MV: Never Ending Story

Finalizada em: Agosto/2025
Music Video: Never Ending Story - IU

Capítulo Único

A estrada estreita que levava até a pequena cidade parecia mais silenciosa do que lembrava. O tempo tinha passado, mas as memórias permaneciam vivas em cada curva, em cada árvore que acompanhava o caminho. Havia anos que não pisava ali. Desde que se mudara para a capital, nunca mais tivera coragem de voltar. Mas agora, com a partida da avó, não havia mais como evitar.

A casa antiga se erguia diante dela, cercada por um jardim que já não florescia. As janelas estavam empoeiradas, a madeira rangia, e tudo parecia guardar o peso do abandono. respirou fundo, sentindo o coração apertar. Era estranho pensar que, um dia, aquele lugar fora cheio de vida, de risos, do cheiro de chá da avó, das melodias suaves do rádio antigo.

Empurrou a porta pesada, que cedeu com um longo rangido. O ar que a recebeu era denso, carregado de poeira e lembranças. Caminhou devagar pela sala de estar: móveis cobertos por lençóis brancos, fotografias antigas nas paredes, o piano encostado no canto, agora silencioso. Passou os dedos pelas teclas amareladas, mas não ousou tocar nenhuma.
Cada passo era acompanhado por ecos de infância. As risadas correndo pelo corredor, o chamado da avó vindo da cozinha, e até o som distante de vozes que ela já não sabia se eram reais ou apenas invenção da saudade.

Deteve-se no corredor estreito que levava aos quartos. As portas familiares se alinhavam — a do quarto da avó, a do quarto que fora seu, e uma outra, sempre trancada, que ela lembrava de ver mas nunca ousara abrir. Porém, dessa vez, algo chamou sua atenção.

Logo ao lado do velho armário embutido, coberto por teias de aranha, havia uma porta estreita, quase escondida pela sombra. A madeira estava gasta, e a maçaneta parecia pouco usada. franziu a testa. Aquela porta não fazia parte de suas memórias.
Aproximou-se devagar, como se temesse que o silêncio da casa fosse quebrado. Passou a mão pela superfície da madeira, sentindo a aspereza sob os dedos. Girou a maçaneta. Estava destrancada.
A porta rangeu baixo, revelando uma escada curta que descia para um cômodo que o tempo parecia ter escondido. Um cheiro diferente escapou dali, não só de poeira, mas de papel antigo, madeira guardada… e algo familiar, aconchegante.
Com o coração acelerado, deu o primeiro passo.

💭💭💭


Os degraus curtos a levaram até um cômodo escondido, iluminado apenas por frestas de luz que escapavam pelas ripas de madeira da janela pequena. O ar ali era mais denso, mas também mais quente, como se o quarto tivesse guardado séculos de histórias em silêncio.

parou na entrada, surpresa. O espaço não parecia abandonado como o resto da casa. Pelo contrário — cada objeto parecia repousar em seu lugar, intocado pelo tempo. Havia estantes de madeira, caixas empilhadas, fotografias emolduradas, roupas dobradas com cuidado e, no canto, um rádio antigo que parecia pronto para tocar.

Seus olhos foram atraídos por uma mesa de estudos. Sobre ela, um caderno de capa azul repousava aberto, como se alguém o tivesse deixado ali na noite anterior. As páginas estavam cheias de letras rabiscadas, talvez letras de músicas ou poemas inacabados.
Ao lado do caderno, um maço de polaroids amareladas chamava sua atenção. pegou a primeira e engoliu em seco: uma imagem dela mesma, ainda criança, sorrindo ao lado de em frente ao colégio. Ambos seguravam uma bola de futebol, rindo de algo que a fotografia não conseguia contar. O coração dela apertou diante da lembrança.

Explorando mais, encontrou um disco de vinil empoeirado. O título, quase apagado, era de uma canção que a avó costumava cantarolar pela casa. Ao passar os dedos pela capa gasta, sentiu como se uma melodia suave ecoasse no fundo de sua mente.
No fundo do quarto, um cabideiro sustentava uma camisa masculina antiga, cuidadosamente pendurada. A visão a fez parar. Aquele tecido, mesmo envelhecido, parecia carregar o perfume de um verão distante. Ela se aproximou devagar, tocando-o com os dedos, e instantaneamente foi inundada por uma memória: risadas ao pôr do sol, pés descalços correndo pelo jardim, e a voz de chamando seu nome.

recuou um passo, o coração acelerado. A cada objeto, um fragmento do passado surgia diante dela, como se o quarto fosse um portal secreto que guardava tudo o que ela havia esquecido — ou tentado esquecer.
E pela primeira vez, percebeu que aquele lugar não era apenas um depósito de memórias da família. Era um espaço íntimo, construído por alguém que conhecia bem sua vida. Alguém que, talvez, também tivesse retornado ali em busca das mesmas lembranças.

🕑🕑🕑


deixou escapar um suspiro trêmulo. Era como se cada canto daquele quarto sussurrasse histórias que ela mal se lembrava de ter vivido. Mas, ao mesmo tempo, algo a incomodava. Havia uma estranha vitalidade naquele lugar, como se não estivesse realmente abandonado.

Aproximou-se da mesa mais uma vez. Ao lado do caderno azul, notou algo que não combinava com o resto do cenário envelhecido: uma caneta moderna, ainda com a tinta fresca na ponta. Franziu o cenho. Pegou o caderno e folheou algumas páginas, até que seus olhos pararam em algo escrito em letra firme e conhecida:

"Algumas memórias não envelhecem, apenas esperam ser encontradas."

O coração de disparou. Aquela caligrafia… ela conhecia. Mesmo depois de tantos anos, reconheceria em qualquer lugar. Era de .
Um arrepio percorreu sua espinha. Aquelas palavras não poderiam estar ali há muito tempo. Eram recentes, mais recentes do que ousava acreditar.

Olhou em volta, de repente atenta a cada detalhe. Na prateleira, havia uma garrafa de água meio vazia, com a tampa mal fechada. Sobre a polaroid que tinha em mãos, outro retrato descansava: uma foto dela mais velha, tirada no festival da cidade — um evento que acontecera há apenas dois anos.
engoliu em seco. estivera ali. Não apenas no passado, mas no presente.

Com a respiração acelerada, ela fechou os olhos por um instante. O quarto, que antes parecia apenas uma cápsula de lembranças, agora se transformava em um elo vivo entre os dois. E a pergunta que queimava em sua mente era inevitável: quando ele voltaria?

🌌🌌🌌


ainda segurava a polaroid em mãos quando um estalo suave ecoou atrás dela. O som da madeira rangendo no corredor fez seu corpo inteiro congelar. O coração disparou no peito — não era a casa, não era o vento. Eram passos.
Virou-se devagar, e a porta estreita do quarto se abriu com um chiado baixo. A luz fraca do corredor desenhou uma silhueta familiar. O tempo parecia brincar com seus olhos, pois por um instante ela acreditou estar diante de um fantasma do passado.

...? — a voz masculina soou baixa, quase um sussurro incrédulo.

Seu peito se apertou. Mesmo depois de tantos anos, ela reconheceria aquele timbre. — ... — o nome escapou de seus lábios como uma lembrança há muito guardada.

Ele entrou no quarto com passos hesitantes, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquela cena. Seus olhos percorriam cada detalhe, mas logo encontraram os dela. Não havia mais como negar: eles estavam diante um do outro, depois de tanto tempo, no espaço que parecia pertencer aos dois.
O silêncio pesou por um instante, cheio de coisas não ditas. sentiu as mãos tremerem ao segurar a fotografia, e percebeu. Aproximou-se devagar e, quando viu a foto em sua mão, sorriu com melancolia.

— Eu guardei isso porque... — ele hesitou, buscando as palavras — porque não queria esquecer.

piscou, tentando conter as lágrimas.

— E por que não me contou que ainda vinha aqui? — Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos, em um gesto nervoso que ela lembrava bem.
— Porque achei que você não voltaria nunca mais. Esse quarto virou o único jeito de me sentir perto de você.

Aquelas palavras a atingiram em cheio. Era como se todas as memórias guardadas ali finalmente tivessem encontrado um motivo para existir.
deu um passo à frente, a voz embargada:

— Eu... eu também nunca esqueci.

Por um momento, o tempo pareceu parar. E dentro daquele quarto escondido, cercados pelas lembranças da juventude, os dois se encararam como se finalmente pudessem continuar a história que nunca teve um fim.

💟💟💟


O silêncio entre eles parecia gritar, carregado de anos de distância e de palavras nunca ditas. apertava a polaroid contra o peito, como se fosse sua âncora. deu mais um passo, a respiração entrecortada.

— Eu vim aqui tantas vezes... — ele começou, a voz baixa, mas firme. — Sempre que sentia que ia te esquecer, eu voltava. Esse quarto... era o único lugar onde você ainda existia comigo. — Os olhos dela marejaram.
— E por que nunca me procurou, ? — a pergunta saiu quase como um lamento. — Eu passei anos me perguntando o que teria acontecido se... se tivéssemos ficado.

Ele desviou o olhar por um instante, como se carregasse o peso da própria culpa.

— Porque eu tinha medo. Medo de descobrir que você já tinha seguido em frente. Medo de perceber que eu era só uma lembrança, e nada mais.

deu um passo à frente, a voz embargada:

— Mas eu nunca segui em frente. Por mais que eu tentasse, sempre havia algo que me puxava de volta. Essa casa. Esse quarto. Você.

ergueu o olhar, surpreso. Seus olhos se encontraram, e pela primeira vez em anos, não havia máscaras entre eles. Apenas a verdade crua, desarmada.

— Você não sabe quantas vezes eu sonhei em ouvir isso. — ele confessou, a voz quase falhando. — Porque, ... eu nunca deixei de te amar. Nem por um único dia.

As lágrimas finalmente escaparam dos olhos dela. A polaroid escorregou de suas mãos e caiu no chão, esquecida. ergueu o rosto, respirando fundo.

— Eu também te amei todo esse tempo. E odiei cada segundo por não ter dito isso antes.

estendeu a mão, hesitante, mas decidido. a segurou sem pensar, como se fosse o gesto mais natural do mundo. O toque foi a confirmação de que, apesar de todos os anos, os dois nunca tinham deixado de se pertencer.

Dentro do quarto das memórias, cercados por fragmentos do passado, eles finalmente abriram espaço para o presente.

E naquele instante, soube que a história deles não tinha terminado. Nunca tivera um fim.




FIM...





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