Última atualização: 23/07/2021

Capítulo Treze

“Yeah, I know you and I got a really good thing going
And I don't wanna lose you, I'm scared to rock the boat, so
I'll just keep playin' pretend
Like we don't know what this is
'Cause we both know what this is”

Maybe - Jake Scott



— Put a price on emotion, I'm looking for something to buy.
tinha os olhos fechados, enquanto cantarolava a letra, acompanhando o tom de no palco, conforme permitia que seu corpo balançasse levemente para os lados na coxia. Não importava quantas vezes assistisse àquela mesma setlist, aquele sempre seria o seu momento favorito do show. Existia algo de especial naquela música que parecia elevá-la em algum tipo de transe, como se o simples movimento pendular de seu corpo fosse consequência da sucessão de ondas de um mar emocional frente ao qual ela se permitia ser carregada.
Muito mais do que um sistema mecânico em movimento harmônico simples - três palavras que já lhe causavam arrepios -, aquele era um sistema psicobiológico. As reações que as músicas causavam sobre todo o seu cérebro eram bioquimicamente precisas para que ela sentisse tudo aquilo que seu coração jamais saberia explicar.
Quando abriu os olhos, havia se afastado momentaneamente do pedestal que sustentava seu microfone. Dedilhava as cordas de seu violão estampado com a noite estrelada, enquanto a plateia dinamarquesa repetia os versos “We’ll be a fine line”, preenchendo a Royal Arena com o coro de suas vozes. rodava pelo palco, assentindo e sorrindo, conforme absorvia aquele momento. Não importava por quantos anos ou quantas centenas de shows fizesse aquilo; de alguma forma, a emoção era sempre tão avassaladora e beirando audaciosamente a sensação de completude quanto da primeira vez.
Por uma fração de segundos, ele se virou para as laterais, encontrando-a antes de sussurrar, silenciado pela multidão: — We’ll be alright.
Com o fim do instrumental, se despediu das dezesseis mil pessoas que preenchiam o local, procurando logo uma toalha para limpar o suor do rosto.
— Sempre tenho esperança de que esses países frios vão me fazer suar menos, mas nunca funciona - ele reclamou, antes de se aproximar de , deixando um beijo carinhoso no topo de sua cabeça. — Você foi incrível hoje.
Ela sorriu, ligeiramente envergonhada.
— Você também, mas acho que nem preciso falar sobre isso. Essas garotas ensandecidas já gritaram o suficiente para expressar isso.
O cantor deu de ombros.
— Ainda me importo com a sua opinião.
Emily e Mia vieram correndo da direção dos camarins. Mia parecia pálida e esbaforida, como se estivesse lutando simultaneamente contra o cansaço da repentina pressa e contra a vontade de vomitar as palavras que lhe entalavam a garganta. conhecia aquela expressão perfeitamente. Saberia a metros de distância quando a amiga estava se coçando para contar algo importante.
— O que aconteceu?
A amiga engoliu em seco, com os olhos ainda arregalados como se houvesse se deparado com algum tipo de assombração.
— Você tem visitas - foi Emily quem respondeu. — Estão te esperando no camarim.
Foi a vez de sentir um bolo largo se formando em sua garganta. Aquele silêncio, apenas quebrado por meias palavras que não explicavam muita coisa, estava prestes a lhe fazer surtar. A sensação de paz em que se encontrava nos últimos segundos tinha se estilhaçado contra o chão como a porcelana de um prato se espatifando. E não de uma forma comemorativa ou cultural como faziam os gregos.
As palmas de suas mãos estavam geladas, suando frio, quando ele a apertou nas suas, tentando lhe passar confiança e segurança o suficiente para enfrentar o que quer que fosse.
— Eu posso ir junto ou vocês acham melhor ela ir sozinha?
Mia e Emily trocaram um olhar rápido. Estavam convivendo de forma tão próxima que apenas aquele gesto já havia se tornado suficiente para que compartilharem seus posicionamentos sobre o assunto e compreendessem o da outra.
— Pode - Stevens respondeu. — Mas deixe que ela fale.
concordou com seriedade, levando a mão até a cintura dela, enquanto os guiava em direção ao camarim. De repente, aquele local de preparo, descanso e concentração parecia ter adquirido uma névoa pesada circundante que simplesmente soava incoerente e asfixiante. Não saber o que estava por vir, constantemente, era muito mais desestabilizante do que já esperar o pior.
— Respira - ele pediu baixinho, apertando sua mão com um pouco mais de força. — Tenho certeza de que não é nada de ruim.
— Espero que você esteja certo - murmurou, sem acreditar muito que ele realmente estivesse.
Após algumas longas inspirações e uma tentativa de ajeitar sua postura, estabilizando sua linguagem corporal para expressar a confiança que ela não tinha, tomou coragem para virar a maçaneta e abrir a porta.
Um homem de média estatura, com os cabelos escuros cortados bem rentes ao couro cabeludo estava sentado no sofá, com a perna cruzada sobre o joelho e a atenção totalmente voltada às mensagens que digitava apressadamente no celular.
— Malcolm? - questionou, vendo o homem erguer o rosto para encará-lo.
— E aí, ? Quanto tempo!
olhou de um para o outro, cumprimentando-se calorosamente como se se conhecessem há séculos. Ela permaneceu ali, plantada, criando raízes e tentando entender o que estava acontecendo ao seu redor.
— Com as gravações do último filme e a turnê, acabei passando uns tempos meio afastado de vocês - ele concordou.
— Bom, esperamos recebê-lo de volta logo. De preferência, receber vocês dois.
pareceu ter um estalo, conforme seu rosto foi se iluminando pela compreensão. , por sua vez, continuava mantendo sua melhor fisionomia de paisagem, de quem não poderia estar mais confusa.
— Malcolm, essa é a ou Saturno - apresentou. — E, , esse é o Malcolm, ele é representante da Columbia Records, a gravadora em que estou atualmente.
A garota estendeu a mão para cumprimentá-lo, tentando não piscar repetitivamente com o choque. De todas as catástrofes naturais e problemas estrondosos que ela poderia ter sequer cogitado, aquela visita definitivamente não fazia parte de seu rol de opções.
— Como vai?
— Sinceramente? Nervosa - ela respondeu, com um risinho anasalado.
Ele abriu um sorriso simpático e acolhedor.
— Eu imagino, principalmente com tudo sendo tão novo para você. Mas pode ficar tranquila. Já conversei com a sua empresária, inclusive.
se virou para a porta, encontrando Mia a observando carinhosamente e, explicitamente, mais aliviada agora que não precisava guardar nenhum tipo de grande informação para si.
— Bom, como o disse, eu sou da Columbia e nós gostaríamos de te propor um contrato para a gravação do seu álbum de debut. Você receberia todo o suporte de produção, composição, gravação e mixagem da nossa equipe, mas mantém a sua total liberdade de decidir, dar opiniões e participar ativamente do processo criativo se for do seu interesse.
— Com certeza é - ela apontou.
— Ela já escreveu algumas músicas sozinha - comentou. — Talvez você tenha visto os vídeos de Budapeste na internet.
Malcolm assentiu.
— Eles foram a nossa cartada final para declarar o interesse em contratá-la. Quero dizer, já sabíamos de todo o seu talento como cantora e instrumentista, mas ver exatamente o que você é capaz de fazer e quais os rumos que a sua música pretende tomar nos fizeram perceber que existe um espaço muito claro para o seu trabalho na indústria e queremos estar ao seu lado para lançá-lo.
Ela não se moveu, sentindo o ar parecendo ter sugado de seu peito enquanto sua mente entrava em tela azul com a pane no sistema.
— O contrato inicialmente seria equivalente apenas ao primeiro álbum, mas, dependendo de como as coisas seguirem, tenha certeza de que teremos interesse em estender esse acordo e colher novos frutos dele futuramente. Mas isso, é claro, se for do seu interesse. Não quero que se sinta pressionada a aceitar nada.
meneou a cabeça, concordando. Virou-se para a porta, em busca do olhar e da opinião da amiga, que com certeza já deveria tê-lo questionado o suficiente para saber se aquela era uma enrascada aleatória ou não. Afinal, a última coisa de que precisavam era de outro Simon Cowell lhes importunando como um abutre.
— O que você acha?
Mia apertou os braços ao redor do corpo, tentando ignorar a própria tensão.
— Eu que te pergunto isso. O que você acha, ?
— Vou dar espaço para que conversem - Malcolm ofereceu. — Aproveito e faço uma ligação para resolver outros assuntos.
Emily o conduziu até outra sala, usada principalmente como depósito, a fim de lhe dar privacidade e alguma condição acústica para a ligação. Os outros três permaneceram no camarim.
— Parece bom demais para ser verdade - admitiu, sentando-se pesadamente no sofá.
— Mas parece bom demais no sentido de que você continua se desvalorizando e pensando que coisas boas não podem acontecer com você ou bom demais porque sua intuição está apitando para te alertar de que alguma coisa parece errada?
Ela digeriu cada uma das palavras da amiga com cuidado, buscando em seu âmago a resposta para o questionamento preciso.
— Acho que a primeira opção - admitiu, em um murmúrio que esperava ter sido audível, pois não tinha vontade alguma de repetir aquilo.
— Então pare - Mia a cortou. — Eu já conversei com ele sobre as questões e condições do contrato e parecem todas bastante justas e coerentes. Com relação à sua carreira, eu acho que é realmente um bom acordo e uma grande oportunidade. Mas é você quem decide. É a sua vida, tem que estar confortável com as decisões que dizem respeito a ela.
se virou para .
— Como eles são? Você já teve contrato com outra gravadora antes, deve saber pesar a situação melhor do que a gente.
— Já e você sabe bem de todo o estresse que foi. Nunca passei por nada nesse nível com a Columbia. Óbvio que sempre vai ter uma pessoa ou outra com quem seu modo de trabalho não vai bater e vai acabar havendo algum atrito antes de a equipe ser remanejada, mas eles sempre foram bastante conscientes de que o álbum era meu e eu tomava as decisões finais. É uma relação que funciona bem e não tenho do que reclamar em relação ao que criei e lancei com eles.
Mia se sentou ao lado da amiga, tomando a mão dela na sua.
— O que me diz?
aspirou todo o ar que conseguiu comportar nos pulmões e o soltou vagarosamente.
— Acho que podemos fazer isso.
A amiga arremessou os braços ao redor de seu tronco, soltando um gritinho de excitação, sem lhe oferecer sequer a opção de reação. Apenas a apertou ali, tentando demonstrar a felicidade extrema que sentia a cada passo que conseguiam dar. Já conseguia imaginar tudo: os singles, um álbum com uma estética serena, os surtos com as vendas e os berros quando a primeira música finalmente chegasse às rádios. As vendas de camisas, almofadas e moletons aumentaria exponencialmente e ela poderia finalmente lançar várias outras estampas sem parecer uma maluca emocionada sem nada melhor para fazer.
— Ah, perdão por interromper o momento - Malcolm pediu da porta. — Posso voltar depois se vocês preferirem.
— Não precisa - respondeu, com um sorriso singelo. — Nós topamos.
O homem comemorou, alegremente, abraçando as duas.
— Vocês não vão se arrepender, de verdade. Precisamos brindar essa decisão.
Emily entrou no camarim, trazendo alguns copos plásticos reutilizáveis que carregavam na turnê e uma garrafa de champanhe que nem sabia exatamente de onde havia vindo.
— Você não precisa saber de tudo - ela disse simplesmente, balançando os ombros enquanto oferecia a garrafa a .
Ela recusou rapidamente com um aceno de cabeça.
— Eu vou acabar fazendo essa porcaria de rolha acertar o olho de alguém. Não acho uma boa ideia levarmos essa comemoração para o pronto socorro.
— Eu faço - ofereceu. — Mas eu recomendo fortemente que vocês se afastem. Sabe, só por precaução.
— É você quem vai pagar minha licença médica mesmo - Emily comentou, entregando-lhe a garrafa.
O cantor forçou a rolha, direcionando as mãos para a direção de uma das paredes opostas a eles. A espuma logo subiu, cumprindo a sua função celebrativa e a sujeira necessária para que o momento fosse considerado completo. Serviu os cinco copos e propuseram um brinde ao contrato, mas também às novas decisões e caminhos.
E ele não tinha a quem enganar; as perspectivas desse novo caminho lhe agradavam e muito.


❀❀❀



se olhou no espelho mais uma vez, tendo certeza de que tinha alguma coisa errada com o rabo de cavalo que tinha feito no cabelo. Puxou o elástico pela terceira vez, sentindo que, se tivesse que repetir o processo de arrumar os fios com as mãos mais uma vez, terminaria com a cabeça mais oleosa que uma frigideira depois de preparar ovos.
Duas batidas em sua porta lhe chamaram a atenção, enquanto ela rodava o elástico decididamente pela última vez.
— Se você estiver em alguma cena vergonhosa, recomendo que pare pois estou entrando - Mia avisou, esperando cinco segundos antes de abrir a porta e se projetar para dentro.
bufou mais uma vez para o cabelo, desistindo de repetir o processo. Teria que ficar daquele jeito mesmo.
— Como se você já não tivesse me visto em várias cenas vergonhosas - comentou, ao sentar de volta na cama.
— Mas eu ia abrir a sua porta para o mundo que não viu.
A amiga apenas concordou, enquanto calçava um par de meias baixas, listradas em tons de amarelo e preto.
— Isso me lembra ‘Como Eu Era Antes de Você’ - Mia disse.
— Não vamos falar sobre isso. Eu jurei a mim mesma que não ia chorar hoje.
— Certo, certo. Bom, de qualquer forma, eu vim aqui para falar com você sobre uma coisa.
— Amiga, eu juro que gostei das cores novas dos moletons. Me desculpa por não ter parecido animada ou interessada o suficiente aquela hora, mas foi só porque eu estava terminando de ler o contrato mesmo. Ficaram ótimas, de verdade.
— Eu sei que ficaram. Não é sobre isso que eu vim falar.
franziu o cenho.
— Então é sobre o quê?
— Promete não surtar?
— Não.
— Ok. Certo…
arqueou a sobrancelha, cobrando-a uma agilidade que Mia não sabia se conseguia exercitar naquele instante.
— Eu chamei a Emily para sair.
Mia não saberia dizer de cabeça quem era o cantor com a maior extensão vocal do mundo ou qual o tom mais agudo atingido por um ser humano, mas arriscava dizer que sua melhor amiga desbancado ambos quando berrou:
— O QUÊ?
— Eu disse sem surtar, desgraça.
Tarde demais. já havia arremessado o próprio corpo na direção da amiga, abafando suas exclamações exasperados ao ter seu abdômen apertado contra ela.
— Meu Deus do céu, eu não acredito! Finalmente!
— Pode ficar tranquila que agora todo mundo acredita. Capaz de até a minha mãe ter te ouvido lá da Inglaterra.
A outra riu, empurrando-a de leve. Mia poderia fazer a cara emburrada que quisesse. Ela não sairia do seu pé enquanto não soubesse mais.
— Como foi?
— Como assim como foi? Eu perguntei se ela queria jantar comigo. Simples assim. O que você esperava? Umas pombas brancas, pétalas de rosa?
— Eu me contentaria com borboletas - provocou. — Mas deixa de ser estraga prazeres! Eu quero ficar feliz por vocês, sabe como eu esperei por esse momento.
Mia revirou os olhos, tentando em vão fingir que uma risada contente não começava a borbulhar em seu rosto. Estava nervosa e animada e temerosa e ansiosa. E não sabia como explicar nada disso. Nem se queria.
— Você não tem muita moral depois de ter demorado tanto tempo para aceitar que eu estava certa sobre o .
— Bom, ainda sim já tem mais de uma semana desde Budapeste. As coisas aconteceram e tudo vai bem.
— Então por que você fala isso como se estivesse prestes a vomitar?
poderia fazer uma longa lista de todas as coisas que ela verdadeiramente detestava no mundo: políticos fascistas, movimentos antivacina, ameixas, aranhas, falsidade, pessoas que bloqueavam a escada do metrô… A sequência continuava fácil e longamente. Mas nada e nem ninguém conseguiria roubar o primeiro lugar, alcançado com louvor. Não havia nada que ela odiasse mais do que aquela sensação de que a amiga lhe havia dado um soco no estômago sempre que decidia fazer uma daquelas perguntas que colocava o dedo inteiramente dentro da ferida. E ainda o girava lá dentro de forma sádica.
— Você sabe que é diferente.
— Sei? O que exatamente é diferente? Além de vocês serem um casal heteronormativo e, portanto, terem uma preocupação a menos.
Ela encolheu os ombros, dobrando as costas em um arco que a fazia parecer ainda mais uma criança vulnerável.
— Eu não sei, Mia. Eu o adoro, de verdade. Ele é doce, atencioso, me faz rir sempre que possível e tem algum tipo de talento inexplicável de saber exatamente o que dizer para me acalmar a qualquer momento.
— Mas...?
soltou o ar com força, em um suspiro cansado.
— Mas ele ainda é o . Ele tem literalmente o mundo todo aos pés dele. Poderia escolher uma mulher por dia do ano e todas elas ainda seriam infinitamente melhores do que eu.
— De onde é que você tira essas merdas?
— Você sabe que não estou mentindo. Ele poderia ter uma fila de modelos lá fora agora só o esperando como se ele fosse o rei todo-poderoso do universo.
Mia se aproximou da amiga, virando-a de frente para ela e a obrigando a olhar diretamente em seus olhos.
— Só me responde uma coisa: e daí?
A outra estreitou os olhos, sem compreender.
— Como assim “e daí”?
— É, ; e daí? Foda-se que ele é o . Foda-se que ele pode ter a mulher que ele quiser. Ele quer você, sua tonta. Não interessa o que poderia ser, apenas o que de fato é.
— Não é assim tão simples.
— Tem certeza? Porque eu não sei o que é que você criou de insegurança na sua cabeça, mas ele não é aquele engomadinho arrogante que não sabia o que queria e simplesmente te deu um pé na bunda com uma desculpa mais idiota do que ele e sumiu no mundo. Ele não é um cara que se sente ofendido ou ameaçado pela sua inteligência, sabe? Ele admira você claramente.
“E eu sei que a gente tem medo e cicatrizes do passado, mas tudo bem mostrá-las com orgulho e seguir em frente. Nem todo mundo nessa vida vai te machucar, mas você nunca vai saber se continuar se prendendo à hipótese pessimista de que tudo vai se repetir."
— E se eu for só mais uma? - Murmurou, sentindo-se patética o suficiente para sequer dizer uma coisa daquelas.
— Você é , a mulher mais inteligente, dedicada e talentosa que eu já conheci. Teria um futuro incrível na neurociência e um maior ainda com a sua carreira musical que, cá entre nós, está indo bem melhor do que qualquer um poderia esperar. Então, acredite quando eu te digo: você nunca vai ser só mais uma.
“E, se te consola, você sempre pode pensar o inverso. Se tudo der errado, você vai poder dar de ombros por aí e se gabar de que foi só mais um na sua vida de muitas opções e oportunidades.”
empurrou a amiga, mas acabou rindo.
— E se eu quebrar a cara?
— Daí eu vou estar lá para recolher os pedaços. E para quebrar a cara dele. Você sabe muito bem como eu esperei a minha vida inteira pelo momento de poder agredir um homem.
— E com a Emily? Preciso me preparar para entrar no modo melhor amiga superprotetora também?
Mia esboçou um sorrisinho leve, que quase fez querer voltar a soltar gritinhos em frequências que se mantinham por pouco dentro do espectro audível para seres humanos.
— Acho que não. Não sei se eu sou otimista demais, mas acho que vai dar certo - admitiu. — E eu espero mesmo que dê.
— Você gosta muito dela - comentou em um tom que era muito mais afirmativo do que interrogativo. Não tinha dúvida alguma dos sentimentos da amiga, expostos em cada uma das linhas de expressão em sua face e dos sorrisos que ela oferecia por aí como se estivesse sendo paga para entregar panfletos de campanha política.
Mia aquiesceu.
— Desde o começo. Talvez eu seja um pouco emocionada.
— Talvez ela goste disso em você.
— Você vai voltar do passeio a tempo de me ajudar a escolher uma roupa para hoje à noite, não vai?
— Vou - garantiu. — Por mais que nós duas saibamos perfeitamente que você não precisa de mim.
Mia deu uma risada irônica.
— Ah, eu preciso, sim. Eu pensei que eu fosse desmaiar quando fui fazer o convite.
— Você não me contou como foi.
— Não foi nada demais. Eu só perguntei se ela queria jantar comigo e ela aceitou. Agradeceu o convite, disse que adoraria e me deu um beijo na bochecha.
Naquele momento, não se conteve e gritou de novo, atirando-se na direção da amiga.
— Eu tinha a intenção de chegar ao fim desse dia com a minha audição ainda funcional. Obrigada por destruir meu planejamento.
— Para de ser chata. Isso é muito importante e eu só estou feliz por você. Tudo o que eu mais queria era que vocês finalmente dessem esse passo e agora eu sou a pessoa mais feliz de toda a face da Terra. Até porque você já me prometeu o meu cargo de madrinha de vocês.
— Não sei se você merece.
— Ingrata - reclamou. — Escolha a sua roupa sozinha.
— Você não pode me abandonar assim. Eu sou sua empresária.
— Uma bastante chantagista, por sinal. Onde vocês vão, aliás?
— Ela se ofereceu para escolher o local. O que é estranho já que fui eu que chamei. Mas é bom porque eu não conheço a cidade e ela, aparentemente, já sabia na mesma hora para onde deveríamos ir.
— Meu Deus, vocês já estão se completando.
Mia se levantou abruptamente, colocando a mão no quadril antes de se virar.
— Segura essa onda. Eu que sou a emocionada dessa amizade. Trata de se recolocar no seu lugar ou eu vou te mostrar na prática o significado de defenestrar.
riu. Adorava aquele verbo. Era engraçada, peculiar e a fazia refletir intensamente sobre a pessoa que havia pensado que deveria criar uma palavra para definir o ato de atirar algo ou alguém pela janela.
A amiga foi até a porta, abrindo-a e dando de cara com outra pessoa ali, com o punho erguido, prestes a bater.
— Puta merda - Mia reclamou. — Uma quer me deixar surda, o outro quer me matar do coração… Minha expectativa de vida diminui a cada segundo que eu passo perto de vocês.
— Mas a sua alegria só aumenta - respondeu, recebendo um sorriso irônico em resposta.
se levantou da cama, puxando os cabelos para apertar mais um pouco o rabo de cavalo.
— Pronta?
— Acho que sim.
— Se você preferir não ir, a gente pode tentar encontrar outra coisa para fazer.
— Não, não - ela garantiu. — É só que faz tanto tempo desde a última vez que eu subi em uma bicicleta que eu não sei se sou capaz de não tomar um tombo.
— Vai dar certo. Aqui não tem tanto trânsito e caos de ciclistas como em Amsterdam e é bem plano e tranquilo. Vamos bem devagar para você se acostumar.
assentiu, pegando um cardigan preto longo ao olhar para a temperatura assinalada pelo aplicativo do celular para a cidade de Copenhague naquele momento.
observava cada um de seus movimentos, lutando contra seus próprios impulsos que o coçavam com a vontade de abraçá-la ali mesmo e gastar aquele tempo apenas com seu exclusivo interesse de vê-la ficando vermelha quando dizia como ela era simplesmente linda. Às vezes, ele detestava suas próprias ideias, ao perceber que poderia muito bem ter dado uma bem mais simples e que não demandava nenhum tipo de deslocamento para fora daquele quarto. Mas não queria fazê-la se sentir pressionada ou, de alguma forma, encurralada só porque ele se contentaria facilmente em beijá-la o dia todo se pudesse. Ateria-se à sua proposta e sabia que seria igualmente feliz, apenas por estar ao lado dela.
— Vamos, então? - Ele chamou. — As bicicletas alugadas já estão lá fora.
Ela colocou os óculos escuros sobre os olhos, rindo sozinha ao se lembrar da primeira vez em que ele havia sugerido o uso do acessório ao desembarcarem em solo italiano. Os dias eram tão intensos e cheios de acontecimentos e novidades que aquilo parecia ter acontecido há séculos.
Caminharam em um silêncio confortável por todo o caminho do elevador até a saída dos fundos, cujo acesso das fãs estava restrito por imposição do hotel, cuja segurança havia conseguido concentrá-las na entrada principal. Eles tinham plena consciência de que seriam vistos, reconhecidos e, muito provavelmente, abordados; mas qualquer desvio de caminho já ajudava.
— Precisa de ajuda? - a questionou, com um sorriso sacana, sabendo propositalmente que a irritaria.
— Eu sei subir em uma bicicleta. Sei que é chocante, mas eu vou sobreviver.
Ele gargalhou, enquanto se acomodavam em seus assentos e posicionavam os pés sobre os pedais.
— Para onde vamos primeiro?
— Para a praça principal - ele respondeu. — Eu me recuso a tentar falar o nome, mas você pode pesquisar depois.
— Acho que eu vi quando pesquisei mais cedo - concordou. — Aparentemente todo lugar que a gente vai tem uma praça dessas.
assentiu.
— Deve ter alguma coisa a ver com a arquitetura antiga. Todas essas cidades foram construídas assim séculos atrás. Acho que eles foram só modernizando em volta e esses centros ficaram.
— É verdade. E muita coisa foi reconstruída em vários lugares depois da destruição das guerras e tudo mais.
Começaram a pedalar, evitando as pequenas porções um pouco desniveladas das pedras por precaução. O sol já não estava tão forte, fazendo agradecer pelo movimento de rotação, pois havia se esquecido completamente de passar protetor solar no rosto. Era provável que se arrependesse brutalmente pela manhã, quando sentisse as bochechas ardendo sob o mínimo contato da armação dos óculos ou dos dedos, quando os levasse instintivamente ao nariz pela rinite.
A preocupação com as queimaduras, contudo, passou rapidamente. logo se ocupou de prestar atenção aos seus movimentos e sensações. Desde a pressão leve que seus dedos aplicavam sobre o guidão, buscando estabilidade, até a rotação rítmica e contínua que as metades anteriores de seus pés promoviam. A sensação de aquecimento gradativo das coxas em exercício e a estranha percepção de liberdade que o vento acariciando o rosto e bagunçando os cabelos causava.
Ela tinha sido honesta algum tempo antes, quando assumiu que há tempos não pedalava. Agora, só conseguia pensar que deveria ter voltado antes.
Pararam na praça Rådhuspladsen, apoiando-se nas pontas dos pés, enquanto equilibravam as bicicletas e olhavam ao redor. De forma relativamente similar a Budapeste, havia uma delimitação entre o que seria considerado como objeto histórico secular e o que vinha do crescimento da cidade para além da muralha já há muito derrubada. Chegava a ser brutal a discrepância entre as construções que remontavam à Idade Média - com os restos da antiga barreira física, da fonte do dragão e da estátua viking - e a modernidade do shopping center construído em vidro no extremo oposto da avenida principal.
— Quem casar aqui já pode usar a cidade como seu algo velho e seu algo novo para a cerimônia - comentou.
— Deve ser legal casar em um lugar desses - pontuou. — Só provavelmente impossível e estranho, mas enfim.
Um casal se aproximou deles, pedindo uma foto. Os dois sorriram simpaticamente para a foto e logo os dois se afastaram.
— Queria que fosse sempre fácil e tranquilo assim - o cantor comentou.
— Você já recusou foto com alguém?
— É raro, mas acontece. Na maioria das vezes é porque realmente não tem como parar, seja pelo horário, pelo local ou porque a multidão está tão gigantesca que não tem condição de atender todo mundo mesmo. Às vezes você está virado, com a cara amassada e cheio de dores das tentativas frustradas de cochilo no avião, mas faz um esforço e para mesmo assim.
— E depois tem que ler na internet que você está deprimido e com cara de doente.
riu, meneando a cabeça em concordância.
— Perdi as contas de quantas vezes pensaram em doenças e drogas quando eu só estava com sono e viajando demais.
— Se as pessoas forem se preocupar em discutir minhas olheiras sempre, vão acabar não tendo tempo para falar de outras coisas. Não sei se fico feliz ou preocupada com isso.
— Acho que um pouco das duas coisas. Preparada para ir até o ponto do mais famoso cartão postal da Dinamarca?
— É o das casinhas coloridas com o canal?
Ele concordou e voltou à bicicleta seguindo em direção a Nyhavn.
— A maioria virou barzinho ou restaurante, mas deve ter sido legal viver ali por uns tempos.
se martirizou por ter aceitado placidamente o sedentarismo por tanto tempo. A dor muscular começava a se tornar cada vez mais presente. Ainda não era o suficiente para lhe fazer desistir, mas com certeza era mais do que o suficiente para que as pernas doessem no dia seguinte. Ela não deveria ter parado de dançar. Se não tivesse decidido que seu tempo de estudos era mais necessário que o de atividade física, estaria bem melhor agora. Seus exames, que não estavam ruins, possivelmente estariam melhores. E ela também sentia muita falta de dançar. Era algo a se pensar; algo que talvez devesse voltar a considerar.
— Você está bem?
A voz de a fez sacudir a cabeça, saindo de seu redemoinho de introspecção e diálogo interno.
— Estou ótima - ela assegurou, oferecendo um sorriso de confirmação. — Só estava divagando mesmo.
— Algo em que eu possa ajudar?
— Só pensando que eu não deveria ter parado de dançar.
— Você dançava? Meu Deus do céu, existe alguma coisa que você não saiba fazer?
— Já te disse: torta de morango.
— Cheguei ao ponto em que eu realmente duvido disso.
— Você só está tentando me agradar para me ganhar mais fácil.
pareceu confuso.
— Como assim? Eu pensei que já tinha te ganhado.
Foi a vez dela usar todo seu talento cênico para encenar sua melhor feição de ofendida.
— Eu não acredito que você realmente pensou que ia ser fácil assim.
— Fácil? Eu não sei que parte disso foi fácil para você, porque para mim foi bem difícil te olhar todo dia e remoer tudo o que eu queria fazer e não podia.
— Eu ficava sonhando com você - ela admitiu, recebendo um olhar malicioso dele. — Não, , não esse tipo de sonho.
— Tudo bem, eu supero.
— Enfim, não foi estranho e conturbado só para você. E, na verdade, para mim ainda está sendo um pouco.
— Em que sentido?
Eles continuaram guiando as bicicletas apenas com as mãos enquanto caminhavam lado a lado paralelamente ao canal. Alguns barcos de teto rebaixado por conta dos túneis estavam parados, enquanto um passeio era conduzido pelas águas perto das quais Hans Christen Andersen havia vivido e se dedicado a suas obras literárias, como ‘A Pequena Sereia’, cuja estátua se dispunha perto do passeio público de Langelinie, posicionada sobre uma rocha de forma a observar a terra firme, como uma representação de seu desejo de se tornar humana.
Com certeza a versão da Disney era bem mais bonita e alegre do que a história original, mas ela preferia se ater ao filme colorido em duas dimensões em que Ariel era feliz e apenas queria viver sua vida, Sebastião cantava e Linguado era fofo. Não precisava mesmo das versões traumáticas, problemáticas e sanguinolentas. E foi naquele mais novo devaneio que ela se lembrou de uma coisa:
— Você não recusou o papel de Príncipe Eric na live action da Pequena Sereia?
Dessa vez, a confusão que se instalou em sua expressão era completamente genuína.
— Sim, por quê?
— Eu é que te pergunto, . Por quê? Por que você recusou um papel tão legal? Você poderia dizer que era um príncipe da Disney, sabe?
— Não encaixava muito bem nos meus projetos naquele momento. Mas fiquei feliz de terem me cogitado para o papel.
— Você é péssimo.
— E você muda de assunto muito fácil.
Ela o encarou, colocando uma mão em frente a testa para ajudar a evitar os raios solares, mesmo que estivesse usando óculos escuros com boa proteção.
— Eu nem sei que assunto eu mudei.
— Sobre estar sendo conturbado e estranho.
— Ah, sobre isso - ela ponderou, pesando cada uma de suas palavras enquanto parecia tentar distribuir sua própria massa sobre os calcanhares. — Não sei se você se lembra daquela conversa sobre antigos relacionamentos que tivemos quando dividimos o quarto.
— É claro que lembro. Foi naquela noite que eu tive certeza de que estava me sentindo perigosamente confortável na sua presença e percebi como podia ser fácil expor nossas feridas e preocupações desde que fosse para a pessoa certa.
— Pois é. O ponto é que eu ainda não me livrei totalmente das inseguranças que eu adquiri ali, entende? Então, às vezes, ainda é um pouco complicado parar, sentar e entender que alguém pode simplesmente gostar da minha presença e isso tudo ser real.
Foi a vez de lhe devolver o olhar por trás dos óculos e ela agradecer às lentes por servirem como uma barreira entre aqueles olhos suplicantemente brilhantes e sua compostura. Não conseguiria vê-lo olhando-a daquele jeito, em toda sua doçura e devoção, sem desmontar ali mesmo. E aquela não parecia a melhor das ideias no meio de toda aquela movimentação turística.
, eu quero que você entenda uma coisa. Isso é real. Cada segundo disso é real demais para mim e eu quero mais do que qualquer coisa me entregar a esses momentos com você. Se eu pudesse, eu te abraçaria e te beijaria agora mesmo para tentar te provar o que minhas palavras não conseguem assegurar.
E ali estava o segundo grande problema. Ela não se arriscava a sequer entrelaçar seus dedos, mesmo que tivesse aprendido na última semana que gostava imensamente da sensação que cada uma de suas terminações nervosas enviava no momento do tato. O toque tão simples se encaixava em uma rede de respostas que fazia seu coração acelerar da forma mais aconchegante possível, por mais paradoxal que aquilo pudesse soar. Como podia alguém encaixar a própria cabeça na curva do pescoço de outra pessoa e se maravilhar com o quão agradável e pacífica parecia ser uma leve taquicardia? Ela não sabia se um dia iria conseguir uma resposta para aquela pergunta. Só tinha plena consciência de que vivia pelos momentos em que ele lhe arrancava o ar.
Mas não podiam viver nada daquilo. Não ali. Não lá fora. Não em meio a tantas pessoas que pareciam se recusar a entender que mesmo o mais famoso e célebre dos seres ainda era apenas uma pessoa normal à qual era de direito uma vida normal, com todas as suas felicidades, angústias, sofrimentos e pequenos prazeres. Ela tinha que pegar todos os seus impulsos, amarrá-los com o cuidado e a atenção aos detalhes que tinha uma criança aprendendo a amarrar os cadarços e guardá-los em um recipiente em qualquer parte profunda de si, repetindo para si mesma que poderia abri-lo mais tarde. Não era uma proibição, apenas um adiamento. Era uma pena que sentimentos fossem tão difíceis de serem calculados e contidos.
— Eu sei - ela confirmou, movendo a cabeça calmamente. — E eu valorizo muito isso, de verdade.
Encostaram as bicicletas em um muro aparentemente livre ali por perto e se sentaram em um banco de pedra gelada, após checar a ausência de dejetos de pássaros. Garantiram que nenhuma parte de seus corpos se tocasse, deixando entre si espaço suficiente para uma terceira pessoa de porte médio.
Aproveitaram a sombra conferida por algumas árvores e segundos andares de prédios para retirar os óculos escuros. fitou o plano à sua frente, repassando todo aquele dia em sua cabeça. Queria se lembrar da sensação da brisa bagunçando seus cabelos e da risada alegre dos turistas que atravessavam o canal, batendo fotos das construções coloridas. Precisava se agarrar ao fato de que seus músculos doíam felizes por terem retomado um hábito prazeroso. E quando percebeu que aquilo também era a representação da quebra de um ciclo e de um sentimento que advinha de um momento ruim, seus olhos marejaram em sintonia com o curso d’água a alguns metros.
— Ei, o que foi?
Ela abriu um sorriso largo, que apertava suas bochechas, sem mostrar os dentes.
— Obrigada, do fundo do meu coração por esse passeio.
Ela deu uma fungada leve, tentando não desabar ali mesmo.
— Meu pai me ensinou a andar de bicicleta e no começo era tudo muito legal e excitante, apesar de eu ter sido totalmente descoordenada nas primeiras tentativas. Mas ele sempre foi bastante duro com o que ele considerava fracasso ou um problema e chorar quando eu caía era um deles. Depois de vários “engole o choro”, eu comecei a só aceitar. E, tudo bem, eu andei de bicicleta por anos depois disso. Mas quando nossa relação piorou de vez, eu me afastei de tudo que associava a ele. Tinha uma negatividade enorme ao redor e eu só não tinha mais vontade de fazer nada daquilo.
Ele escutava cada uma de suas palavras atentamente, contendo os próprios impulsos de tomá-la nos braços, por mais que seu corpo parecesse implorar por aquilo.
— E só agora eu percebi que eu saí, pedalei e foi ótimo. Agora eu posso retomar um hábito que sempre gostei e substituir a conotação ruim por uma experiência agradável com alguém que é especial para mim.
deixou o próprio sorriso tomar o rosto.
— Então, quer dizer que eu sou especial para você?
bufou, enquanto secava as poucas lágrimas que haviam decidido escorrer das bochechas.
— Você é incapaz de não estragar os momentos legais - comentou, de forma risonha. — Mas tudo bem. Por hoje eu te perdoo. Você merece uma colher de chá.
— Mereço mesmo? Então se eu te pedir uma coisa você não vai recusar?
— Só de você falar assim eu já estou querendo recusar.
— Você podia me ensinar a dançar.
Ela travou por alguns segundos, esperando que ele risse e dissesse que estava apenas tentando criar um espaço de descontração, mas ele não o fez.
— Não, você não está falando sério.
— Estou sim. Por que não estaria?
— Eu não sou professora de dança. Eu fazia por hobby, não sou boa nisso. E você nem precisa da minha ajuda. Pensa que eu não vi o clipe de Treat People With Kindness?
— E ainda insiste que não é minha fã.
— Para a sua informação, a Mia me obrigou a ver porque ela é completamente obcecada por Fleabag e estava quase convulsionando desde que descobriu que a Phoebe Waller-Bridge ia aparecer no clipe.
— Mas você adorou cada segundo que eu passei na sua tela.
Ela revirou os olhos grandemente.
— Você é ridículo - disse enquanto pegava o celular, deparando-se com o horário. — Precisamos começar a voltar. Se eu não chegar a tempo de ajudar a Mia a escolher uma roupa para sair com a Emily, ela vai me matar e dar minhas tripas para os pombos.
— Meu Deus, elas vão sair? - praticamente gritou, chamando a atenção de um idoso por perto, que os olhou com o rosto contorcido em reprovação. — Finalmente!
— Eu tive a mesma reação. Eu nem acredito que esse momento finalmente chegou.
— Eles crescem tão rápido.
— Pois é. Mas, se a gente não se apressar, ela vai surtar, desistir e dizer que a culpa é minha.
— Certo, vamos então. Deixa só eu tirar uma foto sua em frente às casinhas. É importante para o álbum da turnê.
— Você vai insistir mesmo se eu disser que não, não vai?
— Com toda a certeza.
Ela concordou, então, dirigindo-se para a frente das grades enquanto tentava parecer minimamente espontânea e fingir que não estava percebendo a lente da câmera de virada para si.
Em um canto um pouco mais afastado, outra câmera garantia que eles não fossem os únicos a ter recordações daquele momento. Na manhã seguinte, a notícia já estaria espalhada por toda a parte, entregue aos blogs de fofoca e às colunas pouco informativas.

“Será que tem casal novo na área?”
“Quem nos acompanha sabe que essa não é a primeira vez que vemos e , sua estrela recém-descoberta e show de abertura de sua turnê, juntos e pensamos que eles dariam uma bela dupla também fora dos palcos. Já falamos sobre a química intensa que eles exalam quando cantam juntos desde a sua grande estreia, construindo duetos tocantes de ‘lovely’ e ‘Two Ghosts’, a canção do britânico que foi a responsável por esse encontro.
Dessa vez, os dois foram vistos passeando em bicicletas alugadas pela capital dinamarquesa, onde performaram um show memorável ao seu público na noite anterior. Turistas e passageiros que passaram por eles disseram que os dois pareciam em bastante sintonia e se divertindo, sempre rodeados de risadas e brincadeiras mútuas. Alguns fãs sortudos conseguiram fotos com os artistas e disseram que eles se mostraram bastante simpáticos e solícitos, realmente dispostos a atendê-los.
Aparentemente, ninguém viu nada além dessas conversas e gargalhadas. Mas é claro que nós já estamos pensando se não poderia haver algo a mais ali.
De qualquer forma, estamos de olho nos possíveis novos pombinhos.
Os próximos shows da Love On Tour ocorrerão na Alemanha, passando por Hamburgo e Berlim. Talvez até lá tenhamos novas informações. Ficaremos de olho!”


Capítulo Quatorze

“Oh, I don’t know what you’ve been told
But this gal right here's gonna rule the world
Yeah, that is where I’m gonna be because I wanna be
No, I don’t wanna sit still, look pretty”

Sit Still, Look Pretty - Daya



— A gente precisa sair e… Que merda é essa?
Mia tinha os antebraços no chão, com as mãos ajudando a apoiar a cabeça, enquanto suas pernas utilizavam todo o tônus muscular possível para se sustentarem dobradas naquela estranha posição. ficou ligeiramente tonta só de pensar na sensação de ter todo o seu sangue descendo de uma só vez para a cabeça.
— Yoga matinal - a amiga respondeu, com a voz engasgada. — Também conhecida como a minha tentativa de fazer minha coluna e minha sanidade mental não me abandonarem no meio dessa correria absurda.
A outra moveu a cabeça lentamente, concordando enquanto tentava conceber o que estava acontecendo ali.
— E você precisa ficar de ponta cabeça assim?
— Para fazer a shirshasana, sim.
— Vou fingir que entendi o que você disse. Enfim, precisamos ir.
— Aonde?
não acreditava em como a memória da amiga decidia passear pelo cômodo, brincando pelas paredes e móveis sem dar a mínima para o fato de que precisava retornar para sua dona.
— A sessão de fotos, Mia. Pelo amor de Deus, foi você quem agendou.
— Puta merda, eu juro que não esqueci.
— E é por isso que você está com roupa de yoga parecendo uma contorcionista sendo que temos que sair em cinco minutos - concluiu. — Sim, faz sentido.
— Vaza daqui. Vou tomar um banho rápido e te encontro na porta.
— Não enrola.
— Quanto mais você ficar aqui dentro falando, mais eu vou demorar, idiota.
piscou espaçadamente algumas vezes, concebendo a porta fechada em sua cara depois de ser literalmente empurrada para fora.
— Parece que alguém foi enxotada.
Ela se virou, dando de cara com Emily já arrumada, como sempre. Usava uma calça jeans estilo boyfriend rasgada e uma blusa simples por dentro. O iPad e a prancheta, como de costume, já estavam em suas mãos, juntamente ao seu sorriso matinal de quem era a única pessoa com um cronotipo favorável para estar acordada tão cedo sem que seu corpo estivesse urrando de desespero internamente até aceitar seu doloroso destino.
— Mia está sendo um doce como de costume - respondeu.
A produtora deu uma risadinha discreta, enquanto ajeitava as próprias tranças, dividindo-as entre os ombros.
— Não acredito que ela esqueceu - comentou. — Ela praticamente só falou disso nos últimos dois dias.
deu de ombros.
— Ela é assim mesmo. Passa a semana se lembrando das coisas a cada segundo para esquecer dois minutos antes. Você se acostuma. Ou pelo menos aprende a aceitar.
Emily concordou, com um sorriso gracioso.
— Bom, vou te dizer o que acabei já dizendo para ela. Já trabalhamos com essa equipe fotográfica antes em alguns ensaios e eles são super tranquilos e dispostos até a alterar as coisas para que você fique o mais confortável possível. Até porque, no fim das contas, isso impacta diretamente no trabalho deles e eles não vão querer fotos ruins para enviar para a publicação da revista.
aquiesceu com um movimento singelo. Ninguém queria se queimar em seu próprio ramo, mesmo que isso significasse ceder - e às vezes mais do que parecia justo.
— Então, se você sentir que não está rolando, sinta-se livre para avisá-los. De verdade, é só conversar com eles tranquilamente que eles vão dar um jeito de acertar as coisas e melhorar a situação.
— Entendi. Obrigada pelo toque.
Sua sinceridade transparecia e transpirava por cada um de seus poros. Estava grata a quem fosse que tivesse inventado o corretivo, a base e tantos outros produtos para a pele, pois precisaria de todos eles para esconder as olheiras de nervosismo insone por enfrentar mais aquela novidade em sua vida. Àquela altura, qualquer conselho, dica ou palavra de conforto, por mais clichê que fosse, já era de grande proveito.
Semanas atrás, jamais esperaria participar de um ensaio fotográfico que não fosse o de sua formatura e este seria simples, com beca e capelo fixos, poses previamente decididas como padronização da turma e um sorriso decente apenas para que seu álbum não ficasse catastrófico. Mas era ela quem o veria. No máximo outras vinte pessoas teriam aquele registro - e o perderiam no fundo de um armário qualquer para ser lembrado apenas dali a vários anos, quando a posteridade e os filhos chegassem e as memórias nostálgicas pudessem superar qualquer resquício de vergonha que ainda fluísse pelas lembranças eternizadas na impressão daqueles momentos.
Mas não. Ela estaria em uma revista que circulava, basicamente, por toda a Europa. Suas imagens iriam para o site deles e alcançariam cada indivíduo com acesso a internet. Mia provavelmente as divulgaria como pudesse também. Era apenas um bate-papo curto e algumas fotos que estariam ali no meio e ela já estava suando frio. Nunca poderia admitir para a melhor amiga que, ao menos naquele momento, estava torcendo para nunca ser convidada para uma capa. Não suportaria caminhar pelas ruas e se deparar com o próprio rosto retocado espalhado em uma banca qualquer. Tudo ainda parecia surreal demais.
E era pujantemente paradoxal como, ao mesmo tempo em que as situações novas pareciam grandes demais, ela também parecia muito longe de conseguir compreender sua dimensão para conceber o impacto disso em sua realidade e digerir os estilhaços oriundos dos escombros de tudo o que ela costumava chamar de normalidade.
Era quase como um vitral à sua própria maneira. Grande, colorido, belo e imponente de uma forma quase assustadora - ou bizarramente amedrontadora, na maior parte do tempo -, com vários pedacinhos pequenos e quase indistinguíveis entre si sob um olhar superficial e pouco cauteloso que talvez não se desse conta de que a beleza imediata era composta de cacos.
— Pronto. Podemos ir. - A voz de Mia a raptou de seu momento de introspecção e desespero em antecipação, trazendo-a de volta à realidade que ela sempre tentava se convencer de que conseguiria enfrentar. Tinha de admitir que estava fazendo um trabalho relativamente bem decente em relação às suas expectativas presas no subsolo de um prédio mal aterrado.
— Boa sorte - Emily desejou com um sorriso amigável e honesto. — Qualquer coisa, me liga.
O último aviso havia sido dirigido diretamente a Mia e acompanhado de um selinho rápido que obrigou a angariar todo o seu talento cênico para sustentar a maior cara de paisagem já vista em todo o universo enquanto caminhavam até o elevador e deste para o carro que as aguardava.
Confortavelmente recostada no banco de couro preto do carro, ela finalmente esboçou um sorriso que foi fácil e imediatamente percebido por aquela sentada ao seu lado.
— Eu vou te matar.
— Mas é que vocês são tão incríveis juntas. É difícil não surtar de felicidade sempre que eu vejo esses momentos.
— Está falando da senhorita Stevens e da senhorita Thomas? Porque se for, eu concordo plenamente - o motorista afirmou. — Como Amelia sempre diz, eu shippo.
acabou rindo da expressão usada, recebendo um olhar reprovador da amiga.
— Obrigada pelo apoio, Milo - Mia agradeceu.
— Mas o meu você não agradece.
— Se você abrir a boca de novo, vão ter que te arranjar uma maquiagem que combine com olho roxo.
A garota gargalhou, permitindo que a cabeça pendesse levemente para trás, limitada pela presença do encosto do assento. Mia tinha duas fases em qualquer relacionamento: a fase boba apaixonada em que aquele se tornava seu assunto principal em qualquer roda de conversa e a fase marrenta, que ameaçava distribuir múltiplas agressões a quem fizesse o mesmo. Em condições normais de temperatura e pressão, elas costumavam coexistir em um perfeito e (des)equilibrado caos.
— Você sabe que eu só estou absurdamente feliz de te ver contente com alguém, não sabe? Ainda mais alguém como ela, que nós duas sabemos que é basicamente a projeção de Afrodite e Atena simultaneamente em meio aos pobres mortais que jamais tocariam os deuses.
— Nós podemos ter filhos e começar uma saga paralela a Percy Jackson. Rick Riordan e Disney Plus não perdem por esperar.
, risonha, puxou a mão da amiga para si, oferecendo-lhe um aperto leve. Seguido de outro. E mais outro. A tradição dos três apertos havia começado há anos sem que soubessem exatamente quem havia se apropriado do gesto primeiro. Servia como um lembrete de que uma estava ali para a outra, independentemente do quão difícil fosse o momento, e não pretendia sair.
— Eu estou mesmo muito feliz por vocês. E pelos seus filhos semideuses.
Mia sorriu, finalmente dando o braço a torcer e permitindo a transparência de seus próprios sentimentos.
— É, eu também estou.
Milo se despediu cordialmente das duas, avisando que estaria de volta em algumas horas. Mia segurou a mão da amiga com força, enquanto esperava que ela respirasse profundamente.
— Vai dar certo - garantiu.
assentiu, com um sorriso incerto que, ainda sim, passava mais segurança do que ela realmente sentia em seu interior.
Caminharam a passos largos para o interior do local cujo endereço lhes havia sido passado, como se a velocidade fosse garantir que acabassem com aquela espera ansiosamente dolorosa logo. Era como se decidir por arrancar o band-aid de uma vez só, já que a dor era inevitável.
— Ah, bom dia, bom dia, bom dia! - Um homem esguio com sotaque carregado cumprimentou ao vê-las. — Sou Hadrian, sejam bem-vindas ao nosso estúdio.
A cantora mal teve tempo de esboçar qualquer tipo de resposta ou reação, sendo arrastada para uma cadeira por duas maquiadoras e um cabeleireiro que trabalharam simultaneamente em seu visual, conseguindo deixá-la pronta em um tempo recorde que, até aquele instante, teria julgado impossível. Ao se olhar no espelho, enfrentou o misto de choque e descrença ao ver quanta maquiagem havia sido colocada em tão pouco tempo. Se estivesse sozinha, provavelmente ainda estaria tentando acertar a porcaria do delineado e falhando miseravelmente até parecer um urso panda ou um guaxinim.
Vestiu o macaquinho laranja de mangas curtas e calçou os tênis brancos simples. Com o cinto largo alaranjado apertado, seguiu para a frente do painel branco preparado.
Tudo o que ela via era luz. Ofuscante e brilhante demais.
Esperava só viver essa sensação quando estivesse se encaminhando para seu leito de morte, mas, por mais que não tivesse intenção alguma de seguir a luz, suas pupilas respondendo em miose, obrigando suas pálpebras a se encostarem um pouco mais em um abraço quase consumado não escondiam seu desconforto.
— Vamos abaixar um pouco a luz, não se preocupe. Sei que dá um susto de primeira - Hadrian tentou confortá-la. — Pronto. Melhor, não?
Pior não tinha como ficar, ela pensou. Mas aquela não era uma mudança grande o suficiente para que ela parasse de sentir seu coração pulsando nas artérias de seu pescoço como se estivesse buscando uma rota de fuga, ainda mais desesperado do que ela sob aquelas condições extenuantes.
Sem enxergar muita opção, ela apenas engoliu em seco, devolvendo seu músculo cardíaco para o lugar enquanto assentia com um movimento rápido e curto em amplitude.
Hadrian se aproximou, trazendo consigo uma câmera que ela não precisava entender para saber que era o ápice do profissionalismo tecnológico da área e encontraria um jeito de desenvolver uma resolução altíssima inédita só para encontrar seus poros recém-cobertos por base. Pelo menos não havia como ampliar uma revista.
Mas era fácil como contar até três fazê-lo na internet e, logo, estava sentindo seu corpo se aproximando inevitavelmente de um abismo mais uma vez, como se estivesse caminhando pela prancha de um navio pirata prestes a ser despejada para os tubarões.
Precisava encontrar outra coisa para se atentar. Outra coisa para prestar atenção, para parar de pensar no que não deveria e escapar daquele labirinto vicioso. Seus olhos nervosos encontraram a câmera mais uma vez, focando em como aquela lente parecia precisa. provavelmente saberia exatamente a numeração e a marca e como lecionar uma mini palestra de todas as suas utilidades e funcionalidades. Finalmente conseguiu respirar. Profundamente. Cada vez com menos cortes e tremores.
— Nosso objetivo aqui é mirar na espontaneidade, certo? - O fotógrafo gesticulava a cada palavra. — Nossa preocupação maior é o rosto. Sobre o corpo, pense no palco e na postura e na confiança que mantém nele.
Se ao menos ela tivesse um piano ali, poderia colocar em prática o que sua linguagem corporal desenhava no palco. Com certeza seria bem mais fácil.
Tomou alguns minutos para arrumar a coluna, fazer poses movimentando os braços e mudando sua expressão minimamente. Pensou em todas as modelos maravilhosas que via nas capas de revista e como o objetivo sempre parecia compor a dualidade carão e corpo alongado. Talvez fosse aquilo que eles desejavam. Era simples e certeiro. Faria sentido.
— Tente relaxar mais os ombros, querida - Hadrian sugeriu, mantendo a simpatia. — Pode ficar bem à vontade.
A verdade é que ela não sabia como se posicionar. Estava com medo de dar um passo para trás sequer, pisar na base do painel e derrubar tudo. Não sabia como se dobrar sem ter medo de tornar seu corpo desproporcional em determinados lugares ou acabar com a visão que a revista almejava com aquela roupa especificamente escolhida. Estava travada. E não havia óleo no mundo que pudesse ajudá-la.
Mas, claro, sempre haveria Mia.
— Isso não está dando certo. É complicado só com esse fundo branco, especialmente para alguém que nunca fez isso antes. Não tem algum cenário ou alguma coisa que possamos usar para ter alguma interação e facilitar o trabalho?
Hadrian interrompeu seu movimento, esticando o corpo antes de repassar os poucos cliques que havia conseguido. Não era o que eles esperavam.
— Temos uma área lá fora - contou. — Era nosso plano B, na verdade. Seria o A se a previsão do tempo não tivesse marcado noventa por cento de chance de chuva durante a manhã.
Mia concordou imediatamente.
— Se não for muito incômodo, acho que podemos tentar.
— Vamos levar o equipamento lá para fora e arrumar a luz. As meninas vão corrigir sua pele enquanto isso, para o ambiente externo.
Hadrian se retirou de forma ágil, acompanhado de sua equipe, deixando-as para trás.
— Meu Deus, eles devem me odiar - murmurou. — Vão fazer um exposed meu dizendo que meu comportamento é de diva antes mesmo de ter uma carreira.
Uma das maquiadoras deu uma risadinha, enquanto corrigia a luminosidade de sua tez.
— Não se preocupe, de verdade. Já passamos por cada situação que você não faz ideia. No seu caso, todos só queremos as melhores fotos. É um objetivo coletivo. Não é como se você estivesse surtando porque não tem água com pepino.
— Meu Deus.
A mulher assentiu, com as sobrancelhas erguidas e um revirar de olhos.
— E, acredite, você sabe quem é.
Ela tinha mesmo alguns palpites em mente, mas já tinha causado desconforto o suficiente para arriscar um chute e uma confirmação ou sequer uma resposta que pudesse prejudicar a pessoa que só estava tentando lhe acalmar e lhe confortar - e à qual ela era extremamente grata por isso.
— Você fica bem de laranja - Mia comentou, mudando de assunto.
— Não era você quem dizia que ninguém fica bem de laranja?
A outra deu de ombros.
— Uma exceção, grande coisa. Ainda é a única vez na vida em que eu errei. A gente sabia que, infelizmente, uma hora esse momento chegaria.
Uma das assistentes de Hadrian retornou, solicitando que a seguissem. Após alguns segundos de adaptação à luz solar, finalmente absorveu o ambiente em que se encontravam, dando uma risada na sequência.
— Faz séculos que eu não vou a um desses.
— Então - Hadrian interveio. — O que acham?
— Perfeito - Mia respondeu, com um sorriso. — Muito obrigada.
— Não foi nada - ele garantiu. — Pode escolher por onde quer começar - disse, dirigindo-se à sua modelo do dia.
Ele não precisou dizer duas vezes. agradeceu pelos tênis confortáveis enquanto subia correndo as escadas que a colocaram no topo de uma pequena casinha aberta cuja delimitação anterior terminava em um escorregador colorido.
Sentou-se ali, com as pernas dobradas, apoiando o queixo no cotovelo.
— Lembre-se: espontaneidade - Hadrian a lembrou.
— Ajuda se eu entrar em um daqueles momentos ‘olhando para o nada e pensando em tudo’?
Ele aquiesceu, rindo.
— Vou aderir à expressão.
Ela virou a cabeça para o lado, buscando a imagem de alguém que estava apenas absorta em si mesma, apreciando a paisagem. Não era uma meta difícil de ser atingida quando tudo ali era realmente interessante; desde a cobertura de grama sintética incrivelmente realista até a caixa de areia em formato de tartaruga.
O fotógrafo foi sinalizando conforme obtinha boas capturas de imagem, pedindo que ela prosseguisse com a exploração do ambiente - a qual ela deu continuidade sem vestígio algum de hesitação.
No fim das contas, foram para a revista em montagem uma imagem sua sentada no escorregador e uma de cabeça para baixo, pendurada pelos joelhos na escada de um dos brinquedos, gargalhando enquanto cambaleava sobre a linha tênue oscilante entre a diversão e a dolorosa certeza de que ela provavelmente cairia se demorasse mais um segundo sequer naquela posição. Acompanhavam o título: : entre o jeito de menina e o sucesso astronômico” e uma curta entrevista falando sobre a novidade e a excitação de estar em uma turnê mundial - ainda mais daquela dimensão - e sobre as expectativas do seu primeiro álbum depois da guinada absurda que havia mudado sua vida por completo da noite por dia.
E, contente com o resultado, ela tomou uma decisão que, finalmente, tinha confiança de que conseguiria cumprir: manteria-se distante da repercussão. De preferência, acima dela.


❀❀❀



se assustou com o vazio de uma forma nem um pouco poética e longe de pegar carona em uma metáfora adequada ao ultrarromantismo. O silêncio era tão intenso que ela era quase capaz de ouvir o som de seus olhos se estreitando.
— Cadê todo mundo?
Mia trancou a porta atrás delas antes de respondê-la com uma ordem:
— Vai trocar de roupa.
— O quê?
— A gente vai sair.
— Para onde?
— Não importa - a amiga a cortou. — Mas coloque uma roupa confortável.
— Eu estou morta. A gente pode fazer isso outra hora?
Mia a fuzilou.
— Que hora? Quando você estiver no palco no meio do show? Eu te tiro pelos cabelos e te arrasto comigo?
permitiu que a cabeça pendesse para o lado, trazendo a orelha para mais perto do ombro em um sinal contemplativo e reflexivo que mais a fazia parecer um filhote de golden retriever tirando suas próprias conclusões acerca do mundo do que uma jovem com seus vinte e poucos anos.
— Não parece uma ideia tão ruim assim - concluiu.
— Não me testa. Preciso me trocar também. Eles já estão lá embaixo nos esperando, então não enrola.
Dando-se por vencida e cedendo, como sempre, à curiosidade - um pequeno desvio de caráter do qual ela provavelmente jamais conseguiria se livrar -, ela seguiu para o quarto encontrando uma calça jeans de cintura alta e desfiada na altura dos joelhos e uma cropped cinza com ilustrações angelicais que poderiam facilmente se passar por obra de Michelangelo no topo da Capela Sistina - em uma versão comerciável e, ela deveria admitir, bem barata.
— Ei, essa blusa não é minha? - Mia a questionou enquanto o elevador começava a se movimentar.
— Não. E você precisa parar de tentar usar mentiras para me fazer te dar as roupas que você gosta.
— Bom, não custa tentar. Quem sabe um dia dá certo.
Seguiram diretamente para o estacionamento, encontrando o automóvel com capacidade aumentada e um motorista que, admitiu, deveria estar substituindo Milo para que este pudesse descansar depois de basicamente ter perdido um dia esperando que ela tirasse as fotos.
Seu coração pareceu sorrir antes mesmo que sua musculatura da mímica fosse capaz de receber os estímulos nervosos para fazê-lo. As covinhas nas quais ela tanto apreciava se perder apareceram para lhe cumprimentar.
se inclinou levemente, dando-lhe um beijo carinhoso na bochecha.
— Bom dia - ele cumprimentou e ela soube imediatamente que aquela intervenção nada tinha a ver com o horário que ela encontraria no visor do celular.
— Posso saber para onde vamos?
Ele sorriu de forma presunçosa.
— Mas é claro que não. Tire suas próprias conclusões.
— Bom, estamos basicamente em duplas, então assumo que seja uma orgia.
— Bem que eu queria - Adam comentou. — Mas é mais um rolê de casal do que isso.
— E como a Emily não podia vir, eu tenho o amor da minha vida - Mia disse, abraçando Adam lateralmente.
— Sem esse discursinho que todo mundo sabe que eu sou a sua segunda opção.
Mia deu de ombros, piscando os olhos inocentemente.
— Pelo menos é a segunda.
— Um pouco de amor é melhor do que nada - citou a própria música, fazendo a garota revirar os olhos.
— Enquanto você não me der uma versão de estúdio, eu desconsidero todos os seus direitos autorais sobre essa merda - Mia reclamou. — E sobre Medicine. E Anna.
— No dia em que o liberar a versão de estúdio de Medicine, o mundo acaba - Sarah interveio.
— Vocês têm que entender que é uma música pensada para o palco. Ela não se encaixou nos álbuns - o cantor se justificou, recebendo um longo revirar de olhos de sua fã mais crítica.
— Eu não te pedi um álbum - ela rebateu. — E se você não quiser gravar a música em um estúdio como uma pessoa normal, você pode simplesmente disponibilizar nas plataformas digitais uma versão de qualidade da performance ao vivo. Muitos artistas fazem isso.
— Vou pensar no seu caso.
— Ele não vai - Adam se intrometeu, recebendo um aceno em concordância de Mitch e um olhar reprovador de .
— Será que a gente pode, por favor, mudar de assunto? - pediu, entremeando os próprios dedos sobre o colo.
— Com certeza - respondeu prontamente. — De preferência de volta para a pergunta: para onde estamos indo?
— Já que você insiste em saber, eu te dou uma dica. Lembra quando você disse que não dirigia porque tinha medo?
A garota franziu o cenho, expressando sua confusão em cada milímetro enrugado de seu rosto perdido.
— Não.
— Você estava meio bêbada, é compreensível - Mitch comentou, de forma risonha. — Foi na festa.
— O lindo momento em que eu apareci e fiz a vida de cada um de vocês muito melhor - Mia lembrou. — Vocês são tão sortudos.
— Daí eu falei que tinha medo de dirigir? - retomou o assunto principal, verificando se havia entendido corretamente aquilo que suas memórias quimicamente entorpecidas se recusavam em lembrar.
Sarah assentiu, deixando-a ainda mais confusa.
— Por que eu falei disso?
— Como se você não soubesse que conta a vida inteira depois de beber - Mia brincou. — Aliás, acho que chegamos.
Os seis desceram do automóvel, observando o local repleto de luzes coloridas que piscavam com tamanha intensidade que provavelmente demandavam um aviso de luzes estroboscópicas para indivíduos com epilepsia fotossensível, autismo e outras condições de reação semelhante ao cenário.
— Já que você já se divertiu na versão miniatura mais cedo, pensei que fosse ser legal virmos para a maior.
Sarah e Mitch estavam de mãos dadas, debatendo onde iriam primeiro. Adam e Mia estavam ocupados demais discutindo quem conseguiria comer mais salsichas com mostarda. , como sempre, só tinha olhos para ela, ansioso por cada esboço de reação frente àquela surpresa que, por mais que ele não fosse se gabar verbalmente, havia planejado há dias, passando cada um deles praticamente se contorcendo de ansiedade e odiando cada segundo em que precisava convencer a si mesmo e aos amigos a se comprometer com o esforço de manter a boca fechada.
— Mas as pessoas não vão te reconhecer?
Sua preocupação era palpável. Não por ela, mas por ele. Por sua tão preciosamente protegida por uma redoma privacidade.
simplesmente deu de ombros, decidido a se permitir viver um pouco, ao menos naquela noite.
— Os ingressos são limitados ao longo do dia e a maior parte das pessoas já foi embora a essa hora - explicou-se. — Eu pesquisei sobre isso. Acho que, no máximo, vamos ter que tirar algumas fotos.
sorriu, antes de comentar:
— Para quem já tirou tantas, mais algumas não vão doer.
Ele sorriu de volta, encaixando as mãos nos bolsos da calça como um lembrete de que precisava negar qualquer instinto e vontade natural de estendê-las em busca das dela.
Os seis caminharam juntos até a entrada, estendendo seus ingressos a uma senhora simpática que os recebeu como se fossem pequenas crianças deslumbradas ao visitar a Disney na Flórida pela primeira vez.
— Então, por onde começamos? - o questionou.
— Pensei que você já saberia depois da dica que eu dei no caminho.
Seus olhos se estreitaram em confusão, aguardando que ele se explicasse.
, por que você tem tanto medo de dirigir?
Ela precisou de alguns segundos de reflexão para formular a sua resposta.
— Não sei. É medo por medo, eu acho. Medo de perder o controle, bater… Sei lá.
— Pois é. Daí eu pensei: ‘por que não irmos ao único lugar no mundo em que esse é literalmente o objetivo?’.
E foi então que ela viu, alguns passos à frente do lugar até o qual tinham caminhado, a representação lúdica e absolutamente insana de um de seus mais injustificáveis temores.
— Eu definitivamente não vou entrar nisso.
— Por que não? Tem uma criança da metade do seu tamanho ali dentro.
— E aparentemente uma do dobro da minha altura também - ela apontou, vendo Adam entrando correndo na fila e puxando Mia com ele.
gargalhou, enquanto meneava a cabeça. Deu alguns passos à frente, colocando-se de forma inquisitiva em sua direção.
— Sabe o que eu acho?
— Tenho a impressão de que você está prestes a me dizer.
— Que você só não quer ir comigo nos carrinhos de bate-bate porque está silenciosamente morrendo de medo de que eu seja infinitamente melhor que você.
deu um sorriso irônico.
— Não sei se você sabe, , mas não existe vencedor no bate-bate. Isso não é uma competição.
— Tem certeza?
Seu tom era desafiador, mantendo seu timbre arisco, sem quaisquer oscilações. Obviamente ela estava certa - ele sequer se lembrava de algum momento nas últimas semanas em que ela não estivesse -, mas ele não estava disposto a desarmar aquele jogo. Se havia uma forma de convencer a fazer alguma coisa, com certeza essa forma incluiria cutucadas nada leves e pouquíssimo discretas em seu instinto competitivo.
— Eu vou te dar uma surra - ela murmurou e, em seus dez segundos de coragem insana, ocupou seu lugar na fila.
a seguiu, engolindo o ímpeto de cantar vitória antes da hora. Mia recebeu a amiga com um abraço animado, contente por vê-la ali.
Não demorou para que a responsável pela atração retirasse as pessoas que antes ocupavam os carros coloridos com estampas metalizadas e os colocasse para dentro.
— Vocês dois estão patéticos - Mia caçoou ao ver e Adam com os joelhos tão altos, tentando fazer toda sua altura caber em um carro pequeno.
— Vamos ver se você vai continuar me chamando de patético quando eu te encurralar em um desses cantos - Adam devolveu.
arregalou os olhos, sentindo as palmas das mãos suando frio contra o volante a que se agarrava com a firmeza de alguém que acreditava piamente que toda sua vida dependia daquilo.
— Vão com calma - pediu, em um lembrete silencioso que logo fez os outros dois também conterem seus ânimos.
— Divirtam-se - a mulher disse, finalmente fechando o pequeno portão de entrada.
puxou o cinto, verificando se estava bem presa.
— Tudo bem? - perguntou, aproximando seu carro do dela.
Uma das coisas que ela achava mais fascinantes na neurociência era o fato de que, dependendo da distância entre os neurônios, da presença mielinizante para o impulso saltatório e do tempo de reação entre cada indivíduo, o estímulo, sua leitura e o plano de ação se integravam em uma ínfima fração de segundos; tão rápida que mal era possível se tomar consciência de seu processo até que ele já estivesse completo há tempos. Era esse o motivo para tão rapidamente sua conduta entre aquelas quatro grades ter mudado da água para o vinho, enquanto ela acelerava com vontade na direção do carro de e se chocava contra ele, sentindo seu corpo sendo lançado para frente e para trás, reagindo como um chicote à inércia e ao impacto.
ergueu o rosto, devidamente chocado, antes de dizer pausadamente:
— Eu te odeio.
Mas já estava rindo continuamente, enquanto pegava o jeito e a sensibilidade da resposta aos movimentos de seu volante, dando um jeito de perseguir Mia.
Antes de conseguir bater na amiga, contudo, o baixista encontrou sua traseira antes mesmo que ela pudesse se dar conta de sua presença. Seu instinto competitivo vinha acompanhado de um charme especial: a sede por vingança. Tão logo conseguiu alterar sua rota, estava correndo atrás de Adam, decidida a fazer seus joelhos vacilarem contra os braços.
Logo a amiga apareceu, vindo do lado oposto, de forma que ambas o encurralaram, tornando-o o recheio de um estranho sanduíche. apenas riu ao longe, ouvindo cada um dos palavrões que Adam havia acrescentado à sua extensa lista de xingamentos preparada com muito carinho ao longo de sua vida.
A cada tranco, a cada pressão que seu cinto de segurança fazia em seu ombro e a cada curva errada que acabava fazendo com aquele volante horrível ela ria ainda mais. Vários fios de cabelo haviam ido parar em sua boca, bochechas e olhos, enquanto outros coçavam seu nariz. A região occipital de seu crânio doía levemente depois de todas as pancadas e cada uma das articulações de seus dedos parecia latejar enquanto se tornavam esbranquiçadas à força do aperto. E ela soube que há muito tempo não ria daquele jeito, sem precisar de motivos ou de autocontrole porque alguém poderia ver. Há muito não se permitia a risada mais pura e genuína da criança que escondera, possivelmente cedo demais, dentro de si. E aqueles três patetas poderiam nunca ouvir de sua boca aquilo com todas as letras, mas ela estava irreparavelmente grata por poder compartilhar aquele momento com eles.
Quando seu tempo acabou e foi o tempo de a próxima leva de pessoas usufruir do brinquedo, eles desceram, tirando fotos com um casal jovem antes de seguir seu próprio caminho.
— Vocês perderam - Adam comentou, quando Sarah e Mitch voltaram a se unir ao grupo.
— Sarah estava com fome - Mitch justificou, apontando para o cachorro quente que ela terminava de comer.
— Não vou oferecer, sinto muito - disse prontamente. — Como foi?
— Pergunta para a pessoa que ficou me caçando - Adam reclamou de forma brincalhona.
ainda estava levemente corada, recuperando o fôlego depois de tanto rir.
— Aparentemente colisões são um talento nato meu.
— Olha o que eu comprei - Mia berrou animadamante em suas orelhas, fazendo com que eles finalmente percebessem que ela havia saído de lá.
— Quantos anos você tem? Cinco? - perguntou, olhando o saco de algodão doce colorido em suas mãos.
— Seis - ela disse enquanto o açúcar derretia em sua boca. — E não vou dividir com você depois da grosseria gratuita.
— Isso não é justo - ele reclamou, ao vê-la distribuindo o doce para todos, exceto a ele.
— Na verdade, você mereceu - Mitch falou.
se distraiu por alguns instantes, enquanto usava as pontas dos dedos para puxar um pedaço do algodão doce e levá-lo à boca. Quando deu por si, tinha os olhos brilhantes de sobre ela, tão suplicantes quanto os de um gatinho.
— Não - murmurou.
— Qual é? Você não é egoísta assim.
Ela pegou o resto de seu pequeno punhado, colocando-o inteiro na boca e sentindo sua quantidade se esvair, resumindo-se a flocos açucarados contra a língua.
— Ops.
— Eu devia ter vindo sozinho.
— Para quê? - Mitch questionou. — Para terminar virando um meme da internet perguntando ‘liberdade ou solidão’?
— Com esses amigos incríveis, vai ter que ser solidão mesmo.
Seus parceiros de banda continuaram em seu pé, imitando uma voz infantil e mimada enquanto ele revirava os olhos, segurando a própria risada para não ceder à implicância. Era assim que o grupo funcionava, no fim das contas, exatamente como vários irmãos cuja única função, sob o mesmo teto, era testar a paciência do outro ao extremo, apenas para reafirmar o seu amor e companheirismo.
Caminharam até as barracas de jogos com prêmios, dividindo-se de acordo com seus próprios interesses nas prendas. puxou para o tiro ao alvo que tinha vários bichinhos de pelúcia pendurados pelo alambrado ao redor.
— Qual deles você quer?
— Você não precisa ganhar um bichinho para mim, - ela respondeu imediatamente.
— Eu vou ganhar para mim. Só quero saber qual você quer para poder te fazer inveja por você não ter me dado um pedaço do seu algodão doce.
— Você é uma pessoa horrorosa.
— Pois é. A gente se parece até nisso.
Ela respirou profundamente, inflando as bochechas enquanto expirava o ar em um sopro contido e tamborilava os dedos contra o balcão. O rapaz que cuidava do estabelecimento bocejava de tédio enquanto aguardava pelas fichas que o cantor amassava entre os dedos.
— O elefante azul - ela decidiu por fim.
— Então é ele que eu vou ganhar, moço - ele disse, estendendo as fichas.
O rapaz as guardou em um cesto embaixo do balcão, entregando a ele cinco dardos.
— Você tem cinco chances - o rapaz começou a explicar, com um tom de voz tão monótono e embebido em sonífero que a fez cogitar a possibilidade de contágio de sua fadiga. — Se acertar o centro vermelho, pode escolher um dos prêmios maiores. Se acertar o halo preto em volta, ganha um dos pequenos. Qualquer outro lugar e você perde. Alguma dúvida?
— Centro vermelho para o elefante azul, certo? - confirmou, recebendo um aceno de cabeça preguiçoso em resposta. — Ótimo. Vai ser moleza.
Ele errou o primeiro arremesso, passando vergonhosamente longe de qualquer parte passível de ser atingida do alvo. E não era um alvo pequeno.
— Se acalma - comentou.
— Eu só estava me aquecendo - ele garantiu. — Era só para dar um pouco mais de emoção à coisa toda.
— Tenho certeza que sim.
Mantendo toda sua confiança implacável, ele tentou novamente, conseguindo fazer com que o dardo se prendesse ao alvo por pouco, pendurando-se como um berloque decorativo em seu limite externo.
— Ainda tenho três chances - lembrou, antes que ela pudesse sequer fazer menção de dizer qualquer coisa.
Ela apenas assentiu, mantendo-se em silêncio absoluto para não estourar a bolha de concentração em que ele acabara de se envolver.
O terceiro dardo atingiu o extremo oposto do segundo. Se aquele fosse um jogo geométrico de como alinhar aqueles protótipos de flecha, ele com certeza teria ganhado com facilidade e maestria.
— Caralho - murmurou entre dentes em reclamação.
respirou fundo, ponderando se deveria intervir. Não queria soar petulante ou arrogante e, com certeza, não queria magoá-lo. Mas também não queria que ele desperdiçasse dinheiro naqueles arremessos vergonhosos, mesmo que as notas coloridas europeias não significassem muita coisa para ele.
?
— Minha mira é uma bosta, eu sei - ele completou imediatamente.
Ela arriscou um sorriso doce e compreensivo, que derreteu seu coração no mesmo instante em que foi retribuído de forma equivalente.
— Acho que não vou ganhar o elefante azul para você no fim das contas.
arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
— Pensei que fosse ganhá-lo para você.
— Não pensou, não.
Ela riu, aquiescendo.
— Mas talvez eu possa ganhá-lo para você. Posso?
Suas mãos se estenderam, pedindo pelos dois dardos ainda disponíveis. Suas últimas chances.
não parecia mais sustentar tanta certeza agora que sua confiança havia lhe acenado um trágico adeus.
— Certeza?
Ela deu de ombros.
— Acho que posso ser boa nisso - justificou-se. — E não temos muito a perder mesmo.
Ele concordou, entregando-lhe os dardos por fim. O responsável pela barraca parecia ter atingido um nível inédito de tédio, sem forças nem para implorá-los para irem logo e devolverem sua paz.
inspirou o ar com calma e profundidade, prendendo-o um pouco antes de soltá-lo de maneira vagarosa. Pinçou o dardo com os dedos de sua mão dominante, aproximando-os de seu campo de visão e apertando um pouco o olho contrário como se aquilo fosse ajudá-la a enxergar melhor. Simulou o movimento algumas vezes antes de disparar.
— Você garantiu o prêmio menor - o rapaz disse. — Parabéns.
— Agora é só acertar um pouco mais para baixo - comentou.
E ela sabia perfeitamente que ele estava certo. Era literalmente uma questão de milímetros entre a posição atingida e o maldito centro vermelho que escondia o pote de ouro no fim do arco-íris. E era exatamente por ser por tão pouco que a situação se tornava verdadeiramente difícil.
— É só respirar fundo, se acalmar e…
A voz de foi interrompida de supetão quando ela simplesmente lançou o dardo, decidindo que a preparação apenas a deixaria mais nervosa.
— Que bicho vocês querem?
Ela ainda estava em choque. ria como se tivesse acabado de ver alguém ganhando na loteria.
— O elefante azul - ela respondeu finalmente.
— Bem que você disse que era boa nisso - comentou, enquanto aguardavam que o rapaz trouxesse o prêmio.
— Eu blefei - ela admitiu. — Só não queria que você ficasse frustrado com seus arremessos horríveis.
Ela agradeceu o rapaz e entregou o elefante a .
— Pode ficar.
— Não - respondeu. — Eu ganhei para você.
sorriu, abraçando-a lateralmente com o braço que não estava ocupado segurando a pelúcia que receberia o nome de Timothy mais tarde naquela noite.
— Tem mais um lugar que eu quero ir - ele disse, mudando a direção na qual seus passos seguiam.
o seguiu, esquecendo-se de perguntar se não deveriam esperar por Adam, Mia, Sarah e Mitch. Não havia como argumentar contra as decisões indiscutíveis dele.
Ao olhar para cima e encontrar as mesmas luzes ofuscantes que vira do lado de fora, ela não conseguiu evitar o sorriso de canto.
— E voltamos para as cenas clichês.
— Qual é? Roda gigante não é só clichê. É simplesmente obrigatório. E podemos subir com um elefante nela.
Presos da forma mais tosca e frouxa possível por uma barra de segurança frágil, eles começaram a subir em direção ao céu noturno.
— Quando eu era pequena, eu amava me gabar de como eu não tinha medo de altura - ela contou. — Acho que é porque era uma das poucas coisas de que eu não tinha medo.
— Eu tive - ele admitiu. — Por muito tempo. Mas em algum momento eu superei.
Ela olhou para baixo, apontando a barraca em que haviam conseguido a pelúcia que agora sentava entre eles.
— Aquele cara com certeza me odeia.
balançou a cabeça em negação.
— Ele só odeia a si mesmo. E ninguém no mundo conseguiria te odiar.
— Jura? Porque você já disse que me odeia pelo menos umas duas vezes desde que chegamos.
— Você sabe que é da boca para fora.
Ela concordou, agradecendo à brisa leve por impedir que seu enrubescimento fosse mais explícito do que um filme com classificação indicativa para maiores.
— Obrigada por sempre se preocupar comigo e ainda pensar nessas coisas. Você é incrível.
— Não é nada. Não sabe como me faz feliz poder fazer cada uma delas com você.
E o elefante teria que perdoá-los mais tarde pelo aperto, mas, naquele momento, parados no topo da roda gigante como preconizava qualquer comédia romântica, eles precisavam de proximidade.
amava o jeito que as mãos dele encontravam seu rosto e sua nuca como se ela fosse a peça de arte mais preciosa de todo o mundo, recém-retirada dos espólios do Louvre. Amava como se sentia a mais completa idiota sempre que percebia suas pernas fraquejando a cada toque dele, permitindo a mais completa vulnerabilidade para que compartilhassem cada instante daquele momento juntos. Amava como eles haviam passado por tantos países, mas sempre havia a perpétua sensação de lar quando estava em seus braços.
E amava seus beijos. Por Deus, como os amava. Acompanhados de suspiros, de arrepios, de uma fanfarra ensandecida e mal ensaiada em sua barriga e um tambor no peito que estava pouco se lixando e havia decidido tocar mais alto que todo o resto.
Quando o leve solavanco do brinquedo os trouxe de volta à realidade do retorno à exposição, eles se afastaram, apreciando cada minúcia dos lábios avermelhados e dos rostos que refletiam a própria expressão.
— Precisamos encontrar o Mitch e a Sarah - comentou, conforme se aproximavam do chão.
— Por quê?
— Eles vão ter que segurar esse elefante, porque você vai na montanha-russa comigo.
E antes que ela pudesse inventar qualquer motivo descabido para negar, já estava apertando o passo para ir atrás dele, seguindo os rastros de toda a alegria que compartilhavam.


Capítulo Quinze

Maybe won’t you take it back
Say you were tryna make me laugh
And nothing has to change today
You didn’t mean to say “I love you”

i love you - Billie Eilish



simplesmente odiava pesadelos. Abominava a sensação de acordar assustado, tentando recuperar o próprio fôlego e acalmar o seu coração depois de cenas perturbadoramente vívidas demais. Detestava passar as mãos nos cabelos e senti-los suados na raiz.
Odiava sonhar que algum dos amigos ou familiares próximos havia falecido. Odiava sonhar com violência. Odiava sonhar com a própria morte adornada de toda a criatividade que sua mente preparava durante a noite: afogamentos, catástrofes naturais, animais peçonhentos, quedas de precipícios, acidentes de carro ou avião. Ele poderia prosseguir com a lista facilmente.
Mas as imagens que mais lhe atormentavam e causavam pequenas crises de ansiedade, por mais estúpido que parecesse quando ele retornava à vigília, eram aquelas em que ele era esquecido. Simples assim, sem grandes desenvolvimentos ou motivos.
E ele não sabia dizer o porquê. Sempre desejava poder passar alguns instantes de privacidade plena, sem grandes preocupações sobre como seria visto, julgado ou atacado. E, quando a realidade do sono imitava suas vontades, ele surtava. Não era sobre fama, dinheiro, status. O esquecimento acompanhava o desprezo e a ignorância daqueles cuja opinião ele valorizava mais do que tudo.
Fez uma nota mental para ligar para a mãe mais tarde, apenas por desencargo de consciência e sacudiu a cabeça, como se pudesse expulsar aqueles absurdos impossíveis da mente.
Talvez devesse perguntar para se havia alguma explicação racional para aquilo. Ou não. Não precisavam daquele papo desconfortável quando tudo ia tão bem.
Tomou um banho rápido e escovou os dentes, saindo do quarto com o coração se tornando automaticamente mais leve ao encontrar Emily, Mia, Adam e Sarah no sofá conversando tranquilamente.
— Bom dia, flor do dia - Adam cumprimentou.
— Bom dia - respondeu. — Vocês já tomaram café?
Emily assentiu.
— Tem um pouco na cafeteira.
— Quem fez?
— Eu, - Mia disse, esticando as pernas e colocando-as sobre as de Emily.
suspirou aliviado, dando um gole no líquido preto forte.
— Por que a pergunta?
— Porque ele não suporta o meu café - foi Sarah quem respondeu. — Ingrato.
O cantor deu de ombros, mordendo um dos pain au chocolat restantes - apenas uma das várias coisas que adorava na França.
— A não acordou?
— Acordou antes de todo mundo - sua melhor amiga respondeu. — Mas tomou café e desceu.
— Para onde?
— Ela descobriu que tem uma sala de dança lá embaixo e disse que ia dar uma olhada.
sorriu automaticamente ao se lembrar da conversa que haviam tido, quando ela disse que não deveria ter parado de dançar, ainda mais sabendo que era algo que a fazia tão feliz.
— Em que andar fica?
Mia deixou que o pescoço pendesse sobre o braço do sofá, olhando-o de ponta cabeça.
— Quem foi que te disse que ela quer sua presença?
— Todo mundo quer a minha presença, Thomas - disse de forma presunçosa. — As pessoas literalmente pagam por ela.
— Diz logo para ele onde é, porque claramente somos a exceção à regra - Adam interveio. — Antes que ele coma tudo.
mostrou o dedo do meio para o baixista enquanto ouvia as indicações de Mia sobre onde deveria ir.
Quando estava prestes a sair do quarto, ouviu a garota chamando-o de volta:
— Só uma coisa - disse. — Arruma esse cabelo, pelo amor de Deus. Ela não merece ter essa visão logo de manhã.



Ele cumpriu o percurso exato que Mia havia ditado: desceu até o primeiro nível subsolo pelo elevador privativo, seguiu até o fim do corredor, virou à esquerda e depois caminhou até a segunda porta escura à direita. A plaquinha com os dizeres dourados confirmava a ele que sua leve dificuldade em memorizar as coisas não havia lhe dado o ar da graça ao menos daquela vez.
Empurrou a porta com cuidado, tendo sua audição instantaneamente tomada pela reconhecida batida produzida por Jawsh 685 que havia viralizado no ano anterior a partir do Tiktok - rede que acessava raramente pela conta de Charlotte quando não tinha nada melhor para fazer entre os intervalos dos compromissos. A voz de Jason Derulo desenhava as notas de 'Savage Love’ enquanto dançava sobre o tablado, de frente para o espelho sem perder tempo olhando para o próprio reflexo. Ela definitivamente não precisava disso.
Em meio a passos de jazz contemporâneo e algo que ele só reconheceria como ‘hip hop’ de forma generalizada, ela ocupava o salão, estendendo braços e balançando os quadris, performando uma coreografia recém-criada que pouco tinha a ver com a polidez pura da técnica, mas muito se relacionava com tudo o que ela sentia em cada instante da música e o que simplesmente parecia certo; deixando que seu corpo a guiasse da forma que melhor lhe convinha.
estava completamente encantado para dizer o mínimo. Vendo-a ali, no que parecia ser mais um de seus habitats naturais, ele só conseguia pensar em como era desleal que alguém fosse tão deslumbrante e tão impecável em tudo o que se propunha a fazer.
Mas, acima de qualquer outra coisa, era de fazer brilhar os olhos de qualquer um ver o quanto ela estava feliz. Simplesmente feliz. Com os cabelos grudando na nuca, as gotas de suor se formando na testa, as pupilas dilatadas no mais representativo de sua atenção e o coração acelerado pelo exercício físico. Feliz.
Pouquíssimas coisas no mundo eram tão belas quanto a felicidade de alguém.
Quando a música acabou, ele a aplaudiu sem muito cuidado, fazendo-a saltar de onde estava, por pouco evitando um tropeço.
— Puta merda, você ainda vai me matar um dia - ela reclamou, com a mão no peito, sentindo o quão absurdo era o seu coração ter conseguido se acelerar ainda mais.
— Não quis assustar.
— Quis sim. Ninguém sai aplaudindo uma pessoa que está sozinha se não quiser assustar.
Ele levou alguns segundos para pensar sobre o assunto e decidiu concordar:
— É, acho que é verdade. Mas foi um susto carinhoso, prometo.
— Carinhoso vai ser o chute nas bolas que eu vou te dar se me assustar assim de novo.
gargalhou pela surpresa da ameaça.
— Acho que você está passando tempo demais com a Mia.
Ela foi obrigada a rir também.
— É, eu tenho essa mesma impressão há um tempo.
— Foi ela quem disse que você estava aqui - contou. — E, quando ouvi que você tinha decidido dançar, eu tive que ver.
sorriu para ele, pegando em sua mão e deixando um beijo rápido em sua bochecha. Puxou-o rapidamente para o centro do salão antes que ele pudesse tomar consciência de suas ações e decidir usar o benefício do próprio peso e altura contra ela.
— O que você está fazendo?
— Te puxando para a pista de dança - ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia que tinha sido obrigada a dizer em toda a sua vida.
— Eu não sei dançar - ele a lembrou automaticamente.
— Claro que sabe. Dançou comigo antes do meu primeiro show.
— Aquilo foi diferente. Eram basicamente dois passos para um lado e dois para o outro. E eu meio que deixei você me guiar.
deu um tapa leve em seu ombro.
— Se você não quiser dançar comigo é só avisar.
E ali ela soube que havia vencido qualquer possível recusa que ele pudesse inventar de jogar para o seu lado com seu talento para chantagens emocionais.
apertou novamente o botão de play no celular dela, iniciando a próxima música no modo aleatório de sua playlist no Spotify. Quando ‘Hips Don’t Lie’ começou a tocar na caixa de som, ela gargalhou ao ver os sinais de derrota no rosto dele.
— Eu não acredito que você fez isso comigo.
— Modo aleatório. - simplesmente deu de ombros, divertindo-se demais com a situação para poder demonstrar qualquer incômodo que fosse. — Culpe o algoritmo.
O rubor ao redor das pequenas covinhas em suas bochechas, entretanto, sumiu em pouco tempo. Logo, lá estava ele, tentando rebolar com os quadris mais travados de toda a história, parecendo que ia quebrar ao meio como um palito de churrasco forçado nas pontas.
E ela sentiu mais dor em sua musculatura abdominal do que sentiria se dançasse por mais duas horas completas. Não conseguia parar de gargalhar com todas as suas forças frente à tentativa - um tanto fracassada - dele.
balançou os ombros e as mãos em sua melhor versão Shakira - que também era a pior. quase se engasgou de tanto rir quando decidiu praticamente implorar para que ele desistisse.
— Para. Antes que você consiga descobrir como quebrar sua lombar - ela pediu, enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Acho que a gente deveria se inscrever em umas aulas de dança do ventre - ele sugeriu.
fez uma careta, esperando ouvir qualquer coisa menos aquela frase.
— Sinto muito, , mas eu não poderia estar mais fora dessa.
O cantor piscou algumas vezes, como se a resposta fosse um tremendo choque que ele jamais seria capaz de perceber chegando.
— Que absurdo. Como você pode rejeitar a melhor ideia que eu já tive na vida?
Ela riu, enquanto caminhava até o próprio telefone, desconectando-o da caixa de som e fechando os aplicativos abertos. Calçou os tênis novamente, enquanto encarava-o.
— Eu não vou me submeter a esse mico, sinto muito.
— Então quer dizer que eu posso me envergonhar por você, demonstrando cada um dos meus incríveis dons na dança, mas você não pode enfrentar essa vergonha por mim?
Ela parou de amarrar os cadarços, como se aquela resposta demandasse todo seu foco e canalização de sua energia.
— É - concordou, por fim. — É exatamente isso que quer dizer.
— Esse é o maior absurdo que eu ouvi em toda a minha vida. Sem contar a injustiça óbvia. Nossa balança está ficando bem descompensada.
— Mas você só fez essas coisas porque me adora.
Ele meneou a cabeça de forma dramática. quase lhe disse como ele era um ator infinitamente melhor nas telas do que no dia-a-dia - e que nunca teria assinado contrato algum se os dois âmbitos terminassem se equiparando.
— É cada furada em que a gente se mete por quem ama - ele falou, enquanto seguia até a prateleira dos fundos com naturalidade, movido pela simples e súbita curiosidade ao perceber alguns discos parados por ali.
engoliu em seco, soltando uma risada forçada e nervosa que torcia para que ele não tivesse notado. Pôs-se de pé como se não estivesse se sentindo zonza de repente. Como se três malditas letras não tivessem se mostrado suficientes para fazer a rotação da Terra acelerar sem aviso prévio, deixando sua visão confusa.
— Acho que vou subir para tomar um banho. Você vem?
desviou o olhar do vinil do Michael Jackson que havia acabado de encontrar e a encarou com um sorriso sacana.
— Você sabe que eu jamais recusaria esse convite.
Ela quis beijá-lo assim que percebeu os próprios ombros relaxando levemente com a piada maliciosa que quase a fez se esquecer do que havia dito antes dela.
— Você sabe muito bem que não foi um convite - disse, recebendo um sorriso de volta.
— Sei - ele concordou. — Vou ver o que mais tem no meio desses discos. Depois eu subo.
Ela concordou, afastando-se para subir e tomar seu banho - o qual ela duvidava intensamente de que seria suficiente para livrá-la daquela sensação de queimação, correndo por seu corpo como as taturanas no jardim que a mãe gritava para que ela não mexesse.
- a chamou de volta, fazendo seu coração acelerar na garganta. — Não esqueça que vamos sair mais tarde.
concordou e seguiu para o elevador antes que ele tivesse tempo de acrescentar qualquer outra coisa.



Depois do banho, entrou como um trovão no quarto de Mia, sem se dar ao trabalho de bater na porta ou fazer qualquer outra coisa que a avisasse de que estava entrando antes que simplesmente o fizesse.
— Puta merda, mulher - a amiga reclamou. — Eu podia estar pelada aqui dentro, sabe?
— Não é como se eu nunca tivesse visto. Mais do que uma vez.
— Tenho certeza de que você é secretamente apaixonada por mim. Sonha com o dia em que casaremos e adotaremos três cachorros, dois gatos e uma criança.
— Isso foi tão específico que deve ser o seu sonho.
— Está mais para o sonho da minha mãe - Mia admitiu, com uma risada. — Aquela sem coração prefere você a mim.
— Não a culpo - comentou. — Ela tem bom gosto.
— E você, um ego gigante que está me sufocando - Mia reclamou, empurrando a amiga de leve antes de se jogar na cama sem cuidado algum. — Mas você não veio até aqui para dizer como minha mãe é sábia por te adorar. O que rolou?
A mulher inspirou profundamente, como se seus pulmões tivessem acabado de decidir que precisavam de mais oxigênio que de costume. Grandes egoístas desgraçados.
Mia pressionou o botão de pausa no celular, fazendo com que a amiga focada demais em suas próprias perturbações finalmente percebesse que havia uma música ambiente prévia. Seu subconsciente tinha a impressão de ter reconhecido a melodia de Primadonna da Marina e teria se aproveitado para fazer qualquer piada sobre a sua tentativa de ser indie, cool , descolada ou qualquer outra porcaria que fosse se não estivesse tão inexplicavelmente abalada. A amiga gesticulou com as mãos, sinalizando para que ela falasse logo.
E, então, ela contou. Deu uma contextualizada inicial na sua situação, parou brevemente para dizer o quanto dançar lhe fazia bem e terminou parafraseando a conversa que tiveram com as palavras que ainda gritavam no fundo de sua mente, ecoando à beira de um penhasco como um lembrete em estágio de perpetuação.
Mia balançou a cabeça vagarosamente, assentindo enquanto assimilava a história que lhe era contada como se fosse muito mais elaborada do que de fato era.
— E foi isso - finalizou.
— Entendi. Só não entendi porque você está surtando.
A outra fez uma careta, esboçando alguma irritação por não ser compreendida quando julgava a situação tão óbvia.
— Por causa do que ele disse.
— Sério? Só por isso?
— “É cada furada em que a gente se mete por quem ama” - ela repetiu, fracassando na tentativa de imitar uma voz que, supostamente, deveria se parecer com a de . — por isso.
, lembra quando você me disse para sempre te avisar quando você estivesse tendo um colapso nervoso e cheio de paranoias por nada?
— Não.
— Pois é, mas você está. E é meio que a minha obrigação te dar um sacode para ver se você se toca.
A amiga expirou com força, deixando os ombros se curvarem levemente. Mia continuou:
— Sabe quando a gente xinga alguém e a pessoa fica toda ‘Até parece, eu sei que você me ama’? Pois é, acho que você só viveu um momento desses com um roteiro diferente. Não foi uma declaração de amor eterno, nem uma proposta de casamento. Acho que ele só falou por falar. - A mulher deu de ombros.
bufou.
— Não sei o que é pior.
— Ah não, garota. Eu não te criei para agir feito libriana. Vê se acorda.
— Eu só não quero que as coisas mudem entre a gente por causa das coisas que alguém disse. Mesmo que esse alguém seja ele.
— E quem disse que alguma coisa precisa mudar? Vocês se adoram e isso está escrito em caneta neon com glitter para todo mundo que convive com vocês ver. Não é só isso que importa no fim das contas?
— Até alguém mudar de ideia.
, o não é seu ex e você não pode viver criando bloqueios pelo seu passado. É óbvio que as pessoas mudam. Essa é a graça de ser humano. Resta saber por quem vale a pena esperar para ver se essa mudança vai ser boa ou não.
— Eu só não quero me machucar de novo.
— Mas gostar de alguém é exatamente sobre isso: saber que a pessoa tem o poder de te machucar e confiar que a recíproca é verdadeira o suficiente para que essa não seja a escolha dela.
deu um sorrisinho, absorvendo aquelas palavras, sem conseguir evitar zombar um pouco da amiga, mesmo com toda a gratidão, apenas por força do hábito.
— Engoliu um livro de autoajuda, foi?
Mia lhe deu um peteleco ardido na costela.
— Sai do meu quarto. Agora. Xô.
se levantou rindo, indo até a porta. Virou-se uma última vez.
— Mia - chamou -, eu amo você.
A mulher levou a mão ao peito, suspirando em um exaspero chocado.
— Eu não estou pronta para ouvir isso - balbuciou.
lhe ergueu um dedo do meio e fechou a porta atrás das costas. Sorriu sozinha ao caminhar de volta para o próprio quarto. Algumas coisas realmente não precisavam mudar.


❀❀❀



— Será que eu posso arrancar isso? Eu sou claustrofóbica.
expirou uma risada.
— Não foi o que pareceu quando você me arrastou para o meio da pista principal no show da One Direction, insistindo que ia encostar no Louis.
— Aquela era uma situação de vida ou morte - Mia rebateu, tentando tatear o caminho, mesmo sabendo que Emily a conduzia cuidadosamente, com uma mão na cintura e outra em seu cotovelo. — Não me arrependo de nada.
— E encostou? - perguntou.
— Se ela tivesse encostado, você provavelmente se lembraria do seu amigo caindo e se machucando. Ela não tem muita noção de força.
— Você não está enxergando, mas eu estou fazendo um gesto bem obsceno para você - Mia disse, soprando um fio de cabelo que havia conseguido escapar por cima da venda apenas para se provar irritantemente capaz de fazer coçar a ponta de seu nariz.
engoliu a própria risada, concentrada demais em não permitir que sua passageira ausência de campo visual predestinasse um tombo que a faria se arrepender de ter vestido sua melhor calça, mesmo que tentasse se convencer de que estragar suas roupas em Paris fosse, no mínimo, um perrengue chique.
— Certo, podem tirar - disse finalmente, de forma que as duas puxaram o tecido rapidamente.
O pequeno barco repousava sobre o movimento sutil e delicado do rio Sena, aguardando seus passageiros. Pequenas fitas de luzes de LED rodeavam uma mesa baixa e suas almofadas ao redor.
— É por isso que eu amo ser amiga de gente rica - Mia disse.
riu, balançando a cabeça enquanto tomava a mão das três mulheres, uma por vez, ajudando-as a ganhar alguma confiança no próprio equilíbrio para se colocar a bordo.
— É lindo - disse, sorrindo enquanto olhava ao seu redor.
Eles se sentaram sobre as almofadas. abriu uma garrafa de vinho rosé, despejando o conteúdo em quatro taças e as distribuindo.
— Um brinde aos encontros da vida - ele propôs. — A ter conhecido a pessoa mais incrível do mundo e também a mais chata.
— Você é a chata - Mia sussurrou de forma propositalmente indiscreta para a amiga.
Com um gole leve e adocicado, acompanhado de queijos, pães finos e morangos com chocolate, os quatro engataram em uma conversa fiada e completamente despropositada por algum tempo, enquanto Emily apontava alguns pontos interessantes - fosse pela beleza, pela história ou ambos - ao longo do caminho. Em determinado momento, foi ela mesma quem surgiu com uma sugestão:
— A gente pode fazer aquela brincadeira de duas verdades e uma mentira.
Mia se animou imediatamente, movendo as pernas para se ajeitar melhor e, com sorte, conseguir se livrar daquela sensação incômoda de formigamento que a interrupção de sua circulação causava.
— Eu começo - disse. — Ahn, deixa eu ver.
Seus dedos tamborilavam do mínimo ao polegar e do polegar ao mínimo, em uma sequência com a qual havia se acostumado durante os anos. Aquela deveria ser a mania mais clara da amiga e também uma das que mais a chocavam sempre que percebia que era completamente incapaz de ter a coordenação para retomar o movimento longe do piano.
— Certo, já sei. Eu fiquei com uma pessoa daqui. Eu fui campeã mirim de handebol. Eu detesto tomate.
— Ninguém detesta tomate - respondeu.
— O pior é que essa é verdade - retrucou, rindo. — Eu também não aceitei.
— Então você não foi campeã de handebol.
Mia arqueou as sobrancelhas, dando um longo gole de seu vinho enquanto desbloqueava o próprio celular. Não demorou para encontrar - no facebook da mãe, é claro - aquilo que ela queria.
O cantor logo viu a foto de uma pequena criança loira e suada com uma medalha de ouro e um sorriso exagerado.
— Como assim? Eu achei que vocês já tivessem ficado - ele disse, apontando para Emily e Mia.
Foi a vez de desviar o olhar, tomando um gole da própria taça enquanto a amiga gargalhava sem parar. franziu o cenho, finalmente percebendo que sua interpretação havia falhado grandiosamente e perdido o ponto da situação.
— Em minha defesa, eu estava meio bêbada - ela disse.
— Éramos duas - Mia concordou. — Mas eu faria sem estar, então não acho que tenha justificado nada da minha parte. Moral da história: amigos se pegam. Próximo.
— Ok, eu vou - disse . — Eu já recusei três papéis em filmes que foram me dados sem testes ou qualquer outra coisa. Eu não aceitei uma proposta de parceria com a Lorde. Eu já tive um coelho de estimação.
— Claramente a mentira é a da parceria com a Lorde - respondeu.
— Por que claramente?
— Porque ninguém em sã consciência recusaria isso. É uma afronta ao universo de forma geral.
deu de ombros.
— Eu não sou de cantar em parceria. — Kacey Musgraves, Lizzo, - Mia começou, erguendo os dedos em sua listagem. — Sem contar outras quatro pessoas que eu nem preciso mencionar.
— Essa é a mentira - repetiu. — Eu tenho certeza.
O rapaz concordou enquanto mastigava um dos morangos cobertos com chocolate.
— Aparentemente ela mencionou em uma entrevista que gostaria de fazer uma parceria comigo, mas ninguém da equipe dela tentou entrar em contato, então nós meio que só seguimos a vida.
— Se esse momento chegar e você disser não, nós teremos um problema - disse.
— Vários problemas - Mia reforçou.
— Ele não é doido de fazer isso - Emily garantiu. — E o Jeff também não é louco de deixar. Nem eu.
— Eles me chutariam facilmente. E eu não tiraria a razão deles.
— Acho bom - falou. — Ok, deixa eu pensar nas minhas.
a observou se mexer no próprio lugar, pendendo a cabeça levemente para o lado direito como ele já reparara que ela fazia praticamente todas as vezes em que estava se esforçando para encontrar uma forma de canalizar a sua concentração. Ela repetia o movimento várias vezes durante os ensaios e nos momentos em que eles a encontravam trancada no camarim, no quarto ou na varanda com papel e caneta à mão, trabalhando um pouco todos os dias na composição de seu primeiro álbum com todo o cuidado para garantir que não entregasse nada além de seu melhor e mais puro esforço e carinho em cada palavra e nota.
Uma mão livre repousava sobre o próprio joelho e precisou angariar todo o seu autocontrole para não tomá-la nas suas, pois sabia que a distrairia.
— Quando eu era pequena, eu dizia que queria ser jogadora de basquete. Eu sempre fui ao cinema em todas as estreias de animação da Disney, mesmo que já tivesse mais de vinte anos nas costas. Eu sou alérgica a frutos do mar.
Sua melhor amiga correu os dedos pelos lábios, em um sinal de que havia passado um zíper na boca por já saber a resposta. No final das contas, estavam praticamente brincando em duplas ali.
— Tenho um palpite - Emily anunciou.
— Se a primeira for verdade, vou assumir que vocês estão fazendo isso só para me lembrar de que eu sou o único nesse barco sem nenhum tipo de habilidade atlética - reclamou.
— Eu disse que queria, não que era boa - ela o lembrou. — Existe uma gigantesca diferença.
— Você não é alérgica a frutos do mar - Emily interveio. — A Mia comentou uma vez que a única alergia que você tem é de pele com alguns produtos.
— Exatamente - concordou. — Só não sei exatamente se eu quero saber o porquê desse ter sido o assunto de vocês de repente.
— Estávamos conversando sobre alergias só - Mia explicou. — Daí eu comentei por comentar, mas aparentemente ela tem a melhor memória do universo inteiro.
— Ela tem mesmo - confirmou. — O que é extremamente perigoso.
Emily piscou rapidamente, com um sorriso doce. Mia chegou para mais perto, dando um beijo estalado em sua bochecha.
— Sua vez, linda.
teve que se conter para não soltar um sorriso bobo ao vê-las daquele jeito. Ainda estava ganhando prática naquela história de ter que fingir costume.
— Eu quebrei o braço esquerdo na cama elástica na festa de aniversário de uma amiga. Eu comecei a fazer faculdade de psicologia, mas tranquei e logo comecei a trabalhar com essa parte de produção e gerenciamento. Eu sou torcedora do Manchester United.
— Infelizmente, se a última for verdade, nosso relacionamento termina agora - Mia disse.
— Eu pensei que você nem gostava de futebol.
— Não gosto - admitiu. — Mas gosto ainda menos deles. Existe um espacinho de rancor especial e injustificado no meu coração.
— Você sabe que eu torço para eles, né? - perguntou.
— Claro que sei. Por que você acha que eu não gosto de você?
Já estavam prestes a terminar a segunda garrafa e a brincadeira continuava seguindo. Entre risadas que começavam a ficar um plexo mais altas e momentos em que fingiam que era a água embaixo deles a única responsável pela sensação de que as coisas pareciam estar balançando, havia tirado os sapatos em algum momento e se deitado sobre uma das pernas de , que corria a mão por seus cabelos despreocupadamente.
— Ainda não acredito que você conseguiu quebrar o braço em uma cama elástica - Mia disse para Emily.
— Eu também não sabia dessa história - comentou.
— Bom, tem gente que já quebrou o pescoço - a produtora falou. — O meu ainda saiu barato. E ficou tudo bem. Eu fiquei com gesso e tipoia por umas semanas, me achava incrível por ter virado o centro das atenções com todo mundo querendo de qualquer jeito assinar, desenhar e tudo mais. Sem contar que era absurdamente mais fácil de convencer as pessoas a fazerem as coisas para mim.
— Mas como você conseguiu essa proeza?
— Ah, eu achei que conseguia ficar dando mortais e cambalhotas. Parecia que seria fácil com a ajuda da impulsão das molas e elásticos. Estava me sentindo a própria medalhista olímpica. Daí meus sonhos de ginasta foram frustrados quando eu caí completamente errado já na segunda vez que tentei fazer uma acrobacia. Mas tudo bem, foi uma recuperação tranquila até.
— Daqui três anos a gente volta para você disputar as Olimpíadas - brincou. — A gente enfia a Mia na seleção britânica de handebol feminino.
— E vocês dois cantam na abertura e conseguem patrocínio para a gente - Mia completou. — É o plano perfeito.
A amiga concordou, fechando os olhos brevemente enquanto apenas apreciava o afago carinhoso em seus cabelos. Estava se tornando cada vez mais perigosamente tentador estender aquele momento e não descolar os cílios, permitindo que o corpo simplesmente relaxasse um pouco mais.
— No que você está pensando? - Ouviu a voz grave de perto de si.
— Que você deveria receber o prêmio de melhor carinho do mundo. E continuar aí. Exatamente assim.
riu de leve, sentindo-se silenciosamente orgulhoso por ouvir aquelas palavras. Existiam tantas coisas que ele queria dizer para ela naquele momento e em todos os outros. Mas ele sempre terminava fazendo algum comentário ou brincadeira aleatória, como se precisasse suavizar o clima para impedir a si mesmo de dar passos muito largos no caminho que queria que percorressem juntos.
— Que bom que pelo menos eu sou bom em alguma coisa, né? Porque eu seria facilmente o cara que quebra o pescoço na cama elástica. Isso se eu tiver coragem de sequer entrar em uma depois dessa história.
— Ninguém resiste a uma cama elástica. É uma das melhores coisas do mundo. Meu trauma de infância foi sempre ter pedido uma daquelas festas com vários brinquedos para os meus pais e eles terem me negado porque diziam que era tosco.
— Eles são toscos. Com todo o respeito - ele fez questão de adicionar, arrancando dela uma risada sincera.
— Ah, não se preocupa. Eles mereceram. Pelo menos algumas várias vezes ao longo da vida.
— Você quer conversar sobre isso? - perguntou, cuidadoso, enrolando uma mecha do cabelo em seus dedos. ergueu a mão dela para acariciar a sua.
— Um dia - disse, sorrindo em gratidão por ter a certeza de que ele se importava rodeada pelo respeito para reconhecer e acatar a espera.
- Emily chamou. — Chegamos.
Enquanto se aproximavam do ponto de desembarque, cada um dos passageiros aproveitou para roubar um último morango, garantindo, em nome do benefício próprio, que não houvesse desperdício. O cantor agradeceu ao condutor e se adiantou para ajudar as mulheres a saírem do barco.
Do outro lado, em terra firme, duas figuras muito conhecidas deles os aguardavam, com roupas formais e braços entrelaçados..
— Eu não sabia que vocês estariam aqui - Mia disse. — Por que não vieram com a gente?
— Digamos que o Mitch não se dá muito bem com barcos balançando, mesmo que seja só um rio calmo - Sarah respondeu. — Pelo bem de todo mundo, a gente preferiu não arriscar uma emergência sanitária.
— Eu ofereceria uns morangos com chocolate para vocês, mas a gente meio que comeu tudo - comentou, cumprimentando o amigo.
— A gente sabia que não poderia confiar em vocês - o guitarrista respondeu. — Jantamos antes de vir.
O cantor meneou a cabeça, recebendo um movimento similar do amigo, em sinal de concordância. apertou os olhos, percebendo que havia algum tipo de comunicação silenciosa ali. Por algum motivo, não parecia exatamente uma boa ideia intervir para criar qualquer tipo de questionamento.
— O que vocês acham de a gente dar uma volta até a Torre Eiffel? - Rowland sugeriu. — Acho que é algo meio obrigatório de se fazer em Paris.
Não era algo a se discutir. Quando alguém sugeria esse tipo de coisa, você simplesmente agradecia e concordava com um sorriso no rosto. Algumas coisas na vida eram fáceis assim.
— Vocês comeram escargot? - Mia perguntou, enquanto caminhavam.
— Credo - Mitch disse, com um gemido de desgosto. — Não tenho estômago para isso.
— Não é tão ruim assim - Emily comentou.
— Isso não me passou confiança nenhuma - ele retrucou. — Preferimos comer as coisas menos bizarras mesmo.
— E bolo de chocolate cremoso com crumble de especiarias e verrine de manga com lavanda - Sarah completou. — Maravilhoso por sinal. Vou sonhar com ele para sempre.
— Eu trocaria todos vocês por aquele bolo - o guitarrista comentou. — Sem nem pensar.
— A gente deveria ter te tacado no rio enquanto estávamos perto - respondeu. — Você não merece o nosso amor.
— Nem minha fadiga muscular - completou, massageando as próprias coxas. — Se eu soubesse que a gente ia andar tanto, eu não tinha inventado de dançar.
— E é por isso que eu abracei o sedentarismo com tanta força que somos um só - sua melhor amiga interveio. — Uma vida feliz e tranquila na iminência do colesterol alto.
riu, enquanto observava a forte iluminação amarelada que subia por todas as treliças de ferro instaladas com magnificência no Champ de Mars. Não era à toa que aquele havia se estabelecido como um dos principais pontos turísticos e plano de fundo de cartões postais no mundo. Era imponente e incrível, no sentido mais intrínseco da palavra.
Alguns turistas se aproximavam, tiravam fotos, abraçavam seus pares - aquela deveria ser a maior concentração de casais fora de datas comemorativas -, encaixavam suas cabeças em seus ombros e riam com a alegria renovada do amor jovem e da expectativa dos primeiros dias, em que tudo era novo e excitante e traiçoeiro. Em que um passo em falso poderia colocar tudo a perder, mas a confiança de que aquela bamba ponte chamada amor suportaria o peso superava qualquer medo. Deveria existir algum misticismo em momentos como aquele que simplesmente deletavam todos os problemas e apenas tomavam seu tempo para lembrar a todos de que a vida, apesar de todos os pesares, ainda podia ser - e seria - bonita.
Mia se aconchegou a Emily, aproveitando-se do calor de seu sobretudo e do corpo que se encaixava tão bem ao seu. Sarah soltou um longo suspiro, fitando a torre que fazia seus olhos brilharem mais do que nunca.
— Não importa quantas vezes a gente venha aqui - ela disse -, esse vai continuar sempre sendo um dos meus lugares favoritos no mundo.
— Eu sei - Mitch concordou, respirando fundo. — É por isso que tinha que ser aqui.
ofegou, levando a mão à boca ao perceber o que estava acontecendo. O esforço para não sair pulando estava sendo demais.
— Sarah Jones, você é minha melhor amiga, parceira e a mulher da minha vida. É quem me obriga a sair do casulo e viver um pouco todos os dias e eu faço isso com o maior prazer por saber que vou ter o seu sorriso no fim da tarde. É quem enfia os pés gelados nas minhas pernas de noite e quem esquenta minhas mãos e minha alma. Não existe nada nesse mundo tão especial quanto o que você me faz sentir a cada segundo em que estamos juntos. Por isso…
A boca de Sarah se contorceu em uma careta contida, enquanto seus olhos marejavam ao ver Mitch se abaixando até que um dos joelhos encontrasse o chão aos seus pés.
— Você me faria o homem mais feliz do universo, mais uma vez, aceitando ser a minha esposa?
Uma lágrima cálida escorreu por sua bochecha, atingindo os lábios no momento exato em que o sorriso finalmente se formou, superando todo o choque e a emoção que (des)coordenava o ritmo feroz em seu peito.
— É claro que eu aceito.
Enquanto os amigos espectadores vibravam, aplaudiam, gritavam e choravam, Mitch se levantou, colocando o fino aro prateado adornado de brilhantes em seu anelar e tomando-a em um beijo que selava o dia mais feliz de suas vidas.
Quando finalmente se afastaram, Sarah riu, levando a mão livre para enxugar o rosto conforme observava o anel na outra.
— Eu não acredito nisso.
— Como assim? - Mitch também riu. — Você realmente achava que eu nunca ia te pedir em casamento?
Ela meneou a cabeça.
— Não. Quer dizer, em partes, eu acho que sim - admitiu. — Mas é que eu passei a noite me preparando para um fim totalmente diferente para hoje.
O noivo franziu o cenho, sem entender o que estava acontecendo.
— Acho que você não era o único a ter planos para hoje - ela explicou, mexendo nos próprios bolsos. — Eu meio que tinha uma coisa também.
As suas mãos ainda procuravam o que quer que fosse, deixando Mitch cada vez mais nervoso, ansioso e angustiado, sem saber distinguir qualquer uma dessas sensações durante sua espera.
— A ponte dos cadeados meio que acabou porque ia desabar - Sarah finalmente disse. — Eles até tentaram fazer em outros lugares, mas o serviço público está sempre tirando o que pode para evitar que sobrecarreguem outras pontes. Mas, mesmo assim, eu trouxe um para nós. Pela simbologia.
Ela entregou o cadeado a ele. Era um pequeno paralelepípedo amarelo com um coração vermelho gravado com as palavras ‘Mamãe + Papai + Eu’. Mitch sentiu o queixo despencar com tanta vontade que temeu destruir alguma articulação no processo.
— Isso… Isso é…? - Ele mal conseguia respirar, gaguejando em meio a cada palavra.
— É - ela confirmou. — Nós vamos ter um bebê.
— Puta que pariu - não conseguiu se segurar.
O guitarrista, até então parecendo estático com algum erro de configuração em seu processador, soltou uma risada nervosa ao abraçá-la com força.
— Nós vamos ter um bebê - ele repetiu, convencendo o próprio cérebro a assimilar a informação.
foi obrigada a secar os olhos para não perder um segundo sequer daquele momento tão precioso com a umidade excessiva.
— E vocês já estão convocadas como madrinhas do casamento - Sarah disse, em meio a um pequeno soluço.
— Vai ser uma honra - respondeu, recebendo a concordância também emocionada de Emily e Mia. — Eu não perderia esse momento por nada no mundo.
A baterista assentiu, abraçando as três amigas com força antes de se reaproximar do noivo e pai do pedacinho de gente que crescia em seu ventre.
— Eu te amo - disse a ele.
— Eu te amo mais - ele falou, antes de beijá-la mais uma vez.
Aquelas palavras que eram tão importantes soaram diferentes por algum motivo. Mais fáceis. Mais simples. Mais conhecidas.
ergueu os olhos para , que a olhava com um sorriso terno. Ela o retribuiu da mesma forma.
E não precisava dizer nada. Ele sabia.




Continua...



Nota da autora: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Eu demorei de novo, eu sei. Perdão do fundo do coração e culpem a minha faculdade que está sugando minha alma tal como um dementador.
Mesmo assim, esse capítulo finalmente veio aí com muito carinho e amor por eles, mas principalmente por vocês.
Obrigada por não me deixarem desistir mesmo que eu surte com frequência. As amo <3
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Sem mais delongas, espero que tenham gostado e, se você chegou até aqui, eu agradeço profundamente por me dar uma chance. Espero te receber aqui mais vezes.
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