Última atualização: 31/12/2020

Epígrafe

“Wallflower”:

(n.) 1. Alguém considerado tímido ou pouco confortável em meio a outras pessoas. Alguém que se sente desconfortável ao ser o centro das atenções.
2. Alguém que está sempre à margem de eventos e interações sociais.
3. Uma flor de jardim de aroma e beleza peculiares e agradáveis.



Capítulo Um

“Trying to remember how it feels to have a heartbeat”
Two Ghosts - Harry Styles


fechou os olhos e se permitiu ficar assim por alguns segundos. Não aguentava mais ler todos os nomes dos ossos minúsculos do crânio, enquanto seu cérebro tentava relacioná-los com as origens dos nervos. Definitivamente ia socar alguém na próxima vez que uma “lâmina cribriforme do etmóide” aparecesse na sua frente. Era mesmo uma pena que a biblioteca fosse tão intolerante com barulhos e ruídos, porque sua única vontade naquele exato instante era de gritar.
Estava tão concentrada em suas críticas e destilações de ódio mentais acerca da neuroanatomia que deu um pulo na cadeira ao sentir uma mão repousando sobre seu ombro. Enquanto respirava fundo para tentar controlar a taquicardia e fazer seu corpo entender que ela não estava em situação de fuga, virou-se para ver o sorriso amarelo que lhe aguardava.
— Acho que te assustei.
— Você acha, Mia?! - bufou em frustração, enterrando o próprio rosto no livro de anatomia que mantinha aberto a muito custo.
— Você está aí desde o fim da aula?
— Na verdade, desde o começo. Matei aula para estudar e agora vou entrar num ciclo vicioso e eterno por ter perdido a matéria de hoje. Por que é que eu sou assim? - Ela choramingava.
Mia não conseguiu evitar rir da amiga. Aquela cena se repetia sempre que uma prova se aproximava e, no final das contas, ela ia bem e percebia que nem precisava ter surtado. Até que tornava a surtar na próxima.
— Você já está aí há tempo demais. - A amiga estendeu a mão. — Vamos. Eu sei exatamente o que vai te fazer bem agora.
— Não, Mia. Eu não quero sair para encontrar alguém disposto a sexo casual porque eu sou a pessoa que definitivamente não está disposta.
— Não era disso que eu estava falando. - Revirou os olhos. — Dessa vez.
gesticulou exageradamente, atestando que seu ponto estava mais que comprovado. Aquela sugestão era tão frequente que sua audição já tinha se tornado seletiva a ela.
— A menos que você vá dizer que eu preciso de uns amassos com o gostoso do Chris Evans, eu serei obrigada a discordar.
— Nesse caso, eu sugeriria algo a três - Mia apontou. — Mas não é nada disso. Não sei se a senhorita se lembra, mas está me devendo uma música.
levantou a cabeça instantaneamente, fazendo com que seus cabelos caíssem sobre os ombros e algumas partes incômodas no pescoço.
— Socorro! Eu tinha esquecido completamente.
— Que coisa mais feia! Seus fãs estariam decepcionados.
Mia recebeu uma careta em resposta.
— Eu não tenho fãs. Você precisa parar de ser ridícula.
— Seus oito mil seguidores dizem o contrário. E a sua melhor amiga também. Você me prometeu. Sabe que é a minha música favorita.
Em instantes, a outra jovem tinha seus livros guardados e a bolsa pendurada no ombro, pronta para deixar aquele ambiente que estava prestes a lhe dar calafrios e novas crises de ansiedade pré-avaliações. Com um sorriso, Mia acompanhou a amiga até o seu próprio carro. Era a incumbência que lhe sobrava ao desenvolver amizade com alguém que se recusava a tirar a carteira de motorista por morrer de medo de ter de rodar um volante e mover um câmbio para coordenar um trambolho metálico de algumas centenas de quilos.
passou todo o caminho ouvindo enquanto a amiga contava animadamente sobre os seus planos para o fim de semana. Era o terceiro sábado em sequência em que sairia com Nicholas, o rapaz que havia recebido o título de “crush” por ela há alguns meses, e tudo parecia estar indo às mil maravilhas. As palavras “fofo”, “engraçado” e “lindo” já tinham sido repetidas tantas vezes que se aquilo tudo não terminasse em namoro, nenhum outro relacionamento no universo funcionaria. Mia estava absurdamente feliz e isso fazia com que a amiga automaticamente também estivesse.
Ao chegarem ao apartamento de , as duas jovens prepararam o pequeno espaço que usavam para os curtos vídeos postados com considerável frequência no instagram. Com a iluminação ambiente maximizada e os móveis afastados, o teclado conseguia seu espaço estratégico para as lentes da câmera, já fixada em seu tripé.
A parede branca de fundo tinha alguns detalhes de decoração nas prateleiras, majoritariamente carregadas de suculentas e mini cactos em vasinhos coloridos por tons pastéis.
Mia ajustou a câmera e a centralizou na posição de costume, focando nas mãos da amiga no teclado e cortando tudo que estivesse acima de sua boca. Era assim que sempre faziam: criava uma versão mais acústica com acordes um tanto diferentes de algumas músicas, tocava-as e cantava suas letras enquanto a amiga filmava. As publicações jamais tinham mostrado seu rosto e a conta no instagram escondia seu nome atrás de um pseudônimo: Saturno. Este fora o jeito que encontrara de unir duas de suas maiores vontades: cantar e poder fazê-lo no silêncio público de seu anonimato.
Com o tempo e a gigantesca quantidade de tags que a amiga colocava na descrição de seus covers - afinal, Mia era praticamente sua agente -, Saturno havia conquistado alguns milhares de seguidores que apreciavam sua voz, suas melodias e que, acima de tudo, contagiavam-se pela curiosidade de jamais terem visto a face por trás daquilo que escutavam.
A gravação foi iniciada e a garota pressionou os dedos contra as teclas de seu instrumento, dando início aos acordes da música favorita da amiga: Two Ghosts de .

— Same lips read, same eyes blue
(Mesmos lábios vermelhos, mesmos olhos azuis)
Same white shirt, couple more tattoos
(Mesma camisa branca, algumas tatuagens a mais)
But it’s not you and it’s not me
(Mas essa não é você e esse não sou eu)
Tastes so sweet, looks so real
(É tão doce, parece tão real)
Sounds like something that I used to feel
(Soa como algo que eu costumava sentir)
But I can’t touch what I see
(Mas eu não consigo tocar o que vejo)

sustentou a nota calmamente, enquanto seus dedos deslizavam pelas teclas, flutuando por um território mais conhecido do que a palma de sua própria mão. Era quase magnético, parecia natural demais. E realmente era. Tinha uma memória auditiva musical impressionante e uma facilidade absurda para controlar os tons das melodias, fosse no canto, no violão, no baixo ou no piano. Era seu dom e a fazia questionar diariamente suas escolhas. Talvez devesse ter ingressado no ensino superior como musicista em vez de se dedicar à neurociência. Mas o que faria com o pequeno e incômodo detalhe de sempre ter uma plateia a observando em cada piscada ou passo no palco? Não gostava nem de pensar na possibilidade. Estava muito bem quieta no seu canto, seguindo a vida passando despercebida como se sequer existisse.

— We’re not who we used to be
(Nós não somos quem costumávamos ser)
We’re not who we used to be (Nós não somos quem costumávamos ser)
We’re just two ghosts standing in the place of you and me (Somos apenas dois fantasmas no lugar de você e eu)
Trying to remember how it feels to have a heartbeat
(Tentando nos lembrar de como é ter um coração batendo)

Mia balançava o corpo serenamente de um lado para o outro, olhos fechados, acompanhando o ritmo da canção. Continuava achando absurdo que pudessem escrever uma música tão profunda como aquela e a sonoridade ainda parecer tão doce. Quase conseguia imaginar algumas luzes amareladas, uma sala maior onde alguns casais pudessem dançar juntos, ignorando o teor levemente entristecido da letra… Daria um vídeo - e um momento, diga-se de passagem - incrível. Era mesmo uma pena que se recusasse tanto a fazer algo maior por medo da exposição. Jamais conseguiria compreender a amiga, mas a apoiava de toda forma. Afinal, era essa sua função; constava nas entrelinhas do contrato que assinara quando concordara com o seu papel de melhor amiga.

— The fridge light washes this room white
(A luz da geladeira deixa esse quarto branco)
Moon dances over your good side
(A lua dança sobre seu lado bom)
This was all we used to need
(Isso era tudo de que costumávamos precisar)
Tongue-tied like we’ve never known
(Calados como se nunca tivéssemos nos conhecido)
Telling those stories we already told
(Contando aquelas histórias que já contamos)
‘Cause we don’t say what we really mean
(Porque não dizemos o que realmente queremos dizer)

O refrão retornou com o mesmo poder de antes. canalizava sua voz, tentando demonstrar toda a emoção que a canção carregava. Apesar de nunca ter dado o braço a torcer para dizer que era um excelente cantor - até porque ela precisava criticá-lo para conseguir irritar Mia -, ela precisava admitir que ele tinha várias músicas realmente capazes de mexer profundamente com alguém.
Quando Mia fez um sinal, assinalando que tinha finalizado a gravação, empurrou o banquinho do teclado e se levantou, indo imediatamente até a amiga. Precisava desse retorno e da opinião dela, já que era, basicamente, a única que poderia dá-la sinceramente sabendo de todo o processo por trás.
— E então?
— Bom, se cantasse na minha frente, eu provavelmente me jogaria em cima dele e tentaria lambê-lo. - Mia deu um sorriso inocente. — Eu não quero te lamber, mas eu, definitivamente, quero te dar um abraço muito apertado e dizer que você é maravilhosa. Ficou muito lindo, amiga. Eu, sinceramente, acho que esse deve ser um dos seus melhores covers, se não for o melhor mesmo.
— Não quero mais seus elogios. Você é uma falsa.
A amiga franziu o cenho, boquiaberta, sem entender o que tinha acabado de acontecer ali.
— Com licença, mas que merda é essa?
— Garota, você lamberia o e não me lamberia. Tem noção do tamanho da afronta?
Mia riu alto, puxando a amiga e lambendo sua bochecha da forma mais nojenta que pôde. gargalhou, tentando empurrar a outra para longe de si. Bom, a culpa era realmente dela no fim das contas.
— Feliz? Tem protetor solar seu na minha língua, então eu espero mesmo que você esteja porque eu não pretendo repetir.
assentiu, enquanto abaixava-se para ligar o computador. Precisavam editar alguns detalhes, fazer mínimos ajustes e, então, poderiam publicar o vídeo da forma que sempre faziam.
Enquanto Mia corrigia a luz pelo computador, a amiga foi até a cozinha para pegar um pouco de sorvete de pistache para ambas.
— Você quer mudar a tonalidade na iluminação para tentar combinar com a música ou vamos manter o visual de fundo mais clean?
— Acho melhor mantermos como está. Combina melhor com os outros vídeos, não? Deixa o feed mais homogêneo.
Mia meneou a cabeça.
— Tem razão. Posso publicar, então?
fez um joinha antes de se jogar em um pufe verde-limão ali por perto. Estava tão mais leve depois de poder ter seu momento com a música - e com o sorvete - que mal se lembrava da porcaria da neuroanatomia. A prova seria dali dois dias, ela podia fingir que o mundo não estava explodindo lá fora por alguns últimos instantes de paz.
— Cover de Two Ghosts de @, #music # #twoghosts #onedirection #cover #saturn #song #dream #thevoice.
revirou os olhos enquanto engolia o sorvete.
— Primeiramente, não sei se você sabe, mas você não precisa falar alto tudo o que você digita. Segundo: The Voice, sério?
— Sério. - Mia deu de ombros. — É um reality show famoso, as pessoas procuram isso. Sem contar que talvez alguém da produção veja e queira você lá. Não sabemos se eles realmente só aceitam os inscritos, reality shows não são confiáveis.
— Certo. Terceiro: por que você continua marcando os artistas se eles nunca vão ver isso? Você pode só escrever os nomes deles, sem linkar a conta.
— Exatamente porque eles nunca vão ver que você deveria parar de se preocupar com isso. Além de que, desse jeito, as pessoas conseguem descobrir as músicas originais caso ainda não a conheçam. Garota, eu marquei a Taylor Swift rainha maior do universo, por que não marcaria o ?
— Você colocou tag para One Direction. Sabe que isso é um golpe baixo, não sabe?
— Golpes baixos rendem visualizações. Se eu estou enfrentando a dor eterna com o fim da minha boyband, você pode muito bem parar de encher o saco e me deixar fazer o meu trabalho. Estamos de acordo ou a diva tem mais alguma reclamação?
ergueu o dedo do meio para a amiga.
— Pode postar.
— Obrigada, madame - Mia respondeu ironicamente e enviou a nova publicação. — Caramba, tem menos de dez segundos que eu postei e você já tem cinco curtidas. Acho que você pode começar a agradecer ao muso por ser um nome atrativo.
— Eu nunca vou agradecer a . Por nada.
— Nunca diga nunca, . Até porque já subimos para vinte curtidas e dois comentários: “Você tem uma voz linda” e “Eu amo essa música, @ você precisa ver isso!”.
A garota riu alto. Ainda se impressionava com o fato de que adolescentes apavoradas e devotadas acreditavam mesmo que um cantor ultra famoso com mais de vinte e cinco milhões de seguidores no instagram acabaria por ver uma simples marcação em um vídeo aleatório. Ele deveria receber aquele tipo de notificação milhares de vezes e ignorá-las em todas as tentativas. Mas tudo bem. Era assim que os fãs eram. E, apesar de meio bobo, ela deveria admitir que também era bem fofo que alguém tivesse tanto carinho ao ponto de manter aquele tipo de esperança.
— Quase cem curtidas. Mais de dez comentários. Alô, quem fala? - franziu a testa ao ouvir a amiga. — É da Billboard, eles querem uma entrevista exclusiva para divulgar o seu hit.
arremessou a almofada mais próxima na amiga. Ela sonhava um pouco alto demais até mesmo para o seu gosto.


❀❀❀



estava tirando medidas pela terceira vez no mês. Os figurinos da turnê davam muito mais trabalho do que parecia e exigiam uma seriedade que ele não tinha. Toda vez em que alguém da equipe encostava em algum ponto delicado, ele se contorcia e ria. Isso quando não estava fazendo pequenas caretas até que alguém notasse.
— Se você ficasse parado, nós acabaríamos isso aqui muito mais rápido - disse Celina, funcionária da Gucci. Os dois já se conheciam há certo tempo, dada a parceria estreita do cantor com a marca desde a sua primeira turnê. Mesmo assim, ele continuava exatamente o mesmo bobo, atrapalhando-a.
— Mas que graça teria nisso, Celina?
A mulher o espetou levemente com um dos alfinetes, fazendo com que ele soltasse uma exclamação de surpresa seguida de algumas risadas compartilhadas. Tentava sempre manter uma relação leve e divertida com todos em sua equipe. Ajudava a tornar o ambiente melhor e, no fim das contas, era mais um reflexo de sua própria personalidade - que fazia amizade fácil com quase todo mundo - do que de uma obrigação, de fato.
— De novo dando trabalho para a Celina? - Jeffrey perguntou ao adentrar a sala.
— Ele não desiste - a mulher respondeu simplesmente, recebendo um sorriso do rapaz. — Mas eu consegui terminar. Vou deixar vocês dois a sós. Até mais, .
— Tchau, Celina. Amo você.
Ela saiu, meneando a cabeça e rindo. Era quase impossível para qualquer um tentar se manter sério diante de uma pessoa como aquela. emanava energia e, por vezes, a própria equipe lamentava o fato de Anne não tê-lo feito com um botão liga-desliga. Seria infinitamente mais prático.
— Pode falar - indicou, enquanto se sentava no sofá branco improvisado. O empresário o acompanhou, posicionando-se perto dele.
— Agendamos a parte sul americana da Love on Tour. Serão dois shows no Brasil, um na Argentina, um no Chile, um no Peru e um na Colômbia. Fechado?
— Se eu puder voltar para o Brasil no final para passar uns dias, fechado.
— Vamos discutir isso depois. Temos muito o que fazer com as divulgações do Fine Line e com a própria turnê antes de você começar a se preocupar com férias.
— Caramba, Jeff. Pensei que você fosse meu amigo.
— É por ser seu amigo que preciso cortar suas asinhas de vez em quando - o outro respondeu. — Mas, sim, você vai ter férias. Não pretendo matar você de exaustão.
— Liga para o Cowell rapidinho e explica para ele como funciona essa questão de descanso e de não trabalhar até a exaustão?
Jeff empurrou o ombro do amigo, rindo sozinho. Já tinha passado horas suficientes ouvindo reclamações sobre como a época da banda havia sido massacrante em vários momentos e ocasiões. Sabia bem que o seu trabalho priorizava o oposto e agradecia pelo fato de ter confiado a carreira solo a ele de qualquer forma.
— Só temos uma questão. Você ainda precisa decidir se quer colocar mais alguém nas participações especiais ou se já posso dar por encerrada a organização dos shows de abertura. Preciso dessa informação para começar a dialogar os detalhes com os estádios e arenas e para podermos vender os ingressos.
serviu-se de um copo de água, dando longos goles. Agradecia por manterem sempre uma garrafa grande perto de si ou morreria desidratado pelo simples fato de constantemente se esquecer de tomar água enquanto se ocupava com as questões do trabalho.
— Acho que podemos fechar. Confirmo para você até amanhã, pode ser?
Jeff assentiu e se sentou, puxando o próprio computador para analisar os últimos e-mails. O planejamento da turnê estava a todo vapor e sua caixa de entrada estava quase tão lotada quanto o tráfego em Moscou. Precisaria de mais uma xícara de café na próxima hora ou começaria a confundir todos os patrocinadores e fornecedores.
aproveitou seu momento para puxar o próprio celular e se lembrar por poucos segundos de que suas redes sociais existiam. Era um evento fatídico que às vezes demorava quase um mês para se repetir. Sua mãe brincava que logo suas aparições seriam mais raras e cronometradas que a passagem do cometa Halley. Ele não tinha muitos argumentos para rebater isso.
Escolheu uma menção aleatória no twitter para responder.
, qual a sua música favorita no ‘Fine Line’? - Leu em voz alta e tomou alguns segundos pensando no que responder. — Hoje é Falling. Pergunte de novo amanhã.
— Você nunca mais vai responder essa menina - Jeff interveio. — Por que faz isso?
— É para isso que serve o twitter, Azoff. Eu sei o que faço. Vamos ver se tem algo de interessante. Talvez uma nova petição para um microfone rosa brilhante.
— Já encomendei - Jeff respondeu simplesmente.
voltou a rolar a sua tela de notificações, buscando algo que realmente quisesse responder antes de se ausentar até o nascimento do próximo bebê real.
— Que estranho - murmurou, percebendo que tinham várias notificações de pessoas diferentes lhe enviando o mesmo vídeo. Talvez fosse um presente das fãs, muitas faziam isso. Clicou no link e foi redirecionado para o instagram. Uma página chamada “saturnsingss” abriu em sua tela. prontamente retirou o aparelho do mudo e aumentou o volume, estranhando o fato de só ver o colo e a boca da pessoa. As fãs geralmente faziam o máximo para aparecer por completo a fim de serem notadas.
O som do teclado começou e algo dentro dele parecia procurar de onde conhecia aquela melodia. Era familiar, apesar de nunca tê-la ouvido daquela maneira. Estava completamente intrigado até que as palavras que ele já conhecia tão bem passaram a ser entoadas.
Assistiu ao vídeo inteiro com mais atenção do que ele costumava dar para as coisas. Clicou na tela, permitindo que o vídeo recomeçasse do zero. Precisava ouvir aquilo de novo. Era tão doce, tão sutil. Uma versão bem diferente da sua, mas que passava toda a emoção que ele sempre quis carregar naquela letra.
— Jeff, é a minha música! - Exclamou sem se dar conta da obviedade do que estava dizendo. Quase jogou o aparelho nas mãos do empresário, esperando que ele visse o mesmo que ele.
— Legal - o outro respondeu simplesmente. Não estava prestando atenção em mais nada direito.
— Você não está me entendendo. Jeffrey, é essa a minha última atração especial. Eu quero essa garota no meu show.
— Só porque ela cantou uma música sua?
— Porque eu quero que ela cante a versão dela comigo. Eu quero ela.
Jeff passou as mãos pelo rosto, esfregando os olhos com certa força.
— Quem raios é essa garota, ? Você sequer sabe quem é?
— Não. Ela usa um pseudônimo. Saturno. Não tem imagens de rosto ou outras redes sociais.
— E como você espera que eu agende shows com uma pessoa que mal existe?! Eu estou muito ocupado, cara. Tenho uma porrada de coisas sérias da turnê para resolver. Não tenho tempo para ir atrás da garota. Sinto muito.
expirou com mais força, enquanto andava em círculos com as mãos na cintura. Ainda não tinha desistido daquela ideia e nem pretendia. Conseguia ser bem teimoso quando queria.
— Eu já sei. Devolve meu celular.
— Não é para ligar para o Louis - Jeff disse antes de entregar o aparelho. — Ele não tem tempo para resolver seus problemas.
— Não é o Louis. Dessa vez.
Azoff revirou os olhos.
— Por que ocupar uma pessoa se eu posso facilmente ocupar várias?
O amigo não estava entendendo mais nada. Até receber a notificação do twitter que explicava tudo.

“Oi, gente! Essa garota cantou a minha música e eu preciso conhecê-la imediatamente. Será que vocês podem me ajudar a encontrá-la? Com amor, H x”

— Você não fez isso.
— Ah, eu fiz, sim. Agora, sente-se e espere. Hora de comprovar o assustador poder do fandom.


Capítulo Dois

And they tell you that you’re lucky, but you’re so confused (...)
Another name goes up in lights, you wonder if you’ll make it out alive
The Lucky One - Taylor Swift



Trinta e sete de quarenta não era nada mal. Não mesmo. quase podia dizer com certeza que estava mais calma para fazer a prova de neuroanatomia depois daquele simulado bem sucedido. Sentia-se mais confiante; isso era certo. Talvez as coisas dessem certo, afinal.
Enquanto deixava seus materiais do dia em seu armário, recebeu uma mensagem de Mia:

“Me encontra na lanchonete em frente à faculdade. Precisamos conversar.”

E antes mesmo que respondesse, veio a segunda:

“Agora.”

trancou o armário rapidamente e partiu em direção ao local marcado. Não fazia ideia do que a amiga queria, mas provavelmente não seria nada de mais. Assim como não havia sido nas últimas cinco vezes em que a mesmíssima coisa havia acontecido. Foi por isso que se permitiu ignorar a amiga deliberadamente e ir até o balcão pedir um lanche antes de se sentar com ela.
— Tive que pegar algo para comer - explicou-se. — Não consegui botar nada para dentro de manhã por medo do simulado. Pelo menos deu tudo certo. Acredita que eu fui super bem?
— Acredito - Mia respondeu. — Parabéns. Sabia que você não precisava se preocupar tanto.
tinha certeza de que todas aquelas palavras eram completamente sinceras, mas o tom de voz da outra a fez recuar instantaneamente. Mia era escandalosa, radiante, afobada. Preocupação não combinava em nada com ela.
— O que aconteceu? É sério? Família?
Mia respirou fundo, enquanto desbloqueava a tela do próprio celular.
— Nós temos um problema. - As palavras tinham sido praticamente cuspidas, como se estivessem entaladas e forçando sua saída. — Two Ghosts viralizou. Tem mais de cento e cinquenta mil likes e tantos comentários que eu sinceramente nem consegui dar conta de ler todos eles.
arregalou os olhos.
— Puta merda, mais de cento e cinquenta mil? É muita coisa. Eu nem acredito! - Nunca admitiria, mas estava brutalmente orgulhosa de si. — Mas isso é bom, não é? Significa que tem várias pessoas por aí que gostam do que eu faço.
— Sim, claro. Isso é exatamente tudo o que eu sempre quis para você e sempre soube que você merecia com essa voz maravilhosa. Esse reconhecimento é mesmo incrível. A questão é que não se aumenta o alcance de uma publicação em mais de mil por cento de um dia para o outro. Eu sabia que tinha alguma coisa estranha acontecendo, mas eu não tinha nem noção da dimensão disso.
Ao ouvir aquilo, sentiu a onda de preocupação atingindo o seu próprio corpo. Engoliu o que tinha na boca, sentindo o lanche raspar, quase como se tivesse descido pelo lado errado.
— Você está me assustando. Dá para falar logo?
Mia levou alguns segundos no celular e o posicionou sobre a mesa, de forma que ambas pudessem ver a tela. A conta do twitter de estava aberta e não entendeu nada. Não até que a amiga clicasse no último tweet do cantor, afastando todas as informações do perfil e tendo apenas aquela publicação em evidência.

“Oi, gente! Essa garota cantou a minha música e eu preciso conhecê-la imediatamente. Será que vocês podem me ajudar a encontrá-la? Com amor, H x”

Seu coração parecia uma bateria universitária, batendo alopradamente no peito. Aquilo era algum tipo de pegadinha. Uma montagem. Era isso! As pessoas estavam cada vez melhores em forjar publicações, informações e dados, não estavam? Todas as ondas de fake news deixavam isso claro como água tratada.
— É fake - disse, simplesmente. Recostando-se na cadeira e dando outra mordida em seu lanche, apesar de todo o seu apetite ter ido dar uma volta em outro continente depois do nervoso passado.
— Sim, garota. Na conta oficial, verificada, com milhares de retweets, likes e comentários. É fake, sim. Para de se fazer de idiota, caramba!
abriu o aplicativo do twitter no próprio celular, disposta a desmascarar a brincadeira de mau gosto da amiga. Mas lá estava o mesmíssimo tweet, com vários fãs criando hipóteses, teorias e chutando quem poderia ser a pessoa misteriosa de quem estava atrás.
— Eu nunca mostrei o rosto, nem falei sobre nomes ou outras pessoas. Ninguém além de você e da minha família conhece o apartamento. E, considerando que eles também não conhecem o conceito de redes sociais, acho que está tudo bem. Não tem como descobrirem que sou eu - ela tentava convencer a si mesma daquilo, tentando manter a calma mesmo que no fundo soubesse que aquela possibilidade não estava mais em jogo.
— Qualquer um que entenda muito bem de informática consegue rastrear sua conta. Não é tão difícil para pessoas que hackeiam até os sites das maiores empresas do mundo, sabe?
— Mas essas meninas são fãs, Mia; não hackers. E eu duvido que o seu querido ídolo tenha tempo ou disposição de contratar um por uma coisa assim tão tosca. Ele nem deve mais se lembrar de ter visto esse vídeo. Quer dizer, isso se ele viu, não é? Pode ser alguém da equipe dele que é pago só para fazer esse tipo de coisa, causar um alvoroço no fandom e depois fingir de morto de novo.
— Eu sigo esse garoto desde 2010. Eu passei a minha adolescência toda sabendo cada mísero passo dele, desde a cidade em que estava, até os restaurantes em que aparecia.
— Isso é assustador. E é perseguição.
— A questão é: eu nunca vi isso acontecer em todos esses anos. Responder fãs? Ok. Comentar tweets que nem o marcavam e assustá-las? Tudo bem. Mas isso? Não, . Isso é inédito. E eu não sei se você se esqueceu da sua alfabetização, mas ele foi bem claro sobre precisar te conhecer. Essas meninas não vão descansar enquanto você não tiver uma foto ao lado dele exposta pela internet toda.
— Uma hora elas desistem. - deu de ombros, fazendo a amiga revirar os olhos de uma forma quase teatral.
— Boa sorte com isso. Mas pensa um pouquinho comigo sobre uma coisa. Se você se apresentasse e fosse vê-lo, sua carreira basicamente explodiria e talvez você até pudesse mandar essa prova de neuroanatomia para aquele lugar. Você não precisaria de faculdade, de emprego formal… Mulher, com o talento que você tem, você definitivamente não deveria estar em um laboratório. Não quando você sabe que a música é o que você mais ama nessa vida.
— Sabe outra coisa que eu amo muito na minha vida? Paz. Poder acordar e abrir a janela do meu apartamento com o cabelo mais feio que a humanidade já viu porque não têm paparazzis esperando. No máximo, tem o meu vizinho de varanda e ele já deve ter entendido que eu não tenho salvação. É ótimo poder sair na rua e ter minhas roupas julgadas só pelas pessoas que eu nunca mais vou ver e que não têm interesse algum em me ofender publicamente por isso. Eu gosto mesmo de poder ir à padaria e tomar um café sem todo mundo se amontoar ao meu lado e pedir uma selfie. Mia, você acabou de falar que sabia até onde o almoçava! É isso que eu não quero. Eu não quero ser o centro das atenções em lugar algum. Eu amo a minha música e eu adoraria viver dela, desde que não viesse com toda essa carga de brinde.
— Amiga, você tem talento demais para se esconder desse jeito. O mundo merece te ouvir. Além do mais, tudo isso de que você está falando vem de fãs. Fãs que amam, valorizam, idolatram e enchem seus ídolos de todo o reconhecimento que eles merecem. É claro que vários perdem completamente a noção de limites. Isso literalmente acontece com absolutamente tudo nessa vida. Mas você já parou para pensar pelo ponto de vista oposto?
desistiu do lanche. Aquela conversa tinha embrulhado completamente o seu estômago.
— Ter milhares de pessoas cantando suas músicas, apreciando suas composições, chorando porque se identificam com as suas mensagens. Receber cartinhas de fãs, agradecendo você por ter mudado a vida deles de um jeito que só um fã poderia entender. Encher arenas, viajar o mundo… Já pensou atingir tanta gente em tanto lugar do mundo? A diferença que dá para fazer no mundo inteiro? Ser porta voz de uma geração, !
— Eu nem sei se tenho coragem de subir em um palco na frente desse monte de gente - admitiu, sentindo-se pequena demais diante de um mundo brutalmente enorme.
— Medo é um negócio que existe para a gente superar. Isso nem deveria estar em pauta.
— Mas é mais um problema. Eu estou muito bem com a minha vida de completa invisibilidade para me jogar em um mundo que acha que a minha vida é mais deles que minha. Mia assentiu.
— Não posso te falar que eu entendo sua decisão. Se eu estivesse no seu lugar, eu estaria cantando no meio da rua e dizendo “Oi, , sou eu! Vamos nos casar em Holmes Chapel para ficar perto da sua família?”. Mas eu respeito. Apesar de achar que alguém ainda vai descobrir e você não vai mais conseguir se manter escondida.
— Vira essa boca para lá, garota - reclamou. — Ele vai me esquecer. Você vai ver.
Um apito veio do celular de Mia, alertando as duas. Qualquer notificação nova àquela altura era alarmante, em especial quando já tinham desativado o inquieto instagram. A garota tomou o celular em mãos e a careta que fez a seguir não pareceu nada agradável para a outra.
— O que é agora? Esse garoto acionou a polícia para vir atrás de mim como se eu fosse uma criança desaparecida?
— Não. Mas ele fez uma ‘live lounge’ para a BBC Radio 1 hoje cedo e, pelos tópicos da chamada da entrevista, não parece mesmo que ele está disposto a seguir seus planos de esquecimento.
leu o título do vídeo e sentiu um zumbido em suas orelhas, quase como uma sirene incansável de uma ambulância avisando que tudo estava prestes a dar muito errado.
Mia tirou os fones de ouvido enrolados da mochila, colocando um e entregando o outro para a amiga. Respirando profundamente, deu play no vídeo.


❀❀❀



havia cantado Lights Up, feito um cover de Juice da cantora Lizzo - que, com certeza, faria algumas fãs o acusarem de serem cardíacas e estarem prestes a morrer do coração - e, agora, finalizava as últimas notas de Adore You. — Just let me adore you like it’s the only thing I’ll ever do.
Afastou-se do microfone ao finalizar, pigarreando e buscando a garrafa de água que o staff tinha preparado para ele. Se não terminasse de beber tudo aquilo até o fim do programa, Jeff provavelmente o daria um longo sermão sobre como ele deveria se preocupar mais com a própria voz e fazer algo pela própria saúde, mesmo que fosse algo tão simples como beber mais água enquanto a garganta arranhando persistisse. Sentia-se quase uma criança recebendo ordens, mas, de acordo com a sua equipe, às vezes era exatamente assim que ele precisava ser tratado.
Sentou-se de frente para Clara Amfo, radialista responsável pela cobertura dos dias úteis da semana, preparado para responder algumas perguntas antes de dar aquela sessão por encerrada e ir embora. A moça sorriu para ele e sua garrafa de água colorida.
— Muito bem! Continue se hidratando - ela brincou, arrancando uma risadinha do garoto.
— Garganta ruim. Se eu não tomar tudo, Jeff disse que me devolve para a minha mãe e cancela minha carreira.
— E sua mãe?
— Provavelmente não me quer de volta e está por trás dessa conspiração contra mim - admitiu risonho.
— Pais, não é? Todos iguais - Clara comentou. — Mas me conta como está sendo tudo? O lançamento do novo álbum, o retorno… Sei que os fãs estão amando, porque recebemos pedidos para tocar suas músicas o dia inteiro.
— Está sendo incrível e bem louco, na verdade. O primeiro álbum foi um choque por ter sido tão bem aceito, mas era o debut, entende? Nós tínhamos a impressão de que os streams e as buscas estavam mais altos do que as expectativas porque havia uma curiosidade sobre o que eu estava fazendo. Pensamos que fosse algo do tipo “Não é aquele garoto do One Direction? O que será que ele canta agora?”. Mas o ‘Fine Line’ nos mostrou que talvez tenhamos uma base mais sólida do que esperávamos. É o segundo álbum que alcança o primeiro lugar na estreia e isso nos fez perceber o poder dos fãs e da própria música, mais do que só o da curiosidade.
— Seus fãs são incrivelmente dedicados e apaixonados. Acho que todos nós já percebemos isso. - Os dois riram. — E como foi o processo de criação desse novo disco? Soubemos que você participou bastante.
tomou outro longo gole de sua água antes de prosseguir.
— Foi bem divertido, na verdade. Principalmente porque essa era exatamente a minha intenção com ele: torná-lo divertido de escrever, de gravar e de cantar em turnê. Eu tinha muitas dúvidas do que fazer depois do primeiro e todo mundo parecia ter uma opinião formada sobre o que eu deveria fazer.
— Menos você.
— Exatamente! Foi o Tyler Johnson, produtor do álbum, que acabou me dando o único conselho que eu realmente levei a sério. Ele me mandou esquecer toda a pressão externa e as opiniões alheias e simplesmente fazer o álbum que eu queria fazer naquele exato momento. Hoje, pode até parecer só mais um comentário óbvio e clichê, mas acho que era tudo o que eu precisava ouvir naquela época, principalmente vindo de alguém que só poderia estar sendo sincero, considerando que o nome dele também estaria no CD e qualquer besteira que eu fizesse não cairia só sobre as minhas costas, mas sobre a equipe também.
— Muito legal mesmo. É importante ter esse pessoal pé no chão ao seu redor. Mas me conta, , e as músicas? Um passarinho me contou que você nomeou Falling sua favorita. É verdade?
fez uma pequena careta, ponderando.
— Acho que, por enquanto, sim. Eu tenho uma conexão muito particular com essa música. Quer dizer, eu tinha acabado de sair do banho, sentei de toalha mesmo do lado do Tom ao piano e a música saiu em uns vinte minutos, eu acho. Foi um processo muito natural, sabe? E tem toda uma vulnerabilidade ali. Eu sinto que a música acabou virando algo similar a um desabafo.
— De onde veio esse desabafo? Sobre o que é a música quando se trata pessoalmente do escrevendo sobre o que ele viveu e sentiu?
— Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de entregar todo o jogo. Gosto de deixar algumas interpretações em aberto para manter a graça da coisa toda e porque a música pode muito bem assumir significados diferentes para quem a ouve. Não quero limitá-la apenas àquilo que eu pensei em primeiro lugar. De qualquer forma, eu tenho a impressão de que essa não é uma música com muitos segredos.
“Enquanto nós produzíamos esse álbum, eu vivi alguns dos momentos mais felizes de toda a minha vida e também alguns dos mais tristes. Aconteceram algumas coisas que me deixaram realmente bem mal no caminho. Falling é a representação clara do seu próprio título. É sobre cair; aquela sensação de estar despencando e não ter aonde se agarrar. Tem um trecho em que eu falo “O que eu sou agora? E se eu for alguém que não quero por perto?” e foi exatamente assim que eu me senti em alguns momentos, entende? Era mais do que só uma crise existencial. Eu podia enxergar alguns sinais de comportamentos e mudanças e perceber que talvez eu estivesse me encaminhando para me tornar alguém que eu não reconheceria e provavelmente de quem eu não gostaria nem um pouco.”
Clara assentiu, absorvendo a densidade de todas aquelas palavras. Mesmo com uma mensagem tão poderosa, a música provavelmente se tornaria ainda mais impactante depois daquele comentário tão sincero.
— É realmente bem profundo e algo com que as pessoas vão poder se identificar sempre que ouvirem - ela constatou e recebeu um movimento de cabeça do rapaz em concordância. — Existem outras músicas com esse tipo de sentimento e vulnerabilidade de background?
— Acho que a resposta é óbvia. - riu. — ‘Cherry’ é um exemplo muito claro disso.
— E ainda tem a mensagem da Camille no fundo - Clara comentou.
— Pois é. Eu achei que cabia perfeitamente na minha composição e ela permitiu, então por que não? Tenho a aprovação dela para tudo o que aconteceu ali.
— Então ela ouviu a música antes?
— Claro. Eu jamais teria coragem de colocar aquela música no mundo sem que ela escutasse cada palavra e dissesse que estava tudo bem. Que tipo de babaca eu seria se não desse a ela a chance de dizer que não concordava?
— E você acha que ela gostou da música?
riu alto.
— É, acho que sim.
— Acho que já tomamos muito o seu tempo e você provavelmente precisa tomar mais uns dois litros de água ou será enviado para Holmes Chapel em um caminhão de mudanças - a mulher brincou. — Então, queria fazer só mais uma pergunta para finalizarmos. Pode ser?
— Claro. Mas, se forem perguntar se eu vou tirar a roupa na próxima turnê, a resposta é provavelmente não.
— Droga! Agora vou ter que pensar em outra coisa - ela brincou. — A grande pergunta que não quer calar: o que aconteceu no twitter? Você praticamente mobilizou uma rede social inteira!
riu, concordando. Suas menções e mensagens nunca davam trégua, mas estavam especialmente animadas desde que ele declarou aberta a temporada de busca à cantora misteriosa e desconhecida do instagram.
— Eu estava no meu twitter, em paz, com a vida seguindo perfeitamente dentro dos planos. Daí eu vi que tinha muita gente me marcando no vídeo dessa garota, a Saturno. Eu abri pensando que era um vídeo desses que as fãs montam. Considerando a estreia recente do álbum, eu pensei “Talvez seja algum tipo de homenagem”.
— Eu literalmente consigo imaginar a situação.
— Foi aí que eu dei play e ouvi Two Ghosts em uma versão melhor que a minha. Eu fiquei em choque e o Jeff não entendeu absolutamente nada. Eu só conseguia pensar em como precisava conhecer aquela garota o mais rápido possível. Quem ela pensa que é para me surpreender com a minha própria música e seguir a vida como se não tivesse mudado a minha, sabe? É um absurdo.
— E você acha que os fãs vão encontrá-la?
— Eu confio neles. Eu preciso mesmo encontrá-la. Eu sonhei com isso, você tem noção? Não consigo dormir pensando no que mais eu posso fazer para conseguir entrar em contato real com ela.
— Eu não consigo acreditar nisso! Você imagina que qualquer pessoa faria de tudo para poder ter a chance de conhecê-lo e, quem sabe, impulsionar a própria carreira. Mas aí temos essa moça que se esconde e não parece querer sair de seja lá onde ela está. Com certeza várias outras garotas estão morrendo, desejando estar no lugar dela.
meneou a cabeça, assentindo.
— Algumas tentaram dizer que eram elas naqueles vídeos, mas foram desmentidas muito fácil. Ou porque vimos nas fotos que os cabelos não tinham nada a ver ou porque amigos decidiram desmentir dizendo que elas sequer conseguiam cantar ‘Parabéns para você’ sem desafinar mais do que um daqueles frangos de plástico. Aliás, palavras deles, não minhas.
Clara não conseguiu conter a própria gargalhada.
— Temos algum tempo antes do próximo programa aqui na rádio e eu vou deixar você usá-lo para mandar uma mensagem desesperada para a tal da Saturno porque eu realmente estou torcendo para que essa busca dê certo. E quero a primeira entrevista dos dois como exclusividade minha. Fechado?
— Como a senhorita quiser - ele concordou, antes de se virar para ficar cem por cento de frente para a câmera. Assim, se ela por acaso assistisse àquela gravação, talvez tivesse piedade da carinha de cachorro que acabara de cair da mudança que ele sustentava em sua direção. — Cara Saturno, venho por meio desta singela gravação implorar por tudo o que há de mais importante nesse mundo para que você apareça. Isso não é uma simulação, não é uma piada, nem uma brincadeira. Na verdade, isso tudo é bem sério. Por motivos de importância extrema, eu preciso conhecer você. Saturno, a cada hora que passa sem que consigamos descobrir quem é você, uma fada morre e um sonho é despedaçado sem delicadeza alguma. Não despedace os meus. Por favor, deixa a gente te encontrar. Eu nunca te pedi nada.
— Por favor, Saturno! - Clara pediu. — Faça todos nós felizes e dê o ar da graça. Mal vejo a hora de entrevistar vocês dois para saber como foi esse encontro.
deu um largo sorriso para a câmera - aquele que fazia com que as fãs, desde a época da One Direction, chamassem-no de cupcake. Mesmo que estivesse bem ansioso com toda aquela situação, ainda tinha esperanças bem reais e palpáveis de que aquela busca gerasse os resultados tão intensamente esperados. Tinha ficado praticamente obcecado com tudo aquilo e não pretendia desistir fácil de seus objetivos.
— Esse foi o BBC Radio 1 Live Lounge com . Esperamos que vocês tenham gostado e até a próxima - Clara se despediu e viu o aviso de que estavam ao vivo se apagando.
Pegou sua bendita garrafa e se aproximou da radialista a fim de se despedir propriamente antes de ir embora.
— Até mais. Eu realmente espero que você encontre a garota - ela disse.
— Eu também espero. Você não tem ideia de como.


❀❀❀



— Caramba - Mia murmurou assim que o vídeo foi finalizado. — Eu tenho inveja da sua paz de espírito. Eu já teria parado de respirar se isso tudo fosse comigo.
— Desculpa, eu não consegui te ouvir com a falta de oxigenação do meu cérebro depois dessa merda toda - brincou, tentando descontrair frente a situação. Totalmente em vão. Estava prestes a socar sua cabeça contra a parede da lanchonete até ter um traumatismo craniano e poder se afastar daquela loucura toda antes que fosse tarde demais.
— Sinto muito, mas as coisas não vão melhorar depois desse vídeo - Mia constatou o óbvio. — Inclusive, é bem provável que elas já tenham piorado nesse meio tempo.
— Eu preciso comer. Será que a gente pode parar de falar disso enquanto eu me forço a ter uma alimentação menos horrível? Desliga essa porcaria de celular emissor do caos e de más notícias.
— Perdão. - Mia guardou o celular na mochila. — Vou comprar um salgado para te acompanhar.
ainda não havia retomado seu apetite, mas não tinha muita opção. Ou empurrava o resto do lanche para dentro ou sua pressão atingiria níveis baixos o suficiente para que ela desmaiasse no primeiro passo que desse para fora do estabelecimento.
Mia voltou logo com um croissant. As duas comeram em silêncio, ocupadas demais lidando com as coisas que passavam vorazmente por suas próprias cabeças inquietas. Se não havia a intenção de expor a identidade da voz por trás do cover viral, então teriam de arranjar um plano rápido e eficiente para escaparem de toda aquela escavação de informações que as pessoas estavam realizando enquanto buscavam suas respostas.
— Dói meu coração sequer cogitar isso - começou, depois de empurrar o prato finalmente vazio para o centro da mesa. — Mas e se eu deletar a conta da Saturno? Eu sumo com os dados rastreáveis, não sumo?
— E perder todo o seu trabalho e seu hobby? Eu não posso deixar você fazer isso, amiga. Sem contar que eu acho que não é bem assim que as coisas funcionam. Os vídeos já estão lá, já devem ter rastros suficientes deles pela rede. Em especial esse daí, que já deve estar por toda parte.
bufou, passando as mãos nervosamente pelo próprio rosto.
— Mas, se eu deletasse as coisas, será que as pessoas não acabariam deixando para lá e desistindo? Falo dessas meninas sem muitos recursos de informática mesmo. Provavelmente, elas vão perder o interesse assim que a única fonte delas sair do ar.
— Tem certeza de que você quer fazer isso? A Saturno te faz tão bem - Mia lembrou.
E ela estava certa. com certeza não queria abrir mão de tudo. Mas já não via uma opção melhor.
— Não tenho certeza de mais nada. Mas a Saturno era legal por ser uma pessoa dissociada de mim. Com a possibilidade disso acabar, não sei se continuo pensando o mesmo sobre ela.
Mia assentiu com certo pesar, tanto por saber como aquilo era especial e importante para a miga, quanto por seu próprio trabalho de quase empresária dela.
— Vou dar uma olhada se algo mudou desde a publicação do vídeo da BBC - avisou.
— Não deu tempo o suficiente - comentou.
Mesmo assim, a outra abriu o próprio celular, entrando no tweet de que havia dado início àquilo tudo. As primeiras menções eram de pessoas e contas que ela seguia na sua própria. Franziu todo o seu rosto em espanto e desespero ao ver o comentário de uma colega da faculdade.
— Desde quando essa garota gosta do ?
— Quem? E que cara é essa?
Ao terminar de ler a sequência de tweets, Mia afundou o queixo na própria mão, incapaz de sustentar o contato visual com a amiga naquele instante delicado.
— O que aconteceu? - A voz de mal saía. Sentia-se completamente estrangulada.
— Acho que não adianta mais deletar a conta - Mia murmurou, deixando o celular aberto sobre a mesa. Ela própria estava com uma sensação de engasgo dolorosa, incapaz de lidar com tudo.
não queria ler aquilo, mas percebeu que não adiantava fugir. Não tinha opção. Ignorar os tweets não faria com que eles desaparecessem. Sendo assim, era melhor que ela soubesse a verdade de uma vez. Arrancar o curativo em um só puxão e lidar com a dor toda concentrada, ao invés de lidar com doses homeopáticas de desespero.

@_shannonq: Ei, @matthewells, essa não é a garota com quem você ficou naquela festa da faculdade? Tenho uma impressão de que ela não me é estranha.”
@matthewells: Com certeza. Eu reconheceria essa boca em qualquer lugar. E ela ainda tem uma tatuagem de Saturno no pulso. O codinome da garota por acaso é Saturno. Coincidência? Hahahaha. É a , certeza.”
@_shannonq: @_, o nome dela é , ela estuda Neurociência na King’s College London. De nada.”

soltou o celular da amiga sobre a mesa, absolutamente perdida. Não sabia como reagir; não sabia o que fazer a seguir. Era como se tivessem aberto um buraco no chão logo embaixo de seus pés e ela não tivesse mais onde se apoiar. O mundo tinha ruído e parecia esfarelar entre seus dedos. Não sabia o que sentir além do mais completo choque. Qual era a chance de aquilo acontecer? Uma em um milhão? Que merda ela tinha feito na vida para merecer que um karma desse viesse apunhalá-la pelas costas a essa altura do campeonato? Não era possível que aquilo realmente estivesse acontecendo.
— Eu não acredito - sussurrou, tão baixo que Mia não teria escutado se não estivesse presa na mesma bolha estática sem entender o que acabara de acontecer.
— Por isso que eu sempre digo: cuidado ao escolher as pessoas que enfiam a língua na sua boca.
bufou, deitando a cabeça sobre os braços e deixando que os cabelos caíssem sobre os ombros.
— Filho da puta.

Capítulo Três

Smile for the camera, everybody’s looking at ya
Smile for the camera, cause they’re all about to trash ya
Falling Down - Selena Gomez & the Scene


Fazia dez minutos que estava trancada no carro da amiga, abaixada no banco traseiro como uma fugitiva em uma série hollywoodiana qualquer. Estava se sentindo sufocada, claustrofóbica, sem ar. E isso se devia tanto à sensação do carro fechado quanto ao fato de que ela tinha visto uma pequena - mas estranha - aglomeração ao passar pela entrada do estacionamento e aquelas pessoas tinham microfones e câmeras sendo preparados. A não ser que algum dos pesquisadores incríveis da universidade tivesse descoberto a cura do câncer ou do HIV do dia para a noite, eles estavam atrás dela. Ela tinha plena consciência disso.
Todas as suas redes sociais tinham simplesmente se tornado um inferno completo desde que Shannon e Matthew a expuseram da forma mais pública e aberta possível. Tinha perdido as contas de quantas solicitações para seguir, convites de amizade e mensagens aleatórias tinha recebido desde aquele momento na lanchonete com Mia. Passara o olho rapidamente pelas prévias das mensagens nas notificações, algumas imploravam para que ela entrasse em contato com logo, outras a enchiam de elogios e suspiravam só de pensar nos dois cantando algo juntos. Uma certa quantidade também já estava inventando rumores e dizendo coisas que ela não merecia ouvir e sequer estava interessada em ler. Para manter o mínimo de sanidade mental que ainda tinha e evitar a possibilidade de potencializar o seu próprio desespero, simplesmente deletou todos os aplicativos das redes sociais de seu celular, ficando apenas com alguns joguinhos tontos e suas anotações para a prova. Afinal, a neuroanatomia não tinha decidido tirar um dia de folga só porque ela tinha vontade de se mandar para alguma cidade pequena do Vietnã.
Mia puxou a porta do carro que estava estacionado na vaga mais distante possível. Entrou de supetão, inspirando fundo e tentando recuperar sua frequência respiratória.
— E as câmeras? - perguntou, ainda com a cabeça abaixada, tomando água com a cabeça coberta por uma jaqueta grossa.
— Já foram - Mia respondeu e recebeu um olhar fuzilante da amiga. — Mentira, não foram. Na verdade, pelo menos mais umas duas emissoras chegaram. E uma garota que decidiu transmitir as coisas no canal dela no Youtube. Eu não faço a mínima ideia de quem ela seja, mas parece que ela tem uns dois milhões de seguidores.
Aquilo era um absurdo completo. Não tinha nenhum acidente ou questão ambiental para cobrir? Alguma gafe de corrupção, ameaças de guerra, greve estudantil ou protesto pelos direitos de alguém? Por que tinham que se interessar por uma universitária que só queria cantar algumas músicas e fazer sua prova em paz? Não era como se ela estivesse alterando o seguimento da vida humana no planeta.
— Por que raios eles simplesmente não vão embora? - Perguntou com a voz chorosa. Não sabia mais como lidar com aquilo. Não importava quantos meios ela usasse para minimizar o problema e se afastar de todas as formas como a situação a atingia, simplesmente parecia que aquele pesadelo não ia acabar.
— O pior é que não é só o pessoal das mídias que está lá. A faculdade quase toda já sabe ou descobriu quando parou para tentar entender o que estava acontecendo. Você tem uma plateia bem considerável - Mia comentou. — Vou fazer compras semanais para ti e você pode se trancar no seu apartamento até o universo te esquecer.
— Adoraria - a amiga admitiu. — Mas, primeiro, eu preciso fazer essa porcaria de prova.
— Bom, sobre isso… Eu falei com o seu professor e, apesar de ele ter deixado claro que tinha ouvido barbaridades sobre mim dos colegas dele, ele faria um esforço para que você conseguisse realizar a prova. Disse que você é uma aluna excelente e merecia isso.
— Caramba! Ele é um amor.
— Achei um babaca puxa-saco. - Mia deu de ombros. — Coloca o cinto e esconde o rosto, garota. Nós precisamos sair do estacionamento sem que te vejam.
fez exatamente como a amiga solicitara, engolindo uma risada quando a própria prendeu os cabelos dentro de um boné surrado.
— Você está me sequestrando? Ou vai me entregar para a imprensa só para ter a chance de conhecer o ?
Mia pisou no freio bruscamente.
— Quer saber, agora eu gostei mais da sua ideia. Vem, vou te entregar para a youtuber de cabelo colorido.
ergueu o dedo do meio na direção do retrovisor central, sabendo que a amiga estava vendo sua mão lindamente estampada ali. Mia riu e voltou a dirigir, optando por uma das raras saídas pouco movimentadas do estacionamento.
— Vamos usar a entrada do depósito do laboratório. Você vai entrar pelos fundos e vai fazer a prova primeiro. O professor vai segurar o resto do pessoal. Disse que vai usar a desculpa de que o último alfinete sumiu para atrasá-los. Achei bem tosco, mas o problema é de vocês, pessoas esquisitas que fazem prova com gente morta.
assentiu. Talvez assim conseguisse pelo menos fazer a sua prova. Não que tivesse boas expectativas, considerando o nível descabido de ansiedade e nervosismo que tomava conta de todo o seu corpo e mente. Não seria nem de longe a melhor nota de sua vida, mas pelo menos não seria um zero por ausência.
Mia estacionou o carro de ré do jeito mais torto que pôde, colocando a porta da qual a amiga sairia imediatamente em frente à entrada do depósito.
— Boa prova. Vou te esperar aqui fora.
inspirou e expirou repetidamente, tentando driblar e enganar a adrenalina que quase parecia prestes a explodir de sua cabeça. Não que estivesse funcionando. Colocou um par de óculos escuros antes de sair, obrigando a amiga a dar risada.
— Parabéns, Clark Kent. Ninguém vai te reconhecer de óculos.
— Calada. - E saiu, batendo a porta atrás de si.
Em silêncio, Mia encostou a própria cabeça contra o volante, fechando os olhos e torcendo para que tudo desse certo para a amiga. Não importava o quanto tinha vontade de esganá-la várias vezes ou discordasse dela quase sempre, amava a garota acima de tudo e a protegeria como pudesse.
se perdeu algo entre três e quatro vezes no depósito, sem saber se as prateleiras e gavetas cheias de formol pelo caminho significavam que ela estava indo para o lugar certo ou não. Nunca havia entrado naquele lugar.
Continuou caminhando por mais alguns minutos, tendo certeza de que nunca encontraria a droga de seu destino. Finalmente, viu uma plaquinha em uma porta ao fim do corredor, assinalando a entrada do laboratório. Empurrou a madeira, que rangeu ao toque e exalou o ar, aliviada.
— Fiquei com medo que tivesse se perdido - o professor comentou, enquanto entregava uma folha vazia para que ela escrevesse as respostas da prova.
— Eu me perdi - ela admitiu. — Mas consegui chegar e é isso o que importa. Professor, eu nem sei como agradecer ao senhor por ter feito isso por mim.
O homem de meia idade deu de ombros, fazendo um barulho engraçado que a fez se questionar se conseguiria imitá-lo.
— Não me atrapalharia em nada. E eu já tinha me irritado com as câmeras, sendo que elas nem se importaram comigo. Imagino como a situação deve estar sendo para você. Quer dizer, aquela sua amiga maluca me contou que você praticamente não dormiu de noite.
concordou, enquanto escrevia o nome completo na folha que havia recebido.
— É uma loucura. Eu ainda estou tentando me localizar.
O homem assentiu, demonstrando uma compreensão que impressionou a garota. Infelizmente, encontrar professores que se preocupassem realmente com os problemas dos alunos e como poderiam ajudá-los não era tão comum quanto poderia ser.
— Pronta?
meneou a cabeça, concordando, e se dirigiu para a primeira bancada do laboratório, sabendo bem qual era a dinâmica daquele tipo de prova prática. Foi adicionando os nomes na ordem em que as peças eram dispostas e andou por toda a sala, percorrendo toda a prova dentro do tempo estipulado. Após os quinze minutos, entregou a folha de volta para o professor, dando um sorriso largo que demonstrava muito mais a gratidão que ela sentia pela oportunidade do que o nervosismo imenso do combo prova mais não saber o que a esperaria lá fora.
— Boa sorte - ele desejou e ela sabia bem que sua fala pouco tinha a ver com qualquer que fosse a sua nota.
— Obrigada.
E voltou por onde tinha vindo, esforçando-se para lembrar em quais esquinas não virar para chegar na entrada do depósito na qual Mia deveria estar. O retorno foi mais fácil. Sua memória tinha decidido ajudá-la em um dia em que nada mais parecia estar conspirando a seu favor.
Pulou para dentro do carro rapidamente, jogando os óculos de sol no banco e bufando com força.
— Como foi? - Mia perguntou sem desgrudar o olho da tela do celular.
— Não faço ideia - admitiu. Não tinha conseguido raciocinar direito. — Alguma novidade?
— Rumores.
— Sobre o quê? A veracidade do relacionamento de Camila Cabello e Shawn Mendes?
Mia estendeu o celular para a amiga, mostrando uma foto embaçada de um homem qualquer que, para ela, não significava absolutamente nada.
— Quem é esse cara?
— É esse o ponto - Mia explicou. — Ninguém sabe ao certo. Mas acreditam que seja o Jeffrey Azoff, empresário do .
— E onde foi isso? - sentia o nó claro retornando à garganta.
— Se os sites tendenciosos, manipuladores e sensacionalistas estiverem certos, no aeroporto daqui.
O coração da amiga batia aceleradamente no peito. Não podia ser. Eles tinham mais o que fazer. Com certeza era alguma teoria da conspiração depois do que tinha acontecido no dia anterior. A imprensa não perdoava nada e os paparazzi não perdoariam ninguém. Qualquer cara minimamente parecido, seria facilmente relatado como o empresário de . Na verdade, até a impressionava um pouco que não tivessem forçado a barra de vez e dito que era o cantor, de fato.
— Minha cabeça vai me matar. Eu preciso ir para casa - constatou. — Mas eu pego um táxi. Você precisa ir para a sua aula.
— Não tem nada que me interesse hoje e eu provavelmente passaria o tempo comendo o brownie de chocolate da lanchonete. Sem contar que você não é a única ansiosa aqui, lindinha. Estamos nessa bagunça juntas.
assentiu. Mia tinha razão. E, se não iria atrapalhá-la, preferia mesmo ter sua companhia pelo dia.
— De volta para casa, então - a amiga anunciou e girou a chave na ignição, saindo da forma mais desajeitada possível do estacionamento e pegando todo o caminho inverso à entrada da universidade.
Respiraram aliviadas. Ao menos tinham sobrevivido.


❀❀❀



e Mia tinham passado o resto da manhã e a tarde toda maratonando ‘How I Met Your Mother’ com os celulares desligados, tentando ignorar todo o caos. Quando Mia decidiu ligar o próprio celular, a amiga a fuzilou com os olhos.
— Eu só vou pedir uma pizza. Eu estou com fome.
aceitou. Estava com o estômago quase na garganta também. Puxou o controle e deu início ao próximo episódio enquanto esperavam.
Teddy tinha acabado de fazer a surpresa de natal para Robin e se sentia especialmente sensível, mesmo sabendo perfeitamente cada detalhe daquela série de trás para frente. Ainda ria, chorava, chamava a maioria dos personagens de trouxa em diversos momentos e adorava Marshall exatamente como da primeira vez.
Quando a campainha tocou, Mia se levantou correndo, enquanto cantarolava a palavra “pizza” repetidamente.
— Traz aqui no quarto - pediu, enquanto pausava o episódio. — Não quero levantar.
Mia calçou os chinelos correndo e pegou o dinheiro na carteira, indo até a porta com o paladar completamente preparado para o deleite que o queijo derretido lhe proporcionaria.
— Graças a Deus. Eu estou faminta - falou, enquanto abria a porta. E foi nesse exato momento em que ela travou completamente, sentindo a boca se abrir e as pernas fraquejarem, com a linguagem corporal denunciando uma reação que nem ela mesma esperaria.
— Olá - um dos homens disse.
— Puta que pariu - respondeu simplesmente. — ?
A voz rouca foi o suficiente para fazer com que Mia apoiasse a mão contra a parede da entrada antes que tivesse um encontro indesejado com o chão.
Ao ouvir o próprio nome, foi ao encontro da amiga, desejando rapidamente não tê-lo feito. Correria diretamente de volta para o retorno de sua cama se não soubesse que aquilo apenas a faria parecer uma criança imatura.
— Na verdade, eu sou a Mia - a garota finalmente recuperou a própria voz. — Melhor amiga e pseudo-empresária da carreira dela.
Virou-se para a amiga, respirando fundo antes de continuar.
— Por favor, me segura antes que eu infarte.
— Não - respondeu imediatamente.
— Bom, podem ignorar a parte de melhor amiga - Mia adicionou, ressentida.
— É um prazer conhecer vocês duas. Eu sou o - o rapaz se apresentou, estendendo a mão para cumprimentá-las.
engoliu a vontade de lembrá-lo de que elas obviamente sabiam quem ele era, assim como a maioria das pessoas do mundo. Soaria rude demais mesmo para alguém tão nervosa quanto ela. Droga, as palmas de suas mãos estavam brutalmente suadas e frias.
— Esse é o Jeff, meu empresário e amigo, e esses são os rapazes da segurança que nos ajudaram a não causar muita bagunça pelo caminho.
— Além das câmeras e das dezenas de repórteres - murmurou, desejando logo em seguida ter guardado suas reclamações para si mesma.
— Droga. Achei que chegaríamos antes da imprensa. Eu realmente sinto muito - se desculpou.
A garota assentiu. Queria que ele fosse menos educado para poder sentir raiva e culpá-lo pelo mundo revirado de ponta-cabeça do dia para a noite.
— De coração, eu juro que não queria ter causado nenhum problema ou incômodo. É só que eu vi o seu vídeo cantando a minha música e pensei “Caramba, essa versão é diferente e provavelmente melhor que a minha” e percebi que precisava te encontrar.
— Bom, aparentemente encontrou, não é? - soltou uma risadinha nervosa. — Sobre isso, inclusive, como você conseguiu o endereço de onde eu moro?
— Sua faculdade forneceu - Jeff respondeu, fazendo com que as duas o encarassem confusas.
— Isso não é meio… Sei lá… Ilegal? - Mia perguntou, fazendo o empresário rir.
— Possivelmente - Azoff tomou a dianteira novamente. — Bom, eu estava do lado do enquanto ele assistia ao vídeo e ele realmente ficou fora de si. Desde então, ele não parou de falar de Saturno de um lado para o outro e deixou metade da nossa equipe totalmente confusa com o possível interesse repentino dele por astronomia. Mas ele insistiu nessa história apesar das inúmeras vezes em que eu disse que era uma loucura completa. No caso, eu ainda acho que seja.
não havia tirado os olhos de por um segundo sequer, sorrindo docemente, sem conseguir conter o entusiasmo por tê-la encontrado. A garota abraçou o próprio corpo, desviando o olhar à força para tentar disfarçar o constrangimento.
— Mas o que meu cliente não pede chorando que eu não faço sorrindo? Ele tem uma proposta a fazer e eu acho que vocês deveriam conversar. Vamos deixá-los a sós. Sei que é muita coisa para digerir, então provavelmente é melhor sem mais pessoas observando.
Mia concordou. Estava morrendo de vergonha dos caras altos e robustos que não olhavam para ninguém, mantendo o olhar em um ponto fixo distante. A presença deles com certeza não estava ajudando a tornar a situação menos esquisita.
— Manda uma mensagem quando tiverem acabado e voltamos para buscá-lo.
assentiu e os três permaneceram ali, parados à porta, enquanto os demais pegavam o elevador. Em um lampejo de bom senso, percebeu a situação e a maneira educada de lidar com ela.
— Entra, por favor. - Abriu espaço para que ele passasse para o lado de dentro e observou enquanto ele olhava em todos os cantos. sorriu ao ver os vasinhos de suculentas.
— Eu me lembro delas - comentou.
— Provavelmente - Mia respondeu. — São o plano de fundo dos vídeos.
— Eu vi que você gravou várias coisas de um monte de gente - continuou, dirigindo-se a . — Tenho que te agradecer por cantar algo meu e, ainda por cima, de uma forma tão linda. Eu me sinto honrado.
— É a ela que você deveria agradecer - a garota apontou. — É a música favorita dela. Ela é muito sua fã.
abriu um sorriso largo.
— Que legal! Quer dizer que devo muito a você, Mia.
A amiga sentiu que suas pernas iam derreter assim que ouviu seu nome sendo lembrado pelo cantor e dito por aquela boca daquele jeito. Não sobreviveria.
— Em compensação, não foi nada fácil achar vocês - ele pontuou ao perceber o silêncio. — Se os seus colegas não tivessem a reconhecido, talvez eu demorasse um bom tempo para chegar até aqui e não tivesse mais tempo para fazer o que vim fazer.
mordeu a bochecha, tentando pensar em outra coisa quando sentiu a vergonha por lembrar exatamente o motivo pelo qual lhe reconheceram. Levou alguns instantes lidando com a própria propensão a ficar vermelha como um tomate para finalmente se dar conta das últimas palavras dele.
— Tempo para quê? O que você veio fazer, afinal? Não quero soar grosseira nem nada, mas por que toda essa disposição para me encontrar? Não tem nada de especial em alguns vídeos no instagram. Todo mundo faz isso.
— Mas todo mundo não é você - rebateu de pronto. — E é você quem eu quero que me acompanhe na turnê para participar da abertura dos meus shows e cantar sua versão de Two Ghosts comigo.
Mia engasgou com tanta força com a própria saliva, que fez um sinal pedindo desculpas e se encaminhou diretamente para o banheiro, com medo de tossir algum órgão. sentiu o rubor ir embora rapidamente conforme sua pele empalidecia com o choque.
— Desculpa. O quê?
— Você não tem noção do tamanho da coincidência. - Ele se ajeitou na poltrona, inclinando o corpo para frente e usando as mãos cada vez mais conforme se concentrava na própria explicação. — Jeff tinha acabado de me perguntar se eu queria adicionar alguém nas participações e aberturas do show e eu não tinha mais ninguém em mente. Foi aí que eu abri meu twitter e vi que tinham várias pessoas me marcando em um vídeo. Pensei que fosse alguma homenagem dos fãs porque recebemos várias, em especial na época da banda. Mas, quando eu dei play, era a sua voz. E era a minha música. E sua voz e seu arranjo na minha música foram simplesmente uma das coisas mais incríveis que eu já tinha ouvido em toda a minha vida.
ergueu as sobrancelhas, surpresa. Não sabia ao certo o que estava esperando daquela conversa, mas duvidava muito que fosse um elogio daqueles. Era simplesmente inacreditável. Mas ele não tinha terminado:
— Então eu disse “Ei, Jeff! Já sei quem eu quero adicionar na abertura dos shows.” e ele pensou que eu estivesse brincando ou que tinha enlouquecido de vez. Como eu não fazia a mínima ideia de como te encontrar, simplesmente tentei o twitter. E, caramba, estar aqui agora é um alívio tão grande. Eu nem consegui dormir à noite de tão ansioso que estava para virmos para Londres, acredita?
— Também não tive uma das melhores noites - ela admitiu e tomou um susto com o barulho da campainha que acabara abafando a sua voz.
— Não pode ser o Jeff - ponderou, com o cenho franzido. — Ele só vai voltar para me pegar quando eu pedir.
— É a minha pizza - Mia lembrou, sorrindo amarelo para ambos, enquanto percorria o caminho entre o banheiro e a porta a passos rápidos.
Pegou a pizza e pagou o entregador, liberando-o com uma velocidade invejável. Estava se coçando para retornar à conversa que acontecia na sala e já tinha perdido tempo demais dela para seu próprio gosto. Retomou seu lugar ao lado da amiga e abriu a caixa, permitindo que o cheiro forte do queijo recém-derretido e da massa levemente tostada tomassem todo o ambiente sem pedir licença ou fornecer aviso prévio.
— Querem?
— Não, obrigado - o rapaz recusou, com um sorriso simpático.
— Mais tarde - avisou, com o rosto fechado. Era a reação costumeira de bronca silenciosa quando a amiga aprontava algum inconveniente. — Estamos conversando agora.
Mia assentiu, deixando a pizza na mesa para dois lugares que a amiga tinha na pequena sala de jantar - também conhecida como os poucos metros quadrados da sala que eram utilizados para alimentação.
— Comemos depois. O que vocês estavam discutindo?
— Bom, você é a empresária dela, não é?
— Sou - Mia respondeu, ajeitando-se orgulhosa e lançando um olhar furioso para a amiga ao ouvi-la responder em negação.
— Eu quero levar a para a Love on Tour. Fiz o convite para que ela abra meus shows e cante a versão dela de Two Ghosts comigo. Assim, já faz a minha própria introdução no palco e eu assumo na sequência. Acho que seria lindo.
— Seria perfeito! - Ela mal podia conter a sua animação e os pulinhos que tinha vontade de dar naquele momento, sem se preocupar com a situação ou com a presença de um dos seus ídolos da adolescência encarando cada um de seus movimentos e sendo, pessoalmente, muito mais bonito do que ela esperava. E isso considerando que ela já queria lambê-lo antes de conhecê-lo ao vivo.
O rosto de se iluminou como as luzes de LED sendo acionadas pela primeira vez em uma bem decorada árvore de natal: lindamente e de uma só vez, carregando o tipo de alegria e de animação que não se descreve; apenas se sente.
— Só tem uma coisinha - interrompeu o momento de felicidade de ambos. — Eu não concordei com nada disso. Eu não quero sair em turnê.
— Não precisa ser a turnê toda - ele se apressou em acrescentar à sugestão inicial. — Pode ser só a parte inglesa se você preferir. Talvez só os shows aqui por perto, daí você nem precisa se incomodar com as viagens mais longas.
deu um sorriso triste, olhando para o chão enquanto respirava fundo. Seria muito mais fácil dizer um sonoro e objetivo “não” se ele não fosse basicamente a pessoa mais educada que ela já tinha conhecido na vida. Em tão pouco tempo, já sentia a sensação de recusá-lo dolorida no fundo do peito como a de pisar sem querer na pata de um cachorrinho, só para pedir desculpas sem parar depois e se sentir um ser humano terrível pelo resto do dia. Ele precisava urgentemente parar de sorrir daquele jeito, como se o mundo ao seu redor fosse a coisa mais preciosa e mágica que ele já vira.
— Eu odeio ser a estraga-prazeres. - E odiava mesmo. — Mas eu cantava sem revelar minha identidade por um motivo. Eu quero manter a minha vida sem todo esse desespero. Sem ter um monte de câmeras na entrada do prédio quando eu acordar. Sem receber uma enxurrada de mensagens de ódio só porque eu escolhi um vestido feio ou conversei com alguém que as outras pessoas decidiram julgar indevido. Eu estou muito bem no meu mundinho.
fez menção de falar, mas recebeu uma sinalização de Mia para que a deixasse dizer algo antes. Ele respeitou a vontade dela, sabendo que, como amiga, ela provavelmente conhecia o suficiente para saber muito melhor do que ele o que dizer e como fazê-lo.
— Amiga, eu te apoiei em todo mísero segundo dessa caminhada, independentemente de qual fosse a sua vontade mesmo sabendo que eu discordava da maioria delas. Mas agora é hora do choque de realidade.
ergueu o rosto, fitando a amiga. Não sabia se estava exatamente pronta para ouvir o que viria a seguir. Ainda não havia se decidido se queria mesmo estourar a pequena bolha de ilusão intocável que havia tomado para si.
— Isso aqui não é Hannah Montana e você não vai conseguir colocar uma peruca e viver o melhor dos dois mundos. Não é assim que as coisas funcionam, sinto muito em te dizer. A essa altura, todo mundo sabe seu nome, onde você estuda e conhece o seu rosto. Não é à toa que suas redes sociais se tornaram insuportáveis. E, amiga, você viu as câmeras. Eles não vão descansar enquanto você não der o ar da graça, ceder entrevistas e aparecer em fotos indesejadas. Eles vão cavar a sua vida para criar notícias de qualquer forma.
— Muito animador.
— O que eu quero dizer é que não adianta você se esconder quando eles já te encontraram. Você vai viver presa nesse apartamento até cair no esquecimento? Vai abrir mão da faculdade para ver Netflix o dia todo? Porque, convenhamos, até os canais de notícia devem ter reportagens sobre você nesse momento.
esfregou o rosto com força, bufando de leve. Era exatamente isso que ela sempre temera.
— Era legal enquanto você podia cantar sem ninguém te incomodar, mas essa não é mais a sua realidade. E você pretende fazer o quê? Abrir mão de toda a sua vida por causa de uma imprensa que não vai te dar descanso? Não tem mais para onde fugir, meu anjo. E já que você, com o perdão da expressão, já está na merda e não tem como fugir, não vejo porque não tirar proveito dessa situação e abraçar a oportunidade que estão te oferecendo.
— Basicamente, o que você quer dizer… - ela começou, mas foi interrompida imediatamente pela amiga.
— Quero dizer que toda história tem o seu lado ruim e o lado bom. Da parte ruim você não vai mais se livrar, então seja esperta e abrace as coisas boas que vêm com essa exposição.
Quando as duas permaneceram em silêncio, tentando assimilar o turbilhão de coisas que estavam acontecendo, pensou que talvez fosse sua vez de dizer algo. Ergueu a mão, como uma criança do fundamental, incerto, aguardando sua permissão para falar. Nem conseguiu segurar a risada fraca.
— Vai em frente.
— Sua amiga-empresária está certa. Você só está olhando para as coisas ruins e, mesmo com elas, você vai perceber que acaba se acostumando com certa facilidade. Inclusive, tudo isso é meio que minha culpa e eu realmente sinto muito pelo transtorno que eu causei.
“Eu sei que esses caras da mídia são um inferno e o ódio gratuito nunca vai embora porque as pessoas ainda não aprenderam a cuidar das próprias vidas, mas todo o resto compensa isso. Poder escrever, cantar as próprias músicas, compartilhar aquilo que você sente, sabe? Jogar sua arte assim no mundo e perceber ela sendo não só aceita, mas consumida e realmente amada? Caramba, é a melhor sensação do mundo todo. Não existe gratidão suficiente em mim para expressar o que é esse sentimento e a relação que a gente acaba desenvolvendo com nossos fãs.”
Mia moveu a cabeça em concordância, afinal, já tinha dito coisas muito semelhantes à amiga. Talvez com menos precisão e menos brilho nos olhos. Isso ela deixaria por conta do rapaz sentado à sua frente. Ainda não tinha muita certeza de como havia conseguido não berrar no rosto dele e chorar como um bebê exatamente do mesmo jeito que tinha feito no show da On the Road Again Tour.
, por sua vez, tinha uma sensação estranha no peito. Sentia tanta coisa ao mesmo tempo que não sabia definir direito nenhuma delas. Medo? Insegurança? Expectativa? Estava mesmo tentando visualizar as possibilidades que delineava? Não sabia ao certo. Seu coração estava mais confuso e bagunçado do que um fone de ouvido que passava algumas horas no bolso da calça jeans. Sentia-se embaralhada e nem sabia se aquele era um adjetivo plausível para descrever qualquer coisa além de cartas de baralho.
— As coisas não vão voltar a ser o que eram - Mia disse, mirando o fundo dos olhos da amiga.— Então, por favor, dê essa oportunidade a si mesma.
se sentia sufocada. Essa, sim, era uma boa palavra. E também era uma pessoa péssima para disfarçar o que estava sentindo.
— Você não precisa me dar uma resposta agora - interveio, percebendo o seu desconforto imediatamente. — Pode pensar um pouco. Vamos embora só amanhã de noite. Queria poder te dar mais tempo do que isso, mas espero que seja o suficiente. Posso deixar meu número contigo? Daí você pode me ligar e dizer o que decidiu.
Ela assentiu, desbloqueando o próprio celular e entregando-o para que ele pudesse salvar o contato em sua lista. ainda ergueu o celular e tirou uma selfie, fazendo um joinha com o dedo e abrindo um sorriso largo.
— Para você saber quem é - disse, risonho, antes de devolver o aparelho. — é um nome meio comum.
Mia riu, meneando a cabeça. Ficava feliz em saber que toda a espontaneidade que relatavam era verdadeira. De certa forma, estava grata por saber que tinha escolhido o ídolo certo.
— Bem, o Jeff já está me esperando, então eu vou deixar vocês em paz. Foi um prazer conhecer vocês! Vou aguardar seu contato.
— Não quer levar uma fatia de pizza para comer no caminho? - Mia perguntou, tentando ser educada e arrancou um sorriso sincero do homem.
— Não, obrigado. Você é muito gentil.
As duas o acompanharam até a porta, despedindo-se de uma forma meio esquisita, sem saber ao certo como cumprimentá-lo. deu mais um de seus sorrisos iluminados antes de acenar e encontrar seu caminho de volta ao elevador.
Com a porta fechada, ambas exalaram o ar com certa força, esperando que, de alguma forma, isso conseguisse aliviar a tensão que assolava os seus ombros.
— Puta merda, você tem o número do - Mia murmurou, ainda em choque.
— E não vou dormir essa noite - comentou, bufando. — Ótimo. Eu não pretendia recuperar meu sono mesmo.

Capítulo Quatro

Should I stay or should I go now?
If I go there will be trouble, and if I stay it will be double
Should I Stay or Should I Go - The Clash

Occipital. Ela nem precisava da recém-cobrada neuroanatomia para saber exatamente onde estava a sua dor e o que ela significava.
— Eu preciso de um relaxante muscular - murmurou, levantando-se a contragosto do sofá.
— Isso não dá sono? Minha mãe toma para dormir - Mia comentou, enquanto preparava um pão com geleia.
— Dá um pouco - admitiu. — Mas eu estou com quadro de cefaleia tensional. Estou tão estressada com tudo o que aconteceu nos últimos dias que os meus músculos decidiram seguir minha postura e estão machucando a minha cabeça.
— Não faz sentido para mim. Mas até aí, metade do universo não faz.
deu uma risada leve, enquanto engolia o comprimido com longos goles de água. Odiava a sensação de ter aqueles pequenos discos parecendo entalados em sua garganta, como personagens de um filme de ação clichê, que ficam pendurados por um galho enquanto deveriam estar caindo de um penhasco.
— Eu não queria ser a pessoa a tocar nesse assunto, mas eu sou o único outro ser consciente de tudo o que está acontecendo, então essa é meio que a minha função - Mia começou e a amiga já sabia o que viria a seguir. — Você conseguiu pensar sobre a proposta?
— Pensei. Pensei demais. Pensei até sentir que todos os meus neurônios estavam prestes a explodir de uma vez só até ter pedaços do meu encéfalo espalhados pelo quarto.
— Certo. E, além dos detalhes estranhamente gráficos saídos de quadrinhos de zumbis, você tem mais algo a me dizer?
bufou. Não como quem estava com raiva ou como quem estava impaciente. bufava como se pudesse exalar ao menos uma parte de todo o peso que havia empurrado seus órgãos para baixo a fim de ganhar espaço dentro de si e agora lhe causava uma dor de barriga horrível. bufava porque estava cansada e porque odiava tomar decisões; especialmente aquelas que mais pareciam encruzilhadas sem caminho a um destino feliz. Bufava porque sabia que, pelo sim ou pelo não, sua vida jamais voltaria a ser a mesma e ela não poderia estar mais assustada.
— Acho que eu tomei a minha decisão.


❀❀❀



O propósito daquela pequena bolinha amarela macia era servir como algum tipo de controle para a ansiedade. Ficar apertando aquela esfera deveria servir como algum tipo de metodologia antiestresse que ele não entendia e sabia que não compreenderia mesmo que o maior nome de psiquiatria mundial tentasse lhe explicar. Ele sequer sabia quem essa pessoa seria. Talvez soubesse. Ela era tão inteligente que o fazia sorrir só de pensar nisso. Queria saber um centésimo que fosse do que ela estudava só para ter a sensação de saber um pouquinho do que se passava em sua cabeça.
Mas, no fim das contas, ele tinha lido sobre aquela bolinha. Existia uma reportagem super interessante e, aparentemente, bem confiável falando sobre resultados de estudos que mostravam a eficácia do objeto tanto na liberação de estresse, quanto no auxílio ao foco para pessoas que costumam se distrair com muita facilidade. Esses dispositivos seriam como pequenos tempos de distração mínima que ajudariam o cérebro a focar na atividade central, em vez de simplesmente se interessar por notificações no celular, barulhos dos outros seres vivos e movimentações do entorno e se esquecer do objetivo central.
Mas ele não entendia muita coisa para poder elaborar algum tipo de pensamento crítico sobre aquilo. Provavelmente saberia. Ela sabia muitas coisas. só esperava que ela também soubesse que ele estava sendo absolutamente sincero em cada um dos elogios e propostas que fizera e que desejava verdadeiramente tê-la em sua turnê. Torcia para que ela entendesse que, às vezes, o medo é apenas uma barreira que nos impede de atingir grandes coisas para as quais talvez sempre estivéssemos destinados. Mas também a entendia. A fama e suas consequências eram coisas com as quais as pessoas se acostumavam, mas, nem de longe, faziam parte de um rol de questões simples para se lidar na vida.
— Além de tudo, você é amarela - reclamou, apertando os dedos com mais força ao redor da pequena esfera. — Era para você me acalmar.
— Você está quase estourando esse negócio - Jeff comentou, tirando a bolinha da mão do cantor. — Não parece mesmo estar funcionando.
arremessou a cabeça para trás, contra o encosto do sofá esverdeado cujo tom ele jamais saberia definir. Talvez cor de cocô de bebê fosse o mais próximo que ele conseguia pensar.
— Essa expectativa está me matando - admitiu. — Eu não sou nada bom em simplesmente sentar e esperar.
Azoff riu, enquanto entregava um copo de água para . Sabia perfeitamente daquilo. Ele poderia ser calmo a maior parte do tempo, mas era um dos seres mais impacientes quando algo realmente mexia com ele.
— Ela ainda tem mais algumas horas para tomar a decisão. Tenta relaxar até lá.
— Duas horas e meia, aproximadamente - respondeu, checando o relógio do celular. — Não é tanto tempo assim, Jeff. E se ela simplesmente decidiu não ir e já desistiu até de me comunicar? Vai ver ela me odeia por ter praticamente invadido a casa dela com um bando de seguranças e tê-la feito pensar sobre algo que nunca quis.
— A garota é um talento nato, . Ela pode até ter consciência e receio de tudo o que o seu mundo traz de bagagem, mas me parece um tanto ingênuo pensar que ela nunca quis cantar, ainda mais quando o faz tão bem.
apenas balançou a cabeça, concordando. Nunca realmente era um pouco extremo em excesso. Qualquer criança havia sonhado em cantar, mesmo que só soubesse murmurar “Mary tinha um carneirinho” em uma voz infantil desafinada, frequentemente acompanhada de um nariz entupido por catarro.
— Se ela fosse aceitar, já teria me ligado - decretou. — Sei que ela está insegura, mas essa demora está me matando e eu não quero ficar criando possibilidades para terminar me decepcionando.
— Como se mais de vinte anos nas costas já não tivessem te ensinado que não é assim que as coisas funcionam. Somos seres humanos. Vamos sempre esperar muito e nos decepcionar por isso.
— Guarde os seus sermões niilistas para mais tarde - reclamou, chutando o amigo de leve. — Eu já estou sofrendo o suficiente.
Azoff revirou os olhos, segurando a risada, antes de agarrar pelos braços e colocá-lo de pé.
— Sem drama. Sem pena de si mesmo. Vai fazer alguma coisa. Vai compor, sei lá.
resmungou, mas se dirigiu ao piano, pensando no que poderia fazer para que o tempo passasse minimamente mais rápido. Levou os dedos às teclas e deu início aos acordes simples de Falling.
— Não, não e não. - Jeffrey bateu com força em duas teclas aleatórias, causando um som que quase fez o outro pular para trás com a afronta a seus tímpanos. — Eu disse sem drama. Qual parte você não entendeu?
interrompeu a movimentação das próprias mãos por alguns instantes, usando seus neurônios para pensar sobre o que mais poderia fazer. Não demorou muito para que a ideia clareasse sua mente como um farol sobre o mar noturno.
— Eu estou em desespero completo - começou a cantarolar enquanto fazia a escala simples de dó maior no piano; cuidadoso na passagem de cada tom. Não que estivesse se importando com o fato de a voz e as rimas estarem completamente destoantes da melodia tocada. — E a porcaria do meu empresário deveria ser meu amigo, mas é um sem coração.
Azoff agarrou os pulsos dele, fazendo-o parar mais uma vez.
— Já chega de piano para você. Volta para o sofá e estoura aquela porcaria amarela.
— Por que você está estressado? Eu é quem tem que estar estressado!
— Porque você não para, garoto! Eu sei que é angustiante, mas você precisa simplesmente esperar.
— E como eu faço isso quando parece que ela, basicamente, não tem intenção alguma de ligar? - esfregou o rosto com força, sentindo o toque metálico e gélido de seus anéis contra as bochechas. — Eu só preciso que essa porcaria de telefone toque. Jeff, por favor, só faz essa droga tocar.
O toque que veio na sequência parecia apenas uma ilusão de sua mente sedenta por acreditar que ele viria. Só podia estar alucinando.
Mas lá estava o aparelho vibrando em cima da mesa, com a tela piscando em função do número desconhecido.
— Como você fez isso? É algum tipo de bruxaria?
— Você estava reclamando até agora. - Jeff gesticulava nervosamente. — Só atende a droga do telefone. Até eu estou nervoso agora, inferno.
sentia o embrulho no estômago e a sensação de que o peristaltismo de suas vísceras estava funcionando ao contrário e trazendo bile para cima apenas para piorar a sua situação. Já tinha pensado em mil possibilidades em apenas dois segundos, tamanho seu nervosismo em clicar no botão “Aceitar” e levar o aparelho à orelha. Mas foi o que ele fez, mesmo sentindo que seu coração provavelmente faria barulho superior à voz do outro lado da linha e o impediria completamente de ouvir a notícia; boa ou ruim.
— Alô?
?
— Sim - respondeu à voz feminina, ainda receoso em criar esperanças.
— Ah, oi! É a , tudo bem?
— Tudo e contigo?
Que mentira mal contada. Como alguém com vontade de vomitar o que sequer havia conseguido comer poderia se dizer bem?
— Acho que sim - respondeu. — Já te atrasei? Ou posso falar?
— Não, não - ele disse rapidamente. — Eu tenho tempo. Pode falar.
— Então… Eu pensei muito…
sentiu o coração acelerar e soube que explodiria antes de ser capaz de estourar a porcaria da bolinha amarela.


❀❀❀



Mia apertou a mão da amiga com mais força, lembrando-a de que estava ali, presente de corpo, mente e alma, para qualquer que fosse sua decisão. Não sairia do lado dela nem se ela decidisse fazer ufologia e passear pela rua vestida de papel alumínio.
sorriu fracamente, sentindo a mão tremendo cada vez que olhava para o celular aberto sobre a mesa, com a ligação ainda em curso no viva-voz. Só queria que as coisas pudessem ser mais fáceis.
— Eu pensei muito sobre tudo o que você e a Mia disseram. Sobre não ter mais como fazer as coisas simplesmente voltarem ao normal como se nada nunca tivesse acontecido, sabe? E é verdade. Os repórteres continuam aglomerados na frente da faculdade e alguns começaram a rondar o bairro em que eu moro, provavelmente esperando qualquer mísera possibilidade de que eu venha a colocar a cabeça para fora de alguma janela.
— Eu realmente sinto muito.
— É. Eu sei que sente - respondeu sinceramente. — Mas, continuando… Considerando que eu não vou mesmo me livrar desse tipo de coisa tão cedo, concordo com vocês. Eu deveria tirar algum proveito disso. Quer dizer, não é como se eu nunca tivesse pensado em viver disso, já que é a coisa que eu mais amo no mundo todo.
A respiração profunda de do outro lado da linha tinha mudado repentinamente, enquanto ele concordava mais levemente com absolutamente tudo o que ela dizia. Era quase como se ela conseguisse ouvi-lo sorrindo após tirar uma porção do peso sobre os ombros.
Respirou da forma mais profunda que já havia feito em toda a sua vida. Provavelmente tinha atingido volumes inspiratórios bem acima da média, enquanto tentava digerir tudo o que viria após a pergunta que estava prestes a fazer:
— Quando embarcamos?
Mia sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. Estava se sentindo como uma mãe orgulhosa, feliz por ver seu filhote abrindo as asas e decidindo dar a cara ao mundo, independentemente do que isso for custar. nunca fora exatamente o tipo de pessoa disposta a correr riscos, mas tinha decidido correr um dos maiores possíveis.
— Eu não tenho nem palavras para te fazer entender como eu estou feliz de ouvir isso. - soava exatamente como uma criança animada para a viagem de férias. — Seria bom estarmos no aeroporto em umas duas horas. Você acha que consegue arrumar as malas até lá? Jeff e eu podemos te buscar aí. arregalou os olhos e virou a cabeça, buscando conforto de qualquer natureza na amiga.
— Eu vou te ajudar a arrumar as malas. Vamos conseguir há tempo. Pode confirmar.
— Ah, oi, Mia! Não sabia que eu estava no viva-voz. Só uma dica: não precisa trazer tanta coisa assim. Durante a turnê e as entrevistas, você provavelmente vai receber roupas específicas, como acontece comigo. Traga o que achar necessário para os momentos de hotel, descanso e chás de cadeira nos aeroportos.
— Certo - Mia concordou, vendo a amiga ainda relativamente estática. — Obrigada pelo conselho. Vamos começar a arrumar as coisas. Obrigada, ! Te amo!
finalmente saiu de seu longo transe para torcer o nariz e fazer uma careta para a amiga. Como era possível ela continuar sendo tão Mia mesmo naqueles momentos? Foi obrigada a segurar a risada. Era exatamente por aquele tipo de coisa que a amava tanto.
— Também te amo, Mia! Obrigado pela ajuda. Vejo vocês mais tarde.
As amigas finalmente trocaram olhares e sorrisos nervosos. sentia a adrenalina latente como se tivesse acabado de saltar de um avião e deixar para abrir o paraquedas apenas no último segundo. E, sinceramente, ainda não tinha muita certeza se estava ou não realmente a salvo.
— Eu sou a pessoa mais orgulhosa do mundo nesse momento - Mia comentou.
expirou o ar com força.
— E eu sou a mais assustada. Não sei de onde eu tirei coragem para uma loucura dessas.
— Sinceramente? Eu também não - admitiu. — Mas teve. E essa é a única coisa que importa nesse momento. Você finalmente vai ocupar o lugar que o seu talento merece. Não é justo com você e nem com ninguém que algo tão bonito assim fique escondido e silenciado.
sorriu, fitando a pequena tatuagem astronômica no pulso.
— Bem, você prometeu a que me ajudaria a arrumar as malas. Acho que está na hora de cumprir a promessa.
As duas se levantaram, caminhando em direção ao closet de tamanho médio. Mia ficou nas pontas dos pés, erguendo-se a fim de alcançar a maior mala que tinha no apartamento.
— Sabe qual é a melhor parte disso tudo?
— Que você vai finalmente tirar férias de mim? - perguntou, enquanto abria as suas gavetas de roupas.
— Realmente - a amiga ponderou, recebendo um peteleco no ombro. — Mas não era isso que eu tinha em mente.
— Ah, não? Então qual é a melhor parte?
disse que também me ama. Acho que esse é o meu primeiro relacionamento recíproco da vida.

❀❀❀



O carro preto era assustadoramente grande. A janela traseira foi abaixada assim que o veículo estacionou na frente do prédio. acenou alegremente para as duas jovens ao outro lado. Jeff e um dos seguranças desceram para ajudar com as malas.
— Você também vem? - Azoff perguntou, olhando diretamente para a Mia.
— Ah, não. Eu bem queria, mas ainda tenho umas provas importantes. Mas com certeza eu encontro vocês pelo caminho. Até porque eu preciso me manter próxima da minha cliente, antes que alguém tente tomar o meu lugar como empresária dela.
— Mia - a repreendeu.
— Pode deixar - Jeff interveio. — Vou cuidar das questões dela, enquanto você não nos encontra.
— Acho bom nem tentar roubar a minha cliente, entendeu?
— Tem a minha palavra - respondeu com um sorriso e estendeu a mão, esperando um aperto em acordo.
Mia acabou cedendo e segurou a mão do empresário.
— Vou deixar vocês se despedirem - ele anunciou e retornou ao carro.
respirou fundo, enquanto esmagava a amiga entre os braços.
— Eu não sei o que vai ser de mim sem você para me dar broncas e me forçar a tomar as decisões certas.
— Só você pode tomar as suas decisões e é forte e inteligente o suficiente para saber o que é melhor para você. Tenho muito orgulho da mulher que você está se tornando e sei que esse orgulho só vai aumentar a cada dia que passar.
— Eu te amo. Você é mesmo a melhor amiga do universo.
Mia riu, dando de ombros para ignorar o fato de que seus olhos estavam se enchendo de lágrimas.
— Eu sei disso. Sou muito incrível mesmo. - beliscou o braço da amiga, arrancando um resmungo da mesma. — Eu também te amo. Agora, vai lá conquistar esse mundo que é teu por direito.
se afastou finalmente da amiga, sentindo o coração pesar a cada batida.
— Vou te mandar mensagem todo santo dia. Você não vai se livrar de mim.
— Chata como é, tenho certeza disso - Mia brincou, enquanto assistia à amiga entrando no veículo preto e ocupando o lugar vazio ao lado de seu ídolo de adolescência. Aquela era realmente uma cena que não se esperava ver todo dia.
— E aí? - perguntou, com um sorriso de orelha a orelha. — Nervosa?
— Só sentindo que eu vou colocar meu almoço todo para fora no capacho do seu carro.
— Quer ouvir uma piadinha para relaxar?
franziu o cenho, já com expectativas baixíssimas acompanhadas do estranhamento. Estava acostumada com a aleatoriedade de Mia, mas, aparentemente, teria que fazer o mesmo agora em relação a .
— Não sei se eu quero - admitiu. — Mas pode contar.
— Se os neurotransmissores do Fred Flintstone falassem, o que eles diriam?
— Não faço ideia.
— GABA-daba-doo.
riu instantaneamente, meneando a cabeça.
— Foi boa - assumiu.
sorriu, orgulhoso de si mesmo.
— Eu não entendi absolutamente nada, mas imaginei que talvez você gostasse.
Ela o encarou, sem entender muito bem o que aquilo queria dizer.
— Eu procurei piadinhas de neurociência na internet.
não sabia se achava aquilo esquisito ou fofo. Provavelmente um pouco de cada.
— GABA é um neurotransmissor inibitório de sistema nervoso central. Algumas pessoas tratam ele como um controlador de estresse e ansiedade.
O rapaz balançou a cabeça, concordando vagarosamente.
— Não entendi uma palavra do que você disse.
— Ele desacelera a atividade cerebral.
— Agradeço a tradução. - E continuava sorrindo. Será que existia alguma cláusula no contrato dele que o obrigava a sorrir vinte e quatro horas por dia?
encostou a cabeça contra a janela insufilmada. As árvores e postes passavam tão rápido que talvez a hipérbole da ânsia não fosse mais tão exagerada assim.
— Se te consola, eu também estou bem nervoso. Mas animado também. Você não tem noção de como eu fiquei feliz por você ter aceitado a proposta. Fiquei até o último segundo morrendo de medo de você me dizer não.
— Eu literalmente só fui decidir na hora em que te liguei - ela admitiu. — Ainda tem um pesinho amarrado no meu pé, sabe? O medo de que eu tenha colocado absolutamente tudo o que prezo na minha vida a perder parece uma âncora prestes a me afundar a qualquer momento.
— Nós estaremos ao seu lado ao longo de todo esse trajeto - Jeff garantiu. — Qualquer coisa que você precisar, pode procurar um de nós.
— Mesmo que seja para desabafar - emendou. — Sempre estarei disponível para o que você precisar.
— Obrigada. Eu, com certeza, vou precisar disso.
— Confia em mim, Saturno. Tudo muda a partir de agora.
concordou.
— Mas eu vou estar ao seu lado o tempo todo.

Capítulo Cinco

And into the spotlight we will go
Follow me ‘cause, baby, life is a show
Into the spotlight, you will see it is the only place to be

Spotlight - Hannah Montana: The Movie



tinha certeza de que suas bochechas estavam mais amassadas que o embrulho de um bombom consumido há meses. Tinha certeza de que permaneceria acordada ao longo de toda a viagem até Bologna, roendo cada uma de suas cutículas de tanta ansiedade. O sono, no entanto, tinha conseguido falar mais alto e a agraciado com pouco mais de duas horas de descanso que provavelmente tinham regulado minimamente as coisas, mas também feito com que ela passasse da cota de vergonha que tinha estabelecido para as primeiras vinte e quatro horas de convívio com aquelas pessoas. Parabéns, ! Você já destruiu completamente a sua imagem antes mesmo de trocar mais de dez palavras com metade da equipe.
Estava esfregando os olhos fervorosamente, buscando garantir que se livraria de toda e qualquer possibilidade de remelas ou outros artefatos nojentos que ali se acumulassem. Foi quando lhe ocorreu que ela podia ter babado em todo o protetor da poltrona do avião e nada no universo seria capaz de reestruturar a reputação de alguém depois disso.
— Ei! Vai machucar seu olho. - A voz rouca comentou e sentiu a sua vergonha ultrapassar todos os níveis possíveis. — É um cisco? Quer que eu dê uma olhada?
Ela travou instantaneamente. Não podia deixar tudo pior do que já estava.
— Era, sim. Mas já consegui tirar. Obrigada, !
— Por nada. Pode abrir a janela se quiser - ele apontou. — Vamos pousar logo.
assentiu, com um sorriso, e ergueu a placa que servia como cortina. era gentil o tempo todo. O cantor oferecera o próprio travesseiro para que ela descansasse e até sugerira inclinações mais confortáveis da poltrona que pudessem facilitar seu sono. Claramente, ele tinha um pouco mais de familiaridade no tópico ‘jatinhos particulares’ do que ela.
— Primeira vez na Itália? - Ele perguntou, enquanto revirava uma pequena bolsa de tecido em busca de algo.
— Sim - ela respondeu, mas ele não tirava os olhos e as mãos apressadas do fundo da sacola. — Você precisa de ajuda?
— Não consigo encontrar meus óculos de sol - ele reclamou, com a voz um pouco abafada pela inclinação do próprio tórax e a agitação contínua em sua busca.
piscou algumas vezes, estreitando os olhos em uma tentativa de se certificar se não estava ficando completamente maluca ou com algum tipo de problema de audição causado por uma ressaca de sono.
— Ah, ?
— Pode falar - ele respondeu rapidamente, sem interromper a movimentação por um instante sequer.
— Por acaso seriam os óculos que estão na sua cabeça?
parou bruscamente, repousando a bolsa no colo e levando as mãos lentamente até o cabelo, encontrando as pernas da armação perdidas entre os fios.
Sorriu de uma forma envergonhada, quase infantil; como uma criança que é pega pela mãe enquanto brinca com a terra úmida do jardim no meio da sala de estar.
— Obrigado! E você tem óculos aí contigo? Posso te emprestar, se precisar.
— Não precisa. Eu tenho, sim - ela respondeu, buscando a caixinha em sua própria bolsa. — Mas por quê?
O rapaz desceu as lentes escuras sobre os olhos, sorrindo diretamente para ela durante o processo.
— Não muito diferente do que já acontece com absolutamente qualquer pessoa a qualquer momento, quando se é famoso, as pessoas vão falar e te criticar por absolutamente tudo, mesmo que seja um chiclete colado na sola do seu sapato sem qualquer envolvimento culposo seu. Considerando que acabamos de passar algumas horas trancados em um objeto voador não muito agradável, colocamos os óculos para esconder olheiras, esconder o sono, a irritação, a vontade de mandar metade dos paparazzi à merda e proteger um pouco os olhos da luz das câmeras. As fotos também ficam mais legais assim. Dá um ar descolado.
assentiu vagarosamente, tentando absorver o bombardeio de informações sobre algo tão trivial quanto óculos de sol. Se descer de um avião já estava prestes a lhe dar tamanha dor de cabeça, fazendo-a pensar em dez coisas diferentes, talvez tivesse tomado a decisão mais precipitada e errada da vida ao sequer embarcar.
— Acho que eu quero ir embora - murmurou. — Ou vomitar. De preferência, vomitar no conforto da minha casa.
sorriu, levantando-se de sua própria poltrona e caminhando até a dela, com a mão estendida, oferecendo aquele tipo de ajuda desnecessária, mas estranhamente sempre bem-vinda, para levantar de algum lugar que não seja o chão. A garota aceitou, ainda sem saber ao certo em que gaveta guardar toda a incerteza que esmurrava seu peito.
— Não vai ser tão ruim assim, eu prometo - ele garantiu, ajeitando os cabelos dela, amassados pela armação dos óculos. — E, se for, eu deixo você me bater como se eu fosse um saco de pancadas.
— Não é um acordo muito inteligente - ela disse, soltando uma risada anasalada.
deu de ombros.
— Você que é a inteligente entre nós dois. Não devia esperar muito de mim.
finalmente se deu por vencida - afinal, o que poderia fazer? ficar presa em um avião pelo resto da vida, esperando que algum tipo de super-herói inutilizado pela Marvel aparacesse para salvá-la? - e aceitou a mão educadamente oferecida. Apertou a bolsa contra o ombro, como se aquela força pudesse de alguma forma aliviar toda a tensão que descontava em cada articulação. Já sabia a quem culpar se não conseguisse mastigar um pão sequer no dia seguinte, uma vez que estava praticamente causando estrago suficiente a um mês de bruxismo.
Desceram da aeronave, encontrando Azoff e alguns seguranças cuidando das malas. se espreguiçou, esticando os braços compridos, em uma tentativa pateticamente frustrada de alcançar os pés. Sua flexibilidade era uma gigantesca porcaria.
— Ele já te avisou dos óculos - Jeff comentou. — Bem pontuado.
— Eu sempre tenho bons comentários e conselhos, você só se nega a me dar créditos por eles - o rapaz reclamou, revirando os olhos por baixo das lentes escurecidas. Claramente o empresário não precisava ver a ação, para captar a atitude, tipicamente .
— Bem, tem bastante gente lá fora. Muitas câmeras, muitos gritos de fãs te esperando. Estão todos isolados da passagem, então não temos tempo e nem mobilidade para você interagir com elas. Faça isso no hotel, se quiser. O plano é passar reto e fazer isso rápido. Entendido?
— Socorro - murmurou, de forma quase inaudível.
apertou a mão dela levemente, fazendo com que ela se lembrasse de que ainda não a havia soltado.
— Já viu Pinguins de Madagascar? É o mesmo princípio: sorria e acene.
— Prontos? - Jeffrey perguntou no plural, mas olhava diretamente para ela, completamente ciente do tsunami de sensações que deviam estar bagunçando a última refeição em sua barriga da forma mais desagradável possível.
— Não acho que a minha resposta vá ser afirmativa em algum momento - ela admitiu. — Então, talvez seja melhor simplesmente arrancar o band-aid de uma vez só.
O empresário sorriu para ela, concordando. Seguiu à frente deles. e soltaram as mãos, mas permaneceram estritamente lado a lado do outro, preparados para enfrentar a multidão juntos.
Os gritos fizeram com que ela tivesse a mais plena certeza de que jamais seria capaz de cantar novamente pois nunca voltaria a ouvir a melodia ou as notas suaves de seu teclado ou violão. Provavelmente também não seria capaz de ouvir a própria voz e cantaria berrando, como uma senhora de noventa e dois anos com perda auditiva progressiva. Seria uma catástrofe.
Então vieram os flashes e ela entendeu como sairia ridícula e com os olhos fechados em todas as fotos se não tivesse colocado os óculos para se proteger minimamente das explosões em sua face. tinha erguido a mão, balançando-a freneticamente, enquanto sustentava um sorriso largo. se forçou a sorrir, ciente de que não receberia um Oscar ou um Globo de Ouro pela atuação horrorosa de quem não se importava com a situação.
Entre vários cartazes e plaquinhas com dizeres carinhosos - e alguns levemente obscenos - para , um chamou a sua atenção, mesmo que tão rapidamente enquanto caminhavam: uma cartolina grande sem nada escrito. Carregava apenas um desenho minuciosamente feito em tons variados de aquarela de Saturno. O sorriso que se seguiu àquela visão provavelmente era o mais verdadeiro de todos os últimos dias. Era sobre aquele tipo de coisa que Mia falava quando tentava lembrá-la, incansavelmente, de que tudo tinha seu lado bom e a balança, em algum momento, entraria em compensação para, em seguida, pender para o lado adequado.
Finalmente, chegaram ao grande carro preto, deslizando pelos bancos até estarem todos do lado de dentro, com os gritos finalmente abafados.
— Viu só? Sã e salva - brincou, tirando os óculos e pendurando-os na gola arredondada da camisa.
— E ouvindo alguns decibéis a menos - ela completou, coçando as orelhas como se pudesse se livrar daquela sensação de eco que parecia ter tomado posse de sua cavidade timpânica.
— É sempre muito alto - Jeff explicou. — Mas você vai se acostumar e parar de sentir tanto o impacto disso. Sei que agora tudo deve parecer muito aberrante e distante da realidade para que, um dia, você se habitue. Mas você vai. É só uma questão de tempo, de verdade.
— Então não se cobre - completou. — Não é para se sentir culpada ou incapaz de seguir com isso se ainda estiver assustada daqui um tempo. Você vai se habituar, mas não vai ser hoje e, talvez, não vai ser mês que vem também. É um processo gradual e lento. Vai ficando cada vez mais normal, até que a gente consiga silenciar um pouco a negatividade das coisas e prefira focar no lado bom.
— E dá certo? Digo, ignorar a parte ruim - ela perguntou.
— Às vezes - ele sorriu. — Nada nunca pode ser perfeito, não é?
Interrompendo o diálogo, Lights Up começou a soar pelos auto-falantes do automóvel, fazendo com que esboçasse uma careta.
— Essa música é sua - comentou, não como se fosse uma pontuação idiota, mas porque realmente não a conhecia e, simplesmente, tinha conseguido relacionar a voz ao rosto do homem sentado ao seu lado.
— Ela é mais legal no clipe, com várias pessoas seminuas se esfregando - ele comentou, rindo da fisionomia de reprovação que havia recebido de Jeffrey pelo que dissera.
— Gostei da letra - ela comentou, enquanto tamborilava os dedos perto da janela, já familiarizada com o ritmo após algum tempo de música. — Bem libertadora.
— Obrigado - sorriu, orgulhoso. Aquele entraria para a lista de comentários positivos/elogios favoritos dos últimos tempos.
Menos flashes os esperavam na entrada do hotel, mas o motorista se dirigiu imediatamente para a garagem subterrânea, garantindo a eles alguma privacidade pelo uso direto do elevador até os quartos.
Azoff destrancou a única porta existente no último andar, permitindo que todos tivessem acesso à sala - bem ampla para um hotel. travou na porta, evidentemente impressionada com o tamanho do lugar.
— Para que um lugar tão grande?
— Para darmos festas enormes de madrugada - respondeu.
— Já conversamos sobre festas. - Foi a vez de Jeff revirar os olhos. — Vamos usar o espaço para arrumar as últimas coisas. É trabalho.
O cantor se aproveitou do discurso fantasiado de sermão - ou sermão fantasiado de discurso? - e se jogou no sofá, puxando uma almofada para encostar a cabeça.
— Tem três quartos depois daquela parede. Um para cada um de vocês e um para mim e dois dos seguranças. A banda está no andar debaixo e o resto da equipe abaixo deles.
— O quarto do meio é meu - berrou, levantando-se e saindo correndo.
olhou para Jeffrey, sem entender absolutamente nada.
— Já estivemos aqui antes - ele explicou. — Se ele vai ficar com o quarto do meio, você fica com o do final do corredor. Bom, estabeleçam-se e arrumem as suas coisas.
Ela puxou a mala até o quarto, que, finalmente, era um pouco menos exagerado. Uma cama de casal, um armário, uma penteadeira e uma televisão. Travou uma batalha interna, superando a gigantesca vontade de se jogar naquela cama e terminar o sono que começara no avião a fim de organizar suas coisas. Dispôs alguns itens essenciais sobre a penteadeira, aproveitou-se dos cabides e do armário para pendurar as roupas que amassariam até serem retiradas da mala e decidiu, por fim, tomar um banho.
Estava penteando os cabelos quando ouviu dois toques leves em sua porta.
— Pode entrar.
apareceu, com a bochecha um pouco amassada. Devia ter cochilado naquele tempo. escondeu sua vontade de sorrir, sentindo-se menos anormal pela possível vergonha de algumas horas atrás. Tinha acabado de fazer uma descoberta incrível: ele também era um ser humano. E ela, com certeza, deveria se importar menos, mesmo que fosse quase impossível em meio a tantas pessoas completamente desconhecidas.
— Jeff pediu para irmos para a sala. Acho que o tal trabalho começou - falou e foi seguido por ela até a sala, encontrando o homem acompanhado de uma mulher elegante e de traços marcantes.
— Celina! - caminhou até ela com os braços abertos, tendo seu gesto correspondido. — Essa é a .
— Prazer, ! Eu sou a Celina e trabalho com o figurino da turnê - ela se apresentou, cumprimentando a moça. — vai provar algumas coisas e precisamos conversar sobre o que você vai vestir no primeiro show, além de tirar as suas medidas.
— As suas roupas vão ser encomendadas com urgência - Azoff se pronunciou. — Temos tempo o suficiente para fazer isso acontecer até o primeiro show, mas não o suficiente para desperdícios. Por isso, pedi que Celina viesse aqui o mais rápido possível.
A garota assentiu, concordando. Não era como se parecesse que ela tivesse algo a dizer em colaboração àquela situação de toda forma.
— Bem, tenho que ir atrás de algumas coisas, então vou deixar vocês três começarem com os trabalhos de vocês.
O empresário se retirou, levando com ele o singelo e mínimo fio de conversa que havia restado, abandonando para trás uma situação relativamente constrangedora.
— O que vocês pensaram para ela? - Foi ele que puxou o assunto, fazendo Celina parar de observar a garota por alguns instantes.
— Acho que poderíamos começar com algo que seja próximo de um macacão, mas bem transparente. Seria preto, totalmente escuro nas regiões de roupa de baixo, mas com detalhes transparentes na barriga e nas pernas. - Ela puxou o celular, procurando um desenho. — Algo parecido com isto.
e analisaram bem o desenho. Era bonito, isso era incontestável.
— Eu gosto - comentou. — Vai ficar bem em você.
— Também gostei - ela concordou.
— Vamos trabalhar para descobrir como será o seu estilo em palco ao longo desses dias, está bem? Mas precisamos dos figurinos dos primeiros shows rápido, então vou tentar manter as ideias mais ou menos nessa linha de criação, ao menos até que você esteja confortável com outras coisas. Algo contra vestidos?
— Não.
— Ótimo! Agora, se você puder tirar essa blusa grossa, eu agradeço.
— Ah… Eu acho que eu vou esperar vocês terminarem no quarto - comentou, sem graça.
— Por quê? - perguntou, com uma risada debochada. — Nunca viu uma mulher de sutiã na vida, ?
— Não, não é isso. É que…
Mas ela já tinha grudado as mãos na barra da blusa e a puxado por cima do pescoço. O rapaz desviou o olhar rapidamente, arrancando risadas altas de Celina.
— Nem parece que você sabe plenamente que todos adquirem intimidade e conhecimento indesejado do corpo do outro em turnê. Você literalmente era de uma boyband - Celina brincou.
— Disse bem. Boyband.
— Menos de duas horas atrás você estava fazendo graça sobre as pessoas seminuas se esfregando no seu videoclipe - lembrou. — Pode cortar esse joguinho de falso pudor.
Ele se deu por vencido, virando-se e se acomodando no sofá como uma pessoa normal, enquanto Celina passava a fita métrica em múltiplas direções, cobrindo ombros, busto, cintura e todos os outros pontos em que a roupa teria que servir.
Claro que não havia reparado nem um pouco no sutiã nadador ornamentado por renda branca, cuja pedrinha brilhante logo entre os seios provavelmente indicava o local de seu fecho. Claro que não. Nem por um segundo sequer. Mas ele, com certeza, tinha visto a pequena tatuagem nas costelas dela.
— Você mentiu para mim - ele comentou, fazendo com que a garota fizesse uma careta enquanto a fita circundava seu quadril.
— Como assim?
— Você disse que não era minha fã, que isso era coisa da Mia.
— E é verdade - ela rebateu. — Por que não seria?
— Sua tatuagem - ele apontou.
Ela olhou para a própria costela, analisando o desenho que conhecia bem, pois já fazia parte de sua pele há alguns anos.
— O que um avião de papel tem a ver com você?
— Não é como se você não soubesse - ele comentou. — Meu colar. Usei aquele pingente no pescoço por séculos.
— Eu realmente não fazia a mínima ideia.
— Sei.
— Sinto muito em te decepcionar, mas é só um desenho bonito. Nem tudo é sobre você.
deu de ombros, com um sorriso sacana no rosto.
— Vou continuar acreditando que é uma homenagem a mim - disse simplesmente.
As duas mulheres menearam a cabeça, sem conseguir levar a sério o comportamento dele.
— Vem para cá logo e para de encher o saco dela - Celina chamou.
se vestiu novamente, ocupando o lugar no sofá enquanto o cantor experimentava alguns dos paletós novos, averiguando e aprovando as estampas.
— O que acha desse? - Ele pediu sua opinião acerca de uma peça branca com várias flores de tamanho médio em tons de rosa e verde.
— Parece exatamente o tipo de coisa que você usaria - ela respondeu, ajeitando as meias nos próprios pés.
— E como sabe o tipo de coisa que eu uso se não é minha fã?
Ela arremessou uma almofada no rosto dele.
— Você já experimentou pelo menos dez estampas diferentes. Vou assumir que é esse o tipo de coisa que você usa ou a Celina sequer teria se dado ao trabalho de trazer tanta coisa até aqui.
— Desiste - a figurinista aconselhou, dando um leve beliscão nele. — Já está vergonhoso demais até para você.
Ele não se importava. E, no fundo, tinha um pouco de pena de por ter que suportá-lo durante a turnê. Afinal, ele só estava começando.


❀❀❀



A manifestação sonora que produziu poderia ser, com pouco prejuízo de valor, descrita como um gemido do mais puro prazer e deleite. Ela havia atingido uma sensação de plenitude tão completa que nem o budismo seria capaz de explicar.
— Bom, você não podia visitar a Itália pela primeira vez sem comer uma pizza originalmente italiana. A única que não faria com que tataravós perdidas pela árvore genealógica se revirassem em seus túmulos por traição à pátria - Jeff brincou, limpando a própria boca com um guardanapo de tecido claro.
A garota ainda tinha a boca cheia daquela massa fofa, coberta por uma quantidade generosa de molho de tomate e muita mozzarella fresca. Estava se deliciando e regozijando com cada mísera lasca daquilo desde o início e não pretendia ser rápida com o último pedaço daquela obra diretamente proporcionada pelos deuses. Se Vênus era a deusa do amor, a cultuaria sem pensar duas vezes em nome de seu mais novo e inabalável amor: a pizza italiana.
— Podemos sair para tomar gelato amanhã? - perguntou. — Faz parte do pacote da primeira visita, você sabe disso. Ela não pode ir embora daqui sem experimentar.
— Vocês dois têm uma entrevista amanhã - Azoff comentou, pegando de surpresa. — Quando falou sobre você na BBC, acabou rolando um acordo silencioso de que eles seriam os primeiros a entrevistar vocês dois juntos depois que ele a encontrasse. Acontece que eles estavam falando tão sério que nos seguiram até aqui para conseguir a matéria que tanto queriam. Será amanhã pela tarde, em um estúdio que eles alugaram na cidade.
— Mais um motivo para tomarmos gelato - interveio. — Já vamos estar na cidade mesmo.
— Sim, podem tomar seu gelato após a entrevista - o mais velho concordou. — , tudo bem para você?
Ela balançou a cabeça, concordando com alguma hesitação, provavelmente mais por se ver sem opção do que por realmente estar pacificamente de acordo com tudo aquilo.
— Eu não sei muito bem como eu deveria me comportar. O que dizer, o que fazer…
— Seja você mesma - respondeu simplesmente. — Pode parecer clichê e totalmente da boca para fora, mas não é. Os únicos motivos para não ser você mesma é ser uma mulher preconceituosa, criminosa ou apoiar pessoas que são uma dessas coisas.
— O único crime que eu posso cometer é o de agredir alguém para levar um estoque dessa massa para Londres.
riu. Era claro que sempre poderia se decepcionar com as pessoas conforme o tempo ia passando, mas não era essa a impressão que tivera com ela desde o primeiro momento. Ele costumava ser muito bom com as suas intuições, principalmente no que dizia respeito a reconhecer pessoas escrotas e babacas. definitivamente não parecia nenhuma dessas coisas para ele.
— Fica tranquila, de verdade - Jeff assegurou. — O é um sem noção em grande parte do tempo, mas ele fala a verdade quanto a isso. Fingir ser algo que você não é, além de doer, é perigoso demais. Uma hora você acaba se perdendo no personagem e daí é ladeira abaixo. Seja você. Essa é mais uma das coisas que continua igual ao mundo exterior: as pessoas vão ter que gostar de você pelo que você é. E, se não gostarem, que se dane. Ninguém vai agradar todo mundo nunca. É uma escada de aprendizado eterna conseguir minimizar e silenciar as críticas não construtivas e o ódio sem fundamento. Acho que nunca é totalmente absoluto. Ninguém é inatingível, por melhor que lide com tudo isso.
O cantor concordava em gênero, número e grau com aquilo. Nunca passava, mas era um fardo cada vez menor, que assolava o peito um pouco menos todo dia. Principalmente quando você decidia lidar com esse tipo de comportamento simplesmente se afastando dele e agindo como se tivesse morrido ou desaparecido do mapa completamente para viver em uma toca inabitável. Edward era profissional nessa arte.
— É sacanagem que vocês pediram pizza e não nos chamaram - uma voz masculina reclamou à porta, entrando em seguida com outras três pessoas.
— Será que é porque você não sabe se comportar com pizza, Mitch? - perguntou, levantando-se de seu lugar para cumprimentar os “convidados”.
— E o meu sossego acaba de chegar ao fim - Jeff comentou, arrancando sorrisos do grupo. — Estarei no quarto e, por favor, não façam nada que vá demandar que eu leve alguém para o hospital.
— Pode deixar. - bateu uma continência que, com certeza, teria sido uma ofensa a qualquer grupo militar.
— Apresente a banda a e não bebam demais.
Dito isso, o empresário se retirou, deixando para trás as seis pessoas que se encaravam mutuamente, travadas porque o único que conhecia a todos era um anfitrião incompetente.
— Você é um puta inútil - uma das mulheres reclamou, revirando os olhos, e estendeu uma mão para a garota. — Oi, eu sou a Charlotte! Toco teclado e achei os seus vídeos sensacionais. Muito talentosa. Podemos tocar juntas uma hora dessas.
— Eu adoraria - respondeu, sincera.
Tocar com alguém? Ela tinha crescido com uma paixão solitária, sem pais, amigos ou professores que a incentivassem e acompanhassem em coisas tão simples quanto se sentar ao piano ou aplaudir uma doce melodia. Era impossível conter um largo sorriso quando a ficha finalmente caía de que tinha com quem dividir um pouco dessa paixão. Definitivamente, não estava mais sozinha.
— Mitch - um dos rapazes disse. — Guitarrista em tempo integral e amante do nas horas vagas.
— Quando você vai aprender a não expor nossa relação para o mundo? - reclamou, meneando a cabeça.
— Eu sou a Sarah e é muito bom finalmente te conhecer. Esse cara não parou de falar do seu vídeo por um minuto sequer até te convencer a vir.
— É como se eu nem tivesse acabado de falar sobre a exposição desnecessária - comentou, ainda mais descrente. — Vocês são péssimos.
O último homem se aproximou, com um sorriso.
— Oi, eu sou o Adam - e antes mesmo que pudesse acenar de volta ou dizer qualquer coisa, ele tinha partido para um abraço, erguendo-a do chão e recebendo um gritinho surpreso em resposta.
— Certo. Você é meio alto - ela comentou, sentindo seus pés finalmente retornarem ao chão que ela tanto valorizava.
— E você é linda - ele disse, em um elogio completamente natural e talvez desprovido de quaisquer interesses ou segundas intenções. — Já gostei de você.
— Que ótimo! Então todos nos gostamos - os interrompeu, com o tom de voz levemente alterado. — Quem quer uma bebida?
Mitch disfarçou a risada, enquanto seguia o amigo até a pequena geladeira. Distribuíram um pouco de álcool para cada e se sentaram no sofá para jogar conversa fora, um costume que logo aprenderia ser relativamente comum entre eles.
— Então, - Claire começou, após um longo gole em sua bebida. — De onde você é mesmo?
— Minha família é de South Shields, mas eu me mudei há alguns anos para Londres para começar a minha vida em uma cidade maior, fazer a faculdade e tudo mais.
— Você faz neurociência, não é? - Sarah perguntou, tendo um aceno de confirmação em resposta. — Nem imagino como deve ser. Só de lembrar as aulas de fisiologia do ensino médio já tenho desespero e pesadelos horrendos.
— Eu adorava biologia - Adam interveio. — Mas adorar com certeza não significa que eu era bom.
— Eu gosto bastante - falou, enquanto bebia sua cerveja. — Não é nem um pouco simples, mas era o que eu gostava, então, por que não?
colocou um pouco mais de uísque no seu copo, enquanto observava cada palavra e movimento da conversa, sentindo-se mais no humor e na posição de um espectador ouvinte que de um intermediário ativo naquele momento. Com a loucura dos últimos dias, nem ele próprio tinha conseguido tempo para absorver a mudança repentina e como havia praticamente feito o mundo parar por alguns dias só para que ele pudesse tê-la ali, exatamente naquele instante, conversando com a sua banda como se já fizesse parte de tudo aquilo há décadas.
— E vocês estão juntos desde o começo? - A garota quis saber.
— Desde 2017 - Mitch assentiu. — Às vezes parece que foi ontem, mas, quando usamos os números, percebemos que já faz um tempinho bem razoável.
— Já são alguns anos de C.H.A.S.M.; já rimos muito, tocamos para caramba, brigamos algumas vezes… Mas, no fim do dia, acaba que somos uma família e é sempre bom acolher um membro novo a ela - Charlotte disse, sorrindo. Aparentemente, assim como , ela adorava sorrir e tinha motivos para isso, considerando a beleza que irradiava com tanta facilidade.
— Eu não sei o que eu sinto mais - Mitch tornou a falar. — Se é alegria em te receber e ter alguém novo para compartilhar as coisas nessa turnê ou se é pena por você ter que aguentar esses cinco durante tanto tempo.
— Vai com calma - finalmente se pronunciou, olhando firmemente para . — Ela ainda não concordou com mais de um show. Mas eu tenho fé que ela vai.
— Só me convencer - ela deu de ombros, pegando outra garrafa para si e para Sarah, cuja bebida também já havia terminado.
— Isso é um desafio? - perguntou, com as sobrancelhas erguidas. — Alguém devia ter te avisado de que me desafiar era uma péssima ideia.
— E é a partir de agora que ele fica insuportável - Adam disse, dando um longo gole no próprio uísque.
Todos riram e continuaram bebendo até ter espaço na geladeira suficiente para uma manhã inteira de compras no supermercado. Tinham falado de absolutamente tudo. Discutido o novo disco do Coldplay, o porquê seria altamente clichê demais incluírem um cover do Elvis Presley na setlist da turnê, o impacto da música britânica desde os Beatles e os Rolling Stones, contado piadas horrorosas que não faziam sentido nem para quem as contava… Já tinham ultrapassado a cota de risadas e assuntos aleatórios por uma noite. Provavelmente era por essa leveza e tanta naturalidade que demorou tão pouco para se sentir totalmente em casa, naquela sala grande demais, com cinco pessoas que ela mal conhecia.
Tão em casa que acabou se encostando demais e apagando no sofá bem no meio da conversa. Foi Adam quem se deu conta primeiro:
— Acho que ela capotou.
— Ela não dormiu bem nos últimos dias - explicou. — Tudo o que aconteceu… Ela é muito forte e determinada, mas o sono de qualquer um vai para o saco com tanta coisa e, principalmente, decisões tão grandes para se fazer assim de repente.
— Eu imagino como deve ter ficado a cabeça dela quando tudo isso começou - Sarah disse, abaixando o tom de voz, enquanto observava o sono pacífico da garota ao seu lado.
— Soma isso à viagem repentina e ao álcool e temos o combo sonífero completo - Mitch comentou, brincando. — Acho que já deu a nossa hora, vamos deixar a novata descansar.
Eles se levantaram, colocaram as garrafas vazias no lixo e os copos sujos na pia, evitando ao máximo barulhos altos demais. os acompanhou até a porta.
— Você quer que eu a leve até o quarto? - O baixista ofereceu.
— Não, pode deixar que eu cuido dela.
Charlotte repuxou levemente o canto do lábio, observando a expressão do rapaz.
— Tenho certeza de que sim.
Com a porta fechada, caminhou calmamente até , abaixando-se perto dela. Ela parecia tão em paz, tão tranquila. Seria invasivo e meio assustador tirar uma foto para guardar aquele momento, mas ele queria se lembrar da pureza dele nos próximos dias. Ela poderia ser pintada pelo mais habilidoso dos artistas plásticos e, mesmo assim, ele duvidava que o retrato impecável pudesse representar a beleza, a nitidez e a autenticidade daquele fragmento singelo de tempo; tão simples e verdadeiro que mal poderia ser descrito.
Pensou em cutucá-la, em chamá-la baixinho, ou tocar seus ombros de leve, a fim de fazê-la despertar. Não sabia qual seria a forma mais adequada e, sinceramente, tinha pena de acordá-la depois de tudo pelo que ela havia passado. Em especial, por tudo que ele havia feito com que ela passasse. Não podia negar a parcela de culpa que compunha aquela sensação.
A ideia final era horrível e ele começou a torcer para que não desse absolutamente tudo errado. Com toda a delicadeza e vagareza possíveis, passou um braço por suas costas e o outro por trás de seus joelhos, erguendo-a calmamente do sofá.
O resmungo que veio em seguida quase fez seu coração parar de vez. Contudo, ela não ousou abrir os olhos, provavelmente já estava em universos muitos distantes em seus sonhos para se incomodar com o toque um tanto desajeitado, por mais que todos os esforços estivessem sendo feitos.
Com o joelho, ele empurrou a porta do quarto dela e caminhou até a cama, tomando todo o cuidado para encaixá-la no colchão sem movimentos bruscos. logo se enroscou ao travesseiro e sorriu sozinho, imaginando se era assim quando era pequeno, dormia em absolutamente qualquer lugar da casa e seu pai acabava o levando até o quarto; local que ele só descobria estar quando acordava assustado no dia seguinte. Sabia qual era a sensação de ser cuidado, mas agora estava na posição de quem cuida e se sentia estranhamente feliz e satisfeito com isso.
Puxou a coberta sobre ela e decidiu dar sua missão por cumprida, podendo finalmente buscar o seu próprio sono. Antes de fechar a porta do quarto dela atrás de si, ele deu uma última olhada para trás, sorrindo ao vê-la dormindo tão calmamente. Os próximos dias seriam loucos e, apesar de ele ter jurado e se comprometido fielmente a dar o seu melhor para que as coisas fossem o mais leve possíveis, ela poderia aproveitar uma boa noite de sono.

Capítulo Seis

A whole new world
(Don’t you dare close your eyes)
A hundred thousand things to see
(Hold your breath, it gets better)
I’m like a shooting star, I’ve come so far
I can’t go back to where I used to be
A Whole New World - Aladdin: Original Motion Picture Soundtrack


sentia como se sua cabeça tivesse sido o alvo de um daqueles brinquedos de parques de diversão em que o objetivo era acertá-lo com um martelo com toda a força possível. Para piorar, a boca estava completamente seca. Precisava de um copo de água.
Levantou-se ainda meio tonta, procurando seus chinelos em algum lugar por perto da cama. Ao encontrá-los, deu-se conta de onde estava. E de que não estava sozinha. Precisava tirar o pijama antes de sair do quarto.
Somente naquele momento ela olhou para baixo, finalmente percebendo que não estava de pijama. Continuava com a mesma roupa do dia anterior no corpo e concluiu que realmente não fazia ideia sequer de como havia chegado no quarto - provavelmente mal o suficiente para se esquecer até mesmo de trocar de roupa.
Procurou uma roupa simples na mala e uma calcinha e foi direto para o chuveiro. Precisava se parecer menos como alguém que tinha praticamente falecido e ressuscitado durante o sono. Até porque aquela dor de cabeça provavelmente significava que ela já tinha passado vergonha na noite anterior. De novo.
Deixou a água excessivamente quente - um hábito que ela não conseguia abandonar a menos que a temperatura lá fora estivesse prestes a estourar os termômetros - escorrer pelas costas. Suspirou um pouco mais alto, já sentindo o calor fazer efeito, enquanto repassava mentalmente as informações que Jeff tinha lhes dado no dia anterior.
Ela tinha uma entrevista. A primeira entrevista de sua vida que não tinha absolutamente nada a ver com a vida acadêmica ou um emprego. Já tinha mudado de ideia quanto a pensar que o bate-papo com a dona da última loja em que trabalhou por um tempo (para conseguir dinheiro para os livros da faculdade) era o momento mais assustador de provação a outra pessoa em sua vida. Não. Aquilo era com toda a certeza do universo um milhão de vezes pior.
“Seja você mesma”, ela ouvia a voz dos dois repetindo em sua cabeça. Que porcaria de dica para alguém que pensava que seu melhor ‘ela mesma’ era abaixar a cabeça e ser invisível pelo maior tempo possível. Mia sempre reclamara sobre aquela necessidade estranha de viver brincando de esconde-esconde com o resto do universo. sabia que a amiga estava certa. Mas não tinha tanta certeza sobre ter uma entrevista importante ao lado de - o que aumentava o interesse da espécie humana em um milhão por cento - como seu primeiro momento fora do próprio casulo.
Por outro lado, bom, não era como se ela tivesse muita escolha. Não depois de ter concordado com aquilo.
Respirou fundo enquanto se trocava, tentando afastar os pensamentos negativos. A última coisa que precisava naquele momento era se sabotar. Deveria simplesmente aceitar que não tinha conhecimento ou vivência alguma para tirar expectativas daquela situação. E torcer pelo melhor.
Em meio àqueles devaneios, acabou estranhando algo que parecia um relevo anormal na parede. Alguma coisa ali não parecia estar do jeito que deveria. Acabou dando de ombros. Não entendia absolutamente nada e provavelmente era só uma impressão estranha por conta de sua visão embaçada. Definitivamente era coisa de sua cabeça.
Finalmente destrancou a porta do banheiro, saindo de lá acompanhada por um bafo de vapor resultante do banho em ebulição.
— Você causou um incêndio no seu banheiro? - perguntou, assustando-a um pouco. Não esperava encontrá-lo na porta de seu quarto.
— Foi um pequeno - ela respondeu, sorrindo. — E eu já apaguei.
— Ufa - ele fez um movimento exagerado de alívio, quase teatral. — Vem. Hora de comer.
— O que vocês costumam comer de café da manhã quando viajam assim?
deu de ombros.
— Depende de onde estamos, na verdade. Mas agora a gente vai almoçar mesmo, Bela Adormecida.
arregalou os olhos, correndo para o celular sobre uma das zonas vazias do armário. Já era mais de meio-dia e ela sequer tinha se dado conta disso.
— Meu Deus!
— Fica tranquila. O fuso horário e o voo não colaboram - ele tentou acalmá-la. — Além do mais, é exatamente por isso que o Jeff só marca os primeiros compromissos de tarde. Dá tempo de a gente ir se acostumando sem ser tão desumano.
— Vocês estavam me esperando? Meu Deus, invade esse quarto e me acorda - ela pediu. — Não quero atrapalhar ou atrasar vocês.
deu uma risada gostosa em frente ao terror momentâneo dela.
— A gente também praticamente acabou de acordar - ele explicou. — Sério, relaxa.
Ela concordou com a cabeça, seguindo-o para fora do quarto. O empresário já estava à mesa com pratos de massa recheada com queijo fresco para todos.
— Vocês vão me deixar mal acostumada.
— Estou dando uma colher de chá para vocês mesmo - Jeff comentou. — Não vão pensando que eu não vou cobrar alimentação saudável em breve.
— Sabia que você estava sendo legal demais. - revirou os olhos.
— Você sabe como funciona. Não vou deixar você comer só besteiras, mas isso não significa que não possa fazê-lo moderadamente. Equilíbrio, .
O cantor riu, enquanto levava um pedaço de massa à boca. Azoff sabia que ele só estava querendo irritá-lo. Era como algum tipo de passatempo para ele.
— Preparada para a entrevista? - O mais velho perguntou para ela, tentando analisar o nível de aflição da garota.
— Quão grande é o problema se eu disser que não?
Jeff sorriu, amigavelmente.
— Não é problema algum. Acho que ninguém nunca está totalmente pronto para essas coisas. Mas eu prometo que você vai sair de lá dizendo que não foi tão ruim quanto pensou.
— O acordo que te dá permissão de me fazer de saco de pancadas caso as coisas sejam piores do que parecem ainda está de pé - lembrou, dando uma piscadela rápida para a qual a garota simplesmente revirou os olhos antes de rir.
— De toda forma, eles não costumam ser sem noção de fazerem perguntas muito problemáticas - Jeff garantiu. — É bom que a sua primeira experiência seja com a Clara. Ela é bem bacana.
assentiu, enquanto se levantava.
— Não precisa se vestir super arrumada, viu?
soltou pelo nariz algo que estava entre uma bufada irônica e uma risada.
— Eu nem tenho roupa para ir super arrumada. Foi você quem disse que não era para trazer coisas demais, lembra?
— Às vezes eu me esqueço de como dou os melhores conselhos.
Jeffrey jogou as embalagens do almoço no lixo e foi checar suas mensagens e compromissos enquanto esperava os dois se aprontarem.
Incrivelmente, ambos estavam de volta rápido o suficiente para que o empresário não precisasse lembrá-los de que tinham horário marcado e precisavam sair.
usava uma blusa das Spice Girls e calças pretas. , por sua vez, tinha escolhido uma calça jeans rasgada em estilo boyfriend e uma camiseta preta na qual se lia “Introverts Unite” .
— Gostei da blusa - ele comentou.
— A sua definitivamente ganhou. - Ela deu de ombros.
Estava sendo sincera. Realmente tinha achado brilhante o fato de ele estar usando uma estampa das Spice Girls com um quê de um toque vintage. Talvez estivesse aprendendo algo sobre o homem à sua frente afinal: no que dizia respeito ao estilo, usava basicamente o que bem entendia. Sem mais explicações.
— É o seguinte - Azoff começou. — Eu tenho algumas coisas para resolver antes de viajar.
— Você vai viajar? Achei que fosse ficar com a gente - o interrompeu.
— Eu vou amanhã, mas volto antes do show de abertura da turnê. Vai ser coisa rápida.
— Certo, continue.
— Milo vai levar vocês até o lugar em que a BBC marcou a entrevista. Vocês têm carta branca para visitar uma gelateria depois. Mas é isso. Não precisamos de tumultos ou multidões enquanto vocês estão pela rua. Não quero ter que mobilizar toda a equipe de segurança para escoltar um momento que pode ser mais tranquilo sem isso tudo.
estremeceu ao ouvir as palavras “tumultos” e “multidões”. Ainda mais juntas daquele jeito. Começou a expirar o ar com mais força, tentando driblar a aceleração de seu batimento cardíaco. Já tinha debatido seus conflitos internos quanto à situação o suficiente para concluir que não era nada demais e que ela podia, sim, fazer aquilo. Se tinha conseguido passar em bioquímica sem exame, então conseguiria sobreviver até o fim daquela entrevista - e talvez também o de outras futuras.
Futuro. Ela mal conseguia fantasiar sobre qualquer tempo que não fosse o exato seguinte. Não sabia o que pensar ou mesmo o que esperar. Para alguém que divagava tanto e sempre tinha todas as possibilidades - principalmente as ruins - em mente, ela não poderia estar se sentindo mais como uma folha em branco. Incerta. Insegura.
— Vamos? - a puxou de volta daqueles pensamentos.
tentou sorrir para ele da mesma forma fácil e despreocupada que ele fazia em sua direção. Duvidava muito que tivesse conseguido qualquer feição que não fosse uma careta indecifrável. Deveria ter se parecido mais com alguém que precisava urgentemente encontrar um banheiro do que com alguém que realmente estivesse tranquila.
— Vamos - respondeu finalmente, seguindo-o até a porta.
— Tchau, Jeff. Não precisa nos esperar acordado.
— Nos seus sonhos, garoto.
O trajeto do elevador até o carro pareceu pesado. se perguntou se não teria sido melhor ter colocado um casaco grande e grosso que pudesse fazê-la praticamente sumir dentro dele. Queria um lugar para esconder as mãos. Foi então que se lembrou dos bolsos da calça. Mais precisamente, do que trazia dentro de um deles.

“Eu vou surtar. Eu estou entrando em colapso. Não consigo fazer isso.”

Seus dedos se moveram impressionantemente rápido. Provavelmente estavam tão nervosos quanto ela, sabendo exatamente as palavras que descreviam o que eles sentiam.
A resposta chegou ainda mais rápido do que ela esperava.

Mia: “Mulher, eu vou ter que pegar um voo emergencial para a Itália para dar na sua cara?”
, você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Tem um talento enorme e um coração maior ainda. O mundo tem sorte de te ter e devia aplaudir cada passo que você dá.”
“E, acima de tudo isso, você é forte, sim, mesmo que às vezes se esqueça disso. Você consegue fazer absolutamente qualquer coisa. Não é uma entrevista que vai te parar.”
“E eu estou vendo os certinhos ficando azuis, então trata de me responder. Eu vou te caçar na Itália. Não é piada.”

acabou rindo. Só a melhor amiga mesmo seria capaz de conseguir tal feito naquele momento.
— Mia? - perguntou, desviando a sua atenção por alguns instantes.
A mulher assentiu.
— Diz que eu mandei um beijo - ele pediu.

“Não precisa vir, por mais que eu fosse adorar ter você aqui. Já estou menos assustada. Suas ameaças às vezes funcionam.”
“Ah, e te mandou um beijo!”

O “online” abaixo do nome de contato logo foi substituído por um “digitando…”.

Mia: “Era para eu te matar, não o contrário. Ridícula.”
“Mas pode mandar um beijo para ele também. Quem sou eu para recusar uma coisa dessas?”
“Boa entrevista, amiga. Vai dar tudo certo. Mostra para o mundo como você é maravilhosa.”


agradeceu, antes de colocar o celular no modo avião para poupar a bateria. Apesar de curta, aquela conversa já tinha mudado seu ponto de vista o suficiente para que não acabasse tendo realmente um colapso. Tinha relaxado ao ponto de não perceber quando Milo estacionou, anunciando que tinham chegado ao destino planejado.
Desceram juntos, com os óculos escuros escondendo os olhos - como ela estava começando a se acostumar a fazer -, e caminharam até a entrada do local, encontrando uma funcionária simpática que lhes indicou o caminho prontamente.
À porta, se colocou à frente dela, buscando seus olhos com toda a atenção e preocupação. se sentiu exposta com a profundidade de seu olhar e o arrepio inconsciente que um gesto tão mínimo tinha causado em sua espinha.
— Eu sei que a resposta provavelmente continua sendo não - ele disse sério. — Mas você está pronta para entrar? Podemos esperar um pouco. De verdade.
— Não, eu estou pronta - ela respondeu, fechando as mãos em punho e respirando com toda a força antes de, enfim, encarar o novo desafio que se consolidava à sua frente.
— Ei, olha só quem chegou - Clara comentou, radiante, levantando assim que viu a porta da sala sendo aberta.
Abraçou , brincando com o cantor, antes de se dirigir à mulher.
, garota, você não faz ideia de como eu estava louca para te conhecer. E, caramba, você é muito mais bonita do que eu esperava. - A entrevistadora ergueu a mão em um high-five, recebendo um toque acompanhado de risadas.
Mesmo que significasse pouco enquanto o momento não tivesse adquirido formalidade e oficialidade e a câmera permanecesse desligada, ela respirou de forma mais calma, entre um sorriso aliviado. Exatamente como Jeff havia dito, Clara parecia muito bacana. Talvez não devesse ter se preocupado tanto.
— As câmeras vão ficar daquele lado - Clara apontou. — Não precisam olhar para nenhuma delas diretamente. Vamos tentar fazer isso de uma forma descontraída, como se fosse um bate-papo mesmo, certo?
Os dois assentiram, enquanto se sentavam lado a lado em um sofá de couro vermelho com detalhes brancos um tanto excêntricos.
, linda, sei que é a sua primeira vez fazendo algo do tipo - ela continuou. — Pode ficar tranquila, viu? E se acontecer de você se sentir constrangida de alguma forma, pode parar e avisar, ok? Nós damos um jeito de cortar isso na edição depois.
Enquanto assentia, sentiu o coração ficando mais leve. Não sabia nem como agradecer pelo gesto ou explicar como seu desconforto tinha se transformado do Empire State Building em um pequeno sobrado familiar.
— Podemos começar? - A resposta recebida foi positiva e logo o rapaz responsável pelas câmeras fez um aceno, sinalizando que estavam gravando. — Olá, ouvintes e espectadores da BBC Radio 1. Eu sou a Clara, mas vocês já me conhecem. Hoje, estou aqui na Itália, trabalhadíssima na fineza e muito bem acompanhada de dois dos rostos mais bonitos do Reino Unido. Isso é sério, eu estou definitivamente apaixonada pelos dois.
não conseguiu impedir que o sorriso se formasse.
— Para iluminar o dia de vocês, e .
A garota imitou o rapaz, acenando na mesma direção que ele.
— Acho que todos nós podemos dizer que ficamos completamente presos à busca pela Saturno como se fosse um seriado da Netflix. Estávamos todos tão ansiosos para esse momento que era até difícil de explicar para alguém de fora.
“Uma mulher extremamente talentosa, postando covers maravilhosos - e, sim, eu assisti a todos - e chamando a atenção de , simplesmente um dos artistas mais comentados e influentes dos últimos tempos. Gente, realmente é melhor que muito filme.”
gargalhou com o comentário, sentado de forma levemente largada e despojada.
— Claro que você adorou me ver sofrendo.
— Um pouquinho - Clara admitiu. — Mas estávamos todos torcendo muito para que esse encontro acontecesse e você sabe disso. Inclusive, é exatamente isso que queremos saber. Como foi? Como aconteceu? Podem contar tudo.
— Bem, ele basicamente surgiu na porta do meu apartamento de noite - respondeu. — Minha amiga achou que era o entregador de pizza e abriu a porta para dar de cara com ele.
— Bom, pelo menos sabemos que ela não precisa mais gastar com cardiologista, não é? O coração com certeza está ótimo.
riu, concordando. Mia com certeza adotaria aquela ideia assim que a ouvisse.
— Mas eu fui muito educado - assegurou. — Foi uma conversa super tranquila, apesar de eu praticamente ter ajoelhado aos pés dela para implorar para que ela aceitasse participar de pelo menos um show da turnê comigo.
— Claro! Imagina só! Ninguém mais consegue viver sem ouvir vocês dois cantando Two Ghosts juntos. Acho que a gente vai precisar declarar feriado universal para que todo mundo possa parar para viver esse momento.
— Clara, por favor, para de colocar pressão - o cantor pediu, brincalhão. — Você ouviu a versão dela? É um milhão de vezes melhor que a minha. Eu estou apavorado de cantar com ela. Vou acabar perdendo a minha carreira.
— Até parece. - respondeu, com uma careta.
— Vocês dois são ótimos - Clara retomou sua participação na conversa. — Então, vai participar de um show só? Bolonha terá exclusividade?
Os dois se entreolharam, sabendo que nenhum deles ainda tinha a resposta para aquilo. Vários entraves e ocasiões ainda estavam colocados entre os próximos dias para que a decisão fosse tomada.
— Na verdade, eu tenho zero experiência cantando em qualquer lugar que não seja meu apartamento - admitiu. — Então pensamos em fazer um teste.
— Isso - concordou rapidamente. — Quem sabe ela não decide ficar mais um pouco?
— Vamos torcer para que sim! - Clara respondeu animada. — , que música você está mais ansioso para performar na turnê?
O rapaz olhou para o teto, tomando alguns segundos para pensar sobre a indagação feita.
— Eu gosto muito desse álbum, sabe? Depois de tanto tempo travado pensando no que lançar como segundo disco, acho que consegui fazer um trabalho que verdadeiramente me agradava por completo. Adoro todas as músicas e mal vejo a hora de cantar todas elas. Talvez Watermelon Sugar. Acho que vai ser uma canção animada, que vai realmente levantar o público. Eu gosto muito dessa sensação.
A entrevistadora meneou a cabeça, concordando com a resposta.
— E podemos esperar alguma surpresa nos shows? Uma música nova, talvez um cover? Sabe que as fãs amam seus covers.
— Mas se eu contar deixa de ser surpresa - ergueu as mãos com um sorrisinho de canto, arrancando uma risada de Clara. — E eu provavelmente sofrerei linchamento pelo resto da banda.
— Ok, ok, então vamos mudar de assunto - a mulher interveio. — , você pretende seguir como Saturno? Digo, como um nome artístico mesmo?
A garota só percebeu naquele exato momento que ainda não tinha parado para pensar sobre o assunto. Passara tanto tempo escondida sob um pseudônimo que já parecia fazer parte dela que sequer tinha se lembrado de que teria uma decisão a fazer.
— Eu usava o nome de Saturno para não expor o meu - ela começou. — Mas agora todo mundo já sabe. Está retratado em qualquer canto da internet, basicamente. Então não vejo muito sentido nisso. Mesmo artistas que usam nomes diferentes do de batismo o fazem sem que o original seja assim tão conhecido. Acho que não é mais o meu caso. Tenho um carinho muito grande pelo meu planetinha - ela apontou para a própria tatuagem no pulso. — Mas acredito que seja a hora de ter isso apenas como parte da minha história. Talvez mais como um símbolo do que como um nome.
— Bem, de toda forma, eu não sei se você chegou a ver isso, mas parece que o seu fandom já escolheu um nome para eles próprios.
travou, franzindo o cenho.
— Meu fandom? - Sua pergunta expressava completamente como ela tinha sido pega de surpresa.
— Sim - Clara continuou, enérgica como sempre. — Eles decidiram se intitular ‘Rings’ como uma alusão aos anéis de Saturno.
A risada dela era uma combinação de choque total com uma alegria que ela não sabia bem como expressar. Fãs? Sério? Alguém estava mesmo disposto a gostar dela e do trabalho que ela viria a fazer? Para quem já acreditava que um cartaz desenhado era o próprio auge, talvez estivesse na hora de realmente se preparar para mais.
— Eu amei - ela disse, ainda extasiada. — Eu nunca teria pensado nisso, de verdade. É um nome lindo e eu com certeza vou aderir.
— Alguém parece emocionada - a entrevistadora pontuou, fazendo com que a outra risse.
— Eu estou mesmo - admitiu. — Vocês definitivamente me pegaram de surpresa.
— E falando em surpresa, eu imagino como deve ter sido isso de ver sua vida mudando totalmente tão rápido. Quer dizer, vocês dois estão aqui hoje, mas se conhecem há quanto tempo?
— Coisa de uns três dias - estimou.
— E é por isso que nós decidimos fazer um joguinho tranquilo para ajudar vocês dois a se conhecerem melhor.
Em seguida, Clara já tinha em mãos duas plaquinhas simples, nas quais podia-se ler “Eu já” e “Eu nunca” a depender do lado. já estava dando risada antes mesmo de começar, enquanto brincava de rodar sua placa.
— Pensa bem no que você quer saber - disse para Clara.
— Obviamente vocês já sabem como se joga isso. Mas é uma versão familiar, então sem bebidas para vocês.
apertou sua placa com um pouco mais de força do que o necessário. Era só uma brincadeira inocente - ao menos ela esperava. De qualquer forma, sabia que poderia se agarrar à opção de interromper a qualquer momento.
— Primeira rodada: eu nunca mandei mensagens para o ex depois de beber demais.
A garota escolheu o lado cuja resposta era negativa, enquanto erguia seu “Eu já”.
— Eu não acredito nisso - ele disse, apontando para a resposta dela. — Todo mundo já fez.
— É para isso que eu deleto os contatos. - Ela deu de ombros. — Se eu não lembro o número de ninguém quando estou sóbria, quem dirá bêbada.
— Faz sentido - Clara comentou. — , gostaria de aproveitar o momento para um desabafo em terapia conjunta? Talvez nos contar mais?
— Não, mas agradeço a consideração da oferta.
Clara gargalhou, dando-se por vencida.
— Certo, certo. Eu nunca fiquei na fossa ouvindo músicas tristes.
Os dois não pestanejaram em responder positivamente.
— Eu nunca fiz uso de algum tipo de droga.
O resultado para aquele questionamento não foi tão ágil quanto o dos demais. O sorriso sacana que tinha no rosto, no entanto, deixava bem clara qual era a sua resposta. Acabaram ambos expondo seus “Eu já”.
— Seus safadinhos - Clara brincou.
— Álcool é uma droga - se explicou. — Remédios também são.
— Claro. - fez uma careta, dando de ombros. — Foi exatamente nisso que eu pensei. Óbvio.
escondeu a risada atrás de sua pá do jogo. Não havia mesmo como ele ser menos óbvio.
— Eu nunca fui expulso de um bar ou boate.
Duas respostas negativas.
— Ninguém nunca te expulsaria de qualquer lugar - disse para o cantor.
— Verdade. Mas e você?
— Eu costumo ser a amiga que fica sã o suficiente para cuidar das demais quando a festa acaba.
— Eu nunca me envolvi sexualmente com alguém que havia acabado de conhecer.
deixou a sua placa no meio do caminho, mordendo o lábio enquanto tentava disfarçar o sorriso. admitiu sua “culpa”, cobrindo o próprio rosto com o lado afirmativo.
— Eu não gosto desse jogo - ela reclamou de brincadeira.
— Pelo menos um dos dois está sendo sincero, não é? - A entrevistadora interveio, olhando diretamente para o rapaz.
— Não é como se você não soubesse - ele respondeu, simplesmente, exibindo seu ‘Eu já’.
— Eu nunca transei em um lugar totalmente público - prosseguiu com o jogo.
fitou a mulher rapidamente, com um olhar descrente e, ao mesmo tempo, acusativo.
— Em que universo isso é um programa familiar, Clara?
riu alto, enquanto o cantor se desfazia de sua própria placa, lançando-a para trás do sofá.
— Que tipo de ‘Eu Nunca’ é esse que você faz de propósito para eu não poder responder ‘Eu nunca’? - Ele prosseguiu com o questionamento e a garota ao seu lado não conseguia mais parar de rir.
tentou se ajeitar, soprando o ar enquanto secava uma lágrima.
— Também não pode mais responder ‘Eu nunca’ para ‘Eu nunca fiz uma garota chorar’ - Clara acrescentou, apontando para a garota que parecia ter acabado de se recuperar de uma síncope, enquanto tentava retomar o controle.
afrouxou a postura, sorrindo verdadeiramente ao olhar para . Tinha adorado descobrir que podia fazê-la rir daquela forma. E, mais ainda, tinha de admitir o quanto adorara vê-la rindo tão intensamente. Parecia uma daquelas cenas que eram descritas em romances ou apareciam em filmes. Ele só não sabia exatamente porque por um instante quase desejou ser o protagonista deles.
— Bom, o jogo já foi literalmente arremessado pelos ares, então acho que finalizamos aqui. BBC Radio 1, espero que vocês tenham gostado de saber um pouco mais sobre essas duas pessoas lindas. Eu, com certeza, adorei. Enfim, nós nos vemos na próxima.
Os dois retornaram a acenar, sorrindo até receberem sinalização sobre o desligamento das câmeras. ainda estava respirando fundo, reacostumando-se com sua postura convencional sem todas aquelas risadas.
— Você é ridículo - Clara brincou. — Mas é por isso que a gente gosta tanto. Bem, foi uma delícia fazer essa entrevista com vocês, de verdade. , o que achou? Fora as risadas causadas pelo seu colega problemático.
— Foi ótimo, Clara. Obrigada por ter me deixado tão confortável quando eu pensei que não fosse conseguir me livrar do nervosismo.
— Que bom que foi uma primeira vez agradável. - A entrevistadora piscou, arrancando novas risadas da outra. — Espero ver vocês dois logo. E, , desejo toda a sorte e a força do mundo para você. Torço muito pelo seu sucesso, sinceramente.
— Você é incrível. Muito obrigada mesmo.
Clara assentiu, com um sorriso doce.
— Milo já está nos esperando - disse. — Vamos?
Todos se despediram e os dois logo seguiram pelo mesmo percurso que haviam feito quando chegaram.
— O que achou?
— Que você ainda não vai virar saco de pancadas - respondeu. — Mas não se anima muito, não.
Ele riu enquanto entrava no carro, cumprimentando Milo no banco do motorista com um leve aperto no ombro.
— Jeff disse que vocês tinham permissão para ir a uma gelateria - o motorista comentou.
— E nós seremos os seres mais gratos do universo a você por nos levar gentilmente até o paraíso - respondeu, fazendo com que o motorista desse uma risada contida enquanto ligava o carro.
O caminho não foi longo. Havia uma gelateria bem próxima de onde eles estavam. Demorou menos ainda para que os dois corressem para a fila como crianças ansiosas esperando o carrinho do sorvete.
— Qual você quer? - perguntou, abaixando o olhar levemente. Uma ação constante sua, considerando a sua altura em relação à maioria das pessoas com quem convivia.
— Eu não faço ideia do que a maioria dessas palavras italianas significam.
— Eu também não. Vou pedir meus favoritos e dividimos.
realizou o pedido: um nocciola e o outro de stracciatella . apenas fingiu costume, assentindo ao ouvir aquelas palavras que ela não sabia nem como pronunciar e, por consequência, não sabia se tinha o feito corretamente. De qualquer forma, o atendente o havia compreendido. No fim das contas, todos se encontravam na linguagem turística, ainda mais quando ela vinha acompanhada da língua do dinheiro.
Foram até a área externa da loja, sentando em cadeiras brancas logo abaixo de um guarda-sol. Cada um segurava seu gelato e sua colher, preparados para começar a sessão aventuras do paladar.
— Sabe, as pessoas vêm para a Itália por vários motivos, mas, quando ficam, é só por dois - disse, chamando a atenção do rapaz sentado ao seu lado.
— Quais?
— Amor e gelato - foi sua resposta.
A testa de evidenciou algumas marcas devido à expressão.
— De onde você tirou isso?
Ela só deu de ombros.
— De um livro de romance juvenil que li uns anos atrás.
— Diga à autora do seu livro que eu acho que ela está completamente certa.
Simultaneamente, ambos deram uma colherada em seus respectivos gelatos, apertando os olhos enquanto se deliciavam com a explosão de sabores daquele doce maravilhoso. se deleitou ao mastigar os pedacinhos de chocolate que compunham o seu, tornando-o ainda mais especial.
— Acho que eu não quero mais dividir - ela admitiu, puxando seu potinho para mais perto.
riu, lambendo os lábios.
— Acredita em mim. Você vai mudar de ideia depois de experimentar esse.
Ele estendeu o nocciola para ela, oferecendo-o. A hesitação dela durou apenas uma mísera fração de segundos, logo se rendendo e levando a colher cheia até a boca.
— Meu Deus, isso é avelã?
assentiu, orgulhoso. Sabia que ela ia adorar.
— Puta merda, eu sou muito alérgica - ela completou, com os olhos arregalados, balançando as mãos nervosamente.
se levantou nervosa e abruptamente, deixando o seu gelato sobre a mesa e olhando para todos os lados possíveis naquela rua, procurando qualquer coisa que se parecesse com uma farmácia. Com certeza eles poderiam ajudá-la lá. Eles saberiam o que fazer, enquanto ele definitivamente não fazia ideia.
— Vamos para o carro - ele falou, ainda esticando o pescoço, tentando enxergar o caminho mais ao longe. — Talvez Milo tenha visto algo pelo caminho. Mas vamos logo. Pelo amor de Deus, o que se deve fazer se uma pessoa para de respirar na sua frente?
o olhava pacificamente, enquanto continuava a tomar seu gelato com toda a calma do universo.
— Por que você não parou de comer isso? Vai te fazer mal! - Ele correu para tomar o doce de suas mãos, recebendo risadas em resposta. — Por que você está rindo? Ah, não…
— Se te serve de consolo, você fica bem bonitinho quando está preocupado desse jeito - ela disse, ainda dando pequenas risadas, enquanto se utilizava de um guardanapo para limpar a boca que deveria estar suja da forma mais infantil possível.
— Levanta - disse. — Vou te colocar em um avião de volta para Londres. Cansei de você.
o encarou, tentando mensurar o quão bravo com ela ele realmente deveria estar. devolveu o olhar, encarando-a de forma sustentada e profunda com aqueles olhos verdes. Ela não aguentou, sentindo a própria boca tremendo de leve querendo voltar a rir. Dessa vez, ele próprio não conseguiu manter a pose e começou a rir.
— Você é ridícula - ele decretou, passando o dedo sujo de gelato no nariz dela.
Mais uma vantagem do doce italiano: ao contrário do sorvete, ele não era servido em uma forma mais congelada. Perfeito para lambuzar o rosto de alguém que fingia ter uma crise alérgica só para comer mais do que o outro.
ainda estava dando risada, enquanto tentava garantir que seu nariz estivesse limpo. Tinha que admitir que, para alguém que conhecia literalmente há pouquíssimos dias, era bem fácil ficar ao lado de . Principalmente daquela forma descontraída. Era como se ele realmente carregasse aquela sensação com ele por onde passava.
— Licença - uma voz feminina chamou a atenção de ambos. — Pode tirar uma foto nossa?
sorriu, concordando, enquanto pegava o celular a ela estendido. A fã já estava parada ao lado de . virou o aparelho para ambos, tentando encontrar um jeito de melhorar a iluminação da foto.
— Ah, não - a menina disse. — Usa a câmera interna. Quero que você saia na foto também.
— Ah, certo - a outra concordou, erguendo o braço para tirar uma selfie do trio. Sorriu para a tela, mais aliviada ao perceber que tinha feito um bom trabalho tentando limpar o próprio nariz. Aquele mico ela não passaria.
— Obrigada! Vocês são incríveis. Mal posso esperar para o show.
A menina logo correu para fora dos limites da gelateria, alcançando um homem tão parecido com ela que só podia ser seu próprio pai. Ele acenou na direção dos dois, como se estivesse garantindo algum tipo de agradecimento pelo tratamento com a filha, apesar de aquilo não ter sido nada demais. sorriu sozinha. A sensação de fazer algo - mesmo que parecesse tão pequeno - para alguém era mesmo gratificante.
— Pode começar a se acostumar - comentou, ao reconhecer perfeitamente o significado emocional da feição que ela ainda mantinha na face. — Principalmente agora que você já tem um fandom.
— Deve ser um fandom de cinco pessoas. - Ela deu de ombros.
— Veremos.
Continuaram compartilhando seus gelatos, enquanto conversavam sobre aleatoriedades completas e apreciavam o céu da tarde cujo sol começava a dar indícios de que estava se pondo, deixando o horizonte em uma paleta de cores ainda mais interessante e agradável.
— Você não respondeu à última pergunta do jogo - ele falou de repente, como se tivesse acabado de se lembrar daquilo.
ergueu a sobrancelha, estranhando o interesse repentino em relação ao retorno um tanto já fora de contexto do assunto.
— Nem você - retrucou. — Só arremessou sua placa.
Ele riu alto.
— Já é resposta suficiente. Mas meu show fez com que você não respondesse.
— Uma pena, não? Ainda mais agora que você parece tão interessado nisso.
deu de ombros, tentando demonstrar qualquer pingo de inocência em relação à situação.
— Como a Clara disse, estava apenas tentando garantir que nos conhecêssemos melhor.
estreitou os olhos, enquanto meneava a cabeça para os lados, repreendendo-o.
— Qual a graça se eu te contar todos os meus segredos em uma tarde? - Ela repousou a colher sobre o pote agora vazio. — Mas quem sabe você não descobre isso com um tempo? Talvez eu te conte um dia.
repetiu o movimento da garota, também devolvendo a colher aos potes que agora eram lixo. Juntou tudo, preparado para levá-los à lixeira que havia por perto da mesa que ocupavam.
— Bom, então eu espero que você fique por tempo o suficiente para que eu possa descobrir essas e outras respostas - ele disse, levantando-se.
não respondeu, deixando que o assunto se encerrasse sozinho por ali. Não precisava verbalizar o que tinha acabado de perceber. Em algum canto de seu ser, existia uma parte dela que, definitivamente, já não queria mais ir embora e quase ansiava pelo mesmo que ele. Tempo.


Capítulo Sete

Oh, I hope someday I’ll make it out of here
Even if takes all night or a hundred years
Need a place to hide, but I can’t find one near
Wanna feel alive, outside I can’t fight my fear

lovely - Billie Eilish feat. Khalid


ainda não havia se conformado. Não era possível que só ela achasse aquilo estranho. Precisava de uma segunda opinião. E, bom, já era tarde o suficiente. Ao menos para os seus padrões e noções de mundo.
- ela chamou, batendo em sua porta.
O rapaz abriu, piscando com força, enquanto esfregava os olhos. Ela sabia perfeitamente que aquela coisa do cabelo bagunçado fazia parte de algum tipo de charme próprio, mas uma escova de cabelo realmente seria bem útil naquele momento.
— Eu te acordei? Desculpa.
— Não, imagina - ele respondeu rapidamente. — Eu já tinha acordado, só estava sendo preguiçoso na cama. Precisa de alguma coisa?
— Quero que veja uma coisa no meu banheiro.
Ele soltou uma risada anasalada, sorrindo de canto.
— Não estou reclamando de forma alguma - ele começou. — Mas confesso que estou surpreso por ter sido tão direta.
franziu as sobrancelhas, como se aquilo fosse magicamente fazer suas sinapses encontrarem a resposta para o que raios estava acontecendo. Com um pouco de esforço, ela finalmente entendeu a insinuação e tratou de balançar a cabeça avidamente.
— Não é nada disso, seu pervertido - reclamou. — Ai, só vem.
a seguiu até que parasse, de frente para uma parede que era basicamente idêntica àquela que compunha o banheiro que ele próprio estava usando. Nada de especial.
— Uma parede - ele falou, fazendo uma careta que demonstrava que, dessa vez, era ele quem não estava entendendo o que se passava.
— Embaixo do espelho. - apontou. — Não é estranho?
O cantor passou alguns instantes observando a região a que ela se referira. Parecia um pouco estufado mesmo, no fim das contas. Não que ele tivesse qualquer expertise em paredes.
— O que é isso?
— Não faço ideia. - Ela bufou. — Ontem eu achei que era só coisa da minha cabeça, mas agora eu comecei a me preocupar.
— Por quê?
— Não sei, . Porque não é normal, sei lá.
Ele estendeu o dedo indicador, avançando de forma lenta e receosa até encostar apenas a pontinha no local, em um tempo tão ínfimo que poderia muito bem ser excluído da escala temporal. Nada. Absolutamente nada. Ele acabou dando de ombros.
— Acho que não é nada.
Ela moveu a cabeça, concordando. Ele tinha razão. Deveria ter.
— Eu não quero nem saber o que vocês dois estão fazendo no banheiro. - A voz de Azoff ecoou, fazendo com que os dois colocassem as cabeças pela porta, enxergando o empresário sério. — Mas preciso de vocês na sala. Estou saindo para o aeroporto.
Os dois se entreolharam, engolindo a vontade de dar risada e obedecendo Jeffrey. Caminharam até a sala, onde o empresário esperava, em pé ao lado da mulher mais linda que já havia visto em toda a sua vida. Grandes esforços foram necessários para que ela não deixasse seu queixo despencar e colidir contra o chão da forma menos discreta possível. Se anjos existissem e fossem enviados à Terra para os humanos, com certeza seria exatamente daquele jeito que eles se pareceriam.
— Emily! - exclamou animado, correndo até ela, que o recebeu com risadas.
— Essa é Emily Stevens, meu braço direito em tempo integral e substituta em momentos necessários. Volto para o show, mas enquanto isso, vocês devem procurá-la em relação a qualquer coisa que precisem.
— Ela é basicamente sua versão mais nova e mais legal - acrescentou.
— Não sabe como é gratificante passar dois dias longe de você - o homem murmurou. — Enfim, preciso ir. Emily vai acompanhá-los — Oi, prazer! - E como. — Eu sou a !
— Eu estava super ansiosa para conhecê-la - a outra admitiu, com um sorriso simpático. — Você já conheceu o pessoal da banda, eu presumo.
assentiu, lembrando-se de que provavelmente tinha passado algum tipo de vergonha na frente deles na noite em que haviam se conhecido. Ótimo jeito de fazer novas amizades.
— Eles vão te dar uma forcinha. Nós vamos para a Unipol Arena, para vocês se situarem quanto ao espaço e ensaiarem um pouco enquanto fazemos a passagem de som e uns ajustes.
A palavra ‘Arena’ fez estremecer em função de cada uma de suas letras. Qualquer uma das imagens que sua mente evocasse era capaz de fazê-la ter calafrios dos pés à cabeça. Talvez devesse usar alguma tática de sabedoria ancestral. Imaginar que todos estivessem pelados poderia ser uma ideia menos absurda do que de fato parecia quando ela pensava sobre o assunto.
— Quantas pessoas cabem lá mesmo?
— Onze mil em dia de jogo, vinte mil em concertos - Emily respondeu.
— E estamos esgotados! - comemorou, fazendo-a dar uma risada nervosa em resposta. Queria mesmo se sentir tão feliz e vitoriosa quanto ele, mas imaginar vinte mil pessoas nuas não parecia uma das missões mais fáceis. Não tinha nem criatividade o suficiente para aquilo. Bom, isso explicava porque todas as vezes em que ela ouvira aquele tipo de conselho o ambiente era um palco escolar ou um concurso municipal e não a droga de uma arena italiana.
O caminho até a Unipol Arena havia sido cercado por um silêncio sepulcral. estava respondendo mensagens no celular, Emily não tirava os olhos do iPad por um segundo sequer, garantindo que tivesse todos os arquivos e listas necessárias à mão, e … Bom, não conseguia tirar da cabeça o pensamento de que deveria aprender a dizer ‘não’ às pessoas, já que isso a pouparia de grandes enrascadas como aquela.
— Vamos entrar pelo acesso de funcionários ao fundo - Emily explicou. — Tem algumas meninas acampadas nos portões de acesso, então achamos melhor mudar a rota.
sentiu os ombros relaxando minimamente. Não tinha condições de enfrentar uma aglomeração de fãs naquele momento. Não quando sua mente já estava em lugares ruins por conta própria e motivos diversos.
Dentro da arena as coisas não melhoraram. a arrastou até o palco, parando bem no centro dele e olhando ao seu redor, enquanto apoiava as mãos cerradas em punho na própria cintura.
— Não é incrível?
Ele a olhou, esperando uma resposta que não viria. Ela não sabia para onde direcionar o próprio olhar: para a extensão do palco à sua frente, para a demarcação das pistas Cherry e Watermelon Sugar ou para as arquibancadas que a circundavam, altas e imponentes, lembrando-a de que em dois dias estariam completamente lotadas enquanto ela estaria bem ali no meio, tão pequena, insignificante e infantilmente assustada.
, você está pálida. - Ele se aproximou. — Você nunca se apresentou?
Ela meneou a cabeça, negando.
— Só se você considerar o meu recital da primeira série como uma apresentação. Eu era uma flor e tudo o que eu tinha que fazer era me mexer como se estivesse desabrochando em direção ao sol.
— Pensa que o princípio é o mesmo. Você é uma flor que está prestes a desabrochar. É isso o que as pessoas ao seu redor esperam ver, sabe? É isso o que todos nós queremos ver. , você é incrível demais para ficar escondida. Essas vinte mil pessoas merecem ver o seu talento.
— Acho que eu faço mais o tipo de flor de canto de jardim que ninguém nem percebe que existe.
— Nada disso. Estamos te plantando bem no centro do canteiro e ai de quem não parar para apreciá-la.
Ela deu um sorriso fraco. Sabia que estava sendo a pessoa mais gentil e educada do universo e era verdadeiramente grata por isso, mas suas mãos não tinham desistido de tremer feito tontas depois de ouvir aquelas palavras bonitas.
— Vou te levar até o camarim - ele continuou. — Liga para a Mia.
Ela concordou, permitindo-se ser guiada por ele. Tentou registrar minimamente o caminho pelo qual seguiam. Tinham ido até os fundos do palco, caminhado um pouco, virado à esquerda, caminhado mais… Ela ia precisar de um mapa e aquele estava longe de ser o maior show da turnê.
abriu a porta para ela, acenando antes de deixá-la sozinha no ambiente. rapidamente abriu seu Whatsapp, iniciando uma chamada de vídeo com a melhor amiga, cruzando os dedos para que não fosse um mau momento.
— Garota, você não me supera mesmo.
A voz brincalhona do outro lado já tinha sido suficiente para fazer conseguir elaborar uma quase risada.
— Onde você está? Que lugar estranho.
— Camarim da Unipol Arena - ela explicou, vendo a amiga engasgando com o chá que tomava.
— Perdão, eu tinha me esquecido da fama, fortuna e sucesso. Você precisa me dar um autógrafo. Vou vender.
— Você é ridícula. E eu preciso ser rápida porque estão me esperando.
— Conheço essa voz. Qual é o surto da vez?
bufou, pressionando as têmporas.
— Você já viu o tamanho desse lugar? Vinte mil pessoas, Mia!
— Vamos brincar de ressignificar? Vamos. Sendo vinte mil pessoas, isso significa que o lugar vai estar tão lotado que você não vai conseguir sequer ver o rosto das pessoas que não estiverem imediatamente perto do palco. Se fosse um show menor, você teria que olhar para cada um. Então, não é por nada, mas é melhor assim. Vai ser de noite, dispersa, finge que você está cantando para o céu escuro.
— E se eu desafinar?
— Todo famoso no universo já desafinou na vida.
— E se eu esquecer a letra?
— O próprio já esqueceu a letra. Aliás, ele é craque em cair no palco também. Quer que eu te mande uns vídeos?
— Jamais negaria ver pessoas caindo.
O barulho da porta abrindo fez se virar para a entrada do camarim.
— Desculpa mesmo por interromper, mas precisamos começar - Emily disse. — Assim que acabar.
— Pode deixar.
Quando a mulher deixou o ambiente, voltou a olhar para a amiga, paralisada do outro lado da tela.
— Eu acho que acabei de ter uma revelação estranha.
— Que revelação?
— Deus me trouxe a imagem da mulher da minha vida, mãe dos meus filhos - Mia continuou. — Quem é essa, pelo amor de Deus?
— Assistente do Jeff. O nome dela é Emily e, sim, eu sei. Ela é perfeita.
— Estou apaixonada.
— Mas e o Nicholas? Vocês estavam tão bem juntos que eu só estava esperando você me comunicar sobre um pedido de namoro.
Mia revirou os olhos, fazendo uma careta.
— Ele é um otário - disse simplesmente. — Mas eu já estou em outra.
— Sério?
— Sim. O nome dela é Emily. Agora, faça o favor de ir até ela antes que ela pegue raiva de você e não me deixe te escolher como madrinha do nosso casamento.
riu alto. Definitivamente não duvidava da capacidade da amiga de superar naquela velocidade e meio que entendia o interesse em Emily. Era bem difícil não entender, na verdade.
Seguiu até o palco, orgulhosa de si mesma por ter conseguido fazer o caminho de volta. Talvez não precisasse de uma trilha de doces ou pães para saber por onde ir no fim das contas. Talvez - mas bem talvez - as coisas não precisassem ser tão difíceis como ela colocava na cabeça.
— Pronta? - perguntou, dando aquele sorriso que a fazia se perguntar porque Deus permitia que as pessoas sorrissem daquela forma quando, com certeza, tinha total noção de que era uma tentação maldita.
— Eu consigo - ela disse, sabendo que suas palavras eram para convencer a si mesma.
— Claro que consegue - Emily garantiu. — Além de Two Ghosts, que vocês vão performar juntos, preciso que você escolha umas três músicas para cantar.
obviamente já sabia que teria que tomar essa decisão. Fora exatamente para isso que ela tinha passado algumas horas em claro de madrugada, montando uma lista mental maior do que o necessário simplesmente porque ela não conseguia escolher quais excluir. Sabendo da indecisão, tinha escolhido arrancar o band-aid de uma vez só quando não tivesse mais escolha.
— Só evite Taylor Swift - sugeriu antes que ela respondesse.
— Por quê? Ela é incrível.
Ele respirou fundo, dando de ombros de uma forma levemente derrotada.
— Relacionamento à velocidade da luz que deixou marcas prolongadas - ele explicou. — Algumas fãs ainda não sabem muito bem como lidar com isso. Eu acho tosco, mas talvez seja melhor te poupar de possíveis críticas sobre algo que não tem nada a ver com você.
Ela concordou. Qualquer coisa que a impedisse de ser vaiada já estava de bom tamanho. Além de que isso tinha cortado quase metade da sua lista, facilitando um pouco a sua vida.
— This is Me, Supercut e Lovely - pontuou.
— Essa última é a da Billie com o Khalid? - questionou.
— A própria.
— Eu quero - ele emendou. — Gosto do contexto por trás da música. Essa ideia de se sentir preso em sua própria mente, lidando com a ansiedade e tudo mais.
— Minha música, não toca - reclamou.
— É um dueto - retrucou. — Duas músicas juntos. Por favor, eu nunca te pedi nada.
— Nada a não ser para eu mudar minha vida toda e sair em turnê enquanto estou me cagando de medo, você quis dizer.
— Pode ser.
— Ok, fico com Cool da Dua no lugar.
— Certo - Emily concordou. — Então você começa com This is Me, segue para Supercut e Cool. entra, vocês cantam Lovely e Two Ghosts.
Um rapaz barbudo trouxe dois microfones e posicionou, na sequência, um teclado no palco, com um microfone próprio ajeitado. Outro homem, atrás dele, esticava alguns cabos da iluminação. se sentiu um pouco desconfortável ao perceber como ele estava encarando deliberadamente todos ali. Franziu o cenho antes mesmo que ele soltasse o motivo de seu próprio incômodo:
— A equipe da limpeza está nos fundos. Não é para ninguém da manutenção ficar no palco, atrapalhando o trabalho.
Emily piscou duas vezes antes de responder.
— Como é que é?
se adiantou, dando alguns passos à frente. Mesmo conhecendo-o há tão pouco tempo, sabia que não era típico vê-lo tão irritado como tinha ficado em questão de segundos.
— Emily é da produção, não da manutenção. O que te faz pensar o contrário?
O homem desviou o olhar, encarando a mulher por alguns instantes antes de se voltar para o cantor que aguardava a sua resposta.
— Desculpa, é que… - não deixou que ele terminasse a frase.
— É que o quê? Por ser uma mulher preta você simplesmente decidiu que ela pertencia à equipe de limpeza?
— Não, senhor - o outro gaguejou um pouco, a fala nervosa e entrecortada. — Foi só um engano.
— Existem várias outras pessoas nesse palco. Eu teria que ser muito idiota para acreditar na coincidência do seu engano. - Virou-se para Emily antes de continuar: — Quero esse cara fora.
, está tudo bem - Emily interveio. — Ele pode fazer o trabalho dele.
— Onde está tudo bem ser racista? Temos um time inteiro responsável pela iluminação. Eu prefiro escalar essas armações e conectar os holofotes eu mesmo do que ter esse cara por perto. Por favor, faça a gentileza de sair sem precisarmos acionar a segurança.
O homem colocou os materiais no chão, antes de se virar e sair sem mais um murmúrio sequer. só permitiu que sua postura e expressão relaxassem quando o perdeu de vista. Mesmo seu lema de gentileza generalizada tinha limites. Tinha quase certeza de que tinha escrito nas entrelinhas que pessoas babacas e preconceituosas não estavam incluídas no plano.
— Podemos começar?
Emily e se entreolharam, trocando um sorrisinho. Os instrumentos estavam sendo trazidos e posicionados no palco, com quatro quintos de C.H.A.S.M. ocupando seus lugares.
— Certo, eis o que eu pensei - a mulher começou. — É a sua grande estreia e você escolheu uma música super potente tanto em vocais quanto em letra mesmo. Como o início literalmente fala de escuridão, podemos realmente iluminar o palco por completo só quando você alcançar o refrão e daí a banda entra. Podemos fazer esse começo mais escuro, só com você e o teclado. É literalmente uma apresentação, então acho que podemos adicionar um drama leve assim. O que vocês acham?
— Eu amei a ideia - respondeu e concordou.
— Nós dois vamos assistir lá de baixo - Emily disse e puxou consigo.
sentiu o coração acelerar, enquanto ouvia Charlotte, Adam, Sarah e Mitch afinando seus próprios instrumentos, preparando-se para acompanhá-la. Cometeu o erro de olhar para a frente, adquirindo a dolorosa e repetitiva consciência da magnitude da arena ao seu redor. Em meio às cadeiras distantes e à extensão do espaço destinado à plateia, contudo, ela encontrou aquele par de olhos a olhando de volta, dizendo, sem palavra alguma, que ela era capaz e que tudo ficaria bem. Era hora de acreditar. Um pequeno sorriso brotou em seus lábios ao ver a tatuagem de Saturno no próprio pulso. Ela sabia exatamente o que fazer. Não existia segredo.
Levou as próprias falanges às teclas, encontrando as notas certas com a mesma facilidade com a qual um bebê curioso encontra tomadas destampadas espalhadas pela casa. Respirou fundo algumas vezes, fechando os olhos antes de abaixar os dedos, permitindo que a primeira nota soasse pelo ambiente.

— I’m not a stranger to the dark
(Eu não sou uma estranha à escuridão)
Hide away, they say, ‘cause we don’t want your broken parts
(Esconda-se, eles dizem, nós não queremos suas partes quebradas)
I’ve learned to be ashamed of all my scars
(Eu aprendi a ter vergonha de todas as minhas cicatrizes)
Run away, they say, no one will love you as you are
(Fuja, eles dizem, ninguém vai te amar do jeito que você é)
But I won’t let them break me down to dust
(Mas eu não vou deixar que me derrubem)
I know that there’s a place for us, for we are glorious
(Eu sei que há um lugar para nós, pois somos gloriosos)

Sua voz atingia em cheio cada nota, carregando toda a emoção que a canção preconizava. Não existia melhor música para que ela cantasse naquele momento. Nada poderia expressar melhor tudo o que ela mesma representava e representaria.
— Você deve saber bem melhor que eu da importância da hidratação para a performance de um cantor - Emily comentou, trazendo de volta ao mundo um que havia se desconectado da realidade, sentindo-se como se tivesse sido arremessado diretamente a outra dimensão ao ouvir cantando.
— Sim - concordou, sem entender aonde ela queria chegar.
— Então para de secar a garota.
Ele fez uma careta, simultaneamente chocado e um tanto ofendido com o comentário.
— Eu não estava fazendo isso.
— Claro que não. - Ela riu, anotando alguns detalhes sobre os focos de luz e os telões durante o show de abertura.
— É sério - ele insistiu, desconcertado. — Eu só estou apreciando o talento dela.
— Se você diz.
— Não está vendo a entrega dela lá em cima? Ela nasceu para isso. É quase impossível não ficar pelo menos um pouco emocionado.
Emily assentiu, apesar de ainda não acreditar no desprendimento emocional no qual ele tanto insistia. era mesmo incrível e pertencia ao palco. Qualquer um seria capaz de perceber aquilo, sem dúvida alguma.

— When the sharpest words wanna cut me down
(Quando as palavras mais afiadas quiserem me cortar)
I’m gonna send a flood, gonna drown them out
(Eu enviarei uma enchente, vou afogá-las)
I am brave, I am bruised
(Eu sou corajosa, eu tenho feridas)
I am who I’m meant to be, this is me
(Eu sou quem eu devo ser, essa sou eu)
Look out ‘cause here I come
(Cuidado porque aí vou eu)
And I’m marching on to the beat I drum
(E eu estou marchando na minha própria batida)
I’m not scared to be seen, I make no apologies, this is me
(Não tenho medo de ser vista, eu não peço desculpas, essa sou eu)

Quando as meninas subiram com o backing vocal e os instrumentos começaram a completar a melodia, sorriu abertamente, cantando com o peito estufado, sentindo-se a pessoa mais feliz de todo o universo. Céus, como ela amava aquilo. Como ela amava cantar. Nada aquecia mais seu peito do que aquilo.
gritou, aplaudindo fervorosamente quando a canção foi finalizada.
— Ficou incrível - Emily comentou. — Tenho alguns comentários, mas são sobre o palco e a iluminação, então conversamos depois sobre isso. Podem seguir.
— Já pode admitir que eu sou a pessoa mais genial do mundo inteiro - comentou, enquanto Supercut iniciava. — Por favor, eu adoro ouvir como eu sempre estou certo.
— Parabéns, ! Quer aplausos também?
— Por favor.
— É por isso que o Jeff sempre reclama de você. Sobe. Espero que você saiba a letra da música que vão cantar juntos.
Ele revirou os olhos, como se não acreditasse no que ela tinha acabado de dizer. Enquanto dava a volta por trás do palco, para subir do outro lado, contudo, pegou o celular, abrindo o ‘Genius’ para repassar a letra. Não podia de forma alguma errar e deixar que Emily provasse seu ponto. Não ia dar o braço a torcer. Tinha pelo menos uns três minutos para garantir que todas as palavras estivessem impregnadas em cada um de seus giros cerebrais, antes que o cover da Dua Lipa terminasse. Ficou repetindo a letra na sua cabeça, cantarolando a melodia conforme avançava, evitando o uso da tela. Ia dar certo.
Atravessou as cortinas, tomando sua posição em frente ao apoio do microfone.
— Qual o tom?
pensou por alguns instantes, antes de voltar ao teclado, tocando as primeiras notas.
— Aqui. Fica baixo para você?
— De forma alguma. Estou pronto quando vocês estiverem - ele respondeu sem tirar os olhos de Emily, em uma expressão irônica e desafiadora.
— Eu nunca cantei com outra pessoa - ela admitiu. — Se ficar ruim, vou culpar você.
— Nada disso. Eu já cantei com outras quatro pessoas.
— Ninguém disse que era bom. - deu de ombros, antes de começar a tocar, engolindo a própria risada. mostrou-lhe o dedo do meio mesmo sabendo que era brincadeira.
Ela cantou a primeira estrofe, estabelecendo a altura e a extensão, para que ele a acompanhasse em seguida. Todo seu medo de que não fosse funcionar em um dueto se esvaiu assim que a voz dele se misturou a sua, parecendo completá-la de uma forma especial que ela não poderia ter esperado ou previsto. Conseguia ouvir cada uma de suas palavras abraçando as dele e era agradável demais de se escutar. Tão agradável que a parte objetiva e coerente do seu raciocínio tinha simplesmente desligado. Estava entorpecida e tomada pelo momento.
A situação só se intensificou com Two Ghosts. Os três minutos e cinquenta segundos de duração da música poderiam facilmente ser estendidos por toda uma eternidade e eles possivelmente sequer chegariam a perceber. Tinham criado um invólucro inespecífico e incerto, mas que os prendia em uma bolha intocável e, naquele instante, não existia qualquer coisa no mundo externo que fosse digna de atenção ou preocupação. não conseguiria escolher outro adjetivo para descrever sua sensação naquele momento que não fosse completa. Nunca havia se sentido tão completa em toda a sua vida.
respirava com força, retomando seu fôlego. Não conseguia tirar o sorriso bobo do rosto, enquanto sentia o próprio peito prestes a explodir. sentiu os cantos dos próprios lábios sendo repuxados involuntariamente para cima. Tinha finalmente a certeza de que tinha feito o certo ao voar até Londres atrás de uma desconhecida apenas porque havia sido tomado por uma sensação totalmente peculiar e relativamente incômoda e excitante de que aquilo era o certo a se fazer. Estava orgulhoso e indiscutivelmente grato por poder compartilhar aquele momento, vivendo-o ao seu lado. De repente, tudo parecia ter sido compensado. O universo tinha se reequilibrado com a luz daquela situação, podendo deixar até Thanos feliz.
Foi, então, a vez de a garota ir fazer companhia à substituta de Jeff, enquanto tirava o microfone do pedestal, brincando com o longo fio. Emily estava de olho na tracklist, preparada para indicar a primeira canção, mas ele, como de costume, tinha sido mais rápido.
— Olá a todos! Sejam bem-vindos ao meu Stand Up!
— O que é que ele está fazendo? - questionou, com o cenho franzido.
Emily revirou os olhos, usando as mãos para gesticular da forma que uma mãe cansada fazia.
— Ele sempre faz isso. Ele leva o trabalho bem a sério, sabe? Só que toda a seriedade sempre vem acompanhada desses momentos.
pigarreou contra o microfone, percebendo que seu público não lhe dava a atenção que ele tanto julgava merecer. Quando as duas voltaram a encará-lo, ele sorriu:
— Assim é melhor. Vamos começar com “Toc-Toc”.
— Quem é? - Adam perguntou sem ânimo.
— Que Britney Spears?
— Toc toc - repetiu.
— Quem é?
— Oops, I did it again.
— Por favor, nunca mais repita isso - Charlotte pediu. — Não posso perder meu trabalho agora.
— Vocês são pessoas amargas que não apreciam o bom humor alheio - ele reclamou, enquanto ouvia as primeiras notas de Watermelon Sugar.
deixou o próprio corpo responder à música, movendo-se sem permissão. Era divertido vê-los tão entrosados e isso combinado com a música boa eram definitivamente o entretenimento perfeito. não tinha conquistado o mundo apenas por ser um rostinho bonito e, enquanto ele caminhava pelo palco, ocupando-o por completo e exibindo sua presença de forma imponente, ela entendeu o que significava ser artista, mais do que simplesmente outro cantor qualquer. Se o Sol não estivesse começando a fazer a pele da sua nuca arder, poderia facilmente dizer que ficaria ali por um dia inteiro, só assistindo àquele show particular. Mia, com certeza, estaria dividida entre gritar, chorar ou ficar em profundo silêncio imóvel, tentando assimilar o que estava havendo. Mal via a hora de a amiga se juntar a eles, para poder dividir um daqueles momentos mágicos com ela. Até porque nenhum deles teria sequer chegado perto de existir sem Mia.
— Vocês foram maravilhosos - Emily elogiou. — Mas ensaio é ensaio. Mais uma vez do começo.
— Quando acabarmos aqui, tenho uma ideia bem interessante do que podemos fazer - Mitch disse, dando uma piscadela para os companheiros.
— Ninguém confia mais nas suas ideias problemáticas. - Sarah revirou os olhos.
— Vocês vão gostar dessa. Não existe nada mais adulto que possamos fazer, eu juro.


❀❀❀



— São 200 pela lap dance, bebidas e aperitivos.
Adam bufou abertamente, sendo obrigado a reafirmar aquilo que já tinha dito com todas as letras:
— Mitch, pela milésima vez, isso é um hotel, não um clube de striptease e atrações adultas.
— Preso não tem direito de discutir, Adam. Por favor, permaneça em silêncio.
— Eu tenho muito medo do jeito que a sua mente funciona - comentou, estendendo ao amigo e guitarrista as duas notas de 100 cobradas.
Mitch puxou o dinheiro, sorrindo de uma forma quase macabra, enquanto o colocava junto de suas pilhas.
— Obrigado e volte sempre.
— Farei o possível para não voltar nunca mais - emendou, entregando os dados para .
Já havia quase uma hora que eles estavam jogando Monopoly, sentados em roda no chão enquanto Emily realizava ligações para os responsáveis por cada setor do show, garantindo que os últimos detalhes e ajustes fossem providenciados e confirmados. Vez ou outra ela aparecia só para olhá-los com aquela feição fechada, repreendendo-os e levando o indicador à frente da boca, pedindo silêncio. Funcionava por uns quinze segundos antes que estivessem prestes a se matar mais uma vez.
O guitarrista não poderia estar mais orgulhoso de si mesmo por ter descoberto o salão de jogos na noite anterior e ter conseguido convencer o senhor que cuidava do lugar e guardava suas chaves a emprestar algumas caixas para que eles jogassem no quarto em vez de descer até ali. Teve que explicar algumas vezes que se tratava do hóspede famoso para que o homem aceitasse, mas acabou dando certo. Mitch estava convencido de que conseguiria usar seus métodos de convencimento até mesmo sobre a rainha depois daquilo.
lançou os dados, comprando uma das poucas propriedades livres e finalmente completando o monopólio de todas as casas verdes.
— Como você consegue? - Mitch reclamou. — Tem dinheiro demais aí, você está roubando. Sarah!
A garota, que tinha ficado responsável por ser a banqueira do jogo, deu de ombros.
— Você que não aceita perder - respondeu. — Ela me pagou tudo o que precisava e estava devendo.
— E agora tenho um império na rede de hotelaria enquanto você cobra por danças - o cutucou. — É o que acontece quando você tem estratégia financeira.
— Você era tão boazinha e agora virou esse monstro - ele continuou, revoltado ao perceber que teria de hipotecar tudo e declarar falência muito em breve.
— A competição me faz cruel - ela respondeu, com um sorriso quase infantil, como uma obra angelical. Mas até aí, Lúcifer também era um anjo.
Não foram necessárias mais tantas rodadas assim até que o fim fosse inevitável. já tinha conseguido eliminar Mitch e Charlotte do jogo e Adam tinha enfrentado sua ausência completa de dinheiro por conta, essencialmente, de uma sequência azarada de idas à cadeia, ou por tirar o número indesejado de casas nos dados ou por ter conseguido a proeza de tirar basicamente todas as cartas de sorte que o levavam até a prisão. Só ainda permanecia no jogo, tentando a todo custo postergar a sua derrota.
— Pode pagar. - Ela estendeu a mão, rindo. Ele estava em sua propriedade mais cara.
— Você é péssima.
— Mas sou uma vencedora péssima, algo que você não pode dizer de si mesmo.
— Vamos trocar de jogo? - Charlotte sugeriu. — Mitch, você trouxe outro, não trouxe?
O rapaz assentiu.
— Deixei a caixa sobre a bancada da área de serviço. Acho que o prêmio da pode ser ir lá buscar o jogo.
— Eu me sinto lisonjeada pelo reconhecimento e pelo presente, mas acho que o merece mais esse prêmio de consolação pelo segundo lugar.
O cantor se levantou rapidamente, esticando as pernas compridas.
— Não, o precisa ir ao banheiro - referiu-se a si mesmo em terceira pessoa antes de sumir pelo corredor, indo até seu quarto.
Charlotte, Adam, Sarah e Mitch continuavam olhando-a, reforçando como estavam apenas aguardando que ela saísse. Não pareciam muito dispostos a ceder. Então ela o fez.
Caminhou a passos largos até a área de serviço, que era um dos poucos cantos mais afastados da cobertura. Ainda não tinha se acostumado totalmente com a extensão do local, mas já sabia onde ir com certa familiaridade. Seguiu em frente, cantarolando a melodia de This Is Me, que tinha se tornado uma de suas músicas favoritas tanto pela letra e melodia quanto pelo próprio contexto dentro de ‘The Greatest Showman’, que havia se tornado um de seus filmes favoritos de toda a vida desde a primeira vez em que o vira - e isso porque Zac Efron e Zendaya eram apenas bônus. Não havia mesmo qualquer coisa que quisesse cantar mais que aquilo em sua primeira amostra pública.
Ainda eram apenas covers e ela sabia perfeitamente disso. Apesar de até mesmo esse fato estar intrinsecamente ligado às suas raízes e origens, sabia que, se tinha alguma intenção de realmente seguir no ramo no qual estava sendo introduzida, em algum momento Saturno teria de enfrentar mais um medo em uma nova fase e assumir a representação de suas próprias obras e composições. Duvidava até mesmo que Mia soubesse daquilo, mas tinha um pequeno caderno moleskine preto com estampa de arabescos rosa-claro enfiado em um corte falso no fundo da mala. Ela não tinha muito, era verdade. Não chegava nem aos pés de um Bob Dylan ou Paul McCartney e nem de nomes da cultura mais recente como Finneas O’Connell e a própria Taylor Swift; mas era algo. E era algo de que ela, timidamente, poderia dizer que se orgulhava. Um pequeno pedaço de si que, assim como enxergava seu próprio ser, estava em construção, aproximando-se, um pequeno passo por vez, de alguém que seria cada vez mais ela e cada vez menos receio e impedimento.
Em meio a seus devaneios e divagações - que não mais abandonavam-na -, ela avistou a caixa preta cheia de escritos do ‘Cranium Wow’ sobre uma prateleira aleatória. Sinceramente, já tinha aprendido o suficiente a não questionar as motivações das pessoas; a faculdade tinha obrigado-a a deixar várias coisas passarem sem perder muito tempo tentando entendê-las para o bem de sua própria sanidade. Mesmo assim, não conseguia de forma alguma chegar perto de cogitar qual o sentido de Mitch deixar um jogo de tabuleiro perdido no meio da área de serviço como se tivesse sido esquecido ali no meio. Talvez fosse mais um caso em que não valesse a pena se demorar.
Agarrou a caixa, lendo os dizeres chamativos sobre todas as novidades daquela versão do jogo enquanto caminhava de volta até a sala.
— Gente, eu nem sabia que existia essa versão agora - admitiu ao chegar.
Ao levantar o olhar, percebeu o ambiente totalmente vazio, sem uma alma viva sequer no local em que estavam poucos minutos antes. Ouviu o som baixo, mas inegavelmente derivado de uma respiração pesada logo atrás de si.
— É exatamente assim que as pessoas morrem nos filmes de terror - murmurou, sentindo os batimentos acelerados enquanto se virava lentamente na direção de que provinha o estímulo sonoro.
Os cinco pares de olhos lhe observavam de volta, todos petrificados com a adrenalina, como se tivessem aguardado ansiosamente por aquele momento. Os sorrisos beirando à mania já deixavam bem claro que, ao fim de tudo, não importava o resultado do Monopoly ou seu acúmulo de títulos de posse. tinha perdido mesmo assim.
— Atacar! - Adam berrou, apertando seu próprio recipiente, liberando toda a espuma sobre a garota. Os outros quatro fizeram o mesmo.
Em questão de instantes, ela estava quase totalmente coberta por espuma e algo próximo de serpentinas em teia, as quais tinham se tornado pegajosas nos lugares mais incômodos possíveis. A única opção que lhe restava naquele momento era apertar os olhos com força, enquanto eles riam e apertavam aquelas coisas geladas sobre ela.
— Vocês acabaram? - perguntou, com os dentes quase travados, abrindo a boca minimamente, tentando evitar de engolir qualquer coisa que não deveria.
— Sim - confirmou. — Ah, não, calma.
Ela fechou os olhos de novo bem a tempo de receber mais um jato frio sobre o cabelo.
— Agora acabamos.
passou as mãos no rosto, livrando-o de boa parte da sujeira, enquanto sentia algo grudento escorrendo de seu cabelo para as suas costas.
— Eu odeio vocês - murmurou.
— Meu Deus, mas que merda é essa? - Emily perguntou, vendo a bagunça. — Enfim, não quero saber. Mas vocês vão limpar. Só vim mostrar uma coisa.
Ela ergueu o iPad, mostrando uma imagem animada na qual se lia o nome ‘’ em roxo metálico em frente a um plano espacial, com vários objetos astronômicos galáticos. Havia até uma pequena estrela cadente correndo ao fundo; brilhando e sumindo, exatamente como aquelas que as crianças observavam animadas nas sacadas de suas próprias casas. Ela não conseguiu impedir o próprio sorriso ao se lembrar de que o primeiro desejo que tinha feito - aos cinco anos, a um avião que jurara ser uma estrela cadente atravessando o céu - era o de ser uma cantora famosa um dia.
— A equipe de mídia visual acabou de enviar. É o fundo que projetaremos no telão durante o seu show. Gostou?
— Eu amei.
Ela não pôde evitar o reconhecimento daquela leve ardência nos olhos. Era lindo e era para ela. Aquelas pessoas que mal a conheciam realmente estavam dispostas a se dedicar em prol da construção de algo que eles não lhe deviam, apenas porque queriam fazê-lo.
— Com a arte do show e o ritual de iniciação realizado - começou a falar, chamando a atenção de todos para si. — Eu declaro que você, , é oficialmente um membro da nossa família.
Em meio a gritinhos e pulinhos, os cinco a abraçaram em um gesto coletivo bem torto e descompassado, mas que a fez se sentir acolhida como muitos movimentos sincronizados e planejados jamais haviam feito.
Não sabia muito bem o que dizer ou se sequer deveria realmente dizer alguma coisa. Decidiu que não. Algumas coisas realmente eram melhores se apenas sentidas.
— Agora, eu recomendo fortemente que você tome um banho, porque o seu cabelo está completamente horrível - Sarah comentou, rindo, enquanto puxava uma das teias.
Mas aquela era a única coisa horrível. Por mais que ela se sentisse como uma pequena peça defeituosa, que não tinha sido feita para se encaixar de forma correta em lugar algum, naquele abraço tão torto quanto ela, sentiu-se em casa.

Capítulo Oito

Friends just sleep in another bed
And friends don’t treat me like you do
Well, I know that there’s a limit to everything
But my friends won’t love me like you

Friends - Ed Sheeran


— Foi estranho, sabe? Uma correnteza muito forte mesmo, daquelas que te arrastam sem você ter oportunidade alguma de se segurar ou tentar evitá-la nadando. E mesmo assim eu tentei. Tentei muito. Até sentir minhas pernas e braços exaustos com a fadiga muscular e o esforço inútil. Eu cedi, senti o arrasto inevitável e caí. — Odeio esse tipo de sonho - comentou, balançando a cabeça para ela.
— Dizem que sonhar com correntezas significa perda de alguma coisa considerada importante na sua vida - murmurou, sobre o som repetitivo quase em zumbido que preenchia o ambiente.
— E você acredita nessas coisas?
Ela fez uma careta, não podendo se expressar com o resto do corpo, enquanto estivesse ali deitada, tentando permanecer imóvel o suficiente para não se machucar ou terminar com uma marca que a perseguiria pelo resto da vida.
— Não sei. Talvez. Não consigo não pensar nisso desde que acordei.
— Bom, considere como um sinal da perda de duas áreas de pele sem intervenção. - Ele riu. — Quem te vê assim, nem pensa que tem uma agulha te perfurando repetidamente.
tentou olhar o que o homem careca fazia em sua pele, sem sucesso. Voltou o seu olhar para o cantor, com um meio sorriso nos lábios.
— Eu posso não ser uma tentativa estranha de virar um gibi humano como você, mas não é como se fosse a primeira vez.
— Não. É a quinta. Você já disse isso - ele emendou, fazendo-a concordar.
— Feito - o tatuador finalizou o trabalho, permitindo que ela olhasse o resultado.
agora tinha “GRL PWR” tatuado na porção posterior de seu braço direito e um acréscimo à tatuagem de avião de papel nas costelas.
Quando , na noite anterior, sugerira que ambos tatuassem a data de abertura da turnê, ela rapidamente aliou uma coisa à outra, decidindo que a data deveria ficar perto daquilo de mais libertador e simultaneamente frágil que ela tinha marcado em seu corpo. Uma data de decolagem: 12.02.2021. De alguma forma, tinha conseguido achar graça ao perceber que o número era exatamente igual de trás para frente. Era uma tatuagem legal no fim das contas e ainda precisava fazer a dele.
— Já decidiu onde? - O tatuador questionou.
— Faz entre os pássaros - sugeriu. — Bem no meio deles, como se fossem dois pombos-correio trazendo um anúncio importante. Vai ficar incrível.
— Vai ficar uma bosta - ele corrigiu.
Ela deu de ombros.
— A linha entre as duas coisas é bem tênue. Sem contar que independentemente do que você fizer, suas fãs ainda vão compartilhar um trilhão de fotos em todos os ângulos, pregar pôsteres na parede e adorar como se fosse um Deus novo. Qualquer porcaria que você colocar aí automaticamente vai ser bacana, sexy ou conceitual.
— Não é bem assim - ele reclamou.
— Nem você acredita nisso.
O cantor revirou os olhos, ao se sentar. Apontou para o homem um canto vazio no braço esquerdo, logo acima da tatuagem de âncora desenhada perto do pulso.
— Igual à dela?
— É a intenção - respondeu, sorrindo para ao sentir a agulha na pele. — Mais uma coisinha pela qual passaremos juntos.
— Pelo menos eu não chorei - ela brincou.
— Não estou chorando. Meus olhos só são admiravelmente brilhantes.
Ela não ousou discordar. Mesmo que adorasse implicar com ele, ainda evitava mentir, mesmo que para seu próprio contentamento. Talvez fosse alguma noção tosca de caráter em momentos que não deveriam significar absolutamente nada.
— Grande show amanhã, hein? - O homem perguntou.
Assim que tinham trocado algumas palavras com o mais velho, questionou a si mesma sobre o peso dos estereótipos. Ele era corpulento, alto, completamente tatuado e tinha uma pose natural de marra, que provavelmente a faria se questionar sobre as possibilidades de receber uma cara feia como resposta ao mais mínimo ‘bom dia’. Mas foi só ele abrir a boca para atendê-los, que ela teve vontade de abraçá-lo, por ser tão doce e gentil.
— Com certeza - concordou. — E é o primeiro da vida dela, acredita?
Ele arregalou os olhos, verdadeiramente surpreso ao se virar para ela.
— Sério, menina? Primeira vez?
Pela iluminação que vinha da sala ao lado, chutou que já deveriam estar se aproximando do fim do pôr-do-Sol. O tom alaranjado contra o tom queimado do piso fazia com que a luz balançasse como se dançasse para longe, acompanhada por um ar quase espectral.
Ela assentiu, com um sorriso.
— Primeira apresentação em público da minha vida. Só vinte mil pessoas para começar. - Ela deu de ombros da forma mais irônica e exagerada que conseguiu. Um claro mecanismo de defesa para o mais completo pavor.
O homem riu abertamente, enquanto se virava para voltar sua atenção aos números gradualmente marcados no braço de que, inegavelmente, já tinha superado a marca de vinte mil pessoas vendo-o há anos. Aquilo já era tão habitual a ele quanto o simples ato de saber quando colocar as próprias roupas para lavar. Talvez até mais.
— Um momento e tanto - ele disse para .
— E eu estou me cagando de medo - admitiu.
— Duvido que você estaria saindo em turnê se fosse qualquer coisa menos que muito boa.
— Ela é incrível - se intrometeu. — E, apesar de entender a apreensão, também sei com toda a clareza do mundo que ela não precisa nem um pouco de toda essa preocupação.
— Minha sobrinha vai ver vocês. Com certeza terei vídeos para comprovar minha teoria depois. Daqui uns shows, já vou poder falar que tatuei duas pessoas famosas: e .
— Se eu fosse você, eu registraria esse momento - o cantor comentou. — Até porque ano que vem ela já estará sendo indicada ao Grammy.
soltou uma risada alta, forçada e sarcástica.
— Claro que sim. E com o Chris Hemsworth como meu acompanhante para a premiação.
— Pensei que você gostasse do Chris Evans. - franziu o cenho.
— Acho que eu tenho um problema generalizado com pessoas que carregam o nome Chris em suas certidões de nascimento.
— Sabia que Chris é meu nome do meio? - perguntou.
— Não precisa perder seu tempo tentando me convencer.
Entre traços, risadas e comentários aleatórios, prosseguiram.
— Para onde vão depois do show aqui? - O tatuador perguntou.
— Depois de amanhã temos show em Turim - respondeu.
— Daí viajamos para Madrid - completou.
— Deve ser muito bacana trabalhar viajando e conhecendo tantos lugares - o homem comentou.
concordou.
— Mas é exatamente por isso que é tão deprimente quando não tem tempo o suficiente entre um concerto e outro para que possamos conhecer ao menos um pouco do lugar, sabe? Pensar que, caramba, um país novo e incrível e não dá tempo de fazer absolutamente nada.
O homem assentiu. Fazia sentido. pensou em como também não conhecia nada da Espanha e, em poucos dias, teria visitado basicamente dois países totalmente novos sem ter planejado qualquer coisa do tipo antes da última semana.
— E por falar em conhecer lugares novos - interrompeu seus pensamentos, chamando atenção para ele exatamente da forma que sempre fazia, sem precisar de esforço algum. — Tem algum lugar legal para jantar aqui por perto?
— Tem uma cantina a duas quadras daqui - o homem indicou. — O melhor tagliatelle da cidade. O lugar é incrível.
— Então é lá que vamos passar antes de voltar para o hotel - o rapaz decidiu.
— Emily não vai nos odiar? - perguntou.
— Ela não é o Jeff. E vamos ser rápidos. Só quero usar bem o tempo hoje, já que amanhã é nosso último dia aqui.
— Comer por lá com certeza é uma boa forma de usar o seu tempo. Só lembrem: nada de carne de porco, refrigerantes e processados.
e apenas moveram a cabeça concordando. O homem seguiu o conselho de , pedindo uma foto com os dois e fotografou também as tatuagens feitas.
— Rabiscos prontos? - Milo perguntou ao ver os dois entrando no carro. — De volta para o hotel agora?
— Na verdade, Milo, pode seguir duas quadras à frente? Nós três vamos jantar fora hoje.
Com a chave rodada na ignição, sentiu o estômago dando sinais de que também tinha adorado a ideia.


❀❀❀



O jantar tinha sido leve e agradável. Eles foram rápidos, mas, mesmo assim, e não desperdiçaram a oportunidade de realizar um inquérito quase judicialmente extenso para o motorista.
Milo tinha contado sobre a ex-esposa, que tinha conhecido por conta de um amigo em comum ainda muito cedo. Ela no último ano do ensino médio, ele recém-graduado no colégio, trabalhando com construção para ajudar nas despesas de casa. Namoraram exatamente da forma que um romance jovem pedia, com direito a todas as risadas, clichês e declarações de amor eterno em função de um para sempre que acabou em menos de quatro anos. Mas não antes de ter um pedaço de gente correndo pela casa com os cachos escuros caindo sobre os olhos.
Amelia tinha crescido com um pai que passava tempo demais fora, mas fazia questão de aproveitar cada segundo de proximidade quando a oportunidade chegava. E contava para todo mundo, com o peito estufado de orgulho, sobre como ela era algum tipo de gênio pré-adolescente em exatas. de repente desejou poder conhecê-la.
— Ela é um doce - contou, enquanto os dois entravam no hotel. Milo se despediu alegremente minutos antes, agradecendo pelo jantar. — Foi a um dos meus shows, entrou no camarim e tudo. Ela só tem um pequeno defeito.
— Qual?
— Disse na minha cara que eu era bem legal, mas o favorito dela era o Liam.
soltou uma risada quase engasgada.
— Deus, como eu queria conhecer essa garota.
— Vou ter pesadelos à noite imaginando esse encontro.
A risada quase melódica dela estava prestes a sair da garganta, alegre e despreocupada, até ela reparar com mais cuidado no saguão. Estranhamente vazio no que dizia respeito a outros hóspedes. Peculiarmente cheio de objetos que com certeza não deveriam estar ali.
— Aquela é a minha mala? - A pergunta era praticamente retórica. Tinha enchido as alças com excessivas fitas coloridas para encontrar a bagagem com mais facilidade na esteira dos aeroportos. Claro que aquela era a sua mala.
— E a minha - murmurou com estranhamento.
— Ai, que bom que vocês chegaram - Emily se apressou, levantando da poltrona que tinha ocupado nos últimos minutos em aguardo. Fora ela, estavam apenas alguns seguranças e funcionários no saguão.
— O que está acontecendo? - perguntou. Sentia seu corpo todo alarmado, ouvindo qualquer tipo de radar intuitivo berrando em suas orelhas com a obviedade de que alguma coisa estava muito errada.
— Bom, aparentemente um dos canos do seu banheiro - apontou para - estava vazando há algum tempo sem que percebessem. Causou uma infiltração gradual até que a parede cedesse à pressão da água e agora a cobertura está relativamente alagada.
— Nós sentimos muito mesmo - o gerente se aproximou, manifestando suas mais sinceras e racionalmente preocupadas desculpas. — Vamos cobrir todos os custos da hospedagem de vocês nesses dias. Não sabemos como não foi notado qualquer sinal do vazamento por ninguém.
e se encararam, concluindo que era melhor não falar sobre a bolha na parede. Se nenhum funcionário vira, eles muito menos o tinham feito.
— Enfim, nossas mais sinceras desculpas.
— E as malas no meio do saguão....? - O questionamento da garota era incerto. Tinha medo de soar arrogante por qualquer motivo que fosse, pois detestava poucas coisas na vida mais do que pessoas que humilhavam e ofendiam funcionários pelo simples objetivo de estabelecer uma superioridade baseada em ‘eu estou te pagando para isso’.
— Conseguimos tirar as coisas de lá antes que elas molhassem - Emily explicou. — Sorte que as suas coisas estavam dentro do armário, porque o estrago começou pelo seu quarto.
Naquele momento fez um agradecimento silencioso à sua tia e à história real e traumatizante da vez em que uma barata caminhando pelo chão tinha decidido se hospedar no meio de suas roupas. Desde então, não deixava nada pelo chão. Não era um método infalível ou mirabolante o suficiente, mas tinha acabado de salvá-la de perder algumas coisas que fariam uma falta absurda. Só conseguia respirar fundo, pensando no moleskine escondido, salvo por tão pouco.
— A questão é - Emily voltou a falar - o hotel está cheio. Além dos turistas de costume, muitos fãs de cidades próximas vieram para esperar o show de amanhã. A equipe de segurança vai usar o sofá-cama e alguns colchões extras no quarto da banda. Eu vou dormir na casa de um conhecido. Um quarto vagou há uma hora mais ou menos e eles estão limpando para vocês dois.
pensou que fosse desmaiar. Ou que precisava de um exame de audição. Obviamente aquilo não poderia estar certo. Ela estava longe de ser Amelia, fenômeno com os números, mas ainda sabia fazer uma conta básica. E tinha quase certeza de que ouvira Emily dizendo “um quarto” para “dois”.
— A gente vai dividir? - fez uma careta.
— É uma suíte com duas camas de solteiro - o gerente explicou.
— Vocês dois precisam estar descansados para amanhã. É um dia muito importante para eu arriscar colocá-los em colchões infláveis pelo chão. Não quero ninguém com sono no show, nem reclamando de dor nas costas.
fechou a mão, apertando-a em punho ao lado do corpo e liberando a força repetidamente. Temeu que sua voz não fosse sair de uma forma que não fosse completamente vergonhosa quando perguntou:
— Eu não posso ir com você?
Ela se sentiu patética e infantil assim que se ouviu. Estava se estapeando mentalmente por perceber que nunca tinha agido assim nem com a própria mãe e agora estava praticamente implorando para que uma quase estranha totalmente não relacionada a ela a levasse para a casa de um verdadeiramente completo estranho. Quantos anos ela tinha? Seis?
Emily não pareceu se importar, evitando comentários sobre a reação ao perceber que a garota estava com vergonha. Apenas meneou a cabeça antes de prosseguir:
— Ele mora do lado oposto à arena e tem muito trânsito no caminho. Provavelmente vou chegar um pouco atrasada mesmo saindo super cedo, mas já está tudo organizado para que não precisem de mim tão cedo. - Ela respirou fundo. Estava tentando lidar com a situação da melhor forma possível, mas precisava se lembrar de manter a calma a cada dois segundos. — Não posso arriscar o atraso de vocês.
concordou, não sabendo muito bem o que fazer, o que dizer ou para onde olhar. Podia sentir nervosa ao seu lado e, por mais que fosse exatamente aquilo que ele queria, sabia que não era uma boa ideia abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. O contato não ajudaria em nada.
— Bom, vocês dois são adultos - Emily finalizou, com um suspiro profundo ao expirar. — Sabem se comportar. E, pelo amor de Deus, não façam nada que eu não faria.
— Então podemos virar a noite repassando um milhão de coisas do show em vez de dormir, não é? Porque é exatamente isso que você vai fazer - caçoou.
Emily soltou uma risada nasalada.
— Se você disser para o resto da equipe que eles dormiram em colchões que fazem mais barulho do que uma porta velha para que você passasse a noite em claro em uma cama confortável, eles vão querer te matar e eu vou deixar.
— Senhores, o quarto já está pronto - o gerente interrompeu a conversa. Um rapaz jovem uniformizado esperava atrás do mais velho, pronto para levar as malas.
Emily pegou a própria mala na poltrona, antes de se virar para eles.
— Eu também já vou. O caminho é longo. Vão e, por favor, descansem.
e apenas assentiram, silenciosamente.
Os dois foram guiados até o quarto, acompanhados do jovem com as malas e de dois seguranças corpulentos, formando uma barreira entre eles e as portas do elevador. A garota se perguntou se aquele protótipo de barricada seria também capaz de controlar a maré de nervosismo que lhe consumia como se estivesse prestes a se transmutar em um tsunami.
— Vai ficar tudo bem - murmurou, sem olhá-la. Não houve tempo para outra resposta além do barulho do elevador ao avisar que estavam no andar de destino.
— Bom, fiquem à vontade. Se pudermos trazer qualquer coisa ou fazer algo para que a estadia de vocês seja melhor, por favor, não hesitem em nos avisar - o rapaz disse, deixando as malas em um canto no chão.
— Se precisarem de nós - um dos homens grandes começou, sendo interrompido por um aceno de cabeça do cantor.
— Chamaremos, Micah. Obrigado!
Com os três homens do lado de fora, a porta foi trancada, abandonando apenas os dois do lado de dentro, aninhados em um silêncio alto demais daqueles que, de repente, pareciam não saber o que dizer. Alguma barreira imaginária tinha sido rompida bruscamente e ninguém sabia exatamente como dar o primeiro passo através dos escombros da recém-ruína.
— Acho que começamos colocando as malas em algum lugar alto, não é? - arriscou a brincadeira, esperando que conseguisse quebrar ao menos uma camada do gelo espesso que sentia se formando. não reagiu com mais do que um movimento de cabeça concordando, sentada em sua cama com as pernas cruzadas, as mãos brincando com as extremidades das meias listradas em roxo e rosa, como o gato da Alice.
— Eu sinto muito por invadir a sua privacidade dessa forma - ela começou, a voz baixa e pausada como se tateasse o ambiente a cada palavra. — Não queria ser responsável por esse incômodo, ainda mais na véspera do show de abertura.
O rapaz franziu a testa, formando linhas concretas de estranhamento em sua fronte.
— Do que raios você está falando?
Ela realmente estava apegada demais à linha da costura, próxima aos tornozelos.
— Se eu tivesse avisado alguém sobre aquela parede esquisita, talvez tudo isso pudesse ter sido resolvido antes de chegarmos a esse ponto. — Bom, se é assim, você me mostrou e eu também não fiz nada sobre. É culpa dos dois.
Ela não respondeu, mas finalmente ergueu a cabeça, encontrando os olhos de que raramente pareciam se desencontrar dos dela.
— É realmente tão desesperador assim dormir no mesmo quarto que eu?
Ela deu de ombros, a quase miragem de um sorriso brincando pelos lábios. sentiu os próprios lábios querendo se curvar para cima ao perceber relaxando os ombros.
— Só se você decidir usar o travesseiro para me matar durante a noite.
— Para que te matar se eu posso ser muito mais irritante como companhia até a hora de dormir?
— Deus, eu sei que nunca fui uma das favoritas, mas por que me castigar desse jeito?
jogou a calça de flanela vermelha do pijama nela. riu, arremessando a peça de roupa de volta.
— Quer tomar banho primeiro? - perguntou.
meneou a cabeça, quando encontrou o controle da televisão.
— Eu vou depois.
seguiu para o chuveiro, enquanto ela corria pelos canais liberados, sabendo exatamente o que procurava.
Sorriu ao encontrar a Warner passando F.R.I.E.N.D.S. como de costume. Era exatamente o que ela precisava.
Deixou a série passando enquanto abriu a mala, checando se suas coisas realmente estavam intactas depois do acidente aquático. Respirou aliviada ao encontrar o caderno seco. Puxou o shorts cinza de pijama e uma blusa azul grande demais que fazia com que Mia tentasse enfiar a cabeça nela só para provar que a peça era grande o suficiente para duas pessoas.
retornou um pouco antes do episódio acabar, com a blusa branca e a calça vermelha e a toalha torta, tentando terminar de secar os cabelos.
— Bom saber que você gosta da minha série favorita - comentou. — Tenho uma coisa a menos na lista de motivos possíveis para te detestar.
— Nós dois sabemos que sua lista só inclui motivos para me adorar. - Ela o cutucou na costela ao passar por ele, seguindo para o banheiro com a própria roupa.
soltou um suspiro pesado, sentindo a água quente escorrendo pelos cabelos. Esfregou os olhos com mais força que o necessário, repetindo a si mesma que poderia fazer aquilo. Não é como se não tivesse passado os últimos dias praticamente inteiros ao lado dele. E era um bom amigo. Sabia ouvir, gostava de conversar, parecia sempre ter uma tirada esperta na ponta da língua desde que isso fosse fazê-la rir. Desde que ela não decidisse começar a roncar ou falar enquanto dormia naquela noite, tudo ficaria bem.
Trocou-se e secou os cabelos, aproveitando o secador na pia apenas para retirar dos fios o excesso de água. Quando retornou, encontrou jogado na cama, vendo os créditos de outro episódio rolando pela tela.
Ela colocou as roupas usadas em uma sacola separada, deixando-as em um canto para lavar depois.
— Posso te fazer uma pergunta?
Ela concordou, assentindo.
— O que tem no moleskine?
sentiu sua respiração parar. Nem Mia sabia daquilo. Era o seu segredo guardado a sete mil chaves.
— Diz que você não mexeu nele - implorou, sentindo o desespero rastejando pela garganta, querendo gritar com o mundo todo.
— Não mexi. Você o deixou em cima da mala. Só fiquei curioso.
— Não tem nada nele.
Ela era uma péssima mentirosa e sabia que não era a única no cômodo a perceber isso. Bufou, dando-se por vencida.
— São umas músicas idiotas que eu vim escrevendo em alguns momentos nos últimos tempos. Nada demais. Nem são boas.
— Você podia cantar uma. Aí eu te digo se elas são boas ou não. Sabe, com a opinião de um incrível compositor.
— Esse quarto é pequeno demais para abrigar nós dois e o seu ego.
, eu sei que você está desconversando - ele falou simplesmente. — Mas eu realmente quero ouvir. Não vou falar para ninguém. Nem gravar um áudio escondido e vender a demo para outra pessoa sem você saber.
Ela fez uma careta, apontando para a mesinha com o abajur.
— Celular à minha vista se eu vou mesmo me prestar a essa humilhação.
Ele ergueu as mãos, repousando o aparelho sobre a mobília vagarosamente.
abriu o moleskine sobre o colo, procurando o que tinha de mais pronto, além dos rabiscos e trechos dispersos.
— Essa foi a primeira música que eu finalizei - ela começou, sentindo a boca seca. — Já tem uns vários meses e, bem, você vai entender sobre o que ela é.
tinha se sentado na cama, cruzando as pernas sobre o colchão, mantendo-se o mais de frente possível para ela, prestando atenção em cada detalhe e cada segundo daquilo. Estava genuinamente ansioso para ouvir o que ela tinha.
— Deixa para lá, ela não é boa - disse nervosa, balançando a cabeça para mandar a ideia embora.
— E você lá consegue fazer algo mal?
— Torta de morango - ela respondeu. — E provavelmente compor.
… - ele insistiu. — Sou só eu. Você consegue superar mais esse medo.
Ela piscou algumas vezes antes de abaixar a cabeça novamente, encontrando a própria letra redonda e desenhado nas folhas claras. Respirou fundo e fechou os olhos. Sabia cada palavra daquilo.

Nota da autora: Se quiser, coloque essa música para tocar: Is It Just Me

— It's been way too long for me to find it this hard
(Já faz tempo demais para ser assim tão difícil)
Sitting alone my fingers picking the sofa apart
(Sentada sozinha, meus dedos separando o sofá)
An attempt to distract from the fact that I miss you
(Uma tentativa de me distrair do fato de que sinto sua falta)
I wonder if your friends have had to carry you home
(Eu me pergunto se seus amigos tiveram que te carregar para casa)
And stay for the night because they don't want to leave you alone
(E ficar a noite toda porque não queriam te deixar sozinho)
Way before it was fun, it's becoming an issue
(Muito antes de ser divertido, está se tornando um problema)
I know it's cruel
(Eu sei que é cruel)
But I kind of hope you're tortured too
(Mas eu meio que espero que você esteja se torturando também)

E era esse o poder de uma boa música quando interpretada com emoção genuína. Por uma fração de segundos, foi transportado para o relacionamento anterior, relembrando todos aqueles sentimentos e angústias, mesmo que hoje somasse mais arrependimentos do que nostalgias.
Seu momento viagem no tempo, no entanto, não durou muito tempo. Estava muito mais interessado em observar a mulher à sua frente, acertando notas em sequência, os olhos fechados e pequenas linhas de expressão marcando o movimento e o sentimento em seu rosto. Cada pedaço do rosto franzido, os ombros relaxados, as mãos ainda agarradas ao moleskine mesmo sabendo não precisar dele. não conseguia tirar os olhos dela. Estava preso naquele momento e não queria largá-lo.

— Tell me does your heart stop at the party when my name drops
(Me diga se o seu coração para quando meu nome surge na festa)
Like you're stood at the platform when the trains cross
(Como se estivesse parado na plataforma quando os trens cruzam)
Are you hurting, yeah you must be
(Você está sofrendo? Deve estar)
Or is it just me?
(Ou sou só eu?)
Tongue-tied, screaming on the inside
(Língua presa, gritando por dentro)
When I say that we broke up and they ask why
(Quando eu digo que terminamos e eles perguntam o porquê)
Are you crying in the shower like a freak?
(Você está chorando no chuveiro como uma aberração)
Or is it just me?
(Ou sou só eu?)

tinha fechado os próprios olhos também, curtindo a sensação de apenas ouvir aquela voz doce e tudo aquilo que ele vinha descobrindo que ela era capaz de fazer com ele, começando pelos arrepios por todo o corpo que cada palavra lhe causava.

— I heard a rumour you've been spending some time
(Eu ouvi um rumor de que você anda passando tempo)
With that blonde girl that you work with and I know she's exactly your type
(Com aquela garota loira com quem você trabalha e eu sei que ela é exatamente seu tipo)
And my miserable mind's running wild with the picture
(E minha mente miserável está indo à loucura com as imagens)

Entre mais alguns trechos e o refrão repetido, percebeu uma vulnerabilidade sobre a qual ele tinha se esquecido de sequer pensar. Tinha se acostumado com os momentos da mulher assustada, aflita com a mudança de trezentos e sessenta graus em sua vida - apesar de se alegrar a cada pequena vitória que tinham em direção à superação daqueles medos. Mas tinha simplesmente ignorado o fato de que ela provavelmente já teria se sentido tão machucada e vulnerável assim por causa de alguém. Não conseguia afastar a sua completa indignação em saber que alguém tinha mesmo encontrado a coragem para magoar alguém tão especial quanto a garota sentada diante de si. Não fazia ideia de quem “ele” era, mas tinha a certeza clara fixa de que era um idiota.

— 'Cos this would be one whole lot easier
(Porque isso seria muito mais fácil)
God, I know that's selfish but it's true
(Deus, eu sei que é egoísta, mas é verdade)
If underneath some calm exterior
(Se por baixo de algum exterior calmo)
You're all fucked up too
(Você está totalmente fodido também)

tinha que admitir que também torcia por isso. E não sabia se era um ator bom o suficiente para disfarçar seus pensamentos em sua fisionomia.
Quando terminou a canção e abriu os olhos minimamente, parecendo temer o retorno ao mundo real, ele só pôde aplaudi-la. Nada representava melhor a sua mais sincera opinião acerca do que tinha acabado de ouvir além de todas as palmas do mundo.
— Eu poderia ficar te aplaudindo até amanhã e não seria o suficiente - disse por fim. — E, provavelmente, alguém no quarto de cima ia reclamar pelo inconveniente na madrugada.
— Quero sua opinião sincera.
— Essa é a minha opinião sincera - ele garantiu. — Além disso, a única coisa que eu tenho a dizer é que esse cara pode se sentir simultaneamente honrado por receber uma música tão boa e um completo idiota por te dar motivos para escrevê-la.
riu, erguendo os ombros de leve.
— Eu que fui emocionada demais, eu acho - admitiu. — Ele tinha seis anos a mais que eu, um emprego estável em uma empresa importante, falava de Bukowski e Napoleão com uma facilidade absurda e tinha um senso de humor ácido que eu adorava.
se ajeitou na cama, sentindo o edredom embaixo de si, de repente, parecendo pinicar um pouco seu corpo. Quando aquela porcaria tinha se tornado desconfortável? Não se lembrava das cobertas da cobertura serem assim.
— Eu o achava simplesmente o máximo, sabe? Super maduro e inteligente e só conseguia me gabar comigo mesma que tinha mandado bem demais por arranjar um cara tão sensato enquanto meus colegas de sala iam a baladas aleatórias mentir sobre serem cirurgiões ou militares para tentar enganar uma garota sozinha em um banco de bar.
— Então por que acabou?
— Alguns bons meses depois ele me enviou uma mensagem dizendo que as coisas estavam sérias demais e que eu merecia alguém que tivesse as mesmas intenções e perspectivas que eu em um relacionamento.
O rapaz fez uma careta, descrente.
— Um pé na bunda esfarrapado desses e por mensagem? Palmas para o Senhor-Rei-da-Maturidade.
Ela soltou uma risada leve, concordando.
— E é esse o ponto. Era óbvio que era uma desculpa qualquer. Não era como se estivéssemos prestes a nos casar. Na verdade, mal nos víamos porque ele sempre estava preso no trabalho ou eu estava trancafiada estudando para uma prova importante. E de repente, uma saída ocasional a um pub ou cinema terminando em sexo no apartamento dele e um consequente adeus matinal foi sério demais para o nosso namoro. Que, aliás, foi ele quem me pediu.
— Eu realmente não acredito numa merda dessas. - balançou a cabeça. — Que imbecil.
— Concordo. E reza a lenda que a tal garota loira de que eu falei já estava por perto demais antes mesmo que ele tivesse coragem de me mandar uma mensagem de texto. Mas eu não vou admitir que sou corna por algo que não tenho certeza. Vou continuar com minha dignidade fingida intacta, muito obrigada!
— Mia sabe disso?
— Ah, com certeza. Ela me odiou por dias quando eu não deixei que ela comprasse dez caixas de ovos para jogar nas janelas do escritório dele.
riu. Do pouco que conhecia Mia, já podia imaginar que aquela seria exatamente a reação dela para algo do tipo.
— E você, ? - perguntou, apoiando a cabeça sobre os nós dos dedos.
— O que tem eu?
— Eu te dei uma música e a história de um relacionamento fracassado. Mereço uma história das suas frustrações amorosas em troca.
— Minhas frustrações amorosas estão por toda a internet.
revirou os olhos.
— Não tenho saco para ler sites e blogs de fofoca. Sem contar que eu estou tentando ter uma conversa natural e profunda com meu colega de quarto, então agradeço se você puder colaborar.
— Tudo bem, tudo bem. - Ele respirou fundo, antes de continuar. — Você já deve ter ouvido Cherry.
— Não - ela o interrompeu. — Não faço ideia do que está falando.
— Um absurdo, se quer saber. Mas, ok, amanhã você vai escutar.
Ele passou a mão pelos cabelos, puxando as próprias madeixas.
— Meu último relacionamento considerado publicamente sério foi com uma modelo franco-americana. E no começo foi ótimo, sabe? Os amigos dela passaram a ser meus amigos também e passávamos tanto tempo todos juntos que eu até me esquecia de como costumava me sentir absurdamente sozinho. Eu estava em um momento ruim e ela, de alguma forma, era o que eu tinha encontrado para preencher o vazio que eu criei na minha vida.
o olhava fixamente, parecendo mais atenta ao que ele dizia do que alguém já tinha feito em toda a sua vida.
— Houve uma época ruim, seguida de uma época em que ela foi boa para mim e, depois, a hora em que o próprio relacionamento foi o que me deixou à beira de um abismo de novo. E eu não sou você nessa história e ela não é o cara mau. Eu fiz muita merda e de forma alguma vou me dizer vítima de qualquer coisa. Seria hipócrita e mentiroso demais da minha parte. O ponto é que eu me arrependo de várias coisas na minha vida e muitas delas têm a ver exatamente com o tipo de coisa a que me submeti para ser alguém para os outros. Queria ter feito escolhas diferentes pelo caminho.
Ela assentiu, concordando enquanto enrolava o próprio cabelo em um coque torto no topo da cabeça.
— Acho que todos tivemos nossa modelo franco-americana - ela pontuou. — Alguém com quem fomos uma versão da qual nos arrependemos depois, mesmo que nem sempre seja culpa da pessoa de fato. Acontece, sabe? E que bom que nos arrependemos se isso significa adquirir consciência para melhorar.
abriu um meio sorriso.
— E é por isso que você é a inteligente entre nós.
— Eu me esforço às vezes - ela brincou, enquanto deitava de lado, repousando a cabeça no travesseiro de uma forma que ainda pudesse olhá-lo enquanto conversavam.
— Você falou com seus pais desde que chegamos?
Ela suspirou de leve só de ouvir a menção a eles.
— Bom, minha mãe me mandou mensagem dizendo que me viu na televisão, então ela sabe que eu não morri. Acho que é o suficiente para ela.
— Que droga - ele disse, sincero. Era mesmo uma grande porcaria que ela não tivesse a própria família por perto enquanto tudo aquilo estava acontecendo.
— Mas a sua mãe, por outro lado, parece bem legal - comentou. — Sarah mostrou umas fotos da banda com a sua irmã e ela.
— Eu amo essa foto - admitiu. — Dona Anne e Gemma são mulheres incríveis. Ainda vou levar você para conhecê-las. Tenho certeza de que você e minha irmã se darão especialmente bem quando descobrirem como ambas adoram reclamar de mim.
— Uma mulher sábia - ela ponderou, recebendo um dedo do meio de .
— Mal vejo a hora de chegarmos a Manchester para vocês planejarem novas formas de tornar minha vida difícil.
Um silêncio totalmente diferente daquele presenciado mais cedo se instalou entre eles. Não havia um pingo sequer de desconforto nele. viu a si mesmo encarando o fato de que era estranhamente fácil simplesmente estar ali ao lado dela. Fazia tempo demais desde a última vez em que se vira em uma relação na qual não precisasse se esforçar até o mais completo esgotamento. Jamais seria capaz de expressar a qualquer pessoa - ainda mais a ela - como era grato pela simplicidade daquilo.
— Se tudo der errado - a voz dela rompeu o ar, estabelecendo sua presença no ambiente —, será que me aceitariam de volta na faculdade normalmente ?
esticou as pernas, ocupando todo o colchão quando seu corpo finalmente decidiu aceitar a sonolência e buscar a própria estadia na horizontal.
— Acho que te receberiam de volta com um tapete vermelho. A essa altura, você já deve ser tipo uma estrela do rock para eles.
— Não se eu não tiver passado em neuroanatomia.
O cantor levou alguns segundos para pensar, tentando recuperar na sua memória a informação que ele sabia que tinha em sua cabeça.
— Você não disse que tinha ido bem?
Ela pareceu surpresa por ele lembrar.
— Disse - assumiu. — Mas se autoconfiança fosse uma competição, eu nunca ganharia uma medalha.
riu, erguendo a cabeça de leve, enquanto soltava um bocejo longo e preguiçoso.
— Mais uma coisa para mudarmos quando a manhã chegar. Mas, agora, é melhor tentarmos dormir. Emily é melhor do que o Jeff em muitas coisas e uma delas é conseguir fazer você se sentir realmente mal por fazer algo de errado
concordou, puxando o edredom até a altura da axila, enquanto mexia a cabeça sobre o enchimento do travesseiro até encontrar uma posição confortável o suficiente para o pescoço e para a noite de sono adequado que ainda tinha alguma esperança de ter.
— Boa noite, - murmurou, os olhos fechados.
— Boa noite, - respondeu, lutando contra uma pontinha dentro dele que queria insistir em olhá-la por mais um tempo quando puxou a cordinha do abajur, extinguindo a iluminação do quarto.
E foi no escuro do ambiente que ela foi obrigada a olhar para aquele buraco negro de medos e incertezas que parecia verdadeiramente empenhado em fazer um estrago em seu peito.
A pergunta que fizera ao divagar sobre o que poderia acontecer se tudo desse errado tinha sido apenas o primeiro movimento de vários que se espiralavam sequencialmente em sua cabeça. Se os últimos dias já haviam sido difíceis, nada se comparava àquele momento. Reconhecer o horário de dormir era reconhecer o fim do último dia antes do começo de tudo aquilo. Era aceitar os últimos instantes antes do evento no qual tudo, absolutamente tudo poderia dar errado. Sem dó, pena ou cuidado com a dimensão do estrago.
Tinha passado a vida cantando, tinha ensaiado repetidamente, decorado cada nota no vocal e no piano, absorvido cada vírgula e cada emoção das letras que escolhera dentre suas preferidas. Tinha passado e repassado mentalmente absolutamente cada movimento, desde a forma de se sentar para tocar até a tênue separação entre as exigências e os limites do contato visual que teria de manter com nos duetos.
E, apesar do cuidado extremo e minucioso, tinha de admitir que não tinha sido difícil. Não era difícil tocar aquilo que conhecia tão bem. Não era difícil usar a música para se expressar quando tinha feito exatamente isso durante os últimos anos completos. Não era nem um pouco difícil, nem por uma fração de segundo sequer, estar ao lado dele; dividindo com ele um momento tão especial daquilo que era uma paixão compartilhada entre os dois. Então por quê?
Por que seu coração parecia bater em uma frequência que nem Usain Bolt atingiria em uma corrida de cem metros? Por que suas mãos tremiam enquanto suavam frio? Por que o ar parecia não vir quando ela estava tentando inspirá-lo com toda a força que tinha em seus pulmões? Por que estava desperdiçando o pouco que ainda conseguia respirar chorando?
A mão de encontrou a corda do abajur com uma velocidade impressionante, considerando-se a escuridão. Piscou algumas vezes, tentando ajustar as pupilas à luz mais rápido. Não conseguia lidar com o próprio desespero ao ouvi-la parecendo prestes a se sufocar ao seu lado.
, - ele chamou, sentando-se na cama dela.
Ela se sentou agilmente, de uma forma um tanto brusca, tentando, da forma que podia, capturar o ar até mesmo com a boca. As lágrimas escorriam em pequenas correntezas pela face. sentiu o próprio coração se partir em um milhão de pedacinhos, que ainda eram pisoteados em um sapateado à moda irlandesa, prestes a lhe estraçalhar de vez.
— Olha para mim, por favor - pediu.
Ela obedeceu. O queixo batia fora de ritmo, tentando se livrar mecanicamente do nervosismo. só conseguia pensar em como odiava poucas coisas no universo mais do que crises de ansiedade. Os olhos pareciam suplicar por ajuda, qualquer coisa que aliviasse aquela sensação de que o caos de um mundo inteiro estava confinado dentro dela.
tomou a mão da garota, colando-a ao vale esternal no próprio peito.
— O que é isso? - Ela engasgava entre as palavras, com a voz totalmente entrecortada pelo choro. — Uma cena de Tarzan?
— Pelo menos sabemos que você está bem o suficiente para me sacanear - ele comentou. — Sério. Presta atenção em mim. Você consegue sentir meu peito subindo e descendo enquanto eu respiro, não consegue?
Ela engoliu o soluço, concordando com a cabeça.
— Ótimo. Tenta respirar junto comigo, . Inspirando com força e soltando o ar pela boca com calma.
Ele puxou o ar para os pulmões de maneira demorada esperando que ela o imitasse. Soltou-o tranquilamente em seguida, expulsando-o pela boca. estava, de fato, tentando segui-lo, mesmo que as primeiras tentativas parecessem impossíveis demais de serem atingidas adequadamente.
— Isso. Vamos continuar assim.
Repetiram o movimento mais várias vezes, até que já tivessem conseguido manter as respirações sincronizadas e ajustadas por tempo o suficiente para que ela parecesse finalmente se acalmar.
— Bem melhor - disse, com um sorriso, ao erguer a mão para secar as lágrimas de suas bochechas.
— Desculpa, não queria que você me visse assim - ela falou, ainda tentando evitar os soluços.
— Você precisa parar de me pedir desculpas por coisas que não são sua culpa e que não me fazem mal algum. Eu sei o que é ficar ansioso, sabia? E eu sei que é uma merda. Se eu puder te ajudar a passar por isso de uma forma que faça a situação ser pelo menos um pouquinho menos ruim, eu me sinto feliz.
— Tanta coisa pode dar errado - ela murmurou, apertando as próprias unhas contra as palmas das mãos.
— E tanta coisa pode dar certo - ele emendou. — Eu sei que dá medo. Eu sei que parece o fim do mundo, mas é só mais um pedaço dele. Existe muita coisa para trás, para frente e para todos os lados. Tudo vai ficar bem. Eu prometo.
E, por mais que até ela soubesse que ele não podia realmente garantir aquilo, ela assentiu. Era mais fácil aceitar. Pelo menos naquele momento.
— Chega para lá - ele disse, acenando com a cabeça para que ela chegasse mais para o canto.
— Acho que essa ainda é a minha cama.
— Para de reclamar. - Ele se aproximou. — Chega para lá.
acabou se dando por vencida, arrastando o corpo até o canto do colchão e abrindo espaço para que ele se encaixasse ao seu lado. passou o braço por trás das costas dela, aproximando-a de si em um quase abraço.
Ela não soube como reagir. A situação era muito estranha e inesperada para que suas sinapses colaborassem e respondessem à velocidade normal.
— Vamos nos distrair - ele declarou. — Sobre o que você quer conversar?
não queria falar sobre como o corpo dele estava quente contra o seu. Nem sobre como o braço que ele passava por suas costas estava tão absurdamente confortável que quase fazia a situação parecer errada por algum motivo. Jamais mencionaria como sentia perfeitamente o cheiro de seu shampoo e aceitaria facilmente viver com aquele aroma por perto sempre que pudesse. Também não tinha intenção alguma de comentar sobre como ouvi-lo falando tão perto de si, sentindo seus batimentos próximos, estava perto demais de fazê-la se arrepiar dos pés à cabeça. Alguma coisa na voz dele parecia vibrar dentro dela e ela não poderia sentir mais paz. Foi daí que veio a ideia.
— Você podia cantar para mim - murmurou.
— Se é o que você quer - concordou.
se aconchegou um pouco mais, aproximando-se dele bem a tempo de ser atingida pelas primeiras palavras. Fechou os olhos, abrindo um sorriso delicado ao ouvi-lo começar a cantar.
— Sweet creature…
— Eu amo essa música - ela disse baixinho.
— Eu falo que você é muito minha fã.
— Shhh. Não estraga - ela reclamou, recebendo uma risada em resposta.
— Had another talk about where it’s going wrong.
prosseguiu com a música. A melodia de Sweet Creature tinha algo de especial que deveria ser encapsulado e vendido como calmante para os mais diferentes momentos e situações. Talvez não funcionasse. Talvez fosse necessário ter um a tiracolo cantando cada uma daquelas palavras com a voz rouca próxima demais para que houvesse sanidade completa. Independentemente do que fosse, podia garantir que estava funcionando. Bem até demais.
? - Ela chamou, quando ele terminou de cantar.
— Fala.
Nenhum dos dois parecia disposto a se mover para sair dali.
— Isso é estranho?
Ele franziu o cenho.
— Isso o quê?
— Isso - ela repetiu, movendo o indicador como um pêndulo entre os dois.
respirou fundo, antes de escolher a dedo as palavras para responder.
— Não se não tornarmos estranho.
apenas concordou, parecendo descobrir um milímetro extra para se aproximar dele.
— Obrigada.
— Pelo quê?
Ela riu de leve, o ar exalado fazendo cócegas contra o peito dele.
— Você questiona demais. Mas acho que por tudo.
E , enfim, decidiu que não precisava questionar mais nada.

Capítulo Nove

From now on, these eyes will not be blinded by the light
From now on, what’s waited ‘til tomorrow starts tonight
It starts tonight
And let this promise in me start like an anthem in my heart
From now on, from now on

From Now On - The Greatest Showman: Original Motion Picture Soundtrack


Se Mia estivesse ali, já teria ameaçado injetar toxina botulínica em todo seu rosto para que ela parasse de fazer aqueles protótipos de caretas, balançando a boca para os lados como faz um filhotinho peludo de cachorro descobrindo a existência do próprio focinho. Se já não costumava ser a pessoa mais fácil do mundo de manter parada em dias normais, com certeza não seria na abertura de uma turnê mundial que isso aconteceria.
— Escolhe uma cor - interrompeu seus pensamentos, fazendo-a interromper momentaneamente os movimentos infantis.
— Por que você não escolhe?
— Não consigo me decidir. Deve ser meu Sol em Aquário.
balançou a cabeça, incrédula com a desculpa esfarrapada.
— Isso não tem nada a ver com signo, . Até porque aquário é o mais independente e individualista do zodíaco.
ergueu as sobrancelhas, mostrando-se teatralmente surpreso.
— Não sabia que você entendia de signos, Senhora-Defensora-Estrita-Do-Método-Científico.
— Eu não disse que eu acredito ou que pretendo limitar a minha vida a informações astrológicas - ela explicou. — Mas com todo mundo falando sempre sobre isso, eu me senti meio pressionada a entender do que se tratava.
— Isso soou exatamente como algo que um geminiano diria.
o fuzilou.
— Eu não vou te falar a data do meu aniversário. Por favor, supere.
— Você sabe que eu posso simplesmente olhar seu passaporte ou sua identidade, não sabe?
— E você deveria saber que isso é invasão de privacidade, ainda mais considerando que todas essas coisas estão guardadas.
O cantor bufou. Estava literalmente tentando arrancar a informação sobre o aniversário dela desde a noite anterior. O assunto surgiu por acaso durante o diálogo e não era algo com o qual ele pretendia realmente depreender seu tempo. No entanto, fora exatamente a constante esquiva dela em simplesmente responder uma pergunta tão comum que o fizera decidir ser tão insistente e persistente quanto uma criança mimada era capaz de ser.
— Tudo bem, eu me rendo. - Ergueu as mãos, com as palmas abertas, demonstrando nos gestos que se dava por vencido. já conhecia seu olhar bem o suficiente para saber que não estavam em consonância com suas atitudes. — Agora, por favor, eu estou te implorando para me ajudar a escolher uma cor.
Ela observou as pequenas embalagens na grande maleta prateada,tão cheia de compartimentos internos repletos de cores que faziam sua cabeça doer. Depois de alguns instantes pensando, apontou para o pote azul claro.
— Esse. E aquele também. - Apontou para o cor de rosa. — Combina com a estética da capa do álbum.
logo sorriu, aprovando a ideia. Pegou os dois esmaltes na maleta, recebendo joinhas tortos de aprovação de , que ainda estava preocupada em não amassar as próprias unhas pintadas de preto e repletas de glitter que ela ainda temia que conseguissem encontrar seu olho de alguma forma. Os resquícios do quase trauma da última festa da faculdade ainda assombravam sua córnea lesada.
— Por mais que eu esteja muito feliz com a sua presença e consultoria sobre cores de esmalte, sou obrigado a ser o chato e perguntar uma coisa - começou. — Você tem consciência de que vai abrir um buraco no chão se continuar andando sem parar, não sabe? Ou, sei lá, bater algum tipo de recorde mundial de maior número de passos em círculos.
— Bom, com certeza eu estaria menos nervosa se fosse um evento para receber minha nomeação ao Guinness Book do ano que vem, muito obrigada.
— Ei, o que já conversamos sobre isso? Inspira com vontade, prende um pouco, solta com calma até sentir os pulmões esvaziando.
repetiu os comandos algumas vezes sob o olhar atento de , que fazia o mesmo, com as mãos estendidas, tentando não tornar sua respiração profunda o suficiente a ponto de cometer um deslize que fizesse o alicate que arrancava suas cutículas levar, junto delas, um pedaço de seu dedo.
Ela se sentou em uma das cadeiras vazias perto do espelho, aproveitando-se do fato de o horário destinado para cabelo ainda não ter começado para se jogar contra o estofado preto macio, batendo as laterais dos pés contra o apoio metálico para os mesmos. Estava tentando não pensar muito sobre o show ou olhar para o relógio. Já tinha cometido aquele erro três vezes desde a hora em que acordaram, martirizando-se por perceber que - de uma maneira chocantemente surpreendente - o tempo passava, oferecendo-lhe cada vez menos minutos para surtar por antecipação. Mas, se olhasse pelo lado bom - e estava realmente se esforçando para começar a ver o lado positivo das coisas -, não estava sendo nenhuma missão impossível digna de Tom Cruise se desprender daqueles pensamentos em espiral infinita por alguns instantes, mesmo que durassem menos do que ela gostaria.
O problema, no entanto, era que não pensar no futuro significava obrigá-la a pensar no passado e não de uma forma nostálgica ou saudosista. Não havia nenhum apego infantil ou adolescente, nenhuma percepção poética sobre tempos dourados que não voltariam mais. O passado que lhe perturbava da maneira mais perigosamente doce e carinhosa possível não estava a nem um dia de distância dali.
não fazia ideia de como definir com palavras humanamente conhecidas o que tinha acontecido na noite anterior. Mas, ao mesmo tempo que queria falar sobre o que acontecera para Mia, também desejava guardar aquele momento para si, com medo de que qualquer intervenção externa pudesse quebrá-lo ou diminuir em qualquer grau a imensidão de coisas e sentimentos que ele significara. Preferia mantê-lo intocado na memória, onde sabia que ninguém poderia destrui-lo.
O aconchego, a preocupação, a companhia… Se fechasse os olhos e se esforçasse um pouquinho, ainda conseguia sentir o cheiro de shampoo invadindo suas narinas. Cada detalhe, cada toque preocupado, cada pedaço desconexo de conversas aleatórias que tiveram após a crise tinha sido tão verdadeiro e genuíno que ela jamais seria capaz de expressar a profunda gratidão que sentia por ter decidido acender um abajur e invadir sua cama apenas para acalmá-la.
Não tinham exatamente conversado sobre a noite anterior. tinha fingido muito bem já ter pego no sono quando deixou um beijo no topo de sua cabeça e decidiu voltar para a própria cama, devolvendo a ela o espaço para descansar sossegada. Manteria a situação para si, mesmo que não tivesse conseguido evitar o sorriso bobo que tomou conta de seus lábios antes de realmente conseguir dormir, com o coração calmo e tranquilo.
No fim das contas, talvez não precisassem mesmo conversar sobre aquilo. Ele era apenas um cara legal demais e a normalidade já tinha retornado. Era fácil demais ficar à vontade perto dele e, ao mesmo tempo que essa era a melhor coisa do mundo para quem poderia passar meses perto de um recém-conhecido, era de certa forma frustrante para a sua própria teimosia em insistir que tudo daria errado quando ele fazia o certo parecer tão simples.
— O que acha? - A voz masculina que se ocupava de passear pelos seus devaneios tratou de interrompê-los, puxando-a de volta para a realidade.
ergueu a mão esquerda, enquanto a manicure ainda trabalhava na direita, mostrando as unhas intercaladas em tons claros, quase pastéis, de azul e rosa.
— Gostei - respondeu, sorrindo. Ele assentiu, concordando, feliz pela aprovação.
— Celina deixou as roupas - Emily apareceu, já acelerada, segurando os dois cabides com as peças cuidadosamente cobertas. — , cabelo.
— Boa tarde para você também, Stevens - reclamou, enquanto recebia uma camada de secagem rápida sobre as unhas. — Não me lembrava de já ter te visto hoje.
A mulher se limitou a revirar os olhos, ignorando-o. Entregou as peças a e a encaminhou até o camarim ao lado, deixando-a com a cabeleireira, antes de voltar.
— Boa tarde, . Como foi a noite?
O cantor finalmente se levantou, alongando as costas, enquanto fingia pensar em uma resposta.
— Dormi muito bem. Ninguém vai precisar me matar.
— E ela?
respirou fundo antes de prosseguir, sentindo algum tipo de nervosismo se contorcendo dentro dele, inexplicavelmente temeroso por qualquer tipo de insinuação, mesmo que infundada.
— Eu não sei exatamente o que você quer que eu responda.
— Confio o suficiente em você e na educação que sua mãe deu para não estar pensando que você tenha sido um otário. Quero saber como ela passou a noite, só isso. Todo mundo sabe como esse processo pode ser complicado, ainda mais para alguém que nunca quis estar sob holofotes. É uma preocupação conjunta, o próprio Mitch me perguntou se eu sabia de algo assim que cheguei à arena.
O cantor assentiu, compreendendo. Era mesmo uma preocupação coletiva e ele sabia disso. Tinha passado as últimas horas em um mantra silencioso e repetitivo que entoava vibrações positivas para que tudo desse certo. E não para ele; para ela. Ele já sabia se virar bem. Desde que ouvira de Louis Walsh que não tinha a confiança necessária para ser um artista, já tinham se passado quase onze anos de trabalho intenso e ininterrupto para socar todas as suas inseguranças em um buraco profundo e só deixar que elas saíssem dali quando ninguém pudesse vê-las. Fosse ou não essa a melhor forma de lidar com a situação - e ele sabia que não era -, de alguma forma ele realmente tinha adquirido confiança o suficiente para saber que, uma vez no palco, praticamente não existiam causas no universo ao redor que pudessem destruir a sua noite.
— Ela estava ansiosa, como era de se esperar - respondeu calmamente. — Mas tenho certeza de que vai dar tudo certo.
Emily balançou a cabeça, assentindo vagarosamente.
— Espero que sim. Ela merece - comentou. — E você também, . Todos sabemos quanto você se importa.
Ele sentiu aquele comichão esquisito, como cócegas correndo pelos braços, escalando o próprio tronco. Aquela estava começando a se tornar uma situação bastante irritante.
— Bom, Jeff deve chegar daqui uma hora mais ou menos. Senta que a Meg logo vem arrumar o seu cabelo e sua pele.
— Ems - chamou. — Obrigado.
Ela franziu um pouco a testa, sem compreender o agradecimento repentino.
— Por nos apoiar - ele explicou.
Emily concordou, deixando o camarim com um sorriso contido ao perceber o uso tão natural do plural ali, parecendo estranhamente válido e correto até demais.


❀❀❀



estava ocupada e concentrada demais no grande espelho à sua frente para não se assustar com o som da porta do camarim sendo repentinamente aberta.
— Desculpa, não queria assustar. Puta merda - ele murmurou ao vê-la se virando.
Ela tinha algumas mechas do cabelo trançados como uma coroa ao redor da cabeça, mantendo o restante dos fios soltos e livres, caindo em cascatas sobre os ombros. O delineador azul royal vazado desenhava a pálpebra, chamando ainda mais atenção para seus olhos. O macacão trabalhado nos contrastes de preto opaco e transparências era repleto de pequenas estrelas bordadas, praticamente orbitando-a como se fosse o centro de todo um universo. E, naquele momento, tinha certeza de que ela era.
— Isso é algum tipo de lesão na área de Broca ou o gato comeu a sua língua, ?
Talvez tivesse sido a palavra que ele nunca ouvira na vida que o tivesse trazido de volta à realidade, acompanhado de uma careta que não escondia nem um pouco o estranhamento auditivo causado.
— Eu não faço a mínima ideia do que você quer dizer com isso - respondeu. — Mas o fato é que você está deslumbrante.
Ela sorriu, dobrando os joelhos e inclinando a cabeça levemente, como se agradecesse o elogio.
— Você também está muito bonito. Vermelho fica muito bem em você.
imitou seu movimento de agradecimento.
— Falou com Mia?
Ela concordou.
— Acabamos de desligar. Ela mais gritou do que falou, mas tudo bem.
— Ela está feliz por você e com razão - ele disse. — Quão animada você está para cantar com seu artista favorito?
arregalou os olhos, virando-se para os lados rapidamente, como se estivesse procurando alguém em estado de choque.
— Eu vou cantar com o Ed Sheeran? Por que raios vocês não me avisaram isso antes? Eu precisava me preparar psicologicamente para esse momento.
— Eu não sei porque eu ainda insisto - murmurou. — Mas eu sou bem melhor que ele e só resta a você aceitar.
A garota gargalhou, meneando a cabeça.
— Fico feliz que a vida adulta não tenha destruído seus sonhos e fantasias.
E foi naquele exato momento que percebeu que poderia unir o útil ao agradável ao juntar seu espírito competitivo e necessidade parcial de auto-afirmação a uma tentativa de transformar aquele pré-show em uma situação mais leve e despreocupada pelo bem de dois corações ansiosos, transbordando de expectativa por todos os seus vasos.
Tirou o celular do bolso, abrindo o aplicativo do spotify e aumentando o volume até que os acordes, talvez já um pouco batidos e minimamente saturados, facilmente reconhecíveis soassem pelo camarim.
fez uma careta, enquanto ria.
— O que raios você pensa que está fazendo?
, eu sei que você ama falar e eu também amo te ouvir, mas agora eu preciso que você fique quieta e dance comigo, ok?
Ela correu os dedos pela boca, gesticulando como se tivesse acabado de passar um zíper ali. se aproximou, levando uma mão à sua cintura e segurando a outra em uma cena que poderia facilmente estar em um filme da Disney. Especialmente se ele tivesse sido o Príncipe Eric.
engoliu em seco, tentando não deixar transparecer o seu profundo receio ao se perguntar se ele conseguia ouvir seu coração acelerado por cima das batidas marcando os compassos da música.
Quando os joelhos de evidenciaram os prenúncios de sua intenção de se movimentar para a frente, ela ignorou os versos que já tinham perdido com o início da canção não precedido de um momento instrumental e permitiu que seu corpo respondesse ao dele, deixando-se ser guiado pelo espaço um pouco menos generoso do que o necessário do camarim.
A cada passo dado, pareciam reconhecer melhor o ritmo do outro e se acostumar com a sensação de estarem assim tão perto, divertindo-se como sempre faziam juntos.
— Sabe que na coreografia original tem um pouco mais do que só passinhos para o lado, não sabe? - implicou, assustando-se com o braço dele girando-a sem avisar nada com antecedência. Bom, não podia culpá-lo; ela sabia que tinha praticamente implorado por aquilo.
— I’m thinking about how people fall in love in mysterious ways, maybe just the touch of a hand - cantou, os olhos fechados, apesar do temor que acompanhava o lembrete de que poderia pisar nos pés dela a qualquer momento e não tinha os pés mais delicados do mundo para não fazer disso a causa de um estrago.
— Não gasta a voz - a bronca veio acompanhada de uma risada.
— Que diferença faz? Sem contar que eu disse para você ficar quieta e você continua falando.
Então, estavam rindo juntos. a inclinou para trás, segurando-a pela base da coluna em uma pose dramática que fazia o movimento parecer muito mais difícil e perigoso do que de fato era. Ele não tinha coragem de realmente dar o seu melhor e arriscar uma queda feia. Jeff com certeza iria adorar chegar de viagem e descobrir que o show teria que ser realocado para uma sala de espera de Pronto Socorro.
— Maybe we found love right where we are - cantarolou, deixando seu corpo cada vez mais solto para balançar ao ritmo suave e à melódica voz de Sheeran.
Um passo após o outro, interrompidos por alguns giros repentinos e não muito talentosos, ocuparam todo o camarim, tomando o cuidado de não derrubar algum dos utensílios e produtos de cabelo e maquiagem. Aquilo parecia muito mais certo do que gabaritar uma prova prática de neuroanatomia. Não, ainda não havia superado.
Com o fim da música, pararam lado a lado, com apenas uma mão ainda dada e dobraram os corpos para a frente, como se estivessem agradecendo à audiência em um importante show da Broadway.
A garota voltou a rir, enquanto abanava o próprio rosto, temendo que os pequenos vestígios de suor pelo desgaste físico pudessem destruir um milímetro sequer da maquiagem - que ela sabia perfeitamente ser à prova d’água. se jogou ao seu lado no sofá sem cuidado algum, afundando o estofado.
— Bom, depois de tudo isso, acho que você vai ter que admitir que eu sou melhor do que aquele ruivo galanteador.
— Admito - respondeu. — Mas só porque ele é um homem comprometido e pai. Não tenho intenção alguma de causar desavenças matrimoniais.
soltou uma risada nasalada, enquanto permanecia olhando para um ponto fixo na parede branca do outro lado do ambiente.
— Aquela bebê é uma das coisas mais fofas que eu já vi na vida.
piscou algumas vezes antes de encará-lo.
— Você conheceu a criança que é meio instrumento musical e meio continente congelado?
Ele assentiu.
— Às vezes eu me esqueço de que você é basicamente famoso a ponto de conhecer todo mundo. Deve ter conhecido a filha da Katy Perry também.
— Daisy Dove tem o sorriso da mãe.
— Vocês fizeram tipo um encontro anual de crianças famosas nascidas em 2020? Meu Deus, você conheceu basicamente todas as crianças que nem um ano têm.
— Não todas - murmurou, levantando-se subitamente.
entendeu que, por mais que não tivesse intenção - ou sequer entendimento sobre o porquê daquela reação - de machucá-lo, tinha encostado em um assunto delicado. Faria uma nota mental para evitar comentários sequer próximos daquele no futuro.
Estava se perguntando o que deveria fazer a seguir. Não sabia bem se deveria se desculpar, simplesmente mudar de assunto ou apenas deixar que digerisse qualquer que fosse o sentimento que lhe tivesse roubado o riso durante aqueles instantes. Não teve tempo para divagar o suficiente para concluir algo; logo estava em pé, de frente para ela, sorrindo de canto e sinalizando que ela também se levantasse.
— Eu não vou dançar de novo - reclamou. — Já admiti a sua vitória.
— Acredite, nem eu quero dançar de novo. Só levanta, por favor.
obedeceu, colocando-se de pé e esperando seja lá qual fosse a ideia horrível dele. Depois da dança, não descartava sequer que ele a chamasse para um duelo de espadas ou lhe aplicasse um golpe de judô. Qualquer coisa começava a parecer plausível. Qualquer coisa menos a caixinha quadrada recoberta de veludo preto que ele acabava de tirar do bolso.
— Eu sei que tenho uma beleza estonteante e uma personalidade incrível, mas eu realmente acho que está um pouco cedo para você me pedir em casamento. Quer dizer, a gente só se conhece há praticamente uma semana.
— Concordo com tudo o que você disse. E sinto muito pela decepção, porque não tem nenhum anel nessa caixa e esse definitivamente não é um pedido de casamento.
O cantor ajeitou a postura, parecendo ainda mais alto com aquelas calças tão altas.
— Lembra ontem quando eu pedi licença no restaurante e disse que ia ao banheiro?
— Que até o Milo fez piada sobre a sua demora? Lembro, sim.
— Eu demorei porque fui até a loja ao lado do restaurante. Enquanto Milo estacionava, acabei percebendo uma coisinha na vitrine e na hora soube que queria te dar de presente.
, não precisava se preocupar com uma coisa dessas.
— Não é uma preocupação e nem uma perturbação. Eu vi algo e quis comprar para você.
Ele abriu a caixinha, mostrando um broche delicado de Saturno, pintado em vários tons pastéis que lembravam pinceladas de aquarela. O anel do planeta, cheio de glitter, agora remetia diretamente às poucas pessoas que haviam tomado a palavra como um título para si e as pequenas lágrimas não demoraram a brotar em resposta nos cantos dos olhos.
— Eu costumava cantar uma música com os meninos que falava basicamente sobre não se esquecer do lugar ao qual você pertence - ele prosseguiu, enquanto recebia permissão para posicionar o broche à uma meia altura entre o pescoço e o seio esquerdo dela. — Espero que isso sirva para te lembrar e te dar orgulho do seu ponto de partida durante essa caminhada que nós dois sabemos que tem um ponto de chegada bem distante e cheio de conquistas. E que nunca, nunca permita que você se esqueça de que não está sozinha nessa.
teve que conter uma fungada desagradável depois do mini discurso. Não tinha realmente parado para pensar em como sua vida literalmente iria mudar totalmente dali a algum tempo e isso não tinha nada a ver somente com a falta de privacidade para sair de casa. Se já estava naturalmente emocionada com a situação, definitivamente não ajudava em nada, dizendo aquelas coisas, enquanto a olhava com todo o carinho e a admiração do universo.
— Muito, muito, muito obrigada - ela murmurou, puxando-o para um abraço apertado.
sorriu sozinho ao fechar os olhos e apertá-la um pouco mais, afundando a cabeça de leve em meio aos seus cabelos. Naquele instante, era como se o mundo tivesse deixado de existir por completo, restando apenas os dois, ali, juntos, presos em uma bolha intocável. Ao menos até que alguém decidisse estourá-la entrando de supetão no camarim.
— Puta merda como eu odeio ficar parado no trânsito.
Os dois se soltaram, virando para encarar um Jeff ainda ofegante e nervoso. deu uma espiada no espelho, encostando as mãos de leve nas bochechas, apenas para disfarçar as lágrimas que tinham decidido escorrer mesmo sem permissão.
, o que você aprontou para fazer a garota chorar?
— É um choro bom - ela tratou de esclarecer com um sorriso e apontou para o broche no peito.
Jeff acabou relaxando, sorrindo de volta, enquanto movia a cabeça em concordância.
— E falando em presentes de turnê - voltou a falar. — Comprei o que você pediu.
Azoff agachou-se, abrindo a mala e retirando dela uma câmera fotográfica preta.
— Era essa mesmo. - mal tinha dado tempo de ele se manifestar e já tinha tomado o objeto para si. — Achei que você fosse comprar a errada.
— Depois de todas as milhares de especificações que você me enviou no Whatsapp? , eu não sou burro.
— Sei que não. Agora, diga xis!
E, sem esperar por um milésimo de segundo sequer, bateu uma foto do empresário.
— Registros importantes para eu me lembrar de como você me ama quando for ver essas fotos daqui uns anos - o rapaz explicou.
Em seguida, virou a lente para , ajustando o foco, enquanto ela fechava os olhos, dava um sorriso com a língua entre os dentes e apontava com os indicadores para o próprio broche. definitivamente revelaria aquela foto assim que possível.
— Jeff, tira uma nossa - pediu. — E, por favor, tenta não colocar o seu dedão na frente da imagem.
ergueu a mão, esforçando-se para alcançar a cabeça dele e fazer chifrinhos. fez uma careta afetada, como se estivesse verdadeiramente ofendido.
— Ficou ótima - o empresário garantiu, devolvendo a câmera. — E eu odeio interromper a diversão, mas precisamos nos preparar para ir.
— Já?
Azoff assentiu.
— Vamos fazer aquele bate-papo de sempre com a banda e começaremos na sequência.
sentiu um bolo preso bem no meio da garganta. Se fosse um gato, diria que parecia muito como uma bola de pelos engasgando-a. Só conseguia pensar que seu coração tinha decidido passear pelo corpo e, por engano ou algum tipo de brincadeira maldosa, tinha decidido bater em sua cabeça, como se pudesse vomitá-lo a qualquer segundo.
Respirou fundo, lembrando-se da voz de bem no fundo de sua cabeça, indicando o intervalo para que ela inspirasse e expirasse. Precisava se acalmar e conseguiria. Não só porque não tinha grandes escolhas, mas porque realmente queria fazer aquilo e provar para si mesma que era capaz.
O celular de começou a tocar, assustando todos eles.
— Foi mal, aumentei o volume aquela hora e esqueci de voltar para um nível que não causasse surdez.
— Que bom que é você quem paga meu cardiologista - Jeff resmungou.
O cantor nem se importou, abrindo um sorriso largo ao ler o nome de contato identificado no visor, solicitando uma chamada de vídeo.
— Ele avisou que queria falar com você.
— Comigo? - estranhou. — Ele quem?
Assim que clicou no ícone verde, a ligação foi iniciada e uma voz alta praticamente berrou do outro lado:
— Oi oi!
— Por que não estou surpreso? - Azoff perguntou. — Vou esperar lá fora. Sejam rápidos.
, esse é o Louis. Louis, essa é a .
— E esse - Louis começou, puxando algo do chão. Na verdade, alguém. — Esse é o Freddie.
— Oi, tio ! -
O pequeno acenava. — Oi, Saturno!
— Ele via seus vídeos antes de tudo isso -
o pai comentou. — Ainda não entendeu que esse não é seu nome de verdade. Uma hora ele aprende.
— Ele pode me chamar do que ele quiser e eu ainda vou achar a coisa mais linda do mundo - ela respondeu. — Oi, Louis! Como vai?
Simples assim. Fingindo costume como se não quisesse gritar internamente. Tudo normal por aqui, com Louis Tomlinson ligando para falar com ela como se fossem conhecidos de longa data. Se isso estivesse prestes a se tornar um hábito, ela tinha certeza de que não sobreviveria.
— Estou bem, linda; obrigado por perguntar. Mas a pergunta é como você está.
— Ah, não sei. Meu estômago está doendo e eu sinto como se fosse morrer a qualquer momento. Deve estar tudo certo.
Louis riu do outro lado.
— É normal. O nervosismo não vai embora nunca. E, confie em mim, você não vai precisar correr para o banheiro no meio da apresentação por mais que agora esteja se perguntando sobre isso.
concordou. Estava mesmo com receio disso.
— Vai dar tudo certo. Você é incrível e só precisa subir no palco confiando nisso. A maior prova disso é que uma criança pentelha te adora. E crianças não sabem mentir muito bem.
Freddie dirigiu um sorriso travesso ao pai, enquanto comia seus biscoitos com chocolate.
— O que eu quero dizer é: respire fundo e se divirta. Tudo vai ficar bem e você vai sair da arena sentindo que esse é exatamente o lugar em que sempre quis estar. A adrenalina é um negócio meio viciante também. E eu estou divagando. É por isso que o Jeff me detesta.
— Ele não te detesta - interveio. — Ele só tem um jeito estranho de demonstrar o amor que tanto reprime.
— Enfim, o Freddie também quer falar uma coisa.
— Você canta muito bem e o papai prometeu me levar a um show seu.
- O pequeno sorria largamente, fazendo sustentar um beicinho, sem saber lidar com tanta fofura.
— O papai vai levar você no show dela? - perguntou. — E no meu você não quer vir. Entendi, baixinho. Pensei que fôssemos amigos.
Freddie arregalou os olhos, encarando o pai, pedindo por algum sinal ou ajuda do que fazer a seguir.
— Deixe a criança em paz, . Ele apenas tem bom gosto - brincou, recebendo uma risadinha da figura loira do outro lado da tela.
— Ela tem razão - Louis comentou. — E você precisa superar. Enfim, sei que vocês precisam ir, então só queria desejar um ótimo show a vocês e dizer que espero que possamos nos ver logo. Freddie, hora de se despedir.
Os dois acenaram, enquanto e diziam ‘tchau’ com sorrisos nos rostos.
— Eu vou sequestrar esse menino. Não conte ao Louis.
— Ainda fico meio desconcertado vendo como eles são idênticos - comentou. — Mas Louis está certo e já falou tudo que eu poderia te dizer. Só me resta perguntar: você está pronta?
E, mesmo com o coração batendo com força e ecoando em suas orelhas, pela primeira vez sua resposta foi afirmativa.
Abandonaram o camarim, dirigindo-se até a área de trás do palco, onde Jeff, Emily, Charlotte, Adam, Sarah e Mitch já os esperavam.
— Mãos - o guitarrista falou simplesmente, esticando as suas para o lado e observando enquanto todos ali seguravam as mãos das pessoas próximas, formando uma roda. — Que as musas nos abençoem e que os deuses da música, da festa e da promiscuidade nos protejam nessa e em todas as noites da turnê.
Adam deu uma risada baixinha, recebendo um olhar de desaprovação do amigo.
— Eu queria agradecer a todos vocês por, mais uma vez, confiarem no meu trabalho e por serem musicistas, pessoas e amigos maravilhosos. Nunca serei capaz de agradecer por esse papel crucial que cada um desempenha, seja nos palcos ou na minha vida fora deles. Amo vocês. De verdade.
— Abraço coletivo - Adam bradou e todos se aproximaram, em uma mistura confusa e nada coesa de braços e muito amor.
Os quatro se despediram e seguiram para o palco, tomando suas posições com seus instrumentos. e sobraram, ficando para trás, ainda entre as coxias.
— Quebre a perna - ele disse, a boca repuxada de canto de forma quase presunçosa.
— Você também - respondeu rindo.
— Divirta-se lá, acima de qualquer coisa. E lembre-se - ele disse, apontando para o broche. — Você nunca vai estar sozinha.
Era isso. Ela passou a respirar mais profundamente, tentando convencer o seu cérebro a não agir como se aquela fosse uma reação de luta ou fuga. Aquilo iria mesmo acontecer. Ela ia subir no palco e fazer o que mais amava na vida para vinte mil pessoas. E estava pronta.
Emily, em um movimento súbito, puxou para um abraço individual, pegando-a de surpresa antes que pudesse retribuir o gesto.
— Você é incrível e estamos todos muito animados e confiantes. Você ainda vai dominar esse mundo, .
sorriu, ao se soltar da mulher.
— Seu microfone já está posicionado no teclado à sua altura, mas confirme ao sentar. Nós ensaiamos bastante. Vai ser um show memorável - disse, sorrindo.
A outra concordou com a cabeça. Respirando fundo novamente e dirigindo o olhar a uma última vez, buscando o apoio e a segurança que já tinha percebido encontrar nele com tanta facilidade. E lá estava o brilho nos olhos que lhe dava a esperança de que tudo pudesse dar certo.
Virou-se, como um pirata pronto a andar na prancha, ainda incerto sobre o seu destino. Mas, em seu caso, inexplicavelmente animada com o que poderia vir.
— Quer dizer que só ela recebe abraços agora? - perguntou quando se viu a sós com Emily.
— Quieto, . Eu estou trabalhando.
O cantor ergueu as mãos, dando-se por vencido e seguiu para o seu próprio canto, próximo de onde entraria quando fosse hora de cantar ‘lovely’ com ela.
se acomodou, levou a mão até a base do microfone, certificando-se de que estava no lugar certo. Direcionou as mãos às teclas, encontrando as corretas e se preparando. Era hora do show.
— I’m not a stranger to the dark.
Quando sua voz soou pelo complexo esquema de alto-falantes, amplificadores e caixas de som da Unipol Arena e voltou a ela pelo retorno, a sensação foi inexplicável. Era como se o som tivesse lhe preenchido por completo, ocupando absolutamente todos os pequenos vazios que nem imaginava ter dentro de si. Tinha até se esquecido de como era esquisito se ouvir daquela forma.
O início tímido foi ganhando força a cada verso, com o ar parecendo encher seus pulmões de uma forma que tornava a emissão do som mais eficiente. Sua voz não tremeu como ela temia. sorriu sozinha. Sentia-se feliz por estar fazendo aquilo e era só disso que precisava para galgar a confiança.
estava lutando contra o próprio impulso de gritar, tentando liberar toda a tensão que havia acumulado nos últimos dias, apenas pela expectativa desse momento. E lá estava ela se saindo ainda melhor do que ele poderia esperar mesmo em seus momentos mais otimistas.
— I’m not scared to be seen, I make no apologies. This is me.
Quando as luzes finalmente superaram a proposital escuridão e a banda se ergueu, fazendo coro às suas palavras e construindo por completo a melodia da música, respirou aliviado, enquanto sorria com todo o orgulho que ocupava seu peito.
— Ela é maravilhosa - Jeff comentou atrás dele, chamando sua atenção.
— Muito mais do que ela própria percebe - o cantor concordou, curtindo o show como todo mundo ali.
Sua plateia se movia no ritmo da música, cantando junto a ela e reagindo com palmas e gritinhos a cada nota surpreendentemente alta que ela alcançava parecendo fazer tão pouco esforço para tal.
Só ela sabia como estava, de fato, se esforçando. E suando. Com certeza estava transpirando a níveis acima do esperado para a temperatura daquela noite italiana. Não eram apenas seus poros que estavam manifestando toda a emoção e dedicação que colocara naquela apresentação. Seus olhos estavam levemente marejados, contendo as lágrimas de felicidade a cada vez que ela respirava, absorvendo mais uma vez que, sim, ela estava fazendo aquilo; sim, para vinte mil pessoas. E, mesmo que tivesse explodido a caixinha de sua própria zona de conforto fazendo a última coisa que esperava de si mesma na vida, nunca tinha se sentido tão quanto naquele momento.
Com o último verso suspenso pelos acordes da guitarra e do baixo de Mitch e Adam, ela retirou um de seus retornos da orelha, permitindo-se ouvir a totalidade do som de reação do público. O baque da aquisição de consciência da magnitude daquilo tudo lhe acertou como um tapa na cara.
“Você já fez o mais difícil” repetia para si mesma, enquanto silenciava os últimos esforços de seu nervosismo e ansiedade tentando fazê-la desistir. “Esse é o seu lugar e nós vamos até o fim.”
Com um movimento um pouco menos habilidoso do que ela gostaria - ainda precisava praticar um pouco -, retirou o microfone de seu suporte, levantando-se do banco do teclado enquanto se aproximava um pouco mais da frente do palco. Os gritos aumentavam em resposta a cada movimento seu e, se eles já pareciam altos demais para uma reles mortal como ela, não queria nem imaginar a ruptura timpânica que conquistaria quando decidisse dar o ar da graça no palco. Provavelmente seria mais sensato devolver o retorno quando o momento chegasse.
— Boa noite, Bologna - ela disse, aceitando que apenas gritos indecifráveis seriam sua resposta. — Espero que vocês estejam bem e confortáveis, pois preparamos um belo show para vocês. Meu nome é , talvez alguns de vocês me conheçam como Saturno. E eu amei esse cartaz.
Ela apontou para a cartolina que uma fã segurava logo na primeira fila de frente para o palco, em um desenho de sentado sobre Saturno. Já aproveitou para se preparar para a previsibilidade enorme dele ao comentar, mais tarde, que, apesar de o cartaz ser mesmo fofo, preferiria as posições contrárias. A fã deu pulinhos, enquanto comemorava por ter sido notada.
— Enfim, eu não tenho muita prática com isso. É o meu primeiro show, como vocês devem ter percebido. Mas vamos tentar deixar as coisas um pouco mais legais.
Era a deixa para que os quatro instrumentistas começassem a tocar a próxima música. Sem estar mais presa a seu próprio teclado, estava agora livre para se movimentar e seguir o conselho de Louis Tomlinson: se divertir.
— Guess I never had a love like this. Hit me harder than I ever expected. We’ve been up all goddamn night, all night, all night. Keep it going till we see the sunlight.
A piscadinha discreta que ela deu na direção da coxia fez sentir seu corpo respondendo de uma forma estranha. Não queria criar expectativa alguma sobre a mínima possibilidade de aquela letra ser, de alguma forma, dedicada a ele depois da noite anterior. Mas era tarde demais. Agora, era ele que tinha, definitivamente, perdido toda a calma em questionamentos que não se permitiria externalizar pelo bem de sua sanidade e da paz em seu ambiente de trabalho.
já tinha arriscado alguns passinhos e balançava o quadril ao som de ‘Cool’. Não havia como cantar Dua Lipa sem demonstrar pelo menos um pouco de ousadia. Percorrendo o palco, fez algumas gracinhas com Mitch antes de retornar até o meio para finalizar a música.
— Tenta não ficar com ciúmes - Azoff brincou.
pareceu pular no próprio lugar, como se algum bicho o tivesse picado.
— Eu não tenho ciúmes dela.
Jeff deu uma risada contida.
— Eu estava falando do Mitch, mas seu comentário já te denunciou o suficiente.
passou a próxima música inteira ignorando a presença de seu empresário atrás de si, evitando fazer qualquer tipo de contato visual. A desvantagem de trabalhar com amigos era, sem dúvida, a dificuldade em mentir para eles. Especialmente sobre coisas que nem ele mesmo tinha resolvido internamente ainda.
Com o fim de ‘Supercut’, aproveitou o jogo de luzes para ocupar seu lugar em um ponto escurecido do palco, pronto para surpreender seu público, que só o esperava para ‘Two Ghosts’.
devolveu o retorno, temendo um pouco que o furor pela entrada dele a fizesse se perder com a música, ainda mais quando as duas próximas faixas dependeriam totalmente de seu trabalho no teclado. Teria tempo suficiente nos bastidores para curtir o surto coletivo que era ter tantas adolescentes e adultas coexistindo no mesmo ambiente que .
O começo, em que ela cantava praticamente sozinha tinha sido calmo, apesar de toda a ansiedade. Ela não fazia questão alguma de se fingir de imparcial ou imune ao fato de que as expectativas por aquele momento eram intensas. Ainda mais quando iniciaram a ponte juntos:
— Oh, I hope someday I’ll make it out of here, even if it takes all night or a hundred years. Need a place to hide but I can’t find one near. Wanna feel alive, outside I can’t fight my fear.
— Isn’t it lovely, all alone. Heart made of glass, my mind of stone - fez uma transição limpa para o falsete delicado, sendo seguida na sequência por :
— Tear me to pieces, skin to bone. Hello, welcome home.
A química que os dois tinham no palco era palpável, gritante e inegável. Emily meneou a cabeça, observando-os. costumava ser o maior cabeça-dura teimoso do universo quando decidia insitir em algo que queria. Costumava ser um tanto irritante, apesar de louvável pelo esforço, mas, vendo os dois cantando juntos como se tivessem nascido destinados a ter seus caminhos distintos colidindo em faíscas em função daquele momento, ela agradeceu pela persistência incansável dele.
— Bologna, quanto tempo - ele comentou, ouvindo os gritos ensurdecedores. — Estava com saudades de vocês.
sorriu de canto, incapaz de não sentir em si um pouco da excitação que era ter a permissão de viver tão perto de alguém que era basicamente uma estrela do rock com uma luz forte demais, um sorriso acolhedor e um grupo de fãs com dígitos tão altos que ainda a deixavam nervosa ao tentar compreendê-los. Naquele momento, conseguiu se esquecer de como havia se comparado mentalmente a Ícaro voando perto demais do Sol na última vez em que tinha pensado na metáfora da estrela brilhante. Suas asas estavam começando a alçar voo e ela não estava pronta para vê-las queimando tão cedo.
— Vocês já conheceram a minha amiga - continuou. — E possivelmente sabem como eu estava louco procurando-a para cantar comigo. Talvez várias de vocês tenham até ajudado na busca. Para cada um, meu mais sincero agradecimento. É com orgulho na minha teimosia e no esforço de vocês que podemos seguir para o momento pelo qual eu vim esperando durante todos esses dias. Espero que gostem.
A garota jogou os cabelos para trás, dobrando e esticando os dedos algumas vezes antes de retornar ao teclado, caçando as notas do arranjo modificado que havia preparado para ‘Two Ghosts’ quando realizara o cover a pedido da amiga.
— Same lips red, same eyes blue, same white shirt, couple more tattoos. But it’s not you and it’s not me - a voz rouca preencheu o ambiente.
— Tastes so sweet, looks so real, sounds like something that I used to feel. But I can’t touch what I see - emendou.
Um filme se passou pela cabeça dos dois; um flashback de momentos consecutivos dos dias anteriores, completando aquela história meio torta, preocupada e aflita, mas que parecia fazer um sentido absurdo. Assim como na letra, depois daquele momento, eles não seriam mais quem costumavam ser.
— We’re just two ghosts standing in the place of you and me. Trying to remember how it feels to have a heartbeat.
ofereceu a mão a ela, que prontamente aceitou o educado gesto. Caminharam até o centro do palco, quando ele a soltou apontando para ela, enquanto aplaudia, puxando o público para que também o fizesse. Em frente a uma Unipol Arena completamente lotada, sorriu timidamente, antes de se curvar, agradecendo. O coração batia aceleradamente, rápido demais para que ela não precisasse tomar uns instantes para recuperar o próprio fôlego, enquanto abandonava o palco.
— Você foi incrível - Emily elogiou, enquanto entregava a ela uma toalha e uma garrafinha de água.
— Você não está falando isso só para me agradar, está? - perguntou, a voz demonstrando a fadiga. Precisaria se acostumar com aquilo antes de sequer cogitar a possibilidade de - um dia, quem sabe - realizar um show completo.
— Não. Se você tivesse sido horrível eu provavelmente teria recebido a incumbência de te jogar alguma desculpa esfarrapada para te cortar da turnê, mas você vai para Turim conosco amanhã, então isso te responde.
assentiu, ainda respirando fundo sob o olhar observador da mulher.
— Eu devo ter algum problema pulmonar - brincou, com medo de não ser só uma brincadeira.
Emily riu alto.
— Fica tranquila. Você vai se acostumar. Isso é mais reflexo do nervosismo do que do cansaço.
com certeza esperava que sim. E, enquanto dava pequenos goles na água que lhe foi oferecida, ouviu voltar a interagir com a sua plateia.
— Fico feliz que tenham recebido a tão bem. Ela é uma das pessoas mais talentosas que eu já conheci e merece todo o reconhecimento do mundo. Essa turnê não seria a mesma sem ela. Mas a minha pergunta para vocês é a mesma.
Sarah bateu as baquetas, realizando uma espécie de contagem antes que o cantor prosseguisse:
— Vocês sabem quem são?
Ao som de ‘Lights Up’, deu início ao seu próprio show, carregando com ele vinte mil pessoas pulando, gritando e cantando - e tentando gravar vídeos de baixa qualidade que provavelmente nunca veriam. Era surreal vê-lo ali, parecendo um bichinho feliz da vida de ser devolvido ao seu habitat natural. tinha nascido para os palcos e, se isso não tinha sido óbvio desde sua audição para o The X Factor, com certeza agora era inquestionável.
Entre alguns covers, canções do novo álbum e clássicos do primeiro como ‘Sign of the Times’, o show todo se seguiu. As interações com a plateia a faziam rir toda vez, pensando em como era fácil se apaixonar por ele. Como fã. Assim como as milhares de pessoas ali presentes.
Quando ele arriscou o ‘Toc-toc’ da Britney Spears que já tinha feito no ensaio, quase engasgou ao ver Mitch revirando os olhos. Provavelmente estava se questionando se valeria a pena quebrar sua guitarra querida na cabeça dele, se isso fosse fazê-lo parar. Talvez uma pancada no cérebro fosse o que ele precisava para agir como uma pessoa normal. Mas, no fundo, ninguém queria isso.
Anunciando a última música da noite, foi entregue ao cantor um violão em tons de preto e roxo, imitando o céu ao anoitecer, salpicado de estrelas que, mesmo reunidas, jamais conseguiriam se aproximar do brilho nos olhos dele. E quando ele disse: “We’ll be alright”, ela acreditou e decidiu que ‘Fine Line’ seria sua música favorita, apesar de jamais contar para ele. Não valia a pena alimentar seu ego. Os cachos não seriam capazes de disfarçar o momento em que toda aquela presunção subisse à sua cabeça.
Despedindo-se calorosamente da multidão, tocou em algumas mãos próximas ao palco, e atirou beijos pelo ar a todas as direções, agradecendo cada um dos setores da arena pela presença e pelo carinho.
Quando finalmente atravessou o espaço que faltava, alcançando a parte de trás do palco, saiu correndo e, em um impulso, partiu para um abraço apertado. Após poucos segundos para compreender a situação e saber responder a ela, ele retribuiu, trazendo-a mais para perto com o braço direito, enquanto a mão esquerda afagava seus cabelos logo abaixo da nuca.
— Obrigado por acreditar em mim - ela murmurou. — Foi a melhor noite da minha vida.
fechou os olhos, tentando guardar para si um pouco daquela sensação. Poderia usar daquela memória afetiva com facilidade em momentos ruins e sabia que acabaria conseguindo sorrir apesar de qualquer coisa. Porque aquilo era o que ele amava fazer. E amara fazer ao seu lado.
— Da minha também - respondeu.
Ao se afastarem, deu uma risadinha nervosa, levando a mão ao peito dele, exatamente da forma que havia feito na noite anterior. Um movimento estranho que passara a parecer quase natural. Mas aquilo não se tratava de sua ansiedade. Não naquele caso.
— Você está acelerado - comentou.
Estava um pouco aliviada ao perceber que, mesmo alguém com dez anos de carreira, também ficava daquele jeito após um show.
— É a adrenalina do palco - ele justificou, recebendo um aceno positivo em resposta.
Mas, quando ela se afastou para atender uma ligação de Mia, teve que respirar fundo e admitir para si mesmo o quanto odiava contar aquelas meias verdades.


Capítulo Dez

You are somebody that I don’t know
But you’re taking shots at me like it’s Patrón
And I’m just like, damn, it’s 7 AM
You Need To Calm Down - Taylor Swift


Inescrutável.
havia se deparado com essa palavra pela primeira vez aos quatorze anos, enquanto lia um dos romances que tinha se candidatado facilmente à sua lista de favoritos. Lembrava-se perfeitamente de ter achado a palavra peculiar, estranha, potente e com um tom refinado que ela apreciava, mas não imaginava usar em momento algum de sua vida cotidiana. Até aquele momento.
Tudo o que ela mais queria naquele momento era poder ser descrita por um narrador qualquer como detentora de uma expressão inescrutável, assim como o protagonista do seu querido livro. Contudo, não precisava se esforçar muito para saber que aquele jamais seria o caso. Seu rosto inchado e as marcas vermelhas no entorno dos olhos e do nariz deixavam bem claro como vinha sendo difícil engolir o choro da forma que seu pai sempre havia mandado quando uma pequena se machucava andando de bicicleta na rua. Se tinha uma coisa que ela não havia aprendido ao longo de sua vida, essa coisa era como não entregar absolutamente tudo o que estava sentindo nas marcas de sua face. E isso porque nem tinha começado a pensar nas olheiras.
O show em Bologna havia sido estupendo. Seu coração acelerado, a adrenalina correndo em altíssima velocidade por suas veias e o sorriso quase infantil que não conseguia desmanchar eram provas vivas de como não havia mentido por um segundo sequer ao dizer que aquela era a noite mais feliz de sua vida. Havia se sentido tão completa que precisaria de um número novo que superasse cem por cento para explicar tudo aquilo que se passava dentro de si.
Turim não havia ficado para trás. Estava levemente menos nervosa, então tinha acabado se jogando mais, dançando mais, pulando mais e se divertindo com a banda e com a plateia. Mesmo com a correria de dois shows praticamente seguidos e um voo na sequência, o cansaço não tinha sido suficiente para afastar da sua mente a certeza de que poderia ser feliz assim, engolindo todas as suas inseguranças e ressalvas e abraçando aquilo que lhe arrancava sorrisos com a mesma facilidade com que transpirava ao se movimentar pelo palco, ouvindo a multidão seguindo as notas da melodia, quase como se estivessem aproveitando o momento tanto quanto ela.
E tudo estava realmente indo muito bem. O problema havia começado em Madrid, quando ela finalmente havia tido tempo o suficiente para se lembrar de que ainda portava um aparelho celular e abrir o twitter. Havia se esquecido da regra número um da internet: não ler os comentários, especialmente os maldosos. Não era como se ela tivesse procurado por eles; não era tão masoquista assim. Tinha respeito o suficiente por si mesma para não ceder à tentação de querer saber o que os outros diziam gratuitamente por aí, ainda mais em uma rede social que a maioria julgava quase como terra sem lei. Tinha deslizado, no entanto, ao ver a publicação online de uma revista famosa em assuntos que se referiam ao mundo das celebridades, com uma das fotos mais recentes de seu instagram exposta em alta definição para quem quisesse ver - e para quem não quisesse também.

faz uma estreia tão estrondosa quanto a movimentação na internet por sua busca.”
“Debutando nos palcos antes mesmo de lançar uma música própria, o trajeto da jovem parece ter começado completamente de ponta-cabeça. Depois dos shows em terras italianas, no entanto, finalmente entendemos o que viu na garota enquanto recrutava fãs em uma busca incansável a uma cantora anônima de Instagram, escondida atrás do pseudônimo de Saturno.
foi a atração de abertura da Love On Tour em Bologna e Turim e levantou a multidão com seu jeito levemente contido, mas incrivelmente envolvente enquanto se jogava em cada uma das canções que escolheu - Dua Lipa com certeza está orgulhosa dessa nova versão de um de seus hits. A garota é bem mais talentosa do que lhe demos créditos enquanto vivíamos a expectativa de conhecê-la.
Com referências astronômicas, conhecimentos em neurociência e uma habilidade musical encantadora, nós temos apenas um questionamento. Será que teremos que adicionar química ao currículo acadêmico de ?
A estrela em ascensão - ou será um planeta completo, Saturno? - cantou ‘lovely’ e ‘Two Ghosts’ ao lado de seu anfitrião, levando o público à loucura e deixando nosso olhar detalhista bem atento ao fato de que havia algum tipo de faísca entre os dois, apresentando-se como se fizessem aquilo há séculos com toda a facilidade e naturalidade do universo. Se você não percebeu a química entre os dois, deve ter dormido durante uma parte importante do concerto e já deixou bem claro como se sente ofendido com isso. A não ser que você tenha dois anos. Nesse caso, há perdão para você.
Nosso questionamento agora é: essa química está limitada aos palcos, como se o destino já tivesse preparado toda essa artimanha sabendo que os dois haviam nascido para cantar duetos de tirar o fôlego, ou existe alguma coisa a mais entre eles? Já faz um tempo desde que deu os últimos sinais de um relacionamento - ainda mais um saudável. Será que vamos finalmente ver nosso britânico favorito sendo feliz com alguém aos olhos do público?
Estamos ansiosos para os próximos shows e aguardando os próximos passos desses dois.”

se sentiu ridícula pelos cinco segundos de choque em que suas sobrancelhas se apertaram e sua testa franziu, tentando dar conta de assimilar todas as palavras que havia acabado de ler. Deveria ter imaginado que era isso que ia acontecer. Uma mulher não era facilmente percebida pela mídia a não ser que tivesse cometido alguma gafe ou estivesse em um relacionamento. Não importava se ele era inventado, só que envolvia e isso era o suficiente para defini-la.
Ela não era ingênua. Sabia perfeitamente que estaria sempre atrelada ao nome dele; afinal, fora ele que a inserira naquele mundo. Era na turnê dele que ela estava cantando. Era ele a segunda voz em cada um de seus duetos. Mas não conseguia deixar de se irritar com o fato de que já estavam empurrando um relacionamento romântico apenas para emplacar as notícias e conseguir mais cliques.
Seu segundo erro tinha sido deslizar a página da notícia para baixo o suficiente para ver os comentários de seus leitores.

“Está mais que óbvio que essa aproveitadora está usando o para tentar aparecer e ele é educado demais para mandar ela se catar.”
“Ela nem é tão boa assim. Não faço ideia do que vocês estão vendo nela. Com certeza os elogios são só para agradar o , mas ele precisa aceitar que ela é uma ridícula sem sal.”
“Claramente alguém aproveitou bem a Itália… Alguém deveria dar uma salada para a pobre coitada. Façam uma boa ação.”
“Alguém deveria avisar essa vadia que essa história de querer ganhar visibilidade em cima da fama alheia é podre demais até para ela.”

— São sete da manhã, puta merda - ela murmurou, arremessando o celular bloqueado para a extremidade oposta da cama. O aparelho quicou e foi direto para o chão, atingindo-o com um estalo. — Tomara que tenha quebrado.
Não era verdade. Por mais que não tivesse intenção alguma de buscar o telefone no chão e verificar o possível estrago, tinha consciência o suficiente do preço que tinha pago por ele para sentir uma dorzinha no bolso e no coração ao imaginá-lo destruído. Só não precisava dele naquele momento. Não aguentava mais ler uma palavra sequer daquela merda toda. Não tinha estômago para ver mais uma pessoa sequer chamando-a de vadia ou dizendo que ela não era bonita ou magra o suficiente como se isso definisse qualquer coisa em sua vida. Não tinha cabeça para ver, mais uma vez, aquele papo sem pé nem cabeça de que ela estava se aproveitando da fama de . Inferno, não era ele quem tinha ido até Londres buscá-la? Não era nem como se ela tivesse lhe enviado o cover e, mesmo assim, tinha se tornado algum tipo de monstro por ter recebido uma oportunidade daquelas. Era especialmente doloroso a ela ver tantas mulheres lhe odiando por uma rivalidade despropositada e aleatória.
Fungou mais uma vez, esfregando o nariz que, ao contrário dos olhos, não parecia ter ressecado ainda depois do choro inevitável. Não queria ter chorado e se sentia uma idiota completa por fazê-lo. Sentia-se fraca por não ter construído uma muralha resistente o suficiente ao redor de si para não deixar que aquelas palavras e agressões a atingissem. Achava chique e inspirador ver aqueles discursos de “eu não dou a mínima para o que os outros pensam de mim”, mas não tinha atingido a elevação espiritual necessária para isso.
Sentia-se como se estivesse presa em um carro no meio de uma tempestade, com os limpadores de parabrisa ligados na velocidade máxima, tentando dar conta de toda aquela enxurrada, mas, mesmo com todo o esforço, falhando porque a chuva continuava caindo e não parecia disposta a dar uma trégua. Não importava o que fizesse, as gotas pesadas continuavam caindo lá fora com toda a violência agregada. Talvez fosse mais fácil simplesmente desligar os limpadores para poupar a bateria do carro, já que aquilo não passaria independentemente do que fizesse.
estava cansada. Exausta. Já tinha tentado virar para o lado, ignorar o mundo e dormir até que doesse menos, mas os pensamentos em turbilhão em sua cabeça não permitiriam que ela descansasse. Queria poder voltar um mês no tempo, maratonar todas as temporadas de RuPaul’s Drag Race e tomar sorvete de pistache até congelar o cérebro e não precisar pensar em mais nada.
Por mais altos que seus pensamentos estivessem, contudo, eles não a impediam de ouvir os passos lá fora e as vozes abafadas do outro lado da porta. Já tinha reconhecido pelo menos três pares de sapatos diferentes pelo som das suas batidas contra os tacos de madeira do piso.
— Nós deveríamos fazer alguma coisa. - Ouviu uma voz masculina dizendo. Mitch.
— Talvez ela precise de espaço. — Era Sarah. — Temos que respeitar isso, mesmo que estejamos preocupados.
— E ela te contou que precisava de espaço quando vocês tiveram um bate-papo agradável mais cedo, tomando chá e comendo biscoitos? - Mitch questionou, a voz carregada de sarcasmo. — Como vamos saber do que ela precisa se vocês estão todos com medo de perguntar, porra?
apertou os olhos com força, encolhendo-se um pouco mais na cama. Odiava que se preocupassem com ela e detestava mais ainda saber que era causa de discórdia entre eles. Não queria causar problemas a ninguém. Não queria ressentimentos ou discussões. Não queria trazer o caos a quem tinha a chance de ter um dia bom e agradável, mesmo que ela não fosse capaz de enxergar aquela possibilidade para si mesma.
— Discutir não vai levar ninguém a nada. - Emily pontuou, como sempre, sendo a voz da razão. — Vocês dois têm sua porcentagem de razão nisso. Agora, por favor, acalmem-se para dialogarmos como adultos, em vez de só piorar a situação.
No instante seguinte, as vozes se confundiram. já não era mais capaz de entender muitas palavras quando todas elas eram ditas praticamente em cima umas das outras. A única coisa que conseguiu realmente distinguir entre os sons foi a batida leve em sua porta quando o silêncio finalmente se ergueu.
, eu posso entrar?
Seu coração pareceu errar uma batida antes de se reencontrar em sua frequência, demonstrando estar tão surpreso quanto ela.
.
A última pessoa que ela esperava estar em sua porta às sete da manhã. Era para ele estar dormindo como se tivesse tomando remédios de tarja preta em excesso e não se preocupando com mais um de seus surtos. Com certeza ele já estava achando aquilo bastante cansativo.
— Claro - murmurou, torcendo para que sua resposta quase monossilábica tivesse intensidade suficiente para que ele escutasse. Não sabia se tinha em si a força para falar um decibel sequer mais alto do que aquilo.
entrou rapidamente, fechando a porta atrás de si sob os olhares preocupados de Emily, Sarah e Mitch. Levou alguns segundos assimilando completamente o estado em que ela se encontrava. Era em momentos como aquele que culpava Jeff Davis pela instituição do conceito de que lobisomens poderiam absorver para si a dor dos outros, enquanto ele não podia fazê-lo. Teen Wolf tinha efeitos visuais péssimos e alguns plots confusos, mas essa era uma habilidade que ele jurava ser capaz de trocar sem culpa pela necessidade de uivar para a lua cheia ou qualquer outro estereótipo licantropo aleatório.
— Você está com uma cara péssima - comentou, recebendo de uma fungada em resposta e um revirar de olhos tragicômico.
— Obrigada, . Você sabe perfeitamente como conquistar uma mulher com suas doces palavras.
Ele riu fracamente, enquanto se sentava sobre o carpete, cruzando as pernas na frente do corpo. Assim, tinha seu olhar exatamente à linha da altura dos olhos dela, podendo conversar de uma forma decente.
— Brincadeiras à parte - ele prosseguiu. — Como você está se sentindo? Tem alguma dor? Quer que alguém te leve ao hospital? Ou prefere que eu peça para o Milo buscar algo na farmácia?
Ela conseguiu sorrir de leve, apertando os olhos enquanto respirava o mais fundo que podia com as narinas parcialmente cheias das consequências de ter chorado mais do que o necessário.
— Não é esse tipo de mal estar que estou sentindo - respondeu. — Não preciso de médicos ou remédios. Pode ficar tranquilo.
— Então o que houve?
apenas moveu a cabeça minimamente, apontando de uma forma torta com o próprio queixo para um canto oposto ao que ele ocupava sobre o carpete do quarto. Os olhos do cantor acompanharam a indicação de seus movimentos, deparando-se rapidamente com o aparelho celular caído com a tela para baixo.
— Quebrou?
— Antes fosse - ela respondeu simplesmente.
sentiu o peso derrubar os ombros, quando a compreensão lhe atingiu a mente.
— Você abriu o twitter - sua voz saiu muito mais afirmativa do que questionadora.
balançou a cabeça, confirmando sua hipótese.
— Não me julgue, ok? Eu não estava procurando coisas ruins. Eu só abri o aplicativo como de costume. Ainda não me adaptei a esse lance de pessoa pública.
— A última coisa que eu seria capaz de fazer nesse momento é te julgar. Todos nós já passamos por isso, acredite em mim. E os comentários negativos, ofensivos ou completamente desprovidos de bom senso não vão deixar de existir nem se você for, sei lá, a Adele. Sempre vai ter gente amargurada e vazia com a própria vida para tentar ganhar algum contentamento e realização para si ao descarregar absurdos na internet. E eu sei que dói. Sei que é frustrante sentir essa porrada virtual e pensar ‘caramba, eu nem te conheço; nunca te fiz absolutamente nada’, mas esse é o tipo de atitude que diz muito sobre o caráter deles e nada sobre o seu.
— Eu não sei o que eu fiz para esses estranhos aleatórios me odiarem.
— Eu sei - retrucou. — Despontou como uma mulher incrível, talentosa, bonita, carismática e inteligente. Infelizmente, esse tipo de gente ainda não aprendeu a não se incomodar com isso.
— Conseguiram enfiar até você na história.
correu a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Infelizmente não posso dizer que estou surpreso. - Esticou-se o suficiente para puxar o aparelho dela, virando a tela em sua direção. — Pode desbloquear para mim? Quero ver as idiotices que falaram.
— A senha é vinte e nove, onze. Pode abrir.
— Data importante?
— Aniversário da Mia. Foi ela que colocou - explicou. — Disse que só assim eu pararia de ser uma pessoa horrível e esquecer o aniversário dela.
— Você esqueceu o aniversário dela?
— Não. Uma vez, eu passei o dia ignorando o fato de que era aniversário dela porque tinha uma festa surpresa preparada à noite. Mas ela não acreditou que meu esquecimento era falso e fez esse drama todo.
Os dois riram do comentário.
— Você sente muito a falta dela - comentou, recebendo uma confirmação de cabeça.
O cantor digitou os números fornecidos, desbloqueando a tela diretamente na página dos comentários que havia lido.
— Você não acreditou realmente em nada disso, acreditou?
— Não acho que eu esteja gorda - ela começou. — E também não acho que isso seja da conta de alguém ou mude a artista que eu estou tentando ser.
— E fui eu quem te convidou, você não está se aproveitando de absolutamente nada - ele emendou. — Isso é tão ridículo e incoerente que nem tem como ser realmente levado a sério.
— Ah, você pulou o meu comentário preferido - ela comentou, mexendo-se na cama para tomar o celular dele até encontrar o dito cujo. — Viu só? Me xingaram por sorrir para você. Imagina se essas garotas soubessem que eu praticamente dormi de conchinha com o ídolo delas.
— E elas não. - deu de ombros. — Isso tudo é tosco demais. Não absorve esse tipo de merda, de verdade. Aliás, você por acaso chegou a ler os comentários positivos? percebeu as bochechas gradualmente enrubescidas ao se dar conta de que não o tinha feito.
— Eu sabia. - Ele sorriu levemente, estreitando os olhos quase em uma bronca. — Não sei porque a gente tem esse senso autodepreciativo de só abraçar o que é negativo sobre nós. Quer ver? Vou ler para você.
Ele correu a tela, pigarreando antes de começar a leitura em um tom sério.
— “Essa menina foi um achado incrível. Poderia ouvi-la cantando o dia inteiro. Já quero um álbum original!”.
A garota apertou os braços com mais força ao redor do travesseiro, sentindo a vontade de chorar retornando diretamente dos confins da galáxia. Um choro que não carregava um milésimo sequer do peso do anterior.
— “Ela parece tão fofa. Exatamente o tipo de pessoa de quem eu adoraria ser amiga.”. “Vocês que estão falando merda deveriam procurar uma terapia para entender a porra do problema de vocês em querer desmerecer os outros por nada. Vão se foder, infelizes do caralho.”.
arregalou os olhos, segurando a risada antes de encontrar a própria voz para continuar.
— Ok, essa última foi um pouco agressiva. Mas errada ela não está.
riu, esfregando os olhos. Assim que ele devolvesse o celular, ela provavelmente procuraria quem disse aquilo só para guardar um print daquilo para sempre. Queria se lembrar da pessoa que tinha mandado alguém se foder em sua defesa.
— E tem literalmente várias outras falando sobre como você é bonita e sua voz parece a de um anjo descendo dos céus para abençoar os meros mortais. Esse é o tipo de comentário que você precisa levar em mente.
— Eu sei - admitiu. — Não tinha nem lido essas coisas. Por que é tão difícil dar atenção para a parte boa?
levou a mão direita ao rosto dela, usando o polegar para limpar, delicadamente, uma lágrima que escorria.
— Vai ser um processo. Vai demandar tempo e esforço e nem sempre vai ser linear. Alguns dias vão ser piores que os outros. Em alguns dias você vai conseguir erguer um dedo do meio para todo mundo sem dificuldades e em outros já vai estar tão abatida que o primeiro “seu cabelo está horrivelmente desidratado” vai ser uma tempestade em copo d’água.
— Isso pareceu um pouco específico demais.
riu alto.
— A era long hair teve seus altos e baixos - disse simplesmente, sendo interrompido por uma notificação no twitter da garota. Não conseguiu impedir o choque em sua fisionomia ao ler o tweet no qual ela havia acabado de ser marcada.
— O que foi? - se levantou rápido demais, sentindo a hipotensão ortostática atingi-la com os pontinhos brilhantes piscando em seus olhos. — O que disseram agora? Estão me acusando de ter assassinado alguém ou de fazer torta de criancinhas como a bruxa que aparentemente eu sou?
— Nem perto disso - ele falou, rindo sozinho com a surpresa que ainda corria em seu cérebro. — Dua Lipa acabou de elogiar sua performance de ‘Cool’.
— Me dá - ela ordenou, esticando as mãos para tentar alcançar o aparelho. — Anda, me dá agora.
— Acho que não. Você mesma disse que ficar lendo essas coisas estava te fazendo mal. Só quero te proteger.
, eu juro que não quero ser obrigada a socar seu rostinho perfeito, mas se você não me devolver o meu celular, nós vamos sair daqui procurando um cirurgião plástico para consertar seu nariz.
ameaçou estender o celular, mas o puxou rapidamente contra o próprio peito, recebendo uma careta furiosa.
— Eu vou devolver - ele garantiu —, mas só porque valorizo sua sinceridade em admitir que eu sou perfeito.
se aproveitou para puxar o celular de sua mão, encontrando o tweet que ganhava milhares de curtidas a velocidades altíssimas. Suas próprias notificações pareciam prestes a explodir com o ganho súbito de seguidores e com as respostas que a marcavam simultaneamente. Os números aumentando a cada vez que o aplicativo atualizava estavam prestes a causar algum tipo de pane em seu sistema, mas ela respirou fundo, lendo os caracteres:

@DUALIPA: @saturnsingss fez um cover impecável e descolado de ‘Cool’. Vou ouvi-lo em repeat pelo resto do dia.”

A garota ergueu o olhar, encontrando o sorriso orgulhoso de , transbordando de expectativa sobre suas reações depois de ler e absorver aquelas palavras. Após alguns segundos estáticos, a informação pareceu finalmente cair, fazendo-a pular pelo quarto como uma criança animada. Seus gritinhos encheram o cômodo, enquanto seus joelhos se dobravam rápida e alternadamente. gargalhou com gosto, feliz pela alegria repentina dela.
— Meu Deus do céu - ela disse finalmente, tentando recuperar o fôlego. — Isso não pode ser real. Eu devo estar alucinando. Acho que foi o remédio que tomei para dormir no voo.
— Nada de desacreditar nas coisas boas - o rapaz relembrou. — Parabéns! Você merece esse reconhecimento.
esboçou um sorriso doce de quem se sentia subitamente muito mais leve.
— Obrigada por se preocupar. De verdade.
— Eu disse que passaríamos por isso juntos. - Ele deu de ombros. — Agora vou lá fora avisar ao Mitch que está tudo bem antes que ele apareça aqui com alguma ideia horrível de como te animar. Ele tem métodos duvidosos.
Ela assentiu, observando se aproximar da porta, colocando a mão ao redor da maçaneta antes de se virar para ela novamente, parecendo um tanto hesitante.
— O que foi?
— Acho que a gente deveria comemorar. Sair hoje à noite. Eu, você, a banda; beber, dançar… Acho que merecemos isso.
— Meus planos para hoje incluíam ficar o dia inteiro agindo como um urso em processo de hibernação.
— Fico feliz que tenha concordado, então. Tenho uma reunião com o Jeff agora, mas te vejo mais tarde.
E deixou o cômodo, abandonando uma descrente com a possibilidade de escolha que não lhe foi dada. Não que ela fosse realmente dizer não. Só torcia para que tivesse colocado alguma roupa decente entre as calças largas na mala.


❀❀❀



Mitch fechou os olhos, colocando o pé direito adiante apenas para reforçar algum tipo de superstição na qual ele sequer acreditava. Estufou o peito, inspirando profundamente, antes de expirar todo o conteúdo atmosférico que havia roubado com um sorriso satisfeito.
— Como eu senti falta desse lugar.
— Se você tentar arrancar a roupa para dançar bêbado em cima do bar, eu juro que dessa vez vou chamar a polícia - Adam comentou.
— O que acontece em Madrid, fica em Madrid - Mitch disse, recebendo um olhar fuzilante de Sarah.
— Só nos seus sonhos.
Estavam no segundo andar - também conhecido como área VIP de uma boate cujo nome não tinha sido capaz de entender nem depois de literalmente repeti-lo pelo menos umas cinco vezes. Teria que acrescentar ‘espanhol’ à lista de coisas que ela definitivamente não compreendia no mundo, juntamente com Donnie Darko e pessoas fascinadas por coisas bizarras e horríveis, como matemática.
Quando Charlotte comentou, no caminho, que ficariam na área VIP para minimizar o assédio das pessoas, primeiro estranhou. O conceito de ‘Very Important Person’ ainda não fazia muito sentido em sua mente quando se via envolvida no contexto. Agora que lá estavam, contudo, ela respirou fundo em gratidão ao perceber o lugar bem menos cheio do que o andar abaixo deles provavelmente estaria. Sua claustrofobia agradecia de coração.
— Experimenta isso - disse, surgindo de repente ao seu lado já com um copo cheio de um líquido colorido e decorado com uma cereja e uma rodela de laranja preparada para parecer o Sol. reconheceria um ‘Tequila Sunrise’ mesmo do outro lado do salão. Mas não podia perder a chance de causar desconcerto no homem à sua frente.
— O que você colocou aí dentro? - Estreitou os olhos ao questioná-lo, enquanto tomava o copo para si, aproximando-o o suficiente do nariz para sentir o aroma frutado que já parecia ter ativado suas papilas gustativas com sucesso.
— Experimenta.
, você batizou meu Tequila Sunrise?
Ele fez uma careta, demonstrando verdadeiro choque por ela sequer cogitar algo daquele tipo, mesmo de brincadeira.
— Eu nunca faria isso e tenho certeza de que você sabe disso.
— Droga. Suas manicures não tinham os esmaltes que identificam droga na bebida.
— Isso existe?
— Existe - ela falou, dando um longo gole no drink. — Eu obviamente estou só te zoando, mas, sim, isso existe.
— Estou dividido entre comentar ‘que bom que existe’ e ‘que merda que precise existir’ - ele disse, tomando o copo da mão dela e tomando um gole também.
— Acho que as duas coisas - ela concordou. — E vai arranjar uma bebida para você porque esse copo não retornará às suas mãos até que esteja vazio - completou, tomando a bebida de volta para si e acenando para ele conforme se dirigia até a mesa que Sarah e Charlotte ocupavam.
— Little black dress just walked into the room - Charlotte cantarolou ao ver a garota caminhando na direção delas com sua própria versão de um vestido tubinho preto com alças douradas que caíam perfeitamente sobre os ossos de sua clavícula, expondo o colo de forma charmosa e, também, um tanto sensual.
fez uma pose afetada, antes de cair na gargalhada e se sentar.
— Como você está se sentindo? - Sarah questionou.
— Melhor agora - admitiu. — Só precisava de um tempo para digerir tudo mesmo.
As duas assentiram.
— Mitch e Adam já estavam planejando quem matar por ter te deixado daquele jeito.
— Coitados, precisariam ir atrás de muita gente. - Ela riu. — Mas está tudo bem. Enquanto eles estão chiando a troco de nada no twitter, eu estou em uma turnê mundial e curtindo uma festa com a minha família.
As duas mulheres sorriram largamente ao ouvir aquela última palavra.
— Essa é a minha garota - Sarah disse, erguendo a mão para que ela batesse. — Eles que se danem.
A introdução da próxima música fez dar pulinhos animados em sua cadeira. Assim que a famosa frase BLACKPINK in your area’ soou alta e clara pelos equipamentos de som, ela se pôs de pé, olhando para as amigas com a maior cara de pena no estilo Gato de Botas do Shrek que conseguiu.
— Eu amo muito essa música. Vamos dançar, por favorzinho - implorou.
Charlotte se levantou rapidamente, decidida a cumprir os passos necessários até a pista de dança mesmo que isso significasse permitir que o resto de seu drink tristemente esquentasse. Sarah relutou brevemente.
— Você não vem?
e Adam sumiram de vista. Mitch também - ela comentou, recebendo o olhar questionador das amigas. — Que bom que eu não sou paga para ser babá de homem.
As três dançaram como se não houvesse amanhã. se esforçou ao máximo para lembrar alguns passos dos vídeos de rotina de dança para aquela música, ficando anos-luz de se aproximar da coreografia original do grupo, mas se divertindo enquanto as outras duas tentavam segui-la de uma forma que só tornava a situação ainda mais trágica.
— Let’s kill this love! Rum, pum, pum, pum, pum, pum, pum - berrou, ignorando o fato de que, provavelmente, deveria estar se esforçando ao máximo para poupar a sua garganta. Mas não importava. Não naquele momento. Evitaria água gelada e comeria maçãs no dia seguinte, mas esse era um problema para a do futuro.
Ela começou a girar, pulando de um pé para o outro enquanto curtia a batida da música. Estava completamente envolvida, como se o som fosse um mar aberto e seu corpo fosse empurrado de acordo com a vontade e a frequência de suas ondas. Era por isso que ela amava tanto dançar. Pela sensação de ter total consciência de seu corpo e cada um de seus pontos, proximais ou distais, bem como de seus respectivos movimentos; mesmo que isso não implicasse necessariamente ter absoluto controle deles. A graça estava nessa percepção de que cada um de seus braços e pernas encontrava seu rumo conforme a melodia e a força da letra, sem muita preocupação com a organização e a sucessão de seus passos. Aquilo era sobre liberdade. Sobre si mesma.
Os olhos fechados permitiam que ela se esquecesse de todo o mundo à sua volta, ignorando quase tudo. Não pôde deixar passar despercebida a voz que conhecia tão bem lhe dando uma bronca:
— Eu não acredito que você está dançando essa música sem mim.
se virou para a entrada, encontrando , Adam e Mitch ao redor da última pessoa que ela esperaria ver ali.
— Não sei porque todo esse choque. Desde quando existe festa sem mim?
abriu um sorriso dolorosamente largo antes de sair correndo e se jogar em cima da amiga, chegando perto de derrubá-la sobre um piso do qual ela preferia não saber a respeito do que poderia ter presenciado.
— Eu senti tanto a sua falta.
— Eu contei - comentou. — Sabe, quando eu praticamente implorei para ela nos encontrar aqui.
Mia sorriu de volta para a melhor amiga.
— Quando ele disse que você precisava de mim, eu comprei a passagem correndo. Na verdade, o Jeff comprou com o cartão do , mas você entendeu o espírito da coisa.
não conseguia tirar o sorriso do rosto, ainda sentindo o coração acelerado pela surpresa tão bem-vinda.
— Pensei que você fosse demorar ainda pela entrega das últimas notas.
Mia deu de ombros, soprando por entre os lábios.
— Dei meu jeito, não se preocupe com isso.
— Meu Deus. - A outra riu, enquanto respirava fundo. — Eu tenho tanta coisa para te falar.
— Eu sei, meu amor. Inclusive, fiquei sabendo do seu papo com o Louis e queria muito te matar por não ter me contado sobre isso. Mas eu estou tão, mas tão orgulhosa de você e de como você cresceu que vou deixar que viva para ver a luz do sol por mais um dia.
— Fofoqueiro - ela acusou , estreitando os olhos e recebendo um dar de ombros culpado em resposta.
— Vamos ter tempo para isso - Mia interveio, preocupada em defender o próprio ídolo. — Mas agora eu preciso de álcool a níveis de intoxicação.
As duas se dirigiram ao bar, sendo rapidamente atendidas, enquanto voltavam ao sofá onde todos se encontravam agora.
— Mitch e Adam você já conheceu, mas essas são Sarah e Charlotte.
As duas acenaram de forma simpática, ao que Mia respondeu à altura, disfarçando muito mal o fato de que estava esticando o pescoço um pouco mais do que o necessário para averiguar se encontraria mais algum rosto conhecido escondido em algum canto do salão.
— É um prazer finalmente conhecê-los, CHASM.
sorriu delicadamente, antes de esconder a boca perto da orelha da amiga para murmurar no tom mais baixo possível, mesmo com a altura absurda da música:
— Ela não veio.
Mia assentiu, bebendo outro longo gole de seu coquetel.
Conversaram sobre qualquer coisa, fingindo que realmente eram capazes de ouvir cada palavra do outro. Na maior parte do tempo, o álcool apenas potencializava a iniciativa de rir quando alguém dizia algo incompreensível e apenas torcer para que não fosse uma pergunta ou um comentário triste que fizesse o riso soar insensível ou deselegante.
Em um dado momento, Mia tomou a mão da amiga, puxando-a para dançar e pular e cantar os refrões das versões remixadas com todo o ar de seus pulmões. Os cabelos pulando em consonância com seus corpos criaria um tom leve e quase etéreo em toda a situação, não fosse o som explosivo capaz de incomodar tímpanos sensíveis. Sempre que dançavam juntas e se divertiam daquela forma, se lembrava de Grey’s Anatomy. Eram como Meredith Grey e Cristina Yang balançando todas as articulações em uma sala de descanso de um hospital, mas sem o drama e as mortes excessivas por acidentes graves. Eram a pessoa uma da outra da forma mais genuína, pura e inseparável, sem precisar da intervenção suprema de Shonda Rhimes ou Krista Vernoff e das lágrimas de dor e desespero que elas, tão sadicamente, adoravam causar.
— Preciso ir ao banheiro - Mia avisou, revirando os olhos. — ADH, eu te odeio.
riu, meneando a cabeça enquanto via os cabelos claros se afastando de seu campo visual.
— Está se divertindo? - perguntou, assustando-a de repente.
Ela assentiu, movendo a cabeça de forma quase sincronizada com os acordes de ‘Rain On Me’ ao fundo.
— Pronta para me agradecer por ter te tirado da cama e te arrastado para cá?
— Você se dá crédito demais pelas coisas, sabia? Nem tudo é sobre você, .
— Mas quase tudo é.
— Você e a Mia vão acabar se matando durante os próximos dias em uma disputa territorial por espaço suficiente que possa acolher todo o ego de vocês.
— Infelizmente eu não aprendi a perder.
— Ela também não - comentou rindo. — Obrigado por trazê-la. De verdade.
— Disponha - ele respondeu, sorrindo ternamente. — Qualquer coisa que possa te ajudar a se sentir melhor. Aliás, acho que não te disse isso mais cedo, mas você está completamente deslumbrante.
não sabia se era o álcool, os feromônios, o momento em que se encontrava em seu ciclo menstrual ou uma combinação maluca e distorcida de todos eles; mas tinha de admitir para si mesma que toda aquela preocupação estava começando a receber como resposta de seu próprio corpo mais do que um simples tipo de gratidão. E ela ainda não havia decidido se estava ou não confortável com aquela sensação.
Sarah, Adam, Mitch e Charlotte se encontravam encostados contra o bar, bebendo e observando a cena de forma curiosa.
— Posso despretensiosamente empurrar ele para cima dela? Por favor - Mitch implorou, sentindo a mão de Sarah encontrando sua orelha de forma ardida na sequência.
— Só se você quiser estragar tudo - Charlotte reclamou, virando todo o resto do conteúdo de seu copo de uma só vez.
— Estragar o quê? - Mia perguntou ao se aproximar. — Desculpa, estou sendo enxerida.
Adam movimentou a cabeça, apontando assim para o local em que e conversavam, dando passinhos mínimos de um lado para o outro e rindo abertamente de qualquer merda que o outro dizia como se estivessem perdidos em uma cena de comédia romântica na qual tudo deveria parecer mais engraçado do que de fato era.
— O que é que está acontecendo ali? - Perguntou interessada, simplesmente tomando o copo de Adam de sua mão.
— Ei - o baixista reclamou. — Eu posso ter herpes, sabe?
— Talvez eu tenha herpes - ela retrucou, dando de ombros. — Vai saber.
Adam não conseguiu evitar a risada ao recuperar seu copo furtado.
— Gostei de você - decidiu. — Bom, nós estamos suspeitando que o seu ídolo está desenvolvendo uma queda pouco discreta pela sua melhor amiga.
— Só você está suspeitando - Sarah se meteu. — Todo mundo tem bastante certeza.
Como se tivesse sido atraído pela menção à sua pessoa, se aproximou do grupo, decidindo que era sua própria vez de realizar uma visita ao toalete e fazendo com que Mia se aproveitasse do momento para retomar seu posto ao lado da amiga.
— Por que não me contou que está a fim do ?
se engasgou com a tequila, esforçando-se ao máximo para não cuspir o que tinha na boca. Era melhor se certificar de que todos os conteúdos internalizados pelo seu corpo dentro dele permanecessem. Aquela pergunta tinha conseguido lhe causar náuseas.
— De onde você tirou isso? Eu não estou. Isso é ridículo.
— Nem bêbada você consegue mentir para mim - apontou. — Conversamos sobre isso depois.
Mia caminhou até a banda, pedindo para si um shot de tequila. Não poderia negar que a amiga tinha conseguido fazer algum tipo de verme alcóolatra se revirar de desejo em sua barriga após despertá-lo.
— Ok - disse aos quatro, respirando fundo e devolvendo o copo à mesa com um baque surdo. — O que nós vamos fazer sobre isso?


❀❀❀



— Eu nunca mais quero beber - Mia reclamou, enquanto chutava os sapatos de salto alto na entrada do quarto.
— Fale por você - acrescentou, rindo, enquanto se dirigia à pequena geladeira que tinham em sua pseudocozinha. — Eu preciso é beber mais. Não foi o suficiente.
— Nada disso - interveio, puxando-a de leve pelo braço apenas para mudar sua rota. — Acho que já deu por hoje.
— Credo, você é um chato - ela reclamou, antes de arregalar os olhos em satisfação ao ver a caixa de Corona no chão. — Cerveja!
— Sinto muito - o cantor continuou. — Mas está vazia.
— Tudo bem, eu posso fazer um chapéu, então.
Quando colocou a caixa de papelão vazia sobre a cabeça, teve de admitir que, em alguns momentos, era difícil ser um adulto responsável sem se aproveitar pelo menos um pouco de acontecimentos como aquele. Tirou o celular rapidamente do bolso da calça, batendo uma foto daquela cena e sabendo que poderia usá-la para infernizá-la no dia seguinte já que ela provavelmente sequer se lembraria de qualquer coisa que tinha feito ou dito depois da terceira dose de tequila pura. E isso porque ele não tinha se dado ao trabalho de contar os drinks coloridos que vira em sua mão.
— Hora de dormir - disse, retirando a caixa e a jogando de volta no chão. Encontrou com os olhos fechados, rindo de como os próprios cabelos caíram sobre o seu nariz.
a guiou até o quarto, garantindo que ela não caísse de qualquer forma no meio do corredor da forma que Mia tinha feito no sofá. A garota se jogou sobre a cama, afofando o travesseiro e se livrando da colcha e das cobertas com um movimento pouco preciso.
— Se troca antes de dormir - ele aconselhou, sem confiar que ela realmente se lembraria de fazê-lo. — E escove os dentes.
— Sim, senhor - concordou, batendo uma continência.
— E tenta descansar, ok?
olhou para ele com toda a sua atenção desconcertada. retribuiu e sustentou o seu olhar, curioso pela atitude. Sentiu um formigamento estranho - mas ao qual ele não poderia mais se dizer ser um completo desconhecido - vagando por suas costas como se fossem os próprios insetos passeando por ele. Ela, enfim, sorriu ao se deitar. Um sorriso doce e aconchegante de uma forma que se aproximava muito de uma pacífica expressão quase infantil.
— Você é muito bonzinho. Acho que é por isso que eu gosto tanto de você.
— Boa noite, - ele desejou, ignorando a forma acelerada e desconexa que seu corpo tinha assumido em resposta àquela manifestação verbal. — Nos vemos amanhã.
Abandonou o quarto, fechando a porta atrás de si e seguindo pelo corredor. Suas palavras se repetiam em sua cabeça sem parar, como um disco quebrado e empacado eternamente no mesmo ponto. Não conseguia se livrar da imagem perfeita daqueles segundos, tatuada em sua mente.
— Pena que você não vai se lembrar de nada disso amanhã - murmurou.
E caminhou até a sala, onde teria que engolir seus sentimentos, acordar Mia para convencê-la a ir até o seu quarto e fingir que seria capaz de se esquecer do que ocorrera. Assim como ela.

Capítulo Onze

You’re a mystery
I have traveled the world, there’s no other girl like you
No one
What’s your history?
Dive - Ed Sheeran


— Mia - voltou a chamar, batendo os nós dos dedos contra a porta do quarto da amiga. — É sério, todos já estão prontos. Se você não sair logo, nós vamos para a cidade sem você.
No mesmo instante, ouviu o som da chave rodando e a maçaneta girando.
— Você não fez isso. - esboçou uma risada descrente.
Mia usava uma blusa em um tom muito claro de lilás, com a imagem de Saturno em estampa galáctica no peito e as palavras “Saturn’s Manager” em uma fonte cursiva cheia de voltas e firulas. Deu uma voltinha, mostrando também as costas, em que a mesma fonte expunha “ ” em letras garrafais.
— Foi mal demorar - começou a se justificar. — Foi quase um parto encontrar a minha dentro da caixa.
— Caixa? - Sua voz já estava saindo mais aguda do que de costume. — Mia, o que você fez?
— Bom, enquanto você estava conhecendo a Itália sem mim, eu estava trabalhando na sua linha de produtos para os fãs. Já vendi camisas nos três últimos shows, por sinal. De nada.
— Você não tinha que terminar as suas provas do semestre?
— Eu sei que essa vida de fama e fortuna deve ter te causado amnésia, mas muitas pessoas estudam e trabalham - a amiga apontou, sarcasticamente. — Além disso, a média é seis e eu fechei tudo com seis e meio como o grande prodígio genial que eu sou. Não, não precisa aplaudir.
riu de leve, apesar de não ser capaz de disfarçar a confusão que ainda revirava seus pensamentos.
— E onde você está vendendo essas coisas?
— No seu site - Mia respondeu, com uma careta, como se aquela fosse a pergunta mais idiota que poderia ter sido feita desde o Big Bang.. — Onde mais seria?
Foi a vez da amiga franzir o cenho.
— Desde quando eu tenho um site?
— Desde outubro do ano passado. Eu meio que torcia para que você decidisse levar a música a sério um dia, então comprei o domínio do seu nome antes que alguém o fizesse e depois precisássemos negociá-lo por um preço absurdo.
estreitou os olhos, balançando a cabeça.
— Sua mente funciona de um jeito tão estranho.
— Chama planejamento e visão de futuro. Agora, se não se importa, eu quero mesmo sair para conhecer Munique.
Haviam desembarcado no fim do dia anterior, sem muito tempo para fazer qualquer coisa além de uma refeição leve, tomar um banho longo e discutir por que raios Munique era o único show alemão separado dos demais por um trajeto nem um pouco curto entre Hungria, República Tcheca, Polônia, Noruega, Suécia e Dinamarca, que terminava novamente na Alemanha.
Quando se deu por vencida, percebendo que provavelmente era exatamente por isso que se tinha uma equipe de produção - talvez eles entendessem -, decidiu dormir com um sorriso no rosto. Os concertos em Madrid, Lisboa e Viena tinham sido ainda melhores do que ela poderia esperar. Depois da conversa com e do retorno do apoio físico e direto da amiga, as coisas tinham se tornado um pouco mais fáceis. Se seus sonhos não tivessem decidido sacolejar a maré calma que deveria ser a saída do período de vigília, com certeza teria sido capaz de ter uma noite de sono pacífica.
Tinham combinado de acordar cedo para fazer compras e passear por Munique. Charlotte desistira logo cedo, reclamando que o fuso horário havia conseguido lhe dar um nocaute digno de um grande momento do UFC; mas os outros estavam prontos para receber uma carona de Milo até a cidade.
— Meu Deus, minha cara está tão amassada - comentou, observando o próprio reflexo na janela do carro, enquanto apertava e balançava suas bochechas, tentando fazer seu rosto assumir um aspecto normal de quem não tinha acabado de acordar.
— Está maravilhosa como sempre - Adam comentou. — Parece uma miss.
respondeu com um sorriso blasé, sabendo como detestava a sonoridade daquilo.
— A gente evita usar essa palavra - Mia explicou, recebendo um olhar desentendido e um tanto desconfiado do baixista, mas que logo desistiu de tentar entender.
— Bom, nós nos encontramos aqui de volta em duas horas e meia, pode ser? - sugeriu ao grupo, que concordou.
O cantor, então, seguiu caminho acompanhado de Adam, Sarah e Mitch, enquanto Mia e caminhavam na direção oposta.
— O que você quer fazer? - questionou a amiga.
— Por que eu?
— Porque, com o seu planejamento e a sua visão de futuro, com certeza você já pensou em um itinerário.
— Eu não sei - Mia se explicou. — Quer dizer, a Marienplatz por si só já é um ponto turístico e o maior marco de Munique. Tem tantas coisas bonitas…
— Você está me enrolando para dar a hora do relógio musical - disse, plenamente ciente do comportamento estranhamente evasivo da amiga, que sorriu amarelo logo em seguida.
Toda a praça parou quando o ciclo do ponteiro dos minutos completou a sua volta e os bonecos começaram a se mexer sobre os trilhos, acompanhando as badaladas. Diziam que a música e a dança do Rathaus-Glockenspiel vinham como uma diária celebração em forma de gratidão pelo fim da peste.
— Acho que é um jeito bonito de agradecer - Mia pensou alto, após os oito minutos de apreciação musical se extinguirem e sinalizarem a retomada da circulação das pessoas pela praça. — Você bem podia cantar no meu enterro, não? Acho que seria uma cena bonita, tipo naquele filme da Kate Hudson, com aquele médico bem bonitinho que me fazia questionar se eu sentia mais inveja dele ou dela.
— Já falei que vamos morrer juntas e velhas, brigando pelo bingo em uma casa de repouso.
As duas seguiram seu caminho, andando pelas ruas que partiam da praça, como os raios de um sol desenhado por uma criança pequena que finalmente aprendia a usar a geometria em meio a suas habilidades artísticas. Não pararam de falar por um segundo sequer, apontando para as lojas e também para as gárgulas e estátuas com seres mitológicos, que combinavam bem até demais com as torres neogóticas da sede nova da prefeitura.
— É cedo demais para experimentar uma cerveja alemã? - Mia perguntou, fazendo um beicinho ao observar a vitrine de uma cervejaria.
viu o horário no relógio, confirmando o que temia: sequer eram dez da manhã ainda. Só de imaginar a espuma leve se formando enquanto uma cerveja gelada preenchia um copo de vidro grosso, sua boca já salivava.
— Cedo demais para o julgamento alheio, infelizmente - confirmou. — Voltamos quando for socialmente aceito beber em paz por aí.
— A equipe do fez tudo errado - a amiga reclamou. — Se eles tivessem marcado a turnê no meio da Oktoberfest eu poderia tomar cerveja de café da manhã e ninguém reclamaria. “Quando eu for agendar sua turnê mundial solo, Munique fica para o meio de setembro, esteja ciente. Nem que seja o único show a parte de toda a porção europeia.”
— Você está tentando me comprar com cerveja. Deveria saber que eu não me oporia a isso jamais.
Mia deu uma risada alta, entrelaçando o braço ao de , enquanto se afastavam da fonte de sua tentação. Caminharam entre divagações sobre uma futura possível turnê solo que não estava realmente confiante de que sequer existiria.
Amava cantar e performar e arriscar algumas dancinhas e interações com a banda. A sensação de estar em um palco, apresentando-se para uma grande plateia e ouvi-la cantando e gritando - principalmente gritando - com você era simplesmente indescritível. A sensação de adrenalina, endorfinas e serotonina correndo em cada uma das extremidades de seu corpo era mais prazerosa do que poderia imaginar antes de experimentar. Seu sistema de recompensa realmente estava sendo extremamente mimado a cada vez que alguém gritava seu nome, aplaudia sua apresentação ou acabava a reconhecendo e pedindo uma foto na rua. Mas ela não sabia se era o suficiente.
Afinal, aquilo tudo era apenas uma brincadeira. Era divertido, casual e, apesar de envolver trabalho sério, ainda era despojado e descompromissado. As pessoas, no fim das contas, estavam ali por ; com seus olhos brilhantes, sorriso fácil, ternos excêntricos, a voz que ela amava ouvir e os cabelos que a faziam se questionar sobre qual seria a sensação de correr seus dedos por aqueles cachos, da mesma forma que ele fazia quando estava nervoso ou pensativo. Não tinha confiança de que, um dia, poderiam estar lá simplesmente por ela.
Mas Mia estava animada. Mia já tinha ultrapassado a frequência normal de palavras por minuto e contava sobre as ideias de produção, com palcos acessórios ao principal - permitindo a interação com a plateia toda -, roupas brilhantes para os holofotes e dançarinos para preencher o espaço.
— Basicamente, uma turnê da Taylor Swift - concluiu, recebendo um balançar de ombros despreocupado.
— Se essa comparação existir é porque estamos fazendo algo de muito certo.
Quando avistou uma barraquinha - que estava longe de ser simples -, com uma tenda azul e prateada e um cheiro gostoso, interrompeu os passos da amiga imediatamente.
— É cedo demais para uma cerveja, mas não pode ser cedo demais para experimentarmos algo que é, basicamente, pão. E eu acho que existe alguma regra de deportação imediata para pessoas que vão à Alemanha e não comem um pretzel original.
Mia coçou os queixos teatralmente, fingindo estar realmente absorta em seus pensamentos e indagações.
— Tenho a impressão de ter lido isso em algum lugar mesmo.
Aproximaram-se da barraquinha, sendo recebidas por um homem alto e tão branco que a luz parecia refletir nele de acordo com todos os princípios físicos ideais. O homem tinha um sorriso largo e lhes ofereceu um brezel.
— Não, não, moço. Nós queremos um pretzel - Mia falou devagar, tentando se lembrar de todas as técnicas de dicção que havia aprendido aos cinco anos com a fonoaudióloga.
lhe deu uma cotovelada na costela, repreendendo-a.
— Acho que é a mesma coisa. Nós que falamos errado.
— Ah! Perdão, moço! Entschuldige!
A amiga estreitou os olhos, sem entender.
— Meu aplicativo de línguas estrangeiras disse que significa um pedido de desculpas - a outra justificou. — Mas eu tenho certeza de que tinha que usar um pouco mais a garganta para pronunciar.
O homem não tirou o sorriso simpático e receptivo do rosto por um segundo sequer. tinha certeza de que ele só poderia ter dois estados internos de espírito naquele momento: ou estava rindo mentalmente delas ou estava revoltadíssimo pela afronta à sua cultura. Considerando o fato de que ele era obrigado a lidar com turistas tão - ou até mais - perdidos quanto elas, tinha a impressão de que apostar na primeira opção seria o mais adequado.
Entregou-lhes dois pretzels enormes e bem dourados, com pequenos cubinhos de sal espalhados pelos nós da massa.
Danke! - Mia gritou, acenando avidamente para o vendedor enquanto as duas se afastavam. — Meu Deus, isso é maior que a sua cabeça.
se embolou um pouco na tentativa de achar a melhor posição para deixar as mãos, de forma a sustentar a massa pelo guardanapo de papel reciclado que lhe tinha sido oferecido como apoio. Ao finalmente conseguir, deu uma mordida generosa, fechando os olhos enquanto apreciava cada uma de suas mastigações e o sabor na língua. Surpreendia-se toda vez que um grão de sal vinha maior, mastigando-o e sentindo seu paladar responder à sensação.
Decidiram, enfim, seguir o movimento de turistas em direção à Neues Rathaus , onde aguardaram um pouco até conseguirem se apertar no elevador para subir até a torre mais alta da nova prefeitura. Quando se aproximaram do parapeito, precisaram de alguns segundos para se recuperar da sensação de que algo na altura e na grandiosidade da paisagem tinha sugado por completo a sua capacidade de respirar.
Viam as pessoas, andando lá embaixo, suas imagens parcial e ocasionalmente cobertas pelos telhados misturando-se em tons de marrom que variavam a um acobreado que, finalmente, tornava-se um vermelho mais vivo. Viam a estátua da Virgem Maria sobre a coluna, além de algumas peças confeccionadas em homenagem e lembrança aos antigos duques da Baviera. Em algum lugar, um guia explicava sobre os seis pátios e as áreas danificadas em bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial. ainda observava a Igreja de São Pedro com certa curiosidade, tentando se lembrar das aulas de história da arte que tivera na escola.
Era lindo. Uma vista de tirar o fôlego, para a qual ela poderia ficar olhando por horas a fio, fingindo que o tempo no relógio da torre à sua frente pudesse apenas congelar um pouco para que ela pudesse se sentar, respirar fundo e pensar um pouco. Se fosse sincera, queria forçar-se a afastar o pensamento, zumbindo como uma mosca irritante em sua mente, de que estaria de braços abertos no extremo da torre, de braços abertos, simulando a cena de Jack e Rose em Titanic. E de que ela estaria rindo dele e dizendo-o para parar de ser bobo e chamar a atenção de todo mundo, sendo que, na verdade, torcia em seu coração para que ele nunca mudasse.
— Tem alguma coisa na sua cabeça - Mia comentou, encostando-se a ela ao ocupar o espaço ao seu lado no banco gelado de pedra.
— Cabelo? - perguntou, recebendo um olhar fuzilante da amiga.
— Você me entendeu, lindinha. Pode começar a falar.
Ela soltou o ar de seus pulmões com força, pensando em que palavras dizer. Não sabia exatamente como definir o que estava acontecendo. Não sabia explicar porque aquilo lhe incomodava. Não sabia dizer porque ele parecia se recusar tão fortemente a sair de seus pensamentos.
— Lembra que eu disse que não dormi muito bem essa noite?
Mia aquiesceu, acrescentando:
— Disse que deveria ser pelo fuso horário.
— Isso - concordou. — Mas não foi bem esse o motivo. Sabe quando você sente que não descansou porque a sua cabeça decidiu que ia te fazer consciente de todo o funcionamento dela durante a madrugada e você se sente pensando e sonhando em um looping estranho, com limites quase indistinguíveis do quão consciente você está e de como está modificando os cenários só para ter o sonho do jeito que quer a partir de algo que não sai da mente?
A amiga piscou repetidamente, arregalando os olhos.
— Foram muitas palavras de uma vez só, meu cérebro derreteu. Mas acho que entendi. Sei. Continue.
— Na véspera do primeiro show, nós tivemos que dividir o quarto por conta do encanamento do meu banheiro. E, meu Deus, aquela noite estava sendo tão complicada para mim. Eu não tirava o dia seguinte da cabeça e estava prestes a surtar o tempo todo, sabe? Qualquer coisa, qualquer palavra. Eu tinha plena consciência de que estava me aproximando do meu limite e ia transbordar a qualquer momento.
“Mas aí nós ficamos conversando sobre relacionamentos passados e contando coisas aleatórias das nossas vidas e eu meio que esqueci por uns segundos que existia um show enorme para fazer no dia seguinte. Quando ele decidiu que era melhor que dormíssemos, eu fui obrigada a ficar sozinha e em silêncio com todos os meus medos e desabei. Tentei engolir o choro para não acordá-lo, mas logo ele estava na minha cama e… Mia, tira essa cara pervertida da minha frente ou eu vou te socar.”
— Ok, vou me conter.
— Certo. - respirou antes de prosseguir. — Ele me ajudou a respirar e me acalmou. Depois disso, eu juro por tudo que há de mais sagrado nessa vida que eu não sei o que se passou na minha cabeça naquele momento, mas eu pedi para ele cantar para mim.
— E ele cantou?
— Cantou Sweet Creature, deitado do meu lado, me abraçando de uma forma torta e estranhamente confortável.
Mia estava prestes a falar alguma coisa. sabia disso ao ver seus olhos arregalados e o desespero duramente contido no movimento de seus lábios para não interrompê-la.
— Eu fiquei ali, aninhada a ele até o sono vir. Então, ele levantou com todo o cuidado, beijou minha cabeça e voltou para a cama dele.
A amiga mordeu o indicador, fazendo uma careta quando soltou um som que quase se parecia com o de um cachorro tendo seu rabo pisado sem querer por alguém desatento. teria rido do seu esforço, se não estivesse sentindo o peso do coração, como se ele tivesse se jogado sobre seu diafragma e decidido que estava cansado de sentir tanto.
— E você sonhou com isso?
Ela assentiu, concordando.
— Mas no meu sonho ele fica.
Mia não conseguiu conter um sorriso bobo, que fez enrubescer e querer enterrar a cabeça no chão que nem um avestruz. Mesmo que fosse a sua melhor amiga de toda a vida ali, não sabia se conseguiria sustentar aquele olhar por tanto tempo.
— Isso é bem bonito, na verdade.
— Não é bonito. É idiota e irresponsável. Nossa relação é profissional e se estendeu a uma amizade, mas se eu enfiar a droga dos meus sentimentos burros no caminho, eu vou quebrar a minha cara e o embrião da minha carreira.
— Ou você fica com esse rostinho bonito, uma carreira em ascensão e um cara muito legal, muito famoso, muito carinhoso, muito educado e muito bizarramente atraente ao seu lado.
— Você é engraçada. Quando a minha carreira acabar, pode contar piadas sobre ela.
A amiga revirou os olhos, enquanto encontrava uma lixeira para descartar o guardanapo usado.
— Eu sou hilária, de fato. Mas uma hora ou outra você vai perceber que eu não estou brincando e você só é tonta e lerda.
— Às vezes eu acho que gostava mais da época em que podia desligar o celular quando você começava a me irritar - comentou, levantando-se também.
Mia mostrou o dedo do meio, acompanhado de um sorriso largo e irônico, antes de puxá-la para descer da torre. Ainda tinham outras coisas a ver antes de retornar ao ponto de encontro do grupo.


❀❀❀



— Eu acho que essa é a calça mais feia que eu já vi em toda a minha vida.
— E foi o quem disse isso - Adam apontou, recebendo o olhar estreitado do cantor.
— Devo levar isso como uma crítica? - O baixista apenas deu de ombros, sem responder. — Meu estilo é incrível. Você só não está preparado para entendê-lo.
— Por mais que eu adore ver vocês dois discutindo, eu gostaria de receber um pouco de atenção - Mitch reclamou, estalando os dedos para trazê-los de volta à sua questão, com a calça de tecido pesado com uma estampa quadriculada tão fina, que fazia os olhos doerem e se perguntarem porque estavam girando sem parar.
— É um não - Sarah disse. — Prova outra coisa.
Mitch bufou, retornando ao provador. , Adam e Sarah continuaram sentados em um sofá apertado, esperando que o guitarrista comprasse uma calça nova depois de rasgar uma das suas enroscando-se em um gancho do backstage durante a passagem de som em Viena.
— Good Old-Fashioned Lover Boy - ela disse, chamando a atenção dos outros dois, enquanto se mexia no sofá, afundando-os também.
— A música do Queen? - Adam questionou, sem entender exatamente de onde aquela exclamação repentina tinha vindo.
— Sim! A gente podia preparar um cover para um dos próximos shows, não? É uma música tão divertida.
concordou instantaneamente, balançando a cabeça avidamente. Imediatamente já tinha pensado em um arranjo com solo de guitarra e começou a gesticular intensamente, como se tivesse as cordas do instrumento em mãos, enquanto cantarolava a música seguindo as notas que imaginava, para que Adam e Sarah entendessem onde ele queria chegar com aquilo.
— Vocês estão discutindo arranjos de guitarra sem mim? É sério isso? - Mitch reclamou, ofendido ao retornar e encontrar os parceiros de banda já completamente imersos naquela discussão musical. — É ridículo como vocês conseguem me substituir em questão de segundos.
— Sarah quer tocar Good Old-Fashioned Lover Boy - o baixista explicou.
A mulher apertou os lábios em um sorriso fino, enquanto esperava a reação do recém-chegado. Mitch pareceu pensar por alguns segundos antes de se manifestar:
, recomeça o que você estava fazendo aí.
posicionou os dedos novamente em sua guitarra imaginária, devolvendo-os à posição aproximada.
— Eu pensei no seguinte - disse, antes de começar a movê-los e cantar. — We can do the tango just for two. E nessa hora a gente tem uma alteração muito sutil no tom.
Mitch começou a acompanhá-lo, batendo os pés no chão para acompanhar o tempo da música.
— Você pode subir os vocais nessa parte - ele sugeriu. — Um agudo mais rasgado, sabe? E daí o solo da guitarra vem pelo fundo, erguendo-se enquanto você finaliza o verso.
— E é isso - o cantor concordou. — É sempre um prazer produzir aleatoriamente com vocês. Conversamos com a Charlotte mais tarde durante a passagem de som. Talvez já consigamos encaixar o cover na tracklist de Budapeste.
“E, a propósito, essa calça é infinitamente melhor do que a outra.”
Sarah e Adam concordaram imediatamente, recebendo um sorriso satisfeito - e um tanto aliviado - de Mitch. Se ele tivesse que experimentar mais uma peça sequer, teria um surto público desagradável. E o dia estava bonito demais para aquilo.
Finalizaram a compra e saíram da loja, entrando na próxima, onde se afastaram pelos corredores, observando os livros dispostos e as capas com palavras que não faziam a mínima ideia do que significavam.
sentiu o celular vibrando no bolso esquerdo da calça, estranhando a notificação já que praticamente tudo em seu celular era silenciado para que pudesse fingir que aquele buraco sem fim das redes sociais não existia.
Ao olhar a tela, viu o aviso:

“(): saturnsingss acabou de compartilhar uma publicação.”

— É sério? Você ativou as notificações da conta dela? Meu Deus, você é muito emocionado.
se virou bruscamente, quase trombando em Mitch, que observava seu celular por cima de seu ombro.
— Que bom que não existe privacidade por aqui - comentou ironicamente. — E eu não ativei as notificações. Deve ser por eu seguir pouca gente.
O amigo fez uma careta, antes de se virar, puxando um livro de capa dura com corte dourado cuja história ele não fazia ideia de qual era. Poderia muito bem ser um livro sobre tricô e ele estava colocando-o debaixo do braço só porque era bonito e brilhante.
— Então, você finge que é verdade e eu finjo que acredito.
o ignorou, dando alguns passos para se afastar, antes de desbloquear o celular e encontrar a foto de um pretzel enorme estendido sobre a vista da praça. Não conseguiu evitar o sorriso ao ler a legenda fazendo algum tipo de piada sobre millenials terem o dever geracional de postar fotos pseudoconceituais de comida por nenhum motivo aparente.
Se estivesse por perto, provavelmente teria colocado o nariz na frente da câmera só para atrapalhar a captura da foto e lhe arrancar um sorriso. Esforços para fazê-la rir eram do tipo que ele fazia sem se dar conta, apenas pela sensação que lhe aquecia o coração ao ouvir sua risada e suas reclamações.
Mitch e Sarah observaram o momento de introspecção silenciosa e afastada de com um sorriso no rosto. Era bom vê-lo feliz, honestamente. Queriam que ele sentisse exatamente o que sentiam um pelo outro e que fosse, acima de tudo, feliz. Músicas tristes faziam sucesso e rendiam maravilhosamente bem na indústria musical, mas eles torciam com todo seu ser para que logo ele pudesse fazer uma música cujas lágrimas sobre o papel da composição não fossem por amargura, tristeza ou arrependimento. Esperavam que ele desse seu sangue, suor e lágrimas por algo que lhe preenchesse e não que o esvaziasse por completo.
Adam pigarreou, chamando a atenção do grupo:
— Acho que está na hora de nos encontrarmos com as meninas.
Sarah concordou, olhando o horário em seu relógio de pulso. Mitch pagou pelo livro que ainda não sabia do que tratava e seguiram uma caminhada quieta de volta ao ponto de encontro, ouvindo apenas os turistas conversando e alguns jovens - aqueles que não estavam ignorando os pais ao acorrentar os olhos às telas de seus celulares - se cutucando para comentar sobre como a figura passeando pelas pedras cimentadas parecia com aquele cantor famoso da música da melancia.
Sua audição completamente seletiva, logo abafou as vozes e exasperos ao seu redor, ao ouvir as notas delicadamente tocadas em um violão. Uma voz masculina suave ecoava as palavras da relativamente batida, mas ainda infinitamente suave e acolhedora, música de Elvis Presley.
Os quatro se aproximaram da rodinha pouco circular formada pelos espectadores daquela performance casual, encontrando um espaço entre alguns dos transeuntes que haviam decidido disponibilizar alguns instantes do seu tempo para apreciar a arte.
— Would it be a sin if I can’t help falling in love with you - cantarolou o rapaz.
Quando ergueu o olhar, encontrou um par de olhos apertados pelo sol, olhando em sua direção. Ofereceu um sorriso singelo a , que o retribuiu no mesmo instante. Foi obrigado a se perguntar se o destino tinha algum tipo de complô ou prazer em criar momentos como aquele com uma ironia risível.
Com o fim da música, todos aplaudiram, enquanto o músico tirava o chapéu em um agradecimento que também largava no ar a deixa para que alguns trocados fossem ali depositados.
— Meu Deus, é o ! - Uma menina que parecia ter por volta de seus quinze anos exclamou, chamando a atenção de todos ali.
O cantor deu graças a seja lá qual fossem os deuses ancestrais da Baviera pelo grupo ser majoritariamente composto de pessoas comuns e curiosas em vez de fãs alucinadas e sem muita noção de espaço.
Tirou algumas fotos e sorriu para alguns comentários em tentativas de inglês que ocasionalmente não conseguia entender, fazendo com que apenas acenasse educadamente e torcesse para que a pessoa não estivesse esperando uma resposta mais bem elaborada, já que sequer havia entendido a pergunta.
— Toca alguma coisa - o cantor da praça ofereceu seu violão.
sentiu as bochechas queimando com todos os olhares voltados para si, esperando algo pelo qual ele não estava preparado naquele momento.
— Não, imagina - tentou se esquivar. — Continue com o seu show. Você é muito talentoso.
— Não é todo dia que eu posso oferecer meu violão a um astro internacional. Por favor, não me faça essa desfeita.
Ele assentiu, engolindo em seco ao passar o violão pelos braços, pensando na primeira música cujos acordes vieram à sua mente.
— We got the afternoon, you got this room for two - começou, vendo os vários celulares lhe gravando, enquanto algumas pessoas balançavam o pescoço no ritmo da melodia de John Mayer.
Mia e sorriram uma para a outra, lembrando-se de seus surtos inexplicáveis sobre como amavam essa música.
começou a murmurar as palavras, acompanhando a canção, que conhecia tão bem. Foi quando ergueu o olhar, que viu lhe acenando para que o acompanhasse no centro da roda e cantasse com ele.
Com os olhos um pouco vidrados pelo susto, ela meneou a cabeça freneticamente, assinalando que não o faria. Mia revirou os olhos, empurrando-a para frente sem lhe dar escolha.
— And if you want love, we’ll make it - cantou, encarando-a com um sorriso e movendo a cabeça, assinalando sua deixa.
— Swimming a deep sea of blankets - completou, recebendo gritinhos em comemoração da amiga. — Take all your big plans and break’em. This is bound to be a while.
— Your body is a wonderland - cantaram juntos, sendo acompanhados por palmas ritmadas da plateia. — Your body is a wonder, I’ll use my hands.Your body is a wonderland.
Prosseguiram por toda a canção, encaixando seus versos aos do outro como se tivessem preparado aquele dueto por dias. Quem os via, oferecendo aquele show gratuito e cheio de sorrisos cúmplices que só eles não percebiam, jamais pensaria que havia sido algo tão súbito. Tão instantâneo como tantas coisas que se passavam por suas cabeças.
Ao fim da música, ambos dobraram o tronco para frente, agradecendo pelos aplausos e gritos entusiasmados. devolveu o violão ao seu dono, sendo recebido com um abraço facilmente retribuído. voltou para o seu lugar ao lado da amiga.
— Foi lindo - ela comentou. — Parecia um pornô.
A outra deu um soco em seu braço, sem medir a própria força. Mia gargalhou, enquanto massageava a pele e os músculos agredidos.
— Seguinte - Adam disse, enquanto os quatro se reuniam novamente. — Se nós não pararmos para almoçar agora, a minha pressão vai cair e vocês vão ter que me arrastar até o Olympiahalle.
— O que vocês querem comer? - perguntou ao grupo.
— Qualquer coisa desde que eu possa tomar uma cerveja - Mia respondeu de pronto.
Com a concordância geral, caminharam até o quiosque que tinha feito as garotas salivarem por álcool e cevada mais cedo. Pediram salsichas com mostarda e copos largos, sabendo que aquele era o auge cultural alemão que conseguiriam atingir naquela manhã-quase-tarde, antes da passagem de som.
Enquanto Mia, , Sarah, Mitch e Adam permaneciam sentados sob o guarda-sol chumbado mais afastado do comércio, se ofereceu para levar as bandejas até o ponto de retorno do lado de fora.
Equilibrou-as, caminhando até o local, olhando para baixo em uma tentativa mista de manter-se consciente de sua rota sem tropeçar e desviar o olhar da luz forte do sol a pino.
— Olá, ! Como vai? - Ouviu uma voz desconhecida, perguntando-se por que raios aquela pessoa sabia quem ela era.
O bate-papo animado na mesa foi interrompido bruscamente: — Tem um cara falando com a - Adam comentou, tentando reconhecê-lo sem os óculos escuros.
tentou ignorar o formigamento no peito ao ouvir aquelas palavras, antes de se virar sem discrição alguma para ver o que estava acontecendo.
— Ah, não - murmurou ao reconhecer a figura, que parecia muito disposta a prosseguir em seu interminável discurso. — Meu Deus, isso deve ser algum tipo de karma.
Mia se virou, fazendo uma careta ao ver de quem se tratava.
— Eu nem sabia que esse cara ainda existia.
revirou os olhos, bufando sem nem se preocupar em disfarçar.
— Existe. Mesmo depois de tudo. Ele deve estar enchendo a cabeça dela de propostas legais e bacanas sem que ela saiba que o contrato tem entrelinhas demais e uma gestão que vai fazê-la querer desistir em vários momentos. Foi o que aconteceu com a gente - murmurou.
— Então você tem que fazer alguma coisa - Mia reclamou. — Antes que ela faça alguma besteira. Você sabe que ela tem dificuldade em dizer não para as pessoas.
— Eu não posso. - Ele soltou o corpo contra o encosto da cadeira. — Primeiro porque vai parecer uma intriga pessoal. Segundo porque não cabe a mim. É a carreira dela; são as decisões dela.
A amiga negou, balançando a cabeça.
— Enquanto eu estiver aqui, ela não vai passar por essas coisas sozinha.
E saiu caminhando, batendo os pés com força até o local.
— Oi, . A gente já está indo embora - intrometeu-se, ignorando totalmente o homem. — Vamos?
— Mia, esse é… - a outra começou a tentar apresentá-lo, com os olhos incapazes de esconder o desconforto.
— Simon Cowell - ele se apresentou, estendendo a mão. — Suponho que você seja a amiga empresária.
Mia deu um sorriso debochado, segurando-se para não perguntar se ele havia feito aquela incrível descoberta pelas palavras em sua camisa que diziam exatamente aquilo.
— Eu sei quem você é. Achei que tivesse sido demitido da sua gravadora.
O homem deu um passo mínimo, mas perceptível, para trás.
— Foi um acordo mútuo e amigável - mentiu. — Estou com outros projetos agora e vim convidar a fazer parte deles. Ela é muito talentosa e tem um potencial de crescimento inigualável no momento atual da indústria.
Mia concordou.
— Sabemos de tudo isso. Então, o que te faz pensar que aceitaríamos seus acordos problemáticos se podemos arranjar algo muito melhor?
— Mia - tentou intervir, mas recebeu um aceno da amiga, impedindo-a.
— Acho que você não entendeu muito bem - Simon comentou, com um sorriso de canto.
— Não? One Direction, Little Mix, Fifth Harmony, Louis Tomlinson em carreira solo. Eu não entendi bem?
— Tudo isso são águas passadas. E você parece uma garota inteligente o suficiente para saber que é bastante complicado ouvir apenas um lado da história e já tomar partido.
— Apenas um lado de quatorze histórias, você quis dizer. Eu não sei o que você quer, mas a resposta é não. Espero que sua viagem a Munique não tenha sido com essa única intenção. Eu detestaria saber que você desperdiçou sem tempo e dinheiro falhando ao tentar enrolar uma garota inteligente o suficiente - pontuou as últimas palavras, enfatizando-as. — Agora, se nos permite. Temos uma passagem de som a fazer.
Mia puxou consigo, arrastando-a sem dar a ele a oportunidade de rebatê-la. Sinceramente, sua paciência quase nula para lidar com homens cis brancos ricos e babacas havia acabado de se esgotar.
— Eu devia ter enfrentado ele - murmurou. — Eu sabia que não era uma proposta boa, mas eu…
Mia parou as passadas, virando-se para ela e segurando seu rosto entre as mãos para obrigá-la a olhá-la nos olhos.
— Eu sei. Está tudo bem, ok?
— Não está - a amiga respondeu, sentindo os olhos marejarem. — Eu preciso aprender a lutar minhas próprias batalhas sozinha.
, você ao menos está se ouvindo? Você embarcou em um avião rumo a um país que nunca tinha visitado, com um cara famoso que nem conhecia e se jogou de cabeça em um mundo totalmente diferente da vida que tinha planejado. Durante todo esse tempo, eu não estava aqui. E você se saiu perfeitamente bem sem mim.
A amiga sorriu, piscando enquanto uma lágrima solitária corria.
— Você não precisa passar por tudo sozinha - Mia continuou. — Ter alguém ao seu lado não te faz mais fraca. Pelo contrário; saber a hora de permitir que alguém te ajude é um dos maiores exemplos de força possíveis. Por favor, nunca sinta nada além de orgulho pelas coisas que você conquistou e pela mulher forte que você é.
a abraçou com força, cuidando para que seu possivelmente borrado lápis de olho não manchasse a roupa da amiga.
— Eu nem sei o que seria de mim sem você.
— É recíproco.


❀❀❀



— Eu continuo me impressionando a cada arena em que nós entramos - Mia admitiu, olhando ao seu redor.
expirou o ar de seus pulmões, olhando ao redor a partir da beirada do palco, como gostava de fazer em cada passagem de som, imaginando como seria aquela arena lotada sob a noite e as luzes artificiais.
— Alguém pode me ajudar a contabilizar a descarga da nova aparelhagem de som? - Emily perguntou, aparecendo com o iPad e a prancheta de sempre. ainda não entendia muito bem a coerência naquilo.
— Eu vou - Mia se ofereceu rapidamente, seguindo a produtora com um sorriso tão largo, que era surpreendente que não evidenciasse cada um de seus dentes.
— Desde quando a Emily pede ajuda para alguma coisa? - perguntou, com o cenho franzido.
— Aparentemente, desde que a sua amiga chegou - respondeu, lançando um olhar que esperava que explicasse exatamente o que ele estava pensando. — Vem cá, quero te mostrar uma coisa.
Ele saltou do palco para o espaço, ainda vazio, da pista premium logo embaixo. o seguiu, tomando cuidado para não enroscar sua calça em algo e ter o mesmo fim triste de Mitch dias atrás.
Cruzaram a arena que havia sido palco das competições de ginástica e handebol durante as olimpíadas de 1972, quando nem os pais deles imaginavam que ali estariam um dia. O cantor estendeu a mão ao se aproximar da arquibancada, ajudando-a a subir.
— Tenho a leve impressão de que esse acesso não estava previsto - ela comentou.
— Não, eu acabei de criá-lo - admitiu, esticando as pernas depois de quase escalar a parede. — Eu seria um ótimo arquiteto. Era minha segunda opção de curso para a faculdade, sabia?
— Jura? E qual era a primeira?
— A primeira era nunca pisar em uma faculdade.
A garota revirou os olhos, rindo enquanto o seguia escadarias acima, até o patamar mais alto da arena.
Sentaram-se lado a lado, olhando para o palco do extremo oposto do local, apenas absorvendo aquilo.
— Às vezes eu gosto de passar um tempo assim antes de realmente me jogar de cabeça no trabalho, sabe? Daqui a gente percebe como eles nos veem - disse, apontando para a banda, enquanto organizava e afinava seus instrumentos do palco. — E eu fico imaginando como vai ser para a pessoa que comprou o ingresso desse exato local nos ver ali de noite. Espero que seja uma experiência incrível para ela.
concordou, achando sensível da parte dele ter esse tipo de pensamento e preocupação específicos.
— O primeiro show a que eu fui foi do U2, acho - ela contou. — Meu pai era apaixonado. Tinha todos os CDs e fazia questão de que eu ouvisse as músicas sempre que me levava para alguma consulta ou compromisso do colégio. Eu sentei bem longe, mais ou menos como estamos agora.
assentiu, observando-a com toda a atenção, demonstrando seu interesse profundo e sincero em cada mísera parte daquela história.
— Nós chegamos um pouco mais cedo e, na hora, eu reclamei. Disse que era longe demais, que não iríamos ver nada e que seria muito melhor ter assistido à transmissão de casa, pela televisão.
— Eu vou fingir que não estou ofendido.
— Talvez não fique se me deixar terminar - ela brincou, retomando sua linha de raciocínio. — Foi só quando o show começou que eu entendi. Na primeira palavra que o Bono cantou eu já estava boquiaberta, encarando-o pelo televisor do estádio e achando aquela a experiência mais incrível de todo o universo.
“Foi só ali que eu entendi o que era sentir a música, sabe? E o mais incrível foi perceber que eu não sentia sozinha. Tinham milhares de pessoas só ali, sentindo cada nota de guitarra e cada breque da bateria junto comigo. Foi aí que eu chorei. Chorei muito. Meu pai achou que eu estava odiando ou que o som estivesse alto demais para mim, mas eu só estava emocionada e cantei todas as letras que eu conhecia, mesmo sabendo que ia ficar sem voz por pelo menos uns dois dias depois daquilo.”
balançou a cabeça, concordando.
— Acho que é exatamente sobre isso, sabe? Sentir e compartilhar; compartilhar o sentir também. Acho que é um movimento que parte de nós como artistas. Nós sentimos, criamos, produzimos e daí compartilhamos para que outras pessoas sintam à sua própria maneira. E, no fim das contas, independentemente do motivo individual para que aquilo tenha tocado a pessoa, todas estarão juntas, compartilhando esse momento tão bonito. Essa é a beleza da arte.
— A música me trouxe muita coisa - ela admitiu. — Foi meu refúgio em vários momentos de completo estresse e vontade de sumir, minha companheira enquanto eu cresci sozinha trancada no meu quarto feito uma adolescente rebelde, minha válvula de escape criativo nos momentos em que minha cabeça e meu peito carregavam coisas demais e a trilha sonora de todos os momentos bons também.
O rapaz sorriu ternamente.
— Trouxe a melhor amiga que uma pessoa poderia pedir na vida e também a pessoa mais disposta a me apoiar mesmo que eu faça umas cagadas às vezes. Trouxe mais oportunidades de conhecer a mim mesma do que eu poderia esperar - acrescentou, suspirando. — E no fim das contas, também me trouxe você.
— Claramente a parte mais importante do pacote - ele brincou, esperando que suas risadas se sobressaíssem em relação ao ritmo acelerado que seu coração havia adquirido de repente. Talvez fosse hora de pagar um cardiologista para si próprio e não só para Jeff. Com certeza era algum tipo de arritmia. Talvez soubesse explicar, já que era tão inteligente e conhecedora das palavras que ele nem sabia que existiam. Era uma das coisas que mais adorava nela.
Ele se levantou, estendendo de volta a mão para ela, que a agarrou, sentindo o toque de seus dedos, que lhe despertava simultaneamente o choque eletrizante do desconhecido e o calor e a calmaria daquilo que lhe parecia inexplicavelmente familiar.
— Vamos voltar para lá antes que Emily se lembre da passagem de som e nos mate - ele disse. — Ah! E acho que nós meio que criamos uma adaptação de Good Old-Fashioned Lover Boy enquanto o Mitch demorava mais de meia hora só para escolher uma calça. Quero a sua opinião sobre ela.
sorriu, aquiescendo enquanto o seguia pelo caminho contrário de volta ao palco. Com os dedos dele entrelaçados aos seus, sentiu o sentimento de reconhecimento pelo pedido de opinião batalhando contra um mísero, mas incômodo, grão de pesar que martelava em sua cabeça, lembrando-a de que ele não havia levado seu agradecimento por tê-lo a sério. Ao menos, não além da simples amizade que haviam desenvolvido e que, cada vez mais, se tornava qualquer coisa menos simples para ela.


Capítulo Doze

And I’ll do anything you say, if you say it with your hands
And I’d be smart to walk away, but you’re quicksand (...)
This hope is treacherous
This daydream is dangerous
This hope is treacherous (...)
And I, I, I like it
Treacherous - Taylor Swift


Ela simplesmente detestava aquela sensação, martelando no fundo de sua mente como um vizinho chato e sem muito bom senso de que horário seria verdadeiramente adequado para iniciar uma reforma completa em seu apartamento.
Não detinha a presunção ou mesmo a simples autoconfiança para julgar as composições marcadas no moleskine como incríveis, revolucionárias ou musicalmente relevantes. Sinceramente, sequer as achava boas. O importante, no entanto, era o fato de cada uma daquelas palavras escritas, rabiscadas, sublinhadas e reescritas serem um desabafo de sua alma, de seu coração e de sua mente em todos os momentos em que eles pareciam estar suportando coisa demais para aguentarem em silêncio.
Lembrava-se de uma analogia que sua antiga terapeuta sempre usava: cada indivíduo tem dentro de si um balde para receber tudo o que há de positivo e negativo à sua volta. Infelizmente, as coisas negativas acabavam compreendendo maiores volumes de líquido, mais denso, mais turvo e enchiam o balde com muito mais facilidade. Era um aprendizado eterno e infindável saber a hora de esvaziar nosso balde interior, antes que ele transbordasse e a enchente pudesse se tornar complicada demais de se suportar. Era difícil, mas vital, entender que não havíamos sido criados para suportar tudo sozinhos. Algumas vezes, muita coisa poderia melhorar pela simples iniciativa de colocar o que sentia para fora.
sempre achara aquela uma forma bonitinha e, de certa forma, lúdica de compreender a necessidade de se compartilhar aquilo que agride nossa saúde, antes que o fardo se estendesse demais. Na faculdade, estudara com particular interesse sobre o estresse e todo o seu funcionamento e bases psicobiológicas.
Os estímulos estressores, sob o ponto de vista biológico, poderiam ser definidos como aqueles que, de alguma forma, consistem em ameaças ao bem-estar e/ou à sobrevivência do indivíduo. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal é crucial nesses momentos, especialmente envolvendo o cortisol, conhecido popularmente como ‘hormônio do estresse’ exatamente por estar em altas concentrações plasmáticas nesse tipo de situação. O simples fato de levantar da cama já é considerado um estressor e, por isso, os picos naturais desse hormônio ocorrem pela manhã.
Mas não era essa parte da teoria que ela mais achava fascinante. O conceito mais interessante, em seu ponto de vista, era o de resiliência: termo emprestado da física que fala sobre a capacidade de se retornar “à forma original” após momentos de pressão. Essa capacidade de desenvolver respostas fisiológicas e psicológicas adaptativas ao estresse está diretamente ligada ao neuro-hormônio ocitocina - um de seus favoritos desde sempre. A ocitocina, por sua vez, tem sua produção potencializada durante o contato físico e as interações sociais de apoio. Basicamente, nosso corpo é programado para buscar a presença e o suporte do outro nos momentos mais complicados. Literalmente, não fomos criados para enfrentar tudo sozinhos. Seja por uma escuta cuidadosa, uma palavra amiga ou um abraço, dividir esses momentos com alguém é enfrentar os estímulos estressores da melhor forma.
Só era um tanto complicado precisar desse tipo de suporte quando sua mente decidia trabalhar em looping incansável no meio da madrugada, enquanto todo mundo estava fazendo exatamente o que deveria: dormir.
Sua única válvula de escape era abrir o caderninho encapado e tentar colocar em palavras, versos e estrofes aquilo que lhe mantinha acordada. Mas, naquela noite, especialmente, a capacidade de verbalizar parecia tê-la abandonado por completo.
Sobre o que escreveria afinal de contas? Faria uma música sobre insônia? Sobre como era difícil sequer pregar o olho quando ela tinha a irritante mania de repetir absolutamente tudo o que tinha ocorrido durante o dia e se julgar por não ter dado uma resposta melhor, não ter se mostrado mais simpática ou ter conseguido parecer mais leve e despojada? Escreveria sobre a forma que seu polegar direito tamborilava a pele exposta de sua coxa sob o pijama de uma forma tão contínua e incansável que a fazia se perguntar sobre os riscos de desenvolver uma lesão por esforço repetitivo e se o aquecedor estava alto demais ou era só ela? Ninguém queria ouvir sobre aquilo. Ela não era nenhum Shawn Mendes para conseguir que as pessoas se interessassem por seus desabafos insones e ansiosos. Precisava procurar outra saída. Outra coisa. Outro jeito de escapar daquele redemoinho que parecia sugá-la mais e mais, progressivamente.
Sentou-se na cama, cruzando as pernas em uma posição relativamente confortável. Tentou manter uma postura aceitável, enquanto levou as duas mãos ao peito, sentindo seu coração batendo em um ritmo que parecia qualquer coisa menos certo. Esforçou-se para entrelaçar os polegares, obrigando-os a pararem de esboçar os movimentos incessantes.
Permitiu que suas lembranças viajassem diretamente para a noite em que compartilhara com um daqueles seus momentos tão vulneráveis.
— Presta atenção em mim. Você consegue sentir meu peito subindo e descendo enquanto eu respiro, não consegue? - Ele perguntara e ela se lembrava de ter contido um soluço quando concordou. — Ótimo. Tenta respirar junto comigo, . Inspirando com força e soltando o ar pela boca com calma.
Ela fechou os olhos, fazendo exatamente aquilo, prestando atenção em como sua própria caixa torácica se movimentava, respondendo aos seus comandos. Puxou o ar com toda a sua força e o prendeu nos pulmões por alguns segundos antes de permitir que sua exalação forçasse sua dissipação pelo ambiente. Não se importou em raciocinar ou contabilizar quantas vezes tinha repetido aquele processo, apenas prosseguiu com ele, mentalizando que poderia fazer aquilo. Não havia nada de errado. Ela estava bem. Estava feliz. Estava segura. O estresse era natural. O nervosismo era natural. E nenhum deles poderia ser tão grande que ela não conseguisse suportar. Nada de ruim lhe aconteceria. Ela não estava sozinha. Assim que amanhecesse, teria Mia, , Emily, Sarah, Mitch, Adam e Charlotte. Estava rodeada de pessoas que se preocupavam com ela e logo a fariam se esquecer daquele peso. Ela só precisava aguentar mais um pouquinho. Inspirando profundamente e expirando com calma.
Com o passar dos minutos no relógio, ela logo percebeu que os ombros haviam relaxado relativamente. Apertou as duas mãos novamente contra o peito, sentindo seus batimentos cardíacos retornando a um ritmo normal, distanciando-se da taquicardia aparente.
— Eu consegui - murmurou baixinho, como se precisasse dizer aquilo a si mesma para que a ficha realmente caísse.
Com uma lágrima escorrendo dos olhos, ela se deitou e se aconchegou ao travesseiro, percebendo que existiam poucas coisas mais poderosas no mundo do que descobrir que, às vezes, poderia ser capaz de ajudar a si mesma.


❀❀❀



— Eu já contei que tenho ascendência húngara?
deu uma risadinha.
— Já, Mia. Pelo menos umas três vezes desde que o avião pousou.
esboçou uma reclamação ao sentir um grampo beliscando seu couro cabeludo.
— Já deveria ter aprendido a ser mais legal comigo - a amiga disse, com um sorriso inocente. — Especialmente quando sou eu quem está fazendo o seu cabelo.
Mia tinha passado os últimos minutos trabalhando em uma trança única, que dava a impressão de leveza ao parecer meio solta, enganando perfeitamente quem não visse a quantidade de elásticos e grampos que ela havia enterrado em meio aos fios da amiga. Apenas algumas madeixas ficavam soltas ao lado das bochechas, emoldurando seu rosto como se um fosse um convidativo porta-retrato.
— Ela vai fazer o meu cabelo também? - perguntou.
— Por que a pergunta, ? Está com medo de eu finalmente arranjar uma tesoura e cortar esse seu cacho maior que está me irritando há dias?
O rapaz levou a mão direita imediatamente ao tal cacho, que sabia muito bem onde estava - especialmente quando ele decidia perder um pouco da forma e cair sobre sua testa.
— Não - Emily interveio, repousando os dedos sobre os ombros dele. — Hoje, eu que vou te arrumar.
— Quer saber? Eu acho que meu cabelo está incrível. Deve ser um daqueles dias milagrosos em que ele já acorda perfeito, sabe? Não tem necessidade. Podemos ficar assim.
Emily riu, empurrando-o de volta para a cadeira.
— Meg já está vindo. Teve que parar na farmácia para comprar uma pomada de queimaduras.
e arregalaram os olhos simultaneamente.
— O que aconteceu?
— Ela está bem?
A produtora assentiu, calmamente, de uma forma bastante desproporcional às reações que acabara de receber.
— Está tudo certo. Aparentemente, ela encostou o braço na tampa de uma panela no fogão e acabou se queimando. Não foi nada grave, mas essas bolhas incomodam bastante.
— Manda ela voltar para o hotel - pediu. — De verdade, a gente se vira por aqui. Ela deveria descansar.
— Querido, ela insistiu que conseguiria trabalhar, mesmo quando oferecemos isso mais cedo ao saber do ocorrido.
— Está bem, mas agora sou eu que estou dizendo para ela não vir. Não é uma sugestão. Ems, por favor.
A mulher concordou, afastando-se para realizar a ligação que cumpriria as vontades do cantor.
— Homens ricos e brancos, mais uma vez, provando que conseguem tudo o que querem - Mia comentou, enquanto realizava os últimos ajustes em alguns fios novos que nasciam na testa da amiga e estavam insistindo em desobedecê-la.
— Sabia que eu gostava mais de você quando você era só minha fã e não passava o dia todo pegando no meu pé?
Ela riu alto, abandonando a amiga e se posicionando atrás do cantor. Os olhos piscavam rítmica e repetidamente, de forma quase macabra.
— Isso é porque você nunca me notou no twitter ou no instagram. Na maior parte do tempo, eu estava pegando no seu pé por lá também.
— É parte do charme dela - comentou revirando os olhos. — Vou para a maquiagem, espero que vocês dois não se matem.
encarou Mia, que lhe ergueu uma sobrancelha em desafio pelo reflexo do grande espelho que recobria as paredes de pintura já um pouco gasta do camarim da Budapest Arena.
— Ok, mas eu fico com a tesoura - ele disse, movendo-se lentamente como se estivesse em uma cena de rendição a assalto em Hollywood. Levantou-se e tomou o objeto cortante para si, segurando-o sobre a perna.
Mia pegou uma escova e começou a trabalhar em seu cabelo.
— Você sabe que eu nunca realmente cortaria o seu cabelo, não sabe?
— Acho que sei.
— Até porque sua melhor era definitivamente foi o long hair. É mais fácil eu colar extensões na sua nuca enquanto você dorme do que sair podando o que você já tem na cabeça.
riu, permitindo que seu corpo relaxasse contra o estofado. Apesar das brincadeiras e das insistências de que Mia poderia ser bastante assustadora às vezes, ele se sentia agradecido por sua presença. Sabia que tê-la feito encontrá-los mais cedo durante a turnê tinha sido a sua segunda melhor ideia naquele ano. A primeira havia sido mobilizar o mundo para encontrar a dona de uma das vozes mais lindas que ele já havia escutado em toda a sua vida.
Ele sempre se pegava absorto naquele tipo de pensamento. Em um universo paralelo - ou simplesmente em uma das infinitas possibilidades de seguimento da vida nesse -, ele poderia nunca ter parado para abrir as notificações. Afinal, era basicamente o que ele já fazia diariamente. Sabia que seus fãs sempre reclamavam que ele deveria aparecer mais, interagir mais, postar alguma foto para provar que estava vivo, mas ele não se sentia confortável para isso mais. Na época da banda, tinha passado tempos sendo ativo no twitter, no falecido vine e em vários meios. Tudo o que conseguira com isso tinha sido aumentar rumores de um relacionamento inexistente e desrespeitoso que quase lhe custara uma das suas maiores e mais importantes amizades da vida.
Ele poderia ter ignorado as notificações ou poderia simplesmente ter clicado no ícone do aplicativo para limpá-las e nem ter se importado com as coisas. Se ele nunca tivesse entrado no link do instagram que tanto lhe enviaram nada daquilo teria acontecido. Não teria Mia escovando seus cabelos, não teria duetos em todas as noites de turnê e, acima de tudo, não teria o camarim ao lado sendo ocupado pelo sorriso que, sempre que borbulhava de volta em sua mente, parecia obrigá-lo a sorrir também.
— No que você está pensando? - Mia perguntou, desligando o secador de cabelo.
piscou com força, sendo puxado bruscamente de volta à realidade.
— Estava pensando em - contou, recebendo um sorrisinho que carregava um quê de malicioso. — Ela te contou que vai cantar uma música original hoje?
Mia fingiu acreditar que era por isso que ele estava divagando sobre sua amiga, mas agradeceu pelo assunto. Tinha destruído duas de suas unhas com o nervosismo que sentira desde que anunciara que ia cantar uma de suas músicas em público pela primeira vez. Confiava no talento da amiga com todas as suas forças e não poderia definir a imensidão de seu orgulho ao vê-la crescendo e galgando seu próprio caminho. Mas estava nervosa por ela. Era um passo gigante e a primeira definição prática de quem ela queria ser como artista em sua individualidade e não apenas uma propagadora de covers de outros cantores consolidados.
— Sim - concordou. — Não só me contou como me fez ajudá-la a escolher qual seria.
— E como é a música?
Ela fez uma careta, sem entender que tipo de pergunta era aquela.
— Como assim? Ela ensaiou umas mil vezes.
respirou fundo.
— Ela não me deixou ouvir. Ela decidiu ensaiar naquele dia que você ficou no hotel resolvendo a divulgação dos produtos - ele explicou. — Alugou Sarah, Mitch, Adam e Charlotte pela manhã toda e todos eles basicamente me expulsaram porque eu não poderia ouvir até o show.
Mia deu um sorrisinho de canto.
— Bom, parece que é para ser uma surpresa para você, então. Minha boca será um túmulo.
Ele bufou.
— É boa, . Fica tranquilo.
— Eu sei que é. Eu duvido que ela seja capaz de fazer algo ruim.
— Que nem você fez com Treat People With Kindness?
O rapaz se virou de uma só vez, o semblante não escondia como estava ofendido.
— Sinto muito, a música é horrível. Na primeira vez que eu a ouvi, a última coisa que eu tinha para te oferecer como tratamento era gentileza. Mas, se te consola, acho que ela serve muito bem para o palco. Ficou bastante divertida de assistir em toda a vibe do show, da multidão, do coro e tal.
— Ótimo. Foi para isso que ela foi escrita.
— E para vender merch - ela acrescentou, recebendo outro olhar fuzilante.
— Acho que você já acabou meu cabelo.
Mia riu, afastando-se com o secador e a escova. Realmente tinha acabado sua iniciativa capilar. Mas tinha algo sobre o qual ela ainda queria falar.
— Não é só sobre a música, é? Eu vi seu sorriso enquanto te penteava e vejo a forma que você olha para ela o tempo todo.
— Sinto te dizer, mas você está vendo coisas. Posso recomendar um oftalmologista de confiança.
— Corta essa, . Você não parece exatamente fazer o tipo que não consegue falar de sentimentos.
— Tem razão. Eu adoro falar sobre sentimentos. Então, por que não falamos sobre os seus?
— Porque eu não me faço de tonta e desentendida, . Todo mundo sabe muito bem que eu estou descaradamente a fim da sua produtora.
— Mas você falou sobre isso diretamente para ela?
Ela não respondeu. Tentou pensar em como retrucá-lo de alguma forma inteligente e avassaladora, digna de derrubar o microfone e sair rebolando como se tivesse acabado de dizer a maior verdade do universo. Seu tempo de reflexão, contudo, foi interrompido por Jeff, aparecendo no camarim.
— Concentração atrás do palco. Já.
Mia apontou um dedo em sua direção antes de sair:
— Essa conversa não acabou.
aquiesceu, mesmo contra a sua vontade e seguiu em sua direção. Encontraram toda a banda já em roda e se encaixaram entre eles, segurando em suas mãos para a oração e as palavras de suporte, gratidão e incentivo de sempre.
— Bom, hoje a nossa querida Saturno dá mais um grande passo em sua carreira - Charlotte comentou, fazendo sorrir de leve. — Estamos todos muito animados e agradecidos por fazer parte desse momento e emanando apenas energias positivas para que essa seja uma noite tão linda e incrível quanto as anteriores.
ajeitou o vestido e respirou profundamente sete vezes antes de caminhar até o piano. Tinha adotado aquele rascunho de ritual, confiando que sete inspirações profundas seriam suficientes para regular minimamente seu coração, além de equivaler ao seu número da sorte.
Como já vinha fazendo há algum tempo, iniciou o show com ‘This Is Me’, sob o projeto de iluminação e produção acústica que sempre pareciam a melhor forma de causar uma grande entrada, mesmo que já esperada por quem acompanhava os comentários sobre os demais concertos da turnê.
— Boa noite, Budapeste! Como vocês estão?
Sua pergunta foi respondida pelos gritos animados e agudos da plateia. Acabou rindo de uma garota logo à frente do palco que deu um berro tão fino que ela havia conseguido distingui-la das demais.
— Bom, é uma noite linda por aqui e a Hungria já tem um pedacinho do meu coração - ela falou e foi interrompida por novos gritos. — Não só por vocês serem absurdamente incríveis, mas porque a minha melhor amiga tem raízes aqui. Parece um lugar bem especial mesmo, não?
Ela sorriu e ajeitou o cabelo antes de retornar ao piano.
— E é por ser tão especial que eu decidi que seria aqui que eu faria algo totalmente novo. Essa é a primeira vez que eu apresento uma música original para mais de cinco pessoas. Eu escrevi essa canção durante um dos voos da semana passada, então é tudo muito recente ainda. Mas eu mal podia esperar para mostrá-la a vocês. Então, espero que gostem.
Sob as exclamações animadas do público, entrelaçou os dedos, erguendo as mãos até a face em expectativa combinada a uma prece silenciosa para que tudo desse certo.
Quando as primeiras notas doces do piano surgiram, seu coração errou algumas batidas, como se quisesse se adaptar à melodia. Mas foi apenas quando ela começou a entoar a canção que ele percebeu ter parado de respirar, como se aquilo pudesse desconcentrá-lo enquanto tudo o que queria era manter seus olhos e alma vidrados nela.

Nota da autora: Se quiser, coloque Fools - Lauren Aquilina para tocar.

— Those hardest to love need it most
I watched our bodies turn to ghosts
Such good friends, it has to end it always does
That's the way life is
Do we take that risk?

Ela tinha toda a sua atenção voltada para aquele momento. Havia ensaiado tanto que seus dedos sabiam exatamente onde deveriam estar antes mesmo de ela assumir, conscientemente, que era a hora da transição de notas. Tinha sido sincera em suas palavras antes de iniciar a música. Aquelas palavras tinham surgido de uma forma completamente inesperada no meio de um voo. Ela sequer tivera como pegar o moleskine, tendo que aceitar que seus versos se estabelecessem nas notas do celular antes que escapassem de sua mente. Às vezes a inspiração vinha nos momentos mais inesperados e ela simplesmente tinha que ceder e se restabelecer em seu momento.

— And so it all boils down to this
We've got our aim but we might miss
We are too fragile just to guess
And I've been in this place before
Fine as we are but we want more
That's human nature at its best
What if we ruin it all, and we love like fools?
And all we have we lose?
I don't want you to go but I want you so
So tell me what we choose

ergueu os olhos por uma fração de segundos, encontrando na coxia, com as mãos tampando a boca, mas com os olhos em uma expressão tão doce de ternura que ela logo se desvencilhou do último resquício de insegurança que lhe nublava a mente.

— Friends, I watched us as we changed
The feelings in my headspace rearranged
I want you more than I've wanted anyone
Isn't that dangerous?
The anticipation before the kiss
Mirrored in my shaking lips
Oh god, I feel so unprepared
The two of us so out of place
My feelings written on my face
Got what I want but now I'm scared

Conforme ela retornava ao refrão, delineando registros mistos que oscilavam entre a voz de cabeça e a de peito, sentiu seu coração apertar no peito. Lembrava-se claramente de ter tido a ela em Munique que a arte era criada e depois externalizada para que os outros a sentissem à sua própria maneira. E ele sentia.
Aquela sensação de ter algo incrível e querer mais, mas ter um pavor excruciante de perder o que já existia em primeiro lugar. Por Deus, por que a vida tinha que ser sempre tão rodeada de medo?
Voltou a si ao vê-la agradecendo ao público pelo carinho e pela receptividade. Ela sorria abertamente, com os olhos brilhando sob os holofotes. teve que controlar o ímpeto de invadir o palco e abraçá-la ali mesmo. Mas poderia demonstrar seu orgulho mais tarde. Naquele momento, tinha que se preparar para entrar no palco em instantes e deixar todos os sentimentos e incertezas do lado de fora.


❀❀❀



— Eu sinceramente não entendo porque vocês decidiram sair sabendo que estava frio desse jeito - Mia reclamou novamente, apertando os braços cobertos pelo agasalho grosso contra o próprio corpo.
— Nem está tão frio assim - retrucou. — E o sol disfarça bem.
— Disfarça bem até você ter uma insolação. Espero que tenha passado protetor solar.
Emily riu da bronca, dando graças a Deus por não ser ela a portadora dos sermões dessa vez. Pequenos e raros momentos como aquele precisavam ser valorizados e apreciados de forma justa e adequada.
— Bom, essa é basicamente a chance de a gente passear um pouco antes de embarcar para Praga mais tarde. Eu sinto muito por querer ter um momento bacana, em um lugar bonito, com os meus amigos antes de ficarmos presos em mais um voo - ativou seu melhor modo dramático, recebendo um revirar de olhos de Adam.
Enquanto percorriam o caminho cujo ponto de chegada era o castelo, o cantor aproveitou para tirar fotos do rio Danúbio, que dividira Buda e Peste enquanto a segregação era mais explícita. Os vestígios da separação, contudo, podiam ser facilmente percebidos nas construções diversificadas e seus respectivos estilos, variando entre a encosta da parte nobre e a porção oriental mais plana que, atualmente, era ocupada pela maior parte da população da cidade.
Devido à hora que chegaram ao local, encontraram os museus ainda fechados, tendo que se contentar com a visita ao pátio externo que, contudo, já era bastante maravilhosa e exuberante por si só. Os alicerces da monarquia húngara se perpetuavam com grandiosidade, memórias e relatos, não sendo por menos a consideração da região como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Mia riu sozinha, de repente.
— Aqui diz que a maior parte da expansão do castelo foi construída pelo Rei Sigismundo. Meu Deus, os pais dele deviam odiá-lo tanto para colocar um nome desse.
Ela mostrou a página da Wikipedia em que tinha pesquisado sobre o antigo palácio real, comprovando que aquele soluço em forma de substantivo próprio não era invenção de sua cabeça. Adam acabou rindo junto. Mia prosseguiu com a sua leitura em voz alta, explicando que as fundações que eles viam, no entanto, não eram mais pertencentes àquela época, pois a construção original havia sido destruída no século dezessete por ataques cristãos durante o cerco. No século seguinte, o palácio tinha sido reconstruído em estilo barroco.
Caminharam pelos amplos jardins, percebendo que a atenção era frequentemente mais atraída pelas esculturas e homenagens em bronze do que para questões de paisagismo em si.
O primeiro ponto que avistaram foi a Fonte de Matias, que logo havia feito virar o rosto ao perceber a imagem de caça com um cervo abatido. Em outra fonte, crianças pareciam lutar com peixes. Ela, sinceramente, não entendia qual era a obsessão daquele povo - e de tantos outros que lhe eram contemporâneos - com imagens de abatimento animal como se representassem algum tipo de glória, força e poder.
Pararam ao lado da entrada do Museu de História de Budapeste, onde o bronze havia sido utilizado para moldar imagens alegóricas de guerra e paz, com anjos e guerreiros. se aproximou da imagem, resistindo à vontade de tocar as linhas tão belamente esculpidas, capazes de marcar tão bem expressões em metais duros. Ela mal conseguira fazer um pote de argila do qual não vazasse água durante a escola e algumas pessoas faziam coisas como véus transparentes em mármore. Alguns talentos pareciam simplesmente não terem a intenção de ser acessíveis.
capturou aquela cena com a câmera, repetindo o processo ao fotografar Emily e Mia debatendo algo e Adam tentando tirar uma foto com o dedo no nariz do guerreiro otomano.
Seguiram observando a paisagem até perceberem que a última escultura havia sido também a primeira, indicando a volta em círculo que haviam dado. Atravessaram a ponte da Liberdade, indo até o mercado municipal.
, qual o nome daquele doce delicioso que provamos da última vez? - Emily perguntou, enquanto forçava suas memórias a recapitular os poucos flashes que tinha do local, na esperança de que isso facilitasse a sua busca.
— Sei do que você está falando, mas eu literalmente não faço a mínima ideia de como pronunciar aquela palavra. Só nela tem mais sinais gráficos do que eu pensei que existiam no mundo todo.
— É esse negócio aqui - Adam disse, virando a pesquisa do celular de “doce típico Budapeste”, que havia retornado a resposta: kürtőskalács.
— Isso não é uma palavra, alguém só meteu a testa no teclado até sair algo - Mia disse.
— Eu nem me arrisco a tentar falar isso - Emily falou. — Mas é bem gostosinho. É uma massinha fina enrolada e frita, que pode ser coberta com açúcar, canela, nozes, avelã, cacau em pó… Por causa dos turistas, eles fazem até acompanhado de bolas de sorvete.
— Bom, pelo jeito vocês estão de boa parados aí, mas o meu estômago está roncando - Adam reclamou e se afastou do grupo, caminhando até um vendedor de frutas para perguntar se ele sabia quem vendia um doce daqueles, mostrando a palavra estranha no celular.
Muito simpático, o homem estendeu o braço, apontando em algumas direções em sequência para que eles soubessem em que barraca poderiam encontrar a massa açucarada.
Agradeceram bastante e seguiram as coordenadas fornecidas, chegando sem grandes problemas até o local informado.
— Quantos vocês querem?
— Eu não aguento um inteiro - Mia comentou, vendo o casal à frente recebendo o seu.
— A gente divide um - Emily sugeriu, oferecendo-lhe um sorriso delicado.
A outra aceitou prontamente, devolvendo-lhe um olhar carinhoso à altura.
— Então um para o Adam, um para vocês… ?
— Ah, não. Eu nem consigo pensar em comer algo depois dos lángos do almoço.
— Então somos dois - ele concordou rindo.
Emily e Mia conversavam animadamente sobre o doce impronunciável, enquanto o dividiam.
— Meu Deus, eu vou ficar com a cara cheia de açúcar, mas isso é tão bom.
A produtora riu alto, estendendo o guardanapo que o acompanhava para tirar alguns cristais que já se encontravam na sua bochecha.
as observava discretamente de longe, tentando não parecer uma maluca intrometida e desrespeitosa.
— Elas ficam bem juntas - comentou, chamando sua atenção.
Ela sorriu, agradecendo a garrafa de água que ele lhe oferecia. Mesmo com o tempo relativamente frio, a caminhada longa e, por várias vezes, inclinada tinha lhe dado mais sede do que ela havia se dado conta até aquele momento.
— Ficam mesmo - concordou. — Espero que dê certo.
moveu a cabeça, concordando totalmente em gênero, número e grau.
— Tudo o que eu sei é que a Emily é uma mulher incrível, inteligente e divertida e que eu nunca a vi tão feliz e radiante nesses anos em que trabalhamos juntos. E, acredite, a gente passa a se conhecer bem o suficiente para assumir esse tipo de coisa com confiança depois de cair na estrada com essas pessoas.
— Eu acabei de chegar e já posso imaginar. Em questão de poucas semanas sinto que conheço mais cada um de vocês do que várias das pessoas com quem estudei por anos.
— Espero que essa imersão CHASM tenha sido uma experiência positiva. Não é nada fácil compartilhar praticamente todo instante de todo dia com as mesmas pessoas. Você começa a apreciar ainda mais os pequenos momentos de privacidade e tranquilidade.
riu.
— Eu sou a pessoa que não tem paciência pra passar tempo com os próprios pais, sabe? Se eu não quisesse estar com vocês, eu teria ficado no hotel, assim como os outros fizeram.
— Você está sugerindo que o resto ficou porque não aguenta mais nossa companhia?
Ela ergueu as mãos, eximindo-se da possível responsabilização por sua interpretação.
— Suas palavras, não minhas.
Os cinco caminharam um pouco mais pelo mercado. tirou uma foto de usando um chapéu com abas largas demais e um sorriso maior ainda, enquanto gargalhava por não conseguir enxergar absolutamente nada com o obstáculo oferecido pelo adereço claramente maior do que a sua cabeça.
Ele continuou andando, enquanto usava o pequeno visor lateral para rever a foto recém-batida. Pegou-se sorrindo sozinho para a imagem, distraído demais para dar atenção para o papo animado dos quatro que o seguiam, alguns passos atrás.
Quando finalmente saíram do mercado, se deu conta do horário ao perceber a iluminação natural começando a se tornar menos abundante e suficiente.
Em um lampejo, uma memória lhe ocorreu, causando agitação em seus braços enquanto tentava explicar para seus acompanhantes o que acabara de lembrar.
— A gente precisa subir ali - disse, apontando para um prédio que, à primeira vista não parecia ter absolutamente nada de especial. — Sarah descobriu esse lugar na turnê passada. É lindo ver o pôr do Sol lá de cima, conforme a cidade vai acendendo aos poucos.
— E a gente pode simplesmente entrar aí? Porque, se puder, eu quero - topou instantaneamente.
— Vamos? - chamou, percebendo com clareza que as outras três pessoas ali presentes não estavam nem um pouco próximas da reação animada que ele esperava.
— Na verdade, eu estou passando um pouco mal - Mia comentou. — Deve ter sido todo aquele açúcar. Acho melhor eu esperar vocês naquela lanchonetezinha. Compro uma água, tomo um ar e fico perto de um banheiro se rolar uma emergência.
arqueou uma sobrancelha para a amiga, não acreditando por um segundo sequer em suas palavras. Mia não passara mal nem quando tivera a péssima ideia de tentar comer uma caixa inteira de donuts sozinha e sem parar. Ela capotava bêbada antes de ser capaz de passar mal. Aquilo simplesmente não fazia sentido.
— Eu vou ficar para fazer companhia para ela - Emily se prontificou.
— Adam? - o questionou.
O baixista ficou em silêncio por alguns segundos, olhando de um para o outro, como se suas fisionomias pudessem ajudá-lo a entender que resposta ele deveria dar. O olhar sério e penetrante de Emily lhe deu a resposta. E o lembrou o porquê de ela ser quem dava as ordens por ali.
— Quer saber? Vocês sabem que eu não gosto muito de altura. Vou ficar por aqui mesmo.
— Adam, nós entramos em aviões a quilômetros do chão praticamente todo dia.
O outro deu de ombros, externalizando uma risada seca e falsa, que foi melhor cortar pela raiz e fingir que não tinha acontecido, antes que ele se arrependesse ainda mais. Pigarreou levemente, antes de continuar:
— Ossos do ofício, sabe? Enfim, vão logo ver o pôr do sol antes que ele, bom… Vocês sabem… Se ponha e tal.
— Não, nós ficamos com vocês até a Mia se sentir melhor e depois voltamos para o hotel para pegar as coisas. Não tem problema.
— Não - Mia retrucou, mais alto do que o necessário. — Vocês dois têm que ir. Eu nunca me perdoaria por destruir as luzes de Budapeste por causa de uma náusea de nada.
— Bom, se você diz - a amiga respondeu. — Vamos?
concordou, sentindo um certo nervosismo percorrendo seu corpo. Simplesmente odiava aquela sensação. As coisas eram ridiculamente desconfortáveis quando ele não só não tinha controle algum sobre a situação, como também não fazia ideia do que esperar.
Pegaram o elevador até o terraço, em um silêncio sepulcral que parecia capaz de ser quebrado até mesmo por uma pluma que tocasse o solo.
— Ai, meu Deus - finalmente disse, correndo em direção à mureta decorada com flores de cores escuras e impactantes. — Isso aqui é lindo.
Do topo do edifício antigo, viam a Ponte da Liberdade acima do rio Danúbio, com seus pequenos barcos de passeios pagos por turistas que queriam apreciar a visão acolhedora do lusco-fusco tanto quanto eles. As demais instalações pareciam completar o plano, oferecendo os telhados e abóbadas que oscilavam entre o avermelhado e o acobreado, como se já estivessem se preparando para a aproximação da grande estrela, que os aqueceria em um abraço final antes de dar lugar à noite.
— Eu fiquei de boca aberta quando a Sarah nos trouxe aqui. Continuo tão fascinado pela vista quanto antes. Talvez até mais - admitiu, observando o delineado de suas costas, com os braços apoiados sobre a grade de ferros pretos retorcidos. A teoria heliocêntrica de Copérnico podia até ter superado e desbancado a crença geocêntrica, mas ele ainda arriscaria dizer, apossando-se de toda a possível liberdade poética que lhe poderia ser conferida, que o sol parecia circular em volta de Saturno. Era a única justificativa plausível para vê-la ali, tão brilhante, como se a estrela astronomicamente reconhecida fosse ela.
se virou para ele, enquanto empurrava os cabelos para trás das orelhas. Fez menção de falar algo, mas acabou desistindo no caminho.
— O que foi?
— Eu ia falar uma coisa, mas você vai me achar tonta.
estreitou os olhos, franzindo o cenho e as sobrancelhas.
— Eu sou a pessoa que faz piadas de toc-toc com músicas da Britney Spears. Tenho certeza de que não tenho direito algum de achar alguém tonto.
Ela riu alto, aquiescendo. Aquela piada era horrível mesmo e ela só ria toda santa vez por conta da cara que ele fazia, na expectativa de que alguém tivesse compaixão o suficiente para enxergar o humor falho naquilo.
— Eu estava pensando em como isso aqui parece muito o cenário de um filme de comédia romântica. A ponte, o rio, o sol descendo e deixando o céu nesses tons de laranja… Parece uma daquelas cenas bonitas de ver na netflix depois.
— É verdade. Podia ser parte de ‘10 Coisas que Eu Odeio em Você’ versão Budapeste. Ou ‘O Amor Não Tira Férias'.
— Com certeza são filmes bem melhores que o meu.
— Como assim?
— É que quando eu falei que isso parecia um cenário cinematográfico, eu estava pensando em outra coisa.
— Fala.
Ela revirou os olhos, dando-se por vencida.
— Eu estava pensando em ‘High School Musical’ mesmo.
riu alto, enquanto se recordava:
— É verdade. Eles têm uma cena no terraço. Tudo bem que esse aqui é bem mais bonito, mas eu entendi a referência. Faz sentido.
— Eu não acredito que você viu esse filme.
O cantor se mostrou um tanto ofendido e confuso.
— Por que eu não teria visto? Todo mundo sabe que é basicamente um dos maiores clássicos do cinema mundial.
— Os cults vão chorar lágrimas de sangue se ouvirem você falando uma coisa dessas.
— Eles não sabem o que estão perdendo. Não seriam capazes de compreender cenas como esta.
Tendo dito isso, estendeu a mão direita em sua direção. reagiu com um olhar desconfiado.
— O que você está fazendo?
— Take my hand, I’ll take the lead - ele começou a cantar, praticamente berrando a plenos pulmões. — And every turn will be safe with me.
Ela gargalhou, dando um passo na direção oposta.
, o que raios você pensa que está fazendo? Eu já passei da fase de dançar aleatoriamente com você.
— Você só não quer admitir que eu claramente superei o Zac Efron e nem precisei cantar mais de dois versos.
— Primeiro o Ed e agora o Zac - ela ponderou. — Você tem algum problema de autoafirmação? Tenho certeza de que não há ajuda para isso que seu dinheiro não possa comprar.
— Estou apenas reafirmando o meu compromisso com a verdade.
revirou os olhos para o típico comentário narcisista, soltando o ar em uma lufada única e curta pelo nariz. logo se ajeitou ao seu lado, apoiando os braços sobre o peitoril e jogando um pouco do peso do corpo sobre as ferragens.
Se artistas renascentistas tivessem decidido pintar a visão celeste do entardecer, provavelmente seria algo como aquilo. As nuances de amarelo, as quais se tornavam um alaranjado que, aos poucos, ganhava força, tornando-se mais próximo do vermelho pareciam pinceladas previamente pensadas e preparadas por alguém que sabia muito bem o que estava fazendo. Com o contraste com o rio logo abaixo, desenhando mais uma linha precisa no horizonte, aquela seria uma perspectiva interessante de se capturar pela aquarela. Mesmo mais simples e negligenciada quanto às têmperas e as tintas a óleo, ela parecia uma escolha adequada para aquela mistura.
— Você tem razão, sabe? - voltou a puxar o assunto, voltando a apreciar o panorama com seus próprios olhos após uma ágil captura com sua câmera fotográfica. — Isso aqui é tão bonito que deveria mesmo estar em algum filme.
Ela sorriu com o comentário, levando seu tempo para apreciar um pouco mais a bola de luz cálida que se despedia ao se esconder atrás dos prédios e demais construções.
— Pensa bem - ela disse. — Tudo aqui grita por uma cena clichê do cinema.
Ele se virou em sua direção, demonstrando através de sua linguagem corporal como estava plenamente entregue à única missão de prestar atenção em tudo que ela tivesse a dizer. E aquilo estava longe demais de ser um fardo para si.
— Tem esse céu incrível, com essas cores tão fortemente presentes que ficariam absurdamente incríveis na fotografia da película. Você sabe disso melhor do que eu.
aquiesceu. Era impossível negar aquilo.
— Estamos em uma cidade linda e cheia de pequenos encantos e possibilidades que, com certeza, seria palco de um momento importante no romance.
— Para mim, parece exatamente o tipo de plano de fundo daquelas cenas em que os protagonistas finalmente cedem aos seus desejos e sentimentos e decidem ignorar todos os poréns e porquês só para viver esse momento, sabe?
ignorou o arrepio que subiu por sua espinha ao ouvi-lo falar aquelas palavras. Se tivesse decidido comer aquele doce, poderia muito bem estar realmente precisando de um banheiro, prestes a fazer companhia para Mia lá embaixo.
Não queria reparar em como os cachos dele pareciam adquirir um tom levemente dourado sob o encanto do crepúsculo que se aproximava, nem em como seus malditos olhos pareciam misturar os tons de toda a paisagem, combinando a luz do sol com o escurecimento dos tons aquáticos que vinham do rio. Sabia que não havia possibilidade alguma de evitar que seus joelhos decidissem ser detestáveis ao ponto de cederem a qualquer momento em que ele decidisse sorrir de canto, mostrando aquela maldita covinha que ela gostaria de adorar menos. se sentia jogando campo minado no computador, clicando em quadradinhos aleatórios sem entender muito bem as regras, sabendo que, por onde fosse, uma bomba provavelmente explodiria logo em seus pés.
— Bom, no meu filme - ele comentou. — Tem esse prédio em Budapeste. Um rapaz e uma moça assistem ao pôr do sol tranquilamente, admirando como a natureza pode ser incrivelmente perfeita à sua própria forma. O protagonista é um cara alto, assim, bem bonito. E ele tem um senso de humor fascinante. Divertidíssimo.
Ela sorriu, antes de oferecer suas contribuições ao roteiro:
— A protagonista não é tão alta - admitiu, com um risinho. — Ela é muito inteligente e sabe de várias coisas bem aleatórias que a maioria das pessoas não está interessada em saber. Mas ela também é bem divertida e tem um bom humor super incrível. Ah! E estou escalando a Lily para o papel.
concordou.
— Eles estão na cidade só de passagem, não são sequer da Hungria. Vieram a trabalho depois de ele basicamente arrastá-la para dentro de um avião e quase obrigá-la a acompanhá-lo, mesmo com toda a loucura que vinha de bônus.
— O que ele talvez não tenha percebido é que ela não foi obrigada. Ela entrou naquele avião para se permitir viver algo totalmente diferente daquilo que poderia estar em qualquer um de seus planos de vida comum. E, mesmo com a guinada de cento e oitenta graus no seu mundo, ela ficou. Ficou porque quis. Ficou por ela. E meio que ficou por ele também.
A brisa de fim de tarde que decidiu aparecer não foi suficiente para diminuir a sensação acalorada que pareceu subir por sua face. Suas mãos, inquietas, pareciam perceber que seu lugar de repouso não era em meio àquelas grades. Ansiavam por estar sobre sua pele, percorrer seus cabelos, sentir a textura oferecida pela pele exposta da nuca. Apertou os dedos mais um pouco, lembrando-os do contato com o qual deveriam simplesmente se contentar em vez de ficar fantasiando sobre o que poderia ter sido dito nas entrelinhas.
, contudo, não sabia como ser mais clara. Sabia com clareza que os personagens dessa história eram eles desde o princípio e agora se sentia tola por expor o que se passava em sua mente, enquanto aquele tipo de adição ao enredo parecia ter partido exclusivamente dela. Era em momentos como aquele que valorizava o silêncio e se culpava por sua dificuldade em abraçá-lo, poupando-se de situações do tipo.
— No filme, ele não sabia disso - a voz rouca de foi lançada aos ares mais uma vez, sem se preocupar com as consequências. — Mas, com certeza, seria o momento em que ele daria uma risada de alívio e agradeceria por não ser o único a se sentir assim depois de vários dias se contendo por medo de destruir tudo com um sentimento unilateral.
percebeu o exato momento em que seu coração decidira acelerar ainda mais, fazendo-se ouvir pelo eco retumbante que promovia em suas orelhas, como se um zumbido tivesse preenchido sua caixa craniana. Sorriu de lado, tomando a coragem de se virar para a esquerda, posicionando seu corpo de frente para o dele.
— Ela acabaria rindo também porque pensou exatamente a mesma coisa - admitiu.
As pupilas dele dilataram levemente, uma reação que poderia ser tanto pelo escurecimento gradual do ambiente quanto pelo clareamento de suas ideias e sensações que, mesmo misturadas em frenesi, pareciam começar a se alinhar de uma forma que fizesse o mínimo de sentido.
— Nesse caso, esse seria o cenário perfeito para mais uma cena clichê do filme - comentou, dando um passo discreto em sua direção. — O momento em que o cara beija a garota.
— No meu filme não é bem assim que acontece - ela respondeu e tomou a iniciativa.
não sabia exatamente o que havia construído em suas secretas expectativas, mas aquilo era muito melhor. A sensação de sua boca na dele e das mãos dele segurando seu rosto como se fosse a peça de arte mais valiosa do universo - como se quisesse garantir ao tato que aquilo era real e não um sonho enganoso do qual teria de enfrentar a infelicidade de acordar - eram indescritíveis. Mergulhar seus dedos por seus cachos, puxando-os de leve na base tinha sido tão agradável quanto o sinal que aparentemente disparara em , fazendo-o tornar o beijo ainda mais profundo, conseguindo uma maneira de se colocar ainda mais próximo dela.
Estavam tão entretidos, aproveitando cada segundo e cada um dos toques tão esperados, que não perceberam quando as luzes da cidade finalmente começaram a se acender lá embaixo. Não fazia diferença quando pareciam compartilhar toda a luz e o calor de que precisavam.
Quando finalmente se afastaram, deu um sorrisinho de lado, antes de beijar a testa de com suavidade. Permaneceram ali, emaranhados em um abraço coeso à sua própria forma, sentindo o aconchego que era finalmente estar totalmente entregue nos braços do outro, sem receios ou ideias distorcidas de uma duvidosa reciprocidade que, enfim, estava escancaradamente presente. Ela conseguia sentir o coração dele batendo acelerado contra o seu e tinha certeza de que ele sentia o mesmo. Fechou os olhos, inspirando profundamente, como se pudesse absorver por mais alguns segundos aquele momento, permitindo que ele fosse marcado como uma tatuagem em seu coração.
— Por que agora eu tenho a impressão de que aqueles três mentirosos nos mandaram para cá sozinhos de propósito? - perguntou, fazendo-a rir de repente. Gostava de como a voz grave dele ressoava em seu tímpano quando a boca dele estava ali tão perto.
— Porque foi de propósito mesmo.
Ele riu, meneando a cabeça em negação. Por mais ridículos que fossem, no entanto, deveria um agradecimento aos amigos por aquilo.
— Acho que eles podem esperar mais um pouco, então.
E devolveu seus lábios para o único lugar no qual queriam estar naquele momento.




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Nota da autora: FELIZ ANO NOVO, CAMBADAAAAAA! E feliz aniversário de um aninho dessa minha ficzinha tão querida que fez 2020 um milhão de vezes mais leve e contente por ter me trazido todas vocês! Muito obrigada por tudo tudo tudo! Sem vocês eu nem estaria nessa atualização de destaques do ano!
Sobre a história: FINALMENTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE IUSDJHFDSNFDSAK, parei de surtar, mas QUERO MUITO MUITO MUUUUUUUUUUITO SABER O QUE VOCÊS ACHARAM SOCORRO EU VOU MORRER.
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Sem mais delongas, espero que tenham gostado e, se você chegou até aqui, eu agradeço profundamente por me dar uma chance. Espero te receber aqui mais vezes.
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02. Blow Me (One Last Kiss)
02. Dance Again
02. Don't Let It Break Your Heart
02. Stitches
03. Dear Patience
03. I Did Something Bad
03. Take A Chance On Me
03. Without You
04. Someone New
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06. Falling
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07. Bossa
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08. No Goodbyes
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14. When You're Ready
15. Overboard
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Daydream
Evermore
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Not Over
Señorita


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