CAPÍTULOS: [1]





Mixtape: Shout Out To My Ex






Última atualização: 20/02/2017

Capítulo 1


- Então é isso? Você não vai me dizer mais nada? - perguntou sentindo seu peito comprimindo e as entranhas se revirando dolorosamente. Os olhos marejados encaravam como se fosse a última vez que fosse vê-lo na vida. E ela não estava pronta para isso. Como se despedir de uma parte vital e sorrir? Tentou gravar cada detalhe do rosto dele. Todas suas rugas, suas expressões, seus sinais, os traços da boca que faziam a linha do sorriso que ela mais amava na vida e que há muito tempo não via e talvez nunca mais tornasse a ver. Ele estava dizendo adeus e não havia nada que pudesse fazer para reverter à situação. E, ainda que tivesse, não sabia se queria. Sabia que o amava, o amava com corpo alma e coração, mas uma voz lá no fundo da sua mente lhe dizia que o certo era terminar e nunca mais voltar atrás. Mas como ter forças para encerrar um ciclo tão doloroso?
- Eu vou dizer mais o quê? Você já me ofendeu de todas as formas possíveis e eu não tenho mais nada para falar, não adianta, não dá mais certo, talvez um dia, quem sabe, mas agora não dá mais! Eu tô cansado, eu preciso de um tempo para mim, preciso pensar, preciso ficar na minha… - disse levantando-se sem conseguir retribuir o olhar dela, a expressão abatida e a voz distante.
- Eu te ofendi? Eu só te disse o que me magoava! Eu desabafei com você e você se sente ofendido por algo que VOCÊ me fez? COMO ISSO PODE PARECER JUSTO? - gritou desesperada sem conseguir conceber a injustiça daquela situação. Ela estava dizendo o quanto estava cansada das grosserias dele, da indiferença, das brigas, dos xingamentos. E era ele quem estava ofendido?
- , chega! Chega! Não vamos chegar a lugar algum desse jeito, você já terminou comigo, não foi? Então me deixa ir embora!
- Eu terminei com você? Meu Deus, , você é ridículo, sabia? Você fez todo esse circo, você montou essa discussão besta para que a gente chegasse até aqui e eu terminasse com você porque você é um covarde de merda que não tem coragem de dizer que não me quer mais. E sabe por quê? Porque daqui a seis meses quando você estiver arrependido e na merda, vai voltar amargurado me dizendo que a decisão foi MINHA, que fui EU quem terminei, colocando a culpa para cima de mim!
- É culpa que você quer? Então pode colocar para cima de mim! Não importa quem terminou com quem, o que importa é que acabou, pronto! - exclamou cansado e conteve um urro de indignação.
- Você diz isso agora que eu já terminei! Meu Deus, como você é falso!
- , já deu! Que saco, não adianta dar murro em ponta de faca, a gente não tá se fazendo feliz. Eu não tô feliz, você não tá feliz! Você não é mais a pessoa por quem eu me apaixonei. - respondeu frustrado afastando o cabelo do rosto e deixou uma lágrima quente e grossa escorrer por seu rosto, sentindo-se mais infeliz do que em toda sua vida.
- Há um mês você me abraçou no show de Coldplay e disse que eu era o amor da sua vida. Você me disse que eu era uma boba por não acreditar no que você sentia por mim. Você disse que nós ainda iríamos nos casar. O que aconteceu com tudo isso? O que aconteceu com essa pessoa? Porque hoje você não me ama mais, alguma coisa é mentira, ou isso, ou antes, me diz o que era mentira? - perguntou com o coração dilacerado, sentindo-se quebrada por dentro ao relembrar do show que foram juntos há um mês. Ao lembrar-se de como ficaram abraçados, de como se beijaram, de como se encaixavam bem juntos, bem depois de tantas crises, tantas brigas, tantos estresses. Estavam finalmente ficando bem…
- Não era mentira,
- ENTÃO COMO VOCÊ PODE NÃO ME AMAR MAIS ASSIM DE REPENTE? - Ela gritou furiosamente e ele bufou cansado.
- Eu ainda te amo! Ninguém deixa de amar uma pessoa de uma hora para outra!
- Mas não me ama mais como antes…
- Não, não amo! O amor mudou, muitas coisas aconteceram, não dá para evitar isso. Eu tô confuso, preciso de um tempo para mim - confessou tristemente e conteve um soluço. Um tiro doeria menos do que ouvir aquelas palavras. - Às vezes eu acho que você é a pessoa certa no momento errado. Talvez a gente devesse dar um tempo, e quem sabe um dia…
- Sem essa! - interrompeu enraivada. - Se você quiser, a gente se resolve, tenta mudar e fica junto. Mas se você quer um tempo então cair fora, eu prefiro terminar. E sem essa de pessoa certa no momento errado, você tá sendo covarde!
- Eu não vou ficar aqui ouvindo você me ofender! - deu as costas e rumou em direção ao seu carro, estacionado há poucos metros de distância.
- Engraçado, quando você me ofendia, eu precisava ouvir. Quando você se rastejou e me implorou por MIL CHANCES, eu tive que te dar. Quando eu pedi uma, você não me deu. E por um erro seu! Um erro seu e você não enxerga isso.
- É tarde demais, . Se eu sou um namorado tão ruim assim, me deixe ir. Desculpe se te fiz infeliz, eu tentei - respondeu secamente e precisou se conter para não dar um murro na cara dele.

Como estava sendo injusto! Há meses ela vinha dizendo que ele estava se distanciando, ficando indiferente, frio e estranho. Em todas às vezes ele brigava, dizia que ela era louca, paranóica, desconfiada e que não tinha nada de errado com ele. E agora, no entanto, ele estava agindo de acordo com tudo que ela havia dito e ainda assim, a culpada era ela.
entrou no carro e fechou a porta, esmurrando o volante à sua frente. o encarou por trás do vidro do carro, mirando seu rosto angustiado sem reconhecer o rapaz por quem havia se apaixonado quatro anos atrás. Naquela mesma rua deram o primeiro beijo e agora estavam dizendo adeus.

- Tem certeza que você quer terminar um relacionamento de quatro anos indo embora assim? - perguntou e não respondeu. Apenas ligou o carro, cantando pneu e dando partida em seguida, deixando-a parada sozinha no meio do asfalto.

Para nunca mais voltar.


***


- ?
- , acorda…
- ?
- , ACORDA!

acordou de sobressalto com o coração descompassado e a respiração ofegante, sendo sacudida por Pilar e observada atentamente sob o olhar preocupado de Almerinda.

- Meu deus, que droga, o que é? - Perguntou amargurada, massageando o peito tentando controlar as batidas frenéticas do coração tomado pelo intenso susto.
- Você está dormindo há mais de doze horas, estamos atrasadas para faculdade, já passou da hora de se arrumar, não podemos perder a aula do professor Lemos! - Pilar respondeu sentando-se na beira da cama da amiga, observando-a revirar os olhos e se esconder embaixo dos cobertores novamente. - Nem pensa, hoje é dia de prova, você não pode faltar!
- Que saco, Pilar, me deixa! Eu tô doente! - falou num tom de voz abafado tentando vencer a luta pelo cobertor.
- Você já está quase reprovando por falta, amiga - Almerinda falou no seu tom de voz habitualmente manso, embora não conseguisse conter a censura no seu timbre.
- Que seja, me deixa perder! - respondeu emburrada ao perceber que Pilar havia conseguido, enfim, puxar os cobertores para baixo.
- Tá louca? Que tipo de amigas nós seríamos se te deixássemos assim na fossa, reprovando na faculdade por causa de um homem? - Pilar respondeu ultrajada ignorando deliberadamente quando revirou os olhos.
- Um homem não, um menino. - Almerinda corrigiu com uma expressão de pura repulsa.
- Um menino não, um moleque. - Pilar rebateu confirmando com a cabeça.
- Quais as chances de vocês darem o fora daqui e me deixarem dormir mais um pouco? - perguntou angustiada e urrou de frustração ao mirar os semblantes impassíveis de suas amigas.
- Isso mesmo, zero chances. Levanta, levanta, temos uma prova a fazer!

Há cerca de duas semanas a cena se repetia com cada vez mais frequência.
Bittencourt nunca fora uma aluna desinteressada do tipo que falta aula na faculdade e muito menos a que esquece ou não se importa com os dias de prova. Mas desde que seu relacionamento com acabou, seu comportamento vinha sendo incomum.
Apesar dos incessantes esforços das amigas para animá-la, estava inconsolável. Era comum vê-la chorando pelos corredores, perdendo o apetite, descuidando da aparência, descontando nas pessoas próximas suas raivas e frustrações e se tornando cada vez mais introspectiva.
Duas semanas haviam se passado desde o fatídico dia em que e terminaram um relacionamento longo e conturbado de quatro anos.
Quatro anos de muitos risos, brincadeiras, beijos, abraços, choros, consolos, brigas, reconciliações, sexo, comidas, filmes, séries, viagens, amigos, confidências e amor.
Quatro anos, quarenta e oito meses, duzentas e oito semanas, mil quatrocentos e sessenta e um dias, dois milhões cento e três mil e oitocentos e quarenta minutos juntos.
Mas levou apenas quinze segundos para digitar a mensagem que viria a acabar com toda a história que construíram.

“Precisamos conversar. Não te amo mais como amava antes”.

Na mente de , aquela era só mais uma briguinha boba. Ele diria alguns desaforos, uns “eu te odeio” e depois fariam um sexo de reconciliação e tudo ficaria bem. Ela choraria, ele voltaria atrás e as coisas voltariam ao normal.
Mas ele não voltou atrás.
Nada voltou ao normal.
Eles brigaram, ela chorou, ele chorou, mas nada seguiu como antes.
repetia “Eu te amo, mas estou cansado, preciso de um tempo, quero ficar sozinho, mas você é o amor da minha vida” e sentia seu coração diminuir a cada frase que ele verbalizava.
“Vamos ficar bem, vai dar tudo certo, nós podemos mudar, eu posso mudar” repetia aos prantos, mas ele parecia incerto. “Acho que devemos terminar, então” Ela disse por fim, derrotada, ao que ele prontamente concordou apesar de penalizado. “Se você prefere assim…” Ele disse beirando a lágrimas.
Era estranho para ver tão desinteressado por ela. Há alguns meses vinham brigando mais do que o comum, mas, ainda assim, tinha uma teoria absurda de que não importava o que acontecesse de ruim, sempre encontrariam o caminho de volta um para o outro. Dessa vez, no entanto, já não tinha mais tanta certeza.
olhou para prova de Estatística mais uma vez e sentiu-se burra a cada enumerado que lia. Não entendia absolutamente nada, não sabia nem por onde começar, nem qual assunto estavam sendo pedido pela questão.
Suspirou derrotada sentindo sua cabeça martelar e se ergueu com a prova em branco em mãos, atraindo os olhares furtivos dos colegas que a observavam rumar até o professor Lemos, prestes a levar o primeiro ZERO de toda sua vida.

- Srtª Bittencourt… sua prova está em branco, é isso mesmo? - Professor Lemos perguntou embasbacado e apenas confirmou com a cabeça. - … está tudo bem? - O professor completou com um semblante preocupado, encarando a aluna que tinha as feições tristonhas e sem vida.
- Não, mas vai ficar. Não estudei, não sabia de nada senhor, não me sinto pronta para fazer essa prova. Sinto muito desapontá-lo. - E sem dar mais chances do professor dizer mais alguma coisa, saiu da sala contendo uma lágrima de desânimo.
- Ei, ! , espera! - diminuiu o passo virando-se de costas para encarar sua amiga Maitê, que vinha correndo ao seu encontro.
- E aí, como foi na prova? - Maitê perguntou ofegante apoiando-se nos armários para recobrar o fôlego.
- Péssima, não respondi nenhuma questão - respondeu dando de ombros fingindo indiferença, mas Maitê pôde notar o rastro de uma lágrima pelo rosto da amiga.
- … Eu odeio te ver assim! Ainda mais por causa de um embuste desses! - Maitê bradou irritada batendo com força no armário de metal, causando um estrondo imenso, chamando atenção dos alunos que passavam pelo corredor.
- Maitê, o que você espera que eu faça? Não foram quatro meses, foram quatro anos! Como é que eu consigo, em duas semanas, esquecer alguém que fez e ainda faz parte da minha vida? - exclamou angustiada já sentindo sua voz começar a embargar. - Poxa, que saco, vocês não entendem, não entendem!
- Claro que entendemos, ! Estamos do seu lado, sabemos que não é fácil…
- O que vocês sabem? Almerinda nunca nem beijou na vida! 23 anos e nem um selinho e uma série de amores platônicos! O relacionamento mais longo da Pilar durou dois meses e todo dia ela aparece com uma pessoa diferente… E você, bom… Você não conta.
- Eu não conto por quê? - Maitê perguntou ultrajada alterando o tom de voz, atraindo ainda mais olhares dos curiosos que passavam. – Por que eu sou lésbica? É isso? Eu não sei o que é sofrer por alguém porque nunca sofri por um macho?

suspirou fundo e afastou alguns fios de cabelo que cobriam seu rosto sentindo-se extremamente incomodada com o rumo daquela conversa.

- Não é isso… É só que é diferente. Você nunca namorou sério com uma pessoa, você nunca viveu tudo que eu vivi…
- Eu agradeço a Deus por isso - Maitê respondeu prontamente e sentiu como se uma faca estivesse apunhalando seu coração.
- O que você quis dizer com isso? - Perguntou num sussurro ofendido, os olhos arregalados de incredulidade.
- Quis dizer que agradeço por não ter vivido um relacionamento como seu. O que você chama de intensidade, eu chamo de abuso. - Maitê respondeu secamente e quase se arrependeu do que disse ao notar o rosto da amiga adquirir uma cor pálida e os olhos marejarem instantaneamente.
- Abuso?
- Eu tô farta de você ficar pra lá e pra cá tratando suas amigas mal só porque seu relacionamento já fracassado chegou ao fim. Eu tenho pisado em ovos com você, sempre tentando ser legal contigo porque eu me preocupo com seu bem estar, mas eu cansei de aturar suas grosserias e seu mau humor. - Maitê desabafou sentindo seu peito comprimir ao ver a amiga debulhar em lágrimas na sua frente, seus olhos já ardendo também. - Você sempre exibiu seu namoro como se fosse superior por ter uma experiência duradoura e como se nós não soubessemos o que é o amor só por não termos vivenciado algo como você vivenciou.
Mas desde que você terminou esse namoro tem se esquecido quem esteve do seu lado todas às vezes em que aquele imbecil levantou a voz para você. Você parece que se esquece quem esteve do seu lado quando ele te trocava por festas e dizia que estava em casa. Você nem me parece mais a mesma pessoa, parece que não lembra que há um mês atrás já estava de saco cheio dele, dizendo que o sexo já não era mais o mesmo, que não tinha mais certeza se queria casar e construir uma vida com ele, dizendo que já não se sentia mais tão amada e tão bonita. Desde que vocês terminaram parece que você só enxerga como tudo foi lindo e se esquece quem esteve te segurando durante todos os quatro anos que esse namoro durou.”

ficou em silêncio ouvindo aquelas palavras tão dolorosas sendo proferidas pela boca da sua melhor amiga, incapaz de responder ou esboçar alguma reação que não fosse chorar. Sabia que Maitê era assumidamente contra seu relacionamento com , mas não fazia ideia do quanto a amiga estava chateada por isso.
Aquele desabafo parecia ter sido contido por muito tempo.

- Então é isso que você acha que eu sou? Uma péssima amiga que só se importa com os próprios problemas, que se acha superior por ter um relacionamento longo, que eu sou ingrata e trato minhas amigas feito lixo? - perguntou com raiva, sentindo-se o pior ser humano da face da terra. Se possível fosse, cavaria um buraco e sumiria ali mesmo.
- Se eu achasse tudo isso de você, não seria sua amiga!
- Engraçado, estou me perguntando por que você anda comigo já que pensa tudo isso de mim! - rebateu e foi a vez de Maitê vacilar.
- , não seja idiota, eu sou sua amiga e amo você!
- Ama? Pensa tudo isso de mim e me ama mesmo assim? Parece que você vem guardando isso de muito tempo e escolheu justo o pior dia para desabafar para cima de mim! Eu acabei de tirar zero na prova da disciplina mais difícil da faculdade, meu semestre está um lixo, eu não como há dias, minha vida tá um inferno, eu perdi meu namorado e meu melhor amigo e você escolhe esse momento para dizer todas as suas verdades! Que tipo de amor é esse? - exclamou incapaz de conter as lágrimas e a essa altura, uma rodinha já era feita ao redor delas com os olhares curiosos e os cochichos maldosos dos colegas que se amontoavam no corredor.
- Que gritaria é essa? Sai, me deixa passar… , Maitê, o que tá acontecendo? - A voz de Pilar ecoou irritadiça no mar de pessoas abrindo passagem para chegar até onde as amigas estavam. - O que tá acontecendo? - Perguntou novamente ao perceber a situação tensa a sua frente. Maitê e se encaravam com os olhos marejados e as expressões lívidas de rancor.
- A Maitê estava me contando o quanto eu sou uma péssima amiga - respondeu e Pilar fuzilou Maitê com os olhos carregados de censura, fazendo a amiga bufar irritada.
- A estava dizendo que não somos capazes de entender o sofrimento dela. Porque a Almerinda é BV, você é rodada e eu sou sapatão! - Maitê rebateu sem rodeios, causando espanto das outras amigas. Almerinda exclamou em choque levando as mãos a boca e Pilar redirecionou seu olhar para que arregalou os olhos.
- !!!!
- Eu não disse isso! Você distorceu o que eu disse! Eu jamais me referiria a vocês com esses termos! - exclamou ultrajada e Maitê devolveu seu olhar magoado.
- Não falou com essas palavras, mas foi o que você quis dizer! - Maitê rebateu e as duas começaram a discutir fervorosamente.
- Meninas, chega, vocês estão chamando atenção da faculdade inteira, chega! - Pilar tentou controlar as amigas, mas sem sucesso.
- Maitê…
- CHEGA!!!! - Maitê, e Pilar foram surpreendidas pelo berro de Almerinda que ecoou irritado como nunca tinham visto e ouvido antes. Almerinda estava vermelha e suas narinas estavam infladas, os olhos marejados. - Chega! Se vocês querem se matar e perder tempo se ofendendo, problema de vocês! Mas parem de me expor e expor a Pilar! Que coisa mais ridícula! Nunca esperei isso de vocês. - Almerinda bradou irritada. - Maitê, logo você? Cadê sua sororidade? É justo dizer tudo isso para sabendo que ela está sensibilizada no fim de um relacionamento longo com uma pessoa que ela ama muito? E ela acabou de tirar zero em estatística! - Almerinda virou-se para Maitê deixando a amiga constrangida e angustiada, , a sua frente, lhe encarava com uma expressão de vitória, que logo foi apagada quando Almerinda virou-se para ela. - E você, quanta ingratidão! Não é porque você terminou um namoro que você tem o direito de tratar todo mundo mal, nós sempre estivemos por aqui para te apoiar. Não é porque nunca passamos por isso que não sabemos que dói. Não sabemos como dói, mas entendemos que dói e estamos aqui por você. - Almerinda falou em tom de censura e adquiriu uma tonalidade vermelho pimentão, sentindo mais lágrimas invadirem seus olhos sem permissão. - Honestamente, eu tô muito decepcionada com as duas! Quando voltarem à razão, nos preocurem! Vamos, Pilar, essa discussão me deu fome. - Almerinda disse puxando Pilar pelo braço, dispersando pelo corredor já vazio.

encarou o chão sem ter coragem de sustentar o olhar da amiga à sua frente. Sentia-se constrangida, humilhada, ofendida, magoada e também arrependida. Não queria ter ofendido suas amigas, mas sentia-se incompreendida com tamanha falta de paciência e empatia com sua dor. Como se não bastasse terminar um namoro, agora estava brigada com suas amigas.
E tinha um zero em estatística.
Que semana de merda!
Em meio à tristeza que sentia, um pensamento irritante ocorreu a arrastando-a ainda mais para sarjeta. Toda vez que brigava com alguém, que se chateava ou precisava de um consolo, era a primeira pessoa em que ela pensava em recorrer. Mas não existia mais . Pelo menos não para vir correndo em seu auxílio.

- Eu fui insensível, me desculpe. Não quis dizer as coisas horríveis que te disse. - Despertou do seu transe ouvindo a voz arrastada de Maitê. - Não acho você uma péssima amiga e nem uma péssima pessoa.
- Você falou do meu namoro como se ele fosse a pior coisa do mundo. - disse magoada sentindo a milésima lágrima escorrer naquele mesmo dia.
- Não foi a pior coisa do mundo. Você aprendeu muito, teve momentos felizes, mas já não estava mais tão feliz assim. Sempre achei que você merecia coisa melhor que o metido a badboy incompreendido.
- Você não entende, Maitê? Toda vez que você falava mal dele, eu só me aproximava ainda mais dele. Mesmo que às vezes eu estivesse infeliz, que estivesse chateada, eu não conseguia terminar! Por trás daquele “badboy incompreendido” também estava meu melhor amigo! Também estava alguém que me ensinava a lutar boxe, a jogar video game, a fazer queda de braço. Por trás das brigas e dos momentos ruins, eu também tinha alguém que fazia carinho para me fazer dormir, que me ensinava a tocar violão, que compunha músicas para mim e dizia que eu era a mulher da vida. - disse com a voz embargada, sentindo seu coração se despedaçar em mil pedaços ao relembrar de todas as coisas que havia passado com . Apesar de todos os problemas, tinha tido momentos únicos e felizes ao lado dele. E eram esses momentos inesquecíveis que tentava apagar da memória quando acordava de madrugada chorando, sentindo-se perdida e sem direção. Eram esses momentos felizes que a mantiveram com ele durante todos esses anos, mesmo com as argumentações das amigas. - Toda vez que você falava mal dele, eu me sentia ainda mais sozinha. E a minha lógica era “infeliz com ele, infeliz sem ele, prefiro estar infeliz com ele, porque pelo menos eu o tenho como recompensa”. E eu me apegava cada vez mais.
- Você tá querendo dizer que a culpa de você ter se mantido num relacionamento conturbado foi minha? Porque eu fiz você se sentir sozinha? - Maitê perguntou mortificada e balançou a cabeça em negação.
- Não culpa! Mas acontecia! Eu não conseguia! Você pode se chatear, dizê o que quiser, mas a verdade é que você não entende. Não é por mal, é só que você não entende o que é querer terminar, saber que é certo terminar, mas não conseguir! Eu não conseguia! Eu pensava no que meus amigos iriam dizer, no que minha família iria dizer, pensava que poderia me arrepender e não conseguir nunca mais amar alguém de novo.
- , não seja boba, claro que você vai amar de novo…
- Eu ainda penso nisso! Ainda tenho medo de nunca mais sentir algo tão forte assim em minha vida! - disse cedendo as lágrimas, recebendo um abraço apertado de Maitê em resposta, ao qual ela não negou, desabando em seguida.

Era tão difícil encontrar forças para seguir em frente. Como pode que há alguns dias atrás ele era sua maior fonte de consolo, seu amigo, a pessoa com quem falava vinte e quatro horas por dia e compartilhava tudo e agora nem se quer trocavam uma mísera mensagem? Como conseguir seguir em frente sem o costume de acordar com uma mensagem de bom dia e ir dormir com uma ligação de boa noite? Como há um mês ele lhe prometera o mundo e agora parecia nem ligar para sua existência?
Como era possível um amor machucar tanto a ponto de causar dor física? sentia como se seu peito fosse se rasgar em chamas. Sua garganta estava engolfada num nó horrível e suas entranhas reviravam sem piedade. Era um tormento, uma tortura.

- Me desculpa! Não quis fazer você se sentir sozinha, eu achava que ele estava te afastando da gente, mas nunca percebi que eu poderia estar te afastando também. - Ouviu a voz de Maitê ecoar em seu ouvido e apertou ainda mais a amiga em seus braços.
- Me desculpa por jogar na sua cara a falta de experiência. Eu também agradeço a Deus por você não ter passado o que eu passei. Eu não desejo uma dor dessas para meu pior inimigo, ainda mais minha melhor amiga. - disse com uma voz embargada e sentiu algumas lágrimas quentes de Maitê escorrerem por seu ombro.

Ficaram abraçadas por alguns minutos a mais, reconciliando da briga que tiveram há instantes atrás.
O aperto no peito parecia diminuir com o apoio da amiga. Precisaria dela mais do que nunca.

- Vamos, vamos encontrar a Pilar e a Almerinda, vai ficar tudo bem desde que estejamos juntas. Você vai sair dessa, te prometo!


***


- Coloca sua saia mais curta que hoje nós vamos sair! - Pilar disse animadamente abrindo o guarda roupa de passando os cabides fervorosamente em busca de algo para a amiga vestir.
- Não inventa, não tô no clima de festa! - respondeu atirando-se na cama de barriga para baixo.
- Azar o seu, nós estamos e você vai conosco! A Aurora vai estar lá e você sabe o quanto eu sou louca por essa menina há séculos. Nós vamos sim, vamos, vamos e vamos! - Maitê respondeu e bufou contra o lençol. - Tá aqui! Inconcebível uma saia linda dessa ficar guardada no guarda roupa porque o namorado tem ciúmes! - Pilar jogou a saia em cima de , voltando ao closet para procurar uma blusa que combinasse. - Vamos aproveitar que você está solteira e dar uma repaginada nisso aqui! O que é bonito é para se mostrar mesmo, minha filha!
- Adivinhem quem me mandou uma mensagem hoje perguntando se a vai? - Almerinda perguntou aos risinhos e as três amigas lhe encararam com expressões duvidosas. sentiu o coração acelerar em expectativa.
- vai? - Perguntou mortificada.
- Que o quê! - Almerinda espalmou o ar e voltou a deitar a cabeça na cama sem saber se sentia-se triste ou feliz por não ter sido ele. - O ! - Almerinda respondeu com um sorrisinho e Maitê e Pilar trocaram um olhar cúmplice.
- Ah - disse sem interesse. - O que ele queria?
- Perguntou se você está bem e se nós vamos hoje. Pareceu bem animadinho em te ver…
- Ai, o é uma graça! Ele é tão fofo, tão meigo, dá vontade de apertar! - Maitê disse carinhosamente. - Se eu fosse hétero ele seria meu. Pena que ele só tem olhos para e só sofra, tadinho.
- Sofrer por quê? - perguntou curiosa e Almerinda riu.
- Porque ele é a fim de você desde… sempre e você nunca deu bola para ele.
- Eu tinha namorado, Almerinda… - respondeu como se fosse óbvio e Maitê ergueu uma sobrancelha.
- Bom, agora você está solteira. Não rola?
- Não, não consigo nem pensar em beijar outra pessoa no momento. - respondeu sinceramente.
- Bom, eis o meu ponto. Só sofre esse !
- ACHEI! Você vai com essa blusa aqui! E não se usa sutiã com ela! - Pilar disse de repente chamando a atenção das amigas, trazendo uma blusa de alcinha preta bastante decotada. - É hoje que o morre! - Completou fazendo as amigas rirem.

O Boomerangue estava lotado como de costume.
Sexta-feira à noite e todos os universitários da cidade pareciam se encontrar no barzinho minúsculo que era tão bem frequentado que ocupava uma rua inteira de jovens amontoados pelo asfalto que se reversavam entre pegar as bebidas no bar e voltar para a rua.
Carros de som estavam estacionados na rua, ambulantes vendiam cervejas baratas e alguns estudantes vendiam seus brigadeiros alucinógenos clandestinamente. Era uma algazarra que só.
Quando entrou no Boomerangue acompanhada por suas amigas, diversos olhares se voltaram até ela. Alguns eram de surpresa, outros de choque, alguns de curiosidade e outros de interesse. Para sua infelicidade, havia muitas pessoas conhecidas no local.
O bar era famoso por seus drinks exóticos de sabores inusitados e misturas altamente alcoolicas. Enquanto esperavam no balcão por seus pedidos, uma voz doce ecoou por trás delas.

- ! Maitê, Pilar, Almerinda! Como é bom vê-las! - Aurora se materializou lançando seus braços em volta dos pescoços das meninas, que sorriram com a sua presença.
- Aurora! Como você está? - perguntou sorrindo sinceramente recebendo um abraço apertado da menina.
- Estou bem! E você, como está? É muito bom te ver aqui! - Aurora disse animadamente e sorriu, sabendo que ao seu lado Maitê provavelmente estaria hiperventilando.

Não era para menos. Aurora era uma daquelas pessoas que não passam despercebidas em nenhum ambiente. Ela era estilosa, doce e tinha uma presença com uma energia tão boa que ficar perto dela era como estar sempre em festa.

- Vocês precisam beber esse de gengibre, é maravilhoso! - Pilar chamou atenção de e Almerinda, puxando as amigas até o barman, deixando Maitê e Aurora sozinhas sutilmente.
- Não olhe agora, Almerinda, mas o Aaron está te secando intensamente, não sei como você não caiu morta e desidratada ainda. - disse e Almerinda ruborizou instantaneamente.
- Mentira, fala sério.
- Tô falando sério. Por quê?
- Porque a Almerinda tem uma crush fodida nele. - Pilar respondeu recebendo um tapinha da amiga que estava vermelha feito um pimentão.
- Aaaaah, mentira? Como assim eu não sabia disso?! - arregalou os olhos.
- N-não é n-nada demais. - Almerinda respondeu timidamente ao mesmo tempo que o barman trazia os pedidos.
- Beber sem brindar dá azar, meninas! - O barman alertou e as amigas riram se entreolhando.
- À nossa amizade - Almerinda disse levantando o copinho de shot.
- À superação da - Pilar ergueu seu copinho também.
- Aos últimos segundos do BV da Almerinda! - ergueu seu copinho e brindou no das amigas, bebendo de uma só vez em seguida, sem dar tempo de ouvir a resposta delas, sentindo a bebida descer rasgando por sua garganta. Pilar caiu na gargalhada e Almerinda engasgou tossindo e espalhando bebida por todo lado, molhando as amigas.
- Esse é muito forte, Almerinda? Quero desse então! - Antes que as meninas pudessem responder, uma voz ecoou por trás delas deixando Almerinda mortificada. Lentamente se virou de costas, dando de cara com Aaron, que havia se aproximado sorrateiramente das amigas.
- Oi, Aaron! - Pilar e cumprimentaram alegremente e Almerinda voltava a ruborizar furiosamente.
- Oi, meninas! - Aaron cumprimentou alegremente. - Ei, ! Olha quem eu encontrei por aqui! - O rapaz chamou pelo amigo que estava mais atrás, fazendo as meninas se entreolharem em risinhos nervosos.

Alguns segundos depois, entrou no campo de visão e tinha que admitir, ele estava muito bonito. Usando uma camisa cinza e jeans escuros, se aproximou das meninas com seu habitual sorriso animado e descontraído.

- Olha a patota toda reunida hoje! Que milagre! - cumprimentou alegremente as meninas com um abraço apertado em cada uma. Ao sentir os braços do rapaz ao redor do seu corpo, pôde sentir o cheiro de loção masculina tão agradável que ele emanava.
era um rapaz bonito, alegre, gentil, simpático e ainda por cima, cheiroso. Se a ocasião fosse diferente, ele teria grandes chances com ela.

- Oi, genteeee! - A voz de Aurora ecoou aproximando-se do grupo que conversava e ria animadamente, escolhendo a nova rodada de drinks. - Me esperem, vou beber dessa vez!
- Vamos todos de absinto? - Maitê perguntou animadamente e trocou um olhar cúmplice com as amigas que já sabiam o que ele aquele sorriso significava.
- Ok, no três!
- Um!
- Dois!
- Três! - Os sete falaram ao mesmo tempo, virando seus respectivos shots de absinto.

Aquela seria uma noite memorável.

- Esse bar está lotado, vamos ficar lá fora um pouco? - Aaron propôs e todos concordaram. Após mais uns dois shots de drinks, sairam aos tropeços e risadas do bar, se amontoando entre os outros estudantes na rua. Algum dos carros de som tocava uma música animada de Nick Minaj e David Guetta e as pessoas dançavam animadamente com o ritmo.

Discretamente, Aaron engatou num papo animado com Almerinda sobre algum assunto aleatório e se divertiu observando a timidez da amiga dar lugar a euforia, já que o alcool começava a fazer efeito. Aaron era um rapaz bonito e muito divertido. Ficaria muito feliz se Almerinda ficasse com ele. Pela forma como a amiga reagira há momentos atrás, era evidente que tinha uma quedinha por ele.
Virou de lado para comentar isso com Pilar, mas encontrou a amiga há metros de distância num beijo voraz com Josué, um rapaz com quem ela ficava há meses, mas se recusava a assumir um relacionamento mais sério.

- E aaaai, princesa?! Aceita um bolinho especial? - Sua atenção foi voltada para um rapaz barbudo e de coque que lhe oferecia bolinhos numa bandeja.
- Hmmm, o que tem dentro desse bolinho especial? - perguntou divertidamente percebendo o olhar de sob si a alguns metros de distância.
- Um mestre nunca revela seus segredos! Mas posso te garantir que te deixa calminha, calminha. - O rapaz respondeu com um sorriso engraçado e riu sem saber exatamente o porquê. Talvez fosse os shots de Absinto já fazendo efeito.
- Nunca experimentei, será que é bom? - perguntou incerta e ouviu rir sem conseguir se conter. - Não ri de mim, !!!
- Não estou rindo de você! - Ele respondeu rindo ainda mais - Quer experimentar?
- Quero, experimenta comigo? - Ela perguntou fazendo biquinho e notou os olhos dele se perderem por um instante.

Neste momento, seu ego deu um salto e duas cambalhotas. Era estranho, mas muito bom se sentir desejada novamente. E era evidente que era interessado por ela.

- Claro, se você insiste… - Ele respondeu sorridente, voltando do seu transe e sorriu vitoriosa.

O bolinho era gostoso, tinha que admitir.
Por um momento, tudo que conseguia sentir era o topor. Rir com seus amigos no meio da rua, ouvindo música num carro de som, bebendo cervejas baratas, drinks aleatórios e comendo brownies de maconha. Há quanto tempo não se permitia esse tipo de diversão? Ou qualquer tipo de diversão? Há quanto tempo não saia com suas amigas para rir? Por um breve segundo esqueceu-se de que seu coração estava partido em mil pedaços e apenas se deixou levar pelo momento. Se estivesse com ela agora, provavelmente teria parado de beber no primeiro drink. Nunca teria saído com aquela saia, e jamais pensaria em comer aquele brownie tão gostoso que deixava seus dedos dormentes.

- Vaaaamos dançar! - Disse de repente, puxando pelo braço, rodopiando no mesmo lugar.
- Mas não está tocando nenhuma música dançante! - O rapaz respondeu e riu bobamente.
- Então vamos pular!
- , você está bem? - perguntou em meio a risinhos e balançou a cabeça em negação.
- Tô simmm! - Disse contraditoriamente fazendo-o gargalhar ainda mais.
- Você é estranha, !

Antes que pudesse responder, no entanto, sentiu alguns pingos gelados de chuva na sua testa e ombros, indicando que logo, logo começaria a chover.

- Ai, não, chuva nããããooo! Chuva me deixa tristeee. - Disse embolando as palavras fazendo um biquinho que na opinião de era perfeitamente adorável.
- Vamos, entra aqui. - Ele disse abrindo a porta de um carro aleatório que estava com o porta malas aberto, tocando uma música que não sabiam reconhecer.

Ao sentir os pingos de chuva, no entanto, Aurora e Maitê também correram para se abrigar no carro e logo Aaron, Almerinda, Pilar e Josué também.
Após disputarem vagas e lugares, acabaram amontoados no carro uns sob os outros, aos risos nervosos e arrastados.
No banco do motorista e se espremeram, quase que no colo um do outro. Ao lado, no banco do carona, Maitê estava com Aurora no colo. No fundo, Almerinda, Aaron, Pilar e Josué se amontoavam disputando por espaço ao mesmo tempo em que a chuva começava a cair impiedosamente do lado de fora.

- Meu Deeeus, esse carro tá abafado demais, como assim essa chuva de repente? QUE SACOOOO! - Pilar gritou.
- Fica quieta, eu to recebendo cotovelada! - Almerinda reclamou.
- Senta aqui, Almerinda! - Aaron puxou a menina para seu colo ao que os amigos riram abertamente ao perceber que a menina foi de bom grado feliz da vida, solta pelo efeito da bebida.

Alguns segundos se passaram e os amigos começaram a ouvir um barulho característico de beijo vindo do banco de trás.

- Nossa, nós somos amigas mesmo, viu? Posso dizer que estive presente no momento em que Almerinda perdeu o BV. - Maitê sussurrou baixinho e riu alto, chamando atenção dos amigos.
- Perda do BV da Almerida, eu fui!
- MAITÊ, ! - Almerinda repreendeu nervosamente levando os amigos as risadas.
- Sério que você era BV? - Josué perguntou incrédulo.
- Não parecia! Deve ser um dom natural. - Aaron falou e as meninas não precisaram olhar para Almerinda para saber que a amiga estava ruborizando intensamente.

As risadas foram se perdendo no carro conforme os casais foram trocando carinhos e em consequência, beijos.
sentiu-se incomodada de repente. Ao seu lado, Maitê realizava o sonho da vida de ficar com Aurora. No banco de trás, Almerinda perdia o BV e Pilar beijava Josué pela milésima vez. Sobraram ela e . Propositalmente.
Nunca perdoaria as amigas por isso.
, por sua vez, parecia tão incomodado quanto ela. Mexia nas estações de rádio procurando algo interessante para colocar evitando o máximo que podia contato físico com , o que era impossível, visto que ela estava quase sentada em seu colo.

- Quero fazer xixi. - sussurrou de repente, sentindo sua bexiga comprimir.
- Mas, , tá chovendo muito - respondeu franzindo o cenho. - E o Boomerangue está lotado, você nunca vai conseguir chegar até o banheiro.
- Vou fazer xixi atrás do carro, não ligo, preciso fazer xixi ou eu vou morrer. - sentenciou e riu. - Sério, sai, você precisa sair para eu conseguir sair. - Ela disse e desajeitadamente ele abriu a porta e saiu em meio à chuva forte para que ela conseguisse sair também.
- , vem me dá cobertura! - puxou o menino pela mão e ele riu nervosamente.
- Tá louca?
- Não, , eu estou me mijando e preciso que você fique parado na minha frente para ninguém ver! - disse posicionando o rapaz de costas numa barreira enquanto se agachava no pneu do carro, ajeitando a saia.
- Meu Deus, , quando eu pensei em sair com você, isso não estava nos planos! - comentou rindo, completamente encharcado de chuva.
- Desculpe, eu estava para morrer de bexiga cheia! - disse levantando-se e ajeitando a saia. - Pronto, pode se virar.

Eles se entreolharam e gargalharam em seguida.

- Você é muito doidinha sabia disso? - disse sacodindo a cabeça, fazendo alguns pingos gelados de chuva pinicarem o rosto de .
era um rapaz bonito, prestativo, engraçado e estava ali, super a fim dela, encharcado de chuva, cheiroso, um pouco embriagado e chapado.
Alguns centímetros de distância e podia beijá-lo.
Mas apesar de todas as qualidades, tinha um defeito horrível e irremediável.
Ele não era .
E não adiantava. Por mais que estivesse se divertindo e tivesse uma noite louca e memorável, não conseguia tirar da cabeça que trocaria toda aquela doidera para estar nos edredons dele, confortável e quente nos braços que se encaixavam tão bem aos seus. Por mais que fosse amável, fofo, engraçado e gentil, era de que ela gostava. Um tanto quanto grosseiro e sem tato, mas ainda assim, o amava. E estava ali, prestes a beijar outro menino e não conseguia tirá-lo da cabeça. Ficar com outra pessoa nesse momento parecia um ato de traição.
Ainda não estava pronta.
Antes que pudesse perceber, um líquido quente estava escorrendo por seu rosto em contraste com os pingos gelados de chuva que caiam do céu. Estava chorando mais uma vez. Estava bêbada, chapada e de coração partido. De que adiantava tudo isso se não conseguia esquecê-lo nem por uma noite?

- , me desculpa, você é um cara legal, mas…
- , ei, para. Tá tudo bem! Quer que eu te leve para casa? - a tranquilizou, a puxando para um abraço o qual ela não recusou. Não eram os braços de , mas eram reconfortantes também.
- Quero.


***


acordou com a pior dor de cabeça que já tinha sentido na vida. Não sabia dizer exatamente se era efeito da bebida ou se das longas horas de choro que tinha passado antes de dormir. Apesar de ter se divertido verdadeiramente na noite passada, ainda assim, voltara para casa para companhia do seu travesseiro se lamentando por não ter mais do seu lado.
Pensando nele… Como será que estaria?
Duas semanas sem o menor contato era um recorde entre eles. Nunca passavam mais de duas horas sem se falar, quem dirá tantos dias. Sentia tanta saudade da troca de mensagens, de ouvir a voz dele, de saber como estava, de contar os detalhes mais sórdidos do seu dia.
Como ele estaria?
O que estaria fazendo?
Só esse simples pensamento foi o suficiente para criar diversas teorias em sua cabeça sobre o que ele estaria fazendo e com quem. Imagens terríveis perambulavam por sua consciência. Será que ele estava sofrendo? Será que ele sentia tanto a sua falta como sentia a dele? Será que estava bem?
Será que estava com outra?
Num impulso, esticou-se até o criado mudo para pegar o celular. Sabia que não devia fazer isso, sabia que a regra número 1 para a superação era não fuçar as redes sociais do ex-namorado. Mas era mais forte do que ela. Antes que pudesse refrear o pensamento, já estava abrindo o aplicativo do Instagram, procurando pelo user do rapaz.
O coração batia descompassado e suas entranhas reviravam de um jeito que seria capaz de vomitar ali mesmo, tamanho era seu nervosismo. Tremia da cabeça aos pés e precisou se segurar com força nos lençois para conter o espasmo do frio repentino que lhe invadiu ao vasculhar a conta do ex.
Todas as fotos que tiraram juntos haviam sido deletadas.
Não tinha sobrado uma para contar história. Nem mesmo as que tiraram com os amigos em comum. Nem com a família, nem com o cachorro. Nada, ninguém, nenhuma.
Em contrapartida, nenhuma postagem atual. Nem no facebook.
Perceber como estava seguindo em frente a deixava sem chão. Ele havia deletado todas as fotos. Fotos que ela ainda se martirizava olhando vez ou outra como se fosse possível se materializar naquele instante em que a fotografia fora retirada, para reviver aqueles sorrisos, os beijos e o carinho entre eles.
Magoada e ressentida, começou a apagar suas fotos também. Uma a uma, revivendo cada momento em que fora retiradas, sentindo seu coração se comprimir cada vez mais. Como era possível tamanha frieza por parte dele? Logo , que sempre fora tão intenso e apaixonado…
Sentia-se tão chateada, tão inconformada! Como podia ser um dia conversar sobre todos os assuntos do mundo com uma pessoa e de repente não poder falar com ela quando queria? Como conseguiria se comportar feito uma completa estranha com alguém que já tinha sido o seu mundo? Não era justo.
É amarga a sensação de querer ser consolado pela pessoa que te feriu.
“Foda-se, já estou na merda mesmo.”
pensou ao abrir o aplicativo do whatsapp e digitar o nome “” na lupa de busca. Enquanto mil vozes ecoavam no seu ouvido implorando para que ela não fizesse o que estava prestes a fazer, ela digitou:

“Achei que iríamos manter pelo menos as nossas fotos.”

O coração batia fortemente contra o peito. Que sensação estranha! Sentir-se tão nervosa e tão angustiada conversando com ele. Esperando ser visualizada, esperando uma resposta.
Que não tardou a vir.


Bom dia, . Se divertiu muito ontem? A festa foi boa né…

Oh, droga! Então era isso. Ele sabia. Não era à toa que tantos olhares se voltaram para ela quando entrou no Boomerangue. Com certeza alguns amigos dele estavam no meio. Apressou-se em digitar, tentando encontrar palavras para se justificar para ele, pois havia percebido o tom de escárnio na mensagem.
Até lembrar que não precisava mais se justificar.
Estava solteira, não estava? Por bem ou por mal, fazia o que queria da própria vida. Não precisava se justificar ou criar desculpas por ter saído para se distrair com as amigas. O que ele esperava que ela fizesse? Ficasse trancafiada em casa chorando e sofrendo o tempo inteiro?


Já estive em melhores. Foi legal.


Ah, jura? Não seja modesta, as fotos provam que você parecia bastante soltinha.


Que fotos?

E em cerca de dez segundos depois, enviou no anexo uma foto de e rindo e dançando no meio da rua. Não sabia quem tinha tirado aquela foto, mas com certeza era algum dos amigos de . Ela parecia feliz e despreocupada, totalmente diferente daquilo que se sentia por dentro. Quebrada, desamparada e miseravelmente infeliz.
Não sabia o que responder. Colocou-se no lugar de por alguns instantes e sentiu-se um lixo. E se fosse ela a receber uma foto dele com outra pessoa algumas semanas depois de terminarem? Ficaria arrasada, decepcionada, provavelmente o procuraria para brigar e dizer todos os desaforos do mundo.


Não é o que parece...


Não me interessa. O que você faz ou deixa de fazer não é da minha conta, você não me deve satisfação. Você não é nada minha.

Outch, aquilo tinha doido. “Não me interessa”; “Você não é nada minha”. Quem havia congelado o coração de ? Como ele conseguia fazer parecer como se ela não tivesse mais importância alguma na vida dele?


Se não te interessa, então por que tá falando disso? Você parece com ciúmes


Não estou com ciúmes, só achei desnecessário


O que é desnecessário? Um amigo babaca seu tirar uma foto minha e te enviar? Também achei. Se eu tô solteira e faço o que quero, por que você está se dando ao trabalho de me questionar alguma coisa?


Não te perguntei nada, você quem veio falar comigo. Porque você tá passando vergonha. Querendo se exibir, se aparecer, tá bizarro para sua cara. Eu não to com ciúmes, como disse, não me interesso pelo que você faz.

A essa altura já não conseguia mais conter as lágrimas. Como ele conseguia ser tão seco? Por que a estava tratando tão mal? Onde estava a consideração pelos tantos anos que passaram juntos? Não reconhecia mais naquela pessoa fria e ácida que ele havia se tornado. Ou talvez, ele sempre tivesse sido assim e ela nunca quisera perceber.


Eu tô passando vergonha? Eu só saí com minhas amigas para espairecer e me divertir. Você mesmo disse que eu tô solteira e faço o que quiser. Por que eu to sendo bizarra? Porque você acha que é o centro do universo e tudo que eu faço é para te afetar? Isso é ciúme.


Que seja, ! Sim, eu ainda te amo, sim ainda tenho ciúmes, foda-se. Mas quem veio falar comigo foi você. Eu fui tirar satisfação? Não. Então cuida da sua vida e me deixa em paz de uma vez. Cresce, criança!

Me deixa em paz de uma vez. Cresce, criança! leu e releu as mensagens sentindo seu coração se partir em milhões de pedaços. Por que estava sendo tão insensível? Por que ele tinha tão pouco respeito e empatia por sua dor? Por que ele estava agindo feito um babaca falando todas aquelas coisas com aquele tom tão hostil, perceptível até por míseras mensagens virtuais?
Chega de autossabotagem por hoje. Pensou com veeminencia afastando o celular do seu alcance. Contorceu-se nos lençois e esperou o choro que não demorou de chegar. Quando aquela dor iria passar? Não tinha uma anestesia para fazê-la dormir e só acordar seis meses depois? Feliz, curada, radiante? Onde tinha ido parar a pessoa por quem havia se apaixonado?


***


Aos tropeços, trancos e barrancos, um mês se passou desde a última conversa com . Não demorou muito para que ela percebesse que ele - não contente em apenas apagar as fotos - também a havia excluido e bloqueado em todas as redes sociais. Aquilo rendeu mais uma sessão de choros, noites mal dormidas e dias sem comer, mas mais dia menos dia, estava aprendendo a conviver com a dor.
Determinada em fazer aquele aperto no peito cessar, manteve-se ocupada em todos os momentos que podia. Quando não estava estudando, ajudava a mãe no trabalho. Quando não trabalhava, saia com as amigas, quando não saia com as amigas, estava tão exausta que sua única vontade era de dormir.

- Nem acredito que hoje é finalmente sexta-feira! Que alívio essa semana do cão acabou! - Pilar falou atirando os braços pra cima.
- Ainda bem! Finalmente vou ter um tempo para sair com o Aaron. - Almerinda comemorou arrancando risadinhas das amigas.
- As coisas estão ficando sérias, então, né? Não se desgrudam mais! - zoou dando um empurrãozinho no ombro da amiga que sorriu sapeca.
- Ele é um amor! - Almerinda confessou com os olhos brilhando e as amigas riram ainda mais.
- Tá apaixonada, tá apaixonada! - Entoaram zoando a amiga que riu mostrando-lhes a língua.
- Oi, meninas, como estão? - Foram interrompidas pela voz animada de Ysis, uma colega de curso que passava pelo pátio da faculdade.
- Oi, Ysis! Como está? - cumprimentou a colega com um abraço e um sorriso sincero.
- Tô bem, . Vem cá, você e o não voltaram não, né? - Ysis comentou tristemente e deixou o sorriso murchar. Pilar, Almerinda e Maitê trocaram um olhar cúmplice sobre a falta de tato da colega.
- Não… Não voltamos - respondeu sentindo seu coração acelerar ao notar a expressão da colega suavizar. Com certeza ela sabia de alguma coisa. - Por quê?
- Ah, nada não, só queria confirmar mesmo. - Ysis respondeu vagamente, dando-se conta da gafe. - É que você parece tão bem!
- Ysis, desembucha, o que foi? - perguntou já trêmula, sentindo seus joelhos vacilarem. Ao seu lado, suas amigas estavam a postos, tão apreensivas quanto ela.
- Ai, é que eu encontrei ele na rua esses dias… Estava de mãos dadas com uma menina. - Ysis falou e precisou se segurar com força em Almerinda, pois achou que se não o fizesse, iria cair no chão. - Mas não estavam se beijando nem nada, mas…Pareciam bem íntimos.

Ysis completou meio incerta e encarou com o olhar penalizado. , por sua vez, encontrava-se sem chão. O mundo parecia ter desabado sob sua cabeça num segundo.
Sabia que ocasionalmente isso viria a acontecer, só não sabia que seria tão rápido.

- Desculpa, , não quis te chatear - Ysis falou parecendo arrependida. - E se te conforta saber, você é bem mais bonita do que ela!
- Não me conforta. Não precisa falar mal dela para me agradar. - respondeu tentando conter as lágrimas que já embaçavam sua visão.
- Ysis, isso não se faz, poxa! Não se dá notícias do ex para amiga, nunca, sob hipótese alguma! Isso acaba com o dia da gente! - Maitê se pronunciou ralhando com a colega que parecia desamparada.
- Desculpa, não sei o que me deu. Fiquei na dúvida se eles tinham voltado, eles sempre voltam no fim das contas! Me senti na obrigação de contar. - Ysis falou sinceramente.
- Não precisa se desculpar, Ysis, tá tudo bem. Obrigada por me contar, mas não precisa se sentir na obrigação, eu não quero saber de mais nada que envolva o . - disse decidida passando a mão pelo rosto, forçando um sorriso.
- Hm, tudo bem. Enfim, tenho que ir. Desculpa de novo, . - Ysis disse envergonhada afastando-se das quatro meninas.
- Sejam sinceras, vocês sabiam disso? - perguntou de uma vez, desvencilhando-se dos braços de Almerinda, dando um passo a frente para encarar as amigas.
- … - Pilar começou a falar e sentiu seu peito em brasa. Conhecia aquele tom de voz.

Suas amigas sabiam.
E não contaram nada.

- Eu não acredito! Há quanto tempo vocês sabem disso? Ele está mesmo com outra pessoa? - perguntou ultrajada, sentando no banco sentindo que não aguentaria mais nenhum segundo de pé.
- Percebemos há algum tempo a movimentação no instagram. Primeiro achamos que era bobagem, mas depois foi ficando recorrente… - Maitê explicou-se utilizando o tom de voz mais contido que podia. - Nós não quisemos te deixar pior, não seria saudável saber disso. Você poderia querer tirar satisfação com ele e ficar ainda pior.
- Mas é claro! Ele foi um arrogante quando me viu na festa com o e agora já está com outra pessoa! E exibindo isso nas redes sociais?! Pelo amor de Deus, não tem nem dois meses que a gente terminou! - exclamou sentindo-se pior do que nunca.
- E não é só isso… - Almerinda falou baixinho atraindo a atenção de . - Eles estão… muito carinhosos um com o outro. E já postam fotos juntos. Parece que está ficando sério.
- Então foi por isso que ele me bloqueou de tudo? Para que eu não pudesse ver? Por que vocês nunca me contaram? Nunca chegaram a pensar que doeria menos saber por vocês do que por outra pessoa?
- Nós não tivemos coragem de te dizer, . Você estava indo tão bem, cada dia menos triste, mais animada, não quisemos te arrastar para baixo. Desculpa. - Pilar confessou analisando com atenção as expressões faciais da amiga, que parecia prestes a desabar mais uma vez.

Na cabeça de , tudo acontecia como um turbilhão à mil por hora. Há poucos meses fez juras de amor. Prometeu mundos e fundos, disse que era o grande amor da vida e que ainda iriam casar. Quando terminaram, jurou de pé junto que não era por outra pessoa. Disse que precisava de um tempo sozinho para colocar a cabeça no lugar. Mas, no fim das contas, talvez não fosse com a cabeça de cima que estivesse pensando.
Tinha outra pessoa dormindo na cama que ela costumava dormir. Outra pessoa usando suas cuecas boxer, outra pessoa usando suas camisas largas. Outra pessoa que andava de mãos dadas na rua com o homem que tinha o seu nome tatuado no braço. O que ele tinha feito com a tatuagem? Será que já tinha marcado uma sessão para remover ou feito outro traço por cima?
Como conseguia partir para outra tão rapidamente?
Até beijar outras pessoas parecia tão difícil para ainda.
Como ele conseguia ser tão frio? Será que todas as últimas declarações tinham sido mentira? Será que ele já não a amava há tanto tempo assim? Como ele conseguia?
Aquele foi um dia especialmente difícil para . As lágrimas pareciam ser de uma fonte inesgotável. A dor de ser trocada, a dor de ter outra pessoa no lugar que costumava ser dela. O ciúme, a inveja, a rejeição, a invadiam com tanta força que não conseguia evitar se sentir tão para baixo. Numa atitude desesperada, pediu para as amigas mostrarem quem era a menina com quem ele estava ficando. Ela era linda! Como competir com isso?

- Não existe competição, amiga. Você teve sua vez, ela está tendo a dela. Não vou deixar você ficar fuçando o facebook da menina. Não faz bem e martiriza. - Maitê disse tomando o celular da mão de que chorava copiosamente.
- Ela está com ele… - Balbuciava em meio ao choro, soluçando sem parar.
- Antes ela do que você! Pensa que agora ele não é mais problema seu! O mau humor, as crises de ciúme, a gritaria, as brigas, a indiferença… Tudo isso agora é problema de outra! Você não perdeu, se livrou! - Pilar disse, ajoelhando-se de frente para no banco, enxugando as lágrimas da amiga.
- Eu espero que pelo menos ela tenha um sexo melhor e não precise fingir orgasmos como eu fazia. - confessou num risinho lacrimoso e as amigas sorriram para ela.
- Canta para subir, amiga! Esse embuste já provou que não vale nada! Só mentia e te deixava triste. Descumpriu todas as promessas que te fez. Resta agora a gente esperar que essa menina não precise passar por tudo que você passou. - Maitê disse num tom decidido e suspirou fundo.
- Eu vou conseguir sair dessa, vai dar tudo certo. Pior do que está não fica.

Mas aquela não foi a única decepção que teve com no pós término.
Saber que ele já estava distribuindo amores por outra pessoa poucos meses depois de terminarem foi só o recheio do bolo de decepções que teve com ele. Poucos dias depois do ocorrido, descobriu da pior forma possível que o ex-namorado tinha falado mal dela para todos os amigos, que tinha feito a famosa “caveira”, expondo até detalhes íntimos sobre o relacionamento deles.

- Ele anda dizendo para todo mundo por aí que a implorou para ele não terminar, que não aguentava mais ela, que estava farto e que terminar foi uma benção. - Ouviu dois amigos dele conversando no bar de uma festa.
- Aaaah, ele anda dizendo isso por aí, é? - intrometeu-se na conversa, pegando os dois amigos de sobressalto. Suas narinas estavam infladas de ódio. Como era possível que fosse assim tão baixo? - O amiguinho de vocês se esqueceu de mencionar que ele é covarde demais para terminar um namoro. Eu quem precisei fazer isso. E ele mencionou que me bloqueou de todas as redes sociais porque não aguentava me ver sendo desejada por outros caras? - disse num sorrisinho falso dando as costas aos meninos antes que pudessem falar alguma coisa.
- Ei, , tá tudo bem? - Aurora perguntou puxando a amiga pelo braço enquanto ela saia em disparada pelo bar, um pouco bêbada.
- Por que homem magoado desce as profundezas do inferno para chamar atenção? Por que eles se empenham tanto em te fazer sentir um lixo, não importa quanto tempo vocês passaram juntos? Cadê a porra da consideração? - perguntou sentindo-se furiosa.
- Porque eles são homens e o ego masculino é muito frágil. Se ele estiver magoado, vai fazer o máximo possível para parecer para os amigos que não se importa. - Aurora respondeu simplesmente e bufou irritada.
- Eu to farta! Eu tô farta dele! Tô cansada de , , ! Eu tô cansada de só me decepcionar com ele, cansada de esperar que ele me trate com o mínimo de consideração. Cansada de esperar alguma coisa fazer sentido, ele é um bosta, me trata feito lixo e eu ainda me importo com ele. Eu tô FARTA! Pra mim já chega! A partir de hoje está morto para mim! - exclamou com ferocidade, sem se importar se estava gritando ou não. Estava tão cansada de só se decepcionar e tentar manter as coisas em calmaria pensando numa amizade futura. Verdade seja dita, nunca conseguiria ser amiga de depois disso. Não depois que ele a expôs e ridicularizou para todos os amigos, fazendo-a sentir sem importância.
- Tá na hora de você sair desse luto, amiga! Comece a relembrar os motivos pelos quais você quis terminar em primeiro lugar. está longe de ser perfeito, mas agora que vocês terminaram, você só consegue visualizar as coisas boa. Tá na hora de ver as coisas sob uma nova perspectiva. - Aurora disse puxando para um canto mais silencioso do bar.
- E por quê? Por que quando a gente termina o namoro fica assim, parecendo uma ameba irracional? Esquecendo tudo que a pessoa já fez de errado? - perguntou frustrada e Aurora sorriu paciente.
- Porque o amor é química. Quando nos apaixonamos, nosso cérebro produz uma substância que nos deixa feliz e viciado. Quando terminamos um relacionamento, e nosso corpo perde a fonte dessa substância, entra em abstinência e aí a gente sofre. Ficamos tão desesperados para ter essa sensação de volta que fazemos as coisas mais absurdas do mundo. Nos apegamos a músicas, a fotos, tomamos atitudes idiotas como ligar e mandar mensagem. - Aurora explicou pacientemente e prestava atenção em cada palavra que a amiga dizia. - E assim como qualquer vício, o tempo ajuda a curar. Mais dia menos dia, a dor vai passando e tudo se ameniza. Você vai começando a ver as coisas com clareza quando essa abstinência vai passando.
- Essa dor um dia passa? - perguntou tristemente sentindo-se instantaneamente desesperada. Aurora apenas sorriu e beijou a testa da amiga.
- Essa é a graça: tudo isso passa!


***


E toda aquela raiva tinha sido um bom combustível para que espantasse o clima de luto de uma vez por todas de dentro de si. Assim como dissera para Aurora, estava cansada de esperar por uma consideração que não viria de . Precisava tocar sua vida adiante, e para fazer isso, precisava se livrar da sensação de que iriam voltar a qualquer minuto. Não iriam voltar.
Nunca mais.
Focada em conseguir ficar bem, apagou de uma só vez, todas as fotos de do seu celular. Bloqueou do whatsapp, colocou o número dele na lista indesejada e apagou o contato do celular. Retirou todas as fotos espalhadas pelo quarto e guardou todos os presentes que ele já tinha dado numa caixa em cima do guarda roupa, longe do campo de visão. Guardou ursinhos de pelúcia, cartas, letras de música, cds, livros, pulseiras e até mesmo o anel de compromisso que costumavam usar.
Colocou uma música bastante animada no último volume e fez uma faxina memorável no seu quarto. Vasculhou cada canto recolhendo todos os pertences dele que ainda estavam espalhados por sua casa. Camisa de banda, cuecas, cadernos, bonés, tênis e tantas outras coisas que ele havia esquecido. Tudo numa caixa para ser devolvido.
Dançou só de calcinha, pulou na cama, performou no quarto usando sua escova de cabelo como um microfone, sentindo-se livre por bater o cabelo sozinha ouvindo som alto. Sentia-se contente por estar se divertindo depois de tanto tempo. Sabia que o que estava fazendo era necessário para melhorar e estava disposta a seguir à risca cada passo da sua lista da superação.
Sim, escreveu numa lista passo a passo que precisaria fazer para conseguir superar a fossa.

1) Deletar fotos e bloquear o número;
2) Proibir os amigos de falar sobre ele;
3) Proibir de falarem mal da atual dele;
4) Devolver todos os pertences;
5) Guardar os presentes;
6) Fazer uma viagem;
7) Ler um livro novo;
8) Mudar o visual;
9) Conhecer pessoas novas;
10) Recuperar a autoestima.

Depois de tantas festas, bebidas e garotos, sentia a falta e a necessidade de passar um tempo sozinha para colocar a cabeça no lugar. Precisava desintoxicar daquele relacionamento longo e conturbado, precisava modificar a concepção que passara a ter sobre o amor e essas divagações só seriam possíveis se estivesse sozinha.
Tinha aproveitado as festas ao lado das amigas, tinha se divertido conhecendo novos caras e reaprendendo a flertar e a beijar outros rapazes. Mas sentia a necessidade de passar um tempo refletindo sobre tudo aquilo que tinha acontecido nos últimos tempos.
Durante muito tempo, associou o amor a intensidade. Os relacionamentos conturbados e cheios de briga, na opinião dela, eram sinônimo de paixão. Os garotos incompreendidos e pertubados chamavam sua atenção, pareciam precisar de sua ajuda e logo ela se apaixonava por eles. Havia algo de muito errado nessa história. Por que sempre parecia se atrair pelos caras problemáticos? Por que sempre queria ser útil achando que poderia mudá-los com seu amor e sua compreensão?
Essa visão romantica do mundo que deturpou sua noção de amor, a deixando a mercê de relacionamentos conturbados disfarçados de intensos e apaixonados.
Pensando por outro ângulo, era a personificação de tudo aquilo que ela não queria vivenciar de novo em um relacionamento. Ele a fazia sentir como uma pessoa que ela não gostava de ser. Se ele mentia, dizia que ela era desconfiada à toa. Fazia desacreditar da sua própria percepção de realidade. Como um amor pode ser saudável se faz duvidar da própria intuição?
E assim como acontecia em todo processo de desconstrução de valores, se culpava por ter deixado tudo aquilo durar por tanto tempo. “Como eu pude ser tão cega”? Incontáveis vezes flagrou-se martirizando por isso.

- Você precisa aprender a se perdoar também. - Sua mãe disse mais tarde naquele mesmo dia, enquanto dirigiam rumo à casa de para devolver a caixa com seus pertences. - Você precisa aceitar que também teve seus erros e acertos e precisa se perdoar por não ter se amado o suficiente. O importante é que você percebeu hoje que não é possível ter um relacionamento feliz com uma pessoa sem se amar primeiro.

Foi com as palavras da sua mãe ecoando na cabeça que respirou fundo e depositou a caixa no chão, tocando a campanhia da casa de , dando as costas sem esperar alguém abrir. Não queria contato com ele e estava pronta para dar um fim naquele ciclo.


***


- Não, meninas, eu não vou sair hoje. - respondeu pela milésima vez na video conferência.
- E vai ficar em casa? Sozinha? - Maitê perguntou e respondeu com um aceno de cabeça.
- Não seja boba, claro que não vai, vamos ficar com você. - Pilar disse revirando os olhos.
- Mas eu não tô a fim de sair hoje! Eu não preciso viver na rua em festa e badalação para provar que estou bem. Quando estiver com vontade de sair, eu saio. Hoje não tô a fim.
- Sabe do que nós estamos precisando? De uma festa do pijama. Não fazemos isso há seculos! - Almerinda falou animada e as amigas sorriram em concordância.
- Mas hoje você tem encontro com o Aaron. - disse numa risadinha.
- Ué, não seja por isso, eu cancelo! - Almerinda respondeu como se fosse óbvio.
- Não precisa, sério! - falou. - Não é porque eu não tô no clima de sair que vocês não devam ir também.
- Já está decidido, chego à sua casa em uma hora com pizza. Pilar leva as bebidas e Maitê os doces. - Almerinda falou decidida e as amigas riram em concordância, fazendo sorrir emocionada.
- Então vejo vocês em uma hora.

E aquela estava sendo uma noite muitíssimo agradável ao lado das suas melhores amigas. Comeram pizza, prepararam drinks, performaram suas divas pops preferidas, assistiram séries e comeraram brigadeiro de panela. Riram despreocupadamente e trocaram confidências como há muito tempo não faziam. não entendia porque sentia tanta falta delas se sempre estiveram juntas. Enquanto estava com , os encontros com as amigas se resumiam à faculdade.

- E o , ? Não vai rolar mesmo? - Maitê perguntou enquanto assistiam um episódio de Gilmore Girls.
- Não sei… Nos falamos as vezes, ele é tão divertido… Mas não quero dar falsas esperanças. - falou despreocupadamente.
- Depois que ele veio aqui na semana passada te entregar uma caixa com doces só porque você estava de tpm, até eu quis casar com ele. - Pilar disse se servindo de um punhado de pipoca.
- E isso porque eles nem estão ficando, ainda! - Almerinda falou e apenas sorriu dando de ombros.
- É justamente por isso que eu não quero ficar com ele agora. Não me levem a mal, o é lindo, fofo, gentil e tudo aquilo que eu sempre quis. Mas eu não quero me envolver com ninguém no momento. Eu não sou como o que sai de um relacionamento e pula pra outro, tem tanta coisa acontecendo na minha vida, eu to focando na faculdade, consegui um estágio novo, tô saindo, conhecendo gente nova, me sentindo livre depois de tanto tempo… Não quero me dedicar a uma outra pessoa de novo. É um momento meu. - confessou simplesmente pensando a respeito do rumo que sua vida tinha tomado nas últimas semanas. Tinha recuperado sua nota em Estatística com um trabalho muito bem feito, passou numa entrevista de estágio que sempre quis e estava cada dia mais segura de si. Já não sentia falta de falar com , já não doía tanto pensar que outra pessoa estava em seu lugar. Ainda tinha um sentimento muito forte em torno do término daquele relacionamento que ela ainda não tinha conseguido decifrar, mas ainda estava magoada e não queria dividir sua vida com outra pessoa.
- Eu tô muito orgulhosa de você, sabia? Você tá fazendo de tudo para superar bem, sem precisar de um homem do seu lado para te ajudar nisso. - Maitê disse.
- Autoestima é uma coisa que ninguém pode te dar além de você mesma. Quando eu namorava com constantemente me sentia feia e insuficiente, sempre o via olhando para outras mulheres. É bem capaz que essa nova namorada dele tenha sido alguém que ele já ficava enquanto estava comigo. Quando nós terminamos, eu me olhava no espelho e só conseguia enxergar a pessoa que ele rejeitou. Me sentir desejada é o máximo, saber que outros caras me querem é incrível, mas isso só alimenta meu ego. O amor próprio é construído… Ninguém vai conseguir me amar por mim. - respondeu com um sorriso singelo, sentindo-se leve de repente. Conseguir internalizar e verbalizar aquelas coisas significava muito para ela. Entender que sua decisão tinha sido dolorosa, porém muito acertada, amenizava qualquer aperto no coração.
- Você tem razão, amiga! E você está mais madura, mais consciente. - Almerinda falou admirando à amiga com um olhar orgulhoso.
- Acho que você está finalmente desintoxicando de e enxergando a vida com seus próprios olhos. - Maitê falou e sorriu em concordância. Era impressionante como ouvir o nome dele já não lhe causava mais euforia e nem dor no coração.
- Um salve para , queria quebrar meu coração, mas acabou me ajudando a me tornar a mulher que quero ser. - disse erguendo sua taça de ponche ao que as amigas imitaram o gesto entre risadas.
- Descanse em paz, embuste! - Disseram em uníssono, gargalhando em seguida.


***


Os dias se passaram tão rapidamente que até se admirou ao notar que já faziam seis meses desde o fim do seu relacionamento.
Assim como sabiamente fora dito por Aurora, a abstinência estava passando e já não sentia saudade de no seu cotidiano. Quando via alguma coisa engraçada contentava-se em mostrar para suas amigas, quando estava triste tinha quem a consolasse e pouco a pouco sua vida foi retomando os eixos. Voltara a ser uma aluna empenhada e assídua. Estava num estágio novo repleto de pessoas divertidas e prestativas.
Num dos surtos de querer repaginar a vida, se inscreveu em aulas de dança com Almerinda. Fez uma tatuagem nova com Maitê e mudou o visual junto com Pilar. Os cabelos estavam cortados e tingidos, o guarda roupa finalmente tinha sido renovado graças à ajuda de Aurora. Surpreendia-se ao olhar-se no espelho e gostar do que via. Seu sorriso nunca tinha sido tão branco, sua pele nunca tinha sido tão bonita, seus olhos nunca tinham brilhado tanto.
Estava finalmente se curando.
Nesse período, tinha se empenhado em ler livros novos, em assistir filmes construtivos e a se cercar somente das melhores companhias. Estava atenta aos sinais do seu coração e nunca se pressionava a fazer nada que não queria. Só ia pra festas quando tinha vontade e quando ficava em casa, nunca era motivo de lágrimas. Divertia-se sozinha com um balde de pipoca e suas séries favoritas da netflix. Para falar a verdade, sentia-se feliz em não recordar a última vez que tinha chorado.
Enquanto maquiava-se calmamente, notava os traços do seu rosto com um sorriso. Como era boa a sensação de respirar sem ter um peso comprimindo seu peito!

- Você está linda, ! - Almerinda falou admirando a amiga que sorriu em agradecimento enquanto retocava o batom.
- Vamos, meninas! Estamos um pouco atrasadas. - Pilar disse checando o horário no celular. - Se não chegarmos antes das dez, vai lotar!
- Além disso, o Aaron já está me esperando lá. - Almerinda disse com um olhar apaixonado fazendo as amigas rirem.
- O vai? - perguntou num tom de voz casual, sem aparentar muito interesse. Mas Pilar e Maitê se entreolharam de um jeito cúmplice.
- Não, dessa vez parece que ele vai ficar em casa. - Almerinda respondeu simplesmente e sentiu algo dentro de si revirar. Mas ignorou essa sensação. Checou sua aparência no espelho e sorriu para seu reflexo, satisfeita.
- Estou pronta, vamos.

Aurora já esperava pelas amigas na frente do Ulálá, casa de show onde resolvera comemorar seu aniversário. Assim que as quatro entraram no seu campo de visão, correu para abraçá-las, com sua energia positiva costumeira.

- Que bom que vocês vieram! Já estava triste! - Exclamou apertando o pescoço de cada uma das meninas, demorando-se propositalmente em Maitê, já que para todos os efeitos, agora estavam namorando, felizes, muito bem e obrigada.
- Estávamos só esperando a terminar de se arrumar. - Pilar disse abraçando a amiga.
- Também não é por mal! Você está linda, . - Aurora elogiou dando uma checada em , que sorriu largamente com o elogio.

As meninas entraram no bar que já estava apinhado de gente e cumprimentaram os outros amigos que estavam por lá. Riam, conversavam, e se zoavam como era de costume. Enquanto analisava o redor, sentia como se algo estivesse faltando. Não sabia explicar exatamente o porquê, mas não conseguia se livrar daquela sensação incômoda.

- Vou buscar umas bebidas, já volto. - Disse afastando-se das amigas e indo em direção ao bar, a cabeça fervilhando de pensamentos desconexos.
- ? - Uma voz conhecida lhe chamou atenção acordando-a dos seus devaneios. Foi como se um balde de água gelada tivesse sido despejado sobre si naquele mesmo instante. Com uma fisgada no coração, virou-se de costas para encarar , seu ex-namorado em carne e osso.
Desde a última vez que tinham se visto, não tinha mudado muito. Estava alguns quilos mais magro, a barba por fazer e o cabelo um pouco maior. Estava bonito, mas não o bastante para atraí-la.

- Oi! - Ela respondeu surpresa sem saber muito bem como reagir diante dele. O coração batia descompassado pelo susto e seu estômago estava embrulhado de nervosismo.
- O que faz por aqui? - perguntou tão desconcertado quanto ela, analisando milimetricamente cada parte do corpo da garota, deixando-a desconfortável.
- É aniversário da Aurora, namorada da Maitê. - respondeu simplesmente, tentando manter um tom descontraído. Era muito estranho conversar com ele depois de tanto tempo sem o menor contato. - E você?
- Só saí para espairecer mesmo. - Ele respondeu simplesmente e um silêncio constrangedor e incômodo se instalou entre eles.
- Tenho que ir.
- Escuta, queria te falar uma coisa.

Disseram ao mesmo tempo, atrapalhados. estreitou os olhos e forçou um sorriso.

- Pode dizer o que quer dizer.

balançou-se sob os calcanhares e colocou as mãos no bolso parecendo desconfortável e ansioso como há muito tempo não o via. Totalmente diferente do rapaz indiferente e frio que parecia não ter sentimentos de meses atrás.

- Nós nunca mais nos falamos, você parou de conversar comigo, queria saber como você está… - Ele começou dizendo e franziu o cenho confusa. Ele estava ficando louco, só pode.
- É meio difícil manter contato com uma pessoa que me bloqueou de todas as redes sociais. - Tentou responder num tom de voz descontraído e leve, mas não conseguiu esconder sua censura.
- É, sobre isso, queria te pedir desculpas, mas você me bloqueou do whatsapp também… - começou.
- , o que você quer? Digo, nós não precisamos fazer isso. Essa conversa aleatória e incômoda que nos deixa desconfortáveis. Nós não precisamos conversar, não somos amigos nem nada assim. - respondeu taxativamente, impressionada consigo mesma.
- Poxa, mas eu não queria isso, queria que pudessemos ser amigos. - respondeu amuado e arregalou os olhos, tentando se conter.
- Amigos? Como poderíamos ser amigos se você saiu por aí espalhando inverdades a meu respeito? Amigos não expõem uns aos outros. Ou você acha que eu não sei que você distorceu nossas conversas para seus amigos e saiu contando para todo mundo que já não me aguentava mais? - perguntou sem conseguir conter o tom de voz irritado. só podia ser doido! O que se passava pela cabeça dele para chegar num tom de voz tão manso depois de tudo que tinha feito?
- Mas eu não falei mal de você! Sempre te respeitei e admirei, você foi a melhor namorada que eu já tive. - falou fingindo-se de desentendido, usando aquele mesmo tom de voz manso e o mesmo olhar que já lhe conquistou tantas vezes. Mas agora, no entanto, só a fazia ter mais raiva.
- , me poupe. Ninguém me contou, eu vi e ouvi. E por falar em namorada, eu fui uma tão boa que você já arranjou outra pouco tempo depois de terminar comigo. Acho que ela não gostaria de te ouvir falando essas coisas. Respeite a moça como você não teve a dignidade de me respeitar! - respondeu rispidamente e se contorceu num gesto ultrajado.
- Por que você está sendo tão grossa comigo? - Perguntou sonsamente.
- , vou perguntar mais uma vez: o que você quer? - indagou sem paciência e sem rodeios.
- Eu não sei! Eu só senti sua falta, fiquei me perguntando como você estava. E te vi hoje, tão bonita, tão diferente, tive vontade de conversar, só isso…
- Me viu bem, bonita, feliz e resolveu vir estragar um pouco da minha vida, é isso? - perguntou com desdém e fez uma careta de desaprovação. Ela suspirou fundo sem conseguir entender como aquela conversa mole e aquele sorriso já tinham conseguido tanta coisa antes. - Você já teve sua chance de conseguir tudo o que queria e podia ter de mim. Quando nós terminamos, eu sofri como o diabo e precisei repaginar minha vida, por favor, não venha de conversinha mole, fingir que você se importa agora.
- Mas eu me importo! - interrompeu magoado. - Você não sente mais a minha falta?

pensou um tempo antes de responder essa pergunta. Já se questionara tantas vezes a respeito disso e agora, no entanto, estava ali frente à frente com sem saber como responder.

- Eu demorei muito tempo para entender que o que eu sentia era saudade da pessoa que eu achava que você fosse, não da pessoa que você realmente é. Eu sentia saudade de como eu me sentia com você, das nossas memórias, mas não da sua pessoa. Quando nós terminamos, um sentimento muito forte tomou conta de mim e toda vez que eu precisei lidar com ele, acabava chorando horas e horas porque não conseguia aceitar que não teríamos mais volta. Eu tinha medo de ouvir meu próprio coração, não queria entender esse sentimento. - explicou sentindo-se decidida, a cada momento tendo mais certeza das suas palavras.
- E que sentimento era esse?
- Alívio. Eu senti alívio.
- Alívio? - perguntou mortificado.
- Sim. - confirmou decidida. - Eu me sentia aliviada por não precisar mais ter que aguentar seus chiliques, seus ciúmes, sua possessividade, sua pose de machão, seus comentários desmotivadores, sua indiferença. Eu não queria aceitar que no fundo eu dava razão as minhas amigas que te achavam um péssimo namorado. Eu não queria ver o quanto eu era melhor sem você porque eu estava tão acostumada com esse sentimento… Quando consegui ver além disso percebi que minha vida está melhor agora do que nunca.
- Você só está dizendo isso para tentar me magoar. Porque ainda está com raiva de mim. - respondeu pedante e teve vontade de rir. Como ele conseguia ser tão egocentrico?
- Nem tudo gira em torno do seu umbigo, . E eu não tenho mais raiva de você. Raiva eu tive quando devolvi suas coisas, quando você falou mal de mim, quando você começou a namorar. Agora eu só quero que você seja feliz e me deixe em paz. Não somos inimigos, só não somos mais amigos e pra mim a vida tá legal desse jeito, por favor, não atrapalhe. - respondeu taxativamente, sentindo-se orgulhosa de si mesma.
- Mas eu ainda te amo, … Um amor assim só acontece uma vez e eu acho que agora eu consigo perceber isso com clareza. - disse como se não tivesse escutado uma palavra do que a garota tinha dito.

Durante muito tempo tinha devaneado com o momento em que finalmente pediria desculpas por todas as burradas que tinha feito. Durante muito tempo, todas as palavras que ele estava dizendo hoje tinham sido repetidas na sua cabeça como um sonho perfeito. Há alguns meses, isso seria tudo o que gostaria de ouvir. Talvez para elevar o ego, talvez porque ainda estivesse sob os encantos dele, talvez pelo costume ou até mesmo pela preguiça de sofrer o fim do relacionamento. Mas agora, no entanto, aquilo não a agradava mais.

- Você não sente minha falta e nem ao menos me ama mais. Você só está incomodado porque percebeu finalmente que eu não preciso mais de você para viver. Você só está inconformado porque não é mais o centro da minha vida. Cadê sua namorada? É assim que você se comportava enquanto estava comigo?
- , de que adianta eu ficar com várias pessoas se no final é sempre para você que eu volto? - perguntou num tom manso, se aproximando lentamente.
- Adianta porque eu não procurei me evoluir enquanto você ficava com Deus e o mundo e até namorava com outra pessoa, para quando eu estivesse bem você voltar pra mim como se nada tivesse acontecido. Me poupe, . - disse se afastando, restringindo qualquer aproximação dele. - Eu não sou mais sua.

encarou os olhos marejados do rapaz a sua frente. O rapaz que há tempos atrás costumava ser sua definição de mundo, que um dia tinha sido seu grande amor, hoje era apenas mais um ex-namorado, uma parte do seu passado. Tinha plena certeza de que ainda não era indiferente a ele. Sabia que um sentimento como aquele demorava muito de ser 100% superado. Mas só de conseguir dizer ‘não’ a ele já era um avanço muito grande em sua vida. Não havia rancor, não havia raiva e agora também não havia mais paixão. Respirou fundo sentindo-se renovada como há muito tempo não se sentia.

- Adeus, . Tenha uma boa vida. Por favor, não me procure mais. - disse antes de se afastar, dando as costas para o ex, de coração leve e consciência limpa, sem dar tempo do rapaz dizer mais alguma coisa.

Sentia-se tão leve que poderia ser capaz de flutuar. Enquanto caminhava em direção às amigas, achava impossível controlar o sorriso que invadia seus lábios. Sentia-se contente de novo, completa mais uma vez, independente e fortalecida. Quanta coisa tinha aprendido nos últimos meses, quanto tinha crescido como pessoa, como mulher… Como estava feliz de novo!
Enquanto se aproximava da mesa em que seus amigos estavam, deu uma olhada em todos eles. Maitê e Aurora se abraçavam e pareciam mais felizes do que nunca. Almerinda e Aaron trocavam carícias e Pilar e Josué parecia ter finalmente se assumido publicamente. Sorriu satisfateita em mirar como todos estavam felizes e bem juntos. Finalmente dando-se conta do que estava faltando. Sem que os amigos percebessem, tirou uma foto da mesa, todos rindo e conversando animadamente.

“Tá faltando uma pessoa aqui…”

digitou enviando a foto no anexo para . Seu coração palpitava de um jeito gostoso e ela soube que estava pronta.

“Sentindo minha falta?”

A mensagem chegou em alguns segundos, fazendo-a rir bobamente. Encarou o celular por alguns segundos pensando no que responder. Mas não foi necessário. Um minuto depois a segunda mensagem chegou.

“Chego em 10 minutos.”

riu gostosamente guardando o celular, seu estômago embrulhando de um jeito diferente do que estava acostumada nos últimos meses. Sabia que não precisava de ninguém para ser feliz. Finalmente tinha conseguido internalizar que não necessitava de um homem ao seu lado para conseguir se sentir completa. Tinha se recuperado por conta própria, com a ajuda dos amigos e de muita reflexão. Mas também sabia que não precisava mais sentir medo de se aventurar com outra pessoa novamente. Ainda mais se essa outra pessoa fosse .
, que sempre estivera do seu lado mesmo como um amigo. Que dirigia quilômetros para ir entregar uma cesta de doces na sua tpm, que ao invés de controlar sua bebida, bebia junto com ela. Que ao invés de reclamar das suas roupas, sempre fazia questão de lhe dizer o quanto estava linda. , que sempre escutava seus planos, por mais mirabolantes que eles fossem.
Além de ser lindo, cheiroso e muito prestativo, também tinha suas falhas. Mas apesar de todos os seus defeitos, ele tinha uma qualidade insuperável:

Ele não era .

Fim



Nota da autora: (20/02/2017) Oi, amorinhas! Mais uma shortfic minha, dessa vez para esse mixtape lindo que eu não poderia ficar de fora!
Estou MUITO insegura com essa história, como nunca estive com nenhuma outra. Primeiro porque a escrevi em literalmente 24 horas. Perdi o prazo, quase não entreguei, mas sabia que não podia ficar de fora, logo eu, a rainha da problematização HAHAHA.
Bom, o segundo motivo pelo qual eu estou um pouco insegura com essa história é porque tem muito da minha vida aí. Tem muito das minhas experiências, tem muito do que foi a minha própria dor e compartilhar isso me deixa um pouco insegura.
Estou muito acostumada a ver nas fanfics os relacionamentos com os pps secundários serem retratados quase que como sem importância. Mas é muito comum viver um grande amor e ele acabar por diversos motivos além de traição. Desgaste, mentiras, manipulações emocionais… Isso ferra com o psicológico de qualquer pessoa.
Depois, porque pensei muito se iria colocar mais um interesse amoroso na história. Não sou adepta desse lance de príncipe encantado e nem de só superar um amor com outro, mas espero que tenham entendido a mensagem que quis passar com a história. Quando terminamos um relacionamento tão longo, tão doloroso, é comum achar que nossa vida acabou alí, que nunca mais vamos amar de novo: isso não existe! É muito hipócrita e até desesperador achar que só se ama uma vez na vida. Pode ser que só se ame uma vez, se você quiser e der a sorte de encontrar um que fique para sempre. Mas com tanta gente nesse mundão, é possível SIM amar de novo, se recuperar e ficar livre para viver novas histórias. E EXISTE HOMEM LEGAL NO MUNDO, GENTE. Precisamos acreditar que existe porque cada dia que passa fica mais difícil, né?
A mensagem que quis passar com essa história é a mesma que aprendi na minha vida: o que não nos mata, só nos fortalece! E a cura para um coração partido não está na bebida, em outras bocas, em outro amor… Está em si mesmo! O amor próprio precisa ser praticado e ninguém pode te amar por você. Se ame, se respeite, se valorize e não aceite menos do que merece! <3
Fiquem bem, amorinhas.
Besitos molhadinhos da Pri
Mesma autora de:

Mysterious and Addictive
A Beautiful Nightmare
01.Revival

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