MV: Rainy Days

Finalizada em: Agosto/2025
Music Video: Rainy Days - V

Capítulo Único

O som da chuva batia suave na janela, como um sussurro constante que preenchia os vazios do apartamento de . Ele não se incomodava. Na verdade, preferia assim. O silêncio absoluto o deixava inquieto, como se denunciasse os buracos que havia deixado — na estante, na rotina, no coração.
O coração dele ainda batia no ritmo de um nome que já não podia chamar.
.

A ausência dela era um eco constante. Não havia músicas suficientes no mundo para silenciar a lembrança da voz dela dizendo:
— Se um dia doer muito, promete que canta pra esquecer?

Mas ele não esqueceu.

Os dias passaram como páginas rasgadas — sem enredo, sem cor. A vida voltou ao modo automático. Ele sorria nas entrevistas, autografava discos, escrevia músicas que todo mundo amava. Menos ele.

[Flashback - Primeiro beijo]

Aquela noite voltou como um raio, repentino, brilhante e cruel.
Eles estavam abrigados sob a marquise de uma loja fechada, a chuva caía em gotas pesadas, e tremia — não de frio, mas daquilo que ainda não ousava admitir.

— Tá chovendo demais. — ela murmurou, os olhos fixos na rua alagada.
— A gente pode esperar passar. — ele respondeu, olhando só pra ela.

virou o rosto e sorriu do jeito que só ela sabia: um sorriso que doía de tão bonito.

— Ou a gente pode dançar. — disse, tirando os sapatos e indo pra chuva.

Ele foi atrás. E foi ali, no meio do asfalto molhado, com trovões ao fundo e o rímel escorrendo pelos olhos dela, que aconteceu.
O primeiro beijo.
Úmido, tremido, cheio de pressa e medo e vontade.
Era como se ambos soubessem que, mesmo se vivessem mil anos, não haveria outro igual.

[De volta ao presente]

Ele nunca contou pra ninguém, mas toda vez que chove... ele para. Fecha os olhos. Deixa que a água lave a cidade e o peito.

Só então respira de novo.

Sentado no sofá de linho cinza, ele mexia lentamente o café dentro da caneca. A fumaça subia devagar, e o aroma amargo trazia lembranças que ele preferia não ter convidado. Do outro lado da sala, um toca-discos girava lentamente, mas sem emitir som. O vinil arranhado havia parado de tocar na metade da faixa. não se deu o trabalho de levantar. Nem hoje, nem ontem.

Do lado do disco, repousava uma caixa de papelão. Pequena, discreta, e fechada com fita adesiva desleixada. Era tudo o que deixara para trás. Ou tudo o que ela não teve coragem de levar. Desde que ela se foi, não teve coragem de abrir. Achava que, se o fizesse, encerraria alguma coisa — e ele ainda não estava pronto para finais definitivos.

A chuva trazia um tipo específico de lembrança. fechou os olhos e a viu ali, como da primeira vez, caminhando com os fones de ouvido encharcados e os cabelos presos em um coque bagunçado. Naquele dia, ela deixou o guarda-chuva em casa de propósito, só para dizer que a chuva a fazia sentir viva. Ele tinha rido. Eles tinham rido juntos.

FLASHBACK ON

Estavam voltando de um festival de fotografia. O céu já se desfazia em cinza, prenúncio de tempestade, mas insistiu em ir a pé. Caminhavam por uma rua arborizada quando os primeiros pingos caíram.

— Vai correr? — perguntou, rindo.
— Nunca. — virou o rosto para cima, recebendo a água como quem se banha de propósito. — Aposto que você nunca beijou alguém na chuva.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Está me desafiando?

Ela riu, jogando os braços para os lados. a puxou pela cintura.
— Tá molhando minha camisa! — murmurou.
— Reclama mais um pouco que eu vou embora. — ela provocou, com os olhos brilhando.

Ele não disse mais nada. Apenas a beijou ali, no meio da rua vazia, com o som da chuva envolvendo os dois. O beijo foi lento, úmido, e carregava todas as promessas de um início.

FIM DO FLASHBACK

Na cozinha, os dois cozinhavam ouvindo jazz. dançava com uma colher de pau como microfone. Uma vez, ela tinha dito:

— Quando chover, me chama. Mesmo que eu esteja longe. Que meu corpo não venha, mas minha alma escuta.


A porta do banheiro se abriu, soltando uma névoa quente. não se moveu. Havia tomado o hábito de deixar o chuveiro ligado para fingir presença. Para dar a si mesmo a sensação de que havia mais alguém em casa. Às vezes, falava alto no corredor, como se ainda estivesse no quarto, distraída com um livro.

— Você viu meu pincel vermelho? — ele murmurava, mesmo sabendo que não teria resposta.

Seus olhos voltaram para a tela em branco apoiada no cavalete. A tinta secava no tubo, intocada há semanas. Era irônico: ele era um artista, mas tudo que conseguia criar ultimamente era ausência.

Pegou o celular e abriu a pasta de notas de voz. Havia dezenas de gravações curtas — melodias murmuradas, frases soltas, versos que poderiam ser músicas, mas que pareciam cartas que nunca seriam enviadas. Em uma delas, a voz de .

"Você devia terminar essa canção. Ela merece um final."

apertou o botão de stop, como quem fecha uma ferida com os dedos.

A chuva engrossou. Pingos mais fortes tamborilavam contra a janela. Ele se levantou devagar e caminhou até a cozinha, pedindo ramen pelo aplicativo. Último sabor disponível: kimchi picante. Ela odiava. Ele sorria ao lembrar disso.

Voltando à sala, sentou no chão, de frente para a caixa. Estava pronto. Colocou a caneca no carpete e passou os dedos pela fita adesiva.
Antes que pudesse rasgá-la, a campainha tocou.

ficou parado. O coração acelerou sem motivo aparente. Esperava o entregador, claro. Mas algo dentro dele — talvez esperança, talvez loucura — disse que não era só comida.

Abriu a porta.

estava ali.

Encharcada da cabeça aos pés, segurava um guarda-chuva quebrado com uma das hastes pendurada. Vestia o mesmo casaco de lã que ele lembrava, os cabelos grudados no rosto, e os olhos — ah, os olhos — pareciam carregar toda a chuva do mundo.

— Oi, .

Ele ficou mudo. A garganta apertada. Estava sonhando?

— Eu... — ela mordeu o lábio. — Esqueci uma coisa.

deu um passo para o lado, abrindo espaço. Ela entrou sem dizer mais nada.

O apartamento parecia o mesmo, mas menor. tirou os sapatos, cuidadosamente. Como se não quisesse deixar marcas. observava como quem teme que um movimento em falso vá dissipar a imagem dela.

— Está naquela caixa, né? — ela apontou com o queixo.

Ele assentiu.

Ela se ajoelhou no carpete, hesitante. Quando encostou os dedos na caixa, parou. Os dois permaneceram em silêncio por longos segundos, até se sentar ao lado dela.

— Pensei que você não voltaria mais. — disse ele.

olhou para ele, e havia tanto naquele olhar: saudade, culpa, ternura, exaustão.

— Eu também achei. Mas a chuva...
— ...a chuva te trouxe de volta?

Ela sorriu, fraco.

— Eu sempre volto nos dias de chuva, não é?

quis dizer tantas coisas. Que sentiu falta dela até nas pequenas coisas. Que ainda dormia do lado esquerdo da cama por costume. Que não havia tocado na caixa porque não queria deixar de sentir que ela poderia voltar.

Mas tudo o que saiu foi:

— Quer chá?

Ela assentiu. Enquanto ele preparava, ela passeava pela sala com os olhos. Parou em frente à tela em branco.

— Ainda não terminou?
— Não comecei.

Ela tocou levemente a borda da tela.

— Pode pintar isso amanhã. Eu te deixo essa desculpa.

Quando ele voltou com duas xícaras, o toca-discos começou a tocar sozinho — talvez pelo peso da agulha. A música era suave, antiga, com chiados que combinavam com o momento.

Sentaram-se no chão, como nos velhos tempos. Tomaram o chá devagar. encostou a cabeça no ombro dele. Ele fechou os olhos.

Por um instante, o mundo estava inteiro de novo.

— Não sei se consigo ficar. — ela disse, baixinho.

respirou fundo.

— Não precisa. Só... fica até a chuva passar.

Ela apertou a mão dele. E ficou.

Naquela noite, ninguém dormiu. Falaram pouco, lembraram muito. contou que havia chorado ao ver uma pintura dele em uma galeria local, semanas depois da partida. Que pensou em ligar, mas não teve coragem. contou que dormia com o moletom dela ao lado da cama, dobrado como se fosse um corpo ausente.

O tempo se esticava entre silêncios confortáveis e olhares que diziam mais que qualquer música. A cada relâmpago, uma lembrança. A cada trovão, um arrependimento.

Quando o dia amanheceu, a chuva cessou. vestiu o casaco e pegou a caixa.

— Não vou abrir agora. — ela disse. — Mas obrigada por não ter jogado fora.

Ele a acompanhou até a porta.

— Ainda vai chover muito esse ano. — ele disse, com um sorriso torto.

sorriu de volta. E partiu.

fechou a porta com cuidado. Olhou para a tela em branco. Sentou no chão. Pegou o pincel vermelho.

E começou a pintar.

EPÍLOGO

Meses depois, em outra cidade, se abrigava debaixo de um toldo enquanto a chuva caía fina sobre as calçadas. Segurava a caixa nos braços — ainda lacrada — como um segredo guardado entre o peito e o tempo.

Ela sentou num café pequeno e pediu chá de jasmim, como costumava fazer com . No fundo, um rádio antigo tocava uma música instrumental que parecia vazar de outra época.

Abriu seu caderno de desenhos. Entre páginas em branco, encontrou uma folha solta com um esboço: era o beijo deles na chuva, desenhado com traços leves, mas inconfundíveis.

Ela sorriu. Colocou o papel de volta no caderno.

O garçom passou e comentou:

— Dia chuvoso, né? Dá vontade de lembrar de alguém.

apenas assentiu.

— Sempre dá vontade.

E enquanto a chuva continuava a cair, fechou os olhos e, pela última vez, deixou-se ficar naquele momento onde tudo havia começado: debaixo da chuva, com o coração aberto e um amor que, mesmo em silêncio, nunca deixou de existir.

Anos depois…

Um país novo. Idioma novo. Um emprego qualquer. caminha até o ponto de ônibus quando a chuva começa.

Não é forte — apenas aquela garoa que transforma o céu em cinza e o chão em espelho.

Ela para. Fecha o guarda-chuva.

E lembra.

Do beijo.
Do gosto de água e sal.
Do medo de amar e da coragem que veio depois.
Da despedida sem aplauso, sem trilha sonora.
Dele.

Ela não chora.
Mas, no bolso, carrega um papel dobrado — antigo, manchado.
A última letra que ele escreveu pra ela, nunca lançada.

"Se eu pudesse cantar só pra um par de ouvidos no mundo inteiro,
seria os seus.
Mesmo que você nunca ouvisse."


Ela sorri.
E pela primeira vez em muito tempo, canta baixinho.
Para esquecer.
Ou, talvez, paa lembrar.




FIM...





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