05. Por Que Não?

Finalizado a: 24/09/2017

Capítulo Único


Encarava meu reflexo no espelho em um belo vestido branco feito sob medida para o casamento mais esperado do ano por todos que me conheciam. A saia de organza era linda e o véu me dava o aspecto de anjo e pureza que meus pais tanto queriam passar. Fechei os olhos, respirando fundo e odiando a eu que estava me encarando. Como eu havia deixado minha vida chegar a esse ponto?
Como, aos 21 anos, eu estava prestes a casar com um cara que eu não tinha certeza de amar só porque meus pais me disseram para aceitar quando Andrew fez o pedido? Como eu estava prestes a me prender a alguém sem ter feito absolutamente nada da minha vida? Eu não podia fazer isso! Eu estaria fadada a infelicidade pelo resto da vida. Eu não queria me tornar o tipo de mulher que vira troféu na mão do marido para acabar sendo traída anos depois assim que tiver dois filhos. Essa não era eu e o diamante pesando no meu dedo confirmava isso.
Engoli em seco, olhando pela janela do meu quarto e encontrando a lua brilhando para mim, quase me desafiando a fazer alguma coisa, a mudar as coisas já que eu não estava satisfeita.
— Vamos sair desse vestido, querida? – minha mãe voltou para o quarto, sorrindo de forma orgulhosa. – Josie ainda vai passá-lo uma última vez. Amanhã você estará parecendo um anjo de tão linda! Precisa ir dormir para acordar sem olheira alguma.
— Mãe... – comecei a falar, mas ela não estava prestando atenção. Sua atenção estava em tirar o meu véu.
— Ah, imagine só! Amanhã os e os Winnick vão ser uma família só! – ela quase soltou um gritinho de animação. – Os Martinz irão morrer de inveja. Aquela Daisy, filha deles, sempre quis roubar o Andrew de você. Ande, tire esse vestido, .
Apertei os lábios um contra o outro, sufocando a minha vontade de chorar, e com a ajuda da minha mãe, que ainda falava contente sobre o casamento, tirei o vestido, sentindo como se uma tonelada tivesse saído dos meus ombros. Vesti meu pijama de flanela e minha mãe me olhou com desaprovação.
— Amanhã você será uma Winnick, . Não espere que seu marido fique satisfeito ao vê-la usar isso ao invés das inúmeras camisolas de seda que lhe compramos – ela avisou, me abraçando pelos ombros. – Vá dormir, meu bem.
— Eu não sei casar com o Andrew é o certo, mãe... – murmurei, olhando para ela. – Não o amo.
— Amor não é tudo, . Poder é, e isso você terá. Pense em mim e no seu pai. Você é nossa única herdeira. Precisa fazer isso – falou, determinada. – Agora vá dormir, ande.
Apenas assenti, sabendo que ela estava certa e que eu precisava fazer isso por eles. Era o que eu tinha crescido para fazer. Ser a herdeira das empresas , casar com alguém importante e continuar a linhagem com bons nomes. Deitei na cama, puxando os cobertores até o pescoço e fechando os olhos na tentativa de dormir e afastar esses pensamentos da minha mente.
Revirei na cama por minutos ou horas, não notei, mas durante uma mexida e outra, meu cérebro acordava, me desesperando. Em poucas horas eu estaria caminhando para o altar pronta para me prender a uma vida que nunca foi a que eu quis e eu simplesmente não poderia deixar isso acontecer. Não deixaria!
Eu não era quem eles me moldaram a ser. Eu não tinha feito administração porque quis, eu não gostava de jantares maçantes e muito menos de passar meus finais de semana em um clube onde a intenção era mostrar quem tinha mais dinheiro. Definitivamente não era eu. Eu gosto de artes, de musica, de tardes no parque e um encontro com os amigos na sala de estar enquanto comemos pizza. Eu não poderia ser a que eles queriam que eu fosse e eles não aceitariam a que eu queria ser, mas depois de 21 anos fazendo tudo por eles, isso eu precisava fazer algo por mim.
Joguei as cobertas de lado, corri até o closet e me enfiei em um jeans surrado e qualquer blusa que encontrei na minha frente. Encontrei uma bolsa de viagem e enfiei tudo que eu poderia precisar lá dentro. Arrumei uma bolsa pequena com documentos, dinheiro e cartões. Meu quarto era no térreo e eu tinha a sorte de ter uma porta que dava direto para o jardim, portanto não precisaria enfrentar a porta da frente.
Rabisquei um bilhete para os meus pais e para Andrew dizendo que não haveria casamento pois eu não podia fazer isso por mais que amasse meus pais e tivesse uma grande estima por Andrew. Fitei o diamante no meu dedo antes de tirá-lo e colocá-lo em cima do bilhete no meu criado-mudo.
Peguei as chaves do carro, dei uma última olhada no meu quarto e saí, tentando não pensar muito e seguindo apenas o que meu coração me incitava a fazer. O que era o certo a fazer.


Entrei no quarto, olhando tudo ao redor. Não era nem de longe com o que eu estava acostumada nos hotéis luxuosos onde eu costumava ficar sempre que viajava. Era um quarto simples com duas beliches até que largas e com aparência resistente. O quarto tinha um astral meio tropical com cortinas azuis, tapete amarelo e camas verdes com cobertores floridos. O banheiro era até grande, mas nada de banheira como eu costumava encontrar, mas a vista da varanda era maravilhosa.
Eu tinha dirigido sem rumo por mais de nove horas, apenas me guiando por um monte de placas. Ao parar em um posto para abastecer, eu havia ouvido falar que em San Diego estava tendo um festival de DJ’s e foi assim que eu acabei vindo parar aqui. Os hotéis que eu normalmente ficaria já estavam todos cheios então fui obrigada a me hospedar em um hostel de quartos compartilhados. Não tive problemas com isso, afinal eu estava tentando me descobrir e sair da minha zona de conforto era o que eu devia fazer.
— Oi! Você é a nossa nova colega de quarto?
Virei para trás, assustada com a voz animada de uma garota. Ela tinha cabelos pretos, cachos volumosos e com mechas azuis quase lilás. A sua cor negra fazia um contraste lindo com as mechas, o que a deixava ainda mais bonita. O formato redondo do seu rosto apenas assentava com seu sorriso enorme.
— Ah, oi... – sorri, colocando uma mecha de cabelo que havia se soltado do coque, atrás da orelha. – Sou sim.
— Sou a , ou melhor, – ela se apresentou, ainda sorrindo. – E você, quem é?
— Eu sou a Am... – estava prestes a falar “”, mas simplesmente não senti que era certo. – Sou a .
— Nome difícil? – perguntou, parecendo notar a minha hesitação.
Sorri um pouco envergonhada.
— É um nome de peso – dei de ombros.
— Você tá indo para o festival na praia? – ela perguntou, indo até uma das beliches no canto e começando a remexer em uma bolsa. – Podemos ir juntas se você for.
— Er... – eu não fazia ideia desse festival, para falar a verdade, eu mal sabia onde eu havia parado. – Claro! Adoraria companhia.
— Você veio sozinha para um festival? – a menina franziu o cenho, virando para mim.
— Meus amigos desistiram de última hora – enrolei, abrindo um sorriso que eu esperava ser convincente. – Eu não queria deixar de vir.
— Ah, beleza – ela deu de ombros. – Você vai se trocar antes? Se for, é melhor ir rápido. O tá esperando lá na frente.
Olhei para minhas roupas, me perguntando o que tinha de errado com elas, mas não precisei olhar duas vezes para descobrir. Lá fora fazia um sol imenso e eu estava com uma calça jeans, blusa de manga longa e coturnos.
— Vou sim – falei, me apressando para pegar alguma roupa na minha bolsa.
Tudo parecia formal demais e eu teria que improvisar. Corri para o banheiro levando um vestido branco com detalhes de renda e com saia longa e leve. Tirei minha roupa o mais rápido possível e entrei no vestido. Ele ficava bem folgado na cintura e isso era perfeito para o que eu queria fazer. Enrolei um lenço de estampa tribal bem apertado um pouco acima da cintura e fiz um efeito estufadinho na parte de cima do vestido. Usando a tesoura que alguém havia deixado na pia, fiz uma fenda que ia até a coxa na perna esquerda na saia do vestido e deixou o look lindo. Soltei meu coque, fazendo meu cabelo castanho descer em mechas onduladas pelos meus ombros.
Voltei correndo para o quarto e troquei os coturnos por sandálias bonitinhas peroladas. estava terminando de passar brilhinhos na sua testa quando me viu voltar.
— Que arraso o seu vestido! – ela elogiou, me fazendo sorrir.
— O maior improviso da minha vida – confessei, me olhando no espelhinho do quarto enquanto passava o batom vermelho para completar o look. – Tô pronta.
— Ah, coloca isso. Vai ficar lindo com seu vestido – pegou uma coroa de flores com rosas vermelhas e colocou na minha cabeça, puxando umas mechas do meu cabelo para arrumar. – Amei real.
Me virei para o espelho e realmente a coroa de flores havia ficado linda. Só tive tempo de pegar meu dinheiro e a Polaroid antes que um garoto aparecesse na porta. Ele parecia um gigante de tão alto. Devia ter 1,95m no mínimo. Seu cabelo ruivo parecia pegar fogo com o sol que entrava pela janela e realçava o seu tom.
— Tá pronta, ? – ele perguntou, olhando para ela antes de olhar para mim. – Você é a garota da beliche de cima ou só alguém que a sequestrou no caminho?
— A garota da beliche de cima – respondi, sorrindo. – Sou .
— Mas ela também pode ser considerada alguém que eu sequestrei no caminho. Vamos adotar ela, honey! – sorriu, me abraçando pelos ombros e me guiando até a porta. – , esse é o . Ele e eu dividimos essa caminha apertada ali.
— Vocês namoram? – perguntei, olhando de um para o outro.
— É complicado – sorriu, piscando para mim. – Vamos?
foi na frente e o seguimos o caminho todo. O hostel não era longe da praia e a orla estava cheia de gente animada, alguns já bebiam, fumavam e riam horrores. Era contagiante a atmosfera. Eu nunca tinha ido em nenhum lugar assim, apesar de adorar, meus pais não achavam apropriado.
— Então, de onde você é, ? – perguntou, puxando assunto.
— San Francisco – respondi honestamente. – E vocês?
— New York – respondeu, abraçando pela cintura. – Viemos de carro.
— É uma viagem e tanto até aqui – falei, surpresa.
— É sim, mas não quando se está com os amigos – sorriu. – Foi muito legal, sério.
— Vocês vieram com mais quem? – perguntei, interessada.
— Com mais dois amigos, a e o respondeu.
Para facilitar nossa andada na praia, tiramos as sandálias e sorri quando a areia quentinha da praia tocou meu pé. Nos enfiamos no meio do par de pessoas e continuamos seguindo até nos aproximarmos no palco que havia sido montado ali no meio da areia mesmo. Não era grande e não tinha muita estrutura, mas era o suficiente para os DJS se apresentarem. Só paramos quando nos aproximamos de uma loira alta de olhos escuros e um corpo maravilhoso.
, cadê o ? – perguntou, apoiando os cotovelos na mesinha redonda e alta onde estava.
— Ah, ele foi no bar comprar alguma coisa para beber. Não achou as coisas aqui geladas o suficiente e fui obrigada a concordar – respondeu, cruzando seu olhar no meu. – E quem é essa?
— Essa é a de San Francisco. Vai dividir o quarto com a gente lá no hostel – apresentou. – Essa é a , .
— Olá! – sorri para ela.
— Oi, – sorriu amigável. – Você veio sozinha?
— Meus amigos furaram comigo, então sim, vim. – voltei a mentir sobre isso.
— Então fico feliz que nos achou. Adoramos adotar membros para nosso grupinho – brincou, piscando para mim.
Apenas sorri, sem saber o que falar.
— Eu vou providenciar minhas bebidas já que o com certeza esqueceu o que eu pedi – falou. – Você quer vir, ? Aproveita pra pegar algo para você.
— Ah, claro – assenti, crispando os lábios. Eu não era lá uma pessoa muito entendida de bebidas.
— Eu vou ficar aqui de olho naquela loira maravilhosa – suspirou, olhando para uma garota mais afastada que eventualmente olhava para cá. – Estamos na fase dos olhares. Daqui a pouco vou lá.
— Boa sorte com ela – riu, me puxando pela mão em direção ao que parecia ser um bar enorme de aparência rústica na orla da praia perto de onde estávamos.
Nos esprememos entre o pessoal até chegar ao bar. Lá dentro estava quase tão cheio quanto lá fora e agarrou um cardápio enquanto já andava comigo até a fila do caixa.
— Vou querer um blue lagoon e o copo do festival. Pelo menos posso tomar a bebida em paz – ela murmurou, olhando as inúmeras bebidas. – E você?
— Er... – observei todos os nomes e o que cada bebida tinha, escolhendo um drink aleatório já que eu não boa nisso. – Sexy on the lake com um copo do festival também.
O copo era muito bonitinho todo colorido de acrílico, tampa e um canudo cheio de ondinhas. A fila até que andou rápido e após pagarmos os pedidos, fomos até o balcão fazer o pedido.
— Ei, você pode ir pedindo? Vou dar um pulo no banheiro – pediu, apontando para a fila em frente a uma porta.
— Claro – assenti.
Me espremi entre dois caras enormes e acenei para um dos barmans. Ele pegou a nota fiscal e olhou nossas bebidas, indo providenciar. Enquanto isso, meu olhar viajou até a TV que estava ligada no noticiário. Meu coração quase parou ao ver a legenda do que estavam falando. “Herdeira das empresas da família, desapareceu na véspera do seu casamento e família está desesperada por notícias”. Pisquei algumas vezes, me sentindo a beira de um ataque de pânico, mas o barman voltou nessa hora com meus pedidos.
— Obrigada – murmurei.
Eu havia visto as milhares de ligações dos meus pais, amigas e de Andrew antes de desligar o celular logo que cheguei em San Diego e não me senti nenhum pouco culpada, mas agora que isso estava na TV onde Andrew havia sido exposto como o noivo abandonado, eu me sentia terrível. Ele não merecia isso.
Estava tão distraída que mal notei quando um cara apareceu na minha frente e eu fui obrigada a frear na hora.
— Ei! Cuidado com isso, pode acabar esbarrando em alguém se andar distraída assim – ele sorriu, o que fez seus olhos diminuírem em frestas.
— Foi você quem apareceu do nada na minha frente, moço – retruquei, me forçando a sair do transe em que estava.
— Só criando situações hipotéticas – rebateu. – Eu vi você com a , aquela morena maravilhosa. Sabe onde ela tá?
— Você é o ? – arrisquei, arqueando uma sobrancelha. – Ela foi ao banheiro, já deve aparecer.
— Sou o sim – respondeu, meio desconfiado. – Estou em desvantagem aqui.
— Sou – me apresentei. – A nova colega de quarto de vocês.
— Ah, sério? Sempre bom conhecer a nova garota com quem eu vou dividir o porta-escovas – brincou, piscando para mim.
— Sim, é ótimo – ri.
— Ei! – apareceu ao nosso lado, jogando um braço no meu pescoço e outro no do . – Você não estava xavecando a , estava, ?
— Longe de mim ser desses caras, sorriu, beijando a bochecha dela.
Era bonitinho ver os dois juntos. era enorme perto de , seja na altura ou na corpulência já que ele tinha músculos óbvios de serem notados na camiseta azul em gola V. Por outro lado, enquanto os olhos de eram enormes, os de eram bem pequenos, mas seu olhar era um charme só por conta disso.
— Sei... – ela riu, pegando um dos copos que estavam comigo. – Obrigada, . Vamos voltar?
— Eu só estou esperando eles encherem meu cooler – piscou, apontando para o freezer onde um cara enchia rapidamente a caixa com o que parecia cerveja.
— Credo, você comprou o bar todo? – olhou dela para o cooler.
Depois que o cooler do encheu, voltamos para onde e haviam ficado, mas agora outra garota estava lá também e sorri ao ver que era quem estava de olho antes de sairmos.
— Pessoal, essa é a Davina – apresentou, toda sorridente. – Dav, esses são , e .
— É muito bom te ver aqui, Davina. A tava quase hiperventilando de tão ansiosa que tava para falar contigo – falou a real mesmo, fazendo chutar a canela dele. – Ai, !
— Se não vai falar nada que preste, é melhor calar a boca, ralhou, mas ela sorria.
— Ai, vocês são ótimos – Davina riu, mas estava um tanto corada pelo que falou.


— Juntem mais! – instrui, apontando minha Polaroid para e .
O festival estava bombando e agora ninguém mais conseguia ficar parado. Eu estava tão animada e tão leve que só queria continuar dançando.
— Prontinho! – falei, vendo o papel sair da câmera revelando a foto.
— Ai, eu amei – sorriu, mostrando a foto para .
, no nosso casamento, a gente vai te contratar – riu, beijando minha bochecha.
A nossa mesa estava cheia de fotografias da Polaroid e eu não sabia nem como o papel ainda não tinha acabado. Era tão fácil estar com eles que eu estava custando a acreditar que nós tínhamos nos conhecido há 6 horas. A realidade tinha ficado atrás de mim e eu não fazia questão de voltar para ela.
— Tá, agora deixa essa câmera de lado – falou, tirando a Polaroid da minha mão e me puxando. – Vamos dançar, baixinha.
— Eu não sei de onde você arrumou essa intimidade para me chamar de baixinha – impliquei, franzindo os lábios de forma divertida.
— Como eu já falei: Nós vamos dividir o porta-escovas, então se isso não é intimidade suficiente, não sei mais o que é... – riu, me girando ao meu redor.
Uma versão remixada de closer do The Chainsmokers tocava agora e eu apenas ri, erguendo os braços acima da minha cabeça, sorrindo ao sentir as mãos de na minha cintura enquanto dançávamos sem ritmo algum. No refrão, comecei a pular, segurando nos ombros de já que por não ser acostumada a beber assim, o drink e algumas cervejas tinham me deixado alegre e tonta.
Eu estava me sentindo tão livre, leve e solta. Uma sensação deliciosa e uma liberdade que eu havia perdido há anos. Eu sempre vivi uma vida idealizada, não a que eu queria e agora eu estava sendo do jeitinho que eu sempre quis.
— Vem comigo? – olhei para , sorridente.
Ele franziu o cenho.
— Para onde? – perguntou.
— Vem ou não vem? – insisti.
olhou para os lados e viu o mesmo que eu via: estava ocupada com a Davina, o ocupado com a . Ele deu de ombros e estendeu a mão para mim. Sorri satisfeita e segurei sua mão, saindo na frente e nos guiando para lugar nenhum. A musica ficava mais distante a medida que nos afastávamos e ficou quase inaudível quando chegamos ao calçadão.
— Então, para onde estamos indo, baixinha? – voltou a perguntar.
Simplesmente dei de ombros, soltando sua mão e comecei a andar na sua frente, de cara para ele e de costas para a rua atrás.
— Não temos rumo ainda – falei, piscando um olho para ele.
— Então você está perdida, Dona ?
Ele não imaginava o quanto.
— Ah, eu estou sim – concordei, abrindo os braços. – Mas quem não está?!
— Eu – retrucou, enfiando as mãos nos bolsos do short.
— Será? – desafiei.
O encarei com um sorriso malicioso e corri para o meio da rua. Essa área estava interditada, portanto carros não circulavam por lá. A faixa amarela separava os lados e comecei a andar em cima dela, abrindo os braços. Meus pés descalços tocavam no asfalto e apesar de ser uma coisa tão simples, também era maravilhoso.
— Você realmente não bate bem da cabeça, não é, ?
Olhei para , negando com um movimento de cabeça.
— Provavelmente não – admiti.
— Eu gosto – ele sorriu, se aproximando de mim.
— Eu também – sorri.
— Sabe, eu não esperava que fosse assim.
Senti meu sangue gelar e meu coração parou por um momento. Me freei e olhei para , assustada. Como ele sabia meu nome?
— Te vi no noticiário antes de você e a chegarem – ele se adiantou em explicar antes que eu falasse. – Só vi sua foto e o nome que estava na manchete.
Mordisquei o lábio.
— Por que não mencionou antes?
— Porque não é da minha conta. Continua sem ser, mas eu fiquei curioso – cruzou os braços, parando na minha frente. – Você está mesmo perdida afinal de contas?
— Eu devia estar me casando hoje, sabia? – suspirei. – Agora nós já deveríamos estar indo para a festa.
pareceu surpreso.
— Mas ontem eu simplesmente acordei e vi que aquilo não era para mim. O Andrew é um cara legal e eu desejo tudo de melhor para ele e eu sei que não sou eu. Eu não o amo e olha que já estamos juntos há quatro anos. Eu estava preocupada em não desapontar ninguém, quis ser tudo que queriam que eu fosse, mas não deu – desabafei, percebendo agora que essa era a primeira vez que eu contava isso para alguém. – Então eu fugi sem rumo e acabei parando aqui.
Ele assentiu, me olhando.
— E valeu a pena? – questionou.
Apertei meus lábios, pensando no dia de hoje. Eu havia me permitido ser eu, tinha conseguido fazer amizades temporárias e nada disso tinha sido pelo poder do meu sobrenome.
— Valeu – confessei. – Eu ainda não sei o que eu vou fazer ou como vou encarar meus pais e o Andrew, mas hoje valeu à pena e era exatamente o que eu precisava.
— Então eu fico feliz por você, – sorriu, esbarrando o ombro no meu.
— Você vai contar para o pessoal?
— Como eu já disse: não é da minha conta – deu de ombros. – Vai ser nosso segredo se você quiser.
— Vai ser nosso segredo então – decidi.
— Ótimo, baixinha – ele estendeu o dedo mindinho.
Ri e entrelacei meu dedo mindinho no dele, selando a promessa. Do nosso lado, bem próximo ao píer, havia um parquinho com balanços, escorrega e um carrossel desligado. Puxei naquela direção e fui direto até o carrossel. Ergui a saia do vestido até a coxa e sentei em um dos cavalinhos. Como já estava escurecendo, o pôr do sol iluminava meu rosto com os raios laranjas e o vento jogava meu cabelo para trás em um sopro suave.
— Me fala sobre você – pedi, olhando enquanto ele tomava o lugar do cavalo na minha frente, ficando virado para mim.
— Não tenho muito o que falar – sorriu, umedecendo os lábios. – Estudo fotografia, moro sozinho em um loft em New York. Conheço aquele pessoal há anos e sou estagiário na Vogue.
— Fotografia? Isso é muito legal. Eu adoro fotografia! – falei honestamente. Era algo que eu me interessava demais. – E ainda mais estagiário da Vogue.
— É? Você devia aparecer em New York algum dia desses pra eu te levar pra algum photosohoot – me olhou, parecendo até estar falando sério.
— Quem sabe se quando eu me encontrar, a gente não se encontra de novo? – abri um sorrisinho maroto, arqueando as sobrancelhas.
— Eu adoraria isso – voltou a sorrir. Ele fazia muito isso, notei. – Mas e você, . Me fale sobre você.
— Bom, eu sou muito interessada por jornalismo e estou pensando em cursar isso agora, mas já fiz administração – comecei, pensando no que falar. – Adoro artes, muito mesmo. E eu estou com uma vontade enorme de gritar.
riu.
— Gritar? – arqueou uma sobrancelha. – Grita, ué.
— Do nada? – fiz uma careta.
— Só temos nós dois aqui.
Olhei para os lados e ele estava certo, éramos os únicos. Aquela parte não tinha casas.
— E o que eu grito?
Ele riu mais ainda.
— O que você quiser – disse, pulando do cavalinho onde estava e vindo até mim. – Grita, .
Olhei estranho para ele, segurando meu riso. Eu realmente queria gritar por motivo nenhum, só porque deu vontade mesmo.
So baby pull me closer in the back seat of your rover... – comecei a gritar a musica, lembrando de que havíamos dançado ela mais cedo.
— Isso! – gritou, satisfeito, mantendo um sorriso no rosto.
Ri, descendo do cavalo e parando em frente a ele, o puxando pela mão para sairmos do carrossel.
That I know you can’t afford, bite that tattoo on your shoulder – comecei a cantar, berrando de tão alto.
— Anda, mais, mais, mais! – incentivava, rindo horrores.
Pull the sheets right off the corner of the mattress that you stole – gritei, fechando os olhos, dando pulinhos animados.
From your roommate back in Boulder... continuou, me acompanhando.
... We ain’t ever getting older – cantamos juntos, morrendo de rir.
me segurou pela cintura e saiu rodando comigo pela grama úmida do parque enquanto alguma musica animada tocava lá longe. Por algum motivo eu não conseguia parar de rir e nem ele.
— Eu vou ficar tonta, – reclamei, apertando os ombros dele.
Ele parou de me girar, caindo comigo na grama. Soltei um gemido de dor quando minhas costas encontraram o chão, mas voltei a rir, olhando para o céu aberto acima de mim.
— Uma última foto? – perguntou, erguendo minha Polaroid que estava pendurada no pescoço dele.
Assenti, me aproximando dele. Encostei minha cabeça na dele e abri um sorriso enorme quando fez um biquinho quase encostando na minha testa. Ele ergueu a câmera acima de nós e tirou a foto. Alguns segundos depois, o papel saiu.
— Nada mal, hein? – ele virou o rosto para mim, me entregando a foto.
Observei a foto meio alaranjada pela luz do pôr do sol e confirmei com um aceno de cabeça. Voltei a olhar para e seus olhinhos pequenos e sorriso enorme, me sentindo extremamente feliz por tê-lo conhecido.
— Nada mal.

Joguei a mochila no banco do carro e fechei a porta, indo até o carro do pessoal que estava logo atrás do meu. Ontem havia sido meu primeiro dia e o último dia no festival. Como depois de amanhã era segunda-feira e todos eles teriam uma vida para voltar, estavam pegando a estrada hoje também.
— Você tem meu numero, pode ligar quando quiser – falou, vindo me abraçar. – Foi ótimo te conhecer, mesmo que só por 20 horas.
— Eu amei conhecer vocês também – sorri, apertando no abraço. – Vou ligar sim, pode deixar.
— É uma pena que foi tão pouco tempo – veio logo em seguida, dando um beijo na minha bochecha. – Mas é como a disse: Liga quando quiser.
— Uma pena mesmo. Adoraria ter dividido quarto com vocês por mais tempo – ri, lembrando de como foi a dormida.
Chegamos no hostel quase cinco horas da manhã e nos enfiamos na minha beliche de baixo, todo mundo de conchinha em um abraço de despedida. Rimos demais também, especialmente quando e passaram um tempinho a mais no banheiro.
— Mas você ainda vai ser a fotógrafa do meu casamento com a , relaxa – riu, vindo me abraçar depois de .
— Estou ansiosa por isso – ri também, o abraçando pela cintura já que ele era uns trinta centímetros mais alto que eu.
— Oi – se aproximou, parando na minha frente.
— Oi – sorri, olhando nos seus olhos pequenos. – Será que a gente ainda se vê por aí?
— Quem sabe se quando você se encontrar, a gente não se encontra de novo? – um sorriso se formou nos lábios dele, adaptando a frase que eu havia falado horas antes.
— Quem sabe, né? – dei de ombros.
me abraçou, beijando o topo da minha cabeça.
— Você conhece o caminho até New York, presumo – falou, se afastando.
— Conheço sim – confirmei.
— Então se precisar, já sabe como chegar – ele esbarrou o ombro no meu, piscando um olho para mim.
— Sei – sorri, esbarrando o braço no dele.
— É melhor a gente ir – avisou, fazendo um bico choroso. – Tchau, .
— Tchau, pessoas – me despedi, soltando beijinhos para eles.
Me escorei no capô do meu carro, observando enquanto eles entravam no Jeep e seguiam seu caminho contrário ao meu. Quando o carro desapareceu de vista, entrei no meu e tomei meu caminho de volta para San Francisco, onde eu precisava voltar para me resolver, mas agora sendo quem eu quisesse ser.



Continua...




Nota da autora: Oláaa! Eu amo essa musica desde quando eu era criança e tinha o DVD lindo e pirata da Kelly Key hahaha. Espero que vocês gostem e não deixem de me falar o que acharam. Beijos!





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