Última atualização: 09/02/2018

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Capítulo 26

[Carlisle, Cumbria – UK: sexta-feira, 6:05 a.m]
A delegacia de polícia de Carlisle ficava em um prédio não muito alto, porém bonito, no centro da cidade. Naquela ocasião, àquela hora da manhã, o local estava praticamente deserto e silencioso. Só havia um guarda na porta do prédio e dois policiais em uma salinha atrás de um balcão no fundo da sala, que recepcionavam quem estivesse chegando. Um deles conversava sem parar enquanto tomava seu copo de café enquanto a outra, uma mulher de meia idade e que só queria que seu turno acabasse logo, tentava ignorar a voz dele que era a única coisa atrapalhando-a de tirar um cochilo.
- Eu estou te dizendo, Marta, esses jovens de hoje em dia estão cada vez piores. Você acha que eles serão bem educados e crescerão diferentes da maioria desses casos perdidos que vemos na rua só porque eles têm pais ricos e estudam em um colégio renomado... – O homem bufou, tomando mais um gole do café. – Eles só se tornam piores! Mimados, acham que podem fazer tudo o que quiserem, que têm o mundo nas mãos...
Marta resmungou e virou o rosto para o outro lado, escorando-o na parede. Por favor, pare de falar, seu imbecil.
- Uma pena, realmente uma pena, pois algumas daquelas garotas são tão bonitas, podiam ser tão bem sucedidas...
Ah, é, a beleza as levará longe.
- E aqueles marmanjos, agindo feito crianças... Na minha época aquela escola era um lugar de respeito. Os pais colocavam seus filhos lá para que eles se tornassem verdadeiras pessoas importantes nesse país. É, é, por isso que não quero ter filhos...
E porque ninguém seria louca o suficiente para ter um filho seu.
O policial finalmente calou a boca, e Marta agradeceu aos céus, mas não durou nem tempo suficiente para que ela fechasse os olhos de novo e a gritaria no fim do corredor voltou a deturpar a paz e o silêncio da delegacia. Marta grunhiu e se pôs de pé relutantemente. Viu o policial que a fazia companhia se dirigir para a porta mas o parou antes.
- Não, deixa que eu vou.
Ela pegou seu cassetete e as chaves e saiu da pequena sala de recepção, dando a volta pela frente dela e pegando o corredor à direita que dava para as celas da delegacia.
Havia quatro celas de cada lado do corredor ali, e apenas duas delas estavam ocupadas. A primeira, no começo do corredor à esquerda, por um cara bêbado que foi encontrado mijando em um poste de madrugada e a última cela à direita em que Marta parou na frente, mais no final do corredor, cheia com doze jovens denunciados de invasão de propriedade pelo internato mais famoso da região e trazidos para a delegacia há mais ou menos uma hora atrás. E o curioso era que eles eram alunos da escola.
Marta bateu na grade, fazendo alguns deles pularem com o susto, e os mandou calarem a boca. Retrucando internamente, ela voltou aos seus aposentos na recepção e sentou respirando fundo em sua cadeira, encarando a bagunça de fotos de identificação e fichas espalhadas por sua mesa. Uma por uma, ela começou a juntar as fotos com suas respectivas fichas e prender com um clipe, colocando-as em ordem.
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Harry Styles;
Josh Devine;
Liam Payne;
Louis Tomlinson;
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Niall Horan;
Rebekah Murray;
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Zayn Malik;


Enquanto na cela, no final do corredor, todos os donos desses nomes estavam sentados no chão, espalhados pelo pequeno espaço, encarando um ao outro, encarando o chão ou de olhos fechados, tentando pensar em uma solução para os problemas que causaram naquela noite, que pareceu ser infinita.
Como podia tanta coisa dar errada em uma noite só?
Como se lesse o pensamento de todos, foi que falou:
- “A noite não acabou ainda”, eles disseram. “Vai ser divertido.”





’s POV
[Quinta-feira, 9:30 p.m.]
As luzes dançavam junto com a música que explodia nas caixas de som e lançavam formas distorcidas nas paredes de lona branca da tenda que foi montada para dar abrigo ao palco. Eu podia ver as luzes dançando em meu corpo e no corpo de também enquanto dançávamos ao som de qualquer música eletrônica que um DJ qualquer havia selecionado para aquela noite. Ela abriu os olhos e tocou meu ombro ao se aproximar para me falar ao ouvido.
- Quando será que os meninos vão entrar? – Gritou.
Olhei rapidamente meu relógio de pulso.
- Daqui uns cinco minutos! – Respondi, olhando à nossa volta. – Onde disse que ia, mesmo?
- Comprar um sanduíche.
- A foi com ela?
- Não vejo a desde que chegamos aqui! – Gritou de volta e eu assenti, escrutinando a multidão mais uma vez enquanto sentia a preocupação se formando dentro de mim. Odiava perde-la de vista em lugares muito cheios. – ! – gritou mais uma vez. – Relaxa! Geez, às vezes você age como se fosse a mãe dela.
Ignorei seu comentário fingindo que não havia escutado.
Se ela ao menos soubesse...
Atrás de nós, o DJ agradeceu a energia do público e, despedindo-se, anunciou o line-up das bandas que se apresentariam naquela noite. Alguns instantes depois as luzes diminuíram e pudemos ver movimentação no palco. Trouxeram uma bateria e colocaram três pedestais no palco. chegou em algum momento, soltando um gritinho ao meu lado, animada, mas sem sanduíche.
- São eles agora? – Ela quis saber, pendurando-se em um braço meu e em um de .
Ninguém precisou responder, a multidão foi à loucura quando um riff de guitarra explodiu as caixas de som de repente. Outro riff que deu lugar a uma sequência bem elaborada e muito bem reproduzida da introdução de Sweet Child O’Mine. Eu mesma não consegui conter minha empolgação quando reconheci a música e soltei um grito, colocando minhas mãos em volta da boca para amplificar o som. riu ao meu lado, juntamente com .
- Caramba! O Harry deve ter ensaiado muito essa introdução! – gritou, admirada, ao ouvir o resto da banda se juntar à guitarra.
Concordei com ela, mas não respondi o comentário. Coloquei-me nas pontas dos pés para ter uma visão melhor do palco, já que, mesmo estando próximas, havia uma quantidade considerável de gente à nossa frente. Honestamente, eu queria ver Zayn interpretar Axl Rose. Avistei-o no canto do palco interagindo com Harry: ambos tinham os olhos grudados no instrumento que Harry dedilhava e Zayn acompanhava a bateria com o pé, parecendo absorver a energia da música para si antes de levar o microfone e começar a cantar.
Acompanhei a letra gritando a plenos pulmões, sem me preocupar nem com o frio que provavelmente arruinaria minha garganta nem com o fato de que estava parecendo uma louca com e . Eu nunca havia me divertido tanto em uma noite; os meninos arrasaram com o clássico do Guns N Roses e já dominavam a setlist que apresentaram no acampamento. Eu olhava, extasiada, a aprovação das pessoas à nossa volta pulando, cantando junto, sorrindo e se divertindo de verdade. Era uma sensação única essa de sentir que era parte daquilo tudo com eles. Claro que o mérito era deles, mas vimos como eles se esforçavam, ajudamos a arranjar dinheiro, arrumamos a van que trouxe os instrumentos até aqui!
De fato, é difícil apoiar os sonhos dos seus amigos. Mas também é muito, muito satisfatório quando as coisas dão certo.
Logo o show dos meninos acabou e, depois de agradecerem muito pelo calor do pessoal, Louis tirou um bastão de selfie de trás de uma das caixas de som e pediu que o público tirasse uma foto com eles. Levantei meu braço, ciente de que meu rosto seria impossível de aparecer, dado a quantidade de gente ali, mas, pelo menos, o braço faria algum volume na foto. Os meninos se amontoaram na beira do palco, de costas para nós, e tiraram a foto.
- Vocês são foda! – Liam gritou e fez uma reverência à multidão, que os aplaudiram de volta. E saíram.
Ficamos na pista mais um pouco, ouvindo a banda que veio depois deles, mas depois acabamos indo à lateral do palco, onde mostramos credenciais e nos foi dado acesso livre à parte de trás da estrutura montada, onde ficavam os camarins improvisados de cada atração da noite.
- Gente! – parou de andar, olhando seu celular. Mal havíamos dado três passos depois da grade de segurança. – O Will chegou!
- Fala para ele entrar! – Sugeri, abrindo um sorriso. Finalmente conheceríamos o tal fotógrafo!
Ela correu até a grade e acenou para alguém – Will. Ele se aproximou dela, dando-lhe um rápido abraço. Segurei o braço de , ficando nas pontas dos pés, tentando ver alguma coisa de seu rosto, mas estava meio escuro e muito movimentado. Vi falar algo ao segurança e, logo em seguida, os dois estavam vindo em nossa direção. E foi somente quando eles pararam ao nosso lado que consegui ver, de verdade, o garoto da .
Abri um sorriso involuntário, notando como ele era uma gracinha. Usava blusa xadrez, um gorro cinza, óculos, jeans e Vans. Havia um nome para seu estilo, mas eu não conseguia me recordar qual era. Não importa; eu mal cabia dentro de mim de felicidade. Ele parecia um cara decente e me agradava muito que chamasse a atenção de caras decentes e não de vagabundos como alguns por aí. Olhei para , esperando que ela nos apresentasse.
- Ah! – Ela balançou a cabeça, rindo fraco de si mesma. – Meninas, esse é o Will. Will, essas são e .
Ele estendeu a mão e eu lhe devolvi o gesto, tentando não dar 100% de aprovação logo nos primeiros minutos em que eu o conheci. , ao meu lado, sorriu também, calorosa, e lhe perguntou como ele estava.
- Estou animado! Puxa, aqueles caras detonaram o palco! – Ele balançou a cabeça, como se não acreditasse.
- É verdade, eles estavam muito bons nessa noite. – Concordei.
- Inclusive devem estar esperando por nós! – mal terminara de falar e já havia se virado para ir até o camarim.
Will franziu o cenho e olhou para .
- Você está com os caras da banda?!
- É, eu estou com os caras da banda – abriu um sorriso pequeno, mas presunçoso.
Soltei uma risadinha quando ele sorriu de volta para ela.
- Como é que eu vim parar aqui com a garota mais legal da cidade? – Seu comentário não passou de um murmúrio, mas foi suficiente para fazer corar.
Só nesse momento eu percebi que estava sobrando ali. Andei mais depressa para acompanhar , deixando os dois pombinhos para trás.
- Finalmente! – Ela riu ao entrelaçar seu braço no meu.
- Eu estou tão empolgada! Será que dessa vez é alguém decente?
- Ele parece decente, mas não vai rolar.
- O quê? Por que não?
- Não é óbvio?
- Não. O quê?
- Ah, nem me venha com essa! – Ela bufou. Abri a boca para lhe implorar que me explicasse, mas já havíamos chegado à porta do camarim 3, onde os meninos disseram que iam ficar.
Antes mesmo de abrir a porta, já podíamos ouvir a bagunça que muito provavelmente estava acontecendo lá dentro.
- Ei! Tem comida! – apontou para uma mesa abarrotada de lanches a três portas de nós. – Donuts! – Gritou e, antes mesmo que pudéssemos dizer alguma coisa, ela puxou Will pela manga até a mesa.
Balancei a cabeça, rindo de sua atitude. girou a maçaneta da porta.
- Todos vestidos? – Ela gritou, entrando, e eu a segui.
- A já chegou para estragar nossa suruba – Liam fingiu desapontamento, fazendo todo mundo rir dele.
O camarim não era tão grande. Não devia ser muito maior que os quartos dos dormitórios do St. Bees. As paredes eram brancas e os móveis, que eram poucos, pretos. Havia um filtro de água num canto e uma arara com cabides vazios em outro. Liam estava sentado numa banqueta desmontando a bateria e Louis já fechava a case de seu baixo. estava sentada com os pés em cima do sofá de couro e olhava a bagunça com certo interesse – ou era o que se supunha, já que havia um sorriso em seu rosto.
- Eu não acredito que vocês tocaram Guns N Roses! – Falei, olhando em volta, involuntariamente, em busca de Zayn.
Achei-o jogado em outro sofá, secando-se com uma toalha. Levantou o olhar para nós e piscou para mim com um breve sorrisinho.
- Harry ensaiou como um louco! – Niall disse, com um sorriso que ia de orelha a orelha.
- Não duvido nada! Estava ótimo! Tive que me esticar para ver se não era o próprio Slash tocando para nós hoje! – elogiou, fazendo o que sabia fazer melhor: alegrar as pessoas. E, obtendo sucesso, arrancou um sorriso satisfeito de Harry.
- Foi muito difícil! – Ele confessou. – Achei que ia errar tudo, cair do palco, vomitar, a lista é longa!
- Mas deu tudo certo! – Josh entrou no camarim também, animado. – Meus queridos, que show! Ah, Malik, uma garota pediu para te entregar isso. – Tirou um pedaço de papel do bolso de trás da calça e entregou a ele, que examinou o conteúdo do bilhete.
Desviei o olhar, sentindo-me desconfortável com aquilo.
Zayn chamou a sua atenção e de mais outras mil garotas, . É melhor você ir se acostumando.
Afinal de contas, o que vocês são, mesmo?
Mas, pela visão periférica, notei que ele balançou a cabeça e, tendo amassado o bilhete, fez um arremesso e acertou a lata de lixo sem muita dificuldade.
Aí que eu não consegui mais olhar para ele. Reprimindo um sorriso, forcei-me a prestar atenção ao que dizia sobre como os meninos iam dominar o mundo.

Zayn’s POV
[quinta-feira, 10:15 p.m.]

- Com quem está a foto?! – acabou por sentar-se ao lado de no sofá. Ela estava radiante, sorrindo para todos e distribuindo elogios. Até eu ganhei um: até que você estava bem.
Ela ainda me odeia, mas, ei, já é um começo!
- Está no celular do Louis! – Harry gritou, passando um pano no braço da guitarra. Ele tratava aquilo como se tivesse vida própria.
- Na bolsa cinza! – Louis apontou para o canto da sala. fez menção de se levantar, mas Josh já havia pulado de onde estava sentado e correu para a bolsa, arrancando o celular dali de dentro.
- Qual a senha?
- Meu aniversário – Louis respondeu, com um sorriso maroto.
- Que é...?
- Você não sabe? – Ele devolveu, fingindo ofensa.
- Não fode, dude, qual é?
- Passa para cá – disse Louis antes de se sentar no braço do sofá onde estava. Logo e estavam analisando a foto que tiramos com o público daquela noite.
- Quero ver também! – , que estava de pé, meio alheia ao que estava acontecendo, de repente voltou à Terra e se inclinou por detrás das meninas para ver a foto. – Meu Deus, Liam, que cara é essa?!
- Gostou? É como eu faço para arrebatar multidões de garotas – ele se gabou, ajoelhado num canto, terminando de guardar a bateria.
- Só se elas forem cegas! – gargalhou e Liam foi rapidamente olhar a foto.
- Você está me zoando... – ele murmurou, parando ao lado dela. – Ah, ! Não tem nada de errado! – Resmungou, afastando-se dela, que ria dele.
- Foi mal, Payne, você é o mais sensível aqui. – Ela ainda ria.
- Zoar o Malik ninguém zoa, né? – Liam continuou protestando.
- Meu caro, é biologicamente impossível eu sair feio em uma foto – garanti.
- É mesmo? – arqueou as sobrancelhas, atraindo minha atenção para sua figura.
- Yup – enfatizei o “p”.
- Isso é ridículo – Harry riu, balançando a cabeça.
- Podem procurar, não há nenhuma foto em que eu esteja mal.
- Nem mesmo a do reformatório? – Josh perguntou, zombeteiro. Por ser o Josh, eu decidi relevar aquela alfinetada e abri ainda mais o sorriso.
- Especialmente a do reformatório.
- Só acredito vendo.
- Você terá que dirigir até Norfolk para ver com seus próprios olhos, dude. - Avisei, fingindo pena de sua situação. - É melhor acreditar em mim.
- E alimentar seu ego? - mantinha o sorriso jocoso em seu rosto.
- É isso ou viver com a dúvida para sempre - encolhi os ombros.
- Tenho uma idéia melhor - ela sorriu, mas ficou onde estava.
- Eu ainda não acredito que estamos em um camarim. - Niall chamou a atenção de todos pra si. - É pequeno e sem as regalias, mas é um camarim!
- Sim! Eu ainda consegui tirar um cochilo antes do show! Ninguém nos incomodou! - Harry abriu os braços como se dissesse "é ou não é demais?!". As meninas riram dele.
- Quem consegue dormir com tanta pressão? - Louis franziu o cenho. - Eu te julgo muito, Harry.
- Como se eu me importasse - ele jogou uma toalha no outro.
- Realmente, não importa! - Josh gritou. - Vai chover mulher hoje!
- Ugh, lá vem... - revirou os olhos e se sentou ao lado de .
- Não se preocupe, , você está com a banda, vai chover macho pra você também. - Josh lhe assegurou e eu tive que fingir tosse para disfarçar a risada que se formou em minha garganta. olhou para mim, com um pequeno sorriso no rosto, como se me entendesse, e Josh se virou para mim. - Tossindo? Cuidado, dude, você é a voz dessa banda! Quer uma pastilha?
Não consegui segurar a risada e acabei rindo sozinho da cara de paspalho de Josh.
- Eu disse alguma piada?
- Você é a piada, Joshua. - Louis alfinetou.
- Rá, rá. Morri de rir aqui, nossa! - Josh revirou os olhos, mas acabamos todos rindo dele.
- Gente, gente, eu tenho uma piada! - Harry levantou os braços. Todos olharam para ele, esperando. - Como se chama uma casinha de biscoito com vinte janelas?
Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa, alguém entrou no camarim.
- Gente, quero que vocês conheçam o Will! - Era puxando um cara pela mão. - Will, esses são Louis, , Zayn, Niall, Josh, Liam e Harry. - O nome de Harry saiu com menos empolgação que os dos outros; eu percebi e ele também.
Todo mundo o cumprimentou; Louis lhe apertou a mão por estar mais perto, mas o resto de nós apenas sorriu e acenou brevemente para ele, que acenou de volta.
- Como se chama, Harry? - abriu um sorriso adorável para ele, lembrando-lhe de sua piada.
- Deixa para lá. - Murmurou ele, voltando a se sentar no banco e limpar a guitarra.
Tentei ficar na minha, mas aquilo era demais e eu tive que balançar a cabeça.
Harry era a maior criança que eu conhecia. Sério, o cara deve ter um metro e oitenta, mas continua agindo feito um bebê.
- Vocês destruíram aquele palco! Foi irado! - Bill elogiou, tendo que fazer um toque com Louis, que gritou e concordou com ele.
- Valeu, cara! - Disse ele.
- Harry, certo? - Apontou para Harry, mas foi Louis quem confirmou. - Cara, você estava demais na guitarra! Onde aprendeu a tocar daquele jeito? Foi muito foda!
- Niall me ajudou. - Harry abriu um sorriso frouxo. - Mas obrigado.
Quê?!
- Que isso... - Bill desconversou, rindo fraco.
Olhei para todo o resto do pessoal naquela sala para me certificar se eu era a única pessoa vendo aquilo. e agora mostravam a foto do público para Bill enquanto e Louis falavam sobre qualquer coisa e os outros caras estavam ocupados demais com seus instrumentos.
É sério?
Harry ignora um elogio - pior, dá o crédito a outra pessoa - e ninguém está filmando isso?!
Puta merda, esse mundo já era.
Fechei meus olhos enquanto o resto dos instrumentos era guardado.
Ouvi Niall oferecer ajuda a Liam com a bateria e logo os dois anunciaram que haviam terminado. Todos nos levantamos para carregar os instrumentos até a van e os guardar, mas percebemos que Harry ainda polia sua guitarra.
- Caramba, eu não sabia que tínhamos comprado uma guitarra de ouro para nossa princesa! – Josh parou ao lado dele. – Essa guitarra vai sumir de tanto que você limpa ela!
- Não fode, cara. – Harry murmurou, impaciente, e guardou a guitarra na case.
Seguimos, então, pelos fundos do palco montado na tenda, indo exatamente em direção do estacionamento improvisado na parte de trás. Louis destravou a van que nos havia trazido até aqui e que estava estacionada de qualquer jeito. Por que era sempre Louis que dirigia?
- Malik, pega essa caixa preta! – Liam pediu, apontando a caixa que estava ao meu lado e longe da van por causa da forma como ela foi estacionada. – Ei, Louis, não precisa ter medo do meio-fio, não! Ele não morde seus pneus!
Louis murmurou alguma coisa antes de entrar na van para acomodar a guitarra e o baixo.
- Cara, por que é sempre ele quem dirige? – Perguntei a Liam quando ele tirou a caixa de minhas mãos.
- Ele é sempre o primeiro a pegar a chave? – Liam encolheu os ombros. – Sei lá, só é assim. Mas se você quiser dirigir, tenho certeza que ele vai adorar encher a cara hoje.
- Vocês acreditam nessa coisa de só dirigir sóbrio? – Provoquei.
- Não é possível, você caiu de cabeça quando era criança, Malik. – Liam balançou a cabeça e eu quis rir; era realmente engraçado como todo mundo comprava as coisas que eu dizia. Às vezes tenho vontade de dizer que estripei um gatinho na noite anterior só para ver as pessoas me lançarem olhares tortos e dizerem “como você foi capaz?” ao invés de me questionarem sobre a veracidade dos fatos. – Deve ser por isso que é o Louis quem sempre dirige.
Murmurei qualquer coisa e me afastei da van novamente.
Quando tudo estava terminado, demos a volta por trás da tenda, circundando o festival e voltamos a entrar nele passando pela entrada principal, que tinha uma faixa e tudo mais.
- Caramba, estou faminto! – Liam anunciou.
- O que será que estão servindo no festival? – perguntou, olhando ao seu redor.
- Vi uma barraca de falafel e kebabs quando cheguei aqui. – Disse Bill.
- Kebabs?! – Niall abriu um sorriso. – Eu adoro isso! Onde?
- Não sei, cara, mais para lá – Bill apontou uma região do festival.
- Eu vou com você. – se ofereceu.
- Ah, lembrando, nós temos uma hora até a festa da Sally! – Louis avisou. – Nós nos encontramos na van em uma hora!
- Tá, tá. – Liam desconversou, aproximando-se de e passou um braço por seus ombros. – Meninas, vocês vão como?
- Estou de carro. – abriu um sorrisinho, como se aquilo fosse grande coisa.
- A vai com vocês?
- Não vejo a desde que saímos da escola. – Ela confessou, parecendo um pouco sem graça por isso.
Liam balançou a cabeça e, de repente, deu um beijo no topo da cabeça de .
- Veja se consegue falar com ela, por favor. – Pediu a ela, olhando em seus olhos. Fiquei olhando aquela cena, indignado. O cara devia ter umas trinta mãos! , boa como sempre, assentiu e ele lhe deu mais um beijo. Sério?!
Ele se afastou dela, acenou para nós e saiu andando enquanto olhava alguma coisa em seu celular, provavelmente falando com alguma garota.
e Niall já haviam saído de perto de nós e os outros dois casais já estavam de saída também, comentando alguma coisa sobre pizza e hambúrguer artesanal. E Harry nem se deu ao trabalho de dizer coisa alguma; estava tão desesperado para sair dali que, quando os primeiros se retiraram, ele já estava de costas e misturado à multidão.
- Acho que somos só nós dois, então. – Olhei para .
- Acho que sim – sorriu, mas não tinha os olhos em mim, mas na festa ao nosso redor.
Olhei também à nossa volta. Estávamos no meio da avenida principal de Carlisle. Dava para ver o Castelo de Carlisle à nossa esquerda, iluminado pelos canhões de luz azul, a cor temática do festival – como se o próprio clima inglês não fosse suficiente para tornar qualquer paisagem azul. As barracas de comidas, souvenirs, roupas e artesanato ladeavam a rua por uns bons quatrocentos metros até a tenda gigante de onde saía uma música mais tradicional agora, quase escocesa ou irlandesa. À direita da rua onde estávamos, uma roda gigante havia sido montada e era o centro de uma parte da feira destinada a jogos e outras coisas de parque de diversões. Acima de nós e por toda a feira, havia um teto de fitas brancas e azuis enroscadas em varais gigantes de lâmpadas incandescentes.
- Para de fazer essa cara! – me beliscou.
- Hã? Que cara? – Olhei para ela.
- Essa cara de quem está julgando cada indivíduo nessa festa.
- Ah, por favor, Shortcake. Essas coisas são... desnecessárias.
- É tradição, Zayn.
- É besteira.
- É lembrar das suas raízes e de tudo o que já aconteceu até aqui.
- Faça um filme e segue em frente.
- Isso é identidade, Zayn, é pertencer. Você não devia zombar das raízes dos outros. Quais são as suas?
- Eu não crio raízes.
- Deve ser por isso que você as acha desnecessárias.
Coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta, achando tudo aquilo muito ridículo.
Na real, eu não fazia ideia do que era todo esse papo de pertencimento. Há tanto tempo que eu não estou em casa... Tradição para mim, por algum tempo, foi uma garrafa de cerveja e uma boa transa com Mandy depois.
- Quais são as suas? – Devolvi a pergunta.
Ouvi uma risada fraca sair de seus lábios e tive que olhar para ela, intrigado.
- Minha família nunca teve tradições, nem nunca participamos dessas coisas – gesticulou para o festival.
- Mesmo?
- Meu pai sempre trabalhou demais e minha mãe... Bom, ela não era tão ausente quanto meu pai, mas ela e minha irmã sempre brigaram muito... Not good. – Outra risada.
- Viu? Tradições só servem para fazer aqueles que não tem nenhuma se sentirem mal por não serem contemplados com a beleza de saber e celebrar de onde as coisas vieram.
- Eu me lembro, no entanto, de uma vez por ano ir passar um final de semana na casa da minha avó paterna em Manchester. Ela tirava a caixa de fotos do armário embaixo da escada do porão e eu olhava as fotos e escolhia um dos países que eles visitaram em lua-de-mel antes do meu avô ser convocado para a guerra. Daí nós fazíamos tudo que tinha a ver com aquele país: comida, dança, roupas... Era uma loucura!
Era bem difícil imaginar Mandy participando desse tipo de coisa.
Na minha cabeça, ela já nasceu rebolando e contando mentiras.
- E a sua irmã gostava disso? – Perguntei. – Do jeito que você fala dela não parece coisa... – tentei melhorar a pergunta, mas não pareceu perceber e balançou a cabeça.
- Mandy nunca gostou dessas coisas. Ela vivia na casa dos nossos primos. Tinham a idade dela.
Tá explicado.
- E... qual foi seu país favorito? – Não consegui segurar a curiosidade.
- Índia.
Arqueei a sobrancelha, debochando.
- Ah, qual é! Como boa britânica que sou, a Índia ia me conquistar de qualquer jeito.
- Tenho certeza que Gandhi não achava que a Índia tinha “conquistado” a Grã-Bretanha. – Fiz aspas com os dedos.
- Uau, Zayn, você destruiu uma vida inteira de boas lembranças! Agora eu sou racista!
Soltei uma risada, incapaz de fazer o contrário. tinha uma expressão de preocupação misturada com frustração e, ao olhar para ela, surpreendi-me ao segurar um impulso de puxá-la para mim e fazê-la rir daquilo comigo.
- Isso não é nem um pouco engraçado! – Protestou.
- É sim, Shortcake. É sim.
Ela balançou a cabeça e se ocupou em olhar a barraca de artesanato perto de onde estávamos parados.
- Tem certeza de que seus avós não visitaram o Paquistão? Eu acho que você se amarra nos frutos paquistaneses...
Abri um sorrisinho de canto e ela se virou para mim, mas, ao contrário do que eu esperava que fosse sua reação, vi um sorriso em seu rosto.
- Arrá! Você tem raízes, sim!
- Engraçado, eu posso jurar que estou vestindo jeans e camiseta e não túnica e cirwal.
- Tá, mas não tem nenhum dia no seu calendário que você marcou “agir como um paquistanês”?
- Não.
- E o Ramadã?
- ... – suspirei, sem nem saber o que lhe dizer sobre isso.
- Ok, ok! Você não celebra nada. Tudo bem!
- Essa coisa de raiz... Nunca funcionou comigo, ok? Mas, tudo bem, quem sabe um dia eu não crie raízes? Pare num canto só e...
- Isso não é sobre onde você está, Zayn. É sobre quem você é.
Quando foi que esse papo todo virou um livro de autoajuda?
Eu queria soltar uma risada daquela coisa toda e mandar pro espaço, mas me peguei tentando formular uma resposta que fosse razoável para ela, quase como se eu precisasse ter a resposta daquilo na ponta da língua. O que eu não tinha e, pela primeira vez, me causou um incômodo que me levou a questionar, de verdade, por que eu não tinha raízes.
- Zayn! – Ela me arrancou de meus devaneios, apontando as barracas do parque de diversões, que devia estar a uns duzentos metros de onde estávamos. – Eles têm tiro ao alvo!
Franzi o cenho.
- Tiro ao alvo, ? – Virei-me para ela.
- Sim, o que tem? – Ela olhou para mim, ainda com um sorriso infantil e animado no rosto. – O quê? É difícil de acreditar?
- Muito. – Admiti.
- Eu não posso gostar de tiro ao alvo? – Colocou as mãos na cintura.
- Gostar você pode, outra coisa é ser...
- Boa? – Arqueou uma sobrancelha. – Uau! Isso é muito...
- Nem venha com esse papo! – Cortei-a antes que pudesse dizer a palavra “sexista” ou “machista”. – Até onde eu me lembro, você enfiou um prego na minha mão! – Levantei a mão que carregava a cicatriz como uma marca de guerra.
Ela lançou um rápido olhar para minha mão e, com um tapinha, afastou-a.
- Justo. – Reconheceu. – Mas – levantou um dedo, com um sorrisinho vitorioso nos lábios – eu não errei o prego. Era isso que eu tinha que fazer, certo? Acertar o prego. E foi o que eu fiz.
Estreitei os olhos para ela.
- Você duvida de mim! – Arregalou os olhos, divertida, mas indignada.
- Ah, Shorcake! – Balancei a cabeça. – Eu aposto que você está blefando!
- Você gosta de uma aposta, huh? – Disse com um sorrisinho provocativo. – Ok, vamos fazer uma aposta.
- Eu não estava sugerindo uma aposta, .
- Eu estou. Escolha seu prêmio.
Fitei-a por alguns segundos tentando descobrir se ela estava falando sério ou não. Por fim, soltei uma risada.
- Ok. – Passei a mão pela barba. – Se é isso que você quer.
- Vá em frente.
- Se eu ganhar... – Olhei em volta, pensando. – Se eu ganhar você vai me beijar na festa da Sally. Em público. Você. Não eu.
Seus olhos queimaram os meus, mas o sorriso travesso ainda estampava seus lábios.
- Sua vez. – Instiguei.
- Se você perder, você será meu escravo por um dia. – Propôs depois de um ou dois segundos pensando e estendeu sua mão para mim. E eu, que não sou bobo nem nada, apertei-a prontamente, com um sorriso.
- Cuidado, Shortcake, eu posso gostar de ser seu escravo – falei numa voz mais baixa, olhando-a nos olhos. Vi seu rosto corar suavemente, mas o sorriso dela apenas aumentou.
- Espero que esse seu lado desesperado não te impeça de me dar um jogo justo, Malik. – Devolveu a provocação. – Mas, acredite em mim, você não vai gostar.
- Por que parece que eu acabei de firmar um acordo com o diabo? – Brinquei e ela apenas riu, segurando minha mão e me puxando em direção à barraca de tiro ao alvo.


Harry’s POV
[quinta-feira, 10:25 p.m]
Havia tendas vendendo todo o tipo de coisa e oferecendo todo tipo de jogo no festival. Caminhei sozinho observando os jogos na parte do parque de diversões por um tempo, depois de perceber que eu havia me distanciado do grupo sem pensar onde ia. Eu só não gostava de estar na presença de quando ela estava com um cara.
Depois de me situar, encontrei ao longe a parte do festival que tinha as barracas de comidas e bebidas, e fui até lá. Eu estava com sede, provavelmente por causa da apresentação – que foi irada, aliás. Passei por umas barracas de doces e cachorro quente até chegar em uma interessante. Era grande, como se houvessem juntado duas barracas, montada feito um bar de pub, com um balcão comprido de madeira e havia bancos dispostos para as pessoas sentarem. O estande dizia que era uma vitrine de cervejas artesanais, e no momento em que me aproximei um pouco mais um casal no canto do balcão levantou e os dois saíram dali, deixando dois bancos vagos. Sentei em um deles e observei os produtos atrás do balcão. Há minha direita havia uma torre de copos personalizados e vários tipos de cervejas enfileiradas em cima do balcão, com a placa “degustação de cervejas artesanais”.
- Quer provar? – A mulher do outro lado do balcão perguntou, assentindo para as cervejas, e eu dei de ombros e tirei a identidade (falsa) do bolso, de dentro da carteira. A mulher olhou a identidade brevemente e a entregou de volta. – Escolha uma.
Olhei bem para cada rótulo e apontei para uma das garrafas. A mulher trouxe de trás do balcão uma garrafa grande e um copo daqueles promocionais, encheu-o até a borda com cerveja preta e me entregou.
- O copo é brinde.
- Legal.
Tomei um gole e gostei do gosto da bebida. Era forte, mas adocicada.
- ... Cinquenta pratas.
- Quarenta.
- Qual é, cara, olha aquelas pernas! Aquele cabelo, perfeito pra puxar com força quando eu estiver...
- Calma lá, camarada, eu só preciso te ver beijar a garota, o resto não precisa comentar. – O cara sentado ao meu lado no balcão comentou com seu amigo. – Ok. Cinquenta pratas que você não consegue pegar ela. Fala sério, ela é boa demais pra você.
- Exatamente, meu amigo. Ela é boa demais, e está sozinha, num evento desse tamanho, com esse tanto de gente em volta. Três opções: ou ela é lésbica, ou ela tem algum problema, ou tá aqui por sexo e vai dar pra o primeiro que aparecer.
A curiosidade apertou, e precisei virar para olhar quando vi que os dois viraram para observar a tal garota de novo. Quando vi quem era, a cerveja que engoli quase voltou pelo meu nariz pela risada que precisei segurar e soltei o copo no balcão.
- Eu aposto sessenta que consigo um beijo dela. – Disse, alto o suficiente para que os dois marmanjos me ouvissem. Como era o esperado, eles olharam para trás e me encararam, com cara de poucos amigos. Permaneci tranquilo. – Em sessenta segundos.
A expressão de poucos amigos deu lugar à surpresa deboche.
- Ah, tá de brincadeira.
- Não. Uma libra por segundo. Se não conseguir eu pago agora mesmo. – Dei de ombros e tomei mais um gole da cerveja.
- Você me parece confiante demais para perder sessenta libras, camarada. Tem certeza?
Olhei para a garota ao longe de novo, do outro lado do balcão.
- É, eu tenho certeza. – Voltei a encará-los e abri um sorriso amigável. – E aí, fechado?
Eles me estudaram por um tempo.
- São as trinta libras mais fáceis da história, cara. – Um deles disse ao outro.
- Ok, fechado. – O outro decidiu e tirou o celular do bolso, abrindo alguma coisa. – Sessenta libras, sessenta segundos. – Me mostrou o cronômetro aberto na tela do celular.
Assenti. Peguei meu copo e passei por eles com um sorrisinho de canto, fazendo meu caminho até o outro lado do balcão e ajeitando o alarme do relógio em meu pulso para tocar em um minuto. Quando cheguei até ela, eu apertei o botão e cutuquei-a no ombro.
estava observando uns chaveiros de garrafinhas colecionáveis em cima do balcão, e virou para mim quando cutuquei seu ombro.
- Ah, e aí, Harry.
- Tenho uma proposta pra você.
- Hum... – Ela franziu o cenho, confusa. – Proposta...?
- Te dou trinta libras se me beijar agora.
abriu a boca para falar alguma coisa, mas apenas piscou e depois riu, incrédula.
- Quando disse que eu ia te ajudar a estudar eu realmente não estava falando sobre isso...
- Não tem nada a ver com isso. – Balancei a cabeça e ri fraco. – Tá vendo aqueles dois caras do outro lado do balcão olhando para cá? Estavam apostando cinquenta libras que conseguiam te beijar. Eu apostei sessenta.
Tomei um gole da cerveja enquanto a via olhar por cima do meu ombro disfarçadamente, mas com interesse, e depois que ela me olhou de novo e arqueou a sobrancelha abri um sorriso tranquilo.
- E por que eu faria isso?! – Agora ela parecia insultada.
- Já te vi beijar um cara por menos pra provar o seu ponto...
- Eu não quero provar ponto nenhum aqui.
- Mas eu quero. – Dei de ombro.
- Honestamente, Styles, você veio até aqui me oferecer trinta libras por um beijo?! – riu fraco.
- Não leva pro pessoal, , você me fez prometer que ia parar de dar em cima de você quando começamos a estudar e eu juro que não há nenhum interesse romântico aqui – levantei as mãos, uma ainda segurando o copo de cerveja. – Eu apenas vi nisso uma oportunidade de negócios e de dar uma lição naqueles caras, e honestamente, se você ouvisse o que eles estavam falando de você...
Agora ela batia levemente um pé, encarando-me enquanto provavelmente seu cérebro funcionava furiosamente tentando pensar no que fazer em seguida. Eu devia ter uns vinte segundos restantes.
- Somos só amigos, Harry. – comentou, provavelmente não acreditando em minha alegação de que não havia interesse romântico.
- É claro que somos. E acho que nós dois sabemos que estamos interessados em outras... Coisas. Então por que não lucrarmos sobre algo como bons amigos? Como um time, huh? – Abri um sorrisinho. – Você não tem medo de se apaixonar por mim, tem? – Provoquei.
- Por favor...
- Olha, se é pelo Liam, eu-
- Ok. – Ela me cortou. A olhei. descruzou os braços e ajeitou a postura. – Ok. Anda logo com isso.
Ganhei o sinal verde.
Soltei o copo o balcão enquanto, com a mão livre, puxei sua cintura e encostei a boca na dela. Minha outra mão, gelada pela cerveja, foi para sua nuca e pressionei nossas bocas juntas bem quando ouvi o relógio despertar em meu pulso, e sorri. separou os lábios, cedendo passagem para minha língua e não percebi quando suas mãos foram parar em minha nuca, mas senti a leve ardência de seus dedos puxando alguns fios do meu cabelo. Senti seu corpo pressionado contra o meu e o calor da pele do seu pescoço em minha mão. Foi um beijo repentino, aconteceu rapidamente, mas foi mais intenso e urgente do que imaginei que fosse, e quando nos afastamos foi como se uma ligação de energia fosse abruptamente cortada.
Comprimi os lábios e a encarei, enquanto ela fazia o mesmo, e uma batida de mão o balcão atrás de mim me fez voltar à Terra. Olhei para trás a tempo de ver as sessenta libras sendo deixadas ao lado do meu copo e os dois caras me olharem feio.
- Babaca. – Um deles resmungou baixo, ao que eles passaram por nós saindo daquela barraca.
Sorri e peguei a cerveja e o dinheiro, dando metade para ela e estendendo minha mão para que ela batesse. bateu com sua mão na minha em uma comemoração de vitória.
- Vamos achar alguma coisa legal para gastar esse dinheiro – sugeri e ela assentiu, caminhando ao meu lado para fora daquela tenda.
- Hmmm... – parou de caminhar quando chegamos ao meio da avenida, em meio à multidão de pessoas, e olhou para cima procurando por um brinquedo interessante. – Ahhh! – Ela abriu um sorriso satisfeito ao encontrar o que procurava e, ao seguir seu olhar, vi um brinquedo alto e brilhante, e que girava muito rápido segurando pessoas sentadas em cadeiras penduradas em cordas de aço. Só a imagem daquilo me deixou tonto, e desejei não ter dado aquela ideia.


Louis’ POV
[quinta-feira, 11:25 p.m]
Todos nós já éramos familiarizados com a casa da Sally, pois ela tratava de sempre dar pelo menos uma festa por ano lá e convidar toda a escola. Era um casarão, grande o suficiente para abrigar um pequeno palco e uma pequena multidão em sua sala de estar – onde havíamos acabado de nos apresentar pela segunda vez na noite. Apesar de ela sempre mandar tirarem os móveis maiores e os quadros e esse tipo de coisa delicada, era nítido pelo estilo da casa que seus pais eram bem caprichosos e organizados, e que eles provavelmente não sabiam do tamanho da “festinha” que sua filha organizava.
Depois que acabamos a apresentação, como sempre antes de qualquer coisa recolhemos os instrumentos e os guardamos na van. Só aí foi que voltamos para a casa, onde a festa já rolava solta e a música tocava extremamente alta. Caminhei entre as pessoas desde a entrada da garagem, passando pela sala de estar e até a cozinha, vendo no caminho todo o tipo de bebida e droga que se podia imaginar começar a dar as caras. Foi na cozinha, onde um número ainda maior de pessoas se amontoava perto dos lugares onde estavam servindo bebidas, que facilmente encontrei .
- Uma garota acabou de me beijar.
- O quê? – perguntou, sem conseguir me ouvir pelo barulho da música alta, olhando por cima do ombro enquanto se esticava para conseguir encher o copo de plástico com cerveja do barril.
- Uma garota acabou de me beijar! – Repeti em seu ouvido. E era verdade. Eu ainda estava ofegante por ter pulado do palco há dois minutos, quando a apresentação terminou e colocaram a música eletrônica tocar, quando uma garota que estava na frente do palco foi estimulada pelas amigas a vir até mim e, sem falar nada, me beijou. No final eu a afastei e nem precisei fazer mais nada, porque Harry chegou e ela continuou o beijo só que na boca dele.
Harry era bom naquelas coisas, nem falar ele precisava. Mas dessa vez eu não estava puto porque, obviamente, estava com a melhor garota da festa ali.
Escorei-me no balcão da cozinha e abri um sorriso convencido para quando ela conseguiu encher o copo e se virou para mim, tomando um gole e arqueando as sobrancelhas.
- É?
- Sim. Eu desci do palco e ela me agarrou. Mas o Harry pegou ela pra ele, então...
riu, e peguei aquele copo de suas mãos interessado em matar minha sede. Tomei tudo em praticamente três goles e soltei uma exclamação de prazer.
- Eu demorei uma eternidade pra encher isso! – Ela xingou, tomando o copo de minhas mãos com cara feia. – Que merda, Louis.
- Ei. Eu acabei de ser agarrado! – Disse de novo, caso ela não tivesse entendido. – Você não está com ciúme, nem um pouquinho?
riu, divertida.
- Você queria muito beijar ela? Trocaria um beijo meu por um dela?
- Hum... – Balancei a cabeça e meio que encolhi os ombros, sem resposta.
- É, foi o que pensei. Sem motivo para ciúme, então. – Sorriu e piscou um olho para mim, voltando a virar de costas para encher o copo novamente.
Não pude evitar descer meu olhar por ela, em um vestido preto simples de alcinhas e colado ao corpo. Seu corpo era, como dizia o camarada John Mayer? Sim, uma maravilha. se virou de volta e pigarreei, a encarando. Vi seu copo cheio e novamente fui pegar, mas ela afastou minha mão do copo.
- Que abuso é esse?
- Ah, eu queria que... – Cocei a nuca e suspirei. – Você não bebesse, talvez?
Ela me olhou, incrédula.
- Não quer que eu beba em uma houseparty? Você me odeia?
- Bom – olhei para minhas mãos e de volta para ela. – Por que você veio?
- Para ver você tocar. – Deu de ombros. - E para beber. Muito.
- É. Bem, eu vim pra ficar com você. – Cruzei os braços. – Vê a diferença?
- Isso é chantagem. Que diferença faz se eu beber ou não? Você pode até gostar – abriu um sorriso travesso e tocou em meu peito onde a camisa de cola V não cobria. Olhei para baixo e então balancei a cabeça, tentando focar, e voltando a olhar para ela.
- Ok, olha – levantei um dedo, mostrando minha proposta. – Eu só te quero sóbria por um tempo. Só um tempo. A gente vai ficar junto essa noite... E eu só quero que você se lembre disso não como um borrão. Pra ter certeza que você gostou de estar aqui, entendeu?
respirou fundo, olhando para cima.
- Tomlinson, essa casa está cheia de adolescentes com os hormônios à flor da pele, e nem tem nenhuma dr... – olhou em volta e parou de falar comprimindo os lábios, me encarando. – Vai ser um pesadelo ficar sóbria nesse lugar!
Soltei uma risadinha e tomei o copo da sua mão, dando um gole na cerveja.
- Não se você ficar comigo.
- Que humildade. – Suspirou e colocou os cabelos para trás. Hmm... Ok. Você ganhou, mas... Se eu não beber, você vai. – Abriu um sorriso divertido.
- Por quê?
- Porque vai ser mais divertido.
- Ah, não, não. – Balancei a cabeça. – Você não vai me embebedar.

Algum tempo depois eu estava tropeçando em coisas invisíveis. De acordo com as regras, eu beberia o que fosse beber se estivesse bebendo. E ela provavelmente já tinha cirrose aos 18 anos, porque metade daquilo já era suficiente para me deixar tonto pelo resto da noite. Estávamos na sala agora, em meio a uma grande quantidade de pessoas dançando e bebendo, se amassando, cheirando ou tomando uns bagulhos loucos. Aparentemente meu tiro saiu pela culatra, pois eu estava tonto o suficiente para ver aquela festa passar feito um borrão.
Fui até ela que estava escorada na guarda de um sofá de couro preto, me observando, e passei a mão no rosto afastando meus cabelos dos olhos.
- Eu estava mesmo fazendo a dança do robô?
- Chega de bebida pra você, acho que exagerei.
- Espero que eu não vomite.
- Ah, eu também. – Ela me ofereceu a garrafa de água mineral que segurava. – Por favor, toma isso.
Estreitei os olhos para ela, mas peguei a garrafa das suas mãos. Era um absurdo que estivesse se divertindo com a minha desgraça! Tomei uns goles da água, antes de fechar a garrafa e a entregar, e me aproximei do seu corpo, apoiando as mãos em seus joelhos. olhou para minhas mãos e depois para mim, passando a língua pelos lábios. Abri um sorriso contido.
- Tudo bem se eu tocar aqui?
Ela riu fraco, balançando a cabeça como se não acreditasse que eu estava perguntando isso. Ri junto e acompanhei seu rosto com o meu a fazendo me olhar.
- Sim. – Precisou responder. Deslizei minhas mãos mais para cima tocando suas coxas e me aproximei mais, ficando no meio das suas pernas.
- E aqui?
- Sim, tudo bem, Louis. – Me olhou, comprimindo um sorriso.
- Tem certeza? E aqui? – Levei uma das mãos ao seu rosto afastando uma mecha do cabelo de lá para trás de sua orelha. – Tudo bem se eu tocar aqui?
- Essa conversa me parece um pouco pornográfica. – Comentou, me fazendo rir fraco. Desci a mão roçando os dedos pela lateral do seu rosto, fazendo piscar algumas vezes como se tentasse impedir que seus olhos se fechassem, e segurei o seu queixo mantendo seus olhos em mim. Aproximei o meu rosto do seu, tão perto que eu sentia o calor da sua pele, quase tocando minha boca na sua.
- Tudo bem se eu fizer isso?
- Louis. – levou a mão até a minha que estava em sua coxa, e passou a outra por minha nuca. – Me beija de uma vez.
Ela me puxou ao mesmo tempo em que eu a beijei. Foi um beijo que, ao mesmo tempo em que era intenso, também era um pouco urgente. Ignorando o fato de que parte de mim estava constantemente pensando na sorte que eu tinha em ter o interesse de , outra parte pensava que aquele era como um primeiro beijo de verdade deveria ser. Sem receio de que ela se esquivasse, ou de que não fosse a hora certa, e sem impulso movido a gratidão: ambos estávamos ali. Ambos queríamos. Era físico, era puro, era bom, era só o que existia em nossas mentes. Era como a melhor recompensa de todas por nunca ter sequer pensado em desistir de conhece-la. Me fazia ter certeza que eu estava fazendo as escolhas certas. Há tempos eu queria dizer para , ainda mais agora, que antes dela eu nunca tive um propósito de verdade. Eu nunca me dediquei inteiramente a algo, nunca tive certeza do que queria fazer. Sua presença mudou isso. Mas é claro que eu guardaria essa informação até que ela estivesse pronta para ouvir.
Nossos beijos podiam ter durado minutos ou horas, eu não sabia e tampouco me importava. Se as pessoas em volta estavam olhando ou comentando, também não fazia a menor diferença. Durante aquele momento só existia eu e ali, naquela festa, até que alguém pigarreando e o sofá deslizando um centímetro acabou por nos separar. Olhamos para o lado, e lá estava Harry atirado no sofá com a cabeça jogada para trás.
- Desculpa estragar os pombinhos, podem ir transar de roupa em outro lugar?
Respirei fundo, tentando não deixar a irritação repentina tomar conta de mim. Eu não precisava meter porrada em meu melhor amigo naquele momento, mas queria. Era claro que era Harry, sempre era ele que estragava os melhores momentos dos outros.
- Você não tinha duas garotas para te manter longe daqui?
- Isso foi há anos atrás. – Ele respondeu, fazendo uma careta enquanto massageava as têmporas e abriu um pouco os olhos por um segundo para me olhar, tornando a fechá-los no momento seguinte. – Depois que saí de lá parece que entrei num transe que não consigo sair, parece que vou cair num buraco, para qualquer lugar que eu olho vejo gente se beijando, é muito casal feliz, é muita melação, e a ... Quem é aquele merda que está com ela, afinal, eles não se desgrudam desde que a gente chegou, eu nunca vi a cara dele por aqui...? Filho da puta, minha cabeça vai cair do meu pescoço. Eu não tô bem, Louis.
Respirei fundo, trocando um olhar com .
- Você nunca tá bem, Styles, é sempre algum drama. Dá pra ir reclamar pra outro dessa vez? – chutei seus pés no chão mas ele nem se mexeu, parecia mole feito um pudim.
pareceu mudar de postura nessa hora, ela me afastou pelos ombros e se aproximou um pouco dele.
- Eu acho que ele não tá bem mesmo, Louis. – Parou na frente do corpo de Harry no sofá e apoiou uma mão ao lado da sua cabeça, virando seu rosto para ela e abrindo os olhos dele com uma careta do garoto em resposta. – Harry. Harry? Harry! – Chamou, e o ouvi resmungar. Parei ao lado dela, observando aquilo e franzindo o cenho, preocupado. – O que você bebeu?
- Tudo. – Respondeu o garoto, meio grogue.
- Bebeu de copo que não era seu? Ei! – Ela chamou, quando ele parecia estar começando a cair no sono, batendo em seu rosto, e ele deu um pulo.
- Hum?
- Você bebeu de copo que não era seu?!
- É, claro, tinha um monte na cozinha. – Deu de ombros.
- É, é por isso que nos ensinam a não aceitar bebida de estranho, Styles. Você tá duro de chapado.
Harry esboçou um sorriso e então começou a rir. Eu sabia, porque conhecia aquele babaca, ele estava rindo por causa da palavra duro. Revirei os olhos, idiota.
- É melhor te deixar longe de qualquer coisa por um tempo. – Ela falou, olhando em volta antes de me olhar.
- Como é que você sabe que ele só não tá querendo chamar atenção como a drama queen que ele é?
- Olha o tamanho das pupilas dele, parecem duas luas – ela mostrou, antes que Harry virasse o rosto e se livrasse da sua mão.
- O que será que foi que ele tomou?
- Provavelmente tinha papel misturado na bebida ou uma bala. – Arqueei as sobrancelhas e ela mexeu as mãos. – Ecstasy. Ele deve estar tendo uma bad trip. É melhor tirar ele daqui, ou vai começar a chorar ou sair correndo ou coisa parecida.
Arregalei os olhos e comecei a rir.
- Isso me deixou tentado a deixar ele aí.
- Qual é, Louis. – Ela riu fraco. – Me ajuda a mover ele daqui, vamos. – E pegou um dos braços de Harry, o puxando para longe do sofá.
Peguei seu outro braço e ajudei a levantá-lo, mesmo estando bastante cambaleante pela tontura da bebida. Colocamos os braços de Harry ao redor da gente e o puxamos com um pouco de ajuda dele para longe dali.
- É bom tirar ele de perto da música e das pessoas ou a paranoia demora mais a passar. Ali – apontou para uma pequena porta entre a cozinha e a sala. – Vamos botar ele na despensa. Assim se vomitar ele também não vai incomodar ninguém.
- Ok – Comentei, meio ofegante, e o arrastamos até lá.
Puxei a porta que estava aberta e carregamos Harry para dentro do cubículo, o soltando no chão entre as prateleiras cheias de produtos de limpeza e papel higiênico. Ele sentou no chão e dobrou os joelhos, encostando a testa neles, e olhei para cima puxando uma cordinha que acendeu uma lâmpada amarelada.
- Fica aí até melhorar, mate. – Comentei, dando batidinhas em seu ombro, antes de seguir para fora da despensa e fechar a porta. foi na frente, mas parei ao sentir algo caindo da minha mão e vi que a chave da porta estava para fora e caiu. A peguei com um pouco de dificuldade por estar meio tonto e enfiei no buraco da fechadura novamente, então alcancei . – Isso foi legal da sua parte.
- Não deixar o cara morrendo ali? – Ela riu fraco.
- É... !
- Oi! – Ouvi a voz animada de minha amiga responder, passando por nós com dois copos vazios. – Eu estou procurando a cerveja, mas acabou na cozinha! Sabem onde tem mais?
- N-
- Ah! – me deu uma cotovelada e gemi de dor, ficando quieto. – Na despensa. Acabamos de, hm... Sair dali e tem uma prateleira cheia. Elas estão mornas, mas tem gelo na cozinha.
- Super! – riu, parecendo mais feliz do que de costume, e abraçou que me lançou um olhar arregalando um pouco os olhos. – Vou lá pegar!
passou por nós e a olhei até ela chegar na porta atrás da gente. a seguiu e, assim que ela entrou, a garota fechou a porta e virou a chave. Só consegui observar enquanto ela vinha até mim e largava a chave em minha mão.
- É melhor não perder isso.
- O que...?
- Bad trips. Ele vai precisar dela. E talvez a ajude com o humor insuportável que ela anda desde o acampamento, se arrastando pelos cantos.
Olhei para , impressionado, enquanto enfiava a chave no bolso.
- Duas coisas legais em menos de um minuto. Você tem coração, então?
me lançou um olhar e por fim abriu um sorriso contido.
- Descobri esse negócio de ser legal e às vezes eu uso. – Brincou.

’s POV
[quinta-feira, 12:00 p.m.]
- Vou pegar algo para beber! – Gritei para Niall quando a música acabou. Ele assentiu e prometeu para mim que estaria ali quando eu voltasse.
Afastei-me da aglomeração de pessoas perto das caixas de som, com um sorriso bobo nos lábios, dando pulinhos aqui e acolá, completamente extasiada com aquela sensação que me preenchia.
- ! – Stacy Hudson me cumprimentou de longe, com um enorme sorriso e um braço ao redor do pescoço de um garoto que eu nunca vira na vida. Acenei de volta, com um sorriso tão largo quanto o seu, e acabei recebendo cumprimentos de mais alguns de seus amigos.
Cumprimentei mais algumas pessoas no meu caminho até o bar no canto da sala de Sally e, jogando-me sobre o balcão, dei meu melhor sorriso para o garoto que estava cuidando dos drinks.
- Tem alguma coisa sem álcool? – Perguntei.
- O quê?! – Ele gritou de volta, aproximando-se para ouvir.
- Qualquer coisa sem álcool! – Repeti, ao que ele pareceu entender.
Senti meu celular vibrar no bolso traseiro de minha calça e o peguei rapidamente, esperando qualquer coisa, menos o alarme que piscava e tentava berrar mais alto que a música, sem muito sucesso, pois eu nem conseguia ouvir seu barulho irritante.
Remédio AMARELO”, dizia o lembrete e, sem pensar duas vezes, adiei o lembrete, mandando-o direto para o limbo assim como havia feito com os outros dois alarmes que tocaram desde a hora do festival.
Eu não arriscaria perder aquelas emoções todas, não naquela noite.
Enfiei o aparelho no bolso mais uma vez e pequei o copo de refrigerante que o garoto me dera.
- Ah, meu Deus, eu amo essa música! – Pulei em cima de Niall, quando voltei, jogando meus braços em volta dele, o que derramou um pouco do refrigerante, enquanto a introdução de Shut Up and Dance, do Walk The Moon, começou a tocar na maior altura. Não pude ouvir, mas vi-o soltar uma gargalhada gostosa e começar a se balançar ao ritmo da música, que já havia começado.
Não conseguia parar de sorrir para ele, ou para o que quer que fosse. Havia adrenalina demais correndo por todo meu corpo e uma sensação deliciosa de estar me divertindo tanto que eu sentia que poderia transbordar a qualquer momento. Tudo ao meu redor era um borrão, mas eu estava consciente de tudo que estava acontecendo; conseguia olhar para cada pessoa e, quando os olhares se cruzavam, minha primeira reação era alargar o sorriso e fechar os olhos. E quando voltava a abri-los, via Niall, sorrindo para mim, três botões de sua camisa azul abertos, o cabelo suado que espetava o ar em todas as direções, enquanto ele dançava comigo.
Eu nunca havia me sentido tão livre em toda a minha vida.
E era uma liberdade tão boa, que nada nesse mundo poderia me assombrar naquele momento.
Daquilo eu tinha certeza.
- Você já se divertiu tanto assim na sua vida?! – Gritei para ele, sorrindo.
- Nunca! – Gritou de volta, dando-me um sorriso aberto, caloroso e bonito. Fechei meus olhos quando uma risada escapou de meus lábios e deixei que meu corpo balançasse ao ritmo da música que tocava no momento. – Isso é culpa sua!
Outra risada.
Deus, eu ia explodir.
Precisava gritar e foi o que fiz, pulando ainda mais alto.
- Você vai voar daqui a pouco! – Niall riu de mim, segurando meus braços.
- Não seria incrível?!
- Eu ia perder minha companhia – fez um bico.
- Não se preocupe – sorri – eu não iria a lugar nenhum sem você.
- Ufa, agora estou mais aliviado! – Colocou a mão no peito, fingindo.
- Isso não pode nem passar pela sua cabeça! – Continuei.
- Ok, ok!
- Você é muito especial para mim, Niall! – Garanti-lhe, sem saber de onde aquilo tudo estava vindo.
- Obrigado, . – Disse ao meu ouvido, com uma pequena risada. – Vamos ver como está lá fora – sugeriu.
- Está gelado! – Segurei sua mão quando ele se virou para começar a fazer o caminho em direção à grande porta que dava para a área da piscina. – Vamos ficar aqui!
Ele se virou para mim de imediato ao meu toque.
- Tem muita gente lá fora, não pode estar tão frio assim!
- Eles estão todos bêbados! Logo a única coisa que vão sentir é vontade de vomitar!
Seu olhar se fixou em mim por alguns instantes, fitando-me com afinco, enquanto um sorriso brincava em seus lábios, matando-me de curiosidade para saber o que se passava em sua mente naquele minuto. Quando, por fim, desviou o olhar, balançou sua cabeça.
- Damn, , o que é isso que acontece com você em pistas de dança? – Passou as mãos pelos cabelos. – Eu sinto como se eu fosse morrer se não te beijasse agora!
Arregalei os olhos, surpresa demais com a sinceridade – e a intensidade – dele. Vi-o soltar outra risada e, ainda com sua mão na minha, puxou-me para longe da multidão. Enquanto ele decidia para onde nos levar, nunca parando de andar pela enorme sala de Sally, no entanto, meu estômago dava cambalhotas, o que me fazia sentir idiota demais, como se aquela fosse minha primeira paixonite!
- ! – Alguém me gritou, cumprimentando. Olhei para trás e vi com dois copos de plástico na mão, ela me sorria e levantou um copo para mim, como se acenasse. E eu, que tinha as mãos livres, acenei para ela.
- Olha, Niall, é a ! – Cutuquei-o.
- Ela não gosta de mim – disse ele, acomodando-se num puff perto da parede.
- Não é verdade – coloquei as mãos na cintura, inconformada.
- Você sabe que é. Ela perdoou o Zayn, mas não me perdoou – estendeu a mão para mim, convidando-me a sentar.
Joguei-me ao seu lado e fui recebida para superfície macia do puff, mas, ao invés de prazer, senti uma tontura que me cegou por um instante. Segurei a cabeça, como que para me situar, mas não deu certo, então apenas fiquei lá segurando meus cabelos como se estivesse tendo um AVC.
- Ei, você tá bem? – Niall segurou meus ombros.
- Sim, sim – balancei a cabeça. – Eu me sentei muito rápido! – Ri.
- Cuidado – ralhou.
- Ok, papai! – Empurrei-o de leve.
Ele riu, mas não respondeu. Por alguns segundos, apenas ficamos sentados ali, mais juntos do que nunca, observando as pessoas que preenchiam aquele cômodo da casa – bom, pelo menos eu estava fazendo isso.
- Nem acredito que isso está acabando – falei.
- Eu acredito.
- Falta algum tempo, ainda. Tem as provas finais, as entrevistas...
- Argh, eu odeio crescer!
- Amém, irmão!
- Ei, vamos fugir! Vamos juntar nossas trouxas, limpar nossas contas bancárias e ir para a Bélgica! Vamos trabalhar numa dessas casas de cerveja artesanal até juntarmos mais dinheiro e irmos para a América!
Não consegui não rir de sua ideia maluca.
- Seria ótimo, mas eu tenho que seguir o plano – balancei a cabeça.
- Tem um plano?
- Sim! Você não tem?!
- Bom...
- Terminar a escola, entrar em Oxford, pegar o diploma e não ter que depender mais de ninguém!
- Uau, Oxford?! – Ele arqueou as sobrancelhas.
- Nós estamos mesmo falando de faculdade numa festa? – Franzi o cenho para Niall, que pareceu tão admirado com isso quanto eu mesma.
- Meu Deus, nós mal sentamos aqui e já temos trinta anos de idade! – Observou, fazendo-me rir.
- Vem, não vamos ficar sentados aqui como uns bobões! Vamos dançar!
- Eu já disse, , alguma coisa acontece com você, uma magia, é irresistível...
- Já pensou que, talvez, eu queira que você me beije? – As palavras simplesmente escorregaram por meus lábios e, assim que terminaram de se apresentar ao mundo, tampei a boca com os olhos arregalados, ao que Niall riu. – Desculpe! Eu não sei de onde isso saiu! – Soltei uma risada nervosa. – Acho que tinha alguma coisa naquele refrigerante...
- Você não quer? – Seus olhos queimavam os meus.
- Não! Não! Eu quero! É que... Meu Deus! – Tampei a boca mais uma vez e Niall caiu na gargalhada mais uma vez. – Do que você está rindo?! Isso não tem graça! – Falei por debaixo das minhas mãos.
- , isso é hilário!
- Que bom que você está se divertindo!
- Qual é! Vem aqui – esticou o braço e, pegando minhas mãos, tirou-as de cima de minha boca. Vi o sorrisinho que nunca saía do seu rosto e quis que um buraco se abrisse no chão para que eu pudesse me atirar nele. Colocou minhas mãos em meu colo, acompanhando o movimento com os olhos e, quando finalmente os voltou para mim, seu sorriso sumiu enquanto ele me fitava.
- O que foi? – Passei as mãos no rosto por reflexo.
- Não é a pista de dança – balançou a cabeça. – É você.
- O quê? – Franzi o cenho.
- Essa... coisa. Está por toda parte, em você – seus dedos roçaram a pele de minha bochecha quando ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha.
- Niall...
- Shh – balançou a cabeça de novo. – Droga, aquela aposta era uma boa desculpa para te beijar.
Uma risada desesperada saiu de mim – aquilo era absurdo! Meu corpo inteiro estava congelado, e, além do meu pobre coração que trabalhava cinco vezes mais rápido para bombear sangue por meu corpo, meus olhos eram os únicos a trabalharem naquele momento, procurando em seu rosto alguma pista do que ia acontecer – se ia acontecer mesmo. Droga, nem meus pulmões eram competentes o suficiente para me permitir respirar.
- Você não precisa de uma desculpa – ouvi-me dizer.
- Respire, – ele riu e eu fiz o que ele mandou, soltando o ar que nem sabia que estava segurando. Senti sua mão tocar minha bochecha. Sua pele era áspera, mas, ainda assim, extremamente agradável. – Não preciso de desculpa, mas, talvez, precise de permissão?
- Não é como se fosse a primeira vez, Niall. – Soltei uma curta risada.
- Dessa vez é certo.
- Promete?
- Quer apostar? – Brincou ele, arrancando-me uma risada.
- Você tem minha permissão, Niall.
- Eu vou te beijar, , de novo – avisou, aproximando-se lentamente.
- Por que demorou tanto? – Disse sem pensar, fechando meus olhos.
Ouvi sua risada baixa, mesmo com a música que vinha do outro lado da sala, e a próxima coisa que senti foi o toque suave de seus lábios nos meus.
- Respire, – lembrou-me, com outra risada e eu o fiz.
Segurando minha nuca, ele me trouxe mais para perto, aprofundando o beijo. Segurei um suspiro com todas as minhas forças para não parecer boba demais. Por um momento, não ouvi mais a música, nem as pessoas conversando perto de nós, não tinha mais nem ciência de qualquer coisa que estava ao meu redor; uma de suas mãos segurava minha bochecha enquanto a outra pressionava gentilmente minha cintura e fazia parte dos culpados pelo turbilhão de sensações e emoções que dançavam dentro de mim. Meu estômago parecia o Polo Norte, tanto que até doía e tive um medo surreal de passar mal e estragar aquele beijo da pior forma possível.
Quando ele partiu o beijo e senti a falta de seus lábios sobre os meus, eu soube que estava muito além da “paixonite”.
- Vamos dançar – sugeriu ele, com um sorriso angelical no rosto. Levantou-se e, puxando-me pela mão, conduziu-nos para a pista de dança.
Meu Deus, eu vou vomitar.
Sem pensar no que fazia, puxei o copo da mão da primeira garota que avistei e entornei o conteúdo num gole. Eu realmente não estava pensando em nada, minha mente era um turbilhão de coisas que não me diziam coisa alguma. Peguei mais um copo, certa de que não havia outra forma de encarar a noite que me esperava.
Eu havia me declarado para o maior babaca que já conheci na minha vida, que havia quebrado meu coração sem pensar duas vezes.
Onde estava meu amor próprio? Meu orgulho? Ou tão somente meu bom senso?
Eu não conseguiria – e nem queria – lidar com tudo isso agora.
Era demais.
Eu estava exposta, mais uma vez.
E, honestamente, não estava nem aí.
Cumprimentei alguém que conhecia de vista com um pequeno sorriso.
E peguei seu copo.


’s POV
[sexta-feira, 1:15 a.m]
- Cerveja, cerveja, cerveja, cerv... Hum... H-Harry?
Estaquei no meio da – minúscula – despensa ao tropeçar nos pés do garoto sentado no chão, com a cabeça deitada para trás. Ele parecia mal e meio... Amarelo.
- Eu to drogado. Não liga. – Respondeu ele, abrindo os olhos apenas por uma fração de segundos e depois voltando a fechá-los.
Ainda fiquei parada o encarando por uns trinta segundos; primeiro, porque estava confusa, eu definitivamente não esperava encontrar Harry passando mal em uma despensa, já que festas eram seu habitat natural e eu esperava que fosse vê-lo dançando em cima de uma mesa lá fora ou comendo alguém no banheiro como era o normal. E segundo, porque eu já estava meio bêbada.
- Hum... Ok. – Disse, por fim, cuidadosamente, mais comigo e minhas reações do que com ele. Havia semanas que eu o estava ignorando com cerca de 50% de sucesso, já que não dava para dizer que eu estava me saindo bem de verdade julgando por meu estado de espírito terrível. E era por isso que eu o estava ignorando, me lembrei nesse momento: porque Harry me fazia mal. Estando longe ou perto, ele me fazia mal.
Com outro ‘ok’ mental, dei mais uma olhada para as prateleiras daquele cubículo, que estavam abarrotadas de produtos de limpeza, e decidi dar meia volta e sair logo dali. Eu não deixaria meus sentimentos por ele me tornarem uma idiota novamente, não queria ficar ali por tempo suficiente para me preocupar com seu estado de saúde.
Só que quando puxei a maçaneta a porta não saiu do lugar. Tentei mais uma vez, talvez eu estivesse fraca porque as coisas estavam meio borradas e turvas, mas nada. A porta não abriu, porque estava trancada. E, pelo jeito, não havia chave por ali.
Antes que pudesse entrar em pânico eu fechei os olhos e respirei fundo. Só precisava ligar para alguém e...
Meu celular não estava comigo.
- MERDA DE SAIAS! SÃO AS PIORES PEÇAS DE ROUPA! – Xinguei, passando uma mão no cabelo.
- Quê? – Harry perguntou, meio enjoado atrás de mim.
- Essas... Coisas... Não têm bolsos! E as bolsas não são bem aceitas nas festas! Aí você vai enfiar seu celular aonde, na calcinha?! Honestamente, como as mulheres conseguem...! – Fechei os olhos e choraminguei, pensando que meu celular estava há essa hora dentro do bolso da calça de Will, que me esperava, no jardim.
Xinguei novamente. Eu não podia nem avisar a ele que ia demorar.
Respirei fundo. Ok. Get your shit together, .
Virei para Harry novamente e me ajoelhei ao seu lado, soltando os dois copos de plástico que tinha em um canto e observando os bolsos da sua calça para ver se o seu celular estava ali. Não consegui distinguir, então comecei a apalpar procurando, e ele levantou a cabeça para me olhar, abrindo os olhos.
- Vai com calma, isso pode ser considerado abuso.
- Seu celular. Onde está seu celular? – Perguntei, ignorando-o.
- Hum... Deve estar... – Ele levantou um pouco o corpo e tirou do bolso de trás o aparelho, me entregando e voltando a apoiar a cabeça para trás.
Peguei a mão de Harry e toquei seu polegar no botão para ele desbloquear, e ao soltar sua mão eu precisei olhá-lo por um segundo. Ele estava mole feito um pudim e não parecia nada bem.
- O que você usou, afinal, Harry?
- Sei lá. Minha boca tá seca, e parece que a luz tá piscando. E a minha pulsação – Ele puxou meu pulso de repente, tocando a minha mão em seu peito, onde senti seu coração bater violentamente. – To com um medo do caralho, , e eu nem sei do que é. Juro que eu nunca mais vou beber nada desconhecido.
Franzi o cenho, continuando a tentar em vão não me preocupar muito. Voltei a atenção ao seu celular e comecei a ligar para todos. Mas Louis estava com o celular desligado, Liam chamou três vezes e caiu na caixa de mensagens e Josh deve ter atendido sem querer, porque ouvi o barulho da festa, mas ninguém me respondia.
- Eu acho que eu vou...
Olhei para Harry, ao vê-lo ofegar pesado demais.
- O quê? O que é? Vai vomitar?
Harry sorriu fraco, parecendo achar aquela situação engraçada e ao mesmo tempo estar sofrendo.
- Eu acho que é a minha asma. – Explicou, levando a mão ao colarinho da camisa e rindo fraco ao mesmo tempo em que respirava com dificuldade.
- Ah, meu Deus. – Respirei fundo, era tudo que eu precisava. Estar presa em uma despensa com um Harry passando mal de modo que eu não podia ignorá-lo – porque isso seria horrível, não é?
Continuei rolando os contatos, com mais pressa agora. Ele não tinha o número de nem , mas tinha o de ? Mas, bem, eu nem a havia visto ali desde que chegamos. Então cheguei ao número de Niall, e tentei ligar. Na primeira vez não deu, mas na segunda ele atendeu.
- Harry? – Gritou do outro lado da linha, mas ainda assim era difícil de ouvi-lo por cima do barulho da música.
- Niall! É a ! Estamos trancados na despensa perto da cozinha! Vem tirar a gente daqui!
Harry ofegava com mais dificuldade agora, e em consequência fiquei mais nervosa também. Segurei o celular entre o ombro e a orelha e abri mais dois botões de sua camisa, para ver se ajudava em alguma coisa.
- Parece que... As paredes estão s-se fechando – ele disse, ainda sem conseguir parar de rir e tentar respirar ao mesmo tempo.
- Para de rir! – Mandei, e segurei o celular. - Niall! Na despensa perto da cozinha! Vem aqui e abre a porta por fora! Rápido!
- Mas por que vocês est-
- O harry precisa de ajuda, Niall! - cortei-o, irritada. - será que você pode vir logo?!
- Mas eu... - Ele hesitou por um momento e então grunhiu, por fim. - Argh, ok! Já vou!
A chamada foi desligada no mesmo momento e eu soltei o celular no colo de Harry. Ele estava suando agora, aquilo era normal? Seu cabelo umedecia com cada vez mais rapidez e uns fios estavam grudados na testa.
- Você vai... - Hesitei por um tempo, sem saber o que fazer, onde minhas mãos podiam tocar, como eu podia ajudar. Quando pequeno Harry às vezes tinha ataques de asma, quando nossas brincadeiras ficavam muito pesadas ou quando corríamos demais ou por muito tempo. Por isso ele sempre foi o sedentário, por isso não participava de esportes no colégio e por isso – quase sempre - usava desculpas para pular os exercícios da aula de educação física e ir jogar xadrez sentado nas arquibancadas. Ele era bom no xadrez porque como não seria? Quando estava doente ou qualquer outra coisa e Anne não o deixava sair de casa era só o que ele fazia.
- O... o Niall já está vindo, ele vai destrancar a porta, ok? Eu... vou... - Tentei me levantar, mas ele segurou as minhas mãos agora parando de rir para se concentrar mais em respirar.
- Você tá com aquele cara, né? - Assenti com a cabeça, minha garganta estava seca. - Você gosta dele?
- Styles... - balancei fraquinho a cabeça. Falar com Harry sobre meus relacionamentos com outros caras não seria uma coisa normal nem se eu e ele nunca tivéssemos brigado, imagina então agora. Havia uma barreira em volta desses assuntos que ele sabia muito bem que existia desde sempre entre nós dois.
- Ok, ok... Ele... - Harry encostou a cabeça na prateleira atrás de si e engoliu em seco. - Gosta de Harry Potter?
Franzi o cenho e dei de ombros, do que diabos ele estava falando? Aquilo era para tentar iniciar uma conversa ou o quê? Será que ajudava com a asma?
- Eu não sei. Você tem a bombinha no colégio?
- Minha mãe sempre m-manda umas três - riu fraco.
Encarei-o por um tempo, percebendo que agora eu também estava com a pulsação acelerada e sabia que não era apenas de nervosismo. Nas últimas semanas tudo que eu queria era fugir disso, será que Harry não deixaria eu me livrar disso nunca? Eu não queria mais sentir isso por ele. E parecia que o tempo só piorava, que ficar longe dele só tornava pior quando nos aproximávamos de novo.
Me livrei de suas mãos que seguravam as minhas e coloquei os cabelos atrás da orelha. Olhei para trás, como que esperando que Niall chegasse agora, se é que ele viria mesmo... Eu pedia internamente que viesse logo. Voltei a olhar para Harry e seus cabelos estavam mais úmidos de suor agora. Suspirei pesadamente e segurei o seu rosto com as mãos o fazendo me olhar. Ele abriu os olhos e abriu um sorrisinho para mim, trazendo de volta aquele sentimento revoltante de odiá-lo e adorá-lo ao mesmo tempo.
- Aposto como está odiando isso.
Não era mentira, mas tentei pensar em algo menos indelicado para responder.
- Você nunca torna a minha vida simples, de qualquer maneira. - Murmurei para ele, tentando passar um ar de calma. Seu rosto suava frio e afastei os cabelos da sua testa. – As suas pupilas parecem duas luas cheias.
- Desculpa.
Balancei a cabeça. Fizemos silêncio por um tempo.
- Eu... - Ele puxou o ar com dificuldade. - Eu ganhei...
- Fique quieto, agora. Já vamos sair daqui.
- É que eu ganhei...
- Harry! - Ralhei e ele fechou os olhos, soltando um suspiro.
Sua pulsação ainda estava bastante rápida, como minhas mãos em seu pescoço podiam sentir, e eu também estava começando a suar ali dentro. Como foi que aquela porta se trancou, afinal?!
Não sei exatamente quanto tempo mais demorou, mas não foi muito. Eu só queria que tirássemos Harry dali para poder voltar a fingir que nada acontecera. Então ouvimos uma conversa logo atrás da porta e o barulho da maçaneta sendo destrancada.
- Valeu, . - Harry me olhou antes que ela fosse aberta. - E desculpa, tá legal? Por... Você sabe.
A porta se abriu.
- ... Acha mesmo que trancaríamos os dois e sairíamos para longe com a chave assim?! A gente estava logo ali na cozinha!
- Mas vocês não pensaram que eles podiam estar sufocando aqui dentro!
Olhei para trás e vi Niall e Louis abrindo a porta. Senti o ar fresco entrar ali e levantei-me depressa, perdendo um pouco o equilíbrio e me segurando em uma prateleira.
- Foram vocês! Seus idiotas! - Empurrei Louis pelo peito para trás. - Não pensaram pelo menos em ficar com o celular ligado para o caso de o seu amigo quase morrer sufocado?! - Apontei para trás, e Niall arregalou os olhos para Harry, que acenou para ele abrindo um sorriso com dificuldade.
- E aí.
- O que há com ele? – Niall perguntou.
- Ele tem asma! - respondi, irada, ainda olhando para Louis. - Mas você já sabia disso!
- Caramba... eu não lembrava disso, , ele tá sempre bem... - Louis coçou a nuca, e vi Niall ir ajudar Harry.
- Claro que não lembrou! E deixou a sua namorada jogar ele aqui nesse buraco quando ele está tendo uma reação de sei lá o quê e o coração dele tá quase explodindo no peito! - Ralhei.
- Ela disse que faria bem?! - ele abriu os braços, como se se desculpasse. - Desculpa, ok, eu só queria ajudar ele.
- Claro...!
- Ok, gente?! - Niall chamou. - vamos tirar ele daqui. Venham me ajudar.
Louis passou por mim, mas fiquei parada na porta, olhando para Harry sendo levantado do chão. Ele me lançou um olhar junto com os outros dois como se perguntasse se eu não ia ajudar, mas senti um nó na garganta que quase me impedia de falar qualquer coisa.
- Eu v-vou... Preciso encontrar o Will, ele está me esperando. - Avisei, apontando para trás. - Hum... levem ele para fora, para tomar um ar. Peguem uma água, também vai ajudar... Até. - acenei, saindo dali o mais rápido possível.

Lá fora estava um pouco frio, mas eu estava gostando, depois do calor que o passei na despensa. Minha pele só começou a arrepiar depois de alguns minutos, em que eu estava sentada naquele muro baixinho da altura de nossos joelhos, forrado de uma folhagem bonita. O quintal estava quase mais cheio que o interior da casa agora, por isso mesmo que eu ficasse de pé em cima daquele muro provavelmente não conseguiria enxergar onde estava Harry. Parte de mim ainda estava indignada com Louis. Sei que ele fez aquilo talvez por uma brincadeira, talvez com uma boa intenção, sei que ele não queria fazer mal, e que Harry era um babaca com ele muitas vezes também, mas eu fiquei tão preocupada por um momento. Louis não pensava?! Deixar fazer qualquer besteira só porque era ela!, Argh!
E o olhar de Harry quando saí da despensa e o deixei tendo um ataque de asma sozinho, quando eu era a única pessoa ali que sabia exatamente como ajuda-lo. Eu não queria e não podia me sentir mal por isso. Não era minha obrigação fazer nada daquilo, eu deixara muito claro que não queria mais contato com ele desde o acampamento. Ele não podia pensar que só precisava passar mal na minha frente para que eu fosse correndo ajudá-lo, segurar a sua mão...
- ? Você está na linha?
Desviei os olhos do chão para Will, sentado ao meu lado virado para mim, com uma perna de cada lado do murinho.
- Oi! Desculpa! - Balancei a cabeça. - Eu só estava... O que você estava dizendo?
- Perguntei se quer o meu casaco. Parece um pouco frio para você. - Apontou para meus braços descobertos pelo cropped azul e sorriu.
- Ah, não... Não precisa, assim quem vai ficar com frio é você. - Dei de ombros, e Will soltou uma risadinha. - O quê?
- Eu estou tentando ser, tipo, romântico e tudo isso... Desde que chegamos aqui. - Riu. - Você não facilita mesmo, sabe. Quer dizer, eu podia ter sido trancado na despensa no seu lugar se você tivesse me deixado ir pegar as cervejas...
- Eu queria dar uma volta! - Ri fraco. - E você conhece a casa menos do que eu, as pessoas...
- ... Ou eu poderia ter me entendido com aquele cara que mexeu com você, se você não tivesse o chutado para longe antes que eu pudesse me mexer...
- Não há nada mais imbecil que essas disputas de testosterona, eu perderia o interesse em você na hora...
- Mas eu só queria te impressionar, porque eu nunca fui bom de briga e nem nada...
- E você poderia se meter em encrenca por causa de uma besteira, então...
- , só... - ele levantou as mãos e parei de falar, o assistindo abrir o fecho de sua jaqueta. Sua câmera fotográfica, que ele levava para todos os lugares, estava pendurada ao redor do seu pescoço. - Por favor, vista a minha jaqueta. Por mim. É uma questão de honra. - Abriu um sorrisinho.
Revirei os olhos, mas no fim peguei a jaqueta e a vesti, com um pequeno sorriso.
- Satisfeito agora? - Abri os braços, sentindo o calor da jaqueta aquecer meu corpo. - Caramba... - puxei o colarinho e o cheirei. - Você usa o perfume do meu pai.
- Outch. - Ele olhou para cima, tocando a mão no peito, e gargalhei quando percebi o que falei.
- Desculpa! Ah, William, qual é, eu te disse que não sou essas garotas que sabem as coisas certas a falar o tempo todo... É um ótimo perfume! - Toquei o seu braço e ri. - Eu sempre adorei. Me lembra a casa. E ele sempre foi a minha pessoa preferida no mundo. - Contei, encolhendo os ombros.
Will me olhou de canto, abrindo um pequeno sorriso em seguida.
- Muito bem, então. - Riu fraco.
Olhei para minha mão em seu braço, e desci por ele até segurar a sua mão, como se a estudasse, virando a palma para mim. Era simples conversar com Will. Não havia nervosismo, hesitação, medo do que eu estava sentindo. Ele me fazia sentir bem, sem que nenhuma parte de mim se sentisse mal por isso. Não era nada comparado ao sentimento banal e idiota que sentia por Lance.
- Qual é o problema? – Ele me perguntou, observando meu rosto por um tempo. Respirei fundo antes de dizer qualquer coisa.
- Eu gosto de você, Will. Sabe, porque... – Olhei em volta e suspirei. - I'm so done with these high school boys. Eles brincam, fazem jogos, não levam nada a sério. Eu não quero mais isso para mim.
- Você está anos luz à frente disso, . Não vai encontrar ninguém que te compreenda aqui. - Sorriu para mim e se aproximou do meu rosto, afastando alguns fios de cabelo dali. – Eles não são para você.
Aproximei-me um pouco também, e depois de observar seu rosto abri um pequeno sorriso.
- E quem é? Deixa eu adivinhar, você vai dizer em seguida que é... Você?
- Eu? – Ele tocou o próprio peito e se afastou, dando uma risada que também me fez rir. – Eu só ia dizer que eu honestamente estou faminto, e tem uma lanchonete há duas quadras daqui que fica aberta a noite toda.
Abri um sorriso, ainda sem tirar os olhos dele.
- Não precisa dizer mais nada, eu sou sua – ri e entreguei minha mão para ele, que a segurou e se levantou.
- Espera... – Parou em minha frente antes que eu pudesse me levantar também e, com uma agilidade inacreditável, levantou a câmera e tirou uma foto do meu rosto.
- William! – Fechei os olhos com força pelo flash, e ele deu de ombros.
- A fome! Um dos sentimentos mais genuínos do ser humano.
Balancei a cabeça, levantando e empurrando-o com o ombro.
- Ei, você... Você gosta de Harry Potter? – O olhei, depois de um momento enquanto tentávamos abrir espaço entre as pessoas.
- Ah, gosto... Sabe como é, não sou o maior fã, mas eu acho legal. Por quê?
Dei de ombros. Não sabia porque também, eu só pensei em Harry e sua pergunta me veio na cabeça.
- Curiosidade.
- Você gosta?
- Um pouco. – Assenti. Um pouco? Eu amava Harry Potter. Era uma das minhas paixões desde criança, e só Harry sabia a intensidade com que aquela saga era importante para a gente, fez parte da nossa infância.
Uma garota tropeçou em nossa frente e trocamos uma risada, mas antes que nós pudéssemos sequer sair do lugar ouvi um barulho ensurdecedor de vidro se quebrando aos montes, no momento em que a música parou abruptamente, como se os aparelhos de som houvessem travado, e uma gritaria inconfundível veio de dentro da casa.


Liam’s POV
[sexta-feira, 1:30 a.m.]
- Você sabe o que fazer – disse Lane ao equilibrar o copinho de tequila entre os seios apertados pelo sutiã de Courtney. Pisquei para Lane com pura malícia e me inclinei sobre o corpo da outra garota. Lambi o caminho de sal que subia do umbigo às costelas, depois, peguei o copinho de shot com a boca e, rapidamente, entornei o líquido ardente, seguindo depois para a boca de Courtney, onde ela segurava uma rodela de limão entre os lábios.
- Hey, Court – sorri para ela e mordi o limão que ela segurava, finalizando a brincadeira.
- Cinco segundos! – Greg anunciou com seu celular em mãos. Todos à nossa volta urraram e Courtney se sentou sobre a mesa onde esteve deitada e, com um sorriso, brincou com a barra da minha blusa. Olhei rapidamente seu pequeno movimento, gostando do que aquilo representava.
Não podia negar que estava louco para fazer uma besteira. Qualquer que fosse.
- Você é realmente demais, não é? – Elogiou.
- Eu faço meu melhor – encolhi os ombros com falsa modéstia.
- Tenho certeza que o seu melhor é muito bom.
- Pode apostar que sim – pousei minhas mãos em sua cintura, aproximando-me.
Ela ia responder alguma coisa, talvez sugerir que fossemos a outro lugar, mas não teve a chance de fazê-lo. Atrás de nós, uma roda perto da piscina se formou e houve agitação. O grupo em que estávamos teve sua atenção arrastada para lá e todos nos aproximamos curiosos para ver o que era – bagunça apenas atrai mais bagunceiros.
Abri caminho por entre as pessoas para chegar ao perímetro do círculo e logo vi do que se tratava quando ouvi a risada cheia de . Apesar do frio que fazia ali fora, ela usava apenas uma regata e seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo muito malfeito. E, ao lado dela, estava uma garota da minha classe de História, Nathalie Hudson, uma intercambista vinda dos Estados Unidos. Montaram um jogo de beer pong no espaço da piscina e, ao que parecia, era a vez delas.
- Qual é o desafio? – Nathalie perguntou com seu sotaque americano e todo mundo começou a gritar um tipo diferente de desafio para elas.
- Beijo! – Alguém gritou do meu lado e muita gente concordou com ele.
- Tira a blusa! – Uma garota pediu em meio a risadas com suas amigas.
Todo mundo meio que concordou que aquele era um desafio aceitável e ficou decidido que quem perdesse tiraria a blusa. Mais gritaria, os caras comemoravam entre si a oportunidade de ver um pouco de pele de graça. Olhei para mais uma vez; ela parecia alterada o suficiente pela bebida para se prestar a algo do tipo daquele jogo idiota. Quando nossos olhares se cruzaram, vi um sorriso malicioso brotar em seus lábios e ela chamou a atenção de todos, para que se calassem.
- Eu vou aumentar a aposta! – Anunciou, lançando-me um olhar provocativo. Então, colocou suas mãos debaixo da blusa e, num rápido movimento, ela tirou o sutiã debaixo do tecido e, aí sim, todo mundo foi à loucura. Nathalie arqueou as sobrancelhas, mas acabou por tirar a peça de roupa também.
- Hoje é nosso dia de sorte! – Mike, que estava no grupo conosco, gritou ao meu lado, dando soquinhos em meu ombro. Forcei uma risada e um toque com ele, mas, na verdade, por dentro, meu sangue estava fervendo. Parte por ter em mente os belos seios que tinha e outra parte por imaginar aquele bando de imundos olhando para ela.
Mas ela pode vencer, Liam, calma. Minha própria mente tentava me controlar, o que estava funcionando, afinal, ela poderia vencer o jogo e quem teria que tirar a blusa era Nathalie.
Concentrei-me nesse pequeno detalhe e, olhando-a nos olhos, desafiei a ir em frente com tudo aquilo.
Ela virou o resto do líquido em seu copo e abriu um sorriso puramente devasso e, eu juro, foi a coisa mais incrível que eu já havia visto.
Merda, eu ia sonhar com aquele sorriso.
- Valendo! – Alguém anunciou e foi a primeira a jogar a bolinha. Eu estava completamente tenso, ansioso pelo resultado daquela brincadeira. Ela mirou e, nunca saberemos se por culpa da bebida ou não, ela errou. Todo mundo vaiou, mas rapidamente se tornou uma comemoração.
Agora era a vez de Nathalie. Para mim, ela não chegava nem aos pés de . Ninguém chegava ali, na verdade. Mas, para todos os efeitos e para todos os caras reunidos ali – e garotas também – um par de seios é um par de seios. Ela mirou, mas, por algum motivo desconhecido, ela caiu na gargalhada.
- Prepare-se para o topless! – Disse à . – Eu sou americana, darling! – E, tendo gritado isso, ela fingiu apertar os seios de , que apenas riu da outra.
Nathalie riu mais uma vez, bebeu mais um pouco de sua bebida e, por fim, sem mirar, jogou a bolinha.
E todo mundo explodiu em gritos e risadas.
perdeu.
- Tira! Tira! Tira! – Bastou um idiota começar a gritar que todos o acompanharam na cobrança.
Rolei os olhos para aquela idiotice toda.
Mas, quando segurou a barra da blusa, pronta para tirá-la, as coisas simplesmente aconteceram.
Empurrei Mike em cima da mesa do beer pong, fazendo cerveja voar para todos os lados e encharcar o garoto. Isso pareceu roubar a atenção de todo mundo e aproveitei para segurar o braço de e a arrastei para longe dali.
- Quem foi?! Quem foi?! – Ouvi Mike gritar com raiva.
- Qual é, Payne? – De repente, Lance entrou em meu campo de visão e parou à minha frente, cheirando a uísque e cigarro. se soltou de minha mão com um safanão. – Deixa a garota fazer o que ela quiser. Quem é você? O pai dela?
- Exato, Liam, quem é você? Meu pai? – cruzou os braços.
- Viu? Ela faz o que ela quiser. Você quer mostrar eles para mim, gracinha? – Lance esticou a mão para lhe tocar a cintura, mas, por reflexo, eu o empurrei pelos ombros.
- Não ouse tocar nela!
- Liam! Pelo amor de Deus! Você tá achando que é... – começou a gritar, mas eu a olhei puto da vida.
- Você não lembra o que ele fez com a ? – Quase gritei. Ela abriu a boca para responder, mas não disse coisa alguma.
- A ... – Lance voltou para me encarar, mas eu levantei a mão para ele.
- Sai da minha frente ou eu vou chamar a para vir aqui te dar uma outra surra – ameacei.
- Você realmente acha que é o dono de todas elas, não é, Liam? – Lance rebateu.
- Deixa de ser imbecil, Lance. – Ralhou .
- Vamos comigo ali no banheiro, gracinha?
- Vê se me erra – bufou ela.
Ele olhou para ela, de cima.
Lá vem merda.
- Você se acha tão superior, mas aposto que deve gostar de ser tratada como uma vadia na cama.
arregalou os olhos, visivelmente ofendida, e ele piscou para ela e nos deu as costas, entrando na casa.
- Seu filho da... – não terminou a frase, ela correu até ele e o empurrou com força, fazendo-o esbarrar em Allan, um cara do time de basquete que estava sentado no encosto de um dos vários sofás da sala de estar daquela casa. Ele empurrou Lance de cima de si e soltou uma gargalhada ao ver parada na porta da sala.
- Que ano difícil, hein, Lance? Já é a segunda vez que apanha de uma garota! – Todo mundo riu com seu comentário, o que enfureceu Lance.
No instante seguinte, Lance partiu para cima de Allan, esmurrando-o no rosto. Os amigos de Allan tiraram Lance de cima do amigo e o seguraram para que o outro pudesse revidar. E, então, os amigos de Lance vieram em seu socorro.
E aí o caos se instalou como fogo em palha.
Puxei antes que um vaso a atingisse e ela guinchou, desvencilhando-se de mim.
- Tudo isso porque você acha que eu não posso mostrar meus peitos por aí! – Ela berrou para mim, apontando a briga ao nosso redor.
De alguma forma, todo mundo acabou sendo sugado pela briga. Alguns caras tentavam separar outros que brigavam, mas acabaram apanhando também e revidaram. A sala apinhada de gente dançando era agora uma sala apinhada de gente se batendo, gritando e xingando.
Voltei a olhar para ela, exasperado.
- E você não pode!
- E desde quando você se importa?! – Devolveu.
- Ah, , não enche a porra do saco! Eu te fiz um favor! Você ia ficar marcada para sempre! Aconteceu com a !
- É, o Harry me contou.
- Claro, seu novo melhor amigo!
- Onde estava você, o protetor das boas condutas e do pudor, para proteger a naquela época?! Hein?! Estava bebendo tequila no umbigo de alguma garota por aí?!
- O que é isso? Ciúme?!
- Pro inferno com o ciúme! Eu deixei você seguir sua vida, você enfiou a cara nos peitos daquela menina e eu não comecei nenhuma briga por causa disso! E aí quando é minha vez de me divertir, aí não pode! Aí você tem que causar essa ceninha!
- É isso o que você quer, então?! Você segue sua vida, eu sigo a minha? Ótimo, , porque eu não quero mais ter problemas!
Senti uma mão em meu ombro me puxar para trás. Olhei naquela direção e vi Lance com um sorriso louco no rosto e um corte no supercilio.
- Ah, mas problema é só o que você vai ter! – Gritou antes de levantar o braço e me dar um soco.

Zayn’s POV
[sexta-feira, 1:40 a.m.]
- Vai, , anda! – Apressei-a enquanto subíamos correndo as escadas. Ela se virou para me dar alguma resposta malcriada, mas acabou olhando por cima do meu ombro e gritou. – Liam! – Empurrou-me pelo ombro, descendo as escadas e se enfiando no meio da confusão de pessoas ensandecidas e furiosas.
Sem tirar os olhos dela, desci também. correu na direção de Liam, que estava prestes a levar outro soco quando ela segurou o braço de Lance.
- Não toca nele, seu animal! – Ela o xingou, deixando-me surpreso por uma mínima fração de segundo.
- Fuck! O que tem de errado com essas garotas hoje?! – Ele berrou de volta, livrando-se dela com um safanão e quase se desequilibrou. – Sai daqui! – Empurrou-a pelo ombro. – Ou vai apanhar também!
Quê?
Mas que filho da puta!
- Ei! – Gritei. – Não toca nela!
- Ah, o marginal vai entrar na briga! – Lance soltou uma gargalhada descontrolada e veio para cima de mim; suas mãos seguraram o colarinho da minha jaqueta e me empurrou com força contra uma mesa com um abajur em cima. O vaso se espatifou no chão, junto com a lâmpada que se apagou com um pequeno curto.
Cacete, quantas vezes mais eu vou ter que brigar por causa de uma garota?!
Balancei a cabeça para tentar ignorar a dor em minhas costas por causa do impacto com a mesa de madeira e me levantei apenas para receber um soco na bochecha. Por reflexo, devolvi o golpe, acertando o rosto já machucado de Lance – por que aquele cara tinha que ser um escroto o tempo todo?
Ah, sim, olha quem está falando.
- Some, Lance! – empurrou-o mais uma vez e o estapeou.
Passei meus braços por sua cintura e a tirei do chão, afastando-a dele.
- Chega, ! – Gritei, arrastando-a para longe daquela confusão toda.
- Me solta, Zayn! Ele tá indo pra cima do Liam de novo, Zayn! Me solta! – Ela lutava contra mim, mas eu não lhe dei bola.
- Ele sabe se cuidar so-
Minha visão ficou turva por um instante e acabei soltando . A pancada em minha nuca foi forte e antes que o cara gordo e alto pudesse me bater de novo, pude ver um outro cara o derrubar. Passei as mãos pelo rosto. Ouvi os passos pesados atrás de mim e me obriguei a virar. Bloqueei o golpe do cara e o acertei na barriga, fazendo-o se curvar como uma bola no chão da sala.
- Mas que merda! – Gritei, puto da vida. – Vamos, ! – Virei-me para trás, mas não a vi ali. – Puta que pariu! Cacete! Eu não estou acreditando nisso!
Girei nos calcanhares, procurando-a pela sala, mas nenhum sinal dela.
Vi gente se batendo no jardim em frente à casa. No quintal, tinha gente caindo na piscina e explodindo garrafas de vidro uns nas cabeças dos outros. No meio dessa bagunça toda, vi a dona da casa entre risadas nervosas e lágrimas ora pedindo que parassem de destruir sua casa, ora encorajando um jogador do time a socar outro cara.
Esquivei-me de um grupo de animais que se atracavam no chão quando, ao longe, baixo, mas ainda claro o suficiente para eu reconhecer àquela distância, ouvi a sirene da polícia soar e ficar cada vez mais alta.
Fodeu.
Girei mais uma vez, agora desesperado para encontrá-la.
Quando todo mundo conseguiu distinguir aquele som, aí sim o caos se instalou.
Todo mundo começou a sair da casa por onde dava, mas ainda tinha muita gente que, no desespero, não sabia nem o que fazer e acabava correndo em círculos. Muitos escondiam bebidas, outros escondiam drogas, gente descia correndo as escadas, seminuas, as garotas só de sutiã e calcinha, outras só com as camisas dos caras que desciam com elas. Nenhuma delas era .
Alguém esbarrou em meu ombro e teria caído se eu não tivesse segurado pelo braço. Era .
- ! – Gritei, alarmado. Ela parecia fora de si.
- Quê? Ah, sim, , é! – Soltou uma risada exaltada e se livrou de minha mão. – Zayn! – Ela estendeu o ‘y’ e o ‘n’ do meu nome.
- Onde está a ? – Perguntei, sem tempo para rodeios. não fugiria de uma situação dessas nem para salvar a própria vida, pensei. Um vaso de flores estourou na parede ao nosso lado.
- Como eu vou saber? Não nasci grudada nela! – Revirou os olhos. – Que pena, Zayn, poderíamos ter nos divertido essa noite – piscou para mim.
- What the fuck, ?! – Franzi o cenho para ela. Mas, como um “click”, eu entendi. – Ah, não...
- Ah, sim. – O sorriso aberto que ela me deu foi suficiente.
- ! – Niall apareceu, tinha um corte na bochecha. – Zayn...
- Pega ela, tira ela daqui pela porta da garagem, eu vou procurar . – Falei para ele, que assentiu depois de um segundo de hesitação e, puxando o braço dela, se afastou em direção à piscina.
- Eu a vi na cozinha. – Disse ele, antes de desaparecer.
Corri para lá, desejando o quanto antes sair daquela casa. Encontrei no chão, em cima de alguém.
- ! – Chamei e ela olhou para mim, assustada. – O quê...?
- Ela foi atingida na cabeça, Zayn! Ela tá sangrando muito! – Ela olhou de volta para a garota caída no chão, com um corte na testa.
- , não temos tempo...
- Não! Zayn! Ela precisa de ajuda!
- A polícia está aí, . Nós temos que ir! – Falei, puxando-a pelo braço, mas ela se livrou, voltando a olhar a menina. Trinquei os dentes e olhei em volta, à procura de um pano qualquer. Rasguei um pedaço do forro da mesa, conseguindo uma tira de pano comprida e me ajoelhei ao lado da menina. – Vou fazer um torniquete. E nós vamos sair correndo daqui, ok?
Eu envolvi a cabeça dela com o pano e amarrei com força.
- Mas não fizemos nada...
- Vamos! – Segurei-a pela cintura e a puxei. soltou um grito quando um estrondo alto reverberou pela casa. – Nós temos que ir!
Corremos para o quintal da casa, atravessando a área da piscina, em direção à cerca de madeira que findava o terreno da casa. Segurei pelas pernas e a tirei do chão, dando-lhe apoio para pular a cerca e, quando ela sumiu do outro lado, pulei também de uma vez, aterrissando no chão ao seu lado.
- Tudo bem? – Perguntei, limpando as mãos na calça.
- Sim, vamos! – Puxou a manga da minha jaqueta e tornou a correr pela rua quando ouvimos as vozes maduras que se aproximavam da cerca da casa.
- Lá atrás! Vocês! Agora! – Alguém ordenou.
Olhei para trás por um segundo para ver se já havíamos sido flagrados, mas os policiais não haviam nem pulado a cerca ainda.
- Aqui! – Apontei para o muro de uma casa, que tinha parte de uma cerca viva nele e, também, uma fenda considerável escondida atrás dos arbustos e trepadeiras.
- Não vai caber, Zayn. – Ela disse, medindo a fenda com os olhos.
- Então entra você. – Falei, empurrando-a.
- Eu acho que vi alguma coisa! – Ouvimos outro grito. arregalou os olhos e me puxou junto cm ela para a fenda.
Coubemos.
Mas era muito desconfortável e apertado ali. Uma perna minha estava no meio das pernas de , que teve que virar o rosto para eu poder ficar com minha cabeça levemente virada para a rua. O tronco dela estava praticamente grudado no meu, e eu podia sentir seu coração batendo forte em sua caixa torácica – ou era o meu próprio coração. Sem hesitar, segurei sua mão gelada, entrelaçando-a na minha. Ela tremia, mas eu não sabia se era medo, adrenalina ou frio. Talvez um misto dos três.
Ouvimos os policiais passando por nós na rua. Havia três deles andando com certa pressa e com lanternas nas mãos.
Um deles passou por nós mais lentamente, segurando sua lanterna, olhando alguma coisa do outro lado da rua.
- Por favor... – Ouvi murmurar e eu quase não acreditei no que estava ouvindo. Ela estava rezando?!
Quando o policial se virou, a luz de sua lanterna passou por nós, mas ele não nos viu.
Ficamos naquele buraco mais um pouco. Estava tentando calcular uma quantidade de tempo segura para sairmos, mas não conseguia chegar a nenhuma conclusão. Tudo era arriscado demais. E foi somente quando os policiais voltaram a passar por nós, agora de forma tranquila, comentando como esses adolescentes só fazem merda, que eu consegui estimar um tempo a mais para ficarmos ali.
- Já podemos sair? – Perguntou num fio de voz.
Fiz meu melhor para pegar meu celular e mandei uma mensagem para Louis, perguntando se a barra estava limpa. Alguns longos segundos depois, ele disse que a polícia já havia saído com as viaturas. Saí da fenda, do melhor jeito que pude e puxei depois.
- Calma. – Ela murmurou, colocando-se devagar para fora da fenda. Assim que ela saiu completamente, puxei-a para mim e a envolvi em um abraço. – Zayn...
- Você está bem? – Perguntei, afastando-a pelos ombros.
- Vamos achar os outros. – Ela ignorou minha pergunta, começando a andar em direção ao final da rua.
Caminhamos em silêncio. Não precisava perguntar para saber que ela nunca havia estado no meio de uma situação como aquela, mas não saberia dizer o que mais a impressionou: se foi a violência, a menina ferida ou fugir dos policiais.
Fosse o que fosse, tenho certeza de que essa será uma noite que ela nunca vai se esquecer.
- ! – gritou quando viu eu e subindo a rua em direção a eles.
- E eu! – Murmurei, fazendo soltar uma risada fraca e me dar um tapa no ombro.
Estavam todos parados junto à van, conversando sobre algo e olhando para os lados freneticamente, provavelmente ainda com medo de que a polícia voltasse a aparecer. Rebekah estava com eles, também, Deus sabe o porquê.
- Você não vai adivinhar, cara. – Louis começou, cruzando os braços.
- Furaram todos os pneus do carro da . – Josh disse, aproximando-se também.
Às vezes eu acho que a vida me fez gostoso de propósito porque ela gosta de me foder.

Niall’s POV

[sexta-feira, 1:57 a.m.]

- Onde está a ? – me perguntou.
- Ela...
- Vocês não vão acreditar no que houve com o carro! – gritou enquanto corria em nossa direção.
- Nós já sabemos! – respondeu. – Essa é a . Ela morde. – Introduziu-a ao Will, que soltou uma risada discreta e assentiu.
- The hell?! Tem mais uma galera sem carro! Vi pelo menos uns quatro xingando e ligando pro seguro! – Ela se colocou ao meu lado.
- Malditos marginais! – Liam rosnou, passando as mãos pelo.
- Niall. A . Cadê?! – voltou a perguntar.
- Ela saiu da casa comigo, mas sumiu assim que pisamos na rua! – Balbuciei, sentindo-me um pouco intimidado pelo olhar dela. – Eu achei que ela pudesse ter ido te encontrar...
- É óbvio que a teria ido correndo encontrar a amiguinha dela! – Ouvimos a voz de e ela saiu de trás da van, com um sorriso debochado no rosto e as mãos atrás das costas. – Mas eu tinha outras coisas para fazer – levantou uma pistola de pregos.
- ?! Você ficou louca? – Liam gritou.
- Ei! Sh! Não grite comigo, playboy! – Ela apontou a pistola para ele, como se estivesse apontando com o dedo; todos nos afastamos um passo com esse movimento e cobriu a boca com as mãos. olhou para nós e, com uma risada afetada, abaixou a pistola. – Que modos os meus. Nunca fomos apresentados, a outra não me deixa sair muitas vezes. – Revirou os olhos antes de abrir um sorriso desvairado. – Sou Lola. Sem sobrenomes, sem referências, só eu. Gosto de manter simples.
Olhei para , que encarava a cena toda com espanto, o resto apenas se entreolhavam de forma confusa.
- Gente! – Alguém gritou atrás de nós, distraindo-nos do clima pesado e confuso que havia se formado ali. – Vocês sabem voltar para a escola? É nossa primeira vez de carro na cidade.
- Fala, Kole! – Liam fez um toque com ele. – A gente conhece essa cidade como a palma da nossa mão! – Gabou-se. – Segue a van, estamos indo para lá agora!
- Beleza! Oi, garotas! – Ele se inclinou e acenou para e .
- Oi, Kole – sorriu para ele.
- Você me dá uma carona, Kole? Alguém furou os pneus do nosso carro. – A outra pediu, começando a se afastar de , mas esta segurou o braço da amiga com rapidez. – Com licença?
- Você não vai a lugar algum, Lola. – disse com uma voz fraca, mas parecendo decidida a não a perder de vista.
Passei as mãos no rosto ao perceber – talvez pela milésima vez naquela noite – que aquela não era , mas sim Lola. Minha cabeça parecia que ia explodir e depois dar um nó. Nessa ordem.
- Eu não sou a , . Você não manda em mim.
- Meu Deus! – Forjei uma tosse aguda e longa, chamando a atenção de todos para mim. – Tá muito frio aqui fora! Estou quase ficando doente! – Tossi mais um pouco, apoiando-me no ombro do tal Kole, que me segurou de volta, parecendo preocupado. me deu um pequeno sorriso e esboçou um silencioso “obrigada” com os lábios. – Vamos logo, então?
- Vamos! – esfregou uma mão na outra, parecendo ansiosa para sair dali. – Cabe a gente? – Olhou para Louis.
- Nós perdemos quatro bancos por causa dos instrumentos.
- A van tem dezoito lugares, Louis. – falou e acenou para abrir a porta corrediça e entrar.
- Você contou? – Josh brincou.
- Eu aluguei essa van – ela rebateu, irritadiça, pegando a mão de Lola e a arrastando para dentro consigo. Zayn foi atrás dela e, logo depois dele, eu.
Por fim, todo mundo se ajeitou da melhor forma que pôde na van. Lola estava sentada entre Zayn e e ambos pareciam concentrados demais em seus próprios pensamentos para falar alguma coisa.
Cacete, como eu não percebi o que estava acontecendo?!
Agora Lola estava realmente aqui e eu não sabia o que fazer.
O que faria?
Merda.
- Todos prontos? – Louis olhou para trás, com uma cara de idiota misturada a sono; ele ainda estava sob o efeito da bebida.
- Just go! – Lola ordenou, entediada.
balançou a cabeça e, dando partida na van, manobrou-a com muito cuidado para fora da vaga em que estava estacionada. Louis até tentava dar algumas dicas, alguns conselhos e direções, mas, depois de quase batermos em um Honda, ela achou melhor seguir sua sóbria intuição dessa vez.
O silêncio na van era quase palpável. Ninguém se movia ou dizia coisa alguma, mas tinha certeza que, de vez em quando, alguém espiava Lola sentada em seu lugar.
- Ah, ! – Lola gritou de repente, causando um sobressalto a todos. – Gostei muito do cara que você me indicou!
- Quê? – murmurou.
- É, o traficante gente boa – Lola riu. Olhei para a tempo de ver seus olhos queimarem os de Lola por alguns segundos.
- O quê?! – repetiu, segurando-se ao banco da frente como se fosse levantar a qualquer segundo. Zayn esticou o braço para contê-la, mas Lola o acariciou por cima da jaqueta e ele recolheu imediatamente o braço, xingando.
- Que curioso, Lola, eu havia combinado com a que isso ficaria entre nós – respondeu, tendo que elevar a voz para se fazer ouvida pela extensão da van.
- Yeah, eu sei, mas eu não sou a , não sou? – Ela respondeu com aquele sorriso dissimulado.
- Não, não é – respondeu, soltando uma risada fraca. – Mas você acabou de assinar meu atestado de óbito, irmã. vai voar no meu pescoço na primeira oportunidade.
- Pela sua cara, , tenho certeza que uma patricinha enfurecida será sempre o menor dos monstros que você já teve que encarar – Lola garantiu, com certo ar de superioridade e escárnio.
O silêncio caiu entre nós mais uma vez. Minha mente trabalhava para se antecipar a qualquer desastre que pudesse vir a acontecer, mas, aparentemente, Lola queria causar confusão apenas com palavras. E contra isso eu não podia lutar.
- Ah, Harry! – Ela tornou a falar. – Sem ressentimentos! – Riu falsamente.
- Hã? – Ele se virou minimamente para ela, sem tirar a cabeça do vidro da janela.
- Eu estava prestes a fazer aquela festa ficar melhorzinha e você apareceu e pegou o copo da minha mão! – Ela bufou.
- Você ia tomar aquilo?! Eu passei mal a noite inteira!
- Fracote – soltou uma risada fraca. – Lide com seus problemas de outra forma. Não saia pegando o copo dos outros assim, nunca se sabe o que tem neles. Ops, , fomos hipócritas! – Outra risadinha.
Meu Deus, eu vou vomitar.
A preocupação e o desespero torciam meu estômago de forma impiedosa.
- Você está parecendo uma maluca falando, ! – Harry resmungou.
- Eu não sou a , ok? – Lola falou pausadamente, como se controlasse para não perder a calma.
- Ah, é? E por que você se parece com ela? – Liam quis saber.
O sorriso voltou aos lábios da garota.
- Intrigante, não é?
Mais silêncio enquanto Lola parecia buscar alguma outra coisa para dizer. Louis, parecendo bastante alheio a tudo que acontecia na parte de trás da van, ligou o sistema de som da van e sintonizou em alguma rádio. Tentei respirar mais aliviado quando a música preencheu o vazio que o silêncio provocava ali. Odiava que as atenções fossem todas de Lola. Odiava aquela exposição toda.
- Meu Deus, essa música é fantástica! – Comentei quando reconheci In The Summertime, do Mungo Jerry. Comecei a cantar o refrão, sem me importar em quão idiota estava parecendo naquela hora por causa da música bobinha.
Graças a Deus, Louis me acompanhou, gritando a letra do banco da frente e, de alguma forma, convenceu a cantar com ele. Lancei um olhar para , pedindo ajuda a ela, que também começou a murmurar a música. Zayn acompanhou, surpreendentemente mais animado que ela.
- A gente devia tocar essa música no palco! – Louis gargalhou. – Você consegue acompanhar essa batida complexa e elaborada, Payne?! – Brincou sendo irônico. – Niall sabe tocar banjo?!
- Eu quero é saber quem é que vai assoprar a garrafa! – Ri também, lembrando-me do cara da banda que assoprava uma garrafa no clipe.
- Eu, eu, eu! Me escolhe! – ria. – Qualquer coisa para fazer parte da banda mais maneira da Inglaterra!
- Mesmo que seja só para assoprar uma garrafa? – Josh arqueou uma sobrancelha para ela.
- Meu Deus, vocês nem desmentem! – soltou uma risada. – “A banda mais maneira da Inglaterra”!
- Amor próprio é tudo, né? – Josh beijou o próprio ombro.
A música acabou enquanto eles entravam naquela pequena discussão sobre modéstia, pé no chão e sonhar grande.
- Vocês acabaram de ouvir um clássico dos anos 70! – Disse o locutor da rádio. – E, agora, para fechar essa edição especial da noite exclusivamente britânica, despeço-me de vocês com essa aqui! God bless the Queen! Boa noite!
Quando a música começou a tocar, Rebekah soltou um grito, animada.
- Harry! Essa é para você! – Louis apontou para o amigo, que, apesar de rir com a piada, bufou.
Todo mundo riu da cara dele enquanto a introdução da música tocava e, então, a voz de Freddie Mercury inundou a van – e mais outras dez vozes cantaram junto:
- I want to break free!
Continuamos cantando e fazendo bagunça ao longo da música, esquecendo-nos de Lola, que também estava cantando e dançando em seu banco, divertindo-se como se fosse parte do grupo.
- Minha casa fica para lá – Josh apontou para a outra estrada da bifurcação que nos esperava a uns duzentos metros.
- Tá zoando?! – Liam gritou.
- Só tem rei morando desse lado do condado!
- Não é verdade – Josh revirou os olhos.
- Cara, a gente nunca foi na sua casa. – Harry observou, trocando um olhar com Louis.
- Não seja por isso! Motorista, vira aí! – Josh gritou, brincando, mas, de repente, a van entrou na outra faixa de forma brusca. – Eu estava brincando, !
- Eu sei, mas agora eu fiquei curiosa – ela riu.
rindo, tá aí uma coisa que não se vê todo dia. Josh riu também, aconchegando-se melhor em sua poltrona.
- Ok, então siga minhas direções.

’s POV
[sexta-feira, 2:15 a.m.]
Vamos ser sinceros: nós somos um bando de abastados. Eu não tinha um cartão de crédito, é verdade, mas ainda recebia uma quantia mensal em dinheiro vivo. E não era pouca coisa. E Liam recebia também; do pai, uma pensão, e da mãe, mesada. tinha um cartão de crédito e eu nunca a vi hesitando antes de passar o pequeno pedaço de plástico. Enfim, o ponto foi provado.
Nós temos dinheiro, passamos bem, viajamos quando queremos, gastamos com o que queremos e sobra para acumular com a mesada do mês seguinte; mas sempre acabamos gastando tudo porque gastar dinheiro é muito fácil – isso explica muita coisa se parar para pensar que os meninos organizaram um car wash para arranjar dinheiro para comprar os instrumentos.
Mas essa casa do Josh é ridícula!
Estávamos parados no gramado em frente à casa e observávamos com afinco a gigantesca construção iluminada por canhões de luz estrategicamente posicionados para deixa-la ainda mais majestosa e bonita.
- Josh, cara, esse é exatamente o tipo de coisa que se conta quando você conhece alguém! – Harry observou categoricamente, ainda sem tirar os olhos da casa.
- Foi mal – Josh encolheu os ombros, despreocupado.
- Cara, isso é fantástico! – Louis soltou uma gargalhada incrédula.
- Ah, gente, por favor, não é como se vocês fossem uns pobretões, né? – A garota terrivelmente parecida com bufou. Lola. - A pergunta é: a gente veio, realmente, só olhar?
Josh pareceu pegar a indireta no ar e pigarreou.
- Vocês querem entrar? – Ofereceu, com um sorriso.
Lola riu sozinha e, puxando Josh pelo braço, foi até a grande porta de madeira escura e, depois que o dono da casa destrancou a porta, eles entraram. Os meninos não pareceram pensar duas vezes e correram até a casa.
Fui atrás deles, com o resto das garotas. Elas comentavam alguma coisa entre si e eu não participava.
Tentei não reagir ao ser apresentada àquela situação de novo: as coisas estavam estranhas desde a discussão com na sala de ginástica.
Entramos na casa e eu quis soltar um palavrão.
- Isso é ridículo, Josh! – Louis tinha as mãos na cintura enquanto olhava o teto da sala de estar.
- Quando você disse que passou um mês na sua casa de praia nas Ilhas Maldivas, você não estava mentindo? – Liam se afastou de um dos porta-retratos em cima da grande lareira branca.
- Claro que não, por que eu mentiria? – Josh franziu o cenho, mas parecia estar se divertindo com a situação toda.
- Vocês gostam de corrida? – Perguntei, olhando um porta-retratos que tinha uma foto dele com sua família numa pista de corrida.
- A gente só gosta de correr, não importa quem ganha. – Ele deu de ombros.
- Bullshit! – Zayn riu. – Você deve perder sempre e, por isso, te dizem isso.
- Isso não importa, de verdade – Josh insistiu.
- Uma corrida é feita pelos motoristas, você deve saber... – Zayn continuou.
- Você quer pagar para ver? – Josh propôs.
- Como é? – Rebekah olhou para ele.
- Você quer pagar para ver, Zayn? – Josh repetiu.
- O quê? Vai dizer que tem um monte de Ferraris estacionadas lá fora? – Louis abriu a boca, deslumbrado.
- Não exatamente, mas dá para brincarmos. – Josh sorriu.
- Você não está falando sério – Niall soltou uma risada nervosa.
O que estava acontecendo com esses meninos?
- Onde está a Lola? – quis saber, olhando para os lados.
- Olha só, eles aprenderam meu nome! – A própria gritou, saindo de algum cômodo com uma caixa cheia de cerveja.
- Cortesia da casa – Josh riu, pegando uma garrafa. – Eu gostei da Lola, podemos ficar com ela e devolver a ?
- Não! – quase gritou, nervosa. Lola lançou um olhar para ela que eu não pude decifrar, mas um rápido calafrio perpassou meu corpo e tratei de me livrar daquela sensação quando a garota veio à minha frente me oferecer uma cerveja.
Peguei uma garrafa e tomei um longo gole.
- E aí? Topa? – Josh voltou ao assunto anterior, sorrindo com certa malícia para Zayn.
Quando Zayn aceitou o desafio de Josh, ouvimos a campainha tocar e, ao abrir a porta, encontramos Kole e outras duas pessoas com ele perguntando se estava tudo bem, se estávamos perdidos e coisas do tipo.
- Nós só vamos apostar uma corrida aqui e já vamos – Josh respondeu tranquilamente.
- Ah – foi só o que Kole murmurou, dando espaço para o dono da casa passar e nós também.
Contornamos a casa até chegarmos numa outra construção um pouco afastada da estrutura da casa. Estávamos no topo de uma elevação e, abaixo de nós e mais adiante, a propriedade se estendia, iluminada por pequenos postes de luz amarela. Josh apertou um botão na parede e o portão de metal se abriu com pouco barulho e muita rapidez, revelando, sem cerimônias, o que escondia: uma pequena coleção de carros esportivos e luxuosos. Contei dez carros, mas não conseguia distinguir a marca de todos eles.
Louis soltou um assovio.
- Pode escolher o seu brinquedo, Malik. – Josh foi até um quadro de chaves e tirou uma. Um Mercedes emitiu um barulho e a porta do motorista se abriu sozinha.
- Eu também quero! – Louis gritou, correndo até o quadro de chaves. E assim também fez Liam.
Atrás de nós, a galera que estava nos seguindo até a escola apareceu, amontoando-se discretamente para ver o que estávamos fazendo.
- Podemos assistir essa corrida? – Um dos caras desconhecidos quis saber.
- Não se preocupe em tentar ver alguma coisa, esses idiotas só vão ali na esquina e voltam – soltou uma risada como quem se desculpa.
- Eu acho que não, . – Josh piscou para ela. – As moças não vão querer brincar?
- Não, muito obrigada. – cruzou os braços enquanto acompanhava com o olhar Zayn pegar uma chave do quadro e se aproximar de um carro branco da Audi. – Você tem certeza de que quer fazer isso?
- Eu aceitei o desafio, agora tenho que defender minha dignidade – ele piscou para .
Calma, como eu nunca percebi isso? Franzi o cenho enquanto observava aquela interação entre eles.
- Ah, é? E como você pretende defender sua dignidade morto?
- Simples: eu não vou morrer – sorriu, presunçoso.
Balancei a cabeça, implorando ao universo que ninguém morresse naquela noite.
- Vou pegar a Lamborghini! – Lola gritou enquanto girava a chave do carro no dedo indicador.
- Vou com você – Niall foi para o lado dela.
- Uau, você vai mesmo longe por essa garota, hein? – Lola sorriu para ele. – Está disposto a morrer com ela?
- Você não vai nos matar, Lola.
- Você quer apostar? – Ela abriu aquele sorriso louco que ela abriu algumas vezes mais cedo.
- Finalmente alguém disse! – Josh gargalhou. – Apostas! Façam suas apostas!
- Quem perder tem que fazer alguma coisa que a gente mandar – Niall falou rapidamente.
Bom, de todas as propostas que poderiam sair dali, aquela era a que mais parecia razoável, muito embora ela também não dissesse nada logo de cara. Eles poderiam pedir qualquer coisa depois.
- Justo! – Louis concordou.
- Última chamada, meninas – Josh sorriu para nós.
balançou a cabeça, assim como .
- Eu fico com a Ferrari! – Harry gritou, desativando o alarme do clássico carro vermelho.
- Não! – guinchou baixinho ao meu lado, mas mordeu a ponta do dedão, como que para se conter. – Não deixa ele dirigir, ! – Ela me pediu, ainda mais baixo. Lembrei-me de quando ele falou na van que passara mal por causa da bebida batizada de Lola e vi que ela tinha razão: Harry não tinha a menor condição de dirigir.
Não que algum de nós estivesse em tal posição, afinal, todos tinham garrafas de cerveja em mãos, mas, de alguma forma, a preocupação de fora tão genuína que acabei tomando para mim.
- Ah, não vai mesmo! – Falei, tomando a chave de sua mão. – Deixa que eu cuido dessa belezinha para você.
- Quê? – Ele franziu o cenho para mim. Seu hálito de cerveja chegou até meu rosto e rapidamente me levou de volta ao beijo no festival e me fez decidir que aquilo fora muito bom e que a fama de Harry o precedia. Ele era bom, droga.
- Você não está em condições de dirigir.
- Nem você! – Riu.
- Vaza da minha frente, Styles, antes que eu perca a paciência! – Revirei os olhos.
Passei por Liam, que estava parado em frente ao carro que ele escolhera, e esbarrei de propósito nele.
- Tente ficar de boca fechada, Payne, ou vai comer poeira – ameacei. – Até onde vamos? – Medi as possíveis distâncias com os olhos, mas não tinha como corrermos ali: o gramado se estendia por todos os lados e o jardim era imenso, sem falar na piscina. – Ou melhor: como vamos?
- Vamos levar os carros até o autódromo – Josh começou a explicar. – E lá iremos correr.
Uma breve pausa se fez entre todos nós.
- Autódromo? – Rebekah indagou, com os olhos arregalados.
- Sim! Onde mais? Achou que faríamos um rali com esses carros nesse mato todo? – Josh riu.
Rebekah se afastou de nós com um sorriso cheio de significados para Josh.
- Eu dirijo. – Soprou no rosto dele e tirou a chave de suas mãos depois, rebolando, foi até a porta do motorista do Mercedes e entrou.
Tive tempo de ver o sorriso idiota se formar no rosto de Josh antes de entrar na Ferrari. Olhei para os lados, vendo que todos já se preparavam para sair da garagem. Vi Louis, que tinha o carro vizinho ao meu; ele se lançou pela janela, deixando metade de seu corpo dentro e metade fora do carro.
- , você vem? – O sorriso que ele tinha era adorável.
Ela apenas soltou uma risada e balançou a cabeça.
- Não é assim que eu planejo morrer, Tomlinson.


Liam’s POV
[sexta-feira, 2:25 a.m.]

- Vamos lá, ! Nós precisamos de alguém para dar a largada! - Gritei de onde estava, no carro, como que para convencê-la de nos ajudar.
- Qual a diferença entre alguém gritar "já" ou uma mulher de shortinho ir aí balançar uma bandeira? - Ela rebateu, desaforada.
- É que a gente nunca te viu de shortinho, ! - Josh gritou de seu carro e começou a rir.
- Não fala isso, cara, o namorado dela está aí! - Louis riu também, balançando a cabeça. Ele não viu, mas lançou um olhar homicida para ele.
Caramba, estava namorando?
Não é possível.
Ele?
- Por favor, ! – Pisei no acelerador do carro, fazendo barulho.
- Começa logo! – Alguém gritou nas arquibancadas.
Sim, na propriedade dos pais de Josh há um autódromo. Não cabia na minha cabeça um tipo de realidade como aquela. A pista devia ter uns cinco quilômetros de diâmetro e a arquibancada fazia uma coroa no círculo, rodeando-o por completo com exceção de um pequeno pedaço aberto para os carros entrarem no autódromo. Os postes de luz pontual faziam o perímetro e iluminavam perfeitamente o local.
Parecia coisa de filme e a adrenalina já fazia seu efeito no meu corpo.
, Will, , Harry e estavam na arquibancada, próximas ao grupo de amigos que estava nos seguindo até a escola e por isso acabaram parando aqui conosco.
- Vocês são ridículos! – gritou antes de se levantar e correr até a pista.
- ! – Josh a chamou.
Ela foi até ele e, afastando-se alguns segundos depois, levantou o braço para o céu, revelando uma pistola.
- Você é doente, cara! – Louis gritou, rindo de Josh.
- São balas de festim! – Josh assegurou. – Todos se preparem! Serão três voltas, jogo limpo!
- Tenha cuidado, – olhei para a garota sentada em seu carro, com as duas mãos no volante, os olhos fixos na pista à sua frente e um pequeno sorriso nos lábios.
- Por quê? Você se importa? – Lançou-me um olhar afiado, desafiando-me a responder.
- Não faça nenhuma besteira – pedi.
- Você não está com medo de perder, está? – Devolveu.
- Preparar! – O grito de me impediu de responder. Olhei para frente, colocando o cinto de segurança e liguei o carro. Fez-se silêncio por alguns segundos antes que finalmente desse a deixa – Vai!
O barulho do tiro ecoou pelo autódromo, mas foi logo abafado pelo som dos pneus cantando o asfalto e disparando pela pista em direção à primeira curva. Minha mente trabalhava a mil, tão acelerada quanto o próprio carro que eu dirigia. De algum lugar, num volume muito alto e que preenchia todo o autódromo, I Only Lie When I Love You, do Royal Blood, começou a tocar. Cacete, aquilo era irado!
Não saberia dizer nem lembrar quem estava em qual carro, mas consegui ouvir gritos femininos vindos da arquibancada por cima da música quando passei pelo grupo na curva. A Lamborghini branca passou como um borrão por mim e consegui captar, de relance, a cena de Lola gritando para mim.
- Come poeira, seu merdinha! – Ela riu e então deu um soco no volante na batida da música. Pisei mais no acelerador e a ultrapassei, o que fez com que ela reduzisse apenas o mínimo para não bater em mim. – Você vai pagar por isso! – Prometeu, mas não dei a mínima. Coloquei a mão para fora da janela e acenei para ela.
Emparelhei meu carro ao de Louis, que cantava junto com a música, concentrado.
- Cuidado com a Lola! – Gritei, chamando sua atenção para mim.
- Com o quê?! Louca?! – Ele franziu o cenho, olhando rapidamente para mim.
Claro, combina muito bem com ela.
- Lola! – Repeti e ele pareceu entender, assentindo.
Buzinando, a Mercedes onde Josh estava passou por nós na terceira pista. Rebekah jogou os braços para fora do carro e nos mostrou o dedo do meio nas duas mãos. Acenei para eles e acelerei mais, indo atrás de Josh. A música acabou e outra logo começou, mas eu não me prendi em tentar reconhecer; a guitarra e a batida frenética eram suficientes apenas para me animarem mais e pisar mais fundo no acelerador.
Na minha cola – e isso era questão de honra para ele – estava o Audi branco com Zayn dentro. Ele estava tentando me ultrapassar para chegar em Josh e deixa-lo para trás, mas eu também queria a liderança da corrida e, por isso, não facilitei para ele. Pelo retrovisor, consegui ver a hora em que a Ferrari vermelha ultrapassou Louis e colou na Lamborghini. Não consegui deixar de ficar surpreso por ver que conseguia dirigir daquela forma.
- Puta merda! – Xinguei quando me peguei pensando em como aquilo era extremamente sexy e como eu queria me enfiar por entre as pernas dela mais uma vez.
A Lamborghini e o Audi brigaram para me ultrapassar e, aproveitando a distração, joguei o carro para a terceira faixa, pegando uma curva mais aberta. Todos completaram a primeira e a segunda curvas, mantendo a posição: Josh na liderança, eu, Zayn e Lola brigando pelo terceiro lugar, tentando ultrapassar os dois e, por fim, Louis, que eu não tinha dúvidas de que estava apenas se divertindo e curtindo a Bugatti que estava dirigindo.
Na última reta-curva, meu velocímetro marcava quase 200 quilômetros por hora. Por estar na pista mais aberta, tive que reduzir e, vendo isso, Zayn aproveitou a brecha para me ultrapassar, mas Lola fez a mesma coisa e fechou o carro dele, que perdeu o controle e saiu da pista, batendo numa pilha de pneus. Consegui ouvir a risada de Lola e constatei mais uma vez que aquela garota era louca de pedra. Voltei para a mesma faixa que Josh estava e retomei a aceleração, mas já estávamos completando a última volta. Não quis deixar Lola ganhar em segundo lugar, por isso lutei para manter minha posição.
Pelo retrovisor eu conseguia ver o carro dela se aproximando perigosamente do meu e cheguei a sentir a hora em que seu para-choque encostou em meu carro, quase me fazendo perder o controle também, mas, quando me dei conta, Josh já havia cruzado a linha de chegada e, por isso, segurei o carro até lá, chegando em segundo lugar e reduzi a velocidade abruptamente. Livrei-me do cinto enquanto todos os outros paravam os carros pelo gramado e pela pista.
- Que porra foi aquela, Lola?! – Gritei, puto da vida, quando saí do carro e fui em direção à garota que saía da Lamborghini com um sorriso enorme.
- Você não trabalha bem sob pressão, Payne? – Ela sorriu mais, passando a mão pelo meu ombro.
- Vai se foder! E o que foi aquilo com o Zayn?! O jogo era para ser limpo! – Gritei mais uma vez quando vi Zayn se aproximar de nós com uma cara de poucos amigos.
- Não foi proposital. – Ela riu.
- Você ficou louca?! – chegou correndo. Parou em frente à Lola. – Você podia ter machucado alguém!
- Relaxa, o seu sapo está bem! – Ela lançou um olhar para Zayn. – Acho que vaso ruim não quebra.
- Ei, ei, ei! A gente pode focar no campeão? – Rebekah gritou, levantando a mão de Josh.
- Você perdeu, meu caro. – Josh apontou para Zayn, que bufou.
- Ela me fechou! – Ele protestou.
- Você perdeu. – Josh repetiu. – Vamos pegar a sua prenda. – Riu, batendo no ombro de Zayn amigavelmente. – Vamos voltar para a escola! – Gritou ele para o grupo de amigos que fazia bagunça na arquibancada. Eles gritaram de volta e se prepararam para sair. – Vamos levar os carros. Você pode curtir mais um pouco seu Audi, Malik. Deus sabe quando você terá a oportunidade de dirigir um desses de novo!
- Não me provoca, Josh. – Zayn ameaçou, falando baixo.
- Leve de volta para a escola. – Josh continuou falando, parecendo adorar o poder que estar na sua casa e ser o dono dos carros lhe conferiam. – Vamos em duplas, nenhum desses carros foi feito para levar a família para passear.
- Eu dirijo. – Niall pegou a chave do carro da mão de Lola e fez seu caminho até a Lamborghini.
- Vamos, Harry. – puxou-o pelo braço. – Você está melhor? – Quis saber. Observei os dois se afastando enquanto conversavam, de volta à Ferrari.
- , você pode estacionar a van na garagem? – Josh pediu a ela. – E pega o que você quiser lá. Ah, não, não pega o Cadillac, por favor, é o amor da vida do meu pai – riu fraco antes de entrar na Mercedes com Rebekah.
- Te encontro na escola, garanhão. – deu dois tapinhas no meu ombro quando passou por mim com Will ao seu lado.
- Sabe o caminho? – Perguntei.
- Sei. – Ela sorriu.
Entrei no meu carro e dei partida, saindo do autódromo de Josh, depois da propriedade e, por fim, pegando a autoestrada.
A noite não havia acabado ainda.


’s POV
[sexta-feira, 3:10 a.m]
Todo mundo ainda tagarelava sobre a corrida quando estacionou a van no estacionamento do colégio, e fui a primeira a descer por estar mais perto da porta, sendo seguida por Will e depois Rebekah.
O carro de Kole que trazia mais alguns alunos estacionou lá perto e eles logo desceram, também ainda conversando sobre a corrida, e sobre como foi foda. Particularmente eu achei que pareceu divertido, Josh corria muito bem e devíamos ter esperado que ele ganharia já que aparentemente cresceu fazendo aquilo; mas só estava feliz de ninguém ter morrido. Carros não eram bem a minha praia.
Ao passarmos pela portaria ninguém nos barrou. Já havíamos passado do toque de recolher, mas provavelmente mais gente devia estar chegando tarde, afinal o festival da cidade ainda estava rolando.
- Alguém tem trago aí? – Rebekah perguntou, virando de costas para olhar para nós que estávamos mais no final do grupo, que seguia livremente pelo gramado da escola em direção ao lago. Ainda precisávamos decidir o que o perdedor da corrida – vulgo Zayn, - teria que fazer e aquilo seria interessante.
- A tem. – Malik disse, e a garota olhou por cima do ombro. – O que foi? Se eu for expulso, pelo menos quero estar bêbado.
- Hmm, boa ideia, Malik. Essa é nossa melhor chance de nos livrar de você! – Liam brincou, nos fazendo rir.
- Então, tem, ? – Rebekah olhou para , com um olhar pidão.
- É, eu tenho. – Ela parou e olhou para o prédio do dormitório feminino, que estava logo ali. – Mas não sei como poderíamos entrar e depois sair de novo...
- A consegue. – Louis comentou e me olhou. – Vamos lá, vai ser barbada.
Will ao meu lado parecia se divertir de alguma forma. Eu tinha a sensação de que ele estava descobrindo naquele momento o tipo de pessoa que eu era do ponto de vista dos meus amigos, e não sabia se aquilo era bom ou ruim. Tinha medo que ele pensasse que eu era só uma criança, mas por outro lado eu não fingiria ser quem não sou para ganhar a sua aprovação. Mas ele sorriu tranquilamente para mim quando o olhei.
- Eu também vou – Harry disse, indo para perto de e Louis, e depois me olhou, fazendo uma caretinha. – Mas precisaríamos de você de qualquer forma.
Suspirei e dei de ombros.
- Bom, who cares! - Me aproximei do pequeno grupo decidido a ir conseguir a bebida e olhei para o resto deles.
- Nos encontrem perto do ginásio – Josh piscou e eles continuaram a descer.

Demos a volta em silêncio pelo prédio do dormitório e paramos perto da porta de saída de emergência, e olhei para a escada de incêndio pensando por um momento.
- Vou subir até o terceiro. A Minerva deve estar acordada esperando as alunas chegarem, e talvez ela não escute o barulho lá de cima.
- Eles podem estar cuidando as câmeras hoje – comentou.
- Bem, esperamos que não. – Dei de ombros e me ajeitei para subir, mas a escada começava na altura da minha cabeça e era longe da parede para que eu pudesse apoiar os pés. Olhei para trás e Harry se abaixou perto de mim, apoiando as mãos no joelho para me dar um pezinho, e olhei desconfortavelmente para Will que observava os nossos atos, curioso.
- Ok. Fechem os olhos, eu tô de saia. – Comentei, apontando para eles, e riu. – Porcaria de roupas nada práticas – resmunguei, pisando nas mãos de Harry e pegando um impulso para começar a subir a escada. Ele se levantou empurrando meus pés para cima e subi mais uns degraus até que conseguisse apoiar os pés no primeiro degrau.
Subir não foi difícil, passei a primeira porta e depois a segunda e dei a volta na escada para alcançar a porta de saída de emergência do terceiro andar, empurrando-a minimamente. O barulho foi ainda mais alto do que o do primeiro andar, e pareceu ecoar pelo pátio inteiro. Fiz careta. Me apoiei melhor na escada com uma mão e empurrei a porta o suficiente de uma vez só, fazendo barulho. Mas minha mão escapou da maçaneta e a porta voltou com um gemido ainda mais alto. Fechei os olhos com força esperando ela bater com um baque altíssimo no batente, mas isso não aconteceu. Abri os olhos e vi Harry, na escada abaixo de mim, apoiando a porta com a ponta dos dedos.
- Vai! Tá pesada essa merda!
Apoiei um pé no batente, me segurei com a mão no portal e alcei-me para dentro, passando pela fenda da porta e a segurando no mesmo lugar para deixa-lo subir e entrar também. Harry entrou e eu tirei meu sapato, o deixando entre a porta o batente para que ela não fechasse. Depois virei para ele e o empurrei pelos ombros.
- Eu não precisava da sua ajuda! – Sussurrei, irada.
- Ah, tá – soltou uma risada irônica. – Eu percebi.
- Seu idiota! Se ela te vê aqui comigo vai ser muito pior do que se me ver andando pelo corredor sozinha! Ela pode estar nos vendo nesse exato momento! – Xinguei.
- Bem, então cala a boca e anda! – Harry me empurrou para frente, me fazendo andar em sua frente. Grunhi, mas segui pelo corredor fazendo o mínimo de barulho possível até as escadas, e descendo até o segundo andar com ele ainda em meu encalço.
Chegamos ao quarto das garotas e entrei indo direto para o guarda-roupas de , lembrando de onde ela tirou a garrafa de vodka naquela noite em que estávamos todas juntas ali. Afastei o fundo do armário e tateei, encontrando lá aquela garrafa e mais uma cheia, de Jack Daniel’s. Entreguei uma a Harry e peguei a outra.
- Ok, vamos vazar daqui.
Nos aproximamos de novo da porta, mas antes que eu pudesse tocar na maçaneta ouvimos passos, e Harry puxou minha cintura, empurrando-me contra a parede ao lado da porta e levando o indicador à boca. O olhei, irritada, enquanto sentia a incômoda sensação de meu coração quase sair pela boca tão subitamente.
- Para de fazer isso! – Sussurrei, mas Harry pressionou a mão em minha boca, e precisei fechar os olhos e engolir em seco para evitar que todo o meu corpo tremesse. Eu queria chorar naquele momento, juro. Seu corpo contra o meu, a sua respiração rápida tocando no meu rosto, isso fazia meu coração pular ainda mais rápido, minha pulsação era tudo que eu ouvia em meus ouvidos, era possível que até ele ouvisse. Como eu me odiava por sentir isso por ele!
Então ouvi os passos de que ele estava falando quando se aproximaram tanto da porta que fazia parecer que ela estava parada ali do outro lado da parede.
- Srta. Edwards? Onde está a sua colega? Eu não te ouvi entrar. – Inquiriu a voz de Minerva.
- A-ah, eu entrei sim, agora mesmo! Eu... A senhora estava virada para a TV, eu acho. – Uma aluna respondeu.
- Onde está a sua colega de quarto?
- Eu acho que ainda não voltou, ela... Ainda estava no festival da última vez que a vi!
- Tudo bem. – Minerva disse, depois de um tempo. – Vá direto para a cama, por favor. – Disse, e seus passos começaram a se afastar dali em direção às escadas.
Assim que ela já estava longe o suficiente para que eu não pudesse escutá-la, empurrei Harry com força para longe de mim e ele me olhou feio.
- Você tá louca, ! – Ele cochichou. – Tá agindo feito uma maluca!
- Para de fazer isso! – Apontei um dedo para ele. – Para de, de... – Mas como eu podia dizer que não queria mais que ele me tocasse daquela maneira, se para ele aquilo não significava nada? Como eu podia explicar que não queria mais ele tão perto de mim sem que ficasse óbvio que era porque ele causava coisas em mim? – Não... Não quero que se aproxime assim, eu não quero! – Me expliquei, parecendo patética. Meu rosto queimou, e agradeci por estarmos no escuro. Deus, eu odiava aquilo.
Mas Harry não era burro, pelo menos não quando se tratava disso. Logo vi o sorriso detestável que apareceu em seu rosto, que demonstrava que ele havia sacado.
- Você fica nervosa quando eu me aproximo? Fica nervosa quando eu te toco, é isso?
Céus, o jeito como ele falava me queria fazer gritar. Jogá-lo da janela, no mínimo. Quem Harry Styles pensava que era! Mas minha língua estava travada. Não disse nada por um momento, tendo certeza de que gaguejaria me entregando mais ainda.
- Não seja patético! – Foi tudo que consegui dizer o mais convincentemente possível. – Você é um babaca.
- É, é, é tudo que você sabe dizer, mas é isso, não é? Eu te deixo nervosa. – Deu um passo na minha direção e eu teria recuado, se não estivesse colada na parede. Engoli em seco. – Eu te deixo nervosa, ?
- É claro que não, Styles! Do que você tá falando?! Eu só quero distância de você, porque... Porque eu te disse! Não quero mais você por perto, eu não quero...
- Você tá vermelha. Eu posso ver mesmo aqui.
Meu rosto queimou ainda mais.
- Eu, não...! Meu Deus, Harry, qual é o seu problema, eu não estou!
- Parece aquela menininha – ele sorriu de novo, mas agora diferente. – Quando sua mãe te pegava mentindo.
Balancei a cabeça, agora honestamente com uma bola na garganta. Não havia como fugir daquela situação, ele me deixava tão exposta, tão embaralhada.
- Qual é o problema, , o que é? Eu sei que fiz coisas estúpidas, eu sei. Mas o que é que há em mim que parece tão abominável pra você? – Tocou no próprio peito e se aproximou mais um passo. – Eu quero entender, porque eu... Não entendo o que é isso que está acontecendo agora, aqui...
- N-nada está acontecendo aqui. Nada. Eu quero que você fique longe, porque você me faz mal. Você me faz mal perto, você não consegue entender, perceber... – Balancei a cabeça. – Eu estou bem sem você, Harry! Eu tenho as minhas amigas, eu tenho o Will! Ele é ótimo, e ele é maduro, ele é diferente, é diferente de você e do Lance, e do Zayn, e dos outros caras que me... Que me...
- Trataram mal. – Ele concluiu, e o silêncio que se seguiu a isso, por mais que breve, pesou em meu estômago como se estivesse me puxando para baixo. Eu não conseguia olhar em seu rosto mesmo que só visse sua silhueta. Harry se aproximou ainda mais. – Mas ele não é o cara certo pra você, . Esse cara, o Will.
Abri a boca para protestar, mas ele continuou:
- Eu sei que fui um idiota com o Lance. Mas eu estava certo, eu vi que ele não prestava, sempre soube. Ele disse que ia te pedir em namoro, e eu... pirei. Eu sei que não tinha o direito, mas , eu estava certo. Não queria te ver sair magoada, e agora... Eu tenho a mesma sensação com ele, eu sei que ele não é o cara certo, , eu sei! Ele não saberia te entender, ele não saberia... Te tratar, te cuidar, te... Tocar...
Pensei por um momento que meu corpo estivesse paralisado, eu não conseguia mexer um músculo. Mas depois de um tempo minha voz saiu:
- Mas ele sabe. – Retomei a postura e me afastei da parede, o empurrando um pouco para trás pelo peito. – Ele sabe tudo isso. Me tratar, me entender, me beijar. Como você nunca saberia.
Não havia mais barulho no corredor, mas mesmo se houvesse alguém ali, eu não me importei ao sair do quarto decidida. Não queria mais sentir aquilo, a humilhação que sentia sempre que meu coração pulava uma batida por Harry desde que eu tinha, sei lá, doze anos. Fui até a porta de saída de emergência no final do corredor sem me importar se ele estava ou não no meu encalço, e passei pela fenda aberta,, sem fazer barulho. Harry segurou a porta e eu calcei o meu sapato. Olhei para baixo e levantou as mãos, e eu tomei cuidado para soltar a garrafa no ângulo certo para que ela pudesse pegar. Depois que pegou eu me segurei na escada e desci com ele atrás de mim, e depois que aterrissamos, eu troquei um olhar duro com ele antes de virar as costas, decidida a esquecer daquilo, como esquecia de todo o resto.
- Você é demais – disse, me pegando de surpresa ao me abraçar pelos ombros de um lado enquanto Louis surgiu do outro, me abraçando também. Olhei para os dois e beijou minha bochecha, me fazendo arquear as sobrancelhas, espantada. Ela se afastou tomando a vodka em grandes goles e Louis logo foi atrás.
- Ok, agora eu definitivamente acredito. – Will me alcançou, andando ao meu lado, e o olhei, sorrindo ao ser pega de surpresa por sua presença, e me sentindo mal por ter esquecido por um momento que ele estava ali.
- Acredita?
- É, você definitivamente não é uma garota qualquer, e muito menos aquele estereótipo que vi em você quando te conheci.
Ri e balancei a cabeça.
- Eu te disse.
- Mas devo admitir que estou um pouco surpreso com as suas habilidades.
- Ah, isso é normal – brinquei estalando a língua e ele riu.
Seguimos e Lou que já estavam mais na frente, rumando para o lago e conversando sobre os próprios assuntos. Quando alcançamos o resto da galera, próximos à grade do lago, Rebekah recebeu a garrafa de Jack Daniel’s e comemorou. Também percebi que o pessoal do carro de Kole não estava mais ali, provavelmente já haviam ido para os dormitórios, e com razão... Algo me dizia que aquela noite ainda estava longe de acabar.


Zayn’s POV
[sexta-feira, 3:27 a.m.]
- E então, galera, o que vai ser? – Josh abriu um sorrisinho e cruzou os braços, olhando diretamente para mim, como que me provocando.
O bastardo apenas venceu a corrida porque Lola havia me fechado na última volta.
Lola era outra que não devia nem estar aqui, para início de conversa.
- Eu estou precisando dar um upgrade nas minhas notas – Harry começou. – Seria bom se elas subissem um pouquinho.
- Nem fodendo que eu entro na sala da diretora – soltei uma risada seca. – Pode escolher outra coisa.
Enquanto o resto do pessoal parecia pensar no que pedir, passei os olhos pela orla do lago do St. Bees. Não havia ninguém perto; os vigias não pareceram se importar muito de nos ver voltando tão tarde para a escola e devem ter achado que todos havíamos ido direto para os dormitórios. Ainda estávamos do lado permitido da cerca, mas algo me dizia que aquela situação não demoraria a ser mudada.
- Ele podia soltar os ratos do laboratório... – ouvi alguém dizer, ganhando minha atenção.
- Ele podia pegar os ratos do laboratório e os soltar nos dormitórios. – abriu um sorriso, orgulhosa de sua ideia.
- Nos dois? – Liam pareceu considerar a ideia e eu tive que me segurar para não rir daquilo.
- Acho que no feminino é mais eficaz. – Louis observou.
- Caramba, isso vai dar um problema... – Niall riu, passando as mãos pelo cabelo.
- Vocês não prestam. – balançou a cabeça, divertindo-se.
- Qual é, ! A noite não acabou ainda, vai ser divertido – Louis apelou.
- Sabe o que eu queria agora? – Lola sentou em cima da grade e sorriu para nós. – Um piquenique.
- Um piquenique? Onde? – perguntou.
- Lá embaixo! – Apontou para a beira do lago.
- Vamos precisar de comida. – Niall observou.
- E algo para cobrir o chão, certo? – Bill deu seu palpite, que foi bem aceito por todos.
- Os colchonetes do ginásio! – fez um toque com o cara.
- Eu não acredito que aqueles colchonetes ainda estão lá – ele riu.
- Onde mais eles estariam? Na recepção? – Lola revirou os olhos e desceu da grade num pulo, vindo até mim. – Vamos lá, garotão, você vai dar um tour por essa escola hoje. Primeiro, você vai no laboratório de biologia e vai pegar aqueles ratinhos. Depois você vai largar eles no dormitório das mocinhas dessa escola. Vai voltar, pegar os colchonetes do ginásio e me entregar e, então, vai arrombar a porta do refeitório e pegar alguns lanchinhos para nós.
Franzi o cenho, olhando-a de cima. Quem ela pensava que era para decidir tudo sozinha?
Mas todo mundo concordou com a ideia dela.
- Ok, então é só isso? – Passei a mão pelo rosto.
- Achou pouco? – Lola me mostrou um sorriso cheio de dentes, como se ela estivesse pronta para me engolir a qualquer momento.
Puta merda, eu já estive diante de garotas loucas antes, Mandy me deu uma boa dose disso tudo, mas Lola era outro nível. Ela era assustadora.
Um monstro vivendo dentro da .
- Só quero saber se já posso ir, Lola. – Respondi, sustentando seu olhar, desafiando-a.
- Volte antes do amanhecer, Malik – Josh riu fraco antes de beber um gole de uma das garrafas que trouxeram do quarto da .
- Ah, Zayn, entre pela janela do laboratório de Química! O professor sempre esquece a janela da mesa dele aberta. – aconselhou. Ao seu lado, vi Bill arquear as sobrancelhas, admirado.
- Ok, valeu. – Fiz menção de me virar para me afastar, mas ela me chamou de novo.
- Anda longe dos armários! As câmeras estão sempre apontadas para eles, pro caso de acontecer algum furto. – Ela assentiu com a cabeça para si mesma, como se estivesse pensando em mais conselhos para me dar. – Ah! Caramba! Quase que me esqueci! – Riu fraco. – Pelo amor de Deus, não use a porta principal do prédio! Em hipótese alguma! Acredite em mim!
- Uau, , você é mesmo um gênio do crime, não? – riu consigo mesma.
- Quando eu era menor, queria que minha mãe mudasse meu nome para Tricky ou Trouble. – A outra respondeu.
- Seria no mínimo estranho conversar com você hoje em dia – observou Niall, rindo.
- Acabou? – Perguntei, impaciente para terminar aquilo tudo de uma vez.
- Não faça merda – Liam acenou para mim.
Não respondi e dei as costas ao grupo, afastando-me em direção ao prédio perto do ginásio onde ficavam os laboratórios da escola. Droga de aposta, pensei. Era a segunda aposta que perdia numa noite só, mas a primeira tinha a ver com , então não parecia tão insuportável assim.
- Malik! – Ouvi a voz de atrás de mim e logo sua figura entrou em meu campo de visão. – Vou com você.
- Não pedi ajuda.
- Como se eu me importasse. Não quero ficar perto daquela garota. – Confessou.
- ?
- Lola.
- Ela é uma figura, huh? – Bufei.
- Ela vai nos dar problema.
- , ela é o problema.
- A deve estar fritando o cérebro de tanto pensar em uma solução para tudo isso.
Ao ouvir o nome de , instintivamente, virei-me para o grupo que havíamos deixado na orla do lago.
- Geez, Malik, seja discreto!
- O quê?
- Você deixa muito na cara que está caidinho por ela.
- Quem? – Franzi o cenho, fazendo-me de desentendido.
soltou uma risada fraca e balançou a cabeça, mas não respondeu minha pergunta.
Caminhamos em silêncio lado a lado até chegarmos no prédio dos laboratórios. Contornamos o edifício enquanto minha mente trabalhava em busca de um sinal que nos indicasse qual era o laboratório de Química que havia aconselhado.
- Vamos procurar pela janela aberta – falei, tocando o primeiro conjunto de janelas do prédio. assentiu e foi um pouco mais para frente, colocando as mãos nas janelas.
- Ei! – Sussurrou. – Aqui!
Corri até ela e vi a janela aberta um pouco acima da mesa do professor. Tomei impulso e pulei para dentro sem pensar muito nos próximos passos. Olhei em volta, tentando acostumar meus olhos à escuridão de dentro do laboratório. entrou também, mas a aterrissagem no chão foi um pouco atrapalhada e ela esbarrou em mim.
- Foi mal – disse.
- Tome cuidado.
- Claro, porque eu pisei errado de propósito, mesmo – murmurou.
- Não seja tão sensível. Não sou o Louis para ficar te mimando.
- O que é isso? Ciúmes? – Ouvi sua risada baixa atrás de mim. – Ah, não, é verdade, você agora está afim da .
- Quando foi que você começou a falar tanto? – Olhei-a rapidamente.
- Estou te incomodando? – Ela parecia estar se divertindo.
Contornei uma das bancadas quando meus olhos conseguiram distinguir a porta da sala, mas acabei tropeçando numa lata de lixo.
- Sh! Não vai nos entregar, hein!
- Não tem ninguém aqui! E você está me distraindo com esse falatório. Finge que você ainda é aquele zumbi que você costumava ser e se restrinja apenas às palavras extremamente necessárias, ok?
Não ouvi resposta dela e agradeci por isso. Chutei parte do lixo que caiu da lata para debaixo do balcão e segui até a porta da sala com ela no meu encalço. Coloquei a mão na maçaneta da porta para abri-la, mas arfou e me puxou para longe dali rapidamente.
- O que-
Ela colocou a mão na minha boca e balançou a cabeça, apontando para o vidro da porta. Olhei rapidamente e vi a luz de uma lanterna passar pelo vidro fumê e uma silhueta preta segurando-a.
Merda. Merda. Merda.
- O corredor não é tão grande, ele deve dar meia-volta daqui a pouco! – sussurrou para mim. – Vamos esperar um pouco.
Concordei com ela e voltamos para a porta, ficando ao lado dela de forma que, se fosse aberta, seríamos escondidos por ela. Podíamos ouvir os passos do vigia ecoando pelo corredor e ficando cada vez mais baixos, indicando que ele estava seguindo para o fim do corredor e logo daria a volta e, vendo que nada de errado acontecia ali, iria embora.
Ficamos ali por mais algum tempo, ouvindo atentamente o que acontecia lá fora. Contei os minutos que se passaram desde que pude distinguir os passos no corredor e comecei a ficar preocupado quando não ouvimos os passos dele voltando.
- Ele já deveria ter voltado. – Falei mais baixo que um sussurro.
- Eu sei! – Ela respondeu da mesma forma que eu.
- Tem outra saída?
- Não faço ideia!
Balancei a cabeça, amaldiçoando-me por ter aceitado tudo aquilo.
Contei mais cinco minutos e, assim sendo, decidi que iria abrir a porta apenas o suficiente para ver o que acontecia.
- Vou abrir a porta e dar uma olhada – avisei , naquele tom de voz mudo.
- Cuidado. – Mordeu o lábio inferior.
Girei a maçaneta lentamente, torcendo para que a porta não fizesse nenhum barulho, e não fez. Coloquei a cabeça para fora e olhei para os lados: tudo limpo.
- Deve ter outra saída! – Voltei e falei a , ela assentiu. Peguei sua mão e a puxei para fora do laboratório.
Seguimos à direita, o laboratório de Biologia era o último do corredor. Lembrei-me do que disse sobre as câmeras e puxei para a parede oposta aos armários. Olhávamos para os lados freneticamente, preocupados em sermos pegos a qualquer momento, mas não havia sinal de ninguém no corredor.
- Zayn! – me cutucou e apontou para trás.
A luz de lanterna iluminava a parede do corredor; o vigia estava prestes a virar no corredor onde estávamos. Seus passos eram ruidosos e ritmados e ele ainda assoviava uma melodia qualquer. segurou meu braço e começou a correr em direção à porta do laboratório de Biologia. Paramos à porta e, cuidadosamente, giramos a maçaneta para entrar e, quando abrimos a porta, uma lanterna foi apontada para nós, cegando-nos. Não tivemos nem tempo para pensar, giramos nos calcanhares e voltamos para o corredor, mas o outro vigia estava lá e gritou “Ei!”.
- Fuck! – Murmurei quando nos vi encurralados pelos dois vigias.
Estava prestes a inventar alguma desculpa mirabolante para nossa presença ali, mas as risadas que se seguiram cortaram qualquer fluxo de pensamento que havia se iniciado em minha mente.
- Eu não acredito nisso! – quase gritou atrás de mim, revoltada.
Foi só nesse momento que eu reconheci as risadas.
- Eu vou matar vocês! – Grunhi, partindo para cima de Louis, que chorava de tanto rir.
- Ei, sem briga! – me segurou, rindo também.
- Você também?! – Questionei, inconformado.
- Qual é, Zayn, foi só uma brincadeirinha – Lola limpou uma lágrima do canto do olho, controlando-se.
- Como é que vocês entraram aqui tão rápido? – quis saber.
- Pela porta da frente – Josh abriu um sorriso.
- ! Aquela... – grunhi mais uma vez.
- Ei! – Ouvi a voz de protestar atrás de mim, também rindo.
Puta que pariu, como eu odiava pegadinhas.
Tem pouca coisa que eu não odeie.
Mas pensa como é legal ser feito de idiota.
- Ei, calma. – sorriu para mim, como se eu fosse algum tipo de animal que precisasse ser domesticado.
- Tá. – Bufei. – Vou pegar aqueles malditos ratos.
Afastei-me do bando de babacas e entrei no laboratório de Biologia. Tirei uma caixa da estante de materiais, abri a gaiola dos ratos e coloquei mais da metade deles na caixa. Fechei tudo e saí da sala, passando reto pelos seres humanos, indo em direção à saída e, depois, ao dormitório feminino.
- Você vai precisar de ajuda com isso – ouvi a voz de logo atrás de mim, mas não virei para ver.
- Só você é capaz de entrar no prédio dos dormitórios femininos escondida, Trouble?
- Não, mas eu entro e saio escondida há anos e estou me sentindo extra generosa essa noite. – Ela me alcançou, e começou a caminhar do meu lado. - Além disso, convenci o pessoal de que essa coisa toda de você seguir as ideias malucas da Lola sozinho é injusta. Eles vão pegar comida no refeitório, então você só precisa conseguir aqueles colchonetes.
Dei uma olhada em e ela me olhou de canto, antes de abrir um sorriso tranquilo.
- É a primeira vez que eu te vejo longe do Bill essa noite – comentei.
- Jesus, o nome dele é Will! – Revirou os olhos, e ri fraco.
- Faz diferença?
me lançou um olhar cínico, e seguiu o caminho até o prédio dos dormitórios femininos na frente.
Eu me lembraria de agradecer pela ajuda mais tarde, se nós por um acaso conseguíssemos nos safar da encrenca.

’s POV
[sexta-feira, 4:01 a.m]
Ainda demoramos um tempo dentro do colégio para ajudar Louis a botar uma “ideia genial que os caras tiveram” em prática dentro da sala do sistema de som da escola – “os caras” sendo Niall, Liam e Harry.
A porta principal de entrada ao refeitório ficava trancada com um cadeado, e por isso precisamos dar a volta por fora do prédio e procurar outra janela. Nós a encontramos sem problema, porém ela ficava há uma altura de um metro e meio do chão e por isso foi preciso um pouquinho de trabalho em equipe para que a gente conseguisse entrar.
- Vem, me dá uma ajudinha com isso – Lola puxou a mão de Louis e o fez se abaixar perto da janela para dar um pezinho a ela. Ela subiu com um pé em cima de sua mão e olhou para baixo. – Agora empurra com força, vai! – Riu e Louis olhou para mim e por cima do ombro, trocando um olhar metade confuso e metade amedrontado pelo comportamento dela, como todos estavam.
- Como isso aconteceu? – Perguntei a parada ao meu lado enquanto observávamos Lola empurrar a janela e pular para dentro, aterrissando, pelo barulho, em cima de uma mesa.
- Eu não sei, passou a noite com o Niall... Eu... eu realmente não sei. – balançou a cabeça, pesarosa, e eu a olhei.
- Não é sua culpa, não é sua obrigação cuidar dela o tempo todo.
Lola reapareceu do lado de dentro e nos chamou. estalou a língua e balançou a cabeça, se aproximando de Louis para subir também.
- Você não entenderia.
Pode crer que eu não entenderia. Tenho meus próprios problemas, muito obrigada.
também subiu e a próxima fui eu. Depois ajudamos a puxar Louis pela janela e estávamos todos dentro.
O refeitório do St. Bees parecia duas vezes maior estando vazio. A lua cheia aparecia pelas janelas ali do fundo do refeitório, iluminando o local o suficiente para que conseguíssemos enxergar tudo quase que perfeitamente. O balcão onde a comida era servida estava vazio, é claro, então todos nós nos direcionamos logo às portas que davam para a cozinha onde a comida ficava de verdade. Lola chegou primeiro e encontrou o interruptor, ligando a luz branca que me cegou por um momento.
- As coisas boas ficam aqui – Louis abriu as portas de um armário imenso, que guardava ingredientes de um lado e coisas prontas de outro. – Vejam se tem algo bom pra beber no freezer!
foi até lá fazer isso. Enquanto isso olhei em volta, observando os enormes armários, a mesa de alumínio no centro da cozinha que ocupava quase todo o espaço e as diversas bocas do grande fogão no outro canto da sala. Por fim peguei uma toalha xadrez que estava dobrada em cima da mesa e me abaixei ao lado de Louis.
- Vamos usar isso aqui pra carregar.
- Bem pensado.
Ele pegou alguns sacos de biscoitos, um pacote de torradas prontas, uma lata de chantilly e uma de queijo em spray e colocou dentro do pano. Levei tudo para a mesa e veio do fundo da cozinha com algumas coisas na mão, dentre elas duas caixas de suco, um pote de morangos, potinhos pequenos de geleia e copos descartáveis.
- Ahhhh, bingo! – Louis exclamou e olhamos em tempo de ver ele tirar do forno uma forma de cupcakes.
- Não vai deixar muito óbvio que estivemos por aqui? – comentou.
- Eu acho que os ratos sumidos do laboratório já cuidaram disso – ele riu e tirou os cupcakes da forma, colocando dentro do pano com cuidado. – O plano agora é tentar não sermos pegos por isso.
- Ok, vamos sair logo daqui – disse, fechando o pano e entregando para . – Você cuida disso.
- Cadê a Lola? – Ela perguntou, e percebi que aquela frase era perigosa.
Olhamos em volta, ela não estava dentro da cozinha, então Louis desligou a luz e saímos. Logo que entramos no refeitório de novo a resposta estava ali: uma quantidade considerável de cadeiras estava no chão, no meio do refeitório, viradas com as pernas para cima e amontoadas umas sobre as outras.
- Como... – Balancei a cabeça, olhando para a ruiva parada no meio das cadeiras terminando de ajeitar uma.
- Você literalmente ficou sozinha por dois minutos! - Louis exclamou, chocado.
- Eu sei – Lola fez um biquinho. – Teria feito melhor se fossem três.
- Ok, vamos logo! – Pedi, antes que ela tivesse tempo de ter mais ideias absurdas ali dentro.

Como imaginei, depois que descemos o gramado do pátio deserto do St. Bees e chegamos ao lago encontramos o pessoal já do outro lado da grade. Louis foi o primeiro a pular e depois de passarmos a comida para ele nós fizemos o mesmo. Do outro lado da grade o lago era rodeado por pedrinhas perfeitamente redondas e que pareciam pouco naturais, por toda a costa que era próxima da grade do colégio. Imaginei que houvessem colocado aquelas pedras ali para impedir que se criasse muita vegetação alta daquele lado, pois havia ali na beira do lago um antigo gerador de energia protegido dentro de uma grande caixa de concreto de mais ou menos dois metros.
Os falados colchonetes do ginásio já estavam lá. Zayn entregava um para cada pessoa, mas obviamente faltaria para alguns, porque só contei sete ao todo.
- Só isso? – Josh perguntou.
- Eu quase perdi um braço pegando isso aqui. Se você quer mais, vai pegar sozinho – Zayn rebateu, e Josh deu de ombros.
- Está tudo bem, meninos. Inclusive, isso é perfeito, assim podemos todos ficar mais juntinhos – Lola comentou, com um falso sorriso inocente.
Soltamos a comida em cima do pano próximo à beira do lago e todo mundo foi ajeitando os colchonetes próximos de lá e sentando. Já passava das quatro e meia da manhã quando começamos a comer, e por mais improvável que aquela cena parecesse para qualquer um que olhasse, eu estava tranquila. De fato, todos estavam tranquilos naquele momento.
e o seu amigo dividiam um colchonete e riam de qualquer piadinha juntos. Ao seu lado estavam Niall, , Harry e Liam, que estava com Rebekah e Josh apertados no mesmo colchonete, os três brigando amigavelmente por um pote de geleia e rindo de si mesmos. Depois vinha Lola e Zayn, ao lado de , e aqueles dois juntos eram engraçados, eu não podia negar. revirava os olhos de algum comentário de Zayn enquanto comia um dos cupcakes, mas ela não conseguia evitar demonstrar o quanto gostava da presença dele ao seu lado, de certo modo. Enquanto ele, mesmo que não falasse muita coisa, olhava pelo menos uma vez a cada trinta segundos para o rosto de para ver como ela estava.
Para mim e Louis sobrou um último colchonete perto da água. Para que nenhum de nós se molhasse, viramos o colchonete na vertical e Louis sentou na ponta, comigo em sua frente e escorada nele entre suas pernas.
Tirei um cigarro da carteira no bolso junto com o isqueiro e o acendi, tragando fundo. Eu observava a todos enquanto comiam, comentavam coisas aleatórias e pareciam contentes como se aquela noite fosse durar para sempre. Dividi um cupcake com Louis e sentia seu corpo se mexer contra o meu enquanto ele conversava, gesticulava e dava risada dos outros, sempre um dos mais ativos na conversa, bom palhaço que era. Eu gostava de ouvir ele falar. Não precisava participar da conversa eu mesma, porque era como se ele falasse por nós dois. Era um tipo estranho de sensação legal.
Os restos da comida já estavam jogados no pano de qualquer jeito. Fazia muito tempo que Lola não dizia nada afiado, o que me fez prestar atenção nela, porque era interessante como ela tinha uma personalidade própria e completamente unificada, mas ao mesmo tempo parecia que ela só estava ali com o propósito de causar discórdia na primeira oportunidade. Seus olhos faiscavam o tempo inteiro, observando atentamente, ouvindo cada comentário. Acho que meu olhar chamou sua atenção, pois ela me olhou brevemente antes de se pronunciar:
- Então quer dizer que estamos no meio do ano e só um casal se formou aqui oficialmente. – Ela comentou, parecendo desinteressada. – Desde a última vez que tive a oportunidade de ver com meus próprios olhos, não muita coisa mudou.
Todos ficaram em silêncio por um segundo.
- Nós vamos falar sobre isso ou...? – Liam deu voz ao pensamento de boa parte da turma.
- Não. – rapidamente o respondeu. – Mais tarde eu explico.
- Não precisa ficar alarmado, docinho. – Lola sorriu para Liam. – Nós já nos conhecemos antes, você não lembra?
- Lola, chega. – pediu, mas a ruiva apenas revirou os olhos e abriu um sorrisinho contido.
- Bom, mas nisso ela tem razão. – Rebekah comentou dando de ombros e acenando brevemente para mim e Louis. – Sem ofensa, mas vocês dois? Eu esperava que canivetes chovessem antes que alguém conseguisse se aproximar da .
- A ainda não está pronta para admitir que sempre me amou, então seria legal deixar ela respirar – Louis disse, em tom de brincadeira e revirei os olhos.
- Até o início do ano a te assustava pra caramba, cara! – Josh disse e riu. – Vocês lembram?! Era tão engraçado! Ela podia te comer vivo se quisesse.
- A agradece os comentários, mas pode falar por si mesma. – Disse depois de tragar mais uma vez o cigarro. – E acho que você também se sente bem pequenininho perto de uma garota aqui, então não está em condições de falar – Abri um sorrisinho e vi o rosto de Josh corar enquanto os outros faziam graça dele.
- Ah, é, certo! Não que isso faça alguma diferença, já que ela supostamente tá com o Liam, né? – Lola disse, novamente fazendo todos se calarem por um breve instante.
- Eu não estou com ninguém. – Rebekah deu de ombros.
- Você nunca está com ninguém e isso não é novidade, mas obrigada por admitir que era de você que estávamos falando. – Lola riu. – Agora, eu tenho a leve sensação que depois do que descobrimos essa noite sobre o Devine aqui, as coisas podem começar a mudar para o seu lado, meu amigo.
Rebekah encarou Lola com descrença momentaneamente. Quer dizer, ela tinha mesmo insinuado que Rebekah era interesseira?
Bom, talvez ela fosse.
- Falando nisso, cara – Harry comentou, balançando a cabeça. – Se aprendemos alguma coisa essa noite foi a não desacreditar mais desse maluco aí. Vocês viram aquela casa?!
- Calma aí, calma aí! – Louis levantou uma mão. – Então quando você disse que conheceu a Scarleth Johannson não era mentira?
- E a casa de praia em Bali?! – Liam arregalou os olhos.
- Ah, não hajam como se não fossem criados na mordomia também. – Josh revirou os olhos. – Menos você, Zayn.
- Cara, já tá perdendo a graça. – Zayn comentou, tranquilo, mas aquilo me fez rir.
- Mordomia é uma coisa, vida de rei é outra. – Niall respondeu.
- E não, acho que ninguém aqui foi criado nessa mordomia! Quer dizer, as pessoas com as famílias mais ricas daqui têm que ser a ou a , e eu já fui na casa delas... – Harry deu de ombros. – Não são como a sua.
- Podemos não falar de dinheiro? – levantou as mãos. – Além disso, você não sabe. Nunca esteve na casa do Niall, da , ou... Ou do Bill!
- Will.
- Quem sabe eles moram em palácios também tipo o Josh e você tá aí falando besteira!
Tentei segurar a risada. No momento, minha casa era essa escola.
- Rá, rá. – Josh balançou a cabeça. – Não é um palácio. Mas você levantou um bom ponto – olhou para Will e apontou para ele. – Você não nos falou nada sobre você, cara. Como acha que nós vamos te dar o aval assim?
- Josh, cala a boca! – pediu. – Se eu tivesse pedido a sua opinião eu estaria louca.
- Outch!
- Ela cresce e esquece de quem sempre esteve lá! – Liam brincou também, dramatizando. Will parecia se divertir, mas nem tanto.
- Tudo bem, tudo bem, de qualquer forma, você não é um sheik árabe nem nada? – Josh balançou as mãos. – Aprendemos essa noite que essas coisas têm que ser ditas no primeiro encontro.
- Não – Will riu. – Definitivamente não. Só filho de uma família da região, que também estudou aqui.
- Sua família é daqui? – perguntou.
- É, eu fui criado pelos meus avós, mas eles já morreram. – Contou. – Então não tenho mais família em Carlise, eu só estou aqui pela bolsa na universidade.
- Olha só, Zayn! Outro bolsista! – Lola exclamou olhando para ele de repente. – Viu só, não tem nada do que se envergonhar! – Brincou apertando o rosto de Zayn, que afastou a mão dela impaciente.
Cara, aquilo estava muito interessante.
- Bom, o Bill parece um cara legal – Josh decidiu.
- Will.
- Então eu digo que o aprovo, e vocês rapazes? – Continuou, olhando para os outros que concordaram quase que no automático. Niall, Louis e Liam assentiram com a cabeça, e enterrou o rosto nas mãos os fazendo rir.
- Eu odeio vocês.
- E você, Harry? – Lola chamou. – Aprova o Will?
Ok, aquele silêncio foi mais pesado. Harry olhou para ela e piscou duas vezes.
- O quê?
Alguém tira o coitado daquela situação embaraçosa?
- Quer dizer, a sua opinião devia ser a que mais importa. – E ela olhou para Will. – Você não sabe? Eles são melhores amigos desde o berço. Tipo irmãos, não é? A opinião do Harry devia ser a que mais importa aqui, já que ele conhece a tão bem.
Silêncio constrangedor.
Ok. Eu gostava de e Will parecia ser um cara legal. Por isso, e nem tanto por Harry, fui a próxima a falar.
- Estamos aqui há um bom tempo... Vou ter que ser a primeira a sugerir que alguém pule nessa água?
- Por mais surpreendente que seja, concordo com a . – disse, se levantando do lado de Harry. – Já fizemos dez tipos de coisa errada essa noite, então,what the hell - Nós a observamos enquanto ela tirava o celular do bolso da calça e o jogava em cima do pano do piquenique. – Estou me voluntariando para ser a primeira. – Sorriu.
tirou a blusa, e Rebekah logo levantou rindo, empolgada, e fez o mesmo.
- E lá vamos nós... – Comentei sorrindo fraco e observando Harry, Josh e Lola se levantarem.
- Por que é sempre você que começa as invasões do lago?! – brincou, meio exasperada. Ela tinha no rosto daquela expressão de quem sabia que aquilo não acabaria bem, mas não tinha muito a fazer e tudo parecia divertido demais para negar.
- Ok, vamos lá – Louis se mexeu e me afastei dele para que ele levantasse. Ele roubou o resto do cigarro do meio dos meus dedos e o olhei, vendo-o tragar fundo o restinho antes de jogar no chão e pisar.
- Desde quando você fuma?
- Nunca foi minha coisa preferida, mas depois que o cheiro da nicotina se vinculou a você a vontade voltou – Ele puxou a camisa que usava e tirou-a pela cabeça.
- Que romântico, você vai me acompanhar na aventura de pegar um câncer. – Comentei, balançando a cabeça.
- No amor e na dor, . – Ele abriu um sorriso escancarado e piscou, antes de correr para a água também e gritar um pouco reclamando da temperatura. Ri, observando.
- Você não vai?
- Não, eu só plantei a ideia – dei de ombros respondendo .
- Bem pensado – riu fraco.
não queria entrar na água, mas Liam e Josh continuaram jogando água nela até que ela se irritou e em um pulo se pôs de pé e pulou em um deles de roupa e tudo, o que causou mais gritaria. Olhei para trás, para os prédios do colégio ao fundo, onde algumas poucas janelas dos dormitórios tinham luzes acesas ainda. Não tinha como saber se os gritos podiam ser ouvidos de tão longe.
Mas acho que no fundo todos ali sabiam que aquela noite não acabaria bem.
- Ai, ai, eu pisei em alguma coisa! – Rebekah reclamou.
- Eu acho que foi o meu pé! – Harry disse dessa vez e ouvi um barulho de alguém sendo derrubado na água.
- Quem foi o filho da puta que me empurrou! – Liam gritou. – Que merda, eu tô ensopado agora!
- Você tá dentro de um lago, gênio. Queria o quê? – respondeu.
- Ok, ok, esperem, eu vou tentar ligar a luz desses postes – Foi Josh quem disse, e vi a sua silhueta saindo da água com cuidado e indo para perto do gerador grande protegido pela caixa de concreto.
- Aí, cara! – Liam olhou para Louis de repente. – Você fez a parada no som?!
- Claro que fiz! – Louis gargalhou, e os outros quatro riram com ele. – Cara, essa escola vai ter uma boa surpresa na segunda de manhã. Isso vai ser no mínimo interessante!
- O que vocês fizeram? – perguntou, curiosa.
- Espere e verá! É hilário, cara – Josh riu.
- Deveríamos estar preocupadas? – olhou incerta para eles, mas ela parecia estar se divertindo ali.
- Vocês não deixaram uma assinatura super óbvia lá dentro, deixaram? – perguntou, alto o suficiente para ser ouvida de onde estava sentada ao lado de Zayn.
Como resposta àquilo, todos ficaram em silêncio.
Josh abrira uma porta de alumínio enferrujada e agora estava fuçando nas alavancas com cara de concentrado, tentando enxergar alguma coisa ou descobrir qual delas ligava as luzes do lago – que eu nunca vi acesas antes. Ele levantou uma, mas não fez diferença, então voltou a abaixar e em seguida fez o mesmo com a próxima.
- Ah, que ótimo. – respondeu, irônica, ao silêncio dos meninos.
- Isso é sério?! – exclamou, exasperada. – Vocês foram lá e deixaram uma grande assinatura entregando todo mundo que fez o que fizemos hoje?!
- Não, não todo mundo, somos só eu, o Niall, o Harry e o Liam – Louis respondeu, se defendendo.
- Ah, isso melhora muito as coisas. Só temos, tipo, dez testemunhas que podem dizer exatamente quem mais estava com vocês essa noite. – Rebekah disse.
Por um momento, todos ficaram em silêncio. Eu, Zayn, Will e Niall sentados, Josh no gerador e o resto deles na água, olhando um para o outro.
Só por um momento.
- Será que existe alguma possibilidade de a gente se safar das coisas que fizemos essa noite? – perguntou.
Como resposta, um estouro com o barulho de um tiro fez todos nós pularmos e alguns gritarem. Olhei para Josh perto do gerador a tempo de ver as faíscas saindo de lá e, então, para trás, onde as luzes de todos os prédios do colégio piscaram uma vez e então se apagaram por inteiro.
Cinco segundos depois, veio a gritaria. Dava para ser ouvida de onde estávamos, pois o prédio do dormitório das garotas era o mais próximo do lago, e as garotas desesperadas gritando “Rato! Rato!” poderiam ser ouvidas há quilômetros dali.
- Eu acho que isso foi um não. – Niall disse.
Mas não acabou por aí. Ao longe luzes familiares começaram a piscar, e uma sirene foi ouvida. Me coloquei de pé no mesmo instante assim como e Zayn, e no mesmo momento todos eles começaram a sair da água em disparada e colocar suas roupas desesperadamente.
Eu não sabia o que devia fazer, então não consegui fazer nada além de olhar para todo mundo.
- Will! Will! – correu da água e foi direto para perto dele, puxando seu braço. – Você tem que sair daqui agora! Agora!
O cara parecia atordoado, e eu não o culpava, porém ele continuava com a mesma calma de antes.
- Não, eu não vou fugir sem saber o que vai acontecer com vocês-
- Você não é aluno da escola, Will! Você não pode estar aqui! Vai agora! – Ela o empurrava, e vi no meio da bagunça alguns pontinhos de luzes se acenderem ao longe e começarem a se aproximar. Eram lanternas.
Will olhou para , e ela parecia desesperada. Aquilo me deixou nervosa também, já tínhamos muita coisa sobre nossas costas, não precisávamos de mais uma encrenca como um cara estranho que não era aluno ali dentro das dependências e ele não precisava ser levado com a gente.
- William, vai!
- Vai sair comigo na semana que vem?
- O quê? Isso não é hora...!
- Semana que vem. Só vou se disser que vai sair comigo de novo.
- Ok, sim, sim, sim, agora vai! – Ela o empurrou de novo, e Will se abaixou para pegar seu casaco e sorriu para ela antes de correr dali. Ele conhecia o colégio, por isso foi para o canto da grade e depois de pular correu para trás dos prédios dos dormitórios. Não tinha como saber se ele realmente sairia de lá, mas não deu tempo de pensar em mais nada.
Estávamos todos parados, com a mão na massa, sem ter para onde correr. Não deu nem tempo de formular algum pensamento ou dizer alguma coisa quando as luzes das lanternas alcançaram nossos rostos e nos cegaram. Em seguida, vieram as vozes dos policiais.
- Todo mundo deitado no chão!
Ah, que ótimo. Aquilo era mesmo necessário?
- AGORA!





Harry’s POV
- Eu sei que devia ter imaginado isso por andar com o Zayn e a , mas nunca pensei que estaria dentro de uma cela na delegacia um dia. – Comentei, depois de um tempo de silêncio dentro da cela.
- Você não sabe se eu já fui presa – rebateu. Encarei-a, notando novamente sua tranquilidade em estar ali. Praticamente conformada.
- Um palpite – ri fraco.
A hora da discussão já havia passado. Passamos boa parte da primeira hora ali dentro discutindo até que alguém gritasse alto demais e a mulher que estava na recepção viesse nos mandar calar a boca. Mas agora já tínhamos esgotado os tópicos de discussão, os xingamentos, a raiva ou simplesmente a incredulidade em estar ali. Acho que no fundo todo mundo já havia aceitado que não tinha como sair ileso dos acontecimentos daquela noite. Tudo foi muito louco e confuso, e ao mesmo tempo em que parecia ter passado em flashes, pareceu durar por anos. Partes da noite foram divertidas, eu não podia negar. Outras, nem tanto.
Olhei para , sentada no chão com as pernas dobradas e cutucando alguma coisa no chão. Ela parecia um pouco entediada, além de chateada e meio nervosa agora. Olhá-la me levou de volta ao quarto do dormitório feminino, à nossa conversa. Me trouxe de volta a sensação de que estávamos cada vez mais longe, que o gelo entre nós só aumentava, apesar de ficar mais evidente que havia algo ali, entre nós.
Alguém ali dentro suspirou pesadamente.
No fim das contas foi a portaria da escola que chamou a polícia, acho. Provavelmente a mando da diretora Campbell quando se deparou com os estragos que fizemos.
- Será que já podemos conversar como seres civilizados? – Liam propôs, e dessa vez ninguém rebateu ou começou a discutir. Alguns assentiram. – Ok. Para quem vamos ligar?
- Eu já disse. – falou logo antes que mais alguém tivesse tempo de se pronunciar. – Não vou chamar meus pais. Eu não posso chama-los toda vez que precisamos de algo, e eles provavelmente me odiariam. – Balançou a cabeça. – E também odiariam mais um ao outro. – Suspirou, esfregando as mãos no rosto.
pigarreou.
- Nossos pais estão ocupados com um filho recém nascido. – Disse, referindo-se também a Liam. – Eu realmente não acho uma boa ideia incomodá-los, e meu pai não ficaria nada feliz.
- Nossos pais moram há quatro horas daqui e não se importariam em nos deixar uma semana vendo o sol nascer quadrado para a gente aprender a lição. – disse.
- E eles também não tirariam vocês. – Continuei, dando de ombros. – Eles não estão nem aí nem pra gente – ri fraco.
- Meus pais não estão no país. – Josh deu de ombros.
- Nem o meu pai. – Rebekah fez uma caretinha. – E ele também não tiraria nenhum de vocês. Não é uma boa ideia trazer um oficial militar para tirar jovens delinquentes da cadeia.
- E a minha mãe tem cinco filhas para cuidar, honestamente, quem sugerir isso é um babaca – Louis levantou as mãos.
Seguimos o olhar de Liam para o próximo da lista. Zayn ergueu o rosto para nós quando viu que estava sendo encarado e riu fraco, honestamente achando graça.
- Sério?
- Próximo. – Liam passou por ele, e riu fraco.
- Cara, o meu pai honestamente nos deixaria mofar. – Niall encolheu os ombros apenas.
Passamos também por Lola, mas ela parecia obviamente não ser uma opção. Além disso estava tão tranquila que parecia que nem fazia questão de sair dali.
- Ok – Liam respirou fundo e passou a mão pelos cabelos. – Temos direito a só uma ligação, e enquanto não decidirmos ninguém sai daqui. Alguma sugestão?
Todos ficaram quietos. Quem quebrou o silêncio foi , em tom tranquilo, como se não fosse algo que ela podia ter dito há duas horas atrás:
- Eu conheço alguém que pode nos tirar daqui.
Todos a olharam.

Observamos ser tirada da cela e levada ao fim do corredor para fazer a ligação. Era meio longe, mas como o prédio estava vazio e silencioso e os barulhos ecoavam, deu para ouvir alguma coisa:
- Oi, sou eu. Preciso de um favor.
- Cara, se ela trouxer outro traficante... – Josh ergueu as mãos, e Lola gargalhou divertida.
- Shhh! – pediu, encostada na grade, tentando ouvir melhor.
disse algumas coisas que não entendi bem, provavelmente explicando a situação.
- Somos doze. Sim, na delegacia de Carlisle. Nada demais. Foram só coisas na escola. Sim, estou bem. Não. Tudo bem. Obrigada.
E acabou. Ela foi trazida de volta e sentou no mesmo lugar.
- Ela chega em duas horas.
- Ah! – exclamou, aliviada, e todos nós a acompanhamos à nossa maneira.
- Quem é?
- Amiga da família. Ela cuida dos negócios do meu pai, tem a permissão dele para responder por mim.
- O que importa é que vamos sair daqui, e não quem é! – Josh exclamou, levantando as mãos no ar. – Mandou bem, freak!

As duas horas que se seguiram a isso demoraram mais para passar do que a noite toda. Alguns de nós descansamos os olhos enquanto ainda estávamos dentro da cela, mas a maioria estava nervosa ou ansiosa demais para dormir. Ninguém conversou muito durante todo o tempo, todos finalmente pareciam cansados. Sei que eu estava um lixo ambulante, só queria dormir.
O contato de apareceu na hora indicada. Eram quase nove da manhã de uma sexta-feira, feriado municipal em Carlisle. A mulher era alta, loira, tinha olhos preocupados, mas não parecia brava, e aparentava ser de meia idade, e estava seguida de uma garota basicamente igual a ela só que de nossa idade, e que sorriu em diversão com a imagem dos doze de nós parecendo trapos dentro daquela cela.
- Vamos. – A policial que estava na recepção abriu a cela e deixou que todos nós saíssemos, um por um. – Para a recepção, pegar os seus pertences – ordenou.
- Obrigada – foi a primeira a agradecer à mulher, que a tomou em um abraço assim que teve a chance.
- Você tem noção do quanto eu precisei pagar em fiança por doze jovens malucos como você?! – Ela a soltou e encarou .
- Você realmente é um imã para encrenca, arschloch.. – A garota mais nova riu e as duas se abraçaram por um momento também. se afastou e virou para nós.
- Essas são Rosalie e Lively Ruschel. – Apontou para a mais velha e depois a mais nova. – E eles são... meus amigos. E vocês se surpreenderiam, mas eles são legais.
Sorri e cruzei os braços. foi a primeira a dar um passo à frente e cumprimenta-las.
- Eu sinto muito, nós podemos nos comprometer a pagar tudo de volta, de verdade! – Disse e a maioria de nós concordou.
- Não é necessário, querida. Eu só me preocupo com o que vocês aprontaram. E sei, por ter tido o trabalho de criar essas duas encrencas – apontou para e Lively, que aparentemente era sua filha. – Que não há muito que eu possa falar a vocês agora, mas como é meu dever, preciso dizer: Não vou livrar vocês mais uma vez. Entendido?
Todos nós concordamos, e troquei um olhar com Josh que dizia algo como “foi bem melhor do que eu esperava”. Queria eu ter uma mãe legal assim, pensei e ri fraco. A minha mãe me esfolaria vivo. Liam e Louis também se apresentaram a elas, e ouvi Lola falar baixo perto de mim:
- Só eu que pensei que a mãe dela fosse uma maluca?
- Ok – toquei nos seus ombros com cuidado e a direcionei para o fim do corredor, para pegarmos os nossos pertences e tirar Lola de lá antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa bem desconfortável.
Logo todos nos seguiram, e conseguimos pegar nossas coisas. O sol já brilhava lá fora, e todos pareciam satisfeitos assim como eu por terem se livrado logo daquilo.
- Será que a gente ainda chega a tempo do café da manhã? – Louis perguntou, abrindo um sorrisinho divertido.
- Acredito que não – Rosalie disse e olhou algo em seu celular. – Entrei em contato com a diretora Campbell e ela está mandando uma van para busca-los.
Ilustrativamente, foi como se a cara de todo mundo fosse parar no chão. Logo quando eu pensei que poderíamos ter escapado sem maiores danos.
- Eu tirei vocês daqui, mas o resto das consequências são suas para pagar. – Abriu um sorriso tranquilo e virou-se para . – Vamos ficar em um hotel aqui na cidade por uns dias, queremos te ver melhor. – Avisou, antes que ela e Lively se direcionassem à saída. – Até mais – acenou para todos.
Troquei um olhar desanimado com Louis ao meu lado. Fosse como fosse, as coisas que fizemos já deviam estar nos ouvidos de cada pessoa daquele colégio. Nossa recepção seria interessante.

's POV
- É, , até que você é legalzinha – Lola observou quando atravessamos um corredor que ligava a recepção da delegacia e as celas temporárias. – Acho que eu estava errada sobre você.
- Que bom que mudou de ideia, mas a minha opinião sobre você continua a mesma – respondi, seca.
- É melhor você ir se acostumando, , pois eu não acho que a vai voltar tão cedo.
- Ah, ela vai sim! E você vai fazer isso voluntariamente, Lola!
Ouvi-a soltar uma risada alta e tive que me virar para olhar em seus olhos.
Eu estava exausta daquilo: uma briga, uma impostora, uma explosão e, agora, delegacia!
Honestamente, eu já havia suportado muita coisa e só queria voltar para o colégio e dormir pelo resto do feriado.
Todos pararam de andar e, voltando-se para nós, assistiram a pequena cena calados.
- Você acha mesmo? Você não acha que é um pouco injusto que a seja a única que pode ver a luz do sol o tempo todo?!
- Não, não acho! Você não devia estar aqui, Lola! – Aproximei-me dela. – Você nem deveria existir.
- Se não fosse por mim, a nem estaria aqui. Ela é fraca. Eu sou forte. Eu aguentei tudo! Os gritos, o sangue, o silêncio! Então não venha me dizer o que eu devia ou não fazer, porque eu fiz o que tinha que ser feito!
Sua fala me atingiu em cheio como um soco no estômago, mas eu me mantive ereta e firme à sua frente.
- Você. Tem. Que. Ir. Embora. – Falei pausadamente.
- Eu acho que não. – Abriu um sorriso cínico e voltou a andar, esbarrando em mim ao se dirigir para a porta da delegacia. Ela parou do lado de fora e acendeu um cigarro, fechando os olhos ao tragar a droga.
Olhei ao meu redor, encontrando os olhares de todos sobre mim.
- Qual é, vocês ainda não pegaram?! – Gritei, sentindo-me irada de repente. – A tem um problema. Tem um monstro vivendo dentro dela. Outra pessoa!
- Um problema? Tipo, um problema de verdade? – Harry franziu o cenho.
- Ela tem transtorno dissociativo de identidade – completei. – Tem outra personalidade dentro dela. A Lola.
- Meu Deus... – cobriu a boca com as mãos e se virou de costas para nós. Liam balançou a cabeça, parecendo revoltado com aquilo e se afastou, entrando em algum lugar da delegacia. – Ela esteve assim a noite inteira?!
- Ela estava bem antes da festa. – Garanti.
- Jesus... – voltou a passar as mãos pelo rosto. – Você tinha que ter nos contado, !
- Que diferença faria? Ela não ia melhorar se vocês soubessem...
- Nós somos apenas adolescentes, ! – Ela rebateu. – Adolescentes! Nós não deveríamos lidar com esse tipo de merda!
- Uau, , nem da você gosta?! – bufou, indignada. – É para isso que os amigos servem!
- Não, não, não! – levantou um dedo, agitando-o no ar. – Isso não é sobre mim! Isso é sobre a que tem um problema real e sério e nós estávamos perambulando por aí com uma garota que estava tendo uma crise! Acredite, se eu tivesse um diploma em Psicologia, eu adoraria ajudar no que fosse necessário.
- Inacreditável... – Rebekah balançou a cabeça.
- Olha, eu sei que você cuida da , mas você não é a mãe dela! – continuou. – Isso está errado de tantas formas!
- Já chega, ! – Niall pediu, controlando-se para não se exaltar.
- Não, ela está certa! – As palavras mais improváveis sobre saíram da boca de . – A precisa de ajuda. E não é a nossa boa vontade que vai fazer isso.
Respirei pesadamente, absorvendo aquilo tudo de uma vez só: os desaforos de Lola e a possibilidade de ela ficar no controle por algum tempo; ter revelado o segredo de ; e o fato de ninguém estar me fazendo perguntas sobre como ou por que ela é assim. E, no entanto, senti-me mais leve por perceber que, ali, tinha bons amigos. Eu e , porque eles se importavam com ela.
- Eu... Eu não sei o que fazer... – Comecei a falar, mas senti o choro escalar minha garganta e me interrompi rapidamente.
- Não é sua responsabilidade, . – me assegurou.
- E se ela não voltar a ser a ?! – Consegui falar, mas o choro veio mesmo assim e então eu não consegui mais parar de chorar. Niall, que estava mais perto de mim, abraçou-me imediatamente, dizendo que nada daquilo era culpa minha. Depois, senti mais pares de braços nos envolvendo, e, quando levantei a cabeça, vi e Louis me abraçando também e estava mais próxima, acariciando meu ombro.
- Isso ainda é muito estranho – Josh soltou uma risada nervosa. – Quero dizer, ela quase matou o Zayn naquela curva!
- Eu tinha tudo sob controle – Zayn relembrou.
- Diga isso para a pilha de pneus que você acertou – o outro respondeu.
- Não é hora para isso! – Ralhou Rebekah.
A porta da delegacia foi aberta e Lola colocou a cabeça para dentro, com um olhar de tédio.
- Podemos ir ou vocês querem ficar aqui? – Perguntou.
Desfizemos o abraço em grupo e eu assenti para ela, limpando meu rosto rapidamente.
- Vamos embora daqui – disse Harry, ansioso.
Atravessamos a porta de vidro e paramos no topo da escada, procurando a van que nos levaria de volta para a escola.
Alguns minutos depois, esperando o motorista da escola, ouvimos o som de veículos se aproximando, mas, ao invés da van, uma ambulância apareceu e estacionou de qualquer jeito perto do meio fio e dela saltaram dois enfermeiros que subiram as escadas correndo e, sem aviso prévio, um deles aplicou uma injeção no pescoço de Lola e o outro a tomou no colo.
- Ei! O que vocês estão fazendo?! – Ela esperneou, tentando se livrar do que a carregava no colo. – Me solta, seu imbecil!
- Solta ela! – Gritei, partindo para cima do enfermeiro; agarrei seu braço, puxando-o da mesma forma que fiz com Lance na festa, mas alguém me pegou por trás e me afastou do homem. Olhei para trás; era Liam. – Deixa ela em paz!
- ! Eu não acredito que você fez isso com a gente! Você nos jogou no fundo do poço de novo! – Lola desistiu de gritar com os enfermeiros e tornou a gritar comigo.
- Não! – Arregalei os olhos ao ouvir aquilo.
- Ela nunca vai te perdoar por isso! NUNCA!
- Não! Não fui eu! – Jurei, tentando me livrar dos braços de Liam, mas ele era mais forte que eu.
- Ela vai te odiar para sempre!
- Não fui eu, juro!
O olhar de Lola queimava o meu e ela tentou lutar mais com o enfermeiro, que já a levava para a ambulância. Vi suas forças se esvaírem e seus movimentos ficarem mais arrastados até que ela parou de se mexer completamente e caiu no sono.
- Me solta, Liam! – Gritei, lutando com as unhas e usando os cotovelos para me soltar dele, que finalmente desistiu. – Mas que...
- É o melhor, ! – Ele disse.
- Você! – Empurrei-o pelos ombros quando percebi. – Você chamou a ambulância! Meu Deus, Liam, como você pôde fazer isso com a ?!
- Não era a ali, ! – Liam retorquiu.
- Ela ainda está lá! – Empurrei-o de novo. – Seu...
- Nós chamamos a ambulância, ! – Ouvi uma voz masculina e madura falar, na base da escada. Olhei na direção do som e vi os pais de parados ao pé da escada, olhando-me com piedade. – Pode ir. – Deu duas batidinhas na janela do motorista e a ambulância começou a andar, fez um retorno e voltou pela rua até sumir de vista.
- O Liam apenas nos ligou dizendo que a estava agindo estranhamente – a mãe dela limpou rapidamente uma lágrima que caiu. – Nós sabemos muito bem o que isso quer dizer.
- Ela odeia a clínica... – foi só o que consegui dizer quando as palavras de Lola me atingiram pela segunda vez em memória.
- É o melhor para ela. – O pai dela garantiu, subindo as escadas rapidamente para me abraçar e dar um beijo no topo de minha cabeça. Vi a Sra. fazer o mesmo que o marido e logo estava em seus braços também.
- Você sempre cuidou tão bem dela, mas agora nós assumimos daqui, minha querida – sua voz suave me disse. Levantei a cabeça e encarei os olhos verdes dela. – Nada disso é sua culpa. Não é culpa de ninguém.
- Ela vai ficar bem – garantiu-me o pai de , antes de bagunçar meus cabelos como se eu tivesse cinco anos e, depois, ambos desceram as escadas de mãos dadas. Por um momento fiquei consciente de que aquilo também era um tormento para os dois; a mãe dela devia estar sofrendo muito naquele exato momento.
Quando o carro dos pais de sumiu de vista na mesma direção que a ambulância, a van da escola chegou e, sentada no banco da frente ao lado do motorista uniformizado, estava a Srta. Campbell e, se olhares pudessem matar, cada um de nós estaríamos enterrados a sete palmos de profundidade nesse exato momento.



Capítulo 27 - Especial: O passado de todos

Liam’s POV
5 anos antes.

- Nós somos uma família feliz! – Soltei uma risada seca e joguei a bola na cesta da tabela que meus avós tinham me dado quando eu tinha cinco anos. Minha mãe disse que eu era muito pequeno para aquele poste enorme de três metros. Eles, por sua vez, disseram que eu ia crescer.
Duh.
- Uma família feliz não quebra pratos na parede! – Gritei para a casa, girando nos calcanhares para encarar as janelas iluminadas.
- Você disse que era a última vez, Davon! – Ouvi minha mãe gritar. O som era abafado pelas grossas paredes, mas era como se eu pudesse ouvir tudo claramente, era quase como se eu estivesse lá dentro. Podia ver minha mãe chorando, os cabelos presos num rabo de cavalo firme como ela sempre fazia quando estava brava. E meu pai, eu também conseguia imaginar: o paletó do terno jogado na poltrona perto da porta da sala de estar, um copo de uísque em uma mão, a outra na cintura, olhando para minha mãe como se ela fosse louca por se revoltar com a quantidade de viagens que ele fazia em um mês. Quando essas coisas se misturavam, eles sabiam que era a hora de me mandar subir para o meu quarto ou ir brincar com alguma coisa no jardim. – É o nosso aniversário de casamento!
Silêncio.
Ele estava falando mais baixo, provavelmente contando que estava transando com aquela garota dos barcos.
Minha mãe não sabia que ele estava tendo um caso. E meu pai não sabia que eu sabia. Eu o odiava com todas as minhas forças e acho que ele entendeu quando ele me chamou para ir à Disney nas férias de verão e eu disse que preferia ir beijar a bunda de alguma vaca na fazenda do vovô.
Eu tinha dez anos quando descobri. E sabia que até hoje o caso continuava. Eu já tenho 12 anos.
- Essa também é a minha casa, Maryl! – Meu pai gritou.
- SAI! – Minha mãe gritou de volta e outra coisa se quebrou.
Sem que eu soubesse muito bem o que fazer, meus pés me levaram para dentro da casa. Deparei-me com o chão tomado por cacos de vidro e cerâmica, minha mãe com o cabelo preso em rabo de cavalo e tinha um copo de uísque na mão do meu pai.
- Vocês não estão cansados disso?! – Foi minha vez de gritar, trazendo a atenção deles para mim. A expressão no rosto da minha mãe foi de pura dor e a do meu pai foi de surpresa. – Porque eu estou cansado disso! Mas que merda!
- Querido, vá-
- Não! Eu não tenho que ir a lugar nenhum! Ele é quem tem que ir embora! – Apontei para o homem em quem eu não reconhecia um pai de verdade há muito tempo.
- Liam! – Meu pai gritou.
- Você nunca está por aqui, mesmo! Que diferença vai fazer?! Só vai embora de uma vez! – Senti as lágrimas molharem meu rosto. Eu estava muito nervoso. Uma raiva que eu nunca sentira antes.
- Filho... – meu pai abaixou a voz, olhando fixamente para mim. Ele se aproximou e estava prestes a se inclinar quando minha mãe gritou.
- Não ouse tocar nele, seu bastardo! – Ela disse. – Não o toque com essas mãos imundas!
- Você não vai fazer isso, Maryl! Ele é meu filho!
- Pensasse nisso antes de nos trair!
Ele ia responder, mas se deteve.
- Eu quero que você saia da minha casa, Davon. Se você quer viver com outra mulher, você arrume outra casa para que ela possa ser a dona.
- Não seja ridícula, eu paguei por essa casa!
- Nós pagamos por essa casa! Nós! Como uma família! Como a família que éramos, nós compramos essa casa! – Minha mãe começou a chorar e alguma coisa dentro de mim pareceu morrer. Talvez a crença de que minha mãe era indestrutível. – Para quem você está ligando?!
Voltei a olhar meu pai, que tinha o telefone na orelha.
- Meus advogados!
- Você é realmente um imbecil, não é?
- Isso não vai ficar assim!
Minha mãe soltou uma risada amarga, balançando a cabeça como se não acreditasse no que estava acontecendo. Vi um milhão de sentimentos passando por seu rosto e ela parecia concentrada.
- Querido, pegue algumas roupas, sua escova de dente e coloque um par de tênis – ela disse a mim, esticando-se para pegar a chave do seu carro em cima do aparador da lareira.
Obedeci-a prontamente, correndo escada acima, indo em direção ao meu quarto enquanto meu pai questionava o que minha mãe estava pensando em fazer.
Dei de cara com o pôster do meu jogador de futebol favorito e me perguntei se alguma vez um cara daquele tamanho teve que passar por uma situação tão terrível em toda sua vida. Achei difícil até me perguntar o que ele faria no meu lugar; ali, no pôster, com toda sua glória, sua pele negra brilhava de suor, seus músculos estavam destacados e o chute que ele ia dar na bola seria um gol certeiro. Não, aquele cara tinha a vida inteira bem segura, controlada. Não era como os pedaços do que sobrou da minha.
Enfiei as primeiras roupas que encontrei em uma mochila de acampar, calcei meus melhores tênis, peguei minha escova de dentes e meu perfume. Voltei para o quarto para ver se não tinha mais alguma coisa para pegar.
Mr. Trooper me encarou do alto do meu travesseiro.
Lutei com todas as minhas forças para não pegar meu ursinho de estimação – uma voz irritante em minha cabeça dizia que eu não devia precisar de um pedaço de pano para me sentir melhor.
Senti lágrimas encherem meus olhos pela segunda vez naquela noite.
Eu não queria deixar meu urso para trás.
Andei duramente até ele, peguei-o e lhe lancei um olhar que dizia “ninguém pode saber disso, ouviu?!” antes de enfiar ele no fundo da minha mochila. Eu estava muito envergonhado por mim mesmo, mas me sentia terrivelmente melhor de saber que ele estava comigo.
Desci as escadas tão rapidamente quanto subi.
Minha mãe estava sozinha na sala. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Ela fungou uma última vez, limpou o rosto e me deu um sorriso.
- Vamos, querido? Sua avó disse que está fazendo sua sopa favorita. – Disse, levantando-se. Olhei ao meu redor e não tive sinal de meu pai. – Ele está no escritório conversando com os mald... com os advogados.
Ela olhou para trás uma última vez antes de fechar a porta de casa e andar até o carro que estava estacionado na rua. Eu não olhei para trás. Não tinha mais volta e isso estava mais que claro para mim. O fim havia finalmente chegado.
A casa dos meus avós ficava a mais ou menos uma hora de distância da nossa casa e minha mãe ficou em silêncio pelo menos metade do caminho. Eu também não queria conversar, mas me culpava por não conseguir pensar em alguma coisa que a ajudasse naquele momento. O sorriso que ela me deu antes de sairmos de casa não deixava minha mente em paz.
Olhei para ela pelo canto do olho, observando-a enquanto dirigia.
Fui tomado por um sentimento profundo de admiração. Aquela mulher era minha mãe. Ela havia enfrentado o chefão, o monstro final, meu pai e fez isso como uma heroína de vídeo-game. Ela era tipo a Lara Croft ou a Mulher-Maravilha.
- Eu te amo, mãe. – Falei, sentindo que aquela era a coisa mais certa que eu poderia lhe dizer.
Ela abriu um sorriso, olhou para mim e depois para a estrada e seu sorriso se transformou em uma careta e o carro parou no acostamento. Vi-a curvar-se sobre o volante, apertando-o até seus dedos ficarem brancos e então começou a chorar. Após um tempo, coloquei minha mão sobre a sua.
- Eu também te amo. – Ela respondeu de volta, em meio ao choro. Segurou minha mão e a beijou. – E nunca vou te deixar, ok? Eu prometo.
Assenti para ela, sentindo também uma vontade imensa de chorar, mas eu precisava ser mais forte que aquilo e não podia falar nada se não o choro venceria.
- Vamos, mãe, vamos ver a vovó. A sopa dela vai resolver tudo.
Ela soltou uma risada e balançou a cabeça, recompondo-se.
- Definitivamente, meu amor. – Ligou o carro.
A casa da minha avó cheirava a sopa quando nós chegamos. Já passava das dez horas da noite, mas eles estavam acordados e nos esperavam. Meu avô estava sentado na sala assistindo a algum jornal noturno enquanto minha avó estava na cozinha. Sentei-me com meu avô e minha mãe foi para a cozinha. Alguns minutos depois, meu avô se levantou e, sem que ninguém chamasse, como se ele soubesse que algo estava errado, foi para a cozinha também.
Fiquei sozinho na sala de TV com o cara do noticiário.
”A sensação dos vídeo-gamesCall of Duty chegou às lojas na manhã desse domingo e já é sucesso de vendas em todas as capitais do país”, disse o cara da TV.
Arregalei os olhos com a notícia, como eu não estava sabendo disso?!
Corri para o telefone, disquei o número da moça dos números e pedi para me transferir para os Tomlinson.
- Alô? – A pessoa que me atendeu era uma garota. Devia ser uma de suas irmãs.
- Oi! – De repente me ocorreu que eu estava ligando muito tarde. – Desculpe por ligar a essa hora, mas eu queria falar com o Louis. É o Liam, da escola.
- Tá. – Ela respondeu, sem parecer se importar com meu péssimo horário. – Louis! – Ela gritou. Houve agitação do outro lado da linha. Risadas e gritinhos, até mesmo alguma louça caindo no chão eu pude ouvir.
- Alô? – A voz de Louis me saudou.
- Cara! – Falei. – Você viu que o novo Call of Duty saiu?
- Quê? Quem é?
- É o Liam!
- Ah, oi, Liam.
- Louis! O jogo! – Foquei.
- Ah, sim! Caramba! Vi agora há pouco num jornal que minha mãe estava assistindo.
- Não é demais?!
- Sim, sim! – Ele soltou uma risadinha. – A gente conversa melhor sobre isso amanhã na escola.
- Não! – Gritei, sentindo-me desesperado por companhia. – Você tem que ir dormir agora?
- Não, mas queria ir ver desenho.
- Ah, sim.
- Por quê?
- Nada.
- O que foi? Agora eu percebi que você tá com uma voz estranha.
- Eu? Quê? – Soltei uma risada. – Besteira.
- Fala logo, Payne.
Eu queria contar, mas não sabia se deveria contar aquilo para Louis. Ele era meu amigo, mas... Não tinha certeza.
- Liam.
- Cara... Eu estou na casa da minha avó... – Hesitei. Louis permaneceu calado, esperando. Eu tinha sorte porque, geralmente, Louis era um ótimo ouvinte. – Eu acho que meus pais vão se separar.
Um pequeno silêncio.
- Que droga, Liam. Que droga mesmo. Ele contou para sua mãe?
Louis sabia, é claro. Ele estava comigo quando eu descobri os e-mails no computador do meu pai – estávamos tentando abrir o Google Earth para procurar nossas casas.
- Sim.
- E como ela tá?
Contei o que aconteceu e, honestamente, nunca achei que me sentiria tão bem por contar alguns problemas para um amigo. Eu achava que ele ia dizer que eu estava sendo idiota ou agindo como uma criança ou que simplesmente ia me ignorar e dizer que aquilo era problema meu, mas não.
Eu tinha perdido minha casa, meu pai, minha família, a paz e o sono naquela noite, mas havia encontrado uma mulher ainda mais incrível do que eu já achava que era e, por fim, um bom amigo.

's POV
4 anos antes.

- Na música, o espaço entre um tom musical e outro com o dobro de sua frequência é chamado de...?
- Uma oitava. – Falei sem pensar, condenando-me por aquilo imediatamente, mesmo sabendo que a resposta estava certa.
- Resposta correta! – Anunciou a mulher dentro de um terninho cinza grande demais para ela. – Agora são quarenta e sete pontos para o colégio St. Bees!
Algumas pessoas da plateia aplaudiram, que muito provavelmente eram meus pais e minha melhor amiga. Suprimi um pequeno sorriso, abaixando a cabeça e me dizendo para permanecer calma. Faltavam apenas três pontos para a vitória da minha escola e eu não podia estragar tudo bem ali.
- Vamos dar alguns minutinhos de descanso para nossos pequenos conhecedores antes da próxima rodada de perguntas! – Ela nos indicou as saídas laterais do palco onde estávamos para descermos e, enquanto descíamos, ela continuava falando. – Lembrando que, se o St. Bees ganhar essa rodada, será a vitória definitiva, já que eles também ganharam a primeira rodada!
Espiei o placar da escola adversária, estimando as possibilidades de sofrermos uma virada deles, que tinham quarenta e quatro pontos. Yup, não seria fácil. Eles tinham muitas chances de ganhar também.
- ! ! – A primeira pessoa que me encontrou no pé da escada foi , parecendo ter tomado cinco copos de café. – Em qual país fica localizada a antiga cidade perdida dos Incas?
- Peru. Espera! !
- Meu Deus, você é realmente incrível! - Ela sorriu para mim, completamente animada.
- ! Você está me deixando nervosa!
- Mas você tem que praticar!
- Não, eu tenho que relaxar e deixar as coisas como estão. Isso não vai adiantar nada.
- E se eu te perguntar alguma coisa que pode ser exatamente a pergunta final, hein? Tipo quando comentamos algo minutos antes de uma prova e aí a primeira questão é sobre aquilo!
- Eu vou ter que me virar como qualquer um para responder.
- Você não "se vira", . Você pensa e raciocina. É diferente. - Ela revirou os olhos. - Mas tudo bem se você não quer praticar. É o seu momento, façamos como você quer.
- Obrigada. Viu meus pais?
- ! - Um colega da classe de Inglês passou por mim e me cumprimentou. - Você está arrasando! Traz esse troféu para nós! - Disse enquanto continuava seu caminho. Sorri para seu comentário, mas ele não viu.
Voltei minha atenção a , que estava parada à minha frente na ponta dos pés procurando meus pais no auditório. Ela escrutinava o salão com atenção e parou os olhos em um ponto específico e acenou com um sorriso. Virei-me para ver meus pais, mas não eram eles; era Liam Payne.
- Ele é um gatinho - ela comentou, voltando a olhar para mim.
- ! Meus pais!
- Ah, não sei, não os achei.
- Certo - respirei fundo. - Você ao menos já falou com ele?
Ela revirou os olhos, mas fechou a cara.
- Não.
- Você está apenas alimentando um amor platônico, então?
- Não seja pessimista, . Ele sorriu para mim - disse, vitoriosa.
- , você é a garota mais bonita e popular da escola. E ele é um garoto de 13 anos que não é nem louco de não sorrir de volta para você.
- Bem que ele poderia dificultar: eu adoro um desafio - abriu um sorriso presunçoso, mas logo olhou para mim e nós começamos a rir. Às vezes falava umas besteiras que não tinham nada a ver com quem ela era de verdade.
- Você gosta dele?
- O quê? Não! - Revirou os olhos. - É sempre assim: eu acho alguém bonitinho e você já vem com um catálogo de bolos de casamento.
- Eu não! Olha, aquilo foi uma única vez e foi uma coincidência! Você estava falando de algum garoto e eu tinha ganhado a revista no saguão do hotel, ok?
- Ok, ok! - Levantou as mãos em rendição. - O que eu posso fazer? Paris é o lugar perfeito para se apaixonar - suspirou.
- Pelo amor de Deus, você ainda é uma criança!
- Você parece meu pai falando. - Bufou. - Engraçado como ele não gostou nenhum pouco dessa história, mas não demorou quase nada para dizer aos pais do Caleb Ashbat como eu e ele fomos destinados um para o outro porque nossos pais eram melhores amigos.
- Agora, o Caleb é um gatinho - sorri, lembrando-me dos dias que passei na casa de e ele ia lá com seu pai. Ela revirou os olhos.
- ! - Ouvi meu pai gritar. - Meu pequeno gênio! - Ele chegou até mim e me pegou no colo.
- Pai! - Segurei seus ombros, morrendo de vergonha por quase todo mundo ter nos olhado.
- Você arrasou naquela pergunta do polvo! Como você sabia aquilo?!
- Eu gostei muito do programa de Biologia desse ano - respondi e ele soltou uma gargalhada. - Cathy! - Exclamei quando vi minha mãe se aproximando com Catherine andando ao seu lado. Ela era minúscula perto de todos os adultos e colegas de classe meus, mas, em compensação, ela estava muito fofa com aquele vestidinho xadrez e os sapatinhos de verniz vermelhos. Meu pai me colocou de volta no chão e eu corri para abraçar minha irmã.
- Seu avô veio deixar ela aqui para ver você - minha mãe explicou. - Oi, !
- Oi, Sra. . - sorriu. - Oi, Cathy!
Ela recebeu um abraço caloroso de Catherine. Às vezes eu achava que minha irmã gostava mais de do que de mim e isso me deixava um pouco chateada, porque não fazia muito esforço para se dar bem com ela. Digo, elas se davam bem, óbvio, mas não era como se crianças fossem suas pessoas favoritas no mundo. E eu a adorava. Eu faria qualquer coisa por Cathy, a irmãzinha que eu pedi tanto aos meus pais e que parecia gostar mais da minha melhor amiga. Mas eu não reclamava, eu ainda passava a maior parte do tempo com ela.
- Mamãe, aquele menino está chorando! - Cathy apontou para alguém atrás de nós. Virei-me para encontrar Matt Simons, um dos melhores da equipe da outra escola, debulhando-se em lágrimas enquanto seus pais lhe diziam alguma coisa, parecendo afobados e preocupados. Senti a mão de meu pai tocar meu ombro como se me reconfortasse.
- Ele está chorando de emoção. - Disse-lhe ela antes de depositar um beijo nos cabelos dela.
- Ah - Cathy assentiu. - Mamãe, quero fazer pipi.
Minha mãe a pegou no colo, lançando um olhar a meu pai.
- Vamos fazer tudo rapidinho para voltarmos e ver a - disse ela enquanto se afastava.
- A sabe tudo, não é, mamãe? - Ouvi-a comentar com minha mãe, com sua voz doce e suave de criança e uma admiração que eu nunca achei que ouviria dela. Abri um sorriso.
- Eu não acredito que aquela mulher se sentou na minha cadeira! Será que ela não viu minha bolsa?! - bufou e, saindo a passos duros, marchou em direção à poltrona que, supostamente, era a sua.
- Pobre desavisada mulher - meu pai comentou, rindo. E eu concordei. era capaz de soltar fogo pela boca quando queria e aquela mulher levaria uma bronca por ter cruzado seu caminho. - Quer água? - Ele me ofereceu sua garrafinha de plástico.
- Obrigada, temos um pouco embaixo da mesa.
Um pequeno silêncio se fez entre nós enquanto olhávamos ao nosso redor.
- Você sabe que para mim e para sua mãe não é importante que você vença, não sabe?
- Sim, papai.
- Que o importante para nós é que você tomou coragem para entrar, estudou e deu o seu melhor desde que começou, não sabe?
- Sei, sim. - Sorri para ele, lembrando-me por um instante do menino chorando e seus pais apreensivos. - Obrigada pelo apoio, era tudo que eu precisava.
Dei-lhe um rápido abraço e corri para a escada do palco, pois meu relógio havia apitado para indicar que faltava um minuto para o fim do intervalo.
Sim, eu estava nervosa. Ao máximo, sentia sapos pulando e dando cambalhotas no meu estômago, torturando-me. Não queria, de forma alguma, fazer feio. Queria ganhar aquela competição mais que qualquer coisa naquele momento. Eu odiava perder, fosse o que fosse. Queria ser motivo de orgulho para os meus pais, queria ser objeto de admiração de Cathy, queria os gritos de comemoração de - ela era muito melhor comemorando do que arriscando palavras de consolo.
- Senhoras e senhores, vamos nos acomodar para retomarmos... - anunciou a mediadora da competição, com o microfone em mãos e um novo conjunto de blocos de perguntas em mãos.
Sentei-me no meu lugar com o coração batendo rápido no peito e obriguei-me a respirar fundo e me acalmar.
- Vamos lá! – A mulher sorriu para a plateia. As portas do auditório se abriram e eu vi minha mãe e Cathy entrando discretamente. – Falando de computador, o que significa a sigla ROM?
A luz se acendeu na mesa da escola adversária antes que eu pudesse sequer processar a pergunta. Droga, !
- Random-only memory! – O garoto da outra mesa respondeu cheio de confiança.
- A resposta está errada! – Anunciou a mulher. – O correto seria ”read-only memory”. Próxima pergunta: na mitologia grega, quem é o deus do vinho?
A lâmpada da nossa mesa se acendeu.
- Dionísio – disse Bree, uma garota simpática do terceiro ano, a estrela da nossa equipe.
- A resposta está correta! – Disse a mediadora. – Próxima pergunta: Qual elemento químico dá ao sangue de uma lagosta um matiz azulado?
A luz adversária se acendeu.
- Cobre! – A menina respondeu.
Droga! Eu sabia a resposta dessa!
- Correto! – Houve um burburinho vindo de algum canto do auditório. – Próxima pergunta! Qual serpente, cuja mordida se não for tratada pode ser 100% fatal, é considerada a mais rápida do mundo na terra?
Bati minha mão no botão que fazia a lâmpada se acender. Todos olharam para mim, esperando.
- Mamba negra – respondi, controlando-me para permanecer calma.
- Resposta correta! Próxima pergunta! Dom Quixote foi escrita por qual escritor espanhol?
Foi a luz dos adversários que se acendeu.
- Miguel de Cervantes!
- Correto!
Outro ponto para eles.
Deus, por favor, acaba logo com isso!
- Qual é o nome de um prato de carne feito de carne bovina crua finamente picada, frequentemente servido com cebola, alcaparras, temperos e ovo cru?
Meus olhos voaram para encontrar . Eu reconhecia aquilo. Reconhecia de alguma forma e aquilo estava relacionado a ela. A equipe adversária conversou entre si e meus colegas de equipe também cochichavam, raciocinando. me olhou de volta, dando-me certeza de que ela sabia o que era, mas sabia, também, que se fizesse qualquer coisa, seríamos desclassificados por trapaça.
Tentei me concentrar, pensando em todos os lugares possíveis onde já tenha visto ou comido algo tão estranho assim. Isso não é comida de criança!
- Carne crua?! Carne crua eu só conheço o kibe e aquele treco da França – ouvi um garoto da equipe comentar, frustrado.
França? Meu Deus, França!
- Isso! – Falei baixinho para eles, que me olharam.
- Não é o lugar...
- Eu sei! – Assenti e bati no botão. – Steak tartar.
Olhei para mais uma vez e ela tinha um sorriso enorme no rosto.
- A resposta está... – a mediadora fez suspense – correta! – Eu respirei aliviada enquanto a plateia começou a aplaudir, com maior entusiasmo da parte dos relacionados ao St. Bees. – Senhoras e senhores, os vencedores da noite são os alunos do St. Bees!




Harry’s POV
4 anos antes.

Bianca Ribas era a menina mais popular do segundo ano do ginásio da Holmes Chapel Comprehensive School e provavelmente uma das mais populares do pequeno vilarejo em si. Era a única filha do homem mais rico de todo o condado de Cheshire e, com apenas 13 anos, já tinha pretendentes e amigos aos montes, é claro. Todo mundo queria ter a afeição de Bianca, porque ela tinha a casa mais maneira do mundo. Haviam lendas sobre as coisas legais que ela tinha em casa! Ela era uma futura monstrinha da popularidade.
E ela também era a maior gata. Todos os garotos achavam.
Mas adivinha só de quem ela era afim?
Isso mesmo. É claro que sim. De mim. Harry Styles.
Meu pai sempre dizia que eu cresceria para ser o terror de todas as garotas, com aquele meu rostinho de inocente. Eu gostava de ouvi-lo falar aquilo, mesmo que Gemma e minha mãe sempre brigassem com ele, toda vez que ele dizia. Mesmo depois que eles se separaram e ele foi embora eu não esqueci daquilo, principalmente porque quanto mais o tempo passava e eu começava a entrar nesse universo feminino, mais sua afirmação se concretizava. As garotas gostavam de mim, eu nem precisava me esforçar, e vai por mim, na maior parte do tempo eu não me esforçava mesmo.
Mas voltando à Bianca Ribas. Seu aniversário de quatorze anos era o assunto mais falado pelo pessoal da escola de ensino fundamental de Holmes há semanas. Aparentemente seus pais haviam permitido que ela levasse apenas um número limite de pessoas, e ela estava convidando todos pessoalmente. Quando me convidou, eu não fiquei tão surpreso. Ela sempre mandava suas amigas dizerem para meus amigos que ela gostava de mim, ou mandar cartinhas e esse tipo de coisa. Ela veio, envergonhada, e se forçou a perguntar se eu queria ir na sua festa. Eu disse que sim e, aproveitando da situação, perguntei se podia levar uma amiga, e ela prontamente disse que sim, acho que sem nem pensar direito.
odiava a Bianca. Não sei exatamente se havia um motivo, mas sempre que eu perguntava ela respondia que não gostava de “garotas como ela”, só que para , aparentemente, todas as garotas eram “garotas como Bianca.” Acho que ela ainda não havia percebido que era ela quem não se comportava como uma garota, e aquilo era meio engraçado.
Por causa disso, a parte mais difícil foi convencer a ir comigo. Ela era minha melhor amiga e eu queria que ela fosse e se divertisse, e também que minha mãe ficava mais tranquila em me deixar sair se fosse com . Não entendia porque, já que a louca entre nós dois era ela. As ideias mais bizarras e que nos metiam em encrenca sempre vinham dela. Mas depois de encher o saco de por uns dias ela acabou aceitando. Eu sabia que ela não estava nem um pouco afim, mas esperava que, uma vez que estivéssemos dentro da mansão de Bianca, ela começaria a gostar da ideia.

O sábado que seria a festa chegou, e às sete horas da noite todos estavam lá. O lugar era realmente enorme, com piscina, academia, sauna e até uma quadra de tênis. Seu pai tinha uma coleção de carros que mostrou a todos os garotos que estavam presentes, que era realmente incrível. Havia todo o tipo de comida possível, e havia até uma mesa de DJ e uma pista de dança no jardim perto da piscina. Mas pediram que ninguém entrasse na água e, quando ficou mais tarde, todos nós que ainda estávamos lá nos reunimos em uma enorme sala de estar cheia de comida e bebida e com uma música legal, e ficamos por lá conversando. A maioria das pessoas eram colegas da escola.
Haviam adultos na casa, em algum lugar, mas eles estavam respeitando o espaço da aniversariante e dos seus convidados, e por isso eu só havia visto o pai de Bianca quando ele estava nos mostrando os carros.
não estava conseguindo se enturmar bem, aquela era provavelmente a primeira festa dela, e ela não se dava muito bem com as pessoas das nossas turmas de qualquer forma. O pessoal com quem ela se acertava melhor eram nossos amigos de vizinhança, com quem crescemos brincando na rua, com quem ela andava de skate e jogava futebol no parque. Então ela parecia desconfortável lá dentro, e imaginei que talvez eu não devesse ter a incomodado tanto para vir. Parte de mim queria se divertir e curtir com nossos colegas, mas outra parte se sentia mal por tê-la obrigado a vir e queria que ela se divertisse também. Só que como não havia nada que eu pudesse fazer, só ficava cuidando de longe onde ela estava ou o que estava fazendo para não perder ela de vista enquanto eu conversava em outro canto com nossos colegas.
Mais um tempo passou e a maioria dos convidados já havia ido embora. Sobraram nós dois e mais umas dez pessoas, e eu estava pensando em convidá-la para ir embora quando Bianca convidou todo mundo que ainda estava ali para jogar uma brincadeira chamada “Sete Minutos no Céu”. Aquela era minha chance de ficar com Bianca, e ao olhar para a garota percebi que ela estava pensando a mesma coisa de mim pelo modo como me olhava. Ela viu que eu queria ir embora, e não queria que eu fosse!
Sorri fraco para . Sinto muito, mas eu precisava ficar para aquilo. Daquele dia não ia passar!
- Vamos ficar só mais um pouco para jogar esse jogo, ok? – Disse a enquanto nos reuníamos em volta de uma mesinha de centro.
- Eu não quero jogar isso. – Ela murmurou baixinho para mim. – Vou te esperar lá fora.
- Tá doida? Tá frio pra caramba lá fora! Vamos jogar, vai, . Vai ser divertido! Não precisa fazer nada que não quiser!
- O que eu não quero é jogar esse jogo, Styles! – Ela sussurrou revirando os olhos, e todo mundo em volta da gente começou a sentar em volta da mesa.
- , por favor... – Pedi baixinho.
- Harry, você vai jogar? – Bianca perguntou e sorriu esperançosa quando eu a olhei. Olhei para de novo e ela me encarou por um tempo.
- Hum, sim, eu vou. – Virei para Bianca novamente e sorri, sentando.
era a única que estava de pé, segurando uma garrafinha de Coca-Cola, e todos olhavam para ela esperando que ela sentasse.
- Hum, eu não vou... Eu não quero jogar.
- Temos seis garotos e só cinco garotas! Por favor, joga com a gente. – Bianca pediu, com uma voz manhosa e um grande sorriso para , pedindo que ela sentasse. – É um jogo tranquilo!
- Eu não... – hesitou, olhando para todos que ainda a olhavam. – Eu...
- Qual é, , é só um jogo. – Botei pressão, sabendo que ela ia acabar ouvindo a mim, e por fim ela me olhou por um momento e acabou aceitando, suspirando pesadamente e sentando ao meu lado no espaço vago.
- Ok. – Bianca colocou uma garrafa vazia de refrigerante deitada no centro da mesinha. – Todos conhecem o jogo? Vamos girar a garrafa e, as pessoas para quem ela apontar, têm que ficar sete minutos trancadas sozinhas na despensa – ela apontou para a porta de madeira pequena embaixo da escada que subia para o segundo andar. – Sem celular nem relógio e com a luz apagada. O que o casal vai fazer são eles que escolhem!
Sorri de canto para Bianca quando ela me olhou, e todo mundo concordou que havia entendido. Ela assentiu e então girou a garrafa pela primeira vez. Por baixo da mesa eu esfreguei as mãos uma na outra, me concentrando ao máximo na garrafa que girava esperando que, com a força do meu pensamento, ela pudesse parar em mim e em Bianca, sentada exatamente na minha frente na mesinha. Vamos, vamos, vamos, por favor!
A garrafa lentamente foi parando até que, devagar, parou de girar completamente, apontando com a base para uel Kimmell, o garoto idiota que era o palhaço da nossa turma, e com o bico claramente apontando para , ao meu lado.
Ah, fala sério!, xinguei internamente. Quais eram as chances? Eu era a pessoa que mais queria que a garrafa parasse em mim naquele jogo e , por sua vez, era a que só queria fugir dali. Ugh, é claro que a garrafa ia parar nela.
Olhei para o lado e me olhou meio internamente desesperada por aquele resultado, e fiz uma caretinha para ela.
- e Sa...
- Eu não quero jogar. – se pôs de pé quase que em um pulo, e há essa altura eu já estava me sentindo quase tão mal por ela quanto ela mesma.
- Você aceitou jogar, agora tem que cumprir seus sete minutos. – Bianca disse e se levantou, pegando algo do sofá atrás dela e indo até . – Não se preocupe, vai passar rápido! E você não precisa fazer nada que não quiser fazer, se tiver medo ou alguma coisa assim – Bianca murmurou para ela, alto o suficiente para que todos na sala ouvissem, e algumas pessoas riram.
olhava para a garota morena à sua frente de modo que eu estava preocupado que ela pudesse pular no pescoço de Bianca, mas ela se controlou. Lançou um olhar furioso na minha direção enquanto largava sua garrafa de Coca-Cola e desenhou as palavras “faz alguma coisa” sem som antes que Bianca passasse o tecido preto que segurava nos olhos de e atasse atrás da sua cabeça.
- Isso é mesmo necessário? – disse, agora de olhos vendados.
- São regras do jogo. – Bianca respondeu, e a segurou pelos ombros a virando na direção da despensa. Caminhou com até lá e a fez entrar lá dentro. – uel já vai entrar para te fazer companhia – Bianca riu fraquinho antes de fechar a porta e voltar até nós, olhando para uel, que ainda estava sentado. – Vai logo, é sua vez!
O garoto ainda pensou por um momento, então com uma encolhida de ombros e uma caretinha de quem diz algo como “já que eu não tenho escolha”, ou “já que não vai ser ninguém melhor”, se levantou do chão com o intuito de rumar para a despensa com .
Uma tonelada de pensamentos se empilhou em minha cabeça ao mesmo tempo enquanto eu assistia ele se levantar, e não consegui processar muito bem nenhum, mas o que eu sabia era que aquilo significava que algo dentro de mim não devia deixar aquele idiota entrar lá com . Porque A) ela me mataria depois, B) seu pai também me mataria se soubesse, porque eu tinha um tipo de compromisso não mencionado com Max e cuidar da sua filha era meio que minha obrigação desde que éramos crianças, e C) uel Kimmell era realmente um babaca e eu não o deixaria falar de como se ela fosse algo a menos do que ele merece, porque a verdade era que era o oposto; ela era legal demais para ele. Mesmo que eu soubesse que nunca ia deixar um cara como ele fazer qualquer coisa com ela. E esse era o motivo D), eu estava fazendo um favor a ele não o deixando entrar naquela despensa e sair de lá com um nariz sangrando causado por uma garota.
Em uma fração de segundos, quando ele começou a caminhar em direção à despensa, mesmo sabendo que aquilo provavelmente arruinaria as minhas chances com Bianca para aquela noite, me xinguei internamente e segurei o braço de uel, o fazendo parar.
- Espera. Eu vou.
- Você? Mas vocês não são irmãos ou algo do tipo? – Ele fez uma careta de nojo.
- é minha melhor amiga! – Respondi, agora irritado. – Ela não queria jogar esse jogo e eu a forcei, e agora vou lá e vou fazer companhia a ela durante esses sete minutos para que ela possa me desculpar, porque ela realmente não quer ficar presa olhando para a sua cara feia por tanto tempo.
As outras pessoas riram e troquei um olhar rápido com Bianca, que parecia no mínimo frustrada com minha decisão.
- Além disso, estou te fazendo um favor. Ela quebraria a sua cara sem o menor esforço. – Terminei e passei por ele e pelos outros, caminhando até a despensa, deixando todo mundo conversando baixinho para trás.
Abri a porta com cuidado para não fazer barulho e voltei a fechá-la atrás de mim quando entrei. Quando ela se fechou percebi que lá realmente era muito escuro, e apesar de tatear por um momento não encontrei nenhum tipo de interruptor para ligar a luz. A porta tinha tiras de madeira meio deitadas para dentro, o que fazia com que a luz apenas entrasse em pequenos fachos. Um iluminava seus All Star velhos, outro mais para cima iluminava suas mãos entrelaçadas em volta das suas pernas, e pude perceber que ela estava sentada no canto do cômodo minúsculo, com as pernas dobradas, abraçando os joelhos em frente ao peito. Mais um facho de luz superior ainda mostrava seu queixo encostado em seus joelhos, e sua boca entreaberta em uma expressão de nervosismo, que eu podia perceber pela sua respiração entrecortada que eu conseguia ouvir dentro da despensa.
Quando fiquei parado no mesmo lugar em silêncio por muito tempo levantou um pouco o rosto e o facho de luz iluminou melhor seu rosto. Ela tinha as sobrancelhas arqueadas por trás do pano que cobria seus olhos.
- uel? – Chamou baixinho, incerta de se estava sozinha ali dentro ou não.
Ainda demorei um pouco mais para me mexer, dessa vez sem saber exatamente como agir. era sempre tão cheia de energia, tão engraçada e irônica, e forte e sabichona. Ela gostava de sempre agir como se fosse muito superior a mim quando estávamos juntos, daquele jeito que irmãos agem uns com os outros o tempo todo. Mas ali, naquele momento, não era assim. Ela parecia meio vulnerável ou sei lá. Era um daqueles momentos em que a pessoa está sendo ela mesma, está de guarda completamente baixa, porque não sabe que está sendo observada. E eu não sabia como quebrar aquele momento, como revelar que eu estava ali, porque não queria que ela se sentisse constrangida. E eu não queria que ela mudasse, também.
Sabia que devia falar alguma coisa, mas os segundos se passavam e eu continuava não encontrando nada para dizer, então continuava imóvel e quieto. ainda estava encarando o vazio e de repente ela mordeu o lábio inferior, parecendo incerta. Dei um passo em sua direção que foi o suficiente para que eu chegasse perto dela, e me abaixei com cuidado, ficando da sua altura.
Meu rosto estava na frente do seu, com apenas algum espaço entre eles. parecia me encarar, não fosse o pano na frente dos olhos. Ela parecia saber que havia alguém ali, provavelmente imaginava que fosse uel, mas por algum motivo ela não havia movido um músculo. Sua respiração irregular revelava que ela estava nervosa.
Depois de um tempo que eu não soube dizer se demorou ou se levou apenas alguns segundos, em que fiquei naquela posição em sua frente, finalmente tomou coragem e levantou uma das mãos, esticando-a um pouco para frente e procurando pelo meu rosto. Eu sabia que aquilo ficaria ainda mais estranho e constrangedor se, depois de todo esse tempo em silêncio, ela descobrisse que era eu ali dentro. Por isso, quando a ponta dos seus dedos tocaram meus lábios, sem pensar eu me curvei e a beijei.
hesitou uns centímetros para trás, mas deixou que meus lábios continuassem pressionados contra os dela, e meu coração pulou violentamente no meu peito com a possibilidade de que ela tocasse meus cabelos ou meu rosto e descobrisse que era eu, porque aquilo seria a pior coisa do mundo, de verdade. Meu deus, eu estava beijando ! Era como beijar Gemma! Deus, o que eu estava fazendo? Ela nunca podia saber. Ela nunca podia saber e eu nunca ia contar, aquilo nunca aconteceu, não!
Me afastei assim que tive meu pequeno surto e me coloquei de pé, indo para a porta antes que tivesse a chance de tirar a venda ou dizer qualquer coisa. Abri a porta e saí, a batendo atrás de mim e me batendo contra alguém que estava em minha frente no caminho até a sala. Eu estava cego e nem percebi que alguém havia parado na minha frente.
- Ah, que ótimo, seu babaca, porque eu já estava indo te tir-
uel começou a dizer, mas abriu a porta da despensa atrás de nós dois e saiu, e apenas o cortei, gritando a primeira coisa que passou pela minha cabeça:
- Cala a boca!
- Mas o que voc... – O garoto me olhou, confuso e irritado, e eu balancei a cabeça. Virei para atrás de nós olhando para nós dois e peguei sua mão.
- Vamos embora agora, ok?
Como um milagre, não discutiu. Pegamos nossas coisas e saímos de lá na mesma hora, e eu nem me despedi de ninguém. Não sabia quanto tempo havia passado naquela despensa, mas fiz uma coisa que eu definitivamente nunca deveria ter feito lá dentro e que planejava esquecer que aconteceu. Meu coração ainda estava acelerado com a possibilidade de ela ou de alguém naquela festa ter percebido o que aconteceu, mas eu descobriria nos dias seguintes que ninguém fazia ideia nenhuma.
Eu passei o resto do fim de semana agindo estranho com todo mundo e ignorando . Por fim, ela me bateu e disse para eu parar de ser escroto, e minha mãe disse que se eu não parasse de agir como se estivesse constantemente vendo um fantasma ela ia me fazer ver o psicólogo da escola, e então eu parei de agir daquele jeito e adotei a postura de “isso nunca aconteceu”. E realmente funcionou, pois alguns meses depois esqueci totalmente daquilo e só voltei a lembrar quando, um dia, estávamos conversando e deixou escapar que seu “primeiro beijo havia sido com uel Kimmell e ela era uma idiota”.


’s POV
3 anos antes.

Se eu tivesse que escolher uma cor para descrever meu humor nesse exato momento, eu entraria em combustão espontânea por não saber qual cor escolher ou escolheria cinza porque cinza era a cor que estava impregnada em tudo. A comida era cinza, a música era cinza, as paredes eram brancas, mas me davam a sensação de estar afogando em toneladas de concreto cinza. Eu mal conseguia desviar os olhos das paredes.
Via nelas qualquer coisa que minha mente quisesse projetar e, na maioria das vezes, eu não via nada. Minha cabeça era um grande vazio que gritava um milhão de coisas sem sentido à medida que eu mergulhava neles.
Qual é o sentido de viver assim?
Isso não é viver. Não pode ser.
- "A girafa, com a sua elevada estatura, o pescoço alongado, a estrutura dos membros anteriores, da cabeça e da língua, tem uma estrutura globalmente adaptada, de forma admirável, à busca de alimentos nos ramos mais elevados das árvores. Pode assim encontrar..."
Eu ouvia a voz ritmada e fluida de meu pai enquanto ele lia "A Origem das Espécies" em voz alta para mim. Os médicos disseram que me ajudaria se eu estivesse em contato com algo que me fosse familiar.
Não estava surtindo efeito algum.
Sua voz estava ali, mas distante e eu mal podia distinguir qualquer palavra para que as sentenças fizessem sentido. Ao contrário, parecia que tudo estava bloqueado enquanto minha mente se esforçava para criar mais uma lista de motivos pelos quais eu queria estar ali, pelos quais eu achava que tudo ia ficar bem ou pelos quais eu queria estar viva. E, em resposta, eu prendia a respiração e prestava atenção ao que estava sentindo apenas para me deparar com o mesmo sentimento de todas as outras vezes em que havia feito aquele exercício: nada.
Apenas um vazio enorme. Grande e maciço como uma esfera escura na qual eu havia sido engolida. Um buraco no peito que parecia me sugar de dentro para fora, que me fazia sentir secura e um tipo de desespero que me arrebatava toda vez que atacava, não importava se era a primeira, segunda ou vigésima vez que sentira aquilo naquele dia.
Como um estalo, cheguei a uma conclusão: eu odeio estar aqui.
E fiquei satisfeita. Conclusões eram simples, um fim em si mesmas e só contavam o final da história. Se eu dissesse a alguém que odiava estar ali, ninguém saberia de nenhum combate que travei para chegar àquela simples sentença de quatro palavras.
É uma perda de tempo, se alguém quiser saber minha opinião: é uma grande perda de tempo. Eu não vou melhorar. Não há possibilidades de melhorar. E eu não quero melhorar. Estar bem é um luxo que eu não posso ter.
Poderia se tentasse, disse uma voz em minha cabeça. Não a reconheci como minha, soava mais como . Senti meu peito doer como se estivesse se fechando dentro de mim; eu poderia, não poderia? Não precisava me sentir tão mal para sempre, havia esperança para mim, não havia? Talvez se eu lutasse mais, se me esforçasse um pouco mais – talvez tomasse as pílulas ao invés de escondê-las dentro da camisola...
De repente, houve um burburinho do lado de fora do quarto e minha mãe apareceu com um bolo em mãos. Havia enfermeiros atrás dela e havia e Liam também. E havia também música. Eles cantavam parabéns. Meu pai fechou o livro, mas abriu um sorriso estonteante para mim – meu sorriso favorito que em outras épocas me fariam sorrir com ele – e se levantou da poltrona em que estava sentado, indo se juntar à minha mãe na pequena surpresa. A mulher que carregava o bolo estava linda; mesmo com o vestido de algodão simples e fino demais para o outono inglês, ela continuava linda. O sorriso que ela carregava parecia sincero o suficiente para ela se convencer de que estava tudo bem, mesmo. Talvez estivesse para ela. Ou talvez ela só quisesse esquecer um pouco de si e mudar os ares. Talvez ela sentisse minha falta. Ou apenas sentisse pena.
Como você pode pensar isso da sua própria mãe, ?! Ela perdeu uma filha para um ladrão e a outra filha para sua própria mente quebrada! Você não acha que ela sofreu? Você não acha que ela também está machucada? Você acha que agrada a ela te ver derrubada em cima de uma cama? Que ela tenha que lidar com a Lola? É, talvez você mereça tudo isso, . Não o bolo, não a insistência da sua melhor amiga, não a luta da sua mãe, não o sorriso maravilhoso do seu pai, mas essa reabilitação, esse inferno, esse monstro que habita você e que só machucou muita gente, esse seu medo irracional de tudo, essa ansiedade, esses sentimentos, você se merece, .
veio até a cama e ergueu uma sacola de papel grande com o nome de alguma loja, dando-me um sorriso.
- Feliz aniversário, pumpkin! – Disse ela, entregando-me a sacola. Espiei dentro antes de enfiar uma mão e tirar de lá uma abóbora de pelúcia com olhos e um sorriso.
No mesmo instante, minha garganta fechou e meus olhos arderam com as lágrimas que se formaram imediatamente.
Eles têm pena de você, . Todos eles. E, como se não bastasse, você não merece nada disso.
- Cala a boca – murmurei. Não estava olhando nada em particular, mas vi quando o sorriso de sumiu e ela trocou um olhar com meus pais. Ela não sabia que eu não estava falando com ela.
Como ela poderia saber? Você não fala. Você nunca fala, covarde.
- Cala a boca! – Dessa vez grunhi. Senti-a arder e doer pelo choro que se formava. Todos me olhavam em silêncio e, quando me dei conta de que estava falando sozinha na frente de todos, uma vergonha avassaladora me tomou por completo e eu queria morrer ali mesmo. Imprestável! – Saiam daqui. – Murmurei. – Saiam daqui! Agora! Saiam! Saiam!
deu um passo para trás; aquilo ativou alguma espécie de gatilho dentro de mim e a última coisa que me lembro foi de gritar.

’s POV
2 anos antes.

- Aqui! – Gritei a plenos pulmões na tentativa de chamar a atenção do atacante do time de futebol masculino que olhava para a arquibancada com ansiedade. Ele me avistou e abriu um sorriso adorável para mim, um dos meus favoritos, em que seus olhos se fechavam. Algumas garotas na fileira da frente chiaram, animadas, dizendo alguma coisa sobre a beleza do atleta.
A torcida ainda estava em júbilo: o St. Bees havia ganhado o torneio da regional e, melhor ainda, havia destruído e humilhado o maior adversário, o rival histórico Energy Coast, por 4 a 0 na casa deles. Aquilo era um deleite para todos nós. Eu mesma estava completamente rouca e, possivelmente, descabelada de tão nervosa que fiquei.
E Liam foi a estrela do time.
Dos quatro gols, Liam marcou dois.
Ao meu redor, meus colegas entoaram o hino da escola, olhavam-se uns aos outros nos olhos e abriam sorrisos enquanto cantavam, muitos deles até com a mão no peito, as bochechas rosadas de excitação, os olhos cheios de orgulho; Deus, como eu amo torneios. E, antes que eu pudesse me situar na letra do hino, houve uma agitação vinda dos bancos mais baixos e avistei Liam pulando a grade que separava a arquibancada do gramado. Ele tinha um sorriso nos lábios enquanto subia correndo os degraus do corredor e eu sabia que ele estava vindo até mim.
Sem dizer uma palavra, ao chegar, passou um braço por minha cintura e me puxou para si rapidamente, roubando-me um beijo que arrancou mais gritos e comemorações dos nossos colegas. Passei meus braços por seu pescoço, fazendo um carinho em sua nuca para indicar que ia me afastar.
- Você fez meu gol – sorri, olhando-o nos olhos.
- Dois. Foram dois.
- Para mim?
- Todos os gols, os meninos só não sabem que os outros dois também eram seus – sorriu de volta para mim.
- Então eu deveria ir lá e receber a taça? – Brinquei, provocando-lhe uma risada.
- Pegaria mal o capitão do time não receber a taça.
- Depois você me dá, então. – Dei-lhe um selinho.
No gramado, um pódio havia sido montado e os diretores das duas instituições participantes da final do torneio chamavam os jogadores dos dois times de volta para o campo para receber o prêmio. Liam piscou para mim e desceu a arquibancada.
A multidão de alunos, famílias e funcionários explodiu mais uma vez em gritos. Acima de nós, um canhão de confetes explodiu milhares de pedacinhos de papéis coloridos no ar. Abaixo, a banda marcial da escola tocava composições animadas que me faziam querer balançar de para lá e para cá.
- Eu não acredito nisso. – Ouvi a voz de Louis vinda do meu lado. – Vocês estão juntos há o quê? Dois meses? E ele só vem falar com você?! Você sabe quem tinha que mergulhar aquela bunda branca numa banheira de gelo depois dos treinos? Exato. Not you!
Soltei uma gargalhada gostosa que Louis sempre conseguia me tirar. Enrosquei meu braço ao dele, apoiando minha cabeça em seu ombro. Eu sabia que ele estava brincando e até concordava um pouco.
- Nós podemos revezar, Louis, sempre! Mas o Liam gosta muito de beijar, você sabe...
- Não, obrigado. – Entortou o nariz, mas soltou uma breve risada.
- Ela vai cavar um buraco na minha cara de tanto ódio – comentei, encarando de volta.
- O poder dela é a super-força, não visão-de-raio-laser, não se preocupe – garantiu-me.
- Engraçadinho. – Comentei, grudando-me um pouco mais a ele só para provocar , que bufou e revirou os olhos dizendo um xingamento. Harry lhe disse alguma coisa, chamando sua atenção. Tive que me segurar para não comentar com Louis sobre a cara que ela fazia quando falava com Harry, olhando-o tão fixamente, com tanto fascínio e adoração, tão apaixonada.
Pobre : ele jamais a veria daquela forma se ela não fizesse alguma coisa sobre isso.
- Vou ficar com a ! – Falei em seu ouvido para que pudesse me ouvir por cima do barulho intenso que se fazia à nossa volta. Louis assentiu, deu um rápido beijo em meus cabelos e voltou para perto de Harry e .
Desci até dividindo minha atenção entre o time no campo e nos degraus para não cair.
- Shortcake! – Apontei para o bolinho metade mordido na mão da minha melhor amiga. – Estão vendendo por aqui? – Olhei por cima do meu ombro à procura dos vendedores que transitavam na arquibancada com suas bandejas cheias de comidas.
- Não, eu comprei no caminho – levantou o saco de papel para mim. – Tem um para você.
- Sério? Você é a melhor amiga do mundo, não é? – Apertei suas bochechas antes de pegar o pacote de papel e tirar um pequeno red velvet de lá.
- Apenas coma o maldito bolo – ela murmurou alto o suficiente para eu ouvir. Franzi o cenho, confusa por um momento com sua grosseria, mas me lembrei que ela estava assim há alguns dias e, por isso, deixei passar, preferindo ignorar a criar uma cena. Ela ainda não estava bem desde a tragédia. Inclinei-me para cumprimentar Dakota West, nossa colega de algumas classes daquele ano.
- Hey, Dakie! – Sorri e recebi um sorriso de volta. – Eu gostei do que fez no cabelo. – Apontei para os coques laterais. – Deu trabalho?
- Isso? Ah, nenhum! O crespo já dá o volume naturalmente, é tranquilo.
- Volume, that's the dream! – Soltei uma risadinha e ela me acompanhou. Ouvi bufar e murmurar, dessa vez mais baixo, alguma coisa sobre futilidade ou inutilidade; eu jamais saberia, pois me despedi rapidamente delas e me afastei em direção ao gramado, decidida a não me chatear com o comportamento de .
Quando cheguei à grade divisória, Liam já recebia a taça do torneio e a levantou para o céu, comemorando. A arquibancada atrás de mim foi à loucura.
Os jogadores do St. Bees se abraçavam, pulavam e gritavam coisas incompreensíveis. Liam, de alguma forma, desvencilhou-se de todos e veio correndo até mim.
- Vou tomar uma ducha e venho te pegar para irmos à festa, ok? – Colocou sua mão por cima da minha na grade. Ele estava mais seco agora, mas sua blusa ainda estava colada no corpo pelo suor e suas pernas e braços estavam sujos de grama. Abri um sorriso.
- Estarei esperando.
Deu-me um selinho e correu para a saída dos vestiários. Alguém tocou meu ombro atrás de mim.
- Vocês são o casal mais fofo do mundo! – Era a garota do jornal... Qual era o nome dela?
- Obrigada, eu acho. – Sorri para ela, que levantou a câmera que estava pendurada em seu pescoço e me mostrou a foto que havia tirado no momento exato em que Liam me beijou.
- Essa foto ficou muito boa – elogiei.
- Obrigada, é para a série de reportagens.
- Que série?
- Ah! Claro, você ainda não sabe porque eu ainda não pedi, duh! – Soltou uma risadinha. Ela era uma gracinha com as sardas nas bochechas fartas e coradas. – O editor me deu uma oportunidade de fazer algo grande e aí eu pensei, bom, algo grande tem que ter impacto, ser relevante, ter conteúdo senão ele ia cortar meu espaço nas colunas e eu ia acabar sem reportagem e sem colunas para escrever...
- O editor? – Franzi o cenho. – O que houve com ? Achei que ela fosse a editora do jornal da escola.
- Ela era, ou é, mas não aparece nas reuniões há umas... Três ou quatro semanas. Acho que ela desistiu e tá com medo de contar. Desculpe, eu sei que ela é sua melhor amiga e...
- Tudo bem. – Sorri fraco. – Então, sobre a série...
- Ah, sim! Bom, resumindo: eu queria que você me contasse em alguns capítulos como ser uma aluna brilhante, como se preparar para as melhores universidades, como acordar de ressaca e ainda assim estar impecável, essas coisas.
- É basicamente maquiagem – ri.
- Isso é um sim?
- Sim, pode contar comigo.
Ela abriu um sorriso enorme e se despediu de mim, agradecendo por eu ter aceitado.
Estando sozinha, girei nos calcanhares à procura de no meio da multidão. Como assim ela não ia às reuniões há um tempo? Isso não era de seu feitio! Mordi um pedaço do shortcake enquanto minha mente divagava sobre os possíveis motivos para que estivesse agindo daquela forma.
- ! – Alguém me gritou. Olhei para trás e vi Aaron correndo em minha direção.
- Estava te procurando por toda parte! – Ele abriu um sorriso bonito e sincero antes de me oferecer o braço, que eu peguei, e me afastar da grade. – Liam pediu que eu viesse te chamar. Ele foi com os caras para o estacionamento.
- Muito gentil da parte dele – rolei os olhos.
- "Bros before hoes", sempre. E mesmo que sua namorada não seja uma "hoe".
- Eu não disse nada – defendi-me. – E isso é realmente imaturo.
- Não, é apenas uma pequena demonstração do quanto um bro considera outro bro por toda a parceria. É solene, é legítimo.
- Se você diz...
- É sério.
- Apenas não chame as garotas de "hoes".
- Eu juro não chamar mais nenhuma garota de "hoe" na sua frente. – Levantou a mão fazendo o juramento.
- Acho que é o melhor que vou conseguir com você. Mas, de qualquer forma, tem que haver um equilíbrio entre os amigos e relacionamentos amorosos sérios.
- Hm... – murmurou, como se concordasse comigo, mas não estivesse prestando muita atenção nisso.
Passamos a parte de trás da arquibancada e seguimos pelo caminho de pedra que dava acesso ao prédio de classes, depois o pátio e, por fim, após o colossal portal de pedras, estava o estacionamento daquela escola.
- Falando em equilíbrio: eu sempre achei que você ia acabar namorando o Harry Styles. Mas acabou ficando com um dos membros da corte dele.
Soltei uma risada sincera, imaginando a cena por alguns segundos.
- Eu e Harry Styles?
- Sim.
- Equilíbrio?
- Sim.
- Como?
- Vocês dois são a elite da escola toda.
- Aaron, eu jamais me misturaria com esse tipo.
- Tipo? – Lançou-me um olhar divertido.
- Harry Styles e sua gangue são burgueses, novos nobres sem título. – Sorri docemente para ele.
- E você...?
- Eu sou a monarquia. Estou no St. Bees há mais tempo. Esse é o meu reino.
- Uau, essa é definitivamente a coisa mais britânica que eu já ouvi na minha vida.
- Você não é britânico – arqueei uma sobrancelha para o dinamarquês.
- Eu tenho experiência – riu.
- De qualquer forma, Liam é ótimo. Se esperavam que nossos... "grupos" se misturassem, definitivamente atendemos as expectativas.
- Definitivamente. Vocês são adoráveis. – Disse como se fosse uma piada interna. – E adorados. Mas eu não posso culpar as pessoas por ficarem histéricas sobre isso. Vocês meio que fazem por onde.
- Do que você está falando, Aaron?
- Aquele beijo no final do jogo? Onde foi que eu já vi isso? Ah, sim, em qualquer filme high school americano.
- Não seja ridículo. Isso não é verdade.
- Não – prolongou a palavra com ironia, depois soltou uma risada.
Atravessamos o pátio durante nossa pequena e boba conversa sobre meu namoro com Liam e como o ensino médio girava em torno de fantasias e sonhos inalcançáveis de felicidade baseada em status e aparências.
- Você deve saber do que estou falando. Toda a dificuldade de manter essa... classe.
- O que? Eu? Não, para mim é extremamente fácil. – Franzi o cenho, mas caímos na gargalhada. – Não, nós apenas nos acostumamos a agir de certa forma. Por exemplo: aquele dia em que o orientador pediu que alguém apresentasse a escola para os intercambistas e ninguém se ofereceu, então eu e levantamos a mão... Nós não queríamos, mas eu, particularmente, achei que era meu dever fazer aquilo. E todo mundo aprovou. Ninguém disse nada, mas deu para sentir. Às vezes parece que as pessoas procuram modelos; elas os instituem e depois se frustram por não conseguir alcançar o padrão.
- Geez, vocês garotas são difíceis.
- Isso não é exclusividade feminina, você sabe. O Harry é um modelo. O Liam é. Você é,Krievs.
- Jamais. Eu sou a favor da democracia.
- Democracia é promessa de campanha. – Abri um sorriso perverso para ele, que soltou uma risada e me abraçou pelos ombros rapidamente.
- Você nunca cansa de surpreender, . Liam se deu bem dessa vez.
Revirei os olhos, esquivando-me de seu braço.
- Nós só queremos superar essa coisa toda de colegial e você sabe disso – concluí.
- Mas que mal há em abrir o anuário e lembrar que você foi uma estrela?
- Eu não iria querer que um livro antigo me lembrasse de quem eu sou, Aaron. Isso deve estar dentro de você.
- É, mas você terá quem lembre. Outros não. – Apontou com o queixo para um grupo de garotos jogando algum jogo de cartas asiático.
- Não seja maldoso.
- Estrelas são estrelas, .
- Não importa o que um anuário diga. – Reforcei.
- O colegial é um termômetro da vida adulta – insistiu.
- Para muita gente o colegial é um inferno, Aaron. Não é nisso que as pessoas querem acreditar.
- No inferno?
- Que o colegial é um termômetro da vida adulta.
- Você é muito boazinha.
- Você é muito malvado.
- Claro que não, eu estou fazendo um favorzão para um brother.
- Qual?
- Trazer você diretamente até aqui em cinco minutos.
Olhei em volta exatamente na hora em que atravessamos o enorme portal de pedra e adentramos o estacionamento. Havia agitação ali também, metade da banda da escola havia se deslocado para lá e estava tocando para os alunos que se dirigiam aos seus carros ou aos ônibus que os trouxeram. E foi o que fiz também.
- Ai, meu Deus, ela chegou! – Ouvi uma garota comentar com suas amigas antes que todas se virassem para olhar para mim.
Abri um pequeno sorriso para elas, fingindo que não ouvi coisa alguma. Um grupo de pessoas estava reunido na lateral do ônibus da nossa escola e era para lá que Aaron estava me levando cada vez sobre mais olhares curiosos e carregados de expectativas. O garoto ao meu lado assobiou e o grupo abriu passagem para nós, dando-me a visão de Liam encostado à lataria do ônibus com um buquê de rosas em mãos e uma caixinha de presente na outra. Ele me abriu um sorriso e se afastou do ônibus.
Paramos de frente um para o outro, eu sem entender nada, apenas que era uma surpresa, e ele com um sorriso ainda maior.
- Hey – disse, como se estivesse nervoso. – Ganhei o torneio! – Soltou uma risada. – Bem, nós ganhamos – apontou para o troféu na mão de um de seus colegas de time.
- Yeah, eu estava lá. – Franzi o cenho, incapaz de sorrir. Ele me entregou o buquê de flores.
- Sim, bom... Acho que agora eu estou à altura.
- À altura?
- De ter você como namorada.
- O quê? – Soltei uma risada, parte pelo absurdo que ele acabou de dizer, parte porque aquela surpresa foi tão agradável que eu sentia uma vontade estranha de dar pulinhos. – Você está falando sério?
- Nunca fui tão sério – disse.
- Bom, então prossiga. – Acenei com a mão.
Liam, então, abriu a caixinha de presente e tirou de lá um bracelete de prata que tinha “girlfriend” grafado. Era linda e delicada e fez algumas garotas atrás de mim suspirarem. Ele fez menção de abrir o fecho do bracelete e colocar no meu braço, mas levantou os olhos para mim antes.
- Você quer ser minha namorada?
- Quero, sim! – Sorri, estendendo meu pulso para ele, que colocou o bracelete em meu braço, depois me puxou para um beijo.
À nossa volta, as pessoas gritavam, como se estivessem dando apoio ou comemorando. Afastei-me de Liam para olhar as pessoas; todos pareciam meus amigos, nossos amigos, como se eles participassem de tudo em nossas vidas, e aquele era um sentimento tão estranho, era bizarro que todas aquelas pessoas sentissem tanta empatia por mim mesmo sem me conhecer de verdade, mesmo que algumas delas havia sequer trocado “bom dia” comigo.
Soltei outra risada quando Liam me pegou desprevenida, deu-me um selinho e me puxou para dentro do ônibus, onde outras pessoas que já estavam lá dentro nos saudaram calorosamente; alguns cumprimentando Liam pelo torneio, outros dizendo como formávamos um casal lindo.
- ! – Ouvi alguém gritar meu nome e eu me virei para a porta do ônibus onde a garota, cujo nome eu não lembrava, do jornal da escola estava parada. – Sorria! – E então o flash me cegou por um segundo.
Eu me lembrei do nome dela: era Fay Hinton.

Aviso de gatilho: o próximo POV contém cenas que alguns leitores podem considerar desconfortáveis e/ou incômodas, incluindo descrições de sentimentos e tendências suicidas. A sua leitura fica a critério do leitor.
’s POV
2 anos antes.

- Por que você acha que eu estou pronta?
Minha voz soou estranha, depois de minutos de silêncio na pequena sala confortável, sentada no canto do sofá de couro encarando a mulher sentada em minha frente.
- Você fez muito progresso aqui, . Está pronta para sair.
Respirei fundo, imaginando o que aconteceria caso ela estivesse errada. Por costume, neguei com a cabeça levemente.
- Eu não tenho certeza disso.
- Isso prova que você está. – Disse e eu a olhei, duvidosa. – Está ansiosa e nervosa com a ideia de sair daqui porque tem medo de falhar de novo. O que quer dizer que não vai falhar. – Assegurou-me, e tentei me agarrar àquelas palavras com todas as minhas forças.
A verdade era que eu queria acreditar naquilo desesperadamente, e parte de mim tinha medo de estar esperando tanto que ela estivesse certa, porque a queda podia ser desastrosa mais uma vez. Por um lado eu queria me deixar acreditar, eu precisava, segundo ela mesma, “colocar as coisas nas mãos dos outros às vezes e parar de carregar esse fardo tão pesado sozinha o tempo todo”. Mas por outro, o medo era aterrador.
Quatro meses haviam se passado, quatro meses lá dentro, primeiro passando pela fase da negação e da raiva, e por fim começando a aceitar que as pessoas tentando me ajudar estavam certas. Agora, no final, eu queria ficar bem, e isso já era o suficiente para estar pronta para sair dali. Na verdade eu estava bem como nunca estive antes, mas tinha medo de estragar isso voltando lá para... fora.
- . – Dra. Ruschel me chamou e a encarei. – Você está bem e vai continuar bem. Se lembra de como estava quando chegou aqui?
E tinha como esquecer?, pensei. Como se entendesse minha expressão, ela me pediu:
- Fale sobre isso.
Mas, para começar a explicar o que me levou àquela situação, era precisava voltar ao início, literalmente.

Eu tinha a teoria de que, assim como frutas, algumas pessoas podem nascer com a tendência de serem estragadas por dentro. Nasciam como uma pequena pontinha, uma célula apenas, de escuridão, de pensamentos e tendências ruins, tanto em relação aos outros quanto em relação a si mesmas, às vezes. Acho que aquilo já existia em mim desde sempre, era parte de quem eu era. Era como se meu peito fosse aberto, exposto, todos os meus sentimentos como fios elétricos, vulneráveis às intempéries do mundo. Desde pequena eu sempre senti tudo muito intensamente, sempre tive curiosidade sobre coisas estranhas, sobre porque havia coisas que surtiam efeitos tão fortes sobre as pessoas.
Minha mãe era psiquiatra. Morávamos em um prédio elegante e moderno de três andares no meio de um bairro nobre de Hamburg, foi lá que nasci e onde vivi durante a maior parte da minha vida. A sala comercial que ocupava o andar debaixo era o consultório onde minha mãe atendia seus pacientes e passava a maior parte do dia, trabalhando. Morávamos nos dois andares de cima, e para chegarmos em casa precisávamos entrar pelo consultório dela e subir o primeiro lance de escadas. Meu pai viajava muito a trabalho e pouco ficava em casa durante os dias de um mês normal, mas apesar disso éramos uma família como qualquer outra, em que os pais trabalham bastante e a filha, como era o esperado, atendia a uma escola particular cara e bem falada. Eu tinha aulas de manhã até a metade da tarde e fazia balé três vezes por semana depois da aula. Era deixada em casa no final do dia letivo por um motorista contratado de meu pai, que estava sempre à disposição de mim e minha mãe se precisássemos.
A primeira vez em que senti o gosto amargo da vida se espalhar por dentro de mim foi quando eu tinha oito anos. Minha mãe não gostava que eu tivesse contato com seus pacientes, ela mantinha família e trabalho bem afastados um do outro, e eu nunca me intrometi em seu trabalho antes. Entretanto, numa tarde quando fui deixada em casa depois do balé e a ouvi gritar com Angela, sua secretária, dentro de sua sala particular, como eu nunca a havia ouvido fazer antes, a curiosidade foi mais forte e precisei espiar o que era. Eu nunca entrava em sua sala particular, e o que vi naquele dia mudou tudo. Minha mãe estava debruçada sobre um homem, deitado no chão coberto em um líquido vermelho que sujava tudo ao redor deles, enquanto Angela encarava a cena de uma certa distância, chocada demais para fazer qualquer coisa. O homem, no chão, estava com o rosto virado para a porta e olhava para mim. Mas ele não piscava, e seu rosto estava branco como uma folha de papel.
Encarei aquela cena por um tempo, sem entender de início. Só quando ouvi minha mãe gritar mais uma vez para que Angela chamasse uma ambulância foi que percebi que eu não devia estar ali, e corri para as escadas, subindo para o andar de cima e indo para meu quarto. O resto daquele dia foi um caos em volta de mim, e apesar de ninguém se lembrar que eu estava lá e de acharem que eu era nova demais para entender, bastaram alguns minutos para que eu entendesse o que aconteceu.
Nos dias seguintes ouvi a história completa: ele era um dos pacientes mais doentes de minha mãe, que há anos fazia acompanhamento com ela, tinha fortes tendências suicidas e já havia sido internado algumas vezes. Naquela tarde ele teve uma crise e apareceu no consultório para pedir ajuda à sua médica para que ela tentasse pará-lo de fazer o que ele planejava fazer. Angela pediu que ele entrasse na sala e esperasse ela ligar para minha mãe, que não estava no consultório naquele momento. Angela não conseguiu contatar minha mãe a tempo. Ela o deixou sozinho por tempo suficiente para que ele perdesse o controle, e ele usou uma lâmina que, em consultas anteriores, já havia admitido que carregava no bolso quase sempre, para cortar os pulsos e sangrar até a morte no consultório de minha mãe. Ela disse ainda que ele não tinha ninguém, e há anos batalhava contra a depressão profunda que tinha. Ele achava que a única pessoa com quem podia falar era sua psiquiatra, e que ela era a única pessoa capaz de fazê-lo parar.
Eu nunca realmente esqueci daquela cena, do momento. Não é algo que você esquece de ter visto e, desde então, sempre nutri uma curiosidade perigosa e que só crescia mais a cada dia sobre qual o nível de dor a que uma pessoa podia chegar internamente para desejar fazer aquilo consigo mesma. Eu queria saber a resposta para essa questão como se fosse uma charada qualquer. Como era possível que uma pessoa estivesse desesperada a ponto de dilacerar a própria pele para que fizesse aquilo parar? Era algo que me fazia perder o sono às vezes, tentando imaginar.

Três anos depois minha mãe foi embora. Não houve um motivo, não houve uma briga, nem gritos, nem choro, e nem uma despedida. Ela simplesmente foi, como se a decisão nem tivesse partido dela. De início foi incompreensível, eu me perguntava porque ela foi, eu me preocupava com a possibilidade de algo ter acontecido a ela, de haver algo a mais, um motivo por trás de sua decisão que revelasse que na verdade aquilo não partiu dela, que ela não havia decidido nos abandonar de uma hora para outra. Minha mãe sempre foi quieta, reservada, silenciosa e não tinha o costume de demonstrar muito afeto, mas ela sempre foi uma boa mãe, sempre cuidou bem de mim, e eu a amava. E durante os primeiros anos depois que ela foi, eu me culpei por não ter captado nenhum sinal de que aquela não era a vida que ela queria, ou talvez de não ter sido uma filha melhor para que ela desistisse de nos deixar. A ideia de que havia algum motivo extraordinário por trás do seu sumiço repentino me assombrou por anos, eu ainda tinha a esperança de que ela fosse voltar e explicar que não queria que nada daquilo tivesse acontecido. Precisei assistir meu pai se auto destruir com o álcool, virar uma pessoa completamente diferente e sofrer, em silêncio, quando pensava que eu não estava vendo, mas eu sempre via. E o tempo passou, e ela não voltou. Até que um dia descobri, por palavras bêbadas escapadas de meu pai, que ele já sabia da verdade há algum tempo: ele havia tentando procura-la, anos atrás, e descobriu que ela estava viva, saudável e bem, começando outra família com outra pessoa e em outro país.
Esse foi o início da minha queda.
Eu passei pela fase da revolta, e isso só se intensificou com o fato de eu estar no auge de minha adolescência. Meu pai, que apesar de dar tudo de si quando podia, não conseguia ser presente o suficiente para notar que eu estava tomando todas as decisões erradas. Eu comecei a andar com as pessoas erradas e a fazer coisas idiotas que, em primeira instância, provavelmente eram com o intuito de chamar atenção. Eu comecei a beber e a me drogar com um grupo de adolescentes tão idiotas quanto eu era, e a ficar com garotos mais velhos que eu não conhecia e a deixar que eles fizessem o que quisessem, pois eu estava bêbada demais para me importar ou para sequer sentir coisa alguma. E depois de algum tempo deixou de ser sobre chamar atenção e começou a ser porque em algum ponto disso tudo eu havia perdido o tato, eu havia parado de sentir, eu estava entorpecida. Eu não sentia amor, eu não sentia ódio, nem raiva, nem nojo, eu não gostava dos meus amigos nem os odiava, eu não gostava dos garotos com quem transava mas também não queria distância deles, eu simplesmente estava vazia e nada mais surtia efeito nenhum. Eu era só uma adolescente, bobinha, fraca, idiota, nova demais, e já estava naquele estado.
Eu comecei a carregar uma lâmina no bolso.
Voltei a pensar no paciente de minha mãe e no que o levou àquela situação. Comecei a pensar que eu o entendia. Eu era burra, eu estava sozinha e eu deixava que todos os sentimentos fossem intensos demais, até mesmo o vazio. Deixei que isso se apossasse de mim, deixei que tomasse conta, e então, de repente, eu havia sido vencida. Bastou um dia realmente ruim para que eu fizesse aquilo. Eu estava louca para tentar há dias, esperando pelo momento certo, ansiando pelo sentimento, querendo que ele chegasse logo para que eu finalmente entendesse como era, descobrisse a resposta da charada, sentisse o que ele sentiu quando fez aquilo.
Fechei a porta do quarto e enchi a banheira com água morna. Quando vi que, por força do hábito, eu havia escolhido uma roupa e pegado uma toalha para quando eu saísse do banho foi que percebi que eu não sairia daquela banheira depois que fizesse o que planejava fazer. Foi quando, pela primeira vez em meses, eu tive um momento de lucidez. Mas àquela altura já havia ido longe demais e senti que se parasse eu seria uma covarde. Eu estava nervosa e de repente já não tinha mais certeza de se queria fazer aquilo, mas continuei mesmo assim.
Eu entrei na água e, depois de reunir toda minha coragem, antes que ela se esvaísse... Forcei a lâmina contra a pele e ela se rompeu com mais facilidade do que eu imaginava, derramando sangue sem dó. No mesmo momento a dor tomou meu corpo por completo, e eu percebi que não era assim que deveria ser. O paciente de minha mãe provavelmente fez aquilo para que a dor física fizesse com que a emocional sumisse por um tempo, e era isso que eu esperava sentir, mas não senti. Minha mão tremia violentamente, e mal consegui perfurar o outro pulso. Meu coração pulava com força, eu comecei a me desesperar e, acho que por isso, em questão de poucos minutos, comecei a me sentir tonta. Deitei a cabeça para trás, esperando apenas acabar de uma vez para que parasse de doer, mas ainda assim ainda lembro que a última coisa que pensei foi que terminaria assim, desesperada e sozinha, com medo do que estava por vir e desejando que alguém estivesse lá por mim.
Rosalie me encontrou. Desde que minha mãe foi embora, ela não cuidava só do trabalho de meu pai, ela cuidava dele e de mim também. A filha de Rosalie, Lively, tinha minha idade, e éramos amigas desde muito novas, mas ela não percebeu o que estava acontecendo comigo porque estava passando por sua própria fase de adolescente rebelde. Quando Rose me encontrou eu ainda tinha alguns minutos, por culpa de minha hesitação na hora de cortar o segundo pulso.
Mas eu só descobriria que foi ela quem chamou a emergência vários dias depois, quando acordei, já internada na clínica de reabilitação psiquiátrica. Acabamos descobrindo que eu não era uma adolescente burra e idiota, eu também estava sofrendo de uma forte depressão há algum tempo. Eu, a filha de uma psiquiatra cujas ações causaram exatamente a doença que ela era formada para tentar combater.
- Nós somos o resultado do que acontece conosco ao longo da vida, . Não sei se você se lembra disso... – Dra. Ruschel voltou a falar, quando fiz silêncio por um tempo. – Mas durante as primeiras semanas em que esteve aqui, você não falou uma palavra sequer com ninguém.
- É claro que eu me lembro. – Respondi apenas. Eu estava lá o tempo todo, mesmo que parecesse apenas uma casca vazia. Eu era como um rádio que só passava estática, e ao mesmo tempo em que minha cabeça parecia um sítio vazio, a verdade era que eu não conseguia processar todo o barulho em minha mente. Olhei pra a psiquiatra quando pensei nisso, franzindo o cenho. – Há alguma explicação para aquilo?
- Sim. – Ela respirou fundo e se virou no sofá, mexendo com a caneta em sua mão. –Era exatamente como um machucado aberto, , sua mente estava cicatrizando aos poucos. Você passou tempo demais sozinha, consigo mesma, apenas alimentando a depressão dentro do seu corpo. Ninguém estava prestando atenção em você, e você só se deixou levar.
Assenti, pois fazia sentido.
- Era como se só houvesse vazio. Eu não conseguia me forçar a responder a nenhum estímulo externo, e depois de algum tempo aquilo se tornou normal, como se minha mente tivesse abafado tudo em volta. Eu não conseguia sentir nada. Eu não conseguia pensar. Nada entrava e nada saía.
- E é isso que precisamos evitar que aconteça de novo, você entende? – Dra. Ruschel disse. – Esse vazio que você sentia antes foi o que te levou a tentar o suicídio.
Precisei conter uma careta, pois aquela palavra era horrível. Era difícil se auto identificar como suicida, quase incabível.
- Porque se você não cuidar de si mesma a partir de agora esse vazio pode voltar, . É assim que a depressão se manifesta com você. O pânico vem da ansiedade, mas a depressão, a pior dessas doenças... Ela é precedida pelo vazio. É sua meta a partir de agora não deixar mais que isso volte a acontecer, e se algum dia voltar, você precisa procurar ajuda antes que seja tarde mais uma vez.
Assenti. Na prática, era fácil.

Rosalie, Liv e meu pai me visitavam pelo menos duas vezes por semana, mesmo durante aquelas primeiras semanas. Elas sentavam comigo e falavam sobre qualquer coisa, enquanto meu pai preferia ficar em silêncio segurando minha mão. Acho que para ele era mais fácil entender o vazio em mim. Não havia resposta, era como se eu não estivesse ali, como se eu houvesse fugido e deixado meu corpo para trás. Eu encarava o nada e não dizia uma palavra desde a manhã até a noite. No início eu sei que eles pensavam que havia algo de honestamente errado comigo, mas a Dra. Ruschel sempre disse que era passageiro, e que mesmo que demorassem meses, aquilo ia passar. Ela estava certa, mesmo que nem eu acreditasse.
Foi num sábado, no cair da noite, que eu falei pela primeira vez depois de todos aqueles dias.
Havia um piano no salão de recreação do hospital, onde a maioria dos pacientes ia para jogar ou assistir televisão. Durante a maior parte do tempo ninguém mexia nele, pois não havia ninguém lá que soubesse tocar, mas uma vez por semana uma mulher nova sempre ia e ficava algumas horas tocando alguma coisa. Certa vez ouvi contarem a história dela: era uma ex paciente do hospital, cuja mãe sempre ia, uma vez por semana, tocar para ela, que era amante de música. Ela eventualmente melhorou e recebeu alta, mas sua mãe continuou indo todas as semanas tocar, pois percebeu que muitos pacientes gostavam de ouvi-la. Sua mãe faleceu há muito tempo, mas a mulher continuava indo lá, toda semana, para fazer o que a mãe fazia, como uma maneira de agradecer por ter saído de lá e de nunca ter voltado.
Eu estava sentada no sofá ao lado do piano naquela noite, era uma das únicas ainda na sala, e acho que ela continuava lá por causa de mim. Mesmo sem perceber, toda vez que ela estava tocando, eu sentava próxima ao piano, porque minha mente sabia que eu gostava da melodia sem que eu precisasse pensar sobre aquilo. Ela me relaxava.
Ela geralmente tocava músicas clássicas tranquilas. Eu adorava quando tocava Bethoven ou Mozart, mas não acho que meu rosto sequer dava a entender que eu gostava. Ela, então, naquela noite, decidiu mudar o repertório e começou a tocar uma melodia que eu conhecia. Eram as primeiras notas de Somewhere Only We Know, e aquela música pareceu acender algo dentro de mim, me puxar de dentro de um buraco como uma rede. Eu me lembrei, por um segundo apenas, do quanto costumava amar música, do quanto sempre tive uma relação muito profunda com o que a música me fazia sentir, e então quando ela parou, subitamente, de tocar, ainda no início da música, a palavra “não” apenas escapou da minha boca em um sussurro, como um pedido desesperado. Ela me olhou, um tanto assustada, mas voltou a tocar, e eu voltei a ser inundada não apenas com a melodia, mas também com a sensação de tudo voltando a se reconectar dentro de meu cérebro.
Rosalie quase chorou no dia seguinte quando eu respondi seu olá com um “oi”.
Uns dias depois outra coisa aconteceu. Era uma tarde que começou ensolarada, quente e bonita, e por isso quase todo mundo estava no pátio do hospital, em volta de uma pequena fonte de água sentados em bancos ou caminhando pela grama. De repente, do nada, uma chuva grossa de verão começou a cair fazendo com que todo mundo corresse para dentro do hospital, e todos passavam apressados por mim, que estava encostada à porta de entrada, olhando para fora. Por algum motivo, eu me perguntei porque todos estavam fugindo da chuva. Não tínhamos nenhum outro lugar para estar depois dali. Não tínhamos nada de diferente nunca, era todos os dias a mesma rotina fechada, sem nada nunca de novo para ver ou sentir. Enquanto todos entravam, correndo da chuva como se ela fosse algo ruim, eu dei um passo na a direção contrária. E depois mais um. E mais um.
Eu fiquei parada, no meio do pátio, de olhos fechados e olhando para cima enquanto a chuva caia sobre mim como se me lavasse por completo. E a sensação me aqueceu, apesar de que meu corpo estivesse congelando. E depois de um tempo, eu sorri.

Durante um tempo eu disse a mim mesma que odiava Rosalie por ela ter me encontrado e me tirado de lá a tempo, mas depois percebi que eu estava mentindo para mim mesma. A partir disso, sempre que olhava para ela sentia que a devia muito, não somente por isso, mas também porque eu, para ela, fui o que o paciente de minha mãe foi para mim. Ela nunca se esqueceria, e eu não tinha como apagar aquela imagem para ela.
Eu comecei a me relacionar melhor com outros pacientes e talvez pudesse dizer até que nos tornamos algo como amigos. Nós torcíamos um pelo outro, para que ficássemos bem. Conversávamos sobre coisas triviais, comentávamos sobre como sentíamos falta de coisas como hambúrgueres ou sorvetes de chocolate, e lentamente eu fui me lembrando de como estar viva tinha coisas boas a oferecer. Nós passávamos todas as tardes jogando “quem sou eu” com papéis colados na testa e apostando coisas que não eram realmente nossas como lápis de cor ou as sobremesas que cada um ganhava na janta.
E então, quatro longos meses depois de ser completamente isolada da sociedade e de tudo que me fazia mal, eu finalmente sentia que minha cabeça estava no lugar certo depois de... muito tempo. Eu finalmente sentia que, ao sair de lá, conseguiria fazer a coisa certa dessa vez. Eu devia isso às pessoas que realmente se importavam comigo. Devia à Rosalie, à Liv, e principalmente ao meu pai. Eu quase o abandonei exatamente como ela fez, e sabia que pensar nisso sempre que algum pensamento suicida passasse por minha cabeça outra vez me impediria de seguir com a ideia, porque eu não podia fazer isso com ele. Nem era tanto sobre mim.

- Viu só? – Dra. Ruschel sorriu amigavelmente. – Você está pronta, . Você aprendeu com o que passou, colocou tudo no devido lugar... Agora só precisa manter, e sabe como fazer isso também. Saúde mental é como qualquer outra parte da sua saúde, você precisa cuidar, fazer a manutenção e manter um olho sempre aberto. E, sempre que precisar de qualquer coisa, qualquer coisa, senhorita Schäfer, você pode me procurar.
Soltei o ar pela boca, assentindo. Ela estava certa, eu podia fazer aquilo. Era bom estar saudável, mas era um serviço constante.
- Certo.
Nos levantamos, e sem saber ao certo como agir, eu me aproximei e nos abraçamos brevemente. Era um adeus por enquanto, e eu esperava que não precisasse voltar a vê-la. Estava pronta para ir embora daquele lugar.
E foram bons meses fora da clínica. Consegui, de certo modo, me manter afastada de tudo que me fazia mal durante esse tempo, passando os dias com Liv e Rose e ajudando meu pai a ser uma pessoa melhor também. Foi o mais perto que eu cheguei de ser uma pessoa normal, mas a depressão não é algo que você cura completamente, ela sempre está ali, apesar de poder ser controlada. Eu não estava cem por cento bem, mas a cada dia eu ficava mais perto disso. Eu havia conseguido juntar todos os pedaços quebrados dentro de mim e colá-los, e segurava firme neles para que não se quebrassem mais. Foram bons e longos meses sem nenhum pensamento ruim.
E então, ainda estando vulnerável, ainda sendo cedo demais, eu conheci Kevin.



Niall’s POV
2 anos antes.

- Cinco, quatro, três, dois, um! – Evan gritou quando terminou a contagem regressiva com Georgina e Aymer, que bateram no balcão do bar com tanta força que eu achei que a madeira ia ceder e quebrar. – Acabou! – Ele arrancou a caneta de minha mão e eu gritei com ele, rindo em seguida.
- Eu acabei, porra! – Bati no peito, atraindo o olhar de todo mundo para nossa mesa, que conseguia ser ainda mais barulhenta que a banda que fazia um cover do Nirvana no pequeno palco do restaurante-bar. Georgina gritou também em total apoio.
- Crianças, se vocês puderem fazer menos barulho, eu agradeceria – Shamus McVey nos lançou um olhar bravo. – Ninguém quer um bando de pirralhos atrapalhando a noite sagrada do underground. Não está na hora de vocês irem para casa?
- São sete horas ainda, Shamus – Aymer revirou os olhos. – Você adora nos ter aqui, atrai novos clientes.
- Vocês os espantam – corrigiu o dono do bar.
- Isso não é justo – Georgina colocou a mão no peito. – Eu achei que você gostava quando limpamos as mesas de graça depois das Quartas de Polka.
Acenei com a cabeça, concordando. Irlandeses sabiam louvar sua cultura. E fazer bagunça no processo.
- E eu achei que era um trato para que eu não ligasse para os pais de vocês contando que vocês estavam aqui ao invés de estarem na aula de qualquer que seja a aula extracurricular que crianças ricas têm – devolveu com uma cara feia.
- Tenho certeza que o trato envolvia bons modos com as partes envolvidas – Aymer insistiu.
- Então tratem bem meus clientes! – Resmungou.
- Nós só estávamos comemorando! Hoje é aniversário do Niall! E nós temos um Bethoven aqui! É o próximo Bono Vox! – Evan se justificou, apontando para mim.
- Ah, sim, é exatamente disso que o mundo precisa agora – soltou uma risada amarga enquanto secava um dos copos do balcão. Os copos estavam secos, limpos, lustrados e o que mais ele estivesse tentando fazer: o cara apenas gostava dessa visão romântica do bartender que se intromete na vida de todo mundo com um comentário muito sábio e muito enigmático.
Mas ninguém dava a mínima porque, na maioria das vezes, ele fazia as pessoas se sentirem mal por estar perto.
Ainda bem que a cerveja dele era barata e as bandas que se apresentavam aqui eram boas.
E nós... bem, tínhamos sangue de barata, mesmo.
E um apreço por aquele quarentão barrigudo e rabugento.
Tanto que sempre comemorávamos meu aniversário naquela espelunca e eu ficava namorando o palco, sonhando com o dia que poderia me apresentar ali.
Aymer queria ser dono de um bar por causa dele. Uma pena, porque acho que os planos dos pais dele seguiam outros rumos, algo sobre exportações internacionais e o ramo da agricultura em países subdesenvolvidos. Era a mina de ouro, segundo um dos engravatados que andavam com o pai dele.
Stupid people.
Para minha sorte, Greg servia de depósito dos sonhos do meu pai, por ser o mais velho.
- Sim, eu concordo. – Continuou Aymer, fazendo Georgina rir da cara de Shamus. – Por isso damos a maior força para nosso amigo aqui.
- É verdade – abri um sorriso convencido.
- E posso saber o que a princesa fez de tão especial? Aprendeu a mijar fora das fraldas?
- Putz, ainda não, Shamus, mas um dia quem sabe você possa me ajudar – pisquei para ele, que bufou.
- Niall acabou de escrever uma música – disse Georgina.
- Grande coisa? – Ele nos direcionou seu melhor olhar de desdém e Aymer lhe mandou um beijo.
- Em vinte minutos.
- Deve falar sobre beterrabas e o tempo – garantiu o dono do bar.
- Ouch – coloquei a mão no peito. – Mas não. Fala sobre a subjetividade do ser humano diante da dificuldade de resolver problemas de ordem existencial.
- É, filosofia pura – Evan assobiou.
- E eu aproveitei e escrevi uma pequena ária para um acordeão me acompanhar nos dias de Polka – acrescentei. – Ah, e violino também, porque a música clássica não pode jamais ser negligenciada.
Aymer soltou uma risada.
- Não deve estar nem cifrada – apostou Shamus.
- Quer ver? – Estendi a folha de papel.
Shamus encarou a folha com certa desconfiança, como se aquilo fosse ganhar vida e morder seu traseiro. Mas, rapidamente, abriu um sorriso maquiavélico.
- Se você diz que está tão boa, que ele é o próximo Bono Vox: cante. – Propôs e Aymer quase engasgou com seu refrigerante.
- É o quê? – Evan arqueou as sobrancelhas, tão surpreso quanto eu, Aymer e Georgina.
- Você vai deixar ele tocar no palco? No seu palco? – Georgina abriu um sorriso incrédulo e Shamus assentiu, ainda provocativo. – No palco onde só os bons pisam? No palco onde quem realmente gera lucro para esse bar pode subir? – Ela começou a recitar os motivos pelos quais Shamus nunca nos deixou tocar naquele restaurante-bar.
- É, é, é, esse mesmo! – Ele confirmou com impaciência, fazendo-nos rir. – Vai lá. – Olhou-me nos olhos, como se me desafiasse a fazer isso.
Olhei para a folha de papel, mais incerto do que tentava demonstrar. Era só um poema com rimas fortes, duas estrofes e um refrão de dois versos. Não era nenhuma sinfonia, nem uma música digna de um dos vinte e dois Grammys que o U2 possuía.
- E, se você for sequer aplaudido, eu coloco cerveja em copos de refrigerante para cada um de vocês – aumentou a recompensa com um sorriso maligno, falando mais baixo para que não fosse pego na ilegalidade de oferecer bebida alcóolica para adolescentes de quatorze anos.
- Cacete, Niall, vai! – Georgina me beliscou, falando baixo.
- Você consegue, cara! – Aymer concordou.
- Afinal, o que temos a perder? – Evan abriu um sorriso, sendo positivo quando a verdade era bem outra.
- Vocês estarão banidos daqui se as pessoas não gostarem – Shamus disse simplesmente.
Meu queixo caiu diante da pressão que ele havia acabado de colocar.
- Caramba, Shamus, eu achei que você gostasse de nós, mesmo que lá no fundo – Georgina tampou a boca, fingindo choque.
- Não existe fundo, pirralha – disse ele.
- Uau, quanto drama – Aymer revirou os olhos.
Evan me afastou do balcão indo em direção ao palco onde a banda já recebia uma orientação de um dos garçons do Shamus sobre nós. O vocalista nos olhou sem entender nada, mas assentiu e tirou a guitarra dos ombros, colocando-a no suporte.
- Gente, vocês nem viram a música... – comecei.
- Não importa. – Afirmou Aymer. – Tem cerveja, nosso bar e sua dignidade em jogo. Você não tem tempo para decidir nada.
- Só. Vai. – Evan assentiu.
- Eu nem sei a melodia direito!
- Niall, você fez essa música em vinte minutos! Você não acha que vai conseguir? – Aymer bufou, impaciente como ele geralmente ficava quando eu mostrava muita insegurança. Ele era esse tipo de amigo que tinha como missão de vida te colocar para cima. Eu até agradeceria se, na maioria das vezes, na hora H, eu só queria me acovardar e me afogar em autopiedade.
- Você é incrível e sabe disso! – Foi a vez de Georgina falar e arqueei as sobrancelhas, surpreso. Ela sorriu. – Você consegue! Nós acreditamos em você! – Exclamou antes de colocar as mãos em meu rosto e me dar um beijo na boca. Acabou tão repentinamente quanto começou e eu estava estático. Nunca havia beijado uma garota e agora a primeira foi exatamente uma das minhas melhores amigas. Ela sorriu para mim, um pouco sem graça, porém havia ferocidade em seus olhos. – Não perde o nosso bar!
Os meninos, que estavam tão chocados quanto eu, conseguiram se recuperar da surpresa mais rápido que eu e me empurraram até o palco. Sentei-me na banqueta e me entregaram um violão, o papel com a letra da música já havia sido pregado no pedestal do microfone. Toquei algumas cordas para ouvir a afinação e, estando tudo certo, engoli seco quando olhei para as pessoas nas mesas mais próximas que me lançavam olhares curiosos.
- Vai, Niall! – Georgina me deu apoio, mas eu não consegui olhar para ela porque uma luz vinha do teto bem em cima de mim e atrapalhava minha visão. Apenas sorri.
Diga alguma coisa, Niall!,minha mente gritava.
- Ahn... – limpei a garganta. – Boa noite. – Algumas pessoas me responderam. – Bom... eu queria pedir que mantivessem a mente aberta... Eu não quero perder minha dignidade. – Balancei a cabeça negativamente quando me dei conta do que falara, mas já era tarde demais e algumas pessoas soltaram risadas, o que me deixou um pouco menos receoso. – Eu acabei de compor essa música então...
Interrompi-me e olhei o braço do violão, posicionando meus dedos no acorde que estava definido no papel e comecei a tocar. Tentei prestar atenção na melodia, que até estava boa até começar a cantar as primeiras palavras e vi que, na verdade, outra melodia seria completamente melhor e mudei a próxima nota sem pudor. Fiz isso mais vezes do que gostaria de admitir ao longo da música, mas as notas simplesmente vinham à minha mente à medida que eu lia mais palavras e as coisas iam apenas acontecendo, eu nem precisava me esforçar muito para saber que a próxima nota não ficaria tão legal assim com a próxima palavra. Em algum momento da apresentação, no entanto, eu comecei a me empolgar e acabei atropelando as palavras, tendo que correr com elas em alguns pedaços e, por isso, fechei os olhos e resolvi dedilhar o violão num estilo livre, lembrando-me de algumas melodias que gostava de tocar em casa, deitado na cama enquanto deixava a mente vagar. Mas dessa vez, enquanto eu dedilhava, pensava em como retomar a música e, chegando a um resultado mais rápido do que esperava, voltei a cantar a última estrofe da música e terminei com mais um pouco de dedilhado para não deixar a música morrer de forma tão abrupta e, por fim, parei.
Houve silêncio e meu coração batia rápido demais e o barulho era tão alto em meus ouvidos que, por reflexo, coloquei a mão em cima do microfone com medo de que ele amplificasse o barulho e todos pudessem ouvir o som do meu nervosismo. O silêncio, no entanto, não durou mais que alguns segundos.
- Gente! – Uma mulher se levantou. Ela soava alterada pela bebida. – Ele acabou de compor isso! Eu tô... – Ela começou a bater palmas bem marcadas e, então, o lugar explodiu em aplausos e gritos de encorajamento.
- Ficou muito bom, cara! – Alguém disse, mas não consegui ver ainda por causa da luz.
- Obrigado – agradeci, constrangido. – Obrigado. – Levantei-me e entreguei o violão para um dos caras da banda.
Voltei para perto dos meus amigos e fui recebido com gritos de comemoração e tapas na nuca. E Georgina me deu outro beijo, esse com mais movimentos e tempo.
Meu coração ainda batia rápido, mas agora por um motivo completamente diferente; ser apoiado por gente que você conhece é ótimo, mas receber apoio de quem não te deve nada, nem sabe nada da sua vida é uma coisa completamente inexplicável.
E, naquele momento, naquele breve momento de loucura incontestável eu aprendi três coisas: eu sou muito irlandês por fazer isso tudo por um pouco de cerveja; o beijo de uma garota pode dar o maior sopro de coragem que você precisa e, por fim, que eu sabia exatamente o que eu queria fazer pelo resto da minha vida.
E eu estava decidido quanto a isso.

Harry’s POV
2 anos antes.

— Você ainda está brava comigo? – Olhei para ao meu lado, que desde que entramos naquele vagão de trem não havia movido a cabeça para me olhar nem uma vez. – Caramba, , já faz um mês!
Nada. Ela continuava olhando para a paisagem lá fora e com os braços cruzados como se ainda tivesse dez anos. Eu já sabia que era um puta de um burro idiota, ela achava que o quê, ficar brava daquele jeito para sempre ia nos ajudar em alguma coisa?
— Escuta, nós vamos dar um jeito. E além disso, não acha que é um pouco injusto o que está fazendo tentando me dar o tratamento do silêncio, sendo que você concordou com todo o plano junto comigo?!
Bingo. Ela virou o rosto para mim quase que como aqueles robôs do Exterminador do Futuro, e se tivesse visão de raio laser eu já seria um presunto.
— Não fui eu que praticamente deixei um mapa do tesouro pendurado na frente da cara da minha mãe para eles nos encontrarem! Cinco horas depois, Harry, cinco fucking horas! Uma vergonha, é isso que nós somos! Uns idiotas que tentaram fugir de casa e não chegaram nem na esquina! Você me envergonha! E agora estamos aqui! Por sua culpa!
Respirei fundo, contendo toda a minha própria frustração para não começar a gritar também porque de estressada ali já tinha ela, e só faltava a gente ser expulso do trem também para a vergonha ficar completa.
— Eu não pensei nisso sozinho.
— Eu fiz a minha parte muito bem!
— Ok, , nós temos quinze anos e tentamos fugir de casa! – Explodi, jogando as mãos para cima. – Você acha mesmo que isso ia dar certo por quanto tempo? Você tem que admitir que foi a pior ideia que você já teve. Esperava o quê? Há anos que eles estavam te avisando que isso ia acontecer, há anos que as suas ideias absurdas nos metem em roubada e eu ainda concordo porque sou um belo de um idiota. E agora estamos indo para uma prisão no fim do mundo onde vamos passar o resto da nossa vida adolescente e só vamos sair de lá quando estivermos com a mente moldada para sermos velhos chatos e obedecer às regras, sim, mas você está vendo eu reclamar e botar a culpa em você?! Fizemos isso juntos. E foi sua mãe que teve a ideia.
— A sua assinou embaixo. E não é uma escola militar. – Ela retrucou.
Dessa vez fui eu que lhe lancei um olhar mortal.
Voltamos a cair no silêncio, e enquanto isso eu pensava que de algum modo a gente ia superar aquilo. Talvez não fosse tão mal... Ah, a quem eu queria enganar? Tentamos fugir para nos vermos livres dos nossos pais e ao invés disso conseguimos menos liberdade ainda. Aquela foi mesmo a pior ideia que a gente teve. Agora já estava feito. ia ter que aceitar, e eu também.
Durante todo o trajeto até a província de Carlisle, no condado de Cúmbria, lá do outro lado do mundo, nós ficamos quietos. E depois o mesmo aconteceu no táxi que nos levou até o tal colégio. O lugar era uma imensa propriedade quase que medieval, rodeada por um muro enorme, e quando o táxi parou perto do portão e nós descemos, percebemos uma fila de ônibus escolares abarrotados de alunos adentrando o local.
Foi uma grande caminhada até o pátio principal, onde estavam concentrados a multidão de alunos de todas as idades, alguns já uniformizados e outros – como nós – ainda não, parecendo perdidos também. No caminho até lá nossas malas foram levadas e recebemos folders e instruções de para onde ir e o que fazer. Ao pararmos junto a outros alunos que estavam recém chegando, ouvimos um breve discurso do diretor da escola sobre dar as boas vindas a nós, que éramos novos, e que podíamos contar com a ajuda de todos os membros do colégio, desde alunos até a direção. Ok, balela. Eu quero saber onde tá a comida. Estava azul de fome.
Depois disso eu e nos separamos. Ela seguiu um grupo de garotas até o dormitório feminino e eu fui junto com uns caras para o masculino. Durante todo esse trajeto, fiquei olhando em volta e desejando que aquilo não fosse tão ruim quando eu esperava. Me sentia um garotinho de cinco anos, sozinho em um lugar novo e enorme, e sem fazer ideia do que fazer agora. O fato de saber que estava ali comigo, mesmo que ela passasse o resto da vida me culpando por termos ido parar ali, já era um enorme alívio. Eu não estava completamente sozinho.
Demorou e foi meio difícil no meio de todas aquelas pessoas novas e tão perdidas quanto eu, mas com um pouco de paciência encontrei o meu quarto, que era no segundo andar no final do corredor. A porta estava escancarada, e eu ouvia um tipo de música vir de lá de dentro, que percebi ser do videogame na TV quando adentrei o quarto.
Tinha dois caras sentados, um na ponta da cama e o outro no chão, vidrados na pequena TV e com os controles na mão. Um deles tinha o cabelo meio escroto e o outro estava sem camisa, e como só tinha duas camas ali, imaginei que só um fosse o meu colega de quarto.
— Pelo menos tem videogame. – Comentei baixo, ao soltar as coisas que tinha na mão em cima da cama arrumada.
Um deles pareceu me notar ali e deu pause no jogo, se levantando.
— Não, meu caro – ele foi até a porta e a fechou, depois de olhar para o movimento no corredor. – Só o que temos aqui é uma TV velha que só mostra estática.
Olhei para o jogo pausado na tela.
— Hum. Ok?
Ele veio até mim e estendeu a mão.
— Louis. – Apertou minha mão quando eu a estendi. - O outro cara é o Josh. Não confie nele, ele é estranho.
— Sou o Harry. – Respondi, olhando para o garoto que levantava do chão.
— Você vai querer confiar em mim quando vir que eu sou o cara que você chama quando precisar de qualquer coisa. – O garoto disse, abrindo um sorriso e vindo me dar um abraço, com batidinhas nas costas.
Nós não éramos assim tão receptivos de cara na outra metade da Inglaterra, mas sei lá, nunca vim aqui para cima antes. Talvez eles fossem diferentes. Ou o garoto realmente fosse estranho. Ele me soltou e olhei para a TV de novo.
— Por que não temos um videogame?
— Ah. – Louis olhou para lá também. – Eu sou o único que trouxe. Eu e os caras vendíamos ingressos para os outros jogarem ano passado, a gente até fez uma grana com isso, então o colégio proibiu. Agora a gente não tem mais esse videogame, porque supostamente ele voltou para a minha casa em uma caixa cheia de cuecas sujas. Capiche?
Ri. Talvez aquilo ali não fosse tão mal, junto com as pessoas certas.

Saí do banheiro depois de vestir o uniforme que me foi dado, e olhei para mim mesmo fazendo uma careta. Olhei para Louis, que já me esperava com a mochila pronta para ir almoçar e depois ir para a aula.
— Isso é mesmo necessário?
— Infelizmente. Sei que no começo você se sente embrulhado para presente, mas depois acostuma. É até bom para não sujar tanta roupa, sabe, senão você acaba se vendo sem nada limpo no meio da semana.
Resmunguei. Passei a mão pelo cabelo e então fui até a cama, fechando minha mochila e a colocando no ombro.
— Vamos lá, a gente tem uma hora de almoço antes da aula começar. – Ele foi até a porta e o segui. – Ah, e você vai querer botar isso. Eles enchem o saco. – Disse, me entregando a gravata azul marinho que peguei da sua mão ao passar.
- Eu não sei dar nó em gravata. – Enfiei o tecido no bolso.
- É melhor aprender.
Saímos daquele prédio e subimos uma ladeira até o outro bloco, onde segundo ele ficavam as salas de aula, a biblioteca e a cantina. O bloco estava cheio, em sua maioria perto da cantina, de onde vinha um cheiro muito bom de comida feita na hora. A fila estava enorme, e enquanto estávamos lá eu fiquei olhando em volta naquele monte de gente tentando encontrar . Enchi meu prato e depois de finalmente chegarmos no final da fila eu segui Louis até uma mesa, ao centro do salão e perto da porta de entrada, onde estavam Josh e outros caras.
— Vai pra lá – Louis disse a um dos garotos, que o olhou com um sorriso debochado.
— Você quer sentar aqui para ver a sua namoradinha?
— Vai à merda, Liam. - ele resmungou sentando quando o tal de Liam pulou uma cadeira e abriu espaço para a gente.
— Que namoradinha? - Josh perguntou.
— Ele senta aqui nesse lugar há semanas agora pra poder ver a garota. — O tal de Liam apontou para uma mesa ao longe onde estava sentada uma menina pequenininha comendo sozinha. — ela senta lá todo dia.
— Eu sento aqui porque dá pra ver se ainda tem bolo, seu babaca! - Louis se explicou, dando um tapa na nuca do cara ao seu lado.
— Fale o que quiser, mate! - o garoto riu, provocando.
— Louis sempre gostou das estranhas. - Josh debochou e eu ri, levando uma almôndega à boca. Louis me olhou.
— Você também não!
Levantei as mãos, ainda rindo.
— Legal, Liam, o novato nem chegou e você já tá mostrando a ele como ser um babaca.
— Olha só, fica calmo aí. Não precisa partir para a agressão só porque a gente citou a sua vida amorosa super movimentada. – O garoto soltou os talheres no prato e passou a mão na calça, enfiando o braço na frente de Louis para me cumprimentar. – Eu sou Liam Payne. Jogo no time, conheço a galera, moro aqui desde que nasci. Se você precisar de qualquer coisa, eu sou seu cara.
— Mas não é qualquer coisa assim, né Payne? Ou você tá fácil assim?
— Esse é o Josh. – Ele disse, ignorando o amigo e apontando para ele. – Ele é encarregado da fofoca e dos comentários inoportunos.
Soltei uma risada.
— É, eu estou me familiarizando com o Josh.
O garoto piscou para mim e soltou uma risada. E não é que ele era bizarro, mesmo?
— Enfim, né! Como eu ia dizendo, dessa vez fiquei com um bolsista dinamarquês que mal fala a nossa língua. – Josh continuou dizendo o que falava antes. – Pelo menos não vamos ter os problemas que tivemos no ano passado com o Erwin, aquele escroto. Esse cara novo não vai roubar as minhas cuecas. Se ele roubar...
— Que fim deu o Erwin?
— Se mudou com o pai, sei lá.
— Vocês viram que a Tiffany tá organizando um festa na casa dos pais na cidade? Acho que é de boas vindas ou sei lá. – Liam disse, enquanto comia, e eu fazia o mesmo apenas acompanhando o assunto. – Vou cair de boca naquelas tetas.
— O Lance tá comendo ela.
— É melhor o Lance partir pra outra. Tô esperando isso desde o ano passado!
— Aí... caras. – Louis chamou, depois de olhar em volta por um tempo. Fiz o mesmo e percebi que aquela mesa em que estávamos recebia bastante olhares, até. Acho que aquele Liam era meio popularzinho por ali. Também, se ele realmente vivia naquele colégio há tanto tempo quanto falava. – Vocês estão notando essa movimentação diferente?
—O colégio tá cheio de novatos – Liam deu de ombros.
—Não... – Ele estreitou os olhos e aí parou o olhar em uma mesa ao lado da nossa, um pouco para frente. – Ali. – Apontou e eu olhei. A mesa estava cheia de garotas, que pelo modo como cochichavam juntas já se conheciam há tempos, então não eram novas. – A abelha rainha ali no meio é a Sally Hyland. Ela é muito gostosa. E ela tem uma certa fama, se é que você me entende...
— Eu vim de cidade pequena, mas não sou retardado.
Ele riu.
— É, então... Ela transa com os novatos. Não todos eles, é tipo uma lista bem seleta, uma lista VIP. Você só vira uma figura importante nesse colégio depois que passa pela lista da Sally, ou, no caso das garotas, que vira concorrência para ela. – Olhei para o garoto ao meu lado, que resumia mais ou menos a vida social daquele colégio para mim, mostrando o que eu já imaginava: nem tudo era tão perfeitinho quanto aqueles muros e o uniforme demonstravam. – Entendeu? E aí tem a e a , que basicamente colocam as outras no bolso. Elas não querem admitir, porque são legais demais, mas existe essa hierarquia entre as garotas desse colégio, onde elas estão no topo e todo o resto, inclusive a Sally, são basicamente suas vadias.
Ri e balancei a cabeça. Caramba. Gente rica. Louis olhou em volta, procurando.
— Elas devem aparecer por lá logo mais.
— E por que está me contando isso tudo?
— Bom, primeiro, pra você saber como funciona. – Ele voltou a comer, levando o garfo à boca. – E depois porque eu conheço aquele olhar no rosto da Sally. Acho que ela quer você. – Ele abriu um sorriso malicioso para mim.
— Aí está você! - ouvi alguém falar e olhei para o lado, vendo puxar a cadeira da ponta da mesa e se jogar nela, soltando sua bandeja na frente. — Eu me perdi nesse negócio, andei dois quilômetros, eu acho! Fui parar até no ginásio. Por que tem que ser tão grande?!
Ela ainda estava irritadiça, mas agora não era comigo, pelo menos, e abri um sorriso empolgado para ela, ansioso para contar que acho que eu havia dado a sorte grande: encontrei caras legais para a gente. revirou os olhos e empurrou o meu rosto para longe dela.
— Olá. - Liam disse a ela, soltando os talheres. - Liam. Josh. Louis. - apontou para ele e os outros. — Você é novata?
— Vocês se conhecem? - Louis me perguntou.
— É, viemos do mesmo lugar. — Expliquei, enquanto comia.
— Mesma cidade. Mesmo bairro, até. - ela completou.
— Ah, é? - Louis nos olhou, curioso.
— É, a gente se conhece desde o berço ou sei lá. - dei de ombros e me virei para . — Eles usam gravatas aqui! — Disse tirando a minha do bolso.
— Eu sei... — Ela reclamou com um muxoxo, mexendo na própria gravata que usava por baixo de um colete de lã azul e por cima de uma camisa branca.
— Elas são opcionais para garotas, você sabe. - Liam disse a , e olhou em volta. — Quase nenhuma usa.
— Elas ficam melhores assim, podemos combinar. - Josh abriu um sorriso de canto e eu e o olhamos.
— O Josh faz comentários inoportunos. – Liam avisou a ela também. – Não dá bola.
fez uma careta para ele e riu.
— Quer que eu bote? – Ela tirou a gravata da minha mão e começou a arrumá-la.
— Então você não me odeia mais? – Abri um sorriso convencido para ela, que abriu outro irônico para mim e botou a gravata no meu pescoço.
— Eu ainda posso te enforcar com esse negócio.
— Eu sou a única pessoa que você tem aqui! – Brinquei, fazendo careta. - Como é sua colega de quarto?
— Uma estranha mal educada. Só atirou o uniforme em mim e disse para eu seguir os outros até aqui.
Ri.
— Não é engraçado. Você pode acreditar? Eu não vou conseguir mais me livrar de você nem se quiser agora!
Gargalhei e me afastei quando ela terminou de dar o nó.
— Há quanto tempo vocês estão juntos? - Liam perguntou.
Olhei para ele e tomou um gole do refrigerante, rindo e tossindo ao mesmo tempo.
— Não estamos juntos. - a gente falou quase ao mesmo tempo.
— Ah – foi o que ele disse, e Louis que estava concentrado em sua comida começou a rir com um barulho muito estranho, logo levando os outros da mesa e nós dois a fazermos o mesmo.
— Tenso! - ele disse, nos fazendo concordar.
— Qual vai ser a sua primeira aula? – Ela me perguntou, enquanto comia, e eu pensei antes de responder.
— Inglês, eu acho. E a sua?
—Educação física. – Ela abriu um sorrisão.
— Legal, eu também. – Liam disse a ela. –A treinadora vai começar a escolher os novos times essa semana. Posso te levar ao ginásio, se você quiser.
— É a única parte do colégio que eu já conheci! – Ela disse, rindo. – Mas beleza, pode ser. – Deu de ombros, e ele concordou.
Eu e trocamos um olhar, e pisquei um olho antes de voltar a comer, querendo dizer que “viu só? Pode não ser tão mal assim.” Talvez a gente tivesse tirado a sorte grande.


’s POV
2 anos antes.

- Esse não vai dar mesmo – estalei a língua olhando para meu reflexo no espelho.
- ! Já é o quinto! Eu preciso estudar! – choramingou da tela do meu notebook aberto em cima do puff e virado para o enorme espelho que servia de porta para um dos espaços do meu closet.
- , quem estuda num sábado à noite?! Eu estou entrando em combustão espontânea aqui!
- Você ficou ótima em todas as roupas que vestiu! – Gritou de volta.
- Estar boa em todas é estar boa em nenhuma!
- Você não está falando nada com nada e sabe disso, né?
Soltei um muxoxo de frustração e me ajoelhei em frente ao puff.
- Eu vou conhecer os pais dele hoje. É importante causar uma boa impressão.
- Honey, você é uma boa impressão! – Ela revirou os olhos, com um meio sorriso.
- Você é obrigada a falar essas coisas. Eu pago seus macarons!
- Falando nisso, a última caixa que você me trouxe estava muito boa, mas preferi a outra... daquela padaria do centro de Liverpool.
- E você ainda é exigente! – Revirei os olhos.
- Tanto faz, mas isso não quer dizer que eu sou obrigada a te paparicar. Eu voto no vestido preto. E os Jimmy Choo.
- Qual dos sete, ?
- Ugh...
- Ok! Ok! – Segurei o riso. – Acho que sei de qual você está falando.
- Ótimo! – Levantou as mãos para cima.
- Pare de ser tão mal-humorada. – Fiz uma careta para ela. Lá fora, ouvi o portão da garagem ranger, um pequeno probleminha que sempre me anunciava quando alguém da família chegava, já que meu quarto ficava em cima da garagem. – Meu pai chegou – comentei, mas prosseguiu com sua reclamação.
- Eu não gosto desse cara.
- , você nunca gostou de nenhum namorado que eu tive. Nem mesmo o Liam!
- O Liam teve a infelicidade de entrar no pior cenário possível – revirou os olhos. – Não é como se ele fosse má pessoa ou se tivesse te sacaneado. Eu gosto dele, só não gostei naquela época. Agora, esse Owen...
- Não começa – avisei.
- Ele não te respeita. Não sei. – Balançou a cabeça. Bufei e me afastei do notebook, indo em direção ao cabide com o vestido preto pendurado. Peguei o par Jimmy Choo no caminho. – Eu ainda acho que ele não queria te apresentar os pais dele hoje. Ainda acho que é só porque você pediu...
Desliguei-me do que ela dizia; não me levaria a nada alimentar todos esses pensamentos negativos sobre meu namorado. Havia essa segurança que ele me passava, esse sentimento bom de conforto e paz, de que ele me entendia, que me aceitava, de que me amava como eu não pude experimentar com Liam porque éramos mais amigos que qualquer coisa e nem mesmo a atração física justificava mais nosso rótulo de relacionamento.
Eu amava Owen e, depois dessa noite, acho que eu seria finalmente capaz de lhe dizer isso.
Abri um sorriso, aproveitando que estava de costas para o notebook, de onde já não falava mais.
Peguei o celular para ver se ele já havia me respondido sobre a confirmação do horário em que nos encontraríamos em frente ao Dempsey's no centro da cidade. A mensagem havia sido visualizada, mas ele não me respondeu, provavelmente ocupado com outra coisa. Mandei uma interrogação para lembrá-lo de me responder.
- Já volto! – Avisei a enquanto caminhava até a porta do meu quarto. Parei no corredor e, segurando-me no corrimão, olhei de cima o primeiro piso da casa à procura de meu pai, mas não parecia haver movimentação lá embaixo, apesar das luzes acesas. – Lauretta? – Chamei, mas também não tive resposta.
Descendo as escadas minha mente começou a me levar para filmes de terror e suspense, dizendo-me que era exatamente assim que a garota loira e burra sempre morria. Ótimo, . Você está indo bem na direção do assassino, muito inteligente. Apesar desses pensamentos sem nexo, fui guiada pela certeza de que alguém havia aberto a porta da garagem e, provavelmente, entrou na casa. A sala de estar estava vazia, apenas a lareira queimando fazia barulhos de madeira estalando e o escritório de meu pai seguia do mesmo jeito com as luzes apagadas, a sala de TV tinha somente as luzes das arandelas acesas, mas a TV estava desligada.
- Pai? – Chamei quando ouvi barulho vindo da cozinha.
- Seu pai ainda não chegou, querida – foi Lauretta quem disse. Respirei um pouco aliviada por ouvir a voz da nossa governanta e não a de um homem qualquer prestes a matar.
- Ele deixou algum recado dizendo que horas ia voltar? – Perguntei, parando à porta da cozinha. Lauretta estava atrás do balcão da ilha anotando algumas coisas em seu bloco de planejamento.
- Apenas que iria jantar em casa.
- E minha mãe?
- Ela não deixou recados.
Típico, pensei.
- Você não ia sair?
- Vou, sim. – Voltei meu olhar para ela com um sorriso. – Vou conhecer a família de Owen.
- Ah! – Ela soltou uma exclamação como se não esperasse por isso. – Bom, se ele não aparecer, continue sua noite mesmo assim. Ouvi falar de um filme ótimo que está passando no cinema... algo do Batman. Estão falando muito bem.
- Batman! Vou chamar o Owen...
- Não! Estou falando de ir sozinha, passar um tempo sozinha, seguir sua vida, entendeu? – Lauretta parecia nervosa.
- Tá... – Franzi o cenho. – Ok, Lauretta, passar um tempo sozinha, já entendi.
Levantei as mãos em rendição e dei as costas para ela, voltando para o meu quarto para me arrumar e ver se Owen havia me respondido.
- Voltei – anunciei, pulando em frente à câmera do notebook. estava de fones de ouvido e parecia concentrada, ela apenas olhou para mim e assentiu, voltando a olhar o que quer que fosse. Dei de ombros, indo pegar o vestido pendurado.
- Sabe, eu estava olhando enquanto você não estava aqui... – começou. – Esses sapatos não estão legais. Era melhor que fosse um tipo scarpin.Parece mais comportado.
- O que isso quer dizer? – Arqueei uma sobrancelha para ela, que gargalhou.
- Nada, , apenas que você devia trocar de sapato.
Balancei a cabeça para ela, ponderando se eu lhe dava ouvidos ou lhe dava uma resposta afiada. ficava chata quando o assunto era Owen.
Respirei fundo, olhando uma última vez para a roupa pendurada e o par de sapatos encostado à porta.
- Ok, talvez você tenha razão. – Admiti.
- Eu disse que ele não prestava...
- Sobre os sapatos, !
- Ah – ela mordeu o lábio inferior para reprimir uma risada maldosa.
Andei pelo closet em busca de um scarpin preto, mas não consegui achar.
- Droga, Mandy! – Murmurei, revoltada ao me dar conta de que ela provavelmente pegou meu sapato como sempre fazia quando eu não estava em casa.
Incrível como meus sutiãs eram pequenos para ela, mas todo o resto do nosso corpo era compatível!
- Ok, boa noite, bom jantar com os pais do seu namorado, até amanhã! – começou a se despedir.
- Droga, droga, droga! – Bufei.
Sempre que eu precisava pegar algo com Mandy era uma guerra infinita. Mesmo que fosse para pegar de volta. Despedi-me de , fechando o notebook em seguida com certo pesar. Ela estava em casa, Lauretta disse que sim, mas eu esperava que não, assim eu poderia entrar no quarto dela sem ter que, de fato, lidar com ela. E, ao invés de me levantar e ir resolver isso de uma vez por todas, fiquei sentada no chão em frente ao puff encarando o nada pensando sobre como eu queria ter uma irmã normal pelo menos uma vez na vida. Eu merecia isso, não merecia?
Fiquei pensando em razões pelas quais eu merecia aquilo até que, voltando a mim, desviei meus olhos para o relógio que ficava em cima de uma cômoda que eu conseguia ver de dentro do closet e notei que passei cinco minutos naquela posição sentindo pena de mim mesma.
Levantei-me de uma vez e saí do quarto, pegando meu celular no meio do caminho. Owen não me respondia há algumas horas, o que estava começando a me preocupar.
Resolvi ligar para ele enquanto ia atrás do sapato certa de que, talvez, se eu estivesse ocupada com o celular, Mandy desistiria de encrencar pelo menos naquela vez. Disquei o número dele assim que cheguei à porta do quarto dela, que era separado do meu por um banheiro social. No celular, ouvi o bip que indicava que a chamada fora encaminhada e começou a chamar.
Estendi a mão para abrir a porta do quarto dela – sim, bater não era exatamente um hábito cultivado entre nós – quando um barulho vindo de dentro do cômodo me fez parar no meio da ação. O toque de celular abafado vinha lá de dentro e tocava simultaneamente ao barulho da chamada no meu celular.
Coincidência, foi o que eu pensei.
Encerrei a chamada e o celular lá dentro parou de tocar também.
Sem acreditar aonde aquilo estava indo, disquei o número dele mais uma vez apenas para ouvir o toque recomeçar lá dentro. Encerrei a chamada novamente, dessa vez no segundo toque.
- Fuck – ouvi a voz masculina abafada, mas tão conhecida que podia distinguir claramente. Cobri a boca com a mão livre, sentindo o sangue virar gelo em minhas veias.
- Ignora isso – pude ouvir Mandy dizer baixo. – Nem sei por que você ainda está com ela.
Ele não respondeu, mas soltou uma risada. E, honestamente, eu não sabia se uma resposta com palavras seria pior que aquela risada. Depois disso, não disseram mais nada, mas eu não precisei de muito mais que aquilo para saber o que estava acontecendo.
Afastei-me da porta com cuidado para não fazer nenhum barulho, desci as escadas com um pouco menos de cautela e corri para o escritório de meu pai. Parei atrás de sua mesa, ligando com impaciência o computador dele. Eu sabia, de alguma forma, eu sabia. Mas se aquilo ia causar o rombo que eu tinha certeza que causaria, precisava ter certeza, precisava de uma confirmação.
Digitei rapidamente a senha do sistema de segurança da casa, procurando entre as câmeras pelo quarto de Mandy, mas acabei me frustrando quando vi que a câmera do quarto dela, assim como a que tinha em meu quarto, mostrava apenas a porta do quarto e, mais adiante, a porta da sacada do quarto dela. Voltei, então, para a central de comando e resolvi procurar pela gravação do momento em que eles chegaram. Rebobinei a filmagem e só parei quando a porta principal da casa fora aberta.
Senti um aperto no peito quando a filmagem me mostrou Mandy e Owen entrando na casa aos tropeços, pois estavam atracados, enroscados um no outro, aos beijos. Eles não ficaram muito tempo no hall de entrada; olhando em volta rapidamente, como se temesse ser visto, Owen a puxou para onde se iniciava a escada. Trinquei os dentes sendo tomada por um misto terrível de falta de ar, aflição, tristeza e raiva. Minhas mãos começaram a tremer e minha garganta começou a doer. Respirei fundo algumas vezes com a respiração trêmula, o choro ameaçando sair a qualquer momento, mas eu me recusava a deixar que isso acontecesse.
Desliguei o computador rapidamente, provavelmente ignorando alguns passos como fechar os programas abertos, peguei meu celular e corri escada acima em direção a meu quarto. Joguei algumas calcinhas, algumas roupas e minha escova de dentes dentro da primeira bolsa que encontrei, certa apenas de que eu não queria estar em casa mais, não com os dois estando nela ao mesmo tempo. Apaguei as luzes e saí correndo de casa.
Uma chuva torrencial caía lá fora, mas eu não me importei com aquilo. Destravei a BMW que meu pai havia me dado há apenas alguns meses atrás como presente de dezesseis anos e entrei nele tremendo, dessa vez sem saber se era de raiva ou de frio, por isso liguei o aquecedor antes de dar partida no carro e dirigir para longe de casa. E, apesar de estar agindo automaticamente, sem pensar muito nas ações, eu sabia exatamente para onde estava indo.
Meu celular já havia conectado ao sistema de navegação do carro e na lista de contatos selecionei um.
Como a melhor pessoa que existia na face da Terra, ela atendeu no segundo toque.
- Querida! – Disse ela com animação.
- Nanny, eu estou indo aí – anunciei sem muita cerimônia.
- Nessa chuva? – Seu tom de voz mudou. – Aconteceu alguma coisa?
- Eu chego aí em uma hora ou duas – continuei, mantendo os olhos fixos na estrada escura adiante. – Não vou correr. – Afinal, eu não era suicida. Pelo menos meu instinto de autopreservação não havia sido roubado pelo torpor que tomou conta de mim desde que vi aquela filmagem.
- !
- Eu preciso passar uns dias aí, ok? Deixa o portão aberto para mim – pedi, apenas, e encerrei a chamada.
Acionei o comando por voz.
- Mapa. – Ordenei e o painel abriu o aplicativo. – Inserir destino. – Continuei e, ao invés de descrever o endereço, apenas dei o nome que estava salvo no sistema. – Casa da vovó.


Zayn’s POV
2 anos antes.

- Já faz um mês, Mandy. Um fucking mês! – Esfreguei os olhos com as pontas dos dedos indicador e polegar, sentindo meu corpo chegar ao ápice do estresse. Desliguei a chamada, que caíra na caixa postal, e joguei o celular atrás de mim, na cama. Passei as mãos pelos cabelos e os baguncei sem piedade.
Olhei a bagunça que tomava aquele apartamento minúsculo que tinha apenas um cômodo para a cozinha, quarto e a sala e apenas outro para o pequeno banheiro. Havia roupas e sapatos espalhados por todos os cantos, a lixeira da cozinha mal suportava o conteúdo que estava dentro dela e já havia transbordado lixo ao passo que eu desisti de tentar fazer qualquer coisa caber lá dentro e tornei a jogar as latas de cerveja perto dela ou não tão perto assim, jogando em qualquer lugar, honestamente. A única janela do apartamento se mantinha fechada e o quarto tinha um cheiro terrível de suor e umidade, mas eu já passara do ponto de não ligar mais.
Tudo em que pensava era em Mandy: pensava no que poderíamos estar fazendo, onde estaríamos nos divertindo e enchendo a cara como se não houvesse amanhã, quando seria a próxima vez em que ela traria Keyra para que eu pudesse comer as duas ou apenas assistir as duas numa sessão de amassos na nossa cama, pensava no corpo dela, na voz dela sussurrando coisas imundas me incentivando a meter mais fundo, com mais força, mais rápido, “me bata, daddy”. E, então, um pensamento levava a outro e eu me masturbava pensando nela e nas coisas que ela gosta de fazer.
E era um ciclo vicioso. Sem ela, parecia que eu estava desaparecendo, como se eu não tivesse propósito ou não tivesse absolutamente nada para fazer. Saía apenas do apartamento para comprar mais cerveja e cigarros, passando reto pelo senhorio que cobrava a porra do aluguel atrasado, porque Mandy não vinha aqui há um mês e não pagara a cota do mês. Era humilhante quando ela não estava comigo, era humilhante não ter a merda do dinheiro para pagar a merda do aluguel.
Aquela filha da puta sabia que eu não tinha a merda do dinheiro para pagar o aluguel. E mesmo assim ela não aparecia há um mês.
Virei-me para pegar o celular e disquei novamente o número do celular dela.
“Não espere que eu ligue de volta”, ouvi sua voz dizer pela milésima vez naquele dia. Nem sabia mais quantos recados eu já havia deixado em sua caixa postal somente naquele dia, mas sabia que em breve sua linha ficaria lotada de recados e eu não poderia deixar mais as mensagens de voz, então eu passaria para mensagens de texto.
- Puta que pariu, Mandy! Por que você está fazendo isso comigo?! – Atingi o estágio do desespero há algum tempo, mas ele se manifestava de vez em quando. – Eu preciso de você, gostosa, preciso de você aqui, preciso passar minhas mãos pelo seu corpo, apertar essa bunda, esses peitos, colocar minha boca neles, ouvir você gemer, fazer você gritar, chup-
Ouvi o bip alto que indicava o fim do meu tempo para deixar uma mensagem de voz. Soltei um suspiro frustrado, jogando o celular longe mais uma vez.
Senti minhas calças mais apertadas e vi o volume que se formara ali só de dizer aquelas coisas. Passei a mão lentamente, sentindo uma onda de excitação percorrer meu corpo quando fechei os olhos e me permiti imaginar Mandy nua. Umedeci os lábios pensando em cada curva deliciosa de seu corpo, lembrando-me do sorriso safado que ela sempre carregava consigo. Lembrei-me da primeira vez em que ela me fez um boquete – no banheiro de um pub imundo de uma cidade que estávamos de passagem para uma festa de uns amigos dela. Ela simplesmente disse que precisava de uma cerveja. E depois ela simplesmente precisava ir ao banheiro comigo, ela precisava que eu fosse. Simplesmente precisava tirar minha calça...
Abri os olhos quando percebi que eu não precisava ficar ali naquele maldito quarto esperando que aquela vagabunda viesse me ver. Eu sabia onde ela morava e poderia ir lá, ver por que ela não pôde vir esse tempo todo – com certeza era algum problema com aquela irmãzinha inútil dela –, trepar um pouco e ir embora.
Tirei a mão da calça e me sentei novamente na cama, de repente revigorado pela existência de um plano.
Era tudo muito simples.
Levantei-me num pulo e calcei os coturnos pretos, depois tirei a blusa que eu usava há dias e peguei uma que estava com um cheiro um pouco melhor, xingando-me internamente por não ter tido aquela ideia antes e, assim, eu poderia ter lavado pelo menos uma blusa para ver Mandy com alguma decência. Ela não precisava me ver naquele estado, ela merecia o melhor que eu pudesse lhe dar.
Achei um vidro de perfume no meio da bagunça e praticamente tomei um banho com ele, chegando a me sentir enjoado com o cheiro forte do quarto que se misturava ao perfume.
- Merda – murmurei, correndo até a janela para abri-la e deixar algum ar entrar.
Peguei o celular em cima da cama bagunçada, a chave do carro e saí do apartamento em silêncio para não chamar a atenção do senhorio, que morava no apartamento de frente ao meu. Desci as escadas correndo, tomando o devido cuidado para não fazer barulho e, assim que coloquei meu pé do lado de fora do prédio, corri para o carro. Já era noite, nem fazia ideia do horário, não me importava. Dei partida no carro e saí do estacionamento do prédio.
Puta merda, Mandy ia ficar em choque quando visse a surpresa que tinha para ela.
Liguei o rádio do carro em uma estação qualquer que tocava uma música que me agradava. Almost Easy, do Avenged Sevenfold, tocava no volume máximo do carro e eu acompanhava a letra com entusiasmo, aproveitando cada segundo do bom humor que tomou conta de mim desde que saíra do apartamento para encontrar Mandy.
Quando finalmente saí dos limites de Blackpool, dei um soco no volante, explodindo em júbilo. Mal cabia dentro de mim mesmo, eu estava extremamente ansioso para chegar lá e vê-la, daí tudo faria sentido outra vez e aqueles pensamentos loucos e malditos sairiam de minha cabeça assim que eu a visse.
- It’s hard to face, but the fact remains, that this is nothing new! – Acompanhei a música, cantando com toda a voz que tinha. Soltei uma risada vinda de lugar nenhum quando me lembrei de uma vez em que me disseram que eu tinha uma boa voz para cantar. Aquilo era absurdo! Como se alguma vez na minha vida eu fosse perder meu tempo com esse tipo de besteira!
Segui a viagem até Carlisle acompanhado pelas ótimas músicas que tocavam naquela estação de rádio que havia escolhido. Quando estava a 10 milhas apenas de Carlisle, pequenas gotas começaram a se alojar no para-brisa e nas janelas do carro e, logo, eu dirigia embaixo de uma chuva torrencial.
- Perfeito – murmurei quando tive que me esforçar para ler o que dizia uma placa.
“Wetheral – 4 milhas. Carlisle 4,3 milhas”. E, logo mais adiante, uma bifurcação, indicando Wetheral à direita e Carlisle à esquerda.
Lembrei-me rapidamente que Mandy não morava em Carlisle, mas, sim, em Wetheral, numa mansão afastada da capital do condado. Por isso, tomei a via à direita e segui até sua casa debaixo da chuva que castigava a terra sem piedade naquela noite. Dirigi pela rua rodeada de árvores e arbustos procurando a entrada no meio das árvores que levava à casa dela.
Maldita gente rica, sempre dificultando a vida dos outros, nem que seja para achar suas malditas casas chiques.
Quando finalmente consegui achar a entrada, parei o carro um pouco afastado da casa e saí do carro debaixo da chuva pesada, sentindo até meus ossos doerem por causa do frio. Não conseguia ver muita coisa da casa, apenas as luzes do andar de cima estavam acesas. Fiquei parado na chuva enquanto refletia sobre qual seria a sacada de Mandy, começando a ficar preocupado e nervoso por não conseguir me decidir entra a janela da esquerda e da direita. Ambas tinham sacadas e cortinas pesadas nas portas de forma que eu não conseguia ver nada do que havia dentro dos cômodos.
- Fuck! – Xinguei para mim mesmo, cruzando os braços para conter o tremor que percorria meu corpo por causa do frio.
Ainda sem saber o que fazer, vi a luz da sacada da direita se apagar e, alguns segundos depois, as luzes do andar de baixo da casa se acenderam e eu vi um vulto se mover lá dentro. E, então, alguns segundos depois, a porta da frente da casa se abriu e uma garota saiu de lá apressadamente. Eu não conseguia ver muita coisa por causa da chuva, mas a luz fraca que vinha de dentro da casa a iluminava, e vi que seu cabelo era loiro e não vermelho, como seria o de Mandy. A garota entrou em um hatch compacto da BMW com pressa e, pela forma como ela tirou o carro da vaga, diria que ela estava atrasada para alguma coisa ou muito descuidada. Observei o carro sumir pela estrada e, quando não conseguia mais vê-lo, corri até a casa, procurando uma forma de escalar a parede até chegar à janela que continuava com a luz acesa. Agarrei uma trepadeira que crescia na parede lateral da casa e subi por ela, escorregando de vez em quando por causa da chuva, mas aquilo não me impedia. Quando consegui colocar a mão no chão da sacada e me segurar numa das pilastras que sustentavam o balcão da sacada, joguei-me para cima e consegui entrar na sacada do quarto. Ali era protegido da chuva e tinha cheiro de flores misturado com terra molhada.
Espremi o que pude de minhas roupas e passei as mãos pelos cabelos, tentando arrumá-los de algum jeito. Ajoelhei-me perto da porta e tirei um canivete do bolso da jaqueta, sentindo-me extremamente agradecido por ter pego aquele objeto antes de sair do apartamento, imaginando que teria que arrombar uma porta para poder completar a surpresa – nem em sonhos eu esperava que ela me recebesse pela porta da frente, já que Mandy não tinha esse costume de apresentar um namorado à família.
Quando consegui, finalmente, destrancar a porta, escancarei-a e fui recebido pelo calor que vinha de dentro do quarto. Eu poderia ter me sentido extremamente feliz e aliviado por ter acertado o quarto e acolhido pelo calor convidativo que contrastava com o frio filho da puta que eu sentia, mas nada disso me ocorreu enquanto eu permaneci parado à porta aberta da sacada do quarto de Mandy, assistindo-a de costas para mim transando com outro cara. Petrificado, eu a vi rebolado em cima dele, que estava deitado embaixo dela, mas eu podia ver seus braços levantados na altura de seus peitos, que ele provavelmente estaria apertando naquele exato momento, pois ela gemera e se mexeu ainda mais em cima dele.
Atrás de mim, a chuva se intensificou e o vento soprou água para dentro do quarto e foi só quando os pombinhos resolveram olhar para a porta da sacada e me viram lá. Mandy soltou um gritinho abafado e saiu de cima do cara, cobrindo-se com o lençol de sua cama. Ele, por sua vez, deu um pulo na cama e se sentou assustado com a minha presença.
- Zayn! – Ela tampou a boca com a mão, como se estivesse horrorizada por eu estar ali.
- Oh, não, por favor, Mandy! Não se cubra, não é como se eu não tivesse visto isso aí um milhão de vezes! – As palavras saíam da minha boca sem eu ao menos me dar conta delas.
- O quê? – O cara que estava na cama com ela era loiro, parecia um desses riquinhos mimados que jogam no time classe A da escola e vão ter um futuro brilhante na firma do papai pelo resto da vida.
- Zayn, por favor... – Mandy não tirava seus olhos de mim e eu mantinha os meus presos aos dela.
De alguma forma, eu podia dizer exatamente onde meu sangue parecia começar a ferver e sentia um tremor violento tomar conta de meu corpo enquanto eu processava mesmo aquela maldita cena à minha frente.
- É por isso que você não aparecia há um mês, querida? – Passei a língua nos lábios, contendo a raiva que se formava dentro de mim. – Estava fodendo outro cara, querida?
- Zayn, por favor, meu pai vai chegar...
- Ah, seu pai! Ele já conhece seu namoradinho? Ou ele é só outro brinquedo que vai te dar um orgasmo e você vai jogar fora depois?!
- Za-
- Responde, sua vagabunda! – O grito rasgou minha garganta com tamanha violência que eu a senti arder.
- Não fale assim com ela! – O engomadinho se levantou da cama com imponência, segurando um lençol enrolado em sua cintura com uma mão e apontando o dedo branco para mim com a outra.
- Ah, vai defender a vadia agora? – Estalei a língua para ele, que soltou uma risada de escárnio. - Como você ousa vir aqui e desrespeitar ela dessa forma?! Volta para o seu país, seu pedaço de merda, que é de onde você nunca devia ter vindo com sua família empesteada!
- Sinto muito, cara, mas se você comeu essa aí, você deve estar cheio da “peste” – fiz aspas com as mãos – porque não tem um pedaço de mim que eu não enfiei nela ou ela não colocou na boca.
- Zayn! – Mandy protestou.
- Não ouse falar comigo, Amanda! – Apontei para ela, ameaçador. – Você mentiu para mim, Amanda, honestamente...
- Você achou que ela ia ficar com você? O que você tem? Quem é você? Hein? – O cara deu mais um passo em minha direção.
- Cuidado, Owen, ele tem um canivete! – Mandy segurou a mão dele e o ato chamou minha atenção, e a sensação que tive foi de ter alguma coisa dentro de mim estraçalhada.
- O que você vai fazer, me matar?! – Ele me desafiou. Larguei no chão o canivete que mal me lembrava de estar segurando. – Ele não tem coragem de fazer nada, Mandy. – Soltou uma risada.
Fechei minhas mãos em punho enquanto ouvia o som de sua risada. Mandy não ria com ele, mas mantinha seus olhos em mim, como se quisesse me dizer alguma coisa, como se quisesse me dizer o que fazer, mas eu não podia nem olhar na cara dela depois que aquele fanfarrão resolveu abrir a boca. Eu sentia meu sangue ferver, minha visão estava, literalmente vermelha, o vento atrás de mim parecia querer quebrar meus ossos com sua temperatura quase negativa, e a cena à minha frente me fazia sentir vontade de bater a cabeça de alguém na parede.
- Ele é só um pedaço de merda que veio atrapalhar nosso sexo. – Owen se aproximou novamente com todo seu tom ameaçador para o qual eu não dava a mínima. Andou até estar frente a frente comigo. Levantou o dedo e tocou meu peito. Era humilhante ter de olhar para cima para encará-lo, e, mais uma vez, tive que me controlar para não explodir. – E agora ele vai voltar pro buraco de onde ele saiu ou eu vou chamar a polícia. Você não quer problemas com a polícia, quer? Não, você não quer. Gente pobre que nem você não quer problemas com a polícia.
Olhei-o seriamente no fundo de seus olhos, sentindo o último fio de meu autocontrole se romper.
- Eu não bato em homem pelado. Vista-se – falei para ele entredentes.
Owen soltou uma risada.
- O qu-
Dei-lhe um soco no meio do rosto. O filho da puta caiu no chão com as mãos no nariz e eu parti para cima dele, esmurrando seu rosto uma, duas, três, repetidas vezes. Segurei-o pela nuca e lhe dei outro soco no rosto. Eu já nem conseguia mais ver as feições de seu rosto, seu nariz estava quebrado e sangrava tanto que seu rosto era só um borrão vermelho que servia de alvo para minha mão. Mandy gritava ao meu redor, eu podia sentir suas mãos me segurando por trás, mas eu me desvencilhava dela e dava outro soco no filho da puta embaixo de mim. Ele não tinha chance. Eu me sentia um animal daquele jeito em cima dele, eu só conseguia sentir a raiva que me consumia e a puta vontade de quebrar a cara daquele infeliz.
- Você vai matar ele, Zayn! – Mandy gritava.
- Você já me matou e não está nem aí! – Gritei de volta sem me importar de parecer melodramático. Eu simplesmente não ligava mais. Desferi outro golpe contra o rosto de Owen, que já estava desacordado àquela altura, mas, se eu parasse de bater nele, talvez fosse para cima de Mandy e, mesmo que eu a odiasse com todas as minhas forças naquele minuto, eu sabia que jamais me perdoaria se fizesse algo a ela. Dei-lhe outro soco.
De repente, mãos fortes demais para serem de Mandy me puxaram para longe do corpo desacordado de Owen e dois caras fardados se curvaram sobre ele, checando sua pulsação. Eu me debatia contra as mãos do policial que me segurava, berrando xingamentos.
- Eu espero que você esteja morto, seu filho da puta! – Vociferei enquanto o policial me sacudia por trás e me dizia para ficar calado.
- Eu quero falar com ele! – Ouvi a voz de Mandy nos seguir pelo corredor.
- Não quero falar com você, Amanda! Nunca mais! Fique longe de mim! – Gritei para ela enquanto os policiais me carregavam para fora da casa.
Eles me algemaram e me colocaram no banco de trás da viatura e me disseram para esperar, depois se afastaram e voltaram para dentro da casa enquanto um policial mais novo ficou do lado de fora do carro mantendo a minha vigia.
Meu coração ainda batia forte, mas minha respiração estava se acalmando. Olhei minhas mãos algemadas à frente do meu corpo e vi o estado delas: havia cortes na pele em cima dos ossos e elas começavam a inchar. Tinha sangue, muito sangue, mas eu não sabia se era meu ou dele. Eu as encarava enquanto tentava processar tudo que acontecera e, à medida que fazia isso, a incredulidade me engolia.
- Não – murmurei quando me dei conta de onde estava pela primeira vez. De dentro da viatura, vi Owen ser retirado da casa numa maca. Eu não conseguia ver seu rosto por causa do sangue que o cobria, mas ele não se movia e Mandy apareceu na porta aos prantos, abraçando o próprio corpo vestido com um roupão branco manchado de sangue.
Voltei a me sentar corretamente no banco e encarei minhas mãos mais uma vez, perguntando-me o que eu havia feito. No que eu havia me tornado?! Eu nem me reconhecia! Minhas mãos estavam ensanguentadas e cheias de feridas; eu nem me lembrava do que o cara havia dito para que eu o atacasse. Só me lembrava de ouvir um monte de merda e não ouvir Mandy impedir que ele continuasse com os desaforos.
Os policiais saíram da casa e vieram até a viatura. Um deles abriu a porta e o outro se inclinou para dentro do carro.
- Vamos ler seus direitos, kid.


Liam’s POV
2 anos antes.

- Gente, olha o que eu achei! – Josh gritou e nós nos viramos para ele não para ver o que ele havia encontrado, mas para mandar que calasse a boca.
- Fala baixo, sua anta! – , que estava mais próxima dele, sibilou furiosa. – Quer que eles nos peguem?
- Quem são eles? Não tem ninguém no corredor! – Josh revirou os olhos.
- Você não sabe! Fica aí bisbilhotando e não presta atenção em nada! É por isso que o Liam está vigiando e não você! – Ela apontou para mim, olhando-me com uma cara feia quando me viu virado para ela. – Vigia a porta, Payne!
- Mandona – murmurei, voltando-me a olhar o movimento de pessoas pelo corredor, dando algum crédito a Josh por estar certo.
- Aquela vaca me deu um zero? – Josh continuou falando.
- Isso é uma nota? Para o quê? O tamanho do seu pinto? – Louis provocou e eu não consegui segurar uma risada.
- Rá, rá, hilário – Josh rebateu. – Não, seu imbecil, são as notas da prova de Literatura que fizemos semana passada.
- O quê? – Eu e Louis respondemos em uníssono, mas Louis se levantou do chão para ir até ele.
- Louis! Mais fita! – Harry quase deixou o cilindro cair no chão, o que faria muito barulho. Louis se agachou novamente, abrindo a fita novamente e a girando em torno do eixo que o cilindro da buzina e a coluna por onde a cadeira de rodinhas deslizava quando alguém sentava nela. – Que você tirou um zero não me surpreende, mas, só por curiosidade, qual foi a nota da ? – Perturbou.
- Vai se foder, Harry! – devolveu.
- Qual é, ? Não foi nessa prova que você passou a noite da véspera inteira lendo o livro e achou que ia dar certo? – Ele continuou.
- Sim, Harry, e deve ser também uma de todas as que você só faz por fazer e acha que vai dar certo.
- Desafio lançado! – Harry abriu um sorriso e se virou para Josh que, entendendo o recado, começou uma busca frenética pela prova dos dois. Quando ele colocou a primeira folha de lado, todos correram para a mesa da professora, menos eu que tinha que ficar de vigia, mas fiquei olhando para eles.
- Arrá! – gritou apontando o dedo para Harry. – Quero ver você barrar meu cinco!
- Caramba, foi na conta! – Louis soltou uma risada, empolgado. Josh levantou a outra folha quando a achou. – Quanto? Quanto?!
- O Harry tirou... – Josh fez menção a contar a nota, mas esticou o pescoço para a prova de . – Quanto a tirou, mesmo?
- Cinco – ela respondeu.
- Ok. – Limpou a garganta com uma risada em seguida. – O Harry tirou a incrível marca de... Eu não consigo dizer. Diga, Louis. – Mostrou a prova para Louis, que soltou uma risada escandalosa, batendo palma e andando na outra direção, depois, recompondo-se, voltou a olhar a folha.
- E aí?! – Perguntei, ansioso.
- Por três pontos de diferença, o Harry tirou... – Louis fez suspense.
- Não acredito – murmurou, balançando a cabeça para Harry.
- Que isso?! Você não queria que eu tirasse uma nota melhor, é?! – Harry questionou, indignado.
- Harry, eu caguei para você – deu língua para ele.
- Quem dá língua pede beijo – ele rebateu com uma risadinha.
- O quê? – Ela franziu o cenho.
- O quê?! – Ele devolveu rapidamente, parecendo chocado.
Louis e Josh não estavam prestando atenção, ocupados demais em caçoar da nota de algum deles, mas eu não, e, por isso, segurei o riso; às vezes eu achava que Harry vivia constantemente flertando e acabava esquecendo com quem ele estava falando. No caso, iria dar um chute nas bolas dele por falar assim com ela.
- Dois! – Josh gritou de repente e gargalhou. – O Harry tirou dois!
- Isso! – comemorou, arrancando uma careta indignada de Harry, que tomou a prova das mãos de Josh, que se contorcia de rir da cara dele, assim como o resto de nós.
- Maldição! – Harry gritou, o que só nos fez rir mais dele.
Ouvi um barulho de alguma porta abrindo no corredor e, assustado, fiz sinal para que se calassem enquanto buscava freneticamente com meus olhos por algum sinal de ameaça ao plano. Eles se calaram imediatamente e pude ouvir passos ficando cada vez mais longes.
- Vamos logo com isso! – Voltei-me para eles.
Harry e Louis voaram para debaixo da cadeira, terminando de pregar a buzina ali enquanto Josh e cochichavam entre si enquanto mexiam na pilha de provas.
Conferi meu relógio e comecei a me desesperar. correu até o lado da mesa redonda onde a cadeira estava e colocou ali uma das provas que retiraram da pilha.
- Três e meio – disse ela para Harry com um sorriso afetado.
- Ele colou – rebateu.
- E você não? – Ela arqueou uma sobrancelha para ele, provocando.
- Não fui eu quem tirou cinco aqui.
- Pronto! – Louis anunciou, levantando-se num pulo, depois pegou a mão de e a puxou em minha direção, para a porta. Josh veio atrás e, por último, Harry.
Saímos correndo da sala e paramos algumas portas depois apenas o suficiente para parecer que estávamos ali o tempo todo jogando conversa fora. Alguns alunos começaram a transitar pelo corredor assim que eu me apoiei contra a parede e respirei fundo para suprimir uma risada. Todos nós ficamos em silêncio por alguns segundos antes de explodirmos em risadas nervosas e carregadas de adrenalina.
- Ninguém empurra meu amigo em campo e sai dessa ileso – Louis retomou a causa daquela situação toda.
- Ele foi um completo idiota – concordou.
- Não que ele não seja sempre, mas você estava, literalmente, parado – Louis continuou olhando para mim. – O cara tem muita inveja de você, cacete!
- Também não enche a bola dele, né, Louis! – deu um soquinho no ombro dele, rindo.
- Ela já é cheia. As duas, inclusive – pisquei para ela, que revirou os olhos.
- Duas, certeza? Achei que foi por isso que a Gabbie te trocou pelo Lance – rebateu.
- Sem chance!
- Verdade! É por ela, também! – Disse Harry, levantando o dedo indicador.
- É, ele roubou sua garota – Josh reclamou.
- Ela não era "minha garota" – fiz aspas com os dedos. – Ela podia ficar com quem quisesse.
- Tá, mas justo o cara que pega no seu pé nos campos? – Louis bufou. – Tem cara de conspiração para mim.
- A gente pode só ignorar o Louis, se vocês quiserem – sugeriu e todos concordamos, fazendo-o protestar.
- Não importa, de qualquer forma. Hoje ele vai aprender a não se meter com Liam Payne – profetizei, recebendo o apoio deles.
O sinal que indicava o fim do período de almoço tocou e agora o corredor estava lotado. Voltamos para dentro da sala atrás de outro grupo de alunos que estava entrando. A sala de aula de Literatura não era muito grande, era apenas suficiente para que grandes mesas circulares comportassem os alunos pela sala e tinha a lousa e a mesa do professor seguindo o padrão das outras salas com um desktop. Eu e nos sentamos na mesa ao lado de onde preparamos a armadilha de Lance. Os lugares daquela classe eram marcados devido à rigorosidade da professora, então era certeza de que o pegaríamos.
A professora entrou na sala com sua pasta de couro marrom. E então Lance e suas meninas entraram na sala. Eles se acomodaram em seus respectivos lugares e Lance vinha atrás, por último, para se sentar. Troquei um olhar com , que se sentava imediatamente ao meu lado, tentando não rir. Nem olhei para Harry ou Josh, sabendo que ririam feito gralhas se fizéssemos contato visual.
Eles sempre arruinavam esse tipo de coisa.
A professora chamou Lance em sua mesa antes que ele se sentasse e eu quase soltei um grunhido de frustração. piscou para mim como se me dissesse para ficar calmo.
A sala foi ficando em silêncio gradativamente até todos estarmos quietos e, finalmente, a professora liberou Lance para que se sentasse.
Atrás de mim, na outra mesa, ouvi Harry chiar e disfarçar com uma tosse.
A professora começou a escrever algo na lousa.
Lance fez uma careta quando um de seus amigos levantou os braços, perguntando-lhe o que houve. Depois ele virou e deu dedo para ela, que não viu por estar de costas.
E, então, ele se jogou em sua cadeira e a buzina soou tão alto, que ele se assustou e caiu da cadeira.
A sala explodiu em risadas – e eu tenho certeza de que Harry e Josh foram uns dos primeiros a abrir a boca. Meu corpo inteiro tremia por causa das gargalhadas que eu dava e não estava muito diferente de mim, batendo a mão na mesa enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. Até os amigos de Lance estavam se acabando.
Lance arrancou a buzina de baixo da sua cadeira, tão vermelho que parecia que todo o sangue havia subido para o rosto. Ele estava ridículo olhando para a buzina sem entender nada.
- Você está com tempo para suas gracinhas, Sr. Hemmings? – A professora surgiu atrás dele, com as mãos na cintura e o rosto rechonchudo vermelho. – Mas não tem tempo para me entregar aquele trabalho.
- Não! Eu não... – Lance olhou para ela, apavorado, e então para a buzina em sua mão. – Não fui eu!
- E você quer que eu acredite nisso? – Perguntou com seu sotaque irlandês. Depois, como previsto por e Josh, seus olhos se voltaram para a mesa de Lance e para o papel que havia ali. – O que é isso? – Pegou a folha e seu rosto ficou ainda mais vermelho ao ver que se tratava da prova dele. – Você realmente passou de todos os limites agora, Sr. Hemmings! Eu vou te acompanhar até a sala do diretor.
- O quê?! Não! Eu não...
- Siga-me. – Disse ela apenas com um olhar tão duro, certo e ameaçador que Lance se viu obrigado a obedecer.
Alguém cochichou algo em algum canto da sala e finalmente Lance olhou para outro lugar que não fosse a senhora assustadora e me encontrou encarando-o com satisfação – que eu nem tentava esconder – e olhou para outros cantos da sala, muito provavelmente vendo Harry, Josh e Louis encarando-o também. Entendendo, ele estreitou os olhos e voltou a me encarar, ao que eu respondi com um pequeno sorriso.
- Você está morto – ele apenas gesticulou as palavras sem emitir som, dando-me um olhar mortal. Dei de ombros e acenei para ele quando a professora o chamou de fora da sala.

’s POV
2 anos antes.


Entrar no dormitório masculino era tão fácil que parecia que eles nem tentavam evitar. Quer dizer, se fosse pensar bem era mais difícil encontrar uma garota tentando entrar escondida lá, mas o contrário também era verdadeiro, entrar escondido no dormitório feminino devia ser tão fácil quanto. Depois que Minerva e Robert faziam a ronda noturna e só se certificavam de que não havia nenhuma pessoa do sexo oposto em cima da cama de ninguém, eles iam para seus aposentos e era isso, a barra estava livre.
Naquela sexta-feira à noite em especial, todos nós optamos por ficar na escola e fazer uma noite de video-game no quarto de Harry e Louis ao invés de irmos para a cidade, já que todos estavam meio cansados pela semana cheia. Liam levou as pizzas, Josh conseguiu um fardinho de cerveja e os outros dois encheram os bolsos com doces das máquinas; eu apareci com minha ilustre participação. Era justo.
Liam trouxe três caixas de pizza gigante, pouco exagerado que era. Nós comemos uma ou duas fatias, e quando percebemos que ia sobrar muita pizza, resolvemos tentar descobrir quem comia mais. Com a fome que eu estava achei que fosse conseguir, mas depois de minha quinta ou sexta fatia precisei desistir e me jogar para trás, quase deitada no chão do quarto como eles com as costas apoiadas na cama atrás de mim. Assisti enquanto Liam e Louis mastigavam com dificuldade suas fatias, obviamente já não conseguindo mais comer direito, sendo os dois últimos que restaram.
- Querem apostar um dinheiro nisso? – Josh olhou para mim e Harry e eu fiz que não com a cabeça.
- Chega, já perdi dinheiro demais com besteira. A última foi na semana passada, quando achei que o Harry fosse conseguir tomar aquela latinha de coca em dez segundos. Me lembre de nunca mais apostar dinheiro em você para nada. – Comentei com ele ao meu lado, que estava vidrado na TV jogando uma partida do FIFA e só estalou a língua e me empurrou com o cotovelo.
- Mas foi divertido ver coca saindo do nariz dele. – Josh riu e apontou para mim, e concordei rindo com a lembrança e fazendo um high five com ele.
- Agh, ok, ok, você ganhou! – Vi Louis desistir e jogar a metade da fatia de pizza que segurava dentro da caixa de novo. – Cara eu vou precisar de uma semana pra digerir tudo isso. – Ele se jogou para trás no chão e abriu um botão da calça jeans.
Nós rimos e Liam comemorou, balançando os braços no ar preguiçosamente depois de soltar o resto da sua fatia também.
- Eu nem consigo ficar feliz para comemorar. – Liam fez uma careta e se encostou na cama também, passando a mão pela barriga. – Por que a gente sempre tem essas ideias escrotas e se arrepende depois?
Todo mundo ali estava tão preguiçoso depois de ter comido demais que só gememos em concordância. Por bons minutos a gente só ficou jogado, cada um em um canto, assistindo à partida de futebol de Harry. Depois de um tempo quando o ânimo começou a voltar começamos a torcer baixinho para ele na partida atual, que estava bem interessante. Quando ele perdeu nós o xingamos, como sempre.
- O que você ta tentando fazer? – Josh perguntou me olhando.
- Pegar um marshmallow com o pé – respondi, como se fosse óbvio.
- Credo, . – Liam fez uma careta.
- Tá longe demais! – Me defendi. – Além disso, meu pé é muito limpo diferente do seu.
- O meu pé é ofensivamente limpo. – Ele levantou um pé no ar, mas estava usando meia branca.
- Mentira, você tem o pior chulé do grupo.
- Eu não tenho! – Exclamou, mas os outros já estavam concordando que sim, ele tinha. – Calúnia!
- Só aceita. É tipo o Louis, que prefere jogar as meias fora do que lavar. – Josh comentou e apontou.
- Não me julga, você gosta de abacaxi na pizza.
- Quem gosta de abacaxi na pizza nem é gente. – Harry zoou Josh.
- Falou o cara que descasca a banana por baixo. – Liam comentou e eu ri, concordando. – Quem é o doente que faz isso?!
- O Harry.
- Ah, cala a boca, você ta pegando um marshmallow com o pé! – Harry xingou, mas eu ignorei pois estava muito focada em conseguir trazer aquele marshmallow até a minha mão agora que havia conseguido pegar ele com o pé. Com bastante concentração eu consegui, e comemorei enfiando ele na boca. Os garotos, que assistiam, ao mesmo tempo em que riram fizeram barulho de nojo.
- Cara, que nojento, é o seu pé. Fica no chão o dia todo.
- Dentro do calçado!
- Ainda é muito nojento. – Liam comentou.
- Nossa, quanto exagero! Você ta com inveja da minha elasticidade – comentei.
- Não, eu nem quero saber o que mais passa por essa sua boca suja.
- Melhor do que passa pela boca das garotas que ficam com você. – Respondi. – Ah, qual é, do que vocês estão falando? Vocês são literalmente uns ogros! O Josh usa a mesma cueca a semana inteira! – Apontei.
- Aquilo foi uma vez ok?!
- Cala a boca, você gosta de abacaxi na pizza. – Louis disse de novo. – Eu nem devia te aceitar no meu quarto.
- Abacaxi é bom e saudável. Não é como se eu pegasse a minha comida com os pés, nem macaco faz isso – Josh apontou para mim.
- Ok, já chega – me sentei de súbito e puxei o saco de marshmallows, pegando dois e partindo para cima de Josh.
- O que você vai f- AH, NÃO, SAI !
O derrubei e o prendi embaixo de mim e enfiei um marshmallow em cada uma das suas narinas, saindo de cima dele em seguida. Josh sentou, me olhou com cara de morte enquanto a gente ria dele com dois marshmallows enfiados no nariz, e depois de um momento ele tirou um de lá e deu uma mordida. Todos nós gritamos expressando nosso nojo, e ele gargalhou.
- E eu que sou a ogra!
- Esquece o abacaxi, sai do meu quarto agora. – Louis apontou para a porta.
Acabamos por ter um ataque de riso que voltava toda vez que eu lembrava de Josh comendo o marshmallow, e com isso mais uns bons minutos se passaram.
O tempo passava rápido quando estávamos entre amigos, isso era sempre bem perceptível quando eu estava com todos eles. Eu geralmente dava tanta risada que minha barriga doía e meus olhos ficavam molhados. Era bom chorar de tanto rir, e com eles era tão fácil, quase normal que isso sempre acontecesse.
Entre conversas inúteis, partidas de videogame, marshmallows, discussões sobre alguns paradoxos e brincadeiras idiotas, quando percebi já eram quase três da manhã.
- O quão fraca pra bebida você é? – Liam perguntou. Estávamos na cama de Harry e os outros três estavam no chão, torcendo para Louis que jogava uma partida aparentemente emocionante de boxe em um dos jogos que nunca escolhíamos do videogame. Eu e ele estávamos tomando umas das garrafas de cerveja que haviam sobrado e já estavam meio mornas e amargas.
- Hmm – olhei para a garrafa pela metade depois de tomar um gole. – Com cerveja eu não sou muito, preciso de mais de três dessas aqui pra começar a sentir qualquer coisa. Mas se for algo mais forte, não precisa de muito.
- Uma vez eu tomei uma dose de absinto achando que era tipo vodka ou tequila. O negócio tinha uns 70% de álcool. Eu estava bem, e de repente cinco minutos depois fui levantar e caí direto no chão. – Liam riu tomando mais cerveja e eu o acompanhei, imaginando a cena. –Minhas pernas não obedeceram. Bum.
- Bum. – Ri mais, balançando a cabeça. Tomei mais uns goles, ignorando o gosto ruim da cerveja que não era tão boa assim quando não estava gelada, enquanto observava Liam. Cerveja não era muito a minha praia geralmente. Álcool no geral não era. – Eu garanto que te derrubar não deve ser difícil, mesmo sóbrio.
- Você acha que me derruba? Eu sou super forte.
- Eu sou super forte também. – Fiz uma caretinha para ele, mostrando a língua.
- Não, mas eu sou maior. E mais forte.
- E eu sou menor e mais rápida.
- Eu não tenho certeza, mas acho que você está em desvantagem quando se trata das leis da física aqui.
- Ok – tomei o resto da garrafa em goles grandes e a soltei na ponta da cômoda, levantando da cama. – Vem, vamos descobrir.
Liam levantou também, e Harry nos olhou.
- O que vão fazer?
- A gente quer ver se ela consegue me derrubar.
- Derrubar? – Josh olhou também. – Mas você é mais forte.
- Mas ela é mais rápida. – Louis disse por cima do ombro, ainda olhando para a TV.
- Outro paradoxo – apontei para eles, me ajeitando em frente a Liam e erguendo as mangas do moletom até os cotovelos.
- Não, é física. – Louis disse.
- Não importa, ninguém aqui é um gênio da física. Vamos descobrir agora. Fica aqui – apontei para a minha frente.
- Ok. – Liam se posicionou. – Eu vou contar até três e aí nós-
Avancei para cima dele com toda a minha força, o empurrando pelos ombros enquanto enfiava uma das pernas no meio das suas e trancava a sua perna, o impedindo de dar um passo para trás, então quando ele tentou fazer isso acabou tropeçando e caindo, comigo por cima dele.
- YES! – Gritei, levantando os braços no ar. – EU TE DISSE, LOSER! “Oh, eu sou maior, eu sou mais forte” – Imitei a sua voz. – O que as menininhas que fazem fila pra dar pra você iam dizer se soubessem que eu te derrubei como uma pena?! O grande Liam Payne!
- Você roubou, , assim não vale. Ah, sai de cima! – Ele me empurrou, e me levantei rindo e pulando no lugar. – Você não esperou eu contar!
- E se fosse uma briga ou um assalto, sei lá, eu deveria esperar o oponente contar até três? Se liga, Liam. – Toquei na minha cabeça. – Tem que pensar rápido. Assim você vai ser devorado pelo mundo lá fora. – sorri e pisquei para ele antes de ir pegar outra cerveja. – Se liga.
- Ainda foi injusto. – Ele reclamou. – Mas é um bom argumento. Se algum dia um cara te atacar, , não espera ele contar.
- E também não espera que ele vá ficar parado na sua frente esperando você pular nele. – Josh comentou e riu, se levantando. – Aí, tenta comigo. – Ele pediu. – Eu não vou ser burro igual o Liam.
Mas eu derrubei ele também, apesar de ter sido mais difícil. Ele não foi pego de surpresa pela minha investida, e precisei ficar insistindo e tentando fazer ele tropeçar enquanto ele tentava puxar uma das minhas pernas. Depois foi o Louis, mas ele conseguiu me derrubar em cinco segundos, e usei a desculpa de que eu já estava cansada. No final, Harry ficou se gabando que não ia nem tentar porque ele sempre me derrubava, e aproveitei para pular da cama em cima dos ombros dele, o fazendo se desequilibrar, mas ele mesmo assim não caiu.
No final já eram quatro da manhã quando Liam decidiu ir para o quarto dormir.
- Relaxa, a gente não vai contar que você foi derrubado por uma garota, Payno.
- Vai pro inferno. – Liam riu, já indo para a porta, mas por fim voltou e pegou o fardo de cerveja que ainda tinha mais umas duas garrafas. – Vou levar isso comigo pra você não beber mais. – Disse para mim e sorriu, e eu o mostrei o dedo do meio. – Adeus do campeão da noite de quem come mais pizzas!
Quando os dois saíram, o quarto ficou significativamente mais quieto, e percebi que essa era a hora em que eu geralmente ia embora também. Mas pela primeira vez na noite lembrei do mundo lá fora e das coisas que aconteceram antes daquela noite. Eles tinham esse efeito de me fazer esquecer dos problemas da vida quando estávamos todos juntos de bobeira, e por isso às vezes era difícil acabar com esses momentos e voltar para a quietude do meu quarto.
Eu dividia o quarto com uma garota que me odiava gratuitamente. Desde o começo do ano, nunca trocávamos mais que duas palavras por dia e olhe lá. A princípio eu pensei que ela pudesse ser assim, fechada, com todo mundo, mas depois percebi que ela tinha vários amigos pela escola, e só não ia muito com a minha cara. Até aí tudo bem, eu decidi ser adulta e madura e ser decente com ela apesar de tudo. Porém mais cedo naquele dia, antes de sair do quarto para ir para o de Harry, a ouvi conversando com sua mãe por telefone e pedindo que ela ligasse para a escola e pedisse que a trocassem de quarto, porque ela não queria mais dividir o quarto comigo. Me achava “esquisita” e disse que tinha “quase certeza que ela gosta de garotas, mãe. Você imagina? Quer dizer, eca. Eu tenho medo de dormir do lado dela!”.
Que escrota, na real. Eu sempre pensei que apesar de não nos falarmos muito a gente se respeitasse, pelo menos. Mas aparentemente não. Ela era como todas as outras meninas estúpidas. E eu odiava meninas estúpidas, todas elas. Por isso, naquela noite, quando me deparei com a necessidade de voltar para o meu quarto, eu não quis.
Louis já estava deitado e pronto para dormir, mexendo no celular, e eu fiquei sentada na cama de Harry enquanto ele estava se escovando no banheiro. Quando ele voltou, já estava usando só uma calça de moletom e secava as mãos nela. Me olhou e arqueou as sobrancelhas.
- Você ainda ta aqui.
- É, eu só não estou afim de voltar agora... – Fiz uma caretinha apontando para a janela. – Será que tudo bem se eu ficar hoje?
- É claro, .
Harry franziu o cenho e deu de ombros, assentindo. Eu já sabia o que passou pela cabeça dele, porque sempre que a gente dormia junto por vontade dele ou por vontade minha, era porque não estávamos bem para dormir sozinhos. Foi assim quando os pais dele se separaram, foi assim quando meus avós morreram, quando Josie foi para a América, quando o cachorro dele morreu e, da última vez, quando Gemma ficou doente no começo do ano e Harry estava nervoso porque era a primeira vez que estávamos assim tão longe de casa e não podíamos ver com nossos próprios olhos que estava tudo bem.
- Tá tudo bem?
Assenti prontamente.
- Tudo bem, tudo bem, eu só não estou afim de ir mesmo. – Olhei a hora no celular e bocejei. – ta bem tarde.
- É verdade. Fica aqui.
Assenti e fui para o banheiro. Quando eu saí, Harry havia vestido uma blusa velha e estava sentado em sua cama, vendo algo no celular. Louis ainda estava mexendo no celular também, mas seus olhos estavam tão pequenos que ele podia muito bem estar dormindo de olhos abertos. Levei o indicador à boca e quando passei por ele enfiei o dedo no seu ouvido, e ele grunhiu e cobriu a cabeça toda com o cobertor.
- Boa noite, Tommo.
- Sai.
Ri e fui sentar ao lado de Harry. Por algum motivo aquilo ficava mais estranho a cada vez que fazíamos, porque não era mais como quando éramos só crianças... Mas eu tinha certeza que essa sensação era só minha. Para ele, ainda era o mesmo. Pelo menos eu esperava que fosse. Eu acho.
Deitei e me cobri, e depois de mexer no celular por mais um tempo ele o soltou e fez o mesmo. Há essa altura eu já estava de olhos fechados, aparentando estar muito menos acordada do que eu na verdade estava. Mas eu estava completamente acordada, ali, sentindo cada segundo daquele momento, muito mais do que queria estar. Harry se ajeitou na cama e suspirou, e ficou quieto por um tempo.
- Foi alguma coisa com a sua família?
Ele sabia que eu não estava dormindo.
Optei por apenas fazer que não com a cabeça.
- O que foi?
- Nada.
- O que foi? – Ele insistiu.
Pensei em qualquer coisa.
- Colega de quarto. – Disse, a voz abafada pelo edredom. – Nada demais.
- Certeza?
- Certeza.
Ele ficou quieto por mais um tempo.
- Ok. Boa noite, Sunshine. – Senti sua mão procurar pelo meu rosto e ele apertou a ponta do meu nariz. Afastei a sua mão, mas acabei por segurá-la em cima do travesseiro, entre os nossos rostos. Não quis soltá-la, e ele também não a puxou de volta, então as duas só ficaram ali, juntas.
- Boa noite, idiota.


’s POV
1 ano antes.

- Ah, a água está pelando! – Gritei quando a água quente entrou em contato com a pele de meu tronco e, pela porta aberta, ouvi a risada gostosa de Oliver.
- Ainda bem que eu não estou aí, senão você estaria derretendo! – Disse ele, entrando no banheiro e se apoiando ao batente da porta, olhando-me de cima a baixo.
- Por que você não tenta? – Sorri para ele, chamando-o com o indicador.
Mordeu o lábio inferior, enquanto ainda me olhava, parecendo pensar demais sobre minha proposta irresistível. Depois balançou a cabeça, afastando algum pensamento com uma risada baixa e rouca.
- Não demore ou vamos perder a reserva. Deus sabe como o Le Bristol Paris não perdoa atrasos – estalou a língua antes de me dar as costas, mas meu grito o impediu de sair do banheiro.
- Não acredito! – Cobri a boca com as mãos. – Le Bristol Paris?! Sério? É para lá que vamos?!
- Droga! – Praguejou. – Era para ser surpresa!
- Eu estou surpresa! – Abri um sorriso. – Não demoro mais que cinco minutos, eu juro!
Ele piscou para mim e saiu do banheiro.
Terminei o banho rapidamente, enrolei-me na toalha e parei à porta do banheiro.
- Eu não sabia que um professor universitário podia pagar um almoço num dos melhores restaurantes de Paris.
- Não, não, eu esperava que você dormisse com o gerente – brincou.
Soltei uma risada, balançando a cabeça.
- Bom, leve o dinheiro. Se ele for gatinho, quem sabe você não precise de sua carteira hoje – pisquei para ele e voltei para dentro do banheiro. – Pega uma roupa para mim? – Pedi antes de ligar o secador de cabelo.
Pelo espelho, vi-o levantar de minha cama e ir em direção ao meu closet e sumir lá dentro por alguns minutos. Meu cabelo já estava seco e eu passava um pouco de óleo vegetal nele quando Oliver saiu de lá carregando uma blusa de tule e uma lingerie preta.
- Eu não vou usar isso no Le Bristol Paris. – Arqueei uma sobrancelha, encarando-o pelo espelho.
- Ah, eu não consegui escolher uma roupa para você. Peguei isso aqui por que esperava que você dançasse um pouco para mim antes de irmos.
- Você é um pervertido – sorri.
- Você é a mulher mais linda desse mundo, eu não consigo me controlar. – Deu de ombros, jogando as peças de roupa em algum canto e veio até mim, tirou minha toalha e me beijou.
Senti meu corpo arrepiar com seu toque. Eu me sentia viva com ele.
Oliver foi o único cara que eu conheci que não me tratava como uma adolescente idiota. Ele me viu como eu era desde a primeira vez que nos encontramos. Amelie, uma de minhas melhores amigas, já frequentava a faculdade e, quando descobriu que teria uma aula de literatura inglesa em seu primeiro período, chamou-me para assistir com ela, porque, claro, eu sou apaixonada por Austen e Dickens. E, algumas aulas depois, mesmo não sendo aluna, eu tive que interromper o discurso interminável daquele professor arrogante para argumentar. Depois daquela aula, o professor veio me perguntar se eu podia dar meu ponto de vista sobre alguns detalhes de sua tese de doutorado.
Três dias depois eu estava embaixo dele numa cama extremamente confortável num dos hotéis onde minha mãe era cliente VIP.
- Se eu começar, não vou conseguir parar, então é melhor a gente ir – ele murmurou contra meus lábios. Soltei uma risadinha, derretendo por saber que eu era tão irresistível para ele.
- Vamos – mordi seu lábio suavemente e o empurrei pelos ombros, peguei minha toalha do chão e passei por ele, em direção ao meu closet. – Eu estou faminta! – Comentei enquanto escolhia uma camiseta mais social, jeans e, já que o nível do restaurante exigia, um par de saltos.
- Quando sua mãe volta? – Ele quis saber, enquanto atravessávamos o hall de entrada do prédio onde eu e minha mãe morávamos há cinco anos.
- Semana que vem.
- Onde ela está dessa vez?
- Índia – respondi enquanto chamava um carro pelo aplicativo no celular.
- Índia? Uau!
- Um prato cheio para um professor de Literatura Inglesa, hein? Quantos romances escritos sob o feitiço das especiarias exóticas... – Abri um sorriso para ele.
- Parece que, com você, eu estou sempre muito bem servido – piscou.
- Não muda de assunto; quando você vai me deixar apresentar vocês dois?
- Ah, ... – desconversou, como sempre fazia quando caíamos nesse assunto de nos apresentarmos às famílias. – Nosso carro chegou!
- Você tem medo que eles não gostem de mim?
- O quê? Por que eles não gostariam?
- Eu sou mais nova que você.
- Ah, isso. Não, esse seria o menor dos problemas em nossa relação para eles – soltou uma risada seca, fechando a porta do carro ao entrar. – Rue Du Faubourg Saint-Honore, por favor – disse ao motorista do carro.
- O que tem de errado conosco? Fazemos mais sexo que a metade deles?
Ele soltou uma risada mais alta dessa vez e colocou a mão em minha coxa, depositando um carinho ali.
- Deve ser exatamente isso. – Disse, divertindo-se com minha fala.
Seguimos o resto da viagem sem dizer mais nada, apenas observando a cidade do lado de fora das janelas do carro. Eu gostava de poder ficar assim sem dizer nada com ele; era simples e sem expectativas, não precisávamos nem tínhamos a necessidade de preencher o silêncio com palavras forçadas. Ele sabia que eu era assim, que gostava de pensar, gostava de ficar na minha própria cabeça, e acho que ele era assim também. Abri um sorriso ao pensar no meu pensamento favorito: éramos uma combinação perfeita.
Era ótimo ter alguém como ele. Caras mais velhos sempre teriam suas maiores vantagens sobre caras mais novos, apesar de nunca ter passado de apenas uns casos com caras da minha idade. De qualquer forma, eu amava a forma como Oliver me tratava.
- Reserva para Reggiani. – Oliver abriu um pequeno sorriso para a recepcionista do restaurante do Le Bristol Paris. Ela sorriu para ele de volta.
Por dentro, o restaurante era maravilhoso. Era quase como eu me lembrava, não fosse pelas novas cores da parede do bar, onde algumas pessoas esperavam suas mesas, e pelas cortinas nas imensas janelas que davam vista para o pátio do hotel e parte da rua onde o restaurante ficava situado.
Avistei uma mesa para dois montada perto da enorme janela que dava para a rua e abri um sorriso, ao ver que era para nós. Era o melhor lugar do restaurante na minha opinião; da última vez que fora ali com minha mãe, ficamos sentadas numa mesa próxima da janela e eu adorava ver as pessoas passando por nós enquanto comíamos.
Eu me sentia num filme.
Mas o mâitre, que havia tomado o lugar da recepcionista, fez uma pequena curva na direção oposta à janela, encaminhando-nos a uma mesa afastada, próxima a um jarro de flores extravagante, onde a iluminação era mais amena. Senti a mão de Oliver entrelaçar a minha de repente, com uma breve pressão, como se ele me perguntasse o que eu havia achado. Sorri para ele, tentando não demonstrar minha decepção quanto à nossa mesa.
Quando estávamos acomodados, o mâitre anunciou nosso garçom para aquele almoço e nos entregou a carta de vinhos da casa. E, então, saiu.
- Você não sabe como eu lutei por essa reserva – disse ele enquanto passava os olhos pela carta.
- Imagino. As mesas à janela são extremamente concorridas. – Soltei uma risada fraca, o que chamou sua atenção para mim.
- Oui, são as mais difíceis, mas consegui esta.
O mâitre voltou e Oliver escolheu uma taça de vinho tinto demi-seco. Escolhemos nossa entrada e os pratos principais, que consistiam basicamente na recomendação do chef para o dia.
- Você combina tanto com esse lugar que chega a ser assustador – Oliver balançou a cabeça.
- Como?
- É tão sofisticado e elitista...
- Elitista? – Arqueei uma sobrancelha.
- Não, pardón. Eu quis dizer... é, sofisticado. Você é sofisticada.
- Eu vou deixar essa passar, Professor.
Ele abriu um sorriso estonteante para mim e colocou outro pedaço de carne na boca. O almoço seguia tranquilo enquanto conversávamos sobre trivialidades, ele me contava de alguns alunos promissores dele, alguns cheios de talento e interesse pela matéria e outros que, não tão animados, dormiam em sua aula e iam mal nos testes surpresa.
- Você é tão malvado por aplicar teste surpresa.
- Eu sou a justiça dos alunos que passam duas horas olhando para mim enquanto eu falo sobre a lógica capitalista inglesa do século 18.
- E o pesadelo de quem provavelmente passa por uma dupla jornada de emprego e estudos.
Ele ia responder de volta – o que provavelmente nos teria levado a uma conversa acalorada sobre escolhas e a vida real – quando um homem se aproximou de nossa mesa com um grande sorriso no rosto. Ele era corpulento e negro e vestia um terno cinza-claro.
- Oliver! – Ele saudou meu namorado com animação, mas Oliver não pareceu tão animado quanto o outro homem.
- Tomas! – Oliver assumiu rapidamente uma expressão de surpresa, dessa vez mais animado. Levantou-se para cumprimentar o homem com dois beijinhos seguidos de um rápido abraço. – Que surpresa te encontrar aqui! – Pigarreou. – Essa é . – Levantei-me para cumprimenta-lo também. – Minha nova assistente.
O título me pegou de surpresa e olhei fixamente para Oliver.
- Arrumando a bagunça desse baderneiro, hein? – O homem sorriu para mim, brincalhão.
- Desculpe, você é...? – Franzi o cenho.
- Tomas Venne. – Oliver apresentou. – Ele é do Conselho Acadêmico da universidade. Lembra? Aquele que me ajudou a criar a minha linha de pesquisa...
- Ah, sim, Venne! – Abri um sorriso um pouco maior.
- Como estão as coisas, Oliver? Como vai Jaqueline? – Tomas tornou sua atenção para Oliver, que passou a mão pela barba rala, parecendo apreensivo. Olhei para ele, também, achando seu comportamento muito estranho.
- Jaqueline? – A voz de Oliver se alterou, ficando um pouco mais alta.
- Quem é Jaqueline? – Perguntei, curiosa.
- Ah, é só a mulher mais incrível desse mundo, certo? – Tomas deu uma leve cotovelada nas costelas de Oliver, como se o provocasse. – E o garotão aqui deu sorte de pegá-la de jeito!
Franzi o cenho, agora sem entender absolutamente nada. Primeiro que não estava entendendo uma vírgula da conversa e segundo que eu nunca havia conhecido um parisiense tão simpático.
- Eu não a peguei de jeito, Venne, que modo de falar é esse? – Oliver soltou uma risada nervosa.
- Não foi isso que você disse no brinde do casamento? Ah, por favor, vocês só estão casados há o quê? Sete anos? – Tomas soltou uma risada e olhou para mim. – O fogo não dá para apagar em sete anos, não é? – Ele me perguntou ainda em tom brincalhão.
- Não, eu acho que não. – Respondi, meio no automático enquanto meu cérebro processava de verdade o que estava acontecendo ali.
Oliver é... Casado?
Meu Deus, eu acho que vou vomitar em cima dessa mesa.
Tomas voltou a falar.
- E o pequeno Ju-
- Eu preciso ir ao banheiro, com licença. – Interrompi-o, subitamente, e me afastei sem esperar qualquer resposta deles.
Tentei fazer meu caminho até o banheiro, que eu mal sabia onde era, enquanto aquele restaurante, que sempre pareceu tão bem organizado e agradável, agora não passava de uma enorme bagunça que estava começando a me deixar irritada. Perguntei a um garçom onde ficavam os toaletes e ele me indicou a direção.
Mas eu não fui para lá. Na verdade, meus pés fizeram todo o caminho contrário em direção à saída do restaurante. Eu mal conseguia raciocinar o que estava fazendo. Minha mente só repetia a última cena, perguntando-se o que havia acabado de acontecer.
- Senhorita? Tudo bem? Quer que eu chame um carro? – O mâitre, que estava de pé junto à porta, ofereceu e eu me perguntei o que meu rosto transparecia.
Não respondi, apenas atravessei as portas e inspirei todo o ar que pude quando saí.
Acenei para o primeiro táxi que vi, ansiosa por sair dali.
O táxi me levou até em casa, onde Oliver me esperava nas escadas.
- Vai embora, Oliver. O táxi está esperando por você. – Passei por ele, subindo as escadas rapidamente. Ouvi-o dispensar o motorista e subir atrás de mim.
- Por que demorou tanto para chegar? – Perguntou.
- Porque eu pedi ao motorista que pegasse o caminho mais longo. – Respondi, entrando em casa e largando as chaves no aparador ao lado da porta.
Não me preocupei em expulsá-lo da minha casa, pois sabia que a conversa que viria a seguir era necessária. Segui para a sala de estar do apartamento com ele em meu encalço. Não sabia se estava mais nervosa ou humilhada, eu só queria gritar.
- Por quê?
- Para pensar na merde que aconteceu naquele restaurante! – Virei-me para olhar em seu rosto.
- ...
- Você é casado, Oliver?
- ...
- Responde!
- Sim – soprou.
- Isso é... – balancei a cabeça – isso é ridículo.
- Não, não é ridículo, é só a maldita realidade!
- A realidade não, Oliver! Você! Como você pôde fazer isso?! Você é um traidor! Um adúltero! – Cobri a boca com a mão quando aquelas palavras saíram, tomando em conta o peso delas.
- Meu amor, por favor... – Deu a volta no sofá para vir à minha frente.
- E você realmente achou que eu nunca descobriria?
- Eu não esperava te conhecer, ! Não esperava me apaixonar por você!
- Ah, a culpa é minha! Eu devo me desculpar? Pelo quê? Por ser “irresistível demais”?! Isso é ridículo!
- Nada disso é culpa sua!
- Você tem filhos?
- Meu amor...
- Você tem filhos? – Repeti.
Ele suspirou e passou as mãos pelo rosto.
- Dois meninos.
Dessa vez, a náusea me acertou em cheio e eu corri para o banheiro.
Não sei quanto tempo passei lá dentro vomitando tudo que tinha em meu estômago. Eu chorava copiosamente, sentindo pena de mim e da família de Oliver, pensando em como tudo fazia sentido agora e, quanto mais pensava, mais enjoada ficava e mais eu vomitava, mais meu estômago se embrulhava e se contorcia dolorosamente.
Quando, enfim, eu consegui me colocar de pé, lavei meu rosto e saí do banheiro sem muita certeza de como encararia Oliver ainda, mas eu não precisei fazer nada. Ele não estava mais lá, ele não estava em lugar algum. Mas havia um bilhete em cima da mesa de centro na caligrafia apressada dele:
”Vou deixar você processar tudo isso. Eu sinto muito. Eu te amo. Venha me procurar na Universidade amanhã, eu imploro. Vamos superar isso. Eu te amo. Seu, e apenas seu, Oliver”.

Zayn’s POV
1 ano antes.

- Merda de salada de ovos – murmurei, empurrando os pedaços de cebola para o canto do grande prato branco.
- Aposto que aquelas vadias cospem na nossa comida – completou Ephrem, meu companheiro de cela. Soltei uma risada não porque achei graça, mas porque aquela merda de comida ainda me deixava extremamente puto. Não era para isso que o governo roubava meus pais todo ano? Os impostos, como eles chamam. Não era para ter, pelo menos, uma comida agradável? Fuck this.
Pelo canto do olho, vi Kenton, o guarda do horário do almoço, aproximar-se de nossa mesa com aquele peito estufado. O filho da puta parecia um fucking pombo. Travei a mandíbula, tentando ao máximo não dar atenção a qualquer merda que ele fosse falar – porque ele ia, com certeza.
- É melhor comer tudo, ethnic, ou vai voltar às suas origens e passar fome. – Soltou uma risada maldosa, cutucando meu ombro com o cassetete.
Porra de reformatório; era assim que eles esperavam corrigir esse bando de marginais?
- É melhor você parar de me chamar assim…
- Se não o quê? – Ele se curvou sobre nossa mesa, encarando-me.
Ephrem olhava para mim e para ele, afastando-se gradativamente, já prevendo a merda que aquilo tudo ia dar. Mas eu não ia cair na conversa daquele infeliz, não hoje, não depois de terminar a detenção de três dias limpando as calhas de uma escola qualquer do condado por ter xingado a mãe de um dos detentos.
Trinquei os dentes, segurando a raiva dentro de mim.
Desde que havia chegado aqui – há uns quatro meses – meu pavio estava mais curto que o normal. Meu sangue fervia à menor provocação; minhas mão coçavam para bater em alguma coisa e os caras dali, os outros detentos… Eles simplesmente não ajudavam. Era inacreditável: os caras não podiam só cumprir a merda da própria pena, não, eles tinham que te atormentar até fazer você ficar puto da vida, começar uma briga, brigar, rasgar a cara de alguém, ter a cara rasgada, pegar solitária, fazer um serviço social e, se não fosse suficiente, correr o risco do conselho (uma piada, formado por dois gordos branquelos com um rei na barriga cada) aumentar em uma semana sua pena total.
Bando de arrombados.
Mas eu não estava puto com eles. Não. Eles eram só um agravante terrível da minha condição.
Essa história toda, essa palhaçada toda só está acontecendo por causa de uma, uma única pessoa. Ela tinha nome, sobrenome, endereço e uma bunda espetacular.
Vagabunda.
- Ethnic! – A voz de Kenton me trouxe de volta à realidade.
- Puta merda, você não cansa de ser um imbecil, não?
- Olha a boca, rapaz! – Ele me lançou um olhar duro e se afastou, indo importunar outros rapazes em outra mesa.
- Cara, eu tô falando – Ephram balançou a cabeça. – O cara te odeia de graça.
- Ótimo, é tudo que um cara de cor pode querer: um policial que não vai com a cara dele por nada – bufei.
- Nem me fale – ele suspirou.
Ephram atirou contra o padrasto depois que chegou em casa e viu a mãe apanhando do bastardo. O cara foi preso pelo flagrante, mas quem se lascou mais foi o enteado, que, por fazer a merda da coisa certa, foi mandado para o reformatório por dois anos.
Dois anos.
Puta merda, aquilo não fazia o menor sentido.
- A hora do almoço acabou, ladies. – Um dos guardas do refeitório anunciou e eu joguei o garfo no prato de plástico.
- Maldito, atrapalhou meu almoço – bufei e Ephram riu consigo mesmo.
- Talvez ele queira comer você. – Disse, colocando suas mãos nos bolsos da calça bege.
- Vai se foder.
- Qual é, pensa, faz sentido – riu mais um pouco, abaixando o tom de voz. – O racista se apaixona pelo cara moreno. Ele persegue o cara só para não perder a oportunidade de interagir já que a ideia de concretizar o sexo é realmente absurda para ele.
Ignorei a imaginação dele e foquei em fazer meu caminho até a oficina do prédio do reformatório. Fazia parte da nossa punição produzir algumas coisas, como uma capacitação, como se eles achassem que todos que estavam ali eram drogados desempregados. Entramos na enorme sala cheia de mesas abarrotadas de coisas e que cheirava a serragem.
- Malik! – Um guarda negro de dois metros me chamou. – O diretor quer ver você.
- Uh. – Ephram assobiou. – Você está ferrado.
- Não fiz nada de errado.
- O Pathan guarda maconha no pé da cama dele.
- Ninguém gosta de X9.
- Ninguém gosta de levar esporro do chefão – arqueou as sobrancelhas para mim.
Balancei a cabeça, de saco cheio de tudo aquilo.
Mais três meses, Malik. Mais três meses.
Kenton me esperava do lado de fora da sala com um pequeno sorriso. Puta merda. Lembrei-me do que Ephram havia dito sobre ele querer me comer e fiquei nervoso de repente, preocupado com a hipótese de ele tentar fazer alguma coisa. Ele era bem maior que eu e tinha essa cara de louco sadista que me fazia temer pela minha vida.
- O chefe descobriu umas coisas sobre você... – ele começou a falar, com um tom divertido.
- Ninguém pode provar nada.
- É verdade – limpou a garganta. – Esses bostinhas estão bem comportados ultimamente, mas, sabe, antes de você chegar havia brigas o tempo todo. Era uma bagunça, teve um garoto que até perdeu um olho. – Riu.
Sadista filho da puta.
Diminuí o passo para ficar um pouco atrás dele. Jamais fique de costas para seu inimigo.
- Então, realmente não se sabe o que acontece com nossos detentos em alguns casos. – Apontou para mim. – E, como você disse: ninguém pode provar nada.
Dito isso, ele se virou para mim rapidamente, colocou o braço contra meu pescoço e me empurrou até a parede.
Senti o medo crescer dentro de mim à medida que me lembrava de cada palavra de Ephram sobre sua teoria maluca. Puta merda. Kenton abriu a porta do banheiro que havia ali e me empurrou para dentro. Tropecei nos meus próprios pés, mas me mantive de frente para ele.
- Você acha que pode causar terror por aí e que vai passar uns meses numa colônia de férias e que vai ficar por isso mesmo? – Ele arqueou as sobrancelhas para mim.
- Colônia de férias?! Tá falando disso aqui?!
- É uma colônia de férias comparada com o ninho de ratos de onde você e sua família devem ter saído.
- Filho da puta.
- Você sabe quem está no comando, seja mais respeitoso. – Soltou uma risada cínica. – Há muito tempo que eu quero fazer isso com você, ethnic.
Ele partiu para cima de mim e eu tentei me esquivar, mas fui atingido no peito antes que pudesse tentar algo mais que isso. Caí no chão – ele era muito mais forte que eu – completamente sem ar e ele chutou minhas costelas. Fechei os olhos, absorvendo a dor em silêncio para não dar àquele filho da puta o gostinho de me ouvir machucado.
- Quem poderia provar que você não foi pego por um dos seus colegas de detenção? – Agachou-se ao meu lado, colocando a mão na minha nuca.
Puta merda, começou.
Ephram estava certo.
Kenton puxou o cabelo da minha nuca com força, inclinando minha cabeça para suas pernas. Meu coração batia a mil por hora e minha mente trabalhava furiosamente para pensar em uma saída daquela situação fodida.
Foi somente quando ele colocou a mão no bolso da calça do uniforme e tirou de lá um canivete que eu mordi minha língua do pior jeito possível – literalmente. Ele não ia me estuprar, não. A coisa era mais séria e tive alguma dificuldade para decidir o que era pior: ser estuprado ou morrer. Mas morrer acabou pesando mais.
Cacete.
Senti meu suor escorrer frio pela minha testa. Nunca estive tão assustado em toda minha vida.
- Sabe, eu aprendi no exército alguns truques. – Riu. – Truques. Que piadistas aqueles caras. – Balançou a cabeça. – Bons tempos. Enfim, alguns truques. Punições que não deixam marcas. Vou te mostrar alguns, mas, não se preocupe, eu vou te dar uma marca para você nunca se esquecer de qual o seu lugar no mundo, ethnic.


’s POV
1 ano antes.
A casa de Sally Hyland era enorme e estava entupida de gente. Aparentemente a ideia de estar numa house party daquela magnitude e com tantas coisas ilícitas à vista deixava todo mundo louco, porque ainda era cedo e as pessoas já estavam curtindo como se não houvesse amanhã. Era o efeito do estresse de um ano letivo inteiro sendo liberado dos ombros de todo mundo.
Faltava uma semana para que eu e Harry voltássemos para casa e pudéssemos esfregar na cara da nossa família que sobrevivemos com sucesso ao nosso primeiro ano no purgatório – e que até gostamos de lá. Enquanto uma parte de mim estava exausta de aulas e implorando por aquelas merecidas férias, outra parte estava achando estranho a ideia de passar dois meses inteiros em casa, longe da vida no St. Bees e longe das pessoas que viraram nossos amigos e que faziam parte da nossa rotina diária.
Eu não tinha nada contra festas, só que sempre me pegava no meio da festa pensando que não estava me divertindo tanto quanto deveria estar. Já fazia um tempo que eu estava sentada no braço de um sofá na sala de estar tomando uma garrafinha de Coca-Cola, inicialmente conversando com algumas meninas do time de futebol, mas elas não demoraram muito para começarem a sumir uma por uma, indo atrás de algum garoto ou de alguma bebida. Provavelmente se eu bebesse também a festa ficaria mais divertida, mas eu não gostava da sensação de não conseguir controlar meu corpo, e era melhor para os treinos não consumir álcool. A música estava ensurdecedora e eu havia me distanciado dos garotos logo que chegamos lá. Preferia ficar longe deles em lugares assim, onde tudo em que seus cérebros conseguiam pensar era garotas e sexo, porque acabava que eu só atrapalhava e também não estava afim de participar dos joguinhos idiotas de meus amigos.
- yyy! – Louis se jogou no sofá ao meu lado e deitou a cabeça para trás, virando-a para mim e abrindo um sorriso bobo. – Você sumiu.
- Eu estou aqui desde que cheguei, Tommo. – Levantei uma sobrancelha para ele.
- Eu sei! Por que está aqui parada? A música tá muito boa! – Ele levantou a cabeça e olhou em volta.
Dei de ombros e tomei outro gole do refrigerante.
- Cadê os outros caras? Esse lugar vai explodir de gente.
- Estão por aí também. Acho que eu já vi o Harry beijar umas doze garotas, sem brincadeira. Eu estou avisando, se ele pegar uma DST e morrer eu não vou nem me dar ao trabalho de aparecer no velório.
Louis soltou uma risada, balançando a cabeça enquanto observava a festa. Ele parecia mais animado do que o normal, provavelmente tomou alguma coisa também.
- O Liam e o Josh não estão muito melhor. Esses caras realmente não têm limites, com esses joguinhos idiotas deles. Aliás, por que você está aqui e não fazendo a mesma coisa? - O olhei e Louis deu de ombros voltando a deitar a cabeça para trás e fechando os olhos.
- Eu não consigo ser como eles, de verdade.
- Como assim?
Lou abriu os olhos e me olhou.
- Eu não consigo me aproximar de uma garota assim, só ir agarrando, beijando, sem antes conversar, falar qualquer coisa. É sério. Eu já tentei e o resultado foi desastroso – ele levantou as mãos no ar e eu ri.
- É mesmo?
- É, , eu juro. Eu não consigo não falar alguma coisa, puxar algum assunto, e quando percebo já estou há dez minutos falando sobre Senhor dos Anéis ou, sei lá, sobre a teoria da gravidade e a garota tá me olhando com aquela cara de quem preferia morrer a estar ali. – Comecei a rir e Louis levantou os braços e encolheu os ombros. – Foge do meu controle! E as garotas querem caras como eles, que já chegam... Agarrando, e beijando, e mostrando o que querem. É com caras como eles que elas querem ficar.
- Mas é com caras como você que elas querem ter algo de verdade. – Toquei seu ombro e balancei a cabeça o assegurando quando ele me olhou.
- É, provavelmente você tá certa. Mas não sou bom nesse negócio aí também. – Balançou a mão no ar e novamente eu ri. – Mas e porque você não está por aí beijando umas bocas?!
Gargalhei dessa vez, jogando a cabeça para trás.
- Ah, tá, Louis!
- Eu estou falando sério! – Louis se sentou no sofá e virou para mim, me olhando nos olhos. – .
- Hum? – O encarei também, ainda com um sorriso divertido.
- Você não gosta de garotos?
Arqueei uma sobrancelha para ele, sendo pega de surpresa por aquela pergunta vinda de um Louis semi-bêbado.
- Não, eu estou falando sério, não estou sendo maldoso e nem nada, é só curiosidade. De verdade. Você não gosta de garotos? Não significa que tenha que gostar de garotas, sabe. A vida não é só preta ou branca. Ou alguma merda desse tipo. – Balançou a cabeça. – Algo sobre espectros de gênero e... Ah, enfim! Eu li isso na internet. Só queria te perguntar.
Precisei rir fraco, porque mesmo falando de algo assim, que tinha tudo para me incomodar – porque durante toda a minha vida precisei ouvir garotas estúpidas dizendo que eu era lésbica porque me vestia como um garoto e me comportava como um -, Louis conseguiu tornar aquilo um assunto natural.
- Eu gosto de garotos, Louis. – Balancei a cabeça. – Mas também não gosto de ninguém. Eu sei como vocês pensam, e sei como são nojentos e só se preocupam com coisas idiotas. Na maioria das vezes, é claro. – Dei de ombros. – Mas eu não tenho dúvidas sobre a minha sexualidade ou qualquer coisa dessas que as pessoas tanto gostam de falar hoje em dia. – Dei de ombros olhando para longe, para qualquer coisa.
Era meio difícil ter dúvidas de que eu gostava de garotos sendo apaixonada por meu melhor amigo desde que descobri o que era gostar de outra pessoa. Fechei os olhos, me xingando mentalmente por pensar naquilo e afastando o pensamento. Estúpida.
Louis voltou a se atirar no sofá.
- Eu te vejo com um cara legal um dia, . Um cara decente e gente boa, e que te conheça e te entenda, e que não vai fazer você preferir mudar nada no seu jeito.
- Não é isso o que todos queremos na vida? – Brinquei, suspirando e me encostando no sofá também, tomando mais um gole de refrigerante.
- É, acho que sim. – Ele riu fraco.
Olhei para Louis e ele já estava de olhos fechados de novo. O cutuquei com o cotovelo e ele deu um pulo, abrindo os olhos. Ri.
- Ai, Louis, você não vai ficar aqui atirado comigo enquanto os outros estão se divertindo. – Levantei e estendi a mão para ele. – Vem, vamos dançar ou alguma coisa assim!
Ele prontamente pegou minha mão e se levantou, e seguimos para a porta da cozinha que dava para o jardim e a área da piscina lá fora, onde também estava cheio. I Gotta Feeling começou a tocar e comecei a puxar Louis para um lugar onde pudéssemos dançar, mas ele me parou antes disso e apontou para algum lugar no alto, me fazendo seguir seu olhar.
Era Harry, e ele estava em cima do telhado da casa da piscina, há uns dez metros do chão, olhando para a água aquecida da piscina de Sally lá embaixo, segurando um copo de alguma coisa na mão. Todo mundo lá embaixo olhava para ele, e Harry devia estar amando aquilo. Ele adorava ser o centro das atenções, os holofotes eram seu habitat natural.
- Ele vai pular! – Alguém disse.
- Mas não é perigoso? Ele está bêbado!
- Eu acho que ele vai pular.
- O Harry é louco! – Uma menina soltou uma risadinha de prazer.
Grunhi e olhei para Louis revirando os olhos e soltando seu braço, indicando com a mão que eu resolveria aquilo. A música estava alta demais lá fora.
Fui para perto da pequena construção que era a casa da piscina, onde eram guardados artigos para banho e haviam banheiros e uma pequena sala de estar com televisão e sofás e pufes confortáveis. Dei a volta por fora e encontrei na parte de trás a escada que subia para o telhado, que era uma laje de concreto armado branco.
- Posso saber o que você tá fazendo aqui em cima? – Perguntei assim que subi e parei atrás dele.
- ! – Ele me saudou, olhando para trás e abrindo os braços. Revirei os olhos. Eu odiava Harry bêbado, ele ficava trinta vezes mais teimoso e sem escrúpulos.
- Anda, Harry, vamos descer, você tá bêbado e vai acabar fazendo um fiasco. – Disse, me aproximando mais e parando ao seu lado, virada para ele.
- Ah, qual é! É só um pulo, e a água é aquecida! – Ele apontou, e depois tomou o resto do líquido em seu copo, o jogando para trás. Passou as mãos uma na outra e pisou na borda da laje. – Vamos lá.
Puxei seu braço e quando ele se virou eu bati em sua cara. Harry virou o rosto e me olhou de novo.
- Ei!
- Para de agir feito um babaca! – Pedi, ainda baixo o suficiente para que as pessoas lá embaixo não ouvissem com o barulho da música.
- Deixa de ser pé no saco, ! O que deu em você ultimamente, querendo me dar ordens como a minha mãe?!
- O que deu em mim? É você quem está com complexo de superstar! Desde que entramos nessa escola você acha que virou rei, que pode fazer o que quer. Adora fazer cena pra essas pessoas que a gente mal conhece! – Apontei lá para baixo e ele revirou os olhos.
- Isso é porque eles me adoram. – Abriu um sorrisinho de canto, e eu juro que se rolasse os olhos mais uma vez eles cairiam do meu rosto. – Ah, qual é, relaxa, . Eles te amam também, você anda com a gente! – Riu fraco e encostou a mão em meu ombro. – Vê se relaxa um pouco, vai encontrar um garoto pra você, hum?
Antes que eu pudesse pensar, o resto da Coca-Cola em minha garrafa foi parar na cara dele. Harry fechou os olhos por um momento e suspirou. Quando os abriu de novo ele me encarou, chateado.
- Não tinha necessidade.
- Você é um escroto.
- Conta a novidade.
- E está bêbado. Se morrer pulando daqui a sua mãe vai me encher o saco pra sempre.
- Eu sei nadar.
- Você não consegue nem ficar num pé só agora!
- E você consegue? – Balançou a cabeça.
- É claro que eu cons-
- Então você vem comigo. – Ele me cortou e, antes que eu pudesse sequer raciocinar, Harry me puxou pela cintura e pulou do telhado, me levando junto.
Eu nem tive tempo de gritar antes de atingir a água, que estava mais gelada do que imaginei. Afundamos e em algum momento do percurso perdi a garrafa que eu segurava. Abri os olhos a tempo de ver o corpo de Harry afundar com o meu, suas mãos ainda me segurando, e ele abriu os olhos e me olhou também. Senti meus pés tocarem o fundo da piscina e agarrei a camiseta de Harry, nos puxando para cima de novo. Emergimos na superfície e pude ouvir os gritos de animação de todo mundo em volta da piscina, ovacionando Harry como gostavam de fazer. Tirei os cabelos do rosto e ele balançou os seus para se livrar de um pouco da água e me olhou.
- Irado! – Riu.
- Você. É. Um. Babaca! – Xinguei, o estapeando. – Fala sério, Harry!
- Você estava sendo toda chata e mandona! – Se esquivou, explicando-se. Ele ainda segurava minha cintura e só percebi nesse momento, e juntamente com meu coração que errou uma batida eu afastei seus braços de mim e o empurrei para longe.
- Idiota. – Murmurei, bufando.
Meio segundo depois, ouvimos um grito e alguém caiu na água também, fazendo com que o resto das pessoas próximos à piscina começassem a fazer o mesmo. Olhei a tempo de ver emergindo da água e rindo de alguma coisa com os outros. Olhei para Harry, mas ele já estava longe, maravilhado com o poder que tinha de fazer as pessoas o seguirem em qualquer merda que ele fizesse.
Saí da piscina com dificuldade, minhas roupas encharcadas, irritada e agora também com frio, enquanto o xingava mentalmente mais uma vez. Eu definitivamente não estava gostando daquela festa.


Niall’s POV
1 ano antes.

- Mas que porra, Niall! – A voz de meu pai foi acompanhada do estrondo que a porta fez ao ser batida com força contra o portal de madeira da porta de entrada. Larguei meu casaco em algum pedaço do caminho até a escada, planejando ir para meu quarto e ignorar meu pai pelo resto da noite, mas ele tinha outros planos e veio atrás de mim. – Aonde você pensa que vai?!
- Para o meu quarto – respondi em voz baixa, quase um murmúrio.
- Mas que merda, Niall! – Ele vociferou mais uma vez. – Você não vai para o seu quarto! Você vai ficar aqui e vai me explicar o que diabos você estava pensando!
- Nada, eu não estava pensando – respondi o que sabia que ele queria ouvir para acabar com aquela maldita discussão sem sentindo algum.
- Exato! Não estava pensando! Faça um favor a todos nós e se mantenha longe dos carros da família quando não estiver pensando!
- É com isso que você está preocupado? – Arqueei uma sobrancelha. Eu não me importava, mesmo, que ele não estivesse nem aí para o corte enorme no meu braço ou para a concussão que eu tive no acidente, até porque ele estava enchendo a paciência sem se preocupar com isso.
- Com os carros?! Claro que não!
- Não é o que parece.
- E o que parece? Que eu quero que meu filho saia por aí tentando se matar?! Eu acabei de perder sua mãe, Niall, não vou perder você também!
- É, quer saber? Talvez eu estivesse pensando nisso mesmo! Talvez eu quisesse me matar! Eu cansei de ficar nessa casa!
- Como é? – Ele franziu o cenho para mim e eu sabia que aí viria um comentário sarcástico. – O quê? Agora você tem coragem para morrer?! É isso?! Agora você tem coragem!
- É, pai, talvez eu tenha!
- É, eu duvido muito, já que você não teve nem a porra da coragem de ir ao enterro da sua própria mãe!
- Não, não, não! – Balancei o dedo em negativa. – Não! Você disse que estava tudo bem! Que eu não precisava fazer isso!
- E o que você queria que eu dissesse?! “Levanta essa merda de bunda mole dessa cama, eu não criei nenhum covarde”?
- Covarde?! – Vociferei, extremamente irritado. Uma maldita vontade de chorar, chorar de raiva, fez minha garganta fechar.
- Covarde! Deixou eu e Greg sozinhos para enterrar a mulher que fez tanto por nós, tanto por você! E você não conseguiu nem levantar da cama!
- Eu a amava tanto quanto vocês! Eu ainda amo! Ela era a minha mãe também!
- Então por que você não foi ao enterro?! – Ele gritou.
- A MINHA VIDA ACABOU, VOCÊ NÃO ENTENDE?! – Gritei mais alto que ele quando o desespero tomou conta de mim.
- Não, Niall, eu não entendo! Eu e o-
- EU NÃO SOU O GREG, PORRA! – Agarrei o abajur que ficava na mesinha ao lado do sofá e o joguei na parede, estilhaçando a cerâmica.
- EI! – Ele gritou. – Você se acalma!
- Eu não sou o Greg! Eu não pratico esportes como o Greg! Não pego todas as garotas do mundo como o Greg, não aprendo como o Greg, não sou tão inteligente quanto o Greg! Eu cansei de tentar ser o porra do Greg! Você não me dá um tempo!
- Você precisa de um tempo, Niall?! Você?! A sua mãe te estragou, mesmo...
- Agora vamos falar mal dela?!
- Já chega!
- Onde está o Greg agora?! Hein?! Na universidade! Fugido, como ele sempre faz! E quem está aqui?! Hein? Eu estou aqui! Aguentando esse seu silêncio filho da puta! Eu odeio essa casa! Eu odeio esse maldito silêncio! Você não fala comigo, pai! Há duas semanas você não fala nada!
- Você quer conversar?! – Abriu os braços, surpreso, mas debochado. – Vamos conversar, então! Você não tem carteira. Você não tem um carro. Você não tem o direito de morrer. Você está de castigo. Estamos conversados?
Maldito.
A raiva me corroía por dentro.
- Eu odeio você – falei. – Eu queria que você tivesse morrido, não ela.
- Más notícias para você, rapaz, sou eu quem está vivo e são as minhas regras que funcionam nessa casa! Vá para o seu quarto!
Girei nos calcanhares, disposto a andar até o meu quarto com toda a dignidade que eu achava que ainda tinha.
- Mas que merda, Niall! Eu não vou perder você também!
- Más notícias para você – imitei-o, mas não concluí a frase e fechei a porta do meu quarto com força.
Fui direto para debaixo do chuveiro, de roupa e sapato, deixando a água gelada cair enquanto eu gritava de frustração.
- Merda! Merda! Merda! – Mais um grito. – Mãe! – Chamei por minha mãe como fazia quando Greg era mau comigo. – Mãe!
Meu pai deu duas batidas violentas na porta do meu quarto. A porta do banheiro estava aberta.
- Cala a boca! – Gritou do outro lado.
- VAI SE FODER! – Gritei de volta, rangendo os dentes.
Ele entrou no quarto num rompante, vindo direto para o banheiro e depois para cima de mim. Arrancou-me de baixo do chuveiro e me deu um soco no ombro, não muito forte, mas eu podia ver em seus olhos o quanto ele estava se esforçando para não quebrar a minha cara.
- CHEGA DESSA CENA, NIALL! CHEGA! – Arrastou-me para fora do banheiro e me parou quando chegamos à janela do meu quarto. Ele apontou para o guincho que acabava de colocar o carro na entrada de nossa casa. Foi perda total e um milagre eu ter escapado apenas com um corte profundo no braço. – Você podia ter morrido, Niall! Morrido! – Largou meu braço com um safanão. – O que eu ia fazer, hein? Enterrar toda essa maldita família?! Você não pode fazer isso comigo!
Olhei para meu pai depois de passar tempo demais encarando o carro e toda a destruição da dianteira.
- Eu realmente não consegui ir, pai – a fala saiu como um sopro. – Não consegui.
- Eu sei – ele colocou a mão em meu ombro, sem olhar para mim. – Eu realmente queria que você estivesse lá conosco.
- Eu sei. – Uma lágrima caiu. – E eu não odeio você, pai.
- Eu sei – a voz dele falhou e ele apertou meu ombro mais uma vez antes de me puxar desajeitadamente para me abraçar.

Louis’ POV
1 ano antes.

O Late Winter Festival de Carlisle estava no mínimo... interessante naquele ano, podia-se dizer. Apesar das cores temáticas que eram sempre as mesmas, a cidade naquele ano resolvera adotar um visual mais mágico e sombrio. Eu já havia passado por pelo menos duas barracas de videntes e havia até um túnel do terror na área dos brinquedos, apesar de já estarmos há quase quatro meses de distância do halloween. Bem, mas quem era eu para reclamar? A comida continuava boa, e os shows que assistimos até foram legais. Bem melhores que os do ano anterior ou o de antes daquele, com certeza. Esperava que no ano seguinte eles mantivessem o mesmo nível, pelo menos.
O pessoal do colégio com quem eu estava resolveu ir à procura de algo para comer antes de partirmos para a usual festa na casa da Sally. Harry estava com eles, e eles sumiram de vista em um piscar de olhos quando parei para comprar um saco de pipoca. Então resolvi dar uma volta antes de procurar por eles, já que não estava com fome e queria ver mais do que o festival tinha a oferecer naquele ano.
Só que não tinha nada demais. Logo comecei a ficar entediado e pensei em procurar meus amigos novamente, antes que eu acabasse perdendo a hora e sendo esquecido pela carona que nos levaria até a festa. Porém quando passei por uma das barracas naquele corredor que vendia pequenas fontes de água, medalhões e filtros dos sonhos, alguém segurou meu pulso e olhei para trás.
- O que o garoto procura? Talvez encontre aqui dentro.
Estreitei os olhos para o cara que usava um turbante estranho na cabeça, e arqueei uma sobrancelha.
- Não, valeu.
O que eu podia querer com aquele tipo de idiotice, afinal? O máximo que eu podia encontrar lá era um tabuleiro de ouija para assustar o Harry com alguma porcaria macabra que eu pudesse inventar. E apesar de essa ideia parecer engraçada, eu não estava afim de gastar meu precioso dinheirinho em mais coisas inúteis. A última gaveta da minha cômoda já estava cheia dessas coisas no colégio.
- O garoto parece perdido. Procurando alguma coisa, vagando sem direção.
- O garoto está procurando os amigos. E um refrigerante. – Balancei a cabeça, me concentrando para não rir, e livrei meu braço da mão dele, virando para seguir.
- Primeiro filho de uma família de cinco meninas? Deve ser solitário.
Ah, você só pode estar brincando.
Virei nos calcanhares novamente e o encarei por um momento, os olhos semicerrados.
- O quê?
- Solitário. Deve ser solitário, estar aqui longe por tanto tempo.
- Ok, você tem a minha atenção. – Revirei os olhos. – Vai prever a minha morte agora?
- Ah, não, eu não prevejo nada. Mas o garoto pode encontrar algumas respostas aqui dentro. – Ele acenou para dentro da barraca, além do véu que cobria a porta. – Por dez libras.
Pensei por um segundo, e por fim ri fraco e balancei a cabeça.
- Claro. Por que não? Eu ainda não gastei em alguma coisa inútil hoje. – Dei de ombros e passei por ele, afastando o véu e entrando na barraca.
Lá dentro cheirava a incenso e chá. A luz era fraca e havia uma música baixinha de fundo tocando em algum canto para manter o clima. Havia uma mulher embaralhando cartas de tarô em um lado do cômodo, e foi para lá que ele me direcionou. Do outro lado havia outra mulher, que aparentemente lia a mão de uma garota que parecia focada e levemente assustada.
Sentei em frente à que tinha as cartas e ri fraco de mim mesmo, por estar ali. Aquilo podia ser interessante, no final das contas. Era como ver um show de mágica, apesar de já saber que você está sendo enganado por um charlatão. Entreguei as dez libras e observei a mulher terminar de embaralhar as cartas e as organizar em cima da mesa, enquanto eu comia minha pipoca.
- Escolha uma.
- Ah, não, esse truque eu já vi. – Reclamei. – Quero ver alguma coisa mais original.
A mulher bufou saindo da encenação de vidente ou cigana ou sei lá o quê e me encarou, cruzando os braços.
- Eu só sei ler as cartas.
- Eu não dei dez libras por essa coisa idiota e previsível. – Reclamei, mas sorri. – Me diz alguma coisa diferente.
- Tipo o quê?
- Sei lá. O cara na porta disse que eu estava perdido, sem saber pra onde ir. – Estreitei um pouco os olhos enquanto comia mais umas pipocas. – Disse umas coisas pessoais sobre mim.
- Ele deve ter só perguntado pra algum outro adolescente que passou antes de você. Esse lugar tá cheio de alunos dessas escolas de ricos que têm por aqui. – Ela deu de ombros e se escorou em sua cadeira.
- Você é uma péssima vidente. – Fiz uma caretinha, olhando para o fundo do pacote das minhas pipocas para os últimos grãos que ainda estavam lá embaixo. – Eu podia comprar outro desses com dez libras.
- Ah, ok, ok! – Ela respirou fundo e se ajeitou na cadeira. – Foi um longo dia usando essas roupas idiotas e torrando aqui dentro dessa barraca que mais parece um forno. E eles nem nos pagaram comida! Vou tentar adivinhar sobre a sua vida, e se eu disser alguma coisa certa você vai parar de reclamar e me deixar o dinheiro. Ok?
Ri e assenti com a cabeça.
- Fechado. Se me disser o que tem de errado comigo, pode ficar com o dinheiro.
- Beleza. – Ela apoiou os braços na mesa e senti seus olhos me observarem profundamente por um tempo antes de voltar a falar. – Hum... você parece um cara legal, simples, divertido... Tranquilo demais para alguém que sofre bullying ou esse tipo de coisa, apesar de que eu apostaria nisso pela sua cara de nerd.
- Nerd? Quem dera. – Balancei a cabeça. – Sou só um inútil procrastinador.
Ela riu fraco.
- Eu também era, e olha onde vim parar. É melhor você estudar. – Ela colocou os cabelos para trás. – Hum, ok. Então o problema não são os amigos. Hmm... Ah. Família. Você tem problemas com a família. Seu pai é muito distante, e...
- Não, não, eu nem lembro do meu pai biológico. Minha mãe diz que ele era um bosta, mas que pelo menos serviu para fazer a Lottie e eu – Franzi o cenho pensando por um segundo, mas logo dei de ombros e a olhei de novo. – O Mark veio um tempo depois, e ele sempre foi muito legal, ele praticamente me criou. Ele é como um pai deve ser. Então vieram a Georgia e as gêmeas e a casa ficou cheia e tudo mais. Eu adoro a minha família, mas a minha mãe, cara, ela é demais. Eu amo aquela mulher. – Abri um sorriso. – E ela nos ensinou a lidar com a falta de um pai muito bem, quando éramos só eu e a Lottie. Ela foi uma figura incrível e forte, e ela é demais. E você não perguntou nada disso. – Comentei, por fim, quando percebi que estava ouvindo muito a minha própria voz. Pigarreei. – Então, não, a família tá ok.
- Ok... – A vidente arqueou as sobrancelhas e riu fraco. – Legal, sua família é mais bem estruturada que a minha. Agora eu é que preciso de uma consulta.
Balancei a cabeça e ri.
- Continuando. Não são amigos, não é família, pelas suas roupas e por onde estuda obviamente não é dinheiro... Me desculpa, mas eu só consigo pensar na última alternativa. – Ela fez uma caretinha. – Vida amorosa.
Escorei-me para trás na cadeira e apoiei os braços no encosto.
- Try me.
- Uma garota quebrou seu coração.
- Pf! – Revirei os olhos. – Você consegue fazer melhor que isso!
- Não? Bom, valeu a tentativa. Ok, hum... Você ainda é virgem, e isso te assombra. – Ela abriu um sorriso divertido e apontou para mim, e ri.
- Ehh... Aquele episódio traumático nos fundos do ginásio podia nunca ter acontecido, mas pelo que sei sobre a parte técnica da coisa, não, eu não sou mais virgem.
A mulher gargalhou e levou uma mão ao rosto.
- Ah, deus, você sou eu há uns dez anos atrás.
- Pois é. – Dei de ombros com uma caretinha. – Então...? Prossiga.
Ela parecia estar prestes a desistir daquela brincadeira. Me encarou por mais um tempo tentando imaginar uma possibilidade, até que seu rosto se iluminou em uma ideia aparentemente brilhante.
- Você é gay! É isso, não é?! E nem você sabe! Você não é um cara muito popular com as garotas, como seus amigos são, e não sabe o que há de errado com você por não ser igual a eles ou ter os mesmos gostos que eles! Quando fica com alguma garota, você sempre sente que está forçando alguma coisa que não quer realmente fazer, porque não é disso que você gosta de verdade. Mas essa possibilidade nunca havia passado pela sua cabeça antes, ou talvez tivesse, mas você teve medo de admitir ou pensar no assunto!
A encarei por uns segundos.
- Lindo. – Comentei, balançando a cabeça fraquinho. – Mas não.
O rosto dela murchou até o chão.
- Como você sabe? Talvez esse seja você passando pela fase da negação.
Ri.
- Eu sei porque eu já pensei nisso. Todo cara já pensou alguma vez, eu acho. Mas como você disse, meus amigos são populares com as garotas, eles são os sonhos de consumo das meninas. – Por deus, eu divido o dormitório com Harry Styles, quis dizer. – Se eu fosse gay, eles já teriam me ajudado a descobrir.
Ela soltou um muxoxo de decepção.
- Além disso, eu daria um péssimo gay. Eu me visto muito mal. Meu cabelo também é um lixo.
- Não seja cheio de estereótipos. – Ela revirou os olhos. – Mas, ei, talvez eu não esteja tão longe. Tudo bem, então você não é gay, mas isso não significa que você seja hétero.
- Estou certo de que eu sou. – Disse, depois de balançar a cabeça.
- Você pode ser outra coisa, tipo... ace.
- Ace?
- Ah, sabe, assexual ou algo assim.
- Eu gosto de garotas.
- Gosta mesmo?
- Eu namorava uma foto da Scarlet Johannson até o ano passado. – Balancei a cabeça, e ela novamente fez uma caretinha de decepção. – Além disso, minha primeira paixão foi a professora de ciências do fundamental. E eu também gosto de garotas no geral. Elas são legais. Algumas são fofas e algumas mexem com os hormônios, você sabe.
- Ok, então, não é a sexualidade.
- Minha sexualidade é uma das poucas coisas das quais tenho certeza sobre mim mesmo. – Dei de ombros.
- Então o que mais pode ser? Você está dizendo que tem uma vida perfeita? Você não tem problemas?! Por que você está aq-
Então ela parou, de uma hora para outra, e eu arqueei as sobrancelhas. A vidente estava tendo uma epifania. Seu rosto se iluminou de novo.
- Você não tem problemas.
- ... Ok?
- Todo mundo tem problemas.
- Virou filósofa?
- A vida precisa de problemas para continuar girando. Sabe, para que você tenha algo atrás do que correr. – Ela balançou as mãos, e eu abri a boca para responder de novo quando comecei a entender onde ela queria chegar.
- Disserte. – Pedi.
- Incrível, mas eu acho que o John estava certo. – Ela acenou brevemente para o palhaço de turbante na porta da barraca. – Você não tem motivação.
Fiquei quieto mais uma vez, absorvendo aquelas palavras.
- Seus amigos são mais populares e mais bonitos e você vive atrás deles. Você não tem paixão por estudar nem uma garota que faz seu coração bater mais forte atrás de quem correr atrás. Sua família não suga suas energias com problemas e mágoas, e você... Você basicamente está na inércia. Estacionado. Em plenos, o quê? Dezesseis?
- Dezessete.
- Dezessete anos de vida. John estava certo, você está perdido, perambulando por aí. Procurando alguma coisa.
O silêncio caiu sobre nós brevemente, e quando viu que me ganhou ela soltou uma risada.
- Rá! Ok, isso foi interessante. Vou comprar um cachorro quente com essas dez libras. – A vidente se levantou, pegando o dinheiro da mesa. Ela me olhou e levou as mãos à cintura. – Você já pode sair.
Levantei a cabeça e a olhei.
- E o que eu faço sobre isso?
- O quê?
- Eu preciso encontrar alguma coisa para fazer com a minha vida. Como eu faço isso?
- E como é que eu vou saber?
- Você é a clarividente aqui. Eu paguei por uma consulta ou só para te ouvir jogar verdades na minha cara?
- Bem, acontece que eu realmente sou a pior vidente que você já viu. – Ela sorriu e piscou um olho para mim antes de se dirigir para a porta da barraca. – Vai viver a sua vida, garoto. O que você procura está lá fora, em algum lugar. John, estou fazendo um intervalo! – Gritou, antes de sumir pelo véu.
Ainda fiquei sentado lá por mais um minuto, antes que o véu fosse afastado e Harry aparecesse na porta gritando.
- Ah, aí está você! Você não vai acreditar, mas a está sentada na prancha da banheira de gelatina! O Josh foi comprar todas as fichas possíveis para a gente poder derrubar ela de lá. – Riu. – A está pirando e eu acho que a vai bater nela. Louis! Anda logo! – Gritou, antes de sumir de novo.


’s POV
1 ano antes.

Nós somos o resultado do que acontece conosco ao longo da vida.

Começou com coisas pequenas. Pequenas loucuras, sobre as quais minha própria mente criava desculpas para se enganar de que estava tudo bem, que não era grande coisa. Começou com um sorrisinho prepotente de quem sabia o que estava fazendo, com um beijo que ele sabia que arrancaria qualquer coisa de mim, e com uma promessa de que seria divertido.
Da primeira vez foi bom. Foi como pular em uma piscina gelada no dia mais quente de verão. Foi uma sensação de controle, entrar naquele mercado e sair com as garrafas sem ser pega, como se pela primeira vez em muito tempo eu estivesse no comando. Beber aquele whisky entre beijos e risadas, entre deboches e promessas, sentados naquele estacionamento vazio onde podíamos ver a cidade inteira como se fôssemos os reis do mundo. Fazia parecer que depois de tanto tempo se sentindo preza dentro de mim mesma eu estava livre, o mundo era meu, e que com ele ao meu lado não havia nada a temer.
Mas os pequenos furtos eram só o começo.
Em seguida vieram os roubos. Ele me ensinou a usar uma arma, a segurá-la, destravá-la, carrega-la, me acostumar e até gostar da sensação do seu peso em minhas mãos. A arma significava mais poder, e meu corpo estava sedento por isso. Ao mesmo tempo em que meu coração batia forte com o medo, minha mente me convencia de que era a adrenalina, me implorando para fazer aquilo, para poder sentir-se vivo de novo. Isso e o sorriso no rosto dele que dizia que me preocupar era besteira, me fazia largar qualquer medo.
Foi assim que entramos naquela primeira loja, de mãos dadas, e com o rosto meio coberto. Por um momento pensei que tudo fosse dar errado. Apontar uma arma para alguém era ao mesmo tempo aterrorizante e extraordinário, pois fazia parecer que eu tinha o poder do mundo nas mãos. E de certa forma tinha. Saímos de lá correndo enquanto ríamos, cinco minutos depois com uma bolsa pesada de dinheiro e dirigimos para bem longe antes de haver tempo de ouvirmos as sirenes. Naquela noite dormimos em cima de notas que não nos pertenciam e das quais eu não precisava e nem nunca precisaria, apenas porque o gosto da luxúria era bom e viciava como qualquer droga que pudéssemos usar.
Nas várias vezes que usei uma arma contra alguém em troca de dinheiro depois disso, a sensação de poder só aumentava, enquanto o medo sumia. Não havia tempo para sentir culpa ou qualquer coisa do tipo, porque o sexo, a cocaína e as festas apagavam todo o resto. Mas o negócio sobre segurar aquela arma e aponta-la para as pessoas, para mim, era que no fundo eu duvidava profundamente que se precisasse usá-la de verdade, eu conseguiria. Não conseguia me imaginar chegando ao ponto de apertar no gatilho de maneira alguma. Esse era o segredo, porque ninguém sabia disso.
Dez dias ou dez anos podiam ter se passado durante aqueles meses em que esqueci tudo que eu era e me tornei tudo que no futuro me arrependeria, mas nunca mais conseguiria me livrar de ser. Eu não saberia dizer quanto tempo foi, pois quando finalmente acordei era tarde demais para parar.
Foi num sábado de madrugada, em uma rave em algum lugar na região de Hamburg, que vi a primeira das coisas que não conseguiria mais esquecer. Eu estava com ele e tudo pulsava e explodia em cores vivas em volta de mim, no ritmo da batida eletrônica. Não sabia ao certo o que ele havia me dado, mas pouco importava. Todo mundo em volta parecia estar no mesmo estado.
Saímos para tomar alguma coisa e alguns minutos mais tarde ele já estava com as mãos dentro da minha saia, meu corpo prensado contra a parede do corredor escuro onde ficavam os banheiros. Havia gente em volta, barulho, conversa, cheiro de suor e de álcool, mas eu estava longe dali. Só nos afastamos quando um barulho de vidro quebrando em algum lugar perto de nós dois se fez presente, e pude ver uma garota – ela fazia parte do grupo com quem fomos até lá – empurrar uma mesinha cheia de garrafas vazias para o chão enquanto despencava, seu corpo tremendo descontroladamente enquanto as pessoas em voltam ou estavam ocupadas demais para perceber ou não sabiam o que fazer.
Demorou para que eu conseguisse entender o que estava acontecendo, enquanto via uma espuma branca escorrer de sua boca, seu corpo se contorcendo em espasmos que foram lentamente parando de acontecer. Agarrei o braço de Kevin, sem saber como reagir àquilo, olhando em volta para pensar em qualquer coisa que pudesse fazer para ajudar, quando ele agarrou meu braço e me puxou para sairmos daquele corredor.
- Temos que ir.
- O quê... Não, ela-
- Temos que sair daqui agora.
- Mas ela veio com a gente, ela...
- Agora, . – Ele parecia urgente, e acompanhei-o para fora de onde estávamos, observando seu rosto nervoso olhando em volta enquanto tentava abrir espaço em meio às pessoas.
- Você... Foi você que vendeu para ela... – Disse, quando a ficha caiu. Ele não confirmou, mas não precisava, eu sabia.
Olhei por cima do ombro enquanto era puxada para longe, o número de pessoas se aglomerando em volta dela só aumentava, e pude ver seu corpo agora imóvel, deitado no chão.
Dividimos o mesmo carro, pensei. Nós rimos das mesmas piadas, naquela tarde mesmo. O nome dela era Katy.
Não importava. Aquele era apenas o mundo real, minha mente me dizia. Mostrando como as coisas realmente são.

As coisas foram ficando cada vez mais escuras depois disso. Meu aniversário passou, e com ele o episódio de Kevin voltando para casa banhado em sangue que não era dele. Na próxima vez que vi Liv depois daquele dia, ela tentou me avisar.
- Ele vai acabar com você, . – Ela disse, sentada numa das mesas da lanchonete em que passava dia e noite trabalhando.
- Ele nunca me machucaria. – revirei os olhos.
Qual era o grande problema? Não estávamos machucando ninguém. Nós tomávamos o que o mundo oferecia, nós fazíamos o que muitos outros também faziam, mas não machucávamos ninguém. Kevin sempre dizia que não era dele a culpa por oferecer a morte, mas sim de quem a comprava. Ele sempre dizia que aquele dinheiro que às vezes roubávamos por diversão já era sujo muito antes de ter chegado às nossas mãos, e que tomávamos o que o mundo nos estava dando. Essas palavras sempre funcionavam para lavar a culpa de dentro de mim quando ela começava a me corroer, eu só precisava repeti-las. Porque era bom sentir aquele poder, aquela sensação que fazer aquelas coisas provocava, e eu não queria abrir mão.
- Mas ele já está. Olhe para você. Olhe para você, ! Olhe no que ele está te transformando. Essa não é você.
- As pessoas mudam.
- , ele está te usando. Me escute, por favor, olhe para o que você está se tornando. Ele está te envenenando, . Por favor, me escute. Vai chegar uma hora em que as coisas vão dar errado, , e não pense que ele não vai correr e te deixar com a culpa.
Não, ela estava errada.
- Somos um time. Nós fazemos tudo juntos, ficamos bem juntos. Nada vai acontecer com nós dois juntos.
Lively suspirou pesadamente e balançou a cabeça. Ela não entendia, e se não entendia, que ela se fodesse. Eu não precisava que ela entendesse.
- Essa não é você. – Repetiu. – Por que está fazendo essas coisas? Você não... Você não é assim.
- Porque é bom, Lively! Por causa do poder. Da sensação! Porque pela primeira vez sou eu quem estou com o controle. Sou eu, e eu não preciso mais ser aquela garota de antes, que vivia assombrada por coisas invisíveis. Eu estou vivendo. Não era esse o plano?
- Não desse jeito, ! Nós duas te conhecemos bem o suficiente para saber que isso não acaba bem! Ele vai te fazer não conseguir se olhar no espelho, no final das contas. E como é que você vai juntar os pedaços depois disso, hein?!
- Eu acho que isso não seja da sua conta. – Me levantei de súbito, pronta para acabar com aquilo. Parte de mim queria fugir daquelas acusações, porque reconhecia verdade nelas. Mas eu não queria ver isso.
Lively balançou a cabeça, incrédula.
- Não diga que eu não avisei.
Foi a última vez que a vi desde que tudo virou no inferno.

Eu precisava assegurar a mim mesma de que não havia deixado o que ela disse me atingir, depois daquela conversa. Precisava sentir a adrenalina e o poder mais uma vez, provar a mim mesma que ela estava errada, que eu podia fazer o que diabos eu quisesse fazer, porque eu estava no controle.
Pedi que ele me levasse junto na próxima ocasião em que fosse sumir como se não tivesse certeza de que ia voltar. Kevin disse que não, que eu não precisava ver o que ele fazia, que não era meu problema. Disse que eu não precisava fazer parte daquilo, mas eu insisti. Disse que queria fazer parte de todos os pedaços da vida dele. Eu o amava, afinal de contas, eu infelizmente profundamente o amava, e esse era o pior. Eu realmente seria capaz de qualquer coisa por ele, porque esse foi o quanto ele conseguiu me controlar.
Por fim ganhei a discussão, e foi assim que me vi apontando uma arma para o rosto de alguém mais uma vez. Mas dessa vez minhas mãos suavam e tremiam e meu coração pulava tanto que podia explodir, porque dessa vez eu devia puxar o gatilho.
- ... E é por isso que a minha garota agora vai te dar um presente. – Kevin disse perto do ouvido do homem, caído de joelhos em minha frente. Pude ver os olhos dele me encararem com pavor, enquanto sua boca se movia freneticamente sussurrando por favor, para que eu não fizesse.
Eu ainda não sabia se conseguiria fazer. De repente, com o fardo daquela missão nos ombros, fui que percebi pela primeira vez que eu era só uma garota. Me senti como só uma garota, uma menininha, pequena e nova demais para estar ali, fazendo absurdos como aquele. Meu lugar não devia ser ali, garotas normais da minha idade não faziam o que eu fazia, não estariam naquela situação. Mas eu estava, e aí estava a vida mais uma vez provando que ela podia ser amarga. Apesar de que, eu estava começando a entender naquele momento, as escolhas que me levaram até lá foram todas minhas.
- Do it, Kleine. - Ele disse, e e minhas mãos apertaram a arma com mais força. - Just do it. Quick.
Rápido. Era só apertar o gatilho. Mirar no joelho e apertar só uma vez, um tiro limpo. Ele nunca mais andaria perfeitamente, mas ainda poderia pagar suas dívidas. Era só isso. Era só apertar o gatilho.
- Ela não consegue. – Um dos caras de Kevin disse, como se fosse óbvio, como se estivesse dizendo o que todos na sala estavam pensando. Encarei o rosto de Kevin para ver sua reação, e antes mesmo que eu pudesse pensar, decidi que eu precisava. Mesmo se não conseguisse, eu precisava, porque não podia ver aquele olhar de desapontamento de novo.
E o que fazer se você não consegue, mas precisa?
Eu fechei os olhos com força. E apertei o gatilho.
O grito de dor que se seguiu ecoou dentro de mim.
Ao contrário do que imaginava, fazer aquilo não tirou o peso da conversa que tive com Lively de dentro de mim. Pelo contrário, só tornou tudo pior, é claro. Eu não pedi para fazer de novo nas vezes que se seguiram, apesar de que depois daquilo o acompanhava todas as vezes em que ele ia cobrar alguém ou fazer alguma troca. Até o ato de segurar uma arma se tornou difícil, e não mais prazeroso como era antes. Meu estômago embrulhava toda vez que eu sentia o peso do metal, eu precisava fechar os olhos ou virar para o outro lado sempre que me via em situações parecidas.
Kevin, por outro lado, tinha o dom para aquilo. Sendo bons anos mais velho que eu, ele definitivamente já estava naquela vida há mais tempo do que fez parecer quando o conheci, e eu via isso agora. Ainda estava presa a ele, ainda sentia que nunca conseguiria me livrar do que ele causava sobre mim, mas parte daquele sentimento se tornou medo e talvez um pouco de repulsa. Não só por ele, mas também por mim.
E foi aí que a última gota d’água aconteceu.

O dia era ensolarado, porém frio, e tinha um vento insistente de outono. Hamburg tinha um cheiro diferente, como toda cidade portuária, que para mim cheirava a casa. A pequena arma no bolso do meu casaco pesava, quase gritando, sem permitir que eu a ignorasse ali. O local era uma pracinha rodeada de arbustos e árvores, em um bairro pobre, em um local pouco movimentado. O chão era coberto de folhas de árvore secas. O carro era um Mustang antigo cor verde musgo e mal cuidado, estacionado ao meu lado na grama da pracinha, e a roda de parquinho em que eu estava sentada rangia a cada centímetro que se mexia. O rádio tocava uma música antiga do Coldplay, e me fazia lembrar de quando eu era mais nova e tinha uma paixão absoluta pela música.
Ele estava parado, mais ao longe, com dois dos seus caras, esperando os negociadores chegarem. O plano era simples. Era só pegar o dinheiro e sair.
Do outro lado do parquinho uma garotinha brincava enquanto sua mãe fumava um cigarro a observando de um banco.
Tudo estava quieto demais. Tranquilo demais.
In my place, in my place, were lines that I couldn’t change. I was lost, oh yeah…
A garotinha correu até o brinquedo onde eu estava sentada e sorriu para mim quando a olhei, enquanto subia na roda para brincar. Ficou de pé ao meu lado, se equilibrando de braços abertos enquanto eu girava devagarzinho, como se ela fosse uma surfista ou estivesse voando em um tapete voador.
- Olha, mãe! – Ela gritou, mas percebi que sua mãe havia ido um pouco mais longe para atender um telefonema e não a ouvira. Girei a roda até voltar ao lugar onde estava antes, de frente para onde Kevin estava, e foi quando o barulho do primeiro tiro me fez pular no lugar, assustada.
O negócio era que aparentemente Kevin também havia irritado muito alguém, alguém que era maior que ele, mais importante que ele. E esse alguém não queria saber de negociações, então mandou um breve recado.
Por um momento parece que tudo parou. Depois vieram mais tiros, de algum lugar próximo, mas que não dava para distinguir, e a primeira coisa que vi foram dois dos três amigos de Kevin despencarem no chão.
Quando meu cérebro reagiu e gritou preciso sair daqui e pensei em me levantar, algo pesado caiu sobre meu colo e deslizei para o chão sendo levada junto com o peso. Eu caí de joelhos e ao olhar para baixo senti o líquido vermelho e quente inundar minha camiseta, e olhos confusos e brilhantes de criança encararem os meus como quem não entendia.
Kevin e seu último companheiro estavam tentando revidar, pelos tiros que podiam ser ouvidos. Acho que ele chamou meu nome também em algum momento, pedindo que eu ajudasse ou talvez que saísse dali, eu não sei. Não consegui ouvir. Não consegui ouvir também os gritos desesperados da mãe dela quando percebeu o que estava acontecendo. Foram só frações de segundos, mas o rosto daquela criança encarando o meu ficou marcado em algum lugar em minha mente para sempre. Eu não conseguia parar de olhá-la, e os olhos dela pareciam se agarrar aos meus com tudo que ela ainda tinha.
Os lábios dela se moveram como se ela fosse dizer alguma coisa, e eu queria escutar, eu queria. Eu queria fazer alguma coisa, dar a ela alguma última coisa. Mas não pude. Ela nunca chegou a dizer o que planejava dizer, porque seu rosto relaxou e seus olhos se desfocaram antes disso.
- ... , AGORA! LEVANTA, AGORA! – Então os gritos de Kevin se tornaram bastante evidentes para mim, mas não consegui forçar meu corpo a se mexer. Os tiros haviam dado uma trégua, e de repente senti dois pares de mãos me agarrarem, um era Kevin tentando me levantar e outro era da mulher, a mãe, tentando fazer minhas mãos soltarem os pulsos da criança, que só agora eu percebera com quanta força segurava.
De algum jeito ela conseguiu se livrar de minhas mãos e puxar o corpo dela de cima de mim, segurando-a contra seu próprio corpo enquanto dizia algo que eu não conseguia distinguir. Havia um zumbido em minha cabeça.
Fui praticamente arrastada por Kevin até o carro, e enquanto ele dirigia para o mais longe dali possível, eu talvez tenha apagado por um tempo. Ainda estava acordada, mas minha mente não respondia.
Depois de bons minutos foi que senti minha mão ainda apertando alguma coisa com força. Quando a abri, vi uma pulseira estourada com as pedras todas vazadas em minha palma. Eram cinco pedrinhas coloridas, e nelas haviam letras que formavam um nome.
W.E.N.D.Y.

Louis’ POV
7 meses antes.

- Lou, atende a porta! – Ouvi minha mãe gritar do andar debaixo e fiz uma careta murmurando um what the fuck enquanto levantava da cama, afinal ela estava muito mais perto da porta que eu.
Saí do quarto e desci as escadas correndo, quase tropeçando no gato de Phoebe e Daisy pelo caminho e esbarrando em Felicity no pé da escada, segurando-a pelos ombros e apenas a movendo do caminho para conseguir chegar até a porta. Estava chovendo forte lá fora, uma chuva passageira de verão, mas ainda assim o calor era agradável quando abri a porta, que acabou por revelar um Harry Styles de camiseta, calção e vestindo uma capa de chuva transparente com capuz e tudo.
- Não tem pão velho aqui não. – Disse e ri, quando ele olhou para mim com cara de que ia me xingar. Puxei Harry para dentro batendo em seu ombro como um cumprimento, depois de não nos vermos por três semanas inteiras desde que o segundo ano acabou. Era até estranho não ter aquele palerma em volta o tempo todo. Não que em casa eu também tivesse algum sossego...
- Sua cidadezinha resolveu me receber com um dilúvio! Lá em casa não estava assim, não. – Comentou, parando no canto da sala quando fechei a porta e abrindo a capa ensopada de água para tirá-la. – Não passava táxi nenhum na estação por causa da chuva. Quando finalmente consegui um, o taxista me deu isso aqui e eu tive que aceitar. – Riu.
- Ah, isso explica. Pensei que você tinha se perdido pela Inglaterra. Era pra ter chegado há umas duas horas!
- Perdi o primeiro trem. – Deu de ombros, amassando a capa até que se tornasse uma bola de plástico. Me entregou e tirou a mochila das costas, se certificando de que ela não tinha molhado.
- E a ?
- Ah, ela não pode vir.
- Jura? Eu pensei que estivesse aí dentro. – Espiei para dentro da sua mochila cinza quando ele abriu, procurando o celular. Deu uma olhada na tela e depois voltou a fechar, soltando a mochila num canto no chão.
- Uma tia avó distante morreu lá pros lados de Falmouth. Ela nem conhecia a velha, mas a mãe dela a obrigou a ir no velório.
- Falmouth? Ugh. – Fiz uma careta, cruzando os braços. – Tira os tênis e deixa aí, depois a gente bota secar. – Apontei para o canto e ele fez isso.
- Pois é. São, tipo, seis horas de viagem. E aquele povo do sul é muito chato, ela estava implorando para vir, mas não adiantou.
Direcionei Harry para a cozinha quando ele terminou de se livrar dos calçados molhados.
- Mas a Noruega ainda tá de pé?
- Sim, sim, ela disse que voltam para casa em uns dois dias e aí ela pega o trem. Não perde isso por nada!
Sorte a nossa era que Doncaster e Holmes Chapel ficavam há menos de duas horas uma da outra, e havia trem ligando as duas cidades o tempo todo. Literalmente podíamos tomar o chá das cinco na casa um do outro se quiséssemos, mas mesmo assim já fazia quase um mês que só conversávamos por mensagem de texto. Afinal a gente literalmente convivia o resto do ano todo, quando estávamos em casa acabava não sobrando muito tempo para outras pessoas além da família.
- Mãe, o Harry chegou. – Avisei quando chegamos à cozinha e encontramos ela auxiliando Georgia e Phoebe a fazerem uns biscoitos em formato de estrela. Enquanto a mais velha cortava a massa no formato certo, Phoebe colava pedaços de chocolate e outros doces formando carinhas nos biscoitos, e minha mãe os colocava dentro da forma enquanto tomava uma taça de vinho branco. – E caso você não se lembre quem é quem, essa é a Georgine Fedorenta e essa é a gêmea que fala. – Apontei para minhas irmãs, e Georgia jogou um pouco de farinha em mim.
- Oi, Harry! – Minha mãe levantou e veio até nós, o abraçando com a mão que não segurava a taça e beijando sua bochecha antes de se afastar. – Você se molhou muito?!
- Não, o taxista me deu uma capa de chuva descartável. – Riu e eu balancei a bola de plástico no ar antes de arremessar no lixo e errar por alguns centímetros.
- Que bom, porque a sua mãe pediu para eu não deixar vocês dois se matarem durante essas duas semanas e eu disse que faria o meu melhor. Louis, junta aquilo. – Apontou para o lixo que eu havia errado e fui até lá. – A não vinha também?
- Ela teve um imprevisto de família, mas chega em uns três dias.
- Ótimo, ótimo. – Johannah disse, já voltando ao banco onde estava sentada antes. – Nós estamos fazendo biscoitos.
- Já tínhamos feito uma forma inteira, mas você demorou pra chegar, então a gente comeu tudo. – Phoebe contou, fazendo Harry rir. Chamava ela de a gêmea que fala porque, por algum motivo, Daisy ficava extra envergonhada (mais do que já era normalmente) perto dos meus amigos, em especial o Harry.
- Engraçado, eu não senti nem o cheiro desses biscoitos! – Reclamei.
- Mandei a Georgia avisar, mas ela disse que você estava com a música alta e não escutou. – Minha mãe disse e deu de ombros. – Bem feito pra você.
Encarei-a, fingindo estar magoado.
- Se fosse por você eu morria de fome!
- Eu tenho seis filhos, se fosse me preocupar em ter certeza de que todos estão devidamente alimentados quem morreria de fome seria eu! Além disso, você já é quase um adulto responsável pela sua própria barriga.
- Não graças a você, né? – Ri fraco. – Essa é minha mãe e ela toma vinho às seis da tarde de um sábado. – Apontei para a taça em sua mão e ela me jogou um pedaço de massa de biscoito, fazendo as meninas e Harry rirem. Acabei por rir também. Minha mãe, ainda no auge de seus quarenta e três anos, era jovial até demais às vezes. Ela conseguia ter mais disposição do que eu na maior parte do tempo e adorava fazer brincadeiras e piadinhas e pegar no meu pé.
- Chega de jogar comida no Louis. – Declarei.
- Harry, você tá com fome? Temos vários tipos de porcarias nos armários, você pode ficar à vontade para se servir, já que o meu filho não sabe receber visitas direito.
- Eu estou tranquilo. – Ele assentiu.
Mark apareceu na porta de vidro da cozinha nessa hora, meio molhado por ter tentado escapar da chuva correndo, e abriu a porta de correr adentrando a casa.
- Olá, Harold! – Ele veio até meu amigo e o abraçou, dando batidinhas em suas costas. – Como está? O Louis disse que você ia chegar mais cedo. E a ? E cadê as outras meninas?
Se minha mãe era bem disposta até demais, meu padrasto conseguia ser até irritante de tanta disposição. Ele era um cara muito bacana que, basicamente, topava qualquer loucura o tempo todo e era responsável por mimar as meninas e apaziguar qualquer briga que chegasse a ocorrer entre as garotas na família.
- Lottie e City saíram com umas amigas e a Daisy está no quarto. – Minha mãe disse.
- Ele perdeu o trem. – Expliquei, balançando a cabeça. – A chega em uns três dias. A Noruega ainda está de pé, certo? – Olhei dele para minha mãe, e os dois assentiram.
- Sim, sim, nós vamos todos esquiar na Noruega na semana que vem, você pode ficar tranquilo. – Mark riu fraco. – Esse cara só fala nisso o dia todo!
- Porque vai ser maneiro! – Me defendi e encolhi os ombros.
- Escutem, eu estava mexendo em umas coisas no carro lá na garagem e acabei encontrando meu kit de pesca no meio daquela bagunça. A previsão diz que o tempo deve abrir até amanhã. O que acham de a gente passar um tempo no meio do mato pegando uns peixes, huh? Dar um espaço para as garotas e aproveitar para fazermos alguma coisa de homem, só nós três!
Olhei para Harry com uma careta duvidosa. Eu, pescando? Rá, isso era quase que sinônimo de tragédia. Nas poucas vezes que tentei quando era mais novo consegui enfiar o anzol no meu próprio dedão do pé e cair na água tentando puxar um peixe. Harry pareceu mais receptivo à ideia e deu de ombros, concordando.
- Por mim tudo bem. Meu pai e o da amam pescar, eu acabei aprendendo bastante coisa com eles.
- Legal! Então se preparem, porque vou acordar vocês dois bem cedo! – Ele assentiu para nós, já olhando em volta procurando alguma outra coisa. - Jo, você viu a caixa de ferramentas?
- Você já checou no lugar dela?!
Empurrei fraco o ombro de Harry e o chamei com a cabeça para subirmos as escadas. Minha família vivia num ritmo avançado demais para a pobre cabeça de Styles acompanhar. Se você não fosse acostumado ficaria louco com toda a falação ao mesmo tempo, que nunca cessava. Fomos para o meu quarto e, depois de batermos papo por um tempo, nós decidimos jogar videogame e acabamos ficando nisso pelo resto da noite.

Mark não estava brincando quando disse que nos acordaria cedo, e na manhã seguinte nos tirou da cama às seis e meia da manhã. Nós saímos de casa ainda com todas as meninas dormindo, e levamos em um dos carros de meu padrasto, uma caminhonete antiga da Chevrolet que ele amava, todos os seus equipamentos de pesca e muitos sanduiches e garrafas de suco em uma sacola térmica.
Chegamos ao clube de pesca na metade da manhã, e era basicamente o que ele disse que seria: envolto em muito mato e próximo a um rio. Mark aconselhou que fôssemos fazer tudo que tínhamos para fazer no banheiro antes de começarmos com a pesca propriamente dita, e eu e Harry fomos até o banheiro público do clube fazer exatamente isso enquanto ele escolhia o barco. Depois de esvaziar a bexiga eu saí de um dos boxes e fui para a pia lavar as mãos.
- Ei. – Harry chamou, e o olhei pelo espelho.
Ele estava parado no meio do banheiro, com as mãos na cintura, usando um chapéu de pesca amarrado no pescoço e com um risco branco de protetor solar em cada bochecha. A única coisa que consegui fazer foi gargalhar ao ver aquela cena, e lamentei profundamente por ter deixado o celular dentro do carro, porque eu adoraria ter uma foto daquela figura para colar nos murais do St. Bees. Harry acabou rindo junto, não se importando com o quão ridículo ele estava.

Então nós nos preparamos no barco que Mark escolheu, arrumamos as linhas, as iscas, a comida e as varas dentro dele e partimos para o rio. Diferente do que eu imaginava, aquilo não foi ficando mais chato ou tedioso. Estava sendo bem divertido, para falar a verdade. Mark nos enchia de histórias de quando ele tinha nossa idade, coisas que eu ainda não sabia pois ele não ousaria contar na frente da minha mãe, e eu e Harry ríamos feito loucos. Quando era mais ou menos meio dia paramos no meio do rio e almoçamos sanduiche de tomate e suco de abacaxi, e depois Mark me obrigou a botar um chapéu ridículo e a passar protetor solar também. O sol estava forte e, apesar de estarmos longe da margem, o calor fazia dar vontade de pular naquela água.
Apesar da diversão, já passava de uma hora da tarde e nenhum de nós obtivemos muito sucesso em de fato pescar algum peixe. Eu inclusive nem tinha esperanças, já havia esquecido que aquele era o propósito ali. Harry estava sentado no chão do barco, com as costas encostadas na borda, segurando uma das varas de pesca no meio das pernas. A minha estava presa no equipamento do outro lado da borda junto com a de Mark, porque eu era preguiçoso demais para ficar segurando aquilo o tempo todo.
- Você tem falado com algum dos caras? – Me perguntou.
- Falei com o Josh ontem, perguntando onde ele andava. Ele disse que estava em Dubai com a família.
Harry me olhou, tendo exatamente a mesma reação que eu tive, que misturava surpresa e dúvida ao mesmo tempo, e eu dei de ombros. - Liam não me responde há dias, eu acho que ele morreu.
- A última vez que nos falamos ele contou que a mãe dele estava grávida. – Harry disse e eu assenti, concordando.
- Pra mim também. Ele deve ter morrido de emoção.
Harry riu.
- Cara... último ano. – Ele comentou depois de um momento e me olhou. Assenti, olhando para longe ao longo do curso do rio também. Algumas nuvens cobriam o Sol naquele momento, ainda bem, porque meus ombros e minha cabeça já estavam fritando.
- Assustador, huh?
- Sei lá. Ainda não caiu a ficha para mim. – Ele disse, e de certa forma eu entendia. Também sentia que ainda não havia entendido de verdade o que significava entrar no último ano do colegial: que depois daquilo, era vida adulta. Que eu não voltaria mais para um lugar onde vivi durante a maior parte da minha vida. Eu não sabia nem o que queria comer na janta, como devia saber o que queria fazer da vida?
- Pra mim também não. – Respondi.
- Será que vão ter calouras legais?
Não me surpreendi que aquilo fosse com o que ele se preocupava mais, e ri.
- Qualquer caloura é legal pra você. Você não tem nenhum padrão, Styles.
- Outch! Qual é, não é verdade. Eu gosto de... peitos. – Disse mais baixo, para que Mark, mexendo na linha na outra ponta do pequeno barco, não escutasse. - I’m a boob guy.
- Você é um man whore. - Soltei uma risada. – Você é um galinha.
- Tá machucando meus sentimentos.
- Você nem tem isso de sentimentos. – Ri mais, vendo em sua cara que ele nem conseguia negar. Harry até se divertia com aquilo!
- Claro que eu tenho. Eu tenho sentimentos muito fortes... Por peitos!
- Piranha. – Xinguei, e Harry revirou os olhos. – Prostituto de calouras. Rodado. – Continuei até que ele me chutasse, e gargalhei me colocando de pé com cuidado para não mexer muito o barco. – Preciso mijar.
- Fracote. – Me xingou de volta, mas decidi ignorar. Parei perto da borda e abri o zíper da minha calça. – Não olhem pra mim, eu não consigo fazer sob pressão.
- A gente não quer ver o teu pau, Louis. Relaxa. – Harry disse e Mark riu.
Mas aquilo era mais difícil do que parecia. Com o silêncio, Harry logo começou a encher o saco falando palavras de incentivo como “vai lá”, “faz logo”, “se concentra” e essas coisas, e a cada palavra dele ficava mais difícil de fazer o xixi sair.
- Porra, Harry, cala a boca! – Xinguei, ouvindo o palhaço se divertir ainda mais com minha desgraça. Minha bexiga podia explodir ali!
- Relaxa, Tomlinson! Qual é, não é difícil. Fecha os olhos...
- Eu vou mijar na sua cabeça!
- Se você conseguir fazer sair! – Ele gargalhou, e respirei fundo desistindo de minha tarefa e voltando a fechar a calça, decidido a bater em Styles. Quando me virei para ele Harry deu um pulo no lugar, sentindo sua linha puxar, e me desequilibrei.
- Ô!
- Eu peguei alguma coisa!
- Aí! Aí, aí, aí! – Mark veio correndo para o lado dele, fazendo o barco tremer ainda mais, e tive que me segurar na borda para não cair.
- Parem de pular!
- E é dos grandes, Harry. Puxa! – Mark gritou, empolgado, e os dois começaram a puxar a vara indo para o outro lado do barco e o fazendo virar um pouco para aquele lado. Arregalei os olhos com o desnível do barco que pendia para o outro lado e xinguei.
- Parem com isso, o barco vai virar!
- Cala a boca, Louis! – Harry gritou e virei a tempo de ver os dois conseguirem puxar o peixe de fora da água. Com a força, o barco voltou a pender para o meu lado e então, como se o chão estivesse me empurrando para fora, eu voei para a água.
Quando voltei para a superfície, cuspindo água e tossindo, só consegui ouvir a gargalhada desvairada de meu melhor amigo e de Mark rindo da minha cara enquanto o barco ainda balançava.
Harry se levantou do chão do barco e levantou do chão um peixe enorme, que pulava e se debatia violentamente, e segurando-o com as duas mãos ele o ergueu acima da cabeça e vibrou em comemoração, como se fosse um troféu de futebol e ele fosse o campeão do mundo.

's POV
7 meses antes.

- É pedir demais que você fique um pouquinho bronzeada, pele?! – Exclamei para o meu próprio corpo ao afastar uma das laterais da calcinha do meu biquíni e constatar o óbvio: eu não conseguia ficar bronzeada nem que ficasse um dia inteiro torrando sob o sol.
- É esclarecedor saber que você fala com sua própria pele – disse Amala.
- É injusto que eu não consiga pegar um bronze – coloquei os óculos no topo da cabeça e me sentei na espreguiçadeira. Ela soltou uma risada baixa. – Estou aqui há duas horas!
- Você é muito britânica – observou com diversão. Revirei os olhos para a garota espanhola. Era fácil para ela com toda sua descendência misturada às raízes arábicas que um dia dominaram a península ibérica; sua pele já era mais bronzeada que a minha e, sem esforço algum, ficava ainda mais com apenas alguns minutos no sol. – Tenta passar mais bronzeador – pescou o frasco marrom de dentro da bolsa de praia e o passou para mim. – Ou melhor, pede para o seu namoradinho passar para você – baixou os óculos e piscou para mim, indicando alguém que se aproximava de nós.
- Mateo! – Acenei para ele que, com um sorriso no rosto, chegou até nós. Levantei o frasco para ele com um biquinho. – Por favor?
Ele bagunçou os cabelos encaracolados ainda com o sorriso no rosto e pegou o frasco de bronzeador de minha mão. Virei-me de costas para ele, puxando meu cabelo para dar espaço ao óleo e suas mãos.
- Olá, Amala – ouvi-o dizer.
- Olá, Mateo. Onde está seu amigo? – Havia segundas, terceiras e até quartas intenções em sua voz.
- Da última vez que o vi, estava jogando vôlei – respondeu.
- Isso era algo que eu gostaria de ver – observou ela, levantando-se sem cerimônia. – Cuide de minha amiga, hein?
- Claro – Mateo soltou uma risadinha enquanto espalhava o óleo agora por meus ombros.
Quis soltar uma risada também ao notar o vestígio de timidez na voz dele. Ao contrário de Oliver, Mateo tinha a minha idade e eu havia me esquecido como garotos da minha idade eram engraçados! Como eles eram cheios de rodeios; ou pelo menos Mateo era assim, mas eu não podia condená-lo por quem ele era. Eu podia perceber a aura ingênua dele, de garotão. Não podia exigir que ele tivesse a maturidade e desenvoltura de Oliver: um cara mais velho, formado, trabalhador e... casado.
Namorar Oliver havia me deixado mal acostumada.
Afastei esses pensamentos da cabeça e me virei para o lindo espanhol que espalhava gentilmente – e desnecessariamente, já que meu corpo já estava lambuzado o suficiente – óleo bronzeador em mim. Ele arqueou uma sobrancelha para mim.
- Assim está bom? – Quis saber.
- Está ótimo, melhor que isso só se eu levar você para trabalhar de salva-vidas na minha piscina em Paris – abri um sorriso malicioso.
Ele sorriu também e se aproximou para falar em meu ouvido, causando-me um arrepio.
- Isso foi extremamente racista – disse, divertido. Claro que ele era inteligente, porque desse detalhe eu não abria mão em nenhum homem. Eu ia responder, mas senti areia sendo derramada em meu ombro e dei um grito, levantando-me.
- Idiota! – Gargalhei, tentando limpar a areia, mas ele jogou mais um punhado em mim. Dei-lhe meu melhor olhar mortal e ele piscou para mim.
Peguei um punhado de areia e corri até ele, mas ele foi mais rápido e saiu correndo comigo em seu encalço. Joguei o resto da areia que não havia escapado de minha mão nele, mas não surtiu o efeito que eu queria.
- Cansou? – Ele provocou, parando de correr.
- Não é justo me fazer correr na areia fofa.
- Patricinha – disse com seu sotaque espanhol maravilhoso.
- Como é? – Franzi o cenho fingindo ofensa. Geralmente me ofenderia, mas nada que aquele rostinho bonito dissesse seria levado como falta.
Era assim que os caras se sentiam em relação a mulheres sem conteúdo?
- Mimada – insistiu.
- Está se divertindo?
- Tenho outras idéias de diversão para entreter a burguesinha – abriu um sorriso de lado, aproximando-se um pouco mais a cada palavra.
- Eu não me impressiono fácil – garanti.
- Então você nunca conheceu a Espanha de verdade – colocou mãos na minha cintura, puxando-me para colar nossos lábios.
Era um caso de verão. Era idiota, era bobo, era estúpido. Um clichê fútil, uma fuga desesperada. Em tempos mais fáceis, eu jamais teria fugido, mas dessa vez eu precisei sair de Paris a qualquer custo.
Por isso, peguei o primeiro vôo para o primeiro destino que o site de passagens anunciou. Cinco dias em Ibiza, na Espanha, por alguns euros. Não liguei se não sabia falar espanhol, não liguei se estava indo sozinha e certamente não liguei quando meu pai me ligou perguntando por que meu cartão de crédito havia avisado para ele uma compra incomum. Não dei muitos detalhes e ele não se preocupou em checar minhas fontes: para ele, eu estava indo viajar com minha mãe.
O que não era o caso.
Na verdade eu estava hospedada em um hostel de três estrelas, cercada do tipo de gente que eu estive mais afastada no último ano: adolescentes, gente da minha idade ou alguma coisa perto disso. Com pouco luxo, sem conhecer ninguém, aproveitei a oportunidade para me desligar de tudo e curtir aqueles dias da melhor forma que poderia.
Conheci Amala no dormitório feminino. Conheci Mateo no primeiro dia numa festa aberta que aconteceu em um iate de algum milionário que estava de passagem por aqui. Ele e os amigos estavam hospedados em outro hostel, mas combinamos um ponto de referência na orla da praia onde sempre nos acharíamos caso quiséssemos. Quanto a isso, não esperava nada dele, estava mais certa de que eu não estava nem um pouco afim de me envolver com alguém mesmo que nos mais superficiais termos. Mas, para minha surpresa, eu quis. Passei o resto daquela noite depois da festa pensando em como seria beijá-lo. Um cara da minha idade. Era quase o desejo louco que eu tive para descobrir como era beijar um cara mais velho, Oliver.
E foi maravilhoso. Mateo era maravilhoso e ficar com ele foi libertador depois de quase um mês tendo que ser forte e evitar as investidas de Oliver, suas tentativas de me ter de volta, prometendo que ia largar a esposa e os filhos para ficar comigo.
Eu quis desaparecer. Quis morrer e desaparecer de novo.
Então, depois de cinco dias longe, despedir-me de Amala e de Mateo foi uma experiência difícil. Era como despertar do sonho mais agradável e gentil que já tivera e não quis acreditar que havia acabado.
Mas ao sair do aeroporto de Paris e encontrar menos cores me fez cair de cara na realidade.
Eu amava Paris com todas minhas forças e, mesmo com o sol brilhando forte na capital francesa, senti uma falta absurda do sol espanhol e do ar de Ibiza.
Coloquei a chave de casa no pote de cerâmica africana ao lado da porta, tirei meus sapatos e entrei em casa, largando minha mala em algum canto.
- Mãe? Cheguei! – Gritei enquanto entrava em cada cômodo à sua procura. – Mãe?
Atravessei a cozinha em direção ao quintal, que também estava vazio. Voltei para a sala e subi as escadas apenas para encontrar o segundo andar vazio e a mesma coisa na biblioteca no terceiro e último andar. Na porta do meu quarto havia um bilhete colado de qualquer jeito, quase se soltando da fita adesiva que o prendia.
, vou ficar uns meses fora com o amour de ma vie. Seu pai comprou sua passagem, mas ele deve saber melhor os detalhes.
Abri a boca para soltar um palavrão, mas me contive. Balancei a cabeça para o bilhete escrito na caligrafia rápida de minha mãe. Ela nem se despediu. Nem pessoalmente nem no maldito bilhete feito às pressas por ela. Peguei meu celular para ver se não havia perdido nenhuma mensagem dela ou ligação, mas não havia nada além de novas mensagens de Oliver a serem ignoradas.
Fui até o closet dela para ver quanta roupa ela havia levado e fiquei surpresa ao ver que muito pouco fora levado, mas o espaço vazio de onde ficava a mochila de acampar me deixava a certeza de que ela havia saído para mochilar.
Ignorei o aperto no peito quando vi aquilo, pois minha mente automaticamente me guiou para algum dia de algum mês do ano passado em que ela me prometeu que, na próxima vez que ela fosse mochilar pelo mundo, ela me levaria.
Amassei o bilhete e voltei para o quarto dela.
A cama estava esticada, mas havia objetos espalhados pelo chão perto da cômoda que servia de aparador da grande televisão. Sentei-me na cama esperando que aquela sensação sumisse, mas só piorou quando, ao olhar para sua mesa de cabeceira, avistei o porta-retratos com a foto dela e do amor da vida dela , como ela gostava de chamar e não mais a foto de quando eu era criança que ela sempre mantinha lá.
- Mãe! – Senti o choro apertar em minha garganta e enfiei o rosto nas mãos desejando intensamente voltar para Ibiza e de lá ir direto para a Inglaterra, sem ter que conviver com esses absurdos da minha mãe.
Ela nem havia se despedido!
Balancei a cabeça para espantar o choro e me coloquei de pé, decidindo-me por resolver logo as coisas com meu pai.
No meu quarto, liguei para ele, que me atendeu no terceiro toque.
- ! – Cumprimentou calorosamente.
- Oi, pai – soltei uma risada fraca.
- Tudo certo para a viagem? Sua mãe passou os horários?
- Ela disse que você ia me dar os detalhes.
- O quê? Ah, sua mãe só pode estar me pregando uma peça... – estalou a língua. – Filha, seu vôo é amanhã!
- Que hora? – Levantei o olhar para o relógio em cima da mesa de cabeceira.
- Às seis da manhã.
- Droga! – Passei a mão no rosto. Droga, mãe! – Ok. Quando eu estiver no aeroporto eu te aviso.
- Onde está sua mãe? Quero falar com ela.
- Ela não está.
- Peça que ela me ligue...
- Ela só volta daqui... uns meses – franzi o cenho.
- O quê? Ela viajou? E não te passou os detalhes? – Agora ele estava bravo. Mordi o lábio reprimindo uma risada. Meu pai era engraçado quando estava bravo com minha mãe. Nunca era uma raiva completa.
- Ela foi antes de eu chegar da Espanha.
- Você tá brincando comigo – afirmou.
- Não.
- Não acredito...
- Pai, o vôo é às seis. Manda os dados do vôo por mensagem, ok? Ou e-mail, se quiser. – Ri ao me lembrar que ele não era devoto da tecnologia. – Vou me arrumar, tá? Beijo, tchau. – Desliguei sem esperar sua resposta.
Joguei-me em minha cama e fiquei lá encarando o teto por algum tempo, pensando na ironia do destino. Eu queria ir embora e agora eu havia conseguido. Em menos de quinze horas estaria dentro de um avião em direção a um ano longe de tudo que mais amava do lado de cá do canal da Mancha.
Longe de Oliver de uma vez por todas.
Dos meus amigos.
E da minha mãe.
Mas dessa última eu já estava mais que acostumada a sentir falta.

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Continua...




Nota da autora: Mah: Espero que um dia vocês possam me perdoar (a culpa dessa demora infinita foi minha, real). Espero que essa atualização de 100 páginas possa ajudar no processo. Vocês SÃO demais por continuarem lendo. Obrigada! xx
Lah: Woah, it's good to be back! Seis fucking meses, nós sabemos! Esse deve ter sido o maior tempo entre uma att e a outra. Cento e vinte e três páginas, bebê. A quem ainda está aí, um muito obrigada do tamanho do mundo. Quero que saibam que a nossa demora não significa que não nos importamos com a fic ou que não estamos dando atenção a ela, definitivamente não. Amamos a TAT e damos muito de nós a ela. Sei que sempre prometo que o próximo capítulo vai vir mais rápido, mas dessa vez tudo que vou fazer é prometer que vamos TENTAR really hard entregar o capítulo seguinte mais rápido. Nós agradecemos a cada uma de vocês que ainda não desistiram da gente, e prometemos que temos MUITOS planos legais para a TAT.
Ah, e está aí. Finalmente, no more secrets, agora vocês conhecem todos os segredos mais escuros e o que tira o sono dos nossos personagens. O que acharam?


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Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






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