Finalizada em 01/03/2020
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Tudo por um Beijo

SEMANA 01


– Eu espero que você fique satisfeito com a nossa estrutura.
– Eu também. – Diego respondeu, preparando-se para se apresentar na coletiva.
?! – O diretor de futebol falou. – Onde está Eric?
– Internado, ele pediu pra eu vir.
– Diego, essa aqui é a nossa estagiária da fotografia, .
– Prazer. – A moça lhe esticou a mão. – Seja bem-vindo.
– Obrigado. – Ele respondeu com um sorriso.
Ela começou a ajeitar os equipamentos na bolsa tira colo e sentiu o olhar dele sobre ela.
– Você já viu outras apresentações?
– Eu?! – perguntou.
– Sim.
– Algumas.
– É sempre assim?
– Ah, a torcida é bem calorosa. A do Guerrero e do Sheik foram bem chatas, mas a torcida tava esperando você há anos.
– Então você tá aqui faz tempo.
– Já faz quatro anos, mas eu tava na parte de design do site. Aí ano passado eu comecei a faculdade de Jornalismo e fui transferida de setor.
– Poxa, que legal!
– Diego, – Uma mulher loira passou entre os dois. – Matteo quer você.
– Bruna, eu realmente não posso agora e...
Uma criança pequena, de cabelos loiros e chupeta azul na boca levantou os olhos para a mulher. Ela ficou sem jeito, o homem ficou mais sem jeito ainda. Então abaixou para ficar à altura do garotinho.
– Oi, Matteo. Tudo bem? Você gosta de fotos? A tia tira fotos! Quer ver?
O pequeno hesitou em um primeiro momento, mas logo se aproximou da mulher. Ficou surpreso quando viu as várias imagens passando na tela da câmera, tanto que deixou cair a chupeta da boca.
– Vamos tirar uma foto do papai?
Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça muito discreto. configurou a câmera para mostrar a imagem em tempo real no visor de LCD e colocou o equipamento perto de Matteo, virando a lente para Diego. O mais novo abriu um sorriso pequeno e seus olhos brilharam.
– Quem é esse aqui? – perguntou à criança, apontando para a tela.
O sorriso dele aumentou e ela se deu por satisfeita.
– Vamos tirar fotos do papai lá da cadeira da tia?
Novamente incerto e hesitante, ele demorou para concordar. , então, tirou o chaveiro de câmera do bolso e entregou ao menino após desconectá-lo do anel que prendia as chaves.
– Toma, é pra você.
Matteo ficou feliz com o pequeno presente, colocou a chupeta de volta na boca por conta própria e chegou mais perto do pai, se divertindo com o pequeno objeto que tinha em mãos. Quando se levantou de volta, Diego estava sorrindo para ela com um olhar triste.
– Obrigado, mas vai te atrapalhar.
– Ah, eu sou a rainha dos bebês por aqui. Fica tranquilo, eu sei o que fazer. Vamos?

SEMANA 09


– Bruna, você sabia disso tudo! Quando nós conversamos, antes de eu acertar com o meu assessor, você falou que estava ciente do quanto a nossa vida ia mudar com a volta pro Brasil.
– Eu mudei de ideia! – A mulher gritou em resposta.
– Pode voltar pra Turquia então. – Diego respondeu, já cansado da situação. – Mas os meus filhos ficam comigo.
– Você não ousaria...
– Será que não?! – Ele rosnou para sua esposa. – Já deu, Bruna, já deu. Faz o que você quiser, só não me fode nem fode meus filhos no meio dessa.
Ele saiu bufando da casa que os dois dividiam. Por sorte, já tinha deixado tudo arrumado e as crianças já haviam saído para o colégio. Partiu para seu treino sem um pingo sequer de paciência. Estava tão afetado que quase atropelou a cancela do Centro de Treinamento. Foi quando percebeu que precisava respirar fundo ou nem conseguiria encaixar o carro na vaga sem bater no vizinho.
– Bom dia, ! – Rodinei gritou, saindo do seu carro, parado ao lado do carro da mais nova da empresa. – Como tá a nossa fotógrafa favorita hoje?
Diego observou os dois trocarem um abraço apertado.
– Sou a única fotógrafa de vocês, seu idiota.
– Me deixa, eu preciso te cantar. Afinal de contas, você sabe que o Rodilindo aqui tá solteiro, e você também tá que eu sei, então...
– Você é lindo demais pra mim, Rodi.
Foi só então que os dois notaram que havia mais alguém caminhando atrás deles. deu uma olhada por cima do ombro.
– Ah, bom dia, Diego!
– Bom dia. – O meia respondeu, o tom de voz baixo.
Sem deixarem o outro ver, os dois amigos trocaram um olhar que gritava um “tá mal humorado”. Rodinei deu de ombros antes dos dois seguirem para seus respectivos caminhos. A manhã foi trabalhosa para todo mundo. Os jogadores tinham treino pesado para o jogo contra o Figueirense em São Paulo no domingo. Já tinha um treinamento específico também, já que seria a sua primeira viagem sem supervisão para cobrir um jogo; estava excitada e preocupada ao mesmo tempo. Por conta de todas essas exigências, não houve um sequer que não comemorou a chegada da hora do almoço.
– Ei, mocinho. – foi atrás de Mancuello com a bandeja de comida na mão. – Desculpa te atrapalhar, Eric pediu que eu te entregasse isso.
O jogador recebeu o pen drive em suas mãos com um sorriso simpático no rosto.
– Agradeça a ele por mim, por favor.
– Pode deixar.
começou a virar na direção da mesa logo ao lado, a fim de colocar em cima dela sua bandeja, quando sentiu o esbarrão. O barulho de prato quebrando no chão, logo depois, denunciou que a proporção era um pouquinho maior que um simples contato físico.
– Puta que pariu... – Diego rosnou atrás dela.
A menina, que ainda era muito nova, se assustou com a voz do jogador. Ela deu um passo para trás imediatamente, mas logo se arrependeu, abaixando para ajudar Diego a pegar do chão o que desse. No entanto, os dois foram rapidamente interrompidos por um funcionário da limpeza. Só então que eles trocaram um olhar. tentou sorrir, mas Diego parecia mais mal humorado ainda.
– Merda, sujei sua blusa.
– Tá tudo bem, Diego. De verdade.
– Não tá bem... – Ele murmurou. – Eu tenho alguma coisa limpa no meu armário, posso te emprestar.
– Não precisa, to bem.
– Você tá usando uma camisa branca com uma mancha marrom gigante, . Vamos lá, eu pego pra você, não vai me fazer falta. Réver, olha a comida da um momentinho enquanto eu pego uma blusa pra ela?
Os dois caminharam em silêncio até o vestiário. , na verdade, estava agradecida, porque sentia o molho do bife do dia molhando a sua pele por baixo da camisa. Ainda assim, fazia parte do seu padrão não gostar de perturbar ninguém, mesmo quando estava certa.
– Aqui. – Diego entregou a blusa à menina e forçou um sorriso. – Não precisa devolver.
– Claro que precisa. – Ela respondeu. – Te devolvo limpa amanhã.
– Pode ficar, .
– Eu realmente não preciso, vou trazer. – Ela insistiu e cruzou os braços. – O que houve com você hoje? Desculpa, eu sei que não é da minha conta, mas você tá quase explodindo.
Ele coçou a cabeça, um pouco sem jeito.
– Será que homem tem TPM também?
– Ah, – abriu um sorriso. – com certeza tem. Falo isso porque vocês são terríveis.
Diego abriu o primeiro sorriso verdadeiro do dia, muito embora fosse extremamente contido. A conversa ficou naquilo mesmo. Ela foi se trocar no banheiro feminino e ele voltou para o refeitório, torcendo para conseguir equilibrar sua comida direito dessa vez. No dia seguinte, conforme prometido, a blusa foi devolvida antes de todos embarcarem para São Paulo.
A temperatura estava baixa no Rio de Janeiro mas, no estado vizinho, conseguia estar com 5ºC a menos. Mas isso não era empecilho para o Flamengo. A maioria dos jogadores eram experientes, já tinham jogado em temperaturas muito mais baixas e, conforme o jogo ia continuando, o calor humano colocou tudo no lugar.
Começaram com um pênalti perdido por Leandro Damião aos trinta e dois minutos. Porém, cinco minutos depois, Arão aproveitou a chance e abriu o placar com assistência de Rafael Vaz. O Flamengo dominou o jogo inteiro, o que deixou descabelada com o tanto de atividade. Mas ela era torcedora também, e vibrou demais quando foi marcado um segundo pênalti a favor do time, aos setenta minutos. Diego foi o batedor escolhido. Ainda não havia recuperado o seu humor habitual, mas notou na beira do campo, com uma lente gigante nas mãos, e conseguiu ler o “boa sorte” que ela transformou em mímica com os lábios. Sorriu, pegou a bola nas mãos, ajeitou no lugar e converteu. Tomou um cartão amarelo por reclamação no final do jogo? Até tomou. Mas não estava ligando muito. O que importava eram os três pontos conquistados.
– Aí, galera. – Cuellar gritou, dentro do ônibus que levava o time de volta para o hotel. – Vou fazer uma festinha lá em casa no próximo dia 14 pro meu aniversário...
– Que isso, hein, gringo! – Vizeu gritou, provocando o colega.
– Tá todo mundo convidado.
Os colegas todos começaram a fazer piadas enquanto a fotógrafa, sentada na sua, não reagia à notícia. Até que o próprio Cuellar saiu do seu lugar e se aproximou dela.
– Você tá inclusa, é a minha convidada de honra.
– Não posso, acordo cedo no outro dia.
– Não acorda cedo nada. Fica tranquila que vou dar um jeito de deixarem te dispensar. Você vai e pronto. Não aceito ‘não’ como resposta.

SEMANA 13


– Você acha que ficou bonito, Fê?
, um homem que não olhe pra você e te ache bonita tem que morrer.
– Geralmente, irmãos mais velhos são bem protetores.
– Ah, eu quero um sobrinho.
– Fica tranquilo que isso vai demorar.
– Falando em demorar... – Ele checou o relógio. – Estamos atrasados. Vamos, eu te deixo lá antes de ir pra casa da Pri.
– Tem certeza? Você já tá atrasado, ela vai te matar.
– Vai me matar nada...
– Meu Deus, tenho pena da sua namorada.
Os irmãos deixaram a casa em que moravam vinte minutos depois do horário planejado. havia comprado uma roupa especialmente para aquela ocasião. Com o trabalho e a faculdade ocupando seu dia a dia, não tinha tempo para coisas como uma simples festa de aniversário. Bem, ela esperava que fosse simples.
Assim que o carro de Felipe, seu irmão, disparou para longe do portão, ela engoliu em seco. Nunca havia participado de uma confraternização entre jogadores, nem sabia se era muito clichê estar levando presente. Já estava considerando dar meia volta, pedir um táxi e ir para casa, já que ninguém a vira ainda, mas seu plano foi por água abaixo quando um BMW preto estacionou atrás dela.
– Olha quem tá aí!
– Oi, Juan. – Ela disse, tímida. – Não sabia que você viria.
– Eu também não, mas...
! – Monick, esposa de Juan, a chamou enquanto saía do carro. – Quanto tempo.
– Você não apareceu mais pelo CT.
– Que macacão lindo esse! – A mulher se aproximou dela e as duas trocaram um beijo no rosto. – Onde comprou?
– Na My Space.
– Será que eles teriam o meu tamanho por lá? Achei maravilhoso!
A companhia de outra mulher deixou um pouco menos nervosa. As duas entraram juntas no quintal de Cuellar, embaladas em uma conversa sobre roupas e preços. Conforme outros jogadores foram chegando, as respectivas namoradas ou esposas começaram a formar um grupo. As fofocas foram criando proporções imensas até que Diego chegou na festa e, pela primeira vez na noite, todas ficaram quietas. estranhou de imediato.
– Dizem que ele traiu a Bruna. – Uma disse.
– Eu fiquei sabendo que foi na última viagem pra Cariacica. – Outra completou.
– A Bruna me disse que eles já assinaram os papéis do divórcio. – Uma terceira comentou. – Ela é louca.
– Do que vocês estão falando? – entrou na conversa.
– Ei! Espera! – Tayrine, mulher de Muralha, interrompeu tudo. – , você não tá no nosso grupo do WhatsApp, está?
– Não, eu...
– Meu Deus! – A loira gritou. – Precisamos colocar você lá. Seria ótimo, assim você poderia ficar de olho nos nossos maridos durante as viagens e contar pra gente tudinho.
A fala de Tayrine fez o grupo aquecer de novo. Mesmo que fosse mulher, não se sentia confortável com aquilo. Monick também não, então as duas se tornaram cúmplices em arrumar uma desculpa para deixarem o grupo trocando fofocas e se afastaram. A primeira foi até o bar enquanto a segunda foi atrás do marido. já tinha tomado três long necks, e era já a hora de parar, mas não se conteve quando viu que havia alguém fazendo coquetéis e pediu um.
– E aí, ? – Diego apareceu do lado dela com um sorriso.
– Tudo bem? – Ela respondeu.
– Tudo ótimo. Você ficou realmente muito bonita nessa roupa.
– Obrigada. – sentiu as bochechas queimarem.
– Viaja com a gente pra Porto Alegre na próxima?
– Sim, o Eric quer que eu ganhe mais experiência.
– Seu superior quer é que você faça o trabalho dele.
– Desde que me paguem direitinho, tudo bem por mim.
Os dois sorriram, quase sem assunto, mas Diego estava já um pouco além de seu estado normal de sanidade. Havia algo em sua mente que dizia para insistir em conversar com aquela mulher.
– O que achou do jogo contra o Fluminense? – Diego disparou a pergunta.
– Ah, foi bom. Podia ter sido melhor se não fosse em Volta Redonda, né, mas...
– Por quê?
– O Raulino de Oliveira é péssimo em estrutura.
– Mas é melhor que viajar de novo pro Espírito Santo.
– Será que é?
Eles ficaram ali conversando por mais de uma hora, coisa que pareceu se tratar apenas de alguns breves segundos. estava começando a sentir os efeitos mais graves do álcool na corrente sanguínea e acreditava que Diego também passava pelo mesmo, mas se encontravam do lado do bar e a facilidade em pedir mais bebidas não estava ajudando a mulher. De repente, os dois perceberam que quase todos os casais estavam unidos, dançando um pagode romântico que tocava no equipamento de som. Diego fez o convite à e os dois nem perceberam que estavam dançando até que trocaram um olhar. Foi aí que o álcool pareceu sumir e ela tremeu na base.
– E-eu... Eu...
Diego tentou se aproximar, mas arregalou os olhos e deu um passo para trás.
– Eu não posso.
– Por quê?
– Vou ser demitida. – Ela murmurou, tomando coragem para olhar para Diego novamente. – Desculpa, eu... Eu... Eu vou no banheiro.
Ela se retirou na velocidade da luz. Diego passou as mãos no rosto e esfregou os olhos, com a sensação de que estava sonhando acordado, mas também que havia passado do limite. , trancada do banheiro social da casa, começava a fazer as contas e verificava, por conta própria, que os oito anos de diferença entre os dois, àquela altura, talvez fosse forçar a barra demais. Pegou o celular, chamou um táxi, treinou uma expressão facial melhor e saiu do banheiro.
– Cuellar! – Ela chamou o jogador, que estava entretido em uma roda de amigos. – Eu vou indo, tá tarde pra mim e eu preciso estudar pra uma prova.
– Poxa! Tem certeza?
– Tenho sim. Obrigada pela festa, estava ótima. Até amanhã!
– Até! – Ele a cumprimentou com um beijo no rosto.
não pretendia se despedir de ninguém. Deu um adeus para Eric e Mônica, seu imediato superior e sua noiva, à distância, e foi para a frente da casa. Conferiu o horário da ligação e fez as contas. Constatou que o carro provavelmente chegaria em dez minutos. O irmão bem que tinha falado que ela deveria levar um casaco, mesmo que leve, mas ignorou e agora se arrependia profundamente disso.
!
Ela gelou mais ainda no lugar quando reconheceu a voz. Estava de costas para o portão e continuou daquela forma.
– Ei, você ficou chateada?
– Não, Diego, tá tudo bem.
– Você já vai?
– Vou sim. Tenho uma prova importante segunda, preciso descansar pra ter tempo de estudar e...
– Eu te levo em casa.
– Já pedi um táxi.
– É só cancelar. Vamos, eu te levo.
– Tá tudo bem, Diego, eu vou de táxi, to acostumada.
– Ei.
se virou para o jogador finalmente.
– Me desculpa por ter tentado te beijar.
– Tá tudo bem.
– Você sempre tem esse ‘tá tudo bem’ na ponta da língua? É o que eu mais te escuto dizer!
– É porque tá tudo bem.
– Qual é! Eu duvido que esteja.
– Tá tudo... – parou e quase riu de si mesma. – Pode duvidar então.
– Finalmente, uma reação de verdade. Agora vamos, entra no carro. Eu te levo e você me prova que tá tudo bem de verdade.
– Provar com o quê?
– Só com deixar eu te levar.
revirou os olhos.
– Você tá muito bêbado, cara.
– Na verdade, – Diego deu um passo na direção da mulher. – eu não bebi hoje. To tomando remédio, não posso.
Ela fechou os olhos involuntariamente e deu um passo para trás, encostando no carro que reconheceu ser, ironicamente, dele.
– Diego, eu não...
Havia dois corações quebrados no meio daquele beijo, e talvez fosse isso que os motivassem a não parar. Diego subiu uma mão para o pescoço de enquanto manteve a outra em sua cintura. Ela, mais tímida, apenas tocava de leve o braço dele.
– Cancela o táxi, , por favor.
O sussurro pareceu enfeitiçar a fotógrafa.
– Diego, isso é errado. Eu vou perder o meu emprego.
– Não vou deixar que isso aconteça, eu prometo.
Ela levantou o olhar até ele com medo de sentir mais ainda a pressão que era estar com alguém que sabia o que dizer, quando dizer e como dizer. Os olhares dos dois quase podiam lançar faíscas contra o outro. Foi então que Diego destravou o carro e eles entraram. Foi ele quem avançou, novamente, na direção dela, tomando-a em um beijo mais ardente que o que dividiram do lado de fora. A proteção do insulfilm escuro acendeu algo dentro de . Ela sentia falta do contato com um homem e, do dia para a noite, estava caindo na lábia do primeiro que havia lhe dado assunto.
– Pra sua casa ou pra minha?
– Diego, você é casado e...
Ele colocou o dedo indicador nos lábios dela e levantou a mão esquerda.
– Não mais.
– Então você terminou há pouco tempo, não tem como você estar certo do que quer agora.
, eu tenho certeza do que quero desde que te conheci na minha apresentação, quando você tratou o meu filho com todo o carinho do mundo. Agora, por favor, responde a minha pergunta.
Diego estava quase arrependido de não ter arrumado o apartamento de alguma forma. Quase fez tropeçar no carrinho que Davi havia deixado pelo caminho em uma brincadeira. Por sorte, não havia ficado com as crianças aquela noite, o que facilitou o caminho entre a porta de entrada e a sua cama. Quando a deitou sobre a coberta, sentiu a moça ficar tensa sob suas mãos novamente. Ele parou o que estava fazendo para olhar nos olhos dela, mesmo que a luz estivesse fraca.
– O que houve?
– Diego...
– Por favor, não diz que é errado mais uma vez.
– Mas é!
– Me diz que você não quer.
– Não é isso.
– Então você quer. – Ele concluiu.
– Não me faça dizer isso.
– Você tá me deixando confuso, .
Ela desviou o olhar dele e virou o rosto na cama, dando de cara com um retrato dele com os filhos da cabeceira. apenas apontou. Diego se esticou por cima dela e virou o retrato.
– Se for isso, problema resolvido.
– Não é só isso, Diego.
– Então é o quê? Me fala!
começou a se ajeitar por baixo do jogador e foi escorregando até sentar-se na cama. Ele apenas a acompanhou com o olhar.
– Diego, você é casado...
– Divorciado.
– Que seja! – Ela falou. – Trabalhamos juntos. Não sei se você sabe, mas tem uma cláusula linda no meu contrato que diz que, se eu me relacionar com qualquer funcionário do clube, jogador ou não, eu vou ser demitida sem direito às minhas verbas rescisórias. E além disso, eu não sou o tipo de mulher que você procura, Diego.
– Que tipo de mulher eu procuro? – Agora ela tinha captado a atenção do meia.
– Uma dama.
– E você não é uma? – Ele arqueou as sobrancelhas.
– Não. Eu não sou a dondoca que vai todo dia ao salão de beleza, que só anda com as unhas maiores que os dedos, sempre tem uma maquiagem no rosto e um sorriso forçado nos lábios. Eu sei o nome dos carros, Diego, sei dizer todas as características de um motor aleatório. Eu entendo de futebol melhor que muito homem, sou grossa, não fico dando volta e...
– Você tá dando volta agora. – Diego voltou a avançar na direção dela. – Eu te conheço faz três meses, , e você é um livro aberto, sei tudo sobre você. Se eu tenho uma certeza, é a de que eu quero você e mais ninguém.
– Mas o contrato...
, – O meia fez a moça levantar o olhar até o dele. – ninguém precisa saber se você não quiser.

SEMANA 22


– Que merda de jogo!
– Ei, acalmem-se! – gritou para os mais de vinte homens não muito felizes dentro do vestiário da Arena da Baixada. – Não tinha como alcançar o Palmeiras de qualquer jeito. Terminamos em terceiro, estamos na fase de grupos da Libertadores do ano que vem... Vocês fizeram o máximo que podiam dentro do que dava pra fazer.
– Sabe quando a gente começou a perder esse título? – Réver gritou. – Naquela merda do jogo contra o Palmeiras.
– Eu sei, mas aconteceu, já passou.
– A gente tem treinadora motivacional agora? – Éverton ironizou.
– Se quiser falar merda, pode pegar as suas coisas e ir embora. – Vizeu entrou na briga, visivelmente irritado. – Tá todo mundo puto que o último jogo da temporada foi um empate, mas podia ter sido uma derrota. A tá aqui o tempo todo dando força pra gente e você ainda vai falar assim?
Éverton virou para encarar Vizeu, mas logo viram o problema que podia se instaurar e trataram de separar os dois. Enquanto isso, se encolhia um pouco mais no canto do vestiário, fazendo anotações em seu tablet.
– Alguém precisa de alguma foto por hoje?
Os jogadores responderam um não, alguns mais altos que outros. pensou em anunciar sua retirada, mas percebeu que não faria diferença, então simplesmente deu as costas e seguiu para a saída do estádio. Pediu um táxi, mesmo sabendo que não precisava porque havia um ônibus esperando para levar todos de volta ao hotel. O clima não estava bom, logo, parecia lógico se afastar. Ela, pessoalmente, estava incomodada com o campeonato inteiro.
– Boa noite, senhorita. – O ascensorista do hotel a cumprimentou. – Qual andar?
– Quarto, por favor.
segurou o equipamento contra seu corpo como se dependesse daquilo para viver. Agradeceu mais uma vez por ser a única mulher da equipe e, por conta disso, ter um quarto só para ela. Organizou tudo em cima da pequena mesa de trabalho que o hotel disponibilizava em suas suítes e começou a tirar a roupa. Tudo o que precisava era um banho quente e uma boa noite de sono para, no dia seguinte, retornar ao Rio de Janeiro e começar a curtir suas tão desejadas férias.
– Você saiu sem nem se despedir. – Uma voz grossa ecoou pelo quarto quando fechou o registro do chuveiro.
Por um segundo, ela sentiu a espinha gelar.
– O que você tá fazendo aqui?
– Você deveria deixar a porta da sua varanda trancada.
– Mas o quê...?! – Enquanto ela formulava seu pensamento, o jogador começou a andar com passos firmes em sua direção. – Diego, não...
Ele a calou com um beijo. Não demorou para que suas mãos se estendessem até o local onde a toalha estava amarrada, fazendo com que o tecido deslizasse até o chão. ainda estava com o corpo molhado, mas ele não se importava. Na verdade, não se importava com nada desde o começo da partida. Não iam para o quarto lugar. Se fossem para segundo, as consequências seriam as mesmas de estarem no terceiro. Vencer o campeonato? Impossível. Então talvez isso explicasse a não tão boa atuação dele em campo. Enquanto todos estavam com o foco na bola, Diego não conseguia esperar para colocar em prática o plano perigoso que tinha para aquela noite.
– Você precisa parar com isso! – sussurrou, interrompendo o beijo. – Em Belo Horizonte, duas vezes, em Porto Alegre, em São Paulo...
– Ah, São Paulo foi maravilhoso.
– Eu to falando sério, Diego. Você tá abusando, isso tá ficando arriscado pra mim.
– Comigo, você nunca teria que se preocupar com emprego. Eu te daria tudo o que você precisasse e muito mais.
– Já te ocorreu que talvez não seja só o dinheiro? Que talvez eu goste mesmo do que eu faço? Que talvez seja isso que eu quero fazer pro resto da minha vida?
– Eu compro um time pra você então. O que você acha?
– Diego, é sério.
Ele perdeu o sorriso brincalhão no rosto e fechou a cara.
– Tudo bem então, me perdoa. Vou voltar pro meu quarto.
Quando o jogador começou a caminhar para a varanda, ela não conseguiu acreditar.
– Você só pode estar brincando.
– Com o quê?
– Pirraça! Trinta e um anos na cara e você tá fazendo pirraça!
– Não é pirraça, é que você não quer.
– Quem disse que eu não quero, Diego?
O sorriso voltou aos lábios do jogador, mas ele não se daria por vencido tão facilmente. Por mais que seus hormônios estivessem explodindo dentro dele, Diego queria mais que viciasse nele tanto quanto ele era viciado nela. Então tirou a mão da porta da varanda e caminhou até ela. esperou um novo choque mas, dessa vez, ele a circundou e encostou o queixo com a barba por fazer no pescoço dela, segurando-a por trás e a puxando de encontro a seu corpo.
– Você tímida é um tesão, mas quando você é direta e reta... – Ele murmurou com a boca bem próxima de seu ouvido. – , você sabe como me deixar maluco.
– É a minha intenção. – Ela sussurrou com um sorriso.
– Tem certeza? – Diego tirou uma faixa de tecido do bolso e passou os braços por cima dos ombros dela, tampando os olhos da moça com a venda improvisada. – Vou provar agora que eu posso te deixar maluca também.
mordeu os lábios imediatamente. Os dentes de Diego foram certeiros na pressão exercida sobre a pele do seu pescoço e o jeito que as mãos dele a guiavam faziam com que cada neurônio do seu corpo estivesse apitando e piscando em um vermelho fluorescente. Com destreza, ela a puxou até a cama. Deitou , que permanecia em um silêncio curioso, e colocou seu corpo sobre o dela.
Diego parou o que estava fazendo para, durante alguns segundos, admirar a visão. Adorava o corpo da mulher na sua frente, e adorava mais ainda que a conexão entre os dois extrapolasse o contato físico naqueles momentos. Era tudo o que ele não tinha vivido antes e sentia como se tudo fizesse sentido na sua vida agora que tinha com ele.
– O que houve? – Ela perguntou, estranhando o repentino silêncio.
Ele ainda hesitou para responder, engolindo em seco, sufocando nos próprios sentimentos.
– To só olhando você.
fez menção de cobrir o corpo com os braços, mas Diego não deixou. Segurando-a no lugar, ele desceu sua boca até encontrar com a dela. Depois de um beijo lento, Diego seguiu percorrendo o corpo dela com os lábios. O pescoço, os ombros, o colo, os seios, a barriga e o ventre. sabia onde ele iria chegar e estava querendo implorar. No entanto, não daria entregaria o jogo de bandeja para ele. Estavam os dois em uma competição.
Quando Diego depositou o primeiro beijo em sua virilha, se contorceu toda.
– Pede.
– Eu não. Você que tá no comando hoje, pelo jeito.
– O comando sempre foi seu.
– Se fosse meu, não tava sendo assim agora.
Diego passou a língua por toda a extensão dela e gemeu em resposta.
– Eu achei que fosse ser mais difícil.
– O quê?
– Você.
não se conteve. Levou as mãos até os olhos e afastou a venda. Diego olhava para ela entre as suas pernas.
– Como assim?
– Eu achei que você fosse resistir mais quando eu dei o primeiro passo na sua direção.
– Você fez isso numa noite em que eu estava bêbada.
– Então você não queria?
– Você cisma que eu não queria aquela noite.
– O problema não é meu se você que coloca mil empecilhos.
– Diego.
– O quê?
– Você quer discutir relação agora ou quer terminar o que começou?
Os olhos do jogador brilharam de luxúria enquanto ele voltou a se concentrar no que estava em sua frente. se conteve com jogar a cabeça para trás, mantendo os olhos fechados e as mãos na cabeça do jogador, direcionando cada movimento que ele fazia.

SEMANA 131


Tudo estava correndo maravilhosamente bem para todos. Por mais que os resultados não estivessem vindo, havia um clima no ar. O time deixou de ser de colegas para se tornar um time de amigos. Agora havia a chegada de mais um para o elenco, um de muitos que ainda chegariam. O problema para Diego era que, de alguma forma, ele sentia que aquilo podia ser um problema.
e ele estavam afastados. A verdade é que ele sabia que tinha sido um idiota ao forçar a barra e pedir a ela que, a qualquer custo, deixasse o emprego para assumir um relacionamento com ele. não queria. Ela tinha passado por coisa demais no passado e não via a mínima necessidade de se envolver em comprometimento. Gostava de Diego, isso era verdade, e sabia também que eles tinham mais que atração física um pelo outro, mas gostava também da liberdade que tinha por ser solteira.
Hola, Giorgian. chegou com um sorriso para o recém-contratado. – Bienvenido, espero que disfrutes tu tiempo aqui.
O uruguaio abriu um sorriso ao ver alguém falando sua língua natal. Diego começou a se perguntar desde quando falava espanhol e o porquê de ela nunca ter lhe contado aquilo.
Gracias, espero que las cosas salgan bien.
Soy , soy la fotógrafa asistente del equipo. Es un secreto, pero trabajo más duro que nuestro fotógrafo principal. – O jogador novato deu uma risada para o comentário dela, deixando Diego mais quente ainda. – Tuvo um problema hoy, así que lo estoy cubriendo. Pero no te preocupes, nada saldrá de tu camino. Si tiene algo que necesita decir o quiere aclarar, puede preguntarme.
Muy bien, te lo agradezco.
abriu a boca quando Diego os interrompeu, cheio de assistir àquela cena e com medo de perder a mulher que amava – ou, ao menos, pensava que amava – para outro. Era, para ele, um dejá vu de quando conheceu . O problema era que ele não queria que aquilo acontece com outro alguém em nenhuma hipótese.
– Oi, e aí? – Diego falou em português, mesmo dominando o espanhol, porque estava com raiva do garoto naquele instante. – Arrascaeta, né?
Sí.
Diego estava fervendo de raiva por dentro, mas se conteve. Era um ótimo ator. Enquanto isso, quase ria da cena que estava assistindo. Todos cumprimentaram o jogador antes que ele fosse para a coletiva de imprensa sobre sua apresentação. Os ânimos estavam agitados. , principalmente, sabia da importância que teria um jogador daquele nível na equipe. Seus olhos brilhavam, mas era pelo Flamengo, não pelo homem.
– Quer que eu pegue um guardanapo?
– Pra quê, Diego?
– Pra limpar a saliva que você tá deixando escapar pelo uruguaio.
revirou os olhos e se virou para ele.
– Ciúmes? Agora?!
– Por quê não?
– Diego, a gente não tem nada e eu gosto assim.
Ele sentiu para si o gosto amargo de ter transformado de moça em mulher.
– Então você sente atração por ele.
– Diego Ribas e suas conclusões precipitadas sobre mim. – Ela cantarolou baixinho. – Se acalma, garanhão. Eu estou aqui trabalhando.
– Você também tava trabalhando quando me conheceu.
– Sim, mas foi você quem veio pra cima de mim, e nós estávamos em uma festa, não no trabalho.
O homem respirou fundo mais uma vez. Odiava que ela estivesse certa nesse ponto, mas estava disposto a lhe dar tempo, porque Diego estava convencido de que voltaria para ele por conta própria. Mas ele sentiu. Quando o uruguaio novato passou por ela e abriu um sorriso simpático, ele sentiu. Não havia ainda descoberto aquela palavra mas, naquela noite, Diego soube da existência do termo ‘concorrência’.
Ele estava disposto a lutar por ainda, mas sabia que a mulher na qual ela tinha se transformado – em grande parte, graças a ele – não aceitaria jogo sujo. Então Diego respirou fundo, tomou a decisão que precisava, firmou um compromisso consigo mesmo e, repentinamente, deixou sozinha, que ficou confusa com tudo aquilo. Diego quase correu até o outro, para lhe oferecer uma conversa amigável de ‘boas vindas’. Até porque já dizia o ditado... Deixe os amigos perto e os inimigos, mais perto ainda.


Tudo por um Gol

Estacionou o carro na vaga reservada para ela. Checou no retrovisor se tudo estava dentro dos conformes com a maquiagem básica que havia colocado mais cedo – estava ainda sonolenta e não confiava na própria capacidade de fazer um delineado decente quando mal conseguia manter os olhos abertos. Após confirmar que tudo estava no lugar, destravou as portas e saiu do carro, rezando para que os saltos que havia colocado não a traíssem. Max estava chegando em sua moto e desceu depressa ao ver a colega se dirigindo ao bloco principal.
– Ei, !
A jovem moça se virou para o rapaz, que estava ajeitando o capacete na moto ainda.
– E aí, gostoso?
– Já falei pra maneirar nos apelidos, a galera aqui fica me pilhando por causa disso.
– Como se você não gostasse... – Ela revirou os olhos e recebeu o abraço caloroso do homem quando este terminou de se aproximar.
– Feliz primeiro dia, senhora jornalista formada. – Max estendeu uma pequena barra de chocolate para ela. – Meus parabéns.
– Já estou aqui há anos, não tem necessidade dessa graça toda.
– Tava, mas como estagiária, e estagiários só servem pra uma coisa: fazer merda.
– Você fala como se fosse um expert no assunto.
– Eu já fui estagiário também, né? – Ele deu de ombros e riu dela.
O letreiro na porta indicava sua mais nova sala. Não era grandes coisas, mas a mobília escura e a cadeira – definitivamente mais confortável que a antiga, e nem precisava sentar-se nela para constatar tal fato – pareciam convidativas demais. Com o tempo, tudo estaria do jeitinho que precisava que estivesse. Mas agora podia bater no peito e falar: era jornalista, com diploma e registro profissional, e tinha deixado de ser uma mera estagiária da redação para se tornar uma das principais da equipe de fotografia do seu time de coração.
– Posso entrar? – Uma voz se fez presente do outro lado da porta.
– Claro. – Ela sorriu ao reconhecê-la.
– Bom dia. – Arrascaeta abriu o melhor dos sorrisos que podia e tirou a bolsa do ombro, deixando-a sobre a mesa nova de . – Trouxe uma coisa pra você.
Ela cruzou os braços, as pernas, e então se reclinou na cadeira, aproveitando o bom ângulo para observar o uruguaio tanto quando podia.
– O que houve?
– Nada. – Ela murmurou, em resposta, ainda o observando.
Giorgian tirou um embrulho rosa bebê com laço vermelho de dentro. O laço, observou, estava um pouco amassado, mas o gesto ainda era singelo e carregado de sentimento.
– É pela sua estreia.
– Não precisava.
– É claro que precisava. – Ele insistiu. – Espero que goste dos sabores, encomendei especialmente para você.
Ela sorriu e abriu o embrulho com cuidado para que não rasgasse nada, como costumava fazer. A caixa revelou um pequeno porém belo conjunto de trufas de chocolate. aumentou o sorriso e olhou de volta para o homem do outro lado de sua mesa.
– Vocês só podem estar querendo me engordar.
– Vocês?! – Giorgian arqueou uma das sobrancelhas, gesto que a mulher admirava.
– É. Você e o Max. É o segundo chocolate que ganho no dia.
– Hoje é seu dia, você merece. – Eric, seu imediato superior, apareceu na porta de sua sala. – Agora não é porque você está assumindo um novo cargo que merece ser tratada como novata. Arrascaeta, você não tem treino agora na piscina?
– Estou partindo pra lá! – Ele disse e foi para a porta, não sem antes deixar uma piscadela para , cujas bochechas ficaram coradas no mesmo instante.
Eric esperou, deu uma última espiada no corredor e, então, fechou a porta atrás de si.
– Você precisa tomar mais cuidado com isso, . Daqui a pouco, os dirigentes vão descobrir e eu não sei até quando vou poder encobrir essas suas “aventuras”. – Ele disse, fazendo aspas com os dedos.
– Tá tudo sobre controle. Afinal de contas, somos só dois amigos, um agraciando o outro com um presente de comemoração por uma nova conquista. Nada de errado nisso, nada que transgrida o contrato. Estou certa?
Eric revirou os olhos. Conhecia muito bem a mulher e sabia que ela estaria com a resposta na ponta da língua para qualquer imprevisto.
– Não vou discutir com você. – Ele disse, abrindo um meio sorriso. – Também não vou te dar chocolate, já que deu pra te ouvir reclamando agora a pouco.
– Ah, para! Eu quero chocolate!
– Não quer, não. Vai te engordar. Agora levante essa bunda da cadeira que temos trabalho a fazer.
– Hoje?!
– Sim, hoje.
– Mas a semana inteira sem compromissos oficiais pros jogadores, o que temos que fazer?
– Primeira porta à direita da sua mesa. Monte a câmera e vá na piscina e na academia tirar umas fotos deles pra enviar pro acervo do site. Depois do almoço, treino no campo. Monitore também. E redija um artigo pro site, falando sobre como anda a preparação pro jogo contra o Atlético Mineiro.
– Sério?
– Estou sorrindo, ?
Ela bufou e obedeceu, começando a preparar o equipamento. Trocou os saltos pela sapatilha de tecido que carregava estrategicamente na bolsa grande que levava, o glamour podia e devia esperar. Prendeu o cabelo, antes solto, em um rabo de cavalo alto. O que mais pensava era em como tinha sido inútil ter caprichado nos cachos abertos naquela manhã.
– Bom dia, . – Gustavo a cumprimentou no corredor que levava à área da piscina coberta, abrindo a porta para a mesma. – Eric já te colocou pra trabalhar hoje?
– Não seria novidade vindo dele, seria?
Os dois riram.
– Não, definitivamente não.
– Bom dia, flor do dia! – Éverton a gritou. – Marília mandou os parabéns pela promoção.
– Agradeça a ela por mim. – Ela disse, gentilmente.
! – Rafinha a chamou também. – Você podia me enviar umas fotos do jogo da semana passada?
– Estão com Max, vou pedir pra ele passar pro seu e-mail.
– Obrigada. – O jogador a respondeu com um sorriso amigável no rosto.
Estava andando até uma mesa na beira da piscina para deixar alguns dos equipamentos e os preparar para a eventual necessidade de troca. Sentia, nas costas, um olhar a acompanhando. Queria se negar a acreditar que pertencia a quem achava que era, ainda mais depois do clima tenso entre os dois na social que fizeram na casa de Éverton e Marília, um dos jogadores principais e a melhor amiga da então jornalista. Então se pôs a continuar seu serviço e puxou uma cadeira para se sentar. Eram os preguiçosos que inventavam as melhores formar de realizar um trabalho afinal de contas, não era? Levantou a câmera na direção de Gerson. Este deu uma piscadinha para ela antes de voltar ao que estava fazendo. Ela sorriu em resposta e bateu a foto.
– Não é pra pararem o que estão fazendo só porque estamos aqui. – Gustavo disse em alto e bom tom.
– Eu senti a indireta. – Gerson respondeu.
– Todos, pausa de dois minutos. – Thiago, um dos preparadores físicos, ordenou.
checou as configurações da câmera e, mais uma vez, a levantou até a altura de seus olhos. Começou a focar quando encontrou o olhar através da lente. Fingiu muito mal que não havia reparado e bateu mais uma foto.
– Alguém sabe o horário do voo na sexta?
– Vai nos dar a honra da sua companhia? – Gabriel ironizou, ao que ela respondeu com uma careta, fazendo ele e Bruno rirem. – Cinco horas da tarde.
– Galeão ou Santos Dummont?
– Segunda opção. – O atacante respondeu e lhe deu as costas, saindo da piscina para buscar um copo de água.
– Você vai mesmo pra Minas? – O colega perguntou ao seu lado.
Ela se levantou, agachou perto da beira d’água e ajustou, mais uma vez, o foco. Bruno estava distraído, e sua mira não falhou, como sempre.
– Vou. Eric pediu que eu o substituísse.
– Uau, isso é grande.
– Eu sei, e eu to preocupada.
– Com o quê? Você dá conta de tudo!
Notou que Berrío estava se alongando na beira da piscina e mirou a câmera em sua direção. Bateu a foto e se levantou, desencaixando a lente que estava usando.
– Gu, pega a 50mm pra mim, por favor?
– É claro. – Ele respondeu com um sorriso e tomou a lente anterior da mão da colega.
– Não vai falar comigo? – A voz soou logo aos seus pés, vindo de dentro da piscina.
– Estou falando com todos normalmente, Diego.
– Ah, bem. Pensei...
– Pensou o quê? – Ela respondeu, o tom de voz desafiador que gostava de usar com o meia.
, como vai? – O técnico entrou no ambiente da piscina e cumprimentou a moça. – Soube da promoção. Meus parabéns.
– Obrigada, Jorge. – respondeu e deixou um sorriso sarcástico com Diego antes de encaixar a lente que Gustavo trouxe até ela.
Foi, então, até o outro lado da piscina. tinha bom olho para detectar onde a luminosidade favorecia alguém. Não que ela achasse que Vitor poderia ser favorecido de alguma maneira. Por conta da paixão que sentia pelo clube desde a infância, nem sempre conseguia separar o emocional do profissional. E Vitor era o perfeito exemplo nesse caso. Odiava ter que lidar com ele, e sentia que não era a única – mas só ela não conseguia disfarçar. Por isso, tinha que se obrigar a lembrar de tirar, ao menos, uma foto dele quando ficava responsável pelas imagens.
– Rodilindo na área! – Rodinei entrou gritando, fechando a cara assim que viu que o treinador estava por ali. – Desculpa o atraso, professor, problemas em casa com a bebê.
– A diretoria já me informou. Ao trabalho, por favor.
Ele assentiu rapidamente, tirou a camiseta e, fazendo um exagero que não cabia à situação, fingiu que a água estava muito gelada. tratou de captar o momento do drama. Checou como a imagem ficou no visor do equipamento e caiu no riso consigo mesma.
– Eu sei que sou lindo, pode assumir.
– É um idiota, isso sim. – A moça retrucou. – Não sei como a Nina te aguenta.
– Ela ama o pretinho aqui.
– Rodinei, mais trabalho e menos falação. – O técnico chamou sua atenção.
aproveitou para tirar uma foto dele enquanto observava a equipe sob seu comendo, compenetrado como sempre e com João, seu fiel escudeiro, logo atrás. O técnico não era lá cheio de sorrisos, mas era boa em ler as pessoas e sabia que, por trás daquela casca grossa, existia um coração cheio de compaixão. Então sorriu ao bater uma segunda foto, para ter certeza de que a primeira não ficaria fora dos seus padrões.
– Ei, ! – Filipe a chamou. – Pode tirar uma nossa e depois me enviar?
– Claro. – Mais uma vez, ela respondeu com um sorriso.
Boa parte do elenco se juntou no centro da piscina. Gabriel, para variar, fez palhaçada e os olhos caíram na gargalhada. capturava todos os momentos com sua câmera, desde a pose inicial até a descontração do elenco. Gostava tanto daquele ambiente que chegava a doer. Foi quando o uruguaio ressaltou por entre os companheiros e os olhares se trocaram. Ela mudou a configuração da câmera rapidamente e direcionou a lente para Arrascaeta. Ele abriu um sorriso derretido para ela, que capturou a imagem, certa de que não dividiria com ninguém. Não aquela.
– Mocinhos, vestiário. – Thiago gritou depois de bater as mãos três vezes. – Quero todos na academia em dez minutos. O Marcos vai guiar vocês lá.
A movimentação fez sair da sua zona de conforto. Enquanto percebia que era hora de ir, se direcionou para a mesa onde havia depositado suas coisas quando chegou. Estava guardando tudo na bolsa quando percebeu que alguém se aproximava.
– Vai me ignorar até quando?
– Não estou te ignorando, e você não pode fazer isso aqui.
– Aqui onde?
Aqui, onde qualquer um pode ver que você tá perto demais pra ser confortável pra mim.
– Somos só colegas de trabalho que se dão bem, não somos?
– Não. – afirmou. – Eu sou a jornalista-barra-fotógrafa da equipe de futebol profissional. Você é o jogador recém divorciado, com dois filhos de bagagem, com quem eu legalmente não posso sonhar em me envolver.
– Mas já se envolveu.
Ela deu de ombros e fechou o zíper da bolsa, pronta para ir ao escritório fazer uma breve pausa.
– Aí é um problema com o qual eu vou ter que lidar. Pode me dar licença?
– Você e o Arrascaeta estão tendo alguma coisa?
ficou imediatamente surpresa com a pergunta. Arregalou os olhos em um primeiro momento, mas logo tratou de dissipar o susto.
– E desde quando isso te diz respeito, Diego?
– Desde quando nós...
Nós?! – Ela o interrompeu. – Nós existimos?
– Então você vai continuar me ignorando.
– Diego, você tem sete minutos pra estar na academia. – sorriu debochada para ele. – Agora, se me dá licença, eu tenho mesmo que ir até o meu escritório.
– Me espere lá na hora do almoço. – Ele disse quando a moça lhe deu as costas.
decidiu ignorar. Não iria esperá-lo. Se ele achava que sim, provavelmente estava sonhando acordado. Mas se recusou a se dar o trabalho de informar Diego sobre isso. Ao invés, foi no escritório e aproveitou para deixar a câmera sincronizando as fotos recém obtidas com a pasta que mantinha na nuvem. A caixa de bombons que Giorgian havia lhe dado estava espreitando-a, de esguelha. Ela, então, sorriu e a tomou para si. A primeira mordida revelou um recheio de coco, o seu favorito, fazendo com o que sorriso aumentasse em seus lábios. Estava tão entretida, os olhos fechados como se servissem para aprimorar a degustação, que não percebeu que não estava mais sozinha em seu escritório. Foi desperta pelo barulho da tranca na sua porta. O susto, em primeiro lugar, rapidamente deu espaço para outro sorriso, este de natureza bem diferente do que estava antes em seu rosto.
– O que você tá fazendo?
– Vim ver você.
– Sabe que não posso.
– Você nunca pôde, mas agora tem uma sala só pra você.
– Agora não posso mais do que nunca.
, por favor...
– Não, Arrasca. – Ela disse quando o homem já estava bem próximo dela. – Qualquer um pode chegar aqui, a qualquer hora. Como explico a porta trancada e você aqui dentro?
– Eu estava conversando com você sobre uma sessão de fotos que quero fazer pra promover uma campanha publicitária.
Ela arregalou os olhos e, logo depois, arqueou uma sobrancelha. Um sorriso travesso brincava nos lábios do jogador à sua frente.
– Quer dizer então que você planejou tudo?
– Você merece que eu planeje tudo.
– Arrasca, não... – Ela murmurou, quase inaudível.
A mão hesitava em impedir a completa aproximação. Estava entre os dois, mas ambos sabiam bem o que a jornalista queria de verdade.
– Gostou dos bombons? – Ele sussurrou bem próximo de seu ouvido, brincando com propositalmente.
– Para com isso. – soltou uma lufada de ar carregada de tensão pelos lábios semicerrados.
Giorgian não podia mais esperar. Não tinham tempo. Por mais que os dois adorassem aquele jogo de negar o outro quando sabiam que se desejavam demais, ali precisavam ser sucintos. Então ele tomou a cintura da jornalista em suas mãos e a puxou em sua direção. Era o suficiente para que ele, toda vez, a possuísse por completo. Não falhava nunca, ele era o ponto fraco dela e ela era o dele.

―‖―‖―‖―


olhou no espelho mais uma vez. Retocara o batom perfeitamente para que parecesse o mesmo de antes. Ao menos o rabo de cavalo havia permanecido no lugar, o que ela não teria tanta sorte para colocar de volta. Mesmo que já tivesse confirmado trinta vezes em sua mente que seu visual era o mesmo de alguns minutos atrás, estava insegura. Não sabia se era consigo mesmo, com relação às pessoas que teria de encarar quando saísse de seu escritório ou se era por conta do uruguaio. Fosse qual fosse a resposta, precisava trabalhar.
! – Ouviu Eric a chamar do escritório vizinho ao seu.
– Sim? – Ela respondeu da porta.
– Você vai poder viajar mesmo?
– Já tinha confirmado com o pessoal que vai separar as passagens.
– Tudo bem então, só pra confirmar. Você vai me ajudar pra caralho, eu realmente precisava desse final de semana de folga.
– Disponha. – Ela sorriu e deu de ombros. – Vou pra academia, precisa de alguma coisa?
– Max falou que vai redigir o artigo, então você tá livre dessa. Mas trate de supervisioná-lo, por favor.
– Só isso?
– Tem mais uma coisa. – Eric disse e fez sinal para que ela entrasse, abaixando o tom de voz. – Para de dar em cima do garoto. Qualquer homem teria um treco por você, e ele tá solteiro faz muito tempo. Você tá mexendo com a cabeça dele.
– Mas você não tem um treco por mim. – Ela riu. – Você sabe bem que não vou parar de provocar o Max.
– Quando ele te pegar, você não vai aguentar.
– Que seja. Algo mais?
Eric revirou os olhos e, sem dizer mais uma palavra, fez sinal para que ela saísse. segurou a gargalhada e deixou o escritório do chefe, rumo à academia. Só de ver aqueles homens fazendo força nos equipamentos sentia vontade de pegar o carro, voltar para casa e dormir por dez horas seguidas. Riu consigo mesma ao pensar naquilo. Gustavo, seu agora assistente, já havia separado a área para que organizassem os equipamentos que iriam usar daquela vez.
– Trinta cliques e vamos almoçar?
– Só isso? – resmungou. – Você tá com preguiça hoje, hein!
– Eu não tomei café da manhã hoje, me dá um desconto.
– Ei, bonita! – tomou o chamado para si, já que era a única mulher que trabalhava ali, e se virou para Renê. – Tá ocupada hoje?
– Você já foi mais discreto pra chamar mulher pra sair. – Gabriel provocou de perto, causando uma gargalhada geral.
– Ela merece tratamento especial. – Renê brincou. – E então?
– Livre como um pássaro. – Ela respondeu.
– Social lá em casa hoje, topa?
Open bar?
– Pra você, – Renê pegou na mão da jornalista e a levou até sua boca, deixando um beijo no dorso. – sempre.
Ela revirou os olhos e riu.
– Me diga o horário e eu estarei lá.
– Oito. – Ele rebateu o comentário.
Ela assentiu e focou Bruno Henrique na câmera, entretido com o exercício na bicicleta ergométrica. Quando a notou, fez pose para ser clicado. A jornalista registrou a imagem e se virou para o resto da academia, se perguntando qual seria a próxima vítima. Foi quando Arrascaeta passou na sua frente, trocando da extensora para a esteira.
– Aeróbico, Arrasca? – Ela provocou, e o uruguaio sorriu imediatamente para ela.
– Pra manter o fôlego em dia.
– É bom mesmo. Menos que dois gols em Minas, eu nem aceito.
Ele riu com a resposta da moça. Segundos depois, esta estava apontando a câmera para o homem, que tentava manter a cabeça distante da percepção dela ali. Havia outro que certamente não deixaria escapar dos seus pensamentos. Diego não parava de notar o sorriso dela, o mesmo que o havia cativado meses atrás. Talvez fosse o fato dela ser, teoricamente, inalcançável que o atraía, e ter uma mulher real para si era tudo o que ele jamais havia vivido. A experiência era perfeita demais para não ser tão desejada quanto ele o fazia. Bufava de raiva, descontando no exercício a frustração que sentia por parecer estar sendo trocado por alguém mais novo.
– Você estressado fica um tesão. – se projetou ao seu lado, disfarçando as palavras que saíam da sua boca com a câmera, focada em Diego.
, – Ele murmurou. – você tá brincando com fogo.
– Nunca tive medo de me queimar.
deu de ombros e focou a câmera nele, com uma atenção especial para aqueles braços que ela tanto gostava. Diego fingiu ignorar, mas era difícil disfarçar o efeito que a carioca tinha nele. Ela saiu de perto do jogador, mas não sem antes notar que os pelos na nuca dele estavam arrepiados. Sorriu ao constatar isso, mas não parou o caminho. E enquanto terminava o trabalho do dia, percebia os dois pares de olhos queimando em suas costas. Queria mais que continuasse daquele jeito, a diversão era boa demais para interromper. Ao menos, para ela.

―‖―‖―‖―


Oito horas em ponto, estava se apresentando na portaria do condomínio onde uns dos jogadores residiam. Pontualidade era o seu maior motivo de orgulho, para tudo. O porteiro da noite já a conhecia devido às diversas vezes em que eles marcaram de sentarem-se em volta da piscina de um deles, tomarem umas boas dezenas de cervejas e falarem besteira até tarde da noite, mesmo que isso significasse quase todo mundo com um par de olheiras no dia seguinte. A diretoria nunca sabia, é claro, porque eles todos preferiam passar a imagem de santos ao invés de expor o pessoal.
– Boa noite, dona Carolina.
Ela revirou os olhos. Odiava ser chamada de Carolina. Era tão difícil entender que era um e e não um a no final da palavra? Era a mesma coisa que chamá-la por qualquer outro nome, quase uma ofensa. Mas respirou fundo, disfarçou bem e fingiu não se importar.
– Boa noite, seu Sílvio. Como vai a patroa?
– Vai bem, melhorou da coluna, levei ela naquela clínica que a senhorita me recomendou.
– Bom! Melhoras pra ela!
Ele acenou com a cabeça e finalmente abriu a cancela de entrada. O motorista do Uber que a levava seguiu as últimas instruções e a deixou em frente a uma das casas mais simples do condomínio. Thaís abriu o portão para ela sem muita surpresa, a pequena Esther aos seus pés, curiosa com a nova visita.
– Oi, baixinha! – abaixou na altura da filha do jogador.
A criança, tímida, abriu um sorriso pequeno e se escondeu atrás da perna da mãe. e Thaís se aproximaram brevemente e deixaram dois beijos na bochecha de cada.
– Um dia, ela vai te dar trela de primeira.
– Eu não sou boa influência pra ela. – A jornalista brincou enquanto entrava no terreno, já caminhando para os fundos da casa onde ela sabia que a churrasqueira estaria sendo acesa.
Iam trocando palavras fúteis pelo caminho. Pluto, o beagle da família, veio receber a novidade com sua alegria de sempre. estava já na esquina do contorno da casa e abaixou para fazer carinho no animal, se equilibrando nos mesmos saltos que havia colocado para ir ao trabalho naquele dia. Quando se levantou novamente, deu de cara com um par de olhos vidrados no decote de sua blusa.
– Chegou cedo. – Observou.
– Você não é a única que pode ser pontual.
– Mas geralmente sou.
– E aí, ? – Renê a gritou da churrasqueira.
Deixou o homem sozinho e se encaminhou para cumprimentar o anfitrião. Depois de um rápido abraço, se afastou e observou o que estava exposto na bancada da churrasqueira.
– Teremos kafta? Que chique!
– A Thaís me mata se não tiver.
– Quem mais vem?
– A galera de sempre, eu acho.
– Amor? – Thaís chamou de dentro de casa.
– To indo! – Ele respondeu. – Se chegar alguém, você pode receber no portão?
assentiu e observou o anfitrião entrar na casa. Estava fingindo interesse nas carnes escolhidas quando sentiu a presença atrás de si, mesmo que Diego não tivesse feito nenhum barulho para se aproximar. Então decidiu não demonstrar o quanto seu corpo estava reagindo àquilo. O problema é que Diego também a conhecia muito bem, e aproveitou a exposição da pele proporcionada pelo coque bagunçado e encaixou o queixo no seu pescoço.
– Você tá uma delícia.
– E você tá um abusado.
...
– O que foi? – Ela se virou rapidamente, ficando de frente para ele, o que desestabilizou o jogador, para a felicidade dela.
– Diego! – Renê chamou de dentro de casa, e os passos fizeram o casal se afastar rapidamente. – Eu fiz uma merda grande, comprei uma porrada de cerveja vencida.
– Parabéns, gênio... – murmurou, rindo.
– Tem como você ir comprar mais pra mim rapidinho?
– To sem carro. – Ele respondeu.
– Pode levar o meu.
Diego assentiu e ponderou por alguns instantes, um tanto quanto aéreo ao local em que estava por segundos.
– Me faz companhia, ?
– Acho melhor eu ficar pra ajudar a Thaís no que precisar.
– Não vou precisar não. – A dona da casa gritou de lá de dentro, fazendo a jornalista querer enfiar a cabeça em um buraco na terra.
O caminho até o supermercado foi em silêncio. Instintivamente, havia chegado as pernas o mais para a direita possível, para longe de Diego. Estava até estranhando o trânsito fluindo muito bem na Avenida das Américas, mas foi só pegarem o acesso para a Ayrton Senna que tudo parou. Ótimo¸ pensou. Não era anormal que aquilo acontecesse, mas podia muito bem acontecer de levarem longos minutos ali. Para a infelicidade da mulher, foi isso que aconteceu. E só serviu para o clima ficar mais tenso.
– Tá com medo de mim?
– Eu?! – fingiu uma falsa indignação. – De jeito nenhum.
– Então por que tá longe?
– É uma SW4, Diego, o carro é grande mesmo.
– Você sabe do que eu to falando...
– Na verdade, não sei. – Ela disse e virou o rosto para olhar mais a frente, o engarrafamento estava se estendendo até, pelo menos, a agulha que precisavam acessar.
– Você e o Arrascaeta...
– Já disse que com quem eu fico ou deixo de ficar não te diz respeito. – nem deixou o jogador terminar.
– E eu já me propus a assumir um relacionamento com você.
– Ah, claro. Eu sou demitida por justa causa por causa disso, lembra?
– Você não vai precisar trabalhar se estiver comigo.
aproveitou a falha para forçar uma gargalhada falsa escandalosa, fazendo Diego revirar os olhos e apertar as mãos no volante do carro.
– O que você quer de mim?
– Achei que já tinha ficado óbvio.
– Não ficou.
– Eu quero você.
A mulher sorriu ao ouvir a voz firme do homem.
– E você poder ter o que quer, mas precisa entender que não vai ser todo dia.
...
– Diego, eu não tenho a mínima intenção de engatar num relacionamento agora, muito menos um que vai foder a minha carreira se chegar a público.
Uma buzina despertou os dois. Foi quando perceberam que os carros haviam andado e estavam bloqueando parte do fluxo. Diego desistiu previamente da conversa e voltou sua atenção para o trânsito. Logo estavam no estacionamento de um dos mercados da região.
– Você vai comigo?
– Claro que não! Como explicar eu estar comprando cerveja com você?
– Somos colegas de trabalho.
– Eu sou a garota que tira suas fotos.
– Você não é só isso.
Ela desafivelou o cinto de segurança e se esticou por cima do apoio de braço central até terem seus rostos colados um no outro. Diego ficou ofegante, e gostava de sentir que tinha todo esse poder com ele.
– Vai comprar a cerveja. – Ela sussurrou em seu ouvido direito. – Vou estar te esperando aqui.
O homem, depois de se recompor, deixou o carro com ela dentro. Demoraram cerca de mais trinta minutos até chegarem de volta. À essa altura, a maioria dos convidados já havia chegado. Ele se enturmou rapidamente com os colegas de time. Marília cumprimentou à distância, o filho pequeno no colo. A jornalista estava pronta para se aproximar da churrasqueira, de onde agora saíam alguns petiscos, quando o portão foi aberto mais uma vez. O coração dela saltou no peito por um segundo enquanto o uruguaio se aproximava dela com passos firmes. A mão na cintura era previsível, mas a tirava de órbita toda vez.
Hola, mi amor. – Ele disse em voz baixa quando a puxou para um abraço mal intencionado.
– Não faz assim que eu me apaixono. – pediu, a voz derretida no sotaque dele.
No estoy haciendo nada.
– Imagina se estivesse.
No se lo digas a nadie, pero la intención es enamorarte.
– Agora deixou de ser sexy pra eu não entender nada.
Ele riu, o que a contagiou e formou um belo sorriso em seus olhos.
– Arrasca! – Gabriel o gritou do outro lado da piscina da casa. – Chega mais, vem ver isso aqui.
Os dois se despediram brevemente com um olhar. Era por isso que tentava manter uma relação de amizade com todos, indiscriminadamente, e jogava cantadas aleatórias para qualquer um, parte por sua personalidade extrovertida e parte por querer disfarçar as coisas com Diego. A chegada de Arrascaeta foi um obstáculo para os dois. Bem, para Diego, porque gostava bastante de se divertir com o uruguaio. Era dois anos mais novo que ela mas, ainda assim, conquistou seu coração – e outra parte do corpo – sem maiores dificuldades. Ela realmente nunca havia pensado sobre um relacionamento sério, a pouca experiência que havia tido com aquilo era suficiente para lhe mostrar que não queria viver desse jeito, não naquele momento. O problema era que o clima entre os três estava ficando indisfarçável, e a quantidade de sociais como aquela estavam aumentando, o que colocava o paulista, o uruguaio e a carioca, geralmente vestida no melhor estilo femme fatale, em conflito direto. só gostava cada vez mais do jogo.
– O que você tá fazendo é maldade. – Marília comentou, com o filho adormecido em seus braços.
– Você bem que gostaria de estar no meu lugar.
– Ah, , passei dessa fase. – A amiga apontou com os olhos para a criança.
– E não deixa de ser maldade. – Eric de repente surgiu atrás das duas.
Uma música começou a tocar, vindo do carro da casa. Era um pagode, detestava. Alguns deles, já sob efeito da cerveja, começaram a cantar alto. Marília, sem a amiga ver, foi para dentro da casa com o pequeno, deixando sozinha entre tantos homens ali. Diego estava envolvido no grupo cantante enquanto Arrascaeta, que talvez nem conhecesse a música, ficou sentado, alguns metros de distância entre ele e a mulher. Foi quando o maquinário começou a trabalhar em sua mente, e o que ela já tinha de perversão só foi ficando cada vez mais pesado.
– Vai levar isso até quando?
– Estou considerando as minhas opções.
– Lembra da primeira vez que você me convidou pra um de seus aniversários? – Eric perguntou. – Foi quando eu conheci seu irmão.
– Lembro sim, embora quisesse esquecer a parte onde eu enchi a cara, subi na mesa de sinuca do prédio e dancei até quase cair de cara no chão.
O supervisor riu, lembrava-se bem dessa parte também.
– Seu irmão me disse pra tomar cuidado com você porque, de acordo com ele, você como uma mamba negra... Linda mas com um veneno diabólico.
– Vou agradecer a ele pelo elogio.
Eric ofereceu a cerveja que estava tomando para , que aceitou de bom grado. Deu um longo gole e continuou observando os dois homens que desejava.
– Já pensou no que vai fazer quando um descobrir sobre o outro?
– Eu sou um livro aberto, Eric. Se um já não sabe sobre o outro, tem algo errado.
– Nisso você tem razão. – Ele respondeu quando sua cerveja foi devolvida. – Mas ainda me preocupa que você esteja correndo risco demais.
– Você quer dizer o trabalho?
– Absolutamente.
Ela ficou tensa, de repente. Não gostava de falar sobre o assunto. Era bem impulsiva, em todos os momentos, e consequência era uma palavra que não constava no seu vocabulário. No entanto, havia uma voz na sua subconsciência que a alertava de que, se aqueles boatos caíssem nas mãos erradas, o sonho da sua vida desceria por água abaixo.
– Vai que mudam a cláusula de proibição de relacionamento entre funcionários.
– Duvido muito que façam isso.
revirou os olhos, tomou a cerveja da mão de seu superior e deu mais um gole.
– Você se opõe a isso?
– Eu?! – Eric perguntou, quase indignado. – Se eu me opusesse a isso, você não estaria no Flamengo há anos. A vida é sua, pode dar pra quem quiser.
– Qualquer um?
Ele riu.
– Qualquer um.
– Escolhe um deles pra mim então.
– Você tá bêbada, , devia diminuir o ritmo.
– Já foi pra cama com duas, Eric?
– O quê?!
– Você me ouviu.
– Namoro com a Mônica desde os doze anos de idade, você sabe que eu não tive nenhuma outra mulher além dela.
A mulher deu de ombros e sorriu diabólica. Buscou o celular no bolso imediatamente, digitou “Quero você, essa noite. Te espero no lugar de sempre em trinta minutos.” e pediu um Uber. Procurou pela anfitriã da casa, como não queria nada.
– Thaís, eu não vou atrapalhar a diversão do pessoal, mas acho que já vou.
– O que houve?!
– Esqueci um remédio. – Mentiu.
– É o quê? Talvez eu tenha.
– É de manipulação, pra pele.
– Eita, então eu provavelmente não vou poder te ajudar.
– Você avisa o Renê pra mim?
– Claro. – Ela sorriu e a abraçou.
Não demorou para que o carro solicitado chegasse. Assim que conseguiu disfarçar para que não percebessem sua fuga e entrou no carro, pegou o celular de novo. Antes que saísse do condomínio, enviou a mensagem digitada anteriormente para os dois.
sabia que tinha Diego e Arrascaeta – cada um com seu jeito – nas mãos e que bastava uma palavra dela que os dois obedeceriam. Estava ultrapassando limites aquela noite, sabia bem disso, mas tudo o que podia acontecer era dar errado e continuarem do jeito que estavam ou dar certo e embarcarem numa aventura completamente nova. Um ou outro, considerava vitória.
Desceu na frente de um dos pontos mais solitários na orla da Barra da Tijuca. Era perigoso àquela hora, mas a adrenalina na sua corrente sanguínea botava todo medo para longe. Então apenas se conteve com chegar bem perto da água e aguardar.
? – Ouvi a voz do uruguaio chamar.
Quando se virou, foi bem óbvio que outra pessoa chegava logo atrás. Ela sorriu, o plano estava – até então – dando perfeitamente certo.
– O que tá acontecendo? – Diego perguntou.
– Preciso conversar com vocês. – Ela disse, andando com passos tranquilos e largos até mais perto do asfalto, onde uma mureta baixa serviu de perfeito apoio para suas pernas.
– Fala. – Diego tomou a frente da situação de novo, deixando Giorgian um tanto quanto retesado.
– Em primeiro lugar, pra quê o tom de voz alterado?
– Você não tá facilitando as coisas.
revirou os olhos. A ideia parecia mais fácil do que a execução da mesma estava sendo.
– É o seguinte... Algum de vocês dois tem alguma intenção de ter um relacionamento sério comigo?
Os homens ali presentes arregalaram os olhos, definitivamente surpresos com a fala aberta dela. Isso fez com que uma leve risada escapasse por entre seus lábios.
– Vou tomar o silêncio como um sim. E os dois sabem bem que eu não vou me expor, de forma alguma, porque isso coloca em risco a minha carreira?
Dessa vez, os dois responderam com um aceno afirmativo de cabeça.
– Então eu tenho um acordo a propor. Quero que me ajudem a decidir entre os dois.
– Isso é sério? – Giorgian perguntou, a sobrancelha arqueada.
– Seríssimo. – Ela respondeu com um sorriso. – Vocês querem dividir?
Diego foi o primeiro a negar, seguido pelo outro. , então, deixou a cabeça pender para a direita e abriu um sorriso quase angelical.
– Vocês podem cair fora a qualquer momento e eu vou fingir que nunca houve nada entre a gente, sem mágoas ou ressentimentos. Eu juro.
– Não quero cair fora. – Diego foi o primeiro a responder.
– Arrasca?
Demorou alguns segundos, mas o olhar que ele direcionou a ela fez seu corpo estremecer. Amava ter poder sobre eles, mas odiava que eles também tivessem poder sobre ela.
– Também não quero.
, então, se aproximou dos dois, que estavam a cerca de cinco passos de distância. Ficou propositalmente entre os meio campistas, olhando de um para o outro incessantemente. Sentia seu sangue pulsar quente e o coração queria pular de dentro de si.
– Me convençam então. – A mulher abriu um sorriso maroto e passou a língua no lábio inferior só para provocá-los. – Começando pelo teste um. Estou metade bêbada, com um tesão da porra... E vou partir pra casa agora. Entrem em um acordo. Ou os dois, ou nenhum.
Ela deu as costas para os homens e, forçando um rebolado que ambos adoravam, caminhou na direção da rua. Diego e Arrascaeta, em um primeiro momento, não conseguiram desviar os olhos do corpo da mulher, que havia escolhido a roupa da noite propositalmente para chamar a atenção deles. Estavam perdidamente perdidos na paixão que sentiam pela jornalista, e só estavam percebendo isso naquele instante.
O mais velho foi o primeiro a desviar o olhar. De repente, os dois homens se viam considerando a possibilidade. Quando um olhou para o outro, foi o que faltava para saberem qual escolha tinham tomado. Cada um com sua paixão, nenhum dos dois estava disposto a desistir de conquistar o coração de pedra de . Nem que para isso fosse preciso uma noite de aventura. E, cá entre nós, isso jamais seria um sacrifício. Para nenhum dos três.


Tudo por um Momento

chegou ao seu apartamento e deixou os sapatos logo na porta de entrada. Caminhou com paciência até seu quarto, retirando os brincos e o colar e os depositando em cima da cômoda. Desabotoou a calça e deixou que a mesma deslizasse pelas suas pernas. Logo em seguida, foi a vez da blusa. Ela juntou as peças que usava no cesto de roupa suja da sua suíte e entrou no box para um banho rápido. Quando saiu, tinha um só destino.
A fotógrafa não se preocupou com o tempo. Se fosse o caso de eles chegarem, que esperassem. Àquela altura, ela nem tinha como ter certeza sobre eles irem ou não, mas acreditava no seu cerni que os dois apareceriam. Então procurou por uma gaveta em especial no seu armário, uma que visitava muito ocasionalmente. Pegou o conjunto de lingerie vermelho e, com cuidado para que nenhum fio sequer se posicionasse fora de onde queria, o vestiu. Partiu, então, para o local onde guardava os seus sapatos.
Tomou para si um salto alto também vermelho e fez questão de calçá-lo. Foi até o espelho de sua suíte, ajeitou o cabelo, trocou o batom por um vermelho chamativo e jogou um pouco de perfume em sua pele. Quando terminou, acendeu algumas velas perfumadas que usava, majoritariamente, como decoração para o quarto. Foi tempo o suficiente para que a campainha tocasse e ela fosse atender, escondendo o que vestia com um robe preto de seda com o qual havia se presenteado no final do ano anterior.
Diego fez o primeiro movimento na direção da mulher, tomando-a em seus braços com firmeza. Arrascaeta usou o tempo que lhe sobraria naquele instante para fazer o racional e trancou a porta do apartamento. Segundos depois, avançou na direção de também, dando tempo para que Diego começasse a tirar a camisa que estava usando. Quando o mais velho voltou a se direcionar a ela, fez questão de forçar uma pausa naquele momento e, sem dizer uma palavra sequer, caminhou para o seu quarto.
No caminho, Arrascaeta foi abrindo os botões da sua blusa. Ele deixou a peça caída no chão do corredor. Depois, recolheria, tinha tarefas mais importantes a concretizar. Achou, em um primeiro momento, que a presença de outro homem traria certo desconforto, mas nem via Diego ali. Seus olhos estavam vidrados na bunda da mulher que ele idolatrava e em como ela forçava um rebolado que o deixava louco. Estava praticamente explodindo dentro da própria calça.
O outro, por sua vez, era paciente. Os anos de experiência e o fato de conhecer por mais tempo que Arrascaeta davam confiança a Diego. Ele sabia que, se esperasse, teria o melhor daquela mulher para si. Quanto ao companheiro... Não, ele não queria. Ele jamais iria aceitar dividí-la. Mas Diego não era cego. O jogador podia ver a si mesmo perdendo pouco a pouco para o uruguaio. Para ele, aquela noite ela uma tentativa de mostrar que ele poderia lhe dar muito mais prazer que Arrascaeta sonhava em dar.
Os dois estavam, inconscientemente, em uma competição, por mais que não tivessem combinado entre si. Quando entraram no quarto, os sentidos deles apenas aumentaram. Diego chutou os sapatos e desabotoou a calça, mas o zíper travou e Arrascaeta aproveitou a oportunidade para tomar para si. A calça, para ele, era apenas um detalhe. Se a conquistasse naquele instante, teria tempo o suficiente para tirar sua própria calça depois. Ou faria isso por ele. O pensamento, por si só, deixava-o completamente fora de suas faculdades mentais.
estava em êxtase. Virou-se para os seus visitantes e puxou cada um por uma mão para a cama. Enquanto ficou de frente para Arrascaeta e, com ele, trocava um beijo ardente, Diego se responsabilizou por distribuir incontáveis beijos na pele nua de suas costas. Entre um beijo e outro, deixava escapar um gemido. Sentia as mãos do uruguaio segurando a sua cintura e, por trás, os dedos do paulista fincados em seu quadril. Não evitou jogar a cabeça para trás e, quando fez isso, cada um tomou conta de um lado de seu pescoço. Estava no paraíso e não sabia. Ainda.
Em um momento de distração dos dois, aproveitou para descer uma mão pelo peitoral de cada um, encaminhando-se para a área entre as pernas. Fez uma leve pressão e os dois suspiraram. Ela sorriu, mantendo os olhos fechados por alguns segundos, como se fosse para afinar a sensação do momento. Ter os dois na palma da mão era o seu objetivo.
... – Diego murmurou, bem próximo do ouvido dela.
– Quieto. – A mulher foi firme, olhando em seus olhos. – Não deixei você abrir a boca.
Um sorriso perverso tomou conta dos lábios dos dois. Arrascaeta, então, se levantou. Começou a terminar de tirar sua calça, ao mesmo tempo em que Diego deitava o corpo de e ficava por cima dela. Embora fosse Diego quem estivesse a enchendo de beijos, o olhar dela estava fixo no do outro. Arrascaeta quis que não fosse coisa da sua imaginação ou culpa da má iluminação – que era, em sua opinião, apenas um detalhe a mais para melhorar o momento. Ele realmente quis acreditar, e acreditou, que estivesse olhando para ele naquele exato momento e que aquilo fosse um sinal de vantagem para si próprio.
fez sinal com um dedo, chamando-o para se unir aos dois na cama. Quando Arrascaeta obedeceu, ela se desvencilhou de Diego, que levantou para buscar a carteira, e subiu no uruguaio. Este, por sua vez, inclinou a coluna para colocar exatamente sentada. A pressão intensa que um fazia no outro com as pontas dos dedos enterradas nas suas costas dizia muito mais que mil palavras poderiam dizer.
Para Arrascaeta, aquele era o limite. Empurrou com certa delicadeza para que ela ficasse deitada. Começou a distribuir beijos até chegar ao seu objetivo. Quando beijou sua intimidade, deixou um grito abafado escapar. Arrascaeta sorriu, mesmo com os lábios ocupados. Poderia ficar ali para sempre. Adorava o jeito como ela se contorcia com cada movimento da sua língua, adorava como ela o segurava contra seu corpo e, mais ainda, adorava ouvir o som que saía da garganta dela.
Aproveitou-se, então, de ter colocado o preservativo logo assim que se livrou da calça e, posicionando seu corpo no melhor lugar possível entre as pernas dela, penetrou pela primeira vez naquela noite. Ela percebeu que Diego estava de volta ao cômodo em algum momento, e também percebeu que ele se masturbava enquanto o mais novo a fazia mulher. Porém seus olhos estavam completamente focados em Arrascaeta, que tinha um brilho diferente no olhar naquela noite em particular.
Diego se juntou aos dois logo em seguida, quando inverteu as posições e, enquanto subia e descia em Arrascaeta, masturbava Diego por conta própria, que estava em pé ao lado da cama. Para ela, de certa forma, aquilo era importante: tê-los ali, em seu próprio quarto, onde poderia reviver as lembranças quando quisesse e... Bem, aquilo era apenas um detalhe. Estava tão entretida na situação que já cogitava pedir uma próxima vez.
Os dois homens inverteram a posição logo depois. Dessa vez, no entanto, usava a boca ao invés de usar as mãos no uruguaio. Ao mesmo tempo, arqueava suas costas o máximo que conseguia a fim de proporcionar uma visão melhor para Diego. Ela, por si só, já estava mais que satisfeita com a noite, mas não estaria completa sem levar seus dois acompanhantes até o ponto máximo de prazer possível. Para isso, então, se empenhou em agradá-los.
Arrascaeta foi o primeiro, seguido logo depois por Diego. Os três se deitaram na larga cama de , ela entre os homens, e aguardaram em silêncio que recuperassem o fogo. O uruguaio fechava os olhos e revivia em sua mente quantas vezes podia o que tinha acabado de acontecer segundos antes. O paulista ainda mantinha a mão no corpo de , como se aquilo pudesse segurá-lo ali, enquanto encarava o teto. A carioca, por sua vez, sorria, sentindo os impulsos elétricos ainda passando por cada fibra muscular do seu corpo.
– Olha... – Ela suspirou. – Eu imaginava que seria bom, mas vocês se superaram. Como sempre.
Os dois soltaram uma risada. Nesse exato momento, um celular começou a vibrar no quarto. Diego, institivamente, levantou. Era o único dentre os três que tinha preocupações. quase o impediu, pensando em segurá-lo pelo braço, mas acabou desistindo disso.
– O que foi? – Diego atendeu o telefone. – Merda... Tá, tá bom. Eu vou praí. – Ele resmungou e se virou para os dois que ainda estavam na cama. – , eu vou precisar ir. O Matteo tá no hospital e...
– Tudo bem. – A voz da fotógrafa ecoou pelo quarto. – A gente se vê.
Diego pensou ter visto Arrascaeta abrir um sorriso sacana quando ele disse que precisaria sair, mas preferiu ignorar. Naquele momento, de toda a forma, como em qualquer outro momento da vida dele, seus filhos seriam mais importantes. esperou o barulho da porta se fechando depois que Diego recolheu suas roupas e se levantou, a fim de trancar a fechadura. Por mais que estivesse na presença de um homem, o Rio de Janeiro não era seguro o suficiente para não trancar sua porta de entrada.
Finalmente, estamos solos... – Ele sussurrou contra a pele dela ao ir até a sala.
Por mais que Arrascaeta estivesse segurando-a pela cintura e prensando com firmeza sua virilha em seu quadril, resistiu. Virou-se para o uruguaio e logo tratou de colocar um sorriso mínimo nos lábios.
– Você é jogador de futebol, eu não sou. – Ele riu do comentário dela. – Meu fôlego não é tão bom quanto ao seu.

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DOIS MESES DEPOIS
QUINTA, CINCO DE DEZEMBRO
DOZE DIAS APÓS A CONQUISTA DA LIBERTADORES


Diego passou por e a cumprimentou com um sorriso, fingindo não estar posando para a foto. Um por um, os outros jogadores foram passando por ela, que tentava registrar tantas imagens boas quanto possível. Quando Arrascaeta passou, ela murmurou um ‘boa sorte’ e recebeu um riso tímido como resposta. Poucos segundos depois, estava já virando para o campo, a fim de tirar fotos enquanto eles estivessem posando para as imagens oficiais da CBF.
Aos dois minutos, Gabriel perdeu um gol. Até umas semanas atrás, não tinha nada contra ele, mas conhecer sua namorada havia feito o centro avante perder pontos com ela. Dois minutos depois, Lincoln perdeu uma chance de cabeça. Com sete minutos de jogo, Renê deu um chute aleatório na direção do gol e o goleiro Vladimir jogou pela linha de fundo. Segundos depois, Éverton tentou a sorte e lançou por cima do travessão. Foi quase aos onze minutos que o coração de foi na boca.
Rafinha fez um cruzamento que era, inicialmente, para Gabriel, mas a defesa do Avaí estava bem fechada e a bola passou por ele, direto para os pés de Lincoln. Esse ficou atrapalhado, mas acabou rendendo um passe para Arrascaeta e bola na rede. O uruguaio disparou na direção de , na beira do campo, chamou uns colegas e começou uma coreografia com a qual eles faziam graça nos treinos. Após isso, olhou para e piscou o olho, o que foi captado devidamente pelas lentes.
A partir desse momento, o sangue de Diego esquentou. Já não era muita novidade que estivessem competindo entre si, mas ele estava fervendo por dentro. Começou a levar a si mesmo ao limite, ainda mais porque Arrascaeta perdeu um gol na cara logo depois de fazer seu primeiro. Precisava se destacar e ali, no campo, com a bola no pé, era o momento perfeito.
Quis bater uma falta para tentar a sorte em seguida, mas Éverton o convenceu a deixar a responsabilidade com ele. Pegou no travessão e saiu pela linha de fundo. Aproximadamente quatorze minutos depois, Diego teve sua primeira chance clara com um chute bem colocado de antes da meia lua, mas o goleiro o frustrou. Tudo bem para ele, era só mais motivação. Menos de dez minutos mais tarde, ele bateu uma falta perfeita que só não entrou por mérito, mais uma vez, do goleiro, que estava começando a irritá-lo. Mas não tardou a vir a sua chance de ouro. Novamente de fora da área, aos trinta e seis minutos e meio, ele jogou no ângulo e fez seu gol.
A torcida fez sua festa. Começaram a pular loucamente com a virada e o estádio todo começou a tremer. já conhecia aquela sensação, fosse das arquibancadas ou dali mesmo, na beira do campo, com a pesada máquina fotográfica em mãos. Trocou as configurações rapidamente para adaptar à nova cena e ela podia jurar que jamais havia visto Diego mais bonito. A chuva que caía naquela noite no Rio de Janeiro tinha deixado Diego com um aspecto mais sexy do que ela desejava assumir que era. A cada foto que capturava dela, era como se parte do seu fôlego fosse junto. Por mais que o relacionamento entre os dois estivesse cada vez mais sexual e apenas sexual, eram momentos como aquele que ainda a colocavam de joelhos pelo jogador.
O gol de Gabriel um pouco antes do final do primeiro tempo nem teve tanto efeito nela. Apenas tirou as fotos necessárias e ficou no aguardo de qualquer outra coisa importante. Não teve nada. O árbitro apitou e os jogadores se encaminharam para o vestiário. foi atrás, carregando a máquina na mão e checando as fotos. Estava praticamente hipnotizada pelo visor da câmera.
– Ei, distraída! – Bruno Henrique bateu no ombro dela, que irracionalmente escondeu o equipamento. – Te atrapalhei?
– Não, não... – respondeu sem jeito. – Desculpa, to com a cabeça longe.
– Tá tudo bem?
– Tá sim. Mas me fala... Do que você precisa?
– Na verdade, é a nível de documentação, sobre os direitos de imagem pra uma campanha publicitária que eu to pra fazer da Nike.
– Ah, sim! A documentação tá com o Eric, você pode pegar com ele amanhã. Ou eu peço pra ele te enviar por e-mail, se for urgente.
– Não é tão urgente, é que eu preciso pedir logo antes que eu esqueça.
– Tudo bem então, vou tentar lembrar vocês dois amanhã.
– Obrigado, anjinho.
Ele piscou o olho para ela, que sorriu. Estava entrando no vestiário para pegar um lenço e limpar a câmera e as lentes da chuva quando Arrascaeta esbarrou propositalmente nela e a segurou pela cintura.
Lo siento, no te vi allí.
revirou os olhos e conteve uma risada.
Apuesto a que no viste... – Ela murmurou.
Esa pelota a dentro allá afuera... – Arrascaeta falou baixo, passando a língua nos lábios. – Fue pra ti.
– Muito obrigada, se é esse o caso.
Ele riu e deu de ombros. De trás dele, surgiu Diego, com um estranho sorriso nos lábios. O meia colocou o braço por trás dos ombros do oponente e forçou ainda mais o sorriso. e Arrascaeta arquearam uma sobrancelha em sintonia.
– Mas não foi mais bonito que o meu.
Foi a vez de Arrascaeta revirar os olhos.
– Um gol é um gol, Diego. Da mesma forma que uma vitória por 1 a 0 dá os mesmos três pontos que uma vitória por 3 a 1.
– 3 a 1 até agora! – Rafinha passou por trás deles, escutou a conversa e gritou.
Os três riram. Depois disso, seguiu seu trabalho, mas os dois – ainda abraçados – começaram a se estranhar. Alguns segundos depois da mulher parar de dar atenção a eles, um percebeu que o outro ainda estava totalmente focado na mulher. Trocaram um olhar, então, com potencial de gerar um estranhamento até mas, felizmente, Jorge Jesus passou por eles e chamou os jogadores para uma breve conversa, a fim de fazer alguns ajustes para o segundo tempo. Por enquanto, estavam salvos um do outro.

―‖―‖―‖―


– Vocês estão muito estressadinhos pro meu gosto! – gritou para o telefone ao ler mensagens tanto de Arrascaeta quanto de Diego na tela. – Vão ficar sozinhos pra ver se alguém aprende alguma coisa, porque tá foda!
– Tá gritando com quem, maluca?
– Fê?! Achei que você fosse demorar ainda.
– Pois é, vai entender. O trânsito na Linha Amarela tava ótimo, nem entendi.
– E como foi? – perguntou, deixando o quarto e indo encontrar o irmão na sala.
– O bebê tá bem, mas ainda não deu pra ver o sexo.
– Que merda...
– Eu que o diga! Sua cunhada ficou bem puta com isso.
– Ah, você tem que tentar entendê-la. A Pri tá grávida, os hormônios estão bagunçados, ela não tá conseguindo dormir direito...
– Mas eu entendo, .
Ela deu uma checada no irmão de cima a baixo.
– Se você diz... – Ela murmurou. – Mas fala. O que te traz aqui em casa no meio da semana?
– Não posso visitar minha irmã caçula?
– Claro que pode, principalmente porque o apartamento é seu também e...
– Nada disso. – O irmão a interrompeu. – Já disse que ele pode ficar pra você. Eu estou bem, com o meu próprio. Aceite isso como um presente vitalício, ou qualquer coisa assim. Aí eu fico livre de te dar presentes pelo resto das nossas vidas.
– Fê, é muito, mesmo assim.
– Se você for insistir, também vou te dar meu carro.
– Aí eu duvido!
Os dois riram e Felipe acompanhou a irmã até a cozinha. Ela checou os armários e, quando terminou, não estava muito satisfeita.
– Podemos pedir delivery? Não to exatamente abastecida essa semana.
– Claro, sem problemas. – Ele sorriu, pegando o celular e checando as opções em um aplicativo. – O Sushi Prime tá com o menor tempo de espera do dia. Pode ser?
– Pode sim. – respondeu o irmão. – Na verdade, é até bom que você tenha vindo hoje. Eu queria conversar sobre algumas coisas importantes contigo.
– Estou encrencado? – Felipe brincou, sentando-se no sofá da sala e apoiando os pés na mesa de centro.
– É que eu tive umas ideias e, como esse apartamento é uma herança de nós dois e não só minha...
– Vamos voltar no “esquece que esse apartamento um dia foi meu também”? Já disse! Mamãe deixou ele pra gente fazer o que bem entendesse, não pra ficarmos empurrando pro outro. – O irmão suspirou. – Já disse, , eu to bem, de verdade. Não preciso do apartamento. Ele é totalmente seu agora, eu nunca vou falar nada de encontro a isso.
A mulher sorriu, chegou mais perto dele e apoiou as costas na parede da TV.
– Queria fazer uma reforma aqui.
– Como assim?
– Transformar esse quarto daqui – Ela apontou para a parede oposta aonde estava. – em uma cozinha. Eu consultei a planta. Dá pra abrir, puxar o encanamento do banheiro da suíte canadense, fechar a parte do encanamento com drywall e aí eu tenho uma cozinha decente.
– Ia ficar espetacular. – Felipe respondeu. – Mas aí o que acontece com a cozinha atual?
– Eu ia aumentar a área de serviço e fazer uma despensa. Aí ia transformar o quarto de empregada em um escritório pra quando eu precisar trazer trabalho pra casa. Ah, e também considerei colocar uma hidromassagem no meu chuveiro. Com isso tudo, eu mantenho a suíte canadense como uma suíte se você precisar vir e ganho meu conceito aberto dos sonhos.
– Nossa, você pensou em tudo!
– Tive tempo livre essa semana, por mais incrível que pareça.
– Falando em tempo livre...
– Lá vem! – protestou.
– Como anda o triângulo amoroso secreto mais poderoso do país?
Ela passou a mão no cabelo, ignorando a vontade de xingar o irmão mais velho.
– Não me faça arrepender de ter te contado isso, Fe.
– Só estou fofocando com a minha irmã.
– Eu juro que...
A campainha interrompeu os dois. De repente, os pelos dos braços de se arrepiaram. Felipe abriu um sorriso maldoso.
– Aposto que é um deles. – Ele sussurrou.
– Aposto que é o delivery.
– Nem se eles quisessem teriam sido tão rápidos.
Mais uma vez, a campainha tocou.
– Vou ali observar a lagoa na varanda, ok? – Felipe se levantou e saiu da sala.
caminhou até a porta na ponta dos pés. Estava se aproximando do olho mágico quando o celular tocou alto em seu bolso. Tomou um susto e escutou uma risada do outro lado da porta.
– Sei que você tá aí.
Ela abriu a porta com cara de poucos amigos. Diego segurava uma rosa solitária na frente de seu corpo e mostrou um sorriso largo ao vê-la.
– Oi.
– O que você tá fazendo aqui?
– Você não respondeu nenhuma das minhas mensagens. Tentei te ligar, mas...
– Talvez fosse essa a intenção.
– Não vai me deixar entrar?
– Estou com visita.
– Quem?
– É problema meu.
– E aí! – Felipe surgiu de volta na sala, percebendo que a irmã poderia se encrencar com as justificativas.
revirou os olhos.
– Diego, acho que você já conhece meu irmão...
– E aí, Felipe, como vai? – Ele se direcionou para o outro homem no ambiente e os dois trocaram um aperto de mãos.
– Vou bem, e você? Que golaço aquele contra o Ceará, hein!
– Fico feliz que tenha gostado.
– E o pé? Tá totalmente recuperado?
– Ah, a equipe médica é sensacional e foi incrível no tanto que me ajudaram nessas últimas semanas.
– Aquele chute no 5 a 0 contra o Grêmio... Cara, tinha que ter entrado.
– Nem fala, fiquei frustrado também.
Enquanto os dois estavam embarcando em uma conversa, começava a se perguntar o porquê de ter aberto a porta. O celular em seu bolso começou a vibrar e, ao checar o visor, achou melhor ignorar. Logo depois, o telefone fixo tocou e, achando que poderia ser da portaria para liberar o delivery, atendeu.
– Alô?
Él está allí, ¿no es así? Su auto está estacionado em el área de visitantes aquí abajo.
Os ombros de caíram. Ela olhou para os dois homens, que estavam entretidos na conversa e mal notaram que ela estava no telefone.
– Tá me espionando?
No, solo vine a ver cómo estás. Te disgustaste hoy em el trabajo, pensé que había hecho algo mal.
– Você fez?
No.
– Então não tem com o que se preocupar.
Dime que esta passando.
Ela respirou fundo, Diego bateu o olho nela. Então começou a sussurrar.
Sí, él está aqui, pero también mi hermano. Se suponía que hoy era uma noche de descanso para mí, pero ustedes dos me están volviendo loca com innumerables mensajes y llamadas.
Lo siento.
Necesito encontrar uma manera de sacarlo de aqui antes de que mi hermano lo invite a cenar. Lo siento si soy grossera, pero no puedo apagar mi telefono por la posibilidad de uma emergencia y me encantaria no recibir mensajes todo el tempo. Solo por hoy, Giorgian, por favor.
¿Es el PMS?
deixou escapar uma risada baixa.
Probablemente, pero no hay motivo de preocupación. Mañana saldremos, inclusive, y me habías llamado a tu casa. Lo haré, no te preocupes.
No tienes que ir si no quieres.
Yo quiero. – Ela disse após um suspiro. – Pero ahora realmente necessito colgar.
Todo bien. Te dejo um regalo em el conserje.
Gracias, no tenías que hacerlo. Con cuidado vete a casa.
Déjalo, querida.
A mulher sorriu antes de desligar. Quando se virou de volta para os dois, estavam sentados no sofá. Tomou a decisão de uma hora para a outra.
– Diego, levanta. – Falou com a voz firme. – Hoje nem é seu dia. É meu.
– Desculpa, – O paulista arregalou os olhos. – eu achei que...
– Nos vemos no trabalho. Anda, me deixa sozinha com meu irmão.
, tá tudo bem?
– Tá tudo ótimo, só sai. Por favor.
Ele deixou o apartamento e Felipe observava a cena contendo uma risada. emburrou a cara. O telefone tocou logo em seguida.
– Que foi? – Ela atendeu, mau humorada.
– Senhorita , – Reconheceu a voz do porteiro. – você pediu delivery?
Respirou fundo, coçou a cabeça e foi na direção de sua suíte.
– Pedi sim, Camilo, desculpa a grosseria. Pode deixar subir.
– Ok, tá subindo.
– E suspende a autorização do pessoal do trabalho pra subir direto aqui pra casa.
– Pode deixar. Boa noite.
– Boa noite, Camilo.
– Vou ter que voltar na minha pergunta de antes.
– Me deixa quieta, Felipe.
– Sabe o que a mamãe diria se estivesse aqui? Pra você ficar com o Diego de vez. Ela ia ficar doida nele. Ela gostava do sotaque paulista do interior.
– Mamãe ia querer que eu ficasse com os dois ao mesmo tempo todo dia.
– Se for isso que você quer, por quê não?
– Porque não é certo, Fê.
– Quem disse que não?
– Todo mundo.
– Você paga suas contas, você diz o que é certo ou não.
– Tem dias em que eu queria colocar um fim nisso.
– Coloca também, foda-se. Você manda na sua vida e...
A campainha tocou.
– Comida! – gritou.

―‖―‖―‖―


Os dois colegas observavam a cena do final do corredor. Três membros da diretoria mais , o novo membro da equipe de filmagem, conversavam alegremente.
– Eu vejo com o meu olhinho... Você sentindo ciúmes de pouquinho em pouquinho.
– Referências a ‘Eu, a Patroa e as Crianças’, Eric? Me poupe. E não estou sentindo ciúmes coisa nenhuma.
– Você?! – O superior olhou para . – Eu duvido. Você gosta muito bem do posto de única mulher aqui e todo mundo que te conhece bem sabe que você não quer perder esse posto.
– Todo mundo que me conhece bem sabe que eu não me sinto ameaçada por ninguém quanto a esse posto e eu posso te provar.
– Ah, é? Me prova então.
sorriu.
– Me siga.
Ela encaixou de vez a lente escolhida no corpo da câmera e abriu a porta que dava para a academia. Cumprimentou todos e recebeu um ‘Bom dia, ’ coletivo em retorno. Imediatamente, os dois pares de olhares brilharam na direção dela. lançou um olhar para Eric por cima dos seus ombros e abriu outro sorriso malicioso, puxando a câmera para o alto logo em seguida. Começou seu trabalho sem muitas preocupações. Enquanto Arrascaeta e Rafinha paravam para um breve descanso, ela se abaixou entre os dois para mostrar algumas das recentes imagens que havia obtido. Estava puxando do bolso seu celular pessoal para tirar uma foto informal dos dois quando a porta abriu.
– Bom dia a todos. – Landim exclamou, entrando no recinto. – Viemos apresentar vocês a , ela vai participar da equipe de filmagem daqui em diante e veio reforçar esse nosso final de ano movimentado.
revirou os olhos. Diego estava na bicicleta ergométrica, sob o olhar de . Ele apenas sorriu para a mulher brevemente e voltou ao que estava fazendo. Arrascaeta não fez nem isso, dando sinal para que continuasse e seguisse com a foto que havia pedido. Ela se conteve em aprovar a reação dos dois.

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MAIS TARDE, NAQUELE MESMO DIA

– O que tá havendo, Arrasca? – parou o beijo dos dois, ainda sentada no colo do uruguaio.
¿Como así?
– Seu jeito comigo.
¿Que forma? No estoy haciendo nada.
– Tá sim. – Ela protestou e saiu de cima dele, buscando pelo lençol para cobrir seu corpo.
– Carol, ¿qué está pasando?
A cabeça da mulher estava entrando em parafuso. Tinha flashes de três noites atrás, quando tinha estado com Diego. Com ele, era tudo bem simples, “preto no branco”. Mas estava realmente uma bagunça com Arrascaeta levando ao menos vinte minutos nas preliminares, cheio de carinhos que nunca teve.
– Eu que te pergunto, Arrasca. O que tá acontecendo?
O uruguaio coçou a cabeça.
¿No puedo probar algo diferente?
– Eu sinto o cheiro de encrenca à distância, Arrasca.
Creo que estás oliendo algo más y es confuso.
¿Va a ser?
começou a se vestir. Arrascaeta levantou correndo do sofá onde estava sentado e a impediu de continuar.
– O que foi agora?
Ven aquí.
– Para com isso...
No se de que estas hablando.
– Sabe sim! – Ela deu um tapa fraco no peito do jogador. – Toda vez que você quer me manipular, você desiste desse seu portunhol fajuto e começa a falar tudo em espanhol.
No estoy tratando de manipularte en absoluto, . Solo sé que te gusta cuando hablo español, también me gusta no tener que esforzarme por hablar un idioma que no es el mío para siempre... Uma mão lava a outra. ¿No es así como hablan?
– É, Arrasca, é assim, mas você...
– Ei. – Ele se aproximou dela, tomando seu rosto entre as mãos. – ¿Te avergüenzas de mí?
– Não.
¿Entonces qué es?
respirou fundo.
– Reconheço esse olhar, Arrasca.
¿Que mirada?
– Prefiro não responder a essa pergunta, mas acho que você sabe muito bem.
– Caroline, por favor, no huyas de mi.
– Não estou fugindo. – Ela disse, quase apostando em um tom debochado. – Nem poderia, este é o meu apartamento.
Es. Y no estoy dispuesto a ir. No por ahora.
– Então me leva pra cama, me fode do jeito que você bem entender, faz comigo...
No quiero “follarte”, pero parece que no lo entendes muy bien.
– Eu quero isso.
Así que tendremos que llegar a um acuerdo, porque no creo que merezca ser tratada así. Al contrário.
– Virou Shakespeare agora?
Me gusta más Adolfo Berro.
revirou os olhos, mas não escondeu o sorriso que abriu. Arrascaeta achou perfeito o momento para voltar a puxá-la pela cintura para perto de seu corpo. Os dois voltaram a se beijar. não sabia – ou fingia muito bem – que ele havia diminuído ainda mais o ritmo do beijo. Era tudo parte de um plano com grandes proporções. Ela estava tão atarefada que estava com a viagem para o mundial batendo às portas que talvez não tivesse notado as reais intenções do uruguaio naquele último dia.
– Eu adoro quando você me beija assim. – Ela sussurrou ao encostar a testa na dele.
Permítame hacer esto más a menudo.
– Não estou te proibindo.
Sí, estás.
– Por quê?
Porque podrías recibir estos besos todos los días, si quisieras, pero prefieres lo contrario. Incluso creo que te gustan sus besos más que los míos.
– Não fala assim.
Entonces los míos son mejores.
– Eu não disse isso! – riu, o que deixou o jogador parcialmente satisfeito. – Só disse que não tem comparativo entre vocês dois, nem nunca vai ter.
¿Por qué?
– Como assim?
Nosotros dos. No entendo cuál es tu intención com todo esto.
– Não me envolver emocionalmente com ninguém.
Debe haber uma razón más allá de eso. No puede ser solo eso.
Os ombros dela caíram.
– Não é um assunto que eu gostaria de tratar.
Arrascaeta levantou o rosto dela para poder olhar em seus olhos.
Muy bien, perdón por preguntar. Ahora me gustaría hacer algo nuevo contigo.
As sobrancelhas da mulher arquearam automaticamente.
– Deveria ficar com medo?
Ciertamente no. Ahora vamos a tu habitación, estoy segura de que te gustará.
removeu as duas últimas peças de roupa sobre sua pele. Quando o companheiro pediu que ela deitasse de barriga para baixo na cama e mantivesse os olhos fechados, o estranhamento sobre a situação aumentou mais ainda. Ainda assim, o obedeceu. Arrascaeta foi na sala e voltou rapidamente. Segundos depois, sentiu as mãos quentes dele com algum tipo de óleo sobre a pele das suas costas. Nunca havia se sentido tão completa com homem algum antes daquele momento.

―‖―‖―‖―


QUATRO ANOS E MEIO ANTES

– Vamos pra casa antes que eu entre em coma por causa disso.
– Ah, Fê, para, tá maravilhoso!
– Eu sei que tá, e é esse o motivo. Não consigo parar de pedir mais milkshakes.
deu uma risada alta.
– Eu também não, e nem sei se quero.
– Puta que pariu, esse é o melhor milkshake do mundo.
– Cara... Eu sinto dizer, mas concordo com você. A gente precisa voltar aqui mais vezes.
– To até vendo a gente saindo da Barra da Tijuca, dirigindo por duas horas, só pra tomar esse milkshake.
– Um milkshake caro, hein?
– Po, mas to quase achando que vale a pena.
Felipe fez sinal para a garçonete e pediram, cada um, o terceiro milkshake da noite.
– Você não sorri desse jeito desde que a mamãe morreu. – O irmão mais velho observou, fazendo o semblante da menina se fechar por um instante.
– Teria que acontecer em algum momento, não é?
, é sério. Eu gosto de te ver feliz. O que aconteceu foi uma fatalidade e eu sei que é muito clichê, mas ela não ia gostar que nós dois passássemos o resto das nossas vidas choramingando por aí.
– Ela me disse que era pra gente chorar por ela pra sempre. – A garota lembrou com um sorriso. – Desculpa ter estado lá no sábado.
– Para com isso, fico feliz que você tenha sido a última a vê-la acordada. E nada disso foi culpa nossa. Ela lutou conforme pode, nós dois provamos a nós mesmos e a ela que somos bons filhos e que ela fez um bom trabalho... Devíamos nos orgulhar, .
– Você tá certo.
A garçonete depositou os novos pedidos na mesa. ergueu a taça no alto.
– Um brinde à mamãe.
– Vai brindar com um milkshake?! – Felipe riu. – Ela vai puxar seu pé enquanto estiver dormindo, hein!
– Eu vou dizer que foi só por hoje e que não vai acontecer de novo. E ainda vou mandá-la pra você, porque nós íamos pra longe, comer comida saudável, e você que me convenceu a ficar por aqui. – Ela suspirou. – Pena que o não esteja se sentindo bem, ele ia gostar.
– Seu namorado é um fresco, .
Os dois continuaram conversando com tranquilidade. Um forçou o outro a ir embora antes que contraíssem diabetes ali mesmo. Caminharam até a casa que haviam alugado pelo feriado com passos lentos e curtos, ainda trazendo assuntos diversos à tona. Porém, quando chegaram em casa, teve um pressentimento ruim, que a lembrava um pouco da sensação que teve antes de ter certeza de que a mãe estava morta na cama do hospital. Preocupou-se imediatamente com o namorado, que havia dispensado o pequeno passeio da noite por conta de uma dor abdominal intensa. Ele insistiu que ela fosse com o irmão, que precisavam daquilo – e eles realmente precisavam –, então os dois saíram sozinhos. Ainda assim, havia aquela sensação.
Subiu as escadas para a suíte que estavam dividindo e a cena que viu tirou seus pés do chão – no péssimo sentido. ainda demorou para perceber que a então namorada havia aberto a porta e estava investindo com força na loira que tinha sobre seu corpo.
– Que porra é essa?!
Felipe, ao ouvir o grito da irmã, subiu para o segundo andar correndo. A cena podia ser decepcionante para , mas o irmão jurou à mãe que a defenderia de tudo em seu leito de morte. Não pensou duas vezes antes de avançar na direção daquele desgraçado em quem havia confiado para cuidar de sua irmã. O primeiro soco tirou da cama direto para o chão. A loira começou a recolher as roupas, mas Felipe não deixaria aquilo fácil para ela.
– Deixa aí e sai agora antes que eu chame a polícia. – Ele gritou.
– Mas eu...
Felipe avançou na direção dela, que desceu as escadas correndo apenas com uma camisa em mãos. Ele voltou para , que se recuperava do primeiro soco, e enfiou outro no meio da cara dela.
– Você come merda, seu filho da puta? – Felipe gritou antes do terceiro soco. – Eu juro que eu vou te matar aqui se...
– Fê, não! – interrompeu, finalmente reagindo. – Não gasta sua energia com ele.
– Esse cara não merece viver!
– E a gente não merece ter essa dor de cabeça. – Ela engoliu em seco.
O irmão, ainda assim, carregou o homem semi-nu para a calçada. Trancou o portão, deixando-o do lado de fora gritando por perdão e ajuda. Encontrou a irmã sentada no sofá da sala em prantos, o corpo tremendo conforme soluçava. O ódio diminuiu aos poucos, ao mesmo tempo em que ele sentou ao lado dela e a abraçou de lado. Queria tomar as dores da irmã para si, da mesma forma que quis tomar quando eles perderam a mãe. Não suportava ver sua caçula sofrendo e prometeu a si mesmo, naquela noite, que acabaria com a raça de qualquer um que sonhasse em fazer qualquer coisa similar àquela novamente com a irmã.
Ainda era aquela cena que vinha à cabeça da então jornalista, anos depois, toda vez que ela sequer pensava em se envolver emocionalmente com outro homem.


Tudo por um Amor

Ninguém se sentia confortável com a presença da diretoria ali. Para os funcionários do Centro de Treinamento George Helal, a coisa era bem simples: eles não iam até a sede, na Gávea, e a sede não ia até eles. Funcionava bem assim, na maior parte do tempo. E se havia alguém da sede em Vargem Grande, boa coisa não era.
, é claro, já havia recebido pelos grupos no WhatsApp a fofoca. Estava com tempo livre pois tinha adiantado muitos dos afazeres da semana e, por hora, estava aguardando novas ordens do seu imediato superior. Mesmo assim – mesmo que, naquele momento, não estivesse fazendo nada de errado –, não conseguiu impedir o seu coração de saltar quando ouviu as batidas na porta. Checou sua imagem no espelho que mantinha no escritório propositalmente e o guardou na primeira gaveta.
– Pode entrar. – Disse em voz alta.
Gustavo, vice de Comunicação e Marketing, entrou no escritório acompanhado de Luiz Eduardo, o de Relações Externas. O segundo, não esperava. Sabia, pelos contatos, que o presidente também estava no CT. Sentiu-se mais desconfortável que antes.
– Bom dia. – falou, abrindo um de seus belos sorrisos e se levantando da cadeira, oferecendo a mão aos dois homens para dois breves cumprimentos. – Por favor, sentem-se.
– Obrigado. – Gustavo respondeu.
Os três se acomodaram em suas respectivas cadeiras. tentava impedir os dedos de tamborilarem no tampo do móvel caro.
– No que posso ajudar os senhores hoje?
– Por favor, sem essa formalidade. – O mesmo homem seguiu conduzindo a conversa com naturalidade. – Nosso 14 não falou com você?
Ela sentiu o coração quase parar dessa vez. Podia pressentir o problemão que estava por vir.
– Arrascaeta? – Perguntou, inocentemente. – Ele não falou nada comigo.
– Bem, então fica pra gente a opção de dar a notícia. – Luiz Eduardo finalmente falou na sala, e tinha um sorriso no rosto. – A Adidas quer fazer uma campanha publicitária com alguns dos nossos, e ele pediu estritamente que você fosse a fotógrafa dele.
– E-eu... Bem... Não sei o que dizer.
– Acho que esse é o momento em que você fica lisonjeada, não?
– Sim, claro, mas...
– Você não é obrigada, – Gustavo retomou a palavra. – é claro. Mas ele pediu que nós autorizássemos. Achei que ele já tinha falado com você.
– Não o vi ainda.
– Giorgian falou algo sobre marcar um jantar com você, pra vocês dois conversarem melhor sobre o assunto.
A mente de , enquanto se recuperava do susto, ia processando as informações e começando a estranhar. Assinou uns papeis, guardou outros que poderiam ser necessários.

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Ele sentia sua presença mesmo que no completo escuro. Podia dizer que tinham uma conexão de outro mundo. E embora ele soubesse que precisava colocar os pés no chão, não conseguia tirar a jornalista da cabeça. Ela era cheia de sorrisos para todos. Aquilo fazia um pontinho lá na sua barriga doer. Seriam ciúmes? Arrascaeta não conhecia aquela palavra. Não até conhecer .
Quase derrubou o colega Rafinha ao se apressar em ocupar o lugar ao lado dela na mesa do restaurante durante o horário de almoço. fingiu que não estava percebendo, mas não conseguiu evitar arquear uma sobrancelha.
– Oi. – Ele disse.
– Oi. – respondeu, simples.
Necesito hablar contigo.
– Pode falar. E em português, Arrasca. Praticamente todo mundo aqui fala espanhol também.
Giorgian revirou os olhos. Amava e odiava aquele jeito dela.
– Eu pedi autorização pra...
– Me tirar do time pra fazer suas fotos pra Adidas?
Ele arregalou os olhos por breves segundos quando o encarou, mas logo abriu um sorriso.
– Já foram falar com você?
– Por que não falou comigo primeiro?
– Não posso fazer uma surpresa?
– É trabalho, Arrasca.
– Não é. – Ele disse, firme, e se virou para a companheira. – Eu e você, Quadrifoglio. Reserva pras oito e meia da noite. Poderia dizer pra você colocar uma roupa elegante, mas você fica elegante de qualquer forma. Então não se atrase. Vou te esperar lá.
– O Quadrifoglio é no Village Mall, Arrasca.
– E daí?
– E daí que é bem público, não acha? Além disso, hoje não é dia do Diego?
– Sobre o quê meus dois melhores amigos estão conversando aí, hein? – Gabriel chegou, fazendo estardalhaço como gostava sempre.
– Aquela campanha da Adidas. – Arrascaeta respondeu como se nada estivesse acontecendo. – Nossa preciosidade aqui vai fazer as minhas fotos.
O assunto entre os dois, naquele momento, acabou, sendo seguido por diversos tópicos descontraídos que Gabriel fazia questão de trazer à tona. O restante do expediente, para os dois, foi bem monótono. ficou presa no escritório, revisando todos os compromissos com o clube marcados para a próxima semana, e Arrascaeta foi para uma palestra com o mental coach do time. Ele achava aquilo uma idiotice. Os dois achavam. Todos achavam. Mas ninguém ali abria a boca para dizer o quanto aquilo era perda de tempo.

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não sabia ainda se iria atender ao chamado de Arrascaeta até o último segundo. Contrariada e preocupada com a proporção que sua escolha estava tomando, queria e não queria a companhia do uruguaio naquela noite.
– A Bruna vai precisar resolver uma situação com a família dela, então eu vou ficar com as crianças. – Diego justificou quando ela ligou, na última tentativa de arrumar uma desculpa esfarrapada para driblar seus pressentimentos. – Quer vir pra cá?
– Não. – A resposta veio rápida como um raio.
– Tá tudo bem?
– Tá, tá... É só... Só to estressada. – despistou rápido. – Nos falamos quando você puder então.
– Vou sentir sua falta.
Desligou antes de responder à última frase e foi direto para o banheiro. Tomou um banho demorado, lavou os cabelos como só fazia se fosse importante. Deixou o mesmo enrolado em uma toalha enquanto preparava a maquiagem na frente do grande espelho. Um simples esfumado marrom, cílios postiços da melhor qualidade e um tom de vermelho perfeito nos lábios. Secou o cabelo com uma das diversas técnicas que tinha aprendido online. Escolheu um vestido femme fatale, vermelho rubro, sem manga, com decote avantajado, costas abertas e uma fenda unilateral que ia até o limite do ‘sexy sem ser vulgar’, de um tecido leve e gostoso que sobrava na parte da saia.
Pediu um Uber Black. Se ia para matar, ao menos chegaria em um carro melhor. O motorista simpático a deixou na porta do shopping onde o restaurante escolhido se localizava. Sem se importar com os olhares que atraía, adentrou o lugar com os saltos negros, iguais à clutch, ricocheteando no chão. Gostava disso, de ser o centro das atenções, de andar de cabeça erguida e com toda a pompa possível.
– Boa noite. A senhorita tem reserva? – Foi recebida pelo maître.
– Boa noite. Em nome de...
– Ela tá comigo. – Ouviu a voz atrás de si, que fez com que os pelos de sua nuca arrepiassem no mesmo instante.
Disfarçou o efeito que o uruguaio tinha sobre si e se virou para cumprimentá-lo. Trocaram um breve beijo no rosto, mas a mão dele na cintura dela, esbarrando – seria propositalmente? – na parte exposta da pele por conta do decote nas costas, foi o suficiente para criar faíscas. O maître os guiou até uma mesa isolada. Como era dia de semana, o restaurante estava com uma demanda baixa de clientes, de forma geral, o que propiciava uma certa privacidade aos dois.
– Posso trazer algo pra vocês já por agora?
– Uma água sem gás, com gelo, por favor. – Ela pediu.
– Pode trazer um suco de laranja, sem açúcar? – Ele tomou a palavra. – E uma Insalata Caprese, assim que possível, por favor.
O maître assentiu e deixou os dois sozinhos. Sem dizer nada, Arrascaeta desceu a atenção para a pequena pasta de couro que levava consigo. Tirou alguns papeis de dentro dela e os colocou sobre a mesa.
– Sobre a campanha.
– Então é verdade. – Ela concluiu.
– É. – Arrascaeta deu de ombros e, logo depois, abaixou o volume da voz. – Ou você pode manter a história e recusar. Seria uma honra ser seu modelo, mas eu queria mesmo era jantar com você.
abaixou a cabeça para os papéis, rindo. Pediu a um dos garçons se havia marca-texto no restaurante, o que foi brevemente providenciado. Ela marcou datas, horários, locais e outros detalhes a mais que seriam interessantes receberem uma atenção redobrada. Antes que terminasse, a entrada que Arrascaeta pediu foi entregue na mesa. Ela aproveitou para pedir, então, uma taça de vinho.
– Vamos acertar seus honorários?
– Estamos comendo, Arrasca, espera pra falar de trabalho depois.
– Qualquer outra coisa que não seja trabalho? – O uruguaio interrogou sua companhia.
– Qualquer outra coisa. – Ela disse, com um sorriso.
– Ótimo então, eu queria falar sobre...
– Com licença, – Outro garçom interrompeu os dois. – já decidiram o prato que vão querer?
Arrascaeta estava pronto para dar uma desculpa, dizer que estavam tratando de negócios e não queriam ser interrompidos pelos próximos minutos, mas estava muito à frente dele e entregava o cardápio de volta ao garçom com um sorriso simpático no rosto. Odiava que ela fosse simpática com outros homens que não fossem ele, o cíume quase o corroía por dentro.
– Quero um gnocchi alla sorrentina, por favor.
– E o cavalheiro?
Ele respirou fundo, estava irritado e tenso.
– O mesmo que ela. – Disse só para despistar o intruso, que se afastou logo com cordialidade.
Um outro funcionário derrubou alguma coisa feita de vidro na área do bar. Por reflexo, se virou na direção do som, o que deu a Arrascaeta uma visão perfeita da pele das costas da mulher. Ele engoliu em seco. Precisava de concentração ali, mais do que costumava precisar em campo.
– Onde nós estávamos? – Ela se voltou para o homem com um largo sorriso.
– Eu queria falar com você sobre uma coisa.
– Pode falar.
– Delicada. – Ele completou.
– Sem problemas. – O tom de voz dela indicava para o jogador que estava em um bom dia. – Vá em frente.
– Meu agente recebeu uma proposta de outro time.
murchou. Gostava de ter Arrascaeta perto dela, é claro, mas amava o fato dele ser essencial para o seu time. Ali, naquele assento, ela sentiu quase como se estivesse sendo traída.
– Como assim?
– Europa. – Ele disse. – Não é nada público ainda, mas pode ser que eu vá embora no final do ano.
– Mas Arrasca...
– Se eu for, – O homem interrompeu a fala dela. – acaba essa história de você não poder se relacionar com um funcionário do clube.
– Do que você tá falando? – Ela tinha um tom de assombro na voz.
– Eu nunca pensei que seria quem diria isso, mas eu cansei. – Arrascaeta começou, o tom de voz baixo e o corpo caído na direção da mulher para que houvesse menos risco ainda de compartilharem a conversa. – To esperando a minha chance de cair fora. Eu sei, sem sombra de dúvidas, que eu quero sair.
– Arrasca, não foi isso que a gente combinou.
– Me deixa terminar. – Ele pediu, surpreendendo-se com a urgência em sua fala. – Sei que você não esperava nada disso, sinto muito, mas é como eu me sinto. Quero dizer... Qual é o ponto em sonhar alto se é garantido que eu não foi conseguir? Qual é o ponto de sonhar com você se, enquanto eu estiver no Flamengo, você não vai ser minha?
– Eu não quero você fora do Flamengo, Arrasca. – Ela usava o apelido carinho do jogador como se pudesse manipulá-lo com isso. – Nunca quis. Sabe disso. Desde que você chegou, eu... Eu sabia que era uma mudança pra melhor. E perder você agora é impensável.
, a minha mente tá sobrecarregada, prestes a explodir. Você não entende o que eu quero dizer. Eu sou um homem, , e um homem tem seus limites. Achei que tudo isso fosse dar certo algumas semanas atrás porque eu queria ficar contigo de qualquer forma. Mas agora eu vejo que não dá. Eu não quero mais. Não quero mais só ficar por ficar, não quero mais te dividir com outro homem, não quero mais ter que fugir do que eu sinto. Eu...
– Não fala. – Ela o interrompeu. – Por favor, não fala.
Os dois ficaram em silêncio pelos próximos segundos. bebeu o restante de vinho que tinha na taça e pediu mais uma com um gesto. Ainda sem trocarem uma palavra, receberam o novo pedido.
– Não vai beber?
– To dirigindo. – Ele respondeu.
– Sobra pra mim então. – Ela voltou a beber o líquido com mais velocidade do que o recomendado, fazendo sinal para mais um.
– Diz alguma coisa, por favor.
– Eu não sei o que dizer.
– Qualquer coisa.
O semblante da mulher continuava admirável ao extremo, mesmo que este brilhasse menos do que alguns minutos atrás. Arrascaeta tinha um anjinho e um diabinho no ombro, o primeiro parabenizando por ter feito a coisa certa e o segundo, focado em chamar a atenção dele para o decote que ele tanto queria explorar, com olhos, mãos, boca... Chegava a ficar desconcertado.
Por outro lado, não queria falar nada porque não queria dar o braço a torcer. O diabinho em seu ombro estava atordoado. O anjinho, deitado de bruços, com os pés para cima e as mãos apoiando o queixo, no melhor estilo hearteyes possível. Quando se envolvera com Diego da primeira vez, o meia havia acabado de se divorciar. Estava bêbada – não era novidade para ninguém –, e ela acabou na casa dele. Muito clima estranho depois disso, a tensão sexual se tornou impossível de conter e eles passaram a se encontrarem com maior frequência. Só que esfriou.
Diego era um homem bom para ela? Definitivamente sim. Tratava-a com respeito, era gentil e carinhoso. Mas Diego era um homem de mais de trinta anos, com dois filhos na bagagem que não estava exatamente disposta a assumir, principalmente porque era responsabilidade demais estar na vida de um homem que já era pai e não queria prejudicar as crianças de forma alguma. Não faltaria muito tempo para que ele pendurasse as chuteiras. Com Diego fora do futebol, eles teriam o caminho livre para seguirem como um casal. Mas o relacionamento enfraqueceu com a chegada do uruguaio.
À princípio, eles não tinham nada entre si, mesmo que estivesse bem ciente de que não havia nada a prendendo a Diego. O que aconteceu entre eles foi devagar, furtivo, dando tempo para que se desenvolvesse algo além do tesão que um sentia pelo outro. As crises de ciúmes que Diego tinha só serviram para distanciar a jornalista dele e a aproximar ainda mais de Arrascaeta. Embora ainda se sentisse atraída pelos dois, não era novidade na cabeça dela que Giorgian estivesse mexendo não só com seus hormônios, mas também com sua razão. De qualquer forma, ele ainda era um jogador e ela ainda era uma jornalista que seria colocada na rua se descobrissem.
Ainda durante o silêncio, o prato principal dos dois chegou à mesa também. Arrascaeta agradeceu mentalmente pelo garçom ter sido simpático suficiente a ponto de quebrar um pouco da tensão instaurada. Ela começou a comer seu olhar nos olhos dele. De repente, o jogador se viu sem apetite algum.
, – Tocou na lateral externa de sua coxa, exposta parcialmente pela fenda do vestido, por baixo da mesa, agradecendo pelo arranjo do lugar que não permitiria que a ação fosse vista por outros. – olha para mim.
Ele viu o medo nos olhos da menina. Sentia-se responsável por isso e, por mais que quisesse negar que havia sentimento demais ali, não podia evitar a culpa.
– Podemos fingir que não falei nada, ok? Não vou ficar bravo.
– Tá tudo bem. – Ela murmurou.
– Não tá. – Ele insistiu, tirando o talher da mão dela. – Vamos lá, ou você coloca um sorriso nesse seu rosto lindo, por fingir que não falei o que disse ou por tratarmos do assunto, ou eu não vou deixar você comer.
– Arrasca...
– Vamos lá, .
Ela encarou o homem, séria. Finalizou sua terceira taça de vinho. Queria ficar bêbada ou era apenas uma reação reflexa de quem achava que não tinha coragem para encarar a situação? Ela mesma não sabia.
– O gnocchi tá uma delícia. – respondeu, finalmente. – Se você ficar perdendo tempo falando sobre isso, vai esfriar e perder o gosto.
– Você é mais importante que a comida.
– Mas não sou mais cara. – Ela brincou, incerta sobre como estava se sentindo naquele instante, e colocou o garfo dele em sua mão. – Come.
– É pra deixar morrer o assunto então?
– Estou considerando isso. – forçou um sorriso e voltou a comer.

―‖―‖―‖―


insistiu em pagar sua parte da conta, Arrascaeta não deixaria enquanto estivesse vivo. Já era bem tarde quando os dois deixaram o restaurante e sabiam que o sono ia cobrar o preço no dia seguinte, quando tivessem que aparecer cedo no CT para trabalharem. Ainda assim, os dois haviam curtido suficientemente bem a companhia um do outro. Para disfarçar, deixava o restaurante com a pasta dele em suas mãos.
– Você pode me dar um segundo? – Pediu a ele, buscando o celular na clutch. – Vou só pedir um Uber.
– Eu te levo em casa. – Arrascaeta tocou de leve o braço da mulher.
– Não precisa, é contramão pra você.
– O trânsito tá zero na Avenida das Américas agora. Eu posso te levar, e insisto.
Os dois se olharam, nenhum disposto a ceder.
– O carro chega aqui em menos de cinco minutos.
– Meu carro já tá aqui.
– Eu não me importo de ir de Uber.
– Eu me importo que você vá de Uber. Seria bem idiota da minha parte te fazer vir aqui e não te dar essa carona.
– Se fosse assim, teria me buscado em casa.
Arrascaeta parou no meio do corredor do shopping.
– Eu vim antes porque tive motivo pra isso.
– Que motivo?
– Se você for até o meu carro e me deixar te levar em casa, vai descobrir.
Se não a venceria na insistência, venceria na curiosidade. Eles podiam até ter poucos meses de envolvimento um com o outro, mas se conheciam bem demais, e Arrascaeta sabia usar as características de para conseguir o que queria. Não evitou abrir um sorriso quando viu que ela havia decidido ceder.
– É bom que isso não seja palhaçada sua.
– Não é. – Ele disse, ainda sorrindo e abrindo a porta do carro para a jornalista. – Está no compartimento do apoio de braço central.
Arrascaeta queria, propositalmente, dar tempo para que visse sozinha, em um primeiro momento, as joias que havia lhe comprado. Tinha para si que uma mulher como ela gostaria de receber aquele mimo, no bom sentido da palavra. Pesquisou antes e descobriu que o nome Tiffany & Co. talvez pudesse ajudá-lo, dando peso às peças que comprara. Esperava ver um olhar, ao menos, de gratidão quando entrasse, e pensava nisso tudo enquanto demorava propositalmente para dar a volta no carro.
O colar em ouro rosa 18k, com diamantes e ônix preta custou uma boa grana, mas era tão simples em seus detalhes que ele sabia que ia amar. Para combinar, tratou de juntar ao conjunto uma pulseira, brincos e um anel, todos da mesma coleção. Custou o valor de um carro popular, e sabia disso no momento em que bateu os olhos nas joias, seladas por uma caixa de veludo turquesa.
– Não posso aceitar isso. – Ela disse quando a porta do motorista foi aberta.
– Você diz como se tivesse opção.
– Eu não posso...
Ele se esticou de seu assento até ela, colocando o dedo indicador sobre os lábios da mulher e aproximando seu rosto o tanto que queria ter feito a noite inteira, desde o primeiro instante em que bateu os olhos em naquele vestido. Desceu o dedo, levando a mão até a nuca da mulher, puxando-a para um beijo caloroso. Ali, no estacionamento, estavam parcialmente escondidos e havia privacidade para matarem o desejo que sentiam um pelo outro.
Arrascaeta gostava de ver quando ele forçava a mulher a jogar o pescoço para trás, esta suspirando pesadamente enquanto sabia que o jogador se aproximaria a qualquer instante para distribuir beijos na pele do seu pescoço. Se tinha um jeito de ganhá-la, era ali. O cheiro do perfume era quase como uma droga para ele, queria às vezes perguntar o nome da fragrância só para tê-la em casa a hora que quisesse. Não precisava de vinho, como ela. A própria presença de era inebriante para ele.
– Arrasca... – A voz saiu arrastada, gemendo o nome dele enquanto se esforçava para formular as palavras em sua cabeça. – Vamos pro meu apartamento.
Não precisava dizer duas vezes. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha. Se não conseguisse para si depois disso, pelo menos a teria junto do seu corpo naquela noite.

―‖―‖―‖―


Tudo começou em um sinal vermelho, seguido logo de um engarrafamento que o GPS indicou ser por conta de um acidente. Era de se estranhar pelo horário, mas os dois sabiam que a Avenida das Américas nunca precisou, de fato, de um motivo para congestionar o trânsito. Estavam ambos tensos com a demora, doidos para estarem sozinhos entre quatro paredes, quando elevou o nível da relação dos dois.
Desvencilhou-se do cinto de segurança delicadamente, enquanto Arrascaeta estava com a atenção no carro ao lado. A música era proveniente da conexão bluetooth com o celular de . Ela, é claro, selecionou a música sem que ele visse e esperou o momento perfeito. Ao som de Nick Carter cantando Miss America, a jornalista desligou o visor do som do carro, colocou a clutch encaixada no painel para tampar a luminosidade e levou as duas mãos ao cós da calça dele.
– O que você tá fazendo? – Ele perguntou, assustado a princípio.
O olhar que deu para Arrascaeta naquele instante jamais seria esquecido. Com um tanto de dificuldade, ela começou a chupá-lo como podia, mantendo o corpo atravessado no carro por sobre a divisão entre os bancos do motorista e do passageiro. Ele depositou a mão direita nas costas nuas dela, fazendo pressão conforme a mulher ia massageando-o com os lábios. Tentava manter a expressão firme, mas não conseguia. Se tinha uma coisa que o deixava louco facilmente era ver pagando um boquete para ele. Era sua visão favorita.
, vai andar.
– Quem tá dirigindo é você. – Ela parou o que tava fazendo por um segundo para respondê-lo.
, eu não... Caralho, você é maravilhosa.
Com a boca cheia, ela deu um risinho e fez mais força ainda.
– Sério. Eu preciso dirigir pra gente sair daqui.
– Pode dirigir.
, para, eu não consigo...
– Olha nos meus olhos e diz que quer que eu pare. – Ela provocou.
Ele fez, achando que podia vencer seus próprios instintos, mas só serviu para ficar mais louco. Empurrou a cabeça dela na direção da sua virilha com delicadeza, e o grunhido que escutou de sua garganta indicou o quando ela havia ficado satisfeita com a decisão. Outro sinal vermelho e , à beira da loucura, subiu o vestido até a sua cintura e começou a passar por cima do câmbio.
. – A voz do jogador estava divertida mas alerta. – Isso vai dar merda.
– Por isso que eu tirei as luzes.
– Tem postes aqui.
– Ninguém vai saber que sou eu.
Ela se posicionou com um joelho de cada lado do corpo do jogador, praticamente sentando-se em seu colo. Quando este notou, pelo primeiro contato das duas intimidades, que não usava calcinha, ficou desnorteado ao ponto de começar a andar com o carro antes mesmo do sinal abrir.
– Merda, eu vou ser multado.
– Passa pro meu nome a multa. – Ela sussurrou contra a pele do seu pescoço, onde investia naquele momento.
Arrascaeta não a levaria para seu apartamento por nada. Sua casa era muito antes do condomínio dela e nenhum dos dois aguentaria o trajeto até lá. Ela era esperta, estava com tudo preparado antes mesmo que ele soubesse. Ainda em trânsito, conseguiu colocar nele a camisinha que tirou da clutch antes de a colocar para tampar a luz do painel do carro. foi provocando até que, no outro sinal vermelho – e parecia ter sido planejado, mas era só o trânsito do Rio de Janeiro sendo o trânsito do Rio de Janeiro –, teve a chance de levantar um pouco e se encaixar com ele.
– Não faz isso. – O homem gemeu.
Ela foi descendo devagar, ele foi ao céu e voltou. Era o primeiro da fila novamente e, dessa vez, estava pouco ligando para a multa. Arrancou com tudo nos próximos três sinais vermelhos. Passou pela portaria do condomínio na velocidade da luz e quase bateu na parede da garagem quando chegou na sua casa. Era mais alta que a rua, o que não permitiria que nenhum vizinho visse o que estava acontecendo ali, felizmente. Então saiu do carro segurando em seus braços, ainda dentro dela, e a colocou sobre o capô. Não tinha tempo, paciência ou autocontrole para levá-la até o quarto, muito embora isso não lhe tirasse a vontade de repetir tudo lá. Ele faria sua quantas vezes tivesse a oportunidade.

―‖―‖―‖―


acordou no meio da madrugada, estava faminta e com sede. Abusada que era, pegou uma cueca e uma blusa do jogador no armário. Vestiu as peças e se colocou em caminho para a cozinha. Quando viu, de relance, o reflexo na grande porta de vidro que levava para os fundos do quintal, provocado pela luz fraca do interior da geladeira, tomou um susto e acabou deixando escapar um grito.
Percebeu, ali, naquele instante, que o medo não era de ter qualquer pessoa lá fora. Era de ser Diego ali. Ele morava no condomínio ao lado. Às vezes, a ex mulher não tinha precisado deixar os filhos com ele e Diego foi atrás dela para fazer uma surpresa. Às vezes, alguém havia visto Arrascaeta jantando e, com muita destreza e disfarce, conseguiu uma foto, postou online e, quando Diego viu, reconheceu a mulher. Às vezes, Diego até foi até seu apartamento, mas ligou os pontos e decidiu ir até a casa do colega verificar. estava ficando neurótica e vendo que, por mais deliciosa que aquela história toda parecesse no início, era algo que ela queria para um ou dois dias, não a longo prazo.
Abriu o WhatsApp, Diego havia estado online fazia pouco tempo. Decidiu sair metendo os pés pela cabeça e, para variar, depois via o que ia render de consequência.

Tá acordado?
To
Matteo não tá se sentindo muito bem
Aconteceu alguma coisa?
Preciso falar com você
Tá tudo bem, ?
Depende do ponto de vista
O que houve?
Fala comigo

suspirou. Odiava admitir que Diego, apesar de não ter mais toda aquela química entre eles, era um homem bom. E odiava mais ainda não o ter conhecido em outra ocasião.

Preciso por um fim nisso tudo
Do que você tá falando?
Eu, você e o Arrasca
Tomei uma decisão de uma hora pra outra
Baseada em coisas que eu não entendia direito
Não levei em conta os terceiros envolvidos nessa história

Não faz isso
Não vai dar certo, Di
Por favor
Nós não temos mais nada além do sexo
Ficar junto é adiar o inevitável
Você vai fazer o mesmo com ele?


Ela se encostou no balcão central da cozinha como se aquilo pudesse lhe dar não só apoio físico como também psicológico. Pensou mil vezes sobre o que responder: a mentira, a verdade, uma falsa mentira, uma meia verdade... Queria contar o que realmente estava acontecendo. Apesar de tudo, Diego não merecia que ela escondesse as coisas dele.
Estava prestes a começar a digitar uma explicação quando sentiu que não estava mais sozinha. Arrascaeta surgiu, sonolento e esfregando os olhos.
– O que houve?
– Sem sono. – Ela deu de ombros. – Vim tomar uma água.
– Tá tudo bem?
Ele ia se aproximando e bloqueou a tela do celular, depositando-o sobre o balcão. Não queria se dar o luxo de ter sentimentos românticos por um homem novamente. Da última vez, tinha doído demais nela. E repetir tudo aquilo, na sua cabeça, estava fora de cogitação. Certas coisas eram feitas para serem vividas uma vez só. O problema era que Arrascaeta não tinha nenhum trauma e medo nulo de se envolver com ela, e se aproximou dela, segurando em sua cintura.
– Desculpa não ter te acordado pra pedir a roupa.
– Pode pegar o que quiser aqui.
– Não posso não.
– Pode sim. – Ele insistiu e deixou um beijo na bochecha dela. – Com fome?
Como ele adivinhou? foi o primeiro pensamento dela. Mas estava com fome sim, e não queria dar tempo para que Arrascaeta voltasse atrás, então simplesmente assentiu.
– A cozinha não tá muito bem abastecida, mas tenho pipoca de micro-ondas. Rápido e bom.
– Pode ser.
– Aconteceu alguma coisa. – Ele concluiu. – Seu tom de voz normal não é esse.
– Agora tem disso? – perguntou, com um sorriso triste no rosto.
Arrascaeta aproveitou a proximidade com ela e, ainda com as mãos em sua cintura, levantou o corpo da mulher até que esta ficasse sentada na bancada, um pouco mais alta que ele.
Dime que te passa.
Ela sorriu. Amava quando ele falava espanhol com todas as forças do seu corpo.
– Mandei uma mensagem pro Diego.
A sobrancelha do homem se arqueou como por um reflexo. logo tratou de se explicar.
– Disse a ele pra acabarmos com isso.
Te refieres a nosotros tres o...
– Só a ele. – respondeu.
O homem se colocou na ponta dos pés e alcançou os lábios da bela moça que o acompanhava. Ia falar alguma coisa mas, com aquele beijo, acabou esquecendo.
– Não quero que você vá embora pra Europa.
Ven conmigo.
– Não posso, Arrasca, tenho família e trabalho aqui.
Bien podría satisfacer todas sus necesidades con mi pago.
– Não quero isso, não quero depender de você.
Así que no dependas.
– Arrasca...
Yo te quiero, .
Ela puxou Arrascaeta pelo queixo e tomou os lábios dele nos seus novamente. Não queria ter parado nem da primeira vez.
– Você entende que eu nunca vou poder ser sua por completo? Que eu nunca vou poder ir ao shopping com você, passear de mãos dadas, ver um filme no cinema, curtir uma praia na sua folga...?
Quando o homem soltou uma risada, o rosto fitando o chão, ela ficou curiosa.
Ya lo arreglé todo.
– Como assim?
Incluso puede tener una cláusula en su contrato de trabajo que dice que no puede tener uma relación conmigo, pero nada me impide tener una relación con usted.
– Não to entendendo onde você quer chegar, Arrasca.
Hablé con el Mister.
– Sobre o quê?! – perguntou, os olhos arregalados.
Sobre nosotros dos. – Ele respondeu, com uma tranquilidade contrastante com o estado de espírito dela. – No sé si alguna vez te diste cuenta, pero él te ama.
– Você devia ter me consultado sobre isso primeiro!
Debería, pero entoces dirías que no.
– Por quê, né? – Ela gritou e empurrou Arrascaeta para longe.
Desceu imediatamente da bancada. Estava pronta para pegar seus pertences e ir para casa quando Arrascaeta a conteve pelo braço.
Ni siquiera me preguntaste qué dijo al respecto.
– Eu nem quero saber! – gritou. – Porra! O que você tinha na cabeça?
Dijo que eres la mejor mujer que un hombre puede tener en la vida. – Arrascaeta continuou calmo. – Que usted es una de las únicas que o dejaría que la relación obstaculice el desempeño profesional. Y luego, cuando le dije que ya nos estábamos involucrando durante algunos meses, me dijo que era mejor que te aferrara a ti y que no lo dejáramos escapar, porque tanto tú como yo estamos haciendo un trabajo increíble, cada uno con su proprio función.
– Arrasca...
También hablé con mis abogados y me dijeron que la compañía no puede evitar legalmente que tengas uma relación conmigo.
– Eu sei disso. – Ela disse, mais calma. – Mas aí eu ia bater de frente? Eles nunca iam dar a mínima pra mim, eu sou substituível pra caramba lá dentro. E mesmo que eu batesse de frente e não fosse demitida... Você acha que eles não iam retaliar?
Tal vez tomarían represalias si estuvieras com alguien, como dijiste, “malditamente reemplazable”. Pero no me pondrían en la calle, especialmente con lo que estoy haciendo.
– Eu não posso correr esse risco.
Tu no me estás entendiendo. No hay riesgo. No solo hablé con el Mister. Cuando la junta te habló sobre la campaña publicitaria de Adidas, ya lo sabían.
– Giorgian de Arrascaeta, o que você fez?
O peito da jornalista subia e descia lentamente. Ela se sentia pesada, ele se sentia mais leve. Os dois sustentaram o olhar um do outro por longos instantes. O passo havia sido dado. Se era arriscar muito, Arrascaeta descobriria. O que ele não aceitava era a existência da possiblidade de perder a mulher da sua vida, por quem estava perdidamente apaixonado e tinha certeza de que queria ao seu lado pela vida toda, simplesmente por não ter tentado.

―‖―‖―‖―


Diego
Fala
Você tem certeza de que não tá magoado?
Tenho
Já disse
Não me convenceu
Nem o que você disse
Muito menos seu olhar pra mim mais cedo
Você quer que eu fique feliz?
É a primeira vez em que vocês dois vão pra uma das nossas sociais como um casal
E você realmente queria que eu ficasse sorrindo?
Na verdade
Sim
Não tem como
Por quê?
Perder você não tava nos meus planos
Ah, Diego
Existem outras milhares de mulheres por aí
Todas doidas por você
Paizão
Um puta jogador de futebol
Capitão do hepta
Não tem como você saber
Aí é que você se engana
Porque eu tenho amigas
E nós conversamos
Do que você tá falando?
Você finge, né?
Só pode
Me faz um favor
Para de charme
Pra ontem
E coloca nessa sua cabecinha que eu não sou a única mulher do mundo
Mas é a melhor de todas
Ah, meu amor...
Aí você falou a verdade
Realmente não tem ninguém melhor que eu
Não tá mais aqui quem falou
Esqueci que seu ego é absurdo
Hahahaha
Eu só não quero que você fique chateado
Ainda gosto muito de você
De verdade
E quero te ver bem
Às vezes você até volta pra sua mulher
Acho difícil
Mas não disse impossível
Viu?
Já é um começo
Você quer falar alguma coisa?
Preciso tomar um banho e me arrumar
Vai sair?
Sim
Com ele
Diego
Não faz as coisas serem mais difíceis do que já são
Eu quero falar uma coisa sim
O que é?
Sinto muito por tudo
Você perdeu tempo comigo
E eu não podia te dar o que você queria
Mas eu realmente quis te fazer feliz
Do meu jeito estranho
Mas juro que quis
Desculpa o ciúme bobo
Desculpa ter agido como se você fosse minha
Espero que você seja feliz, mesmo com ele
Ah, Diego
Não tem pelo que se desculpas
Águas passadas não movem moinhos
Sem ressentimentos?
Sem ressentimentos
Ótimo então
Dá um beijo nas crianças por mim
É aniversário do Davi no final de semana
Ele perguntou se você vai
Posso levar companhia?
Pode

Llegaremos tarde! – O uruguaio gritou do banheiro.
sorriu para o celular, digitou uma resposta rápida e largou o aparelho em cima da bancada do banheiro dele. Estava passando mais tempo ali, na casa do jogador, do que jamais imaginou passar. Embora jurasse para si mesma que não ia mais dar tamanha confiança a outro homem, sentia em seu íntimo que podia confiar cegamente em Arrascaeta.
– Qual vestido que você acha melhor pra mim? – Ela perguntou, entrando debaixo do chuveiro.
Te ves tan sexy com rojo, así que te digo que te vayas on azul.
– Não quer que eu pareça sexy pra conhecer a sua família?
De ninguna manera.
– Então onde eu vou usar o vermelho?
Preferiblemente cuando te llevo a cenar a un restaurante caro y puedo mostrarles a todos que mi novia es la mujer más bella del universo.
– Você não conhece muitas mulheres, não é?
Al contrário. – Arrascaeta tirou a roupa e se juntou a ela, arrancando um beijo tão quente quanto a água que caía sobre eles. – He conocido a muchas mujeres en mi vida. Pero ninguna de ellas estuvo cerca de ser la mitad del paquete completo que eres.
Ele a tomou pela cintura e a puxou para cima, empurrando o corpo da mulher contra a parede. Desceu os lábios para o pescoço, cravando um beijo em cada ponto, sem deixar faltar nada. Tinha os dedos fincados na pele da parceira e não soltaria por nada.
Llegaremos tarde. – repetiu sua frase, também em espanhol, apenas para provocá-lo.
Vales la pena cualquier retraso.


Tudo por um Sim

Dezembro de 2023. O Flamengo havia segurado o uruguaio tanto quanto pôde. Seu desempenho ao longo dos anos só melhorou, o que necessariamente colocava olhos até então indesejáveis em cima dele. Propostas? Aos montes! Mas nem o Flamengo nem estavam dispostos a liberarem sua saída antes da hora. Porém chegaria a hora de renovar o contrato ou partir para novas experiências. Sabendo disso, o mercado europeu não tardou a entrar em contato com o seu empresário.
Fechando o ano com chave de ouro, como em seu primeiro ano, não foi surpresa nenhuma para Arrascaeta que as propostas chegassem aos montes. Na verdade, ele até esperava aquilo. Era o ponto mais alto da carreira de um jogador e, embora já estivesse com vinte e nove anos, sabia que ainda podia dar muito de seu futebol. Mesmo assim, mesmo com toda a euforia que o momento trazia, ele tinha uma preocupação maior. Ela.
O relacionamento entre os dois? Ia muito bem! Com a saída de Eric no último ano para se dedicar à mãe, que estava doente, e a um novo empreendimento, ficou a recomendação para que ela assumisse seu lugar. Como não houve quem fosse contra, agora era a responsável por todo o setor de comunicação do Clube de Regatas do Flamengo. Arrascaeta, com a aposentadoria de boa parte dos principais jogadores, havia tomado o posto de capitão. Com isso, teve a chance de ser o primeiro a levantar outras taças além das que ele já havia conquistado antes.
havia deixado no passado o pé atrás que tinha com a possibilidade de se envolver novamente com um homem. Arrascaeta era tudo o que ela precisa: gentil, carinhoso, educado, sincero e, sobretudo, respeitoso. Seu irmão aprovava, o que dava a ela uma margem de segurança, porque acreditava, com todas as suas forças, que Felipe tinha um faro para quem não prestava. Queria mesmo era que a mãe estivesse viva. Por algum motivo, desejava que ela o aprovasse. Mas como não podia ter isso, se contentava com o dia a dia ao lado dele.
Já Arrascaeta estava caído de amores. Desde que batera os olhos nela, ficou encantado. Era culpa da carência por estar solteiro há pouco tempo? Bem... Naquela época, talvez, mas o tempo havia mudado o jogador. Ele havia superado a barreira ‘Diego’ em mil diferentes aspectos, mas o único aspecto que realmente importava superar para ele era o coração de . Diego podia ser mais experiente, ter mais tempo com ela, mas Arrascaeta confiava em si mesmo ao ponto de garantir que seu sentimento era o melhor que podia oferecer a ela. O tempo ao lado da morena carioca só foi comprovando que ele havia feito a melhor escolha possível.
Os dois tinham acordos. Trabalho era trabalho, e um não se metia no do outro. Morar junto? Antes da hora?! Nem pensar! Se fosse para dar certo, teria que ser pelos termos certos, da forma certa, pelo caminho certo. Ao menos uma noite da semana deveria ser reservada exclusivamente para os dois, com duração mínima de quatro horas, sem celular, sem intervenção externa. Quando sugeriu essa parte, os olhos de Arrascaeta chegaram a brilhar. Contas? Divididas ao meio, sempre. E nada de presentes exagerados. Bem... Arrascaeta não tinha como ser perfeito em tudo, porque ele sempre falhava com nesse último aspecto. Mas não era com má intenção, isso nunca! Ele só queria que ela soubesse o tamanho da sua admiração por diferentes aspectos.
As novidades, no entanto, abalavam os dois lados. Tanto Arrascaeta quanto sabiam que esse dia chegaria, mas não sabia quando e Arrascaeta não sabia como. Nenhum dos dois tinham por hábito receber más notícias do outro. “Ah, surgiu um imprevisto no trabalho e vou precisar adiar o encontro”? Não tinha como acontecer, trabalhavam juntos. “Minha família precisa de mim e eu vou precisar ficar longe por um tempo”? praticamente não tinha família e a de Arrascaeta morava em outro país. “Fiz uma coisa horrível que vai te chatear, eu sinto muito”? Os dois viviam para trabalho e, quando não estavam nele, estavam juntos. Arrascaeta estava realmente perdido nessa.
– Ei, gatinha. – Ele a chamou na porta de seu escritório enquanto passava para o restaurante, no meio da preparação para o penúltimo jogo do time no Brasileirão.
o recebeu com um sorriso.
– Pode entrar, mas só se prometer ser rápido. Tenho que revisar e enviar um e-mail pra um representante do grupo Globo até meio dia e meio.
– É bem rápido. – Ele sorriu, colocando as mãos no encosto da cadeira que ficava de frente para ela. – Cláusula adicional.
– Hm, me conte.
– Hoje temos meio expediente, certo?
– Sim, certo.
– Então se arruma, vamos sair.
– Posso saber pra onde?
– Você escolhe.
– Sério?! – arqueou uma das suas sobrancelhas. – Essa é novidade.
– Vamos, escolhe. Você não disse que precisava ser rápida?
A mulher ponderou por um instante, passando o olho pelos objetos espalhados pela sua sala, procurando a resposta neles. A verdade era que sabia da sua capacidade de ser indecisa quanto a tudo e era por isso que Arrascaeta normalmente era o responsável pelas escolhas do casal.
– Shiso, você paga.
– Eu?! – Ele fingiu indignação. – Por quê?
– Porque você que está me chamando para sair. – sorriu e voltou a olhar para o computador, digitando rapidamente no teclado.
– Ok então. Posso te pegar às seis e quarenta e cinco?
– Você pode ir lá pra casa por volta das quatro, na verdade... – Sem olhar para ele, abriu um sorriso sacana que mexeu com o jogador.
– Vou chegar às duas. – Ele se aproximou dela, deixou um beijo na sua bochecha e correu para fora da sala.

―‖―‖―‖―


Arrascaeta deu uma última investida contra ela e, então, caíram lado a lado, ofegantes, na cama. virou o rosto para ele por um momento e sorriu com o que viu. Ele não pode evitar reagir com um sorriso também. Esticou o braço na sua direção e logo entendeu a intenção dele. Ela se aninhou junto ao peito do jogador, que envolveu seu corpo com o braço esquerdo.
– Não é como se houvesse uma vez sequer em que as coisas não tenham seguido um padrão de excelência, mas hoje... – fez uma pequena pausa para tomar fôlego. – Hoje foi realmente extraordinário.
Ele riu da fala dela e, puxando-a junto consigo, fez os dois ficarem de lado, um de frente para o outro.
Lo has dicho otras veces.
– É porque só vai melhorando.
Dessa vez, os dois riram juntos. Arrascaeta olhou fundo nos olhos de e ela sentiu como se aquele simples olhar pudesse envolvê-la por completo. Não era a primeira vez, naquele dia, em que os dois se beijavam, mas ainda era como se fosse a primeira vez de um beijo correspondido entre dois adolescentes no colegial, que se amavam mas demoraram uma eternidade para contar um para o outro.
Creo que tenemos suficiente tiempo para una segunda ronda.
– Sempre que você diz isso, a gente se atrasa.
Vale a pena cada retraso.
Ela riu e escondeu o rosto.
– O que houve? Tá todo romântico hoje...
¿No puedo ser romántico con mi chica?
– Pode, claro que pode, é que eu te conheço, Arrasca. – subiu o rosto de novo para que ficasse bem próximo do rosto do jogador. – Tem algo a mais aí dentro.
Quizás el ‘algo más’ es cansacio. Ya sabes, la edad se acerca...
– Para! – Ela brincou, deu um tapinha falso no jogador e, desvencilhando-se do seu abraço, levantou da cama. – Até porque eu sou mais velha que você.
O homem continuou deitado, observando detalhadamente cada movimento da namorada – com os olhos e outras partes do corpo. não tinha corpo de modelo, mas ele achava que era o corpo mais lindo do mundo. Às vezes, chegava a acreditar em misticismo, bruxaria ou qualquer coisa do tipo que pudesse provar que ela o havia enfeitiçado. Não que tivesse conhecido muitas mulheres na sua vida, mas ... Ela era uma história que valia a pena ser contada.
Enquanto era assistida, entrou no banheiro. Buscou pela escova dentro do armário acima da pia e começou a pentear o cabelo, desembaraçando todos os nós que Arrascaeta tinha acabado de causar em seus fios e o preparando para ser lavado. Podia ver pelo espelho que ele estava indo ao seu encontro. Deixou a escova sobre a bancada da pia, já que ia usar novamente, e entrou no box, ligando a água imediatamente.
Algo está mal.
– Por quê?
Estás tomando una ducha fría... Debes estar enferma.
– É pro cabelo, já falei com você. Pra fazer uma hidratação caseira, água gelada é muito melhor que água quente.
Pero odias el agua fría y te pica cuando no te das una ducha caliente.
Ela deu de ombros.
– Ah, ossos do ofício. Se eu quiser tomar banho quente, é só eu me conformar com um resultado pior.
Arrascaeta sorriu sacana, abriu a porta do box e entrou, ficando junto a ela.
¿Y a quién vas a vestir así?
– Pra você, seu bobo.
Si eres para mí, no necesitas vestirte para nada.
– Ok então, vou sair por aí como vim ao mundo e você dá seu jeito pra explicar pras colunas de fofoca. Pode ser?
De ninguna manera, eres mía. – Ele brincou, a puxando pela cintura.
– Ainda acho que tem algo errado com esse seu romantismo todo.
La explicación es simple, mi amor: te amo. Eso es todo.

―‖―‖―‖―


A verdade é que Arrascaeta estava suando frio desde que tinha saído da sua casa, rumo ao apartamento da sua amada, e tinha até ficado surpreso com sua boa performance na cama. Entregou as chaves do carro para o manobrista no Grand Hyatt com as mãos tremendo, fazendo o jovem que estava atendendo o casal quase perguntar se estava tudo bem. Era novembro, mas o calor no Rio de Janeiro já estava infernal. Mesmo assim, ele precisava do blazer, no mínimo.
esticou a mão para ele, a fim de que os dois andassem lado a lado ao entrarem no restaurante. Ele aceitou de bom grado, abrindo um sorriso e confirmando, mais uma vez, com a mão no bolso, que não havia esquecido o que mais precisava ter consigo naquela noite. Já havia passado das oito horas da noite e eles haviam gastado todo o tempo que tinham enrolando, deitados na cama, um curtindo a companhia do outro.
O maître nem precisou perguntar nada ao ver os dois se aproximando. Cordialmente, cumprimentou o casal e os guiou até a mesa reservada para eles mais cedo naquele mesmo dia. O garçom ofereceu o cardápio aos dois, que estavam sentados lado a lado. Um ofereceu uma opção ao outro e acabaram concordando.
– Dez nigiris sake, um temaki com sake, negi e ebi e um com maguro, kiuri e avocado. E quando estivermos terminando, aquele arroz com... Qual o nome mesmo?
Chirashizushi. – completou.
– E pra beber?
– Tem suco de maracujá da fruta?
– Temos sim, senhora.
– Pode me ver um, por favor.
– Dois. – Ele a corrigiu.
Esperou que o garçom se afastasse enquanto criava coragem. No entanto, ela foi mais rápida.
– E então... Qual é a ocasião especial?
– Por quê?
– Saída no meio de semana.
– Não é a primeira vez.
– Sem planejamento. – completou.
– Também não é a primeira vez.
– Eu vou te dar um tapa aqui no meio do restaurante se você não abrir essa boca, Giorgian.
– Quando você me chama pelo primeiro nome, realmente me deixa com medo. – Ele brincou. – Queria te fazer umas perguntas.
– Então faça, não precisa anunciar.
– Me diz três países que você gostaria de conhecer.
– Onde você quer chegar com isso?
– Vai, diz.
Ela revirou os olhos e se virou para ele.
– África do Sul, Nova Zelândia e Costa Rica.
– Sério? Sem Europa?
– Ah, o que a Europa tem de mais? Catedral de Notre Dame? Pegou fogo. Coliseu? Sempre muito lotado. Torre Eiffel? Igualmente. Big Ben? É só um relógio grande. Portão de Brandemburgo? Bem, tirando os shows que já fizeram por lá, é a mesma coisa que o Arco do Triunfo, só uma construção. Agora imagina ecoturismo, onde todo dia você pode viver uma coisa nova, totalmente diferente da que viveu no dia anterior.
– Hm, vejo que você tem um ponto. – Arrascaeta observou e desviou o olhar dela por um instante para tentar pensar no próximo passo. – Nunca quis conhecer a Espanha?
– De bom, eles só têm alguns cantores, no máximo. Ah, e o Marí. O Marí foi um presente que a Espanha deu pra gente. – Ela riu. – Mas o que tem a Espanha?
– Madrid tem uns pontos turísticos legais, sabia? Tem um tal de jardim que eu não lembro o nome, é muito bonito. Acho que você ia adorar.
– Tá, mas e daí?
Arrascaeta voltou a olhar nos olhos dela e a conexão pareceu ser instantânea. A feição de foi perdendo o brilho pouco a pouco, dando lugar a uma expressão apática.
– Quem?
– Atlético de Madrid. O Manchester City também fez uma oferta, mas não tão boa quanto a deles. Outras da Ásia que também não valem a pena falar...
– Você vai embora então. – concluiu.
– Eu não dei resposta nenhuma definitiva a ninguém, mas preciso dar. Quis falar com você primeiro, antes de mais nada.
– A conversa era que iriam renovar com você por mais dois anos, pelo menos, no Flamengo.
– E eles fizeram essa oferta, mas não é tão boa quanto. Além disso, você sabe como é meu sonho ir jogar na Europa, ainda mais em um time do escalão do Atlético de Madrid.
– Achei que tava certo de você renovar e ficar por aqui.
– Eu pensei em te contar antes, mas parecia melhor te dar toda a informação necessária, completa. Não vou mentir, , eu gostaria muito de ir.
– Não posso ir, Arrasca, não vou ter trabalho lá.
– Você é parte do acordo.
– Arrasca, meu espanhol é horrível!
– Não é não.
– Ah, claro, você acha tudo maravilhoso em mim.
– Eu estou falando sério.
– Arrasca...
– Tem outra coisa no acordo. – Ele a interrompeu, segurando em sua mão, voltando a suar frio. – , eu... Eu não... Eu tenho sonhos, sabe? Sonhos que eu tenho carregado comigo por mais de uma década. Mas eu não vou a lugar nenhum sem você. Sabe... Eu rodei o mundo e ninguém chegou perto de se comparar a você. Eu aguento o que tiver que aguentar, passo pelo que tiver que passar, mas só se for com você do meu lado e... , eu preciso de você, e eu preciso que você entenda isso. Eu sei que posso viver sem você, mas eu não quero. E sabe... Não importa qual seja a resposta pra Espanha, pra Inglaterra ou pra qualquer lugar no mundo, desde que a resposta pra minha próxima pergunta seja um ‘sim’.
O jogador não se esforçou muito para chegar a cadeira para o lado ao se levantar. Conforme ia falando, o nervosismo aumentava e seu volume de voz também, o que acabou chamando a atenção dos outros clientes e funcionários do restaurante. estava com o coração na boca e os olhos marejados. Não chorava facilmente, nem se lembrava da última vez que havia chorando antes daquela noite, mas estava tão emocionada que não podia se conter. A agitação tomou conta do local e os murmúrios foram aumentando de volume gradativamente. Então Arrascaeta colocou um joelho no chão, na frente dela, e tirou de dentro do bolso interno de seu blazer a caixa azul turquesa, na mesma cor do primeiro presente que deu a ela depois de declarar que queria que ela fosse só sua.
, – Ele respirou fundo, juntou todas as suas forças e terminou a frase após abrir a caixa e deixar à mostra uma aliança delicada e simples. – você quer casar comigo?

―‖―‖―‖―


Arrascaeta estava vislumbrado pelo que estava caminhando na sua direção. havia pedido à amiga maquiadora que não poupasse no custo do material, pois precisaria que fosse à prova de todas as lágrimas do mundo. Felipe, de braços dados com a irmã, não poderia estar mais orgulhoso por ser aquele que a levaria até o altar. A lista de convidados não passava de cem. Eram, em sua maioria, ligados ao Clube de Regatas do Flamengo de alguma forma, já que era onde havia passado praticamente metade da sua vida. A família do noivo se fez presente, mesmo na rapidez com a qual a cerimônia foi agendada. E isso só foi possível com a ajuda de um inesperado conhecido: Diego.
O casamento todo foi arranjado em menos de um mês. Faria sentido que a família de Arrascaeta viesse ao Brasil para celebrar o Natal e ficasse, já, para mais uma comemoração. Quanto a Diego, ele foi essencial para os dois terem o local perfeito para a cerimônia. Vista para o mar, um salão climatizado com decoração impecável, um gramado externo e um altar simples porém magnífico... Manter a amizade com Diego valeu a pena, principalmente por não esperarem que, após se aposentar do Flamengo, ele continuaria no Rio de Janeiro e investiria em um espaço para eventos do porte daquele. Quando quiseram acertar o valor, Diego insistiu que era um presente dele para o novo casal.
A burocracia no cartório foi o de menos. Contrataram alguém por fora para que todo o trâmite fosse realizado sem que houvesse trabalho por parte de ambos. Arrascaeta não se importou com o dinheiro gasto nessa parte e não iria reclamar. Fizeram uma lista de convidados às pressas, torcendo com todas as forças para não esquecerem ninguém. Decidiram, mesmo assim, todos os detalhes possíveis e impossíveis referentes a uma cerimônia daquela. Então restou para a tarefa mais difícil.
Com o tempo, a jornalista se familiarizou cada vez mais com as mulheres de outros jogadores, mas seu círculo de amigos – amigos mesmo – ainda era bem restrito. Por sorte, neste ponto, Marília pôde ajudar, mesmo à distância. Havia uma conhecida dela, que lhe devia um favor, que confeccionava vestidos de noiva. , então, partiu em disparada para a senhora que, mesmo em idade avançada, tinha mais disposição que ela. Após uma conversa de quase uma hora e meia, chegaram no modelo ideal.
O crochê cobria o vestido todo, desde as mangas cumpridas até a saia com a longa cauda. No cabelo, o ondulado fez o corte de parecer ser um long bob, finalizado lindamente com uma coroa de flores do campo que combinavam com o discreto buquê. A maquiagem não era muito elaborada, se tratava de um delineado esfumado com fundo marrom e batom nude. A simplicidade naquela escolha era por conta do primeiro elogio que recebera de Arrascaeta, quando percebeu que ele realmente gostava dela muito além do sexo. Aquela era a mesma maquiagem, feita pela mesma pessoa.
– Eu te mato se você não cuidar dela. – Felipe disse ao jogador quando entregou a mão de sua irmã nas mãos dele, mas abriu um sorriso logo depois e deu dois tapinhas nas costas dele.
Quem celebrou a cerimônia foi Eric, que deixou tudo o que estava fazendo para prestigiar o mais novo casal com a maior felicidade do mundo. Fez algumas brincadeiras, prolongou seu discurso mais do que o necessário mas, sobretudo, desejou as melhores coisas para os dois amigos que estavam à sua frente. Os dois trocavam olhares cúmplices e sinceros durante a cerimônia, não podiam conter o quanto estavam alegres com aquilo tudo. Até que chegou o momento da troca de alianças. poderia ser a extraordinária jornalista que era, mas não se sentia confiante o suficiente para colocar seus sentimentos em palavras, então acabou se atrapalhando na tarefa de escrever seus votos e decidiu, aos quarenta e cinco do segundo tempo, improvisar.
– Arrasca, quando a gente se conheceu... – Ela respirou fundo. – Tudo fluiu tão bem, sabe? Não vou dizer que a minha vida estava uma bagunça e você consertou. Eu tinha total domínio dela. O que você fez, na verdade, foi transformar tudo em uma desordem sem fim e... E eu me apaixonei sem perceber. Tive perdas na minha vida que não queria ter tido, vivi momentos que não queria ter vivido, mas eu sempre achei que fosse feliz. Só que, quando você chegou, eu descobri que a felicidade podia ir muito além do que eu já conhecia. Você fez meus dias ficarem melhores, você me fez ter esperança de novo em coisas nas quais eu nem acreditava mais, você fez as peças do quebra-cabeça se encaixarem com um passe de mágica. E eu espero, de coração, que a gente possa levar essa felicidade, essa lealdade que a gente tem um com o outro, pro resto das nossas vidas.
Ela sorriu enquanto colocava a aliança no dedo dele, tentando não tremer com o sistema nervoso entrando em colapso. Quando Arrascaeta pegou o microfone para começar seu discurso é que ficou óbvio que ele estava ainda mais nervoso que . Tinha preparado um lindo texto, salvo em seu telefone, e ia usá-lo. Claro, assim que parasse de tremer a mão.
... Uma das coisas que você mais disse, ao longo desses anos, que gostava em mim era quando eu falava em espanhol, então gostaria de pedir desculpas aos convidados mas, nesse momento, o importante é que você entenda. – Ele riu e olhou para o celular, relembrando as palavras e o devolvendo ao bolso para que pudesse olhar para a sua futura esposa. – Han pasado cuatro años desde la primera vez que te vi y no, no me di cuenta de que me ibas a cautivar ni una décima parte de cuánto me cautivaste. Pero entonces estabas lleno de sonrisas todos los días, tenías una educación que rayaba en lo loco y una energía hermosa para ver. Ganaste mi corazón mucho antes de que lo supiera, y mucho antes de que lo supieras también. No niego que, como tú, no tenía ningún deseo de tener una relación romántica en ese momento, pero todo lo que sucedió entre nosotros fue más fuerte de lo que podía predecir, así que supongo que puedo decir que mi sentimiento por ti se salió de control desde el primer momento. Muchos de ustedes aquí entienden que cuando están en una posición como la mía donde hay mucho dinero, o crecen con alguien ya que no tenían dinero o nadie o casi nunca encuentran a una persona que realmente tenga sentimientos para ti y no te quiero por mero interés. Debido a lo que me pasó antes, había perdido la esperanza de encontrar a alguien para mí y estaba seguro de que cualquier mujer estaría interesada en sí misma, pero... Bueno, siempre estabas dispuesta a romper los estereotipos, ¿no? – Alguns dos convidados que estavam entendendo o discurso acabaram deixando escapar uma risada junto com , o que deixou Arrascaeta menos nervoso. – Ambos tuvimos un trauma amoroso en nuestro pasado y ambos sufrimos por más tiempo del necesario. Pero está bien, nos trajo aquí y no podría estar más feliz. Con este nuevo gran paso en nuestras vidas, espero poder soportar todas las sonrisas, todos los buenos momentos, toda la felicidad que hemos compartido hasta ahora. Y si algo sale mal en el camino, querida, levantaremos la cabeza y lo arreglaremos. Seamos orgullosos de los que nos miran desde el cielo y de los que nos miran desde la tierra. Y no importa lo que suceda de ahora en adelante, mientras estemos juntos, no hay nada de qué preocuparse, seremos fuertes el uno con el otro y el uno para el otro para superar cualquier dificultad. Ha sido el motivo y la inspiración para todos mis logros hasta el momento, y lo seguirá siendo, sin duda. Agradezco a tu hermano por confiar en mí en una persona tan maravillosa contigo y le aseguro que haré que esa confianza valga la pena. Eres lo primero en lo que pienso cuando me levanto y lo último en lo que pienso cuando me voy a dormir. Compartir todos los días a partir de ahora, a tu lado, me hará el hombre más feliz del mundo, con absoluta certeza. Ya sea en Río de Janeiro, España, Inglaterra, la Luna o en cualquier otro lugar de este universo, prometo respetarte incondicionalmente hasta el último día de mi vida. Y pasaré todo mi tiempo y energía tratando de convertirte en la mujer más feliz del mundo todos los días a partir de ahora.
A coisa mais difícil de acontecer era ver chorar. Era um molequinho para todos que a conheciam, mas era mais delicada que uma flor por dentro. Não deixou que a vissem chorar muito quando perdera a mãe porque achou que se fingir de forte ajudaria. No fundo, ajudou, ela concentrava sua dor quando estava sozinha e se aliviava nessas horas também. Tinha, no máximo, a companhia do irmão quando estava nesse estado, e era bem útil. Mas não estava ligando nem um pouco para que todos a vissem chorar como um bebezinho. Estava chorando de felicidade. Nem se lembrava da última vez em que tinha passado por um momento daqueles em sua vida.
Ignorando todo o protocolo adotado em um casamento, puxou Arrascaeta pela mão quando o jogador terminou de colocar a aliança em seu dedo e o beijou. O casal foi ovacionado logo em seguida e não demorou muito tempo depois daquele gesto singelo para que a cerimônia fosse encerrada. Era oficial: Arrascaeta e eram, enfim, marido e mulher.

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deu uma olhada em volta, ficando quase desnorteada com a quantidade de caixas sobre caixas espalhadas pelo que havia sido, um dia, sua sala de estar. Chegou até a achar que poderia sentir saudades dos seus móveis, mas não sabia que era tão desconectada do materialismo.
– Essa é a última caixa do escritório. – Arrascaeta colocou no chão, ao lado dela, puxando-a pela cintura. – Você tem certeza disso? Sabe que vou acatar a sua vontade, não importa qual seja.
– Tenho sim. – Ela sorriu e lhe deu um beijo.
– Então... As caixas com fitas vermelhas são para o lixo, certo?
– Isso. As amarelas são doações.
– Olha quem chegou! – Felipe gritou da porta do apartamento, que estava aberta.
– Titia! – O pequeno Theo entrou correndo, disparando até os pés de , que se abaixou para o pegar no colo. – Oi, titia.
– Oi, meu amor. Deu um ‘oi’ pro seu tio?
– Oi, tio. – Ele disse, escondendo o rosto com um sorriso no pescoço da tia, provocando uma pequena gargalhada em Arrascaeta.
– Desculpem o atraso, o trânsito na Linha Amarela estava um inferno.
– Nada novo sob o sol. – disse antes de abraçar o irmão. – Tem alguma coisa que faltou acertar?
– Passamos luz, TV a cabo e internet pro meu nome, certo? Então acho que é isso. Qualquer coisa, eu uso a procuração.
– Titia? – A criança chamou a mulher. – É verdade que você vai embora?
– Vou sim, bebê. Mas a tia volta, tá? – abaixou com Theo no colo e, colocando-o no chão, se ajoelhou ao seu lado. – A tia vai de avião lá pra longe, pro tio jogar bola em outro lugar. Um dia, o papai vai te levar lá na minha nova casa. Outro dia, a tia vem pra cá te ver. Enquanto isso, você vai ficar morando aqui na casa da tia. Você pode tomar conta da casa pra mim?
– Posso sim. – Ele disse com um sorrisão largo de orelha a orelha.
– Ótimo, campeão.
– A Pri pediu desculpas por não vir se despedir, ficou presa numa reunião importantíssima da empresa. Talvez ela ganhe aquela promoção.
– Isso é maravilhoso, Fê! – disse. – Vai ser tão bom pra vocês dois...
– Vai mesmo. Mas chega de conversa, antes que fique sentimental. A equipe de mudança já vai chegar pra levar as coisas de vocês pro aeroporto. Isso sem contar com o trânsito. A Linha Amarela tá ruim, mas ir pelo Alto da Boa Vista tá pior. Teve um acidente feio com um ônibus e um caminhão agora a pouco, acabaram de anunciar no rádio.
– Perfeito.
O interfone tocou, era o pessoal da mudança que estava vindo da casa de Arrascaeta para pegar as malas com roupas e acessórios indispensáveis no apartamento de . Carregaram o pequeno caminhão rapidamente com o que restava e, então, seguiram os quatro para o aeroporto.

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NA NOITE ANTERIOR

Como haviam entrado no recesso entre temporadas do futebol sulamericano, boa parte dos amigos do casal puderam estar presentes na festa de despedida organizada por Rodinei, cujo contrato com o Flamengo havia vencido no ano anterior e estava, então, oficialmente jogando pelo Internacional ao invés de ser um simples empréstimo. Ele e a mulher estavam no Rio de Janeiro para rever amigos durante as férias e aproveitaram para juntar, uma última vez, todos da época de ouro do Flamengo.
– Então é verdade. – ouviu a firme voz atrás de si, sem ver ainda seu interlocutor.
– O quê?
– Que você vai embora.
– Com o casamento sendo feito às pressas, você ainda tinha dúvidas?
– Achei que fosse empolgação. Você gosta de ser bem impulsiva às vezes.
Gostava. – o corrigiu. – Mas as circunstâncias são outras agora.
– Como vai ficar nosso acordo com você do outro lado do Atlântico?
– Ainda vou ser sua assessora, Diego. Não preciso estar perto de você pra isso. A não ser, é claro, que você não queira mais.
– Vai viver disso agora então?
– Ainda é uma surpresa, você vai descobrir em tempo.
– As crianças vão sentir falta da tia .
– Seus filhos são mais resilientes que você, querido. – Ela brincou, finalmente se virando para olhar em seus olhos. – Esse é seu jeito discreto de dizer que vai sentir saudades?
Diego deu de ombros.
– Pode ser que sim.
– Se for, então, fique sabendo que eu também vou sentir. E obrigada, Diego.
– Pelo quê?
– Por ter feito parte da minha vida. Se não fosse por você, talvez eu não estaria aqui.
– Ele te faz feliz?
– Faz. Pra cacete.
– Então vai fundo, .
Ela sorriu ao ouvir a fala do ex-jogador e ele deixou um beijo na testa dele.
– Se tivéssemos nos conhecido em outro momento...
– É, talvez teria dado certo.
– Eu acho que te devo desculpas, sabe? – Diego falou. – Eu estava em um momento de carência, não estava pensando bem, vi sentimento onde não tinha... Claro que você me cativou depois, mas isso é outra história. Mas agora, olhando do ponto de vista que tenho hoje, acho que eu só precisava de uma amiga.
– Se você não continuar atrasando meus pagamentos, vai continuar tendo uma. – fez mais uma brincadeira, esbarrando nele de propósito com o braço. – Agora eu preciso voltar pro meu esposo. Você tá muito melodramático, deve ser a idade se aproximando.
– Dizem que mulheres adoram quarentões.
desviou o olhar para o chão antes de olhar para Diego uma última vez, rindo dele. Saiu de perto sem dizer mais nada e foi até Arrascaeta. Este brilhou os olhos ao vê-la e os dois tocaram os lábios rapidamente, embarcando em uma conversa animada com Rafinha e a mulher, quase xará de .
Diego observou o novo casal em silêncio. Não se arrependia, nem por um instante, de ter deixado as coisas fluírem como deixou. Sobretudo, queria que ela fosse feliz. Se ter outra mulher além da mãe de seus filhos fosse seu destino, tudo bem para ele. Entender que ele não precisava de alguém ao seu lado para ser um bom homem foi o primeiro passo para a melhor fase da sua vida. Agora, restava torcer para que os amigos fossem felizes no país onde ele, anos antes, tinha sido feliz também.

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O jogo estava tenso, era tudo ou nada. Após bater o Valencia e o Manchester City, nessa ordem, o Atlético de Madrid tinha uma tarefa pesada: parar o melhor ataque do campeonato, que pertencia ao Bayern de Munique. Até que, aos doze minutos da prorrogação de um jogo glorioso porém sem gols, uma mente brilhante viu a possibilidade onde ninguém mais viu. Passou por entre os dois zagueiros do seu time e foi marcado até o último instante pelo lateral alemão. Ao aparentar não ter outra opção, tocou para o seu companheiro de time, centro avante, e correu para a entrada da grande área. O centro avante deixou a bola com o lateral esquerdo, que cruzou. O goleiro do Bayern tentou pegar a bola de primeira, mas acabou escapando. Um dos zagueiros alemães tentou tirar a bola da área de qualquer jeito, porém o destino já havia sido selado. Com a bola na ponta dos pés, Arrascaeta driblou o primeiro, driblou o segundo e chutou. Gol. Três minutos depois, o árbitro apontava o meio de campo. O Atlético de Madrid era campeão da Europa.
Enquanto os torcedores vibravam, os jogadores comemoravam uns com os outros e os jornalistas entravam em frenesi, o uruguaio só tinha olhos para um local: a arquibancada. Deixou o campo em disparada. Os torcedores estavam agitadíssimos com a presença do herói do jogo entre eles, mas Arrascaeta nem os viu. Terminou seu caminho quase sem fôlego, mas tomou a mulher nos braços assim que a encontrou e a apertou com o tanto de força que restava. Ajoelhou aos seus pés e beijou sua barriga, deixando lágrimas escorrerem pelos seus olhos. não estava diferente. Então levantou-se novamente e beijou a mulher mais uma vez.
Mi amor, eres responsable de todo esto.
No soy yo quien marcó el gol.
Pero tienes el corazón del tipo que marcó el gol. – Ele respirou fundo e a beijou de novo. – Lo hiciste, me trajiste aquí, me motivaste todos los días y me apoyaste en todo esto. Me hiciste campeón, mi amor. Te amo, te amo, te amo, te amo...
Sabes que yo también te amo, ¿no? Yo y nuestra hija.
Ao dizer isso, repousou a mão sobre a barriga, acariciando de leve. Arrascaeta abriu um sorriso enorme, beijou sua esposa e, em uma atitude impensada, a tomou em seus braços, carregando arquibancada abaixo como se fosse um bebê. Era tudo o que queria: havia sido campeão do Brasil, campeão da América e, finalmente, campeão da Europa. Mas Arrascaeta só pensava no quanto ser campeão do coração de quem se chamava, então, de Arrascaeta – só de pensar que havia dado seu sobrenome a ela, chegava a ter arrepios – era muito mais importante que todos aqueles troféus. Era mais importante que ser campeão do mundo, da galáxia ou do universo. Aquilo era o que o tornava capaz de acordar todo dia com um sorriso no rosto, pronto para encarar o que viesse pela frente, porque já tinha tudo o que precisava ao seu lado.


Fim.



Nota da autora: A fic foi repostada só pra vocês terem tudo em uma página só, pra maior comodidade de vocês. Agora, pra ler tudo o que já teve sobre essa saga, você não precisa mais pular de página! Mas não se esqueça de deixar um comentário aqui embaixo, por favor.




Lembrando que os capítulos eram separados em shorts e cada um tinha uma capa diferente. Como as capas e os aesthetics foram solicitados e feitos com muito carinho, deixo o link dessas artes maravilhosas aqui pra, quem não viu antes ou quem quiser rever, possa ter acesso a mais alguns dos trabalhos perfeitos da Flávia:


CAPAS:

01.Tudo por um Beijo
02.Tudo por um Gol
03.Tudo por um Momento
04.Tudo por um Amor
05.Tudo por um Sim


AESTHETICS:

01.Tudo por um Beijo
02.Tudo por um Gol
03.Tudo por um Momento
04.Tudo por um Amor
05.Tudo por um Sim




Para ver mais do trabalho da Flá, acesse a galeria dela no Flickr clicando aqui.





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Aqueles Malditos Olhos Verdes [Jensen Ackles - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em Andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Para Ter Você Nos Meus Braços [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]
Por um Acaso do Destino [Clube de Regatas do Flamengo - Em Andamento]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Shortfic]


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