Postada em: 17/02/2018
Music Video: Monster – EXO

Prólogo

Mulheres sábias das montanhas costumam dizer que a circularidade do tempo sempre traz à tona acontecimentos do passado em uma nova roupagem. Seria como se as sociedades humanas estivessem sempre na eminência da repetição histórica por almejarem sempre os mesmos objetivos ambiciosos e implacáveis. Como se não assimilássemos nossos rastros de destruição e dor, seguidos do fracasso e da vergonha, por nos julgarmos – na contemporaneidade – mais impenetráveis e indestrutíveis que nossos antecessores.
A mira dos culpados, no entanto, se mostra embaçada e opaca. A história real, material e vivida, dispensa maniqueísmos. Estamos imbricados de bem e de mal. O que nos diferencia uns dos outros é o objetivo derradeiro. Para uns, o fim das amarras. Para outros, o nó ainda mais vigoroso delas. Somente a história dirá quem esteve de qual lado e os vitoriosos em um dado contexto nem sempre serão os mais louváveis em outro.
Os acontecimentos do triênio de 2016 a 2018 modificaram a ordem mundial aos moldes do que se vira no século passado. O crescimento da onda conservadora entre os países mais poderosos do mundo – sob desculpas de proteção e nacionalismo – criou o cenário perfeito para o caos. A grande massa reviveria seu inferno, que nunca fora pausado, mas que se intensificaria a partir de então. Como na teoria a circularidade do tempo, os grupos de extrema-direita estavam novamente no controle das nações mais influentes do globo e a pressão sobre os demais países para que escolhessem um lado entre o neoliberalismo mordaz e a proteção e o bem estar de seu povo – sob pena de bloqueios e demais sanções – se intensificava.
O clímax neste lado da história ocorreu após as inúmeras ameaças com testes nucleares, onde a Coréia do Norte conseguiu atenção e alarde mundial com o lançamento de um míssil de alcance nunca antes testado. Os apelos diplomáticos em nada ajudaram e os meios de comunicação disparavam apreensão sem qualquer filtro ou responsabilidade e todos eles anunciavam o inevitável: uma guerra entre as Coréias que dividiria as nações mais poderosas do mundo. De um lado, Estados Unidos e países do oeste Europeu. De outro, os gigantes China e Rússia. As nações ocidentais, no entanto, ganhariam um aliado asiático inesperado. O Japão entraria no conflito como retaguarda de importância para proteção da Coréia do Sul.
Durante dois anos o conflito se arrastou, mas um golpe estratégico crucial impediu o disparo das armas – fato que, caso ocorresse, seria fatal para o mundo. Kim Jong Un caiu e a Coréia do Norte foi ocupada pelas tropas ocidentais e japonesas. As Coréias seriam unificadas e terminaria um capítulo de separação com décadas de duração.
O tempo cíclico, no entanto, traz algumas ironias na manga e algumas armadilhas também. Como de praxe na história dos grandes conflitos geopolíticos, uma situação ruim não pode ser de todo ruim se for possível retirar dela alguma vantagem.
Com a saída das tropas ocidentais e firmado o acordo de unificação, o Japão permaneceu militarmente na península coreana com a tutoria da união, um mediador pacífico. A história, porém, não comete erros. Os mais velhos não queriam ver e nem os mais novos admitirem, mas o fantasma da ocupação japonesa retornara e não foi preciso muito tempo para saber que as demais nações fechariam seus olhos, tal qual ocorrera nos quase quarenta anos de domínio na expansão imperialista do Japão no século XX.
A seguir vieram as repressões, a forte presença militar e policial nas ruas e a influência cultural enfiada goela abaixo dos coreanos. Era como ver o passado se repetir em um filme vivo e visceral.
Nada impediria, no entanto, que uma grande força de resistência se formasse, fosse intelectual – disseminando conhecimento e informações concretas sobre as intenções japonesas, já que pouco se podia confiar nos meios de comunicações corporativistas –, fosse de combate, militar e estratégico, organizando e treinando tropas celulares que seriam responsáveis por fazer frente à dominação dos vizinhos e que tentariam, a todo e qualquer custo, devolverem aos coreanos a tutela sobre seu território.
A história saberia nomear e honrar seus heróis e um grupo de jovens combatentes dariam suas vidas pelo objetivo maior de dar liberdade ao povo ao qual faziam parte. Para estar na linha de frente da resistência, seria necessário vencer seus medos, superar suas diferenças e, acima de tudo, manter o equilíbrio entre o bem e o mal que cada um carrega em si.
Às vezes, o monstro interior tem muito mais a mostrar do que a pele alva e delicada do cordeiro. Se perguntarem a qualquer um deles, eles não irão negar. Podem chamá-los monstros, se isso significar que lutaram até o fim pelo que acreditam. Porque no fim da história, o monstro quer apenas se libertar.


Capítulo Único

Incheon, Coréia Unificada
Março de 2020



tentava, com muito esforço, controlar os tremores de seu corpo. A sala fechada, sem qualquer janela ou brecha em que a luz pudesse penetrar, estava completamente escura e fria. O inverno parecia brigar com a primavera por mais espaço e enquanto trincava seu maxilar na tentativa de se conter, ela poderia chutar que estavam abaixo dos 5º de temperatura.
Apesar disso, o frio não era o único causador de seus tremores. Seu coração pulsava tão acelerado que ela poderia jurar que muito em breve entraria em colapso. Nunca antes havia experimentado um pavor como tal. Se fosse religiosa, esse seria o momento em que pediria por um milagre ou para que desmaiasse de uma vez, talvez só assim sua morte fosse indolor.
Seus braços fracos e machucados agarravam seu tronco desnudo enquanto ela muito lentamente movia as pernas, igualmente trêmulas e cheias de hematomas, para frente de seu corpo, para que pudesse permanecer na posição fetal e ocupar o mínimo de espaço no chão frio. O cheiro metálico invadiu suas narinas quando ela inspirou o ar profundamente, o mais silenciosamente possível, ao tentar controlar sua respiração, mas as lágrimas logo tomaram conta de seus olhos assim que ouviu o animal se mover ruidosamente pelo cômodo.
Há duas semanas, o governador-geral japonês anunciara a possibilidade da criação de um Protetorado para a anexação oficial do território coreano pelo Japão, tal qual ocorrera em 1910. A ação, sem qualquer reação internacional efetiva, fez com que os comandos rebeldes se organizassem para uma marcha até Seul, onde o governo nipônico se instalara. Como uma forma de sufocar as manifestações, os militares japoneses ordenaram a invasão das bases dos comandos de retaguarda em Daegu, onde se organizava com demais companheiros. Desde então, há seis dias, ela estava presa em uma das bases policiais de Incheon. As tropas japonesas estavam avançando para o sudoeste e logo parte dos comandos rebeldes estariam isolados. Seus amigos deveriam estar ocupados demais em proteger as bases de Ulsan e Busan para se arriscarem em uma missão de resgate. Era a única capturada naquela base, então talvez fosse seu momento de aceitar a morte como resistente.
Naquela manhã ela fora retirada de sua cela e levada para o cômodo onde estava para ser interrogada. O general Ugaki queria o mapa completo das bases rebeldes e o nome e localização de pelo menos dois comandantes. Ele sabia quem era, sabia que respondia à comandante rebelde , alguém que já vinha se tornando lendária entre os grupos de resistência, por isso fazia exigências tão altas. O que ele não sabia era que jamais revelaria a localização e a identidade completa de seus amigos e amigas, nem mesmo sob tortura. Ugaki, no entanto, pagaria para ver e deixou a jovem mulher sob os “cuidados” de seus melhores e mais sádicos homens.
Nenhum dos socos, chutes, jatos de água gelada e ameaças de abuso sexual, porém, chegariam perto de deixá-la apavorada como ela estava no momento. Como uma última e mais cruel tortura – antes que fosse deixada para morrer ali mesmo, por sua inutilidade –, o general ordenou que ela fosse completamente despida e largada na sala escura e vazia de móveis, na companhia apenas de uma cobra Python reticulatus.
Naquele momento conseguia ouvir o rastejar do animal, o que a fazia crer que ele estava por perto. Com as coxas pressionadas sobre a barriga, fazendo o corte que tinha ali latejar ainda mais, ela curvou a cabeça por entre os joelhos para abafar a respiração e fazer o que podia para não atrair a atenção da cobra. Mesmo que a espécie não fosse peçonhenta, o réptil ainda possuía força e comprimento suficiente para matá-la por constrição, caso se enrolasse nela e a apertasse até interromper seu fluxo sanguíneo. Só o pensamento lhe fazia tremer e chorar ainda mais. A única coisa que poderia fazer era se manter quieta até que eles desistissem da tortura ou que alguma ajuda chegasse.
Se chegasse.
Confiava em seus companheiros e sabia que eles não deixariam de pensar nela em nenhum momento desde a captura, mas tinham objetivos maiores e mais importantes. A luta deles era coletiva, não individual.
O pavor e as dores faziam com que ela ouvisse a voz de seus amigos em sua cabeça, no que ela julgava um delírio pré-morte. , sempre tão sereno e tranquilo, diria a ela que tudo ficaria bem depois de um bom chá cicatrizante e que ele mesmo cuidaria de todos os seus machucados pessoalmente. O combatente chinês era o médico mais atencioso que conhecia. Em seguida, sua mente era tomada pelos olhos assertivos de , sua comandante e melhor amiga. Sua voz, em uma ira controlada que era sua marca registrada, bradava para que apressassem as estratégias de marcha, porque dali em diante ela teria mais do que um conflito ideológico e militar com Ugaki e seus comandados. Mexer com sua melhor amiga era algo a nível pessoal. Por último, e trazendo um tremor característico para seu corpo, ela via . Com ele, no entanto, ela não visualizava sua reação ao tirá-la dali, mas era transportada para suas memórias mais fortes. Ele fora a primeira pessoa que ela conhecera quando largou o emprego em Seul para se juntar aos rebeldes. o apresentou como a melhor mira do acampamento. Ele foi seu primeiro instrutor de tiro. Ela, sua professora de luta corporal. Durante as noites, eram confidentes. Depois da amiga, era com quem ela mais facilmente podia se conectar sobre seus ideais, sobre o mundo e as falhas de nosso sistema cruel e desigual. Não demorou muito para que, de companheiros de luta, eles se tornassem amantes inseparáveis. Porque para ambos, não havia melhor combinação para a revolução do que o amor.
Com um sorriso triste nos lábios manchados de sangue e molhados pelas lágrimas, ouviu o ruído do animal ainda mais perto. Esforçou-se, então, para pensar em sua família, em seus amigos e em seu amor.
Ela já aceitara seu destino, mas seus amigos jamais desistiriam dela.
Em um estalo mínimo a porta se abriu, iluminando parte do cômodo. A primeira coisa que conseguiu ver, ainda que se forma embaçada, foram as botas de combate de . Aos seus pés, a cobra sequer teve tempo de dar o bote ao se sentir ameaçada pela movimentação repentina, já que a mira mortal de a acertou bem na cabeça.
Mesmo sem conseguir vê-los nitidamente, sorriu agradecida.
– Combatente , base 3D20, se apresentando à comandante.
Sua voz soou fraca, mas foi ouvida com alívio pelos dois.
– Missão de resgate concluída. está viva e consciente. Esvaziem os bancos de dados desta base e preparem nosso recuo.
orientou os demais pelo transmissor e se abaixou na direção da amiga para pegá-la no colo. só teve tempo de sussurrar um agradecimento antes de sentir o casaco de sobre seu corpo nu e apagar.
– Ela vai ficar bem. – assegurou para , que caminhava ao seu lado com a arma em punho, fazendo a segurança das duas caso ainda houvesse algum soldado consciente naquela pequena base.
Na invasão, que ocorrera logo após a saída da comitiva do general Ugaki, os combatentes rebeldes se espelharam pelo local, imobilizando todos os soldados que estavam de guarda enquanto invadia o sistema eletrônico deles em busca de dados e para o destrave de celas dos presos políticos que mantinham ali. Sob o comando estratégico minucioso de , eles agora partiriam em carros japoneses até a fronteira com Seul.
– Eu sei que vai. – respondeu, olhando para o rosto pálido de , tentando se manter firme e não desabar por vê-la tão debilitada.

Gangwon, Coréia Unificada
Março de 2020



Ao começar a recobrar a consciência e se remexer ligeiramente na cama, teve certeza de que teria de se esforçar para fortalecer sua musculatura novamente, porque sentia várias partes de seu corpo ainda lhe incomodarem. Frustrada e podendo finalmente se encher de ira pelo que Ugaki e seus subordinados a fizeram passar, ela se sentou abruptamente, pronta para retirar de si a agulha com o soro presa em sua mão direita.
– Ei, ei! – a voz de surgiu por entre as cortinas da tenda que usavam como enfermaria – O que pensa que está fazendo? Ainda não está liberada.
Apesar de feliz por ouvir a voz do amigo e poder colocar os olhos nele depois de dias, não pôde deixar de rolar os olhos, impaciente.
– Eu estou imensamente feliz em ver você de novo, meu amigo – ela sorriu para ele, que se aproximou arrumando os óculos de armação fina sobre o nariz comprido e bonito –, mas preciso que me dê algo mais forte para que eu saia daqui. Aliás, onde estamos? E ? ? conseguiu voltar de Ulsan?
O médico sorriu minimamente, analisando o rosto da amiga com carinho, enquanto descansava as mãos nos bolsos do jaleco.
– Estamos em Gangwon, base 1G20. está com na barraca de comando. ... Hm, talvez atirando em alguns troncos de árvores? – ele brincou, fazendo rir minimamente.
– Preciso vê-los, . – ela pediu, voltando a ficar séria.
– Eu sei. Todos querem detalhes do que aconteceu, mas , não precisa detalhar isso agora se for doloroso demais pra você, ok?
Ela sorriu pela forma sempre delicada e empática dele. tentava ser sutil, mas a verdade é que os hematomas e os cortes o preocupavam muito menos. O pavor da tortura é uma das piores dores dos combatentes ao redor do mundo e perseguia homens e mulheres, independente do lado que lutavam. Ser pressionada para delatar seus companheiros, seus superiores, seus amigos sob pena de ter seu corpo espancado enquanto ouve ameaças de estupro era um cenário horripilante que o médico não desejaria sequer aos seus inimigos do momento. Usar um animal, porém, era ainda mais hostil. dissera, enquanto discutiam sobre o estado de ao chegar, que prender mulheres com animais asquerosos eram métodos utilizados até pelos piores ditadores da América do Sul. Lera sobre um caso parecido de uma jornalista de esquerda no Brasil. sabia que ela demoraria muito tempo para conviver com as lembranças sem ataques de pânico.
– Eu estou bem, amigo. – assegurou, esticando uma de suas mãos para tocar o braço dele – Vou transformar a dor em ódio. Às vezes precisamos do mesmo combustível que eles para lutar como iguais, não é?
– Sempre sábia. – sorriu, contornando a cama para retirar dela a agulha do soro – Pode ir, mas me prometa que vai voltar para passar a noite aqui. Você ainda está fraca, .
A mulher se levantou, enfiando os pés nos coturnos ao lado da cama e vestindo o casaco por cima da camiseta que usava. De pé, ela se virou para o médico e amigo.
– Vou fazer o possível. Obrigada, .
Sem esperar resposta, percorreu o pequeno espaço da tenda com rapidez, saindo para o acampamento logo em seguida. Estavam entre os vales ao norte de Gangwon, na antiga fronteira com a extinta Coréia do Norte. O cerco japonês e as tecnologias avançadas de que eles dispunham os obrigavam a executar o sistema clássico de guerrilha, utilizado por muitos outros rebeldes no século passado.
Assim que avistou a tenda identificada como de comando, marchou até lá, ansiosa. Sequer deixou-se anunciar e foi entrando de imediato. Seus olhos, inquietos, logo capturaram a figura esguia de , o que a fez soltar um suspiro aliviado.
! – o rapaz venceu a distância entre eles e tomou seu corpo em seus braços, apertando-a contra si sem se importar de imediato com seus machucados, ela tampouco se importava, estava transbordando alívio por tê-lo de volta – Você não sabe como estou feliz de vê-la aqui, de pé e consciente. – ele se afastou minimamente, apenas para olhar em seus olhos – Desculpe por não ter estado lá para ajudar você.
negou, segurando as mãos dele, enormes e frias, nas suas.
– Sua irmã fez todo o trabalho pesado. – ela sorriu, olhando para pela primeira vez desde que entrara, e vendo a amiga sorrir para os dois – Eu estava tão preocupada com você.
– Eu tive grande ajuda em Ulsan depois da invasão em Daegu. Estamos prontos pra outra, não é? – ele a encarou, os olhos joviais agora sorridentes.
– Vim até aqui justamente saber disso. – segurou uma de suas mãos e se virou para – Quais nossos próximos passos?
voltou a se sentar no sofá ao lado da mesa e levou consigo. A comandante desviou seu olhar para o lado esquerdo da tenda, onde estavam , o responsável pelo esquadrão de estratégia e tecnologia, e um outro rapaz, desconhecido dela, mas que os observava pacientemente.
, este é , comandante desta base e quem vai guiar, junto comigo, nossos próximos passos em direção a Seul.
esticou os lábios em um sorriso curto e curvou ligeiramente a cabeça em direção a mulher. se levantou e se curvou em cumprimento.
– Sua bravura a antecede, . Estou honrado em ter você em nossa base.
– Apresentações feitas... – voltou a falar, olhando para a amiga – Tivemos baixas importantes após o ato de 1º de março. Além de nossa base, outras cinco foram invadidas e precisamos remanejar combatentes. nos acolheu aqui e nos ajudou no planejamento do seu resgate.
Em agradecimento, curvou novamente a cabeça na direção do homem, que sorriu.
– Nosso foco agora é na marcha para Seul. A tomada da capital precisa ser conjunta com as bases ao redor da área de poder deles, mantendo as bases de retaguarda a salvo.
– Consegui o mapeamento das bases militares deles quando resgatamos você. – tomou a palavra, enquanto agilmente usava a criptografia para mandar mensagens às outras bases por meio do computador – São quase as mesmas do período de unificação e não podemos deixar que elas se multipliquem. Eles não o farão abruptamente, ainda estão fingindo diplomacia para a comunidade internacional, então vamos nos aproveitar deste fato.
– O que precisamos saber – a voz de foi ouvida novamente – é se você ouviu algo que possa ser valioso para nós enquanto esteve com eles. – a expressão séria e introspectiva do rapaz se acentuou, fazendo se aprumar no sofá – Ugaki é o militar a quem o governo japonês confiou esta ocupação. O fato dele ter se deslocado até Incheon para interrogar você pessoalmente significa que eles temem nossos próximos passos.
– Nada mais honroso para nós, é claro. – pontuou, com um meio sorriso.
– Sabemos o quanto a experiência foi dolorosa, amiga – com a voz terna, teve sua atenção novamente –, mas precisamos saber.
a envolveu em seu abraço e segurou uma de suas mãos com força, lhe dando o suporte necessário para que ela começasse o relato dos dias que foram seus infernos na terra.
– Prefere que esteja presente? – perguntou, tentando amenizar a tensão enquanto deixava a tenda, mas ela negou.
– Está tudo bem. – respirou fundo após responder – Vai ser como terapia.

A noite caía fria quando deixou a tenda de comando, o que fez com que ela abraçasse o próprio corpo diante da brisa congelante.
– Você foi extremamente corajosa, . – , que caminhava ao seu lado, falou – Não vamos deixar que isso seja esquecido.
A mulher sorriu melancólica. Queria sim esquecer. Como era impossível, faria como dissera para mais cedo. Cada vez que o tremor do medo subisse por sua coluna, quase a paralisando de pavor, ela lembraria o porquê ter largado sua vida de professora de Educação Física para crianças em Seul para lutar ao lado dos amigos. Lembraria de seus pais e de seus discursos sobre justiça social e sobre o que aprendera sobre um povo ser soberano de si mesmo. Nunca subjugado, nunca colonizado. Ela transformaria, então, todo o medo em ódio e ele seria seu combustível de ataque, para devolver para aqueles que ferem seu povo, o mesmo ódio que eles lhes dão.
– Estamos fazendo história, não é? – encostou sua cabeça no ombro do amigo levemente, enquanto ele a guiava para a tenda onde estavam suas coisas.
– Eu só espero que escolham uma boa foto nossa para estampar os livros.
riu abertamente ao pararem diante do abrigamento. Virou-se de frente para ele e capturou seus olhos espirituosos. Tinha tanta sorte por tê-lo.
– Obrigada, meu amigo. É bom ter você de volta.
sorriu, trazendo-a para perto de si e a abraçando.
– Digo o mesmo. Agora vá descansar, combatente. – o humor em seu tom era sempre um aconchego – Temos carregamentos importantes vindo da China por Hyesan e devem chegar amanhã.
A mulher se afastou para olhar para ele, confusão em seus olhos e em sua expressão.
– Da China? Nossos fornecedores não haviam sido impedidos de fazer contato?
– Temos um novo.
– Quem é? – arqueou uma sobrancelha em direção ao homem.
– Ele prefere manter o anonimato, mas é coreano.
O sorriso mínimo em seus lábios fez com que ela permanecesse com o olhar desconfiado.
– Você sabe quem ele é.
– Alguém precisa fazer o contato direto, certo?
– Isso tem algo a ver com o tempo que você ficou em Ulsan.
Não era uma pergunta e podia ver no brilho característico de seus olhos que havia alguns desdobramentos naquilo.
– Você vai saber quando chegar a hora. – o sorriso cúmplice que trocaram encerrou o assunto e se despediu dele ao entrar na tenda designada a ela.
O calor que a envolveu fez com que seus ombros relaxassem e o aroma de alfazema trouxe ao seu coração a sensação de calmaria que ela tanto necessitava. Era quase como estar em casa, porque, de alguma forma, já se tornara seu lar. Ao colocar seus olhos nele, surgindo por de trás das cortinas que separavam a parte do dormitório, ela pôde soltar a respiração que sequer notara ter prendido.
Seus pés a guiaram para ele de forma automática e no curto caminho seus olhos permaneceram conectados de uma forma que só acontecia entre eles. A intensidade vulcânica com que capturavam o interior um do outro dispensava o uso de palavras. Os músculos tensos de só puderam relaxar quando ela estava ao alcance de seu abraço. se aconchegou nele, passando seus braços por sua cintura no momento em que ele a apertou contra si.
Estava em casa. Era a hora de retirar a armadura.
O soluço estrangulado saiu em questão de segundos e seu peito se tornou inquieto diante do choro descontrolado.
Lá fora, ela precisava ser a combatente entre os rebeldes, um rochedo impenetrável. Precisava colocar o bem de todos e o objetivo maior à frente de seus medos e de suas dores. Ali, nos braços do homem que era seu mais íntimo companheiro de luta, ela poderia se despir da armadura que havia lhe ensinado a forjar. Podia chorar em seus braços e ter o conforto que precisava, livrando-se dos restos de angústia e pavor que ainda formigavam em seu corpo machucado.
Ao contrário do poderiam pensar, lutar por um ideal, por um mundo melhor e mais justo, pelos seus direitos básicos e de humanidade, lutar efetivamente, no combate e doando-se por completo para a causa, não carregava nenhum glamour. Lutar envolvia perder, às vezes. Para a grande maioria, era solitário. Era deixar para trás a família e amigos na esperança de que no futuro eles ficassem a salvo. Era aprender a segurar o choro quando tudo o que se quer é gritar. Lutar era domar monstro interior e fazer dele um aliado.
– Eu estou aqui, meu amor. – a voz de soava baixa e distante em sua mente inquieta e barulhenta – Estou aqui e não vou deixar você. Nunca. Não vou falhar com você de novo.
balançou a cabeça repetidamente. A última coisa que precisava era que ele se culpasse por ela ter sido capturada.
– Não vou largar você.
Caminhando com ela grudada em seu corpo, não deixou de sussurrar suas palavras de amor e conforto enquanto lhe acomodava sentada no colchão. Com cuidado, abaixou-se diante dela para retirar seus coturnos, passando seus dedos quentes pelas marcas arroxeadas nos calcanhares provocadas pelas algemas de alta contenção. Vagarosamente ele a despiu do casaco e da camiseta, sentindo um nó se formar em sua garganta ao ver todos os hematomas e cortes. Verticalmente, da altura da costela até a direção do umbigo, o curativo de protegia seu machucado físico mais grave.
Lágrimas arderam nos olhos de quando ela tremeu diante de si.
O rapaz retirou o elástico que prendia desajeitadamente seus cabelos e voltou a prendê-los acima da cabeça. Como instruído pelo médico da base – que sabia que ela não voltaria para passar a noite na enfermaria –, ele arrastou a mesa de rodinhas e alcançou a flanela embebida do líquido cicatrizante, espremendo-a entre os dedos para liberar o excesso de água, para logo em seguia deslizá-la sobre a pele sensível e machucada dela.
Aos poucos a despiu por completo, limpando seus ferimentos e massageando seus hematomas. O choro de foi vagarosamente substituído pelo dele, mais silencioso e contido. Doía tanto vê-la daquele jeito que ele faria o que fosse preciso para eliminar aquele trauma da mulher que mais amava no mundo. Se pudesse, transferiria tudo para si mesmo, só para que ela não precisasse passar por aquilo.
Quando terminou, ele a ajudou a vestir um agasalho para dormir e sentou-se ao seu lado no colchão. buscou suas mãos e entrelaçou às suas. Imediatamente as trouxe para si, deslizando seus lábios pelos nós de seus dedos, beijando-os com carinho.
– Como você se sente agora? – ele levantou seus olhos para ela ao perguntar e se sentiu aliviado ao ver um sorriso mínimo em seus lábios.
– Segura.
Porque com as mãos de ao seu alcance, vendo seus olhos cintilarem para ela um amor tão profundo, sentia suas energias renovadas. Era tão grata por ter ao seu lado o mais bravo e gentil dos homens que conhecera, aquele que conseguia equilibrar em um mesmo rosto os olhos incisivos e o sorriso doce.
Em tempos de desamor, amá-lo era sua arma mais poderosa.
– Não vou sair daqui. – ele sussurrou, deitando com ela na cama e alinhando seus rostos na mesma altura – Vou velar o seu sono como o sentinela mais atento que as forças rebeldes já viram. – sorriu, aproximando mais os seus corpos e roçando seus narizes.
– Meu sentinela pode me dar um beijo de boa noite?
Suas palavras foram um sopro de leveza em seu coração e ampliou ainda mais seu sorriso ao vê-la fazer o mesmo.
– Todos os que você desejar.
Com cuidado e carinho, o rapaz roçou seus lábios nos dela antes de iniciar o beijo tranquilo que contrastava com o cenário ao redor e com o estilo de vida de ambos no último ano. Era, no entanto, a forma como se mantinham lúcidos, enquanto suas línguas aqueciam uma a outra e suas mãos seguravam um ao outro com o máximo de zelo.
Com um suspiro, lhe deu um último beijo antes de se virar para encaixar seus corpos mais confortavelmente, colando suas costas no tronco dele enquanto seus braços continuavam enlaçados.
– Eu te amo.
As palavras saíram quentes e gentis por entre os lábios de , fazendo-a sorrir quando ele deixou um beijo em sua nuca.
– Eu te amo. Pra sempre.
não percebeu quando caiu no sono, mas esteve durante toda a noite atento a seus tremores e aos seus pesadelos agitados, abraçando-a e ninando-a sempre que ela se remexia em seus braços. Agora, além da batalha do lado de fora, seu amor tinha uma nova batalha interna para lutar e ele seria sua retaguarda mais fiel, até que ela superasse todos os traumas adquiridos enquanto lutavam juntos pela soberania de seu povo e pela memória de seus antepassados.

Seul, Coréia Unificada
Maio de 2020



A marcha para Seul seria uma última tentativa pacífica dos rebeldes contra a ocupação japonesa.
Milhares de pessoas contrárias à usurpação de seu território pelos vizinhos tomaram as ruas naquele 1º de Maio. Todas as bases rebeldes, espalhadas por toda a península coreana, caminharam até Seul agregando ainda mais aliados durante todo o percurso. Lado a lado, indivíduos de todas as idades cravavam seus nomes na história. A maioria deles já detinha o título de “perigosos e procurados” pelos militares inimigos, outros orgulhosamente reivindicariam um título igual para chamar de seu.
Naquele dia o primeiro-ministro japonês, junto ao governador-geral designado para a Coréia, anunciaria o tratado – injusto, desigual e criminoso – que poderia tornar a Coréia um Protetorado. O objetivo dos que eram contra era impedir o anúncio, fazê-los recuar diante da pressão das ruas e, principalmente, atrair a atenção internacional para um crime contra os direitos humanos e contra a soberania de um povo. Tomando todo o centro de Seul em protesto, eles desejavam que não fosse necessário pegar em armas.
De braços dados, caminhando em direção ao cerco policial já preparado e que tentaria os impedir de chegar aos arredores do prédio onde o governo japonês se instalara, , , , e tomavam a frente da marcha. , e tantos outros ficaram nas bases e nos arredores por retaguarda. Caso o confronto direto não pudesse ser evitado, não poderiam arriscar tantas baixas.
À frente deles estavam policiais equipados com capacetes, escudos e armas não letais. Eram tantos que pareciam um holograma multiplicador. Contra seus cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, os rebeldes tinham bombas caseiras e coquetéis molotovs. O suficiente para fazer um estrago e mostrar a eles que não estavam brincando.
– A qualquer sinal de ataque, detonem as bombas. – ordenou pelo comunicador, se referindo aos explosivos plantados nos dois carros nas laterais da avenida, que seriam responsáveis por lhes dar tempo e distrair a atenção dos policiais.
– Quando eles começarem a atirar – fez uma pausa dramática –, porque eles vão, lembrem-se dos treinamentos e dispersem, mas mantenham-se em grupos pequenos.
Assim que a primeira fileira de policiais se aproximou, eles souberam que a ordem de ataque havia chegado e que o governo japonês tentaria os sufocar o mais rápido possível. subiu a máscara até o topo do nariz e ao seu lado puxou o capuz do casaco e preparou a máscara de gás.
Era chegada a hora.
A primeira bomba veio de um policial do fundo da formação e liberou a fumaça bem em frente à fileira onde a multidão começava. No segundo seguinte, o som forte dos explosivos nos carros soou, iluminando a avenida com o fogo alto. A partir de então os ataques vieram um atrás do outro, obrigando os rebeldes a dispersarem pela avenida, protegendo-se das balas de borracha e da fumaça sufocante.
abriu a mochila e distribuiu molotov entre aqueles que estavam ao seu redor. acendeu o primeiro e lhe deu em suas mãos.
– Faça as honras.
Seu sorriso mínimo fez o coração de , já acelerado, dar um solavanco. Com um impulso, ela arremessou a garrafa bem no interior da formação de policiais e o estrondo da explosão os obrigou a dispersar um pouco, dando a a oportunidade perfeita de arremessar mais um imediatamente, tendo ainda mais efeito sobre a organização deles. As duas amigas trocaram um olhar breve antes de correrem para trás dos carros e se protegerem das balas. No tumulto uma garota foi atingida bem no meio das costas e o impacto a derrubou no asfalto. imediatamente a levantou enquanto ficava à frente delas.
– Onde está seu grupo? – a jovem, assustada, apontou para pessoas que corriam para a rua lateral – Alcance eles e se mantenha segura. Procurem nossos abrigamentos. Vá!
A garota correu o mais rápido que pôde e só desviou seu olhar quando ela alcançou os amigos. Naquele momento, foi atingido no braço.
– Desgraçados!
O impacto da bala queimou em seu ombro esquerdo, mas a adrenalina tão alta não lhe deixou dar atenção para a dor. O rapaz agilmente pegou mais uma garrafa explosiva da mochila da namorada e, acendendo, arremessou-a com fúria.
Com a dispersão dos rebeldes ao longo da avenida e para as ruas laterais e transversais, os policiais também dispersaram, mantendo-se em duplas e atacando os mais retardatários, enchendo seus camburões com os que conseguiam imobilizar e prender. O cenário era assustador. Para onde se olhava era possível ver pessoas correndo, em luta com os policiais, alguns sendo fortemente agredidos com cassetetes e outros revidando os golpes como podiam.
– Atrás de vocês! – gritou enquanto corria na direção contrária de e ; policiais vinham pela esquina onde eles estavam.
Em um rápido reflexo, conseguiu chutar a mão do que estava com spray de pimenta, dando a a oportunidade de chutar seu escudo e derrubá-lo. Com um golpe na costela, ele o imobilizou e tomou posse de seu armamento, enquanto fazia o mesmo com o outro que viera com ele.
O grande problema era que quanto mais eles os despistavam e os derrubavam, mais apareciam. Estavam em um número maior e com muito mais tempo de treinamento. Os rebeldes precisavam pensar rápido e agir com cautela para proteger o máximo de aliados possível.
– Pelotão de no mínimo cinquenta policiais vindo pelo sul. – a voz de soou ofegante pelo transmissor, fazendo bufar enquanto socava um policial que quase lhe alcançara.
– Vamos dispersar o máximo que conseguirmos. Protejam-se e procurem nossos abrigamentos agora! – deu a ordem, recebendo um olhar de conforto de .
– Caso alguém seja capturado – a voz do outro comandante foi ouvida logo em seguida –, deixem a pista que puderem para que possamos saber onde os encontrar. Vemos vocês depois.
Do outro lado da rua, e olharam uma última vez para e antes de correrem em direção ao norte. Precisavam correr por dois quarteirões à frente e mais quatro à direita para encontrarem o abrigamento mais próximo, na casa de uma aposentada que acolheria os rebeldes até as ruas estarem mais calmas. Todos os abrigamentos eram voluntários de civis coreanos que, mesmo que não estivessem nas ruas para o enfrentamento direto com os japoneses, ajudavam como podiam aqueles que lutavam de corpo inteiro.
A fumaça tomava conta das ruas e tornava ainda mais complicada a auto localização, fazendo com que o casal se perdesse na correria por alguns segundos até encontrarem novamente a direção correta. Apesar disso, não soltava a mão de , tinha ela firme na sua durante todo o percurso, porque ele jurara para si mesmo que ele não a deixaria ser capturada de novo, nem que para isso ele precisasse se deixar ser levado.
– Corram! – , que estava os esperando na esquina que deveriam cruzar, gritou – O pelotão maior está quase alcançando a avenida.
ofegou ao ser atingida por duas balas de borracha nas costas, o que fez se alarmar e virar para a direção dos tiros, disparando com a arma que pegara do policial que havia conseguido derrubar.
, não pare! – o repreendeu, uns passos à frente.
– Continue a correr, ! Alcance o e eu já alcanço vocês!
Um grupo de cinco policiais vinha os perseguindo e por mais que tivesse conseguido retardar o avanço de dois deles, os outros três, munidos de escudos, estavam quase o alcançando, o que fez um desespero sem igual percorrer o corpo de .
, porra! Vem logo!
, não vai dar tempo! – voltou a gritar – Se ficarmos aqui eles nos alcançarão também!
Foi como se ela não tivesse o escutado, no entanto. Seus olhos não deixavam a figura de seu grande amor, que dava tímidos passos para trás enquanto atirava precisamente nas pernas dos policiais, tentando derrubá-los. Nunca quis tanto que estivesse empunhando uma arma letal.
! – seu grito já era choroso e fez com que o homem virasse a cabeça para trás.
– Continue, ! – ele pediu aos gritos – Eu alcanço vocês, meu amor!
Ela sabia que ele não alcançaria.
, não faz isso!
Ela já chorava e não se movia, o que fez com que desviasse seu olhar para , que imediatamente correu até ela.
, vamos! – o amigo segurou firmemente em seus ombros, puxando-a para voltar a andar – tem o localizador. Se ele não nos alcançar, nós o encontraremos.
Ainda que não estivesse totalmente convencida a deixá-lo, se deixou ser puxada pelo amigo para a rua que cortava a avenida, tendo como última visão sendo atingido por um cassetete bem na cabeça. Seu grito de desespero foi ouvido por ele, mas apesar da dor, ele estava aliviado por ela estar fugindo.
Após alguns minutos correndo sem realmente prestar atenção no caminho, olhou ao redor e percebeu que eles estavam na direção errada.
– ela chamou, apertando o braço do amigo –, esse não é o caminho para o abrigamento. Estamos indo para outro?
Já estavam longe do tumulto maior e naquele pedaço do centro as ruas já estavam mais tranquilas, apesar de ainda ser possível ouvir o barulho de bombas.
– Estamos indo para outro. – ele respondeu sem dar maiores detalhes, mas logo pararam em frente a uma casa luxuosa, com um portão automático imponente.
se assustou quando ele usou um controle eletrônico para liberar a abertura.
– Lembra de nosso novo fornecedor? – apesar do rosto machucado e coberto de fuligem, ele sorriu – Ele também é um abrigador.
Sem esperar sua resposta, passou pelo interior da casa, levando-a junto. Com um sobressalto, percebeu o furgão idêntico ao usado pelos policiais japoneses, mas o amigo permanecia tranquilo ao seu lado, o que fez com que ela lhe lançasse mais um de seus olhares questionadores.
– É como vamos sair daqui, mas antes – ele segurou em suas mãos trêmulas pela adrenalina – vamos atrás de .
iria perguntar como, mas a porta da casa foi aberta e relevou um homem vestido exatamente como os policiais japoneses. O uniforme preto, o protetor torácico e o capacete em mãos. Seu rosto não tinha nada de familiar para a mulher, mas ela reconhecia o mesmo fervor em seus olhos. Era o mesmo que ela via quando se olhava no espelho e era o mesmo que via nos olhos de todos os seus amigos e companheiros combatentes. Com alivio, ela concluiu que era um dos seus.
– Precisamos resgatar antes de irmos. Ele foi capturado. – se dirigiu ao homem sem sequer cumprimentá-lo, o que confirmou para que eles se conheciam de antes e que mantinham certa intimidade.
– Têm outros uniformes no carro – ele jogou a chave para , que habilmente a pegou no ar –, vistam-se o mais rápido que puderem.
assentiu e fez o mesmo, livrando-se da mochila e do casaco enquanto o primeiro abria as portas traseiras do veículo.
– A propósito, – o amigo chamou sua atenção enquanto lhe esticava os braços com o uniforme em mãos –, este é .
– Ao seu dispor.

Sob socos e empurrões, foi conduzido para dentro do carro onde outros rebeldes já estavam detidos. Seu comunicador estava destruído, mas o localizador estava intacto em sua bota e ele esperava que fosse o suficiente para que os amigos o encontrassem ou que pudessem resgatá-lo em breve.
Foi colocado sentado de frente e ao lado de outras pessoas, todas muito machucadas, e seu primeiro pensamento ao sentar-se foi em . As algemas apertavam seus pulsos e suas costelas doíam pelos golpes recebidos, mas ele ao menos podia ficar aliviado por não ser ela ali. Desejava com todo o seu coração que ela e tivessem conseguido se abrigar a tempo e que estivessem a salvo até que fosse possível voltar à base.
Olhando ao redor podia ver muitas outras pessoas serem organizadas nos carros e serem algemadas também, sempre com muita truculência. A raiva tremia em seus dedos e não o deixava relaxar os ombros, tensos e pesados. Em uma contabilidade rasteira e superficial, podia ver que tinham muitas baixas e que todas as bases teriam de se reorganizar dali para frente. Caso o governo japonês não recuasse, o confronto letal seria inevitável.
Arrumou a postura assim que dois policiais chegaram, puxando a mulher que estava ao seu lado para fora. Os dois indicaram com a cabeça para o carro à frente, idêntico ao que estavam, e todos os detidos caminharam até lá sob empurrões. Depois de todos devidamente sentados, as portas foram fechadas e o veículo entrou em movimento em direção ao nordeste de Seul.
Imaginava que seriam levados para a base militar na capital mesmo, mas quando atravessaram a ponte em direção a Gangwon, ele começou a estranhar. Com um arrepio em sua nuca, ele temeu que estivessem sendo levados para alguma nova e secreta base japonesa onde seriam interrogados longe da pressão da imprensa internacional e onde poderiam muito facilmente ser torturados para delatarem seus companheiros e seus planos futuros.
Foi inevitável voltar a pensar em e em seus amigos e desejar que fosse o único deles a ter sido capturado.
não percebeu seus cochilos ao longo do caminho. Como estava há muito tempo na estrada, seu estado de alerta foi dando lugar a sua exaustão extrema. O sacolejar do carro, no entanto, o despertou por completo.
– Estamos em alguma estrada de terra em Gangwon. – um dos detidos anunciou, forçando a vista pelo vidro escurecido do carro.
A pouca iluminação indicava que estavam em alguma área rural, mas o rapaz não conseguia dizer qual cidade. só desejava que fosse longe de sua base e que os japoneses não estivessem a descoberto.
– Os comandantes da base em Sejong não tinham conhecimento de expansão japonesa nessa área. – uma das mulheres cochichou, intrigada.
– Nenhum de nós tinha. – outro respondeu, ainda tentando enxergar algo pelo vidro.
– Acham que é alguma base secreta?
– Vamos ter que esperar para ver.
Quando o silêncio voltou a se instalar entre eles, o carro não demorou a parar de se movimentar. Apreensivos, todos aguardaram o momento em que a porta traseira seria aberta e então saberiam onde estavam e qual seria o destino que lhes aguardava. Uma base japonesa tão longe da capital não poderia significar nada de bom. Quanto mais eles pudessem esconder os horrores que cometiam, mais liberdades teriam. Todos os detidos tinham razão em ficarem apreensivos.
– Só lembrem-se – tomou a palavra, forçando-se a falar mais firmemente, apesar da voz trêmula –, nosso silêncio é o que vai permitir que nossos amigos avancem na luta.
Enquanto todos assentiam, as portas traseiras do furgão foram abertas, revelando uma área de mata por entre as montanhas de Gangwon. sentiu o estômago despencar ao reconhecer o lugar.
Pronto para o pior, ele viu o policial da frente retirar o capacete, revelando os cabelos lisos e a franja comprida. Seu maior susto foi reconhecer os traços coreanos e não japoneses quando ele levantou o rosto. Os olhos apertados acima das bochechas altas e brilhosas pelo suor
Era só o que lhe faltava. Coreanos servindo ao exército inimigo.
Todo o cenário mudou, no entanto, quando dois outros policiais que estavam atrás também retiraram seus capacetes.
arfou em surpresa, porque ele sabia quem era antes mesmo que ela revelasse seu rosto. Reconheceria seus cabelos mesmo em uma multidão. Eram eles, e .
Seus olhos sorriram para ele antes que qualquer coisa fosse falada e ele os viu brilharem sob a lua alta da madrugada. Sua . Sua mais brava combatente. Sua salvadora.
– Bem vindos à base rebelde 1G20. Espero que estejam prontos para lutar.


Epílogo

A luxuosa casa de campo em Hyesan era uma herança de seu avô paterno, a parte de sua família que havia ficado isolada na então Coréia do Norte nos longos anos de divisão. se tornara o herdeiro dela depois da morte do patriarca e tomara posse com a unificação dos países.
Com menos de trinta anos, o jovem tinha uma fortuna que homens muito mais velhos e experientes dariam a vida para possuir. , no entanto, nunca fora apegado a coisas materiais. Sua mãe sempre o instruíra a viver bem sem grandes luxos e seu pai fazia questão de ensiná-lo com exemplos práticos qual a melhor forma de utilizarem o dinheiro que possuíam.
Quando a unificação se tornou concreta, o jovem rapaz imaginou que dedicaria grande porcentagem de sua herança em ajudar as famílias do Norte que mais precisavam, mas com a ocupação japonesa e a anexação eminente, outras pendências se tornaram urgentes.
Em Ulsan ele conhecera um jovem rebelde em fuga e depois de ajudá-lo a se esconder e passar noites a fio o ouvindo falar sobre seus amigos e seus ideais de liberdade, soube que encontrara outro caminho para ajudar seu povo e faria isso por amor à revolução, aquela que seu pai se entristecia por acreditar não mais existir. Nos olhos astutos de , no entanto, ele descobriria que ela estava mais do que viva, mais pulsante e prestes a explodir nos corações de inúmeros jovens que ainda acreditavam em um mundo melhor.
Sentado ao meio da enorme mesa na sala de jantar de sua propriedade, assistiu os jovens e líderes rebeldes se sentarem um a um ao seu lado e sentiu o coração tremer em excitação.
, , , , , , e mais alguns outros líderes de outras bases o olhavam em expectativa.
– Antes de tudo quero agradecer por confiarem em mim. – ele começou, alternando seu olhar entre todos os presentes.
– Se confia em você, nós também confiamos. – respondeu, apoiando os cotovelos na mesa.
– Minha propriedade aqui em Hyesan agora é de vocês. Sintam-se à vontade para tornarem-na quartel general de nossa luta. Os suprimentos chegarão da China sempre que precisarem.
Em silêncio, todos na mesa se entreolharam e assentiram.
O governo japonês recuara diante da pressão das ruas e dos líderes internacionais e o projeto de anexação estava arquivado por algum tempo, mas eles não moveram um pé do território coreano. Todas as bases rebeldes não descansariam até vê-los longe o suficiente de suas fronteiras.
– Vocês têm todos os meus recursos à disposição da causa. O que é meu agora é de vocês.
Ao se entreolharem novamente e receberem o olhar encorajador de , todos assentiram. Era a hora de mudar os cursos dos acontecimentos e mudar o cenário. Nenhum deles descansaria até verem o povo coreano soberano sobre seu território. Lutariam até a última gota de suor, até o último tremor de seus dedos raivosos e com a última chama de paixão pelos ideais que mantinham em seus corações.
– Temos muito pela frente, combatentes.
se levantou, olhando cada um dos que estavam à mesa nos olhos e querendo transmitir para eles toda a força que tinha dentro de si.
– Não vamos deixar que a história se repita. Não mais.




Fim.



Nota da autora: Não acredito que o EXO inventou a resistência à força policial nesse MV!
Sempre que eu assistia ao vídeo de Monster eu imaginava algo parecido com o que tentei contar aqui, e como escrever uma fic baseada na letra da música não me daria essa liberdade, o projeto de transformar MVs em fanfics caiu como uma luva! Acho que o vídeo traz esse ar de conspiração e protesto e o cenário de resistência a uma segunda ocupação japonesa na Coréia me pareceu muito promissor. Misturar história, revolução e fanfics sempre foi uma vontade minha, afinal, já diria o velho Marx: as revoluções são as locomotivas da história.
Essa foi minha primeira vez escrevendo algo do gênero, então me deixem saber se deu certo! Estou aberta a sugestões que me ajudem a melhorar! <3
Espero que tenham gostado e aproveitem mais esse projeto lindo do FFOBS!
We are one!
xx
Thainá M.





Nota da beta: É um hino de autora mesmo essa Thainá. Nossa senhora!
Não sei se algo caberia tão bem com o video de Monster quanto tudo que tu criou, Thai, meus parabéns mesmo viu!! Tenho certeza que todo mundo vai gostar também!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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