Última atualização: 27/12/2019

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Capítulo 28

’s POV
Fazia minutos que eu estava escorada em uma parede do auditório, com um pincel na mão tentando não dormir, mas meus olhos ficavam mais pesados há cada segundo, e não fosse a cortina que separava o canto da sala onde eu estava do resto e da professora que cuidava as nossas atividades, era possível que eu já tivesse conseguido uma detenção dentro da detenção.
Todo mundo ali estava chateado por terem sido obrigados a passar a sexta-feira inteira fazendo aquilo, mas todos também sabíamos que poderia ter sido pior, e àquela hora da tarde o resto da energia que a gente ainda tinha para reclamar depois de não dormir há mais de 24 horas já havia se esgotado. De fato, desde que voltamos do almoço o barulho lá dentro havia extinguido completamente, e agora ninguém mais falava. Eu sabia que, assim como eu, todos olhavam de cinco em cinco minutos para o relógio a parede que já marcava quase quatro e meia da tarde, tentando não dormir no meio de suas atividades.
Ninguém sabia há que horas o castigo terminaria. Enquanto parte de mim temia que eles fossem nos deixar lá até a hora da janta, por outro lado era inútil nos deixar lá no estado em que estávamos, todos dormindo em pé, e acho que a professora também já havia notado isso. Afinal era nítido que ninguém ali dentro tinha ânimo para aprontar algo de novo pelo menos durante as 48 horas seguintes.
Louis recortava isopores em forma de estrelas do lado oposto do auditório e as passava para Josh e Liam pintá-las de amarelo e passar glitter em cima, respectivamente, e vez ou outra trocávamos olhares cansados. O almoço já passara há horas, e eu estava com fome, mas ainda assim trocaria tudo por uma cama quente e aconchegante naquele momento.
- Ok, acabamos por aqui hoje. – A professora disse, passados uns dez minutos, sendo respondida com um coro de suspiros aliviados e barulho de pessoas soltando suas ferramentas nas mesas. Soltei o pincel sem olhar pra o trabalho de merda que eu fizera pintando um fundo de cenário e me coloquei de pé, sentindo minhas costas estralarem. – Espero que tenham aprendido alguma coisa.
- Aprendi – disse Liam quando ele e os meninos se aproximaram enquanto íamos para a saída. –
Aprendi a nunca mais seguir as ideias da Lola.
- Cara, aquilo é simplesmente bizarro, é hilário de alguma forma, mas também me assusta muito, toda essa coisa... Ela devia avisar as pessoas, para que elas pudessem se preparar, e não guardar segredo sobre isso – Josh alegou, e olhei-o.
- É. Quando você tem uma doença que te faz duvidar até da própria sanidade a primeira coisa que vai querer fazer é espalhar para todo mundo, é claro. – Ele me olhou prestes a rebater, e balancei a cabeça. – Mas quem sou eu para falar, você deve entender muito melhor sobre isso.
Senti Louis me alcançar e segurar minha mão e olhei para o outro lado, sorrindo para ele.
- Vamos dar o fora daqui – disse ele, um tanto desesperado, e concordei.
- Por favor!
Nós saímos do auditório e seguimos o fluxo de alguns alunos que passavam no corredor. Bocejei, sentindo meus olhos arderem, e Louis apertou minha mão.
- Você quer comer alguma coisa?
- Eu quero dormir. Quero dormir até acordar, eu acho que é minha chance de dormir melhor do que já dormi em anos, e não quero perder isso.
Ele riu.
- Vamos pegar umas barrinhas para a viagem, então – comentou e eu concordei, indo até lá. Coloquei uma nota de 10 libras na máquina e pedi por barras de cereal até o dinheiro acabar. Louis pegou todas e me deu uma, enquanto abria outra para si e guardava o resto no bolso do moletom.
Nós saímos do prédio e ambos olhamos em volta enquanto comíamos. O pátio estava bastante movimentado, as pessoas olhavam para todos nós saindo da detenção com curiosidade e falando baixinho sobre isso. Eu sentia que Louis estava pensando no mesmo que eu, e quando o olhei prestes a falar alguma coisa ele me ofereceu a mão e começou a me puxar em outra direção.
- Sei onde nós vamos. Você espera aqui rapidinho e eu já volto, ok?
Assenti e observei Louis correr para o prédio dos garotos. Sentei-me em uma mesa de pedra e esperei, tentando parar de bocejar tanto, e menos de cinco minutos depois ele apareceu de novo com uma jaqueta bem grande e algo dentro dela. Estreitei os olhos achando graça e ele pegou minhas mãos.
- Vamos.
Logo que ele começou a ir em direção ao ginásio eu também soube onde íamos. Por lá não havia quase ninguém além de casais se escondendo em lugares mais quietos e uma turma do segundo ano correndo em volta da quadra externa, e quando entramos no prédio do ginásio e o barulho lá fora foi abafado, senti um alívio imediato na cabeça. Suspirei, sentindo o cansaço se apoderar ainda mais de mim, mas ao mesmo tempo com a satisfação crescente de saber que logo eu estaria dormindo. Aquela devia ser uma das melhores sensações do mundo.
Passamos pela academia, pela entrada da quadra de futebol de onde barulho de apito e de pessoas jogando ecoava por trás da porta fechada, por outras salas de aulas vazias e enfim chegamos à sala do final do corredor, e Louis abriu com a chave que tinha no bolso junto da chave do seu dormitório. Adentramos a sala de ginástica, e Louis a trancou deixando a chave na porta.
- Todos nós temos uma cópia da chave daqui... – Explicou.
- Por favor, me diga que o que você tem aí é um cobertor, porque do contrário...
Louis sorriu e abriu a jaqueta, a tirando e revelando uma manta xadrez que era mais do que o suficiente para o que eu precisava agora. Meu sorriso satisfeito cresceu, e ele riu.
- Sabia que não tinha escolhido completamente errado quando resolvi te dar uma chance – comentei, chegando perto dele e puxando o peito do seu moletom com as duas mãos para dar-lhe um selinho. Louis riu e levantou uma sobrancelha para mim, e arranquei a manta das suas mãos.
- Eu vou deixar esse comentário passar. – Disse e, soltando as barras de cereal na mesinha em frente ao sofá de dois lugares para onde eu me direcionei, ele se espreguiçou bocejando. – Isso vai ser bom.
- Só faltou o travesseiro.
- É, eu pensei que precisava estabelecer alguma prioridade, ou as pessoas definitivamente perceberiam que não era só uma jaqueta extremamente grande que eu estava usando.
Concordei com a cabeça, me jogando no sofá e tirando os calçados de qualquer jeito.
- Não importa. Só deita aqui, Tomlinson, eu vou dormir em segundos.
- Ah, é a frase que todo homem quer ouvir – brincou ele, e ri o empurrando fraco com o cotovelo quando ele se ajeitou ao meu lado no sofá e também tirou os tênis.
Joguei a manta sobre nós e me ajeitei ao seu lado. Quando senti aquela estranha sensação de nossos corpos juntos, encaixando perfeitamente, confortavelmente, eu percebi que nunca havíamos estado tão próximos. E isso me fez ter pensamentos que me fizeram rir.
- O quê? – Ele olhou para mim, e senti seu braço debaixo da minha cabeça tencionar quando ele o dobrou para passar os dedos em meu braço.
- Nada – murmurei balançando a cabeça mas ele me apertou. – Nada! É só que isso é engraçado. Deitar aqui com você, é tão... natural e sem... Exigências?!
Louis ficou em silêncio, e percebi que aquilo que era estranho para mim era normal para ele, o fato de não estar cobrando nada de mim, de não estarmos ali pensando em sexo ou qualquer coisa assim. Era porque nunca conheci ninguém que deitou ao meu lado, cujos braços estavam em volta de mim, as mãos tocando minha pele, o peito próximo do meu, e não esperasse por nada em retorno. E só fôssemos dormir. Aquilo era estranho, era engraçado.
Fechei os olhos, sentindo meu corpo relaxar depois de mais de trinta horas seguidas alerta e muitas confusões.
- Mas eu tenho uma exigência.
Abri os olhos ao ouvir sua voz, e o olhei. Louis estava de olhos fechados também.
- O quê?
- Você vai ter que me acordar se eu roncar.
- Ah, não, você ronca?! – Brinquei.
- Eu não sei, nunca me vi dormir. Mas o Harry diz que não.
- Espero que o Harry esteja certo.
Louis riu. O silêncio se instaurou, e voltei a relaxar. Acho que ambos já estávamos quase naquele estágio em que a mente está começando a cair no sono quando ouvi ele chamar meu nome.
- Hum?
- Rosalie e Lively parecem legais.
- É.
- E elas pareceram gostar de mim.
- Hmm...
- E seria legal se elas tivessem a chance de me conhecer fora de uma delegacia.
Sorri fraco.
- Depois falamos sobre essa possibilidade – decidi.
Ele ficou em silêncio por um momento.
- Então você tem problemas para dormir?
- Você sabe com quem está falando? – Respondi, a voz em um murmúrio. Ele riu fraquinho. – Está perguntando se eu tenho problemas?
Me mexi no sofá, e minha perna roçou a de Louis. Ele cheirava levemente a hortelã por algum motivo.
- É por isso que toma as pílulas? Foi assim que começou?
- Não, elas... – Pensei por um momento, tentando não falar mentiras. – É, eu acho que de certo modo sim. Comecei tomando elas para dormir, mas depois eu continuei... Mas foi há muito tempo, eu nem lembrava, na verdade.
- E por que continuou? Quer dizer, elas ainda fazem algum efeito?
Pensei nisso por um tempo, comprimindo os lábios. Eu estava tentando ser mais honesta com Louis. Tinha tanta coisa sobre mim que não queria que ele soubesse, mas estava tentando, pelo menos, responder a tudo que ele perguntava. Ele não fazia perguntas difíceis, geralmente. Era hora de ser mais aberta, afinal ele era tão bom comigo.
- Pra ser sincera, não lembro de como eu me sentia sem elas. São como... Hum, é como se houvessem criado uma camada protetora sobre mim, sobre a minha mente, meus pensamentos. Me ajudam a manter a calma, controlar... Você sabe, que os sentimentos... Me sufoquem. E que aconteça como você viu naquela noite.
Senti que ele mexeu a cabeça de leve, concordando, mas mantive meus olhos fechados.
- Mas como saber se as pílulas não controlam os sentimentos bons também?
- Que sentimentos? - Abri um sorrisinho travesso, e Louis me cutucou nas costelas. Ri fraco. – Pensei que eu fosse a rainha das trevas.
- Eu quis dizer como saber se você está realmente sentindo as coisas como deveria sentir, se toma esses remédios há tanto tempo?
- A questão é realmente essa. Eu não sei se suportaria sentir.
- Tudo? Até as coisas boas?
Abri a boca, mas não disse nada por um momento.
- Eu sempre fui assim, desde criança, sabe? De... Peito aberto, nu, sobre as coisas do mundo. Sempre senti demais. Eu acho que sensível é a palavra. Sempre fui sensível demais às coisas que via, sentia e pensava. Então, com o passar do tempo e de todas as coisas... Isso piorou. As pílulas mantêm tudo sob controle, eu não pretendo me livrar delas.
Louis concordou de novo. Dessa vez o silêncio foi menor, mas pareceu de certa forma mais denso.
- Então, não consegue dormir geralmente? Nem com elas?
- Eu consigo, mas... De noite é quando a ansiedade me ataca. É difícil simplesmente fechar os olhos e dormir, não funciona assim, mas quando as coisas estão mais difíceis que o normal, eu tenho meus métodos. – Ri fraco.
- E quais são eles?
A voz de Louis era suave, sempre suave como um carinho, e percebi e quando eu começava a falar ficava mais e mais fácil continuar falando.
- Sair e fumar, pegar um ar. Eu faço isso pelo menos uma vez na semana. Hum... Tomar mais de uma dose, mas... – balancei a cabeça. – Não é uma boa ideia. Tento fugir dessa. Ah, sim, e a melhor, a que mais me ajuda, é que gosto de ouvir música.
Ele concordou, sabia o quanto eu gostava daquilo.
- O som do piano me relaxa automaticamente, é o melhor remédio. Eu tenho até uma playlist, nela tem as melhores e mais clássicas. Principalmente Bethoven. Mozart também. Für Elisé é a minha preferida. Nunca falha em me acalmar.
- Eu sei tocar essa. No teclado não é o mesmo som, mas ainda assim... Foi uma das primeiras que aprendi.
Forcei-me a abrir os olhos e percebi que eles já estavam bem mais pesados, eu já estava quase caindo no sono. Virei-me e apoiei os braços no seu peito, o olhando de cima, e com o movimento Louis também abriu os olhos e piscou umas vezes. Aqueles olhos azuis. Como foi que eu parara ali? Quer dizer, céus, depois de tudo que fiz, de todas as pessoas horríveis que conheci. Como foi que eu fui parar ali, deitada com Louis, Louis, aquele cara... Aquela pessoa que era boa demais para ser real? Eu não conseguia compreender que tipo de piada cruel era essa. Precisei admitir, naquele momento, que parte de mim desconfiava, tinha medo de que aquilo fosse apenas um devaneio. Nunca confiei muito em mim mesma, de qualquer forma.
- Espero que esse olhar signifique que você vá me beijar.
O olhei, indignada com como ele podia ser assim, tão... tão...!
Mas era verdade; aquele olhar indicava que eu queria beijá-lo. E foi o que fiz, antes de finalmente pegarmos no sono.


Zayn's POV - Você quer ajuda? - Liam perguntou a antes de chegarmos ao vestiário feminino no ginásio. Ela balançou a cabeça, sonolenta demais ou triste demais para dizer qualquer coisa. Arqueei as sobrancelhas, surpreso com a proposta dele.
- Você não vai ajudar a tomar banho, Payne - falei, sério, mal reconhecendo aquele tom ameaçador que saiu em minha voz.
- Eu não estava pensando nisso, Malik, mas não há nada que eu já não tenha visto antes - respondeu com um sorriso de vitória.
- Ugh, Liam, pra quê isso? - resmungou. Não respondi sua provocação - porque eu sabia que era uma provocação. Já devia ter imaginado que, tendo namorado, eles já haviam avançado algumas etapas e aquilo me incomodou profundamente, mas preferi acreditar que aquilo não surtia tal efeito. Liam passou o braço em volta da cintura dela e a ajudou a sentar no banco entre os armários como se ela fosse uma fucking inválida.
- Qual é o seu armário? - Ele quis saber enquanto eu apenas me escorei junto à fileira de armários atrás de mim e observei a cena.
- B-35. - Disse ela e Liam saiu em busca do armário, desaparecendo pelas fileiras.
se deitou no banco e cobriu o rosto com as mãos. A diretora Campbell foi muito clara ao dar as ordens: ninguém descansaria até a hora certa de realmente ir dormir. Todo mundo estava mais ou menos lidando com aquilo tudo quando disse estar tonta e quase cair do palco do auditório. E não era surpresa para nenhum de nós, que presenciamos todos os eventos malucos daquela noite, estava exausta. Esgotada. e Lola foram o suficiente para drenar todas suas energias e isso era visível em seu rosto e em sua voz. Percebendo isso, a diretora aconselhou que ela tomasse um banho, comesse alguma coisa e voltasse para uma tarefa menos exigente que montar o cenário do teatro.
- Ela nunca vai me perdoar - ouvi-a sussurrar, fazendo-me levantar o olhar para ela.
- A é capaz de diferenciar as coisas - falei no mesmo tom de voz do dela.
- As coisas simplesmente aconteceram... Uma hora ela estava bem e na outra...
- Eu sei. Mas não é sua culpa. - Tentei dizer com alguma determinação, apesar de também estar cansado.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos longos o suficiente para que eu acreditasse que ela havia caído no sono, mas ela acabou se levantando e começou a desabotoar a parte de cima do vestido preto que usava parecendo alheia à minha presença ali. Senti minha garganta secar e não consegui evitar de olhar seus movimentos e, para minha decepção, parou quando chegou ao botão na altura de seus peitos. Levantou o olhar assustado para mim.
- Meu Deus! Eu me esqueci completamente que você estava aqui! - Ela fechou as duas partes do vestido aberto com as mãos.
- Eu percebi - soltei uma risada ainda sem conseguir parar de encarar seu corpo enquanto pensava em de fato ver seu corpo.
- Agradeceria se pudesse parar de me olhar como se eu fosse um pedaço de carne - revirou os olhos.
- Não posso, desculpe. - Dei um sorriso sem mostrar os dentes. - Quando é que vamos chegar nessa parte em que eu posso...
- Vai ver a temperatura da água - Liam voltou de algum lugar do vestiário e indicou com a cabeça o caminho. Olhei dele para , que me encarava com um sorriso pequeno, mas divertido e curioso nos lábios. Acho que ela imaginava o que eu estava prestes a dizer, mas me senti com sorte por Liam ter me interrompido antes que eu dissesse algo muito pesado - exatamente o que se passava em minha mente.
Fiz meu caminho até a área dos chuveiros, reparando como não havia quase nenhuma diferença entre o vestiário masculino e o feminino - o Zayn de dez anos ficaria decepcionado depois de sonhar tanto em que tipo de planeta exótico as garotas entravam quando iam ao vestiário ou ao banheiro.
- Está quente - falei quando a temperatura da água passou de "melhor entrar logo numa banheira com gelo" para agradável.
- Preciso voltar lá, minha tarefa está longe de ser terminada e eu não quero passar o resto da semana por conta disso - Liam apareceu ao meu lado contando sua história.
Olhei para ele com pouco interesse e tentando deixar claro que estava pouco me fodendo para suas explicações que, pensando bem, pareciam tão desnecessárias quanto esfarrapadas. - Você consegue cuidar dela? - Perguntou e aí eu notei algo intrigante. Ao mesmo tempo que parecia ansioso para voltar, ele parecia relutante em me deixar com .
Interessante. Eu ainda tinha algum efeito negativo sobre as pessoas e quis abusar um pouco disso. Por isso, abri um sorriso malicioso e lancei um olhar em direção ao local onde estava de propósito, apenas para atormentá-lo.
- Não seja um imbecil - advertiu. Normalmente, eu nunca deixaria alguém falar assim comigo, mas deixei aquela passar porque meu objetivo era justamente irritar Liam.
- Mesmo que ela implore por isso?
- geralmente não comete burradas desse porte - revirou os olhos.
Tive vontade de rir dele e da ironia de suas palavras, mas me contive.
Voltei para perto de sem responder Liam.
- O seu ex já vai - sentei-me ao lado dela no banco. - Você consegue ir para lá sozinha?
Liam deu um beijo em sua testa, lançou-me um olhar cheio de significados que eu ignorei e saiu do vestiário feminino. tinha seus olhos em mim.
- Meu ex? - Questionou. - Isso te incomoda? - Sorriu travessa.
- Apenas o suficiente para querer te beijar até que esqueça completamente como era beijar outro cara - arqueei uma sobrancelha sugestivamente para ela, que corou.
Deus, que criatura adorável.
- Consigo ir ao chuveiro sozinha, obrigada. - Levantou-se.
- Agora era uma hora bacana para usarmos aquele lance de escravo. Você não precisa tirar sua própria roupa com um potencial escravo à sua frente - Olhei para cima, para ela, que estava parada diante de mim.
- Rá, rá - mostrou-me a língua. - Não foge do assunto.
- Que assunto? - Abri um sorriso descontraído, pegando uma de suas mãos e depositando minha outra mão em seu quadril, puxando-a para mais perto. Sabia do que ela estava falando e do que ela estava sugerindo, mas não queria entrar naquele assunto.
- Você tem ciumes do Liam? - O sorriso confiante estava estampado em seu rosto.
- - estalei a língua. - Não faça perguntas das quais não quer saber a resposta.
Ou seja, não me pergunte coisas que eu não quero ter que responder ou pensar sobre.
- Oh, é mesmo? - O sorriso continuava em seu rosto bonito. Aquilo e o fato de ter seu quadril à altura dos meus olhos, era tentador e sexy; e me dar conta disso não facilitava as coisas.
- Sim, é mesmo. O que você vai fazer sobre isso? - Provoquei, já imaginando um ou dois finais possíveis para aquele joguinho de ironias. Era um joguinho para mim, pelo menos.
E era para ela também, acho, porque, sem aviso prévio, voltou a se sentar, mas dessa vez em meu colo e com cada perna em cada lado do meu corpo.
Tentei não mostrar o quão chocado eu fiquei com sua atitude e mantive meu rosto impassível, mas meus olhos estavam fixos e atentos em seus próximos movimentos. Automaticamente, minhas mãos foram para suas coxas, acariciando-as por cima da meia-calça escura enquanto suas mãos brincavam com a gola da minha jaqueta e um sorriso travesso tomava o lugar daquele presunçoso.
Puta merda, é hoje.
Esse pensamento tomou conta de mim, mas tão rápido veio, tão rápido se foi quando me lembrei de como ela estava cansada e como aquilo seria idiota naquele momento quando ela estava tão vulnerável e triste por .
É, talvez não fosse hoje, mas podia muito bem curtir as preliminares.
se inclinou sobre mim, como que para me beijar, mas parou a alguns centímetros e riu fraco, balançando a cabeça para a minha reação de fechar os olhos.
- Eu acho que isso é um sinal verde para ficar com outros caras, então - disse ela de repente numa voz tão doce e suave que eu quase não percebi sua palavras, mas elas eram muito duras para serem ignoradas. Abri os olhos e a encarei seriamente.
- Você não faria isso - duvidei.
- Eu achei que você não sentisse ciúme.
- Isso não...
Ela riu mais uma vez e se colocou de pé com facilidade, pois eu não a segurei ali, ainda abalado com aquela provocação, sem saber o que exatamente havia me atingido mais.
- Cuidado, Zayn, esse seu orgulho ainda vai te custar muita coisa -
piscou para mim depois abriu aquele sorriso travesso antes de me dar as costas e ir para o chuveiro.



’s POV
Já estava escurecendo quando a diretora mandou nos liberarem para jantar, graças aos céus. Obriguei a vir comigo e com procurar comida no refeitório assim que a encontrei voltando do ginásio – e por obriguei, quero dizer eu praticamente a arrastei pelo braço. Mas ela nem lutou contra por muito tempo, estava tão cansada e para baixo que não tinha mais forças para discutir.
- Olha, , tem bolinho! – Mostrei a ela, apontando para os cupcakes coloridos que ela gostava na bandeja em nossa frente. esboçou o sorriso mais falso da história. – Qual é, pelo menos tente fingir melhor – bati meu ombro no dela amigavelmente e peguei um bolinho colocando na minha própria bandeja.
Fomos para a mesa vazia que e Rebekah já ocupavam e sentamos de frente para elas. Eu ataquei a comida como se fosse um animal, sei disso e não nego, mas ninguém ali me julgou. Só depois de comer uma torrada inteira foi que consegui prestar atenção no clima aparentemente leve, mas que indicava e fazia sentir como se alguém estivesse faltando ali. Olhei para a cadeira vazia ao lado de e engoli em seco. Olhei para seu rosto, mexendo em uma xícara de café com a colher, sem interesse.
Suspirei.
Cara, era inacreditável o quanto eu aprendi a gostar daquela patricinha mimada.
E um fato triste sobre mim era que, o quanto mais me importava por alguém, menos saberia como agir para fazer essa pessoa se sentir bem quando ela estava triste.
E isso era frustrante.
- Então... – Tentei pensar em algum assunto. – Vocês viram que aquele evento em Londres está chegando, já?
- Já é no próximo fim de semana! – Rebekah disse, espantada.
- O fim de semana de orientação vocacional? – me olhou.
- Isso. – Respondi às duas.
- Ótimo, eu estou esperando isso há eras. Quem sabe encontro uma luz no fim do túnel lá?
- Não sei sobre essa luz, mas bebida barata e caras gostosos tem aos montes. – Rebekah sorriu, empolgada. – Cara, eu amo Londres!
- Ah, qual é, a gente acabou de sair de uma encrenca milenar! Dá um tempo pra minha cabeça. – Levantei uma mão e Rebekah riu me olhado. De fato estávamos todas parecendo lixo. Eu estava nojenta, precisava de um banho e doze horas seguidas de sono. A diretora só nos havia dado dez minutos para trocar de roupa antes de irmos para a detenção de manhã.
- Meninas! – Thifany Ferguson exclamou, aparecendo em nossa mesa seguida de algumas outras meninas, me fazendo pular. – Ficamos sabendo sobre a noite irada de vocês! – Riu e eu fiz uma caretinha, voltando a atenção ao bolo que eu agora comia. – Queríamos saber tudo, os mínimos detalhes! É verdade que tinha até gente de fora do colégio aqui?!
Arregalei os olhos ao lembrar de Will pela primeira vez em horas e peguei meu celular na mesma hora para lhe mandar uma mensagem e perguntar se ele estava bem. Meu coração disparou com a possibilidade de ele ter sido pego. Enquanto eu escrevia, Rebekah conversava com as garotas.
- Irado! Vocês são demais – riu. – Eu disse para as meninas assim que soube, é claro que foi o máximo! e estavam lá, elas sabem como fazer uma festa, e os garotos, ah! É verdade que teve uma corrida? Que Josh Devine tem uma mansão gigantesca, que tem até um autódromo?
Os olhos dela brilhavam, e eu nem precisaria olhar para saber disso. Ri fraquinho imaginando a mudança na vida de Josh agora. Era inegável que todos nós o víamos diferente agora, depois dessa noite. Josh me surpreendeu, ele podia ser um escroto de primeira, mas ao invés disso era um cara bacana e humilde, sempre foi. Bem, pelo menos tão humilde quanto ele conseguia ser.
Rebekah, por sua vez, pareceu menos empolgada em vender a imagem de Josh para outras garotas agora.
- E a , onde está? – Uma delas perguntou, e todas nós ficamos em silêncio, o que deu a perceber que algo não estava certo.
De repente levantou de súbito e saiu da mesa, deixando bandeja e tudo para trás. Troquei um olhar com e levantei também, indo atrás dela para fora do refeitório e tendo que correr um pouquinho para alcança-la.
- ... – A olhei quando a alcancei. – Eu sinto muito. Eu estou me sentindo tão mal por não ter ajudado, mesmo que eu não soubesse, nós devíamos ter percebido que algo não estava certo, feito algo...
- Não dava para fazer nada àquela altura.
- Mas mesmo assim, esse peso todo não tem que cair sobre você, não é sua culpa. – Ela quase corria em direção ao pátio, e então aos dormitórios. – Eu odeio te ver assim – admiti e fiz uma caretinha.
- Tudo bem, . Não tem o que fazer agora.
- Mas mesmo assim! Não tem nada que vá te deixar melhor?
- Não, agora eu só quero dormir um pouco. – Sorriu fraco e continuou andando.
Suspirei, a seguindo para o dormitório. Quando entramos, eu fechei a porta e depois de me virar dei de cara com parada no meio do quarto encarando o nada.
- Eu devia ter me certificado que ela tomou os remédios.
- ! – Passei a mão no seu ombro e parei na frente dela. – Você não podia evitar isso para sempre, ok? Ela precisa de ajuda de verdade. Você não podia ajudar ela com tudo isso.
- Mas você viu como ela olhou para mim! – Ela exclamou, os olhos agora quase transbordando. – Ela não vai me perdoar, ! Ela odeia aquele lugar, diz que é o inferno!
- , aquela era a Lola entrando na sua cabeça. – Passei as mãos nos seus braços. – Ok? A é outra pessoa, e ela te ama. Você é a melhor amiga dela, e ela ficará grata que a Lola foi impedida de estragar mais as coisas no lugar dela. Ela vai ficar bem, e vai entender.
balançou a cabeça negativamente, mas agora as lágrimas já corriam pelo seu rosto e ela não conseguiu dizer mais nada. A abracei forte, sendo a única coisa que me restava fazer, e sentamos na sua cama. Continuei abraçada a ela por longos minutos, enquanto ela chorava, até que ela deitou para tentar dormir.
Fui direto para o banheiro tomar banho, e quando saí ela já dormia. Peguei meu celular, vi a resposta de Will, e sorri me sentindo melhor.
Estou bem. Te vejo na semana que vem.
Agora eu também podia deitar e dormir, finalmente. Vesti uma roupa confortável e, ao ir para minha cama, encontrei um envelope simples em cima do travesseiro. O abri e tirei dois ingressos de dentro, que diziam “Vale entrada para os estúdios de Harry Potter”.
- O quê? – Praticamente gritei baixinho, para não acordar . Encarei aqueles ingressos por um tempo, sem entender, e por fim procurei por alguma coisa escrita no envelope. Atrás dele só dizia “faça bom uso”, e sorri fraco com a referência. Depois percebi que aquilo só podia ter vindo de uma pessoa, e lembrei da pergunta estranha que Harry me fez sobre Will dentro daquela despensa.
Olhei de novo para o bilhete, procurando a data. Era para dali há apenas duas semanas, e eu duvidava que tivéssemos a chance de sair daquela escola pelo resto do ano letivo, depois dos últimos acontecimentos. O que era uma pena muito, muito grande mesmo, pois era meu sonho conhecer aquele lugar.


Harry’s POV
Meu celular estava tocando. Eram nove horas da manhã.
- O que você quer? - Perguntei assim que atendi à chamada, que tinha o nome de Gemma.
- Bom dia, irmãozinho! Ainda está vivo depois do castigo que sofreu no fim de semana?
Resmunguei.
- Ela te contou?
- Ela não precisou me contar nada, estava furiosa. Daquele tipo de furiosa que ela só fica quando o filho dela tenta fugir de casa. Ou quando ele é preso. Coisas que só você consegue causar na nossa mãe. - Gemma riu fraquinho.
Olhei em volta no pátio quando pisei lá fora, saindo do dormitório. Estava frio.
- É - suspirei. - Eu sei. Mas dessa vez não foi de propósito.
- Bem, de qualquer forma você se superou. Obrigada por isso, me faz sentir melhor por ter vinte e quatro anos e ainda estar morando com ela. Você torna difícil essa competição de quem é a ovelha negra da família.
- Há há. Que bom que o meu sofrimento te traz alguma alegria.
- Ei, não reclama, delinquente. - Gemma riu com gosto agora. - Caramba, Harry. Você tem ficha criminal agora. Você passou a noite no xadrez.
- Você só ligou pra me humilhar ou...? - Encarei meus pés enquanto caminhava com pressa para chegar de uma vez no interior aquecido do prédio das aulas.
- Não, eu também queria me certificar de que você vem mesmo na Páscoa. A mãe ficou tão brava que nem quis mais falas sobre isso, por isso eu liguei. Espero que os planos ainda estejam de pé, você sabe como eu amo as comidas de Páscoa dos .
- Você é uma criança, Gemma.
- Shhh. - Estalou a língua. - Então? Vocês vêm?
- Eu acho que sim. Eu vou, pelo menos. Meus amigos já tem planos, e a gente não poderia fazer nada além de pagar detenção por aqui.
- Legal. E a ? Ela está bem? Será que ela vem?
- Eu não sei, por que você não pergunta para ela? - Tentei não mostrar que aquilo me afetava na voz, mas acho que falhei. Entrei no prédio e senti o calor lá de dentro aquecer minhas bochechas, que já ardiam com o vento.
- Ah, então as coisas ainda estão estranhas, huh? Nunca vi vocês daquele jeito um com o outro, como estavam no Natal. Pensei que fosse passar eventualmente.
- As coisas ainda estão... diferentes. Mas eu vou ajeitar. - Prometi. Só deixei de lado a parte em que eu admitia que não fazia ideia de como.
- É melhor que faça mesmo, porque estragar a família é a única coisa que falta para você realmente entrar na história. - Gemma riu fraco de novo, e revirei os olhos. Me aproximei da porta da sala de aula onde eu tinha meu primeiro período e me encostei na parede do corredor próximo a ela, levando a mão livre ao bolso.
- Anotado.
- Mas e você, hein! Vai trazer alguém...?
Franzi o cenho. O tom sugestivo dela chegava a ser ridículo, mas não soube dizer de onde ele vinha.
- Alguma vez eu já levei?
- Sempre há uma primeira vez.
- Quem eu levaria? - Questionei, suspeito.
- Eu não sei... Li boatos no Spotted de que você anda passando bastante tempo com uma tal de . E estudando, ainda? Você?! Só pode ter outra coisa por trás.
- Gemma, você não tem vergonha de espionar a minha vida acompanhando uma página idiota de fofoca colegial?! - Perguntei, indignado.
- Ei, não me julgue, eu tenho muito tempo de sobra! E nem tudo é sobre você, reizinho. - Ela abaixou o tom, como se admitindo algo vergonhoso. - Eu gosto de ler aquela página, me sinto do lado de cá de Gossip Girl ou algo assim.
Estreitei os olhos, pensando naquilo. Mais um segredo que meus amigos não imaginavam sobre mim: eu já havia assistido quase toda aquela série com a minha irmã quando era mais novo, por ser a série preferida dela.
- Quem sou eu no cenário do St. Bees? - Perguntei de repente, curioso.
- Sei lá, tipo, aquele irmãozinho da Serena.
Bufei.
- Mentira. - Abri um sorrisinho.
- Tá legal, ok! - eu quase podia ver ela revirar os olhos. - Você é tipo um Nate Archibald.
- Eu sabia! - balancei a cabeça, sorrindo, antes de perceber que aquilo era no mínimo vergonhoso. Olhei em volta só por força do hábito. A sala de aula estava enchendo aos poucos. - Hum. E quem é a ? - minha curiosidade perguntou.
- A é legal demais para estar em Gossip Girl. Além disso eles só falam dela quando tem a ver com você ou com aquela abelha rainha lá.
- A .
- É, ela é a Blair.
- Eu sei. E ela tem o Chuck, também. - Fiz uma careta de desgosto. - Tão detestável quanto.
Chuck Bass era o cara do pôster colado na porta do quarto de Gemma até (muito) pouco tempo atrás. Nem precisava dizer que eu, como irmão mais novo, cumpria bem o meu dever tendo ciúme do cara e não indo com a cara dele.
- Ah, meu deus. - Comentei baixinho depois de um breve segundo de silêncio em que eu e ela provavelmente estávamos pensando a mesma coisa. Lá estava eu, fazendo uma análise comparativa de Gossip Girl com a minha escola. Gemma gargalhou sem que eu precisasse dizer mais nada.
- Voltando ao que interessa, não fuja do assunto. Quem é ? Por que você está estudando? E por que eu sinto que ela é meio que uma Vanessa no Gossip Girl da sua vida?
Ugh. Não.
- Ah, é?
- Pare de tentar arrancar coisas de mim, você não vai conseguir.
- Hmm...
- E pare de me fazer falar em Gossip Girl.
Gemma fez silêncio. Revirei os olhos.
- Ela é bem melhor que a Vanessa.
Gemma riu.
- O que quis dizer é que bem, a Vanessa é gata e tudo mais, mas, quer dizer... Ela sempre está ali no meio deles, atrapalhando quem realmente devia ficar junto...
Percebi o professor vindo pelo corredor em direção àquela sala, e quase suspirei de alívio. Timing perfeito.
- Tenho que ir, minha aula vai começar.
Desliguei a chamada antes que ela pudesse responder qualquer coisa e entrei na sala apressado, antes que o professor entrasse.
Encontrei uma mesa no fundo da sala, o mais escondido possível de qualquer visão, pois a última coisa que eu queria naquele momento era prestar atenção a uma aula de filosofia. teria que entender.
Felizmente o professor havia planejado uma aula explicativa naquele período. Ele levou alguns slides e depois de uns minutos de falação, desligou as luzes e ligou o projetor.
Não sei quando foi que eu peguei no sono, mas peguei. Em certo momento me senti auto consciente do meu próprio cochilo, mas percebi também que o professor continuava falando, e que ninguém estava prestando atenção na minha soneca lá atrás, então nem me mexi. Quando estava prestes a voltar a pegar no sono ouvi uma voz conhecida pigarrear e falar muito alto nos auto falantes da escola:
- ATENÇÃO!
Ah, não. Levantei a cabeça devagar, de repente me tornando muito consciente daquele momento que eu havia esquecido completamente que aconteceu durante a madrugada do festival.
- Temos um recado importante para você, St. Bees.
Era a voz de Louis. Ele fez uma pausa, e lembrei de ter mandado a Louis que só falasse qualquer merda antes de apertar o botão de gravar na sala da aparelhagem de som da escola.
Todo mundo se olhou dentro da sala de aula, achando aquilo estranho, esperando pelo que viria.
- Regina George trai o Aaron Samuels toda quinta-feira na sala de projeção em cima do auditório.
A gargalhada de Niall surgiu no fundo da gravação, e em seguida uma explosão de conversas desconexas e risadas minhas, de Josh e do Louis. A última coisa a ser dita era um “sim, Josh, a América está mais próxima da Rússia do que nós, solta esse globo” e então a gravação ficava muda.
A sala de aula explodiu em risadas.
A gravação soou em todos os auto falantes da escola no lugar do familiar toque de troca de período que sempre soava. Percebi todo mundo começar a olhar para mim, e só consegui deitar a cabeça novamente na classe, imaginando quanto mais tempo de detenção aquilo traria.


Liam’s POV
Parei à porta por onde havia entrado correndo. Era o banheiro feminino do ginásio. Avistei-a antes mesmo que percebesse que a havia notado pelo corredor; ela estava caminhando de cabeça baixa com o celular na mão quando de repente saiu correndo em direção a algum lugar - o banheiro.
Encarei a grande porta de madeira enquanto travava um debate interno sobre o que fazer. Será que tinha mais alguém aí dentro? Cacete, como eu queria entrar e falar com ela.
Eu nem sabia que sentia tanta falta de falar com ela até o momento em que eu a via e tinha essa sensação de que, se eu lhe dirigisse a palavra, ela arrancaria meus olhos. Mas eu nem devia querer falar com ela. Não quando fui eu quem passou um sermão nela depois do ocorrido na sala da banda. E, de novo, eu nem sabia o quanto sentia falta dela.
O corredor estava vazio e eu provavelmente parecia um maluco encarando a porta, estando a apenas alguns centímetros dela. E ainda não havia me decidido. Mas o som de alguém vomitando me tirou do debate e me jogou no campo da ação. Dei duas batidas na porta sem pensar.
- ? - Chamei.
Sem resposta.
Outro som estranho.
Sem pensar, entrei no banheiro feminino do ginásio.
- ? - Chamei de novo, olhando as cabines. Uma delas estava entreaberta e pude ver o par de All Star preto de no chão, em baixo da porta. - !
Abri a porta com cuidado e a vi debruçada sobre a privada e, mais uma vez, ela vomitou. Aproximei-me dela, segurando seu cabelo para poder ver seu rosto.
- ! - Repeti, sem saber muito o que dizer.
- Você já disse isso! - Ela grunhiu, livrando-se de minhas mãos em seu cabelo e se colocou de pé com dificuldade. Limpou a boca com as costas da mão e passou por mim sem me olhar.
Assisti-a lavar as mãos e, quando levantou o rosto para o espelho, vi a maquiagem borrada pelas lágrimas e o suor em sua testa atraindo fios de cabelo para lá como cola. Ela estava péssima. Mas, também, vomitar é um horror. Eu mesmo odiava passar mal.
Pior para as mulheres que...
Puta merda.
Puta merda.
Puta merda.
Olhei para mais uma vez. De verdade, dessa vez. Olhei tudo. Seus ombros, costas, demorei uma eternidade em sua cintura, procurando qualquer centímetro a mais do que eu me lembrava desde a última vez que a vi, examinei sua bunda, suas pernas, até os tornozelos.
- Tira uma foto, dura mais. - A voz dela me trouxe de volta à realidade. Ela me encarava pelo espelho enquanto a água corria em suas mãos.
- ? - Ela não respondeu, apenas manteve o olhar. - Você está... grávida?
- Ah, Liam, me erra, vai! - Ela disse em meio a um gemido de impaciência antes de abaixar o rosto e o mergulhar nas mãos molhadas.
- Você está vomitando!
Ela fechou a torneira e se virou para mim com a água do rosto pingando na blusa branca do uniforme.
- Você veio aqui pra isso? Pra garantir que você não é o pai ou sei lá o quê?
- Então você está grávida?! - Insisti.
- Pelo amor de Deus, Liam! Não! Ugh! - Murmurou e arrancou duas folhas de papel do suporte com brutalidade.
Puta merda.
Eu não conseguia evitar: olhei para ela de novo. Sua barriga parecia do mesmo tamanho desde a última vez que reparei. O rosto, os braços, os joelhos, tudo parecia igual. Minha mente trabalhava a mil. Eu era muito novo para ser pai.
Puta merda.
O filho era meu?!
Bom, eu tinha que perguntar.
Seria muita loucura imaginar que ela não tivesse outras relações depois de mim, não?
Eu tive. Por que ela não teria?
Fuck.
Essa ideia também não me agrada de forma alguma.
Eu sou um imbecil mesmo.
Mas a questão não era essa. A questão é que estava passando por todas as merdas sozinha e o maldito progenitor dessa criança - seja quem for - não estava lá para ela. Merda, e o pai dela? Puta merda e se for mesmo meu?! Eu estou ferrado. Mais que ferrado. Eu estou morto. Sou um cara morto. A tá gerando uma vida, mas eu sou um cara morto.
Cacete, a tá carregando alguma coisa do tamanho de uma noz nesse exato momento.
A natureza é realmente incrível.
Mas e se for meu? A natureza vai ser tão incrível assim? Porque... olha...
A gente não se protegeu? Alguma vez? Que merda, eu não conseguia nem me lembrar.
- Liam! - gritou, chamando minha atenção de volta para ela. - Eu não estou grávida! Pelo amor, não inventa!
Ela balançou a cabeça e jogou o papel molhado no lixo.
- Então...
- Não tem nada a ver com você. - Revirou os olhos. - O mundo não gira ao seu redor, sabia?
- Então não é meu?
- Liam! - Ela bufou. - Eu juro que se você me perguntar isso mais uma vez...
Levantei as mãos em sinal de rendição.
- Pronto, problema resolvido. Pode ir. - Acenou com a mão para indicar a saída.
Eu realmente poderia ter ido embora, mas eu pensei que, se ela não estava grávida, tinha que ter outro motivo para ela estar passando mal. E, fosse o que fosse, eu não fui criado pela minha mãe para deixar uma garota passando mal no banheiro. Sozinha. Ainda mais se fosse a . Por isso, caminhei até a porta do banheiro e me encostei a ela, cruzando os braços.
- Não até você me contar o que houve. - Demandei.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- Vê se não enche - revirou os olhos. Pegou sua bolsa no chão do banheiro e veio até mim. - Sai.
- Não. Já dei minha condição.
- Pro inferno com sua condição. Eu não te devo satisfação da minha vida.
- Não é satisfação, é...
- Preocupação?! Por favor, Liam! Não me venha com palavras bonitinhas, eu não sou nenhuma das suas garotinhas que precisam de mimos para ir pra cama com você.
Mordi o canto da boca, fazendo uma cara pensativa.
- Verdade. Com você tem que ser na sorte mesmo. - Soltei uma risada e ela me bateu.
- Babaca. Sai da minha frente antes que eu arranque sua língua grande.
Ah, ... Assim você está pedindo!
- Você sabe como ela é grande, huh?
- Você está colado na porta e as pessoas podem te ouvir, sabia?
- Eu não ligo.
- Claro que não. Não é você quem será chamado de puta por ficar com meio-irmão.
- No way! É uma honra ficar comigo, ok?
- Mas não é bem uma exclusividade, não é? Se tem uma vagina no meio das pernas, você está pegando.
- Isso é um absurdo!
- Ah, é?
- Sim! Tem uma seleção!
- E qual é o critério? Tem que ser bonitona? Tipo modelo? Peituda e tudo mais?
- Não! Eu não sou um cara assim. Teve aquela garota no acampamento. Ela não era nada padrão. - Fiz aspas com os dedos. E, tão logo falei, eu me arrependi.
- No acampamento? - Arqueou as sobrancelhas e depois balançou a cabeça. - Por que eu ainda estou aqui? Sai da minha frente, Payne!
Voltamos ao assunto inicial.
- Não até você colocar pra fora o que está de incomodando. - Falei firme.
- Não sei se você reparou, mas eu já coloquei. - Apontou para a cabine onde ela estava.
- Em palavras, dessa vez.
- Por que você quer saber?
- Porque eu me importo.
Sim, eu me importava.
- Bom, eu não me importo.
- Ah, qual é, ! Você estava vomitando as tripas ali, não é possível que não tenha algo muito errado te incomodando.
Ela não respondeu, mas suspirou impacientemente. Atrás de mim, alguém tentou abrir a porta do banheiro, mas meu peso contra ela não deixou e arregalou os olhos.
Mantive-me sério como se dissesse a ela que tomasse as rédeas da situação.
- Eu te odeio - ela gesticulou as palavras.
- Eu não vou sair daqui. - Respondi.
Ela bufou.
- Está ocupado! - gritou.
- Ocupado com o quê?! - A menina do outro lado gritou de volta e a cara de foi impagável, como se ela realmente esperasse que a pessoa do outro lado da porta fosse aceitar a informação sem questionar. Tive que segurar uma risada.
- Ah... Eu menstruei. Tá tudo sujo, eu não quero que ninguém veja! - respondeu, fechando os olhos à medida que a mentira ficava mais elaborada.
- Oh, sim, eu entendi! Precisa de alguma coisa? - A garota do lado de fora respondeu, mudando o tom de voz e foi a minha vez de arregalar os olhos. Ela caiu nessa?
- Não, obrigada. Só um pouco de paz. Minha TPM está me matando.
- Ok, melhoras!
Aproximamos a cabeça da porta, ouvindo passos se distanciando. Era fim de tarde e o ginásio não deveria ter mais gente ali por aquela hora. Virei-me para que, por um momento pareceu ter esquecido o porquê de estar ali e tinha um breve sorriso nos lábios, mas, assim que ela olhou para mim, fechou a cara.
- Ah, não.
- Anda, pode começar a falar. - Ordenei.
- Você não tem nenhuma garota para selecionar, não?
- Você quer falar disso? - Abri um sorriso presunçoso. - Você está com ciúmes?
- Hoje, realmente, você tirou o dia para ser ridículo, não foi?
- Então você nega?
- Nego.
- Então se eu conversar com outras garotas, isso não te incomodaria?
- A boca é sua, Liam, eu não ligo.
- Ah, sim, claro. - Abafei uma risada. - E se eu usar a boca para outras coisas?
- Tipo ficar calado?
- Tipo calar alguém. Com a boca.
- Pelo amor de Deus, Liam, você não tem mais dez anos, pode falar beijar - Revirou os olhos. Eu estava adorando aquilo; ela se esforçava tanto para parecer que não se incomodava. Mas eu sabia, eu simplesmente sabia, que ela sentia algo.
- E se eu beijar outra garota?
- Qual é o seu ponto, exatamente?
- Nenhum, eu apenas gosto de te ver lutando para não se declarar.
- Ah, sim, você é demente, entendi.
Soltei uma risada quando ela revirou os olhos pela milésima vez naquele breve período de tempo que estávamos juntos naquele banheiro. ainda estava parada ao meu lado, perto da porta, com a bolsa pendurada em um dos ombros e a cara fechada para mim. Tive vontade de estender o braço até sua cintura e a trazer mais para perto, mas acabei apertando mais os braços cruzados, contendo-me.
Droga, ela era tão linda.
Meus braços começaram a tremer, junto com minhas pernas, como pequenos espasmos: eu estava nervoso, quase ansioso por alguma coisa que eu sabia que não ia acontecer, mas eu queria muito. Tinha uma corrente elétrica passando por meu corpo enquanto eu tentava reprimir com todas as minhas forças.
Eu não podia ficar parado ou ela ia perceber.
Estendi a mão, com a reta intenção de tocá-la na cintura, mas acabei subindo para seu ombro, onde peguei a alça de sua bolsa e a deixei no chão. Depois toquei seus ombros, fazendo-a olhar para mim.
- Me conta. - Olhei em seus olhos. Ela suspirou, dessa vez assumindo um semblante cansado.
- Lembra daquele cara que eu te mostrei na foto? Oliver?
- Sim. Seu ex-namorado.
- Ele me mandou uma mensagem.
Franzi o cenho.
- Tudo isso por causa de uma mensagem?
- Não... Ugh... - Passou as mãos pelos cabelos, puxando-os para cima e depois os soltou, deixando-os ainda mais desalinhados que de costume. Então, sem avisar nem dar sinal, se aproximou mais e encostou a testa em meu ombro e eu, sem precisar pensar, apenas como um gesto reflexo, passei meus braços por sua cintura e acabei com o espaço entre nós, envolvendo-a em um abraço.
Ficamos desse jeito por algum punhado de tempo; não me preocupei em contar. Gostava tanto de tê-la perto que provavelmente nunca a soltaria. E me odiava por sentir todas essas coisas por ela. era a filha do pai do meu mais novo irmão. Era filha do cara que conseguiu fazer minha mãe feliz depois de tanto tempo e eu jamais poderia tirar aquilo dela, mesmo que significasse não tentar com a garota em meus braços.
Afundei meu rosto no cabelo dela, que tinha um perfume bom e me fazia sentir paz.
Merda.
Vira o rosto, Payne!, minha mente me dizia, mas eu não era capaz de me mover naquele momento.
Eu estava tão absorto em meus próprios pensamentos sobre , que quando ela falou, com a voz baixa e abafada, eu quase tomei um susto.
- Ele era mais velho e não terminamos em bons termos. E eu realmente não quero falar sobre isso.
Foi apenas o que ela disse, apertando o abraço à minha volta.


’s POV
Apenas alguns minutos depois de mandar a mensagem, Zayn cruzou as portas do refeitório com certa pressa e, achando-me sentada na mesa de sempre com , veio até mim a passos largos com o celular ainda na mão. Tentei não me demorar demais em sua aparência bagunçada. Sua gravata estava apenas pendurada no pescoço e a blusa do uniforme tinha dois botões desabotoados a mais que o usual.
- O que houve? – Tinha os olhos fixos em mim. olhou para ele como se fosse maluco, mas depois passou a parecer curiosa quando eu abri um sorrisinho inocente para ele.
- Estou com fome – apoiei o queixo na mão e pisquei algumas vezes. Ele demorou cinco segundos para responder.
- O quê? – Arqueou uma sobrancelha.
- Você me ouviu – afirmei. – Estou com fome.
- O café da manhã está sendo servido bem ali – apontou para as gôndolas de comida, olhando-me como se eu tivesse algum retardo mental.
- Sim, verdade. Mas – levantei um dedo em riste – a fila está enorme e eu não estou quero me cansar antes da aula de Matemática.
- ...? – Ele me olhava fixamente.
- Vai lá, Zayn! – Ordenei enfim, fazendo tanto ele quanto arquearem as sobrancelhas, mas logo Zayn pareceu entender.
- É hoje? – Ele quis saber.
- Sim. É hoje – abri meu melhor sorriso para ele, que cruzou os braços.
- Você mandou “SOS”, . – Arqueou as sobrancelhas. – Eu corri um quilômetro até aqui!
Algo dentro de mim se aqueceu ao ouvir estas palavras, tamanha parecia sua preocupação com a mensagem que havia enviado.
- Era o único jeito de fazer você vir até aqui – argumentei e ele me fuzilou com o olhar, mas pareceu se segurar para não responder.
- Você quer café da manhã? Só isso?
- Por enquanto – sorri de novo.
- O que tá pegando? – perguntou antes de jogar uma uva na boca, olhando-nos com curiosidade.
- A . – Zayn respondeu rapidamente, tão afiado quanto uma faca de corte. Encarei-o, chocada com o que disse e para quem disse. Mas ela apenas riu.
- Boa, essa foi rápida!
Zayn a saudou rapidamente, correspondendo o toque que ela propôs, e saiu em direção às gôndolas de comida.
- Ele vai pegar sua comida?! – fixou seu olhar em mim, surpresa como se eu estivesse tocando a flauta que enfeitiça uma naja.
- Ele me deve alguns favores – dei de ombros.
- Jura? E você está desperdiçando em uma simples caminhada até as gôndolas de comida?
- Não sou exatamente o maior gênio do crime, – rolei os olhos.
- Não mesmo. Um dos gênios do crime estão indo pegar comida para você!
Fiz um biquinho, voltando a observar Zayn. Ela tinha razão: estava desperdiçando o potencial de fazer algo realmente grande aqui. Apoiei o queixo na mão enquanto pensava em como pedir as coisas certas para Zayn naquele dia. Era justo que eu pedisse coisas diferentes.
- Que tal você me dizer o que você pediria? – Perguntei a , que deu de ombros.
- Eu – Rebekah sentou-se à nossa mesa com um sorriso aberto demais para quem estava de pé desde as seis horas da manhã por causa do castigo – pediria a ele que me mostrasse o brinquedinho dele. – Ela soltou uma risadinha antes de roubar um pretzel do prato de .
Mordi os cantos internos da boca, tentando não demonstrar a reação intensamente negativa que sua fala causou em meu corpo. Primeiro que eu não queria admitir que estava tendo aquela reação. Segundo porque ninguém sabia da gente. Ainda. Tomei outro gole de chá para evitar falar qualquer besteira.
- Mas só mostrar? – a incentivou com um sorriso malicioso no rosto, mas eu sabia que ela estava só me provocando. – Qual a vantagem nisso?
- Point, mas eu não posso trair meu coração agora.
- Seu coração? – Perguntei no mesmo momento em que meu cérebro completava com “Você tem um?”.
- Sim. Sou uma mulher apaixonada agora.
E está querendo ver o brinquedinho dos outros?
- Por quem? – Arqueei as sobrancelhas, meio sem acreditar no que ela dizia.
- Um dia vocês vão saber. Mais cedo ou mais tarde. É só uma questão de tempo até o Spotted descobrir. Ele está trabalhando demais nesse semestre.
- Oh – miei. Não havia me dado conta daquilo. O Spotted não havia nem passado pela minha cabeça quando Zayn e eu começamos a ficar.
Um pequeno silêncio caiu entre nós e eu deixei estar. Continuei tomando meu chá enquanto acompanhava o movimento da fila e, consequentemente, Zayn agora na gôndola de pão. Por algum motivo, não conseguia desviar meu olhar e só conseguia admirá-lo de longe. Ele parecia tão concentrado enquanto escolhia entre os tipos de pães que me deu vontade de ir lá e o ajudar.
- Tá olhando o quê? – Rebekah olhou para trás. – O Zayn?
- Sim. É melhor que ele não me traga pão branco. Eu só como integral. – Despistei.
- Meu Deus, , viva um pouco – Ela rebateu, voltando-se para nós.
- Sim, eu pretendo viver mais – sorri de volta.
Avistei Zayn vindo em direção à nossa mesa.
- Espero que você seja mais criativa ao longo do dia – murmurou. Peguei o prato de sua mão, analisando seu conteúdo.
- Espero que toda sua criatividade não tenha sido esgotada nesse prato – brinquei ao ver apenas uma fatia de pão e um pedaço de manteiga dispostos no prato.
- Acho que se você pedir pra ele explodir coisas, provavelmente a criatividade dele vai aflorar – Rebekah brincou apenas para receber um olhar furioso de Zayn, que abriu a boca para responder, mas eu fui mais rápida que ele.
- Isso não foi nada legal, Rebekah – repreendi-a.
- Foi só uma brincadeira – ela riu. Zayn olhou para mim antes de se virar e ir em direção à saída.
Levantei-me, olhando feio para Rebekah, e fui atrás dele.
Lá fora, o vento frio me atingiu sem piedade e me encolhi dentro de meu casaco. Zayn já estava quase dentro do prédio de sala de aulas quando consegui alcançá-lo.
- Ei – toquei seu braço, fazendo-o se virar abruptamente para mim.
- Se vai ser assim o dia inteiro, eu peço apenas que não faça isso na frente dos outros. – Resmungou.
- Desculpe, mas eu não posso controlar a boca da Rebekah – defendi-me.
- Só não na frente dos outros – repetiu.
- Eu disse que você não ia gostar.
- , não tenho problema algum em fazer o que você manda. Inclusive, estava achando tudo muito sedutor até a piadinha da Rebekah. – Ele se explicou.
- Entendo isso...
- ! – Avistei Carley se aproximando de nós com um sorriso no rosto e uma folha de papel em mãos. Ele parecia animado para me contar alguma coisa.
- Não tá vendo que a gente tá conversando? – Zayn respondeu antes que eu tivesse a chance de fazê-lo. - Fuck off – rosnou para o garoto, que assentiu, assustado, e acenou para mim numa brevíssima despedida antes mesmo de chegar muito perto de nós, saindo em seguida. Olhei para Zayn com gravidade, o que ele pareceu nem perceber. - Quem era? - Olhou para trás, procurando o garoto.
- Carley Mauriece. Ele é um dos membros do comitê de formatura. – Revirei os olhos para sua postura. – Eu sou uma pessoa acessível nessa escola, Zayn, você não pode destruir isso.
- Destruir o quê? – Voltou a olhar para mim. Respirei fundo.
- Você não precisa atacar todo mundo.
- Ah, estamos continuando a piadinha da Rebekah agora?
- Não! Eu... Não... Não estava pensando nisso! Você não precisa levar tudo pro lado pessoal!
- Vai me dar lição de moral agora?
- Zayn! – Soltei um suspiro alto e frustrado, ao que ele riu e eu o olhei, chocada. – Você é impossível!
- Se tem algo para me dizer, Shortcake, é melhor dizer logo, porque eu tô com uma vontade louca de te beijar nesse exato momento.
Meu queixo caiu um pouco, mas eu logo me recompus. Ainda não havia me acostumado com a franqueza de Zayn. Era sempre chocante ouvi-lo falar daquela forma – e despertava coisas em mim. Limpei a garganta, pensando no que responder àquela provocação, mas nada bom o suficiente vinha à mente. Lamentei-me, indignada. Se ao menos ele evitasse falar coisas que incomodam as pessoas, se tentasse ser alguém mais agradável, eu não estaria nessa situação agora: vermelha como um pimentão e parecendo ter algum retardo mental, o que lhe dava espaço para abrir esse sorrisinho vitorioso e presunçoso que ele tinha nesse exato momento.
Foi aí que uma ideia me ocorreu.
E era boa demais.
O choque se transformou num sorriso maior que o dele.
- O que foi? – Estreitou os olhos para mim.
- Eu já sei o que vou te pedir. De verdade.
- O quê?
- Zayn – fiquei séria, mas queria rir e apontar o dedo na sua cara. – Hoje eu quero que você seja uma pessoa agradável, que não xingue ninguém nem seja agressivo.
- Tá me pedindo para eu não ser eu – arqueou uma sobrancelha, como se estivesse ofendido.
- Sim. Vai ser divertido – sorri uma última vez para ele antes de dar-lhe as costas e voltar para meu café da manhã preparado por ele.


’s POV - terça-feira
A festa da noite do festival não deixara consequências só para nós. Aparentemente alguns alunos haviam se ferrado tanto quanto nós ou até mais, por terem sido pegos naquela festa onde tudo foi por água abaixo. Sally, a dona da casa onde a festa aconteceu, parecia ter sido a que mais teve problemas. As pessoas estavam dizendo que quando seus pais descobriram, ameaçaram enviá-la para um colégio ainda mais longe de tudo, mas eu duvidava daquilo – primeiro porque o St. Bees já parecia ficar no fim do mundo e era difícil imaginar algo ainda pior, e segundo porque já havíamos passado da metade do ano letivo e nos formaríamos em alguns meses.
O negócio era que se pensasse que literalmente fomos presos, de repente o castigo de ter detenção todos os domingos por tempo indeterminado e ter o direito de sair do colégio nos fins de semana revogado até segunda ordem, não parecia a pior coisa do mundo. Podia ter sido pior, no final das contas.
Todos os nossos pais também ficaram sabendo, como era de se esperar. Porém estando há meio país de distância havia pouca coisa que eles podiam fazer, pelo menos no meu caso, e acho que no de Harry. Tive que ouvir meia hora de bronca de minha mãe, e para finalizar ela fez com que meu pai pegasse o telefone para dizer o quanto estava decepcionado comigo – isso porque ela sabia que ouvir aquilo dele era pior do que qualquer bronca ou castigo dela para mim. Também fiquei sem mesada e todas essas coisas por pelo menos um bom tempo.


Quando o sinal que indicava o final da última aula da manhã tocou, um suspiro aliviado escapou de mim. Era só segunda-feira, por Deus, e eu estava com zero disposição para enfrentar aquela semana!
Estava com um pouco de fome, mas tinha treino em quinze minutos, então teria que deixar o almoço para depois. Decidi pegar só uma barra de cereal em uma das máquinas de comida dos corredores, e enquanto guardava meus materiais na mochila eu pensava em onde ficava a máquina mais próxima. Fui uma das últimas pessoas a sair da sala e segui o fluxo de alunos até o final daquele corredor, virando à direita para chegar às gloriosas barrinhas de cereal. Porém assim que virei o corredor, a primeira pessoa que pude ver vindo da direção oposta foi Harry.
Parei no lugar e antes mesmo de ter tempo para pensar em qualquer coisa, ele me viu também. Xinguei mentalmente e quando percebi que ele estava vindo falar comigo, virei as costas e saí dali o mais rápido que pude sem correr.
Só voltei a respirar quando vi a luz do sol lá fora e percebi que Harry não havia me seguido. Não trocamos mais uma palavra sequer um com o outro depois daquela noite no dormitório feminino, mas aquela não fora a primeira vez que eu fugi dele depois disso. Sabia que ele estava tentando falar comigo, era óbvio, assim como era óbvio que eu estava fugindo como o diabo da cruz.
Sim, estava evitando aquela situação ao máximo. A última coisa que disse a ele era que Will podia me tratar, me entender e me beijar como ele nunca poderia. Pelo amor de Deus, o que se faz depois de dizer isso ao seu melhor amigo?! Foi como jogar na cara dele que sim, sim, eu gostava dele, eu queria que ele fosse capaz de fazer essas coisas. A ideia de encará-lo depois disso era simplesmente demais, e não me importava o fato de que hora ou outra eu não conseguiria mais fugir de Harry; eu continuaria tentando, até não conseguir mais evita-lo.
O pátio estava meio cheio, o pessoal curtia o calorzinho vindo do sol, e a conversa era alta de qualquer lado. Lentamente comecei a fazer meu caminho em direção ao ginásio, mas parei quando vi Louis e sentados em uma das mesas de pedra conversando sobre algo e decidi ir até lá.
Ele mostrava alguma coisa segurando a mão dela com a palma para cima, e apontando com o indicador para a mão de . Tinha a sensação de que aqueles dois fugiam para um lugar muito distante de tudo quando estavam juntos, e parte de mim tinha inveja daquela capacidade. Ou de ter alguém que te desse o poder de fazer isso, que te fizesse se sentir assim, e que estivesse sempre perto.
- E aí. – parei perto dos dois e soltei minha mochila em cima da mesa com eles. Os dois me olharam voltando para a Terra e sorri fraco.
- Oi, .
- Como vocês estão?
- Cansados, depois de ontem. Igual todo mundo, eu acho. – Louis riu fraco. – Mas acho que passar o domingo na detenção ainda é melhor do que estar preso.
Dei de ombros e concordei.
- Meus pais não reagiram nada bem. Imagino que a sua mãe deve ter pirado.
Louis soltou uma risada divertida.
- Pode crer. Você pode imaginar o que as meninas fariam se soubessem? Minha mãe ficou aterrorizada com a possibilidade de elas resolverem seguir o exemplo. Ah, cara... A Lottie já está dando problema pra ela. Na verdade, eu me senti culpado. Ela já tem muita coisa com o que se preocupar. – Ele terminou com uma expressão que parecia carregar um pouco de vergonha, e concordei depois de pensar em meu pai.
- Eu também. – dei de ombros e olhei para , que acompanhava nossa conversa. – Seu pai soube, ?
- Duvido que a Rosalie tenha contado, só serviria para preocupar ele. – Ela deu de ombros.
- Ah, sim, a mulher legal que nos tirou de lá. Eu não lembro se a gente chegou a agradecer como deveria, com todo aquele caos da... Lola, e tal. – Franzi o cenho.
- Tudo bem, ela sabe. – assentiu. – Ela ainda está por aqui, então... Eu posso passar o recado.
- Faça isso. – Sorri. – Aí, alguém tem comida? Ou qualquer coisa? Eu preciso ir treinar, e não vai dar tempo de almoçar.
- Só tenho M&Ms. – Louis deu de ombros e tirou o pacotinho pela metade do bolso. Fiz uma careta.
- Você não cresce, Louis. – Ri fraco e levantei. – Deixa pra lá, depois eu como.
- Ei, . – Louis segurou meu pulso antes que eu me afastasse e o olhei. Senti seu olhar observar meu rosto atentamente por um segundo, como se estivesse tentando captar algo escondido. – Você está bem? De verdade?
Engoli em seco, mas assenti com a cabeça.
- Por que não estaria? Eu estou viva, depois daquela noite doida – ri.
- É que, você sabe. – Ele entortou um pouco a boca. – Harry ainda é meu melhor amigo e ainda dividimos um dormitório. Ele... me disse que vocês continuam estranhos, e tudo mais.
- Harry já sabe que eu disse a ele para não perder mais tempo comigo. – Comentei com Louis, tentando não transparecer que aquele assunto me causava dez tipos de estresse diferentes. – Não temos mais nada a ver. Ele devia parar de insistir nesse assunto.
- Qual é, . – Louis fez uma caretinha. Eu sabia que ele se sentia desconfortável em se meter naquilo também, e por isso não o culpava por isso. Porque sabia que ele só estava falando aquilo porque realmente se preocupava. – Eu só quero que vocês dois fiquem bem.
- Eu estou bem. – O assegurei, com convicção. Sorri para ele e assenti. – Estou ótima. Não há nada de errado comigo. Espero o mesmo dele.
Louis ficou quieto por mais um segundo, e por fim suspirou e concordou. Deixou que sua mão deslizasse do meu pulso até segurar a minha e bateu com a outra mão em cima dela, num gesto engraçado.
- Tudo bem, minha filha, agora saia daqui e vá encontrar alguma coisa para forrar esse pobre estômago – Imitou a voz de um velho e eu não pude evitar rir, o empurrando fraco pelos ombros.
- Idiota. – Balancei a cabeça, mas abracei Louis com força o puxando para mim e apertando suas bochechas com força. Às vezes, e só às vezes, aqueles idiotas dos meus amigos me causavam uma adoração tão grande que eu sentia vontade de amassar eles e guardar no meu bolso.
Olhei brevemente para , que observava nossa conversa sem se manifestar e me lançou um breve olhar de quem quer dizer algo como ‘eu não sei se deveria estar ouvindo essa conversa’. Mas, ei, ela já era de casa agora!
- Você tem ciúme, ?
- O quê, dele? – Ela brincou, fazendo uma caretinha de descaso. Ri.
- Ela morre de ciúme. – Louis revirou os olhos.
- Você pode pegar para você, se quiser. – cruzou os braços e o olhou com um sorrisinho fraco. – Só me devolve no final do dia, porque ele faz uma ótima massagem nos ombros.
- Ah, se eu soubse disso antes nunca teria te deixado para as outras garotas! – Brinquei o olhando também e Louis cruzou os braços na frente do corpo como se estivesse se abraçando.
- Parem de difamar a minha imagem assim! – Choramingou e eu ri, espalmando minha mão no seu rosto e o empurrando de leve antes de me afastar.
- Bebezão. Até mais tarde pra vocês! – Acenei, já me afastando e retomando o caminho para o ginásio.
Era de futebol que eu precisava. Bons trinta e cinco minutos de futebol para aquecer o corpo, gastar a energia e esquecer dos problemas.


Harry’s POV
Ultimamente, não conseguia me concentrar em nada. Nos ensaios eu era o que mais errava, e os caras ficavam putos comigo. Não que eu os culpasse, pois se fosse qualquer um deles, eu também ficaria. Nas aulas nunca me esforcei com tanto afinco para conseguir prestar atenção, mas o tempo todo minha mente divagava para longe e eu começava a revirar problemas na minha mente que naquele momento não estava na posição de resolver. Era um inferno. Até mesmo de noite, quando eu deitava na cama e pensava que finalmente o dia estava prestes a acabar e eu descansaria a cabeça por um tempo, logo percebia que não. Eu me revirava por horas antes de dormir, pensando e pensando e pensando sobre coisas das quais não podia fazer nada para mudar até que eu sentisse que minha cabeça ia estourar.
E tudo isso era motivado por uma pessoa só: .
Era mais do que simplesmente o fato de que nunca antes uma garota - qualquer garota – me fez ficar assim. Era muito mais, porque nunca antes nada me fez ficar assim. Muito menos . Eu nunca havia perdido o sono por nada ou ninguém antes. Há esse ponto eu estava tão longe da minha zona de conforto que nem sabia mais como era me sentir confortável. Mesmo quando ela não estava perto, ela estava o tempo inteiro dentro da minha mente, em primeiro plano, me fazendo desconfortável até com meus próprios pensamentos. Ela – ou, mais provavelmente, a minha própria consciência – estava me infernizando, me castigando, e a verdade era que eu sabia que era tudo minha culpa. Que ela não estava fazendo nada para provocar isso, que ela só queria distância de mim, queria que não tivéssemos mais nada a ver, talvez até que nem nos conhecêssemos. E por um lado, talvez aquilo não fosse ser tão mal, considerando a tormenta que ela estava causando em mim.
Afinal, estava fugindo de mim como o diabo da cruz. Ela nem tentava disfarçar. No outro dia, no café da manhã, quando a vi saindo da fila do refeitório e fiz menção em levantar da mesa para tentar falar com ela, ela me viu, largou a bandeja cheia de comida e vazou do refeitório na mesma hora.
E eu, por outro lado, queria consertar as coisas. Eu não sabia exatamente o que precisava fazer para conseguir consertar. Acho que só queria pedir desculpas, honestamente. Porque talvez assim minha consciência pesasse um pouco menos e eu conseguisse tirar ela da minha cabeça pelo menos um pouco, pelo menos nas horas mais inconvenientes em que a imagem dela vinha à minha mente, pelo amor de deus.
Essa só podia ser a única explicação, certo? A minha consciência pesada, que apesar de nunca ter se manifestado assim antes, resolveu fazê-lo agora. Talvez porque fosse a , minha – antiga – melhor amiga, alguém com quem eu me importava demais, e por isso, apesar de nunca antes ter me importado o suficiente com alguém além de mim a ponto de ficar mal assim, dessa vez eu estava.
- Fala sério. – bufou me trazendo de volta à realidade. – Você só pode estar pensando na última coitada de quem conseguiu tirar a roupa.
Olhei para ela interrogativo, sem paciência para brincadeirinhas. voltou a olhar para a lista de exercícios de física e balançou a cabeça.
- Isso aqui tá muito errado. E aqui você errou uma subtração simples. Olha – apontou, me mostrando. – Quinze menos sete.
Dessa vez fui eu quem bufei, balançando a cabeça e afastando os cabelos dos olhos. Era segunda-feira e é claro que isso significava que todo o meu tempo livre entre aulas e ensaios estava ocupado por estudos com . Aparentemente ela havia visto em mim um desafio a cumprir, acho que até mesmo para a sua própria consciência, como se me fazer passar de ano fosse redimir alguma coisa para ela. Não que eu fosse reclamar, porque realmente precisava daquilo.
Então isso significava que, segundo as palavras dela mesma, “nós não precisamos de uma hora para almoçar!”. Usávamos meia hora do horário de almoço todos os dias para revisar alguma coisa, e hoje era dia da física. Nos encontramos na mesma cabine de sempre na biblioteca, e lá estávamos nós. Mas ela estava certa, minha cabeça estava bem longe dali, mais precisamente revivendo o momento em que correu de mim há alguns minutos atrás no corredor quando eu estava indo almoçar.
- Eu não pedi que você tentasse deixar todos os seus casinhos e intimidades fora dessa cabine quando nós estivéssemos estudando?
- Ugh, por que você sempre espera logo o pior de mim?! – Revirei os olhos, e ela fez uma caretinha dando de ombros como se fosse inevitável.
- Você é o Harry, não pode ser nada muito complexo. Se não está pensando em sexo, então no que mais seria?
Eu reconhecia o tom de brincadeira em sua voz, mas ainda assim não estava no clima para piadinhas naquele momento.
- Quem dera. – Comentei baixo, puxando a lista de exercícios de volta para perto de mim, mas balancei a cabeça em reprovação para o que eu mesmo havia dito assim que percebi. Sexo. . Terreno perigoso. Não!
- Você está corando. – apontou, intrigada. Quando a olhei vi que ela me estudava com interesse, e revirei os olhos de novo.
- Não.
- Ah, está sim. Não tem outro motivo pro seu sangue ter subido para as suas bochechas assim, do nada. – Riu fraco. – No que você estava pensando?
- Não enche, . – Rosnei, focando o olhar nos exercícios, mas eu sabia internamente que estava perdido. Com os olhos dela daquele jeito em mim, eu não conseguiria me concentrar nunca mais e só tínhamos mais cinco minutos.
- É sobre a , não é?
Soltei a caneta e apoiei o rosto na mão, respirando fundo. riu fraquinho e virei o rosto para ela.
- É, eu sei, vocês estão estranhos um com o outro há um bom tempo. E agora ela tem esse novo namoradinho. Imaginei que fosse te incomodar.
- Ele não- não é isso.
- É sim, Styles. – Deu de ombros. – Você não vai conseguir mentir para mim enquanto estiver mentindo para si mesmo.
- Ah, foi mal, eu pensei que hoje fosse o dia de estudar física. – Olhei brevemente para os materiais espalhados na mesa. – Quando foi que passamos para psicologia?
- Tudo bem, não precisamos falar sobre isso então. – Ela deu de ombros. – Só tente se concentrar e terminar essas últimas duas. Eu circulei as erradas para você refazer mais tarde. – Ela apontou para o papel.
Assenti e voltei a encarar o papel. Os pensamentos sobre inundaram minha cabeça de novo, como se quanto mais eu tentasse não pensar nela mais isso acontecesse. Fechei os olhos e respirei fundo, passando as mãos no rosto e encostando as costas na cadeira.
- Eu não consigo.
- Tire a da cabine. – apontou para fora.
- Eu não consigo! – A encarei, e ela arqueou uma sobrancelha para mim. Suspirei pesadamente. – O que eu faço? Por favor, me diga o que eu faço. Eu preciso parar, mas não consigo parar... – massageei as têmporas, fechando os olhos. – De... pensar... nela.
Dizer aquilo em voz alta era difícil, mas depois que saiu, pareceu ficar mais fácil de encarar. Levantei a cabeça e a olhei.
tinha um olhar cínico. Não só agora, mas sempre, ela geralmente te olhava de um jeito que fazia parecer que ela estava constantemente com pena de você, ou se perguntando como devia ser ser uma pessoa tão inferior a ela. Algo assim. E se você fosse um pouquinho ansioso ou inseguro, aquele olhar tomava conta de você. Só que eu não era, e conseguia lidar bem com o gênio forte da garota, o que era uma boa, porque desse modo até que dávamos uma boa dupla juntos.
- Harry, você já pensou que talvez tenha que só... aceitar, que nada nunca mais vai ser o mesmo entre vocês dois? – Ela deu de ombros. – Quer dizer, eu não conhecia vocês antes, mas as pessoas falam. Eram como irmãos. Agora, eu não sei exatamente como isso deve ser, mas é uma ligação forte. Só que vocês não são irmãos, e principalmente agora, depois de tudo isso, nunca mais vão ser.
O silêncio pairou na cabine enquanto o peso daquelas palavras se acomodava em mim. Concordei fraco com a cabeça para mostrar que estava acompanhando.
- Sabe, quando você se importa com alguém, você precisa tentar pensar no que é melhor para aquela pessoa. E se por acaso... – A voz dela sumiu por um tempo, e eu podia jurar que encontrou sentido para ela mesma em alguma coisa que passou por sua cabeça. – Se por acaso o melhor para ela não for você... então você tem que deixar alguém que seja o melhor para ela ocupar o seu espaço.
pensava no que ela mesma disse tão profundamente que nem parecia que estava ali. Por um momento esqueci de porque estávamos falando daquilo, e divaguei para os motivos pelos quais aquilo faria algum sentido para ela, mas logo o sinal do final do almoço soou nos trazendo de volta à realidade.
- Amanhã esteja aqui na mesma hora. – Ela falou, começando a recolher suas coisas. – E você.


No próximo período eu tinha aula de educação física, então alguns minutos de atraso podiam ser tolerados. Recolhi minha bagunça da biblioteca sem pressa e depois, ainda sem pressa, levei tudo que não precisaria para o meu armário, em um corredor distante da biblioteca. Lentamente vi os corredores ficando vazios enquanto as salas eram enchidas e as aulas começavam. Praticamente esvaziei minha mochila e então tranquei o armário e comecei meu caminho para fora daquele prédio.
Pela primeira vez no dia minha mente estava divagando por coisas triviais como onde estariam meus amigos e quais eram meus planos para o fim de semana seguinte, quando virei um corredor vazio e bati de frente com alguém com muita força. Não foi uma batida romântica como aquelas de filme, foi feio mesmo, porque eu estava caminhando em um passo ritmado e ela estava praticamente correndo. Nossos rostos bateram, testa com testa, e meu cérebro deu um nó com a dor por um segundo, enquanto eu massageava meu peito onde levei um empurrão dela, enquanto ela precisou se segurar na parede e levar a mão à cabeça gemendo com a dor repentina.
.
Olhar para ela me fez rir fraco por um momento. Cara aquilo só podia ser o universo querendo dar umas boas risadas. Quando eu não estava pensando nela, ela literalmente caiu em cima de mim.
- Ah, droga, merda, inferno. – Ela xingou quando viu que era eu, desviando o olhar.
- Pois é.
- Eu estou atrasada... Voltando do treino... Preciso ir. – Ela tentou passar por mim, mas sem ter tempo de pensar no que fazia eu a segurei pelos ombros e a encostei na parede.
O calor do corpo dela era tão forte que emanava até mim, - literalmente, pois ela estava suando. Ao olhar para baixo percebi que ela ainda usava o uniforme do time.
- Nenhum professor vai te deixar entrar em sala assim.
- Por isso eu estava indo para o banheiro. – Respondeu, ainda sem me encarar. – O do ginásio estava lotado.
Ficamos em silêncio. Uma mecha grossa do cabelo dela caía pelo seu rosto, cobrindo seus olhos, seu rabo de cavalo bagunçado e quase solto. Seu peito, que subia e descia com rapidez, brilhava com o suor. Seus olhos eram tão azuis, e nunca paravam de dançar, olhando para qualquer lugar que não fosse o meu rosto. Eu nem estava correndo, mas de repente percebi que meu coração também batia tão forte que martelava no meu peito, com tanta força que quase doía.
- Você tá fugindo de mim.
- Aparentemente não estou mais. – Murmurou.
- Eu não vou mais... – Comecei a dizer, sem saber ao certo onde aquilo ia terminar. – Não vou mais fazer aquilo. Te pressionar. Eu só queria pedir desculpas.
- Ok. – Ela assentiu com a cabeça. – Já pediu.
- ... – Suspirei, sem saber o que mais dizer.
Eu sabia que não podia forçar alguém a aceitar minhas desculpas. Mas ainda assim, achava que quando me desculpasse com ela eu me sentiria melhor. Só que eu não me sentia. Não era isso que eu precisava fazer, era outra coisa... algo estava faltando.
Quando a chamei ela pareceu decidida a me encarar nos olhos, e pela primeira vez levantou o rosto. Levantou uma das mãos e colocou a mecha de cabelo atrás da orelha, revelando os olhos azuis que encaravam os meus. E foi quando eu prendi a respiração ao ver os olhos dela que algo dentro de mim simplesmente soube.
Droga, eu era louco pela minha melhor amiga.
Naquele momento não tive tempo para sequer processar aquilo. Meu coração errou uma batida com o susto, me fazendo sentir uma repentina falta de ar, e eu simplesmente... senti aquilo. E entendi que não importava o que eu queria naquele caso. Eu já havia estragado tudo muitas vezes, eu só sabia pensar em mim e não havia entendido até agora que o que importava ali era ela. Dar a ela o que ela precisava de mim. E o que queria de mim era distância. estava certa. Estava na hora de aceitar que e eu nunca mais seríamos os mesmos, e nem podíamos ser, porque eu não queria que fôssemos. O que eu queria dela era outra coisa, era outro tipo de relacionamento, e a verdade daquilo me atingiu com tanta força, me fez querer tanto algo que eu nem conseguia imaginar como poderia acontecer, que foi difícil aceitar que eu precisava deixa-la. Mas eu precisava. Porque era o que ela queria de mim.
Só que Harry Styles é um filho da puta egoísta. E Harry Styles precisava de uma última tentativa antes de ter certeza de que aquela era a única opção.
- Harry. – Respondeu ela, quando fiquei muito tempo sem dizer nada. Seu rosto parecia uma máscara, mas eu a conhecia muito melhor do que isso. – Eu realmente preciso-
Antes que aquele momento acabasse, segurei seu rosto e puxei ela para um beijo.
ficou rígida por um segundo, mas diferente do que eu imaginava, ela não resistiu. Senti seu corpo se entregar àquele beijo, e não tinha como ser diferente, porque ele simplesmente pareceu certo. Não era a primeira vez que nos beijávamos, e não era tampouco a primeira vez que eu me imaginava a beijando, admito. Mas aquilo foi muito melhor do que tudo que eu poderia imaginar. Foi tão natural, livre de fardos e sentimentos estranhos e constrangidos. Por um breve momento, foi como se... tudo fosse possível. Por mais surreal que essa merda soasse.
Nos afastamos quando precisamos de ar, e me xinguei mentalmente até o último inferno por me pegar pensando que eu senti falta da sua boca na minha no mesmo segundo. Uma das mãos de estava agarrada à minha blusa, sua expressão aterrorizada, como se aquilo fosse a melhor e mais errada coisa que ela já fez, enquanto ela parecia dividida entre correr dali ou relutante em me largar. E naquele momento eu tinha certeza absoluta de que aquela era a melhor coisa que já senti.
- Eu não sei o que é isso – murmurei, ainda próximo demais dela. – Eu não sei se poderia funcionar. Eu só sei que é bom, e... – Fechei os olhos e balancei a cabeça brevemente antes de olhá-la de novo. – . Se você acha que podemos tentar... fazer isso... funcionar... basta me dizer. Eu estou aqui. Eu vejo você agora. – Mordi o lábio. – Mas se não quiser, apenas me fale para ir embora e eu prometo que nunca mais vou te incomodar.
Pareceu durar uma eternidade. À minha frente, dois caminhos se dividiam, e nos segundos que se passaram eu pude ver ambos se concretizando. Um deles era muito claro e simples, e o outro... Era o melhor. Não havia como voltar atrás agora, eu só podia esperar. Imaginar, e esperar.
Mas foram só alguns segundos, e quando controlou a respiração e conseguiu erguer o rosto outra vez, as palavras dela pareceram me trazer de volta para a Terra, como se fossem a única coisa lógica que poderia acontecer, como se ter imaginado alguma coisa diferente fosse loucura.
- Vai. – Ela disse, a voz firme, e a mão que me segurava perto me empurrou para longe gentilmente. – Vai.
Nós trocamos um olhar.
Concordei com a cabeça antes de ir.


’s POV
O relógio do meu celular indicava que faltavam dois minutos para as cinco da tarde. Enquanto estava encostada à parede ao lado da porta da sala de música, tirei aqueles dois minutos para observar os alunos que saíam das outras aulas e passavam por mim no corredor, entretidos em suas próprias conversas. Lá dentro da sala de música só se podia ouvir muita conversa e vez ou outra o barulho de algum instrumento e a voz do professor chamando a atenção da turma.
Logo que o sinal do fim das aulas extra curriculares tocou todas as portas se abriram e um grande fluxo de alunos inundou o corredor, vindos de todos os tipos de aulas possíveis. Observei enquanto todos que saíam da sala de música passavam por mim, alguns me vendo, outros quase esbarrando em mim. Não foi difícil distinguir a voz de Louis e seus amigos quando eles se aproximavam da porta, pois eram sempre os mais barulhentos de todos.
Harry foi o primeiro a passar pela porta, falando a Liam e Niall atrás de si algo tão importante que ele nem percebeu que quase tropeçou em meus pés. Logo atrás de Niall vinham Josh e Louis e, antes que eles também pudessem passar por mim sem me notar, alcancei a gravata de Louis e o puxei pelo colarinho para perto de mim, me divertindo com sua reação assustada antes que ele pudesse ver que era eu.
- Hey. – Sorri contidamente, o puxando para tão perto que seu rosto quase encostava no meu.
- Uou. Olá pra você também! – Sorriu ao parar em minha frente, apoiando as mãos ao lado do meu corpo na parede, e soltei sua gravata alisando sua camisa.
Josh só parou por tempo suficiente para que Zayn, que vinha mais atrás, o alcançasse. Quando voltou a andar eu pude ouvi-lo murmurando algo como “ainda não acredito que o Louis ganha ela enquanto a gente não tem nada”, enquanto balançava a cabeça meio indignado.
- Karma is a bitch. – Zayn respondeu, e ri fraco com o olhar de canto que Louis lançou na direção deles, tentando fazer graça.
- Eu trouxe algo pra você. – Comentei olhando para baixo e deslizei o pacotinho de M&Ms para dentro do bolso da calça dele.
- Ahh. – Louis me olhou, sorrindo como uma criancinha, e aproximou mais o rosto do meu, encostando a boca em minha bochecha. – E o que eu fiz pra merecer tudo isso?
- Nada demais – murmurei, encostando a boca na sua e o beijando. Quando Louis se afastou, segurou minha mão e olhei para os dois lados do corredor que agora já estava quase vazio e me desencostei da parede, o puxando para longe dali. – Vamos para outro lugar.


A biblioteca estava vazia àquela hora, todos se dirigiam ao refeitório para a janta, e o espaço entre as duas últimas prateleiras do primeiro andar era monótono o suficiente para que ninguém percebesse que haviam duas pessoas se beijando ali. Apesar disso, acho que acabamos passando tempo demais sozinhos lá, mesmo que eu não tivesse muita noção de quanto tempo se passou, porque em algum momento ouvimos os passos da cuidadora da biblioteca se aproximar pelo corredor, procurando onde estávamos.
Nos afastamos com certa dificuldade e Louis pigarreou, tentando se recompor, e puxou um livro qualquer da prateleira atrás de mim, abrindo-o em alguma página e começando a folhear enquanto eu dei um passo em direção à prateleira da frente e comecei a passar as mãos pelos livros sobre geometria avançada.
Olhei para o corredor quando a mulher parou para olhar para a gente, como se tivesse certeza que estávamos fazendo algo errado. A encarei em silêncio por um momento.
- Hum... Acho que acabei de encontrar a teoria por trás dos quadriláteros aqui.
Comprimi os lábios tentando muito ficar séria, e depois de mais um segundo a mulher deu meia volta e saiu, aparentemente frustrada por não ter nos pego no meio de algo indecente. Quando ela se afastou o suficiente virei para ele e balancei a cabeça, o vendo fechar o livro com um baque e o soltar em cima dos outros para vir até mim.
- Você não vale nada, Louis.
- So I’ve been told. – Deu de ombros e ri fraco. Ele me segurou pela cintura e afastou os cabelos de um dos meus ombros, encostando os lábios ali.
Odiava aquele calor que sentia por dentro sempre que estava com ele, como se momentaneamente nada mais importasse, e tudo estivesse bem. Só que na verdade, eu não odiava mesmo. Era a melhor sensação que já senti.
- Está tudo bem?
- Sim. – Respondi, sentindo suas mãos acariciarem as minhas costas, e fechei os olhos por um momento antes de trazer o assunto que queria trazer. – Na verdade, tenho um... Convite, eu acho, pra fazer.
- Convite? – Ele afastou o rosto do meu ombro e me olhou.
- É. Hum... – Pigarreei e coloquei os cabelos para trás. – Eu falei com Rose e Liv. Elas pediram para te conhecer.
Observei o rosto dele por um momento, enquanto Louis apenas me olhava, lentamente deixar um sorrisinho aparecer em seu rosto.
- Certo... – Respondeu, como se aquele não tivesse sido um assunto discorrido a semana toda entre nós. Fiquei grata por isso.
- Eu acho que elas querem, é... Só, você sabe... Se certificar de que você não é um babaca. Minhas escolhas de garotos nunca foram as melhores. – Brinquei. – Então... Sexta. Depois da aula.
- Vamos poder sair?
- Rosalie pediu permissão da diretora Campbell, mas temos um toque de recolher bem cedo. Temos que embarcar para Londres cedo no dia seguinte. – Lembrei.
Louis se afastou, pensativo, e encostou as costas na prateleira atrás dele.
- Ok. Eu deveria me preocupar? – Me olhou, franzindo o cenho fraquinho. – Quer dizer, já ouvi dizer que eu sou meio que um babaca.
Ri fraco.
- Não, você é um idiota, é diferente.
- Rá rá. Isso é você tentando ser engraçadinha?
- Só... – Balancei a cabeça e toquei as mãos em seus dois ombros. – Seja você mesmo, Louis. É mais que o suficiente.
Por fim ele balançou a cabeça concordando, depois de um tempo em que pareceu se convencer de que estava tudo bem.
- Certo. Então foi por isso que resolveu me paparicar? – Ele mudou de assunto, tirando o pacotinho de M&Ms do bolso e o abrindo. – Pensou que eu fosse correr e me esconder? Pirar com a ideia de conhecer a família?
- Não sei. – Dei de ombros. – Mas pensei que independente da sua reação, uma dose de açúcar te deixaria mais feliz de qualquer forma. Você parecia estar tão ansioso por esse momento.
Louis riu.
- Com certeza.
Revirei os olhos e ri fraco, o observando por um momento. Louis levou algumas balinhas coloridas à boca.
- Hum, elas parecem ser pessoas legais.
- Elas são. – Concordei. – Se importam comigo, e só querem se certificar.
- E o seu pai? Eu vou conhece-lo?
Fiz silêncio por um momento e por fim empurrei seu ombro fraquinho.
- Não agora.
- Mas um dia?
- ... Um dia...
- Talvez...?
- Talvez. – Concordei, sorrindo fraco. Meu pai definitivamente ainda era um terreno delicado. Não apenas por sua saúde, mas porque talvez fosse um pouco demais de minha vida antiga para expor a Louis. Meu pai era algo íntimo demais para mim, para dividir com alguém. Eu nunca apresentei ninguém a ele. – Eu divido a minha vida toda com você desse jeito e você não vai nem dividir esse chocolate?! – Brinquei, por fim, apontando para os M&Ms e Louis se esquivou, guardando o pacote no bolso. O olhei, afetada. – Egoísta!
Ele riu fazendo uma caretinha. Crianção.
Tentei pegar de seu bolso, mas Louis afastou minhas mãos. O olhei indignada e tentei de novo, mas ele riu mais e empurrou meus braços para longe. Nos olhamos por um segundo enquanto ele esperava por meu próximo movimento, mas afastei suas mãos e puxei seu rosto o beijando com força, e segurando seu rosto contra o meu. Sua boca tinha gosto de chocolate, e quando o soltei sorri vitoriosa.
- Caramba, ... – Louis murmurou, parecendo um tanto surpreso enquanto me olhava, e eu franzi o cenho o encarando.
- O quê?!
- Você está... feliz demais. – Balançou a cabeça sorrindo. – O que você tem?
- Eu estou muito, muito chapada de analgésicos. – Sorri fraco.
Louis abriu a boca, como se de repente tudo fizesse sentido, e então murmurou um som de concordância.
- É claro. Onde você conseguiu analgésicos?
- São da .
- !
- O quê! – Abri os braços, encolhendo os ombros. – Ela não está aqui, está? E estavam quase vencendo. Tenho certeza que ela vai entender. – Assegurei-o, mas Louis riu fraco, incrédulo, e se desencostou da prateleira.
- Vamos jantar.
O observei por um momento enquanto ele seguia para fora daquele corredor antes de segui-lo, e caminhei ao seu lado.
- Pare de arruinar o momento. – Pedi depois de um tempo.
- Pare de arruinar... Você. – Louis respondeu, frustrado, saindo da biblioteca em minha frente.
Respirei fundo e decidi ignorar. Eu definitivamente não queria que aquilo se tornasse motivo de mais briga.


Niall’s POV
- Você tem autorização para estar aqui? – A enfermeira me perguntou sem muita animação enquanto fitava algo na tela de computador à sua frente.
- Ahn... – apressei-me em pegar a versão impressa de uma autorização assinada que o pai de havia me mandado na noite anterior. A enfermeira olhou por algum tempo e, por fim, entregou-me um crachá e uma bandeja de metal.
- Por favor, coloque aqui chaves, canivete suíço, canetas, qualquer objeto pontiagudo, bebidas alcoólicas, remédios, doces e comida no geral. – Apontou para a bandeja. – Quem você vai ver, mesmo? – Perguntou e eu apontei para a folha de papel em sua mão. – Ah, claro. Hm... . Ok. Aqui tá dizendo que você trouxe presentes dos amigos da escola. Posso dar uma olhada?
- Ah...
- É para a sua segurança e para a segurança dela, kid - explicou.
- Claro. – Coloquei a sacola de papel em cima do balcão e ela se esticou para avaliar o conteúdo.
- Ok, pode ir por ali, depois à esquerda e a porta dela é a última do primeiro corredor à direita no segundo andar – instruiu. Assenti, fingindo que havia entendido tudo quando, na verdade, estava nervoso demais para me atentar a qualquer instrução, ainda mais daquele tipo e daquela qualidade.
Depositei tudo que tinha nos bolsos menos a carteira e o celular na bandeja, peguei a sacola de papel como se nela estivesse todo o tesouro do mundo e fiz meu melhor para seguir o caminho que ela havia me indicado pela clínica. O prédio era muito bonito, moderno e elegante mesmo com as paredes majoritariamente brancas e os bancos de couro preto. As portas eram decoradas com cartões, fotos, mensagens e outras coisas, mas nem todas. Pouca gente circulava pelos corredores, mas eu podia ouvir música e a voz de alguém amplificada por uma caixa de som vindo de algum lugar da clínica. Subi as escadas com parede de vidro que dava uma visão de tirar o fôlego do jardim da instituição e, mais ao fundo, uma pequena lagoa que parecia ficar fora dos limites da propriedade.
Reparando naquilo tudo, senti-me mais tranquilo e até mesmo feliz por estar numa clínica como aquela que indicava que ela estava recebendo um bom tratamento num lugar bonito e tranquilizador.

No final das contas, achei o quarto de com mais facilidade do que esperava. A porta dela não estava decorada, visto que ela provavelmente não havia recebido visitas devido à detenção de todos na escola; o que, mais uma vez, fez com que eu me sentisse extremamente grato ao pai dela por ter acatado minha proposta de visitá-la.
Respirei fundo, ocorrendo-me, pela primeira vez, que talvez ainda não fosse a e, sim, ainda fosse a Lola. Mas eu precisava arriscar.
Dei duas batidinhas na porta e a abri.
- Buongiorno, principessa! – Cumprimentei quando a avistei deitada numa cama assistindo a algum programa de TV.
Ela desviou o olhar da TV para mim e abriu um sorriso que me deu a plena certeza de que aquela era minha .
- Niall! – Exclamou, levantando-se da cama rapidamente, cruzou o quarto e me envolveu num abraço apertado. Larguei a sacola no chão e a abracei de volta, enterrando meu rosto na base de seu pescoço e só percebi que havia fechado os olhos quando ela se afastou e eu os abri para olhá-la. – Você está aqui! – Abriu outro sorriso estonteante, ao que eu sorri junto.
- É bom ter você de volta – falei, sem pensar, observando seu rosto. Ela estava um pouco pálida, provavelmente por conta da terapia, e os olhos um pouco fundos com olheiras. parecia cansada, mas nem por isso deixava de estar linda.
- É bom estar de volta – disse com uma caretinha, mas deu uma risada e voltou para a cama, dando tapinhas no espaço ao seu lado me convidando para sentar. – O que você está fazendo aqui no meio da semana?
- Uma pequena visitinha – encolhi os ombros, sentando-me ao lado dela. – Como você está?
- Segurando as pontas – franziu o cenho. – Mas me disseram que eu devo voltar em uma semana ou duas. A Srta. Campbell disse que eu posso fazer as provas aqui, mas eu preciso estudar. – Balançou a cabeça. – Você poderia vir aqui mais uma ou duas vezes na semana e me ajudar com a matéria, o que acha? – Virou-se para mim.
Soltei uma risada abafada ao perceber como ela estava eufórica, mas não sabia dizer se era por causa de algum remédio ou por causa da visita – e uma parte significativa de mim queria muito que fosse por minha causa.
- A diretora está bem brava, duvido que ela vá deixar qualquer um de nós sair assim – revirei os olhos.
- Eu ouvi algumas histórias – ela assentiu, séria de repente. – Vocês aprontaram muito, não foi?
- Vocês?
- Você entendeu – lançou-me um olhar grave.
- Ok, sim, nós aprontamos.
- Espero que isso não entre para o meu histórico. Será que se eu explicar que tem outra pessoa dentro de mim Oxford ainda me aceita? – Brincou, mas eu não sabia se deveria rir. – Pode rir, Niall – bateu seu ombro no meu.
Soltei uma risadinha, sentindo-me desconfortável com a naturalidade dela.
- Você queria ver – disse. – O que achou dela?
- Eu devia ter feito alguma coisa.
- Não tinha muito que ser feito.
- Devia ter visto os sinais...
- Ei, tá tudo bem – ela sorriu para mim. – Não é culpa de ninguém. Principalmente da . Diga isso a ela, por favor – pediu. – Só Deus sabe como ela deve estar se martirizando por tudo.
- É verdade, ela não esteve nada bem nos últimos dias.
suspirou e deitou a cabeça em meu ombro.
- O que estão falando de mim? – Perguntou.
- Não ouvi muita coisa, desculpe. Josh é o cara das fofocas.
- Droga, eu atraí o cara errado para cá – socou o ar, fingindo revolta e eu ri, dando um beijo no topo de sua cabeça. – Posso? – Parou sua mão perto da minha, pedindo permissão e eu a segurei sem lhe dar uma resposta.
- Você não precisa pedir – garanti, entrelaçando nossos dedos.
Ficamos em um breve silêncio e eu fazia carinho em sua mão com os olhos fixos no carpete claro do quarto pensando no que havia acontecido naquela noite.
- Niall? – Chamou.
- Sim?
- Do que eu me lembro daquela noite, eu me diverti muito com você – confessou com a voz baixa, como se estivesse com vergonha. – Obrigada. E vocês arrasaram no show do festival. E eu me lembro da briga na casa da Sally e de você dando um soco num cara que tentou bater no Josh. Foi muito atraente.
Não me aguentei e soltei uma gargalhada quando ela disse aquilo. Segurei seu queixo, levantando seu rosto para mim e a beijei nos lábios, ao que ela correspondeu imediatamente, aproximando-se um pouco mais de mim antes de passar uma mão pela minha nuca. Senti aquela sensação estranha de novo, a mesma que senti quando a beijei na festa antes daquela briga maluca começar; uma sensação de uma porção de leprechauns dançando dentro da minha barriga. E aquela imagem me fez rir e tive que me afastar dela.
- O quê? – Ela sorriu para mim, curiosa.
- Nada... Eu só... – Falei entre risadas e desisti até conseguir me acalmar.
- O quê? – Insistiu, segurando meu braço quando eu limpei uma lágrima.
- Eu imaginei um monte de leprechauns dançando na minha barriga agora! Que cena! – Soltei mais algumas risadas e ela me acompanhou.
- Como assim?
- Sei lá, essa coisa maluca que sinto quando estou com você.
- Ah! – Ela abriu um sorriso. – Você quis dizer as borboletas.
- Borboletas? É assim que se chama?
- Sim, a menos que seja um super-irlandês como você! – Beliscou meu ombro rindo.
Beijei-a mais uma vez com mais intensidade, sentindo-me feliz por estar ali com ela.
Há alguns meses eu não via mais que uma garota apenas bonita e apenas legal em e agora eu imaginava personagens folclóricos fazendo festa dentro de mim numa tentativa de explicar como eu me sentia quando estava perto daquela garota.
Segurei seu rosto, aprofundando o beijo e, inconscientemente, inclinando-me sobre ela, que se deitou na cama comigo. Pousei minha mão em sua cintura, sentindo seu corpo por debaixo da blusa do pijama de cetim dela, trazendo-a mais para perto de mim e então me deitando sobre ela, diminuindo o espaço entre nós enquanto aproveitava a maciez de seus lábios.

- Meio-dia – ouvimos alguém falando do lado de fora da porta do quarto dela e nos afastamos numa velocidade tão grande que tropecei e caí no chão, o que deve ter chamado a atenção de quem estava lá do lado de fora, pois a porta foi aberta e eu me sentei rapidamente da forma mais natural que pude em um segundo e já estava deitada e coberta na cama quando dois enfermeiros espiaram dentro do quarto antes de entrarem completamente. – Bom dia, Srta. . Tudo certo por aqui? – Perguntou o homem negro e enorme que me lançou um olhar apurado.
- Tudo sim, Ivan. – Ela sorriu para ele, que retribuiu o gesto, incapaz de não se render aos encantos de . – Esse é Niall, um dos caras da banda que eu te falei.
- Um dos caras da banda, é? – Olhou-me pelo canto do olho enquanto checava a pressão de . – Respira fundo – pediu a ela. – Do tipo que toca numa garagem?
- Do tipo que toca na escola – corrigi, sentindo a necessidade de defender minha dignidade na frente daquele cara. – E no festival de Carlisle. E em alguns pubs perto de Londres.
- O Late Winter Festival, huh? Eu vi vocês lá – disse o outro enfermeiro que recebeu alguma coisa de alguém que passava no corredor. – Aquele cover do Guns N’ Roses foi foda.
- Zayn é realmente um bom cantor – admiti, orgulhoso.
- Mas Niall é o gênio por detrás de tudo – acrescentou, sorrindo para mim. Algo que Ivan não deixou passar.
- Eu devo deixar a porta aberta quando sair, Srta. ? – Perguntou a ela, que corou imediatamente, mas não retraiu a postura.
- Pode pegar aquela sacola ali para mim, Ivan. Acredito que sejam meus materiais da escola – disse ela. Ivan catou a sacola e espiou dentro dela, soltando um risinho em seguida.
- Qualquer coisa menos materiais de escola – alertou. Depois se virou para mim. – Vou deixar essa passar, hein?
- Não são meus. Foi o pai dela quem mandou. Eu sou só o garoto da entrega – falei, finalmente me colocando de pé e caminhando até a poltrona que havia em um canto do quarto branco.
- O Sr. ficará satisfeito de saber que muito mais tem sido entregue por aqui – olhou para mim e para e não pude evitar a irritação que aquele comportamento estava começando a me causar. Quem ele pensava que era? Nossos pais? O vigia?
- Obrigada, Ivan – sorriu mais uma vez.
- Voltarei ao meio-dia, . – Avisou. – Comportem-se ou serei obrigado a jogá-lo pela porta. E vocês devem saber que sou um fã do Tio Phill de Um Maluco no Pedaço – apontou para mim em tom ameaçador, mas com um toque de humor.
- Puxa, que pena! Meu personagem favorito era justamente o Jazz – encolhi os ombros, provocando-o. olhou para mim e reprimiu uma risada.
Ivan me balançou a cabeça negativamente, saindo do quarto.
- Ele é legal, eu juro. – juntou as mãos.
- Deve ser – revirei os olhos, levantando-me e indo me sentar com ela na cama.
- Ele foi meu enfermeiro da primeira vez que vim aqui – explicou. – Vamos ver o que vocês me trouxeram! – Bateu palminhas e abriu a sacola de papel. – Oh – murmurou, olhando seu interior.
- O quê? – Estiquei o pescoço para ver o que era, mas ela tirou a abóbora de pelúcia antes que eu pudesse dar uma olhada.
- Quem mandou isso? ? – Ela me lançou um olhar que eu não pude decifrar.
- Sim! – Estalei os dedos. – me perguntou se eu podia levar algo em nome dela. – Contei. – Daí ela subiu correndo e voltou com isso e com... – puxei a sacola para mim e tirei uma barra de chocolate suíço com caramelo – isso.
Ela abriu um sorriso que não chegou aos seus olhos, não chegou a ser completo.
- O que foi? – Perguntei, pegando a abóbora de pelúcia de suas mãos e a fitei. – Por que a garota está triste em me ver? – Imitei uma voz infantil e balancei o brinquedo fingindo que era ele falando. riu fraco, abaixando a abóbora.
- Ela me deu na primeira vez que eu fui internada. Foi um presente de aniversário, na verdade.
- Bom... – puxei o ar – Se te deu forças da primeira vez, dará forças dessa também – sorri.
- O chocolate definitivamente vai facilitar as coisas – riu, balançando a cabeça.

Caímos em um silêncio estranho, mas não desconfortável. Ela fitava a pelúcia com certa nostalgia nos olhos.
- É muito ruim? – Ousei perguntar.
- É pior. – Confessou, num fio de voz. Parecia que ia continuar, então esperei. – Eu machuquei todo mundo. Cada pessoa que eu poderia machucar.
- , não foi sua culpa ficar assim.
- Não. Não estou falando disso – gesticulou para o quarto ao nosso redor. – Não estou falando da Lola. Estou falando dos meus pais, de , dos meus amigos... - Ei, a é sua melhor amiga. Ela nunca ia te deixar passar por essa barra sozinha.
- Eu sei! Mas isso não muda o fato de que foi horrível.
- Claro que foi, mas o que se pode fazer?
- Nós nunca mais visitamos nenhum castelo – disse. – Eu tive um trauma, mas minha mãe ainda gosta de castelos, de História. Mas nunca mais fomos a nenhum castelo, sabe por quê? Porque eu a acusei de ter levado a filha para a morte.
Puta merda, pensei.
- Foi horrível – riu amarga.
- ... – pensei no que dizer. – Quando a minha mãe morreu, eu não consegui ir ao enterro dela. Você já sabe disso. – Suspirei, sentindo seu olhar pesar sobre mim. – Alguns dias depois eu me envolvi num acidente de carro; não estava pensando direito, eu só peguei o carro e saí dirigindo como um louco. – Senti-a segurar minha mão. – Meu pai ficou furioso depois, claro, e no calor do momento eu disse que preferia que ele tivesse morrido no lugar dela... – Limpei a garganta. – O que eu quero dizer com isso é que quando estamos no meio da dor, no meio desse sofrimento que parece que nunca vai ter fim, nós dizemos e fazemos coisas que não podem definir quem nós somos de verdade. Você entende o que eu quero dizer?
- Sim – murmurou.
- Bom. Então pare de se culpar, porque eu tenho certeza de que sua mãe não te culpa – beijei o topo de sua cabeça quando ela deitou em meu ombro. Outro silêncio se instalou entre nós, esse mais confortável.

- Sabe, não me admira que você seja tão bom com as palavras – disse.
- Mesmo?
- Mesmo. É tão natural que é como se eu já soubesse que você tinha esse dom.
- Eu não nasci pronto, você deve imaginar – tentei cortar aquele fluxo de elogios que estavam me deixando sem graça.
- Claro, seu primeiro choro deve ter sido um pouco desafinado – riu e eu acompanhei. – Você deveria escrever uma música para mim – sugeriu com um tom jocoso.
- E quem disse que eu nunca escrevi? – Abri um sorrisinho de canto quando ela levantou a cabeça com os olhos arregalados para mim.
- Isso é sério? – Limpou a garganta. – Não que eu me importe, claro – fingiu desinteresse.
- Claro – concordei. – Mas, é, talvez eu tenha um ou duas ou várias sobre uma certa garota – encolhi os ombros.
- Um dia você vai me mostrar – decretou, deitando-se de volta na cama com um sorriso e deu dois tapinhas no espaço que deixara ao seu lado.
- E se o Ivan entrar aqui? – Estreitei os olhos.
- Ele só volta meio-dia.
Facilmente convencido, deitei-me ao lado dela na cama meio dura, mas não menos confortável por isso. se levantou apenas o suficiente para eu passar meu braço por debaixo de seu pescoço e voltou a deitar, ajeitando-se mais perto de mim. Lançou um olhar adorável para mim antes de me dar um selinho.
- Eu estou muito feliz que esteja aqui – sussurrou, ao que abri um sorriso. Depois, pegou o controle remoto de cima do criado-mudo e ligou a TV.



Capítulo 29


’s POV
Joguei outro M&M na boca quando Liam cruzou as portas do prédio da diretoria e veio se juntar a nós com um sorriso no rosto e eu me encontrei incapaz de desviar os olhos dele. Reparei em tudo que meu campo de visão podia alcançar enquanto ele cumprimentava sua mãe e meu pai: os ombros largos esticando o tecido macio de seu suéter, o tronco se afinando suavemente em seu abdômen que eu sabia que era definido, a calça jeans que não deixava muito para a imaginação...
- - Liam me chamou, vindo em minha direção. Apoiou-se no encosto do sofá onde eu estava e se inclinou para dar um beijo na minha bochecha, ao que eu tentei me manter inabalável, mas sentia essa vontade dentro de mim de tê-lo ainda mais perto.
Abri um pequeno sorriso como resposta e desviei o olhar para o carrinho de Henry estacionado perto da poltrona onde Maryl, a Barbie, estava sentada. Para meus pais, tudo estava bem. Liam e eu concordamos em fingir que nada havia acontecido na frente dos nossos respectivos progenitores. Por isso, ou apenas para me irritar com sua presença, ele se sentou ao meu lado no sofá e ainda pegou o pacote de M&M do meu colo para si.
- Eu estou comendo isso - falei tentando ao máximo não ser extremamente grossa como queria ser.
- E não pode dividir? - Abriu um sorriso forçado para mim numa clara evidência de sua provocação. Espelhei o gesto.
- Claro, querido irmão.
- Eu acho que prefiro vocês dois tentando se matar, é menos assustador. - Concluiu meu pai, olhando-nos com certa preocupação.
- Se você quiser, eu posso furar os olhos dele aqui mesmo - adiantei-me em propor, arrancando uma gargalhada de meu pai. Liam, por sua vez, passou o braço por meus ombros, balançando a cabeça.
Respira, .
Cruzei os braços aproveitando que o movimento daria ideia de que eu estava muito brava, mas, na verdade, fechei as mãos em punho numa tentativa de controlar os impulsos que meu cérebro realizava em minha mente e que jamais seriam coisas aceitáveis na vida real.
- Eu preciso ir ao banheiro - Maryl anunciou de repente, desviando sua atenção de Henry em seus braços e olhou para mim.
- Ah, claro! - Levantei-me rapidamente e peguei o recém-nascido de seus braços. Eu não fazia ideia de como pegar uma criança, mas o medo de derrubar o bebê foi mais forte que qualquer despreparo, imediatamente eu o segurei junto ao meu corpo com firmeza. Maryl sorriu para mim e me entregou um paninho fino e macio antes de se levantar e sair da sala de convivência do prédio da diretoria.
- Oi, Henry - sussurrei para o pequeno ser humano dormindo em meus braços. Foi involuntário, eu apenas sorri e me sentei de volta com ele em meu lugar. Liam se aproximou de nós e enfiou seu dedo indicador na mãozinha fechada do bebê.
- Hey, buddy! - Disse ele com um sorriso, o mesmo que eu sorri. Acho que era involuntário mesmo. - Ele tem cara de joelho.
Franzi o cenho.
- Não tem, não.
- Claro que tem, todos os bebês dessa idade têm.
- Então você era um grande e feio joelho.
- Provavelmente. Você também.
- Nunca.
- Ela era um joelho feio, Robert?
- O quê? ? Claro que não. Ela foi o bebê mais bonito que eu já vi.
- Arrá! - Dei língua para ele, que revirou os olhos.
- Ele é seu pai, é tipo a obrigação dele dizer essas coisas.
- Não enche o saco e vai pegar mais M&M para mim - ordenei. - Você me deve depois de comer tudo.
- Eu vou - meu pai se ofereceu, levantando-se. - Deus sabe como estou cansado de ficar sentado. Hoje mesmo eu tive uma reunião de quatro horas! Quatro horas! Isso vai acabar me matando um dia... - ele foi resmungando até desaparecer pela porta da sala. Quando não conseguia nem mais ouvir sua voz, virei-me ferozmente para Liam.
- What the hell, Liam?! - Grunhi. - O que foi aquele braço no meu ombro? Tá maluco?!
- O quê? Eu achei que não fosse significar nada para você, Rainha do Gelo.
- Não seja idiota, você sabe muito bem que... - deixei a frase morrer quando me dei conta do que estava prestes a falar e Liam também percebeu, pois abriu um sorriso presunçoso maior do que a cara. - Não toca mais em mim.
Ele me estudou com os olhos por alguns segundos antes de parecer desistir da discussão. Deu de ombros e se afastou um pouco de mim, mas continuou dando antes atenção a Henry, que se espreguiçou em meus braços e abriu os olhos.
- Ele acordou! - Olhei para trás, para a porta, esperando que Maryl passasse por ela naquele exato momento e eu não tivesse que lidar com um bebê acordado. - Onde está sua mãe?
Sem esperar a resposta, coloquei-me de pé e balancei o corpo lentamente morrendo de medo que ele começasse a chorar. Seus olhos pareceram encontrar meu rosto e por ali ficaram quando, sem pensar, comecei a murmurar uma canção de ninar com meus olhos presos nos dele. E acho que uma espécie de laço se criou ali, pois eu pude sentir meu corpo se aquecer por dentro, de uma forma gostosa e aconchegante só de sentir seu peso leve em meus braços, o cheirinho que ele exalava e todos os pequenos traços de seu rosto.
- A gente se ferrou muito por causa daquela doidera toda, mas, eu tenho que dizer: você dirigiu muito bem na casa do Josh - Liam voltou a falar, cruzando os braços atrás da cabeça e olhando para mim.
- Cortesia do seu padrasto - apontei para fora da sala com a cabeça. - Ele me ensinou a dirigir.
- Robert? Eu não consigo imaginar. Ele dirige a 30 numa via de 50.
- Ele tem mais uma boca para alimentar agora - observei com uma leve risada.
Um breve silêncio caiu sobre nós e eu deixei ficar enquanto balançava Henry com o pensamento longe na figura de meu pai e tudo o que ele já havia feito por mim.
- Parece uma loucura...
- O quê? - Levantei o olhar para Liam.
- Casar de novo. Ter mais um filho.
- Henry é filho deles. Não parece importante o suficiente para você?
- Sim, mas, um grande "mas" aqui, minha mãe teve um péssimo casamento com meu pai. Ele foi um merda com a gente. Não sei como era o casamento dos seus pais, mas acho que você entendeu meu ponto.
Não deixei de notar que Liam não falava muito de seu pai. Acho que aquele dia no car wash foi o mais próximo que já chegamos de falar abertamente sobre nossos daddy issues.
- Eu acho que é justamente isso o que podemos chamar de amor - permiti-me ser brega.
- Uma vontade irracional de entrar de novo numa situação que você viu que não deu certo antes? - Franziu o cenho.
- Uma vontade de fazer o necessário para estar com quem você quer estar. - Soltei sem pensar. - Devia ser uma inspiração para alguns de nós. - Murmurei baixo demais para que ele ouvisse.
- O que disse? - Perguntou.
- Nada. - Parei ao lado do carrinho de Henry e o coloquei com cuidado ali torcendo para que não acordasse. Ele se mexeu um pouco, mas acabou soltando um suspiro e virou a cabeça para o outro lado.
- Se eu soubesse que você era tutora, tinha te alugado primeiro - ele trocou de assunto.
- Tutora?
- Sim. Harry.
- Ah - balancei a cabeça. - Eu não sou tutora... Ele só pediu minha ajuda com algumas matérias. Fiquei surpresa por ele não me odiar por conta daquela discussão idiota com a .
- Talvez ele só estivesse desesperado, mesmo.
- Uau, obrigada.
- Você foi meio otária naquele dia.
- Eu não vou voltar a falar sobre isso, Liam. E também não vou negar que foi legal receber um pouco de amistosidade de alguém do grupo. Aliás, se não me engano, ele também estava sendo isolado por causa da .
- O Harry também foi um idiota. Agora eu entendi: os dois se juntaram porque ninguém queria estar com vocês.
- Ele só pediu minha ajuda, Liam, porque, quem sabe, ele ache que eu sou inteligente o suficiente para ajudá-lo! Que tal? Ou, mesmo que seja por isso, quem pode nos culpar? Vocês abraçam e acolhem pessoas como a e o Zayn, mas não conseguem perdoar uma pessoa que estava num péssimo dia e um garoto com medo de perder a melhor amiga. Great friends. De todos ali, eu esperava mais de você.
- M&M! - Meu pai anunciou ao entrar na sala acompanhado de Maryl. Tinha um pacote para cada um.
- Valeu, pai, eu vou comer no meu quarto. - Peguei meu pacote de sua mão quando fiz meu caminho para a saída da sala. - Te amo, pai - despedi-me antes de sair. Ouvi Liam dizer alguma coisa aos adultos e logo senti sua presença me seguindo de perto.
- Vai ficar um tempo com sua mãe, Liam - sugeri, sem olhar para trás.
- Já passei nove meses inteiros grudado nela - rebateu, caminhando agora ao meu lado quando saímos do prédio da diretoria e seguíamos pelo corredor coberto que interligava aquele prédio ao do refeitório, de onde eu pretendia seguir para meu dormitório.
Não respondi, decidida a dar-lhe apenas meu silêncio depois das suposições ofensivas dele. Talvez Harry só precisasse de ajuda, talvez Harry só quisesse companhia e, de início, eu era só uma ideia de um caso para ele, mas isso não importava mais. Não importou antes quando eu decidi ajudar, mas ter Liam levantando tais hipóteses como se segurasse algum tipo de troféu me tirou do sério. Não havia muita coisa pior que alguém que te deixou mal vir tripudiar.
- Tá rolando alguma coisa entre vocês dois? - Ele quis saber, segurando meu braço para me fazer parar e olhar para ele.
Então era sobre isso.
- Não, não está. Mas Deus sabe o quanto eu estou a fim de beijar aquele garoto de novo! - Confessei. Eu jamais diria aquilo a ele ou a qualquer pessoa de modo geral, mas eu já estava irritada.
- De novo?! Quando foi a primeira vez?
- Não é do seu interesse!
- Ah, sim, é!
- Como?
- Estávamos tendo algo legal, . Tranquilo. Era bom. Aquele dia lá em casa antes de irmos ao hospital... cacete, , aquilo foi legal pra mim.
- Ah, é? Foi tão legal assim? Como foi o encontro com a Rebekah?
Ele abriu a boca para me responder, mas a fechou.
- Não aconteceu nada entre vocês? - Insisti, cruzando os braços.
- ...
- Exato.
- , o que você queria? Nós concordamos que não podíamos levantar suspeitas.
- Você poderia... - interrompi-me para respirar fundo. - Deixa pra lá. Isso não importa.
- Importa sim. Você quer isso tanto quanto eu, não é? - Ele se aproximou um passo e eu me afastei dois, olhando para os lados para ver se ninguém nos notara ali.
- Me deixa em paz, Liam. - Balancei a cabeça, voltando a andar em direção ao meu dormitório com suas palavras martelando em minha mente: tanto quanto eu.
- - ouvi sua voz se aproximando e de repente ele estava na minha frente mais uma vez. - Não grita. - Pediu antes de se abaixar e me pegar pelas pernas, jogando-me por cima de seu ombro, e eu tive que trincar os dentes para não gritar de susto, depois pôs-se a andar.
- Liam - falei no tom de voz mais controlado e baixo que eu era capaz enquanto sentia meu sangue ferver. - Liam. Me coloca no chão. Agora.
Ele soltou uma risada.
- Não, agora fique quietinha, se não eu te derrubo - disse e deu dois tapinhas na minha bunda. Trinquei os dentes, agora puta da vida. Levantei a blusa dele e belisquei suas costas com toda força que tinha, fazendo-o reclamar, mas não me colocar no chão.
- Não seja mal criada, - sugeriu.
- Tarde demais - belisquei-o novamente.
- !
- Me coloca no chão agora! - Olhei em volta quando percebi que estávamos na lateral do dormitório feminino. Foi somente quando estávamos bem próximos da parede de um anexo do prédio onde ficava algumas máquinas de força e energia que ele me colocou no chão. - O que você quer aqui? Você não vai me beijar! - Espalmei as mãos em seu peito para impedir qualquer aproximação. Ele, no entanto, soltou uma risadinha baixa, segurou meus pulsos e tirou minhas mãos dali para, então, se aproximar.
- Eu sei fazer outras coisas além de beijar - sorriu sugestivamente para mim.
Revirei os olhos, mas tive que prender a respiração quando ele me pressionou contra a parede, colocando uma de suas pernas entre as minhas.
Conseguia sentir uma sensação quase física de minha razão se transformando em gelatina por causa daquela proximidade.
- Não estou afim. Chame a Rebekah - alfinetei.
- Não estou afim - imitou, passando uma mecha do meu cabelo por detrás da minha orelha.
- Que pena, porque você não vai me usar para quando você "estiver afim" - levantei as mãos e fiz aspas com elas.
- Usar, ? - Ele perguntou como se aquilo tivesse incomodado. - Isso não... - Suspirou. - Quando você vai admitir que gosta disso? De nós? - Fixou seus olhos nos meus.
- Nunca - respondi.
- Mas isso está dentro de você.
- Eu não quero nada com um idiota como você. Que diz uma coisa e faz outra.
- E eu queria que tudo fosse diferente. - Disse ele, parecendo dar-se por vencido e não gostando disso. Dentro de mim, apesar do que eu dizia, algo doeu por vê-lo daquele jeito. Eu sabia, eu sentia aquilo. Tinha certeza dentro de mim que o queria tanto que doía. E não só para sexo. - Posso te beijar?
- Não - falei com firmeza. - Não insista. - Era para sair como uma ameaça, mas acabou saindo como um pedido desesperado.
- Por favor? - Insistiu com uma ponta de humor em sua voz.
- Droga, Liam - murmurei antes de sentir seus lábios nos meus, mesmo que eu não tivesse dito o que ele já sabia.
Passei meus braços por seu pescoço assim que ele envolveu minha cintura, trazendo-me para perto, apertando-me contra si. Nosso beijo era urgente, mas eu não estava com pressa alguma e, na verdade, aproveitava cada segundo como se fosse a primeira e última vez que eu o beijava. Liam me encostou de novo contra a parede e puxou minha perna para sua cintura, ao que eu respondi com um pequeno gemido contra seus lábios, tomando ciência do quanto eu havia sentido falta dele.
De repente, ele afastou meus cabelos e passou a distribuir beijos pelo meu pescoço. O ar frio tomou meu rosto, mas não senti frio, estava com calor e aquecida pelo corpo dele.
- Se você deixar alguma marca, eu juro...
- Relaxa, esquentadinha - ouvi sua risada baixa em meu ouvido e voltei a fechar os olhos para apreciar seu carinho com satisfação. Eu gostava tanto de seu toque que me assustava.
- Eu vou te fazer em pedacinhos se eu tiver que responder alguma pergunta sobre alguma mancha vermelha...
- Tá bom. - Disse antes de fazer pressão sobre um ponto entre minha clavícula e meu pescoço, o que me fez pensar em protestar, mas ele foi mais ágil e suas mãos invadiram as duas blusas de frio que eu usava e fez algum carinho em minha cintura enquanto diminuía os beijos em meu pescoço até terminar me dando alguns selinhos.
- Você é muito espertinho.
- E você é tão linda... Eu não consigo raciocinar quando você está perto - devolveu, deixando-me sem palavras.
Não esperava ouvir aquilo dele nem em um milhão de anos. Liam estava sempre confirmando aquilo. Sempre me dando as pistas necessárias para saber como ele se sentia. E como eu me sentia também.
Ele era insuportável na maioria das vezes e também não atendia meus ideais de cara perfeito, mas o que eu sentia por ele não precisava de nada do que eu havia estabelecido para mim. Ali, dentro de seus braços, as coisas pareciam fazer algum sentido. Era isso ou eu perdia totalmente o juízo. Talvez os dois.
- Eu...
- Eu sei que não podemos, mas eu quero.
Não podemos.
Foi isso que me tirou do mar de sentimentos em que eu estava me afogando naquele momento. Soltei um suspiro que não sabia que estava prendendo antes de beijá-lo mais uma vez bem devagar. Como um beijo de despedida.
E ele sabia disso também. Afastou-se um pouco de mim.
- Como você está? - Liam quis saber. - Depois da mensagem.
Suspirei de novo, exausta de toda aquela tortura psicológica.
Fica com Liam. Deixa o Liam de lado. Pode. Não pode. Quer. Não pode. Fica. Não fica. Amigos. Não amigos. Beijos. Brigas. Amigos. Não amigos.
E agora Oliver.
- Era meu ex-namorado - cruzei os braços ao sentir frio sem o contato de seu corpo.
- Ele estava me perguntando onde eu estou.
- Você está com problemas? - Ele esticou o braço para me tocar, mas se deteve no meio do caminho e voltou a enfiar as mãos nos bolsos da calça.
Xinguei internamente quando aquele gesto pareceu quebrar meu coração.
- Eu não sei. Depende do que ele quer.
- E o que ele pode querer?
- Voltar? - Sugeri, frustrada.
- Você quer voltar com ele?
- Não. Não mesmo. - Olhei para ele, tentando lhe dizer algo sem palavras, mas não sabia o quê. Talvez que eu quisesse ele e não Oliver.
- Que babaca...
- Oliver era casado. - Soltei de uma vez. De todos nossos amigos, a dele era a que mais me preocupava. Liam me encarava parecendo um tanto surpreso.
- Anh...
- Eu não sabia - expliquei, o que fez sua expressão se suavizar um pouco. - Mas ele sim, então ele é o babaca da história, não eu.
- ...
- Ele tem dois filhos. E está casado há sete anos. Ela deve querer uma garotinha. Eu gostaria de uma garotinha aos sete anos de casamento com dois filhos homens. - Àquela altura eu estava apenas tagarelando, entregue à liberdade de falar sobre aquilo pela primeira vez com alguém. - O cara que me contou que ele é casado disse que ela é incrível e que Oliver disse isso no brinde de casamento deles há sete anos atrás. Na verdade, ele não me contou. Oliver foi pego na mentira. Ele nunca teria me dito nada. Talvez um dia se cansasse de mim e voltasse para a segurança do seu lar, da sua família já pronta. Mas ela nunca saberá que o lar não era seguro e que a família estava destruída. Não depois de todas as coisas que ele disse para mim. Deus... - cobri o rosto com as mãos.
Senti Liam se aproximar, mas ele não chegou a me tocar.
- Talvez ele só quisesse sexo. Ou uma aventura com uma garota mais nova. Talvez a esposa dele esteja gorda e feia depois de carregar dois filhos dele e eu fui a rota de fuga de um padrão escroto que ele tinha de mulher. Eu a machuquei e ela nem sabe. Ela nem sabe. Ou não. Talvez ela seja linda e maravilhosa, o que ela deve ser de qualquer forma, gorda ou magra, e ele seja só um babaca que não saiba dar valor ao que tem em casa. Ou não tem coragem suficiente para sair pela porta da frente com decência e prefira sair pela porta dos fundos. Não importa porque eu tive todos os sinais e não me atentei. Não importa porque, por mais que eu amasse aquele filho da puta, ele nunca, jamais me escolheria. E se ele escolhesse, eu jamais aceitaria.
Levantei a cabeça para encontrar Liam me encarando com o rosto inexpressivo. E eu me arrependi automaticamente de ter dito todas aquelas coisas a ele.
- Eu não poderia nem imaginar isso - foi o que ele disse.
- Que eu sou uma vadia destruidora de lares?
- Não, não, . Você não é nada disso. - Ele finalmente voltou a me abraçar e eu deitei minha cabeça em seu peito. - Você não entra num relacionamento procurando sinais de que ele é casado. Não é sua culpa. Não poderia ser. Então não se culpe. Ele é o babaca da história.
- Por que ele mandou essa mensagem? Ele está atrás de mim? - O seu pai sabe?
- Não! - Afastei-me dele.
- Ok! Calma! Eu não vou contar nada.
- Promete?
- É claro que eu prometo, .
Assenti e voltei a deitar minha cabeça em seu peito enquanto imaginava o dia em que minha vida seria algo próximo ao normal.
- Eu escolheria você - disse ele baixinho. Apertei os olhos sentindo minha garganta se fechar com um choro que está preso há muito tempo. Meu corpo rejeitou aquela informação de forma dolorosa.
- Não - balancei a cabeça negativamente, afastando-me dele definitivamente. Dei-lhe um último beijo demorado na bochecha antes de começar fazer meu caminho até a entrada do prédio. - Você não escolheria. Ninguém nunca escolhe.



’s POV
Vinte e cinco questões de física no primeiro período de uma quinta-feira. Honestamente, por quê?! Parecia que estávamos sendo castigados em dobro pelos acontecimentos daquela noite do festival. Eu tinha certeza que havia um complô entre todos os professores contra nós.
Logo que pisei do lado de fora do prédio das aulas e senti o sol e o vento em meu rosto, respirei fundo e dobrei a folha com a lista de exercícios de física, olhando em volta no pátio sem procurar por nada ou ninguém em especial.
Como se a resposta caísse do céu, vi uma figura conhecida passar por mim sem me notar, caminhando na direção do pátio.
- Zayn!
Ele olhou para trás quando ouviu e esperou que eu o acompanhasse, voltando a andar.
- O quê?
Não consegui conter uma risada fraca com seu jeito estupido de naturalmente agir.
- Preciso da sua ajuda.
-Ah, , hoje não. Eu estou cheio dos meus próprios problemas pra lidar no momento.
- Jeez, calma. Não é nada demais.
- Eu não sei o que você considera “nada demais” e não sei se quero descobrir.
- Ok, então, o que tá pegando com você? – O olhei, franzindo o cenho.
- No momento eu tenho meia hora para refazer essa porcaria de redação de francês se não quiser reprovar nessa matéria. - Ele balançou uma folha de caderno meio amassada no ar. - Aquela vaca tem algum problema em especial comigo. E essa semana em geral, esses professores malucos, eles parecem que... enlouqueceram!
Então não era uma sensação só minha. Eu sabia.
-É. Parece pessoal, não é? Como um tipo de castigo.
- Deve ser isso. - Zayn concordou, dando de ombros. - como se passar os domingos inteiros trancado no auditório com aqueles perdedores do clube de teatro não fosse castigo suficiente. - De repente Zayn parou e se virou para mim, me olhando de cima a baixo rapidamente. - Você sabe francês?
Parei também e o olhei, cruzando os braços e abrindo um sorrisinho.
- Ah, agora eu tenho a sua atenção? Eu, uma perdedora do clube de teatro?!
Zayn bufou.
- Qual é, você é filha de burguês, veio da Alemanha, com certeza sabe francês.
- Da última vez que chequei eles ainda falavam alemão por lá. - Não consegui evitar dizer e Zayn me encarou irritado.
- Eu definitivamente te odeio quando está de bom humor. – Atestou.
Balancei a cabeça o ignorando e o puxei para a mesa de pedra mais próxima e sentei, o vendo sentar em minha frente.
- Preciso de ajuda com física. Eu sei que você é bom com isso, surpreendentemente. Monta essas fórmulas pra mim que o resto eu sei fazer. - Empurrei minhas folhas para ele e puxei a folha de caderno da sua mão, pegando uma caneta dentro de minha bolsa para auxiliar e um lápis para ele.
- Ouvi dizer que você é boa em matemática, surpreendentemente. E acha isso aqui difícil?
- Matemática é diferente de física. - O olhei brevemente e voltei a passar os olhos pela folha.
- É, física faz sentido. – Murmurou, olhando para a folha também.
Depois de um tempo, precisei quebrar o silêncio.
- Olha só nós dois, pegando um no pé do outro por sermos bons em alguma coisa.
Zayn soltou uma risada fraca.
- Por que não pediu ajuda da ? Tenho certeza absoluta que ela sabe francês. – Comentei.
- Ela não estava aqui agora, e como disse eu tenho meia hora.
- Você usou o Google tradutor para fazer isso aqui. - Afirmei, passando os olhos pelo texto. Meu francês não era excelente, mas era bom o suficiente para aquilo.
- Por acaso eu tenho cara de quem sabe francês?! – Zayn me olhou, puto. - Cara, eu juro, estava pensando em ir procurar a . Mas acho que ela não curte muito a minha cara.
- Será que ela curte a de alguém? - Comentei, riscando um verbo e o conjugando no tempo certo.
- A do Louis. Ela curte a cara do Louis. - Zayn comentou e apontou para mim com o lápis. - Se lembra da discussãozinha de vocês na sala de ginástica naquele dia?
- Como eu esqueceria?
- Ele comentou até sobre as botas dela.
- Que observador. - Zombei. Zayn me surpreendia as vezes com como ele conseguia captar tudo enquanto estava quieto na dele sem se meter nas coisas.
- E o Liam ficou todo ciumento do nada com ele. Os caras são amigos há anos, então aquilo foi estranho.
- Quando foi que você virou uma velha fofoqueira? - Soltei a caneta e o olhei com um sorriso. - Falando da vida dos seus amigos e tudo.
- Só queria apontar que o seu namoradinho parece ser uma das únicas pessoas que se dá bem com a psicótica do grupo.
- Agora eu que estou com ciúme, pensei que eu fosse a dona desse título. - Peguei a caneta e voltei a estudar o texto. – Aqui você quis dizer fila, mas escreveu pau.
Ele levou uma mão aos cabelos em frustração e balançou a cabeça.
- Foi isso que eu entreguei à professora de francês?
-Pois é. - comentei e ri fraco.
Uns cinco minutos devem ter se passado em que ficamos em silêncio fazendo aquilo e eu já estava quase terminando de revisar o texto quando ele falou de novo.
- Notei que o Louis está fumando agora. Parece que você é uma má influência, .
Suspirei.
- É. Ele disse que já tinha fumado antes, mas não gostava muito. Agora, comigo... acostumou de novo. Mas é só socialmente. – Me defendi.
Zayn não disse nada, mas senti a necessidade de continuar.
- Ele só fuma um ou dois por dia, pelo menos. É bem diferente de mim.
- Porque você é uma viciada.
- Primeiro: olha quem está falando. - Levantei um dedo no ar.
- Whatever works for you. - murmurou, concentrado nos exercícios.
- E segundo: eu fumo por causa da ansiedade, isso ajuda. - Dei de ombros. – Qual é a sua desculpa? Um cara com o ego do tamanho do seu não pode sofrer de transtornos sociais.
- Eu fumo porque eu quero. – Respondeu apenas, dando de ombros. – Mas não levo os outros para o mal caminho comigo.
- É, Zayn, você é quase um embaixador da paz. – Ironizei. – Tenho certeza que quando acabar com a a saúde mental dela vai estar muito pior que os pulmões do Louis.
Se olhares queimassem, o dele teria aberto um buraco na minha cara. Sorri fraco, irônica. E era exatamente porque sabia que eu estava certa, que ele não respondeu.
O silêncio se alastrou até que eu senti a necessidade de falar o que estava martelando minha cabeça:
- Você não sente como se... Como se eles fossem bons demais pra aguentar as nossas merdas?
Zayn apenas soltou uma risada seca e me olhou.
- O que você acha?
Aquilo por si só já confirmava que minha pergunta era uma enorme retórica.

Uns minutos se passaram. Zayn mexia no lábio inferior sem perceber enquanto escrevia as fórmulas de cada exercício, com a atenção focada na atividade. Incrivelmente ele era bom naquilo. Depois de terminar um em especial pareceu voltar a atenção à nossa conversa e voltou a dizer:
- Nenhuma da sua coleção de pílulas funciona para isso?
- Pra o quê? – Dei de ombros.
- Ansiedade.
Pensei por um segundo. Há muito tempo que eu não via uma receita médica real para aquelas coisas.
- Os calmantes, acho. Deviam funcionar. Talvez eles funcionem, e eu só não saiba. Talvez se eu parasse de tomar ficaria pior. - Dei de ombros, imaginando aquela hipótese.
Zayn levantou a cabeça e me olhou, a expressão dividida entre um tanto perplexo e um tanto com pena.
- , há quanto tempo toma essas porcarias?
O olhei também, sem entender sua reação, e só dei de ombros fazendo uma careta.
- Qual é a sua com a minha vida hoje?
- Só não sabia que você era fodida a esse ponto, só isso.
Soltei a caneta, ainda o olhando, abismada.
- Excuse me?!
- Não me olhe assim! – Se defendeu. – É meio triste, só isso. Que você tome essas coisas há tanto tempo que nem sabe mais como é estar sem elas.
Abri a boca para responder, surpresa com o fato de aquilo ser chocante para ele. Não era algo de se esperar de mim? Afinal, não era o que todos eles sempre diziam? Que eu era viciada naquelas pílulas? Então o que elas achavam que eu fazia com elas, brincava de bingo?
- E? Quer dizer... os médicos disseram que eles serviam para isso.
- Há quantos anos atrás? – Rebateu.
- Ah, Malik, não enche. - Revirei os olhos. - As coisas não mudaram!
- Mas você não tem uma receita há quanto tempo, ? Qual é, esses remédios não são para serem tomados assim, pra sempre, todos os dias. Você compra eles sem receita porque sabe que se fosse em um médico ele não te deixaria mais tomar. - Ele fez uma pausa e balançou a cabeça. - Mas eu não preciso te falar isso, você é uma garotinha inteligente. – Piscou um olho, terminando de anotar alguma coisa na folha. - Já sabe bem disso tudo. Só finge que não.
Respirei fundo, tentando não deixar aquela conversa desnecessária me incomodar. Podia dizer a Zayn que qualquer coisa que ele pudesse falar sobre mim eu já sabia, mas não queria alimentar ainda mais aquele assunto.
- Eu já terminei.
- Eu também - ele disse, empurrando a folha de exercícios para mim novamente. Pegou a folha da redação e a olhou brevemente, dobrando o papel e o colocando no bolso antes de me olhar.
- Você sabe que eu estou certo, não tem porque ficar chateada.
- Você não sabe ter uma conversa normal sem ser indesejável pelo menos uma vez. - Respondi baixo, olhando para longe, sem conseguir controlar a irritação.
- E qual é o propósito de fingir que não somos esses ferrados que nós somos? Você sabe tanto quanto eu que não ajuda em nada tentar ignorar. - Zayn deu de ombros e se colocou de pé. - Já que já te deixei desconfortável agora, , então pense nisso: você tá vendo o mundo através de uma cortina. Ficar sem ela pode parecer assustador, mas talvez seja melhor do que ser um zumbi.
Não consegui pensar em nada para responde-lo que não fosse no mínimo cheio de rancor. Eu não era amiga de Zayn pelas palestras motivacionais. Já era rodeada de pessoas que adoravam jogar aquelas coisas na minha cara como se eu não soubesse.
Apenas lancei um olhar duro a Zayn, que respondeu com um sorrisinho quase que satisfeito, antes de virar as costas e se afastar. Ele realmente era bom em acabar com o humor de alguém.


Zayn’s POV
Quando saí da aula de Botânica II, havia no corredor uma aglomeração de alunos em frente ao mural principal de avisos e notícias da diretoria. Ouvi lamentações, reclamações e xingamentos – Srta. Campbell era uma vadia, segundo alguns. A curiosidade me venceu e me dirigiu até o amontoado de pessoas. Tentei olhar por cima das cabeças dos alunos, mas não conseguia enxergar o que estava escrito.
Eles realmente precisavam refletir sobre o que acabaram de ler ali?
Dei uma olhada na aglomeração à procura de uma forma alternativa para chegar ate o quadro, mas não havia boas opções. Por isso, ajustei a alça da mochila no ombro, puxei o braço da pessoa que estava à minha frente para passar por ela.
- The fuck? – A menina reclamou, esquivando-se de minha mão.
- Hey! – surgiu ao meu lado com um sorriso sugestivo. – O que tá rolando? – Olhou de mim para a menina.
- Babaca. – Ouvi a garota sussurrar antes de cutucar sua amiga e sair de lá com raiva.
- Não foi esse nosso trato, foi? – Ela cruzou os braços.
- Você não estava aqui – rebati. – Aliás, isso foi outro dia. Isso foi na terça. Hoje é sexta.
- Não me venha com desculpinhas – apontou para mim, fingindo estar me dando lição de moral. – Trate de me obedecer.
- Se não o que? Vai me punir? – Sussurrei a última parte.
Seus olhos queimaram dentro dos meus sem que eu conseguisse entender se estavam queimando porque ela gostou da provocação ou se me odiou por falar aquilo em público.
Fosse o que fosse, eu não poderia ligar menos.
Ainda estava morrendo de vontade de beija-la desde a conversa no café da manhã.
- O que está rolando aqui? – Voltou sua atenção para os outros alunos amontoados.
- É sobre o busto – alguém disse a .
- O quê? – Seus olhos se arregalaram e ela se forçou contra a multidão da mesma forma que eu faria, mas sem os pedidos de licença e desculpa que ela murmurava em meios a sorrisos. Segurou minha mão, puxando-me consigo.
Respirei aliviado quando conseguimos chegar ao quadro, surpreso com a quantidade de gente que estava ali. A coisa parecia séria, se não ninguém estaria ali.
- “Em virtude da falta de responsabilidade e transparência do autores do vandalismo cometido contra o busto de nosso fundador, a direção do colégio St. Bees anuncia que os tradicionais trotes de Páscoa estão suspensos”. – leu em voz alta. Quando terminou, balançou a cabeça negativamente. – Autores? Por que não poderiam ser garotas?
Bufando, voltou a segurar minha mão e nos arrastou para fora da agitação. Observei-a tirar o celular da bolsa e digitar algo rapidamente, depois guardá-lo de volta na bolsa, virar-se para mim e se aproximar rapidamente para me dar um selinho, mas se deteve no meio do caminho com os olhos arregalados.
Não consegui me controlar e soltei uma gargalhada.
- Já estamos nesse nível? – Provoquei falando mais baixo.
- Cala a boca, Malik! – Ela cobriu a boca com a mão, chocada com sua própria atitude.
- Você quase me ofende desse jeito, .
mordeu o lábio inferior como se repreendesse a si mesma por dizer aquelas coisas e pelo que elas poderiam significar. Diante da agonia dela em busca de algo que a justificasse, resolvi mudar de assunto. Eu mesmo estava enlouquecendo com a ideia de beija-la ali mesmo na frente de todos e provar que o “bolsista pobretão e muçulmano” podia ter uma garota como , a princesinha da escola.
- O que são esses trotes de Páscoa? – Coloquei as mãos nos bolsos da calça.
- É uma tradição que os primeiros formadores da escola criaram... Tem uma caça a ovos e um jantar especial. Acontece todo ano, mas parece que nesse não.
- Parece bobo.
- Não! É muito divertido! – Garantiu. – A caça é diferente, tem tesouros dentro dos ovos, a equipe que ganha vira a realeza do jantar.
Torci a boca, sem me convencer de sua argumentação.
- Quantas vezes você já foi rainha? – Perguntei, imaginando que sempre ganhava aquelas coisas.
- Duas vezes.
- Só?
- Eu sou um Cavalier King Charles, não um Pointer Inglês – defendeu-se.
- Não acredito que você está usando raças de cachorros pra exemplificar suas habilidades de ler mapas – ri. – Como conseguiu ser rainha sendo um Cavalier King Charles?
- A outra equipe havia trapaceado, então descobriram e nos deram a vitória.
- E a outra vez?
- Liam achou o prêmio máximo e me deu para dizer que o havia encontrado.
Claro. Liam. The golden boy.
- Eu não faria isso.
- O quê?
- Achar o prêmio e dar para alguém. Não se eu tiver ralado muito pra conseguir encontrar!
- Eu sei. – Sorriu para mim. – É um dos motivos pelos quais eu gosto de você.


’s POV
- Hey! – Sentei-me ao lado de Harry no gramado de frente para o lago. Ele estava deitado com um braço por cima dos olhos e a cabeça apoiada na mochila gorda. Pareceu levar um pequeno susto e levantou o braço para me lançar um sorriso e uma piscadela. – Espero que esse não seja todo seu humor para estudar trigonometria.
- Deus... – resmungou. - Vamos, Harry. As provas estão quase aí! E temos muito que enfiar nessa cabeça.
- Desiste, , eu não vou para a faculdade.
- Não estamos tentando te colocar numa faculdade. Estamos tentando te formar no ensino médio. É mais fácil.
- Formatura é superestimada.
Soltei uma risada, incapaz de fazer diferente ante seu comportamento de criança mimada. Cutuquei seu braço e tirei meus materiais de dentro de minha mochila.
- Anda, não seja um bunda mole.
- Em primeiro lugar: minha bunda não é mole – levantou um dedo em riste. – Em segundo lugar, , estou me recuperando de um ensaio monstro. E é um final e sexta-feira!
- Uau, agora eu entendi tudo! Você gasta todas as suas energias naquilo que você gosta de fazer e depois faz corpo mole para fazer o resto.
Ele finalmente tirou o braço dos olhos, piscando-os rapidamente para se acostumar à claridade.
- Nós já falamos sobre essa história de mole! – Comprimiu os lábios numa linha fina, brincando comigo. – E você não entende nada; nós estamos tentando tocar Free Bird, do Lynyrd Skynyrd. Você tem noção disso?! Aquele solo...
- É, eu espero que os acordes te ajudem em alguma coisa. Quem sabe na prova de álgebra você consiga enganar a professora.
- Você é muito chata – bufou.

- Eu também preciso estudar essa matéria, sabia?
- Não! Você não nasceu sabendo tudo? Caramba, , agora você destruiu meus sonhos para os meus filhos!
Rolei os olhos, tentando não rir de sua idiotice, mas não consegui evitar o sorriso. Harry era um cara legal, uma boa companhia. Não tinha muita paciência para estudar, mas, quando começava, ia até o fim. Acho que a música ensinou isso a ele.
- Eu tive dúvidas em alguns exercícios, achei que você pudesse me ajudar – suspirou ao se sentar com as pernas dobradas na altura do peito.
- Você fez exercícios antes da aula?! – Agora eu estava chocada de verdade.
- Achei que seria legal não estar mil passos atrás de você para variar.
- Legal! Isso é ótimo! – Elogiei, pegando meu lápis e suas anotações para dar uma olhada.
Harry pegou outro caderno para resolver outras questões, voltando a deitar-se. Olhei-o de relance, reparando sem querer como ele ficava bonito sendo visto de cima e a grama verde parecia fazer com que seus olhos ficassem mais verdes ainda. Voltei rapidamente minha atenção para seus cálculos, surpreendendo-me com seu avanço.

- Você está me julgando – disse ele, arrancando-me do fluxo de ideias.
- O quê?
- Dá para ver no seu rosto. Está surpresa porque eu consegui terminar quase todas.
- Não é verdade – revirei os olhos, numa mentira leve. – Você realmente fez um bom trabalho aqui.
- Você ainda parece surpresa – insistiu.
- Estou surpresa que você deixou esse sinal de menos nesse resultado! – Arqueei uma sobrancelha para ele, que me olhou de volta. – Não existe medida negativa, Styles.
- Oh, aí está ela, a boa e superior – provocou.
- Você não está falando sério.
- Será? – Deixou a pergunta no ar, voltando ao seu estudo.
Tentei ignorar aquela sensação terrível de estar sendo acusada de algo injustamente e continuar verificando sua tarefa e cheguei até longe, algumas questões adiante, mas uma hora simplesmente tomou conta de mim. Abaixei o caderno e o fitei até que ele percebesse e, sem me olhar, abriu um sorrisinho presunçoso.
- Você sabe que é verdade.
- Não é! – Franzi o cenho.
- Bom, pelo menos é assim que todo mundo se sente.
- Isso não é verdade. Eu não faço as pessoas...
- Qual é, , você sabe. E, honestamente, eu acho que você gosta – encolheu os ombros. – Você sabe que tem todo esse corpo e essa cara de “não chega perto, otário”. Isso é enlouquecedor – disse, ainda sem me olhar, mas eu o fitava, agora pega de surpresa por suas palavras.
- Enlouquecedor? – Repeti a palavra que me levou de volta à noite do festival.
- É, você sabe... – sua voz morreu no meio da frase enquanto ele claramente fingia que estava focado na tarefa.
Senti-me frustrada por não ter sua atenção e que aquela conversa terminasse.
Primeiro eu agia como se fosse superior e depois eu era “enlouquecedora”.
Mordi os cantos internos da bochecha, pensando em alguma forma de virar aquele jogo – mesmo que não fosse um jogo de fato. Eu apenas odiava ficar no escuro.
- Bom, se estamos sendo sinceros aqui, você também não é nada mau, Styles – falei, deliberadamente voltando meus olhos para suas anotações, mas sem enxergá-las.
Pelo canto do olho pude ver que o havia pegado.
- O que isso quer dizer?
- Ah, você sabe... – deixei a frase morrer do mesmo jeito que ele o fizera.
Harry se sentou rapidamente, virando-se totalmente para mim. Aprendi uma coisa nova sobre o garoto: ele não perdia uma oportunidade de ter o ego amaciado. E, por alguma razão, decidi que queria fazer daquilo um jogo sem me importar muito com as consequências; ele parecia ser um ótimo jogador.
- O beijo! – Ele estalou os dedos como se aquela ideia tivesse surgido como um insight. – Deixou você caidinha.
Soltei uma risada.
- Desce um pouco do teu pedestal, Styles – pisquei para ele, que me fitava com um sorriso no rosto.
- Elas continuam me colocando lá em cima – disse de modo enigmático, mas não era necessário ser nenhum gênio para saber que ele falava das suas tietes.
- Alguém tem que te tirar de lá, porque, sério, está fazendo mal para a sua cabeça – devolvi.
- Eu acho que está fazendo mal é para a sua.
- Nunca em um milhão de anos.
- Você quer mais.
- Quem quer mais é você, Harry – acusei. – Eu sou enlouquecedora.
- Quer saber? – Ele arrancou um pedaço de papel e anotou alguma coisa lá. – Eu aposto um beijo que é você quem vai querer mais no final das contas.
Estendeu o pedaço de papel em que ele escrevera na sua letra – surpreendentemente – caprichada “HARRY: beijo”. Ignorei a sensação de borboletas voando em meu estômago em antecipação, só de imaginar a sensação de beijá-lo mais uma vez.
Merda, aquele maldito beijo tinha que ser tão bom?! Eram só 30 pratas!
Deixando todos aqueles pensamentos juvenis de lado, abri meu melhor sorriso confiante quando uma ideia me ocorreu.
- Eu aposto uma noite que é você quem vai querer mais no final das contas – escrevi na folha de papel “MADDIE: sexo” e entreguei de volta a Harry, que deixou o queixo cair quando leu o conteúdo.
Juntei minhas coisas da forma mais rápida e controlada que pude e me levantei com um sorriso no rosto, apesar de sentir minhas pernas tremendo pela adrenalina do jogo.
Quando já estava muito distante de Harry, que não viera atrás de mim então ainda devia estar lá processando o que havia acontecido, eu soltei uma gargalhada desajeitada, sentindo-me uma garotinha travessa. Mordi o lábio inferior e balancei a cabeça quando pensei no que havia feito.
Gosh.
I’m such a slut.


Liam's POV
Aquele era um dia atípico para o inverno inglês, mas nenhum aluno que estava tendo educação física pareceu querer manifestar sua surpresa. Eu mesmo fui um deles que aproveitou a aula com pouco mais presença do sol. Como era de costume em dias mais quentes, os professores de educação física levavam os carrinhos com algumas bolas de diferentes esportes, traziam cordas, redes e elásticos para prender nos troncos das árvores e andar sobre a linha formada. Não ficava muito cheio, afinal eram geralmente apenas duas ou três turmas que estavam em aula e alguns alunos que tinham o último período livre. Hoje, no entanto, os pátios estavam cheios e o clima de castigos e detenção tomou uma pausa para um pouco de diversão.
Na verdade, eu me sentia como se fossemos presidiários e agora fosse a hora de socialização e banho de sol. Mas quem era eu pra reclamar.
Muito pelo contrário, fui o primeiro a levantar e chamei os caras do time de futebol - antigos conhecidos do meu tempo de atacante no time oficial do St. Bees - para uma partida de futebol. Assim, eventualmente, mais pessoas apareceram, inclusive o time feminino de futebol e tivemos que adotar partidas de dez minutos para cada time. Quem perdesse daria o lugar para o próximo time.
E assim eu fui parar na arquibancada da quadra descoberta encharcado de suor, com uma garrafa d'água e uma de Gatorade, alternando os goles enquanto ouvia me contar sobre os planos para o comitê de formatura. Mas eu só a ouvia sem escutar de verdade; em algum momento ela disse que Harry ajudaria a encontrar alguns dançarinos para uma surpresa, pois sua irmã Gemma conhecia uns caras que davam aula de circo... E foi mais ou menos até aí que ouvi porque minha cabeça viajou automaticamente para a conversa que havia tido com mais cedo naquela semana e não consegui evitar a sensação de perda, raiva e impotência ao lembrar que os dois haviam se beijado. E que talvez ela quisesse fazer de novo.
Fuck, ...
Justo o Harry?
Droga.
A cada vez que minha mente tentava imaginar a cena, eu me perguntava mais e mais por que nós tínhamos que ser tão complicados. Não era nada justo.
E eu sabia que ela queria também. O que era pior.
E aquela briga na sala de ginástica... Foi a morte de qualquer coisa que um dia poderia ser.
- Liam? - me cutucou, assustando-me. - Você ainda está aí?
- Sim, sim - limpei a garganta. - O que foi?
- Você está me ouvindo?
- Sim, claro. O que mais vai ter no baile?
- Você não está me ouvindo! - Bufou. - O assunto do baile já se esgotou há uns minutos porque você não estava me respondendo e por isso achei melhor mudar de assunto.
- Ah, desculpe. Eu viajei.
- Eu vi - riu fraco. - Eu disse que está na universidade com o Will.
- Quem é Will?
- Sério? - Ela me fitou e encolhi os ombros. - É o namorado dela!
- Will? Achei que fosse Bill.
- O que tem de errado com os ouvidos de todos vocês?
Levantei as mãos em sinal de defesa e ela estalou a língua, mas soltou uma risada depois.
- Ela está lá conhecendo um pouco da vida dele. Vai fazer bem para ela.
- Calma. Ela está lá com ele?! Tipo, a vai visitar o dormitório dele?
- Ai meu Deus...
- Não, calma aí! Ela não sabia beijar há dois dias atrás! Quando foi que ela ficou preparada para ir conhecer o quarto de um cara? Quanto tempo de namoro eles têm?
- Bom... Eles não estão, tecnicamente, namorando...
- ! - Soltei as garrafas no chão da arquibancada e cruzei os braços para lhe causar maior pressão, mas não pareceu ser abalar.
- Não seja um babaca, Liam. é tão capaz de lidar com isso quanto eu ou você.
- Isso é absurdo. E quem deixou ela sair?! Achei que a gente estava de castigo até a vida após a morte.
- Ela matou a última aula e entrou escondida no caminhão de entrega do supermercado.
- Damn, ! Eles abastecem a escola toda sexta-feira.
- Pois é.
- Ela é tipo o Steve Jobs do mal.
- É, mas ninguém pode ficar sabendo, Liam! - Levantou o dedo em riste, ameaçando.
- Não diga! A é maluca, ela tá pendurada de advertência. Mais uma e ela é expulsa! - Bufei. - E eu achando que homem fazia de tudo pra transar...
- Ela não foi lá para transar! - rebateu. - Bom... Talvez não só por isso. Mas isso não importa. E não é da sua conta! Tive vontade de responder, mas me contive, indignado.
Aquilo era totalmente contra todos os princípios da natureza!
, a deusa do futebol, aquela que acaba com o Harry no video game, a única de nós que não chorou quando o Pikachu ficou dando choque quando o Ash congela naquele filme do Pokémon, ia perder a virgindade com aquele fotógrafo de meia tigela?
Absurdo.
Mas tinha que torcer que ela saberia se virar numa situação como aquela. Que era absurda.
- Como está a ? - perguntou de repente.
- Que? Por que eu saberia? - Olhei para ela, nervoso por sua pergunta.
- Porque vocês dividem a mesma família.
- Ah - soltei uma risada. - Não sei. Não tenho falado muito com ela.
- Que droga, de verdade.
- É...
- Talvez eu deva falar com ela.
- Talvez... - fixei meus olhos no jogo que acabara de terminar porque o time que nos havia derrotado fora derrotado agora. O que significava que eu ia voltar.
- Você sente falta do time?
- Hm... nah. Gosto mais de ser o conselheiro deles ou algo do tipo.
- Eles respeitam muito você - afirmou.
- Claro que sim: eu era o capitão do melhor time de futebol de Cumbria, tinha a garota mais incrível da escola e ainda conseguia ter uma média sete nas matérias.
- "Ele é o cara, ele é incrível, ele é Liam Payne!" - imitou o que o narrador de um dos meus últimos jogos gritou quando o time entrou em campo.
Sorri para , feliz por compartilhar aquela memória com ela.
- Nós éramos reis e rainhas - falei.
Ela riu e balançou a cabeça positivamente, desviando o olhar para longe. Admirei seu rosto de perfil, encantado por sua beleza, por sua doçura, encantado pela pessoa que ela era. Era comum me sentir daquele jeito perto dela; era uma grande amiga e eu a amava muito.
- Liam! - Alguém gritou do campo e esguichei o Gatorade uma última vez na boca antes de dar um rápido beijo no topo da cabeça de e descer para o campo.


Niall’s POV
- Dude, você é daltônico? - Olhei feio para Josh.
- O quê?! Você pediu verde!
- Josh, isso é claramente amarelo - Apontei para a tela do notebook aberto na mesa que improvisamos em cima de um cajon. Josh voltou a olhar a tela com um olhar confuso, parecendo se dar conta do tom daquela cor.
Eu não condenava o cara, por mais estranho que ele fosse, eu também já estava acostumado com seu estado mental permanente de lerdeza. Além disso, estávamos há duas horas jogados no chão, em cima do tapete surrado que o cobria, na sala da banda. Não era de se espantar que ele já não estava em pleno exercício de suas faculdades mentais.
- Cara, não é que isso é amarelo?! - Ele cobriu a boca com a mão, espantado, antes de mudar a cor para o verde que eu havia sugerido.
- Não importa, ficou ridículo dos dois jeitos - esfreguei os olhos sentindo tanto cansaço que poderia deitar naquele chão e dormir até a semana seguinte.
- Não seja maldoso - murmurou. - A gente tinha que fazer isso agora? Justo nessa semana dos infernos?!
- Josh, você não ouviu o produtor do festival? Ele foi muito claro: a logo da banda é a banda!
- A gente conseguiu chegar lá sem uma logo.
- Josh, essa não é a questão - ralhei. - O que os outros caras disseram?
- Você tá vendo eles aqui?
- Ninguém se importa? - Arqueei uma sobrancelha, desafiando-o. - Nem mesmo o Harry?
- Ele... - limpou a garganta e não prosseguiu quando percebeu que eu o encarava com incredulidade. - Ah, cara!
- Porra, cara! Você tinha uma, uma tarefa! Mandar mensagem pra todo mundo perguntando se eles tinham ideias pra discutirmos aqui!
- Eu esqueci, ok? Essa semana tá impossível!
- Eu detestei essa curva - apontei para a tela, ignorando-o.
- Desisto. Você é muito crítico! - Josh bufou enquanto se levantava. Tirou o celular do bolso procurando alguma coisa ali, depois colocou o aparelho na orelha. - Oi. Não, ele é impossível! Parece uma diva! Eu não consigo trabalhar assim. É. Vou precisar de você aqui... O quê? Não, eu vou acabar dando um soco na cara dele. - Soltou uma risada seca, ao que rolei os olhos, duvidando de verdade que ele jamais tentaria fazer qualquer coisa contra mim. - Vem logo.
E desligou.
- Quem era? - Perguntei.
- Reforços. – Disse simplesmente. Fiquei ali tentando arrumar uma gradiente que havíamos aplicado em cima do círculo central da logo que criamos, mas não estava tendo muita sorte.
- Não acredito que estamos apanhando desse... Aplicativo grátis para criar logos - bufei, minimizando a tela do aplicativo para atualizar minha página do Twitter.
- Ah, cara, não é tão intuitivo assim! - Disse com compaixão. - Além do mais, eu estou me sentindo muito bem agora.
- Por quê?
- Porque, aparentemente, você não é bom em todos os tipos de arte - abriu um sorriso aliviado. - É difícil competir com você, cara.
- Eu não sou bom e você também não é. Não existe competição.
- Mas você toca, canta, escreve... Not fair.
- Você quer que eu te elogie? Porque eu posso elogiar sua cara de pau ou coisas do tipo.
- É nisso que eu sou bom? É assim que eu me destaco?
Franzi o cenho sem entender de onde aquela crise existencial havia surgido.
- Josh, você divulga essa banda como ninguém. Sério, você é nosso melhor empresário.
- Eu sou o único, você sabe.
- Tenho certeza de que você entendeu o que eu quis dizer.
- Tá, tá, mas ainda assim. Eu sou só o cara que faz as ligações, mas são vocês que vão lá e "BAM"! - Soltou um barulho alto pela boca.
- Veja o Harry - apontei para o violão apoiado no pedestal atrás de nós - ele está dando duro para estar nessa banda. Quero dizer, ele está aprendendo a tocar, então não pense que nada disso é só... dom natural.
- O Harry é só mais um rostinho bonito no meio de uma multidão de rostinhos bonitos - a voz de Rebekah soou pela sala quando ela entrou.
- É falta de educação ouvir a conversa dos outros - Josh mudou completamente sua postura, ajeitando-se no sofá e assumindo uma pose desafiadora.
- É falta de educação ter inveja dos amigos e não olhar para o potencial que tem - ela rebateu e ele se encararam por alguns segundos até que tudo ficou desconfortável demais e eu tossi alto para chamar a atenção deles para mim.
- Você chamou a Rebekah? - Perguntei a Josh, com uma sobrancelha arqueada.
- Ouch, agora eu fiquei ofendida - ela revirou os olhos e se jogou no sofá entre eu e Josh e tive que me afastar para não ser esmagado. Depois de se acomodar, Rebekah tirou o notebook das minhas mãos e abriu o aplicativo de logotipos com uma careta ao ver nossa produção. - Foi isso que vocês conseguiram?
- O aplicativo não é tão intuitivo, ok?! - Defendi-nos.
- Whatever you say - ela acenou com a mão sem nem olhar para mim.
Com alguns cliques, ela apagou o que havíamos montado.
- Ok, vamos lá. O que vocês esperam que as pessoas pensem de vocês? - Rebekah indagou roçando as pontas os dedos no teclado.
- Nós somos uma banda maneira - Josh falou, mas depois balançou a cabeça em reprovação. - Esquece o que eu disse.
- Certamente já esqueci - Rebekah zombou.
- Acho que só dar uma ideia de quem nós somos já está bom - falei.
- Tá, óbvio, mas que ideia é essa? - Ela insistiu. - Quem são vocês?
Olhei para ela, sério, enquanto queimava alguns neurônios para definir qualquer coisa, mas nada saía.
- Que droga, Josh, tá vendo por que era para os meninos estarem aqui?! - Briguei com ele, que levou um susto. - Não sei, Rebekah! Você gosta da gente, então me diz você o que nós passamos!
Ela soltou uma gargalhada divertida.
- Não precisa se exaltar - disse. - Eu acho que vocês querem passar fogo, irreverência, tudo que há de imoral, orgias e...
- Não, não queremos passar nada disso - franzi o cenho.
- Ótimo, então já sabemos o que não passar.
- Esse não parece ser o maior dos nossos problemas - Josh argumentou.
- Vocês têm muitos problemas - Rebekah concordou. - A falta de logomarca é um deles. - Alfinetou e voltou a falar como se não houvesse dito coisa alguma. - Vou procurar algum aplicativo que faça isso.
- Ótimo, mas isso não exatamente nos tira do lugar em que estávamos antes porque a gente já estava tentando em um aplicativo.
Levantei as mãos, dando-me por vencido e sentei na poltrona surrada. Puxei o caderno de músicas para rever alguns acordes que estavam me incomodando desde o último ensaio na terça-feira daquela semana. De repente, quando eu já havia corrigido metade da música, Rebekah falou em um tom de voz bem mais alto que antes:
- “Lonely boy concentrado escrevendo músicas. Será que ele está preparando uma serenata?” – Ela abaixou o celular para me dar um sorrisinho perverso.
- O que você tá fazendo? – Perguntei, confuso.
- Alimentando o vício favorito da humanidade: fofoca. – Virou o celular para eu ver a foto que havia tirado de mim enquanto trabalhava na música.
- Eu não te autorizei a fazer isso.
- Essa é a graça. Vou te mandar o número do meu advogado – seus olhos faiscaram com o desafio.
- Você vai mandar isso para o Spotted? – Josh quis saber.
- Você conhece o Spotted? – Arregalei os olhos.
- O quê? Não. Ninguém conhece. Eu duvido até mesmo que ele exista. Ou ela. – Rebekah dizia enquanto digitava em seu celular.
- Como assim? – Franzi o cenho.
- Todo mundo manda coisa para a conta.
- Muito ontológico, muito boa sua crítica social, mas alguém deve ter a senha da conta. Essa pessoa é o Spotted.
- Whatever – revirou os olhos. – Pronto. Vamos ver se chega até a . – Baixou o celular e voltou a mexer no notebook.
- Josh, reunião no meu escritório, agora! – Chamei-o com a cabeça para fora da sala.
- O que foi? – Fechou a porta atrás de si.
- Você realmente tinha que chamar ela!
- Cara...
- Não! Eu vou chamar os meninos agora e você vai segurar o monstro que tá lá dentro!
- Ela não...
- Josh! Ela alimenta o Spotted!
- Quem nunca alimentou o Spotted?!
- Esse não é o ponto e você sabe!
- Niall, analisa a situação com calma. A gente precisa da publicidade. Ela é a melhor fonte. Todo mundo acredita nela. Não é de todo ruim.
Balancei a cabeça, ainda indignado com o comportamento de Rebekah.
- Ainda vou chamar os caras – declarei. – E se ela sequer mencionar o nome da , ela sai da sala!
- Você está sendo paranoico.
- Não, eu estou cuidando de algo que é muito maior do que uma maldita conta de fofoca. Se você se considera amigo da , deveria se preocupar também.
- Ok, Niall! Geez, você tá parecendo o Liam falando.
Não respondi, dando o recado por entendido.
- Puta merda, ela está com meu notebook! – Exclamei. – Volta lá agora!
Josh revirou os olhos antes de dar meia volta e entrar novamente na sala. Tornei a olhar meu celular enquanto digitava a mesma mensagem a ser enviada separadamente para cada um na conversa privada para dar um ar de urgência. Eu me sentia nervoso por saber que Rebekah enviava material para a página de fofocas da escola. Temia que fosse exposta – mais exposta do que já foi por Lola – e que isso piorasse o quadro dela, coisa que ela não merecia.
Harry foi o primeiro a aparecer, como eu esperava, já que sua dedicação à banda era sempre sua prioridade.
- O que tá pegando? A gente combinou que hoje era dia de descanso – ele bocejou.
- É uma emergência. Tem uma louca lá dentro querendo mandar na nossa logo.
- Louca? Logo? – Franziu o cenho. – A gente tem uma logo?
- Não. É isso que estamos tentando resolver.
- O resto da banda tá lá dentro?
- Não. Somos só nós dois por enquanto.
- Não mais – Louis chegou.
- Você não ia sair?
- Daqui a pouco, então é melhor ser breve. – Louis avisou.
- Vamos entrar, o resto deve estar para chegar e eu preciso me certificar de que Rebekah não está espalhando meus arquivos pela internet.
Louis assoviou.
- Boa sorte – riu fraco. – Não foi ela quem mandou aquela foto da sua bunda pro Spotted? – Ele perguntou a Harry, que soltou uma risada.
- Não, cara, aquela não é a minha bunda!
- Certeza?
- Louis, eu sei quando uma bunda é ou não a minha.
- Ah, não dá para ver tão bem, sabe. Além disso, desde que você conseguiu se livrar daquela verruga...
- Verruga?
- Sim, aquela que ficou em você por uns três meses, lembra?
- Ah, sim, go on.
- Então, se ainda tivesse a verruga, eu saberia certamente se era você ou não. Que nem daquela vez que a gente estava naquela festa no primeiro ano...
Dei as costas para eles quando percebi que continuariam conversando sobre a bunda de Harry e voltei a entrar na sala.


’s POV
- E essa foi a biblioteca. – Will disse, ao direcionar-me para a porta de saída do bloco que ele acabara de me apresentar. – Um lugar que tenho certeza que me interessa muito mais do que a você – riu fraco.
Arregalei os olhos e levei a mão ao peito, o olhando com cara de choque.
- Ai!
- Não, não, não, não! – Ele logo se defendeu, levantando as mãos para mim. – Não foi isso que eu quis dizer. Qual é, você sabe que você é a esportista popular aqui e eu sou o nerd invisível. É quase um roteiro do Disney Channel ao contrário!
Soltei uma risada gostosa, deitando a cabeça para trás.
- Não significa que você não seja inteligente. Tenho certeza que poderia me ensinar muitas coisas que não faço ideia de como fazer.
- Tudo bem, eu vou deixar essa passar, William, não precisa mais se explicar – balancei a mão em descaso para ele, mas sem tirar o sorriso divertido do rosto enquanto continuávamos a andar. – O que mais tem para me mostrar de interessante aqui? Não podemos perder tempo, sabe, afinal eu fugi clandestinamente do colégio para te ver e estou arriscando pegar mais uns dois meses de detenção só por estar aqui.
- Ah, que rebelde. Eu adoro isso. – Brincou, sorrindo. - Infelizmente o bloco dos esportes está fechado há essa hora, eu adoraria te mostrar as piscinas, as quadras e a academia. É um lugar que eu não vejo muito, sabe como é... Eu não preciso dessas coisas. – Estalou a língua mexendo no cabelo e eu ri. – Mas tenho que admitir que é incrível. Tem muita coisa legal por lá. Mas ei – Will virou para mim enquanto caminhávamos. – Talvez você possa ver amanhã!
Dei de ombros, sem saber o que responder. Se aquilo significava um convite para que eu passasse a noite ali, eu não sabia. Mas sabia que aquilo estava passando na minha cabeça, para o bem ou para o mal, a noite toda, e tinha a sensação de que na dele também. Era tarde, eu ainda estava ali, e nenhum dos dois ainda tínhamos dito nada que desse a entender que eu ia ficar - ou que eu ia embora. Mas eu não sabia se realmente queria ficar... Quer dizer, parte de mim queria, isso eu sabia, mas... Outra parte de mim estava muito receosa, muito mesmo, e... Ah, céus, eu só queria poder pedir uma licencinha rápida para ligar para e perguntar o que fazer.
Continuamos caminhando em silêncio pelo campus agora deserto da Universidade de Carlisle. Estava um pouco frio, e depois de um momento William segurou a minha mão. Aquela não era a primeira vez, mas foi a primeira vez que ele o fez sem nenhuma desculpa, sem que estivesse me direcionando por um caminho que eu não soubesse qual era ou sem que precisasse me segurar para não nos perdermos no meio das pessoas. E foi bom, então deixei que nossos dedos entrelaçassem e um sorrisinho involuntário surgiu em meu rosto enquanto olhava para o chão.
Lembrei-me dos ingressos para o parque de Harry Potter, que estavam em minha bolsa. Eu queria convidá-lo, perguntar se ele gostaria de ir e a partir daí tentar dar um jeito de me livrar das obrigações do colégio por um fim de semana para ir com ele. Achava que aquela era uma boa oportunidade para nós dois, e eu gostava tanto de Wil... Mas algo sempre me impedia de trazer aquele assunto à tona. Era como chamar o Harry à conversa também, porque Harry Potter era uma coisa nossa, sempre foi algo tão esperado por nós dois, e eu não conseguia ignorar o pensamento de que, apesar de tudo que estava acontecendo, nós devíamos fazer aquilo juntos. O que, é claro, não ia acontecer.
- No que está pensando? – Perguntou ele.
- Ainda naquele hambúrguer maravilhoso que a gente comeu – comentei, o fazendo rir.
- Eu te disse que as lanchonetes da Universidade têm os melhores lanches de Carlisle. Por aqui a gente precisa de muita gordura e açúcar para sobreviver e não pirar, então deve ser por isso...
- Ah, com certeza é. – Balancei a cabeça. Olhei para ele com o canto do olho e algo passou pela minha cabeça. – Aquele café também parecia bom. Talvez eu possa prova-lo amanhã, com umas rosquinhas no café da manhã. – Abri um sorrisinho insinuante, que para o meu alívio foi respondido pelo mesmo vindo dele. Will era todo engraçadinho e me fazia rir com a maior facilidade do mundo, mas por baixo disso ele também era tão desajeitado quanto eu naquilo, eu sabia. E isso me deixava muito mais confortável perto dele do que de qualquer outro garoto. – Então, para onde está me levando agora? – Perguntei ao olhar em volta.
- Para o meu dormitório.
- Ah, até que enfim! – Revirei os olhos, soltando a piadinha sem querer como forma de não deixar que aquilo se tornasse uma grande coisa. Ele riu e apertou a minha mão.
- Acho que já estava na hora, não? Eu te levei para comer a minha comida preferida, depois para conhecer o meu lugar preferido... – Apontou para trás, para o bloco da imensa biblioteca que havíamos deixado para trás. – Agora você deve conhecer a casa do meu ser, o lugar onde tudo que é mais valioso para mim se encontra...
- As suas revistas de quadrinhos? – Ri.
- São HQs! – Will fingiu-se de ofendido, e balancei a cabeça.
- Desculpa, é verdade. Esqueci. Nunca falar mal das HQs.
Trocamos uma risada.
Logo nos aproximamos de um bloco afastado do resto dos prédios da instituição. Era bem diferente do St. Bees, porque era enorme e completamente feito de tijolos batidos, e tinha um ar mais urbano e bagunçado, mesmo por fora. Era barulhento, mesmo que eu pudesse perceber que como era fim de semana nem a metade das pessoas que normalmente ficavam por ali estavam agora. E não era tão organizado quanto as dependências do colégio, mas de certo modo parecia bem mais livre.
Entramos no prédio, e o grande corredor era abarrotado de murais e quadros de avisos cheios de panfletos de todos os tipos de coisas pendurados neles, alguns caídos pelo chão, e alguns colados nas paredes e portas. As portas, também, em sua maioria tinham placas coladas ou riscos na madeira, de dentro de alguns quartos vinham músicas altas de estilos diferentes, outros estavam silenciosos, e havia um, mais no fim do corredor, de onde uma saía uma fumaça branca muito estranha que parecia gelo seco.
No segundo andar era a mesma coisa, e no terceiro, onde pegamos a direção contrária da próxima escada, também. Paramos em frente à última porta daquele corredor, e enquanto Will a destrancava, pude ver pela porta aberta do quarto da frente daquele uma garota e um cara se beijando com tanto desespero em cima da cama que parecia que o mundo ia acabar. Subitamente me senti nervosa e um pouco enjoada, como se meu corpo estivesse arrepiado por dentro.
Will abriu a porta e eu não pude ter ficado mais aliviada ao perceber que aquele quarto era bem mais organizado do que eu poderia imaginar. Seu colega de quarto não estava ali e ambas as camas estavam estendidas. De um lado havia horários e tabelas de compromissos colados na parede, e do outro, alguns pôsteres de filmes próximos à escrivaninha organizada encostada na parede oposta, onde vários livros estavam empilhados em ordem de tamanho.
Como imaginei, esse era o lado dele do quarto.
- Então, esse é o meu lar. – Ele acenou com a mão, virando-se para mim em seguida e sorrindo fraco. Juntou as mãos em um ato que também parecia nervoso, e olhei em volta brevemente.
- É melhor do que eu poderia imaginar. – Comentei, o olhando em seguida e comprimindo os lábios. Fui até a cama devagar e sentei nela, era macia. – Eu esperava por uma colcha do homem aranha, mas...
- Ah, ela está na lavanderia. – Disse e eu ri. Will veio sentar ao meu lado, e minha pulsação acelerou ao pensar, involuntariamente, no casal do quarto em frente. Meu estômago revirou um pouco.
- Ahm... Você quer... Assistir um filme, ou... – Ele deu de ombros, e em seguida soltou uma risada fraca. – Eu sou péssimo nisso. Jeez.
Sorri um pouco, olhando-o. Novamente o nervosismo dele me acalmava. Toquei a sua mão que estava entre nós no colchão, e sem saber exatamente o que fazer, subi com os dedos por seu braço levemente, olhando para ele que acompanhava meus movimentos um tanto ansioso. Minha mão tocou o seu ombro, e William olhou nos meus olhos também. Continuei até o seu pescoço, e depois toquei o seu rosto. Eu ainda não tinha certeza do que estava fazendo, mas aquilo parecia de bom tamanho. Levei a outra mão até seu rosto e com cuidado eu tirei os seus óculos, os soltando na cama ao lado da gente. Toquei a sua nuca, e Will se aproximou colando os lábios nos meus.
Começou devagar, e em seguida as suas mãos tocavam a minha cintura. Ele continuou sem muita pressa, a sua respiração batia no meu rosto e estava calma, o seu beijo era bom, a sua pele era quente. Mantive meus olhos fechados, tentando aproveitar de todos os segundos, e depois de um tempo eu deitei em sua cama sem que ele parasse de me beijar. Continuou tocando a minha cintura, e senti o toque dos seus dedos na minha pele onde minha camiseta havia levantado, lentamente subindo um pouco mais. Era estranho, porque enquanto minha mente começava a fazer a ligação de onde eu estava e o que estava fazendo, parte de mim queria continuar e a outra parte estava nervosa demais para fazer qualquer coisa. Só que aquele nervosismo e sensação de que não era o momento continuou crescendo, e por mais que eu continuasse pensando “ignore, apenas ignore, se concentre” logo percebi que o nervosismo estava tirando o melhor de mim e eu não conseguiria prosseguir.
Pressionei o peito de Will e ele se afastou no mesmo momento, me fazendo precisar piscar algumas vezes para tornar a me nortear.
- Eu não... – Balancei a cabeça, sentando na cama ao que ele fez o mesmo. Não ia me desculpar por isso, porque eu não precisava me desculpar por fazer algo que não queria fazer naquele momento. Mas mesmo assim, por força do hábito, por algum motivo, precisei segurar as desculpas na ponta da língua por um tempo, sem saber o que mais dizer. Meu rosto começava a ficar vermelho. – Podemos não...? – Franzi o cenho, e ele assentiu passando as mãos nos cabelos bagunçados.
- É claro. Claro, tudo bem, . – Olhei-o e ele assentiu para mim, seguro. – Vamos pegar leve, que tal a gente assistir um filme? – Propôs e assenti, ainda me sentindo muito embaraçada para falar qualquer coisa. Will tocou meu rosto e eu o olhei, ele sorriu. – Você tá vermelha. Não acredito que você é capaz de sentir vergonha.
Estreitei os olhos para ele, o empurrando.
- Também sou capaz de sentir raiva, então cuidado.
Will sorriu, me olhando.
- Não precisamos fazer nada que você não queira, e na verdade... Eu não sei, só pareceu que a gente precisava fazer isso agora, como se houvesse essa pressão... – Revirou os olhos e mexeu as mãos. – No ar. Mas não precisamos fazer nada. Eu me sinto melhor conversando com você, e fazendo alguma coisa que nós dois vamos curtir. – Deu de ombros, e eu assenti de novo, mais aliviada agora.
- Filme, então?
- O que você acha? Você escolhe. Eu tenho uma variedade de doces escondidos na gaveta também. – Abriu um sorriso divertido, e então olhou para nossas mãos na cama. – Eu só quero que você fique aqui hoje... Se você quiser. Quero te mostrar outros lugares amanhã. O meu roommate foi para casa para o fim de semana, então você pode dormir na cama dele se quiser. Tudo bem?
- Tudo bem. – Abri um sorriso, voltando a me sentir bem. – Mas amanhã embarcamos cedo para Londres, para uma viagem de estudos, então vamos ter que acordar bem cedo mesmo. E você vai ter que me emprestar um pijama.
- Ah... – Ele abriu um sorrisinho divertido, levantando da cama. Foi até sua cômoda e tirou de lá um par de roupas. – Não quero alimentar ilusões, mas acho que você vai ficar extremamente sexy nessa roupa.
O olhei curiosa, e ele virou me entregando o pijama. Estendi a peça de roupa desdobrada em frente ao meu corpo.
- Pokemón. Sério? – Arqueei a sobrancelha.
- Foi presente da minha mãe, ela tem dificuldade em aceitar que eu envelheço. Ela é uma figura. – Riu.
- Ah, não venha me dizer que você não adorou! – Revirei os olhos, mas ri. – Ok, Will. Vira.
Ele balançou a cabeça, mas sentou na escrivaninha de costas para mim e começou a procurar algum filme no seu laptop enquanto eu trocava de roupa. Quando se virou, eu levei as mãos à cintura e fiz uma pose vestindo o pijama que ficava grande o suficiente para que a calça arrastasse no chão e as mangas precisassem ser dobradas. William teve um breve acesso de riso antes de pegar a sua câmera fotográfica de uma gaveta.
- Ah, não. Não! Nem pensar! – Afastei a lente de mim com a mão, e ele a ligou.
- Ah, , por favor, por favor, por favor! Eu preciso! – Disse, ainda rindo. – Eu juro por tudo que é mais sagrado, ninguém vai ver essa foto além de mim! – Juntou as mãos na frente do rosto e estreitei os olhos para ele, incrédula.
- E o que você quer com uma foto minha numa roupa dessas, seu maníaco?!
- Tá brincando?! Você nunca esteve tão linda! E eu nem estou enxergando direito sem o óculos... – apontou para o próprio rosto, os olhos um pouco franzidos.
Minha expressão mudou para algo mais incrédulo de “eu não acredito que está fazendo isso, seu conquistador barato”. Levei as mãos à cintura outra vez, agora até um pouco irritada com o quão bonito ele era fazendo carinha de pidão.
- William, eu juro...
O flash me fez piscar, e soltei um grito pulando em cima dele e o fazendo cair na cama, afastando a câmera de mim enquanto ria para me impedir de pegar.
- Calma! Olha, eu vou te mostrar, espera, espera! – Riu e conseguiu me afastar o suficiente para virar a câmera para nós dois e tirar mais uma.
- Você é louco, Will! Ah, meu deus. Um psicopata. Eu to namorando um psicopata de filme, que tira fotos e cola na parede... – Toquei as mãos no cabelo, fazendo uma cena. Ele sentou, olhou para mim de repente sério, e então sorriu.
- Namorando?
Ah, é. Eu havia dito namorando. E não percebi.
Balancei a cabeça, sem saber o que responder. Estendi a mão para ele.
- Me deixa ver as fotos.
Ele entregou a câmera, e vi as duas fotos. A primeira, que ele tirara de nós dois, estava borrada porque a câmera se mexeu, mas ainda aparecia nossos rostos rindo enquanto nós estávamos travando uma pequena batalha um com o outro. A segunda mostrava a mim o encarando com os olhos semicerrados e as mãos na cintura, com os cabelos bagunçados e vestida em um pijama do Pokemón que me fazia parecer uma garota de 8 anos emburrada. Mas eu não podia negar que e estava no mínimo hilária. Eu entendia a fixação de Will por fotografias, porque essa era a sua paixão. E olhando para elas entendia que eram perfeitas lembranças de algo que nenhum de nós queria acontecer. Estávamos felizes naquele momento, e as fotos mostravam isso. Entreguei a câmera para ele outra vez.
- Eu juro que se você mostrar isso para qualquer pessoa eu te mato. E depois te processo.
- Um pouco errôneo, mas entendi o recado. – Will piscou, apontando um dedo para mim antes de ir guardar a câmera. Pegou o seu laptop com um catálogo de filmes aberto e veio sentar ao meu lado em sua cama. – E sabe qual é o melhor?
Olhei para ele, enquanto procurava algum filme com os olhos apertados, obviamente tendo dificuldade para enxergar a tela. Ri e procurei seu óculos na cama, o alcançando em seguida.
- O quê?
- A gente agora tem fotos do dia em que você primeiramente decidiu que estávamos namorando. – Abriu um sorrisinho, lançando um olhar para mim.


Louis’ POV
Então a família de queria me conhecer.
Tipo, hoje.
Pensei que isso não seria um problema, e não era, na verdade, mas a curiosidade e a ansiedade me fizeram ficar acordado até tarde imaginando como seria aquilo. A verdade é que eu esperava qualquer coisa desde horrivelmente tenso até surpreendentemente agradável. Eu não sabia nada sobre as pessoas que considerava família, e pelo jeito como ela era fechada, era difícil arrancar qualquer coisa dela naquele aspecto. Pelo pouco que pude ver sobre as duas mulheres que ia conhecer, elas pareciam legais.
Mas.
Lá pelas três da manhã quando perdi o sono na noite passada eu havia me decidido a estar preparado para qualquer tipo de território.
não ajudava, sendo aquela parede de gelo que ela era às vezes. E também não ajudava que estivéssemos “chateados” desde a noite de terça-feira – bem, eu estava. Mas ela roubou as fucking pílulas da . Cara, era uma pessoa complicada, e era bom não mexer naquilo, com todo o respeito.
Era pouco depois das sete, e já estava escuro. Estava estupidamente frio, agora que o sol que esquentou o dia havia sumido. Nós estávamos esperando em um banco no pátio pelo Uber que eu havia pedido, e eu podia sentir os olhos de absorvendo cada movimento meu enquanto mantínhamos o silêncio. Eu estava escorado na mesa e ela sentada no banco, abraçando um dos joelhos dobrados e com o queixo escorado nele, me olhando. Acho que ela estava medindo minha reação àquela situação, e eu não queria demonstrar que estava preocupado. Era engraçado porque era como se eu tivesse o poder de “quebrar o silêncio” porque eu havia começado com ele, e ela estava me pressionando a fazê-lo. Me olhando daquele jeito, toda... Linda. Lancei-a outro olhar e ela me encarou de volta, sem dizer nada, apenas me deixando sentir o peso daquele olhar.
Ri fraco e olhei para longe de novo, tragando o cigarro no vão dos dedos mais uma vez. Aquilo era uma merda muito ruim que viciava rápido demais. Respirei fundo.
- Você é ridículo. – Ela murmurou, depois de um tempo. Voltei a olhá-la, arqueando as sobrancelhas, afetado, mas confesso que um pouco satisfeito por tê-la feito falar antes de mim, e ela se levantou parando em minha frente e afastando uns cabelos da minha testa, me olhando quase como se estivesse ofendida com a minha presença. – E agora está fumando de verdade.
Olhei para o cigarro queimando em minha mão e o traguei mais uma vez.
- Se você parar eu paro.
estreitou os olhos para mim e abri um sorrisinho fraco.
- Imagine se eu pegasse todos os seus maus hábitos...
- Ah, não. – Ela me virou as costas como se fosse se afastar, mas deu meia volta e me olhou. – Hoje não, Louis.
Balancei a cabeça. Tirei meu celular do bolso quando ele vibrou e olhei o aplicativo na tela, que avisava que o nosso carro estava chegando.
- Já dá pra ir.
Fomos para o portão da escola, e me livrei do cigarro antes que alguém incomodasse. O vento de fevereiro estava cortando, e eu mal sentia minhas mãos. usava um tênis e uma calça jeans preta, um moletom cinza e um casaco verde pesado e desgastado, mas que parecia bastante quente. Desejei ter pegado mais um casaco também. O moletom que eu estava usando não tinha bolsos.
Ela andou na minha frente até encontrarmos o carro, e depois de entrarmos ela deu o endereço de um pub-lanchonete em Carlisle para o motorista.
parecia levemente inquieta olhando pela janela. Depois de um tempo de percurso, ela tirou as luvas de meio dedo que usava e se virou para mim. Abriu as duas mãos em palma em meu colo e eu as segurei, a olhando confuso. Estavam suadas.
- Cerca de um dia sem e eu começo a suar frio. – Falou, baixinho. - Com dois dias, começo a tremer. Três dias, eu não consigo comer. Parece que um caminhão passou por cima de mim. No quarto dia eu tenho náuseas e dor de cabeça. Eu nunca consigo chegar até o quinto dia.
Olhei para , sem saber o que responder. Aquilo não havia passado pela minha cabeça, e agora eu me sentia mal e idiota. Balancei a cabeça.
- Eu não só uso elas porque quero. – Continuou falando baixo o suficiente para que o motorista não pudesse nos ouvir. – Me convenci de que elas ajudam, porque sem elas eu começo a sentir como se alguém estivesse puxando meus cobertores no meio de uma noite congelante.
- . – Suspirei, balançando a cabeça. – Eu não...
- Eu sei. – Ela recolheu as mãos e voltou a virar para frente, vestindo as luvas. – Eu só queria que você entendesse. – Respirou fundo, colocando os cabelos para trás, e então jogou aquela conversa para o canto antes que eu pudesse pensar em algo para dizer, ou algo do tipo. Não era que eu apoiasse sua decisão de não parar com os remédios, mas agora não era hora para falar daquilo naquele momento. – Rosalie e Lively são legais, mas não se deixe intimidar, elas podem querer forçar a barra. Rose está comigo e com meu pai desde antes de a minha mãe ir embora, e ela sempre tomou conta de tudo para nós dois, inclusive de mim. Liv é filha dela, o pai dela morreu quando ela tinha uns dez anos, eu acho... Ele era colega do meu pai. Foi triste.
Assenti, escutando.
- Liv vai querer te assustar, ou te testar, ou nos envergonhar, ou todas essas coisas juntas. Ela adora fazer isso, mas no fundo ela é ótima. Só não dê ouvidos a ela, e você vai ficar bem. Elas são bacanas. Elas são... meio que como irmãs para mim ou... algo do tipo. – Deu de ombros. – E elas querem te conhecer porque... Bem. – deu de ombros. – Eu sempre te digo que como estou agora é o melhor que já estive em tempos. Você pode não acreditar, mas elas sabem. Elas sabem bem. – me olhou. – E elas notaram que você é um dos motivos.
Sorri, feliz. se permitiu sorrir junto por um breve segundo, mas depois ficou séria de novo.
- Então vê se não faz nada errado, porque a Rose conhece umas entradas pro mercado negro de órgãos, e ela está de saco cheio dos meus ex namorados babacas. – empurrou meu ombro de leve.
Estreitei os olhos para ela, e a puxei para perto de mim. riu fraco e se encostou em mim, olhando para a janela enquanto começávamos a entrar em Carlisle.
- As pessoas sempre me amam. É um dom natural.
- É essa sua cara de idiota.
Dei um tapa em sua testa, e ela me afastou rindo.


Nos encontramos em uma espécie de lanchonete-barra—pub-barra-livraria, que tinha prateleiras de livros em cada canto com mesinhas espalhadas por um grande estabelecimento, onde o cheiro de café e pão doce me fez ficar com fome de novo. Elas já haviam chegado antes da gente, o que acabou não deixando com que eu perdesse mais tempo me perguntando como seria.
Eram as mesmas duas mulheres extremamente parecidas que foram nos tirar da delegacia naquele fim de semana, mas dessa vez, talvez porque eu não estava tão cansado e sofrendo de ressaca, elas pareciam um pouco diferentes do que eu me lembrava. A mais nova, Lively, era alta, esguia, com o rosto meio vermelho e as bochechas cheias de sardas. Seus cabelos eram de um loiro levemente mais voltado para o ruivo, enquanto os de sua mãe, Rosalie eram dourados e brilhosos como ouro. A mais velha também era alta e esguia, mas ela tinha um ar muito elegante e gentil. Era muito bonita.
As duas se levantaram quando nós chegamos e abraçaram , e depois ela me apresentou de novo - já havia me apresentado brevemente na delegacia, mas não era o melhor local para se conhecer alguém. Rosalie riu e concordou quando eu disse isso, e sentamos. Eu pedi um café com leite, e elas pediram um chá.
- Como você está afinal?! - Rosalie estendeu a mão para na mesa, parecendo realmente feliz em vê-la.
- Estou bem. - Respondeu.
- A Inglaterra está te fazendo bem. Você ganhou uma corzinha. - Lively comentou, sorrindo. - E uns quilinhos também. - a olhou e ela riu.
- Você está recebendo o dinheiro que eu mando, certo? Porque essa jaqueta é de três anos atrás.
Ri baixinho. No outro dia mesmo estávamos falando sobre como nem parecia que ela era filha de um cara mega rico. Aparentemente ela ficou super ofendida porque, segundo ela, eu insinuei que ela “não se vestisse como a ”. me lançou um olhar ouvindo minha risada.
-É confortável e me esquenta. É pra isso que servem os casacos, não?
- Ela deve tá gastando tudo com droga.
- Lively...
- Só se for maconha, ela está muito... saudável. - Rosalie entrou na brincadeira e riu da careta de . Estava sendo muito divertido acompanhar a dinâmica daquele estranho “relacionamento familiar” que elas tinham ali.
- Louis! - Rosalie de repente se virou para mim, lembrando que eu estava ali, e abri um sorriso para ela imitando o seu. – Então, vocês estão juntos ou não estão?
Fui pego de surpresa pela pergunta tão direta. Claro que eu esperava por aquela pergunta, mas esperava que ela viesse de forma mais... sutil. Elas não eram tão sutis quanto eu esperava que alguém a quem chama de família fosse. Minha surpresa ficou evidente, porque Lively riu e se jogou para trás na cadeira.
- A minha mãe e eu apostamos. Quer dizer, eu fiz ela prometer que ficaríamos por mais uma semana se vocês não fossem só “amiguinhos”. A não tem “amiguinhos” como você.
- Outch!
- Sem ofensa.
- Hum... – Eu não sabia o que dizer. respirou fundo e, pigarreando, se ajeitou na cadeira e olhou para Rosalie.
- Como está meu pai?
- Ah. – A mulher tomou um gole de seu chá e assentiu. - Ele está muito melhor. Na verdade, ele está saindo mês que vem. Disse que quer vir para cá para ver você no feriado de Páscoa, ver como está.
- Hum, na verdade já temos planos para a Páscoa. – assentiu para mim, e senti o olhar das duas em mim. Olhei para , que me olhou de volta tranquilamente. Eu tinha certeza absoluta que não tínhamos planos para a Páscoa.
- Ah, é. – Respondi, com apenas alguns segundos de delay, quando consegui raciocinar. Eu tive uma ideia, e resolvi aproveitar a oportunidade. – É, a Páscoa é o feriado preferido da minha família. Minhas irmãs adoram, por causa de todo o chocolate. Elas ficam malucas. Não sei se vai ser o melhor momento para conhecer a família, mas aceitou a proposta.
Olhei para ela com um sorriso divertido, e ela me respondeu com outro, forçado. Ri baixinho.
- Interessante.
- É. – Lively riu, parecendo contente, e tomou o resto do seu chá. – Eu acho que vamos ficar por mais uns dias.
Continuei correspondendo ao olhar de , pensando que ela devia estar se perguntando onde se meteu naquele momento.
- Com licença garotas, eu vou dar uma passada no banheiro. – Disse depois de um breve momento de silêncio, me dirigindo às outras e levantando da mesa. Queria deixa-las sozinhas por um tempo também, para poderem conversar. Eu tinha certeza que depois de tantos meses havia coisas que elas gostariam de botar em dia, e teria que encarar aquilo quer ela gostasse ou não. Eu sabia que parte do motivo por ela ter me levado junto era fugir daquilo.
Fui ao banheiro e matei um tempo por lá, dando a elas bons cinco minutos para conversar. Voltei em seguida para não levantar suspeitas de que eu estivesse passando mal ou coisa do tipo, e fiquei olhando uns livros de uma estante próxima à nossa mesa que me chamaram a atenção.
- ... Bom comportamento. – ouvi a voz de Rosalie dizer. Eu não queria fuxicar, eu juro, mas podia ouvir a voz delas dali, e agora já havia acontecido.
- Bo- Bom comportamento? – respondeu, incrédula, e Lively soltou uma risada que não me parecia muito animada, mas sim irônica.
- Não conseguiram ligar ele a homicídio, , você sabe disso. Nunca encontraram a arma.
- E todo o resto não era suficiente?!
Meu cérebro congelou na parte do homicídio, por isso não percebi quando elas pararam de falar em inglês e começaram a discutir baixinho em alemão. Quando me dei por conta aquilo parecia um filme da segunda guerra mundial, só que sem as legendas, e eu precisava voltar antes que alguém me pegasse futricando atrás da estante feito um esquisitão.
- Tinha fila. No banheiro. – Foi a primeira coisa que disse quando me aproximei da mesa, sem saber mais o que falar para mostrar que havia chegado.
- Ugh. – Lively voltou a se atirar para trás em sua cadeira e olhou em volta. – Ingleses.


’s POV
Meu rosto estava enterrado no travesseiro e quando comecei a acordar eu o enterrei ainda mais, gemendo baixinho e passando as mãos no rosto enquanto me virava. O barulho lá fora estava alto, muita conversa, e não se parecia em nada com... O St. Bees.
Encontrei Will sentado na ponta de sua cama digitando algo no laptop quando abri os olhos. Bocejei, sentando devagar, e passei a mão no rosto de novo. Uma música tocava no quarto, e percebi vir de um pequeno rádio na escrivaninha de seu colega de quarto.
- Acho que eu não vi o final do filme...
- Eu acho que você não viu nem a metade – ele me olhou, sorrindo. – Bom dia. Estava esperando você acordar para aquele café com rosquinhas.
- Hmmm. Eu acho que quero morar aqui. – Sorri um pouco, voltando a me atirar na cama e puxando o travesseiro para cima do meu rosto. – Mas é tããão cedo! Como você já está acordado?!
- Eu sou universitário. – explicou, e sorri.
- Bem. Desde que você não tenha tirado fotos minhas enquanto eu dormia, está tudo bem. – Comentei, tirando o travesseiro do rosto e o olhando. Will riu e balançou a cabeça.
- Não sou assim tão assustador, né?
Ri. Voltei a sentar, coloquei os cabelos bagunçados para trás e suspirei. Ele parecia estar terminando alguma coisa importante, porque estava concentrado na tela do laptop. Comecei a bater as mãos no ritmo da música que tocava no rádio, e levantei da cama cantando baixinho enquanto procurava meus calçados e a minha roupa, que havia dobrado e deixado em algum lugar na noite passada.
- Hum... – William limpou a garganta e o olhei. – Você está cantando...?
Parei de fazer o que fazia e o olhei também meio surpresa.
- E se eu estiver?! – Sorri.
- E também estava dançando.
- Eu não estava dançando.
- Você estava, bem ali – apontou.
- Não, eu estava só dublando, mexendo a boca, só...
- Você estava fazendo um mini show particular-
- I didn’t know that I was starving ‘till I tasted you, don’t need no butterflies when you give me the whole damn zoo - Cantei quando o refrão começou, interrompendo-o, realmente sem saber como eu sabia a letra daquela música, mas eu sabia. Ri junto com ele enquanto mexia o meu corpo com a música, tentando fazer um show digno enquanto mexia os braços e ele me acompanhava com os olhos, rindo. - By the way, by the way, you do things to my body... Agora eu estava fazendo um mini show particular.
- Eu não acredito. – Ele balançou a cabeça, mexendo nos cabelos e colocando-os para cima.
- Você está pensando na mesma coisa que eu?
- Sim, eu acho que sim.
- Eu estava dançando Hailee Steinfield no seu quarto.
- Nunca mais vou me livrar de você, né?
Gargalhei e joguei meu tênis nele.

Os dormitórios tinham um banheiro comunitário para tomar banho, mas cada quarto tinha seu próprio lavabo sem o chuveiro. Foi lá que tentei dar um jeito na minha cara de sono, e depois de prender o cabelo bagunçado e trocar a roupa de novo, eu saí. Eram seis e meia da manhã, e em circunstâncias normais eu não estaria nem sonhando em acordar àquela hora ainda, mas precisava estar de volta na escola no máximo até às oito e meia – os ônibus saiam às nove e eu nem havia arrumado a mochila.
- É uma pena que usar pijama não seja socialmente aceitável. Ele realmente caiu muito bem em você. – Comentou, pegando o pijama que eu o havia devolvido para guardar.
- Cala a boca – ri fraco. – Eu nunca na minha vida me senti tão nerd.
Nós saímos. Havia um grande movimento de pessoas acordando e indo tomar café também, e era tarde da manhã. Fomos na mesma lanchonete da noite passada, e pedimos um cappuccino e uma rosquinha para cada um. Nós conversamos enquanto elas não vinham, e depois tomamos o café enquanto ele me contava algumas coisas sobre o que estudava. Ficamos mais ou menos uma hora por lá, jogando conversa fora, e depois levantamos para ir conhecer outro lugar no campus onde Will queria me levar.
Entramos em um grande prédio, onde na frente uma placa explicava ser o bloco H onde haviam salas do curso de Jornalismo e Comunicação, e seguimos pelos corredores por um tempo, até que eu tivesse certeza que estava perdida. Começamos a nos aproximar do fim de um corredor, e pela porta entreaberta de uma sala grande pude perceber um estúdio televisivo montado com uma bancada de jornal e uma tela verde atrás. Aquilo parecia interessante, mas Will me guiou até uma porta pequena no final do corredor, que parecia quase como uma porta de despensa. Na placa colada à porta haviam os dizeres “sala de revelação”.
- Eu deveria ficar com medo desse nome?
- Não – ele riu. – Você vai gostar.
Entramos, e Will fechou a porta. Lá dentro estava um completo breu, não havia nenhuma janela, e eu automaticamente senti como se estivesse presa em uma caixa.
- Só um momento, vou ligar a luz... Pronto. – Will disse, e quando ligou a luz, a pequena salinha foi inundada com uma luz vermelha-escuro. Meus olhos demoraram para se acostumar e conseguir enxergar alguma coisa lá dentro, mas quando finalmente enxerguei, percebi que a sala era realmente pequena, quase do tamanho de um banheiro, e que em cima de minha cabeça haviam algumas fotos penduradas em um fio.
- Ah... Agora eu entendi.
- Essas são as minhas. – Ele me chamou para o outro canto e fui até lá, observando as fotos secando penduradas por pequenos prendedores. A maioria era em preto e branco ou sépia, e a maioria mostrava pessoas que eu não conhecia. Quase todas as foto focavam no rosto da pessoa, e eu comecei a entender o que ele queria dizer quando falava sobre estar “procurando emoções” com as suas fotos. Havia a foto de uma garota, de talvez uns doze anos, rindo muito enquanto parecia estar caindo por cima da câmera, com os cabelos formando uma cortina em volta da lente de modo que apenas seu rosto aparecia. Toda sua feição mostrava que ela estava no meio de algo muito divertido, naquele tipo de brincadeira que você brinca quando é criança onde já está cansada e ofegante, mas não consegue parar de rir.
Havia outra, de um garoto de cabelos enrolados caindo pelo rosto e usando óculos quadrados, sentado na cama do seu colega de quarto com um livro em cima das pernas. Ele olhava para a câmera como se houvesse acabado de ser chamado, sua feição ainda não havia conseguido se desfazer da expressão de concentração que ele tinha.
No meio dessas e algumas outras fotos de pessoas desconhecidas, encontrei uma que eu conhecia bem. E ele tinha razão, meu rosto naquela foto passava a frustração que eu sentia no momento. Acho que era por causa de Harry que estava assim naquela noite no bar, com luzes e vultos de pessoas passando atrás de mim. Será que era assim que eu parecia sempre que me frustrava por causa de Harry?
Havia mais algumas fotos. Uma criança chupando um pirulito com o rosto todo sujo e sorrindo sem os dentes da frente. Um garoto, da mesma idade de Will, encarando uma mesa de bar com a expressão nítida de constrangimento. A mesma menina da primeira foto atirada em um sofá parecendo chateada e entediada. Uma garota, com cabelos vermelhos suados colados no rosto e um sorriso devasso para a câmera, curvando-se por cima de uma mesa.
- Algumas dessas fotos têm história. – Falou. – Essa é minha irmã, Jess. Ela estava tentando riscar a minha cara com uma caneta permanente. Ela tem muita energia guardada – riu fraco. – Aqui meu colega estava estudando para as provas finais, essa aqui em especial ele tinha certeza absoluta que ia rodar. Essa, ah... – Riu fraco, apontando para o garoto constrangido na mesa do bar. – Esse é Jack, um dos meus melhores amigos, que havia acabado de levar um fora da garota que ele gosta desde sempre. Pobre Jack – balançou a cabeça e sorriu. – E essa aqui é curiosa. Eu saí com os garotos para ir a um pub que nunca havíamos ido, há uns meses atrás, no centro urbano de Carlisle. Ela estava dançando em cima de uma mesa. Ela realmente deu um show, e nem precisei pedir para tirar a foto, quem pediu foi ela. Depois disse que eu podia usar desde que enviasse a ela uma cópia e me passou seu e-mail. Eu acho que ela estava bem drogada, ou sei lá. Ainda não sei bem que emoção é essa em seu rosto. Talvez êxtase, ou orgulho, diversão... Ou insanidade? – Will falou, parecendo pensar alto por um momento.
- E... Essa? – Apontei para a foto de uma garota loira, de cabelos longos, óculos e uma touca fofa na cabeça. Ela segurava uma xícara de café na frente do rosto em uma lanchonete, e olhava para a pessoa atrás da câmera com admiração, ou até paixão. Aquilo cutucou algo em meu peito.
- Ah, é. Essa é... Uma antiga amiga. Que foi embora.
O olhei, mas ele mexia em alguma coisa atrás de sua câmera.
- E por que a foto ainda está aqui?
- Porque era a única que eu tinha com essa... Hum, com essa emoção. – Deu de ombros.
Assenti e voltei a encarar a foto, mas não disse mais nada sobre aquilo.
- Mas essa aqui – Will voltou a se aproximar depois de soltar a câmera, e puxou minha foto no bar virando-a para mim. – É uma ótima foto. Foi a garota mais bonita que já encontrei em um bar. – Sorri revirando os olhos, e ele encarou minha foto por um momento. – Mais bonita e mais chateada. Frustrada. Meu palpite é que foi com algum amigo, ou algum garoto, ou alguma pessoa no geral. Ninguém fica assim por coisas que não são capazes de falar, agir ou magoar.
Falar, agir e magoar. Harry, essa é a sua deixa.
Arranquei a foto da sua mão e ri fraco, pendurando-a no lugar novamente.
- Você está no curso errado, devia ser psicólogo.
- So I’ve been told. - Brincou.
Ver aquelas fotos fazia parecer que agora eu o conhecia um pouco mais. Observei William enquanto ele mexia em uns rolos de filmes fotográficos, pensando que talvez eu não fosse a primeira a estar ali, mas definitivamente não era uma entre muitas. Era difícil se abrir, mostrar uma coisa que significava tanto de você, do seu interior, para alguém assim.

Nós fomos tomar café depois daquilo, e comemos as prometidas rosquinhas em uma cafeteria do campus enquanto conversávamos sobre nada em particular. O tempo passou voando, como geralmente era com ele, e quando vi já eram quase oito e meia. Chamei um Uber na correria, e prometi dez libras de gorjeta se ele desobedecesse algumas regras de trânsito, e cheguei na esquina da escola faltando quinze minutos para as nove. Os ônibus já estavam na frente do portão, e pedi que o motorista me deixasse há alguns metros de lá e fosse embora.
Os muros do St Bees eram altos demais para pular, eu havia descoberto aquilo da pior forma no primeiro ano, portanto precisei me aproximar de fininho do pessoal dos ônibus e agir como se estivesse lá o tempo todo.
- ! – me fez pular de susto no lugar quando me segurou pelos ombros e me virou para ela, e arregalei os olhos levando a mão ao peito.
- Jesus!
- Onde você estava!
- E cadê suas coisas? – Rebekah surgiu ao lado dela de braços cruzados e com uma sobrancelha arqueada.
- Eu... eh... Caramba! – Bati a mão na testa. – Esqueci da minha bolsa. Isso que dá acordar cedo num sábado! Vou lá buscar e já volto! – Pisquei para as duas fazendo pistolinhas com os dedos e sorrindo enquanto me afastava. – Guardem um banco para mim!
Quando me afastei de todos os alunos fazendo meu caminho para dentro da escola eu soltei a respiração com força.
Aquela foi por pouco.




Capítulo 30

’s POV
As vozes começaram a surgir de leve em minha cabeça, misturando-se com alguma parte da minha inconsciência e formando frases e imagens distorcidas, que não tinham sentido, até que consegui começar a separar algumas coisas.
- ... Ela acabou com meus calmantes e agora...
- Será que a gente deve chamar alguém?
Franzi o cenho, era difícil me mexer, eu me sentia como uma âncora.
- . - Murmurei, ao reconhecer a voz dela.
- . ? - Alguém tocou minha testa e virei o rosto, levando a mão aos olhos, fazendo um esforço para abri-los e sentindo a realidade me puxar junto com a luz do dia. Já era dia? Eu nem lembrava de ter dormido.
- Hmm.
- .
Pisquei algumas vezes e consegui finalmente encontrar de onde vinha a voz. Louis estava ajoelhado ao lado de minha cama, olhando para mim com um semblante preocupado. Me ajeitei na cama e o olhei estranho. Depois percebi a presença de , de pé ao lado dele, me olhando com os braços cruzados.
- O que tá rolando?
- Você perdeu as primeiras duas aulas.
- Ah... - Procurei por meu celular debaixo do travesseiro e olhei a hora nele; já eram quase onze. - Merda.
Fiz mais um esforço para me sentar, minha cabeça pesava vinte quilos. Esfreguei as mãos no rosto e olhei para , ainda parada no mesmo lugar.
- Você voltou.
- Bem notado. Você tomou todos os meus comprimidos.
- Bem notado. – Devolvi, abaixando o rosto de novo. A claridade estava incomodando. - Você devia ter aos montes onde estava.
- Você tomou todos. De uma vez.
- É claro que não. - Fiz uma careta e os olhei. - Eu estou acordada, não estou?
- Quantos você tomou? - Louis perguntou, a voz mais séria do que de costume. Ah, lá vem.
- Três. Ok? – O olhei, impaciente. - Foi só uma questão estética. Um era pouco. Se eu tomasse dois só restaria um, lá, sozinho. - Levantei a mão, assentindo para o banheiro.
- Essa é a desculpa mais ridícula que eu já ouvi. - disse, e quase reclamei que preferia Lola de volta, mas não quis brincar com aquilo agora; talvez ainda fosse muito cedo.
- Não é uma desculpa, eu não tenho porque inventar desculpas para vocês! - Levantei as mãos no ar. - Será que dá para só-
Em um momento de raiva, joguei os cobertores para o lado e me coloquei de pé de uma vez só. Que inferno, já acordar com gente fazendo perguntas e suposições em volta! Eu só queria um pouco de paz. No entanto, como que para fazer minha irritação apenas aumentar, meu corpo estava mais pesado do que eu imaginava e me desequilibrei, empurrando Louis e o fazendo ter que me segurar para não cair.
- , vamos-
- Eu estou bem! - Me livrei das mãos dele, grunhindo, e passei por indo em direção ao banheiro. Eu podia sentir, mesmo sem ver, o olhar que os dois trocaram.
Parei antes de entrar no banheiro e os olhei.
- Os meus terminaram, e os seus estavam prestes a vencer, e você não estava aqui, e eu não posso sair! - Disse a . - Assim que arrumar um jeito de sair eu compro e te devolvo, não se preocupe.
- , não é por isso e você sabe.
- Eu estou cansada de falar disso, e atrasada, e irritada. - Olhei para Louis agora. - Nos falamos depois.
Entrei no banheiro e bati a porta, esperando ter me feito clara o suficiente. Só quando parei para raciocinar foi que percebi que, além daquela onda de raiva, meu corpo ainda estava grogue demais para pensar em tomar banho e ir para a aula. Portanto só me arrastei até a banheira, entrando com um pé e depois com o outro até estar deitada dentro dela, com um braço em cima dos olhos.
Inferno, eu só queria um pouco de paz.

Acordei de novo algumas horas depois. Meu pescoço doía, mas o mau humor parecia ter se esvaído por completo, e me senti até um pouco bem humorada. Eu só precisava de boas... dezesseis horas de sono desde a noite anterior, contei ao ver meu celular, para tudo voltar ao normal.
Era meio dia, e depois de tomar banho e colocar o uniforme saí em direção ao prédio das aulas. Todo mundo estava aglomerado no refeitório naquela hora, e ao chegar lá não foi difícil encontrar Louis sentado na mesa de sempre com os amigos.
Entrei na fila do bufê e fui seguindo a fila no automático enquanto não conseguia parar de observá-lo de longe, inconsciente da minha presença lá. Quando percebi que já estava passando das comidas e não havia pegado nada, peguei uma maçã e um pote de mousse de morango da mesa de sobremesas, e fui em direção à mesa deles.
Sentei num lugar vago entre ele e Harry, que antes estava ocupado por Josh que já havia saído, e abri um sorriso amigável para Louis quando ele me olhou, empurrando o pote de mousse para ele.
Apenas trocamos um olhar por um tempo, enquanto ele decidia o que dizer.
- Oi, . - Harry disse ao meu lado.
- Oi.
- Quer um bolinho? O meu sobrou.
- Claro. - respondi, no automático, e virei para olhar para ele.
- Você gosta da cobertura?
- Quem não gosta da cobertura?
Ele deu de ombros e me entregou o bolinho de baunilha. Voltei a olhar para Louis, mas ele já havia levantado e estava se afastando da mesa.
- Você não vai falar comigo? - Perguntei quando o alcancei. - Porque a minha paciência não costuma durar tanto tempo assim.
- Por que você fez aquilo?
- Aquilo o quê?!
- Se entupir de pílulas!
- Louis! Eu não me entupi de nada! - Levei a mão livre aos cabelos, os tirando do rosto. - Cristo, como você é teimoso.
- Há! Então você “só” tomou três doses de calmante para não deixar o último comprimido sozinho?!
- Sim. – Respondi, categórica.
Ele parou de andar quando já estávamos fora do refeitório e me olhou.
- O que aconteceu em Londres?
- Nada aconteceu em Londres, Louis. Na verdade foi... muito legal. - Dei de ombros. - Eu estou bem. Você não está vendo? Já me viu quando eu não estava bem. Você sabe a diferença. - Abri os braços na frente dele.
Louis apenas me olhou por um bom tempo, tentando decidir alguma coisa, e eu não gostava nada daquilo. Só queria que as coisas voltassem a quando ele não julgava cada um dos meus hábitos. Eu sabia que ele o fazia porque se importava, mas era um terreno complicado... mexer com coisas que nem eu podia controlar. Eu não queria que ele entrasse em conflito com coisas em mim que eu não sabia como controlar.
- Como está se sentindo? - Perguntou por fim, escorando as costas na parede do corredor atrás de si. - Você disse que os remédios acabaram.
- Estou bem. Vou falar com o cara que consegue elas. Ele pode tentar botar algumas para dentro do colégio. - Relaxei um pouco.
- Ok. - Louis murmurou. Pegou a minha mão livre, e me aproximei dele. - Eu senti sua falta no fim de semana.
- É, eu também. - Sorri fraco.
- O que vocês fizeram?
- ... Coisas. - Dei de ombros, e ele arqueou uma sobrancelha.
- Coisas?
- O que acontece em Londres fica em Londres. - Repeti o que havíamos dito durante o fim de semana louco que tivemos com as garotas de Bradford e ele riu e assentiu.
- Ok, isso funciona para nós também.
- Ótimo. - Ri.
Louis me beijou, e retribuí levando a mão livre à sua nuca, passando os dedos por seus cabelos. Com um pouco de esforço me afastei depois de um tempo.
- Preciso pegar meus livros. – Murmurei.
- Ok. - Ele me beijou mais uma vez, ignorando o que eu disse.
- Eu preciso ir. – Me afastei.
- Ok. - Abriu um sorriso travesso, um dos meus preferidos, e revirei os olhos sorrindo de volta. Em um impulso, levantei a mão que segurava o bolinho e enterrei o nariz dele no chantilly. Ri e Louis arquejou fechando os olhos e passou a mão no rosto, tirando o excesso do doce e em seguida espalhando na minha boca e bochecha.
- Você-!
Louis me beijou novamente, com gosto de chantilly, e ri no meio do beijo o afastando de mim à força.
- Jesus, get a room. - Alguém passou por nós e disse, pela voz acho que era .
- Idiota. – Xinguei Louis e passei a mão no rosto o limpando. - Eu realmente tenho que ir.
- Ok. - Ele disse pela terceira vez e me afastei, ainda limpando o rosto, enquanto ele fazia o mesmo. Joguei o resto do bolo em uma lixeira e antes de virar o corredor olhei para Louis mais uma vez, piscando um olho para ele.
Ok, pensei, respirando fundo. O que preciso fazer, mesmo? Ah, sim. Tentar recuperar a matéria das aulas que havia perdido.


Liam’s POV
- Então eu quero... Quero que o Liam nos conte... – Harry balbuciava com os olhos fixos no teto da sala da banda, onde estávamos largados no sofá depois de um ensaio medíocre que fizemos.
Todos estavam cansados demais para tocar qualquer coisa. Harry e Louis continuaram ajudando com o cenário do teatro enquanto Zayn, eu, Niall e Josh lavamos o chão do refeitório. – Que ele nos conte... – Ele soltou um grunhido de frustração. – Ah, sei lá, cara, conta qualquer coisa aí. Quem foi a última garota que você beijou?
- Hein? – Franzi o cenho, sentindo meu sangue gelar. – Para quê você quer saber isso? – Desconversei.
- Por motivo nenhum, Liam, eu tinha que fazer uma pergunta, não tinha?
- Mas saiu essa? – Soltei uma risada fraca, esperando que alguém pegasse o embalo da zoeira e virasse as atenções ao Harry.
- Só conta, Liam! – Josh mandou. – A menos que você não queira contar.
Hesitei.
- Puta merda, aí vem bomba! – Louis esfregou as mãos, quase as batendo no rosto de , que estava com a cabeça deitada nas pernas dele.
- Agora você vai ter que contar! – Niall falou, deixando de dedilhar o violão para prestar atenção.
- Eu não sou obrigado – defendi-me.
Tentei a todo custo não fazer contato visual com , mas sabia que ela estava rindo, pois podia ver seu corpo tremendo pela visão periférica.
- As meninas querem saber também. – Louis insistiu.
- É verdade. – foi a primeira a se manifestar, mas seus olhos diziam que ela não ligava para aquilo, apenas queria acrescentar lenha à fogueira.
Mas o resto delas concordou e começou a insistir para que eu contasse.
- Não vale mentir. Nós vamos saber. – Harry apontou um dedo para mim. – Ou melhor, o Josh vai saber. Ele sabe de tudo.
- Rá, eu aposto que não. – Balancei a cabeça.
- Cacete, notícia fresquinha! – Josh se animou ainda mais. – Pega folha e caneta, Rebekah!
- Não seja um idiota, Josh – ralhei.
- Não seja um maricas, Liam! Conta logo! – Zayn bufou.
- Puta merda – murmurei, mas todos conseguiram ouvir e acabaram rindo de mim. Eu sabia que, assim que eu contasse, as risadinhas e a empolgação iam sumir. – Bom... Se vocês querem mesmo saber...
- Conta logo! – Harry revirou os olhos, impaciente.
- Ok. – Vamos lá. – A última pessoa que eu beijei foi a .
A sala da banda havia caído num silêncio que parecia impossível para um lugar lotado com doze adolescentes. Todo mundo se encarou por um momento, em meio ao silêncio de surpresa que se seguiu ao que eu disse.
- Você o quê? – foi a primeira a perguntar, soando, no mínimo, confusa.
Não respondi; tinha certeza que todos ali haviam ouvido.
- Não foi nada dem- começou a explicar, mas quem a cortou foi Louis.
- É O QUE? É O QUÊ, LIAM?! – Ele se levantou de onde estava sentado, dando um susto em , alterado. – VOCÊ TÁ LOUCO? PERDEU A CABEÇA?!
- Como assim você BEIJOU a AMY?! – Josh quase gritou, encarando liam com o queixo no chão.
- Por quê?! – perguntou.
- PAREM DE TENTAR BEIJAR A AMY! ELA É A AMY! AGORA SÓ FALTA VOCÊ, NIALL, VOCE QUER ME DIZER QUE TAMBÉM QUER BEIJAR A AMY?!
- E-eu não...
- COMO VOCÊ TEVE CORAGEM? – Josh de novo, ainda me encarando boquiaberto.
- Ei! – protestou, cruzando os braços e encarando todos eles chateada.
- Não, não, não, não, não! – Louis começou a balançar o dedo para ela, tentando explicar ao mesmo tempo em que andava para lá e para cá. - Não! Vocês não lembram do pacto que nós fizemos atrás do ginásio na quarta série?! Hein?!
- Nunca comer os doces do brother? – Franzi o cenho. Na quarta série aquela era a única e maior regra a nunca ser quebrada, de verdade.
- O outro pacto – Louis passou a mão no rosto, extremamente impaciente.
- Ah! – Josh levantou um dedo. – Ninguém se beija pra não estragar tudo.
- EXATO! Então WHAT THE FUCK, LIAM!
- Esse grupo só tem uma regra: ninguém toca na . – Josh falou, concordando com Louis.
- E agora você destruiu o equilíbrio entre nós! – Louis abriu os braços, exasperado. – Você. Acabou. Com. Tudo.
- Ah, parem com isso, não é pra tanto! – revirou os olhos, irritada.
- Você abriu a caixa de Pandora, Liam. – Niall inclinou-se para mim e comentou, parecendo divertido, mas um pouco preocupado ao mesmo tempo.
- Ok. Então a tem outra personalidade, o Malik quase matou um cara, a mexe com coisas ilícitas. Mas AGORA você cruzou todos os limites. - comentou, zombando. Por um breve segundo eu a olhei. Seu rosto não denunciava nada; eu não era capaz de dizer o que ela estava pensando de verdade sobre tudo aquilo.
Na verdade, eu queria muito que ela estivesse se mordendo de ciúme.
Merda.
- Sim! – A voz de Louis me trouxe de volta ao olho do furacão. – Qual é! A é uma de nós, não só uma garota que você beija!
- Eu estou começando a ficar um pouquinho enciumada. - brincou.
- Isso é sério. Eu costumava ter medo de que se algum dia eu ficasse afim da , isso significaria que eu era gay. – Josh contou.
- Eu não sou um garoto, Josh! – jogou um pé do tênis nele.
- Você também nunca foi muito garota, ! – Ele se defendeu.
- Ok, isso é ridículo! A estava se sentindo mal e eu queria que ela se sentisse bem...
- Você se aproveitou dela?! – se colocou de pé e eu senti que foi por pouco que ela não voou em cima de mim.
- NÃO! – Arregalei os olhos.
- Se o Josh estivesse se sentindo mal, você também ia beijar ele, Liam?! – Louis continuava bancando o advogado do diabo.
- O quê?! – Franzi o cenho.
- Você ia me beijar, Liam?! – Josh abriu os braços, exaltado.
- Ou é o quê? A está super atraente agora, é isso?! Você ia beijar alguém pela aparência?! Você ia beijar o Zayn, então?
- What the fuck?! Vocês são um bando de malucos. – Zayn bufou, mas parecia estar achando graça daquilo tudo. – Eles se beijaram, qual o problema? Não é como se eles estivessem apaixonados ou qualquer merda desse tipo.
- Você não entende, Zayn, você não tem amigos – Louis nem olhou para ele ao dizer isso, seus olhos continuavam em mim.
- Vai se foder, Louis. – Zayn rebateu, murmurando.
- Meu Deus, isso é sério? Vocês estão realmente falando sério? – arqueou as sobrancelhas. – Qual a necessidade dessa babaquice, Louis?
- Isso é muito sério, . Ele beijou a e agora tem que assumir as consequências.
- Espera aí! Que conseguências? A gente não definiu nenhuma consequência!
- Pois eu vou inventar agora!
- Ei, calma! Calma! O Harry nem falou nada! Tipo...!
- O que eu tenho que falar sobre isso? – Harry falou pela primeira vez em algum tempo. Ele estava sentado, parecendo alheio a tudo que acontecia.
- O Harry não tem absolutamente nada para falar sobre isso. – me fuzilou com o olhar. - Como não?! Ele é tipo seu irmão ou seu pai, ele tem, sim, direito a voto.
- Isso é ridículo. – bufou. – Ele não é meu dono.
- Não, mas são eles quem querem me punir, não você! Então eu quero um julgamento justo!
- Julgamento justo, Liam? Você não está comprando essa besteira, está?!
- , eu tenho esse direito. Se o Harry não está surtando com isso, porque o Louis está?!
- O. HARRY. NÃO. É. MEU. DONO! – se colocou de pé. Olhei para Harry, que continuava sentado e com o rosto inexpressivo, mas seus olhos estavam fixos em .
- Parece justo que o Harry se manifeste. – comentou em meio a um bocejo.
- ! – a repreendeu.
- O que foi, ?! Vai que o Harry não dá uma opinião que acabe com tudo isso? Tá na cara que esses meninos não sabem viver sem o Harry, então os deixe com essa besteira!
- Obrigado pela parte que me toca, , mas você não entende o ecossistema masculino. – Josh lhe deu um sorriso condescendente.
- Harry? – Louis se virou para ele.
Todos olhamos para Harry, inclusive , que parecia pronta para esfrangalhar a garganta de alguém.
Puta merda, que confusão.
Harry manteve-se impassível, olhando para cada um de nós, demorando-se em mim, Louis e . E, então, levantou o dedo indicador e o passou pela garganta, como se a estivesse cortando.
- ISSO! – Josh e Louis comemoraram.
- Agora, Liam... – Louis se virou para mim.
- Já chega! Vocês passaram dos limites! Todos eles! – gritou e veio para cima de mim.
Tudo aconteceu muito rápido e, quando vi, ela me colocou de pé puxando-me pelo colarinho da camisa do uniforme e me beijou. Fiquei completamente sem reação apenas sentindo seus lábios pressionados contra os meus com força, assim como seu aperto em minha blusa, mantendo-me preso ali por não mais que alguns poucos segundos.
- AI MEU DEUS! – Ouvi Josh gritar.
me soltou e me empurrou de volta no sofá, lançou-me um olhar que eu não fazia ideia do que significava e, então, ela foi até Harry, abaixou-se até seus olhos ficarem na altura dos dele e apontou para ele.
- Fique fora da minha vida, Styles.
E, então, ela saiu da sala, batendo a porta com violência.
A sala só não estava em silêncio porque Josh ria, mas Zayn e Niall faziam força para não rirem também, provavelmente impressionados com a cara de bobo que todo mundo tinha no rosto.
Limpei a garganta.
- Eu me sinto usado.


’s POV
Esperei por quase dez minutos sentada em frente à mesa da diretora Campbell antes que ela viesse me atender. Aparentemente o dia estava corrido para ela, que quando eu cheguei tentava acalmar uma criança do ginásio que chorava sem parar porque caiu e ralou o joelho. Por isso pediu que eu esperasse em sua sala.
Eu podia ouvir o barulho das pessoas lá fora, tendo aula de educação física ao ar livre perto do ginásio. Queria estar lá fora aproveitando, mas eu estava feliz o suficiente por estar perdendo minutos da aula de biologia, que estava um belo saco.
- Sinto muito, . – Olivia entrou na sala apressada, fechando a porta atrás de si e vindo para trás de sua mesa. – Me desculpe te fazer perder tanto tempo de aula, as coisas estão caóticas aqui hoje.
- Sem problema. – Mesmo, pensei. – Precisa de alguma coisa?
- Na verdade não. – Ela disse, e pegou seu celular de dentro de uma gaveta. Eu estava curiosa sobre o que podia ser, já que já estava pagando o castigo pelas coisas erradas que fiz ainda na semana do festival. Talvez fosse referente ao time, às vezes elas precisavam tratar de alguns assuntos assim. – Eu recebi esse e-mail ontem à noite, em minha conta da escola. – Abriu algo no celular e me mostrou.
Era uma foto minha fora dos muros da escola, saindo de um Uber, tirada de longe. Eu sabia porque reconheci. Fora na manhã em que voltei da universidade.
Não disse nada, e apenas a encarei enquanto digeria aquilo. Geralmente quando estava prestes a ser pega por algo que fiz, eu já esperava. Aquilo me pegou de surpresa.
- Isso foi no... – Tentei dizer alguma coisa, mas ela me cortou.
- Vamos poupar constrangimentos, senhorita . Sei que não esteve na escola na noite anterior a essa foto. – Ela guardou o celular e comprimiu os lábios, me olhando de uma forma que estava começando a me assustar. Não era com a cara brava de sempre de “quantas vezes vou ter que te castigar”, mas sim algo mais definitivo.
- Quem mandou? – Perguntei.
- Veio de uma conta chamada Spotted. Acredito que também tenha sido postado na página do Facebook.
Inferno, xinguei mentalmente. De novo essa coisa me perseguindo!
Eu não sabia o que dizer, portanto fiquei quieta, esperando o que quer que estivesse por vir. Depois de me observar por um momento com as mãos cruzadas em cima da mesa, a diretora Campbell suspirou.
- Bem. Já havíamos conversado sobre isso algumas vezes, . Eu lhe avisei, exaustivas vezes. Até mesmo fiz vista grossa para diversas coisas, você e eu sabemos disso. E me dói ter que fazer isso, mas não há outra alternativa. Infelizmente não há mais nada que possa fazer por você.
- O que...? Eu vou ser...?
- Afastada da escola.
- A-fastada?
- Expulsa. – Olivia se forçou a dizer, não parecendo gostar daquela palavra.
Certo.
Bem.
Eu era só aquele meme do Pikachu no momento.
- Já falamos com os seus pais.
A olhei, espantada. Não havia nem tido tempo para digerir aquilo, e me vinha mais essa? Isso provava que não era nenhuma brincadeira, que aquilo parecia definitivo dessa vez.
- Para que possam procurar outra escola para onde te transferir. Vamos te dar mais essas duas próximas semanas, para fazer as provas e entregar os trabalhos do trimestre. Não quero que saia daqui com notas pela metade. Mas, infelizmente, não podemos mais aceitar certos comportamentos, ... Eu preciso fazer valer as regras da escola em certo momento. Ou não vou mais conseguir contornar.
Assenti para ela, ainda meio atordoada. Eu havia recebido todos os avisos. Aquilo não era culpa de ninguém além de mim, sabia de todas as coisas erradas que fiz. Mas ainda assim... Tirar o St. Bees de mim depois de todo esse tempo, há poucos meses da formatura... Eu sentia como se houvesse sido largada pelada no meio da floresta, como aqueles caras do Discovery Channel.
O telefone da mesa da diretora tocou, e ela atendeu com um “sim?”. Ouviu o que disseram do outro lado da linha e segurou o telefone no ombro, olhando-me.
- Acabamos por aqui, senhorita . Qualquer dúvida, pode me procurar. Obrigada e desculpe novamente pela demora.
Assenti novamente, e quando vi que ela estava me esperando sair, levantei rapidamente e tropecei em minha mochila antes de pegá-la do chão, fazendo o caminho até a porta, atordoada.
Saí da sala da diretora, e em seguida do escritório da diretoria que estava cheio de alunos e funcionários, e me encostei no corredor ao lado da porta, percebendo que os alunos transitavam de uma sala para outra, porque provavelmente já havia mudado o período. Fechei os olhos, não conseguindo pensar.
- ? – Alguém chamou, um tempo depois, e abri os olhos assustada. Era . – Está tudo bem?
- Está. – Respondi de imediato. – Só dor de cabeça.
- Quer um remédio? Acho que tenho algo na minha mochila... – Comentou, apontando para o corredor dos armários.
- Não precisa, valeu. – Me desencostei da parede e comecei a segui-la para outro lado do prédio.
- Fez a resenha de francês?
- Hum... Mais ou menos. Você me ajuda?
revirou os olhos, mas riu.
- Ok, vem logo. – Puxou meu cotovelo caminhando mais rápido em direção à sala.

Eu não sabia o que havia dado em mim, mas diferente de como pensei que reagiria, passei o resto do dia calada e participei de todas as aulas. Almocei com as garotas, conversei com quem conversava comigo sobre assuntos triviais e em momento algum deixei transparecer que em minha cabeça tudo em que eu conseguia pensar era aquilo. Parecia que cada detalhe, durante todo aquele dia, só me fazia pensar que: cara, eu sentiria falta de tudo aquilo.

A situação era a seguinte: Ao mesmo tempo em que queria deitar a cabeça no colo de alguém e receber carinho enquanto ouvia que “vai ficar tudo bem”, eu também queria evitar precisar conversar sobre aquilo a todo custo. Então após a aula dei um jeito de escapar de todo mundo, comprei um pacote grande de Doritos de uma das máquinas dos corredores e parti sem rumo para o primeiro lugar em que eu pudesse ter um pouco de paz. Acabei indo parar perto do ginásio, como sempre, e decidi sentar nas arquibancadas do campo externo, onde estava completamente deserto.
Abri o Spotify, encontrei All I Want do Kodaline e deslizei a música várias vezes para a direita, colocando-a para repetir em minha lista quantas vezes fosse possível. Abri o Doritos. E decidi ter uma overdose de gordura e música ruim. Às vezes, quando algo não tem jeito, antes de aceitar e seguir em frente você só precisa se afogar naquele sentimento por um tempo.
Um tempo depois já estava escurecendo, eu ainda estava na metade do Doritos e encarava a tela de meu celular, onde uma chamada de Will fazia-o vibrar, sem querer atender. Se eu atendesse ele acabaria sabendo que algo não está certo e eu precisaria falar.
Ele ligou duas vezes, e deixei chamar até cair.
- . – Ouvi alguém chamar de alguns degraus acima na arquibancada e senti um grande alívio quando me virei e vi Liam. Mesmo sem saber, ele era exatamente a pessoa que eu precisava ver. Abri um sorriso para ele.
- Você não sabe o quanto estou feliz que você tá aqui.
- Por quê? Vai me atacar e me beijar de novo?!– Perguntou brincando, e pulou os degraus que nos separavam e caminhando até o meu lado. – Só vim para dar uma corrida, não esperava te ver aqui.
Bati a mão na pedra ao meu lado, o convidando a sentar. Quando ele o fez, ofereci o Doritos, olhando para frente. Ele pegou um pouco.
Suspirei.
- Passei o dia todo ignorando algo. Agora eu preciso falar. Você é exatamente a pessoa para quem eu queria falar.
- O que foi? – Liam me olhou, preocupado. Não o olhei de volta até decidir que realmente contaria a ele, então o encarei.
- Fui expulsa. – Soltei de uma vez. Ele arqueou as sobrancelhas em surpresa. – A diretora C me chamou hoje de manhã. Eu tenho até o final das próximas provas.
- Você está brincando. – Concluiu, e logo neguei com a cabeça.
- Não estou.
- Não pode estar falando sério. Você não vai realmente sair do St. Bees. – Ele fez uma pausa longa, em que o deixei raciocinar por si próprio. – Vai?
Dei de ombros, balançando a cabeça.
- Não tenho escolha.
- Calma, . – Liam se ajeitou, se virando para mim. – Podemos falar com ela, pedir mais uma chance, eu tenho certeza que a diretora pode te dar mais uma chance se prometer que...
- Ela já me deu várias chances, Liam, isso é tudo minha culpa. Eu sei disso. Ela fez tudo que podia. E ela nunca falou tão sério e tão... calma comigo. – Dei de ombros. - That’s on me.
Liam ficou quieto e eu também. Comi mais alguns Doritos.
- Pode não contar para ninguém mais ainda? – Pedi a ele, e nos olhamos. – Eu não quero ter que lidar com isso agora. Eu vou contar, mas aos poucos.
- Mas por que está agindo assim? Você nunca foi de correr de uma briga! – Liam levantou as mãos. – Podemos fazer alguma coisa, !
- Eu não quero ter que pedir isso de nenhum de vocês, Liam, estamos cada um lidando com nossas próprias merdas. E, também, o modo como ela falou... – Cutuquei uma costura em minha saia. - Me fez sentir vergonha. Porque a culpa realmente é minha.
- Ugh, , ok que você não é a pessoa mais santa, você conhece as regras e mesmo assim as quebra, você já havia sido avisada várias vezes...
- Vai chegar a algum lugar com isso? – O olhei.
- Mas - ele continuou. – Vivemos praticamente numa prisão, aqui. Não temos liberdade para nada. E se seus pais não ligassem tanto para essa coisa de castigo e estivessem dispostos a pagar para você ficar, como muitos pais estão, você sabe que eles deixariam! Conhecemos uma dúzia de pessoas que já deviam ter sido expulsas há tempos, mas recebem vista grossa por causa dos pais.
- É, mas meus pais não são assim. O motivo principal pelo qual estou aqui, eu e Harry, é porque aprontamos. Eles não ligam se eu rodar de ano, ou se perder tudo que construí aqui, eles vão querer que eu seja “punida” e perca tudo isso para que “aprenda a lição”, eu os conheço bem. Meus pais não são os tipos de pais que subornariam a escola para me manter aqui. Eles nem têm fé que eu vou ser alguma coisa depois de sair daqui, portanto, pra quê se importariam se eu perdesse um ano inteiro?
Liam suspirou pesadamente ao meu lado, aparentemente nervoso com aquela situação. Durante o dia todo eu tive a oportunidade de passar por todas aquelas opções e questões. Eu sabia que não havia como escapar, não se dependesse dos meus pais. Eu não tinha nada contra ninguém lá dentro que fosse ter o poder de me fazer ficar. Eu não tinha os meios para subornar a escola ou coisa do tipo. Não havia como. E, também, eu merecia.
- Por que contou primeiro para mim? – Liam perguntou, um momento depois.
- Porque você sempre foi meu herói, boo - apertei a bochecha dele e ri fraco. – Sempre me ajudando nos piores momentos. Sempre o único que soube levar as coisas um pouco mais a sério quando os outros idiotas dos nossos amigos achavam que se livrariam de todos os problemas só ignorando e rindo feito palhaços. E sempre me apoiando em qualquer decisão. – Encostei a cabeça no ombro dele. – Vou sentir a sua falta, Liam. De verdade.
- Ah, não, . – Ele suspirou de novo, mas dessa vez soando meio desolado, como se não aceitasse que não houvesse nada que pudesse fazer. – Isso não tá certo. Por que você não parece triste?!
Ri fraco.
- Eu estou. Bastante.
Liam pigarreou.
- Então por que não está chorando, mulher? Eu não sei se já te vi chorando.
Dei de ombros, rindo. Queria poder chorar e espernear. Talvez aliviasse um pouco aqui dentro. Mas nunca fui muito disso, era mais fácil que eu chorasse de raiva do que de tristeza, por algum motivo.
- Vamos dar um jeito.
Balancei a cabeça novamente, incrédula quanto àquilo. Daquela, eu não ia me safar.


’s POV
- Eu juro que se você limpar o canto da boca mais uma vez, ela vai cair da sua cara – reclamou quando eu a puxei para dentro do banheiro perto da entrada do refeitório.
- Tem algo errado comigo, eu posso sentir! – Argumentei, posicionando-me em frente ao grande espelho, olhando atentamente meu reflexo.
- É humanamente impossível ter algo com seu rosto quando você já se olhou quatro vezes no espelho nos últimos trinta minutos! – Disse, abraçando os livros contra o peito enquanto me olhava pelo reflexo. – Não tem nada de errado com você!
Era tão bom tê-la de volta.
- ! – Fiz um muxoxo de desgosto ao não encontrar nenhum defeito na maquiagem. – Não é possível, eu sinto algo errado! – Olhei para ela, que encolheu os ombros. – Será que eu estou tendo um derrame?!
- Fala sério! – Ela grunhiu. – Vamos sair daqui. Nada mais de espelhos para você por hoje – puxou meu braço, arrastando-me para fora do banheiro.
Ao sairmos, ela soltou meu braço e caminhou ao meu lado em silêncio.
- Pode não ter algo errado com meu rosto, mas com certeza há algo de errado em alguma coisa – constatei, observando as pessoas que passavam por nós. Uma menina do primeiro ano me olhou diretamente nos olhos quando cruzamos com ela no corredor e eu a segui com o olhar até ela sumir de vista. – Definitivamente. Ela estava me encarando.
- ! Você está sendo paranoica! – me beliscou.
- Ouch! – Passei a mão no braço, olhando-a feio. – Não precisava disso.
- Não tem nada de errado acontecendo aqui! Talvez seja só você morrendo de medo que alguém descubra que...
- Não termine isso! – Ordenei quando entendi o que ela ia dizer.
- Que vamos sair escondidos na sexta – ela terminou dizendo algo completamente diferente do que eu esperava. E ela sabia disso porque tinha um sorriso presunçoso no rosto.
- Eu odeio você – murmurei e ela gargalhou.
- Você precisava ver sua cara! Morrendo de medo que eu falasse em voz alta seu segredinho com um certo cantor.
- Ele não é cantor – revirei os olhos.
- Ele canta – disse, como se fosse óbvio.
- Não profissionalmente, logo não é cantor.
- Isso que você disse não faz o menor sentido.
- Me erra – empurrei-a pelo ombro.
Quando passamos pelo hall do prédio onde ficavam a maioria das salas de aula, meu celular vibrou em minha mão, mas eu ignorei, preocupada demais em observar todos à minha volta, esperando que, de repente, alguém fizesse algo que comprovaria minha teoria. Não muito tempo depois, meu celular vibrou de novo.
e eu estávamos indo em direção ao pátio para aproveitar um pouco do sol que resolveu dar as caras naquele dia – e talvez fosse isso a coisa mais estranha sobre o dia. O celular vibrou mais uma vez e eu olhei a mensagem através das notificações na tela de bloqueio.
“Vai me ignorar?”, dizia a mensagem mais recente. Acima dela estava uma do mesmo número de dois minutos atrás:
“Certeza que quer dar uma olhadinha nisso antes que eu publique”, e uma de cinco minutos atrás:
“Anônimo enviou foto”.
Parei no lugar quando li as mensagens e, antes que pudesse desbloquear a tela para ver do que se tratava, outra mensagem chegou:
”Vai viralizar”.
Entrei rapidamente na conversa e senti meu coração na boca quando vi a foto que havia sido enviada para mim por algum número desconhecido. Na foto, eu e Zayn estávamos abraçados e sorrindo um para o outro com os lábios unidos. A foto foi tirada no dia da apresentação do projeto da aula de marcenaria. Tanto o projeto quanto as embalagens de isopor com nosso almoço estavam lá, testemunhando nosso pequeno momento. Não foi nosso primeiro beijo, mas foi a primeira vez que conversamos sobre qualquer possibilidade de haver um “nós”.
Minha cabeça parou de funcionar por um instante, mas isso não impediu que os pensamentos surgissem aos turbilhões; eu só não fui capaz de processá-los. Pisquei algumas vezes e só voltei à Terra quando me beliscou pela segunda vez.
- Ai! Você tem que parar com isso! – Reclamei, passando a mão pelo meu braço.
- O que foi? Parece que você viu um fantasma – ela comentou. Olhei para a tela de meu celular, mas ele estava apagado, então ela não podia ver do que se tratava.
Eu sabia que algo estava errado com aquele dia.
Balancei a cabeça numa tentativa de clarear os pensamentos que corriam soltos pelo parquinho que era minha mente naquele momento. Olhei ao meu redor, sentindo-me invadida e observada ao mesmo tempo, como se alguém estivesse escondido atrás das janelas e dos arbustos.
Já havia acontecido coisa do tipo antes; todo mundo gostava de fazer fofoca e por algum motivo o nível de popularidade estava sempre associado à magnitude da coisa.
Respirei fundo. Eu nunca quis esconder o que estava tendo com Zayn por motivos fúteis. Não era por vergonha ou porque éramos diferentes ou qualquer outra coisa. Eu apenas queria aquele momento bom em que eu podia aproveitar uma coisa boa sem ter que lidar com as risadinhas pelos corredores, as fofocas, os julgamentos. Dentro de mim, eu já sabia muito bem o que as pessoas iriam pensar, o que iriam dizer e eu não dava a mínima para o que poderia surgir de suas cabeças vazias, mas do que poderia causar na minha coisa boa.
Mas agora já era. Eventualmente isso tudo teria que vir à luz, eu só não esperava que seria tão cedo.
E o que mais me incomodava era que todos descobririam assim, pelo maldito spotted, como se estivéssemos fazendo algo errado, algo vergonhoso, que devia ser escondido. Isso sim daria material para que as pessoas viajassem na maionese quando pensassem em nós dois.
E eu gostava de Zayn, gostava mesmo. Um sentimento tão natural e bom que eu achava que nunca mais sentiria depois que Owen e Mandy fizeram xixi no meu gramado.
- ! – me beliscou de novo. Olhei-a com cara feia e desbloqueei a tela para que ela pudesse ver. – Eita.
- É, eita – concordei.
Olhei à nossa volta mais uma vez com uma ideia se formando em minha mente.
- Aonde você vai? – perguntou quando dei meia volta e me afastei dela.
- Resolver isso.
Voltei para o prédio principal, olhando para todos os lados. As aulas do segundo período estavam prestes a começar, por isso os corredores estavam lotados, mas isso não me impediu. Dobrei algumas esquinas até chegar ao hall principal.
Vi Zayn estava encostado a um armário perto da sala de Literatura, que era sua próxima aula – sim, eu sabia disso. Fiz meu caminho até ele, passando pelos alunos que andavam rapidamente em direção às suas salas de aula, conversando, rindo, empurrando-se de brincadeira. Avistei Louis e Harry conversando com um grupo de pessoas mais ao fundo do grande corredor, mas eu não lhes dei atenção.
- Zayn! – Falei, um pouco mais alto do que eu pretendia, trazendo a atenção de todos para mim e o corredor ficou em silêncio enquanto eu andava os últimos metros até ele, que me observava com os olhos fixos. Seu rosto estava calmo, mas eu podia ver a dúvida surgindo em seus olhos. – Hey – sorri fraco, reunindo coragem. Passei as mãos pela gola de seu casaco e a segurei com firmeza, tirando-o da parede.
- O que você está fazendo? – Perguntou cuidadosamente baixo.
Sorri uma última vez antes de ficar nas pontas dos pés e selar nossos lábios. Suas mãos foram parar imediatamente na minha cintura, segurando-me no lugar enquanto sua boca se movia contra a minha, aprofundando o beijo numa fração de segundos.
Com esforço, desviei minha atenção dele e ouvi o que acontecia à nossa volta: muita gente arfando em meio a risadas, sons de choque e surpresa enchiam o ar à nossa volta, alguns riam e eu podia ouvir o nervosismo nas risadas.
Afastei-me de Zayn, que abriu os olhos e manteve a expressão séria.
- Depois eu explico – prometi, desenhando as palavras com os lábios para não emitir som.
Segurei-o ali por mais um instante, que foi apenas o necessário para que as pessoas começassem a dar prosseguimento com suas vidas.
- Ugh, ela sempre gostou de uma cena dramática – uma menina comentou perto de nós, baixo, mas alto suficiente para ouvirmos. Zayn lançou-lhe um olhar agressivo, enquanto eu apenas fechei os olhos, absorvendo aquilo. Era exatamente o tipo de coisa que eu queria evitar.
- ! – veio rapidamente para perto de nós, um pouco surpresa, mas por seu olhar eu sabia que ela estava tranquila com o que havia acontecido. Quando estava bem perto, estendeu o celular para mim, mostrando-me a tela.
Vi que as mensagens da conversa com o número anônimo foram apagadas, deixando apenas a notificação da ação. Abri um sorriso e soltei o ar que não sabia que estava prendendo.
- Te peguei.


Harry’s POV
Raios de sol entravam pelas janelas altas da sala de ginástica, iluminando o local com frações quebradas de luz. Eu estava sentado numa das poltronas e Niall meio sentado meio atirado no sofá ao lado, rabiscando algo em seu caderno de composições.
- Você tá fazendo o sol errado. - Niall apontou sem me olhar, e corrigi a posição dos meus dedos no violão.
- Como assim? Eu sempre fiz desse jeito! - Comentei espantado e o olhei, e ele riu.
- Bem, então, ou você andou cagando todos os nossos ensaios nos últimos dias ou nós estamos todos surdos, ou a sua terceira corda tá muito desafinada.
Toquei o acorde uma vez e o som que ele fez pareceu muito mais harmônico do que geralmente era. Minha expressão de quem finalmente entendia o que estava fazendo de errado fez Niall rir mais e balançar a cabeça.
- Espera, então agora eu acho que vai soar bom. - Comentei sozinho ao me dar conta de algo que havia tentado criar na noite passada.
- Do que você tá falando? - Niall perguntou e eu puxei de minha mochila no chão o caderno pequeno de capa amarela no qual anotava tudo que tinha a ver com música desde que comecei a praticar sozinho. O abri em uma das últimas folhas usadas e risquei uns acordes de cima das palavras que eu havia escrito, trocando-os pelo sol, ou seja, a letra G.
- Escuta isso. - disse e ajeitei o violão na perna, me concentrando para tocar uma melodia à qual eu havia sem querer chegado na noite passada, enquanto tocava a esmo sem saber exatamente o que estava tocando, tentando criar uma melodia decente para algo meio idiota que havia escrito.
Quando terminei olhei para Niall e ele balançou a cabeça.
- É uma boa melodia - deu de ombros. - Mas não tem como pegar o estilo direito sem uma letra. O que você tem aqui?
- Nã... - tentei evitar que ele pegasse o caderno, porém ele foi mais rápido e o pegou. Coloquei o violão de lado e estiquei o braço para pegar de volta, mas Niall se colocou de pé e me olhou com as sobrancelhas arqueadas, percebendo que havia descoberto algo que me incomodava ali. Poucas coisas me incomodavam, poucas coisas na minha vida eram privadas a ponto de serem escondidas dos caras da banda. Ele sabia disso, pois era um cara esperto.
- Relax, mate. Eu só vou dar uma olhada. - Respondeu, levantando uma mão, antes de abrir o caderno na folha marcada e passar os olhos por ela.
Suspirei, tentando controlar a vergonha que por algum motivo senti com ele lendo aquilo.
- Olha, é... não é nada demais, foi só... um poema da aula de inglês que eu acabei tentando transformar em música. - Menti.
Niall continuou em silêncio enquanto lia, e comecei a bater o pé nervosamente.
- Ok, já chega - ameacei levantar, mas ele abaixou o caderno e o fechou.
-Isso é bom, Harry. - Comentou, me olhando com algo que definitivamente era surpresa. Parte de mim se sentiu bastante ofendido, mas a outra parte estava curiosa em saber mais sobre o que ele havia achado.
- São só uns rabiscos... - balancei a cabeça.
- Não, isso aqui está muito bom. - Ele voltou a sentar e ajeitei o violão na perna de novo. - Toca de novo, eu quero tentar entender como ela se encaixa na melodia.
Fiz o que ele disse e Niall balançou a cabeça por um tempo tentando encaixar as duas coisas em sua cabeça no início, e depois começou a cantarolar baixinho as palavras no caderno.
- Who’s that shadow keeping me hostage I’ve been here for days...
- Não. – Corrigi, meio no automático, e Niall parou e me olhou. – Eu imaginei… diferente.
- Canta você então.
Comprimi os lábios, aquilo era mais difícil do que parecia ser. Quando era um cover de uma música que todo mundo conhecia, não tinha mistério, porque aquilo não era seu; não saiu da sua cabeça. Mas aquelas, ali, eram palavras minhas. De qualquer forma, me senti confortável para mostrar aquilo para Niall. Provavelmente eu não mostraria para nenhum dos outros caras de jeito nenhum, nem mesmo Louis.
- Who’s that shadow keeping me hostage I’ve been here for days... Who’s that whisper telling me I’ll never gonna... go away. I know you’ll be coming to find me soon...
Fui parando aos poucos quando esqueci o resto da letra que havia escrito.
- Ok, eu acho que entendi. Dá pra trocar algumas palavras, adicionar algumas coisas, mas isso aqui tem potencial. - Ele novamente me olhou surpreso, e dei de ombros aparentando pouco caso.
Eu não era um poeta nem um compositor, nunca fui. Mas quando tinha um violão em mãos parecia subitamente muito mais fácil fazer meus pensamentos se organizarem e se transformarem em palavras que se encaixavam com a melodia que saia das cordas.
Continuei dedilhando qualquer coisa nas cordas até perceber que Niall ainda estava folheando meu caderno, quando ele começou a ler algo em voz alta:
- I got a heart and I got a soul...
- Não! - Puxei o caderno das mãos dele me colocando de pé em um piscar de olhos. Definitivamente aquilo não era algo que eu queria que qualquer pessoa lesse. Era íntimo, principiante e constrangedor. Muito constrangedor.
- Foi mal, cara, mas você tem algum potencial escondido aí que eu nem imaginava. - Niall riu fraco e abriu os braços, dando de ombros. - Estou impressionado.
- Não são feitas pra... tocar. - Expliquei, franzindo o cenho. - São só coisas minhas. Não são para serem públicas.
- Acredite em mim, Harry, eu sei. - Niall cruzou os braços e assentiu com a cabeça. - Escrever música é algo bem pessoal. Não tem como fazer algo bom, como as suas são, sem que seja um sentimento que você conheça bem. Então é difícil a ideia de compartilhar com as outras pessoas.
Ter aquela conversa era profundamente embaraçoso, mas ele tinha razão no que estava dizendo, e eu reconhecia aquilo. Assenti concordando enquanto enfiava o caderno dentro da case do meu violão e fechava seu zíper.
- Mas, sabe, talvez as pessoas fossem gostar de saber.
- Saber o quê? - O olhei.
- Que você “tem um coração.” - Niall comentou e logo em seguida comprimiu os lábios para segurar uma risada, o que não deu muito certo quando agarrei a primeira coisa que eu vi - meu estojo - e joguei em sua direção, o fazendo pular para o lado e gargalhar.
Mais tarde naquele dia, saindo do prédio do ginásio com o violão nas costas para ir jantar, continuava pensando nas coisas que Niall falou. Ele havia dito que quando eu estivesse pronto para trabalhar naquilo “como um músico faria” podia contar com a ajuda dele, e aquilo não saía de minha cabeça. Parecia tão mais fácil colocar os sentimentos em músicas do que fala-los em voz alta, mas ao mesmo tempo era difícil imaginar alguém ouvindo aquilo que saiu de você. Eu precisava achar um jeito de saber lidar com aquilo antes de começar a realmente compor.
O refeitório ainda não estava cheio, e o jantar estava recém sendo servido. Fui uma das primeiras pessoas a me servir e procurei brevemente por um lugar para sentar quando saí da fila, encontrando puxando uma cadeira para sentar numa mesa não muito longe dali. Fui até ela, puxando a cadeira ao seu lado.
- Hey, partner.
- Hey, cabeça de vento. – Ela disse, tão amigável quanto podia ser.
- Ah lá, já começou a me ofender. – Brinquei e ela sorriu fraco, focalizando em seu próprio prato enquanto mexia na comida com a ponta do garfo. Logo seu meio sorriso se transformou numa quase careta.
- Ah, eu só queria um sushi.
- Sushi? – Fiz uma caretinha para ela. – Eca.
- Você tem cara de quem não sabe apreciar uma boa comida, mesmo.
- Duas vezes em menos de dois minutos. – Reclamei e ela riu.
e eu ficamos em silêncio por um momento, até que ela respondeu:
- Title of your sex tape.
- OUTCH! – Levei a mão ao peito, legitimamente surpreendido com aquela resposta daquela vez, e riu. – Tá legal, você ganhou.
- Obrigada, obrigada.
Voltamos a jantar, em silêncio na maior parte do tempo, surpreendentemente sem mais conversinhas provocantes ou alfinetadas como geralmente eram nossos diálogos, e foi legal ter sua companhia naquela noite, mesmo que em silêncio. terminou de comer antes de mim e se despediu com um breve “boa noite” antes de sair do refeitório, e não pude evitar segui-la com o olhar até que sumisse de vista, pensando o quanto podia ter muito mais por dentro do que aparentava para quem só a conhecia superficialmente.
Era curioso.


’s POV
- Não.
- Essa é a única palavra que você conhece?! – Will reclamou no telefone e revirei os olhos rindo.
- Não. – Ri fraco.
- Hum... Tudo bem, mas pode pelo menos me deixar terminar minha proposta antes de falar não de novo?
- ... Ok. – Respondi, abrindo a porta do quarto ao chegar no nosso andar. não estava por lá. – Você tem trinta segundos.
- Ok, escuta – ele disse afobado e quis rir de novo. – Você confia em mim, não confia?
- Eu confio em você. – Concordei, jogando a mochila para qualquer lado e me jogando na cama de sapato e tudo.
- Então confie quando digo que ninguém mais precisa saber ou ver qualquer coisa. Vai ser só eu e você, e eu te dou total liberdade para aceitar ou recusar qualquer coisa, e dar as suas próprias ideias, e depois fazer o que quiser com as fotos. E eu juro por tudo que é mais sagrado que ninguém nunca vai vê-las sem a sua permissão.
Suspirei pesadamente.
- Por que você ainda está tão relutante com a ideia de um ensaio de fotos? São só fotos, , e por deus, você já se olhou no espelho?
Sorri fraco.
- Não tem nada a ver com a minha aparência. Eu só não sei fazer isso. Eu não sou uma modelo.
- Você tem um rosto e um corpo até onde me lembro. Você é uma modelo.
- Ah, você me entendeu, William!
- Uau, ela usou meu nome inteiro. – Brincou, e pude ouvir o sorriso na voz dele. – Escuta, é super tranquilo. Eu vou te dizer o que fazer.
- E as roupas? E a maquiagem? Você disse que vai ser só eu e você, mas quem vai fazer isso?
- Por que acha que eu não saberia escolher roupas? O ensaio é meu, eu já sei cada roupa colocaria em você e cada foto que tiraria. Tenho isso na minha cabeça desde que te vi naquele bar pela primeira vez.
- Uau, você é um interesseiro. – Constatei e ele riu.
- Não é nenhum segredo que eu sou um idiota pela sua beleza. Acho que já deixei isso claro.
- Só falta você dizer que eu sou sua musa inspiradora. – Mordi o lábio sorrindo.
- Em outras palavras...
Ficamos em silêncio enquanto eu ponderava novamente seu pedido e ele claramente esperava que eu respondesse alguma coisa.
- Você não respondeu sobre a maquiagem.
- Quero você sem nada além desse rosto lindo.
- Para, galanteador.
- Não consigo evitar. – Riu.
Suspirei pesadamente, e se William me conhecesse bem saberia que ali ele me ganhou.
- Ok. Mas eu quero cópias de todas as fotos e se você um dia fizer qualquer coisa com elas sem meu consentimento eu vou te processar.
Will gargalhou, contente, do outro lado.
- Fechado. Fazemos até um contrato se quiser. Aliás, você sabe que não estou te pedindo um álbum nua, né?
- Eu sei! – Revirei os olhos. – Mas ainda assim. Não sei o que esperar disso. Eu só... não sei. Quero ver o resultado antes de te deixar fazer qualquer coisa com essas fotos, e se eu não gostar de qualquer coisa, podemos fazer uma grande fogueira e queimar cada uma.
- Você vai adorar, eu garanto.
- Hum. – Resmunguei, sem muita certeza. -Virei-me na cama. – Mas eu tenho uma condição.
- Qualquer coisa por você.
Pensei por um segundo antes de falar. Ninguém sabia ainda sobre minha expulsão. Eu não tinha esperanças de conseguir ficar, mas não conseguia coragem para falar para ninguém. Só quem sabia além de mim era meu pai que – por muita sorte – foi quem atendeu à ligação da escola e me ligou logo em seguida, antes mesmo de falar com minha mãe. Eu pedi a ele até o feriado de Páscoa que seria em uma semana para conversar com ela pessoalmente. Ela com toda certeza já teria me matado por telefone mesmo se soubesse.
Ainda assim, eu não estava pronta para abrir mão de tudo que tinha em Carlisle. Por isso lancei minha proposta:
- Venha comigo para Holmes Chapel na Páscoa.
- ... Ah. Conhecer a família?
- É. Da sua “musa inspiradora”.
Will riu.
- Seria incrível, . Você nem precisava ter feito essa chantagem pra conseguir.
Ri e ele me acompanhou.
- Droga!
Ficamos em silêncio por um momento, em que eu lembrei de outro assunto:
- Você vai poder ir na casa do Liam na sexta?
- Ah, não vou, sinto muito. Tenho que acompanhar meu professor em uma palestra no sábado de manhã. Sabe, todo semestre eu digo para mim mesmo que não vou mais fazer isso de pegar monitoria, e ainda assim sempre me encontro nessa emboscada. Qual é o meu problema?
- Você é muito dedicado. – Balancei a cabeça. – Não acredito que namoro um geek.
- Pois é, sua reputação se esvai a cada dia.
Estalei a língua e ele riu fraco.
- Então acho que até amanhã.
- Até, baby. Amanhã nos falamos.
- Tchau...
- Tchau.
Esperei, e como ele não desligou, sorri e desliguei o celular o soltando em meu lado na cama. Cobri os olhos com um dos braços, suspirando fundo, pensando naquela história de ensaio que Will já queria fazer há tempos. Pensar nisso me deixava nervosa, mas acredito que seria legal.
Quase peguei no sono, sendo acordada quando abriu a porta do quarto e entrou. Espiei-a por baixo do braço enquanto ela fechava a porta com o pé, escrevendo uma mensagem no celular. Sentei na cama e quando ela me olhou, comecei a falar:
- William quer fazer um ensaio fotográfico comigo e eu disse sim!
me olhou deu uma olhadinha para o lado antes de dizer qualquer coisa.
- Oi, tudo bem com você? Como foi o dia?
Ela foi para sua cama, terminando de mandar a mensagem, e me virei.
- Sério, , você acha que eu fiz certo?
soltou um suspiro cansado e soltou o celular, coçando a testa e aparentemente tentando focar ali em nossa conversa. Dei um segundo para ela.
- Eu acho que conversamos esses dias sobre eu não poder tomar decisões por você, não é?
- E eu acho que deixei claro que ainda assim quero ouvir sua opinião, não foi? – Retruquei. Agora estava com essa palhaçada de que eu precisava escolher as coisas sem perguntar para ela. Como diabos me dar sua opinião atrapalharia?! Antes eu não conseguia fazer ela calar a boca, e agora isso! – Eu quero uma visão de fora, já disse! Da última vez que estava feliz com um cara a história acabou com eu quebrando o nariz dele com um soco, se não se lembra.
- Ok, ok! Eu não vejo problema em fazer um ensaio de fotos, eu aceitaria. – Ela deu de ombros. – Desde que você se certifique de que não vai acabar com nudes seus colados pelos postes de Carlisle.
Ri fraco, balançando a cabeça para ela, e me coloquei de pé decidida a ir tomar um banho. Chutei minhas sapatilhas para baixo da cama, tirei a gravata do uniforme, puxei uma toalha do armário e fui em direção ao banheiro.
- Vou me certificar de que isso não aconteça.
- Ótimo. E você está bem? É quase impossível porque nós dividimos o mesmo quarto mas parece que nem te vi essa semana.
- É. – Comentei, já fechando a porta do banheiro no intuito de fugir de qualquer conversa que me fizesse arriscar contar sobre a expulsão. – Louco, não?
Bati a porta atrás de mim e inquiriu enquanto eu procurava por algo em meu celular:
- ?!
Dei play em uma música qualquer da Madonna.
- Não estou te ouvindo! – Gritei lá de dentro, partindo para o chuveiro.


Liam’s POV
- E se eles chegarem mais cedo? – parou junto ao batente da porta com os braços cruzados. Olhei-a de relance apenas para ter uma visão de sua figura mais uma vez; ela estava tão confortável e bonita quanto poderia estar dentro de casa. Ninguém usava moletom como ela, principalmente se era short e um casaco com dizeres patriotas da França. Voltando-me à minha tarefa, coloquei os copos em uma pilha perto da pia e, secando as mãos nas calças, virei-me para ela.
- Eles não vão voltar tão cedo. É a vovó Suzette – garanti.
- Ah, sim, claro, grande conhecida minha! – Revirou os olhos, mudando o peso do corpo de um pé para o outro.
- Ela gosta de receber bem seus convidados.
- Ok, mas deveríamos ter um plano B para o caso de darem meia volta no meio do caminho e voltarem para cá.
- É apenas uma reunião de amigos – improvisei.
- Regada a cerveja, vodca e vinho barato – fixou seu olhar sugestivamente nas garrafas que cobriam a mesa. Comprimi os lábios.
- Ponto – apontei para ela. – Se escondermos algumas garrafas, eles vão achar que é uma quantidade inofensiva de álcool. Mas eles não vão voltar.
estreitou os olhos para mim antes de encolher os ombros e balançar a cabeça.
- Não acredito que meu pai é tão burro assim.
- Ou apenas confia em mim.
- Deve ser... – debochou, soltando uma risada. Balancei a cabeça, pegando os copos e os levando até o balcão. – Bom, no que posso ser útil? – Afastou-se da porta da cozinha e veio em minha direção com uma expressão leve no rosto.
Perguntei-me o que meu rosto transparecia.
Honestamente, eu me sentia um caco.
- Pode pegar esses pacotes de Doritos e batatas chips e colocar dentro daquelas vasilhas – apontei outro canto da cozinha.
Ela assentiu e fez como eu pedi. Enquanto isso, peguei a maior jarra da casa que havia separado especialmente para aquela noite, peguei uma garrafa de vodca, um refrigerante (um dos poucos que havia comprado) e alguns pacotinhos de suco em pó.
- É estranho como eu ainda não me sinto nem um pouco à vontade nessa casa – comentou ao abrir um pacote de Doritos.
- Não é como se você passasse muito tempo aqui, de qualquer forma.
- Mas... eu não saberia achar uma peneira aqui. É algo muito útil de saber – observou. Olhei-a rapidamente, achando sua colocação estranha.
- Se um dia você quiser fazer um suco e não tiver pronto na geladeira? – Segurei uma risada e joguei o conteúdo de um saco de suco de uva em pó na jarra.
- Vodca e suco de uva? Que demonstração de maturidade – brincou , de repente muito próxima de mim e ignorando minha fala.
- É uma receita que vi na Internet outro dia.
- Quem diria que você sabe ler.
- Não sei, era vídeo – respondi, entrando em sua provocação.
- Tá explicado.
Ela mergulhou a ponta do dedo na mistura roxa e depois o levou à boca com um sorrisinho. Senti um calafrio percorrer meu corpo ao assistir aquela cena.
- É gostoso, mas tá faltando alguma coisa... – bateu os dedos nos lábios, pensativa. Será que ela estava fazendo isso de propósito? – Já sei. – Pegou uma garrafa de vodca em cima da mesa e despejou o líquido incolor dentro da jarra.
- Wow, não queremos ninguém em coma alcoólico, – brinquei.
- Você comprou três tipos de bebida e tá preocupado que uma dose dupla de vodca no suco vai causar problema?
- Ponto.
- Dois a um para mim – ela mergulhou o dedo no líquido de novo e o provou. – Agora sim.
Sorriu para mim, voltando ao seu posto anterior de encher as vasilhas com petiscos e chips variados. Mergulhei em meus pensamentos enquanto lutava para encontrar alguma coisa que pudesse dizer para não deixar o silêncio cair entre nós.
- Como está sua mãe? Tem tido contato com ela? – Era um péssimo assunto, mas eu queria ouvi-la falando.
- Da última vez... – fez uma breve pausa. – Da última vez foi no final de semana após o ano novo. Ela estava em Bali naquela época. Não sei mais onde está.
- Ela sempre viaja muito?
- Ela sempre detestou ficar em casa. Dizia que tinha crises de pânico e a deixava depressiva, que ela é um “espírito livre” – riu fraco. – Acho que nunca encontrou em meu pai tamanha utilidade quanto ficar comigo enquanto ela se joga nessa aventura de comer, rezar e amar.
- Você não quis ir com ela?
- E atrasar toda minha vida acadêmica? Não, obrigada. Ainda mais pelos motivos bobos da minha mãe. E eu detesto o namorado dela.
- Ah... ele é tão ruim assim?
- Ele é um ninguém – interrompeu-se quando me virei para lhe lançar um olhar surpreso com sua colocação. – Quero dizer, não nesse sentido. Eu não ligo pra isso.
Continuei olhando para ela.
- É sério. Eu namorei um professor. – Constatou com tamanha naturalidade que me deixou quase alegre. Quero dizer, era um assunto delicado para ela, mas, depois que me contou, falávamos com naturalidade sobre. Isso me agradava.
- Ok, estou convencido – ri. – Prossiga.
- Ele não tem redes sociais, ele não tem emprego, ele não tem família, não tem amigos... Ele é realmente muito estranho.
- Meu Deus, , isso é seguro?
- Sim e essa é a pior parte. Ele nunca fez nenhum mal a ela, nunca demonstrou traços de estar explorando sua falta de bom senso ou sendo abusivo.
- Mas você confia nele?
- Confiança é algo que se conquista e para ser conquistada, precisa de esforço. Ele nunca se esforçou.
- Nem você, eu imagino – assumi.
Ela me olhou brevemente, como se quisesse me repreender, mas se segurou.
- Eu estava ocupada demais sendo enganada pelo meu ex-namorado – respondeu, amarga.
Mordi os cantos internos da boca, triste por voltarmos àquele assunto e por ele sempre tirar o sorriso – difícil de conseguir – de seu rosto. Olhei ao meu redor, tentando imaginar outro assunto; algum que, talvez, não caísse no assunto proibido de novo.
Odiava vê-la daquele jeito.
Preferia até quando estava brigando comigo e me xingando.
- Ei! – Chamei-a, pegando um pacote de gummy bears e uma bandeja de gelo do freezer. – Pega uma garrafa de vodca.
- Por favor? – Arqueou uma sobrancelha e eu soltei uma risada.
- Por favorzinho, , minha querida – pisquei para ela e mal pude acreditar quando suas bochechas ficaram rosadas.
- Para que você quer? – Perguntou, vindo para perto de mim com a garrafa consigo.
Rasguei o pacote de gomas e coloquei um ursinho dentro de cada buraquinho da forma de gelo, depois, despejei a vodca por cima deles. Ela se sentou no balcão, olhando-me atentamente.
- Você sabe que vodca não congela, não sabe?
- O quê? Não pode ser – franzi o cenho, esforçando-me para não olhar suas pernas.
- Não congela. E se você quer mesmo fazer ursinhos de vodca, eles têm que ficar pelo menos um dia mergulhados nela.
- Um dia?
- Sim.
- Como você sabe disso? Depois eu que sou a criança.
- Você é uma criança, Liam – sorriu, tomando o pacote de gummy bears para si e jogou um na boca. – Não sabia que vodca congela.
- Ninguém sabe disso – cruzei os braços, atraindo rapidamente seus olhos para eles, o que inflou meu ego um pouco. E a vontade de beijá-la também.
- Todo mundo sabe disso. O problema é que você nunca teve que fazer seus próprios drinks na vida. Os donos das festas que você é convidado sempre são os responsáveis por prover tudo para você – sorriu ironicamente para mim.
- Nossa, falando assim, você parece uma bartender. – Aproximei-me um pouco dela.
- E se eu tiver sido uma em Paris?
- Com o dinheiro que seu pai te dá, você não precisa trabalhar para viver, .
- Um emprego é muito mais que um salário, Liam – arqueou a sobrancelha, falando mais baixo e se inclinando mais para perto.
- E o que você aprendeu? A atender bem as pessoas?
- Rá, rá. Se você vai tomar meu temperamento como base para tudo, assuma logo que era um bar de beira de estrada e eu atendia gangues de motoqueiros e caminhoneiros mal educados.
- E era o que, então?
- Nada. Eu apenas ia a muitas festas, Liam. – Ela riu e bagunçou os cabelos.
- Eu sabia! Você é nova demais até mesmo para entrar em um bar.
- Uau, eu não sabia que estava na presença do Sir Sherlock Holmes! – Riu, jogando em mim uma gominha que segurei antes que me atingisse. – Nice catch!
- Não sou um ícone esportivo da escola à toa, gatinha – pisquei para ela antes de jogar o ursinho na boca.
sorria e seus olhos queimavam os meus enquanto nos olhávamos. Nenhum de nós fez movimento para ficar mais próximos ou nos tocarmos, como era o que estava morrendo para fazer, mas não fiz porque nossa conversa atrás do dormitório fora tão decisiva e tão sincera que eu não queria dar nada menos do que queria de mim.
Se ela queria que fôssemos amigos, então seríamos amigos.
Eu podia fazer aquilo.
Esse momento que estamos tendo é agradável e simples e eu gosto disso.
Acho que finalmente estávamos aprendendo a ser amigos.
abriu a boca para dizer algo bom – foi o que eu assumi, visto o sorriso que seus lábios maravilhosos carregavam – quando a campainha ressoou pela casa.
- Eu atendo! – Ela desceu do balcão com um pulo rápido.
Por um breve instante, pensei ter notado certa urgência para sair da cozinha por parte dela. E isso me deixou intrigado: será que ela estava levando aquilo de “amizade” numa boa? Esse momento foi legal para ela também? Então por que pareceu tão apressada em sair de perto de mim?
Mas tão rápido essa dúvida surgiu, tão rápido ela foi embora quando ouvi quem era à porta.
- Harry! – exclamou e houve um pequeno silêncio depois.
O silêncio podia indicar duas coisas: eles estavam se cumprimentando e isso poderia ser um beijo ou estavam vindo para cá.
Ou indo para outro lugar.
Droga, eram três coisas e absolutamente nenhuma delas me agradava.
Calma, Liam. Você a são só amigos. Amigos. Amigos apoiam outros amigos. Amigos ficam felizes que outros amigos estão interessados em outros amigos. E o Harry é seu amigo também.
- Estamos organizando as coisas. Obrigada por vir mais cedo – essa última parte ela falou mais baixo, mas eu ainda pude ouvir enquanto eles vinham para a cozinha.
Eles haviam se beijado no hall? Eles estavam de mãos dadas? Será que eles fizeram alguma gracinha melosa enquanto vinham para cá? Tipo fazer cócegas ou bater na bunda dela?
Puta merda.
- Hey, dude – Harry me cumprimentou assim que apareceu à porta da cozinha. Virei-me para eles com o melhor sorriso falso que pude colocar no rosto. Vi que suas mãos estavam bem longes uma da outra, o que era ótimo e fazia muito sentido, já que eles nem assumiram nada.
- E aí, cara? Tudo bem?
- Tudo certo...
- Harry, vamos arrumar a sala – sugeriu.
- Não! Harry, dude, vem me ajudar com essas bebidas. Você sabe o que fazer melhor que eu – argumentei, chamando-o com um aceno.
Ele balançou a cabeça, com um ar de quem realmente “sabe tudo de bebida” e veio ao meu lado.
- Cara, você sabia que vodca não congela?! – Perguntei.
- O quê?! Não brinca!
Olhei para , que parecia um pouco brava por eu ter roubado seu parzinho.
- Viu, , só você sabia disso – sorri.
- É que eu estou cercada de gente burra – rebateu, com um sorriso mais venenoso que o meu, e saiu da cozinha.
Harry assobiou.
- Ela é fogo! – Comentou, pegando um pote de vidro do armário e me passou.
- Você não faz ideia.


Zayn’s POV
- Obrigada, Malcom - se despediu do motorista ao sairmos do carro que estacionou em frente a uma grande casa de parede de tijolos vermelhos expostos e janelas brancas. O motorista lhe respondeu algo, provavelmente lhe perguntando a hora de voltar para nos buscar, mas apenas informou que ligaria avisando quando fosse a hora.
Observei o homem acenar com a cabeça, indicando subserviência. ainda me chocava um pouco a extravagância de ter serviçais. Uma pessoa qualquer teria ganhado um carro de segunda mão dos pais e dirigiria apenas o suficiente para conseguir bancar a gasolina e os custos extras que a vida exigia, mas não essas crianças. Não, esses tinham o carro, a mesada, a vida paga e até a merda do motorista. Perguntei-me se tinha alguém em sua casa que a vestia também.
Isso foi maldoso, Zayn.
Era quase como que uma voz que falava comigo, repreendendo-me por pensar daquela forma sobre . Na verdade, ela não parecia exatamente esse tipo de pessoa, mas sempre acabava me surpreendendo por ver coisas como um motorista.
De propósito, fixei meu olhar na entrada da casa quando ela se juntou a mim e começamos a breve caminhada pelo jardim que ajudava a formar o caminho até o pórtico de entrada da casa. Em algum momento tão breve quanto a própria caminhada em si, deixei que minha mão deslizasse até a sua e entrelacei nossos dedos sem dizer nada. Como eu esperava, a reação dela foi a melhor parte. Ela estancou no lugar, olhando por algum tempo para nossas mãos como se elas fossem feitas de tecido alienígena, depois olhou de volta para mim e sorriu.
- Por um momento eu me esqueci - riu de si mesma, retomando o passo.
Quando chegamos à porta, ela apenas estendeu a mão à maçaneta.
- Não vai bater? - Perguntei.
- Não é preciso, eu sou de casa - sorriu para mim com presunção e aquela mínima menção ao período de namoro de e Liam produziu um efeito muito mais do que indesejável dentro de mim. Resolvi ignorar o máximo que pude, afinal de contas, era eu quem segurava sua mão naquele instante.
Ao entrarmos, paramos no hall de entrada. Tomei o tempo de pendurar os casacos no armário embutido na parede para observar aquele hall de entrada. Pelo menos dois metros de pé direito se estendiam sobre nós e servia de borda para um teto de mosaico abstrato que lançava diferentes cores às superfícies que a luz do sol tocava, especialmente no chão de mármore branco. O grande espelho que ficava adjacente à porta do armário era imponente e elegante com sua moldura dourada e a mesa que o adornava logo abaixo não era dourada, mas o tom de marrom da madeira parecia combinar perfeitamente com a moldura, quase como se houvesse uma espécie de madeira de ouro.
Maldita gente rica, pensei.
À nossa frente, uma escada se estendia até o andar de cima; à direita, conseguia espiar o suficiente para enxergar a ponta de uma mesa, indicando a sala de jantar; à esquerda, uma grande porta dupla branca estava aberta, dando passagem ao ambiente a que nos guiou.
Bastou que passássemos pelas portas que a conversa dos presentes na sala cessou.
Pelo visto a festa não havia começado ainda.
- Oi para vocês também - murmurei ao passar por e Niall, ela largada no sofá e ele sentado no chão entre suas pernas.
- Vocês podiam ter contado para nós - foi Niall quem falou sobre o elefante branco na sala.
- Agora vocês sabem - passou a mão livre pelos cabelos e isso pareceu atrair a atenção de todos para a mão ocupada segurando a minha.
Sentei-me no sofá, puxando comigo e, para incomodar a audiência, fiz com que se sentasse no meu colo. Ela riu, nervosa com minha ação, e se sentou ao meu lado rapidamente, saindo de cima de mim.
- Agradeçam ao Spotted, porque foi por isso que tivemos aquele showzinho mais cedo - acrescentou, quase seca.
- Era justamente esse tipo de atenção que eu estava tentando evitar - respondeu, mais para mim do que para qualquer outra pessoa. Fiquei um pouco comovido com sua preocupação em me explicar porque não ficávamos juntos em público, como se ela não quisesse me magoar ou algo do tipo. era uma boa menina, ela simplesmente não podia evitar.
- Meu Deus, , você é tão popular! - provocou e recebeu uma almofadada da melhor amiga na cabeça.
- Ei! Nada de acertar a maluca na cabeça! - Foi Harry quem disse, apontando um dedo e um olhar sério para .
Antes que qualquer um pudesse repreender Harry, soltou uma gargalhada e bateu palminhas. Sobre nós, o som da campainha reverberou pela enorme e confortável sala. Liam se levantou para atender à porta.
- Nós nunca estivemos tão próximos como agora que sabemos parcelas consideráveis de podre uns dos outros - ela olhou para cada um de nós como se compartilhássemos segredos de uma vida inteira, do tipo que nos faria ser presos se alguém desse com a língua nos dentes.
Todos riram e concordaram.
- Não sobre mim - ouvimos a voz de Rebekah vindo da porta da sala. Ela tinha uma mochila rosada e reluzente que parecia abarrotada de coisas.
- Por enquanto - disse Josh, divertido.
Quando Rebekah se jogou em um pufe coberto por uma manta branca e felpuda, veio de algum canto da casa trazendo garrafas de cerveja seguradas pelos pescoços. Notei, só então, que todos tinham uma garrafa em mãos, menos , que tinha uma garrafa de suco de maçã integral. entregou uma para mim, e Rebekah.
Ela estava usando um short jeans folgado e uma blusa que caía de seus ombros, revelando a alça fina de sua roupa de banho. Notei, meio sem querer, que Harry acompanhava seus movimentos com os olhos e eu nem precisava me esforçar para adivinhar o que ele estava pensando.
- Já estão todos aqui? - Ela perguntou a ninguém em específico.
- Ainda faltam Louis e - Liam respondeu de onde estava e tomou um gole de sua bebida.
Ao meu lado soltou minha mão para abrir sua garrafa de cerveja.
Eu nem havia reparado que ainda estávamos de mãos dadas.
E, honestamente, minha pele sentiu falta do contato da pele dela.
Fuck me.
- Não quero mais esperar, honestamente. Estou aqui desde as três horas da tarde e estive esperando todos vocês – Harry reclamou.
- Não é como se você tivesse que ter vindo mais cedo, Styles – Liam retrucou com implicância.
- Eu concordo com Harry – disse . – Estou louca para ver se a Barbie sabe escolher uma piscina – provocou Liam, que lhe mostrou o dedo médio.
Por um momento, eu havia me esquecido que a ideia toda daquela reuniãozinha era testar o novo sistema de luzes e aquecimento da piscina dos -Payne. Na verdade, até me chocava um pouco a ideia de que eles não tinham isso ainda. Ter esquecido não queria dizer que eu já havia dissecado a ideia inteira na minha cabeça, pensando em como seria estar na casa de um amigo rico, com várias outras pessoas ricas e seus malditos costumes de gente rica.
Desde que o convite fora feito, a roupa de banho era o ponto central de todas minhas especulações. Primeiro eu pensei se os caras iriam usar sunga e se isso implicava que eu deveria usar também – o que não iria rolar. Detesto sunga e imagino que as garotas também não devem achar nada atraente. Bom, eu não me sinto atraente naquilo. Aí eu pensei no que pensaria de mim se me visse nesse traje de banho. E foi a partir daí que eu perdi o controle dos pensamentos: me perguntei o que ela usaria. Um maiô? Com certeza acentuaria sua aura elegante e clássica, combinando perfeitamente com ela. Mas se fosse um biquíni... puta merda. Eu acho que explodiria. Só de imaginá-la num biquíni provocou reações inesperadas em mim, numa escala que eu nunca havia sentido com ninguém. Nem mesmo Mandy em meus sonhos mais imundos.
Imaginar – e ver – num traje tão íntimo fazia meu coração acelerar, minhas mãos ficavam úmidas e uma ereção se formava, naturalmente. Mas a ideia de vê-la assim me causava uma forte sensação de proximidade, de conforto, como se aquele fosse só mais um estágio – e, bizarramente, não o mais importante – para conhecer um pouco mais.
Eu estava muito fodido.
Já havia notado isso algumas vezes.
E, agora, sentado ao lado dela, vendo-a brincar com a alça da bolsa de ginástica que ela havia trago com suas coisas – com sua roupa de banho – enquanto olhava a confusão se formando alegre e descontraidamente entre Liam e , enquanto esperávamos a decisão de ir ou não para a piscina sem o casal-magia, eu estava ansioso pra caralho.
- Quem vota agora? – sugeriu ao levantar a mão para o alto.
- Eu! – gritou, pulando do sofá e jogando Niall para frente no processo. – Ops, desculpe – ela se inclinou para ver se ele estava bem e, depois, foi para o lado de , como se aquilo fosse uma espécie de montagem de times e ela fora escolhida.
- Também voto por agora – falou da poltrona onde estava esparramada.
- É o bastante para mim - riu sozinha e puxou Harry pela mão, levantando-o do chão.
Em seguida, todos pareceram concordar, então, com a vontade de e se levantaram de onde estavam acomodados na grande sala. Alguns segundos depois, o grupo estava dividido entre garotas no quarto da , garotos no quarto do Liam.
O quarto dele era até muito sem graça para os padrões da casa e não me lembrava em nada Liam. Geralmente os quartos têm a cara de seus donos, mas este tinha toda a impessoalidade das paredes brancas, da roupa de cama cinza-acetinado e grandes janelas que davam para o enorme quintal da casa. Eu e Niall fomos os únicos que nos trocamos dentro do banheiro; Liam, Harry e Josh ficaram à vontade uns com os outros no quarto.
Quando descemos, as meninas já nos esperavam do lado de fora da casa, não à beira da piscina como eu imaginava, mas perto da jacuzzi do tamanho de uma piscina infantil que, de tão quente, liberava vapor. Ainda era dia, mas o frio do inverno nunca havia nos deixado, apesar de que o período de temperaturas mínimas havia passado.
Havia também uma piscina, mas essa não parecia quente, apesar de eu ser capaz de jurar que aquilo ali também vinha com a função de aquecimento.
Depois que a admiração pela jacuzzi gigante e aquecida, olhei à minha volta procurando o único objeto de meu interesse: .
Avistei-a vindo ao meu encontro.
Puta merda.
Puta merda.
Ela estava de short por cima do biquíni, mas eu ainda podia apreciar seu tronco branco e macio, reparando na forma que o tecido grosso do biquíni abraçava cada curva deliciosa de deu corpo. Abaixo do short, as pernas - que são minha parte favorita de seu corpo - estavam à mostra, longas e bonitas. Suas coxas tremiam um pouco enquanto andava e achei aquilo a coisa mais sexy que já havia visto.
E eu já vi muita coisa.
- Você está babando - ela sorriu para mim quando me alcançou.
- Há alguma outra reação possível a você?
Suas bochechas ficaram coradas.
- Você também não é de todo mal - piscou.
- Disso eu já sabia - sorri de volta.
- Se o casal não se importar, nós já vamos entrar - Josh gritou, já com os pés dentro da água.
Nesse momento, a campainha tocou.


’s POV
Louis tocou a campainha da enorme casa dos Payne – chamar de “casa” era uma modéstia, porque aquilo era uma mansão das grandes, apesar de não chegar aos pés da de Josh. Meu celular vibrou e peguei-o do bolso, lendo a mensagem que havia chegado:
“Estou em Carlisle hoje, de quantos frascos vai precisar?”
Rapidamente digitei:
“Nenhum.”
Bloqueei o celular e o guardei, olhando para a porta bem a tempo de ver Liam abrindo-a para nós com um sorrisão.
- E aí, mate! – Louis o saudou, entrando em minha frente com uma sacola cheia de Kit Kats e marshmallows. – Onde eu boto isso?
- Leva na cozinha. Aliás, você tá com um... – Liam foi dizendo, mas Louis já havia sumido dentro da casa. – Chupão. Hey, . – Ele me cumprimentou também e empurrei a garrafa de Bacardí de mojito para o seu colo.
- Hey – arrastei o “y” e olhei em volta enquanto tirava meu casaco. A antessala estava organizada, mas podíamos ouvir o barulho dos outros no próximo cômodo. Provavelmente éramos uns dos últimos, senão os últimos. Se não fôssemos, Louis não teria aquele chupão.
- Cara, já temos álcool para uma semana... – Ele olhou para a garrafa em sua mão enquanto fechava a porta. Deu de ombros e me olhou. – Melhor sobrar do que faltar, não é mesmo?
Assenti.
- Vem, já estamos nos preparando para entrar na piscina. – Ele me guiou para a sala onde ficava a porta de vidro aberta que dava para a piscina e de onde vinha o barulho da conversa.
- Cadê a música, Payne? Está silencioso demais para uma festinha. – Provoquei.
- Ah, é, tem isso! Ali tem um amplificador, já está ligado, se você quiser pode colocar o seu celular.- Indicou para a estante onde havia uma TV e uns aparelhos de som.
Enquanto Liam voltava para a piscina tirei meu celular do bolso e coloquei tocar a primeira playlist de festa que encontrei, conectando o celular ao amplificador e dando play. Louis me assustou ao me abraçar por trás e rodear minha cintura, beijando meu ombro.
- Essa é boa. – Comentou e concordei, era Ride do Twenty One Pilots. – Suas coisas estão aqui.
Virei para ele e ele me entregou a mochila onde estavam nossas roupas. Louis já estava só de calção.
- Você é rapidinho para tirar a roupa, hum? – Levantei uma sobrancelha e ele riu, se afastando para ir para a piscina.
- Por que você não paga pra ver? – Murmurou, em tom de brincadeira. Ele afastou meus cabelos para trás e passou as duas mãos por meus ombros até meu pescoço, me beijando de leve. – Tem um banheiro na primeira porta do corredor se quiser...
- Eu já estou com o biquíni por baixo.
Louis olhou meu corpo inteiro por um momento, e assentiu por fim.
- Hm, okay.
Deixamos a mochila ali e eu o segui até a área da piscina onde estava todo mundo, a maioria já dentro da água conversando e rindo. A música que estava tocando lá dentro também estava tocando ali fora, em pequenas caixas de som escondidas debaixo da calha da casa. , e eram as únicas que estavam na jacuzzi, Niall estava pegando uma long neck de Budwiser na mesinha ao lado da piscina, estava sentada na borda da piscina com os pés na água aparentemente sendo persuadida a entrar por Zayn e Rebekah era a única garota na água junto com o restante dos garotos.
- Até que enfim, cara, a gente pensou que você tinha se perdido na imensidão do gramado dos Payne! – Josh gritou para Louis levantando os braços no ar.
- Você é um ótimo exemplo para falar, né? – Liam respondeu. – Cara que tem uma fucking pista de corrida em casa.
- Cara, tá frio demais aqui! – Louis cruzou os braços. – A água tá aquecida?
- Entra e descobre!
- Louissss! – percebeu nossa chegada apenas naquela hora e saiu da jacuzzi para vir nos receber. Ela veio quase correndo e, no tempo que ele levou para se virar para vê-la, ela já estava diretamente atrás dele e o empurrou pelo peito de costas na piscina.
Os que estavam lá dentro riram e gritaram, e levou um banho com a água que respingou da queda dele, o que a fez decidir entrar de uma vez. me olhou ainda rindo e levantou as mãos.
- A única regra é que todo mundo tem que se molhar!
- Parece justo. – Concordei dando de ombros e tirei minha blusa para indicar que eu ia chegar lá eventualmente, e a vi entrar na piscina sendo seguida de .
Havia um banco de madeira vazado que cercava a jacuzzi e algumas toalhas e roupas secas estavam lá em cima, então decidi deixar minhas roupas lá também.
- Oi, ! – saudou e eu acenei, passando as mãos pelos braços. Realmente estava frio para ficar fora da água quente e, olhando par o céu cada vez mais cinza e escuro, eu podia apostar que aquela festinha na piscina não ia durar muito tempo. – Tem que entrar logo para não perder a coragem. – Ela riu, parecendo ler minha expressão.
- Tem razão – concordei.
Tirei o resto da roupa deixando ali onde não molharia fui buscar uma cerveja da mesa onde elas estavam antes de ir direto para a piscina grande. Coloquei os pés na água primeiro, sentando na borda, e para minha felicidade estava morna, o que me motivou a entrar sem dificuldade e me escorar na borda para tomar aquela cerveja.
Eu não lembrava da última vez que havia estado em uma piscina, e isso era bizarro. Lively tinha uma em sua casa em Hamburg e quando tínhamos por volta de nossos quatorze anos a gente passava horas todos os dias na água, depois da escola até de noite, e nos fins de semana o dia todo, só saindo para comer; fizemos aquilo por tanto tempo que chegamos a enjoar, e depois disso, não me lembro mais de uma festa na piscina em que eu estivesse sóbria o suficiente para sequer perceber. Eu lembrava de mais de uma ocasião em que alugamos um quarto no hotel mais alto da cidade, Kevin e eu, onde havia uma piscina suspensa na sacada toda de vidro e com luzes que trocavam de cor debaixo da água. Aquilo, misturado ao LSD, me fazia sentir em queda livre e apesar de no começo ser como entrar em uma montanha russa, logo me fazia passar mal.
Ugh, aquilo definitivamente não era uma boa lembrança.
De repente me senti ansiosa por saber que estava sem tomar nenhum remédio por algumas horas e começava a me sentir mais lúcida que o normal – o que inevitavelmente significava lembrar dessas coisas com mais facilidade ao invés de ficar a maior parte do tempo presa a detalhes idiotas à minha volta.
Tomei a garrafa praticamente inteira em grandes goles e deixei-a e de lado na borda da piscina, mergulhando para molhar os cabelos.
O álcool teria que servir.
Quando voltei à superfície a primeira coisa que senti foi um pingo gelado em minha testa. O aglomerado de nuvens negras no céu diretamente acima de nós não mentia, aquela festa acabaria em minutos. Ninguém ali dentro pareceu perceber, aparentemente, pois estavam mais ocupados jogando água um no rosto do outro, rindo de piadas internas ou se beijando em um canto.
Louis surgiu e jogou água em meu rosto também.
- Há há. – Respondi, mostrando-lhe um sorriso. – Não vou entrar na sua.
- Poxa, que chata.
O observei se aproximar devagar enquanto me jogava água vez ou outra.
- Devo te avisar que eu sei umas táticas de afogamento.
- Eu absolutamente não duvido disso. – Ele riu, finalmente chegando até mim e tocando minha cintura.
Louis me beijou mas me afastei, divertida com o comentário.
- Man, que você pensa de mim?!
- Ah, você tem cara de quem conhece umas boas táticas de guerrilha também.
Ri, Louis era um palhaço.
- E o que mais? – Quis saber.
- Hm... – Me beijou de novo. – Que dorme com uma faca embaixo do travesseiro e essas coisas.
Aquela não estava assim tão longe da realidade, e minha expressão entregou esse pensamento, fazendo com que ele se afastasse dessa vez. Trocamos um olhar que dizia que nenhum dos dois tinha mais certeza de se ele estava certo ou não, e por fim nós rimos.
Um trovão reverberou longe dali e, dois segundos depois, a chuva começou a cair. Incrivelmente, algum dos outros – que eu não soube dizer quem foi – exclamou em reprovação como se não tivesse visto aquilo prestes a acontecer. Todos começaram a sair da piscina, mas há esse ponto eu estava beijando Louis novamente e só percebi pela movimentação.
- Ali tem toalha, não entrem sem antes se secarem que eu não vou limpar chão por ninguém! – Liam ordenou, e as conversas continuavam em volta de nós, mas Louis era só mãos em meu corpo e a chuva estava caindo e a diferença de temperatura com a água da piscina me arrepiou e eu não conseguia me afastar dele e nem ele de mim.
O barulho foi cessando enquanto eles entravam correndo na casa e quando a chuva ficou forte demais fomos obrigados a sair também. Louis me largou relutantemente e ri fraco, indo na frente para dá-lo tempo de se recompor. As coisas estavam esquentando, não só ali, mas nas noites que nos encontrávamos na sala de ginástica, nos períodos entre minha aula de educação física e a dele nos banheiros do ginásio ou em algum canto da biblioteca às vezes antes do jantar, mas ainda estava implícito para os dois que nenhum daqueles momentos nos dava privacidade ou conforto suficiente para darmos um passo à frente.
Havia um pequeno espaço em volta da jacuzzi que era coberta, então foi lá que nos secamos para entrar novamente na casa. Uma vez lá dentro, Liam fechou a porta de vidro e todo mundo deu um jeito de ir se trocar já que era meio óbvio que aquele tempo não nos permitiria voltar para fora tão cedo.
Todos secos novamente, todos na sala, uma música famosa do Justin Bieber estava tocando e todo mundo se olhava para decidir o que fazer agora. Rebekah veio do banheiro do corredor já de roupas secas e secando a ponta dos cabelos vermelhos em uma toalha de banho.
- Well – suspirou. – Essa festa virou um enterro.
- ... Alguém aí tem um baralho? – Niall sugeriu, meio querendo rir, enquanto ditava o ritmo que a reunião estava fadada a tomar.
- Ah, ok, ok, não temos mais a piscina, mas isso não significa que o rolê tem que morrer! – Harry disse, levantando as mãos no ar. – Temos álcool para alimentar a turma inteira do terceiro ano por uma semana.
- Aliás, valeu por isso Josh. – Liam comentou. – Eu achei que tinha dito que cada um trouxesse o que queria consumir, devo presumir que você vai tomar todos os três fardos de cerveja sozinho?
- A ideia foi da Rebekah. – Ele segurou uma risada.
- If I have to, Payne. – Ela deu de ombros. – Não seria a primeira vez.
- O Harry tem razão – Louis se jogou no sofá ao meu lado, depois de ter voltado de onde estava trocando de roupa. – E temos a internet para nos dar muitas ideias de jogos legais para beber – ele mexeu as sobrancelhas, sugerindo.
- Por favor, sem mais Eu Nunca ou Verdade e Desafio – Zayn reclamou e concordei, de alguma forma.
- Eu conheço um jogo... interessante para nos fazer usar aqueles fardos do Josh. – Harry olhou em volta planejando alguma coisa, e franzi o cenho olhando para Louis, achando interessante o fato de que ninguém havia cortado a fala de Harry ou o mandado calar a boca como era de praxe quando ele sugeria qualquer coisa.
- Não subestime o Harry quando tem a ver com ideias para beber. Ele é o melhor nisso. – Ele explicou em meu ouvido, e achei engraçado.
- E como é?
- O original se chama True American, mas vamos precisar afastar um pouco os sofás e pegar umas cadeiras da cozinha.
- Isso é seguro, Harry? – o olhou, parecendo tão duvidosa quanto eu e o resto deles.
- Na verdade – se apoiou nos joelhos e abriu um sorrisinho de quem sabia onde o amigo (?) queria chegar. – True American é bem legal. – Admitiu.
Devia ser uma coisa deles, porque ninguém mais parecia saber do que estavam falando, mas tirando alguns olhares duvidosos de alguns de nós, todos levantamos e começamos a ajudar Harry a arrumar a sala para jogar o tal jogo.
Afastamos um pouco os dois sofás, Louis e Josh trouxeram todas as latinhas de cerveja e minha garrafa de Bacardí da cozinha e as organizaram de uma forma estranha em cima da mesinha de centro conforme Harry os instruía, ajudou Niall a trazer quatro cadeiras da sala de jantar e eles colocaram uma em cada canto da mesinha. pediu que a ajudasse a jogar todas as almofadas dos sofás no chão em volta das bebidas e, por último, quando vi, ela havia trazido um saco de lixo preto da cozinha e o alocado em um canto da sala.
- Espero que isso não seja um tipo de ritual em que vamos acabar a noite tendo que esconder um cadáver. – Comentei, observando a mesa de centro com uma garrafa de Bacardi bem no meio e todas as latinhas de cerveja empilhadas formando um X em volta dela.
- Se formos fazer isso, ainda bem que você está aqui. – Zayn alfinetou e só fiz uma careta para ele.
- Ok, prestem atenção, o jogo é o seguinte: - Harry bateu as mãos e começou a explicação. – O chão é lava.
Alguns exclamaram, finalmente se dando conta que talvez aquela fosse só mais uma ideia ridícula de Harry, e outros riram de nervoso.
- Só escutem! – pediu. – É legal, de verdade.
- Ok, continue. – pediu para ele.
- Valeu. Hum, esse é o castelo. – Ele indicou as bebidas na mesa. - O Bacardi é o rei e as cervejas são os peões. Vamos nos dividir em times, e o objetivo é que quem chegar primeiro no rei ganha, mas para isso precisamos tomar todas as cervejas primeiro.
- Ok, ok... – Josh esfregou as duas mãos assentindo. – Isso está ficando interessante... E como isso funciona?
- Cada um joga uma vez em sentido horário e cada jogada te dá a chance de andar uma, duas ou três vezes, sem tocar no chão, é claro, porque...
- O chão é lava. – Harry complementou. – Então quem tocar no chão perde, e só volta para o jogo depois de um shotgun.
- Como a gente decide quem se move? – perguntou, atenta.
- Existem três tipos de jogadas diferentes. A primeira é: todos nós escolhemos um número de um a cinco – Harry explicou e levantou quatro dedos os levando até a testa para explicar como fazer. – E a pessoa que tiver escolhido o único número que não foi repetido anda uma vez.
- A segunda, você fala uma frase conhecida e a primeira pessoa que completar a sua frase anda duas vezes. – continuou.
- Ou a terceira, em que você cita duas coisas que têm algo em comum, e a primeira pessoa que disser o que elas têm em comum anda três casas. Por exemplo...
- Ron, Hermione. – disse.
- Harry Potter. – Harry respondeu. – Se eu for o primeiro a responder certo, eu ando.
Eles estavam se ajudando, mas era impossível não notar que apesar disso não se olhavam na cara em momento algum.
- Só pode pegar uma cerveja quem estiver em cima de uma das cadeiras, então administrem bem suas cervejas, porque quem ficar sem uma latinha na mão ou com mais de três sai do jogo e também só volta com um shotgun.
- E por quê do saco de lixo? – perguntou, apontando para o canto da mesa.
- Ah, tem outras regras aleatórias que têm que ser seguidas no jogo. – riu. – Tipo: quando eu termino uma latinha, se quiser posso gritar “TODO O LIXO VAI” e vocês todos têm que responder “NA ZONA DO LIXO!” e jogarem todas as latinhas que encontrarem na zona do lixo – apontou para o canto da sala.
- O jogo original é americano, mas como somos ingleses, podemos gritar fatos aleatórios da história britânica há qualquer momento durante o jogo, mas todos eles têm que ser mentira.
- Por exemplo: a princesa Diana era lésbica. – levantou as mãos.
- Piggybacks com seus parceiros de equipe podem e devem ser utilizados durante o jogo e...
- Beber muito é essencial. – terminou a explicação.
- E essas regras fazem o quê? – perguntou. – Dão pontos?
- Não, mas elas são divertidas. – riu. – E essa é a melhor parte.
Para dividir os times, Harry contou até três e todos levamos um número de um a cinco até a testa. Os que colocaram o mesmo número eram um time, e eu fiquei com (que só estava tomando suco) e Rebekah.
- Ok, como decidimos quem começa? – Niall quis saber de uma vez.
- Quem se dispor a fazer um shotgun e tomar a cerveja mais rápido começa. – indicou para a mesa.
- Eu vou. – Harry pegou uma latinha. – Mais alguém?
- Eu – Josh pegou outra.
- Malik? – Harry provocou e Zayn, revirando os olhos, pegou uma também.
- Eu também vou. – Decidi por último e peguei uma latinha.
estava voltando da cozinha com uma faca para cada e, quando contou até três de novo, nós quatro furamos o fundo da latinha e tomamos a cerveja pelo furo, o que te obrigava a beber tudo em uma velocidade extraordinária. Para evitar espirrar muita cerveja abri a tampa da lata, mas isso me atrasou e quem terminou primeiro foi Harry, jogando a latinha no chão e correndo pegar outra.
- Todo mundo pega uma latinha! – gritou e todos pegaram uma (menos ). – Encontrem terra firme! – Ela gritou, indo pular em cima do sofá como uma criança.
- The floor is lava, the floor is lava! – Harry gritou, rindo.
Eu e Louis brigamos por uma almofada e o empurrei tomando o lugar antes dele e rindo de sua cara.
Devo acrescentar que eu não estava botando fé nenhuma naquele jogo, mas de qualquer forma começamos e, menos de dez minutos depois, todos já havíamos bebido pelo menos umas cinco cervejas e o jogo só ficava mais ridículo e incrivelmente hilário.
- Um, dois, três, vai! – gritou na vez dela e todos levamos um número à testa. Fui a única a colocar um, então andei um espaço e fui parar em uma das cadeiras, onde eu tinha que pegar uma cerveja da mesa. Peguei uma delas e terminei a que eu já tinha em mãos, amassando-a e gritando:
- TODO LIXO VAI...
- NA ZONA DO LIXO! – Eles gritaram de volta e jogamos as latinhas vazias no saco de lixo do canto da sala.
O próximo a jogar era Liam. Ele levantou as duas latas que tinha nas mãos e gritou:
- Mammaaaaa...
Ao que Niall, que era de seu time, respondeu rapidamente:
- Just killed a maaaaan!
- Droga, eu quase fui mais rápido! – Harry reclamou.
Niall andou duas vezes e pegou mais uma latinha, quase fazendo a cadeira virar quando subiu nela e gargalhando de seu quase tombo quando todos gritaram.
E assim as latas empilhadas em cima da mesa foram sumindo uma a uma, a uma velocidade assustadora, e quanto mais latas voavam para o saco de lixo no canto da sala, mas todos nós ríamos de coisas ridículas.
Em algum momento, gritou:
- A rainha é um reptiliano! – Levantando sua cerveja no ar.
Harry e Liam quase morreram de rir, e Josh perdeu o equilíbrio e caiu na lava, levando um coro de vaias e tendo que fazer mais um shotgun para voltar par ao jogo.
Quando era vez de novamente ela disse:
- e !
Meu cérebro já não estava processando mais as informações tão rápido quanto antes, mas todo mundo precisou de um tempo para tentar adivinhar qual era o jogo que ela escolheu. Ok, era algo que tínhamos em comum. Eu e nos olhamos, mas não tínhamos nada em comum.
- Uh... Dois peitos. – Zayn disse, vacilando quando o empurrou pelo ombro, mas se esforçando para não cair da cadeira onde estava de pé.
- Não!
- ... Personalidades assustadoras? – Josh tentou, de forma tão ingênua que eu e rimos alto.
- Não!
- ALMAS? – Louis chutou.
- Definitivamente não. – brincou e riu.
- Não, nada disso! – disse, a voz arrastada.
- O que é então?!
- As duas são as únicas morenas aqui! – apontou.
- Ugh, qual é. - , ao lado dela, a empurrou e caiu da almofada onde estava.
- LAVAAA! – Harry gritou.
foi forçada a fazer um shotgun. Observamos enquanto um pouco da cerveja escorria por seu queixo e depois que ela terminou e largou a latinha no chão Zayn a beijou.
E estávamos todos tão bêbados que ninguém nem falou nada, o jogo só continuou.
Eventualmente tomamos todas as trinta e seis latas de cerveja, e a primeira pessoa a conseguir tomar um gole do Bacardi foi Niall, sendo ovacionado por todos e levando para sempre o título de rei do True American – que àquela altura devia ser algo como True Englishman. O que era engraçado considerando que ele era irlandês.

's POV
- O mundo - Louis começou a falar, mas se distraiu com outra coisa e deixou a frase morrer no ar.
Inclinei-me para frente para depositar minha oitava lata de suco naquela noite e, naquele momento, eu poderia jurar sem pestanejar que nunca mais iria beber uma gota de suco industrializado de maçã.
Pelo menos eu estarei fazendo várias viagens ao banheiro pela manhã ao invés de jurar nunca mais beber álcool como os outros adolescentes ao meu redor. Eles terão uma ressaca terrível pela manhã; concluí assim que vi a cerveja, a vodca e a tequila que alguém havia trago.
- Meu Deus, que música insuportável! - Zayn se levantou num pulo para trocar a música que tocava no celular de alguém em cima da caixa de som.
- Não, cara! É a melhor parte! - Josh implorou e começou a acompanhar a bateria da música quando ela se elevou e ficou mais intensa. Zayn apenas o encarou e apertou o botão que pulava para a próxima música. - Babaca! - Josh recolheu suas baquetas invisíveis com um bico.
A sala ainda estava uma bagunça e o saco de lixo estava mais vazio que cheio depois do True American. Louis e estavam sentados à lareira à gás, parecendo um casal saído direto de uma revista de alta moda: ele com uma beleza exótica e ela com uma beleza selvagem. What a match. Eles pareciam livres para mostrar a quem quisesse ver que estavam juntos e os breves beijos só deixavam isso mais evidente.
- O mundo tá caindo - Louis voltou a dizer agora de forma completa.
- Nossa, verdade - disse , virando-se para a grande janela escondida atrás de grossas cortinas que cobriam toda a parede da sala. Ela estava sentada no sofá maior com Zayn de um lado e do outro. - Será que vai dar para voltar para casa?
Assim que ela falou isso, outro trovão explodiu lá fora e a chuva pareceu aumentar ainda mais, lançando-se com violência contra a janela.
- Acho que não vamos conseguir voltar para casa hoje... - ela observou. - Alguém aqui está bem o suficiente para falar com a secretária da Campbell?
Todos olharam para mim.
- Nem pensar, grande coisa uma aluna avisando que não vai voltar. Ela vai rir da minha cara e me mandar pegar o próximo táxi - balancei a cabeça.
- Eu cuido disso - se levantou rapidamente do chão e quase caiu no processo, em seguida foi à sua bolsa e pegou seu celular, levando-o à orelha em segundos.
- O que ela vai fazer? - perguntou a Louis.
- Conseguir um adulto para limpar a nossa barra - ele deu de ombros com um sorrisinho que dizia "ela é assim mesmo".
- Ela tem um desses? - Josh abriu a boca, tão bobo quanto o álcool em seu sangue permitia. - Putz, eu preciso de um desses.
- Alguém conhece outro jogo? - Harry perguntou animadamente.
- Tem um, mas precisamos de um tabuleiro - Niall estalou a língua.
- Tem cartolina aí? - Liam se levantou do chão, onde estava deitado com uma garrafa de cerveja na mão pelos últimos dez minutos.
- Cara, acho que não, mas podemos colar umas quatro folhas para ficar duro e...
- Meu Deus - Rebekah soltou um grunhido. - Onde vocês moram? Debaixo de uma pedra?! - Tirou o celular do bolso e o mostrou aos meninos. - Duh? O que vocês têm de beleza falta em inteligência.
Josh soltou uma risada muito mais alta do que o que era realmente necessário, claramente tentando mostrar a Rebekah que a apoiava.
- Quem convidou a ruiva? - Niall perguntou, apontando para ela, mas falando com Liam, que riu fraco.
- Qual o nome do jogo? - Ela o ignorou, digitando em seu celular, mas não parecia ofendida, assim como os meninos que acabaram de ter sua capacidade cognitiva questionada.
- Alcooleta - Niall respondeu. - Jesus, por que todos esses jogos têm um nome tão ridículo?
- Alcooleta? - Rebekah repetiu o nome, segurando o riso e a incredulidade na mesma expressão.
- Vocês confiaram no Harry. Vão ter que confiar em mim. Vamos, veja se tem o aplicativo aí - Niall ficou corado, mas não perdeu a confiança em seu jogo.
- Hm... - Rebekah patinava o dedo na tela do celular, olhando-o com afinco, mas piscando várias vezes, como se estivesse lutando para não perder o foco. Ela era fraca para bebida. - Achei um. "Mike...", quem é Mike? - Perguntou para si mesma, realmente confusa por um tempo. Quando todos nós caímos na gargalhada, ela pareceu entender que era só um exemplo. - Ah. "Mike bebe dois shots sem as mãos e...", amei! - Ela nem terminou de ler a apresentação do aplicativo, já estava de pé, levantando o braço com o celular para o alto como se ele precisasse de sinal ou algo do tipo.
- Vamos! - , que estava muito alegre, nos dois sentidos, naquela noite, foi na cozinha e voltou com vários copos de dose numa caixa de vidro, uma garrafa de tequila, alguns limões e algumas barras de chocolate nas mãos.
- Para quê esse chocolate?! - Harry falou alto demais como se ela houvesse trazido uma arma para a sala.
- Para que ninguém entre em coma alcóolico no chão da minha casa - disse ela, numa educação passivo-agressiva, depois piscou para ele com um sorrisinho.
- E o meu suco? - Perguntei.
- Você ainda aguenta tomar isso? - questionou, encerrando sua ligação.
- Você ainda aguenta beber cerveja? - Devolvi e ela apontou para mim, como se eu tivesse resolvido toda a questão.
- Vou buscar - largou as coisas na mesa de centro, foi e voltou da cozinha com uma garrafa de um litro de suco de pêssego. Pelo menos o sabor mudou.
- Ok. Tá aqui! - Rebekah se jogou no chão ao lado da mesa de centro e todo mundo acabou por segui-la.
- Ah, minha... Hm, tia vai avisar a escola que não podemos voltar hoje - ela trocou um olhar significativo com Louis.
- Rosalie? - Ele perguntou baixinho e ela assentiu. Não dava para negar que eles estavam até imersos na vida um do outro até os cotovelos. Esse pensamento me fez questionar quanto ele conhecia...
- O que vamos jogar? - voltou a atenção ao celular de Rebekah no centro da mesinha.
- Acooleta - Niall abriu um sorriso que passava confiança e se desculpava ao mesmo tempo. - É legal, eu juro.
- Já ouvi piores - ela deu de ombros, com um sorriso mínimo.
- Ok, o jogo é simples - Niall começou a explicar, tomando o celular na mão para mostrar a roleta. - Pensem numa pizza: a borda de cheddar é a punição, ela é escolhida por último. O recheio é a tarefa e é escolhida primeiro. Depois sorteamos o nome. Essa rodinha aqui no meio é para quando tivermos que definir a letra do jogo. Beleza?
- Beleza - todos responderam.
- Show, todo mundo enche o copo de dose.
Todos obedeceram.
- Como eu sou o mais legal, eu começo - Louis se adiantou e girou a roleta. - Hm... . - Mais um giro. - Toma um gole para cada pessoa da mesa com quem ela dormiria.
- Meu Deus! - exclamou, colocando as mãos no rosto e rindo.
- Vai, ! - pegou um copo normal e encheu até a metade, passando para ela.
- Não fiquem contando - abriu um sorriso travesso e pegou o copo.
- Um! - Louis contou e logo todos se juntaram a ele: - Dois! Três!
- Eita porra! - gritou. Cobri a boca, espantada, quando ela parou no cinco.
bateu o copo na mesa e sorriu de novo, limpando o canto da boca.
- Quem?! - Josh inquiriu.
- Vocês nunca vão saber! - Ela respondeu, rindo.
- Fala sério! - Liam exclamou. - Tem que ter alguma garota aí! Não faz sentido! Eu não conto! Ela soltou uma risada ainda mais alta.
- Minha vez de girar - girou a roleta. - ! Animal? - Ela olhou para Niall quando a roleta parou na categoria.
- Ela começa uma rodada de palavras, no caso animais. Sorteia a letra.
- Letra B.
- Barata - apressei-me em começar. Depois de mim, vinha Niall.
- Baleia.
- Droga - resmungou quando viu que a palavra que ia dizer foi dita por outra pessoa.
- Besouro! - gritou. Ela sabia desfrutar a adrenalina de um jogo.
- Boi - Zayn falou, quase desinteressado.
- Bacalhau - sorria, orgulhosa de sua palavra.
- B... B... - vasculhava a mente.
- Tempo! - Niall ergueu o punho e começou a contar os segundos.
- Ai, meu Deus! - Ela mordeu o lábio inferior e colocou a mão na testa. - Ai... Beija-flor! Beija-flor!
- Hm... - Liam olhou para baixo, pensando.
Barracuda. A palavra surgiu na minha mente e guardei para o caso de todos conseguirem falar e minha vez voltar. Esfreguei uma mão na outra, sentindo-me animada com o jogo.
- Bagre? Bagre! - Gritou Liam, aliviado e olhou para Harry, que vinha em seguida.
- Puta merda... - Ele fechou os olhos. Balançou a cabeça, com um sorriso de orelha a orelha. - Já era. - Começou a rir. - Eu só consigo pensar em banana e não é nem animal! - Ria mais e mais.
- Tempo - Niall anunciou.
- Cara, já era. Eu viro a garrafa se quiser. Não vai sair. - Riu.
- Ba... - soprou, provavelmente pensando na mesma palavra que eu.
- Ba... - ele tentou acompanhar o raciocínio dela, mas acabou rindo de novo.
- Acabou! - Niall gritou e girou a roleta. - Harry bebe três doses. Sem as mãos.
- Três doses? - Ele levantou três dedos.
- Três doses, senhor - Liam pegou três copinhos e encheu de tequila.
- Eu tô fodido - disse ele enquanto observava Liam encher os copinhos.
- Nós acreditamos em você - Rebekah riu.
Harry respirou fundo enquanto alinhava os copinhos na beira da mesa. Colocou as mãos para trás e inclinou o rosto sobre o primeiro copinho, envolvendo toda a borda com a boca.
Rapidamente, ele jogou a cabeça para trás e o conteúdo foi jogado para dentro. - Um! - Todos contamos. - Dois!
No terceiro, pouco do líquido caiu em suas bochechas, mas ele tirou o copo da boca e levantou as mãos, balançando a cabeça, tonto, mas vitorioso.
- Isso! - Todos comemoramos, batendo palmas.
- Grande garoto! - Liam deu um tapa nas costas dele.
- Minha vez? - Ele perguntou, chupando uma rodela de limão com uma careta.
- Manda ver - Josh passou o celular para ele.
- Todos respondem - ele leu o resultado do giro. - "Quem é o mais propenso a participar de um reality show? O mais votado bebe uma dose.
- Vamos falar todos juntos - sugeri.
- Beleza - concordou.
- Um, dois e já!
- Rebekah!
- Niall! - Só Harry falou o nome dele.
- Não negaria - Rebekah riu, preparando sua dose.
- Por que eu? - Niall quis saber.
- Sei lá, cara, eu pensei num reality de música, sei lá! Eu te vejo decolando, cara. De verdade - Harry se esticou para tocar o ombro dele.
- Obrigado. - Niall respondeu.
Rebekah virou seu copo.
- Vou girar! - Ela gritou, apertando o botão e soltou um grito animado ao ver o resultado. - Flip cup! Mais um giro para ver com quem... !
- Yes! - A outra comemorou, ajoelhando-se.
Tiramos tudo de cima da mesa e deixamos apenas cinco copos de cada lado; um para e um para Rebekah.
- Vai! - gritou.
virou o primeiro copo e conseguiu fazer o flip, enquanto Rebekah engasgou com a bebida, mas se recuperou no segundo copo, porque acabou derramando bebida na mesa e, por isso, o copo não parava de cair da borda, impedindo-a de fazer o flip. No último copo, alcançou Rebekah, que estava lutando para conseguir virar corretamente o copo, mas acabou conseguindo antes de .
- Isso! - Ela bateu na mesa, derrubando a maioria deles. - Arrá! Na sua cara!
Se não fosse uma atleta treinada, com certeza ela teria virado a mão na cara de Rebekah, mas ela apenas riu.
- Foi uma partida justa - admitiu, sua língua um pouco enrolada por causa da bebida.
- Agora só ela que gira? - Louis fez um bico.
- Enquanto ela ganhar, sim. Mas a gente pode dar um golpe de estado - Niall riu.
- Me encontre no meu gabinete mais tarde - Louis engrossou a voz e falou como um velho político.
- Ganhei de novo! - Rebekah comemorou. - Girando! Harry! Objetos com a letra... H! Começa! - Imã! - Ele apontou o dedo, pensando rápido demais, depois pareceu pensar melhor. - Ah, cara, vai ser o jogo inteiro assim?! - Reclamou, enquanto ríamos de sua cara e ele preparava a lata de cerveja para o shotgun.


’s
O teto estava girando sem parar. Minha boca estava meio dormente e seca, e me desencostei do sofá para alcançar meu copo na mesinha e tomar o resto da cerveja que tinha nele... ou devia ter. Virei o copo para baixo e duas gotas pingaram em meu colo, eu não me lembrava de ter tomado tudo mas aparentemente tomei.
Olhei em volta, procurando onde estavam as long necks que ainda restavam, e estavam em uma caixa com gelo perto do outro sofá. Depois meus olhos involuntariamente foram puxados para as duas figuras no chão perto delas; Harry estava mostrando para onde ela devia furar a latinha com a chave que estava segurando para conseguir beber a lata toda de uma vez só. Eles estavam de joelhos e de frente um para o outro. assentiu e levou a lata e a chave para perto da boca, se preparando e então contando: um, dois, três!
Ela furou a lata com a chave, mas o furo ficou grande demais e começou a espirrar cerveja para todos os lados, indo parar principalmente na cara de Harry que fez um escândalo e se jogou para trás no chão rindo como se tivesse sido nocauteado. O corpo de seguiu o dele, gargalhando como eu não lembrava de tê-la visto fazer antes, e ela se debruçou sobre ele, seus cabelos caindo em volta do rosto dele no chão debaixo dela enquanto eles ainda riam.
Virei o rosto com pressa, não querendo ver aquilo. Eu não queria e não precisava ver se eles iam se beijar. Mas... eles iam se beijar? Aquilo sequer fazia sentido ou eu estava alucinando?
- Amyyyy - chamou e Niall soltou uma gargalhada muito gostosa, mas não me virei para ver o que era enquanto levantava do sofá com alguma dificuldade.
- Eu preciso mijar - avisei para ninguém em especial e duvido que alguém tenha me escutado por cima do barulho da música. Tropecei numa almofada no chão indo em direção ao banheiro do corredor no andar debaixo. Tentei abrir a porta mas estava trancada, e xinguei sapateando no mesmo lugar, de repente muito ciente do quanto eu precisava me aliviar.
- Quem tá aí? - bati de novo na porta.
- !
- , por favor, me deixa fazer xixi rapidinho, por favor por favor por favor! - choraminguei batendo de novo na porta. - eu vou fazer nas calças!
- Ok, ok, Geez, relax! - disse ela, e ouvi o trinco virar. Abri a porta no mesmo segundo entrando quase correndo.
- Valeu! - Suspirei aliviada e ela riu fraquinho voltando a fechar a porta enquanto eu ia direto para o vaso sanitário. - foi mal, se não tínhamos esse nível de intimidade agora a gente tem.
- Not a big deal. - deu de ombros.
- Ela estava de costas para mim na frente da pia de mármore, aparentemente olhando a água da torneira escorrer por suas mãos. Ela fungou e encheu as mãos com água, levando o rosto até elas.
- Você t-tá bem? - perguntei, a língua um pouco enrolada dificultando minha capacidade cognitiva.
- Uh, sim. - levantou o rosto molhado e me olhou pelo espelho do armário. Seu rosto estava branco e limpo, sem nenhum tipo de maquiagem, a pele lisa, os olhos estranhamente leves. Percebi que seus olhos tinham uma cor meio acinzentada, que não chegava a ser azul, mas também não era preto. Ou talvez fosse só aquela luz. - Preciso de mais álcool. - constatou para seu próprio reflexo.
tinha uma beleza difícil de acostumar. Ela era literalmente... harmoniosa. Seu rosto, mesmo com tudo que eu não tinha dúvida que ela já havia vivido, era lívido, era naturalmente lindo, cada traço bem desenhado quase que como um desenho. Seus lábios eram cheios e avermelhados, seu nariz bem desenhado, seu maxilar levemente contornado, os olhos muito expressivos. Ela era aquele tipo de garota que fazia qualquer um duvidar da sua sexualidade - e olha que eu era apaixonada por meu melhor amigo desde antes mesmo de saber o que isso significava.
Fechei os olhos brevemente com o pensamento de Harry
e balancei a cabeça. Em seguida terminei o que estava fazendo e ajeitei o vestido, indo para a pia ao lado dela e pedindo espaço para lavar as mãos.
- Você n-não dá a mínima para o meu drama com o Harry, né?
me olhou com o cenho franzido.
- Como assim? - perguntou com cuidado, e eu ri.
- Não é uma acusação - disse, as palavras saindo meio arrastadas. - Eu quero dizer, você tem outras coisas pra se preocupar, certo? Porque aí, se eu... falar com você a respeito, vou saber que você não está realmente dando a mínima. E fica mais fácil de falar assim.
Ela pensou por um segundo e então deu de ombros.
- É, não é algo que me faz perder o sono à noite.
Sorri e desliguei a torneira, olhando para a pia.
- Você acha que eles estão juntos? Parece que estão, não parece?
abriu a boca mas não disse nada. Senti a necessidade de complementar:
- Quer dizer, ela é... Ela é, wow, não tem nem comparação.
ainda não disse nada.
- A . - expliquei.
- Eu sei que é da fucking que você tá falando. - respondeu ela meio exasperada e me encarou balançando a cabeça como se me julgasse. - Cara, você já olhou pra um espelho?
A encarei confusa. revirou os olhos e segurou meu queixo, virando minha cabeça para encarar meu reflexo com muito pouco carinho.
- Será que tá vendo o mesmo que eu?! Você é maravilhosa, !
Não sei como exatamente aconteceu, mas meus olhos começaram a arder e no momento seguinte eu estava, pasme, chorando. Eu quase nunca chorava, ainda mais na frente de alguém. Ainda mais na frente de alguém que eu conheço. Mas o álcool subiu à minha cabeça, e era assim que um organismo saudável de quem quase nunca bebia se comportava com umas sete latas de cerveja e sei lá quantos shots de tequila.
- Eu sei... mas isso ainda não é suficiente.
- ! Mein Gott... - murmurou, indo pegar um pedaço de papel higiênico e me oferecendo para eu limpar as lágrimas. - Eu honestamente não entendo como é possível você achar que não é suficiente para o Harry, sendo você essa... Escultura divina... - indicou meu corpo todo com a mão. - E ele... o Harry!
Ri fraco enquanto chorava, mas o quanto mais eu ria menos conseguia controlar o choro, e por consequência ria mais do quão idiota estava sendo.
- Eu quero dizer, você é... Gostosa, . Eu ficaria com você sem pensar duas vezes, em outra ocasião. E eu estou falando sério. - Apontou para mim quando eu bufei. - E você é inteligente, e um tipo de gênio dos esportes, e você é forte, eu quero dizer, literalmente forte, você pode derrubar alguém sem nenhuma dificuldade, quer dizer... - Ela piscou algumas vezes, vacilando no lugar e olhando para nada em especial no ar. - Eu queria poder fazer isso.
Ri e chorei mais, o que só tornava mais difícil conseguir falar qualquer coisa. se curvou para perto de mim e limpou as lágrimas que escorriam dos meus olhos passando os dois polegares nas minhas bochechas.
- Sabe quando dizem que deus é mulher?
- Tipo a música da Ariana Grande? - respondi com a voz estrangulada.
- É. - deu de ombros. - A Ariana Grande tá errada. Se deus fosse mulher, homens como eles não existiriam.
Certeza que não era só do Harry que ela estava falando, e com certeza não era de Louis também.
- Não é sobre o Harry. - Disse quando consegui conter o choro idiota. Balancei a cabeça. - quando digo essas coisas todo mundo pula direto à conclusão de que eu só mudei por causa dele, que faço tudo por causa dele. Não é sobre ele. Quando digo que isso - apontei para mim mesma. - ainda não é suficiente, quero dizer que para mim ainda não basta ser gostosa e inteligente e um gênio dos esportes ou sei lá o que mais... não basta saber que eu posso ter o cara que quiser com o mínimo de esforço porque eu...
- Ainda quer ele. - Ela concluiu. A olhei e assenti, derrotada.
abriu um sorrisinho contido e olhou para o próprio colo... E foi assim que eu fui parar sentada no balcão de mármore do banheiro de Liam tendo conversas profundas com uma que eu nunca sequer sonhei em conhecer. Era como se ela fosse outra pessoa, e eu tenho certeza que ela estava pensando o mesmo de mim pela conversa que tivemos ali. Isso é, se lembrássemos dessa conversa no dia seguinte.
Então era essa a famosa sororidade feminina em sua forma mais pura. Entre garotas bêbadas em banheiros de festas.
- Então quer dizer que eu admiti que te pegaria por nada?
Gargalhei e ela se juntou a mim. Depois de um momento funguei e sequei os olhos novamente.
- E por que você estava aqui, trancada sozinha? O que deus fez pra te provar que ele não é uma mulher dessa vez?
riu.
- Nada. Se ele existe, está me deixando em paz por um tempo.
- Good. Olha, você já deve estar cansada de saber disso, mas o Louis está te fazendo bem.
- É. - Ela mordiscou o lábio inferior por um tempo, pensando. - É, ele está. Só quero... Não ser uma bomba relógio para ele. Não quero ser... para ele o que já foram para mim.
- Eu acho que o Louis está pronto pro desafio. - Assegurei-a, sorrindo. - Porém! - fiquei séria de repente lembrando de algo e levantei um dedo no ar. - Devo avisar que se você machucar meu amigo eu vou ter que te dar uma surra.
Nos encaramos por dois segundos e então abri novamente um sorrisão. Nem parecia que eu estava chorando há dois minutos atrás.
- Mas não é justo- ah, esquece! Eu preciso de mais vodka. - mexeu as mãos no ar como se afastando os próprios pensamentos e se colocou de pé.
- Obrigada por isso, . - Me levantei também e antes que ela pudesse escapar eu a abracei forte pelos ombros. não teve escolha senão me abraçar de volta e rimos por nenhum motivo, ou talvez porque aquilo fosse muito incomum.
- Ok, chega, eu tenho uma reputação a zelar! - Ela me empurrou para longe e ri antes de assentir e ir jogar o papel que estava limpando minhas lágrimas no lixo.
- Sai primeiro, e se perguntarem a gente realmente estava se pegando.
- Deal. - Ela fez joinha e saiu do banheiro.
Ainda fiquei ali por um tempo, lavando meu rosto com água gelada para a vermelhidão sumir e não entregar o choro.
Quando voltei para a sala estava tocando uma música estranha que eu nunca havia ouvido antes e Niall estava literalmente girando no meio da sala com o braço enganchado no de .
- Meu deus, vocês vão acabar vomitando por tudo!!! - levei as mãos à cabeça, exasperada, e ri dos dois idiotas.
- Ele está ensinando passos irlandeses, mas há essa altura acho que só está inventando qualquer coisa - disse também assistindo e rindo da cena, e me atirei ao lado dela no sofá maior. Prestei atenção à letra daquela música. I was looking for a job, and then I found a job and heaven knows I'm miserable now
- Essa música é ridícula! - Ri. - Eu adorei.
- Esse é praticamente o lema das músicas do The Smiths. - apontou para mim do outro sofá e piscou.
in my life why do I smile to people I’d rather kick in the eye?
Ok, aquela música era hilária e eu precisava dançar. De repente a energia me atingiu como um ônibus e me levantei em um pulo, puxando para dançar comigo.
- Larga o seu suquinho - peguei o copo da mão dela e soltei na mesinha, a puxando para dançarmos no ritmo contagiante da música como se estivéssemos, sei lá, numa discoteca nos anos cinquenta pelo estilo daquela música. pareceu gostar ainda mais quando aquela terminou e Hey Mickey começou.
- Você tem um gosto muito estranho, ! - Ela exclamou para a garota no sofá, que parecia se divertir misturando umas coisas num copo: vodka, limão, um pouco de água tônica...
Aquela música também passou, mas minha energia não. Eu precisava fazer alguma coisa! Se parasse ia dormir!
Rodei a sala toda, me enfiando em qualquer conversa e tentando encontrar algo para fazer. Rebekah estava sentado na frente da lareira falando nada com nada para em uma conversa sobre como eclipses solares afetavam seu ciclo menstrual, e a garota estava tão focada que ou ela estava entendendo aquela viagem ou sabe-se lá o que estava rolando dentro daquela sua cabecinha e ela nem estava ouvindo. Harry e ... Eu decidi passar longe daqueles dois. Liam e Louis estavam discutindo sobre qualquer merda, grande novidade.
- Transformers é melhor sim!
- Cara... - Louis estava indignado e eles logo partiriam para a violência. - Tenha dó! Transformers nem devia ser chamado de filme!
Fiz um cotonete molhado em Louis e ele me xingou.
Josh... Josh, cadê o Josh. Bingo! Ele estava jogado em um puff, aparentemente morto. Catei uma caneta preta ao lado do bloquinho de notas na mesa onde ficava o telefone e fui até lá, me ajoelhando em cima dele.
Uma bolinha, duas bolinhas... agora uma linha beeeem...
- Você tá desenhando um pau na minha testa? - Ele murmurou, a voz rouca e pulei para trás.
- Você devia estar morto.
- Eu só tô recarregando.
- Uhum, sei. Agora me deixa terminar ou vai ficar só com meio pau, o que é pior. - mordi a língua me concentrando em terminar o desenho e Josh sentou de repente, me empurrando para longe e passando a mão na testa.
- Eu te odeio, .
- Agora é um pau borrado. - fiz uma caretinha. - Parece sujo.
Josh tentou roubar a caneta de mim mas não deixei.
Próximo rolê. Zayn agora estava dividindo o sofá menor com e eles estavam colando papéis com nomes de alguém na testa um do outro. Ok, jogo velho, se eu ficasse por ali com certeza ia dormir.
Decidi voltar para Louis e Liam. Eles ainda estavam discutindo.
- Mas é claro que o Dom ganha do Shaw! Você já viu o tamanho daquele cara?!
- O Shaw é mais rápido!
- Os braços dele dão as minhas duas pernas juntas... - Liam olhou para baixo.
- Tamanho não importa, Liam! Eu te derrubo fácil numa briga e sou a metade de ti!
- To com ele nesse. - Concordei com Louis, chegando na conversa.
- Você também acha que o Shaw ganharia do Dom numa luta até a morte?
- Eu não faço a menor ideia do que você tá falando, mas rapidez supera força. Nesse caso ser menor é uma vantagem.
- Ah, , sai pra lá.
- Eu te derrubava no segundo ano e ainda ganho de você agora! - Exclamei.
- Eu deixava você ganhar!
- Mentira cabeluda! - Louis gritou, exasperado e continuou negando enquanto Liam tentava se defender. - Não. Nop. I call bullshit.
- A ainda te derruba. - Josh chegou na conversa também.
- Então vamos apostar! - Liam abriu os braços, indignado.
- Opa, uma aposta? - Niall chegou na conversa.
- Quem ganha na lutinha? - Louis perguntou para o loirinho.
- O Liam...?
- Apostado. - ele estendeu a mão para Niall, que aceitou. - Dez libras.
- Vamos lá, . - Liam segurou meus ombros e me posicionou na frente dele, nos virando enquanto todos se afastavam com rapidez de nós dois.
Não dei tempo para que Liam sequer se afastasse para começar a brincadeira e dei um tapa fraquinho em sua cara, o fazendo me encarar, puto. Ele odiava que eu começasse sem contar. Dizia que eu era uma trapaceira. Eu adorava rir da cara dele, porque era seu ponto fraco.
- Sem chute no saco! - Louis gritou para nós dois.
- Cara, eles não vão se matar, não?
- É só até um deles cair, Horan. Quem você pensa que somos?!
Liam veio direto para mim, me segurando com os braços enormes e enfiando uma perna atrás da minha para me empurrar para trás. Caí sem tentar evitar, mas com o peso o puxei junto e a bebida ajudou a fazer com que ele caísse feito uma pedra. Me levantei com agilidade e ele também o fez, apesar de que com mais dificuldade, e eu ainda estava rindo feito uma criança para ele e pulando em sua frente debochadamente como se estivéssemos em um ringue quando ele deu a segunda investida. Dessa vez tentei passar por baixo do seu braço para ele não me derrubar, mas Liam previu e me puxou pelo pescoço com a parte de dentro do braço.
No reflexo de não cair, virei de costas para ele e meu cotovelo foi direto para o seu rosto.
Houve um silêncio depois que o Liam soltou um grito de dor, em que levei a mão à boca e me virei para olhá-lo e alguém em algum canto da sala gritou:
- Ah, droga, , você nocauteou outro dos nossos amigos!


Louis’ POV
se jogou no sofá ao meu lado e ficou atirada lá por um tempo, tão bêbada quanto eu estava aparentemente. No sofá em frente a nós estavam e Zayn, jogando um tipo de “quem sou eu” com post-its colados na testa, cada um encostado em um canto do sofá com as pernas em cima do mesmo. O nome na de Zayn era Darth Vader.
- Hã... Ahm... – estava se esforçando para tentar pensar em mais dicas, porque Zayn não havia entendido nenhuma. - Tipo... respiração pesada. – disse e Zayn fez uma careta, perdendo a paciência e arrancando o post-it da testa.
- Ah, puta que pariu. – Ele jogou o papelzinho fora. – Eu nunca vi essa coisa.
Ri e olhei para , que estava observando também e sorriu para mim.
- Eles são péssimos nisso. – Disse e ela concordou.
Depois de um momento, a garota ao meu lado se pronunciou de novo:
- Quem de nós está mais ferrado por estar apaixonado por um deles?
Mesmo que fosse meio óbvio, ouvir admitir estar apaixonada me pegou de surpresa, mas acho que ela nem percebeu o que disse. Eu também não sabia se lembraria disso no outro dia, então podíamos culpar o álcool. Porém ela havia levantado um argumento de certa forma válido, e abri a boca pensando no que responder, mas fui cortado por que se atirou quase em meu colo no momento seguinte e olhei para cima, para o seu rosto.
- Oi.
- Oi. – Ela me beijou brevemente e desceu a boca para meu ouvido. – Você acha que os anfitriões já estão loucos o suficiente para não se importarem se a gente acender um?
Me afastei dela e olhei em volta, mas não localizei nem nem Liam na sala.
- Eu vou me certificar. – Pisquei para ela e dei dois tapinhas em sua perna a fazendo me dar espaço para levantar.
Fui em direção ao corredor que dava para o banheiro do primeiro andar e ouvi barulho de água corrente quando me aproximei de lá. A porta tinha uma fresta aberta e abri mais um pouco quando ouvi conversa lá dentro, encontrando segurando um pano molhado no nariz de Liam.
- Ainda tá sangrando?! – Ri.
- Tá tudo sob controle. – levantou a mão livre, mas Liam lançou um olhar homicida para ela. – É só um pouco de sangue, não machucou de verdade, e já está parando.
- Não machucou de verdade porque não foi você!
- Todo dia nocauteando um amigo diferente.
- Mentira, porque ela só nocauteia a mim. – Liam resmungou de novo.
- Cara, a relação de vocês é literalmente um tipo de entre tapas e beijos. – Gargalhei, mas depois parei e fiz uma caretinha ao voltar ao fato de que Liam e haviam se beijado, não apenas uma, mas duas vezes agora.
- Com o tanto de álcool que o Liam bebeu ele não deve nem estar sentindo.
- Eu vou sentir amanhã. – Ele retrucou.
- Payne, não vai nem ficar inchado.
- Vai sim.
- Cala a boca, homem de deus.
Voltei a deixar a porta semi-aberta e deixei os dois ainda discutindo feito dois velhos idiotas. Estava voltando para a sala quando ouvi Josh gritar de lá:
- ALGUÉM PEGA MAIS GELO!
Dei meia volta para ir em direção à cozinha enquanto assoviava no ritmo da música que estava tocando, que era uma da Rihanna, e quando cheguei no final do corredor havia uma porta de correr com vidros foscos que dava entrada para a cozinha, que estava fechada. Franzi o cenho pois não havia notado que existia uma porta ali, provavelmente porque antes estava aberta.
Puxei a porta de correr para entrar e meu assovio morreu em um fade out perfeito ao encontrar o motivo pelo qual ela estava fechada.
estava sentada na bancada da cozinha com um Harry Styles no meio das pernas.
Felizmente, agradeci mentalmente, todo mundo estava devidamente vestido. Aquele momento podia ser muito mais traumático do contrário.
Eles se afastaram de um beijo urgente, de forma meio afobada, os braços de ainda nos ombros de Harry e as mãos dele ainda nas pernas dela, e ambos me olharam assustados. Quando percebi que o maior medo deles era que eu fosse Liam, o sorrisinho involuntariamente apareceu em meu rosto e relaxei querendo curtir o momento. Voltei a assoviar no ritmo da música enquanto caminhava tranquilamente, fazendo a volta pelo balcão onde eles estavam sem tirar os olhos deles, e indo até a geladeira. Abri o freezer, peguei um saco de gelo, fechei o freezer, voltei pelo mesmo caminho ainda assoviando, e ao sair voltei a fechar a porta.
Parei por um momento, concebendo aquele momento e precisando me curvar para dar risada com a imagem dos dois me olhando assustados.
Fiz o caminho de volta para a sala ainda rindo. Ah, aquilo valeu pela noite toda...
Entreguei o saco de gelo a Josh e puxei pela mão para ela levantar do sofá e me seguir até perto da porta que dava para a piscina.
- Ambos estão ocupados demais para cuidar o que a gente tá fazendo. – Falei, rindo comigo mesmo.
- Ótimo.
Joguei duas almofadas no chão perto da porta de vidro e eu e ela sentamos ali depois de catar o saquinho com os baseados na sua mochila. Abrimos uma fresta da porta, só o suficiente para a fumaça sair mas a chuva não entrar, e ela acendeu dando a primeira tragada antes de me passar o baseado.


’s POV
Em cima da lareira da sala de estar havia um grande relógio de inox e ele indicava que já passava das quatro horas da manhã. O mac and cheese feito por Zayn já havia acabado e, apesar de eu ter limpado meu prato, não elogiei sua comida, como os outros fizeram. Até Harry. Àquela altura da noite, estávamos todos jogados nos sofás e tapete da sala, aquecidos pela lareira a gás e garantindo que não sobraria nenhuma gota do álcool que cada um havia trazido. Eu já devia estar na terceira caixa de suco.
- Eu preciso confessar - começou , abrindo outra garrafa de uísque, a segunda de várias que o pai merecia ter roubada, segundo ela - que vocês são bem mais divertidos que a galera de Paris.
- Você falou! Não pode retirar o que disse! - Harry gritou, ao que revirou os olhos.
- Sério, meu círculo de amigos de lá era muito... Profundo - concluiu com uma careta, como se só tivesse de dado conta disso agora.
- O quê? Você acha que não somos profundos? - perguntou, enrolando-se com os pronomes. Ela estava bêbada.
- Que somos superficiais? Fúteis? - Completei sua pergunta.
- Ah, não me entendam mal... - corou. Acho que nunca a vi corada.
Ao meu lado, soltou uma risada.
- É justamente isso. I mean, o Josh só sabe falar de peitos e a levanta às cinco da manhã pra começar a se arrumar para a escola! - Levantou as mãos em defesa quando protestou. - Só estou dizendo que a tem um ponto.
- Não acredito que é isso que você pensa de nós - Louis colocou a mão no peito, forçando uma expressão de ofensa. encolheu os ombros, com um sorriso abobalhado, como se não tivesse culpa por ser daquela forma.
Liam respirou fundo e abriu outra garrafa de cerveja. Pelo que eu podia ver de onde estava sentada, faltavam apenas mais cinco daquelas para que ficássemos oficialmente sem cerveja. Passei meus olhos por cada rosto da sala enquanto meus amigos discutiam sobre a coisa mais profunda que os amigos franceses de fizeram - e tiravam sarro disso. Louis e estavam aninhados um no outro, ambos com garrafas de cerveja na mão, mas brincava com a franja de uma das almofadas do sofá de forma nervosa, o que prendeu minha atenção por um momento.
Harry tinha os pés em cima de um puff, mas estava deitado no chão.
- Bem, se vocês me permitem falar; eu tenho um grande assunto fútil para discutir com vocês, cabeças ocas – ele abriu um sorriso infantil.
Deixei de prestar atenção nele quando Niall se esticou para pegar mais do pão amanteigado que em algum momento Liam trouxe para a sala. Lembrei-me do dia em que ele fora me visitar na clínica de reabilitação e como foi natural sua presença, seu carinho, seu toque. E, apesar de tanta naturalidade, nunca conversamos sobre aquele dia.
Quando eu voltei à escola, ele estava com para me receber com um sorriso caloroso e arrebatador. Como sempre fazia comigo, mesmo antes daquela droga de aposta. E desde então, desde minha volta, ele tem sido legal e gentil, encontrando-me sempre à porta do dormitório feminino ou à porta das minhas aulas, acompanhando-me aonde quer que eu vá. E nunca estive tão confusa... estávamos namorando? Ou apenas ficando?
Não conseguia encontrar um minuto de paz: se não estava pensando sobre quanta matéria eu havia perdido nesse meio tempo afastada, estava pensando se Niall me beijaria assim que me encontrasse ao final da aula ou se eu teria que fingir mais uma vez quão estranho era quando nossas mãos esbarravam uma à outra e ambos olhávamos para direções opostas.
Quão estúpido isso pode ser? Não somos mais crianças.
- O que você acha, ? - chamou minha atenção de volta ao assunto, e percebi ter perdido a noção do que se tratava por um momento; na verdade, nem havia escutado uma palavra do que Harry dissera.
- Hum?
- Abacaxi na pizza? - Repetiu, com uma caretinha e um sorriso fraco. - Qual sua opinião sobre esse assunto “fútil”?
- E polêmico - Harry riu baixinho.
- Ah, eu gosto - dei de ombros e quase pulou ao meu lado.
- Ewww! É nojento! E não me faça nem começar a falar sobre uvas passas ou outras coisas nojentas no meio da comida. Não sei quem foi que teve essa ideia de estragar comidas perfeitamente boas com frutas doces.
Rebekah riu do pequeno surto de e a maioria olhou para ela, curiosos.
- Lembrei-me de uma brincadeira que joguei numa festa uma vez. Começou com uma opinião super acalorada que surgiu do nada, igual a da , e aí a gente começou a distribuir assuntos idiotas para os outros discursarem sobre, no melhor estilo “nem me fale...”.
- Isso é uma brincadeira de verdade? – franziu o cenho para ela.
Rebekah levantou a palma direita como se jurasse.
- Parece legal – Niall colocou mais um pedaço de pão na boca. – Eu vou primeiro!
- Hm... – Ela pareceu pensar.
- Chuva – Louis falou primeiro, sem muito interesse genuíno na conversa.
- Ok – Niall esfregou as mãos. – Hm... Ok. “Nem me fale” sobre chuva! – Ele encenou. – Primeiro que eu sou irlandês! E, se me permitem dizer, lá chove muito mais do que aqui. Sério, eu posso contar nos dedos os dias que não choveram em um ano. Sei que deveria estar acostumado com tanta água, mas não dá! Meu sonho é ir para um lugar em que a única coisa que molhe meu corpo é o meu suor! – Ele foi interrompido por , que disse “ew”. – É isso aí!
- Vai por mim, estamos muito melhor por aqui que os países tropicais. Lá é muito quente e em alguns lugares não chove durante dez meses do ano – argumentou.
- Você só passou alguns dias na Califórnia, . Não conta – retrucou.
- Just saying.
- Enfim, como eu estava dizendo – Niall voltou a falar. – A chuva pode molhar os campos e tudo mais, poderia ser a salvação da sede no mundo, mas eu acho que o norte da Europa roubou 95% da chuva do mundo. Não é justo. A Europa roubou tudo!
- Amém! – levantou a garrafa. – Malditos colonizadores.
- Obrigado – Niall estendeu a mão para ela, que a segurou e apertou com firmeza. – Fim. – Fez uma reverência e voltou a seu lugar.
- Quem mais? – Rebekah olhou para cada um de nós.
- Louis! – empurrou-o com os joelhos.
- Ok, ok! – Ele se levantou e parou de costas para a lareira, de frente para nós. – Tema?
- Brooklyn 99! – Liam gritou.
- Isso foi muito específico, mas ok – Louis apontou para ele e deu uma piscadela. – Love the show. Vamos lá. “Nem me fale” sobre Brooklyn 99! O show é totalmente épico! Quem diria que série policial poderia ser tão engraçada e não focada na velha narrativa dos crimes e das investigações! Sem falar no elenco e personagens inclusivos e diversificados! Poderia falar aqui dos personagens negros, gays, bissexuais e nas personagens mulheres, que são foda, mas vocês já perceberam que os homens da série são pessoas decentes? Eles choram! A ideia de erotismo de um dos caras é lavar o cabelo da esposa! Esse é o tipo de homem que precisa ser normalizado.
- Sim! E você já viu como o Terry fala sobre a paternidade? Ele parece todo durão, mas a forma como ele lida com as filhas... – suspirou, boba.
- Eu sou um homem e eu posso dizer que eu seria um Terry-pai – Louis completou, com um sorriso enorme.
Adicionei a nota mental de conferir a série.
Louis voltou ao seu lugar, aninhando-se entre as pernas de .
- ! – gritou. – Você é a próxima?
- Por que eu e não você? – Rebati.
- Eu já dei meu sermãozinho sobre o abacaxi.
- Vai, ! – Niall se virou para me lançar um sorriso encorajador.
Relutante, coloquei-me de pé e fui até a lareira, dando-lhe as costas. Estava um pouco mais quente ali e isso me deixava mais nervosa. Qual será o meu tema?
- Qual será o tema da ? - perguntou, parecendo interessada.
- Distúrbios mentais! - Josh gritou e todos lançaram um olhar feio para ele. Não pude deixar de sentir um misto de diversão e amor pela cena. - Cedo demais? Desculpe.
- Cedo demais, definitivamente - rolou os olhos.
- Provas - Zayn sugeriu.
- Esse tema é muito fácil, todo mundo sabe o que ela vai falar sobre provas - Rebekah reclamou.
- Universidade. - sugeriu e todos concordaram que seria um bom tema.
Assenti, já sentindo um leve desconforto. Lancei um olhar pra , que estava ocupada falando algo no ouvido de Zayn. Ok, não vai rolar de procurar abrigo ali.
Seja sua própria âncora, .
- Ok... - comecei. - Universidades são... - olhei para minhas mãos, que brincavam nervosamente com a barra da minha blusa de cashmere. - Caras. - Foi o que saiu e soltei um risada nervosa. - Quero dizer, o que é caro para nós? O Josh tem um autódromo no quintal dele, pelo amor de Deus! - Outra risada. - A verdade é que as universidades são caras e elas não custam só dinheiro. Pra ninguém. Eu tremo só de pensar na ideia. Quero dizer, não é assustador que a gente precise decidir o resto das nossas vidas aos dezoito anos? Eu não consigo nem decidir quem sou sem a ajuda de comprimidos. É ridícula a pressão que fazem sobre nós. Pro inferno com sua frase motivacional de que a pressão produz diamantes. Isso pode funcionar pra pedras, não pra uma adolescente que não consegue nem controlar sua respiração durante um ataque de ansiedade. É tão ridículo! - Minha voz saiu esganiçada, mas eu não conseguia me conter. - Ano passado eu cento e vinte horas de plantão de estudos com a Sra. Herman porque, meu Deus, se eu não for pra Oxford, eu serei a outra filha morta pra minha mãe! Por que eles fazem isso com a gente? E por que a gente deixa? Se somos nós o futuro, porque estamos deixando eles o construírem e nos dizendo quem devemos ser? Droga, Liam, você queria fazer aquela maldita aula de esgrima? A gente precisava mesmo saber sapatear, latim e matemática avançada antes dos dez anos de idade? Eu só queria ir brincar com os filhos da governanta porque ela havia se separado do marido e não tinha com quem deixar os meninos! Como é que nós podemos ser tão privilegiados e tão infelizes? Droga! - Interrompi-me quando senti os olhos arderem de tanto lutar contra as lágrimas. - Eu odeio universidades. Odeio entrevistas com orientadores. Odeio o fato de saber que elas são tão importantes que eu preciso ir atrás de uma pra ser mais miserável e infeliz. - Balancei a cabeça. - Mas tudo bem, quem sabe se a gente não vai morrer de overdose aos vinte e cinco? Ou desenvolver um cirrose? Ou um câncer no pulmão? Vale a pena?
Encarei meus amigos, que me encaravam de volta calados e com o semblante sério.
- Desculpe. - Limpei a garganta. - Fim. - Voltei a me sentar no sofá e tomei um gole do meu suco.
Ficamos em silêncio por mais alguns segundos.
Até que alguém o quebrou.
- Damn, - murmurou. – Você levou o jogo a outro nível.


’s POV
O papel higiênico do banheiro lá de baixo havia acabado e Liam subiu para o andar de cima para usar o de lá. Eu o segui porque estava me sentindo muito culpada ainda por ter acertado seu rosto. Quando chegamos lá, entretanto, seu nariz já havia parado de sangrar e o humor dele já estava um pouco melhor.
- Valeu por não contar pra ninguém. – Disse, sentando na ponta da cama dele enquanto o observava catar uma blusa que não estivesse suja de sangue dentro de sua cômoda.
- Da expulsão? – Ele me olhou, adotando aquela expressão preocupada que só Liam tinha às vezes.
- É.
- Pra falar a verdade, eu quase falei várias vezes. – Ele voltou a catar a blusa. – Eu realmente queria que você dissesse para eles logo, pra gente poder começar a planejar como vamos te ajudar a ficar.
- Vocês não podem me ajudar a ficar, Liam. – Soltei um risinho fraco.
- Podemos e você está enganada se acha que não vamos. Você viu como os caras surtaram aquele dia quando descobriram que a gente se beijou? Acha mesmo que eles não fariam qualquer merda pra te ajudar a ficar na escola?
- Eu não duvido disso, mas não há realmente nada que possa ser feito. Você não viu como a Olivia estava. Ela nunca falou tão sério, sabe.
- A gente paga uma caralhada de dinheiro pra estudar naquela escola, . Se um ou dois de nós convencermos nossos pais a fazer alguma coisa, você acha mesmo que ela vai negar?
- Ela quer me usar de exemplo. Alguém tem que ser exemplo de que as regras funcionam.
Liam apenas estalou a língua como se não estivesse me dando ouvidos at all. Ele achou uma blusa e arrancou a dele para trocar.
- Sua mãe já sabe? – Perguntou, levando as mãos à cintura e desci os olhos para seu abdome. Arquejei com aquela visão.
- Você tá malhando mesmo! – Me aproximei dele pela cama e cutuquei sua barriga com o dedo. Liam se encolheu.
- Sua mão tá gelada!
- Eu não tenho esses quadradinhos – fiz um bico levantando a minha blusa para olhar para meu próprio umbigo. – Por que é tão mais difícil pra gente? Privilégio masculino existe até nisso...
- ! – Liam afastou minha mão me fazendo soltar a blusa e olhar de volta para ele. – E aí, sua mãe sabe?
- Você acha que eu estaria viva se ela soubesse?! – Ri. – Não. Meu pai atendeu, por sorte. Concordou em me deixar contar para ela eu mesma, o que é pior, porque ela vai me matar duplamente. Mas sinto que preciso lidar com isso. – Suspirei pesadamente ao pensar naquilo e me joguei para trás na cama confortável de Liam, fechando os olhos. – Hmmm, sua cama é muito boa Liam. É até triste que você só use ela poucas vezes por ano... – Bocejei, sem conseguir evitar.
Senti Liam sentar ao meu lado, mas não me prestei a abrir os olhos para olhá-lo.
- , vai dar tudo certo.
- Uhum.
- Eu falo sério.
-... Hmm.
Liam tocou meu cabelo, e sorri fraquinho.
- Eu vou dormir.
- Dorme aí. Minha cama é pouco usada, mesmo, né?
Apenas concordei balançando a cabeça. Minha cabeça e meu corpo pesavam tanto que eu nem consegui encontrar vontade para deitar direito, me cobrir, tirar os calçados, nada. Peguei no sono tão rápido que nem vi Liam desligar a luz e sair do quarto.


Zayn’s POV
Subitamente, deu um pulo no lugar, arrancando-me de um sono tranquilo. Como que voltando a mim e ao meu arredor, olhei para baixo e, consequentemente, para ela, que ainda dormir apesar de parecer agitada no sono. Passei a olhar as outras pessoas da sala; apenas Harry, Niall e Liam dormiam no chão. O resto estava deitado nos sofás da sala ou sentados neles, embrumados entre as almofadas fofas e felpudas da mãe de Liam.
Fechei os olhos quando a dor de cabeça veio com tudo e meu estômago embrulhou - a noite passada foi real?
dormia ao meu lado, deitada em meu ombro, então acho que sim.
Levei a mão à cabeça, sem conseguir lidar com a dor que a fazia latejar.
Preciso de água. E comida.
Todos precisarão eventualmente.
Mas isso não é problema meu, é?
Bom, talvez precise. Dela eu posso cuidar.
Decidi por fazer um rápido café da manhã para nós dois. Por isso, afastei-me dela mais suavemente possivel, cuidado para que não acordasse com nenhum movimento brusco meu e me levantei.
A cozinha ainda estava bagunçada por causa do macarrão que havia feito no meio da noite, mas eu conseguiria me achar por ali com facilidade.
Mas primeiro fechei as cortinas das janelas da cozinha, que parecia incrivelmente branca por causa da ressaca e da claridade.
Peguei alguns ovos na cesta, manteiga, queijo e algum tipo de presunto que encontrei na geladeira. Mexi os ovis, acrescentando um pouco de leite no final. Peguei o pacote de pão italiano que estava em cima da bancada - e que Josh sugeriu porcamente que passássemos o macarrão com queijo no pão; o sermão de sobre carboidratos foi impagável - e cortei duas fatias, uma para cada.
Estava servindo dois copos de suco de laranja quando entrou na cozinha esfregando os olhos.
Ela parecia uma criancinha. Era engraçado.
- Graças a Deus alguém pensou em fazer café da manhã - disse ela parecendo simpática, mas algo em seu tom denunciava que ela havia entendido que eu não estava sendo exatamente a pessoa mais altruísta do mundo nesse momento.
- Ah, oi... É. - Limpei a garganta. - Acordei sem querer.
- Aham - murmurou ela indo em direção a um dos menores compartimentos do jogo de armários espetacularmente planejado da cozinha. Tirou de lá uma caixinha de remédio e veio até mim. - Parece que uma alpaca acabou de cuspir em você.
Olhei para a caixinha de aspirina, chocado com sua declaração. Ela dizia aquilo com empatia ou estava apenas me insultando?
- Hm... Obrigado. - Peguei a caixa.
Um silêncio caiu entre nós enquanto ela ia aos cantos da cozinha coletando todos os ingredientes que eu mesmo usei, mas dessa vez em maior escala. Senti-me envergonhado por um brevíssimo segundo.
Destaquei um comprimido da cartela e o engoli seco. Terminei de colocar o suco nos copos quando ela terminou de picar o queijo e o presunto para fritar junto com os ovos.
- Eu não te odeio, sabe? - quebrou o silêncio repentinamente. Virou-se para alcançar a grande frigideira que já estava no fogão e jogou tudo dentro dela.
- Eu sei - foi a resposta automática só porque eu sentia que precisava retomar o controle da situação. Não sabia por que estava tão abalado com sua presença.
Ela me olhou engraçado.
- Não sabe, não. Todo mundo elogiou seu macarrão ontem, mas eu não.
Arqueei as sobrancelhas.
- Tudo bem, eu admito que acho que você me odeia. Mas eu garanto que existem jeitos bem piores e mais diretos de fazer alguém entender que é odiado. - Soltei uma risada. - "Eu não elogiei sua comida", que fofo.
- Não acho que você seja bom pra - disse sem se importar com minha piada.
Coloquei as fatias de pão, agora besuntadas de manteiga, de volta nos pratos e me virei para ela, sentindo-me extremamente na defensiva.
- É, eu também não acho.
- Nem vem com essa de "eu não presto, mas ela me faz melhor", eu não caio nessa. Você é problema. Tá escrito na sua cara.
- Talvez seja por isso que ela gosta de mim.
- Ela não é idiota de gostar de você porque você é idiota. Ela acredita em você. E eu sei que isso é um erro.
As palavras dela foram tão certeiras que por um momento me perguntei se ela sabia de Mandy.
- Eu... - tentei argumentar, mas nada me veio à cabeça. - Você tem razão. - Suspirei, derrotado. O que pareceu surpreender .
- Não esperava uma confirmação tão sincera, Malik.
- Não há muito mais que dizer. É verdade.
O silêncio se formou de novo entre nós. Ela continuou mexendo os ovos e eu, sem saber o que fazer, e numa vontade absurda de provar pra ela que eu poderia ser bom, comecei a cortar fatias do pão para todo mundo. Ela percebeu, mas não falou nada.
Encontrei algumas frutas na última prateleira da geladeira e resolvi picar todas e fazer como que uma salada.
Sentei-me à mesa e comecei a descascar e picar. Não falamos muito mais depois disso.
Da sala, podíamos ouvir as pessoas acordando e reclamando da ressaca. Enquanto isso, movia-se com naturalidade pela cozinha, agora pegando louças, jogos americanos e talheres para arrumar a mesa.
- Mel - disse ela ao passar por mim quando colocou um prato ao meu lado. A mesa da cozinha era pequena, não caberia todo mundo. De repente na sala de jantar tivesse uma mesa maior...
- O que?
- Mel - apontou pra minha salada de frutas. - Vai ficar bom com mel.
- Ah - olhei para a tigela cheia de frutas de várias cores em vários tamanhos. - Acho que pode ser.
Ela olhou pra mim de um modo engraçado. Era quase como se ela estivesse tentando ser educada, simpática. Diferentemente de como estava sendo antes.
Acho que eu podia lidar com a se esforçando pra entender que e eu estávamos...
A palavra que faltou me pegou de surpresa, mas logo a ignorei.
Percebi que eu estava feliz por ela estar tentando. E descobri porque estava tão abalado com sua presença: eu queria a aprovação de . Por .
Fuck me.
- Deus abençoe a Rainha por vocês terem feito o café! - Louis entrou na cozinha, falando mais baixo que o normal, mas ainda sendo barulhento.
- A gente fez o café e Deus abençoe a Rainha que não teve nada a ver com isso? - retrucou.
O resto da trupe passou pela porta.
- Se você for ver a raiz de tudo nesse país, meu bem, tudo é sobre a Rainha. - Louis respondeu como se fosse um grande especialista na realeza britânica.
- A essa hora da manhã não, Louis - reclamou e se jogou na cadeira ao meu lado.
se sentou do meu outro lado e chegou perto do meu ouvido para falar:
- Você foi o melhor travesseiro que já tive. - Sua voz estava grogue e pesada, o que fez tudo parecer ainda mais sexy e um arrepio passou por mim, indo parar lá embaixo.
Agora não, Malik.
- Você babou em mim - respondi, tentando desviar o assunto.
- Eu não babei! - Resmungou ela, empurrando-me. Soltei uma risada e baguncei seu cabelo, que já estava bagunçado, com a mão que não estava melada de fruta.
Todos começaram a se servir e conversar baixo sobre a noite anterior. Mas eu fiquei ali com , falando bobagem e a forçando a comer as coisas que iriam ajudar na ressaca.
- Como vamos voltar pra escola? - Rebekah trouxe o assunto à mesa; ou tanto quanto possível, pois ela estava de pé, já que nem todos conseguiram se sentar.
Todos começaram a pensar como fariam com todos os carros que estavam estacionados na frente da casa, se iríamos com um só ou cada um com o seu, analisando os prós e contras, mas, como sempre, não chegando a lugar nenhum.
Todo mundo ainda estava com ressaca demais pra pensar, ali.


Capítulo 31

’s POV
A viagem de trem de Carlisle a Doncaster durava duas horas e meia. Pegamos o trem às oito e meia da manhã e foi incrivelmente gostoso ver a paisagem dos campos florescendo na primavera inglesa durante o percurso até lá. Éramos só eu e Louis lado a lado num banco vermelho com uma mesa pequena em nossa frente, sua mão em minha coxa enquanto ele tomava um chá e eu um café expresso. Eu estava no lado da janela e ele no corredor, e aquele vagão estava praticamente vazio e era espaçoso o suficiente para que pudéssemos falar sobre coisas idiotas e esquisitas e dar risada um da cara do outro sem que ninguém julgasse.
Em certo momento tiramos os fones de ouvido que estávamos usando e deixamos a música tocar no celular sem fone, alto apenas o suficiente para que não atrapalhasse as duas pessoas que estavam sentadas na extremidade oposta do vagão. Eu estava encostada de costas para a janela com os pés em cima do seu colo e ele tocava uma guitarra imaginária como se o instrumento fosse minha perna, acompanhando a letra de Beyond, do Leon Bridges enquanto me fazia rir. Louis parou apontando para mim no final da primeira parte antes do refrão e depois de um breve momento de suspense acompanhei a música cantando junto com o do you think I’m being foolish if I dont rush in?” levando a mão ao ouvido no estilo Mariah Carrey e o fazendo rir também.
Enquanto ele continuou na brincadeira me peguei pensando que eu facilmente continuaria naquele trem até o fim do mundo com Louis. Provavelmente nem precisaria pensar antes de decidir entrar em qualquer outro trem para qualquer outro lugar com ele na nossa próxima parada, com nada mais que nossas mochilas e um pouco de dinheiro, e continuar viajando, e conhecendo lugares, e parando só para o essencial, e continuar indo, e indo, e indo, até que fossemos forçados a parar. E isso seria, sem sombra de dúvidas, a melhor escolha de minha vida medíocre agora, da qual eu não me arrependeria independesse de qual fosse o final.
De fato, quando descemos na estação de Doncaster, enquanto ele pedia um Uber eu segurava nossas mochilas observando o pouco movimento no balcão de compra de bilhetes. Lia os nomes dos destinos que aquele lugar oferecia enquanto fazia um mapa mental de como podíamos ir parar em alguma costa do mediterrâneo há milhares de quilômetros dali em uma semana.
- . – Me chamou e indicou o carro. – Vamos?
Apenas sorri e assenti.

Chegamos na casa de sua família às onze e meia da manhã. A temperatura estava um pouco fria, mas o sol brilhava. A casa era de estilo industrial, feita com tijolos à vista e tinha dois patamares inteiros e um terraço. Tinha um gramado modesto e bem cuidado na frente, mas a entrada para os carros que ia numa pequena estrada de tijolos até o fundo do terreno indicava um pátio enorme atrás da casa.
Louis segurou minha mão e o segui até a porta de entrada por uma escada cercada por plantas de diferentes espécies. Ele me olhou e respirou fundo, abrindo um sorrisinho ansioso depois de apertar a campainha uma vez.
- Está nervosa?
- Só... – Soltei sua mão, segurando uma mão na outra em um gesto apreensivo enquanto pensava naquilo sem saber at all o que esperar. – Pensando se foi a sua melhor ideia me arrastar pra cá.
- Não é como se você fosse fazer nada melhor do que se esconder do seu pai na escola sozinha o feriado inteiro, né? Ou tinha outros planos?
- Bem, eu pensei que a gente podia ter viajado juntos pra outro lugar.
Louis me olhou surpreso.
- Tipo onde?
- Tipo, sei lá, Sunderland. Ou South Shields. Ou qualquer cidade litorânea da costa leste pra gente ficar o mais longe possível disso tudo e se lembrar que existe um mundo lá fora além do St. Bees. – Dei de ombros, admitindo que algo do tipo havia passado pela minha cabeça, e encarei Louis que me olhava sem dizer nada.
- Ok, acho que ainda dá tempo da gente voltar pra estação e fazer isso – pegou minha mão voltando para a escada de onde viemos, no mesmo momento em que uma movimentação pode ser ouvida do outro lado da porta, e o puxei pela mão de volta para a frente da mesma o xingando baixinho enquanto Louis ria.
- Droga, por que não pensei nisso?!
- Agora você aguenta!
- E você também – falamos baixinho um para o outro e então tratamos de sorrir para a pessoa que abriu a porta.
Era uma garota novinha de cabelos castanhos tipo os de Louis. Ela primeiramente o olhou com cara de tédio e, então, quando me viu ao lado dele e segurando seu braço com uma mão e a outra entrelaçada à dele, arqueou as sobrancelhas e se virou para trás gritando por cima do ombro:
- Aí, ele realmente trouxe uma garota!
Deixei escapar uma risada baixa, o olhando, ao que Louis revirou os olhos um pouco corado e passou por ela, entrando na casa e me puxando junto.
Por dentro a casa era bastante espaçosa e iluminada. Não tinha muitas divisórias e era bastante aberta, com uma grande sala de estar onde havia um sofá em L bem amplo e uma grande televisão, alguns pufs no chão e um carpete felpudo forrando tudo. A parede lateral da casa era uma enorme janela de vidro que ia quase do chão ao teto, com um belo jogo de cortinas. Num dos puffs havia uma garota sentada/deitada concentrada mexendo no celular com headphones na cabeça, e no sofá outra idêntica a ela nos olhava curiosa, ainda com o controle remoto apontado para a TV.
Na divisão aberta entre a sala e a cozinha havia uma ampla escada que subia para o segundo patamar, e a cozinha era ainda maior, com um grande e espaçoso balcão de mármore, o cômodo inteiro iluminado pela luz do sol que entrava pela parede completamente de vidro que dava para os fundos do terreno. Foi de lá que a mãe dele veio, seguida de outra garota mais velha e loira.
Em resumo: muita gente.
- E ela ainda é bonita. – A menina que estava na porta atrás de nós disse, meio chocada nos olhando.
- Cala a boca, Felicity. Família, por favor se comportem, eu trouxe visita. – Louis disse, se virando para a mãe que vinha sorrindo para perto dele com os braços estendidos para um abraço. – Não faça eu me arrepender – ele pediu antes de abraçá-la e deixar um beijo em seu rosto.
- Oi, seu bobão. – Ela se afastou dele e veio até mim, me abraçando também enquanto eu trocava um olhar com Louis atrás dela. Eu não saberia dizer se meu olhar parecia meio perdido e desesperado, mas estava entre esses dois humores, e eu gostava de imaginar que sou boa em disfarçar meu desespero. – Olá, . Você é a , certo? – Ela se afastou e me olhou.
- Sim. É um prazer...
- Johanna, mas pode me chamar de Jo. Meu filho falou muito de você nesses últimos meses.
- Tipo, muuuui-
Não pude ver o que Louis fez para calar a irmã, mas ela parou de falar com um resmungo de dor.
- Ok, talvez a gente tenha enchido um pouquinho o saco dele para que ele falasse sobre você, mas eventualmente ele falou. – A mãe dele riu, dando de ombros, e Louis surgiu ao seu lado.
- Um pouquinho, é, Johanna?!
- O que importa é que ele não mentiu nem um pouco sobre a sua beleza. – Johanna passou a mão em uma mecha de meu cabelo enquanto me avaliava parecendo um pouco surpresa no fundo, assim como as outras, e olhei para Louis meio querendo rir e meio querendo puxar o capuz da jaqueta por cima do rosto e fingir que não estava ali.
- E a parte de pegar leve será que você lembra? – Ele vociferou para ela e sua mãe se afastou um pouco estalando a língua e dando um tapinha no ar.
- Que graça tem se a primeira vez que você vir aqui não for super constrangedor? Eu esperei muito por isso, ok, não tire esse momento de mim.
- Ooookay – Louis segurou meu cotovelo e me virou para a sala onde agora o resto das irmãs dele estavam no sofá ou nos pufs, os olhando. – Já que você já conheceu minha querida mãe, agora eu vou apresentar as demoninhas. Mas só vou dizer uma vez e você provavelmente não vai lembrar quem é quem, o que é super normal. Crianças, não saiam do lugar pra tornar isso mais fácil.
Ele levantou as mãos no ar e então começou a apontar.
- Essa é a Felicity, que todo mundo chama de City, mas eu chamo de idiota. – Apontou para a garota que antes estava na porta e ela revirou os olhos para ele. – Essa é a Lottie, outra – Me olhou. – Mas ninguém chama ela pelo nome inteiro ao não ser nossa mãe quando ela está encrencada. E aquelas são Phoebe e Daisy, antes eu sabia quem era quem porque uma delas nunca penteava os cabelos mas agora as duas estão idênticas então a que fala demais é a Phoebe.
- Eu nem falo demais! – Uma delas exclamou, levantando os braços.
- Ah, ali está ela. Então aquela outra é a Daisy. – Apontou para a garota no pufe, que havia tirado os headphones para ouvir.
- Elas não eram cinco?
- É, mãe, eu não tinha cinco irmãs? – Ele se virou para a mãe. – Cadê a Georgnia?
- Ela foi passar o feriado no namorado. – Johanna me olhou. – Geo é nossa garota mais velha, e esse é o primeiro namorado dela, então...
- Mas ela pediu pra mandarmos foto se você realmente aparecesse aqui com uma garota – A gêmea que estava no pufe disse, e talvez ela tenha realmente tirado uma foto, já que o celular estava apontado para nós dois.
- Ok, ok, vamos nos comportar melhor, a gente prometeu – a Lottie, a loira, veio até nós com um ar risonho e estendeu a mão para apertar a minha. – Prazer, , desculpe nosso comportamento, nós só estamos surpresas, o Lou só mandou uma mensagem avisando e não nos deu muitos detalhes sobre se era verdade ou não.
- Eu literalmente mandei “estou levando a para casa na páscoa. Sem brincadeira. Peguem leve.” – O garoto disse, exasperado, e sorri comprimindo os lábios.
- Está tudo bem. – Balancei a cabeça, olhando. – Não é como se não recebêssemos essa reação na escola também, acho que ninguém esperava ver o Louis namorando.
- Ainda mais com você, é. – Ele revirou os olhos.
Precisei conter o mini surto ao perceber que estávamos falando mesmo sobre a palavra com N com todas as letras.
- Ok, mas... ele não tá mesmo te pagando pra isso?
- Felicity! – Houve um coro de vozes chamando seu nome em tom de bronca, e ela riu fraco se encolhendo.
- O almoço está quase pronto! – Ouvimos uma voz gritando dos fundos da casa e Johanna levantou as mãos no ar.
- Ah! Deixem as mochilas aí e venham, o Mark queria te conhecer se você realmente fosse... Se você viesse.
- Ela realmente ia dizer “se você fosse real” – Louis me olhou exasperado, tirando a mochila das costas junto comigo e abri um sorriso tranquilizador para ele. – Me desculpa.
- Tá tudo bem. – Respondi baixinho também, soltando a mochila junto com a dele no sofá enquanto o resto das garotas ia para a cozinha também. Aproveitei aquele pequeno segundo sozinha com ele para dizer: – Eu não vou fugir. Eu prometo.
Trocamos um breve olhar. Ele tocou meu rosto e me deixou um selinho antes de me puxar para a cozinha e seguirmos o resto deles para a porta de vidro.
Lá atrás, conforme o imaginei, o quintal era enorme. Havia um deck de madeira com algumas mesinhas e cadeiras espalhadas, rodeado de plantas e flores, e descendo por uma pequena escada o deck dava para um gramado imenso, com uma piscina de chão rodeada por espreguiçadeiras e alguns guarda-sóis. Mais afastado um pouco havia uma garagem e, ainda, no final da propriedade, um tipo de construção meio arredondada feita de vidro que parecia uma pequena estufa. Ainda na lateral da casa havia uma escada que subia reto até o terraço, onde parecia haver mais plantas.
No gramado perto da piscina um homem virava bifes de hambúrguer numa grelha móvel com um pano de prato pendurado no ombro. Música dance dos anos 80 vinha de algum lugar e algumas das garotas foram pegar uma mesa desmontável de dentro da garagem para montar no gramado.
- Há! – O homem correu para perto de Louis quando o viu e o envolveu num abraço paterno daqueles cheios de batidas nas costas. – Sabia que você estava falando sério! Eu fui o primeiro a defender a sua palavra quando você mandou a mensagem, que fique claro!
Louis riu e o empurrou para longe de brincadeira.
- Mark, essa é a . , meu padrasto Mark. Ele é quem me impede de enlouquecer quando eu estou em casa.
- Precisa de muita paciência pra lidar com todas elas quando estão de mau humor, sabia? – Ele estendeu a mão para mim e a apertei. – Bem-vinda, . Não liga pra nada que ninguém fale nessa casa. Aqui ninguém nunca é sério.
- E se for sério, você vai saber. – Louis confirmou com a cabeça.
- Porque elas sempre falam gritando. Só quando não estão gritando é que a coisa é séria. – Mark completou.
- Ou seja, quase nunca. – Louis riu olhando para o padrasto novamente, e gostei de perceber o quanto ele parecia apreciar o homem.
- Entendido – assenti para eles.
- Você gosta de hambúrgueres, ? – Johanna voltou da cozinha carregando uma tigela de vidro com alface e outra com tomates em rodelas.
- Claro.
- Você come carne? Porque só pra garantir eu comprei carne de soja também, e até que não parece ruim. – Mark disse, voltando para a grelha e virando um bife que era mais claro que os outros.
- Eu como carne sim, mas obrigada. Carne de soja também serve.
- Ah, aqui a gente sempre cozinha pra um exército, então acho que não vai faltar nada. Lou, pega os molhos na geladeira por favor? – Sua mãe pediu. – , você quer nos ajudar a montar?
- Eu adoraria. – Assenti e respirei fundo, grata por ter algo para fazer.
- Ótimo. Pode lavar as mãos na cozinha e depois entrar aqui na linha de produção – riu, divertida.
Eles pareciam todos pessoas tranquilas. Entendi porquê Louis era como era depois de conhecer sua família. Ali todos tinham aquele ar de despreocupação, como se nada fosse importante o suficiente para exigir muito esforço o tempo todo. E isso era o que eu achava tão estranho em Lou no começo... Mas também era o que aprendi a gostar mais nele com o tempo. Ele desacelerava o meu ritmo ansioso e frenético.
Se sentir acolhida ali não foi difícil, uma vez que o choque inicial passou.

’s POV
Não olhe.
Não olhe.
Por favor, , não olhe para lá.
Olhei.
Droga!
Por que é tão difícil não olhar? Deveria ser simples, mas pensar que eu não deveria olhar faz com que eu queria olhar mais. Talvez porque eu poderia perder alguma coisa se não olhasse. Alguma interação: uma risada, um olhar, algum toque. Mas, honestamente, eu estava mais preocupada com os olhares.
Arrumei a barra do meu vestido - sim, vestido - ao pensar, desconfortável e um pouco brava, que talvez isso fosse uma coisa dele. Talvez ele tenha interesse em todas as garotas da família e eu sou só mais uma.
Cerrei os punhos discretamente revoltada.
Filho da puta!
Olhei mais uma vez porque dessa vez eu apenas não ligava de parecer uma idiota para mim mesma.
Liam continuava lá, jogado no sofá branco de couro como quem não quer nada, e uma prima deitada no sofá, com as pernas em cima das pernas dele porque, afinal de contas, era um sofá de dois lugares. Ela estava mexendo no celular, rindo de coisas que estava vendo e mostrando pra ele, que ria também e fazia algum comentário que a fazia rir mais. Mas que diabos? Eles não se preocupavam em alguém achar que eles estavam tendo alguma coisa?
Mas que droga, só eu tinha que me preocupar com isso?
Passei as mãos pelos cabelos pelo que deve ter sido a milionésima vez naquela manhã antes de puxar meu celular do bolso do vestido e abrir a conversa da única pessoa que falava comigo ultimamente - eu bloqueei o grupo das meninas por um tempo. Depois da festinha na casa do Liam, o pensamento de tentar me desculpar passou a rondar minha mente.
Talvez eu fizesse isso mais tarde, depois do feriado.
“Me diga, esse feriado está sendo tão ruim pra você quanto está sendo pra mim?”, perguntei e já estava ansiosa por uma resposta assim que apertei a tecla de enviar.
Olhei em volta, mas não para aquele ponto em específico, tentando não balançar meu corpo. Vi meu pai e a Barbie (eu ainda acho que esse nome combina mais com ela, apesar de que agora não existe mais nenhum rancor desde que ela trouxe ao mundo aquela linda criança chamada Henry) sentados à mesa de jogos, sem jogos, conversando animadamente com uma mulher de meia idade que segurava o pequeno Henry nos braços enquanto ele dormia feito o anjo que era. Notei a mão no meu pai na perna dela, fazendo carinho com o dedão em movimentos circulares, fazendo meu coração derreter por um instante, e provavelmente o dela também. Nunca havia reparado como eles formavam um casal bonito e não só porque os dois eram pessoas bonitas, mas porque pareciam sempre apaixonados um pelo outro.
Foi assim com minha mãe? No início?
Se foi, isso quer dizer que isso também vai acabar um dia? Meu pai e a Barbie? Como terminou com minha mãe? Será que isso é um padrão de comportamento reproduzível?
A ideia de que tudo isso pudesse terminar um dia fez algo na minha cabeça despertar, algo como esperança. Mas vergonha e culpa também vieram juntos, repreendendo a facilidade com que eu via uma desgraça para o meu pai como uma coisa boa para mim.
Meu celular vibrou.
“Tá brincando? Adivinha quem veio!”
e Niall? Achei que já sabia, ela me disse que o Niall ia ficar com você”.
“Não, disso eu sabia. A porra do Will está aqui. Fuck me, right?”
“Nossa, boa sorte”, respondi contendo uma risada.
“Vou tentar pensar em você na cama quando decidir perder a aposta”.
Não consegui controlar meu rosto e senti o sorriso desaparecer do meu rosto assim que li aquela mensagem ridícula.
“Não vou”, respondi, de má vontade, por mais que ele não soubesse disso, e desliguei o celular. Mesmo.
Meu coração parecia pesado com a sensação de que nunca seria a primeira opção de ninguém. Não que eu estivesse me apaixonando por Harry, não mesmo, mas… Por que não há alguém tentando pensar em outra pessoa para não pensar em mim?
Talvez porque você tenha um talento inigualável para repelir as pessoas, , talvez seja por isso.
Bom, pelo menos eu não podia acusar Harry de não ser sincero comigo.
Eu não queria casar com o cara, mas, sendo justa, ele beija muito bem. Também quero a mesma coisa que ele quer de mim.
Mas que droga de sentimento horrível.
Voltei a pegar o celular para ligá-lo, com medo de que minha mãe mandasse alguma mensagem de felicidades pelo feriado, mas parei no meio do caminho, certa de que era em vão esperar qualquer coisa dela.
Guardei o celular, ajustei a barra do vestido mais uma vez, os cabelos e respirei fundo, pronta para esquecer tudo aquilo.
Olhei mais uma vez para a ceninha ridícula no sofá de couro. Irritei-me com as tranças desfiadas e louras da menina, a cor oficial dessa família, com suas botas de couro envelhecido e o vestido vintage colonial que ela usava. Ela parecia a fucking Anne de Green Gables loira! E, além de ser viva e energizante, a Anne ainda ficou com o melhor cara da história inteira! Ugh. Olhei diretamente para Liam, para ver se ele estava tão interessado nela como Gilbert estava em Anne, e, dessa vez, meu olhar cruzou com o dele, mas eu desviei rapidamente, desesperada por uma distração.
O que fazer num evento familiar em que você não conhece ninguém e está super deslocada?
Avistei, pela ampla porta da sala de jantar, duas adolescentes enchendo cestas de ovos e, mais atrás, a anfitriã da festa carregando uma grande travessa de vidro pela cozinha.
Bom, , faça-se útil.
Levantei-me da poltrona em que estava sentada e me dirigi à cozinha.
- …a mãe dela está na África, não aguentou a menina e fugiu com o namorado mais novo. - Ouvi uma mulher dizer a um garoto que devia ter a minha idade ao passar por eles. - Aí ficou pro pai cuidar dela. Ouvi dizer que ela deu uma festa quando eles viajaram, a casa ficou um lixo.
Pude sentir o olhar deles em mim e não tenho certeza se a intenção daquela fofoquinha era ser ouvido ou não, mas não parei de andar, muito embora minha vontade fosse de voar no pescoço da mulher e depois chutar as bolas do cara, que riu ao fazer um comentário que não consegui ouvir.
Minha mãe não fugiu, não se sabe se está na África e a ideia partiu do imbecil do Liam! Por que não espalham isso na rádio da família de vocês, também?
Senti o sangue fervilhar, mas só parei de andar ao chegar na ilha da cozinha americana daquela casa.
- Olá! - Sorri para Lucy, a anfitriã, uma senhora baixa e rechonchuda, com as bochechas bem coradas e os cachos louros pendendo do coque que ela havia feito. Uau, ela é britânica demais. - Posso ajudar com alguma coisa?
Atrás de mim, de onde eu havia acabado de passar, ouvi risadas altas e escandalosas ecoarem, do tipo que só se ri quando alguma maldade é dita e senti um nó se formar na minha garganta.
Lucy olhou em volta de si, para a cozinha que estava razoavelmente bagunçada, e sorriu para mim mais uma vez.
- Que moça bonita! - Cantou ela, colocando as mãos na minha cintura. Sorri de volta e agradeci.
- Você também é linda! - Confessei.
- Oh, que isso! - Riu uma risada típica de senhoras como ela. - Vejamos, o que há para uma moça bonita fazer por aqui? Hm… Ah, separe a louça do almoço, por favor! Trinta e cinco pratos - acrescentou.
Abri a porta da cristaleira e comecei a retirar os pratos de porcelana dali. Senti-me grata por não haver empregados naquela casa naquele momento, pois teria que me ocupar de outra forma e interação social espontânea não estava nem no último item da minha lista de opções.
A pergunta se formou e saiu de minha boca antes que eu pensasse.
- Por que não tem empregados trabalhando hoje? É um grande evento - falei enquanto contava os pratos. - Não quero ser grosseira - complementei tomada por um súbito medo de ser mal interpretada e julgada por isso.
- Imagina - ela balançou a mão no ar. - Eu passei minha juventude inteira sem empregados, porque teria agora? - Riu.
- Bom, sua família… - comecei a esboçar uma justificativa, mas percebi o quão arrogante soaria.
- Eu sei, mas não é a minha família. - Respondeu, entendendo o que eu queria dizer. - Pelo menos não desde sempre.
- Ah… - murmurei, sentindo-me sem graça.
- Meu James era tio de Maryl, sua madrasta - explicou-me, vindo em minha direção. Tirou de dentro da blusa de seda um colar de prata muito delicado com um relicário cravejado de pequenos diamantes. Abriu-o e me mostrou a foto de uma Lucy jovem abraçada a um homem de semblante grave e clássico. James. - Uma grande aventura, eu diria. Uma garota da capital ser trazida ao interior por amor. - Riu mais uma vez.
- Como vocês se conheceram? - Perguntei, certa de que aquilo começaria uma conversa e tudo que eu precisava era de uma distração .
- Eu quebrei o nariz dele por ter dito que havia dormido com uma amiga minha que estava noiva.
- Você o quê?!
- Eu acabei de dizer que ele mentiu sobre ter arruinado uma garota de vinte anos que estava comprometida no século passado, que, se me permite dizer, era muito menos condescendente com as mulheres do que esse em que vivemos agora, e você está chocada com o fato de que eu dei uma lição no safado?! - Colocou as mãos na cintura. Sua voz era séria, mas eu conseguia ouvir humor nela.
- Claro, desculpe. Ele estava errado.
- Muito! Mas aquele sangramento lavou todos os neurônios idiotas da cabeça dele naquele dia. No mês seguinte, estávamos indo ao nosso primeiro encontro…

’s POV
Durante toda a viagem até Holmes Chapel tudo em que eu conseguia pensar era: ainda bem que e Niall resolveram vir com a gente. Teria sido um dos piores momentos de minha vida ter que fazer todo o percurso acompanhada de ambos Will e Harry, mas a presença deles tornou a viagem em grupo bastante leve e foi fácil ignorar Harry o caminho inteiro – não porque eu era uma vadia desalmada que gostava de ser cruel com ele, mas simplesmente porque não sabia nenhum outro jeito de agir em relação a ele depois de tudo que rolou entre a gente.
Ainda assim, cada toque e carícia de Will – que vinham tão gratuitamente e que na maioria das vezes ele nem percebia fazer, como tocar meu joelho ou procurar minha mão e entrelaçar nossos dedos – me deixava alerta à presença de Harry e a seus olhos sobre nós. Eu queria, e queria muito, não me importar com o que ele pensava ou deixava de pensar sobre aquilo, mas simplesmente não conseguia.

A viagem durou cerca de duas horas e meia, e como saímos cedo da escola, estávamos em casa na metade da manhã. A pequena cidade podia ser novidade para William, e Niall, que comentavam vez ou outra sobre um detalhe ou uma paisagem diferente, mas para mim, tudo permanecia o mesmo. Voltar para lá sempre fazia parecer que lá o tempo funcionava diferente... que tudo era quase eterno.
A estação de trem onde nós descíamos ficava há duas quadras da nossa rua, então fomos a pé. Pelo caminho, encontramos as mesmas pessoas, com os mesmos olhos curiosos em nossa direção, fazendo os mesmos caminhos de sempre. Quase todos lá naquele lado da cidade nos conheciam como os filhos dos Carter e de Anne Styles, e vez ou outra eles acenavam, mas felizmente não fomos parados nenhuma vez por nenhum vizinho curioso para bater papo.
A rua de nossa casa era ampla e relativamente vazia, cheia de casas grandes e bem espaçadas entre si, com grandes jardins e em sua maioria sem muros ou cercas. Morávamos num dos limites da cidade e poucos quarteirões à frente Holmes Chapel literalmente terminava em uma floresta e, mais distante, em uma cadeia de enormes morros verdes. Harry e Nial iam à nossa frente numa discussão calorosa sobre alguma coisa, enquanto e Will conversavam sobre a Universidade ao meu lado e eu caminhava quieta. Já podia ver minha casa à distância, e de repente me senti nervosa, tanto por estar levando Will quanto pela coisa toda da expulsão... a qual eu não fazia ideia de como tratar e literalmente posterguei até aquele momento.

Meu pai estava mexendo no carro na frente da garagem quando chegamos, parecendo alheio ao fato de que estávamos chegando. Quando nos aproximamos ele saiu debaixo do carro e bateu a sujeira das bermudas antes de nos receber com um enorme sorriso e braços abertos para mim.
- Ahhh, o meu bebê está em casa! – Ele saudou, e não pude evitar sorrir indo direto para seu abraço apertado. Ele tinha cheiro de pai. Inspirei o cheiro do mesmo amaciante que minha mãe usava desde que nasci vindo de sua blusa e ri fraco.
- Você sequer se lembra que viríamos?
- Mas é claro que sim, quem você pensa que eu sou? – Ele me soltou, e me afastei tirando os cabelos do rosto e o assistindo ir dar um abraço igualmente empolgado em Harry. Depois que se afastou, levou as mãos à cintura e olhou para os outros três por um segundo antes de continuar: - Eu só não sabia que teríamos mais visita.
- Pai! Eu avisei a mamãe quando liguei no fim de semana.
- A memória da sua mãe só a permite lembrar das coisas erradas que eu fiz para me xingar. – Ele riu. – Mas não seja por isso, me apresente seus amigos!
- Esses são Niall e , são nossos colegas de turma – Ela indicou com o polegar e então segurou o braço de Will ao seu lado, deslizando a mão até seu pulso, mas por algum motivo parando antes de chegar a segurar sua mão. – E esse é o Will.
O olhar de meu pai em nossas mãos e o silêncio que se seguiu após o nome de Will serviram perfeitamente para me constranger.
- Will, e Niall. – Max repetiu e apertou as mãos dos três. – Prazer, crianças, podem ficar completamente à vontade em nossa casa, qualquer amigo da é bem-vindo aqui. – Sorriu amigável e eles agradeceram.
- Bem! – Harry bateu as mãos e virou as costas para todos nós, indo para a porta da frente. – Estou com fome, cadê a tia Carla?!
Algo no bom humor excessivo dele e no sorrisinho em seu rosto me irritou.
- Garoto folgado, essa nem é a sua casa! – Meu pai o seguiu, rindo.
- Aposto que minha mãe tá aqui de qualquer forma.
- E você não tá errado. Vai largar as coisas, depois vai me ajudar a lavar o carro.
- Aaaah, Max...!
Suspirei com o bate boca usual dos dois e chamei os outros três, seguindo-os para dentro de casa.
Em resumo, minha família era barulhenta quando estavam todos juntos como naquele dia. Robin era o único que não estava ali por estar trabalhando, até minha irmã havia voltado para o feriado, para a felicidade de Gemma, já que elas, assim como nós, cresceram grudadas uma na outra. Levamos todas as nossas mochilas para o quarto de hóspedes no andar de cima, menos a de Niall, que ficaria na casa de Harry, e então descemos para a cozinha onde Anne e minha mãe cozinhavam o almoço. Depois de todos devidamente apresentados, nossos amigos já pareciam estar à vontade. Gemma e Josie subiram para Jo mostrar algo para a outra em sua mala, Niall e foram convidados por Harry a irem conhecer sua casa do outro lado do gramado e meu pai voltou para a cozinha, e sobramos eu, Will e as duas mães na cozinha.
Como eu temia.
- Tem algo em que eu possa ajudar, senhora Carter?
- Você pode começar não me chamando de senhora, meu ego agradeceria. – Minha mãe soltou um risinho.
Um risinho.
Ela não ria assim nunca!
Ugh.
Anne e eu trocamos um olhar que de alguma forma dizia tudo. Mamãe estava tão obcecada pela ideia de eu levar um garoto, e um garoto decente, para casa como eu imaginava que ela estaria, e era exatamente isso que me preocupava, porque era uma situação sem precedentes.
- Desculpe. – Will riu. – Só Carla?
- Só Carla. – Ela assentiu. – Hum, você pode lavar a salada se quiser. – Chamou-o com a cabeça para perto da pia e William piscou um olho para mim apertando meu ombro ao se levantar do meu lado na mesa e ir até lá. – Então, William...
- Só Will. – Ele disse de volta, e ambos riram.
- Certo! Só Will. Há quanto tempo você e a estão juntos? Sabe, minha filha não me conta muita coisa – Ela lançou-me um olhar acusativo e apoiei a cabeça na mão, tentando evitar uma careta. Daí pra frente é só ladeira abaixo, pensei e tentei me preparar para os constrangimentos que se seguiriam.
- Ah, fazem uns dois meses, eu acho. Nos conhecemos num pub onde eles estavam comemorando o aniversário de uma amiga.
- Ah, um pub, é?
- É... – Ele riu fraco, sem graça, imaginando (corretamente) que havia me entregado.
- E como foi?
- Hm, ela sentou ao meu lado no bar e eu puxei assunto. Estava fazendo um trabalho para o curso de fotografia da universidade naquele pub aquela tarde e acabei ficando por lá até mais tarde. Felizmente, porque assim que eu vi sua filha não consegui parar de olhar. – Riu fraco, e eu sorri, sentindo o rosto esquentar um pouco.
- No bar. – Minha mãe novamente me olhou por cima do ombro.
- Eu fui pedir um Toddynho – abri um sorriso cheio de dentes, fazendo joinha com as duas mãos para ela, que estreitou os olhos antes de olhar para Will novamente.
- Estudioso, aplicado, simpático e sabe até fazer salada! Você definitivamente é melhor do que eu imaginava que seria o tipo da . – Ela riu, divertida, e abri a boca para protestar, ofendida.
Primeiro: que vergonha!
Segundo: qual ela imaginava que seria o meu tipo?!
Terceiro: que vergonha!
- Mãe!
- Santo Deus, Carla. – Anne balançou a cabeça. – Sua capacidade de deixar as pessoas sem graça sempre me surpreende.
- O que foi?! – Carla exclamou como se realmente não soubesse o que estava fazendo, e Will riu fraquinho novamente.
- Obrigado, obrigado, eu também fico lisonjeado em ser o tipo da sua filha.
- Viu só? Um fofo. – Ela apontou para ele e grunhi, deixando a cabeça cair em cima dos meus antebraços na mesa.
- Ok, ok, mudando de assunto – Anne riu divertida. – Vocês estão prontos para a caçada desse ano?
- Que caçada? – Will perguntou.
- A não te contou? É uma tradição nossa.
Levantei novamente a cabeça, vendo Will terminar de soltar as folhas lavadas de alface em uma tigela e secando as mãos num pano, voltando a vir sentar do meu lado e me olhando com curiosidade.
- Ahm, é, eu esqueci. – Pigarreei. – Eu e minha família comemoramos a Páscoa de um jeito um pouquinho diferente. Sabe aquelas caças aos ovos? Nós fazemos isso, só que... numa caçada de verdade estilo paintball.
- Ahh, isso parece divertido! – Ele arqueou as sobrancelhas e olhou empolgado para Anne.
- Ela está sendo generosa, “um pouquinho diferente” não é o melhor jeito de colocar. Nossa caçada é uma competição séria, que pode até ficar meio violenta às vezes visto que ninguém nessa família sabe perder. – Anne explicou a ele, rindo e sentando em nossa frente na mesa. – Uma vez a Gemma quebrou o nariz do Max sem querer.
- ...Como alguém quebra o nariz de outra pessoa “sem querer”?
- Olha – Balancei a cabeça, continuando. – A gente se divide em duas equipes e caçamos os ovos. A primeira equipe a resgatar todos os ovos da sua cor e chegar até a bandeira vence. Todo ano escolhemos dois capitães e a equipe que perder fica responsável por fazer o almoço de páscoa e servir a equipe vencedora o dia todo.
- Então é por isso que você é tão competitiva, huh? – Will apertou a ponta do meu nariz rindo fraco e o olhei afetada, dando um tapinha fraco em sua mão.
- Eu, competitiva?!
- Você é, muito.
Suspirei pesadamente.
- Ok, isso eu não posso negar. – Virei para Anne. – Quem decidimos que seriam capitães a próxima caçada no ano passado?
- Você e o Harry. Se lembra?
Ah.
- Ah. É.
Isso vai ser divertido.

Deixei Will sozinho com minha mãe e Anne por um tempo, enquanto eles conversavam sobre tipos de alface. Se ele estava sentindo vontade de morrer com aquela conversa, fingia bem, porque parecia genuinamente interessado. Fiquei feliz ao pegar meu pai sozinho na garagem, ainda arrumando algo no carro, e me escorei em uma mesa, brincando com uma mola pequena que encontrei por ali.
- ... Pai.
- Oi, bebê. – Ele respondeu debaixo do carro. – Diga.
- Você não contou para ela.
- Eu te disse que não contaria. – Ele se levantou de onde estava e me olhou, indo pegar um pano para limpar o óleo das mãos. – Quem vai contar é você.
- Eu sei. Mas você é um péssimo mentiroso e eu pensei que ela já teria descoberto.
- Nah, essa coisa de você trazer um garoto para casa ofuscou tudo. Você é espertinha, né? Não tem como sua mãe te matar quando está tentando a todo custo agradar seu namorado.
Abri a boca para dizer que não foi por isso que trouxe Will, mas eu na verdade não queria falar sobre Will com meu pai. Só... preferi evitar. Ele pediu uma chave de fenda e puxei a que ele precisava de um gancho na parede o entregando.
- Já sabe como vai contar para ela?
- “Mãe, eu estou sendo expulsa do St. Bees”. E depois me preparar para ouvir ela jogar isso na minha cara pelos próximos quinze anos. – Encolhi os ombros. – É a única opção.
Papai abriu a boca, e eu sabia que tinha muitas coisas que queria me dizer, mas ele nunca conseguia falar. Era mole demais comigo, sempre foi. E nós dois sabíamos que minha mãe sempre falava pelos dois quando perdia a cabeça. Ela falava até o que não era necessário dizer, o que era dito só para machucar. E depois se arrependia, mas nunca pedia desculpas. Agia como se “eu sei que exagerei, mas você me forçou, sendo assim, desse jeito”. E não tinha como discutir com ela.
- Carter! – Um homem gritou no gramado, e meu pai foi ver.
- Ah, deve ser o mala do Sr Dickens. Ele quer nos vender uma piscina. A gente não quer a piscina velha dele! – Papai sussurrou para mim antes de ir falar com o vizinho.
Abri e fechei a mola de alumínio em minha mão por um momento, prestes a entrar de novo na cozinha, quando alguém falou atrás de mim.
- Como assim expulsa?
Mais do que chocado, Harry parecia chateado comigo de alguma forma.
- Você não contou isso pra ninguém? Por quê?!
- Porque... – Me virei para ele, dando de ombros. – Não tem o que possa ser feito. A diretora Campbell falou sério dessa vez. Eu tive sorte que foi meu pai quem atendeu à ligação da escola, ou minha mãe já teria me mandado voltar sem nem fazer as provas do bimestre...
- , se tivesse nos dito já podíamos ter começado a pensar em um plano. Não tem chance da gente deixar você ser expulsa agora, na reta final. Nem chance! – Ele balançou a cabeça. – Temos que falar com o resto do pessoal agora. O quanto antes nos organizarmos, antes podemos começar, a gente pode fazer um-
- Harry, você tá maluco? Não vou envolver vocês nas minhas merdas, e se acabar fazendo mais gente ser expulsa? Não – neguei com a cabeça. – Eu estava sendo avisada há tempos, eu fiz isso, eu lido com as consequências.
Harry respirou fundo. Parecia exasperado, mas alguma coisa em sua reação fez ele parecer diferente. Geralmente ele dava showzinho quando era contrariado. Dessa vez apenas engoliu o surto e me olhou, juntando as mãos.
- Vou ganhar de você na caçada.
Pisquei algumas vezes, me adequando à mudança abrupta de assunto. A audácia desse garoto?
Me aproximei dele um passo, sentindo, pela primeira vez naquela viagem, o espírito da páscoa dos Carter acender em mim.
- Você vem na minha casa me dizer que vai ganhar? Você vai comer poeira, Styles.
- Vou te deixar tão para traz que você nem vai entrar no ranking de tempo. – Ele provocou, e senti a necessidade quase instintiva de provocar de volta.
- Você vai ser atingido tão rápido que nem vai dar tempo de se esconder. E depois vai assistir o fracasso do seu time.
Harry riu. Estendeu uma mão para mim e a olhei.
- Quero aumentar a aposta. Se eu ganhar, você vai ter que aceitar a minha ajuda com o negócio da expulsão.
O olhei, incrédula.
- Eu já falei que-
- Você sabe que eu vou ganhar, não sabe?
Comprimi o maxilar. O idiota sabia bem como me manipular. De jeito nenhum que ele ganharia aquela caçada, eu estava pronta para bater o recorde da família. Estendi a mão e apertei a dele.
- Se eu ganhar, você vai me deixar em paz de uma vez por todas.
- Deal.

’s POV
- Cheguei! – Anunciei quando fechei a porta de casa atrás de mim e parei ao lado de Zayn, que olhava com interesse o ambiente a seu redor. – Deixe-me pegar seu casaco – coloquei as mãos nos ombros dele, que pareceu se lembrar de que eu estava ali. – Pai? – Gritei
- Seu pai foi à cidade comprar mais vinho branco – Lauretta surgiu pelo pequeno corredor que ia dar na cozinha. Ela usava seu querido avental roxo e luvas térmicas. – Bom dia, senhor Malik – cumprimentou Zayn.
- Ãh... Pode me chamar só de Zayn – gaguejou. Soltei uma risadinha, pegando sua mão quando passei por ele e o puxei até a sala.
- É, Lauretta, ele é super descolado! Nada de formalidades com ele – falei, por cima do ombro, provocando-o. Ela já estava fora de vista, mas ouvi sua risada baixa e discreta, bem típica de Lauretta. – Vamos, badboy, vou te dar o tour completo.
Comecei pela sala de estar, que era o cômodo mais próximo do hall de entrada. O grande charme dela eram as enormes janelas francesas brancas que davam para o pequeno pomar que minha mãe sempre insistiu para termos, muito embora ela mesma nunca tenha comido uma fruta sequer daquelas árvores. Mas a vista era impressionante; era quase como meu próprio jardim secreto. E ficava ainda mais bela à luz do sol.
- É claro que existe uma biblioteca – Zayn malhou, mas parecia admirado quando entramos na biblioteca.
- É claro! As mocinhas precisam encher suas mentes de livros frívolos e superficiais para manter suas mentes entorpecidas pelos contos de fadas – respondi, abrindo os braços no meio da sala escurecida pelas estantes de madeira e pelo mobiliário de tom igual. – É por isso que, nessa biblioteca, a Branca de Neve e a Cinderela foram banidas.
- Eficiente, mas um pouco tirânico.
- Não podemos arriscar as mentes das mocinhas.
- Claro.
Abri um sorriso, sem conseguir me conter, e lhe beijei os lábios rapidamente, como uma recompensa por ele ser um companheiro tão interessante. Ele sorriu quando me afastei.
Passamos rapidamente pelo escritório de meu pai, que estava trancado, depois fomos à sala de jogos, que não tinha tantos jogos assim, pois ninguém ficava em casa por tempo suficiente para se entreter dessa forma. Chegamos à sala de jantar, que estava quase pronta para receber os amigos do trabalho do meu pai, que só podiam encontra-lo hoje e não no domingo de Páscoa, pois estariam com suas próprias famílias, e então passamos pela cozinha, onde Lauretta estava coordenando a equipe de cozinheiros contratadas para aquele final de semana.
- Ela cuida dessa casa inteira? – Zayn quis saber.
- Não, temos um caseiro e uma moça vem limpar a casa uma vez por semana. Lauretta é a governanta... Ainda se usa esse termo? Bom, ela administra a casa. Meu pai não tem muito tempo para isso.
- Entendi – disse, passando a mão pela madeira entalhada da porta que dava acesso à garagem, mas não passamos por ela. – Ei, isso não é um tour completo se formos ignorar portas.
- É só a garagem – falei, sem interesse no que tinha lá.
Ele abriu a porta e as luzes se acenderam automaticamente, espiou por um momento e voltou a fechar a porta.
- É só uma garagem – murmurou.
- O que você esperava? Uma coleção igual à do Josh?
- Sim.
- Meu pai não liga para nada disso – dei de ombros.
Abri a próxima porta.
- Você vai me matar, ? – Zayn brincou antes que eu pudesse acender as luzes que iluminavam a escada e o espaço do porão.
- O plano era esconder seu corpo dentro de um barril de vinho – ri. Chegamos ao pé da escada e Zayn olhou em volta. – É disso que meu pai gosta.
- Destilados? – Arqueou uma sobrancelha para mim.
- Quase um somelier.
- Por que ele foi comprar mais vinho, mesmo?
- Ninguém toca no vinho sagrado dele.
Voltamos para o andar térreo e passamos pela sala de TV do primeiro piso, que não era tão confortável quanto a que tínhamos no segundo andar, mas servia para acolher visitas. Por fim, subimos as escadas. Mostrei-lhe a segunda sala de TV, os dois banheiros de uso comum, os dois quartos de hóspedes.
- Quarto dos meus pais – apontei para o quarto no final do corredor e depois para a porta imediatamente ao nosso lado – quarto da minha irmã. Esse é o meu.
Abri a porta e deixei que ele entrasse.
Sentei-me em uma poltrona enquanto o observava passear por meu quarto. Ele olhava atentamente para cada porta-retratos nas prateleiras, os souvenirs de diversos lugares do mundo, alguns bichos de pelúcia que não tive coragem de jogar fora.
- É sempre uma sensação engraçada ter um garoto em meu quarto – comentei. Ele me olhou de uma forma engraçada. – Não que tenham sido tantos assim, idiota – revirei os olhos.
- Tenho sentimentos confusos sobre isso – admitiu. Pegou uma foto que ainda não havia sido emoldurada de cima da minha escrivaninha e a apontou para mim.
- Esse dia foi incrível – sorri. Era uma foto do nosso grupo na cachoeira que descobrimos no acampamento dos formandos. A água estava absurdamente gelada e, por isso, estávamos todos meio espremidos uns contra os outros, com as roupas molhadas e coladas na pele, mas todos tinham também um grande sorriso no rosto. – Até você estava sorrindo.
- Você não viu quando o Louis caiu de bunda numa pedra, mas eu vi – justificou-se, dando de ombros, mas vi um rastro de sorriso em seu rosto antes que ele voltasse a me dar as costas para continuar bisbilhotando.
- Diga o que quiser – acenei com a mão.
- Então é isso. Estou dentro do quarto de Walker; o que é basicamente estar dentro de sua cabeça, certo?
- Eu passo mais tempo na escola do que aqui.
- Justo. Mas ainda assim...
- Sim, sim, é como se fosse minha cabeça. Acredite ou não, eu mesma pendurei esse quadro de cortiça – apontei para o quadro de notas que havia em cima da mesa. Ele abriu a boca de modo afetado.
- Não pode ser! Você está falando sério? – Fingiu o choque que transmitia.
- Não foi tão difícil, foi só colar e...
- Você colou o quadro? – Ele gargalhou. – Já ouviu falar em pregos, Walker?
- Foi com uma fita, Malik. Específica para isso – revirei os olhos, mas ele continuou rindo.
- Desculpe, shortcake, mas é adorável pensar em você fazendo qualquer coisa desse tipo.
- Não sou a garotinha frágil e inanimada que você pensa, que fica sentada pelos cantos enquanto todo mundo faz as coisas por mim.
- Ah, não? – Ele arqueou uma sobrancelha, zombando. Balancei a cabeça, resolvendo, por fim, ignorar aquelas provocações.
- Vamos, vou te mostrar seu quarto – acenei para voltarmos ao corredor.
- Não vou dormir aqui com você? – Abriu um sorrisinho presunçoso.
Sorri de volta, sentindo borboletas surgirem no meu estômago, mas não respondi, apenas saí do meu quarto e fui andando de volta à sala de TV daquele andar, pois o quarto dele ficava ao lado do cômodo.

Quando meu pai voltou, alguns de seus amigos já haviam chegado. Sentiu-se profundamente envergonhado pelo atraso e subiu rapidamente para trocar-se e ficar mais apresentável. Eu ainda estava no meu quarto, mas a comoção no andar de baixo era audível e os amigos de meu pai não eram exatamente os mais silenciosos; acho que os anos de amizade colaboram para isso. Faltava só colocar brincos quando meu pai entrou no quarto olhando para os lados.
- Ele não está aqui, papai – falei, segurando o riso. Ele nunca fora bom nisso de conhecer os pretendentes de suas filhas e a animosidade dele só ficara pior depois que Mandy resolveu assumir seu namoro com meu ex-namorado Owen.
- Eu não... Não estava... – corou. – Bem, se não está aqui, onde está?
- No quarto de hóspedes da sala de TV.
- Oh. Ele está bem acomodado? Há toalhas limpas no banheiro?
Soltei uma risadinha, indo até ele colocando o par de brincos.
- Está tudo certo, papai. Obrigada por deixa-lo vir – dei-lhe um beijo na bochecha. – Você está bonito. Essa cor realça seus olhos.
- Obrigado, . Você sabe se Mandy virá?
- Tenho certeza que não. A multa de quinta ainda era de Londres, não?
- Não demora tanto para chegar até aqui.
Preferi não responder. Meu pai não aceitava o temperamento de Mandy. Sempre se ressentia muito da forma que a criou, mas desejava profundamente tê-la por perto sempre que podia. Minha mãe teve depressão pós-parto quando Mandy nasceu. Ela teve que ser amamentada por uma voluntária da maternidade do hospital onde nascera e minha mãe não conseguia nem pegá-la no colo. Acho que isso marcou a relação das duas, pois, hoje em dia, não se davam bem, apesar de eu reconhecer que minha mãe se esforçou muito mais para tentar compensar por aquilo.
Saímos do quarto para encontrar Zayn parado no topo da escada usando camisa social, jeans e tênis. Meu coração acelerou um pouco com a vista, mas me segurei para não demonstrar aquilo na frente do meu pai. Zayn, por sua vez, parecia nem me notar ali, pois seu olhar estava completamente fixado em meu pai com um ar de seriedade.
Por essa eu não esperava.
- Papai, este é Zayn Malik, meu namorado. Zayn, este é Conrad Walker, meu pai – apresentei-os.
Eles trocaram um aperto de mãos firme, sem tirar os olhos um do outro.
- Como vai, Zayn? – Meu pai falou primeiro. – Está bem acomodado?
- Estou muito bem instalado, muito obrigado. Sua casa é incrível! O hall de entrada é amplo e quase não tem nenhuma coluna! Realmente fantástico! – Zayn observou, enérgico, e pensei ter reparado um quê de nervosismo em sua voz. Não sabia se ele realmente se interessava por aquele assuntou ou só estava tentando ser cortês.
- Puxa, obrigado! Não fui eu quem a construiu, mas tenho muito orgulho dela também!
Eles falaram mais um pouco sobre a estrutura da casa de modo descontraído enquanto descíamos as escadas. Quando chegamos à sala de estar, que, apesar de grande e aberta, parecia cheia de homens baixos e gordinhos, alguns mais altos, mas todos eram pessoas corpulentas. Muitos estavam acompanhados de cônjuges e alguns trouxeram até os filhos, mas eram verdadeira minoria no ambiente.
Ali, meu pai começou uma formal, mas breve, apresentação de todos a Zayn, providenciando informações como nome, de onde se conhecem, o que a pessoa faz da vida e, eventualmente, apresentando filhos e cônjuges aqui e ali. Fiquei ao lado de Zayn o tempo todo, sorrindo e fazendo comentários onde conseguia para iniciar uma conversa rápida até seguirmos para o próximo convidado. Para meu deleite, todos receberam meu namorado com educação e muita simpatia.
Quando havíamos cumprimentado todos, o grande amigo de meu pai entrou na sala de estar.
- Todd! – Meu pai gritou e foi abraça-lo com força, como se não se vissem há muito.
- Walker! ! – Ele tocou meu ombro com carinho e depois se virou para Zayn, com expectativa.
- Esse é Zayn Malik, Todd, meu namorado – apresentei-os. – Zayn, este é Gerard Todd, amigo da família.
- É um prazer. – Zayn disse enquanto apertavam a mão um do outro.
Logo, meu pai tomou toda atenção de Todd e dos outros convidados enquanto eu e Zayn fomos dar uma volta pelo jardim, para finalizar o tour.
Já passava do meio dia quando chegamos ao bosque que era mantido na propriedade e adentramos através de uma pequena trilha margeada de flores rasteiras.
- É impressão minha ou acabamos de entrar num filme de época? – Zayn riu fraco, esticando a mão para segurar a minha.
- Eu sempre gostei desse bosque à luz do dia, mas sempre morri de medo dele à noite. Mesmo de casa, não gostava de passar pelas janelas que dão para ele quando estava escuro. – Contei. – Acreditava piamente que, sempre que olhasse, alguma coisa sairia rastejando pelo limite das árvores e viria nos pegar.
- Nossa, que intenso. Acho que deixaram você assistir muito filme de terror quando era criança.
- Pode ser – ri. – Mas o medo era real demais. Eu passava pelas janelas fechando as cortinas comigo, olhando para outro lugar.
- Hoje em dia ainda sente tanto medo?
- Não tanto, mas não seria a primeira pessoa a sugerir acampar aqui, com certeza.
- Nada mais justo. Quando eu era pequeno, jurava que não tinha medo de nada, mas aí inventaram de levar um maldito palhaço para a escola um dia. – Ele estremeceu com a lembrança. – Odeio palhaços. Eles não são engraçados.
- Também não vejo graça, mas não sairia correndo se visse um. Aquele dia foi muito ruim?
- Passei o almoço inteiro atrás do ginásio, temendo pela minha vida.
- Não era mais fácil ficar no banheiro?
- Claro que não. Primeiro, o palhaço poderia precisar usar o banheiro e aí seria eu e ele presos em um cômodo. Segundo, isso levantaria perguntas e perguntas levantariam gozação. Aquilo era uma selva, não podia deixar que eles soubessem daquilo.
- Faz sentido...
Ouvi alguém gritar meu nome ao longe e vi Lauretta parada na porta dos fundos da casa, da área de serviço, acenando para nós. Voltamos para dentro de casa e fomos informados de que meu pai nos esperava no escritório dele.
- Sim? – Entramos no escritório e meu pai mandou fechar a porta atrás de nós.
Senti-me um pouco ansiosa.
- Zayn, meu jovem, eu te disse o que o Todd faz? – Meu pai começou quando nos sentamos no sofá de couro que havia perto de sua mesa, onde ele estava sentado. Foi só então que percebi Todd sentado numa poltrona.
- Não, senhor – respondeu ele.
- Bom, Todd é o atual presidente da Spiti Architecture, um dos maiores escritórios de arquitetura e engenharia do país.
Ao meu lado, senti uma mudança no corpo de Zayn, muito embora ele não tivesse movido um músculo. Percebi aonde meu pai queria chegar, e, particularmente, não sabia como reagir. Não sabia como Zayn reagiria. Será que ele se sentiria feliz? Ofendido? Era impossível dizer.
- Vocês fazem um trabalho tremendo, senhor Todd. – Zayn elogiou e Todd sorriu.
- Conrad me disse que vocês conversaram um pouco sobre a estrutura da casa, que suas perguntas foram curiosas. Bom, não sei se você sabe, mas meu escritório é responsável pela manutenção dessa casa. Algo muito inteligente de se fazer, você sabe, contratar especialistas para cuidar de uma casa que tem por volta de cem anos.
- Com certeza. – Zayn respondeu prontamente.
- Achei interessante você notar que não há colunas no hall de entrada. Nós as removemos! Depois de muito estudo estrutural, claro, mas não era necessário que estivessem ali, não sustentava a casa e eram mais prolixas que bonitas. Por isso, foram removidas. E deu certo, você sabe. Walker aqui estava morrendo de medo de ser esmagado pelo teto na manhã seguinte saindo para o trabalho. Mas nada aconteceu, aconteceu, Conrad?
- Não aconteceu, mas poderia – meu pai revirou os olhos para a provocação.
- Segurança nunca é demais para meu pai – soltei, rindo.
- Bom, mas a questão é, você sabe, achei interessante sua observação. Então, quando Conrad me disse sobre isso, perguntou-me se eu acharia que você teria alguma chance de ter mais contato com esse mundo. E é aqui que eu te pergunto, rapaz, você tem algum interesse nisso?
Zayn levou um segundo a mais que o necessário para responder.
- Eu tenho, sim, senhor.
- Ótimo. Mas, você sabe, eu não posso colocar pra dentro do nosso império um jovem que nem terminou o ensino médio.
- Claro que não – Zayn concordou. Tive vontade de rir, mas seria profundamente inapropriado. Nunca o vira tão sério.
- O que você me diz de ser um aprendiz? Estaria bom para você?
Mais algum tempo em silêncio.
- Desculpe, senhor, mas acho que preciso de algum tempo para refletir sobre sua proposta.
Meu pai arqueou as sobrancelhas, mas havia um sorriso em seu rosto. Assim como no de Todd.
- Um tempo, você diz?
- Sim, ainda estou terminando a escola e não teria tempo de...
- Ah, não, não, não, não seria imediatamente. Além do mais, o escritório fica em Londres! Nunca afastaria um jovem brilhante de sua formação. Vamos fazer assim, você tem alguma coisa para me mostrar? Algum desenho, algum trabalho que fez de forma despretensiosa? Não espero que você tenha se dedicado a isso antes dessa proposta. Às vezes nem todos sabemos o que podemos fazer com aquilo que nos foi dado.
- Alguns desenhos, esboços, ideias... Mas nada muito concreto ou terminado. – Zayn declarou.
- Isso basta. Já gostei de você. Bom, traga-os a mim, certo? – Todd coçou a barba. – Estarei na cidade até segunda-feira.
- Combinado.
- Isso não é uma promessa, jovem – alertou Todd.
- Eu sei – garantiu Zayn.
- Bom, já que está tudo acertado, vamos comer, então! Pedi para segurarem o almoço – meu pai se levantou e me deu o braço para andar com ele. – Você sabe como não gosto de adiar as coisas importantes, não é, ?
- Sim, papai.
Zayn e Todd vieram atrás, conversando entre si. Meu pai e seus amigos se reuniram numa parte da mesa, restando a mim sentar-me junto às crianças, na outra extremidade da mesa. Não foi exatamente ruim porque as crianças não exigiram nenhuma atenção de nós e pudemos conversar sobre o que havia acontecido.
- Eu não acredito que meu pai fez isso sem antes me consultar – falei, tentando não fazer acusações de nenhum tipo sobre o estado de espírito de Zayn; não sabia se estava feliz ou zangado.
- Não tem problema – disse ele, apertando suavemente meu joelho para me assegurar, mas estava distante.
- No que está pensando? – Perguntei, enfim.
- Que meus únicos desenhos estão em casa, em Bradford. A três horas de viagem daqui.
- Ah...
Comemos em silêncio por algum tempo, ambos imersos em nossos próprios pensamentos. Então Zayn estava considerando aquilo tudo. Não estava ofendido nem zangado, mas interessado na proposta que lhe fora feita. No entanto, não tinha o que era necessário para sua seleção. Tive uma ideia, um pouco estúpida e com altos riscos de ser rechaçada pelas autoridades sentadas a algumas cadeiras de nós, mas ainda era uma ideia.
- E se formos agora?

Liam’s POV
- A faculdade não vai ser tão ruim, não é? – Clarice jogou a cabeça para trás, deitando-a no encosto do sofá, pensativa.
- Acho que você vai se sair melhor do que imagina – confessei. – Você sempre foi o orgulho da família.
- Ugh, você acredita que a vovó quer que eu vá estudar na Alemanha?
- Ainda isso? – Franzi o cenho para ela.
- Sim. Ela disse que foi a melhor experiência da vida dela ou algo assim – bufou.
Só que ela já havia sido aceita na Universidade da Califórnia.
- Só que eu já vou para a UCLA! – Resmungou.
- Clarice, ela só quer que você fique mais perto da família.
Ela respirou fundo e, num passe de mágica, como ela sempre fazia, abriu um sorriso e mudou seu humor. Já havia visto ela fazer isso diversas vezes.
O pai de Clarice é o irmão mais novo da minha mãe. Tivemos que morar um tempo com eles depois que meu pai foi embora, por isso passávamos a maior parte do nosso tempo juntos, fazendo bagunça pelo bairro e no jardim impecável de sua mãe. Eu tinha 12 anos e ela 14, mas gostava de passar tempo comigo por algum motivo. Acho que era porque ficamos lá durante as férias de verão e eles não viajaram para ficar conosco. Ela não teve escolha a não ser ficar comigo, já que todas suas amigas haviam viajado.
Clarice era uma das garotas mais legais que eu já havia conhecido; não havia tempo ruim com ela. Se bem que, pensando bem, ela detestou a quando namorávamos. Dizia que ela não era garota para mim. Como se o astro do time de futebol e a garota mais inteligente e bonita da escola não fossem um casal destinado a ter alguma coisa. Esse período foi um saco, mas eventualmente ela parou de me encher. Eu não levava tantas vezes para vê-la, de qualquer forma.
Foi bom ter encontrado ela hoje, pois estava prestes a se mudar para a Califórnia.
Sentirei sua falta.
- Que tal se a gente montar a caçada de ovos mais épica de todos os tempos? – Ela abriu um sorriso travesso. Olhou para a mesa onde a cesta de ovos estava e seu sorriso sumiu. – Montaram sem a gente!
Ri de sua cara de choque.
- É oficial, prima, estamos velhos demais para isso – lancei um olhar para a mesa, mas outra coisa chamou minha atenção. A poltrona onde estava sentada agora estava vazia. Olhei à minha volta discretamente, procurando-a.
- Se você está velho, o que sou eu então? – Brincou ela.
- Isso é uma ruga? – Apontei para seu rosto, rindo. Ela fingiu que ia morder meu dedo e o afastou com um tapa. Passei meu braço por debaixo de sua perna e a afastei. – Com licença, Payne.
- Não vá chorar para tia Lucy por ter perdido o lance dos ovos, Payne – provocou, sacando seu celular, ficando imediatamente entretida com ele.
Olhei em volta mais uma vez, sem sucesso na busca pela figura de .
Droga, o lugar era perfeito para ficar de olho nela e eu durmo no ponto.
Seu pai estava ao telefone, perto do hall de entrada e minha mãe estava conversando com uma prima. Mordi os cantos internos da bochecha, imaginando onde ela poderia estar numa festa em que ela não conhecia ninguém.
Não estava com você, né, Liam, a única pessoa que poderia fazer companhia para ela.
Uma pequena onda de arrependimento passou por mim ao pensar nisso. Eu poderia ter sido melhor, mas pode ser que tenha sido bom para ela; pode tê-la forçado a interagir.
Fui até a sala de jantar próxima ao jardim de inverno, que estava radiante por conta do sol iluminando a água da chuva leve que acabara de cair. A extensa mesa já estava arrumada com a louça e talheres e a comida estava sendo colocada num aparador aos poucos por tia Lucy e algumas crianças. Nenhum sinal de ali.
Voltei para a sala de estar, que estava cheia e barulhenta. Clarice já não estava mais no sofá e a poltrona de ainda estava vazia. Fui ao jardim, depois ao quintal. Nada. Dei uma espiada na escada, tentando observar o andar de cima o máximo que podia, mas acabei subindo e olhei em cada quarto daquela casa enorme; todos vazios e muito bem arrumados, esperando pelos filhos que meu tio-avô nunca conseguiu ter antes de morrer. Eram quartos de hóspedes agora, mas ela não estava em nenhum deles. Sabia que, naturalmente, não a encontraria no quarto de tia Lucy. Passei pela sala de TV e jogos que ficava naquele andar, mas encontrei só um monte de pirralhos jogando jogos sangrentos e violentos em uma televisão enorme. Uma menina estava dando uma surra num menino no jogo.
Desci novamente e percebi que a porta do lavabo perto da biblioteca estava fechada.
Levantei a mão para bater, mas a porta se abriu subitamente, revelando uma .
Ela se assustou comigo e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela fechou a porta rapidamente. Prendi a respiração quando notei que seus olhos estavam vermelhos, assim como seu nariz, mas não tinha certeza, já que ela fechou a porta rapidamente. De dentro, ouvi o barulho da água da pia caindo pelo ralo e ela dizendo algumas coisas em voz baixa. Pareciam xingamentos e soluços.
Alguns segundos depois, ela abriu a porta com um pequeno sorriso.
- Oi, Liam – disse, parecendo forçada. Bom, ela me odeia, né? – Está livre agora – riu fraco, olhou nos meus olhos por um breve instante e eu soube que ela não estava bem.
Segurei seu braço quando ela passou por mim, mas rapidamente soltei. Apesar de ali estar vazio, tive medo que alguém nos visse.
- Você está bem? – Perguntei, mesmo sem precisar saber a resposta.
- Estou! – Disse, a voz um pouco mais alta que o necessário, fingindo alegria. – Claro, por quê?
- Você não me engana – balancei a cabeça.
- Então por que fica me perguntando coisas que você julga já saber a resposta? – Respondeu, afiada como sempre.
- Só para confirmar.
- Estou bem – arrumou os cabelos, que estavam puxados levemente para trás por uma tiara vermelha de fita que a deixava parecendo um anjo. O vestido que usava só deixava sua beleza ainda mais evidente. Não era algo que se via muito: usando vestido e tiara. Mas era uma visão que se gosta de apreciar com mais calma.
Em algum lugar da casa, o tradicional sino que minha tia Lucy usava para indicar que o almoço estava pronto soou.
Sem dizer nada, tornou a andar para longe dali. Segui-a em direção à enorme sala de jantar na sala do jardim de inverno e, quando ela escolheu seu lugar à mesa, parei no lugar ao seu lado. Clarice, que estava sentada longe de nós, veio se sentar à nossa frente quando percebeu onde eu estava.
- Olá! Você deve ser a – ela sorriu para a filha do meu padrasto, que fez um esforço colossal para responder no mesmo tom. Clarice nem deve ter percebido, pois seu celular a mantinha entretida, mas eu notei.
Tia Lucy fez uma breve oração e logo todos se serviram e se sentaram à mesa. Espiei o prato de quando ela se sentou ao meu lado.
- Sabe, essa comida vai te matar um dia – falei, lembrando-me do dia no refeitório em que ela me repreendeu por colocar tantos carboidratos no prato.
Ela olhou para o macarrão depositado ao lado do purê de batatas.
- Vê se... – começou, mas pareceu se dar conta das pessoas ao nosso redor e fechou a boca. Reprimi uma risada, pois sabia que isso a irritaria ainda mais. – Você tem razão, Liam.
- Eu o quê?! – Arqueei as sobrancelhas, chocado.
- Não faça uma cena, por favor – disse, em seguida levou o garfo à boca.
- Você acabou de dizer que eu tenho razão – insisti. – Isso é, sei lá, inédito.
Ela balançou a cabeça, concordando com uma expressão engraçada no rosto, mas continuou mastigando e, quando engoliu, achei que iria acabar comigo, mas ela apenas pegou outro punhado de comida e enfiou na boca. Franzi o cenho.
- Você está tentando...
- Hey! – Clarice sentou à nossa frente, com um sorriso radiante no rosto. – Acho que não fomos apresentadas – e lançou um olhar severo para mim.
- Ah, é, você não veio para o Natal... – limpei a garganta. – Clarice, .
- É um prazer te conhecer – Clarice estendeu a mão em cima da mesa e a apertou.
- Igualmente – disse ela assim que engoliu.
- Sempre ouvi histórias sobre você de seu pai – Clarice começou a tagarelar. – A star girl dele.
- É mesmo? – pareceu surpresa, mas incrédula ao mesmo tempo. – O que ele dizia?
- Que você seria alguma coisa muito sofisticada como cientista política, essas coisas – ela sorriu de novo antes de começar a comer.
- Entendi – sorriu também.
- E é isso que você vai fazer? – Perguntei, sinceramente interessado. Ela olhou para mim, brevemente assustada com minha inquisição.
- Ahn... Não – limpou a garganta. – Na verdade, eu acho que vou tentar algo no campo das exatas.
Arqueei as sobrancelhas. Clarice também.
- Exatas, sério? – Perguntei. – Isso é um pouco inesperado.
- Por quê? Porque eu sou mulher? – Ela devolveu.
Clarice assoviou, provocativa.
- Não! – Levantei as mãos em defesa. – Não é isso! Eu só achei que você gostaria de algo mais... Crítico.
- Ah é – ela soltou uma risadinha. – Eu sou a revolucionária. Bom, talvez eu revolucione o mundo da matemática ou algo assim. – Sorriu para mim com um ar superior, mas cheio de expectativa. Queria acreditar em mim como ela acreditava em si mesma. – E você, Clarice? O que pretende fazer? – Desviou o foco da conversa para quem adorava ser o centro das atenções.
- Meu sonho é o Direito, mas vou tentar pegar quantas matérias aleatórias puder na UCLA – respondeu. Viu? Ninguém perguntou a universidade, Clarice!
- Parabéns – disse, mas o sentimento não atingiu a palavra. Tinha algo estranho com ela.
As duas acabaram embarcando em uma conversa sobre o que esperar dos Estados Unidos, sendo que Clarice dominou o assunto, já que sempre ia ao Novo Continente para visitar alguns primos maternos.
Logo depois do chá, que foi logo após o almoço, tia Lucy anunciou às crianças que a caçada de ovos iria começar em breve. Clarice, que estava sentada entre eu e , deu um pulo no lugar, incapaz de esconder quão empolgada estava com sua última caça aos ovos antes de ir para tão, tão distante.
Uma criança que eu não reconheci de imediato veio para perto de e, puxando-a pela mão, levou-a para o quintal animadamente.
- Eu já disse que ela é minha! – Disse o menininho às outras crianças. Depois se voltou a ela quando estavam no topo das escadas que davam acesso ao gramado extenso de tia Lucy. – Você vai me contar onde escondeu os ovos, não vai?!
riu.
- Claro que não, tampinha – bagunçou o cabelo dele. – Eu não trapaceio. E nem você deveria trapacear. Isso é coisa de maus perdedores.
Ouch, essa doeu. Lembrei de todas as vezes em que colei nas provas da escola.
O menino pareceu indignado, mas aceitou o conselho de e se afastou para pegar uma cesta vazia para a caçada. Fui até ela.
- Como você saberia onde estão os ovos? – Perguntei. Clarice se juntou a nós com uma cesta vazia. – Isso não é só para crianças?
- É minha última caçada, eu tenho privilégios – sorriu, soberba, mas divertida.
- Justo – reconheci e olhei para . – E então? Não vai me dizer que você ajudou a montar a caçada. – Ela ficou calada. Arregalei os olhos. – Sem chance!
- Foi você?! – Clarice olhou para ela, chocada.
- Eles estavam precisando de ajuda – encolheu os ombros, visivelmente incomodada com esse assunto.
- Ajuda, caça aos ovos e na mesma frase. – Semicerrei os olhos. – Hm, não combina muito. Sabe essa é a função oficial da Clarice desde os treze anos da vida dela.
- Bom, ela não estava disponível, estava? – respondeu rapidamente, afiada como sempre. Fechou a boca numa linha rígida e depois abriu um sorriso. – Eu só estava sendo útil para sua tia Lucy. – Defendeu-se em um tom mais amigável.
- Eu só estava...
- Acho melhor eu ir vigiar as crianças. Sabiam que existem cães-guaxinins nessa parte do país? – fez uma careta de medo e se afastou de nós rapidamente. Olhei os limites do quintal de tia Lucy. Havia um pequeno bosque à direita, umas árvores que meu tio havia plantado para fornecer madeira para a casa no inverno. A área era cercada para impedir esse tipo de animal de circular, mas acho que tinha razão em se preocupar.
Mas, de novo, aquilo pareceu muito estranho. não ligava para essas coisas, geralmente. Ela ficaria sentada em um canto olhando as coisas acontecerem, não fazer parte delas de verdade.
Clarice se juntou ao irmão mais novo, que havia acabado de acordar de uma soneca apenas para participar da caçada. E eu fui atrás de .
Porque eu não conseguiria fazer qualquer outra coisa que não fosse estar perto dela. Ou pelo menos de olho nela.
Não pude evitar espiar que o vento marcava seu corpo através do vestido que usava.
Puta merda, .
- O que você tem? – Perguntei quando me aproximei. Ela estava parada junto à base de pedra para fogueira com os braços cruzados.
- Uma tarefa – respondeu seu me olhar.
- Ninguém te deu essa tarefa, .
- É natural – respondeu.
- Falo sério, o que foi?
- Onde está a Clarice?
Ah.
- Ah. – Murmurei.
- Olha, você nem começa a imaginar seja lá o que for que você está imaginando – ela se virou para mim pela primeira vez. Ela parecia furiosa e se deu conta disso. Alisou os cabelos e os colocou atrás da orelha. – Só me deixa em paz, Liam.
- Isso não faz o menor sentido! Você está com ciúmes? – Falei baixo.
Vi que ela teve um espasmo, talvez um desejo súbito de se virar para mim novamente e dizer algum desaforo, mas, ao invés disso, cravou as unhas na manga do vestido.
- Não seja bobo, Liam. – Respondeu, parecendo estar mais calma. Tirou o celular do bolso e olhou a tela por alguns segundos antes de guarda-lo de volta.
- Ah, sim, é bobagem minha, mesmo. Agora você tem o Harry.
- Você está com ciúmes? – Rebateu imediatamente, venenosa.
Merda.
- Só estou constatando um fato. Há quanto tempo isso tá rolando?
Ela começou a andar, acredito que para extravasar a raiva, ou qualquer coisa que estivesse sentindo. Por um segundo, achei que ela estava tremendo.
- Não é da sua conta, Payne – disse. – Ei! Pode devolver esse ovo! – Ela gritou para uma menininha que estava no meio da ação de tirar um ovo roxo da cesta de um menininho que estava distraído com um besouro. Soltei uma risada da cara que a criança fez depois de soltar o ovo e sair correndo para outro canto do quintal.
- Como quiser, Dama de Ferro – ri.
- Vê se me deixa em paz, Liam.
Ela voltou a andar e eu fui atrás. Estávamos indo em direção ao bosque, seguindo algumas crianças que estavam correndo para lá.
- Aconteceu alguma coisa? – Perguntei, referindo-me ao episódio do banheiro e sabia que ela havia entendido.
- Nada.
- Você pode me dizer.
- Não foi nada.
- . Você sabe que pode contar comigo...
- Não, não posso. Não posso contar com ninguém desse lugar. – Disse, áspera. Depois pareceu pensar melhor. – Talvez com sua tia Lucy. Mulher incrível – concluiu.
Já estávamos na beira do bosque, olhando as crianças pulando galhos, montinhos de terra, levantando folhas maiores das plantas.
- Olha esse é dourado! – Disse um menino ao encontrar um ovo. – Deve valer um prêmio! – E saíram correndo sob o comando de ir perguntar a tia Lucy se havia algum prêmio por um ovo dourado.
- Nunca achei que te veria de babá, Payne! – Clarice passou por nós com seu irmão e foram um pouco mais fundo no bosque.
- Tem uma maluca no campo, preciso garantir que não faça besteira! – Apontei com o polegar para , brincando.
Clarice riu enquanto se afastavam.
- Quer saber de uma coisa? – sibilou. – Vai se foder, Liam.
Ela me deu as costas e voltou a andar, dessa vez em direção à casa de tia Lucy.
- Ei, espera! – Corri até ela.
Acenei para minha mãe, que nos olhava com curiosidade. Talvez ela também não acreditasse que eu estava no meio da caçada aos ovos com a odiosa filha do meu padrasto – minhas palavras. Toda a família estava na extensa varanda, sentados em espreguiçadeiras, cadeiras de balanço e nos bancos da mesa de churrasco.
- Liam, me deixa em paz – disse ela mais uma vez, mas com uma expressão mais suave no rosto. – Quantos ovos, tampinha! – Ela sorriu para o menino que havia pedido sua ajuda mais cedo. Ele estava mostrando quantos ovos já havia conseguido e entregou um a ela para mostrar os detalhes que a terra havia deixado na casca do ovo.
- , qual é! Fala comigo. Eu estava brincando ali, você não é maluca. – Garanti. – Bom, não toda hora.
- Liam!
- Eu tô brincando! Por que você está tão estressada? Todo mundo aqui tá sendo tão legal, o dia está bonito, a comida foi boa, você ajudou a montar essa brincadeira! Eu nunca vi as crianças demorarem mais de cinco segundos para achar todos os ovos!
- Todo mundo tá sendo bem legal. Falando pelas minhas costas como eu sou a filha desnaturada do Robert, como eu sou um fardo para minha mãe, por isso ela me abandonou, ah, sem contar que foi exclusivamente eu quem deixou a casa um lixo após uma festinha exclusivamente minha com amigos exclusivamente meus. É todo mundo está sendo incrível. Esse dia está sendo incrível!
Arqueei as sobrancelhas, surpreso com essa explosão. E especialmente surpreso com a expressão neutra em seu rosto enquanto ela falava tudo isso.
Ok, eu não podia dar corda para essa raiva dela. Se não seria apenas pior.
Vendo que eu fiquei sem palavras, ela começou a andar, com o menininho em seu encalço.
- A tia Lucy é legal! A Clarice foi legal com você! Alguns primos podem ser um saco, ! – Tentei amenizar a situação. – Não seja injust-
O som e o impacto do ovo cozido se estraçalhando e melecando minha blusa branca interrompeu minha fala e eu só pude olhar, em choque, para , que agora não segurava mais o ovo que o menino havia lhe dado.
Um silêncio pesou em todo o quintal por questões de segundos antes da primeira criança gritar o que todos nós já pensamos alguma vez em fazer durante uma caçada de ovos:
- GUERRA DE OVO!
E então o caos se instalou.
O menininho ao lado de jogou outro ovo em mim, que explodiu na minha perna.
- Não! – bronqueou, tirando a cesta de sua mão, mas ele conseguiu pegar alguns ovos no processo e começou a jogar em outras crianças que corriam ao nosso redor. – Não! Gente! Para!
- Você atirou primeiro! – Ralhei. – Não adianta pedir pra pararem!
- Cala a boca! – Ela respondeu e foi atingida por um ovo.
Os pais acabaram intervindo e a brincadeira acabou com algumas risadas das crianças e caras feias dos pais para . Ela ainda estava parada no meio do quintal, suja de ovo, e eu estava perto dela, olhando a bagunça. E percebi que nenhum daqueles olhares se direcionavam a mim.
Minha mãe e o pai de estavam parados no topo da escada. Alguns de meus tios e primos paravam perto deles, com uma ou duas crianças sujas nos braços e lhes diziam alguma coisa, e depois corriam para dentro da casa.
Evidentemente o almoço de Páscoa havia acabado. tinha pedaços de ovo cozido no cabelo, o vestido estava sujo também e o jardim estava uma bagunça.
- ! Liam! – Robert gritou. – Vamos embora.
Minha mãe pegou o carrinho de Henry e desapareceu pela porta.
- Podemos nos limpar? – Perguntei quando subimos as escadas da varanda.
- Não. – Ele falou, firme, de uma forma que eu nunca havia o visto fazer. – Para o carro, agora! – Percebi que sua autoridade intimidante era toda sobre , que não levantou os olhos uma única vez.
Atravessamos a casa com cuidado para não encostar em nenhum móvel, nem em nenhum dos familiares que estavam amontoados nas pias da cozinha, dos banheiros e da lavanderia limpando o máximo que podiam de suas crianças.
Clarice acenou para nós enquanto esperava sua mãe terminar de limpar seu irmão.
- Que dia, Payne! – Ela correu até mim e me abraçou. – Esse abraço só está acontecendo porque eu vou embora. Você está nojento. – Riu. – Vou sentir sua falta.
- Também vou sentir sua falta, Payne. – Ri e a abracei mais forte.
Ela me soltou.
- Foi um prazer, ... – virou-se para , mas ela não estava mais lá. Vi-a atravessar a porta da frente e a fechar atrás de si.
Despedi-me mais uma vez de Clarice, desejei-lhe sorte no Novo Continente e fui atrás de , que estava apoiada ao porta-malas do carro, encolhida.
- Ei – chamei, mas ela não se virou para mim. Parei ao seu lado e foi só então que percebi que ela estava chorando baixinho.
Vai se foder, Liam.
Isso é tudo culpa sua.
Você e sua boca maldita.
Ela havia pedido tantas vezes para que a deixasse em paz.
Fiquei parado junto a ela, olhando o jardim impecável e ouvindo os soluços de enquanto esperávamos nossos pais virem para o carro para que pudéssemos ir embora.

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Continua...




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