fora, a realidade dele é bem diferente da nossa. – Dei de ombros e comi um dos doces azedinhos. – Além disso, não dizem que as garotas estão sempre na frente dos garotos? Por isso é que a gente deve sempre namorar caras mais velhos?
- Eu não sei, ... Olha, é só uma sugestão... – deu de ombros, me olhando enquanto mexia na ponta do seu pacote. – Talvez você devesse só se afastar dos garotos um pouco, para decidir o que realmente quer. Afinal, a coisa toda com o Lance só aconteceu, tipo, ontem...
- Ah, deixa ela, . Eu sei o que você está pensando, e não. O Will é legal. Ela devia tentar. Se não der certo, paciência. Partimos para a próxima. Tem de haver caras legais lá fora, não é? – sorriu para mim, e encolhi os ombros. Soltei um suspiro em um momento de silêncio no quarto e olhei para .
- E o que você acha, ?
Ela levantou o olhar para mim, sendo pega de surpresa, e depois olhou para as outras duas em uma mistura de quem pedia ajuda e de quem não tinha a mínima ideia do que dizer. Precisei suprimir uma risada, o que não deu certo porque eu e as outras duas acabamos por rir no final, o que fez relaxar um pouco.
- É, eu pensei que fosse dizer isso. – Comentei, fazendo graça, e ela riu fraco.
- Mas então, ? E você? – perguntou, olhando para a morena ao meu lado, e assenti a olhando também, curiosa.
- É, e você e o Louis? Ele é ótimo, não é? Mas eu estou curiosa em saber como ele deve ser namorando, quer dizer, isso é inédito, nunca vi antes... Deve ser legal!
- Ele é fofo? – perguntou, se ajeitando na cama para virar para a amiga, e eu quase senti pena de ao saber como ela odiava toda aquela atenção e, principalmente, estar sendo perguntada sobre garotos.
- Hum... – Mas ela não precisou pensar por muito tempo, porque a porta se abriu e todas olhamos para lá encontrando .
- Ei! – Ela disse, parada no batente. Escortinhou o quarto por um momento, e então fechou a porta. – Eu perdi os estudos?
- Você chamou ela? – disse baixo, mas não baixo do tipo eu-não-quero-que-a--escute para , que assentiu com um sorriso meigo. – Por quê?!
- Porque somos amigas, . – Ela abriu um sorriso insolente para . – E devíamos parar de fingir que não somos.
- Nós não somos amigas. – disse, obviamente referindo-se a , que aparentemente concordava veemente, mas mesmo assim ela se aproximou da cama das outras garotas e sentou perto delas. – Eu achei que estavam estudando.
- Não. Estamos falando sobre nossas vidas amorosas.
mal se abaixara para sentar e já ia levantando, mas riu e segurou seu pulso a fazendo sentar.
- Passamos por e agora estamos na .
- Ah, não. – resmungou enquanto fazia uma careta, parecendo desgostosa. – Podemos pelo menos voltar para a ?
- Não! Eu quero saber – virei-me de volta para e cruzei os braços. – Então? Como ele é?
soltou outro resmungo, como se quisesse deslizar até o chão e se esconder debaixo da cama, mas todas nós a ignoramos enquanto olhávamos para .
- Ontem vocês estavam estudando, não foi? – comentou, a incentivando a falar.
- Ah, é! Eu cheguei e eles estavam juntinhos, muito fofo. – sorriu e juntou as duas mãos na frente do rosto, e soltei uma risada fraca. Coitada da , mesmo, eu quis dizer. – Vocês estavam assistindo filme, certo? E foi isso?! – perguntou, em tom de brincadeira.
Eu podia não ser a pessoa que mais conhecia ali dentro, mas estava prevendo que ela podia explodir em algum momento no meio daquilo. Me ajeitei na cama, sem dizer nada.
- Ah, qual é gente. Não, não, não quero ter que imaginar os dois, o Louis é meu amigo... Por que não podemos voltar a estudar geometria?! – pediu, como uma súplica. Ri baixinho.
Mas encarou com uma expressão que eu não soube distinguir por um momento, e logo depois se pôs de pé, respirando fundo.
- Ok, se vamos mesmo fazer isso... – Eu a segui com o olhar enquanto ela ia até seu armário e abria a porta. Puxou a parte de trás do forro do armário e tirou de lá de dentro uma garrafa, com um líquido vermelho e a tampa preta. Era vodka de cereja. Ela tirou a tampa e derramou uns goles na boca, antes de fazer uma caretinha e nos olhar, com a garrafa na mão. – Certo, por onde eu começo, então? Ah, ok. Estávamos aqui, nós dois, sozinhos.
grunhiu baixinho.
- É, ele veio estudar. Estudamos por um tempo, e depois botamos um filme e eu peguei uns doces para nós dois...
e riram baixinho e eu sorri, aquilo era engraçado e ao mesmo tempo bizarro.
- Ah, é, então ele deitou na minha cama enquanto eu colocava o filme... – Ela andava pelo quarto em frente a todas nós, enquanto segurava a garrafa. – Depois eu voltei para junto dele, e ele comeu uns M&Ms, e perguntou se eu também queria... – Ela parou e fingiu um suspense. – E eu disse que sim. Me aproximei. E o beijei. Foi bem ali – apontou para a cama onde eu estava e ri, fazendo uma caretinha. – Louis afastou os meus cabelos, e continuamos nos beijando, e um pouco mais, e mais... – Agora ela encarava . – Até que nós... Paramos. – Sorriu, soltando o ar, e gargalhou. – E sentamos. E assistimos ao filme, juntos, comendo M&Ms até a chegar. Foi isso. Muito sexy, absurdamente interessante. – Tomou mais um pouco da bebida, antes de esticar o braço e oferece-la a . – Agora, por que não nos conta sobre você?
lançou um olhar ofensivo a e tirou a garrafa de suas mãos, passando direto para .
- Não sou estúpida para beber em uma noite de semana.
- Ok – suspirou, segurando a garrafa, e atraiu a atenção para si como modo de parar o que poderia vir a ser uma briga entre as duas. – Eu não tenho nada para falar, então, sendo assim, passo a garrafa...
Mas todas nós protestamos, a fazendo parar de falar.
- Tome essa vodka, ! – ordenou, enquanto dava a volta para voltar a sentar onde estava antes.
fez uma caretinha, mas tomou um gole da vodka e depois a soltou na cômoda.
- Não tem nada a falar sobre o Niall! Estamos nos conhecendo um pouco mais, eu ainda não sei o que dizer. Ele é legal... Mas ainda tenho coisas a descobrir além disso.
sorriu fraco para ela, e depois de um momento percebeu que todas nós olhávamos para ela e bocejou.
- Bom, meninas... Acho que está ficando tarde...
Joguei um travesseiro em e a empurrou fraquinho, rindo.
- Não tenho nada a dizer, e eu realmente preciso dormir, então, de verdade... – Ela se levantou, mas nós novamente protestamos, ao que ela negava veemente. – Não. Nada a declarar! Nada!
- Eu entendo ela, afinal, é do Zayn que estamos falando, né? Eu também fugiria – riu fraco, e eu a olhei com as mãos na cintura.
- Você não está ajudando.
- Qual é, o cara é no mínimo complicado. – Ela se levantou, espreguiçando-se antes de ir para o lado de . – Vamos, eu te acompanho para fora dessa arapuca.
- Isso é muito injusto! – Olhei indignada para as outras duas, estava fugindo de falar sobre o Zayn. ria, mas já estava com a garrafa na mão tomando outros goles da vodka. me olhou e encolheu os ombros como se não tivesse nada que pudesse fazer. Olhei para trás e as duas já estavam no corredor. – Esperem, eu vou junto! Tchau, meninas. – Acenei antes de sair do quarto, seguindo e pelo corredor.

Niall’s POV
- Droga, droga, droga! – Era a única coisa que meu cérebro conseguia processar enquanto eu saía da aula de História Mundial e ia em direção ao meu armário no fim do corredor. Passei as mãos pelo rosto, como que para limpar a decepção que eu carregava, e, ficando momentaneamente cego, trombei em alguém. – Opa, desculpa! – Olhei para trás apenas para ver afastando-se a passos firmes, como se não houvesse esbarrado em mim. – Droga!
Quando ela ia ficar de boa comigo?!
Balancei a cabeça para clarear os pensamentos, voltando-me ao problema que me assombrava há pouco: o teste surpresa da aula de História Mundial!
Cara, eu me dei mal nessa.
Depois que a banda meio que decolou, abandonei quase por completo os estudos e prova disso seria o grande zero que levaria nesse teste. Além disso, me sugava por completo o tempo todo. Depois do que ela me contou na fazenda da escola, quando eu não estava pensando na banda, estava pensando nela. Não somente no problema sobre o qual fui informado, mas sobre ela. Quem era, o que eu sabia sobre, como se comportava, era tudo uma farsa?, como seria namorar alguém assim?
Essa última parte ainda me surpreendia quão longe minha mente podia divagar quando esse cenário surgia. Fazia eu me sentir estúpido por pensar aquele tipo de besteira; em qual canto desse mundo me daria outra chance? E, afinal de contas, a pergunta mais importante, de fato: eu quero essa chance de me envolver nessa confusão?
- Cara, ela te odeia! – Disse Alfie com uma risada estridente e logo foi acompanhado por seus amigos.
Eu conhecia Alfie e seus amigos de vista, nunca havia conversado com eles. Acho que, no índica de panelinhas da escola, eles eram os playboys. Devia ser diferente do que Harry e cia. eram, porque aqueles caras nunca se misturavam – como Lance e os jogadores.
Acho que o fato de serem do segundo ano os diferenciava dos caras do último ano.
- Ela não... me odeia – franzi o cenho, olhando por cima do ombro na direção que vi se afastar.
- É por causa da , não é? – Ele ignorou minha colocação e arqueou as sobrancelhas em expectativa.
- Eu realmente não sei.
- Aquilo foi foda, cara! – Outro garoto me gratificou, dando um passo à frente para fazermos um toque com as mãos.
- Muita gente discorda – anunciei. – E as pessoas meio que têm razão.
- Você só fez o que muita gente sempre quis fazer – o garoto deu de ombros, arqueando as sobrancelhas. – Aquela garota costumava ser uma lenda!
- Ela deu uma festa na casa dela... cara! Durou três fucking dias! E ela estava sempre no meio da bagunça!
- Eu já vi os peitos dela! – Outro garoto declarou, com a feição tão iluminada como se estivesse aqui nesse exato momento mostrando-os. Arqueei as sobrancelhas, surpreso; obviamente, eu não sabia dessa história.
Perguntei-me momentaneamente se sabia dessa história também, se ela estava consciente do que fazia o suficiente para se lembrar. E, se lembrasse, não a culpava por não contar, não com a reputação que ela luta tanto para manter nos dias de hoje.
- Todo mundo viu – ralhou Alfie. – Foi uma aposta que ela fez com Harry.
- odeia o Harry por isso também – complementou o garoto que se admirara com os seios de .
- A odeia um monte de gente – observou Alfie. – A garota mais legal do colégio, huh?
O modo como ele falou aquilo e, logo em seguida, revirou os olhos, deu-me a deixa perfeita para acreditar que ele desdenhava de porque ela o teria rejeitado.
- Bom, eu... realmente tenho que ir – cocei a nuca, recusando-me a ficar ali e participar de qualquer conversa que servisse para falar mal de uma amiga, embora ela não se considere uma amiga para mim.
- Claro, dude! – O garoto que fizera o toque antes repetiu o gesto comigo enquanto Alfie apenas acenou com a cabeça, num solene gesto de reconhecimento.
- Ah! – Alfie me chamou antes que eu me afastasse e eu lhe devolvi a minha atenção. – Você vai à festa?
Involuntariamente, abri um sorriso e encolhi os ombros, com um ar condescendente:
- Cara, nós vamos tocar na festa – gabei-me, fazendo os caras nos parabenizarem com toques e leves empurrões, ao que eu ria.
Depois da solene demonstração de camaradagem masculina, afastei-me deles sem demora, dirigindo-me para a biblioteca; depois do fiasco desse teste, eu precisava me recuperar desde já.
Eu gostava de estar tranquilo com as notas.
Fiquei um pouco surpreso ao chegar à biblioteca e ver a quantidade de alunos que tinha ali mesmo na hora do almoço. Fiz uma rápida pesquisa no sistema para achar o número de chamada do livro que eu pretendia alugar e fui busca-lo. Depois de passar pela bibliotecária, vi a dupla mais improvável dentro de uma das cabines de estudos.
- Sem chances! – Escancarei a porta da cabine.
e Harry levantaram suas cabeças, olhando-me como se eu estivesse louco.
- O que vocês fizeram? Estão de castigo? – Questionei ao me aproximar da mesa e vi o que eles faziam; estavam estudando Literatura.
- Estamos estudando – respondeu.
- Por quê?
- Porque nenhum de nós quer ir mal nas provas finais – foi Harry quem respondeu dessa vez.
- Tá, mas quem colocou vocês aqui?
- Niall. – me lançou um olhar grave.
- Sem chances! Vocês estão aqui por vontade própria?!
- “Vontade própria” é uma palavra...
- Um termo – o corrigiu.
- Um termo – Harry repetiu forçando a voz – muito forte. Eu queria mesmo é estar no Caribe tomando uns shots.
- Você vai ter que se contentar com a resposta das provas finais, Niall – anunciou.
- Acho que sim. Ei! Posso estudar um pouco com vocês? Não peguei nada da última aula de literatura! – Revirei os olhos ao me lembrar de minha negligência e, também, da falta de didática do professor. Não esperei pela resposta deles e me sentei ao lado de Harry, de frente para .
- Hm, claro... – franziu o cenho enquanto me observava tirar o caderno da mochila.
- Cara, eu fiquei sabendo daquela aposta que você fez com a . Que mancada! – Disse a Harry, sem ainda me decidir se gostava daquela história ou não.
- Aposta...? – Ele pareceu se esforçar para saber do que eu falava. – Ah! A aposta do carro.
- Cara... Que mancada! – Balancei a cabeça, decidido a não gostar da história ao ver o sorrisinho idiota que surgiu no rosto de Harry.
- Mancada? Minha? Ela podia ter furado os pneus do carro do diretor, era muito simples.
- Não me surpreende que ela reagiu tão mal à aposta do beijo!
- Não foi coisa minha essa última aposta – bufou.
- O que houve nessa aposta do carro? – inqueriu, parecendo completamente perdida em nossa conversa.
- A escola inteira viu os peitos dela! – Contei. Harry soltou uma risada.
- Viu? Cara, os peitos dela ainda são papel de parede do celular de uns caras que eu conheço! O povo não só viu como também registrou para as gerações futuras!
- Vocês são uns monstros – foi o que concluiu, indignada.
- A gente? Ela quis brincar, nós não fazemos acepção de pessoa! – Harry se defendeu, ao que arqueou as sobrancelhas e sorriu para ele.
- Acepção! Gostei dessa palavra! Muito bem, Harry! – Ela esticou a mão e a bateu na mão dele, que abriu um sorrisinho.
- Valeu, valeu. Mas, voltando: ela ficou mais de uma hora sem a blusa. Foi uma luta para a convencer a colocar só o sutiã! – Soltou outra risada fraca como se ainda não acreditasse na história que viu com os próprios olhos. – A era uma lenda nas festas, dude. Mas agora ela está quietinha, certinha; essas histórias não vão atrapalhar seu namoro, pode ficar tranquilo.
- Nós não somos namorados – corrigi.
- Ainda. – acrescentou.
- Não...
- Você é um cachorrão, mesmo, hein? – Harry deu um tapa em minhas costas.
- Para quê esses adjetivos predatórios, Harry? Estamos insinuando um relacionamento sério aqui, não sexo casual – bufou.
- O cara ferrou todas as chances que ele tinha de ter qualquer coisa com a menina e, ainda assim, consegue fazer uma chance brotar do nada!
- Eu não colocaria nessas palavras – observei.
- É, eu sei que é difícil para você acreditar, afinal, você realmente pisou na bola, mas, se ela for masoquista e gostar de você, que mal há? – Harry deu outro tapa em minhas costas e , por outro lado, olhou-o como se se perguntasse o que havia de errado com ele.
- O que há de errado com você? – Ela traduziu meus pensamentos.
- O quê? O que eu fiz? – Harry encolheu os ombros. – É verdade! Ela tem que ser muito louca para se aproximar dele de novo!
- Obrigado pela parte que me toca, Harry. – Balancei a cabeça.
- Ah! – Ele pareceu entender o quão inconveniente estava sendo e, meio ansioso por reparar o erro, bateu em meu ombro mais uma vez, o que me irritou um pouco. Para quê todo esse contato físico? – Mas ela gosta de você, Niall, pode ficar tranquilo.
- É, ela é louca – rolei os olhos.
- Vamos voltar a estudar. – determinou e tocou o caderno de Harry, indicando que ele devia voltar sua atenção para os estudos. Eu, por minha vez, abri o livro de História, desistindo da Literatura, e tentei ler a matéria que eu deveria ter lido para fazer o teste de hoje.
Mas não consegui manter minha atenção ali por muito tempo; estava pensando freneticamente no que Harry dissera.
não poderia ser louca a esse ponto, mesmo que eu não pudesse negar que havia esse clima entre nós.
Depois que a levei ao castelo de Carlisle, sentia que havia um laço muito mais forte entre nós. Sentia que eu sabia um pedaço dela que mais ninguém conhecia – talvez exceto por – e ela sabia um pedaço meu que, com certeza, ninguém mais sabia. Fora muito fácil decidir por ela que seria o melhor a se fazer: ir a um castelo para superar o medo de castelos. E, confesso que se ela tivesse surtado e me batido ali mesmo, eu não poderia reclamar muito; ela estaria com a razão.
Mas vê-la se acostumar com a ideia, mesmo que lentamente, foi um banho de água gelada em mim. , que havia ido e voltado do inferno algumas vezes em sua vida, estava ali parada diante de um dos seus monstros e o enfrentou de frente. E eu, quando precisaram que eu fosse forte o suficiente, não consegui nem ir ao enterro de minha mãe e nunca nem a visitei.


Liam’s POV
All the small things, true care, truth brings”, Zayn começou a cantar, parecendo desconfortável com a escolha dessa música para a setlist da nossa próxima apresentação. Harry e Niall acompanhavam com suas guitarras e Louis fazia a linha do baixo com muita concentração para não se perder. E eu também estava tentando me concentrar ao máximo para não errar a batida – como eu já havia feito pelo menos umas dez vezes, sem saber muito bem o porquê daquela distração toda.
- Liam! – Louis gritou de repente, olhando para mim com raiva. Parei o braço no ar, prestes a bater no prato da bateria. Todos os outros pararam para me fitar; até mesmo Josh que estava deitado no sofá com seu notebook no colo.
- De novo, cara?! – Josh berrou, soltando uma risada. – Que foi? Tá apaixonado?
- Quê? Claro que não! – Revirei os olhos.
- Quem é ela, cara? – Louis insistiu.
- Não tem ninguém – afirmei, um pouco mais rude do que o necessário. Não estava com muita paciência para Louis. Depois da conversa que tive com , ele estava na minha lista de suspeitos.
- Pode falar, Liam, somos os irmãos que você não tem. – Harry tirou a correia da guitarra do pescoço e apoiou o instrumento na sua respectiva base.
- Eu tenho um irmão!
- É isso! – Louis bateu uma palma e levantou um dedo, agitando-o no ar. – Ele ainda tá admirado com o babão em casa.
- Não é todo dia que ganhamos um irmão, espertalhão – bufei.
- Eu tenho várias, se quiser uma. – mostrando nos dedos a quantidade de irmãs que tinha, Louis soltou uma risada, mas eu o ignorei.
- Ele não precisa de uma irmã; ele já tem a . – Josh lembrou.
- Ah, sim, verdade! E que irmãzinha, hein? – Harry piscou para mim com um sorriso sacana.
- Deve ser nela que ele está pensando – com um tom de humor quase imperceptível, Zayn disse.
- Se for o caso, nós te perdoamos, dude – Harry me assegurou.
De alguma forma, o ensaio acabou ali. Niall apoiou a outra guitarra no suporte e se jogou no sofá ao lado de Josh. Louis também se livrou do baixo e Zayn foi até o frigobar que colocamos num dos cantos da sala, tirando de lá uma garrafa d’água. Acabei por sair de trás da bateria e ir me jogar numa das poltronas, ignorando os comentários deles sobre .
- Ei, falando nisso, o que não tem nada a ver, na verdade, mas achei muito legal vocês dois naquele dia lá – Niall comentou com Harry.
- Que negócio? – Foi Louis quem deu voz à pergunta que surgiu dentro de mim. Zayn sentou-se na poltrona ao meu lado.
A sala estava um pouco escura por causa do dia nublado lá fora, e, principalmente, porque aquela sala não tinha janelas, o que dava a ela um ar ainda mais legal que não me cansava nunca.
- Eles estão estudando juntos. – Niall respondeu. Zayn engasgou com a água, tossindo.
- Você estuda, Harry?! – Ele alfinetou, arrancando risadas de todos, menos de Harry.
- Eu sei que é difícil acreditar que um cara como eu tenha nascido com tudo menos esse ponto – esquivou-se da provocação. Olhando dali, era engraçado tentar adivinhar quem tinha um maior ego: ele ou Zayn.
- Vocês estão estudando juntos – voltei ao assunto.
- Vocês vão fazer muito sexo, cara! – Josh fez um toque com Harry.
- Sim, ela é bem inteligente – Harry riu, respondendo a mim ao invés de Josh. Assenti com a cabeça, tentando não me perder em alguns pensamentos esquisitos que estava tendo sobre aquele assunto todo. – Sabia que ela está na classe avançada de matemática?
- Go, ! – Louis gritou, sorrindo também. Segurei a vontade de rolar os olhos, extremamente impaciente para aturar as besteiras dele. – Deve ser legal ser portador desse tipo de inteligência. Alguém aqui sabe como é esse sentimento?
- Meu psicólogo disse que minha inteligência dominante é a musical – Niall contou.
- Nah, não conta – Louis acenou com a mão.
- Claro que conta, o cara é um gênio – defendi Niall, certo de que aquele tipo de coisa precisava ser mais valorizada, mas sem ter tanta certeza se eu fiz aquilo só por implicância com Louis. – Ele dava conta dessa banda sozinho.
- Ouch – Harry colocou a mão no peito.
- O ponto era que a é muito inteligente, obrigado por me darem a oportunidade de elogiar uma amiga – Louis encerrou sua argumentação.
- Gente, olha aqui! – Josh gritou, sentando-se. Virou o notebook para nós, mostrando nosso vídeo no YouTube e desceu a barra de rolagem. – Quatrocentos e quinze comentários! Olha quantas garotas!
- Deve ser tudo fake - Louis duvidou.
- Por quê?! Nós merecemos isso, Lou! Nós somos bons! – Josh fez um biquinho para ele, mostrando o quanto aquilo para ele era valioso. – Dê algum crédito a si mesmo.
Arqueei as sobrancelhas, surpreso ao ver Josh falando daquela maneira tão profunda.
- Olha esse! – Harry apontou para a tela, sorrindo. – “Eu apenas queria a voz deles injetadas no meu sangue”! Meu Deus! Quem diz esse tipo de coisa?! – Ele riu.
- Eca – Louis franziu o cenho.
- E esse? “Apareceu nos meus recomendados! Obrigado YouTube!” – Niall leu.
- Estamos aparecendo nos recomendados?! Isso é grande! – Harry sorriu.
- O cara deve seguir canais que divulgam gente que está começando – Zayn observou.
- “Bandas são seitas cuja único critério para entrar é saber cantar E ser bonito!” – Louis leu mais um comentário. – Man, nem nisso a gente acertou! O único que teve critério pra entrar nessa joça foi o Niall que teve que beijar a !
- Todos temos certeza de que ele não se arrepende disso, vamos seguir em frente. – Josh revirou os olhos.
- Na verdade, foi meio que uma mancada, né, Josh? – Niall questionou.
- Enfim! Estamos falando de toda a atenção que vocês estão recebendo!
- “Tem que fazer muito mais que cover para subir nessa vida. Aliás, aquele de cabelo cacheado parece que nem sabe o que está fazendo”. – Harry leu em voz alta mais outro comentário, entortando a boca assim que terminou de ler.
- Você está mandando muito bem, Harry! Não liga para o que esse babaca disse – Niall tocou o ombro de Harry, que deu de ombros, forçando-se a ignorar aquilo.
De fora, eu apenas observava a reação de cada um com aqueles comentários. Era gratificante, mesmo com esses comentários mais chatos. Mas eu me encontrava meio alheio naquela cena; minha cabeça ainda rodava um pouco em torno da conversa mais cedo, sobre Harry e . A ideia de vê-los se envolvendo, de qualquer jeito, incomodava-me de forma absurda, mais até do que eu gostaria de admitir, muito embora eu já estivesse ciente de alguns sentimentos que eu nutria por ela.
Mesmo assim, aquilo era quase inadmissível, a graça do jogo era isso: nunca poderá ser mais do que sexo casual e, por isso, ninguém podia se apegar.
Mas eu já devia saber: quem brinca com fogo uma hora se queima.


’s POV
“5 minutos, na sala de ginástica x”, recebi a mensagem de Louis, o que me tirou o foco do roteiro de teatro. Larguei o bloco de folhas em cima do peito e encarei o teto, aproveitando o silêncio que estava ali dentro do quarto e que eu teria que abandonar para ir para a sala de ginástica só porque Louis estava me chamando.

Suspirei e levantei da cama, calçando meu All Star de qualquer jeito e me arrastei até a porta.

- Opa! – Rebekah entrou no quarto antes que eu pudesse pegar a maçaneta, batendo a porta em meu antebraço. – Desculpa, .

- Tudo bem. – Falei, segurando o braço e passei por ela, mas parei quando a ouvi me chamar.

- , ! – Ela apareceu na porta e se apoiou no batente, com um sorriso no rosto. – Sei que você me odeia e tal, mas, por favor! – Acenou com a mão para que eu voltasse para o quarto. Cruzando os braços, arrastei-me de volta para o cômodo. Rebekah tirou dois cabides de dentro de seu closet e me mostrou duas blusas: uma verde musgo de gola alta e que deveria ir até a metade de sua barriga e outra preta rendada.

- Ei! Essa blusa é minha! – Apontei para a blusa preta.

- Eu sei! É tão bonita que eu tive que pegar emprestada! – Mordeu o lábio inferior.

- Você nem me pediu! – Levantei as mãos, exasperada.

- Estou pedindo agora.

- Depois que você já pegou? – Arqueei as sobrancelhas.

- Ah, qual é, ! – Ela rolou os olhos. – Por favor! Eu amo essa blusa verde, mas acho que o Liam iria gostar muito mais dessa!

Liam?

- Liam?

- Sim, o encontro, lembra? – Ela mordeu o lábio inferior mais uma vez, como se reprimisse uma risadinha, como se ela realmente estivesse saindo com alguém que ela realmente gostasse. Como se seu interesse em Liam não fosse só sexual e sim algo mais.

Senti meu estômago embrulhar.

- Como vocês vão sair da escola? Hoje é quarta.

- Não vamos – acenou com a mão. – Planejamos um piquenique no jardim atrás do refeitório.

Um piquenique?

Uau, Liam estava sendo romântico! Outro que se esforça muito para conseguir sexo!

Não consegui evitar a pontada de inveja que aquilo me causou; enquanto eles faziam piquenique à luz do luar, Liam e eu tínhamos que nos espremer em armários e esperar nossos respectivos adultos saírem de casa.

Que merda, será que eu nunca vou ter um relacionamento normal?!

Será que eu nunca vou poder segurar a mão da pessoa que eu gosto em público e poder beijar a qualquer momento?!

Olhei novamente para Rebekah, que esperava pacientemente pela minha resposta sobre as malditas opções para usar naquela noite.

Um pensamento maldoso passou pela minha cabeça.

- Tanto faz: você vai parecer uma puta de qualquer forma. – Anunciei meu veredito e lhe dei as costas, indo em direção à saída do prédio dos dormitórios.

Balancei a cabeça quando o vento gelado soprou em meu rosto quando passei pela porta, estava começando a me sentir mal pelo que havia dito para Rebekah; nosso relacionamento havia melhorado nessa última semana. Ela até havia trançado meu cabelo para a festa no pub, mas aquele maldito encontro com Liam havia mexido com alguma coisa dentro de mim e eu odiava aquilo com todas as minhas forças. Odiava que mexesse tanto comigo e me odiava por deixar que mexesse. Encolhi-me debaixo de meu casaco quando senti outra brisa gelada.

Bom, pelo menos eles vão passar frio.

É bom que o que Louis tenha a dizer seja muito importante, pensei, indo para a parte mais antiga do prédio do ginásio. A última sala do corredor externo, meio mal iluminado, ainda que o sol não tivesse sumido completamente do céu.

- Ela chegou! – Ouvi Louis gritar, abrindo os braços, comemorando. Revirei os olhos e fui me sentar na poltrona do canto, a mais afastada dos dois sofás de três lugares velhos que tinha ali, de costas para o grande espelho que cobria a parede.

- Oi. – Aconcheguei-me ali, com os joelhos encostados no peito. Notei que , e estavam ali também, ocupando um sofá inteiro. Harry estava sentado no braço do outro sofá, no canto mais longe da ex-melhor amiga.

- Senta mais perto, . – chamou, sorrindo fraquinho para mim. Levantei rapidamente e empurrei a poltrona para mais perto, mas ainda continuei meio distante. Eu podia sentir o olhar de Liam em mim o tempo todo, o que estava me incomodando de verdade. Tentei não reparar em como ele estava todo arrumado, com roupas diferentes das usuais; o uniforme, mas seu perfume era sensível de onde estava e isso estava me dando nos nervos.

Todo arrumadinho.

- É bom que seja rápido. – Zayn entrou na sala, fumando seu cigarro, que já estava acabando. Colocou-o no cinzeiro que havia ali especialmente para ele e jogou-se no sofá, entre Liam e Niall. Rebekah entrou também e, depois de soltar uma piscadela para Liam, que piscou de volta, ela foi sentar-se com Josh em um canto, onde eles começaram a cochichar. Ela estava usando a minha blusa.

- Só falta a . – Louis abriu um sorriso.

- Podemos começar logo com essa coisa de reunião? Tenho um roteiro para decorar. – Falei, com a bochecha apoiada na mão.

- Calma, . – Liam disse, e eu fiz questão de ignorar.

- Desculpe. Desculpe. – anunciou sua chegada, fechando a porta rapidamente atrás de si, um sorrisinho sem graça nos lábios. Louis abriu outro sorriso, um que mal cabia em seu rosto. Tive que me conter para não revirar os olhos. Ótimo. Mais um casalzinho feliz e apaixonado, é disso que o mundo precisa.

- Tudo bem, senta aí. – Harry acenou, de um jeito confuso, para o sofá onde Louis, Niall, Zayn e Liam se sentavam. Como ela ia sentar ali? Harry era um retardado, mesmo. fez uma careta e foi se sentar no braço do sofá onde as meninas estavam sentadas.

- Ok, ok, estamos todos aqui. Então...? – Apressei os meninos.

- Como vocês sabem, amanhã é Late Winter Festival. – Liam disse, olhando diretamente para mim e eu lhe devolvi o olhar, tentando parecer tão homicida quanto eu estava me sentindo naquele momento.

- E eles querem que a gente toque. – Harry terminou, olhando para cada pessoa presente nessa sala.

- Quem são “eles”? – perguntou.

- O Comitê do Festival. O Sr. Clark conseguiu que eles nos dessem uma chance – explicou Louis.

- Não é como se eles tivessem coisa melhor, né... – Zayn murmurou.

- E? – franziu o cenho, mas sem olhar para Harry.

- E que a gente quer que vocês nos promovam. – Louis completou.

- Ainda não faz sentido para mim. – coçou a cabeça.

- Calma, calma. – levantou as mãos. – Depois do festival vai ter uma festa. Essa festa. É a que a Sally tá organizando? Vocês vão tocar lá também? – Olhou para Harry também, que apenas sorriu fraquinho e deu de ombros, como se dissesse que não sabia nem que iria acontecer uma festa depois.

- É, é a festa da Sally. – Liam respondeu por ele. Eu podia sentir a malícia na voz dele. – Será na cidade. Carlisle. Coisa grande!

- Promover vocês! Rá! Eu entendi agora o que é! Já sei onde isso vai dar e a resposta é não. – puxou o cabelo para um lado do pescoço e encostou-se ao encosto do sofá.

- Qual é, ! – Louis fez bico.

- Não, Louis! Não vou pegar os carros do meu pai de novo! Da última vez ele quase descobriu! – Ela choramingou.

- A gente podia alugar algum carro, então. – deu a ideia, falando tão baixo que eu tive que me esforçar para ouvir.

- Isso não é uma boa ideia. – Ouvimos Josh comentar.

- Eu acho melhor. – levantou a mão, como se fosse uma votação. – Eu posso até pagar pelo aluguel, se isso for tirar vocês da garagem do meu pai.

- Isso, , foi muito legal de ouvir! – Josh gritou, levantando uma calculadora e algumas folhas, fazendo todo mundo rir.

- Certo, então era só para isso que vocês precisavam da gente? – Perguntei, ajeitando-me na minha poltrona, mudando de lado, colocando o rosto na outra mão, no outro braço da poltrona. Liam olhou para mim, repreendendo-me.

- , os meninos estão pedindo nossa ajuda, é importante. – disse.

- Eles só querem os carros do pai da – bufei.

- Não é verdade! – Harry se defendeu. – Nós queremos ajuda de todas! Você pode entregar os panfletos do festival!

- Pois é! Todo mundo aceita sugestões de garotas bonitas! – Louis concordou, fazendo Liam cravar seus olhos no amigo.

Aquilo me irritou. Ele podia marcar o encontro dos sonhos com a Rebekah e eu não podia ouvir um elogio?!

- Usa aquela bota marrom! – Louis continuou. – Você fica bem nela.

Meu estômago embrulhou pela segunda vez naquela noite. A bota. A bota! A bota da foto! A foto que alguém havia tirado e que Liam havia colocado Louis como possível stalker. Meu Deus, minha cabeça ia explodir naquele momento.

- A bota marrom? Como você é observador, Louis. – Liam alfinetou.

- Cala a boca, Liam! – Grunhi para ele.

- Fica ligado ou sua namorada vai ficar com ciúme – Liam insistiu.

- Pode ficar tranquilo, Liam, todo mundo aqui sabe que só você pode comer a . – se manifestou.

- Como é? – Olhei para ela, indignada.

- Ah, por favor... – bufou.

- Ele tem um encontro daqui a pouco e sou eu quem ele está comendo?! – Arqueei as sobrancelhas. – Qual é, , você consegue inventar coisa melhor ou você tá chapada?

- . – Liam me repreendeu.

- O quê? – Olhei para ele, irritada.

Meu humor já estava uma droga e, como sempre, a só havia conseguido piorar. Eu conseguia sentir o pânico crescendo dentro de mim; e se o que ela disse surtisse algum efeito nos outros? Ninguém jamais poderia saber que eu Liam sequer gostávamos da companhia um do outro! Se mais alguém soubesse, era questão de tempo para que chegasse aos ouvidos do meu pai. E aí eu não sei o que seria dali em diante. Não suportaria magoá-lo.

Ajeitei-me na cadeira novamente, inquieta, encarando enquanto ela também tinha os olhos desafiadores presos a mim. Tudo que eu queria era ir embora logo e ignorar todo mundo pelo resto do ano letivo.

- Enfim, foco aqui! – bateu palma e voltou ao centro da questão. Ela já estava meio deitada, encostada no ombro de .

- Então, vamos alugar carros. – Niall definiu, fazendo abrir um sorrisinho por ter sua ideia medíocre apoiada. – Vamos levar nosso próprio equipamento ou...?

- A gente pode levar alguma coisa... Tipo, a Megan. – Liam olhou em volta. – Tudo bem? Eu acho que é a prioridade, né? A maior coisa, a bateria.

- É, a bateria. – Niall concordou, olhando em volta também. – E as meninas vão? Vocês vão?

- É óbvio! – e falaram juntas, riram um pouco disso e fizeram um high-five.

- Eu quero ir. – sorriu, batendo palminhas.

- Eu também quero ver vocês tocando. – disse, mais baixo que da outra vez.

Louis quase teve um AVC.
- O único lugar que você vai é pra reabilitação, freak. – Murmurei para mim mesma, mas acho que todo mundo acabou ouvindo.

- Ok, , já chega! – ralhou.

- Não, deixa ela, . Ela só quer chamar a atenção. – respondeu, balançando a cabeça, querendo dar uma de madura.

- Rá! – Soltei, forçada. – Eu querendo chamar a atenção? E você é quem? A rainha da discrição, né? – Sorri para ela, cínica. – Aliás, você esqueceu de cobrir uma cicatriz. – Mostrei meu pulso para ela. A sala estava em silêncio, todos ali nos assistiam.

- E o que você faz, ? Enche o saco de todo mundo pra aliviar a tensão? - soltou uma risadinha seca. - Deve ser muito solitário viver no topo do mundo, olhando todos de cima, porque você se acha muito superior, muito esperta, muito sabe-tudo sobre todos!

- Me diz você como é morar no fundo do poço. - Soltei sem conseguir segurar. Era isso que ela queria, então?

- Por que você não simplesmente cala a boca? - abriu os braços, exasperada. Parecia que todos ali dentro estavam ficando nervosos, e minha irritação já era quase palpável.

- Eu calo a minha se você for encher a sua com suas pílulas de tarja preta. Falando nisso, é uma pena seus remédios não fazerem efeito, .
Levantei quando ela se levantou, vindo em minha direção, e avancei também.
- Engraçado o seu modo de se sentir melhor, atacando os outros. É muito nobre! – O tom dela era firme, mas eu sabia que por dentro, ela realmente se lamentava por não poder acordar com a boca cheia de formiga depois de uma overdose, não conseguia me enganar.

- Qual é, , sei que concordamos em uma coisa: que você é só mais um espaço desperdiçado nesse mundo. – Sibilei, quando a proximidade entre a gente era quase desprezível. Minha raiva era tão grande que minhas mãos estavam tremendo para puxar e bater em alguma coisa. Eu quase me senti mal por ela; eu estava irritada, puta da vida, mas não era com ela. Era com a merda toda.

A só estava sempre no lugar errado e na hora errada.

- E você, o que é, rebelde solitária?

- Alguém amada por meus pais, pelo menos não sou eu que tenho um pai bêbado e louco porque perdeu a vadia que te colocou nesse mundo. – Arqueei uma sobrancelha, vendo o ar escapar dela, as bochechas vermelhas, os olhos vidrados.

- Ah, é? Então o que você tá fazendo aqui e não na França? Pois é, acho que minha mãe não é a única vadia desertora por aqui...

- Já. Chega. – Louis se colocou entre a gente, ficando de costas para mim e passou um braço ao redor de , afastando-a.

Senti mãos me puxarem para trás. Tentei me livrar, mas era forte demais. Olhei para trás e vi Liam, olhando para onde me segurava, me prendendo depois contra ele.

- Me solta, Payne! – Gritei, explodindo de vez.

- Você já aprontou demais, . – Disse ele, baixinho. Tentei me soltar de novo, mas ele só me segurou mais forte, puxando-me para fora da sala, que ainda estava mergulhada em um silêncio terrível.

- Vai ficar do lado da freak também?! – Perguntei, quando já estávamos do lado de fora e ele me soltou. Tirei o cabelo do rosto e olhei para ele. – Seu filho de uma...

- Chega! – Ele me lançou um olhar feio, mas eu o ignorei.

- Meu Deus, Liam! Eu não aguento mais isso! Eu. Não. Aguento! – Coloquei as mãos na cabeça e fechei os olhos, sentindo-os ficarem molhados. – Você vai sair com a Rebekah! – Abaixei o tom de voz, olhando para o que a luz fraca do poste iluminava de seu rosto.

- Nós não estamos namorando, ! – Ele me puxou para um canto ainda mais afastado da porta da sala de ginástica.

- Quando você ia me contar, hein?! Quando você me agarrasse no armário do zelador entre uma aula e outra?!

- , você está fazendo tempestade em copo d’água sobre isso.

- Tá! Foda-se! Não quero saber! Quer saber? Chega! A melhor coisa que eu fiz foi sugerir aquele maldito acordo e a pior coisa que você fez foi falar aquele monte de merda para mim só pra conseguir o que você queria: sexo!

- ...

- Não! Já chega! A menor menção a estarmos tendo um caso e eu quase bato naquela... Ugh! Mas para quê?! Para quê eu estou aqui fazendo meus amigos me odiarem? Você não liga mesmo! Você vai sair com a Rebekah! Um piquenique!

- Você me disse que eu tinha que sair com ela! Não deixar evidente que eu não fico com ninguém desde que minha meia-irmã chegou! Porra, ! Eu até estava me sentindo mal. Mas depois do que você disse à ...

- Isso! Voltamos à ! Vai, Liam, defende a pobre coitadinha! – Empurrei-o pelo ombro. – Diz o quão terrível eu fui, diz como ela não merece isso! Como eu não sei o que ela passou! Claro! Porque eu tenho que ter uma bola de cristal para saber o que cada pessoa nesse mundo passou!

- Eu podia até te dizer algumas coisas legais agora, , eu podia te abraçar e dizer que você não está bem e que tudo que você precisa e relaxar um pouco. Mas eu tenho que sair com a Rebekah daqui a pouco, então... – Liam me olhou de cima a baixo, me medindo. Balançou a cabeça negativamente e começou a fazer o caminho de volta para a sala da banda.


’s POV
Economia... Economia... Os títulos dos livros nas estantes passavam por mim enquanto eu buscava por aquele que seria o que eu desejava. “Economia em uma lição” era o título do livro que eu procurava; a bibliotecária me avisou que provavelmente eu não encontraria, pois outros alunos da classe de Economia já haviam passado na biblioteca mais cedo para alugar esse mesmo título, mas eu resolvi arriscar. Não havia muito para eu fazer naquele momento, afinal de contas, todo mundo meio que se dispersou depois da briga entre e .
- É, nada de livro para mim – murmurei com um breve suspiro.
- Falando sozinha? – Alguém falou atrás de mim, provocando-me um susto. Girei nos calcanhares para encontrar um sorrisinho satisfeito no rosto de Zayn.
- Você me assustou – reclamei.
- Você é muito fraca – estalou a língua, apoiando-se contra a enorme estante de madeira atrás de si, sem abandonar o sorrisinho. – O que está fazendo aqui?
Arqueei as sobrancelhas, olhando em volta sugestivamente.
- Eu quis dizer: a essa hora da noite – corrigiu-se.
- Pergunto-me a mesma coisa, já que, aparentemente, cheguei tarde demais para encontrar o livro da aula.
- Que pena.
- Você não parece nem um pouco comovido.
- Não estou – soltou uma risada. – Mas isso é engraçado; todo mundo foi para o quarto ou o refeitório, mas você veio para cá.
- Chocante, não? – Franzi o cenho e me encostei na estante atrás de mim. – Eu devo ser um tipo de ET ou coisa do tipo.
- Eu te levaria para casa fácil – piscou para mim. Rolei os olhos, pegando a referência do filme ET.
- Um dia, Zayn, eu vou ter a mesma autoestima que você tem. Esse dia será incrível, tenho certeza – ri.
- O quê? – Ele se afastou da estante e parou a alguns centímetros de mim, colocando suas mãos nas prateleiras de cada lado na altura dos meus ombros. – Você não iria para casa comigo?
- De quanto álcool estamos falando? – Abri um sorriso debochado para ele, que pareceu se divertir ainda mais com a conversa. Seus olhos queimavam os meus à medida que a distância entre nós era diminuída.
- Muito pouco, claro. Minha reputação depende do quanto você se lembrará do se... momento.
- Nossa, sua reputação está em jogo? – Fiz uma careta de preocupação e mordi o lábio. – Que pena! Eu não curto sexo casual. Foi mal.
- Eu sinto muito por você. – Declarou e, não me aguentando com a hilaridade da conversa, soltei uma risadinha e ele me acompanhou.
- Seu ego é tão grande que a gente devia dar um nome para ele – brinquei.
- Quer saber o que é maior que ele? – O sorrisinho estava de volta. Senti minhas bochechas queimarem, o que só o fez sorrir mais. Zayn balançou a cabeça, tentando não rir e, sem aviso prévio, juntou nossos lábios.
Acho que esse é um momento seguro para dizer que, definitivamente, eu nunca me cansaria de beijá-lo. Nunca me cansaria de sentir seu cheiro tão perto, nem o gosto de seu hálito ou a maciez e o calor de seus lábios. Com certeza, eu jamais superaria as borboletas no estômago. Eu já sei disso. Passei meus dedos pelos seus cabelos, trazendo-o mais para perto de mim, e suas mãos seguravam minha cintura com firmeza, como que me segurando no lugar, como se eu fosse fugir a qualquer momento; o que é uma probabilidade quase nula, convenhamos.
De repente eu me lembrei que estávamos na biblioteca, entre duas estantes que não ficavam tão afastadas assim e, sem pensar, empurrei Zayn pelos ombros. Ambos tínhamos a respiração descompassada e trocamos um olhar antes de eu seguir até o fim do corredor que as duas estantes formavam e caminhei até a seção de Geografia, a mais afastada da biblioteca. Sabia que ele estava em meu encalço, por isso não me dei ao trabalho de olhar para trás. Parei apenas quando adentramos o último corredor que as estantes formavam.
- Ainda bem que eu não presto, senão eu ficaria ofendido com esse medo todo de ser vista comigo – foi o que Zayn disse quando eu me virei para ele.
- Não, não! Eu só... Sei lá. – Soltei um suspiro frustrado.
- Relaxa, – vi-o trocar o peso do corpo de um pé para o outro, como se estivesse incomodado.
- Zayn, não é isso. Eu só não quero que as pessoas fiquem falando, não quero olhares, risadinhas, comentários...
- A princesinha do colégio não pode ser vista com o vagabundo.
- Antes de qualquer coisa, Zayn, nós somos amigos. Eu já andava com você antes disso – apontei para nós dois. – Você não se incomoda de pegar ninguém no armário do zelador. Você e a ficaram lá várias vezes. Qual o problema desse não ser público também?
Ele não respondeu.
- Vamos dar tempo ao tempo, o que acha? – Propus, aproximando-me dele. Passei meus braços por seu pescoço e abri um sorrisinho. – Não é como se eu fosse mais que um lance, não é? – Forcei-me a dizer. Honestamente? Eu não queria, de forma alguma, ser só um lance para ele, mas o que eu podia fazer?
- Não vamos forçar nada, eu gosto dessa ideia – disse. Ele contornou a minha provocação com certa classe, mas eu queria uma resposta definitiva sobre aquilo.
Ele sente alguma coisa. Ele sente alguma coisa!, minha mente gritava, mas eu a ignorava com rapidez, certa de que não alimentar esse tipo de pensamento era o terreno mais seguro para se estar naquele momento.
- Vamos definir alguns pontos de encontro – sugeriu, passando os braços pela minha cintura.
- Aqui? – Olhei em volta com satisfação; não havia ninguém.
- Aqui somente nesse horário, mais cedo é arriscado.
- Certo. Hm, o armário do zelador? – Soltei uma risadinha e ele forçou um breve sorriso.
- Não.
- Por que não? É um clássico!
- Porque... – Ele se interrompeu, umedecendo os lábios. Pareceu pensar por um segundo antes de olhar mais uma vez para mim. – Porque você é diferente.
- Diferente como?
- Diferente bom – franziu o cenho como se não estivesse certo da resposta.
- Muito convincente, mas você era a minha única chance de ter a típica experiência autodepreciativa de ficar com alguém no armário do zelador – entortei a boca.
- Na sala da banda – ignorou minha provocação.
- Aquela explicação sobre as pessoas incluía nossos amigos. Especialmente os nossos amigos!
- Não estou dizendo para você sentar no meu colo enquanto estamos ensaiando – rolou os olhos. – Uma vez ou outra, eu digo quando está tranquilo nos vermos lá.
- Cansei de definir lugares. Isso é chato.
- Só mais um; a oficina de marcenaria.
- Ah, que gracinha! Você está criando memoriais! – Apertei a bochecha dele, que se esquivou.
- Eu só quero um lugar para poder te beijar em paz!
- Olha só! Quem diria! Ele quer me beijar – mordi o lábio inferior para conter uma risadinha.
- Se você quer minha autoestima, eu quero essa confiança toda que você tem.
- A princesinha da escola tem uma reputação a zelar – pisquei para ele. – Inclusive, ela respeita o toque de recolher. – Tirei meu celular da mochila e chequei a hora. – Acho melhor eu ir.
- Só mais um! – Disse rapidamente e me beijou.


Louis’ POV
- Mas eu só vou-
- NÃO, Tomlinson! – Minerva berrou, sua voz estridente me fazendo dar um pulo para trás e fazer uma careta.
- Jeez, mulher. Eu só quero subir e encontrar a minha...
- Namorada?
Abri a boca para responder, mas então fiz uma careta pensativa. Mesmo se fôssemos, eu ainda não ousaria falar essa palavra: era muita audácia que um cara como eu namorasse uma garota como .
- Mesmo se fosse, Tomlinson, sabe muito bem as regras desse colégio, já que está aqui quase desde que nasceu. Sem garotos no dormitório das garotas e vice-versa, não importa se vocês são casados! Agora, por favor, vá andando. – Ela fez um gesto com a mão quase como se me varresse de sua frente, me fazendo virar as costas bufando. – Quero pegar mais chá e está bloqueando minha passagem. Ande! Saia daqui! Vá esperar a namoradinha lá no portão!
Abri a boca para responder de novo, mas então grunhi. Que velha chata e mal humorada.
Andei alguns metros, e quando olhei por cima do ombro e vi que Minerva já ia em direção ao caminho para o bloco do refeitório, eu respirei uma rajada de ar e dei meia volta, desatando a correr até a porta do dormitório feminino.
Pelo jeito ela nem me viu. Já devia ser meio surda, aquela múmia. Estava no St. Bees desde mil e oitocentos, afinal. Ri fraco com meus pensamentos e percorri o corredor do andar de baixo até chegar à escada, subindo sem pressa por ela também. Nas paredes, assim como no bloco masculino, haviam quadros e mais quadros de antigas turmas de alunas que por ali passaram.
Cheguei até a porta do quarto de e e antes de bater a porta se abriu. Dei de cara com , que pelo jeito estava de saída.
- Oi! – Sorriu, bem humorada. – Ela está na banheira.
Franzi o cenho, mas há essa altura já estava no corredor.
- Na... Banheira? – Espiei para fora do quarto.
- É, ela gosta de ficar por lá! – Gritou de volta, sem parar de caminhar.
Weird. Voltei para o quarto, olhando brevemente em volta. Ele tinha aquele mesmo leve cheiro de algo que remetia a incenso, mas suave demais para ser isso. Talvez fosse um sabonete, ou um shampoo, ou até um daqueles sabãozinhos cheirosos que as pessoas guardam na gaveta das meias. As camas das duas estavam arrumadas, e na de havia a fita que a dei de presente em cima do colchão. Combinamos de ir à cidade comprar um tocador de fita para que ela finalmente pudesse ouvir as músicas que eu – com muita dificuldade e uma ajudinha extra de um cara que entendia de computadores e sabia usar o tape deck da biblioteca – gravei na fita para ela. ficou bastante hesitante sobre sairmos por um tempo, e não entendi o motivo disso, mas consegui fazer com que ela dissesse sim.
Fui até a porta do banheiro e dei duas batidinhas de leve, talvez ela estivesse tomando um banho na banheira?
- ?
Não havia barulho de água. Empurrei um pouco a porta, até encontra-la deitada lá dentro, com as pernas dobradas e os braços apoiados nas bordas.
- Ei. O que...? – Não consegui conter minha confusão, pois não havia água na banheira e ela estava vestida.
- Ah, oi. A ainda tá aí? – Perguntou, tentando olhar por detrás de mim.
- Não... Ela acabou de sair.
- Ah. – Ela relaxou e então levantou a mão que estava escondida, levando um cigarro à boca e deitando a cabeça para trás para tragá-lo. – Já vou sair. Eu só precisava... – Balançou a carteira de cigarros pela metade no ar.
- Ok. – Escorei-me na parede e cruzei os braços. – Por que você está na banheira?
- É confortável. Diferente perspectiva. – Deu de ombros. – E o cheiro sai pela janela, não dá pra sentir. – Indicou o cigarro.
Ri fraco.
parecia um tanto estranha. Eu esperei calado até ela terminar aquele e jogar pela janela, respirando fundo antes de sair da banheira, como se estivesse se obrigando a fazer aquilo.
- Vamos lá.
A segui para fora do quarto, vendo ela pegar a fita na cama e o casaco atrás da porta antes de sairmos. Então descemos as escadas e passamos pelo corredor do térreo até a porta, mas quando vi que Minerva estava voltando eu me encolhi e fiquei atrás de , que ficou momentaneamente confusa. Quando a proximidade entre nós ficou menor Minerva já tentava espiar para quem estava atrás do corpo de , enquanto eu virava o corpo dela para ficar entre mim e a velha.
- Senhor... Senhor... – Minerva parou, e empurrei para continuar andando, a virando para Minerva atrás de nós e continuando a andar a puxando para trás. – Senhor Tomlinson! - Berrou, e segurei a mão de a puxando junto comigo enquanto corria para o mais longe possível.
Só paramos quando já estávamos perto do portão de saída do colégio, já ofegantes. Parei por um momento me apoiando nos joelhos para tentar recuperar o fôlego.
- Se eu tiver sorte ela esquece até o almoço. – Comentei, e riu levando uma mão ao rosto e balançando a cabeça. – Ok, vamos.
Nós saímos pelo portão e logo lá na frente havia uma grande fileira de táxis. Eles sempre ficavam por ali nos fins de semana, e não seria diferente durante um dos únicos feriados prolongados do ano. Quer dizer, não era sempre que tínhamos folga de quinta até segunda-feira por ali, não mesmo! Outros alunos embarcavam e desembarcavam de táxis ali, alguns vinham atrás de nós, e precisei dar uma corridinha para pegar o táxi que estava estacionado mais próximo do portão antes que outro garoto chegasse primeiro. Ele me olhou feio, mas logo foi procurar outro carro e abri a porta de trás, fazendo uma reverência para , que entrou em minha frente. Sentei ao seu lado e pedi para irmos ao centro de Carlisle.

- Você não tem ensaios hoje?
- Mais tarde. Optamos por fazer o mais tarde possível, para deixar tudo claro na memória. Harry está tendo problemas com os acordes e Zayn com a letra, e o Harry está puto porque nós consideramos colocar o Niall no lugar dele. Não muda nada! Ele só se sente mais importante estando do lado direito de Zayn ou coisa parecida.
Ela concordou com a cabeça, revirando os olhos.
- Ei, e sobre o balé, eu estava pensando.
- É amanhã! – Ela pareceu se lembrar e abriu um sorriso empolgado para mim, que correspondi.
- É. Podemos sair um pouco antes e, você sabe... Jantar em algum lugar. Ou depois. Você que sabe, na verdade, realmente. – Encolhi os ombros, me enrolando um pouco. abriu um sorriso para mim que não consegui reconhecer. – O quê?
- Você vai usar um smoking? – Brincou, puxando as mangas de meu moletom largo nas minhas mãos. – Devo usar um vestido chique?
Revirei os olhos.
- Você tá tirando com a minha cara?!
- Você usou um moletom do Coringa por baixo de um blazer no baile de outono, se bem me lembro. – Ela rebateu, e precisei rir. - Acho que estilo não é bem o seu forte.
- Não finja que não gosta do meu estilo despojado. – Levei os braços até atrás da cabeça e suspirei.
- Mais para desleixado. – Comentou e ficou em silêncio por um momento antes de concluir: - Mas eu gosto.
Sorri.

Descemos em uma rua movimentada da cidade onde ficava o maior número de lojas de todos os tipos, e paguei o taxista, que logo sumiu dali. Caminhamos pela calçada olhando as vitrines das lojas por um tempo, comentando sobre os produtos, e não tardou até entrarmos na primeira, uma loja de artigos musicais. Não havia só discos, camisetas e CDs de segunda mão, mas também instrumentos, alguns novos e outros usados. olhava as camisetas e botons e passei pelo outro lado da prateleira, passando as mãos em umas teclas do teclado que estava meio pendurado ali, fazendo as primeiras notas de How to Save a Life e arrancando dela um sorriso. Ela parecia mais séria agora, como se só uma parte dela estivesse ali, enquanto a outra pensava em outras coisas, diferente da do táxi.
Entramos depois na loja do lado, cheia de acessórios para o inverno: de luvas de couro a pantufas de coelhinho. Fiz uma marionete com uma meia vermelha e riu revirando os olhos e enfiou uma touca de urso com enormes orelhas em minha cabeça. Ri e quando a tirei ela provava uma touca preta, simples, com apenas a palavra “oops” na frente. Estendeu as mãos como se mostrasse e sorri, assentindo.
saiu de lá usando aquela touca, e eu não comprei nada, apesar de pensar que aquela touca de urso realmente era quentinha. Mas já tendo ouvido que meu estilo era “desleixado” naquele dia, uma touca de urso talvez não fosse uma ótima ideia. Depois passamos por uma loja de quadrinhos e comentamos sobre como aquilo parecia coisa de gente legal, mas infelizmente não entendíamos nada sobre HQs. E enquanto eu encarava uma capa de desenho do Hulk em evidência na vitrine, senti nossos dedos tocarem e toquei a mão dela, lentamente entrelaçando meus dedos aos seus enquanto prendia a respiração. Eu segurei a sua mão até ela estar firme na minha, e só então soltei o ar, me sentindo um garotinho. Ri fraco e viramos para sair dali.
olhava constantemente para os lados, eu havia notado aquilo desde que saímos do táxi. Mas agora estava mais evidente, e eu tinha quase certeza de que era porque estávamos de mãos dadas. Talvez – com certeza – ela não quisesse que os outros nos vissem assim. Talvez ela tivesse vergonha de ser vista comigo, afinal eu tenho certeza que todos tinham a mesma opinião sobre nós dois, até aqueles que nunca nos viram antes; éramos tão diferentes.
Paramos em uma lojinha de bugigangas em geral e lá nós encontramos todo tipo de tocador de fitas. Ela optou por um tipo simples, no mesmo formato de uma fita, com um fone de ouvido que ia plugado embaixo e tinha um botãozinho para abrir. Pagou e saímos de lá logo, concordando em comer alguma coisa em algum lugar, pois já era meio dia. Partimos então para outra rua, onde ao invés de lojas ficavam restaurantes, lanchonetes e bistrôs com mesinhas na calçada.
- Vamos lá naquele – ela apontou para uma lanchonete na outra rua, fechada e visivelmente mais reservada, antes que eu pudesse sugerir que fôssemos em um lugar mais arejado. Dei de ombros e a segui, vendo olhar por cima do ombro vez ou outra. Em algum momento olhei também, não aguentando para saber o que era.
- O que é que você...
Mas soltou minha mão abruptamente quando esbarramos em um cara, sem querer, que gritou para “prestarmos atenção onde estávamos andando!”. Ela praticamente deu um pulo para meio metro longe de mim, adotando uma postura defensiva, e a olhei assustado.
- , o que foi? Você está muito estranha!
- É que tem... Argh. – Ela levou as mãos ao rosto, e respirou fundo. Balançou a cabeça e levantou o rosto, segurando meu braço e voltando a caminhar. – Nada. Só vamos ir comer de uma vez.
Eu a segui, agora com um milhão de questões borbulhando em meu cérebro. Queria perguntar por que ela tinha tanta vergonha que as pessoas vissem que estávamos andando juntos, e se esse era o problema, por que ela simplesmente não me falava! Atravessamos uma rua estreita e antes que pudéssemos alcançar a porta da lanchonete olhou por cima do ombro novamente e soltou meu braço, parando de caminhar.
Tudo aconteceu muito rápido. Em um segundo eu olhei para trás só a tempo de vê-la partir para cima de um garoto que caminhava atrás da gente e empurrá-lo com o antebraço pelo pescoço até a parede da lanchonete na rua estreita, chocando o corpo do garoto que parecia aterrorizado contra a pedra. Parei ao seu lado de olhos arregalados, vendo o garoto pálido como se todo o sangue de seu corpo houvesse escoado. Ele a encarava como se ela fosse mata-lo há qualquer momento, então percebi que ele era do colégio, era o garoto que quase roubara o táxi de nós dois.
- Quem mandou você nos seguir?! – Ela vociferou, e há essa altura eu honestamente nem sabia mais o que pensar. O que ela estava fazendo?!
- E-eu... Eu não es-stou...
- !
- Você está nos seguindo desde a escola!
- Eu e-estud-do lá! – Ele gaguejou, não sei se por medo ou por estar sendo quase asfixiado. – Eu estud-do no St. Bees! Não estou seguindo ninguém!
- ! – Chamei, puxando seu braço e tentando afastá-la dele. – O que diabo você tá fazendo?! Solta ele!
Ela ainda o encarou por um bom momento, seu rosto parecendo transparecer uma mistura de raiva e receio, e por fim ainda meio hesitante ela o largou com um safanão. O garoto levou a mão ao pescoço onde ela estava apertando com o braço e saiu dali mais rápido do que o diabo fugiria da cruz, praticamente correndo para longe de nós, mas ainda o ouvi murmurar algo que pareceu muito com “freak”. Voltei a olhar para , boquiaberto e incrédulo, e percebi que todo o seu corpo tremia – e não parecia ser de raiva.
- Ok. Eu preciso de umas respostas. – Encarei-a, sério.

Puxei para a mesa mais afastada dentro da lanchonete, em um canto menos iluminado e movimentado, e pegamos o cardápio para que a garçonete nos deixasse sozinhos. As mãos dela tremiam em cima da mesa enquanto ela as apertava uma na outra, ainda olhando em volta. Por fim, levou as mãos ao rosto e soltou o ar como se ela mesma concordasse que estava enlouquecendo.
- O que foi aquilo, ? Você quase... Foi como... – Balancei a cabeça, sem nem conseguir raciocinar. Primeiro, que ela parecia uma fucking GI Joe. Encurralou aquele garoto como se ele fosse um franguinho de quinhentas gramas, ela parecia um animal selvagem.
Admito que foi sexy.
Mas eu gostaria de saber caso ela fosse se descontrolar e tentar me matar também.
- Louis. Eu preciso te contar uma coisa. – Disse, decidida, levantando o rosto.
- Bem? – Insisti, quando ela nada mais falou.
- Tem alguém... Atrás de mim. Um... um cara. Um... – Fechou os olhos e respirou fundo. – Um cara que conheci.
- Um cara. – Respondi, no automático, tentando digerir aquilo.
- Ele... – Ela olhou para a mesa, tentando pensar em quais palavras usar, e voltou a me encarar. – Ele estava preso, mas saiu. Eu não sabia, mas na semana passada ele apareceu enquanto eu estava aqui na cidade, ele me achou... E... – Fechou os olhos e passou a mão trêmula pela testa. – Zayn apareceu na hora, mas... Se não fosse por ele, eu não sei... Não sei o que aconteceria comigo, eu não sei. Ele... – soltou uma risada seca. – o Malik salvou a minha pele.
Tinha alguém atrás dela? Um cara que estava preso? É claro que à primeira vista você espera esse tipo de coisas de , mas parte de mim sempre achou que fosse mais encenação ou, sei lá, um equívoco das pessoas. Eu nunca havia pensado que pudesse haver mesmo alguma coisa perigosa na sua vida, pelo menos não algo que se estendesse até agora. Aquilo era demais para simplesmente entender de uma hora para outra. pareceu perceber isso e se curvou para perto de mim, segurando a minha mão.
- Você não entende, não é? Ele está atrás de mim, porque acha que eu... Que eu o entreguei. Acha que eu o fiz ir preso. Ele está atrás de mim. – Deu ênfase a todas as palavras daquela frase. – Ele não é uma pessoa qualquer, Louis. Ele é... – Por um momento, sentimentos que não consegui reconhecer passaram por seu rosto, mas o que consegui reconhecer por último foi o pavor. – Escuta, ele não pode saber que estou com você, não pode nos ver juntos. Se ele souber que existe alguém com quem me importo, eu tenho certeza... Ele vai te machucar, e eu não... Posso... – fechou os olhos e choramingou, encostando a testa em minha mão. Mesmo com a confusão toda, não pude deixar de notar aquele reflexo em especial. Ela estava apavorada. – Eu não devia ter deixado chegar a esse ponto com você. Entende agora? Eu não devia.
Eu só consegui ficar ali, sentado, pensando nas palavras dela por um tempo. Então ela levantou a cabeça e me olhou.
- Diz alguma coisa!
Abri a boca, tentando encontrar alguma palavra. Balancei a cabeça e a olhei nos olhos, ao começar a entender a gravidade daquilo.
- . Você precisa ir à polícia.
- Não! – Ela respondeu, na mesma hora. Balançou a cabeça veemente e apertou mais a minha mão. – Não podemos contar isso a ninguém. Ninguém pode saber, você entendeu?
- Mas, , se...
- Isso é sério, Louis! Não é só isso! Existe muito mais, e... – Ela olhou para cima, respirando fundo. – Você tem que entender. Não posso te contar, você vai ter que confiar em mim, são coisas que eu não posso... Eu não posso contar, eu simplesmente não posso. Pelo amor de Deus, me promete que não vai contar isso a ninguém!
Eu estava em choque. Era óbvio que a polícia precisava saber daquilo. Era muito sério, certo? Alguém atrás dela? Alguém perigoso?! Não era apenas uma coisa de adolescentes, era grave! Mas, sem reação como estava, e percebendo a urgência em sua voz e o temor em seus olhos, eu não pude fazer mais nada naquele momento além de assentir.
- Tudo bem. Eu prometo.
pareceu relaxar. Ela soltou o aperto em minhas mãos e, lentamente, se afastou um pouco olhando para os lados para as pessoas mais próximas. Ficamos em silêncio por um tempo enquanto meu cérebro ainda processava tudo muito rapidamente, e por fim soltei o ar pela boca.
- Ufa. Pensei que você estivesse com vergonha de mim. – Deixei escapar, porque era isso que eu fazia: soltava piadas quando estava desconfortável.
voltou a me olhar, mas não pareceu achar graça. Ela mexeu em nossas mãos deixando a sua sobre a minha e passando o indicador de leve na palma da minha mão.
- Você não entende que... – Balançou a cabeça. - Lou, você não me conhece bem. Mas essa pessoa que eu sou agora, com você, e desde que entrei no St. Bees... Essa sou eu me sentindo melhor do que já estive em muito tempo, confie em mim. E o crédito é quase todo seu. Por mais que eu odeie admitir... – Ela me olhou, comprimindo os lábios. – Acho que me afastar de você não é mais uma escolha tão fácil.
Bem. Aí estava algo que você não ouvia todo dia.




Continua...




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Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






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