Última atualização: 24/09/2018

Capítulo 1

8:24 AM. Chicago, Estados Unidos.

O que é pior: bater o dedinho na quina do móvel ao levantar, ou aguentar a indestrutível felicidade de Duhon logo de manhã? Pergunta difícil...
- , eu nunca mais te trago pra cá comigo! Você não fala, você grita! - repreendi meu melhor amigo que não se importou nenhum pouco, bebericando o seu café que estava em mãos.
- Eu estou fazendo de propósito pra você passar vergonha mesmo. - ele deu os ombros com um sorriso de falsa inocência no rosto, e não teve como não rir - A propósito, quanto bofe incrível, menina! - ele entornou o pescoço para encarar um rapaz bem vestido que andava em direção a saída, enquanto nós, estávamos indo em direção ao elevador.
- Se controle! Tente não tarar, não flertar e nem apertar a bunda de ninguém, me ouviu bem? - arregalei os olhos em desespero, praticamente suplicando, e a risada de tomou conta do saguão. A única explicação pra tamanho escândalo era: ele só podia ter um microfone na garganta! Era a única explicação viável.
- Prometo me comportar!
Subimos os 12 andares num completo silêncio dentro do elevador. A porta se abriu, e andei com pressa até minha sala, pegando os documentos que desejava, que na verdade eram para . Me virei na esperança de encontrar meu amigo. Nada. Marchei para fora dali, caminhando com certo desespero, o encontrando na mesa de Violet, que dava atenção total a ele. Não era a primeira vez que ia até meu trabalho comigo, e por algum motivo, ele e Violet conversavam horrores todas as vezes que se viam feito vizinhas fofoqueiras.
- Está na sua hora, meu bem! - forcei uma voz carinhosa, erguendo o envelope com os papéis que precisava.
- Meu Deus do céu, que homem da porra! Queria eu trabalhar aqui pra ver essa beldade todo dia! - sussurrou com felicidade para Violet, e quando me virei, lá estava ele. Droga.
- Cala a boca e sai logo daqui! - bati o envelope em seu braço, já impaciente.
- Ui, mulher! Já estou indo. - ele fingiu estar machucado. Como sempre. Uma folha de árvore não podia bater em seu corpo que já se sentia espancado.
- Esse garoto é o melhor gay que eu já conheci em toda a minha vida! - Violet gargalhou com aquilo, acenando em despedida para meu amigo que andava em direção ao elevador, jogando beijos no ar para nós duas.
- Eles são tão divertidos, né? Ser quem eles realmente são, faz um bem danado! - não resisti, me rendendo ao sorriso que se formou em meu rosto. Nosso papo foi interrompido quando berrou o nome de Violet, e essa foi a minha deixa. Voltei para o meu cantinho, ajustando toda aquela papelada que acumulei no dia anterior. Ser paralegal é tão complicado quanto ser advogada. Ou quase isso.
- Querida, está te chamando. - Violet deu duas batidas em minha porta para chamar minha atenção, me lançando aquele olhar que me desejava força, coisa que eu sempre precisava quando ficava frente a frente com . Me levantei totalmente indisposta, bufando até chegar na porta de sua sala, entrando ali sem fazer questão de esconder a minha infelicidade de estar em sua frente.
- Bom dia, , como você está? - ele abriu um sorriso que mesmo sendo lindo, não apagava o fato dele ser um completo imbecil.
- Diga. - rolei os olhos, encarando minhas unhas que foram feitas na noite anterior por mim mesma. Não sobrou nenhuma cutícula sequer, que orgulho!
- Acho que deveríamos transar. - ele soltou aquilo sem mais nem menos, chamando minha atenção do pior jeito. Minha boca se abriu em indignação. Aquelas idiotices eram normais de sair da boca de , mas aquilo foi inédito.
- O que?
- Vamos pular toda essa bobagem de sedução. Eu sei que você gosta de mim, lindinha. - ele segurou sua risada, arqueando as sobrancelhas numa ridícula tentativa de me seduzir. Era brincadeira, óbvio, mas ainda assim, continuava sendo idiota e desnecessário, assim como o próprio .
- Ah cara, vai pra porra. - virei meu corpo para sair dali e poupar meus ouvidos de ouvirem mais algum absurdo, mas ele insistiu para que eu ficasse.
- Você não deveria falar assim comigo. Eu basicamente sou seu chefe, esqueceu?
- Então me faz um favor e me demite de uma vez, eu imploro! - juntei minhas mãos num teatro dramático.
- Você podia ter saído quando Gale se transferiu, mas você não quis, ou você se esqueceu? - ele se acomodou ainda mais em sua grande poltrona, deixando o humor de lado e se aprofundando num lado mais sério. Fechei os punhos, segurando a vontade enorme que tive de dar uma porrada naquele rostinho que arrancava suspiros de todas as mulheres daquele prédio - Ah é, você não quis ir junto porque ele se transferiu pra empresa do seu papai, e você quer ser a mocinha que conquista tudo sem estar na asa do pai, não é mesmo? - ele finalizou com um olhar cínico, e embora aquilo não fosse mentira, ele não tinha o direito de falar sobre a minha vida.
- Oras, mas não foi você que conseguiu tudo o que tem aqui graças ao papai também, ? Até onde eu sei, ele que deu duro pra conseguir um emprego pra você aqui, porque sabemos que você era um desleixado, não é mesmo? - entrei em seu jogo, dizendo tudo aquilo que descobri durante o longo ano que eu estava trabalhando ali. O olhar de foi de cínico para surpreso. Ponto pra mim!
- Quero todas as petições de ontem na minha mesa em um minuto, . - ele ordenou, claramente incomodado com o meu comentário. Saí dali com um sorriso vitorioso.


***

- , você tem mãos de anjo e eu nunca vou me cansar de falar isso! - me manifestei com a boca cheia de torta de framboesa que minha melhor amiga tinha feito. A doceria estava praticamente vazia, aliás, oito da noite é hora de estar na cama vendo um bom jornal, esperando algum programa bacana começar.
Não era nosso caso. Eu, e passávamos horas contando as aventuras do nosso dia, mesmo quando não tinha nenhuma novidade. Oh, sim. Somos melhores amigos desde... sempre. Nos conhecemos na escola e não nos desgrudamos desde então, embora os três tivessem a mesma opinião, que nenhuma amizade durava muito depois que a escola termina. Bem, nos surpreendemos juntos.
e tinham uma doceria juntos, embora minha melhor amiga também fosse fotógrafa.
- Você e precisam parar de discutir por nada! Eu hein, quem tem coragem de dizer algum desaforo para aquele maravilhoso? - questionou indignado após saber da minha pequena discussão com o rapaz. Essa era a reação dele sempre. Ele era, definitivamente, apaixonado por . Mas só pela aparência, porque ninguém se apaixonaria por aquele traste.
- Você está do lado de quem, seu falsinho? - cerrei os olhos, e meu melhor amigo fingiu estar completamente ofendido com aquilo.
- Eu não sou falsinho coisa nenhuma!
- , você e se enlouquecem desde a primeira vez que você pisou na Brooks Maxwell Firm. Isso já faz um ano e nada mudou! - disse em tom de advertência, como se aquilo fosse apenas um erro meu. Mas não, o erro foi todo dele, desde sempre.
Desde o meu primeiro dia na firma, eu ouvi inúmeras coisas sobre , tais como; ele é um safado; ele gosta de se sentir superior o tempo inteiro; ele gosta de tudo do jeito dele; ele acha que todas as mulheres desse planeta querem transar com ele. E foi assim que começou. Em minha primeira semana de trabalho, ele praticamente me comia com os olhos, e quando eu fui tirar satisfação, o bonito não gostou. Da pra acreditar nisso? Ele simplesmente não aceitou que uma mulher não estava interessada nele, e depois disso... Oh, vivemos em uma guerra diária de xingamentos e provocações, não no sentido sexual. Ugh. Não.
- Ta, agora podemos mudar de assunto? - pedi impaciente, enfiando uma garfada de torta na minha boca novamente. Meus melhores amigos se entreolharam, falhando porcamente na tarefa de dizer algo pelo olhar e me deixar fora aquilo. Eu os conhecia como a palma da minha mão e sabia quando tinha algo errado - O que foi, hein? Eu percebi essa troca de olhares!
- Não é nada. - os dois responderam ao mesmo tempo, deixando mais óbvio ainda que de fato, aquilo era uma mentira. Eu odiava quando rolavam esses joguinhos. Não fazíamos aquilo nunca, só quando... era sobre aquilo.
- Gente, está tudo bem. Vão fazer 4 anos e vocês ainda ficam sem graça em falar sobre essa data quando ela se aproxima? - tombei a cabeça pra esquerda, ignorando totalmente todo o incomodo que aquele assunto me trazia.
- , sabemos que não é fácil pra você, ainda mais quando sabemos que esse sofrimento vai se repetir daqui 9 meses. - mesmo sem querer, me olhou com aquele olhar de pena que ela sabia que eu odiava. Tudo bem, eu a perdoava, aliás, ela era a pessoa mais sentimental desse mundo inteirinho, e infelizmente não posso controlar as suas emoções. Já as minhas...
- Eu. Estou. Bem! - pontuei cada palavra com pausas prolongadas - Eu sei que vocês dois se preocupam comigo, mas a cada ano que passa eu me sinto... Melhor. Dói, claro que dói, mas vocês sabem que eu tudo mudou, e pra melhor! - me justifiquei com toda a sinceridade do mundo, tranquilizando meus amigos de qualquer dúvida que pudessem ter sobre os meus sentimentos em relação àquilo.
- Você nos enche de orgulho, sabia? Não acredito que uma mulher de 26 anos consegue ser tão forte como você é! - colocou sua mão sobre a minha, a acariciando. Seus olhares se deslumbraram, me deixando num estado totalmente sem graça.
A infância é algo incrível, mas também doloroso. Toda criança corre pra cima e pra baixo descobrindo o mundo, e com isso, se machucando. Toda pessoa tem uma coleção de cicatrizes pelas quedas da infância. Caímos muito, e como! Mas o melhor de tudo foi que não deixamos de brincar do mesmo jeito. Tem um porém. Se não tivéssemos correndo, e sim, andando, talvez não tivéssemos caído tanto. Bastava mudar esse detalhezinho. O que quero dizer com isso? Não deixe de viver porque um dia já se machucou. Eu lido assim com a minha vida, mas acredite, não foi fácil. Não foi mesmo. É tudo questão de mudança. Quando puder mudar, mude pra melhor. Sonhe, se abra, goste, ame... O risco sempre existirá, a dor poderá vir... Mas deixar de fazer as melhores coisas da vida por medo de fracassar é o único risco que você jamais deve correr. Não adianta estar vivo, mas não viver. É um alívio poder pensar isso depois de tanto sofrimento.


's POV
Bravinha, impaciente, imprevisível, inteligente, divertida e sarcástica. Essa é . Ela tem essa coisa... te faz ficar confuso, na dúvida, se perguntando o que diabos ela tá pensando e sentindo. O problema é que eu não dou a mínima pra isso. Ok, no começo até que eu sentia curiosidade em descobrir o motivo daquela cara tão fechada o tempo todo, mas conforme os meses passaram, ela se abriu mais e mais. é extremamente educada e bem humorada com todos, menos comigo. Essa é a melhor parte. Tenho que admitir que ela é diferente. Percebi isso no dia em que ela recusou, com todas as letras, o meu convite pra um drink. Ta bom, não era um drink que eu queria e ela sabia. Mas ela recusou. Re-cu-sou. Ninguém recusa nada com ! Depois daquele dia eu caí do cavalo. Eu estava tão acostumado a viver num mundo onde as mulheres se entregavam pra mim sem pensar, que aquele fora serviu como um... desafio. Eu não tinha pressa, mas sabia que algum dia, se renderia aos meus encantos.
- , amore mio, que tal almoçar comigo hoje? - perguntei sorridente, me encostando em frente à sua porta. Ela estava pronta pra sair, com sua bolsa em mãos.
- Vai pra merda. - ela rolou os olhos, bufando alto.
- Todo mundo aqui daria a vida pra um almoço comigo, sabia? Todos gostam de mim... Só você que fica aí, fingindo que me odeia. - Meu bem, eu não finjo nada não. Alias, se ninguém te detestasse, algo estaria errado. - aquele sorrisinho cínico triunfante tomou conta dos seus lábios. E que lábios! Os mais bonitos e carnudos que eu já tinha visto em toda a minha vida. - Assim você me magoa. - desprendi minha atenção daquela boca que provavelmente fazia coisas incríveis e coloquei a mão no peito, num falso teatro em mostrar o quão magoado eu estava pelo seu comentário.
- Ótimo! - ela andou pra fora dali, esbarrando em meu corpo e acenando em despedida. Que mulher!
- Olha só se não é o associado mais incompetente que essa empresa já viu. - a voz irritante de Hank Wells e sua presença mais irritante ainda se fizeram presentes, e foi preciso um belo suspiro para manter a calma.
- Vai se foder. - soltei a única coisa que eu conseguia dizer todas as vezes que tinha a infelicidade de trocar algumas palavras com aquele imbecil.
- Sabe, quando eu era adolescente, meu pai dizia "Trabalhe até sua conta bancária parecer um número de telefone", e olhe onde estou agora! Minha conta definitivamente parece um número de telefone e estou prestes a me tornar sócio nominal. Já você... - ele fez questão de jogar as suas conquistas na minha cara, como sempre fazia. Dava até sono.
- Uau. - não disfarcei o tédio que aquele assunto vindo dele me causava, me afastando dali e entrando novamente na minha sala. A hora do almoço raramente servia pra mim. Era o horário em que a maioria saía dali, ou seja... mais silêncio, mais paz, e mais agilidade nas minhas ações.
- Saco vazio não para em pé, . - Maggie Maxwell parou em frente à minha sala, cruzando os braços ao ver que não tinha nada de comida por ali. Ela era uma espécie de chefe e... mãe.
- Estou sem fome, meu amor.
- Você precisa parar com esses apelidos. Eu já te falei que sou casada! - ela fingiu estar brava, mas eu sabia que no fundo, bem no fundinho, ela adorava. E não, eu não a tratava bem só por ela ser a minha chefe. Ela realmente merecia. Não, também não tenho segundas intenções com ela. Mesmo Maggie no auge dos seus 50 e tantos anos, ela estava melhor do que muitas jovens por aí. Não, isso também não importa muito. Sempre admirei o trabalho dela na Brooks Maxwell Firm, mesmo... mesmo não tendo me esforçado tanto pra estar ali.
Não vem ao caso. Papéis pra lá, papéis pra cá. Duas reuniões durante a tarde, e finalmente, a hora de ir embora. Claro, eu precisava acabar o expediente com chave de ouro. Me levantei e fui direto pra sala de , onde ela não estava. Estranho. Ela nunca era a primeira a ir embora, e sim uma das últimas.
- Ela acabou de sair, meu querido. - Violet passou por mim, dizendo aquilo enquanto caminhava até o elevador, acenando em despedida. Dei uma última olhada no local, observando que o celular dela estava na mesa, junto com uma pasta preta. Pelo visto alguém estava bem desatenta. Peguei aquilo e saí da sala rapidamente, na esperança de pegar o elevador com Violet.
Não deu certo. Eu desci aquela caralhada toda de escada até chegar ao estacionamento. Qual é, eu sei ser bacana às vezes. O celular acendeu com uma mensagem de , e pude observar o papel de fundo; ela estava com um garotinho negro sentado em seu colo, que sorria lindamente, assim como ela. Não parecia ser algum parente ou algo do tipo, mas aqueles sorrisos... pareciam que estavam conectados. Tentei deduzir o local pelo cenário, mas também não me ajudou. Deduzi então, ter sido algum serviço comunitário que fez há não muito tempo. A foto não parecia ser antiga. E então veio a curiosidade da pasta. Eu estava nos últimos degraus, e me encostei brevemente ali para abri-la. Desenhos. Um monte deles! Mas não eram desenhos de objetos, e sim, de roupas. Espere aí, eu sei o nome disso.... CROQUI! É isso, croqui. Uma pasta cheia deles. tinha um talento absurdo para aquilo, e creio que ninguém da empresa sabia. Nunca ouvi nenhum comentário sobre. Abri a porta que dava entrada ao estacionamento, correndo até a vaga de . Ela estava ligando o carro, e franziu a testa ao me ver correndo em sua direção.
- O que você est... - ela se calou ao ver sua pasta em minhas mãos, assim como seu celular - Por que você está com as minhas coisas?
- Nada disso, gatinha! Você esqueceu e eu vim trazer, só isso! - me defendi rapidamente, e aquele olhar nervoso que estava estampado em seu rosto foi desmoronando. Ela respirou fundo, abrindo um sorriso sem mostrar os dentes. Entreguei suas coisas, e antes que ela se apressasse para sair dali, fiz a pergunta que estava rondando em minha mente - Você viajou pra fazer caridade?
- ... - ela tombou a cabeça pro lado, se mostrando um pouco desconfortável com a pergunta. Claro que ela se sentiria assim, afinal, só conversávamos para nos provocar.
- Vai, , o que te custa responder? Nunca tivemos uma conversa séria.
- Por que será, né? - ela arregalou os olhos como se quisesse chamar minha atenção. É, eu vivia enchendo o saco dela e talvez fosse por isso que nossas conversas nunca fluíam. Talvez não, é exatamente por isso.
- Você viajou pra fazer caridade? - ignorei aquilo e refiz a pergunta.
- Sim, eu já viajei pra fazer caridade. Você xeretou meu celular, é? - ela cerrou os olhos desconfiada.
- Ele acendeu com a mensagem do seu amigo . Eu só olhei!
- Ah sim. Bem, eu viajei pra Quênia há 3 anos. - ela se limitou com as palavras, mas aqueles olhinhos brilharam de um jeito que só naquele instante eu percebi o quão lindos eles realmente eram.
- E como foi? - me encostei na porta do seu carro, e ela nem mesmo reclamou. Aquela lembrança a atingiu completamente, a ponto de tirar sua atenção de mim.
- Quando eu cheguei, foi um puta impacto. Eu me senti tão mal, tão triste. Mas depois eu consegui ver a beleza daquele lugar tão pobre. Foi difícil, mas eu consegui. Eles são gratos por exatamente tudo, principalmente à atenção que é dada. Foi simplesmente... incrível. - ela suspirou, fechando os olhos e encostando a cabeça no encosto do banco. Eu sorri. Não consegui não sorrir. Pela primeira vez em pouco mais de um ano, tivemos uma conversa que durou mais que 20 segundos sem nenhum xingo ou grito furioso. E também foi... incrível.
- Isso é muito bonito, . Você fez uma ação muito importante. Parabéns!
- É... Quero ir pra lá de novo em breve. - ela abriu um sorriso sincero, abrindo os olhos e acordando daquele transe. Ela arregalou os olhos minimamente, provavelmente se surpreendendo por estar falando sobre aquilo logo comigo. Ela se endireitou novamente, pondo as mãos no volante de maneira determinada
- Boa noite, . Até amanhã.
E então ela foi... E eu nem tive chance de perguntar sobre os desenhos.
Eu corri bastante durante esses anos da minha vida uma maratona inteira chamada faculdade e cheguei aqui. Eu sou advogado e é uma paralegal. Ela viajou pra África, e pelo pouco que disse, eu pude perceber e sentir o quanto ela gostou. Uma viajem caridosa. E é aí que a dúvida aparece: o que você tem consumido como verdade absoluta? No quê você tem acreditado a fim de tentar viver nesse mundão louco? encontrou a beleza em meio à pobreza. Eu me encontrei no direito. Eu me esforcei pra caralho pra chegar aonde estou, mesmo com os obstáculos que quase me tombaram. Depois de um ano, tivemos nossa primeira conversa séria. Tenho que admitir que aqueles olhinhos encantados, me encantaram. Eu podia ser insuportável pra caralho com ela, mas era a mulher mais linda daquele prédio sem duvidas, mas só naquele momento eu pude enxergar sua verdadeira beleza... É como se o desafio tivesse ficado ainda mais sério, e muito mais interessante também.


Capítulo 2

Foi-se o tempo em que eu conversava com o túmulo dos dois. Aprendi com os sinais que, eles sabiam de tudo que eu estava sentindo, e então eu apenas venho ao cemitério e sento no meio de suas sepulturas. 4 anos sem Caleb Campbell, meu eterno amor, namorado e noivo. Quase 4 anos sem o meu pequeno Connor Campbell. Nunca gostei de perguntas sem respostas. Tipo: "Para onde vamos após a morte?" Sei o que acontece fisiologicamente falando, mas, além disso, o que realmente acontece? Nada? É isso que nos perguntamos, quando nosso tempo é limitado. Todas essas perguntas sem respostas nos enlouquece às vezes. É por isso que gosto do que eu faço. Eu ajudo a lei. Sem perguntas, apenas respostas claras, precisas, e óbvias. Nunca me preocupei muito em pensar sobre a vida após a morte. Mas quando eu os perdi... Era só nisso em que eu conseguia pensar. Então eu tive todos os sinais. Mesmo em outro lugar, mesmo não estando fisicamente ao meu lado, meus garotos me fizeram enxergar que minha preocupação deve ser com essa vida. A minha vida. E em como deixaria minha marca. Eu sempre quis ser um tipo de pioneira. Deixar um legado. Ainda quero que meu cérebro, minha existência… Signifique algo. Por eles. Pelos meus garotos. Eu prometi que tudo vai valer a pena. Mas tem essa coisa... Esse buraco. Esse sentimento estranho. Eu já tentei de todas as maneiras, mas isso não passa. Eu não faço ideia do que seja. Quem sabe um dia eu descubra, não? Tenho a vida toda pra isso... Ou não.
Deixei as flores ali, uma pra cada um. Uma parte do meu coração continuou ali, e sempre continuará. Dei passos longos até meu carro, e logo a música Over, do Kings of Leon começou a tocar. O CD da banda nem mesmo saía do meu radio. Acho que pode ser considerado como vicio. E começa de novo, a mesma coisa. 12 andares, a porta abre, e...
- Bom dia, querida. ) pediu pra te avisar para ir pra sala dele no minuto em que você chegasse! - Violet, como sempre, dando um show de simpatia. Custei a acreditar que ela estava ali simplesmente me esperando chegar, mas ela fazia tudo para ) .
Tudo mesmo, parecia até mãe dele. Dei um beijo estalado em seu rosto e me direcionei até a sala daquele estrupício, que assim que me viu, pareceu ter... se animado. Não, não foi lá embaixo que se animou.
- Bom dia. Você dormiu bem? - ele perguntou simpático. Sim, simpático, pela primeira vez. Sem ar de segundas intenções e sem apelidinhos. Só podia ser uma pegadinha.
- Hoje estou sem saco para joguinhos, . O que você quer? - bufei, cruzando os braços e contando os segundos para ver aquele teatrinho acabar.
- Quero te conhecer. As únicas coisas que eu sei sobre você são as informações do seu currículo e que você viajou pra África. Quero saber mais. - ele disse sereno, sem se abalar com a minha grosseria. Aquilo definitivamente era uma pegadinha!
- Você sabe de tudo o que precisa saber.
- Porra, . Você conversa com todo mundo desse prédio numa boa, por que comigo tem que ser diferente? - ele deu os primeiros sinais de perda de paciência, um tanto quanto indignado.
- Porque você foi um imbecil desde o meu primeiro dia aqui, e você continua sendo.
- Você gosta de moda, não gosta? Eu vi seus desenhos. Você arrasa em cada detalhe, sabia? Eu não entendo muito bem disso aí, mas estava tudo tão bem desenhadinho. Aposto que você levou um tempão pra fazer tudo aquilo! - ele disparou, e meu queixo quase foi pro chão.
- Quem foi que te deu o direito de olhar meus desenhos? Você é um intrometido, ! - falei mais alto do que deveria. Era meio que um descontrole. "Ok, calma. Você não pode deixar que isso aconteça só porque o aniversário de 4 anos da morte do seu noivo é justo no dia em que ) Idiota diz que quer te conhecer melhor." - pensei comigo mesma.
- Me desculpa! - ele disse mais alto ainda, me calando de uma vez. Virei as costas rapidamente, saindo da sala às pressas. Eu não perdia o controle. Nunca. Nunquinha!
Tive que aguentar meus pais por meia hora no telefone durante o almoço. Não, não detesto meus pais, mas aquilo foi como uma distração e tudo que eu queria era comer minha comida tranquilamente. Graças aos Deuses, eles entendem que não preciso mais de amparos nesse dia tão... Difícil. A única coisa que eu precisava era de sossego. Só isso. Mas veio toda a papelada. O estresse. Mais papelada. Pesquisas. É um trabalho muito bom, mas não é... Ah, deixa pra lá. ) me deu boa noite no estacionamento quando estávamos indo em direção aos nossos carros para irmos embora. Eu não respondi. Preferi admirar o fato de ter perdido completamente o medo de carros e de dirigir. As coisas mudam. O mesmo CD continuou a tocar até minha chegada na doceria, onde fui recebida com abraços fortes dos meus melhores amigos.
- Gente, eu estou bem, eu juro. Eu nem mesmo chorei! - ri de mim mesma, mas os dois permaneceram sérios.
- Mas você sentiu vontade? - questionou desconfiado.
- Só quando eu fui visita-los de manhã. O dia foi normal, a diferença é que faz 4 anos que meu noivo morreu. Amanhã será 4 anos e 1 dia, e por aí vai. Eu nem mesmo sei porque tem todo esse auê só quando completa mais um ano. Eu sinto falta deles todos os dias, não só quando a tragédia faz aniversário. - pensei comigo mesma, formando um bico emburrado ao chegar naquela conclusão.
- Olha, vamos encerrar esse assunto com um bolo de morango, ok? - sorriu animada, como se tivesse adivinhado que eu estava prestes a pedir para mudarmos de assunto.
Estávamos há 4 anos no mesmo barco. Foram 4 longos anos, e chegou em um momento que nem tinha mais consolo pra dar. Meus amigos são os melhores porque eles sabem que não precisam tentar. Só de tê-los por perto, já era o suficiente pra mim. Nos acabamos no bolo, e falaram sobre uma senhora que tinha aparecido ali pela tarde e derrubado o café bem na calça de um provável homem de negócios. Foi hilário. Eu não tive novidades pra contar. Eu podia ter falado do e sua repentina curiosidade sobre minha vida, mas não. Não era necessário. morava duas quadras dali, enquanto ... morava literalmente ao meu lado. Seu apartamento era do lado do meu. Não era só dela, e sim, de Cody também, seu namorado. Sempre tive a impressão de que ele não ia muito com a minha cara, mesmo sempre me tratando muito bem. O negócio é que: o olhar não engana. O olhar de Cody pra mim nunca foi um dos melhores.
A primeira coisa que fiz foi tomar um banho bem quentinho. Era tudo o que eu precisava. Ou quase tudo... Veio uma vontade grande, imensa, enorme, de chorar. Só o amor não foi suficiente pra fazer os homens da minha vida ficarem comigo. Eu planejei nosso futuro em detalhes e eu quis que as minhas expectativas fossem superadas. Eu quis amar cada detalhe sobre viver com eles. Eu quis tudo. Mas fiquei com nada. Aquilo estava me sufocando de maneira insuportável. Toda a dor que eu me neguei em sentir durante meses, arrombaram a porta do meu coração e se espalharam por todos os lugares. Estava quase sendo uma dor física. Totalmente insuportável. 4 anos... Como eu pude achar que nunca mais sentiria tamanha tristeza novamente? Peguei meu celular sem pensar, discando o número de rapidamente.
- , eu... Eu preciso de... de alguém! Eu meio que... Estou chorando! - falei embarascada, quase sendo incapaz de formar uma frase inteira. A campainha tocou. Ela estava ali. Minha amada .
- Ei ei ei! - ela me abraçou no mesmo instante em que a porta foi aberta. Aquele abraço que sempre foi tão, mas tão acolhedor - Você pode chorar o quanto quiser, ok?
- Eu não quero estar chorando, esse é o problema! Eu sinto tanta falta deles! - funguei, tentando me controlar e falhando ridiculamente. Meu rosto estava encostado em seu ombro, e eu me sentia fraca demais pra sair dali - Eu fiz de tudo pra fazer o Caleb gostar de mim, eu fiz de tudo pra que ele visse a minha alma. Agora me diz, pra quê, ? Eu fiz tudo aquilo pra nada! Os braços da minha melhor amiga continuaram ali a minha volta. O único som dali, era o que eu fazia. E aos poucos, veio o silêncio. Talvez a gente goste da dor. Sim, eu tenho o direito de senti-la, afinal, perdi meu noivo e meu filho. Mas... já foi, eles não vão voltar. Mas também, talvez tenhamos sido feitos assim, porque sem a dor, não sei não… talvez não nos sentíssemos verdadeiros.
- Sabe, você precisa se sentir grata no meio disso tudo. Caleb te fez provar da dádiva que é amar, e sabemos que nos dias do hoje, o amor é o que mais importa nessa vida. Você amou e foi amada, . Eu sei que você se entregou de corpo e alma, mas agora, você precisa se dar paz. - finalmente quebrou todo aquele silêncio. Eu já não estava mais em seu ombro, e sim, com a cabeça encostada na almofada do sofá, e ela, bem ao meu ladinho. Tudo o que tinha pra se falar no mundo, ela e já haviam dito durante esses 4 anos, e ainda assim, eles conseguiam dizer mais e mais. Estranho. Eu nem mesmo sabia que existia tanto consolo assim.
- Eu sinto falta de como eu planejava e tinha esperança de um futuro bonito com Caleb.
- Eu sei. - ela franziu a testa de modo triste, me dando um beijo estalado da bochecha. Ficamos ali, abraçadas por alguns segundos. Em meio a tanta loucura, aquilo me atingiu tão... repentinamente.
- ) sabe dos meus croquis e da minha viagem. Eu contei. Na verdade, não contei tudo, eu não quis. Eu meio que... senti medo. - disparei de uma vez, me livrando daquilo, e eu nem mesmo sabia que guardar tal coisa estava me incomodando tanto até finalmente dizer.
- O )? - questionou extremamente confusa. Exatamente a reação que eu esperava.
- O próprio. Eu esqueci meu celular e minha pasta, e ele viu meu papel de parede e meus desenhos. Foi bem intrometido, e também muito curioso. Pela primeira vez, ele não me olhou com aqueles olhos maliciosos, sabe? Ele parecia que SÓ queria saber de mim. Foi bizarro! - expliquei detalhadamente, arregalando os olhos minimamente e me surpreendendo por tudo aquilo ter saído da minha boca. Falar sobre ) sem xinga-lo ou algo do tipo foi algo inédito.
- Então você vai enfrentar esse medo, ok? Não vai te matar contar nada pro cara, . Você não pode ter medo de todo homem que chega perto de você! - eu abri a boca em indignação. Aquilo era um absurdo!
- Eu não tenho medo de qualquer cara qu...
- Você tem sim. - minha melhor amiga me interrompeu triunfante, se sentindo cheia de razão. E ela estava... um pouquinho certa. O seu celular tocou, e eu pude ver o nome de Cody na tela. A ligação não durou muito tempo, mas aquele olhar de "eu abandonei meu namorado pra ficar com você de novo" dizia claramente que ele estava bravo por tal coisa ter acontecido... de novo.
- Pode ir, eu estou bem melhor graças a você. - abri minha boca antes mesmo de pensar em alguma desculpa para fazê-la ficar comigo. Cody precisava de sua atenção.


Peguei o elevador com as mesmas pessoas de sempre, mas a diferença era o café em minhas mãos. Eu realmente estava precisando. 12 andares. Nada de Violet na porta me esperando, ou seja, nada de ) e seu interrogatório logo pela manhã.
- O que você está fazendo aqui? - foi quase um susto ver ) ali, na minha sala. Ele fuçava no pequeno armário que eu mantinha meus arquivos, e vibrou ao aparentemente achar o que ele queria.
- Procurando isso daqui!
- Pra que? - perguntei curiosa. Era realmente do meu interesse.
- Estou quase conseguindo um acordo. - ele respondeu orgulhoso, com um pé ainda dentro da minha sala, e um fora.
- Jura? Esse caso estava difícil pra caramba! - arregalei os olhos em surpresa, sorrindo em alegria.
- Às vezes ficamos tão preocupados em seguir o protocolo de uma determinada técnica ou um determinado padrão de comportamento que esquecemos que é na adversidade que crescemos. - ele deu uma piscadinha antes de finalmente sair dali. Mais uma vez, sem aquele típico olhar malicioso junto às suas piadinhas inconvenientes.
Estava tudo bom demais pra ser verdade. Não posso negar que ) sabia muito bem trabalhar. Ele era, de longe, um dos melhores negociadores dali, se não, o melhor. Mas claro, ele nunca ouviria isso saindo da minha boca. Trabalhar na Brooks Maxwell Firm se tornou meu sonho desde quando me tornei uma paralegal. Claro, eu podia ter corrido para a firma do meu pai, mas não seria a mesma coisa. Eu quis ser autossuficiente. Nunca esteve nos meus planos ter meus caminhos abertos só porque sou filha de quem sou. E o próximo passo é me tornar uma advogada também. Eu acho.
A entrada de Rhodes chamou minha atenção. Ele, por algum motivo, veio diretamente até minha sala.
- Obrigada por tudo o que você fez por esse caso, . Ganhamos! - ele sorriu abertamente, não tomando a liberdade para entrar em minha sala, mas fui simpática o suficiente para me aproximar e erguer a mão em um hi five. Acontece que aquele caso era de ) com , seu melhor amigo, que não trabalhava ali, mas vivia resolvendo os casos junto com o amigo. Ele era totalmente agradável e simpático, além de bonitão, não posso negar e nem ignorar esse fato.
- Você pode beijar meus pés em agradecimento. - o encarei plena, como se falar aquilo fosse algo totalmente normal. soltou uma risada divertida, e acabei o acompanhando. Não tinha nada melhor do que uma boa risada para começar o dia.
- Olha só, se não são as criaturas mais bonitas desse prédio todinho! - Violet veio sorrindo até nós, com aquele bom humor que chegava a ser contagiante.
- Epa, e eu? - ) veio logo atras, com uma cara de quem não tinha gostado nada do que Violet havia falado. Claro, era só brincadeira. Tivemos um momento um tanto quanto agradável. Apenas um papo bacana no começo de um novo dia. Era tudo o que eu precisava. Tudo mesmo! Depois de muitas petições e ligações com três clientes, chegamos no café da tarde. Era algo bacana, os 20 minutos mais alegres da tarde de todos os funcionários. O engraçado é que ) raramente saía de sua sala, mesmo em almoço ou na hora do café da tarde. Ele simplesmente trabalhava, trabalhava e trabalhava.
Alguns amores passam por nós na intenção de mostrar que podemos fazer o que quisermos, mesmo que essa coisa seja difícil, e também mostrar que sobreviveremos. Foi isso o que eu ouvi a vida toda. Eu sobrevivi. Eu posso fazer qualquer coisa. Não é tão difícil, só é... complicado. O sol batia de maneira linda pela janela da minha sala. As persianas sempre ficavam abertas, afinal, não tem nada nesse mundo mais bonito do que as coisas que são feitas pelo universo. Virei minha cadeira, sentindo todo aquele sol em meu rosto. Parecia que aquilo alimentava minha alma. Parecia que eu só precisava daquilo. Daquele empurrãozinho... Meu pai sempre me disse que não podemos ter medo de mudar nosso pensamento. Aceitar que as coisas são diferentes, que nunca mais serão as mesmas. Para o bem ou para o mal. Me levantei destemida, com passos longos até a sala de ), onde nem mesmo me importei em bater, apenas entrei.
- Eu amo moda. O menino do meu papel de parede se chama Jahi, ele tem 5 anos e esse nome significa dignidade. Eu tenho notícias dele e da família uma vez por mês. Eu também gosto de... café com chantilly. Acho que é isso. - disparei de uma vez, com a respiração totalmente descompassada. Que diabos eu tinha acabado de fazer? Meus pés estavam prontinhos para dar meia volta e dar o fora dali e fingir que nada tinha acontecido, mas o olhar totalmente surpreso e aquela pitadinha de alegria no rosto de ) me impediu. Eu sobrevivi e enfrentei meu medo, assim como havia pedido. Eu simplesmente respondi as perguntas de ) com um dia de atraso, e pelo jeito, aquilo tinha o agradado muito, enquanto eu me sentia... nua. Parecia que algo tivesse sido arrancado de mim. Talvez o medo. Eu era coberta por ele há 4 anos.
- De onde veio tudo isso? - ) franziu a testa se fingindo de confuso. Ele ainda tinha a cara de pau pra teatrinho!
- Você não queria saber, caralho? - franzi a testa de modo nervoso, já com a paciência curta. Ainda era difícil manter uma conversa decente com ele.
- Queria sim, e fico muito agradecido por isso, . Isso é um ótimo começo. - ele se desfez da palhaçada, sendo sério e... agradável! Meu Deus do céu, parecia até uma piada de tão estranho que era!
- ), isso é muito bizarro. Você serve pra encher meu saco e eu sirvo pra te xingar, entende? Não dá pra sermos outra coisa além disso! - tentei segurar meu riso, mas foi difícil. Aquilo estava ridículo, beirando a palhaçada.
- Dá sim! Vamos lá... eu, por exemplo, gosto de cozinhar. - ele revelou tranquilamente, e juro, meu queixo estava quase no chão - O que foi, você nunca viu um homem que saiba cozinhar não?
- Já, mas é que você não tem cara de quem cozinha! - fiz uma careta esquisita, tentando imaginar como ) se comportava na hora de cozinhar, se é que aquilo era verdade mesmo.
- E qual é a cara de quem cozinha? - ele cruzou os braços de maneira desafiadora, e pela primeira vez, eu estava sem palavras, e eu sempre tinha a frase certa para respondê-lo.
- Você tem cara de mimado, ). Tem cara de quem tem empregada que cozinha todo o dia, é isso. Não te imagino nem fervendo água, pra ser sincera! - respondi rapidamente, num nível extremo de sinceridade.
- Então considere-se convidada para jantar comigo, . Eu faço uma comida maravilhosa, e tenho certeza que você vai amar. - ) arqueou as sobrancelhas com um olhar divertido, e por um momento eu quis xinga-lo, mas seu tom não tinha sido malicioso ou nada do tipo. Tinha sido apenas um convite. Um convite divertido e sincero.
- Bela tentativa, engraçadinho. - cerrei os olhos e balancei a cabeça negativamente algumas vezes, rindo fraco. Aquilo estava sendo melhor do que eu pudesse ter imaginado.


)'s POV
Eu anotei cada informação no meu bloquinho mental. Ela ama moda, tem notícias do Jahi uma vez por mês e ele tem 5 anos. E, ela também não aceitou jantar comigo. Por enquanto... Tomei um banho relaxante e enchi um copo de vinho. Sim, vinho no copo mesmo, não na taça. Pra que essa frescura dentro de casa, né? Eu e tínhamos algo em comum; nossos pais eram grandes advogados. Desde sempre, meu pai me empurrou para esse mundo do direito, e honestamente... eu amei. Eu não me imagino em outro ramo.
Eu gosto do que faço, e gosto do quanto o meu pai me influenciou. Gosto de termos passado por tantos obstáculos juntos, mesmo em meio a tanta confusão. Mas sempre tem a parte ruim de tudo, né?! Pois bem. Ele estava com outra mulher. De novo. Era uma mulher nova a cada seis meses. Não dava nem tempo de chamar de madrasta ou algum nome pior. Meu pai podia ser um ótimo advogado, mas era péssimo na hora de escolher mulheres. Bem, a mulher que eu realmente queria que ele estivesse junto, já não está mais por aqui... mas ok. Tudo bem. A morte faz parte da vida. Tratei de me desfazer daqueles pensamentos e me foquei nas minhas pesquisas e no meu vinho. Ou pelo menos, tentei. Dei uma checada geral no meu apartamento, e parecia estar faltando algo... alguém. Alguma diversão. Estava tudo muito sem graça, a minha vida toda estava! As coisas precisavam mudar. Novo dia, novos casos, novas coisas a fazer. Hank Wells estava em reunião com Maggie Maxwell e raiva era a única coisa que eu sentia. Como ela podia cogitar a ideia de torná-lo sócio sênior nessa vida? Eu realmente não entendia.
- Qual o motivo dessa cara emburrada, meu querido? - Violet se encostou ao meu lado enquanto eu encarava a porta de Maggie incansavelmente.
- Você sabe. Eu mereço muito mais, você não acha? - perguntei feito uma criança, quase fazendo a mulher rir.
- Sua hora vai chegar, você vai ver. Agora me conte as novidades.
- Não tenho novidades. Não estive fazendo nada legal ultimamente. - respondi fracassado.
- Você foi legal com essa semana. Isso é uma novidade! Agora me conte de onde surgiu todo esse interesse a mais na garota. - Violet me cutucou com o cotovelo junto a um olhar sapeca.
- Só curiosidade, senhorita. é chata pra caramba, mas eu tenho certeza que tem alguém interessante por baixo de toda aquela chatice. - aquilo saiu com tanta certeza que eu até me impressionei. Violet abaixou os óculos na ponta do nariz, me encarando com a testa franzida.
- Você está bem, meu filho? -Pare de ser boba! Não é como se eu estivesse apaixonado por ela. Inclusive, se eu pudesse desejar uma coisa para as pessoas seria que elas ficassem solteiras por um bom tempo durante a vida. Nada contra quem encontra alguém aos 15 e passa o resto dos dias juntinhos, mas eu não gostaria disso pra minha vida. - balancei a cabeça negativamente varias vezes, deixando claro que a ideia de me apaixonar e ter um relacionamento não estava nos meus planos.
- Você fala isso porque ainda não achou a pessoa certa, mas quando achar... quero só ver! - ela riu e se desencostou dali, com aquele olhar icônico, cheio de razão. Encarei a porta por mais alguns segundos, sendo obrigado a disfarçar quando a mesma se abriu, revelando Hank com um sorriso largo, e Maggie... com a expressão Maggie de sempre.
- Ei, os convites para a festa da Bocchi já devem ter chegado! Está ansioso para esse ano? - Maggie perguntou simpática, enquanto eu fingia estar olhando alguns papéis que estavam na mesa de Violet.
- Com certeza! Depois da nossa, a festa deles é sempre a melhor. - dei um sorriso largo, deixando minha chefe satisfeita ao ouvir aquilo.
Bocchi é a empresa em que mais tínhamos clientes, e como eles não são bobos e nem nada, eles fazem uma festa anual para agradecer pelas parcerias e trabalhos, e isso acaba sendo uma puta estratégia, já que eles acabam ganhando mais mídia ainda com isso. Amo esse mundo dos negócios, onde a esperteza sempre vence. O resto do dia foi normal. O sorriso estampado no rosto de Hank me incomodou horrores, mas não deixei isso afetar meu trabalho. Eu só queria entender como Maggie foi capaz de investir tanto em nele, e não em mim. Não quero ser convencido, mas meu trabalho para a empresa sempre foi impecável, muito melhor que o de Hank. Natasha passou pelas salas com os convites da festa da Bocchi. Meu precioso! Encarei aquele convite, que sempre era super bem feito, com ansiedade. Era sempre interessante pelo fato de sempre poder levar comigo, dançar com algumas mulheres incríveis, beber as melhores bebidas, e nossa tradição era sempre, depois da festa, ir para um bar, boate ou qualquer coisa que estivesse aberto no momento. Era o nosso dia. A gente fazia tudo e mais um pouco.
- , eu posso levar mais alguém, né? Eu não posso ir para uma festa da Bocchi sozinha! - a voz de se fez presente, tirando a minha atenção de todos os flashbacks que rolavam pela minha cabeça, que mostrava como foi a minha noite na festa da Bocchi no ano anterior.
- Olha só, é o primeiro ano da gracinha em uma festa da Bocchi! Infelizmente, você só tem um convite, que é o seu, ou seja... - a expressão esperançosa de se transformou em frustração - Mas, você sabe que eu tenho meus contatos, certo? - levantei as sobrancelhas de modo convencido, enquanto o olhar de foi para desconfiado.
- Já sei que você vai querer algo em troca, e te conhecendo do jeito que eu conheço, eu já sei o que é. Não, obrigada, não quero que você mexa os pauzinhos com os seus contatos para enfiar meus amigos na festa. - ela estava pronta para sair dali, mas fui mais rápido.
- Eu não vou pedir nada em troca! - falei rapidamente, rolando os olhos por tudo que tive que ouvir.
- Eu te conheç...
- "Eu te conheço" - imitei a voz da mulher, que cerrou os olhos com certa fúria. Soltei uma risada rápida, me recompondo - Eu posso arranjar convites para os seus amigos, e não vou pedir nada em troca. - por algum motivo, eu fui legal.
- Ah... ok então. Eu acho. - ela pareceu surpresa, se limitando nas palavras. Pedi o nome dos amigos que ela queria que fossem junto com ela, e claro, eram e , que até onde eu sei, é solteira. Quero dizer, nunca ouvi ou falando sobre algum namorado dela. Por algum motivo, na minha cabeça, eu já tinha formado ridiculamente um par entre e .
Maluquice!
apenas agradeceu, ainda com certa desconfiança, mas saiu dali rápido, talvez por medo que eu mudasse de ideia ou pedisse algo em troca de vez.
)’s POV end.

***

- Já era pra ela ter me ligado, ! - continuei andando de um lado para o outro, totalmente impaciente. Eu esperava ansiosamente por notícias de Jahi, mas a pessoa que era encarregado de me mandar notícias mensalmente estava atrasada. Muito atrasada.
- Talvez tenha acabado a luz, não tem sinal... Essas coisas acontecem, ! Você precisa se acalmar, sentar a bunda nessa cadeira e deixar que eu termine sua maquiagem! Você não quer sair com apenas metade da maquiagem feita, certo?! - o tom de voz falsamente calmo de me chamou atenção, assim como as suas mãos na cintura, que estavam se segurando para não me amarrarem na cadeira. Pelo meu bem, me sentei na bendita cadeira para terminar a maquiagem.
O dia da bendita festa da Bocchi havia chegado. estava prontíssimo, apenas dando os toques finais no quarto do lado. Cody simplesmente não dava a mínima para onde ia ou não. Para ele, estava tudo sempre ok. Por um lado, aquilo era bom, afinal, nenhum homem tem direito de prender a mulher ou impedi-la de sair, certo? O problema é que Cody não falava nada. Nunca. Também não aparentava ter sequer um pingo de ciúmes, e mesmo eu sabendo que ciúmes não é bom, as vezes, ter um pouquinho, bem pouquinho, mostra que você se importa. Eu não via nada de preocupação do Cody em relação à , mas eu nunca falava nada. Ela dizia que aquela relação era simplesmente tudo o que ela sempre quis.
- Vamos logo, meninas! Estou ansioso pra conhecer o amor da minha vida. - adentrou o quarto, pegando um dos meus perfumes que estavam em uma prateleira e passou em sua pele e em sua roupa com animação.
- Agora sim, tudo pronto! - terminou de passar meu batom, e assim, finalizando tudo o que tínhamos para fazer ali em meu apartamento.
Descemos para o estacionamento com animação, entrando em meu carro e partindo até a empresa Bocchi. Não era tão longe, mas também não tão perto. A falta de trânsito nos ajudou muito. A música alta em meu carro já estava nos deixando no clima.
Estacionamos e saímos do carro, caminhando até a entrada. Demos nossos nomes, e um friozinho na minha barriga tomou conta de mim. Nossa entrada foi liberada, e o lugar era simplesmente enorme, luxuoso e totalmente o contrário do que estávamos pensando.
- Cruzes! Essa musica de elevador tocando e eles ainda ousam chamar isso de festa? Que horror! - franziu a testa, já reclamando sem dó.
Uma mulher nos recebeu em frente ao salão novamente, nos guiando até uma mesa, reservada exclusivamente para nós três. Marchamos até lá e sentamos em silêncio, observando o lugar.
- Será que essa é o lugar certo? - foi a vez de comentar, também estranhando.
- Qual é, gente! A Bocchi é uma empresa séria, talvez seja isso que eles chamam de festa, entendem? Só um jantar, música de elevador e talvez alguém palestrando sobre a empresa. - expus meu ponto de vista, embora aquilo também estivesse me incomodando. Eu realmente estava esperando uma super festa.
- Bocchi realmente é uma empresa séria, mas a festa não, acredite em mim, . - a voz de ) se fez presente, e olhei para trás rapidamente, observando seu traje totalmente elegante, juntamente com ao seu lado.
- Uau, se isso aqui é uma festa, imagino o jantar formal deles. - respondi de maneira simpática, me levantando e cumprimentando os dois, e e fizeram o mesmo.
- É sério, vai começar em torno de... olhou em seu relógio de pulso - vinte e cinco minutos.
- E o que a gente faz durante esse tempo? - perguntou curioso.
- Come ou bebe, embora tenha comida e bebida na hora da real festa também. Eles só esperam um tempinho pra o pessoal ir chegando mesmo. - respondeu com um sorriso no final, puxando a cadeira da mesa ao lado e sentando, e nos sentamos novamente também.
- Então... É , né? Posso te chamar assim? - perguntou simpático para a minha melhor amiga, que soltou um riso frouxo, sussurrando um “sim”.
e nunca tinham conversado, apenas já tinham se visto e se cumprimentado de longe. Olhei para , que olhava para com um olhar meio... perverso.
Nenhum dos dois tinham ideia de que tinha namorado e aquilo estava claro. Olhei para , que também observava aquilo tudo e estava quase soltando uma risada, mas não o fez.
- Oh meu Deus, ! Como você está diferente! - uma morena alta, com os cabelos gigantes e um vestido preto se aproximou da nossa mesa junto com algumas amigas, mas só ela se aproximou tanto a ponto de se curvar para cumprimentar . Ele recebeu um beijo longo e estalado nas bochechas, junto com um sorriso bem alegre.
- Opa, oi Megan! Você também está... - ele analisou o corpo da mulher de cabo a rabo, segurando um risadinha - incrível como sempre! - ele finalizou, e o sorriso da mulher se abriu mais ainda. Ela deu um “oi” rápido para , e simplesmente fingiu que o resto de nós não estava ali.
Ouch.
- Te vejo mais tarde. - ela disse com convicção, voltando para seu grupo de amigas e caminhando para o outro lado do salão.
Olhei para , que olhou para , que olhou para mim. A gente quase podia sentir os hormônios da moça a flor da pele, enquanto e riam e cochichavam sobre algo, que provavelmente era relacionado à tal de Megan.
- Olha só se não é mais uma mulher caidinha por ) , não é mesmo? - me intrometi no meio sem vergonha alguma, afinal, ele sabia que eu já tinha ciência da sua fama de mulherengo.
- Pode parecer mentira, mas nunca tive nada com ela. - ele sorriu com os olhos, enquanto eu rolei os meus.
- Duvido.
- Eu não fico com absolutamente todo mundo, . - ele respondeu em um tom mais sério, e por algum motivo, aquilo me deu um arrepio.
- Hmmm mas eu fico! Se algum amigo seu estiver disponível pra mim, você manda pra mim sem dó, ouviu gracinha?! - se manifestou animado, com as duas mãos no queixo, e aquilo tirou algumas gargalhadas de todos nós.
Eu continuava observando aquele tanto de gente que entrava no local, enquanto os quatro entraram em um assunto em comum. Olhei para meu celular. Nenhuma ligação. Comecei a balançar minha perna de maneira inquieta, sentindo o meu nível de preocupação aumentando cada vez mais. Um barulho forte e alto tomou conta do local, e as luzes se apagaram por alguns segundos.
- Isso significa que...
- A festa começou, galerinha! - terminou a frase de , se levantando com animação. A pouca iluminação era perfeita pra o que se é considerado pra uma boa festa. O pessoal da bebida foi se instalando em três locais diferentes do salão, e já abriu o sorriso, se levantando e nos chamando para ir no mais próximo de nós. A multidão começou a se levantar também, indo para a pista de dança, onde o DJ deu o ar da graça e começou a tocar uma música que estava fazendo o pessoal, literalmente, pular.
- Qual bebida você vai querer? - ) perguntou próximo ao meu ouvido devido ao barulho alto, e aquela proximidade dos nossos rostos me deixou um tanto quanto incomodada.
- Qualquer coisa. - tratei de responder rápido, dando um passo pra trás e observando muitas pessoas também fazendo fila para pegarem bebidas.
era do tipo exagerado, seus três copos de bebida não negavam. Ele também gostava de álcool. Muito. Mas não era do tipo de pessoa que bebe até vomitar e te dá trabalho durante o resto da noite... é esperto. Ele bebe, se alegra, e continua um bêbado bacana pelo resto da noite. não tinha tanto controle, mas a gente sempre se ajudava. Na época de festas do ensino médio era uma confusão, porque a gente bebia até não aguentar mais, e era uma bêbada cuidando de outra. Hilário. E eu... eu bebo, não tanto, mas bebo. Gosto do efeito da bebida. Gosto do fato dela te deixar alegre e te fazer esquecer dos problemas.
- Aqui está, senhorita. - ) ergueu o copo em minha direção, e beberiquei a bebida, a saboreando e rindo.
- Um sex on the beach? Fala sério, ! - arqueei uma sobrancelha, um tanto quanto irônica.
- Olha só, temos uma possível alcoólatra aqui. - ele soltou uma risada fraca, e eu continuei bebendo aquela bebida que acabou em questão de segundos. - Vou pegar algo mais forte então.
Ele não se importou em furar a fila, ele simplesmente deu um sorriso frouxo para a mulher que estava fazendo o pedido e voltou com mais dois copos de bebida. Inacreditável.
- Você não faz nada na vida sem usar sua beleza como arma principal? - perguntei debochada, pegando o copo da sua mão e bebericando novamente. Uma bebida muito mais forte.
- Cada um usa as armas que tem, certo? - ele gargalhou baixo, entrelaçando nossos braços sem aviso prévio, nos guiando para o meio da multidão dançante.
Procurei rapidamente pelos meus amigos, que vieram rapidamente ao nosso encontro. conversava com com uma certa esperança que estava bem nítida pra mim. Ela era o alvo da noite pra ele.
- Quando você vai contar pra ele que a tem namorado? - sem pensar, me aproximei do ouvido de ), esperando não sentir o mesmo desconforto de minutos atrás.
- Ela tem namorado? - ele perguntou com os olhos levemente arregalados, bem surpreso. Assenti positivamente, tentando segurar o riso, enquanto a sua expressão foi de surpresa para uma mistura de diversão e discrição.
- Vamos deixar como está. Quero ver a reação do meu amigão quando descobrir. - ele riu e virou o resto da bebida em sua boca.
- Vou dar uma voltinha, queridos. - deu uma piscadela sapeca e se retirou, saindo destemido e determinado. Ele era assim mesmo. Não tinha vergonha de nada e ia atrás do que queria, principalmente dos seus amores de uma noite.
- Sobrou você pra mim, . Espero que você saiba dançar, porque eu não sei. - ) sussurrou novamente em meu ouvindo, dando aqueles passinhos terríveis pra lá e pra cá, e fazia o mesmo, enquanto já estava mais animada, e aparentemente o papo dos dois estava indo muito bem.
- Não força, ) . Você foi muito bacana colocando meus amigos aqui na festa, se interessando repentinamente por mim, mas dançar com você? Fala sério... Estou começando a achar que isso é uma pegadinha, uma aposta, sei lá, viu... - joguei todas as palavras na mais pura sinceridade e por alguns segundos, o deixei sem reação. me encarava de maneira confusa, como se aquilo fosse demais pra o seu cérebro absorver.
- Chega a ser engraçado, . Você mesma disse que eu só sirvo pra encher seu saco, então quando eu decido ter atitudes diferentes, você desconfia delas. Credo, mulher! Se eu estou sendo legal, se eu estou querendo te conhecer melhor ou dançar com você, é porque eu simplesmente quero. Não tem pegadinha nenhuma por trás disso. - ele respondeu à altura, me olhando nos olhos.
- Por que todo esse interesse repentino, ? Tem que ter um bom motivo. - cruzei os braços, esperando uma justificativa muito boa pra minha pergunta.
- Porque você me disse não. Isso de certa forma me intrigou. Ninguém me diz não. Achei desafiador, entende?
- Espera aí... Você está interessado em me conhecer melhor só por que eu te disse “não”? E depois de me conhecer melhor, como que fica? Você vai soltar fogos? Você se interessou pra conseguir um “sim”? Você realmente precisa disso tudo pra o seu ego continuar lá em cima, não é mesmo? - disparei todas as perguntas de uma vez, numa revolta tremenda. Balancei a cabeça negativamente, rindo debochada e esperando uma resposta muito, mas muito boa mesmo.
- Se manca, . Você não é um prêmio não, sabia? Eu não preciso do seu “sim”, eu apenas achei que seria legal essa... aproximação. - ele claramente estava perdido em seus próprios pensamentos. Seu olhar se manteve firme, mas eu podia sentir toda a tensão que vinha do seu corpo.
Idiota.
Eu tinha mais algumas coisas pra esmagar todos os argumentos - ou a falta deles - de ), mas meu celular começou a tocar. Retirei ele rapidamente de dentro da pequena bolsa que eu carregava na mão. Era Jane, a responsável de me mandar notícias sobre Jahi. Corri em direção à saída, pois parecia ser o único lugar menos barulhento.
- Alô? - respondi aflita, porém aliviada. A ligação tinha finalmente chegado!


)’s POV
Observei ela correndo pra longe pra atender um telefonema. Bufei irritado, observando e se divertindo juntos e me aproximei.
- Vocês dois parecem estar se dando muito bem. - soltei a frase com um riso nos lábios, enquanto me olhou de maneira confusa, parando de dançar imediatamente. Ela analisou minha face todinha antes de responder.
- Vocês por acaso... É... Olha, eu tenho namorado, tá?
- Eu não disse nada, mocinha. - soltei uma risada com o seu pequeno desespero. rolou os olhos.
- E nem precisou! Você estava aí em cima da minha melhor amiga enquanto eu estava aqui com seu melhor amigo, mas olha só que loucura, eu tenho namorado e ela não está interessada em você. Que pena, né?! - ela esbravejou impaciente, e aquilo chegava a ser engraçado pra mim. Mulheres e seus surtos.
- Eu não disse nada. - dei os ombros, repetindo minha frase mais uma vez e mantendo meu sorrisinho um tanto quanto cínico nos lábios.
rolou os olhos e saiu dali com uma certa elegância. me encarou irritado, e eu já estava pronto pra ouvir.
- Porra, nem pra me avisar que ela tinha namorado?
- É que tava engraçado.
- Você estragou tudo, cara. Você estava numa boa conversando com a , o que é um milagre, e pronto, estragou o seu esquema e o meu também! - meu melhor amigo reclamou irritado, mas algo naquela frase tinha me dado uma pontinha de desconforto.
- não era o meu esquema, . Você sabe que eu posso ter a mulher que eu quiser, e inclusive, acho que já está na hora de darmos o fora daqui e curtimos nossa real festa.
- Viu só? Você pode ter qualquer mulher, menos a , o que significa que você, de fato, não pode ter qualquer mulher que queira. - deu um sorriso idiota e triunfante, e aquilo aumentou ainda mais o meu desconforto.
- A gente vai dar o fora daqui ou não? Essa festa já está chata demais. - resmunguei irritado, já andando a caminho da saída.
As duas estavam do lado de fora, enxugando algumas lágrimas que caíam dos olhos da melhor amiga. Eu queria saber o motivo, mas também queria sair pra farra.
Apressei o passo e lá estávamos nós, como sempre foi. Eu e . Aquela clássica amizade de infância, que os pais faziam almoços alegres aos domingos e os filhos ficavam brincando no quintal.


***

Saí do elevador com certa impaciência, encontrando Violet na entrada do meu escritório com um café em suas mãos.
- Como foi o final de semana, meu amor? - ela perguntou segurando o riso. Ela já sabia.
- Bebidas, mulheres... Você não quer os detalhes, né? - cerrei os olhos e abri um sorriso sincero pra mulher que sabia que a segunda feira após a festa da Bocchi que havia acontecido no sábado e a minha farra que durou até domingo, tinha me deixado com uma dorzinha de cabeça e sono pendente.
- Espero que na parte das mulheres você tenha usado a bendita camisinha, ouviu? - ela soltou uma gargalhada sem vergonha, e eu apenas balancei minha cabeça, fingindo que não tinha ouvido aquilo.
- Esse assunto não vale com você, Violet.
- Vale sim, rapazinho! Você precisa se cuidar, porque mesmo eu te amando muito, eu não estaria pronta pra te ver como pai, e nem você mesmo estaria pronto para ser um. Fora que a camisinha não é só pra previnir filhos, e sim, doenças também, como por exemplo...
- Violet, NÃO! - fechei meus olhos e os apertei, não segurando meu próprio riso.
Gargalhamos juntos e eu entrei em minha sala junto com o café fresquinho.
Ela era uma baita mãezona mesmo.
Melhor do que a minha foi.
Sentei em minha mesa e observei a papelada que estava ali. Eram documentos para , não pra mim. A chamei pelo telefone, que chegou rapidamente e com documentos nas mãos junto à uma caixa também.
- Acho que temos um funcionário novo. - nossos documentos tinham sido trocados de sala. Os meus foram para a sala dela, e os dela para a minha. estendeu a mão para que eu a entregasse os documentos destinados a ela - Por que você estava chorando depois do telefonema? - entreguei os documentos em suas mãos e os apertei, de maneira que ainda ficassem na minha, mesmo com ela segurando os mesmos.
- Não é da sua conta. - sua voz ríspida e sem humor nenhum respondeu.
- Você estava chorando porque eu estava indo embora, não é? - resolvi fazer graça. Eu realmente tinha tentado ser bacana com , mas talvez, bem talvez, ela tivesse razão. Éramos feitos para atazanar um ao outro e só.
- Que inferno, )! Você não cansa disso? Para de se achar, para de achar que você é o centro do universo! Você não é nada disso, e eu tenho certeza que esse tipo de atitude ridícula que você tem deve afastar uma porrada de mulher, mas é claro, sempre tem uma pra te dar bola e pra amaciar o seu ego, não é mesmo? - ela esbravejou sem paciência nenhuma, e também sem dó. Aquele era o tipo de irritação que tinha chegado no limite. Uma pena que... eu não ligo.
- Você está preocupada se eu afasto as mulheres ou não, ? Que coisa fofa da sua parte! - retruquei num tom de falsa simpatia, observando sua expressão de fúria ganhar mais vida.
- Eu quero que você vá pra puta que te pariu, está me entendendo? - os documentos foram puxados da minha mão sem ela se importar se eles rasgariam ou não. Seus passos até a porta entravam quase sendo concluídos, mas eu queria mais. Eu queria ver o seu limite total.
- Estou começando a achar que você é virgem, . - segurei meu riso, mas funcionou. se revirou banhada no ódio. Dava pra ver em seus olhos. Meu punhos apertados pela raiva bateram na mesa, ficando totalmente de frente pra mim.
- Em primeiro lugar; Maggie Maxwell vai ouvir sobre esse seu comportamento ridículo que você tem comigo. Eu já te aguentei com essas idiotices por um ano, mas agora chega! Você não tem o direito de falar assim comigo ou com qualquer outra mulher no mundo, você está me ouvindo? E em segundo lugar, eu tenho pena da sua mãe. Deve ser frustrante pra ela ter gastado nove meses da vida dela carregando essa pessoa superficial, machista e que não conhece a palavra respeito! - ela suspirou aliviada, séria e por algum motivo, esperando alguma resposta.
Mãe.
Ela falou sobre a minha...
- Você não conhece a minha mãe, você não conhece minha família, e muito menos sobre o que aconteceu nela, . Pense muito bem antes de falar sobre isso, está me ouvindo bem? - levantei furioso, caminhando até ficar frente a frente com a sua pessoa. Dessa vez, os meus punhos que estavam fechados, e a minha vontade era de socar algo.
Ela não tinha o direito!
- Então você fala o que quer, mas quando é o contrário não pode? - ela deu uma gargalhada falsa - É chato, né? - ela forçou uma voz fina, tombou a cabeça pra o lado junto com um biquinho de falsa dó.
- ... - eu estava pronto pra retrucar, mas um barulho um tanto quanto alto me chamou a atenção.
- Olha só, esse é o seu sinal da vergonha tocando, dizendo que está na hora de você parar pelo simples fato de estar errado. - ela sorriu numa cínica animação, enquanto eu... Tinha algo errado.
O único relógio daquela sala estava preso à parede, meu celular não tinha nenhum despertador marcado... Olhei rapidamente para o local, dei um passo para o lado e olhei minha mesa.
A caixa.
- Quem deixou isso aqui? - apontei para a mesma, e me encarou confusa.
- Sei lá, estava na minha sala. Trocaram nossas coisas, lembra? Agora para de tentar fugir do assunto, . Você sabe que...
Abri a caixa às pressas.
5 segundos.
A voz de se calou no mesmo instante.
Puxei seu corpo até a parede mais próxima e o mais rápido possível.
Explodiu.
- Puta que pariu. - resmunguei, olhando pra o tanto de papel que tinha se desfeito com aquela bomba mequetrefe.
- O que foi isso? - perguntou embarascada, altamente assustada. Meu corpo ainda prensava o seu contra a parede. Nos olhamos por alguns segundos, e rapidamente minha mente voltou a realidade. Passei minhas mãos pelo seu rosto, as descendo para os seus braços. Me certifiquei de que tudo estivesse no lugar.
- Você está bem? - perguntei levemente apavorado, observando seu corpo inteiro para ter certeza de que não havia nenhum machucado por ali.
- Eu... estou! E você? - ela franziu a testa, observando atentamente os meus toques, mas não reclamou.
Violet abriu a porta num desespero só. Seu olhar confuso e assustado para a minha mesa foi direto para nós dois, ainda juntos.
- Vocês estão bem? O que aconteceu? Eu ouvi o barulho e...
- Estamos bem. Foi uma... bomba. - respondi sem acreditar na minha própria fala. Encarei por mais alguns segundos, até que percebi que aquela aproximação gostosa e inédita já estava se prolongando demais, e seu olhar dizia o mesmo. Nos separamos lentamente, enquanto Violet se aproximava de nós preocupada.
Não demorou para a minha sala encher. Meu cérebro estava a mil, não sabia nem sobre o que pensar primeiro. Maggie apareceu aterrorizada em minha sala, perguntando se estávamos bem e pedindo para irmos para sua sala no mesmo instante.
- O que acabou de acontecer? - Maggie se sentou em sua cadeira, e fizemos o mesmo. Estávamos apenas nós três em seu escritório.
- Estávamos conversando - olhei para um tanto quanto incerto. Antes da bomba, ela tinha dito que falaria para Maggie sobre o meu tal comportamento, então eu não tinha certeza se ela acompanharia a minha versão ou não - Na verdade, trocaram nossas coisas hoje. Os documentos da estavam comigo, e os meus com ela. Estávamos conversando, até que o barulho começou a ficar mais alto. Quando eu fui ver, restavam 5 segundos. Só deu tempo de irmos para o canto da sala e puft. Sorte a nossa que foi uma bomba totalmente fraca. - finalizei com um suspiro que aparentemente parecia aliviado, mas era o contrário. O sentimento pesado que se instalou em mim foi bizarro.
- Eu não lembro de ter ouvido o barulho antes. A caixa e os documentos foram entregues poucos minutos depois que eu cheguei, mas eu tenho quase certeza que não tinha barulho nenhum. Talvez ela só começasse a apitar quando tivessem poucos segundos restantes... Não sei como esse tipo de coisa funciona. - acrescentou, dando os ombros e se encolhendo em seu próprio corpo. Foi a primeira vez, em um ano, que eu a vi daquela maneira. Frágil.
- Alguma ideia de quem tenha feito isso? Você andou chateando alguém por aí, )? - Maggie perguntou num tom sério e com uma pitada de humor. Não era o melhor momento, mas ela soube balancear os dois.
- Não a esse ponto. - soltei uma risada fraca.
O sentimento.
O peso.
Eu precisava respirar.
- Vamos analisar todas as câmeras e ver se onde a maldita caixa veio. Vocês dois estão de folga pelo resto do dia. Tem certeza de que não precisam de um médico? - o tom de preocupação tomou posse outra vez.
Respondi rápido e levantei dali, caminhando até o elevador. Desci até o estacionamento e caminhei em direção ao meu carro com meu telefone em mãos, digitando um certo número que em poucos segundos me atendeu.
- Pai? Precisamos conversar.

Capítulo 3

’s POV
Aquela merdinha de sentimento ruim e pesado continuava me atazanando. A noite foi mal dormida. O encontro com meu pai deveria ter me acalmado, afinal, o que tinha passado pela minha cabeça era simplesmente impossível de acontecer. Aquela bomba com certeza tinha sido alguém de sacanagem.
Desci do meu carro, caminhei até o elevador, subi os 12 andares e saí em direção ao meu escritório. Tudo parecia ok. Estava limpo e normal, como se uma bomba merdinha não tivesse explodido ali no dia anterior.
- Eu pensei que quando alguém te mandasse uma bomba, seria pra explodir o prédio inteiro. Estou decepcionado com o seu inimigo bomba, . - a voz do meu melhor amigo de fez presente ali. Soltei uma risada fraca, entrando no meu escritório, e ele fez o mesmo.
- Não acredito que alguém mandou uma bomba que só foi capaz de estragar alguns papéis. Eu merecia mais, né?! - entrei no clima, e aí sim gargalhamos.
- Bizarro, cara! Tem ideia de quem tenha feito isso? - ele perguntou curioso, observando o local de ponta a ponta.
- Não.
- Certeza?
- Absoluta.
- ... - ele falou meu nome e cerrou os olhos, como se estivesse esperando algo a mais.
- O que foi?
- Cara, eu sei que você já aprontou bastante nessa vida, mas porra, mandaram uma bomba pro teu trabalho! Em todos esses anos, quem te detesta, deveria ter feito pior, mas não, mandou uma bomba fodida de ruim que só serviu pra dar um sustinho. A pessoa que mandou não quer te matar, isso eu tenho certeza. - esbanjou a verdade sem rodeios, como sempre. Éramos assim, diretos. Ele sentou bem à vontade na poltrona que estava em sua frente e encarou a janela em um momento totalmente reflexivo.
- Pra ser sincero, não tenho ninguém em mente que possa ter feito isso, , de verdade. - a aflição em minha voz era bem explícita e só quem me conhecia bem saberia disso.
- Não quero botar pilha ou ser negativo, mas ninguém faria isso a troco de nada. Tem algum motivo por trás disso. Fica esperto, viu? - ele me alertou sincero, me encarando novamente e se recuperando daquele transe misturado com reflexão. Ele retirou os papéis que estavam em sua pasta, nos afundando nos novos casos que tínhamos juntos.
A porra da sensação ruim e pesada continuava.
Algumas horas se passaram, tinha ido embora, e eu só conseguia pensar na bomba. Analisei mentalmente de maneira rápida os inimigos que eu colecionava por ali, e basicamente eram todos por causa do trabalho, porque eu fui melhor que eles. Se eu fosse olhar pra minha vida antes do trabalho e da minha vida como advogado eu teria mais com o que me preocupar, mas...
O passado.
É passado.
Balancei minha cabeça, me recusando a pensar naquelas merdas novamente. Maggie foi a minha salvação, juntamente com .
- Ontem todos os documentos e entregas foram alterados. A pessoa encarregada é nova na empresa e acabou confundindo absolutamente tudo. Analisamos as câmeras e a única coisa que encontramos foi isso. - Maggie me entregou algumas fotos da pessoa com a caixa em suas mãos. Homem, alto, roupas largas e um boné. A pessoa sabia o que estava fazendo - Esse foi o rapaz que entregou o pacote para um dos nossos novos funcionários. Pediu para que fosse entregue à você, e na inocência, ele trouxe.
- Você contratou esses funcionários de onde, Maggie? - perguntei um tanto quanto indignado, analisando aquelas fotos mais uma vez.
- Teremos uma reunião geral para repassarmos alguns alertas e regras. Sinto muito que isso tenha acontecido de uma maneira tão inocente. Tenho certeza que nosso funcionário não imaginava que tivesse uma bomba dentro da caixa. - aquele tom de voz calmo e sereno me acalmou por uns três segundos. Ela se despediu, enquanto continuava ali.
- Eu sei que isso vai ser bizarro, mas... Tá tudo bem? - ela mordeu o lábio inferior de maneira sem graça, mas puta. que. pariu. Aquilo me tirou dos eixos por alguns instantes.
- Sim. Só... bem... confuso. - me perdi nas minhas próximas palavras, analisando as fotos novamente.
- Pelo jeito alguém te detesta mais do que eu. - ela deu uma risadinha fraca, sem intenção de me irritar ou algo do tipo. Seus passos estavam de direcionando até a porta.
- Por que você não falou com a Maggie sobre o meu comportamento? - aquela pergunta surgiu do cu do meu cérebro. Aquilo era a última coisa que eu estava pensando, mas de alguma forma, minha mente achou que seria o momento ideal para a tal conversa.
- Primeiro porque uma bomba me atrapalhou. - ela soltou um riso sem humor - E em segundo, eu sei que é o certo a se fazer, mas uma possível bronca vindo da Maggie não vai mudar muita coisa.
- Quem te garante? - cerrei os olhos e a encarei de modo desafiador.
- Por favor, . Eu te conheço o suficiente pra saber que uma bronca não vai mudar nada. Eu sei que o melhor que eu faço é continuar fazendo o meu trabalho bem feito, continuar negando seus convites sexuais e mostrar que é isso que te tira do sério.
- O que você quer dizer com isso?
- Oras, eu ouço as coisas por aí. O melhor jeito de lascar um homem como você é continuar sendo boa no que faço, destemida e forte. - deu uma piscadinha sapeca, e dessa vez, ela tinha o olhar desafiador, esperando uma bela resposta em troca. Me levantei lentamente, me colocando ao seu lado.
- Você acha que mulheres boas no trabalho, destemidas e fortes me assustam, ?
- Exatamente. E a prova disso é que mesmo depois de um ano ouvindo “não” de mim, você não desiste. Você gosta da caça e do prêmio. Você gosta de sentir que pode ter o que quiser e quem quiser. Típico de alguém como você. Sua masculinidade fica tão afetada assim? - sua cabeça foi tombada pro lado, e aquele biquinho irônico e cínico vieram juntos. Aquilo me tirava do sério.
- Minha masculinidade não foi afetada. Você pode achar que eu tenho algum problema com mulheres poderosas...
- Você está tendo um agora mesmo. - ela sorriu vitoriosa, e aquilo estava me deixando pior. Aquele sentimento, ... Estava tudo me esmagando. Aquilo não acontecia. Nunca. Eu sabia o que fazer e falar o tempo inteiro. O controle sobre o que sinto sempre foi algo a meu favor.
- Não. Agora, eu estou tendo um problema com você. NÓS estamos tendo esse problema. A gente se inferniza desde sempre. Você poderia ter cortado desde o começo, mas não. Depois de um ano, você quer reclamar, reclamar e reclamar, e ainda vem com esse papinho de que isso fere minha masculinidade?
- Bom dia, . Eu vou voltar pro meu escritório, ser uma das melhores funcionárias daqui, vou continuar te dizendo não, você vai continuar insistindo, e assim será. - ela simplesmente abriu aquele sorriso, fingindo que não tinha ouvido nada do que falei.
- Você não vale o esforço, . - respondi ríspido.
- Jura? Depois de um ano você me fala isso? Estou magoada.
Mais uma vez, ela se sentiu vigorosa. Bateu a porta do meu escritório e saiu rindo. Respirei fundo, analisando aquelas fotos novamente. Tirei algumas fotos e enviei para o meu pai, apesar de tudo, ele sempre conseguiu pensar com mais clareza em relação a esse tipo de coisa.
Tive algumas reuniões durante o dia, mas nada que me tirasse da cabeça o episódio do dia anterior. Eu pensei tanto, que o dia havia acabado e eu nem mesmo tinha percebido.
’s POV end.

A parte boa do dia com certeza era pensar na sobremesa que e tinham preparado na doceria. Melhor ainda era comer. Me certifiquei de que não estivesse esquecendo de nada e fechei minha porta. Caminhei até o elevador, descendo todos os andares até o estacionamento, caminhando até meu carro. Não tínhamos vagas fixas, então qualquer vaga disponível era a nossa, e eu até soltei uma risada fraca ao ver o carro de ao lado do meu. O destino é engraçadinho.
Eu estava prestes a entrar, até destravei meu carro, mas tinha aquilo. Uma caixa em cima do capô do carro de . Dei alguns passos para trás com cuidado, até começar a correr novamente até o elevador. Por algum motivo, ele ainda não tinha ido embora, e isso não era normal. Ele nunca ficava até tarde na empresa. Subi os 12 andares novamente, e nem mesmo precisei sair do elevador, ele já estava ali, pronto pra entrar no mesmo.
- , tem uma caixa em cima do seu carro! - fiz de tudo pra não atropelar minhas próprias palavras, mas não deu certo. Meus olhos estavam levemente arregalados, tentei parecer não tão assustada, mas percebeu a seriedade em minha voz e em meu olhar.
Descemos os 12 andares em silêncio, a porta se abriu e caminhamos lentamente até o carro de , e aquilo por alguma razão me parecia uma má ideia. Chegar perto daquele carro era uma má ideia.
- Você ouviu algum barulho? - ele perguntou aparentemente calmo, com passos cuidadosos até seu carro.
- Não, mas sai daí! Não chega perto! Vai que essa bomba não tem barulho nenhum e simplesmente explode? - tentei impedir que ele continuasse com aqueles pequenos passos que estavam quase perto do carro. Não adiantou. Ele continuou andando e andando.
- É melhor você se afastar. Vou abrir a caixa. - aquilo me atingiu como um soco no estômago. De onde ele tinha tirado aquela coragem? Senti minhas pernas fraquejando, e nem mesmo consegui sair do lugar. Eu até acharia a minha reação um tanto quanto ridícula, mas afinal, era uma possível bomba, e dessa vez, não sabíamos se era tão fraca quanto a outra.
- Olha, melhor ligarmos para a Maggie! Acho melhor você não chegar perto desse carro, afinal, você não tem ideia se tem uma bomba escondida por aí ou algo do tipo. - o encarei com olhar de advertência, quase exigindo que ele parasse. me encarou por alguns segundos, e não precisou mais de palavras pra eu saber o que ele estava esperando. Dei longos passos para trás, enquanto ele, destemidamente, abriu a caixa.
Nada de barulho, nada de bomba.
- Mas que porra? - encarou confuso o que tinha ali.
Eram fotos. Varias. Me aproximei novamente, enquanto aquelas fotos aparentemente da sua adolescência iam passando por suas mãos.
- O que é isso? - questionei confusa, com a testa franzida. Nem ele mesmo sabia responder, mas aquilo ainda me parecia estranho demais - Olha, sei que não foi uma bomba, mas você não sabe se a pessoa que fez isso aprontou mais alguma coisa. Acho que nós deveríamos subir, conversar com a Maggie e dar uma olhada nas câmeras pra ver se não tem mais nenhuma surpresa no seu carro. - lancei um olhar desconfiado, porém minha voz estava firme. Aquilo não me parecia ser uma brincadeirinha.
- Você está com medo? - ele parou de observar as fotos no mesmo instante e me encarou sério. Não tinha sido uma pergunta agressiva ou pra me tirar do sério. Parecia apenas uma dúvida.
- Primeiro uma bomba e depois uma caixa de fotos? Qual é, ?! Ninguém faz isso por bobeira ou porque parece ser divertido. Se fosse pra tirar onda com a sua cara, tinham jogado ovo no seu carro, estourado seus pneus, mas não... - senti minha voz sumindo enquanto minha atenção se perdia em algum lugar da minha própria mente.
Aquilo era mais do que parecia. Eu estava acostumada a sentir sensações pesadas ou estranhas, mas aquilo... Puta que pariu.
- Não é nada grave, . - sua voz era quase inaudível. Ele estava tão perdido em pensamentos quanto eu.
- Você não sabe! Vamos falar com Maggie! - puxei aquelas fotos de suas mãos e as coloquei novamente na caixa, colocando a mesma debaixo do meu braço. Comecei a caminhar em direção ao elevador, e demorou alguns segundos para me acompanhar.
12 andares em silêncio. Já não tinha quase ninguém ali, mas mesmo assim praticamente corremos até o escritório de Maggie.
Ela ficava incrédula com cada frase que saía das nossas bocas. parecia muito receoso ao entregar as fotos que estavam na caixa. Por um momento eu cheguei a pensar que ele sabia de onde aquilo tudo estava vindo, mas logo vinha a sua expressão confusa e eu ficava tão perdida quanto ele.
- Você está me dando tanto trabalho que daqui a pouco você que vai ter que pagar minha hora extra, sabia? - Maggie se manifestou com bom humor, quebrando aquele clima tenso - E você, mocinho, nada de encostar naquele carro hoje, ouviu? Analisarei as câmeras e amanhã conversaremos sobre isso novamente. - ela finalizou autoritária, e começou a resmungar, dizendo que não podia ficar refém de algo que nem era certeza e bla bla bla.
Meu celular começou a tocar e pedi licença para poder atende-lo. Era .
- Diga, meu girassol. - atendi bem humorada. Ela merecia.
- Você tem exatos 16 minutos para ir em algum lugar e comprar velas para o bolo de Cody. Você acredita que eu esqueci a porcaria da vela? Inacreditável! - minha melhor amiga começou a resmungar e foi aí que lembrei; ela estava preparando uma festa de aniversário surpresa para o namorado e eu tinha esquecido completamente! - Aliás, aonde você está? Já era pra ter chegado, não?! - seu tom confuso porém não tão atento me fez prender o ar.
Eu tinha esquecido! E pior, só me restavam 16 minutos.
- Tenho certeza que pode te dar uma carona, não é mesmo? - Maggie disse um pouco mais alto, de maneira que eu pudesse ouvir. Ela e já estavam fora do escritório e eu rapidamente tapei o celular, dando atenção à chefe do meu chefe, que também era minha chefe. Eu respondi um “sim, claro” totalmente sem pensar e desesperado. Eu tinha 16 minutos pra arranjar uma porra de uma vela e chegar a tempo para a surpresa de Cody. Eu nem mesmo tinha comprado um presente!
Merda.
se despediu de Maggie, e assim que desliguei o telefone com minha melhor amiga que caiu a minha ficha e eu notei a besteira que tinha acabado de fazer. Olhei para a hora na tela do meu celular e apertei o passo, caminhando até o elevador.
- , você mora a quantos minutos daqui? - perguntei inquieta, balançando a perna enquanto me apoiava num canto do elevador.
- Olha só o que temos aqui! querendo ir pra minha casa, será que é isso mesmo? - o rapaz soltou uma risada fraca, e ao mesmo tempo que eu queria dar uma porrada em seu rosto, eu precisava correr.
- É sério! Eu tenho 15 minutos pra comprar uma vela de aniversário e ir pra casa, participar da festa surpresa do namorado da e fingir que não tinha esquecido. Você vai ter que ir de táxi ou sei lá. - dei os ombros, saindo de elevador rapidamente e caminhando até meu carro com passos longos. Eu não tinha tempo pra os joguinhos de no momento.
- Negativo, mocinha. Você aceitou me dar carona, agora vai ter que dar. Infelizmente minha casa fica mais longe do que 15 minutos, ou seja... - ele me lançou um olhar vitorioso e um sorriso triunfante.
14 minutos.
- Para de ser criança, ! Eu não vou te levar pra festa do... - ele nem mesmo parecia me escutar, apenas se aproximou, apertou o botão que destravava meu carro que estava em minhas mãos e entrou no banco do passageiro. Simples assim.
Por 3 segundos eu agi como uma criança que recebe um “não” da mãe no mercado. Resmunguei e bati meu pé no chão, entrando no meu carro e dando partida.
13 minutos.
- Eu sei que você está com pressa, mas isso não te dá o direito de dirigir desse jeito. - reclamou incrédulo, observando um pouco do meu talento como motorista.
- Eu tenho só mais 12 minutos. Aprendi esses truques com velozes e furiosos. - por um instante esqueci que quem estava ao meu lado era e abri um sorrisinho simpático, porque o momento merecia. Eu estava indo muito bem, obrigada.
- E se continuar desse jeito vai ser velórios e furiosos, isso sim! - ele respondeu num tom sério, mas não resistiu. Nem eu. Gargalhamos alto, e eu ergui o dedo para tentar debater, mas não conseguia por conta das risadas.
Estacionei rapidamente no primeiro mercadinho que vi pela frente, entrando ali com pressa.
- Eu te disse pra ficar no carro. - resmunguei ao notar a presença de ali. Peguei uma vela com o número 2 e outra com o 9. Só faltava mais um aninho para Cody chegar na casa dos 30.
- Eu não quis. Essa vela aqui é mais bacana, não é? - ele pegou uma vela infantil, fazendo um biquinho. Era a primeira vez em um ano que eu via fazendo piadas apenas por fazer, e por mais que aquilo fosse bacana, continuava sendo estranho.
- Só se for pra o seu bolo de aniversário, não é mesmo? - sorri irônica, mas não numa intenção malvada. Eu só queria ver onde aquilo podia nos levar.
- Você por acaso sabe quando é meu aniversário? - perguntou curioso.
- Hmmm... não. - caminhei com certa pressa até o caixa. Tinham 3 pessoas na minha frente.
- 25 de novembro. E o seu? - por um instante, minha respiração parou. Ele respondeu numa boa e perguntou de maneira simpático. Ok, bizarro, mas não era aquilo que tinha tirado meu ar.
- , é sério, você não pode pegar um táxi ou algo do tipo? Não sei onde você mora, mas não deve ser longe daqui. - eu basicamente cuspi aquelas palavras sem nem mesmo pensar direito, mas aquilo já estava... não sei. Conversa demais e proximidade demais pra quem apenas está acostumado com provocações e xingos. Por alguns segundos, refleti naquilo tudo e me senti muito infantil. Dois adultos que viviam tirando a paz um do outro feito crianças no ensino fundamental.
- Francamente, viu... Você vive me enchendo o saco pelo fato de só vivermos discutindo e tirando a paz um do outro, mas quando temos uma oportunidade, que mesmo sendo estranha, ainda continua sendo uma oportunidade, você simplesmente tenta me fazer meter o pé. Você não acha que isso é muito infantil da nossa parte? Somos adultos! - se manifestou de maneira que eu não esperava.
Ele falava baixo, porém com um tom de voz um tanto quanto diferente, aquele tom entre raiva, decepção e falta de paciência. Ele falou basicamente o que eu tinha pensado segundos antes.
- A oportunidade? É aniversário do namorado da minha melhor amiga, uma festa que você não foi convidado. Isso não é oportunidade! - tentei debater à altura, mas aquele olhar de quem sabia como conduzir a conversa e provavelmente ganhá-la já estava quase me fazendo desistir de continuar discutindo.
- Mas pode ser, oras. Quando você não tem oportunidades, você mesma tem que criá-las. Não é o fim do mundo, é só uma festa, mas se você quiser tanto que eu vá embora, eu vou. - bingo! Ele realmente soube usar belas palavras e por mais que eu não admitisse em voz alta, ele tinha razão. Minha vez de passar no caixa chegou, enquanto ele dava passos lentos até a saída, como se soubesse que aquilo daria certo pra si mesmo.
- 24 de novembro. - me coloquei ao seu lado rapidamente, falando aquilo com uma certa diversão na minha voz. Parecia pegadinha.
- O que?
- Meu aniversário. - sorri sem graça, e por mais que aquele momento parecesse um tanto quanto único, tínhamos que correr - Você está convidado pra festa surpresa do Cody. - finalmente cedi, e aquele sorrisinho triunfante se formou em seus lábios.
Tínhamos chegado e ainda sobraram quase 3 minutos. Assim que abri a porta, o queixo de e quase foram parar no chão, e eu entendia muito bem aquela reação, afinal, não era toda noite que eu e Logam passeávamos amigavelmente.
- Eu tenho um monte de pergunta pra fazer, mas não tenho tempo no momento. Obrigada pelas velas, você é a melhor. - minha melhor amiga se aproximou, tagarelando sem parar e pegando a sacola da minha mão, pousando o olhar em - E você... estou de olho, viu? - ela cerrou os olhos e saiu em direção à cozinha.
tinha me contado sobre o desentendimento dela com o durante a festa da Bocchi. Por sorte, ela não guardava rancor de ninguém, muito pelo contrário. Ela tenta parecer durona no começo, mas acaba sempre se rendendo ao bom humor e acaba tratando a pessoa super bem. Prova disso é que a sala estava cheia de gente. Ela e Cody tinham uma coleção de amigos por aí. Toda vez que eles saíam, arranjavam amigos novos. Eu nunca soube lidar muito bem com isso, mas e sempre souberam administrar muito bem essa coisa de vaaaarios amigos.
- Qual dos dois vai me explicar como esse belo encontro aconteceu? Até aonde eu me lembro, vocês se detestam, ou esqueceram disso? - se encostou em meu ombro, com aquela voz arrastada e com um tom extremamente divertido.
- Acho que sua amiga finalmente se tocou que eu sou simplesmente irresist...
- Pode parar, ! - cortei sua fala aos risos. Ele estava muito bem humorado pra quem teve uma bomba enviada para o escritório e um presentinho bem esquisito em cima do carro.
Passaram-se 20 minutos e estava quase subindo pelas paredes. e estavam aparentemente se dando muito bem, embarcaram em assuntos que foram puxando outros assuntos e por aí vai. Os convidados já estavam comendo e conversando, enquanto eu aperfeiçoava o meu poder de observação.
Eu queria muito tomar um banho e colocar meu pijama, e a demora de Cody só estava fazendo a minha vontade demorar mais ainda de ser executada. O máximo que eu podia fazer era ir até meu apartamento e me trocar, o que não demoraria nem três minutos.
E foi o que eu fiz.
Escolhi um vestido verde bem confortável e meu amado chinelo. Nada melhor que deixar os pés livres de um salto alto.
Adentrei a casa da minha amiga novamente.
- Onde você se trocou? - franziu a testa, claramente confuso.
- Na minha casa. - respondi como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mas me lembrei que ele não fazia ideia que eu morava ali - O apartamento ao lado é o meu. - expliquei de maneira simpática.
- Você ficou bonita com esse vestido. - tombou a cabeça pro lado, observando meu look de maneira totalmente... confortável. Aquilo quase me fez, literalmente, engasgar com a minha própria saliva.
- Vocês estão sentindo, huh? É isso aí, sintam esse climinha entre vocês. - sussurrou e riu de maneira discreta, observando aquele elogio que nunca tinha saído da boca de de maneira tão decente.
- Ele está chegando, façam silêncio! - veio às pressas com o bolo em mãos, pedindo para apagarem as luzes.
Tentei não encarar , aquele elogio tinha me deixado muito sem graça. Por sorte, Cody havia chegado e finalmente tinha uma distração para todos. Cantamos o parabéns, ele assoprou as velas e deve ter feito o seu pedido.
- Felicidades, Cody! - abracei o rapaz sem muita intimidade, afinal, nunca tivemos muito disso, por mais que tenha tentado muito. Finalizei com um sorriso simpático, que foi retribuído da mesma maneira.
Os 9 meses de com Cody ainda não eram normais pra mim. Eu amava ver minha melhor amiga feliz, claro, mas eu não conseguia achar normal todo aquele desconforto que eu sentia ao estar no mesmo local que o seu namorado. A energia que ele me passava não era das melhores.
Balancei a cabeça pra me livrar dos pensamentos que já estavam tomando conta de mim. O bolo foi servido e, puta merda, estava uma delícia como sempre.
- Isso aqui está uma delícia! - arregalou os olhos em satisfação. O bolo de morango de e era quase uma obra prima.
- e tem uma loja de bolos e doces caseiros, sabia? Tudo de lá é uma delicia. - resolvi fazer um pouco de marketing, afinal, aquele bolo ainda tinha que dominar o mundo. pareceu interessado na informação, mas não disse mais nada.
Comida, bebida e conversa sendo jogada fora. Ficamos um tempo fazendo isso, até o pessoal começar a ir embora e só sobrar nós. E .
- Bem, acho que estou sobrando aqui. - ele se manifestou bem humorado, se levantando da cadeira.
- Tá nada, bobo. - sorriu alegre e com um tom de voz levemente malicioso, levando uma cotovelada discreta de .
- Obrigada pela comida incrível, e parabéns de novo, Cody. - ele cumprimentou o rapaz com mais um aperto de mão, e por algum motivo depois disso, todos ficaram me encarando.
- Bem, acho que você já sabe que aquela é a porta, né? - falei sem graça, quase inaudível. Algumas risadas foram arrancadas.
- Tecnicamente, você tinha que me levar em casa...
- Não, . - cerrei os olhos e soltei um riso contido. Sem nem perceber, eu já tinha o acompanhado até a porta.
- Viu só? Acho que a gente pode lidar com essa coisa, né? - ele parou em frente à porta, me encarando.
- Que coisa?
- Sermos legais um com o outro. Quero dizer, não rolou xingo, nervosismo e nem homicídio. Isso é um bom sinal. - ele exclamou animado, e por mais que aquela simpatia toda fosse surpresa pra mim, foi totalmente agradável de se ouvir.
- É, acho que sim. - dei um sorriso sem mostrar os dentes, me encostando na porta. Ficamos alguns segundos nos encarando, apenas ouvindo a respiração um do outro. Claramente ainda não tínhamos preparo para ser bacana um com o outro, então apenas se virou, caminhando até o elevador e indo embora.
Assim que me virei novamente, , e Cody me encaravam como se eu devesse alguma explicação por aquilo.
- Namorado novo? - Cody perguntou sem hesitar, recebendo olhos arregalados de .
- Não. - respondi com uma careta - Ele é basicamente meu chefe. Teve uma pequena confusão e eu precisei dar carona pra ele, e eu tinha apenas alguns minutos para sair do trabalho, comprar as velas do seu bolo e chegar aqui. - me expliquei de maneira rápida.
- Ele parece ser legal, talvez você devesse...
- Nem ferrando, Cody. - cortei sua fala antes mesmo de ser finalizado, aos risos.
Conversamos mais um pouco e depois de algum tempo finalmente consegui tomar meu banho e me enfiar dentro do meu pijama. O dia foi um tanto quanto diferente, até interessante. Observei meu quarto rapidamente, e parecia que faltava algo ali. Talvez alguns porta-retratos novos ou até uma cor de parede diferente. Peguei meu celular, fui até minha galeria e fui até as minhas fotos com Jahi. Meu garotinho estava enorme e minha maior vontade ela tê-lo perto de mim.
Meus pensamentos estavam a mil, até que tentei analisar toda a história da bomba e da caixa com fotos de . Aquilo me parecia bizarro demais, pesado demais e problemático demais.
O problema disso tudo? Minha curiosidade.
’s POV
- Você tem noção que aquilo poderia ter sido pior do que foi? Você não sai simplesmente por aí fazendo favores para estranhos, Smith! - reforcei pela milésima vez, assustando ainda mais o rapaz.
Smith era o novo funcionário que fez o favor para o homem que mandou entregar a bomba em meu escritório.
- De-desculpa, senhor.
passou pela frente do meu escritório no mesmo instante, ouvindo boa parte da minha bronca. Na verdade, era um alerta. Inocência demais causam danos grandes.
- Smith, está na hora do café! - ela se encostou na porta no mesmo instante, sorrindo de maneira agradável para o jovem, que me encarou assustado e se levantou às pressas.
- Por que você fez isso? - rolei os olhos em irritação, porém com uma pontada de alegria por ver aquela beleza toda em minha frente.
- Você estava apavorando ele!
- Apavoro é uma bomba no seu próprio escritório, . - respondi sério. Todos estavam pegando leve demais com aquela história. Pelo menos era o que parecia. A mulher em minha frente começou a morder o canto do lábio, como se estivesse querendo falar algo, mesmo tentando disfarçar. - Você quer falar alguma coisa? - cerrei os olhos, realmente esperando algo.
- Ah, nada não, bobagem. - ela respondeu tentando parecer indiferente, disfarçando ao olhar as unhas. Me levantei da minha cadeira no mesmo instante, indo até a porta e fazendo sinal para que ela entrasse em minha sala de uma vez. Ao fechar a porta, nossos corpos ficaram muito, mas muito, próximos.
- Diga, . - sussurrei sério, com os braços na porta, não dando chance dela sair dali.
- Eu só... pensei muito nessa história toda de bomba e das fotos também. Acho que alguém está tentando te assustar, né? - ela respondeu firme, me surpreendendo. Eu esperava que toda aquela proximidade a deixasse tímida, mas não. sabia muito bem lidar com as emoções e reações, aparentemente.
- Talvez. Maggie me mostrou um pouco das filmagens do estacionamento e aparentemente foi a mesma pessoa. O guarda do estacionamento se distraiu e a pessoa entrou enquanto algum carro entrava junto. Esses funcionários andam muito desatentos. - continuei a prolongar o assunto. Aquilo estava estranhamente aconchegante.
- E o carro? Nada de bomba nele? - ela perguntou ainda firme, e eu quase sorri. Dias atrás, aquilo nunca aconteceria sem ela me xingar. Talvez a noite anterior tenha feito ela ver um lado meu mais bacana, e por isso a “liberdade”.
- Nadinha. Inclusive, obrigada pela carona ontem e a festa de Cody. Eu realmente vou atrás da doceria dos seus amigos. - arqueei uma sobrancelha e sorri amigável.
Aquilo já estava começando a ME deixar nervoso. não era daquele jeito. Não mesmo.
Não sei se aquilo poderia ser considerado um sinal ou algo do tipo, mas tinham alguns dedos batendo na porta. Era . Parecia que uma bolha tinha se estourado e a realidade voltado. se recompôs, arrumando uma mecha do cabelo e abrindo a porta, saindo dali às pressas e permitindo que entrasse.
- Hmmmm. - foi só o que saiu do meu melhor amigo, junto com um olhar altamente malicioso.
- Cara, você acredita que eu tava literalmente a menos de um metro do corpo dela e não rolou nem um xingo sequer? Ela agiu totalmente calma, como se estivéssemos tomando chá da tarde e conservando sobre passarinhos! - me manifestei totalmente indignado, e eu já nem sabia mais se aquilo era bom ou ruim.
- Acho que você deveria estar feliz por isso, não é? - meu melhor amigo franziu a testa totalmente confuso.
- Ela não é assim. Ontem eu fui legal com ela, até demais. Fomos para a festa de aniversário surpresa do namorado da e hoje ela...
- Epa, espera aí... Que diabos aconteceu entre ontem e hoje? - continuava mais perdido que pinto no lixo, até se sentou.
Expliquei como tudo aconteceu, e ele prestou atenção em cada palavrinha.
- Simplesmente não parece ser a ! - finalizei com as mãos no rosto, coçando os olhos e esperando alguma coisa sair da boca de .
- Por que você está tão abalado com a reação da ? Digo... você nunca se importou em ver ela nervosa com você, e agora que a situação mudou, você basicamente pirou. Tem algum motivo pra isso?
Eu ri.
Sério, eu não aguentei.
- Que merda você tá falando, ? - continuei a rir, enquanto meu melhor amigo continuava sério.
- Qual é, , minha mãe é psicóloga, esqueceu? Talvez, bem no fundo, você realmente esteja interessado na . - ele deu uma piscadinha marota e acabou rindo também. Não era um riso de zoeira, e sim, um riso de quem estava esperando toda a minha negação desesperada, mas eu não ia dar esse gostinho a ele.
- Oh meu Deus, como não pensei nisso antes? Você com certeza tem razão, ! - afinei minha voz, colocando a mão no coração e melhorando minha atuação. Nossas risadas aumentaram e diminuíram novamente.
Tínhamos trabalho a fazer.
- A propósito, como é o namorado da ? - sua atenção continuava nos papéis em frente aos seus olhos, claramente tentando fingir que aquela era só mais uma perguntinha boba.
- Normal. O problema é que o cara se atrasou pra caramba e teve uma reação bem sem graça pra quem estava recebendo uma festa surpresa com todos os amigos reunidos. - respondi sem delongas, apenas mandei a real e o meu ponto de vista que tava certo.
Homens conhecem homens, e aquele claramente não tinha ficado satisfeito com a surpresa.
- Interessante. - soltou uma risada fraca, aquela típica risada de quem já estava planejando algo em já cabeça.
- Mas ainda assim, ela namora, cara. Sei que você é menos pior que eu e ainda quer casar, ter filhos e bla bla bla, mas por favor, que seja com uma solteira, né? - me ajustei na cadeira, encarando meu melhor amigo, que demorou alguns segundos para fazer o mesmo. era companheiro, sempre foi, mas eu sempre soube que nossas mentes, gostos e planos eram totalmente diferentes. Sentimentalismo era o sobrenome do meu melhor amigo, mas ele só mostrava pra quem realmente valia a pena.
- Daqui a pouco eu faço 30 anos e continuo solteiro. Eu sei que você não liga, mas eu ligo. - ele respondeu com a voz lotada de drama, e mais uma vez, caímos na risada.
- Sossega, caralho. Temos 28 e estamos muito bem assim. Procura uma solteira, por favor. - voltei a me concentrar nos papéis que estavam em minha frente, assim como ele.
Alguns dias passam voando, enquanto outros demoram uma eternidade. Tive alguns casos pra finalizar, outros estavam começando e outros eu trabalhava com . Entre tudo isso teve uma ligação com meu pai, ele queria me encontrar para conversarmos novamente sobre os acontecimentos. Ele nunca deixava nada pra escanteio.
Ajeitei minha bagunça e saí da sala, e junto comigo, ninguém menos que . Ela nem mesmo me olhou, apenas caminhou até o elevador, assim como eu.
12 andares em silêncio.
Cada um foi em busca do seu carro, também em silêncio. Dava pra entender? Não, não dava.
Não me importei com a rádio que estava tocando e muito menos pensando em nada. Eu só queria dormir.
Entrar em meu apartamento foi como tirar um peso das costas. Tinha uma certa bagunça na cozinha por conta das minhas comidas, mas eu estava cansado demais para me preocupar com aquilo. Fui direto pro banheiro, sentindo aquela água quente batendo em meu corpo e em seguida não me importei se aquilo pudesse quebrar a cama ou não, apenas me joguei ali.


- Como você pôde fazer isso? - ela me encarava com nojo, desgosto.
- E o que VOCÊ fez comigo, hein? Não tenta tirar o seu da reta, Genevieve! - respondi à altura, porém claramente mais nervoso e até um pouco mais descontrolado.
- Então por que você não chama a polícia? - aquele sorriso maligno que eu nunca percebi que estava ali, se formou. Aquele sorriso estava sendo guardado pra quando eu estivesse na pura merda e sem saída. Ela sempre quis aquele momento.
- Você é uma desgraçada, sabia? - dei passos lentos até nossos corpos se encostarem, e continuei até suas costas se chocarem contra a parede.
Nojo, ódio, raiva, arrependimento e uma vontade de gritar tanto que poderia deixá-la surda.
- Eu? Olha a merda que VOCÊ fez, ! - ela gritou com o dedo na minha cara, enfurecida. Ela não pegaria aquela responsabilidade nem fodendo.
- EU FIZ POR VOCÊ! - berrei, fechando o pulso com toda força e batendo na parede. Minha cabeça se abaixou e eu senti que toda minha vida estava sendo literalmente sugada de mim. Genevieve e seu poder de sempre conseguir a porra que quer.
- Não ouse colocar a culpa em mim! Você foi burro e ingênuo, isso não é culpa minha! Mas olha pelo lado bom, você não acabou só com a sua vida, acabou com a minha também. - aqueles gritos se transformaram em risadas, que em seguida, se transformaram em lágrimas. Ela estava chorando de raiva.
- A sorte é que eu não te conheço de verdade, não é mesmo? Vai ser muito mais fácil te esquecer, Genevieve, se é que esse é o seu nome verdadeiro, sua...
- Sua o que, huh? Você acha mesmo que o que sai da sua boca me ofende, meu amor? - ela frisou a palavra “amor” com desdém, enxugando aquelas lágrimas de qualquer jeito. - Mas o que sai da minha boca te machuca, não é mesmo? Talvez eu comece a falar da sua mamãe, que tal? - ela segurou em meu queixou delicadamente, mas aquele olhar era o suficiente pra me fazer perder o ar por longos minutos.
A minha vontade era de fazer todas aquelas madeiras que formavam aquela casa caírem em cima de Genevieve, mas algo me impediu. Os passos rápidos e a respiração descompassada de se fizeram presentes ali.
- Chega! Vamos, . Ela não vale a pena. - atropelava as próprias palavras, se aproximando e tentando me puxar para fora dali.
- Só podia ser você, né? - ela gritava com ódio, se aproximando rapidamente do meu melhor amigo, que segurou em seus braços com força.
- Acabou, Genevieve. Adeus. - ele deu um leve empurrão na garota, que parecia incrédula.
- Vocês ainda vão se arrepender disso tudo um dia, eu juro! - ela gritou novamente, e tentava me puxar com toda sua força, até que minhas pernas finalmente me obedeceram.
O frio nem mesmo importava no momento. Apenas entramos em seu carro e por mais que aquele caminho fosse horrível pelo fato de basicamente ser uma merda de uma floresta, quanto mais aquele carro se afastava daquela maldita casa de madeira e de Genevieve, mais eu conseguia finalmente respirar.
- ... - encarei meu melhor amigo com certo nervosismo. Não se precisavam de palavras, ele sabia sobre o que se tratava.
- Ele está morto, . Fica tranquilo, nossos pais vão dar um jeito nisso, tudo bem? - ele engoliu o próprio nervosismo para dizer aquela frase em pura clareza e calmaria.
Estávamos dirigindo em direção à nossas antigas vidas, coisa que nunca deveria ter mudado.


Acordei no pulo. Atrasado. Eu nunca me atrasava.
Banho, chaves, carro. O café da manhã infelizmente teve de ser sacrificado.
Aqueles 12 andares subiram numa puta lentidão. Assim que a porta se abriu, apressei o passo até a mesa de Violet.
- Dois cafés extremamente fortes, pelo amor de Deus. - supliquei juntando as mãos.
- Acho que você vai precisar de mais que isso. - Violet tentou segurar o riso, mas não conseguiu. Alguma coisa estava acontecendo. Caminhei até minha sala, abri a porta rapidamente e a fechei na mesma velocidade. Refiz todos os meus passos novamente até a mesa de Violet.
- Quatro cafés misturados com energético, por favor. - encostei minhas mãos em sua mesa, respirando fundo. Aquele riso gostoso dela me deu uma certa calma.
- Você está bem, meu filho? - ela tocou em meu rosto com carinho enquanto seus riso cessavam.
- Não mais. - sorri simpático, ou pelo menos, tentei - Preciso enfrentar essa batalha, até mais tarde!
Caminhei novamente até meu escritório, entrando no mesmo às pressas.
- Bom dia, meu filho. - meu pai sorriu animado, balançando em minha cadeira.
- Eu já falei que detesto quando você vem aqui, não falei? - bufei decepcionado, rolando os olhos disfarçadamente.
- Você deveria se orgulhar, isso sim, rapazinho. - ele finalmente parou com a cadeira, me lançando um sorriso irônico.
- Vamos fazer isso rápido, pai.
-Você anda chateando muito alguém, meu filho? Primeiro uma bomba, agora uma caixa com fotos suas... - ele começou a vasculhar alguma coisa dentro de sua pasta.
- Eu sonhei com a Genevieve hoje. Sonhei com o dia que... Você sabe. - aquilo pareceu mais forte do que eu, mais pesado e mais doloroso do que já era. Eu precisava soltar aquilo pra alguém, e ironicamente, a melhor pessoa para tal coisa, era meu pai.
- Ela está na Carolina do Norte, . Eu chequei muito bem, lembra? - a seriedade tomou conta do local e do seu tom de voz.
- Você só ficou sabendo que ela estava morando com uma tia por lá.
- Eu te mostrei fotos, ! Ela até estava trabalhando na época, lembra? - sua voz impaciente e séria me chamou a atenção. Ele detestava qualquer tipo de desconfiança da sua palavra.
- Isso já tem 2 anos, pai. Ela pode muito bem ter se fingido de boa moça todo esse tempo pra agir agora. E se for ela por trás de tudo isso? Como é que fica? - aquilo saiu do meu peito feito uma bomba. Aquilo tudo simplesmente PRECISAVA sair de dentro de mim.
Um sonho com aquela maldita e eu já ficava nadando em agonia.
- Fica tudo normal, ! Pelo amor de Deus, o que aconteceu nem mesmo foi sua culpa! - meu pai parecia ainda mais impaciente, passando a mão pelos cabelos e tentando manter a calma. Era um assunto delicado demais para os dois.
- Você nem estava lá! - aquilo quase saiu como um grito. Nossos olhares nervosos e angustiados se encontraram, e juntos, respiramos fundo também.
- Mas eu que arrumei a sujeira junto com o pai do , lembra? - aquilo não saiu como um julgamento ou como se ele estivesse tentando jogar seu feito em minha cara, era apenas uma tentativa de me acalmar.
- Pai... - sussurrei exausto. Aquele assunto sempre vinha com uma energia tão ruim que parecia que eu voltava no tempo, para aquela noite, em frente à Genevieve, enquanto ela falava absurdos e eu sentia minha vida sendo sugada.
- Filho, eu sei que você se sente mal porque eu te coloquei nesse emprego, mas você precisava, lembra? Você estava numa fase horrível e eu não podia te perder como eu perdi a sua...
- Mãe? - fechei os meus olhos e o interrompi. Mais uma vez, respiramos fundo.
- Exato.
- Todo mundo acha que eu só estou aqui por você. - continuei com os olhos fechados, prosseguindo com aquele assunto que estava quase me fazendo, literalmente, surtar.
- Mas isso não é verdade! Você foi pra faculdade, e mesmo com aquela confusão toda, você conseguiu ir até o fim. O que importa é que você faz um bom trabalho e pronto! - meu pai se levantou bruscamente, com o tom de voz totalmente indignado. Ele ODIAVA quando eu colocava meu próprio talento em dúvida.
- E se isso tudo for coisa da Genevieve?
- Eu vou atrás de informações sobre ela novamente, ok?
- É que... não acho que eu sonhei com ela à toa, entende? - eu arranjei forças pra levantar, me juntando ao meu pai, que observava aquela vista incrível que eu tinha, mas às vezes eu até esquecia que estava ali.
- Entendo, filho, mas você não pode achar ou deixar que essa mulher continue tendo o controle da sua vida. Vão fazer 3 anos! - sua voz carregada de carinho, apoio e preocupação me fez lembrar da minha mãe. Eu quase sorri.
- Obrigado.
E então, foi como se o momento tivesse parado. Longos segundos de passaram e continuamos ali, observando aquela vista e aquele sol fraco que tentava se fazer cada vez mais presente em meio à tantas nuvens.
Então o momento passou.
- Se você achar que pode ser alguma outra pessoa por trás de tudo isso, me ligue, ok? - ele ajeitou sua gravata, pegando sua grande pasta e caminhando até a porta.
- Ok.
No mesmo instante que meu pai estava saindo, tentava entrar. Os dois se cumprimentaram e ela entrou ali, com uma saia preta, uma camisa rosa clara e aqueles saltos pretos enormes que ela fazia parecer fácil andar sob eles. Aquilo parecia um teste. Boa parte de mim queria infernizar a paciência de por diversão, e a outra parte, a menor, queria apenas conversar.
- Aqui estão alguns casos com possíveis acordos onde eu consegui basicamente alguns milagres para montá-los. - ela sorria consigo mesma, totalmente satisfeita com o própria trabalho e quase me ignorando ali - E isso aqui é um envelope que a Maggie te mandou com as filmagens do estacionamento e da pessoa que deixou a caixinha em cima do seu carro. - ela colocou tudo em cima da mesa e estava pronta pra se retirar.
- Você realmente acha que só existe uma pessoa nesse planeta que é certa pra você? - aquela merda saiu, só saiu. O problema é que eu não fiquei nervoso com o que saiu da minha boca, e sim, do que ela poderia responder.
- Do que você tá falando? - em um ano, eu nunca tinha visto com uma expressão tão confusa. Eu quase ri, mas meu cérebro não permitiu. Aquilo era sério, e eu esperava uma resposta séria e sincera também.
Eu precisava.
- Você acha que só existe uma pessoa certa, uma alma gêmea, pra cada pessoa? - refiz a pergunta de maneira mais séria ainda, mas logo relaxei. ainda parecia confusa, mas ela sabia que eu estava falando sério. Ela aparentemente não sabia o que responder, parecia que seus pensamentos lutavam entre si, então ela simplesmente respondeu o que parecia mais conveniente, como sempre:
- Não importa o quão boazinha eu pareça, lembre-se que eu não te suporto, . Só porque a gente se tratou bem nos últimos dias, não significa que somos amigos e que podemos conversar sobre coisas desse tipo.
- Você aceita jantar comigo? - aquilo foi, de longe, em anos, o convite mais sério que eu tinha feito pra uma mulher. Saiu numa naturalidade tão grande que eu realmente percebi que eu queria jantar com .
Talvez fosse o nervosismo.
Talvez fosse o efeito Genevieve.
Ou talvez fosse outra coisa.
Mas eu queria.
- Caralho, ! - ela simplesmente rolou os olhos e saiu da sala, batendo a porta sem cuidado.
E então eu finalmente consegui sorrir. Foi como se uma luz finalmente se acendesse no fim do túnel. era uma das mulheres mais bem decididas que eu já tinha conhecido naquela empresa, e se ela simplesmente não quisesse jantar comigo, ela responderia um “não” em alto e bom som, mas ela simplesmente saiu sem me dar resposta nenhuma.
Ela iria aceitar, mais cedo ou mais tarde.
’s POV end.

Às vezes eu sinto que tem duas pessoas dentro de mim. Uma quer voar, e a outra tem o pé no chão. Uma quer tudo planejado, e outra quer sair pelo mundo e viver um porrada de aventura. Eu vivo uma guerra dentro de mim tentando ouvir as duas, sem saber qual delas eu sou ou qual delas quero ser.
É engraçado como a vida vai andando e mudando e a gente nem percebe. Às vezes você nem sabe que algo mudou. Acha que você é você, e sua vida ainda é sua vida, mas você acorda um dia e olha ao seu redor e não reconhece mais nada… nada mesmo!
Foi exatamente assim que eu me senti quando perdi Caleb e estou me sentindo assim novamente por . Não, não no sentido amoroso, e sim, por ver que em menos de 2 semanas conseguimos fazer coisas que não tínhamos conseguido em 1 ano, e aí puft, vem um convite para um jantar SUPER sério e eu corro igual uma adolescente que não sabe falar “sim” ou “não”.
- Ele é inacreditável! - abri a porta da doceria e chamei atenção com meu tom de voz mais alto do que o normal. Não tinha nenhum cliente ali, apenas nós.
- O que aconteceu, madame? - veio às pressas ao meu encontro, e logo em seguida .
- ! Ele veio todo sério com um papinho estranho e me chamou pra jantar. Foi tipo, um convite MESMO. Eu nem respondi, só saí de lá igual uma bobinha assustada. Gente, eu tenho 26 anos e ainda não to sabendo lidar com ! Eu vou ficar careca! - passei as mãos pelos cabelos, mostrando alguns fios que estavam em minhas mãos.
- Espera aí. - se levantou rapidamente e voltou com um prato de brownies recheados. Ele me conhecia tão bem! - Agora explica tudo direito, garota. - ele pediu num tom de voz autoritário e eu comecei.
Teve o silêncio. Aquele que incomoda, sabe?
- Ok, podem falar sem dó. - fechei os olhos e os apertei, me preparando para o que estava por vir.
- Em primeiro lugar, qual o motivo pra você não aceitar jantar com ? - pegou um pedacinho do brownie e enfiou na sua boca com calma, me dando tempo para pensar.
- Porque é o , gente! - ri sem graça, como se aquela resposta fosse totalmente óbvia.
- Vamos ver... ; advogado, bonito, com certeza tem dinheiro, está tentando ser legal com você e é isso. O que tem de errado nele ou no convite? - foi a vez de .
Era assim que resolvíamos os nossos problemas. Colocávamos todas as cartas na mesa e íamos analisando a situação passo a passo.
- Eu acho que... - eu não tinha palavras porque simplesmente não tinha uma justificativa para aquilo. Se eu falasse que o problema era o comportamento de 1 ano do , eles me diriam que as pessoas mudam e etc, mas parecia ser mais profundo do que aquilo. O buraco era mais embaixo. - Tudo está igual, mas tem esse vazio dentro de mim que não estava aqui antes, e vocês sabem porquê. - finalizei com uma suspiro pesado. Aquilo sempre voltava.
- , até quando você vai usar o seu falecido noivo como desculpa pra você não se arriscar? - levantou o tom de voz à um nível tão sério, que por um segundo, não parecia ela. Aquilo me deu uma pitada de raiva. Era raiva por saber que no fundo, ela tinha razão. Eu abri minha boca pra retrucar, mas ela ergueu o dedo, me impedindo - Você fica guardando a sua vida pra depois, só que nunca pensa que talvez não tenha um "depois", entende? Não estou falando especificamente do , mas para pra pensar... Quantos relacionamentos você teve depois do Caleb? - ela finalizou com uma pergunta que valeu como um soco no estômago.
Eu não imaginava que aquilo viria daquela forma, mas veio. Quando dói, é porque estão sendo falados fatos e verdades, e eu não podia me esquivar daquilo.
- Isso mesmo, nenhum! Nadinha, ! Você se fechou tanto pra o amor que você perdeu totalmente a fé nele. Você pode dizer não pra o , mas e depois? Você só vai ficar falando “não” pra todo mundo até quando? E afinal, não sei como você lida com a falta de sexo, porque olha... - aquilo não podia faltar, né? O discurso sério de sempre vinha acompanhado com algo engraçado.
Nossas risadas foram cessando, mas ainda sobrou aquela tensão no ar, como se estivessem esperando algo extraordinário da minha parte.
Eu precisava seguir o conselho dos meus amigos, eles estavam certos.
Acho que a pior coisa é você saber que seus amigos tem razão, mas não sabe lidar com a situação, não saber colocar aquele conselho em prática.
Eu precisava ter o controle total da minha vida novamente.

12 andares.
Fugimos desesperadamente de nossas promessas, torcendo para que sejam esquecidas, porém mais cedo ou mais tarde, elas nos alcançam. Eu sempre pregava sobre se arriscar, sobre viver, amar e ser livre.
Uma baita hipócrita.
Eu ainda tinha um medo muito grande dentro de mim que me impedia de viver bastante coisa, mas eu ainda tenho sorte, e muita. Eu tenho amigos que me mostram que às vezes, descobrir que a obrigação que eu mais temia, não vale a pena fugir.
Talvez não valha a pena fugir de ou de qualquer outra pessoa que tente se aproximar. A gente só descobre tentando, certo?
Acontece que quando algo ruim acontece na nossa vida, a gente tenta melhorar a situação na nossa visão. A gente tenta deixar aquilo menos feio. Sabe aquela visão romântica de que toda dor, na verdade é terapêutica e bonita, e até um pouco poética? Não é verdadeira. É apenas lixo e é apenas dor, mas a gente insiste em tentar fazer aquilo ficar bonito pra o nosso próprio bem.
26 anos e eu ainda precisava de puxões de orelha para acordar e parar de fazer aquilo. Violet estava em sua mesa, e levantou de maneira alegre para me dar seu abraço de “bom dia”. Era extremamente confortável.
- Tudo bem, querida? - ela perguntou com certa preocupação. Como ela sabia de tudo, hein?
- Tudo sim, só... dormi pouco. - sorri sem graça, tentando disfarçar.
Eu realmente tinha dormido pouquíssimo, graças à . Não, não pensando nele, e sim, em todas as situações que ele entrava no meio e até as que não tinham nada a ver com ele. Complicado. Caminhei até meu escritório e observei aquela vista que eu nunca me cansava. Aquele sol fraquinho que batia ali, era de verdade, a melhor coisa que acontecia entre aquelas quatro paredes. É como se, de alguma forma, aquilo me alertasse de que “ei, você está viva, sua pele está sentindo o sol quentinho, então trate de agitar esse bumbum e aproveitar sua vida enquanto você tem uma!”.
- , aonde estão os... - a voz de se fez presente ali, mas não me importei. Ouvi a porta sendo fechada e seus passos se tornando mais altos. Ele estava ao meu lado. - Tá tudo bem? - ele perguntou num tom confuso, e eu até queria observar sua expressão, mas aquele era o meu momento. Permaneci com os olhos fechados e sentindo o sol batendo em minha pele.
Eu tinha que fazer aquilo, eu tinha que passar daquele obstáculo, daquela barreira. Não tinha desculpas que pudessem justificar a minha falta de interesse na minha própria vida, porque com certeza não era o que Caleb gostaria de me ver fazendo. Aquilo não era por ele, e sim, por mim.
- Eu aceito jantar com você. - abri os olhos, o encarando com uma seriedade misturada com diversão. Ele provavelmente tinha pensado que era uma brincadeira, mas o seu olhar não mentia. Ele não disse nada, apenas continuou ali, ao meu lado, sentindo o sol batendo em seu corpo também.
Eu finalmente estava acordada.

Capítulo 4

- Eu não consigo nem imaginar toda a dor que você ainda sente, muito menos o que deve passar pela sua mente, mas sabe, você ainda está aqui! Sua vida continuou e é seu dever vivê-la. - continuava com seu discurso motivacional enquanto terminava a minha maquiagem. Ela era ótima naquilo.
- Posso ser totalmente honesta com você? - apertei meus olhos e engoli aquele nó que estava quase me sufocando. Eu sabia que podia falar qualquer coisa pra ) que ela tentaria analisar da melhor maneira possível.
- Claro.
- Eu tenho medo de sei lá, esquecer ele, entende? Parece traição ou algo do tipo. É estranho. - fiz uma careta e respirei fundo, analisando minha expressão no espelho à nossa frente. Minha melhor amiga suspirou e deu um sorriso fraco, sem mostrar os dentes.
- , o Caleb está morto. Não é traição você seguir sua vida. A história de vocês foi linda, mas isso não pode te prender pra sempre. Vocês planejaram tantas coisas, tantos momentos, tantas viagens, mas infelizmente isso acabou. Porém, o fato disso ter acabado não significa que você não tenha direito de ter isso tudo de novo com uma pessoa diferente.
- Eu sei, mas esse pensamento irritante continua na minha cabeça. É como se eu estivesse...
- Se auto sabotando? - ela completou minha frase, notando a minha irritação totalmente explícita ali. Ter que encarar aquilo ainda era um sufoco.
- É.
- Pra ser sincera, às vezes eu acho que eu e o Cody vamos acabar a qualquer momento. Às vezes parece que eu gosto muito mais dele. - ela disse aquilo numa naturalidade e tranquilidade tão grande que eu até me esqueci da irritação. Seu olhar tristinho se fez presente, e a irritação se transformou em incômodo.
- Por que você nunca me falou sobre isso? - me virei às pressas, a olhando nos olhos.
- Porque não precisa. Eu sei o que você pensa, , eu te conheço melhor do que conheço a mim mesma. - ela sorriu fraco, segurando minha cabeça e a virando pra frente novamente. Ela estava apenas retocando a minha sobrancelha.
- Mas você acha que vale a pena continuar com essa relação? - perguntei com extremo cuidado, como se aquilo fosse um vidro que pudesse quebrar a qualquer momento. sempre pareceu muito confiante em sua relação com Cody, então ouvir aquilo era definitivamente um choque. Talvez minhas intuições estivessem certas.
- Estou torcendo que sim, mas eu também pedi um sinal do universo. Estou esperando ser atendida. - aquele olhar triste foi se desfazendo no mesmo instante que a maquiagem foi finalizada.
) não era uma pessoa fechada, mas ela gostava de primeiro usar todas as armas que tinha pra depois desistir de algo.
- Ficou incrível! - exclamei sorridente, me levantando dali e observando toda a minha produção pra um jantar com . Parecia até estranho de se pensar.
- Só faça o que você sentir que está confortável em fazer, ok? Não se pressione, mas também não se prenda tanto. Boa sorte, girassol. - seus braços me envolveram num abraço cheio de carinho e vibrações positivas.
- E você também! Não se pode ficar desconfortável numa relação só pra continuar levando essa “felicidade” até seu sinal chegar, ). - tentei argumentar, mas pra sorte da minha melhor amiga, a mensagem de tinha chegado. Ele já estava me esperando.
- Vou esperar, talvez seja bom. Agora anda, vai logo! - ela finalizou com um sorrisinho meigo, me levando até a porta, por onde saí dando longos suspiros.
Não fiz questão de me arrumar tanto assim, foi só o básico pra um jantar. Nada de uma roupa super guardada ou planejada para uma ocasião especial. Dei boa noite para o porteiro, que me devolveu com um sorriso simpático. Caminhei sem pressa até o carro de , que me esperava encostado no mesmo de um jeito ridiculamente estiloso. Ele era bonito pra caramba e eu não podia negar.
- Você está linda. - seu sorriso se abriu assim que parei ali, em frente ao seu corpo. Acabei sorrindo em resposta, foi só o que eu consegui fazer.
Aquilo parecia uma mentira. Eu e , saindo para jantarmos juntos.
O silêncio que estava presente ali em seu carro enquanto íamos para o local não parecia incômodo. Acho que ele estava tendo os mesmos pensamentos que eu.
- Espero que você goste da minha comida. - ele finalmente abriu a boca depois de minutos, entrando no estacionamento de um prédio.
Puta. Que. Pariu.
- Vamos jantar na sua casa?
- Lógico! Eu te falei que gosto de cozinhar e você até duvidou, lembra? Agora chegou a hora de provar que eu sou bom mesmo. - seu sorrisinho convencido se fez presente com louvor. Estava demorando.
Os 6 andares também foram subidos em puro silêncio. Assim que a porta de seu apartamento foi aberta, eu finalmente me toquei que, puta merda, era oficialmente um... encontro?!
- Bonito. Bem bonito. - observei o local com calma, observando o máximo de detalhes que eu podia. Era quase uma mania.
- Eu sou mesmo, obrigado. - ele riu divertido e eu também. Ele não perdia uma oportunidade de se achar.
- Você não está achando isso estranho? - não resisti. Aquela pitadinha de desconforto acabou saindo pela minha boca, e recebi um olhar confuso porém ciente do que eu estava falando.
- Não quero falar disso hoje. Finge que você não me conhece e pronto, que tal? Vai ser melhor assim do que você ficar martelando na sua cabeça que somos colegas de trabalho que se infernizam o tempo inteiro. - ele deu uma bela resposta, me guiando até a cozinha e não me deixando retrucar.
jogou sua jaqueta de couro em algum lugar dali, ficando só com a camiseta que marcava seus músculos. Eu estava encostada no balcão, enquanto ele botava a mão na massa. Aparentemente ele sabia o que estava fazendo, não era perdido na cozinha como eu imaginei que fosse. Me ofereci pra ajudar no mínimo 500 vezes, mas ele não deixou.
Surpreendentemente, eu estava bem confortável.
- Então... - tentei puxar algum assunto. Eu era péssima naquilo, nem mesmo sabia como começar. Não que iríamos fazer algo, mas todo aquele silêncio parecia chato demais, era impossível um jantar sem conversa.
- Como anda o Jahi? - ele sorriu alegre, perguntando com animação. Eu realmente não esperava aquilo, nem mesmo esperava que ele lembrasse o nome do meu menino.
- Ele está... bem. - respondi um pouco receosa.
- Você vai ver ele esse ano? - ele continuou, e aquele tom de voz não parecia forçado ou desinteressado, ele realmente queria saber. Nem mesmo parecia o mesmo homem que me atazanava diariamente.
- Sim, eu espero. Farei o possível.
- Por que ele? - ele parou de mexer a comida da panela pra exclusivamente olhar pra mim. Eu nem mesmo tinha entendido aquela pergunta, por sorte, ele a refez - Por que você escolheu ele? Digo, tenho certeza que não tinha só o Jahi lá, não é? Mas você recebe notícias dele mensalmente, então vocês devem ter algo bem forte. - ele voltou a mexer na panela e aquela pergunta foi um misto de emoções.
sendo agradável e interessado. Parecia demais pra mim, mas eu também não podia simplesmente dar um chilique e acha que aquilo era por interesse ou algo do tipo. Talvez eu devesse realmente fingir que não o conhecia e ver como as coisas iriam sair.
Chacoalhei minha cabeça de leve, me livrando daqueles pensamentos irritantes que sempre tentavam me impedir de fazer algo. Eu precisava, pelo menos uma vez, ser totalmente destemida e só aproveitar o momento.
- Eu não escolhi ele, foi o contrário. Quando eu cheguei lá, vi ele brincando de médico com um amiguinho. Ele correu pra mim quando me viu e perguntou se eu queria brincar também. Ele nem mesmo sabia meu nome, mas ele correu até mim, entende? Foi tão natural, tão forte. Ele não me largou durante o dia inteiro, e brincamos juntos durante todos os dias que eu estava lá. Já tem três anos que eu acompanho a vida dele, tento ajudar financeiramente da melhor maneira, mas você sabe... a situação é complicada. - soltei um suspiro pesado porém com um sorriso no rosto. Falar sobre Jahi era sempre um privilégio.
- Por que você não traz ele pra Chicago por alguns tempos? - perguntou cheio de dúvidas, e aquilo foi como um soquinho na boca do meu estômago. Mal sabia ele que Jahi foi o que me fez sentir menos dor em relação à perda do meu filho. Jahi era, de certa forma, meu filho também.
- Porque eu provavelmente não vou querer levá-lo embora. - sorri fraco, numa sinceridade extrema. Eu realmente não teria forças pra levar meu menino embora - E também tem a mãe dele, provavelmente eles não gostariam de se separar, e ela é bem durona, sabe? A ideia de sair de lá parece assustadora pra ela. - eu ri baixo. A mãe de Jahi realmente era durona, mas ela vivia de medo. Ela tinha medo de sair de lá, medo de explorar uma vida diferente. O foco dela, infelizmente, não era sair de lá, porém era uma das melhores mulheres que eu já tinha conhecido em toda a minha vida. Forte, decidida e dedicava a vida total ao Jahi.
- Quem sabe um dia, né? - ele sorriu simpático, e por mais que eu achasse que era um merda insensível, ele percebeu que aquele assunto tinha me deixado pensativa demais. Ou frágil. Os dois. - Se você ainda quiser ajudar, que tal pegar o sal pra mim dentro desse armário do seu lado? - ele soube mudar a situação de uma maneira que não nos deixasse desconfortável.
Peguei o sal e caminhei até entregá-lo em suas mãos. O cheiro estava ótimo, eu tinha que admitir.
- E você, , não vai me contar nada da sua vida? - cruzei os braços e me encostei na parede atrás dele. Até que eu estava curiosa pra saber algo diferente sobre ele.
- O que você quer saber? - ele cruzou os braços e se virou, ficando frente à frente. Que merda, aquela camiseta era um saco por marcar tanto aqueles músculos.
- Alguma coisa interessante. Eu já conheço o seu lado insuportável, então me fala sobre o outro lado. - ele continuou ali, parado, sem abrir a boca - Que saco, , fala qualquer coisa! Sua infância, família, suas quinhentas namoradas que você deve ter por Chicago, sua amizade com o , qualquer coisa! Você não me chamou pra jantar pra ficar só me ouvindo, né?
- Em primeiro lugar, eu não tenho quinhentas namoradas espalhadas por Chicago, muito pelo contrário, eu estou totalmente comprometido em não estar comprometido. - ele finalmente retrucou, ainda na mesma posição e mesma expressão - E em segundo, não consigo entender essas pessoas que dizem que a infância é a época mais feliz de uma pessoa. Pra mim com certeza não foi. Em terceiro, ninguém consegue pensar de estômago vazio. - ele soltou um sorrisinho maroto, virando novamente e mexendo na panela.
Estava pronto.
Nos acomodamos na mesa de jantar com nossos pratos cheios, mas tinha algo ali que puts, aquilo sim estava me incomodando. O fato dele ter falado sobre a infância com tanto desdém. Ele nem mesmo pareceu chateado ou algo do tipo, aquilo simplesmente saiu da boca dele como se fosse um grande nada.
- Ok, vou admitir, mas isso não te dá o direito de se achar, tudo bem? - fui preparando o terreno, chamando a atenção de - Você realmente cozinha bem.
- Um elogio vindo de você? Esse jantar vai ficar pra história. - ele gargalhou, enchendo nossos copos de vinho.
Meu ponto fraco. Ele mesmo, o vinho.
- Até que isso está melhor do que eu imaginava. Você é bem legal quando quer, .
- Você confunde as coisas. Às vezes eu só estou sendo sincero e você já pensa o pior, entende? - ele realmente achava que aquele comportamento de um ano era normal?
- Existe uma diferença entre ser sincero e babaca, . - arqueei uma sobrancelha com seriedade, dando um gole no copo de vinho.
- Estou sendo ofendido na minha própria casa, é isso? - foi a vez dele de arquear uma sobrancelha, mas logo em seguida acabou rindo. Ele realmente não estava a afim de estragar o clima agradável.
- Nunca escondi o que penso de você, mas até que você consegue ser legal. Deveria tentar essa versão mais vezes.
- Melhor não. - respondeu ríspido. Ops, seria aquele um ponto fraco?
- Por que?
- Ser legal demais atrapalha, .
- Quem te disse?
- Eu sei.
- Como? - o encarei quase sorrindo. Aquela sequência de perguntas e respostas estavam indo à um lugar que nenhum dos dois tinha noção.
- Você faz perguntas perigosas. São as minhas perguntas preferidas. - ele deu um sorriso intrigante, bebendo mais um pouco do seu vinho. Naquela altura, nenhum de nós continuava a comer.
- Então responde.
- Melhor não.
- ... - tombei a cabeça pro lado, ainda esperando que aquela dureza toda se desfizesse. Aquilo foi como uma luz. A solução de um problema. claramente tinha seus problemas, seus demônios, assim como eu. Eu não falava muita coisa e ele também não. Duas pessoas machucadas, talvez? Eu não gostava de me taxar assim, mas é como rotulam as pessoas que escondem seu passado, certo? - Estou tentando ser gentil e entender seu lado, .
- Que lado? - ele se fingiu de desentendido. Aquilo estava engraçado. Ele se levantou, retirando os pratos da mesa, talvez na tentativa de escapar daquilo.
- Por que você não fala de você? Vou começar a achar que você é fugitivo da polícia ou algo do tipo. - sorri bem humorada, dando mais um gole no vinho e entregando o outro copo para , que fez o mesmo.
- Agora eu que estou começando a achar isso estranho. Quero dizer, um jantar hoje e amanhã provavelmente você vai fingir que nada disso aconteceu ou não vai saber lidar, porque talvez, provavelmente, eu continue enchendo um pouquinho do seu saco. Se pararmos pra pensar, foi um jantar que não vai nos dar nenhum resultado. - ele parou ali, no meio da cozinha mesmo, falando tudo aquilo num tom divertido e sério ao mesmo tempo. Ele estava certo, mas também estava errado. Não era assim que as coisas funcionavam.
- Quando você não tem oportunidades, você tem que criá-las, certo? - usei a mesma frase que ele tinha usado comigo dias atrás.
No final de tudo, a fé é uma coisa engraçada. Ela surge quando você não a espera. Aquela conversa ridícula entre nós já tinha me esclarecido tanta coisa. Sabe, de vez em quando, muito de vez em quando, as pessoas irão te surpreender. E de vez em quando, as pessoas podem até te deixar arrepiada. Aquilo parecia apenas uma bobagem, mas ninguém foge tanto de um assunto assim. Naquele momento eu me toquei que nem mesmo tinha nada planejado, ele nem mesmo sabia como aquele jantar poderia rolar, o que aconteceria, ou o que poderia acontecer.
Mas tinha aquilo. Aquele olhar nos olhos dele.
se aproximou com um sorriso levemente malicioso, tirando o copo da minha mão. Uma parte minha gelou e a outra queria correr. Não movi nem um fio de cabelo, apenas fiquei ali, parada.
- Você é bastante interessante, . - ele continuou se aproximando com aquele olhar que, puta merda, eu não conseguiria me mexer nem ferrando.
- , acho melhor... - tentei verbalizar alguma frase rápida, dando dois passos para trás. Me amaldiçoei, me sentindo uma bobinha que não sabia lidar com um homem.
- Melhor não acharmos nada agora, que tal? - ele deu dois passos pra frente, ajustou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha.
Quando você sabe que está pronto pra fazer algo? Quando é finalmente seguro pra seguir em frente?
grudou nossos corpos e eu não estava interessada em desfazer aquilo. Ele me encarou por alguns segundos e encostou nossos lábios de maneira sútil, logo intensificando o beijo que eu nunca imaginei que poderia ser tão bom.
Pra seguir em frente, talvez você precise testar, e se for bom... Puta merda, você vai ter que aprender a lidar com essa nova descoberta.
Minhas mãos foram até sua nuca, onde fiz um carinho gostoso ali, enquanto suas mãos grandes e fortes me seguravam pela cintura. Aquele beijo era como quebrar uma barreira. Era como se eu estivesse explorando um novo horizonte que, honestamente, eu nunca pensei que iria ser explorado. Inúmeros selinhos foram dados para finalizar nosso beijo, e eu estava quase sem coragem de abrir os olhos novamente.
Não tinha sido ruim, eu não estava me sentindo mal, muito menos culpada. A falta de sentimentos ruins ou de um possível surto foi o que quase me fez surtar, mas eu não surtei.
Aquilo, por algum motivo, não me pareceu errado.
Aquilo não estar errado foi o que fez minha mente dar um giro.
- Por que você fez isso? - foi a única coisa que eu consegui dizer, ainda com meus braços ali, entrelaçados em seu pescoço.
- Eu criei uma oportunidade. - ele sorriu satisfeito e que inferno, eu precisei beija-lo de novo.
Muito mais intenso, destemido e mais gostoso. Eu mal podia acreditar que nossas bocas estavam literalmente se tocando, e pior, estávamos aproveitando. Fomos cambaleando de um jeito totalmente desajeitado até encostarmos na mesa em que tínhamos jantado. Me sentei ali às pressas, trazendo o corpo de pra perto do meu, que ficou entre as minhas pernas. O beijo foi pra um nível de desespero. Eu não podia mentir pra mim mesma, não tinha condições ou psicológico para aquilo no momento. O desespero era um pelo outro.
- Eu acho que... - tentei de maneira ridícula verbalizar uma frase que nos fizesse parar, mas não consegui. Afinal, por que eu queria parar? Estava tudo ok.
Era por isso mesmo que eu queria parar. Estava tudo ok. Não era normal.
- Eu estava doido pra usar essa mesa, sabia? - sussurrou entre o beijo, me fazendo rir. Confortável demais, gostoso demais, bom demais.
“Não se pressione, mas também não se prenda tanto.” me lembrei vagamente sobre o que ) havia me falado. Porra, aquilo ali tava muito bom. As mãos de caminhavam pelas minhas coxas já que, ironicamente, eu estava de saia. Eu já não estava nem aí pra nada, logo me fiz o favor de passar a mão por aquele peitoral marcado pela camiseta, e sem pensar - ou depois de pensar muito bem -, tirei aquela camiseta que me impedia de ver aquela beleza toda. Sorri satisfeita, sentindo um prazer imensurável ao passar a mão por ali. Ele também tratou de tirar a minha jaqueta, revelando aquela uma blusinha básica que não estava nada difícil de tirar também. Ele estava quase, quase mesmo, mas aquela frase me atingiu de novo.
“Não se pressione, mas também não se prenda tanto.” E se aquilo estivesse sendo demais pra nós dois?
- Pa-para... - sussurrei no ouvido de , que parou imediatamente com a distruibuição de beijos no meu pescoço. Suas mãos continuavam em minha cintura, porém fazendo um carinho com os polegares. Não tive vergonha de encara-lo, mas quase tive vergonha de falar - Acho que isso tá indo rápido demais. - encostei minha testa na dele, dando um sorrisinho sem graça.
- Sem problemas. - ele retribuiu, levando uma de suas mãos até meu rosto e acariciando o mesmo.
- Acho melhor eu ir pra casa. - falei sem jeito, mas mantinha aquele olhar tão forte e ao mesmo tempo suave, me dando zero motivos pra me sentir envergonhada.
Desci da mesa e ajeitei minha roupa, assim como ele. Meu coração quase doeu quando aquele peitoral foi coberto pela camiseta novamente. O silêncio não era incômodo, mas precisávamos assimilar tudo o que tinha acontecido.
O caminho até em casa, que inclusive ele fez uma baita questão de me levar, foi tranquilo. Até trocamos algumas palavras, soltamos alguns risos, mas não conseguíamos conversar.
Muita loucura pra uma noite só.
- Está entregue. - ele sorriu, parando o carro em frente ao meu prédio. No momento eu realmente não sabia o que fazer, mas ele sim. mandou a distância entre nós pra puta que pariu e me beijou novamente, e aí sim, eu saí do carro. Parecia até que eu estava esperando aquilo.
Caminhei distribuindo sorrisos pra todo canto até chegar em meu apartamento. Eu precisava conversar com Jake e , mas também precisava organizar meus pensamentos e assimilar que eu, , tinha beijado .
Um banho relaxante e deitar na minha cama foi um bom começo. Eu estava totalmente inquieta, como se eu precisasse fazer aquilo pra diminuir a culpa que eu não estava sentido.
Me levantei, indo até meu guarda roupas e pegando uma caixa com algumas fotos.
Caleb. Peguei a minha foto preferida, onde ele estava sorrindo lindamente.
Me lembrei sobre o sinal que esperava do universo. Repassei pela minha mente tudo o que tinha acontecido naquela noite e talvez, bem talvez, aquele fosse o meu sinal, o sorriso de Caleb. Talvez eu já estivesse acostumada com a falta dele e a única coisa que eu achava que tinha restado era o medo, mas não existia. Talvez eu só estive esse tempo todo evitando relações e coisas novas com medo de sentir medo.
Mas não foi assim. Não tinha medo.
Surpreendentemente não tinha.

’s POV
Existem as pessoas que gostam de estar sempre namorando e as que sempre querem estar solteiras e curtir a vida. Já ouvi muito por aí o tanto de gente desesperada por alguém e pelo amor por puro MEDO. Ninguém morre por ficar sozinho, mas as pessoas insistem em achar que precisam de alguém ou do amor. Tenho que admitir que depois de Genevieve foi que eu descobri quem eu realmente era. Passei por um processo profundo de autoconhecimento, repensei atitudes, reconheci melhor os meus próprios defeitos, e mesmo assim, eu continuo bem otário às vezes. Não posso me enganar. Mesmo quando você se conhece e sabe o certo e o errado, existe aquela angústia e aquela vozinha na sua cabeça que te ajuda a fazer a coisa errada. Todo mundo tem isso. Não tenho quem culpar a não ser eu mesmo, mas também vou admitir que deixar de lado a minha autoconfiança e todo o meu grande amor próprio foi o que me permitiu beijar . Caralho, foi muito bom!
Mas a verdade é que eu não sabia como lidar com . Talvez tenha sido isso também que tenha me ajudado, mas ela realmente queria saber da minha vida. Eu deveria ter esperado por aquilo, mas não. Pela primeira vez em muito tempo, até me senti burro. Foi algo bom, mas foi algo que não estava sob meu controle.
A porta do elevador se abriu. Caminhei com aquele sentimento diferente em meu peito. Ansiedade. Parei em frente ao escritório de , onde a porta se encontrava aberta e ela, como sempre, sentindo o sol batendo em seu corpo. Fechei a porta tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas ainda assim, ela percebeu minha presença ali.
- Bom dia, . - meu sobrenome nunca tinha saído de forma tão suave de sua boca. E que boca!
- Bom dia, . - respondi no mesmo tom, calmo, suave e com um sorrisinho um pouco, bem pouco, malicioso. Ela soltou uma gargalhada baixa, logo se recompondo e esticando os braços em sua mesa, ainda de costas e sentindo o sol.
- Quais são as chances de você jantar lá em casa novamente hoje? - fiz questão de chegar bem perto, encostando meu rosto em seu pescoço. Eu podia sentir a tensão no ar, mas de uma maneira boa. Distribui alguns beijos ali, pouco me importando se eu estava autorizado ou não, mas acho que eu nem precisava de resposta pra tal pergunta. virou seu corpo, encaixando suas mãos em minha cintura, apertando ali de uma maneira tão forte, como se estivesse se segurando para não fazer algo mais... selvagem, vamos dizer assim.
- , acho melhor...
Batidas na porta. Merda.
Nos afastamos com pressa e Maggie se fez presente ali, prestando atenção nos papéis que estavam em suas mãos e só depois seu olhar foi parar em nós dois.
- Que bom que encontrei os dois juntos. Vocês precisam ir até a Empire, temos um caso urgente e vocês precisam resolver. - ela jogou a papelada na mesa e já virou o corpo novamente pra sair dali.
- Por que nós? Não pode ser o e o ? - arregalou os olhos, claramente surpresa, enquanto eu prendi o riso. Aquilo com certeza era o universo a meu favor.
- Pelo simples fato de ser urgente e não trabalhar aqui, só isso. - ela soltou uma risada como se aquilo fosse óbvio e finalmente saiu dali.
Aí sim eu ri.
- Não tem graça. - ela cerrou os olhos e cruzou os braços como uma criancinha.
- Vamos logo, é urgente! - repeti as palavras da nossa chefe e ela soltou um resmungo, mas me seguiu.
12 andares em silêncio.
- Você não respondeu merda nenhuma sobre a sua vida ontem. - resmungou após alguns minutos em silêncio no carro. Ela claramente era do tipo que gostava de tagarelar.
- E foi a melhor coisa que eu fiz. - soltei uma risada, a encarando de maneira óbvia, afinal, a falta de respostas pra ela me resultou uns bons amassos.
- Nunca mais vamos jantar. - ela respondeu firme, sem me olhar.
era forte, decidida e esforçada, mas ela claramente não sabia lidar comigo. Não que eu também soubesse lidar com ela, mas se formos contar, eu estava ganhando, mas mesmo assim, um lado meu queria ser legal.
- Então vamos fazer assim; você me faz uma pergunta, eu respondo e ganho um beijo em troca. - sugeri com seriedade, mas logo dei aquele sorrisinho que sempre fazia ela rolar os olhos. Seu suspiro longo e pesado quase me fez pensar que ela iria me xingar, mas pra minha surpresa, não foi o que aconteceu.
- Por que você disse que sua infância não foi a melhor parte da sua vida? - era um misto de seriedade, curiosidade e doçura em seu olhar. Resgatei em minha memória rapidamente o que eu tinha falado sobre aquilo em nosso jantar, e me recordei bem que, porra, aquilo tinha saído da minha boca de um jeito tão sincero porém tão ríspido que eu não imaginei que ela realmente daria importância.
Eu queria me esquivar daquilo, queria esconder e esquecer. Era o tipo de assunto que meu cérebro tinha enfiado lá no fundo, num lugar bem escondido. Rapidamente lembrei de todas as sessões de terapia que já tinha feito em algum momento da minha vida, onde ela dizia de maneira tão calma que talvez, a melhor maneira de fazer aquilo tudo ficar menos terrível, era falando sobre.
Foda-se.
- Meus pais eram muito ocupados pra mim. - cuspi as palavras com desdém.
- Só por isso? - ela disse de uma maneira que não tornasse aquela pergunta rude, muito pelo contrário, ela sabia que tinha algo a mais. O problema é que eu detesto quem quer ter o controle da situação, como ela estava querendo. Chatice.
- Você quer medir o meu sofrimento, por acaso? - arqueei uma sobrancelha junto a um sorriso debochado.
- Não, eu só sei que não é só isso. Tudo bem se você não quer falar sobre o assunto. - ela levantou as mãos como se tivesse se rendendo e disposta a esquecer o assunto, e aquilo me incomodou.
Ridículo como falar sobre aquilo incomodava, e não falar, também. Pelo visto as terapias serviram pra um grande nada.
- Eu não quero mesmo. - respondi de maneira grosseira. Merda.
Estacionei o carro, mas nenhum de nós se moveu. Eu juro que não estava entendendo a possível cobrança que um estava tendo com o outro.
- Eu era uma vaca no ensino médio. Sabe aquela líder de torcida que andava com o pessoal popular e andava esbarrando no pessoal nerd? Então, eu era essa pessoa. - ela soltou aquelas palavras em meio à risos e encarando o além, provavelmente perdida nas próprias lembranças - Mas eu virei uma mulher bem diferente, . Qualquer coisa que tenha acontecido durante a sua infância não precisa refletir no que você é agora. - ela finalmente virou o rosto pra mim, com aquele sorriso simpático que pela primeira vez, me arrepiou.
- Por que você me contou isso? - questionei desconfiado. Aquele diálogo estava caminhando pra um lugar totalmente desconhecido pra mim.
- Porque você não é uma pessoa ruim, mesmo querendo ser.
- Você é uma péssima avaliadora de caráter. - soltei um riso fraco. Descobri também que era muito inocente. Ela mal sabia que por trás de toda aquela autoconfiança e amor próprio tinha uma pessoa tudo, menos boa.
Eu sei me reconhecer. Eu sei o que sou.
Finalmente saímos do carro, caminhando até o elevador e indo ao encontro do dono do nosso caso urgente. Cumprimentamos Owen, nosso cliente. A empresa do homem tava quase indo ladeira abaixo por causa de um antigo patrão que tinha uma carta na manga contra ele. O problema? O patrão era da Pittfield Firm, a empresa que estava sempre pau a pau com a Brooks-Maxwell Firm. Chegava a ser engraçado, afinal, era sempre bom derrotar um concorrente que tinha guerra declarada contra nós, mas quando o caso é muito difícil...
Fica tenso, sombrio, porém com um pouquinho, bem pouquinho, de diversão. Eu tinha comigo por provavelmente uma tarde inteirinha.
A Brooks-Maxwell Firm sempre foi meu sonho de emprego. A empresa sempre mostrou ambiente corporativo de outro ângulo, e as vezes isso nem sempre foi bom, mas nada na vida é só coisa boa. Tínhamos uma porrada de problemas e de empresas rivais, mas nossa luta constante nos mantinha no topo.
Nos instalamos na biblioteca da empresa, era silencioso e tinha tudo o que precisávamos. Pegamos toda a papelada, e como sempre, Pittfield queria sabotar outra empresa. Queria estragar as boas iniciativas de um homem que conseguiu crescer e montar a própria empresa. Claramente queriam fazer Owen duvidar de si.
- Ele não cansa, né? - riu sarcástica em meio à toda aquela papelada. Ela claramente se referia à Patrick, ex patrão de Owen. Seu olhar ali foi se afundando cada vez mais - Patrick não estava envolvido naquele escândalo com ex funcionários que foram pra Brooks-Maxwell? - ela entornou a cabeça confusa, se referindo à casos que eu e tínhamos trabalhado juntos.
E foi aí que minha mente começaram a funcionar. Patrick tinha um jeito bem filho da puta de se safar de culpas que ele tinha espalhadas por Chicago, mas a hora dele de cair tinha chegado. Nossa mesa ficou totalmente envolvida por papéis, livros e até a ajuda de pelo telefone. Tínhamos metade do caso pronto e uma tarde inteira que se passou voando.
- A gente espera que ele aceite o acordo, afinal, se isso for pro júri, ele vai correr um grande risco de ser barrado na própria empresa, e sabemos bem que depois disso, provavelmente a Pittfield dará um jeitinho nele. Ou seja, de um jeito ou de outro, você ganha. - abri um sorriso totalmente satisfeito e Owen me acompanhou.
Às vezes você precisa ser extremamente manipulador e não medir esforços ou meios pra conseguir seus objetivos, ou às vezes você simplesmente precisa dar mais atenção aos detalhes.
já estava com o olhar um pouco exausto, terminando de arrumar toda a bagunça que fizemos ali durante a tarde inteira. Grande parte dos funcionários já tinha ido embora dali, só restando nós. Minha imaginação já foi formando coisas em minha mente que eu senti uma pressa enorme de fazer o que eu já queria fazer há horas.
- Prontinho, já podemos ir. - guardou os últimos livros na prateleira mais próxima, e eu que não sou bobo e nem nada, dei passos rápido até ficar ali, atrás dela. Ela quase levou um susto, não mexendo nem um músculo.
- Você ainda me deve um beijo. - sorri mesmo sabendo que ela não estava vendo. Coloquei minhas mãos em sua cintura, e mesmo sabendo que aquilo poderia ser abusado demais, trouxe seu corpo pra mais perto do meu. Totalmente encaixados.
Juro que eu tentei afastar todos os pensamentos altamente maliciosos da minha cabeça, mas homem é um bicho louco que fica todo retardado até com corpos colados. Subi minhas mãos pelo seu corpo, parando em seus ombros. Outra coisa que parou foi a respiração dela.
Ela estava totalmente incrédula.
- ... - foi a única coisa que saiu daquela boquinha. Fiz certa força pra virar seu corpo, ficando de frente com o meu. Fui rápido pra nos aproximarmos novamente, não perdendo tempo e dando aquele beijo que estava pendente.
Não era desesperado mas também não era calmo. Da minha parte era um beijo lotado de vontades, e pra minha surpresa, da parte dela também. Suas mãos foram até minha nuca, e pra aumentar ainda mais a minha surpresa - e tesão -, ela apertou meus cabelos com vontade. Sorri entre o beijo, mordendo seu lábio inferior e carregando seu corpo até a mesa.
Fiquei entre suas pernas, e pra piorar minha situação, ela estava de saia. Na verdade, ela estava sempre de saia, mas nem sempre eu ficava entre aquelas pernas que o tecido cobria. Tratei de aproveitar, caminhando com as minhas mãos por aquelas coxas descobertas. Por um instante, até fiquei inseguro com o meu próximo movimento, mas ela aparentemente estava aproveitando e querendo tanto quanto eu. Enquanto suas mãos passeavam pelo meu corpo, nossas bocas em um beijo tão intenso, fui puxando a saia cada vez mais pra cima. Cheguei até sua calcinha, e foi aí que ela me deu aquele olhar. Parei no mesmo instante e nossas testas se encostaram.
Não dissemos nada até metade do caminho de volta para a empresa que trabalhávamos. - Tá tudo bem? - perguntei sério, já que ela nem mesmo tinha olhado pra minha cara. Seu rosto estava virado olhando para a rua desde o primeiro instante em que ela tinha entrado no carro.
- Sim, eu só acho que isso é uma má ideia.
- Por que?
- Porque eu era um desafio pra você, e agora você já conseguiu o que queria, simples assim. Eu nem sei aonde eu tava com a cabeça quand...
- Ah não, isso não! Se fosse assim eu simplesmente teria voltado a ser um idiota com você depois que te beijei pela primeira vez, mas não! - eu quase gritei. O problema de mulher é que elas ficam martelando coisas que falamos durante tempos, até mesmo quando aquilo nem era o que você realmente estava fazendo. Eu não estava considerando aquilo como um desafio, não mais. Estava divertido demais pra ser só um desafio.
- Você é homem, . O próximo passo é transar comigo e depois...
- Não. , não me leve a mal, mas a gente poderia simplesmente deixar isso menos difícil, sabe? Eu te beijei mas você retribuiu, então você também queria. Eu não vou transar com você se você não quiser, então pra facilitar, me responde, o que você quer? - eu nem tava acreditando no que eu mesmo falei. Foi tão sério e decisivo. Eu não queria dar escolha pra ela, eu queria continuar fazendo aquilo sem conversa nenhuma, mas não era assim que funcionava, pelo menos não com ela.
- É assim que você se envolve com as mulheres? - ela abriu a boca quase que em choque. Eu rolei os olhos e bati as mãos no volante em irritação. Mulheres são complicadas demais.
- Puta merda, mulher, eu to tentando deixar a situação menos difícil pra você. Não é como se fôssemos morrer de amor, casar e ter filhos. Talvez a gente só possa se divertir um com o outro. - fui falando e falando, eu não aguentaria ficar dando opções bacanas pra ela se sentir num conto de fadas. Aquilo ali não era nada sério, mas ela já estava fazendo um puta caso.
- O que? - ela cerrou os olhos numa falsa fúria. Seu humor se transformou da água pro vinho. Ela não estava brava de verdade, na real, ela estava até se divertindo e aquele olhar sapeca não mentia.
- Desisto, tá legal? Eu de-sis-to. - finalizei antes que aquilo pudesse sair da diversão. Na verdade, era um assunto sério que não conseguia se manter na seriedade. De fato, nenhum dos dois sabia o que queria.
- Tá bom. - ela franziu a testa de maneira emburrada e fez um biquinho que, puta merda, tava muito bonitinho.
’s POV end.

Um belo de um cheesecake voando pra dentro da minha barriga era tudo o que eu precisava. Eu ainda não tinha contado sobre o que tinha rolado entre e eu, e então tinha chegado a hora. e Jake arregalavam os olhos, franziam a testa, abriam a boca em surpresa e até deram alguns gritinhos. Era muita coisa e eu precisava compartilhar.
- E por que você está surtando? - Jake questionou como se toda aquela situação com fosse algo totalmente normal.
- Eu acho que o problema nem é ele, sou eu. Eu não estou sentindo culpa, tristeza, eu só fico agoniada por não estar sentindo essas coisas. Eu sinto que Caleb...
- Pode parar! Já te falamos mil vezes que Caleb iria gostar de ver você seguindo a vida. Foi como disse, não é como se vocês fossem morrer de amor, casar e ter filhos, talvez vocês só possam... Você sabe. - Jake deu aquele olhar malicioso, claramente se referindo ao bom e velho sexo sem compromisso, que até aonde eu sei, sempre resulta em merda.
- Ai meu Deus, eu sinto que vou desmanchar quando ele me toca. - eu resmunguei numa lamentação enorme, como se aquilo fosse uma tragédia, e de fato, era. Eu sentia saudade do sexo, claro, fazia muito tempo que eu não tinha uma relação sexual.
- Temos dois lados dessa situação; vocês podem ficar sem compromisso, até porque aparentemente não é o cara certo pra você, então existem muitas chances disso não sair do sexo sem compromisso, e tenho certeza que vai ser uma vantagem para os dois. O outro lado é que talvez, estando com te ensine a se abrir mais, entende? Você não pode escolher quem ama, mas pode escolher abrir seu coração para o amor. - Jake foi tagarelando e até certo ponto ele tinha razão.
- Eu só acho bizarro o fato de não sentir nada ruim, entendem? Eu olhei uma foto do Caleb ontem e não doeu. Costumava doer, olhar pra ele doía, mas ontem não doeu. O pior é que eu sempre esperava a dor, entendem? - minha agonia e angústia nessas horas se transformavam em sinceridade. Falar com eles era algo tão leve e confortável que nem se eu quisesse, esconderia algo.
- Você está apenas se acostumando com a sua vida sem sentir dor, meu girassol. Isso é normal, eu acho. Apenas não deixe de viver sua vida. - ) sorriu de modo fofo.
- A gente pode mudar de assunto? - quase implorei, com a boca cheia.
- Hoje eu fui no parque e tcharan, olhem o que consegui. - pegou sua câmera e nos mostrou fotos de umas senhorinhas que faziam caminhada juntas. Todas sorridentes e alegres. A força daquela foto bateu em nós com tanta força que apenas sorrimos um para o outro. - Às vezes o mundo parece um lugar hostil e sinistro, mas acreditem, há muita beleza e bondade nesse mundo ainda.
- ), ainda não entendi por que você ainda não abriu o seu próprio estúdio de fotografia. Você ama isso, e nós três sabemos que você não nasceu pra viver fazendo doce. Você é bem maior que isso. - Jake falou de modo indignado, porque sinceramente, aquilo era algo que ninguém entendia.
- Sei lá, acho que tenho medo de não dar tão certo. - ) murmurou sem animação, dando os ombros e desligando a câmera.
- Você me fala tanto sobre medo mas não enfrenta os seus? - cruzei os braços e fui pra trás com a cadeira, quase de maneira irônica. Minha melhor amiga não merecia aquilo, mas ela sabia que não era por mal.
- Eu nem sou tão boa assim, gente. - mais uma vez, aquilo saiu quase num sussurro, sem fé nenhuma em si mesma.
- Você já fez tanto curso pra isso, meu amor. - me aproximei novamente, ainda sem entender tanta negatividade sobre si mesma.
- Mas ainda falta muita coisa.
- Uma pena, porque semana que vem eu começo com meu curso de cabelo e maquiagem e eu realmente precisava de alguém pra fotografar todo o meu trabalho. - Jake jogou aquilo na roda cheio de si, observando as unhas. Aquele jeitinho gostoso, um pouco debochado e corajoso dele era incrível.
- O QUE? - eu e ) questionamos juntas.
- Ah galera, vocês sabem que eu sempre fui um pássaro livre que vive voando por aí e experimentando um monte de coisa, mas acho que mexer com maquiagem e cabelo é um trabalho tão bacana! Vou ter a oportunidade de deixar as pessoas se sentindo lindas. Acho que eu me encontrei, sei lá. - aquele sorrisinho confiante, alegre e orgulhoso se fez presente e não aguentamos, demos alguns gritinhos.
- Tão fofinho o nosso bebê crescendo! - ) apertou as bochechas do garoto.
- Talvez nós três deveríamos enfrentar nossos medos, que tal? finalmente vai transar, eu vou ir com tudo pra os cursos e ) se dedica mais à fotografia! - ele sugeriu destemido, dando uma piscadinha.
Ele era o melhor!

Subi para o meu apartamento e fiz o mesmo de sempre. Mais uma vez, eu estava inquieta na cama, embora cansada. Fiz a mesma coisa que na noite anterior; peguei a mesma foto de Caleb.
- Uma sacanagem você morrer e a única coisa que está me tirando dos eixos esses dias é , você não acha? - sussurrei pra foto, e a resposta da minha pergunta foi o sorriso que estava nela. Talvez Caleb estivesse rindo de mim, rindo da minha falta de comprometimento com a minha própria vida, rindo do jeito bobo, sem jeito e inocente que eu estava lidando com as coisas.
Meus amigos estavam certos, eu precisava arriscar. Caleb com certeza arriscaria, se fosse o contrário. Guardei a foto e voltei pra cama.

Durante a subida dos 12 andares eu tive um pequeno flashback de como a minha vida esteve parada e monótona por tanto tempo. Eu acordei, literalmente, um pouco doidinha.
Todos aqueles pensamentos vinham até mim como uns beliscões. E também tinha uma coisa que, meu Jesus, tava me deixando mais doidinha ainda.
Hormônios à flor da pele.
Eu deveria ter ido até a minha sala direto e começado a trabalhar. Deveria.
Abri a porta do escritório de e tranquei a mesma. Porra, eu tranquei a porta. Ele parecia confuso, mas eu olhava para aquele corpo de maneira tão fixa que ele poderia até sentir medo.
- Eu sou bonito demais, né? - ele não perdia a oportunidade de inflar seu ego e pela primeira vez em um ano, eu não tinha nada contra.
Eu praticamente voei pra cima dele. Sentei em sua mesa e ele rapidamente ficou entre as minhas pernas. Aquilo sim era um beijo desesperado. Eram 8 da manhã e eu estava quase pegando fogo. Ele aproximou nossos corpos de maneira totalmente proposital, encostando seu amiguinho bem ali, na minha amiguinha.
- Jantar. Na. Sua. Casa. Hoje. - fui pontuando as palavras com alguns selinhos, e mesmo não querendo, eu precisava parar com aquele amasso todo. Ninguém daquela empresa podia sonhar sobre o que estávamos fazendo.
sorriu numa satisfação enorme. Eu nem mesmo precisava dizer mais nada.

***

A única coisa que passou pela minha cabeça foi: analise tudo antes de se entregar ao risco. Eu nem alisei, pra ser sincera. Isso foi antes dos nossos amassos começarem no elevador mesmo. Parecíamos dois adolescentes sedentos por sexo, e pra ser sincera, éramos quase.
A porta do seu apartamento foi aberta com dificuldade e fechada com um chute. Nossos sapatos e jaquetas foram jogadas em alguns cantos, até me pegar no colo e eu ri, sendo conduzida até seu quarto. E que quarto!
- Isso não é nada sério, ok? Vai ser sexo e... sexo. - murmurei entre o beijo carregado de desejo que estávamos dando.
A camisa de foi pra longe, assim como a minha. Ele me prensou na parede, e enquanto uma mão brincava com a minha saia, a outra ia até o fecho do meu sutiã.
- Vai ser um puta sexo. - ele reforçou aos risos, deixando claro que minha fala tinha sido muito bem compreendida.
Meu sutiã caiu ali mesmo, mas ele continuava brincando com a minha saia. Rolei os olhos em impaciência, indo com pressa ao botão da sua calça. Não demorou muito e ele finalmente se livrou da minha saia e eu de suas calças. Pude sentir todo aquele volume, grossura e tamanho que, puta merda, me preocupou. Meus olhos estavam fechados e eu tinha dificuldade para respirar e me concentrar nos seus beijos no meu pescoço e nos seus toques.
me carregou até a cama, me sentando ali. Não teve rodeios ou provocações. Ele se livrou da minha última peça; a calcinha. Cada perna minha foi pra um lado, ficando totalmente aberta ali, pra ele.
- Olha só o que temos aqui. - gargalhou de maneira gostosa, passando a mão em minha intimidade de maneira rápida. Aqueles hormônios que estavam quase me fazendo explodir e me deixaram molhada apenas com alguns beijos. Aquilo seria ótimo pra o ego de .
- Cala a boca e vai logo. - aquilo já tinha me irritado. Não teve provocação, mas teve demora.
Meus olhos estavam fechados e quando eu menos esperei, senti sua língua ali. Arqueei minha coluna em resposta. explorava cada cantinho da minha intimidade, dando uma atenção especial pra o meu clitóris. Seu dedo escorregou ali pra dentro enquanto sua língua continuava a trabalhar de maneira incansável. Eu tentava oscilar meus gemidos, mas porra, era difícil. Quando eu pensei que não podia melhorar, ele enfiou mais um dedo, aumentando a velocidade e chupando meu clitóris de maneira tão única que eu nem sabia lidar com o meu próprio corpo naquele momento. Eu tentava não parecer desesperada mas meu próprio corpo foi criando os movimentos de vai e vem. Se aqueles dedos já estava ótimos, eu mal podia esperar pra o próximo passo.
foi mordiscando meu clitóris e eu gritei. Puta que pariu. Arranjei forças pra pegar em seu cabelo, fazendo uma bagunça ali mas praticamente implorando pra que ele continuasse com aquilo. Um baita desespero.
Quanto mais ele me chupava, mais eu sentia que estava perto de gozar. Quanto mais eu achava que ele não podia fazer mais nada, ele fazia. Todos aqueles movimentos com os seus dedos e sua língua estavam quase me matando.
- Mais... Eu... Preciso de mais. - foi a única merda que saiu da minha boca. Eu parecia uma garotinha que estava esperançosa com um presente muito desejado. Ele ria satisfeito com meu desespero, e quando eu pensei que fosse gozar, ele diminuiu o ritmo. - Puta. Que. Pariu. - pontuei as palavras nervosa, deixando meu corpo cair na cama.
Ele ia me pagar.
Rapidamente inverti nossas posições. Sentei em seu colo, bem próximo ao seu pênis de maneira totalmente provocativa. Fiz alguns movimentos de vai e vem, observando aqueles olhinhos se fechando e se apertando. Com força, ele envolveu meu cabelo em suas mãos e me puxou pra um beijo desesperado. Com a outra mão, ele me deu um tapa bem dado na minha nádega esquerda.
Ardeu de uma maneira tão gostosa que eu peguei aquilo como um incentivo a mais para provoca-lo. Gastei alguns segundos observando aquele peitoral que me dava vontade de morar ali. Sorri com a visão que eu estava tendo, descendo cada vez mais de maneira provocativa, o auxiliando para tirar aquela maldita cueca que ainda me atrapalhava. Minhas mãos percorriam a extensão do membro de , sorri ainda mais quando observei que meu toque o fez prender a respiração. Encostei mais uma vez minha intimidade em seu membro, agora descoberto, e continuei com os movimentos. Eu já estava molhada o bastante pra o seu pênis entrar ali sem problema nenhum, mas ele merecia o mesmo agrado, mas antes, eu queria o provocar. Eu gostava.
- Caralho, mulher. - ele resmungou agressivo, mais uma vez, puxando meu cabelo. Aquilo só me deixava ainda mais excitada, mas eu queria aquilo tudo tanto quanto ele.
Me abaixei rápido, colocando aquele membro grosso e grande em minha boca com um pouco de dificuldade. Os espasmos de eram algo prazeroso de se ver.
Peguei em suas bolas de surpresa, ainda com a minha boca ali, super ocupada. Depois de alguns minutos naquele brincadeira que já estava fazendo ficar nervoso, troquei a cena. Minhas mãos foram pra seu pênis e minha boca pra suas bolas. E assim foi, por longos minutos. Eu o masturbava com vontade, querendo testar seus limites. Enfiei aquilo tudo na boca de uma vez só e roçando meus dentes ali de maneira totalmente provocativa. puxou minha cabeça com certa brutalidade, fazendo seu pênis ficar em minha boca por longos segundos, e novamente, rocei meus dentes ali de maneira pior, quase numa mordida, mas não na intenção de machucar. Ele me puxou pra cima no mesmo instante, me encaixando em seu colo com brutalidade e necessidade enorme. Seu olhar nervoso e excitado me deu um arrepio pelo corpo inteiro e mais uma vez, eu me desmanchava em umidade.
Com uma mão, foi de modo violento até meus seios, brincando com a boca ali e, mais uma vez, com a outra mão, foi até meu clitóris.
- Anda logo com isso, por favor. - eu não queria ter pedido, mas eu já estava desesperada. Pedi manhosa, quase implorando.
- Isso o que? - ele perguntou de modo divertido, ainda concentrado em seus atos. Eu queria dar um puxão em seu cabelo por usar aquele joguinho comigo.
- Não acredito que você vai me fazer pedir, homem. - eu rebolava ali em seus dedos que entraram em minha intimidade novamente.
- É claro que vou, linda. Agora fala... O que você quer? - ele sussurrou, enfiando a porra do terceiro dedo em mim, e foi aí que, caralho, não dava pra aguentar.
- Me fode logo, inferno. - gritei com raiva, enquanto meu corpo foi virado com brutalidade, me fazendo ficar de quarto. Por um instante, eu senti algo. Um aviso. estava prontinho pra me foder, até que eu lembrei. - A CAMISINHA!
- Puta que pariu. - me deu outro tapa.
- Anda logo.
- Eu posso gozar nas suas costas. Ou na sua cara. - ele sugeriu aos risos, se levantando rapidamente e buscando a camisinha em sua gaveta.
- Cala a boca e anda logo, pelo amor de Deus. - eu estava simplesmente morrendo por aquilo.
E então finalmente, ele entrou. Eu tentei não gritar, mas gritei. foi forçando seu pênis cada vez mais pra dentro, praticamente me rasgando. Eu precisava muito daquilo. Por um segundo, passou pela minha cabeça o porque de não ter transado com antes. Eu nem sabia que precisava tanto de uma foda até estar ali, fodendo.
- Se você estava esperando algo delicado, desculpa te decepcionar. - ele sussurrou com a voz rouca e sem aviso, estocando tudo de uma vez só. Apertei meus olhos e gemi tão alto que o vizinho provavelmente deve ter ouvido.
- Eu não queria nada delicado. - foi um sacrifício pra montar a frase inteira, embora meus gemidos estivessem entre a frase.
- Ótimo, porque eu vou te foder muito hoje. - ele sorriu e, mais uma vez, estocou.
Eu sentia que respirar era impossível naquele momento. Sem sutileza nenhuma, me deitou, logo colocando seu membro ali dentro novamente. Toda aquela grossura me preenchia de forma perfeita.
- Ma-mais... - implorei. Eu queria tudo. Eu queria raiva, prazer, vontade. Tudo.
Ele sorriu e me deu um selinho rápido, e por mais que eu estivesse arranhando suas costas, ele continuava sorrindo.
Não sei como, mas ele conseguiu intensificar. Toda aquela força estava literalmente me fodendo e eu sentia que não seria capaz de durar até o fim daquilo tudo. Ele claramente captou aquela expressão em meu rosto que, nossa, eu ia gozar por todo o tempo que fiquei sem transar.
- Goza, . Goza pra mim.
Eu queria responder mais não tinha forças. puxou meu cabelo e continuou com aquelas estocadas tão fortes que eu senti tudo ali formigar. Segurei em seus braços e apertei os olhos, sentindo toda aquela carga de prazer que explodiu quando aquilo finalmente saiu de mim.
- Porra. - foi só o que eu consegui. Sorri satisfeita, e também.
Eu me sentia exausta, mas ainda assim arranjei forças pra sentar ali, em seu pênis. Eu achava que não tinha como sentir mais, porém aquilo vinha de maneira tão bruta e gostosa que, caralho, parecia que aquela grossura toda estava me rasgando ao meio - Sua vez de gozar pra mim, gatinho.
Eu cavalgava no pênis de com vontade, me apoiando eu seus braços. Era uma combinação única, louca e totalmente prazeroso. Estar ali me proporcionava um prazer tão grande que por alguns segundos eu agradeci à vida por ter me ajudado, mesmo depois de tanta sacanagem que tinha aprontado comigo.
Ele soltou um gemido alto que foi como música para os meus ouvidos. Ele tinha gozado. Uma partezinha de mim tinha ficado triste por ter sido na camisinha. Eu gostava do sexo mais bruto, sujo, seja lá o que for.
Ele se livrou daquilo, amarrando a camisinha e deixando ali em cima de um móvel do lado da cama. Ele deitou e arfou, ainda procurando ar. Nos entreolharmos e soltamos uma risada divertida, logo encarando o teto.
- Isso foi...
- Um puta sexo. - completei aos risos, logo sentindo aquele cansaço tomar conta de mim.
Era o cansaço que eu estava com saudade de sentir. Aquela transa tinha sido melhor do que eu tinha imaginado em todo aquele tempo sem transar.
Simplesmente incrível.
Eu não queria, mas me acomodei ao lado de , mas quando percebi tal ato, me virei e me encolhi.
- Você pode ficar pertinho de mim, não vou te engolir não. - ele percebeu e logo se manifestou.
- Apenas fique no seu lado da cama, ok? - resmunguei autoritária, recebendo uma risada em resposta e logo o seu corpo me envolvendo em um abraço quente.
- Essa é minha cama, os dois lados são meus, linda. - ele sussurrou e deu um beijo no meu pescoço, nos cobrindo com o lençol.
- Ha ha ha, engraçadinho. - queria ter uma reposta melhor do que aquela, mas ele tinha razão - Só vou descansar um pouquinho e vou embora. - alertei, olhando em seus olhos.
- Você não quer ficar? - ele perguntou sem segundas intenções, na verdade, perguntou até com uma certa preocupação.
- Não. Isso é sexo sem compromisso, então eu nunca vou dormir aqui, está me ouvindo? - arqueei uma sobrancelha com seriedade. Precisávamos ser claros.
- Então temos um caso, é isso? - aquele sorrisinho que me tirava do sério se fez presente, mas não fiquei com raiva.
- Sem compromisso. - reforcei, segurando o riso.
Eu oficialmente estava declarando nosso caso de sexo sem compromisso, coisa que eu sempre soube que não dá certo e mesmo assim estava fazendo.
O ser humano gosta mesmo de cavar a própria cova, né? Mas poxa... Não tinha nada nem ninguém me impedindo daquilo, então, que mal tem? O que podia dar errado?
- Só há duas regras: não pergunte sobre meu passado e não espere um futuro. Vai ser ótimo fazer negócios com você, . - pela primeira vez ele me chamou pelo apelido, e aquelas regras nem mesmo me incomodaram.
Seria um prazer fazer negócios com . Literalmente.

Capítulo 5

Ainda nada de culpa, nada de sentimentos ruins ou coisas do tipo. Estava tudo, de fato, bem.
Encostei a cabeça no canto do elevador, lembrando da minha época do ensino médio. Eu era mesmo uma imbecil. O que eu tinha falado para tinha sido tão natural que eu nem mesmo lembrava que tinha falado. Foi uma época boa, claro. O ensino médio é fichinha perto do que você vive quando sai dele. Eu e éramos líderes de torcida e era uma das pessoas que a gente geralmente esbarrava e saía rindo. Incrível como a vida muda, já que ele é meu melhor amigo e responsável por grande parte do meu crescimento como pessoa.
Quando Caleb morreu, eu revisei minha vida toda e cheguei a pensar que aquilo era o meu castigo por ter sido tão terrível com tanta gente no ensino médio. Depois eu também pensei que podia ser inveja, que era Deus zoando com a minha cara, o azar, ou o famoso carma. Eu pensei em bilhões de possibilidades e, pra ser sincera, não descarto nenhuma delas. A vida é algo que ao mesmo tempo que você compreende, você também não entende merda nenhuma. Durante o processo de recuperação eu fiz tudo. Eu senti raiva de Deus, raiva do mundo, raiva de mim e da vida. Depois eu pedi uma luz para o universo, proteção pra Deus e até algumas sessões na psicóloga que não duraram muito tempo. O meu favorito foi o colo da minha mãe mesmo. Sorri comigo mesma, e por mais que aquela época tenha sido pura dor, ela estava lá comigo o tempo todinho.
Aí veio a notícia da minha gravidez. Infelizmente eu senti raiva no começo. Raiva por aquilo acontecer e eu nem mesmo ter o pai do meu bebê por perto. Eu enfrentei tudo de novo. Toda a dor, raiva, indignação. Teve um dia que eu respirei fundo, mudei meu foco e me concentrei. Eu tive a sorte de ter um pouco de Caleb comigo, eu acreditava que aquilo era um modo do universo me recompensar.
Mas não.
Meu bebê também morreu.
De certa forma, eu morri junto, mas eu continuei vivendo. Me recusei a sentir aquela dor e cacei coisas pra encher minha mente. Eu poderia ter me tornado uma drogada, alcoólatra ou algo do tipo, mas eu sempre vi meu pai fazendo belezuras por ser advogado e eu quis fazer o mesmo. Ou quase. Me tornei paralegal, e honestamente, ainda sinto uma preguiça grande ao pensar em ser uma advogada de verdade. Eu gostava do meu trabalho, me fazia feliz, mas eu era tão medrosa quanto . Dar a cara a tapa ainda é complicado, não importa a sua idade.
Teve esse dia onde eu quebrei quase tudo no meu antigo apartamento. estava comigo e a única coisa que ele conseguiu falar foi "Não fique reclamando como se fosse a única que sofre, eu juro, você não é. Fazer isso nunca ajudou ninguém". Eu senti tanta raiva que eu quase quebrei ele também, e depois eu chorei nos seus braços por horas. Ele estava completamente certo.
Estava no 2 andar novamente e o elevador vazio. Merda, eu tinha me perdido totalmente em meus pensamentos. Subi os 10 andares restantes rindo. Isso mesmo, rindo. Nossa rotina é tão ridícula que a gente precisa se perder nos próprios pensamentos pra sair nem que seja um pouquinho dela.
- Bom dia, meu amor! Reunião de emergência na sala principal. - Violet estava ali em frente ao elevador, me informando da tal reunião no momento em que saí do mesmo.
Fui direto para a sala principal, me sentando em uma das cadeiras. Em seguida, adentrou, se sentando ao meu lado. Eu não sentia vergonha em olha-lo ou lembrar do que fizemos na noite anterior, afinal, sexo acontece o tempo inteiro. Ele sussurrou um "bom dia" e em seguida nossa atenção foi pra Maggie Maxwell, e por um puta milagre, Andy Brooks estava ao seu lado também. Andy é seu marido, mas ele não sossega o facho em Chicago, vive viajando.
Andy começou falando sobre os nossos associados do primeiro ano que chegariam na empresa. Minha posição ali claramente não envolvia nada com eles, então eu não fazia ideia do por quê eu estar naquela reunião.
- Se assegurem de que eles se sintam à vontade e os ajudem. Iremos fazer alguns testes e ver quem se encaixa melhor pra ser um líder pra eles. Por enquanto, pensamos que seria interessante o e a trabalharem juntos nas primeiras duas semanas para orientá-los. - Andy disse com animação, pousando o olhar sob nós.
- Por que eles? - Hank questionou com aquilo que podemos chamar de raiva, mas ele sabia esconder bem. Andy o adorava e provavelmente nem percebia o insuportável que ele era.
Hank era, de longe, o mala sem alça da empresa. Não só eu, mas varias pessoas falavam sobre ele e a fixação por querer ser melhor em tudo. Oh, claro, tinham muitos boatos sobre ele; alguns diziam que ele e Maggie tinham um caso secreto. Outras pessoas, diziam que ele e Andy tinham um caso. Também teve o papo que ele tinha se casado com uma secretaria que tinha sido demitida há alguns meses, mas nada nunca se confirmou. Hank não era amigo de ninguém, e toda vez que eu o olhava, enxergava uma pessoa totalmente vazia.
Triste.
- Eles trabalham bem juntos, então tenho certeza que vão trabalhar bem também pra auxiliar os nossos novos filhotes. - Maggie respondeu divertida, tirando alguns risos de nós.
Algumas outras informações foram passadas e também algumas observações sobre os advogados e as assistentes legais. Eu não era a única ali, óbvio.
- Agora responda o que todos nós queremos saber; quem está liderando o ranking de mais casos resolvidos na empresa? - Hank perguntou ansioso, lançando um olhar ridiculamente provocativo para .
Ele já sabia da resposta, mas precisava que ela fosse dita em voz alta para inflar seu ego. era convencido com a beleza, e Hank era com o trabalho.
- Temos Hank liderando nos casos, e em seguida, temos . - Andy apontou para as informações que estavam sendo passadas pelo telão ali - Vocês sabem que prezamos pelo bom convívio, certo, rapazes? É assim que a empresa funciona e o salário de vocês continua caindo na conta. - ele finalizou com uma risada engraçada, e nos permitimos rir também, menos .
Eu nunca tinha falado pra ele e talvez nunca falaria. era o tipo de advogado que faz qualquer coisa para ganhar, mesmo que a coisa seja muito doida, mas ele se mantém fiel ao seu próprio senso de moralidade. Ele também prefere resolver os casos fora do tribunal, porque é onde ele pode controlar a coisa melhor. Às vezes no tribunal as audições podem ser muito variáveis, então ele sempre vai jogando no time que está ganhando.
Eu não conhecia muito o jeito que Hank trabalhava, e honestamente, eu nem me importava, mas toda a ganância e ignorância no trabalho com certeza não o levariam tão longe.
A reunião acabou e fomos liberados, e eu precisava muito comer algo e recuperar a energia toda que gastei na noite anterior. Fui até a cozinha e peguei um dos iogurtes que estavam na geladeira.
- Amanhã teremos um bando de associados novinhos em folha pra auxiliarmos. Eu e você, juntinhos. Que loucura, né? - se fez presente ali, se aproximando cada vez mais. Eu pensei que não ficaria, mas fiquei. Parecia que meu radar pra excitação apitava cada vez mais alto só pelo fato dele se aproximar.
- Bota loucura nisso. - enfiei a colher cheia de iogurte em minha boca, encostando no balcão. Que merda, ele estava lindo pra caramba!
- Jantar hoje? - ele olhou para a porta rapidamente, notando a presença de absolutamente ninguém ali, aproveitando a oportunidade e se aproximando mais do que devia. Suas mãos foram parar em minha cintura, segurando ali com certa força.
O iogurte continuava em minha mão, e a melhor coisa que eu fiz foi brincar com a colher de maneira provocativa. Ele assistia aquilo com prazer, sorrindo satisfeito com os olhos. Eu gostaria de poder transar com ele naquele instante, mas não podia.
Inferno de hormônios e de tempos sem sexo!
- Aceito o convite.
- Vou poder gozar nas costas ou na cara? - ele perguntou abusado e soltou uma risada em seguida. Eu queria esmurrar ele com aquela colher, mas eu também ri. Ele tinha um humor ridiculamente bom. Ele balanceava bastante os momentos.
- Você já deve ter transado com metade de Chicago, meu bem. Nem ferrando que você vai entrar aqui dentro sem camisinha. - respondi autoritária e eu mesma gostei disso.
Permaneci com o olhar firme, analisando sua reação.
- Eu não transei com metade de Chicago, eu sempre me cuidei muito bem, obrigado. - ele se defendeu rapidamente, tomando a colher da minha mão e o iogurte também. Eu quis reclamar, mas não reclamei.
- Então por que comigo vai ser diferente?
- Porque temos um caso, linda. - ele deu uma piscadinha como se aquilo fosse óbvio e eu soltei uma risada vazia, mas que precisou ser dada.
- Você acha que eu acredito que você só vai transar comigo, ? Eu não sou burra.
- Pode ser algo exclusivo se você quiser! - ele exclamou sério, ainda tomando o iogurte. Eu queria acreditar que ele tinha falado aquilo brincando, mas não foi. Pra minha própria surpresa, eu queria sim que fosse exclusivo, mas também não queria falar como se aquilo fosse mais sério do que era, algo maior. Era tudo sem compromisso, mas meu lado que só conseguia pensar no quanto poderíamos transar ali mesmo, gostava da ideia dele gozar nas costas ou no rosto.
Puta merda, olha o que ele me fazia pensar!
- Mas camisinha também serve pra doen...
- Eu não tenho nada, mulher. Tu quer meus exames também? - ele me interrompeu e rolou os olhos impaciente.
Eu queria enrolar mais um pouco pra pensar em algo melhor do que só admitir que transar sem camisinha estava liberado.
- Quero sim! - resmunguei birrenta, franzindo a testa - Só vamos transar sem camisinha se formos exclusivos, afinal, não quero correr nenhum risco. - eu finalmente achei algo que me favorecesse e que me fizesse conseguir tudo o que eu queria.
- Tá bom, mulher, tá bom. - ele finalizou com desinteresse, terminando com o iogurte e jogando a embalagem fora.
- Estou falando sério. - reforcei firme pra ter certeza que ele tinha entendido.
- Eu já entendi! - ele respondeu numa falsa impaciência, me roubando um selinho e se virando pra sair dali - Acho que vou começar pelas costas. - ele me lançou um olhar cheio de malícia e saiu dali de vez.
Eu sorri feito uma besta, logo analisando tudo e como chegamos até ali. me dava a sensação da irresponsabilidade da adolescência, de toda aquela descoberta de desejos, de coisas selvagens e aventuras. Acho que um lado meu gostava muito daquela sensação toda de envolvimento sem responsabilidade nenhuma.

***

- Você nos chamou aqui e nem comprou uma pizza, ofereceu um suco... Cruzes. - se jogou no sofá todo molenga, preguiçoso.
- Vocês provavelmente cuspiriam a comida depois de ouvirem o que tenho pra falar. - meu suspense funcionava sempre. se sentou bem ao meu lado, mas continuava ali, jogado - Eu até teria falado ontem, mas cheguei tarde em casa porque eu estava ocupada demais transando. - finalizei com um falso desinteresse, observando minhas unhas.
- O QUE? - os dois perguntaram ao mesmo tempo. A preguiça de foi pra puta que pariu, ele se sentou no mesmo instante, quase dando um pulo.
- Isso mesmo. Eu e estamos no famoso sexo sem compromisso, e meu Deus, que sexo! - fechei os olhos só de lembrar, e os dois deram gritinhos histéricos.
Precisei de longos minutos pra explicar exatamente tudo - ou quase tudo - que aconteceu.
- Como você está se sentindo? - questionou animado, porém preocupado.
- Ótima, ué.
- Você sempre foi contra esse lance de sexo sem compromisso, lembra? - lembrou daquilo de maneira delicada, longe de querer me chatear ou me encher de dúvidas.
- Sério, está tudo bem. Se eu notar algo estranho ou diferente eu juro que acabo com tudo. - respondi firme, totalmente decidida.
- Bem, estamos aqui se você precisar de algo. - foi a última coisa que saiu da boca de antes de um silêncio bem chato se instalar ali.
- Gente, é sério! Eu construí minha vida ao seu redor de Caleb e agora ele nem está mais aqui. Eu gosto da sensação de rebeldia de adolescente que o me dá, entendem? Por incrível que pareça, eu não estou me sentindo mal. Eu descobri que eu tinha medo de sentir medo, mas está tudo bem, mesmo! - reforcei tudo aquilo em um discurso totalmente sincero. Eu entendia a preocupação, afinal, ninguém botava muita fé que eu finalmente tomaria tal atitude, mas tomei.
- Você era uma filha da puta na adolescência, garota. - resmungou e cruzou os braços de maneira emburrada, não perdendo a oportunidade de me provocar com aquele assunto que nunca morria.
- Eu já cansei de te pedir desculpas, rapaz. - tratei de me defender.
Dizem que você não pode escolher sua família. Você aceita o que o destino lhe dá. Eu achava engraçado nossa história. Gostando ou não, querendo ou não, o destino nos juntou e a gente se adaptou numa vida a três. Ter e era como encontrar, de verdade, o amor da sua vida. Às vezes a gente brincava dizendo que iríamos casar. Os três.
No ensino médio, e eu éramos duas garotinhas fúteis que só se importavam com bobagens. Se fosse algo atual, seríamos parte daquele grupo de garotas envolvidas com os bad boys da escola.
vivia com sua câmera pra lá e pra cá. A fotografia foi sua primeira amiga. era o que chamam de "loser". Eu vivia o atordoando, mas não era de propósito. Pra ser sincera, eu mal conhecia ninguém, eu só era uma garota fútil, vivendo uma vida fútil e fazendo coisas fúteis. Acontece que eu torci o pé bem no dia de uma apresentação mega importante do meu grupo de líderes de torcida, e a única pessoa que me ajudou, tirando , foi .
Eu estava correndo de maneira ridícula até um amigo e puft, torci o pé. sem nem pensar, me ajudou. Seu coração sempre fora incrivelmente doce e nunca guardava rancor. Ele sempre disse que se recusava a se entregar à toda ruindade das pessoas populares da escola que faziam coisas bizarras pra se manterem no topo da popularidade.
Um pé torcido e ganhei um melhor amigo, quase irmão. Sempre fomos muito diferentes e muito iguais. era o nosso balanço, nosso equilíbrio. Ela sempre foi a calmaria.
Quando acordei do meu transe, parecia que nós três tínhamos embarcado naquele mar de memórias de nós com 17/18 anos ao mesmo tempo. Meu celular apitou, chamando minha atenção. .
- É ele? - tentou xeretar a tela do meu celular, mas não permiti. Pura birra, pois não tinha nada ali que ela não pudesse ver.
- Sim. Até mais tarde, pimpolhos. - sorri em despedida, pegando minha bolsa, pronta pra sair dali - , tranque a porta quando sair.

's POV
Não tinha jantar, não tinha vinho, não tinha nada, só tinha nós dois com pressa pra fazer o que queríamos fazer. Estávamos nos atacando com pressa do mesmo jeitinho da noite anterior. Elevador, cambaleando pelo corredor até chegar em meu apartamento.
Eu nem sabia que era possível ficar mais bonita, mas ela ficou. Minhas mãos pelo seu corpo me faziam ter uma sensação tão boa, e por mais que eu tenha desejado aquilo por um ano, era melhor do que eu imaginava. Eu não queria classificar como se eu tivesse um ranking de melhores transas, mas tinha sido a melhor em tempos. Era quente, desesperado e certeiro.
Carreguei ela no colo e a sentei na mesa de jantar. Porra, eu precisava.
- Vamos ver se essa mesa é boa mesmo. - sussurrei no seu ouvido cheio de provocação, e aquelas mãos cheias de vontade caminhavam pelo meu peitoral por cima da camiseta, até ela ficar sem paciência e se livrar da mesma, até me dando um arranhão por tanta pressa.
Eu sentia meu pau pulsar em um prazer quase doloroso. Eu não ia com tanta sede ao pote, mas aquilo parecia diferente. Era um sexo diferente. Do tipo mais selvagem mesmo. Me livrei daquela blusinha de seda que ela vestia, revelando aqueles peitos ainda dentro do sutiã que, incrivelmente, cabiam na minha mão de forma exata. Entre aqueles gemidos baixinhos que saíam da sua boca, meu nome escapou de forma necessitada, e puta merda, aquilo nunca nem chegava perto de tudo o que eu imaginava.
Sem rodeios, baixei o zíper da sua saia com certa dificuldade, mas consegui. A peça atingiu o chão e eu não perdi tempo, logo me envolvi no meio daquelas pernas que me tiravam o fôlego. Ela levou as mãos de maneira desesperada até o botão da minha calça, abrindo o mesmo e abaixando o zíper. Me livrei daquela calça e a chutei pra longe de um jeito desengonçado. Mais uma peça que tinha ido pro chão e continuaria ali por um bom tempo.
A essa altura, estava tudo sendo executado em desespero um pelo outro, mas eu queria mais. Eu queria ver o prazer puro estampado ali, em seu rosto. Eu queria ouvir ela gemendo tão alto que aquilo ficaria ecoando em minha mente por dias. Procurei o fecho do seu sutiã e caí de boca em seu seio direito, sedento.
- Por enquanto essa mesa tem minha aprovação. - sussurrou em meio a respiração descompassada, mas teve forças pra soltar um riso.
- A mesa ainda tem muito o que aguentar, assim como você. Eu te chupando tão gostoso que você não vai querer que eu pare nunca. Também tem meus dedos, coisa que você adora, não é? - levei uma mão até seus cabelos, o puxando com certa maldade, fazendo ela me olhar. Aquela malícia explicitamente brilhante em seus olhos me fez soltar um sorriso. Ela assentiu positivamente, arranhando meu abdômen de maneira proposital - Melhor que meus dedos é o meu pau em você, bem fundo. - continuar a puxar seu cabelo com uma mão, enquanto a outra brincava com o bico do seu peito. Aquele olhar desesperado e a mordida nos lábios não mentiam.
Puxei seu corpo com força até ela deitar ali na mesa, separando suas pernas e observando aquela calcinha que era a única peça sobrevivente em seu corpo. Caminhei com meus dedos ali de maneira provocativa, pressionando seu clitóris e fazendo movimentos circulares. A garota gemeu um pouco mais alto e eu sorri. Puxei a calcinha para o lado do jeito que pude e observei toda aquela umidade ali, pra mim, por mim.
- Anda logo, merda. - ela resmungou irritada e desesperada, levando uma de suas mãos até a própria intimidade, mas impedi, segurando a mesma com força.
- Você não vai encostar aqui, está me entendendo? Só eu, apenas eu. - respondi autoritário, forte. O único prazer que ela receberia seria vindo de mim e só - Você já está toda molhadinha e eu nem fiz nada. - uma risada cheia de malícia saiu da minha boca, e foi aí que decidi me livrar daquela última peça, observando sua intimidade totalmente nua e entregue a mim. Naquela hora, o charme sumia, o tanto que ela ainda me detestava não tinha importância e ninguém lembrava de uma relação ridiculamente mal feita em 1 ano. Só tinha a sua expressão excitada e desejo.
Levei minha boca até sua intimidade com cuidado, mas não dava pra manter o controle. Eu queria brincar, mas não conseguia. Todo aquele líquido que entrou em contato com a minha boca me deu uma puta sensação que eu nem sabia explicar. Era tanto prazer que a gente podia explodir. Continuei chupando ali com vontade, até minha língua parar em seu clitóris e o pressionar, arrancando um gemido alto da mulher que estava ali, entregue a mim. Meu pau já não aguentava mais, porém eu gostava daquilo, de ver o controle sendo perdido. Ela se contorcia, e pra melhorar, passei a masturbá-la com precisão. A melhor coisa, sem duvidas, era como ela rebolava em meus dedos.
- Puta que inferno, , eu preciso de mais que isso. - ela suplicou, tentando arranjar forças pra sentar, mas não conseguiu.
- Você já sabe o que tem que fazer.
- Vai logo, me fode logo. - ela apertou os olhos, arfando e tentando de algum modo recuperar a respiração.
Peguei em suas mãos com força, a levantando da mesa e a virando de costas. Eu não perdi a oportunidade de dar um belo tapa naquela bunda totalmente empinada. Segurei seus cabelos de forma bruta, observando o quanto ela tentava enfiar meu pau ali em sua buceta com pressa, e resolvi ajudá-la, afinal, eu estava com tanta vontade quanto ela. Abri espaço e enfiei de uma vez. Ela já estava tão molhada que não teve dificuldade nenhuma dele entrar, foi tudo de uma vez. Segurei em sua cintura e forcei a penetração mais ainda. A melhor coisa que eu fazia era deixar marcas que a fizessem lembrar que eu estive ali, então não tive dó ao impactar mais alguns tapas naquela bunda tão empinadinha.
Eu continuava metendo, fodendo igual um louco, e o melhor, é claro, era ver que estava sendo bom para os dois na mesma proporção.
- Caralho, mulher... Tão molhada, tão gostosa... - soltei alguns murmúrios enquanto eu me dedicava em estocadas fortes e profundas. Eu queria tudo, eu queria foder ela de maneira que ela nunca mais esquecesse.
- Me fode mais rápido, . - ela implorou, rebolando com força em meu pau. Puro desespero e desejo.
Levantei uma de suas pernas, me encaixando ali de maneira mais exata, precisa e mais aberta.
Apertei sua bunda com pressa e sem dó, preenchendo todo aquele espaço que parecia um pouquinho apertado, mas toda aquela lubrificação natural ajudava o meu pau adentrar ali sem atrito algum. Estoquei meu pau ali dentro aos delírios, forte e fundo. Nossos gemidos se misturavam de maneira desorganizada, aumentando ainda mais aquele clima com tanto desejo um pelo outro, desejos totalmente selvagens e necessitados.
Pude sentir seu corpo ficando quase sem força e as pernas enfraquecendo. Continuei em estocadas animalescas, esperando seu orgasmo chegar.
- Goza pra mim, . - chamá-la pelo apelido parecia estranho, mas eu não me importava. Foi o único ato mais próximo de sutileza que eu tinha tido até então.
Ela rebolou de maneira inquieta e então explodiu. Ela deu aquele gemido alto que me fez ir ao céu. Continuei com estocadas fracas, sentindo todo aquele gozo envolvendo meu amigão.
- E agora? Nas costas ou no rosto? - ela se virou, se sentando na mesa com as pernas arreganhadas e me puxando pra perto.
Demos um beijo carregado de intensidade, e não perdi tempo, já me encaixei ali dentro da sua entrada novamente, com estocadas fortes. Ela não teria descanso, ainda tínhamos trabalho. Ela tentou se manter sentada, mas não conseguiu. Seu corpo caiu pela mesa, se segurando nas beiradas enquanto eu a fodida da melhor maneira. Eu podia sentir aquela onda de porra chegando, e a tempo, esporrei ali mesmo, em sua barriga.
Ela respirava de maneira descompassada, mas teve forças pra apoiar os braços e ficar levemente levantada, passando os dedos pela sua barriga cheia do meu gozo e chupando com vontade. No primeiro momento ela tinha fechado os olhos, mas logo em seguida ela os abriu, e embora estivesse cansada, aquele olhar feroz e sensual se manteve até toda aquela porra estar em sua boca.
Ela pulou da mesa com cuidado, envolvendo os braços em meu pescoço, me dando um selinho demorado. Fiz força pra que ela envolvesse as pernas entre meu quadril, e caminhei até meu quarto, colocando ela ali com cuidado. Ficamos deitados por alguns minutos sem falar nada, apenas recuperando nossa bendita respiração.
- Amanhã estaremos de bom humor pra receber os associados do primeiro ano. - eu disse em meio à alguns risos.
- É. - foi só o que saiu da sua boca antes dela rir mais do que devia, o que me levou a pensar que não era possível ela rir tanto apenas daquilo que eu tinha falado, afinal, nem teve tanta graça.
- O que foi, mulher?
- Nada, é que... ainda não acredito que estamos fazendo isso. - ela se virou, se encolhendo e me encarando com aquele olhar cansado.
- Eu também não, mas no bom sentido. - fiz o mesmo, me virando e observando cada detalhe do seu rosto.
- Você me dá aquele sentimento de aventura, sabe? Eu estou me sentindo uma adolescente. - ela bateu a mão na testa, e embora estivesse rindo, aquele riso foi se desfazendo como se aquilo não tivesse que ter saído da sua boca.
- Eu meio que sinto isso também. - eu tinha notado aquela reação não tão agradável, mas minha mente ainda estava decidindo se eu deveria falar sobre aquilo. Concordei com a mulher ao meu lado porque era verdade. Toda aquela necessidade selvagem me fazia voltar aos tempos em que eu ainda estava descobrindo o sexo - Tem alguma coisa errada? - questionei destemido. Minha mente decidiu que era melhor perguntar.
- Não, nada, só... prometa que vai continuar assim, ok? Só sexo, sexo e sexo. - ela respondeu num tom de voz desanimado, provavelmente pelo sono, mas eu podia perceber que seu pensamento tinha algo que estava a incomodando.
- É só sexo, . Não vai ter sentimentos e nem nada do tipo.
- Ótimo, é bom isso estar esclarecido, porque eu não preciso de você pra nada mais que sexo. - ela abriu um sorrisinho sapeca e eu puxei seu corpo nu pra mais perto.
- Só sexo, linda. - dei um selinho demorado em seus lábios.

Acho que não tinha uma pessoa melhor que pra ter uma relação de sexo sem compromisso.
Ela sabia lidar muito bem, sem deixar nenhum vestígio de que estava rolando algo a mais entre nós.
Entramos na sala onde os associados do primeiro ano estavam. Eram dez, cinco homens e cinco mulheres. E que mulheres!
Estava tudo instalado para eles, e depois de um baita discurso de como a empresa funcionava e nos colocando à disposição dos mesmos, nos sentimos seguros o bastante para deixá-los sozinhos. Não era medo, era só preocupação deles fazerem algo errado. A última coisa que eu queria era Hank usando aquilo contra mim.
Falando no diabo...
- Como estão os novos associados? - ele literalmente se meteu na minha frente.
- Isso é da minha conta, Hank. - abri um sorriso sem mostrar os dentes, totalmente calmo e simpático. permanecia ao meu lado observando aquilo com cara feia. Ela também o detestava.
- Escuta aqui, garoto, essas pessoas são o futuro da empresa e colocaram logo você pra treiná-los durante as primeiras semanas? Chega a ser patético! - ele mantinha aquele olhar cheio de ódio e deboche. Porra, ele adorava aquele joguinho.
- Desculpa, não consigo ouvir ou ver nada a não ser a sua inveja. - frisei bem a última palavra, o que aparentemente o deixou mais furioso.
- Por que eu teria inveja de um menininho mimado como você que só está aqui por causa do pai? Você é uma piada, . - aquelas palavras foram cuspidas de maneira raivosa, mas aquele sorrisinho debochado nunca saía do seu rosto.
Eu estava exausto daquilo. Eu fiz a porra toda certa, e só porque meu pai me ajudou a arranjar um caralho de um emprego, Hank jogava aquilo na minha cara desde sempre. Não faltava vontade de arrebentar sua cara, mas eu sempre me controlava. Ele não merecia aquele gostinho de me ver perdendo o controle.
- Eu nem mesmo sou advogada e também ganhei o privilégio de ajudar os associados do primeiro ano. Não é nada patético, Hank, eles apenas escolheram as melhores pessoas pra função. - se manifestou com tédio na voz. Ela sabia que não valia a pena, mas Hank às vezes merecia alguém estourando sua bolha.
- É isso mesmo, mocinha, você nem é uma advogada de verdade e quer ter moral pra cima de mim? Você é tão ruim quanto o . - aquilo tinha o pegado de surpresa, mas tentou disfarçar.
- E ainda assim, conseguimos a tarefa, e não você. O que você vai fazer? Isso mesmo, nada, porque você não é o chefe, embora queira muito. - foi a vez dela usar um sorrisinho cheio de deboche. Hank não gostava de quem o contrariava ou o respondia pelo simples fato dele nunca ter argumentos para manter uma discussão.
- Você é muito abusada, garota.
- E competente também. - deu uma piscadinha e cruzou os braços, se virando pra sair dali.
Meu último sorrisinho para Hank o fez rolar os olhos de raiva. Eu já não tinha mais nada pra fazer ali e segui , que caminhava até seu próprio escritório. Eu pensei em falar algo, mas não sabia o que dizer, então só lancei um olhar simpático e saí dali.
Meu celular começou a tocar, era um número desconhecido mas mesmo assim atendi.
- Alô? - não obtive resposta.
Fiquei longos segundos esperando mas a pessoa desligou. Adentrei em meu escritório e estava lá.
Achei bom ele já estar sentado, pois as novidades que eu tinha poderiam o fazer cair. Matamos o tempo que devíamos estar trabalhando, conversando sobre meu caso com .
É, ele quase caiu mesmo estando sentado.
- Você é um filho da puta sortudo! - ele nem mesmo estava acreditando direito, mas estávamos rindo.
- Eu sabia que um dia ia rolar. - exclamei convencido, recebendo uma pasta sendo jogada em minha direção.
- Você não acha que pode dar merda? - lá estava ele, sempre querendo analisar todas as possíveis coisas que poderiam acontecer. era assim, cuidadoso.
- Não, cara, é diversão.
- Você também se divertia com a Genevieve e olha o resultado. - ele deu os ombros, e meu olhar animado se desfez no mesmo instante.
- Ah, vai te foder, . Esquece essa merda. - cuspi as palavras com raiva. Ele não era tããão cuidadoso assim.
- Eu só acho que você não deve fazer com as outras pessoas o que a Genevieve fez com você, só isso. - retrucou como se aquele fosse o assunto mais normal e agradável do planeta. Eu não queria, mas minha paciência já tinha acabado. Aquele assunto me tirava da porra do sério.
- Aquela filha da mãe acabou comigo, mas não, eu não vou acabar com a vida de . Você viaja, cara. - lancei um olhar irritado e confuso, ainda incerto em onde aquele assunto poderia parar. permanecia com o olhar de advertência, como se a minha revolta fosse algo errado.
- Não foi isso que eu quis dizer. Genevieve acabou com tudo, até com o seu coração, e até hoje você evita relações sérias. Você não pode negar ou falar que eu estou mentindo. Você tem todo o direito de se divertir, mas até quando você vai ficar nessa vidinha? - aquele questionamento veio de maneira tão ridícula que eu poderia rir, mas não ri. Minha irritação ainda era maior.
- Você vive a mesma vidinha que eu, por que você tá me julgando assim?
- É diferente. Eu quero sossegar, casar, ter uma família, e você perdeu totalmente a fé nisso tudo. - se defendeu e se assegurou de modo que desse a entender que a escolha que eu fiz com a minha PRÓPRIA vida, fosse algo errado.
- Você acha mesmo que eu tenho como ter fé nisso tudo? Olha minha vida, ! - passei as mãos pelo rosto irritado e impaciente. Eu queria acabar com aquilo, mas algo em mim queria continuar.
- Viu, reclamar de tudo o que aconteceu é tudo o que você faz! Eu entendo que foi uma merda perder o James, sua mãe e depois enfrentar o que a Genevieve fez com você, mas você não pode achar que tudo está perdido por causa disso. - disse aquelas palavras que, uma parte de mim, uma grande parte, desconfiou rapidamente que aquilo estava engasgado há tempos. Seu olhar pouco arrependido me encarou, e por breve segundos, nem mesmo parecia que era meu amigo que estava em minha frente. Falar de James tinha sido quase que o limite. Deveria ter sido, mas não foi.
- Para.
- ...
- PARA!
- Lembra quando você disse que mesmo sendo advogado não ia deixar de viver, não ia deixar o trabalho ser prioridade na sua vida? Pois é, você mentiu. - e ele continuou.
- O que você tem hoje? Sério, não to te entendendo, caralho.
- Você ama seu trabalho, então é fácil prioriza-lo, mas lembra que sua mãe fez isso também? Você sempre disse que não ia cometer os mesmos erros, e aqui está você, com 28 anos e ainda tem dificuldades de aceitar que sua vida virou uma bagunça e você não tem um pingo de disposição pra arruma-la. Eu não falo isso por mal, , você sabe. Ter você é como ter um irmão, e irmãos se ajudam, né? Eu só não quero ver você ferrado pra sempre. - e pronto, finalizou com um efeito bomba em minha mente. Todo aquele discurso saiu em palavras exageradamente rápidas e com certa urgência. Ele precisava falar e talvez eu precisasse ouvir também. Eu podia meter um soco na cara de por trazer todos aqueles nomes e assuntos que eram guardados apenas pra mim, mas não.
Aquele olhar de surpresa com si mesmo e certo medo de uma possível reação nada agradável vinda de mim, me fez respirar bem fundo. Fechei meus olhos por longos segundos, absorvendo e tentando processar tudo o que saiu de sua boca.
Não adiantava surtar.
Não adiantava gritar.
Não adiantava fugir.
- Que merda. - resmunguei calmo e em tom baixo, caminhando de um lado para o outro - Genevieve só me faz lembrar de como eu aprendi o que era certo com a pessoa errada. Eu posso ser um merda agora, mas eu sempre me recusei a ser pior que ela. - meu olhar pousou ali, no dele.
- Você precisa esquecer ela. - um olhar quase que piedoso foi o que eu consegui. Eu não podia reclamar, afinal, tinha uma visão da coisa toda e eu não tinha o direito de tirar o ponto de vista dele.
- Eu ja esqueci. - respondi ríspido.
- Tá bom, assunto encerrado. - por algum motivo, ele decidiu que era mais fácil abandonar o assunto. Talvez tivesse sido o suficiente pra me deixar pensando e me torturando sobre o quão merda eu sou.
Meu celular tocou novamente e mais uma vez, a pessoa não falou nada. Eu poderia dar um soco em alguém de tanta irritação.
- Vamos sair hoje à noite, relaxar e jogar conversa fora. - resmunguei ainda irritado, mas não com , e sim, com o telefonema.
Às vezes era um saco não conseguir sentir raiva dele. podia ser muito bom, mas ele uma vez ou outra vivia testando minha paciência e a minha sanidade mental. Eu até o via como inimigo em alguns momentos, mas no final de tudo era o mesmo bocó que eu considerava melhor amigo.
- Pelo amor de...
- Vamos na doceria da , só isso. - rolei os olhos ao interrompê-lo. Eu tinha um jeito cínico mesmo, mas o problema é que ele sempre achava que meus convites eram pra pubs e coisas do tipo. Na verdade, sempre eram, mas dessa vez era algo diferente.
- Você é um saco às vezes, cara. - sua cabeça balançava negativamente e ele lutava contra uma risadinha que no fim das contas acabou saindo.
Depois de toda aquela tensão, focamos no trabalho. Eu adorava nossos casos juntos, nossas ideias sempre batiam de acordo e era rápido, preciso.
- Cara, por que você simplesmente não vem trabalhar aqui? Você meio que... já trabalha, mas falta oficializar. - alguns poderiam dizer que as minhas reações condiziam com as de uma pessoa bipolar, mas não. Minha irritação era algo totalmente rápido e passageiro. Fora que, aquela dúvida realmente estava em minha cabeça há tempos.
- Seria um castigo te aguentar o dia todo, . - ele respondeu com falso desprezo, sem me olhar.
- Filho de uma égua.
- Na verdade eu já pensei nisso, mas acho melhor não, pelo menos não ainda. Quem sabe um dia. Agora eu vou vazar daqui e vou finalizar esse caso com o nosso cliente. - ele se levantou determinado, recolhendo alguns papéis que estavam espalhadas pela mesa.
saiu e meu pai entrou. Puta que o pariu.
- O que você entende quando eu falo "pai, não gosto quando você vem aqui"? Acho que eu falo grego. - resmunguei rapidamente antes mesmo dele se acomodar ali. Como sempre, fingiu que nem ouviu. Típico.
- Genevieve continua na mesma, morando com a tia e trabalhando. - ele disparou aquilo de uma vez, ignorando minhas reclamações.
- Quem você mandou ir atrás dela? - minha total atenção foi para o assunto, deixando de lado as reclamações feitas por mim mesmo. Perguntei curioso e até desconfiado. Nada sobre aquela infeliz me passava coisas boas.
- O mesmo rapaz de sempre, filho. Você sabe que ele é de confiança. - meu pai pareceu exausto, como se já esperasse aquele tipo de pergunta.
- Tem alguma foto?
- Claro. - ainda no mesmo tom, ele me entregou um envelope com algumas fotos onde dava pra ver nitidamente aquela criatura que parecia viver a vida de maneira simples. Era até engraçado o resultado final que ela obteve.
- Isso é ótimo.
- O responsável pela bomba ou pelas fotos é alguém querendo zoar sua cara. Aconteceu alguma coisa depois daquilo?
- Não, nada.
- E provavelmente a pessoa já cansou. Só queria te dar um susto mesmo. - seu tom de voz foi para a calmaria, sabendo que já não tinha o que se preocupar.
- É, deve ser.
- Domingo você deveria almoçar lá em casa. - da calmaria pro interesse e confiança. Incrível o quanto ele conseguia conduzir aquilo a um convite.
- Você já trocou de namorada? - questionei numa falsa alegria.
- Continuo com a Cassandra. E você, quando vai tomar jeito e namorar sério? - ele arqueou uma sobrancelha e, juro, sério mesmo, por dois segundos eu pensei em me jogar daquela janela que estava atrás de mim.
- Jesus, até você falando disso hoje? - resmunguei dramático.
- Porque talvez realmente esteja na hora, filhão. Te espero no domingo. Ou não. - ele falava aquilo descrente que eu iria, o convite tinha sido pura educação. Eu nunca ia.
Assim que a porta se fechou, eu mergulhei em pensamentos que eu estava evitando há dias. Eu lembro que tudo começou quando eu mal saía durante os finais de semana. Depois, eu já nem sabia o que era ficar em casa. Minha relação com Genevieve era uma grande merda. Não tínhamos química nenhuma, mas a vidinha que a gente levava me fazia esquecer o quanto minha mãe foi egoísta. Agora eu só sinto a leveza de não carregar ninguém no coração, de não dever explicação, de não brigar ou de não sentir ciúmes. Eu sabia que não tínhamos nada a ver, mas ainda assim, queríamos ficar juntos por um bom tempo. O plano era a vida toda. Puta bobagem. Quando eu penso, lembro o quão ingênuo era. Genevieve jamais se encaixaria na minha vida. Estar com ela era estar com uma bomba relógio, e não, ela não me deixou traumatizado com o amor, mas ela me mostrou o quão cansativo é. Eu tive a fase de namoro, de pura solteirice e curtição. Todas igualmente importantes para o meu amadurecimento, mas ninguém entende que eu só não tenho vontade de algo sério. Não é trauma. Ninguém entende.
's POV end.

Nada de jantar com , eu precisava do meu tempo com meus amigos também. Mesmo com a plaquinha indicando que estava fechado, empurrei a porta da doceria, apenas encontrando ali.
- Cadê a ? - joguei minha bolsa na mesa mais próxima, me livrando do meu casaco também.
- Nem sei. Ela saiu já tem mais ou menos uma hora. Deve ter ido fotografar algum canto por aí ou algo do tipo. - ele respondeu enquanto se aproximava e me dava um beijo estalado na bochecha.
- Quer ajuda com alguma coisa? - me ofereci mesmo sabendo da resposta.
- Não. Como você está? Como foi seu dia? Me conte tudo. - ele se livrou do avental e se sentou, e logo em seguida fiz o mesmo.
- Tudo normal, e você? Como foi mais um dia nesse lindo lugar que vende coisas que engordam as pessoas de Chicago? - perguntei cheia de bom humor, dando algumas olhadinhas na rua para ver se minha amiga estava chegando.
- Tudo ótimo! Hoje depois do almoço fui ao banco e adivinha quem eu vi? A Bella, a garota que estudava com a gente nas aulas de física. - contava aquilo com uma super animação, e eu nem mesmo falei nada, porque sabia que ele não resistiria e contaria a história toda de uma vez sem fazer suspense, afinal, ele nunca conseguia - Ela está casada com um alemão, bobinha! Se mudou pra lá e só voltou pra ver a família por uns dias. Além de tudo, ela está trabalhando como gerente de uma empresa que eu já esqueci o nome. Quem diria, né? - ele comentava de maneira única, e caí na gargalhada.
- Realmente! Nem mesmo os professores botavam fé nela e agora ela aparece super bem na vida. Que loucura, né? - eu continuava rindo, mas aquilo me atingiu em cheio. Não de uma maneira ruim, foi mais uma enxurrada de pensamentos sobre a vida, pensamentos que eu nunca conseguia colocar em ordem.
- Bota loucura nisso! Tanta gente desacreditava dela e ela mostrou que mesmo com todas as dificuldades que ela tinha, conseguiu se dar bem. Isso me faz pensar que às vezes eu poderia estar melhor do que estou hoje. - deu um longo suspiro ao finalizar, muito pensativo também.
- Como assim?
- Qual é, ! Eu e decidimos nos juntar e abrir uma doceria porque os dois estavam com medo de arriscar em algo mais profundo, mas nós sabemos que nosso futuro não é ficar fazendo bolo e doce pro resto da vida. Eu poderia ter feito tanta coisa durante todos esses anos, mas eu nunca soube direito o que era, então eu fui de um canto para o outro. - deu os ombros, respondendo com certa agonia, um incômodo que eu ainda não estava conseguindo decifrar.
- Mas você não ficou todos esses anos coçando o saco, . - lancei um olhar forte, quase que irritado. Parecia que ele estava incomodado com o rumo da sua vida, coisa que ele nunca demonstrava estar.
- Eu sei, eu basicamente já tentei de tudo, mas eu nunca soube de algo pra mim, entende? Como se eu fosse destinado àquela coisa. - ele retrucou sorridente, encarando o além, como se na sua cabeça, aquilo que tinha acabado de sair de sua boca fosse um sonho distante.
- , você sempre se comparou com um passarinho. Não é todo mundo que se sente conectado a uma coisa só, e isso não é uma lei ou uma coisa obrigatória pra todo ser humano. Você foi livre, experimentou uma porrada de coisas e nem todas deram certo, mas o importante disso tudo foi que você pôde enxergar que o seu lugar é qualquer lugar que você queira. Você não precisa de algo fixo pra se sentir conectado, entende? - meu tom de voz veio cheio de garantia, como se aquilo fosse algo totalmente certo, e pra ser sincera, pra mim, era mesmo. nunca questionava as próprias escolhas, mas é algo da nossa natureza ficar cutucando a nossa própria vida até achar defeitos.
- Você é uma mocinha muito bacana, viu? - ele sorriu bobinho, visivelmente sem graça, pegando em minha mão e depositando um beijo ali, clareando a garganta antes de prosseguir - Eu sempre senti que seríamos algo grande, sabia? Eu, você e .
- No ensino médio eu sempre idealizei nosso futuro assim; eu de estilista, você me ajudando a administrar a bagunça toda e de fotógrafa. Era gostoso imaginar. - fechei os olhos e abri um sorrisinho cheio de saudade, que foi retribuído com uma risadinha.
- Por que você não volta pra faculdade de moda? - sua pergunta saiu quase como um sussurro.
- Eu gosto do meu trabalho.
- Não foi isso o que eu perguntei. - tombou o rosto, cerrando os olhos. Ele sempre conseguia as respostas que queria de mim, porque aquele jeitinho dele não me dava escolhas.
- Porque sei lá... Eu coloquei a necessidade de ajudar os outros acima de tudo, e sendo o que eu sou, eu consigo isso. - senti minha voz raspar no fundo da garganta, as palavras quase não saíram. Era o tipo de assunto que eu não gostava, mas conversava mesmo assim.
- Mas você também pode fazer isso sendo estilista. Na verdade, você pode ajudar quem você quiser com qualquer profissão. - ele respondeu como se fosse óbvio, com uma falsa expressão de confusão no rosto. Ele sabia que eu sabia.
- Eu sei, mas...
- Faltavam menos de 6 meses pra você terminar, . - ele me interrompeu e cruzou os braços, me encarando de maneira desafiadora. Eu não tinha desculpas.
- Até que meu noivo morreu e em seguida eu descobri que estava grávida, a última coisa que eu pensava era faculdade. - disparei com uma falsa risada, totalmente vazia e sem humor. Meu pensamento se perdeu em um rápido flashback em minha própria mente.
- Eu sei. Na época, eu e tínhamos acabado o nosso milésimo curso de culinária. - por sorte, ele sabia a hora de mudar de assunto. Embora anos tivessem se passado, eu não entendia direito a decisão dos dois em se dedicar à culinária.
- Até hoje não entendi isso.
- Você sabe que a gente não tinha a mesma coragem que você de enfrentar uma faculdade. Muita responsabilidade pra nós. Os pais da sempre torceram pra ela estudar algo que a fizesse administrar uma empresa gigante, mas ela sempre foi do contra. - mostrou a língua em forma de nojo, arrancando uma risada de mim.
- Também né, os pais dela são um saco. - sussurrei ainda aos risos, com algumas lembranças em mente das infelizes vezes que eu os encontrei.
- São mesmo e ainda bem que ela sabe. vivia fazendo cursos de fotografia, e naquela época eu até cheguei a acreditar que ela mergulharia de cabeça naquilo, mas os pais dela continuaram enchendo o saco e ela me chamou pra fazer curso de culinária. Eu gostei, ainda gosto. Na cozinha sou eu que mando e ninguém me enche o saco. Não me incomodo de não ter faculdade, sabe?! Eu aproveitei tanto esses anos, mesmo em empregos bem malucos, é que às vezes bate uma dúvida se fiz a coisa certa, mas não quero mais falar disso.
- Lembra aquela vez que você trabalhou por três dias de segurança em uma boate fodida de ruim? - respeitei seu pedindo, continuando o assunto com uma memória engraçada. Prensei meus lábios, prendendo o riso. Aquele emprego tinha rendido boas gargalhadas para nós. Foram três dias malucos onde tinha passado por situações inéditas.
- Meu Deus, nem me lembre.
- Você tem muita história pra contar, isso é bom. - sorri numa mistura de nostalgia e orgulho em relação ao meu melhor amigo.
- Eu tive a sorte de não ter pais chatos como os da , isso sim. Minha mãe também nunca se importou, sempre disse que a vida é minha e eu faço o que quiser. Ela só não me liberou a trabalhar com coisa errada, mas de resto... - disse bem humorado.
- Acho que a só abriu esse negócio pra mostrar pra os pais que ela era capaz de se sustentar sozinha e com algo próprio.
- Com certeza!
deu o ar da graça junto à sua respiração totalmente descompassada. Ela empurrou a porta de vidro com tanta preguiça que quase nem abriu.
- Misericórdia, correr é muito bom, mas quando você para... - ela resmungou com dificuldade, ainda com a respiração confusa. Se sentou ali conosco, ainda se recuperando.
- A madame foi correr? - questionou confuso.
- Fui. Sabe quando seu corpo está pedindo, implorando, suplicando por algo diferente? Então.
- Está tudo bem? - franzi a testa, ainda chocada com tudo que estava ouvindo.
- Acho que vou terminar com o Cody. - ela disparou de uma vez, sem rodeios, sem suspense e sem nem mostrar um pingo de tristeza.
- , o que você fez no meio dessa corrida?
- Prestem bem atenção. - ela ergueu o dedo, realmente querendo chamar atenção - Eu acordei de manhã, tomei meu banho e vim pra cá trabalhar, e vocês sabem que Cody acorda junto comigo. Não teve diálogo, não teve nenhuma pergunta agradável e nem um carinho. Parece que eu to namorando com um grande nada, entendem? - ela nos encarava com certo desespero e também certa raiva.
- Você conseguiu o sinal do universo que tanto esperava? - perguntei curiosa. Toda aquela determinação tinha que vir de algum lugar, certo?
- Que sinal? - sussurrou confuso.
- Eu achava que o universo me devia um sinal pra continuar ou terminar com o Cody, mas não. Quem está namorando sou eu, não o universo, então não é obrigação dele me mandar nada. - ela deu os ombros mas logo se mostrou firme, determinada.
Confuso demais pro meu gosto...
- Você está bem? Digo, de onde veio isso tudo? - por sorte ela entendeu bem o que eu quis dizer, e antes de responder, veio um suspiro longo e seu celular sendo retirado do bolso.
- Porque eu vi isso aqui. - ela nos mostrou uma foto de um casal de idosos de maneira totalmente adorável, sentados num banco do parque - Eu enxerguei que eu não me imagino assim com o Cody, então não tem motivos pra continuar uma relação que eu não vejo futuro.
Agora sim, não sobrava nenhuma dúvida em minha mente.
Passei alguns segundos observando o rostinho da minha melhor amiga, que vivia sempre me dando orgulho, e essa decisão foi, de longe, a que mais me deixou alegre. Eu nunca curti o Cody e isso é óbvio, mas vê-la tão determinada e descobrindo a lidar com a vida sozinha é lindo de se ver. Eu chegava até a sentir um pouquinho de inveja em ver como ela conseguia se virar tão bem o tempo todo.
- Você é incrível, . - estava tão impactado quanto eu, transbordando de orgulho.
- Olha, eu fui correr e já voltei cheia de coisa na minha cabeça e eu sinto que vocês precisam ouvir. Parece egoísmo e até ingratidão pensar que o mundo anda acabado e cheio de coisa ruim, também existem as coisas boas, mas quando se coloca na balança, não tem como negar. Às vezes a gente só vai existindo mesmo, porque já tem coisa demais acontecendo, muito ao mesmo tempo, e ninguém quer dar a cara a tapa. É muito mais confortável lamentar por um acontecimento trágico hoje, esquecer dele amanhã e lamentar por outro depois de amanhã. - ela deu um longo suspiro antes de continuar - "Oh meu Deus, quanta injustiça, o mundo está acabando". O mundo é nosso, a gente que acaba com ele, e nem assim a gente tenta consertar. Estamos sempre esperando um milagre, um acontecimento novo ou até algo que nos tire o sono pra, infelizmente, nos lembrar que estamos vivos. Lamentável. Quando dizem que nossa vida só depende de nós parece um grande clichê, porque em algum momento, colocamos nossa vida nas mãos de outra pessoa e tudo desandou. Mas não, não mais. - todo o entusiasmo e a força de suas palavras me fizeram chorar. Isso mesmo, eu estava em lágrimas. Nos juntamos em um abraço triplo bem desengonçado e nos mimamos por alguns segundos.
- Acho que vou começar a correr. - eu disse enquanto enxugava minhas lágrimas, rindo em seguida.
- É que a vida é muito confusa, nem sempre vamos ter respostas e nem sempre vamos estar felizes o tempo inteiro, mas isso não significa que a vida é ruim, entendem? O rapaz que vende sorvete no parque pode estar muito triste, mas a gente nem imagina, porque só enxergamos ele como o rapaz que vende sorvete. É muito louco, né? - e ela continuou com aquele discurso totalmente arregaçador, que por longos instantes, nos deixou sem palavras.
- Ok, nós três vamos correr amanhã. - disse de maneira receosa, afinal, ele detestava qualquer atividade física, mas tudo aquilo parecia demais pra nós.
- Não é só por correr, é que às vezes temos que sair da nossa bolha e enxergar que o mundo é doido, mas que precisamos fazer a nossa parte. - ela nos lançou um olhar cheio de carinho, e eu juro que poderia amassa-la todinha em pequenos segundos.
A vida é boa quando a gente enxerga e dá valor às coisas boas que temos. O discurso da minha melhor amiga ainda rondava pela minha mente de maneira gostosa, como se fosse tudo o que eu precisasse ouvir. Acho que no fim, é verdade quando dizem pra não ficar triste por não ter dado certo algo, porque existirá muito aprendizado por trás daquilo.
Talvez, sem esse aprendizado, você se prejudicaria lá na frente. No fim, é um mal que te faz um bem maior. Acho que foi assim que descobriu o amor da vida dela; a própria. Algumas batidinhas quase inaudíveis foram dadas na porta. e . Talvez o universo gostasse de ser um danadinho às vezes com esse tipo de coisa que, honestamente, eu ainda não entendia.
- O que eles estão fazendo aqui? - perguntou confusa, sem se mexer.
- Tenho certeza que não é por mim. e provavelmente não vão transar aqui na doceria, o outro bonitinho sabe que a tem namorado, então talvez eles só queiram comer um bolinho mesmo. - se manifestou e por mais que ele tenha tentado, aquele tom malicioso veio em peso nas suas últimas palavras.
Me levantei e lancei um olhar sapeca para os meus amigos, caminhando até a porta e a abrindo lentamente.
- Eles fecham às seis e meia. - apontei para a plaquinha que mostrava os horário de funcionamento ao lado da porta.
- Você vai mesmo dizer não pra esse pobre rapaz que só quer comer um docinho? - iniciou seu teatro dramático, com a mão no peito.
- Eu até posso deixar vocês entrarem, mas vão pagar mais caro. - soltei uma risada divertida, pousando meu olhar em , que balançava a cabeça e ria junto.
- Abre logo, mulher! Faz tempo que não entra um povo bonito como esse aqui. - gritou quase irritado, e minha cabeça foi girando em sua direção, junto à um olhar indignado.
- Obrigada pela parte que me toca.
Abri a porta e me envolveu em um abraço rápido, enquanto parou ali mesmo, na minha frente.
- Boa noite, gatinha. Achou mesmo que iria se livrar de mim hoje? - sua voz pretensiosa se fez presente bem pertinho do meu ouvido, já que ele se aproximou propositalmente, aproveitando e depositando um beijo em minha bochecha.
Eu não respondi, apenas cerrei os olhos com certa diversão e me certifiquei de trancar a porta, me juntando aos meus amigos novamente.
pediu um pedaço de bolo de framboesa, e com certeza não se arrependeria da escolha. apenas pegou alguns cookies recheados, se sentou com o amigo e nós três apenas ficamos observando a cena.
- Você é sortuda. - sussurrou sem tirar os olhos de . Eu sabia muito bem sobre o que ele estava falando, e honestamente, eu não podia me sentir menos que sortuda por ter arranjado alguém que me proporcionasse um sexo tão bom.
- É, olhando por esse lado, sou mesmo. - segurei o riso, ainda observando os dois comendo.
- Eu sei que chegamos tarde, mas vocês deveriam aproveitar nossa presença e se juntar a nós. - se manifestou em alto e bom som, naquele convite que não podia faltar o quanto ele se achava. Tentamos não rir, mas soltamos umas risadinhas.
Não tinha motivo para não nos juntarmos, então nos juntamos. puxou papo com e logo perguntou se tinha ido correr, pois aquela roupinha não parecia de atendente de doceria. Pude notar que era bastante observador quando queria. Ele amava falar, mas também gostava de ouvir.
As palavras de voltaram a rondar minha mente; "Quando dizem que nossa vida só depende de nós parece um grande clichê, porque em algum momento, colocamos nossa vida nas mãos de outra pessoa e tudo desandou. Mas não, não mais."
Sabe quando o momento para? Então. Não era por , e sim, por todos nós. Era uma conversa confortável e até engraçada, coisa que, creio eu, estávamos todos precisando. Talvez também devêssemos dar valor a momentos assim, pequenos.


Continua...



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