Última atualização: 27/12/2019

<< Volte os capítulos


Capítulo 32

Zayn’s POV
Há alguns anos desde que não venho aqui por livre e espontânea vontade; o que não é diferente da situação em que me encontro agora. A fachada do prédio continuava a mesma: um marrom claro desbotado por debaixo das trepadeiras que tomavam conta da parede lateral do prédio por causa do pequeno jardim que a Sra. Haskins mantinha no parapeito de sua janela surrada.
Eu sempre achei que aquela era a coisa mais bonita daquele prédio velho e surrado onde morávamos.
A escadaria estava um pouco diferente da última vez que eu viera aqui – depois que saí do reformatório e antes de embarcar para o pesadelo do outro lado do país, o St. Bees. O corrimão havia sido pintado de verde musgo e a porta principal fora pintada de um vermelho vivo.
- Chegamos. – Anunciei, mas já observava o prédio antes de eu dizer qualquer coisa.
Tentei não pedir sua opinião sobre aquela cena deplorável, mesmo que a curiosidade e o orgulho estivessem me corroendo por dentro. Desliguei o carro, tirando a chave da ignição.
- Eu gosto de madressilva – disse ela, repentinamente. Olhei para ela, sem entender.
- Madressilva?
- Sim, no jardim. – Apontou a janela da Sra. Haskins.
- Não é a minha janela – informei.
- Obrigada pela informação, apesar de eu não ter perguntado isso. – Lançou-me um olhar grave, quase me repreendendo.
De algum modo ferrado demais para meu cérebro processar, parecia ler as entrelinhas de tudo que eu dizia. Ela sabia que eu preferia estar no inferno a estar ali, com ela. Eu jamais desejei que ela visse de onde eu vim, mas parte de mim também queria que ela visse como ela é privilegiada e mimada.
Parte de mim tinha esse desejo doentio de fazer as pessoas ricas se sentirem mal por suas vidas boas.
Acho que essa parte ela não conseguia adivinhar.
- Quer que eu entre com você? – Ouvi-a perguntar suavemente.
- Não é seguro ficar dentro do carro. – Respondi, apenas, antes de sair do carro. Subi os degraus rapidamente e, parando junto à porta, apertei o número do nosso apartamento no interfone.
- Sim? – Foi minha mãe quem atendeu.
- Sou eu. – Disse, umedecendo os lábios, sem ter a menor noção do que dizer à mulher do outro lado da linha.
- Zayn?
- Sim, Trisha.
Ela não me respondeu, mas desligou. Senti a mão quente e macia de segurar a minha e me dar um pequeno aperto reconfortante. Sem pensar muito, entrelacei nossos dedos, sentindo-me um pouco melhor por ela ter insistido para estar ali. Eu estaria muito ferrado se tivesse vindo sozinho. Não passaria nem da calçada.
Fuck, eu sou um belo de um otário.
O barulho alto e metálico da porta de entrada sendo destravada nos levou a adentrar o prédio.
- É no terceiro andar. – Falei, apontando a escada. – Não temos elevador.
- Se eu subir correndo posso faltar a academia na semana que vem? – Ela brincou, dando-me um pequeno sorriso antes de passar por mim e começar a subir as escadas.
- Eu vou na frente – determinei, ultrapassando-a.
Não conversamos enquanto subíamos. Minha mente estava flutuando entre “o drama de estar em casa” e “o drama de levar uma garota para casa”. Mesmo que fosse a primeira. Não fazia ideia de como apresenta-la. Amiga? Tecnicamente, eu não estaria mentindo. Mas ela era mais que isso.
Minha mãe esperava na porta com o sorriso de sempre no rosto, fazendo-me sentir brevemente que, não importava o que eu fizesse, ela sempre me receberia com aquele mesmo sorriso. E, apesar de tudo isso me dar alguma pontada de felicidade, também me causava náuseas e repulsa de mim mesmo.
Eu não mereço nada disso.
Não mereço nada do que essa mulher fez por mim depois de tudo que eu fiz para ela.
- Meu filho! – Ela abriu os braços, envolvendo-me neles com tanta urgência que demorei um pouco para retribuir o gesto. – Oh, olá! – Olhou por cima do meu ombro.
estava parada junto à escada, com um sorriso sem graça.
- Mãe, essa é Walker. Minha...
- Uma garota! – Ela me interrompeu, passando por mim para dar um abraço em , que foi pega de surpresa. – Eu sou Trisha!
“Ela é calorosa”, gesticulei as palavras para , que sorriu de forma condescendente, enquanto abraçava minha mãe de volta.
- Estou sozinha em casa. – Minha mãe foi logo dizendo quando entramos no apartamento. Nada havia mudado; talvez um novo vasinho chinês em cima da lareira.
- Ok – murmurei, agradecendo internamente por isso. Ela sabia que seria um pouco difícil manter uma conversa se meu pai estivesse ali. E minhas irmãs fariam algazarra por eu ter vindo visitar. – Eu só vim pegar umas coisas no meu quarto. – Expliquei.
- Sério? O quê? Você não está se metendo em problemas, está? – Minha mãe nos seguiu.
- Sério. Uns desenhos. E não, não estou. – Respondi na ordem. Indiquei a cama para , que se sentou nela, olhando-me enquanto eu abria algumas gavetas.
- Desenhos? – Minha mãe sentou-se ao lado de .
- Sim.
- Para quê?
- Um portfólio.
- Dê-me a história completa, Zayn! – Ela reclamou.
- É uma oportunidade... – Interrompi-me de propósito, sem saber se era realmente válido lhe contar aquilo. – Uma oportunidade de emprego. – Completei em voz baixa.
- Emprego?! – Ela se levantou e veio até mim.
- Sim.
- Onde?
- Numa empresa. – Murmurei, já impaciente. Ela continuaria com todas aquelas perguntas?
- Como?
- Mãe, depois conversamos sobre isso. Temos que voltar ainda hoje. – Olhei para , que se manteve calada durante todo o tempo. – Pode ver se tem alguma caixa com meu nome no sótão?
Geralmente – ou sempre – minha mãe não me deixaria falar daquela forma com ela, mas acho que ela ainda estava em choque pela visita para me dar uns cascudos. Trisha olhou para mim por um ou dois segundos antes de sair do quarto, parecendo contrariada.
- É assim que você fala com sua mãe? – finalmente falou.
- ... – murmurei, alertando-a de que eu não estava com humor para lição de moral. Abri as portas do armário e tirei um velho caderno de dentro de uma caixa, folheando-o.
- Você vai dizer alguma coisa legal para ela antes de ir embora – continuou.
- Tipo o quê? – Evitei uma risada seca.
- “Eu te amo”? É um bom começo.
Não respondi, fingindo estar ocupado demais arrancando as folhas do caderno. Ela se levantou e começou a andar pelo quarto.
- Gostei da cor das paredes – disse. Tirei uma pasta do fundo da primeira gaveta da escrivaninha e coloquei os desenhos que encontrava dentro dela. Não me lembrava da maioria deles e me surpreendia quando via um desenho que mexia no design de um objeto que já existia. Senti a presença de perto de mim, depois vi sua mão tirar o desenho que eu olhava de minha mão. – Você é muito bom.
- Era.
- Ainda pode ser.
- Faz tempo. – Dei a palavra final, tirando o desenho de suas mãos e o coloquei na pasta junto com os outros.
- Você é um rabugento. – Ela beliscou meu braço e voltou a se sentar em minha cama.
Balancei a cabeça, repreendendo-me por ser tão estúpido.
- Não achei nada, querido. – Minha mãe voltou ao quarto. Vi-a cruzar os braços e se encostar ao batente da porta, com um olhar tão profundo e maternal que chegou a me incomodar. Vi seus olhos se encherem d’água por um segundo, mas ela fungou e sorriu, tornando a olhar . – Vocês querem comer alguma coisa? A viagem deve ter sido longa! Vou fazer um pouco de chá.
- Eu te ajudo – se ofereceu, para minha surpresa. Minha mãe agradeceu e saiu. a seguiu, mas antes parou ao meu lado, deu-me um beijo na bochecha e apertou suavemente meu braço. E então saiu.
Levantei meu olhar para a janela do quarto, que me dava uma visão ampla da rua onde cresci. Estar sozinho naquele quarto era sufocante e trazia lembranças que eu nem sabia que guardara. Baixei os olhos para os desenhos mais uma vez, perguntando-me quando foi que minha vida deixou de fazer sentido.
Ah sim, você está namorando a irmã do motivo.
Namorando...
Achei mais uma pasta de desenhos, mas esta continha produções de quando era criança.
- Você era bom, seu bastardo – murmurei para mim mesmo enquanto passava os olhos pelos desenhos que selecionei.
Apressei-me em não me afundar em sentimentalismos e rancores. Aquilo virara história há muito tempo e eu não era mais aquele imbecil que eu era. Puta merda, só sendo muito imbecil para cair na conversinha desgraçada de Amanda.
Respirei fundo, tentando não pensar naquela vadia, mas não estava tendo sucesso. Aquele quarto me causava revolta. Aquele maldito quarto terrivelmente infantil porque eu não tive tempo de colocar pôster nenhum de uma banda foda da qual era fã ou de trabalhar com o Sr. Alger no verão para juntar dinheiro e comprar a mesa para desenho que eu tanto quis por tanto tempo. Não, eu não tive tempo de fazer merda alguma, porque eu estava ocupado demais correndo atrás de um rabo de saia que só me levou à desgraça.
Passei as mãos pelos objetos que decoravam porcamente a pequena estante que ficava de frente para a minha cama. O cubo mágico que consegui resolver depois de meses, um pequeno rádio de pilha, os óculos de sol de meu pai estilo soldador, uma luva de baseball com uma bola nela da época em que eu fiquei obcecado com os Estados Unidos.

Movido por uma curiosidade que era mais nostálgica que criteriosa, resolvi colocar todos os desenhos que encontrasse na pasta e depois olharia cada um deles com alguma calma na casa de , onde era um ambiente controlado.
Aqui eu sentia que não podia ser justo comigo mesmo e tendia a piorar todos os meus esforços juvenis de ser designer.
Quando me dei por satisfeito, apaguei as luzes do quarto, saindo sem olhar para trás.
Encontrei e minha mãe conversando na cozinha enquanto a chaleira começava a apitar. separava alguns biscoitinhos num dos pratos decorados favoritos da minha mãe, o que me fez sentir a vergonha começar a se pronunciar dentro de mim. Condenei a afetação de minha mãe sem misericórdia.
- Então ela não mora com vocês? – Minha mãe perguntou.
- Não, ela foi embora há um tempo. Disse que precisava de um tempo – encolheu os ombros, mas sua expressão denunciava seu sofrimento.
Por que diabos elas estavam falando disso?
- Mãe, deixe em paz. Não vá perguntar coisas íntimas. – Intervi.
- Sua mãe estava me contando sobre o seu tio, por isso comentei sobre minha mãe – explicou. – Os dois saíram de casa sem mais palavra.
- Ah – murmurei. – Como está a tia? – Perguntei à minha mãe, aquecido por um velho afeto familiar.
- Arrasada – suspirou ela.
- E você, ?
- Já estive pior em relação a isso – ela abriu um sorriso pequeno. – O St. Bees ajuda um pouco. Estar sempre longe.
Observei minha mãe colocar chá na xícara à frente de e depois para ela mesma. Depois acompanhei a conversa como um espectador enquanto as duas falavam sobre alguns livros dos quais eu só ouvira sobre os filmes, sobre os planos de minha mãe copiar o jardim da janela da Sra. Haskins, mas que ela queria muito mais um misto de cravos coloridos, isso daria alguma vida à pobre vizinhança, sobre o que comentou como seu dia melhorava quando encontrava uma janela de prédio com flores. Depois falaram sobre o tempo de Carlisle e como foi para a garota morar tanto tempo num lugar tão remoto. Quando decidi que era hora de ir embora, estavam comentando que o Príncipe Harry era muito parecido com a mãe Lady Diana.
Já passava das seis da tarde.
- Posso usar o banheiro, Trisha? – perguntou gentilmente à minha mãe, que lhe deu um sorriso e indicou o caminho. Quando passou por mim na porta da cozinha, sussurrou para mim “algo legal!” e sumiu pelo corredor.
Minha mãe se levantou, colocando a chaleira de volta no fogão.
- Ela é muito legal – começou. – Contou-me que o amigo do pai dela é quem está querendo te dar um emprego.
- É, ela tem essa mania irritante de se meter na minha vida. – Observei, tentando não rir daquilo. Puta merda, era demais para mim.
- Bom, nunca estive tão feliz que alguém se meta na sua vida. – Minha mãe disse, com um sorriso. – Arquitetura, Zayn! É como ver meu garotinho de 15 anos de novo...
- Não coloque muitas expectativas em mim – avisei.
- Ah, lá vamos nós! – Ela revirou os olhos, balançando a cabeça.
- Não tem nada... – bufei, lutando com as palavras. Não adiantava alertar minha mãe; eu podia gritar o quanto quisesse, fazer quantos buracos quisesse na maldita parede do meu quarto, ela jamais veria a verdade. Aquele garoto morreu há muito tempo e agora não havia nada em mim que valesse a pena acreditar. Mas eu não podia dizer aquilo. Ela não estava se dobrando em mil partes para pagar uma escola de mauricinhos para não ter esperanças sobre meu futuro. E não tinha forma fácil de fazê-la perceber que o filho dela era só um grande pedaço de merda ambulante.
- O quê? – Ela quis saber, aproximando-se um pouco de mim.
Ouvi o trinco da porta do banheiro se abrir e os passos de vindo em nossa direção.
- Foi um erro ter vindo. – Concluí, quando finalmente apareceu na porta da cozinha. Segurei-a pela mão, levando-a até a porta.
- Zayn! – Ela sibilou para mim quando parei para destrancar a porta.
- Foi um prazer te conhecer, . – Minha mãe veio até nós e, mais uma vez, abraçou , que dessa vez a abraçou de volta imediatamente. Depois, foi a minha vez. – Você está tão bonito! – Ela sorriu e passou a mão pelo meu rosto. – Mas essa barba... – Balançou a cabeça.
Soltei uma risada fraca e lhe dei um rápido beijo no topo de sua cabeça.
Aquela casa nunca esteve tão gelada.
- Cuide-se, mãe. – Disse-lhe e puxei para fora do apartamento.
Desci as escadas rapidamente, com ela no meu encalço e, foi somente quando saímos do prédio, que percebi que estava prestes a receber um tratamento de silêncio.
- O que é, ? – Perguntei, procurando a chave do carro nos bolsos da jaqueta e da calça.
- Você deve ser o maior babaca que eu conheço! É a sua mãe, Zayn!
- Quanto mais longe, melhor, . É a melhor forma de lidar com minha família.
- Tenho certeza de que deve haver outra forma, você só é cabeçudo demais!
- Cabeçudo? – Arqueei uma sobrancelha. – Agora que eu estava prestes a ficar realmente irritado, você me solta uma dessas! – Soltei uma risada fraca.
- Você é um troglodita. – Bateu a porta do carro quando entrou. – E você sabe que isso está errado! Está errado demais! – Suspirou e colocou a mão sobre a minha, impedindo-me de ligar o carro. – Zayn. – Chamou, segurando meu rosto entre suas mãos. – Você sabe que pode contar comigo, não sabe?
- É complicado demais... – Comecei a dizer. – É difícil... E não é da sua...
- Nem ouse terminar essa frase, Malik! – Ameaçou, com uma risada e eu a acompanhei, puxando-a para um beijo.
- Eu odeio admitir isso, mas estou satisfeito que esteja aqui comigo. – Coloquei uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha, olhando em seus olhos.
- Satisfeito? – Arqueou as sobrancelhas.
- Não força a barra – avisei, fazendo-a rir.
Ela se sentou corretamente no banco de couro e colocou o cinto com um sorriso no rosto.
Olhei uma última vez para o prédio cheio de emoções contraditórias sobre aquele lugar. Tantas vezes lutei para fugir do fundo desse poço e, agora, de alguma forma, é como se eu quisesse voltar, mas não posso. Não enquanto o assunto “Mandy” não estiver resolvido. Não foi somente eu quem experimentou o inferno quando eu fui para o reformatório; minha família também esteve lá comigo. E, por isso, eu terminaria aquilo por eles. Também.
- Vamos comprar um hambúrguer bem gorduroso e muitas batatinhas para a viagem – sugeriu, arrancando-me de meus pensamentos.
- Eu conheço um lugar – sorri para ela, dando partida no carro em direção ao centro da cidade.
__
O Hyped ainda parecia ser uma lanchonete badalada no centro de Bradford. E, para falar a verdade, o estabelecimento não parecia ter mudado um simples detalhe. A fachada ainda era feita de vidro e você podia ver tudo que acontecia lá dentro, caso não ficasse cego com a iluminação extremamente forte do letreiro que gritava o nome do lugar em verde neon quando já era noite.
- Perdi as contas de quantas vezes eu vinha aqui com uma galera depois da escola – contei a .
- Uh, ele tinha amigos! – Ela provocou, entrelaçando seu braço no meu quando saímos do carro e entramos na lanchonete. – Meu Deus, que cheiro maravilhoso.
- O que aconteceu com a saladinha que você ia comer mais cedo na sua casa?
- Bom, ela ficou lá! – Riu. – Não seja um chato e me deixe comer o que eu quero, ok?
- Quem sou eu para falar alguma coisa? Além do mais, eu adoro um pouco de carne para agarrar – pisquei para ela. Sentamos em uma mesa perto da grande janela e logo um garçom veio nos atender. – Vou querer o especial do dia. – Apontei para a placa na parede.
- O mesmo que ele. – sorriu, como se estivesse fazendo algo errado por escolher o mesmo que eu, mas o garçom entendeu errado e sorriu de volta para ela de forma maliciosa, depois se afastou.
- É assim? Na minha cara?! – Coloquei a mão no peito, fingindo mágoa.
- Eu sou irresistível, aprenda a lidar com isso – ela acenou, como se não fosse importante.
- Se vai me copiar, pelo menos me dê os créditos!
- Claro, se ele quiser um beijo, eu digo que você dará – riu.
- Passo. – Ri também, colocando meu braço por seus ombros e beijei seu rosto.
- Eu gostei dessa cidade – disse ela, depois de um tempo em silêncio.
- Ah, por favor – estalei a língua.
- Que foi?
- Não tem nada aqui!
- Discordo – disse categoricamente. – Ei, notou que você conheceu meu pai e eu conheci sua mãe? O próximo passo é o casamento, você sabe.
- É verdade, acho que estamos indo rápido demais – usei meu melhor tom de brincadeira.
- E eu concordo! Acho melhor terminarmos – riu fraco.
- Ufa! Achei que eu que teria que pedir!
- Nós dois sabemos que você é um molengão e sou eu quem tem que dar o primeiro passo em tudo.
- Você se orgulha demais daquele beijo! Não sei se você lembra, mas eu te beijei na noite do baile.
- Desculpa furar sua bola, mas aquilo não conta. Aliás, por que aquele beijo aconteceu at all? Você parecia tão atrapalhado.
- É mesmo? – Arqueei uma sobrancelha, ignorando seu comentário pelo medo de não encontrar uma resposta boa o suficiente. – Nem um arrepio? Nem um friozinho na barriga? Nada?
- Nop.
- Agora você magoou meus sentimentos! – Ri, segurando sua mão embaixo da mesa.
- Você magoou os meus, Malik! – Uma terceira pessoa gritou, parado ao lado de nossa mesa, e eu senti meu sangue congelar em minhas veias. – Não nos avisou que estava na cidade!
A figura de Victor nos encarava com certa diversão enquanto eu me amaldiçoava por não ter pensado por um segundo sequer que poderia encontrar conhecidos na lanchonete onde costumava passar tempo com conhecidos. Com ele estavam Mae, Aakar e Camile.
- Victor. – Tentei saudá-lo com alguma animação, mas não consegui.
- Fuck, man, não acredito que nos reencontramos depois daquela noite... adorável! – Ele puxou uma cadeira livre e se sentou conosco.
- Victor, não seja tão idiota! – Mae, a vítima daquela noite, disse, revirando os olhos e sorrindo para mim. Quando ela puxou outra cadeira e se sentou também, Aakar e Camile fizeram o mesmo.
- Quem é a garota? – Aakar perguntou, sorrindo para . Não por educação.
- Walker. – A própria se apresentou, estendendo a mão para ele, que a pegou e a beijou. Revirei os olhos, o que fez Victor rir.
- Aakar Saletzu – ele piscou para ela, que recolheu sua mão.
- Victor, Mae e Camile. – Apontei para cada um. – São meus... amigos da infância.
- Bons amigos! – Victor me corrigiu. – É um prazer te conhecer, .
- – corrigi. Nem fodendo que eles pensariam que podem ter alguma intimidade com .
- Você é do lado de lá do país? – Camile perguntou entre uma mordida e outra em seu chiclete. Uau, pensei, ela não havia parado com aquele vício.
- Sim, eu moro em Carlisle – sorriu fraco.
- Na mesma escola de grã-fino? – Camile continuou, ao que soltou uma risadinha.
- É, nós estudamos juntos.
- E o que te traz de volta de tão, tão distante, amigo? – Victor quis saber.
- Vim visitar minha mãe – menti.
- E como ela está? – Mae quis saber, sorrindo, depois se virou para . – A mãe dele sempre foi a mãe mais legal de todas as mães.
- A única presente, na verdade. – Aakar reiterou.
Suspirei, frustrado por estar ali naquela hora e naquele lugar.
Certamente que eu não precisava que conhecesse tanto da minha vida. Conhecer minha mãe já fora um salto tremendo, conhecer esse ninho de cobras não era o próximo passo mais saudável.
- Ela nem brigou muito quando nos pegou fumando no quarto dele pela primeira vez – Mae continuou.
- Não brigou muito? Ela ficou uma fera! – Aakar corrigiu. – Ah, cara, bons tempos! – Soltou uma risada melancólica e tirou uma carteira de cigarros do bolso da jaqueta roxa. – Tem fogo? – Perguntou para mim.
Óbvio que eu tenho fogo, apesar de não ter fumado um cigarro desde a noite passada.
E, agora que percebi isso, a ansiedade por um cigarro me atingiu como um caminhão.
Ótimo.
Tirei o isqueiro do bolso e joguei para ele.
- Achei que tivesse parado de fumar, Saletz. – Observei.
- Não é para mim – murmurou com o cigarro na boca. – Você aceita, baby? – Ofereceu a com malícia.
- Não fode, Aakar – afastei a mão dele com um safanão.
- Quem é você? O pai dela? – Camile estourou uma bolha de chiclete.
- Ela pode falar por si só – Mae revirou os olhos para mim.
Todos se voltaram para .
- Não, obrigada. – Disse.
- Uh, ela é adestrada – Camile murmurou baixo apenas o suficiente para todos ouvirmos.
- Então oitenta por cento da população britânica foi muito bem adestrada – retrucou.
- Como é?
- Oitenta por cento da população britânica não fuma.
- Ela é espertinha, não? – Camile sorriu para mim. – Parabéns, Zayn, você ganhou na loteria.
Nunca gostei de Camile.
O garçom voltou com nossos pedidos embalados em dois sacos de papel para a viagem.
Graças a Deus, pensei.
- Olha só, Zayn Malik pagando sua própria comida! – Aakar riu entre uma tragada e outra quando tirei a carteira do bolso.
- Ele devia pagar a da jovem senhorita, não? – Victor propôs, como se me desafiasse a ter dinheiro suficiente para pagar tudo.
- Eu vou – respondi, um pouco ofendido.
- Eu não te conheço de algum lugar? – Perguntou Victor de repente.
Fodeu.
Eu podia, literalmente, ouvir uma sirene tocando em algum lugar de minha mente.
- Acho que não. – franziu o cenho.
Procurei o garçom com os olhos, medindo quanto tempo mais teria que aguentar aquela palhaçada até podermos ir embora de volta para as fortalezas de Carlisle, longe daquela cidade amaldiçoada. Ele estava contando o meu troco.
- É, acho que é coisa da minha cabeça. Você tem esse rosto de patricinha, é muito comum. – Victor deu de ombros, olhando ao seu redor. O garçom voltou, agradecendo a preferência e a gorjeta. Peguei os lanches de cima da mesa. – O que é isso? Já vão embora?
- Sim – respondi, já de pé.
- Vão voltar para lá? – Mae fez um bico. – Não! Fiquem mais um pouco. O Victor vai se comportar! – Ela deitou a cabeça no ombro dele e acabei me perguntando se eles estavam tendo alguma coisa.
- Vamos fazer alguma coisa pela cidade. Mostrar à forasteira o que esteve perdendo esse tempo todo – Victor sugeriu, com um sorriso mais brando.
- Deixe que ela escolha! – Mae insistiu, virando-se para , que ainda estava sentada. – Vamos, vamos deixá-los conversar! Esperamos vocês lá fora!
- Não vão comer? – perguntou.
- Não, apenas entramos aqui porque vimos o Zayn na janela – Aakar explicou, batendo a cinza de seu cigarro num copo de plástico vazio da mesa vizinha.
Mae murmurou alguma coisa e fez todo mundo sair da lanchonete, deixando-nos, finalmente, a sós.
- Não me diga que você quer passar mais tempo com eles!
- Zayn! São seus amigos! Estranhos, mas amigos!
- Claro – bufei.
- O que houve? Vocês brigaram?
Sim, , por causa da sua irmã!
Cacete, havia alguma forma de namorar aquela garota sem que tivesse que se meter na minha vida?!
- Não... – suspirei, extremamente frustrado e decididamente cansado de inventar tanta mentira. – Eu... Faz muito tempo desde a última vez que os vi. Não são mais os mesmos.
- Se você for embora agora, talvez nunca saiba se isso realmente aconteceu.
Ah, , seus conselhos seriam ótimos se você estivesse na história certa.
____
Tomei outro gole do que quer que fosse aquilo que eu estava tomando enquanto observava Mae e Victor dançando juntos, grudados um no outro, e depois observava o resto do meu antigo grupo de amigos e então de volta ao casal. Eles não estavam juntos no ano novo.
Entornei outro gole maior; estava tão preocupado com o desenrolar daquela noite que nem sentia minha garganta arder com a bebida.
Victor conheceu Mandy. Uma vez ou outra, mas o filho da puta tinha uma memória fantástica e não ia demorar até que ele fizesse as conexões certas e percebesse a semelhança entre as irmãs. E, para esse impasse, eu tentava buscar conforto no fato de que eu mesmo senti a familiaridade, mas não reconheci de imediato. Se eu conheço a Mandy tão bem e isso aconteceu, com certeza ele levaria mais tempo.
E, além do mais, não lembrava Mandy no jeito de agir. Isso era outro trunfo.
- Zayn Malik, a alma da festa! - surgiu à minha frente com um sorrisinho irônico e pegou o copo da minha mão, tomando um gole dele com uma caretinha. - O que você está tomando?
- Não faço a menor ideia - passei um braço por seus ombros, trazendo-a para perto. - Avise assim que quiser ir embora.
- Você ainda vai me explicar o porquê dessa implicância toda - exigiu, ao que eu assenti e ela me deu um sorriso satisfeito.
Toquei seu rosto quando me senti capturado por seu olhar. Fui tomado por um sentimento devastador de que estava jogando fora uma das melhores coisas que já me aconteceu. Ali, dentro de seus olhos, eu me sentia diferente, quase como se fosse alguém “certo” para ela. Mas não era e precisava encarar aquilo. Puxei-a para um beijo urgente; havia muita coisa em minha cabeça e, honestamente, preferia muito mais gastar minhas energias com ela.
- Opa! Vai com calma, casal! – Mae apareceu ao nosso lado de repente, gritando mais que o necessário por cima da música. – Eu sei onde arranjar quartos baratos – ela piscou para .
- Tenho certeza de que ela não precisa de pechinchas – Camile estava com ela e soltou uma risada maldosa.
Fuck, eu estava começando a me irritar com aqueles comentários idiotas sobre a condição de . Era assim que esse tipo de merda soava? Irritante? Era assim que eu soava para ela?
- Você está absolutamente certa, mas, se você quiser, eu posso pagar uma diária para você – respondeu e não pude esconder minha diversão com a cara que Camile fez.
Eu juro que se olhares pudessem matar...
Ao nosso redor, alguma música remixada começou a tocar e Mae soltou um gritinho e bateu palminhas.

- Eu amo essa música! – Exclamou ela com o maior sorriso que seu rosto conseguia suportar. Soltei uma breve risada; eu sempre adorei o temperamento de Mae. Ela era daquele tipo de gente que você passa sua vida inteira se perguntando se, algum dia, as coisas vão melhorar para pessoas como ela. – , nós precisamos dançar!
Ela não deu tempo para que respondesse, apenas pegou sua mão e a arrastou para a pista de dança montada entre as mesas do bar seguida por Camile, que também parecia animada com a música.
parou alguns segundos enquanto observava os passos de Mae e, finalmente, conseguiu se encaixar no estilo da outra garota, que ainda a segurava pelas mãos quando começaram a dançar juntas. Camile dançava perto delas de olhos fechados e sozinha, tão independente quanto sempre fora. Observando-as – especialmente – levantei a mão para outro gole daquela coisa intragável que estava tomando quando dei falta do copo e olhei para a tempo de vê-la entregando o copo para um garçom que passava por ela.
Balancei a cabeça, contrariado, mas orgulhoso de alguma forma; ela era muito esperta, eu precisava admitir.
- Você está apaixonado, não está? – A proximidade de Victor ao meu lado me assustou e eu quase esmurrei seu ombro por reflexo.
- What the hell, Victor! – Grunhi, recuperando-me do susto.
- Você está, não é? – Insistiu.
- Que merda de pergunta é essa?
- Não adianta fingir, Malik. Eu te conheço.
- Vai pro inferno – murmurei, virando-me para o bar e pedi uma cerveja. O garçom me olhou com alguma pena, provavelmente se perguntando por que deixava menores de idade beber em seu turno.
- É bom saber que você se recuperou daquela garota, a Mandy – disse ele, casualmente. Meu sangue pareceu congelar em minhas veias. Aproveitei que estava de costas para ele e fechei os olhos, respirando fundo. – Mas que gosto, hein? Garotas ricas. Deve ser essa sua cara de cafajeste – riu.
- Isso é inveja, Victor? – Provoquei.
- Ei, dude, eu estou com a melhor garota desse grupo – disse ele, apontando com a cabeça para Mae que ainda dançava com .
- Como isso aconteceu, mesmo? Você pagou a ela?
- Bom... – soltou uma risada seca – Alguém tinha que levar ela para casa naquela noite, se não o Thomas ia atrás dela.
Puta merda.
Maldito.
- Por que voltou? De verdade.
- Vim ver minha mãe – reforcei.
- Malik – insistiu.
- Victor, pare de fingir que nós ainda somos amigos – pedi, virando-me para ir ao encontro de e ir embora de uma vez, mas ele me segurou pelo ombro.
- Zayn, cara, aquela época... Ninguém estava bem...
- Se vocês fossem meus amigos, teriam me avisado sobre a merda em que eu estava me metendo.
- Eu sei. E é por isso que as coisas não precisam ser as mesmas. Você está com essa garota agora, estudando naquele colégio caro e vindo visitar sua mãe... E, cara, isso parece ser o mais certo. É o melhor para você.
Soltei uma risada.
- Você não faz ideia do quão certo está, mas também está tão enganado que chega a ser engraçado.
- Não estraga isso, Zayn – ele me advertiu e aquilo fez meu sangue ferver.
- Puta merda, Victor, eu vou quebrar a sua cara – passei a mão livre pelo rosto.
Ele não respondeu nada. Apenas assentiu com a cabeça e me indicou que o seguisse quando começou a andar em direção à porta do pub. A contragosto, segui-o de longe, perguntando-me o que ele pretendia, mas estava puto demais para chegar a qualquer conclusão. Quantas perguntas, quantos... malditos conselhos! Quem aquele imbecil achava que era? A Oprah?!
Saímos do pub recebidos pelo ar frio, e ele se virou para mim quando chegamos no estacionamento.
- É isso que você quer? – Perguntou, abrindo os braços. – É isso que vai te fazer relaxar?! Então vem, cara! Eu estou aqui e você pode me arrebentar se quiser. Eu mereço.
- Que merda é essa, Victor? – Cruzei os braços para controlar a raiva que corria livremente por mim. Puta merda, eu estava tremendo de tanta adrenalina.
Eu estava puto e louco para enfiar minha mão na cara daquele merda.
- Dá para ver na sua cara, Zayn. Quer você goste ou não, nós éramos irmãos. E eu te conheço muito bem.
- Nós éramos irmãos! – Ri. – E você me jogou aos leões! Vai se foder, Victor. Com força. Eu não ligo.
- Quanta raiva reprimida – riu consigo mesmo, o que me deixou com mais raiva ainda. Ele estava debochando de mim? – Você tem muito ódio dentro de você e isso vai te consumir uma hora. Eu só quero que você me dê a minha cota antes que você exploda, porque, aí sim, a coisa vai ficar feia.
- Eu já descontei toda a minha raiva na cara daquele playboy. Se você não lembra, foi isso que me levou para o reformatório.
- Aquela foi a cota da Mandy. Agora, a minha – abriu os braços mais uma vez.
- Não se faça de mártir!
- Bata em mim, Malik.
- Vai pro inferno, Victor – dei-lhe as costas, pronto para voltar para dentro daquele maldito pub e tirar dessa maldita emboscada.
- Bata em mim, seu maldito covarde! Pelo menos uma vez na sua vida machuque quem tem que ser machucado de verdade e não as pessoas que não têm nada a ver com seus malditos problemas! – Ele gritou de repente, fazendo-me estancar no lugar, absorvendo suas palavras. – A Mandy te traiu, você apagou aquele cara. Você estava puto comigo no Ano Novo e quem apanhou foi a Mae e agora essa garota que vai se machucar por não saber em que tipo de buraco profundo, escuro, frio e solitário ela está se metendo! Você só vai estragar a vida dessa menina se não parar de atacar as pessoas erradas, seu imbecil! Você só faz mer-
Eu o interrompi quando girei nos calcanhares e atingi seu rosto com um soco tão forte que apenas um foi suficiente para cortar a pele dos nós dos meus dedos. Ele caiu no chão com o impacto e gemeu de dor, mas, depois começou a rir. Riu como um psicopata.
- Não ouse falar uma palavra sobre a ! – Apontei para ele com o sangue ainda fervendo. – Você pode falar da Mandy, pode falar da Mae, pode falar de quem você quiser. Mas. Não. Fale. Dela.
Não fale a merda da verdade, era o que eu queria dizer com aquela ameaça.
- Cacete! Merda! Seu filho da puta! Merda! Merda! – Passei as mãos pelos cabelos, sentindo como se um peso de mil toneladas tivesse saído de cima de meus ombros. Ele continuou rindo enquanto se sentava e limpou o sangue que escorria do corte em seu supercílio. Balancei a cabeça, afastando aquele maldito sentimento que me acompanhava sempre que eu perdia a calma. O sentimento de que a merda já estava feita e agora não tinha volta.
Como eu ia explicar isso para a ?!
Respirei fundo, derrotado. Teria que ser a verdade.
Pelo menos ninguém poderia dizer que eu menti o tempo todo para ela.
- Sabe, Zayn, poderia ter sido tudo diferente – disse Victor. – Mas até que faz sentido. Que bom que não foi.
Voltei para dentro do pub com as mãos dentro dos bolsos da calça – a mão cortada protestando de dor em contato com o tecido áspero. Victor não veio comigo. Avistei ainda na pista de dança com as outras garotas e Aakar havia se juntado a elas.
- Vem dançar! – me puxou pelo braço e colocou suas mãos em meus ombros enquanto se balançava ao som da música, mas eu não conseguia me mexer. – O que foi? – Ela parou de dançar.
Limpei a garganta.
- Nada – abri um pequeno sorriso e lhe dei um beijo na testa.
- Dança comigo – pediu mais uma vez, agora com seus olhos fixos nos meus. Eu nunca saberia dizer não a esses olhos.
- Victor! – Mae exclamou ao nosso lado quando ele se aproximou de nós com um sorriso tranquilo no rosto.
- Eu estou bem! – Ele levantou as mãos.
- O que houve? – Ela quis saber.
- Uns caras estavam falando de você e eu não consegui me segurar para não acabar com a raça deles. Mas eles eram muitos e Zayn me ajudou – ele olhou para mim, transformando-me em herói de repente.
- Victor, você prometeu! Nada mais de brigas! – Mae ralhou, segurando o rosto dele entre as mãos.
tirou minhas mãos dos bolsos e viu a mão cortada. Lançou-me um olhar que misturava uma repreensão, mas orgulho ao mesmo tempo, o que me fez sentir uma culpa terrível.
- Não estou bêbado o suficiente para isso – murmurei.
Aquela noite já havia dado tudo que tinha para dar.
- Vamos embora? – Perguntei, carregando a voz para que ela entendesse minha urgência. A impressão que eu tinha era de que eu ia explodir. Ela me fitou por alguns segundos e assentiu. Nem me dei ao trabalho de me despedir, apenas tomei sua mão e a conduzi para fora daquele pesadelo.


’s POV
- Às vezes eu acho que eu sou tipo o Salsicha do Scooby Doo. Tipo, um alívio cômico mas que na verdade não tem muita serventia e o meu cachorro é mais popular do que eu.
Os cabelos de Louis eram macios, e no momento eu estava com as duas mãos cheias deles, fazendo carinho em sua cabeça e apenas contribuindo para que os fios ficassem mais bagunçados do que já eram, enquanto sua cabeça estava deitada em minha barriga.
- O cachorro no caso é o Harry.
- Eu imaginei.
- E a Daphne é a . Porque ela é lira e usa muito rosa.
- Ok.
Há minutos que nossas conversas não faziam mais muito sentido. De manhã a família de Louis foi visitar a avó dele, e decidimos ficar, com o combinado de que no final da tarde sairíamos todos para um “programa em família” do qual eu não sabia bem o que esperar. Então fumamos um baseado dos grandes antes do almoço, e depois Louis pegou um pacote de pãezinhos, uma faca e um pote de requeijão e fomos para as espreguiçadeiras ao redor da piscina comer e falar besteira. Comemos o pacote todo sem nem perceber, e em algum momento depois disso me estiquei para trás e Louis se deitou no meio das minhas pernas, com a cabeça em minha barriga, e colocou uma playlist nossa tocar no Spotify. Estava um dia quente, mais do que o normal para aquela época, e por isso ele estava só de calção e eu com biquíni e um vestido leve por cima. Cada dia de sol daqueles na Inglaterra precisava ser aproveitado ao máximo, e tanto eu quanto ele concordávamos que estávamos brancos demais e que a vitamina D era bem vinda.
Ainda estávamos lá, no mesmo lugar, ainda um pouco bobos demais para fazer qualquer outra coisa.
- Eu gosto mais do alívio cômico do que do personagem principal na maioria das vezes. – Comentei, depois de um tempo. – E o que sobra para mim nessa história?
- O que você quer ser? – Ele passou de leve os nós dos dedos por minha coxa num carinho leve, encarando o céu.
Pensei.
- Não sei. Provavelmente eu seria o monstro.
Louis riu, e o acompanhei.
- Com a máscara de uma garota gostosa.
- Nunca daria certo. – Desci uma mão por seu peito. Ele a pegou e começou a brincar com nossos dedos. – O Salsicha não tem sorte com garotas.
- Pode crer. Acho que minhas irmãs ainda acham que eu estou pagando pra você fingir que me namora.
- Você tá, de certa forma. Eu só estou aqui por causa do seu jeitinho idiota de me tratar bem.
- . – Louis chamou meu nome depois de um momento. – Isso se chama relacionamento.
Comecei a rir, quando percebi como o que eu disse era idiota. Ele me acompanhou, se sentando em minha frente e se curvando para me beijar. O beijo se aprofundou, minha mão foi parar em sua nuca e a sensação era que tudo nele parecia estar transbordando para mim, enchendo eu peito com os sentimentos dele.
- Em minha defesa... Como um cara como eu apresenta uma garota como você como namorada? – Ele disse entre o beijo.
- Eu nunca aceitei namorar com você. – Respondi.
Louis parou de me beijar e me olhou, e minha boca instantaneamente sentiu falta da dele. Antes que eu pudesse evitar já havia feito um biquinho ridículo em resposta ao modo como ele se afastou, e passei a língua pelos lábios contendo um suspiro frustrado.
- Você quer que eu peça?
Ri fraco.
- Não. – O puxei novamente para outro beijo, e depois me afastei. Louis sentou com as pernas cruzadas em minha frente, a atenção voltada toda para mim, e descansou uma mão em minha perna.
- Minha família gostou de você. Sabe, eu realmente nunca havia trazido nenhuma garota aqui além da , e minha mãe e Mark sempre disseram que ela e o Harry vão com certeza casar eventualmente. Mas... acho que mandamos bem nas apresentações apesar de tudo, eu esperava que fosse mais constrangedor. Acho que depois de seis filhos, suas expectativas já não são muito altas para qualquer coisa.
- Será que sua mãe não pensa que estou desvirtuando o primogênito dela? – Contive um sorrisinho para ele.
- Eu bem que gostaria que você estivesse me “desvirtuando”... – Comentou, com um falso desinteresse, e empurrei-o pelo peito. Ele riu.
Sexo nunca havia demorado tanto a vir à tona antes num relacionamento para mim, na verdade era quase sempre uma das primeiras coisas a acontecer. Mas daquela vez era diferente, é claro. Eu queria, e ele queria, e ambos sabíamos, mas era difícil ter privacidade num colégio interno. As poucas vezes em que demos alguns passos a mais, acabamos sendo interrompidos por alguém, e apesar de o “perigo” ser excitante, ficava chato muito rápido.
Mas ali...
Rodeei os ombros dele com os braços e me aproximei de seu rosto, encostando nossas testas, depois meu nariz no dele, e por fim rocei os lábios nos dele de leve. Louis levou uma mão à minha nuca, me puxando para ainda mais perto e capturando minha boca em um beijo intenso. Lento. Gostoso. Seus dedos se enrolaram nos cabelos de minha nuca, e enquanto a versão de Hozier de Do I Wanna Know tocava em seu celular, aprofundei nosso beijo, sentindo uma súbita certeza de que nunca havia desejado alguém daquele jeito. Com tanta vontade, e uma vontade tão... íntima. Não era só física. Talvez fosse a maconha, mas parecia que estávamos em busca de fundir uma alma na outra, e se isso fosse possível, conseguiríamos naquele momento.

Em poucos flashes já estávamos subindo as escadas de sua casa, parando a cada dois ou três degraus para nos beijarmos novamente. Em certo momento caí sentada em um degrau por não estar vendo onde pisava e ele se abaixou, rindo, e continuou me beijando enquanto me puxava para cima.
E então estávamos em seu quarto. A porta se fechou com um empurrão, e só havia nós dois e a música. O quarto estava escuro, as persianas fechadas. Encontramos nosso caminho por entre os calçados atirados pelo chão do quarto dele, e de repente abri os olhos ao perder a boca dele e vi Louis se abaixar, se ajoelhando em minha frente enquanto segurava a barra do meu vestido, deixando um beijo em minha coxa logo abaixo dele. Começou a subir o vestido, e com ele os beijos, pelo lado interno de minha coxa, me arrepiando. Deixei meus dedos deslizarem por seus cabelos o sentindo subir, fazendo tudo com tanta vontade. Suas duas mãos seguraram minha cintura e ele continuou subindo, agora beijando a pele logo abaixo de meu umbigo, me fazendo comprimir a barriga e rir fraco, sentindo mais arrepios. Louis me olhou de baixo e sorriu, aquele sorriso... Aqueles olhos...
Ele se levantou, levando com suas mãos meu vestido. Levantei os braços o deixando tirar e soltar no chão. O edredom na sua cama ainda estava desarrumado da manhã, e apenas caímos em cima dele, Louis no meio de minhas pernas, e em cada ponto que minha pele encostava na dele, cada centímetro dele que eu explorava, só me fazia querer mais. Eu parecia estar acordada de verdade, sentindo de verdade, depois de muito tempo.
Talvez fosse sobre isso. Talvez fosse esse o sentimento que inspirava todas as melhores músicas de amor. De repente fez sentido para mim. De repente eu entendia aquelas letras.
Talvez fosse sobre isso o amor.

’s POV
me lançou um olhar torturado quando sua mãe perguntou a Will quando ele iria se formar pela terceira vez. Segurei o riso, contendo-me para não chamar atenção para nós duas durante o jantar, pois já havia sido o centro das atenções constrangedoras por tempo demais. A comida estava perfeita e o clima estava agradável o suficiente para comermos do lado de fora da casa na mesa de piquenique ao lado da fogueira de pedra acesa. A irmã de Harry, Gemma, insistiu para que tivéssemos uma noite de massa italiana caseira e a tarde, logo após o almoço, passou em meio a risadas escandalosas e muita, mas muita farinha de trigo. Eu e Niall fomos encarregados de abrir a massa na bancada de mármore com os rolos de massa mais finos e compridos que eu já havia visto em minha vida.
Eu estava tendo uma das melhores noites da minha vida ali. Havia me esquecido como uma família – ou duas – pode ser tão viva. Tão borbulhante, barulhenta e calorosa. Pareciam uma coisa só, mas dava para ver as diferenças ali e aqui, aqueles leves traços inseparáveis da criação de cada mãe. Harry tinha uma mãe muito animada e calorosa, mas era mais elegante e sofisticada que a mãe de , que, apesar de se esforçar para receber bem a nós, os convidados, parecia afetada e não sabia quando dizer ou não alguma coisa. Geralmente, era pelo excesso que ela errava.
E, apesar de tudo, era muito parecida com a mãe, a meu ver. Quando se via encurralada, reagia mal, de uma forma ou de outra. Sempre foi assim na escola; o que lhe causou várias idas à sala da diretoria.
Estava observando a mãe de dominar a conversa da mesa quando senti a mão de Niall tocar levemente a minha coxa antes de se virar para mim e me perguntar se eu queria mais macarrão para aproveitar o molho que formava uma sopa no meu prato.
- É assim que eu gosto – contei-lhe, chegando mais perto para que pudesse me ouvir com privacidade. – Mas estou com muita fome, então, sim, obrigada – sorri para ele, que apertou suavemente minha coxa em resposta, desviando sua atenção quando terminou de me servir.
Ergui o garfo para comer quando notei o olhar de fixo em mim.
- O quê?
- Então, você e o Niall, hein?
- O que tem?
- Eu já imaginava, mas queria ouvir com todas as palavras: vocês estão namorando? – Ela quis saber. Abri a boca, mas nada saiu. Não esperava ser confrontada daquela forma com um título tão sério quanto “namoro”.
- Por favor, diz que sim – ouvi a voz de Niall atrás de mim. – Eu estou torcendo muito pra esse casal acontecer.
Virei-me para ele e caiu na gargalhada, trazendo a atenção de sua mãe para ela.
- De que está rindo, ? Conte-nos! – Ela abriu um enorme sorriso e o de sumiu quando viu a atenção de todos virados para ela.
- Eu...
- E então? – Niall chamou minha atenção enquanto tentava formular alguma frase para responder a todos. – Eu sou seu namorado?
Pisquei duas vezes antes de processar que momento era aquele. O momento de colocar as cartas na mesa.
- Você quer ser?
- Não acredito que Wilson está me pedindo em namoro! – Comemorou baixinho e fez até uma dancinha com os dedos indicadores. Soltei uma risadinha e abaixei suas mãos.
- E então?
- Sim, eu quero muito ser seu – disse, olhando-me nos olhos. Abri um sorriso e assenti, arrumando minha postura, pois estávamos inclinados um na direção do outro.
Voltamos a interagir com o resto do pessoal na mesa, sem entrarmos em conversas paralelas e exclusivas entre nós pelo resto do jantar. Mantive a boca cheia de comida para evitar ficar sorrindo para as paredes, de tão boba que me sentia.
Ajudamos e Harry, os filhos que descobrimos ser os responsáveis pela limpeza na maioria dos eventos das duas família, a encher a máquina de lavar louças e depois secamos e guardamos tudo. As panelas de molho e onde foram cozidas as massas ficaram em cima da pia e, por algum milagre, como disseram, a mãe de Harry disse que não precisavam se preocupar e que ela lavaria.
- Vocês querem jogar alguma coisa? Ver um filme? – sugeriu, sorrindo para nós, seus convidados e, de maneira especial para Will. – A sala de TV está disponível, o que é uma raridade nessa casa.
- Na verdade, acho que vou pra casa – Harry recusou o convite. – Estou bem cansado da viagem, das nossas mães e tudo mais – soltou uma risadinha sem graça, como se não quisesse ter dito aquilo. – Mas você continuem sem mim, por favor! Quando for voltar, Niall, é só mandar uma mensagem.
- Ok.
Harry deu-nos um breve aceno, murmurou um “boa noite” e saiu da cozinha, deixando um clima estranho para trás.
- Ele está bem? – Will perguntou a , que mordeu os cantos internos das bochechas.
- Sim! – A voz dela saiu um pouco mais alta que deveria. – Sim, está.
Acabamos por voltar para a área externa da casa onde o pessoal ainda estava reunido, mas dessa vez em torno da fogueira. Juntamo-nos a eles, que conversavam sobre vários assuntos. Parecia impossível que tantas pessoas conversassem completamente entre si.
- A família de vocês é fantástica – disse Niall, inclinando-se para .
- Essa é a primeira vez que alguém disse isso espontaneamente – franziu o cenho de maneira afetada.
- Deixe de bobagem – ele riu.
- Eu nunca havia feito macarrão na minha vida – admiti para concordar com Niall.
- Nunca?!
- Eu também não – Will confessou e pareceu menos abalada com a revelação.
- Uau, que infância horrível vocês devem ter tido – disse ela, mas olhou para mim em seguida. – Quero dizer, nossa, , me desculpe!
- Não tem problema – sorri para ela porque, de fato, não tinha. Nossa infância foi incrível, apesar de nunca termos feito macarrão. A fase difícil foi a adolescência, mesmo.
Will nos olhou com expectativa de que alguém o deixaria a par do que estávamos falando, mas ficou calada por um instante, envergonhada por ter dito aquilo e Niall também ficara constrangido e fez um carinho na minha mão que segurava. Nem havia percebido que havia feito aquilo.
- Perdi minha irmã quando era mais nova – expliquei a ele, deixando detalhes de fora naturalmente. Era uma coisa nova que minha terapeuta havia indicado: enfrentamento. Sempre que alguém falasse sobre a tragédia, eu não tentaria fugir, mas enfrentaria de alguma forma. Ela acreditava que, assim, haveria menos oportunidades para Lola sentir que precisava tomar o lugar.
- Oh, eu sinto muito – disse ele, olhando-me com simpatia. – Qual era o nome dela?
- Catherine.
- Bonito nome – sorriu.
- Sim, mas ela era travessa – soltei uma risada sem conseguir evitar que algumas memórias surgissem em minha mente.
Está tudo bem, .
Deixe-as existirem. Elas são parte de você.
Repeti algumas vezes para mim, sentindo um pequeno calafrio percorrer meu corpo.
- Está com frio? – Niall foi capaz de sentir o movimento porque estávamos muito próximos um do outro.
- Não – sorri. – Está tudo bem.
Voltei-me para Will e , mas vi que eles estavam engajados em uma conversa e resolvi não atrapalhar. Olhei as pessoas em volta da fogueira; sentadas nos bancos de concreto com almofadas, a mãe de Harry contava a todos sobre uma aventura que teve quando era mais nova e passara uma semana na Itália com um namoradinho. Algo me dizia que todos já ouviram aquela história mais de uma vez, mas pareciam amar ouvi-la contando, pois completavam algumas de suas frases nas partes mais icônicas e caíam na gargalhada.
Será que algum dia seria assim com meus pais? Seríamos amigos de verdade?
Meu pai estava viajando nessa Páscoa e minha mãe havia se exilado em alguma casa de retiro de beleza. Os feriados já não significavam mais nada naquele lugar e, não fosse por mim, acredito que eles já teriam desistido de tudo há muito tempo.
De repente me senti culpada por não ter batido o pé e exigido uma comemoração decente. Poderíamos sempre ir à casa de e almoçar com sua família que era tão querida nossa. Ou poderíamos visitar a Bélgica ou a Suíça e nos esbaldarmos em chocolate comum, já que não trocaríamos presentes naquela data de qualquer forma. Que ficássemos com os chocolates e com os desfiles de rua com pessoas fantasiadas de ovos decorados.
- Quer dar uma volta? A propriedade é bem grande, acho que dá uma boa caminhada – Niall sugeriu quando nos demos conta de que estávamos encarando as outras pessoas.
Ladeamos os limites do terreno, ficando afastados do resto do pessoal. As casas ficavam no final de duas ruas, de modo que os fundos das construções encontravam uma a outra. O terreno tinha um pequeno aclive nos fundos, onde se encontrava um jardim e uma pequena horta, que achei a coisa mais adorável do mundo e acabei desejando saber quem era responsável por ela.
- Jura? De quantos meses? – Perguntei quando Niall me contou que sua cunhada estava grávida.
- É impossível saber, ela só fala em semanas! – Bufou, divertido.
- É só dividir o número por quatro, você consegue! – Provoquei, enroscando meu braço no seu.
- Ela devia falar em meses, não?! – Perguntou, indignado.
- Talvez, mas também não entendo porque falam em semanas. Não é muito intuitivo. O que os impede de começar a falar em dias?
- Que esse dia nunca chegue ou serei obrigado a fazer perguntas só quando a criança nascer.
- Olha! – Apontei para um pequeno playground que ficava entre exatamente entre as duas construções, as casas, e escondido por uma árvore de tronco muito grosso. Olhei para trás e vi que a fogueira ficava mais no quintal da casa de do que da casa de Harry, mas esse parquinho ficava bem no meio das casas, embora afastada das duas, já que o terreno era bem espaçoso. Não me surpreenderia se duas janelas na área que fosse mais movimentada das duas casas e que dessem vista para aquele ponto para vigiar as crianças.
Corri até o local e me sentei no gira-gira, movimentando o brinquedo para lá e para cá com os pés no chão enquanto Niall me alcançava.
- Não! – Gritei quando ele correu em minha direção e começou a girar o brinquedo com as mãos, obrigando-me a segurar com força as barras de ferro à medida que a velocidade aumentava. – Niall! – Soltei uma gargalhada quando senti o impacto no brinquedo no momento que ele se jogou para sentar. Fechei meus olhos com força para evitar ficar tonta e rimos juntos até o brinquedo parar.
- Não me peça para levantar – disse ele, em algum lugar perto de mim que eu não sabia definir porque estava desnorteada e rindo.
- Você é maluco!
- Você acha mesmo?
Mal havia aberto os olhos e Niall empurrou o brinquedo mais uma vez e subiu com os pés no assento, ficando quase em pé.
- Desce daí! – Alertei, mas tive que fechar os olhos de novo.
- Isso é o mais próximo daquela cena do Titanic que eu vou estar na minha vida! – Ouvi-o dizer. – “Eu sou o rei do mundo”! – Gritou.
Soltei uma gargalhada, sentindo-me boba por estar com alguém bobo e coloquei os pés no chão para diminuir a velocidade até pararmos. Levantei-me, mas não consegui ficar assim por muito tempo e acabei desabando sentada no chão.
- Você está bem? – Ele se ajoelhou ao meu lado. Apenas as luzes da varanda das casas iluminavam porcamente o rosto dele, mas eu conseguia ver seus olhos girando. Ou eram os meus? Soltei mais uma gargalhada, deitando-me no chão úmido.
Eu me arrependeria daquilo mais tarde.
- Preciso de ar – falei, entre risadas enquanto as estrelas ainda giravam um pouquinho. – Esse brinquedo é demoníaco!
- Uau! Dá pra ver as estrelas muito bem daqui! – Niall deitou-se ao meu lado.
- É mesmo – concordei, incapaz de não sorrir. – Também dá pra ver muito bem do St. Bees, mas não é tão agradável ver da janela do quarto.
- Faz sentido que se consiga ver de lá, considerando que é o fim do mundo!
- Não é estranho que a gente esteja vendo uma coisa que já deixou de existir? – Refleti enquanto deixava a vastidão do céu invadir todo meu campo de visão, olhando fixamente para cima.
- É culpa da luz que não viaja tão rápido assim – respondeu ele.
- Tão rápido assim? – Soltei uma risada. – Você não comunicaria a morte de uma estrela nem em um bilhão de anos com a sua velocidade, Horan.
- Sim, mas seria justificável, porque eu não viajo na velocidade da luz. A luz, no entanto, viaja na velocidade da luz. Ela não tem justificativa.
- Você só está falando besteira – empurrei-o com o braço.
- Sim, eu não entendo nada sobre astronomia. Mas entendo de música e, se estamos falando de coisas que vêm até nós e que são um rastro do passado, devo dizer que o fato de termos construído um sistema de registro musical que é reproduzível até hoje é assombroso para mim.
Fiquei em silêncio por um momento absorvendo aquela reflexão.
- Nossa. – Observei debilmente. Ele riu.
- É. Acho surreal pensar que os sons que um piano reproduz hoje são os mesmos que Bach resolveu que se encaixaria bem na sua melodia há séculos.
- É realmente surreal.
Senti minha roupa ficando molhada, mas não me importei. Procurei a mão de Niall e entrelacei nossos dedos.
- Já parou pra pensar se estamos deitados em algum lugar que foi um campo de batalha? – Perguntei quando percebi que havia um milhão de reflexões bobas que já havia feito sem tê-las compartilhado.
- Eu sinceramente espero que não, – ele riu.
- Sempre quando leio um livro de história ou um romance de época acabo me perguntando isso. Não tivemos o luxo de sermos descobertos quando o mundo era razoavelmente inóspito ainda.
- Ninguém teve esse luxo. Mas pode ser que sim, alguém pode ter sido morto bem onde estamos deitados. Se não pelos ingleses, talvez os próprios vikings tivessem empenhado um massacre aqui. Ou um duelo.
- Ok, isso não é interessante de se pensar – ri.
- Não. Mas eu tenho ideia de algo mais interessante.
- O quê?
- Você e eu. Namorados.
- O quê sobre isso?
- É legal dizer – deu de ombros e se apoiou em um cotovelo para me olhar de cima. – É legal ser. – Sorriu.
- Jura? – Sorri de volta, estendendo minha mão para fazer um carinho em sua nuca. Ele se abaixou, beijando-me suavemente.
- Vamos sair desse chão, senão ficaremos doentes – afastou-se de mim antes de me deixar formular uma resposta.
- Mas...
- Podemos continuar daqui de cima – puxou-me pela mão, ajudando-me a levantar.
Quando terminei de bater a grama de minhas roupas, e verificar que estavam, de fato, molhadas, Niall segurou minha cintura e me trouxe para si, reiniciando o beijo que, dessa vez fora muito mais profundo.
- Será que conseguimos ser liberados das atividades de amanhã? Queria ficar assim com você até termos que voltar para a prisão – disse ele, controlando a respiração.
- Somos visitas, não podemos fazer isso.
- Somos visitas, podemos fazer o que quisermos – argumentou.
- Por um instante havia me esquecido de que você não é inglês – observei, divertida.

Harry’s POV
- Você roubou! - gritou, jogando a arma e os óculos no chão enquanto vinha marchando em minha direção, raivosa, exatamente do modo que eu sabia que ela ia fazer.
- Eu não roubei, Sunshine, eu estrate… - Franzi o cenho, me atrapalhando naquela palavra. - Foi uma estratégia.
- Foi roubo, Harry! Você não merece essa bandeira!
- Eu simplesmente fiz a Gemma correr para o outro lado pra chamar sua atenção - apontei para o lado oposto ao do que estávamos agora, próximos do poste da bandeira que dava a vitória, esta que estava na minha mão agora. Os outros jogadores lentamente se aproximavam de nós no campo. - Onde isso é roubar?
- Você me enganou. Não foi honesto!
- , aceita a derrota. Ainda estávamos em três, você já estava sozinha, não tinha mais como você querer pegar a bandeira com três de nós na sua cola.
- Eu ia tirar os três do jogo primeiro.
- Segundo as minhas contas você só tem mais duas balas - apontei para a arma que ela havia jogado no chão. - Não é?
gaguejou, levando as mãos à cintura e trocando o peso para o outro pé, irritada.
- Eu só sei que não aceito essa sua “vitória”, foi imoral!
- Ah, para com isso, Sunshine, você sabe muito bem que valeu. E você vai aceitar isso, sim.
- Ah, é? Por quê eu iria?
- Porque se não aceitar a minha jogada isso invalida muitas das vezes que você também ganhou no passado. E tira a importância do prêmio - balancei a bandeira na frente dela. - E você não quer estragar essa tradição de família para todo o sempre, quer?
Ela me olhou com irritação, estreitando os olhos sem resposta para me dar, e eu sabia que havia ganhado aquela discussão. Os outros chegaram até nós e ganhei um tapa nas costas do pai dela.
- Boa jogada, Harry! Pegou ela direitinho.
- UGH! - grunhiu, batendo os pés ao se virar para se afastar de mim. - Vamos logo com isso então! Anda, eu tiro a foto - ela foi catar seu celular, mas rapidamente a puxei de volta para trás pelos ombros.
- Na-na-ni-na-não, você vai sair na foto com essa exata cara de emburrada como me fez fazer no ano passado - disse, a direcionando de volta ao grupo enquanto ela abaixava a cabeça resmungando, derrotada.
- Eu tiro a foto - William disse rindo - vou pegar a câmera.
Apertei de leve os ombros dela, de uma forma que a fez se arrepiar, e ela se afastou das minhas mãos com um calafrio.
- Parece que não vou mais ter que te deixar em paz de uma vez por todas - disse em meu ouvido, um sorrisinho no rosto, e pude imaginar a sua revirada de olhos. Nós todos nos juntamos, eu, minha mãe, Josie e Gemma, , Niall e , para tirar a foto. William voltou com a sua câmera semiprofissional e tiramos as fotos. Eu no meio, segurando a bandeira com minha irmã e Max, que também eram vencedores.

- Ah! Estou muito pronto para o almoço de amanhã - Falei, com um sorriso satisfeito no rosto depois de já estarmos de volta em casa. - E ainda mais por não ter que ajudar em nadinha.
- Você é um folgado - Josie reclamou. - E você, maninha, eu esperava mais de você. Você nunca perdia nada antes!
- É que dessa vez o prêmio era muito grande e ela amarelou - Comentei a lançando um sorriso, e ela me bateu com força com a pequena mochila que carregava em um ombro. - Ai! - Reclamei, passando a mão pelo braço atingido.
- Ridículo.
Fomos ficando para trás enquanto o restante do grupo ia na frente para dentro da casa de , e disse a ela:
- Pega leve, você não sabe que amanhã vai ter que fazer todas as minhas vontades?
- Não existem regras que dizem que eu não posso bater em você depois de fazer cada coisa que você pedir!
- Cuidado que eu posso gostar. - Murmurei, foi mais forte que eu. Mas me arrependi quase na mesma hora com o olhar que recebi. Bom… talvez não tanto. Aquele dia havia me lembrado de como era boa a sensação de provocá-la e a ver bravinha. Eu percebi que com o tempo só comecei a gostar mais ainda disso. Sorri e me encolhi quando previ a outra mochilada que levei em seguida.- Ai.
- Vai embora. - Falou ao que chegamos à porta de sua casa e ela entrou, segurando a porta. - Já foi demais de você por um dia! - Ela bateu a porta antes que eu pudesse entrar.
Virei de costas e ri. Eu sabia que podia sempre entrar se quisesse, mas decidi ir para casa tomar um banho e depois decidiria se voltaria ou não. Mas aquele sorrisinho não saía do meu rosto.
Enfiei as mãos nos bolsos e caminhei despreocupadamente até em casa, já pensando em como faria para salvar da expulsão.
Eu precisava de ajuda de uma pessoa, e uma pessoa apenas, que teria boas ideias para me ajudar referentes à “protesto estudantil”: .

’s POV
- Merda – murmurei quando consegui sentir o ovo em meu cabelo mesmo depois de lavar três vezes com shampoos diferentes. No entanto, estava derrotada demais para me arrastar de volta para o banheiro e tomar outro banho, por isso continuei penteando meu cabelo como se nada tivesse acontecido.
Pelo espelho, eu observava o meu quarto, mas que não parecia ser “meu”. As paredes verdes não me acalmavam, como os especialistas em feng shui prometem, mas me deixava mais revoltada ainda. Como meu pai podia ter transformado nossa vida inteira de uma hora para outra e nem ter me perguntado qual a maldita cor de parede que eu gostaria para o meu novo quarto?!
Viu? Uma vontade de socar alguma coisa se formava em minhas entranhas.
Bom, talvez porque não houvesse por que se importar com você, . Eu também não daria muito direito a fala a alguém que faz tanta besteira.
Tenho certeza que envergonhei meu pai o suficiente para virar motivo de piada por até três gerações.
Como você pode ser tão descontrolada, ? Fitei meu reflexo no espelho, indignada.
Quem fez você assim?
Estiquei minha mão para tocar o reflexo, fitando-o nos olhos. Por que você é assim? Toquei a lágrima que escorreu do olho do reflexo e funguei.
Que inferno.
Recolhi a mão e limpei a lágrima que agora estava no queixo, balançando a cabeça. Isso não é hora para ter autopiedade. Mesmo tentando, você não consegue, . Mesmo tentando, você ainda perde o controle. E magoa todos que você ama.
Sentei-me no chão em frente ao enorme espelho que tinha em uma das paredes do banheiro enquanto secava meu cabelo com o secador. O barulho era alto, mas não me impedia de ouvir meus próprios pensamentos, que, infelizmente, era meu objetivo.
- Hey – Liam estava parado junto à porta do banheiro e sua manifestação súbita me fez pular de susto e desligar o secador. – Foi mal, não queria te assustar.
Dei de ombros, incapaz de falar qualquer coisa.
Ele também havia tomado banho e agora estava usando uma calça de moletom e camisa branca. Senti-me frustrada com o quanto sua presença mexia comigo ainda. Eu precisava de um detox de Liam muito mais forte do que imaginava. E talvez nem Harry pudesse me ajudar com nada disso.
- Você está bem? – Sentou-se na parede ao lado da porta, distante de mim, mas com um olhar que me agradava, mas ao mesmo tempo irritava. Aquilo era pena?
- Você só sabe dizer isso? – Olhei para ele mais uma vez antes de ligar o secador e voltar ao que fazia antes.
Ele riu, mas não respondeu, apenas permaneceu calado, olhando-me.
Tentei ignorar as borboletas em meu estômago e o maldito desconforto de estar sob seu olhar.
- Estou perguntando de verdade – voltou a dizer quando terminei de secar meu cabelo.
Estiquei-me para deixar o secador em cima da pia e me encostei ao espelho, olhando-o.
- Eu realmente queria ter sido diferente hoje – falei, por fim, e, tão logo comecei a falar, já não conseguia olhar para sua figura. – Me desculpe por jogar um ovo em você.
Tenho a mais absoluta certeza de que nunca havia pedido desculpas a Liam por qualquer coisa. Se um dia havia pedido, não me lembro. Mas, naquele momento, era a coisa certa a se fazer. Eu não queria ter feito o que fiz.
Acho que Liam estava tão perplexo que nem conseguiu formular uma resposta, por isso continuei a falar:
- Tenho percebido como sou um peso. Acho que sempre me senti assim durante minha vida inteira – confessei, surpresa comigo mesma. De repente, muita coisa fez sentido. – Não queria ter sido um peso de novo hoje.
- Você n-
- O jantar está pronto! – Ouvimos o grito da mãe de Liam vindo do andar de baixo. Ele me olhou profundamente, como se o que quisesse dizer fosse mais urgente e, por isso, deveríamos ignorar o que sua mãe acabara de dizer. Mas, honestamente, eu não queria ouvir qualquer declaração cheia de pena que ele tinha para dar.
- Melhor irmos – coloquei-me de pé num instante e saí do banheiro.
Tomei meu lugar à mesa e Liam desceu um pouco depois de mim, sentando-se à mesa imediatamente. O silêncio era mortal e ninguém se olhava diretamente. Meu pai e Barbie já estavam lá, parecendo brigados também.
Merda, eu estraguei absolutamente tudo.
Tem como ser pior?!
Servi a sopa de cebola que meu pai ou a Barbie havia feito, não dava pra saber, os dois eram bons cozinheiros. Liam me passou o pão sem eu ter pedido, mas agradeci baixinho, pois estava envergonhada demais para dizer qualquer coisa.
Deus, eu me sentia uma estranha nessa casa.
Comemos em silêncio por algum tempo, cada um muito ocupado com seus próprios pensamentos, mas eu estava impaciente. Queria dizer algo; qualquer coisa. Não queria que meu pai achasse que eu não sentia muito. E não queria que ele e a Barbie brigassem por minha causa! Será que ela ficou chateada por eu ter chocado a família dela? Será que ela queria que essa família fosse perfeita?
Será que ela tinha a mesma opinião daquelas pessoas que estavam no almoço de família?
Senti um nó se formando na minha garganta e uma urgência por ligar para minha mãe me invadiu, mas me lembrei que ela não havia mandando mensagem nem sobre o feriado nem sobre nada.
Talvez as pessoas do almoço estivessem certas, afinal.
Meu pai deve me odiar agora. Por tanto tempo ele conseguiu se mostrar um homem bom para a Barbie, mas aí eu cheguei.
De repente, cortando como uma faca o silêncio que pousava sobre nós como uma sombra espessa, a campainha soou. A atenção de todos se direcionou à pessoa que esperava que alguém fosse atender à porta.
- Vocês estão esperando alguém? – Quis saber meu pai, olhando para mim e para Liam. Encolhi-me sob sua mira. Ambos respondemos que não.
Ele então se levantou e foi ver quem era.
- Sim? – Ouvimos a voz de meu pai.
- Estou procurando ...
Meu corpo gelou e meu estômago despencou.
Involuntariamente, minha mão agarrou o braço de Liam, que reclamou, mas se calou assim que viu meu rosto, que devia estar um misto de choque e horror. Tive que me lembrar de respirar, mas o movimento fez meu estômago embrulhar e senti que ia vomitar.
Puta merda.
Fodeu.
Fodeu muito.
Quis chorar copiosamente ali mesmo na cozinha ao mesmo tempo em que quis me esconder debaixo da mesa e nunca mais sair dali.
Pelo menos não até Oliver ir embora.
Minha respiração se tornou descompassada e meu peito parecia estar se fechando em torno dele mesmo.
- ? – Liam perguntou assim que meu pai apareceu na porta da sala de jantar acompanhado de Oliver.
O olhar de todos caíram sobre mim e eu quis ardentemente que uma cratera se abrisse e me engolisse para as profundezas da Terra.
Oliver me encarava com tanta intensidade e eu não sabia o que fazer. Percebi quando ele notou minha mão no braço de Liam e eu a recolhi imediatamente; assustada demais que ele trouxesse uma atenção desnecessária sobre mim e Liam.
- , esse homem está querendo falar com você. – Meu pai disse com cara de muito poucos amigos.
- E-eu... – tentei falar, mas minha garganta estava muito seca. Tomei um gole d’água e aquilo pareceu me dar algum controle sobre minhas próprias emoções. – Claro. – Coloquei-me de pé. – Vamos até a biblioteca, sim? – Abri um sorriso fraco, o máximo que consegui e indiquei o caminho a Oliver. Ele abriu um sorriso para mim quase que descontrolado, talvez porque não imaginasse que eu o receberia cordialmente.
O babaca tinha muita sorte – e audácia – de me procurar em casa.
- Primeiro você vai me dizer quem é ele, . Não vai nos apresentar? – Meu pai inquiriu.
- Ah, claro – outro sorriso meia boca. Puta merda. – Esse é Oliver. Um amigo da França – senti meu corpo tremer. Fechei as mãos em punho e as coloquei atrás das costas, como que para controlar meu corpo.
Foi aí que eu percebi que Oliver não estava no seu mais perfeito equilíbrio. O sorriso sumiu de seu rosto e deu lugar a uma carranca.
- Amigo, ? – Ele sibilou. – Eu não cruzei o maldito continente para ouvir isso!
Meu pai olhou com gravidade para ele, pouquíssimo feliz com aquela visita.
- Oliver, por favor – pedi com a voz baixa, assustada. Nunca o vira tão fora de si. Liam e sua mãe se levantaram da mesa e vieram até a porta da sala de estar, que foi onde meu pai me impediu de levar aquele circo para um ambiente controlado.
- Não acredito que eu deixei Jaqueline por isso! – Eu podia sentir o desprezo em sua voz. – Eu vi você na universidade aquele dia! Eu vi, ! Por que você foi lá? Hein? Por quê? Pra se vingar? Pra brincar com a porra dos meus sentimentos?! Sete anos de casamento, ! No lixo! Por você!
Meu pai estava de braços cruzados, olhando aquela cena toda abismado, como se não acreditasse no que estava vendo ou como se quisesse ver aonde isso iria. Mas eu não queria que ele estivesse ali testemunhando a cereja do bolo do desastre que era sua filha.
Numa fração de segundo, lembrei-me do que Clarice dissera mais cedo, sobre meu pai ter orgulho de mim.
O que ele pensaria de mim agora?
- Oliver... – minha voz falhou quando lágrimas se formaram em meus olhos. – Vai embora. Tudo isso foi um erro. Eu não devia ter ido naquele dia.
- Ah, agora você diz isso! – Ele gritou e eu pulei de susto.
- Cara, é melhor você ir embora – Liam interviu, posicionando-se entre mim e Oliver.
- Achei que você não curtia gente da sua idade, – Oliver cuspiu, ácido. – Mas acho que o astro do futebol da escola sabe foder, hein?
- Você está falando besteiras – Liam respondeu e se aproximou um passo de Oliver.
Por favor, que eles não comecem uma briga, rezei baixinho para quem quer que estivesse me ouvindo do céu. As lágrimas agora escorriam por meu rosto descontroladamente.
- É melhor você ir embora – Liam voltou a dizer. Olhei para meu pai e ele parecia tão chocado com aquela cena que não sabia como reagir.
- Se não o quê? – Oliver rebateu, friamente. De repente, ele empurrou Liam pelos ombros, fazendo-o cair sobre a mesa de centro, em cima de alguns porta retratos. Vi o sangue manchar o ombro direito dele.
Maryl soltou um grito e meu pai a abraçou, aterrorizado.
- Eu só saio daqui quando ela me disser por que brincou comigo desse jeito! – Ele apontou para. – Por que, hein, ? Por que você me disse todas aquelas merdas de amor e futuro se você não estava disposta a ficar comigo, hein? Por que você veio atrás de mim com esse papo de caras mais velhos e essas merdas todas?! Você é inacreditável! Você acabou com a minha vida! Deve gostar de ser só mais uma puta nesse mundo, mesmo!
- Vai embora, Oliver! – Gritei. Passei por Liam e empurrei Oliver pelos ombros. – Vai embora agora! Não quero te ver nunca mais! Foi para isso que eu fui lá naquele dia! Eu desprezo você! Eu odeio você! – Empurrei-o mais e mais a cada palavra que saía da minha boca. – Como você tem coragem de vir me procurar depois de todo esse tempo? Você é uma bosta de ser humano! – Empurrei-o até a porta da frente.
Ele me olhava em choque, mas eu sentia a raiva emanar de seu corpo. Abriu a porta e saiu rapidamente por ela.
- Não quero ver você nunca mais!
- Vai pro inferno, ! – A voz de Oliver pareceu rasgar o ar entre nós enquanto ele contornava seu carro em direção à porta do motorista. – Você e o seu novo namoradinho!
- Vai embora, Oliver! – Gritei de volta quando ele bateu a porta do veículo com força e arrancou com o carro para a rua. Cobri minha boca com uma mão, tomando um tempo para me recuperar. As luzes das casas estavam todas acesas, facilitando a minha humilhação ao perceber que os vizinhos nos observavam de suas janelas; o show particular gratuito à elite de Carlisle. Minhas pernas doíam por causa do frio que fazia ali fora, mas eu não conseguia encontrar forças para me conduzir de volta para o interior da casa.
Droga, droga, droga!
Tinha certeza de que meu pai não sabia da existência de Oliver, nem minha mãe sabia muita coisa sobre ele.
Mas eu precisava voltar.
Entrei de uma vez, decidida a encarar meu pai de uma vez, mas estanquei no hall de entrada quando encontrei meu pai, Maryl e Liam parados ali, olhando para mim. O corte no ombro dele parecia ser tão ignorado quanto os restos dos porta retratos no chão.
- Eu não sabia que ele era casado! – Garanti, sentindo que devia falar alguma coisa. – Quando eu fiquei sabendo, eu terminei tudo, eu nunca... – minha voz foi morrendo quando o silêncio se tornou quase sepulcral de tão absoluto. As lágrimas queimavam meus olhos, podia sentir meu rosto atingir um milhão de graus Celsius.
Meu estômago se contorcia de nervosismo à espera de alguma reação de meu pai.
Mas ele continuou calado, olhando para mim como se outra cabeça tivesse crescido sobre meus ombros. Depois, seu olhar caiu sobre Liam, olhou o corte em seu ombro, a postura alerta e defensiva dele, como se Oliver fosse voltar a qualquer momento e ele tivesse que pular em cima do meu ex-namorado de novo. E, então, voltou a me fitar.
Foi aí que sua expressão mudou completamente.
Seus olhos ficaram mais abertos, quase arregalados, enquanto alternavam entre mim e Liam e, de alguma forma, eu sabia que ele, naquele momento, soube de tudo.
Eu sabia que ele havia entendido. Ele podia ser homem, mas era sensitivo – foi ele quem percebeu que minha mãe gostava dele antes mesmo que ela se desse conta disso.
Um calafrio percorreu meu corpo e minhas mãos ficaram geladas enquanto via seu rosto ficar mais e mais vermelho.
- Pai-
- Vá para o seu quarto – foi o que ele disse, em baixo tom.
- Pai...
- Agora, ! – Ele gritou de repente, fazendo-me pular de susto. Meu coração estava acelerado e eu sentia as lágrimas se formarem em meus olhos de novo. Eu quis falar novamente, mas algo em mim disse para apenas obedece-lo. Passei por todos, incapaz de olhar um sequer nos olhos. Pulei os degraus da escada e pude ouvir uma última coisa antes de trancar a porta do quarto atrás de mim:
- Robert...
- Não, Maryl! Chega disso! Estou cansado!

's POV
- Zayn, calma! – Soltei minha mão da sua, exasperada. Envolvi meu tronco com os braços quando vi que sua expressão era de poucos amigos. – Por que isso? Que pressa para irmos!
- Não quero dormir na cidade.
- Por que não? Já está tarde demais para ir a qualquer lugar, de qualquer forma!
- Qualquer lugar é melhor que aqui.
- Deve haver algum hotel...
- Não, ! Vamos voltar. Agora.
- Mas seus amigos...
- Eles não são meus amigos! – Ele gritou, ao que eu me assustei, dando um passo para trás. – Não mais, pelo menos. – Passou a mão pelo rosto, acalmando-se.
- Ok, não precisamos passar mais tempo com eles, apesar de que foram, de alguma forma agradáveis comigo...
- . – Ele me interrompeu pela segunda vez. – Nós não vamos passar a noite aqui. Não vou permitir que você passe por isso.
Arqueei as sobrancelhas, começando a entender.
- Que eu passe por isso? Qual o problema daqui?
- Aqui não é Kensington, nem estamos na Disney...
- Eu não me sinto insegura aqui. Você se sente inseguro aqui?
- Você deveria. Aqui não é lugar para...
- Uau.
- Ah, , nem adianta negar.
- Não, uau: eu não aguento mais um minuto desse seu comportamento esnobe! Eu não sei o que você espera de mim, Zayn, mas eu não vou me desculpar por ter dinheiro! – Falei, irritada ao ponto de não me importar com o decoro. – Nós viemos até aqui e eu não tenho sido nada menos que agradec-
- Condescendente! – Ele disse no mesmo momento que eu.
- Essa palavra é sua. É assim que você se sente sobre o lugar onde você cresceu.
- E você me condena por isso? Olha ao seu redor, . São nove horas da noite e não tem ninguém nas ruas!
Nesse instante, um grupo de adolescentes góticos passou por nós, fumando cigarros enquanto comentavam entre si para que lado ficava a casa de uma tal de Lane. Zayn bufou com a ironia.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Zayn, você pode dizer o que quiser. Mas isso precisa parar. Você precisa parar de jogar isso na minha cara o tempo inteiro! Sim, eu sou rica! É isso. Meu pai conseguiu me dar uma vida extremamente confortável e privilegiada. Está feliz, Zayn? O quê mais você quer de mim? Você quer que eu renuncie ao dinheiro? Quer que eu diga ao meu pai que não quero mais nada? Hein? – Ele me lançou um olhar estranho, afetado. – Não vou, Zayn! Eu não sou hipócrita! Você quer que eu dê meu dinheiro para a caridade? Quer que, nesse exato momento, a gente vá até um caixa automático e retire todo o dinheiro que tenho na minha conta e entregue ao primeiro morador de rua? Isso te faria se sentir melhor? Sobre mim? Sobre você mesmo?
Ele ficou em silêncio.
- Foi o que eu imaginei. – Estalei a língua. – Eu não gosto quando você faz isso.
Mais silêncio.
Caminhei até o carro, que estava estacionado um pouco adiante de onde estávamos e entrei. Zayn entrou alguns segundos depois.
- O que você está fazendo? – Perguntou num tom inexpressivo quando viu que eu estava no celular.
- Leve-nos a este hotel. – Apertei no primeiro hotel que surgiu na busca que fiz no Google e mostrei.
- ...
- Ai de você se eu ver uma cara feia, Malik. Porque eu vou pagar por um excelente quarto e um excelente café da manhã.
Ele tirou o celular da minha mão e o apoiou em sua perna antes de ligar o carro.

Chegamos ao Midland Hotel trinta minutos depois graças ao bom trânsito que tivemos a sorte de pegar. Zayn foi abordado pelo manobrista que nos esperava no desembarcadouro do prédio, entregou-lhe as chaves do carro e pegou sua pasta com seu material antes de descer do carro. Não tínhamos bagagens, o que fez com que o porteiro nos olhasse estranho, mas não disse nada além de nos cumprimentar e abrir a porta para nós.
- Bem vindos ao Midland Hotel, em que posso ajuda-los? – A recepcionista nos atendeu detrás do balcão.
- Gostaríamos de dois quartos, por favor – informei com meu melhor sorriso.
- Sério? – Zayn, sem discrição alguma, murmurou atrás de mim.
- Sim, dois – confirmei.
A recepcionista sorriu para mim enquanto verificava as acomodações em seu computador, mas não antes de dar uma boa olhada em mim e Zayn.
- Senhorita – a recepcionista apertou os lábios antes de voltar seus olhos para mim –, infelizmente não temos duas acomodações deste tipo disponíveis.
- É claro que não. Isso é extremamente conveniente. Eu me sinto até numa dessas comédias românticas clichés. – Sorri para ela. – Vamos ficar com o quarto que possui mais de uma cama, então.
- A cidade está sediando uma convenção médica – explicou ela. – Vou acomodá-los em uma suíte tripla – disse, voltando suas atenções ao sistema.
O quarto era de um tamanho mediano e a decoração era tão agradável quanto aconchegante. Havia uma cama de casal e uma de solteiro lado a lado, uma pequena televisão suspensa na parede por um suporte de frente às camas. Minha atenção, no entanto, foi direto ao banheiro. O banheiro sempre era a parte fundamental da acomodação. Deveria ser limpo, bonito, agradável e funcional.
- Tudo conforme seus desejos, srta. Walker? – O concierge me perguntou quando nos levou ao quarto.
- Sim, obrigada, François – sorri. Ele me entregou o cartão magnético, desejou-nos boa noite e se retirou.
Zayn estava encostado à parede, de braços cruzados, observando a cena com uma expressão neutra. Quando a porta se fechou, ele veio até mim. Eu ainda estava na porta do banheiro, decidindo se tomaria uma ducha rápida ou utilizaria a banheira.
- Hey – ouvi-o dizer.
- O que foi?
- Eu sinto muito – disse.
- Pelo quê, exatamente? – Pendurei meu casaco em um dos cabides do pequeno closet, concentrando-me em não arruinar aquele momento por notar que ele estava, de fato, se desculpando por alguma coisa.
- Por... tudo.
- Você quer que eu invente coisas pelas quais eu acho que você está pedindo desculpas ou vai me dizer o que são? – Cruzei os braços.
- Caramba, você é difícil! – Ele bufou.
- Você também não é o que eu chamaria de fácil.
Ele também tirou o casaco e o guardou, o que me pareceu um movimento calculado para pensar nas próximas palavras.
- Quero que me desculpe pelo meu comportamento na minha casa, no restaurante mais tarde, por ter gritado na praça e... por realmente não conseguir deixar para lá que você é rica. E eu não.
- Zayn... – ouvir suas palavras me desarmou. Ele me olhou, esperando pelo que tinha a dizer. Abri a boca algumas vezes antes de balançar a cabeça. – Vou tomar um banho.
Decidi pela ducha, mas não seria rápida. Nos ganchos da parede havia três roupões brancos felpudos pendurados e algumas toalhas dobradas em cima da bancada da pia. O banheiro não era tão grande, mas as cores neutras com que era decorado dava a impressão de que era maior. Usei os produtos de higiene que o hotel disponibilizava enquanto me demorava embaixo da água quente.
Meus pensamentos corriam soltos entre o dia que havia tido, as pessoas que conheci, os lugares que visitei e o comportamento de Zayn. Era extremamente difícil lidar com o fato de que ele parecia esperar que eu fosse uma aristocrata prepotente e arrogante, ainda mais com sua família e com seus antigos amigos. Eram expectativas que eu não conseguiria suprir porque eu não era assim, mas parecia que ele queria isso. Pra provar alguma coisa.
Que garoto idiota!, eu pensava, irritada.
E me sentia mais irritada por me sentir tão atraída por ele.
E, atraída como estava, minha mente pulou de uma situação difícil para outra. Será que ele esperava que iríamos dormir juntos? Pra valer? Deus, eu espero que não. Estava sem paciência para aquele tipo de dilema; talvez um dos motivos para pedir dois quartos, além de estar zangada com ele.
Mas será que estava na hora?
Quero dizer, fazia tão pouco tempo que estávamos realmente tendo algo.
Eu nem era sua namorada, com todas as letras em voz alta, até hoje de manhã.
Não rolaria nada nessa noite, estava decidido.
Bom que eu nem precisava me preocupar com coisas idiotas como depilação.
Olhei para baixo por impulso e rapidamente levantei a cabeça, sentindo-me a criatura mais idiota na terra por isso.
Que besteira.
Desliguei o registro do chuveiro, sentindo falta da água quente imediatamente, mas precisava dar lugar a Zayn. Estava zangada ainda. Mais comigo do que por qualquer outra coisa. Que garotinha idiota; preocupando-se com esse tipo de coisa, como se eu devesse alguma coisa a Zayn. Como minha beleza.
- Idiota, idiota, idiota! – Murmurei para mim mesma enquanto me secava, evitando olhar meu corpo no espelho acima da pia. Não queria verificar nenhuma parte de mim naquele momento porque sabia que iria procurar indícios de que estava apresentável ou que seria desejada.
A insegurança começou a escalar meu corpo, mas afastei-a rapidamente, voltando a me dizer que isso é besteira.
Vesti as mesmas roupas, cogitando por algum tempo se deveria dormir apenas com a anágua fina que usava por baixo do vestido que escolhera para aquele dia. Mas isso com certeza daria ideias a Zayn. Melhor não.
Ri sozinha quando pensei que adorava usar aquela peça; a anágua. Fazia com que me sentisse Blair Waldorf naquele episódio em que ela dançou no estabelecimento que Chuck comandava.
Apesar de tudo, meu vestido era confortável.
Encontrei Zayn deitado na cama de solteiro com os tênis em cima da cama. Achei anti-higiênico, mas não quis fazer nenhum comentário que pudesse causar algum atrito. Ele abriu um pequeno sorriso para mim, levantou-se e foi para o banheiro.
Em alguns segundos ouvi a água do chuveiro caindo.
Fui até minha bolsa e fiz uma rápida ligação para meu pai. Expliquei-lhe que encontramos amigos de infância do Zayn e acabamos saindo para comer algo e resolvemos passar a noite na cidade, porque estava tarde. Não lhe disse que estávamos em um hotel e ele não perguntou, mas veria o lançamento na fatura do cartão de crédito eventualmente. No entanto, acho que, quando se tem uma filha como Mandy, esse tipo de preocupação passa a ser diminuída. E eu sabia que ele confiava em mim, o que era ótimo. Com Mandy, ele não tinha outra escolha senão esperar que ela não fosse presa ou algo do tipo.
Liguei a televisão, mais por necessidade de som do que por vontade de assistir alguma coisa de fato. No frigobar encontrei algumas barrinhas de chocolate belga, algumas latas de refrigerante e garrafas d’água. Peguei um chocolate e água, depois me acomodei na cama com meu celular. me havia enviado algumas mensagens sobre uma tradição de Páscoa esquisita da família de e Harry. Quando acabamos de rir de algumas fotos que ela havia me mandado do paintball – a tradição Baker-Styles –, contei a ela onde estava apenas para aguentar todas as brincadeiras provocativas que ela fazia sobre passar a noite no mesmo quarto que meu namorado.
- Hey – ele chamou da porta do banheiro.
- Hey – respondi.
- Tenho problemas com isso. De verdade – admitiu. Abri a boca para responder que aquilo não era necessário, mas ele se adiantou e se sentou na cama à minha frente. – Veja, a pobreza... Sei que não fui pobre, pobre, mas é uma condição que marca você. Cria uma ferida que demora a se fechar. Conheci pessoas que não conseguiam ter dinheiro guardado porque sempre que ganhavam alguma coisa, achavam que precisavam gastar tudo imediatamente, pois tinham medo de que perdessem o dinheiro.
- Não posso dizer que entendo, Zayn, mas eu consigo imaginar – engoli o bolo que se formou em minha garganta, prevendo aonde aquela conversa nos levaria.
- Sei disso. – Aproximou-se a ponto de nossos joelhos, ambos cruzados, tocarem. Pegou minha mão delicadamente. – Já fiz muita besteira, . Muita mesmo. Algumas delas eu atribuo à pobreza. Não falo sobre roubar, não. Mas eu já cheguei a odiar meus pais por não conseguirem me dar o que eu queria de natal... – respirou fundo enquanto seus olhos continuavam distantes dos meus. – Por muito tempo, até hoje, na verdade, eu não sabia que existia algo além de revolta dentro de mim. As coisas que você disse sobre dar seu dinheiro, sobre eu sempre mencionar isso, são verdade e eu nunca havia enxergado. O que existe dentro de mim é um sentimento de que eu tenho o direito de menosprezar cada um de vocês – seus olhos encontraram os meus rapidamente – pelo patrimônio que carregam. Eu fui menosprezado minha vida inteira. Mas... você não me olha assim. Talvez no início tivesse um pouco de medo...
- Eu não tinha medo de você! – Rebati, fazendo-o rir suavemente.
- Tudo bem, Shortcake, sei que não sou o mais simpático que há por aí. Faz parte do propósito, inclusive.
- Eles não vão te atingir se você atingir eles primeiro – completei o raciocínio.
- Exato.
- Mas?
- Mas você não me olha assim – repetiu. – E eu não sei lidar com isso. Não sei lidar com alguma coisa que não seja refinada e bem treinada educação ou puro e simples desprezo. Não sei como eu fui parar ao lado de uma pessoa como você. Eu não mereço...
- Zayn! – Ajoelhei-me e o puxei para um abraço. – Não diga isso! Por favor.
Senti seus braços envolverem minha cintura, senti sua respiração em meu pescoço e não sabia se sentia o meu ou o seu coração batendo forte. Provavelmente era o meu, duvido que seria possível sentir o dele quando o meu parecia estar bombeando sangue para correr uma maratona.
- Você é delicada. – Disse contra a pele do meu pescoço. – Você é gentil. Você é esperta e engraçada. – Respirou fundo. – Você tem esse maldito cheiro. Um cheiro tão bom.
Soltei uma risadinha. Zayn parecia satisfeito quando se afastou de mim apenas o suficiente para olhar em meus olhos. Ele também tinha um sorriso no rosto e então me beijou.
Não demorou muito até que sentisse a vontade – e a dele também – de nos inclinarmos para deitar na cama. Lentamente, foi o que aconteceu, mas o beijo manteve o mesmo ritmo lânguido e cheio de ternura. Uma de suas mãos estava em meu rosto enquanto a outra acariciava minha cintura. Quando mordi de leve seu lábio inferior, ele soltou uma risadinha baixa e rouca e, então, o ritmo mudou. Ele se colocou entre minhas pernas e estávamos mais próximos do que nunca. Senti sua mão descendo da minha cintura e sabia onde ia parar, por isso segurei os ombros dele, fazendo pressão para girarmos e foi exatamente o que ele fez, deixando-me por cima dele, sentada em sua cintura, com a barra do meu vestido bem acima do que seria apropriado. Vi seus olhos passearem por mim, absorvendo a posição em que estávamos antes de envolver meus cabelos em sua mão e me puxar de volta para sua boca. Mas, ao invés de continuar, demorei-me mais naquele beijo, diminuindo a velocidade do que estava acontecendo. Minhas mãos estavam espalmadas em seu peito e, agora sim, eu conseguia sentir seu coração acelerado.
- Eu não quero fazer isso agora – falei baixinho, quase um sussurro, contra seus lábios.
Ele parou todos seus movimentos e afastou a cabeça para me olhar.
- Não? – Verificou. Balancei a cabeça. – Ah... Ok. – Apoiou-se nos cotovelos, levantando um pouco e saí de cima dele, arrumando a barra de meu vestido.
- Eu...
- Tudo bem, não precisa explicar – garantiu, mas pude compreender que minha fala saiu da forma errada.
- Não, vem aqui – segurei suas mãos, impedindo-o de se afastar mais do que já havia feito. – Você sabe, eu sei que sabe, que meu último relacionamento foi... horrível. Eu não sei o que as pessoas falam por aí, mas meu ex-namorado me traiu com minha irmã. Foi difícil. Ele não foi meu primeiro parceiro, mas eu realmente gostava dele de um jeito diferente. Não quero te deixar mal, eu juro, não sinto mais nada por ele!
- Tudo bem, . Eu consigo entender o que é um trauma.
Sorri fraco pra ele, respirei fundo e continuei:
- Não quero ir com pressa. Sexo é tão... – Procurei uma palavra pra descrever, mas não encontrei. – Minha avó dizia que “quando o sexo entra na sala, o discernimento sai pela porta”. – Nós dois soltamos uma risadinha. Olhei para ele e tive a impressão de que ele compreendia alguma coisa do que eu queria dizer.
- Vamos esperar o quanto você quiser, Walker – disse ele, colocando meu cabelo atrás de minha orelha. – Mas saiba que essa oportunidade – apontou para o quarto e entendi o que ele quis dizer – nunca mais teremos.
- Então acho que teremos que ser criativos – sorri para ele, que piscou para mim. – Acho que devemos ir dormir – olhei o horário no meu relógio de pulso. – Mas você deitou na sua cama todo sujo, até de tênis! Não pode voltar a deitar lá!
- Foi essa a minha intenção, Shortcake – Zayn abriu um sorriso travesso.
Deitamos um do lado do outro e ficamos assistindo à televisão por algum tempo, rindo eventualmente de alguma bobagem de algum programa que estava passando e resolvemos assistir. Sua mão estava entrelaçada na minha o tempo inteiro e, em algum momento, chutamos a colcha para fora da cama e expulsamos os vários travesseiros supérfluos também, decidindo que era a hora de ir dormir. Mas acabamos conversando por mais algumas horas, falando sobre o que ele havia achado do meu pai, do homem que queria lhe dar a chance de um emprego, o que eu achei de sua mãe, de seus não-mais-amigos, do quarto, de como aquele colchão era melhor que o das camas do St. Bees apesar da fortuna que as famílias pagavam à escola anualmente.
- Boa noite, gatinho – falei quando ele demorou um tempo para me responder.
- Boa noite, gatinha – murmurou. Senti seu braço envolver minha cintura, puxando-me para perto. – ?
- Hm?
- Você é como um vislumbre do céu estando no inferno.



Louis' POV
Era fácil dividir uma cama com , porque ela mal se mexia quando dormia. Às vezes eu acordava no meio da noite, e precisava levantar a cabeça, meio sonolento, e procurar por sua silhueta ao meu lado no colchão para me certificar de que não havia sido um sonho. Então eu voltava a deitar pesadamente no travesseiro e deslizava a mão por um pedaço de sua pele macia que encontrava debaixo do lençol, voltando a cair no sono; às vezes ela se mexia e voltava para perto de mim. Às vezes ela mal parecia respirar.
Aquilo tudo parecia a merda mais clichê que já pensei, mas era a verdade: eu estava feliz, um tipo tão diferente de feliz, que parecia ter sido um tipo bom de sonho hiper realista. Não seria a primeira vez, se eu fosse ser completamente honesto, que sonhava com na minha cama.
E com certeza eu também não era o único.
Mas ela era tão ridiculamente bonita, mesmo dormindo, que parecia mentira. Tudo nela era assim: nunca falhando em me tirar do chão por um segundo nos momentos mais aleatórios possíveis. Às vezes, era como se sua mera existência me atingisse feito um tapa. Eu acordava para a realidade do quão inacreditavelmente linda aquela garota era, com seus lábios cheios, com seu maxilar desenhado, com seus cílios longos, com seus olhos escuros e profundos, com seus longos cabelos escuros aos quais ela parecia não dar a mínima atenção, de modo a deixá-la ainda mais selvagem e bonita. era como uma miragem, e a sensação de estar com ela era quase essa, na maior parte do tempo: era como um delírio. Um do qual eu não queria acordar jamais.
E ela também era fria. Às vezes me acordava no meio da noite ao se aproximar, tocando as pontas geladas dos dedos no meu peito, ou ao aconchegar os pés frios nos meus. Ela não acordou nenhuma vez, não que eu tivesse visto, mas a quantidade de vezes que acordei durante o sono, só para me certificar que aquilo era real, foi grande. E todas as vezes eu piscava, os olhos acostumados ao escuro do quarto, e tentava me forçar a ficar acordado enquanto olhava ela dormir. Aquilo podia parecer meio psicopata, mas as intenções eram as mais puras possíveis: eram somente acalmar meu peito assombrosamente apaixonado e aproveitar o sentimento de estar tão próximo dela quanto jamais imaginei que chegaria.
E naqueles momentos eu tive certeza que, se todos estivessem certos sobre o que pensavam da gente ao olhar-nos juntos em público, o momento era esse: o ápice, o ponto a partir do qual eu jamais poderia voltar; O momento em que Finn arruinou minha vida para sempre. Porque onde, entre o céu e o inferno, eu encontraria outro alguém igual a ela na vida?!
E com esses pensamentos, enquanto estendia um edredom mais quente por cima de nós dois de madrugada, eu voltava a deitar a cabeça no travesseiro e pegar no sono.

De manhã ela ainda estava gelada. Estava longe, virada de costas para mim, no outro canto da cama, e ao despertar de verdade daqueles vários cochilos, decidido a levantar, eu precisei me aproximar para checar se ela estava (respirando? Viva? Imagina...) bem. Passei a mão por seu braço seguindo até as suas mãos, e as apertei.
- Ei... Tudo bem?
resmungou baixinho e fez que sim com a cabeça.
- Tudo?
- Sim... - sua voz rouca respondeu quando insisti.
- Está com frio?
- Não...
- Certeza? Você tá gelada.
- Só... Vou ficar aqui mais um pouco. - Ela respondeu, se enrolando mais no edredom e se virando mais para longe, então recolhi a mão e assenti, deixando um beijo leve em seu rosto.
- Tudo bem. Pode descansar o quanto quiser, minha família acorda tarde. Volto pra te ver depois.

Saí do quarto em seguida, depois de colocar uma roupa Era um dia úmido e meio frio que não fazia jus à primavera, nem ao dia anterior que havia sido o total oposto disso. Mas apesar disso, tentei me convencer de que não havia motivo para acreditar que o clima cinza, assim como a sensação estranha que começou a se construir dentro da minha cabeça, podiam ter alguma correlação. Não, era só fruto da minha imaginação. A própria já havia dito uma ou outra vez que eu precisava parar de me auto sabotar.
- Você não fez nada de errado - disse ao reflexo que me encarava no espelho depois de terminar de escovar os dentes e lavar o rosto.

Foi mais fácil ignorar essas coisas pelo resto da manhã. O silêncio gostoso e confortável daquela manhã aos poucos foi sendo preenchido por minhas irmãs, que foram acordando pouco a pouco, o que me deu oportunidade de, de fato, passar um tempo com elas de verdade. Primeiro foram as gêmeas, que queriam assistir desenho na TV, mas antes tomaram café comigo na cozinha quando sentiram o cheiro bom de café sendo passado e das torradas com queijo que eu estava fazendo diretamente no fogão. Depois delas, antes que eu pudesse levantar da mesa, foi Lottie quem levantou. Era cedo demais para ela estar tão arrumada e bonita, então nem precisei fazer nada além de olhar o horário na tela do celular e depois para ela, para questionar onde ela ia.
Ela sentou na mesa comigo e ficou bebendo chá e beliscando um pãozinho, enquanto esperava Georgina chegar para elas irem fazer sei lá o quê; nesse meio tempo, Lottie pôde me botar em dia sobre as fofocas de Doncaster e, também, da nossa "pequena" família. Falamos sobre Georgina, é claro, a ovelha negra da família, que usava o título com orgulho. Ela, como a única de nós que era "filha de um pai diferente", fora também a única que sempre manteve contato com o pai biológico e, eventualmente, demonstrou ser mais parecida com ele do que conosco, as "crias de Johannah". E nos últimos tempos isso se tornou um tipo de divisor de águas entre ela e o resto de nós, pois, obviamente, nós (e principalmente eu) sempre defenderíamos Jo com nossas unhas e dentes, e ela não parecia se importar com o fato de seu pai biológico, assim como o nosso, ter sido (um imbecil, escroto de merda e) apenas mais um dos homens desse tipo que cruzaram o caminho de nossa mãe e a abandonaram no momento em que ela se negou a aceitar a ideia de fazer um aborto por ser "muito nova" e, depois de um tempo, por já ter "filhos demais". Mas Lottie, que cresceu com Georgina como sua melhor amiga e confidente, além de irmã, era ainda o elo que a mantinha ligada à família, e de certa forma éramos gratos por isso.
A única pessoa ali que não escolhia lado nenhum naquela coisa toda era Mark. Mark amava todos os filhos igualmente, e minha mãe ainda mais. E nenhum de nós tinha coragem de fazer qualquer coisa que fosse estragar a paz de espírito de Mark; ele era bom demais para isso.

Georgina chegou e foi, e trocamos poucas palavras; não havia muito o que dizer, entre as duas garotas mais velhas, ela era a mais afastada de mim, e eu dela. Antes de ambas saírem para irem ao seu compromisso, minha mãe desceu as escadas. Elas interagiram brevemente enquanto eu respondia umas mensagens da escola.
"Qual palavra define a sua Páscoa até agora? A minha está entre 'merda' e 'interessante'. Ainda tenho que decidir até o final do feriado."
Era uma boa pergunta. Antes de responder a mensagem de Harry, um pensamento ocorreu que eu talvez também devesse esperar o final do feriado chegar para decidir aquilo. Não era bom cantar vitória, depois de dois dias tão bons. Mas então voltei a repetir em minha cabeça: você não fez nada de errado. Não era saudável ficar esperando que as coisas sempre dessem errado num relacionamento, era? Eu era assim tão inseguro mesmo? Ou era só com ela? Ou era só medo de perdê-la? Ou eu só estava apaixonado e isso era normal?
Respirei fundo, forçando-me a sair de minha própria cabeça quando Johannah entrou na cozinha dando um bom dia animado e carinhoso. Respondi no mesmo tom antes de começar a teclar a resposta de Harry:
Aqui está tudo ótimo, cara, valeu. Quem diria, hein, eu e você! Até parece que mudamos de lugar.
- Harry?
Larguei o celular e olhei para minha mãe.
- Hã? Ah, sim. Queria saber se por aqui vai tudo bem. Sabe como é, nos anos anteriores eu e ele apostávamos quem da classe ia voltar com um drama-de-rico maior para reclamar pelo próximo mês inteiro.
- Ah, acho que isso nunca foi você, não é mesmo?
- Nah. A coisa mais radical que já aconteceu numa páscoa minha foi quando a City derrubou a boneca no tanque da fábrica de chocolate e ninguém conseguiu achar. Mas aqueeele foi o ano em que a irmã da Wilson morreu... - Balancei a cabeça com uma caretinha. - Aquele assunto apagou qualquer fofoca.
O pano de prato que atingiu minha nuca já veio esperado, e ri fraquinho me ajeitando na cadeira quando ela sentou ao lado, com sua própria xícara de chá.
- Chá? Johannah sem sua xícara de café puro na primeira hora da manhã para "acordar com a disposição de uma mãe de seis filhos"?
Ela deu de ombros, em um gesto que por algum motivo chamou minha atenção, e levou a xícara aos lábios, olhando-me por trás dela enquanto tomava um gole da bebida. Apenas nos encaramos por um tempo, enquanto ela mordia a ponta de um biscoitinho salgado com a maior calma do mundo, sabendo que eu havia atentado os olhos para o comportamento incomum dela agora. De alguma forma parecia que Johannah e eu tínhamos um tipo de comunicação não verbal. Não sabia exatamente o que ela estava tentando me dizer naquele momento, mas seu olhar era certamente curioso. Apenas esperei, as sobrancelhas arqueadas e meus olhos escrutinando-a de volta.
- Sua estava saindo do seu quarto quando eu desci. Ela disse que estava se sentindo meio gripada. Será que você não está também? Quando duas pessoas compartilham uma cama...
Levantei-me mais rápido do que eu pretendia, levando a xícara vazia de café para a pia para lavar. Ela soltou um riso fraco que me fez ruborizar, e resmunguei comigo mesmo.
- Você teve uma boa noite, meu anjinho?
- Sim, sim mãe, eu tive, agora de volta a você. Por favor.
- O que tem eu? Sua vida e sua nova namorada são muito mais interessantes. Quero olhar pra você apaixonadinho desse jeito...
- Ei! Você tem outras cinco filhas pra envergonhar, ok? Acho que como primogênito eu mereço esse benefício.
- Ok, ok, chato. Seu ponto é válido, mas também não se esqueça que você pode ser o único garoto que eu vou ter na vida. E garotos apaixonados conseguem ser ainda mais bobinhos que garotas.
Pigarreei, soltando a xícara agora limpa no escorredor de louças e secando as mãos num pano de prato, me virando de frente para ela e me apoiando na pia atrás de mim.
- É mesmo, é? Mas e essa xícara de chá aí?
Mamãe ficou quieta enquanto me encarava momentaneamente confusa pela súbita mudança de assunto, e em seguida abrindo um sorrisinho condescendente. Ela se virou para a mesa novamente, de costas para mim, voltando a atenção para seu café da manhã e dando o assunto por encerrado. Ri fraquinho antes de passar por ela para ir para o andar de cima.
- Vou ver como está a "minha ".
- Vai, pombinho.

Subi as escadas de dois em dois degraus e ao chegar no andar de cima estava indo do banheiro para o quarto novamente. A segui entrando junto com ela, e fechei a porta atrás de nós, a vendo sentar no canto da cama onde antes estava deitada e apoiar o rosto nas mãos, não parecendo muito bem. Franzi o cenho, me aproximando e sentando ao seu lado e, ao sentir o colchão se mexer, ela pareceu se lembrar que eu estava ali e fungou, voltando a agir, puxando os tênis do canto da cama para seus pés para começar a calçá-los.
- O que está sentindo? Minha mãe disse que você não estava se sentindo muito bem.
- É. Uh, só um pouco de... dor no corpo e tontura. Só um mal estar. - Sua voz rouca não passava muita certeza, e suas mãos estavam trêmulas enquanto ela amarrava os cadarços.
Levei uma mão às costas dela, subindo por sua coluna até a nuca, afastando seus cabelos.
- . Olha pra mim.
respirou fundo, e parecendo se esforçar para tal, afastou os cabelos para trás e me olhou pela primeira vez naquela manhã, segurando um sorriso pequeno e não muito verdadeiro no rosto. Não sei se consegui evitar reagir ao modo como ela estava pálida. Não parecia bem mesmo, nem tampouco parecia ser "apenas um mal estar", ela estava parecendo sem cor de uma forma frágil e doente.
- Vou pegar um remédio pra você.
- Não vai ajudar. - Ela disse no mesmo momento, segurando-me para evitar que eu levantasse, e olhei para ela em questionamento. - Eu, uh... - piscou algumas vezes, balançando a cabeça em seguida. - Meu organismo é bem resistente a medicamentos, não adianta tomar esses que as pessoas geralmente têm em casa. Eu vou só tomar um ar, e vou me sentir melhor. Não se preocupa, vai passar logo.
- Tem certeza? - Segurei a mão que ela havia tocado em meu colo. - , você ainda está gelada! Isso não parece não ser nada-
Fui calado por duas mãos geladas segurando meu rosto e me puxando para um beijo. Apesar de fria e trêmula, o beijo que me deu foi firme, lento e tranquilizador. Aquela sensação estranha se aquietou no mesmo instante, e quando nos afastamos e a olhei, a expressão em seu rosto parecia um pouco mais sincera agora. levou uma das mãos até meus cabelos, segurando um maço bagunçado de fios e balançando minha cabeça de leve. Ri ao mesmo tempo em que senti um beijo leve logo abaixo da orelha e demorei a notar que eu devia parecer um idiota apaixonado enquanto meus olhos a seguiam quando ela se levantou para ir trocar de roupa.
mexeu em sua mochila por um tempo antes de olhar para mim por cima do ombro, um sorriso que pareceu roubar todo o oxigênio do quarto. Pela expressão no rosto dela, eu devia ser a personificação do emoji heart eyes ali, e estaria mentindo se dissesse que me arrependia disso.

’s POV
Depois do jantar, meu pai gostava de se servir de chá e biscoitos e passar um “tempo em família” na sala de estar no domingo à noite. Era lá que estávamos, eu e William, enquanto meu pai havia sido arrastado para a cozinha por minha mãe para arrumar um vazamento no cano da pia enquanto ela terminava a louça. Ela havia feito questão de trazer do andar de cima caixas com fotos antigas para me fazer passar vergonha, então antes que ela e meu pai pudessem se juntar a nós, decidi abrir as caixas de uma vez e ver o que nos esperava pela frente. Talvez conseguisse tirar algumas das piores lá de dentro antes que eles as encontrassem. Eu estava sentada no carpete no chão em frente à mesinha de centro, concentrada nessa tarefa, com minha xícara de Earl Grey com limão ao lado das caixas na mesinha, enquanto Will, sentado no sofá atrás de mim, olhava as fotos de um álbum que eu o entreguei após confirmar que aquele não tinha problema ele ver.
- O que aconteceu entre vocês dois? – William perguntou, me pegando de surpresa, e o olhei, vendo o álbum aberto na foto de mim e de Harry com mais ou menos dois anos brincando no porão, e antes que eu pudesse responder ele continuou: - Quer dizer, eu sei que são melhores amigos. Seus amigos sempre falam. Nasceram juntos. E ele parece se dar melhor com o seu pai que com o dele. Ainda assim, vocês parecem não conseguir ficar no mesmo cômodo ou olharem nos olhos um do outro por mais de dois segundos sem que uma nuvem de mau tempo se instaure no ambiente, então... O que aconteceu?
Soltei uma risada um pouco sem graça.
- Uau, você podia ser um jornalista investigativo também, huh?
- É resultado de muito Sherlock Holmes. – Brincou. – Você não precisa me contar se quiser. Eu só não pude evitar perceber... Quer dizer, é bem óbvio. E parece ser algo grande, porque até seus amigos sabem.
- É, ah... – Suspirei, colocando os cabelos para trás. – É, eu e Harry... A gente... Brigou, ainda no começo do ano letivo. É que as coisas entre nós tomaram... Proporções muito grandes. Sabe. A nossa amizade. O jeito que ele era. Comigo. Com todos. – Dei de ombros, eu estava gaguejando, e nada fazia sentido. Não queria mentir, mas não queria dizer a verdade. Acabei balançando a cabeça e ficando em silêncio por tempo demais antes de completar: - Eu não sei. Nós brigamos e, depois disso, nunca mais foi o mesmo.
Não era uma mentira. Certo?
- Ah. – Ele respondeu, com leveza. – Entendo. Eu podia jurar que ele tinha se declarado pra você e isso acabou estragando a amizade ou sei lá. Alguma coisa clichê desse tipo.
Meu rosto esquentou um pouco, e agradeci por estar de costas para ele.
- Não exatamente. – Comentei, baixinho, dando fim à conversa. Ou ao menos desejando muito que ele não perguntasse mais nada.
O fim de semana havia passado sem que eu e ele tivéssemos um tempo de qualidade juntos e sozinhos. Não que eu esperasse qualquer coisa diferente ao estar em casa, lá era sempre tudo meio caótico quando estávamos todos reunidos dessa forma, então eu já devia ter esperado isso. Ainda assim... Não conseguia evitar o pensamento de que talvez eu estivesse forçando a barra por tê-lo convidado para ir comigo, apesar de que Will parecia estar mais tranquilo com aquilo tudo do que eu. Ele era tão mais maduro do que os caras com quem eu convivi a minha vida toda que eu não conseguia acostumar com aquilo, não conseguia deixar de me surpreender – e de gostar mais – cada vez que percebia. William olhava para mim como se ele fosse um cara sortudo por estar ali comigo, toda vez. Chegava a ser até desconcertante, a ideia de que ele me adorasse tanto. Porque, para ser honesta, havia uma pequena e incômoda sensação dentro de mim de que eu não conseguia entregar cem por cento de mim a ele não importava o quanto tentasse, e era aquilo que ele merecia. Will merecia cem por cento de mim, porque eu sabia que era isso que ele me dava em troca.
Era a coisa mais frustrante que já senti: não conseguir estar ali, inteira, e ser completamente dele, o cara mais legal que eu conheci até agora. Um cara que, diferente de todos os outros, me dava exatamente o que eu precisava, e queria estar ali. Queria algo sério. Queria algo maduro. Queria algo real. E ainda assim, eu sabia, havia uma pequena, uma minúscula, porém essencial, parte de mim que não conseguia ser dele.
Joguei esses pensamentos de lado, ignorando-os, e me levantei do chão, sentando ao seu lado no sofá de dois lugares, a lateral do meu corpo colada a ele. Olhei-o, correspondendo o seu olhar no meu rosto, e ele afastou meus cabelos para trás do meu ombro antes de passar o braço por volta de mim, sorrindo e me roubando um beijo leve, que correspondi com um sorrisinho.
Ele se esticou para deixar o álbum que havia acabado de ver na mesinha e o entreguei outro, sem escolher muito, decidindo tentar parar de me importar tanto com o que ele acharia daquelas fotos vergonhosas. O vi abrir o álbum em seu colo e acompanhei as fotos que apareciam junto com ele.
Ouvi a gargalhada de Will ao ver a foto que mostrava eu, Harry e Josie fazendo um cosplay do Golden Trio de Harry Potter: Harry, Ron e Hermione. Eu era o Ron, e estava usando uma peruca ruiva e uma camisa social branca do meu pai que ia quase até o meu joelho. O Harry – que de Harry Potter só tinha o nome – estava com óculos redondos de brinquedo que eram quase do tamanho da cara dele, e Josie, no meio, segurava em uma mão uma varinha daquelas que acendem uma luz na ponta apontada para a câmera, e no outro braço o gato da família de Harry naquela época, que acho que se chamava Molly.
- Ah! – Ri. – Foi para um concurso de uma revista, a gente tinha seis anos.
- E vocês ganharam?
- Não, infelizmente. O prêmio era a coleção dos livros, mas nós dois já tínhamos, a gente queria ganhar para a Josie.
- A sua irmã era diferente quando era mais nova.
- Uhum. Ela é toda dessas coisinhas de beleza e sei lá o quê. – Peguei outro álbum na caixa, para eu olhar. Quase todas as fotos eram minhas e de Harry quando crianças, juntos. Resolvi colocar aquele de lado, William já havia conseguido perceber o quão próximos nós dois éramos pelas outras duas mil fotos espalhadas nos álbuns anteriores. Percebi naquela noite que eu quase não tinha fotos de infância sem Harry ou minha irmã junto comigo.
- Aw, ! – Will riu e virou para mim uma foto grande que ocupava a página inteira do álbum, de mim com quatro anos vestida de Cinderela para uma daquelas fotos que tiravam no colégio.
- Ugh, minha mãe me obrigou. – Revirei os olhos e ri fraco. – Você pode ver o quanto eu estava feliz. – Apontei para a maior cara de infelicidade que uma criança pode fazer e que eu estava fazendo na foto, fuzilando algo com o olhar que não era a câmera e que provavelmente era minha mãe.
- Você queria ser o príncipe? – Comentou ele, ainda rindo, quando passou a página e atrás daquela foto havia uma da mesma temática, de Harry vestido de príncipe, com um chapéu com uma pena vermelha na ponta.
Ri.
- Não, que vergonha, era pior ainda! Eu não queria participar.
Voltei a me aproximar dele, olhando as fotos que passavam no álbum dele. Ele passou algumas de mim ainda quando bebê, e rimos quando encontramos a famosa foto de mim pelada dentro da banheira, com alguns meses de idade. Coloquei a mão em cima dela.
- Passa! Ainda é muito cedo pra nudes.
Rindo, Will virou a página para encontrar uma colagem de fotos nas próximas duas de mim e minha família – dessa vez sem Harry e a família dele. A maior delas estava no centro, e nela havia eu, meu pai, minha mãe e Josephine em uma foto quase só de rosto, abraçados dentro do carro.
- Ah. – Ele soltou depois de um momento observando aquela foto junto comigo, e olhei para seu rosto. Will franziu levemente o cenho e olhou para as outras fotos dispostas em volta daquela. – Esses são seus avós? – Perguntou das outras.
- Sim. Esses são os paternos e esses maternos. – Apontei.
Enquanto ele olhava, observei seu rosto. Eu não demorei a notar que ele percebeu o detalhe oculto, e sorri olhando para as fotos.
- Às vezes esqueço o quanto você é inteligente.
- A-ah... – Ele hesitou e tirou os olhos das fotos, olhando para mim. – Eu não ia comentar nada. Desculpa.
- Não tem problema. – Dei de ombros.
- Você... É adotada?
- Pode-se dizer que sim. – Olhei de volta para as fotos. – Pelo menos da parte do meu pai.
- Oh. – Will ficou em silêncio por um momento, me olhando. – Ele sabe?
- Sim, é claro. – O olhei de novo, Soltando uma risada. - Seria no mínimo difícil ele não ter percebido. Eles combinaram de só... esquecer e seguir em frente. O engraçado foi que ele perdoou e esqueceu, mas minha mãe não. – Franzi o cenho, balançando a cabeça de leve. – Ela ainda olha para mim e vê o erro que cometeu, mesmo que ele não se importe mais.
Will não disse nada e percebi que eu havia deixado o clima pesado com aquele comentário, que nem percebi estar falando. Respirei fundo e olhei para as fotos de novo, apontando para a maior.
- A única coisa que sei sobre meu pai biológico é que ele com certeza deve ter olhos azuis e cabelos claros. – Ri fraco.
Will fechou o álbum e o soltou na mesinha de centro, virando para mim.
- Eu ainda vejo semelhanças entre vocês. Você é bonita igual a sua mãe, e tem o sorriso do seu pai. – Tocou minha perna e eu sorri.
- É, muita gente diz isso. Acho que a convivência acaba fazendo alguma diferença, ou sei lá. – Encolhi os ombros e ele sorriu, colocando uma mecha do meu cabelo para trás de minha orelha com a outra mão.
Me aproximei de seu rosto para beijá-lo de novo, mas antes que nossos lábios pudessem se tocar ouvimos um pigarro na porta da cozinha e olhamos para lá, vendo meu pai vindo do outro cômodo para sentar no sofá.
Max Carter estava agindo meio engraçado em relação a toda a coisa do “levando um namorado para casa”. Seu rosto estava estacionado na mesma expressão de surpresa/desconforto/tentativa de aliviar o clima sempre que ele ficava sozinho com Will ou comigo e Will. Eu supunha que tudo aquilo era muito estranho para ele.
- Sua mãe está chamando William para uma xícara de café. Ela disse que você falou que prefere café. – Ele disse, olhando para Will.
- Ah, claro! Eu vou lá. - William prontamente se levantou, levando as mãos aos bolsos da calça, e partindo para a cozinha depois de trocar um breve olhar comigo.
- Grite se precisar ser salvo! – Comentei, o vendo se afastar, e quando ele sumiu na cozinha levei uma mão ao rosto e olhei para meu pai com ar de “deus, ela vai matar o garoto”. – Ela nunca faz café depois do jantar.
- Eu sei, eu sei. E ela ainda está usando a louça da vovó.
- Ai, deus! – Fechei os olhos com desgosto. – Ele nunca mais vai querer botar os pés aqui.
- Ela só está empolgada por você ter um namorado. – Meu pai respondeu, bem humorado. – Não tire isso dela, ela esperou tanto tempo por esse momento...
- É. – Fiz uma caretinha. – Mas e você? – Abri um sorrisinho para ele, levantando para sentar ao seu lado no espacinho livre na poltrona dele, e enrosquei o braço no seu.
- Eu? Não posso dizer que estava muito ansioso, para dizer a verdade. – Comentou, depois de um tempo. – Pensei que esse dia ia demorar mais para chegar.
- Ei! – O bati fraquinho e ele riu.
- O que foi? Você resolve aparecer com um garoto junto, que não é o Harry?!
- Pai! – Fiz uma caretinha. – Eu trouxe o Harry também. – Tentei me defender.
- Você não trouxe o Harry como trouxe o William. – Riu, divertindo-se com meu rosto que estava ficando vermelho.
- Você ia gostar se eu trouxesse o Harry para casa como meu namorado?! – Tentei argumentar, indignada, e só depois de dizer isso que percebi como aquilo soava, o que só fez meu rosto esquentar mais. Quis retirar as palavras, mas elas já haviam saído da minha boca.
Meu pai apenas riu, e precisei olhá-lo com uma sobrancelha arqueada.
- Eu não disse isso, Sunshine. – Sorriu ternamente e beijou minha testa. – Fica tranquila, eu só estou brincando com você. Não há nada de errado com esse moço, aparentemente. Só trouxe o Harry ao assunto porque, você sabe, ele é... Terreno conhecido. – Deu de ombros.
- Vamos parar de falar sobre isso. – Pedi.
- Você não pode me culpar por comentar sobre isso! Nunca deu nenhum indício... E de repente chegou aqui no natal toda... Crescida, e mudada... Mas de um jeito bom. – Se explicou, antes que eu pudesse questionar qualquer coisa, me olhando. – Você sabe que eu te amo de qualquer jeito, não sabe? Assim, ou como era antes... Namorando quem for que seja. Garotos ou garotas, como a sua mãe tanto temia que fosse... – Riu fraco. – Ela é boba assim mesmo, mas você sabe, não sabe? Nós te amamos de qualquer forma. Eu e ela. Independente de com quem você esteja, ou se estiver sozinha.
- Eu sei, pai. – Sorri fraco e beijei o seu rosto, encostando a cabeça em seu ombro em seguida. – Eu também te amo.
Senti tanta falta daquilo, e só pude perceber estando ali, agora, de novo nos seus braços como quando eu era uma garotinha. Havia coisas, como aquelas, que eu não me sentiria tão bem falando com ninguém como me sentia com ele. Meu pai era meu porto seguro.
Minha mãe ria de algo que Will disse na cozinha.
- Ela não ri assim nem pra mim... – Papai comentou, me fazendo soltar uma risada.



Liam’s POV

Posso ir aí?”, mandei para quando percebi, depois das 3h da manhã, que não conseguiria dormir de jeito nenhum naquela noite.
Pensava repetidamente no que havia acontecido – e como tudo aconteceu tão rápido.
Nunca, desde que soubera da história de , havia imaginado que um dia conheceria seu ex-namorado. Ainda mais naquelas circunstâncias, nem que o safado seria tão esperto.
Minha mãe não quis me ouvir quando subiu as escadas e, ao contrário do que eu imaginava que fosse acontecer, apenas fechou a porta, não a bateu. Mas, mesmo que não pudesse ter explicado nada, o olhar que recebi dela me disse tudo. Um misto de choque, escândalo e até mesmo um pouco de horror. Tudo isso numa fração de segundos.
Ali eu soube que nossa família nunca mais seria a mesma.
Robert, por outro lado, olhou no fundo dos meus olhos.
- Como você pôde fazer isso? – Foi apenas o que ele perguntou antes de pegar as chaves do carro, pescar o primeiro casaco que alcançou no armário e sair pela porta de casa. Não o vira desde então e minha mãe se retirou pouco depois para colocar meu irmão para dormir.
Fiquei plantado onde estava sem conseguir me mover ou processar o que deveria fazer a seguir. Parte de mim queria ir atrás dos três.
Nunca havia percebido como levava na mais alta conta a estima de meu padrasto. E, agora que provavelmente estava perdida para sempre, sentia-me tentado a buscar seu perdão. Pelo menos me explicar, como se ao menos houvesse uma explicação.
Quando meus pais se separaram, jurei que nunca faria nada que pudesse repetir ou superar a dor que minha mãe havia sentido. Agora, mesmo que não soubesse muito bem a extensão do dano, sabia que a havia feito sofrer. Como meu pai.
E ocupava a parte mais latente dessa vontade imensa que sentia de consertar as coisas. Fora humilhada duas vezes pelo mesmo homem, dessa vez de forma pública, e ainda injustiçada quando Robert a impediu de falar. Além disso tudo, o fato de que eu a amava piorava qualquer desejo de aliviar seu sofrimento naquele momento.
Apesar dessa confusão mental, decidi tirar a mesa do jantar, mais por acreditar que a bagunça poderia piorar o ânimo de todos do que por gentileza da minha parte. Coloquei toda a louça na máquina e iniciei o ciclo de limpeza. Não sabia dizer onde estava metade das coisas que precisava – os potes adequados, talheres, panos, produtos de limpeza. Por pouco não coloquei a máquina para lavar a louça sem o sabão necessário.
Essas trivialidades me ajudaram a dar ordem aos pensamentos, por isso apaguei as luzes do térreo e fui para meu quarto.
Tanto faz”, foi o que ela respondeu. Pareceu-me suficiente que ela não tivesse me rejeitado por completo.
Robert ainda não havia voltado e minha mãe, se não estivesse dormindo, estaria ocupada com o bebê.
Entrei sem bater e, por prudência, deixei a porta do quarto aberta como um sinal de paz para todos os moradores da casa.
Não localizei de início; o cômodo estava escuro e a cama vazia, mas ela estava sentada no chão entre a cama e as grandes portas-francesas que davam acesso à sacada. Tinha os olhos fixos lá fora, o queixo apoiado nos joelhos.
- Oi.
Seus olhos encheram de lágrimas no instante em que ouviu minha voz e ela abaixou a cabeça.
- O que você quer?
- Ver como você está.
Ela não respondeu.
- E então?
- Como você acha que eu estou, Liam? – Olhou-me e a visão de seu rosto tirou-me o ar.
- Imagino como deva estar, , mas eu gostaria de me certificar de que não está passando da conta. Pensando em se matar ou sei lá.
- E dar mais esse desgosto para meu pai? – Riu-se amargurada.
- !
- Não vou fazer nenhuma besteira, Liam. Já foi feita. Até os vizinhos sabem.
Seu tom de voz era baixo, ela não estava brava, isso era óbvio, mas havia rancor e tristeza em sua voz.
- Eu acho que você foi injustiçada, , quando seu pai esfriar a cabeça...
- Eu, injustiçada, Liam? Você viu a cena que eu causei?
- Nada daquilo foi sua culpa!
- Tudo que eu toco perde a vida no mesmo instante – comentou, ignorando-me. – estava certa, nem minha mãe me quer e agora eu estraguei tudo com a única família que me sobrou.
- Não diga isso, por favor – pedi, aflito por vê-la naquele estado, mas incapaz de discordar dela de verdade.
Ela balançou a cabeça, como que irritada com minhas tentativas de consolo, enquanto caíamos num silêncio que beirava o absurdo naquele momento, mas não era desconfortável. Eu tinha urgência por falar algo, consertar aquela situação.
Devia ter quebrado os dentes daquele cara, pensei de súbito e me alarmei com esse pensamento. Não reconhecia em mim mesmo o tipo violento, mas a revolta com aquele distúrbio repentino na nossa vida doméstica me consumia.
- Eu ainda estou aqui. – Prometi, fazendo-a olhar para mim.
Busquei sua mão no escuro parcamente iluminada pelas luzes que vinham do jardim e da rua, e ela não me rejeitou mais uma vez, pois acabou por soluçar e deitar a cabeça em meu ombro, chorando livremente.

’s POV
Já faziam umas 60 horas desde a última dose que tomou.
O pico da abstinência de morfina e outros opióides geralmente se dava entre 48 e 72 horas da última dose.
Eu estava tão bem nos últimos dias, que imaginei que aguentaria aquilo muito melhor. Pensei de verdade que aquilo funcionaria, que aquele fim de semana seria tranquilo. Fui estúpida; burra, burra, botei tudo a perder por confiança demais. Eu já sabia que nunca devia me deixar ter confiança demais em mim mesma e no meu autocontrole. Como foi que deixei isso acontecer?!
O processo de tentar descontinuar as pílulas era lento, doloroso, e eu sabia bem que não era algo que se fazia sozinha. Mas, como quase tudo, eu era acostumada a me virar sozinha e não pedir ajuda a ninguém para resolver as minhas merdas. Portanto, há semanas já, estava tentando diminuir as doses. Estava mantendo a mesma dosagem, mas tomando doses espaçadas numa periodicidade cerca de 10% maior a cada dose. Já estava conseguindo ficar mais de dois dias sem, antes de começar a sentir a ansiedade sufocante começar a atacar.
Eu pensei que daria certo. Seriam quatro dias longe de casa, eu percebi apenas na quinta-feira que estava ficando sem pílulas. Só tinha mais uma, que guardei para tomar na sexta no final do dia, só depois de não conseguir mais aguentar sem tomar. Então seriam sábado, domingo, segunda e terça-feira sem. Eu sabia que estaria pior na quarta-feira, que era quando conseguiria comprar mais, eu apenas precisava aguentar até conseguir dar uma fugida do colégio, inventar alguma desculpa, algo do tipo.
Mas o pico estava se aproximando muito antes do previsto, provavelmente porque a situação toda de conhecer a família de Louis me desestabilizou mentalmente, me deixou nervosa, e então, obviamente, inconscientemente… meu corpo desejou fugir para a droga como um refúgio, distante e seguro.
Em conclusão, eu havia fodido tudo.
Era sábado de noite, e cada segundo ficava mais difícil de disfarçar. Ouvi uma risada - uma daquelas gostosas, cheias de vida - de Louis ser cortada abruptamente quando ele procurou pela minha mão em meu colo e a encontrou com a dele, muito mais quente que a minha pele. Ele me olhou, assustado, apertando minha mão com mais força e olhando para mim, levando a outra mão dele ao meu rosto, e testando minha temperatura.
-
Involuntariamente, me desvencilhei de seu toque e larguei sua mão. A irritação, a ansiedade, o mal estar me consumiam, e eu sabia que já não estava conseguindo disfarçar. E sabia que ele também já havia percebido que não era apenas um resfriado. Mas falar aquilo em voz alta estragaria tudo de vez. Falar para ele que eu havia ido conhecer sua família enquanto passava por uma crise de abstinência das porras das minhas drogas tornaria muito real o modo como eu estava estragando aquele momento que era para ser tão bom, tão importante.
Ele não merecia. Louis não merecia aquela merda toda, ele não merecia levar uma fodida como eu para casa. Sua família não merecia ter que passar por uma situação dessas. Sua mãe, e os olhos preocupados dela para mim, não mereciam descobrir mais tarde a verdade de porquê eu estava parecendo tão acabada. Não havia sido o clima ou algo que eu comi, não, havia sido consequência de anos das piores escolhas que alguém pode tomar, e ninguém ali merecia passar pela vergonha que isso trazia junto, além de mim.
Eu, sim, merecia.
- Querida, você não parece bem. - Johannah disse, tocando meu ombro de leve, e abaixei a cabeça balançando-a negativamente. - Você quer ir para casa? Louis pode te levar, não vamos nos importar, não tem problema. - Reassegurou.
Estávamos todos sentados ao redor de uma mesa num clube de patinação. Estávamos eu, Louis, Johannah e Lottie na mesa com alguns lanches e bebidas que haviam pedido; Mark e as outras garotas estavam na pista, parecendo se divertirem alheios a qualquer coisa, o que de certa forma era uma visão reconfortante. Se eu não estivesse ali seria tão melhor para todos eles, era a única coisa na qual eu conseguia pensar.
- Podemos passar numa farmácia e comprar um remédio…
- Tem algo bem forte para dor? - Olhei-a de repente, e vi a mulher franzir o cenho parecendo mais preocupada ainda que antes. Rapidamente, neguei com a cabeça. - Nã- esquece, eu estou bem, não é…
- O que está doendo, ? Lottie, vá até o balcão e veja se alguém tem algum analgésico ou algo do tipo para ajudar. Se não, pergunte onde fica a farmácia ou o hospital mais próximo. - Ela disse à garota, que já estava se levantando e assentindo com a cabeça.
Fuck.
Me virei para olhar para Louis, e a expressão de preocupação estampada no rosto da mãe dele era a mesma no rosto dele. Só que junto dessa expressão, o rosto dele também esboçava parecer saber de algo que a mãe dele não sabia. Era um outro tipo de preocupação. Ele não era burro, sabia do que se tratava.
A vergonha era maior do que qualquer coisa naquele momento, e foi ela que me moveu a levantar de súbito. Deixando Johannah com um olhar confuso na mesa, eu me afastei para o corredor dos banheiros próximo dali, sabendo que Louis estava em meu encalço. Meus pulsos estavam retesados e a ansiedade parecia sufocar tudo que encontrava dentro de mim. Tudo que minha própria cabeça conseguia pensar era: erro, erro, erro, vir foi um erro, começar isso com ele foi um erro, você é um erro, .
- Quanto tempo desde que você tomou a última?
Minha garganta pareceu fechar.
- Não importa.
- Importa, porque precisamos pensar em como te ajudar...
- Não. - Virei-me para ele, e não esperando que ele estivesse tão próximo, acabei quase batendo o corpo com o dele, não fosse ele me segurar pelos ombros no lugar.
- -
- Não. - Minha voz soou mais seca e dura do que jamais tinha soado ao falar com ele. Livrei-me de suas mãos em mim, em um impulso por afastá-lo de mim de qualquer forma… Aquilo não estava certo. Ele, eu… nós. Nunca esteve, eu sabia, e ainda assim estava lá. Eu não me lembrava da última vez que odiei a mim mesma tão efetivamente quanto naquele momento. - Isso é ridículo.
- O que é ridículo além do fato que você não quer aceitar ajuda, ?!
- Nós! Eu e você. E essa… coisa entre nós.
- Para.
- Essa- essa tentativa ridícula de nos transformar em algo. Como se fosse funcionar. Louis, eu não sou a pessoa que-
Antes que as palavras pudessem continuar jorrando de minha boca sem controle, senti ambas as mãos de Louis segurarem meu rosto, com gentileza mas firmemente. Suas mãos serviram como um tampão em meus ouvidos, isolando todo o barulho exterior, e ele me forçou a olhá-lo diretamente nos seus olhos, criando como que um limbo, um silêncio, uma bolha que separava nós dois do resto do mundo. As minhas mãos voaram automaticamente para os antebraços dele, apenas segurando-me neles para não perder o equilíbrio, e ele deu dois passos para frente, me fazendo dar dois para trás para acompanhar, e senti minhas costas encostarem-se na parede forrada daquele corredor.
- . Chega. Já fizemos isso antes.
Não consegui encontrar palavras, e também de certa forma aquela reação fez com que todo o resto emudecesse dentro de mim. Eu apenas o encarei, e, por deus, era como se estivesse me afogando naqueles olhos azuis, mas não de um jeito ruim. Era como se tudo que eu precisasse no mundo estivesse ali, e eu estava ávida por qualquer coisa que ele pudesse me dar para me fazer sentir melhor.
Nunca antes, desde que conheci Louis, eu havia sentido - ou percebido que sentia - algo parecido com isso por ele até então. Da última vez que senti isso por alguém, que eu percebi que amava alguém a ponto de ir até o inferno por ele, sabia que estaria perdida no final daquela viagem. Era um sentimento tão escuro… Mas Louis era tão diferente… Ele emanava uma luz. Ele era como o sol, entrando pela janela.
Eu o amava.
Deixando a realização se assentar dentro de mim, apenas soltei o ar lentamente pela boca antes de responder um baixo e rouco “ok”. A preocupação pareceu dar lugar à dúvida nos olhos dele enquanto me olhava, e então, por fim, ao alívio.
- Ok. - Ele repetiu, e fiz que sim com a cabeça. - Ok… Certo.
Largou meu rosto devagar, e deu um passo pequeno para trás, me dando mais espaço. Continuei encostada na parede com o corpo inteiro, e olhei para cima, respirando fundo calmamente, tentando manter aquela paz momentânea por mais um tempo, apesar de meu corpo estar pedindo socorro.
- O certo seria… Uh, o certo seria diminuir as doses aos poucos, certo? Para que você não sentisse o choque tão forte. Eu li isso em algum lugar.
- Você leu?
- É, eu pesquisei. Pra caso você fosse precisar, ou tentar parar eventualmente. Queria te ajudar. - Passou as mãos pelo cabelo e me olhou, senti seus olhos em mim, apesar de ainda estar olhando para cima, me agarrando aquela sensação de calma enquanto ela se esvaía aos poucos.
- Certo…
- Tem algum jeito de conseguirmos algo… algum similar, algo assim por aqui?
Apertei os punhos, respirando fundo mais uma vez antes de voltar a encará-lo e balançar negativamente a cabeça.
- Preciso voltar para Carlisle. E não quero que sua família saiba. Eu não quero estragar o resto do seu fim de semana- Louis. - Segui o movimento dele quando começou a negar com a cabeça, não deixando que continuasse. - Louis. Agora você me escuta. Eu não vou me perdoar se estragar isso. Por favor me deixa ir, me ajuda a ir embora. Nós podemos nos ver daqui há dois dias na escola. Eu… preciso ficar sozinha. Estou sendo honesta com você, é assim que pode me ajudar.
Observei enquanto Louis respirou fundo, e pensou por um tempo, antes de concordar com a cabeça.
- Tá, eu invento uma desculpa para eles, isso é o de menos. E amanhã você pega o trem…
- Não, agora. Hoje.
- O quê? Não, , já está escuro, e não tem trem essa hora. Ao menos espere até amanhã.
- Não, Louis. Eu pego um ônibus. Mas tenho que ir hoje, ou eu vou piorar, quero chegar na escola antes disso. - Esperei um pouco enquanto o olhava e por fim puxei a manga de seu moletom o fazendo me olhar. - Diz que vai me levar pra casa, eu pego o ônibus, e nos vemos na terça.

Foi o que acabamos fazendo. Louis dirigiu de volta em um dos carros, peguei minhas coisas em sua casa, e mesmo a contragosto e ele me levou até a rodoviária para pegar um ônibus noturno para Carlisle. Louis estava inquieto, e eu praticamente podia ouvir o que estava se passando pela cabeça dele. Não sabia como dizer que não iria fugir e nem fazer qualquer besteira pior que pudesse estar cruzando a mente dele, então apenas fiquei calada, segurando a sua mão e ele segurando as minhas, geladas, e as esquentando em seu colo.
Já era tarde quando o ônibus chegou, passado das dez e meia. Seria uma viagem de mais de três horas, e eu prometi avisar sobre cada etapa do caminho por mensagem, e o faria. O ônibus, para meu alívio, estava praticamente vazio, era bem arejado e silencioso. O escuro e o silêncio ajudavam, mesmo que os calafrios e o enjoo e a dor de cabeça fossem constantes, ainda que eu tivesse tomado alguns remédios para enjoo e analgésicos na casa de Louis antes de sair. Achamos menos perigoso que eu não tomasse nada que desse muito sono, já que estaria sozinha no caminho, e Louis me obrigou a levar um canivete - sim, um canivete - dentro da mochila para qualquer necessidade.
Aquele garoto…
Depois de meia hora de viagem, senti que parte do sufoco que ainda estava sentindo era por estar com muitos pensamentos entalados na garganta. Eu não era, nunca fui, alguém que precisava falar com outra pessoa para lidar com meus sentimentos (na verdade eu lidava com eles não lidando com eles), mas aquilo era diferente, e ao pensar em alguém com quem pudesse falar com quem não me sentiria tão julgada, só um nome passou por minha cabeça.
Peguei o celular quando nos aproximamos de uma cidade e, ao constatar que havia sinal, tentei ligar para ele.
- Que desgraça aconteceu? - Foi como o imbecil atendeu à ligação. Bufei.
- Há alguma chance de você estar pelo St. Bees?
- Quem é? - Ouvi uma voz feminina conhecida falar atrás, e balancei a cabeça.
- Ah, não. Você está com a , esquece. Desculpa atrapalhar.
- Não… espera aí porra. - Zayn disse, então houve uma movimentação do outro lado da linha e ouvi a conversa abafada do outro lado:
“É a Finn.”
? Está tudo bem?”
“Eu imagino que não.”
Levei a mão ao rosto, esfregando os olhos com os dedos, enquanto esperava ele voltar à ligação.
- Você não devia estar com o Louis? O que aconteceu, terminaram?
- A-ah, não, por que essa foi a sua primeira alternativa?!
- Bem, então alguém morreu?
- Não- quer saber, esquece. Eu só queria saber se você por acaso estaria na escola. Estou voltando pra lá.
- Por quê? Vocês brigaram ou…? - perguntou dessa vez, e pela clareza de sua voz pude supor que eu estava no viva-voz. Porra, Zayn.
- Não, não brigamos nem terminamos, eu só precisei voltar antes… Escuta, está tudo bem. Desculpem por ligar. Eu só queria... - Como é que eu ia dizer que queria uma companhia, ao menos? Que precisava falar com alguém sobre o que estava sentindo e que recém percebi que estava sentindo, senão eu surtaria de vez?! Nem fodendo. - Esquece. - Disse de novo.
- Finn, você só me procura quando tá profundamente fodida, e agora me liga praticamente de madrugada enquanto volta pra escola sozinha, o que quer que a gente pense?
- Não pensem em nada. Voltem a dormir ou- sei lá, nem quero saber. Eu prometo que estou bem, nos falamos depois.
Desliguei a ligação rapidamente antes de ter que ouvir mais alguma resposta, e soltei-o em meu colo, encostando o rosto em ambas as mãos e grunhindo, envergonhada com toda aquela interação embaraçosa.
Eu sabia, nada de bom pode vir de tentar falar sobre seus sentimentos mesmo!

Continua...




Nota da autora: Is there anybody out there??? Ainda tem alguém aí lendo?!
Gente, é muito louco pensar que começamos a planejar e escrever essa fanfic em 2012, já vai fazer uma década... nós duas, Lai e Mah, estávamos conversando sobre o quanto a fanfic e a nossa escrita e até os próprios personagens amadureceram junto conosco durante o tempo. E não poderia mesmo ser diferente, afinal, NOVE ANOS se passaram, gente! O MUNDO mudou! Não só nós! E nós prometemos uma à outra de não abandonar a TAT, independente do tempo que demoraria, independente de se perderíamos todas as nossas leitoras. E acho que vamos conseguir cumprir essa promessa, levar essa história que tanto amamos até o final. Estamos perto agora!
Muita coisa mudou. Alguém ainda lê fanfic interativa de One Direction?!! Nossos gostos mudaram, os de vocês com certeza também. Mas essa história é muito especial para nós, portanto, nós pretendemos terminar ela, nós devemos isso a todos esses anos e aos nossos queridos personagens.
Portanto, nós vamos continuar aqui. Se alguém ainda ler, pedimos para de coração, comentar, qualquer coisa, só pra sabermos que estão aí ainda.
Não sabemos quando teremos o próximo capítulo, nem vamos prometer nada. Só prometemos pra vocês que vamos terminar essa história um dia, SIM. E está bem próxima do final...

Ah, a gente meio que deu uma sumida também. Eu (Lah) deletei o facebook e o instagram, e só fico pelo Twitter mesmo. Então eu vou deixar aqui embaixo os links das nossas redes sociais atualizadas, okay? Sintam-se à vontade para nos procurar.
Beijinhos, Lah e Mah.



GRUPO NO FACEBOOK: aqui
TRAILERS DA FANFIC: aqui
TWITTER DAS AUTORAS: Lah e Mah
PLAYLIST DA BANDA NO SPOTIFY: Renewed Playlist
LINK DA FIC NO WATTPAD: The A Team


Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






comments powered by Disqus