Última atualização: 13/05/2020

Epígrafe

“Wallflower”:

(n.) 1. Alguém considerado tímido ou pouco confortável em meio a outras pessoas. Alguém que se sente desconfortável ao ser o centro das atenções.
2. Alguém que está sempre à margem de eventos e interações sociais.
3. Uma flor de jardim de aroma e beleza peculiares e agradáveis.



Capítulo Um

“Trying to remember how it feels to have a heartbeat”
Two Ghosts - Harry Styles


fechou os olhos e se permitiu ficar assim por alguns segundos. Não aguentava mais ler todos os nomes dos ossos minúsculos do crânio, enquanto seu cérebro tentava relacioná-los com as origens dos nervos. Definitivamente ia socar alguém na próxima vez que uma “lâmina cribriforme do etmóide” aparecesse na sua frente. Era mesmo uma pena que a biblioteca fosse tão intolerante com barulhos e ruídos, porque sua única vontade naquele exato instante era de gritar.
Estava tão concentrada em suas críticas e destilações de ódio mentais acerca da neuroanatomia que deu um pulo na cadeira ao sentir uma mão repousando sobre seu ombro. Enquanto respirava fundo para tentar controlar a taquicardia e fazer seu corpo entender que ela não estava em situação de fuga, virou-se para ver o sorriso amarelo que lhe aguardava.
— Acho que te assustei.
— Você acha, Mia?! - bufou em frustração, enterrando o próprio rosto no livro de anatomia que mantinha aberto a muito custo.
— Você está aí desde o fim da aula?
— Na verdade, desde o começo. Matei aula para estudar e agora vou entrar num ciclo vicioso e eterno por ter perdido a matéria de hoje. Por que é que eu sou assim? - Ela choramingava.
Mia não conseguiu evitar rir da amiga. Aquela cena se repetia sempre que uma prova se aproximava e, no final das contas, ela ia bem e percebia que nem precisava ter surtado. Até que tornava a surtar na próxima.
— Você já está aí há tempo demais. - A amiga estendeu a mão. — Vamos. Eu sei exatamente o que vai te fazer bem agora.
— Não, Mia. Eu não quero sair para encontrar alguém disposto a sexo casual porque eu sou a pessoa que definitivamente não está disposta.
— Não era disso que eu estava falando. - Revirou os olhos. — Dessa vez.
gesticulou exageradamente, atestando que seu ponto estava mais que comprovado. Aquela sugestão era tão frequente que sua audição já tinha se tornado seletiva a ela.
— A menos que você vá dizer que eu preciso de uns amassos com o gostoso do Chris Evans, eu serei obrigada a discordar.
— Nesse caso, eu sugeriria algo a três - Mia apontou. — Mas não é nada disso. Não sei se a senhorita se lembra, mas está me devendo uma música.
levantou a cabeça instantaneamente, fazendo com que seus cabelos caíssem sobre os ombros e algumas partes incômodas no pescoço.
— Socorro! Eu tinha esquecido completamente.
— Que coisa mais feia! Seus fãs estariam decepcionados.
Mia recebeu uma careta em resposta.
— Eu não tenho fãs. Você precisa parar de ser ridícula.
— Seus oito mil seguidores dizem o contrário. E a sua melhor amiga também. Você me prometeu. Sabe que é a minha música favorita.
Em instantes, a outra jovem tinha seus livros guardados e a bolsa pendurada no ombro, pronta para deixar aquele ambiente que estava prestes a lhe dar calafrios e novas crises de ansiedade pré-avaliações. Com um sorriso, Mia acompanhou a amiga até o seu próprio carro. Era a incumbência que lhe sobrava ao desenvolver amizade com alguém que se recusava a tirar a carteira de motorista por morrer de medo de ter de rodar um volante e mover um câmbio para coordenar um trambolho metálico de algumas centenas de quilos.
passou todo o caminho ouvindo enquanto a amiga contava animadamente sobre os seus planos para o fim de semana. Era o terceiro sábado em sequência em que sairia com Nicholas, o rapaz que havia recebido o título de “crush” por ela há alguns meses, e tudo parecia estar indo às mil maravilhas. As palavras “fofo”, “engraçado” e “lindo” já tinham sido repetidas tantas vezes que se aquilo tudo não terminasse em namoro, nenhum outro relacionamento no universo funcionaria. Mia estava absurdamente feliz e isso fazia com que a amiga automaticamente também estivesse.
Ao chegarem ao apartamento de , as duas jovens prepararam o pequeno espaço que usavam para os curtos vídeos postados com considerável frequência no instagram. Com a iluminação ambiente maximizada e os móveis afastados, o teclado conseguia seu espaço estratégico para as lentes da câmera, já fixada em seu tripé.
A parede branca de fundo tinha alguns detalhes de decoração nas prateleiras, majoritariamente carregadas de suculentas e mini cactos em vasinhos coloridos por tons pastéis.
Mia ajustou a câmera e a centralizou na posição de costume, focando nas mãos da amiga no teclado e cortando tudo que estivesse acima de sua boca. Era assim que sempre faziam: criava uma versão mais acústica com acordes um tanto diferentes de algumas músicas, tocava-as e cantava suas letras enquanto a amiga filmava. As publicações jamais tinham mostrado seu rosto e a conta no instagram escondia seu nome atrás de um pseudônimo: Saturno. Este fora o jeito que encontrara de unir duas de suas maiores vontades: cantar e poder fazê-lo no silêncio público de seu anonimato.
Com o tempo e a gigantesca quantidade de tags que a amiga colocava na descrição de seus covers - afinal, Mia era praticamente sua agente -, Saturno havia conquistado alguns milhares de seguidores que apreciavam sua voz, suas melodias e que, acima de tudo, contagiavam-se pela curiosidade de jamais terem visto a face por trás daquilo que escutavam.
A gravação foi iniciada e a garota pressionou os dedos contra as teclas de seu instrumento, dando início aos acordes da música favorita da amiga: Two Ghosts de .

— Same lips read, same eyes blue
(Mesmos lábios vermelhos, mesmos olhos azuis)
Same white shirt, couple more tattoos
(Mesma camisa branca, algumas tatuagens a mais)
But it’s not you and it’s not me
(Mas essa não é você e esse não sou eu)
Tastes so sweet, looks so real
(É tão doce, parece tão real)
Sounds like something that I used to feel
(Soa como algo que eu costumava sentir)
But I can’t touch what I see
(Mas eu não consigo tocar o que vejo)

sustentou a nota calmamente, enquanto seus dedos deslizavam pelas teclas, flutuando por um território mais conhecido do que a palma de sua própria mão. Era quase magnético, parecia natural demais. E realmente era. Tinha uma memória auditiva musical impressionante e uma facilidade absurda para controlar os tons das melodias, fosse no canto, no violão, no baixo ou no piano. Era seu dom e a fazia questionar diariamente suas escolhas. Talvez devesse ter ingressado no ensino superior como musicista em vez de se dedicar à neurociência. Mas o que faria com o pequeno e incômodo detalhe de sempre ter uma plateia a observando em cada piscada ou passo no palco? Não gostava nem de pensar na possibilidade. Estava muito bem quieta no seu canto, seguindo a vida passando despercebida como se sequer existisse.

— We’re not who we used to be
(Nós não somos quem costumávamos ser)
We’re not who we used to be (Nós não somos quem costumávamos ser)
We’re just two ghosts standing in the place of you and me (Somos apenas dois fantasmas no lugar de você e eu)
Trying to remember how it feels to have a heartbeat
(Tentando nos lembrar de como é ter um coração batendo)

Mia balançava o corpo serenamente de um lado para o outro, olhos fechados, acompanhando o ritmo da canção. Continuava achando absurdo que pudessem escrever uma música tão profunda como aquela e a sonoridade ainda parecer tão doce. Quase conseguia imaginar algumas luzes amareladas, uma sala maior onde alguns casais pudessem dançar juntos, ignorando o teor levemente entristecido da letra… Daria um vídeo - e um momento, diga-se de passagem - incrível. Era mesmo uma pena que se recusasse tanto a fazer algo maior por medo da exposição. Jamais conseguiria compreender a amiga, mas a apoiava de toda forma. Afinal, era essa sua função; constava nas entrelinhas do contrato que assinara quando concordara com o seu papel de melhor amiga.

— The fridge light washes this room white
(A luz da geladeira deixa esse quarto branco)
Moon dances over your good side
(A lua dança sobre seu lado bom)
This was all we used to need
(Isso era tudo de que costumávamos precisar)
Tongue-tied like we’ve never known
(Calados como se nunca tivéssemos nos conhecido)
Telling those stories we already told
(Contando aquelas histórias que já contamos)
‘Cause we don’t say what we really mean
(Porque não dizemos o que realmente queremos dizer)

O refrão retornou com o mesmo poder de antes. canalizava sua voz, tentando demonstrar toda a emoção que a canção carregava. Apesar de nunca ter dado o braço a torcer para dizer que era um excelente cantor - até porque ela precisava criticá-lo para conseguir irritar Mia -, ela precisava admitir que ele tinha várias músicas realmente capazes de mexer profundamente com alguém.
Quando Mia fez um sinal, assinalando que tinha finalizado a gravação, empurrou o banquinho do teclado e se levantou, indo imediatamente até a amiga. Precisava desse retorno e da opinião dela, já que era, basicamente, a única que poderia dá-la sinceramente sabendo de todo o processo por trás.
— E então?
— Bom, se cantasse na minha frente, eu provavelmente me jogaria em cima dele e tentaria lambê-lo. - Mia deu um sorriso inocente. — Eu não quero te lamber, mas eu, definitivamente, quero te dar um abraço muito apertado e dizer que você é maravilhosa. Ficou muito lindo, amiga. Eu, sinceramente, acho que esse deve ser um dos seus melhores covers, se não for o melhor mesmo.
— Não quero mais seus elogios. Você é uma falsa.
A amiga franziu o cenho, boquiaberta, sem entender o que tinha acabado de acontecer ali.
— Com licença, mas que merda é essa?
— Garota, você lamberia o e não me lamberia. Tem noção do tamanho da afronta?
Mia riu alto, puxando a amiga e lambendo sua bochecha da forma mais nojenta que pôde. gargalhou, tentando empurrar a outra para longe de si. Bom, a culpa era realmente dela no fim das contas.
— Feliz? Tem protetor solar seu na minha língua, então eu espero mesmo que você esteja porque eu não pretendo repetir.
assentiu, enquanto abaixava-se para ligar o computador. Precisavam editar alguns detalhes, fazer mínimos ajustes e, então, poderiam publicar o vídeo da forma que sempre faziam.
Enquanto Mia corrigia a luz pelo computador, a amiga foi até a cozinha para pegar um pouco de sorvete de pistache para ambas.
— Você quer mudar a tonalidade na iluminação para tentar combinar com a música ou vamos manter o visual de fundo mais clean?
— Acho melhor mantermos como está. Combina melhor com os outros vídeos, não? Deixa o feed mais homogêneo.
Mia meneou a cabeça.
— Tem razão. Posso publicar, então?
fez um joinha antes de se jogar em um pufe verde-limão ali por perto. Estava tão mais leve depois de poder ter seu momento com a música - e com o sorvete - que mal se lembrava da porcaria da neuroanatomia. A prova seria dali dois dias, ela podia fingir que o mundo não estava explodindo lá fora por alguns últimos instantes de paz.
— Cover de Two Ghosts de @, #music # #twoghosts #onedirection #cover #saturn #song #dream #thevoice.
revirou os olhos enquanto engolia o sorvete.
— Primeiramente, não sei se você sabe, mas você não precisa falar alto tudo o que você digita. Segundo: The Voice, sério?
— Sério. - Mia deu de ombros. — É um reality show famoso, as pessoas procuram isso. Sem contar que talvez alguém da produção veja e queira você lá. Não sabemos se eles realmente só aceitam os inscritos, reality shows não são confiáveis.
— Certo. Terceiro: por que você continua marcando os artistas se eles nunca vão ver isso? Você pode só escrever os nomes deles, sem linkar a conta.
— Exatamente porque eles nunca vão ver que você deveria parar de se preocupar com isso. Além de que, desse jeito, as pessoas conseguem descobrir as músicas originais caso ainda não a conheçam. Garota, eu marquei a Taylor Swift rainha maior do universo, por que não marcaria o ?
— Você colocou tag para One Direction. Sabe que isso é um golpe baixo, não sabe?
— Golpes baixos rendem visualizações. Se eu estou enfrentando a dor eterna com o fim da minha boyband, você pode muito bem parar de encher o saco e me deixar fazer o meu trabalho. Estamos de acordo ou a diva tem mais alguma reclamação?
ergueu o dedo do meio para a amiga.
— Pode postar.
— Obrigada, madame - Mia respondeu ironicamente e enviou a nova publicação. — Caramba, tem menos de dez segundos que eu postei e você já tem cinco curtidas. Acho que você pode começar a agradecer ao muso por ser um nome atrativo.
— Eu nunca vou agradecer a . Por nada.
— Nunca diga nunca, . Até porque já subimos para vinte curtidas e dois comentários: “Você tem uma voz linda” e “Eu amo essa música, @ você precisa ver isso!”.
A garota riu alto. Ainda se impressionava com o fato de que adolescentes apavoradas e devotadas acreditavam mesmo que um cantor ultra famoso com mais de vinte e cinco milhões de seguidores no instagram acabaria por ver uma simples marcação em um vídeo aleatório. Ele deveria receber aquele tipo de notificação milhares de vezes e ignorá-las em todas as tentativas. Mas tudo bem. Era assim que os fãs eram. E, apesar de meio bobo, ela deveria admitir que também era bem fofo que alguém tivesse tanto carinho ao ponto de manter aquele tipo de esperança.
— Quase cem curtidas. Mais de dez comentários. Alô, quem fala? - franziu a testa ao ouvir a amiga. — É da Billboard, eles querem uma entrevista exclusiva para divulgar o seu hit.
arremessou a almofada mais próxima na amiga. Ela sonhava um pouco alto demais até mesmo para o seu gosto.


❀❀❀



estava tirando medidas pela terceira vez no mês. Os figurinos da turnê davam muito mais trabalho do que parecia e exigiam uma seriedade que ele não tinha. Toda vez em que alguém da equipe encostava em algum ponto delicado, ele se contorcia e ria. Isso quando não estava fazendo pequenas caretas até que alguém notasse.
— Se você ficasse parado, nós acabaríamos isso aqui muito mais rápido - disse Celina, funcionária da Gucci. Os dois já se conheciam há certo tempo, dada a parceria estreita do cantor com a marca desde a sua primeira turnê. Mesmo assim, ele continuava exatamente o mesmo bobo, atrapalhando-a.
— Mas que graça teria nisso, Celina?
A mulher o espetou levemente com um dos alfinetes, fazendo com que ele soltasse uma exclamação de surpresa seguida de algumas risadas compartilhadas. Tentava sempre manter uma relação leve e divertida com todos em sua equipe. Ajudava a tornar o ambiente melhor e, no fim das contas, era mais um reflexo de sua própria personalidade - que fazia amizade fácil com quase todo mundo - do que de uma obrigação, de fato.
— De novo dando trabalho para a Celina? - Jeffrey perguntou ao adentrar a sala.
— Ele não desiste - a mulher respondeu simplesmente, recebendo um sorriso do rapaz. — Mas eu consegui terminar. Vou deixar vocês dois a sós. Até mais, .
— Tchau, Celina. Amo você.
Ela saiu, meneando a cabeça e rindo. Era quase impossível para qualquer um tentar se manter sério diante de uma pessoa como aquela. emanava energia e, por vezes, a própria equipe lamentava o fato de Anne não tê-lo feito com um botão liga-desliga. Seria infinitamente mais prático.
— Pode falar - indicou, enquanto se sentava no sofá branco improvisado. O empresário o acompanhou, posicionando-se perto dele.
— Agendamos a parte sul americana da Love on Tour. Serão dois shows no Brasil, um na Argentina, um no Chile, um no Peru e um na Colômbia. Fechado?
— Se eu puder voltar para o Brasil no final para passar uns dias, fechado.
— Vamos discutir isso depois. Temos muito o que fazer com as divulgações do Fine Line e com a própria turnê antes de você começar a se preocupar com férias.
— Caramba, Jeff. Pensei que você fosse meu amigo.
— É por ser seu amigo que preciso cortar suas asinhas de vez em quando - o outro respondeu. — Mas, sim, você vai ter férias. Não pretendo matar você de exaustão.
— Liga para o Cowell rapidinho e explica para ele como funciona essa questão de descanso e de não trabalhar até a exaustão?
Jeff empurrou o ombro do amigo, rindo sozinho. Já tinha passado horas suficientes ouvindo reclamações sobre como a época da banda havia sido massacrante em vários momentos e ocasiões. Sabia bem que o seu trabalho priorizava o oposto e agradecia pelo fato de ter confiado a carreira solo a ele de qualquer forma.
— Só temos uma questão. Você ainda precisa decidir se quer colocar mais alguém nas participações especiais ou se já posso dar por encerrada a organização dos shows de abertura. Preciso dessa informação para começar a dialogar os detalhes com os estádios e arenas e para podermos vender os ingressos.
serviu-se de um copo de água, dando longos goles. Agradecia por manterem sempre uma garrafa grande perto de si ou morreria desidratado pelo simples fato de constantemente se esquecer de tomar água enquanto se ocupava com as questões do trabalho.
— Acho que podemos fechar. Confirmo para você até amanhã, pode ser?
Jeff assentiu e se sentou, puxando o próprio computador para analisar os últimos e-mails. O planejamento da turnê estava a todo vapor e sua caixa de entrada estava quase tão lotada quanto o tráfego em Moscou. Precisaria de mais uma xícara de café na próxima hora ou começaria a confundir todos os patrocinadores e fornecedores.
aproveitou seu momento para puxar o próprio celular e se lembrar por poucos segundos de que suas redes sociais existiam. Era um evento fatídico que às vezes demorava quase um mês para se repetir. Sua mãe brincava que logo suas aparições seriam mais raras e cronometradas que a passagem do cometa Halley. Ele não tinha muitos argumentos para rebater isso.
Escolheu uma menção aleatória no twitter para responder.
, qual a sua música favorita no ‘Fine Line’? - Leu em voz alta e tomou alguns segundos pensando no que responder. — Hoje é Falling. Pergunte de novo amanhã.
— Você nunca mais vai responder essa menina - Jeff interveio. — Por que faz isso?
— É para isso que serve o twitter, Azoff. Eu sei o que faço. Vamos ver se tem algo de interessante. Talvez uma nova petição para um microfone rosa brilhante.
— Já encomendei - Jeff respondeu simplesmente.
voltou a rolar a sua tela de notificações, buscando algo que realmente quisesse responder antes de se ausentar até o nascimento do próximo bebê real.
— Que estranho - murmurou, percebendo que tinham várias notificações de pessoas diferentes lhe enviando o mesmo vídeo. Talvez fosse um presente das fãs, muitas faziam isso. Clicou no link e foi redirecionado para o instagram. Uma página chamada “saturnsingss” abriu em sua tela. prontamente retirou o aparelho do mudo e aumentou o volume, estranhando o fato de só ver o colo e a boca da pessoa. As fãs geralmente faziam o máximo para aparecer por completo a fim de serem notadas.
O som do teclado começou e algo dentro dele parecia procurar de onde conhecia aquela melodia. Era familiar, apesar de nunca tê-la ouvido daquela maneira. Estava completamente intrigado até que as palavras que ele já conhecia tão bem passaram a ser entoadas.
Assistiu ao vídeo inteiro com mais atenção do que ele costumava dar para as coisas. Clicou na tela, permitindo que o vídeo recomeçasse do zero. Precisava ouvir aquilo de novo. Era tão doce, tão sutil. Uma versão bem diferente da sua, mas que passava toda a emoção que ele sempre quis carregar naquela letra.
— Jeff, é a minha música! - Exclamou sem se dar conta da obviedade do que estava dizendo. Quase jogou o aparelho nas mãos do empresário, esperando que ele visse o mesmo que ele.
— Legal - o outro respondeu simplesmente. Não estava prestando atenção em mais nada direito.
— Você não está me entendendo. Jeffrey, é essa a minha última atração especial. Eu quero essa garota no meu show.
— Só porque ela cantou uma música sua?
— Porque eu quero que ela cante a versão dela comigo. Eu quero ela.
Jeff passou as mãos pelo rosto, esfregando os olhos com certa força.
— Quem raios é essa garota, ? Você sequer sabe quem é?
— Não. Ela usa um pseudônimo. Saturno. Não tem imagens de rosto ou outras redes sociais.
— E como você espera que eu agende shows com uma pessoa que mal existe?! Eu estou muito ocupado, cara. Tenho uma porrada de coisas sérias da turnê para resolver. Não tenho tempo para ir atrás da garota. Sinto muito.
expirou com mais força, enquanto andava em círculos com as mãos na cintura. Ainda não tinha desistido daquela ideia e nem pretendia. Conseguia ser bem teimoso quando queria.
— Eu já sei. Devolve meu celular.
— Não é para ligar para o Louis - Jeff disse antes de entregar o aparelho. — Ele não tem tempo para resolver seus problemas.
— Não é o Louis. Dessa vez.
Azoff revirou os olhos.
— Por que ocupar uma pessoa se eu posso facilmente ocupar várias?
O amigo não estava entendendo mais nada. Até receber a notificação do twitter que explicava tudo.

“Oi, gente! Essa garota cantou a minha música e eu preciso conhecê-la imediatamente. Será que vocês podem me ajudar a encontrá-la? Com amor, H x”

— Você não fez isso.
— Ah, eu fiz, sim. Agora, sente-se e espere. Hora de comprovar o assustador poder do fandom.


Capítulo Dois

And they tell you that you’re lucky, but you’re so confused (...)
Another name goes up in lights, you wonder if you’ll make it out alive
The Lucky One - Taylor Swift



Trinta e sete de quarenta não era nada mal. Não mesmo. quase podia dizer com certeza que estava mais calma para fazer a prova de neuroanatomia depois daquele simulado bem sucedido. Sentia-se mais confiante; isso era certo. Talvez as coisas dessem certo, afinal.
Enquanto deixava seus materiais do dia em seu armário, recebeu uma mensagem de Mia:

“Me encontra na lanchonete em frente à faculdade. Precisamos conversar.”

E antes mesmo que respondesse, veio a segunda:

“Agora.”

trancou o armário rapidamente e partiu em direção ao local marcado. Não fazia ideia do que a amiga queria, mas provavelmente não seria nada de mais. Assim como não havia sido nas últimas cinco vezes em que a mesmíssima coisa havia acontecido. Foi por isso que se permitiu ignorar a amiga deliberadamente e ir até o balcão pedir um lanche antes de se sentar com ela.
— Tive que pegar algo para comer - explicou-se. — Não consegui botar nada para dentro de manhã por medo do simulado. Pelo menos deu tudo certo. Acredita que eu fui super bem?
— Acredito - Mia respondeu. — Parabéns. Sabia que você não precisava se preocupar tanto.
tinha certeza de que todas aquelas palavras eram completamente sinceras, mas o tom de voz da outra a fez recuar instantaneamente. Mia era escandalosa, radiante, afobada. Preocupação não combinava em nada com ela.
— O que aconteceu? É sério? Família?
Mia respirou fundo, enquanto desbloqueava a tela do próprio celular.
— Nós temos um problema. - As palavras tinham sido praticamente cuspidas, como se estivessem entaladas e forçando sua saída. — Two Ghosts viralizou. Tem mais de cento e cinquenta mil likes e tantos comentários que eu sinceramente nem consegui dar conta de ler todos eles.
arregalou os olhos.
— Puta merda, mais de cento e cinquenta mil? É muita coisa. Eu nem acredito! - Nunca admitiria, mas estava brutalmente orgulhosa de si. — Mas isso é bom, não é? Significa que tem várias pessoas por aí que gostam do que eu faço.
— Sim, claro. Isso é exatamente tudo o que eu sempre quis para você e sempre soube que você merecia com essa voz maravilhosa. Esse reconhecimento é mesmo incrível. A questão é que não se aumenta o alcance de uma publicação em mais de mil por cento de um dia para o outro. Eu sabia que tinha alguma coisa estranha acontecendo, mas eu não tinha nem noção da dimensão disso.
Ao ouvir aquilo, sentiu a onda de preocupação atingindo o seu próprio corpo. Engoliu o que tinha na boca, sentindo o lanche raspar, quase como se tivesse descido pelo lado errado.
— Você está me assustando. Dá para falar logo?
Mia levou alguns segundos no celular e o posicionou sobre a mesa, de forma que ambas pudessem ver a tela. A conta do twitter de estava aberta e não entendeu nada. Não até que a amiga clicasse no último tweet do cantor, afastando todas as informações do perfil e tendo apenas aquela publicação em evidência.

“Oi, gente! Essa garota cantou a minha música e eu preciso conhecê-la imediatamente. Será que vocês podem me ajudar a encontrá-la? Com amor, H x”

Seu coração parecia uma bateria universitária, batendo alopradamente no peito. Aquilo era algum tipo de pegadinha. Uma montagem. Era isso! As pessoas estavam cada vez melhores em forjar publicações, informações e dados, não estavam? Todas as ondas de fake news deixavam isso claro como água tratada.
— É fake - disse, simplesmente. Recostando-se na cadeira e dando outra mordida em seu lanche, apesar de todo o seu apetite ter ido dar uma volta em outro continente depois do nervoso passado.
— Sim, garota. Na conta oficial, verificada, com milhares de retweets, likes e comentários. É fake, sim. Para de se fazer de idiota, caramba!
abriu o aplicativo do twitter no próprio celular, disposta a desmascarar a brincadeira de mau gosto da amiga. Mas lá estava o mesmíssimo tweet, com vários fãs criando hipóteses, teorias e chutando quem poderia ser a pessoa misteriosa de quem estava atrás.
— Eu nunca mostrei o rosto, nem falei sobre nomes ou outras pessoas. Ninguém além de você e da minha família conhece o apartamento. E, considerando que eles também não conhecem o conceito de redes sociais, acho que está tudo bem. Não tem como descobrirem que sou eu - ela tentava convencer a si mesma daquilo, tentando manter a calma mesmo que no fundo soubesse que aquela possibilidade não estava mais em jogo.
— Qualquer um que entenda muito bem de informática consegue rastrear sua conta. Não é tão difícil para pessoas que hackeiam até os sites das maiores empresas do mundo, sabe?
— Mas essas meninas são fãs, Mia; não hackers. E eu duvido que o seu querido ídolo tenha tempo ou disposição de contratar um por uma coisa assim tão tosca. Ele nem deve mais se lembrar de ter visto esse vídeo. Quer dizer, isso se ele viu, não é? Pode ser alguém da equipe dele que é pago só para fazer esse tipo de coisa, causar um alvoroço no fandom e depois fingir de morto de novo.
— Eu sigo esse garoto desde 2010. Eu passei a minha adolescência toda sabendo cada mísero passo dele, desde a cidade em que estava, até os restaurantes em que aparecia.
— Isso é assustador. E é perseguição.
— A questão é: eu nunca vi isso acontecer em todos esses anos. Responder fãs? Ok. Comentar tweets que nem o marcavam e assustá-las? Tudo bem. Mas isso? Não, . Isso é inédito. E eu não sei se você se esqueceu da sua alfabetização, mas ele foi bem claro sobre precisar te conhecer. Essas meninas não vão descansar enquanto você não tiver uma foto ao lado dele exposta pela internet toda.
— Uma hora elas desistem. - deu de ombros, fazendo a amiga revirar os olhos de uma forma quase teatral.
— Boa sorte com isso. Mas pensa um pouquinho comigo sobre uma coisa. Se você se apresentasse e fosse vê-lo, sua carreira basicamente explodiria e talvez você até pudesse mandar essa prova de neuroanatomia para aquele lugar. Você não precisaria de faculdade, de emprego formal… Mulher, com o talento que você tem, você definitivamente não deveria estar em um laboratório. Não quando você sabe que a música é o que você mais ama nessa vida.
— Sabe outra coisa que eu amo muito na minha vida? Paz. Poder acordar e abrir a janela do meu apartamento com o cabelo mais feio que a humanidade já viu porque não têm paparazzis esperando. No máximo, tem o meu vizinho de varanda e ele já deve ter entendido que eu não tenho salvação. É ótimo poder sair na rua e ter minhas roupas julgadas só pelas pessoas que eu nunca mais vou ver e que não têm interesse algum em me ofender publicamente por isso. Eu gosto mesmo de poder ir à padaria e tomar um café sem todo mundo se amontoar ao meu lado e pedir uma selfie. Mia, você acabou de falar que sabia até onde o almoçava! É isso que eu não quero. Eu não quero ser o centro das atenções em lugar algum. Eu amo a minha música e eu adoraria viver dela, desde que não viesse com toda essa carga de brinde.
— Amiga, você tem talento demais para se esconder desse jeito. O mundo merece te ouvir. Além do mais, tudo isso de que você está falando vem de fãs. Fãs que amam, valorizam, idolatram e enchem seus ídolos de todo o reconhecimento que eles merecem. É claro que vários perdem completamente a noção de limites. Isso literalmente acontece com absolutamente tudo nessa vida. Mas você já parou para pensar pelo ponto de vista oposto?
desistiu do lanche. Aquela conversa tinha embrulhado completamente o seu estômago.
— Ter milhares de pessoas cantando suas músicas, apreciando suas composições, chorando porque se identificam com as suas mensagens. Receber cartinhas de fãs, agradecendo você por ter mudado a vida deles de um jeito que só um fã poderia entender. Encher arenas, viajar o mundo… Já pensou atingir tanta gente em tanto lugar do mundo? A diferença que dá para fazer no mundo inteiro? Ser porta voz de uma geração, !
— Eu nem sei se tenho coragem de subir em um palco na frente desse monte de gente - admitiu, sentindo-se pequena demais diante de um mundo brutalmente enorme.
— Medo é um negócio que existe para a gente superar. Isso nem deveria estar em pauta.
— Mas é mais um problema. Eu estou muito bem com a minha vida de completa invisibilidade para me jogar em um mundo que acha que a minha vida é mais deles que minha. Mia assentiu.
— Não posso te falar que eu entendo sua decisão. Se eu estivesse no seu lugar, eu estaria cantando no meio da rua e dizendo “Oi, , sou eu! Vamos nos casar em Holmes Chapel para ficar perto da sua família?”. Mas eu respeito. Apesar de achar que alguém ainda vai descobrir e você não vai mais conseguir se manter escondida.
— Vira essa boca para lá, garota - reclamou. — Ele vai me esquecer. Você vai ver.
Um apito veio do celular de Mia, alertando as duas. Qualquer notificação nova àquela altura era alarmante, em especial quando já tinham desativado o inquieto instagram. A garota tomou o celular em mãos e a careta que fez a seguir não pareceu nada agradável para a outra.
— O que é agora? Esse garoto acionou a polícia para vir atrás de mim como se eu fosse uma criança desaparecida?
— Não. Mas ele fez uma ‘live lounge’ para a BBC Radio 1 hoje cedo e, pelos tópicos da chamada da entrevista, não parece mesmo que ele está disposto a seguir seus planos de esquecimento.
leu o título do vídeo e sentiu um zumbido em suas orelhas, quase como uma sirene incansável de uma ambulância avisando que tudo estava prestes a dar muito errado.
Mia tirou os fones de ouvido enrolados da mochila, colocando um e entregando o outro para a amiga. Respirando profundamente, deu play no vídeo.


❀❀❀



havia cantado Lights Up, feito um cover de Juice da cantora Lizzo - que, com certeza, faria algumas fãs o acusarem de serem cardíacas e estarem prestes a morrer do coração - e, agora, finalizava as últimas notas de Adore You. — Just let me adore you like it’s the only thing I’ll ever do.
Afastou-se do microfone ao finalizar, pigarreando e buscando a garrafa de água que o staff tinha preparado para ele. Se não terminasse de beber tudo aquilo até o fim do programa, Jeff provavelmente o daria um longo sermão sobre como ele deveria se preocupar mais com a própria voz e fazer algo pela própria saúde, mesmo que fosse algo tão simples como beber mais água enquanto a garganta arranhando persistisse. Sentia-se quase uma criança recebendo ordens, mas, de acordo com a sua equipe, às vezes era exatamente assim que ele precisava ser tratado.
Sentou-se de frente para Clara Amfo, radialista responsável pela cobertura dos dias úteis da semana, preparado para responder algumas perguntas antes de dar aquela sessão por encerrada e ir embora. A moça sorriu para ele e sua garrafa de água colorida.
— Muito bem! Continue se hidratando - ela brincou, arrancando uma risadinha do garoto.
— Garganta ruim. Se eu não tomar tudo, Jeff disse que me devolve para a minha mãe e cancela minha carreira.
— E sua mãe?
— Provavelmente não me quer de volta e está por trás dessa conspiração contra mim - admitiu risonho.
— Pais, não é? Todos iguais - Clara comentou. — Mas me conta como está sendo tudo? O lançamento do novo álbum, o retorno… Sei que os fãs estão amando, porque recebemos pedidos para tocar suas músicas o dia inteiro.
— Está sendo incrível e bem louco, na verdade. O primeiro álbum foi um choque por ter sido tão bem aceito, mas era o debut, entende? Nós tínhamos a impressão de que os streams e as buscas estavam mais altos do que as expectativas porque havia uma curiosidade sobre o que eu estava fazendo. Pensamos que fosse algo do tipo “Não é aquele garoto do One Direction? O que será que ele canta agora?”. Mas o ‘Fine Line’ nos mostrou que talvez tenhamos uma base mais sólida do que esperávamos. É o segundo álbum que alcança o primeiro lugar na estreia e isso nos fez perceber o poder dos fãs e da própria música, mais do que só o da curiosidade.
— Seus fãs são incrivelmente dedicados e apaixonados. Acho que todos nós já percebemos isso. - Os dois riram. — E como foi o processo de criação desse novo disco? Soubemos que você participou bastante.
tomou outro longo gole de sua água antes de prosseguir.
— Foi bem divertido, na verdade. Principalmente porque essa era exatamente a minha intenção com ele: torná-lo divertido de escrever, de gravar e de cantar em turnê. Eu tinha muitas dúvidas do que fazer depois do primeiro e todo mundo parecia ter uma opinião formada sobre o que eu deveria fazer.
— Menos você.
— Exatamente! Foi o Tyler Johnson, produtor do álbum, que acabou me dando o único conselho que eu realmente levei a sério. Ele me mandou esquecer toda a pressão externa e as opiniões alheias e simplesmente fazer o álbum que eu queria fazer naquele exato momento. Hoje, pode até parecer só mais um comentário óbvio e clichê, mas acho que era tudo o que eu precisava ouvir naquela época, principalmente vindo de alguém que só poderia estar sendo sincero, considerando que o nome dele também estaria no CD e qualquer besteira que eu fizesse não cairia só sobre as minhas costas, mas sobre a equipe também.
— Muito legal mesmo. É importante ter esse pessoal pé no chão ao seu redor. Mas me conta, , e as músicas? Um passarinho me contou que você nomeou Falling sua favorita. É verdade?
fez uma pequena careta, ponderando.
— Acho que, por enquanto, sim. Eu tenho uma conexão muito particular com essa música. Quer dizer, eu tinha acabado de sair do banho, sentei de toalha mesmo do lado do Tom ao piano e a música saiu em uns vinte minutos, eu acho. Foi um processo muito natural, sabe? E tem toda uma vulnerabilidade ali. Eu sinto que a música acabou virando algo similar a um desabafo.
— De onde veio esse desabafo? Sobre o que é a música quando se trata pessoalmente do escrevendo sobre o que ele viveu e sentiu?
— Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de entregar todo o jogo. Gosto de deixar algumas interpretações em aberto para manter a graça da coisa toda e porque a música pode muito bem assumir significados diferentes para quem a ouve. Não quero limitá-la apenas àquilo que eu pensei em primeiro lugar. De qualquer forma, eu tenho a impressão de que essa não é uma música com muitos segredos.
“Enquanto nós produzíamos esse álbum, eu vivi alguns dos momentos mais felizes de toda a minha vida e também alguns dos mais tristes. Aconteceram algumas coisas que me deixaram realmente bem mal no caminho. Falling é a representação clara do seu próprio título. É sobre cair; aquela sensação de estar despencando e não ter aonde se agarrar. Tem um trecho em que eu falo “O que eu sou agora? E se eu for alguém que não quero por perto?” e foi exatamente assim que eu me senti em alguns momentos, entende? Era mais do que só uma crise existencial. Eu podia enxergar alguns sinais de comportamentos e mudanças e perceber que talvez eu estivesse me encaminhando para me tornar alguém que eu não reconheceria e provavelmente de quem eu não gostaria nem um pouco.”
Clara assentiu, absorvendo a densidade de todas aquelas palavras. Mesmo com uma mensagem tão poderosa, a música provavelmente se tornaria ainda mais impactante depois daquele comentário tão sincero.
— É realmente bem profundo e algo com que as pessoas vão poder se identificar sempre que ouvirem - ela constatou e recebeu um movimento de cabeça do rapaz em concordância. — Existem outras músicas com esse tipo de sentimento e vulnerabilidade de background?
— Acho que a resposta é óbvia. - riu. — ‘Cherry’ é um exemplo muito claro disso.
— E ainda tem a mensagem da Camille no fundo - Clara comentou.
— Pois é. Eu achei que cabia perfeitamente na minha composição e ela permitiu, então por que não? Tenho a aprovação dela para tudo o que aconteceu ali.
— Então ela ouviu a música antes?
— Claro. Eu jamais teria coragem de colocar aquela música no mundo sem que ela escutasse cada palavra e dissesse que estava tudo bem. Que tipo de babaca eu seria se não desse a ela a chance de dizer que não concordava?
— E você acha que ela gostou da música?
riu alto.
— É, acho que sim.
— Acho que já tomamos muito o seu tempo e você provavelmente precisa tomar mais uns dois litros de água ou será enviado para Holmes Chapel em um caminhão de mudanças - a mulher brincou. — Então, queria fazer só mais uma pergunta para finalizarmos. Pode ser?
— Claro. Mas, se forem perguntar se eu vou tirar a roupa na próxima turnê, a resposta é provavelmente não.
— Droga! Agora vou ter que pensar em outra coisa - ela brincou. — A grande pergunta que não quer calar: o que aconteceu no twitter? Você praticamente mobilizou uma rede social inteira!
riu, concordando. Suas menções e mensagens nunca davam trégua, mas estavam especialmente animadas desde que ele declarou aberta a temporada de busca à cantora misteriosa e desconhecida do instagram.
— Eu estava no meu twitter, em paz, com a vida seguindo perfeitamente dentro dos planos. Daí eu vi que tinha muita gente me marcando no vídeo dessa garota, a Saturno. Eu abri pensando que era um vídeo desses que as fãs montam. Considerando a estreia recente do álbum, eu pensei “Talvez seja algum tipo de homenagem”.
— Eu literalmente consigo imaginar a situação.
— Foi aí que eu dei play e ouvi Two Ghosts em uma versão melhor que a minha. Eu fiquei em choque e o Jeff não entendeu absolutamente nada. Eu só conseguia pensar em como precisava conhecer aquela garota o mais rápido possível. Quem ela pensa que é para me surpreender com a minha própria música e seguir a vida como se não tivesse mudado a minha, sabe? É um absurdo.
— E você acha que os fãs vão encontrá-la?
— Eu confio neles. Eu preciso mesmo encontrá-la. Eu sonhei com isso, você tem noção? Não consigo dormir pensando no que mais eu posso fazer para conseguir entrar em contato real com ela.
— Eu não consigo acreditar nisso! Você imagina que qualquer pessoa faria de tudo para poder ter a chance de conhecê-lo e, quem sabe, impulsionar a própria carreira. Mas aí temos essa moça que se esconde e não parece querer sair de seja lá onde ela está. Com certeza várias outras garotas estão morrendo, desejando estar no lugar dela.
meneou a cabeça, assentindo.
— Algumas tentaram dizer que eram elas naqueles vídeos, mas foram desmentidas muito fácil. Ou porque vimos nas fotos que os cabelos não tinham nada a ver ou porque amigos decidiram desmentir dizendo que elas sequer conseguiam cantar ‘Parabéns para você’ sem desafinar mais do que um daqueles frangos de plástico. Aliás, palavras deles, não minhas.
Clara não conseguiu conter a própria gargalhada.
— Temos algum tempo antes do próximo programa aqui na rádio e eu vou deixar você usá-lo para mandar uma mensagem desesperada para a tal da Saturno porque eu realmente estou torcendo para que essa busca dê certo. E quero a primeira entrevista dos dois como exclusividade minha. Fechado?
— Como a senhorita quiser - ele concordou, antes de se virar para ficar cem por cento de frente para a câmera. Assim, se ela por acaso assistisse àquela gravação, talvez tivesse piedade da carinha de cachorro que acabara de cair da mudança que ele sustentava em sua direção. — Cara Saturno, venho por meio desta singela gravação implorar por tudo o que há de mais importante nesse mundo para que você apareça. Isso não é uma simulação, não é uma piada, nem uma brincadeira. Na verdade, isso tudo é bem sério. Por motivos de importância extrema, eu preciso conhecer você. Saturno, a cada hora que passa sem que consigamos descobrir quem é você, uma fada morre e um sonho é despedaçado sem delicadeza alguma. Não despedace os meus. Por favor, deixa a gente te encontrar. Eu nunca te pedi nada.
— Por favor, Saturno! - Clara pediu. — Faça todos nós felizes e dê o ar da graça. Mal vejo a hora de entrevistar vocês dois para saber como foi esse encontro.
deu um largo sorriso para a câmera - aquele que fazia com que as fãs, desde a época da One Direction, chamassem-no de cupcake. Mesmo que estivesse bem ansioso com toda aquela situação, ainda tinha esperanças bem reais e palpáveis de que aquela busca gerasse os resultados tão intensamente esperados. Tinha ficado praticamente obcecado com tudo aquilo e não pretendia desistir fácil de seus objetivos.
— Esse foi o BBC Radio 1 Live Lounge com . Esperamos que vocês tenham gostado e até a próxima - Clara se despediu e viu o aviso de que estavam ao vivo se apagando.
Pegou sua bendita garrafa e se aproximou da radialista a fim de se despedir propriamente antes de ir embora.
— Até mais. Eu realmente espero que você encontre a garota - ela disse.
— Eu também espero. Você não tem ideia de como.


❀❀❀



— Caramba - Mia murmurou assim que o vídeo foi finalizado. — Eu tenho inveja da sua paz de espírito. Eu já teria parado de respirar se isso tudo fosse comigo.
— Desculpa, eu não consegui te ouvir com a falta de oxigenação do meu cérebro depois dessa merda toda - brincou, tentando descontrair frente a situação. Totalmente em vão. Estava prestes a socar sua cabeça contra a parede da lanchonete até ter um traumatismo craniano e poder se afastar daquela loucura toda antes que fosse tarde demais.
— Sinto muito, mas as coisas não vão melhorar depois desse vídeo - Mia constatou o óbvio. — Inclusive, é bem provável que elas já tenham piorado nesse meio tempo.
— Eu preciso comer. Será que a gente pode parar de falar disso enquanto eu me forço a ter uma alimentação menos horrível? Desliga essa porcaria de celular emissor do caos e de más notícias.
— Perdão. - Mia guardou o celular na mochila. — Vou comprar um salgado para te acompanhar.
ainda não havia retomado seu apetite, mas não tinha muita opção. Ou empurrava o resto do lanche para dentro ou sua pressão atingiria níveis baixos o suficiente para que ela desmaiasse no primeiro passo que desse para fora do estabelecimento.
Mia voltou logo com um croissant. As duas comeram em silêncio, ocupadas demais lidando com as coisas que passavam vorazmente por suas próprias cabeças inquietas. Se não havia a intenção de expor a identidade da voz por trás do cover viral, então teriam de arranjar um plano rápido e eficiente para escaparem de toda aquela escavação de informações que as pessoas estavam realizando enquanto buscavam suas respostas.
— Dói meu coração sequer cogitar isso - começou, depois de empurrar o prato finalmente vazio para o centro da mesa. — Mas e se eu deletar a conta da Saturno? Eu sumo com os dados rastreáveis, não sumo?
— E perder todo o seu trabalho e seu hobby? Eu não posso deixar você fazer isso, amiga. Sem contar que eu acho que não é bem assim que as coisas funcionam. Os vídeos já estão lá, já devem ter rastros suficientes deles pela rede. Em especial esse daí, que já deve estar por toda parte.
bufou, passando as mãos nervosamente pelo próprio rosto.
— Mas, se eu deletasse as coisas, será que as pessoas não acabariam deixando para lá e desistindo? Falo dessas meninas sem muitos recursos de informática mesmo. Provavelmente, elas vão perder o interesse assim que a única fonte delas sair do ar.
— Tem certeza de que você quer fazer isso? A Saturno te faz tão bem - Mia lembrou.
E ela estava certa. com certeza não queria abrir mão de tudo. Mas já não via uma opção melhor.
— Não tenho certeza de mais nada. Mas a Saturno era legal por ser uma pessoa dissociada de mim. Com a possibilidade disso acabar, não sei se continuo pensando o mesmo sobre ela.
Mia assentiu com certo pesar, tanto por saber como aquilo era especial e importante para a miga, quanto por seu próprio trabalho de quase empresária dela.
— Vou dar uma olhada se algo mudou desde a publicação do vídeo da BBC - avisou.
— Não deu tempo o suficiente - comentou.
Mesmo assim, a outra abriu o próprio celular, entrando no tweet de que havia dado início àquilo tudo. As primeiras menções eram de pessoas e contas que ela seguia na sua própria. Franziu todo o seu rosto em espanto e desespero ao ver o comentário de uma colega da faculdade.
— Desde quando essa garota gosta do ?
— Quem? E que cara é essa?
Ao terminar de ler a sequência de tweets, Mia afundou o queixo na própria mão, incapaz de sustentar o contato visual com a amiga naquele instante delicado.
— O que aconteceu? - A voz de mal saía. Sentia-se completamente estrangulada.
— Acho que não adianta mais deletar a conta - Mia murmurou, deixando o celular aberto sobre a mesa. Ela própria estava com uma sensação de engasgo dolorosa, incapaz de lidar com tudo.
não queria ler aquilo, mas percebeu que não adiantava fugir. Não tinha opção. Ignorar os tweets não faria com que eles desaparecessem. Sendo assim, era melhor que ela soubesse a verdade de uma vez. Arrancar o curativo em um só puxão e lidar com a dor toda concentrada, ao invés de lidar com doses homeopáticas de desespero.

@_shannonq: Ei, @matthewells, essa não é a garota com quem você ficou naquela festa da faculdade? Tenho uma impressão de que ela não me é estranha.”
@matthewells: Com certeza. Eu reconheceria essa boca em qualquer lugar. E ela ainda tem uma tatuagem de Saturno no pulso. O codinome da garota por acaso é Saturno. Coincidência? Hahahaha. É a , certeza.”
@_shannonq: @_, o nome dela é , ela estuda Neurociência na King’s College London. De nada.”

soltou o celular da amiga sobre a mesa, absolutamente perdida. Não sabia como reagir; não sabia o que fazer a seguir. Era como se tivessem aberto um buraco no chão logo embaixo de seus pés e ela não tivesse mais onde se apoiar. O mundo tinha ruído e parecia esfarelar entre seus dedos. Não sabia o que sentir além do mais completo choque. Qual era a chance de aquilo acontecer? Uma em um milhão? Que merda ela tinha feito na vida para merecer que um karma desse viesse apunhalá-la pelas costas a essa altura do campeonato? Não era possível que aquilo realmente estivesse acontecendo.
— Eu não acredito - sussurrou, tão baixo que Mia não teria escutado se não estivesse presa na mesma bolha estática sem entender o que acabara de acontecer.
— Por isso que eu sempre digo: cuidado ao escolher as pessoas que enfiam a língua na sua boca.
bufou, deitando a cabeça sobre os braços e deixando que os cabelos caíssem sobre os ombros.
— Filho da puta.

Capítulo Três

Smile for the camera, everybody’s looking at ya
Smile for the camera, cause they’re all about to trash ya
Falling Down - Selena Gomez & the Scene


Fazia dez minutos que estava trancada no carro da amiga, abaixada no banco traseiro como uma fugitiva em uma série hollywoodiana qualquer. Estava se sentindo sufocada, claustrofóbica, sem ar. E isso se devia tanto à sensação do carro fechado quanto ao fato de que ela tinha visto uma pequena - mas estranha - aglomeração ao passar pela entrada do estacionamento e aquelas pessoas tinham microfones e câmeras sendo preparados. A não ser que algum dos pesquisadores incríveis da universidade tivesse descoberto a cura do câncer ou do HIV do dia para a noite, eles estavam atrás dela. Ela tinha plena consciência disso.
Todas as suas redes sociais tinham simplesmente se tornado um inferno completo desde que Shannon e Matthew a expuseram da forma mais pública e aberta possível. Tinha perdido as contas de quantas solicitações para seguir, convites de amizade e mensagens aleatórias tinha recebido desde aquele momento na lanchonete com Mia. Passara o olho rapidamente pelas prévias das mensagens nas notificações, algumas imploravam para que ela entrasse em contato com logo, outras a enchiam de elogios e suspiravam só de pensar nos dois cantando algo juntos. Uma certa quantidade também já estava inventando rumores e dizendo coisas que ela não merecia ouvir e sequer estava interessada em ler. Para manter o mínimo de sanidade mental que ainda tinha e evitar a possibilidade de potencializar o seu próprio desespero, simplesmente deletou todos os aplicativos das redes sociais de seu celular, ficando apenas com alguns joguinhos tontos e suas anotações para a prova. Afinal, a neuroanatomia não tinha decidido tirar um dia de folga só porque ela tinha vontade de se mandar para alguma cidade pequena do Vietnã.
Mia puxou a porta do carro que estava estacionado na vaga mais distante possível. Entrou de supetão, inspirando fundo e tentando recuperar sua frequência respiratória.
— E as câmeras? - perguntou, ainda com a cabeça abaixada, tomando água com a cabeça coberta por uma jaqueta grossa.
— Já foram - Mia respondeu e recebeu um olhar fuzilante da amiga. — Mentira, não foram. Na verdade, pelo menos mais umas duas emissoras chegaram. E uma garota que decidiu transmitir as coisas no canal dela no Youtube. Eu não faço a mínima ideia de quem ela seja, mas parece que ela tem uns dois milhões de seguidores.
Aquilo era um absurdo completo. Não tinha nenhum acidente ou questão ambiental para cobrir? Alguma gafe de corrupção, ameaças de guerra, greve estudantil ou protesto pelos direitos de alguém? Por que tinham que se interessar por uma universitária que só queria cantar algumas músicas e fazer sua prova em paz? Não era como se ela estivesse alterando o seguimento da vida humana no planeta.
— Por que raios eles simplesmente não vão embora? - Perguntou com a voz chorosa. Não sabia mais como lidar com aquilo. Não importava quantos meios ela usasse para minimizar o problema e se afastar de todas as formas como a situação a atingia, simplesmente parecia que aquele pesadelo não ia acabar.
— O pior é que não é só o pessoal das mídias que está lá. A faculdade quase toda já sabe ou descobriu quando parou para tentar entender o que estava acontecendo. Você tem uma plateia bem considerável - Mia comentou. — Vou fazer compras semanais para ti e você pode se trancar no seu apartamento até o universo te esquecer.
— Adoraria - a amiga admitiu. — Mas, primeiro, eu preciso fazer essa porcaria de prova.
— Bom, sobre isso… Eu falei com o seu professor e, apesar de ele ter deixado claro que tinha ouvido barbaridades sobre mim dos colegas dele, ele faria um esforço para que você conseguisse realizar a prova. Disse que você é uma aluna excelente e merecia isso.
— Caramba! Ele é um amor.
— Achei um babaca puxa-saco. - Mia deu de ombros. — Coloca o cinto e esconde o rosto, garota. Nós precisamos sair do estacionamento sem que te vejam.
fez exatamente como a amiga solicitara, engolindo uma risada quando a própria prendeu os cabelos dentro de um boné surrado.
— Você está me sequestrando? Ou vai me entregar para a imprensa só para ter a chance de conhecer o ?
Mia pisou no freio bruscamente.
— Quer saber, agora eu gostei mais da sua ideia. Vem, vou te entregar para a youtuber de cabelo colorido.
ergueu o dedo do meio na direção do retrovisor central, sabendo que a amiga estava vendo sua mão lindamente estampada ali. Mia riu e voltou a dirigir, optando por uma das raras saídas pouco movimentadas do estacionamento.
— Vamos usar a entrada do depósito do laboratório. Você vai entrar pelos fundos e vai fazer a prova primeiro. O professor vai segurar o resto do pessoal. Disse que vai usar a desculpa de que o último alfinete sumiu para atrasá-los. Achei bem tosco, mas o problema é de vocês, pessoas esquisitas que fazem prova com gente morta.
assentiu. Talvez assim conseguisse pelo menos fazer a sua prova. Não que tivesse boas expectativas, considerando o nível descabido de ansiedade e nervosismo que tomava conta de todo o seu corpo e mente. Não seria nem de longe a melhor nota de sua vida, mas pelo menos não seria um zero por ausência.
Mia estacionou o carro de ré do jeito mais torto que pôde, colocando a porta da qual a amiga sairia imediatamente em frente à entrada do depósito.
— Boa prova. Vou te esperar aqui fora.
inspirou e expirou repetidamente, tentando driblar e enganar a adrenalina que quase parecia prestes a explodir de sua cabeça. Não que estivesse funcionando. Colocou um par de óculos escuros antes de sair, obrigando a amiga a dar risada.
— Parabéns, Clark Kent. Ninguém vai te reconhecer de óculos.
— Calada. - E saiu, batendo a porta atrás de si.
Em silêncio, Mia encostou a própria cabeça contra o volante, fechando os olhos e torcendo para que tudo desse certo para a amiga. Não importava o quanto tinha vontade de esganá-la várias vezes ou discordasse dela quase sempre, amava a garota acima de tudo e a protegeria como pudesse.
se perdeu algo entre três e quatro vezes no depósito, sem saber se as prateleiras e gavetas cheias de formol pelo caminho significavam que ela estava indo para o lugar certo ou não. Nunca havia entrado naquele lugar.
Continuou caminhando por mais alguns minutos, tendo certeza de que nunca encontraria a droga de seu destino. Finalmente, viu uma plaquinha em uma porta ao fim do corredor, assinalando a entrada do laboratório. Empurrou a madeira, que rangeu ao toque e exalou o ar, aliviada.
— Fiquei com medo que tivesse se perdido - o professor comentou, enquanto entregava uma folha vazia para que ela escrevesse as respostas da prova.
— Eu me perdi - ela admitiu. — Mas consegui chegar e é isso o que importa. Professor, eu nem sei como agradecer ao senhor por ter feito isso por mim.
O homem de meia idade deu de ombros, fazendo um barulho engraçado que a fez se questionar se conseguiria imitá-lo.
— Não me atrapalharia em nada. E eu já tinha me irritado com as câmeras, sendo que elas nem se importaram comigo. Imagino como a situação deve estar sendo para você. Quer dizer, aquela sua amiga maluca me contou que você praticamente não dormiu de noite.
concordou, enquanto escrevia o nome completo na folha que havia recebido.
— É uma loucura. Eu ainda estou tentando me localizar.
O homem assentiu, demonstrando uma compreensão que impressionou a garota. Infelizmente, encontrar professores que se preocupassem realmente com os problemas dos alunos e como poderiam ajudá-los não era tão comum quanto poderia ser.
— Pronta?
meneou a cabeça, concordando, e se dirigiu para a primeira bancada do laboratório, sabendo bem qual era a dinâmica daquele tipo de prova prática. Foi adicionando os nomes na ordem em que as peças eram dispostas e andou por toda a sala, percorrendo toda a prova dentro do tempo estipulado. Após os quinze minutos, entregou a folha de volta para o professor, dando um sorriso largo que demonstrava muito mais a gratidão que ela sentia pela oportunidade do que o nervosismo imenso do combo prova mais não saber o que a esperaria lá fora.
— Boa sorte - ele desejou e ela sabia bem que sua fala pouco tinha a ver com qualquer que fosse a sua nota.
— Obrigada.
E voltou por onde tinha vindo, esforçando-se para lembrar em quais esquinas não virar para chegar na entrada do depósito na qual Mia deveria estar. O retorno foi mais fácil. Sua memória tinha decidido ajudá-la em um dia em que nada mais parecia estar conspirando a seu favor.
Pulou para dentro do carro rapidamente, jogando os óculos de sol no banco e bufando com força.
— Como foi? - Mia perguntou sem desgrudar o olho da tela do celular.
— Não faço ideia - admitiu. Não tinha conseguido raciocinar direito. — Alguma novidade?
— Rumores.
— Sobre o quê? A veracidade do relacionamento de Camila Cabello e Shawn Mendes?
Mia estendeu o celular para a amiga, mostrando uma foto embaçada de um homem qualquer que, para ela, não significava absolutamente nada.
— Quem é esse cara?
— É esse o ponto - Mia explicou. — Ninguém sabe ao certo. Mas acreditam que seja o Jeffrey Azoff, empresário do .
— E onde foi isso? - sentia o nó claro retornando à garganta.
— Se os sites tendenciosos, manipuladores e sensacionalistas estiverem certos, no aeroporto daqui.
O coração da amiga batia aceleradamente no peito. Não podia ser. Eles tinham mais o que fazer. Com certeza era alguma teoria da conspiração depois do que tinha acontecido no dia anterior. A imprensa não perdoava nada e os paparazzi não perdoariam ninguém. Qualquer cara minimamente parecido, seria facilmente relatado como o empresário de . Na verdade, até a impressionava um pouco que não tivessem forçado a barra de vez e dito que era o cantor, de fato.
— Minha cabeça vai me matar. Eu preciso ir para casa - constatou. — Mas eu pego um táxi. Você precisa ir para a sua aula.
— Não tem nada que me interesse hoje e eu provavelmente passaria o tempo comendo o brownie de chocolate da lanchonete. Sem contar que você não é a única ansiosa aqui, lindinha. Estamos nessa bagunça juntas.
assentiu. Mia tinha razão. E, se não iria atrapalhá-la, preferia mesmo ter sua companhia pelo dia.
— De volta para casa, então - a amiga anunciou e girou a chave na ignição, saindo da forma mais desajeitada possível do estacionamento e pegando todo o caminho inverso à entrada da universidade.
Respiraram aliviadas. Ao menos tinham sobrevivido.


❀❀❀



e Mia tinham passado o resto da manhã e a tarde toda maratonando ‘How I Met Your Mother’ com os celulares desligados, tentando ignorar todo o caos. Quando Mia decidiu ligar o próprio celular, a amiga a fuzilou com os olhos.
— Eu só vou pedir uma pizza. Eu estou com fome.
aceitou. Estava com o estômago quase na garganta também. Puxou o controle e deu início ao próximo episódio enquanto esperavam.
Teddy tinha acabado de fazer a surpresa de natal para Robin e se sentia especialmente sensível, mesmo sabendo perfeitamente cada detalhe daquela série de trás para frente. Ainda ria, chorava, chamava a maioria dos personagens de trouxa em diversos momentos e adorava Marshall exatamente como da primeira vez.
Quando a campainha tocou, Mia se levantou correndo, enquanto cantarolava a palavra “pizza” repetidamente.
— Traz aqui no quarto - pediu, enquanto pausava o episódio. — Não quero levantar.
Mia calçou os chinelos correndo e pegou o dinheiro na carteira, indo até a porta com o paladar completamente preparado para o deleite que o queijo derretido lhe proporcionaria.
— Graças a Deus. Eu estou faminta - falou, enquanto abria a porta. E foi nesse exato momento em que ela travou completamente, sentindo a boca se abrir e as pernas fraquejarem, com a linguagem corporal denunciando uma reação que nem ela mesma esperaria.
— Olá - um dos homens disse.
— Puta que pariu - respondeu simplesmente. — ?
A voz rouca foi o suficiente para fazer com que Mia apoiasse a mão contra a parede da entrada antes que tivesse um encontro indesejado com o chão.
Ao ouvir o próprio nome, foi ao encontro da amiga, desejando rapidamente não tê-lo feito. Correria diretamente de volta para o retorno de sua cama se não soubesse que aquilo apenas a faria parecer uma criança imatura.
— Na verdade, eu sou a Mia - a garota finalmente recuperou a própria voz. — Melhor amiga e pseudo-empresária da carreira dela.
Virou-se para a amiga, respirando fundo antes de continuar.
— Por favor, me segura antes que eu infarte.
— Não - respondeu imediatamente.
— Bom, podem ignorar a parte de melhor amiga - Mia adicionou, ressentida.
— É um prazer conhecer vocês duas. Eu sou o - o rapaz se apresentou, estendendo a mão para cumprimentá-las.
engoliu a vontade de lembrá-lo de que elas obviamente sabiam quem ele era, assim como a maioria das pessoas do mundo. Soaria rude demais mesmo para alguém tão nervosa quanto ela. Droga, as palmas de suas mãos estavam brutalmente suadas e frias.
— Esse é o Jeff, meu empresário e amigo, e esses são os rapazes da segurança que nos ajudaram a não causar muita bagunça pelo caminho.
— Além das câmeras e das dezenas de repórteres - murmurou, desejando logo em seguida ter guardado suas reclamações para si mesma.
— Droga. Achei que chegaríamos antes da imprensa. Eu realmente sinto muito - se desculpou.
A garota assentiu. Queria que ele fosse menos educado para poder sentir raiva e culpá-lo pelo mundo revirado de ponta-cabeça do dia para a noite.
— De coração, eu juro que não queria ter causado nenhum problema ou incômodo. É só que eu vi o seu vídeo cantando a minha música e pensei “Caramba, essa versão é diferente e provavelmente melhor que a minha” e percebi que precisava te encontrar.
— Bom, aparentemente encontrou, não é? - soltou uma risadinha nervosa. — Sobre isso, inclusive, como você conseguiu o endereço de onde eu moro?
— Sua faculdade forneceu - Jeff respondeu, fazendo com que as duas o encarassem confusas.
— Isso não é meio… Sei lá… Ilegal? - Mia perguntou, fazendo o empresário rir.
— Possivelmente - Azoff tomou a dianteira novamente. — Bom, eu estava do lado do enquanto ele assistia ao vídeo e ele realmente ficou fora de si. Desde então, ele não parou de falar de Saturno de um lado para o outro e deixou metade da nossa equipe totalmente confusa com o possível interesse repentino dele por astronomia. Mas ele insistiu nessa história apesar das inúmeras vezes em que eu disse que era uma loucura completa. No caso, eu ainda acho que seja.
não havia tirado os olhos de por um segundo sequer, sorrindo docemente, sem conseguir conter o entusiasmo por tê-la encontrado. A garota abraçou o próprio corpo, desviando o olhar à força para tentar disfarçar o constrangimento.
— Mas o que meu cliente não pede chorando que eu não faço sorrindo? Ele tem uma proposta a fazer e eu acho que vocês deveriam conversar. Vamos deixá-los a sós. Sei que é muita coisa para digerir, então provavelmente é melhor sem mais pessoas observando.
Mia concordou. Estava morrendo de vergonha dos caras altos e robustos que não olhavam para ninguém, mantendo o olhar em um ponto fixo distante. A presença deles com certeza não estava ajudando a tornar a situação menos esquisita.
— Manda uma mensagem quando tiverem acabado e voltamos para buscá-lo.
assentiu e os três permaneceram ali, parados à porta, enquanto os demais pegavam o elevador. Em um lampejo de bom senso, percebeu a situação e a maneira educada de lidar com ela.
— Entra, por favor. - Abriu espaço para que ele passasse para o lado de dentro e observou enquanto ele olhava em todos os cantos. sorriu ao ver os vasinhos de suculentas.
— Eu me lembro delas - comentou.
— Provavelmente - Mia respondeu. — São o plano de fundo dos vídeos.
— Eu vi que você gravou várias coisas de um monte de gente - continuou, dirigindo-se a . — Tenho que te agradecer por cantar algo meu e, ainda por cima, de uma forma tão linda. Eu me sinto honrado.
— É a ela que você deveria agradecer - a garota apontou. — É a música favorita dela. Ela é muito sua fã.
abriu um sorriso largo.
— Que legal! Quer dizer que devo muito a você, Mia.
A amiga sentiu que suas pernas iam derreter assim que ouviu seu nome sendo lembrado pelo cantor e dito por aquela boca daquele jeito. Não sobreviveria.
— Em compensação, não foi nada fácil achar vocês - ele pontuou ao perceber o silêncio. — Se os seus colegas não tivessem a reconhecido, talvez eu demorasse um bom tempo para chegar até aqui e não tivesse mais tempo para fazer o que vim fazer.
mordeu a bochecha, tentando pensar em outra coisa quando sentiu a vergonha por lembrar exatamente o motivo pelo qual lhe reconheceram. Levou alguns instantes lidando com a própria propensão a ficar vermelha como um tomate para finalmente se dar conta das últimas palavras dele.
— Tempo para quê? O que você veio fazer, afinal? Não quero soar grosseira nem nada, mas por que toda essa disposição para me encontrar? Não tem nada de especial em alguns vídeos no instagram. Todo mundo faz isso.
— Mas todo mundo não é você - rebateu de pronto. — E é você quem eu quero que me acompanhe na turnê para participar da abertura dos meus shows e cantar sua versão de Two Ghosts comigo.
Mia engasgou com tanta força com a própria saliva, que fez um sinal pedindo desculpas e se encaminhou diretamente para o banheiro, com medo de tossir algum órgão. sentiu o rubor ir embora rapidamente conforme sua pele empalidecia com o choque.
— Desculpa. O quê?
— Você não tem noção do tamanho da coincidência. - Ele se ajeitou na poltrona, inclinando o corpo para frente e usando as mãos cada vez mais conforme se concentrava na própria explicação. — Jeff tinha acabado de me perguntar se eu queria adicionar alguém nas participações e aberturas do show e eu não tinha mais ninguém em mente. Foi aí que eu abri meu twitter e vi que tinham várias pessoas me marcando em um vídeo. Pensei que fosse alguma homenagem dos fãs porque recebemos várias, em especial na época da banda. Mas, quando eu dei play, era a sua voz. E era a minha música. E sua voz e seu arranjo na minha música foram simplesmente uma das coisas mais incríveis que eu já tinha ouvido em toda a minha vida.
ergueu as sobrancelhas, surpresa. Não sabia ao certo o que estava esperando daquela conversa, mas duvidava muito que fosse um elogio daqueles. Era simplesmente inacreditável. Mas ele não tinha terminado:
— Então eu disse “Ei, Jeff! Já sei quem eu quero adicionar na abertura dos shows.” e ele pensou que eu estivesse brincando ou que tinha enlouquecido de vez. Como eu não fazia a mínima ideia de como te encontrar, simplesmente tentei o twitter. E, caramba, estar aqui agora é um alívio tão grande. Eu nem consegui dormir à noite de tão ansioso que estava para virmos para Londres, acredita?
— Também não tive uma das melhores noites - ela admitiu e tomou um susto com o barulho da campainha que acabara abafando a sua voz.
— Não pode ser o Jeff - ponderou, com o cenho franzido. — Ele só vai voltar para me pegar quando eu pedir.
— É a minha pizza - Mia lembrou, sorrindo amarelo para ambos, enquanto percorria o caminho entre o banheiro e a porta a passos rápidos.
Pegou a pizza e pagou o entregador, liberando-o com uma velocidade invejável. Estava se coçando para retornar à conversa que acontecia na sala e já tinha perdido tempo demais dela para seu próprio gosto. Retomou seu lugar ao lado da amiga e abriu a caixa, permitindo que o cheiro forte do queijo recém-derretido e da massa levemente tostada tomassem todo o ambiente sem pedir licença ou fornecer aviso prévio.
— Querem?
— Não, obrigado - o rapaz recusou, com um sorriso simpático.
— Mais tarde - avisou, com o rosto fechado. Era a reação costumeira de bronca silenciosa quando a amiga aprontava algum inconveniente. — Estamos conversando agora.
Mia assentiu, deixando a pizza na mesa para dois lugares que a amiga tinha na pequena sala de jantar - também conhecida como os poucos metros quadrados da sala que eram utilizados para alimentação.
— Comemos depois. O que vocês estavam discutindo?
— Bom, você é a empresária dela, não é?
— Sou - Mia respondeu, ajeitando-se orgulhosa e lançando um olhar furioso para a amiga ao ouvi-la responder em negação.
— Eu quero levar a para a Love on Tour. Fiz o convite para que ela abra meus shows e cante a versão dela de Two Ghosts comigo. Assim, já faz a minha própria introdução no palco e eu assumo na sequência. Acho que seria lindo.
— Seria perfeito! - Ela mal podia conter a sua animação e os pulinhos que tinha vontade de dar naquele momento, sem se preocupar com a situação ou com a presença de um dos seus ídolos da adolescência encarando cada um de seus movimentos e sendo, pessoalmente, muito mais bonito do que ela esperava. E isso considerando que ela já queria lambê-lo antes de conhecê-lo ao vivo.
O rosto de se iluminou como as luzes de LED sendo acionadas pela primeira vez em uma bem decorada árvore de natal: lindamente e de uma só vez, carregando o tipo de alegria e de animação que não se descreve; apenas se sente.
— Só tem uma coisinha - interrompeu o momento de felicidade de ambos. — Eu não concordei com nada disso. Eu não quero sair em turnê.
— Não precisa ser a turnê toda - ele se apressou em acrescentar à sugestão inicial. — Pode ser só a parte inglesa se você preferir. Talvez só os shows aqui por perto, daí você nem precisa se incomodar com as viagens mais longas.
deu um sorriso triste, olhando para o chão enquanto respirava fundo. Seria muito mais fácil dizer um sonoro e objetivo “não” se ele não fosse basicamente a pessoa mais educada que ela já tinha conhecido na vida. Em tão pouco tempo, já sentia a sensação de recusá-lo dolorida no fundo do peito como a de pisar sem querer na pata de um cachorrinho, só para pedir desculpas sem parar depois e se sentir um ser humano terrível pelo resto do dia. Ele precisava urgentemente parar de sorrir daquele jeito, como se o mundo ao seu redor fosse a coisa mais preciosa e mágica que ele já vira.
— Eu odeio ser a estraga-prazeres. - E odiava mesmo. — Mas eu cantava sem revelar minha identidade por um motivo. Eu quero manter a minha vida sem todo esse desespero. Sem ter um monte de câmeras na entrada do prédio quando eu acordar. Sem receber uma enxurrada de mensagens de ódio só porque eu escolhi um vestido feio ou conversei com alguém que as outras pessoas decidiram julgar indevido. Eu estou muito bem no meu mundinho.
fez menção de falar, mas recebeu uma sinalização de Mia para que a deixasse dizer algo antes. Ele respeitou a vontade dela, sabendo que, como amiga, ela provavelmente conhecia o suficiente para saber muito melhor do que ele o que dizer e como fazê-lo.
— Amiga, eu te apoiei em todo mísero segundo dessa caminhada, independentemente de qual fosse a sua vontade mesmo sabendo que eu discordava da maioria delas. Mas agora é hora do choque de realidade.
ergueu o rosto, fitando a amiga. Não sabia se estava exatamente pronta para ouvir o que viria a seguir. Ainda não havia se decidido se queria mesmo estourar a pequena bolha de ilusão intocável que havia tomado para si.
— Isso aqui não é Hannah Montana e você não vai conseguir colocar uma peruca e viver o melhor dos dois mundos. Não é assim que as coisas funcionam, sinto muito em te dizer. A essa altura, todo mundo sabe seu nome, onde você estuda e conhece o seu rosto. Não é à toa que suas redes sociais se tornaram insuportáveis. E, amiga, você viu as câmeras. Eles não vão descansar enquanto você não der o ar da graça, ceder entrevistas e aparecer em fotos indesejadas. Eles vão cavar a sua vida para criar notícias de qualquer forma.
— Muito animador.
— O que eu quero dizer é que não adianta você se esconder quando eles já te encontraram. Você vai viver presa nesse apartamento até cair no esquecimento? Vai abrir mão da faculdade para ver Netflix o dia todo? Porque, convenhamos, até os canais de notícia devem ter reportagens sobre você nesse momento.
esfregou o rosto com força, bufando de leve. Era exatamente isso que ela sempre temera.
— Era legal enquanto você podia cantar sem ninguém te incomodar, mas essa não é mais a sua realidade. E você pretende fazer o quê? Abrir mão de toda a sua vida por causa de uma imprensa que não vai te dar descanso? Não tem mais para onde fugir, meu anjo. E já que você, com o perdão da expressão, já está na merda e não tem como fugir, não vejo porque não tirar proveito dessa situação e abraçar a oportunidade que estão te oferecendo.
— Basicamente, o que você quer dizer… - ela começou, mas foi interrompida imediatamente pela amiga.
— Quero dizer que toda história tem o seu lado ruim e o lado bom. Da parte ruim você não vai mais se livrar, então seja esperta e abrace as coisas boas que vêm com essa exposição.
Quando as duas permaneceram em silêncio, tentando assimilar o turbilhão de coisas que estavam acontecendo, pensou que talvez fosse sua vez de dizer algo. Ergueu a mão, como uma criança do fundamental, incerto, aguardando sua permissão para falar. Nem conseguiu segurar a risada fraca.
— Vai em frente.
— Sua amiga-empresária está certa. Você só está olhando para as coisas ruins e, mesmo com elas, você vai perceber que acaba se acostumando com certa facilidade. Inclusive, tudo isso é meio que minha culpa e eu realmente sinto muito pelo transtorno que eu causei.
“Eu sei que esses caras da mídia são um inferno e o ódio gratuito nunca vai embora porque as pessoas ainda não aprenderam a cuidar das próprias vidas, mas todo o resto compensa isso. Poder escrever, cantar as próprias músicas, compartilhar aquilo que você sente, sabe? Jogar sua arte assim no mundo e perceber ela sendo não só aceita, mas consumida e realmente amada? Caramba, é a melhor sensação do mundo todo. Não existe gratidão suficiente em mim para expressar o que é esse sentimento e a relação que a gente acaba desenvolvendo com nossos fãs.”
Mia moveu a cabeça em concordância, afinal, já tinha dito coisas muito semelhantes à amiga. Talvez com menos precisão e menos brilho nos olhos. Isso ela deixaria por conta do rapaz sentado à sua frente. Ainda não tinha muita certeza de como havia conseguido não berrar no rosto dele e chorar como um bebê exatamente do mesmo jeito que tinha feito no show da On the Road Again Tour.
, por sua vez, tinha uma sensação estranha no peito. Sentia tanta coisa ao mesmo tempo que não sabia definir direito nenhuma delas. Medo? Insegurança? Expectativa? Estava mesmo tentando visualizar as possibilidades que delineava? Não sabia ao certo. Seu coração estava mais confuso e bagunçado do que um fone de ouvido que passava algumas horas no bolso da calça jeans. Sentia-se embaralhada e nem sabia se aquele era um adjetivo plausível para descrever qualquer coisa além de cartas de baralho.
— As coisas não vão voltar a ser o que eram - Mia disse, mirando o fundo dos olhos da amiga.— Então, por favor, dê essa oportunidade a si mesma.
se sentia sufocada. Essa, sim, era uma boa palavra. E também era uma pessoa péssima para disfarçar o que estava sentindo.
— Você não precisa me dar uma resposta agora - interveio, percebendo o seu desconforto imediatamente. — Pode pensar um pouco. Vamos embora só amanhã de noite. Queria poder te dar mais tempo do que isso, mas espero que seja o suficiente. Posso deixar meu número contigo? Daí você pode me ligar e dizer o que decidiu.
Ela assentiu, desbloqueando o próprio celular e entregando-o para que ele pudesse salvar o contato em sua lista. ainda ergueu o celular e tirou uma selfie, fazendo um joinha com o dedo e abrindo um sorriso largo.
— Para você saber quem é - disse, risonho, antes de devolver o aparelho. — é um nome meio comum.
Mia riu, meneando a cabeça. Ficava feliz em saber que toda a espontaneidade que relatavam era verdadeira. De certa forma, estava grata por saber que tinha escolhido o ídolo certo.
— Bem, o Jeff já está me esperando, então eu vou deixar vocês em paz. Foi um prazer conhecer vocês! Vou aguardar seu contato.
— Não quer levar uma fatia de pizza para comer no caminho? - Mia perguntou, tentando ser educada e arrancou um sorriso sincero do homem.
— Não, obrigado. Você é muito gentil.
As duas o acompanharam até a porta, despedindo-se de uma forma meio esquisita, sem saber ao certo como cumprimentá-lo. deu mais um de seus sorrisos iluminados antes de acenar e encontrar seu caminho de volta ao elevador.
Com a porta fechada, ambas exalaram o ar com certa força, esperando que, de alguma forma, isso conseguisse aliviar a tensão que assolava os seus ombros.
— Puta merda, você tem o número do - Mia murmurou, ainda em choque.
— E não vou dormir essa noite - comentou, bufando. — Ótimo. Eu não pretendia recuperar meu sono mesmo.

Capítulo Quatro

Should I stay or should I go now?
If I go there will be trouble, and if I stay it will be double
Should I Stay or Should I Go - The Clash

Occipital. Ela nem precisava da recém-cobrada neuroanatomia para saber exatamente onde estava a sua dor e o que ela significava.
— Eu preciso de um relaxante muscular - murmurou, levantando-se a contragosto do sofá.
— Isso não dá sono? Minha mãe toma para dormir - Mia comentou, enquanto preparava um pão com geleia.
— Dá um pouco - admitiu. — Mas eu estou com quadro de cefaleia tensional. Estou tão estressada com tudo o que aconteceu nos últimos dias que os meus músculos decidiram seguir minha postura e estão machucando a minha cabeça.
— Não faz sentido para mim. Mas até aí, metade do universo não faz.
deu uma risada leve, enquanto engolia o comprimido com longos goles de água. Odiava a sensação de ter aqueles pequenos discos parecendo entalados em sua garganta, como personagens de um filme de ação clichê, que ficam pendurados por um galho enquanto deveriam estar caindo de um penhasco.
— Eu não queria ser a pessoa a tocar nesse assunto, mas eu sou o único outro ser consciente de tudo o que está acontecendo, então essa é meio que a minha função - Mia começou e a amiga já sabia o que viria a seguir. — Você conseguiu pensar sobre a proposta?
— Pensei. Pensei demais. Pensei até sentir que todos os meus neurônios estavam prestes a explodir de uma vez só até ter pedaços do meu encéfalo espalhados pelo quarto.
— Certo. E, além dos detalhes estranhamente gráficos saídos de quadrinhos de zumbis, você tem mais algo a me dizer?
bufou. Não como quem estava com raiva ou como quem estava impaciente. bufava como se pudesse exalar ao menos uma parte de todo o peso que havia empurrado seus órgãos para baixo a fim de ganhar espaço dentro de si e agora lhe causava uma dor de barriga horrível. bufava porque estava cansada e porque odiava tomar decisões; especialmente aquelas que mais pareciam encruzilhadas sem caminho a um destino feliz. Bufava porque sabia que, pelo sim ou pelo não, sua vida jamais voltaria a ser a mesma e ela não poderia estar mais assustada.
— Acho que eu tomei a minha decisão.


❀❀❀



O propósito daquela pequena bolinha amarela macia era servir como algum tipo de controle para a ansiedade. Ficar apertando aquela esfera deveria servir como algum tipo de metodologia antiestresse que ele não entendia e sabia que não compreenderia mesmo que o maior nome de psiquiatria mundial tentasse lhe explicar. Ele sequer sabia quem essa pessoa seria. Talvez soubesse. Ela era tão inteligente que o fazia sorrir só de pensar nisso. Queria saber um centésimo que fosse do que ela estudava só para ter a sensação de saber um pouquinho do que se passava em sua cabeça.
Mas, no fim das contas, ele tinha lido sobre aquela bolinha. Existia uma reportagem super interessante e, aparentemente, bem confiável falando sobre resultados de estudos que mostravam a eficácia do objeto tanto na liberação de estresse, quanto no auxílio ao foco para pessoas que costumam se distrair com muita facilidade. Esses dispositivos seriam como pequenos tempos de distração mínima que ajudariam o cérebro a focar na atividade central, em vez de simplesmente se interessar por notificações no celular, barulhos dos outros seres vivos e movimentações do entorno e se esquecer do objetivo central.
Mas ele não entendia muita coisa para poder elaborar algum tipo de pensamento crítico sobre aquilo. Provavelmente saberia. Ela sabia muitas coisas. só esperava que ela também soubesse que ele estava sendo absolutamente sincero em cada um dos elogios e propostas que fizera e que desejava verdadeiramente tê-la em sua turnê. Torcia para que ela entendesse que, às vezes, o medo é apenas uma barreira que nos impede de atingir grandes coisas para as quais talvez sempre estivéssemos destinados. Mas também a entendia. A fama e suas consequências eram coisas com as quais as pessoas se acostumavam, mas, nem de longe, faziam parte de um rol de questões simples para se lidar na vida.
— Além de tudo, você é amarela - reclamou, apertando os dedos com mais força ao redor da pequena esfera. — Era para você me acalmar.
— Você está quase estourando esse negócio - Jeff comentou, tirando a bolinha da mão do cantor. — Não parece mesmo estar funcionando.
arremessou a cabeça para trás, contra o encosto do sofá esverdeado cujo tom ele jamais saberia definir. Talvez cor de cocô de bebê fosse o mais próximo que ele conseguia pensar.
— Essa expectativa está me matando - admitiu. — Eu não sou nada bom em simplesmente sentar e esperar.
Azoff riu, enquanto entregava um copo de água para . Sabia perfeitamente daquilo. Ele poderia ser calmo a maior parte do tempo, mas era um dos seres mais impacientes quando algo realmente mexia com ele.
— Ela ainda tem mais algumas horas para tomar a decisão. Tenta relaxar até lá.
— Duas horas e meia, aproximadamente - respondeu, checando o relógio do celular. — Não é tanto tempo assim, Jeff. E se ela simplesmente decidiu não ir e já desistiu até de me comunicar? Vai ver ela me odeia por ter praticamente invadido a casa dela com um bando de seguranças e tê-la feito pensar sobre algo que nunca quis.
— A garota é um talento nato, . Ela pode até ter consciência e receio de tudo o que o seu mundo traz de bagagem, mas me parece um tanto ingênuo pensar que ela nunca quis cantar, ainda mais quando o faz tão bem.
apenas balançou a cabeça, concordando. Nunca realmente era um pouco extremo em excesso. Qualquer criança havia sonhado em cantar, mesmo que só soubesse murmurar “Mary tinha um carneirinho” em uma voz infantil desafinada, frequentemente acompanhada de um nariz entupido por catarro.
— Se ela fosse aceitar, já teria me ligado - decretou. — Sei que ela está insegura, mas essa demora está me matando e eu não quero ficar criando possibilidades para terminar me decepcionando.
— Como se mais de vinte anos nas costas já não tivessem te ensinado que não é assim que as coisas funcionam. Somos seres humanos. Vamos sempre esperar muito e nos decepcionar por isso.
— Guarde os seus sermões niilistas para mais tarde - reclamou, chutando o amigo de leve. — Eu já estou sofrendo o suficiente.
Azoff revirou os olhos, segurando a risada, antes de agarrar pelos braços e colocá-lo de pé.
— Sem drama. Sem pena de si mesmo. Vai fazer alguma coisa. Vai compor, sei lá.
resmungou, mas se dirigiu ao piano, pensando no que poderia fazer para que o tempo passasse minimamente mais rápido. Levou os dedos às teclas e deu início aos acordes simples de Falling.
— Não, não e não. - Jeffrey bateu com força em duas teclas aleatórias, causando um som que quase fez o outro pular para trás com a afronta a seus tímpanos. — Eu disse sem drama. Qual parte você não entendeu?
interrompeu a movimentação das próprias mãos por alguns instantes, usando seus neurônios para pensar sobre o que mais poderia fazer. Não demorou muito para que a ideia clareasse sua mente como um farol sobre o mar noturno.
— Eu estou em desespero completo - começou a cantarolar enquanto fazia a escala simples de dó maior no piano; cuidadoso na passagem de cada tom. Não que estivesse se importando com o fato de a voz e as rimas estarem completamente destoantes da melodia tocada. — E a porcaria do meu empresário deveria ser meu amigo, mas é um sem coração.
Azoff agarrou os pulsos dele, fazendo-o parar mais uma vez.
— Já chega de piano para você. Volta para o sofá e estoura aquela porcaria amarela.
— Por que você está estressado? Eu é quem tem que estar estressado!
— Porque você não para, garoto! Eu sei que é angustiante, mas você precisa simplesmente esperar.
— E como eu faço isso quando parece que ela, basicamente, não tem intenção alguma de ligar? - esfregou o rosto com força, sentindo o toque metálico e gélido de seus anéis contra as bochechas. — Eu só preciso que essa porcaria de telefone toque. Jeff, por favor, só faz essa droga tocar.
O toque que veio na sequência parecia apenas uma ilusão de sua mente sedenta por acreditar que ele viria. Só podia estar alucinando.
Mas lá estava o aparelho vibrando em cima da mesa, com a tela piscando em função do número desconhecido.
— Como você fez isso? É algum tipo de bruxaria?
— Você estava reclamando até agora. - Jeff gesticulava nervosamente. — Só atende a droga do telefone. Até eu estou nervoso agora, inferno.
sentia o embrulho no estômago e a sensação de que o peristaltismo de suas vísceras estava funcionando ao contrário e trazendo bile para cima apenas para piorar a sua situação. Já tinha pensado em mil possibilidades em apenas dois segundos, tamanho seu nervosismo em clicar no botão “Aceitar” e levar o aparelho à orelha. Mas foi o que ele fez, mesmo sentindo que seu coração provavelmente faria barulho superior à voz do outro lado da linha e o impediria completamente de ouvir a notícia; boa ou ruim.
— Alô?
?
— Sim - respondeu à voz feminina, ainda receoso em criar esperanças.
— Ah, oi! É a , tudo bem?
— Tudo e contigo?
Que mentira mal contada. Como alguém com vontade de vomitar o que sequer havia conseguido comer poderia se dizer bem?
— Acho que sim - respondeu. — Já te atrasei? Ou posso falar?
— Não, não - ele disse rapidamente. — Eu tenho tempo. Pode falar.
— Então… Eu pensei muito…
sentiu o coração acelerar e soube que explodiria antes de ser capaz de estourar a porcaria da bolinha amarela.


❀❀❀



Mia apertou a mão da amiga com mais força, lembrando-a de que estava ali, presente de corpo, mente e alma, para qualquer que fosse sua decisão. Não sairia do lado dela nem se ela decidisse fazer ufologia e passear pela rua vestida de papel alumínio.
sorriu fracamente, sentindo a mão tremendo cada vez que olhava para o celular aberto sobre a mesa, com a ligação ainda em curso no viva-voz. Só queria que as coisas pudessem ser mais fáceis.
— Eu pensei muito sobre tudo o que você e a Mia disseram. Sobre não ter mais como fazer as coisas simplesmente voltarem ao normal como se nada nunca tivesse acontecido, sabe? E é verdade. Os repórteres continuam aglomerados na frente da faculdade e alguns começaram a rondar o bairro em que eu moro, provavelmente esperando qualquer mísera possibilidade de que eu venha a colocar a cabeça para fora de alguma janela.
— Eu realmente sinto muito.
— É. Eu sei que sente - respondeu sinceramente. — Mas, continuando… Considerando que eu não vou mesmo me livrar desse tipo de coisa tão cedo, concordo com vocês. Eu deveria tirar algum proveito disso. Quer dizer, não é como se eu nunca tivesse pensado em viver disso, já que é a coisa que eu mais amo no mundo todo.
A respiração profunda de do outro lado da linha tinha mudado repentinamente, enquanto ele concordava mais levemente com absolutamente tudo o que ela dizia. Era quase como se ela conseguisse ouvi-lo sorrindo após tirar uma porção do peso sobre os ombros.
Respirou da forma mais profunda que já havia feito em toda a sua vida. Provavelmente tinha atingido volumes inspiratórios bem acima da média, enquanto tentava digerir tudo o que viria após a pergunta que estava prestes a fazer:
— Quando embarcamos?
Mia sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. Estava se sentindo como uma mãe orgulhosa, feliz por ver seu filhote abrindo as asas e decidindo dar a cara ao mundo, independentemente do que isso for custar. nunca fora exatamente o tipo de pessoa disposta a correr riscos, mas tinha decidido correr um dos maiores possíveis.
— Eu não tenho nem palavras para te fazer entender como eu estou feliz de ouvir isso. - soava exatamente como uma criança animada para a viagem de férias. — Seria bom estarmos no aeroporto em umas duas horas. Você acha que consegue arrumar as malas até lá? Jeff e eu podemos te buscar aí. arregalou os olhos e virou a cabeça, buscando conforto de qualquer natureza na amiga.
— Eu vou te ajudar a arrumar as malas. Vamos conseguir há tempo. Pode confirmar.
— Ah, oi, Mia! Não sabia que eu estava no viva-voz. Só uma dica: não precisa trazer tanta coisa assim. Durante a turnê e as entrevistas, você provavelmente vai receber roupas específicas, como acontece comigo. Traga o que achar necessário para os momentos de hotel, descanso e chás de cadeira nos aeroportos.
— Certo - Mia concordou, vendo a amiga ainda relativamente estática. — Obrigada pelo conselho. Vamos começar a arrumar as coisas. Obrigada, ! Te amo!
finalmente saiu de seu longo transe para torcer o nariz e fazer uma careta para a amiga. Como era possível ela continuar sendo tão Mia mesmo naqueles momentos? Foi obrigada a segurar a risada. Era exatamente por aquele tipo de coisa que a amava tanto.
— Também te amo, Mia! Obrigado pela ajuda. Vejo vocês mais tarde.
As amigas finalmente trocaram olhares e sorrisos nervosos. sentia a adrenalina latente como se tivesse acabado de saltar de um avião e deixar para abrir o paraquedas apenas no último segundo. E, sinceramente, ainda não tinha muita certeza se estava ou não realmente a salvo.
— Eu sou a pessoa mais orgulhosa do mundo nesse momento - Mia comentou.
expirou o ar com força.
— E eu sou a mais assustada. Não sei de onde eu tirei coragem para uma loucura dessas.
— Sinceramente? Eu também não - admitiu. — Mas teve. E essa é a única coisa que importa nesse momento. Você finalmente vai ocupar o lugar que o seu talento merece. Não é justo com você e nem com ninguém que algo tão bonito assim fique escondido e silenciado.
sorriu, fitando a pequena tatuagem astronômica no pulso.
— Bem, você prometeu a que me ajudaria a arrumar as malas. Acho que está na hora de cumprir a promessa.
As duas se levantaram, caminhando em direção ao closet de tamanho médio. Mia ficou nas pontas dos pés, erguendo-se a fim de alcançar a maior mala que tinha no apartamento.
— Sabe qual é a melhor parte disso tudo?
— Que você vai finalmente tirar férias de mim? - perguntou, enquanto abria as suas gavetas de roupas.
— Realmente - a amiga ponderou, recebendo um peteleco no ombro. — Mas não era isso que eu tinha em mente.
— Ah, não? Então qual é a melhor parte?
disse que também me ama. Acho que esse é o meu primeiro relacionamento recíproco da vida.

❀❀❀



O carro preto era assustadoramente grande. A janela traseira foi abaixada assim que o veículo estacionou na frente do prédio. acenou alegremente para as duas jovens ao outro lado. Jeff e um dos seguranças desceram para ajudar com as malas.
— Você também vem? - Azoff perguntou, olhando diretamente para a Mia.
— Ah, não. Eu bem queria, mas ainda tenho umas provas importantes. Mas com certeza eu encontro vocês pelo caminho. Até porque eu preciso me manter próxima da minha cliente, antes que alguém tente tomar o meu lugar como empresária dela.
— Mia - a repreendeu.
— Pode deixar - Jeff interveio. — Vou cuidar das questões dela, enquanto você não nos encontra.
— Acho bom nem tentar roubar a minha cliente, entendeu?
— Tem a minha palavra - respondeu com um sorriso e estendeu a mão, esperando um aperto em acordo.
Mia acabou cedendo e segurou a mão do empresário.
— Vou deixar vocês se despedirem - ele anunciou e retornou ao carro.
respirou fundo, enquanto esmagava a amiga entre os braços.
— Eu não sei o que vai ser de mim sem você para me dar broncas e me forçar a tomar as decisões certas.
— Só você pode tomar as suas decisões e é forte e inteligente o suficiente para saber o que é melhor para você. Tenho muito orgulho da mulher que você está se tornando e sei que esse orgulho só vai aumentar a cada dia que passar.
— Eu te amo. Você é mesmo a melhor amiga do universo.
Mia riu, dando de ombros para ignorar o fato de que seus olhos estavam se enchendo de lágrimas.
— Eu sei disso. Sou muito incrível mesmo. - beliscou o braço da amiga, arrancando um resmungo da mesma. — Eu também te amo. Agora, vai lá conquistar esse mundo que é teu por direito.
se afastou finalmente da amiga, sentindo o coração pesar a cada batida.
— Vou te mandar mensagem todo santo dia. Você não vai se livrar de mim.
— Chata como é, tenho certeza disso - Mia brincou, enquanto assistia à amiga entrando no veículo preto e ocupando o lugar vazio ao lado de seu ídolo de adolescência. Aquela era realmente uma cena que não se esperava ver todo dia.
— E aí? - perguntou, com um sorriso de orelha a orelha. — Nervosa?
— Só sentindo que eu vou colocar meu almoço todo para fora no capacho do seu carro.
— Quer ouvir uma piadinha para relaxar?
franziu o cenho, já com expectativas baixíssimas acompanhadas do estranhamento. Estava acostumada com a aleatoriedade de Mia, mas, aparentemente, teria que fazer o mesmo agora em relação a .
— Não sei se eu quero - admitiu. — Mas pode contar.
— Se os neurotransmissores do Fred Flintstone falassem, o que eles diriam?
— Não faço ideia.
— GABA-daba-doo.
riu instantaneamente, meneando a cabeça.
— Foi boa - assumiu.
sorriu, orgulhoso de si mesmo.
— Eu não entendi absolutamente nada, mas imaginei que talvez você gostasse.
Ela o encarou, sem entender muito bem o que aquilo queria dizer.
— Eu procurei piadinhas de neurociência na internet.
não sabia se achava aquilo esquisito ou fofo. Provavelmente um pouco de cada.
— GABA é um neurotransmissor inibitório de sistema nervoso central. Algumas pessoas tratam ele como um controlador de estresse e ansiedade.
O rapaz balançou a cabeça, concordando vagarosamente.
— Não entendi uma palavra do que você disse.
— Ele desacelera a atividade cerebral.
— Agradeço a tradução. - E continuava sorrindo. Será que existia alguma cláusula no contrato dele que o obrigava a sorrir vinte e quatro horas por dia?
encostou a cabeça contra a janela insufilmada. As árvores e postes passavam tão rápido que talvez a hipérbole da ânsia não fosse mais tão exagerada assim.
— Se te consola, eu também estou bem nervoso. Mas animado também. Você não tem noção de como eu fiquei feliz por você ter aceitado a proposta. Fiquei até o último segundo morrendo de medo de você me dizer não.
— Eu literalmente só fui decidir na hora em que te liguei - ela admitiu. — Ainda tem um pesinho amarrado no meu pé, sabe? O medo de que eu tenha colocado absolutamente tudo o que prezo na minha vida a perder parece uma âncora prestes a me afundar a qualquer momento.
— Nós estaremos ao seu lado ao longo de todo esse trajeto - Jeff garantiu. — Qualquer coisa que você precisar, pode procurar um de nós.
— Mesmo que seja para desabafar - emendou. — Sempre estarei disponível para o que você precisar.
— Obrigada. Eu, com certeza, vou precisar disso.
— Confia em mim, Saturno. Tudo muda a partir de agora.
concordou.
— Mas eu vou estar ao seu lado o tempo todo.

Capítulo Cinco

And into the spotlight we will go
Follow me ‘cause, baby, life is a show
Into the spotlight, you will see it is the only place to be

Spotlight - Hannah Montana: The Movie



tinha certeza de que suas bochechas estavam mais amassadas que o embrulho de um bombom consumido há meses. Tinha certeza de que permaneceria acordada ao longo de toda a viagem até Bologna, roendo cada uma de suas cutículas de tanta ansiedade. O sono, no entanto, tinha conseguido falar mais alto e a agraciado com pouco mais de duas horas de descanso que provavelmente tinham regulado minimamente as coisas, mas também feito com que ela passasse da cota de vergonha que tinha estabelecido para as primeiras vinte e quatro horas de convívio com aquelas pessoas. Parabéns, ! Você já destruiu completamente a sua imagem antes mesmo de trocar mais de dez palavras com metade da equipe.
Estava esfregando os olhos fervorosamente, buscando garantir que se livraria de toda e qualquer possibilidade de remelas ou outros artefatos nojentos que ali se acumulassem. Foi quando lhe ocorreu que ela podia ter babado em todo o protetor da poltrona do avião e nada no universo seria capaz de reestruturar a reputação de alguém depois disso.
— Ei! Vai machucar seu olho. - A voz rouca comentou e sentiu a sua vergonha ultrapassar todos os níveis possíveis. — É um cisco? Quer que eu dê uma olhada?
Ela travou instantaneamente. Não podia deixar tudo pior do que já estava.
— Era, sim. Mas já consegui tirar. Obrigada, !
— Por nada. Pode abrir a janela se quiser - ele apontou. — Vamos pousar logo.
assentiu, com um sorriso, e ergueu a placa que servia como cortina. era gentil o tempo todo. O cantor oferecera o próprio travesseiro para que ela descansasse e até sugerira inclinações mais confortáveis da poltrona que pudessem facilitar seu sono. Claramente, ele tinha um pouco mais de familiaridade no tópico ‘jatinhos particulares’ do que ela.
— Primeira vez na Itália? - Ele perguntou, enquanto revirava uma pequena bolsa de tecido em busca de algo.
— Sim - ela respondeu, mas ele não tirava os olhos e as mãos apressadas do fundo da sacola. — Você precisa de ajuda?
— Não consigo encontrar meus óculos de sol - ele reclamou, com a voz um pouco abafada pela inclinação do próprio tórax e a agitação contínua em sua busca.
piscou algumas vezes, estreitando os olhos em uma tentativa de se certificar se não estava ficando completamente maluca ou com algum tipo de problema de audição causado por uma ressaca de sono.
— Ah, ?
— Pode falar - ele respondeu rapidamente, sem interromper a movimentação por um instante sequer.
— Por acaso seriam os óculos que estão na sua cabeça?
parou bruscamente, repousando a bolsa no colo e levando as mãos lentamente até o cabelo, encontrando as pernas da armação perdidas entre os fios.
Sorriu de uma forma envergonhada, quase infantil; como uma criança que é pega pela mãe enquanto brinca com a terra úmida do jardim no meio da sala de estar.
— Obrigado! E você tem óculos aí contigo? Posso te emprestar, se precisar.
— Não precisa. Eu tenho, sim - ela respondeu, buscando a caixinha em sua própria bolsa. — Mas por quê?
O rapaz desceu as lentes escuras sobre os olhos, sorrindo diretamente para ela durante o processo.
— Não muito diferente do que já acontece com absolutamente qualquer pessoa a qualquer momento, quando se é famoso, as pessoas vão falar e te criticar por absolutamente tudo, mesmo que seja um chiclete colado na sola do seu sapato sem qualquer envolvimento culposo seu. Considerando que acabamos de passar algumas horas trancados em um objeto voador não muito agradável, colocamos os óculos para esconder olheiras, esconder o sono, a irritação, a vontade de mandar metade dos paparazzi à merda e proteger um pouco os olhos da luz das câmeras. As fotos também ficam mais legais assim. Dá um ar descolado.
assentiu vagarosamente, tentando absorver o bombardeio de informações sobre algo tão trivial quanto óculos de sol. Se descer de um avião já estava prestes a lhe dar tamanha dor de cabeça, fazendo-a pensar em dez coisas diferentes, talvez tivesse tomado a decisão mais precipitada e errada da vida ao sequer embarcar.
— Acho que eu quero ir embora - murmurou. — Ou vomitar. De preferência, vomitar no conforto da minha casa.
sorriu, levantando-se de sua própria poltrona e caminhando até a dela, com a mão estendida, oferecendo aquele tipo de ajuda desnecessária, mas estranhamente sempre bem-vinda, para levantar de algum lugar que não seja o chão. A garota aceitou, ainda sem saber ao certo em que gaveta guardar toda a incerteza que esmurrava seu peito.
— Não vai ser tão ruim assim, eu prometo - ele garantiu, ajeitando os cabelos dela, amassados pela armação dos óculos. — E, se for, eu deixo você me bater como se eu fosse um saco de pancadas.
— Não é um acordo muito inteligente - ela disse, soltando uma risada anasalada.
deu de ombros.
— Você que é a inteligente entre nós dois. Não devia esperar muito de mim.
finalmente se deu por vencida - afinal, o que poderia fazer? ficar presa em um avião pelo resto da vida, esperando que algum tipo de super-herói inutilizado pela Marvel aparacesse para salvá-la? - e aceitou a mão educadamente oferecida. Apertou a bolsa contra o ombro, como se aquela força pudesse de alguma forma aliviar toda a tensão que descontava em cada articulação. Já sabia a quem culpar se não conseguisse mastigar um pão sequer no dia seguinte, uma vez que estava praticamente causando estrago suficiente a um mês de bruxismo.
Desceram da aeronave, encontrando Azoff e alguns seguranças cuidando das malas. se espreguiçou, esticando os braços compridos, em uma tentativa pateticamente frustrada de alcançar os pés. Sua flexibilidade era uma gigantesca porcaria.
— Ele já te avisou dos óculos - Jeff comentou. — Bem pontuado.
— Eu sempre tenho bons comentários e conselhos, você só se nega a me dar créditos por eles - o rapaz reclamou, revirando os olhos por baixo das lentes escurecidas. Claramente o empresário não precisava ver a ação, para captar a atitude, tipicamente .
— Bem, tem bastante gente lá fora. Muitas câmeras, muitos gritos de fãs te esperando. Estão todos isolados da passagem, então não temos tempo e nem mobilidade para você interagir com elas. Faça isso no hotel, se quiser. O plano é passar reto e fazer isso rápido. Entendido?
— Socorro - murmurou, de forma quase inaudível.
apertou a mão dela levemente, fazendo com que ela se lembrasse de que ainda não a havia soltado.
— Já viu Pinguins de Madagascar? É o mesmo princípio: sorria e acene.
— Prontos? - Jeffrey perguntou no plural, mas olhava diretamente para ela, completamente ciente do tsunami de sensações que deviam estar bagunçando a última refeição em sua barriga da forma mais desagradável possível.
— Não acho que a minha resposta vá ser afirmativa em algum momento - ela admitiu. — Então, talvez seja melhor simplesmente arrancar o band-aid de uma vez só.
O empresário sorriu para ela, concordando. Seguiu à frente deles. e soltaram as mãos, mas permaneceram estritamente lado a lado do outro, preparados para enfrentar a multidão juntos.
Os gritos fizeram com que ela tivesse a mais plena certeza de que jamais seria capaz de cantar novamente pois nunca voltaria a ouvir a melodia ou as notas suaves de seu teclado ou violão. Provavelmente também não seria capaz de ouvir a própria voz e cantaria berrando, como uma senhora de noventa e dois anos com perda auditiva progressiva. Seria uma catástrofe.
Então vieram os flashes e ela entendeu como sairia ridícula e com os olhos fechados em todas as fotos se não tivesse colocado os óculos para se proteger minimamente das explosões em sua face. tinha erguido a mão, balançando-a freneticamente, enquanto sustentava um sorriso largo. se forçou a sorrir, ciente de que não receberia um Oscar ou um Globo de Ouro pela atuação horrorosa de quem não se importava com a situação.
Entre vários cartazes e plaquinhas com dizeres carinhosos - e alguns levemente obscenos - para , um chamou a sua atenção, mesmo que tão rapidamente enquanto caminhavam: uma cartolina grande sem nada escrito. Carregava apenas um desenho minuciosamente feito em tons variados de aquarela de Saturno. O sorriso que se seguiu àquela visão provavelmente era o mais verdadeiro de todos os últimos dias. Era sobre aquele tipo de coisa que Mia falava quando tentava lembrá-la, incansavelmente, de que tudo tinha seu lado bom e a balança, em algum momento, entraria em compensação para, em seguida, pender para o lado adequado.
Finalmente, chegaram ao grande carro preto, deslizando pelos bancos até estarem todos do lado de dentro, com os gritos finalmente abafados.
— Viu só? Sã e salva - brincou, tirando os óculos e pendurando-os na gola arredondada da camisa.
— E ouvindo alguns decibéis a menos - ela completou, coçando as orelhas como se pudesse se livrar daquela sensação de eco que parecia ter tomado posse de sua cavidade timpânica.
— É sempre muito alto - Jeff explicou. — Mas você vai se acostumar e parar de sentir tanto o impacto disso. Sei que agora tudo deve parecer muito aberrante e distante da realidade para que, um dia, você se habitue. Mas você vai. É só uma questão de tempo, de verdade.
— Então não se cobre - completou. — Não é para se sentir culpada ou incapaz de seguir com isso se ainda estiver assustada daqui um tempo. Você vai se habituar, mas não vai ser hoje e, talvez, não vai ser mês que vem também. É um processo gradual e lento. Vai ficando cada vez mais normal, até que a gente consiga silenciar um pouco a negatividade das coisas e prefira focar no lado bom.
— E dá certo? Digo, ignorar a parte ruim - ela perguntou.
— Às vezes - ele sorriu. — Nada nunca pode ser perfeito, não é?
Interrompendo o diálogo, Lights Up começou a soar pelos auto-falantes do automóvel, fazendo com que esboçasse uma careta.
— Essa música é sua - comentou, não como se fosse uma pontuação idiota, mas porque realmente não a conhecia e, simplesmente, tinha conseguido relacionar a voz ao rosto do homem sentado ao seu lado.
— Ela é mais legal no clipe, com várias pessoas seminuas se esfregando - ele comentou, rindo da fisionomia de reprovação que havia recebido de Jeffrey pelo que dissera.
— Gostei da letra - ela comentou, enquanto tamborilava os dedos perto da janela, já familiarizada com o ritmo após algum tempo de música. — Bem libertadora.
— Obrigado - sorriu, orgulhoso. Aquele entraria para a lista de comentários positivos/elogios favoritos dos últimos tempos.
Menos flashes os esperavam na entrada do hotel, mas o motorista se dirigiu imediatamente para a garagem subterrânea, garantindo a eles alguma privacidade pelo uso direto do elevador até os quartos.
Azoff destrancou a única porta existente no último andar, permitindo que todos tivessem acesso à sala - bem ampla para um hotel. travou na porta, evidentemente impressionada com o tamanho do lugar.
— Para que um lugar tão grande?
— Para darmos festas enormes de madrugada - respondeu.
— Já conversamos sobre festas. - Foi a vez de Jeff revirar os olhos. — Vamos usar o espaço para arrumar as últimas coisas. É trabalho.
O cantor se aproveitou do discurso fantasiado de sermão - ou sermão fantasiado de discurso? - e se jogou no sofá, puxando uma almofada para encostar a cabeça.
— Tem três quartos depois daquela parede. Um para cada um de vocês e um para mim e dois dos seguranças. A banda está no andar debaixo e o resto da equipe abaixo deles.
— O quarto do meio é meu - berrou, levantando-se e saindo correndo.
olhou para Jeffrey, sem entender absolutamente nada.
— Já estivemos aqui antes - ele explicou. — Se ele vai ficar com o quarto do meio, você fica com o do final do corredor. Bom, estabeleçam-se e arrumem as suas coisas.
Ela puxou a mala até o quarto, que, finalmente, era um pouco menos exagerado. Uma cama de casal, um armário, uma penteadeira e uma televisão. Travou uma batalha interna, superando a gigantesca vontade de se jogar naquela cama e terminar o sono que começara no avião a fim de organizar suas coisas. Dispôs alguns itens essenciais sobre a penteadeira, aproveitou-se dos cabides e do armário para pendurar as roupas que amassariam até serem retiradas da mala e decidiu, por fim, tomar um banho.
Estava penteando os cabelos quando ouviu dois toques leves em sua porta.
— Pode entrar.
apareceu, com a bochecha um pouco amassada. Devia ter cochilado naquele tempo. escondeu sua vontade de sorrir, sentindo-se menos anormal pela possível vergonha de algumas horas atrás. Tinha acabado de fazer uma descoberta incrível: ele também era um ser humano. E ela, com certeza, deveria se importar menos, mesmo que fosse quase impossível em meio a tantas pessoas completamente desconhecidas.
— Jeff pediu para irmos para a sala. Acho que o tal trabalho começou - falou e foi seguido por ela até a sala, encontrando o homem acompanhado de uma mulher elegante e de traços marcantes.
— Celina! - caminhou até ela com os braços abertos, tendo seu gesto correspondido. — Essa é a .
— Prazer, ! Eu sou a Celina e trabalho com o figurino da turnê - ela se apresentou, cumprimentando a moça. — vai provar algumas coisas e precisamos conversar sobre o que você vai vestir no primeiro show, além de tirar as suas medidas.
— As suas roupas vão ser encomendadas com urgência - Azoff se pronunciou. — Temos tempo o suficiente para fazer isso acontecer até o primeiro show, mas não o suficiente para desperdícios. Por isso, pedi que Celina viesse aqui o mais rápido possível.
A garota assentiu, concordando. Não era como se parecesse que ela tivesse algo a dizer em colaboração àquela situação de toda forma.
— Bem, tenho que ir atrás de algumas coisas, então vou deixar vocês três começarem com os trabalhos de vocês.
O empresário se retirou, levando com ele o singelo e mínimo fio de conversa que havia restado, abandonando para trás uma situação relativamente constrangedora.
— O que vocês pensaram para ela? - Foi ele que puxou o assunto, fazendo Celina parar de observar a garota por alguns instantes.
— Acho que poderíamos começar com algo que seja próximo de um macacão, mas bem transparente. Seria preto, totalmente escuro nas regiões de roupa de baixo, mas com detalhes transparentes na barriga e nas pernas. - Ela puxou o celular, procurando um desenho. — Algo parecido com isto.
e analisaram bem o desenho. Era bonito, isso era incontestável.
— Eu gosto - comentou. — Vai ficar bem em você.
— Também gostei - ela concordou.
— Vamos trabalhar para descobrir como será o seu estilo em palco ao longo desses dias, está bem? Mas precisamos dos figurinos dos primeiros shows rápido, então vou tentar manter as ideias mais ou menos nessa linha de criação, ao menos até que você esteja confortável com outras coisas. Algo contra vestidos?
— Não.
— Ótimo! Agora, se você puder tirar essa blusa grossa, eu agradeço.
— Ah… Eu acho que eu vou esperar vocês terminarem no quarto - comentou, sem graça.
— Por quê? - perguntou, com uma risada debochada. — Nunca viu uma mulher de sutiã na vida, ?
— Não, não é isso. É que…
Mas ela já tinha grudado as mãos na barra da blusa e a puxado por cima do pescoço. O rapaz desviou o olhar rapidamente, arrancando risadas altas de Celina.
— Nem parece que você sabe plenamente que todos adquirem intimidade e conhecimento indesejado do corpo do outro em turnê. Você literalmente era de uma boyband - Celina brincou.
— Disse bem. Boyband.
— Menos de duas horas atrás você estava fazendo graça sobre as pessoas seminuas se esfregando no seu videoclipe - lembrou. — Pode cortar esse joguinho de falso pudor.
Ele se deu por vencido, virando-se e se acomodando no sofá como uma pessoa normal, enquanto Celina passava a fita métrica em múltiplas direções, cobrindo ombros, busto, cintura e todos os outros pontos em que a roupa teria que servir.
Claro que não havia reparado nem um pouco no sutiã nadador ornamentado por renda branca, cuja pedrinha brilhante logo entre os seios provavelmente indicava o local de seu fecho. Claro que não. Nem por um segundo sequer. Mas ele, com certeza, tinha visto a pequena tatuagem nas costelas dela.
— Você mentiu para mim - ele comentou, fazendo com que a garota fizesse uma careta enquanto a fita circundava seu quadril.
— Como assim?
— Você disse que não era minha fã, que isso era coisa da Mia.
— E é verdade - ela rebateu. — Por que não seria?
— Sua tatuagem - ele apontou.
Ela olhou para a própria costela, analisando o desenho que conhecia bem, pois já fazia parte de sua pele há alguns anos.
— O que um avião de papel tem a ver com você?
— Não é como se você não soubesse - ele comentou. — Meu colar. Usei aquele pingente no pescoço por séculos.
— Eu realmente não fazia a mínima ideia.
— Sei.
— Sinto muito em te decepcionar, mas é só um desenho bonito. Nem tudo é sobre você.
deu de ombros, com um sorriso sacana no rosto.
— Vou continuar acreditando que é uma homenagem a mim - disse simplesmente.
As duas mulheres menearam a cabeça, sem conseguir levar a sério o comportamento dele.
— Vem para cá logo e para de encher o saco dela - Celina chamou.
se vestiu novamente, ocupando o lugar no sofá enquanto o cantor experimentava alguns dos paletós novos, averiguando e aprovando as estampas.
— O que acha desse? - Ele pediu sua opinião acerca de uma peça branca com várias flores de tamanho médio em tons de rosa e verde.
— Parece exatamente o tipo de coisa que você usaria - ela respondeu, ajeitando as meias nos próprios pés.
— E como sabe o tipo de coisa que eu uso se não é minha fã?
Ela arremessou uma almofada no rosto dele.
— Você já experimentou pelo menos dez estampas diferentes. Vou assumir que é esse o tipo de coisa que você usa ou a Celina sequer teria se dado ao trabalho de trazer tanta coisa até aqui.
— Desiste - a figurinista aconselhou, dando um leve beliscão nele. — Já está vergonhoso demais até para você.
Ele não se importava. E, no fundo, tinha um pouco de pena de por ter que suportá-lo durante a turnê. Afinal, ele só estava começando.


❀❀❀



A manifestação sonora que produziu poderia ser, com pouco prejuízo de valor, descrita como um gemido do mais puro prazer e deleite. Ela havia atingido uma sensação de plenitude tão completa que nem o budismo seria capaz de explicar.
— Bom, você não podia visitar a Itália pela primeira vez sem comer uma pizza originalmente italiana. A única que não faria com que tataravós perdidas pela árvore genealógica se revirassem em seus túmulos por traição à pátria - Jeff brincou, limpando a própria boca com um guardanapo de tecido claro.
A garota ainda tinha a boca cheia daquela massa fofa, coberta por uma quantidade generosa de molho de tomate e muita mozzarella fresca. Estava se deliciando e regozijando com cada mísera lasca daquilo desde o início e não pretendia ser rápida com o último pedaço daquela obra diretamente proporcionada pelos deuses. Se Vênus era a deusa do amor, a cultuaria sem pensar duas vezes em nome de seu mais novo e inabalável amor: a pizza italiana.
— Podemos sair para tomar gelato amanhã? - perguntou. — Faz parte do pacote da primeira visita, você sabe disso. Ela não pode ir embora daqui sem experimentar.
— Vocês dois têm uma entrevista amanhã - Azoff comentou, pegando de surpresa. — Quando falou sobre você na BBC, acabou rolando um acordo silencioso de que eles seriam os primeiros a entrevistar vocês dois juntos depois que ele a encontrasse. Acontece que eles estavam falando tão sério que nos seguiram até aqui para conseguir a matéria que tanto queriam. Será amanhã pela tarde, em um estúdio que eles alugaram na cidade.
— Mais um motivo para tomarmos gelato - interveio. — Já vamos estar na cidade mesmo.
— Sim, podem tomar seu gelato após a entrevista - o mais velho concordou. — , tudo bem para você?
Ela balançou a cabeça, concordando com alguma hesitação, provavelmente mais por se ver sem opção do que por realmente estar pacificamente de acordo com tudo aquilo.
— Eu não sei muito bem como eu deveria me comportar. O que dizer, o que fazer…
— Seja você mesma - respondeu simplesmente. — Pode parecer clichê e totalmente da boca para fora, mas não é. Os únicos motivos para não ser você mesma é ser uma mulher preconceituosa, criminosa ou apoiar pessoas que são uma dessas coisas.
— O único crime que eu posso cometer é o de agredir alguém para levar um estoque dessa massa para Londres.
riu. Era claro que sempre poderia se decepcionar com as pessoas conforme o tempo ia passando, mas não era essa a impressão que tivera com ela desde o primeiro momento. Ele costumava ser muito bom com as suas intuições, principalmente no que dizia respeito a reconhecer pessoas escrotas e babacas. definitivamente não parecia nenhuma dessas coisas para ele.
— Fica tranquila, de verdade - Jeff assegurou. — O é um sem noção em grande parte do tempo, mas ele fala a verdade quanto a isso. Fingir ser algo que você não é, além de doer, é perigoso demais. Uma hora você acaba se perdendo no personagem e daí é ladeira abaixo. Seja você. Essa é mais uma das coisas que continua igual ao mundo exterior: as pessoas vão ter que gostar de você pelo que você é. E, se não gostarem, que se dane. Ninguém vai agradar todo mundo nunca. É uma escada de aprendizado eterna conseguir minimizar e silenciar as críticas não construtivas e o ódio sem fundamento. Acho que nunca é totalmente absoluto. Ninguém é inatingível, por melhor que lide com tudo isso.
O cantor concordava em gênero, número e grau com aquilo. Nunca passava, mas era um fardo cada vez menor, que assolava o peito um pouco menos todo dia. Principalmente quando você decidia lidar com esse tipo de comportamento simplesmente se afastando dele e agindo como se tivesse morrido ou desaparecido do mapa completamente para viver em uma toca inabitável. Edward era profissional nessa arte.
— É sacanagem que vocês pediram pizza e não nos chamaram - uma voz masculina reclamou à porta, entrando em seguida com outras três pessoas.
— Será que é porque você não sabe se comportar com pizza, Mitch? - perguntou, levantando-se de seu lugar para cumprimentar os “convidados”.
— E o meu sossego acaba de chegar ao fim - Jeff comentou, arrancando sorrisos do grupo. — Estarei no quarto e, por favor, não façam nada que vá demandar que eu leve alguém para o hospital.
— Pode deixar. - bateu uma continência que, com certeza, teria sido uma ofensa a qualquer grupo militar.
— Apresente a banda a e não bebam demais.
Dito isso, o empresário se retirou, deixando para trás as seis pessoas que se encaravam mutuamente, travadas porque o único que conhecia a todos era um anfitrião incompetente.
— Você é um puta inútil - uma das mulheres reclamou, revirando os olhos, e estendeu uma mão para a garota. — Oi, eu sou a Clare! Toco teclado e achei os seus vídeos sensacionais. Muito talentosa. Podemos tocar juntas uma hora dessas.
— Eu adoraria - respondeu, sincera.
Tocar com alguém? Ela tinha crescido com uma paixão solitária, sem pais, amigos ou professores que a incentivassem e acompanhassem em coisas tão simples quanto se sentar ao piano ou aplaudir uma doce melodia. Era impossível conter um largo sorriso quando a ficha finalmente caía de que tinha com quem dividir um pouco dessa paixão. Definitivamente, não estava mais sozinha.
— Mitch - um dos rapazes disse. — Guitarrista em tempo integral e amante do nas horas vagas.
— Quando você vai aprender a não expor nossa relação para o mundo? - reclamou, meneando a cabeça.
— Eu sou a Sarah e é muito bom finalmente te conhecer. Esse cara não parou de falar do seu vídeo por um minuto sequer até te convencer a vir.
— É como se eu nem tivesse acabado de falar sobre a exposição desnecessária - comentou, ainda mais descrente. — Vocês são péssimos.
O último homem se aproximou, com um sorriso.
— Oi, eu sou o Adam - e antes mesmo que pudesse acenar de volta ou dizer qualquer coisa, ele tinha partido para um abraço, erguendo-a do chão e recebendo um gritinho surpreso em resposta.
— Certo. Você é meio alto - ela comentou, sentindo seus pés finalmente retornarem ao chão que ela tanto valorizava.
— E você é linda - ele disse, em um elogio completamente natural e talvez desprovido de quaisquer interesses ou segundas intenções. — Já gostei de você.
— Que ótimo! Então todos nos gostamos - os interrompeu, com o tom de voz levemente alterado. — Quem quer uma bebida?
Mitch disfarçou a risada, enquanto seguia o amigo até a pequena geladeira. Distribuíram um pouco de álcool para cada e se sentaram no sofá para jogar conversa fora, um costume que logo aprenderia ser relativamente comum entre eles.
— Então, - Claire começou, após um longo gole em sua bebida. — De onde você é mesmo?
— Minha família é de South Shields, mas eu me mudei há alguns anos para Londres para começar a minha vida em uma cidade maior, fazer a faculdade e tudo mais.
— Você faz neurociência, não é? - Sarah perguntou, tendo um aceno de confirmação em resposta. — Nem imagino como deve ser. Só de lembrar as aulas de fisiologia do ensino médio já tenho desespero e pesadelos horrendos.
— Eu adorava biologia - Adam interveio. — Mas adorar com certeza não significa que eu era bom.
— Eu gosto bastante - falou, enquanto bebia sua cerveja. — Não é nem um pouco simples, mas era o que eu gostava, então, por que não?
colocou um pouco mais de uísque no seu copo, enquanto observava cada palavra e movimento da conversa, sentindo-se mais no humor e na posição de um espectador ouvinte que de um intermediário ativo naquele momento. Com a loucura dos últimos dias, nem ele próprio tinha conseguido tempo para absorver a mudança repentina e como havia praticamente feito o mundo parar por alguns dias só para que ele pudesse tê-la ali, exatamente naquele instante, conversando com a sua banda como se já fizesse parte de tudo aquilo há décadas.
— E vocês estão juntos desde o começo? - A garota quis saber.
— Desde 2017 - Mitch assentiu. — Às vezes parece que foi ontem, mas, quando usamos os números, percebemos que já faz um tempinho bem razoável.
— Já são alguns anos de C.H.A.S.M.; já rimos muito, tocamos para caramba, brigamos algumas vezes… Mas, no fim do dia, acaba que somos uma família e é sempre bom acolher um membro novo a ela - Clare disse, sorrindo. Aparentemente, assim como , ela adorava sorrir e tinha motivos para isso, considerando a beleza que irradiava com tanta facilidade.
— Eu não sei o que eu sinto mais - Mitch tornou a falar. — Se é alegria em te receber e ter alguém novo para compartilhar as coisas nessa turnê ou se é pena por você ter que aguentar esses cinco durante tanto tempo.
— Vai com calma - finalmente se pronunciou, olhando firmemente para . — Ela ainda não concordou com mais de um show. Mas eu tenho fé que ela vai.
— Só me convencer - ela deu de ombros, pegando outra garrafa para si e para Sarah, cuja bebida também já havia terminado.
— Isso é um desafio? - perguntou, com as sobrancelhas erguidas. — Alguém devia ter te avisado de que me desafiar era uma péssima ideia.
— E é a partir de agora que ele fica insuportável - Adam disse, dando um longo gole no próprio uísque.
Todos riram e continuaram bebendo até ter espaço na geladeira suficiente para uma manhã inteira de compras no supermercado. Tinham falado de absolutamente tudo. Discutido o novo disco do Coldplay, o porquê seria altamente clichê demais incluírem um cover do Elvis Presley na setlist da turnê, o impacto da música britânica desde os Beatles e os Rolling Stones, contado piadas horrorosas que não faziam sentido nem para quem as contava… Já tinham ultrapassado a cota de risadas e assuntos aleatórios por uma noite. Provavelmente era por essa leveza e tanta naturalidade que demorou tão pouco para se sentir totalmente em casa, naquela sala grande demais, com cinco pessoas que ela mal conhecia.
Tão em casa que acabou se encostando demais e apagando no sofá bem no meio da conversa. Foi Adam quem se deu conta primeiro:
— Acho que ela capotou.
— Ela não dormiu bem nos últimos dias - explicou. — Tudo o que aconteceu… Ela é muito forte e determinada, mas o sono de qualquer um vai para o saco com tanta coisa e, principalmente, decisões tão grandes para se fazer assim de repente.
— Eu imagino como deve ter ficado a cabeça dela quando tudo isso começou - Sarah disse, abaixando o tom de voz, enquanto observava o sono pacífico da garota ao seu lado.
— Soma isso à viagem repentina e ao álcool e temos o combo sonífero completo - Mitch comentou, brincando. — Acho que já deu a nossa hora, vamos deixar a novata descansar.
Eles se levantaram, colocaram as garrafas vazias no lixo e os copos sujos na pia, evitando ao máximo barulhos altos demais. os acompanhou até a porta.
— Você quer que eu a leve até o quarto? - O baixista ofereceu.
— Não, pode deixar que eu cuido dela.
Clare repuxou levemente o canto do lábio, observando a expressão do rapaz.
— Tenho certeza de que sim.
Com a porta fechada, caminhou calmamente até , abaixando-se perto dela. Ela parecia tão em paz, tão tranquila. Seria invasivo e meio assustador tirar uma foto para guardar aquele momento, mas ele queria se lembrar da pureza dele nos próximos dias. Ela poderia ser pintada pelo mais habilidoso dos artistas plásticos e, mesmo assim, ele duvidava que o retrato impecável pudesse representar a beleza, a nitidez e a autenticidade daquele fragmento singelo de tempo; tão simples e verdadeiro que mal poderia ser descrito.
Pensou em cutucá-la, em chamá-la baixinho, ou tocar seus ombros de leve, a fim de fazê-la despertar. Não sabia qual seria a forma mais adequada e, sinceramente, tinha pena de acordá-la depois de tudo pelo que ela havia passado. Em especial, por tudo que ele havia feito com que ela passasse. Não podia negar a parcela de culpa que compunha aquela sensação.
A ideia final era horrível e ele começou a torcer para que não desse absolutamente tudo errado. Com toda a delicadeza e vagareza possíveis, passou um braço por suas costas e o outro por trás de seus joelhos, erguendo-a calmamente do sofá.
O resmungo que veio em seguida quase fez seu coração parar de vez. Contudo, ela não ousou abrir os olhos, provavelmente já estava em universos muitos distantes em seus sonhos para se incomodar com o toque um tanto desajeitado, por mais que todos os esforços estivessem sendo feitos.
Com o joelho, ele empurrou a porta do quarto dela e caminhou até a cama, tomando todo o cuidado para encaixá-la no colchão sem movimentos bruscos. logo se enroscou ao travesseiro e sorriu sozinho, imaginando se era assim quando era pequeno, dormia em absolutamente qualquer lugar da casa e seu pai acabava o levando até o quarto; local que ele só descobria estar quando acordava assustado no dia seguinte. Sabia qual era a sensação de ser cuidado, mas agora estava na posição de quem cuida e se sentia estranhamente feliz e satisfeito com isso.
Puxou a coberta sobre ela e decidiu dar sua missão por cumprida, podendo finalmente buscar o seu próprio sono. Antes de fechar a porta do quarto dela atrás de si, ele deu uma última olhada para trás, sorrindo ao vê-la dormindo tão calmamente. Os próximos dias seriam loucos e, apesar de ele ter jurado e se comprometido fielmente a dar o seu melhor para que as coisas fossem o mais leve possíveis, ela poderia aproveitar uma boa noite de sono.


Continua...



Nota da autora: EU ESTOU MORRENDO DE AMOR, VOCÊS OUVEM MEUS GRITOS? POR QUE DEUS NÃO COLOCOU NA MINHA VIDA? POR QUÊÊÊÊ???
Sem mais delongas, espero que tenham gostado e, se você chegou até aqui, eu agradeço profundamente por me dar uma chance. Espero te receber aqui mais vezes.
Para mais informações sobre minhas histórias e atualizações, entrem no grupo do face e/ou do whatsapp







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