FFOBS - Younger, por Mayara França.

Última Atualização: 16.09.2019

Prólogo



Doze anos. Doze anos de uma vida inteira desperdiçados e jogados no lixo, como se simplesmente não fossem nada. Como se não significasse nada.
Doze anos entre namoro, noivado e casamento.
DOZE ANOS
E agora eu estava ali, sentada entre os cacos do que costumavam ser porta-retratos. Meu pé estava cortado e sangrava em cima de uma das fotos tiradas no dia da nossa formatura do ensino médio e eu sentia que não tinha forças nem para me levantar.
Dilacerada, era assim que eu me sentia porque tudo o que eu sempre achei que tinha não existia. Era ilusão. E no final de tudo todos estavam certos.
Eu estava acabada.
Minha casa que eu cuidava tanto estava acabada, e o nariz de Mark estava acabado, já que eu havia jogado o notebook naquela direção e acertado seu rosto. Aquilo me fez sorrir sem emoção nenhuma.
Doze anos.
Meu telefone apitou pelo que deveria ser a décima vez, anunciando que o dia já havia amanhecido e eu deveria levantar e ir trabalhar, mal sabendo ele que eu nem havia dormido.
Travei o telefone antes que resolvesse descontar toda raiva, mágoa e frustração nele e lhe desse o mesmo destino do notebook, mas dessa vez não havia Mark para acertar.
Me levantei do chão e olhei para a bagunça a minha volta e respirei fundo. Não tinha jeito, eu tinha uma vida lá fora além de Mark, e agora era minha hora de encara-a

Capítulo 1



— Bom dia — Eu ouvi dizer ao passar por mim, como sempre fazia todos os dias às 08:03 da manhã. Mas hoje tudo parecia diferente, sua voz parecia mais distante. Na realidade, eu que estava distante. Não respondi. A verdade eu nem tinha certeza se eu realmente havia ouvido a sua voz ou se era coisa da minha cabeça. Eu o ouvi, mas foi como se minha mente estivesse em uma outra dimensão. Eu não sei ao certo quando tempo se passou até que ele estivesse parado na minha frente, estalando os dedos e me encarando sério. — , está tudo bem? — Ele mantinha as duas mãos na minha mesa e me olhava preocupado, logo depois olhou para a mesa a minha frente. — Cadê a Ivy? — Perguntou se referindo a sua segunda assistente.
— Foi entregar as edições prontas pro Anthony. — Respondi balançando a cabeça e saindo do transe.
— Está se sentindo bem? — Ele arqueou as sobrancelhas. Hardy era um bom chefe. Sempre preocupado e dedicado ao trabalho e nenhum pouco abusivo, mesmo tendo bons motivos para isso — Beleza e inteligência — Ele não era abusivo e nem abusado. Fazia o seu trabalho excepcionalmente bem e tratava todas as pessoas ao seu redor com dignidade e respeito. Ergui meu rosto para o seu e seu cenho estava franzido.
— Você falou alguma coisa antes? — Passei rapidamente a mão pelo rosto. Eu estava um caco.
— Eu perguntei se está certa a reunião com o marketing hoje às dez? — Ele voltou a ficar reto. — Eu liguei pro telefone daqui e você não atendeu. E ele estava tocando. Algum problema? — Ele continuou usando seu tom formal, e olhando bem pro meu rosto. Era essa sua preocupação que fazia com que ele fosse um chefe amado por todo o departamento de publicidade que comandava. era um dos poucos chefes dentro daquela empresa que era realmente humano.
— Não! — Disse por fim sacudindo a cabeça e olhando pro papel que eu havia feito algumas anotações para passar à Hardy. Vi o homem que antes estava na minha frente seguir para sua sala, e fiz o mesmo, fechando a porta atrás de mim.
— Eu preciso que você digite todas as informações que eu passar na reunião com o Marketing hoje. — Ele disparou a falar e percebi que entendeu que o não que dei de resposta era sobre eu estar com algum problema e não sobre a reunião — Eu também preciso que você imprima e deixe em algum lugar bem visível na sala do James. Ou em algum lugar que o James veja, nem que seja na porta do banheiro dele e deixe cópias com a Ivy. Eu confio nela, mas ela não é você, nem sempre lembra das coisas.É imprescindível que isso aqui funcione nesse mês que eu tiver ausente e isso significa que os andamentos para divulgação do livro do Reich continuem a todo vapor. Você sabe que com ele não adianta mandar e-mail. E infelizmente você também não vai estar aqui, então os dois contatos principais dele estarão ausente e você sabe o quanto ele é temperamental. — Ele se sentou na cadeira e abriu o Laptop — Eu vou dar todas as instruções que todo mundo deve seguir e deixar várias cópias por aqui enquanto eu estiver de férias, pra não ter nenhuma desculpa pra fazer o trabalho errado. Eu não quero ser incomodado nesse mês que estiver fora e eu também não quero que você seja incomodada, afinal, assim como eu você também merece descansar. Mas eu também não quero que quando eu volte, todo o departamento esteja em chamas com as pessoas se jogando do prédio. — Ele sorriu ladino e eu acenei com a cabeça. Nos cinco anos em que trabalhava, ali aquela era a primeira vez que ele tiraria férias.
— O Não que eu disse antes era sobre reunião. — Ele ergueu a sobrancelha — Jake ligou e mudou a reunião do marketing para segunda— feira. Ele falou que precisa se reunir com você hoje, e usou o horário das dez.
— O que? — Hardy ergueu o rosto irritado. — Eu falei "sem alterações". — Ele bufou e levou a mão a cabeça.
— Eu falei isso pra ele, mas ele ignorou. E quando ele me avisou, ele já havia avisado todo o departamento de Marketing. — O rosto de ia se tornando vermelho – Eu tentei reverter a situação, mas a única forma dessa reunião acontecer antes de você entrar de férias seria com ela sendo hoje no seu horário de almoço, então eu marquei mesmo sem a sua autorização e fiz pedidos em um restaurante aqui perto de comidas que vocês possam comer enquanto se reúnem, pedi uma quantidade variada, assim posso preparar uma mesa no estilo self service – Minha voz saia tão mecânica, que eu não tinha nem certeza que eu estava falando aquilo.
— Ótimo. Não sei o que seria da minha vida sem você. — Ele sorriu em agradecimento — você está bem? – mantinha uma feição preocupada e me toquei que a única pessoa que me olhara dessa maneira nos últimos anos havia sido ele e Ivy.Mesmo as poucas amizades que eu tinha feito na empresa, não pareciam se preocupar, perceber ou se importar comigo de verdade, como ele havia demonstrado ter feito nos últimos cinco anos. Ele estava sempre me perguntando como eu estava e sendo educado sem ser intrometido quando percebia que alguma coisa não ia bem.
— Sim. — Sacudi a cabeça — Terminei os manuscritos que você me deu, dos quatro só achei um interessante. Deixei minhas observações como sempre anotadas em uma folha na primeira página. — Eu havia começado a trabalhar com cerca de quatro anos antes. Ele era o mais jovem chefe de editorial de uma editora e não estava se dando muito bem com suas assistentes, a maioria delas mulheres muito jovens que haviam acabado de se formar na faculdade, na faixa dos 21/22 anos. Eu havia acabado de completar 28 anos e as coisas com Mark não estavam muito boas e eu não aguentava mais viver uma vida dependente,então decidi que era hora de procurar um emprego e depois de sems de recusa, finalmente tive uma entrevista com Hardy. A empatia foi instantânea. Havíamos morado no mesmo estado e ele inclusive havia frequentado a mesma escola que eu, com cinco anos de diferença, é claro. Aquele dia, foi um dos primeiros em anos que me senti uma mulher inteligente. Fui contratada uma sem depois.
Mark dizia que ele havia feito isso apenas para alimentar seu ego, de ter uma assistente que poderia muito bem estar em seu cargo, mas não, estava ali se sujeitando a receber ordens. Mas com o tempo percebi que não, que Hardy procurava alguém com quem ele pudesse ter uma troca. Ele sempre queria ouvir minha opinião sobre determinados assuntos, com o tempo ele passou a me dar trabalhos que não batiam com a mera função de uma assistente e depois me ofereceu uma promoção, que eu não aceitei. Ter um chefe homem e bonito já causava problemas demais dentro de casa, se eu aceitasse uma promoção, poderia causar mais ainda. Então com muita delicadeza rejeitei, o que não mudou o tratamento de comigo e alimentou determinadas fofocas dentro do departamento, afinal, não era normal o chefe deixar uma mera assistente dar pitaco em decisões importantes relacionadas à empresa. Por me dar funções que não eram pertinentes a mim e pra não me sobrecarregar, ele havia contratado outra assistente, Ivy. Uma menina totalmente alternativa,na casa dos 25 anos e com o sorriso mais doce que eu já havia conhecido.
— Você já leu todos? — Perguntou espantado — Te falei que aquele material não tinha pressa, só devemos começar a pegar neles após nossas férias.— Era sempre reconfortante a forma como ele me tratava como uma parceira de trabalho e não como alguém inferior a ele. Engraçado,como isso se diferenciava do que eu recebia dentro de casa do meu parceiro, que me tratava como se eu fosse um lixo. — ? – Hardy havia cruzado a mesa e estava novamente parado a minha frente, com uma expressão séria.
— Eu gostaria de pedir demissão. – A frase que eu havia ensaiado por todo o caminho até ali saiu da minha boca de supetão. A cabeça de foi pra trás e seus olhos se arregalaram em surpresa. Ele parecia confuso.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu preciso voltar pra minha cidade. – Não menti, afinal eu precisava sair dali, daquele apartamento que não era meu e daquela vida onde eu estava sozinha. Eu precisava voltar pra casa.
— Algum problema com seus pais? Doença?Alguém faleceu? Algo que eu possa te ajudar? – Ele ainda me encarava com seriedade.
— Não. Eu só preciso ir pra casa. – Falar aquilo fez minha garganta fechar e meus olhos marejarem. Pisquei muito rápido para que não desse nenhuma oportunidade das lágrimas escorrerem ou se acumularem.
— Eu não sei o que aconteceu com você, mas você parece bem abalada. – Ele deu a volta novamente pela mesa. se afastando. Se havia algo que Hardy não era, era indiscreto. Ele não insistiria em saber o que havia acontecido. – Você entra de férias hoje, e tem um mês pela frente. Eu não vou aceitar seu pedido de demissão agora, Daqui a um mês quando eu também voltar a gente conversa e se você ainda estiver com essa ideia, eu te demito, te pago todas as suas bonificações e te dou todas as cartas de recomendações e contatos que você quiser. – Ele não precisaria fazer aquilo e eu tentei sorrir em agradecimento, mas não consegui falar ou fazer nada a não ser um aceno de cabeça.
— Obrigada. – Ele deu um meio sorriso com a expressão preocupada. E eu comecei a me retirar da sala.
– Ele chamou quando eu já estava na porta da sala. – Tem certeza que não precisa de nada? — Apenas acenei positivamente com a cabeça — Pode tirar o resto do dia hoje. Ivy pode muito bem se virar sozinha nessa reunião. Comece suas férias antecipadamente – Ele deu outro meio sorriso. – Você quer que eu peça alguém para ligar pro seu marido e pedir para ele vir te buscar?
— Não, obrigada. — Tentei fingir um sorriso — Eu não tenho mais um marido. – Eu falei mais pra mim mesma,antes de sair da sala, pegar minha bolsa e sair dali. Eu só precisava ir embora, Eu só precisava da minha casa.

...


Quando eu abri a porta, a casa se encontrava toda às escuras. Nada que eu já não esperasse. Estiquei minha mão para que eu pudesse colocar minhas chaves na mesinha que ficava localizada bem ali, ao lado da porta e me assustei um pouco quando ouvi o barulho da chave direto no chão. A mesinha já não estava mais ali. Puxei minha mala pra dentro e empurrei a porta com meu pé às escuras, o interruptor ficava apenas a alguns passos de distância. No momento em que me preparei pra dar meu primeiro passo, a luz se acendeu e eu pulei de susto, vendo meu pai me encarando empunhando uma espingarda.
— Meu Deus do céu! PAI SOU EU! — Eu ergui os braços com medo de que ela atirasse em mim. Eu sabia que aquela espingarda tinha apenas balas de sal, mas mesmo assim doía pra cacete e eu não queria correr o risco de ser atingida pelo meu pai.
? — Ele abaixou a arma, respirando aliviado. –Que susto!Eu estava te esperando apenas daqui a uma sem. Eu achei que era um ladrão. Você não avisou que vinha. — Ele falou, colocando a espingarda apoiada na mesa e me encarando em volta.
— Surpresa! — Tentei fazer graça e encarei a sala, percebendo que ele havia mudado completamente todos os móveis do cômodo, e eu me perguntei a quanto tempo eu não aparecia ali
— Onde está o Mark? — Acho que ele estava esperando a qualquer momento ele aparecer pela porta, ou sair da cozinha, e quando isso não aconteceu resolveu perguntar.
— Não vem. Sua sala está muito bonita. Tem quanto tempo que você redecorou?
— Mais de um ano — Ele respondeu e eu me impressionei pelo tempo que eu não ia ali. Voltar pra cidade era algo que Mark detestava fazer, então com os anos eu fui diminuindo gradativamente as minha visitas. Falava com meu pai frequentemente e o via sempre no fim de ano, quando ele se juntava a mim e a família de Mark para as festas de encerramento.
— O que aconteceu com o seu marido? — O Tom hostil de meu pai ao pronunciar a última palavra era quase tocável.
— Nós estamos nos separando. — Falar aquela frase em voz alta fez minha voz embargar, e eu evitei olhar em seus olhos — Posso ficar por aqui alguns dias? Ele vai precisar do apartamento e eu não tinha nenhum outro lugar pra ir. — Quando voltei a olhar pro meu pai, encontrei algo que não esperava. Ele estava com um sorriso nos lábios e os braços abertos caminhando em minha direção.
— Minha filha, você não sabe o quanto eu esperei por esse momento – Seus braços se cruzaram em volta de mim num abraço aconchegante e então eu comecei a chorar. Só naquele momento eu percebi que havia muito tempo que eu não recebia um abraço. Mesmo com o peito doendo, eu pude sentir algo bom queimando o fundo de meu estômago, então respirei fundo sabendo que tinha Tomado a decisão certa em voltar pra casa.

...


Durante toda a minha adolescência, eu tive dois melhores amigos: e . Estudamos juntos e formamos durante parte de nossa infancia e adolescencia um trio que aprontou muito. Mesmo quando e começaram a namorar, nunca nos separamos e nos afastamos, muito pelo contrário, quando ela engravidou, logo após completar dezesseis anos, nossa amizade ficou mais forte ainda e esse era um laço que tínhamos até hoje. Mesmo morando longe, os dois faziam questão de serem presentes na minha vida e eu sempre fiz muita questão de estar presente na vida deles, afinal, Andy era meu afilhado. Então mesmo que tivesse quase dois anos que eu não ia à cidade, não tinha esse tempo todo que eu não os via.Eles sempre tiravam uns dias no verão para irem me visitar. Essa sempre costumava ser a melhor sem do ano pra mim, ter Andy que eu considerava quase um filho, por perto, meus melhores amigos e tinha também o fato de que quando eles estavam por perto, Mark sempre voltava a ser o cara atencioso e carinhoso por quem me apaixonei.Mas parecia que mesmo por baixo de toda fachada, ele nunca enganou meus amigos. ) e ) nunca gostaram dele e no momento em que cruzei a porta do café que meus amigos tinham no centro da cidade, eu não precisei contar nada, eles já sabiam o que tinha acontecido. Era bem como eu já havia imaginado, todo mundo via, menos eu. E isso desencadeou em mim uma enorme necessidade de falar sobre o assunto, falar sobre Mark, falar sobre a separação. Era como se eu precisasse me justificar para as pessoas, avisar que agora eu estava vendo o que tinha de errado e elas poderiam parar de me olhar com pena. Meu marido havia me trocado por uma mulher dez anos mais nova e estava levando ela para morar na nossa casa, pra onde construímos nossa família, para construir uma nova pra ele, afinal, a amante estava grávida e ele não poderia deixá— la desamparada. Ela estava grávida do filho que ele nunca quis ter comigo. Qual o problema disso? Eu ia superar.
Uma parte de mim, dizia que aceitação era a melhor forma de encarar toda aquela situação. Eu não podia fugir do que tinha acontecido. A culpa não era minha. Eu não fiz nada de errado. Ele fez.
), como esperado havia ficado puto, xingado e ameaçado dar uma surra em Mark quando eu contei toda a história. ) ficou me olhando com aquela cara de quem não sabe o que faz e me empurrou todos os tipos de doce que se é possível oferecer a uma pessoa, e eu aceitei sem pestanejar. Doces me ajudaram em momentos difíceis e ela sabia muito bem disso. Quando Allie, minha irmã dois anos mais velha que eu soube da traição ela ligou pra Mark no mesmo momento. É óbvio que ela não me contou que fez isso e negou quando eu perguntei, mas eu conheço minha irmã bem o suficiente pra saber o que ela faria.
Aquela super proteção havia feito eu me sentir bem, mas não importava o quanto eu repetisse que estava bem,ninguém e na realidade nem eu mesma parecia muito convencida disso. Mesmo depois dos sete dias passados desde a minha chegada,) ainda me empurrava doces e meu pai continuava fazendo minhas comidas prediletas. Eu achava que conseguia disfarçar minha choradeira noturna com filmes melosos onde algum protagonista morria no final, mas meu pai sempre parecia saber que meu choro não era bem pelo filme.
Para compensar a quantidade de doces que eu estava comendo, decidi começar a correr todos os dias de manhã na intenção de perder peso. Mas sempre finalizava minhas corridas no café e acabava consumindo provavelmente mais calorias do que havia eliminado na corrida. Eu também havia visto um vídeo no Youtube sobre 10 maneiras de elevar a auto estima, e uma delas falava sobre mudar o visual, então eu havia tentado cortar meu cabelo me baseando em um tutorial online, e o resultado foi um corte tentativa de chanel totalmente irregular,Tentei ignorar a merda que eu havia feito e levei os 20 centímetros de cabelo que eliminei para doação.A sensação de ter feito uma coisa boa foi maior do que a de ter feito merda. Eu só queria superar tudo, superar a sensação de perda, de fracasso e de inferioridade. Mark já havia tirado todas as nossas fotos das redes sociais e eu havia me limitado a apenas desativar as minhas. Eu não queria me pegar stalkeando ele, ou até mesmo procurando quem era a mulher com quem ele estava, embora eu já tivesse tentado fazer isso algumas vezes. Eu queria saber o quanto ela era mais bonita, se era mais alta, mais magra, como era mais jovem. Se era loira, diferente de mim. Se sua gordura tinha se acumulado na barriga, formando uma pequena pochete. Eram esses pensamentos que alimentavam minha vontade de correr, como naquele momento, mesmo sendo quase meio dia e o sol estando a pino no céu. Eu precisava perder peso, melhorar minha aparência e parar de sentir pena de mim mesma em frente ao espelho. Eu sabia de todos os riscos que corria quando aceitei a primeira traição e resolvi perdoar e dar uma nova chance a nós. Eu sabia que eu estava errada ao fazer aquilo e eu sabia que ele continuava fazendo. Todas as vezes que ele chegava muito tarde em casa ou quando ele tinha uma repentina viagem de negócios. Por muito tempo eu engoli meu ego pensando que aquela era a família que eu tinha construído, e tinha cogitado até mesmo a ideia de que se tivéssemos filhos, tudo melhoraria, mas Mark nunca quis. Sempre negou a ideia com todo afinco,e mesmo com minhas insistências, ele dizia não. Eu decidi parar de Tomar o anticoncepcional mas ele parecia ter percebido isso, já que nas poucas vezes que ele me procurava para sexo, ele fazia questão de gozar fora, coisa que ele nunca havia feito. A raiva quando esses pensamentos Tomavam conta de mim era tão grande, que eu acelerava o passo, correndo mais rápido, como se isso pudesse levar a sensação ruim na boca de meu estômago. Eu havia me mantido no relacionamento para preservar minha família e no final de tudo percebi que estava nela sozinha.

Suor escorria pelo vão de minhas costas, a parte do meu cabelo que conseguia ser presa pela xuxinha estava presa na xuxinha enquanto a outra parte caia pelo meu pescoço, grudando no suor de minha nuca. O corte que eu havia feito estava simplesmente terrível e eu precisava urgentemente marcar um horário com alguma cabeleireira para lidar com aquilo. O adjetivo que eu poderia usar para me descrever era nojenta. Eu odiava suor, mas não me importava de estar suada, eu na realidade estava gostando. Eu ficava imaginando que o que saia pelos meus poros era ódio, e que com o tempo eu me livraria de todo ele, e isso me fazia sorrir. O Café de ) e ) era o meu lugar predileto da cidade.Quando passei pela porta com a placa de neon escrito fechado, o barulhinho do trequinho que eu havia dado pra ) dez anos atrás quando ela inaugurou o café chamou a atenção de ), que mexia em alguma coisa atrás do balcão conversando animadamente com algum cara de costas pra mim e que sem sombra de dúvidas era o meu encontro.
) havia me mandado uma mensagem mais cedo naquela manhã me chamando para almoçar no café e que ele queria me apresentar uma pessoa. Não havia nenhuma dúvida de que ele estava apenas sendo ), e tentando me distrair, como sempre fizera. Foi exatamente assim que conheci Mark. Ele fez uma cara nada satisfeita quando me encarou e eu sorri, como se fosse uma criança que pede desculpas, pensando talvez que minha cara de esposa chifrada misturada com criança inocente pudesse convencê— lo a me deixar escapar de toda aquela situação.Eu havia dito que não queria encontros, que não estava preparada, mas ele havia ignorado todas as minhas frases. Essa era sua maneira de querer me distrair.
— Boa Tarde — Eu disse animada parando ao lado do balcão e no momento que olhei pro lado eu Tomei um susto. — O que você está fazendo aqui? — Foi minha primeira pergunta à , que também me olhou assustado, como se estivesse vendo alguma espécie de alucinação.
— O que você está fazendo aqui? — Meu chefe perguntou com um copo a meio caminho da boca. Meus olhos deram uma rápida olhada por todo seu corpo, não que eu estivesse fazendo aquilo de forma maldosa, mas durante cinco anos eu vi aquele homem por quase todos os dias e em momento algum desse tempo eu o havia visto de bermuda e sandálias de dedo. Nem mesmo quando ele havia ficado doente e eu tive que levar uma papelada pra ele assinar em sua casa. Eu me lembro muito bem que quando ele abriu a porta, ele estava vestindo calças de moletom e casaco de moletom, mesmo estando fazendo um calor dos infernos. Nem mesmo nas festas de confraternização da empresa que geralmente aconteciam em um clube e todas as pessoas se vestiam de forma descontraída. Ele nunca havia usado uma bermuda e vê— lo ali de bermuda, sandálias de dedo e uma camiseta normal me assustou um pouco. Eu nunca achei que isso fosse possível. E me assustou mais ainda vê— lo vestido daquela forma na minha vizinhança. Ele estava a milhas de distância da sua casa.
— Vocês dois se conhecem? — O choque de perceber que Hardy era meu encontro me fez começar a rir alto. ) parecia um pouco confuso, então expliquei a situação à ele.
— Sim, ele é meu ex chefe — Respondi ), colocando a garrafinha que eu carregava sobre o balcão e puxando um banco pra que eu pudesse sentar e descansar minhas pernas que estavam doloridas de tanto correr.
— Ainda sou seu chefe, já que eu espero de todo o coração que você mude de ideia e não me faça oficializar sua demissão. – Ele falou de modo descontraído.
— O que aconteceu com você? — Ele me perguntou e eu repousei o rosto no balcão, adrenalina estava passando e eu começava a me sentir exausta.
— Eu estava correndo, preciso emagrecer.Meu pai mora a algumas quadras daqui, essa é a minha vizinhança.
— Sua vizinhança é Los Angeles. — Ele falou como se fosse óbvio.
— Não mais. Eu moro aqui agora. — Ele realmente parecia aceditar que de alguma forma ainda poderíamos negociar meu pedido de demissão. — E você? O que está fazendo aqui? Achei que você ia aproveitar esse mês de férias na Austrália.
— Não. — Ele sacudiu a cabeça com meio sorriso. — A Austrália era uma desculpa pra ninguém saber pra onde eu realmente estava indo e me obrigar a voltar se acontecesse alguma emergência. — Acenei a cabeça. Ele era daquele mesmo bairro, tinha me esquecido desse detalhe.
— Então, ele é o meu encontro? — Perguntei à ), rindo da sua cara e me virei em seguida pra . — Eu vim preparada, se você não se apaixonar hoje, isso nunca mais vai acontecer. — Eu ri abertamente da cara de ) que cerrava os olhos.
— Ela é a mulher que você educadamente quase me forçou a vir aqui conhecer? — O Tom de sua voz indicava a falta e concordância com aquilo. Aquilo era típico de ).
— Você já foi melhor que isso, ). — Meu amigo acenou negativamente com a cabeça. Quando eu olhei para ele tinha um sorriso aberto. O bom era que ele sabia que aquele encontro estava acabado antes mesmo de começar.
— Você não me respondeu, que aconteceu com você? – Eu sabia que ele não estava falando da corrida e percebi que aquela era a primeira vez que ele me fazia uma pergunta direta, e nãosó isso, era a primeira vez que ele olhava pra mim por inteira, como se me avaliasse.
— Meu marido me trocou por uma mulher mais nova que eu e se mudou com ela pra nossa casa. — Vi o olhar repreensor de ) mas dei de ombros, continuando falando — E como eu tô na merda, resolvi correr pra ver se dou um gás na auto estima e espairecer um pouco a minha mente. Eu preciso emagrecer, eu já passei dos trinta fica mais difícil fazer isso nessa idade. — Ele me olhava com uma cara esquisita, como se esperasse que eu dissesse mais alguma coisa, ou talvez não soubesse o que dizer. — Eu não vou começar a chorar, se é por isso que você está esperando — Seus ombros pareceram aliviados e ele voltou a respirar.
— Eu detesto mulher chorando, isso meio que me paralisa.
— Eu sei, você completamente saiu correndo da sala de conferência quando a Emily foi demitida na sua frente e começou a chorar. Seus olhos se arregalaram e você jogou sua pasta na minha mão com tanta vontade que eu quase cai. — Ele franziu a testa talvez lembrando da situação. — E não, eu não vou começar a chorar. Eu já faço isso todas as noites enquanto como chocolate e revejo Ghost, Titanic ou qualquer outro filme romântico e meloso que não tenha um final feliz. — Ele acenou com a cabeça. — A propósito, como vocês se conhecem? — Apontei para ) que tentava disfarçadamente nos deixar sozinhos — Tipo, você é amigo do meu melhor amigo e eu nunca soube disso?
— Minha mãe mora aqui perto e eu costumava vir muito aqui com ela. — bebia uma cerveja, sempre achei que ele era do tipo que só bebe Whisky. — Como nunca nem nos encontramos por aqui?
— É porque eu não costumava vir muito aqui. — Essa era uma das coisas que estava no topo da minha lista de arrependimentos.
— Explicado. — Ele olhou pra frente e eu fiz o mesmo. — O que aconteceu com o seu cabelo? — Sua pergunta tão direta me assustou, ele era sempre o rei da discrição e agora eu percebia que essa era uma das características do chefe. — Desculpa perguntar, mas não dá pra não reparar que ele está uma bagunça.
— Eu mesma cortei ok? E agora essa parte — Eu peguei o cabelo — não chega mais aqui, porque de alguma forma a tutorial de como cortar o cabelo que eu peguei no YouTube me ensinou alguma coisa errada. Ou eu fiz alguma coisa errada. — Soltei todo o cabelo. Eu já estava mais fresca e era mais confortável. — Eu sei que está horrível.
— Não, você ficou bem com o cabelo curto. — Ele me olhou de novo com aquela cara esquisita. — O corte tá muito mal feito, mas você combina com cabelo curto. — Ele sorriu e eu fiz o mesmo.
— Você não é meu chefe mais,e estava aqui pro que seria um encontro comigo então você realmente não é gay? Finalmente posso te perguntar isso — Ele quase cuspiu sua cerveja.
— Não. De onde você tirou essa idéia?
— É uma especulação que o setor tem. Tipo, você trabalha lá a Cinco anos. Você não usa aliança,nunca levou ninguém em nenhuma das confraternizações, e também nunca saiu com nenhuma assistente, ou estagiária ou qualquer pessoa. Durante todo esse tempo nós só te vimos sozinho.
— Isso não significa que eu seja gay. — Ele parecia chocado com a especulação.
— Também não significa que você não é — Dei de ombros .Eu conseguia ver ) olhando por trás da cortina de negocinhos legais e que faziam um barulho que eu gostava. Ele queria nos deixar sozinhos pra tentar fazer rolar alguma coisa. Isso era tão ele. — ) nao vai voltar aqui — Eu deixei minha cabeça cair sobre o balcão. — Ele vem tentando me colocar em algum encontro desde o dia em que eu apareci aqui — Virei minha cabeça de lado pra encarar Tom. — Ele acha que um encontro vai melhorar minha auto estima e fazer com que eu simplesmente esqueça dos últimos doze anos da minha vida — Revirei os olhos pra minha própria frase. Eu soava patética.
— E por que você aceitou dessa vez?
— Eu não aceitei. — Falei como se fosse óbvio. — Ele só me chamou pra almoçar e quando eu cruzei a porta eu sabia que era uma armação. — Ergui meu rosto. – Ele sempre foi assim.
— Não precisa esquentar sua cabeça. Somos pessoas maduras, e pra ser sincero, ele também me pegou com esse negócio de: Passar aqui pra almoçar e quando eu cheguei ele me avisou que havia convidado uma amiga dele pra me conhecer. — terminou sua cerveja e depositou o copo no balcão. — Mas pode ficar tranquila.
— Obrigada — Fiquei aliviada. — E agora que ele sabe que a gente já se conhece e trabalhamos juntos ele vai ficar naquela animação maluca e querendo fazer alguma coisa e armando situações pra gente se encontrar. — Eu sorria mas meu sorriso murchou quando eu lembrei de um fato — Foi assim que eu conheci o Mark,tive uma paixonite aguda por um garoto durante todo ensino médio, e depois que finalmente fiquei com ele foi totalmente diferente do que eu imaginei e totalmente frustrante, ai o ) tava tentando me animar, depois que eu levei um pé na bunda e acabou ajudando Mark que veio dar em cima de mim em uma boate em que estávamos. Acho que ele tem esse arrependimento até hoje. E agora ele tá fazendo tudo de novo. Só que agora eu não tenho mais idade pra isso.
— O que? — pareceu confuso e me confundiu.
— O que , o que?
— O que você acabou de falar?
— Que eu não tenho mais idade pra isso.
— Encontros?
— Não os encontros em si, mas a procura, sabe? A esperança de construir uma família. A expectativa. Tudo. Esse negócio de sair e fazer sexo casual. Nada disso vai funcionar pra mim.
— Quem te disse que não? Eu tenho 37 e eu ainda tenho encontros. Ainda faço sexo casual, Eu ainda saio pra dançar, na realidade eu ainda faço todas as coisas que eu fazia com 17 anos, a diferença é que agora eu sou mais maduro e lido melhor com determinadas situações, o que me ajuda a não me meter em furadas. Você está na casa dos trinta, Stone. Não está morta— Ele me olhava talvez um pouco abismado pelo meu pensamento.
. Vai voltar a ser agora, meu sobrenome. Stone era o sobrenome do Mark. — Ele acenou com a cabeça. — Isso que você falou foi gentil, mas a realidade é diferente. Eu acabei de sair de um relacionamento que consumiu meus últimos doze anos. Eu tenho 33 anos, não tenho filhos, não tenho um emprego e nem nada sólido na minha vida. Não é simplesmente como se eu ainda pudesse construir todas essas coisas. Eu preciso pensar em me estabelecer, encontrar uma forma de continuar no mercado de trabalho, Deixa pra lá essa ideia de ter filhos, encontrar alguém. A vida não é um conto de fadas. Não preciso viver um romance pra ser feliz.
— A não ser que você queira, se você quiser é óbvio que você pode fazer todas essas coisas. Você ainda pode ter filhos e se casar de novo e fazer várias coisas legais da sua vida.
— Não.Eu posso correr para emagrecer e tentar encontrar alguém pra sei lá, me fazer companhia pro resto da vida, isso se eu conseguir. — Dei de ombros — Eu não sou mais bonita da forma que eu era anos atrás.
— Meu Deus! Você fala como se tivesse oitenta anos e prestes a morrer. — Eu não tive argumentos para continuar, então apenas bufei. — Você parece pior que minha mãe que tem 75 anos! — Fiz uma careta — O que você vai fazer amanhã? — Eu me assustei com a pergunta. — Não é um encontro, Vamos apenas pensar que você é uma pessoa agradável e que facilitou muito a minha vida nos últimos cinco anos e eu quero ajudá— la. — Eu arqueei minha sobrancelha. — Pare de me olhar com essa cara. Me responde, o que você vai fazer amanhã?
— Bom, de manhã eu vou correr e depois eu marquei de almoçar com a ) aqui.
— E depois?
— Depois eu vou sair pra comprar um carro pra dar de presente pro Andrew — Eu fiz uma careta empolgada e pareceu não entender.
— Andrew, filho do )?
— Isso. Ele é meu afilhado e eu venho esperado por esse momento desde que ) veio até a mim e me disse que estava grávida.
— Você vai dar um carro pra ele? — Ele parecia incrédulo.
— Sim— Balancei a cabeça animada — Eu só não faço idéia de que carro. Você tem alguma noção de que carro possa ser considerado o mais cool para um adolescente? Eu tô totalmente por fora.
— Eu posso te ajudar se você quiser. Tenho alguns sobrinhos, posso perguntar à eles.
— Ótimo!Agradeço. Eu não quero que o ) saiba que eu vou dar o carro até o momento em que eu comprar, então não faça nenhum comentario com ele, ok? — Ele acenou com a cabeça positivamente.
— Sem problemas. Então a gente se encontra aqui pro seu almoço com a ) e logo depois de comprar o carro eu vou te levar pra fazer uma coisa. Combinado?
— Combinado. — Concordei e então resolvi gritar ). Já tínhamos dado tempo o suficiente de esperanças pra ele.


Continua...



Nota da autora:Mais uma história aleatória que surge na minha cabeça e eu resolvo compartilhar com vocês. Espero que gostem.
Xooxo Grupo do facebook: Histórias da Mayh.



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