Prólogo
6 de abril de 2022.
Finalmente havia chegado o dia que aguardei ansiosamente.
O dia em que, após sete semanas longe um do outro por incontáveis barreiras geográficas, eu finalmente veria outra vez.
Além disso, era o nosso aniversário de três anos juntos.
tinha trinta e um anos e era simplesmente o dono da voz mais linda que eu já ouvi, embora minha amiga Kate discordasse um pouco disso, visto que o marido dela também era cantor. Mas e Hero eram de nichos diferentes. Um era um astro do rock; o outro, um príncipe do R&B.
E eu amo R&B mais do que amo rock.
Desculpa, Kate, mas talvez o amor seja mesmo cego e a gente tá só discutindo à toa.
De qualquer modo, eu estava feliz. estava voltando de uma turnê musical pela Ásia, e há uma semana eu finalmente tive uma folga após acompanhar Katherine Reed em uma mini turnê literária. Eu era sua agente há cinco anos e o quarto livro da minha série favorita de romance com ação e investigação tinha acabado de ser lançado.
Eu não tinha lá muito tempo livre durante épocas de lançamento, então já era de se esperar que e eu tivéssemos alguns problemas de comunicação durante esses períodos em que ficávamos separados.
E é claro, a diferença de fuso-horário também não ajudava muito. Na verdade, complicava ainda mais. Ligações? Eu nem sabia mais o que era isso. A conexão era tão ruim sempre que tentávamos nos falar que acabamos desistindo e nos contentando em enviar mensagens de texto um para o outro pelo menos duas vezes por dia. não era muito falante, então eu não esperava mais do que isso. Eu era tagarela o suficiente por nós dois, e mesmo assim não estava falando muito também.
Na verdade, pouco antes da turnê de Kate acabar, nós tivemos uma pequena discussão. Na ocasião, ainda não tinha certeza de quando voltaria para casa, pois estava recebendo várias propostas para participar de programas de variedades por onde passava e seu gerente estava considerando aceitar algumas. Em um contexto diferente, eu teria achado isso muito legal. Era uma ótima oportunidade de fazer mais pessoas conhecerem o trabalho dele e isso era sempre bem-vindo. No entanto, fazia semanas que não nos víamos e eu odiava incertezas.
Eu sou uma mulher que ama rotinas e se me comprometo com algo, então tento cumprir o que esperam de mim.
E na maioria das vezes, meu namorado também.
tinha prometido voltar antes. Era para termos passado a última semana juntos, mas ele adiou por conta do trabalho. Eu reclamei e fiquei chateada, mas sabia que não tinha muito o que fazer.
Era o trabalho dele e, mesmo chateada, eu respeitava isso.
O que não quer dizer que não fiquei quase que irracionalmente emburrada quando soube. O que resultou em três dias sem falar com ele, e sem responder nenhuma de suas mensagens. E sim, eu sei que foi meio infantil, mas não dá para ser madura toda hora.
Então deixei num vácuo total por exatas setenta e duas horas.
Até que ele veio com uma proposta.
Como um gatinho curioso, isso despertou minha atenção e um sorriso surgiu em meu rosto assim que li sua sugestão de um encontro no nosso aniversário de três anos. Especialmente quando descobri algo que não me deixou muito feliz enquanto estava brava com ele, ainda mais sabendo que precisaríamos ter uma conversa séria a respeito disso.
Mas isso meio que mudou depois da proposta do encontro. sugeriu irmos ao nosso restaurante coreano favorito e enchermos a cara de soju.
Eu ainda não tinha contado a ele que estava há um tempo evitando beber, coisa que meu estômago agradecia e meu corpo também. E eu teria que abrir mão da dieta no nosso encontro, mas já que era uma ocasião especial, tecnicamente não contava, né?
O plano era simples: jantar e depois voltar para casa.
Talvez comer uma fatia gigante de torta floresta negra da nossa confeitaria favorita também. odiava cerejas, e sempre escolhia prestígio ou torta de morango.
Eu era uma garota que não curtia muitas mudanças. Até mesmo a minha prateleira de livros favoritos continuava igual a quando a organizei dois anos atrás, quando me mudei para morar com ele. Havia um escritório chique no apartamento de , mas apenas eu o usava. Normalmente, quando estávamos em casa, eu passava algumas horas trancada lá enquanto trabalhava nos livros de Kate, e ele criava obras de arte musicais em seu estúdio cheio de proteção de som.
Eu odiava às vezes, sendo bem sincera. nunca me deixava ver nada, nem um spoilerzinho. E ele usava a justificativa mais idiota do universo para isso: eu era fã dele e só me deixaria ver algo quando tivesse certeza de que tinha ficado como ele queria e que seria lançado em um futuro próximo.
Ele não estava errado. Eu realmente era fã dele e acompanhei sua carreira desde o início, por cerca de três anos, antes de sequer nos conhecermos.
Eu meio que tentei não surtar quando o vi pessoalmente pela primeira vez, mas enquanto eu aparentava estar tranquila por fora, por dentro meu coração parecia prestes a explodir.
E ele sabia disso.
Porque, como uma idiota, eu contei tudinho. achava divertido, mas mesmo sendo sua namorada há anos, ele ainda me mantinha no escuro quanto às músicas.
Às vezes, eu achava que não tinha nenhuma moral com ele nesse aspecto, mas então lembrava a mim mesma que eu era , uma agente literária de sucesso aos vinte e oito anos, que sabia muito bem identificar um texto bom de um ruim, incluindo músicas.
Considerando isso, talvez tivesse a ver com o fato de que eu também era exigente e , um perfeccionista que tinha total conhecimento disso. Não que fizesse muita diferença quando se tratava dele.
Geralmente, eu gostava de tudo o que ele lançava, tipo noventa e nove por cento das vezes. Havia sempre algumas colaborações com artistas indie aqui e ali que eu fingia que não existiam. Não que fossem ruins, mas nunca curti muito o estilo musical e àquela altura, já me conhecia bem o suficiente para saber que não era nada pessoal.
Ele também não era um grande leitor, então isso meio que dava um equilíbrio no nosso relacionamento. Tínhamos muitas coisas em comum, mas também éramos opostos em vários aspectos. Mesmo assim, costumávamos funcionar muito bem juntos. Até melhor do que eu esperava, inclusive, ou do que sonhei em meus dias mais delulus como fã.
era o melhor parceiro que o universo poderia me presentear, e eu até tive alguns bons namorados antes, incluindo Andrew, um dos donos da editora de Kate.
No entanto, comecei a reconsiderar minhas escolhas de vida como a boa dramática que sou quando, durante a tarde, enquanto eu modelava meu longo cabelo vermelho cuidadosamente para ficar linda à noite, me enviou uma mensagem falando que não chegaria a tempo.
Aparentemente, houve um erro com o voo dele, e ele iria aterrissar em Chicago em vez de Nova York. O que acabava com quaisquer planos de comemoração no dia seis. Com sorte, talvez ele chegasse de manhã cedo no dia sete, caso conseguisse um novo voo logo.
Na pior das hipóteses, ele chegaria depois do meio-dia.
Encarei meu próprio reflexo no espelho, metade do cabelo arrumado e metade presa no topo da minha cabeça no que mais parecia um ninho de passarinhos.
Eu não sabia nem o que responder. Àquela altura, já deveria estar a caminho de casa.
E eu deveria ter notado que havia algo estranho quando não recebi nenhuma mensagem dele dizendo que tinha chegado ao aeroporto, mas achei que talvez ele estivesse tão ansioso quanto eu.
Uma ova.
Encarei a tela do celular novamente e reli a última mensagem.
♥: Sinto muito, amor. Nós podemos comemorar amanhã se você quiser. Prometo te compensar por isso.
Apertei o celular com força, irritada e tentando me controlar para não falar nada ruim quando eu sabia que nem era culpa dele.
Mas se ele tivesse viajado mais cedo, estaria aqui na data do nosso aniversário. Ele sabia que datas comemorativas eram importantes para mim. E eu sabia que mesmo que ele quisesse sair no dia seguinte e me compensar, não ia ter graça nenhuma.
provavelmente estaria mais cansado que o normal, considerando as horas a mais de voo de Chicago para Nova York, e eu não ia andar por aí com um zumbi. Se algum paparazzi ou fãs nos vissem na rua, provavelmente pensariam que ele estava em um relacionamento tóxico ou algo assim, e que eu estava consumindo toda a sua energia vital como um maldito dementador.
De jeito nenhum. Eu podia lidar com fãs sendo idiotas há três anos, mas não daria nenhum material para que rumores infundados surgissem.
Assim, depois de respirar fundo umas três ou sete vezes, eu digitei uma resposta genérica.
: Tudo bem, me avise quando estiver chegando, e preparo algo pra você comer. Vou cancelar a reserva no restaurante, a gente sai outro dia.
Eu não precisava dizer mais do que isso. Morávamos juntos há dois anos, na maior parte do tempo, e estávamos juntos há três. saberia que o meu "tudo bem" não significava que eu não estava chateada e sim que não havia nada a ser feito.
Era só mais um maldito imprevisto do destino. Como se o universo estivesse conspirando contra a gente.
Resmunguei sozinha e coloquei o celular de lado enquanto observei meu reflexo mais uma vez no espelho. Seria uma pena não sair quando meu cabelo estava ficando tão bonito, porque era óbvio que eu não o deixaria pela metade.
Então, enquanto terminava de arrumar ele, repassei mentalmente todas as mensagens com nos últimos dias. Eu ainda precisava conversar com ele, mas adiaria um pouco. Pelo menos até que eu soubesse que ele estaria descansado o suficiente e com o fuso horário de Nova York em dia.
Talvez para me certificar de que ele não fosse surtar muito quando ouvisse a boa ou má notícia.
Tipo o que eu fiz alguns dias antes. Kate quase me deu um tapa na cara para fazer eu me recompor, e nem é piada. Consegui evitar no último instante. Embora seja ex-enfermeira, Kate não era lá muito delicada quando não estava lidando com algum paciente, então era sempre bom ter um cuidado a mais.
Ela sempre escrevia rascunhos de roteiro à mão, e a marca do lápis sempre ficava do outro lado da folha. Eu tinha que ficar falando constantemente que ela não precisava agredir o papel assim. Não era como se ele fosse fugir se ela colocasse menos força ao escrever.
Reflexões à parte, eu decidi sair sozinha mesmo assim. Tomei um banho rápido com cuidado para não molhar o cabelo e vesti uma roupa confortável. Nada a ver com o vestido tubinho de veludo vermelho profundo da mesma cor que meu cabelo e que abraçava meu corpo com maestria.
Eu tinha ganhado cerca de dez quilos desde que e eu começamos a namorar, mas a maior parte eram músculos. Não que eu fosse uma rata de academia; pelo contrário, eu odiava me exercitar. Mas nos meus dias de autoestima normal, eu tinha que admitir que aqueles quilinhos a mais tinham me feito bem.
E concordava plenamente. Eu tinha ganhado alguns centímetros a mais no quadril e ele não estava reclamando.
De todo modo, escolhi um jeans largo, uma camiseta branca curta e um par de tênis da mesma cor para sair. Quando terminei de me arrumar, peguei uma bolsinha grande o suficiente para guardar o celular e minha carteira, e saí de casa.
A primeira parada foi em um Subway. Geralmente, eu evitava comer fast food, mas estava desejando me empanturrar de comida naquela noite. Caprichei na escolha de um sanduíche, peguei dois cookies de sobremesa e uma garrafa de água com gás antes de me sentar sozinha em uma mesa vazia, de frente para a rua.
Foi quando eu estava terminando de comer, que uma ideia me veio à mente. Havia um shopping por perto e pensei que não faria mal assistir a um filme no cinema.
Mesmo que esse filme fosse um que estava doido para ver.
Seria uma pena assistir ao filme primeiro e sozinha, mas parecia a vingança perfeita pelos dias que ele me fez esperar enquanto preenchia sua agenda de trabalho com mais compromissos.
Eu merecia esse pequeno triunfo de saber sobre o filme inteiro enquanto ele estava evitando spoilers a todo custo. Nós poderíamos assistir juntos depois. E dependendo do quão vingativa eu estivesse me sentindo no dia, talvez eu fizesse alguns comentários inapropriados do tipo: que pena que vai acontecer tal coisa.
Eu nem tinha ideia do que seria, mas descobriria em breve.
Horas mais tarde, saí fungando do cinema. Por algum motivo, tive um acesso de espirros depois que saí da sala de cinema e meus olhos até lacrimejaram. Minha maquiagem devia estar borrada, mas não me importei, pois, de todo modo, estava indo para casa.
Já era quase meia-noite quando comecei a atravessar o estacionamento do shopping até o meu carro. Eu ainda esfregava os olhos, que não paravam de coçar, enquanto andava e repensava minha escolha mesquinha de assistir ao filme sozinha. Nem foi tão legal assim. Teria sido melhor com ; ele criaria teorias comigo, tentando adivinhar o que ia acontecer.
No meio disso, ouvi a buzina alta de um carro quando estava a poucos metros do meu e quando virei o rosto, me deparei com a luz forte do farol.
Eu não consegui pensar. Tudo aconteceu tão rápido que eu nem sequer vi, apenas senti. De repente, meu corpo foi jogado para frente com força e eu caí, rolando pelo cimento do estacionamento várias vezes antes de parar.
A percepção de uma forte dor na barriga me fez encolher em posição fetal, em agonia. O carro tinha me atingido de frente, antes mesmo que eu pudesse pensar em desviar, antes mesmo que eu pudesse notar que ele estava mais próximo do que parecia.
Tentei levantar a cabeça quando ouvi gritos ao redor e vi silhuetas de pessoas aleatórias, mas gemi de dor quando ela também doeu. Minha visão continuava embaçada, mas dessa vez eu não tinha certeza se era devido às lágrimas. Senti um líquido quente ao meu redor e pisquei, tentando enxergar.
A dor beirava o insuportável, e consegui discernir as imagens apenas o suficiente para perceber que estava em uma poça do meu próprio sangue.
Coloquei a mão na barriga, que ainda doía, e choraminguei enquanto ouvia pessoas falando ao redor sobre chamar uma ambulância. Tudo parecia distante, como se as vozes estivessem abafadas, o som parecendo ficar cada vez mais baixo. E em um pequeno momento de desespero, uma percepção me ocorreu.
É assim que eu vou morrer? Numa data especial e sozinha?
Eu nem ao menos conseguiria dizer a o que passei dias planejando. E de qualquer forma, naquele momento, era tarde demais. No fundo, eu sabia que era. Que eu nem ao menos conseguiria me despedir.
Lágrimas quentes escorreram pela ponte do meu nariz, e senti meus olhos começarem a pesar. Ouvi o som distante de uma sirene, mas não houve tempo para captar mais coisas.
De repente, tudo ficou escuro.
Finalmente havia chegado o dia que aguardei ansiosamente.
O dia em que, após sete semanas longe um do outro por incontáveis barreiras geográficas, eu finalmente veria outra vez.
Além disso, era o nosso aniversário de três anos juntos.
tinha trinta e um anos e era simplesmente o dono da voz mais linda que eu já ouvi, embora minha amiga Kate discordasse um pouco disso, visto que o marido dela também era cantor. Mas e Hero eram de nichos diferentes. Um era um astro do rock; o outro, um príncipe do R&B.
E eu amo R&B mais do que amo rock.
Desculpa, Kate, mas talvez o amor seja mesmo cego e a gente tá só discutindo à toa.
De qualquer modo, eu estava feliz. estava voltando de uma turnê musical pela Ásia, e há uma semana eu finalmente tive uma folga após acompanhar Katherine Reed em uma mini turnê literária. Eu era sua agente há cinco anos e o quarto livro da minha série favorita de romance com ação e investigação tinha acabado de ser lançado.
Eu não tinha lá muito tempo livre durante épocas de lançamento, então já era de se esperar que e eu tivéssemos alguns problemas de comunicação durante esses períodos em que ficávamos separados.
E é claro, a diferença de fuso-horário também não ajudava muito. Na verdade, complicava ainda mais. Ligações? Eu nem sabia mais o que era isso. A conexão era tão ruim sempre que tentávamos nos falar que acabamos desistindo e nos contentando em enviar mensagens de texto um para o outro pelo menos duas vezes por dia. não era muito falante, então eu não esperava mais do que isso. Eu era tagarela o suficiente por nós dois, e mesmo assim não estava falando muito também.
Na verdade, pouco antes da turnê de Kate acabar, nós tivemos uma pequena discussão. Na ocasião, ainda não tinha certeza de quando voltaria para casa, pois estava recebendo várias propostas para participar de programas de variedades por onde passava e seu gerente estava considerando aceitar algumas. Em um contexto diferente, eu teria achado isso muito legal. Era uma ótima oportunidade de fazer mais pessoas conhecerem o trabalho dele e isso era sempre bem-vindo. No entanto, fazia semanas que não nos víamos e eu odiava incertezas.
Eu sou uma mulher que ama rotinas e se me comprometo com algo, então tento cumprir o que esperam de mim.
E na maioria das vezes, meu namorado também.
tinha prometido voltar antes. Era para termos passado a última semana juntos, mas ele adiou por conta do trabalho. Eu reclamei e fiquei chateada, mas sabia que não tinha muito o que fazer.
Era o trabalho dele e, mesmo chateada, eu respeitava isso.
O que não quer dizer que não fiquei quase que irracionalmente emburrada quando soube. O que resultou em três dias sem falar com ele, e sem responder nenhuma de suas mensagens. E sim, eu sei que foi meio infantil, mas não dá para ser madura toda hora.
Então deixei num vácuo total por exatas setenta e duas horas.
Até que ele veio com uma proposta.
Como um gatinho curioso, isso despertou minha atenção e um sorriso surgiu em meu rosto assim que li sua sugestão de um encontro no nosso aniversário de três anos. Especialmente quando descobri algo que não me deixou muito feliz enquanto estava brava com ele, ainda mais sabendo que precisaríamos ter uma conversa séria a respeito disso.
Mas isso meio que mudou depois da proposta do encontro. sugeriu irmos ao nosso restaurante coreano favorito e enchermos a cara de soju.
Eu ainda não tinha contado a ele que estava há um tempo evitando beber, coisa que meu estômago agradecia e meu corpo também. E eu teria que abrir mão da dieta no nosso encontro, mas já que era uma ocasião especial, tecnicamente não contava, né?
O plano era simples: jantar e depois voltar para casa.
Talvez comer uma fatia gigante de torta floresta negra da nossa confeitaria favorita também. odiava cerejas, e sempre escolhia prestígio ou torta de morango.
Eu era uma garota que não curtia muitas mudanças. Até mesmo a minha prateleira de livros favoritos continuava igual a quando a organizei dois anos atrás, quando me mudei para morar com ele. Havia um escritório chique no apartamento de , mas apenas eu o usava. Normalmente, quando estávamos em casa, eu passava algumas horas trancada lá enquanto trabalhava nos livros de Kate, e ele criava obras de arte musicais em seu estúdio cheio de proteção de som.
Eu odiava às vezes, sendo bem sincera. nunca me deixava ver nada, nem um spoilerzinho. E ele usava a justificativa mais idiota do universo para isso: eu era fã dele e só me deixaria ver algo quando tivesse certeza de que tinha ficado como ele queria e que seria lançado em um futuro próximo.
Ele não estava errado. Eu realmente era fã dele e acompanhei sua carreira desde o início, por cerca de três anos, antes de sequer nos conhecermos.
Eu meio que tentei não surtar quando o vi pessoalmente pela primeira vez, mas enquanto eu aparentava estar tranquila por fora, por dentro meu coração parecia prestes a explodir.
E ele sabia disso.
Porque, como uma idiota, eu contei tudinho. achava divertido, mas mesmo sendo sua namorada há anos, ele ainda me mantinha no escuro quanto às músicas.
Às vezes, eu achava que não tinha nenhuma moral com ele nesse aspecto, mas então lembrava a mim mesma que eu era , uma agente literária de sucesso aos vinte e oito anos, que sabia muito bem identificar um texto bom de um ruim, incluindo músicas.
Considerando isso, talvez tivesse a ver com o fato de que eu também era exigente e , um perfeccionista que tinha total conhecimento disso. Não que fizesse muita diferença quando se tratava dele.
Geralmente, eu gostava de tudo o que ele lançava, tipo noventa e nove por cento das vezes. Havia sempre algumas colaborações com artistas indie aqui e ali que eu fingia que não existiam. Não que fossem ruins, mas nunca curti muito o estilo musical e àquela altura, já me conhecia bem o suficiente para saber que não era nada pessoal.
Ele também não era um grande leitor, então isso meio que dava um equilíbrio no nosso relacionamento. Tínhamos muitas coisas em comum, mas também éramos opostos em vários aspectos. Mesmo assim, costumávamos funcionar muito bem juntos. Até melhor do que eu esperava, inclusive, ou do que sonhei em meus dias mais delulus como fã.
era o melhor parceiro que o universo poderia me presentear, e eu até tive alguns bons namorados antes, incluindo Andrew, um dos donos da editora de Kate.
No entanto, comecei a reconsiderar minhas escolhas de vida como a boa dramática que sou quando, durante a tarde, enquanto eu modelava meu longo cabelo vermelho cuidadosamente para ficar linda à noite, me enviou uma mensagem falando que não chegaria a tempo.
Aparentemente, houve um erro com o voo dele, e ele iria aterrissar em Chicago em vez de Nova York. O que acabava com quaisquer planos de comemoração no dia seis. Com sorte, talvez ele chegasse de manhã cedo no dia sete, caso conseguisse um novo voo logo.
Na pior das hipóteses, ele chegaria depois do meio-dia.
Encarei meu próprio reflexo no espelho, metade do cabelo arrumado e metade presa no topo da minha cabeça no que mais parecia um ninho de passarinhos.
Eu não sabia nem o que responder. Àquela altura, já deveria estar a caminho de casa.
E eu deveria ter notado que havia algo estranho quando não recebi nenhuma mensagem dele dizendo que tinha chegado ao aeroporto, mas achei que talvez ele estivesse tão ansioso quanto eu.
Uma ova.
Encarei a tela do celular novamente e reli a última mensagem.
♥: Sinto muito, amor. Nós podemos comemorar amanhã se você quiser. Prometo te compensar por isso.
Apertei o celular com força, irritada e tentando me controlar para não falar nada ruim quando eu sabia que nem era culpa dele.
Mas se ele tivesse viajado mais cedo, estaria aqui na data do nosso aniversário. Ele sabia que datas comemorativas eram importantes para mim. E eu sabia que mesmo que ele quisesse sair no dia seguinte e me compensar, não ia ter graça nenhuma.
provavelmente estaria mais cansado que o normal, considerando as horas a mais de voo de Chicago para Nova York, e eu não ia andar por aí com um zumbi. Se algum paparazzi ou fãs nos vissem na rua, provavelmente pensariam que ele estava em um relacionamento tóxico ou algo assim, e que eu estava consumindo toda a sua energia vital como um maldito dementador.
De jeito nenhum. Eu podia lidar com fãs sendo idiotas há três anos, mas não daria nenhum material para que rumores infundados surgissem.
Assim, depois de respirar fundo umas três ou sete vezes, eu digitei uma resposta genérica.
: Tudo bem, me avise quando estiver chegando, e preparo algo pra você comer. Vou cancelar a reserva no restaurante, a gente sai outro dia.
Eu não precisava dizer mais do que isso. Morávamos juntos há dois anos, na maior parte do tempo, e estávamos juntos há três. saberia que o meu "tudo bem" não significava que eu não estava chateada e sim que não havia nada a ser feito.
Era só mais um maldito imprevisto do destino. Como se o universo estivesse conspirando contra a gente.
Resmunguei sozinha e coloquei o celular de lado enquanto observei meu reflexo mais uma vez no espelho. Seria uma pena não sair quando meu cabelo estava ficando tão bonito, porque era óbvio que eu não o deixaria pela metade.
Então, enquanto terminava de arrumar ele, repassei mentalmente todas as mensagens com nos últimos dias. Eu ainda precisava conversar com ele, mas adiaria um pouco. Pelo menos até que eu soubesse que ele estaria descansado o suficiente e com o fuso horário de Nova York em dia.
Talvez para me certificar de que ele não fosse surtar muito quando ouvisse a boa ou má notícia.
Tipo o que eu fiz alguns dias antes. Kate quase me deu um tapa na cara para fazer eu me recompor, e nem é piada. Consegui evitar no último instante. Embora seja ex-enfermeira, Kate não era lá muito delicada quando não estava lidando com algum paciente, então era sempre bom ter um cuidado a mais.
Ela sempre escrevia rascunhos de roteiro à mão, e a marca do lápis sempre ficava do outro lado da folha. Eu tinha que ficar falando constantemente que ela não precisava agredir o papel assim. Não era como se ele fosse fugir se ela colocasse menos força ao escrever.
Reflexões à parte, eu decidi sair sozinha mesmo assim. Tomei um banho rápido com cuidado para não molhar o cabelo e vesti uma roupa confortável. Nada a ver com o vestido tubinho de veludo vermelho profundo da mesma cor que meu cabelo e que abraçava meu corpo com maestria.
Eu tinha ganhado cerca de dez quilos desde que e eu começamos a namorar, mas a maior parte eram músculos. Não que eu fosse uma rata de academia; pelo contrário, eu odiava me exercitar. Mas nos meus dias de autoestima normal, eu tinha que admitir que aqueles quilinhos a mais tinham me feito bem.
E concordava plenamente. Eu tinha ganhado alguns centímetros a mais no quadril e ele não estava reclamando.
De todo modo, escolhi um jeans largo, uma camiseta branca curta e um par de tênis da mesma cor para sair. Quando terminei de me arrumar, peguei uma bolsinha grande o suficiente para guardar o celular e minha carteira, e saí de casa.
A primeira parada foi em um Subway. Geralmente, eu evitava comer fast food, mas estava desejando me empanturrar de comida naquela noite. Caprichei na escolha de um sanduíche, peguei dois cookies de sobremesa e uma garrafa de água com gás antes de me sentar sozinha em uma mesa vazia, de frente para a rua.
Foi quando eu estava terminando de comer, que uma ideia me veio à mente. Havia um shopping por perto e pensei que não faria mal assistir a um filme no cinema.
Mesmo que esse filme fosse um que estava doido para ver.
Seria uma pena assistir ao filme primeiro e sozinha, mas parecia a vingança perfeita pelos dias que ele me fez esperar enquanto preenchia sua agenda de trabalho com mais compromissos.
Eu merecia esse pequeno triunfo de saber sobre o filme inteiro enquanto ele estava evitando spoilers a todo custo. Nós poderíamos assistir juntos depois. E dependendo do quão vingativa eu estivesse me sentindo no dia, talvez eu fizesse alguns comentários inapropriados do tipo: que pena que vai acontecer tal coisa.
Eu nem tinha ideia do que seria, mas descobriria em breve.
Horas mais tarde, saí fungando do cinema. Por algum motivo, tive um acesso de espirros depois que saí da sala de cinema e meus olhos até lacrimejaram. Minha maquiagem devia estar borrada, mas não me importei, pois, de todo modo, estava indo para casa.
Já era quase meia-noite quando comecei a atravessar o estacionamento do shopping até o meu carro. Eu ainda esfregava os olhos, que não paravam de coçar, enquanto andava e repensava minha escolha mesquinha de assistir ao filme sozinha. Nem foi tão legal assim. Teria sido melhor com ; ele criaria teorias comigo, tentando adivinhar o que ia acontecer.
No meio disso, ouvi a buzina alta de um carro quando estava a poucos metros do meu e quando virei o rosto, me deparei com a luz forte do farol.
Eu não consegui pensar. Tudo aconteceu tão rápido que eu nem sequer vi, apenas senti. De repente, meu corpo foi jogado para frente com força e eu caí, rolando pelo cimento do estacionamento várias vezes antes de parar.
A percepção de uma forte dor na barriga me fez encolher em posição fetal, em agonia. O carro tinha me atingido de frente, antes mesmo que eu pudesse pensar em desviar, antes mesmo que eu pudesse notar que ele estava mais próximo do que parecia.
Tentei levantar a cabeça quando ouvi gritos ao redor e vi silhuetas de pessoas aleatórias, mas gemi de dor quando ela também doeu. Minha visão continuava embaçada, mas dessa vez eu não tinha certeza se era devido às lágrimas. Senti um líquido quente ao meu redor e pisquei, tentando enxergar.
A dor beirava o insuportável, e consegui discernir as imagens apenas o suficiente para perceber que estava em uma poça do meu próprio sangue.
Coloquei a mão na barriga, que ainda doía, e choraminguei enquanto ouvia pessoas falando ao redor sobre chamar uma ambulância. Tudo parecia distante, como se as vozes estivessem abafadas, o som parecendo ficar cada vez mais baixo. E em um pequeno momento de desespero, uma percepção me ocorreu.
É assim que eu vou morrer? Numa data especial e sozinha?
Eu nem ao menos conseguiria dizer a o que passei dias planejando. E de qualquer forma, naquele momento, era tarde demais. No fundo, eu sabia que era. Que eu nem ao menos conseguiria me despedir.
Lágrimas quentes escorreram pela ponte do meu nariz, e senti meus olhos começarem a pesar. Ouvi o som distante de uma sirene, mas não houve tempo para captar mais coisas.
De repente, tudo ficou escuro.
Capítulo 1
Um som irritante chegou aos meus ouvidos e eu resmunguei sonolenta, tateando a cama em busca do meu maldito celular.
Que despertador horrível. Eu não me lembrava de colocar nenhum som de passarinhos cantando.
Inferno, eu nem sabia que tinha um.
Encontrei o aparelho e deslizei o dedo pela tela, notando que eram seis da manhã. Em seguida, me espreguicei, passei a mão no cabelo e... Espera, onde estava meu cabelo?
Me sentei rapidamente e procurei em vão pelos longos fios que eu passei anos deixando crescer e encontrei... Nada.
Bem, não literalmente, é claro.
Eu não estava careca, mas meu cabelo estava muito curto e um pensamento meio mirabolante veio em minha mente. Será que fiquei bêbada com na noite passada e acabei fazendo uma besteira? Eu e minha irmã nunca fazíamos as melhores escolhas quando nossa mente estava nublada pelo álcool. E por falar em ...
Espera... Aquele não era o apartamento que eu dividia com minha irmã mais velha, notei, um segundo depois.
Olhei em volta e graças à luz que entrava pelas cortinas na janela do outro lado do quarto, consegui enxergar alguma coisa. Alguns pôsteres na parede, desenhos e rascunhos deles. Uma mesa cheia de livros e post-its colados acima dela e muito material de arte. Eu era um completo fracasso no ramo artístico, então tinha certeza de que não era meu.
Será que eu estava sonhando? E se eu estivesse... Que lugar era aquele?
Meu celular vibrou e eu o desbloqueei com minha digital, me deparando com várias notificações de mensagens de pessoas que eu não conhecia.
No entanto, uma delas me chamou atenção. Era em um chat em grupo, aparentemente.
Uma pessoa chamada Karina havia enviado.
Karina: Eu não aguento mais estudaaaaar! Ayla, que tal a gente largar a faculdade e viver na SUA arte, hein? Eu posso ser sua empresária!
Franzi o cenho, confusa, mas então uma nova mensagem chegou.
Ti: Quanto drama, amiga. Falta pouco pra vocês se formarem, relaxa. Vamos almoçar juntas hoje?
Tiana.
Karina e Tiana tinham enviado mensagens para mim. E uma delas me chamou de Ayla! Eu só podia estar sonhando mesmo e que sonho maluco! Agora eu estava começando a entender… Eu tinha parado no corpo da protagonista do meu livro favorito da série de livros da Kate!
A percepção disso imediatamente me fez levantar da cama e procurar um espelho. Encontrei um no banheiro e, em seguida, pisquei algumas vezes para o meu próprio reflexo. Aquele cabelo, um tom de ruivo aberto e alaranjado, bem diferente do meu, até que me deixava mais jovem e... Espera... Eu também estava mais magra, bem mais magra. Levei um segundo para entender que não era o cabelo que estava me deixando jovem e sim o fato de que eu estava mais jovem.
No corpo de uma garota de vinte e um ou vinte e dois anos de idade.
Ayla , protagonista de Tenaz, primeiro livro da série que Kate ainda estava lançando. E cujo sobrenome era o mesmo que o meu, porque era um livro que eu sempre estive entusiasmada para ler. E até mesmo tinha trilha sonora, feita pelo marido dela. Os dois tinham trabalhado juntos nisso enquanto ela ainda desenvolvia o rascunho do romance, quando ainda eram namorados.
Fazia alguns anos que Tenaz havia sido lançado e já estávamos no quarto livro da série. E pensar que Kate estava cogitando engavetar essa obra-prima. Por um curto período no desenvolvimento, devido a alguns problemas pessoais, essa ideia absurda passou pela mente dela, mas felizmente não durou muito tempo.
Na época, até mesmo me propus a ajudá-la a desenvolver o enredo, da forma que fosse possível e acho que meu entusiasmo a contagiou um pouquinho. Além disso, fiquei bem feliz com os agradecimentos no final do livro, depois de enchê-la de ideias mirabolantes para incentivá-la a escrever. Kate estava na dúvida quanto ao protagonista, mas então eu, como a boa fanfiqueira que sou, a apresentei a , meu cantor favorito de R&B.
Até então ela só tinha escrito sobre astros do rock, então considerou a mudança de gênero bem-vinda. E eu fui uma agente que trabalhou com gosto, feliz da vida. Na verdade, até sentia que estava fazendo pouca coisa. Afinal, eu estava sendo paga para ajudá-la a desenvolver uma fanfic.
Tudo bem, não era uma fanfic de verdade.
Na real, estava longe de ser uma. Mas eu consegui convencê-la a transformar no protagonista e ela até usou meu sobrenome para a mocinha porque achou que combinava com Ayla.
No entanto, poucas pessoas sabiam disso. Eu me perguntava até se já tinha ouvido falar sobre esse livro. Não havia nada além da aparência dele presente no enredo e o fato de Dean, o protagonista, também ser um músico, compositor e cantor incrível.
Tá, a Kate tinha descrito a voz dele exatamente como eu tinha descrito a de para ela, mas diferente de Dean, não era o filho bastardo de um vilão odioso.
Pelo menos até onde eu sabia.
Eu nunca cheguei a conhecê-lo pessoalmente e até mesmo ingressos de shows eram difíceis de conseguir, especialmente quando ele passava mais tenho fora do país do que nele, mesmo que tecnicamente morasse em Los Angeles. Fazia sete anos que eu era fã dele e nunca havia nem mesmo ido a um show. Uma tristeza, eu sei. Até pensei em talvez usar meu cérebro trambiqueiro a meu favor.
Eu poderia sugerir a Kate que sugerisse a Hero que convidasse a fazer uma colaboração. Afinal, Hero não era apenas seu marido, mas um astro do rock e vocalista da Cave Panthers, uma das bandas mais legais que já vi. Dificilmente alguém não saberia quem os quatro integrantes eram. Especialmente agora, que eles estavam de volta com tudo após um período de hiatus.
De todo modo, se Hero convencesse a fazerem uma música juntos... Então eu convenceria Kate a me ajudar a me infiltrar em todo o processo para conhecer ele. Eu compraria uma caixa dos chocolates favoritos dela uma vez por mês, por um ano inteiro, em forma de agradecimento.
Era o plano perfeito. E então eu, depois de anos como uma fã fiel, finalmente me tornaria uma fã de sucesso. Nem sei o que diabos aconteceria se eu encontrasse um dia. Provavelmente eu ia travar no lugar ou, quem sabe, surtar com uma maluca. Eu tinha certeza de que seria oito ou oitenta.
Mas por falar em surtar... Espera, eu estava dentro de Tenaz, sabendo que o protagonista tinha a aparência do meu cantor favorito. Mas onde ele estava?
Eu acordei sozinha no apartamento e não encontrei nenhum sinal de que algum homem frequentava aquele lugar. Que parte da história era aquela? Eu definitivamente não lembro de nenhum diálogo entre as amigas como o de alguns minutos atrás.
Eu ia lembrar se tivesse. Li Tenaz pelo menos quatro vezes nos últimos anos e uma delas tinha sido há cerca de seis meses. Eu conhecia aquela história de trás para frente, embora meu cérebro sempre apagasse eventuais detalhes dela.
Mas se aquilo era um sonho em que eu tinha ido parar no meu livro favorito, então só me restava seguir o fluxo até que eu acordasse novamente para mais um dia de trabalho.
***
Com a ajuda do GPS, consegui chegar ao restaurante que Tiana sugeriu que nos encontrássemos. A cidade ao redor me lembrava um pouco da vibe de Nova York, mas eu sabia que era apenas minha imaginação, assim como a aparência das pessoas. Kate não usou locais reais ou descrições muito detalhadas de personagens porque queria que leitores de todo o mundo pudessem imaginar como bem entendessem.
Eu, como habitante de Nova York, imaginei a minha cidade. Quanto às descrições das pessoas, eu sabia que Karina tinha o cabelo loiro com pontas azuis, embora não lembrasse se isso realmente havia sido descrito no livro ou se Kate comentou em algum momento comigo; também sabia que Tiana lembrava um pouco Dianna Dane, minha chefe, que também era amiga e sócia de Kate na editora.
Cores de pele ou etnia não eram citadas e por conta da mistura de sobrenomes, muita gente imaginava que Dean era um cara asiático, mas eu sabia que ele era . E eu estava prestes a encontrá-lo em algum lugar, quando a história finalmente começasse.
Eu só não entendia por que estava vivenciando situações que nem ao menos estavam descritas no livro. Aquele sonho podia pular logo para as partes boas. Tipo o primeiro beijo de Ayla e Dean. E quando esse momento chegasse, eu esperava que parecesse tão real quanto estava sendo até agora. Eu até havia me beliscado algumas vezes para ver se estava sonhando, mas fazia horas que eu estava ali.
Dei uma olhada ao redor procurando por uma mulher de pele clara e outra de pele escura, e levou apenas um segundo para eu avistar duas pessoas idênticas a Dianna e Karol, melhor amiga de Kate.
Karol acenou para mim na skin de Karina e eu sorri enquanto caminhava até elas.
As cumprimentei rapidamente como se não fosse uma estranha no corpo da melhor amiga delas e peguei o cardápio para escolher o que eu ia comer. Estávamos em um restaurante de culinária coreana e eu estava animada por saber que as meninas gostavam tanto quanto eu.
Mais cedo, descobri que Ayla tinha um cartão de crédito que funcionava por aproximação, o que era um alívio, já que eu não fazia ideia de quais eram as senhas dela. Eu só sabia de coisas descritas no livro e não havia nenhuma cena que precisasse daquela informação.
Uma olhada rápida no cardápio me fez uma mulher feliz ao ver a variedade de pratos disponíveis e minha boca salivou quando vi que tinha Jjamppong. Nem pensei duas vezes antes de pedir aquele prato.
— Jjamppong? Tá doida? — Karina me encarou como se eu tivesse batido a cabeça em algum lugar.
— Por quê? — Franzi o cenho, confusa.
— Amiga, você esqueceu que é alérgica a frutos-do-mar? — Tiana perguntou.
Meu Deus! É claro! Ayla era alérgica, eu tinha me esquecido. E aquele prato tinha mesmo um monte de frutos-do-mar.
— Ah, é mesmo. — Eu ri, sem graça, dando adeus ao meu delicioso ensopado. — Então vou querer um kimbap de porco apimentado e uma tigela de japchae.
Bem, pelo menos eu sabia que aquilo não causaria alergia em ninguém. Um sushi de carne e legumes e macarrão temperado com mais carne, legumes e zero frutos-do-mar.
— Vamos no mesmo, então — Tiana sugeriu. — Mas o meu kimbap, eu quero de gado.
Fizemos os pedidos e Karina deu uma risadinha.
— Parece que você anda com a cabeça nas nuvens, hein? — ela comentou, olhando para mim.
— Eu? Por quê? — Será que elas tinham notado que eu não era a Ayla? Mas não tinha como, certo? Afinal, era um sonho.
— Sei lá, talvez por conta de uma visitinha do seu ex-namorado no seu apartamento semana passada. — Ela sorriu com malícia.
Espera, o quê?! Seojun tinha me visitado e... A recaída! Antes das aulas começarem. Ou já tinham começado? Eu não tinha certeza, mas se Karina tinha reclamado dos estudos naquela manhã, então eu achava que sim.
Droga, eu poderia ter parado naquele sonho na noite da visita dele. Pelo menos, seria um pouco mais divertido.
— Ah... Não. Não é como se tivéssemos voltado ou algo do tipo — comentei, sabendo que aquilo realmente não aconteceria.
Aquele sonho não acabava? Por que tava demorando tanto? Eu adorava Karina e Tiana e, definitivamente, amava comida coreana, mas eu não estava nem aí em dividir uma refeição aleatória com elas em um sonho.
Eu queria emoção. Borboletas no estômago. Onde estava Dean?
Voltei a conversar com elas e enquanto comíamos, discretamente as conduzi a dizer algumas informações importantes sobre a faculdade. As aulas tinham começado, de fato. Mas nas primeiras semanas era comum que muitos alunos faltassem.
Felizmente, Ayla havia feito o mesmo curso que eu, então eu não era uma total sem noção a respeito de literatura.
Eu trabalhava com literatura, na verdade. Em uma editora. Sendo agente literária de uma autora, embora minha capacidade de escrita se resumisse mais a melhorar textos e saber se estavam bons ou ruins, do que eu mesma criá-los do zero. Eu tinha uma imaginação fértil, mas colocar no papel era outra história. De todo modo, eu não tinha interesse em escrever.
Mas já que Ayla fazia o mesmo curso que fiz, então tinha que ser moleza! Isso só podia ser algo ao meu favor, embora eu não achasse que fosse precisar de qualquer habilidade. Afinal, era uma história, certo? Kate já tinha escrito tudo, eu só tinha que esperar acontecer.
Infelizmente, no dia seguinte descobri que estava errada. Acordei atrasada e tive que correr para a aula. Passei por um dos prédios administrativos para cortar caminho, mas acabei esbarrando em um cara.
— Desculpa — ele disse e eu arregalei os olhos ao reconhecer aquela voz. Imediatamente, ele se abaixou para recolher meus papéis e eu fiz o mesmo, o encarando enquanto ele estava distraído.
Seu cabelo era preto e ele usava uma máscara da mesma cor, cobrindo metade da face. No entanto, meus olhos se dirigiram imediatamente para o pescoço descoberto. Um pedaço da tatuagem de flores de ameixa aparecia, pegando o lado esquerdo do seu pescoço, e minha boca secou quando lembrei de uma cena do livro em que Ayla a mordia.
Eu reconheceria aquela tatuagem de longe porque era a mesma que tinha. Enorme, e descia até parte do seu peito esquerdo.
Inferno, mesmo que não estivesse à mostra, eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Rouca, profunda e completamente deliciosa de ouvir.
Levei apenas alguns segundos para pensar nisso, enquanto recolhíamos os papéis, e disse a mim mesma para não surtar, afinal aquele não era e sim Dean Kwon, o protagonista do livro.
Assim que peguei tudo, me virei e fui embora como uma maluca.
Aquilo não fazia parte do livro, eu tinha certeza. Kate não tinha descrito nenhuma cena assim. Na verdade, Ayla deveria esbarrar em Zico, o melhor amigo de Dean, do lado de fora de uma sala de aula. Ela deveria conhecer Zico primeiro.
Então por que Dean estava ali?
Levei dois segundos para lembrar que tinha pegado um atalho por um prédio administrativo e cheguei à conclusão de que talvez ele estivesse resolvendo pendências da matrícula.
Mas se mesmo não sendo descrito, aquilo tinha acontecido mesmo com Ayla, como ela poderia ser tão lerda a ponto de não notar aquele deus grego na frente dela? Bem, talvez sua skin estivesse ansiosa demais para isso, eu imaginei por um momento, tentando defender a falta de atenção da minha protagonista favorita.
Algumas horas mais tarde, minha skin de Ayla se tornou extremamente estressada. Comecei a ter pensamentos envolvendo o homicídio de toda a papelada que me aguardava e lembrei que eu mesma odiava o curso de literatura por ter que estudar sobre coisas tão chatas!
"Você gosta de escrever? O curso de literatura é perfeito para você!", disseram. "Você lê muito? Com certeza vai adorar o curso de literatura", disseram. Mas tudo o que eu queria naquele momento era atirar tudo ao ar livre e quem sabe, fazer uma fogueira ali mesmo, em frente à biblioteca cheia de livros chatos e entediantes.
Um momento depois, como se uma luz iluminasse minha mente, eu percebi que a história finalmente havia começado. Aquele era literalmente o início, Ayla estressada, querendo se livrar de tudo.
Eu nunca a julguei por isso, porque ela tinha razão. Sempre sonhei em trabalhar com livros porque amava ler, mas o processo de entendê-los era um trabalho extremamente complexo e chato.
No fim do dia, voltei para casa e algumas horas depois eu estava na cama, pronta para dormir. Se a história já tinha começado, então eu imaginava que Ayla tivesse algumas reações automáticas. Fazia sentido, certo? Eu era uma mera espectadora que, por acaso, estava sonhando que tinha ido parar no corpo dela.
Eu só tinha que esperar as coisas acontecerem e torcer para que acontecessem logo. Já fazia dois dias e a impressão que eu tinha era de que estava vivendo como Ayla, de fato. Não parecia um sonho. Sonhos tinham detalhes que não faziam nenhum sentido e era assim que você tinha consciência de que, mesmo dormindo, nada daquilo era real.
Mas parecia bem real para mim.
Me acomodei na cama, encontrando uma posição confortável para dormir e fechei os olhos, esperando o sono chegar.
No entanto, algo estranho aconteceu.
Um flash rápido surgiu, como se eu estivesse em outro lugar. Abri os olhos, mas continuei vendo aquilo.
Olhei para o teto escuro do quarto e de repente, ele estava claro, tão branco que quase doía nos olhos, havia um barulho de bip ao redor e sem me mexer, percorri o olhar tentando encontrar algo. Tudo piscou novamente e era como eu estivesse no quarto de Ayla e nesse outro lugar ao mesmo tempo.
O barulho de bip se tornou mais alto e me sentindo sonolenta, olhei para baixo, encontrando um acesso venoso na minha mão esquerda.
O que diabos era aquilo? Eu estava em um hospital?
Tudo piscou novamente ao meu redor e, de repente, o quarto de Ayla se tornou completamente nítido outra vez.
Franzi o cenho, confusa, e me sentei rapidamente, olhando ao redor e notando que tudo parecia o mesmo. Mas então outro pensamento me veio em mente.
Eu sofri um acidente?
Era por isso que aquele universo de Tenaz parecia tão real?
Será que, de alguma forma, meu espírito tinha ido parar dentro da história? Eu já tinha lido livros e webtoons assim, mas, normalmente, a mocinha acabava no corpo da vilã. Eu, no entanto, fui direto para a protagonista.
Será que eu viveria tudo o que ela viveu na história?
Se eu estivesse mesmo em um hospital, inconsciente, então tudo fazia sentido, todo o aspecto realista daquele suposto sonho. Porque não era apenas um sonho e sim uma realidade alternativa.
O que não fazia sentido era que estivesse mesmo acontecendo. Eu achava que era uma coisa de histórias fictícias.
Só que eu era uma pessoa real.
Me deitei novamente na cama, tentando imaginar o que tinha acontecido comigo, mas por mais que eu forçasse meu cérebro a pensar, tudo o que eu me lembrava era de ir para casa após ter uma reunião com Kate para discutir um pouco sobre o roteiro do próximo livro, Oblíquo. O último da série. Eu estava em 2022 e tínhamos acabado de voltar de uma mini turnê literária para a promoção de Sutil, o quarto livro, e teríamos folga na semana seguinte inteira.
Mas por que eu tinha a impressão de que estava esquecendo de algo importante?
Enquanto tentava continuar pensando no que diabos tinha acontecido comigo, meus olhos se fecharam naturalmente, e eu bocejei, sonolenta.
Não me lembro de ter caído no sono, mas, quando abri os olhos outra vez, o despertador estava tocando com um barulho irritante diferente, e a luz do dia mais uma vez passava pela brecha entre as cortinas.
Que despertador horrível. Eu não me lembrava de colocar nenhum som de passarinhos cantando.
Inferno, eu nem sabia que tinha um.
Encontrei o aparelho e deslizei o dedo pela tela, notando que eram seis da manhã. Em seguida, me espreguicei, passei a mão no cabelo e... Espera, onde estava meu cabelo?
Me sentei rapidamente e procurei em vão pelos longos fios que eu passei anos deixando crescer e encontrei... Nada.
Bem, não literalmente, é claro.
Eu não estava careca, mas meu cabelo estava muito curto e um pensamento meio mirabolante veio em minha mente. Será que fiquei bêbada com na noite passada e acabei fazendo uma besteira? Eu e minha irmã nunca fazíamos as melhores escolhas quando nossa mente estava nublada pelo álcool. E por falar em ...
Espera... Aquele não era o apartamento que eu dividia com minha irmã mais velha, notei, um segundo depois.
Olhei em volta e graças à luz que entrava pelas cortinas na janela do outro lado do quarto, consegui enxergar alguma coisa. Alguns pôsteres na parede, desenhos e rascunhos deles. Uma mesa cheia de livros e post-its colados acima dela e muito material de arte. Eu era um completo fracasso no ramo artístico, então tinha certeza de que não era meu.
Será que eu estava sonhando? E se eu estivesse... Que lugar era aquele?
Meu celular vibrou e eu o desbloqueei com minha digital, me deparando com várias notificações de mensagens de pessoas que eu não conhecia.
No entanto, uma delas me chamou atenção. Era em um chat em grupo, aparentemente.
Uma pessoa chamada Karina havia enviado.
Karina: Eu não aguento mais estudaaaaar! Ayla, que tal a gente largar a faculdade e viver na SUA arte, hein? Eu posso ser sua empresária!
Franzi o cenho, confusa, mas então uma nova mensagem chegou.
Ti: Quanto drama, amiga. Falta pouco pra vocês se formarem, relaxa. Vamos almoçar juntas hoje?
Tiana.
Karina e Tiana tinham enviado mensagens para mim. E uma delas me chamou de Ayla! Eu só podia estar sonhando mesmo e que sonho maluco! Agora eu estava começando a entender… Eu tinha parado no corpo da protagonista do meu livro favorito da série de livros da Kate!
A percepção disso imediatamente me fez levantar da cama e procurar um espelho. Encontrei um no banheiro e, em seguida, pisquei algumas vezes para o meu próprio reflexo. Aquele cabelo, um tom de ruivo aberto e alaranjado, bem diferente do meu, até que me deixava mais jovem e... Espera... Eu também estava mais magra, bem mais magra. Levei um segundo para entender que não era o cabelo que estava me deixando jovem e sim o fato de que eu estava mais jovem.
No corpo de uma garota de vinte e um ou vinte e dois anos de idade.
Ayla , protagonista de Tenaz, primeiro livro da série que Kate ainda estava lançando. E cujo sobrenome era o mesmo que o meu, porque era um livro que eu sempre estive entusiasmada para ler. E até mesmo tinha trilha sonora, feita pelo marido dela. Os dois tinham trabalhado juntos nisso enquanto ela ainda desenvolvia o rascunho do romance, quando ainda eram namorados.
Fazia alguns anos que Tenaz havia sido lançado e já estávamos no quarto livro da série. E pensar que Kate estava cogitando engavetar essa obra-prima. Por um curto período no desenvolvimento, devido a alguns problemas pessoais, essa ideia absurda passou pela mente dela, mas felizmente não durou muito tempo.
Na época, até mesmo me propus a ajudá-la a desenvolver o enredo, da forma que fosse possível e acho que meu entusiasmo a contagiou um pouquinho. Além disso, fiquei bem feliz com os agradecimentos no final do livro, depois de enchê-la de ideias mirabolantes para incentivá-la a escrever. Kate estava na dúvida quanto ao protagonista, mas então eu, como a boa fanfiqueira que sou, a apresentei a , meu cantor favorito de R&B.
Até então ela só tinha escrito sobre astros do rock, então considerou a mudança de gênero bem-vinda. E eu fui uma agente que trabalhou com gosto, feliz da vida. Na verdade, até sentia que estava fazendo pouca coisa. Afinal, eu estava sendo paga para ajudá-la a desenvolver uma fanfic.
Tudo bem, não era uma fanfic de verdade.
Na real, estava longe de ser uma. Mas eu consegui convencê-la a transformar no protagonista e ela até usou meu sobrenome para a mocinha porque achou que combinava com Ayla.
No entanto, poucas pessoas sabiam disso. Eu me perguntava até se já tinha ouvido falar sobre esse livro. Não havia nada além da aparência dele presente no enredo e o fato de Dean, o protagonista, também ser um músico, compositor e cantor incrível.
Tá, a Kate tinha descrito a voz dele exatamente como eu tinha descrito a de para ela, mas diferente de Dean, não era o filho bastardo de um vilão odioso.
Pelo menos até onde eu sabia.
Eu nunca cheguei a conhecê-lo pessoalmente e até mesmo ingressos de shows eram difíceis de conseguir, especialmente quando ele passava mais tenho fora do país do que nele, mesmo que tecnicamente morasse em Los Angeles. Fazia sete anos que eu era fã dele e nunca havia nem mesmo ido a um show. Uma tristeza, eu sei. Até pensei em talvez usar meu cérebro trambiqueiro a meu favor.
Eu poderia sugerir a Kate que sugerisse a Hero que convidasse a fazer uma colaboração. Afinal, Hero não era apenas seu marido, mas um astro do rock e vocalista da Cave Panthers, uma das bandas mais legais que já vi. Dificilmente alguém não saberia quem os quatro integrantes eram. Especialmente agora, que eles estavam de volta com tudo após um período de hiatus.
De todo modo, se Hero convencesse a fazerem uma música juntos... Então eu convenceria Kate a me ajudar a me infiltrar em todo o processo para conhecer ele. Eu compraria uma caixa dos chocolates favoritos dela uma vez por mês, por um ano inteiro, em forma de agradecimento.
Era o plano perfeito. E então eu, depois de anos como uma fã fiel, finalmente me tornaria uma fã de sucesso. Nem sei o que diabos aconteceria se eu encontrasse um dia. Provavelmente eu ia travar no lugar ou, quem sabe, surtar com uma maluca. Eu tinha certeza de que seria oito ou oitenta.
Mas por falar em surtar... Espera, eu estava dentro de Tenaz, sabendo que o protagonista tinha a aparência do meu cantor favorito. Mas onde ele estava?
Eu acordei sozinha no apartamento e não encontrei nenhum sinal de que algum homem frequentava aquele lugar. Que parte da história era aquela? Eu definitivamente não lembro de nenhum diálogo entre as amigas como o de alguns minutos atrás.
Eu ia lembrar se tivesse. Li Tenaz pelo menos quatro vezes nos últimos anos e uma delas tinha sido há cerca de seis meses. Eu conhecia aquela história de trás para frente, embora meu cérebro sempre apagasse eventuais detalhes dela.
Mas se aquilo era um sonho em que eu tinha ido parar no meu livro favorito, então só me restava seguir o fluxo até que eu acordasse novamente para mais um dia de trabalho.
Com a ajuda do GPS, consegui chegar ao restaurante que Tiana sugeriu que nos encontrássemos. A cidade ao redor me lembrava um pouco da vibe de Nova York, mas eu sabia que era apenas minha imaginação, assim como a aparência das pessoas. Kate não usou locais reais ou descrições muito detalhadas de personagens porque queria que leitores de todo o mundo pudessem imaginar como bem entendessem.
Eu, como habitante de Nova York, imaginei a minha cidade. Quanto às descrições das pessoas, eu sabia que Karina tinha o cabelo loiro com pontas azuis, embora não lembrasse se isso realmente havia sido descrito no livro ou se Kate comentou em algum momento comigo; também sabia que Tiana lembrava um pouco Dianna Dane, minha chefe, que também era amiga e sócia de Kate na editora.
Cores de pele ou etnia não eram citadas e por conta da mistura de sobrenomes, muita gente imaginava que Dean era um cara asiático, mas eu sabia que ele era . E eu estava prestes a encontrá-lo em algum lugar, quando a história finalmente começasse.
Eu só não entendia por que estava vivenciando situações que nem ao menos estavam descritas no livro. Aquele sonho podia pular logo para as partes boas. Tipo o primeiro beijo de Ayla e Dean. E quando esse momento chegasse, eu esperava que parecesse tão real quanto estava sendo até agora. Eu até havia me beliscado algumas vezes para ver se estava sonhando, mas fazia horas que eu estava ali.
Dei uma olhada ao redor procurando por uma mulher de pele clara e outra de pele escura, e levou apenas um segundo para eu avistar duas pessoas idênticas a Dianna e Karol, melhor amiga de Kate.
Karol acenou para mim na skin de Karina e eu sorri enquanto caminhava até elas.
As cumprimentei rapidamente como se não fosse uma estranha no corpo da melhor amiga delas e peguei o cardápio para escolher o que eu ia comer. Estávamos em um restaurante de culinária coreana e eu estava animada por saber que as meninas gostavam tanto quanto eu.
Mais cedo, descobri que Ayla tinha um cartão de crédito que funcionava por aproximação, o que era um alívio, já que eu não fazia ideia de quais eram as senhas dela. Eu só sabia de coisas descritas no livro e não havia nenhuma cena que precisasse daquela informação.
Uma olhada rápida no cardápio me fez uma mulher feliz ao ver a variedade de pratos disponíveis e minha boca salivou quando vi que tinha Jjamppong. Nem pensei duas vezes antes de pedir aquele prato.
— Jjamppong? Tá doida? — Karina me encarou como se eu tivesse batido a cabeça em algum lugar.
— Por quê? — Franzi o cenho, confusa.
— Amiga, você esqueceu que é alérgica a frutos-do-mar? — Tiana perguntou.
Meu Deus! É claro! Ayla era alérgica, eu tinha me esquecido. E aquele prato tinha mesmo um monte de frutos-do-mar.
— Ah, é mesmo. — Eu ri, sem graça, dando adeus ao meu delicioso ensopado. — Então vou querer um kimbap de porco apimentado e uma tigela de japchae.
Bem, pelo menos eu sabia que aquilo não causaria alergia em ninguém. Um sushi de carne e legumes e macarrão temperado com mais carne, legumes e zero frutos-do-mar.
— Vamos no mesmo, então — Tiana sugeriu. — Mas o meu kimbap, eu quero de gado.
Fizemos os pedidos e Karina deu uma risadinha.
— Parece que você anda com a cabeça nas nuvens, hein? — ela comentou, olhando para mim.
— Eu? Por quê? — Será que elas tinham notado que eu não era a Ayla? Mas não tinha como, certo? Afinal, era um sonho.
— Sei lá, talvez por conta de uma visitinha do seu ex-namorado no seu apartamento semana passada. — Ela sorriu com malícia.
Espera, o quê?! Seojun tinha me visitado e... A recaída! Antes das aulas começarem. Ou já tinham começado? Eu não tinha certeza, mas se Karina tinha reclamado dos estudos naquela manhã, então eu achava que sim.
Droga, eu poderia ter parado naquele sonho na noite da visita dele. Pelo menos, seria um pouco mais divertido.
— Ah... Não. Não é como se tivéssemos voltado ou algo do tipo — comentei, sabendo que aquilo realmente não aconteceria.
Aquele sonho não acabava? Por que tava demorando tanto? Eu adorava Karina e Tiana e, definitivamente, amava comida coreana, mas eu não estava nem aí em dividir uma refeição aleatória com elas em um sonho.
Eu queria emoção. Borboletas no estômago. Onde estava Dean?
Voltei a conversar com elas e enquanto comíamos, discretamente as conduzi a dizer algumas informações importantes sobre a faculdade. As aulas tinham começado, de fato. Mas nas primeiras semanas era comum que muitos alunos faltassem.
Felizmente, Ayla havia feito o mesmo curso que eu, então eu não era uma total sem noção a respeito de literatura.
Eu trabalhava com literatura, na verdade. Em uma editora. Sendo agente literária de uma autora, embora minha capacidade de escrita se resumisse mais a melhorar textos e saber se estavam bons ou ruins, do que eu mesma criá-los do zero. Eu tinha uma imaginação fértil, mas colocar no papel era outra história. De todo modo, eu não tinha interesse em escrever.
Mas já que Ayla fazia o mesmo curso que fiz, então tinha que ser moleza! Isso só podia ser algo ao meu favor, embora eu não achasse que fosse precisar de qualquer habilidade. Afinal, era uma história, certo? Kate já tinha escrito tudo, eu só tinha que esperar acontecer.
Infelizmente, no dia seguinte descobri que estava errada. Acordei atrasada e tive que correr para a aula. Passei por um dos prédios administrativos para cortar caminho, mas acabei esbarrando em um cara.
— Desculpa — ele disse e eu arregalei os olhos ao reconhecer aquela voz. Imediatamente, ele se abaixou para recolher meus papéis e eu fiz o mesmo, o encarando enquanto ele estava distraído.
Seu cabelo era preto e ele usava uma máscara da mesma cor, cobrindo metade da face. No entanto, meus olhos se dirigiram imediatamente para o pescoço descoberto. Um pedaço da tatuagem de flores de ameixa aparecia, pegando o lado esquerdo do seu pescoço, e minha boca secou quando lembrei de uma cena do livro em que Ayla a mordia.
Eu reconheceria aquela tatuagem de longe porque era a mesma que tinha. Enorme, e descia até parte do seu peito esquerdo.
Inferno, mesmo que não estivesse à mostra, eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Rouca, profunda e completamente deliciosa de ouvir.
Levei apenas alguns segundos para pensar nisso, enquanto recolhíamos os papéis, e disse a mim mesma para não surtar, afinal aquele não era e sim Dean Kwon, o protagonista do livro.
Assim que peguei tudo, me virei e fui embora como uma maluca.
Aquilo não fazia parte do livro, eu tinha certeza. Kate não tinha descrito nenhuma cena assim. Na verdade, Ayla deveria esbarrar em Zico, o melhor amigo de Dean, do lado de fora de uma sala de aula. Ela deveria conhecer Zico primeiro.
Então por que Dean estava ali?
Levei dois segundos para lembrar que tinha pegado um atalho por um prédio administrativo e cheguei à conclusão de que talvez ele estivesse resolvendo pendências da matrícula.
Mas se mesmo não sendo descrito, aquilo tinha acontecido mesmo com Ayla, como ela poderia ser tão lerda a ponto de não notar aquele deus grego na frente dela? Bem, talvez sua skin estivesse ansiosa demais para isso, eu imaginei por um momento, tentando defender a falta de atenção da minha protagonista favorita.
Algumas horas mais tarde, minha skin de Ayla se tornou extremamente estressada. Comecei a ter pensamentos envolvendo o homicídio de toda a papelada que me aguardava e lembrei que eu mesma odiava o curso de literatura por ter que estudar sobre coisas tão chatas!
"Você gosta de escrever? O curso de literatura é perfeito para você!", disseram. "Você lê muito? Com certeza vai adorar o curso de literatura", disseram. Mas tudo o que eu queria naquele momento era atirar tudo ao ar livre e quem sabe, fazer uma fogueira ali mesmo, em frente à biblioteca cheia de livros chatos e entediantes.
Um momento depois, como se uma luz iluminasse minha mente, eu percebi que a história finalmente havia começado. Aquele era literalmente o início, Ayla estressada, querendo se livrar de tudo.
Eu nunca a julguei por isso, porque ela tinha razão. Sempre sonhei em trabalhar com livros porque amava ler, mas o processo de entendê-los era um trabalho extremamente complexo e chato.
No fim do dia, voltei para casa e algumas horas depois eu estava na cama, pronta para dormir. Se a história já tinha começado, então eu imaginava que Ayla tivesse algumas reações automáticas. Fazia sentido, certo? Eu era uma mera espectadora que, por acaso, estava sonhando que tinha ido parar no corpo dela.
Eu só tinha que esperar as coisas acontecerem e torcer para que acontecessem logo. Já fazia dois dias e a impressão que eu tinha era de que estava vivendo como Ayla, de fato. Não parecia um sonho. Sonhos tinham detalhes que não faziam nenhum sentido e era assim que você tinha consciência de que, mesmo dormindo, nada daquilo era real.
Mas parecia bem real para mim.
Me acomodei na cama, encontrando uma posição confortável para dormir e fechei os olhos, esperando o sono chegar.
No entanto, algo estranho aconteceu.
Um flash rápido surgiu, como se eu estivesse em outro lugar. Abri os olhos, mas continuei vendo aquilo.
Olhei para o teto escuro do quarto e de repente, ele estava claro, tão branco que quase doía nos olhos, havia um barulho de bip ao redor e sem me mexer, percorri o olhar tentando encontrar algo. Tudo piscou novamente e era como eu estivesse no quarto de Ayla e nesse outro lugar ao mesmo tempo.
O barulho de bip se tornou mais alto e me sentindo sonolenta, olhei para baixo, encontrando um acesso venoso na minha mão esquerda.
O que diabos era aquilo? Eu estava em um hospital?
Tudo piscou novamente ao meu redor e, de repente, o quarto de Ayla se tornou completamente nítido outra vez.
Franzi o cenho, confusa, e me sentei rapidamente, olhando ao redor e notando que tudo parecia o mesmo. Mas então outro pensamento me veio em mente.
Eu sofri um acidente?
Era por isso que aquele universo de Tenaz parecia tão real?
Será que, de alguma forma, meu espírito tinha ido parar dentro da história? Eu já tinha lido livros e webtoons assim, mas, normalmente, a mocinha acabava no corpo da vilã. Eu, no entanto, fui direto para a protagonista.
Será que eu viveria tudo o que ela viveu na história?
Se eu estivesse mesmo em um hospital, inconsciente, então tudo fazia sentido, todo o aspecto realista daquele suposto sonho. Porque não era apenas um sonho e sim uma realidade alternativa.
O que não fazia sentido era que estivesse mesmo acontecendo. Eu achava que era uma coisa de histórias fictícias.
Só que eu era uma pessoa real.
Me deitei novamente na cama, tentando imaginar o que tinha acontecido comigo, mas por mais que eu forçasse meu cérebro a pensar, tudo o que eu me lembrava era de ir para casa após ter uma reunião com Kate para discutir um pouco sobre o roteiro do próximo livro, Oblíquo. O último da série. Eu estava em 2022 e tínhamos acabado de voltar de uma mini turnê literária para a promoção de Sutil, o quarto livro, e teríamos folga na semana seguinte inteira.
Mas por que eu tinha a impressão de que estava esquecendo de algo importante?
Enquanto tentava continuar pensando no que diabos tinha acontecido comigo, meus olhos se fecharam naturalmente, e eu bocejei, sonolenta.
Não me lembro de ter caído no sono, mas, quando abri os olhos outra vez, o despertador estava tocando com um barulho irritante diferente, e a luz do dia mais uma vez passava pela brecha entre as cortinas.
Capítulo 2
Uma vez que a narrativa do livro começou, o tempo começou a passar mais rápido. Em certos momentos, eu me sentava em uma sala de aula no início da tarde e, cerca de um minuto depois, via o pôr do sol pela janela.
Me senti um personagem de The Sims.
Um dia acordei e cheguei à sala de aula de Escrita Criativa e antes de entrar, esbarrei em Zico.
Em Tenaz, Ayla o conhecia primeiro e, por volta de duas semanas depois, Dean aparecia. Eu mal podia esperar para que as partes boas chegassem.
Zico se desculpou rapidamente e felizmente eu não estava segurando nenhuma papelada naquele momento. Ele falava ao telefone, então apenas acenei com a cabeça, ouvindo parte da conversa dele que eu sabia que era com Dean. Examinei a sala de aula cheia e me dirigi para uma mesa vazia, sabendo que em poucos instantes, Zico sentaria ao meu lado.
Dito e feito.
Dei uma risadinha mental quando o ouvi falar comigo outra vez. Conversamos um pouco e notei que eu estava dizendo exatamente as falas de Ayla do diálogo dos dois. Me perguntei se isso era alguma lembrança minha após ler o livro quatro vezes, ou se eu apenas estava vomitando palavras no automático.
Depois de alguns minutos, o professor chegou e começou a dar aula. Ele era meio egocêntrico como um bom leonino, e um tanto engraçado, o que me fazia simpatizar com ele, então a aula não foi um tédio. Enquanto isso, Zico ficou ao meu lado em silêncio, como se não prestasse atenção, mas sempre que o professor falava algo engraçado, ele olhava para mim como se perguntasse se eu tinha ouvido o mesmo. Eu lembrava dessa cena claramente. Fazia parte do primeiro capítulo do livro. Quando a aula acabou, fomos almoçar juntos e depois, quando nos despedimos, voltei para o apartamento de Ayla.
Não havia nada a ser feito durante a tarde, então resolvi tirar uma soneca para passar o tempo.
Acordei com o despertador tocando e quando peguei o celular para desligar, já era de manhã. Inicialmente, imaginei que tinha capotado e só acordado no dia seguinte, mas logo notei que a data era diferente. Duas semanas haviam se passado enquanto eu dormia. Se aquilo não era um sonho de The Sims, então eu não sabia o que era.
Encontrei uma mensagem não lida de Zico e descobri que Dean viria para a universidade naquele dia. Instantaneamente, meu coração acelerou um pouco e senti um frio na barriga, sabendo que nada tinha a ver com os sentimentos de Ayla, mas com os meus.
Eu, , tinha notado Dean antes dela. E já sabia o que aconteceria logo mais. Eu o conheceria naquele dia, formaríamos um trio para fazer o trabalho de escrita e, talvez no dia seguinte, eu acabasse em uma mesa sozinha com Dean, enquanto comíamos em silêncio. Depois ele e Zico me levariam ao estúdio dos dois, e cantariam para mim.
Eu mal podia esperar.
Cerca de duas horas mais tarde, eu tinha acabado de encontrar Zico quando ele falou que precisava ir ao banheiro. Eu não lembrava de nada das últimas duas semanas, no entanto, eu e Zico agíamos como se fôssemos melhores amigos. Sentei em um banco vazio do campus e esperei, tentando conter um sorriso, enquanto fingia mexer no celular.
Um instante depois, senti alguém se aproximar e se sentar ao meu lado. Olhei rapidamente para Dean, vestido de preto dos pés à cabeça e voltei minha atenção para a tela do celular.
A aula estava perto de começar, então Ayla deveria enviar uma mensagem de áudio para Zico naquele momento, perguntando algo sobre ele ter ficado preso na privada. Esperei pacientemente, mas nada aconteceu.
Minha skin de Ayla não agiu por instinto como em outras ocasiões. Franzi o cenho e um segundo depois, Zico voltou.
— Quando você chegou? — ele perguntou, olhando para Dean.
Após um breve diálogo, dessa vez automático, nós fomos para a sala de aula.
De repente, minha mente pensava uma coisa, mas meu corpo fazia outra. Palavras saíam da minha boca sem que eu pensasse, e algumas expressões também. Imediatamente, me lembrei de um drama que assisti em 2019 sobre uma protagonista que descobria que nem existia e que, na verdade, era apenas personagem de um livro. Havia algumas ocasiões de palco, em que ela não tinha absolutamente nenhum controle sobre suas ações e emoções, e momentos de bastidores, quando podia agir por conta própria.
Então pensei que algo semelhante estava acontecendo comigo. No entanto, era aleatório. Às vezes, tudo acontecia no automático. Outras, nada acontecia a não ser que eu tomasse uma atitude, como o caso do áudio não enviado para Zico.
Depois de um tempo refletindo enquanto a aula corria, cheguei à conclusão de que as principais cenas provavelmente seguiriam o roteiro do livro, enquanto outras, que não eram importantes, poderiam ser controladas por mim.
Me despedi de Zico e Dean naquele dia depois de dizer que eu iria querer ajuda com o enredo do trabalho, mas que podia escrever sozinha. Eu lembrava que no dia seguinte, Ayla aparecia com um mini roteiro sobre a história de Kate e Hero — sim, Kate colocou isso como uma brincadeira, já que Ayla também era escritora.
No entanto, nada aconteceu quando esperei minha skin de Ayla se mover automaticamente para escrever. Tampouco apareceram anotações mágicas no meu bloco de notas quando acordei no dia seguinte. Com uma careta, percebi que eu teria que bolar algo rápido, mas para que escrever se eu conhecia aquela história toda?
Depois de cinco (ou eram seis?) anos trabalhando com Kate, eu sabia muito bem como ela e Hero acabaram juntos. Ayla só tinha que explanar um pedacinho daquilo.
Quando isso aconteceu, senti vontade de bater palmas para mim mesma por ser uma fanfiqueira nata. Eu não somente anotei o plot da história que supostamente deveríamos escrever, como alguns detalhes a mais. Mais tarde, Zico e Dean ouviram atentamente e, no mesmo dia, me levaram para o estúdio deles.
Quase dei pulinhos de alegria, mas me contive. Eu sabia que era fictício e que Dean não era de verdade, mas era como se eu estivesse prestes a ver cantando na minha frente pela primeira vez. E quando isso aconteceu, eu nem tinha certeza se minhas reações eram mesmo minhas ou de Ayla, mas nós duas certamente estávamos surtando.
Depois que Zico e Dean terminaram de cantar a primeira música, na qual Zico fazia um rap, palavras de elogio jorraram da minha boca automaticamente e pedi para Dean cantar outra vez.
Eu estava me derretendo por ele e nem ao menos fazendo questão de disfarçar. Qual era o ponto, afinal? Ele era o protagonista!
Antes que ele pudesse cantar, um entregador de pizza chegou e me ofereci para ir buscar, sabendo que aquele era o momento em que Zico aproveitaria a oportunidade para encher o saco de Dean sobre como ele parecia caidinho por Ayla.
Ai, como é doce a vida da fanfiqueira.
Peguei a pizza rapidamente e, quando voltei, parei do lado de fora do estúdio, ouvindo a conversa até o momento que sabia que Ayla entrava. Houve um momento daqueles que o tempo passava rapidamente enquanto comíamos e, quando me dei conta, Dean já estava com o microfone na mão outra vez.
Eu sabia exatamente qual vídeo Kate usou para descrever aquela cena. Afinal, eu o mostrei para ela.
E ver "" fazer aquela mini performance enviou borboletas direto ao meu estômago. Assisti hipnotizada. Aquilo era uma obra de arte. Ele era uma obra de arte ambulante.
Bonito, com uma voz incrivelmente sensual e dono de olhos afiados que pareciam enxergar a minha alma.
Foi então que ouvi um bip. Depois outro. E outro. Me perguntei se era algum efeito da música, mas então o cenário ao meu redor começou a piscar, como uma falha de imagem. Pisquei algumas vezes e esfreguei os olhos, mas um flash no mesmo quarto branco de hospital surgiu.
Nessa vez pareceu mais nítido. Ouvi chamar meu nome de longe, mas não me movi. Então meus olhos pesaram outra vez e quando os abri de novo, o despertador irritante de Ayla tocava mais uma vez.
Eu não estava mais no estúdio com os meninos, mas no quarto dela, e não tinha ideia de quantos dias tinham passado. Não me lembrava nem a data do dia em que eles me levaram ao estúdio.
Uma sensação ruim tomou conta de mim, fazendo meu peito se apertar de angústia, mas não entendi porquê. Se eu ainda não havia acordado para a realidade, então devia haver um motivo.
De qualquer forma, pelo menos eu tinha certeza de que estava viva.
***
Poucas horas depois, descobri que algumas cenas do livro se passaram sem que eu as presenciasse no corpo de Ayla.
Zico e Dean tinham conhecido a mãe dela, a detetive Cora , e no momento, eu estava na biblioteca com Karina e Tiana, esperando os meninos chegarem para que eu/Ayla pudesse apresentá-los a elas.
Eu estava sentada de frente para a porta, assistindo enquanto eles se aproximavam. Ambos vestiam roupas casuais, como sempre. Zico estava com um boné branco virado para trás e Dean, diferente do habitual preto, usava uma camisa azul clara.
Um diálogo pronto saiu da minha boca, e um sorriso divertido surgiu em meu rosto.
— Eu tenho certeza de que Dean tem pelo menos umas quatro personalidades dentro dele. Ele nem tá usando preto hoje; só pode ser a personalidade número dois, que eu gosto de chamar de síndrome do bom moço — comentei, fazendo as meninas rirem. — Com exceção da tatuagem no pescoço, que é o que o entrega.
Não ironicamente, aquilo era algo que eu sempre comentava com Kate enquanto ajudava a desenvolver Dean.
O próprio sempre me passou essa impressão.
No início de sua carreira, ele era bem ativo, como um cara normal em seus vinte e poucos anos. Gostava de interagir bastante com os fãs e, de vez em quando, abria lives para responder perguntas ou simplesmente ficar cantarolando à toa. Ele não mostrava o rosto na maioria das vezes, mas tinha algo meio intimista naquilo, que aproximava os fãs.
Era como se estivéssemos em uma sala, conversando com ele.
Até que então tudo isso parou e se fechou para o mundo. De repente, todas as interações com os fãs pareciam um surto coletivo. Houve uma época que eu até transformei a DM dele em um diário.
Passei um ano inteiro escrevendo para o meu -Diary (sim, uma mistura de e diário). Isso aconteceu em 2018 e 2019. Eu não fazia ideia se ele lia ou se sequer via aquilo, mas uma parte de mim gostava de imaginar que sim.
Havia começado como uma brincadeira, mas então se tornou terapêutico e, quando percebi, estava desabafando com ele sobre minha vida. Obviamente, nunca obtive resposta. E às vezes, quando eu estava fazendo algo aleatório, como escovar os dentes, eu me lembrava de todas as coisas que tinha falado para ele e ria como uma maluca, uma súbita onda de vergonha me atingindo ao pensar na possibilidade dele ter mesmo lido.
Ao mesmo tempo, eu esperava que aquilo o divertisse.
Durante essa época, ele aparecia esporadicamente no Instagram só para dizer que estava bem e trabalhando em músicas novas. Mas era a mesma ladainha de sempre. Ele dizia que em breve lançaria um álbum novo, e nada desse bendito sair. Até que 2022 chegou e finalmente reapareceu de vez. Até onde eu me lembrava — considerando que eu não tinha ideia de como tinha ido parar no hospital ou há quanto tempo — estávamos em abril e ele estava concluindo uma turnê na Ásia.
De todo modo, voltando para Tenaz, apresentei Zico e Dean para Karina e Tiana e poucos minutos depois, me vi sozinha com eles, comentando algo sobre marcar um encontro com Dean para ele me ajudar a terminar o trabalho de escrita. Deixei os dois na biblioteca e saí andando pelo campus.
De repente, uma tontura me atingiu e eu cambaleei, sentindo um enjoo terrível. Comecei a suar frio e notei o cenário piscando outra vez entre o céu aberto no campus e o teto branco no quarto de hospital. Até que a percepção de que minha pressão estava caindo me levou ao chão, e eu não enxerguei mais nada.
Fechei os olhos por um instante e...
Quando os abri novamente, eu estava na sala do apartamento de Ayla, sentada no chão sobre uma almofada em frente ao sofá e olhando para uma página em branco do Word, aberta no notebook em cima da mesinha de centro.
Franzi o cenho, tentando me lembrar que parte do livro era aquela, até que a campainha tocou e um segundo antes de abrir a porta, eu soube que Dean me aguardava ali.
Ele me encarou de cima a baixo discretamente, e só então me dei conta que usava uma camisa enorme, que parecia mais um vestido. Eu estava com um short por baixo e automaticamente a puxei para cima, no intuito de ficar mais apresentável, mas Dean segurou meus braços.
Eu lembrava daquela cena. Ele estava se perguntando de quem seria aquela camisa. Talvez de um irmão.
Só que Ayla era filha única. Aquela camisa e várias outras que ela tinha pertenciam a Seojun, o ex-namorado dela e protagonista do segundo livro da série.
Lembrar de Seojun me fez sorrir por dentro. Afinal, ele também era meu queridinho. Assim como Yeong, o prota do livro quatro e Sean, irmão dele e prota do livro cinco, que ainda estava em desenvolvimento. Havia Victor também, que fazia par com Louise, no livro três, mas por algum motivo eu não conseguia me apegar a ele.
Minha skin de Ayla trocou um diálogo automático com Dean e, um instante depois, nos sentamos lado a lado em frente ao computador. Esperei minha skin de Ayla discutir sobre a cena que ela dizia estar travada, e ela e Dean tiveram um papo de gente criativa sobre o livro.
Eu estava grata por não precisar pensar em nada e só assistir em primeira pessoa — praticamente uma realidade virtual — enquanto os diálogos se desenvolviam automaticamente. Até que chegou a hora em que Ayla tinha que escrever a cena.
Esperei um minuto, depois dois, com o som de uma música de Bon Jovi tocando nos meus fones de ouvido, supostamente para inspirar Ayla a escrever, enquanto Dean esperava, trabalhando em uma música.
O problema é que Ayla não moveu um dedo para escrever naquele momento.
Xinguei mentalmente, percebendo que teria controle total sobre a cena, sendo que eu nem sabia escrever, e tentei lembrar do que aconteceria depois daquilo.
Ayla deveria escrever e mostrar a Dean; ele leria a cena enquanto ouvia a mesma música que ela para entrar na vibe dos personagens, então diria que estava perfeitamente descrita e que era ótima. Se os últimos diálogos tinham sido automáticos até ali e eu sabia que aquela era uma cena importante, já que antecedia o primeiro beijo deles, então imaginei que qualquer coisa que eu colocasse no papel serviria para dar impulso às próximas ações.
Escrevi uma cena aleatória de Kate e Hero se encarando e um beijo entre os dois. Deve ter levado uns cinco minutos. Então, cutuquei Dean para que ele lesse.
Aguardei ansiosamente pelo elogio, no entanto, ao invés de ouvir que o texto estava muito bom, tudo o que ganhei foi:
— Hmm, gostei da ideia, mas acho que pode melhorar. Que tal se você descrever mais os sentimentos da Ayla?
Minha cara travou em um sorriso amarelo. Se eu estivesse lendo aquela cena, provavelmente teria rido alto. Mas, ao invés disso, assenti e voltei a trabalhar enquanto ele também se ocupava novamente. Aquilo estava errado. Eu deveria estar vivendo uma fanfic, não trabalhando de verdade, escrevendo um livro que nem era meu. Àquela altura, eu e Dean devíamos estar trocando nosso primeiro beijo, repleto de tensão sexual.
Que palhaçada era aquela?
Respirei fundo, sabendo que ficar parada não ia me fazer ganhar um beijo, então me concentrei de verdade no texto. Eu era boa em corrigir, e ele disse que gostou da ideia da cena, então era só fingir que Kate tinha escrito.
Estalei os dedos e comecei a digitar, notando minhas próprias inconsistências. Dez minutos mais tarde, cutuquei Dean outra vez e saí para beber água, enquanto ele lia.
Então, finalmente ouvi o que queria.
— Tá muito bom, Ayla — ele disse. — De verdade. Você descreveu muito bem.
Talvez eu estivesse no timing errado e o diálogo só deveria acontecer naquele momento. Pensando bem, acho que Ayla realmente havia se levantado para beber água enquanto ele ficava lá, todo concentrado, lendo.
Outro diálogo automático veio, mas de repente fiquei em silêncio, como se tivesse esquecido o que falar.
Dean e eu nos encaramos e ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha enquanto eu sentia o coração acelerar.
É agora, é agora!
Eu beijaria na skin de Dean e então poderia morrer feliz.
Levei a mão ao rosto dele e acariciei sua bochecha com o polegar, notando todas as sardinhas de sua pele, tão claras que só dava para ver com clareza de perto. Não soube dizer quanto tempo aquela troca de olhares durou, mas havia centenas de borboletas no meu estômago. Ou talvez milhares. Eu estava surtando internamente enquanto minha skin de Ayla cumpria o roteiro.
Nos aproximamos um pouco mais e nossas respirações se misturaram. Então fechei os olhos e... Acordei.
Me sentei de uma vez, sentindo a cabeça doer com o movimento e um instante depois, me deparei com o quarto branco dos flashes, definitivamente muito mais vívido e real dessa vez.
— Amor? — Ouvi uma voz conhecida dizer e encontrei Dean ali, em pé, me encarando alarmado.
Será que tinha pulado para a cena em que Ayla ia parar no hospital depois de ser atacada na rua? Mas por que aquele quarto? Eu não lembrava dela ter ficado internada.
— Dean? — Franzi o cenho, tentando lembrar de alguma coisa.
Mas então ele me encarou, confuso.
— Dean? Quem é Dean?
— O quê? — perguntei baixinho.
— Amor, sou eu, . — Ele se aproximou, segurando meu rosto entre as mãos com carinho. — Você não lembra de mim?
— ? — Arregalei meus olhos e comecei a olhar ao redor. — O que é isso? O que tá acontecendo? Por que você tá aqui? É óbvio que eu lembro de você; eu sou sua fã há sete anos! Meu Deus, você é real? — Coloquei minhas duas mãos no rosto dele e belisquei suas bochechas com força.
— Ai. , o que você tá fazendo? — Ele se soltou do meu aperto e esfregou as bochechas.
Parecia real, muito real. Será que minha mente tinha criado um outro universo alternativo?
Me belisquei com força, mas não, não era um sonho. Pisquei várias vezes também, para ver se o cenário mudava, mas continuou a mesma coisa.
Nada aconteceu.
E ainda me encarava em confusão.
— ? — eu o chamei e depois tive um mini surto de fã. — Caramba, eu não sei o que você tá fazendo aqui, mas eu só queria dizer que amo o seu trabalho e, nossa, você é bem mais bonito pessoalmente. De qualquer forma... eu sou, muito, muito mesmo, sua fã.
Sorri, nervosa e ofegante, com o coração prestes a sair pela boca.
franziu o cenho e se aproximou, segurando minhas duas mãos e as beijando carinhosamente.
Quase desmaiei.
— Eu sei que você é minha fã, amor. Mas você não lembra?
— Lembrar... de quê?
— ... — Ele riu, levemente nervoso, talvez preocupado. — Você é minha namorada.
— Na-namorada? — encarei ele com espanto, sem ter ideia do que estava acontecendo.
— É, minha namorada — confirmou novamente. — Há três anos.
TRÊS ANOS...!
Meu Deus, aquilo só podia ser outro sonho bizarro. Abaixei a cabeça por um instante e senti tontura outra vez. Minha cabeça doeu e eu senti o ar escapar de meus pulmões.
Eu tinha tantas perguntas.
Levantei o olhar para encará-lo novamente, mas então, antes que qualquer palavra saísse, fui tomada pela escuridão mais uma vez.
Me senti um personagem de The Sims.
Um dia acordei e cheguei à sala de aula de Escrita Criativa e antes de entrar, esbarrei em Zico.
Em Tenaz, Ayla o conhecia primeiro e, por volta de duas semanas depois, Dean aparecia. Eu mal podia esperar para que as partes boas chegassem.
Zico se desculpou rapidamente e felizmente eu não estava segurando nenhuma papelada naquele momento. Ele falava ao telefone, então apenas acenei com a cabeça, ouvindo parte da conversa dele que eu sabia que era com Dean. Examinei a sala de aula cheia e me dirigi para uma mesa vazia, sabendo que em poucos instantes, Zico sentaria ao meu lado.
Dito e feito.
Dei uma risadinha mental quando o ouvi falar comigo outra vez. Conversamos um pouco e notei que eu estava dizendo exatamente as falas de Ayla do diálogo dos dois. Me perguntei se isso era alguma lembrança minha após ler o livro quatro vezes, ou se eu apenas estava vomitando palavras no automático.
Depois de alguns minutos, o professor chegou e começou a dar aula. Ele era meio egocêntrico como um bom leonino, e um tanto engraçado, o que me fazia simpatizar com ele, então a aula não foi um tédio. Enquanto isso, Zico ficou ao meu lado em silêncio, como se não prestasse atenção, mas sempre que o professor falava algo engraçado, ele olhava para mim como se perguntasse se eu tinha ouvido o mesmo. Eu lembrava dessa cena claramente. Fazia parte do primeiro capítulo do livro. Quando a aula acabou, fomos almoçar juntos e depois, quando nos despedimos, voltei para o apartamento de Ayla.
Não havia nada a ser feito durante a tarde, então resolvi tirar uma soneca para passar o tempo.
Acordei com o despertador tocando e quando peguei o celular para desligar, já era de manhã. Inicialmente, imaginei que tinha capotado e só acordado no dia seguinte, mas logo notei que a data era diferente. Duas semanas haviam se passado enquanto eu dormia. Se aquilo não era um sonho de The Sims, então eu não sabia o que era.
Encontrei uma mensagem não lida de Zico e descobri que Dean viria para a universidade naquele dia. Instantaneamente, meu coração acelerou um pouco e senti um frio na barriga, sabendo que nada tinha a ver com os sentimentos de Ayla, mas com os meus.
Eu, , tinha notado Dean antes dela. E já sabia o que aconteceria logo mais. Eu o conheceria naquele dia, formaríamos um trio para fazer o trabalho de escrita e, talvez no dia seguinte, eu acabasse em uma mesa sozinha com Dean, enquanto comíamos em silêncio. Depois ele e Zico me levariam ao estúdio dos dois, e cantariam para mim.
Eu mal podia esperar.
Cerca de duas horas mais tarde, eu tinha acabado de encontrar Zico quando ele falou que precisava ir ao banheiro. Eu não lembrava de nada das últimas duas semanas, no entanto, eu e Zico agíamos como se fôssemos melhores amigos. Sentei em um banco vazio do campus e esperei, tentando conter um sorriso, enquanto fingia mexer no celular.
Um instante depois, senti alguém se aproximar e se sentar ao meu lado. Olhei rapidamente para Dean, vestido de preto dos pés à cabeça e voltei minha atenção para a tela do celular.
A aula estava perto de começar, então Ayla deveria enviar uma mensagem de áudio para Zico naquele momento, perguntando algo sobre ele ter ficado preso na privada. Esperei pacientemente, mas nada aconteceu.
Minha skin de Ayla não agiu por instinto como em outras ocasiões. Franzi o cenho e um segundo depois, Zico voltou.
— Quando você chegou? — ele perguntou, olhando para Dean.
Após um breve diálogo, dessa vez automático, nós fomos para a sala de aula.
De repente, minha mente pensava uma coisa, mas meu corpo fazia outra. Palavras saíam da minha boca sem que eu pensasse, e algumas expressões também. Imediatamente, me lembrei de um drama que assisti em 2019 sobre uma protagonista que descobria que nem existia e que, na verdade, era apenas personagem de um livro. Havia algumas ocasiões de palco, em que ela não tinha absolutamente nenhum controle sobre suas ações e emoções, e momentos de bastidores, quando podia agir por conta própria.
Então pensei que algo semelhante estava acontecendo comigo. No entanto, era aleatório. Às vezes, tudo acontecia no automático. Outras, nada acontecia a não ser que eu tomasse uma atitude, como o caso do áudio não enviado para Zico.
Depois de um tempo refletindo enquanto a aula corria, cheguei à conclusão de que as principais cenas provavelmente seguiriam o roteiro do livro, enquanto outras, que não eram importantes, poderiam ser controladas por mim.
Me despedi de Zico e Dean naquele dia depois de dizer que eu iria querer ajuda com o enredo do trabalho, mas que podia escrever sozinha. Eu lembrava que no dia seguinte, Ayla aparecia com um mini roteiro sobre a história de Kate e Hero — sim, Kate colocou isso como uma brincadeira, já que Ayla também era escritora.
No entanto, nada aconteceu quando esperei minha skin de Ayla se mover automaticamente para escrever. Tampouco apareceram anotações mágicas no meu bloco de notas quando acordei no dia seguinte. Com uma careta, percebi que eu teria que bolar algo rápido, mas para que escrever se eu conhecia aquela história toda?
Depois de cinco (ou eram seis?) anos trabalhando com Kate, eu sabia muito bem como ela e Hero acabaram juntos. Ayla só tinha que explanar um pedacinho daquilo.
Quando isso aconteceu, senti vontade de bater palmas para mim mesma por ser uma fanfiqueira nata. Eu não somente anotei o plot da história que supostamente deveríamos escrever, como alguns detalhes a mais. Mais tarde, Zico e Dean ouviram atentamente e, no mesmo dia, me levaram para o estúdio deles.
Quase dei pulinhos de alegria, mas me contive. Eu sabia que era fictício e que Dean não era de verdade, mas era como se eu estivesse prestes a ver cantando na minha frente pela primeira vez. E quando isso aconteceu, eu nem tinha certeza se minhas reações eram mesmo minhas ou de Ayla, mas nós duas certamente estávamos surtando.
Depois que Zico e Dean terminaram de cantar a primeira música, na qual Zico fazia um rap, palavras de elogio jorraram da minha boca automaticamente e pedi para Dean cantar outra vez.
Eu estava me derretendo por ele e nem ao menos fazendo questão de disfarçar. Qual era o ponto, afinal? Ele era o protagonista!
Antes que ele pudesse cantar, um entregador de pizza chegou e me ofereci para ir buscar, sabendo que aquele era o momento em que Zico aproveitaria a oportunidade para encher o saco de Dean sobre como ele parecia caidinho por Ayla.
Ai, como é doce a vida da fanfiqueira.
Peguei a pizza rapidamente e, quando voltei, parei do lado de fora do estúdio, ouvindo a conversa até o momento que sabia que Ayla entrava. Houve um momento daqueles que o tempo passava rapidamente enquanto comíamos e, quando me dei conta, Dean já estava com o microfone na mão outra vez.
Eu sabia exatamente qual vídeo Kate usou para descrever aquela cena. Afinal, eu o mostrei para ela.
E ver "" fazer aquela mini performance enviou borboletas direto ao meu estômago. Assisti hipnotizada. Aquilo era uma obra de arte. Ele era uma obra de arte ambulante.
Bonito, com uma voz incrivelmente sensual e dono de olhos afiados que pareciam enxergar a minha alma.
Foi então que ouvi um bip. Depois outro. E outro. Me perguntei se era algum efeito da música, mas então o cenário ao meu redor começou a piscar, como uma falha de imagem. Pisquei algumas vezes e esfreguei os olhos, mas um flash no mesmo quarto branco de hospital surgiu.
Nessa vez pareceu mais nítido. Ouvi chamar meu nome de longe, mas não me movi. Então meus olhos pesaram outra vez e quando os abri de novo, o despertador irritante de Ayla tocava mais uma vez.
Eu não estava mais no estúdio com os meninos, mas no quarto dela, e não tinha ideia de quantos dias tinham passado. Não me lembrava nem a data do dia em que eles me levaram ao estúdio.
Uma sensação ruim tomou conta de mim, fazendo meu peito se apertar de angústia, mas não entendi porquê. Se eu ainda não havia acordado para a realidade, então devia haver um motivo.
De qualquer forma, pelo menos eu tinha certeza de que estava viva.
Poucas horas depois, descobri que algumas cenas do livro se passaram sem que eu as presenciasse no corpo de Ayla.
Zico e Dean tinham conhecido a mãe dela, a detetive Cora , e no momento, eu estava na biblioteca com Karina e Tiana, esperando os meninos chegarem para que eu/Ayla pudesse apresentá-los a elas.
Eu estava sentada de frente para a porta, assistindo enquanto eles se aproximavam. Ambos vestiam roupas casuais, como sempre. Zico estava com um boné branco virado para trás e Dean, diferente do habitual preto, usava uma camisa azul clara.
Um diálogo pronto saiu da minha boca, e um sorriso divertido surgiu em meu rosto.
— Eu tenho certeza de que Dean tem pelo menos umas quatro personalidades dentro dele. Ele nem tá usando preto hoje; só pode ser a personalidade número dois, que eu gosto de chamar de síndrome do bom moço — comentei, fazendo as meninas rirem. — Com exceção da tatuagem no pescoço, que é o que o entrega.
Não ironicamente, aquilo era algo que eu sempre comentava com Kate enquanto ajudava a desenvolver Dean.
O próprio sempre me passou essa impressão.
No início de sua carreira, ele era bem ativo, como um cara normal em seus vinte e poucos anos. Gostava de interagir bastante com os fãs e, de vez em quando, abria lives para responder perguntas ou simplesmente ficar cantarolando à toa. Ele não mostrava o rosto na maioria das vezes, mas tinha algo meio intimista naquilo, que aproximava os fãs.
Era como se estivéssemos em uma sala, conversando com ele.
Até que então tudo isso parou e se fechou para o mundo. De repente, todas as interações com os fãs pareciam um surto coletivo. Houve uma época que eu até transformei a DM dele em um diário.
Passei um ano inteiro escrevendo para o meu -Diary (sim, uma mistura de e diário). Isso aconteceu em 2018 e 2019. Eu não fazia ideia se ele lia ou se sequer via aquilo, mas uma parte de mim gostava de imaginar que sim.
Havia começado como uma brincadeira, mas então se tornou terapêutico e, quando percebi, estava desabafando com ele sobre minha vida. Obviamente, nunca obtive resposta. E às vezes, quando eu estava fazendo algo aleatório, como escovar os dentes, eu me lembrava de todas as coisas que tinha falado para ele e ria como uma maluca, uma súbita onda de vergonha me atingindo ao pensar na possibilidade dele ter mesmo lido.
Ao mesmo tempo, eu esperava que aquilo o divertisse.
Durante essa época, ele aparecia esporadicamente no Instagram só para dizer que estava bem e trabalhando em músicas novas. Mas era a mesma ladainha de sempre. Ele dizia que em breve lançaria um álbum novo, e nada desse bendito sair. Até que 2022 chegou e finalmente reapareceu de vez. Até onde eu me lembrava — considerando que eu não tinha ideia de como tinha ido parar no hospital ou há quanto tempo — estávamos em abril e ele estava concluindo uma turnê na Ásia.
De todo modo, voltando para Tenaz, apresentei Zico e Dean para Karina e Tiana e poucos minutos depois, me vi sozinha com eles, comentando algo sobre marcar um encontro com Dean para ele me ajudar a terminar o trabalho de escrita. Deixei os dois na biblioteca e saí andando pelo campus.
De repente, uma tontura me atingiu e eu cambaleei, sentindo um enjoo terrível. Comecei a suar frio e notei o cenário piscando outra vez entre o céu aberto no campus e o teto branco no quarto de hospital. Até que a percepção de que minha pressão estava caindo me levou ao chão, e eu não enxerguei mais nada.
Fechei os olhos por um instante e...
Quando os abri novamente, eu estava na sala do apartamento de Ayla, sentada no chão sobre uma almofada em frente ao sofá e olhando para uma página em branco do Word, aberta no notebook em cima da mesinha de centro.
Franzi o cenho, tentando me lembrar que parte do livro era aquela, até que a campainha tocou e um segundo antes de abrir a porta, eu soube que Dean me aguardava ali.
Ele me encarou de cima a baixo discretamente, e só então me dei conta que usava uma camisa enorme, que parecia mais um vestido. Eu estava com um short por baixo e automaticamente a puxei para cima, no intuito de ficar mais apresentável, mas Dean segurou meus braços.
Eu lembrava daquela cena. Ele estava se perguntando de quem seria aquela camisa. Talvez de um irmão.
Só que Ayla era filha única. Aquela camisa e várias outras que ela tinha pertenciam a Seojun, o ex-namorado dela e protagonista do segundo livro da série.
Lembrar de Seojun me fez sorrir por dentro. Afinal, ele também era meu queridinho. Assim como Yeong, o prota do livro quatro e Sean, irmão dele e prota do livro cinco, que ainda estava em desenvolvimento. Havia Victor também, que fazia par com Louise, no livro três, mas por algum motivo eu não conseguia me apegar a ele.
Minha skin de Ayla trocou um diálogo automático com Dean e, um instante depois, nos sentamos lado a lado em frente ao computador. Esperei minha skin de Ayla discutir sobre a cena que ela dizia estar travada, e ela e Dean tiveram um papo de gente criativa sobre o livro.
Eu estava grata por não precisar pensar em nada e só assistir em primeira pessoa — praticamente uma realidade virtual — enquanto os diálogos se desenvolviam automaticamente. Até que chegou a hora em que Ayla tinha que escrever a cena.
Esperei um minuto, depois dois, com o som de uma música de Bon Jovi tocando nos meus fones de ouvido, supostamente para inspirar Ayla a escrever, enquanto Dean esperava, trabalhando em uma música.
O problema é que Ayla não moveu um dedo para escrever naquele momento.
Xinguei mentalmente, percebendo que teria controle total sobre a cena, sendo que eu nem sabia escrever, e tentei lembrar do que aconteceria depois daquilo.
Ayla deveria escrever e mostrar a Dean; ele leria a cena enquanto ouvia a mesma música que ela para entrar na vibe dos personagens, então diria que estava perfeitamente descrita e que era ótima. Se os últimos diálogos tinham sido automáticos até ali e eu sabia que aquela era uma cena importante, já que antecedia o primeiro beijo deles, então imaginei que qualquer coisa que eu colocasse no papel serviria para dar impulso às próximas ações.
Escrevi uma cena aleatória de Kate e Hero se encarando e um beijo entre os dois. Deve ter levado uns cinco minutos. Então, cutuquei Dean para que ele lesse.
Aguardei ansiosamente pelo elogio, no entanto, ao invés de ouvir que o texto estava muito bom, tudo o que ganhei foi:
— Hmm, gostei da ideia, mas acho que pode melhorar. Que tal se você descrever mais os sentimentos da Ayla?
Minha cara travou em um sorriso amarelo. Se eu estivesse lendo aquela cena, provavelmente teria rido alto. Mas, ao invés disso, assenti e voltei a trabalhar enquanto ele também se ocupava novamente. Aquilo estava errado. Eu deveria estar vivendo uma fanfic, não trabalhando de verdade, escrevendo um livro que nem era meu. Àquela altura, eu e Dean devíamos estar trocando nosso primeiro beijo, repleto de tensão sexual.
Que palhaçada era aquela?
Respirei fundo, sabendo que ficar parada não ia me fazer ganhar um beijo, então me concentrei de verdade no texto. Eu era boa em corrigir, e ele disse que gostou da ideia da cena, então era só fingir que Kate tinha escrito.
Estalei os dedos e comecei a digitar, notando minhas próprias inconsistências. Dez minutos mais tarde, cutuquei Dean outra vez e saí para beber água, enquanto ele lia.
Então, finalmente ouvi o que queria.
— Tá muito bom, Ayla — ele disse. — De verdade. Você descreveu muito bem.
Talvez eu estivesse no timing errado e o diálogo só deveria acontecer naquele momento. Pensando bem, acho que Ayla realmente havia se levantado para beber água enquanto ele ficava lá, todo concentrado, lendo.
Outro diálogo automático veio, mas de repente fiquei em silêncio, como se tivesse esquecido o que falar.
Dean e eu nos encaramos e ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha enquanto eu sentia o coração acelerar.
É agora, é agora!
Eu beijaria na skin de Dean e então poderia morrer feliz.
Levei a mão ao rosto dele e acariciei sua bochecha com o polegar, notando todas as sardinhas de sua pele, tão claras que só dava para ver com clareza de perto. Não soube dizer quanto tempo aquela troca de olhares durou, mas havia centenas de borboletas no meu estômago. Ou talvez milhares. Eu estava surtando internamente enquanto minha skin de Ayla cumpria o roteiro.
Nos aproximamos um pouco mais e nossas respirações se misturaram. Então fechei os olhos e... Acordei.
Me sentei de uma vez, sentindo a cabeça doer com o movimento e um instante depois, me deparei com o quarto branco dos flashes, definitivamente muito mais vívido e real dessa vez.
— Amor? — Ouvi uma voz conhecida dizer e encontrei Dean ali, em pé, me encarando alarmado.
Será que tinha pulado para a cena em que Ayla ia parar no hospital depois de ser atacada na rua? Mas por que aquele quarto? Eu não lembrava dela ter ficado internada.
— Dean? — Franzi o cenho, tentando lembrar de alguma coisa.
Mas então ele me encarou, confuso.
— Dean? Quem é Dean?
— O quê? — perguntei baixinho.
— Amor, sou eu, . — Ele se aproximou, segurando meu rosto entre as mãos com carinho. — Você não lembra de mim?
— ? — Arregalei meus olhos e comecei a olhar ao redor. — O que é isso? O que tá acontecendo? Por que você tá aqui? É óbvio que eu lembro de você; eu sou sua fã há sete anos! Meu Deus, você é real? — Coloquei minhas duas mãos no rosto dele e belisquei suas bochechas com força.
— Ai. , o que você tá fazendo? — Ele se soltou do meu aperto e esfregou as bochechas.
Parecia real, muito real. Será que minha mente tinha criado um outro universo alternativo?
Me belisquei com força, mas não, não era um sonho. Pisquei várias vezes também, para ver se o cenário mudava, mas continuou a mesma coisa.
Nada aconteceu.
E ainda me encarava em confusão.
— ? — eu o chamei e depois tive um mini surto de fã. — Caramba, eu não sei o que você tá fazendo aqui, mas eu só queria dizer que amo o seu trabalho e, nossa, você é bem mais bonito pessoalmente. De qualquer forma... eu sou, muito, muito mesmo, sua fã.
Sorri, nervosa e ofegante, com o coração prestes a sair pela boca.
franziu o cenho e se aproximou, segurando minhas duas mãos e as beijando carinhosamente.
Quase desmaiei.
— Eu sei que você é minha fã, amor. Mas você não lembra?
— Lembrar... de quê?
— ... — Ele riu, levemente nervoso, talvez preocupado. — Você é minha namorada.
— Na-namorada? — encarei ele com espanto, sem ter ideia do que estava acontecendo.
— É, minha namorada — confirmou novamente. — Há três anos.
TRÊS ANOS...!
Meu Deus, aquilo só podia ser outro sonho bizarro. Abaixei a cabeça por um instante e senti tontura outra vez. Minha cabeça doeu e eu senti o ar escapar de meus pulmões.
Eu tinha tantas perguntas.
Levantei o olhar para encará-lo novamente, mas então, antes que qualquer palavra saísse, fui tomada pela escuridão mais uma vez.
Capítulo 3
Uma dor latejante na cabeça me fez gemer, incomodada.
Devagar, abri os olhos, me acostumando aos poucos com a luz forte do teto e, com a mão na cabeça, me sentei devagar.
— Ai...
— ? — Ouvi a voz de novamente e, mais uma vez, o encontrei sentado em uma poltrona ao lado da cama.
— O que aconteceu? — perguntei, me dando conta de que ainda estava no mesmo quarto de hospital que eu me lembrava.
Passei a mão pelo cabelo e encontrei fios longos e vermelhos. Aquele era meu corpo, supus. Virei o braço esquerdo e encontrei minha tatuagem de libélula, idêntica à que tinha no mesmo local.
Sim, definitivamente era o meu corpo.
Respirei fundo e olhei ao redor, notando que não havia nenhuma falha no cenário.
— . — se levantou e segurou meu rosto novamente, me fazendo encará-lo. — Como tá se sentindo, amor? Você desmaiou há alguns minutos, o médico disse que pode ter sido do susto e...
— ! — Ouvi a voz de e desviei o olhar, no mesmo instante em que ela passou pela porta, levemente afobada. — Finalmente você acordou. Tá sentindo alguma coisa?
— Não faço ideia do que tá acontecendo — foi minha resposta. — Por que tá no meu quarto e me chamando de amor? Isso é um sonho?
exalou o ar de uma vez, se sentando na cama. deu um passo para trás e voltou a se sentar na poltrona, nos dando um pouco de espaço.
— Não, irmã. Não é um sonho — disse. — Você não lembra mesmo do que aconteceu? Não lembra de ?
— Não, não lembro de nada. Que dia é hoje? Eu só lembro de voltar da turnê com a Kate e... Não sei. Só lembro de acordar no corpo da Ayla.
— O quê? Ayla? Tipo, a personagem de Kate?
— A própria. Eu praticamente vivi uma fanfic. — Sorri ao lembrar, mas logo meu sorriso se transformou em uma careta. — Acordei quando tava prestes a dar meu primeiro beijo em Dean. E ele era igualzinho ao-
Parei de falar, lançando um olhar discreto para , que ainda me encarava com atenção. Por um momento, o encarei de volta, mas logo a voz de chamou minha atenção novamente.
— ... Você foi atropelada há quatro dias. Ficou inconsciente desde então, retornando apenas por alguns segundos, mas só acordou mesmo hoje. O médico disse que você poderia acordar a qualquer momento, mas... Nós ficamos muito preocupados. Você não lembra de mais nada além do trabalho?
— Não, . — Franzi o cenho, irritada. — Não lembro de nada. Eu sofri uma pancada na cabeça? Sinto ela doer.
— Você bateu a cabeça quando caiu, mas tudo o que ganhou foi um galo, nada de mais. E alguns arranhões e hematomas pelo corpo.
— Só isso? Tem certeza? — perguntei, desconfiada. Então vi trocar um olhar com por um mísero segundo e fiquei mais desconfiada ainda. — O quê? Que olhar é esse? Tão me escondendo alguma coisa?
— , você tá bem, prometo — confirmou. — Precisamos apenas chamar o médico pra te examinar de novo, agora que você acordou. Eu já volto. — E saiu, me deixando sozinha com mais uma vez.
O encarei com timidez e coloquei o cabelo atrás da orelha, subitamente tentando me tornar mais apresentável. Sorri fraco, sem saber o que fazer, e comecei a brincar com meus próprios dedos. Até que encontrei uma aliança no anelar direito e levantei a mão, franzindo o cenho. Automaticamente, desviei o olhar para a mão direita dele e encontrei uma aliança semelhante.
Percebendo o que eu estava fazendo, até levantou a mão para que eu pudesse ver melhor.
— Sim, é nossa aliança de compromisso. Começamos a usar quando fizemos seis meses de namoro — ele contou, me encarando meio sem jeito. — ... Você não se lembra mesmo de nada? De verdade?
— Sim, não lembro. Não faço ideia de por que você tá aqui. Na minha cabeça, eu nunca te conheci.
suspirou, parecendo frustrado. Ele abriu a boca para falar, mas então voltou com o médico e uma enfermeira.
— Boa tarde, Srta. . Eu sou o seu médico, Keith James — ele se apresentou. — Sou o neurologista que está cuidando do seu caso.
— Neurologista? — indaguei, enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.
— Sim. Fomos informados que você acordou sem lembrar de algumas coisas. Me diga, você sabe em que mês e ano estamos?
— Sim, abril de 2022.
— Você se lembra onde mora?
— Com minha irmã, , no Brooklyn — respondi calmamente, mas foi a vez de franzir o cenho. — O que foi?
— Você não mora mais comigo, .
— Como assim? — Eu ri, confusa. — Se eu não moro com você, então... — Encarei rapidamente, antes de voltar o olhar para minha irmã. — Não, né?
— Sim — ela confirmou minha pergunta silenciosa. — Faz dois anos que você e moram juntos.
Eu ri e dei um tapa na minha própria perna, achando engraçado. No entanto, eu era a única rindo.
— Isso é uma pegadinha? Você não é mesmo meu namorado, né? — Encarei . — Isso é, tipo, impossível.
— É claro que sou. Por que seria impossível?
— Ah, pelo amor de Deus! Você é ! Por que ia namorar alguém como eu?
— Como assim “alguém como você”, ? — ele perguntou, um tanto indignado. — Se eu tô dizendo que sou seu namorado, então é porque é verdade. Eu não brincaria com uma coisa dessa.
— Tá, então se você é mesmo, me fala alguma coisa que só você pode saber — o desafiei. — Tipo alguma coisa que eu não contei pra ninguém.
— Tá. — deu de ombros. — Você tem uma pinta minúscula no seio direito. E outra no interior da coxa, perto da virilha.
Abri a boca em choque, colocando as duas mãos sobre os seios automaticamente.
— Como você sabe disso? — perguntei, sem pensar.
sorriu de canto.
— Como você acha que eu sei?
— Meu Deus... — Senti o rosto esquentar instantaneamente e desviei o olhar. O médico pigarreou e eu o encarei outra vez. — Desculpe, doutor. Onde estávamos?
Dr. James e Andressa, a enfermeira, me examinaram um instante depois e fizeram mais uma série de perguntas sobre minha vida. Contei também sobre o suposto sonho que tive, indo parar dentro do meu livro favorito, enquanto ele assentia e anotava rapidamente em sua prancheta. Reclamei da dor de cabeça e ele me recomendou um analgésico padrão para a dor. Então se despediu de mim e pediu para que e o acompanhassem.
Fiquei sozinha no quarto e olhei em volta novamente. Havia uma grande mochila preta em cima da poltrona e um cobertor lilás felpudo. O quarto em que eu estava não era grande, mas era particular e tinha um banheiro próprio. Pensei em me levantar para ir ao banheiro, mas então notei algo pendurado na grade da cama. Que porra é essa? Segui o tubo que ligava ao saco plástico com líquido amarelo e fiz uma careta.
— Por favor, não seja uma sonda, por favor... — Levantei a coberta e vi que o tubo se perdia no meio das minhas pernas.
Choraminguei, completamente mortificada. Aquilo era o cúmulo da humilhação. tinha visto aquele troço em mim! Por que aquilo tava acontecendo? E quando iam tirar aquele troço? Por que eu tive que ficar desacordada por tanto tempo?
Enfiei as mãos no cabelo, sem me importar de bagunçá-lo, e gemi baixinho. Senti uma protuberância do lado esquerdo e lembrei do galo que tinha mencionado.
Um momento depois, minha irmã e meu suposto namorado voltaram para o quarto acompanhados da enfermeira, que trazia uma bandeja de metal com luvas e uma seringa.
— Srta. , agora que acordou, vou retirar sua sonda vesical. O Dr. James planeja te dar alta em algumas horas e então poderá ir pra casa.
Eu a encarei, assustada, enquanto meu cérebro ecoava as palavras retirar e sonda, e então me virei para .
— Sai daqui! — O expulsei, apontando para a porta. — Você não vai ver ela tirar esse troço de mim nem a pau, já basta eu ter perdido minha dignidade no meu período de inconsciência.
Felizmente, não discutiu; apenas assentiu e deixou o quarto em silêncio. se sentou na poltrona em que ele estava e eu sabia que dali a minha irmã também não estaria tendo um vislumbre das minhas partes íntimas.
A enfermeira então colocou luvas e pediu licença para levantar a minha bata hospitalar. Em seguida, pegou uma seringa grande e vazia e aspirou um líquido do tubo. Até ali, tudo bem. Mas então ela começou a puxar o tudo de dentro de mim e estremeci ao sentir arder. Que porra era aquela? Parecia que estava me queimando!
Tudo bem, talvez queimar seja um pouco dramático demais, mas mesmo assim!
Quando ela terminou com a sonda, saiu por um instante e depois voltou para retirar o acesso venoso do meu braço esquerdo. Pelo menos isso não foi doloroso.
— Eu posso tomar banho? — perguntei, assim que ela terminou.
— Claro, há algumas peças de roupa no armário e absorventes. — Ela apontou para o que parecia mais uma mesinha de cabeceira, ao lado da cama. Eu nem tinha notado que havia duas gavetas. — Você sangrou por alguns dias e acredito que parou, mas para o caso de ainda acontecer.
— Certo. Obrigada — eu disse, imaginando se teria menstruado mais cedo, ou se era algum tipo de sangramento de escape.
Me levantei assim que eu e ficamos sozinhas e procurei rapidamente por roupas, toalhas de banho e produtos de higiene. Eu tinha consciência de que no hospital provavelmente estavam me limpando, mas mesmo assim eu me sentia suja. Eu sabia como os banhos no leito funcionavam, Kate já tinha me falado sobre isso; mas nada se comparava a tomar um bom banho de chuveiro, que foi o que fiz, logo em seguida.
Notei um pouco de sangue, de fato, e imaginei que devia ser mesmo algum sangramento de escape devido ao meu anticoncepcional, então resolvi usar um dos absorventes. Felizmente, eu não sentia nenhuma dor na região do ventre.
Dez minutos depois, saí do banheiro devidamente vestida, com um vestidinho leve e sem alças, um pouquinho acima do joelho. Ah, e calcinha. Era bom saber que eu estava usando calcinha. Até espirrei um pouco do meu perfume pós-banho favorito. Me senti uma nova pessoa. Quem diria que eu poderia recuperar, tipo, noventa por cento da minha dignidade só com um pouquinho de higiene básica?
Obviamente, eu ainda estava envergonhada pelo lance da sonda, mas enquanto me trocava, decidi que fingir demência era o melhor remédio.
Era o que Ayla faria, provavelmente. Então decidi me inspirar nela depois de passar os últimos dias vivendo em seu corpo. E pensar que tinham se passado só quatro dias no mundo real... Uma pena que eu tivesse acordado na hora do beijo.
Que tristeza.
voltou para o quarto alguns minutos depois e me encarou com uma expressão séria. Notei olheiras escuras embaixo de seus olhos e, meio sem jeito, tentei puxar papo.
— Você não tá dormindo direito? Parece cansado. — Apontei para o meu próprio rosto. — Suas olheiras...
— É claro que não dormi bem, eu nem sabia quando você ia acordar, .
Franzi o cenho, e encarei , pedindo ajuda silenciosamente.
— tá aqui desde que voltou da turnê. Ele não saiu do seu lado desde então — ela explicou. — O médico disse que é bom você voltar pra sua própria casa, ele acha que pode ser um bom estímulo pra você lembrar do que esqueceu e... Disse que nós devíamos contar as coisas a você aos poucos, o que você esqueceu.
— E você? Tá morando sozinha?
— Sim, mas posso passar uns dias com você se isso te deixar mais confortável. — Ela ofereceu.
Assenti prontamente e se levantou, me deixando a sós com , que ainda me encarava com aquela expressão séria no rosto.
— Eu posso te abraçar agora ou você vai me expulsar de novo do quarto? — ele quis saber.
— Tudo bem agora, eu acho... — respondi baixinho e mal tinha terminado quando me vi envolvida em seus braços.
A primeira coisa que notei foi o cheiro que invadiu minhas narinas. Eu não tinha muita noção de notas aromáticas, mas tinha certeza de que aquilo era algum perfume amadeirado e... Verde. Bem refrescante. Como o que eu estava usando no momento; mas o dele era masculino e... Dei uma fungada discreta em seu pescoço... Delicioso. O corpo dele era quente e aconchegante, ainda melhor do que imaginava. Já os braços... Mais fortes do que eu esperava. Foi a segunda coisa que notei.
De repente, meu cérebro entrou em alerta e eu comecei a raciocinar rápido.
Será que fazia mal eu apertar os bíceps dele? Só um pouquinho... Um tiquinho de nada. Só pra sentir...
Arrastei a mão pelo braço dele sorrateiramente, mas antes que eu pudesse tocá-lo, ouvi soluçar baixinho.
Franzi o cenho e me afastei, alarmada.
— Espera, você tá... Chorando? — Encarei o rosto lindo dele, molhado por lágrimas, e senti o coração apertar. — Não chora — murmurei baixinho e segurei seu rosto, tentando afastar as lágrimas com o polegar.
suspirou, tentando controlar a própria respiração.
— Eu devia ter voltado pra casa antes. Fiquei mais alguns dias fora e era pra termos saído juntos no dia do acidente, foi nosso aniversário de três anos.
— Nosso... Aniversário?
Por que eu não lembrava daquilo?
assentiu e continuou a falar.
— Só que eu tive um problema com o voo e te disse que não ia conseguir chegar a tempo, então você saiu sozinha. Foi tudo minha culpa. Se eu tivesse com você, isso não teria acontecido e nós não teríamos... — A voz dele falhou. — Sinto muito, amor. Sinto muito. — Ele segurou minhas mãos, as beijando.
— Tá tudo bem... Não tinha como ninguém imaginar isso — tentei confortá-lo. — Poderia acontecer com qualquer um.
— Prometo que vou te recompensar, . Vamos fazer o que você quiser. Eu sei que você não lembra da gente ainda, então vamos seguir o que o médico falou e ir devagar.
— Tá, tudo bem...
— Eu te amo tanto, amor. Você não sabe o alívio que foi quando te vi acordada de novo. — Ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
Subitamente, lembrei da última cena que vivi no corpo de Ayla.
Então, como se meu corpo tivesse vida própria, levei uma mão até o rosto ainda úmido dele e me aproximei, selando nossos lábios suavemente.
retribuiu o beijo sem hesitar, mas não nos demoramos.
Tecnicamente, eu já tinha beijado ele centenas de vezes, mas meu estômago estava cheio de borboletas outra vez. No entanto, por algum motivo, por fora eu estava calma. Me afastei de e nos encaramos em silêncio por alguns instantes, até que voltou para o quarto.
Algumas horas mais tarde, eu tive alta.
Devagar, abri os olhos, me acostumando aos poucos com a luz forte do teto e, com a mão na cabeça, me sentei devagar.
— Ai...
— ? — Ouvi a voz de novamente e, mais uma vez, o encontrei sentado em uma poltrona ao lado da cama.
— O que aconteceu? — perguntei, me dando conta de que ainda estava no mesmo quarto de hospital que eu me lembrava.
Passei a mão pelo cabelo e encontrei fios longos e vermelhos. Aquele era meu corpo, supus. Virei o braço esquerdo e encontrei minha tatuagem de libélula, idêntica à que tinha no mesmo local.
Sim, definitivamente era o meu corpo.
Respirei fundo e olhei ao redor, notando que não havia nenhuma falha no cenário.
— . — se levantou e segurou meu rosto novamente, me fazendo encará-lo. — Como tá se sentindo, amor? Você desmaiou há alguns minutos, o médico disse que pode ter sido do susto e...
— ! — Ouvi a voz de e desviei o olhar, no mesmo instante em que ela passou pela porta, levemente afobada. — Finalmente você acordou. Tá sentindo alguma coisa?
— Não faço ideia do que tá acontecendo — foi minha resposta. — Por que tá no meu quarto e me chamando de amor? Isso é um sonho?
exalou o ar de uma vez, se sentando na cama. deu um passo para trás e voltou a se sentar na poltrona, nos dando um pouco de espaço.
— Não, irmã. Não é um sonho — disse. — Você não lembra mesmo do que aconteceu? Não lembra de ?
— Não, não lembro de nada. Que dia é hoje? Eu só lembro de voltar da turnê com a Kate e... Não sei. Só lembro de acordar no corpo da Ayla.
— O quê? Ayla? Tipo, a personagem de Kate?
— A própria. Eu praticamente vivi uma fanfic. — Sorri ao lembrar, mas logo meu sorriso se transformou em uma careta. — Acordei quando tava prestes a dar meu primeiro beijo em Dean. E ele era igualzinho ao-
Parei de falar, lançando um olhar discreto para , que ainda me encarava com atenção. Por um momento, o encarei de volta, mas logo a voz de chamou minha atenção novamente.
— ... Você foi atropelada há quatro dias. Ficou inconsciente desde então, retornando apenas por alguns segundos, mas só acordou mesmo hoje. O médico disse que você poderia acordar a qualquer momento, mas... Nós ficamos muito preocupados. Você não lembra de mais nada além do trabalho?
— Não, . — Franzi o cenho, irritada. — Não lembro de nada. Eu sofri uma pancada na cabeça? Sinto ela doer.
— Você bateu a cabeça quando caiu, mas tudo o que ganhou foi um galo, nada de mais. E alguns arranhões e hematomas pelo corpo.
— Só isso? Tem certeza? — perguntei, desconfiada. Então vi trocar um olhar com por um mísero segundo e fiquei mais desconfiada ainda. — O quê? Que olhar é esse? Tão me escondendo alguma coisa?
— , você tá bem, prometo — confirmou. — Precisamos apenas chamar o médico pra te examinar de novo, agora que você acordou. Eu já volto. — E saiu, me deixando sozinha com mais uma vez.
O encarei com timidez e coloquei o cabelo atrás da orelha, subitamente tentando me tornar mais apresentável. Sorri fraco, sem saber o que fazer, e comecei a brincar com meus próprios dedos. Até que encontrei uma aliança no anelar direito e levantei a mão, franzindo o cenho. Automaticamente, desviei o olhar para a mão direita dele e encontrei uma aliança semelhante.
Percebendo o que eu estava fazendo, até levantou a mão para que eu pudesse ver melhor.
— Sim, é nossa aliança de compromisso. Começamos a usar quando fizemos seis meses de namoro — ele contou, me encarando meio sem jeito. — ... Você não se lembra mesmo de nada? De verdade?
— Sim, não lembro. Não faço ideia de por que você tá aqui. Na minha cabeça, eu nunca te conheci.
suspirou, parecendo frustrado. Ele abriu a boca para falar, mas então voltou com o médico e uma enfermeira.
— Boa tarde, Srta. . Eu sou o seu médico, Keith James — ele se apresentou. — Sou o neurologista que está cuidando do seu caso.
— Neurologista? — indaguei, enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.
— Sim. Fomos informados que você acordou sem lembrar de algumas coisas. Me diga, você sabe em que mês e ano estamos?
— Sim, abril de 2022.
— Você se lembra onde mora?
— Com minha irmã, , no Brooklyn — respondi calmamente, mas foi a vez de franzir o cenho. — O que foi?
— Você não mora mais comigo, .
— Como assim? — Eu ri, confusa. — Se eu não moro com você, então... — Encarei rapidamente, antes de voltar o olhar para minha irmã. — Não, né?
— Sim — ela confirmou minha pergunta silenciosa. — Faz dois anos que você e moram juntos.
Eu ri e dei um tapa na minha própria perna, achando engraçado. No entanto, eu era a única rindo.
— Isso é uma pegadinha? Você não é mesmo meu namorado, né? — Encarei . — Isso é, tipo, impossível.
— É claro que sou. Por que seria impossível?
— Ah, pelo amor de Deus! Você é ! Por que ia namorar alguém como eu?
— Como assim “alguém como você”, ? — ele perguntou, um tanto indignado. — Se eu tô dizendo que sou seu namorado, então é porque é verdade. Eu não brincaria com uma coisa dessa.
— Tá, então se você é mesmo, me fala alguma coisa que só você pode saber — o desafiei. — Tipo alguma coisa que eu não contei pra ninguém.
— Tá. — deu de ombros. — Você tem uma pinta minúscula no seio direito. E outra no interior da coxa, perto da virilha.
Abri a boca em choque, colocando as duas mãos sobre os seios automaticamente.
— Como você sabe disso? — perguntei, sem pensar.
sorriu de canto.
— Como você acha que eu sei?
— Meu Deus... — Senti o rosto esquentar instantaneamente e desviei o olhar. O médico pigarreou e eu o encarei outra vez. — Desculpe, doutor. Onde estávamos?
Dr. James e Andressa, a enfermeira, me examinaram um instante depois e fizeram mais uma série de perguntas sobre minha vida. Contei também sobre o suposto sonho que tive, indo parar dentro do meu livro favorito, enquanto ele assentia e anotava rapidamente em sua prancheta. Reclamei da dor de cabeça e ele me recomendou um analgésico padrão para a dor. Então se despediu de mim e pediu para que e o acompanhassem.
Fiquei sozinha no quarto e olhei em volta novamente. Havia uma grande mochila preta em cima da poltrona e um cobertor lilás felpudo. O quarto em que eu estava não era grande, mas era particular e tinha um banheiro próprio. Pensei em me levantar para ir ao banheiro, mas então notei algo pendurado na grade da cama. Que porra é essa? Segui o tubo que ligava ao saco plástico com líquido amarelo e fiz uma careta.
— Por favor, não seja uma sonda, por favor... — Levantei a coberta e vi que o tubo se perdia no meio das minhas pernas.
Choraminguei, completamente mortificada. Aquilo era o cúmulo da humilhação. tinha visto aquele troço em mim! Por que aquilo tava acontecendo? E quando iam tirar aquele troço? Por que eu tive que ficar desacordada por tanto tempo?
Enfiei as mãos no cabelo, sem me importar de bagunçá-lo, e gemi baixinho. Senti uma protuberância do lado esquerdo e lembrei do galo que tinha mencionado.
Um momento depois, minha irmã e meu suposto namorado voltaram para o quarto acompanhados da enfermeira, que trazia uma bandeja de metal com luvas e uma seringa.
— Srta. , agora que acordou, vou retirar sua sonda vesical. O Dr. James planeja te dar alta em algumas horas e então poderá ir pra casa.
Eu a encarei, assustada, enquanto meu cérebro ecoava as palavras retirar e sonda, e então me virei para .
— Sai daqui! — O expulsei, apontando para a porta. — Você não vai ver ela tirar esse troço de mim nem a pau, já basta eu ter perdido minha dignidade no meu período de inconsciência.
Felizmente, não discutiu; apenas assentiu e deixou o quarto em silêncio. se sentou na poltrona em que ele estava e eu sabia que dali a minha irmã também não estaria tendo um vislumbre das minhas partes íntimas.
A enfermeira então colocou luvas e pediu licença para levantar a minha bata hospitalar. Em seguida, pegou uma seringa grande e vazia e aspirou um líquido do tubo. Até ali, tudo bem. Mas então ela começou a puxar o tudo de dentro de mim e estremeci ao sentir arder. Que porra era aquela? Parecia que estava me queimando!
Tudo bem, talvez queimar seja um pouco dramático demais, mas mesmo assim!
Quando ela terminou com a sonda, saiu por um instante e depois voltou para retirar o acesso venoso do meu braço esquerdo. Pelo menos isso não foi doloroso.
— Eu posso tomar banho? — perguntei, assim que ela terminou.
— Claro, há algumas peças de roupa no armário e absorventes. — Ela apontou para o que parecia mais uma mesinha de cabeceira, ao lado da cama. Eu nem tinha notado que havia duas gavetas. — Você sangrou por alguns dias e acredito que parou, mas para o caso de ainda acontecer.
— Certo. Obrigada — eu disse, imaginando se teria menstruado mais cedo, ou se era algum tipo de sangramento de escape.
Me levantei assim que eu e ficamos sozinhas e procurei rapidamente por roupas, toalhas de banho e produtos de higiene. Eu tinha consciência de que no hospital provavelmente estavam me limpando, mas mesmo assim eu me sentia suja. Eu sabia como os banhos no leito funcionavam, Kate já tinha me falado sobre isso; mas nada se comparava a tomar um bom banho de chuveiro, que foi o que fiz, logo em seguida.
Notei um pouco de sangue, de fato, e imaginei que devia ser mesmo algum sangramento de escape devido ao meu anticoncepcional, então resolvi usar um dos absorventes. Felizmente, eu não sentia nenhuma dor na região do ventre.
Dez minutos depois, saí do banheiro devidamente vestida, com um vestidinho leve e sem alças, um pouquinho acima do joelho. Ah, e calcinha. Era bom saber que eu estava usando calcinha. Até espirrei um pouco do meu perfume pós-banho favorito. Me senti uma nova pessoa. Quem diria que eu poderia recuperar, tipo, noventa por cento da minha dignidade só com um pouquinho de higiene básica?
Obviamente, eu ainda estava envergonhada pelo lance da sonda, mas enquanto me trocava, decidi que fingir demência era o melhor remédio.
Era o que Ayla faria, provavelmente. Então decidi me inspirar nela depois de passar os últimos dias vivendo em seu corpo. E pensar que tinham se passado só quatro dias no mundo real... Uma pena que eu tivesse acordado na hora do beijo.
Que tristeza.
voltou para o quarto alguns minutos depois e me encarou com uma expressão séria. Notei olheiras escuras embaixo de seus olhos e, meio sem jeito, tentei puxar papo.
— Você não tá dormindo direito? Parece cansado. — Apontei para o meu próprio rosto. — Suas olheiras...
— É claro que não dormi bem, eu nem sabia quando você ia acordar, .
Franzi o cenho, e encarei , pedindo ajuda silenciosamente.
— tá aqui desde que voltou da turnê. Ele não saiu do seu lado desde então — ela explicou. — O médico disse que é bom você voltar pra sua própria casa, ele acha que pode ser um bom estímulo pra você lembrar do que esqueceu e... Disse que nós devíamos contar as coisas a você aos poucos, o que você esqueceu.
— E você? Tá morando sozinha?
— Sim, mas posso passar uns dias com você se isso te deixar mais confortável. — Ela ofereceu.
Assenti prontamente e se levantou, me deixando a sós com , que ainda me encarava com aquela expressão séria no rosto.
— Eu posso te abraçar agora ou você vai me expulsar de novo do quarto? — ele quis saber.
— Tudo bem agora, eu acho... — respondi baixinho e mal tinha terminado quando me vi envolvida em seus braços.
A primeira coisa que notei foi o cheiro que invadiu minhas narinas. Eu não tinha muita noção de notas aromáticas, mas tinha certeza de que aquilo era algum perfume amadeirado e... Verde. Bem refrescante. Como o que eu estava usando no momento; mas o dele era masculino e... Dei uma fungada discreta em seu pescoço... Delicioso. O corpo dele era quente e aconchegante, ainda melhor do que imaginava. Já os braços... Mais fortes do que eu esperava. Foi a segunda coisa que notei.
De repente, meu cérebro entrou em alerta e eu comecei a raciocinar rápido.
Será que fazia mal eu apertar os bíceps dele? Só um pouquinho... Um tiquinho de nada. Só pra sentir...
Arrastei a mão pelo braço dele sorrateiramente, mas antes que eu pudesse tocá-lo, ouvi soluçar baixinho.
Franzi o cenho e me afastei, alarmada.
— Espera, você tá... Chorando? — Encarei o rosto lindo dele, molhado por lágrimas, e senti o coração apertar. — Não chora — murmurei baixinho e segurei seu rosto, tentando afastar as lágrimas com o polegar.
suspirou, tentando controlar a própria respiração.
— Eu devia ter voltado pra casa antes. Fiquei mais alguns dias fora e era pra termos saído juntos no dia do acidente, foi nosso aniversário de três anos.
— Nosso... Aniversário?
Por que eu não lembrava daquilo?
assentiu e continuou a falar.
— Só que eu tive um problema com o voo e te disse que não ia conseguir chegar a tempo, então você saiu sozinha. Foi tudo minha culpa. Se eu tivesse com você, isso não teria acontecido e nós não teríamos... — A voz dele falhou. — Sinto muito, amor. Sinto muito. — Ele segurou minhas mãos, as beijando.
— Tá tudo bem... Não tinha como ninguém imaginar isso — tentei confortá-lo. — Poderia acontecer com qualquer um.
— Prometo que vou te recompensar, . Vamos fazer o que você quiser. Eu sei que você não lembra da gente ainda, então vamos seguir o que o médico falou e ir devagar.
— Tá, tudo bem...
— Eu te amo tanto, amor. Você não sabe o alívio que foi quando te vi acordada de novo. — Ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
Subitamente, lembrei da última cena que vivi no corpo de Ayla.
Então, como se meu corpo tivesse vida própria, levei uma mão até o rosto ainda úmido dele e me aproximei, selando nossos lábios suavemente.
retribuiu o beijo sem hesitar, mas não nos demoramos.
Tecnicamente, eu já tinha beijado ele centenas de vezes, mas meu estômago estava cheio de borboletas outra vez. No entanto, por algum motivo, por fora eu estava calma. Me afastei de e nos encaramos em silêncio por alguns instantes, até que voltou para o quarto.
Algumas horas mais tarde, eu tive alta.
Capítulo 4
Já era noite quando chegamos ao apartamento em que aparentemente eu morava com .
tinha ido para casa buscar algumas roupas para passar uns dias comigo e depois nos encontrou novamente no hospital para irmos juntos.
Mal falei com depois de beijá-lo. Me senti uma adolescente inexperiente depois que nos separamos, e os minutos que passamos a sós enquanto estava fora não ajudaram. Peguei meu celular em uma tentativa de ocupar as mãos e me distrair do monumento que se intitulava meu namorado e meio que desistiu de tentar conversar comigo depois de um tempo — ou talvez ele estivesse apenas me dando espaço — e saiu para falar ao telefone com Jace, seu gerente.
Enquanto fiquei sozinha, revirei meu celular e encontrei mensagens com Kate e , das quais eu lembrava, entre outras. Obviamente, minha maior surpresa foi a janela de conversa com , que parecia provar cada vez mais real o nosso suposto relacionamento.
As últimas mensagens dele eram avisando sobre o voo que deu errado e a mais recente, dizia que tinha acabado de entrar no avião que viria de Chicago para Nova York.
Era meio surreal. E pensar que apenas algumas horas atrás, eu estava dentro do meu livro favorito, vivendo uma fanfic.
Então acordei e descobri que minha vida real era uma fanfic.
Eu não parava de lembrar da sensação dos lábios de sobre os meus. E de como ele tinha sido carinhoso e cuidadoso. Mas também não sei o motivo real do impulso que tive de beijá-lo. Eu o via como meu artista favorito, a quem eu amava, mas não lembrava de estar realmente apaixonada por ele. Ao mesmo tempo, seu toque não me era estranho. Meu estômago podia estar lotado de borboletas, mas eu também estava, de alguma forma, tranquila.
Como se meu corpo reconhecesse o dele, mesmo que minha mente não.
Era uma sensação agridoce.
Eu sabia de tudo sobre , e até mais do que eu me lembrava, considerando que estávamos juntos há três anos. No entanto, a possibilidade de ficar sozinha com ele ainda me deixava inquieta.
Não era medo, isso eu tinha certeza, mas para mim tudo parecia muito novo.
Encarei a tela do celular, intrigada. Todos os dias nós trocávamos mensagens, mesmo que poucas vezes. Não demorei muito para perceber que eu falava mais, e um sorriso levantou meus lábios ao ler algumas das nossas conversas.
Normalmente, mandava fotos de pratos de comida e era algo tão besta, mas eu achei fofo. Ele também sempre me dava bom dia primeiro e eu, boa noite. Imaginei que minhas noites fossem mais curtas que as dele, considerando que ele estava em turnê.
No período dos concertos da Ásia, nossas mensagens foram mais escassas, com respostas horas depois, provavelmente por conta do fuso-horário. Havia uma troca de mensagens sobre isso especificamente em que concordamos que era horrível ficar horas de distância um do outro.
Mas se estávamos juntos há três anos, eu sabia que não era a primeira vez que aquilo acontecia.
Eu lembrava da carreira dele.
Continuei passando as mensagens, maravilhada por nossa interação e fiquei sorrindo como uma completa idiota ao notar que ele sempre dizia que me amava. E perguntava se eu estava bem e como foi o meu dia. Também me chamava de "meu amor" na maioria das vezes, ou simplesmente "amor". Ele usava "" de forma mais casual e "" em situações mais sérias, como tinha feito mais cedo.
Parei de ler quando chegou. Eu podia dizer que estava meio chateada por ele não estar presente no nosso aniversário de três anos, mas ao mesmo tempo, eu não me entendia muito bem. Era o trabalho dele, certo? Datas comemorativas eram importantes, mas havia mesmo motivo para ficar chateada? Tipo, de verdade?
Será que foi por que eu esperava que ele chegasse uma semana mais cedo?
E o que era aquilo? A coisa que eu disse que precisava conversar com ele. Não parecia algo ruim. Mas se eu não lembrava, então também não saberia de nada já que aquela conversa nunca chegou a acontecer.
E agora eu estava ali.
Levou cerca de quarenta minutos para chegarmos ao apartamento. digitou uma senha na porta e gentilmente me informou que era a data do nosso aniversário: 6 de abril de 2019.
Assenti em silêncio e ele abriu a porta. Entrei primeiro, enquanto ele ajudava com a bagagem, mas parei na entrada quando me deparei com o tamanho daquele lugar.
Era simplesmente enorme.
Eu ganhava muito bem como agente literária de Katherine Reed, mas naquele momento, me senti pobre. Era até engraçado pensar assim, porque não era nenhuma surpresa que fosse muito rico.
Uma pequena tour começou assim que ele entraram. Fomos primeiro ao quarto guardar a bagagem de , e informou que ali era o quarto de hóspedes. Depois ele nos levou ao nosso quarto. Grande, com uma parede inteira de vidro e cortinas blackout automáticas. Chique. Havia um closet que compartilhávamos também e eu me surpreendi com o tanto de coisas que eu tinha. Não me lembrava daquilo também. O apartamento que eu dividia com no Brooklyn não era nem de perto tão grande como aquele, embora fosse de um tamanho razoável. E, definitivamente, o closet que eu tinha lá não chegava aos pés desse. Me senti a própria Carrie Bradshaw.
O banheiro também não deixava a desejar. Tinha uma banheira suficientemente grande para caber duas pessoas e minha imaginação um tanto fértil ficou um pouquinho solta quando vi. O quarto inteiro era decorado em tons de cinza bem escuro, o que eu gostava, e quando comentei isso, disse que eu escolhi a decoração.
Agora tudo fazia sentido.
— Você pode dormir aqui com , se quiser. Ou ir para o quarto de hóspedes, caso não queira dormir comigo ainda.
Ainda.
O jeito que ele falou era como se tivesse certeza de que eu ia querer dividir o quarto com ele em algum momento.
Errado não estava. Que fã não gostaria de dividir um quarto com ? Eu não era de ferro.
No entanto, ainda não estava acostumada com a presença dele, mesmo tendo lido todas as mensagens trocadas dos últimos seis meses para ter um pouquinho de noção de como era o nosso relacionamento.
Mesmo tendo gostado do que li.
Me senti um pouquinho mais apaixonada por depois daquilo, mas não tinha certeza se eram os sentimentos da , namorada dele ou , a fã.
Eu tinha consciência de que era uma pessoa normal como qualquer outra, mas... alguém podia me culpar? Eu não sabia como era a nossa dinâmica e teria que reaprender. Até mesmo por recomendações médicas.
disse que a situação com o livro e o fato de eu não lembrar do meu próprio namorado poderia ser um reflexo do trauma do acidente, mas eu não entendia. Não era como se eu tivesse me machucado muito. Não quebrei nada, e me sentia completamente bem, salvo algumas partes arroxeadas e doloridas do meu corpo.
continuou a tour pelo apartamento e eu descobri que tínhamos um escritório com uma biblioteca e um estúdio de música.
— Normalmente, você trabalha no escritório ou passa o tempo lendo lá quando estou no estúdio.
— Eu não fico no estúdio com você também? — perguntei, curiosa.
— Como você mesma disse, , você é minha fã — abriu um sorriso travesso. — Eu não te dou spoilers.
— O quê?! Como assim? — O encarei, indignada. — Eu sou sua namorada há três anos e você me deixa no escuro?
— Isso mesmo, amor. — Ele deu uma risadinha. — Entrada restrita.
— Que crime, !
Ele sorriu mais, parecendo achar engraçada a minha reação.
Cerca de uma hora mais tarde, eu já tinha colocado um pijama quando se ofereceu para fazer o jantar.
— Desde quando você cozinha? — perguntei, me sentando em um banquinho em frente à bancada para observá-lo. Assim como o resto do lugar, a cozinha também era espaçosa.
— Desde que você me ensinou — ele respondeu, com um sorriso.
— Eu te ensinei? — Apontei para mim mesma, incrédula. — Quando?
— Desde que começamos a namorar. Quando temos tempo, até procuramos receitas novas pra testar.
— Sério? — O encarei, surpresa. Aquilo era muito legal. — Nunca imaginei isso.
— Amor, você me tem comendo na palma da sua mão e nem sabe — ele confessou. — Ou melhor, nem lembra. Não tô nada feliz em saber que você esqueceu tudo o que vivemos, que esqueceu de mim como seu namorado, mas vou fazer o possível pra te fazer lembrar. Não posso te contar tudo pra não te sobrecarregar, mas espero que isso passe logo.
— Sinto muito. — Encolhi os ombros, sentindo o rosto queimar. — Não sei por que tô assim. Deve ser estranho pra você… Tô parecendo uma fã maluca.
suspirou, com o rosto subitamente sério, e então se aproximou de mim. Mais uma vez, colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha e, estranhamente — ou não —, me senti à vontade com o seu toque.
Eu não sabia o que aquilo significava. Fazia apenas algumas horas que eu tinha descoberto que ele era meu namorado, mas de algum jeito, depois que comecei a digerir aquela informação, consegui enxergá-lo de uma forma mais tranquila.
Eu não estava cem por cento à vontade perto dele, isso era óbvio, e acho que até ele percebia; mas também já não estava mais tão travada. Depois do choque inicial, as coisas pareciam estar fluindo mais naturalmente.
— Você sempre vai ser uma fã meio maluca, amor. A minha favorita — ele confidenciou, como se fosse um segredo. — Pode não lembrar de nada ainda, mas nos conhecemos melhor que ninguém. Você sempre diz que somos como almas gêmeas que se encontraram por acaso, e eu não poderia concordar mais.
Então ele se inclinou e beijou minha testa. Fechei os olhos, apreciando o contato pelo curto instante antes dele se afastar e voltar a se concentrar no jantar.
preparou uma carne suína desfiada e alguns acompanhamentos para montarmos sanduíches. Ele contou que havia uma padaria perto de onde morávamos, onde comprávamos os nossos pães favoritos, e que tinha encomendado alguns depois que soube que eu teria alta.
Pensando bem, ele estava com uma sacola que pegou na portaria quando chegamos, então imaginei que fosse isso. apareceu no momento em que começamos as montagens.
Montei meu sanduíche com abacaxi caramelizado, carne, cebola roxa crua e um pouquinho de pasta de pimenta coreana. contou que tínhamos alguns ingredientes orientais em casa para testar receitas, já que ambos éramos fãs de culinária asiática.
Mordi meu sanduíche e, de repente, me senti o próprio Remy de Ratatouille, com uma explosão de sabores na boca.
— Isso aqui tá uma delícia. Minha nossa... — comentei, dando outra mordida e gemendo de satisfação. A comida em si não tinha nada de mais, mas a junção de tudo foi tipo... Boom! Uma delícia, de fato.
deu uma risadinha ao ver minha reação e o acompanhou.
— Tem alguma coisa que eu esqueci sobre você? — perguntei a ela, de repente.
— Não. Até onde notei, você sabe de tudo.
— Você não casou nem nada assim, né?
— Definitivamente não. — Ela estreitou os olhos, como se eu tivesse acusado ela de um crime.
— Ei, é só casamento. Você não tá com aquele cara, o Garrett? Loiro, alto, que curte hóquei? — comentei, e ela assentiu. — Ele é um gato. Se eu fosse você, eu investiria nele.
engasgou com a comida e tossiu, de repente. Dei tapinhas nas costas dele.
— Investiria, é? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Por que, ele faz seu tipo?
Pisquei, levemente confusa.
O que era aquilo? estava com ciúmes? De mim?
Segurei um sorriso e bebi um gole da minha coca zero — aparentemente, refrigerantes com açúcar não entravam no nosso lar.
— Eita... Por que a pergunta, de repente? Você deve saber muito bem que eu curto caras de cabelos escuros, altos e tatuados. De preferência, com uma voz rouca e sexy.
estreitou os olhos para mim, sério, mas eu sabia que ele também estava segurando um sorriso.
— Se você diz...
Troquei um olhar com e ela balançou a cabeça, rolando os olhos, então entendi que aquilo devia ser algo recorrente entre nós.
— Você vai trabalhar amanhã? — perguntei a , antes de dar outra mordida no meu sanduíche divino.
— Só no estúdio. Terminei a turnê e não tenho nenhum plano de deixar esse apartamento até você se recuperar. Ah, e conversei com Kate. Ela me explicou que vocês tão tirando uma folga de duas semanas.
— Você conhece a Kate? — Arqueei uma sobrancelha.
— É claro que sim. Vocês trabalham juntas. Eu conheço todos os seus amigos, .
Todos? Tentei imaginar uma situação em que e Andrew interagiam, mas não consegui pensar em nada. Eles eram bem diferentes um do outro.
tinha cara de bad boy, o tipo que te seduziria facilmente só com um olhar. Andrew era... um intelectual engraçadinho. Muito divertido, e nós éramos superamigos, mas será que ele e se davam bem?
— Até o Andrew? — perguntei, sem pensar.
— Sim, até ele — respondeu ele, fazendo uma careta.
Foi o suficiente para entender que, ou eles não se davam muito bem, ou era ciumento por eu ser amiga do meu ex, que, por acaso, também era um dos meus chefes.
Por algum motivo, achei aquilo engraçado, mas não comentei nada. Depois do jantar, eu e cuidamos da louça — ou melhor, a lava-louças cuidou — e depois nos recolhemos para o quarto.
— Tá tudo bem? — ela me perguntou, alguns minutos depois de nos deitarmos em silêncio.
— Sim, só tô um pouco confusa. Parece maluquice, . Até algumas horas atrás, eu tava dentro de Tenaz. Juro, foi muito, mas muito real.
— O médico disse que pode ser um mecanismo de defesa, . Se tudo correr bem, logo você vai recuperar as memórias sobre o .
Assenti, um pouco insegura. Minha mente ainda girava com perguntas que eu queria fazer, mas tentei deixar isso de lado e decidi que, assim como tinha feito com Ayla, esperaria a minha história com acontecer. A diferença era que, daquele roteiro, eu não sabia de nada.
Conversei com minha irmã por mais alguns minutos, me certificando de que realmente era a única parte da minha vida pessoal que eu havia esquecido, e caímos em silêncio novamente.
Não demorou muito até a respiração de ficar pesada, e imaginei se já tinha adormecido também. Ele parecia bem cansado, então torci para que sim. No entanto, eu não estava, não depois de ficar inconsciente por dias. Então, depois de alguns minutos tentando encontrar uma posição para dormir, desisti de esperar pelo sono e peguei meu celular.
Abri o aplicativo de leitura e comecei um novo livro.
tinha ido para casa buscar algumas roupas para passar uns dias comigo e depois nos encontrou novamente no hospital para irmos juntos.
Mal falei com depois de beijá-lo. Me senti uma adolescente inexperiente depois que nos separamos, e os minutos que passamos a sós enquanto estava fora não ajudaram. Peguei meu celular em uma tentativa de ocupar as mãos e me distrair do monumento que se intitulava meu namorado e meio que desistiu de tentar conversar comigo depois de um tempo — ou talvez ele estivesse apenas me dando espaço — e saiu para falar ao telefone com Jace, seu gerente.
Enquanto fiquei sozinha, revirei meu celular e encontrei mensagens com Kate e , das quais eu lembrava, entre outras. Obviamente, minha maior surpresa foi a janela de conversa com , que parecia provar cada vez mais real o nosso suposto relacionamento.
As últimas mensagens dele eram avisando sobre o voo que deu errado e a mais recente, dizia que tinha acabado de entrar no avião que viria de Chicago para Nova York.
Era meio surreal. E pensar que apenas algumas horas atrás, eu estava dentro do meu livro favorito, vivendo uma fanfic.
Então acordei e descobri que minha vida real era uma fanfic.
Eu não parava de lembrar da sensação dos lábios de sobre os meus. E de como ele tinha sido carinhoso e cuidadoso. Mas também não sei o motivo real do impulso que tive de beijá-lo. Eu o via como meu artista favorito, a quem eu amava, mas não lembrava de estar realmente apaixonada por ele. Ao mesmo tempo, seu toque não me era estranho. Meu estômago podia estar lotado de borboletas, mas eu também estava, de alguma forma, tranquila.
Como se meu corpo reconhecesse o dele, mesmo que minha mente não.
Era uma sensação agridoce.
Eu sabia de tudo sobre , e até mais do que eu me lembrava, considerando que estávamos juntos há três anos. No entanto, a possibilidade de ficar sozinha com ele ainda me deixava inquieta.
Não era medo, isso eu tinha certeza, mas para mim tudo parecia muito novo.
Encarei a tela do celular, intrigada. Todos os dias nós trocávamos mensagens, mesmo que poucas vezes. Não demorei muito para perceber que eu falava mais, e um sorriso levantou meus lábios ao ler algumas das nossas conversas.
Normalmente, mandava fotos de pratos de comida e era algo tão besta, mas eu achei fofo. Ele também sempre me dava bom dia primeiro e eu, boa noite. Imaginei que minhas noites fossem mais curtas que as dele, considerando que ele estava em turnê.
No período dos concertos da Ásia, nossas mensagens foram mais escassas, com respostas horas depois, provavelmente por conta do fuso-horário. Havia uma troca de mensagens sobre isso especificamente em que concordamos que era horrível ficar horas de distância um do outro.
Mas se estávamos juntos há três anos, eu sabia que não era a primeira vez que aquilo acontecia.
Eu lembrava da carreira dele.
Continuei passando as mensagens, maravilhada por nossa interação e fiquei sorrindo como uma completa idiota ao notar que ele sempre dizia que me amava. E perguntava se eu estava bem e como foi o meu dia. Também me chamava de "meu amor" na maioria das vezes, ou simplesmente "amor". Ele usava "" de forma mais casual e "" em situações mais sérias, como tinha feito mais cedo.
Parei de ler quando chegou. Eu podia dizer que estava meio chateada por ele não estar presente no nosso aniversário de três anos, mas ao mesmo tempo, eu não me entendia muito bem. Era o trabalho dele, certo? Datas comemorativas eram importantes, mas havia mesmo motivo para ficar chateada? Tipo, de verdade?
Será que foi por que eu esperava que ele chegasse uma semana mais cedo?
E o que era aquilo? A coisa que eu disse que precisava conversar com ele. Não parecia algo ruim. Mas se eu não lembrava, então também não saberia de nada já que aquela conversa nunca chegou a acontecer.
E agora eu estava ali.
Levou cerca de quarenta minutos para chegarmos ao apartamento. digitou uma senha na porta e gentilmente me informou que era a data do nosso aniversário: 6 de abril de 2019.
Assenti em silêncio e ele abriu a porta. Entrei primeiro, enquanto ele ajudava com a bagagem, mas parei na entrada quando me deparei com o tamanho daquele lugar.
Era simplesmente enorme.
Eu ganhava muito bem como agente literária de Katherine Reed, mas naquele momento, me senti pobre. Era até engraçado pensar assim, porque não era nenhuma surpresa que fosse muito rico.
Uma pequena tour começou assim que ele entraram. Fomos primeiro ao quarto guardar a bagagem de , e informou que ali era o quarto de hóspedes. Depois ele nos levou ao nosso quarto. Grande, com uma parede inteira de vidro e cortinas blackout automáticas. Chique. Havia um closet que compartilhávamos também e eu me surpreendi com o tanto de coisas que eu tinha. Não me lembrava daquilo também. O apartamento que eu dividia com no Brooklyn não era nem de perto tão grande como aquele, embora fosse de um tamanho razoável. E, definitivamente, o closet que eu tinha lá não chegava aos pés desse. Me senti a própria Carrie Bradshaw.
O banheiro também não deixava a desejar. Tinha uma banheira suficientemente grande para caber duas pessoas e minha imaginação um tanto fértil ficou um pouquinho solta quando vi. O quarto inteiro era decorado em tons de cinza bem escuro, o que eu gostava, e quando comentei isso, disse que eu escolhi a decoração.
Agora tudo fazia sentido.
— Você pode dormir aqui com , se quiser. Ou ir para o quarto de hóspedes, caso não queira dormir comigo ainda.
Ainda.
O jeito que ele falou era como se tivesse certeza de que eu ia querer dividir o quarto com ele em algum momento.
Errado não estava. Que fã não gostaria de dividir um quarto com ? Eu não era de ferro.
No entanto, ainda não estava acostumada com a presença dele, mesmo tendo lido todas as mensagens trocadas dos últimos seis meses para ter um pouquinho de noção de como era o nosso relacionamento.
Mesmo tendo gostado do que li.
Me senti um pouquinho mais apaixonada por depois daquilo, mas não tinha certeza se eram os sentimentos da , namorada dele ou , a fã.
Eu tinha consciência de que era uma pessoa normal como qualquer outra, mas... alguém podia me culpar? Eu não sabia como era a nossa dinâmica e teria que reaprender. Até mesmo por recomendações médicas.
disse que a situação com o livro e o fato de eu não lembrar do meu próprio namorado poderia ser um reflexo do trauma do acidente, mas eu não entendia. Não era como se eu tivesse me machucado muito. Não quebrei nada, e me sentia completamente bem, salvo algumas partes arroxeadas e doloridas do meu corpo.
continuou a tour pelo apartamento e eu descobri que tínhamos um escritório com uma biblioteca e um estúdio de música.
— Normalmente, você trabalha no escritório ou passa o tempo lendo lá quando estou no estúdio.
— Eu não fico no estúdio com você também? — perguntei, curiosa.
— Como você mesma disse, , você é minha fã — abriu um sorriso travesso. — Eu não te dou spoilers.
— O quê?! Como assim? — O encarei, indignada. — Eu sou sua namorada há três anos e você me deixa no escuro?
— Isso mesmo, amor. — Ele deu uma risadinha. — Entrada restrita.
— Que crime, !
Ele sorriu mais, parecendo achar engraçada a minha reação.
Cerca de uma hora mais tarde, eu já tinha colocado um pijama quando se ofereceu para fazer o jantar.
— Desde quando você cozinha? — perguntei, me sentando em um banquinho em frente à bancada para observá-lo. Assim como o resto do lugar, a cozinha também era espaçosa.
— Desde que você me ensinou — ele respondeu, com um sorriso.
— Eu te ensinei? — Apontei para mim mesma, incrédula. — Quando?
— Desde que começamos a namorar. Quando temos tempo, até procuramos receitas novas pra testar.
— Sério? — O encarei, surpresa. Aquilo era muito legal. — Nunca imaginei isso.
— Amor, você me tem comendo na palma da sua mão e nem sabe — ele confessou. — Ou melhor, nem lembra. Não tô nada feliz em saber que você esqueceu tudo o que vivemos, que esqueceu de mim como seu namorado, mas vou fazer o possível pra te fazer lembrar. Não posso te contar tudo pra não te sobrecarregar, mas espero que isso passe logo.
— Sinto muito. — Encolhi os ombros, sentindo o rosto queimar. — Não sei por que tô assim. Deve ser estranho pra você… Tô parecendo uma fã maluca.
suspirou, com o rosto subitamente sério, e então se aproximou de mim. Mais uma vez, colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha e, estranhamente — ou não —, me senti à vontade com o seu toque.
Eu não sabia o que aquilo significava. Fazia apenas algumas horas que eu tinha descoberto que ele era meu namorado, mas de algum jeito, depois que comecei a digerir aquela informação, consegui enxergá-lo de uma forma mais tranquila.
Eu não estava cem por cento à vontade perto dele, isso era óbvio, e acho que até ele percebia; mas também já não estava mais tão travada. Depois do choque inicial, as coisas pareciam estar fluindo mais naturalmente.
— Você sempre vai ser uma fã meio maluca, amor. A minha favorita — ele confidenciou, como se fosse um segredo. — Pode não lembrar de nada ainda, mas nos conhecemos melhor que ninguém. Você sempre diz que somos como almas gêmeas que se encontraram por acaso, e eu não poderia concordar mais.
Então ele se inclinou e beijou minha testa. Fechei os olhos, apreciando o contato pelo curto instante antes dele se afastar e voltar a se concentrar no jantar.
preparou uma carne suína desfiada e alguns acompanhamentos para montarmos sanduíches. Ele contou que havia uma padaria perto de onde morávamos, onde comprávamos os nossos pães favoritos, e que tinha encomendado alguns depois que soube que eu teria alta.
Pensando bem, ele estava com uma sacola que pegou na portaria quando chegamos, então imaginei que fosse isso. apareceu no momento em que começamos as montagens.
Montei meu sanduíche com abacaxi caramelizado, carne, cebola roxa crua e um pouquinho de pasta de pimenta coreana. contou que tínhamos alguns ingredientes orientais em casa para testar receitas, já que ambos éramos fãs de culinária asiática.
Mordi meu sanduíche e, de repente, me senti o próprio Remy de Ratatouille, com uma explosão de sabores na boca.
— Isso aqui tá uma delícia. Minha nossa... — comentei, dando outra mordida e gemendo de satisfação. A comida em si não tinha nada de mais, mas a junção de tudo foi tipo... Boom! Uma delícia, de fato.
deu uma risadinha ao ver minha reação e o acompanhou.
— Tem alguma coisa que eu esqueci sobre você? — perguntei a ela, de repente.
— Não. Até onde notei, você sabe de tudo.
— Você não casou nem nada assim, né?
— Definitivamente não. — Ela estreitou os olhos, como se eu tivesse acusado ela de um crime.
— Ei, é só casamento. Você não tá com aquele cara, o Garrett? Loiro, alto, que curte hóquei? — comentei, e ela assentiu. — Ele é um gato. Se eu fosse você, eu investiria nele.
engasgou com a comida e tossiu, de repente. Dei tapinhas nas costas dele.
— Investiria, é? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Por que, ele faz seu tipo?
Pisquei, levemente confusa.
O que era aquilo? estava com ciúmes? De mim?
Segurei um sorriso e bebi um gole da minha coca zero — aparentemente, refrigerantes com açúcar não entravam no nosso lar.
— Eita... Por que a pergunta, de repente? Você deve saber muito bem que eu curto caras de cabelos escuros, altos e tatuados. De preferência, com uma voz rouca e sexy.
estreitou os olhos para mim, sério, mas eu sabia que ele também estava segurando um sorriso.
— Se você diz...
Troquei um olhar com e ela balançou a cabeça, rolando os olhos, então entendi que aquilo devia ser algo recorrente entre nós.
— Você vai trabalhar amanhã? — perguntei a , antes de dar outra mordida no meu sanduíche divino.
— Só no estúdio. Terminei a turnê e não tenho nenhum plano de deixar esse apartamento até você se recuperar. Ah, e conversei com Kate. Ela me explicou que vocês tão tirando uma folga de duas semanas.
— Você conhece a Kate? — Arqueei uma sobrancelha.
— É claro que sim. Vocês trabalham juntas. Eu conheço todos os seus amigos, .
Todos? Tentei imaginar uma situação em que e Andrew interagiam, mas não consegui pensar em nada. Eles eram bem diferentes um do outro.
tinha cara de bad boy, o tipo que te seduziria facilmente só com um olhar. Andrew era... um intelectual engraçadinho. Muito divertido, e nós éramos superamigos, mas será que ele e se davam bem?
— Até o Andrew? — perguntei, sem pensar.
— Sim, até ele — respondeu ele, fazendo uma careta.
Foi o suficiente para entender que, ou eles não se davam muito bem, ou era ciumento por eu ser amiga do meu ex, que, por acaso, também era um dos meus chefes.
Por algum motivo, achei aquilo engraçado, mas não comentei nada. Depois do jantar, eu e cuidamos da louça — ou melhor, a lava-louças cuidou — e depois nos recolhemos para o quarto.
— Tá tudo bem? — ela me perguntou, alguns minutos depois de nos deitarmos em silêncio.
— Sim, só tô um pouco confusa. Parece maluquice, . Até algumas horas atrás, eu tava dentro de Tenaz. Juro, foi muito, mas muito real.
— O médico disse que pode ser um mecanismo de defesa, . Se tudo correr bem, logo você vai recuperar as memórias sobre o .
Assenti, um pouco insegura. Minha mente ainda girava com perguntas que eu queria fazer, mas tentei deixar isso de lado e decidi que, assim como tinha feito com Ayla, esperaria a minha história com acontecer. A diferença era que, daquele roteiro, eu não sabia de nada.
Conversei com minha irmã por mais alguns minutos, me certificando de que realmente era a única parte da minha vida pessoal que eu havia esquecido, e caímos em silêncio novamente.
Não demorou muito até a respiração de ficar pesada, e imaginei se já tinha adormecido também. Ele parecia bem cansado, então torci para que sim. No entanto, eu não estava, não depois de ficar inconsciente por dias. Então, depois de alguns minutos tentando encontrar uma posição para dormir, desisti de esperar pelo sono e peguei meu celular.
Abri o aplicativo de leitura e comecei um novo livro.
Capítulo 5
A primeira noite que passei em casa após voltar do hospital foi bem mais ou menos.
Minha cabeça estava cheia e fiquei pelo menos duas horas lendo antes de deixar o celular de lado e tentar dormir. Demorei mesmo assim. Fiquei tentada a navegar na internet, mas sabia que não era uma boa ideia. Não quando meu namorado de três anos era um astro do R&B e nosso relacionamento era público. Eu não precisava ver para saber que as pessoas provavelmente estavam fofocando sobre nós. Então decidi me contentar só com aplicativos de leitura e até excluí os de todas as redes sociais que eu tinha.
Acordei no dia seguinte por volta das sete e meia da manhã e me levantei para ir ao banheiro. Fiz minha higiene matinal, notando que o último absorvente que coloquei antes de dormir ainda estava limpo e imaginei que o sangramento já havia passado por completo. Joguei fora e então escovei os dentes e lavei o rosto, antes de deixar o quarto.
Andei pelo corredor até a cozinha enquanto amarrava meu cabelo com um nó em um coque alto e passei pela porta do quarto de (ou melhor, nosso), notando que ainda estava fechada; o completo silêncio ao redor me fez pensar que ele ainda estava dormindo.
Era quinta-feira e eu havia passado metade da semana inconsciente em uma cama de hospital, então talvez fosse por isso que minha necessidade de sono tinha diminuído. Já devia estar o contrário, coitado. Uma parte de mim se sentia um pouquinho mal por ser o motivo das noites mal dormidas dele. Mas a outra estava tipo: ah, isso é o quanto ele se importa com você.
Eu sempre acreditei que atitudes falavam mais do que palavras e não precisei de muitas horas para entender que os sentimentos que tinha por mim eram reais, eu só não sabia ao certo a extensão deles.
Como fã completamente delulu das ideias, sempre me perguntei como seria estar do lado dele. era meu favorito há sete anos, mas por mais delulu que eu fosse — e era divertido —, eu sabia que não passava disso. Ou pelo menos era o que eu acreditava até descobrir que somos um casal há três anos.
Dava vontade de rir de nervoso toda vez que eu lembrava disso. Eu não sabia por que minha mente havia bloqueado essa informação depois do acidente. e eu nem estávamos brigados nem nada e nós nem discutíamos com frequência. Além disso, se eu pudesse escolher, obviamente optaria por nunca esquecer tudo o que vivemos.
Mas tudo estava confuso pra cacete e eu nem tinha o que fazer. Muito legal.
Suspirei, resignada, e comecei a cutucar os armários da cozinha e a geladeira em busca de comida para o café da manhã. Tecnicamente, aquela era minha casa, então resolvi ficar à vontade. Não era como se fosse ligar, já que queria que eu ficasse confortável de novo.
Encontrei iogurte e frutas na geladeira e resolvi fazer uma salada. Havia pão também, de um massa bem macia, e não pensei duas vezes em tirar algumas fatias para fazer torradas na manteiga.
Eu estava no meio do processo quando senti braços fortes ao meu redor. Larguei a faca e enrijeci levemente, surpresa por não ter notado se aproximar, e minha pele arrepiou quando ele encostou o queixo no meu ombro, as pontinhas molhadas do cabelo dele fazendo cócegas no meu rosto.
Minha mão coçou com um impulso de enfiar os dedos no mar de fios negros dele, mas me contive. suspirou e começou a falar.
— Eu sei que você ainda não tá acostumada comigo, mas vamos ficar assim só um pouquinho — ele pediu suavemente.
— Tudo bem… — Relaxei em seu abraço.
Ele respirou fundo e eu fiz o mesmo, sentindo um cheiro diferente. Seu corpo estava levemente frio e, por um instante, achei que estivesse sentindo o cheiro de seu sabonete, mas levou apenas um segundo para saber que era sua loção pós-barba. Eu não fazia ideia de como eu sabia que era, mas tive certeza.
Um sorriso se insinuou em meu rosto e coloquei uma mão em cima das dele, ao redor de minha cintura. Me encostei em seu peito, aproveitando o contato e continuou a falar.
— Eu senti tanta saudade. Passei quase dois meses sem te ver pessoalmente e então descobri que você tinha sofrido um acidente antes mesmo de sair de Chicago. A viagem pareceu tão longa que achei que não fosse chegar. Eu fiquei apavorado, — ele confessou baixinho, mas senti o peso de cada palavra. — Tive medo de perder você, e quando o médico disse... Quando fiquei sabendo de tudo, me recusei a sair do seu lado. Mas a cada dia que passava, fiquei mais preocupado ainda, porque você não acordava. Foi assustador.
Franzi o cenho, me sentindo triste por ele. Eu nunca tinha passado por algo assim com alguém, mas não duvidava que fosse mesmo assustador. De repente, me lembrei de uma cena de Tenaz em que Ayla vai parar no hospital e Dean fica maluco. Eu não voltei mais para o livro (ou sonhar com ele) ao adormecer, então imaginei que fosse temporário.
De todo jeito, quando ouvi falar, me vi confessando baixinho também.
— Foi tão real, . Eu sei que parece maluquice, mas juro que vivenciei mesmo a história de Tenaz por algumas semanas enquanto fiquei desacordada. — Me virei para encará-lo. — Acordei no corpo da Ayla, mas ela tinha meu rosto. Acho que por conta do jeito como Kate narrou, sem dar muitos detalhes para as aparências. Foi como se eu tivesse ido parar naquele universo antes da história começar, sabe? Foi estranho e divertido.
sorriu de leve e eu coloquei uma mão no rosto dele, voltando a falar, enquanto ele me ouvia em silêncio, prestando atenção em cada palavra.
— Você também tava lá. Você era o Dean, meu par romântico. — Sorri ao lembrar. — Por isso te chamei de Dean quando acordei.
— Parece ter sido divertido mesmo, amor. — Ele beijou a palma da minha mão e eu a deixei escorregar pela tatuagem do lado esquerdo de seu pescoço.
Era tão bonita e combinava exatamente com ele. Sorri, admirando o desenho, e passei o polegar por cima de uma das flores de ameixa.
De repente, um flash de memória apareceu. Eu e estávamos sozinhos em um bar amplo e eu o toquei bem ali, borrando um pouco da tinta com o polegar.
Franzi o cenho, confusa.
— Você já retocou essa tatuagem alguma vez? — perguntei sem pensar.
me encarou, surpreso.
— Sim, há três anos.
— Há três anos? Por acaso eu esbarrei nela alguma vez? Me veio uma lembrança, mas não sei se foi real ou algum sonho que tive com você. Nós estávamos em um bar...
— Um bar grande e vazio? — Eu fiz que sim, vendo esperança brilhar em seu olhar. — , foi a noite em que nos conhecemos. Você lembrou, amor?
— Eu... Não sei. Acho que-Ai! — Senti uma dor repentina na cabeça e cambaleei para frente. Teria caído se não fosse me segurando.
— ? O que foi, amor? Tá com dor na cabeça? — Assenti, em silêncio. — Vem, senta aqui. — Ele me guiou para um dos banquinhos da bancada. — Vou pegar o seu remédio.
E se virou em direção a um dos armários da cozinha. Um instante depois, me entregou um comprimido e um copo de água, e agradeci baixinho.
— Foi momentâneo. Eu tô bem agora — tentei explicar, quando me levantei para terminar de fazer o café da manhã, mas ele não deixou.
— Não, não — retrucou. — Fique aí e deixe que eu cuido do café.
— ... São só torradas e salada de frutas. Eu não tô inválida, sabe...
— E daí? Por que você não me deixa te mimar um pouquinho? — ele perguntou. — Eu quero te compensar por todas as semanas que estive longe, . Vou te mimar até você enjoar de mim — prometeu ele, me fazendo rir.
sorriu também, mas ainda havia uma tristeza em seu olhar. Ele ainda estava preocupado. Cerca de dez minutos depois, nós dois estávamos sentados, comendo em silêncio, quando apareceu feito um furacão e roubou uma das torradas de antes dele colocá-la na boca.
— O que houve? — A encarei, sem entender. — Tá correndo por quê?
— Tô atrasada. Hoje é minha folga, mas falei pra uma colega que ia substituir ela hoje e esqueci. Minha aula começa às dez, mas é longe daqui.
— Tá, boa sorte! — falei, no instante em que ela atravessou a porta.
dava aulas de inglês em uma escola do Brooklyn há alguns anos. Fiz uma careta, me sentindo mal por fazê-la percorrer uma longa distância só porque estava aqui. Ela só passou uma noite comigo e já estava com a rotina toda bagunçada. Será que eu precisava mesmo fazer minha irmã passar por isso apenas porque não estava acostumada com ?
Encarei meu namorado (ainda era estranho pensar assim) e ponderei por alguns segundos, antes de voltar a me concentrar na comida. Por que eu precisava ter companhia quando era só o ?
Só o era um eufemismo, é claro, mas fazia quase vinte e quatro horas que tudo o que ele fazia era me dar espaço ou tentar me deixar confortável e à vontade perto dele e na nossa casa. Eu poderia fingir que ele era um colega de quarto. Tá, um colega de quarto que eu conhecia muito mais intimamente do que eu imaginava e vice-versa.
De repente, lembrei da resposta dele sobre como sabia das pintinhas do meu corpo e senti o rosto esquentar.
"Como você acha que sei?"
Meu estômago se apertou com ansiedade só de imaginar e eu o encarei mais uma vez.
era tão bonito. E era o maldito pacote completo. Boa personalidade, rosto bonito e corpo bonito — embora eu não me lembrasse muito.
Eu sabia que ele dificilmente usava camisas de mangas curtas nas apresentações, mas em casa era diferente e estava usando uma naquele momento. Preta, sem estampas, e que marcava deliciosamente seus ombros e deixava os bíceps à mostra. Estreitei os olhos um pouquinho, admirando a visão. Eu tinha um sorrisinho nos lábios e sabia lá no fundo que eu provavelmente estava dissociando enquanto o encarava, mas não me importei.
Fiquei completamente imóvel por alguns segundos, sem nem sequer piscar e quando o fiz, notei um sorrisinho malicioso no canto dos lábios dele, enquanto mexia na própria salada de frutas.
Ah, que safado. Ele sabia muito bem que eu estava secando ele e não disse nada.
Terminei de comer rapidamente e me levantei para colocar a louça na pia. Felizmente, não surtou quando comecei lavar o prato, tigela e talheres que usei.
— Eu tava pensando... Acho que é melhor ficar em casa. Posso lidar com você sozinha — comentei.
— Pode, é? — ele perguntou, enquanto eu ainda estava de costas e dei uma leve surtada ao perceber como aquela frase soou.
— Você entendeu! — respondi rapidamente e ele deu uma risadinha nada inocente. Escutei descer do banquinho e um instante depois, ele estava atrás de mim, colocando a louça suja na pia.
Não seria nada de mais, se ele não estivesse invadindo completamente meu espaço pessoal ao fazer isso. Senti o calor do corpo dele em minhas costas, e nós mal estávamos nos tocando. Um frio se instalou no meu estômago e minha mente fanfiqueira imaginou coisas que não deveria naquele momento.
A imagem de me colocando em cima da bancada após eu me virar para beijá-lo foi uma cena especificamente tentadora que me veio em mente naqueles breves segundos, e minhas mãos clamaram por tocá-lo e ser tocada mais uma vez.
Era impressão minha ou ele estava demorando de propósito?
Não sei o que deu em mim também.
Porque no instante seguinte, eu desliguei a torneira e me virei para ele, passando os braços ao redor de sua cintura. Meu rosto estava na altura do ombro dele e eu respirei fundo, inalando seu cheiro.
— Não sei porque fiz isso — confessei, no mesmo instante. — Mas por algum motivo, eu quero ficar próxima de você e sinto uma vontade constante de te tocar. Eu ainda não lembro da gente, . Mas eu li meses de nossas conversas e acho que me apaixonei um pouquinho por você. Foi como ler um romance da minha própria vida.
suspirou e me abraçou de volta, de forma acolhedora. Seu abraço era aconchegante.
— Você pode me tocar sempre que quiser, amor. Eu sou seu — ele me garantiu. — Você pode não lembrar de nada ainda, mas eu sim. Pra mim, ser tocado por você é a coisa mais natural do mundo.
— Mesmo eu sendo meio fã maluca?
riu, divertido.
— Sim, mesmo assim. Fã maluca ou não, você é minha mulher — esclareceu. Senti meu ego inflar quando ele se referiu a mim daquela forma.
Mas gente...
— Por que você fica falando essas coisas? — perguntei, sentindo o rosto esquentar.
— Porque é verdade. Eu sempre falo assim. E você gosta.
Não neguei. Eu gostava mesmo.
De repente, minha vida real era um fanfic e aparentemente das boas.
Escutei um barulho de vibração e percebi que era o celular no bolso do short dele.
— Acho que alguém tá ligando. — Me afastei.
beijou minha besta e sorriu.
— Eu voltou já, deve ser Jace querendo notícias. — E saiu.
Terminei de lavar a louça e peguei meu próprio celular em cima da bancada em que comemos, notando algumas mensagens não lidas.
A primeira era de Kate.
Kate: Andrew e eu vamos te visitar hoje à tarde. Nos aguarde depois das 15h.
: Sim, senhora.
Havia uma mensagem de Andrew também, basicamente falando a mesma coisa. Respondi rapidamente e depois fiquei sem ter o que fazer.
Enchi um copo de água no filtro automático que havia em cima da pia e bebi, fazendo um pacto comigo mesma de me manter hidratada. Por mais que estivessem fazendo isso no hospital, eu ainda tinha acordado com muita sede. Acordei duas vezes durante a madrugada apenas para beber água. Também fiz umas visitas frequentes ao banheiro depois de tanto líquido.
Fiquei alguns minutos cutucando meu celular mais um pouco, mas honestamente, fiquei entediada.
ainda estava ao telefone e tinha ido trabalhar, então por enquanto eu tinha minha própria companhia para me entreter.
Então resolvi optar pelo que eu fazia de melhor quando estava sozinha. Andei até o grande e fofo sofá da sala de estar e me joguei nele, abrindo o aplicativo de leitura um segundo depois, no arquivo do livro que eu tinha começado a ler noite passada.
E fiquei ali, mergulhada no universo de mais uma obra.
Minha cabeça estava cheia e fiquei pelo menos duas horas lendo antes de deixar o celular de lado e tentar dormir. Demorei mesmo assim. Fiquei tentada a navegar na internet, mas sabia que não era uma boa ideia. Não quando meu namorado de três anos era um astro do R&B e nosso relacionamento era público. Eu não precisava ver para saber que as pessoas provavelmente estavam fofocando sobre nós. Então decidi me contentar só com aplicativos de leitura e até excluí os de todas as redes sociais que eu tinha.
Acordei no dia seguinte por volta das sete e meia da manhã e me levantei para ir ao banheiro. Fiz minha higiene matinal, notando que o último absorvente que coloquei antes de dormir ainda estava limpo e imaginei que o sangramento já havia passado por completo. Joguei fora e então escovei os dentes e lavei o rosto, antes de deixar o quarto.
Andei pelo corredor até a cozinha enquanto amarrava meu cabelo com um nó em um coque alto e passei pela porta do quarto de (ou melhor, nosso), notando que ainda estava fechada; o completo silêncio ao redor me fez pensar que ele ainda estava dormindo.
Era quinta-feira e eu havia passado metade da semana inconsciente em uma cama de hospital, então talvez fosse por isso que minha necessidade de sono tinha diminuído. Já devia estar o contrário, coitado. Uma parte de mim se sentia um pouquinho mal por ser o motivo das noites mal dormidas dele. Mas a outra estava tipo: ah, isso é o quanto ele se importa com você.
Eu sempre acreditei que atitudes falavam mais do que palavras e não precisei de muitas horas para entender que os sentimentos que tinha por mim eram reais, eu só não sabia ao certo a extensão deles.
Como fã completamente delulu das ideias, sempre me perguntei como seria estar do lado dele. era meu favorito há sete anos, mas por mais delulu que eu fosse — e era divertido —, eu sabia que não passava disso. Ou pelo menos era o que eu acreditava até descobrir que somos um casal há três anos.
Dava vontade de rir de nervoso toda vez que eu lembrava disso. Eu não sabia por que minha mente havia bloqueado essa informação depois do acidente. e eu nem estávamos brigados nem nada e nós nem discutíamos com frequência. Além disso, se eu pudesse escolher, obviamente optaria por nunca esquecer tudo o que vivemos.
Mas tudo estava confuso pra cacete e eu nem tinha o que fazer. Muito legal.
Suspirei, resignada, e comecei a cutucar os armários da cozinha e a geladeira em busca de comida para o café da manhã. Tecnicamente, aquela era minha casa, então resolvi ficar à vontade. Não era como se fosse ligar, já que queria que eu ficasse confortável de novo.
Encontrei iogurte e frutas na geladeira e resolvi fazer uma salada. Havia pão também, de um massa bem macia, e não pensei duas vezes em tirar algumas fatias para fazer torradas na manteiga.
Eu estava no meio do processo quando senti braços fortes ao meu redor. Larguei a faca e enrijeci levemente, surpresa por não ter notado se aproximar, e minha pele arrepiou quando ele encostou o queixo no meu ombro, as pontinhas molhadas do cabelo dele fazendo cócegas no meu rosto.
Minha mão coçou com um impulso de enfiar os dedos no mar de fios negros dele, mas me contive. suspirou e começou a falar.
— Eu sei que você ainda não tá acostumada comigo, mas vamos ficar assim só um pouquinho — ele pediu suavemente.
— Tudo bem… — Relaxei em seu abraço.
Ele respirou fundo e eu fiz o mesmo, sentindo um cheiro diferente. Seu corpo estava levemente frio e, por um instante, achei que estivesse sentindo o cheiro de seu sabonete, mas levou apenas um segundo para saber que era sua loção pós-barba. Eu não fazia ideia de como eu sabia que era, mas tive certeza.
Um sorriso se insinuou em meu rosto e coloquei uma mão em cima das dele, ao redor de minha cintura. Me encostei em seu peito, aproveitando o contato e continuou a falar.
— Eu senti tanta saudade. Passei quase dois meses sem te ver pessoalmente e então descobri que você tinha sofrido um acidente antes mesmo de sair de Chicago. A viagem pareceu tão longa que achei que não fosse chegar. Eu fiquei apavorado, — ele confessou baixinho, mas senti o peso de cada palavra. — Tive medo de perder você, e quando o médico disse... Quando fiquei sabendo de tudo, me recusei a sair do seu lado. Mas a cada dia que passava, fiquei mais preocupado ainda, porque você não acordava. Foi assustador.
Franzi o cenho, me sentindo triste por ele. Eu nunca tinha passado por algo assim com alguém, mas não duvidava que fosse mesmo assustador. De repente, me lembrei de uma cena de Tenaz em que Ayla vai parar no hospital e Dean fica maluco. Eu não voltei mais para o livro (ou sonhar com ele) ao adormecer, então imaginei que fosse temporário.
De todo jeito, quando ouvi falar, me vi confessando baixinho também.
— Foi tão real, . Eu sei que parece maluquice, mas juro que vivenciei mesmo a história de Tenaz por algumas semanas enquanto fiquei desacordada. — Me virei para encará-lo. — Acordei no corpo da Ayla, mas ela tinha meu rosto. Acho que por conta do jeito como Kate narrou, sem dar muitos detalhes para as aparências. Foi como se eu tivesse ido parar naquele universo antes da história começar, sabe? Foi estranho e divertido.
sorriu de leve e eu coloquei uma mão no rosto dele, voltando a falar, enquanto ele me ouvia em silêncio, prestando atenção em cada palavra.
— Você também tava lá. Você era o Dean, meu par romântico. — Sorri ao lembrar. — Por isso te chamei de Dean quando acordei.
— Parece ter sido divertido mesmo, amor. — Ele beijou a palma da minha mão e eu a deixei escorregar pela tatuagem do lado esquerdo de seu pescoço.
Era tão bonita e combinava exatamente com ele. Sorri, admirando o desenho, e passei o polegar por cima de uma das flores de ameixa.
De repente, um flash de memória apareceu. Eu e estávamos sozinhos em um bar amplo e eu o toquei bem ali, borrando um pouco da tinta com o polegar.
Franzi o cenho, confusa.
— Você já retocou essa tatuagem alguma vez? — perguntei sem pensar.
me encarou, surpreso.
— Sim, há três anos.
— Há três anos? Por acaso eu esbarrei nela alguma vez? Me veio uma lembrança, mas não sei se foi real ou algum sonho que tive com você. Nós estávamos em um bar...
— Um bar grande e vazio? — Eu fiz que sim, vendo esperança brilhar em seu olhar. — , foi a noite em que nos conhecemos. Você lembrou, amor?
— Eu... Não sei. Acho que-Ai! — Senti uma dor repentina na cabeça e cambaleei para frente. Teria caído se não fosse me segurando.
— ? O que foi, amor? Tá com dor na cabeça? — Assenti, em silêncio. — Vem, senta aqui. — Ele me guiou para um dos banquinhos da bancada. — Vou pegar o seu remédio.
E se virou em direção a um dos armários da cozinha. Um instante depois, me entregou um comprimido e um copo de água, e agradeci baixinho.
— Foi momentâneo. Eu tô bem agora — tentei explicar, quando me levantei para terminar de fazer o café da manhã, mas ele não deixou.
— Não, não — retrucou. — Fique aí e deixe que eu cuido do café.
— ... São só torradas e salada de frutas. Eu não tô inválida, sabe...
— E daí? Por que você não me deixa te mimar um pouquinho? — ele perguntou. — Eu quero te compensar por todas as semanas que estive longe, . Vou te mimar até você enjoar de mim — prometeu ele, me fazendo rir.
sorriu também, mas ainda havia uma tristeza em seu olhar. Ele ainda estava preocupado. Cerca de dez minutos depois, nós dois estávamos sentados, comendo em silêncio, quando apareceu feito um furacão e roubou uma das torradas de antes dele colocá-la na boca.
— O que houve? — A encarei, sem entender. — Tá correndo por quê?
— Tô atrasada. Hoje é minha folga, mas falei pra uma colega que ia substituir ela hoje e esqueci. Minha aula começa às dez, mas é longe daqui.
— Tá, boa sorte! — falei, no instante em que ela atravessou a porta.
dava aulas de inglês em uma escola do Brooklyn há alguns anos. Fiz uma careta, me sentindo mal por fazê-la percorrer uma longa distância só porque estava aqui. Ela só passou uma noite comigo e já estava com a rotina toda bagunçada. Será que eu precisava mesmo fazer minha irmã passar por isso apenas porque não estava acostumada com ?
Encarei meu namorado (ainda era estranho pensar assim) e ponderei por alguns segundos, antes de voltar a me concentrar na comida. Por que eu precisava ter companhia quando era só o ?
Só o era um eufemismo, é claro, mas fazia quase vinte e quatro horas que tudo o que ele fazia era me dar espaço ou tentar me deixar confortável e à vontade perto dele e na nossa casa. Eu poderia fingir que ele era um colega de quarto. Tá, um colega de quarto que eu conhecia muito mais intimamente do que eu imaginava e vice-versa.
De repente, lembrei da resposta dele sobre como sabia das pintinhas do meu corpo e senti o rosto esquentar.
"Como você acha que sei?"
Meu estômago se apertou com ansiedade só de imaginar e eu o encarei mais uma vez.
era tão bonito. E era o maldito pacote completo. Boa personalidade, rosto bonito e corpo bonito — embora eu não me lembrasse muito.
Eu sabia que ele dificilmente usava camisas de mangas curtas nas apresentações, mas em casa era diferente e estava usando uma naquele momento. Preta, sem estampas, e que marcava deliciosamente seus ombros e deixava os bíceps à mostra. Estreitei os olhos um pouquinho, admirando a visão. Eu tinha um sorrisinho nos lábios e sabia lá no fundo que eu provavelmente estava dissociando enquanto o encarava, mas não me importei.
Fiquei completamente imóvel por alguns segundos, sem nem sequer piscar e quando o fiz, notei um sorrisinho malicioso no canto dos lábios dele, enquanto mexia na própria salada de frutas.
Ah, que safado. Ele sabia muito bem que eu estava secando ele e não disse nada.
Terminei de comer rapidamente e me levantei para colocar a louça na pia. Felizmente, não surtou quando comecei lavar o prato, tigela e talheres que usei.
— Eu tava pensando... Acho que é melhor ficar em casa. Posso lidar com você sozinha — comentei.
— Pode, é? — ele perguntou, enquanto eu ainda estava de costas e dei uma leve surtada ao perceber como aquela frase soou.
— Você entendeu! — respondi rapidamente e ele deu uma risadinha nada inocente. Escutei descer do banquinho e um instante depois, ele estava atrás de mim, colocando a louça suja na pia.
Não seria nada de mais, se ele não estivesse invadindo completamente meu espaço pessoal ao fazer isso. Senti o calor do corpo dele em minhas costas, e nós mal estávamos nos tocando. Um frio se instalou no meu estômago e minha mente fanfiqueira imaginou coisas que não deveria naquele momento.
A imagem de me colocando em cima da bancada após eu me virar para beijá-lo foi uma cena especificamente tentadora que me veio em mente naqueles breves segundos, e minhas mãos clamaram por tocá-lo e ser tocada mais uma vez.
Era impressão minha ou ele estava demorando de propósito?
Não sei o que deu em mim também.
Porque no instante seguinte, eu desliguei a torneira e me virei para ele, passando os braços ao redor de sua cintura. Meu rosto estava na altura do ombro dele e eu respirei fundo, inalando seu cheiro.
— Não sei porque fiz isso — confessei, no mesmo instante. — Mas por algum motivo, eu quero ficar próxima de você e sinto uma vontade constante de te tocar. Eu ainda não lembro da gente, . Mas eu li meses de nossas conversas e acho que me apaixonei um pouquinho por você. Foi como ler um romance da minha própria vida.
suspirou e me abraçou de volta, de forma acolhedora. Seu abraço era aconchegante.
— Você pode me tocar sempre que quiser, amor. Eu sou seu — ele me garantiu. — Você pode não lembrar de nada ainda, mas eu sim. Pra mim, ser tocado por você é a coisa mais natural do mundo.
— Mesmo eu sendo meio fã maluca?
riu, divertido.
— Sim, mesmo assim. Fã maluca ou não, você é minha mulher — esclareceu. Senti meu ego inflar quando ele se referiu a mim daquela forma.
Mas gente...
— Por que você fica falando essas coisas? — perguntei, sentindo o rosto esquentar.
— Porque é verdade. Eu sempre falo assim. E você gosta.
Não neguei. Eu gostava mesmo.
De repente, minha vida real era um fanfic e aparentemente das boas.
Escutei um barulho de vibração e percebi que era o celular no bolso do short dele.
— Acho que alguém tá ligando. — Me afastei.
beijou minha besta e sorriu.
— Eu voltou já, deve ser Jace querendo notícias. — E saiu.
Terminei de lavar a louça e peguei meu próprio celular em cima da bancada em que comemos, notando algumas mensagens não lidas.
A primeira era de Kate.
Kate: Andrew e eu vamos te visitar hoje à tarde. Nos aguarde depois das 15h.
: Sim, senhora.
Havia uma mensagem de Andrew também, basicamente falando a mesma coisa. Respondi rapidamente e depois fiquei sem ter o que fazer.
Enchi um copo de água no filtro automático que havia em cima da pia e bebi, fazendo um pacto comigo mesma de me manter hidratada. Por mais que estivessem fazendo isso no hospital, eu ainda tinha acordado com muita sede. Acordei duas vezes durante a madrugada apenas para beber água. Também fiz umas visitas frequentes ao banheiro depois de tanto líquido.
Fiquei alguns minutos cutucando meu celular mais um pouco, mas honestamente, fiquei entediada.
ainda estava ao telefone e tinha ido trabalhar, então por enquanto eu tinha minha própria companhia para me entreter.
Então resolvi optar pelo que eu fazia de melhor quando estava sozinha. Andei até o grande e fofo sofá da sala de estar e me joguei nele, abrindo o aplicativo de leitura um segundo depois, no arquivo do livro que eu tinha começado a ler noite passada.
E fiquei ali, mergulhada no universo de mais uma obra.
Capítulo 6
Não sei onde eu estava com a cabeça quando decidi começar uma série de fantasia de seis livros com bullying, harém reverso e alguns personagens odiosos, mas depois de meia madrugada e cerca de uma hora depois que me joguei no sofá para voltar a ler, eu estava quase terminando o primeiro livro.
ainda não tinha voltado depois de sair para atender a tal ligação de Jace, e eu fiquei entretida demais com o enredo da história. Eu nem tinha certeza se estava gostando, mas me manteve curiosa.
Deitada de bruços no sofá largo e o celular próximo do rosto, eu estava prestes a terminar o último capítulo quando um peso caiu em cima de mim e tremi de susto, um segundo antes de notar que era .
— Hm, que sofá confortável, acho que vou tirar uma soneca aqui — ele murmurou, fingindo que eu não estava ali.
— , cara... Não me leva a mal, mas você é muito pesado...
Ele riu no meu ouvido, me fazendo arrepiar, e deu um beijinho atrás da minha orelha antes de rolar para o lado.
O sofá era tão largo que cabia nós dois ali com folga. Pensei em me virar para ele, mas quis terminar o livro antes, então voltei a prestar atenção na tela do celular. Ele apoiou a cabeça em meu ombro.
— O que você tá lendo? — ele quis saber.
— Uma coisa.
— Que coisa?
— Shh… Eu tô quase acabando. — Corri os olhos rapidamente pela tela, faltavam apenas uns dois parágrafos.
Ouvi suspirar, mas não dei atenção. Um parágrafo, apenas alguns segundos e...
— Que porra. Terminou em cliffhanger. Vou ter que ler o segundo livro agora... — comentei comigo mesma, já procurando a sequência para baixar, quando meu celular foi tomado de mim. — Ei, me devolve!
habilmente escondeu o celular entre as almofadas do sofá, rindo das minhas falhas tentativas de recuperar o aparelho. Suspirei, resignada e levemente ofegante, e me deixei cair em cima dele. Eu estava apoiada em seu peito e só então o encarei.
— Por que seu nariz e olhos estão vermelhos? Você saiu pra fumar?
— Eu parei de fumar, .
— Parou? E eu por que eu não lembro disso, se me lembro de você como fã?
— Porque eu nunca contei publicamente. Além disso, parei por sua causa. Você passou uns seis meses me falando como era ruim pra saúde e como o cheiro de cigarro era desagradável. Me proibiu até de te tocar depois de fumar.
— Eeeu? — O encarei, surpresa. — Por quê?
— Porque você sempre odiou cigarro, e também porque descobrimos que você é alérgica.
— O quê? Desde quando? — Franzi o cenho.
— Você não lembra disso? — perguntou, mas depois pareceu entender. — Acho que deve ser porque eu tava com você. Eu te acompanhei na consulta com um alergologista.
— E como aconteceu? Tipo... Como eu nunca descobri isso antes?
— Acho que foi porque você nunca conviveu com nenhum fumante antes de mim. Mas tá tudo bem agora. No início, foi chato, mas usei alguns adesivos de nicotina por um tempo e, hoje em dia, sempre tenho chicletes no bolso pra ajudar quando dá vontade.
— Caramba... — Eu tinha provocado aquilo? Mas era bom, né? Bem mais saudável para nós dois. — E por que seus olhos estão vermelhos? Aconteceu alguma coisa?
sorriu levemente e passou um braço ao redor da minha cintura. Não enrijeci em surpresa dessa vez, o toque deve era confortável.
— Nada, acho que vou ficar resfriado. Deve ser a mudança de clima depois de viajar — ele explicou. — E agora eu quero atenção.
Sorri, achando engraçado.
— Por quê? Você tá carente, é?
— Você pode me culpar? Nunca ficamos tanto tempo longe desde que começamos a morar juntos.
— Nossa... Quem diria? Eu achava que você era bem mais introspectivo, mas gosta de um grude. E é mais gentil do que imaginei. Atencioso também. Você sempre me deu bom dia primeiro nas mensagens de texto. Achei fofo.
riu baixinho e acho que ele estava se divertindo um pouquinho comigo reconhecendo ele outra vez, por mais que nossa situação fosse deprimente.
— Você disse isso antes, quando a gente começou a namorar. E que achava que eu era meio bad boy.
— Você tem cara de bad boy mesmo — reforcei. — Mas é como um gatinho camarada. Você vai amassar pãozinho na minha barriga também?
— Só se você quiser. Mas acho que te encher de beijinhos é mais agradável. — Ele levantou a cabeça, me roubando um selinho.
Segurei um sorriso e apoiei o queixo nas minhas mãos, ambas espalmadas no peito dele.
— Kate disse que vem me ver hoje, e Andrew vem junto.
— Andrew, é? — perguntou, tentando não fazer uma careta, mas seus olhos denunciavam seu desagrado.
— Você não gosta do Andy, ?
— Andy? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Tá chamando ele por apelido agora?
— Nunca parei de chamar. — Dei de ombros.
— Mas nunca chamou na minha frente. E não é que eu não goste dele, mas ele é seu ex, .
— E daí? Você parece ter ciúmes dele.
— Eu tenho ciúmes de qualquer ex seu.
— Eu só tenho dois e nem faço ideia de onde anda o outro.
— É suficiente. Além disso, Andy foi seu primeiro relacionamento sério. Eu sei de tudo. — Ele estreitou os olhos, meio emburrado.
Achei fofo. Embora estivesse claro para mim que estava falando muito sério.
— Olha pelo lado bom, nós somos amigos. Você nunca terminou em bons termos com uma namorada? — perguntei sem pensar e me arrependi no mesmo instante. — Na verdade, não responda. Eu não quero saber.
— Eu também não queria saber, mas o Andy é seu chefe — ele retrucou, sarcasticamente enfatizando o apelido de Andrew pela segunda vez. — Não posso fazer nada a não ser aceitar. E você passa mais tempo com a Kate, de qualquer forma.
— Mesmo que não passasse, não é como se eu fosse voltar pro Andrew ou algo assim.
Seria burrice. Logicamente falando, quem deixaria por qualquer outro cara normal?
Andrew era bonito também e engraçadinho, mas tinha o molho, um charme a mais. Além disso, quaisquer sentimentos românticos que eu tinha pelo meu ex tinham parado de existir muito antes de eu conhecer ele.
— Não vai funcionar, . Eu ainda vou ficar com um pé atrás.
— Você não confia em mim?
— Claro que confio, só não confio nele. Ou qualquer outro homem que chegue perto de você.
— Que ciumento — brinquei. — Mas idem. Embora eu não tenha muita escolha também. Na verdade, acho bom que você abrace muitas fãs e façam elas felizes.
— Ah, é? Que empática — ele disse, no mesmo tom de voz que eu.
— Eu já tenho você há três anos, então é mais do que justo te dividir um pouquinho, desde que em local público e com testemunhas ao redor.
riu, divertido.
— Quem é que tá com ciúmes agora?
— Eu não lembro, mas tenho certeza de que você deve ser pior que eu nesse aspecto.
— Touché. Sou mesmo — ele admitiu. — Você é só minha. — E me apertou contra ele, me fazendo rir. — E como casamento tava fora de cogitação pra nós dois, arrumei outro jeito de te amarrar a mim, e assim acabamos morando juntos.
— Que papo é esse? — perguntei, rindo, sem saber se ele estava falando sério ou não.
Eu já tinha visto em programas de TV agindo completamente sério enquanto falava a coisa mais irônica ou mentirosa de todas, só para fazer graça.
Ele riu comigo e depois caímos em um silêncio confortável. Ficamos assim por alguns minutos, até eu perceber que ele tinha adormecido. Rolei para o lado, saindo de cima dele e pensei em levantar dali, mas ele me abraçou em seu sono.
Ri pelo nariz e desisti de escapulir. Meu celular ainda continuava perdido nas almofadas, então decidi aproveitar a oportunidade de me aconchegar com ele e tentar tirar uma soneca também.
Adormeci pouco tempo depois.
***
Acordei com um barulho de chuva batendo na parede de vidro da sala — havia uma ali também — e abri os olhos devagar, apenas para encontrar os de , me encarando com uma ternura desconcertante.
Aquele era o olhar que eu imaginava que todos os protagonistas dos romance que eu lia deviam ter quando estavam apaixonados. Eu não lembrava de ver nem mesmo Andrew com um, e nós tivemos um bom relacionamento. Mas talvez tenha sido esse o motivo dele acabar. Sentíamos atração um pelo outro, mas ainda éramos mais amigos que qualquer outra coisa.
Com era diferente.
Ele era um protagonista bobão e cadelinha que faria tudo por mim. Nem sei de onde tirei essa percepção, mas tinha certeza de que era assim. Ninguém nunca tinha olhado para mim com tanto cuidado e amor. Nem mesmo minha mãe.
Mas ela não era alguém que costumava fazer isso com qualquer pessoa, de toda forma. e eu saímos de casa desde a faculdade e fomos morar juntas desde então. Minha irmã era cinco anos mais velha que eu e teve que dividir apartamentos ruins com pessoas odiosas em Nova York. Felizmente, eu a tive como colega de quarto quando foi a minha vez. Nossa mãe era divorciada de nosso pai desde que eu tinha dez anos e agora ambos tinham suas novas famílias. e eu éramos as ovelhas negras, um lembrete do erro que foi o casamento dos dois.
Então não fiquei surpresa que minha irmã nem sequer mencionou nosso pais depois do acidente, eles provavelmente nem sabiam que eu tinha sido atropelada. Ou sabiam, já que eu sabia que tinha vazado na internet. De todo modo, não tínhamos contato. era a única que ainda tinha o número de contato dos dois e vice-versa, mas nunca fez diferença já que não havia interesse de nenhuma das partes, incluindo nós mesmas.
Estávamos nos apoiando uma na outra há uma década e o que menos queríamos era ter que lidar com parentes que mal nos conheciam, apesar de terem nos criado, cada uma, por dezoito anos.
Então sim, ver me encarando daquela forma me fez sentir tão querida que meus olhos arderam com vontade de chorar.
— Oi de novo, bela adormecida. — Ele brincou. Imaginei que ele certamente devia ter acordado alguns minutos antes de mim.
Estiquei o braço para tocá-lo no rosto e saí deslizando suavemente o dedo indicador por seus traços. fechou os olhos com o pequeno carinho e havia o menor dos sorrisos em seus lábios.
Meu coração se apertou mais uma vez, desesperado por lembrar de nós, mas disse a mim mesma para parar de pensar naquilo. Não fazia nem vinte e quatro horas desde a minha alta do hospital. Mas ao mesmo tempo, os momentos que eu passava com ele faziam o tempo parecer lento. Era como se cada minuto fosse precioso. Era como se a cada segundo, eu conhecesse ou ficasse familiarizada com um pouco mais.
Naquele momento, mesmo sem lembrar de nada, eu fiquei incrivelmente confortável, o que era meio estranho. Ele podia ser , meu artista favorito, mas ainda assim era um homem com quem eu não lembrava de conviver.
Meu curto período de desconforto se resumiu a algumas horas e durou até eu descobrir um pouquinho sobre nós, mesmo por conta própria. As mensagens tinham sido o principal fator nisso, mas meu celular também estava cheio de fotos nossas. Nossa química era quase palpável.
— Há quanto tempo você tá acordado? — perguntei baixinho, desenhando rabiscos na bochecha dele com o polegar.
abriu os olhos para me encarar outra vez.
— Uns dez minutos. A gente dormiu por mais de uma hora. Você tá com fome? Pensei em pedir almoço.
Abri a boca para dizer que ainda não tinha fome, mas meu estômago roncou naquele momento e riu.
Fiz uma careta.
— Pelo visto, tô com fome mesmo — admiti e me levantei, dando espaço para ele.
se sentou e tirou meu celular de algum lugar entre as almofadas e o entregou a mim.
— Só porque você foi uma boa menina e me deu atenção.
Rolei os olhos instintivamente, com um sorriso brincando nos meus lábios.
— Tô lendo um harém reverso — comentei. — A protagonista tem cinco parceiros, um mais poderoso que o outro. É fantasia, mas no mundo moderno.
— Caramba, cinco parceiros... — assobiou. — Como ela faz pra administrar esse tanto de gente?
— Eis a questão. Eu ainda tô na parte em que eles tão tratando ela feito lixo. E fazendo bullying.
— O quê? Por quê? Você não disse que eles são parceiros? — Assenti. — Por que eles a tratam mal, então?
— Porque ela provocou isso. Ela fez com que a odiassem e fugiu deles por anos, recusando o laço de parceria. Mas eles conseguiram pegar ela, e um deles até implantou um chip nela que ele ameaçou explodir se ela tentar fugir de novo.
— Quê?! — riu, incrédulo. — Por que você tá lendo essas coisas, ?
— Porque me mantém entretida. — Dei de ombros. — Além disso, é fantasia. É normal acontecer essas coisas nos livros. Não sei se vou ler tudo, mas fiquei curiosa. E são cinco caras, um mais bonito e poderoso que o outro. Quero só ver quando eles começarem a ficar todos protetores pra cima dela — acrescentei com uma risadinha.
balançou a cabeça.
— Você tem uns gostos bem peculiares, amor.
Sorri para ele, piscando os olhos repetidamente e ele riu, antes de pegar o próprio celular e abrir um aplicativo para pedir comida.
Me inclinei para espiar e minutos depois, o pedido estava feito. ligou a TV da sala quando acabamos e abriu a Netflix. Escolhemos ver Pretendente Surpresa, e ali estava outra coisa que eu não lembrava: eu tinha arrastado para o mundo dos doramas e ele não se importava nem um pouquinho em ver comédias românticas bobas comigo.
Aparentemente, além de fã maluca e com gostos peculiares, eu também era uma mulher muito sortuda.
Parecia um sonho muito bom, mas felizmente, agora eu sabia que não era um.
ainda não tinha voltado depois de sair para atender a tal ligação de Jace, e eu fiquei entretida demais com o enredo da história. Eu nem tinha certeza se estava gostando, mas me manteve curiosa.
Deitada de bruços no sofá largo e o celular próximo do rosto, eu estava prestes a terminar o último capítulo quando um peso caiu em cima de mim e tremi de susto, um segundo antes de notar que era .
— Hm, que sofá confortável, acho que vou tirar uma soneca aqui — ele murmurou, fingindo que eu não estava ali.
— , cara... Não me leva a mal, mas você é muito pesado...
Ele riu no meu ouvido, me fazendo arrepiar, e deu um beijinho atrás da minha orelha antes de rolar para o lado.
O sofá era tão largo que cabia nós dois ali com folga. Pensei em me virar para ele, mas quis terminar o livro antes, então voltei a prestar atenção na tela do celular. Ele apoiou a cabeça em meu ombro.
— O que você tá lendo? — ele quis saber.
— Uma coisa.
— Que coisa?
— Shh… Eu tô quase acabando. — Corri os olhos rapidamente pela tela, faltavam apenas uns dois parágrafos.
Ouvi suspirar, mas não dei atenção. Um parágrafo, apenas alguns segundos e...
— Que porra. Terminou em cliffhanger. Vou ter que ler o segundo livro agora... — comentei comigo mesma, já procurando a sequência para baixar, quando meu celular foi tomado de mim. — Ei, me devolve!
habilmente escondeu o celular entre as almofadas do sofá, rindo das minhas falhas tentativas de recuperar o aparelho. Suspirei, resignada e levemente ofegante, e me deixei cair em cima dele. Eu estava apoiada em seu peito e só então o encarei.
— Por que seu nariz e olhos estão vermelhos? Você saiu pra fumar?
— Eu parei de fumar, .
— Parou? E eu por que eu não lembro disso, se me lembro de você como fã?
— Porque eu nunca contei publicamente. Além disso, parei por sua causa. Você passou uns seis meses me falando como era ruim pra saúde e como o cheiro de cigarro era desagradável. Me proibiu até de te tocar depois de fumar.
— Eeeu? — O encarei, surpresa. — Por quê?
— Porque você sempre odiou cigarro, e também porque descobrimos que você é alérgica.
— O quê? Desde quando? — Franzi o cenho.
— Você não lembra disso? — perguntou, mas depois pareceu entender. — Acho que deve ser porque eu tava com você. Eu te acompanhei na consulta com um alergologista.
— E como aconteceu? Tipo... Como eu nunca descobri isso antes?
— Acho que foi porque você nunca conviveu com nenhum fumante antes de mim. Mas tá tudo bem agora. No início, foi chato, mas usei alguns adesivos de nicotina por um tempo e, hoje em dia, sempre tenho chicletes no bolso pra ajudar quando dá vontade.
— Caramba... — Eu tinha provocado aquilo? Mas era bom, né? Bem mais saudável para nós dois. — E por que seus olhos estão vermelhos? Aconteceu alguma coisa?
sorriu levemente e passou um braço ao redor da minha cintura. Não enrijeci em surpresa dessa vez, o toque deve era confortável.
— Nada, acho que vou ficar resfriado. Deve ser a mudança de clima depois de viajar — ele explicou. — E agora eu quero atenção.
Sorri, achando engraçado.
— Por quê? Você tá carente, é?
— Você pode me culpar? Nunca ficamos tanto tempo longe desde que começamos a morar juntos.
— Nossa... Quem diria? Eu achava que você era bem mais introspectivo, mas gosta de um grude. E é mais gentil do que imaginei. Atencioso também. Você sempre me deu bom dia primeiro nas mensagens de texto. Achei fofo.
riu baixinho e acho que ele estava se divertindo um pouquinho comigo reconhecendo ele outra vez, por mais que nossa situação fosse deprimente.
— Você disse isso antes, quando a gente começou a namorar. E que achava que eu era meio bad boy.
— Você tem cara de bad boy mesmo — reforcei. — Mas é como um gatinho camarada. Você vai amassar pãozinho na minha barriga também?
— Só se você quiser. Mas acho que te encher de beijinhos é mais agradável. — Ele levantou a cabeça, me roubando um selinho.
Segurei um sorriso e apoiei o queixo nas minhas mãos, ambas espalmadas no peito dele.
— Kate disse que vem me ver hoje, e Andrew vem junto.
— Andrew, é? — perguntou, tentando não fazer uma careta, mas seus olhos denunciavam seu desagrado.
— Você não gosta do Andy, ?
— Andy? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Tá chamando ele por apelido agora?
— Nunca parei de chamar. — Dei de ombros.
— Mas nunca chamou na minha frente. E não é que eu não goste dele, mas ele é seu ex, .
— E daí? Você parece ter ciúmes dele.
— Eu tenho ciúmes de qualquer ex seu.
— Eu só tenho dois e nem faço ideia de onde anda o outro.
— É suficiente. Além disso, Andy foi seu primeiro relacionamento sério. Eu sei de tudo. — Ele estreitou os olhos, meio emburrado.
Achei fofo. Embora estivesse claro para mim que estava falando muito sério.
— Olha pelo lado bom, nós somos amigos. Você nunca terminou em bons termos com uma namorada? — perguntei sem pensar e me arrependi no mesmo instante. — Na verdade, não responda. Eu não quero saber.
— Eu também não queria saber, mas o Andy é seu chefe — ele retrucou, sarcasticamente enfatizando o apelido de Andrew pela segunda vez. — Não posso fazer nada a não ser aceitar. E você passa mais tempo com a Kate, de qualquer forma.
— Mesmo que não passasse, não é como se eu fosse voltar pro Andrew ou algo assim.
Seria burrice. Logicamente falando, quem deixaria por qualquer outro cara normal?
Andrew era bonito também e engraçadinho, mas tinha o molho, um charme a mais. Além disso, quaisquer sentimentos românticos que eu tinha pelo meu ex tinham parado de existir muito antes de eu conhecer ele.
— Não vai funcionar, . Eu ainda vou ficar com um pé atrás.
— Você não confia em mim?
— Claro que confio, só não confio nele. Ou qualquer outro homem que chegue perto de você.
— Que ciumento — brinquei. — Mas idem. Embora eu não tenha muita escolha também. Na verdade, acho bom que você abrace muitas fãs e façam elas felizes.
— Ah, é? Que empática — ele disse, no mesmo tom de voz que eu.
— Eu já tenho você há três anos, então é mais do que justo te dividir um pouquinho, desde que em local público e com testemunhas ao redor.
riu, divertido.
— Quem é que tá com ciúmes agora?
— Eu não lembro, mas tenho certeza de que você deve ser pior que eu nesse aspecto.
— Touché. Sou mesmo — ele admitiu. — Você é só minha. — E me apertou contra ele, me fazendo rir. — E como casamento tava fora de cogitação pra nós dois, arrumei outro jeito de te amarrar a mim, e assim acabamos morando juntos.
— Que papo é esse? — perguntei, rindo, sem saber se ele estava falando sério ou não.
Eu já tinha visto em programas de TV agindo completamente sério enquanto falava a coisa mais irônica ou mentirosa de todas, só para fazer graça.
Ele riu comigo e depois caímos em um silêncio confortável. Ficamos assim por alguns minutos, até eu perceber que ele tinha adormecido. Rolei para o lado, saindo de cima dele e pensei em levantar dali, mas ele me abraçou em seu sono.
Ri pelo nariz e desisti de escapulir. Meu celular ainda continuava perdido nas almofadas, então decidi aproveitar a oportunidade de me aconchegar com ele e tentar tirar uma soneca também.
Adormeci pouco tempo depois.
Acordei com um barulho de chuva batendo na parede de vidro da sala — havia uma ali também — e abri os olhos devagar, apenas para encontrar os de , me encarando com uma ternura desconcertante.
Aquele era o olhar que eu imaginava que todos os protagonistas dos romance que eu lia deviam ter quando estavam apaixonados. Eu não lembrava de ver nem mesmo Andrew com um, e nós tivemos um bom relacionamento. Mas talvez tenha sido esse o motivo dele acabar. Sentíamos atração um pelo outro, mas ainda éramos mais amigos que qualquer outra coisa.
Com era diferente.
Ele era um protagonista bobão e cadelinha que faria tudo por mim. Nem sei de onde tirei essa percepção, mas tinha certeza de que era assim. Ninguém nunca tinha olhado para mim com tanto cuidado e amor. Nem mesmo minha mãe.
Mas ela não era alguém que costumava fazer isso com qualquer pessoa, de toda forma. e eu saímos de casa desde a faculdade e fomos morar juntas desde então. Minha irmã era cinco anos mais velha que eu e teve que dividir apartamentos ruins com pessoas odiosas em Nova York. Felizmente, eu a tive como colega de quarto quando foi a minha vez. Nossa mãe era divorciada de nosso pai desde que eu tinha dez anos e agora ambos tinham suas novas famílias. e eu éramos as ovelhas negras, um lembrete do erro que foi o casamento dos dois.
Então não fiquei surpresa que minha irmã nem sequer mencionou nosso pais depois do acidente, eles provavelmente nem sabiam que eu tinha sido atropelada. Ou sabiam, já que eu sabia que tinha vazado na internet. De todo modo, não tínhamos contato. era a única que ainda tinha o número de contato dos dois e vice-versa, mas nunca fez diferença já que não havia interesse de nenhuma das partes, incluindo nós mesmas.
Estávamos nos apoiando uma na outra há uma década e o que menos queríamos era ter que lidar com parentes que mal nos conheciam, apesar de terem nos criado, cada uma, por dezoito anos.
Então sim, ver me encarando daquela forma me fez sentir tão querida que meus olhos arderam com vontade de chorar.
— Oi de novo, bela adormecida. — Ele brincou. Imaginei que ele certamente devia ter acordado alguns minutos antes de mim.
Estiquei o braço para tocá-lo no rosto e saí deslizando suavemente o dedo indicador por seus traços. fechou os olhos com o pequeno carinho e havia o menor dos sorrisos em seus lábios.
Meu coração se apertou mais uma vez, desesperado por lembrar de nós, mas disse a mim mesma para parar de pensar naquilo. Não fazia nem vinte e quatro horas desde a minha alta do hospital. Mas ao mesmo tempo, os momentos que eu passava com ele faziam o tempo parecer lento. Era como se cada minuto fosse precioso. Era como se a cada segundo, eu conhecesse ou ficasse familiarizada com um pouco mais.
Naquele momento, mesmo sem lembrar de nada, eu fiquei incrivelmente confortável, o que era meio estranho. Ele podia ser , meu artista favorito, mas ainda assim era um homem com quem eu não lembrava de conviver.
Meu curto período de desconforto se resumiu a algumas horas e durou até eu descobrir um pouquinho sobre nós, mesmo por conta própria. As mensagens tinham sido o principal fator nisso, mas meu celular também estava cheio de fotos nossas. Nossa química era quase palpável.
— Há quanto tempo você tá acordado? — perguntei baixinho, desenhando rabiscos na bochecha dele com o polegar.
abriu os olhos para me encarar outra vez.
— Uns dez minutos. A gente dormiu por mais de uma hora. Você tá com fome? Pensei em pedir almoço.
Abri a boca para dizer que ainda não tinha fome, mas meu estômago roncou naquele momento e riu.
Fiz uma careta.
— Pelo visto, tô com fome mesmo — admiti e me levantei, dando espaço para ele.
se sentou e tirou meu celular de algum lugar entre as almofadas e o entregou a mim.
— Só porque você foi uma boa menina e me deu atenção.
Rolei os olhos instintivamente, com um sorriso brincando nos meus lábios.
— Tô lendo um harém reverso — comentei. — A protagonista tem cinco parceiros, um mais poderoso que o outro. É fantasia, mas no mundo moderno.
— Caramba, cinco parceiros... — assobiou. — Como ela faz pra administrar esse tanto de gente?
— Eis a questão. Eu ainda tô na parte em que eles tão tratando ela feito lixo. E fazendo bullying.
— O quê? Por quê? Você não disse que eles são parceiros? — Assenti. — Por que eles a tratam mal, então?
— Porque ela provocou isso. Ela fez com que a odiassem e fugiu deles por anos, recusando o laço de parceria. Mas eles conseguiram pegar ela, e um deles até implantou um chip nela que ele ameaçou explodir se ela tentar fugir de novo.
— Quê?! — riu, incrédulo. — Por que você tá lendo essas coisas, ?
— Porque me mantém entretida. — Dei de ombros. — Além disso, é fantasia. É normal acontecer essas coisas nos livros. Não sei se vou ler tudo, mas fiquei curiosa. E são cinco caras, um mais bonito e poderoso que o outro. Quero só ver quando eles começarem a ficar todos protetores pra cima dela — acrescentei com uma risadinha.
balançou a cabeça.
— Você tem uns gostos bem peculiares, amor.
Sorri para ele, piscando os olhos repetidamente e ele riu, antes de pegar o próprio celular e abrir um aplicativo para pedir comida.
Me inclinei para espiar e minutos depois, o pedido estava feito. ligou a TV da sala quando acabamos e abriu a Netflix. Escolhemos ver Pretendente Surpresa, e ali estava outra coisa que eu não lembrava: eu tinha arrastado para o mundo dos doramas e ele não se importava nem um pouquinho em ver comédias românticas bobas comigo.
Aparentemente, além de fã maluca e com gostos peculiares, eu também era uma mulher muito sortuda.
Parecia um sonho muito bom, mas felizmente, agora eu sabia que não era um.
Capítulo 7
Pouco depois das três da tarde, como prometido, Kate e Andrew apareceram.
Eu tinha tomado banho e ficado apresentável depois de passar o dia de pijama e fez o mesmo. Tínhamos maratonado alguns episódios de Pretendente Surpresa até que percebemos que estava quase na hora da visita.
Ele estava ao meu lado quando abri a porta, sendo envolvida em um abraço de Kate no instante em que ela me viu.
— Meu Deus, que bom que você tá bem — ela murmurou. — Ainda tá sentindo dor?
— Só um pouco dolorida, mas com quase nenhum machucado — contei, enquanto ela cumprimentava rapidamente com um abraço.
Então foi a vez de Andy me envolver em um, me tirando do chão por um instante em seu abraço de urso. Eu ri, retribuindo, mas dois segundos depois, senti um puxão no meu short.
Era com o dedo enfiado no passador de cinto, não muito discretamente me puxando para ele, enquanto cumprimentava Andrew com um sorriso.
Que ciumento.
— E aí, Andrew? Venham, vou pegar algumas bebidas pra gente — se ofereceu, enquanto eu os levava para o sofá.
— Como você tá, ? — Andrew perguntou, se jogando no sofá ao lado de Kate.
— Confusa. Não sei se ficaram sabendo, mas eu meio que dei uma viajada.
— Como assim? — Kate franziu o cenho.
— Eu tive um sonho enquanto tava inconsciente. Sonhei que fui parar no corpo da Ayla e tava vivendo o enredo de Tenaz. O médico acha que foi um mecanismo de defesa.
— Sério? E como foi? — Minha amiga perguntou. Eu sabia que ela ia achar interessante, afinal, era sobre o livro dela.
— Ela tinha meu rosto e o Dean era o , e... Era como se fosse antes de começar a história. Eu lembro de almoçar com Karina e Tiana e esbarrar no Dean num prédio administrativo. Fiquei até pensando em como a Ayla não reparou nele, por que tipo, ele era a cara do .
Andrew começou a rir e Kate o acompanhou.
— Nossa, que viagem mesmo, — ele comentou.
apareceu com uma jarra de limonada que tinha feito mais cedo e nos serviu, antes de se sentar ao meu lado.
— A gente morrendo de preocupação e você vivendo uma fanfic com seu próprio namorado — Kate disse. — Pelo menos, deve ter sido divertido.
— Mais ou menos. Acordei segundos antes do primeiro beijo.
— Olha pelo lado bom, você pode beijar seu próprio Dean a qualquer momento — ela brincou.
Senti o rosto esquentar e colocou uma mão em cima da minha. Olhei para ele rapidamente, antes de me voltar para os meus amigos.
— Então... Sobre isso... Eu meio que esqueci do .
— Esqueceu o quê? — Andy perguntou, confuso.
— Esqueci do nosso relacionamento. Eu só lembro dele como fã. Pra mim, é como se ontem fosse a primeira vez que nos encontramos.
— ... Isso é... — Kate começou, surpresa, mas sua voz morreu.
— Uma merda — Andy completou. — Vocês moram juntos, como isso é possível?
— Sei lá. — Dei de ombros. — Mas o médico acha que é temporário.
— Você esqueceu de mais alguém ou alguma coisa? — ele quis saber. — Sua irmã, ou o trabalho?
— Não, nada. Só de . — Fiz uma careta. — Mas tenho certeza de que vou lembrar em breve.
— Espero que sim. Eu comecei a escrever Oblíquo — Kate anunciou. — Eu sei que estamos de folga ainda, mas posso te enviar algo semana que vem pra você ir opinando.
— Seria ótimo. Eu meio que tô sem o que fazer.
Conversamos por quase uma hora, até que eles foram embora. Pouco tempo depois, chegou. E pela cara dela, eu já podia imaginar seu cansaço. Mais uma vez me senti culpada por fazer minha irmã atravessar a cidade quando trabalhava tão perto do local onde morava. No trânsito caótico de Nova York, sair de Manhattan até o Brooklyn levava mais de uma hora.
passou direto para o quarto e eu a segui. Ouvi o chuveiro ser ligado e me joguei na cama para esperar até que ela saísse. Levantei a cabeça alguns minutos depois, quando ouvi a porta do banheiro abrir e me sentei na cama.
— Como foi hoje? — perguntamos ao mesmo tempo e rimos juntas.
— Cansativo — ela respondeu, secando o cabelo com uma toalha. — Fazia tempo que eu não percorria uma distância tão longa dentro dessa cidade porque até o hospital era mais perto. E o seu dia?
— Foi bom. Um pouco estranho, mas confortável. e eu ficamos juntos a maior parte do tempo.
— Como você tá se sentindo em relação a ele?
— Ontem foi muito estranho, mas hoje... Me senti bem à vontade. Inclusive, era sobre isso que eu queria falar com você. Acho que não faz muito sentido você ficar percorrendo essa distância toda por minha causa.
— Ei, tá doida? Você é minha irmã. É óbvio que faz sentido. Você nem lembra do seu namorado, deve ser estranho ficar com ele.
— Na verdade... — comecei a falar.
— O quê? — me encarou, atenta. — Aconteceu alguma coisa? Você lembrou se algo?
— Tive um flash de memória pouco antes de você sair feito um furacão. Eu perguntei a , sabe, pra ter certeza de que não era parte de um sonho ou algo assim, mas ele disse que foi a noite que nos conhecemos.
— No bar do Brandon aqui em Manhattan. Eu tava também, fomos nos encontrar com seus amigos, mas fui embora mais cedo. Você ficou conversando com Karol e Brandon e aconteceu alguma coisa que eu não lembro e eles te pediram pra ficar lá por uns trinta minutos porque um cliente importante tinha alugado o bar depois da meia-noite. Era o .
— Sério? Qual a probabilidade disso acontecer? Eu não lembro de dizer a Brandon e Karol que eu era fã do .
— Pois é, não disse. Foi coincidência. Acho que você deve lembrar logo. Nós não podemos te encher de informações, senão...
— Eu sei, posso ficar sobrecarregada. Aconteceu isso hoje. — Suspirei, me jogando na cama outra vez e encarei o teto branco.
— Aconteceu?
— Sim, depois desse flash, visão ou sei lá o que era, eu senti uma dor de cabeça momentânea. surtou e pegou um remédio, depois ficou praticamente o dia todo grudado em mim. Tirando uma ligação que ele teve que atender e quando fomos tomar banho.
riu, divertida.
— Mais cadelinha, impossível. Esse cara ama você, irmã. E não deixa nem espaço pra dúvidas. Todo mundo sabe disso. Ele te adora.
Sorri como uma boboca ao ouvir.
— Por algum motivo me sinto bem perto dele, mesmo que pareça que eu conheça ele pessoalmente só há um dia. Tipo... Parece que faz mais tempo mesmo.
— Porque faz. — rolou os olhos, se sentando na cama também. — Vocês dois sempre tiveram uma química assim. Sempre se deram bem. Mal brigam. O faz tudo por você. Vocês são tão doces às vezes que eu sinto minha glicemia subir só de ver. Daqui a pouco vão começar a se pegar de novo.
Eu ri, divertida.
— Por mais que minha mente fanfiqueira fosse adorar isso, provavelmente seria melhor irmos devagar. De todo jeito, acho que posso ficar sozinha com ele.
— Se você diz... Não era como se eu fosse me opor. — Ela deu de ombros. — Se o fosse um idiota, talvez sim, mas ele cuida de você melhor do que eu poderia. Vou voltar pra casa amanhã. Não venha chorar se você tiver pesadelos ao dormir sozinha aqui. Acorde seu namorado ou se esgueire pra cama dele, tenho certeza de que ele não vai se incomodar.
— Eu ainda tenho Terror Noturno com frequência? — perguntei, me dando conta que daquela parte da minha vida eu também não lembrava.
— Só quando você fica estressada e sozinha. Quando tá em casa, você costuma ficar bem.
— Entendi. Se ele me ajuda de alguma forma com isso, mesmo que seja só fazendo companhia, então acho que faz sentido eu não lembrar.
Talvez a presença dele me acalmasse, de fato. Eu tinha episódios de terror noturno desde o divórcio de nossos pais e embora a frequência deles tenha diminuído à medida que fui crescendo, nunca desapareceu. Eu não tinha ideia como era ter esses episódios sozinha, pois até onde me lembrava, sempre estava a uma ligação ou uma porta de distância.
Quanto a ... Eu não conseguia me ver ligando para ele do outro lado do mundo só para obter apoio emocional por causa de um pesadelo idiota provocado por estresse.
— Além disso, tenho certeza de que tem outros métodos eficazes pra te fazer aliviar o estresse — acrescentou com um sorrisinho, me tirando de meus pensamentos.
— ! — Eu ri, batendo com um travesseiro nela.
— O quê? Não é como se fosse mentira — ela brincou e se levantou, indo em direção à porta. — Vamos continuar essa conversa na cozinha, eu tô morrendo de fome.
***
Uma semana depois, eu ainda estava na estaca zero. Já fazia quase duas semanas desde o meu acidente e eu ainda não tinha lembrado de nada.
Meus últimos dias se resumiram a ler, comer e ver doramas com .
Embora me desse algum tempo sozinha quando se trancava no estúdio, fazia questão de passarmos um tempo de qualidade juntos.
Eu não estava reclamando, é claro.
Depois que voltou para seu próprio lar, eu passei a dormir sozinha no quarto de hóspedes e felizmente não tive nenhum episódio de terror noturno. No entanto — e infelizmente —, eu também não consegui dormir direito à noite, o que acabou me fazendo tirar breves cochilos durante o dia.
Agora eu estava de um lado do sofá com meu tablet em mãos, lendo os primeiros capítulos do próximo livro de Kate, enquanto estava no outro, com fones de ouvido com cancelamento de ruído, encarando a tela de seu laptop.
Eu era extremamente curiosa sobre seu processo criativo e tentei dar umas espiadas ocasionalmente, mas não é como se eu fosse entender algo sem escutar nada. Ele também não me deixava ler as letras enquanto estava escrevendo músicas, o que era um porre. Então em certo momento, eu meio que desisti de tentar. Sabendo que não ia conseguir nada, sugeri que ele voltasse para o estúdio, já que provavelmente era mais confortável trabalhar lá. Eu havia visto o tanto de equipamentos que ele tinha e ficar ali no sofá só para me fazer companhia parecia não fazer muito sentido.
Não é como se eu fosse passar mal nem nada. Aconteceu só o primeiro dia, quando tive aquele flash de memória de quando nos conhecemos, mas depois nada, zero, nadica de nada. Eu achei que iria conseguir lembrar de nós logo, e isso não ter acontecido ainda me deixava ansiosa. No entanto, tentei ao máximo transparecer tranquilidade. Eu não queria que se preocupasse mais ainda comigo.
Desviei o olhar da tela do tablet e o encarei discretamente enquanto ele trabalhava. Aquele arranjo entre nós, cada um trabalhando de um lado, vinha se repetindo há cerca de três dias e eu não podia evitar lembrar de Ayla e Dean.
Não retornei para o livro em nenhum momento durante meu sono, mas eu meio que sentia falta. Porque se o sonho era tão realista, então sim, eu queria viver um pouquinho na pele da protagonista. Menos nas cenas perigosas, é claro. Eu não estava interessada em ter meu celular roubado e ser agredida na rua. De jeito nenhum.
Mas seria bom viver um pouquinho de romance.
Até porque nada aconteceu entre mim e na última semana. Nós tínhamos uma necessidade mútua de tocar um ao outro, mas não tinha passado de nada além de abraços ou beijinhos na testa ou rosto. Nada de mais. O máximo que fizemos foi deitar juntos no sofá para assistir TV juntos.
Então comíamos juntos e à noite, cada um seguia para seu próprio quarto.
Durante aquele tempo, eu li mais de nossas mensagens trocadas e àquela altura eu já tinha lido as do ano anterior inteiro. Eu até sentia que conhecia mais um pouquinho, mas era como conhecer um protagonista. Nossas mensagens eram parte da nossa história e felizmente, eu não tinha deletado nenhuma.
Eu estava feliz por passar tempo com meu então namorado e até nos divertimos juntos, mas honestamente... Eu não era uma grande fã de slow burn.
Eu tinha plena consciência de que tinha planejado levar as coisas devagar enquanto eu não lembrava do nosso relacionamento, mas já estava começando a ficar impaciente. Eu tinha que me policiar para controlar os movimentos de minhas próprias mãos ou àquela altura, elas já teriam criado vida própria e se livrado de todas as roupas de .
Mas ninguém podia me culpar, certo?
Até onde eu sabia, casais que moram juntos eram praticamente casados. Então era normal me sentir atraída pelo meu namorido.
Eu só não sabia até quando o meu autocontrole iria durar. Ou o de . Porque não passou despercebido por mim que ele também tentava se controlar e às vezes forçava certa distância entre nós por causa disso.
Resumindo, éramos dois idiotas querendo se pegar, mas nenhum tomava atitude com medo do outro achar estranho ou ficar desconfortável. E eu meio que tinha certeza de que ele não faria isso de jeito nenhum. Mas eu o queria. Queria reconhecer ele por inteiro. E só o pensamento disso enviava mais borboletas para meu estômago.
Daqui a pouco eu iria vomitar borboletas porque elas não iam mais caber.
E ele parecia tão atraente enquanto trabalhava... Era impossível não admirar a visão. Trabalho braçal? Isso era ultrapassado. Eu sempre gostei mais de cérebros.
E o de era bem sexy. Tínhamos passado horas conversando sobre coisas aleatórias e eu achava fascinante o jeito como ele via as coisas e como era parecido como eu mesma via. Nós éramos opostos em muitas coisas e ele era definitivamente mais sensível do que eu. Às vezes, viajava um pouquinho às vezes com coisas que para mim não faziam o menor sentido e eu tinha que me segurar para não revirar os olhos. Eu amava arte e música desde sempre, mas havia um limite de tolerância entre o que eu achava legal e exagerado. Sempre fui mais prática e tinha coisas que eu simplesmente nem me esforçava para gostar. Por exemplo, música indie. Nada contra, mas não era meu estilo. E adorava várias. Por outro lado, eu curtia punk rock e ele não.
Mas também tínhamos muito em comum. Aparentemente, eu tinha feito igual a Ayla e obriguei ele a aprender todas as músicas dos meus musicais favoritos. Isso era quase como ganhar na loteria porque era de conhecimento geral como era chatinho e seletivo. Foi uma alegria descobrir que eu o tinha convencido a fazer muita coisa. Além disso, ambos amávamos músicas mais antigas, entre os anos setenta e noventa. Algumas vezes coloquei música para tocar enquanto cozinhava algo e logo aparecia cantarolando comigo.
Eu me sentia uma protagonista em meu próprio livro vivendo todos as minhas fantasias de fanfiqueira.
Bem, quase todas.
Eu ainda não havia arrancado as roupas de . E de novo, eu não tinha ideia de quanto tempo eu ia aguentar antes de meter o louco e fazer isso.
Como se sentisse o rumo que meus pensamentos estavam tomando, resolveu me encarar naquele momento, e tirou o fone de ouvido antes de falar.
— O que foi? Tá sentindo alguma coisa?
Eu com meu bom cérebro maluco, respondi sem pensar:
— Tô sim. Vontade de morder você todo.
Eu quis bater na minha própria boca. Meu cérebro devia estar com defeito de filtragem também. Mas então inclinou a cabeça para o lado levemente, um sorrisinho malicioso aparecendo em seus lábios.
— Você sabe que não precisa pedir. Eu sou todo seu. É só vir, amor.
Ah, eu estava a um passo de largar o tablet e pular em cima dele. Mas algum ser celestial deve ter tocado na minha cabeça e me feito rir, como se achasse que ele estava brincando.
Eu não achava. Depois de toda a sabedoria adquirida como fã de e uma semana passando a maior parte do tempo com ele, eu sabia que ele estava falando sério. Aposto que conseguiria me levar pra cama só com um olhar. Eu iria de bom grado, a qualquer momento.
E de verdade, eu merecia um prêmio por controlar meus próprios impulsos.
Me levantei com uma desculpa de preparar um lanche da tarde e aquele curto momento de tensão foi deixado de lado, assim como todos os outros que vieram antes dele.
Naquela noite de quinta, mais uma vez nos separamos para dormir e eu rolei algumas vezes na cama, tentando pegar no sono. Li por duas horas o terceiro livro da série de fantasia que eu tinha começado na semana anterior, e nem assim fiquei com sono.
Não faço ideia de que horas eram quando finalmente consegui adormecer.
Mas no dia seguinte, acordei com um barulho de despertador irritantemente familiar.
Abri os olhos e encarei o teto branco, de repente sabendo exatamente onde eu estava. Só para ter certeza, passei a mão pelo cabelo, percebendo que ele estava curto. Um sorrisinho levantou os cantos da minha boca e me sentei na cama, animada.
Eu tinha voltado para o corpo de Ayla .
Eu tinha tomado banho e ficado apresentável depois de passar o dia de pijama e fez o mesmo. Tínhamos maratonado alguns episódios de Pretendente Surpresa até que percebemos que estava quase na hora da visita.
Ele estava ao meu lado quando abri a porta, sendo envolvida em um abraço de Kate no instante em que ela me viu.
— Meu Deus, que bom que você tá bem — ela murmurou. — Ainda tá sentindo dor?
— Só um pouco dolorida, mas com quase nenhum machucado — contei, enquanto ela cumprimentava rapidamente com um abraço.
Então foi a vez de Andy me envolver em um, me tirando do chão por um instante em seu abraço de urso. Eu ri, retribuindo, mas dois segundos depois, senti um puxão no meu short.
Era com o dedo enfiado no passador de cinto, não muito discretamente me puxando para ele, enquanto cumprimentava Andrew com um sorriso.
Que ciumento.
— E aí, Andrew? Venham, vou pegar algumas bebidas pra gente — se ofereceu, enquanto eu os levava para o sofá.
— Como você tá, ? — Andrew perguntou, se jogando no sofá ao lado de Kate.
— Confusa. Não sei se ficaram sabendo, mas eu meio que dei uma viajada.
— Como assim? — Kate franziu o cenho.
— Eu tive um sonho enquanto tava inconsciente. Sonhei que fui parar no corpo da Ayla e tava vivendo o enredo de Tenaz. O médico acha que foi um mecanismo de defesa.
— Sério? E como foi? — Minha amiga perguntou. Eu sabia que ela ia achar interessante, afinal, era sobre o livro dela.
— Ela tinha meu rosto e o Dean era o , e... Era como se fosse antes de começar a história. Eu lembro de almoçar com Karina e Tiana e esbarrar no Dean num prédio administrativo. Fiquei até pensando em como a Ayla não reparou nele, por que tipo, ele era a cara do .
Andrew começou a rir e Kate o acompanhou.
— Nossa, que viagem mesmo, — ele comentou.
apareceu com uma jarra de limonada que tinha feito mais cedo e nos serviu, antes de se sentar ao meu lado.
— A gente morrendo de preocupação e você vivendo uma fanfic com seu próprio namorado — Kate disse. — Pelo menos, deve ter sido divertido.
— Mais ou menos. Acordei segundos antes do primeiro beijo.
— Olha pelo lado bom, você pode beijar seu próprio Dean a qualquer momento — ela brincou.
Senti o rosto esquentar e colocou uma mão em cima da minha. Olhei para ele rapidamente, antes de me voltar para os meus amigos.
— Então... Sobre isso... Eu meio que esqueci do .
— Esqueceu o quê? — Andy perguntou, confuso.
— Esqueci do nosso relacionamento. Eu só lembro dele como fã. Pra mim, é como se ontem fosse a primeira vez que nos encontramos.
— ... Isso é... — Kate começou, surpresa, mas sua voz morreu.
— Uma merda — Andy completou. — Vocês moram juntos, como isso é possível?
— Sei lá. — Dei de ombros. — Mas o médico acha que é temporário.
— Você esqueceu de mais alguém ou alguma coisa? — ele quis saber. — Sua irmã, ou o trabalho?
— Não, nada. Só de . — Fiz uma careta. — Mas tenho certeza de que vou lembrar em breve.
— Espero que sim. Eu comecei a escrever Oblíquo — Kate anunciou. — Eu sei que estamos de folga ainda, mas posso te enviar algo semana que vem pra você ir opinando.
— Seria ótimo. Eu meio que tô sem o que fazer.
Conversamos por quase uma hora, até que eles foram embora. Pouco tempo depois, chegou. E pela cara dela, eu já podia imaginar seu cansaço. Mais uma vez me senti culpada por fazer minha irmã atravessar a cidade quando trabalhava tão perto do local onde morava. No trânsito caótico de Nova York, sair de Manhattan até o Brooklyn levava mais de uma hora.
passou direto para o quarto e eu a segui. Ouvi o chuveiro ser ligado e me joguei na cama para esperar até que ela saísse. Levantei a cabeça alguns minutos depois, quando ouvi a porta do banheiro abrir e me sentei na cama.
— Como foi hoje? — perguntamos ao mesmo tempo e rimos juntas.
— Cansativo — ela respondeu, secando o cabelo com uma toalha. — Fazia tempo que eu não percorria uma distância tão longa dentro dessa cidade porque até o hospital era mais perto. E o seu dia?
— Foi bom. Um pouco estranho, mas confortável. e eu ficamos juntos a maior parte do tempo.
— Como você tá se sentindo em relação a ele?
— Ontem foi muito estranho, mas hoje... Me senti bem à vontade. Inclusive, era sobre isso que eu queria falar com você. Acho que não faz muito sentido você ficar percorrendo essa distância toda por minha causa.
— Ei, tá doida? Você é minha irmã. É óbvio que faz sentido. Você nem lembra do seu namorado, deve ser estranho ficar com ele.
— Na verdade... — comecei a falar.
— O quê? — me encarou, atenta. — Aconteceu alguma coisa? Você lembrou se algo?
— Tive um flash de memória pouco antes de você sair feito um furacão. Eu perguntei a , sabe, pra ter certeza de que não era parte de um sonho ou algo assim, mas ele disse que foi a noite que nos conhecemos.
— No bar do Brandon aqui em Manhattan. Eu tava também, fomos nos encontrar com seus amigos, mas fui embora mais cedo. Você ficou conversando com Karol e Brandon e aconteceu alguma coisa que eu não lembro e eles te pediram pra ficar lá por uns trinta minutos porque um cliente importante tinha alugado o bar depois da meia-noite. Era o .
— Sério? Qual a probabilidade disso acontecer? Eu não lembro de dizer a Brandon e Karol que eu era fã do .
— Pois é, não disse. Foi coincidência. Acho que você deve lembrar logo. Nós não podemos te encher de informações, senão...
— Eu sei, posso ficar sobrecarregada. Aconteceu isso hoje. — Suspirei, me jogando na cama outra vez e encarei o teto branco.
— Aconteceu?
— Sim, depois desse flash, visão ou sei lá o que era, eu senti uma dor de cabeça momentânea. surtou e pegou um remédio, depois ficou praticamente o dia todo grudado em mim. Tirando uma ligação que ele teve que atender e quando fomos tomar banho.
riu, divertida.
— Mais cadelinha, impossível. Esse cara ama você, irmã. E não deixa nem espaço pra dúvidas. Todo mundo sabe disso. Ele te adora.
Sorri como uma boboca ao ouvir.
— Por algum motivo me sinto bem perto dele, mesmo que pareça que eu conheça ele pessoalmente só há um dia. Tipo... Parece que faz mais tempo mesmo.
— Porque faz. — rolou os olhos, se sentando na cama também. — Vocês dois sempre tiveram uma química assim. Sempre se deram bem. Mal brigam. O faz tudo por você. Vocês são tão doces às vezes que eu sinto minha glicemia subir só de ver. Daqui a pouco vão começar a se pegar de novo.
Eu ri, divertida.
— Por mais que minha mente fanfiqueira fosse adorar isso, provavelmente seria melhor irmos devagar. De todo jeito, acho que posso ficar sozinha com ele.
— Se você diz... Não era como se eu fosse me opor. — Ela deu de ombros. — Se o fosse um idiota, talvez sim, mas ele cuida de você melhor do que eu poderia. Vou voltar pra casa amanhã. Não venha chorar se você tiver pesadelos ao dormir sozinha aqui. Acorde seu namorado ou se esgueire pra cama dele, tenho certeza de que ele não vai se incomodar.
— Eu ainda tenho Terror Noturno com frequência? — perguntei, me dando conta que daquela parte da minha vida eu também não lembrava.
— Só quando você fica estressada e sozinha. Quando tá em casa, você costuma ficar bem.
— Entendi. Se ele me ajuda de alguma forma com isso, mesmo que seja só fazendo companhia, então acho que faz sentido eu não lembrar.
Talvez a presença dele me acalmasse, de fato. Eu tinha episódios de terror noturno desde o divórcio de nossos pais e embora a frequência deles tenha diminuído à medida que fui crescendo, nunca desapareceu. Eu não tinha ideia como era ter esses episódios sozinha, pois até onde me lembrava, sempre estava a uma ligação ou uma porta de distância.
Quanto a ... Eu não conseguia me ver ligando para ele do outro lado do mundo só para obter apoio emocional por causa de um pesadelo idiota provocado por estresse.
— Além disso, tenho certeza de que tem outros métodos eficazes pra te fazer aliviar o estresse — acrescentou com um sorrisinho, me tirando de meus pensamentos.
— ! — Eu ri, batendo com um travesseiro nela.
— O quê? Não é como se fosse mentira — ela brincou e se levantou, indo em direção à porta. — Vamos continuar essa conversa na cozinha, eu tô morrendo de fome.
Uma semana depois, eu ainda estava na estaca zero. Já fazia quase duas semanas desde o meu acidente e eu ainda não tinha lembrado de nada.
Meus últimos dias se resumiram a ler, comer e ver doramas com .
Embora me desse algum tempo sozinha quando se trancava no estúdio, fazia questão de passarmos um tempo de qualidade juntos.
Eu não estava reclamando, é claro.
Depois que voltou para seu próprio lar, eu passei a dormir sozinha no quarto de hóspedes e felizmente não tive nenhum episódio de terror noturno. No entanto — e infelizmente —, eu também não consegui dormir direito à noite, o que acabou me fazendo tirar breves cochilos durante o dia.
Agora eu estava de um lado do sofá com meu tablet em mãos, lendo os primeiros capítulos do próximo livro de Kate, enquanto estava no outro, com fones de ouvido com cancelamento de ruído, encarando a tela de seu laptop.
Eu era extremamente curiosa sobre seu processo criativo e tentei dar umas espiadas ocasionalmente, mas não é como se eu fosse entender algo sem escutar nada. Ele também não me deixava ler as letras enquanto estava escrevendo músicas, o que era um porre. Então em certo momento, eu meio que desisti de tentar. Sabendo que não ia conseguir nada, sugeri que ele voltasse para o estúdio, já que provavelmente era mais confortável trabalhar lá. Eu havia visto o tanto de equipamentos que ele tinha e ficar ali no sofá só para me fazer companhia parecia não fazer muito sentido.
Não é como se eu fosse passar mal nem nada. Aconteceu só o primeiro dia, quando tive aquele flash de memória de quando nos conhecemos, mas depois nada, zero, nadica de nada. Eu achei que iria conseguir lembrar de nós logo, e isso não ter acontecido ainda me deixava ansiosa. No entanto, tentei ao máximo transparecer tranquilidade. Eu não queria que se preocupasse mais ainda comigo.
Desviei o olhar da tela do tablet e o encarei discretamente enquanto ele trabalhava. Aquele arranjo entre nós, cada um trabalhando de um lado, vinha se repetindo há cerca de três dias e eu não podia evitar lembrar de Ayla e Dean.
Não retornei para o livro em nenhum momento durante meu sono, mas eu meio que sentia falta. Porque se o sonho era tão realista, então sim, eu queria viver um pouquinho na pele da protagonista. Menos nas cenas perigosas, é claro. Eu não estava interessada em ter meu celular roubado e ser agredida na rua. De jeito nenhum.
Mas seria bom viver um pouquinho de romance.
Até porque nada aconteceu entre mim e na última semana. Nós tínhamos uma necessidade mútua de tocar um ao outro, mas não tinha passado de nada além de abraços ou beijinhos na testa ou rosto. Nada de mais. O máximo que fizemos foi deitar juntos no sofá para assistir TV juntos.
Então comíamos juntos e à noite, cada um seguia para seu próprio quarto.
Durante aquele tempo, eu li mais de nossas mensagens trocadas e àquela altura eu já tinha lido as do ano anterior inteiro. Eu até sentia que conhecia mais um pouquinho, mas era como conhecer um protagonista. Nossas mensagens eram parte da nossa história e felizmente, eu não tinha deletado nenhuma.
Eu estava feliz por passar tempo com meu então namorado e até nos divertimos juntos, mas honestamente... Eu não era uma grande fã de slow burn.
Eu tinha plena consciência de que tinha planejado levar as coisas devagar enquanto eu não lembrava do nosso relacionamento, mas já estava começando a ficar impaciente. Eu tinha que me policiar para controlar os movimentos de minhas próprias mãos ou àquela altura, elas já teriam criado vida própria e se livrado de todas as roupas de .
Mas ninguém podia me culpar, certo?
Até onde eu sabia, casais que moram juntos eram praticamente casados. Então era normal me sentir atraída pelo meu namorido.
Eu só não sabia até quando o meu autocontrole iria durar. Ou o de . Porque não passou despercebido por mim que ele também tentava se controlar e às vezes forçava certa distância entre nós por causa disso.
Resumindo, éramos dois idiotas querendo se pegar, mas nenhum tomava atitude com medo do outro achar estranho ou ficar desconfortável. E eu meio que tinha certeza de que ele não faria isso de jeito nenhum. Mas eu o queria. Queria reconhecer ele por inteiro. E só o pensamento disso enviava mais borboletas para meu estômago.
Daqui a pouco eu iria vomitar borboletas porque elas não iam mais caber.
E ele parecia tão atraente enquanto trabalhava... Era impossível não admirar a visão. Trabalho braçal? Isso era ultrapassado. Eu sempre gostei mais de cérebros.
E o de era bem sexy. Tínhamos passado horas conversando sobre coisas aleatórias e eu achava fascinante o jeito como ele via as coisas e como era parecido como eu mesma via. Nós éramos opostos em muitas coisas e ele era definitivamente mais sensível do que eu. Às vezes, viajava um pouquinho às vezes com coisas que para mim não faziam o menor sentido e eu tinha que me segurar para não revirar os olhos. Eu amava arte e música desde sempre, mas havia um limite de tolerância entre o que eu achava legal e exagerado. Sempre fui mais prática e tinha coisas que eu simplesmente nem me esforçava para gostar. Por exemplo, música indie. Nada contra, mas não era meu estilo. E adorava várias. Por outro lado, eu curtia punk rock e ele não.
Mas também tínhamos muito em comum. Aparentemente, eu tinha feito igual a Ayla e obriguei ele a aprender todas as músicas dos meus musicais favoritos. Isso era quase como ganhar na loteria porque era de conhecimento geral como era chatinho e seletivo. Foi uma alegria descobrir que eu o tinha convencido a fazer muita coisa. Além disso, ambos amávamos músicas mais antigas, entre os anos setenta e noventa. Algumas vezes coloquei música para tocar enquanto cozinhava algo e logo aparecia cantarolando comigo.
Eu me sentia uma protagonista em meu próprio livro vivendo todos as minhas fantasias de fanfiqueira.
Bem, quase todas.
Eu ainda não havia arrancado as roupas de . E de novo, eu não tinha ideia de quanto tempo eu ia aguentar antes de meter o louco e fazer isso.
Como se sentisse o rumo que meus pensamentos estavam tomando, resolveu me encarar naquele momento, e tirou o fone de ouvido antes de falar.
— O que foi? Tá sentindo alguma coisa?
Eu com meu bom cérebro maluco, respondi sem pensar:
— Tô sim. Vontade de morder você todo.
Eu quis bater na minha própria boca. Meu cérebro devia estar com defeito de filtragem também. Mas então inclinou a cabeça para o lado levemente, um sorrisinho malicioso aparecendo em seus lábios.
— Você sabe que não precisa pedir. Eu sou todo seu. É só vir, amor.
Ah, eu estava a um passo de largar o tablet e pular em cima dele. Mas algum ser celestial deve ter tocado na minha cabeça e me feito rir, como se achasse que ele estava brincando.
Eu não achava. Depois de toda a sabedoria adquirida como fã de e uma semana passando a maior parte do tempo com ele, eu sabia que ele estava falando sério. Aposto que conseguiria me levar pra cama só com um olhar. Eu iria de bom grado, a qualquer momento.
E de verdade, eu merecia um prêmio por controlar meus próprios impulsos.
Me levantei com uma desculpa de preparar um lanche da tarde e aquele curto momento de tensão foi deixado de lado, assim como todos os outros que vieram antes dele.
Naquela noite de quinta, mais uma vez nos separamos para dormir e eu rolei algumas vezes na cama, tentando pegar no sono. Li por duas horas o terceiro livro da série de fantasia que eu tinha começado na semana anterior, e nem assim fiquei com sono.
Não faço ideia de que horas eram quando finalmente consegui adormecer.
Mas no dia seguinte, acordei com um barulho de despertador irritantemente familiar.
Abri os olhos e encarei o teto branco, de repente sabendo exatamente onde eu estava. Só para ter certeza, passei a mão pelo cabelo, percebendo que ele estava curto. Um sorrisinho levantou os cantos da minha boca e me sentei na cama, animada.
Eu tinha voltado para o corpo de Ayla .
Capítulo 8
Depois que me levantei para um novo dia na skin de Ayla, tudo que encontrei foi um caos.
Eu não tinha ideia de qual parte da história eu tinha ido parar, até descobrir que era o último dia de obrigações acadêmicas de Ayla. Isso meio que explicava por que eu estava me sentindo como uma zumbi o dia todo. Além de não dormir direito, ela estava à beira de ter um colapso nervoso, o que meio que aconteceu depois que ela se livrou de tudo.
Minha skin de Ayla encontrou com Zico e Dean e caiu no choro nos braços de Zico, coitado. Ele nem sabia o que fazer, e eu duvidava muito que Dean soubesse. No entanto, os dois murmuram palavras de consolo para ela. Ver Dean novamente era animador, mas minha skin de Ayla estava extremamente cansada e deprimida depois daquela última semana de provas e seminários. Se eu bem me lembrava, ela até havia esquecido o que ia falar no meio de uma apresentação.
Que terror para um estudante precisando de nota.
Mas eu sabia que ia ficar tudo bem, afinal, eu li o livro. He he.
O dia passou rápido e logo me vi olhando para o teto e dando um sorrisinho, feliz por não ter que fazer nada. Obviamente aquela felicidade que eu estava sentindo vinha toda de Ayla. Mas ela também havia falado com Seojun, seu ex-namorado e melhor amigo, então supus que estava feliz por isso também.
Seojun era um ator consideravelmente famoso e havia sido o primeiro e único namorado de Ayla, antes dela se envolver com Dean. Ele era sete anos mais velho, e um amor de pessoa. Também era o protagonista do segundo livro da série, e até hoje eu não havia encontrado nenhuma leitora da Kate que não gostasse desse homem. Era praticamente impossível não gostar dele quando o cara era extremamente gentil, cuidadoso e amoroso.
Tipo o .
Franzi o cenho, percebendo a similaridade com a personalidade dos dois. Embora Dean fosse inspirado em , havia muita coisa que meu namorado tinha em comum com Seojun, e eu só notei isso depois de conviver um pouquinho com ele.
Era como se fosse uma mistura dos dois. E não ironicamente, Dean e Seojun eram meus favoritos na série toda.
Embora eu gostasse do Yeong e do Sean também, os irmãos Lee, protagonistas dos livros quatro e cinco — os últimos da série — respectivamente. Eu não havia conhecido muito do Sean ainda, mas desde que ele apareceu em Perspicaz, o livro três, o idiota já me ganhou. Eu realmente tinha um probleminha com personagens em zona cinza porque Sean não era bem um mocinho habitual e tinha várias atitudes questionáveis, por mais que fossem divertidas também.
De todo modo, meu tipo ideal de cara se resumia a Dean e Seojun, então perceber que meu namorado era uma mistura dos dois fazia meu coração dar pulinhos de felicidade.
Ouvi a campainha tocar e me levantei para abrir a porta, dando de cara com Zico.
— Meu Deus. Se eu não soubesse que era você, eu morreria de susto, sinceramente — ele disse, fazendo uma careta assim que me viu.
Minha skin de Ayla ainda estava meio sem energia, então só perguntou o que ele queria.
Eu sabia muito bem o que Zico estava fazendo ali. Ele tinha ido me buscar para me levar ao clube em que ele, Dean e alguns amigos se apresentariam, e essa era a única coisa capaz de tirar Ayla de casa.
Depois dele me convencer, saí para me arrumar. Esperei minha skin continuar a agir no automático para se arrumar sozinha e depois de alguns segundos percebi que isso não ia acontecer. Suspirei e tirei a roupa que eu vestia, procurando algo confortável para a noite e... Espera aí.
Arregalei os olhos, encarando meu próprio reflexo no espelho. Aquela era a primeira noite que Ayla e Dean também passariam juntos e... Que lingerie feia ela estava usando.
Eu tinha a lembrança de algum protagonista de Kate zoando alguma calcinha estampada de uma mocinha, mas não fazia ideia de quem era. Nem se era daquela série. De todo modo, me recusei a usar uma calcinha branca de bolinhas vermelhas e um sutiã bege. Eu podia fazer bem melhor. Era a primeira noite deles, pelo amor de Deus.
Obviamente, Ayla não sabia daquilo, mas eu sim. E se o Dean era a cara do meu namorado, eu só tinha que aproveitar a situação. Ri sozinha, enquanto escolhia um conjunto de renda preto. Meu inconsciente só podia estar cheio de tensão sexual mesmo para me mandar de volta para o livro justo no dia em que Ayla e Dean dormiriam juntos pela primeira vez.
Ah, que sorte. Eu mal podia esperar por esse momento. Eu podia ter perdido o primeiro beijo, mas isso era bem melhor. Me senti como o próprio emoji roxo com chifrinhos sorrindo.
Terminei de me arrumar em alguns minutos e fiz apenas uma maquiagem leve para disfarçar minha cara de zumbi. Descobri que deu certo assim que encontrei Zico outra vez.
— Minha nossa — Zico colocou a mão na boca, fingindo espanto. — A maquiagem realmente faz milagres em você, Ayla. Sua cara de zumbi já era.
Minutos mais tarde, chegamos ao clube e Zico me apresentou a alguns outros amigos que também se apresentariam naquela noite.
Dean se ofereceu para buscar um refrigerante para mim e eu o observei de longe. Uma garota de vestido preto o parou quando ele estava voltando e eu os encarei, sabendo que ele a rejeitaria em breve. Como se sentisse meu olhar, ele levantou a cabeça, me encontrando no mesmo instante. Ayla teria desviado o olhar, fingindo que observava o local, mas quando ela não fez isso, percebi que eu estava no comando outra vez.
Geralmente era o que acontecia quando não havia diálogos ou descrições detalhadas.
Continuei encarando Dean e, como esperado, ele rejeitou as investidas da garota educadamente, antes de me encontrar outra vez. Ele se sentou ao meu lado em silêncio e deu um gole em seu copo de whisky, antes de se recostar no sofá que estávamos e levantar o quadril levemente para tirar algo do bolso.
Uma carteira de cigarros. Eu já sabia o que ia acontecer e não fiz nem questão de esperar Ayla dizer.
— Você não pode fumar comigo aqui.
— O quê? — Dean me encarou.
— Eu tenho alergia a tabaco, Dean. E estamos em ambiente fechado, por mais que seja um clube. Você não quer me ver tendo uma crise de tosse e falta de ar, né? E eu odeio o cheiro disso.
Não era bem isso que Ayla dizia para ele, mas eu resolvi improvisar.
Dean piscou duas vezes e então assentiu, voltando a guardar a carteira de cigarros.
Imediatamente agradeci mentalmente a por ter parado com aquela merda. Eu realmente odiava cigarros. E se meu namorado não pretendia largar o tabaco pela própria saúde, fiquei feliz em saber que ele tinha feito isso pela minha.
Depois de alguns minutos, os meninos foram para o palco se apresentar e eu me diverti assistindo. Até que chegou o momento crucial em que Dean cantou uma música sozinho.
"Eu vou te foder se você deixar..."
Um sorrisinho apareceu no meu rosto, sabendo que eu deixaria sim e de bom grado. Na verdade, eu estava contando os minutos para ir embora. Já que eu não estava aproveitando na vida real, então eu o faria ali, em sua skin de Dean.
Eu tinha uma queda pela voz de . Foi o que me chamou atenção primeiro, antes mesmo de conhecer seu rosto. E no corpo de Ayla, eu sentia como ela também gostava da voz de Dean. Nós ainda éramos e em um universo diferente, e eu não tinha do que reclamar.
Quando Dean voltou para onde eu estava, nós assistimos uma batalha underground de rap que rolava no palco e tivemos um diálogo automático. Fui uma mera expectadora naquele momento, mas me senti animada por dentro mesmo assim.
Dean perguntou por que Ayla não estava animada durante a apresentação dele e ela deu uma desculpa esfarrapada de que era porque o conhecia. Ele retrucou dizendo que ela havia gritado quando Zico se apresentou e Ayla rebateu falando que Zico não estava cantando "eu vou te foder se você deixar”, mas que teria sido diferente se ela não o conhecesse ou soubesse que não o veria mais. Eu sabia que ela agiria como uma maluca se não fosse por isso.
E acho que Dean também, porque ele apoiou a mão do outro lado da grade da varanda onde estavam, encurralando Ayla. Minha skin se encolheu involuntariamente e eu sorri por dentro. Quem nos visse, pensaria que estávamos abraçados, mas Dean apenas se inclinou para falar em meu ouvido:
— Nesse caso, eu gostaria que você não me conhecesse — ele murmurou, a voz rouca me fazendo arrepiar. Ai, ... Por que você tinha que ser tão bonito e provocante?
Senti um frio na barriga e meu coração acelerou.
— O quê? Por quê? — perguntei, rindo sem graça, olhando para o palco. Dean riu baixinho, antes de se inclinar novamente.
— Porque eu adoraria te ouvir gritando meu nome.
Minha nossa. Que Deus tivesse piedade de Ayla e de mim, porque certamente aquele homem não tinha.
Depois de mais alguns minutos divididos entre diálogos inocentes e mais provocações de Dean, eu (Ayla) anunciei que queria ir para casa e praticamente decretei que ele me levasse embora.
Eu sabia que Ayla dirigia para casa mesmo sabendo que Dean não estava bêbado, mas não me importei. Eu não estava com vontade de dirigir e fiquei feliz quando aquele diálogo não ocorreu. Eu iria tranquilamente no banco de carona e se Dean fosse parado e multado por beber uma dose de whisky, então azar o dele.
Como eu ainda precisava de uma desculpa que o fizesse subir até meu apartamento, falei que daria um pouco de água para ele quando chegássemos com a justificativa de que não o vi tomando nada.
Funcionou. Era melhor do que obrigá-lo a tomar café à noite. Desculpa, Kate.
No entanto, mais um diálogo automático veio e, de repente, Ayla e Dean estavam discutindo e indiretamente mencionando o beijo que ambos passaram um mês fingindo que não havia acontecido. Eu sabia que eles iam começar a se pegar a qualquer momento, então apenas esperei pacientemente enquanto me divertia com a mini discussão cheia de tensão sexual dos dois.
E quando Dean se aproximou no meio da discussão e colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, eu já sabia o que ia acontecer.
— Dean... O que você tá fazendo? — perguntei, sentindo o coração bater na garganta.
Dean me olhou nos olhos e sorriu, roçando o nariz no meu.
— Beijando você — respondeu, antes de me puxar para si, juntando nossos lábios.
Gemi contra sua boca, lembrando da primeira e única vez que beijei , ainda no hospital, e como tinha sido completamente inocente comparado àquele beijo. No próximo instante, estávamos no sofá e eu suspirei baixinho quando Dean levou os lábios até meu pescoço.
— Dean... — o chamei quando ele pressionou nossos corpos, me fazendo gemer com a fricção.
— Eu adoro quando você diz meu nome, Ayla...
Filho da puta. Me seduzindo e sabendo que estava obtendo sucesso. Eu que não iria reclamar.
— Eu vou te foder se você deixar, amor... — ele cantarolou baixinho no meu ouvido, alguns instantes depois.
Quando chegou o momento em que nos movemos até o quarto e Dean me jogou na cama, eu achei que finalmente ia ter um momento de sucesso naquele livro. A hora havia chegado e eu estava mais do que feliz por aquele sonho ser tão real. Começamos a nos livrar das primeiras peças de roupas e então, do completo e absoluto nada...
Eu acordei.
No quarto de hóspedes do apartamento que dividia com . Ri como uma maníaca, irritada para um caralho. Me sentei na cama e soquei o travesseiro, odiando ter acordado naquele momento. Eu estava excitada e agora sexualmente frustrada por causa de um maldito sonho.
Que ódio.
Respirei fundo por alguns segundos, e então decidi me recompor e parar de dar uma de doida. Peguei meu celular e vi que eram oito da manhã. Normalmente eu vinha acordando depois de oito e meia, mas de jeito nenhum eu conseguiria voltar a dormir depois daquela pataquada de sonho.
Decidi agir como uma mulher madura de vinte e oito anos e me dirigi ao banheiro para tomar banho e escovar os dentes. Banho quente, porque de jeito nenhum eu tomaria um frio. Eu podia estar sexualmente frustrada, mas ainda odiava água fria.
Depois de uns dez minutos, vesti um vestidinho azul solto e fui até a cozinha para preparar o café da manhã, enquanto tentava me forçar a esquecer meu momento interrompido com Dean.
Infelizmente, não tive muito sucesso.
Porque quando cheguei na cozinha, a primeira coisa que notei foi , cozinhando sem camisa. E como se notasse minha presença, ele se virou naquele momento, revelando um tronco musculoso e bem construído, com ombros fortes, e músculos na medida, do jeitinho que eu gostava.
Eu ainda não o tinha visto sem camisa nenhuma vez; estava sempre vestido. E certamente eu não lembrava ainda de não vê-lo com roupas.
Assim, meu queixo quase caiu e eu teria sorrido se ainda não estivesse com tanto tesão por ele. O universo definitivamente não estava cooperando ao colocar meu então namorado real semi nu na minha frente. Só podia ser algum tipo de teste de resistência.
— Bom dia. Você acordou mais cedo hoje... — comentou, meio sem jeito, provavelmente se dando conta de que havia sido pego em flagrante sem roupas apropriadas.
Como se eu fosse reclamar disso.
— Bom dia... — respondi, meio distraída, observando ele colocar a comida em um prato.
— Fiz café da manhã pra gente, você quer torradas com ovos mexidos ou geleia? — perguntou, mas honestamente, eu mal ouvi. — ? O que quer comer? — ele reforçou, quando não respondi.
Respirei fundo uma vez, ainda o encarando em silêncio, até que meu cérebro com defeito de filtragem mais uma vez falou por mim:
— Você.
piscou levemente confuso, mas antes que pudesse perguntar algo, eu andei até ele em passos determinados e pulei em seus braços. Instintivamente, ele me segurou e agradeci mentalmente por suas mãos estarem desocupadas ou teríamos feito uma bagunça.
— ? O que-
— Você. Quero comer você, .
E então o beijei.
Se o universo não estava cooperando comigo e minha decisão de me manter comportada, então eu ia aceitar o que ele estava me oferecendo de bom grado.
Eu não tinha ideia de qual parte da história eu tinha ido parar, até descobrir que era o último dia de obrigações acadêmicas de Ayla. Isso meio que explicava por que eu estava me sentindo como uma zumbi o dia todo. Além de não dormir direito, ela estava à beira de ter um colapso nervoso, o que meio que aconteceu depois que ela se livrou de tudo.
Minha skin de Ayla encontrou com Zico e Dean e caiu no choro nos braços de Zico, coitado. Ele nem sabia o que fazer, e eu duvidava muito que Dean soubesse. No entanto, os dois murmuram palavras de consolo para ela. Ver Dean novamente era animador, mas minha skin de Ayla estava extremamente cansada e deprimida depois daquela última semana de provas e seminários. Se eu bem me lembrava, ela até havia esquecido o que ia falar no meio de uma apresentação.
Que terror para um estudante precisando de nota.
Mas eu sabia que ia ficar tudo bem, afinal, eu li o livro. He he.
O dia passou rápido e logo me vi olhando para o teto e dando um sorrisinho, feliz por não ter que fazer nada. Obviamente aquela felicidade que eu estava sentindo vinha toda de Ayla. Mas ela também havia falado com Seojun, seu ex-namorado e melhor amigo, então supus que estava feliz por isso também.
Seojun era um ator consideravelmente famoso e havia sido o primeiro e único namorado de Ayla, antes dela se envolver com Dean. Ele era sete anos mais velho, e um amor de pessoa. Também era o protagonista do segundo livro da série, e até hoje eu não havia encontrado nenhuma leitora da Kate que não gostasse desse homem. Era praticamente impossível não gostar dele quando o cara era extremamente gentil, cuidadoso e amoroso.
Tipo o .
Franzi o cenho, percebendo a similaridade com a personalidade dos dois. Embora Dean fosse inspirado em , havia muita coisa que meu namorado tinha em comum com Seojun, e eu só notei isso depois de conviver um pouquinho com ele.
Era como se fosse uma mistura dos dois. E não ironicamente, Dean e Seojun eram meus favoritos na série toda.
Embora eu gostasse do Yeong e do Sean também, os irmãos Lee, protagonistas dos livros quatro e cinco — os últimos da série — respectivamente. Eu não havia conhecido muito do Sean ainda, mas desde que ele apareceu em Perspicaz, o livro três, o idiota já me ganhou. Eu realmente tinha um probleminha com personagens em zona cinza porque Sean não era bem um mocinho habitual e tinha várias atitudes questionáveis, por mais que fossem divertidas também.
De todo modo, meu tipo ideal de cara se resumia a Dean e Seojun, então perceber que meu namorado era uma mistura dos dois fazia meu coração dar pulinhos de felicidade.
Ouvi a campainha tocar e me levantei para abrir a porta, dando de cara com Zico.
— Meu Deus. Se eu não soubesse que era você, eu morreria de susto, sinceramente — ele disse, fazendo uma careta assim que me viu.
Minha skin de Ayla ainda estava meio sem energia, então só perguntou o que ele queria.
Eu sabia muito bem o que Zico estava fazendo ali. Ele tinha ido me buscar para me levar ao clube em que ele, Dean e alguns amigos se apresentariam, e essa era a única coisa capaz de tirar Ayla de casa.
Depois dele me convencer, saí para me arrumar. Esperei minha skin continuar a agir no automático para se arrumar sozinha e depois de alguns segundos percebi que isso não ia acontecer. Suspirei e tirei a roupa que eu vestia, procurando algo confortável para a noite e... Espera aí.
Arregalei os olhos, encarando meu próprio reflexo no espelho. Aquela era a primeira noite que Ayla e Dean também passariam juntos e... Que lingerie feia ela estava usando.
Eu tinha a lembrança de algum protagonista de Kate zoando alguma calcinha estampada de uma mocinha, mas não fazia ideia de quem era. Nem se era daquela série. De todo modo, me recusei a usar uma calcinha branca de bolinhas vermelhas e um sutiã bege. Eu podia fazer bem melhor. Era a primeira noite deles, pelo amor de Deus.
Obviamente, Ayla não sabia daquilo, mas eu sim. E se o Dean era a cara do meu namorado, eu só tinha que aproveitar a situação. Ri sozinha, enquanto escolhia um conjunto de renda preto. Meu inconsciente só podia estar cheio de tensão sexual mesmo para me mandar de volta para o livro justo no dia em que Ayla e Dean dormiriam juntos pela primeira vez.
Ah, que sorte. Eu mal podia esperar por esse momento. Eu podia ter perdido o primeiro beijo, mas isso era bem melhor. Me senti como o próprio emoji roxo com chifrinhos sorrindo.
Terminei de me arrumar em alguns minutos e fiz apenas uma maquiagem leve para disfarçar minha cara de zumbi. Descobri que deu certo assim que encontrei Zico outra vez.
— Minha nossa — Zico colocou a mão na boca, fingindo espanto. — A maquiagem realmente faz milagres em você, Ayla. Sua cara de zumbi já era.
Minutos mais tarde, chegamos ao clube e Zico me apresentou a alguns outros amigos que também se apresentariam naquela noite.
Dean se ofereceu para buscar um refrigerante para mim e eu o observei de longe. Uma garota de vestido preto o parou quando ele estava voltando e eu os encarei, sabendo que ele a rejeitaria em breve. Como se sentisse meu olhar, ele levantou a cabeça, me encontrando no mesmo instante. Ayla teria desviado o olhar, fingindo que observava o local, mas quando ela não fez isso, percebi que eu estava no comando outra vez.
Geralmente era o que acontecia quando não havia diálogos ou descrições detalhadas.
Continuei encarando Dean e, como esperado, ele rejeitou as investidas da garota educadamente, antes de me encontrar outra vez. Ele se sentou ao meu lado em silêncio e deu um gole em seu copo de whisky, antes de se recostar no sofá que estávamos e levantar o quadril levemente para tirar algo do bolso.
Uma carteira de cigarros. Eu já sabia o que ia acontecer e não fiz nem questão de esperar Ayla dizer.
— Você não pode fumar comigo aqui.
— O quê? — Dean me encarou.
— Eu tenho alergia a tabaco, Dean. E estamos em ambiente fechado, por mais que seja um clube. Você não quer me ver tendo uma crise de tosse e falta de ar, né? E eu odeio o cheiro disso.
Não era bem isso que Ayla dizia para ele, mas eu resolvi improvisar.
Dean piscou duas vezes e então assentiu, voltando a guardar a carteira de cigarros.
Imediatamente agradeci mentalmente a por ter parado com aquela merda. Eu realmente odiava cigarros. E se meu namorado não pretendia largar o tabaco pela própria saúde, fiquei feliz em saber que ele tinha feito isso pela minha.
Depois de alguns minutos, os meninos foram para o palco se apresentar e eu me diverti assistindo. Até que chegou o momento crucial em que Dean cantou uma música sozinho.
"Eu vou te foder se você deixar..."
Um sorrisinho apareceu no meu rosto, sabendo que eu deixaria sim e de bom grado. Na verdade, eu estava contando os minutos para ir embora. Já que eu não estava aproveitando na vida real, então eu o faria ali, em sua skin de Dean.
Eu tinha uma queda pela voz de . Foi o que me chamou atenção primeiro, antes mesmo de conhecer seu rosto. E no corpo de Ayla, eu sentia como ela também gostava da voz de Dean. Nós ainda éramos e em um universo diferente, e eu não tinha do que reclamar.
Quando Dean voltou para onde eu estava, nós assistimos uma batalha underground de rap que rolava no palco e tivemos um diálogo automático. Fui uma mera expectadora naquele momento, mas me senti animada por dentro mesmo assim.
Dean perguntou por que Ayla não estava animada durante a apresentação dele e ela deu uma desculpa esfarrapada de que era porque o conhecia. Ele retrucou dizendo que ela havia gritado quando Zico se apresentou e Ayla rebateu falando que Zico não estava cantando "eu vou te foder se você deixar”, mas que teria sido diferente se ela não o conhecesse ou soubesse que não o veria mais. Eu sabia que ela agiria como uma maluca se não fosse por isso.
E acho que Dean também, porque ele apoiou a mão do outro lado da grade da varanda onde estavam, encurralando Ayla. Minha skin se encolheu involuntariamente e eu sorri por dentro. Quem nos visse, pensaria que estávamos abraçados, mas Dean apenas se inclinou para falar em meu ouvido:
— Nesse caso, eu gostaria que você não me conhecesse — ele murmurou, a voz rouca me fazendo arrepiar. Ai, ... Por que você tinha que ser tão bonito e provocante?
Senti um frio na barriga e meu coração acelerou.
— O quê? Por quê? — perguntei, rindo sem graça, olhando para o palco. Dean riu baixinho, antes de se inclinar novamente.
— Porque eu adoraria te ouvir gritando meu nome.
Minha nossa. Que Deus tivesse piedade de Ayla e de mim, porque certamente aquele homem não tinha.
Depois de mais alguns minutos divididos entre diálogos inocentes e mais provocações de Dean, eu (Ayla) anunciei que queria ir para casa e praticamente decretei que ele me levasse embora.
Eu sabia que Ayla dirigia para casa mesmo sabendo que Dean não estava bêbado, mas não me importei. Eu não estava com vontade de dirigir e fiquei feliz quando aquele diálogo não ocorreu. Eu iria tranquilamente no banco de carona e se Dean fosse parado e multado por beber uma dose de whisky, então azar o dele.
Como eu ainda precisava de uma desculpa que o fizesse subir até meu apartamento, falei que daria um pouco de água para ele quando chegássemos com a justificativa de que não o vi tomando nada.
Funcionou. Era melhor do que obrigá-lo a tomar café à noite. Desculpa, Kate.
No entanto, mais um diálogo automático veio e, de repente, Ayla e Dean estavam discutindo e indiretamente mencionando o beijo que ambos passaram um mês fingindo que não havia acontecido. Eu sabia que eles iam começar a se pegar a qualquer momento, então apenas esperei pacientemente enquanto me divertia com a mini discussão cheia de tensão sexual dos dois.
E quando Dean se aproximou no meio da discussão e colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, eu já sabia o que ia acontecer.
— Dean... O que você tá fazendo? — perguntei, sentindo o coração bater na garganta.
Dean me olhou nos olhos e sorriu, roçando o nariz no meu.
— Beijando você — respondeu, antes de me puxar para si, juntando nossos lábios.
Gemi contra sua boca, lembrando da primeira e única vez que beijei , ainda no hospital, e como tinha sido completamente inocente comparado àquele beijo. No próximo instante, estávamos no sofá e eu suspirei baixinho quando Dean levou os lábios até meu pescoço.
— Dean... — o chamei quando ele pressionou nossos corpos, me fazendo gemer com a fricção.
— Eu adoro quando você diz meu nome, Ayla...
Filho da puta. Me seduzindo e sabendo que estava obtendo sucesso. Eu que não iria reclamar.
— Eu vou te foder se você deixar, amor... — ele cantarolou baixinho no meu ouvido, alguns instantes depois.
Quando chegou o momento em que nos movemos até o quarto e Dean me jogou na cama, eu achei que finalmente ia ter um momento de sucesso naquele livro. A hora havia chegado e eu estava mais do que feliz por aquele sonho ser tão real. Começamos a nos livrar das primeiras peças de roupas e então, do completo e absoluto nada...
Eu acordei.
No quarto de hóspedes do apartamento que dividia com . Ri como uma maníaca, irritada para um caralho. Me sentei na cama e soquei o travesseiro, odiando ter acordado naquele momento. Eu estava excitada e agora sexualmente frustrada por causa de um maldito sonho.
Que ódio.
Respirei fundo por alguns segundos, e então decidi me recompor e parar de dar uma de doida. Peguei meu celular e vi que eram oito da manhã. Normalmente eu vinha acordando depois de oito e meia, mas de jeito nenhum eu conseguiria voltar a dormir depois daquela pataquada de sonho.
Decidi agir como uma mulher madura de vinte e oito anos e me dirigi ao banheiro para tomar banho e escovar os dentes. Banho quente, porque de jeito nenhum eu tomaria um frio. Eu podia estar sexualmente frustrada, mas ainda odiava água fria.
Depois de uns dez minutos, vesti um vestidinho azul solto e fui até a cozinha para preparar o café da manhã, enquanto tentava me forçar a esquecer meu momento interrompido com Dean.
Infelizmente, não tive muito sucesso.
Porque quando cheguei na cozinha, a primeira coisa que notei foi , cozinhando sem camisa. E como se notasse minha presença, ele se virou naquele momento, revelando um tronco musculoso e bem construído, com ombros fortes, e músculos na medida, do jeitinho que eu gostava.
Eu ainda não o tinha visto sem camisa nenhuma vez; estava sempre vestido. E certamente eu não lembrava ainda de não vê-lo com roupas.
Assim, meu queixo quase caiu e eu teria sorrido se ainda não estivesse com tanto tesão por ele. O universo definitivamente não estava cooperando ao colocar meu então namorado real semi nu na minha frente. Só podia ser algum tipo de teste de resistência.
— Bom dia. Você acordou mais cedo hoje... — comentou, meio sem jeito, provavelmente se dando conta de que havia sido pego em flagrante sem roupas apropriadas.
Como se eu fosse reclamar disso.
— Bom dia... — respondi, meio distraída, observando ele colocar a comida em um prato.
— Fiz café da manhã pra gente, você quer torradas com ovos mexidos ou geleia? — perguntou, mas honestamente, eu mal ouvi. — ? O que quer comer? — ele reforçou, quando não respondi.
Respirei fundo uma vez, ainda o encarando em silêncio, até que meu cérebro com defeito de filtragem mais uma vez falou por mim:
— Você.
piscou levemente confuso, mas antes que pudesse perguntar algo, eu andei até ele em passos determinados e pulei em seus braços. Instintivamente, ele me segurou e agradeci mentalmente por suas mãos estarem desocupadas ou teríamos feito uma bagunça.
— ? O que-
— Você. Quero comer você, .
E então o beijei.
Se o universo não estava cooperando comigo e minha decisão de me manter comportada, então eu ia aceitar o que ele estava me oferecendo de bom grado.
Capítulo 9
correspondeu meu beijo sem hesitar.
No instante em que nossos lábios se tocaram, ele me acolheu em seus braços como se eu não tivesse parecido uma maluca me jogando contra ele. Ou pior, como se fosse natural eu fazer isso. Será que eu fazia?
me apoiou na bancada ao lado da pia e envolveu meu rosto com uma mão, aprofundando nosso beijo; a outra, foi direto para a minha bunda, por baixo do vestido e ele apertou com força, pressionando o corpo contra o meu. Gemi contra o beijo e arranhei suas costas levemente, usando as pernas para puxar ele para mais perto, se é que era possível. A questão era que eu queria me fundir a ele e sentia uma necessidade quase dolorosa de tê-lo dentro de mim. Cheguei à conclusão de que meu corpo só podia amar o corpo dele, o que me fazia agir por puro instinto.
Ele partiu nosso beijo para levar a boca ao meu pescoço e usou uma das mãos para abaixar uma das alças do meu vestido, expondo meu ombro. Arfei, ofegante e sentindo a pele arrepiar, mas eu também queria muito tocá-lo. Então empurrei sua cabeça de leve e levei meus lábios até seu pescoço, raspando os dentes de leve pela tatuagem enorme ali. A pele dele se arrepiou e eu sorri quando ele exalou o ar de uma vez.
— ...
Continuei a beijá-lo e puxei o lóbulo de sua orelha, fazendo-o se contrair com cócegas. Eu ri baixinho e ele juntou nossos lábios mais uma vez, as duas mãos sob o meu vestido. Senti ele enganchar os dedos de cada lado da minha calcinha e em um puxão forte e repentino, o tecido se partiu. Quebrei o beijo, surpresa, e sorri quando ele se inclinou mais para frente, baixando a outra alça do meu vestido e então puxando o tecido para baixo, expondo meus seios. Estremeci quando sua boca os tocou e suspirei baixinho, ofegante, me sentindo extremamente sensível em todos os lugares. me beijou e beijou, e eu comecei a perder a noção do tempo.
Então ele se afastou e me encarou por um instante, roçando a boca na minha, sem realmente me beijar. Me perdi na escuridão de seus olhos até que se distanciou outra vez, se inclinando para baixo e abriu minhas pernas, me expondo completamente para ele.
Àquela altura, o tecido do meu vestido estava embolado na minha cintura, meus seios ainda expostos. Eu estava uma bagunça, mas tudo o que eu conseguia pensar era no toque dele.
E como se soubesse exatamente disso, me deu o menor dos sorrisos e então caiu de boca em mim, me devorando como um homem faminto. Gemi, surpresa, e automaticamente levei uma mão ao cabelo dele, desesperada para me segurar em algo. Era como se a qualquer momento eu fosse cair de um precipício e era ele quem estava me empurrando aos poucos. usou sua boca em mim como se soubesse exatamente como me tocar e, em um milissegundo, me dei conta de que ele devia mesmo saber.
Me contorci contra sua boca, sem sentir um pingo de vergonha, e então senti ele deslizar dois dedos dentro de mim, aumentando o estímulo. Me apertei ao redor deles, sentindo a tensão em meu corpo crescer. O precipício estava bem ali e quando cheguei à beira dele, me empurrou sem aviso. Estremeci violentamente contra sua boca e, por um momento, minha visão escureceu e tive um flash de memória de nós dois naquele mesmo lugar, em outra ocasião.
se afastou um momento depois e eu o encarei com os olhos pesados, enquanto ele limpava o canto da boca com o polegar, sem tirar os olhos de mim. Eu estava completamente mole e com o corpo quente, e ele tinha um sorriso satisfeito no rosto, beirando à prepotência.
O idiota sabia o que tinha feito comigo. Ele sabia que tinha me desmantelado toda e, por alguns segundos, só consegui encará-lo enquanto recuperava o fôlego. Quando isso aconteceu, me inclinei para frente e juntei nossos lábios mais uma vez, percorrendo seu abdômen com as mãos até o cós de seu short.
Enfiei minha mão ali e senti sua excitação pela cueca boxer que ele usava. Pressionei um pouquinho e gemeu contra minha boca. Fui envolvida por uma repentina satisfação ao perceber como eu o afetava também e tudo o que eu conseguia pensar era: minha vez.
Brinquei um pouquinho com o elástico de sua roupa íntima e então, quando eu estava prestes a enfiar uma mão ali, a campainha tocou.
se separou de mim no mesmo instante e me encarou por alguns segundos. A campainha tocou novamente e ele virou a cabeça.
— Merda... A encomenda.
— O que foi? — eu quis saber.
— Eu volto já. Fica aqui.
Assenti e o observei se afastar para atender a porta. Desci da bancada e ajeitei meu vestido rapidamente, com receio de algum visitante inesperado surgir. Avistei minha calcinha no chão e senti o rosto esquentar, um sorriso levantando meus lábios.
Isso de partir calcinhas... Eu achava que só existia nos livros. Não esperava vivenciar esse tipo de fantasia feminina, mas era quente demais. Peguei o agora pedaço de tecido e aproveitei que estava ocupado para ir ao banheiro me limpar e me recompor propriamente, para ficar apresentável mais uma vez.
Encarei meu reflexo ainda corado no espelho e sorri para mim mesma.
De repente, me perguntei quantas calcinhas minhas já tinha rasgado. Ainda bem que eu não tinha nenhum apego emocional a roupas íntimas, porque aquela era bonita.
Descanse em paz, calcinha, pensei ao jogar ela no cesto de lixo do banheiro.
Voltei para a cozinha a tempo de ouvir falando com alguém, enquanto voltava para dentro de casa.
— Obrigado, Sr. . Tenha um bom dia — uma voz masculina disse.
— Você também, Levi. Até mais.
reapareceu carregando uma caixa grande que colocou em cima da bancada e então se moveu ao redor para esquentar novamente o café da manhã. De repente, percebi que nosso momento havia passado. perguntou novamente se eu queria ovos mexidos e assenti, enquanto ele começava a se mover ao redor da cozinha para preparar, como se há menos de dez minutos não estivesse com a boca em mim.
— O que é isso? — Apontei para a caixa. Por que aquele entregador tinha que aparecer justo naquela hora?
— Compras de supermercado. Eu comprei online e pedi pra entregarem aqui.
— Aqui e não na portaria? Eu não sabia que podia.
— Eu pago a mais por isso. — Ele deu de ombros. — E sempre dou uma boa gorjeta ao entregador. Não gosto de ficar indo e vindo, o condomínio é grande.
Nossa, ser rico devia ser muito bom mesmo.
Eu também tinha uma quantia razoável de dinheiro na minha conta, mas nunca pensei naquilo.
— Eu faço isso também? Compras online de supermercado?
— Sim, mas você gosta de ir pessoalmente também. Às vezes, eu vou com você, mas não é muito frequente porque tento não ser reconhecido por aí.
— Entendi.
colocou a comida na bancada e nos sentamos juntos.
Comemos por alguns minutos em silêncio, até que ele começou a falar.
— Sabe... Fiquei surpreso por você me beijar de repente.
— Sério mesmo que não esperava que eu fosse pular em cima de você que nem uma maluca? Você não parecia surpreso.
— Na hora eu não pensei, só agi — ele respondeu, contendo um sorriso. — Além disso, não foi nada fora do normal. Tirando o fato de que você não se lembra de mim como seu parceiro.
— Então é normal eu dar uma de doida?
— Amor, eu adoro quando você dá uma de doida. — Ele sorriu como um idiota, e eu pisquei algumas vezes.
— Por que você se apaixonou por mim mesmo? Eu não sou tão interessante. Na verdade, minha vida é até chata comparada a sua. Eu sou chata. E frequentemente tenho pensamentos politicamente incorretos que me cancelariam.
— Eu também. Mas a gente se ama mesmo assim. Além de parceira, você é minha melhor amiga, . Só não lembra ainda — ele comentou, se levantando para deixar a louça na pia.
Em seguida, foi até a caixa que recebeu e começou a retirar as compras de dentro. Levantei também e fui ajudar a organizar tudo para guardar.
— Tenho a impressão de que você viu todos os meus lados nos últimos anos. E me sinto à vontade ao seu redor como nunca estive com ninguém — confessei, de repente.
me encarou com um sorriso de canto e continuou a trabalhar nas compras.
— Você tá certa. Eu conheço a fã de , a que é leitora voraz, que ri como uma menininha ao ler uma cena romântica e fofa, mas que também lê vários livros questionáveis... Até a estressada, quando algo dá errado ou simplesmente te irrita, porque você não é tão paciente assim... E a que faz de tudo pra ajudar a todos como puder. Você se esforça pra ser compreensiva, mesmo quando algo te chateia, até mesmo comigo. Eu conheço todas as suas alergias, manias e gostos e te acho fascinante, amor, por mais que você pense que não é.
Seria possível me apaixonar mais ainda? As lembranças com estavam nubladas por uma névoa espessa em minha mente, mas os sentimentos não. Eu sabia que eles eram reais. E descobrir um pouquinho mais sobre a gente me fazia até ficar assustada por imaginar o tanto que eu o amava. Além disso, fazia eu me sentir amada também. A cada ato gentil, cuidadoso e amoroso dele. Por mais que parecesse novidade para mim, todos os meus amigos pareciam estar habituados a ele agindo assim em torno de mim.
Era como se nós orbitássemos um ao redor do outro.
— Às vezes eu acho que isso tudo é um sonho e vou me decepcionar quando acordar — admiti, sentindo os olhos arderem subitamente.
— Não é um sonho, . É assim que nós somos — disse, parando o que estava fazendo para se virar para mim. Ele segurou minhas mãos e as levou aos lábios, beijando meus dedos carinhosamente. Nossas alianças de compromisso brilharam contra a luz. — Acho que o universo quis assim. Você sempre disse que parece que somos predestinados, e eu concordo. Acho que estávamos fadados a acontecer. E eu amo cada pedacinho seu.
Meus olhos embaçaram com lágrimas enquanto o encarava.
— Eu também... — confessei. — Mesmo não lembrando de nada ainda e mesmo com medo de não lembrar algum dia, ... Eu simplesmente sei que te amo. Você é único pra mim tal qual o Pequeno Príncipe era único para a rosa.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e ele secou carinhosamente.
— E você era uma em um milhão, mas agora é minha e é isso que te torna diferente de todas as outras. — Ele sorriu, encostando a testa na minha. — Você é a minha rosa, amor.
Eu ri baixinho, e lágrimas grossas escorreram pelo meu rosto.
— Eu não quero mais abafar esses sentimentos com medo de ficar estranho entre a gente — declarei. — Não quero que você fique pisando em ovos comigo, achando que vou me assustar ou algo assim, pelo fato de eu não lembrar. Eu quero tocar você e quero que me toque. Se você é meu, então eu sou sua também, . — Acariciei seu rosto. Ele me encarou com os olhos brilhantes também e um par de lágrimas escapou deles.
As enxuguei com os polegares, assim como ele fez comigo, e se inclinou, selando nossos lábios por um breve momento antes de me envolver em um abraço forte e acolhedor. Ficamos assim por alguns minutos até que o celular dele tocou e ele se afastou para atender.
— É o nosso personal trainer. Eu meio que me atrasei. — Ele me encarou e eu ri, sentindo o rosto esquentar, sabendo exatamente o motivo de seu atraso.
falou com o cara por alguns instantes e de repente um nome me veio em mente.
Quando ele desligou, eu perguntei:
— Por acaso, nosso personal trainer se chama John Kim?
— Sim... Sim, é ele. Você lembrou disso, ?
— Não sei... De repente, esse nome me veio em mente. — Dei de ombros. — E teve outra coisa, quando nós estávamos... — Olhei para a bancada ao lado da pia e voltei a encará-lo. — Nós fizemos aquilo outras vezes, naquele lugar? Me veio um flash de memória na hora, mas foi muito rápido.
— Amor... — sorriu, malicioso. — Nós fizemos várias coisas em todos os cômodos desse apartamento. Então é bem provável que tenha sido real.
— Ah... Isso é bom então, né? Meio que é um progresso. Bem pequeno, mas...
— Isso é ótimo, amor. Me diga sempre que lembrar de qualquer coisa, vou tentar te ajudar como puder.
— Tudo bem. — Assenti. — Você tá atrasado. Vai logo e deixa que eu guardo as compras.
— Vou dizer a John que você vai voltar pra academia segunda-feira. O médico disse que era importante você fazer exercícios.
— Que animador... Logo eu, que odeio.
riu, divertido.
— Mas é bom pra saúde, e é por isso que você faz. Vou pedir a John pra pegar leve com você.
Então ele selou nossos lábios uma última vez e partiu para buscar uma camisa que vestiu antes mesmo de chegar à porta. Um instante depois, ele se foi e eu voltei minha atenção para as compras, me perdendo em pensamentos mais uma vez.
Capítulo 10
Depois de uma hora e meia depois de sair para a academia, eu já tinha guardado as compras, tomado banho, lavado a louça e agora estava acomodada no meu sofá enorme e fofinho, rodeada de almofadas e bebericando um copo grande de chá-preto gelado com limão, enquanto lia mais alguns capítulos de Oblíquo, que eu havia recebido naquela manhã.
Eu não cuidava somente da agenda de Kate, mas também atuava como sua primeira leitora beta e estar dentro do processo criativo dela era algo que eu fazia desde sempre e amava.
Aquele era o último livro da série que ela vinha publicando desde 2019 e estava previsto para ser lançado no próximo ano. Saber que estava acabando me dava uma sensação agridoce e às vezes me fazia economizar capítulos por não querer me despedir da série.
Kate costumava usar um pseudônimo em seus livros e isso não tinha mudado, mas antes ninguém sabia seu verdadeiro nome. Até mesmo os autógrafos de livros eram feitos na editora ou na casa dela durante a pré-venda, e os leitores passaram alguns anos sem ter noção de quem ela era, até Kate decidir largar seu emprego de enfermeira, que àquela altura era mais um hobby, e revelar sua verdadeira identidade.
Ela também era a única pessoa que eu conhecia que teria como hobby algo que envolvia pessoas em risco de morte. Eu nunca entendi isso, mas ainda era a profissão de formação dela. Só que falando por mim, se eu fosse Kate, eu nunca pisaria em um hospital se ganhasse dinheiro trabalhando em casa. E não era pouco dinheiro. Kate era uma autora bestseller.
E eu tive muita sorte de trabalhar com ela. Comecei como uma mera estagiária na editora, depois de passar meses fazendo freelancer enquanto eu procurava um emprego estável. Felizmente, o meu portfólio de freelancer interessou Andrew e ele resolveu me dar uma chance sem ao menos me conhecer pessoalmente.
Isso foi em 2016.
Fui treinada pessoalmente por ele e fiz diversas coisas como estagiária na editora. Eu sabia um pouquinho de tudo, mas às vezes era cansativo. No entanto, o esforço valeu a pena e quando Kate decidiu revelar sua identidade e solicitou uma agente, Andrew me ofereceu a vaga.
Eu meio que surtei por um momento, mas aceitei sem pestanejar. Era de Fleur de Colibri de quem estávamos falando. Uma autora grande, com milhares de leitores. De jeito nenhum eu ia deixar passar aquela chance, mesmo com medo de fracassar.
E foi a melhor coisa que fiz.
Kate era bem temperamental às vezes, e não era nem um pouquinho delicada quando estava fora de sua skin de enfermeira, mas nos dávamos incrivelmente bem. Andrew provavelmente percebeu que seríamos compatíveis antes mesmo de nós duas, e por isso me escolheu. Na época, minha relação com ele não era nada além de profissional e amigável como um bom chefe teria com seus funcionários. Ele e Dianna dividiam o posto de CEO e ambos eram incríveis.
Nunca conheci ninguém da editora que odiasse trabalhar lá e as poucas pessoas que vi se demitirem eram por motivos pessoais que envolviam família ou casamento. A maior parte dos funcionários era composta por mulheres e às vezes acontecia de largarem o emprego para se casar e serem sustentadas pelos seus maridos. Eu achava um tanto curioso e se o relacionamento era saudável, então devia ser legal, mas nunca me imaginei fazendo nada do tipo. Eu amava meu trabalho e era muito bem paga, obrigada.
e eu passamos alguns períodos apertados fazendo bicos e tentando juntar um pé de meia para emergências. Não tínhamos plano de saúde e ainda havia os empréstimos estudantis da faculdade.
Nunca passamos nenhuma necessidade durante esse tempo, mas também não podíamos nos dar ao luxo de fazer muitas coisas. Felizmente, isso melhorou um pouco depois que arrumou um emprego como professora e eu consegui o estágio na editora. Nessa época, ela ainda era a provedora principal da nossa casa, mas eu tentava ajudar o máximo que podia.
Quando me tornei agente de Kate, nossa vida melhorou consideravelmente. Meu salário aumentou e frequentemente eu recebia alguns bônus. Não demorou muito para que eu conseguisse quitar meus empréstimos estudantis e ajudar com o restante que faltava para ela. Nos mudamos para um apartamento melhor e os luxos que não podíamos ter passaram a fazer parte de nossa rotina.
O melhor de tudo era poder pedir comida ou ir a um restaurante sem se preocupar com o valor e, é claro, ter plano de saúde.
No entanto, a nossa evolução financeira não nos fez ficar irresponsáveis. Sabíamos muito bem o valor que o dinheiro tinha e como era não ter muito. Esse era um dos motivos pelo qual eu nunca pararia de trabalhar. Nem mesmo se me pedisse.
Quando comecei na editora, minha conta bancária tinha apenas cento e quarenta dólares que eu estava tentando fazer render enquanto não conseguia nenhum outro trabalho como freelancer. Esse número se transformou em alguns milhares de dólares depois de alguns meses como estagiária, e algumas centenas de milhares quando comecei a trabalhar com Kate.
Eu sempre seria grata a Andy por ter me escolhido. E era bom saber que ele acreditou na minha capacidade quando nem eu tinha certeza dela.
Acabamos nos aproximando um pouco mais desde então. Kate era muito próxima dele e de Dianna, e os três se encontravam com frequência. Como sua agente, eu precisava estar a par de tudo, então eu a seguia a cada compromisso de trabalho.
Andy me ajudou com dúvidas e a resolver coisas que eu ainda não tinha muita experiência. De chefe e funcionária, nos tornamos amigos. Meses depois, ele me convidou para sair, e uma coisa levou à outra. Namoramos por um ano e meio, até que tudo ficou morno.
Fui eu que terminei nosso relacionamento, porque eu sabia que Andrew não teria coragem. Ele não queria me magoar, mas eu era rápida em pegar os sinais. Passamos cerca de dois meses empurrando o nosso relacionamento com a barriga, até que eu percebi que um de nós precisava agir, e tinha que ser eu.
Não foi um término triste e não nos magoou. Tínhamos passado dezoito meses juntos, mas nossa amizade era mesmo mais forte que isso. Nunca nos tratamos com indiferença, e a única coisa que mudou foi a linha de limite imaginária que estabelecemos automaticamente entre nós.
Como não ir a encontros sozinhos e não nos beijarmos mais. Já abraços eram permitidos. Afinal, ainda tínhamos um carinho enorme um pelo outro. Ele tinha sido o cara com quem perdi minha virgindade e era um cavalheiro. De todo modo, Andy e eu éramos pessoas que também funcionavam muito bem sozinhas, sem a necessidade de estar sempre em um relacionamento. Ele estava solteiro desde então e eu... Bem, aparentemente conheci seis meses após nosso término.
E fui amarrada por ele desde a tal noite do meu flashback, noite essa que eu mal podia esperar para lembrar e saber como tinha sido conhecer o amor da minha vida. Porque era isso que era, como eu o intitulava desde que era apenas uma fã — o que para mim foi até poucos dias atrás.
No entanto, como fã, eu não ousava sonhar com algo real. Claro que eu tinha meus momentos delulu porque era divertido e aparentemente saudável, e toda fã tem. Mas na realidade mesmo, eu era bem pé no chão. No máximo, queria encontrá-lo pessoalmente para tirar uma foto e pegar um autógrafo. Mas meu peito se enchia de felicidade por saber que tínhamos ido bem mais longe que isso.
Terminei de beber meu chá com um barulho no canudo de metal no exato instante em que abriu a porta, já se livrando da camisa. Ele estava completamente suado e por mais que eu odiasse suor, aquela era uma visão e tanto.
— O que você tá bebendo? — Ele perguntou, enchendo um copo de água antes de colocar uma dose de whey protein e sacudir.
Eca.
— Chá-preto com limão. Quer que eu prepare pra você? — ofereci, mesmo vendo ele beber aquela nojeira.
negou com a cabeça.
— Talvez mais tarde. Você quer? — ele me ofereceu o shake. Coloquei um dedo na boca e fiz barulho de vômito. riu e rolou os olhos. — Não é tão ruim assim depois que você se acostuma.
— Tirando o fato de que nunca me acostumei. Me arranje um whey que não tenha gosto de nada e aí a gente conversa.
Ele riu de novo e então terminou de tomar A Nojeira de uma vez.
— Vou tomar banho — disse, já se afastando. — John mandou oi e falou pra você se preparar psicologicamente.
— Ei! Você disse que ia pedir pra ele pegar leve.
— E pedi. Mas eu não disse que ele ia concordar com isso. — Ele sorriu com malícia.
Fiz uma careta e mostrei o dedo do meio para ele.
— Vá se foder, .
— Só se você vier também, amor — ele retrucou, com a resposta na ponta da língua.
Rolei os olhos, o ignorando, e voltei a ler. Vinte minutos mais tarde, eu estava fatiando vegetais e a panela de arroz já funcionava a todo vapor, enquanto eu me ocupava com os preparativos de bibimbap. Senti uma súbita vontade de comer aquilo e não avisei . Eu nem sabia se ele gostava, mas se a culinária asiática era comum entre nós, então havia uma grande chance dele já ter comido.
Além disso, era muito prático. Eu só tinha que refogar vegetais, preparar um pouco de carne, e depois montar tudo em duas tigelas grandes. A versão clássica levava um ovo frito em cima também e molho agridoce feito com pimenta, ketchup e mel como base. Era possível acrescentar alguns temperos, mas a versão básica já era muito boa.
apareceu alguns minutos depois, quando eu estava refogando a cebola.
— Hm, que cheiro bom. O que é? Bibimbap? — Ele espiou a tigela de legumes ao meu lado.
— Sim, eu não sabia se você gostava, mas senti vontade de comer. De todo jeito, tô fazendo o suficiente pra nós dois.
— Eu amo bibimbap, amor — respondeu, dando um beijinho na minha têmpora. Sorri de lado, satisfeita. — Quer que eu ajude em algo?
— Você pode preparar o molho? Vou usar a mesma panela pra refogar tudo. Basta colocar no micro-ondas uma mistura de...
— Eu sei como é, . Relaxa, a gente já fez isso um zilhão de vezes.
— Ah, é? — O encarei, interessada.
— Pois é. Mas geralmente você me faz fatiar os legumes.
— Vou lembrar disso da próxima vez. — Sorri, voltando a atenção para a panela.
Uma vez que as tigelas ficaram prontas, nós as colocamos na bancada e tirou uma foto para postar nos stories do Instagram. Ele não me marcou, sabendo que eu ainda estava evitando redes sociais, mas posicionou um emoji de coração entre as tigelas.
Achei fofo.
Durante a tarde, passamos algum tempo deitados no sofá assistindo a um drama aleatório da Netflix, mas em algum momento acabei pegando no sono.
Estava chovendo e tinha esfriado um pouco. era quentinho e macio como um bom travesseiro, e eu estava deitada com a cabeça em seu peito, entre ele e o encosto do sofá.
Meus olhos pesaram depois da metade do segundo episódio e adormeci. Quando acordei, ainda estava lá e também dormia, mas a TV havia sido desligada. A chuva ainda caía lá fora e eu o observei por alguns minutos até decidir voltar a dormir.
À noite, depois do jantar, ele se trancou no estúdio e só saiu quase uma da manhã. Eu já estava deitada e tentando dormir há algum tempo, e ouvi ele andar pelo corredor abrindo e fechando portas. Me virei na cama outra vez, encarando o teto, até que decidi sair dali.
Peguei um travesseiro e um cobertor e fiz um montinho com eles em meus braços, antes de deixar o quarto de hóspedes e seguir até o quarto de . havia até mesmo dito que eu dormia melhor com ele, então por que não?
Bati na porta e esperei até que ele abrisse, mas tive que levantar o olhar rapidamente quando notei que ele usava apenas uma cueca. Não me importei, é claro. Por que eu me importaria com uma visão daquelas?
O universo estava me agraciando.
— ? — Ele chamou, encarando a pilha em meus braços.
— Vim dormir aqui — anunciei, entrando no quarto sem pedir permissão. Aquele lugar era meu também. — Tô com dificuldade pra dormir sozinha e aparentemente você é como uma pílula gigante de melatonina.
Me arrastei para a grande cama em nosso quarto e me acomodei no lado não mexido da cama. Afofei os travesseiros e me deitei, só então olhando para , que ainda estava parado na porta.
Bati do lado dele da cama, o chamando silenciosamente, e então ele se moveu.
— Acho que você não devia passar tanto tempo no estúdio. Você fica meio lerdo quando tá muito cansado — comentei, quando ele se sentou na cama.
— Tem certeza de que tá tudo bem? — perguntou.
Ele era tão certinho que era de dar dó. E eu achando que ele era temperamental que nem eu.
— Depois daquela declaração toda hoje de manhã, você ainda tá com dúvida? — brinquei. Um sorrisinho apareceu no canto de seus lábios. — Vem logo, . Eu quero dormir e você também precisa.
Os olhos dele estavam até meio inchados de cansaço, provavelmente por encarar a tela do computador por muito tempo. Eu conhecia aquela sensação e sabia que dormir era o melhor remédio.
desligou as luzes com um controle remoto, se acomodou ao meu lado e ficamos deitados de lado, olhando um para o outro. Uma mecha de cabelo dele estava sobre a testa e eu a afastei cuidadosamente.
— Boa noite, amor — ele murmurou, já de olhos fechados.
— Boa noite — respondi, recolhendo a mão.
Fechei os olhos e não precisei mais me revirar na cama até me sentir confortável para dormir. Estar com ele era suficiente. tinha razão.
Alguns minutos depois, caí no sono.
Eu não cuidava somente da agenda de Kate, mas também atuava como sua primeira leitora beta e estar dentro do processo criativo dela era algo que eu fazia desde sempre e amava.
Aquele era o último livro da série que ela vinha publicando desde 2019 e estava previsto para ser lançado no próximo ano. Saber que estava acabando me dava uma sensação agridoce e às vezes me fazia economizar capítulos por não querer me despedir da série.
Kate costumava usar um pseudônimo em seus livros e isso não tinha mudado, mas antes ninguém sabia seu verdadeiro nome. Até mesmo os autógrafos de livros eram feitos na editora ou na casa dela durante a pré-venda, e os leitores passaram alguns anos sem ter noção de quem ela era, até Kate decidir largar seu emprego de enfermeira, que àquela altura era mais um hobby, e revelar sua verdadeira identidade.
Ela também era a única pessoa que eu conhecia que teria como hobby algo que envolvia pessoas em risco de morte. Eu nunca entendi isso, mas ainda era a profissão de formação dela. Só que falando por mim, se eu fosse Kate, eu nunca pisaria em um hospital se ganhasse dinheiro trabalhando em casa. E não era pouco dinheiro. Kate era uma autora bestseller.
E eu tive muita sorte de trabalhar com ela. Comecei como uma mera estagiária na editora, depois de passar meses fazendo freelancer enquanto eu procurava um emprego estável. Felizmente, o meu portfólio de freelancer interessou Andrew e ele resolveu me dar uma chance sem ao menos me conhecer pessoalmente.
Isso foi em 2016.
Fui treinada pessoalmente por ele e fiz diversas coisas como estagiária na editora. Eu sabia um pouquinho de tudo, mas às vezes era cansativo. No entanto, o esforço valeu a pena e quando Kate decidiu revelar sua identidade e solicitou uma agente, Andrew me ofereceu a vaga.
Eu meio que surtei por um momento, mas aceitei sem pestanejar. Era de Fleur de Colibri de quem estávamos falando. Uma autora grande, com milhares de leitores. De jeito nenhum eu ia deixar passar aquela chance, mesmo com medo de fracassar.
E foi a melhor coisa que fiz.
Kate era bem temperamental às vezes, e não era nem um pouquinho delicada quando estava fora de sua skin de enfermeira, mas nos dávamos incrivelmente bem. Andrew provavelmente percebeu que seríamos compatíveis antes mesmo de nós duas, e por isso me escolheu. Na época, minha relação com ele não era nada além de profissional e amigável como um bom chefe teria com seus funcionários. Ele e Dianna dividiam o posto de CEO e ambos eram incríveis.
Nunca conheci ninguém da editora que odiasse trabalhar lá e as poucas pessoas que vi se demitirem eram por motivos pessoais que envolviam família ou casamento. A maior parte dos funcionários era composta por mulheres e às vezes acontecia de largarem o emprego para se casar e serem sustentadas pelos seus maridos. Eu achava um tanto curioso e se o relacionamento era saudável, então devia ser legal, mas nunca me imaginei fazendo nada do tipo. Eu amava meu trabalho e era muito bem paga, obrigada.
e eu passamos alguns períodos apertados fazendo bicos e tentando juntar um pé de meia para emergências. Não tínhamos plano de saúde e ainda havia os empréstimos estudantis da faculdade.
Nunca passamos nenhuma necessidade durante esse tempo, mas também não podíamos nos dar ao luxo de fazer muitas coisas. Felizmente, isso melhorou um pouco depois que arrumou um emprego como professora e eu consegui o estágio na editora. Nessa época, ela ainda era a provedora principal da nossa casa, mas eu tentava ajudar o máximo que podia.
Quando me tornei agente de Kate, nossa vida melhorou consideravelmente. Meu salário aumentou e frequentemente eu recebia alguns bônus. Não demorou muito para que eu conseguisse quitar meus empréstimos estudantis e ajudar com o restante que faltava para ela. Nos mudamos para um apartamento melhor e os luxos que não podíamos ter passaram a fazer parte de nossa rotina.
O melhor de tudo era poder pedir comida ou ir a um restaurante sem se preocupar com o valor e, é claro, ter plano de saúde.
No entanto, a nossa evolução financeira não nos fez ficar irresponsáveis. Sabíamos muito bem o valor que o dinheiro tinha e como era não ter muito. Esse era um dos motivos pelo qual eu nunca pararia de trabalhar. Nem mesmo se me pedisse.
Quando comecei na editora, minha conta bancária tinha apenas cento e quarenta dólares que eu estava tentando fazer render enquanto não conseguia nenhum outro trabalho como freelancer. Esse número se transformou em alguns milhares de dólares depois de alguns meses como estagiária, e algumas centenas de milhares quando comecei a trabalhar com Kate.
Eu sempre seria grata a Andy por ter me escolhido. E era bom saber que ele acreditou na minha capacidade quando nem eu tinha certeza dela.
Acabamos nos aproximando um pouco mais desde então. Kate era muito próxima dele e de Dianna, e os três se encontravam com frequência. Como sua agente, eu precisava estar a par de tudo, então eu a seguia a cada compromisso de trabalho.
Andy me ajudou com dúvidas e a resolver coisas que eu ainda não tinha muita experiência. De chefe e funcionária, nos tornamos amigos. Meses depois, ele me convidou para sair, e uma coisa levou à outra. Namoramos por um ano e meio, até que tudo ficou morno.
Fui eu que terminei nosso relacionamento, porque eu sabia que Andrew não teria coragem. Ele não queria me magoar, mas eu era rápida em pegar os sinais. Passamos cerca de dois meses empurrando o nosso relacionamento com a barriga, até que eu percebi que um de nós precisava agir, e tinha que ser eu.
Não foi um término triste e não nos magoou. Tínhamos passado dezoito meses juntos, mas nossa amizade era mesmo mais forte que isso. Nunca nos tratamos com indiferença, e a única coisa que mudou foi a linha de limite imaginária que estabelecemos automaticamente entre nós.
Como não ir a encontros sozinhos e não nos beijarmos mais. Já abraços eram permitidos. Afinal, ainda tínhamos um carinho enorme um pelo outro. Ele tinha sido o cara com quem perdi minha virgindade e era um cavalheiro. De todo modo, Andy e eu éramos pessoas que também funcionavam muito bem sozinhas, sem a necessidade de estar sempre em um relacionamento. Ele estava solteiro desde então e eu... Bem, aparentemente conheci seis meses após nosso término.
E fui amarrada por ele desde a tal noite do meu flashback, noite essa que eu mal podia esperar para lembrar e saber como tinha sido conhecer o amor da minha vida. Porque era isso que era, como eu o intitulava desde que era apenas uma fã — o que para mim foi até poucos dias atrás.
No entanto, como fã, eu não ousava sonhar com algo real. Claro que eu tinha meus momentos delulu porque era divertido e aparentemente saudável, e toda fã tem. Mas na realidade mesmo, eu era bem pé no chão. No máximo, queria encontrá-lo pessoalmente para tirar uma foto e pegar um autógrafo. Mas meu peito se enchia de felicidade por saber que tínhamos ido bem mais longe que isso.
Terminei de beber meu chá com um barulho no canudo de metal no exato instante em que abriu a porta, já se livrando da camisa. Ele estava completamente suado e por mais que eu odiasse suor, aquela era uma visão e tanto.
— O que você tá bebendo? — Ele perguntou, enchendo um copo de água antes de colocar uma dose de whey protein e sacudir.
Eca.
— Chá-preto com limão. Quer que eu prepare pra você? — ofereci, mesmo vendo ele beber aquela nojeira.
negou com a cabeça.
— Talvez mais tarde. Você quer? — ele me ofereceu o shake. Coloquei um dedo na boca e fiz barulho de vômito. riu e rolou os olhos. — Não é tão ruim assim depois que você se acostuma.
— Tirando o fato de que nunca me acostumei. Me arranje um whey que não tenha gosto de nada e aí a gente conversa.
Ele riu de novo e então terminou de tomar A Nojeira de uma vez.
— Vou tomar banho — disse, já se afastando. — John mandou oi e falou pra você se preparar psicologicamente.
— Ei! Você disse que ia pedir pra ele pegar leve.
— E pedi. Mas eu não disse que ele ia concordar com isso. — Ele sorriu com malícia.
Fiz uma careta e mostrei o dedo do meio para ele.
— Vá se foder, .
— Só se você vier também, amor — ele retrucou, com a resposta na ponta da língua.
Rolei os olhos, o ignorando, e voltei a ler. Vinte minutos mais tarde, eu estava fatiando vegetais e a panela de arroz já funcionava a todo vapor, enquanto eu me ocupava com os preparativos de bibimbap. Senti uma súbita vontade de comer aquilo e não avisei . Eu nem sabia se ele gostava, mas se a culinária asiática era comum entre nós, então havia uma grande chance dele já ter comido.
Além disso, era muito prático. Eu só tinha que refogar vegetais, preparar um pouco de carne, e depois montar tudo em duas tigelas grandes. A versão clássica levava um ovo frito em cima também e molho agridoce feito com pimenta, ketchup e mel como base. Era possível acrescentar alguns temperos, mas a versão básica já era muito boa.
apareceu alguns minutos depois, quando eu estava refogando a cebola.
— Hm, que cheiro bom. O que é? Bibimbap? — Ele espiou a tigela de legumes ao meu lado.
— Sim, eu não sabia se você gostava, mas senti vontade de comer. De todo jeito, tô fazendo o suficiente pra nós dois.
— Eu amo bibimbap, amor — respondeu, dando um beijinho na minha têmpora. Sorri de lado, satisfeita. — Quer que eu ajude em algo?
— Você pode preparar o molho? Vou usar a mesma panela pra refogar tudo. Basta colocar no micro-ondas uma mistura de...
— Eu sei como é, . Relaxa, a gente já fez isso um zilhão de vezes.
— Ah, é? — O encarei, interessada.
— Pois é. Mas geralmente você me faz fatiar os legumes.
— Vou lembrar disso da próxima vez. — Sorri, voltando a atenção para a panela.
Uma vez que as tigelas ficaram prontas, nós as colocamos na bancada e tirou uma foto para postar nos stories do Instagram. Ele não me marcou, sabendo que eu ainda estava evitando redes sociais, mas posicionou um emoji de coração entre as tigelas.
Achei fofo.
Durante a tarde, passamos algum tempo deitados no sofá assistindo a um drama aleatório da Netflix, mas em algum momento acabei pegando no sono.
Estava chovendo e tinha esfriado um pouco. era quentinho e macio como um bom travesseiro, e eu estava deitada com a cabeça em seu peito, entre ele e o encosto do sofá.
Meus olhos pesaram depois da metade do segundo episódio e adormeci. Quando acordei, ainda estava lá e também dormia, mas a TV havia sido desligada. A chuva ainda caía lá fora e eu o observei por alguns minutos até decidir voltar a dormir.
À noite, depois do jantar, ele se trancou no estúdio e só saiu quase uma da manhã. Eu já estava deitada e tentando dormir há algum tempo, e ouvi ele andar pelo corredor abrindo e fechando portas. Me virei na cama outra vez, encarando o teto, até que decidi sair dali.
Peguei um travesseiro e um cobertor e fiz um montinho com eles em meus braços, antes de deixar o quarto de hóspedes e seguir até o quarto de . havia até mesmo dito que eu dormia melhor com ele, então por que não?
Bati na porta e esperei até que ele abrisse, mas tive que levantar o olhar rapidamente quando notei que ele usava apenas uma cueca. Não me importei, é claro. Por que eu me importaria com uma visão daquelas?
O universo estava me agraciando.
— ? — Ele chamou, encarando a pilha em meus braços.
— Vim dormir aqui — anunciei, entrando no quarto sem pedir permissão. Aquele lugar era meu também. — Tô com dificuldade pra dormir sozinha e aparentemente você é como uma pílula gigante de melatonina.
Me arrastei para a grande cama em nosso quarto e me acomodei no lado não mexido da cama. Afofei os travesseiros e me deitei, só então olhando para , que ainda estava parado na porta.
Bati do lado dele da cama, o chamando silenciosamente, e então ele se moveu.
— Acho que você não devia passar tanto tempo no estúdio. Você fica meio lerdo quando tá muito cansado — comentei, quando ele se sentou na cama.
— Tem certeza de que tá tudo bem? — perguntou.
Ele era tão certinho que era de dar dó. E eu achando que ele era temperamental que nem eu.
— Depois daquela declaração toda hoje de manhã, você ainda tá com dúvida? — brinquei. Um sorrisinho apareceu no canto de seus lábios. — Vem logo, . Eu quero dormir e você também precisa.
Os olhos dele estavam até meio inchados de cansaço, provavelmente por encarar a tela do computador por muito tempo. Eu conhecia aquela sensação e sabia que dormir era o melhor remédio.
desligou as luzes com um controle remoto, se acomodou ao meu lado e ficamos deitados de lado, olhando um para o outro. Uma mecha de cabelo dele estava sobre a testa e eu a afastei cuidadosamente.
— Boa noite, amor — ele murmurou, já de olhos fechados.
— Boa noite — respondi, recolhendo a mão.
Fechei os olhos e não precisei mais me revirar na cama até me sentir confortável para dormir. Estar com ele era suficiente. tinha razão.
Alguns minutos depois, caí no sono.
Capítulo 11
Senti um movimento de respiração embaixo do rosto e inspirei profundamente. tinha a respiração pesada e eu estava deitada em seu peito nu, com uma das pernas em cima dele.
Estiquei o braço me aconchegando mais e o abracei pela cintura, mas... Por que ele parecia tão largo? Encolhi o braço novamente e tateei por seu peito e... Que peito grande ele tinha. Eu não me lembrava de sentir aquilo tudo nas vezes em que nos deitamos juntos no sofá.
Abri os olhos, mas o quarto estava escuro. Tirei a perna de cima dele e se mexeu, virando de lado e me empurrando um pouquinho com o movimento, apenas para me trazer para mais perto outra vez, passando um braço pela minha cintura e uma perna enorme por cima de mim.
Eu estava sonolenta ainda e me acomodei mais com o nariz em seu peito. Fechei os olhos e adormeci mais uma vez, apenas para acordar quando uma pequena claridade passou pela brecha das cortinas.
Na verdade, o quarto estava claro demais para ser uma simples brecha, considerando que tínhamos cortinas blackout. Pisquei algumas vezes, minha visão clareando mais, e a primeira coisa que notei foi que aquele não era o mesmo quarto em que dormi com , muito menos o quarto de hóspedes. Tampouco era o quarto de Ayla. Franzi o cenho, ainda imóvel, e percorri os olhos pelo cômodo até me deparar com dormindo um pouco distante da cama. Não, não era distante. Ele estava em uma cama de solteiro que havia sido junta com outra cama. Mas se estava ali, então quem estava comigo? Imediatamente, meu cérebro deu um click e resolveu voltar a funcionar.
A primeira coisa que notei foi o peito nu com a pele mais escura, alguns tons acima da de . O peito era maior, de fato, ele todo era bem maior. E se havia camas juntas em um quarto que eu desconhecia, então aquele só podia ser Seojun, ex-namorado de Ayla.
Eu tinha voltado para Tenaz enquanto dormia e acordado em um capítulo em que ela viajou com os amigos, alguns capítulos depois da primeira noite dela com Dean. Uma pena ter perdido aquilo. E perdido a viagem até ali, quando Dean surtava internamente de ciúmes ao testemunhar a química entre Ayla e Seojun.
Levantei a cabeça para observar o rosto dele e coloquei uma mão na boca, quase tendo um troço.
Seojun era igualzinho a um ator coreano de quem eu era fã.
Um grande e belo gostoso.
Minha nossa, que sortuda eu era. Quem diria que eu ia dormir e acordar em cima de Park Yong Gyu?
Se eu fosse me divertir assim sempre que dormisse ao invés de ter ocasionais episódios de insônia e terror noturno, então era uma maravilha.
Minha skin de Ayla resolveu se mover automaticamente naquele momento e cutucou Seojun na barriga, tentando acordá-lo. Ele não se mexeu, então o cutuquei de novo e, dessa vez, ele resmungou.
— Seojun, me solta, eu quero levantar — Minha skin de Ayla disse.
— Não — Seojun resmungou, me puxando para mais perto.
— Seojun... Aqui não. Você não pode me abraçar assim na cama quando tem outra pessoa do lado...
— E daí? Vocês nem são um casal mesmo — ele resmungou de olhos fechados, ainda sonolento.
Ah, meu Deus! Que gostinho era vivenciar essa cena! HAHAHAHAHA!
Enquanto eu surtava internamente, minha skin continuou a falar com ele.
— Seojun...
— Shhh! — Seojun colocou a mão no meu rosto, depois na minha cabeça, fazendo um carinho desajeitado que só bagunçou meu cabelo.
— Seojun, meu cabelo. Você tá bagunçando tudo — reclamei automaticamente.
— E daí? — ele repetiu. — Você fica linda descabelada.
Fechei os olhos e respirei fundo. Eu sabia que Ayla estava tentando manter a paciência, mas eu estava aproveitando cada segundo.
— Você tá fazendo isso de propósito, não tá? — perguntei.
— Hm? Não faço ideia do que você tá falando.
— Sabe muito bem sim. Não esquece que eu te conheço.
— Tá falando do seu amiguinho colorido? — ele resmungou, com uma pitada de escárnio na voz.
— Você tá provocando ele de propósito, não é?
Seojun negou, dando um beijo em minha testa, e alegou estar agindo como sempre. Isso era verdade, mas a parte sobre não provocar era mentira. Eu sabia, ele sabia e Ayla sabia também. Até mesmo Dean saberia se não estivesse ainda dormindo profundamente.
— Independente disso, nós não estamos sozinhos no quarto — insisti.
Ayla estraga prazeres.
— Quer dizer que quando estivermos sozinhos eu posso fazer o que eu quiser? — Ele brincou e eu segurei um sorriso.
Ai ai, Seojun... Você não era meu crush à toa. E eu adorava saber que ele era mesmo uma ameaça para Dean. Ao menos naquele momento da história. Eventualmente, Ayla teria uma recaída com ele quando terminasse com Dean alguns capítulos depois, e só nessa época seria tarde demais. Dean pediria Ayla em namoro naquela viagem, mas se não tivesse feito isso, eu duvidava que ela tivesse permanecido com ele por muito mais tempo. Ayla era prática e não gostava de enrolação, e Dean era o primeiro cara com quem se envolvia depois de seu término com Seojun, no ano anterior.
Tipo eu com . Andrew não tinha nada a ver com Seojun, mas bem que Tenaz poderia ser uma fanfic de nós dois. Em partes, pelo menos. Nunca reparei nisso antes, mas agora que eu estava vivenciando tudo, havia algumas semelhanças. Eu sabia que Kate curtia uma fanfic, mas a menos que ela fosse uma vidente, aquilo era apenas coincidência porque Tenaz foi escrito antes de eu conhecer . E mesmo tendo sido lançado quando já estávamos juntos, o texto original não tinha passado por muitas mudanças.
Minha skin de Ayla continuou a discutir com Seojun e depois de uns instantes, ele finalmente a deixou se levantar.
Levantei de uma vez, sentindo uma tontura e caí sentada na cama.
— Ai... — resmunguei, colocando a mão na cabeça.
— Ayla? Você tá-
A voz de Seojun morreu quando abri os olhos, não me encontrando mais em Tenaz e sim na minha realidade, deitada sobre o ombro de . A primeira coisa que reconheci foi o quarto. Ali, havia mesmo uma brecha entre as cortinas iluminando o cômodo o suficiente para que eu soubesse que lugar era aquele.
Eu estava com uma perna por cima de e minha camisola azul-marinho havia escorregado, a expondo inteira; já ele, estava com uma mão casualmente espalmada em minha coxa, logo abaixo da bunda.
Tsc tsc, possessivo até dormindo.
Taí outra coisa que e Dean tinham em comum, além da música e do aniversário (Kate precisava de uma data e eu sugeri uma a ela, hehe).
Me mexi na cama e rolei para o lado, me livrando de sua mão possessiva, e tirei meu celular debaixo do travesseiro.
Já passava das nove e meia da manhã, e notei que eu havia conseguido dormir umas três horas a mais do que costumava, ao menos desde o acidente. Me espreguicei, sentindo o alívio de ter meu corpo e mente completamente descansados pela primeira vez em... Sei lá quando. Certamente não desde o hospital, por mais que eu tenha passado quatro dias inconsciente.
se moveu ao lado e abriu os olhos.
— Bom dia.
— Bom dia — respondi com um sorriso. — Dormiu bem?
— Eu sempre durmo melhor com você.
— Aparentemente eu também. — Ri baixinho. — Eu sabia que você era minha melatonina pessoal.
Um sorriso brincou em seus lábios e ele se espreguiçou, antes de se sentar na cama e se levantar, indo até o banheiro. Aproveitei para fazer o mesmo e usei o banheiro do quarto de hóspedes para tomar um banho quente e escovar os dentes. Encontrei ele novamente no corredor, indo até a cozinha. Estava usando apenas um short na altura dos joelhos, mas continuava sem camisa, o que era uma alegria para meus olhos.
— Vou fazer café pra mim, você quer? — Ele apontou para um recipiente cheio de cápsulas da máquina de café.
Me aproximei e cutuquei as cápsulas até encontrar uma de chocolate branco e entreguei a ele.
— Você quer pão? Vou fazer torradas pra mim, quer? — ofereci e ele assentiu.
Nos movemos em um silêncio confortável enquanto preparávamos o café da manhã e percebi que aquela era a primeira vez que fazíamos aquilo juntos, o café da manhã. Antes disso, um de nós acordava antes que o outro e deixava a comida pronta. Fazer juntos deixava tudo um pouco melhor. Era bom ter ao redor enquanto nós dois fazíamos coisas simples como aquela. Ele já tinha me dito que era um costume nosso cozinhar e testar receitas juntos, mas eu só estava vivenciando aquilo novamente há pouco tempo.
Um sorriso apareceu em meus lábios e eu resolvi contar a ele sobre meu sonho com Tenaz.
— Sonhei que ia parar em Tenaz de novo e acordei em cima do Seojun. Você... Ou melhor, o Dean, tava numa cama do lado dormindo. E o Seojun abraçado a mim. Ele tava a cara do Park Yong Gyu, sabe? Aquele ator que eu gosto. Foi muito real.
se virou e me encarou com um olhar atravessado.
— Você tá dizendo na minha cara que sonhou com outro homem enquanto dormia comigo, ?
— Ei, não é como se fosse grande coisa. Faz parte do enredo do livro. Eu ainda tava solteira nessa parte, ou melhor, a Ayla. Ela não tinha nada sério com o Dean ainda — retruquei. — E de fato, o Seojun era uma ameaça nesse ponto da história — acrescentei, terminando de colocar as torradas em um prato.
— Haha, ainda bem que eu te fisguei logo, né, amor? — Ele fingiu o riso e cerrou os olhos. — Vai que seu ex também fosse uma ameaça.
Eu ri, divertida, e ele me deu as costas.
— Você é tão gostoso com ciúmes, — murmurei sem pensar e bati a mão na boca, no mesmo instante.
se virou para mim lentamente.
— Eu o quê? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Nada, eu falei sem pensar. Você pode fazer minha bebida gelada? — pedi, tentando mudar de assunto, mas me ignorou.
Ele andou até mim e encostou o corpo ao meu, levando uma das mãos ao meu pescoço, envolvendo-o de leve, mas ainda assim firme.
— Não me provoque, — murmurou contra meus lábios.
— Ou o quê? — rebati, corajosamente, sentindo meu estômago se apertar enquanto minha mente corria solta ao redor de diversas possibilidades.
— Ou eu vou fazer você se arrepender.
Dei um risinho, malicioso.
— Quero ver você tentar — provoquei. A mão dele se apertou ao redor do meu pescoço e eu mordi o lábio inferior, ainda sorrindo.
— Você tá precisando de uma lição, garota — ele comentou, a voz pingando de malícia. Seus olhos astutos estavam semicerrados e havia uma determinação neles.
De repente, me puxou para um beijo, pressionando o corpo contra o meu e eu gemi baixinho, surpresa com a intensidade que emanava dele.
Pelo visto, eu tinha cutucado a cobra com vara curta.
Mas algo me dizia que eu não me arrependeria nem um pouquinho.
Estiquei o braço me aconchegando mais e o abracei pela cintura, mas... Por que ele parecia tão largo? Encolhi o braço novamente e tateei por seu peito e... Que peito grande ele tinha. Eu não me lembrava de sentir aquilo tudo nas vezes em que nos deitamos juntos no sofá.
Abri os olhos, mas o quarto estava escuro. Tirei a perna de cima dele e se mexeu, virando de lado e me empurrando um pouquinho com o movimento, apenas para me trazer para mais perto outra vez, passando um braço pela minha cintura e uma perna enorme por cima de mim.
Eu estava sonolenta ainda e me acomodei mais com o nariz em seu peito. Fechei os olhos e adormeci mais uma vez, apenas para acordar quando uma pequena claridade passou pela brecha das cortinas.
Na verdade, o quarto estava claro demais para ser uma simples brecha, considerando que tínhamos cortinas blackout. Pisquei algumas vezes, minha visão clareando mais, e a primeira coisa que notei foi que aquele não era o mesmo quarto em que dormi com , muito menos o quarto de hóspedes. Tampouco era o quarto de Ayla. Franzi o cenho, ainda imóvel, e percorri os olhos pelo cômodo até me deparar com dormindo um pouco distante da cama. Não, não era distante. Ele estava em uma cama de solteiro que havia sido junta com outra cama. Mas se estava ali, então quem estava comigo? Imediatamente, meu cérebro deu um click e resolveu voltar a funcionar.
A primeira coisa que notei foi o peito nu com a pele mais escura, alguns tons acima da de . O peito era maior, de fato, ele todo era bem maior. E se havia camas juntas em um quarto que eu desconhecia, então aquele só podia ser Seojun, ex-namorado de Ayla.
Eu tinha voltado para Tenaz enquanto dormia e acordado em um capítulo em que ela viajou com os amigos, alguns capítulos depois da primeira noite dela com Dean. Uma pena ter perdido aquilo. E perdido a viagem até ali, quando Dean surtava internamente de ciúmes ao testemunhar a química entre Ayla e Seojun.
Levantei a cabeça para observar o rosto dele e coloquei uma mão na boca, quase tendo um troço.
Seojun era igualzinho a um ator coreano de quem eu era fã.
Um grande e belo gostoso.
Minha nossa, que sortuda eu era. Quem diria que eu ia dormir e acordar em cima de Park Yong Gyu?
Se eu fosse me divertir assim sempre que dormisse ao invés de ter ocasionais episódios de insônia e terror noturno, então era uma maravilha.
Minha skin de Ayla resolveu se mover automaticamente naquele momento e cutucou Seojun na barriga, tentando acordá-lo. Ele não se mexeu, então o cutuquei de novo e, dessa vez, ele resmungou.
— Seojun, me solta, eu quero levantar — Minha skin de Ayla disse.
— Não — Seojun resmungou, me puxando para mais perto.
— Seojun... Aqui não. Você não pode me abraçar assim na cama quando tem outra pessoa do lado...
— E daí? Vocês nem são um casal mesmo — ele resmungou de olhos fechados, ainda sonolento.
Ah, meu Deus! Que gostinho era vivenciar essa cena! HAHAHAHAHA!
Enquanto eu surtava internamente, minha skin continuou a falar com ele.
— Seojun...
— Shhh! — Seojun colocou a mão no meu rosto, depois na minha cabeça, fazendo um carinho desajeitado que só bagunçou meu cabelo.
— Seojun, meu cabelo. Você tá bagunçando tudo — reclamei automaticamente.
— E daí? — ele repetiu. — Você fica linda descabelada.
Fechei os olhos e respirei fundo. Eu sabia que Ayla estava tentando manter a paciência, mas eu estava aproveitando cada segundo.
— Você tá fazendo isso de propósito, não tá? — perguntei.
— Hm? Não faço ideia do que você tá falando.
— Sabe muito bem sim. Não esquece que eu te conheço.
— Tá falando do seu amiguinho colorido? — ele resmungou, com uma pitada de escárnio na voz.
— Você tá provocando ele de propósito, não é?
Seojun negou, dando um beijo em minha testa, e alegou estar agindo como sempre. Isso era verdade, mas a parte sobre não provocar era mentira. Eu sabia, ele sabia e Ayla sabia também. Até mesmo Dean saberia se não estivesse ainda dormindo profundamente.
— Independente disso, nós não estamos sozinhos no quarto — insisti.
Ayla estraga prazeres.
— Quer dizer que quando estivermos sozinhos eu posso fazer o que eu quiser? — Ele brincou e eu segurei um sorriso.
Ai ai, Seojun... Você não era meu crush à toa. E eu adorava saber que ele era mesmo uma ameaça para Dean. Ao menos naquele momento da história. Eventualmente, Ayla teria uma recaída com ele quando terminasse com Dean alguns capítulos depois, e só nessa época seria tarde demais. Dean pediria Ayla em namoro naquela viagem, mas se não tivesse feito isso, eu duvidava que ela tivesse permanecido com ele por muito mais tempo. Ayla era prática e não gostava de enrolação, e Dean era o primeiro cara com quem se envolvia depois de seu término com Seojun, no ano anterior.
Tipo eu com . Andrew não tinha nada a ver com Seojun, mas bem que Tenaz poderia ser uma fanfic de nós dois. Em partes, pelo menos. Nunca reparei nisso antes, mas agora que eu estava vivenciando tudo, havia algumas semelhanças. Eu sabia que Kate curtia uma fanfic, mas a menos que ela fosse uma vidente, aquilo era apenas coincidência porque Tenaz foi escrito antes de eu conhecer . E mesmo tendo sido lançado quando já estávamos juntos, o texto original não tinha passado por muitas mudanças.
Minha skin de Ayla continuou a discutir com Seojun e depois de uns instantes, ele finalmente a deixou se levantar.
Levantei de uma vez, sentindo uma tontura e caí sentada na cama.
— Ai... — resmunguei, colocando a mão na cabeça.
— Ayla? Você tá-
A voz de Seojun morreu quando abri os olhos, não me encontrando mais em Tenaz e sim na minha realidade, deitada sobre o ombro de . A primeira coisa que reconheci foi o quarto. Ali, havia mesmo uma brecha entre as cortinas iluminando o cômodo o suficiente para que eu soubesse que lugar era aquele.
Eu estava com uma perna por cima de e minha camisola azul-marinho havia escorregado, a expondo inteira; já ele, estava com uma mão casualmente espalmada em minha coxa, logo abaixo da bunda.
Tsc tsc, possessivo até dormindo.
Taí outra coisa que e Dean tinham em comum, além da música e do aniversário (Kate precisava de uma data e eu sugeri uma a ela, hehe).
Me mexi na cama e rolei para o lado, me livrando de sua mão possessiva, e tirei meu celular debaixo do travesseiro.
Já passava das nove e meia da manhã, e notei que eu havia conseguido dormir umas três horas a mais do que costumava, ao menos desde o acidente. Me espreguicei, sentindo o alívio de ter meu corpo e mente completamente descansados pela primeira vez em... Sei lá quando. Certamente não desde o hospital, por mais que eu tenha passado quatro dias inconsciente.
se moveu ao lado e abriu os olhos.
— Bom dia.
— Bom dia — respondi com um sorriso. — Dormiu bem?
— Eu sempre durmo melhor com você.
— Aparentemente eu também. — Ri baixinho. — Eu sabia que você era minha melatonina pessoal.
Um sorriso brincou em seus lábios e ele se espreguiçou, antes de se sentar na cama e se levantar, indo até o banheiro. Aproveitei para fazer o mesmo e usei o banheiro do quarto de hóspedes para tomar um banho quente e escovar os dentes. Encontrei ele novamente no corredor, indo até a cozinha. Estava usando apenas um short na altura dos joelhos, mas continuava sem camisa, o que era uma alegria para meus olhos.
— Vou fazer café pra mim, você quer? — Ele apontou para um recipiente cheio de cápsulas da máquina de café.
Me aproximei e cutuquei as cápsulas até encontrar uma de chocolate branco e entreguei a ele.
— Você quer pão? Vou fazer torradas pra mim, quer? — ofereci e ele assentiu.
Nos movemos em um silêncio confortável enquanto preparávamos o café da manhã e percebi que aquela era a primeira vez que fazíamos aquilo juntos, o café da manhã. Antes disso, um de nós acordava antes que o outro e deixava a comida pronta. Fazer juntos deixava tudo um pouco melhor. Era bom ter ao redor enquanto nós dois fazíamos coisas simples como aquela. Ele já tinha me dito que era um costume nosso cozinhar e testar receitas juntos, mas eu só estava vivenciando aquilo novamente há pouco tempo.
Um sorriso apareceu em meus lábios e eu resolvi contar a ele sobre meu sonho com Tenaz.
— Sonhei que ia parar em Tenaz de novo e acordei em cima do Seojun. Você... Ou melhor, o Dean, tava numa cama do lado dormindo. E o Seojun abraçado a mim. Ele tava a cara do Park Yong Gyu, sabe? Aquele ator que eu gosto. Foi muito real.
se virou e me encarou com um olhar atravessado.
— Você tá dizendo na minha cara que sonhou com outro homem enquanto dormia comigo, ?
— Ei, não é como se fosse grande coisa. Faz parte do enredo do livro. Eu ainda tava solteira nessa parte, ou melhor, a Ayla. Ela não tinha nada sério com o Dean ainda — retruquei. — E de fato, o Seojun era uma ameaça nesse ponto da história — acrescentei, terminando de colocar as torradas em um prato.
— Haha, ainda bem que eu te fisguei logo, né, amor? — Ele fingiu o riso e cerrou os olhos. — Vai que seu ex também fosse uma ameaça.
Eu ri, divertida, e ele me deu as costas.
— Você é tão gostoso com ciúmes, — murmurei sem pensar e bati a mão na boca, no mesmo instante.
se virou para mim lentamente.
— Eu o quê? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Nada, eu falei sem pensar. Você pode fazer minha bebida gelada? — pedi, tentando mudar de assunto, mas me ignorou.
Ele andou até mim e encostou o corpo ao meu, levando uma das mãos ao meu pescoço, envolvendo-o de leve, mas ainda assim firme.
— Não me provoque, — murmurou contra meus lábios.
— Ou o quê? — rebati, corajosamente, sentindo meu estômago se apertar enquanto minha mente corria solta ao redor de diversas possibilidades.
— Ou eu vou fazer você se arrepender.
Dei um risinho, malicioso.
— Quero ver você tentar — provoquei. A mão dele se apertou ao redor do meu pescoço e eu mordi o lábio inferior, ainda sorrindo.
— Você tá precisando de uma lição, garota — ele comentou, a voz pingando de malícia. Seus olhos astutos estavam semicerrados e havia uma determinação neles.
De repente, me puxou para um beijo, pressionando o corpo contra o meu e eu gemi baixinho, surpresa com a intensidade que emanava dele.
Pelo visto, eu tinha cutucado a cobra com vara curta.
Mas algo me dizia que eu não me arrependeria nem um pouquinho.
Capítulo 12
Se eu soubesse que tudo o que precisaria para fazer perder o controle era provocar ciúmes nele com as coisas mais bestas possíveis, eu teria feito bem antes.
Bem, teoricamente eu ainda tinha pulado em cima dele na manhã anterior, então não era como se fizesse muito tempo. Claro que antes disso, ele esbarrou em mim por acidente algumas vezes, invadindo meu espaço pessoal como quem não queria nada, na inocência.
Eu sabia que ele estava tentando ser um cavalheiro comigo até que eu me sentisse mais confortável ao redor dele, mas aquele beijo e aquela mão em volta do meu pescoço me fez perceber que eu, de fato, não era a única me segurando.
moveu a boca para meu pescoço e eu ri, sentindo cócegas.
— O café vai esfriar... — murmurei, como se isso realmente importasse.
Eu não estava nem aí para o nosso café da manhã.
se afastou e me encarou.
— A gente não precisa dele quente — justificou. — Mas acho que mudei a opção no meu cardápio — acrescentou, roubando mais um beijo, antes de se afastar e me segurar nos braços no estilo noiva.
Gritei, surpresa quando ele me levantou de repente e ri alto quando ele nos levou direto para o quarto. Metade das cortinas ainda estavam fechadas, deixando a parte da cama longe da claridade alta que entrava pela parede de vidro e tudo parecia aconchegante. me jogou na cama e eu ri quando ele subiu em cima de mim. Havia um sorriso brincando em seus lábios também.
— Se você for dar pra trás de novo, é melhor fazer isso agora — brinquei.
Em resposta, ele me beijou outra vez, um pouco mais carinhoso e com menos urgência.
— Se o celular tocar hoje eu nem vou ver, deixei na cozinha — me disse.
— E não tem mais nenhuma encomenda pra receber?
— Não que eu me lembre. — Ele roçou o nariz no meu e resolvi provocá-lo um pouquinho mais. Na minha cabeça, aquela seria a primeira vez que eu me lembraria de transar com ele, mas por algum motivo eu queria o intenso. Não o gentil e carinhoso que me tratava como uma rainha. Eu amava esse também, mas acho que o tesão acumulado me deixou com espírito de cadela. podia agir como cadelinha fora da cama, mas por enquanto eu queria o macho alfa que me agarrou pelo pescoço.
Eu nem sabia se eu gostava daquele tipo de coisa, mas aparentemente sim.
— O que aconteceu com o malvadão? — perguntei quando ele beijou meu pescoço outra vez.
riu pelo nariz e se afastou para me encarar.
— Você quer esse? Eu tava tentando ser gentil já que você não se lembra de mim.
— Alguma coisa me diz que o malvadão vai me fazer lembrar dele por dias.
— Ah, é? E o que você quer que eu faça?
— Primeiro, quero que tire a roupa — falei, sem pestanejar. — Vou fazer isso também, não quero nada entre a gente. Não tô com paciência hoje.
— Ah, ... Ser paciente seria um milagre pra você, amor — ele brincou. — Mas eu discordo sobre você tirar sua roupa.
— Por quê?
— Porque quem tem que fazer isso sou eu. — Ele sorriu e se afastou, me puxando para que eu me sentasse.
Sem hesitar, colocou as mãos na barra da minha blusa e eu levantei os braços de bom grado enquanto ele a puxava para cima. Eu estava sem sutiã, já que não gostava de usar em casa, e provavelmente deveria me sentir um pouco tímida perto dele, mas ele já tinha visto tudo.
Na verdade, via tudo há três anos. Eu vinha pensando nessa informação desde o momento em que ele falou sobre minhas pintinhas e não fazia sentido sentir vergonha do meu corpo. Eu gostava do meu corpo, mesmo que estivesse longe de ser perfeito.
E pelo visto, também.
Ele se inclinou para me beijar e eu ri, o empurrando.
— Sua vez.
Ele revirou os olhos e se levantou, tirando tudo em poucos segundos. Não tirei os olhos dele e o observei por inteiro. parecia uma estátua grega, com exceção de uma parte, que tornava tudo melhor.
— Satisfeita? — ele perguntou, seu olhar dizendo claramente que sabia que eu estava gostando da visão.
Fiquei de joelhos na cama e desabotoei o short jeans. Tão rápido quanto ele, me livrei do restante das minhas roupas. Meu corpo doía por ele, mas eu queria provocá-lo um pouco mais.
Sorri e o chamei com um dedo, fazendo-o rir. No instante em que ele subiu na cama e se aproximou, o empurrei novamente, fazendo-o cair de costas sobre o colchão. Era bom ter uma cama grande e não se preocupar com espaço.
— Achei que você me queria no comando — ele comentou, quando subi em cima dele e comecei a distribuir beijos pelo seu tórax.
— Quero aproveitar você um pouquinho. Você fez isso comigo ontem, mas eu não tive oportunidade — expliquei, me inclinando para morder sua tatuagem.
gemeu baixinho e me segurou com firmeza, sua ereção firme como uma rocha entre nós.
— ...
— — respondi, rindo baixinho, antes de me afastar e segurá-lo com uma mão.
me observou com um semblante sério e franziu o cenho quando comecei a trabalhar com minha mão nele. Quando o tomei com a boca, vi ele jogar a cabeça para trás e me senti satisfeita. Mas não tanto quanto no momento em que ouvi ele gemer meu nome baixinho, uma mão indo direto para o meu cabelo. Não me pressionou, mas apoiou a mão ali e segurou firme nos fios vermelhos.
estava me deixando fazer o que quisesse com ele e eu estava adorando cada segundo, cada reação sua e respiração ofegante. Ele tinha me deixado uma bagunça no dia anterior, então eu faria o mesmo com ele.
Mas como nem tudo eram flores, o macho alfa resolveu reaparecer e me afastou repentinamente, invertendo nossas posições.
— Estraga prazeres — resmunguei, com um sorriso.
— Se eu te deixasse continuar, a brincadeira ia acabar antes de começar, amor. Não esquece que fiquei longe de você por dois meses.
— Ah, é. Você devia estar com saudade. — Enrosquei minhas pernas em sua cintura, o trazendo para perto.
— Morrendo — ele respondeu, pressionando sua ereção contra minha entrada.
Eu seria hipócrita se dissesse que não estava louca por aquilo também. Meu corpo estava encharcado por ele. juntou nossos lábios novamente e usei minhas pernas para trazer seu quadril para ainda mais perto.
Com facilidade, ele deslizou para dentro de mim, me preenchendo por completo. Meu corpo sensível doeu de uma forma deliciosa e se esticou ao redor dele para acomodá-lo. levou as mãos até meios seios e os apertou com desejo enquanto deslizava para fora e dentro de mim uma e outra vez. Gemi com a fricção de nossos corpos e a firmeza de seu toque. Eu não queria nada delicado, só queria que ele acabasse comigo. E não me importava nem um pouquinho de ficar com algumas marcas depois.
se enterrou vezes e mais vezes em mim enquanto suas mãos percorriam meu corpo. Então resolveu trocar de posição e se afastou, me colocando de barriga para baixo. Puxou meu quadril e deu um tapa estalado, me pegando de surpresa, antes de se enterrar em mim outra vez.
Eu teria rido, se não estivesse tão excitada. Ao invés disso, tudo o que fiz foi gemer. Aquela posição trazia mais pressão entre nossos corpos e ele bateu uma e outra vez contra mim, segurando meus quadris com afinco. Senti meu corpo começar a se apertar ao seu redor e de repente, enrolou meu cabelo em uma mão, puxando-o com firmeza, antes de colocar uma mão em meu tórax, me puxando para trás. Usando a mão livre, ele percorreu meus seios sem parar de se movimentar e mordeu meu ombro.
— ... — murmurei ofegante, sentindo a tensão em meu corpo crescer.
Eu queria ver o rosto dele quando caíssemos de prazer, mas não consegui dizer isso. No entanto, como se estivesse pensando na mesma coisa, se afastou e me jogou na cama outra vez. No próximo momento em que entrou em mim, aumentou a velocidade de seus movimentos, levando nós dois para a borda.
Um instante depois, eu tremi violentamente contra ele, cravando as unhas em seus ombros. continuou por mais alguns segundos e então enterrou o rosto no meu pescoço no segundo em que o senti se derramar em mim.
Nossos peitos subiam e desciam enquanto tentávamos recuperar o fôlego, nossos corpos ainda conectados. E foi somente quando nos acalmamos que saiu de dentro de mim. Em seguida, selou nossos lábios em um beijo suave e se afastou para me pegar nos braços com cuidado.
Ele nos levou ao banheiro e foi direto para a banheira, me colocando sentada em um canto enquanto a ligava. O fofinho tinha voltado e eu sorri.
Esfreguei minhas coxas uma contra a outra, sabendo que ficaria dolorida em breve. Enquanto preparava um banho para nós, um flash de memória me atingiu.
Era a mesma noite em que nos conhecemos.
6 de abril de 2019, 00:26 - Manhattan, Nova York, NY
Suspirei, entediada enquanto encarava todo o salão do bar vazio. Aquele lugar costumava ser um restaurante até um ano atrás, quando Brandon, o namorado de Karol, resolveu comprá-lo e transformar o lugar em um bar chique. Fazia parte do prédio de um grande hotel, então costumava ser bem movimentado, mas naquela noite só havia nós três e alguns amigos que foram embora antes da meia-noite.
Tagarela como eu ficava depois que o álcool começava a circular em meu sangue, fiquei conversando com o casal de amigos por mais tempo, mesmo depois de até mesmo já ter ido embora. Eu sempre podia pegar um táxi para casa, de qualquer forma, e não estava nem um pouquinho cansada. Tínhamos comemorado um novo contrato da Double K, a marca de roupas que Kate e Karol eram donas, e talvez eu tivesse ficado um pouquinho hiperativa demais naquela noite, por resolver fazer companhia para meus amigos quando soube que eles esperariam um cliente que havia alugado o local todo por duas horas, a partir da meia-noite.
Eu falei para mim mesma que ficaria até uma da manhã e depois iria para casa, mas à meia-noite e vinte, Brandon recebeu uma ligação informando sobre alguma briga em outro bar dele, no Queens. Ele tinha um em cada bairro de Nova York, mas aquele ficava a cerca de vinte minutos de distância. Por conta disso, acabei sozinha em um bar vazio, após eles me pedirem para ficar ali e atender o tal cliente especial. Na minha época de bicos, eu trabalhei em um bar de Brandon no Brooklyn e foi assim que o conheci. Mais tarde, depois que comecei a trabalhar na editora, eu soube que ele era o namorado da melhor amiga de Kate.
Fiquei mexendo no celular e futricando o Instagram enquanto o tal cliente não aparecia. Brandon explicou que ele costumava beber whisky com gelo e, às vezes, pedia alguns petiscos prontos.
Eu nem notei quando ele chegou. Ouvi sua voz a um metro de distância e me sobressaltei com o susto. Depois quase caí para trás quando vi me encarando. Imediatamente pensei que talvez eu estivesse alucinando, mas então a miragem de falou novamente.
— Onde está Brandon? — ele quis saber.
— Ah, ele... Teve um probleminha em outro bar e me pediu pra te atender.
— Você trabalha aqui? — Ele perguntou, com indiferença.
— Não... — Consegui responder. — Sou amiga de Brandon, eu costumava trabalhar pra ele em um bar do Brooklyn, mas agora trabalho em uma editora — tagarelei. Só podia ser efeito do álcool ainda correndo em minhas veias, porque de jeito nenhum eu conseguiria formular uma palavra coerente na frente de , ainda mais encontrando ele de surpresa.
Por que Brandon não me disse que ele era o cliente especial?
Será que minha maquiagem estava borrada? A última coisa que eu queria nessa vida era encontrar meu cantor favorito pessoalmente pela primeira vez, sozinha, e estar com cara de chapada.
Discretamente, me virei e encarei meu próprio reflexo no espelho atrás de mim, que ficava junto à prateleira de bebidas. Felizmente, parecia estar tudo em ordem.
— Um dose de whisky com gelo, por favor — pediu, sem fazer mais perguntas.
Preparei a dose e ele pegou o copo, antes de se afastar para o outro lado do bar. Ficamos em silêncio pelos próximos vinte minutos e mandei uma mensagem para Brandon.
: ? Sério, Brandon? Você não pensou nem por um instante me avisar que seu cliente especial é o meu cantor favorito?"
Obtive uma resposta depois de cinco minutos.
Brandon: Surpresa! Considere um presente de aniversário atrasado. Foram dois meses de atraso, mas o que vale é a intenção, né?"
Filho da puta traiçoeiro e... Legal pra caralho! Com um sorrisinho nos lábios, digitei outra mensagem.
: Nem pense em voltar tão cedo aqui! Deixa que EU cuido dele.
Tinha começado a chover há alguns minutos e gotas grossas de água escorriam pela parede de vidro. estava em pé e de costas, observando a vista, e eu estava observando ele, é claro. Até que de repente, ele se virou e fui pega.
Desviei o olhar rapidamente e fingi que estava organizando alguns itens no balcão. veio buscar outra dose e eu a preparei em silêncio.
— Faz tempo que você tá aqui?
— Brandon me pediu pra ficar. Eu não sabia que... Era você o cliente.
— E isso faz alguma diferença?
— Não, de forma alguma. — Sorri e me virei para pegar um pouco de água para mim e... Bem, eu não sabia o que fazer, então precisava ocupar minhas mãos com alguma coisa.
— Tá chovendo bastante hoje...
Franzi o cenho. Por que ele tava falando de chuva, de repente?
Espera... Ele tava tentando puxar papo comigo?
— Pois é... — Ri baixinho e dei uma espiada nele pelo espelho. me encarava e desviou o olhar rapidamente quando percebeu que eu percebi. Levou alguns segundos, mas eu já sabia que ele era meio lerdo.
Meio que fazia parte do charme dele e eu, como fã, achava esse um fato curioso. O TDAH do gato estava em dia.
Me voltei para ele outra vez e coloquei meu copo de água em cima do balcão.
— Sabe... Eu menti — confessei. — O fato de você ser o cliente de Brandon faz diferença, sim.
— Por quê?
— Por que eu sou sua fã há quatro anos e Brandon sabe disso e não me disse nada.
Um sorriso apareceu no canto dos lábios de .
— Sério? E por que ele não disse nada?
— Ele disse que era meu presente de aniversário atrasado. Sinto muito. Mas eu não sou maluca nem nada. Quer dizer... só um pouquinho, mas não vou te incomodar — falei rapidamente.
riu, divertido.
— Você quer se sentar comigo ali? — Ele apontou para um sofá em frente a uma das mesas.
— Hã, claro.
Eu que não iria negar um convite desses. Imagina só... Hahaha. Quando eu saísse daqui já poderia dizer que era uma fã de sucesso. Talvez eu até conseguisse um autógrafo dele depois. Eu preferiria uma foto, mas não queria incomodar ele com isso.
— Você mora perto daqui? — ele perguntou.
— Hm, na verdade, não. Moro com minha irmã no Brooklyn. Ela estava aqui mais cedo, mas foi embora.
— E você vai pra casa sozinha? A essa hora?
— É só pegar um táxi. Não seria a primeira vez. — Sorri, dando de ombros. — E você? Tá hospedado aqui?
— Não. Mas moro perto. Comprei um apartamento recentemente e... Acho que você deve saber disso.
— Ah, sim... Eu meio que sei de tudo mesmo. Amo suas músicas.
— Fico feliz. — Ele sorriu. — Qual a sua favorita?
— “Limbo”.
— “Limbo”? Que surpresa. Essa música teve menos destaque que as outras. Eu nem promovi.
— Mas é muito boa. E eu sei que deu trabalho pra você, eu assisti a live de lançamento. Mas ter sido difícil acho que é o que torna ela mais especial.
— Ah... Obrigado.
— Eu tenho até uma tatuagem de referência, olha... — Me virei, mostrando meu tríceps direito. Havia um pequeno rabisco de um doodle que eu mesma desenhei em referência ao videoclipe. A música inteira representava sonhos e a letra era um amor. Diferente das letras sensuais que costumava escrever.
— Bonita. Fica bem em você.
— Obrigada. — Sorri.
Ele falou que fica bem em miiiiim, AAAAA, surtei internamente, mas segui plena por fora. O álcool às vezes era de grande ajuda mesmo, até esqueci da água em cima da mesa.
— Eu também adoro a sua. — Apontei para o pescoço dele. — Deve ter doído muito.
— Você pode tocar se quiser — ele ofereceu, claramente se divertindo com meu papo de fã. era conhecido por ser bem gentil mesmo.
— Posso? Nossa... Ela é bem mais bonita de perto. — Toquei a pele dele levemente e arrastei o polegar por uma das florzinhas de ameixa. Um rastro de tinta se formou e imediatamente removi a mão. — Meu Deus, você retocou? Eu te machuquei?
— Não, relaxa. — Ele sorriu. — Retoquei há algumas horas. Amanhã eu viajo e queria fazer isso antes.
— Caramba... Você nem devia estar bebendo. Todo tatuador indica um controle na dieta pra não prejudicar a... — Parei de falar quando notei sorrindo abertamente. — Ei, isso não é engraçado. A autora que eu agencio também é enfermeira e ela me disse umas coisas que até hoje eu penso. Você tem que levar isso a sério!
assentiu, fingindo aceitar a culpa, e colocou o copo quase vazio em cima da mesa.
— Prometo não beber mais.
— Aff, você não devia ter me deixado te tocar. — Estendi a mão para o pescoço dele num impulso de limpar a mancha preta na parte da pele íntegra, mas não o fiz. Vai que eu contaminava, o troço infeccionava e depois eu acabasse sendo processada por prejudicar a integridade física dele e...
Tudo bem, acho que não era para tanto.
No entanto, quando fui puxar o braço de volta, segurou minha mão e em seguida, a colocou no próprio rosto.
— Acho que aqui você pode tocar sem culpa — brincou.
— Você tá bêbado? Alguém pode dizer que eu tô me aproveitando de você.
— Não tem ninguém aqui. Somos só nós dois.
Meu estômago se apertou de ansiedade quando ouvi isso. Quase me belisquei para saber se não estava sonhando.
— Felizmente. Assim eu não preciso dividir sua atenção com outra pessoa — brinquei, me sentindo ousada de repente.
— E nem eu a sua — respondeu na lata. Pelo visto, eu não era a única me sentindo ousada naquela noite. — Qual o seu nome?
Ah, é mesmo. Eu havia me esquecido de me apresentar. Que coisa.
— . .
— E quantos anos você tem, ? — Ele quis saber e me deliciei com o som do meu nome em sua voz.
— Vinte e cinco.
Eu era três anos e três meses mais nova que ele, para ser exata. faria vinte e nove em novembro.
Ele pareceu absorver a informação por alguns segundos, e então falou.
— Sabe... Eu pensei em te oferecer uma carona pra casa. Te acompanhar no táxi e então voltar, pra você não ter que ir sozinha, mas...
— O quê?
— O prédio onde eu moro fica a dois quarteirões daqui — ele comentou.
— Ah, é? — perguntei, e eu tinha certeza de que meus olhos só podiam estar brilhando com malícia porque não tinha nenhuma parte pura em mim naquele momento.
— Você pode ficar no quarto de hóspedes, se quiser, e ir pra casa depois do café da manhã ou...
— Ou? — Arqueei uma sobrancelha, curiosa.
— Minha cama é grande o suficiente pra nós dois.
Meu. Deus. Ele tava abertamente dando em cima de mim! Que descarado!
— Sério? Você nem me beijou ainda e já tá me oferecendo esse convite? E eu achando que você era tímido.
Tímido era o meu pau inexistente. Que safado.
Amei.
— Eu queria ter certeza antes. — Ele deu de ombros e roubou um gole do meu copo de água.
Ponderei por alguns segundos.
Era provável que eu nunca mais fosse vê-lo depois daquela noite. Além disso, quando eu teria a chance de viver uma one night stand com o meu cantor favorito de novo? Eu tinha era que aproveitar mesmo. Não era todo dia que um cara lindo e gentil aparecia na minha frente, ainda mais um de quem coincidentemente eu era fã. Tecnicamente, tinha sido proposital, mas eu não sabia. Eu iria lembrar de agradecer à fada madrinha Brandon no dia seguinte.
Eu nunca havia tido nenhuma noite casual com ninguém, considerando que havia terminado um relacionamento de um ano e meio com meu chefe e ele havia sido o único homem que tinha me tocado até então. Contudo, aquela era uma oportunidade única na vida. Eu estaria sendo burra de deixar passar.
provavelmente me xingaria por uma semana se eu deixasse passar, porque ela sabia o tanto que eu gostava de .
E era uma quantidade assim... Razoável.
Tomei uma decisão e assim que ele colocou o copo de volta na mesa, eu virei seu rosto para mim e o beijei. Foi só um selinho, e ele pareceu surpreso no início, mas, um segundo depois, levou a mão para meu rosto e aprofundou o nosso beijo.
Meu coração disparou e eu perdi a noção do tempo, mas quando nos afastamos, sorrimos um para o outro.
Eu estava totalmente agindo que nem uma groupie, mas não estava nem aí. Se o sujeito de várias das minhas fantasias queria passar a noite comigo, então quem seria eu para negar?
Cinco minutos depois, Brandon apareceu sozinho e eu corri para pegar minha bolsa e celular que havia deixado no balcão enquanto ele e se cumprimentavam.
Quando me coloquei ao lado de novamente, ele entrelaçou nossas mãos e nos despedimos de Brandon. Antes de passarmos pela porta, acenei para meu amigo com um sorriso no rosto.
me levou até o apartamento dele e aquela foi nossa primeira noite juntos. Pela manhã, acordei e vesti a camisa dele na noite anterior e tomamos café da manhã juntos também pela primeira vez.
Dias atuais, 10:44 - Apartamento de e , Nova York, NY
Naquele mesmo apartamento. Três anos atrás. Nosso relacionamento tinha sido fruto de uma noite casual de sexo quente? Meu Deus, eu fui uma cadela total, quem diria? Me lembrei de cada momento daquela noite e...
— Eu não acredito que dormi com você na mesma noite em que nos conhecemos — comentei com e ele se virou para mim no mesmo instante.
— O quê? Você lembrou daquela noite?
Assenti e riu, me beijando em seguida.
— Me conte tudo, amor — ele pediu.
Nós entramos na banheira e ele pegou uma esponja para esfregar em minhas costas. Então eu contei a ele tudo o que me lembrava, inclusive nossa primeira vez juntos. murmurou vários "hm" e "uhum" enquanto ouvia atentamente e, no final de tudo, as lembranças ativaram o meu lado cadela outra vez e o beijei novamente. correspondeu na mesma intensidade e, alguns momentos depois, tivemos nosso segundo round do dia na banheira.
O café da manhã continuou esquecido na cozinha por mais alguns minutos.
Bem, teoricamente eu ainda tinha pulado em cima dele na manhã anterior, então não era como se fizesse muito tempo. Claro que antes disso, ele esbarrou em mim por acidente algumas vezes, invadindo meu espaço pessoal como quem não queria nada, na inocência.
Eu sabia que ele estava tentando ser um cavalheiro comigo até que eu me sentisse mais confortável ao redor dele, mas aquele beijo e aquela mão em volta do meu pescoço me fez perceber que eu, de fato, não era a única me segurando.
moveu a boca para meu pescoço e eu ri, sentindo cócegas.
— O café vai esfriar... — murmurei, como se isso realmente importasse.
Eu não estava nem aí para o nosso café da manhã.
se afastou e me encarou.
— A gente não precisa dele quente — justificou. — Mas acho que mudei a opção no meu cardápio — acrescentou, roubando mais um beijo, antes de se afastar e me segurar nos braços no estilo noiva.
Gritei, surpresa quando ele me levantou de repente e ri alto quando ele nos levou direto para o quarto. Metade das cortinas ainda estavam fechadas, deixando a parte da cama longe da claridade alta que entrava pela parede de vidro e tudo parecia aconchegante. me jogou na cama e eu ri quando ele subiu em cima de mim. Havia um sorriso brincando em seus lábios também.
— Se você for dar pra trás de novo, é melhor fazer isso agora — brinquei.
Em resposta, ele me beijou outra vez, um pouco mais carinhoso e com menos urgência.
— Se o celular tocar hoje eu nem vou ver, deixei na cozinha — me disse.
— E não tem mais nenhuma encomenda pra receber?
— Não que eu me lembre. — Ele roçou o nariz no meu e resolvi provocá-lo um pouquinho mais. Na minha cabeça, aquela seria a primeira vez que eu me lembraria de transar com ele, mas por algum motivo eu queria o intenso. Não o gentil e carinhoso que me tratava como uma rainha. Eu amava esse também, mas acho que o tesão acumulado me deixou com espírito de cadela. podia agir como cadelinha fora da cama, mas por enquanto eu queria o macho alfa que me agarrou pelo pescoço.
Eu nem sabia se eu gostava daquele tipo de coisa, mas aparentemente sim.
— O que aconteceu com o malvadão? — perguntei quando ele beijou meu pescoço outra vez.
riu pelo nariz e se afastou para me encarar.
— Você quer esse? Eu tava tentando ser gentil já que você não se lembra de mim.
— Alguma coisa me diz que o malvadão vai me fazer lembrar dele por dias.
— Ah, é? E o que você quer que eu faça?
— Primeiro, quero que tire a roupa — falei, sem pestanejar. — Vou fazer isso também, não quero nada entre a gente. Não tô com paciência hoje.
— Ah, ... Ser paciente seria um milagre pra você, amor — ele brincou. — Mas eu discordo sobre você tirar sua roupa.
— Por quê?
— Porque quem tem que fazer isso sou eu. — Ele sorriu e se afastou, me puxando para que eu me sentasse.
Sem hesitar, colocou as mãos na barra da minha blusa e eu levantei os braços de bom grado enquanto ele a puxava para cima. Eu estava sem sutiã, já que não gostava de usar em casa, e provavelmente deveria me sentir um pouco tímida perto dele, mas ele já tinha visto tudo.
Na verdade, via tudo há três anos. Eu vinha pensando nessa informação desde o momento em que ele falou sobre minhas pintinhas e não fazia sentido sentir vergonha do meu corpo. Eu gostava do meu corpo, mesmo que estivesse longe de ser perfeito.
E pelo visto, também.
Ele se inclinou para me beijar e eu ri, o empurrando.
— Sua vez.
Ele revirou os olhos e se levantou, tirando tudo em poucos segundos. Não tirei os olhos dele e o observei por inteiro. parecia uma estátua grega, com exceção de uma parte, que tornava tudo melhor.
— Satisfeita? — ele perguntou, seu olhar dizendo claramente que sabia que eu estava gostando da visão.
Fiquei de joelhos na cama e desabotoei o short jeans. Tão rápido quanto ele, me livrei do restante das minhas roupas. Meu corpo doía por ele, mas eu queria provocá-lo um pouco mais.
Sorri e o chamei com um dedo, fazendo-o rir. No instante em que ele subiu na cama e se aproximou, o empurrei novamente, fazendo-o cair de costas sobre o colchão. Era bom ter uma cama grande e não se preocupar com espaço.
— Achei que você me queria no comando — ele comentou, quando subi em cima dele e comecei a distribuir beijos pelo seu tórax.
— Quero aproveitar você um pouquinho. Você fez isso comigo ontem, mas eu não tive oportunidade — expliquei, me inclinando para morder sua tatuagem.
gemeu baixinho e me segurou com firmeza, sua ereção firme como uma rocha entre nós.
— ...
— — respondi, rindo baixinho, antes de me afastar e segurá-lo com uma mão.
me observou com um semblante sério e franziu o cenho quando comecei a trabalhar com minha mão nele. Quando o tomei com a boca, vi ele jogar a cabeça para trás e me senti satisfeita. Mas não tanto quanto no momento em que ouvi ele gemer meu nome baixinho, uma mão indo direto para o meu cabelo. Não me pressionou, mas apoiou a mão ali e segurou firme nos fios vermelhos.
estava me deixando fazer o que quisesse com ele e eu estava adorando cada segundo, cada reação sua e respiração ofegante. Ele tinha me deixado uma bagunça no dia anterior, então eu faria o mesmo com ele.
Mas como nem tudo eram flores, o macho alfa resolveu reaparecer e me afastou repentinamente, invertendo nossas posições.
— Estraga prazeres — resmunguei, com um sorriso.
— Se eu te deixasse continuar, a brincadeira ia acabar antes de começar, amor. Não esquece que fiquei longe de você por dois meses.
— Ah, é. Você devia estar com saudade. — Enrosquei minhas pernas em sua cintura, o trazendo para perto.
— Morrendo — ele respondeu, pressionando sua ereção contra minha entrada.
Eu seria hipócrita se dissesse que não estava louca por aquilo também. Meu corpo estava encharcado por ele. juntou nossos lábios novamente e usei minhas pernas para trazer seu quadril para ainda mais perto.
Com facilidade, ele deslizou para dentro de mim, me preenchendo por completo. Meu corpo sensível doeu de uma forma deliciosa e se esticou ao redor dele para acomodá-lo. levou as mãos até meios seios e os apertou com desejo enquanto deslizava para fora e dentro de mim uma e outra vez. Gemi com a fricção de nossos corpos e a firmeza de seu toque. Eu não queria nada delicado, só queria que ele acabasse comigo. E não me importava nem um pouquinho de ficar com algumas marcas depois.
se enterrou vezes e mais vezes em mim enquanto suas mãos percorriam meu corpo. Então resolveu trocar de posição e se afastou, me colocando de barriga para baixo. Puxou meu quadril e deu um tapa estalado, me pegando de surpresa, antes de se enterrar em mim outra vez.
Eu teria rido, se não estivesse tão excitada. Ao invés disso, tudo o que fiz foi gemer. Aquela posição trazia mais pressão entre nossos corpos e ele bateu uma e outra vez contra mim, segurando meus quadris com afinco. Senti meu corpo começar a se apertar ao seu redor e de repente, enrolou meu cabelo em uma mão, puxando-o com firmeza, antes de colocar uma mão em meu tórax, me puxando para trás. Usando a mão livre, ele percorreu meus seios sem parar de se movimentar e mordeu meu ombro.
— ... — murmurei ofegante, sentindo a tensão em meu corpo crescer.
Eu queria ver o rosto dele quando caíssemos de prazer, mas não consegui dizer isso. No entanto, como se estivesse pensando na mesma coisa, se afastou e me jogou na cama outra vez. No próximo momento em que entrou em mim, aumentou a velocidade de seus movimentos, levando nós dois para a borda.
Um instante depois, eu tremi violentamente contra ele, cravando as unhas em seus ombros. continuou por mais alguns segundos e então enterrou o rosto no meu pescoço no segundo em que o senti se derramar em mim.
Nossos peitos subiam e desciam enquanto tentávamos recuperar o fôlego, nossos corpos ainda conectados. E foi somente quando nos acalmamos que saiu de dentro de mim. Em seguida, selou nossos lábios em um beijo suave e se afastou para me pegar nos braços com cuidado.
Ele nos levou ao banheiro e foi direto para a banheira, me colocando sentada em um canto enquanto a ligava. O fofinho tinha voltado e eu sorri.
Esfreguei minhas coxas uma contra a outra, sabendo que ficaria dolorida em breve. Enquanto preparava um banho para nós, um flash de memória me atingiu.
Era a mesma noite em que nos conhecemos.
6 de abril de 2019, 00:26 - Manhattan, Nova York, NY
Suspirei, entediada enquanto encarava todo o salão do bar vazio. Aquele lugar costumava ser um restaurante até um ano atrás, quando Brandon, o namorado de Karol, resolveu comprá-lo e transformar o lugar em um bar chique. Fazia parte do prédio de um grande hotel, então costumava ser bem movimentado, mas naquela noite só havia nós três e alguns amigos que foram embora antes da meia-noite.
Tagarela como eu ficava depois que o álcool começava a circular em meu sangue, fiquei conversando com o casal de amigos por mais tempo, mesmo depois de até mesmo já ter ido embora. Eu sempre podia pegar um táxi para casa, de qualquer forma, e não estava nem um pouquinho cansada. Tínhamos comemorado um novo contrato da Double K, a marca de roupas que Kate e Karol eram donas, e talvez eu tivesse ficado um pouquinho hiperativa demais naquela noite, por resolver fazer companhia para meus amigos quando soube que eles esperariam um cliente que havia alugado o local todo por duas horas, a partir da meia-noite.
Eu falei para mim mesma que ficaria até uma da manhã e depois iria para casa, mas à meia-noite e vinte, Brandon recebeu uma ligação informando sobre alguma briga em outro bar dele, no Queens. Ele tinha um em cada bairro de Nova York, mas aquele ficava a cerca de vinte minutos de distância. Por conta disso, acabei sozinha em um bar vazio, após eles me pedirem para ficar ali e atender o tal cliente especial. Na minha época de bicos, eu trabalhei em um bar de Brandon no Brooklyn e foi assim que o conheci. Mais tarde, depois que comecei a trabalhar na editora, eu soube que ele era o namorado da melhor amiga de Kate.
Fiquei mexendo no celular e futricando o Instagram enquanto o tal cliente não aparecia. Brandon explicou que ele costumava beber whisky com gelo e, às vezes, pedia alguns petiscos prontos.
Eu nem notei quando ele chegou. Ouvi sua voz a um metro de distância e me sobressaltei com o susto. Depois quase caí para trás quando vi me encarando. Imediatamente pensei que talvez eu estivesse alucinando, mas então a miragem de falou novamente.
— Onde está Brandon? — ele quis saber.
— Ah, ele... Teve um probleminha em outro bar e me pediu pra te atender.
— Você trabalha aqui? — Ele perguntou, com indiferença.
— Não... — Consegui responder. — Sou amiga de Brandon, eu costumava trabalhar pra ele em um bar do Brooklyn, mas agora trabalho em uma editora — tagarelei. Só podia ser efeito do álcool ainda correndo em minhas veias, porque de jeito nenhum eu conseguiria formular uma palavra coerente na frente de , ainda mais encontrando ele de surpresa.
Por que Brandon não me disse que ele era o cliente especial?
Será que minha maquiagem estava borrada? A última coisa que eu queria nessa vida era encontrar meu cantor favorito pessoalmente pela primeira vez, sozinha, e estar com cara de chapada.
Discretamente, me virei e encarei meu próprio reflexo no espelho atrás de mim, que ficava junto à prateleira de bebidas. Felizmente, parecia estar tudo em ordem.
— Um dose de whisky com gelo, por favor — pediu, sem fazer mais perguntas.
Preparei a dose e ele pegou o copo, antes de se afastar para o outro lado do bar. Ficamos em silêncio pelos próximos vinte minutos e mandei uma mensagem para Brandon.
: ? Sério, Brandon? Você não pensou nem por um instante me avisar que seu cliente especial é o meu cantor favorito?"
Obtive uma resposta depois de cinco minutos.
Brandon: Surpresa! Considere um presente de aniversário atrasado. Foram dois meses de atraso, mas o que vale é a intenção, né?"
Filho da puta traiçoeiro e... Legal pra caralho! Com um sorrisinho nos lábios, digitei outra mensagem.
: Nem pense em voltar tão cedo aqui! Deixa que EU cuido dele.
Tinha começado a chover há alguns minutos e gotas grossas de água escorriam pela parede de vidro. estava em pé e de costas, observando a vista, e eu estava observando ele, é claro. Até que de repente, ele se virou e fui pega.
Desviei o olhar rapidamente e fingi que estava organizando alguns itens no balcão. veio buscar outra dose e eu a preparei em silêncio.
— Faz tempo que você tá aqui?
— Brandon me pediu pra ficar. Eu não sabia que... Era você o cliente.
— E isso faz alguma diferença?
— Não, de forma alguma. — Sorri e me virei para pegar um pouco de água para mim e... Bem, eu não sabia o que fazer, então precisava ocupar minhas mãos com alguma coisa.
— Tá chovendo bastante hoje...
Franzi o cenho. Por que ele tava falando de chuva, de repente?
Espera... Ele tava tentando puxar papo comigo?
— Pois é... — Ri baixinho e dei uma espiada nele pelo espelho. me encarava e desviou o olhar rapidamente quando percebeu que eu percebi. Levou alguns segundos, mas eu já sabia que ele era meio lerdo.
Meio que fazia parte do charme dele e eu, como fã, achava esse um fato curioso. O TDAH do gato estava em dia.
Me voltei para ele outra vez e coloquei meu copo de água em cima do balcão.
— Sabe... Eu menti — confessei. — O fato de você ser o cliente de Brandon faz diferença, sim.
— Por quê?
— Por que eu sou sua fã há quatro anos e Brandon sabe disso e não me disse nada.
Um sorriso apareceu no canto dos lábios de .
— Sério? E por que ele não disse nada?
— Ele disse que era meu presente de aniversário atrasado. Sinto muito. Mas eu não sou maluca nem nada. Quer dizer... só um pouquinho, mas não vou te incomodar — falei rapidamente.
riu, divertido.
— Você quer se sentar comigo ali? — Ele apontou para um sofá em frente a uma das mesas.
— Hã, claro.
Eu que não iria negar um convite desses. Imagina só... Hahaha. Quando eu saísse daqui já poderia dizer que era uma fã de sucesso. Talvez eu até conseguisse um autógrafo dele depois. Eu preferiria uma foto, mas não queria incomodar ele com isso.
— Você mora perto daqui? — ele perguntou.
— Hm, na verdade, não. Moro com minha irmã no Brooklyn. Ela estava aqui mais cedo, mas foi embora.
— E você vai pra casa sozinha? A essa hora?
— É só pegar um táxi. Não seria a primeira vez. — Sorri, dando de ombros. — E você? Tá hospedado aqui?
— Não. Mas moro perto. Comprei um apartamento recentemente e... Acho que você deve saber disso.
— Ah, sim... Eu meio que sei de tudo mesmo. Amo suas músicas.
— Fico feliz. — Ele sorriu. — Qual a sua favorita?
— “Limbo”.
— “Limbo”? Que surpresa. Essa música teve menos destaque que as outras. Eu nem promovi.
— Mas é muito boa. E eu sei que deu trabalho pra você, eu assisti a live de lançamento. Mas ter sido difícil acho que é o que torna ela mais especial.
— Ah... Obrigado.
— Eu tenho até uma tatuagem de referência, olha... — Me virei, mostrando meu tríceps direito. Havia um pequeno rabisco de um doodle que eu mesma desenhei em referência ao videoclipe. A música inteira representava sonhos e a letra era um amor. Diferente das letras sensuais que costumava escrever.
— Bonita. Fica bem em você.
— Obrigada. — Sorri.
Ele falou que fica bem em miiiiim, AAAAA, surtei internamente, mas segui plena por fora. O álcool às vezes era de grande ajuda mesmo, até esqueci da água em cima da mesa.
— Eu também adoro a sua. — Apontei para o pescoço dele. — Deve ter doído muito.
— Você pode tocar se quiser — ele ofereceu, claramente se divertindo com meu papo de fã. era conhecido por ser bem gentil mesmo.
— Posso? Nossa... Ela é bem mais bonita de perto. — Toquei a pele dele levemente e arrastei o polegar por uma das florzinhas de ameixa. Um rastro de tinta se formou e imediatamente removi a mão. — Meu Deus, você retocou? Eu te machuquei?
— Não, relaxa. — Ele sorriu. — Retoquei há algumas horas. Amanhã eu viajo e queria fazer isso antes.
— Caramba... Você nem devia estar bebendo. Todo tatuador indica um controle na dieta pra não prejudicar a... — Parei de falar quando notei sorrindo abertamente. — Ei, isso não é engraçado. A autora que eu agencio também é enfermeira e ela me disse umas coisas que até hoje eu penso. Você tem que levar isso a sério!
assentiu, fingindo aceitar a culpa, e colocou o copo quase vazio em cima da mesa.
— Prometo não beber mais.
— Aff, você não devia ter me deixado te tocar. — Estendi a mão para o pescoço dele num impulso de limpar a mancha preta na parte da pele íntegra, mas não o fiz. Vai que eu contaminava, o troço infeccionava e depois eu acabasse sendo processada por prejudicar a integridade física dele e...
Tudo bem, acho que não era para tanto.
No entanto, quando fui puxar o braço de volta, segurou minha mão e em seguida, a colocou no próprio rosto.
— Acho que aqui você pode tocar sem culpa — brincou.
— Você tá bêbado? Alguém pode dizer que eu tô me aproveitando de você.
— Não tem ninguém aqui. Somos só nós dois.
Meu estômago se apertou de ansiedade quando ouvi isso. Quase me belisquei para saber se não estava sonhando.
— Felizmente. Assim eu não preciso dividir sua atenção com outra pessoa — brinquei, me sentindo ousada de repente.
— E nem eu a sua — respondeu na lata. Pelo visto, eu não era a única me sentindo ousada naquela noite. — Qual o seu nome?
Ah, é mesmo. Eu havia me esquecido de me apresentar. Que coisa.
— . .
— E quantos anos você tem, ? — Ele quis saber e me deliciei com o som do meu nome em sua voz.
— Vinte e cinco.
Eu era três anos e três meses mais nova que ele, para ser exata. faria vinte e nove em novembro.
Ele pareceu absorver a informação por alguns segundos, e então falou.
— Sabe... Eu pensei em te oferecer uma carona pra casa. Te acompanhar no táxi e então voltar, pra você não ter que ir sozinha, mas...
— O quê?
— O prédio onde eu moro fica a dois quarteirões daqui — ele comentou.
— Ah, é? — perguntei, e eu tinha certeza de que meus olhos só podiam estar brilhando com malícia porque não tinha nenhuma parte pura em mim naquele momento.
— Você pode ficar no quarto de hóspedes, se quiser, e ir pra casa depois do café da manhã ou...
— Ou? — Arqueei uma sobrancelha, curiosa.
— Minha cama é grande o suficiente pra nós dois.
Meu. Deus. Ele tava abertamente dando em cima de mim! Que descarado!
— Sério? Você nem me beijou ainda e já tá me oferecendo esse convite? E eu achando que você era tímido.
Tímido era o meu pau inexistente. Que safado.
Amei.
— Eu queria ter certeza antes. — Ele deu de ombros e roubou um gole do meu copo de água.
Ponderei por alguns segundos.
Era provável que eu nunca mais fosse vê-lo depois daquela noite. Além disso, quando eu teria a chance de viver uma one night stand com o meu cantor favorito de novo? Eu tinha era que aproveitar mesmo. Não era todo dia que um cara lindo e gentil aparecia na minha frente, ainda mais um de quem coincidentemente eu era fã. Tecnicamente, tinha sido proposital, mas eu não sabia. Eu iria lembrar de agradecer à fada madrinha Brandon no dia seguinte.
Eu nunca havia tido nenhuma noite casual com ninguém, considerando que havia terminado um relacionamento de um ano e meio com meu chefe e ele havia sido o único homem que tinha me tocado até então. Contudo, aquela era uma oportunidade única na vida. Eu estaria sendo burra de deixar passar.
provavelmente me xingaria por uma semana se eu deixasse passar, porque ela sabia o tanto que eu gostava de .
E era uma quantidade assim... Razoável.
Tomei uma decisão e assim que ele colocou o copo de volta na mesa, eu virei seu rosto para mim e o beijei. Foi só um selinho, e ele pareceu surpreso no início, mas, um segundo depois, levou a mão para meu rosto e aprofundou o nosso beijo.
Meu coração disparou e eu perdi a noção do tempo, mas quando nos afastamos, sorrimos um para o outro.
Eu estava totalmente agindo que nem uma groupie, mas não estava nem aí. Se o sujeito de várias das minhas fantasias queria passar a noite comigo, então quem seria eu para negar?
Cinco minutos depois, Brandon apareceu sozinho e eu corri para pegar minha bolsa e celular que havia deixado no balcão enquanto ele e se cumprimentavam.
Quando me coloquei ao lado de novamente, ele entrelaçou nossas mãos e nos despedimos de Brandon. Antes de passarmos pela porta, acenei para meu amigo com um sorriso no rosto.
me levou até o apartamento dele e aquela foi nossa primeira noite juntos. Pela manhã, acordei e vesti a camisa dele na noite anterior e tomamos café da manhã juntos também pela primeira vez.
Dias atuais, 10:44 - Apartamento de e , Nova York, NY
Naquele mesmo apartamento. Três anos atrás. Nosso relacionamento tinha sido fruto de uma noite casual de sexo quente? Meu Deus, eu fui uma cadela total, quem diria? Me lembrei de cada momento daquela noite e...
— Eu não acredito que dormi com você na mesma noite em que nos conhecemos — comentei com e ele se virou para mim no mesmo instante.
— O quê? Você lembrou daquela noite?
Assenti e riu, me beijando em seguida.
— Me conte tudo, amor — ele pediu.
Nós entramos na banheira e ele pegou uma esponja para esfregar em minhas costas. Então eu contei a ele tudo o que me lembrava, inclusive nossa primeira vez juntos. murmurou vários "hm" e "uhum" enquanto ouvia atentamente e, no final de tudo, as lembranças ativaram o meu lado cadela outra vez e o beijei novamente. correspondeu na mesma intensidade e, alguns momentos depois, tivemos nosso segundo round do dia na banheira.
O café da manhã continuou esquecido na cozinha por mais alguns minutos.
Capítulo 13
— Eu ainda não acredito nisso, . Você foi muito cachorrão — falei de repente, no meio do nosso café da manhã, antes do meu primeiro dia (de volta) na academia.
O que também era três dias depois de quando lembrei da noite em que nos conhecemos. E saber que dormimos juntos poucas horas depois ainda não tinha saído da minha cabeça.
— ... — Ele me encarou, tentando conter um sorriso. O idiota achava divertido porque fazia um tempão que tinha acontecido, mas pra mim era novidade. Tipo, eu não surtei na época? — Eu já te expliquei que só aconteceu.
— Ah, é? Era assim que você conquistava meninas por aí? Isso é tão energia de fuckboy que eu não sei porque não me ofendi. Aliás, eu sei sim. Porque eu também fui uma cadela e agarrei a oportunidade que nem uma groupie ardendo de tesão.
riu dessa vez.
— Ainda bem que você fez isso. Seria vergonhoso ser rejeitado.
— Sua identidade foi a única razão pra eu não te rejeitar. Você foi o meu segundo cara...
— Eu sei. Mas por que você ainda tá pensando nisso? Aconteceu, . E eu já te disse que não, eu não conquisto meninas assim e foi só com você. Antes disso, fiquei com uma antiga staff e quando acabou, ela voltou com o ex, se casou três meses depois, e pediu demissão. Foi o relacionamento mais casual que já tive.
— E antes dela?
— Antes dela teve a minha ex, a que inspirou algumas músicas.
Assenti, semicerrando os olhos.
— Nunca pensei que você ficar grata por você ter sido traído, . Mas ainda bem que aconteceu. Rendeu muitas músicas boas. E quanto à tal staff, que bom que ela voltou com o ex e você ficou solteiro de novo. Mas quando foi isso?
— Uns três meses antes de te conhecer — ele informou.
— E eu achando que você escolhia mulheres que nem escolhia roupas...
— Óbvio que não — ele bufou. — Não sou um idiota pra sair pulando de cama em cama.
— Mas por que eu, então? — Eu quis saber. — Tipo, é meio óbvio que um monte de mulher dá em cima de você e...
— Mas você não. — Ele tomou um gole de café. Seus olhos brilharam de diversão. — Fui eu que dei em cima de você, lembra?
— O que é ainda mais estranho — confessei. — Eu nem sabia que eu fazia o seu tipo. Achei que gostasse só de modelos ou algo assim.
— Que bobagem. Eu nunca tive um tipo antes de você aparecer. Eu nem sei como tive coragem de te convidar pro meu apartamento, amor. Só aconteceu. Eu te achei linda e divertida, e você me passou uma boa energia. Eu tive vontade de te beijar desde a primeira vez que você sorriu pra mim. Acho que foi amor à primeira vista, e eu nem acreditava nisso.
— O que aconteceu depois? — Eu quis saber e pressionou os lábios, incerto sobre o que falar. — Ei, acho que não vou ter um treco em saber disso, relaxa. Talvez me ajude a lembrar mais.
— O médico disse...
— Eu sei o que o médico disse, — o cortei. — Mas eu quero que você me conte também.
respirou fundo, resignado, e me encarou.
— Tudo bem — ele respondeu. Sorri, satisfeita. — Nós tomamos café da manhã naquele dia e depois eu chamei um táxi pra você. Pedi seu número antes e entrei em contato no mesmo dia. Nós ficamos nos falando todos os dias enquanto eu tava fora a trabalho e quando voltei, te chamei pra sair. Pra um encontro de verdade.
— Um encontro? — Arqueei uma sobrancelha. — Em público?
— Sim. Eu meio que me apaixonei um pouquinho mais depois das nossas conversas e queria deixar claro que eu tava te levando a sério. Te pedi pra ser minha namorada naquela noite. — Ele sorriu, como estivesse lembrando. Então me encarou, alarmado. — E se a gente fizesse isso?
— Isso o quê? — perguntei, terminando de tomar meu suco.
— Reproduzir nossos encontros. Talvez isso te ajude a lembrar. Fora que a gente nem comemorou nosso aniversário ainda, . Podíamos aproveitar a chance.
— Tá, por mim, tudo bem. — Dei de ombros. — Mas e os paparazzi?
— Podemos passar a perna neles. Reservar restaurantes com outro nome.
— Tá, reserva com o nome de Dean Kwon, então — o desafiei.
revirou os olhos, mas assentiu. Eu ri baixinho. Ele quase sempre fazia o que eu queria, era fofo. Depois de dormirmos juntos, nossa conexão pareceu se intensificar mais também. Não estávamos mais nos segurando de tocar o outro e voltamos a dividir o quarto desde então.
Eu tinha dormido muito bem, obrigada.
Era bom não ter um sono agitado ou insônia atrapalhando minha noite. Claro que, no fim, minha irmã estava certa em um ponto. também tinha suas técnicas para me ajudar a relaxar e eu absolutamente as adorava.
Insira aqui o emoji de demônio roxo sorrindo.
Eu havia acordado de bom humor naquela segunda-feira e por mais que eu odiasse segundas, era o dia que eu também voltaria a trabalhar oficialmente. No mais, eu estaria entrando em contato com Kate o dia todo, sempre que uma de nós precisasse, e me comunicando por e-mail com outras editoras e interessados em fazer parcerias com ela.
Por enquanto, eu resolveria tudo online até segunda ordem. Por mais que eu me lembrasse de absolutamente tudo em relação ao meu trabalho, Andy, Dianna e Kate insistiram para que eu não saísse por aí sozinha. Como meu relacionamento com era público, as pessoas poderiam me abordar na rua, especialmente paparazzi, o que seria meio tosco já que eu não tinha ideia de como lidar com eles. Então, caso fosse necessário algum encontro presencial, Andy ou Kate se organizariam para me acompanhar.
Eu não tinha do que reclamar. Ainda estava completamente alheia sobre as redes sociais e não recebi nenhum e-mail estranho, então achei que estava tudo bem. Às vezes, eu via rolando a tela do Instagram e ficava curiosa, mas ele me deixava ver apenas coisas bem específicas. Tipo o que postava nos stories. Ele era meio low-profile, então nunca tinha muita coisa.
Na noite anterior, cheguei a pensar que voltar para o Instagram pudesse me ajudar a lembrar de algo, mas foi contra a ideia quando comentei com ele. Era quase como se ele soubesse de algo que não queria que eu soubesse. Frequentemente, eu achava que, se ele pudesse me guardar num potinho, ele o faria. Como se eu fosse a rosa da Fera, que precisava ser protegida a todo custo para não se despedaçar muito rápido.
Eu não tinha ideia se havia algo que fosse me fazer despedaçar, especialmente na internet, mas entendia querer me proteger. Eu poderia baixar minhas redes sociais quando bem entendesse, mas escolhi deixar de lado por mais um tempo.
Depois do café da manhã, nós descemos para a academia onde John já nos aguardava e meia hora de exercícios depois, meu bom humor evaporou como vapor de água. Eu estava suada, nojenta, com o cabelo grudando na testa e queria muito dar um soco em John e xingar até a quinta geração da família dele.
O idiota me fez pedalar cinco quilômetros em velocidade rápida como aquecimento e depois me colocou para puxar ferro feito um burro de carga.
Por um lado, eu estava impressionada com o meu condicionamento físico em aguentar tudo sem desmaiar e por outro, eu não via a hora de ir embora.
John não foi bonzinho com também. Meu namorado ralou um pouco na musculação e nosso personal ainda o fez cantar enquanto corria para ajudá-lo a controlar melhor o fôlego quando se apresentasse.
Acho que fazia muito aquilo, considerando a estabilidade que ele conseguia manter em sua voz enquanto corria na esteira. Como fã, achei incrível. Como namorada, era bom saber que ele tinha bastante resistência física. He he.
Quando o treino acabou, nós voltamos para o apartamento e me recusei a encostar em enquanto estivéssemos suados. Passei direto para o banheiro enquanto ele foi preparar a gororoba de whey para tomar, e me despi rapidamente antes de entrar no chuveiro.
A água fria naquele momento foi bem-vinda e fiquei parada de olhos fechados por um momento, sentindo ela cair sobre mim enquanto recuperava o fôlego.
Foi quando um flash de memória me atingiu.
e eu estávamos naquele mesmo banheiro, discutindo.
— Sua agência tem que fazer alguma coisa, . Isso não é normal. Eles não podem te negligenciar assim! — exclamei, irritada.
— Eu sei, estamos trabalhando nisso, ...
— Estamos uma ova, ! Você não tem que fazer porra nenhuma — reclamei. — É obrigação deles proteger sua integridade física e moral. A única coisa que você tem que fazer é dizer sim pra qualquer proposta de processar quem seja o idiota que anda te perseguindo e qualquer outro da mesma laia.
É claro. O stalker! Aquilo foi em fevereiro desse mesmo ano, dois meses atrás, antes de viajar para a turnê na Ásia. Eu descobri que ele tinha um stalker de estimação e não me disse nada até o idiota começar a me mandar mensagens também.
Inclusive fotos de pau e vídeos se masturbando. Um ultraje. disse que com ele isso nunca aconteceu, e por mais que ele bloqueasse as contas do fulano, ele sempre aparecia com uma nova, em um aparelho de celular diferente e com uma localização diferente também. Provavelmente devia estar usando algum aplicativo para mascarar tudo.
Fazia quase um ano e meio que recebia declarações e mais declarações do cara, mas nunca respondeu ou sequer aceitou nenhuma solicitação de mensagem. E não acontecia apenas no Instagram, mas também no Twitter, além de eventuais ligações que ele recebia de números desconhecidos.
E ele só pensou em me contar há dois meses, o idiota. Só por que o cara começou a me assediar também. Fazia só dois dias, e eu não hesitei em contar para ele assim que tive oportunidade e lembrei. Eu estava ocupada com o lançamento do livro de Kate e achei que fosse só um Zé Ruela aleatório, até ele começar a mandar mensagens esquisitas sobre me querer longe de . E que poderia fazer o sacrifício de ficar comigo ao invés disso, para que eu deixasse em paz. Depois vieram as mídias de pau. Nojento pra caralho. Quase xinguei o pau dele com as piores coisas que podia pensar, mas resolvi fingir que nem vi para não dar trela. Eu também não havia aceitado a solicitação de mensagem e assim que pude, contei a .
Discutimos feio naquela noite. Ou melhor, eu discuti, enquanto ele ouvia e tentava me convencer de que estava tomando providências. Depois de um ano e meio! A verdade é que o pressionei e ele confessou que só ignorava a pessoa, mas que não ia deixar mais passar depois dele mexer comigo.
Idiota protetor e bonzinho, pensei enquanto lembrava de tudo. Nessas horas, eu achava que o mundo era um lugar sombrio demais para . Ele tinha isso de não querer prejudicar ninguém, mesmo que isso o afetasse negativamente. Só que isso me deixava puta! Porque eu era do time tome-aqui-um-processo-já-que-você-é-o-bonzão para cada ser, homem ou mulher que tentava prejudicar Kate. E o agente de sabia do que estava acontecendo e não fazia nada. Um palhaço. Eu não fazia ideia se algo foi resolvido, porque só lembrei daquela discussão.
E também lembrei que tenho ranço de Jace Keller, olha só.
Até ontem eu achava que ele era um cara legal e me perguntei porque ele não tinha aparecido nenhuma vez no nosso apartamento, já que era o funcionário mais próximo de . Aí estava a minha resposta. Eu o odiava e não escondia minha antipatia por ele, assim evitava nos colocar no mesmo lugar.
Ah, que coisa. Era irritante pra caralho lembrar de trechos da minha própria vida e eu não via a hora de recuperar todas as minhas memórias.
Lavei o cabelo com agilidade enquanto tentava esfriar a cabeça que agora estava quente de irritação, e tentei relaxar um pouco. Mas aí apareceu no banheiro um momento depois, já sem camisa.
— Eu lembrei de uma coisa — anunciei. — Como vai Jace, o Filho da Puta? Espero que ele tenha encontrado aquele stalker maldito.
arregalou os olhos levemente, surpreso.
— De tudo o que você podia lembrar, foi logo que odeia Jace?
— Deve ter sido minha irritação com os exercícios que puxou mais memórias irritantes do meu cérebro — deduzi, dando de ombros. — E então? Pegaram o idiota?
— Ainda não. Mas ele não te mandou mais mensagens depois que você me contou e eu comuniquei à agência sobre o que tava acontecendo. Bem, ao menos não que eu saiba. Você não me disse nada enquanto eu tava na Ásia.
— Hm... Tomara que peguem logo, então. Se esse idiota aparecer na minha frente, eu faço questão de enfiar meu sapato na bunda dele, aquele pervertido! — ameacei, irritada e deve ter sido engraçado já que começou a rir, o que só fez eu me irritar mais ainda. — Do que você tá rindo?
— De você, toda ensaboada ameaçando alguém que deve ter o dobro do seu tamanho.
— Você não sabe disso, ele pode ser menor que eu. E se for maior, não vai me impedir de chutar as bolas dele.
riu novamente e tirou o resto das roupas antes de se juntar a mim.
— Isso tudo pra me defender? — ele perguntou, quando dei espaço para ele no chuveiro, enquanto passava creme no cabelo.
— Sim, já que você é mole demais pra isso. Com esse seu jeito, se você fosse feio, teria sofrido muito bullying na escola. Você só sabe defender os outros, . Eu sei que você odeia conflitos, mas às vezes eles são necessários.
— A agência tá cuidando disso, . É só uma questão de tempo até pegarem esse idiota.
O encarei com certa desconfiança, mas resolvi deixar o assunto de lado.
— Ainda bem que você é hétero e não bi. Imagina ter que competir com homens também...
— O quê? Do nada? — riu da minha brusca mudança de assunto.
— Só tô dizendo porque você é muito bonito. Eu mal consigo tirar meus olhos de você, imagine um stalker — comentei, enquanto corria os olhos por seu corpo nu, sem um pingo de vergonha.
Eu estava ficando muito mal acostumada com aquele tipo de visão todos os dias. Mas olha, era muito bom.
sorriu, já terminando de lavar o cabelo, enquanto eu ainda estava presa com meu cabelão todo embaraçado. O dele era curto e fácil de cuidar. Até onde eu sabia, podia lavar o cabelo com detergente, e ele continuaria macio como o de um bebê.
Eu tinha que fazer vários tratamentos para manter o meu no mínimo aceitável. Terminei de lavá-lo enquanto se enxugava com uma toalha e, alguns minutos mais tarde, estávamos decentes de novo, agora sem um pingo de suor no corpo.
Meu celular tocou em cima da cama com o alarme de início do meu expediente e eu me tranquei no escritório com meu café da manhã, e seguiu para o estúdio no fim do corredor.
De volta ao trabalho.
O que também era três dias depois de quando lembrei da noite em que nos conhecemos. E saber que dormimos juntos poucas horas depois ainda não tinha saído da minha cabeça.
— ... — Ele me encarou, tentando conter um sorriso. O idiota achava divertido porque fazia um tempão que tinha acontecido, mas pra mim era novidade. Tipo, eu não surtei na época? — Eu já te expliquei que só aconteceu.
— Ah, é? Era assim que você conquistava meninas por aí? Isso é tão energia de fuckboy que eu não sei porque não me ofendi. Aliás, eu sei sim. Porque eu também fui uma cadela e agarrei a oportunidade que nem uma groupie ardendo de tesão.
riu dessa vez.
— Ainda bem que você fez isso. Seria vergonhoso ser rejeitado.
— Sua identidade foi a única razão pra eu não te rejeitar. Você foi o meu segundo cara...
— Eu sei. Mas por que você ainda tá pensando nisso? Aconteceu, . E eu já te disse que não, eu não conquisto meninas assim e foi só com você. Antes disso, fiquei com uma antiga staff e quando acabou, ela voltou com o ex, se casou três meses depois, e pediu demissão. Foi o relacionamento mais casual que já tive.
— E antes dela?
— Antes dela teve a minha ex, a que inspirou algumas músicas.
Assenti, semicerrando os olhos.
— Nunca pensei que você ficar grata por você ter sido traído, . Mas ainda bem que aconteceu. Rendeu muitas músicas boas. E quanto à tal staff, que bom que ela voltou com o ex e você ficou solteiro de novo. Mas quando foi isso?
— Uns três meses antes de te conhecer — ele informou.
— E eu achando que você escolhia mulheres que nem escolhia roupas...
— Óbvio que não — ele bufou. — Não sou um idiota pra sair pulando de cama em cama.
— Mas por que eu, então? — Eu quis saber. — Tipo, é meio óbvio que um monte de mulher dá em cima de você e...
— Mas você não. — Ele tomou um gole de café. Seus olhos brilharam de diversão. — Fui eu que dei em cima de você, lembra?
— O que é ainda mais estranho — confessei. — Eu nem sabia que eu fazia o seu tipo. Achei que gostasse só de modelos ou algo assim.
— Que bobagem. Eu nunca tive um tipo antes de você aparecer. Eu nem sei como tive coragem de te convidar pro meu apartamento, amor. Só aconteceu. Eu te achei linda e divertida, e você me passou uma boa energia. Eu tive vontade de te beijar desde a primeira vez que você sorriu pra mim. Acho que foi amor à primeira vista, e eu nem acreditava nisso.
— O que aconteceu depois? — Eu quis saber e pressionou os lábios, incerto sobre o que falar. — Ei, acho que não vou ter um treco em saber disso, relaxa. Talvez me ajude a lembrar mais.
— O médico disse...
— Eu sei o que o médico disse, — o cortei. — Mas eu quero que você me conte também.
respirou fundo, resignado, e me encarou.
— Tudo bem — ele respondeu. Sorri, satisfeita. — Nós tomamos café da manhã naquele dia e depois eu chamei um táxi pra você. Pedi seu número antes e entrei em contato no mesmo dia. Nós ficamos nos falando todos os dias enquanto eu tava fora a trabalho e quando voltei, te chamei pra sair. Pra um encontro de verdade.
— Um encontro? — Arqueei uma sobrancelha. — Em público?
— Sim. Eu meio que me apaixonei um pouquinho mais depois das nossas conversas e queria deixar claro que eu tava te levando a sério. Te pedi pra ser minha namorada naquela noite. — Ele sorriu, como estivesse lembrando. Então me encarou, alarmado. — E se a gente fizesse isso?
— Isso o quê? — perguntei, terminando de tomar meu suco.
— Reproduzir nossos encontros. Talvez isso te ajude a lembrar. Fora que a gente nem comemorou nosso aniversário ainda, . Podíamos aproveitar a chance.
— Tá, por mim, tudo bem. — Dei de ombros. — Mas e os paparazzi?
— Podemos passar a perna neles. Reservar restaurantes com outro nome.
— Tá, reserva com o nome de Dean Kwon, então — o desafiei.
revirou os olhos, mas assentiu. Eu ri baixinho. Ele quase sempre fazia o que eu queria, era fofo. Depois de dormirmos juntos, nossa conexão pareceu se intensificar mais também. Não estávamos mais nos segurando de tocar o outro e voltamos a dividir o quarto desde então.
Eu tinha dormido muito bem, obrigada.
Era bom não ter um sono agitado ou insônia atrapalhando minha noite. Claro que, no fim, minha irmã estava certa em um ponto. também tinha suas técnicas para me ajudar a relaxar e eu absolutamente as adorava.
Insira aqui o emoji de demônio roxo sorrindo.
Eu havia acordado de bom humor naquela segunda-feira e por mais que eu odiasse segundas, era o dia que eu também voltaria a trabalhar oficialmente. No mais, eu estaria entrando em contato com Kate o dia todo, sempre que uma de nós precisasse, e me comunicando por e-mail com outras editoras e interessados em fazer parcerias com ela.
Por enquanto, eu resolveria tudo online até segunda ordem. Por mais que eu me lembrasse de absolutamente tudo em relação ao meu trabalho, Andy, Dianna e Kate insistiram para que eu não saísse por aí sozinha. Como meu relacionamento com era público, as pessoas poderiam me abordar na rua, especialmente paparazzi, o que seria meio tosco já que eu não tinha ideia de como lidar com eles. Então, caso fosse necessário algum encontro presencial, Andy ou Kate se organizariam para me acompanhar.
Eu não tinha do que reclamar. Ainda estava completamente alheia sobre as redes sociais e não recebi nenhum e-mail estranho, então achei que estava tudo bem. Às vezes, eu via rolando a tela do Instagram e ficava curiosa, mas ele me deixava ver apenas coisas bem específicas. Tipo o que postava nos stories. Ele era meio low-profile, então nunca tinha muita coisa.
Na noite anterior, cheguei a pensar que voltar para o Instagram pudesse me ajudar a lembrar de algo, mas foi contra a ideia quando comentei com ele. Era quase como se ele soubesse de algo que não queria que eu soubesse. Frequentemente, eu achava que, se ele pudesse me guardar num potinho, ele o faria. Como se eu fosse a rosa da Fera, que precisava ser protegida a todo custo para não se despedaçar muito rápido.
Eu não tinha ideia se havia algo que fosse me fazer despedaçar, especialmente na internet, mas entendia querer me proteger. Eu poderia baixar minhas redes sociais quando bem entendesse, mas escolhi deixar de lado por mais um tempo.
Depois do café da manhã, nós descemos para a academia onde John já nos aguardava e meia hora de exercícios depois, meu bom humor evaporou como vapor de água. Eu estava suada, nojenta, com o cabelo grudando na testa e queria muito dar um soco em John e xingar até a quinta geração da família dele.
O idiota me fez pedalar cinco quilômetros em velocidade rápida como aquecimento e depois me colocou para puxar ferro feito um burro de carga.
Por um lado, eu estava impressionada com o meu condicionamento físico em aguentar tudo sem desmaiar e por outro, eu não via a hora de ir embora.
John não foi bonzinho com também. Meu namorado ralou um pouco na musculação e nosso personal ainda o fez cantar enquanto corria para ajudá-lo a controlar melhor o fôlego quando se apresentasse.
Acho que fazia muito aquilo, considerando a estabilidade que ele conseguia manter em sua voz enquanto corria na esteira. Como fã, achei incrível. Como namorada, era bom saber que ele tinha bastante resistência física. He he.
Quando o treino acabou, nós voltamos para o apartamento e me recusei a encostar em enquanto estivéssemos suados. Passei direto para o banheiro enquanto ele foi preparar a gororoba de whey para tomar, e me despi rapidamente antes de entrar no chuveiro.
A água fria naquele momento foi bem-vinda e fiquei parada de olhos fechados por um momento, sentindo ela cair sobre mim enquanto recuperava o fôlego.
Foi quando um flash de memória me atingiu.
e eu estávamos naquele mesmo banheiro, discutindo.
— Sua agência tem que fazer alguma coisa, . Isso não é normal. Eles não podem te negligenciar assim! — exclamei, irritada.
— Eu sei, estamos trabalhando nisso, ...
— Estamos uma ova, ! Você não tem que fazer porra nenhuma — reclamei. — É obrigação deles proteger sua integridade física e moral. A única coisa que você tem que fazer é dizer sim pra qualquer proposta de processar quem seja o idiota que anda te perseguindo e qualquer outro da mesma laia.
É claro. O stalker! Aquilo foi em fevereiro desse mesmo ano, dois meses atrás, antes de viajar para a turnê na Ásia. Eu descobri que ele tinha um stalker de estimação e não me disse nada até o idiota começar a me mandar mensagens também.
Inclusive fotos de pau e vídeos se masturbando. Um ultraje. disse que com ele isso nunca aconteceu, e por mais que ele bloqueasse as contas do fulano, ele sempre aparecia com uma nova, em um aparelho de celular diferente e com uma localização diferente também. Provavelmente devia estar usando algum aplicativo para mascarar tudo.
Fazia quase um ano e meio que recebia declarações e mais declarações do cara, mas nunca respondeu ou sequer aceitou nenhuma solicitação de mensagem. E não acontecia apenas no Instagram, mas também no Twitter, além de eventuais ligações que ele recebia de números desconhecidos.
E ele só pensou em me contar há dois meses, o idiota. Só por que o cara começou a me assediar também. Fazia só dois dias, e eu não hesitei em contar para ele assim que tive oportunidade e lembrei. Eu estava ocupada com o lançamento do livro de Kate e achei que fosse só um Zé Ruela aleatório, até ele começar a mandar mensagens esquisitas sobre me querer longe de . E que poderia fazer o sacrifício de ficar comigo ao invés disso, para que eu deixasse em paz. Depois vieram as mídias de pau. Nojento pra caralho. Quase xinguei o pau dele com as piores coisas que podia pensar, mas resolvi fingir que nem vi para não dar trela. Eu também não havia aceitado a solicitação de mensagem e assim que pude, contei a .
Discutimos feio naquela noite. Ou melhor, eu discuti, enquanto ele ouvia e tentava me convencer de que estava tomando providências. Depois de um ano e meio! A verdade é que o pressionei e ele confessou que só ignorava a pessoa, mas que não ia deixar mais passar depois dele mexer comigo.
Idiota protetor e bonzinho, pensei enquanto lembrava de tudo. Nessas horas, eu achava que o mundo era um lugar sombrio demais para . Ele tinha isso de não querer prejudicar ninguém, mesmo que isso o afetasse negativamente. Só que isso me deixava puta! Porque eu era do time tome-aqui-um-processo-já-que-você-é-o-bonzão para cada ser, homem ou mulher que tentava prejudicar Kate. E o agente de sabia do que estava acontecendo e não fazia nada. Um palhaço. Eu não fazia ideia se algo foi resolvido, porque só lembrei daquela discussão.
E também lembrei que tenho ranço de Jace Keller, olha só.
Até ontem eu achava que ele era um cara legal e me perguntei porque ele não tinha aparecido nenhuma vez no nosso apartamento, já que era o funcionário mais próximo de . Aí estava a minha resposta. Eu o odiava e não escondia minha antipatia por ele, assim evitava nos colocar no mesmo lugar.
Ah, que coisa. Era irritante pra caralho lembrar de trechos da minha própria vida e eu não via a hora de recuperar todas as minhas memórias.
Lavei o cabelo com agilidade enquanto tentava esfriar a cabeça que agora estava quente de irritação, e tentei relaxar um pouco. Mas aí apareceu no banheiro um momento depois, já sem camisa.
— Eu lembrei de uma coisa — anunciei. — Como vai Jace, o Filho da Puta? Espero que ele tenha encontrado aquele stalker maldito.
arregalou os olhos levemente, surpreso.
— De tudo o que você podia lembrar, foi logo que odeia Jace?
— Deve ter sido minha irritação com os exercícios que puxou mais memórias irritantes do meu cérebro — deduzi, dando de ombros. — E então? Pegaram o idiota?
— Ainda não. Mas ele não te mandou mais mensagens depois que você me contou e eu comuniquei à agência sobre o que tava acontecendo. Bem, ao menos não que eu saiba. Você não me disse nada enquanto eu tava na Ásia.
— Hm... Tomara que peguem logo, então. Se esse idiota aparecer na minha frente, eu faço questão de enfiar meu sapato na bunda dele, aquele pervertido! — ameacei, irritada e deve ter sido engraçado já que começou a rir, o que só fez eu me irritar mais ainda. — Do que você tá rindo?
— De você, toda ensaboada ameaçando alguém que deve ter o dobro do seu tamanho.
— Você não sabe disso, ele pode ser menor que eu. E se for maior, não vai me impedir de chutar as bolas dele.
riu novamente e tirou o resto das roupas antes de se juntar a mim.
— Isso tudo pra me defender? — ele perguntou, quando dei espaço para ele no chuveiro, enquanto passava creme no cabelo.
— Sim, já que você é mole demais pra isso. Com esse seu jeito, se você fosse feio, teria sofrido muito bullying na escola. Você só sabe defender os outros, . Eu sei que você odeia conflitos, mas às vezes eles são necessários.
— A agência tá cuidando disso, . É só uma questão de tempo até pegarem esse idiota.
O encarei com certa desconfiança, mas resolvi deixar o assunto de lado.
— Ainda bem que você é hétero e não bi. Imagina ter que competir com homens também...
— O quê? Do nada? — riu da minha brusca mudança de assunto.
— Só tô dizendo porque você é muito bonito. Eu mal consigo tirar meus olhos de você, imagine um stalker — comentei, enquanto corria os olhos por seu corpo nu, sem um pingo de vergonha.
Eu estava ficando muito mal acostumada com aquele tipo de visão todos os dias. Mas olha, era muito bom.
sorriu, já terminando de lavar o cabelo, enquanto eu ainda estava presa com meu cabelão todo embaraçado. O dele era curto e fácil de cuidar. Até onde eu sabia, podia lavar o cabelo com detergente, e ele continuaria macio como o de um bebê.
Eu tinha que fazer vários tratamentos para manter o meu no mínimo aceitável. Terminei de lavá-lo enquanto se enxugava com uma toalha e, alguns minutos mais tarde, estávamos decentes de novo, agora sem um pingo de suor no corpo.
Meu celular tocou em cima da cama com o alarme de início do meu expediente e eu me tranquei no escritório com meu café da manhã, e seguiu para o estúdio no fim do corredor.
De volta ao trabalho.
Capítulo 14
Na tarde de terça-feira, fez o favor de lembrar de me dizer que havia reservado o restaurante do nosso primeiro encontro para sete da noite.
Na minha cabeça, eu achava que ele tinha esquecido ou não conseguido a reserva já que não me contou nada. Até que então, em cima da hora, pouco antes de eu finalizar meu expediente no trabalho, ele resolveu me aparecer com a notícia.
— Sério, ? Eu nem escovei meu cabelo! — reclamei, assim que ouvi. — Você devia ter avisado antes, eu teria pintado as unhas ontem à noite e escovado o cabelo e não ficar feito uma louca correndo contra o tempo! Não dá pra ficar bonita em pouco tempo.
— Bobagem, . Seu cabelo tá ótimo e a sua roupa eu já escolhi — anunciou. — Coloquei em cima da cama, é a mesma que você usou no nosso primeiro encontro.
— Você ainda lembra?
— Não preciso lembrar, tem uma foto desse dia no seu Instagram que fui eu que tirei.
Ah, estava explicado, então. Eu não podia esperar que tivesse uma memória de milhões quando até a minha era claramente uma merda.
Assim que desocupei do trabalho, corri para tomar um banho rápido e, ainda de toalha, me sentei no chão do closet com minha escova secadora em mãos e comecei a me aprontar. Normalmente, quando eu ia sair para algum lugar eu passava a tarde toda planejando o que fazer. Felizmente, roupa não era um problema. já tinha feito isso por mim e descobri que usei um vestidinho bege e florido acima dos joelhos que fazia meu cabelo destacar. Eu o tinha comprado em uma promoção e tinha sido muito bom, já que ele ainda estava ali. Eu só não sabia se ainda caberia em mim.
Tentei escovar o cabelo o mais rápido que pude para deixá-lo aceitável e menos um ninho de passarinho e meia hora depois — porque eu tinha muito cabelo — terminei, finalizando apenas com um óleo. Minha franja estava crescida, então a mantive dividida.
escolheu aquele momento para começar a se arrumar. Eu tinha cerca de uma hora para me trocar e fazer a maquiagem.
Felizmente, na foto que me mostrou eu estava com algo simples e não havia nenhum penteado no meu cabelo. Nos pés, um scarpin branco de salto que encontrei em uma prateleira junto a outros sapatos.
Enquanto tomava banho, levei o vestido para o closet e comecei a me vestir. Escolhi uma lingerie lilás bonitinha e então fui para o grande teste. Com dez quilos a mais, eu tinha ganhado músculos na parte superior do corpo e não era mais a magricela que costumava ser. Meu quadril também estava mais largo, mas a saia do vestido não seria um problema. Talvez ficasse apenas um pouco mais curta. Enfiei os braços pelo vestido e o deslizei pelo corpo com um tiquinho de dificuldade, mas, felizmente, ele coube. Viva os elásticos nos vestidos de tamanho único.
Examinei meu reflexo no espelho e fiquei satisfeita com o que vi. A saia havia ficado um pouco mais curta e estava no meio das minhas coxas, mas o que antes era fofo, acabou se transformando em sexy. Eu definitivamente preferia essa versão do que a antiga magricela toda complexada com o próprio corpo.
Eu nunca fui de ganhar muito peso e houve uma época logo após a faculdade que eu meu peso caiu tanto a ponto de me fazer ter vergonha de mim mesma e usar apenas roupas largas para me esconder. Eu tinha provavelmente uns cinco quilos a menos de quando me conheceu. Felizmente, quando isso aconteceu, eu já não estava mais tão desconfortável.
Comecei a fazer a maquiagem e estava no meio dela quando surgiu apenas de cueca, pronto para se trocar também. Vi no exato momento em que ele parou e olhou para mim.
— O que foi? Meu cabelo tá feio? — Porque certamente o vestido não estava.
— Não, é que... Você tá mais bonita do que da primeira vez.
Eu ri pelo nariz.
— Achei que isso fosse meio óbvio. Eu era muito magra.
— Você tá parecia uma fada naquele dia.
— E agora? Com que eu pareço? — Encarei o reflexo dele no espelho. andou até mim e colocou as duas mãos na minha cintura.
— Tá parecendo uma deusa que vai me colocar de joelhos a qualquer momento — ele respondeu, depositando um beijinho no meu pescoço, me fazendo rir.
— Você também tá bem melhor agora. — Me virei para ele, colocando uma mão em sua barriga. — Musculoso na medida certa.
— Do jeitinho que você gosta. — Ele sorriu e me dei conta de que provavelmente já tinha falado aquilo outras vezes.
se inclinou para me beijar, mas eu me esquivei dele.
— Nada disso. Preciso terminar a maquiagem e você tem que se vestir. Eu olhei o Google Maps e aquele restaurante fica a uns vinte minutos daqui. Não quero me atrasar.
— Tá, continua então. — fez uma careta e eu ri de como ele parecia um menininho que não tinha conseguido o que queria.
Quase voltei atrás. Quase.
Mas não seria seguro quando ele estava seminu ali. Provavelmente acabaríamos nos atracando contra a parede. De novo.
Espera... O quê?
Franzi o cenho encarando o espaço ao lado do espelho e meu corpo se arrepiou quando uma imagem de e eu naquele mesmo local me veio à mente.
Eu não sabia se era real ou não. Era bem provável que sim, mas eu ainda tinha uma mente fanfiqueira e era leitora de romances escritos por mulheres. Possibilidades não faltavam para a minha imaginação fértil.
Mesmo assim, perguntei a .
— Você lembrou? Foi nossa última vez antes do seu acidente, pouco antes de eu ir para o aeroporto — ele contou.
Meu estômago se apertou de ansiedade e imediatamente eu quis não somente reproduzir nosso primeiro encontro, mas também nossa última transa naquela parede.
Mas... Eu tinha que ser forte.
Assim, apenas assenti e respondi vagamente que foi só um lapso de memória, antes de continuar a maquiagem.
Terminei alguns minutos depois e encontrei me esperando sentado na cama, enquanto digitava algo no celular.
Quando notou minha presença, ele levantou a cabeça e sorriu.
— Oi, minha deusa mais linda desse universo. Tá pronta?
Bufei e revirei os olhos ao ouvir a bajulação exagerada.
— Sim, vamos.
***
O restaurante que havia escolhido era aconchegante e convidativo. Não me veio nenhum lapso de memória quando chegamos, mas então uma moça nos levou até uma salinha privativa e, de algum modo, eu lembrei de onde havia sentado antes que se colocasse ao meu lado, puxando a cadeira para mim.
O encarei com uma leve surpresa, sem esperar aquele cavalheirismo todo.
Eu não me importava muito com essas coisas, mas era bom ser mimada com atos de serviço simples. Fazia eu me sentir querida. E pelo visto, não agia assim apenas em casa. Mas nem sei porque me surpreendi. Ele era conhecido por tratar muito bem as mulheres de sua equipe. Cabeleireiras, maquiadoras e estilistas... Todas eram um bando de sortudas.
Mas eu era a mais sortuda de todas.
Depois que nos acomodamos, pegou o cardápio e tentou pedir os mesmos pratos que comemos da primeira vez. Eu o admirei com a mão apoiada no queixo, como uma boba apaixonada.
Então ele começou a me dar mais detalhes sobre o nosso primeiro encontro.
— Você falou que ficou surpresa por eu te chamar pra sair, mesmo depois de passarmos semanas conversando.
— Hm, eu provavelmente achei que você tava tentando não me magoar e me dar um pouco de atenção antes de sumir devido ao trabalho.
riu, divertido.
— Sim, na verdade, você falou exatamente isso. E que nem esperava que eu fosse entrar em contato. Você achou que era só um caso de uma noite.
— E então?
— Eu disse que não era. E falei que queria provar isso a você. Não menti pra você quando falei que não tinha encontros casuais. Eu sempre fui ocupado e lidar com pessoas é cansativo, especialmente quando deixo elas ultrapassarem um limite — ele disse. — Mas eu queria que não houvesse limites entre nós.
— Então você me pediu em namoro? — Sorri, achando nossa história bonitinha de um jeito bem torto.
Se fosse um enredo da Kate, eu provavelmente teria sugerido a ela levar as coisas com mais calma e em uma ordem. No entanto, por alguma razão, e eu parecíamos não seguir absolutamente nenhum roteiro.
Nós éramos personagens independentes, com vontade própria.
— Eu me apaixonei primeiro, feito um patinho — ele brincou.
— Que nada — retruquei. — Eu era apaixonada por você há anos.
— Você era minha fã. Isso não conta.
— Claro que conta.
— Não conta, não — ele insistiu. — Você sempre me tratou com gentileza e nos demos muito bem. Nossas conversas eram tão naturais que eu não me sentia uma celebridade perto de você, apenas uma pessoa comum. Acho que você quis me deixar confortável, mas fui eu quem se apaixonou primeiro.
— Tá, se você insiste. — Dei de ombros.
Eu não podia discutir com base em achismos, mesmo imaginando que assim como , eu provavelmente me apaixonei por ele depois de dias conversando.
De todo modo, ele tinha um ponto. Eu sabia muita coisa sobre ele por já conhecê-lo como fã, mas para ele eu ainda era uma total estranha. Tinha sido corajoso da parte dele perseguir seus próprios sentimentos em relação a mim. Até onde sei, ele poderia cair em uma cilada se tivesse se envolvido com uma mulher aproveitadora.
Era um tiro no escuro.
— Eu sei que nós seguimos a ordem errada das coisas, mas eu estava totalmente sério com você, .
— É claro que estava. Você não estaria comigo há três anos, comprometido publicamente e morando comigo se não estivesse. Eu nunca duvidei disso, .
— Você duvidou no início. — Ele sorriu, triste. — Você sempre brincava sobre como um dia eu iria enjoar de você e terminar tudo. Eu odiava quando você falava essas coisas. Discutimos algumas vezes por isso. Mas o que mais me apavorava era ter que passar dias longe de você por causa do trabalho e ao voltar, descobrir que você tinha conhecido alguém melhor. E ainda tinha o Andrew...
— O que tem o Andrew?
— Além do óbvio? Ele te via mais que eu, é seu ex, e vocês ainda são amigos.
— E você tem tantas green flags que é praticamente uma floresta — brinquei. — Eu nunca terminaria com você, .
— E nem eu com você, . Por motivo nenhum — ele garantiu, me encarando nos olhos com uma intensidade que fez meu coração se apertar. — Eu quero que você saiba que vou estar com você em todos os momentos bons e ruins que possamos passar. Eu sei que não temos um relacionamento fácil, por mais que a gente se dê muito bem. Sei que você odeia ficar longe de mim por muito tempo e acontece o mesmo comigo. Mas meu amor por você é maior do que qualquer empecilho ou dificuldade que possa aparecer pra gente.
Soltei o ar devagar, sentindo os olhos arderem ao ouvir aquilo. Era como se soubesse exatamente o que falar para reafirmar nosso relacionamento, e eu podia sentir uma sinceridade crua a cada palavra que ele dizia. Eu sentia um amor tão grande por ele que parecia não caber no peito e não fazia ideia do que eu tinha feito para merecer aquilo.
Ele era tudo o que eu queria e mais um pouco.
Segurei uma mão de e a trouxe aos lábios, beijando-a assim como ele fazia comigo. Ele sorriu e seus olhos refletiram a emoção dos meus.
Éramos nós contra o mundo e todas as dificuldades que pudessem aparecer.
Se na vida real existisse algo como os laços de parceria dos livros de fantasia, e eu com certeza teríamos um.
Quando a comida chegou, alguns minutos depois, eu me deliciei com as massas que escolheu e seus molhos divinos. Não tinha nada cotidiano que me deixava tão alegre quanto comer uma comida deliciosa.
Não era à toa que quando tivemos condições financeiras, eu e sempre procurávamos novos restaurantes e cafeterias para conhecer. O restaurante que me levou era caro, mas era uma boa sensação saber que eu poderia pagar aquele jantar sozinha sem nenhum prejuízo na minha conta bancária, mesmo sabendo que não iria. A única coisa que me deixava gastar em casa era com compras no supermercado e delivery, e nem era sempre. Às vezes, eu comprava e avisava depois.
Quando o jantar acabou, sugeriu tirarmos as mesmas fotos que a primeira vez, também as nossas primeiras fotos como casal. Ele havia me mostrado três selfies e assim as reproduzimos.
Para a primeira, nós sorrimos para a câmera e para a segunda e terceira, demos um beijinho na bochecha um do outro. Do lado de fora do restaurante, colocou toda a sua habilidade de namorado fotógrafo amador fazendo posições esquisitas para pegar os melhores ângulos e tirar outra foto minha de corpo inteiro, como a que ele disse que postei no meu perfil do Instagram.
Eu ri com as tentativas e ele continuou batendo fotos mesmo assim, até que finalmente conseguimos uma muito próxima da original.
— Ficou linda, amor — ele comentou, enquanto passava as fotos na tela do celular. Em seguida, se virou e me abraçou pela cintura. — Feliz aniversário de três anos, . Espero que nossa data se repita por tanto tempo quanto for possível.
Eu sorri e ele encostou a testa na minha.
— Eu te amo, . E nada no mundo vai mudar isso.
Então nos beijamos e me apertou contra si. Me senti amada e torci para que ele também estivesse se sentindo assim também. A última coisa que ouvi depois disso foram cliques, acompanhado de flashes não muito longe.
No entanto, não nos importamos com a plateia.
Na minha cabeça, eu achava que ele tinha esquecido ou não conseguido a reserva já que não me contou nada. Até que então, em cima da hora, pouco antes de eu finalizar meu expediente no trabalho, ele resolveu me aparecer com a notícia.
— Sério, ? Eu nem escovei meu cabelo! — reclamei, assim que ouvi. — Você devia ter avisado antes, eu teria pintado as unhas ontem à noite e escovado o cabelo e não ficar feito uma louca correndo contra o tempo! Não dá pra ficar bonita em pouco tempo.
— Bobagem, . Seu cabelo tá ótimo e a sua roupa eu já escolhi — anunciou. — Coloquei em cima da cama, é a mesma que você usou no nosso primeiro encontro.
— Você ainda lembra?
— Não preciso lembrar, tem uma foto desse dia no seu Instagram que fui eu que tirei.
Ah, estava explicado, então. Eu não podia esperar que tivesse uma memória de milhões quando até a minha era claramente uma merda.
Assim que desocupei do trabalho, corri para tomar um banho rápido e, ainda de toalha, me sentei no chão do closet com minha escova secadora em mãos e comecei a me aprontar. Normalmente, quando eu ia sair para algum lugar eu passava a tarde toda planejando o que fazer. Felizmente, roupa não era um problema. já tinha feito isso por mim e descobri que usei um vestidinho bege e florido acima dos joelhos que fazia meu cabelo destacar. Eu o tinha comprado em uma promoção e tinha sido muito bom, já que ele ainda estava ali. Eu só não sabia se ainda caberia em mim.
Tentei escovar o cabelo o mais rápido que pude para deixá-lo aceitável e menos um ninho de passarinho e meia hora depois — porque eu tinha muito cabelo — terminei, finalizando apenas com um óleo. Minha franja estava crescida, então a mantive dividida.
escolheu aquele momento para começar a se arrumar. Eu tinha cerca de uma hora para me trocar e fazer a maquiagem.
Felizmente, na foto que me mostrou eu estava com algo simples e não havia nenhum penteado no meu cabelo. Nos pés, um scarpin branco de salto que encontrei em uma prateleira junto a outros sapatos.
Enquanto tomava banho, levei o vestido para o closet e comecei a me vestir. Escolhi uma lingerie lilás bonitinha e então fui para o grande teste. Com dez quilos a mais, eu tinha ganhado músculos na parte superior do corpo e não era mais a magricela que costumava ser. Meu quadril também estava mais largo, mas a saia do vestido não seria um problema. Talvez ficasse apenas um pouco mais curta. Enfiei os braços pelo vestido e o deslizei pelo corpo com um tiquinho de dificuldade, mas, felizmente, ele coube. Viva os elásticos nos vestidos de tamanho único.
Examinei meu reflexo no espelho e fiquei satisfeita com o que vi. A saia havia ficado um pouco mais curta e estava no meio das minhas coxas, mas o que antes era fofo, acabou se transformando em sexy. Eu definitivamente preferia essa versão do que a antiga magricela toda complexada com o próprio corpo.
Eu nunca fui de ganhar muito peso e houve uma época logo após a faculdade que eu meu peso caiu tanto a ponto de me fazer ter vergonha de mim mesma e usar apenas roupas largas para me esconder. Eu tinha provavelmente uns cinco quilos a menos de quando me conheceu. Felizmente, quando isso aconteceu, eu já não estava mais tão desconfortável.
Comecei a fazer a maquiagem e estava no meio dela quando surgiu apenas de cueca, pronto para se trocar também. Vi no exato momento em que ele parou e olhou para mim.
— O que foi? Meu cabelo tá feio? — Porque certamente o vestido não estava.
— Não, é que... Você tá mais bonita do que da primeira vez.
Eu ri pelo nariz.
— Achei que isso fosse meio óbvio. Eu era muito magra.
— Você tá parecia uma fada naquele dia.
— E agora? Com que eu pareço? — Encarei o reflexo dele no espelho. andou até mim e colocou as duas mãos na minha cintura.
— Tá parecendo uma deusa que vai me colocar de joelhos a qualquer momento — ele respondeu, depositando um beijinho no meu pescoço, me fazendo rir.
— Você também tá bem melhor agora. — Me virei para ele, colocando uma mão em sua barriga. — Musculoso na medida certa.
— Do jeitinho que você gosta. — Ele sorriu e me dei conta de que provavelmente já tinha falado aquilo outras vezes.
se inclinou para me beijar, mas eu me esquivei dele.
— Nada disso. Preciso terminar a maquiagem e você tem que se vestir. Eu olhei o Google Maps e aquele restaurante fica a uns vinte minutos daqui. Não quero me atrasar.
— Tá, continua então. — fez uma careta e eu ri de como ele parecia um menininho que não tinha conseguido o que queria.
Quase voltei atrás. Quase.
Mas não seria seguro quando ele estava seminu ali. Provavelmente acabaríamos nos atracando contra a parede. De novo.
Espera... O quê?
Franzi o cenho encarando o espaço ao lado do espelho e meu corpo se arrepiou quando uma imagem de e eu naquele mesmo local me veio à mente.
Eu não sabia se era real ou não. Era bem provável que sim, mas eu ainda tinha uma mente fanfiqueira e era leitora de romances escritos por mulheres. Possibilidades não faltavam para a minha imaginação fértil.
Mesmo assim, perguntei a .
— Você lembrou? Foi nossa última vez antes do seu acidente, pouco antes de eu ir para o aeroporto — ele contou.
Meu estômago se apertou de ansiedade e imediatamente eu quis não somente reproduzir nosso primeiro encontro, mas também nossa última transa naquela parede.
Mas... Eu tinha que ser forte.
Assim, apenas assenti e respondi vagamente que foi só um lapso de memória, antes de continuar a maquiagem.
Terminei alguns minutos depois e encontrei me esperando sentado na cama, enquanto digitava algo no celular.
Quando notou minha presença, ele levantou a cabeça e sorriu.
— Oi, minha deusa mais linda desse universo. Tá pronta?
Bufei e revirei os olhos ao ouvir a bajulação exagerada.
— Sim, vamos.
O restaurante que havia escolhido era aconchegante e convidativo. Não me veio nenhum lapso de memória quando chegamos, mas então uma moça nos levou até uma salinha privativa e, de algum modo, eu lembrei de onde havia sentado antes que se colocasse ao meu lado, puxando a cadeira para mim.
O encarei com uma leve surpresa, sem esperar aquele cavalheirismo todo.
Eu não me importava muito com essas coisas, mas era bom ser mimada com atos de serviço simples. Fazia eu me sentir querida. E pelo visto, não agia assim apenas em casa. Mas nem sei porque me surpreendi. Ele era conhecido por tratar muito bem as mulheres de sua equipe. Cabeleireiras, maquiadoras e estilistas... Todas eram um bando de sortudas.
Mas eu era a mais sortuda de todas.
Depois que nos acomodamos, pegou o cardápio e tentou pedir os mesmos pratos que comemos da primeira vez. Eu o admirei com a mão apoiada no queixo, como uma boba apaixonada.
Então ele começou a me dar mais detalhes sobre o nosso primeiro encontro.
— Você falou que ficou surpresa por eu te chamar pra sair, mesmo depois de passarmos semanas conversando.
— Hm, eu provavelmente achei que você tava tentando não me magoar e me dar um pouco de atenção antes de sumir devido ao trabalho.
riu, divertido.
— Sim, na verdade, você falou exatamente isso. E que nem esperava que eu fosse entrar em contato. Você achou que era só um caso de uma noite.
— E então?
— Eu disse que não era. E falei que queria provar isso a você. Não menti pra você quando falei que não tinha encontros casuais. Eu sempre fui ocupado e lidar com pessoas é cansativo, especialmente quando deixo elas ultrapassarem um limite — ele disse. — Mas eu queria que não houvesse limites entre nós.
— Então você me pediu em namoro? — Sorri, achando nossa história bonitinha de um jeito bem torto.
Se fosse um enredo da Kate, eu provavelmente teria sugerido a ela levar as coisas com mais calma e em uma ordem. No entanto, por alguma razão, e eu parecíamos não seguir absolutamente nenhum roteiro.
Nós éramos personagens independentes, com vontade própria.
— Eu me apaixonei primeiro, feito um patinho — ele brincou.
— Que nada — retruquei. — Eu era apaixonada por você há anos.
— Você era minha fã. Isso não conta.
— Claro que conta.
— Não conta, não — ele insistiu. — Você sempre me tratou com gentileza e nos demos muito bem. Nossas conversas eram tão naturais que eu não me sentia uma celebridade perto de você, apenas uma pessoa comum. Acho que você quis me deixar confortável, mas fui eu quem se apaixonou primeiro.
— Tá, se você insiste. — Dei de ombros.
Eu não podia discutir com base em achismos, mesmo imaginando que assim como , eu provavelmente me apaixonei por ele depois de dias conversando.
De todo modo, ele tinha um ponto. Eu sabia muita coisa sobre ele por já conhecê-lo como fã, mas para ele eu ainda era uma total estranha. Tinha sido corajoso da parte dele perseguir seus próprios sentimentos em relação a mim. Até onde sei, ele poderia cair em uma cilada se tivesse se envolvido com uma mulher aproveitadora.
Era um tiro no escuro.
— Eu sei que nós seguimos a ordem errada das coisas, mas eu estava totalmente sério com você, .
— É claro que estava. Você não estaria comigo há três anos, comprometido publicamente e morando comigo se não estivesse. Eu nunca duvidei disso, .
— Você duvidou no início. — Ele sorriu, triste. — Você sempre brincava sobre como um dia eu iria enjoar de você e terminar tudo. Eu odiava quando você falava essas coisas. Discutimos algumas vezes por isso. Mas o que mais me apavorava era ter que passar dias longe de você por causa do trabalho e ao voltar, descobrir que você tinha conhecido alguém melhor. E ainda tinha o Andrew...
— O que tem o Andrew?
— Além do óbvio? Ele te via mais que eu, é seu ex, e vocês ainda são amigos.
— E você tem tantas green flags que é praticamente uma floresta — brinquei. — Eu nunca terminaria com você, .
— E nem eu com você, . Por motivo nenhum — ele garantiu, me encarando nos olhos com uma intensidade que fez meu coração se apertar. — Eu quero que você saiba que vou estar com você em todos os momentos bons e ruins que possamos passar. Eu sei que não temos um relacionamento fácil, por mais que a gente se dê muito bem. Sei que você odeia ficar longe de mim por muito tempo e acontece o mesmo comigo. Mas meu amor por você é maior do que qualquer empecilho ou dificuldade que possa aparecer pra gente.
Soltei o ar devagar, sentindo os olhos arderem ao ouvir aquilo. Era como se soubesse exatamente o que falar para reafirmar nosso relacionamento, e eu podia sentir uma sinceridade crua a cada palavra que ele dizia. Eu sentia um amor tão grande por ele que parecia não caber no peito e não fazia ideia do que eu tinha feito para merecer aquilo.
Ele era tudo o que eu queria e mais um pouco.
Segurei uma mão de e a trouxe aos lábios, beijando-a assim como ele fazia comigo. Ele sorriu e seus olhos refletiram a emoção dos meus.
Éramos nós contra o mundo e todas as dificuldades que pudessem aparecer.
Se na vida real existisse algo como os laços de parceria dos livros de fantasia, e eu com certeza teríamos um.
Quando a comida chegou, alguns minutos depois, eu me deliciei com as massas que escolheu e seus molhos divinos. Não tinha nada cotidiano que me deixava tão alegre quanto comer uma comida deliciosa.
Não era à toa que quando tivemos condições financeiras, eu e sempre procurávamos novos restaurantes e cafeterias para conhecer. O restaurante que me levou era caro, mas era uma boa sensação saber que eu poderia pagar aquele jantar sozinha sem nenhum prejuízo na minha conta bancária, mesmo sabendo que não iria. A única coisa que me deixava gastar em casa era com compras no supermercado e delivery, e nem era sempre. Às vezes, eu comprava e avisava depois.
Quando o jantar acabou, sugeriu tirarmos as mesmas fotos que a primeira vez, também as nossas primeiras fotos como casal. Ele havia me mostrado três selfies e assim as reproduzimos.
Para a primeira, nós sorrimos para a câmera e para a segunda e terceira, demos um beijinho na bochecha um do outro. Do lado de fora do restaurante, colocou toda a sua habilidade de namorado fotógrafo amador fazendo posições esquisitas para pegar os melhores ângulos e tirar outra foto minha de corpo inteiro, como a que ele disse que postei no meu perfil do Instagram.
Eu ri com as tentativas e ele continuou batendo fotos mesmo assim, até que finalmente conseguimos uma muito próxima da original.
— Ficou linda, amor — ele comentou, enquanto passava as fotos na tela do celular. Em seguida, se virou e me abraçou pela cintura. — Feliz aniversário de três anos, . Espero que nossa data se repita por tanto tempo quanto for possível.
Eu sorri e ele encostou a testa na minha.
— Eu te amo, . E nada no mundo vai mudar isso.
Então nos beijamos e me apertou contra si. Me senti amada e torci para que ele também estivesse se sentindo assim também. A última coisa que ouvi depois disso foram cliques, acompanhado de flashes não muito longe.
No entanto, não nos importamos com a plateia.
Capítulo 15
Mais um dia de trabalho e eu estava digitando algumas anotações na minha agenda digital enquanto checava o que havia escrito no tablet.
Kate já tinha escrito cerca de um terço de Oblíquo e estávamos na parte em que os protagonistas voltavam juntos para seu país de origem após descobrirem que o melhor amigo dele era tio dela. Havia alguns pontos a serem resolvidos naquele livro, como o último da série, e isso incluía o desenrolar do plot em torno do vilão, que havia aparecido no livro anterior, cujo protagonista era irmão do protagonista atual. Ambos os livros eram menores e interligados, diferente dos outros, que podiam ser lidos separadamente.
Eu tinha conhecido leitoras de Kate que começaram pelo livro três, outras pelo livro dois, e outras que acompanharam os lançamentos desde o início, como eu. Cada forma lida trazia uma experiência diferente. Mas para quem me perguntasse, eu recomendaria a ordem linear dos acontecimentos.
Era muito fácil se apegar aos personagens da série e eu me sentia amiga deles. Como se eu fosse encontrá-los na vida real a qualquer dia. Muito delulu da minha parte, eu sabia, tanto que eu ainda estava transitando entre a realidade e o enredo de Tenaz quando dormia. Não estava acontecendo sempre, mas eu havia meio que notado um padrão.
Eu ia parar em Tenaz após lembrar alguma coisa da minha vida pessoal ou quando estava prestes a lembrar. Era meio aleatório, mas era a única explicação que eu conseguia pensar que justificasse aqueles sonhos hiper-realistas.
Na noite do meu encontro com , me encontrei no corpo de Ayla novamente depois de adormecer. Infelizmente, era uma cena em que Ayla dava aulas de desenho para crianças encapetadas, o que foi meio ruim, já que as únicas coisas que eu sabia desenhar eram um pato a partir do número dois e uma coruja entediada (eu sempre esquecia os chifrinhos/orelhas dela — e sim, eu sei que são só penas arrebitadas e que corujas não têm chifres nem orelhas, mas eu só conseguia pensar nisso com a aparência).
Felizmente, não me demorei muito na cena. Ayla já havia dado uma imagem para eles tentarem reproduzir, então eu só tive que fingir que entendia algo de técnicas de desenho antes da aula acabar, dez minutos depois.
Acordei no meio da noite ao lado de com vontade de fazer xixi e depois disso não voltei mais para a história. Tampouco sonhei com algo que fizesse sentido.
Já fazia três dias desde então.
Era sexta-feira e eu tinha ido ver o neurologista naquela manhã. me acompanhou e ouviu atentamente cada segundo de explicação do médico sobre como minha mente tinha criado um mecanismo de defesa devido ao trauma do acidente, me fazendo transitar entre fantasia e realidade. Eu ouvi tudo isso meio cética. Parecia real demais, como se eu realmente estivesse em outro universo, mas eu sabia que discutir não adiantaria de nada.
Gente doida nunca acha que tá doida.
Segundo o médico, era provável que eu recuperasse o restante das minhas memórias em breve e, dessa vez, ele sugeriu a aumentar os estímulos ao meu redor, já que eu não tinha passado mal outra vez. Fiquei feliz com essa parte, mas intrigada quando o médico recomendou esperar eu lembrar dos detalhes do acidente.
Eu não entendia porque tanto mistério se não tinha acontecido nada de mais comigo. Também não entendia por que eu tinha um mecanismo de defesa se não sofri nenhum ferimento sério. De todo modo, tirando essa parte, eu meio que estava livre para perguntar o que bem entendesse a .
Devido a essa consulta, eu quis fazer horário extra na noite anterior e terminei o expediente da sexta um pouquinho mais cedo. estava fora, em uma reunião com Jace e o pessoal de sua agência para decidirem algo sobre o conceito de seu novo álbum. A produção levava meses, então era provável que ele só o lançasse no próximo ano. Como uma boa amante de spoilers, eu só podia torcer para que fosse bonzinho e me contasse algo. Ou pensar em uma forma de convencê-lo.
Desliguei o computador e peguei o celular para enviar uma mensagem para ele perguntando o que queria para o jantar, quando meu celular vibrou com uma nova mensagem de Kate.
Kate: Você viu isso? Tem muita gente falando sobre.
Havia um link de um artigo que tinha saído no dia seguinte ao nosso encontro. me mostrou, então eu já sabia do que se tratava, embora não tivesse lido os comentários.
O título era enorme, todo em Caps Lock.
"NA SAÚDE E NA DOENÇA: E NAMORADA, FIRMES E FORTES APÓS ACIDENTE"
Corri os olhos pelo texto, lendo alguns trechos rapidamente.
"Será que podemos esperar um casamento em breve? O casal foi visto aos beijos do lado de fora de um renomado restaurante italiano de NY após semanas reclusos depois do acidente de , namorada de .
A srta. foi atropelada no dia 6 de abril no estacionamento de um shopping enquanto se dirigia para o próprio carro. Testemunhas ficaram alarmadas e imediatamente chamaram uma ambulância, e soubemos por algumas fontes seguras que ela permaneceu inconsciente por quatro dias. Felizmente, não foi nada grave e até onde sabemos, passou as últimas semanas se recuperando em casa com , que não deixou seu lado nem por um momento.
Como dizem, na saúde e na doença. O casal está junto há três anos e dividindo o mesmo apartamento em Manhattan há dois. Não há nenhum rumor sobre um possível casamento, mas todo mundo sabe que hoje em dia rótulos não são mais necessários.
Os pombinhos parecem apaixonados como sempre e cuidando um do outro. É bom saber que a srta. se recuperou bem e desejamos tudo de bom aos dois."
Sorri ao reler o texto e desci para os comentários. A maioria me desejava melhoras e felicidades a mim e , no entanto, alguns comentários recentes chamaram minha atenção.
"Ouvi dizer que havia muito sangue ao redor dela. Mas é bom saber que ela está bem".
"Boatos de que os dois estavam distantes e não só fisicamente, mas essas fotos meio que desmentem tudo isso".
"Será que esse casal é real mesmo ou está apenas esperando ela ficar bem pra cair fora? Não é como se faltasse opções pra ele."
Fiz uma careta para o comentário dessa pessoa mal-amada. Ela não tinha ideia de nada.
Deixei isso de lado e voltei para a janela de conversa com Kate.
: me mostrou. Mas ninguém me disse que eu sangrei no acidente.
Kate: Onde você viu isso?
: Nos comentários. Tem gente fofocando e até teorizando que vai me dar um pé na bunda quando eu tiver completamente recuperada.
Kate: Que besteira. Isso é só inveja, . Não ligue pra essas coisas. Todo dia surge um rumor que eu e Adrian vamos nos divorciar.
: Você poderia até tentar, mas ele nunca te deixaria ir.
Todo mundo sabia que Kate era a tal Garota K, musa das músicas da Cave Panthers. Ele passou anos se lembrando dela e então, após uma década, se reencontraram.
Kate: também não te deixaria ir. Eu juro que vejo até lasers saindo dos olhos dele quando Andrew toca em você. Ele é tão Dean".
Eu ri, divertida.
: E tão talentoso quanto.
Conversamos por mais alguns minutos, e depois fui tomar banho e me deitar um pouco enquanto esperava chegar para pedirmos delivery. Eu estava quase cochilando quando ouvi a porta da frente abrir, mas nem me movi do lugar.
A posição estava confortável demais para isso e o clima, fresquinho. Eu estava deitada com um braço embaixo do travesseiro e só abri os olhos quando ouvi entrar.
O encontrei andando em minha direção com um sorriso no rosto e, em seguida, ele se inclinou para me dar um beijo no pescoço, uma mão indo direto para o meu quadril, sorrateiramente se enfiando embaixo da minha camisola azul-marinho.
— Essa cor fica muito bem em você — ele murmurou no meu ouvido e ri baixinho, antes de rolar na cama e abrir os braços, convidando-o para um abraço.
se aconchegou contra mim e enterrou o rosto no meu pescoço, ficando assim por um momento antes de se afastar e tirar a jaqueta.
— O que acha de pizza hoje? — sugeri.
— Acho ótimo. Pede pizza de calabresa e quatro queijos. Vou tomar banho e já volto.
***
Cerca de uma hora mais tarde, estávamos os dois sentados na cozinha, devorando uma pizza grande com copos também grandes e cheios de Coca-Cola zero. Que John não sonhasse com essa nossa refeição. Eu ainda não tinha me recuperado dos cinco quilômetros que ele havia me obrigado a pedalar, muito menos da musculação da semana. Todo o meu corpo doía e todos os dias eu me controlava ao máximo para não dormir em cima do computador durante as tardes de trabalho.
Naquela sexta à noite, eu estava especialmente enfadada e era bom saber que eu não precisava acordar cedo no dia seguinte para me exercitar antes do trabalho. e eu poderíamos ficar na cama até tarde, e eu mal podia esperar para me aconchegar com ele após o jantar.
Assistimos um pouco de TV e só depois das dez da noite, voltamos para o quarto. Depois de uma rápida passada no banheiro para escovarmos os dentes, e eu finalmente fomos para a cama. Eu o abracei pela cintura, me deliciando com o cheiro de seu perfume pós-banho, e fechei os olhos.
Naquele momento, eu só queria dormir e podia dizer que também desejava o mesmo, considerando que ele havia passado o dia inteiro fora. Demos boa noite um para o outro e então o silêncio caiu sobre nós. Esperei até que o sono me levasse para a inconsciência novamente, e não demorou muito até eu começar a cochilar.
Essa foi a última coisa de que me lembrei antes de abrir os olhos e me ver sozinha em um beco na rua, com fones de ouvido ao som de “TKO” do Justin Timberlake. Franzi o cenho e meu primeiro impulso foi passar a mão no cabelo, percebendo-o curto.
Ayla.
Eu estava de volta à Tenaz e em uma cena completamente diferente das outras. Se ela estava em um beco, então eu tinha um palpite sobre que momento da história era aquele.
Comecei a andar em busca de um local mais movimentado e, discretamente, olhei para trás. Meu coração deu um pulo quando vi um homem de capuz a alguns metros de mim. Apertei o passo e tentei pensar rápido. O que Louise — e não Ayla — faria? Ayla não sabia lutar, mas Louise sim, e eu tinha lido quatro livros em que Yeong treinava as meninas. Além disso, Kate e eu fizemos algumas aulas de autodefesa quando ela estava escrevendo Perspicaz. Nunca precisei colocar nada em prática para testar a eficiência dos golpes, mas não fazia mal tentar.
Ayla cortaria o braço no meio do ataque de dois homens e eu não estava nem um pouco a fim de apanhar e me machucar. Se minhas contas estavam corretas, àquela altura Ayla já devia estar correndo e então um segundo homem a puxaria de repente para um beco onde estava escondido.
Enfiei os fones na bolsa e diminuí um pouco o passo, fingindo atender o celular.
— Oi, Minsik. Você já tá perto? Tô naquele beco, perto do restaurante. O pessoal tá com você? Certo, vem me encontrar então.
Coloquei o celular na bolsa e apertei o passo novamente. Avistei o próximo beco e um pedaço de madeira em um canto e não pensei duas vezes antes de pegá-lo. Levantei como um bastão e corri. No mesmo instante, o segundo homem apareceu e eu o acertei em cheio na cabeça.
Surpreso, o primeiro homem parou de andar atrás de mim, observando o companheiro arquejar de dor.
— Socorro, socorro, alguém! — Comecei a gritar como uma louca. — Socorro!
Comecei a correr e o cara continuou atrás de mim. Quando me aproximei um pouco mais do restaurante mais à frente, me virei, sacudindo o pedaço de madeira. No entanto, prevendo o meu movimento, o homem conseguiu agarrá-lo e o jogou longe. Prendi a respiração, com medo, e dei alguns passos para trás.
— Socorro, socorro! — Gritei novamente, tentando correr, mas ele me agarrou pelo cabelo e tapou minha boca, enquanto tentava me arrastar.
Vamos, , pense rápido.
Com um impulso, inclinei meu corpo para frente e dei uma cotovelada o mais forte que consegui em suas costelas. O homem gemeu de dor e consegui me soltar, na esperança de conseguir fugir daquela vez. No entanto, o segundo homem que ataquei anteriormente surgiu do nada e me deu um tapa tão forte no rosto que me jogou no chão.
Senti uma dor no braço, mas era só um arranhão e não um corte. O cara se aproximou, tentando pegar minha bolsa e eu levantei uma perna e o acertando com um chute nas bolas.
— Socorro, alguém! — gritei o mais alto que pude e avistei um grupo de rapazes, que pareciam estudantes.
— Ei cara, o que você tá fazendo? Deixa ela em paz! — um deles gritou, correndo até mim, junto com outro colega.
O homem que me perseguia soltou um xingamento e hesitou por um instante, encarando a bolsa que eu agarrava firmemente, até que pareceu desistir e correu com o outro. Me senti tonta, meu rosto e braço doendo e ardendo. O cara que gritou com os ladrões se abaixou perto de mim e minha skin de Ayla imediatamente começou a tremer. Ele usava um moletom e outras peças casuais.
— Eu consegui fugir, mas um deles veio atrás de mim... — falei automaticamente.
— Calma, você tá segura agora — o outro garoto falou.
— Vai ficar tudo bem. — Eu vou te levar pro hospital, tá bom? — o garoto do moletom disse e eu imaginei que ele fosse Minsik, um dos personagens da série que em breve ajudaria Dean, assim como Yeong e Zico.
Assenti e começamos a andar em direção ao carro dele. No meio disso, eu acordei. Rolei na cama, sentindo meu corpo dolorido e enfiei a mão embaixo do travesseiro para pegar o celular e ver que horas eram.
Nove e meia da manhã.
Olhei para o lado e dormia de barriga para baixo, com o rosto virado na direção oposta à minha.
Bocejei, esfregando os olhos e fiz uma careta ao sentir o lado esquerdo do meu rosto doer e o pescoço também. Era só o que faltava, eu ter dormido de mau jeito. Com os antebraços, dei um impulso para me sentar, mas fiz uma careta ao sentir uma dor no braço direito. Franzi o cenho e levantei o braço, passando a mão levemente. Queimou um pouco, então a tirei no mesmo instante.
Mesmo com o quarto meio escuro, consegui ver o que tinha ali. Meus olhos arregalaram e palavras saíram dos meus lábios antes que eu pudesse raciocinar direito.
— Que porra é essa?! — falei alto, esquecendo de por um instante, até vê-lo acordar assustado.
— O quê? O que foi? — ele perguntou, alarmado.
Por um instante, não respondi.
Estava ocupada, com os olhos vidrados no machucado que havia no meu braço direito.
Idêntico ao de Ayla.
Kate já tinha escrito cerca de um terço de Oblíquo e estávamos na parte em que os protagonistas voltavam juntos para seu país de origem após descobrirem que o melhor amigo dele era tio dela. Havia alguns pontos a serem resolvidos naquele livro, como o último da série, e isso incluía o desenrolar do plot em torno do vilão, que havia aparecido no livro anterior, cujo protagonista era irmão do protagonista atual. Ambos os livros eram menores e interligados, diferente dos outros, que podiam ser lidos separadamente.
Eu tinha conhecido leitoras de Kate que começaram pelo livro três, outras pelo livro dois, e outras que acompanharam os lançamentos desde o início, como eu. Cada forma lida trazia uma experiência diferente. Mas para quem me perguntasse, eu recomendaria a ordem linear dos acontecimentos.
Era muito fácil se apegar aos personagens da série e eu me sentia amiga deles. Como se eu fosse encontrá-los na vida real a qualquer dia. Muito delulu da minha parte, eu sabia, tanto que eu ainda estava transitando entre a realidade e o enredo de Tenaz quando dormia. Não estava acontecendo sempre, mas eu havia meio que notado um padrão.
Eu ia parar em Tenaz após lembrar alguma coisa da minha vida pessoal ou quando estava prestes a lembrar. Era meio aleatório, mas era a única explicação que eu conseguia pensar que justificasse aqueles sonhos hiper-realistas.
Na noite do meu encontro com , me encontrei no corpo de Ayla novamente depois de adormecer. Infelizmente, era uma cena em que Ayla dava aulas de desenho para crianças encapetadas, o que foi meio ruim, já que as únicas coisas que eu sabia desenhar eram um pato a partir do número dois e uma coruja entediada (eu sempre esquecia os chifrinhos/orelhas dela — e sim, eu sei que são só penas arrebitadas e que corujas não têm chifres nem orelhas, mas eu só conseguia pensar nisso com a aparência).
Felizmente, não me demorei muito na cena. Ayla já havia dado uma imagem para eles tentarem reproduzir, então eu só tive que fingir que entendia algo de técnicas de desenho antes da aula acabar, dez minutos depois.
Acordei no meio da noite ao lado de com vontade de fazer xixi e depois disso não voltei mais para a história. Tampouco sonhei com algo que fizesse sentido.
Já fazia três dias desde então.
Era sexta-feira e eu tinha ido ver o neurologista naquela manhã. me acompanhou e ouviu atentamente cada segundo de explicação do médico sobre como minha mente tinha criado um mecanismo de defesa devido ao trauma do acidente, me fazendo transitar entre fantasia e realidade. Eu ouvi tudo isso meio cética. Parecia real demais, como se eu realmente estivesse em outro universo, mas eu sabia que discutir não adiantaria de nada.
Gente doida nunca acha que tá doida.
Segundo o médico, era provável que eu recuperasse o restante das minhas memórias em breve e, dessa vez, ele sugeriu a aumentar os estímulos ao meu redor, já que eu não tinha passado mal outra vez. Fiquei feliz com essa parte, mas intrigada quando o médico recomendou esperar eu lembrar dos detalhes do acidente.
Eu não entendia porque tanto mistério se não tinha acontecido nada de mais comigo. Também não entendia por que eu tinha um mecanismo de defesa se não sofri nenhum ferimento sério. De todo modo, tirando essa parte, eu meio que estava livre para perguntar o que bem entendesse a .
Devido a essa consulta, eu quis fazer horário extra na noite anterior e terminei o expediente da sexta um pouquinho mais cedo. estava fora, em uma reunião com Jace e o pessoal de sua agência para decidirem algo sobre o conceito de seu novo álbum. A produção levava meses, então era provável que ele só o lançasse no próximo ano. Como uma boa amante de spoilers, eu só podia torcer para que fosse bonzinho e me contasse algo. Ou pensar em uma forma de convencê-lo.
Desliguei o computador e peguei o celular para enviar uma mensagem para ele perguntando o que queria para o jantar, quando meu celular vibrou com uma nova mensagem de Kate.
Kate: Você viu isso? Tem muita gente falando sobre.
Havia um link de um artigo que tinha saído no dia seguinte ao nosso encontro. me mostrou, então eu já sabia do que se tratava, embora não tivesse lido os comentários.
O título era enorme, todo em Caps Lock.
"NA SAÚDE E NA DOENÇA: E NAMORADA, FIRMES E FORTES APÓS ACIDENTE"
Corri os olhos pelo texto, lendo alguns trechos rapidamente.
"Será que podemos esperar um casamento em breve? O casal foi visto aos beijos do lado de fora de um renomado restaurante italiano de NY após semanas reclusos depois do acidente de , namorada de .
A srta. foi atropelada no dia 6 de abril no estacionamento de um shopping enquanto se dirigia para o próprio carro. Testemunhas ficaram alarmadas e imediatamente chamaram uma ambulância, e soubemos por algumas fontes seguras que ela permaneceu inconsciente por quatro dias. Felizmente, não foi nada grave e até onde sabemos, passou as últimas semanas se recuperando em casa com , que não deixou seu lado nem por um momento.
Como dizem, na saúde e na doença. O casal está junto há três anos e dividindo o mesmo apartamento em Manhattan há dois. Não há nenhum rumor sobre um possível casamento, mas todo mundo sabe que hoje em dia rótulos não são mais necessários.
Os pombinhos parecem apaixonados como sempre e cuidando um do outro. É bom saber que a srta. se recuperou bem e desejamos tudo de bom aos dois."
Sorri ao reler o texto e desci para os comentários. A maioria me desejava melhoras e felicidades a mim e , no entanto, alguns comentários recentes chamaram minha atenção.
"Ouvi dizer que havia muito sangue ao redor dela. Mas é bom saber que ela está bem".
"Boatos de que os dois estavam distantes e não só fisicamente, mas essas fotos meio que desmentem tudo isso".
"Será que esse casal é real mesmo ou está apenas esperando ela ficar bem pra cair fora? Não é como se faltasse opções pra ele."
Fiz uma careta para o comentário dessa pessoa mal-amada. Ela não tinha ideia de nada.
Deixei isso de lado e voltei para a janela de conversa com Kate.
: me mostrou. Mas ninguém me disse que eu sangrei no acidente.
Kate: Onde você viu isso?
: Nos comentários. Tem gente fofocando e até teorizando que vai me dar um pé na bunda quando eu tiver completamente recuperada.
Kate: Que besteira. Isso é só inveja, . Não ligue pra essas coisas. Todo dia surge um rumor que eu e Adrian vamos nos divorciar.
: Você poderia até tentar, mas ele nunca te deixaria ir.
Todo mundo sabia que Kate era a tal Garota K, musa das músicas da Cave Panthers. Ele passou anos se lembrando dela e então, após uma década, se reencontraram.
Kate: também não te deixaria ir. Eu juro que vejo até lasers saindo dos olhos dele quando Andrew toca em você. Ele é tão Dean".
Eu ri, divertida.
: E tão talentoso quanto.
Conversamos por mais alguns minutos, e depois fui tomar banho e me deitar um pouco enquanto esperava chegar para pedirmos delivery. Eu estava quase cochilando quando ouvi a porta da frente abrir, mas nem me movi do lugar.
A posição estava confortável demais para isso e o clima, fresquinho. Eu estava deitada com um braço embaixo do travesseiro e só abri os olhos quando ouvi entrar.
O encontrei andando em minha direção com um sorriso no rosto e, em seguida, ele se inclinou para me dar um beijo no pescoço, uma mão indo direto para o meu quadril, sorrateiramente se enfiando embaixo da minha camisola azul-marinho.
— Essa cor fica muito bem em você — ele murmurou no meu ouvido e ri baixinho, antes de rolar na cama e abrir os braços, convidando-o para um abraço.
se aconchegou contra mim e enterrou o rosto no meu pescoço, ficando assim por um momento antes de se afastar e tirar a jaqueta.
— O que acha de pizza hoje? — sugeri.
— Acho ótimo. Pede pizza de calabresa e quatro queijos. Vou tomar banho e já volto.
Cerca de uma hora mais tarde, estávamos os dois sentados na cozinha, devorando uma pizza grande com copos também grandes e cheios de Coca-Cola zero. Que John não sonhasse com essa nossa refeição. Eu ainda não tinha me recuperado dos cinco quilômetros que ele havia me obrigado a pedalar, muito menos da musculação da semana. Todo o meu corpo doía e todos os dias eu me controlava ao máximo para não dormir em cima do computador durante as tardes de trabalho.
Naquela sexta à noite, eu estava especialmente enfadada e era bom saber que eu não precisava acordar cedo no dia seguinte para me exercitar antes do trabalho. e eu poderíamos ficar na cama até tarde, e eu mal podia esperar para me aconchegar com ele após o jantar.
Assistimos um pouco de TV e só depois das dez da noite, voltamos para o quarto. Depois de uma rápida passada no banheiro para escovarmos os dentes, e eu finalmente fomos para a cama. Eu o abracei pela cintura, me deliciando com o cheiro de seu perfume pós-banho, e fechei os olhos.
Naquele momento, eu só queria dormir e podia dizer que também desejava o mesmo, considerando que ele havia passado o dia inteiro fora. Demos boa noite um para o outro e então o silêncio caiu sobre nós. Esperei até que o sono me levasse para a inconsciência novamente, e não demorou muito até eu começar a cochilar.
Essa foi a última coisa de que me lembrei antes de abrir os olhos e me ver sozinha em um beco na rua, com fones de ouvido ao som de “TKO” do Justin Timberlake. Franzi o cenho e meu primeiro impulso foi passar a mão no cabelo, percebendo-o curto.
Ayla.
Eu estava de volta à Tenaz e em uma cena completamente diferente das outras. Se ela estava em um beco, então eu tinha um palpite sobre que momento da história era aquele.
Comecei a andar em busca de um local mais movimentado e, discretamente, olhei para trás. Meu coração deu um pulo quando vi um homem de capuz a alguns metros de mim. Apertei o passo e tentei pensar rápido. O que Louise — e não Ayla — faria? Ayla não sabia lutar, mas Louise sim, e eu tinha lido quatro livros em que Yeong treinava as meninas. Além disso, Kate e eu fizemos algumas aulas de autodefesa quando ela estava escrevendo Perspicaz. Nunca precisei colocar nada em prática para testar a eficiência dos golpes, mas não fazia mal tentar.
Ayla cortaria o braço no meio do ataque de dois homens e eu não estava nem um pouco a fim de apanhar e me machucar. Se minhas contas estavam corretas, àquela altura Ayla já devia estar correndo e então um segundo homem a puxaria de repente para um beco onde estava escondido.
Enfiei os fones na bolsa e diminuí um pouco o passo, fingindo atender o celular.
— Oi, Minsik. Você já tá perto? Tô naquele beco, perto do restaurante. O pessoal tá com você? Certo, vem me encontrar então.
Coloquei o celular na bolsa e apertei o passo novamente. Avistei o próximo beco e um pedaço de madeira em um canto e não pensei duas vezes antes de pegá-lo. Levantei como um bastão e corri. No mesmo instante, o segundo homem apareceu e eu o acertei em cheio na cabeça.
Surpreso, o primeiro homem parou de andar atrás de mim, observando o companheiro arquejar de dor.
— Socorro, socorro, alguém! — Comecei a gritar como uma louca. — Socorro!
Comecei a correr e o cara continuou atrás de mim. Quando me aproximei um pouco mais do restaurante mais à frente, me virei, sacudindo o pedaço de madeira. No entanto, prevendo o meu movimento, o homem conseguiu agarrá-lo e o jogou longe. Prendi a respiração, com medo, e dei alguns passos para trás.
— Socorro, socorro! — Gritei novamente, tentando correr, mas ele me agarrou pelo cabelo e tapou minha boca, enquanto tentava me arrastar.
Vamos, , pense rápido.
Com um impulso, inclinei meu corpo para frente e dei uma cotovelada o mais forte que consegui em suas costelas. O homem gemeu de dor e consegui me soltar, na esperança de conseguir fugir daquela vez. No entanto, o segundo homem que ataquei anteriormente surgiu do nada e me deu um tapa tão forte no rosto que me jogou no chão.
Senti uma dor no braço, mas era só um arranhão e não um corte. O cara se aproximou, tentando pegar minha bolsa e eu levantei uma perna e o acertando com um chute nas bolas.
— Socorro, alguém! — gritei o mais alto que pude e avistei um grupo de rapazes, que pareciam estudantes.
— Ei cara, o que você tá fazendo? Deixa ela em paz! — um deles gritou, correndo até mim, junto com outro colega.
O homem que me perseguia soltou um xingamento e hesitou por um instante, encarando a bolsa que eu agarrava firmemente, até que pareceu desistir e correu com o outro. Me senti tonta, meu rosto e braço doendo e ardendo. O cara que gritou com os ladrões se abaixou perto de mim e minha skin de Ayla imediatamente começou a tremer. Ele usava um moletom e outras peças casuais.
— Eu consegui fugir, mas um deles veio atrás de mim... — falei automaticamente.
— Calma, você tá segura agora — o outro garoto falou.
— Vai ficar tudo bem. — Eu vou te levar pro hospital, tá bom? — o garoto do moletom disse e eu imaginei que ele fosse Minsik, um dos personagens da série que em breve ajudaria Dean, assim como Yeong e Zico.
Assenti e começamos a andar em direção ao carro dele. No meio disso, eu acordei. Rolei na cama, sentindo meu corpo dolorido e enfiei a mão embaixo do travesseiro para pegar o celular e ver que horas eram.
Nove e meia da manhã.
Olhei para o lado e dormia de barriga para baixo, com o rosto virado na direção oposta à minha.
Bocejei, esfregando os olhos e fiz uma careta ao sentir o lado esquerdo do meu rosto doer e o pescoço também. Era só o que faltava, eu ter dormido de mau jeito. Com os antebraços, dei um impulso para me sentar, mas fiz uma careta ao sentir uma dor no braço direito. Franzi o cenho e levantei o braço, passando a mão levemente. Queimou um pouco, então a tirei no mesmo instante.
Mesmo com o quarto meio escuro, consegui ver o que tinha ali. Meus olhos arregalaram e palavras saíram dos meus lábios antes que eu pudesse raciocinar direito.
— Que porra é essa?! — falei alto, esquecendo de por um instante, até vê-lo acordar assustado.
— O quê? O que foi? — ele perguntou, alarmado.
Por um instante, não respondi.
Estava ocupada, com os olhos vidrados no machucado que havia no meu braço direito.
Idêntico ao de Ayla.
Capítulo 16
— De onde veio isso? — segurou meu braço, examinando o machucado. — Você caiu de madrugada e eu não ouvi? Isso não tava aí ontem, .
— Não. Eu sonhei com isso e apareceu, . — O encarei, assustada, então comecei a explicar rapidamente. — Eu tava em Tenaz de novo e Ayla estava sendo atacada. Eu tentei evitar me machucar... Que ela se machucasse, porque eu tava no corpo dela, só que um cara me bateu, então eu caí e... — Fiz uma careta, sentindo minha bochecha doer.
— O que foi? — perguntou, alarmado, e acendeu a luz do quarto com o controle. No entanto, quando seu olhar caiu em mim de novo, arregalou os olhos. — , o que houve com o seu rosto? — Ele o envolveu com cuidado.
Me afastei dele e levantei, correndo para o closet. Lá, encarei meu reflexo no espelho. Havia uma marca vermelha, levemente inchada no lado esquerdo do meu rosto. Atrás de mim, me observou, preocupado.
— , o que tá acontecendo? Quem fez isso? Como...? — Era óbvio que ele não estava entendendo nada, nem eu entendia.
A única explicação que eu tinha era o sonho, mas como isso era possível? E se era possível, o que desencadeou? Foi por que eu tentei me proteger? Mas o que isso influenciava se, na maior parte do tempo, a história seguia um roteiro? Ayla ainda tinha encontrado Minsik, ido ao hospital e sido atacada.
Mas por que eu, na minha própria realidade, tinha acordado com os machucados dela? Isso era assustador, e não ter uma explicação científica fazia tudo parecer pior. Isto é, eu não sabia se tinha uma. Estava longe de ser algo pertencente a minha coleção de conhecimentos aleatórios e, na maioria das vezes, inúteis.
— , eu não saí do seu lado, eu juro. Isso aconteceu no sonho e por alguma razão apareceu em mim. Não faço ideia do porquê — falei novamente e ele franziu o cenho, visivelmente sem saber o que dizer ou fazer. — Você não acredita em mim.
Não era uma pergunta, era uma constatação. Porque nada do que eu dizia fazia sentido. Senti os olhos arderem, sem saber o que fazer também.
— ... Talvez você esteja sonambulando, amor. Deve ter alguma coisa a ver com o acidente — deduziu ele.
— Mas eu tava indo bem... — choraminguei. — O médico disse que era só questão de tempo até eu melhorar. Você tava lá e ouviu.
— Sim, meu amor. — me acolheu em um abraço. — Vai dar tudo certo. Você vai ficar bem.
Assenti em silêncio, mesmo incerta sobre aquilo. Eu estava com medo e sabia que também estava assustado, então eu não queria surtar mais na frente dele. Não ia mudar nada e só iria deixá-lo mais inquieto também.
Depois de alguns instantes, me acalmei e nos separamos para começarmos nosso dia. Duas horas depois, falei que iria almoçar com Kate. Eu tinha enviado uma mensagem para ela enquanto estava no banho após voltar da academia, e rapidamente combinamos de nos ver.
se ofereceu para me levar até o restaurante, mas insisti em ir sozinha. Ainda me sentia insegura para dirigir, com medo de passar mal caso lembrasse de alguma coisa, então resolvi pedir um táxi. Encontrei Kate em um restaurante tailandês que costumávamos frequentar juntas.
Enquanto esperávamos a comida chegar, aproveitei para falar com ela.
— Então... — comecei.
— Então... O que você queria falar comigo? — ela perguntou, já que eu havia mencionado na mensagem.
— Eu sei que você vai me achar louca, mas eu ainda tô indo parar em Tenaz quando durmo.
— E? O médico falou que era um mecanismo de defesa, né?
— Sim, mas ele não disse que isso podia me machucar.
— Como assim? — Kate franziu o cenho.
Levantei meu braço, expondo o arranhão na parte externa do antebraço, então comecei a vomitar palavras.
— Eu dormi, sonhei com Tenaz na parte que Ayla é atacada e eu tentei evitar o ataque. Consegui evitar o corte no braço, mas não esse arranhão. Ayla sofreu esse arranhão e eu acordei com ele no meu corpo, Kate. Lembra que ela levava o corte e tinha até que levar pontos? Quando eu sonho com Tenaz, eu sinto o que ela sente e não queria sentir dor. Então tentei mudar essa parte, mas me machuquei mesmo assim no corpo dela e no meu.
— ... Do que você tá falando? Tem certeza de que não caiu enquanto dormia? E que papo é esse de mudar a história? Ayla sofre um arranhão no braço. Ela tenta se defender com um pedaço de madeira e tenta fugir, mas é pega e acaba levando um...
— Um tapa no rosto que a faz cair — completei.
— Sim. É o que acontece na cena.
— Não é, não — retruquei. — Ela leva pontos, Kate. Você deve estar confundindo. Eu li Tenaz umas quatro vezes, mais na frente os pontos dela abrem quando ela tá bêbada e falando com o Dean.
— Não, . Foi só um arranhão — ela retrucou. — Eu escrevi, então tenho certeza.
— Mas e o celular dela? O celular dela foi roubado e o pai do Dean entrega a ele...!
— O celular de Ayla não foi roubado. Ela segurou a bolsa.
— Não... Fui eu que segurei a bolsa, Kate. Do que você tá falando? O que tá acontecendo?
— Acho que você se confundiu depois do acidente, — ela supôs, segurando minha mão por cima da mesa. — Sua mente deve ter criado coisas durante o sonho.
— E como você explica isso? — Apontei para o arranhão em meu braço. — acha que sonambulei, mas ele tem o sono pesado e eu tenho quase certeza de que não saí daquela cama nem pra ir ao banheiro. Eu também tinha uma marca vermelha no rosto. Do tapa.
Kate franziu o cenho, intrigada.
— Não sei, . Normalmente, quem é sonâmbulo não lembra de nada. É possível que seja isso. Na verdade, é o mais provável, cientificamente falando. Também há estudos sobre manchas roxas aparecendo nos corpos de pessoas por estresse. Você passou por muita coisa.
— Muita coisa? Eu só fiquei inconsciente por quatro dias, só dormindo, e nem sei porquê. Mal tive machucados, Kate. Por que todo mundo tá me tratando como se fosse algo sério?
— ... — Kate me encarou, preocupada. — É verdade que você tá bem. Mas se contarmos todas as suas lembranças como uma história, isso pode te sobrecarregar e prejudicar sua recuperação.
— Eu me sinto estúpida, Kate — desabafei, frustrada. — Não lembro de partes da minha própria vida e, por alguma razão, tô indo parar dentro do seu livro. Tive algumas lembranças e ontem mesmo, o médico falou que tô indo bem. Então por que isso tá acontecendo? O sonho é real demais pra ser só um sonho. Eu tenho controle sobre Ayla em algumas partes, mas agora você disse que o que mudei faz parte do enredo.
— , sonambulismo é a única coisa que eu consigo pensar. Não é como se você estivesse delirando ou algo assim. Nós só podemos esperar e ver. — Ela encolheu os ombros, claramente de mãos atadas também. — Odeio te ver assim e deve ser assustador não lembrar de tudo o que você viveu com o , mas é a nossa única opção. Você pode tentar conversar com um psicólogo também, talvez assim consiga se acalmar mais, não sei...
Coloquei as duas mãos no rosto e respirei fundo, tentando não chorar.
— Por que eu tenho que me lembrar sozinha? Isso é irritante.
— Sua mente pode criar coisas que não aconteceram se você souber por nós. É difícil dizer como cada pessoa reagiria em uma situação assim. No início, você sentia tontura e dor de cabeça. Por isso, o toma cuidado em só contar quando você lembra. Mesmo não tendo acontecido mais vezes, não há garantia de nada.
Eu a ouvi em silêncio, tentando pensar no que fazer, no que tinha acontecido. Era real demais, mas se ninguém acreditava em mim, não havia o que fazer. Talvez eu estivesse mesmo ficando louca, acreditando em coisas fantasiosas. Eu estava tendo um turbilhão de sentimentos, e não fazia ideia do que era real. Mas Kate tinha razão, só restava a nós esperar e ver o que aconteceria.
Mais tarde, após nosso almoço, Kate se ofereceu para me deixar em casa e no caminho, abri rapidamente o aplicativo de leitura e procurei pelo trecho do ataque de Ayla em Tenaz, apenas para descobrir que Kate estava certa o tempo todo. Deu até vontade de rir de nervoso, mas talvez fosse algum efeito Mandela. Quando você acredita fielmente que tem algo onde não tem ou em algo que nunca aconteceu. Tipo pensar que o Pikachu tem uma listra no rabo (ele não tem) ou que a pintura da Monalisa está sorrindo.
Eu estava mais tranquila, tentando aceitar essa ideia e a do sonambulismo, mas também estava decidida a me expor a quantos estímulos fossem possíveis para me fazer lembrar das coisas importantes.
era o principal deles, e eu iria procurar anotações, objetos ou qualquer coisa que pudesse me fazer lembrar de algo; mesmo que isso me fizesse desmaiar e ficar inconsciente por mais quatro dias. Eu tinha que lembrar de tudo, principalmente do acidente que havia me deixado daquele jeito.
***
A primeira coisa que senti quando abri a porta foi cheiro de biscoitos. Em seguida, encontrei colocando uma fornada quentinha em cima do balcão. Foi o suficiente para me fazer esquecer momentaneamente minhas preocupações.
— Oi, como foi o almoço?
— Bom — respondi, sem olhar para ele, focada nos biscoitos. — Você fez tudo isso sozinho?
Havia mais três fornadas em cima do balcão, com biscoitos enormes e de sabores diferentes. Chocolate com gotas de chocolate branco, baunilha com gotas de chocolate preto, alguns com castanha e confeitos coloridos também.
— Acabei de terminar — informou. — Pedi comida e aprontei eles enquanto esperava. Almocei enquanto estavam no forno.
Eu amava biscoitos. Era minha sobremesa de conforto. Eu sempre fazia para comer quando estava chateada ou estressada com alguma coisa, às vezes com sorvete de creme. E era bem legal descobrir que sabia cozinhar aquilo também.
— Que delícia... — Espiei as fornadas, sentindo o cheirinho de cada uma delas, encantada com a variedade que ele fez.
— Tem sorvete de creme no congelador — anunciou e imediatamente eu o encarei como se ele fosse algum tipo de salvador. Se meus olhos não estavam brilhando antes, eles com certeza o fizeram quando ouvi aquilo.
Ele sabia que era minha comida de conforto e tinha feito exatamente com este intuito: me confortar.
Senti meus olhos encherem d'água e joguei os braços ao redor dele.
— ? Amor, o que foi? Você não gostou? São os seus favoritos... — A voz dele vacilou um pouco, insegura.
— Eu amei — respondi, sentindo ele relaxar, aliviado. — Acho que deve ser a TPM me deixando sensível.
riu baixinho e me abraçou forte.
— Vai passar, amor.
— Eu quero muito me lembrar de tudo, — confessei baixinho. — Eu nem fazia ideia que você sabia fazer esses biscoitos, ou que são meus favoritos.
— Eu já te disse que sei tudo sobre você, . — Ele se afastou para me encarar. — Saber sua comida de conforto é o mínimo que eu tenho obrigação de saber, amor.
— Você parece um personagem fictício escrito por uma mulher — murmurei, ainda o abraçando pela cintura.
sorriu, exibindo uma covinha, e seus olhos brilharam com diversão.
— Você sempre disse pra minha mãe que ela me criou muito bem, então talvez seja quase isso.
— Acho que sou a fã número um dela, então, porque você é uma obra de arte.
Ele riu e eu o acompanhei, antes de ficar na ponta dos pés para beijá-lo.
— O machucado ainda tá doendo? — perguntou quando nos afastamos e segurou meu braço com cuidado, examinando o arranhão.
— Não. Só é dolorido quando eu toco.
— Eu comprei um remédio pra ferimentos, vamos passar nele depois.
Assenti, sorrindo de lábios fechados.
— Depois — enfatizei. — Hora da sobremesa. Vou me empanturrar de biscoitos.
— Vou pegar o sorvete então. — Ele sorriu, antes de se dirigir até a geladeira.
Secretamente, desejei que todos aqueles biscoitos afastassem as minhas preocupações e medos de mim.
Só não tinha certeza se funcionaria.
— Não. Eu sonhei com isso e apareceu, . — O encarei, assustada, então comecei a explicar rapidamente. — Eu tava em Tenaz de novo e Ayla estava sendo atacada. Eu tentei evitar me machucar... Que ela se machucasse, porque eu tava no corpo dela, só que um cara me bateu, então eu caí e... — Fiz uma careta, sentindo minha bochecha doer.
— O que foi? — perguntou, alarmado, e acendeu a luz do quarto com o controle. No entanto, quando seu olhar caiu em mim de novo, arregalou os olhos. — , o que houve com o seu rosto? — Ele o envolveu com cuidado.
Me afastei dele e levantei, correndo para o closet. Lá, encarei meu reflexo no espelho. Havia uma marca vermelha, levemente inchada no lado esquerdo do meu rosto. Atrás de mim, me observou, preocupado.
— , o que tá acontecendo? Quem fez isso? Como...? — Era óbvio que ele não estava entendendo nada, nem eu entendia.
A única explicação que eu tinha era o sonho, mas como isso era possível? E se era possível, o que desencadeou? Foi por que eu tentei me proteger? Mas o que isso influenciava se, na maior parte do tempo, a história seguia um roteiro? Ayla ainda tinha encontrado Minsik, ido ao hospital e sido atacada.
Mas por que eu, na minha própria realidade, tinha acordado com os machucados dela? Isso era assustador, e não ter uma explicação científica fazia tudo parecer pior. Isto é, eu não sabia se tinha uma. Estava longe de ser algo pertencente a minha coleção de conhecimentos aleatórios e, na maioria das vezes, inúteis.
— , eu não saí do seu lado, eu juro. Isso aconteceu no sonho e por alguma razão apareceu em mim. Não faço ideia do porquê — falei novamente e ele franziu o cenho, visivelmente sem saber o que dizer ou fazer. — Você não acredita em mim.
Não era uma pergunta, era uma constatação. Porque nada do que eu dizia fazia sentido. Senti os olhos arderem, sem saber o que fazer também.
— ... Talvez você esteja sonambulando, amor. Deve ter alguma coisa a ver com o acidente — deduziu ele.
— Mas eu tava indo bem... — choraminguei. — O médico disse que era só questão de tempo até eu melhorar. Você tava lá e ouviu.
— Sim, meu amor. — me acolheu em um abraço. — Vai dar tudo certo. Você vai ficar bem.
Assenti em silêncio, mesmo incerta sobre aquilo. Eu estava com medo e sabia que também estava assustado, então eu não queria surtar mais na frente dele. Não ia mudar nada e só iria deixá-lo mais inquieto também.
Depois de alguns instantes, me acalmei e nos separamos para começarmos nosso dia. Duas horas depois, falei que iria almoçar com Kate. Eu tinha enviado uma mensagem para ela enquanto estava no banho após voltar da academia, e rapidamente combinamos de nos ver.
se ofereceu para me levar até o restaurante, mas insisti em ir sozinha. Ainda me sentia insegura para dirigir, com medo de passar mal caso lembrasse de alguma coisa, então resolvi pedir um táxi. Encontrei Kate em um restaurante tailandês que costumávamos frequentar juntas.
Enquanto esperávamos a comida chegar, aproveitei para falar com ela.
— Então... — comecei.
— Então... O que você queria falar comigo? — ela perguntou, já que eu havia mencionado na mensagem.
— Eu sei que você vai me achar louca, mas eu ainda tô indo parar em Tenaz quando durmo.
— E? O médico falou que era um mecanismo de defesa, né?
— Sim, mas ele não disse que isso podia me machucar.
— Como assim? — Kate franziu o cenho.
Levantei meu braço, expondo o arranhão na parte externa do antebraço, então comecei a vomitar palavras.
— Eu dormi, sonhei com Tenaz na parte que Ayla é atacada e eu tentei evitar o ataque. Consegui evitar o corte no braço, mas não esse arranhão. Ayla sofreu esse arranhão e eu acordei com ele no meu corpo, Kate. Lembra que ela levava o corte e tinha até que levar pontos? Quando eu sonho com Tenaz, eu sinto o que ela sente e não queria sentir dor. Então tentei mudar essa parte, mas me machuquei mesmo assim no corpo dela e no meu.
— ... Do que você tá falando? Tem certeza de que não caiu enquanto dormia? E que papo é esse de mudar a história? Ayla sofre um arranhão no braço. Ela tenta se defender com um pedaço de madeira e tenta fugir, mas é pega e acaba levando um...
— Um tapa no rosto que a faz cair — completei.
— Sim. É o que acontece na cena.
— Não é, não — retruquei. — Ela leva pontos, Kate. Você deve estar confundindo. Eu li Tenaz umas quatro vezes, mais na frente os pontos dela abrem quando ela tá bêbada e falando com o Dean.
— Não, . Foi só um arranhão — ela retrucou. — Eu escrevi, então tenho certeza.
— Mas e o celular dela? O celular dela foi roubado e o pai do Dean entrega a ele...!
— O celular de Ayla não foi roubado. Ela segurou a bolsa.
— Não... Fui eu que segurei a bolsa, Kate. Do que você tá falando? O que tá acontecendo?
— Acho que você se confundiu depois do acidente, — ela supôs, segurando minha mão por cima da mesa. — Sua mente deve ter criado coisas durante o sonho.
— E como você explica isso? — Apontei para o arranhão em meu braço. — acha que sonambulei, mas ele tem o sono pesado e eu tenho quase certeza de que não saí daquela cama nem pra ir ao banheiro. Eu também tinha uma marca vermelha no rosto. Do tapa.
Kate franziu o cenho, intrigada.
— Não sei, . Normalmente, quem é sonâmbulo não lembra de nada. É possível que seja isso. Na verdade, é o mais provável, cientificamente falando. Também há estudos sobre manchas roxas aparecendo nos corpos de pessoas por estresse. Você passou por muita coisa.
— Muita coisa? Eu só fiquei inconsciente por quatro dias, só dormindo, e nem sei porquê. Mal tive machucados, Kate. Por que todo mundo tá me tratando como se fosse algo sério?
— ... — Kate me encarou, preocupada. — É verdade que você tá bem. Mas se contarmos todas as suas lembranças como uma história, isso pode te sobrecarregar e prejudicar sua recuperação.
— Eu me sinto estúpida, Kate — desabafei, frustrada. — Não lembro de partes da minha própria vida e, por alguma razão, tô indo parar dentro do seu livro. Tive algumas lembranças e ontem mesmo, o médico falou que tô indo bem. Então por que isso tá acontecendo? O sonho é real demais pra ser só um sonho. Eu tenho controle sobre Ayla em algumas partes, mas agora você disse que o que mudei faz parte do enredo.
— , sonambulismo é a única coisa que eu consigo pensar. Não é como se você estivesse delirando ou algo assim. Nós só podemos esperar e ver. — Ela encolheu os ombros, claramente de mãos atadas também. — Odeio te ver assim e deve ser assustador não lembrar de tudo o que você viveu com o , mas é a nossa única opção. Você pode tentar conversar com um psicólogo também, talvez assim consiga se acalmar mais, não sei...
Coloquei as duas mãos no rosto e respirei fundo, tentando não chorar.
— Por que eu tenho que me lembrar sozinha? Isso é irritante.
— Sua mente pode criar coisas que não aconteceram se você souber por nós. É difícil dizer como cada pessoa reagiria em uma situação assim. No início, você sentia tontura e dor de cabeça. Por isso, o toma cuidado em só contar quando você lembra. Mesmo não tendo acontecido mais vezes, não há garantia de nada.
Eu a ouvi em silêncio, tentando pensar no que fazer, no que tinha acontecido. Era real demais, mas se ninguém acreditava em mim, não havia o que fazer. Talvez eu estivesse mesmo ficando louca, acreditando em coisas fantasiosas. Eu estava tendo um turbilhão de sentimentos, e não fazia ideia do que era real. Mas Kate tinha razão, só restava a nós esperar e ver o que aconteceria.
Mais tarde, após nosso almoço, Kate se ofereceu para me deixar em casa e no caminho, abri rapidamente o aplicativo de leitura e procurei pelo trecho do ataque de Ayla em Tenaz, apenas para descobrir que Kate estava certa o tempo todo. Deu até vontade de rir de nervoso, mas talvez fosse algum efeito Mandela. Quando você acredita fielmente que tem algo onde não tem ou em algo que nunca aconteceu. Tipo pensar que o Pikachu tem uma listra no rabo (ele não tem) ou que a pintura da Monalisa está sorrindo.
Eu estava mais tranquila, tentando aceitar essa ideia e a do sonambulismo, mas também estava decidida a me expor a quantos estímulos fossem possíveis para me fazer lembrar das coisas importantes.
era o principal deles, e eu iria procurar anotações, objetos ou qualquer coisa que pudesse me fazer lembrar de algo; mesmo que isso me fizesse desmaiar e ficar inconsciente por mais quatro dias. Eu tinha que lembrar de tudo, principalmente do acidente que havia me deixado daquele jeito.
A primeira coisa que senti quando abri a porta foi cheiro de biscoitos. Em seguida, encontrei colocando uma fornada quentinha em cima do balcão. Foi o suficiente para me fazer esquecer momentaneamente minhas preocupações.
— Oi, como foi o almoço?
— Bom — respondi, sem olhar para ele, focada nos biscoitos. — Você fez tudo isso sozinho?
Havia mais três fornadas em cima do balcão, com biscoitos enormes e de sabores diferentes. Chocolate com gotas de chocolate branco, baunilha com gotas de chocolate preto, alguns com castanha e confeitos coloridos também.
— Acabei de terminar — informou. — Pedi comida e aprontei eles enquanto esperava. Almocei enquanto estavam no forno.
Eu amava biscoitos. Era minha sobremesa de conforto. Eu sempre fazia para comer quando estava chateada ou estressada com alguma coisa, às vezes com sorvete de creme. E era bem legal descobrir que sabia cozinhar aquilo também.
— Que delícia... — Espiei as fornadas, sentindo o cheirinho de cada uma delas, encantada com a variedade que ele fez.
— Tem sorvete de creme no congelador — anunciou e imediatamente eu o encarei como se ele fosse algum tipo de salvador. Se meus olhos não estavam brilhando antes, eles com certeza o fizeram quando ouvi aquilo.
Ele sabia que era minha comida de conforto e tinha feito exatamente com este intuito: me confortar.
Senti meus olhos encherem d'água e joguei os braços ao redor dele.
— ? Amor, o que foi? Você não gostou? São os seus favoritos... — A voz dele vacilou um pouco, insegura.
— Eu amei — respondi, sentindo ele relaxar, aliviado. — Acho que deve ser a TPM me deixando sensível.
riu baixinho e me abraçou forte.
— Vai passar, amor.
— Eu quero muito me lembrar de tudo, — confessei baixinho. — Eu nem fazia ideia que você sabia fazer esses biscoitos, ou que são meus favoritos.
— Eu já te disse que sei tudo sobre você, . — Ele se afastou para me encarar. — Saber sua comida de conforto é o mínimo que eu tenho obrigação de saber, amor.
— Você parece um personagem fictício escrito por uma mulher — murmurei, ainda o abraçando pela cintura.
sorriu, exibindo uma covinha, e seus olhos brilharam com diversão.
— Você sempre disse pra minha mãe que ela me criou muito bem, então talvez seja quase isso.
— Acho que sou a fã número um dela, então, porque você é uma obra de arte.
Ele riu e eu o acompanhei, antes de ficar na ponta dos pés para beijá-lo.
— O machucado ainda tá doendo? — perguntou quando nos afastamos e segurou meu braço com cuidado, examinando o arranhão.
— Não. Só é dolorido quando eu toco.
— Eu comprei um remédio pra ferimentos, vamos passar nele depois.
Assenti, sorrindo de lábios fechados.
— Depois — enfatizei. — Hora da sobremesa. Vou me empanturrar de biscoitos.
— Vou pegar o sorvete então. — Ele sorriu, antes de se dirigir até a geladeira.
Secretamente, desejei que todos aqueles biscoitos afastassem as minhas preocupações e medos de mim.
Só não tinha certeza se funcionaria.
Capítulo 17
Eu sei que eu decidi ser uma pessoa mais determinada e me expor a quaisquer tipos de estímulos que pudessem me fazer lembrar da minha vida e relacionamento com , mas... Eu era uma preguiçosa. E depois de uma semana dividida entre trabalho e — para o meu terror — academia, tudo o que eu conseguia pensar naquele fim de semana era em não fazer absolutamente nada.
De repente, um senso de autopreservação tomou conta de mim e eu decidi levar as coisas com mais calma, como já vinha fazendo. Ou talvez isso fosse apenas uma desculpa para mim mesma. Eu estava assustada e com o estômago cheio de biscoitos que fizeram o papel crucial de me manter sã e sem pensar em nada, enquanto eu me enchia deles com grandes colheradas de sorvete de creme. Às vezes usando até os biscoitos como colher.
era, definitivamente, o amor da minha vida. Eu estava seriamente cogitando que éramos mesmo predestinados. Eu não precisava ser um gênio para perceber que não tínhamos uma conexão comum.
Era mais que isso.
Me fazia pensar em livros de fantasia e eu amava a ideia de ser a minha pessoa. Sempre fui fascinada em lendas como a do Fio Vermelho do Destino, vulgo Akai Ito, chamas gêmeas, e coisas do tipo. Na faculdade, eu tinha uma colega que fazia leituras de tarô. Na época, ela estava aprendendo, então fazia de graça, já nos deixando sob aviso caso errasse alguma coisa.
Mas eu sabia que tarô não se tratava bem de acertar e sim do que fazia o ouvinte se identificar. Achei muitas vezes que iria encontrar o amor da minha vida nos corredores da universidade, mas isso obviamente não aconteceu. E quando me envolvi com Andy, eu meio que desconfiei que não era ele. Foi em um dia aleatório enquanto eu trabalhava, que me veio em mente uma leitura sobre eu permitir a entrada de um homem em meu coração, mas ele não era O cara, por mais que a relação pudesse ser boa.
Lembrei disso novamente quando Andy e eu terminamos, mas parei de pensar nisso depois. Não sei se era a isso que se referia quando mencionou que eu brincava que éramos predestinados, mas a lembrança daquela leitura de tarô me veio à mente novamente, sei lá quantos anos depois.
Podia parecer ingênuo da minha parte acreditar nessas coisas, mas minha vida seria chata demais se eu não enxergasse um pouco de magia no universo. Sempre achei que ser uma pessoa cética quanto a absolutamente tudo devia ser cansativo, então eu me permitia fanficar com o meu próprio destino, imaginando como seria conhecer a minha pessoa um dia.
Nada do que eu esperava, certamente. Nem nas minhas fanfics imaginárias mais indecentes eu tinha pensado que tudo se desenrolaria a partir de um caso de uma noite.
Mas ter o meu caminho cruzado com o de foi a melhor coisa que podia me acontecer, junto com ser a agente literária de Katherine Reed. Haha.
Agora estávamos ambos deitados na cama, eu olhando para o teto, enquanto passava vídeos aleatórios no TikTok, rindo ocasionalmente. Era tão mundano que me peguei pensando se as outras fãs o imaginavam assim.
Alguns minutos depois, os sons de vídeos aleatórios pararam e virei a cabeça, notando que digitava algo no celular.
— O que você tá fazendo? — perguntei, curiosa, me aninhando a ele.
Eu normalmente não era uma pessoa que curtia muito contato físico, mas era uma exceção. Ele era um ímã que me atraía e seu toque me trazia paz. Era bem esquisito, na verdade. Isso nunca tinha acontecido antes, mas eu estava feliz por saber que não era imune a esse tipo de coisa.
me encarou por um breve instante, antes de voltar o olhar para a tela do celular.
— Planejando nosso próximo encontro — respondeu.
— Mas já? — Estiquei o pescoço para dar uma espiada, mas ele bloqueou a tela. — Ei!
— É surpresa.
— Eu posso fingir surpresa se você me contar.
— Não quero que você finja nada, . Quero a experiência real.
— Falando assim, até parece que você tá falando sobre fingir outra coisa. — Sorri, divertida. rolou os olhos.
— Que besteira. Eu sei que você nunca fingiu comigo — o idiota disse, em um tom arrogante.
— Muito prepotente você achar isso quando nem eu lembro...
— Mas eu lembro por você, . E sabe por que eu sei? — Ele se virou, me envolvendo com um braço, e murmurou no meu ouvido. — Por que você sempre fica arrepiada e sensível... Sua respiração fica entrecortada e você sempre franze o cenho quando está perto de um orgasmo. Então você se aperta ao redor de mim e me puxa para mais perto como se não quisesse me soltar nunca mais.
Senti a pele arrepiar com a respiração dele batendo no meu pescoço e meu corpo esquentou quando ouvi aquilo. Eu não sabia se ele estava brincando ou não, mas tendo como base nossas últimas vezes, imaginei que fosse verdade.
Senti o centro do meu corpo doer por ele e me sentei, passando as pernas ao redor de sua cintura. riu, como se soubesse exatamente o que tinha feito. Eu quis tirar aquele sorrisinho da cara dele, mas então percebi que ele também havia ficado excitado. Sorri e me inclinei sobre seu tronco. Ele estava sem camisa, seus músculos expostos fazendo leves ondulações em sua pele levemente bronzeada.
Encarei a tatuagem enorme que ia do pescoço ao peito esquerdo e deixei um pensamento intrusivo vencer.
Passei a língua no final da tatuagem até a base do pescoço e mordisquei ali, fazendo ele se arrepiar.
levou as mãos até minha cintura e pressionou seu corpo contra o meu.
— ...
— Agora você não tá mais rindo, né? — provoquei.
— Tira logo a porra dessa roupa, . Eu quero te foder.
Ri baixinho, satisfeita por deixá-lo impaciente com tão pouco. Ninguém mandou ele começar. Eu o teria provocado um pouco mais se fosse em outro momento, mas meu corpo clamava por contato com o dele e tudo o que eu conseguia pensar era em nos fundir em um só. Naquele momento, eu não precisava de mais que isso. Sem preliminares, só uma coisa rápida e crua para satisfazer nossos corpos. Depois, podíamos ir com mais calma. Quem sabe testar cada cômodo da casa... Esse pensamento me fazia rir por dentro. conseguia despertar a vagabunda que habitava dentro de mim, e eu não estava nem um pouco incomodada com isso.
Sem pestanejar, puxei minha camisola pela cabeça e um sorrisinho apareceu nos lábios dele. enroscou os dedos no cós da minha calcinha, mas no momento em que pensei em me afastar para tirá-la, ele a arrebentou de uma vez.
Descanse em paz, mais uma calcinha.
— Você tem que parar de destruir minhas calcinhas — reclamei, me fingindo de ofendida.
— Eu te compro mais depois. De preferência, um monte para eu ter passe livre pra rasgar quantas eu quiser — O idiota arrogante respondeu.
Eu rasgaria a cueca dele também, se eu tivesse forças para isso e o tecido não fosse tão largo. Mas a única opção que eu tinha era abaixá-la e liberar seu pau inchado.
Talvez eu pudesse me vingar de outra forma.
— Eu quero você assim, quietinho — anunciei, para que ele não pensasse em inverter nossas posições; embora eu adorasse tê-lo no controle, aquela era a minha vez.
Quando terminei de me livrar da cueca de , eu a rodei em um dedo e puxei o tecido como um estilingue, a atirando no chão do quarto logo depois. deu uma risadinha que imediatamente cessou quando o envolvi com uma mão.
— ...
— Quase lá, — respondi, ainda movimentando a mão em seu membro. estava firme e pesado, e eu mal podia esperar para tê-lo dentro de mim.
Me posicionei em cima dele e fui abaixando o quadril devagar, o tomando aos poucos enquanto meu corpo se esticava para recebê-lo. Ele me fazia sentir deliciosamente cheia, no entanto, para a minha sorte, não era doloroso. Quando o envolvi por completo, apertou as mãos em meus quadris, mas continuou parado.
— Que cachorrinho obediente — brinquei, me inclinando em seu peito para mordiscar seu pescoço.
gemeu com a fricção que isso causou.
— Vai logo, . Ou eu vou te mostrar o cachorrinho desobediente.
Tentador, mas quem sabe outra hora.
Ainda inclinada sobre ele, levantei e abaixei os quadris, observando atentamente cada segundo de suas reações. Se me conhecia tão bem a ponto de saber o que eu sentia, então eu faria o mesmo. Enquanto não lembrasse, eu aprenderia.
Ele arfou quando desci os quadris e eu mordi o lábio inferior em meio a um sorriso. Levantei os quadris novamente e o abaixei de uma vez. Então repeti uma terceira e uma quarta vez, garantindo que havia lubrificação suficiente para nós dois. Segui para adquirir um ritmo constante e me afastei para apoiar as mãos em seu peito enquanto continuava a me movimentar.
Uma onda de eletricidade percorreu meu corpo e eu sabia que não demoraria muito para eu chegar lá. Tendo o controle total, eu deslizei em em busca do meu próprio prazer. Ele continuou com os quadris parados, me deixando comandar tudo, mas suas mãos percorreram todo o meu corpo, se demorando em meus seios até o momento em que ele me puxou contra si para envolvê-los com a boca. Suspirei pesadamente e senti outra onda de eletricidade passar por mim, me fazendo sentir um pouco fraca. Eu explodiria a qualquer momento, então decidi deixar assumir naquele instante. Ele riu baixinho contra meu pescoço quando anunciei, e então segurou meus quadris com firmeza para que eu ficasse parada enquanto ele acabava comigo.
Felizmente, meus joelhos tinham apoio, ou eu teria me desfeito em cima dele feito manteiga derretida em poucos segundos.
me encarou nos olhos com determinação e eu franzi o cenho, sentindo o primeiro tremor em meu corpo. Então veio de uma vez, me atingindo com tudo e fazendo o ar escapar de meus pulmões. No entanto, não parou. Sem hesitar, ele continuou a bater dentro de mim, e eu me segurei com força em seus ombros enquanto nossos corpos ainda se chocavam. Senti outro orgasmo começar a crescer e, de repente, sorriu.
— Que tal o cachorrinho desobediente agora? — ele perguntou e eu só consegui assentir freneticamente, um instante antes dele sair de dentro de mim e me virar na cama, seu peito em contato com minhas costas. Antes que eu pudesse reclamar, me preencheu outra vez.
Eu estava deliciosamente preenchida e meu corpo estava tenso mais uma vez. Então, alguns movimentos a mais foram o suficiente para me fazer tremer em seus braços, e eu propositalmente contraí meus músculos internos ao redor de seu membro, fazendo-o perder o controle também. se derramou em mim um momento depois, gemendo baixo no meu ouvido, e até me passou pela cabeça sugerir para que ele colocasse aquele som em uma música. Eu tinha certeza de que seria sucesso.
Quando nos separamos, eu era apenas um peso morto em cima da cama, ainda ofegante e olhando para o teto com uma expressão satisfeita no rosto.
— Acho que gosto das duas versões do cachorrinho — comentei, fazendo-o rir.
— Eu sei.
Idiota. Espere só até eu me lembrar de todos os seus pontos fracos também, , anunciei mentalmente.
Em seguida, bocejei e virei para o lado, em uma posição confortável. me puxou para perto e se aconchegou comigo. Eu tinha tomado banho há pouco tempo e já precisava de outro, mas dessa vez iria esperar.
Fui tomada pelo sono pouco tempo depois.
A próxima coisa de que me lembro foi de estar em um estacionamento vazio com uma garota ruiva parada a minha frente. A reconheci de imediato. Era a minha skin de Ayla .
Seus olhos pareciam diferentes, no entanto. Tinham um tom brilhante de prateado que não condizia com os olhos escuros da protagonista de Tenaz.
Não era algo humano e depois de meus anos como uma fã fiel de Sobrenatural, comecei instintivamente a tentar identificar que coisa era aquela com que eu estava sonhando.
Estranhamente, não senti medo.
— Ayla? — chamei, mesmo ciente de que não era ela.
A coisa com a imagem de Ayla sorriu e deu um passo à frente.
— Você pode me chamar assim.
— Quem é você? — perguntei, dando dois passos para trás.
— Não tenha medo, não vim te machucar. Sou uma mensageira. Meu trabalho é te alertar.
— Me alertar? Sobre o quê? — A encarei, confusa.
De repente, os olhos dela brilharam ainda mais, como duas pequenas estrelas.
— As coisas não estão como deveriam estar. — Sua voz soou quase automática, como se repetisse um discurso pronto. — Você não deve tentar interferir e ir além do permitido.
— O quê? Que coisas? Tá falando de Tenaz?
— O destino não pode ser mudado. Coisas boas e ruins sempre hão de acontecer, não importa a vida ou o universo em que você esteja presente — ela continuou, ignorando minhas perguntas. — Aquele ao seu lado nunca vai te soltar se você não soltá-lo antes. O universo quis assim e assim será. Tente ir contra as decisões e enfrente as consequências. O que você passou era necessário para fazer a conexão perdurar. Não interfira. Leia os sinais. Aceite. E assim tudo voltará ao seu devido lugar.
— Do que você tá falando?! Que papo estranho é esse? Eu não sou boa com enigmas, tá? Foi porque eu interferi em Tenaz?
Os olhos dela se apagaram um pouco, voltando a como estavam antes.
— Em breve, você descobrirá. Não tente alterar aquilo que já foi premeditado. Receba uma segunda chance, mas se atente, pois não haverá uma terceira.
Foi a última coisa que ela disse, antes de começar a brilhar forte. Tive que proteger meus olhos da claridade, mas um segundo depois, tudo ficou escuro.
Ouvi um barulho alto, semelhante a uma página virando e, num piscar de olhos, eu estava em um beco, com fones de ouvido tocando “TKO” do Justin Timberlake.
Era a cena que eu havia mudado. Que eu inocentemente havia mudado, achando que não teria nenhuma consequência real. Se aquilo era apenas um sonho, então era um novo tipo. Mas de todo modo, encarei como um sinal. A coisa que me alertou mencionou uma segunda chance. Só podia ser aquilo. Eu não deveria interferir.
Fiz uma careta, pensando na certeza de apanhar durante aquela cena, e deixei que meus pés se movessem em modo automático. Senti a presença de um dos ladrões atrás de mim e minha skin de Ayla começou a andar mais rápido. Meu coração acelerou e meu corpo — o corpo de Ayla — foi tomado por ansiedade.
Então cheguei ao beco onde o outro ladrão estava escondido e a cena da qual eu me lembrava aconteceu automaticamente. Tive que me controlar para não tomar as rédeas da situação no primeiro ataque. Quando caí no chão e meu braço esbarrou em um pedaço de ferro, gritei de dor ao sentir o metal cortando minha pele.
Os caras pegaram o celular de Ayla, mas nem por isso ela deixou de apanhar. Eu sabia que o celular era apenas uma desculpa e que aquilo tinha sido planejado por James Nam, o pai de Dean.
Houve alguns momentos em que Ayla tentou se defender em vão e senti cada segundo de sua dor, até que ouvi um grito. Agradeci silenciosamente quando vi Minsik e o outro colega correndo até mim. Um momento depois, os meus atacantes foram embora e eu fui levada para o hospital, apavorada.
Eu ainda estava no carro com Minsik quando acordei, de repente.
Encarei o quarto que eu dividia com e me sentei na cama, procurando por alguma dor nova. Eu ainda estava sem roupas, assim como , e ele dormia profundamente ao meu lado.
Levantei o braço e encontrei apenas o arranhão que havia aparecido naquela manhã, mas nada de cortes que necessitariam de pontos. Respirei aliviada, deixando meu corpo cair na cama mais uma vez. Felizmente, aquela cena era a única que eu lembrava em que Ayla se machucava fisicamente.
Então lembrei das palavras que ouvi do ser de olhos prateados que tinha a mesma aparência dela.
O destino não pode ser mudado. O universo quis assim e assim será.
As palavras ecoaram na minha mente, ainda frescas na memória, e torci para não ter deixado a tal segunda chance que ela mencionou passar.
Mesmo não fazendo ideia do que era.
De repente, um senso de autopreservação tomou conta de mim e eu decidi levar as coisas com mais calma, como já vinha fazendo. Ou talvez isso fosse apenas uma desculpa para mim mesma. Eu estava assustada e com o estômago cheio de biscoitos que fizeram o papel crucial de me manter sã e sem pensar em nada, enquanto eu me enchia deles com grandes colheradas de sorvete de creme. Às vezes usando até os biscoitos como colher.
era, definitivamente, o amor da minha vida. Eu estava seriamente cogitando que éramos mesmo predestinados. Eu não precisava ser um gênio para perceber que não tínhamos uma conexão comum.
Era mais que isso.
Me fazia pensar em livros de fantasia e eu amava a ideia de ser a minha pessoa. Sempre fui fascinada em lendas como a do Fio Vermelho do Destino, vulgo Akai Ito, chamas gêmeas, e coisas do tipo. Na faculdade, eu tinha uma colega que fazia leituras de tarô. Na época, ela estava aprendendo, então fazia de graça, já nos deixando sob aviso caso errasse alguma coisa.
Mas eu sabia que tarô não se tratava bem de acertar e sim do que fazia o ouvinte se identificar. Achei muitas vezes que iria encontrar o amor da minha vida nos corredores da universidade, mas isso obviamente não aconteceu. E quando me envolvi com Andy, eu meio que desconfiei que não era ele. Foi em um dia aleatório enquanto eu trabalhava, que me veio em mente uma leitura sobre eu permitir a entrada de um homem em meu coração, mas ele não era O cara, por mais que a relação pudesse ser boa.
Lembrei disso novamente quando Andy e eu terminamos, mas parei de pensar nisso depois. Não sei se era a isso que se referia quando mencionou que eu brincava que éramos predestinados, mas a lembrança daquela leitura de tarô me veio à mente novamente, sei lá quantos anos depois.
Podia parecer ingênuo da minha parte acreditar nessas coisas, mas minha vida seria chata demais se eu não enxergasse um pouco de magia no universo. Sempre achei que ser uma pessoa cética quanto a absolutamente tudo devia ser cansativo, então eu me permitia fanficar com o meu próprio destino, imaginando como seria conhecer a minha pessoa um dia.
Nada do que eu esperava, certamente. Nem nas minhas fanfics imaginárias mais indecentes eu tinha pensado que tudo se desenrolaria a partir de um caso de uma noite.
Mas ter o meu caminho cruzado com o de foi a melhor coisa que podia me acontecer, junto com ser a agente literária de Katherine Reed. Haha.
Agora estávamos ambos deitados na cama, eu olhando para o teto, enquanto passava vídeos aleatórios no TikTok, rindo ocasionalmente. Era tão mundano que me peguei pensando se as outras fãs o imaginavam assim.
Alguns minutos depois, os sons de vídeos aleatórios pararam e virei a cabeça, notando que digitava algo no celular.
— O que você tá fazendo? — perguntei, curiosa, me aninhando a ele.
Eu normalmente não era uma pessoa que curtia muito contato físico, mas era uma exceção. Ele era um ímã que me atraía e seu toque me trazia paz. Era bem esquisito, na verdade. Isso nunca tinha acontecido antes, mas eu estava feliz por saber que não era imune a esse tipo de coisa.
me encarou por um breve instante, antes de voltar o olhar para a tela do celular.
— Planejando nosso próximo encontro — respondeu.
— Mas já? — Estiquei o pescoço para dar uma espiada, mas ele bloqueou a tela. — Ei!
— É surpresa.
— Eu posso fingir surpresa se você me contar.
— Não quero que você finja nada, . Quero a experiência real.
— Falando assim, até parece que você tá falando sobre fingir outra coisa. — Sorri, divertida. rolou os olhos.
— Que besteira. Eu sei que você nunca fingiu comigo — o idiota disse, em um tom arrogante.
— Muito prepotente você achar isso quando nem eu lembro...
— Mas eu lembro por você, . E sabe por que eu sei? — Ele se virou, me envolvendo com um braço, e murmurou no meu ouvido. — Por que você sempre fica arrepiada e sensível... Sua respiração fica entrecortada e você sempre franze o cenho quando está perto de um orgasmo. Então você se aperta ao redor de mim e me puxa para mais perto como se não quisesse me soltar nunca mais.
Senti a pele arrepiar com a respiração dele batendo no meu pescoço e meu corpo esquentou quando ouvi aquilo. Eu não sabia se ele estava brincando ou não, mas tendo como base nossas últimas vezes, imaginei que fosse verdade.
Senti o centro do meu corpo doer por ele e me sentei, passando as pernas ao redor de sua cintura. riu, como se soubesse exatamente o que tinha feito. Eu quis tirar aquele sorrisinho da cara dele, mas então percebi que ele também havia ficado excitado. Sorri e me inclinei sobre seu tronco. Ele estava sem camisa, seus músculos expostos fazendo leves ondulações em sua pele levemente bronzeada.
Encarei a tatuagem enorme que ia do pescoço ao peito esquerdo e deixei um pensamento intrusivo vencer.
Passei a língua no final da tatuagem até a base do pescoço e mordisquei ali, fazendo ele se arrepiar.
levou as mãos até minha cintura e pressionou seu corpo contra o meu.
— ...
— Agora você não tá mais rindo, né? — provoquei.
— Tira logo a porra dessa roupa, . Eu quero te foder.
Ri baixinho, satisfeita por deixá-lo impaciente com tão pouco. Ninguém mandou ele começar. Eu o teria provocado um pouco mais se fosse em outro momento, mas meu corpo clamava por contato com o dele e tudo o que eu conseguia pensar era em nos fundir em um só. Naquele momento, eu não precisava de mais que isso. Sem preliminares, só uma coisa rápida e crua para satisfazer nossos corpos. Depois, podíamos ir com mais calma. Quem sabe testar cada cômodo da casa... Esse pensamento me fazia rir por dentro. conseguia despertar a vagabunda que habitava dentro de mim, e eu não estava nem um pouco incomodada com isso.
Sem pestanejar, puxei minha camisola pela cabeça e um sorrisinho apareceu nos lábios dele. enroscou os dedos no cós da minha calcinha, mas no momento em que pensei em me afastar para tirá-la, ele a arrebentou de uma vez.
Descanse em paz, mais uma calcinha.
— Você tem que parar de destruir minhas calcinhas — reclamei, me fingindo de ofendida.
— Eu te compro mais depois. De preferência, um monte para eu ter passe livre pra rasgar quantas eu quiser — O idiota arrogante respondeu.
Eu rasgaria a cueca dele também, se eu tivesse forças para isso e o tecido não fosse tão largo. Mas a única opção que eu tinha era abaixá-la e liberar seu pau inchado.
Talvez eu pudesse me vingar de outra forma.
— Eu quero você assim, quietinho — anunciei, para que ele não pensasse em inverter nossas posições; embora eu adorasse tê-lo no controle, aquela era a minha vez.
Quando terminei de me livrar da cueca de , eu a rodei em um dedo e puxei o tecido como um estilingue, a atirando no chão do quarto logo depois. deu uma risadinha que imediatamente cessou quando o envolvi com uma mão.
— ...
— Quase lá, — respondi, ainda movimentando a mão em seu membro. estava firme e pesado, e eu mal podia esperar para tê-lo dentro de mim.
Me posicionei em cima dele e fui abaixando o quadril devagar, o tomando aos poucos enquanto meu corpo se esticava para recebê-lo. Ele me fazia sentir deliciosamente cheia, no entanto, para a minha sorte, não era doloroso. Quando o envolvi por completo, apertou as mãos em meus quadris, mas continuou parado.
— Que cachorrinho obediente — brinquei, me inclinando em seu peito para mordiscar seu pescoço.
gemeu com a fricção que isso causou.
— Vai logo, . Ou eu vou te mostrar o cachorrinho desobediente.
Tentador, mas quem sabe outra hora.
Ainda inclinada sobre ele, levantei e abaixei os quadris, observando atentamente cada segundo de suas reações. Se me conhecia tão bem a ponto de saber o que eu sentia, então eu faria o mesmo. Enquanto não lembrasse, eu aprenderia.
Ele arfou quando desci os quadris e eu mordi o lábio inferior em meio a um sorriso. Levantei os quadris novamente e o abaixei de uma vez. Então repeti uma terceira e uma quarta vez, garantindo que havia lubrificação suficiente para nós dois. Segui para adquirir um ritmo constante e me afastei para apoiar as mãos em seu peito enquanto continuava a me movimentar.
Uma onda de eletricidade percorreu meu corpo e eu sabia que não demoraria muito para eu chegar lá. Tendo o controle total, eu deslizei em em busca do meu próprio prazer. Ele continuou com os quadris parados, me deixando comandar tudo, mas suas mãos percorreram todo o meu corpo, se demorando em meus seios até o momento em que ele me puxou contra si para envolvê-los com a boca. Suspirei pesadamente e senti outra onda de eletricidade passar por mim, me fazendo sentir um pouco fraca. Eu explodiria a qualquer momento, então decidi deixar assumir naquele instante. Ele riu baixinho contra meu pescoço quando anunciei, e então segurou meus quadris com firmeza para que eu ficasse parada enquanto ele acabava comigo.
Felizmente, meus joelhos tinham apoio, ou eu teria me desfeito em cima dele feito manteiga derretida em poucos segundos.
me encarou nos olhos com determinação e eu franzi o cenho, sentindo o primeiro tremor em meu corpo. Então veio de uma vez, me atingindo com tudo e fazendo o ar escapar de meus pulmões. No entanto, não parou. Sem hesitar, ele continuou a bater dentro de mim, e eu me segurei com força em seus ombros enquanto nossos corpos ainda se chocavam. Senti outro orgasmo começar a crescer e, de repente, sorriu.
— Que tal o cachorrinho desobediente agora? — ele perguntou e eu só consegui assentir freneticamente, um instante antes dele sair de dentro de mim e me virar na cama, seu peito em contato com minhas costas. Antes que eu pudesse reclamar, me preencheu outra vez.
Eu estava deliciosamente preenchida e meu corpo estava tenso mais uma vez. Então, alguns movimentos a mais foram o suficiente para me fazer tremer em seus braços, e eu propositalmente contraí meus músculos internos ao redor de seu membro, fazendo-o perder o controle também. se derramou em mim um momento depois, gemendo baixo no meu ouvido, e até me passou pela cabeça sugerir para que ele colocasse aquele som em uma música. Eu tinha certeza de que seria sucesso.
Quando nos separamos, eu era apenas um peso morto em cima da cama, ainda ofegante e olhando para o teto com uma expressão satisfeita no rosto.
— Acho que gosto das duas versões do cachorrinho — comentei, fazendo-o rir.
— Eu sei.
Idiota. Espere só até eu me lembrar de todos os seus pontos fracos também, , anunciei mentalmente.
Em seguida, bocejei e virei para o lado, em uma posição confortável. me puxou para perto e se aconchegou comigo. Eu tinha tomado banho há pouco tempo e já precisava de outro, mas dessa vez iria esperar.
Fui tomada pelo sono pouco tempo depois.
A próxima coisa de que me lembro foi de estar em um estacionamento vazio com uma garota ruiva parada a minha frente. A reconheci de imediato. Era a minha skin de Ayla .
Seus olhos pareciam diferentes, no entanto. Tinham um tom brilhante de prateado que não condizia com os olhos escuros da protagonista de Tenaz.
Não era algo humano e depois de meus anos como uma fã fiel de Sobrenatural, comecei instintivamente a tentar identificar que coisa era aquela com que eu estava sonhando.
Estranhamente, não senti medo.
— Ayla? — chamei, mesmo ciente de que não era ela.
A coisa com a imagem de Ayla sorriu e deu um passo à frente.
— Você pode me chamar assim.
— Quem é você? — perguntei, dando dois passos para trás.
— Não tenha medo, não vim te machucar. Sou uma mensageira. Meu trabalho é te alertar.
— Me alertar? Sobre o quê? — A encarei, confusa.
De repente, os olhos dela brilharam ainda mais, como duas pequenas estrelas.
— As coisas não estão como deveriam estar. — Sua voz soou quase automática, como se repetisse um discurso pronto. — Você não deve tentar interferir e ir além do permitido.
— O quê? Que coisas? Tá falando de Tenaz?
— O destino não pode ser mudado. Coisas boas e ruins sempre hão de acontecer, não importa a vida ou o universo em que você esteja presente — ela continuou, ignorando minhas perguntas. — Aquele ao seu lado nunca vai te soltar se você não soltá-lo antes. O universo quis assim e assim será. Tente ir contra as decisões e enfrente as consequências. O que você passou era necessário para fazer a conexão perdurar. Não interfira. Leia os sinais. Aceite. E assim tudo voltará ao seu devido lugar.
— Do que você tá falando?! Que papo estranho é esse? Eu não sou boa com enigmas, tá? Foi porque eu interferi em Tenaz?
Os olhos dela se apagaram um pouco, voltando a como estavam antes.
— Em breve, você descobrirá. Não tente alterar aquilo que já foi premeditado. Receba uma segunda chance, mas se atente, pois não haverá uma terceira.
Foi a última coisa que ela disse, antes de começar a brilhar forte. Tive que proteger meus olhos da claridade, mas um segundo depois, tudo ficou escuro.
Ouvi um barulho alto, semelhante a uma página virando e, num piscar de olhos, eu estava em um beco, com fones de ouvido tocando “TKO” do Justin Timberlake.
Era a cena que eu havia mudado. Que eu inocentemente havia mudado, achando que não teria nenhuma consequência real. Se aquilo era apenas um sonho, então era um novo tipo. Mas de todo modo, encarei como um sinal. A coisa que me alertou mencionou uma segunda chance. Só podia ser aquilo. Eu não deveria interferir.
Fiz uma careta, pensando na certeza de apanhar durante aquela cena, e deixei que meus pés se movessem em modo automático. Senti a presença de um dos ladrões atrás de mim e minha skin de Ayla começou a andar mais rápido. Meu coração acelerou e meu corpo — o corpo de Ayla — foi tomado por ansiedade.
Então cheguei ao beco onde o outro ladrão estava escondido e a cena da qual eu me lembrava aconteceu automaticamente. Tive que me controlar para não tomar as rédeas da situação no primeiro ataque. Quando caí no chão e meu braço esbarrou em um pedaço de ferro, gritei de dor ao sentir o metal cortando minha pele.
Os caras pegaram o celular de Ayla, mas nem por isso ela deixou de apanhar. Eu sabia que o celular era apenas uma desculpa e que aquilo tinha sido planejado por James Nam, o pai de Dean.
Houve alguns momentos em que Ayla tentou se defender em vão e senti cada segundo de sua dor, até que ouvi um grito. Agradeci silenciosamente quando vi Minsik e o outro colega correndo até mim. Um momento depois, os meus atacantes foram embora e eu fui levada para o hospital, apavorada.
Eu ainda estava no carro com Minsik quando acordei, de repente.
Encarei o quarto que eu dividia com e me sentei na cama, procurando por alguma dor nova. Eu ainda estava sem roupas, assim como , e ele dormia profundamente ao meu lado.
Levantei o braço e encontrei apenas o arranhão que havia aparecido naquela manhã, mas nada de cortes que necessitariam de pontos. Respirei aliviada, deixando meu corpo cair na cama mais uma vez. Felizmente, aquela cena era a única que eu lembrava em que Ayla se machucava fisicamente.
Então lembrei das palavras que ouvi do ser de olhos prateados que tinha a mesma aparência dela.
O destino não pode ser mudado. O universo quis assim e assim será.
As palavras ecoaram na minha mente, ainda frescas na memória, e torci para não ter deixado a tal segunda chance que ela mencionou passar.
Mesmo não fazendo ideia do que era.
Capítulo 18
Não contei nada para sobre o meu último sonho esquisitão, tampouco da cena repetida de Tenaz em que fui enfiada novamente.
Não adiantaria nada jogar isso nele sabendo que não acreditaria em mim e não saberia o que fazer. Por mais que eu quisesse ter um pouquinho de apoio emocional, eu sabia que só iria se culpar ainda mais em relação ao acidente, achando que tudo isso era uma consequência do meu atropelamento. Meio que era mesmo, mas fui eu quem escolhi sair sozinha naquela noite ao invés de ficar em casa. Então, para não fazer meu namorado surtar mais do eu aparentemente estava, decidi ficar calada.
No domingo à tarde, logo após o almoço, anunciou nosso próximo encontro. Passei a tarde me planejando para aquela saída, enquanto ele ficou trancado no estúdio atendendo uma ligação de Jace.
Maldito Jace, infernizando meu namorado com trabalho em pleno domingo, na folga dele.
Ele tinha sorte por não termos nos encontrado ainda porque eu não tinha certeza se conseguiria segurar minha língua de dar algumas alfinetadas nele. Na última semana, foi para a cama tarde por causa do trabalho, quando eu já estava dormindo e, mesmo assim, acordou cedo para irmos para a academia juntos.
Eu sabia que ele andava cansado, então encomendei algumas caixas de suplementos vitamínicos para forçar ele a tomar o mais breve possível e estava apenas esperando chegar. podia até ter uma ótima resistência física, mas naquele ritmo, seu corpo reclamaria eventualmente, e eu não queria que ele adoecesse. Eu não fazia ideia se eu sabia cuidar de alguém doente, já que era uma raridade e eu adoecermos (nosso bolso agradecia), mas sabia como tentar evitar adoecer.
Felizmente, tínhamos dinheiro suficiente para alguns suplementos e, dessa vez, até comprei para mim também, como forma de convencer . Àquela altura, eu já tinha notado que ele odiava remédios e tomava apenas em último caso, como quando tinha enxaqueca por trabalhar demais na frente do computador. Isso também acontecia comigo, mas era mais frequente quando eu estava próxima do meu período menstrual, o que aconteceria em breve, a qualquer momento na próxima semana.
Assim que voltou, eu já estava de cabelo pronto e já tinha tomado banho, coisa que ele fez rapidamente antes de me encontrar de novo no closet.
Assim como da última vez, ele se enfiou no closet e fuçou minhas roupas em busca das mesmas peças de três anos atrás, e logo me vi frente a uma saia jeans com mullet e uma blusinha rosa choque fechada com um zíper na parte de trás.
Podia até parecer um grande esforço de , considerando que eu tinha muita roupa guardada, mas meu closet era dividido em nichos. Então tudo o que ele teve que fazer foi encontrar o nicho de shorts e saias jeans, e depois o de blusinhas coloridas. Não deve ter levado mais que cinco minutos, mas eu apreciava o fato dele revisitar nossas lembranças para ver que roupa eu tinha usado.
— Não sei se isso cabe em mim — falei para ele, assim que vi as peças. Eu já até tinha feito a maquiagem, mas fui idiota e não provei a roupa com antecedência. — Você lembra a última vez que usei essa roupa?
— Não faço ideia — ele admitiu. — Por que você não prova?
Assenti e tirei a roupa que eu estava usando, ficando apenas de calcinha e sutiã, e tentei vestir primeiro a blusa. Pedi para fechar o zíper, mas as duas partes de tecido sequer se encontraram.
— Opa... Parece que essa não vai dar.
— Você ganhou massa muscular na academia, é por isso.
Concordei com a cabeça, desistindo da blusa e, sem dizer nada, tentei vestir a saia. Ela nem passou das minhas coxas. Era inacreditável pensar que eu coube naquilo um dia.
Caí na risada e me acompanhou. Fiz uma nota mental de fazer uma limpa no meu closet e doar o que não me servia mais.
— Parece que não vai ser dessa vez — comentei e ele encolheu os ombros. — Vou procurar alguma coisa dentro dessa paleta de cor, então.
Alguns minutos depois, encontrei uma saia jeans envelope com botões em uma lateral e uma blusa soltinha de alças brilhantes no mesmo tom de rosa da outra. Era simples, mas tudo o que eu precisava era de um salto para fazer parecer sofisticado. Escolhi um scarpin branco ao invés de usar um tênis, como da última vez. Provei tudo para ter certeza de que cabia em mim e pedi para ele opinar.
— Você ficou ainda mais linda, amor.
— Tomara que não tenha paparazzi dessa vez, mas se tiver, ao menos eu tô apresentável.
— Um funcionário vai nos receber na porta dos fundos e nos levar até a cabine reservada. Além disso, vamos no seu carro hoje, ele é mais discreto e comum. Vai se misturar melhor com os outros.
— Sim, Sr. Exibicionista Dono de um Audi. Vamos no meu humilde carrinho sem nada de especial — brinquei.
rolou os olhos, mas não disse nada. Ele começou a trocar de roupa rapidamente enquanto eu dei uns últimos retoques na maquiagem e passei perfume.
Assim como prometido, cerca de meia hora mais tarde, encontramos um funcionário que nos levou até nossa cabine reservada no restaurante japonês que tinha escolhido. O lugar era especializado em sushi e sashimi, e mesmo imaginando que era isso que iríamos comer, peguei o cardápio para ver a variedade de pratos. Havia alguns pratos de rua também, como okonomiyaki, que era um tipo de panqueca salgada e takoyaki no espeto, bolinhos de sabores diversos. Também tinha guioza, os famosos pasteizinhos de carne cozidos no vapor, e eu pedi uma porção deles, numa versão com casquinha crocante.
— Você pediu isso da última vez — disse, assim que a garçonete se afastou.
— Sério? Por que você não disse?
— Eu queria ver se você ia lembrar de algo.
— Tive uma sensação de déjà vu quando entramos aqui. Talvez seja algo. Nós experimentamos saquê aqui?
— Sim, mas nem você nem eu gostamos. Mas somos adeptos do soju coreano e vinho.
— Whisky também, no seu caso — comentei. Eu sabia que sempre bebia uma dose antes de cada show. — Nós somos clientes frequentes desse restaurante? — perguntei, em seguida.
Eu sentia como se tivesse estado ali várias vezes, mas poderia ser só coisa da minha cabeça.
— Relativamente — respondeu. — Faz uns quatro meses que viemos aqui, mas às vezes você pede delivery. Você fez isso algumas vezes quando eu tava viajando.
De fato, havia algumas fotos de sushi e sashimi em embalagens de isopor que eu notei que havia enviado para . Mas tinha sido umas duas vezes só. Eu devo ter entrado em dieta depois, porque a maioria dos pratos que eu enviava tinha alguma proteína grelhada ou eram apenas sanduíches simples.
— Então a comida deve ser boa mesmo. — Sorri.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Andrew e eu respondi rapidamente. Era apenas algo bobo sobre o novo livro de Kate. A editora começaria a soltar spoilers em breve e ele tinha me pedido para ver algumas sugestões no meu e-mail no dia seguinte.
Como estava sentado ao meu lado e o meu celular entre nós dois, era meio óbvio que ele fosse ver.
— Por que esse cara tá te mandando mensagem de trabalho na sua folga? — ele perguntou, em um tom de voz levemente irritado.
— Provavelmente pelo mesmo motivo que o seu gerente teve hoje — retruquei, incomodada pelo seu tom quando ele mesmo tinha passado a tarde toda trabalhando. — Pelo menos, Andy não foi um idiota que me fez ficar trancada a tarde toda em um estúdio — acrescentei, desviando o olhar de sua direção.
Peguei o copo de água que estava na minha frente e tomei um gole. bufou ao meu lado e fez o mesmo.
— Mesmo assim. Você tem uma rotina fixa de trabalho, eu não — ele tentou argumentar.
— Ah, , por favor... — Voltei a encará-lo. — Todo mundo sabe que é porque você é um perfeccionista cismado. Você tá com raiva porque foi o Andy que me mandou mensagem. Se fosse a Kate, você teria ficado quieto.
— Kate não é seu ex-namorado.
— De novo isso? — Revirei os olhos. — Não teve nada de mais na mensagem, então dá pra parar de ser idiota? Nós namoramos há três anos!
— Pra mim, são três anos — ele enfatizou. — Mas pra você mal faz um mês, — acrescentou baixinho.
Foi nesse momento que eu tive um flash de memória. Na verdade, não foi um flash, mas uma memória inteira que veio à tona.
Ainda era 2019. e eu discutíamos sobre Andy no apartamento onde eu morava. Estávamos sozinhos, pois tinha saído com uma amiga.
— Não tô completamente certo de que esse cara não sente mais nada por você, .
— , para com isso. Não tem nada a ver.
— Ele não tirou os olhos de você! Passou a noite toda te encarando e sorrindo pra você, como se eu nem estivesse lá.
— Andrew é meu amigo agora. Você não confia em mim? Por acaso, acha que eu vou te trair com meu ex? Bom saber que você tem pouca fé em mim. — O encarei, me sentindo subitamente magoada. — Eu não sou que nem a sua ex, seu idiota.
Eu era uma pessoa que abominava qualquer tipo de traição. E saber que havia uma chance mínima que fosse de alguém achar que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas era doloroso e revoltante.
— Desculpa. Não foi isso que eu quis dizer. Mas é que esse cara-
— O Andy é inofensivo. Nós terminamos de comum acordo e nunca tivemos mais nada além de amizade desde então.
— E se ele se arrepender e quiser voltar com você?
— Então ele que lide com isso sozinho, porque meu coração agora é seu.
respirou fundo.
— Eu só consigo pensar nisso. Você me deixando por ele. Eu vi meu pai fazer isso com minha mãe, . A traiu com a amante, então voltou pra casa por um tempo, apenas pra largar minha mãe de novo — confessou.
— Eu não sou seu pai, nem sua ex, . Eu entendo sua insegurança com nosso relacionamento, porque às vezes me sinto assim também. Até onde sei, a qualquer momento você pode se apaixonar por outra pessoa e esquecer de mim.
— Eu nunca faria isso.
— Ninguém tem controle sobre os próprios sentimentos. Todo mundo tá sujeito a isso. Mas quero que entenda que eu não tenho mais interesse no Andy. Ele até tá conhecendo uma garota nova e eu não tô nem aí — garanti. — Além disso, eu seria linchada na rua se partisse o coração de . E seria chamada de burra por largar você. Coisa que não pretendo.
Ele me encarou com uma cara meio emburrada, mas por fim, respondeu:
— Tá.
— Ei, eu tô falando sério. Prometo que de jeito nenhum vou te deixar ir.
— Eu também, . Você só vai se livrar de mim um dia se me largar primeiro.
— Nem pensar. — Sorri, divertida, e sua expressão amenizou um pouco.
— É uma promessa então — disse, determinado.
— É uma promessa.
Tínhamos seis meses de namoro e aquela foi a nossa primeira briga. Naquela noite, dormiu comigo no apartamento modesto que eu dividia com . Comparado ao dele, parecia minúsculo, mas não se importava.
Era uma das coisas que eu mais gostava nele. Mesmo vindo de uma família classe média e não ter passado por nenhum perrengue para se sustentar como tinha acontecido com minha irmã e eu, não era um idiota arrogante.
Na verdade, ele era bem simplista e tinha os pés no chão. Às vezes, parecia até um pouco ingênuo, diferente da imagem descolada de bad boy que ele passava no palco. Quando jantava na nossa casa, até se oferecia para lavar a louça — na época, era provavelmente a única atividade doméstica que ele conseguia fazer com sucesso. Além disso, ele se dava muito bem com minha irmã e isso era extremamente importante para mim.
não tentava impressionar ninguém e às vezes era até engraçado pensar em como passamos uma noite casual juntos, já que em nossos primeiros encontros parecíamos adolescentes tímidos tentando se conhecer. Chegava a ser cômico como ele parecia fofo nos encontros, quando tinha me pegado de jeito na cama. Parecia que a cada dia eu conhecia uma nova faceta de sua personalidade e estava me apaixonando por cada uma.
Mas o melhor de tudo era saber que apreciava lealdade tanto quanto eu e talvez isso tenha nos feito dar certo. De repente, um mix de lembranças aleatórias apareceu na minha mente, mas logo me vi sentada no restaurante outra vez, a voz de falando meu nome.
— . — Ele passou a mão na frente do meu rosto, chamando minha atenção. — Você tá bem? Ficou parada olhando pro nada, de repente.
— O quê? — pisquei, confusa. — Ah, eu lembrei de uma coisa.
— Lembrou? De quê? — Ele me encarou, esperançoso.
— Várias coisas, na verdade. Acho que do ano que começamos a namorar, mas, de modo geral, foi uma briga.
— O quê? De tudo o que você podia lembrar, foi lembrar logo de uma briga?
— Ei, eu não tenho controle sobre isso. As coisas vêm do nada. Mas se quer saber, foi por causa de Andy, seu idiota ciumento.
— Por que agora você só chama ele assim? Andy isso, Andy aquilo... — ele imitou e eu coloquei uma mão na boca dele, com um sorriso.
— Cala a boca, seu besta. — Afastei a mão, em seguida. — Eu só quero você e mais ninguém.
Ele me encarou, emburrado, mas havia o menor dos sorrisos no canto de seus lábios, que ele estava tentando segurar. De repente, senti uma vontade louca de beijar aqueles lábios e tirar a expressão emburrada da cara dele. Por mais que fosse irritante e me fizesse perder a paciência às vezes, era uma gracinha quando estava com ciúmes.
Sem hesitar, puxei seu rosto para o meu e selei nossos lábios, um segundo antes de aprofundarmos o beijo. Então deixamos nossas línguas brincarem até a porta da cabine ser aberta de novo pela garçonete trazendo nossa comida.
Bem, o jeito era terminar aquilo em casa.
Não adiantaria nada jogar isso nele sabendo que não acreditaria em mim e não saberia o que fazer. Por mais que eu quisesse ter um pouquinho de apoio emocional, eu sabia que só iria se culpar ainda mais em relação ao acidente, achando que tudo isso era uma consequência do meu atropelamento. Meio que era mesmo, mas fui eu quem escolhi sair sozinha naquela noite ao invés de ficar em casa. Então, para não fazer meu namorado surtar mais do eu aparentemente estava, decidi ficar calada.
No domingo à tarde, logo após o almoço, anunciou nosso próximo encontro. Passei a tarde me planejando para aquela saída, enquanto ele ficou trancado no estúdio atendendo uma ligação de Jace.
Maldito Jace, infernizando meu namorado com trabalho em pleno domingo, na folga dele.
Ele tinha sorte por não termos nos encontrado ainda porque eu não tinha certeza se conseguiria segurar minha língua de dar algumas alfinetadas nele. Na última semana, foi para a cama tarde por causa do trabalho, quando eu já estava dormindo e, mesmo assim, acordou cedo para irmos para a academia juntos.
Eu sabia que ele andava cansado, então encomendei algumas caixas de suplementos vitamínicos para forçar ele a tomar o mais breve possível e estava apenas esperando chegar. podia até ter uma ótima resistência física, mas naquele ritmo, seu corpo reclamaria eventualmente, e eu não queria que ele adoecesse. Eu não fazia ideia se eu sabia cuidar de alguém doente, já que era uma raridade e eu adoecermos (nosso bolso agradecia), mas sabia como tentar evitar adoecer.
Felizmente, tínhamos dinheiro suficiente para alguns suplementos e, dessa vez, até comprei para mim também, como forma de convencer . Àquela altura, eu já tinha notado que ele odiava remédios e tomava apenas em último caso, como quando tinha enxaqueca por trabalhar demais na frente do computador. Isso também acontecia comigo, mas era mais frequente quando eu estava próxima do meu período menstrual, o que aconteceria em breve, a qualquer momento na próxima semana.
Assim que voltou, eu já estava de cabelo pronto e já tinha tomado banho, coisa que ele fez rapidamente antes de me encontrar de novo no closet.
Assim como da última vez, ele se enfiou no closet e fuçou minhas roupas em busca das mesmas peças de três anos atrás, e logo me vi frente a uma saia jeans com mullet e uma blusinha rosa choque fechada com um zíper na parte de trás.
Podia até parecer um grande esforço de , considerando que eu tinha muita roupa guardada, mas meu closet era dividido em nichos. Então tudo o que ele teve que fazer foi encontrar o nicho de shorts e saias jeans, e depois o de blusinhas coloridas. Não deve ter levado mais que cinco minutos, mas eu apreciava o fato dele revisitar nossas lembranças para ver que roupa eu tinha usado.
— Não sei se isso cabe em mim — falei para ele, assim que vi as peças. Eu já até tinha feito a maquiagem, mas fui idiota e não provei a roupa com antecedência. — Você lembra a última vez que usei essa roupa?
— Não faço ideia — ele admitiu. — Por que você não prova?
Assenti e tirei a roupa que eu estava usando, ficando apenas de calcinha e sutiã, e tentei vestir primeiro a blusa. Pedi para fechar o zíper, mas as duas partes de tecido sequer se encontraram.
— Opa... Parece que essa não vai dar.
— Você ganhou massa muscular na academia, é por isso.
Concordei com a cabeça, desistindo da blusa e, sem dizer nada, tentei vestir a saia. Ela nem passou das minhas coxas. Era inacreditável pensar que eu coube naquilo um dia.
Caí na risada e me acompanhou. Fiz uma nota mental de fazer uma limpa no meu closet e doar o que não me servia mais.
— Parece que não vai ser dessa vez — comentei e ele encolheu os ombros. — Vou procurar alguma coisa dentro dessa paleta de cor, então.
Alguns minutos depois, encontrei uma saia jeans envelope com botões em uma lateral e uma blusa soltinha de alças brilhantes no mesmo tom de rosa da outra. Era simples, mas tudo o que eu precisava era de um salto para fazer parecer sofisticado. Escolhi um scarpin branco ao invés de usar um tênis, como da última vez. Provei tudo para ter certeza de que cabia em mim e pedi para ele opinar.
— Você ficou ainda mais linda, amor.
— Tomara que não tenha paparazzi dessa vez, mas se tiver, ao menos eu tô apresentável.
— Um funcionário vai nos receber na porta dos fundos e nos levar até a cabine reservada. Além disso, vamos no seu carro hoje, ele é mais discreto e comum. Vai se misturar melhor com os outros.
— Sim, Sr. Exibicionista Dono de um Audi. Vamos no meu humilde carrinho sem nada de especial — brinquei.
rolou os olhos, mas não disse nada. Ele começou a trocar de roupa rapidamente enquanto eu dei uns últimos retoques na maquiagem e passei perfume.
Assim como prometido, cerca de meia hora mais tarde, encontramos um funcionário que nos levou até nossa cabine reservada no restaurante japonês que tinha escolhido. O lugar era especializado em sushi e sashimi, e mesmo imaginando que era isso que iríamos comer, peguei o cardápio para ver a variedade de pratos. Havia alguns pratos de rua também, como okonomiyaki, que era um tipo de panqueca salgada e takoyaki no espeto, bolinhos de sabores diversos. Também tinha guioza, os famosos pasteizinhos de carne cozidos no vapor, e eu pedi uma porção deles, numa versão com casquinha crocante.
— Você pediu isso da última vez — disse, assim que a garçonete se afastou.
— Sério? Por que você não disse?
— Eu queria ver se você ia lembrar de algo.
— Tive uma sensação de déjà vu quando entramos aqui. Talvez seja algo. Nós experimentamos saquê aqui?
— Sim, mas nem você nem eu gostamos. Mas somos adeptos do soju coreano e vinho.
— Whisky também, no seu caso — comentei. Eu sabia que sempre bebia uma dose antes de cada show. — Nós somos clientes frequentes desse restaurante? — perguntei, em seguida.
Eu sentia como se tivesse estado ali várias vezes, mas poderia ser só coisa da minha cabeça.
— Relativamente — respondeu. — Faz uns quatro meses que viemos aqui, mas às vezes você pede delivery. Você fez isso algumas vezes quando eu tava viajando.
De fato, havia algumas fotos de sushi e sashimi em embalagens de isopor que eu notei que havia enviado para . Mas tinha sido umas duas vezes só. Eu devo ter entrado em dieta depois, porque a maioria dos pratos que eu enviava tinha alguma proteína grelhada ou eram apenas sanduíches simples.
— Então a comida deve ser boa mesmo. — Sorri.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Andrew e eu respondi rapidamente. Era apenas algo bobo sobre o novo livro de Kate. A editora começaria a soltar spoilers em breve e ele tinha me pedido para ver algumas sugestões no meu e-mail no dia seguinte.
Como estava sentado ao meu lado e o meu celular entre nós dois, era meio óbvio que ele fosse ver.
— Por que esse cara tá te mandando mensagem de trabalho na sua folga? — ele perguntou, em um tom de voz levemente irritado.
— Provavelmente pelo mesmo motivo que o seu gerente teve hoje — retruquei, incomodada pelo seu tom quando ele mesmo tinha passado a tarde toda trabalhando. — Pelo menos, Andy não foi um idiota que me fez ficar trancada a tarde toda em um estúdio — acrescentei, desviando o olhar de sua direção.
Peguei o copo de água que estava na minha frente e tomei um gole. bufou ao meu lado e fez o mesmo.
— Mesmo assim. Você tem uma rotina fixa de trabalho, eu não — ele tentou argumentar.
— Ah, , por favor... — Voltei a encará-lo. — Todo mundo sabe que é porque você é um perfeccionista cismado. Você tá com raiva porque foi o Andy que me mandou mensagem. Se fosse a Kate, você teria ficado quieto.
— Kate não é seu ex-namorado.
— De novo isso? — Revirei os olhos. — Não teve nada de mais na mensagem, então dá pra parar de ser idiota? Nós namoramos há três anos!
— Pra mim, são três anos — ele enfatizou. — Mas pra você mal faz um mês, — acrescentou baixinho.
Foi nesse momento que eu tive um flash de memória. Na verdade, não foi um flash, mas uma memória inteira que veio à tona.
Ainda era 2019. e eu discutíamos sobre Andy no apartamento onde eu morava. Estávamos sozinhos, pois tinha saído com uma amiga.
— Não tô completamente certo de que esse cara não sente mais nada por você, .
— , para com isso. Não tem nada a ver.
— Ele não tirou os olhos de você! Passou a noite toda te encarando e sorrindo pra você, como se eu nem estivesse lá.
— Andrew é meu amigo agora. Você não confia em mim? Por acaso, acha que eu vou te trair com meu ex? Bom saber que você tem pouca fé em mim. — O encarei, me sentindo subitamente magoada. — Eu não sou que nem a sua ex, seu idiota.
Eu era uma pessoa que abominava qualquer tipo de traição. E saber que havia uma chance mínima que fosse de alguém achar que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas era doloroso e revoltante.
— Desculpa. Não foi isso que eu quis dizer. Mas é que esse cara-
— O Andy é inofensivo. Nós terminamos de comum acordo e nunca tivemos mais nada além de amizade desde então.
— E se ele se arrepender e quiser voltar com você?
— Então ele que lide com isso sozinho, porque meu coração agora é seu.
respirou fundo.
— Eu só consigo pensar nisso. Você me deixando por ele. Eu vi meu pai fazer isso com minha mãe, . A traiu com a amante, então voltou pra casa por um tempo, apenas pra largar minha mãe de novo — confessou.
— Eu não sou seu pai, nem sua ex, . Eu entendo sua insegurança com nosso relacionamento, porque às vezes me sinto assim também. Até onde sei, a qualquer momento você pode se apaixonar por outra pessoa e esquecer de mim.
— Eu nunca faria isso.
— Ninguém tem controle sobre os próprios sentimentos. Todo mundo tá sujeito a isso. Mas quero que entenda que eu não tenho mais interesse no Andy. Ele até tá conhecendo uma garota nova e eu não tô nem aí — garanti. — Além disso, eu seria linchada na rua se partisse o coração de . E seria chamada de burra por largar você. Coisa que não pretendo.
Ele me encarou com uma cara meio emburrada, mas por fim, respondeu:
— Tá.
— Ei, eu tô falando sério. Prometo que de jeito nenhum vou te deixar ir.
— Eu também, . Você só vai se livrar de mim um dia se me largar primeiro.
— Nem pensar. — Sorri, divertida, e sua expressão amenizou um pouco.
— É uma promessa então — disse, determinado.
— É uma promessa.
Tínhamos seis meses de namoro e aquela foi a nossa primeira briga. Naquela noite, dormiu comigo no apartamento modesto que eu dividia com . Comparado ao dele, parecia minúsculo, mas não se importava.
Era uma das coisas que eu mais gostava nele. Mesmo vindo de uma família classe média e não ter passado por nenhum perrengue para se sustentar como tinha acontecido com minha irmã e eu, não era um idiota arrogante.
Na verdade, ele era bem simplista e tinha os pés no chão. Às vezes, parecia até um pouco ingênuo, diferente da imagem descolada de bad boy que ele passava no palco. Quando jantava na nossa casa, até se oferecia para lavar a louça — na época, era provavelmente a única atividade doméstica que ele conseguia fazer com sucesso. Além disso, ele se dava muito bem com minha irmã e isso era extremamente importante para mim.
não tentava impressionar ninguém e às vezes era até engraçado pensar em como passamos uma noite casual juntos, já que em nossos primeiros encontros parecíamos adolescentes tímidos tentando se conhecer. Chegava a ser cômico como ele parecia fofo nos encontros, quando tinha me pegado de jeito na cama. Parecia que a cada dia eu conhecia uma nova faceta de sua personalidade e estava me apaixonando por cada uma.
Mas o melhor de tudo era saber que apreciava lealdade tanto quanto eu e talvez isso tenha nos feito dar certo. De repente, um mix de lembranças aleatórias apareceu na minha mente, mas logo me vi sentada no restaurante outra vez, a voz de falando meu nome.
— . — Ele passou a mão na frente do meu rosto, chamando minha atenção. — Você tá bem? Ficou parada olhando pro nada, de repente.
— O quê? — pisquei, confusa. — Ah, eu lembrei de uma coisa.
— Lembrou? De quê? — Ele me encarou, esperançoso.
— Várias coisas, na verdade. Acho que do ano que começamos a namorar, mas, de modo geral, foi uma briga.
— O quê? De tudo o que você podia lembrar, foi lembrar logo de uma briga?
— Ei, eu não tenho controle sobre isso. As coisas vêm do nada. Mas se quer saber, foi por causa de Andy, seu idiota ciumento.
— Por que agora você só chama ele assim? Andy isso, Andy aquilo... — ele imitou e eu coloquei uma mão na boca dele, com um sorriso.
— Cala a boca, seu besta. — Afastei a mão, em seguida. — Eu só quero você e mais ninguém.
Ele me encarou, emburrado, mas havia o menor dos sorrisos no canto de seus lábios, que ele estava tentando segurar. De repente, senti uma vontade louca de beijar aqueles lábios e tirar a expressão emburrada da cara dele. Por mais que fosse irritante e me fizesse perder a paciência às vezes, era uma gracinha quando estava com ciúmes.
Sem hesitar, puxei seu rosto para o meu e selei nossos lábios, um segundo antes de aprofundarmos o beijo. Então deixamos nossas línguas brincarem até a porta da cabine ser aberta de novo pela garçonete trazendo nossa comida.
Bem, o jeito era terminar aquilo em casa.
Capítulo 19
Cinco dias após meu último encontro com no restaurante japonês, completou um mês do meu acidente.
Era dia seis de maio, mas constatar esse fato sobre meu acidente foi uma mera casualidade. Seis de maio também era aniversário de Nina, a protagonista de Singular, o segundo livro da série de Kate, e aniversário de dois anos do lançamento dele.
Passei a manhã toda trocando mensagens com uma estagiária do setor de design da editora, a orientando a fazer um post que eu mesma teria feito se Andrew não tivesse insistido que eu deveria deixar os estagiários trabalharem nisso e focar no meu trabalho de verdade.
Eu tinha feito muitas artes quando era estagiária e trabalhar sozinha era uma característica minha, mas Andy tinha razão. Aquele tipo de coisa não era mais meu trabalho há muito tempo, então eu tinha que parar de dar uma de doida autossuficiente e dar a chance dos estagiários se empenharem e demonstrarem suas habilidades. Mas aquela garota em questão... Ela era novata e meio enrolada.
Tudo bem, não apenas meio, mas muito enrolada.
Eu estava seriamente tentando não perder a paciência com as perguntas óbvias que ela me fazia, mas estava ficando difícil. Mesmo assim, tentei ser gentil e explicar tudo o que ela precisava para ganhar confiança.
Acho que funcionou... Cerca de uma hora depois do que deveria ter sido resolvido em vinte minutos.
Tentei desenhar um rascunho de como eu queria o post e esperei seu retorno. Ele veio com três versões na paleta de cores de Singular e elementos que lembravam o livro. Escolhi um e me organizei para postar no Instagram oficial de Kate. A editora tinha acesso àquele, mas ela também tinha um pessoal, que cuidava sozinha.
Entrei na conta rapidamente, que já era conectada no meu computador, e fiz o post comemorativo. Deixei a página aberta durante alguns minutos, atualizando vez ou outra para ler os comentários dos leitores e, em um momento de curiosidade, resolvi cutucar o meu próprio Instagram.
Eu não havia espiado nada desde o acidente e deletei o aplicativo do celular antes de abrir a rede social, então não fazia ideia do que encontraria. Mas era sexta-feira e não havia muito o que fazer naquele dia, já que tinha acabado de enviar alguns capítulos de volta para Kate e estava esperando ela escrever mais uma leva para eu ler.
Minha conta no Instagram era aberta e eu tinha cerca de duzentos mil seguidores. Eu lembrava dessa parte, mas não de que tinha várias fotos minhas com no meu feed. Algumas eram bem uma vibe de namorados e o rosto dele nem sequer aparecia, enquanto outras tinham sido tiradas em encontros. O último registrado havia sido dois meses antes do meu acidente e houve várias postagens depois dele, a maioria da mini turnê literária de Kate.
Cliquei no último post e li alguns comentários. A maioria me desejava melhoras após o acidente. Me lembrei de mencionando que os fãs tinham aceitado nosso relacionamento relativamente rápido, especialmente quando descobriram que eu era fã dele (e alguns tweets antigos meus defendendo ele de haters na internet).
Subitamente, tive vontade de atualizar a conta. Eu era relativamente ativa no Instagram e mesmo que não estivesse sentindo nenhum tipo de abstinência de rede social, ainda era algo que eu gostava.
Então sem pensar muito, preparei um post de carrossel com as minhas fotos favoritas dos meus últimos dois encontros com e publiquei com uma legenda agradecendo a todas as mensagens de melhoras enviadas.
Quase no mesmo instante, uma onda de notificações chegou e algumas eram na minha DM. Curiosa como eu era e agoniada em não responder mensagens, resolvi dar uma espiada. Havia algumas marcações de e mais mensagens de melhoras, mas teve uma coisa que chamou minha atenção nas solicitações de mensagens.
Não havia foto no perfil e eu não reconhecia aquele usuário, mas a primeira mensagem que havia sido enviada, cerca de uma semana depois do meu acidente, dizia:
"Você devia ter morrido naquele acidente, sua puta nerd idiota".
Um sorriso irônico apareceu no meu rosto e continuei a ler a enxurrada de ofensas que me foram enviadas.
" se tornou um idiota depois que se envolveu com você".
Ah, agora a pessoa estava xingando ? Fã ou hater? Eis a questão.
Continuei a ler. Havia uma imagem minha e de com riscos na minha cara que diziam:
"Morra, vadia."
Eu só conseguia imaginar que era a cara de uma adolescente revoltada porque não iria casar com o ídolo, mas então fiz a besteira de clicar em uma mensagem de vídeo com tela preta.
Assim que começou a rodar, descobri ser um vídeo de um pau. O cara estava com ele na mão, se masturbando, e imediatamente procurei o botão de fechar até que vi que havia uma legenda.
"Você deve estar trepando com ele de novo não é, sua puta? Que tal trepar comigo também, quero ver o que tem de especial nessa sua boceta pra amarrar há três anos..."
Nojo.
Nojo.
Nojo.
Nojo.
Era só isso o que eu sentia. Imediatamente entendi que não era uma adolescente irritada e sim o stalker de . Maldito obcecado. Eu deveria responder falando que o pau dele era feio e torto ou algo assim, e chamá-lo de nojento e todas as ofensas que eu conseguisse imaginar.
Falar que a mãe dele devia ter vergonha de ter colocado um traste que nem ele no mundo.
Mas antes que eu pudesse clicar em aceitar a solicitação de mensagem para responder, apareceu no escritório como se fosse uma intervenção divina.
— Pensei em fazer kimbap, você quer?
— Claro. — Desviei meus olhos rapidamente pela tela, fechando a DM.
Mas devo ter parecido super desconfiada já que, um segundo depois, estava ao meu lado.
— O que você tá fazendo? — ele perguntou, quando viu meu Instagram aberto. — Postou algo?
— Sim. Também te marquei em umas fotos, agradeci as mensagens de melhoras e... Li outras na DM.
— Hm... Posso ver?
— Por quê? É só um monte de "fique bem, " dos seus fãs e fãs da Kate.
— Ah, é? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Deixa eu ver mesmo assim.
— ...
— Eu sabia. Você tá escondendo alguma coisa, né? É o stalker?
Pisquei duas vezes.
— Como você sabe?
— . Me mostre agora — ele exigiu.
Suspirei, resignada, e cliquei na janela de mensagens. pegou o mouse e leu uma a uma, travando a mandíbula de irritação a cada atrocidade com que se deparava. Então, ele viu o vídeo. Porque o idiota não fez nem questão de colocar como visualização única.
— ... — Até tentei impedi-lo, mas desviei o olhar para o teto quando não consegui. Eu não queria ver aquela merda outra vez. Felizmente, não tinha som.
— Chega pra lá. — Ele me expulsou da cadeira.
— O que você vai fazer? Eu tenho que trabalhar.
— Você não estaria futricando o Instagram se tivesse algo pra fazer, meu bem — ele retrucou, enquanto começava a printar todas as mensagens que eu tinha recebido, e usar uma extensão no navegador para baixar o vídeo.
— Eca. Por que você tá baixando essa merda no meu computador?
— Pra usar como prova. Vou mandar pro meu e-mail e então encaminhar pro meu advogado. Achei que esse filho da puta tivesse parado de te encher. Quem ele pensa que é?
— Acho que ele é apaixonado por você, .
— Que peninha, porque só tenho olhos pra uma mulher e definitivamente não curto paus.
O jeito que ele falou me fez rir pelo nariz, e ele me encarou com o cenho franzido.
— Desculpa. É que eu acho engraçado você agindo assim.
— Não tem graça, . Eu quero esse idiota na cadeia. Ninguém mexe com você. E ele ainda insinuou fazer sexo com você! Ele quer morrer, isso sim! E ainda teve o resto das ofensas...
— Pensei em ofender ele de volta, mas aí você chegou. Achei que era um sinal de intervenção divina, mas agora tô na dúvida.
— Eu odeio quando te destratam. Você é minha mulher e é minha obrigação te defender de qualquer idiota — ele falou com convicção e eu quase chorei um pouquinho (não disse por onde) ao ouvi-lo me chamar de sua mulher.
Quer dizer... e eu éramos praticamente casados há dois anos. A diferença era que não tínhamos preenchido nenhuma papelada idiota e tínhamos nossa próprias finanças separadas. Eu até achava melhor assim, embora sempre tivesse dito a que só me casaria um dia se fosse com um homem rico.
Bem, era um homem rico. Mas eu não queria me casar. Ao menos, achava que não. Eu ainda não tinha me lembrado de tudo, mas desde nosso encontro, coisinhas pequenas sobre a personalidade dele e sobre nosso relacionamento me vieram à mente.
Eu também tinha conseguido me manter na minha própria realidade desde então. E com isso, quero dizer que não voltei para Tenaz nenhuma vez desde a fatídica correção de cena em que Ayla era atacada.
Encarei isso como uma coisa boa. Eu havia ficado assustada pra cacete com aquilo e era bom não correr nenhum risco de ser atacada em um beco.
Especialmente quando eu mal saía de casa.
terminou de enviar os arquivos e os deletou do meu computador (e da lixeira) rapidamente enquanto ainda resmungava.
— Tá tudo bem, . É só um idiota. Espero que consigam localizar logo esse Zé Ruela de pau feio — comentei e virou a cara para mim. — O quê? Era pra eu falar que é bonito?
— . Isso é sério.
— Por que você fica tão sexy quanto tá com raiva? E quando me chama de ? — brinquei, apoiando as mãos nos ombros dele e sentando em seu colo.
— ... Você não devia estar trabalhando? — ele indagou, as duas mãos movendo direto para a minha bunda, por baixo do vestido que eu usava.
— Como você disse... eu não estaria futricando o Instagram se tivesse algo pra fazer... — Sorri, agradecendo mentalmente pelo meu rápido período de quatro dias que já tinha acabado graças ao anticoncepcional que o regulava.
deu uma risadinha maliciosa e então se levantou comigo no colo, me colocando sobre a mesa. Ele afastou meu computador com cuidado e me fez deitar, com as costas sobre a mesa.
Em seguida, levantou meu vestido até a cintura e se livrou da minha calcinha — felizmente, não a destruindo dessa vez —, antes de abrir minhas pernas de uma vez só.
— Pensando bem... Acho que vou fazer um lanchinho antes do almoço.
Então ele se abaixou e me fez vez estrelas.
Era dia seis de maio, mas constatar esse fato sobre meu acidente foi uma mera casualidade. Seis de maio também era aniversário de Nina, a protagonista de Singular, o segundo livro da série de Kate, e aniversário de dois anos do lançamento dele.
Passei a manhã toda trocando mensagens com uma estagiária do setor de design da editora, a orientando a fazer um post que eu mesma teria feito se Andrew não tivesse insistido que eu deveria deixar os estagiários trabalharem nisso e focar no meu trabalho de verdade.
Eu tinha feito muitas artes quando era estagiária e trabalhar sozinha era uma característica minha, mas Andy tinha razão. Aquele tipo de coisa não era mais meu trabalho há muito tempo, então eu tinha que parar de dar uma de doida autossuficiente e dar a chance dos estagiários se empenharem e demonstrarem suas habilidades. Mas aquela garota em questão... Ela era novata e meio enrolada.
Tudo bem, não apenas meio, mas muito enrolada.
Eu estava seriamente tentando não perder a paciência com as perguntas óbvias que ela me fazia, mas estava ficando difícil. Mesmo assim, tentei ser gentil e explicar tudo o que ela precisava para ganhar confiança.
Acho que funcionou... Cerca de uma hora depois do que deveria ter sido resolvido em vinte minutos.
Tentei desenhar um rascunho de como eu queria o post e esperei seu retorno. Ele veio com três versões na paleta de cores de Singular e elementos que lembravam o livro. Escolhi um e me organizei para postar no Instagram oficial de Kate. A editora tinha acesso àquele, mas ela também tinha um pessoal, que cuidava sozinha.
Entrei na conta rapidamente, que já era conectada no meu computador, e fiz o post comemorativo. Deixei a página aberta durante alguns minutos, atualizando vez ou outra para ler os comentários dos leitores e, em um momento de curiosidade, resolvi cutucar o meu próprio Instagram.
Eu não havia espiado nada desde o acidente e deletei o aplicativo do celular antes de abrir a rede social, então não fazia ideia do que encontraria. Mas era sexta-feira e não havia muito o que fazer naquele dia, já que tinha acabado de enviar alguns capítulos de volta para Kate e estava esperando ela escrever mais uma leva para eu ler.
Minha conta no Instagram era aberta e eu tinha cerca de duzentos mil seguidores. Eu lembrava dessa parte, mas não de que tinha várias fotos minhas com no meu feed. Algumas eram bem uma vibe de namorados e o rosto dele nem sequer aparecia, enquanto outras tinham sido tiradas em encontros. O último registrado havia sido dois meses antes do meu acidente e houve várias postagens depois dele, a maioria da mini turnê literária de Kate.
Cliquei no último post e li alguns comentários. A maioria me desejava melhoras após o acidente. Me lembrei de mencionando que os fãs tinham aceitado nosso relacionamento relativamente rápido, especialmente quando descobriram que eu era fã dele (e alguns tweets antigos meus defendendo ele de haters na internet).
Subitamente, tive vontade de atualizar a conta. Eu era relativamente ativa no Instagram e mesmo que não estivesse sentindo nenhum tipo de abstinência de rede social, ainda era algo que eu gostava.
Então sem pensar muito, preparei um post de carrossel com as minhas fotos favoritas dos meus últimos dois encontros com e publiquei com uma legenda agradecendo a todas as mensagens de melhoras enviadas.
Quase no mesmo instante, uma onda de notificações chegou e algumas eram na minha DM. Curiosa como eu era e agoniada em não responder mensagens, resolvi dar uma espiada. Havia algumas marcações de e mais mensagens de melhoras, mas teve uma coisa que chamou minha atenção nas solicitações de mensagens.
Não havia foto no perfil e eu não reconhecia aquele usuário, mas a primeira mensagem que havia sido enviada, cerca de uma semana depois do meu acidente, dizia:
"Você devia ter morrido naquele acidente, sua puta nerd idiota".
Um sorriso irônico apareceu no meu rosto e continuei a ler a enxurrada de ofensas que me foram enviadas.
" se tornou um idiota depois que se envolveu com você".
Ah, agora a pessoa estava xingando ? Fã ou hater? Eis a questão.
Continuei a ler. Havia uma imagem minha e de com riscos na minha cara que diziam:
"Morra, vadia."
Eu só conseguia imaginar que era a cara de uma adolescente revoltada porque não iria casar com o ídolo, mas então fiz a besteira de clicar em uma mensagem de vídeo com tela preta.
Assim que começou a rodar, descobri ser um vídeo de um pau. O cara estava com ele na mão, se masturbando, e imediatamente procurei o botão de fechar até que vi que havia uma legenda.
"Você deve estar trepando com ele de novo não é, sua puta? Que tal trepar comigo também, quero ver o que tem de especial nessa sua boceta pra amarrar há três anos..."
Nojo.
Nojo.
Nojo.
Nojo.
Era só isso o que eu sentia. Imediatamente entendi que não era uma adolescente irritada e sim o stalker de . Maldito obcecado. Eu deveria responder falando que o pau dele era feio e torto ou algo assim, e chamá-lo de nojento e todas as ofensas que eu conseguisse imaginar.
Falar que a mãe dele devia ter vergonha de ter colocado um traste que nem ele no mundo.
Mas antes que eu pudesse clicar em aceitar a solicitação de mensagem para responder, apareceu no escritório como se fosse uma intervenção divina.
— Pensei em fazer kimbap, você quer?
— Claro. — Desviei meus olhos rapidamente pela tela, fechando a DM.
Mas devo ter parecido super desconfiada já que, um segundo depois, estava ao meu lado.
— O que você tá fazendo? — ele perguntou, quando viu meu Instagram aberto. — Postou algo?
— Sim. Também te marquei em umas fotos, agradeci as mensagens de melhoras e... Li outras na DM.
— Hm... Posso ver?
— Por quê? É só um monte de "fique bem, " dos seus fãs e fãs da Kate.
— Ah, é? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Deixa eu ver mesmo assim.
— ...
— Eu sabia. Você tá escondendo alguma coisa, né? É o stalker?
Pisquei duas vezes.
— Como você sabe?
— . Me mostre agora — ele exigiu.
Suspirei, resignada, e cliquei na janela de mensagens. pegou o mouse e leu uma a uma, travando a mandíbula de irritação a cada atrocidade com que se deparava. Então, ele viu o vídeo. Porque o idiota não fez nem questão de colocar como visualização única.
— ... — Até tentei impedi-lo, mas desviei o olhar para o teto quando não consegui. Eu não queria ver aquela merda outra vez. Felizmente, não tinha som.
— Chega pra lá. — Ele me expulsou da cadeira.
— O que você vai fazer? Eu tenho que trabalhar.
— Você não estaria futricando o Instagram se tivesse algo pra fazer, meu bem — ele retrucou, enquanto começava a printar todas as mensagens que eu tinha recebido, e usar uma extensão no navegador para baixar o vídeo.
— Eca. Por que você tá baixando essa merda no meu computador?
— Pra usar como prova. Vou mandar pro meu e-mail e então encaminhar pro meu advogado. Achei que esse filho da puta tivesse parado de te encher. Quem ele pensa que é?
— Acho que ele é apaixonado por você, .
— Que peninha, porque só tenho olhos pra uma mulher e definitivamente não curto paus.
O jeito que ele falou me fez rir pelo nariz, e ele me encarou com o cenho franzido.
— Desculpa. É que eu acho engraçado você agindo assim.
— Não tem graça, . Eu quero esse idiota na cadeia. Ninguém mexe com você. E ele ainda insinuou fazer sexo com você! Ele quer morrer, isso sim! E ainda teve o resto das ofensas...
— Pensei em ofender ele de volta, mas aí você chegou. Achei que era um sinal de intervenção divina, mas agora tô na dúvida.
— Eu odeio quando te destratam. Você é minha mulher e é minha obrigação te defender de qualquer idiota — ele falou com convicção e eu quase chorei um pouquinho (não disse por onde) ao ouvi-lo me chamar de sua mulher.
Quer dizer... e eu éramos praticamente casados há dois anos. A diferença era que não tínhamos preenchido nenhuma papelada idiota e tínhamos nossa próprias finanças separadas. Eu até achava melhor assim, embora sempre tivesse dito a que só me casaria um dia se fosse com um homem rico.
Bem, era um homem rico. Mas eu não queria me casar. Ao menos, achava que não. Eu ainda não tinha me lembrado de tudo, mas desde nosso encontro, coisinhas pequenas sobre a personalidade dele e sobre nosso relacionamento me vieram à mente.
Eu também tinha conseguido me manter na minha própria realidade desde então. E com isso, quero dizer que não voltei para Tenaz nenhuma vez desde a fatídica correção de cena em que Ayla era atacada.
Encarei isso como uma coisa boa. Eu havia ficado assustada pra cacete com aquilo e era bom não correr nenhum risco de ser atacada em um beco.
Especialmente quando eu mal saía de casa.
terminou de enviar os arquivos e os deletou do meu computador (e da lixeira) rapidamente enquanto ainda resmungava.
— Tá tudo bem, . É só um idiota. Espero que consigam localizar logo esse Zé Ruela de pau feio — comentei e virou a cara para mim. — O quê? Era pra eu falar que é bonito?
— . Isso é sério.
— Por que você fica tão sexy quanto tá com raiva? E quando me chama de ? — brinquei, apoiando as mãos nos ombros dele e sentando em seu colo.
— ... Você não devia estar trabalhando? — ele indagou, as duas mãos movendo direto para a minha bunda, por baixo do vestido que eu usava.
— Como você disse... eu não estaria futricando o Instagram se tivesse algo pra fazer... — Sorri, agradecendo mentalmente pelo meu rápido período de quatro dias que já tinha acabado graças ao anticoncepcional que o regulava.
deu uma risadinha maliciosa e então se levantou comigo no colo, me colocando sobre a mesa. Ele afastou meu computador com cuidado e me fez deitar, com as costas sobre a mesa.
Em seguida, levantou meu vestido até a cintura e se livrou da minha calcinha — felizmente, não a destruindo dessa vez —, antes de abrir minhas pernas de uma vez só.
— Pensando bem... Acho que vou fazer um lanchinho antes do almoço.
Então ele se abaixou e me fez vez estrelas.
Capítulo 20
Passei o resto do dia com o corpo relaxado e um sorriso bobo no rosto.
Meu humor estava uma maravilha e nem as perguntas idiotas da estagiária durante a tarde conseguiram me tirar a paciência.
sabia como me agradar. E era generoso pra cacete. Mas eu também sou. E foi por isso que nossa pequena brincadeirinha durou mais tempo do que imaginávamos. Nos perdemos um no outro naquele escritório, e eu nunca mais veria aquela mesa ou aquele sofá de tecido marrom da mesma forma.
Depois que acabamos, tomamos um banho rápido e foi para a cozinha fazer nosso almoço enquanto eu voltava ao trabalho. Eu ainda tinha que cumprir carga horária mesmo que não tivesse nada para fazer. Fiquei navegando na internet, lendo sinopses de livros novos, procurando algum para ler. Eu tinha dado uma pausa na série de fantasia que estava lendo e, mesmo faltando apenas dois livros para acabar, eu estava atrás de ler algo leve, um romance previsível que lembrasse filmes clássicos de comédia romântica que todo mundo sabe como termina.
Depois de escolher uma possível leitura nova, peguei um bloquinho de notas ao lado do computador e fiz uma lista de coisas que eu precisava fazer. Uma delas incluía fazer uma limpa no meu closet.
Por mais que eu achasse que algumas peças tinham valor emocional, não fazia sentido guardá-las quando nem cabiam mais em mim. Então eu doaria para alguém que precisasse e com certeza faria uso melhor do eu, que estava apenas amontoando peças de roupa sem dar nenhum uso para elas. Anotei sábado ou domingo ao lado dessa tarefa, e organizei a lista por ordem de prioridade.
Nesse meio tempo, fui atingida por mais uma memória com . De repente, sem que eu esperasse ou tentasse lembrar de alguma coisa, a informação veio de uma vez.
Estávamos os dois dando um passeio no Central Park em um fim de tarde. usava boné e máscara, e uma jaqueta preta com um lenço cinza enorme desamarrado ao redor do pescoço, o que escondia o pouco da tatuagem que ficava à mostra.
Era início de outubro e já começava a esfriar, então eu também estava um pouco agasalhada. Paramos em um food truck de sorvete e pedimos uma casquinha para cada um. Em um impulso, escolhi um sabor que parecia bonito e bom, mas no fim, acabei trocando pela casquinha clássica de chocolate que optou. Ele balançou a cabeça, um sorriso querendo aparecer nos lábios, mas não reclamou pela troca. Na verdade, ele nem parecia se importar.
Estávamos completando seis meses juntos, então imediatamente eu soube que a memória era anterior a nossa discussão sobre Andrew que eu havia lembrado antes.
terminou a casquinha antes de mim e eu, já satisfeita com o doce, o fiz finalizar a minha também. Não era a primeira vez que acontecia. Na verdade, era até frequente eu ver alguma comida, cobiçá-la, não conseguir comer tanto quando eu achava que iria, e fazer meu adorável e gentil namorado terminar de comer o resto. Se ainda tivesse espaço no estômago, comia, mas depois de um tempo optamos por pedir pratos únicos em alguns restaurantes para dividir entre nós. Assim havia menos risco de desperdiçar comida e sempre podíamos pedir uma nova porção caso quiséssemos mais. Geralmente isso acontecia em restaurantes de comida asiática, que sempre tinham porções enormes para uma única pessoa.
Quando terminou e jogou o último guardanapo no lixo, nos afastamos da barraquinha, e ele recolocou uma máscara quando tivemos que passar por um grupo de pessoas.
a tirou novamente quando paramos em um local mais distante e quieto, longe de olhares curiosos, e então anunciou:
— Eu tenho uma coisa pra te dar.
— Achei que a gente tinha combinado nada de presentes — retruquei, meio incomodada por não ter nada para ele.
Eu nunca consegui aceitar presentes sem retribuir, com exceção do meu aniversário. Só que tinha uma mania boba de me mimar. Eu não me importava muito quando se tratava de comida ou lanchinhos aleatórios que ele comprava a caminho de me ver em um rápido encontro antes de ter que se ausentar para algum compromisso, mas qualquer coisa além disso me fazia ficar inquieta.
Não havia muitos presentes que eu podia dar para ele, já que tinha tudo. Frequentemente ganhava roupas, perfumes e sapatos de marcas caras que, mesmo eu tendo condições de comprar algumas delas, me recusava veemente a gastar uma pequena fortuna com uma peça que poderia ou não ter uma boa qualidade.
Eu já tinha visto Kate e Karol reclamarem à beça sobre marcas famosas que cobravam caro por um item completamente idiota e nada inovador apenas porque tinha o nome da marca. As duas sempre diziam que havia diversos fornecedores que vendiam as mesmas peças em marketplace por um preço muito menor.
Comprei muitas das minhas roupas nesses sites, depois de pegar várias dicas. Só havia uma marca que eu era fiel, cujo preço cabia no meu bolso: Double K, pertencente a elas duas. Como ambas eram exigentes, era certeza que os clientes teriam peças de ótima qualidade e exclusivas, a maioria desenhadas por Karol.
Eu havia dado uma jaqueta da Double K de presente para uns meses apenas para descobrir que ele tinha a mesma jaqueta, mas de outra cor.
Então, sim, encontrar presentes para ele me deixava inquieta, por mais que ele deixasse claro que eu não precisava, tal como naquele momento.
— Tecnicamente, o presente é pra nós dois — ele explicou, antes de enfiar as duas mãos nos bolsos da jaqueta e retirar as duas fechadas em punho. — Adivinha em qual tá.
— Sério? Quantos anos você tem, ? — Ri pelo nariz.
— Faço vinte e nove no mês que vem — o idiota respondeu, como se minha pergunta não tivesse sido irônica ou ele não tivesse notado isso.
Mas se tinha uma coisa que pegava no ar era sarcasmo, por mais que pudesse ser lento quanto a outros assuntos.
— Seu besta. É de comer? — perguntei, analisando seus punhos fechados, como se pudesse ganhar na loteria caso acertasse.
— Não.
Levantei meu olhos para encontrar os dele.
— Se eu errar, vai ter alguma punição?
— Não, mas talvez eu tenha uma, mesmo se você acertar.
O que ele tá planejando? Foi o que pensei, quando toquei em seu punho esquerdo.
— Que tal esse? — perguntei, curiosa.
No mesmo instante, abriu a mão contrária, vazia e nós sorrimos juntos. Eu tinha acertado, mesmo sem ter ideia do que seria. Então, devagarinho, ele abriu a outra mão, revelando um par de alianças de compromisso.
Eu o encarei, surpresa, meu sorriso desaparecendo do rosto.
— Eu andei pensando e... Não sei, acho que seria legal a gente usar alguma coisa juntos... — ele começou a dizer, meio nervoso. — Mas se você não quiser, eu posso devolver. — Ele fechou a mão, prestes a guardar as alianças de volta no bolso.
Ambos sabíamos que ele não iria devolver. E de qualquer modo, eu não queria que ele fizesse isso. Então puxei sua mão de volta a meio caminho do bolso.
— Quem disse que eu não quero?
— Você ficou assustada. Parou até de sorrir.
— É claro que fiquei — admiti. — Não é todo dia que um cara aparece pra mim com alianças.
— É só de compromisso, . Não é um pedido de casamento.
Só a palavra casamento me fazia estremecer. E ele já sabia disso, já que tínhamos conversado a respeito há algumas semanas.
— Tudo bem — comentei. — Já que não é um pedido de casamento.
— Bom saber que se fosse, você ia me rejeitar — ele brincou, mas havia um tom de mágoa na sua voz.
Segurei o rosto dele entre as mãos, o forçando a me encarar nos olhos.
— Retire já o que disse. Você sabe muito bem que minha aversão a casamento não tem nada a ver com você, . Além disso, só faz seis meses que estamos juntos. Você nem pode ter certeza de que quer passar muito tempo comigo, que dirá termos uma vida juntos.
— Mas eu quero. Nunca senti isso por ninguém, . Não faço ideia do porquê e às vezes é assustador, mas você ocupou oitenta por cento da minha mente nos últimos seis meses, e não consigo mais me imaginar longe de você.
— Você não acha meio precipitado, pensar assim?
— Por mim, nós já estaríamos morando juntos.
Caramba.
Tentei conter uma risada, mas não tive sucesso.
— Não achei que você fosse do tipo super apaixonado, .
— Pois é, nem eu — ele admitiu. — Você pode nem sentir o mesmo, mas eu queria deixar claro que...
— Você é vidente?
— O quê?
— Consegue ler pensamentos?
— .
— E expressões corporais? O que a minha expressão corporal diz agora, ? — Encostei meu corpo contra o dele, as duas mãos em seus ombros.
Em seguida, fiquei na ponta dos pés, aproximando nossos rostos.
— Você parece muito alguém que quer ser beijada.
— Ah, é? E por que você não me beija, então? — Sorri contra seus lábios.
— Porque não posso te beijar aonde quero em público.
Abaixei os pés, quase perdendo o equilíbrio, e riu baixinho.
— , por que você... Fica falando essas coisas?
— Talvez porque eu saiba que elas te deixam desconcertada. Faz seu rosto esquentar e você fica sem saber como responder. É fofo e sexy ao mesmo tempo. — Ele segurou meu rosto e acariciou uma bochecha, antes de se inclinar para murmurar no meu ouvido. — E eu amo quando a gente se perde um no outro e você chama meu nome quando eu te faço gozar. Te dar prazer é o meu novo hobby favorito.
Engoli em seco, sentindo a pele do pescoço arrepiar devido ao seu hálito quente, e um calor se acumulou no meio das minhas pernas.
Por que ele tinha que ser assim? Falar as coisas certas e... Que mais me deixavam sem jeito?
— ... — chamei por seu nome, e quase pareceu uma prece.
— Eu te amo, . Não sei exatamente desde quando, mas te amo. E quero que saiba que tô falando muito sério quando digo isso.
Respirei fundo, sentindo um frio na barriga e a respiração um pouco falha.
— Eu também amo você. Agora coloca logo essa aliança em mim, antes que você me faça chorar, seu besta. — Levantei a mão direita e olhei para cima, piscando rápido para afastar as lágrimas.
riu baixinho e colocou a aliança no meu dedo, beijando minha mão em seguida, antes de eu pegar a dele e fazer o mesmo. Nos abraçamos e ficamos um tempo assim.
Bem ali, em meio a uma brisa fria e um parque quase deserto, foi como se tivéssemos feito uma promessa silenciosa um ao outro.
A lembrança se esvaiu e me vi outra vez no escritório, com lágrimas molhando o meu rosto. Eu não fazia ideia de porque estava chorando, mas então olhei para a aliança no meu dedo e chorei mais um pouco, depois de saber como ela tinha ido parar ali e quais os sentimentos que tinha no momento em que a colocou em mim.
Que boba. Chorando por uma coisa dessas. Mas ao menos era uma coisa especial. Especial pra caramba. E eu não precisava ser um gênio para deduzir que poucos meses depois, conseguiu me convencer a morar com ele.
Ele era uma raposa esperta. Sabia muito bem que eu não tinha interesse em casamento, mas arranjou um jeito da gente viver como se fôssemos casados. Quanto a isso, nunca fui contra. Não quando éramos estáveis financeiramente e nenhum dependia do outro. Eu sabia que dinheiro era o motivo do fim ou infelicidade de muitos relacionamentos, e era grata por nenhum de nós ter que se preocupar com isso.
Por eu não ter que me preocupar mais, depois de anos fazendo exatamente isso. Era como se minha vida estivesse quase completa, com exceção das memórias que eu ainda não havia conseguido recuperar.
A cada vez que eu lembrava de algo era como se eu tivesse resolvendo uma etapa de um cubo mágico. Às vezes, era como se eu soubesse o que fazer, mas estava escolhendo o lado ou segurando o cubo de forma errada.
Algumas lembranças eram tão aleatórias e curtas que eu ficava confusa e me perguntava se aquilo realmente tinha acontecido, assim como na primeira vez que lembrei de algo. Eu sempre recorria a e descobri que algumas eram mesmo invenção da minha cabeça, embora a maioria não fosse.
Mas a lembrança das alianças foi clara como água e absolutamente certa, tanto quanto a vez que decorei como resolvia a parte branca de um cubo mágico. Foi automático. E deixou o meu coração quentinho e ansioso por mais. Eu não queria descobrir apenas como montar a parte branca do cubo e sim todas elas. Eu queria o cubo por inteiro. Queria todas as minhas lembranças com intactas.
E mal podia esperar pela hora em que finalmente conseguiria recuperá-las.
Com as costas das mãos, sequei o rosto rapidamente e me levantei, respirando fundo por um instante antes de deixar o escritório.
Encontrei começando a montar um kimbap e envolvi meus braços por seu tronco, espiando um pouquinho atrás dele enquanto ele espalhava os ingredientes cuidadosamente em cima da esteira de sushi.
Meu estômago escolheu aquele momento para roncar e riu.
— Parece que alguém tá com fome — ele brincou.
— Morrendo — respondi.
Em seguida, procurei outra esteira de sushi em uma das gavetas de utensílios e comecei a ajudá-lo.
Meu humor estava uma maravilha e nem as perguntas idiotas da estagiária durante a tarde conseguiram me tirar a paciência.
sabia como me agradar. E era generoso pra cacete. Mas eu também sou. E foi por isso que nossa pequena brincadeirinha durou mais tempo do que imaginávamos. Nos perdemos um no outro naquele escritório, e eu nunca mais veria aquela mesa ou aquele sofá de tecido marrom da mesma forma.
Depois que acabamos, tomamos um banho rápido e foi para a cozinha fazer nosso almoço enquanto eu voltava ao trabalho. Eu ainda tinha que cumprir carga horária mesmo que não tivesse nada para fazer. Fiquei navegando na internet, lendo sinopses de livros novos, procurando algum para ler. Eu tinha dado uma pausa na série de fantasia que estava lendo e, mesmo faltando apenas dois livros para acabar, eu estava atrás de ler algo leve, um romance previsível que lembrasse filmes clássicos de comédia romântica que todo mundo sabe como termina.
Depois de escolher uma possível leitura nova, peguei um bloquinho de notas ao lado do computador e fiz uma lista de coisas que eu precisava fazer. Uma delas incluía fazer uma limpa no meu closet.
Por mais que eu achasse que algumas peças tinham valor emocional, não fazia sentido guardá-las quando nem cabiam mais em mim. Então eu doaria para alguém que precisasse e com certeza faria uso melhor do eu, que estava apenas amontoando peças de roupa sem dar nenhum uso para elas. Anotei sábado ou domingo ao lado dessa tarefa, e organizei a lista por ordem de prioridade.
Nesse meio tempo, fui atingida por mais uma memória com . De repente, sem que eu esperasse ou tentasse lembrar de alguma coisa, a informação veio de uma vez.
Estávamos os dois dando um passeio no Central Park em um fim de tarde. usava boné e máscara, e uma jaqueta preta com um lenço cinza enorme desamarrado ao redor do pescoço, o que escondia o pouco da tatuagem que ficava à mostra.
Era início de outubro e já começava a esfriar, então eu também estava um pouco agasalhada. Paramos em um food truck de sorvete e pedimos uma casquinha para cada um. Em um impulso, escolhi um sabor que parecia bonito e bom, mas no fim, acabei trocando pela casquinha clássica de chocolate que optou. Ele balançou a cabeça, um sorriso querendo aparecer nos lábios, mas não reclamou pela troca. Na verdade, ele nem parecia se importar.
Estávamos completando seis meses juntos, então imediatamente eu soube que a memória era anterior a nossa discussão sobre Andrew que eu havia lembrado antes.
terminou a casquinha antes de mim e eu, já satisfeita com o doce, o fiz finalizar a minha também. Não era a primeira vez que acontecia. Na verdade, era até frequente eu ver alguma comida, cobiçá-la, não conseguir comer tanto quando eu achava que iria, e fazer meu adorável e gentil namorado terminar de comer o resto. Se ainda tivesse espaço no estômago, comia, mas depois de um tempo optamos por pedir pratos únicos em alguns restaurantes para dividir entre nós. Assim havia menos risco de desperdiçar comida e sempre podíamos pedir uma nova porção caso quiséssemos mais. Geralmente isso acontecia em restaurantes de comida asiática, que sempre tinham porções enormes para uma única pessoa.
Quando terminou e jogou o último guardanapo no lixo, nos afastamos da barraquinha, e ele recolocou uma máscara quando tivemos que passar por um grupo de pessoas.
a tirou novamente quando paramos em um local mais distante e quieto, longe de olhares curiosos, e então anunciou:
— Eu tenho uma coisa pra te dar.
— Achei que a gente tinha combinado nada de presentes — retruquei, meio incomodada por não ter nada para ele.
Eu nunca consegui aceitar presentes sem retribuir, com exceção do meu aniversário. Só que tinha uma mania boba de me mimar. Eu não me importava muito quando se tratava de comida ou lanchinhos aleatórios que ele comprava a caminho de me ver em um rápido encontro antes de ter que se ausentar para algum compromisso, mas qualquer coisa além disso me fazia ficar inquieta.
Não havia muitos presentes que eu podia dar para ele, já que tinha tudo. Frequentemente ganhava roupas, perfumes e sapatos de marcas caras que, mesmo eu tendo condições de comprar algumas delas, me recusava veemente a gastar uma pequena fortuna com uma peça que poderia ou não ter uma boa qualidade.
Eu já tinha visto Kate e Karol reclamarem à beça sobre marcas famosas que cobravam caro por um item completamente idiota e nada inovador apenas porque tinha o nome da marca. As duas sempre diziam que havia diversos fornecedores que vendiam as mesmas peças em marketplace por um preço muito menor.
Comprei muitas das minhas roupas nesses sites, depois de pegar várias dicas. Só havia uma marca que eu era fiel, cujo preço cabia no meu bolso: Double K, pertencente a elas duas. Como ambas eram exigentes, era certeza que os clientes teriam peças de ótima qualidade e exclusivas, a maioria desenhadas por Karol.
Eu havia dado uma jaqueta da Double K de presente para uns meses apenas para descobrir que ele tinha a mesma jaqueta, mas de outra cor.
Então, sim, encontrar presentes para ele me deixava inquieta, por mais que ele deixasse claro que eu não precisava, tal como naquele momento.
— Tecnicamente, o presente é pra nós dois — ele explicou, antes de enfiar as duas mãos nos bolsos da jaqueta e retirar as duas fechadas em punho. — Adivinha em qual tá.
— Sério? Quantos anos você tem, ? — Ri pelo nariz.
— Faço vinte e nove no mês que vem — o idiota respondeu, como se minha pergunta não tivesse sido irônica ou ele não tivesse notado isso.
Mas se tinha uma coisa que pegava no ar era sarcasmo, por mais que pudesse ser lento quanto a outros assuntos.
— Seu besta. É de comer? — perguntei, analisando seus punhos fechados, como se pudesse ganhar na loteria caso acertasse.
— Não.
Levantei meu olhos para encontrar os dele.
— Se eu errar, vai ter alguma punição?
— Não, mas talvez eu tenha uma, mesmo se você acertar.
O que ele tá planejando? Foi o que pensei, quando toquei em seu punho esquerdo.
— Que tal esse? — perguntei, curiosa.
No mesmo instante, abriu a mão contrária, vazia e nós sorrimos juntos. Eu tinha acertado, mesmo sem ter ideia do que seria. Então, devagarinho, ele abriu a outra mão, revelando um par de alianças de compromisso.
Eu o encarei, surpresa, meu sorriso desaparecendo do rosto.
— Eu andei pensando e... Não sei, acho que seria legal a gente usar alguma coisa juntos... — ele começou a dizer, meio nervoso. — Mas se você não quiser, eu posso devolver. — Ele fechou a mão, prestes a guardar as alianças de volta no bolso.
Ambos sabíamos que ele não iria devolver. E de qualquer modo, eu não queria que ele fizesse isso. Então puxei sua mão de volta a meio caminho do bolso.
— Quem disse que eu não quero?
— Você ficou assustada. Parou até de sorrir.
— É claro que fiquei — admiti. — Não é todo dia que um cara aparece pra mim com alianças.
— É só de compromisso, . Não é um pedido de casamento.
Só a palavra casamento me fazia estremecer. E ele já sabia disso, já que tínhamos conversado a respeito há algumas semanas.
— Tudo bem — comentei. — Já que não é um pedido de casamento.
— Bom saber que se fosse, você ia me rejeitar — ele brincou, mas havia um tom de mágoa na sua voz.
Segurei o rosto dele entre as mãos, o forçando a me encarar nos olhos.
— Retire já o que disse. Você sabe muito bem que minha aversão a casamento não tem nada a ver com você, . Além disso, só faz seis meses que estamos juntos. Você nem pode ter certeza de que quer passar muito tempo comigo, que dirá termos uma vida juntos.
— Mas eu quero. Nunca senti isso por ninguém, . Não faço ideia do porquê e às vezes é assustador, mas você ocupou oitenta por cento da minha mente nos últimos seis meses, e não consigo mais me imaginar longe de você.
— Você não acha meio precipitado, pensar assim?
— Por mim, nós já estaríamos morando juntos.
Caramba.
Tentei conter uma risada, mas não tive sucesso.
— Não achei que você fosse do tipo super apaixonado, .
— Pois é, nem eu — ele admitiu. — Você pode nem sentir o mesmo, mas eu queria deixar claro que...
— Você é vidente?
— O quê?
— Consegue ler pensamentos?
— .
— E expressões corporais? O que a minha expressão corporal diz agora, ? — Encostei meu corpo contra o dele, as duas mãos em seus ombros.
Em seguida, fiquei na ponta dos pés, aproximando nossos rostos.
— Você parece muito alguém que quer ser beijada.
— Ah, é? E por que você não me beija, então? — Sorri contra seus lábios.
— Porque não posso te beijar aonde quero em público.
Abaixei os pés, quase perdendo o equilíbrio, e riu baixinho.
— , por que você... Fica falando essas coisas?
— Talvez porque eu saiba que elas te deixam desconcertada. Faz seu rosto esquentar e você fica sem saber como responder. É fofo e sexy ao mesmo tempo. — Ele segurou meu rosto e acariciou uma bochecha, antes de se inclinar para murmurar no meu ouvido. — E eu amo quando a gente se perde um no outro e você chama meu nome quando eu te faço gozar. Te dar prazer é o meu novo hobby favorito.
Engoli em seco, sentindo a pele do pescoço arrepiar devido ao seu hálito quente, e um calor se acumulou no meio das minhas pernas.
Por que ele tinha que ser assim? Falar as coisas certas e... Que mais me deixavam sem jeito?
— ... — chamei por seu nome, e quase pareceu uma prece.
— Eu te amo, . Não sei exatamente desde quando, mas te amo. E quero que saiba que tô falando muito sério quando digo isso.
Respirei fundo, sentindo um frio na barriga e a respiração um pouco falha.
— Eu também amo você. Agora coloca logo essa aliança em mim, antes que você me faça chorar, seu besta. — Levantei a mão direita e olhei para cima, piscando rápido para afastar as lágrimas.
riu baixinho e colocou a aliança no meu dedo, beijando minha mão em seguida, antes de eu pegar a dele e fazer o mesmo. Nos abraçamos e ficamos um tempo assim.
Bem ali, em meio a uma brisa fria e um parque quase deserto, foi como se tivéssemos feito uma promessa silenciosa um ao outro.
A lembrança se esvaiu e me vi outra vez no escritório, com lágrimas molhando o meu rosto. Eu não fazia ideia de porque estava chorando, mas então olhei para a aliança no meu dedo e chorei mais um pouco, depois de saber como ela tinha ido parar ali e quais os sentimentos que tinha no momento em que a colocou em mim.
Que boba. Chorando por uma coisa dessas. Mas ao menos era uma coisa especial. Especial pra caramba. E eu não precisava ser um gênio para deduzir que poucos meses depois, conseguiu me convencer a morar com ele.
Ele era uma raposa esperta. Sabia muito bem que eu não tinha interesse em casamento, mas arranjou um jeito da gente viver como se fôssemos casados. Quanto a isso, nunca fui contra. Não quando éramos estáveis financeiramente e nenhum dependia do outro. Eu sabia que dinheiro era o motivo do fim ou infelicidade de muitos relacionamentos, e era grata por nenhum de nós ter que se preocupar com isso.
Por eu não ter que me preocupar mais, depois de anos fazendo exatamente isso. Era como se minha vida estivesse quase completa, com exceção das memórias que eu ainda não havia conseguido recuperar.
A cada vez que eu lembrava de algo era como se eu tivesse resolvendo uma etapa de um cubo mágico. Às vezes, era como se eu soubesse o que fazer, mas estava escolhendo o lado ou segurando o cubo de forma errada.
Algumas lembranças eram tão aleatórias e curtas que eu ficava confusa e me perguntava se aquilo realmente tinha acontecido, assim como na primeira vez que lembrei de algo. Eu sempre recorria a e descobri que algumas eram mesmo invenção da minha cabeça, embora a maioria não fosse.
Mas a lembrança das alianças foi clara como água e absolutamente certa, tanto quanto a vez que decorei como resolvia a parte branca de um cubo mágico. Foi automático. E deixou o meu coração quentinho e ansioso por mais. Eu não queria descobrir apenas como montar a parte branca do cubo e sim todas elas. Eu queria o cubo por inteiro. Queria todas as minhas lembranças com intactas.
E mal podia esperar pela hora em que finalmente conseguiria recuperá-las.
Com as costas das mãos, sequei o rosto rapidamente e me levantei, respirando fundo por um instante antes de deixar o escritório.
Encontrei começando a montar um kimbap e envolvi meus braços por seu tronco, espiando um pouquinho atrás dele enquanto ele espalhava os ingredientes cuidadosamente em cima da esteira de sushi.
Meu estômago escolheu aquele momento para roncar e riu.
— Parece que alguém tá com fome — ele brincou.
— Morrendo — respondi.
Em seguida, procurei outra esteira de sushi em uma das gavetas de utensílios e comecei a ajudá-lo.
Capítulo 21
No dia seguinte, acordei com uma fresta de claridade entrando no quarto, mas ainda sem abrir os olhos, me aconcheguei mais a , passando um braço ao redor de sua cintura como se ele fosse um travesseiro gigante.
Infelizmente, ele resolveu se espreguiçar naquele momento, tentando se desvencilhar de mim. Resmunguei baixinho, insatisfeita com a perturbação.
— , não. Fica mais. — Me agarrei a ele.
— Aiden? Que porra é essa, Ayla? — o ouvi dizer e imediatamente abri os olhos, finalmente percebendo o quarto diferente e um Dean, não , um tanto irritado ao meu lado. — Tava sonhando com o seu ex enquanto dormia comigo?
Caramba, ele entendeu Aiden e não . Aiden era o nome artístico de Seojun, o ex de Ayla.
— Eu não sonhei com o Seojun, Dean! Eu falei , não Aiden.
— E quem é ? — Ele quis saber.
— Um personagem que tô desenvolvendo — respondi prontamente. — Baseado em você.
— O quê? Tá me zoando, Ayla?
— Não, eu tô falando sério. , um cantor de R&B conhecido no mundo todo, que namora uma agente literária que é fã dele depois de conhecê-la aleatoriamente em um bar.
Um sorriso levantou um dos cantos da boca de Dean. Eu não sabia se ele tava comprando ou não essa ideia, mas foi a primeira coisa que consegui pensar.
— Ah, é? E qual o plot do livro além deles se conhecerem em um bar?
Ah, que espertinho. Tentando me testar. Azar o dele que na minha realidade nós éramos e .
— O plot não é eles se conhecendo em um bar e sim que os dois namoram há três anos. Mas a agenda de anda muito apertada e a mal consegue ver ele.
— Agora parece com a sua história com o seu ex — ele acusou.
Verdade. Ayla e Seojun terminaram exatamente por isso.
— Mas é diferente. Eles não são como Seojun e eu. E eu ainda tô planejando. Pensei em sei lá, fazer ela ir parar em um universo alternativo, talvez dentro do livro favorito dela.
— Hm, certo... Se você diz — ele resmungou, obviamente não acreditando.
— Ei, o é mesmo inspirado em você! Ele tem até a mesma tatuagem!
— Tirando o fato de que eu odiaria a exposição que envolve ser uma celebridade. Mas tudo bem, se você diz... — ele repetiu. — Vou fazer o café da manhã, aproveita pra dormir mais um pouco — acrescentou, beijando meu rosto rapidamente.
Observei Dean andar pelo quarto só de cueca até sair em direção à cozinha e em seguida, me acomodei novamente na cama para mais um cochilo.
No instante em que abri os olhos novamente, me vi em pé no campus da universidade, com o celular na mão, e avistei Dean sentado em uma das mesinhas que ele e Ayla costumavam se encontrar às vezes.
Ah, não.
Era a cena de término. A história pulou alguns dias, inclusive a noite em que Seojun dormia no apartamento de Ayla; todo mundo tinha se revezado para não deixar ela sozinha, ao menos nos primeiros dias. Mas isso foi uma narração relativamente rápida que Kate fez no livro, provavelmente usando Seojun apenas para deixar Dean mais inseguro, pensando que Ayla estaria mais segura com o ex do que com ele, levando em conta que o ataque dela tinha sido premeditado pelo pai dele.
Aquele velho metido a besta! Ele vivia dando um jeito de se intrometer na vida de Dean e ao invés de aceitar o filho e o trabalho como compositor dele, o nojento só o atacava com palavras, o desprezando em qualquer oportunidade que tivesse, e mesmo assim queria que Dean fosse seu sucessor, por ser filho único.
Um idiota. Como se Dean fosse querer isso. E eu sabia que ele havia inventado que Ayla era namorada de Zico e não dele. Zico era filho caçula de Nicholas Woo e não era qualquer um que tinha coragem de mexer com ele. Não que ele fosse um criminoso como James, o pai de Dean, muito pelo contrário. Mas o Sr. Woo era poderoso. E completamente pacífico se não houvesse nenhuma ameaça.
De um jeito ou de outro, Dean já havia tomado uma decisão. Mesmo que fosse uma decisão muito burra.
Por conta da insegurança que sentia, as ameaças do pai mais o medo de rejeição de Ayla se descobrisse sobre seus problemas do passado — inclusive que o pai dele tinha mandado matar o pai dela —, ele achou que se afastar seria a melhor opção.
Mal sabia ele que Ayla já estava ciente de tudo, exceto das ameaças.
Andei até ele e me sentei no banquinho, ainda ciente de que eu tinha o controle sobre o corpo de Ayla.
— Sobre o que quer conversar? — perguntei, em um tom neutro.
— Então... Eu andei pensando e... Acho que a gente devia terminar.
— O quê? — Franzi o cenho, tentando fingir surpresa. — Por quê?
Caramba, eu era uma péssima atriz.
— Acho que isso já foi longe demais, Ayla.
— Como assim, Dean? — Tentei me lembrar dos diálogos daquela cena. — A gente tava bem até ontem... Você acordou e resolveu que não quer mais?
Tá, não era bem isso que a Ayla falava, mas eu tentei. Àquela altura, eu só queria que ela assumisse o controle. Felizmente, aconteceu pouco depois e imediatamente eu senti a mudança de humor me atingir. Uma tristeza e mágoa repentina, um frio na barriga de ansiedade que não era nem de longe bom.
Era como se eu tivesse tomado um banho de água fria. Meus olhos arderam e, de repente, era como se estivesse na minha frente terminando comigo, por mais que eu soubesse que era apenas Dean seguindo o roteiro que Kate havia escrito.
— O que eu quero dizer... É que nós não deveríamos ter passado daquela noite, Ayla. Foi um erro me envolver com você — ele disse e eu o encarei, confusa.
Senti uma lágrima escorrer pelo rosto e desviei o olhar por um instante.
— Quer dizer que esses meses... Não significaram nada pra você? — Me ouvi perguntar, com a voz falha. Aquela era Ayla falando e eram os sentimentos dela que eu estava sentindo, mas era tão real que eu só conseguia me sentir duas vezes mais triste, como se estivesse acontecendo comigo.
— Não, Ayla... — Dean suspirou. — É claro que significou alguma coisa, mas... Eu não posso mais continuar com isso. Sinto muito.
— Ah, você sente muito? — perguntei, irônica. — O que vai dizer agora, Dean? Que o problema é você e não eu?
— Eu acho que nós deveríamos... Ter continuado apenas como amigos desde o início...
Coloquei uma mão na boca e respirei fundo, tentando me acalmar. Aquela era Ayla agindo, mas poderia facilmente ser eu. Sequei as lágrimas que caíram, eu/ela evitando chorar na frente dele, embora já estivesse acontecendo.
— Quer saber, Dean? — Eu ri, sem humor, e o encarei novamente. — Você é muito fodido, sabia? Se não queria um relacionamento, então que terminasse logo o que nós tínhamos. Ah, você não está pronto ainda? Que piada... Você estava perfeitamente bem dois dias atrás. Mas se quer que seja assim... — Me levantei, pronta para ir embora.
— Ayla... — Ele tentou segurar minha mão, mas eu o afastei bruscamente.
— Ayla é o caralho. Vai pro inferno, Dean.
E saí de lá.
Passei por Zico e Karina em um borrão e escutei minha amiga vir atrás de mim. No instante seguinte, eu estava com ela e Tiana em uma sala, acho que o escritório de Tiana, enquanto Karina xingava Dean com todos os palavrões que conhecia.
Eu ainda estava um caco junto com Ayla, sentindo a dor de uma rejeição que nem era minha. Não conseguia nem sequer imaginar uma possibilidade de me afastar de , considerando tudo o que nós tínhamos vivido juntos. Ainda mais depois de lembrar de mais coisas sobre nós, ainda que minhas memórias não tivessem retornado completamente.
Ele era como meu porto seguro. O amor que eu nunca tinha ousado sonhar em ter. Minha alma gêmea. Meu parceiro em tudo, e a pessoa que mais me apoiava. Pensar em ficar sem era como pensar em arrancar um pedaço de mim mesma, do meu próprio coração.
E eu nunca fui uma pessoa muito afetuosa. Sempre tive uma queda por coisas esotéricas, mas era mais diversão. Eu achava divertido pensar que poderia existir alguém feito para mim por aí, mas nunca pensei que fosse realmente encontrar essa pessoa. Que me aceitava com todas as minhas maluquices, impaciência constante, sem contar os surtos. Alguém que se importava mais do que meus próprios pais fizeram um dia. Alguém que faria de tudo para me proteger.
Sempre que eu pensava em , uma pulga atrás da minha orelha se instalava e eu me perguntava o que eu tinha feito para merecer ele.
Eu não me sentia emocionalmente dependente de e era completamente contra depender de alguém por qualquer motivo que fosse, mas certamente uma parte de mim morreria se um dia ele saísse da minha vida.
Respirei fundo, tentando me acalmar, mas infelizmente Ayla ainda estava no comando. Fechei os olhos e então senti meus ombros serem sacudidos bruscamente.
Abri os olhos, assustada. Então me deparei com , não Dean, me encarando com um olhar cheio de preocupação.
Eu estava de volta a minha realidade, no meu próprio quarto.
E parecia prestes a surtar.
— , graças a Deus. — Ele me envolveu em um abraço forte, angustiado. — Por um momento, achei que você não fosse acordar mais.
Espera... O quê?
Do que diabos ele estava falando?
Infelizmente, ele resolveu se espreguiçar naquele momento, tentando se desvencilhar de mim. Resmunguei baixinho, insatisfeita com a perturbação.
— , não. Fica mais. — Me agarrei a ele.
— Aiden? Que porra é essa, Ayla? — o ouvi dizer e imediatamente abri os olhos, finalmente percebendo o quarto diferente e um Dean, não , um tanto irritado ao meu lado. — Tava sonhando com o seu ex enquanto dormia comigo?
Caramba, ele entendeu Aiden e não . Aiden era o nome artístico de Seojun, o ex de Ayla.
— Eu não sonhei com o Seojun, Dean! Eu falei , não Aiden.
— E quem é ? — Ele quis saber.
— Um personagem que tô desenvolvendo — respondi prontamente. — Baseado em você.
— O quê? Tá me zoando, Ayla?
— Não, eu tô falando sério. , um cantor de R&B conhecido no mundo todo, que namora uma agente literária que é fã dele depois de conhecê-la aleatoriamente em um bar.
Um sorriso levantou um dos cantos da boca de Dean. Eu não sabia se ele tava comprando ou não essa ideia, mas foi a primeira coisa que consegui pensar.
— Ah, é? E qual o plot do livro além deles se conhecerem em um bar?
Ah, que espertinho. Tentando me testar. Azar o dele que na minha realidade nós éramos e .
— O plot não é eles se conhecendo em um bar e sim que os dois namoram há três anos. Mas a agenda de anda muito apertada e a mal consegue ver ele.
— Agora parece com a sua história com o seu ex — ele acusou.
Verdade. Ayla e Seojun terminaram exatamente por isso.
— Mas é diferente. Eles não são como Seojun e eu. E eu ainda tô planejando. Pensei em sei lá, fazer ela ir parar em um universo alternativo, talvez dentro do livro favorito dela.
— Hm, certo... Se você diz — ele resmungou, obviamente não acreditando.
— Ei, o é mesmo inspirado em você! Ele tem até a mesma tatuagem!
— Tirando o fato de que eu odiaria a exposição que envolve ser uma celebridade. Mas tudo bem, se você diz... — ele repetiu. — Vou fazer o café da manhã, aproveita pra dormir mais um pouco — acrescentou, beijando meu rosto rapidamente.
Observei Dean andar pelo quarto só de cueca até sair em direção à cozinha e em seguida, me acomodei novamente na cama para mais um cochilo.
No instante em que abri os olhos novamente, me vi em pé no campus da universidade, com o celular na mão, e avistei Dean sentado em uma das mesinhas que ele e Ayla costumavam se encontrar às vezes.
Ah, não.
Era a cena de término. A história pulou alguns dias, inclusive a noite em que Seojun dormia no apartamento de Ayla; todo mundo tinha se revezado para não deixar ela sozinha, ao menos nos primeiros dias. Mas isso foi uma narração relativamente rápida que Kate fez no livro, provavelmente usando Seojun apenas para deixar Dean mais inseguro, pensando que Ayla estaria mais segura com o ex do que com ele, levando em conta que o ataque dela tinha sido premeditado pelo pai dele.
Aquele velho metido a besta! Ele vivia dando um jeito de se intrometer na vida de Dean e ao invés de aceitar o filho e o trabalho como compositor dele, o nojento só o atacava com palavras, o desprezando em qualquer oportunidade que tivesse, e mesmo assim queria que Dean fosse seu sucessor, por ser filho único.
Um idiota. Como se Dean fosse querer isso. E eu sabia que ele havia inventado que Ayla era namorada de Zico e não dele. Zico era filho caçula de Nicholas Woo e não era qualquer um que tinha coragem de mexer com ele. Não que ele fosse um criminoso como James, o pai de Dean, muito pelo contrário. Mas o Sr. Woo era poderoso. E completamente pacífico se não houvesse nenhuma ameaça.
De um jeito ou de outro, Dean já havia tomado uma decisão. Mesmo que fosse uma decisão muito burra.
Por conta da insegurança que sentia, as ameaças do pai mais o medo de rejeição de Ayla se descobrisse sobre seus problemas do passado — inclusive que o pai dele tinha mandado matar o pai dela —, ele achou que se afastar seria a melhor opção.
Mal sabia ele que Ayla já estava ciente de tudo, exceto das ameaças.
Andei até ele e me sentei no banquinho, ainda ciente de que eu tinha o controle sobre o corpo de Ayla.
— Sobre o que quer conversar? — perguntei, em um tom neutro.
— Então... Eu andei pensando e... Acho que a gente devia terminar.
— O quê? — Franzi o cenho, tentando fingir surpresa. — Por quê?
Caramba, eu era uma péssima atriz.
— Acho que isso já foi longe demais, Ayla.
— Como assim, Dean? — Tentei me lembrar dos diálogos daquela cena. — A gente tava bem até ontem... Você acordou e resolveu que não quer mais?
Tá, não era bem isso que a Ayla falava, mas eu tentei. Àquela altura, eu só queria que ela assumisse o controle. Felizmente, aconteceu pouco depois e imediatamente eu senti a mudança de humor me atingir. Uma tristeza e mágoa repentina, um frio na barriga de ansiedade que não era nem de longe bom.
Era como se eu tivesse tomado um banho de água fria. Meus olhos arderam e, de repente, era como se estivesse na minha frente terminando comigo, por mais que eu soubesse que era apenas Dean seguindo o roteiro que Kate havia escrito.
— O que eu quero dizer... É que nós não deveríamos ter passado daquela noite, Ayla. Foi um erro me envolver com você — ele disse e eu o encarei, confusa.
Senti uma lágrima escorrer pelo rosto e desviei o olhar por um instante.
— Quer dizer que esses meses... Não significaram nada pra você? — Me ouvi perguntar, com a voz falha. Aquela era Ayla falando e eram os sentimentos dela que eu estava sentindo, mas era tão real que eu só conseguia me sentir duas vezes mais triste, como se estivesse acontecendo comigo.
— Não, Ayla... — Dean suspirou. — É claro que significou alguma coisa, mas... Eu não posso mais continuar com isso. Sinto muito.
— Ah, você sente muito? — perguntei, irônica. — O que vai dizer agora, Dean? Que o problema é você e não eu?
— Eu acho que nós deveríamos... Ter continuado apenas como amigos desde o início...
Coloquei uma mão na boca e respirei fundo, tentando me acalmar. Aquela era Ayla agindo, mas poderia facilmente ser eu. Sequei as lágrimas que caíram, eu/ela evitando chorar na frente dele, embora já estivesse acontecendo.
— Quer saber, Dean? — Eu ri, sem humor, e o encarei novamente. — Você é muito fodido, sabia? Se não queria um relacionamento, então que terminasse logo o que nós tínhamos. Ah, você não está pronto ainda? Que piada... Você estava perfeitamente bem dois dias atrás. Mas se quer que seja assim... — Me levantei, pronta para ir embora.
— Ayla... — Ele tentou segurar minha mão, mas eu o afastei bruscamente.
— Ayla é o caralho. Vai pro inferno, Dean.
E saí de lá.
Passei por Zico e Karina em um borrão e escutei minha amiga vir atrás de mim. No instante seguinte, eu estava com ela e Tiana em uma sala, acho que o escritório de Tiana, enquanto Karina xingava Dean com todos os palavrões que conhecia.
Eu ainda estava um caco junto com Ayla, sentindo a dor de uma rejeição que nem era minha. Não conseguia nem sequer imaginar uma possibilidade de me afastar de , considerando tudo o que nós tínhamos vivido juntos. Ainda mais depois de lembrar de mais coisas sobre nós, ainda que minhas memórias não tivessem retornado completamente.
Ele era como meu porto seguro. O amor que eu nunca tinha ousado sonhar em ter. Minha alma gêmea. Meu parceiro em tudo, e a pessoa que mais me apoiava. Pensar em ficar sem era como pensar em arrancar um pedaço de mim mesma, do meu próprio coração.
E eu nunca fui uma pessoa muito afetuosa. Sempre tive uma queda por coisas esotéricas, mas era mais diversão. Eu achava divertido pensar que poderia existir alguém feito para mim por aí, mas nunca pensei que fosse realmente encontrar essa pessoa. Que me aceitava com todas as minhas maluquices, impaciência constante, sem contar os surtos. Alguém que se importava mais do que meus próprios pais fizeram um dia. Alguém que faria de tudo para me proteger.
Sempre que eu pensava em , uma pulga atrás da minha orelha se instalava e eu me perguntava o que eu tinha feito para merecer ele.
Eu não me sentia emocionalmente dependente de e era completamente contra depender de alguém por qualquer motivo que fosse, mas certamente uma parte de mim morreria se um dia ele saísse da minha vida.
Respirei fundo, tentando me acalmar, mas infelizmente Ayla ainda estava no comando. Fechei os olhos e então senti meus ombros serem sacudidos bruscamente.
Abri os olhos, assustada. Então me deparei com , não Dean, me encarando com um olhar cheio de preocupação.
Eu estava de volta a minha realidade, no meu próprio quarto.
E parecia prestes a surtar.
— , graças a Deus. — Ele me envolveu em um abraço forte, angustiado. — Por um momento, achei que você não fosse acordar mais.
Espera... O quê?
Do que diabos ele estava falando?
Capítulo 22
Me sentei na cama rapidamente, alarmada com a reação dele.
— , o que aconteceu? Eu tava dormindo.
— Você não acordava, Lexi! — Ele me encarou, assustado. — Achei que estivesse cansada, então te deixei dormindo e fui pro estúdio. Fiquei algumas horas trancado lá e pensei que você já tivesse acordado, mas não. Eu comecei a ficar com medo porque te chamei e você não acordou. Aí você começou a chorar enquanto dormia.
— O quê? — Passei a mão no rosto, notando a pele ainda molhada.
— Imaginei que você tivesse tendo um pesadelo ou um episódio de terror noturno e não conseguia acordar, então comecei a te sacudir. Fiquei uns cinco minutos tentando e nada, eu juro que já tava pra ter um treco, Lexi. Você ficou inconsciente por dezesseis horas.
— Dezesseis? Mas... Como?
— Eu não sei. Mas me lembrou quando você tava inconsciente no hospital depois de acidente, e não foi nada legal. Não me assuste assim de novo!
Como se eu tivesse escolha, quase falei.
— Eu não faço ideia do que aconteceu.
— Você teve um pesadelo?
— Não. Nem lembro o que foi que me fez chorar — menti, sem olhar para ele.
Se me olhasse nos olhos, saberia que eu estava mentindo.
— Certo, você deve estar com fome. E tá mais do que na hora de comer, já que você pulou duas refeições.
— Que horas são?
— Quatro da tarde.
— Ah. Caramba, eu dormi mesmo. — E estava certo, eu nunca tinha passado de oito horas de sono. Normalmente eu dormia só umas seis. — Vou tomar um banho antes e escovar os dentes — anunciei, já me levantando.
No entanto, senti a visão escurecer e cambaleei, caindo sentada na cama.
— Lexi? O que foi? Tá sentindo alguma coisa?
— Foi só uma tontura, acho que levantei rápido. Também deve ser por fome também. Tô meio enjoada.
— Você deve estar com hipoglicemia. Quer que eu te ajude no banho?
— Não precisa, já tá passando.
— Tudo bem, dê um grito se precisar de ajuda, e deixe a porta aberta.
Assenti e me levantei novamente, indo até o closet para pegar algumas roupas. Ou melhor, uma calcinha e outra camisola, já que não ia sair de casa de qualquer jeito. Fui até o banheiro e resolvi usar a banheira para relaxar um pouco. Enquanto esperava ela encher, prendi o cabelo e me despi. Em seguida, observei meu próprio reflexo no espelho de corpo inteiro que tínhamos ali e notei que a marca do arranhão no meu braço estava quase desaparecendo.
Além disso, não havia nada de anormal em meu corpo. Eu me sentia levemente enjoada — provavelmente de fome — e, antes de entrar na banheira, dissolvi alguns sais de banho com fragrâncias cítricas para me ajudar com a náusea.
A água estava morna e relaxante, e eu me deixei afundar até o pescoço, encostando a cabeça na beira da banheira. Fechei os olhos por um instante, aproveitando o banho, mas devo ter adormecido outra vez, já que mais uma vez me vi parada em um estacionamento vazio, que eu não tinha ideia de onde ficava, com a coisa de olhos prateados na forma de Ayla me encarando outra vez.
— Tome cuidado — ela disse, sua voz igual à minha. — Não tente mudar o destino outra vez.
Fiz uma careta ao ouvir aquilo.
— Eu não tentei mudar o destino. Tá falando da cena que eu falei do meu namorado pro Dean? Aquela cena da gente acordando na cama nem existe no livro. Não tem como eu mudar algo que não existe.
— Você não está olhando para o lugar certo, . Você tem que lembrar daquilo que é importante.
— O quê? Do que você tá falando? — perguntei, sem entender.
O que eu tô esquecendo sobre Tenaz?
— Não é com Tenaz que você deve se preocupar, mas com você mesma. O tempo está acabando. Lembre daquilo que é importante.
— Olha, amiga, eu não faço ideia do que porra você tá falando. E não faço ideia do que coisa ou entidade você é. E eu odeio enigmas! Me explica logo o que quer dizer e para de agir feito doida!
Em um piscar de olhos, ela estava a minha frente, com uma mão em volta do meu pescoço, o apertando com força.
— Não me desrespeite, garota — sibilou, irritada. — Preste atenção nas coisas e use a cabeça para pensar. Eu não posso te dizer tudo. Você tem que descobrir sozinha. Não esqueça, , aquilo que é importante deve ser lembrado e o destino jamais ser alterado. A história vai continuar se repetindo se você não agir de forma diferente.
Travei a mandíbula, irritada também, e a empurrei para longe de mim.
— Quem você pensa que é pra me agarrar pelo pescoço, sua coisa medonha? Sai da minha cabeça e me deixa em paz! Eu tô cansada dessa merda sem sentido de terror noturno!
A coisa então riu, como se achasse realmente engraçado o que eu tinha acabado de falar. Subitamente, senti um arrepio de medo.
— Terror será o que você irá passar mais vezes se não aproveitar a chance que está sendo te dada. A história que tem sempre o mesmo final continuará a ser repetir se você não agir diferente.
— Mas que porra?! Você me disse pra não agir diferente e agora tá me dizendo pra agir? Eu segui o roteiro de Tenaz, as cenas que tinham que acontecer já aconteceram!
— Há mais de uma realidade com que você deve se preocupar. Faça aquilo que precisa ser feito. Existe mais de um roteiro, mas o final que realmente importa pode ser diferente a depender das suas escolhas. O destino não pode ser mudado, mas o seu final sim.
Então eu acordei, ainda no banheiro. Considerando que ainda não tinha aparecido surtando, supus que dormi por uns cinco minutos. Eu não fazia ideia de por que estava com tanto sono, mas me recusava a dormir outra vez. Joguei água no rosto e terminei de me banhar.
Quando eu estava trocando de roupa, bateu na porta, mas não entrou.
— Lexi, a comida chegou. Você tá bem?
— Sim, quase acabando.
Terminei de me vestir e me perfumei um pouco antes de sair, agora não mais enjoada ou tonta. Viva as fragrâncias cítricas. Eu havia aprendido aquele truque com Kate. Durante a faculdade, uma professora ensinou essa dica à turma dela, muito usada para ajudar gestantes com enjoos matinais. Mas a própria Kate usava para qualquer ocasião em que ficasse enjoada, e acabei fazendo o mesmo quando percebi que funcionava.
Saí do banheiro e encontrei na cozinha, tirando embalagens de comidinhas de padaria, além de um banquete coreano que me deu água na boca assim que vi. No entanto, ainda não era hora do jantar, então me contentei em fazer um lanche, por ora.
Tentei não pensar muito no que aquela pseudo Ayla — ou o que quer que fosse aquela coisa — falou, mas não teve muito jeito. Nem mesmo os pastéis de nata que tinha comprado me distraíram daquele enigma idiota. E eu odiava enigmas por um único motivo: eles não saíam da minha cabeça enquanto não fossem resolvidos.
Tipo quando eu aprendi a montar um cubo mágico. Não sosseguei enquanto não decorei todas as etapas e eu até tinha um em algum lugar, que montava e desmontava ocasionalmente quando precisava pensar em alguma coisa.
Talvez eu devesse retomar esse hábito para tentar pensar melhor no que a coisa tinha me dito.
Se eu fosse a protagonista de um livro, o que eu faria?
Eu tinha lido alguns livros e assistido a alguns doramas com universos paralelos e volta no tempo, mas parecia que nenhuma informação acumulada dessas obras estava me ajudando. Eu não estava presa em um universo diferente, ao menos achava que não. Isso até dormir por dezesseis horas seguidas sendo que nem houve muito acontecimento em Tenaz, o que me levava a acreditar que eu talvez tivesse sonhado com outra coisa da qual não estava lembrando.
Era como se tivesse alguma coisa faltando.
No entanto, esse sentimento não era desconhecido por mim desde o acidente. A sensação de algo esquecido me perseguia diariamente pelo fato de eu realmente não lembrar de várias coisas importantes. Mas será que a coisa em forma de Ayla se referia a isso? Pelo modo como falava, fazia parecer que eu estava tentando mudar a história e brigava comigo, mas então me falava para fazer exatamente isso? Eu não estava entendendo mais nada.
Que destino era esse que ela tanto falava? E o final?
Se era em relação a Tenaz, eu não conseguia compreender a que ela se referia, e se era em relação a mim, então, muito menos. Eu nem sabia porque aquilo andava acontecendo desde o acidente e, cientificamente falando, poderia muito bem ser algum tipo de delírio, mas tudo parecia real demais. Além disso, não era como se eu tivesse tendo comportamentos estranhos, ao menos não quando estava acordada.
Eu era só uma mulher normal, com uma vida normal, tirando o fato de namorar meu cantor favorito há três anos. era a única coisa fora da caixinha da minha vida, e junto com o meu trabalho, a mais constante.
Mas eu era só uma mulher de vinte e oito anos com amnésia temporária e viciada em livros. Não havia nada de especial em mim, então como eu ia descobrir do que diabos aquela doida tava falando?
Suspirei, meio irritada, o que chamou a atenção de , que ainda saboreava um pastelzinho de nata ao meu lado.
— O que houve? Tá sentindo alguma coisa?
— Nada, só irritada com uma coisa.
— O quê?
— Não lembrar do que eu preciso lembrar. Seja lá o que for isso. Sonhei com alguém falando isso pra mim.
— E quem te disse isso no sonho?
— Hmm... Ela tinha a aparência de Ayla. Mas foi só um sonho idiota. — Dei de ombros, tentando não dar muita importância. Ou fazer com que ele achasse isso, mas a expressão no rosto de era completamente séria, então acabei cedendo após um suspiro resignado. — Ela falou algo sobre destino. Que não posso mudar ele, mas posso mudar o final. Não faço ideia do que seja.
— Tem certeza de que tá bem, Lexi?
— Perfeitamente. Você não precisa me tratar como se eu fosse de cristal, . Eu não tô mentalmente doente só porque a pancada na cabeça me deu amnésia seletiva.
Ou pelo menos era o que eu esperava.
— Cuja única seleção fui eu — ele lembrou, magoado. — Às vezes me pergunto se seria bom ou ruim você não se lembrar do resto, Lexi. Mas acho que isso não parece importar muito pra você desde que não afete sua vida. Que se dane o resto, né? — Ele se levantou, com o prato vazio em mãos.
Franzi o cenho, confusa com aquela súbita fala.
— Ei, o que é isso? É claro que eu quero me lembrar de você, . Já lembrei bastante, mas quero lembrar de tudo. Eu te amo e quero qualquer pedacinho seu que haja escondido na minha memória. Por que você falou isso de repente? É óbvio que você importa.
— Talvez eu não importe tanto assim quando você lembrar de tudo.
— Como assim? — Me levantei também e parei atrás dele. — , olha pra mim.
Ele não saiu do lugar. Seus ombros estavam rígidos, o corpo completamente tenso.
— Lexi, não.
— Não, o quê? Do que você não quer que eu lembre? — O puxei pelo ombro, o forçando a se virar. Havia dor e culpa em seus olhos. — Você fez alguma coisa?
— Lexi...
Dei um passo para trás, me sentindo angustiada de repente, tal como Ayla quando Dean terminou com ela. Juntei coragem e enfim perguntei o que rondava na minha mente.
— Você... Me traiu, ?
— O quê? Não! — Ele franziu o cenho, me encarando como se tivesse ouvido o maior dos absurdos. — De onde você tirou isso, Lexi?! Eu nunca te trairia.
Uma onda de alívio me atingiu e suspirei, assentindo.
— Se não é isso, então o que é?
— Lembranças ruins.
— Lembranças ruins fazem parte. Você acha mesmo que gostei de lembrar de algumas das nossas brigas? Óbvio que não, ! Mas faz parte da nossa história e de quem nós somos. Você não precisava ficar chateado. Nós estávamos bem antes do acidente. E vamos continuar bem depois que todas as minhas memórias voltarem.
— Você promete?
— Preciso prometer?
— Lexi...
— Tá, então. Prometo. — Dei um passo à frente e segurei o rosto dele entre as mãos. — Agora pare de surtar porque de gente doida aqui já basta eu. Você é a pessoa sensata dessa casa.
riu pelo nariz, sem querer. Me senti mais uma vez aliviada, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros.
— Por que você é assim? — ele perguntou, colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
— Assim como?
— Me fazendo rir no meio de uma discussão.
— Não é uma discussão, é só uma conversa. E você se esqueceu disso? — Levantei a mão direita dele e a minha própria, exibindo nossas alianças. — Não somos casados, mas você amarrou nós dois no dia em que colocou isso no meu dedo. E deu um nó bem apertado no dia que conseguiu me convencer a vir morar com você. Então pare de ser doido.
me deu um sorriso pequeno, meio tímido, então envolveu meu rosto com as mãos.
— Eu desejo que você não mude nunca, Lexi — ele murmurou, encostando a testa na minha. — E que o que temos também não mude, a não ser que seja pra nos fortalecer ainda mais, amor.
— Seu desejo é uma ordem — brinquei, ficando na ponta dos pés para selar nossos lábios em um beijo.
passou os braços ao redor da minha cintura e aprofundou o beijo com sabor de pastel de nata. O pensamento quase me fez rir. Então, de repente, como se uma luzinha tivesse se acendido acima da minha cabeça, eu lembrei de uma coisa.
Kate tinha uma amiga que lia tarô.
Talvez devêssemos fazer uma visitinha a ela.
— , o que aconteceu? Eu tava dormindo.
— Você não acordava, Lexi! — Ele me encarou, assustado. — Achei que estivesse cansada, então te deixei dormindo e fui pro estúdio. Fiquei algumas horas trancado lá e pensei que você já tivesse acordado, mas não. Eu comecei a ficar com medo porque te chamei e você não acordou. Aí você começou a chorar enquanto dormia.
— O quê? — Passei a mão no rosto, notando a pele ainda molhada.
— Imaginei que você tivesse tendo um pesadelo ou um episódio de terror noturno e não conseguia acordar, então comecei a te sacudir. Fiquei uns cinco minutos tentando e nada, eu juro que já tava pra ter um treco, Lexi. Você ficou inconsciente por dezesseis horas.
— Dezesseis? Mas... Como?
— Eu não sei. Mas me lembrou quando você tava inconsciente no hospital depois de acidente, e não foi nada legal. Não me assuste assim de novo!
Como se eu tivesse escolha, quase falei.
— Eu não faço ideia do que aconteceu.
— Você teve um pesadelo?
— Não. Nem lembro o que foi que me fez chorar — menti, sem olhar para ele.
Se me olhasse nos olhos, saberia que eu estava mentindo.
— Certo, você deve estar com fome. E tá mais do que na hora de comer, já que você pulou duas refeições.
— Que horas são?
— Quatro da tarde.
— Ah. Caramba, eu dormi mesmo. — E estava certo, eu nunca tinha passado de oito horas de sono. Normalmente eu dormia só umas seis. — Vou tomar um banho antes e escovar os dentes — anunciei, já me levantando.
No entanto, senti a visão escurecer e cambaleei, caindo sentada na cama.
— Lexi? O que foi? Tá sentindo alguma coisa?
— Foi só uma tontura, acho que levantei rápido. Também deve ser por fome também. Tô meio enjoada.
— Você deve estar com hipoglicemia. Quer que eu te ajude no banho?
— Não precisa, já tá passando.
— Tudo bem, dê um grito se precisar de ajuda, e deixe a porta aberta.
Assenti e me levantei novamente, indo até o closet para pegar algumas roupas. Ou melhor, uma calcinha e outra camisola, já que não ia sair de casa de qualquer jeito. Fui até o banheiro e resolvi usar a banheira para relaxar um pouco. Enquanto esperava ela encher, prendi o cabelo e me despi. Em seguida, observei meu próprio reflexo no espelho de corpo inteiro que tínhamos ali e notei que a marca do arranhão no meu braço estava quase desaparecendo.
Além disso, não havia nada de anormal em meu corpo. Eu me sentia levemente enjoada — provavelmente de fome — e, antes de entrar na banheira, dissolvi alguns sais de banho com fragrâncias cítricas para me ajudar com a náusea.
A água estava morna e relaxante, e eu me deixei afundar até o pescoço, encostando a cabeça na beira da banheira. Fechei os olhos por um instante, aproveitando o banho, mas devo ter adormecido outra vez, já que mais uma vez me vi parada em um estacionamento vazio, que eu não tinha ideia de onde ficava, com a coisa de olhos prateados na forma de Ayla me encarando outra vez.
— Tome cuidado — ela disse, sua voz igual à minha. — Não tente mudar o destino outra vez.
Fiz uma careta ao ouvir aquilo.
— Eu não tentei mudar o destino. Tá falando da cena que eu falei do meu namorado pro Dean? Aquela cena da gente acordando na cama nem existe no livro. Não tem como eu mudar algo que não existe.
— Você não está olhando para o lugar certo, . Você tem que lembrar daquilo que é importante.
— O quê? Do que você tá falando? — perguntei, sem entender.
O que eu tô esquecendo sobre Tenaz?
— Não é com Tenaz que você deve se preocupar, mas com você mesma. O tempo está acabando. Lembre daquilo que é importante.
— Olha, amiga, eu não faço ideia do que porra você tá falando. E não faço ideia do que coisa ou entidade você é. E eu odeio enigmas! Me explica logo o que quer dizer e para de agir feito doida!
Em um piscar de olhos, ela estava a minha frente, com uma mão em volta do meu pescoço, o apertando com força.
— Não me desrespeite, garota — sibilou, irritada. — Preste atenção nas coisas e use a cabeça para pensar. Eu não posso te dizer tudo. Você tem que descobrir sozinha. Não esqueça, , aquilo que é importante deve ser lembrado e o destino jamais ser alterado. A história vai continuar se repetindo se você não agir de forma diferente.
Travei a mandíbula, irritada também, e a empurrei para longe de mim.
— Quem você pensa que é pra me agarrar pelo pescoço, sua coisa medonha? Sai da minha cabeça e me deixa em paz! Eu tô cansada dessa merda sem sentido de terror noturno!
A coisa então riu, como se achasse realmente engraçado o que eu tinha acabado de falar. Subitamente, senti um arrepio de medo.
— Terror será o que você irá passar mais vezes se não aproveitar a chance que está sendo te dada. A história que tem sempre o mesmo final continuará a ser repetir se você não agir diferente.
— Mas que porra?! Você me disse pra não agir diferente e agora tá me dizendo pra agir? Eu segui o roteiro de Tenaz, as cenas que tinham que acontecer já aconteceram!
— Há mais de uma realidade com que você deve se preocupar. Faça aquilo que precisa ser feito. Existe mais de um roteiro, mas o final que realmente importa pode ser diferente a depender das suas escolhas. O destino não pode ser mudado, mas o seu final sim.
Então eu acordei, ainda no banheiro. Considerando que ainda não tinha aparecido surtando, supus que dormi por uns cinco minutos. Eu não fazia ideia de por que estava com tanto sono, mas me recusava a dormir outra vez. Joguei água no rosto e terminei de me banhar.
Quando eu estava trocando de roupa, bateu na porta, mas não entrou.
— Lexi, a comida chegou. Você tá bem?
— Sim, quase acabando.
Terminei de me vestir e me perfumei um pouco antes de sair, agora não mais enjoada ou tonta. Viva as fragrâncias cítricas. Eu havia aprendido aquele truque com Kate. Durante a faculdade, uma professora ensinou essa dica à turma dela, muito usada para ajudar gestantes com enjoos matinais. Mas a própria Kate usava para qualquer ocasião em que ficasse enjoada, e acabei fazendo o mesmo quando percebi que funcionava.
Saí do banheiro e encontrei na cozinha, tirando embalagens de comidinhas de padaria, além de um banquete coreano que me deu água na boca assim que vi. No entanto, ainda não era hora do jantar, então me contentei em fazer um lanche, por ora.
Tentei não pensar muito no que aquela pseudo Ayla — ou o que quer que fosse aquela coisa — falou, mas não teve muito jeito. Nem mesmo os pastéis de nata que tinha comprado me distraíram daquele enigma idiota. E eu odiava enigmas por um único motivo: eles não saíam da minha cabeça enquanto não fossem resolvidos.
Tipo quando eu aprendi a montar um cubo mágico. Não sosseguei enquanto não decorei todas as etapas e eu até tinha um em algum lugar, que montava e desmontava ocasionalmente quando precisava pensar em alguma coisa.
Talvez eu devesse retomar esse hábito para tentar pensar melhor no que a coisa tinha me dito.
Se eu fosse a protagonista de um livro, o que eu faria?
Eu tinha lido alguns livros e assistido a alguns doramas com universos paralelos e volta no tempo, mas parecia que nenhuma informação acumulada dessas obras estava me ajudando. Eu não estava presa em um universo diferente, ao menos achava que não. Isso até dormir por dezesseis horas seguidas sendo que nem houve muito acontecimento em Tenaz, o que me levava a acreditar que eu talvez tivesse sonhado com outra coisa da qual não estava lembrando.
Era como se tivesse alguma coisa faltando.
No entanto, esse sentimento não era desconhecido por mim desde o acidente. A sensação de algo esquecido me perseguia diariamente pelo fato de eu realmente não lembrar de várias coisas importantes. Mas será que a coisa em forma de Ayla se referia a isso? Pelo modo como falava, fazia parecer que eu estava tentando mudar a história e brigava comigo, mas então me falava para fazer exatamente isso? Eu não estava entendendo mais nada.
Que destino era esse que ela tanto falava? E o final?
Se era em relação a Tenaz, eu não conseguia compreender a que ela se referia, e se era em relação a mim, então, muito menos. Eu nem sabia porque aquilo andava acontecendo desde o acidente e, cientificamente falando, poderia muito bem ser algum tipo de delírio, mas tudo parecia real demais. Além disso, não era como se eu tivesse tendo comportamentos estranhos, ao menos não quando estava acordada.
Eu era só uma mulher normal, com uma vida normal, tirando o fato de namorar meu cantor favorito há três anos. era a única coisa fora da caixinha da minha vida, e junto com o meu trabalho, a mais constante.
Mas eu era só uma mulher de vinte e oito anos com amnésia temporária e viciada em livros. Não havia nada de especial em mim, então como eu ia descobrir do que diabos aquela doida tava falando?
Suspirei, meio irritada, o que chamou a atenção de , que ainda saboreava um pastelzinho de nata ao meu lado.
— O que houve? Tá sentindo alguma coisa?
— Nada, só irritada com uma coisa.
— O quê?
— Não lembrar do que eu preciso lembrar. Seja lá o que for isso. Sonhei com alguém falando isso pra mim.
— E quem te disse isso no sonho?
— Hmm... Ela tinha a aparência de Ayla. Mas foi só um sonho idiota. — Dei de ombros, tentando não dar muita importância. Ou fazer com que ele achasse isso, mas a expressão no rosto de era completamente séria, então acabei cedendo após um suspiro resignado. — Ela falou algo sobre destino. Que não posso mudar ele, mas posso mudar o final. Não faço ideia do que seja.
— Tem certeza de que tá bem, Lexi?
— Perfeitamente. Você não precisa me tratar como se eu fosse de cristal, . Eu não tô mentalmente doente só porque a pancada na cabeça me deu amnésia seletiva.
Ou pelo menos era o que eu esperava.
— Cuja única seleção fui eu — ele lembrou, magoado. — Às vezes me pergunto se seria bom ou ruim você não se lembrar do resto, Lexi. Mas acho que isso não parece importar muito pra você desde que não afete sua vida. Que se dane o resto, né? — Ele se levantou, com o prato vazio em mãos.
Franzi o cenho, confusa com aquela súbita fala.
— Ei, o que é isso? É claro que eu quero me lembrar de você, . Já lembrei bastante, mas quero lembrar de tudo. Eu te amo e quero qualquer pedacinho seu que haja escondido na minha memória. Por que você falou isso de repente? É óbvio que você importa.
— Talvez eu não importe tanto assim quando você lembrar de tudo.
— Como assim? — Me levantei também e parei atrás dele. — , olha pra mim.
Ele não saiu do lugar. Seus ombros estavam rígidos, o corpo completamente tenso.
— Lexi, não.
— Não, o quê? Do que você não quer que eu lembre? — O puxei pelo ombro, o forçando a se virar. Havia dor e culpa em seus olhos. — Você fez alguma coisa?
— Lexi...
Dei um passo para trás, me sentindo angustiada de repente, tal como Ayla quando Dean terminou com ela. Juntei coragem e enfim perguntei o que rondava na minha mente.
— Você... Me traiu, ?
— O quê? Não! — Ele franziu o cenho, me encarando como se tivesse ouvido o maior dos absurdos. — De onde você tirou isso, Lexi?! Eu nunca te trairia.
Uma onda de alívio me atingiu e suspirei, assentindo.
— Se não é isso, então o que é?
— Lembranças ruins.
— Lembranças ruins fazem parte. Você acha mesmo que gostei de lembrar de algumas das nossas brigas? Óbvio que não, ! Mas faz parte da nossa história e de quem nós somos. Você não precisava ficar chateado. Nós estávamos bem antes do acidente. E vamos continuar bem depois que todas as minhas memórias voltarem.
— Você promete?
— Preciso prometer?
— Lexi...
— Tá, então. Prometo. — Dei um passo à frente e segurei o rosto dele entre as mãos. — Agora pare de surtar porque de gente doida aqui já basta eu. Você é a pessoa sensata dessa casa.
riu pelo nariz, sem querer. Me senti mais uma vez aliviada, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros.
— Por que você é assim? — ele perguntou, colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
— Assim como?
— Me fazendo rir no meio de uma discussão.
— Não é uma discussão, é só uma conversa. E você se esqueceu disso? — Levantei a mão direita dele e a minha própria, exibindo nossas alianças. — Não somos casados, mas você amarrou nós dois no dia em que colocou isso no meu dedo. E deu um nó bem apertado no dia que conseguiu me convencer a vir morar com você. Então pare de ser doido.
me deu um sorriso pequeno, meio tímido, então envolveu meu rosto com as mãos.
— Eu desejo que você não mude nunca, Lexi — ele murmurou, encostando a testa na minha. — E que o que temos também não mude, a não ser que seja pra nos fortalecer ainda mais, amor.
— Seu desejo é uma ordem — brinquei, ficando na ponta dos pés para selar nossos lábios em um beijo.
passou os braços ao redor da minha cintura e aprofundou o beijo com sabor de pastel de nata. O pensamento quase me fez rir. Então, de repente, como se uma luzinha tivesse se acendido acima da minha cabeça, eu lembrei de uma coisa.
Kate tinha uma amiga que lia tarô.
Talvez devêssemos fazer uma visitinha a ela.
Capítulo 23
Três dias depois, eu estava me preparando para sair com Kate e para uma visitinha a uma taróloga/xamã que atendia em Korea Town, quando perguntou:
— Aonde vocês vão mesmo?
— Ter um compromisso de meninas. Faz um tempo que saímos e hoje é a folga de , então Kate e eu vamos arrastá-la também.
Ele não precisava saber sobre o tarô. Não era como se eu tivesse garantia de que fosse me ajudar com alguma coisa, mas não custava tentar.
— Tipo um dia de SPA? — ele tentou adivinhar. — Vocês deviam ter um pra relaxar um pouco, eu pago.
— Que gentileza, e agradeço. Mas hoje não. Vamos fazer uma visitinha em Korea Town. Kate quer dar uma olhada em umas coisas pro próximo livro — falei, enquanto guardava o celular na bolsa. — Ela vai passar aqui pra me pegar e vamos encontrar lá, então não se preocupe.
— Tá, tudo bem. Me avisa se precisar de alguma coisa. Vou trabalhar um pouco enquanto isso.
É claro que vai. Quando não precisava sair de casa e tinha tempo livre, o gastava se enfurnando no estúdio quando eu também estava trabalhando.
— Tá bom. Até logo. — Me despedi dele com um beijo.
Minutos depois, entrei no carro de Kate. Ela usava um óculos escuro chique de armação quadrada e seu cabelo castanho com mechas coloridas em rosa pastel estava levemente ondulado.
Como escritora, Kate mal saía de casa, a não ser que tivesse algum compromisso. Então se arrumava sempre que podia para gastar as roupas que comprava impulsivamente às vezes. E ser uma pessoa pública e esposa de um astro do rock super conhecido também era mais um motivo para se manter apresentável. Ela nunca sabia quando podia encontrar leitores ou algum paparazzi por aí, mas, no segundo caso, felizmente não acontecia muito quando ela estava sozinha.
Naquele dia, ela tinha escolhido um vestido midi floral branco de alcinha que ia até sua panturrilha e, nos pés, uma sandália simples de tiras, sem salto.
Eu havia me contentado com um short jeans azul e uma camiseta cropped branca bem básica da Double K, e um par de All Star vermelho. A única coisa que passei na cara foi um lip tint, que ainda usei de blush e sombra.
— Caramba, quanta arrumação. Vai a uma festa? — brinquei, assim que a vi.
— E você? Planeja turistar em Korea Town? Você penteou o cabelo hoje, ?
— Ainda não. — Pisquei os olhos, batendo os cílios exageradamente, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Eu o tinha prendido em um coque com um elástico e estava mais que suficiente. — Mas ninguém vai reparar em mim quando você tá vestida assim, que nem menininha.
Kate sorriu e balançou a cabeça, finalmente dando a partida no carro.
— Korea Town, aí vamos nós.
***
Encontramos algum tempo depois, do lado de fora do estúdio da Xamã.
— Tem certeza de que não era a Ayla? — Kate perguntou. — Você não assistiu nada que fizesse o seu subconsciente criar essas imagens?
— A menos que a Ayla seja secretamente uma entidade bizarra de olhos prateados, sim. Tenho certeza, Kate. E não, não assisti nada. Mas como eu disse antes, não faço ideia do que ela tava falando, então a intenção é que essa mulher nos ajude a descobrir.
— E se ela for uma charlatã? — perguntou. — Você vai só gastar seu dinheiro à toa.
— É isso ou quebrar a cabeça sozinha. E eu sei que vocês não acreditam cem por cento no que falei e acham que esses sonhos são só um reflexo do meu acidente, mas obrigada por me acompanharem mesmo assim.
— Você sabe que eu acredito nessas coisas também — as duas falaram ao mesmo tempo e se encararam, surpresas.
— Perfeito. — Sorri e puxei as duas para entrarmos no estúdio.
O lugar era relativamente simples, mas moderno e acolhedor. Uma atendente que não devia ter mais que vinte anos confirmou nosso agendamento e pediu para que aguardássemos na sala de espera por alguns minutos.
— Tem certeza de que ela é boa, Kate? Onde você disse que a conheceu mesmo? — perguntou.
— Ela é uma leitora — Kate disse. — Me deu o cartão durante uma sessão de autógrafos e me ofereceu uma leitura grátis, mas eu nunca vim aqui antes.
— E eu achando que vocês já eram amiguinhas — comentei. — Tomara que ela seja boa mesmo.
Menos de cinco minutos depois, a atendente voltou e nos guiou até a salinha onde a taróloga/xamã atendia. Seu nome era Sujin e ela tinha um longo cabelo vermelho, um pouco mais claro que o meu. O estúdio parecia com um daqueles que se vê em doramas coreanos, mas ela não estava vestida com roupas tradicionais.
Na verdade, Sujin estava vestida casualmente, como nós, e não devia ter mais que trinta anos. Ela abriu um sorriso para Kate assim que a viu.
— Olá, meu nome é Sujin, sejam bem-vindas. Fleur, é bom te ver aqui. — Ela disse à Kate, chamando-a pelo pseudônimo. — Quem vai fazer a leitura primeiro?
— Na verdade, só ela. — Kate apontou para mim. — Essa é minha agente, , e ela veio aqui para uma leitura de tarô porque anda tendo uns sonhos estranhos com algum tipo de entidade.
— Entidade, é? — Sujin me encarou, curiosa. — Me conte mais sobre isso.
Respirei fundo e detalhei o mesmo que contei para Kate e quando decidi que queria procurar a taróloga. Sujin ouviu em silêncio, assentindo algumas vezes e, quando acabei, ela começou a embaralhar as cartas.
— Pelo que você me disse, talvez esteja enfrentando algum tipo de karma. Algo que vem se repetindo por várias vidas. O espírito está tentando te orientar a fazer o certo.
— Aquela coisa assustadora e temperamental?
— Alguns espíritos são impacientes. Mas vamos ver o que as cartas dizem. Aqui, se concentre na sua pergunta e escolha três cartas usando a mão direita. — Ela abriu o baralho em um leque em cima da mesa.
— O que eu tenho que descobrir? Quero saber se aquele espírito falou de algum karma e que karma é esse.
Retirei as cartas, sem a mínima noção se estava fazendo algo certo, mas acho que estava tudo bem, já que Sujin não disse nada. Ela virou as cartas escolhidas e as analisou por um instante.
— Parece mesmo um karma. Há uma maldição que te persegue. Meus espíritos guias me dizem que esse ciclo vem se repetindo há muito tempo.
— Uma maldição? Que tipo de maldição? — perguntei, trocando um olhar com Kate e minha irmã, que também pareciam surpresas.
Sujin puxou mais uma carta do baralho.
— Aparentemente, você foi feliz por muitas vezes, mas em todas as suas vidas, essa felicidade foi arrancada de você. Havia um homem envolvido. — Ela puxou outra carta e fechou os olhos por alguns segundos, antes de continuar. Provavelmente ouvindo os tais espíritos guias. — Um homem comprometido se apaixonou por você e você por ele. Ele era um cliente.
— Um cliente de quê? — perguntei, confusa.
— Seu. Meus espíritos sugerem que você era uma cortesã e vocês já se conheciam antes do casamento dele. Um casamento arranjado desde a infância, com uma mulher que ele nunca amou ou dividiu a cama. A maldição foi jogada por uma esposa enraivecida, cheia de despeito pelo orgulho ferido. Por sua causa, ela nunca teve o marido que queria e sonhava.
— Mas o que é essa maldição? E continua acontecendo? Como eu quebro isso? Era sobre isso que a coisa do meu sonho falava?
— Um momento — Sujin pediu, levantando a mão.
— Certo — respondi, meio inquieta.
De olhos fechados, seu braço pairou sobre as cartas e ela escolheu uma. Então abriu os olhos e, olhando para frente, ela continuou:
— Um casal apaixonado foi amaldiçoado por uma esposa magoada. Havia uma criança que não vingou, sua e dele. Ela foi morta antes de ter a chance de viver. Lembranças foram esquecidas, e a mulher que rogou a maldição disse que não importa quantas vezes você e ele se encontrassem, a morte os perseguiria de um jeito ou de outro, acabando com toda a felicidade — ela disse, me fazendo arrepiar a cada palavra. — Para que a maldição seja quebrada, escolhas devem ser feitas. Você deve enfrentar seus próprios demônios, aceitar o que aconteceu e quem você é. Lembrar do que é preciso, escolher o que é preciso. Até o seu lado obscuro pode brilhar desde que você aceite a realidade. Suas escolhas influenciam no resultado final. Há um destino selado, mas a maldição o atrapalha. Faça escolhas sábias. Uma vez que você aceite, aquilo que é pra ser, será, como o universo declarou antes da maldição ser instalada.
Sujin então piscou e seus olhos ganharam foco mais uma vez. Eu sentia os olhos ardendo enquanto ainda absorvia cada palavra. Eu estava em choque, ainda um pouco confusa, e definitivamente nem um pouco menos inquieta.
— Meu namorado atual é esse homem? — perguntei, com a voz falha, e senti Kate e segurarem minhas mãos.
— Sim, ao que tudo indica. Você é feliz com ele, mas uma catástrofe aconteceu e outra pode acontecer se você não escolher bem.
— Eu sofri um acidente há pouco mais de um mês. Perdi minhas lembranças dele. Recuperei algumas, mas não tudo.
Era muita coisa batendo para ser uma simples coincidência. Fiquei assustada e, aparentemente, Kate e também, a julgar pelas expressões em seus rostos enquanto ouviam as palavras da Xamã.
— Pode ser um sinal de que está acontecendo novamente — Sujin respondeu. — Essa mulher provavelmente reencarnou também para fazer mal a vocês dois. Diferente de vocês, a identidade dela é obscura. Não consigo ver se é homem ou mulher, mas ela já te provocou mal. Talvez no acidente.
— Um cara me atropelou e fugiu. Você acha que pode ser a reencarnação dessa mulher?
— Talvez. Ela pode escolher não agir com as próprias mãos também. É só isso que consigo te dizer — Sujin concluiu. — Te desejo sabedoria para enfrentar as dificuldades, . A entidade estava falando de você também, e não apenas do livro.
Saímos de lá alguns minutos depois e, embora eu parecesse tranquila por fora, eu estava um caco por dentro. Kate e também estavam sérias e pensativas e não conversamos muito até chegarmos ao restaurante que escolhemos para almoçar.
— Você sabe que pode contar com a gente, não é, ? — Minha irmã perguntou, colocando uma mão no meu ombro.
— Conte tudo pra gente, inclusive se você sonhar de novo com a Ayla macabra — Kate acrescentou. — Eu sei que você não quer contar essas coisas pro pra ele não surtar, mas nós podemos te ouvir. E vamos torcer para que tudo dê certo. E que você se lembre do que precisa.
Sim, de novo aquela frase. Lembrar do que eu preciso. Mesmo sem ter ideia do quê.
Suspirei, me sentindo emocionalmente cansada. Sempre me perguntei se merecia a felicidade que tinha. O namorado dos sonhos, o emprego dos sonhos, até a conta bancária dos sonhos... Mas a possibilidade de ter essa felicidade arrancada de mim me apavorava.
Secretamente, orei por proteção, sabedoria e entendimento. Eu não tinha nenhuma religião, mas acreditava em Deus e pedi silenciosamente para que Ele me guiasse pelo caminho certo.
Que assim fosse.
— Aonde vocês vão mesmo?
— Ter um compromisso de meninas. Faz um tempo que saímos e hoje é a folga de , então Kate e eu vamos arrastá-la também.
Ele não precisava saber sobre o tarô. Não era como se eu tivesse garantia de que fosse me ajudar com alguma coisa, mas não custava tentar.
— Tipo um dia de SPA? — ele tentou adivinhar. — Vocês deviam ter um pra relaxar um pouco, eu pago.
— Que gentileza, e agradeço. Mas hoje não. Vamos fazer uma visitinha em Korea Town. Kate quer dar uma olhada em umas coisas pro próximo livro — falei, enquanto guardava o celular na bolsa. — Ela vai passar aqui pra me pegar e vamos encontrar lá, então não se preocupe.
— Tá, tudo bem. Me avisa se precisar de alguma coisa. Vou trabalhar um pouco enquanto isso.
É claro que vai. Quando não precisava sair de casa e tinha tempo livre, o gastava se enfurnando no estúdio quando eu também estava trabalhando.
— Tá bom. Até logo. — Me despedi dele com um beijo.
Minutos depois, entrei no carro de Kate. Ela usava um óculos escuro chique de armação quadrada e seu cabelo castanho com mechas coloridas em rosa pastel estava levemente ondulado.
Como escritora, Kate mal saía de casa, a não ser que tivesse algum compromisso. Então se arrumava sempre que podia para gastar as roupas que comprava impulsivamente às vezes. E ser uma pessoa pública e esposa de um astro do rock super conhecido também era mais um motivo para se manter apresentável. Ela nunca sabia quando podia encontrar leitores ou algum paparazzi por aí, mas, no segundo caso, felizmente não acontecia muito quando ela estava sozinha.
Naquele dia, ela tinha escolhido um vestido midi floral branco de alcinha que ia até sua panturrilha e, nos pés, uma sandália simples de tiras, sem salto.
Eu havia me contentado com um short jeans azul e uma camiseta cropped branca bem básica da Double K, e um par de All Star vermelho. A única coisa que passei na cara foi um lip tint, que ainda usei de blush e sombra.
— Caramba, quanta arrumação. Vai a uma festa? — brinquei, assim que a vi.
— E você? Planeja turistar em Korea Town? Você penteou o cabelo hoje, ?
— Ainda não. — Pisquei os olhos, batendo os cílios exageradamente, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Eu o tinha prendido em um coque com um elástico e estava mais que suficiente. — Mas ninguém vai reparar em mim quando você tá vestida assim, que nem menininha.
Kate sorriu e balançou a cabeça, finalmente dando a partida no carro.
— Korea Town, aí vamos nós.
Encontramos algum tempo depois, do lado de fora do estúdio da Xamã.
— Tem certeza de que não era a Ayla? — Kate perguntou. — Você não assistiu nada que fizesse o seu subconsciente criar essas imagens?
— A menos que a Ayla seja secretamente uma entidade bizarra de olhos prateados, sim. Tenho certeza, Kate. E não, não assisti nada. Mas como eu disse antes, não faço ideia do que ela tava falando, então a intenção é que essa mulher nos ajude a descobrir.
— E se ela for uma charlatã? — perguntou. — Você vai só gastar seu dinheiro à toa.
— É isso ou quebrar a cabeça sozinha. E eu sei que vocês não acreditam cem por cento no que falei e acham que esses sonhos são só um reflexo do meu acidente, mas obrigada por me acompanharem mesmo assim.
— Você sabe que eu acredito nessas coisas também — as duas falaram ao mesmo tempo e se encararam, surpresas.
— Perfeito. — Sorri e puxei as duas para entrarmos no estúdio.
O lugar era relativamente simples, mas moderno e acolhedor. Uma atendente que não devia ter mais que vinte anos confirmou nosso agendamento e pediu para que aguardássemos na sala de espera por alguns minutos.
— Tem certeza de que ela é boa, Kate? Onde você disse que a conheceu mesmo? — perguntou.
— Ela é uma leitora — Kate disse. — Me deu o cartão durante uma sessão de autógrafos e me ofereceu uma leitura grátis, mas eu nunca vim aqui antes.
— E eu achando que vocês já eram amiguinhas — comentei. — Tomara que ela seja boa mesmo.
Menos de cinco minutos depois, a atendente voltou e nos guiou até a salinha onde a taróloga/xamã atendia. Seu nome era Sujin e ela tinha um longo cabelo vermelho, um pouco mais claro que o meu. O estúdio parecia com um daqueles que se vê em doramas coreanos, mas ela não estava vestida com roupas tradicionais.
Na verdade, Sujin estava vestida casualmente, como nós, e não devia ter mais que trinta anos. Ela abriu um sorriso para Kate assim que a viu.
— Olá, meu nome é Sujin, sejam bem-vindas. Fleur, é bom te ver aqui. — Ela disse à Kate, chamando-a pelo pseudônimo. — Quem vai fazer a leitura primeiro?
— Na verdade, só ela. — Kate apontou para mim. — Essa é minha agente, , e ela veio aqui para uma leitura de tarô porque anda tendo uns sonhos estranhos com algum tipo de entidade.
— Entidade, é? — Sujin me encarou, curiosa. — Me conte mais sobre isso.
Respirei fundo e detalhei o mesmo que contei para Kate e quando decidi que queria procurar a taróloga. Sujin ouviu em silêncio, assentindo algumas vezes e, quando acabei, ela começou a embaralhar as cartas.
— Pelo que você me disse, talvez esteja enfrentando algum tipo de karma. Algo que vem se repetindo por várias vidas. O espírito está tentando te orientar a fazer o certo.
— Aquela coisa assustadora e temperamental?
— Alguns espíritos são impacientes. Mas vamos ver o que as cartas dizem. Aqui, se concentre na sua pergunta e escolha três cartas usando a mão direita. — Ela abriu o baralho em um leque em cima da mesa.
— O que eu tenho que descobrir? Quero saber se aquele espírito falou de algum karma e que karma é esse.
Retirei as cartas, sem a mínima noção se estava fazendo algo certo, mas acho que estava tudo bem, já que Sujin não disse nada. Ela virou as cartas escolhidas e as analisou por um instante.
— Parece mesmo um karma. Há uma maldição que te persegue. Meus espíritos guias me dizem que esse ciclo vem se repetindo há muito tempo.
— Uma maldição? Que tipo de maldição? — perguntei, trocando um olhar com Kate e minha irmã, que também pareciam surpresas.
Sujin puxou mais uma carta do baralho.
— Aparentemente, você foi feliz por muitas vezes, mas em todas as suas vidas, essa felicidade foi arrancada de você. Havia um homem envolvido. — Ela puxou outra carta e fechou os olhos por alguns segundos, antes de continuar. Provavelmente ouvindo os tais espíritos guias. — Um homem comprometido se apaixonou por você e você por ele. Ele era um cliente.
— Um cliente de quê? — perguntei, confusa.
— Seu. Meus espíritos sugerem que você era uma cortesã e vocês já se conheciam antes do casamento dele. Um casamento arranjado desde a infância, com uma mulher que ele nunca amou ou dividiu a cama. A maldição foi jogada por uma esposa enraivecida, cheia de despeito pelo orgulho ferido. Por sua causa, ela nunca teve o marido que queria e sonhava.
— Mas o que é essa maldição? E continua acontecendo? Como eu quebro isso? Era sobre isso que a coisa do meu sonho falava?
— Um momento — Sujin pediu, levantando a mão.
— Certo — respondi, meio inquieta.
De olhos fechados, seu braço pairou sobre as cartas e ela escolheu uma. Então abriu os olhos e, olhando para frente, ela continuou:
— Um casal apaixonado foi amaldiçoado por uma esposa magoada. Havia uma criança que não vingou, sua e dele. Ela foi morta antes de ter a chance de viver. Lembranças foram esquecidas, e a mulher que rogou a maldição disse que não importa quantas vezes você e ele se encontrassem, a morte os perseguiria de um jeito ou de outro, acabando com toda a felicidade — ela disse, me fazendo arrepiar a cada palavra. — Para que a maldição seja quebrada, escolhas devem ser feitas. Você deve enfrentar seus próprios demônios, aceitar o que aconteceu e quem você é. Lembrar do que é preciso, escolher o que é preciso. Até o seu lado obscuro pode brilhar desde que você aceite a realidade. Suas escolhas influenciam no resultado final. Há um destino selado, mas a maldição o atrapalha. Faça escolhas sábias. Uma vez que você aceite, aquilo que é pra ser, será, como o universo declarou antes da maldição ser instalada.
Sujin então piscou e seus olhos ganharam foco mais uma vez. Eu sentia os olhos ardendo enquanto ainda absorvia cada palavra. Eu estava em choque, ainda um pouco confusa, e definitivamente nem um pouco menos inquieta.
— Meu namorado atual é esse homem? — perguntei, com a voz falha, e senti Kate e segurarem minhas mãos.
— Sim, ao que tudo indica. Você é feliz com ele, mas uma catástrofe aconteceu e outra pode acontecer se você não escolher bem.
— Eu sofri um acidente há pouco mais de um mês. Perdi minhas lembranças dele. Recuperei algumas, mas não tudo.
Era muita coisa batendo para ser uma simples coincidência. Fiquei assustada e, aparentemente, Kate e também, a julgar pelas expressões em seus rostos enquanto ouviam as palavras da Xamã.
— Pode ser um sinal de que está acontecendo novamente — Sujin respondeu. — Essa mulher provavelmente reencarnou também para fazer mal a vocês dois. Diferente de vocês, a identidade dela é obscura. Não consigo ver se é homem ou mulher, mas ela já te provocou mal. Talvez no acidente.
— Um cara me atropelou e fugiu. Você acha que pode ser a reencarnação dessa mulher?
— Talvez. Ela pode escolher não agir com as próprias mãos também. É só isso que consigo te dizer — Sujin concluiu. — Te desejo sabedoria para enfrentar as dificuldades, . A entidade estava falando de você também, e não apenas do livro.
Saímos de lá alguns minutos depois e, embora eu parecesse tranquila por fora, eu estava um caco por dentro. Kate e também estavam sérias e pensativas e não conversamos muito até chegarmos ao restaurante que escolhemos para almoçar.
— Você sabe que pode contar com a gente, não é, ? — Minha irmã perguntou, colocando uma mão no meu ombro.
— Conte tudo pra gente, inclusive se você sonhar de novo com a Ayla macabra — Kate acrescentou. — Eu sei que você não quer contar essas coisas pro pra ele não surtar, mas nós podemos te ouvir. E vamos torcer para que tudo dê certo. E que você se lembre do que precisa.
Sim, de novo aquela frase. Lembrar do que eu preciso. Mesmo sem ter ideia do quê.
Suspirei, me sentindo emocionalmente cansada. Sempre me perguntei se merecia a felicidade que tinha. O namorado dos sonhos, o emprego dos sonhos, até a conta bancária dos sonhos... Mas a possibilidade de ter essa felicidade arrancada de mim me apavorava.
Secretamente, orei por proteção, sabedoria e entendimento. Eu não tinha nenhuma religião, mas acreditava em Deus e pedi silenciosamente para que Ele me guiasse pelo caminho certo.
Que assim fosse.
Capítulo 24
Depois de um almoço entre amigas, consegui esquecer um pouquinho do meu surto interno ao ficar distraída com conversas aleatórias sobre o cara que estava saindo — ainda o loiro bonitão chamado Garrett. Algumas papilas gustativas destruídas pela comida apimentada do restaurante também me ajudaram a tirar o foco da maldição para "eu deveria estar fazendo isso com meu próprio estômago?", enquanto cogitava se uma tigela de Jjamppong em pleno almoço de quarta-feira tinha sido uma boa ideia.
Quem almoçava sopa?
Ah, é. Pelo visto, eu.
Depois do almoço, nos separamos e voltei para casa sozinha de táxi, cogitando durante todo o caminho se eu deveria apenas voltar ao trabalho para me distrair. Quando entrei em casa, tudo estava em perfeito silêncio, então supus que provavelmente ainda estava trancado no estúdio.
Enviei uma mensagem para ele avisando que estava em casa e me certificando se ele tinha se alimentado, e recebi uma resposta positiva pouco depois. Me livrei dos tênis no meu closet e andei descalça até o escritório.
Liguei o computador e acessei minha agenda virtual. Não tinha o que fazer naquele dia, já que eu tinha adiantado o trabalho no dia anterior para tirar folga, mas mesmo assim me vi encarando a planilha quadriculada e rolei as páginas aleatoriamente olhando o que eu tinha anotado antes do acidente.
Havia uma parte cheia de estrelinhas na data do meu aniversário de três anos com e, antes disso, várias coisinhas que eu estava planejando em relação à data, como o que vestir, quando lembrar de fazer uma reserva no restaurante, entre outros.
Também descobri que alguns dias antes de voltar de viagem tive uma consulta com a minha ginecologista. Franzi o cenho, sem lembrar daquilo. Imaginei que fosse alguma coisa relacionada ao anticoncepcional que eu estava tomando ou, não sei, algum efeito colateral que tivesse me assustado. Não era incomum eu aparecer no consultório da Dra. Maria, mas o fato de não lembrar me levava a crer que tinha alguma relação com meu controle de natalidade, já que acordei no hospital achando que estava solteira e descobri que tinha um relacionamento de três anos cujas lembranças se apagaram da minha memória.
Cliquei na anotação da consulta para saber se tinha detalhes e umas letrinhas pequenas e completamente assustadoras chamaram minha atenção.
"Suspender anticoncepcional e retornar após um mês, fazer exames na clínica antes disso".
Gelei no mesmo instante. Eu achava que estava tomando anticoncepcional injetável. Que tinha sido renovado antes do acidente. Eu até tive sangramentos de escape e menstruei, então… Espera, eu menstruei. Isso só podia ser um bom sinal, certo? Sorri, aliviada, mas então enrijeci de novo, lembrando do que e eu tínhamos feito na última sexta-feira, em cima da minha mesa.
Pouco depois da menstruação acabar. Imediatamente procurei o aplicativo que usava para marcar meu período menstrual e rezei para que não tivesse no período fértil. Eu achava que as chances de engravidar após a menstruação eram baixas, mas àquela altura eu já não confiava mais na minha própria mente. E havia uma consulta marcada para o mês passado que eu perdi porque não fazia ideia disso.
Também nem liguei em checar nada de diferente na agenda sendo que eu nem estava trabalhando. Logo, sabia que não tinha nenhum compromisso. Até porque eu lembraria, se tivesse. Se eu soubesse que tinha um namorado, pelo menos. Aposto que não fazia ideia disso e estávamos os dois transando feito coelhos sem nenhuma proteção.
Chequei no aplicativo e confirmei que minha teoria estava certa, havia uma baixa chance de gravidez. Relaxei um pouquinho, mas não o suficiente para ficar totalmente tranquila. Dizia que era uma baixa chance e não chance nenhuma. Eu tinha que voltar na ginecologista logo para resolver isso. Já não bastava o lance da tal maldição que me perseguia, agora eu tinha que me preocupar com a possibilidade de ser mãe.
Fazendo uma rápida pesquisa, descobri que testes de gravidez normalmente funcionam entre o sétimo e décimo dia da provável concepção. Fazia cinco dias desde a minha última vez com .
Merda. Eu tinha que fazer um teste.
Só por desencargo de consciência.
De todo jeito, assim como o lance da maldição, resolvi manter aquilo para mim mesma e encomendei um teste em uma farmácia próxima. Com sorte, ainda estaria no estúdio quando chegasse. Pedi mais um remédio para enxaqueca só para disfarçar, caso ele perguntasse o que eu tinha comprado.
Eu esconderia o teste no meu closet e o faria assim que estivesse na data correta. E então voltaria à ginecologista para pedir meu anticoncepcional de volta porque eu não me sentia nem um pouco pronta para ser mãe. e eu nunca tínhamos mencionado filhos, ao menos não depois do acidente, e em nenhuma das lembranças que tive sobre nós. O acidente bagunçou tudo e agora eu tinha mais esse abacaxi para lidar.
Era só o que me faltava.
Ri, sem humor, e comecei a cutucar minhas gavetas em busca de uma receita ou algo do tipo sobre os tais exames mencionados na agenda que eu deveria fazer, mas tudo o que encontrei foi um cubo mágico todo bagunçado e o bloquinho de papel onde eu tinha anotado que deveria arrumar meu closet.
Bem, quando o teste chegasse, eu poderia usar isso como desculpa.
E aproveitaria para cutucar algumas bolsas para ver se a solicitação de exames estava em algum lugar. E marcar uma nova consulta. Mas, por ora, tudo o que fiz foi pegar o cubo mágico bagunçado e começar a resolvê-lo numa tentativa de esvaziar a mente.
Deu certo.
Logo que comecei a fazer os movimentos que decorei anos antes e agora eram simplesmente automáticos, me senti um pouquinho mais leve. Sempre que eu montava um cubo, eu entrava em hiperfoco. Minha mente começava a viajar, tendo pensamentos de várias das coisas mais aleatórias possíveis.
Eu deveria fazer assim pra chegar no passo dois. Tenho que fechar o amarelo, em seguida.
E se eu fizesse banoffee nesse final de semana? Na verdade, eu poderia fazer hoje mesmo, deu vontade de comer banoffee depois que passei em frente àquele café coreano cheio de sobremesas bonitinhas.
Talvez esteja criando o próximo masterpiece de sua carreira nesse exato momento.
E se o último livro da Kate terminasse de um jeito totalmente inesperado? Protagonistas fujões, talvez? O cara já era fujão.
Acho que vou comer iogurte com granola de lanche da tarde. Talvez colocar no YouTube e assistir vídeos de músicas aleatórias.
A Cave Panthers não ia lançar um clipe novo esse mês?
Como será que posso desfazer a maldição que àquela taróloga falou? Que decisão preciso tomar? O que preciso lembrar?
Franzi o cenho, percebendo o rumo que meus pensamentos estavam tomando outra vez, já perto de finalizar a montagem do cubo.
Por que ela mencionou a morte nos perseguindo? Será que tem a ver com o meu acidente? Eu deveria ter morrido?
E se acontecesse algo de novo? Será que eu morreria dessa vez?
Senti o coração acelerar com a possibilidade de algo ruim acontecer, mas tentei convencer a mim mesma de que sofrer por algo que nem se concretizou não adiantaria de nada.
Eu tinha que me concentrar no agora e tentar lembrar da tal coisa importante.
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem, mas me controlei para não chorar. Eu não estava nem mesmo de TPM, e perceberia que havia algo me incomodando se me visse de olhos vermelhos.
Depois de alguns instantes, a campainha tocou e corri para atender. Era o entregador da farmácia. Dei uma boa gorjeta a ele por ter que fazê-lo subir até ali e tirei rapidamente a caixa de remédio para enxaqueca da sacola, antes de correr com ela direto para o meu closet.
Ouvi a porta do estúdio abrir no instante que entrei no quarto e apressei o passo.
— ? — me chamou e fiquei nervosa. Achei um nicho largo de casacos de inverno e os levantei com uma mão para enfiar a sacola ali, quando senti algo.
Uma caixa. Franzi o cenho, sem entender porque tinha uma caixa ali, e enfiei a sacola no lugar, ao mesmo tempo que puxei a caixa. Era branca, de papelão, e havia um laço vermelho na tampa. A encarei com curiosidade, querendo dar uma rápida espiada antes que me encontrasse ali.
Talvez ele estivesse escondendo um presente surpresa. E que bom que eu era ótima em fingir surpresa, mesmo sabendo que presente ia ganhar.
Assim, não pensei duas vezes antes de puxar a tampa.
Só que em nenhuma realidade alternativa em que eu me enfiasse eu imaginaria que fosse encontrar aquilo. O sorriso se esvaiu de meu rosto no mesmo instante, quando li o bilhete escrito com a minha própria caligrafia.
"Parece que finalmente vamos ter que usar um daqueles quartos vazios do apartamento. Feliz aniversário de três anos, . Agora somos três também".
Um par de sapatinhos de bebê jazia ali. Vermelhos, feitos de crochê, e era a coisa mais fofa. Eu os encarei por alguns segundos, perplexa, tentando assimilar o que meu cérebro estava claramente raciocinando muito rápido para me fazer perceber.
Ouvi a voz de ao longe, um pouco abafada, me chamando mais uma vez. Então ficou alta, indicando que ele estava ali também.
— ?
Levantei a cabeça para encará-lo, sentindo o rosto encharcado de lágrimas que nem notei caindo, e encontrei seu olhar preocupado e repleto de tristeza mais uma vez.
Então eu lembrei.
Quem almoçava sopa?
Ah, é. Pelo visto, eu.
Depois do almoço, nos separamos e voltei para casa sozinha de táxi, cogitando durante todo o caminho se eu deveria apenas voltar ao trabalho para me distrair. Quando entrei em casa, tudo estava em perfeito silêncio, então supus que provavelmente ainda estava trancado no estúdio.
Enviei uma mensagem para ele avisando que estava em casa e me certificando se ele tinha se alimentado, e recebi uma resposta positiva pouco depois. Me livrei dos tênis no meu closet e andei descalça até o escritório.
Liguei o computador e acessei minha agenda virtual. Não tinha o que fazer naquele dia, já que eu tinha adiantado o trabalho no dia anterior para tirar folga, mas mesmo assim me vi encarando a planilha quadriculada e rolei as páginas aleatoriamente olhando o que eu tinha anotado antes do acidente.
Havia uma parte cheia de estrelinhas na data do meu aniversário de três anos com e, antes disso, várias coisinhas que eu estava planejando em relação à data, como o que vestir, quando lembrar de fazer uma reserva no restaurante, entre outros.
Também descobri que alguns dias antes de voltar de viagem tive uma consulta com a minha ginecologista. Franzi o cenho, sem lembrar daquilo. Imaginei que fosse alguma coisa relacionada ao anticoncepcional que eu estava tomando ou, não sei, algum efeito colateral que tivesse me assustado. Não era incomum eu aparecer no consultório da Dra. Maria, mas o fato de não lembrar me levava a crer que tinha alguma relação com meu controle de natalidade, já que acordei no hospital achando que estava solteira e descobri que tinha um relacionamento de três anos cujas lembranças se apagaram da minha memória.
Cliquei na anotação da consulta para saber se tinha detalhes e umas letrinhas pequenas e completamente assustadoras chamaram minha atenção.
"Suspender anticoncepcional e retornar após um mês, fazer exames na clínica antes disso".
Gelei no mesmo instante. Eu achava que estava tomando anticoncepcional injetável. Que tinha sido renovado antes do acidente. Eu até tive sangramentos de escape e menstruei, então… Espera, eu menstruei. Isso só podia ser um bom sinal, certo? Sorri, aliviada, mas então enrijeci de novo, lembrando do que e eu tínhamos feito na última sexta-feira, em cima da minha mesa.
Pouco depois da menstruação acabar. Imediatamente procurei o aplicativo que usava para marcar meu período menstrual e rezei para que não tivesse no período fértil. Eu achava que as chances de engravidar após a menstruação eram baixas, mas àquela altura eu já não confiava mais na minha própria mente. E havia uma consulta marcada para o mês passado que eu perdi porque não fazia ideia disso.
Também nem liguei em checar nada de diferente na agenda sendo que eu nem estava trabalhando. Logo, sabia que não tinha nenhum compromisso. Até porque eu lembraria, se tivesse. Se eu soubesse que tinha um namorado, pelo menos. Aposto que não fazia ideia disso e estávamos os dois transando feito coelhos sem nenhuma proteção.
Chequei no aplicativo e confirmei que minha teoria estava certa, havia uma baixa chance de gravidez. Relaxei um pouquinho, mas não o suficiente para ficar totalmente tranquila. Dizia que era uma baixa chance e não chance nenhuma. Eu tinha que voltar na ginecologista logo para resolver isso. Já não bastava o lance da tal maldição que me perseguia, agora eu tinha que me preocupar com a possibilidade de ser mãe.
Fazendo uma rápida pesquisa, descobri que testes de gravidez normalmente funcionam entre o sétimo e décimo dia da provável concepção. Fazia cinco dias desde a minha última vez com .
Merda. Eu tinha que fazer um teste.
Só por desencargo de consciência.
De todo jeito, assim como o lance da maldição, resolvi manter aquilo para mim mesma e encomendei um teste em uma farmácia próxima. Com sorte, ainda estaria no estúdio quando chegasse. Pedi mais um remédio para enxaqueca só para disfarçar, caso ele perguntasse o que eu tinha comprado.
Eu esconderia o teste no meu closet e o faria assim que estivesse na data correta. E então voltaria à ginecologista para pedir meu anticoncepcional de volta porque eu não me sentia nem um pouco pronta para ser mãe. e eu nunca tínhamos mencionado filhos, ao menos não depois do acidente, e em nenhuma das lembranças que tive sobre nós. O acidente bagunçou tudo e agora eu tinha mais esse abacaxi para lidar.
Era só o que me faltava.
Ri, sem humor, e comecei a cutucar minhas gavetas em busca de uma receita ou algo do tipo sobre os tais exames mencionados na agenda que eu deveria fazer, mas tudo o que encontrei foi um cubo mágico todo bagunçado e o bloquinho de papel onde eu tinha anotado que deveria arrumar meu closet.
Bem, quando o teste chegasse, eu poderia usar isso como desculpa.
E aproveitaria para cutucar algumas bolsas para ver se a solicitação de exames estava em algum lugar. E marcar uma nova consulta. Mas, por ora, tudo o que fiz foi pegar o cubo mágico bagunçado e começar a resolvê-lo numa tentativa de esvaziar a mente.
Deu certo.
Logo que comecei a fazer os movimentos que decorei anos antes e agora eram simplesmente automáticos, me senti um pouquinho mais leve. Sempre que eu montava um cubo, eu entrava em hiperfoco. Minha mente começava a viajar, tendo pensamentos de várias das coisas mais aleatórias possíveis.
Eu deveria fazer assim pra chegar no passo dois. Tenho que fechar o amarelo, em seguida.
E se eu fizesse banoffee nesse final de semana? Na verdade, eu poderia fazer hoje mesmo, deu vontade de comer banoffee depois que passei em frente àquele café coreano cheio de sobremesas bonitinhas.
Talvez esteja criando o próximo masterpiece de sua carreira nesse exato momento.
E se o último livro da Kate terminasse de um jeito totalmente inesperado? Protagonistas fujões, talvez? O cara já era fujão.
Acho que vou comer iogurte com granola de lanche da tarde. Talvez colocar no YouTube e assistir vídeos de músicas aleatórias.
A Cave Panthers não ia lançar um clipe novo esse mês?
Como será que posso desfazer a maldição que àquela taróloga falou? Que decisão preciso tomar? O que preciso lembrar?
Franzi o cenho, percebendo o rumo que meus pensamentos estavam tomando outra vez, já perto de finalizar a montagem do cubo.
Por que ela mencionou a morte nos perseguindo? Será que tem a ver com o meu acidente? Eu deveria ter morrido?
E se acontecesse algo de novo? Será que eu morreria dessa vez?
Senti o coração acelerar com a possibilidade de algo ruim acontecer, mas tentei convencer a mim mesma de que sofrer por algo que nem se concretizou não adiantaria de nada.
Eu tinha que me concentrar no agora e tentar lembrar da tal coisa importante.
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem, mas me controlei para não chorar. Eu não estava nem mesmo de TPM, e perceberia que havia algo me incomodando se me visse de olhos vermelhos.
Depois de alguns instantes, a campainha tocou e corri para atender. Era o entregador da farmácia. Dei uma boa gorjeta a ele por ter que fazê-lo subir até ali e tirei rapidamente a caixa de remédio para enxaqueca da sacola, antes de correr com ela direto para o meu closet.
Ouvi a porta do estúdio abrir no instante que entrei no quarto e apressei o passo.
— ? — me chamou e fiquei nervosa. Achei um nicho largo de casacos de inverno e os levantei com uma mão para enfiar a sacola ali, quando senti algo.
Uma caixa. Franzi o cenho, sem entender porque tinha uma caixa ali, e enfiei a sacola no lugar, ao mesmo tempo que puxei a caixa. Era branca, de papelão, e havia um laço vermelho na tampa. A encarei com curiosidade, querendo dar uma rápida espiada antes que me encontrasse ali.
Talvez ele estivesse escondendo um presente surpresa. E que bom que eu era ótima em fingir surpresa, mesmo sabendo que presente ia ganhar.
Assim, não pensei duas vezes antes de puxar a tampa.
Só que em nenhuma realidade alternativa em que eu me enfiasse eu imaginaria que fosse encontrar aquilo. O sorriso se esvaiu de meu rosto no mesmo instante, quando li o bilhete escrito com a minha própria caligrafia.
"Parece que finalmente vamos ter que usar um daqueles quartos vazios do apartamento. Feliz aniversário de três anos, . Agora somos três também".
Um par de sapatinhos de bebê jazia ali. Vermelhos, feitos de crochê, e era a coisa mais fofa. Eu os encarei por alguns segundos, perplexa, tentando assimilar o que meu cérebro estava claramente raciocinando muito rápido para me fazer perceber.
Ouvi a voz de ao longe, um pouco abafada, me chamando mais uma vez. Então ficou alta, indicando que ele estava ali também.
— ?
Levantei a cabeça para encará-lo, sentindo o rosto encharcado de lágrimas que nem notei caindo, e encontrei seu olhar preocupado e repleto de tristeza mais uma vez.
Então eu lembrei.
Capítulo 25
Um segundo depois, estava agachado ao meu lado.
— , o que foi? Você se machucou, o que-
Então ele viu o bilhete, os sapatinhos. Assisti ao exato momento em que ele terminou de ler o bilhete, uma expressão de pura tristeza tomando conta de seu rosto. Eu vi os olhos dele marejarem e então percebi que os momentos que ele parecia triste e culpado pelo meu acidente não significavam apenas isso.
Não era só por isso.
— ...
Ele me encarou com carinho e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.
— Eu sinto muito, .
Um soluço então irrompeu de mim. Chorei, desconsolada, sentindo um súbito peso no peito.
— Eu... Você sabia? — consegui perguntar.
— O médico disse que você perdeu o bebê no acidente. A batida foi forte e ele não sobreviveu ao trauma.
— E foi assim que você descobriu — afirmei. Não era uma pergunta, mas assentiu mesmo assim, em silêncio. — Foi por minha causa... Por minha causa, o nosso bebê morreu.
Desviei o olhar dele, pura vergonha tomando conta de mim.
— Não, amor. A culpa é da pessoa que te atropelou. E minha, que não estive com você.
Balancei a cabeça, soluçando outra vez, as lágrimas jorrando de mim como um rio, enquanto pensamentos que nunca cogitei me atingiam. Eu lembrei de tudo, tudo. E não sei dizer se aquilo foi pior ou melhor. Uma parte de mim preferia nunca ter descoberto; a outra, se sentia culpada por causar aquele sofrimento a .
Agora tudo parecia tão óbvio. O dia em que ele apareceu de olhos vermelhos e eu inocentemente perguntei se ele estava gripando, ou se tinha fumado. Não. Ele se escondeu para chorar. Ele estava passando pelo luto do nosso bebê sozinho e eu não fazia ideia, porque ninguém me contou.
Me senti mal até por chorar por aquilo. Eu não tinha direito de lamentar. A culpa era minha. Se eu tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido. Eu teria visto no dia seguinte e estaríamos bem. Mas fui egoísta e fiquei chateada por algo que ele nem tinha controle. O meu orgulho ocasionou o meu acidente e a morte do nosso bebê.
Eu estava apavorada em ser mãe. Achei que ia ficar apavorado também, mas ele ficaria feliz. No fundo, eu sabia que sim. Mas como eu seria capaz de encará-lo de agora em diante?
— Você pode sair? Eu quero ficar sozinha — pedi, baixinho.
— Não, — disse, firme. — Não vou te deixar sozinha. Nós podemos passar por isso juntos, amor. Nós temos que passar por isso juntos.
— Eu lembrei de tudo, — confessei, com a voz falha. — Eu saí porque fiquei chateada com você, por não aparecer no dia em que combinamos. Eu vi um filme que você queria ver sozinha, só pra te irritar com spoilers quando a gente fosse assistir juntos. Eu tinha preparado uma surpresa, mas teria que adiar. — Encarei a caixa com os sapatinhos. — Eu nem consigo olhar pra você agora. Não consigo. — Solucei. — Eu não me sinto merecedora nem de chorar pela perda do nosso bebê. Foi minha culpa, minha culpa...
Abracei meus próprios ombros, cravando as unhas em minha pele. Eu merecia sentir dor depois de tudo aquilo. Solucei, correndo as unhas violentamente pelos meus braços, sentindo vergões se formando.
— , não! — me agarrou, passando os braços ao redor de mim, de modo que eu não conseguia mexer os braços. Tentei me afastar, mas foi em vão. Ele continuou me segurando firmemente, como se seus braços fossem feitos de ferro. — Você não pode se machucar, tá ouvindo? Não pode fazer isso consigo mesma! Eu não vou deixar, .
— Foi minha culpa, minha culpa... — Solucei outra vez. De repente, era tudo o que eu conseguia fazer: chorar e lamentar. Uma parte de mim tinha consciência de que eu estava parecendo descontrolada, que não deveria agir assim, mas eu não me importava. Eu merecia sentir dor, merecia a culpa de ser a responsável por aquilo. Por fazer passar um mês inteiro aguentando sozinho, fingindo que estava bem.
— Amor, por favor. Não faz isso, — murmurou. — Nós vamos superar juntos, eu prometo. Não foi sua culpa, não foi sua culpa.
A gentileza em sua voz me matava. Eu me sentia um ser humano mesquinho e desprezível e, mesmo assim, aquele homem estava ao meu lado.
Ele esteve ao meu lado durante toda a minha recuperação, fazendo de tudo para que eu me lembrasse dele, de nós. me amava como ninguém. Era o tipo de amor que nunca esperei receber um dia, que eu não sabia nem se existia mesmo. O tipo de amor de histórias épicas, que existia apenas em livros. E eu o amava de volta com todo o meu ser; cada pedacinho de mim vibrava por ele, por tê-lo ao meu lado.
Os últimos três anos haviam sido os mais felizes da minha vida, mas eu não merecia essa felicidade.
Eu não merecia o amor de .
Talvez não merecesse ser mãe também, visto como aquilo tudo tinha acabado. A minha ginecologista tinha suspendido o anticoncepcional por conta da gravidez, agora eu sabia. A consulta de retorno era para iniciar o pré-natal, porque ela também era obstetra. De todo modo, eu ainda precisava fazer o teste de gravidez que tinha escondido de . Não sabia nem se eu devia contar aquilo para ele.
Não queria que fosse um lembrete do bebê que tínhamos perdido, tampouco provocar algum tipo de esperança.
Mesmo querendo ficar sozinha, não me largou até eu me acalmar.
Eu solucei e solucei em seu ombro até ficar com dor de cabeça, e senti lágrimas quentes pingando em meu próprio ombro. Ele também estava chorando, em silêncio, enquanto esfregava minhas costas, tentando me consolar.
Mas ninguém estava consolando ele.
Quando meus soluços silenciaram, eu tentei me afastar e, dessa vez, me deixou ir. Por um breve instante, consegui encará-lo, apenas para ver seus olhos vermelhos e inchados também. Ele segurou meu rosto entre as mãos e encostou a testa na minha.
Mordi o lábio inferior para não começar a soluçar outra vez. Eu não conseguia lidar com a bondade dele. deveria estar me culpando, ele devia ter se afastado de mim, não ficado ao meu lado. Eu deveria estar sendo tratada como um párea por fazer aquele homem sofrer quando havia prometido justo o contrário. As nossas promessas... Agora pareciam ter um peso ainda maior depois que me lembrei delas.
De repente, as palavras da Xamã começaram a fazer sentido.
A criança que não vingou.
Eu achava que ela estava se referindo à época em que a maldição foi lançada, não que estava se repetindo em todas as minhas vidas. Minha mente começou a trabalhar com o pouco resquício de consciência que me restava. As minhas escolhas vão influenciar no resultado final. Talvez fosse um sinal. No fim, eu deveria abrir mão de algo importante para que a maldição fosse quebrada.
Respirei fundo, ainda sentindo as lágrimas correrem pelo meu rosto silenciosamente. Eu estava com pensamentos acelerados, raciocinando rápido sobre diversas possibilidades apenas para voltar para a única que eu achava que seria a certa.
A única escolha que eu acho que devia fazer. Por mim, por e pela criança que se foi. Por mais difícil que fosse para nós dois.
Por mais que fosse doer em nós dois, eu tinha que dar um fim naquilo.
Então, respirando fundo mais uma vez, me afastei para encará-lo novamente.
— ... Eu quero terminar.
— , o que foi? Você se machucou, o que-
Então ele viu o bilhete, os sapatinhos. Assisti ao exato momento em que ele terminou de ler o bilhete, uma expressão de pura tristeza tomando conta de seu rosto. Eu vi os olhos dele marejarem e então percebi que os momentos que ele parecia triste e culpado pelo meu acidente não significavam apenas isso.
Não era só por isso.
— ...
Ele me encarou com carinho e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.
— Eu sinto muito, .
Um soluço então irrompeu de mim. Chorei, desconsolada, sentindo um súbito peso no peito.
— Eu... Você sabia? — consegui perguntar.
— O médico disse que você perdeu o bebê no acidente. A batida foi forte e ele não sobreviveu ao trauma.
— E foi assim que você descobriu — afirmei. Não era uma pergunta, mas assentiu mesmo assim, em silêncio. — Foi por minha causa... Por minha causa, o nosso bebê morreu.
Desviei o olhar dele, pura vergonha tomando conta de mim.
— Não, amor. A culpa é da pessoa que te atropelou. E minha, que não estive com você.
Balancei a cabeça, soluçando outra vez, as lágrimas jorrando de mim como um rio, enquanto pensamentos que nunca cogitei me atingiam. Eu lembrei de tudo, tudo. E não sei dizer se aquilo foi pior ou melhor. Uma parte de mim preferia nunca ter descoberto; a outra, se sentia culpada por causar aquele sofrimento a .
Agora tudo parecia tão óbvio. O dia em que ele apareceu de olhos vermelhos e eu inocentemente perguntei se ele estava gripando, ou se tinha fumado. Não. Ele se escondeu para chorar. Ele estava passando pelo luto do nosso bebê sozinho e eu não fazia ideia, porque ninguém me contou.
Me senti mal até por chorar por aquilo. Eu não tinha direito de lamentar. A culpa era minha. Se eu tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido. Eu teria visto no dia seguinte e estaríamos bem. Mas fui egoísta e fiquei chateada por algo que ele nem tinha controle. O meu orgulho ocasionou o meu acidente e a morte do nosso bebê.
Eu estava apavorada em ser mãe. Achei que ia ficar apavorado também, mas ele ficaria feliz. No fundo, eu sabia que sim. Mas como eu seria capaz de encará-lo de agora em diante?
— Você pode sair? Eu quero ficar sozinha — pedi, baixinho.
— Não, — disse, firme. — Não vou te deixar sozinha. Nós podemos passar por isso juntos, amor. Nós temos que passar por isso juntos.
— Eu lembrei de tudo, — confessei, com a voz falha. — Eu saí porque fiquei chateada com você, por não aparecer no dia em que combinamos. Eu vi um filme que você queria ver sozinha, só pra te irritar com spoilers quando a gente fosse assistir juntos. Eu tinha preparado uma surpresa, mas teria que adiar. — Encarei a caixa com os sapatinhos. — Eu nem consigo olhar pra você agora. Não consigo. — Solucei. — Eu não me sinto merecedora nem de chorar pela perda do nosso bebê. Foi minha culpa, minha culpa...
Abracei meus próprios ombros, cravando as unhas em minha pele. Eu merecia sentir dor depois de tudo aquilo. Solucei, correndo as unhas violentamente pelos meus braços, sentindo vergões se formando.
— , não! — me agarrou, passando os braços ao redor de mim, de modo que eu não conseguia mexer os braços. Tentei me afastar, mas foi em vão. Ele continuou me segurando firmemente, como se seus braços fossem feitos de ferro. — Você não pode se machucar, tá ouvindo? Não pode fazer isso consigo mesma! Eu não vou deixar, .
— Foi minha culpa, minha culpa... — Solucei outra vez. De repente, era tudo o que eu conseguia fazer: chorar e lamentar. Uma parte de mim tinha consciência de que eu estava parecendo descontrolada, que não deveria agir assim, mas eu não me importava. Eu merecia sentir dor, merecia a culpa de ser a responsável por aquilo. Por fazer passar um mês inteiro aguentando sozinho, fingindo que estava bem.
— Amor, por favor. Não faz isso, — murmurou. — Nós vamos superar juntos, eu prometo. Não foi sua culpa, não foi sua culpa.
A gentileza em sua voz me matava. Eu me sentia um ser humano mesquinho e desprezível e, mesmo assim, aquele homem estava ao meu lado.
Ele esteve ao meu lado durante toda a minha recuperação, fazendo de tudo para que eu me lembrasse dele, de nós. me amava como ninguém. Era o tipo de amor que nunca esperei receber um dia, que eu não sabia nem se existia mesmo. O tipo de amor de histórias épicas, que existia apenas em livros. E eu o amava de volta com todo o meu ser; cada pedacinho de mim vibrava por ele, por tê-lo ao meu lado.
Os últimos três anos haviam sido os mais felizes da minha vida, mas eu não merecia essa felicidade.
Eu não merecia o amor de .
Talvez não merecesse ser mãe também, visto como aquilo tudo tinha acabado. A minha ginecologista tinha suspendido o anticoncepcional por conta da gravidez, agora eu sabia. A consulta de retorno era para iniciar o pré-natal, porque ela também era obstetra. De todo modo, eu ainda precisava fazer o teste de gravidez que tinha escondido de . Não sabia nem se eu devia contar aquilo para ele.
Não queria que fosse um lembrete do bebê que tínhamos perdido, tampouco provocar algum tipo de esperança.
Mesmo querendo ficar sozinha, não me largou até eu me acalmar.
Eu solucei e solucei em seu ombro até ficar com dor de cabeça, e senti lágrimas quentes pingando em meu próprio ombro. Ele também estava chorando, em silêncio, enquanto esfregava minhas costas, tentando me consolar.
Mas ninguém estava consolando ele.
Quando meus soluços silenciaram, eu tentei me afastar e, dessa vez, me deixou ir. Por um breve instante, consegui encará-lo, apenas para ver seus olhos vermelhos e inchados também. Ele segurou meu rosto entre as mãos e encostou a testa na minha.
Mordi o lábio inferior para não começar a soluçar outra vez. Eu não conseguia lidar com a bondade dele. deveria estar me culpando, ele devia ter se afastado de mim, não ficado ao meu lado. Eu deveria estar sendo tratada como um párea por fazer aquele homem sofrer quando havia prometido justo o contrário. As nossas promessas... Agora pareciam ter um peso ainda maior depois que me lembrei delas.
De repente, as palavras da Xamã começaram a fazer sentido.
A criança que não vingou.
Eu achava que ela estava se referindo à época em que a maldição foi lançada, não que estava se repetindo em todas as minhas vidas. Minha mente começou a trabalhar com o pouco resquício de consciência que me restava. As minhas escolhas vão influenciar no resultado final. Talvez fosse um sinal. No fim, eu deveria abrir mão de algo importante para que a maldição fosse quebrada.
Respirei fundo, ainda sentindo as lágrimas correrem pelo meu rosto silenciosamente. Eu estava com pensamentos acelerados, raciocinando rápido sobre diversas possibilidades apenas para voltar para a única que eu achava que seria a certa.
A única escolha que eu acho que devia fazer. Por mim, por e pela criança que se foi. Por mais difícil que fosse para nós dois.
Por mais que fosse doer em nós dois, eu tinha que dar um fim naquilo.
Então, respirando fundo mais uma vez, me afastei para encará-lo novamente.
— ... Eu quero terminar.
Capítulo 26
Senti meus olhos inchados e úmidos, e lágrimas silenciosas ainda jorravam deles como se vazassem de mim, como se eu fosse um recipiente cheio até a borda.
Talvez eu fosse um mesmo.
Pelas últimas horas, tudo o que fiz foi repassar cada palavra e ação de na minha mente. E cada uma delas eram como facas perfurando meu coração.
Ela tinha ido embora.
Por mais que eu tenha tentado impedir, ela tinha tomado a decisão, mesmo de cabeça cheia. Eu sabia que ela estava sofrendo e que queria me afastar, mas e eu também fizemos uma promessa de deixar o outro ir caso uma das partes não quisesse mais. Eu havia dito a ela que a única possibilidade disso acontecer era se partisse dela, já que nunca seria capaz de deixá-la por livre e espontânea vontade.
Eu amava aquela mulher como nunca tinha amado ninguém na minha vida.
E me sentia inútil por não poder fazer nada. Eu estava impotente e tinha prometido respeitar a decisão dela. E ela me fez prometer aquilo de novo antes de partir com uma mochila nas costas, uma hora depois de terminar comigo.
As cenas passavam repetidamente na minha cabeça.
— ... Eu quero terminar.
— O quê? Do que você tá falando?
— Não aguento mais olhar pra você, não depois de tudo.
— , não foi culpa sua. Nós podemos...
— Não, . Eu não quero mais. — A voz dela falhou. — Eu não aguento.
Franzi o cenho, sentindo o coração na garganta.
— É isso, então? Essa é sua resposta? Você vai simplesmente desistir da gente? Acha que terminar vai resolver nossos problemas?
— Acho que a gente devia ter acabado depois do meu acidente. Foi um erro voltar pra cá, sem lembrar de nada. Eu devia ter voltado a morar com minha irmã.
— Não, . Seu lugar é aqui. Comigo. Nós prometemos nunca soltar a mão do outro — retruquei, ouvindo a minha própria voz embargada. — Não faz isso com a gente, . Por favor.
— Toda vez que você olhar pra mim e eu olhar pra você… Vai ser um lembrete constante do que aconteceu. Eu não quero isso. Não quero que nenhum de nós lembre disso. Não aguento nem ficar aqui.
— Amor, por favor. Eu sei que é difícil, ainda mais depois de lembrar de tudo assim, mas eu tô com você. Podemos passar por isso juntos — tentei convencê-la. — Eu te amo, .
— Sinto muito, . — Ela chorou em silêncio. — Mas eu não posso. Sinto muito por quebrar nossa promessa.
— .
— Eu quero ficar sozinha — ela disse, sem me encarar. — Vou pegar umas coisas e ir pra casa de , depois peço pra ela vir pegar o resto.
Foi como se meu coração tivesse sido espetado com mil alfinetes. Como se eu tivesse levado um banho de água fria. Como se cada palavra fosse uma facada. Eu não sabia o que fazer além de implorar. Senti minhas próprias lágrimas escorrendo pelo rosto e olhei para o teto. Eu não queria chorar na frente dela, e consegui evitar isso todas as vezes desde que ela voltou para casa, dizendo para mim mesmo que eu precisava ser forte por nós dois; mas naquele momento não me importei.
A ideia de jogar fora tudo o que nós construímos juntos me matava. Ficar sem era pior do que lidar com o lembrete constante da perda do nosso bebê. Se ela queria culpar alguém quanto a isso, então que fosse eu. Ao mesmo tempo, eu a compreendia. Eu tive um mês para me acostumar com a notícia do aborto, ela não. Tentei falar que daria um tempo a ela e depois conversaríamos, mas ela estava irredutível.
— Não quero conversar, . Eu quero ficar sozinha. Vá embora, por favor. Não vou conseguir fazer nada se você tiver aqui.
— Então não vá! — retruquei, frustrado. — , nós não podemos terminar assim.
— Você prometeu que me deixaria ir se essa fosse minha vontade.
— Acontece que essa não é sua vontade. Eu te conheço. Você tá em choque e magoada, mas-
— Não, . É minha decisão e você prometeu cumprir.
— Por que eu tenho que cumprir minha promessa se você não tá cumprindo a sua? — perguntei, magoado e irritado.
— Eu preciso que você respeite minha decisão e que não venha atrás de mim.
— Eu me recuso! Você pode ir embora agora, se é assim que quer — falei, andando de um lado para o outro no closet, o rosto ainda molhado com lágrimas. — Mas eu me recuso a desistir de você, . Vai precisar de muito mais que isso pra me afastar de você.
suspirou, parecendo esgotada.
— .
— Você não aguenta olhar pra mim? — Continuei a falar. — Então vamos trabalhar nisso até você aguentar. Eu não quero te perder, não quero perder o que a gente tem. Eu te amo, droga! Você sabe disso. Eu te falei um milhão de vezes. Não sei mais o que posso fazer pra você entender isso.
— Você pode seguir em frente — ela sugeriu. — Ser feliz com outra pessoa. Eventualmente, é o que vai acontecer. Me esquece, .
— Por quê? Por que devo esquecer você? Você não pode me obrigar a isso.
— Porque eu não te mereço. — Sua voz falhou novamente. — Você sempre foi bom demais pra mim e eu decepcionei nós dois por puro egoísmo.
— , olha pra mim.
Ela balançou a cabeça, negando. Dei um passo em sua direção e envolvi o rosto dela entre as mãos, a forçando a me encarar.
— Você me odeia? É isso? Não me ama mais?
— , por favor... — Ela tentou se afastar, mas não deixei.
— Olha agora nos meus olhos e diga que não me ama, — exigi, mas ela manteve os olhos firmemente fechados e ficou em silêncio. — Você não consegue, não é? Por que acha que vou ser feliz com outra pessoa? Por que acha que eu ia querer isso? Eu quero você, . Só você.
— Eu te amo, . Amo tanto... — ela confessou, chorando baixinho. — Mas eu não quero mais ficar com você. Sinto muito, mas não posso. Vá embora, por favor — acrescentou, em seguida. — Por favor, me deixa sozinha.
Deixei minhas mãos caírem ao lado do corpo. Senti o ar escapar pelos pulmões de uma vez, a ficha finalmente caindo.
Ela me amava, mas não queria isso. Não queria ficar comigo, mesmo que a distância causasse mais sofrimento a nós dois.
Eu me sentia a pior pessoa do mundo. Como se estivesse tentando forçá-la a ficar. Mas eu não podia fazer isso, independentemente de uma promessa ou não. Se ela não queria minha presença, eu não podia insistir mais do que já tinha feito.
Então passei a mão no rosto, tentando me livrar das lágrimas que insistiam em cair e assenti em silêncio, antes de me virar e sair dali, exatamente como ela havia pedido.
Fiquei um tempo do lado de fora, andando pelo corredor com a mente maquinando em busca de alguma alternativa, mas não conseguia pensar em nada além de "eu te amo... Mas não quero mais ficar você."
Quando finalmente apareceu com uma mochila, me ofereci para levá-la até a casa de , mas ela negou, dizendo que havia um táxi esperando na portaria.
Um minuto depois, ela foi embora sem olhar para trás.
Me tranquei no estúdio, o único lugar daquele apartamento que não tinha resquícios de sua presença, e foi onde permaneci pelas últimas horas. Sentindo raiva de mim mesmo por não ter sido capaz de ser suficiente para ela. Pensando no que poderia ter feito para evitar aquilo. Talvez eu devesse ter contado sobre o aborto quando ela acordou no hospital. Talvez eu devesse ter contado tudo, assim ela teria mais tempo de se acostumar com a notícia e, àquela altura, quando se lembrasse, tivesse agido de forma diferente.
Adiar o inevitável só tornou tudo pior e a culpa era minha. O médico disse que eu poderia contar sobre o aborto se quisesse, mas se ela não lembrava nem de mim, como poderia entender aquilo tudo? ia achar que continuava sonhando. Ou pior, que eu tinha batido a cabeça em algum lugar e estava sonhando.
Além disso, filhos não era algo sobre o que costumávamos falar. Eu sabia que ela não queria ser mãe e estava bem em não ser pai se essa fosse a vontade dela. O corpo era dela, logo a decisão de termos filhos um dia também. E se ela quisesse, eu também estava bem com isso.
Eu apoiaria a decisão dela sobre isso porque era o que importava para mim. Se tinha algo a que eu era completamente neutro era em relação a ter filhos. Se tivéssemos um, eu o amaria incondicionalmente. Mas se quisesse adotar cinco gatos, então eu seria pai de pet com ela.
Só que agora nada daquilo parecia possível.
Nosso relacionamento parecia ter uma névoa espessa em torno dele, ocultando todo o caminho que podíamos tomar. Não havia direita ou esquerda, estávamos apenas estagnados no lugar, sem saber para onde ir, tomando decisões com base em mágoa, culpa e desespero.
Eu nem cheguei a saber da existência do nosso bebê antes que o perdêssemos, mas o amei mesmo assim. Chorei por ele, por sua chance perdida de viver, culpa de um bandido aleatório que atropelou o amor da minha vida e fugiu em seguida. A polícia nem sequer tinha localizado o cara ainda para fazê-lo pagar pelo crime.
E agora ele tinha causado o fim do nosso relacionamento também. Por que aquilo tinha que acontecer conosco? Por que tudo estava dando errado? Se eu não tivesse me atrasado no nosso aniversário, nunca teria ido àquele shopping. Estaríamos juntos em um restaurante, provavelmente comemorando a vida do nosso bebê, e não lamentando a morte dele.
Estaríamos felizes e bem, nós três.
Mesmo depois do acidente, criei esperanças de que ficaríamos bem quando ela lembrasse de tudo. Pensei que deixar ela lembrar disso sozinha também fosse ser mais saudável. Achei que conversaríamos, choraríamos juntos, e depois seguiríamos em frente. Porque era assim. Enquanto eu era a pessoa mais emotiva do nosso relacionamento, ela era prática e direta. Aceitava as coisas como eram. superava as adversidades. Ela era determinada assim.
Mas então nada tinha saído como eu havia imaginado. Tomei uma decisão errada e agora estava ali, encarando a parede, com o rosto molhado de lágrimas e mergulhado em um poço de tristeza e impotência.
Nossa felicidade havia sido arrancada de nós, e eu não tinha ideia do que fazer para recuperá-la.
Capítulo 27
Eu não fazia ideia de quando consegui cair no sono, mas a julgar pelo horário — cinco e meia da manhã —, provavelmente apaguei por menos de três horas. Não havia nem tomado banho, e nem senti vontade de comer, mesmo que meu corpo implorasse por isso. Além da noite mal dormida, agora eu tinha um torcicolo e um estômago vazio clamando por comida desde o instante em que abri os olhos.
Era um desastre.
me arrastaria dali se me visse negligenciando a mim mesmo. E eu não me importaria nem um pouco, desde que ela estivesse comigo.
Mas não estava.
A realidade do nosso término me deixava deprimido e angustiado. Meus olhos ardiam só de pensar nisso, e eu nem sabia que alguém podia chorar por tanto tempo até acontecer comigo. E quando meu corpo cansou e a enxaqueca veio, eu me tornei uma casca apática, olhando para o nada, mergulhado em um poço de autopiedade ridículo. Nunca sofri assim por nenhum término, mas também nunca havia namorado alguém por tanto tempo, ou sequer dividido uma casa.
era como uma esposa, ainda que não fôssemos casados. Eu a via assim e a tratava assim. Ela era minha prioridade. Mas era teimosa demais para ficar.
Teimosa. Má. Mesquinha.
não tinha o direito de me deixar sozinho assim. Eu não dei meu coração a ela para que ela o devolvesse. Não passei três anos com ela para que, de repente, ela ignorasse tudo o que vivemos. Ela tinha tomado uma decisão de cabeça quente, movida pelo estresse e a culpa que sentiu por causa do nosso bebê. Estava colocando pressão sobre si mesma. Nos fazendo sofrer acreditando que era a melhor opção.
Eu estava puto com ela.
E com dor e fome por causa dela.
O rei da coitadolândia.
Você é completamente patético, .
Suspirei, cansado, e abri uma gaveta no meu mini armário de lanches em cima do frigobar, tirando uma barra de proteína para comer. Mordi violentamente, mal sentindo o gosto. Parecia que eu estava comendo papel.
— Que palhaçada — murmurei de boca cheia, sentindo os olhos arderem outra vez.
Eu ainda tinha lágrimas para chorar? Pelo visto, sim, já que elas começaram a cair novamente. Me forcei a sair do estúdio para tomar banho, mas parei por um momento na porta do quarto, sem querer entrar ali. Que idiotice. Minha roupas estavam no closet que dividíamos.
Era só a merda de um cômodo, então por que eu estava hesitando?
A resposta veio assim que entrei para pegar as roupas e vi a caixa com os sapatinhos de bebê ainda no chão, esquecida junto com o bilhete. Um nó se formou na minha garganta e eu a recolhi com cuidado, olhando em volta em busca de um lugar para guardar.
No meio disso, vi que uma manga de um casaco de inverno de tinha escapado do nicho e automaticamente a coloquei de volta no lugar. Ela provavelmente tinha escondido os sapatinhos ali. Talvez eu pudesse até ter encontrado antes ao mexer nas roupas dela para encontrar as peças que ela tinha usado em nossos encontros. Se eu soubesse que os sapatinhos estavam ali teria os colocado em outro lugar, mas agora era tarde demais. Talvez devesse deixar os sapatinhos ali mesmo.
Suspirei, levantando o casaco, mas me deparei com uma sacola de plástico enrolada ali. Puxei, notando que havia algo dentro e guardei os sapatinhos antes de ver o que era.
Encontrei a caixa de um teste de gravidez e meu primeiro pensamento foi que tinha guardado para me mostrar o resultado. Mas levou um segundo para perceber que a caixa estava lacrada. Olhei na sacola novamente e encontrei um recibo dobrado.
Senti o coração acelerar ao ver que a compra tinha sido feita no dia anterior, junto de uma medicação para enxaqueca. Levou apenas um instante para eu deduzir o que tinha acontecido.
tentou esconder o teste ali e encontrou a caixa com os sapatinhos, o gatilho para o retorno de suas memórias.
Bati a mão no bolso em busca do celular, mas percebi que tinha deixado no estúdio. Um instante depois, me dei conta de que ela provavelmente não estaria disposta a falar comigo. Mas caramba, ela tinha comprado um teste. Será que estava tendo sintomas de gravidez? Se bem que... Ela teve o seu período recentemente, mas...
Caramba. Merda.
O anticoncepcional.
Fizemos sexo desprotegido por semanas, incluindo uma vez depois do período dela. provavelmente encontrou em algum lugar que não estava tomando anticoncepcional por conta da gravidez, e eu fui burro o suficiente para não me lembrar disso. Também não passou pela minha cabeça que fôssemos voltar a fazer sexo, não quando ela nem se lembrava de mim direito.
— Droga... — Bati na minha própria testa. — , seu burro. Ela é sua fã também.
Não que ser fã fosse motivo suficiente, mas e eu tínhamos dormido juntos na noite em que nos conhecemos. Muito precipitado, mas por algum motivo não me passou na cabeça que fosse acontecer de novo. Pensei que ela ia me estranhar por mais tempo, mas... Talvez fosse o subconsciente dela?
Obviamente, nada disso justificava a minha falta de atenção.
Quanta irresponsabilidade, , seu idiota.
E se ela estivesse grávida agora? Eu duvidava que fosse me contar qualquer coisa, mesmo antes de encontrar os sapatinhos. Mas agora eu tinha uma desculpa para falar com ela, mesmo que fosse morrer de ansiedade até isso acontecer.
Eu esperaria mais um dia e tentaria uma conversa, para ter certeza de que ela estava mais calma. Duvidava que fosse querer tocar no assunto agora, então não tinha nada a fazer a não ser esperar.
Peguei minhas roupas e levei para o banheiro. O banho foi rápido, no chuveiro. Eu ainda não queria ficar ali, então voltei para o estúdio logo depois. Achei que um banho pudesse aliviar um pouco o meu humor de merda, mas não adiantou muito. Bem, ao menos eu estava limpo e alimentado — mesmo que fosse só com uma barrinha de proteína.
Peguei meu celular, notando algumas mensagens e ligações perdidas. Uma delas era da minha cunhada, enviada na noite anterior.
: O que aconteceu? apareceu falando que vocês terminaram, mas não falou comigo e se trancou no quarto.
Eu nem sequer toquei no celular. tinha uma notificação personalizada para ligações e mensagens, então qualquer outra que ouvi foi ignorada.
Havia outra mensagem de , de cinco minutos antes.
: , tá tudo bem? Quer me encontrar pra gente conversar sobre isso? Tenho um tempo livre pro almoço.
Comecei a digitar freneticamente, esclarecendo algumas coisas.
: NÓS não terminamos. ELA terminou comigo. encontrou sapatinhos de bebê que ela mesma escondeu no closet e lembrou de tudo.
Um minuto depois, meu celular tocou.
— Oi, — respondi em meio a um suspiro.
— Me diz logo como foi isso, . Preciso saber.
Então eu contei tudo o que tinha acontecido e até mesmo o que eu tinha encontrado no closet.
— Um teste de gravidez? Acho que tá cedo pra isso, ela deve ter comprado pra fazer depois — deduziu. — E você parece péssimo.
— Não posso dizer que tô às mil maravilhas — ironizei, mas ignorou isso.
— Quer almoçar comigo? Vou ter que passar o dia fora mesmo. A gente pode discutir algo.
— Não, não se preocupa. Vou ficar em casa. Não deixa a sozinha quando chegar, tá? Faz ela comer também. Arromba a porta se for preciso.
— Se for preciso, eu chamo você pra arrombar — brincou, mas não havia nenhum humor na voz dela.
Ela provavelmente estava falando sério.
— Tudo bem.
— Sinto muito, . As coisas vão melhorar. Aguenta só mais um pouco.
— Tá.
Encerrei a ligação, mas o celular começou a tocar novamente. Dessa vez, era Jace ligando. Suspirei, sem um pingo de vontade de atender, mas aceitei a ligação mesmo assim.
— Oi, Jace.
— Ei, onde você tava? Tô tentando falar com você desde ontem. Preciso confirmar a reunião hoje e-
— Cancela a reunião — o interrompi. — Na verdade, cancele toda a minha agenda pelo resto da semana.
— Como assim, ? É sobre o seu álbum. A gente tem que resolver essas pendências e…
Ele continuou a falar, mas eu não estava mais nem prestando atenção.
— Eu nem sei se quero lançar esse álbum, Jace — interrompi seu monólogo outra vez. — Cancela tudo e depois a gente conversa. Eu não tô com cabeça pra isso agora.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele quis saber. — É a ?
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem outra vez.
— e eu terminamos. Preciso de um tempo, então não me incomode. Deixa que eu entro em contato com você depois.
— Ah, nossa. Sinto muito, . Eu entendo, mas... Olha, vai ver foi melhor que isso acontecesse…
— Como é? — Franzi o cenho, irritado. — Tá me zoando, Jace? Você acha que foi pra melhor? A minha mulher acabou de descobrir que sofreu um aborto e tá se culpando por isso. Um filho da puta atropelou ela, mas ela tá se culpando! E agora que sabe disso, acha que o melhor a fazer é se separar de mim!
— — ele tentou falar, mas o ignorei.
— Não me venha com essa merda de que é pra melhor. Nunca vai ser pra melhor, tá ouvindo? Eu amo a e vou lutar por ela. Então não fale do que você não sabe, porra. Fica na sua.
Eu estava ofegante e irritado pra caralho. Ouvi Jace xingar baixinho e tive vontade de dar um soco na cara dele.
— Uma semana, . Lide com isso e depois volte. Você não vai morrer por causa de um término idiota, e você já passou por isso antes. — O idiota teve a audácia de falar e juro que comecei a ver vermelho.
— Vai se foder, seu filho da puta! — xinguei, desligando na cara dele em seguida.
Num impulso, atirei o celular na parede, mas me arrependi no mesmo instante. me daria uma bronca se eu quebrasse o celular por raiva. Ela diria que era um desperdício de dinheiro. Além disso, a capinha que eu usava nele tinha sido presente dela. Me levantei para avaliar o estrago, já sentindo o peso da culpa por ter feito aquilo, mas aparentemente estava tudo bem com meu telefone.
Eu só não podia dizer o mesmo do buraco na minha parede. Não era grande, mas agora dava pra ver o concreto. também me xingaria por isso.
O pior de tudo é que eu sentia falta até da briguenta. A incerteza e a espera eram uma tortura para mim. Eu só torcia para que no dia seguinte ela estivesse melhor para falar comigo. A gente não podia ficar assim, eu me recusava.
"Eu te amo, ... Mas não quero mais ficar com você".
As palavras dela ainda me atormentavam feito uma maldição.
Sacudi a cabeça, como se de alguma forma aquilo pudesse afastar aquela lembrança. Em seguida, respirei fundo novamente, encarando o teto.
Então esperei o tempo passar.
Capítulo 28
— Vamos, Zico. Eu pinto o seu primeiro e depois você pinta o meu — disse a minha skin de Ayla. — É só jogar no cabelo que nem um creme de hidratação e pronto. Eu já até preparei a tinta.
— Tá, e cadê as luvas? — ele perguntou e eu ri por dentro, já sabendo o que Ayla diria.
— Eu esqueci de comprar. Mas tá tudo bem, a tinta não mancha. Vem, senta aqui na cadeira. Pode segurar o espelho, se quiser ir vendo.
Zico fez o que ela/eu disse e comecei a tingir seu cabelo. Cerca de dez minutos depois, troquei de lugar com ele, depois de tirar o excesso de tinta das mãos.
— Tem certeza de que lavou a mão direito?
— Eu tirei só o excesso, vou pintar minha sobrancelha enquanto você pinta meu cabelo — expliquei.
Era uma cena automática em que eu era uma mera expectadora, mas estava me divertindo muito. Zico era uma graça. Falava "não" para Ayla umas mil vezes, mas no fim sempre fazia as vontades dela.
Naquela ocasião, Ayla o convenceu a pintar o cabelo da mesma cor que o dela, um ruivo laranjinha. Quando acabou, Zico relutantemente a deixou fazer uma maquiagem de idol de K-Pop nele, com direito a delineador e tudo. Tiramos algumas fotos e só então Ayla finalmente o deixou ir embora.
Senti a mudança quando fiquei sozinha. O controle de seu corpo era meu de novo. Fazia alguns dias que eu estava ali, mas tinha consciência que só devia ter se passado uns dois dias desde que cheguei na casa de . No entanto, passei a maior parte do tempo dormindo e me recusei a conversar com ela. Eu não queria tocar no assunto ainda, e ela não insistiu.
Quando chegou em casa à noite, perguntou se eu havia comido e como eu estava, e sem nem abrir a porta respondi que estava bem.
Nós duas sabíamos que era mentira, mas eu desconfiava que tivesse conversado com ela. Se tinha uma coisa que ele era incapaz de fazer era manter a boca fechada — acho que ele usava toda a sua força de vontade em me manter livre de spoilers de suas novas músicas. Tirando esse pequeno ponto, ele nunca conseguia esconder nada de mim. E se eu sabia, consequentemente minha irmã também saberia, então eu meio que já esperava que ele tivesse dado alguns detalhes da nossa discussão para ela.
Não que eu me importasse, é claro, era um trabalho adiantado. Tudo o que eu sentia vontade de fazer era dormir e vir parar em Tenaz, onde eu me distraía dos meus próprios problemas. Minha mente estava cheia e, acordada, eu só conseguia pensar nas palavras que eu deliberadamente falei para magoar e ele me deixar ir — além da maldição que nos perseguia.
Eu também sabia que não podia ficar assim para sempre. Fazia quase quarenta e oito horas e logo eu teria que voltar ao trabalho. Quando saí do apartamento, peguei algumas roupas, o notebook e meu tablet, além dos meus documentos. A maior parte obviamente ainda estava lá, mas eu ainda não tinha energia para lidar com isso. Você se colocou nessa posição por conta própria, agora lide com isso, pensei comigo mesma.
Deitei no sofá de Ayla e fechei os olhos por alguns minutos, até ouvir uma batida forte na porta do quarto que me fez levantar em um pulo. Automaticamente me dirigi em direção à porta e mal tive tempo de raciocinar que eu não estava mais em Tenaz, mas sim de volta à realidade, no quarto de hóspedes de .
As batidas continuaram e destranquei a porta, confusa. já tinha chegado e perdeu a paciência comigo?
Ainda eram quatro e meia da tarde.
Abri a porta, mas logo me arrependi ao ver parado ali, com bolsas de cansaço abaixo dos olhos e uma expressão nada feliz no rosto.
Na verdade, ele parecia bem irritado.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei baixinho, surpresa em vê-lo ali.
— Sua irmã me passou a senha da porta. Vim garantir que você tá pelo menos se alimentando, porque ela disse que você não saiu do quarto.
Senti o coração acelerar e meus olhos arderam um pouco. Ele também não parecia nada bem. Isso é culpa sua, . Você escolheu isso.
— Isso não é da sua conta, — declarei, tentando ignorar a voz da minha consciência que não parava de me criticar. — Você nem devia estar aqui. Eu não quero te ver.
Mentirosa.
Por um breve instante, abriu um sorriso sarcástico ao ouvir aquilo.
— Então feche os olhos. Não vou embora. — E se virou, indo em direção à cozinha.
Andei atrás dele.
— Como assim, não vai? Você nem devia ter vindo, ! A gente terminou!
— Você esqueceu uma coisa, . — Ele se virou para me encarar, então tirou algo do bolso e colocou em cima do balcão.
Arregalei os olhos quando vi o teste de gravidez que eu havia comprado. Me esqueci totalmente disso quando recuperei minhas memórias. Depois fiquei ocupada demais com nossa discussão, e então em sair de casa.
— , eu… — Eu nem sabia que desculpa inventar, na verdade. Nem tive tempo, já que voltou a falar, logo em seguida.
— Quando pretendia me contar? Ah, não, espera. Você não pretendia — ele me acusou.
— É só uma suspeita! — tentei justificar, me sentindo subitamente pressionada. — Eu tenho quase certeza de que não tô grávida. Não tô sentindo nada também. Comprei só pra não ter que ficar pensando nisso.
— , não importa se é suspeita ou não, eu tinha o direito de saber. E se você tiver grávida?
— Se eu tiver, então vou ter o bebê.
— É? Vai ter o bebê sozinha?
— Nós nem estamos mais juntos.
— Mas eu sou o pai! — gesticulou, apontando para si mesmo. — E não estamos juntos porque você não quer.
— Você fala como se o bebê já existisse.
— E se existir? — Ele deu a volta no balcão, parando na minha frente.
Dei um passo para trás.
— .
— . — Ele me puxou de uma vez, me fazendo esbarrar em seu corpo. — Por que você não para de ser teimosa e volta logo pra mim?
Meu coração errou uma batida. Ou talvez algumas.
Por que tinha que ser tão obstinado?
Ele estava próximo demais para que eu pensasse com clareza. Eu tinha que me afastar, mas o problema é que quando tentei pela segunda vez, tudo o que consegui foi ser prensada contra a parede ao nosso lado. Minha respiração falhou e fiquei levemente ofegante. Não havia nenhuma parte de seu corpo que não estivesse tocando o meu.
— , para com isso. Você sabe que é melhor você ir embora...
— Não, — ele insistiu. — Já disse que não vou.
— Você disse que ia me deixar ir... Eu falei que não quero mais ficar com você.
— Bem, acho que eu não tava pensando com clareza, mas você acha mesmo que faz sentido me amar e não querer ficar comigo? Estamos juntos há três anos, . Podemos passar por isso.
— Eu não mereço você — falei, sentindo a voz falhar.
— Isso não é você quem decide — ele retrucou baixinho, encarando meus lábios. — Eu sei que você é tão obcecada por mim quanto eu sou por você, amor.
Ele estava tão próximo que se eu me inclinasse um pouquinho para a frente, nos lábios se tocariam. Meu coração batia tão rápido que eu tinha quase certeza de que ele podia sentir.
— Por que você faz isso comigo? — perguntei quase em sussurro, virando o rosto para o lado, tentando colocar o máximo de distância que eu podia naquele momento. Senti os olhos arderem novamente e meu corpo clamar por ele. A proximidade era agonizante.
virou meu rosto delicadamente para que eu o encarasse outra vez.
— Porque eu te amo. — Ele roçou os lábios nos meus, sem realmente me beijar. Ele fez isso uma, duas vezes; na terceira, pressionei minha boca contra a dele e correspondeu de imediato.
Foi quase desajeitado. Um selinho que não devia acontecer. Assim como o beijo que se seguiu a ele, quando encaixou nossas bocas perfeitamente e nossas línguas brincaram juntas. Eu o queria, queria tanto. Tentei falar para mim mesma que aquele era um momento roubado, uma última vez. Que seria só aquela vez e depois eu o deixaria ir... Mas então as palavras sobre a maldição me atingiram novamente.
Eu tinha que fazer a escolha certa para quebrá-la ou a morte nos perseguiria. Já tínhamos perdido um bebê, e eu não podia arriscar que algo mais acontecesse. Eu tinha que ficar longe de para dar fim àquilo e, talvez... Na nossa próxima vida, finalmente seríamos livres. E pensar que ele era realmente a minha pessoa destinada...
A convicção de não poder ficar com me matava um pouquinho a cada segundo, mas eu estava fazendo isso para proteger nós dois.
A outra pessoa ainda estava por aí, procurando jeitos de nos separar. Talvez ela ficasse em paz, quando soubesse que tinha conseguido. E eu não tinha dúvidas de que era o maldito stalker. De todos os ditos fãs de , ele tinha sido a única pessoa a me perturbar de verdade. Talvez fosse até a pessoa que me atropelou. Se fosse um acidente, mesmo que ele quisesse roubar o carro, teria fugido. Havia espaço suficiente naquele estacionamento. Ele poderia se livrar do carro antes que a polícia fosse atrás dele.
Eu poderia até ter acreditado que poderia ser alguém roubando por necessidade — se eu não soubesse da maldição — e que se assustou após causar um acidente, mas era coincidência demais.
Se eu continuasse com , esse cara continuaria a nos infernizar de um jeito ou de outro, porque era parte do ciclo que vinha se repetindo. E eu tinha assistido dramas suficientes para imaginar que aquilo iria perdurar até que um de nós três fosse destruído.
Uma parte de mim queria contar para ele, explicar porque eu estava fazendo aquilo. Era algo que ia além da culpa que eu sentia por perder o bebê. Eu não me sentia digna e crianças estavam e continuariam a ser perdidas em todas as nossas vidas se eu não acabasse com aquilo.
Por mais que me doesse, por mais que eu odiasse com todas as minhas forças ficar longe de , eu só conseguia pensar que tínhamos que ter um fim.
Ofeguei em seus braços, tentando encontrar forças para afastá-lo. Eu sentia meus lábios levemente inchados, e um calor se espalhando lentamente pelo meu corpo. Eu queria envolvê-lo com as pernas, e queria que ele me fodesse contra aquela parede até me deixar mole feito gelatina.
Mas era só um momento roubado.
não merecia ouvir que era um erro quando tudo acabasse. Ele tinha sido a escolha mais certa da minha vida e ter que deixá-lo me fazia corroer de dentro para fora.
Então juntei toda a minha quase inexistente força de vontade e pedi para que ele parasse.
— Por quê? — ele quis saber. — Você também me quer, .
— Não posso. Por favor, , para.
Senti o corpo dele enrijecer e imediatamente ele me soltou, dando um passo para trás.
— Por que você tá fazendo isso comigo? — ele perguntou, olhando nos meus olhos, com uma mágoa quase palpável.
Os meus se encheram rapidamente e as lágrimas que eu tinha conseguido segurar até então molharam meu rosto.
— Nós não podemos. Por que você insiste em ficar? Por que, depois de tudo o que eu te disse? Por que você não esquece que eu existo e segue em frente? Você vai encontrar alguém melhor, . Uma separação não vai nos matar.
— Então por que eu sinto que vou morrer se ficar sem você?! — Ele me encarou, frustrado, e um par de lágrimas escorreu pelo seu rosto. — , por favor... A gente tava bem antes disso tudo acontecer.
Eu também sinto como se fosse morrer sem você, eu quis dizer. Mas não podia.
— Eu sinto muito, . — Você poderia morrer se ficasse comigo. — Vá embora, por favor.
— .
— Não. — Coloquei as mãos no rosto. — Por favor, vá embora. Eu tô implorando. Vá, .
Um momento de silêncio. Uma respiração profunda. E então...
— Tá. Se é assim que você quer, eu não vou mais insistir. Não posso lutar pela gente sozinho, . Eu trouxe comida pra você. Fiz bibimbap antes de vir. Por favor, se alimente. E me envia o resultado do teste quando fizer.
— Eu tenho quase certeza de que não tô grávida.
— Mesmo assim. Faça e me mande o resultado. Quero ter certeza também.
Assenti, de cabeça baixa, olhando para o chão. Então o vi dar um passo para trás.
— Eu vou voltar pra casa agora — disse ele. — Meu advogado tá tentando rastrear o stalker idiota que tava te perturbando, vou te manter atualizada sobre isso também até pegarmos ele.
— Tá.
Um momento depois, outro passo para trás. Então ele se virou e foi embora. Escorreguei pela parede assim que ouvi a porta bater e chorei mais ainda.
Eu estava com o coração despedaçado, e não sabia ideia de como fazer ele parar de doer.
Capítulo 29
Quando chegou em casa, pouco depois das seis, eu estava em pé, de frente para o balcão da cozinha, terminando de engolir o resto da porção de bibimbap que tinha feito para mim. Meus olhos estavam tão inchados que mantê-los abertos estava sendo um pouco difícil.
Eu queria me esconder, apagar, e não pensar em mais nada.
Ficar sem era doloroso demais para que eu lidasse com isso acordada. Mas vê-lo ocasionalmente na skin de Dean também não ajudava muito, quando eu ia parar em Tenaz. Eu ainda não sabia nem por que continuava indo parar na história, afinal, já tinha recuperado todas as minhas memórias. Eu sabia disso, tinha certeza. Então qual a razão daquilo continuar? Seria um gatilho? Talvez um mecanismo de defesa para me afastar da realidade, mesmo depois de lembrar de tudo?
Suspirei, resignada, me sentindo um lixo. A pior das piores entre todas as perdedoras. Então encarei minha irmã, sentindo meus olhos ficarem úmidos mais uma vez.
— Por que você tem que contar tudo pra ele? Sua fofoqueira — resmunguei de boca cheia, enfiando mais uma colher de comida na boca.
suspirou e se aproximou.
— Por que ele é a pessoa que você prometeu nunca deixar ir — ela respondeu, apoiando os braços no balcão. — Você tá fazendo isso unicamente por conta do aborto, ?
E lá estava o elefante na sala. Não tínhamos falado sobre aquilo ainda, a lembrança do acidente, do sangue... Do momento em que eu sabia que estava perdendo meu bebê. Mas eu já esperava que fosse tocar no assunto em algum momento, especialmente quando ela e conversaram pelas minhas costas.
Já que eu não queria falar, ele fez aquilo por mim.
— Foi um dos motivos — eu admiti, abaixando a cabeça. — Me senti um lixo quando lembrei do acidente. Eu vi o sangue, . Eu soube antes de desmaiar, e só juntei um mais um pra confirmar o que tinha acontecido. Eu menstruei há uns dias. Minha barriga não cresceu nada. Se eu tivesse grávida, meu corpo teria mudado.
— Não foi culpa sua. Você foi atropelada, .
— É aí que tá. Foi culpa minha — enfatizei, encontrando seu olhar mais uma vez. — Se eu não tivesse saído de casa, meu caminho nunca teria cruzado com o daquele cara. Eu não consigo parar de pensar na maldição. Não foi um acidente perder o bebê, foi proposital. Se eu não estivesse grávida, poderia ser só coincidência, mas, quando lembrei... Só consegui pensar nisso, na tal mulher.
— Homem, segundo a xamã — corrigiu. — Você não tem ideia de quem seja? Alguém que você tenha conhecido?
Neguei com a cabeça.
— Não, nada. Acho que é o stalker. Há uns dias eu recebi uma mensagem dele no Instagram falando que eu deveria ter morrido no acidente. E isso da morte nos perseguir... E se algo acontecer com ou comigo, só porque estamos juntos?
Minha irmã franziu o cenho, preocupada.
— Você acredita mesmo nisso? Que a solução é romper com ele?
— É o que ele quer, o stalker. Considerando que ele seja a esposa reencarnada. Isso não vai parar nunca enquanto nós não dermos um fim.
— É isso que o seu coração diz, irmã?
— Meu coração não importa agora, — respondi, sentindo meu olhos arderem mais uma vez. — Não posso ser egoísta e me dar ao luxo de seguir o que ele diz. Eu amo . Você sabe disso, ele sabe também, mas prefiro ficar sem ele e saber que ele tá vivo do que arriscar perdê-lo de um jeito pior. Mas eu tô bem. A gente vai superar.
— Ah, é? E por que você tá chorando de novo? — ela perguntou, cética, e só então percebi que meu rosto já estava encharcado outra vez.
— Ele cozinhou pra mim. — Solucei, colocando outra colher de comida na boca. Seria até cômico se a situação não fosse trágica. Mesmo depois de magoar , ele ainda dava um jeito de cuidar de mim.
suspirou, parecendo cansada.
— Honestamente, ... Eu não sei o que fazer com vocês dois. Não acho que se afastar seja a solução, mas você é teimosa demais. E tá tirando meu cunhado favorito de mim. — ela reclamou, me fazendo rir entre lágrimas.
— Ele é seu único cunhado. Você não tem outra irmã — falei, logo percebendo o erro. — Bem, ex-cunhado agora.
suspirou novamente, e eu enfiei a última colher de comida na boca.
— Eu vou tomar banho — ela avisou, enquanto eu juntava os últimos grãos de arroz para comer. — Mas fico feliz por ele ao menos ter conseguido te fazer comer.
Então se virou e saiu. Um segundo depois, encarei o recipiente vazio que tinha embalado cuidadosamente, e então chorei mais um pouco.
***
Uma semana depois de terminar com e sair de casa, finalmente decidi fazer o teste de gravidez.
Depois de tudo, achei melhor esperar mais alguns dias para descobrir se estava mesmo grávida. E só para garantir, pesquisei na internet se poderia haver algum problema quanto a uma gravidez poucas semanas após um aborto, mas havia muitos casos do tipo aparentemente sem complicações. A ideia de engravidar de novo sabendo que meu corpo poderia rejeitar mais um bebê me apavorava. E ainda me senti culpada por ter pensado que não estava preparada para ser mãe e ter comprado um novo teste, já torcendo para não estar grávida.
No entanto, enquanto esperava o tempo para ver o resultado daquela vez, eu já não sabia mais o que queria. Eu tinha noventa por cento de certeza de que não estava esperando um bebê, mas quando confirmei isso com o teste, fiquei surpresa ao sentir a pontada de decepção que me atingiu ao visualizar uma única listra.
Tirei uma foto e enviei para , sem nenhuma legenda. Ele visualizou cinco minutos depois, mas não respondeu nada.
Era aquilo então, a confirmação que esperávamos.
Eu não tinha ideia do que faria se estivesse grávida, ainda mais separada de , e sabia que não estar era provavelmente melhor para nós dois, considerando nosso término. Mas mesmo assim, meu coração se apertou. A resignação de saber que era o fim de nós dois, colocado entre nós por mim mesma, me atingiu em cheio.
Não chorei dessa vez.
Provavelmente havia esgotado todas as minhas lágrimas na última semana enquanto tentei seguir em frente. Dediquei noventa e cinco por cento da minha atenção ao trabalho durante aquela semana, tentando me ocupar ao máximo enquanto me perdia no mundo literário de Kate, e deu certo na maior parte do tempo.
Aquela era a primeira mensagem que eu trocava com desde a última vez que o vi e como uma maldita masoquista, rolei a janela de nossas conversas, lendo algumas mensagens antigas. Era deprimente, eu era culpada por nosso sofrimento mútuo, mas estava firme em minha decisão.
Eu tinha que proteger ele, nem que para isso eu tivesse que ficar longe. Se a pessoa que queria nosso mal resolvesse agir, por qualquer motivo que fosse, isso poderia terminar mal, assim como todas as outras vezes em nossas vidas passadas.
Eu não contei a ninguém, mas naquela semana voltei para ver a xamã mais uma vez. Eu queria saber mais sobre as minhas vidas passadas, saber se a história da morte nos perseguir significava o que eu estava pensando. As palavras de Sujin ainda faziam minha mente girar, e a confirmação do que eu mais temia veio logo depois.
"Se a escolha errada for feita, a morte os perseguirá. Tirada pelas próprias mãos ou de outrem, a maldição se concretizará mais uma vez e a chance daquele que não viveu a vida e o amor que deveria continuará no limbo."
Eu estava certa então. Se ficássemos juntos, um de nós morreria, ou os dois. E a esposa que não teve chance de viver como queria e receber o amor de continuaria do mesmo modo. Eu não achava que me afastar dele daria uma chance para ela, especialmente quando ela era um ele nessa vida e era hétero. Tampouco achava que ele se tornaria amigo de um stalker, mas talvez a distância deixasse sua alma em paz. Se a maldição fosse quebrada assim, em outra vida poderíamos os três ter uma nova chance de ser felizes.
Mantive aquela informação para mim mesma. Eu não precisava discutir aquilo com mais ninguém e o resultado do teste era só mais um sinal de que não era para ser. Quando ouvi as palavras de Sujin, apenas assenti em silêncio e me fui embora sem falar mais nada.
Vivi três anos me sentindo a mulher mais sortuda e amada do mundo. Mesmo que isso tivesse sido arrancado de mim, eu levaria essas memórias comigo para sempre. Para mim, todo o amor, apoio, amizade e cuidado que recebi de eram preciosos. Construímos nosso relacionamento com base em companheirismo e respeito, e ele era o tipo de pessoa que eu admiraria para sempre, mesmo que um dia eu soubesse que ele havia passado a me odiar.
Eu não me via com mais ninguém além de , mas um dia... Quando ele encontrasse um novo amor, mesmo que doesse em mim, eu torceria para dar certo, torceria para que ele tivesse a chance de ser feliz.
era uma das minhas pessoas favoritas no mundo.
Mas a nós, agora só restava seguir em frente. Dar tempo ao tempo e esperar que fosse o suficiente para curar nós dois.
Mais tarde, quando chegou, conversei com ela e enviei uma mensagem para falando que iríamos buscar o resto dos meus pertences. Eu não tinha interesse em mobília nem nada do tipo, então levaria apenas as minhas roupas, sapatos e cosméticos.
Eu não precisava de mais coisas que me lembrassem dele. Já bastavam as mensagens e as fotos de nós dois, que eu não havia tido coragem para apagar.
E honestamente, nem sei se teria.
Talvez o máximo que eu fizesse fosse transferir tudo para uma nuvem. De todo jeito, deletar parecia demais. Quase um desrespeito a nós mesmos e tudo o que vivemos. Eu não queria esquecer, apenas não ter lembretes na minha cara toda vez que pegasse o celular.
respondeu minha mensagem poucos minutos depois.
♥: Tudo bem, vou ficar trabalhando no estúdio. Fique o tempo que precisar, não vou atrapalhar.
Não vou mais atrás de você, . Estou te deixando ir agora, foi o que imaginei que ele queria dizer, quando li.
No dia seguinte, e eu voltamos para o local que foi meu lar nos últimos dois anos. Era cerca de sete da manhã e eu não vi nem ouvi , então deduzi que ele estava trancado no estúdio. Eu sabia que ele tinha comida e bebida lá dentro, além de um pequeno banheiro, então era de se esperar que ele pudesse sobreviver lá dentro por várias horas sem sair.
O apartamento estava silencioso e o único barulho eram das vozes de minha irmã e eu enquanto conversávamos baixinho, decidindo como organizar as coisas.
Havia mais do que eu esperava, então deu um jeito e ligou para o tal Garrett bonitão com quem estava saindo, e o convenceu a vir ajudar. Ele tinha uma caminhonete e trouxe um amigo com ele, um cara chamado Jake. Os dois pareciam dois modelos saídos de uma capa de revista e tinham músculos úteis o suficiente para ajudar a carregar as caixas que fomos deixando prontas. Assim, o trabalho que duraria provavelmente o dia todo foi concluído antes do meio-dia.
Era um alívio terminar cedo, mas a sensação de sair daquele apartamento sabendo que nunca mais voltaria era completamente amarga. Mas desde a última visita à xamã, eu vinha me policiando para me lembrar do motivo de estar fazendo aquilo sempre que começava a me martirizar.
Não adiantava de nada continuar me remoendo em um poço de autopiedade. Nada mudaria, mas olhei para trás uma última vez antes de sair e, por alguns segundos, tentei capturar uma lembrança de cada pedacinho daquele lugar. E em meio à triste convicção de que aquele lugar não faria mais parte do meu presente, me virei e fui embora.
Um ciclo havia se encerrado.
E eu esperava que a maldição também.
Eu queria me esconder, apagar, e não pensar em mais nada.
Ficar sem era doloroso demais para que eu lidasse com isso acordada. Mas vê-lo ocasionalmente na skin de Dean também não ajudava muito, quando eu ia parar em Tenaz. Eu ainda não sabia nem por que continuava indo parar na história, afinal, já tinha recuperado todas as minhas memórias. Eu sabia disso, tinha certeza. Então qual a razão daquilo continuar? Seria um gatilho? Talvez um mecanismo de defesa para me afastar da realidade, mesmo depois de lembrar de tudo?
Suspirei, resignada, me sentindo um lixo. A pior das piores entre todas as perdedoras. Então encarei minha irmã, sentindo meus olhos ficarem úmidos mais uma vez.
— Por que você tem que contar tudo pra ele? Sua fofoqueira — resmunguei de boca cheia, enfiando mais uma colher de comida na boca.
suspirou e se aproximou.
— Por que ele é a pessoa que você prometeu nunca deixar ir — ela respondeu, apoiando os braços no balcão. — Você tá fazendo isso unicamente por conta do aborto, ?
E lá estava o elefante na sala. Não tínhamos falado sobre aquilo ainda, a lembrança do acidente, do sangue... Do momento em que eu sabia que estava perdendo meu bebê. Mas eu já esperava que fosse tocar no assunto em algum momento, especialmente quando ela e conversaram pelas minhas costas.
Já que eu não queria falar, ele fez aquilo por mim.
— Foi um dos motivos — eu admiti, abaixando a cabeça. — Me senti um lixo quando lembrei do acidente. Eu vi o sangue, . Eu soube antes de desmaiar, e só juntei um mais um pra confirmar o que tinha acontecido. Eu menstruei há uns dias. Minha barriga não cresceu nada. Se eu tivesse grávida, meu corpo teria mudado.
— Não foi culpa sua. Você foi atropelada, .
— É aí que tá. Foi culpa minha — enfatizei, encontrando seu olhar mais uma vez. — Se eu não tivesse saído de casa, meu caminho nunca teria cruzado com o daquele cara. Eu não consigo parar de pensar na maldição. Não foi um acidente perder o bebê, foi proposital. Se eu não estivesse grávida, poderia ser só coincidência, mas, quando lembrei... Só consegui pensar nisso, na tal mulher.
— Homem, segundo a xamã — corrigiu. — Você não tem ideia de quem seja? Alguém que você tenha conhecido?
Neguei com a cabeça.
— Não, nada. Acho que é o stalker. Há uns dias eu recebi uma mensagem dele no Instagram falando que eu deveria ter morrido no acidente. E isso da morte nos perseguir... E se algo acontecer com ou comigo, só porque estamos juntos?
Minha irmã franziu o cenho, preocupada.
— Você acredita mesmo nisso? Que a solução é romper com ele?
— É o que ele quer, o stalker. Considerando que ele seja a esposa reencarnada. Isso não vai parar nunca enquanto nós não dermos um fim.
— É isso que o seu coração diz, irmã?
— Meu coração não importa agora, — respondi, sentindo meu olhos arderem mais uma vez. — Não posso ser egoísta e me dar ao luxo de seguir o que ele diz. Eu amo . Você sabe disso, ele sabe também, mas prefiro ficar sem ele e saber que ele tá vivo do que arriscar perdê-lo de um jeito pior. Mas eu tô bem. A gente vai superar.
— Ah, é? E por que você tá chorando de novo? — ela perguntou, cética, e só então percebi que meu rosto já estava encharcado outra vez.
— Ele cozinhou pra mim. — Solucei, colocando outra colher de comida na boca. Seria até cômico se a situação não fosse trágica. Mesmo depois de magoar , ele ainda dava um jeito de cuidar de mim.
suspirou, parecendo cansada.
— Honestamente, ... Eu não sei o que fazer com vocês dois. Não acho que se afastar seja a solução, mas você é teimosa demais. E tá tirando meu cunhado favorito de mim. — ela reclamou, me fazendo rir entre lágrimas.
— Ele é seu único cunhado. Você não tem outra irmã — falei, logo percebendo o erro. — Bem, ex-cunhado agora.
suspirou novamente, e eu enfiei a última colher de comida na boca.
— Eu vou tomar banho — ela avisou, enquanto eu juntava os últimos grãos de arroz para comer. — Mas fico feliz por ele ao menos ter conseguido te fazer comer.
Então se virou e saiu. Um segundo depois, encarei o recipiente vazio que tinha embalado cuidadosamente, e então chorei mais um pouco.
Uma semana depois de terminar com e sair de casa, finalmente decidi fazer o teste de gravidez.
Depois de tudo, achei melhor esperar mais alguns dias para descobrir se estava mesmo grávida. E só para garantir, pesquisei na internet se poderia haver algum problema quanto a uma gravidez poucas semanas após um aborto, mas havia muitos casos do tipo aparentemente sem complicações. A ideia de engravidar de novo sabendo que meu corpo poderia rejeitar mais um bebê me apavorava. E ainda me senti culpada por ter pensado que não estava preparada para ser mãe e ter comprado um novo teste, já torcendo para não estar grávida.
No entanto, enquanto esperava o tempo para ver o resultado daquela vez, eu já não sabia mais o que queria. Eu tinha noventa por cento de certeza de que não estava esperando um bebê, mas quando confirmei isso com o teste, fiquei surpresa ao sentir a pontada de decepção que me atingiu ao visualizar uma única listra.
Tirei uma foto e enviei para , sem nenhuma legenda. Ele visualizou cinco minutos depois, mas não respondeu nada.
Era aquilo então, a confirmação que esperávamos.
Eu não tinha ideia do que faria se estivesse grávida, ainda mais separada de , e sabia que não estar era provavelmente melhor para nós dois, considerando nosso término. Mas mesmo assim, meu coração se apertou. A resignação de saber que era o fim de nós dois, colocado entre nós por mim mesma, me atingiu em cheio.
Não chorei dessa vez.
Provavelmente havia esgotado todas as minhas lágrimas na última semana enquanto tentei seguir em frente. Dediquei noventa e cinco por cento da minha atenção ao trabalho durante aquela semana, tentando me ocupar ao máximo enquanto me perdia no mundo literário de Kate, e deu certo na maior parte do tempo.
Aquela era a primeira mensagem que eu trocava com desde a última vez que o vi e como uma maldita masoquista, rolei a janela de nossas conversas, lendo algumas mensagens antigas. Era deprimente, eu era culpada por nosso sofrimento mútuo, mas estava firme em minha decisão.
Eu tinha que proteger ele, nem que para isso eu tivesse que ficar longe. Se a pessoa que queria nosso mal resolvesse agir, por qualquer motivo que fosse, isso poderia terminar mal, assim como todas as outras vezes em nossas vidas passadas.
Eu não contei a ninguém, mas naquela semana voltei para ver a xamã mais uma vez. Eu queria saber mais sobre as minhas vidas passadas, saber se a história da morte nos perseguir significava o que eu estava pensando. As palavras de Sujin ainda faziam minha mente girar, e a confirmação do que eu mais temia veio logo depois.
"Se a escolha errada for feita, a morte os perseguirá. Tirada pelas próprias mãos ou de outrem, a maldição se concretizará mais uma vez e a chance daquele que não viveu a vida e o amor que deveria continuará no limbo."
Eu estava certa então. Se ficássemos juntos, um de nós morreria, ou os dois. E a esposa que não teve chance de viver como queria e receber o amor de continuaria do mesmo modo. Eu não achava que me afastar dele daria uma chance para ela, especialmente quando ela era um ele nessa vida e era hétero. Tampouco achava que ele se tornaria amigo de um stalker, mas talvez a distância deixasse sua alma em paz. Se a maldição fosse quebrada assim, em outra vida poderíamos os três ter uma nova chance de ser felizes.
Mantive aquela informação para mim mesma. Eu não precisava discutir aquilo com mais ninguém e o resultado do teste era só mais um sinal de que não era para ser. Quando ouvi as palavras de Sujin, apenas assenti em silêncio e me fui embora sem falar mais nada.
Vivi três anos me sentindo a mulher mais sortuda e amada do mundo. Mesmo que isso tivesse sido arrancado de mim, eu levaria essas memórias comigo para sempre. Para mim, todo o amor, apoio, amizade e cuidado que recebi de eram preciosos. Construímos nosso relacionamento com base em companheirismo e respeito, e ele era o tipo de pessoa que eu admiraria para sempre, mesmo que um dia eu soubesse que ele havia passado a me odiar.
Eu não me via com mais ninguém além de , mas um dia... Quando ele encontrasse um novo amor, mesmo que doesse em mim, eu torceria para dar certo, torceria para que ele tivesse a chance de ser feliz.
era uma das minhas pessoas favoritas no mundo.
Mas a nós, agora só restava seguir em frente. Dar tempo ao tempo e esperar que fosse o suficiente para curar nós dois.
Mais tarde, quando chegou, conversei com ela e enviei uma mensagem para falando que iríamos buscar o resto dos meus pertences. Eu não tinha interesse em mobília nem nada do tipo, então levaria apenas as minhas roupas, sapatos e cosméticos.
Eu não precisava de mais coisas que me lembrassem dele. Já bastavam as mensagens e as fotos de nós dois, que eu não havia tido coragem para apagar.
E honestamente, nem sei se teria.
Talvez o máximo que eu fizesse fosse transferir tudo para uma nuvem. De todo jeito, deletar parecia demais. Quase um desrespeito a nós mesmos e tudo o que vivemos. Eu não queria esquecer, apenas não ter lembretes na minha cara toda vez que pegasse o celular.
respondeu minha mensagem poucos minutos depois.
♥: Tudo bem, vou ficar trabalhando no estúdio. Fique o tempo que precisar, não vou atrapalhar.
Não vou mais atrás de você, . Estou te deixando ir agora, foi o que imaginei que ele queria dizer, quando li.
No dia seguinte, e eu voltamos para o local que foi meu lar nos últimos dois anos. Era cerca de sete da manhã e eu não vi nem ouvi , então deduzi que ele estava trancado no estúdio. Eu sabia que ele tinha comida e bebida lá dentro, além de um pequeno banheiro, então era de se esperar que ele pudesse sobreviver lá dentro por várias horas sem sair.
O apartamento estava silencioso e o único barulho eram das vozes de minha irmã e eu enquanto conversávamos baixinho, decidindo como organizar as coisas.
Havia mais do que eu esperava, então deu um jeito e ligou para o tal Garrett bonitão com quem estava saindo, e o convenceu a vir ajudar. Ele tinha uma caminhonete e trouxe um amigo com ele, um cara chamado Jake. Os dois pareciam dois modelos saídos de uma capa de revista e tinham músculos úteis o suficiente para ajudar a carregar as caixas que fomos deixando prontas. Assim, o trabalho que duraria provavelmente o dia todo foi concluído antes do meio-dia.
Era um alívio terminar cedo, mas a sensação de sair daquele apartamento sabendo que nunca mais voltaria era completamente amarga. Mas desde a última visita à xamã, eu vinha me policiando para me lembrar do motivo de estar fazendo aquilo sempre que começava a me martirizar.
Não adiantava de nada continuar me remoendo em um poço de autopiedade. Nada mudaria, mas olhei para trás uma última vez antes de sair e, por alguns segundos, tentei capturar uma lembrança de cada pedacinho daquele lugar. E em meio à triste convicção de que aquele lugar não faria mais parte do meu presente, me virei e fui embora.
Um ciclo havia se encerrado.
E eu esperava que a maldição também.
Capítulo 30
Rolei na cama, me espreguiçando, e abri os olhos para encarar as paredes do local onde eu vinha dormindo nas últimas semanas.
Fazia pouco mais de um mês que e eu tínhamos terminado e eu havia me mudado oficialmente para o quarto de hóspedes, incapaz de usar nosso antigo quarto.
Eu não havia nem mesmo trocado os lençóis da cama, que permanecia intocada desde o dia em que ela foi embora, e usava apenas o closet para me trocar. Ele parecia bem vazio sem o zilhão de pertences dela e, sempre que eu entrava lá, meu olhar automaticamente seguia até o nicho onde jazia a caixa com os sapatinhos de bebê que ela havia deixado para trás.
Podia ser coisa da minha cabeça, mas eu podia jurar que sempre que entrava no nosso quarto podia sentir resquícios do cheiro do perfume favorito de , o que ela usava no dia a dia e eu adorava. Era o único momento em que eu me permitia sentir saudade sem qualquer disfarce para mascarar que eu estava bem.
Eu ainda não estava, não sabia quando estaria, mas resolvi tentar seguir em frente, assim como vinha fazendo.
A última vez que tínhamos trocado mensagens havia sido há duas semanas, quando recebi uma atualização sobre o local que o stalker tinha usado para enviar aquelas mensagens nojentas para ela. Tínhamos descoberto o endereço de IP de onde tudo havia sido enviado, mas aparentemente o cara não morava mais no local.
Atualizei e deixei claro que a investigação continuaria a ser feita por um detetive particular. Meu advogado deu a ideia de contratar um para tentar rastrear o paradeiro do cara.
O nome dele era Roy Basset e tinha vinte e quatro anos. Tínhamos conseguido uma foto dele e eu a enviei para e os dois seguranças que eu tinha contratado para ficar de olho nela, assim que descobri que ele era o stalker.
Não contei essa parte para ela, obviamente, sobre os seguranças. No entanto, estava sabendo de tudo, e também me contava tudo sobre .
Como o fato dela ter voltado a trabalhar no escritório da editora dois dias depois de buscar suas coisas no nosso apartamento, já que o quarto que estava usando no de estava lotado de caixas que ela mal tinha onde colocar — e que meio que ainda permanecia assim.
Ambos sabíamos que odiava ter que organizar coisas. Ela havia juntado coragem para pegá-las, mas arrumar tudo de novo em outra casa era um processo que eu sabia que ela iria adiar até cansar de ver caixas ao seu redor.
Eu também havia voltado a trabalhar e, além disso, andava me exercitando mais que o normal. E se antes eu trabalhava muito, agora tinha me tornado um viciado nisso. Ficar exausto também me ajudava a dormir melhor e qualquer coisa que eu pudesse fazer para ocupar minha mente, eu faria, incluindo reuniões presenciais desnecessárias que poderiam ser resolvidas com uma ligação.
Minha equipe provavelmente estava me odiando por aquilo, mas era o novo que eles tinham que aguentar. Ninguém além de Jace sabia que e eu tínhamos terminado e, para todos os efeitos, nosso personal trainer achava que ela estava passando um tempo com a irmã para fazer companhia a ela.
Eu não sabia até que ponto dessa história John acreditava, mas não era da conta de ninguém o meu relacionamento com .
No dia seguinte após pegar seus pertences, desativou todas as suas redes sociais. achava que ela não queria apagar nossas fotos e desativar era uma opção melhor para gerar menos especulações.
Agora as únicas vezes que eu podia vê-la era através de ocasionais fotos que as duas tiravam quando saíam juntas para comer e postava em seus stories. Eu me sentia um pouquinho stalker por esperar constantemente uma atualização da minha ex-cunhada, mas era o único jeito que tínhamos arranjado para ela compartilhar imagens de comigo sem realmente fazer isso.
Em uma das ocasiões, não pude deixar de perceber que ainda usava nossa aliança de compromisso. Eu não sabia se ela queria manter as aparências ou não, mas eu também não tinha tirado a minha.
Eu sabia que podia não significar mais nada para ela, mas me sentia um pouquinho menos miserável por ela não ter pegado aversão a qualquer coisa que a lembrasse de mim.
disse que ela havia parado de chorar. Eu também. Acho que o processo das fases de luto era real, mas não deixava de ser menos doloroso.
Eu ainda não tinha deixado ela ir, embora talvez fosse isso que ela pensasse agora. Mas não sabia quando estaria pronto para fazer isso, e finalmente parar de perturbar por notícias dela. Eu queria saber de tudo, se estava se alimentando direito, trabalhando, se divertindo...
Meu celular tocou, interrompendo meus pensamentos. A primeira coisa que fiz foi ver a hora, notando que se passava das nove da manhã. E então atendi em meio a um suspiro.
— Oi, mãe.
— Oi, meu amor. Como foi a sua semana? — ela perguntou e murmurei uma resposta genérica.
Minha mãe e eu não éramos do tipo de ligar um para o outro com frequência, mas como se estivesse pressentindo alguma coisa, no dia em que veio pegar as coisas dela, ela fez isso.
Seu aniversário de sessenta anos estava chegando e ela estava organizando uma festa com as amigas e queria confirmar minha presença e de .
Naquele dia, murmurei um "mãe" e ela imediatamente soube que havia algo de errado. Contei tudo o que tinha acontecido, inclusive sobre o bebê que tínhamos perdido. Levei uma bronca por não ter falado nada antes, embora ela soubesse do acidente de , mas logo depois ela voltou a ser a mãe amorosa que sempre me consolou nos momentos difíceis.
Desabei no choro ouvindo suas palavras, mas me senti um pouquinho melhor por saber que ela estava ali caso eu precisasse.
Ela se ofereceu para vir passar alguns dias comigo, mas recusei delicadamente. No entanto, as ligações ficaram mais frequentes. No início, ela ligava dia sim, dia não. E então passou a fazer isso uma vez por semana. Eu estava grato e não queria fazê-la se preocupar tanto comigo, então foi um alívio.
— E como foi o trabalho? — ela quis saber, quando terminei de falar.
— Tenho uma reunião hoje.
— Você devia sair com algum amigo, .
— Eu tenho um compromisso em Los Angeles daqui a um mês, vou aproveitar pra encontrar alguns.
A verdade era que eu não tinha amigos em Nova York. Decidi morar na cidade simplesmente por gostar dela, mas eu era um lobo solitário. Fora dos palcos, minha vinda era cinza e chata.
Eu não tinha nenhum hobby e tudo o que fazia no meu tempo livre era beber, fumar, me exercitar, trabalhar mais um pouco em casa ou dormir. Eu sobrevivia de delivery porque não sabia cozinhar nada, e mesmo achando minha vida pessoal um tédio, eu não fazia nada para mudar aquilo.
Até aparecer na minha vida e trazer cor para ela. Alegria. Amor. Felicidade e sensação de pertencimento.
Me tornei bem mais saudável e consideravelmente mais divertido depois que a conheci. Fiquei encantado desde a primeira conversa. Ela era como um raio de sol em um dia frio e eu amava como me sentia ao redor dela. Ver feliz me deixava feliz, e era especialmente divertido porque eu não precisava me esforçar muito para fazer isso acontecer.
Uma edição de luxo de um livro que ela gostava, cozinhar ou comprar suas comidas favoritas, deixar ela dar uma olhada em uma música nova quando eu finalmente tinha concluído... O sorriso dela era como uma luz iluminando um quarto escuro. Eu quase podia ver o meu mundo ganhando um pouquinho mais de cor sempre que ela sorria.
Ela não era apenas brilhante, como também tinha um temperamento genioso. Eu seria hipócrita se falasse que não a achava assustadora às vezes, mas até isso era meio fofo. Ela ficava linda quando irritada e se via alguma ofensa a mim na internet, me defendia com unhas e dentes. Quando isso acontecia, eu sentia vontade de me ajoelhar aos seus pés e mostrar a ela com minha boca o quanto eu era grato só por ela existir e fazer parte da minha vida.
Eu era um idiota apaixonado e nunca neguei isso. Não me importava nem um pouquinho de orbitar ao redor de . Ela era meu amor, minha companheira e a minha pessoa favorita no mundo todo.
Desculpa, mãe.
Mãe!
Ela ainda estava falando ao telefone sobre alguma fofoca de uma amiga que eu não fazia ideia de quem era, mas ela jurava que sim e eu não tinha ouvido nem a metade.
— Mas enfim, vou te deixar em paz agora. Boa reunião, meu bem. Não se esqueça de se alimentar e beber água. Vou pra ioga agora.
— Obrigado, mãe. Boa aula pra senhora também.
Desligamos um momento depois e respirei fundo, olhando para o teto mais uma vez, antes de me levantar para tomar banho e iniciar mais um dia que me deixaria exausto o suficiente para que, à noite, eu não conseguisse pensar em nada a não ser em dormir.
Sem era como se tudo estivesse se tornando cinza outra vez.
Encontrei Jace para uma reunião duas horas depois. No fim, depois da minha última discussão com , eu acabei focando no trabalho outra vez e o andamento do novo álbum continuou seguindo.
Eu lançaria dez músicas dessa vez. Estavam escritas e eu mesmo as tinha produzido, mas ainda precisava dar uns toques finais. Precisávamos decidir as cores da capa do álbum e a ideia inicial tinha sido em tons de verde, mas agora eu queria preto e branco para combinar com o meu péssimo estado de espírito.
Uma hora ou outra teríamos que admitir o término publicamente, então talvez... Talvez pudéssemos usar o álbum para isso. Eu não queria que as pessoas atacassem e as músicas que escolhi colocar na lista meio que deixavam isso claro.
Originalmente seriam apenas oito, mas inseri outra duas que compus após o nosso término. Era como uma terapia, o meu modo de colocar para fora o que eu estava sentindo, e meio que me ajudava a aliviar a sensação ruim que tinha se atrelado em mim.
Era como se eu soubesse que estava morrendo um pouquinho a cada dia sem ela. Eu não tinha ânimo para nada, mas agora só me restava aceitar.
— Tem certeza de que quer preto e branco? Eu acho que o verde fica melhor — Jace opinou.
— Tenho certeza, Jace — respondi, apático. — Meus álbuns sempre refletiram meus sentimentos e, no momento, não vejo nenhuma cor nele. Só tons de preto, branco e cinza.
— Honestamente, … Essa não é a pessoa que seus fãs esperam.
— Como assim? — O encarei com o cenho franzido, sem entender aonde ele queria chegar.
— Já faz mais de um mês que você e sua namorada terminaram. Você precisa seguir em frente.
— Eu tô seguindo em frente — rebati, na defensiva.
— Você parece um zumbi na maior parte do tempo. — Rolei os olhos ao ouvir. — Sério, . Parece que aquela mulher sugou sua vida.
Eu ri pelo nariz, achando realmente engraçado.
— Você não lembra de mim antes, Jace? Antes da ? Acha mesmo que ela sugou alguma coisa de mim?
— Você só era mais retraído antes, mas sempre foi um cara legal, simpático.
— Ah, me perdoe se não tenho humor pra ficar de conversa fiada — falei, com ironia. — Não acuse de alguma coisa se você não sabe de nada. Eu nem falo da minha vida pessoal com você, porque ela te odeia.
— Me odeia por quê? Eu nunca entendi isso.
— Segundo as palavras dela, você é intrometido, incompetente e acha que pode me monopolizar.
— ! — Ele me encarou, ofendido. Não me importei. — Eu tô com você há mais tempo que ela. Isso não significa nada?
— O que deveria significar? era minha mulher, Jace. Você é só meu gerente.
— É só isso que você acha? Não me considera nem mesmo um amigo?
— Por que você tá tão sensível hoje? Você sabe muito bem que nossa relação sempre foi profissional e não passa de um arranjo. Nós não temos nada em comum, Jace. Você sabe disso.
— Um arranjo... — Ele riu pelo nariz e eu podia jurar que por um segundo, vi um brilho de raiva em seu olhar. — Tudo bem, então, .
— É, beleza — respondi, irritado por ele estar irritado. O que ele achava? Que íamos virar melhores amigos de uma hora para outra depois de anos sendo colegas? Que cara estranho. — Já que resolvemos tudo, eu vou pra casa.
Me levantei e segui em direção à saída, mas me virei quando o ouvi falar novamente.
— Vou te mandar o cronograma do mês que vem quanto à apresentação em LA. Vê se melhora até lá pros seus fãs não terem que ver essa sua cara de bunda.
Sorri sarcástico e me despedi dele com um aceno. Esse cara já tava me dando nos nervos e minha paciência estava curta. Quando estivéssemos em LA, eu visitaria a sede da empresa e daria um jeito nisso.
Já tava mais do que na hora de mudar de gerente.
Capítulo 31
Ou pelo menos era essa a impressão que eu estava tendo há várias semanas. O problema é que sempre que eu olhava para trás procurando por alguém, não encontrava nada. No início, desconfiei que pudesse ser algum paparazzi, mas a opção já tinha caído por terra quando nenhum artigo recente saiu sobre mim, tampouco fotos na internet. Não que eu estivesse acessando muito já que tinha desativado todas as minhas redes sociais, e agora eu só tinha uma conta fake no Twitter para acompanhar comentários sobre as expectativas do próximo lançamento de Kate e... Bem, outras coisas.
Eu podia deixar de ser namorada de de uma hora para outra, mas deixar de ser fã era outra história. Não é como se ele tivesse feito algo para me fazer odiá-lo. Na verdade, ele devia estar me odiando agora, mas ainda tinha a consideração de me mandar informações sobre a identidade do stalker que vinha nos perturbando.
Sendo bem sincera, se eu fosse a única sendo perturbada por esse cara, eu apenas ignoraria e seguiria em frente. provavelmente faria o mesmo, mas por ele, eu queria que esse cara fosse encontrado. Especialmente se ele fosse a tal esposa reencarnada cheia de rancor por nós dois. Eu queria que essa pessoa fosse pega e ficasse impossibilitada de fazer mal a .
Não tínhamos declarado nosso término publicamente, mas se o stalker fosse bom mesmo, então a essa altura já estaria sabendo que saí de casa. Além disso, tinha compromisso em cerca de duas semanas em Los Angeles e ele não precisava de um escândalo nosso e repórteres o enchendo de perguntas nesse momento, ainda mais quando estava se preparando para um novo álbum.
Eu sabia que ele tinha as músicas prontas, que já tinham sido escolhidas, mas não cheguei a ouvir nenhuma. sempre dava uns retoques antes do lançamento oficial, mas tinha me falado que a capa seria verde e oito músicas seriam lançadas. Eu sabia que ele tinha muito mais que isso naquele estúdio — que eu era praticamente proibida de entrar —, mas também sabia que ele era extremamente seletivo no trabalho.
valorizava planejamentos acima de tudo e odiava imprevistos. Se a capa seria verde era porque ele tinha passado dias, talvez semanas pensando nisso. Se oito músicas foram escolhidas, provavelmente eram as que passavam exatamente o que ele queria transmitir ao público. E obviamente, eu estava bem curiosa para ouvir tudo.
Depois de estacionar o carro para comprar café, continuei andando pela calçada, com aquela mesma impressão de estar sendo seguida. Olhei para trás novamente, mas apenas encontrei uma senhorinha prestes a atravessar a rua e dois homens enormes andando de mãos dadas.
Parei um pouco, fingindo checar o celular, e os dois caras passaram por mim, entrando na mesma cafeteria que eu planejava. Certo, estavam indo para mesmo local então. Os dois pararam na porta, observando o local, e eu segui direto para a fila, antes de eles resolverem se juntar também.
Um deles sorriu, encostando o queixo no ombro do outro, que parecia desconfortável, e deduzi que ele não era muito fã de demonstração de afeto em público. Talvez com receio de ter que encarar o preconceito de alguém, enquanto o outro claramente não se importava.
Eu sabia bem como era aquilo, ter alguém mais aberto ao lado. No início do meu relacionamento com , eu era retraída em público. Os paparazzi andavam interessados em nós e eu não queria esfregar na cara de seus fãs que estava com ele. Nenhum fã quer saber quando ou quem seu ídolo está namorando.
Ficar alheia quanto a isso era bem mais saudável para a maioria de nós. Felizmente, não teve nenhum relacionamento público antes de mim, então a maioria dos fãs achava que ele curtia sexo casual com várias pessoas diferentes e nada de compromisso.
Chegava a ser cômico agora.
não fazia questão de esconder nosso relacionamento, mas, no começo, tive medo de receber ataques nas redes sociais. Recebi mesmo, mas eles eram bem menores se comprados às mensagens cheias de humor dos fãs que não se importaram ou que simplesmente nos apoiaram. Eu ser uma fã de também foi um fator que influenciou bastante nisso, como se milhares de garotas estivessem vivendo uma fanfic através de mim.
Elas provavelmente acabariam comigo se descobrissem que parti o coração dele.
Eu faria isso se fosse elas.
Respirei fundo, me preparando para fazer o pedido, e deixei de lado a ideia de estar sendo seguida. Devia ser só impressão mesmo, porque acho que uma parte de mim sabia que eu poderia ser exposta e cancelada a qualquer momento — não por , mas talvez por algum paparazzi intrometido.
Girei a aliança no dedo enquanto pensava nisso. Evitar a exposição de nós dois foi um dos motivos que me fez mantê-la no dedo. Fazia um mês desde a última vez que eu tinha falado com , e mais que isso desde a última vez que eu o vira. Eu não fazia ideia se ele ainda usava a dele ou não, mas secretamente esperava que sim, ao menos para manter perguntas curiosas longe, já que ele nunca a tirava.
Eu não esperava mais que isso, no entanto. Não era como se eu planejasse começar a sair com outras pessoas, então deixaria que ele decidisse quando anunciar nossa separação.
Depois de comprar café da manhã, segui direto para a editora, e entrei com alguns copos e lanchinhos que eu costumava levar para Andrew e Diana. Mesmo sendo os donos da editora, ambos eram bastante presentes e ficavam imersos nos trabalhos de edição tanto quanto os outros profissionais que trabalhavam lá.
Encontrei os dois no escritório de Andy e coloquei nosso café da manhã cima da mesinha de centro que ele tinha ali. Deliciosos pãezinhos recheados com creme de chocolate jaziam no saco de papel, prontos para adoçar a nossa segunda-feira.
— Por que isso é tão bom? — Diana perguntou, algum tempo depois. — Será que conta como sair da dieta se for numa segunda-feira cheia de reuniões? Tipo, é só pra evitar o estresse com um pouco de açúcar.
— Claro que conta. Não vem com essa de matemática de menina agora, Di — Andrew riu.
— Eu discordo — opinei. — Acho uma ótima opção, desde que seja uma vez na semana e depois só no fim dela.
— Você e seu namorado são os senhores saudáveis, você não pode opinar, — Andy brincou. — Até onde sei, vocês gastam tantas calorias que podiam comer besteiras todos os dias sem engordar.
Sorri, sem graça.
Eles não sabiam sobre meu término ainda. Apenas e Kate, porque não tinha como esconder dela — não quando ela me ajudou a achar a taróloga/xamã que descobriu e me ajudou a entender a maldição.
— E você? Continua fingindo que a academia não existe, Andy? — devolvi. — E por que o meu ex tá falando da minha atual vida sexual, hein? Seu estranho.
— Nem vem, não sou um mero ex. Sou seu amigo, lembra? A gente já passou dessa fase de ficarmos constrangidos, . Eu, hein… — ele retrucou, mordendo mais um pãozinho. — E ainda corro três vezes por semana. Tá mais do que bom pra eu não ser totalmente sedentário.
Diana e eu rimos e tomei um gole de café enquanto ele mastigava como se aquela fosse sua comida favorita no mundo e não uma bomba de açúcar e calorias que faria a maioria das pessoas se arrependerem de comer algumas horas depois. A verdade era que Andrew nem precisava pegar pesado nos exercícios para ter um corpo definido. Ele fazia parte daquela porcentagem irritante de pessoas magras que não precisavam se esforçar quase nada para definir os músculos. Ele não era um cara volumoso como , que tinha um físico construído na academia com bastante proteína.
Andrew era slim, suave e o estereótipo do nerd gostoso, com óculos de aro fino e armação arredondada que o deixava mais atraente ainda. Foi uma das primeiras coisas que me atraiu nele quando começamos a desenvolver interesse um pelo outro. Mas era... O moreno bad boy e sarcástico dos livros. Tirando o fato de que eu não o achava realmente sarcástico, nem bad boy. Ele tinha a aparência de um, mas o espírito de um lobo leal e companheiro.
Será que Kate estaria interessada em escrever um romance de lobos depois que concluísse a série? Com certeza não. Ela nem curtia muito lobos hoje em dia. Embora o pensamento de ver em mais um personagem literário fosse interessante, suspirei, resignada.
Mas melhor do que isso era saber que ele era como um personagem literário da vida real, escrito por uma mulher — meu tipo favorito.
Eu amava o Dean, e sempre que eu dormia e ia parar em Tenaz, era como ter pequenos momentos roubados com — mas não era a mesma coisa. Eu ainda vinha sonhando com o livro, mas tinha se tornado menos frequente. O enredo não demoraria para ser concluído, e eu sempre me perguntava se pararia de sonhar quando ele se encerrasse.
Eu achava que sim, mas, por enquanto, eu estava aproveitando os momentos com a skin ranzinza de .
Na história, Dean terminou com Ayla para protegê-la. Quando presenciei isso, não passou pela minha cabeça que um dia eu fosse terminar com pelo mesmo motivo. Não tínhamos um progenitor mafioso atrapalhando nosso relacionamento, é claro, mas antes fosse algo do tipo. Lidar com esse lance de maldição que se perpetuava me parecia bem mais perturbador e difícil de resolver.
Ayla e Dean tiveram um mal-entendido, mas, na parte onde eu estava, isso já tinha sido resolvido. Na noite em que sonhei com essa cena, acordei chorando e me corroendo de inveja deles.
Porque eu queria que tudo fosse só um mal-entendido entre mim e também, fácil de resolver com uma conversa — e sem uma terceira pessoa intrometida carregando uma dor de cotovelo que já durava séculos.
Eu até podia ter optado por terminar meu relacionamento, mas, se um dia encontrasse aquele stalker… ele descobriria o que era levar um chute nas bolas. Eu o faria ver estrelas e passarinhos rodando ao redor da cabeça.
Idiota nojento, pervertido e intrometido.
Eu não era mais uma cortesã e ele nem era mais mulher! Podia só ter seguido a vida longe de nós. Ao invés disso, me fez perder um bebê e desistir da minha felicidade pelo bem de .
Ah... Era cansativo, de verdade.
Quando acabei de comer, saí do escritório e fui para a minha mesa para começar a trabalhar com o que quer que eu tivesse que fazer naquele dia — eu precisava checar na agenda primeiro. No entanto, quando fiz isso, não foi em um compromisso de trabalho que fixei meu olhar, mas sim em uma data circulada em vermelho, rodeada de estrelinhas.
O aniversário de sessenta anos da minha sogra era naquela sexta-feira.
Eu tinha esquecido completamente.
Sem pensar muito, disquei o número de e me levantei, para ter um pouco de privacidade.
Eu vinha me policiando para não enviar mensagens para ele, mas aquela era uma situação que não envolvia só a gente. A Sra. era uma querida, e mesmo que eu não fosse mais comparecer em seu aniversário, gostaria ao menos de enviar um presente.
Eu nem sabia se ia. Tínhamos conversado sobre o aniversário dela antes dele voltar de turnê. Eu sabia que a mãe dele queria dar uma festa, mas não se isso ainda estava de pé.
— ? — Ele atendeu após o terceiro toque. Meu coração deu um pulo, e meu sangue disparou quando ouvi sua voz rouca murmurar meu nome.
— Oi...
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, é que... Eu acabei vendo na minha agenda a data do aniversário da sua mãe e queria saber se você vai. Ela não ia dar uma festa?
— Vai, sim. Mas eu não sei se eu vou. Talvez. Eu teria que voltar direto pra LA.
— LA? Você não ia só daqui a duas semanas? Quer dizer... — Pigarreei. — É o que diz a sua agenda pública.
— Então você anda olhando minha agenda? — ele perguntou sério, mas consegui identificar uma pitada de diversão em sua voz.
— Ei, antes de tudo, eu sou sua fã. Nunca parei de fazer isso.
— Certo, claro. — Ele suspirou. — Tenho algumas coisas pra resolver na empresa. Eu ia fazer isso quando fosse me apresentar lá, mas achei melhor ir antes. Vou sozinho mesmo.
— Sozinho? E Jace?
— Eu não disse a ele que vou.
Como assim ele não avisou ao agente dele que tá indo na sede?
— Ah... Certo. — Eu queria saber mais, mas também não queria parecer intrometida. — Você tem tempo essa semana? Eu queria conversar sobre o aniversário da sua mãe. Talvez comprar um presente. Você já comprou alguma coisa? Posso te ligar ou mandar mensagem pra pedir opinião?
— Não, mas... Nós podemos comprar juntos, se você quiser. Eu tô livre essa semana.
Mordi o lábio inferior, debatendo internamente se deveria aceitar ou não... Talvez fosse uma péssima ideia, mas… que mal faria? Já tinha quase dois meses que estávamos separados, certo? parecia bem pelo telefone. A gente tava seguindo em frente. E esse encontro era pela mãe dele, não por nós.
Podíamos separar as coisas, certo?
Não era como se isso fosse mudar algo.
— Você pode almoçar comigo hoje? — perguntei. — Pode escolher o restaurante se quiser.
— Não, você escolhe. Eu vou te pegar. Você tá na editora, né?
— Sim, faz umas semanas que voltei a trabalhar. E a dirigir.
— Ah, claro... Me manda mensagem quando estiver livre.
— Tá... Até mais tarde, .
— Até mais tarde, .
Encerrei a ligação sentindo um frio na barriga. Eu estava nervosa. Bem nervosa, na verdade. Talvez devesse tomar um chá para me acalmar. Sim, era exatamente isso que eu precisava. Caminhei até a copa, onde a equipe fazia lanches rápidos, e comecei a preparar um copo grande e gelado de chá.
Eu não devia estar assim.
Era só o . Eu tinha a manhã toda para me acostumar com a ideia de vê-lo outra vez. Não era nada sério. Passaríamos um tempo juntos resolvendo uma coisa, e depois cada um seguiria seu caminho.
Sim, era só isso. Ia ficar tudo bem.
Ou ao menos eu esperava que sim.
Capítulo 32
♥: Chego em cinco minutos.
Minhas mãos tremeram levemente enquanto digitei uma resposta após ler a mensagem. Eu não tinha nem sequer tirado aquele emoji do nome dele.
: Tô descendo.
Peguei minha bolsa, passando rapidinho no banheiro para conferir minha aparência. A maquiagem estava no lugar e meu cabelo também, mas retoquei o batom rosado mesmo assim. Quando saí do elevador, pouco tempo depois, meu coração começou a bater tão forte que fiquei com medo de ouvir se chegasse muito perto.
Não que isso fosse possível, era meio ideia de gente doida. E não que ele fosse chegar perto o suficiente para sentir, muito menos ouvir. Mas eu estava nervosa pra cacete. Tive a manhã toda para me acostumar com a ideia de ver outra vez, mas não serviu de nada para me acalmar.
E não ajudou muito quando o avistei encostado no carro, do lado do carona, de braços cruzados, vestindo jeans e uma camisa social branca com as mangas dobradas até os antebraços e os dois primeiros botões desabotoados.
Odiei. Odiei demais.
Lá no fundo, uma parte bem egoísta minha achava que tinha feito isso de propósito. Ele era um cara que usava camisetas no dia a dia, camisas sociais eram para ocasiões específicas. E também sabia que eu me derretia toda quando o via todo charmoso assim.
O frio na barriga ficou um pouquinho mais forte à medida que fui me aproximando, mas tentei manter uma expressão impassível no rosto. Ele era meu ex-namorado agora, não precisava saber que, mesmo após quase dois meses, ainda me afetava. Ou melhor, eu não precisava admitir isso, sendo que ele conhecia todos os meus pontos fracos.
não tinha nada de inocente. Ele podia ser um cara legal, que fazia todas as minhas vontades frequentemente — como todo bom namorado deveria —, mas também tinha aquele lado que sabia exatamente o que fazer para ficar sob a minha pele.
Respirei fundo e caminhei até parar em sua frente.
— Oi. — Sorri de lábios fechados.
— Oi. — Ele sorriu de volta e abriu a porta do carro para mim, colocando a mão na parte superior da porta, para o caso de eu bater a cabeça. Isso só tinha acontecido uma vez quando fiquei bêbada, mas, desde então, tinha adquirido o hábito de fazer aquilo.
Ele deu a volta para entrar no carro e logo estávamos na estrada.
— Como tá o trabalho? — perguntou casualmente, quebrando o silêncio entre nós.
— Bem, e o seu?
— Só umas coisas aqui e ali pra resolver. Tô querendo liberar um single semana que vem. Vai estar no álbum e vamos revelar a capa na apresentação em LA.
— Sério? Tão rápido?
— Acabei adiantando umas coisas nas últimas semanas. — Ele deu de ombros. — E você? Tá feliz por voltar pro escritório?
— Eu amo home office, mas é meio entediante. No escritório eu sempre posso ver o pessoal e jogar conversa fora.
assentiu e caímos no silêncio novamente.
— E a sua mãe, como tá? — perguntei, uns trinta segundos depois.
— Ela tá bem animada com a festa. Vai ser à fantasia.
— Sério? Que legal. Você vai?
— Não, provavelmente não. — Ele encolheu os ombros. — Se eu aparecer sozinho, as pessoas vão me encher de perguntas e não tô muito a fim de socializar.
Ele não precisava explicar o resto. Eu sabia que seriam perguntas sobre mim, sobre nós. Eu conhecia a família de inteirinha. Diferente da minha, com quem eu nem tinha contato há anos, os membros da dele eram bem próximos uns dos outros.
— Entendi. E os presentes, então? Você vai mandar por correio?
— Acho que sim — ele respondeu, e então pareceu pensar por um momento, antes de voltar a falar. — Você quer ir? Pode ir sozinha, eu fico aqui.
Soltei uma risada, incrédula.
— Tá falando sério?
— Por quê? — Ele me encarou por um segundo, com o cenho franzido, antes de voltar a prestar atenção no trânsito.
Suspirei, prestes a falar o óbvio.
— É a sua mãe, . Não faz sentido nenhum eu ir e você ficar.
— Minha mãe te adora. Ela iria gostar que você fosse.
— Ela sabe? — perguntei, de repente. me encarou por mais um segundo, antes de responder.
— Sabe.
— E ela não me odeia?
— Minha mãe não odeia ninguém, . Além disso, é impossível te odiar.
— Até pra você? — perguntei, sem pensar.
— Especialmente pra mim — ele respondeu em um tom de voz baixo. — Mas se quer saber... Eu fiquei com raiva de você. Mas depois passou.
— Por quê?
— Porque eu acho que você deve ter outros motivos além do bebê. Não sei o que é, e se você não quis me contar, não vou te forçar a isso. Mas... Eu fiz alguma coisa?
— Não — admiti baixinho.
— Eu não fiz alguma coisa, então? Algo que deveria ter feito? — ele perguntou em seguida.
— Não. Você era perfeito.
Silêncio. Então ele pigarreou.
— Caramba, o trânsito tá péssimo hoje. Ainda bem que a gente tá perto. Escolhi aquele restaurante coreano que você gosta. Depois a gente pode ir num shopping atrás de um presente.
— Você já sabe o que vai comprar? — perguntei, tentando deixar aquele assunto de lado. Não estávamos ali para conversar.
— Não faço ideia — foi a resposta dele, para a surpresa de ninguém. era péssimo nessas coisas. — Você tem alguma sugestão?
— Sua mãe adora bolsas. Podemos procurar algum lançamento legal.
— Tá, você que sabe.
— Vamos escolher juntos — esclareci. — É sua mãe.
— Tá, tudo bem.
Alguns minutos depois, entramos no restaurante, e o garçom nos levou até a mesa que tinha reservado. Segui atrás dele e notei as pessoas nos encarando com curiosidade, provavelmente o reconhecendo, mas ele não pareceu se importar. Sentamos numa mesa dos fundos, um pouco mais distante das outras e logo fizemos o pedido.
Ficamos debatendo sobre o cardápio apenas para não cair em silêncio outra vez, e senti que tínhamos feito um acordo silencioso de não tocar no assunto nós.
Depois de um tempo, a comida chegou e eu não pude deixar de rir quando colocou uma colher de caldo apimentado na boca e quase o cuspiu de tão quente. Peguei um pedaço de rabanete em conserva e ofereci a ele. Ele encarou meu braço estendido por um segundo antes de aceitar, e senti meu rosto esquentar um pouco. Eu estava tão acostumada a dividir comida com ele, a alimentá-lo e ser alimentada, que não pensei antes de lhe oferecer.
Acho que ele percebeu meu leve constrangimento, porque logo tratou de encontrar outro assunto aleatório para conversarmos. Dessa vez, falou sobre um amigo, também músico, que encontraria em Los Angeles e se apresentaria com ele. Ji Ho era um rapper de ascendência asiática que tinha conhecido e com quem colaborou em algumas músicas no início da carreira. Os dois costumavam ser bem próximos e, mesmo com a distância, ainda trocavam mensagens frequentemente.
Era um dos poucos amigos que ele tinha. Provavelmente o único amigo que não era em comum comigo.
Embora conhecesse muita gente na indústria da música, era um cara mais introspectivo, que preferia ficar na dele. Ele e Hero se davam bem, mas nunca saíam juntos sem mim e Kate de chaveirinho. Hero também se limitava a interagir mais com os membros da banda — mas eu ainda sonhava com o dia em que os dois fariam uma colaboração juntos em uma música.
Depois do almoço, nós seguimos para um shopping perto do restaurante. Era a primeira vez que eu pisava em um após o acidente e fiquei meio travada para sair do carro quando chegamos ao estacionamento.
— ? Tá tudo bem? — me encarou, intrigado.
— Sim, só... Espera um pouco. — Respirei fundo duas vezes. — Tudo bem, vamos.
— A gente pode ir em outro lugar se você quiser — ele ofereceu.
— Não, tá tudo bem — neguei prontamente. — É só um estacionamento, .
Ele assentiu e saímos do carro. Quando fiquei ao seu lado, segurou minha mão.
— Você pode soltar se quiser, mas tô aqui se precisar — falou e senti um nó se formar na minha garganta.
— Obrigada. — Entrelacei meus dedos aos dele, deixando claro que não soltaria.
foi meu namorado por três anos, mas não era apenas amor que sentíamos um pelo outro. Ele era meu melhor amigo, meu porto seguro. Senti meu coração transbordar de gratidão por ele não me odiar, por continuar sendo gentil mesmo depois do que fiz com a gente.
Ele era bom demais para este mundo.
— Pronta? — ele perguntou e eu assenti.
Então começamos a andar até a entrada.
No meio do caminho, paramos para comprar sorvete e fiquei feliz por ninguém o abordar para pedir autógrafos ou algo do tipo. Eu estava acostumada com fãs aparecendo quase sempre que saíamos juntos, então aquilo era uma exceção.
Eu mal tinha chegado na metade do meu sorvete quando comecei a me sentir cheia, muito provavelmente porque tinha sido uma péssima ideia comer aquilo logo após um almoço repleto de comida. já tinha terminado o dele porque, aparentemente, seu estômago não tinha fundo, e senti seu olhar sobre mim enquanto eu mexia devagar no sorvete, sem realmente comer.
Levantei a cabeça sem dizer nada, e ele suspirou antes de pegar a casquinha da minha mão e começar a comer em silêncio. Tive que lutar para segurar um sorriso e até irei o rosto para o outro lado.
Então senti os dedos de no meu queixo, forçando-me a encará-lo e, em seguida, seus lábios gelados na minha bochecha, em um beijo tão rápido que não tive tempo de reagir.
— Ei, para de olhar pro nada, eu tô bem do seu lado.
Pisquei, levemente confusa. Ele queria atenção?
— Tá — respondi, e ele entrelaçou nossas mãos outra vez.
— Você não tirou sua aliança — cochichou, enquanto observava em volta.
— Nem você a sua — devolvi.
Eu tinha notado assim que ele pôs as mãos no volante do carro, logo antes de sairmos.
— As pessoas fariam perguntas...
— Então é isso? Vamos fingir pra elas não perguntarem? — eu quis saber.
— Não é da conta de ninguém.
— E você vai lançar um álbum em breve. Não precisa da imprensa te enchendo com isso — justifiquei, achando aquela desculpa perfeitamente aceitável.
— É... — ele concordou. — Eu tô bem. Mas você decide. Não precisamos fazer nada.
— Vamos só manter do jeito que tá — decidi. — Você era meu amigo também, não era?
Meu melhor amigo, acrescentei mentalmente. Mas eu não precisava dizer em voz alta porque o olhar de foi suficiente para eu saber que ele havia entendido. E eu também era sua melhor amiga. Éramos esse tipo de casal, com uma relação fácil e harmoniosa assim.
— Sim — ele respondeu, firme. E então apontou para uma loja da Prada. — O que acha de olharmos ali?
— Acho ótimo. Vamos.
Vinte minutos depois, saímos de lá com duas bolsas, cada uma com uma sacola de presente. Passei uns cinco minutos tentando convencer de que eu queria comprar um presente para a mãe dele com meu próprio dinheiro, enquanto ele resmungava que ela já devia ter bolsas demais e blá blá blá. Nós dois sabíamos que era uma desculpa, pois ele não queria que eu gastasse dinheiro e eu não o deixaria pagar pelo meu presente — essa era uma discussão perdida que ele sabia muito bem que não valia a pena sequer tentar me convencer.
Ganhei algumas reviradas de olhos dele, mas saí de lá feliz. Escrevi até uma mensagem em um cartão para a Sra. .
Meu horário de almoço acabaria em breve, então logo fomos embora.
— Você vai enviar os presentes ainda hoje? — perguntei, no meio do caminho.
— Não, talvez amanhã. Aposto que ela nem vai ter tempo de abrir os presentes no dia.
— Você devia ir, sabe? É sua mãe. Ela passou meses planejando essa festa. Não acha que tá sendo meio egoísta?
Certo, eu não queria dizer a palavra egoísta, mas infelizmente saiu assim.
— Egoísta? — riu, sem humor. — A minha mãe nem sabia se a gente ia. Não acho que ela vá sentir minha falta.
— Isso é o que você pensa. É óbvio que ela não ia admitir isso, . Até parece que você não conhece sua mãe. Além disso, você pode ir e, sei lá, se esconder num canto ou simplesmente evitar responder perguntas. Você não deve satisfação a ninguém.
— Rá! Até parece que você não conhece a minha família — ele retrucou, me encarando por um instante. Paramos em um sinal vermelho e ele se virou para mim. — Se for pra ir e ficar escondido, , então é melhor eu ficar em casa.
— Só tô dizendo que você podia fazer um esforço por ela.
— Não sei se vale a pena. Sempre posso ir em outra data, ou ela pode vir me visitar.
— Ai, sério. Você é tão cabeça dura — comentei, irritada. — Sua agenda vai ficar cheia em breve, você mal vai ter tempo de respirar, .
— Ah, agora eu sou cabeça dura? Bem, isso não estaria acontecendo se você não tivesse me largado porque aí nós iríamos juntos.
Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter meu temperamento. Ele estava sendo infantil agora.
— Achei que não íamos falar disso.
— Foi você que começou com essa insistência toda — ele me acusou, desviando o olhar para o trânsito à frente e batucando o dedo no volante.
Abri um sorriso e tive que lutar para não dar um tapa na parte de trás de sua cabeça — e também porque odiava admitir que ele estava certo. Se ainda estivéssemos juntos, aquela discussão nem estaria acontecendo. Então, em um impulso, sugeri o que provavelmente era uma péssima ideia:
— E se eu for com você?
parou de batucar o volante e virou lentamente a cabeça para me encarar.
— Tá falando sério? — Ele arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Sim.
— Não é nenhuma pegadinha? Pra me fazer ir sozinho de última hora?
— Quer ficar com a minha identidade como garantia? — perguntei com ironia, mas então o idiota estendeu a mão. — Sério?
— Você que ofereceu.
Ri, incrédula, e enfiei a mão na bolsa para pegar a carteira. Um instante depois, bati com minha identidade na mão dele, e o idiota deu uma risadinha antes de guardá-la no bolso da camisa e voltar a dirigir.
— Que infantil, — resmunguei. — Você devia me dar mais crédito.
— É a garantia. Eu sei que você não aguenta ficar sem os seus documentos, então eu te entrego no avião.
Revirei os olhos e, pouco depois, ele parou em frente ao edifício da editora.
— Você compra as passagens — avisei, assim que abri a porta.
— Como se eu fosse te deixar pagar por qualquer coisa.
— Ótimo. Melhor ainda.
— Vejo você na quinta, . — Ele soprou um beijinho para mim com um sorrisinho que fez meu coração pular.
Respondi mostrando o dedo do meio.
— Até mais, babaca.
E saí do carro, ouvindo sua risada antes de fechar a porta.
Minhas mãos tremeram levemente enquanto digitei uma resposta após ler a mensagem. Eu não tinha nem sequer tirado aquele emoji do nome dele.
: Tô descendo.
Peguei minha bolsa, passando rapidinho no banheiro para conferir minha aparência. A maquiagem estava no lugar e meu cabelo também, mas retoquei o batom rosado mesmo assim. Quando saí do elevador, pouco tempo depois, meu coração começou a bater tão forte que fiquei com medo de ouvir se chegasse muito perto.
Não que isso fosse possível, era meio ideia de gente doida. E não que ele fosse chegar perto o suficiente para sentir, muito menos ouvir. Mas eu estava nervosa pra cacete. Tive a manhã toda para me acostumar com a ideia de ver outra vez, mas não serviu de nada para me acalmar.
E não ajudou muito quando o avistei encostado no carro, do lado do carona, de braços cruzados, vestindo jeans e uma camisa social branca com as mangas dobradas até os antebraços e os dois primeiros botões desabotoados.
Odiei. Odiei demais.
Lá no fundo, uma parte bem egoísta minha achava que tinha feito isso de propósito. Ele era um cara que usava camisetas no dia a dia, camisas sociais eram para ocasiões específicas. E também sabia que eu me derretia toda quando o via todo charmoso assim.
O frio na barriga ficou um pouquinho mais forte à medida que fui me aproximando, mas tentei manter uma expressão impassível no rosto. Ele era meu ex-namorado agora, não precisava saber que, mesmo após quase dois meses, ainda me afetava. Ou melhor, eu não precisava admitir isso, sendo que ele conhecia todos os meus pontos fracos.
não tinha nada de inocente. Ele podia ser um cara legal, que fazia todas as minhas vontades frequentemente — como todo bom namorado deveria —, mas também tinha aquele lado que sabia exatamente o que fazer para ficar sob a minha pele.
Respirei fundo e caminhei até parar em sua frente.
— Oi. — Sorri de lábios fechados.
— Oi. — Ele sorriu de volta e abriu a porta do carro para mim, colocando a mão na parte superior da porta, para o caso de eu bater a cabeça. Isso só tinha acontecido uma vez quando fiquei bêbada, mas, desde então, tinha adquirido o hábito de fazer aquilo.
Ele deu a volta para entrar no carro e logo estávamos na estrada.
— Como tá o trabalho? — perguntou casualmente, quebrando o silêncio entre nós.
— Bem, e o seu?
— Só umas coisas aqui e ali pra resolver. Tô querendo liberar um single semana que vem. Vai estar no álbum e vamos revelar a capa na apresentação em LA.
— Sério? Tão rápido?
— Acabei adiantando umas coisas nas últimas semanas. — Ele deu de ombros. — E você? Tá feliz por voltar pro escritório?
— Eu amo home office, mas é meio entediante. No escritório eu sempre posso ver o pessoal e jogar conversa fora.
assentiu e caímos no silêncio novamente.
— E a sua mãe, como tá? — perguntei, uns trinta segundos depois.
— Ela tá bem animada com a festa. Vai ser à fantasia.
— Sério? Que legal. Você vai?
— Não, provavelmente não. — Ele encolheu os ombros. — Se eu aparecer sozinho, as pessoas vão me encher de perguntas e não tô muito a fim de socializar.
Ele não precisava explicar o resto. Eu sabia que seriam perguntas sobre mim, sobre nós. Eu conhecia a família de inteirinha. Diferente da minha, com quem eu nem tinha contato há anos, os membros da dele eram bem próximos uns dos outros.
— Entendi. E os presentes, então? Você vai mandar por correio?
— Acho que sim — ele respondeu, e então pareceu pensar por um momento, antes de voltar a falar. — Você quer ir? Pode ir sozinha, eu fico aqui.
Soltei uma risada, incrédula.
— Tá falando sério?
— Por quê? — Ele me encarou por um segundo, com o cenho franzido, antes de voltar a prestar atenção no trânsito.
Suspirei, prestes a falar o óbvio.
— É a sua mãe, . Não faz sentido nenhum eu ir e você ficar.
— Minha mãe te adora. Ela iria gostar que você fosse.
— Ela sabe? — perguntei, de repente. me encarou por mais um segundo, antes de responder.
— Sabe.
— E ela não me odeia?
— Minha mãe não odeia ninguém, . Além disso, é impossível te odiar.
— Até pra você? — perguntei, sem pensar.
— Especialmente pra mim — ele respondeu em um tom de voz baixo. — Mas se quer saber... Eu fiquei com raiva de você. Mas depois passou.
— Por quê?
— Porque eu acho que você deve ter outros motivos além do bebê. Não sei o que é, e se você não quis me contar, não vou te forçar a isso. Mas... Eu fiz alguma coisa?
— Não — admiti baixinho.
— Eu não fiz alguma coisa, então? Algo que deveria ter feito? — ele perguntou em seguida.
— Não. Você era perfeito.
Silêncio. Então ele pigarreou.
— Caramba, o trânsito tá péssimo hoje. Ainda bem que a gente tá perto. Escolhi aquele restaurante coreano que você gosta. Depois a gente pode ir num shopping atrás de um presente.
— Você já sabe o que vai comprar? — perguntei, tentando deixar aquele assunto de lado. Não estávamos ali para conversar.
— Não faço ideia — foi a resposta dele, para a surpresa de ninguém. era péssimo nessas coisas. — Você tem alguma sugestão?
— Sua mãe adora bolsas. Podemos procurar algum lançamento legal.
— Tá, você que sabe.
— Vamos escolher juntos — esclareci. — É sua mãe.
— Tá, tudo bem.
Alguns minutos depois, entramos no restaurante, e o garçom nos levou até a mesa que tinha reservado. Segui atrás dele e notei as pessoas nos encarando com curiosidade, provavelmente o reconhecendo, mas ele não pareceu se importar. Sentamos numa mesa dos fundos, um pouco mais distante das outras e logo fizemos o pedido.
Ficamos debatendo sobre o cardápio apenas para não cair em silêncio outra vez, e senti que tínhamos feito um acordo silencioso de não tocar no assunto nós.
Depois de um tempo, a comida chegou e eu não pude deixar de rir quando colocou uma colher de caldo apimentado na boca e quase o cuspiu de tão quente. Peguei um pedaço de rabanete em conserva e ofereci a ele. Ele encarou meu braço estendido por um segundo antes de aceitar, e senti meu rosto esquentar um pouco. Eu estava tão acostumada a dividir comida com ele, a alimentá-lo e ser alimentada, que não pensei antes de lhe oferecer.
Acho que ele percebeu meu leve constrangimento, porque logo tratou de encontrar outro assunto aleatório para conversarmos. Dessa vez, falou sobre um amigo, também músico, que encontraria em Los Angeles e se apresentaria com ele. Ji Ho era um rapper de ascendência asiática que tinha conhecido e com quem colaborou em algumas músicas no início da carreira. Os dois costumavam ser bem próximos e, mesmo com a distância, ainda trocavam mensagens frequentemente.
Era um dos poucos amigos que ele tinha. Provavelmente o único amigo que não era em comum comigo.
Embora conhecesse muita gente na indústria da música, era um cara mais introspectivo, que preferia ficar na dele. Ele e Hero se davam bem, mas nunca saíam juntos sem mim e Kate de chaveirinho. Hero também se limitava a interagir mais com os membros da banda — mas eu ainda sonhava com o dia em que os dois fariam uma colaboração juntos em uma música.
Depois do almoço, nós seguimos para um shopping perto do restaurante. Era a primeira vez que eu pisava em um após o acidente e fiquei meio travada para sair do carro quando chegamos ao estacionamento.
— ? Tá tudo bem? — me encarou, intrigado.
— Sim, só... Espera um pouco. — Respirei fundo duas vezes. — Tudo bem, vamos.
— A gente pode ir em outro lugar se você quiser — ele ofereceu.
— Não, tá tudo bem — neguei prontamente. — É só um estacionamento, .
Ele assentiu e saímos do carro. Quando fiquei ao seu lado, segurou minha mão.
— Você pode soltar se quiser, mas tô aqui se precisar — falou e senti um nó se formar na minha garganta.
— Obrigada. — Entrelacei meus dedos aos dele, deixando claro que não soltaria.
foi meu namorado por três anos, mas não era apenas amor que sentíamos um pelo outro. Ele era meu melhor amigo, meu porto seguro. Senti meu coração transbordar de gratidão por ele não me odiar, por continuar sendo gentil mesmo depois do que fiz com a gente.
Ele era bom demais para este mundo.
— Pronta? — ele perguntou e eu assenti.
Então começamos a andar até a entrada.
No meio do caminho, paramos para comprar sorvete e fiquei feliz por ninguém o abordar para pedir autógrafos ou algo do tipo. Eu estava acostumada com fãs aparecendo quase sempre que saíamos juntos, então aquilo era uma exceção.
Eu mal tinha chegado na metade do meu sorvete quando comecei a me sentir cheia, muito provavelmente porque tinha sido uma péssima ideia comer aquilo logo após um almoço repleto de comida. já tinha terminado o dele porque, aparentemente, seu estômago não tinha fundo, e senti seu olhar sobre mim enquanto eu mexia devagar no sorvete, sem realmente comer.
Levantei a cabeça sem dizer nada, e ele suspirou antes de pegar a casquinha da minha mão e começar a comer em silêncio. Tive que lutar para segurar um sorriso e até irei o rosto para o outro lado.
Então senti os dedos de no meu queixo, forçando-me a encará-lo e, em seguida, seus lábios gelados na minha bochecha, em um beijo tão rápido que não tive tempo de reagir.
— Ei, para de olhar pro nada, eu tô bem do seu lado.
Pisquei, levemente confusa. Ele queria atenção?
— Tá — respondi, e ele entrelaçou nossas mãos outra vez.
— Você não tirou sua aliança — cochichou, enquanto observava em volta.
— Nem você a sua — devolvi.
Eu tinha notado assim que ele pôs as mãos no volante do carro, logo antes de sairmos.
— As pessoas fariam perguntas...
— Então é isso? Vamos fingir pra elas não perguntarem? — eu quis saber.
— Não é da conta de ninguém.
— E você vai lançar um álbum em breve. Não precisa da imprensa te enchendo com isso — justifiquei, achando aquela desculpa perfeitamente aceitável.
— É... — ele concordou. — Eu tô bem. Mas você decide. Não precisamos fazer nada.
— Vamos só manter do jeito que tá — decidi. — Você era meu amigo também, não era?
Meu melhor amigo, acrescentei mentalmente. Mas eu não precisava dizer em voz alta porque o olhar de foi suficiente para eu saber que ele havia entendido. E eu também era sua melhor amiga. Éramos esse tipo de casal, com uma relação fácil e harmoniosa assim.
— Sim — ele respondeu, firme. E então apontou para uma loja da Prada. — O que acha de olharmos ali?
— Acho ótimo. Vamos.
Vinte minutos depois, saímos de lá com duas bolsas, cada uma com uma sacola de presente. Passei uns cinco minutos tentando convencer de que eu queria comprar um presente para a mãe dele com meu próprio dinheiro, enquanto ele resmungava que ela já devia ter bolsas demais e blá blá blá. Nós dois sabíamos que era uma desculpa, pois ele não queria que eu gastasse dinheiro e eu não o deixaria pagar pelo meu presente — essa era uma discussão perdida que ele sabia muito bem que não valia a pena sequer tentar me convencer.
Ganhei algumas reviradas de olhos dele, mas saí de lá feliz. Escrevi até uma mensagem em um cartão para a Sra. .
Meu horário de almoço acabaria em breve, então logo fomos embora.
— Você vai enviar os presentes ainda hoje? — perguntei, no meio do caminho.
— Não, talvez amanhã. Aposto que ela nem vai ter tempo de abrir os presentes no dia.
— Você devia ir, sabe? É sua mãe. Ela passou meses planejando essa festa. Não acha que tá sendo meio egoísta?
Certo, eu não queria dizer a palavra egoísta, mas infelizmente saiu assim.
— Egoísta? — riu, sem humor. — A minha mãe nem sabia se a gente ia. Não acho que ela vá sentir minha falta.
— Isso é o que você pensa. É óbvio que ela não ia admitir isso, . Até parece que você não conhece sua mãe. Além disso, você pode ir e, sei lá, se esconder num canto ou simplesmente evitar responder perguntas. Você não deve satisfação a ninguém.
— Rá! Até parece que você não conhece a minha família — ele retrucou, me encarando por um instante. Paramos em um sinal vermelho e ele se virou para mim. — Se for pra ir e ficar escondido, , então é melhor eu ficar em casa.
— Só tô dizendo que você podia fazer um esforço por ela.
— Não sei se vale a pena. Sempre posso ir em outra data, ou ela pode vir me visitar.
— Ai, sério. Você é tão cabeça dura — comentei, irritada. — Sua agenda vai ficar cheia em breve, você mal vai ter tempo de respirar, .
— Ah, agora eu sou cabeça dura? Bem, isso não estaria acontecendo se você não tivesse me largado porque aí nós iríamos juntos.
Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter meu temperamento. Ele estava sendo infantil agora.
— Achei que não íamos falar disso.
— Foi você que começou com essa insistência toda — ele me acusou, desviando o olhar para o trânsito à frente e batucando o dedo no volante.
Abri um sorriso e tive que lutar para não dar um tapa na parte de trás de sua cabeça — e também porque odiava admitir que ele estava certo. Se ainda estivéssemos juntos, aquela discussão nem estaria acontecendo. Então, em um impulso, sugeri o que provavelmente era uma péssima ideia:
— E se eu for com você?
parou de batucar o volante e virou lentamente a cabeça para me encarar.
— Tá falando sério? — Ele arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Sim.
— Não é nenhuma pegadinha? Pra me fazer ir sozinho de última hora?
— Quer ficar com a minha identidade como garantia? — perguntei com ironia, mas então o idiota estendeu a mão. — Sério?
— Você que ofereceu.
Ri, incrédula, e enfiei a mão na bolsa para pegar a carteira. Um instante depois, bati com minha identidade na mão dele, e o idiota deu uma risadinha antes de guardá-la no bolso da camisa e voltar a dirigir.
— Que infantil, — resmunguei. — Você devia me dar mais crédito.
— É a garantia. Eu sei que você não aguenta ficar sem os seus documentos, então eu te entrego no avião.
Revirei os olhos e, pouco depois, ele parou em frente ao edifício da editora.
— Você compra as passagens — avisei, assim que abri a porta.
— Como se eu fosse te deixar pagar por qualquer coisa.
— Ótimo. Melhor ainda.
— Vejo você na quinta, . — Ele soprou um beijinho para mim com um sorrisinho que fez meu coração pular.
Respondi mostrando o dedo do meio.
— Até mais, babaca.
E saí do carro, ouvindo sua risada antes de fechar a porta.
Capítulo 33
A quinta-feira havia chegado, o que significava que era o dia de viajar com para a casa da minha mãe. Eu havia reservado um voo noturno para que pudesse trabalhar e folgar no dia seguinte, e levaria cerca de três horas de Manhattan até Nova Orleans.
Poderíamos ir na sexta, mas costumava ficar meio enjoada quando viajava, mesmo que fosse uma curta distância. Além disso, agora que tinha voltado a morar com , ela precisava percorrer uma distância maior até o trabalho. Embora eu não soubesse quanto tempo exatamente isso levava, eu imaginava que seria cerca de uma hora e meia, considerando o horário de pico da manhã. Não era preciso ser um gênio para adivinhar que ela estaria cansada à noite, e viajar na sexta durante o dia não era uma opção. sempre preferiu viajar à noite quando íamos visitar minha mãe.
Nosso voo sairia às oito e meia, então ela teria tempo de se aprontar. De todo modo, isso significava mais tempo com ela.
A ideia me fazia rir que nem um idiota.
Quem disse que ser teimoso e infantil não dava certo? Não que eu estivesse mentindo ao dizer que não viajaria sozinho — eu realmente não viajaria, e minha mãe já sabia disso. Tive que prometer passar um final de semana inteiro com ela para compensar, assim que encontrasse uma brecha na agenda.
Mas a verdade era que eu queria, sim, estar presente no aniversário dela, só que com . No entanto, eu também sabia que convidá-la estava fora de questão, por isso propus que ela fosse sozinha a princípio. Eu tinha que plantar a ideia da viagem na cabeça dela primeiro. admirava o relacionamento que eu tinha com minha mãe, e eu sabia que ela traria o assunto à tona novamente, tagarela do jeito que era. Ela sempre se esforçou para agradar à mamãe e tinha uma ideia meio ultrapassada de que minha mãe seria exigente com sua nora por eu ser seu único filho, mas nada disso era verdade.
De todo modo, foi a primeira namorada que apresentei a ela desde o ensino médio, quando tive um breve relacionamento que durou menos de três meses com uma colega de turma que me trocou pelo capitão de futebol, o que me fez ir sozinho ao baile de formatura. Acho que eu parecia um perdedor perto dele por ser mais quieto, e isso me deixou bem chateado na época.
Quando estreei como artista, uma das minhas músicas mais populares foi justo uma que escrevi por causa dela. A música falava sobre festas, dinheiro e como eu estava diferente e legal agora, mas honestamente, só a parte do dinheiro era verdade. Eu ainda era o mesmo cara introspectivo de sempre.
No fim, cheguei à conclusão de que só namoramos porque ela se sentiu grata por eu tê-la ajudado a passar em geografia. Nem todo mundo pegava essa disciplina, e acho que ela se arrependeu profundamente disso, até eu me oferecer para ajudá-la depois de um trabalho em dupla.
Namoradas à parte, eu achava que sempre seria a favorita. Minha mãe a via praticamente como uma heroína por ter conseguido, nas palavras dela, “derreter meu coração de gelo”.
Como se tivesse corrido atrás de mim.
Não era segredo para ninguém que eu fui o responsável, mas era ela quem levava o crédito.
O que minha mãe nunca soube foi que dormimos juntos na noite em que nos conhecemos. Para ela, foi amor à primeira vista em um bar, uma noite de conversa que terminou comigo indo deixar em casa e a chamando para sair depois. Uma história simples e pura, omitindo metade da verdade, e eu ria sempre que lembrava dela.
Me sentei na cama e esfreguei os olhos, então ouvi meu celular vibrando embaixo do travesseiro. Rolei os olhos antes de atender a ligação.
— Oi, Jace.
— Você viu o artigo que mandei?
— Que artigo? — perguntei, tranquilamente, em meio a um bocejo.
— Você e foram vistos juntos há alguns dias.
— Ah, isso.
— É. Vocês não tinham terminado? Já voltaram, por acaso?
Como assim, já? Me irritei um pouco.
— Não, Jace. Não voltamos.
— E por que saíram juntos?
O que é isso? Outro interrogatório? Respirei fundo, antes de responder.
— Não que seja da sua conta, Jace, mas fomos atrás de um presente de aniversário pra minha mãe.
— Sua mãe? E o que ela tem a ver com isso?
— vai comigo.
— Como assim? Você falou que não ia viajar.
— Mudei de ideia.
— Por causa dela?
— Sim, Jace. Por causa dela — respondi, impaciente. — Você tem mais perguntas ou já acabou o interrogatório?
— As pessoas estão achando que vocês estão juntos.
— Tecnicamente estamos. Nunca admitimos o término. E entramos num acordo de não fazer isso agora por causa do lançamento do álbum.
— Ainda, você tá fazendo sua vida girar em torno dessa mulher. Não deveria agir como um capacho.
— Ah, claro. Eu devia tratá-la como lixo, que nem você faz com todas as mulheres com quem se envolve, né?
— Só estou dizendo que você é . Não deveria estar sofrendo por alguém que te largou por uma besteira.
Ah, agora ele foi longe demais. De novo.
— Besteira? Minha mulher ficou traumatizada por perder nosso filho e isso é uma besteira pra você?
— Você disse que ela nem lembrava de nada. Além disso, mulheres abortam o tempo todo.
Tive que contar até dez mentalmente.
— Jace, por que você não vai encher o saco de outra pessoa e me deixa em paz? Antes que eu vá aí e dê um soco na sua cara, seu imbecil.
— O quê? — Ele riu. — Do que você tá falando? Ficou com raiva por causa de um comentário?
Rolei os olhos mais uma vez.
— Jace, me diz uma coisa... Você pensa? Quer que eu ouça você insultar minha mulher e fique quieto, seu idiota?
— Você quer dizer ex-mulher. E vocês não eram casados, então, ex-namorada.
— era praticamente minha esposa, e nunca precisamos de um pedaço de papel pra confirmar isso. E quer saber? Eu tô no meu limite com você, cara. Cuida da sua vida e para de se meter na minha. Eu não tenho obrigação nenhuma de te dar satisfação da minha vida pessoal, e já falei isso várias vezes.
— .
— Não me ligue, não me mande mensagens, nem sequer por e-mail. Vou visitar minha mãe e só vou atender chamadas de emergência, entendeu?
Ouvi um suspiro.
— Certo — ele respondeu finalmente. — Me desculpa, eu fui insensível.
Abri um sorriso de escárnio e desliguei, sem responder.
Eu ia me livrar desse idiota o quanto antes.
Passei a tarde preparando uma mala para a viagem, enquanto tentava manter a calma. Eu estava me sentindo meio idiota, nervoso por ter mais um tempo a sós com , mesmo sabendo que isso provavelmente não significaria nada. Nada além da amizade que desenvolvemos em nossos anos juntos como um casal, pelo menos.
O plano era chegar na casa da minha mãe ainda na quinta e voltar no sábado. voltaria para Manhattan sozinha, enquanto eu seguiria para Los Angeles, passaria a noite lá, e então voltaria para casa na manhã seguinte.
Cansativo, mas eu tinha dado um jeito de conseguir uma reunião extraordinária no domingo, e faltar não era uma opção. Todos estavam ocupados e eu queria resolver aquele assunto de uma vez, de preferência antes de voltar para a apresentação que eu teria lá.
No meio da tarde, enviei mensagem para perguntando se ela já tinha escolhido uma fantasia e dizendo que eu não tinha ideia do que vestir. Sua resposta veio pouco depois.
♥: Sempre deixando pra última hora. Vou de Anastasia, é uma das poucas fantasias que posso usar sem peruca.
Anastasia tinha várias opções de roupa, mas imaginei que escolheria algo elegante, já que adorava festas à fantasia. Na última vez que participamos de uma, em Los Angeles, na casa de Ji Ho, ela se vestiu de Jessica Rabbit. estava impecável e eu a ajudei a colocar o vestido naquela noite, auxiliando com o zíper. Também ajudei a tirá-lo horas mais tarde, o que foi a melhor parte.
: Você tem alguma sugestão pra mim?
Perguntei, sem nenhuma vergonha. Eu não tinha muitas opções e me vestir de super-herói não era uma delas.
♥: Que tal Clark Kent? Ou James Bond? Com certeza deve ter algum Bond que você se encaixe. Mas aí ninguém vai saber que você é ele.
: Kent, então? Acho que tenho um óculos quadrado em algum lugar.
♥: No closet, no armário onde eu guardava meus acessórios.
: Certo, vou procurar. Obrigado.
♥: Você também tem uma camiseta com a estampa do Superman em algum lugar, vê se acha também. Você pode vestir por baixo do terno.
: Eu vi ela essa semana.
Me concentrei em procurar e, depois de uns cinco minutos, encontrei tanto os óculos quanto a camisa azul. Escolhi um terno preto e coloquei tudo na mala, fechando-a em seguida. Três horas mais tarde, peguei um táxi até a editora para encontrar e irmos para o aeroporto. Ela havia levado a mala para o trabalho e conseguiu tomar um banho lá mesmo, assim que seu expediente terminou.
Não houve muita conversa no caminho. O taxista, um senhor de idade, parecia mais preocupado em sintonizar uma estação de rádio do que em conversar conosco. Cumprimentei baixinho quando ela entrou, mas não passou disso até chegarmos ao aeroporto. Antes de sair do carro, coloquei uma máscara e um boné preto. podia passar despercebida nos lugares, mas para mim nem sempre dava certo. Especialmente em um aeroporto repleto de gente de todos os lugares do mundo.
Caminhamos até o portão de embarque e após longos minutos de espera, finalmente pegamos nosso voo.
Eu havia comprado passagens de primeira classe, o que nos dava um pouco de privacidade, mas só depois que nos acomodamos nas poltronas foi que tirei a máscara e o boné.
— A gente vai ficar na casa da sua mãe mesmo ou em um hotel?
— Na casa dela. Mas eu pedi pra ela aprontar mais um quarto pra você.
Minha mãe tinha uma casa grande e ia receber alguns parentes, no máximo dois ou três. Ela ficou bastante animada quando mencionei que eu e iríamos, mas pude ouvir seu sorriso desaparecer quando mencionei que ficaríamos em quartos separados.
— Você tá maluco? — perguntou. — Ninguém sabe sobre a gente. Acha que faz sentido dormirmos em quartos separados?
— É que... Achei que você fosse ficar desconfortável.
— Eu posso muito bem dividir um quarto com você, . Eu sei que pode ser meio estranho pra gente agora, mas é só... fingir que somos uma parede ou coisa assim.
— Uma parede com seios e uma bunda enorme é novidade pra mim, — brinquei, sem pensar.
— ! — Ela me bateu no ombro e eu ri, resmungando baixinho enquanto esfregava o local atingido.
— Espero que você não tenha escolhido aquela camisola azul como pijama — comentei e imediatamente ela ficou em silêncio. Meu sorriso morreu. — Você escolheu ela, não foi? Porra, !
— Olha, eu não pensei, tá? Foi literalmente a primeira que vi — retrucou. — E não tem nada de mais. É bem mais comportada do que meus outros pijamas.
— E cheia de renda, sexy pra cacete.
Ela ficou em silêncio outra vez e, por um segundo, me perguntei se a tinha deixado desconfortável com aqueles comentários. No entanto, quando ela continuou a falar, percebi que não.
— Eu posso resolver isso facilmente pegando um moletom seu e uma calça emprestada. — Ela deu de ombros, inabalável.
— Pior ainda. — Vou querer tirar tudo de você, eu quase disse. — Mas tudo bem, eu tenho travesseiros suficientes na cama.
— Pra montar uma barreira? — Ela riu com a possibilidade.
— Ou improvisar outra cama no chão — acrescentei.
riu de novo e senti o som reverberar pelo meu peito, absorvendo-o com gosto.
Uma aeromoça se aproximou para nos oferecer uma bebida.
— Por que não? — arqueou uma sobrancelha, interessada. Cinco minutos depois, ela estava com um Martini de limão nas mãos, enquanto eu preferi ficar só na água com gás.
Quando acabou, ela se virou para o lado e adormeceu até pouco antes do avião pousar em Nova Orleans.
Na casa da minha mãe, ela nos recebeu com um abraço apertado. Notei que ela parecia felizinha e imaginei que tivesse bebido um pouco de vinho enquanto nos esperava.
Era quase meia-noite quando chegamos.
— Venham para a cozinha, preciso falar com vocês.
Nós acompanhamos em silêncio e, já na cozinha, minha mãe se virou para mim.
— Seus primos Percy e Wanda estão aqui em casa.
— Você convidou aqueles idiotas? — cochichei, olhando para os lados, mesmo sabendo que eles deviam estar no andar de cima.
— Eu convidei a família toda, mas não imaginei que eles viriam de Londres até aqui. Foi uma surpresa.
— Que merda, mãe.
— Pois é, tive que dar um dos quartos pro Percy, então vocês vão ter que dividir o de sempre.
Respirei fundo, e então encarei .
— O que você acha? Podemos ir para um hotel se você quiser.
— Vamos ficar. — Ela deu de ombros. — Já conversamos sobre isso.
— Ótimo — falei, já me preparando psicologicamente para A Camisola Azul. — Vamos então.
Peguei as malas enquanto se arrastava atrás de mim e, quando entramos no quarto, a primeira coisa que ela fez foi tirar os sapatos e se trancar no banheiro para trocar de roupa.
Cumprindo o que eu tinha dito no avião, peguei dois travesseiros e os coloquei no meio da cama, criando uma barreira. Quando ela voltou, foi a minha vez de ir ao banheiro e rapidamente vesti um pijama, incluindo a camiseta. Com exceção do inverno, eu não costumava dormir com nada além de uma cueca boxer, mas não podia mais fazer isso com ela ali.
Infelizmente, não se importou em expor menos pele e parecia bastante tranquila para alguém que dormiria na mesma cama que o ex.
Involuntariamente, um pensamento me ocorreu. Será que ela agiria assim com Andrew também, agora que estava solteira? Tratando ele como um mero amigo com quem poderia dividir uma cama? Não foi difícil para mim deduzir que sim, ela provavelmente faria isso sem problemas, mas a ideia de outro homem — amigo ou não — dormindo ao lado dela provocou um súbito mau-humor em mim.
De repente, minha mente se encheu de possibilidades e até cheguei a pensar em quando ela poderia abrir o coração para outra pessoa no futuro e iniciar um novo relacionamento, enquanto eu ficava para trás. Só de pensar nisso, meu coração se apertava.
Eu a tinha perdido por um motivo que ia além da perda do nosso bebê, mas não tinha ideia do que era. Ela não ia me contar, nem eu a forçaria a fazer isso, por mais que me incomodasse não saber.
Talvez com o tempo, se ela não conhecesse ninguém e se ainda tivesse sentimentos por mim... Então nós poderíamos conversar.
Eu poderia esperar o tempo que fosse por ela.
Apaguei as luzes e deitei ao seu lado na cama, em silêncio. As cortinas da janela do meu quarto estavam fechadas e estava de costas para mim.
Antes eu me aconchegaria nela e conversaríamos até cair no sono. Agora, ela estava a um braço de distância e não poder mais fazer isso era um saco. Passei semanas para me acostumar a dormir sem a presença dela ao meu lado no nosso apartamento e, quando eu voltasse, teria que reaprender. As duas noites que passaríamos naquele quarto eram suficientes para bagunçar o meu sono.
Respirei fundo e encarei a barreira de travesseiros. Meus pensamentos intrusivos me diziam para me livrar deles e puxar o corpo dela de encontro ao meu.
No avião, não consegui dormir. Eu deveria estar com sono naquele momento, mas parecia impossível pregar o olho. permaneceu na mesma posição enquanto eu me revirava na cama até decidir ficar parado, encarando o teto até adormecer. Não sei quando isso aconteceu, mas na manhã seguinte, acordei com um corpo em cima do meu.
Os travesseiros estavam no chão e me abraçava, com uma perna sobre meu corpo. Eu tinha certeza absoluta de que não era o culpado. Acordei na mesmíssima posição em que adormeci, mas ela estava ali, invadindo meu espaço pessoal, mesmo tendo dois terços da cama livres.
Grudada em mim como um chiclete.
Infelizmente, gostei demais para me afastar, então continuei parado até ela acordar e se dar conta do que tinha feito. De jeito nenhum eu fingiria que aquilo não tinha acontecido. Se ela fez, então que lidasse com as consequências.
Vi o exato momento em que ela arregalou os olhos e se afastou cuidadosamente até notar que eu a encarava. Eu não podia negar, era divertido pra cacete.
— Por que você não me acordou? — ela quis saber.
— Por que você ultrapassou a barreira? — devolvi.
respirou fundo e se sentou de costas para mim no seu lado da cama, colocando um pouco de distância entre nós.
— Acho que foi enquanto eu dormia, desculpa.
— Não tô ofendido. Na verdade, é até bom saber que seu corpo procura pelo meu quando você tá inconsciente. Tive que me policiar pra não fazer o mesmo — falei e vi seus ombros enrijecerem. Uma pontada de decepção me atingiu, e me arrependi de ter comentado aquilo.
Eu estava tão acostumado a ser cem por cento sincero com e a falar o que me vinha à cabeça que não poder, não dever mais fazer isso era absolutamente ruim. Eu odiava. Queria minha melhor amiga de volta, minha mulher de volta.
— Não vai acontecer de novo — disse .
Aquilo foi o suficiente para que eu também colocasse uma distância entre nós. Me sentei na cama e me levantei em seguida, anunciando que ia tomar banho. Nem mesmo perguntei se ela queria ir primeiro. Eu podia sentir o perfume dela em cima de mim e queria me livrar de tudo o quanto antes. Ficar naquele quarto só me faria remoer nosso término e as coisas não ditas pela milésima vez.
Quando saí do banheiro, meu humor estava um pouco melhor e eu esperei por ela para descermos juntos para tomar café da manhã. Então lembrei dos meus primos odiosos e intrometidos.
— Espera. — Segurei seu pulso, antes que ela abrisse a porta. — Percy e Wanda estão aqui.
— Ah, é. Você nunca me falou sobre eles.
— Você conheceu tipo noventa e cinco por cento da minha família. Nem todo mundo de Londres vêm pra cá, e eu passo cem por cento do tempo esquecendo que aqueles dois existem.
— Caramba. Quem são eles? — perguntou, interessada. — Já deu pra ver que você não simpatiza com nenhum. — Ela riu, divertida.
Eu já esperava que ela ficasse curiosa. adorava uma fofoca, e na minha família tinha de sobra, mas ela não sabia de tudo.
— E não simpatizo mesmo. Aqueles idiotas faziam bullying comigo quando a gente era criança. E isso durou até uns anos atrás, antes de eu te conhecer. Eu já tinha estreado como cantor, mas eles não levavam isso a sério. Na verdade, acho que todo mundo achava que não ia pra frente.
— Que infantil… Mas olha onde você tá agora. Pode esfregar seu sucesso na cara daqueles dois.
— Não vou fazer isso. A família deles é bem rica e influente na Inglaterra. Eles debocham porque são arrogantes. Não importa se eu tô ganhando dinheiro com isso ou não. Eles só apreciam música clássica e arte que ninguém entende.
Foi então que ela abriu um sorriso malicioso, com cara de quem ia aprontar.
— Que bom que para todos os efeitos você tem uma namorada meio maluca, então. Deixa comigo e eu coloco aqueles dois no lugar se falarem um ‘A' de você. Vamos. — Ela abriu a porta e me puxou pela mão, determinada.
Sorri atrás dela. era bem menor que eu, mas parecia uma loba quando o assunto era defender as pessoas de quem gostava. Eu amava esse lado dela.
Encontramos minha mãe, uma tia e meus dois primos já sentados à mesa e cumprimentamos todos, trocando as apresentações necessárias. As duas estavam de saída para resolver sei lá o que da festa e ficamos só nós quatro.
— Caramba, primo. Andou malhando muito? Você nem parece mais aquele garoto magricelo de antes — Percy comentou.
— se exercita a semana toda, mas acho que você não deve ter muita experiência com isso, né? — comentou com um sorriso doce, desviando os olhos para a barriguinha de chope dele.
Percy pigarreou e voltou a fazer seu prato.
— Não gosto de academias, prefiro fazer caminhadas de vez em quando, dizem que faz bem pro coração. Além disso, a empresa ocupa muito do meu tempo.
— Ah, sim... também é bastante ocupado, mas é aquela coisa... Quem quer, dá seus pulos. — Ela deu uma risadinha.
Meu primo a encarou levemente desconfortável, mas fingiu não perceber. Do outro lado, Wanda estava batendo pedaços de frango cozido em um suco verde. Quase enjoei só de ver. E reclamando dos meus shakes de proteína.
— É o que eu sempre digo a ele, — Wanda comentou. — Eu me exercito todos os dias, como três refeições diárias e alguns dias da semana só ingiro sucos caseiros com frango. São nutricionalmente eficazes pra mim.
Ao contrário de Percy, eu não tinha certeza se Wanda possuía alguma porcentagem de gordura corporal. A impressão que eu tinha era de que alguém poderia quebrá-la ao meio com um simples abraço.
— Ah, claro. Não sou muito fã disso. Eu malho pra comer o que der vontade — comentou.
— Deu pra notar. — Wanda a encarou de cima a baixo. — Quanto você usa de calça? Um quarenta e quatro?
— Trinta e oito, por incrível que pareça. Mas prefiro comprar tamanho quarenta pra ficar mais confortável, sabe como é...
— Na verdade, não sei não. Não acho que eu teria uma... bunda desse tamanho nem se eu comesse toda a comida do mundo. Mas tenho sorte que a minha genética impede que isso aconteça.
Caramba, ela tinha acabado de chamar de gorda? Tudo bem que praticamente tinha feito o mesmo com Percy, mas o insulto foi para me defender e foi definitivamente mais sutil. Eu estava com todos os panos prontos para passar para ela.
— Ainda bem que tenho sorte de ter um namorado bonitão que prefere essa versão de mim. — Ela me encarou e eu sorri.
— Ah, com certeza. — Dei um tapa na bunda dela, mostrando o quanto eu gostava.
— ! Não na frente da sua família — ela cochichou, divertida.
Eu dei uma risadinha e a beijei no rosto, antes de me afastar para fazer meu prato. Wanda tinha uma careta de nojo no rosto, mas aquela meio que era a expressão habitual dela. Felizmente, aquela conversa não se estendeu. me seguiu, ainda sorrindo, e foi quando me dei conta de que talvez ela estivesse mesmo aproveitando aquilo tanto quanto eu.
Em público, ainda éramos um casal. E eu aproveitaria aqueles momentos roubados para abraçá-la quando bem entendesse porque ela provavelmente faria o mesmo.
tinha terminado comigo, mas acordar com ela agarrada a mim só me fez ter certeza de que a atração física entre nós ainda era forte.
Algum tempo depois, minha mãe voltou e nos ocupamos em ajudá-la com alguns preparativos da festa. Ela tinha contratado pessoas para transformar o jardim de casa num local de festas. Havia até uma pista de dança no meio e dois quiosques de bebidas.
Ela me disse que tinha convidado apenas parentes e amigos próximos, mas eu sabia que haveria no mínimo umas cinquenta pessoas. Para mim, isso já era bastante gente para uma festa intimista, mas minha mãe sempre foi muito sociável e fazia amigos com facilidade, diferente de mim.
Organizar esse tipo de evento era divertido para ela e eu estava feliz de termos dinheiro suficiente para bancar tudo aquilo do jeito que ela queria sem nos preocupar financeiramente.
Meu pai provavelmente diria que era um desperdício de dinheiro, se estivesse ali. Quando eles se divorciaram, eu estava no ensino médio. Nossa relação, que já não era das melhores, se deteriorou mais ainda e nos falávamos apenas algumas vezes por ano. Ele nem mesmo sabia muito da minha vida pessoal e nunca fiz questão de apresentar para ele. Não era algo que a incomodava, no entanto. Até porque, para todos os efeitos, era a única parente dela que eu conhecia. Ambas se tornaram a única família uma da outra muito antes de eu aparecer. Mesmo não estando mais ao lado de , era bom saber que ela não estava sozinha e que tinha alguns amigos além da irmã.
Quando a noite veio, insistiu que eu tomasse banho primeiro enquanto ela terminava de arrumar o cabelo e, em pouco tempo, fiquei pronto. Normalmente, as pessoas que se fantasiavam de Clark Kent deixavam a camisa aberta, exibindo o símbolo do Superman, mas preferi não fazer isso. Eu sempre poderia abri-la se me perguntassem qual era minha fantasia.
Ou simplesmente poderia guardar o óculos e começar a fingir que eu era Dimitri, o par romântico de Anastasia.
Embora não tivesse visto sua roupa ainda, eu tinha uma leve suspeita de que tipo de vestido ela tinha escolhido e mal podia esperar para ver.
— Vou lá pra baixo, me avisa quando tiver pronta e eu venho te buscar — avisei.
— Tá bom — ela respondeu enquanto colocava mais um grampo no cabelo, sem olhar para mim.
Saí, pronto para cumprimentar o zilhão de pessoas que minha mãe tinha convidado e já estavam chegando e, cerca de uma hora mais tarde, eu acho que já tinha falado com quase todos ali presentes quando me mandou mensagem falando que estava pronta.
— Vou buscar — avisei para minha mãe, que estava ao meu lado em sua fantasia de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo.
— Sim, meu bem — ela respondeu, voltando a atenção novamente para a conversa com uma das minhas tias.
Subi as escadas rapidamente e parei no corredor, aproveitando o breve momento de paz sem ter que socializar com ninguém, antes de seguir até meu quarto.
Abri a porta de uma vez.
— , você tá... — Perdi a voz no meio da frase quando ela se virou para mim. — ...pronta?
— Oi. — Ela sorriu, um pouco tímida, e eu engoli em seco. — Você ficou um ótimo Clark Kent, eu sabia que combinava com você. O que achou da minha? — Ela se balançou de um lado para o outro, exibindo o vestido, absolutamente adorável.
Era um tom de azul-escuro, sem alças, com um véu translúcido e brilhante da mesma cor, preso nas costas. Seu cabelo tinha uma tiara brilhante e, nas mãos, um par de luvas brancas acetinadas.
Andei até ela, encantado. Levei uma mão ao seu rosto e me inclinei para beijar sua bochecha, sem deixar de notar que ela não enrijeceu ou se afastou.
— Você tá tão linda, . Essa fantasia ficou bem melhor do que eu esperava. — Segurei uma de suas mãos e levei aos lábios. — Vamos?
assentiu com um sorriso e entrelaçou o braço no meu.
Eu senti quando as pessoas notaram sua presença. Muitas pararam de falar no meio de uma frase, outras se viravam bruscamente, sem nem disfarçar. Não demorou muito para sermos abordados.
Felizmente, foi por minha mãe.
— , querida. Que fantasia mais linda! Quem você é?
— A princesa Anastasia. — sorriu. — A senhora tá linda e muito elegante também.
Minha mãe sorriu de volta, satisfeita com o elogio.
— Obrigada, meu bem. Venha, vamos tomar uns drinks. — E arrastou para um dos quiosques, me deixando para trás.
Suspirei e fui até o outro, em busca de uma dose de whisky.
Uma hora depois, ela e minha mãe estavam na pista de dança ao som de músicas dos anos 80, enquanto eu as assistia de uma mesa meio escondida atrás de um arbusto alto, feliz que ninguém estava falando comigo ou me pedindo para cantar aleatoriamente.
Ali, eu podia ser apenas eu.
Após um tempo, apareceu e me puxou para uma dança lenta. Ela já estava meio alta e bem mais desinibida. Se encostou em mim, passando os braços pela minha cintura e sorriu, nos balançando para lá e para cá, tentando me convencer a acompanhá-la.
Ela não parecia se importar com a música que tocava, mas eu estava terrivelmente incomodado, sendo alguém que tinha ingerido uma única dose de álcool, ao ouvir a letra de “It must have been love” de Roxette.
Me inclinei para cochichar com ela.
— Você tá bem? Por que a gente tá dançando essa música?
— Porque é uma boa música.
— Não gosto dela agora. Vamos sair daqui? Acho que você precisa tomar água.
— Eu não tô bêbada, . Até parece que você não sabe disso.
— Eu sei que não tá. Mas não quero que acorde de ressaca amanhã, pode ser?
revirou os olhos e paramos de dançar. Segurei sua mão e fomos até a cozinha da minha mãe que, felizmente, estava vazia e livre de olhares curiosos.
Peguei dois copos de água e coloquei um na frente dela.
— Você não tá se divertindo — ela reparou.
— Tô deixando você fazer isso por nós dois — comentei.
O único local que eu me sentia à vontade para me soltar era em um palco, retribuindo o tempo que as pessoas tinham reservado para me ver com uma apresentação o mais impecável possível. Era diferente de estar em um lugar onde dois terços das pessoas tinham me visto crescer. Eu me sentia exposto, rodeado de abutres em busca de um pedaço de mim. Era só mais uma brecha para fofocar, encontrar um defeito. Sempre tinha sido assim na minha família, mas eu imaginava que devia ser assim em qualquer uma que fosse grande demais.
— É o aniversário da sua mãe. Você devia ao menos dançar com ela.
— Tudo bem. — Suspirei, tomando um gole de água. — Acho que foi só minha bateria social que esgotou.
— Vamos ficar até os parabéns, comer um pedaço de bolo e subir, então. — Ela deu um passo para o lado, me abraçando pela cintura como tinha feito na pista de dança. — O que você acha?
— Tudo bem. — Beijei a testa dela.
— Ótimo! Então vamos voltar. Eu vou te fazer companhia, mas tem uns três ou quatro drinks diferentões que eu quero provar.
Rolei os olhos, contendo um sorriso, e deixei que ela me arrastasse de volta para um dos quiosques de bebidas. me convenceu a experimentar um drink com ela e, em seguida, me afastei para dançar com minha mãe, mantendo um olho nela de longe.
— Ela tá se divertindo, não precisa se preocupar. — Minha mãe riu, percebendo minha atenção em . — Você sempre foi muito cuidadoso com ela. Acho isso um amor.
— Aprendi com você. — Sorri. — Você parece feliz, mãe.
— E estou. Essa festa deu um trabalho pra organizar, mas tá melhor do que eu esperava.
— Bom saber.
Quando a dança terminou, fui até novamente e descobri que ela estava em seu terceiro drink desde que voltamos para o jardim.
— Oi, gostosão! — Ela sorriu, colocando uma mão no meu peito.
— Tá, agora você tá bêbada — comentei com convicção.
— Só um pouquinho. — Ela indicou com o polegar e o indicador, antes de passar os braços ao redor do meu pescoço. — Você tá um Clark Kent muito sexy. O que será que tem por trás dessa fantasia de bom moço?
— Você sabe muito bem o que tem. — A abracei pela cintura, contendo um sorriso.
— Sei mesmo — ela respondeu, me puxando pela gravata para um beijo repentino.
Me afastei após um instante.
— . Acho que nós não-
Ela me beijou novamente, me interrompendo. Em seguida, moveu os lábios para minha mandíbula e então para o meu pescoço.
— Você é tão gostoso, eu quero te comer todinho — ela murmurou no meu ouvido e tive que criar coragem para afastá-la de mim.
— Amor, aqui não. As pessoas tão olhando, lembra? — cochichei com ela. — Seja uma boa menina e se comporte.
— Não vou me comportar se você continuar falando desse jeito comigo.
— De que jeito?
— Do jeito que promete acabar comigo na cama.
Eu ri, nervoso, e olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava ouvindo aquela conversa.
— Eu bem que queria — respondi, olhando nos olhos dela. — Você sabe muito bem disso.
— Então a gente devia ir embora. — Ela sorriu, maliciosa.
— Ei, só depois dos parabéns e do bolo, lembra?
— Ah, é mesmo. — Seu sorriso desapareceu.
No entanto, menos poucos minutos depois, as pessoas começaram a cantar para minha mãe. Já eram quase onze da noite, então estava mais do que na hora. Depois da cantoria, ganhei o primeiro pedaço de bolo. Cinco minutos depois, eu estava sentado na mesma mesa de antes, com sentada ao meu lado, fazendo dancinhas enquanto comia uma fatia enorme de bolo de chocolate.
Torci para ela não passar mal depois, mas não tinha certeza se ela escaparia de uma dor de cabeça de ressaca. Pensei que comer doce faria um pouco do álcool em seu organismo se dissipar, mas não foi o que aconteceu.
Saímos de fininho da festa e, de volta ao meu quarto, se sentou na cama, já tirando os sapatos e puxando os grampos do cabelo.
— Quer ajuda? — ofereci, me sentando ao seu lado.
Ela assentiu em silêncio e comecei a procurar os grampos, soltando aos poucos seu cabelo, que caiu em cascata por suas costas.
— Ai, finalmente. Eu não via a hora de soltar o cabelo.
Eu ri baixinho e me levantei para colocar os grampos em um cantinho.
Quando me virei, estava terminando de abaixar o zíper lateral do vestido, que caiu aos seus pés um momento depois.
— Eu vou tomar banho — anunciei, já indo em direção à mala, em busca do meu pijama.
— Eu também — ela disse.
— Pode ir primeiro então, eu espero.
Felizmente, ela concordou e, um momento depois, entrou no banheiro sem se importar em fechar a porta.
Respirei fundo algumas vezes. Aquilo não era diversão, era tortura. Mas fiquei satisfeito comigo mesmo por mal ter bebido naquela noite. Assim, pelo menos um de nós poderia estar com a cabeça no lugar.
voltou só de toalha, com o cheiro do seu óleo corporal se espalhando pelo quarto, e eu me enfiei no banheiro o mais rápido que pude, trancando a porta atrás de mim, só por precaução.
Em seguida, tomei um banho de água fria.
Foi só quando terminei que percebi que tinha deixado a camiseta cair no chão do quarto. Que se dane então, xinguei mentalmente e vesti a cueca e a calça, antes de sair.
estava sentada de costas para mim do seu lado na cama, ainda de toalha, e parecia pensativa. Resolvi não dar atenção e apenas me deitei do meu lado, fingindo desinteresse enquanto mexia no celular.
— Até que fim você voltou — ela disse, antes de se levantar e se livrar da toalha, subindo na cama direto para o meu colo antes que eu pudesse reagir. — Eu tava esperando por você. — Ela sorriu, passando um dedo pelo meu peito desnudo.
— , para com isso. — Olhei para o teto, tentando me controlar para não encará-la em cima de mim.
Merda, o que eu fiz feito para merecer isso? A mulher que eu amava estava nua em cima de mim e eu não podia fazer nada porque ela estava bêbada e provavelmente se arrependeria no dia seguinte caso algo acontecesse.
— Por quê? Eu tô com saudade. — Ela se inclinou, beijando meu pescoço. — Eu quero você, .
Ela pressionou o quadril contra o meu e gemi baixinho, xingando mentalmente em todas as línguas que eu tinha aprendido a xingar.
— , não vou transar com você — consegui dizer.
— Por que não? Você me quer também, eu tô sentindo. — Ela se movimentou outra vez.
Merda. Merda. Merda.
Por que isso tinha que acontecer?
— Você me largou, lembra? — Decidi ir pelo caminho mais difícil. — Você terminou comigo, . Não podemos mais fazer isso, você nem é mais minha namorada.
— Eu também não era sua namorada na noite em que nos conhecemos — ela retrucou, parecendo inabalável. — E mesmo assim a gente transou.
Respirei fundo e inverti nossas posições.
— Agora é diferente e você sabe. Ninguém mandou terminar comigo — falei, firme. — Não vou dormir com você, . Acho melhor eu sair daqui.
Tentei me levantar, mas ela me puxou.
— Não, fica. Por favor, . Eu vou me comportar agora, prometo.
— Então vá se vestir. Não quero que você acorde nua do meu lado e ache que aconteceu alguma coisa.
— Você me ajuda? — ela pediu.
— Claro. — Me levantei, procurando a bendita camisola azul que ela tinha trazido.
Me atrapalhei um pouco com as alças que se entrelaçavam nas costas, mas no final deu certo. Quando terminamos, deitamos um ao lado do outro e ela se virou para mim.
— Posso te abraçar, pelo menos?
A encarei por um instante em silêncio, mas por fim abri os braços.
— Vem cá — chamei, e ela se aconchegou ao meu lado.
— Eu senti sua falta. Sinto muito por tudo, — ela começou a dizer. — Eu não queria terminar com você.
— Então, por que terminou? — perguntei, mesmo sabendo que provavelmente era o álcool que a estava fazendo falar aquelas coisas.
— Pra te proteger — ela admitiu baixinho.
— Me proteger? — Franzi o cenho. — Do que você tá falando, ?
— Do stalker. Ele é tipo... Nosso carma, pelo que descobri. Além disso, ela me disse que minhas escolhas podiam quebrar a maldição, então terminei com você por isso.
— O quê? Maldição? — Me afastei para encarar seu rosto. — Amor, acho que você tá confundindo alguma coisa.
Talvez ela tivesse lido algum livro de fantasia recentemente e estivesse resmungando aleatoriamente por causa da bebida.
Mas negou com a cabeça.
— Não, a xamã me disse. Não perdemos o bebê por acaso. Alguém provocou isso, e vem se repetindo em nossas vidas, porque você era casado e eu era sua amante.
— Como assim? — Sorri, sem entender nada. Eu estava certo de que ela tinha nos confundido com personagens literários, mas a deixei falar.
— Eu era sua amante antes dela. Vocês tiveram um casamento arranjado, mas nós continuamos a nos ver mesmo assim. Ela te queria, mas você era apaixonado por mim.
— E por que não me casei com você ao invés dela?
— Porque eu era uma cortesã. Seria mal visto na sociedade. Mas então eu engravidei e ela descobriu e nos jogou uma maldição que vem se repetindo há centenas de anos. Eu sempre engravido e perco o bebê, e algo de ruim sempre acontece com a gente.
— E você acha que a escolha certa foi se afastar de mim? — A abracei novamente. — O stalker te mandou alguma coisa?
— Não, mas eu sei que ele é ela. Só pode ser. Mas eu meio que me conformei, por mais doloroso que seja. Só que aí fizemos essa viagem e... — Ela suspirou. — Eu quis aproveitar alguns momentos roubados com você, mesmo sabendo que não devia.
Apertei ela ainda mais contra meu corpo, não vendo mais graça nenhuma naquela história.
— Como você descobriu isso, ?
— Comecei a sonhar com algo, acho que é uma entidade, mas ela tinha a aparência da Ayla e me disse isso, essa coisa de fazer a escolha certa. Então Kate, e eu visitamos uma taróloga, que também é xamã, e ela nos ajudou a entender.
— Você acredita mesmo nisso? — Levantei seu rosto, fazendo-a me encarar. — Acredita que o sofrimento vale a pena?
— Ela disse que a morte nos persegue — ela sussurrou, os olhos se enchendo de lágrimas. Em seguida, levou uma mão ao meu rosto, acariciando de leve. — Eu não posso arriscar que algo aconteça com você, . Eu não ia conseguir suportar.
Coloquei minha mão em cima da dela, confuso, sentindo o coração acelerar.
Eu não sabia mais se aquela conversa era fruto de uma mente inebriada pela bebida, mas parecia bem real. Como se ela realmente acreditasse naquilo.
Eu queria perguntar mais agora que ela estava falando, mas quando abri a boca para fazer isso, apenas um instante depois, notei que tinha adormecido em cima de mim, o rosto ainda molhado pelas lágrimas que haviam caído.
A chance havia passado.
E algo me disse que ela não tocaria mais naquele assunto de jeito nenhum.
Capítulo 34
O quarto estava meio escuro devido às cortinas fechadas, mas não vi sinal de . Depois de um tempo piscando e tentando, de fato, acordar, me sentei na cama. O arrependimento veio no mesmo instante em que senti minha cabeça girar de dor e tontura. Coloquei dois dedos nos olhos e fiquei parada por um momento, rezando para não enjoar. Quando minha visão pareceu melhorar um pouco, levantei a cabeça e avistei um copo de água em cima de uma cômoda, com um remédio de enxaqueca ao lado.
Agradeci mentalmente a por aquilo.
Eu nem sabia como tinha ido parar naquele quarto. Tudo que eu me lembrava da noite passada era de ter dançado e bebido com a mãe dele, depois ele e eu na cozinha bebendo água, e algum momento em que nós dois dançamos. Fazia tempo que eu não tinha amnésia depois de beber.
Mas também fazia tempo que eu tinha bebido. Acho que a última vez foi antes de descobrir a gravidez, então era provável que o álcool tivesse me pegado um pouco mais rápido que o normal.
Depois de tomar o remédio, procurei meu celular e o encontrei embaixo de um travesseiro. Já eram quase onze da manhã e eu não fazia ideia de quanto tempo tinha dormido. Suspirei, ainda me sentindo um pouco zonza, e fui ao banheiro para trocar de roupa e escovar os dentes. Quando saí, já um pouco mais apresentável e me sentindo com um pouquinho mais de vitalidade, desci até a cozinha e encontrei a Sra. tomando café.
— Bom dia.
— Bom dia, querida. Você dormiu bem? Como está se sentindo?
— Sim. Acordei um pouco zonza, mas nada de mais. Fazia um tempo que eu não bebia tanto.
— Ah, sim. Eu também acordei com um pouco de dor de cabeça, acho que foram aqueles drinks, são uma delícia, mas um perigo também — ela comentou com uma risadinha. — Venha comer comigo. — Ela apontou para a mesa.
Me sentei em sua frente e comecei a me servir de uma xícara de café preto.
— E ?
— Foi deixar minha irmã no aeroporto, mas já deve estar voltando.
— Ah... — Sorri, sem mostrar os dentes.
Eu não era a pessoa mais sociável do mundo na manhã seguinte a uma bebedeira, mas a mãe de não parecia se importar com isso e continuou puxando assunto comigo.
— Ele me contou sobre vocês, sabe...
Assenti, sem olhar para ela.
— Ele me disse.
— Não sei que motivos você teve, meu bem, mas é nítido que vocês ainda se amam e são apaixonados um pelo outro. Eu me sinto honrada por ter testemunhado o amor de vocês, por mais que não estejam mais juntos.
— Eu não queria terminar, Sra. , mas é complicado...
— Por acaso, fez alguma coisa? — ela perguntou, meio apreensiva. — Ou você se sentiu pressionada pela perda do bebê?
— era perfeito. Eu não poderia imaginar ter um parceiro melhor. Quanto ao bebê... Foi um dos motivos. Sinto muito por fazê-lo sofrer, mas eu tinha que fazer uma escolha e algo me disse que ficar com o prejudicaria.
Ela me encarou em silêncio por um momento, então respirou fundo.
— Espero que tenha feito a escolha certa, então, . E que não se arrependa disso.
Quase ri quando ouvi aquilo.
Nós duas sabíamos que eu já estava arrependida.
Mas infelizmente eu não podia voltar atrás.
Quando voltou, cerca de meia hora depois da minha conversa com a mãe dele, eu já tinha voltado para o quarto e começado a arrumar minha mala.
— Oi — ele disse, fechando a porta atrás de si. — Você acordou bem?
— Um pouco zonza e com enxaqueca, mas já tô melhor graças ao remédio que você deixou — comentei, dobrando uma peça, sentada no chão. — Obrigada.
assentiu e então começou a organizar as coisas dele também, em silêncio. Cinco minutos se passaram, e então dez, até que comecei a achar estranho.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, enquanto organizava minha bolsa de cosméticos. — Você tá pensativo.
— Nada de mais. — Ele deu de ombros, terminando de fechar um saquinho com roupa suja. — Tirando que você passou a noite toda dando em cima de mim na festa e quando chegamos no quarto, subiu em cima de mim nua... Não, nada de mais.
— Eu... O quê? — Ri, incrédula. — Tá falando sério?
— Eu tô com cara de quem tá mentindo, ? — Ele me encarou, sem achar um pingo de graça.
— Eu... Meu Deus! — Coloquei a mão na boca, em choque. — A gente transou?
— Você não lembra de nada, né? — Ele semicerrou os olhos. — Como imaginei.
— A gente transou, não foi? — Que merda. E se aquilo bugasse a minha escolha de me afastar dele? Uma coisa era a gente ir a um evento juntos, mas isso...
— Não, . — interrompeu meus pensamentos. — A gente não transou. Eu nunca faria isso com você bêbada e claramente fora de si.
Uma onda de alívio tomou conta de mim, mas então a vergonha veio com tudo e eu senti meu rosto esquentar.
— Sinto muito, . Por favor, me desculpa. Eu não devia ter feito isso — falei, sem coragem de olhar para ele. — Não sei nem o que dizer...
— Tá, relaxa. Eu consegui te convencer a se vestir e depois a gente só deitou e você ficou falando umas coisas até cair no sono.
— Falando umas coisas? Que tipo de coisa?
— Algo sobre uma maldição ou sei lá. — ele comentou e enrijeci no lugar. — Acho que você se confundiu com algum livro de fantasia ou algo assim. Você falou do stalker, e que terminou comigo pra me proteger, porque esse cara era a reencarnação de uma esposa que tive em outra vida. — Ele riu, parecendo nem acreditar. — Falando assim em voz alta parece mais absurdo ainda. Mas você até falou que visitou uma taróloga com e Kate.
— E visitei mesmo — falei sem pensar. — Pra uma pesquisa pro livro da Kate. — Inventei rapidamente. — tava de folga e foi com a gente.
— Tá... Enfim. — Ele deu de ombros novamente. — Eu sabia que você não queria me dizer o real motivo do nosso término, mas também não achei que fosse inventar algo do tipo. Deve ter sido a bebida.
— Sinto muito, . Muito mesmo. Eu não queria que fosse assim.
— Você fez sua escolha. E foi bastante difícil aceitar isso, ainda é. Mas eu apreciaria que ao menos controlasse melhor seus impulsos, — ele comentou. — Se você estivesse sóbria ontem... Eu teria feito qualquer coisa que você me pedisse pra fazer com você — acrescentou, com a voz mais baixa.
Levantei o olhar e senti meu corpo esquentar quando vi desejo brilhando em seus olhos. Mais uma vez, desejei que não houvesse maldição nenhuma, muito menos uma escolha que me obrigava a ficar longe dele. Porque se não fosse por isso... Bem, talvez fosse melhor nem pensar no que teria acontecido.
— Não vai acontecer de novo. Prometo que vou ficar longe de você quando a gente voltar pra Nova York e... Logo deve ficar mais fácil pra nós dois. Eu espero.
riu pelo nariz, sua expressão corporal inteira mostrando que ele não acreditava naquilo, mas não falou mais nada.
O caminho até o aeroporto foi em quase completo silêncio, se não fosse pelo rádio ligado e as poucas palavras que trocamos com o motorista. Quando chegamos, colocou um boné e uma máscara novamente antes de sair do táxi, e caminhamos juntos pelo aeroporto.
Era pouco mais de cinco da tarde e o meu voo sairia vinte minutos após o dele, que seguiria para Los Angeles. Ainda tínhamos algum tempo livre, então entramos em uma cafeteria para fazer hora. Ele virou o boné para trás quando notou que estávamos em meio a poucas pessoas e algo me chamou a atenção.
Um pequeno cílio tinha caído no canto de seu olho esquerdo.
— Tem uma coisa no seu olho. — Me inclinei para frente, pegando o cílio com o polegar. — Olha, vamos fazer um pedido.
revirou os olhos, mas apertou o polegar contra o meu. Fechei meus olhos por um instante. O último fio de esperança dentro de mim me fez desejar poder voltar no tempo, de uma forma que pudesse escolher ficar com ele.
Abri os olhos e separamos nossos dedos, notando que o cílio tinha ficado grudado no polegar dele.
— Parabéns — falei. — Espero que seu desejo se realize.
encarou o cílio por um momento antes de esfregar o polegar no indicador, se livrando dele. Em seguida, pegou o cardápio.
— Acho que vou comer alguma coisa antes de ir. Não tô a fim de comida de avião — comentou. — Que tal um croissant recheado?
— Vou querer um também. E um frappuccino de chocolate.
— Eu também.
Quando terminamos de comer, faltavam quinze minutos para o voo de sair. Fui com ele até o portão de embarque e, na hora de nos despedir, ele me puxou para um abraço.
Agradeci mentalmente por ele ter tomado àquela atitude porque eu ainda estava com vergonha depois de saber o que tinha aprontado na noite passada. Aproveitei o momento e o abracei o mais forte que pude. Quando nos separamos, abaixou a máscara rapidamente e depositou um beijo na minha cabeça.
— Boa viagem, .
— Pra você também, — murmurou, antes de dar as costas.
Observei ele se afastando aos poucos e respirei fundo, dizendo para mim mesma que a tristeza que agora sentia era a consequência da escolha que eu tinha feito. Não havia outra opção a não ser lidar com isso e seguir em frente.
estava cada vez mais distante.
Dois dias depois, quando saí para trabalhar, a sensação de estar sendo seguida voltou com tudo, e não só ela. Eu tinha um pressentimento de que algo aconteceria em breve.
Olhei para os lados e atrás de mim depois de comprar café da manhã na cafeteria de sempre, mas não notei nada.
Foi só quando virei uma esquina a caminho da editora, que vi um carro preto de vidros escuros fazer o mesmo. Intrigada, comecei a dar voltas em um quarteirão só para ter certeza de que ele me seguia. Quando isso aconteceu, pisei no acelerador de repente e tentei despistá-lo. Não funcionou muito bem, por haver pouco movimento onde eu estava. Acelerei um pouco mais e o carro atrás de mim fez o mesmo. Foi então que notei mais um, de cor prateada, seguindo na mesma direção.
— Que porra é essa? — murmurei comigo mesma, enquanto tentava passar por um sinal antes que ele fechasse.
Ouvi meu celular tocando na bolsa, mas estava ocupada demais para atender.
Acelerei mais, ciente de que estava acima do limite de velocidade, mas consegui passar pelo sinal e virar uma esquina e mais outra, finalmente despistando o carro. Meu celular tocou novamente e, com cuidado, o puxei da bolsa.
estava ligando. Que estranho. Eu não estava esperando uma ligação nem tão cedo. Na verdade, não estava esperando nenhuma.
Atendi e coloquei no viva-voz, apoiando o aparelho no colo.
— Oi, .
— , onde você tá agora?
— Perto da editora, por quê?
— Tem alguém te seguindo.
Franzi o cenho.
— Como você sabe disso? — eu quis saber.
— Não importa agora. Eu quero que você tenha calma...
— Eu tô calma! Quero saber como você sabe disso, .
— , eu acho que é o stalker.
— O quê? — Franzi o cenho. — O stalker tá me seguindo?
— Sim, e quero que você-
Não consegui ouvir o resto.
No mesmo instante, alguém me atingiu na traseira do carro, fazendo meu corpo dar um solavanco para frente e perder o controle do volante, batendo em um poste um instante depois. O airbag saiu e minha cabeça girou com o impacto. Senti o ar faltando nos pulmões e uma dor excruciante na região das costelas e no ombro esquerdo. Minha visão escureceu com um líquido escuro e percebi que era sangue.
Eu não conseguia me mexer. Não conseguia nem respirar direito. Meus pulmões estavam queimando com a dificuldade de respirar e a dor só aumentava. Havia fumaça saindo do capô e ouvi a voz de ao longe gritando meu nome.
Me esforcei para falar, mas não tinha forças. A sensação de não poder respirar era terrível e eu estava presa. Meu olhar seguiu para o retrovisor e encontrei o carro preto que me seguia parado atrás de mim.
Meus pulmões queimaram ainda mais.
A porta do motorista se abriu, mas aquela foi a última coisa que consegui ver antes de apagar.
Capítulo 35
— Eu te amo. — Ele disse, colocando a mão no meu rosto, o polegar esbarrando propositalmente no meu lábio inferior.
...
— Eu também te amo, Dean — falei automaticamente, então percebi que não era eu, mas Ayla.
Eu estava de volta a Tenaz.
Mas tinha algo diferente. Bem ali, diante dos meus olhos, Dean desapareceu e então vi cenários mudando, cenas passando na minha frente com uma velocidade absurda que quase me deixou tonta.
Fechei os olhos por um instante.
— Vem morar comigo, amor — ouvi e abri os olhos, me deparando com Dean. Estávamos dançando e aquilo só podia ser o casamento de Tiana.
A cena passou e novamente fiquei confusa. Fazia alguns dias que eu não sonhava com Tenaz e nunca era assim, não tão rápido a ponto de eu praticamente nem identificar o que estava acontecendo.
O cenário acelerou mais uma vez e senti meu corpo sendo jogado para trás. No minuto seguinte, eu estava assistindo de terceira pessoa e não mais no corpo de Ayla. Olhei para baixo, constatando que estava no meu próprio corpo, meu cabelo vermelho caindo sobre meus seios.
Em seguida, vi Karina pegar o buquê de Tiana e se abaixar enquanto Ayla o chutava para longe, direto no rosto de Dean. As pessoas riram e me vi fazendo o mesmo. Até que eles se beijaram e... Fim.
Tudo ficou escuro. Eu estava em um breu, sem conseguir enxergar absolutamente nada e então, de repente, um rosto surgiu na minha frente.
Gritei, cambaleando para trás e a Ayla de olhos prateados riu, claramente se divertindo. Ela tinha voltado. A tal entidade que eu não fazia ideia do que era.
— Você devia ter visto sua cara — comentou, ainda sorrindo.
— Isso não tem graça. O que você quer?
— Te avisar.
— Sobre o quê?
— A maldição pode ser quebrada dependendo da escolha que você fizer.
— Você já me disse isso antes. Eu já fiz uma escolha.
— Muito bem, então, se é o que diz. Mas lembre que todas as escolhas têm consequências, sejam boas ou ruins. Está na hora de seguir em frente.
— Quer dizer que eu não vou mais sonhar com o livro?
— O livro acabou, embora mais rápido do que pensei.
— Por que sonhei com isso então?
— Sua mente quis uma fuga, uma distração das coisas ruins. Sempre foi assim.
— E você? Vou parar de te ver também?
— Ouvindo assim até parece que você gosta de mim — debochou ela. — Mas sim, se você já fez sua escolha, não virei mais te encontrar. Irei assistir o desenrolar dessa história de longe.
— De longe...?
— Boa sorte, você vai precisar.
E então ela sumiu. Me vi no breu mais uma vez e fechei os olhos, respirando fundo. Quando os abri novamente, encarei um teto branco, em um quarto igualmente branco.
E estava ao meu lado.
— ... Graças a Deus. — Ele segurou minha mão direita entre as suas e a beijou.
Tive uma sensação de déjà vu ao acordar ali. Era quase como da última vez depois do meu atropelamento. Então notei que havia uma tipoia em meu braço esquerdo e meu ombro estava imobilizado.
— Merda... Eu quebrei algum osso? — perguntei ao tentar me sentar. Senti uma dor incômoda nas costelas quando fiz isso.
— Você fraturou duas costelas e deslocou o ombro esquerdo. Os médicos acham que foi o impacto com o cinto de segurança.
— Merda... E o idiota que fez isso?
— A polícia o prendeu. Era o stalker, . Ele confessou tentar te matar — murmurou baixinho.
Engoli em seco, sentindo um arrepio na nuca, mas tentei disfarçar.
— Que bom que não conseguiu então. E o meu carro?
— Seu... Carro? — Ele franziu o cenho, como se estivesse surpreso com a pergunta.
— É, meu carro, . Ficou muito destruído?
— Ah... Consideravelmente, eu diria — ele respondeu, com uma mão na nuca. — Tivemos sorte de você não ter ficado presa nele.
— Porra! Eu vou esganar aquele pervertido! — xinguei, irritada. — Meu carro era novinho... — choraminguei.
— Eu te dou outro — ofereceu e o encarei como se ele tivesse falado uma asneira.
— Nem vem. Eu comprei com meu dinheiro. Pelo menos, tem seguro...
— Sim...
— Quando vou poder sair daqui? E aquele idiota? Eu quero ver ele.
— Acho que no fim da tarde você pode ter alta. Precisa ficar em observação por um tempo e esperar o resultado dos exames... A polícia se ofereceu pra vir pegar seu depoimento.
— Não precisa, eu quero ir à delegacia e ver aquele stalker pessoalmente.
— Vão interrogar ele mais tarde. Vou saber se podemos assistir.
— E ? Você avisou a ela?
— Sim, ela deve estar a caminho se não tiver ficado presa no trânsito.
— Certo. — Assenti e então me lembrei de algo. — E como você sabia que eu tava sendo seguida?
desviou o olhar do meu e apertou os lábios em uma linha fina.
— ... — Ah, não. Eu conhecia aquela expressão. Cara de quem tinha feito algo que eu provavelmente não concordaria.
— . É bom você começar a se explicar agora. Você colocou um rastreador em mim? No meu carro?
— Não.
— No meu celular?
— Não.
— E então o que foi?
— Contratei seguranças pra ficarem de olho em você.
— O quê?! Era por isso que eu andava com a impressão de que tava sendo seguida, então? Porque eu realmente tava! Porra, !
— Desculpa por não dizer. Mas eu sabia que você não ia concordar, então pedi a eles para serem discretos.
— É claro que eu não ia! Onde eles estão agora? — eu quis saber. — Quero ver quem são.
— Lá fora.
— Chame eles, então.
assentiu e fez uma rápida ligação. Um minuto depois, dois caras enormes vestidos casualmente entraram no quarto. Minha boca se abriu em choque.
Era o casal que eu tinha visto na cafeteria.
— Não acredito! Então era vocês?
— Sim, senhora. — Um deles respondeu e o reconheci como o mais ranzinza da vez que os vi. — Meu nome é Carter e esse é Louis.
Os dois tinham uma vibe de agentes secretos agora, se reportando a mim como se eu fosse chefe deles. Era até meio cômico.
— Eu não sou casada, Carter. Podem me chamar apenas de — comentei. — Vocês não são um casal, né?
— Não, senhora. Quer dizer... — Louis respondeu. — Na verdade, temos esposas e filhos.
— Que interessante. Vocês são bons atores. Foi um prazer conhecer vocês. Obrigada pela ajuda hoje.
— É nosso trabalho, se- — Carter disse.
Um momento depois, os dois saíram, me deixando sozinha com mais uma vez.
— Você não devia ter feito isso — O encarei. — Não tem nenhuma obrigação comigo.
— O stalker tava solto, . Eu tinha que te proteger de alguma forma. Não me interessa se você é ou não minha namorada. Eu não me arrependo de nada.
— Claro que não — retruquei, irritada. — Mas eu podia me cuidar sozinha.
— Ele teria te matado se meus seguranças não tivessem percebido e atrapalhado — disse, irritado também. — Não vou me desculpar por cuidar de você.
— Por que você é tão teimoso?
— Por que você é tão teimosa?
Respirei fundo, tentando conter a irritação.
— Eu me distanciei pra proteger você, seu idiota! E agora você me diz que tava fazendo o mesmo?
— Pelo menos, estamos de acordo em proteger um ao outro — ele comentou, sem se abalar. — Agora acabou, . O stalker foi pego e não vai mais nos incomodar.
— Assim espero. — Suspirei, passando a mão no rosto e notei um curativo na minha testa.
— Você pode voltar pra casa agora — ele comentou baixinho e o encarei novamente. — Pra nossa casa.
— ... — Prendi a respiração por um momento. — Não posso voltar com você.
— Por que não? Você disse que terminou comigo por causa do stalker.
— E do bebê também.
— Podemos superar isso juntos, eu te disse. E o problema com o stalker já foi resolvido. O que te impede?
Uma maldição, eu quis dizer. Ou melhor, repetir. Mas sabia que ele não ia acreditar naquilo. achava que eu tinha inventado um monte de lorotas só porque não queria revelar o motivo do nosso término.
— Eu só... Não posso, tá?
— Você não me ama mais? É isso? — ele perguntou e senti cada palavra como uma agulha enfiada no meu coração. — O amor acabou pra você, ?
— ...
Ele colocou uma mão no rosto e respirou fundo, antes de voltar a me encarar.
— Só quero que seja sincera comigo. Não pode fazer isso nem ao menos uma vez? Vai continuar me deixando no limbo, sem nem saber o motivo que me fez perder você? Eu mereço ao menos isso, . — O lábio inferior dele tremeu, denunciando seu nervosismo, e meu coração se apertou. — Tô cansado de ficar longe de você.
Senti meus olhos arderem e tive que fazer um esforço para não chorar em sua frente.
— Você consegue viver sem mim, . Nós vamos seguir em frente.
— Você não respondeu minha pergunta.
Apertei os lábios, tentando controlar minhas emoções. Eu não queria responder. Não queria magoá-lo mais do que já tinha feito. Mas também sabia que se não fizesse aquilo, ele continuaria insistindo.
— Sim, . Eu... — te amo demais. Desesperadamente. Como nunca imaginei amar ninguém. — Não te amo mais. Sinto muito.
me encarou com os olhos brilhantes, incrédulo, como se não esperasse mesmo que eu fosse falar aquilo. Então desviou o olhar e assentiu, antes de se levantar.
— Vou tomar um ar — disse, andando até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. — Vou acompanhar você no depoimento, . Depois disso, prometo que vou te deixar em paz — acrescentou, sem olhar para mim.
— Certo — respondi, um instante antes dele abrir a porta e sair.
Quando fez isso, me permiti chorar as lágrimas que estava contendo até então.
***
Quando chegamos à delegacia, pouco depois das sete da noite, o advogado de já estava à nossa espera. se ofereceu para nos acompanhar também, mas recusei. No fim das contas, eu estava bem após o acidente e não queria que ela bagunçasse sua rotina por minha causa sem necessidade. Então era apenas e eu. Nosso depoimento durou cerca de uma hora e então o detetive responsável nos deixou assistir o interrogatório da sala de observação.
Roy Basset era igualzinho às fotos que havia me enviado. Jovem e com uma expressão amarrada no rosto. Mas havia certa inquietação em seus olhos para alguém que tinha confessado vários crimes de boa vontade após ser pego. E acho que o detetive também notou isso durante o interrogatório, ao arquear uma sobrancelha com uma expressão de desconfiança no rosto.
Ele perguntou sobre os vídeos enviados para mim e , e então os seus motivos, e Roy revelou ter feito isso por não gostar de nos ver juntos, porque não gostava de mim e achava que merecia alguém melhor.
Ele estava repetindo o mesmo que disse nas mensagens.
— Por que quis matar a Srta. ? — o detetive perguntou.
— Porque assim ela o deixaria em paz.
— O Sr. e ela revelaram que não estão mais juntos.
— Se não estão, então não deveriam sair juntos.
— Alguns casais ficam amigos mesmo após o término...
— Mas eles não podem. Não quero.
Tudo o que ele falava parecia automático. E durante todo o processo, ele apertou a mão direita com a esquerda, como se tentasse ficar calmo. O detetive assentiu e estendeu uma prancheta para que ele assinasse um documento. Roy segurou a caneta com a mão esquerda e assinou, empurrando a prancheta de volta para o detetive com a direita. Foi quando eu vi algo no dorso de sua mão, mas estava longe demais para enxergar.
— Eu posso entrar ali? — perguntei para o policial que estava na sala. Quero só fazer uma pergunta.
me encarou como se eu estivesse maluca.
— , o que você-
— É só uma pergunta, .
O policial me encarou por um instante e então usou um microfone para pedir permissão ao detetive que o interrogava. Ele assentiu e, no mesmo instante, sai em direção à sala, que ficava na porta ao lado. Respirei fundo e me aproximei da mesa devagar. Roy me olhou com curiosidade e não era bem isso que eu esperava dele. Então meu olhar caiu para suas mãos.
Havia uma cicatriz antiga no dorso de mão direita.
— Você não é o stalker, né? — Sorri e o vi arregalar os olhos levemente.
— Eu sou. Já confessei tudo.
— Não é não. O stalker é destro e não tem uma cicatriz na mão. A menos que não fosse você naqueles vídeos.
— É claro que era! — ele retrucou e então se deu conta do que tinha feito. — Só não apareceu na câmera...
Suspirei e encarei o detetive.
— Acho que alguém contratou ele. Chequem os vídeos e vão ver que a pessoa que fez os vídeos não tem cicatriz. Talvez ele só tenha enviado as mensagens ou deixado alguém usar o endereço de IP dele.
— Certo. Obrigado pela informação, Srta. .
Assenti e voltei a encarar o garoto.
— Você tá seguro aqui. Se alguém te ameaçou, esse é o momento de falar.
E então saí. Um instante depois, me alcançou e me segurou pelo pulso livre, me virando para encará-lo.
— Do que você tava falando?
— Mesmo que não houvesse cicatriz, é muito óbvio. O cara é canhoto.
— E como você tem certeza de que o stalker é destro?
— Adivinha. — Fechei a mão e sacudi no ar.
— Porra, . Você reparou em como o cada se toca?
— Eu gostaria de apagar aquelas cenas da minha mente, se você quer saber. De todo jeito, aquele garoto tem uma cicatriz antiga. E o detetive também tava desconfiado, você não viu?
— Como assim?
— O garoto tava só repetindo coisas escritas nas mensagens, . E tava nervoso o tempo todo pra alguém que tinha acabado de confessar os crimes de boa vontade. Não é ele.
— Se não é ele, quem pode ser?
— Não faço ideia. Mas aquele tal de Roy? Aposto que nem conhece suas músicas.
franziu o cenho, preocupado.
— Eu tenho que ir. Tô cansada.
— Eu levo você.
— Não precisa, eu pego um táxi.
— Não, — rebateu com firmeza. — Não pedi sua permissão. Eu vou te levar pra casa. Vamos. — Ele me puxou pela mão, mas eu a puxei de volta.
— Eu posso andar sozinha, então — garanti, me afastando dele.
Por um milésimo de segundo, vi a mágoa cruzar seu olhar, mas disfarçou, fingindo não se importar. Passei na frente dele e andei mais rápido. O caminho até o carro se seguiu em silêncio e permaneceu assim até chegarmos ao endereço de minha irmã.
— Obrigada — murmurei, saindo do carro antes de ouvir uma resposta dele.
foi embora assim que fechei a porta.
Respirei fundo e observei o carro se afastar, algo me dizendo que aquela era provavelmente a última vez que nos veríamos.
...
— Eu também te amo, Dean — falei automaticamente, então percebi que não era eu, mas Ayla.
Eu estava de volta a Tenaz.
Mas tinha algo diferente. Bem ali, diante dos meus olhos, Dean desapareceu e então vi cenários mudando, cenas passando na minha frente com uma velocidade absurda que quase me deixou tonta.
Fechei os olhos por um instante.
— Vem morar comigo, amor — ouvi e abri os olhos, me deparando com Dean. Estávamos dançando e aquilo só podia ser o casamento de Tiana.
A cena passou e novamente fiquei confusa. Fazia alguns dias que eu não sonhava com Tenaz e nunca era assim, não tão rápido a ponto de eu praticamente nem identificar o que estava acontecendo.
O cenário acelerou mais uma vez e senti meu corpo sendo jogado para trás. No minuto seguinte, eu estava assistindo de terceira pessoa e não mais no corpo de Ayla. Olhei para baixo, constatando que estava no meu próprio corpo, meu cabelo vermelho caindo sobre meus seios.
Em seguida, vi Karina pegar o buquê de Tiana e se abaixar enquanto Ayla o chutava para longe, direto no rosto de Dean. As pessoas riram e me vi fazendo o mesmo. Até que eles se beijaram e... Fim.
Tudo ficou escuro. Eu estava em um breu, sem conseguir enxergar absolutamente nada e então, de repente, um rosto surgiu na minha frente.
Gritei, cambaleando para trás e a Ayla de olhos prateados riu, claramente se divertindo. Ela tinha voltado. A tal entidade que eu não fazia ideia do que era.
— Você devia ter visto sua cara — comentou, ainda sorrindo.
— Isso não tem graça. O que você quer?
— Te avisar.
— Sobre o quê?
— A maldição pode ser quebrada dependendo da escolha que você fizer.
— Você já me disse isso antes. Eu já fiz uma escolha.
— Muito bem, então, se é o que diz. Mas lembre que todas as escolhas têm consequências, sejam boas ou ruins. Está na hora de seguir em frente.
— Quer dizer que eu não vou mais sonhar com o livro?
— O livro acabou, embora mais rápido do que pensei.
— Por que sonhei com isso então?
— Sua mente quis uma fuga, uma distração das coisas ruins. Sempre foi assim.
— E você? Vou parar de te ver também?
— Ouvindo assim até parece que você gosta de mim — debochou ela. — Mas sim, se você já fez sua escolha, não virei mais te encontrar. Irei assistir o desenrolar dessa história de longe.
— De longe...?
— Boa sorte, você vai precisar.
E então ela sumiu. Me vi no breu mais uma vez e fechei os olhos, respirando fundo. Quando os abri novamente, encarei um teto branco, em um quarto igualmente branco.
E estava ao meu lado.
— ... Graças a Deus. — Ele segurou minha mão direita entre as suas e a beijou.
Tive uma sensação de déjà vu ao acordar ali. Era quase como da última vez depois do meu atropelamento. Então notei que havia uma tipoia em meu braço esquerdo e meu ombro estava imobilizado.
— Merda... Eu quebrei algum osso? — perguntei ao tentar me sentar. Senti uma dor incômoda nas costelas quando fiz isso.
— Você fraturou duas costelas e deslocou o ombro esquerdo. Os médicos acham que foi o impacto com o cinto de segurança.
— Merda... E o idiota que fez isso?
— A polícia o prendeu. Era o stalker, . Ele confessou tentar te matar — murmurou baixinho.
Engoli em seco, sentindo um arrepio na nuca, mas tentei disfarçar.
— Que bom que não conseguiu então. E o meu carro?
— Seu... Carro? — Ele franziu o cenho, como se estivesse surpreso com a pergunta.
— É, meu carro, . Ficou muito destruído?
— Ah... Consideravelmente, eu diria — ele respondeu, com uma mão na nuca. — Tivemos sorte de você não ter ficado presa nele.
— Porra! Eu vou esganar aquele pervertido! — xinguei, irritada. — Meu carro era novinho... — choraminguei.
— Eu te dou outro — ofereceu e o encarei como se ele tivesse falado uma asneira.
— Nem vem. Eu comprei com meu dinheiro. Pelo menos, tem seguro...
— Sim...
— Quando vou poder sair daqui? E aquele idiota? Eu quero ver ele.
— Acho que no fim da tarde você pode ter alta. Precisa ficar em observação por um tempo e esperar o resultado dos exames... A polícia se ofereceu pra vir pegar seu depoimento.
— Não precisa, eu quero ir à delegacia e ver aquele stalker pessoalmente.
— Vão interrogar ele mais tarde. Vou saber se podemos assistir.
— E ? Você avisou a ela?
— Sim, ela deve estar a caminho se não tiver ficado presa no trânsito.
— Certo. — Assenti e então me lembrei de algo. — E como você sabia que eu tava sendo seguida?
desviou o olhar do meu e apertou os lábios em uma linha fina.
— ... — Ah, não. Eu conhecia aquela expressão. Cara de quem tinha feito algo que eu provavelmente não concordaria.
— . É bom você começar a se explicar agora. Você colocou um rastreador em mim? No meu carro?
— Não.
— No meu celular?
— Não.
— E então o que foi?
— Contratei seguranças pra ficarem de olho em você.
— O quê?! Era por isso que eu andava com a impressão de que tava sendo seguida, então? Porque eu realmente tava! Porra, !
— Desculpa por não dizer. Mas eu sabia que você não ia concordar, então pedi a eles para serem discretos.
— É claro que eu não ia! Onde eles estão agora? — eu quis saber. — Quero ver quem são.
— Lá fora.
— Chame eles, então.
assentiu e fez uma rápida ligação. Um minuto depois, dois caras enormes vestidos casualmente entraram no quarto. Minha boca se abriu em choque.
Era o casal que eu tinha visto na cafeteria.
— Não acredito! Então era vocês?
— Sim, senhora. — Um deles respondeu e o reconheci como o mais ranzinza da vez que os vi. — Meu nome é Carter e esse é Louis.
Os dois tinham uma vibe de agentes secretos agora, se reportando a mim como se eu fosse chefe deles. Era até meio cômico.
— Eu não sou casada, Carter. Podem me chamar apenas de — comentei. — Vocês não são um casal, né?
— Não, senhora. Quer dizer... — Louis respondeu. — Na verdade, temos esposas e filhos.
— Que interessante. Vocês são bons atores. Foi um prazer conhecer vocês. Obrigada pela ajuda hoje.
— É nosso trabalho, se- — Carter disse.
Um momento depois, os dois saíram, me deixando sozinha com mais uma vez.
— Você não devia ter feito isso — O encarei. — Não tem nenhuma obrigação comigo.
— O stalker tava solto, . Eu tinha que te proteger de alguma forma. Não me interessa se você é ou não minha namorada. Eu não me arrependo de nada.
— Claro que não — retruquei, irritada. — Mas eu podia me cuidar sozinha.
— Ele teria te matado se meus seguranças não tivessem percebido e atrapalhado — disse, irritado também. — Não vou me desculpar por cuidar de você.
— Por que você é tão teimoso?
— Por que você é tão teimosa?
Respirei fundo, tentando conter a irritação.
— Eu me distanciei pra proteger você, seu idiota! E agora você me diz que tava fazendo o mesmo?
— Pelo menos, estamos de acordo em proteger um ao outro — ele comentou, sem se abalar. — Agora acabou, . O stalker foi pego e não vai mais nos incomodar.
— Assim espero. — Suspirei, passando a mão no rosto e notei um curativo na minha testa.
— Você pode voltar pra casa agora — ele comentou baixinho e o encarei novamente. — Pra nossa casa.
— ... — Prendi a respiração por um momento. — Não posso voltar com você.
— Por que não? Você disse que terminou comigo por causa do stalker.
— E do bebê também.
— Podemos superar isso juntos, eu te disse. E o problema com o stalker já foi resolvido. O que te impede?
Uma maldição, eu quis dizer. Ou melhor, repetir. Mas sabia que ele não ia acreditar naquilo. achava que eu tinha inventado um monte de lorotas só porque não queria revelar o motivo do nosso término.
— Eu só... Não posso, tá?
— Você não me ama mais? É isso? — ele perguntou e senti cada palavra como uma agulha enfiada no meu coração. — O amor acabou pra você, ?
— ...
Ele colocou uma mão no rosto e respirou fundo, antes de voltar a me encarar.
— Só quero que seja sincera comigo. Não pode fazer isso nem ao menos uma vez? Vai continuar me deixando no limbo, sem nem saber o motivo que me fez perder você? Eu mereço ao menos isso, . — O lábio inferior dele tremeu, denunciando seu nervosismo, e meu coração se apertou. — Tô cansado de ficar longe de você.
Senti meus olhos arderem e tive que fazer um esforço para não chorar em sua frente.
— Você consegue viver sem mim, . Nós vamos seguir em frente.
— Você não respondeu minha pergunta.
Apertei os lábios, tentando controlar minhas emoções. Eu não queria responder. Não queria magoá-lo mais do que já tinha feito. Mas também sabia que se não fizesse aquilo, ele continuaria insistindo.
— Sim, . Eu... — te amo demais. Desesperadamente. Como nunca imaginei amar ninguém. — Não te amo mais. Sinto muito.
me encarou com os olhos brilhantes, incrédulo, como se não esperasse mesmo que eu fosse falar aquilo. Então desviou o olhar e assentiu, antes de se levantar.
— Vou tomar um ar — disse, andando até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. — Vou acompanhar você no depoimento, . Depois disso, prometo que vou te deixar em paz — acrescentou, sem olhar para mim.
— Certo — respondi, um instante antes dele abrir a porta e sair.
Quando fez isso, me permiti chorar as lágrimas que estava contendo até então.
Quando chegamos à delegacia, pouco depois das sete da noite, o advogado de já estava à nossa espera. se ofereceu para nos acompanhar também, mas recusei. No fim das contas, eu estava bem após o acidente e não queria que ela bagunçasse sua rotina por minha causa sem necessidade. Então era apenas e eu. Nosso depoimento durou cerca de uma hora e então o detetive responsável nos deixou assistir o interrogatório da sala de observação.
Roy Basset era igualzinho às fotos que havia me enviado. Jovem e com uma expressão amarrada no rosto. Mas havia certa inquietação em seus olhos para alguém que tinha confessado vários crimes de boa vontade após ser pego. E acho que o detetive também notou isso durante o interrogatório, ao arquear uma sobrancelha com uma expressão de desconfiança no rosto.
Ele perguntou sobre os vídeos enviados para mim e , e então os seus motivos, e Roy revelou ter feito isso por não gostar de nos ver juntos, porque não gostava de mim e achava que merecia alguém melhor.
Ele estava repetindo o mesmo que disse nas mensagens.
— Por que quis matar a Srta. ? — o detetive perguntou.
— Porque assim ela o deixaria em paz.
— O Sr. e ela revelaram que não estão mais juntos.
— Se não estão, então não deveriam sair juntos.
— Alguns casais ficam amigos mesmo após o término...
— Mas eles não podem. Não quero.
Tudo o que ele falava parecia automático. E durante todo o processo, ele apertou a mão direita com a esquerda, como se tentasse ficar calmo. O detetive assentiu e estendeu uma prancheta para que ele assinasse um documento. Roy segurou a caneta com a mão esquerda e assinou, empurrando a prancheta de volta para o detetive com a direita. Foi quando eu vi algo no dorso de sua mão, mas estava longe demais para enxergar.
— Eu posso entrar ali? — perguntei para o policial que estava na sala. Quero só fazer uma pergunta.
me encarou como se eu estivesse maluca.
— , o que você-
— É só uma pergunta, .
O policial me encarou por um instante e então usou um microfone para pedir permissão ao detetive que o interrogava. Ele assentiu e, no mesmo instante, sai em direção à sala, que ficava na porta ao lado. Respirei fundo e me aproximei da mesa devagar. Roy me olhou com curiosidade e não era bem isso que eu esperava dele. Então meu olhar caiu para suas mãos.
Havia uma cicatriz antiga no dorso de mão direita.
— Você não é o stalker, né? — Sorri e o vi arregalar os olhos levemente.
— Eu sou. Já confessei tudo.
— Não é não. O stalker é destro e não tem uma cicatriz na mão. A menos que não fosse você naqueles vídeos.
— É claro que era! — ele retrucou e então se deu conta do que tinha feito. — Só não apareceu na câmera...
Suspirei e encarei o detetive.
— Acho que alguém contratou ele. Chequem os vídeos e vão ver que a pessoa que fez os vídeos não tem cicatriz. Talvez ele só tenha enviado as mensagens ou deixado alguém usar o endereço de IP dele.
— Certo. Obrigado pela informação, Srta. .
Assenti e voltei a encarar o garoto.
— Você tá seguro aqui. Se alguém te ameaçou, esse é o momento de falar.
E então saí. Um instante depois, me alcançou e me segurou pelo pulso livre, me virando para encará-lo.
— Do que você tava falando?
— Mesmo que não houvesse cicatriz, é muito óbvio. O cara é canhoto.
— E como você tem certeza de que o stalker é destro?
— Adivinha. — Fechei a mão e sacudi no ar.
— Porra, . Você reparou em como o cada se toca?
— Eu gostaria de apagar aquelas cenas da minha mente, se você quer saber. De todo jeito, aquele garoto tem uma cicatriz antiga. E o detetive também tava desconfiado, você não viu?
— Como assim?
— O garoto tava só repetindo coisas escritas nas mensagens, . E tava nervoso o tempo todo pra alguém que tinha acabado de confessar os crimes de boa vontade. Não é ele.
— Se não é ele, quem pode ser?
— Não faço ideia. Mas aquele tal de Roy? Aposto que nem conhece suas músicas.
franziu o cenho, preocupado.
— Eu tenho que ir. Tô cansada.
— Eu levo você.
— Não precisa, eu pego um táxi.
— Não, — rebateu com firmeza. — Não pedi sua permissão. Eu vou te levar pra casa. Vamos. — Ele me puxou pela mão, mas eu a puxei de volta.
— Eu posso andar sozinha, então — garanti, me afastando dele.
Por um milésimo de segundo, vi a mágoa cruzar seu olhar, mas disfarçou, fingindo não se importar. Passei na frente dele e andei mais rápido. O caminho até o carro se seguiu em silêncio e permaneceu assim até chegarmos ao endereço de minha irmã.
— Obrigada — murmurei, saindo do carro antes de ouvir uma resposta dele.
foi embora assim que fechei a porta.
Respirei fundo e observei o carro se afastar, algo me dizendo que aquela era provavelmente a última vez que nos veríamos.
Capítulo 36
— Isso é porque a música foi um sucesso — explicou Erika, uma das produtoras executivas. — Devemos tudo isso a , que nunca decepciona em suas composições. Um brinde a isso! — Ela levantou o copo e todos brindaram com suas bebidas.
Até mesmo eu, por educação.
Tinha lançado “Red Shoes” no dia anterior, incluindo um videoclipe da música. O público tinha aceitado bem, mas eu sabia que a maioria estava curiosa sobre o motivo da escolha do tema.
Gravei o vídeo na semana anterior, antes de viajar com , e consistia em apenas eu sentado no chão, com brinquedos infantis ao redor, um berço e os sapatinhos vermelhos que havia deixado para trás. Na edição, havia alguns cortes de fotos sem os nossos rostos passando em um loop rápido, como se fosse uma espécie de falha na imagem, e o bilhete que ela tinha colocado com os sapatinhos. Eu estava de pijama, cantarolando a música que tinha um toque de violão ao fundo, enquanto olhava com carinho para o parzinho minúsculo de crochê.
A música tinha uma letra simples e curta. Falava sobre alguém que tinha ido embora, mas ainda assim tinha lugar especial no meu coração. O vídeo era inteiramente preto e branco, a não ser pelos sapatos. Eu sorria enquanto cantava, mas, no final, deixei uma lágrima escapar.
Era mais do que óbvio o que aquilo significava, mas ainda que o clipe estivesse relacionado a um bebê, eu tomei cuidado para a letra soar ambígua, apenas sobre uma pessoa que se foi e deixou sapatos para trás. Poderia ser qualquer um. As pessoas poderiam se identificar de diversas formas com a música, mas a verdade era que eu a tinha escrito para mim mesmo e para .
Era uma música escrita alguns dias depois de ir embora, em uma tentativa de confortar a mim mesmo, não só sobre a perda do bebê, mas também sobre . De certa forma, eu esperava que ela também encontrasse algum conforto nela.
Eu não fazia ideia se ela havia ouvido, mas imaginava que sim. Ela tinha sido uma das pessoas mais ansiosas por um novo lançamento. Um dia antes de lançar “Red Shoes”, minha equipe divulgou a capa do novo álbum, que estava programado para sair à meia-noite após minha apresentação em Los Angeles, no dia seguinte. Eu já estava na cidade há dois dias. Resolvi viajar antes para me preparar para o festival e me hospedei no hotel onde minha equipe e eu costumávamos ficar, e agora estávamos ali, comemorando um sucesso com o qual eu não conseguia me sentir feliz.
Respirei fundo, bebi o último gole de cerveja, e observei as pessoas sorridentes ao meu redor por um instante, antes de decidir me recolher para o quarto. Uma série de reclamações veio, mas os convenci de que precisava descansar a voz para o dia seguinte.
Lancei um último olhar para Jace, que sorria animado, e ele levantou o próprio copo em um cumprimento antes de eu sair. Ele podia aproveitar os últimos dias como meu gerente o quanto quisesse, mas eu sabia que, em breve, um aviso de demissão viria.
E talvez ainda naquele fim de semana.
Ouvi a multidão gritar meu nome repetidamente enquanto observava meu próprio reflexo no espelho da sala de espera. Uma staff tinha acabado de me avisar que eu tinha dois minutos para subir ao palco, então respirei fundo, terminei a dose de whisky que tinha em mãos e saí para me apresentar, tentando ignorar a sensação esquisita no meu peito a cada passo.
Imaginei que devia ser apenas ansiedade, já que aquela era a minha primeira apresentação desde a turnê que finalizei antes do acidente de .
E eu ainda não conseguia tirá-la da cabeça. Não que eu esperasse conseguir tão cedo depois do que aconteceu na casa da minha mãe, mas ela era como uma coisa fora do lugar, do tipo que você ignora na maior parte do tempo, dizendo a si mesmo que vai arrumar, mas continua lá à medida que os dias passam, como um lembrete constante de que você deveria fazer algo a respeito, mas continua apenas adiando porque não te incomoda muito.
De fato, pensar em não me incomodava, mas sim pensar sobre o que tinha restado de nós: um grande e belo nada.
Eu também havia ficado intrigado com a insistência dela quanto ao stalker. O cara estava preso, mas tinha insistido tanto que Roy era um bode expiatório que, quando a deixei em casa, acabei voltando para a delegacia e pedi ao detetive para não encerrar o caso, mas conduzir uma investigação mais apropriada.
Ele não hesitou. Na verdade, tinha a intenção de fazer isso e contou que, durante o interrogatório, pensou que Roy estivesse mentindo antes mesmo de pedir para entrar na sala e que, após sairmos, constatou exatamente o que ela pensava.
Roy não conhecia nenhuma música minha. Além disso, o celular que ele carregava continha apenas uma ligação suspeita, vinda de um telefone descartável. Nada de aplicativos de redes sociais, fotos ou vídeos na galeria, o que não condizia com a obsessão que ele alegava ter por mim.
No entanto, no dia anterior, recebi uma atualização do meu advogado, informando que Roy tinha um vínculo com alguém. Sua avó estava internada em um hospital e a conta só aumentava, até que, cerca de uma semana atrás, foi quitada por alguém com o sobrenome Keller.
Senti o sangue fugir do meu rosto no momento em que li a mensagem.
O palpite do detetive era que Roy não esperava que o vínculo com sua avó fosse ser descoberto, mas isso foi o suficiente para que eles chegassem a um novo suspeito. E eu só conhecia uma pessoa com aquele sobrenome, alguém que tinha informações suficientes sobre mim para agir como um stalker.
Conversei com meu advogado e notificamos o detetive, que por sua vez notificou a polícia de Los Angeles. Jace seria convocado em breve, mas pedi que isso acontecesse após a apresentação. Aquilo seria um escândalo praticamente concomitante ao lançamento do meu álbum e eu não queria chamar atenção para isso antes de subir ao palco.
A apresentação correu bem e eu consegui manter um sorriso no rosto na maior parte do tempo até chegar em “Red Shoes”, que era a última música.
— Essa música originalmente não faria parte do álbum, mas resolvi incluí-la há algum tempo. É sobre aqueles que se foram, mas que mesmo assim têm um espaço especial no nosso coração. Espero que gostem.
A plateia gritou e logo os primeiros acordes começaram a tocar. Senti um leve frio na barriga, por ser a primeira vez que cantava aquela música ao vivo, mas felizmente correu tudo bem.
Eu ainda tinha um sorriso no rosto quando terminei, embora meus olhos estivessem ardendo e levemente embaçados.
Em seguida, agradeci, me despedi e enfim saí do palco.
Quase duas horas depois, eu já estava de volta ao meu quarto de hotel quando bateram à porta. Já passava das onze e meia, mas eu tinha pedido serviço de quarto um pouco tarde. Depois de um show, eu nunca conseguia dormir cedo e certamente não o faria de estômago vazio. Tomei um banho enquanto esperava e, pelo visto, o momento tinha sido perfeito.
Eu ainda estava com uma toalha ao redor do pescoço quando fui atender a porta para pegar a comida. Mas mal a abri, Jace já estava ali, empurrando uma folha de papel contra meu peito.
— Que porra é essa, ?! — ele perguntou, entrando no quarto sem permissão.
Peguei a folha e examinei o título rapidamente.
— Uma demissão — respondi calmamente e me virei, indo até a pequena cozinha que havia ali enquanto secava o cabelo. O quarto parecia um pequeno apartamento, com uma varanda que dava para a frente do edifício.
Jace andou em meu encalço.
— Por que você tá me demitindo? Eu não fiz um bom trabalho gerenciando você?
— Fez — admiti. — Mas eu não quero mais trabalhar com você.
— E por que não? Estamos juntos há cinco anos!
Eu ri pelo nariz e o encarei.
— Você fala como se a gente tivesse em um relacionamento — zombei. — Você faz um bom trabalho, Jace, mas temos diferenças de personalidade que estão me incomodando há um tempo. Sinto muito.
— Diferenças de personalidade? Como assim? O que eu fiz pra você pensar isso?
Respirei fundo, antes de responder.
— Pra começar... Você vive querendo se intrometer na minha vida pessoal, sabendo que detesto isso. E eu não gostei das coisas que você falou sobre a quando a gente terminou.
— É sobre ela, então? A sua ex? Eu tava tentando te ajudar a superar.
— Falando mal da mulher que eu amo?
— Você é um capacho dela, ! Não percebe? Essa mulher te controla!
— pode até mandar em mim se ela quiser, Jace. Se ela me pedir pra ajoelhar diante dos pés dela, eu o farei de bom grado.
Ele riu, sem humor.
— Vai beijar os pés dela também? — debochou.
— Eu começaria pelos pés — devolvi com um sorriso, vendo-o travar a mandíbula de desgosto.
Peguei meu celular em cima do balcão onde o havia deixado e enviei uma mensagem rápida para meu advogado, solicitando a polícia.
— Inacreditável, ! Ela terminou com você há dois meses! Ela não te quer mais, só que você continua agindo assim.
— E, de novo, isso não é da sua conta, Jace. Agora que já estamos esclarecidos, você pode ir embora, por favor? — pedi calmamente, e ele me encarou como se eu tivesse lhe dado um soco.
— Você tá me expulsando agora?
— Tecnicamente, eu nem te convidei pra entrar. Quero ficar sozinho.
— , pense direito. Você não tá sendo profissional. Vai mesmo me demitir por causa de uma mulher que nem tá mais com você?
Exalei o ar de uma vez, sentindo minha paciência se esvair.
— Ela ainda estaria comigo se não fosse por você — falei sem pensar.
E o idiota ainda teve a ousadia de parecer surpreso.
— Como assim? Eu não fiz nada com ela.
— Não. Você só pagou alguém pra fazer, seu imbecil — retruquei com raiva.
— O quê? — Ele pareceu vacilar por um instante.
— Achou que eu nunca fosse descobrir, Jace? Que você é aquele maldito stalker que vinha importunando a mim e a durante meses?
— Do que você tá falando? A polícia pegou esse stalker, era aquele tal de Roy.
— Pegou? — Arqueei uma sobrancelha. — Eu não me lembro de ter contado isso a você. Na verdade, além dos policiais envolvidos, apenas , eu e meu advogado sabíamos. A não ser que você tenha entrado em contato com Roy.
— O que pensa que eu sou, ?
— Além de um idiota doente e obcecado? Não faço ideia.
O olhar dele endureceu, perdendo a falsa inocência que fingia.
— Você nunca deveria ter se envolvido com aquela mulher. Eu cheguei primeiro! Devia ser apenas nós dois!
— Do que você tá falando?
— Devia ter acabado no atropelamento dela, mas aquela vadia sobreviveu. E mesmo sem memória, você insistiu em cuidar dela quando ela nem lembrava de você! E continuou feito um cachorrinho. Mas eu… Eu te amei primeiro!
Eu ri, incrédulo, incapaz de me controlar.
— Se olhe no espelho, Jace. Eu gosto de mulheres. Não seja idiota, o que pensou que poderia acontecer entre a gente?
— Eu deveria ter sido mulher também. Já fui uma... Em outra vida.
— O quê? — Franzi o cenho. Que papo era aquele?
— Devíamos ser casados, — ele continuou. — Mas aquela prostituta nojenta sempre apareceu. Eu não suporto o fato de você sempre ficar que nem um cachorrinho atrás dela e me ignorar.
De repente, senti meu sangue ferver.
— Você tentou matar minha mulher, seu imbecil! — esbravejei. — Duas vezes! E você deve estar realmente doente pra vir com esse papo de casamento pra cima de mim. — Me aproximei dele, apertando os punhos. — Não importa o que você faça, eu nunca vou parar de amar . Não quero ninguém que não seja ela, me ouviu? Agora dá o fora daqui, Jace. Acabou.
— Não! Eu me recuso! Você tem que pensar, . Seu lugar não é com aquela puta! Eu-
Soquei seu rosto antes que ele pudesse continuar.
— Não se atreva, Jace!
Ele colocou a mão na boca, percebendo o sangue em seu lábio cortado. Minha aliança tinha provocado aquilo, mas eu não sentia nem mesmo um pingo de remorso. E, pelo visto, ele percebeu isso, já que sua próxima ação foi vir para cima de mim, seu corpo colidindo com o meu enquanto nos arrastava para a varanda.
Uma batida na porta soou naquele exato momento.
— Sr. ? Aqui é a polícia.
— Aqui! A porta tá aberta — gritei, enquanto tentava fazer Jace me soltar.
— Você chamou a polícia? Como se atreve a fazer isso comigo?! — Ele me deu um soco e eu cambaleei um passo para trás, antes de avançar nele de novo.
— Sr. ? Recebemos seu chamado. Se não responder agora, iremos entrar mesmo assim.
— Entrem! — gritei mais alto e, um momento depois, a porta foi aberta e dois policiais entraram.
Apontei para o chão, onde Jace havia caído sentado. Eles se aproximaram, cada um com a mão sobre a arma na cintura. Mas antes que pudessem nos alcançar, Jace se levantou e usou um vaso de planta para quebrar o vidro da varanda, alarmando ainda mais os policiais e a mim.
— Que porra você tá fazendo?! — gritei, me afastando da parte quebrada.
— Sr. Keller, mãos para o alto! — Um dos policiais gritou, apontando uma arma para ele.
Jace veio até mim, ignorando o aviso e me agarrou pela camisa, me empurrando para a beirada. Os policiais gritaram ordens, mandando ele me soltar. Eu tentei me soltar dele, consciente de que estávamos perto demais da beirada, que seria arriscado demais os policiais atirarem ou tentarem nos puxar.
— Me solta, seu filho da puta! — Tentei tirar suas mãos da minha camisa, mas ele se agarrou a mim, seus braços como um cinturão ao meu redor.
— Se eu não posso te ter, então ela também não! — ele gritou, e eu arregalei os olhos por um milésimo de segundo, sentindo uma onda de medo e adrenalina me atingir.
Então ele nos atirou do prédio.
Levou cerca de dois segundos até eu sentir o impacto em todos os meus ossos, o ar escapando dos meus pulmões, uma dor absurda em todos os lugares e uma tentativa falha de respirar que me fez engasgar com um líquido que percebi ser meu próprio sangue. Jace estava ao meu lado, imóvel, mas havia a sombra de um sorriso em seu rosto. Engasguei novamente, vendo minha vida passar diante dos meus olhos.
Uma lágrima caiu e pensei no sorriso de , a última memória à qual eu queria me agarrar, enquanto uma estranha consciência do que estava acontecendo tomava conta de mim. , , , pensei, sem parar.
E então... Nada.
Capítulo 37
Esperei até a meia-noite para acompanhar o lançamento da nova música de .
A capa do álbum novo, que sairia em alguns dias, havia sido divulgada também. Não era verde, mas preto e branco, com vários tons de cinza. Imaginei que tivesse mudado de última hora, embora não fosse de seu feitio modificar algo que havia sido decidido há meses. Também havia duas músicas a mais na lista do álbum, uma delas era o single cujo videoclipe eu estava prestes a ver.
Por algum motivo, senti um frio na barriga enquanto digitava o título da música na barra de navegação do YouTube no meu tablet. Quando o ícone do vídeo apareceu, cliquei nele e esperei a imagem carregar um pouco antes de dar play.
Então fui surpreendida por uma série de acordes de violão e a voz de se sobressaindo enquanto ele cantava o que quase parecia como uma canção de ninar. Meus olhos se encheram e jorraram lágrimas silenciosas quando notei o cenário.
Ele estava sozinho em um quarto com um berço no fundo, brinquedos ao redor e os sapatinhos que comprei quando planejei dar a notícia da gravidez quando ele chegasse de viagem, antes do meu acidente. Os sapatos eram os únicos itens coloridos do vídeo. não olhou para a câmera em nenhum momento e acho que estava absorto demais para fazer isso.
A letra era sobre nosso bebê, mas poderia muito bem ser sobre qualquer pessoa que tivesse ido embora.
"Você se foi antes de eu chegar
O céu ganhou uma nova estrela brilhante
E a mim restaram apenas esses sapatos vermelhos
Mas não se preocupe, baby
Irei olhar para o céu e sorrir para você
Não mais chorar
Vou te guardar no meu coração
Junto desses sapatos vermelhos
E te amar para sempre"
Instantaneamente, percebi que tinha escrito aquela música para servir de conforto. Não era nada do que os fãs estavam esperando para o novo álbum, mas todos sabiam que ele por vezes inseria composições baseadas em suas próprias experiências, e algo me dizia que em breve as pessoas iriam especular sobre o tema daquele vídeo. Especialmente quando ele revelou o bilhete que escrevi, além das nossas fotos passando no fundo, mesmo sem revelar nossa identidade.
Aquela música talvez fosse a sua versão de página virada. Uma parte de mim não conseguia nem imaginar como foi para ele descobrir que eu estava grávida com a notícia de um aborto e ter que lidar com isso sozinho porque eu não podia saber ainda. E quando eu soube, a primeira coisa que fiz foi fugir e deixar para trás aqueles mesmos sapatinhos vermelhos.
Me senti um lixo por isso, por provocar mais sofrimento em por conta de emoções que hoje, em outras circunstâncias, eu talvez tivesse encarado de outra forma. Mas tudo o que pude associar àquela perda foi a maldição. O maldito stalker tinha provocado aquilo e talvez sua intenção nem fosse tirar apenas a vida do meu bebê, mas a minha também.
Perdi a conta da quantidade de vezes que assisti o vídeo de “Red Shoes”. Absorvi a voz de como se fosse um abraço aconchegante, o conforto que eu sabia que poderíamos ter encontrado um no outro se eu não tivesse me afastado e o deixado lidar sozinho com os nossos problemas.
Ele tinha segurado as pontas por mim durante meses e tudo o que fiz por ele foi abandoná-lo e falar que não o amava mais. A maior mentira que já contei, com toda certeza. Mas não se afastaria por completo se eu continuasse dando sinais de que ainda tinha sentimentos por ele. E acho que no fundo ele sabia que eu estava mentindo, mas a mágoa tinha enevoado sua percepção.
Eu sabia que tinha dado um fim definitivo para nós dois no momento em que disse aquilo. Pensar nisso provocava um aperto no meu peito, mas eu disse para mim mesma que era o melhor para nós dois.
Eu estava protegendo ele e até mesmo havia revelado sobre a maldição, embora acreditasse que era só invenção minha enquanto bêbada. E era melhor que ele pensasse assim mesmo, pois nunca me deixaria em paz se eu tivesse falado aquilo sóbria, e provavelmente teria me convencido de que era tudo coincidência quando eu sabia que não era.
Quando o videoclipe acabou pela... não sei qual vez, pois tinha perdido a conta, coloquei o tablet de lado e me deitei para dormir. Ou pelo menos tentar, enquanto lágrimas ainda escorriam por meu rosto já inchado de chorar.
Atualmente, aproximadamente nove horas após o acidente de
Era domingo de manhã e eu estava na cozinha com enquanto preparávamos nosso café da manhã.
Me encostei no balcão da cozinha de olho no meu e-reader e tomei um gole de café com a mão livre, enquanto voltava para a leitura que havia começado na noite anterior. Já fazia alguns dias desde o meu segundo acidente e, felizmente, as dores haviam diminuído.
se afastou com seu prato na mão e se sentou no sofá em frente à TV da sala. A ouvi zapeando os canais aleatoriamente enquanto procurava algo para assistir, até que parou em um que me chamou atenção no mesmo instante.
— "E agora voltamos com a notícia que deixou muitos fãs abalados. Na noite passada, pouco depois da meia-noite, o cantor foi assassinado por seu gerente, Jace Keller..."
Senti o corpo inteiro gelar e, no mesmo instante, corri para a frente da TV.
— ... — disse em um sussurro, mas meus olhos estavam vidrados na televisão, uma sensação de peso me atingindo a cada palavra que eu ouvia.
— "Foi descoberto que Keller era um stalker anônimo que vinha incomodando e sua namorada há alguns meses. Policiais que estavam no local informaram que encontraram os dois no meio de uma briga e o gerente quebrou o vidro de proteção da varanda do vigésimo andar e se jogou com pouco depois. Os dois morreram antes que pudessem ser levados ao hospital. Voltaremos com mais notícias breve, mas até lá oferecemos nossos pêsames à família do Sr. , sua namorada, amigos e fãs..."
— Isso deve ser mentira. se apresentou ontem, ele tava bem! Vou ligar pra ele, deve ser alguma notícia sensacionalista — comentei e saí em direção ao quarto para pegar meu celular. Disquei o número dele e voltei para a sala com o celular no ouvido, andando de um lado para outro apressadamente. A ligação caiu na caixa postal e eu tentei mais duas vezes, em vão.
— Não pode ser, ... Eu vou tentar ligar pra mãe dele.
Achei o contato da Sra. na agenda e liguei. A primeira vez caiu na caixa postal e eu tentei outra vez. Ela atendeu no terceiro toque.
Parei de andar.
— Sra. .
— , querida... — ela murmurou com a voz chorosa e aquilo foi o suficiente para que eu entendesse. No instante seguinte, o celular escorregou na minha mão, a realidade me atingindo com tudo. Caí no chão, perdendo as forças nas minhas próprias pernas e de repente respirar se tornou difícil. Puxei o ar, mas havia uma angústia que me impedia de expandir o peito por completo.
— ... — me chamou, se colocando ao meu lado um momento depois. Minha irmã me abraçou e eu senti lágrimas quentes jorrando dos meus olhos sem parar enquanto engasgava com a falta de ar e o aperto em meu peito. — Eu sinto muito, sinto muito, irmã — ela acrescentou, com a própria voz embargada.
Solucei em seus braços, ainda absorvendo aquela notícia. Como aquilo tinha acontecido? estava tão bem da última vez que eu o tinha visto. E Jace? Ele era o stalker? Por que ele matou ? Por quê? Por quê?
— Eu não- ele não devia morrer. , eu- disse que não o amava. Eu disse isso a ele e agora...
Solucei sem parar, incapaz de absorver a dor que estava sentindo.
— Ele sabia que era mentira, irmã... Tenho certeza de que sabia.
— Mas eu- Se eu tivesse morrido no acidente... Se eu tivesse, ele estaria bem, . Ele estaria-
Solucei outra vez, não mais conseguindo falar. Por que aquilo estava acontecendo? Eu fiz de tudo para proteger do stalker, me afastei para evitar mais uma tragédia, e mesmo assim...
Eu nunca havia sentido um sentimento como aquele, tão dolorosamente cru e forte antes. Era como se meu coração estivesse sendo rasgado aos pedaços e eu queria morrer. Não fazia sentido viver em um mundo sem . Eu podia aguentar ficar longe dele e tentar seguir em frente sabendo que ele estava bem, mas isso... Isso era o mais completo absurdo.
Tudo estava bem e, de repente, o amor da minha vida se foi. A pessoa que me amou e que amei incondicionalmente até o último momento. Eu ainda o amava, o amava tanto. Como superaria sua perda? Como eu poderia sequer acordar no dia seguinte sabendo que ele não estava mais vivo? era uma das pessoas mais cheias de vida que eu conhecia. E mais positivas também, embora ele falasse o mesmo de mim. Quando eu estava frustrada e desmotivada com algo, sempre estava lá, disposto a me mostrar tudo de uma outra perspectiva.
Eu não conseguia parar de pensar que eu devia ter morrido em seu lugar. Não conseguia parar de pensar que eu ainda deveria morrer. Eu não queria saber de nada. Eu queria estar com como sempre foi nos últimos três anos. Queria mostrar a ele o quanto o amava, o quanto ele era precioso para mim e pedir perdão por todas as vezes que o magoei.
Queria prometer nunca sair de seu lado, não importa o que acontecesse.
Se eu soubesse que tudo acabaria assim, eu teria aproveitado cada segundo em sua presença, e teria dado um jeito de ir em seu lugar. Agora tudo que eu conseguia pensar era em me juntar a ele e devo ter dito isso em voz alta pois no instante em que tentei me levantar em busca de algo que me ajudasse a interromper minha própria vida, minha irmã se jogou em cima de mim, usando o peso do próprio corpo para me manter no lugar.
O rosto de também havia sido tomado por lágrimas e ela gritava comigo, falando que não ia me deixar fazer nada que me machucasse. Gritei de frustração o mais alto que pude, incapaz de raciocinar direito e não me importando nem um pouco com isso.
Eu queria parar aquela dor, eu queria ficar com , mesmo que para isso eu tivesse que tirar minha própria vida.
Mas se agarrou a mim e conseguiu me manter imóvel no lugar, mesmo quando tentei me debater e continuei gritando sem parar. Ela chorou comigo e murmurou palavras de conforto, tentando me acalmar.
Depois de vários minutos que mais pareceram horas, fui vencida pelo cansaço. Perdi minha voz depois dos gritos e o que restou de mim foi uma casca vazia, apática, olhando para o nada, enquanto lágrimas silenciosas ainda escorriam pelo meu rosto como se tivessem vida própria.
Então, em algum momento, tudo ficou escuro.
Capítulo 38
Bam. bam. Bam.
Bam! Bam! Bam!
Acordei com o barulho de batidas, semelhante ao de uma porta. Olhei ao redor, confusa, mas então tudo ficou em silêncio por um momento. Me levantei e caminhei em direção à porta, ficando parada ali por alguns segundos, ainda um pouco sonolenta e tinha acabado de chegar à conclusão de que eu tinha imaginado aquele barulho depois de adormecer. Uma rápida conferida no relógio me disse que não fazia muito tempo que eu havia pegado no sono, e decidi aproveitar a chance de dormir, já que eu não vinha conseguindo fazer muito isso ultimamente.
Bam! Bam! Bam!
A batida recomeçou, dessa vez mais alta, me fazendo virar de uma vez em direção ao som, com os olhos arregalados. Me assustei com meu próprio reflexo no espelho de corpo inteiro que havia em uma parede ao lado da cama e coloquei a mão sobre o peito, sentindo o coração acelerado. Olhei para o espelho durante mais alguns segundos, quase certa de que o barulho tinha vindo daquela direção, o que não parecia fazer sentido algum.
Bem, isso até uma mão espalmada surgir no vidro de repente, como se alguém estivesse do outro lado. Me sobressaltei, dando um gritinho e desviei o olhar do espelho, incapaz de raciocinar o que diabos estava acontecendo. Um segundo depois, ouvi meu nome sendo chamado ao longe. . . ! Bam! A batida novamente. No próximo instante, a voz veio mais alta e eu travei no lugar quando finalmente a reconheci. Olhei novamente para o espelho e dessa vez havia um rosto ali. Não, um reflexo completo, que não era o meu.
Do outro lado do espelho, me encarava com uma expressão frustrada no rosto, enquanto socava o vidro com força.
— … — choraminguei, finalmente tomando uma atitude. Dois passos à frente e eu o encarei de perto através do vidro.
— , eu sinto muito. Sinto muito. A culpa foi minha — murmurei baixinho, tocando o vidro no local onde sua mão estava espalhada.
me encarou com tristeza e uma lágrima escorreu por seu rosto também. Ele franziu o cenho e socou o outro lado do espelho, onde nossas mãos não estavam espalmadas. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo e em determinado momento comecei a balbuciar palavras sem parar.
— Eu te amo tanto. , por favor, me leva com você. Me deixa ir com você — choraminguei.
travou a mandíbula, como se aquilo fosse uma decisão difícil e sacudiu a cabeça, negando.
— Por quê?! — Gritei, socando o espelho com as duas mãos. A moldura tremeu e uma luz prateada surgiu ao redor, mas eu estava incapaz de me importar com mais alguma coisa que não fosse ele, que não fosse em me juntar a ele. — Deveria ser eu no seu lugar!
balançou a cabeça novamente e vi ele tentar falar novamente. De alguma forma, sua voz continuava distante.
— , não. Por favor.
— Mas eu quero! — Soquei o espelho outra vez, frustrada por ele estar me negando aquilo. — Por quê? Por que eu não posso?
— Porque eu te amo. E você deve ficar.
A imagem de tremeu de repente e eu arregalei os olhos, amedrontada que ele fosse desaparecer.
— , não. Não vá, por favor. Eu amo você — murmurei, caindo em prantos quando vi sua imagem sumir bem na minha frente. — Não! Não! Não!
Soquei o espelho com mais força, sem parar, até que ele finalmente quebrou.
***
Quatro dias depois que eu soube da morte de , a mãe dele me enviou uma mensagem sobre seu funeral.
Eu sabia que ele tinha sido cremado há dois dias e tudo o que tinha restado era uma pilha de cinzas. Também fazia quatro dias que eu estava trancada no meu quarto, ou pelo menos algo perto disso, já que escondeu todas as chaves, objetos pontiagudos e qualquer peça de vidro que eu pudesse usar para tentar me ferir, incluindo espelhos. Aparentemente, eu tinha tentado tirar minha própria na madrugada seguinte da morte de e quase consegui fazer algo dessa vez, embora não me recordasse de nada.
Eu lembrava de ver no espelho e de socar o vidro até ele se despedaçar, mas nada depois disso. me contou que acordou com meus gritos e quando estava prestes a entrar em meu quarto, ouviu o barulho do espelho se quebrando. O resultado disso foram alguns cortes superficiais nas minhas mãos, uma dor chata no braço engessado — que provavelmente ajudou a espatifar o espelho — e talvez um pequeno trauma na minha irmã, depois de conseguir me impedir a tempo, antes que eu me machucasse de verdade.
Ela estava tentando se manter firme diante da minha situação, mas, no fundo, eu sabia que minha irmã estava apavorada e fez questão de não me deixar mais sozinha em nenhum momento durante os últimos dias. Quando teve que sair para trabalhar, Andy e Kate se revezaram para ficar comigo.
Não falei com ninguém durante esses dias. Tive que ser praticamente arrastada para fora da cama para comer e tomar banho, até que comecei a fazer isso no automático após o segundo dia após meu pequeno incidente com o espelho.
No dia seguinte a ele, quando recebi a mensagem da Sra. , eu já ouvia as músicas que escreveu para nós dois sem parar, me agarrando às memórias que tínhamos feito juntos, agora sendo tudo que restava de nós. Ocasionalmente, novas lágrimas silenciosas fluíam de meus olhos e, às vezes, se transformavam em soluços no meio da noite quando eu não conseguia dormir. Era especialmente difícil agora e eu só apagava quando minha mente exausta me forçava a isso. Sempre que me ouvia chorar, acordava ao meu lado e me abraçava em silêncio até eu me acalmar.
Quando veio a mensagem da Sra. sobre o funeral, mostrei a tela do celular para minha irmã e ela me encorajou a ir e se ofereceu para me acompanhar, mas só tive coragem de fazer isso no final da tarde.
Ao chegamos ao local do funeral, parei na entrada da sala onde a mãe de estava e colocou uma mão nas minhas costas, em um apoio silencioso para que eu seguisse em frente. Por mais que o velório fosse privado, na entrada havia dezenas de flores enviadas pelos fãs de . Havia alguns rostos conhecidos ali, pessoas da equipe dele, e outros que eu não fazia ideia de quem eram.
A Sra. estava sentada em uma cadeira encostada em uma das paredes da sala, mas se levantava toda vez que alguém vinha lhe oferecer os pêsames. Caminhei hesitante até ela e notei alguns olhares curiosos ao meu redor.
e eu paramos em sua frente e eu mordi o lábio inferior com força, tentando prender o choro. Ela olhou para cima e se pôs de pé quando me viu e, em silêncio, me envolveu em seus braços. Continuamos assim por alguns minutos, sem trocar uma palavra, e choramos juntas até que ela se afastou e passou as mãos pelo meu rosto, afastando minhas lágrimas, exatamente como fazia. Então, com sua voz gentil, disse:
— Preciso conversar com você depois, meu bem.
Assenti e me afastei para que outras pessoas pudessem cumprimentá-la e fiquei em um canto atrás de um arranjo de flores, querendo ficar sozinha. se sentou ao meu lado em silêncio e segurou minha mão.
Cerca de uma hora depois, já tinha anoitecido e as visitas pareciam ter cessado por um momento quando a Sra. veio até mim.
Me levantei e juntei as mãos na frente do corpo, esperando pelo que quer que ela tivesse para falar.
— Eu vou ao banheiro enquanto vocês conversam — avisou, antes de se afastar e sumir de vista.
Ficamos somente eu e a mãe de na sala e ela suspirou, visivelmente cansada.
— Eu perdi meu único filho, ... Mas você perdeu o amor da sua vida. — Ela me encarou com carinho, mesmo com seus olhos repletos de tristeza.
Pressionei meus lábios juntos e abaixei a cabeça, até que senti ela colocar algo em minha mão. Um saquinho de veludo preto.
— Posso jurar que meu filho foi mais feliz com você nos últimos três anos do que no resto da vida dele inteira, querida — ela continuou. — Quero que saiba que sou grata a você por cada momento que o fez feliz. Me entregaram isso há uns dias, mas acho que ia querer que ficasse com você.
Olhei para ela por um instante e então voltei minha atenção para o saquinho, o abrindo e virando sobre minha mão.
A aliança de compromisso de caiu sobre minha palma com um toque gelado e eu a apertei na mão, segurando forte, enquanto um soluço escapava de mim.
— Eu sinto muito, Sra. . Sinto muito — murmurei, minha voz soando áspera pelos dias em silêncio. Então saí correndo, incapaz de passar mais um minuto que fosse ali.
Pouco depois, me vi do lado de fora do prédio e continuei correndo sem rumo, sem nem prestar atenção na direção que estava indo. O vento gelado batia em meu rosto em meio às lágrimas e pingos de água que começavam a salpicar o chão logo se misturaram a elas, mas isso também não me impediu de continuar correndo até ficar sem fôlego. Parei de correr, colocando as mãos nos joelhos e percebi que havia chegado a um parque infantil, sem ninguém à vista. Tossi sem ar algumas vezes, em meio a lágrimas e soluços.
Eu ainda segurava a aliança de em uma das mãos, mas com medo de perder, a coloquei no meu polegar direito. Àquela altura, eu já estava completamente encharcada, mas não me importei. Gotas grandes de água continuaram a cair e se acumular ao redor dos meus tornozelos, mas fiquei parada, tremendo dos pés à cabeça.
— Por que você tá chorando? — Ouvi e me virei depressa, encontrando parado a alguns metros de distância.
Meu coração acelerou de repente.
— ? — Esfreguei meus olhos para tentar enxergar melhor, mas quando olhei novamente, não havia nada.
Deixei meus ombros caírem em decepção e suspirei, cansada, achando que tinha imaginado vê-lo outra vez. Respirei fundo por um momento, pensando em ir embora, mas, quando girei o corpo, paralisei no lugar.
— Oi, amor. — sorriu, inclinando a cabeça para o lado, as duas mãos nos bolsos da calça jeans que usava.
Ele estava ali. Bem na minha frente. Mais lágrimas se acumularam em meus olhos e os esfreguei outra vez. continuava ali, me encarando com um sorriso no rosto, bem diferente de sua versão no espelho. Franzi o cenho, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Eu estava sonhando, por acaso? Até cogitei isso por um momento, então ouvi sua voz, em alto e bom-tom, chamando meu nome.
— ? — murmurei de volta, sem saber o que fazer.
— Dance comigo, . — Ele me puxou pela mão de encontro a ele e pude jurar que senti o calor emanando de seu corpo, também encharcado pela chuva. vestia preto da cabeça aos pés e parecia tão real que comecei a acreditar que ele estava realmente ali comigo.
— .
— Escuta, amor. Eu amo o som da chuva. E se eu colocasse isso em uma música? Andei pensando nisso — ele comentou com um sorriso. — Mas agora, é hora de dançar.
E então me girou pelo meu braço livre e me puxou de volta, meio desajeitado, quase derrubando nós dois. Uma risada involuntária escapou de mim e, no momento seguinte, me vi dançando uma espécie de valsa exagerada com ele no meio da chuva, tal como tínhamos feito algumas vezes nos últimos três anos ao sermos surpreendidos no meio de um passeio sem nenhum guarda-chuva.
Às vezes, juntávamos nossos casacos para tentar barrar a água, mas, quando não dava certo, desistia e me puxava para dançar, exatamente como naquele momento. Aquelas eram algumas das minhas memórias favoritas. Com ele, a chuva não parecia tão fria, mesmo que nós dois começássemos a tremer após poucos minutos; e o guarda-chuva não fazia falta, pois tiraria a magia daqueles instantes. Viver isso outra vez me trazia uma sensação de aconchego e de pertencimento.
Senti meu coração começar a se acalmar quase que instantaneamente.
A chuva começou a diminuir, mas nós não paramos. Rimos e dançamos por mais alguns minutos até que me girou novamente e minha mão escapou da sua. O mundo ficou silencioso e eu já não ouvia mais a sua voz nem sua risada, como se tivessem sido levadas pelo vento.
Quando me virei, ele já havia ido.
***
A próxima coisa de que me lembro daquela noite foi de acordar em um hospital novamente. Já era a terceira vez que aquilo acontecia em menos de seis meses. Mas, diferente das outras, eu estava em uma enfermaria e não era que estava ao meu lado, e sim .
— ! Ai, que bom que você acordou — ela disse, meio alarmada, assim que percebeu que eu havia despertado.
Me sentei na cama e notei que havia um soro sendo injetado em mim.
— O que é isso? O que aconteceu?
— É só soro com vitaminas — ela explicou. — A médica falou que você tá desidratada. Alguém te viu dançando sozinha em um parque e disse que você desmaiou de repente, então ela te trouxe até o hospital. Ela ainda tá aqui, faz só uns cinco minutos que cheguei.
— Quem...? — Comecei a perguntar, no intuito de agradecer quem quer que fosse por não me deixar congelar na chuva, mas antes que eu pudesse fazer isso, uma pessoa apareceu.
Instantaneamente, eu a reconheci.
— Oi, — ela me cumprimentou com um sorriso, mas ele não atingiu seus olhos.
— Sujin?
Por que a Xamã que consultei estava ali?
— Você deve estar curiosa por ser justo eu, não é? Posso falar com você por um instante?
Assenti e se levantou, oferecendo a cadeira a ela antes de se afastar para nos dar privacidade.
Sujin puxou um pouco a cortina da cama e então se sentou. Imediatamente notei que ela estava usando roupas casuais, bem diferentes dos robes e chapéus enfeitados que vestia quando estava atendendo. Se bem que aquilo era até óbvio, não era como se ela fosse andar por aí vestida daquele jeito.
— Como você...? — tentei formular uma pergunta, em vão.
Felizmente, Sujin parecia entender exatamente o que eu queria saber.
— Eu tive uma... Sensação hoje. Que algo ruim poderia acontecer — ela contou. — Não sei por que, mas me vi saindo de casa e perambulando pelas ruas de Nova York sozinha, com um guarda-chuva amarelo na mão. Estava passando por um parque quando te vi dando sozinha, mas... Você não tava sozinha, né?
Meus olhos se encheram novamente e minha visão embaçou. Abaixei a cabeça e encarei a aliança de em meu polegar.
Sujin suspirou.
— Eu fiquei sabendo da sua perda e sinto muito, . Mas acho que foi ele me levou até você.
— O quê? — A encarei, surpresa.
— Não é comum, sabe? Mas às vezes acontece e então, quando menos percebo, sou levada até alguém. Hoje apenas coincidiu de você ser uma das minhas clientes. Acho que ele sabia que você ia desmaiar em algum momento e quis ter certeza de que alguém te ajudaria.
— fez isso? Você consegue ouvi-lo?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Mas você estava em um local sem ninguém por perto e se tivesse continuado sozinha... A médica disse que isso poderia ter provocado uma hipotermia caso não fosse socorrida logo.
— Entendi — murmurei, assentindo com a cabeça. — Obrigada, Sujin.
— Agradeça a também. Ele não queria que você se machucasse.
Tentei engolir o nó que estava em minha garganta, percebendo que ele quis dizer isso através do espelho também. Então lembrei do nosso momento roubado no parque e fechei os olhos, rezando para não esquecer nunca aquela memória.
— Eu fiquei feliz por um momento, sabe? — desabafei. — De repente ele tava lá… até que não tava mais. Não entendo o que deu de errado, Sujin, sobre a maldição. Eu me afastei de pra proteger ele, pra tentar evitar mais coisas ruins de acontecerem, mas...
— Você... Se afastou? — Sujin franziu o cenho, confusa. — Foi isso que você entendeu que deveria fazer pra quebrar a maldição?
— Eu... Não deveria? — A encarei, assustada. — Eu fiz mesmo algo de errado?! morreu porque eu fiz a escolha errada?
— Ah, ... — Sujin me encarou com tristeza. — Eu sinto muito. Achei que tivesse sido clara a mensagem que me foi passada sobre a maldição, você parecia ter entendido. deveria ter sido a sua escolha. Nas outras vidas, a história se repetiu porque você continuou se afastando.
— O quê?! Você tá me dizendo... Que eu devia só ter seguido em frente com minha vida? Com ele?
— Era a determinação que vocês dois tinham juntos que quebraria a maldição. Vocês eram amigos, amantes, parceiros. O seu aborto foi um obstáculo que vocês deviam ter superado juntos. As coisas ficariam bem eventualmente, mas...
— Não. Não, não, não, não. Você tá brincando, né? Então morreu mesmo por minha causa? E eu tenho que viver sabendo disso? Sujin... Qual o sentido de viver se ele não tá mais aqui? — perguntei, com a voz embargada. — Como eu pude ser tão burra?!
— Eu sinto muito, . Talvez a maldição tenha nublado o seu entendimento e acabamos não percebendo.
— Não, não. — Sacudi a cabeça, alarmada. — Você tem certeza de que acabou? Não pode ser. A... A entidade ou o que quer que ela seja. Ela se foi. Parei de sonhar com ela e o livro. Não tem alguma forma de eu entrar em contato com ela outra vez?
— Isso não vai fazer retornar dos mortos, .
— Mas você pode, não é? Você sabe como fazer isso.
Sujin respirou fundo, como se estivesse em um dilema sobre o que responder. Então, um instante depois, voltou a falar.
— Tem uma coisa... Um ritual que posso fazer, mas não há garantia de que vá mesmo funcionar. Se não der certo, posso te dar um talismã também pra você colocar debaixo do travesseiro quando for dormir, ao menos pra te acalmar.
— Sim, sim, por favor. Faça o ritual, Sujin. Eu preciso falar com ela, ver se tem alguma coisa... Por favor, Sujin, eu pago o valor que for. Só preciso entender… porque parece que eu tô em um pesadelo do qual não consigo acordar.
— Tudo bem, mas... Eu preciso te dizer algo antes, . Se o ritual der certo e você conseguir o contato… Você tem que saber que esses seres normalmente gostam de barganhar. Você pode ter que oferecer algo em troca do que quer que queira.
— Tudo bem, isso não importa. Quando você pode fazer?
— Após a meia-noite seria o ideal. Podemos fazer amanhã se-
— Não. Vamos fazer hoje mesmo. Assim que eu sair daqui.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Cerca de duas horas depois, quando finalmente me vi livre do hospital, tive que convencer minha irmã a me levar até o estúdio de Sujin em Korea Town.
No meio do caminho, transferi o dobro do valor que ela tinha me cobrado pelo serviço, como forma de demonstrar minha gratidão. Ela tinha ido antes para aprontar o que quer que precisasse, e embora não estivesse nada satisfeita com aquela história de ritual, resolveu me apoiar mesmo assim.
Quando chegamos, tivemos que esperar por mais uma hora até Sujin aparecer em suas vestes de xamã, arrumada da cabeça aos pés. Ela pediu para que eu a acompanhasse sozinha e então me levou até o terraço do prédio. Já não estava mais chovendo e a noite agora estava incrivelmente estrelada.
Bem ali, havia uma espécie de altar ou algo assim, com itens que eu não fazia ideia do que significava. A única coisa que eu sabia sobre xamanismo era que variava de cultura para cultura, cada uma com suas particularidades.
Resolvi confiar em Sujin e fiz exatamente o que ela pediu. Sentei sobre meus joelhos em cima de uma almofada vermelha que ela tinha posto em frente ao altar e então Sujin começou a bater em um tambor e usar um chocalho do tipo que eu só havia visto em dramas.
Ela dançou e dançou ao meu redor e juntei as duas mãos, orando para que aquilo desse certo. Eu estava desesperada, e tentaria de tudo para conseguir contato com aquela entidade mais uma vez. Eu queria uma alternativa, uma última chance de fazer as coisas darem certo. E me agarraria nisso com toda a força e determinação que eu tinha dentro de mim.
Em certo momento, Sujin começou a diminuir os movimentos de dança e eu senti meus olhos pesarem e meu corpo relaxar de uma vez, como se eu tivesse adormecido de repente.
Quando abri os olhos novamente, eu estava em um breu com apenas dois pontos brilhantes de luz, que logo percebi serem um par de olhos.
— Você veio. Demorou mais do que imaginei. — Ela se aproximou, tomando a forma de Ayla.
— Você sabia que eu viria?
— Não. Mas tinha um palpite de que você descobriria antes que fosse tarde demais. Não foi o que aconteceu, né? — Ela andou ao meu redor, com um sorrisinho debochado no rosto.
— Por favor, eu preciso desfazer isso. Se tem algum jeito de trazer de volta, eu... Eu faço o que você quiser.
— Não há como trazer os mortos de volta à vida, garota. Não seja tola. Não podemos perturbar o universo assim. E o universo não está nem um pouco feliz com você por ter repetido a mesma escolha errada mais uma vez.
— Eu não sabia! Achei que tivesse entendido!
— Eu te dei uma dica com Tenaz. Quando você perturbou a cena em que Ayla deveria se machucar, o que aconteceu? — ela perguntou.
Franzi o cenho.
— Eu... Acordei com ferimentos em mim.
— Exatamente. Porque você perturbou o universo do livro — ela explicou. — Quando descobriu sobre a maldição com aquela xamã, pensei que fosse entender, era tão simples... Você me frustra, . E eu estou mais uma vez fadada a assistir essa história se repetir em outra vida. Não gosto disso, sabe? Ver você repetir as mesmas merdas de sempre. Se afastar da pessoa que mais te amou como uma covarde. merecia mais. Ele te defendeu até o fim quando brigou com ela.
— Eu não queria... — Solucei. Eu não sabia que essa era a resposta...
Àquela altura, tudo o que eu conseguia fazer direito era chorar. Não me surpreendia estar desidratada depois de tudo.
— Ah, engula o choro. Você não veio aqui pra isso! — A entidade sibilou, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. — Acha que eu queria também?! Por causa de duas mulheres tolas, eu estou presa nisso há séculos!
— Então me ajude! — implorei. — Me diga o que fazer!
— Eu já te disse, não há como trazer de volta, garota. Mas...
— O quê? — perguntei, desesperada. — Tem algo, não tem?
— Há... Uma coisa. Que pode trazer benefícios para nós duas. Assim eu também posso me livrar disso. Aquela xamã barulhenta deve ter te dito algo sobre uma barganha.
— O que você quer? Eu te dou qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
— Mesmo que você tenha que trocar a sua vida pela de ? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Eu... Sim. Mesmo isso. Prefiro que ele viva feliz e bem do que viver sem ele.
Ela deu uma gargalhada, parecendo se divertir. Franzi o cenho, com raiva por ela estar debochando dos meus sentimentos, mas desesperada demais para dizer algo.
— Não seja idiota, não vou pedir sua vida — A entidade voltou a falar, me pegando de surpresa, seu rosto completamente sério dessa vez. — Vocês são predestinados há séculos. Acha mesmo que aquele homem conseguiria viver sem você? Ele já tentou fazer isso antes, em outras vidas. E morreu pelas próprias mãos ou pelas mãos da então esposa, como dessa vez. Você desapareceria deste mundo eventualmente também. Em todas as vezes, você colocou um fim à sua própria vida. E quis fazer isso de novo, não foi?
Engoli em seco, assustada com tudo o que ela sabia, mas não mais surpresa.
— E pensar que ele se deu ao trabalho de salvar sua vida hoje. — Ela estalou a língua em desaprovação, antes de continuar. — Eventualmente, vocês reencarnariam e outra vez se encontrariam. A história se repetiria e eu a assistiria tal qual um filme em loop, sempre torcendo por um final diferente, mesmo sabendo que não viria.
— Então me deixe mudar o final. Por favor. Por favor — implorei mais uma vez. — Eu faço o que você quiser.
Ela então andou ao meu redor em silêncio por mais um instante, com as duas mãos para trás, como se estivesse pensando a respeito.
Então parou em minha frente.
— Muito bem, então — decidiu. — De você, eu só quero uma coisa. Você deve cuidar daquele que não teve a chance de viver.
— O quê? O que isso significa?
— Talvez um dia você descubra. Ou não. — Ela deu de ombros. — Está nas suas mãos agora. Se disser sim, posso fazer algo por você uma última vez. Vou te fazer voltar para um momento crucial, mas você terá que ter em mente que, em algum momento, você vai esquecer de mim e dessa conversa. Vai esquecer de tudo o que aconteceu até agora e terá que agir com inteligência. Se der errado dessa vez, você não vai conseguir me encontrar de novo.
— Sim, sim, sim. Por favor. Eu aceito. Qualquer coisa. Por favor.
Eu não ia nem sequer pensar duas vezes. Fosse o que fosse que ela queria, eu o faria.
A entidade sorriu, satisfeita.
— Ótimo. Mantenha em mente a escolha que deve fazer, . Tente o máximo que conseguir, e aja rápido, pois eventualmente você vai esquecer. Além disso, tem só mais uma coisa.
— O quê? — eu quis saber.
— Você não deve dizer a sobre a maldição. Não que ele vá acreditar, claro. Mas talvez pense que você está louca. — Ela deu uma risadinha.
— Tudo bem, não vou contar. E agora?
— Agora... — Ela se aproximou e colocou dois dedos em minha testa. — Você deve acordar.
Seus olhos brilharam em uma luz ofuscante e tive que fechar os meus, colocando as mãos no rosto, tamanha a intensidade da luz. Instintivamente, me agachei para me proteger da luz até que então, sem mais nem menos, ela desapareceu de repente e eu estava de volta ao meu quarto, no apartamento de minha irmã.
Um segundo depois, me assustei levemente ao ouvir batidas na minha porta, e imediatamente soube quem era.
Bam! Bam! Bam!
Acordei com o barulho de batidas, semelhante ao de uma porta. Olhei ao redor, confusa, mas então tudo ficou em silêncio por um momento. Me levantei e caminhei em direção à porta, ficando parada ali por alguns segundos, ainda um pouco sonolenta e tinha acabado de chegar à conclusão de que eu tinha imaginado aquele barulho depois de adormecer. Uma rápida conferida no relógio me disse que não fazia muito tempo que eu havia pegado no sono, e decidi aproveitar a chance de dormir, já que eu não vinha conseguindo fazer muito isso ultimamente.
Bam! Bam! Bam!
A batida recomeçou, dessa vez mais alta, me fazendo virar de uma vez em direção ao som, com os olhos arregalados. Me assustei com meu próprio reflexo no espelho de corpo inteiro que havia em uma parede ao lado da cama e coloquei a mão sobre o peito, sentindo o coração acelerado. Olhei para o espelho durante mais alguns segundos, quase certa de que o barulho tinha vindo daquela direção, o que não parecia fazer sentido algum.
Bem, isso até uma mão espalmada surgir no vidro de repente, como se alguém estivesse do outro lado. Me sobressaltei, dando um gritinho e desviei o olhar do espelho, incapaz de raciocinar o que diabos estava acontecendo. Um segundo depois, ouvi meu nome sendo chamado ao longe. . . ! Bam! A batida novamente. No próximo instante, a voz veio mais alta e eu travei no lugar quando finalmente a reconheci. Olhei novamente para o espelho e dessa vez havia um rosto ali. Não, um reflexo completo, que não era o meu.
Do outro lado do espelho, me encarava com uma expressão frustrada no rosto, enquanto socava o vidro com força.
— … — choraminguei, finalmente tomando uma atitude. Dois passos à frente e eu o encarei de perto através do vidro.
— , eu sinto muito. Sinto muito. A culpa foi minha — murmurei baixinho, tocando o vidro no local onde sua mão estava espalhada.
me encarou com tristeza e uma lágrima escorreu por seu rosto também. Ele franziu o cenho e socou o outro lado do espelho, onde nossas mãos não estavam espalmadas. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo e em determinado momento comecei a balbuciar palavras sem parar.
— Eu te amo tanto. , por favor, me leva com você. Me deixa ir com você — choraminguei.
travou a mandíbula, como se aquilo fosse uma decisão difícil e sacudiu a cabeça, negando.
— Por quê?! — Gritei, socando o espelho com as duas mãos. A moldura tremeu e uma luz prateada surgiu ao redor, mas eu estava incapaz de me importar com mais alguma coisa que não fosse ele, que não fosse em me juntar a ele. — Deveria ser eu no seu lugar!
balançou a cabeça novamente e vi ele tentar falar novamente. De alguma forma, sua voz continuava distante.
— , não. Por favor.
— Mas eu quero! — Soquei o espelho outra vez, frustrada por ele estar me negando aquilo. — Por quê? Por que eu não posso?
— Porque eu te amo. E você deve ficar.
A imagem de tremeu de repente e eu arregalei os olhos, amedrontada que ele fosse desaparecer.
— , não. Não vá, por favor. Eu amo você — murmurei, caindo em prantos quando vi sua imagem sumir bem na minha frente. — Não! Não! Não!
Soquei o espelho com mais força, sem parar, até que ele finalmente quebrou.
Quatro dias depois que eu soube da morte de , a mãe dele me enviou uma mensagem sobre seu funeral.
Eu sabia que ele tinha sido cremado há dois dias e tudo o que tinha restado era uma pilha de cinzas. Também fazia quatro dias que eu estava trancada no meu quarto, ou pelo menos algo perto disso, já que escondeu todas as chaves, objetos pontiagudos e qualquer peça de vidro que eu pudesse usar para tentar me ferir, incluindo espelhos. Aparentemente, eu tinha tentado tirar minha própria na madrugada seguinte da morte de e quase consegui fazer algo dessa vez, embora não me recordasse de nada.
Eu lembrava de ver no espelho e de socar o vidro até ele se despedaçar, mas nada depois disso. me contou que acordou com meus gritos e quando estava prestes a entrar em meu quarto, ouviu o barulho do espelho se quebrando. O resultado disso foram alguns cortes superficiais nas minhas mãos, uma dor chata no braço engessado — que provavelmente ajudou a espatifar o espelho — e talvez um pequeno trauma na minha irmã, depois de conseguir me impedir a tempo, antes que eu me machucasse de verdade.
Ela estava tentando se manter firme diante da minha situação, mas, no fundo, eu sabia que minha irmã estava apavorada e fez questão de não me deixar mais sozinha em nenhum momento durante os últimos dias. Quando teve que sair para trabalhar, Andy e Kate se revezaram para ficar comigo.
Não falei com ninguém durante esses dias. Tive que ser praticamente arrastada para fora da cama para comer e tomar banho, até que comecei a fazer isso no automático após o segundo dia após meu pequeno incidente com o espelho.
No dia seguinte a ele, quando recebi a mensagem da Sra. , eu já ouvia as músicas que escreveu para nós dois sem parar, me agarrando às memórias que tínhamos feito juntos, agora sendo tudo que restava de nós. Ocasionalmente, novas lágrimas silenciosas fluíam de meus olhos e, às vezes, se transformavam em soluços no meio da noite quando eu não conseguia dormir. Era especialmente difícil agora e eu só apagava quando minha mente exausta me forçava a isso. Sempre que me ouvia chorar, acordava ao meu lado e me abraçava em silêncio até eu me acalmar.
Quando veio a mensagem da Sra. sobre o funeral, mostrei a tela do celular para minha irmã e ela me encorajou a ir e se ofereceu para me acompanhar, mas só tive coragem de fazer isso no final da tarde.
Ao chegamos ao local do funeral, parei na entrada da sala onde a mãe de estava e colocou uma mão nas minhas costas, em um apoio silencioso para que eu seguisse em frente. Por mais que o velório fosse privado, na entrada havia dezenas de flores enviadas pelos fãs de . Havia alguns rostos conhecidos ali, pessoas da equipe dele, e outros que eu não fazia ideia de quem eram.
A Sra. estava sentada em uma cadeira encostada em uma das paredes da sala, mas se levantava toda vez que alguém vinha lhe oferecer os pêsames. Caminhei hesitante até ela e notei alguns olhares curiosos ao meu redor.
e eu paramos em sua frente e eu mordi o lábio inferior com força, tentando prender o choro. Ela olhou para cima e se pôs de pé quando me viu e, em silêncio, me envolveu em seus braços. Continuamos assim por alguns minutos, sem trocar uma palavra, e choramos juntas até que ela se afastou e passou as mãos pelo meu rosto, afastando minhas lágrimas, exatamente como fazia. Então, com sua voz gentil, disse:
— Preciso conversar com você depois, meu bem.
Assenti e me afastei para que outras pessoas pudessem cumprimentá-la e fiquei em um canto atrás de um arranjo de flores, querendo ficar sozinha. se sentou ao meu lado em silêncio e segurou minha mão.
Cerca de uma hora depois, já tinha anoitecido e as visitas pareciam ter cessado por um momento quando a Sra. veio até mim.
Me levantei e juntei as mãos na frente do corpo, esperando pelo que quer que ela tivesse para falar.
— Eu vou ao banheiro enquanto vocês conversam — avisou, antes de se afastar e sumir de vista.
Ficamos somente eu e a mãe de na sala e ela suspirou, visivelmente cansada.
— Eu perdi meu único filho, ... Mas você perdeu o amor da sua vida. — Ela me encarou com carinho, mesmo com seus olhos repletos de tristeza.
Pressionei meus lábios juntos e abaixei a cabeça, até que senti ela colocar algo em minha mão. Um saquinho de veludo preto.
— Posso jurar que meu filho foi mais feliz com você nos últimos três anos do que no resto da vida dele inteira, querida — ela continuou. — Quero que saiba que sou grata a você por cada momento que o fez feliz. Me entregaram isso há uns dias, mas acho que ia querer que ficasse com você.
Olhei para ela por um instante e então voltei minha atenção para o saquinho, o abrindo e virando sobre minha mão.
A aliança de compromisso de caiu sobre minha palma com um toque gelado e eu a apertei na mão, segurando forte, enquanto um soluço escapava de mim.
— Eu sinto muito, Sra. . Sinto muito — murmurei, minha voz soando áspera pelos dias em silêncio. Então saí correndo, incapaz de passar mais um minuto que fosse ali.
Pouco depois, me vi do lado de fora do prédio e continuei correndo sem rumo, sem nem prestar atenção na direção que estava indo. O vento gelado batia em meu rosto em meio às lágrimas e pingos de água que começavam a salpicar o chão logo se misturaram a elas, mas isso também não me impediu de continuar correndo até ficar sem fôlego. Parei de correr, colocando as mãos nos joelhos e percebi que havia chegado a um parque infantil, sem ninguém à vista. Tossi sem ar algumas vezes, em meio a lágrimas e soluços.
Eu ainda segurava a aliança de em uma das mãos, mas com medo de perder, a coloquei no meu polegar direito. Àquela altura, eu já estava completamente encharcada, mas não me importei. Gotas grandes de água continuaram a cair e se acumular ao redor dos meus tornozelos, mas fiquei parada, tremendo dos pés à cabeça.
— Por que você tá chorando? — Ouvi e me virei depressa, encontrando parado a alguns metros de distância.
Meu coração acelerou de repente.
— ? — Esfreguei meus olhos para tentar enxergar melhor, mas quando olhei novamente, não havia nada.
Deixei meus ombros caírem em decepção e suspirei, cansada, achando que tinha imaginado vê-lo outra vez. Respirei fundo por um momento, pensando em ir embora, mas, quando girei o corpo, paralisei no lugar.
— Oi, amor. — sorriu, inclinando a cabeça para o lado, as duas mãos nos bolsos da calça jeans que usava.
Ele estava ali. Bem na minha frente. Mais lágrimas se acumularam em meus olhos e os esfreguei outra vez. continuava ali, me encarando com um sorriso no rosto, bem diferente de sua versão no espelho. Franzi o cenho, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Eu estava sonhando, por acaso? Até cogitei isso por um momento, então ouvi sua voz, em alto e bom-tom, chamando meu nome.
— ? — murmurei de volta, sem saber o que fazer.
— Dance comigo, . — Ele me puxou pela mão de encontro a ele e pude jurar que senti o calor emanando de seu corpo, também encharcado pela chuva. vestia preto da cabeça aos pés e parecia tão real que comecei a acreditar que ele estava realmente ali comigo.
— .
— Escuta, amor. Eu amo o som da chuva. E se eu colocasse isso em uma música? Andei pensando nisso — ele comentou com um sorriso. — Mas agora, é hora de dançar.
E então me girou pelo meu braço livre e me puxou de volta, meio desajeitado, quase derrubando nós dois. Uma risada involuntária escapou de mim e, no momento seguinte, me vi dançando uma espécie de valsa exagerada com ele no meio da chuva, tal como tínhamos feito algumas vezes nos últimos três anos ao sermos surpreendidos no meio de um passeio sem nenhum guarda-chuva.
Às vezes, juntávamos nossos casacos para tentar barrar a água, mas, quando não dava certo, desistia e me puxava para dançar, exatamente como naquele momento. Aquelas eram algumas das minhas memórias favoritas. Com ele, a chuva não parecia tão fria, mesmo que nós dois começássemos a tremer após poucos minutos; e o guarda-chuva não fazia falta, pois tiraria a magia daqueles instantes. Viver isso outra vez me trazia uma sensação de aconchego e de pertencimento.
Senti meu coração começar a se acalmar quase que instantaneamente.
A chuva começou a diminuir, mas nós não paramos. Rimos e dançamos por mais alguns minutos até que me girou novamente e minha mão escapou da sua. O mundo ficou silencioso e eu já não ouvia mais a sua voz nem sua risada, como se tivessem sido levadas pelo vento.
Quando me virei, ele já havia ido.
A próxima coisa de que me lembro daquela noite foi de acordar em um hospital novamente. Já era a terceira vez que aquilo acontecia em menos de seis meses. Mas, diferente das outras, eu estava em uma enfermaria e não era que estava ao meu lado, e sim .
— ! Ai, que bom que você acordou — ela disse, meio alarmada, assim que percebeu que eu havia despertado.
Me sentei na cama e notei que havia um soro sendo injetado em mim.
— O que é isso? O que aconteceu?
— É só soro com vitaminas — ela explicou. — A médica falou que você tá desidratada. Alguém te viu dançando sozinha em um parque e disse que você desmaiou de repente, então ela te trouxe até o hospital. Ela ainda tá aqui, faz só uns cinco minutos que cheguei.
— Quem...? — Comecei a perguntar, no intuito de agradecer quem quer que fosse por não me deixar congelar na chuva, mas antes que eu pudesse fazer isso, uma pessoa apareceu.
Instantaneamente, eu a reconheci.
— Oi, — ela me cumprimentou com um sorriso, mas ele não atingiu seus olhos.
— Sujin?
Por que a Xamã que consultei estava ali?
— Você deve estar curiosa por ser justo eu, não é? Posso falar com você por um instante?
Assenti e se levantou, oferecendo a cadeira a ela antes de se afastar para nos dar privacidade.
Sujin puxou um pouco a cortina da cama e então se sentou. Imediatamente notei que ela estava usando roupas casuais, bem diferentes dos robes e chapéus enfeitados que vestia quando estava atendendo. Se bem que aquilo era até óbvio, não era como se ela fosse andar por aí vestida daquele jeito.
— Como você...? — tentei formular uma pergunta, em vão.
Felizmente, Sujin parecia entender exatamente o que eu queria saber.
— Eu tive uma... Sensação hoje. Que algo ruim poderia acontecer — ela contou. — Não sei por que, mas me vi saindo de casa e perambulando pelas ruas de Nova York sozinha, com um guarda-chuva amarelo na mão. Estava passando por um parque quando te vi dando sozinha, mas... Você não tava sozinha, né?
Meus olhos se encheram novamente e minha visão embaçou. Abaixei a cabeça e encarei a aliança de em meu polegar.
Sujin suspirou.
— Eu fiquei sabendo da sua perda e sinto muito, . Mas acho que foi ele me levou até você.
— O quê? — A encarei, surpresa.
— Não é comum, sabe? Mas às vezes acontece e então, quando menos percebo, sou levada até alguém. Hoje apenas coincidiu de você ser uma das minhas clientes. Acho que ele sabia que você ia desmaiar em algum momento e quis ter certeza de que alguém te ajudaria.
— fez isso? Você consegue ouvi-lo?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Mas você estava em um local sem ninguém por perto e se tivesse continuado sozinha... A médica disse que isso poderia ter provocado uma hipotermia caso não fosse socorrida logo.
— Entendi — murmurei, assentindo com a cabeça. — Obrigada, Sujin.
— Agradeça a também. Ele não queria que você se machucasse.
Tentei engolir o nó que estava em minha garganta, percebendo que ele quis dizer isso através do espelho também. Então lembrei do nosso momento roubado no parque e fechei os olhos, rezando para não esquecer nunca aquela memória.
— Eu fiquei feliz por um momento, sabe? — desabafei. — De repente ele tava lá… até que não tava mais. Não entendo o que deu de errado, Sujin, sobre a maldição. Eu me afastei de pra proteger ele, pra tentar evitar mais coisas ruins de acontecerem, mas...
— Você... Se afastou? — Sujin franziu o cenho, confusa. — Foi isso que você entendeu que deveria fazer pra quebrar a maldição?
— Eu... Não deveria? — A encarei, assustada. — Eu fiz mesmo algo de errado?! morreu porque eu fiz a escolha errada?
— Ah, ... — Sujin me encarou com tristeza. — Eu sinto muito. Achei que tivesse sido clara a mensagem que me foi passada sobre a maldição, você parecia ter entendido. deveria ter sido a sua escolha. Nas outras vidas, a história se repetiu porque você continuou se afastando.
— O quê?! Você tá me dizendo... Que eu devia só ter seguido em frente com minha vida? Com ele?
— Era a determinação que vocês dois tinham juntos que quebraria a maldição. Vocês eram amigos, amantes, parceiros. O seu aborto foi um obstáculo que vocês deviam ter superado juntos. As coisas ficariam bem eventualmente, mas...
— Não. Não, não, não, não. Você tá brincando, né? Então morreu mesmo por minha causa? E eu tenho que viver sabendo disso? Sujin... Qual o sentido de viver se ele não tá mais aqui? — perguntei, com a voz embargada. — Como eu pude ser tão burra?!
— Eu sinto muito, . Talvez a maldição tenha nublado o seu entendimento e acabamos não percebendo.
— Não, não. — Sacudi a cabeça, alarmada. — Você tem certeza de que acabou? Não pode ser. A... A entidade ou o que quer que ela seja. Ela se foi. Parei de sonhar com ela e o livro. Não tem alguma forma de eu entrar em contato com ela outra vez?
— Isso não vai fazer retornar dos mortos, .
— Mas você pode, não é? Você sabe como fazer isso.
Sujin respirou fundo, como se estivesse em um dilema sobre o que responder. Então, um instante depois, voltou a falar.
— Tem uma coisa... Um ritual que posso fazer, mas não há garantia de que vá mesmo funcionar. Se não der certo, posso te dar um talismã também pra você colocar debaixo do travesseiro quando for dormir, ao menos pra te acalmar.
— Sim, sim, por favor. Faça o ritual, Sujin. Eu preciso falar com ela, ver se tem alguma coisa... Por favor, Sujin, eu pago o valor que for. Só preciso entender… porque parece que eu tô em um pesadelo do qual não consigo acordar.
— Tudo bem, mas... Eu preciso te dizer algo antes, . Se o ritual der certo e você conseguir o contato… Você tem que saber que esses seres normalmente gostam de barganhar. Você pode ter que oferecer algo em troca do que quer que queira.
— Tudo bem, isso não importa. Quando você pode fazer?
— Após a meia-noite seria o ideal. Podemos fazer amanhã se-
— Não. Vamos fazer hoje mesmo. Assim que eu sair daqui.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Cerca de duas horas depois, quando finalmente me vi livre do hospital, tive que convencer minha irmã a me levar até o estúdio de Sujin em Korea Town.
No meio do caminho, transferi o dobro do valor que ela tinha me cobrado pelo serviço, como forma de demonstrar minha gratidão. Ela tinha ido antes para aprontar o que quer que precisasse, e embora não estivesse nada satisfeita com aquela história de ritual, resolveu me apoiar mesmo assim.
Quando chegamos, tivemos que esperar por mais uma hora até Sujin aparecer em suas vestes de xamã, arrumada da cabeça aos pés. Ela pediu para que eu a acompanhasse sozinha e então me levou até o terraço do prédio. Já não estava mais chovendo e a noite agora estava incrivelmente estrelada.
Bem ali, havia uma espécie de altar ou algo assim, com itens que eu não fazia ideia do que significava. A única coisa que eu sabia sobre xamanismo era que variava de cultura para cultura, cada uma com suas particularidades.
Resolvi confiar em Sujin e fiz exatamente o que ela pediu. Sentei sobre meus joelhos em cima de uma almofada vermelha que ela tinha posto em frente ao altar e então Sujin começou a bater em um tambor e usar um chocalho do tipo que eu só havia visto em dramas.
Ela dançou e dançou ao meu redor e juntei as duas mãos, orando para que aquilo desse certo. Eu estava desesperada, e tentaria de tudo para conseguir contato com aquela entidade mais uma vez. Eu queria uma alternativa, uma última chance de fazer as coisas darem certo. E me agarraria nisso com toda a força e determinação que eu tinha dentro de mim.
Em certo momento, Sujin começou a diminuir os movimentos de dança e eu senti meus olhos pesarem e meu corpo relaxar de uma vez, como se eu tivesse adormecido de repente.
Quando abri os olhos novamente, eu estava em um breu com apenas dois pontos brilhantes de luz, que logo percebi serem um par de olhos.
— Você veio. Demorou mais do que imaginei. — Ela se aproximou, tomando a forma de Ayla.
— Você sabia que eu viria?
— Não. Mas tinha um palpite de que você descobriria antes que fosse tarde demais. Não foi o que aconteceu, né? — Ela andou ao meu redor, com um sorrisinho debochado no rosto.
— Por favor, eu preciso desfazer isso. Se tem algum jeito de trazer de volta, eu... Eu faço o que você quiser.
— Não há como trazer os mortos de volta à vida, garota. Não seja tola. Não podemos perturbar o universo assim. E o universo não está nem um pouco feliz com você por ter repetido a mesma escolha errada mais uma vez.
— Eu não sabia! Achei que tivesse entendido!
— Eu te dei uma dica com Tenaz. Quando você perturbou a cena em que Ayla deveria se machucar, o que aconteceu? — ela perguntou.
Franzi o cenho.
— Eu... Acordei com ferimentos em mim.
— Exatamente. Porque você perturbou o universo do livro — ela explicou. — Quando descobriu sobre a maldição com aquela xamã, pensei que fosse entender, era tão simples... Você me frustra, . E eu estou mais uma vez fadada a assistir essa história se repetir em outra vida. Não gosto disso, sabe? Ver você repetir as mesmas merdas de sempre. Se afastar da pessoa que mais te amou como uma covarde. merecia mais. Ele te defendeu até o fim quando brigou com ela.
— Eu não queria... — Solucei. Eu não sabia que essa era a resposta...
Àquela altura, tudo o que eu conseguia fazer direito era chorar. Não me surpreendia estar desidratada depois de tudo.
— Ah, engula o choro. Você não veio aqui pra isso! — A entidade sibilou, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. — Acha que eu queria também?! Por causa de duas mulheres tolas, eu estou presa nisso há séculos!
— Então me ajude! — implorei. — Me diga o que fazer!
— Eu já te disse, não há como trazer de volta, garota. Mas...
— O quê? — perguntei, desesperada. — Tem algo, não tem?
— Há... Uma coisa. Que pode trazer benefícios para nós duas. Assim eu também posso me livrar disso. Aquela xamã barulhenta deve ter te dito algo sobre uma barganha.
— O que você quer? Eu te dou qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
— Mesmo que você tenha que trocar a sua vida pela de ? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Eu... Sim. Mesmo isso. Prefiro que ele viva feliz e bem do que viver sem ele.
Ela deu uma gargalhada, parecendo se divertir. Franzi o cenho, com raiva por ela estar debochando dos meus sentimentos, mas desesperada demais para dizer algo.
— Não seja idiota, não vou pedir sua vida — A entidade voltou a falar, me pegando de surpresa, seu rosto completamente sério dessa vez. — Vocês são predestinados há séculos. Acha mesmo que aquele homem conseguiria viver sem você? Ele já tentou fazer isso antes, em outras vidas. E morreu pelas próprias mãos ou pelas mãos da então esposa, como dessa vez. Você desapareceria deste mundo eventualmente também. Em todas as vezes, você colocou um fim à sua própria vida. E quis fazer isso de novo, não foi?
Engoli em seco, assustada com tudo o que ela sabia, mas não mais surpresa.
— E pensar que ele se deu ao trabalho de salvar sua vida hoje. — Ela estalou a língua em desaprovação, antes de continuar. — Eventualmente, vocês reencarnariam e outra vez se encontrariam. A história se repetiria e eu a assistiria tal qual um filme em loop, sempre torcendo por um final diferente, mesmo sabendo que não viria.
— Então me deixe mudar o final. Por favor. Por favor — implorei mais uma vez. — Eu faço o que você quiser.
Ela então andou ao meu redor em silêncio por mais um instante, com as duas mãos para trás, como se estivesse pensando a respeito.
Então parou em minha frente.
— Muito bem, então — decidiu. — De você, eu só quero uma coisa. Você deve cuidar daquele que não teve a chance de viver.
— O quê? O que isso significa?
— Talvez um dia você descubra. Ou não. — Ela deu de ombros. — Está nas suas mãos agora. Se disser sim, posso fazer algo por você uma última vez. Vou te fazer voltar para um momento crucial, mas você terá que ter em mente que, em algum momento, você vai esquecer de mim e dessa conversa. Vai esquecer de tudo o que aconteceu até agora e terá que agir com inteligência. Se der errado dessa vez, você não vai conseguir me encontrar de novo.
— Sim, sim, sim. Por favor. Eu aceito. Qualquer coisa. Por favor.
Eu não ia nem sequer pensar duas vezes. Fosse o que fosse que ela queria, eu o faria.
A entidade sorriu, satisfeita.
— Ótimo. Mantenha em mente a escolha que deve fazer, . Tente o máximo que conseguir, e aja rápido, pois eventualmente você vai esquecer. Além disso, tem só mais uma coisa.
— O quê? — eu quis saber.
— Você não deve dizer a sobre a maldição. Não que ele vá acreditar, claro. Mas talvez pense que você está louca. — Ela deu uma risadinha.
— Tudo bem, não vou contar. E agora?
— Agora... — Ela se aproximou e colocou dois dedos em minha testa. — Você deve acordar.
Seus olhos brilharam em uma luz ofuscante e tive que fechar os meus, colocando as mãos no rosto, tamanha a intensidade da luz. Instintivamente, me agachei para me proteger da luz até que então, sem mais nem menos, ela desapareceu de repente e eu estava de volta ao meu quarto, no apartamento de minha irmã.
Um segundo depois, me assustei levemente ao ouvir batidas na minha porta, e imediatamente soube quem era.
Capítulo 39
Assim que abri a porta, me deparei com parado ali, com os mesmos olhos cansados e a expressão irritada que eu me lembrava da última vez.
— ...
— Não me olhe com essa cara, me deixou entrar. Ela me deu a senha da porta e vim garantir que você tá pelo menos se alimentando, porque ela disse que você não saiu do quarto.
Eu não sabia com que cara eu tinha olhado para ele, a não ser alívio. Porque era assim que eu estava me sentindo ao vê-lo ali parado na minha frente, vivo e bem. Tive que fazer um esforço gigantesco para não cair no choro e me agarrar a ele.
Eu tinha voltado no tempo, não tinha? Era a única explicação.
se virou em direção à cozinha e eu o segui em silêncio, respirando fundo para conter meu nervosismo. Me perguntei se íamos ter o mesmo diálogo de antes, mas logo descartei a possibilidade.
Aquele era meu corpo. Eu tinha o controle. Se eu realmente tinha voltado no tempo, aquela linha do tempo provavelmente seria diferente. Eu faria com que fosse. Se antes interferi na nossa história ao escolher ficar longe dele, agora seria o contrário. Eu deixaria as coisas acontecerem seguindo o que meu coração mandava.
— Eu fiz bibimbap pra você jantar — disse, tirando uma marmita quadriculada de uma sacola. Eram três andares e ele abriu um por um, revelando acompanhamentos típicos da culinária asiática. — Vem comer.
Sem hesitar, fui até ele e me sentei ao seu lado em frente ao balcão. Encarei a comida e meus olhos arderam. Quanto tempo fazia que eu não comia nada que ele havia cozinhado? Aquela tinha sido a última vez. Mas eu estava determinada a fazer com que fosse apenas mais uma, que se repetiria por muito mais tempo.
— Tá com uma cara muito boa — elogiei, ganhando um vislumbre de sorriso no canto dos seus lábios.
Comecei a comer com vontade, só então me dando conta do quão faminta eu estava. O molho apimentado provocou uma dor bem-vinda na minha boca, algo que me distrairia em vez de ficar relembrando o que tinha acontecido antes. não tinha vivenciado nada daquilo e eu não o faria sofrer mais.
E quando chegasse a hora, eu o escolheria. O escolheria quantas vezes fosse possível.
me observou comer como se fosse a coisa mais interessante do mundo e contive um sorriso. Percebendo isso, ele sorriu abertamente.
— O quê?
— Nada. — Ele deu de ombros.
— A comida tá uma delícia. Você não quer? — Ofereci uma colherada para ele, que a encarou por um instante antes de se inclinar e comer.
Sorri, satisfeita, não me contendo mais. Havia comida suficiente para duas pessoas e, mesmo que ainda fosse cedo, comemos tudo mesmo assim. Quando acabamos, me levantei para pegar duas latas de Coca Zero na geladeira e coloquei uma em frente a ele.
— Tem certeza de que você devia tomar isso? — perguntou, e eu o encarei, confusa.
— Você esqueceu uma coisa, — acrescentou ele.
Então tirou algo do bolso e colocou em cima do balcão.
Eu já sabia o que era e como ele tinha encontrado, então não me surpreendi. Decidi ser sincera e evitar uma discussão.
— , eu... Tive uma suspeita.
— E quando pretendia me contar?
— Acabei esquecendo disso, desculpa. Fiquei com a cabeça cheia. Eu tenho quase certeza de que não tô grávida. Não tô sentindo nada. Comprei só pra ter confirmar. Não queria te preocupar com isso também.
— , não importa se é uma suspeita ou não, eu tinha o direito de saber.
— Tudo bem, desculpa. — Peguei a minha lata de refrigerante com a intenção de abrir, mas ele a afastou de mim.
— Nada disso. Tenho certeza de que faz mal pro bebê.
Eu o encarei, incrédula. Tentei pegar a lata de volta, mas ele se levantou. Fui atrás, mas foi em vão.
— ! — reclamei, quando ele se esgueirou mais uma vez para o lado oposto do balcão.
— Acho melhor você tomar um suco.
Grunhi, irritada, e andei um pouco de um lado para o outro, com as mãos na cintura.
— Você fala como se o bebê realmente existisse.
— E se existir? — Ele deu a volta no balcão, parando na minha frente.
Respirei fundo uma vez, então resolvi dizer o que eu já sabia.
— ... Eu não tô grávida.
— Você não sabe disso ainda.
Por um instante, quase discuti com ele, mas me lembrei, mais uma vez, de que ele ainda não tinha vivenciado aquele momento.
— Eu...
— . — Ele me puxou para perto, me fazendo esbarrar em seu corpo. — Por que você não para de ser teimosa e volta logo pra mim?
Meu coração errou uma batida.
Talvez aquele fosse o momento.
— ... — sussurrei seu nome, mas soou mais como uma súplica.
— Eu sei que você é tão obcecada por mim quanto eu sou por você, . — Ele roçou o nariz no meu, tão próximo que se eu me inclinasse um pouquinho para frente, nossos lábios se tocariam.
Senti os olhos arderem e meu corpo clamar por ele, mas dessa vez não era porque eu sabia que tinha que me afastar, e sim porque eu estava morrendo de saudades. A proximidade era agonizante e embora para fizesse apenas alguns dias que estávamos separados, para mim eram mais de dois meses, somados à dor de lidar com sua morte, ainda fresca na memória.
— Eu te amo demais. Não posso te deixar ir — ele sussurrou, roçando os lábios nos meus, sem realmente me beijar. Ele fez isso uma, duas vezes. Na terceira, pressionei minha boca contra a dele e ele correspondeu de imediato.
Foi quase desajeitado, assim como da outra vez. Mas eu estava desesperada por seu toque e, quando encaixou nossas bocas perfeitamente e nossas línguas se entrelaçaram, tive certeza de que ele era a minha escolha mais certa, não só naquele momento, mas desde que o vi pela primeira vez, sete anos atrás, quando eu era apenas uma fã.
Eu o queria tanto… E, daquela vez, estava decidida a não me segurar.
me pressionou contra a parede ao nosso lado e, no instante seguinte, minhas pernas já estavam ao redor de sua cintura. Interrompi o beijo por falta de ar e ofeguei, com a respiração e o coração acelerados. Ele levou a boca ao meu pescoço e me beijou ali, enquanto eu me agarrava a ele como se fosse a última gota de água em um deserto. Meu corpo estava quente, e senti o calor se concentrar no centro dele, onde eu mais o queria.
— ... o quarto — consegui dizer. Embora a ideia de terminar o que começamos ali mesmo fosse tentadora, podia chegar a qualquer momento.
Sem pestanejar e ainda comigo no colo, ele entrou pela porta a um metro de onde estávamos e a fechou com o pé. Em seguida, dirigiu-se até a cama, onde me colocou com cuidado, e se afastou para tirar a jaqueta e a camisa.
Havia uma intensidade no seu olhar que provavelmente me deixaria de pernas bambas. Ainda bem que eu já estava na cama. Mas, por mais que apreciar o momento fosse bom, eu estava faminta por ele. Assim, não perdi tempo e me levantei também, livrando-me de todas as minhas roupas, uma a uma. Quando percebeu o que eu estava fazendo, continuou a se despir enquanto me encarava.
Então nos atracamos outra vez, tropeçando e caindo na cama. Rimos juntos do nosso desajeito, mas no instante seguinte, seus lábios encontraram os meus outra vez e sua mão deslizou entre nossos corpos, alcançando o meu centro úmido. deslizou um dedo em mim com facilidade, e eu sabia que ele queria ter certeza de que eu estava pronta, e a resposta era: sim, eu estava.
Aquela parte de mim estava literalmente doendo por ele.
Eu estava impaciente e morrendo de saudades. Poderíamos nos apreciar devidamente em outro momento, mas não naquele. Com isso em mente, empurrei para que se deitasse e, em seguida, subi em seu colo.
— ... — ele murmurou meu nome, um segundo antes de eu o beijar.
— Eu quero você, . Agora, depois e pra sempre — esclareci.
Deslizei meus lábios pelo seu pescoço e rocei os dentes na tatuagem que ele tinha do lado esquerdo, notando sua pele se arrepiar. De baixo de mim, sua rigidez cutucava minha barriga. Me afastei e o segurei com uma mão, guiando-o até minha entrada. Então, lentamente abaixei os quadris, envolvendo-o aos poucos enquanto sentia meu corpo se esticar e se adequar ao seu redor para recebê-lo. Suspirei com a sensação de estar completamente preenchida e apoiei as duas mãos em seu peito antes de começar a me mover para cima e para baixo.
Um gemido baixo escapou de nossos lábios em uníssono, e me segurou firmemente pelos quadris, me guiando nos movimentos.
Um instante depois, havíamos encontrado um ritmo, e eu só conseguia pensar quão magnífico era conhecermos tão bem o corpo um do outro.
O clímax me atingiu de repente, e vacilei um pouco sobre ele. aproveitou a oportunidade para inverter nossas posições e, um segundo depois, estava dentro de mim novamente. Ofeguei ao sentir aquela sensação crescendo em mim outra vez. Meus músculos se tensionaram e apertei minhas pernas ao redor de sua cintura, sentindo uma fina camada de suor se formar em nossos corpos. enfiou a mão entre nós novamente e me tocou, provocando um estímulo extra que me fez cravar as unhas em seus ombros. A tensão aumentou e, quando menos esperei, estremeci embaixo dele, um instante antes dele me acompanhar, se derramando em mim enquanto eu o abraçava com toda a força que tinha.
Estávamos ofegantes e cansados, e eu senti que estava recuperando minha felicidade aos poucos. Meus olhos arderam e eu funguei, sentindo as lágrimas que segurei mais cedo caírem.
Ao ouvir o som, se afastou e me encarou, preocupado.
— Ei, o que foi? — perguntou, suavemente. — Por que você tá chorando?
— Porque eu tô feliz — respondi, sincera. — Sinto muito por fugir e por ter magoado você. Eu não devia ter feito isso. Não queria ter feito.
se moveu para o meu lado na cama, puxando-me para que eu me aconchegasse em seu peito. Em seguida, acariciou meu rosto com uma das mãos e limpou minhas lágrimas. Então, inclinou-se, beijando meu rosto molhado.
— Tá tudo bem, amor. Vai ficar tudo bem, vamos enfrentar isso juntos.
— Eu te amo, . Muito mesmo. Não quero ficar longe de você nunca mais.
— Então não fique. — Ele sorriu. — Eu sou todo seu.
— E eu sou toda sua. — Afastei uma mecha de cabelo de sua testa, e ele segurou a minha mão, beijando a palma.
Pela primeira vez em meses, senti que finalmente estava no lugar certo.
***
chegou pouco depois das seis. e eu tínhamos acabado de tomar banho havia poucos minutos quando ouvimos a porta da frente abrir.
Saímos do quarto logo em seguida, e pareceu surpresa por ainda o encontrar ali. segurou minha mão e sorriu para ela, que entendeu tudo no mesmo instante.
— Eita, isso é o que eu tô pensando? — ela perguntou, olhando de para mim.
— Vou voltar pra casa. Desculpa te preocupar. — Encolhi os ombros, me sentindo meio desconcertada.
assentiu e andou até mim.
— Vai ficar tudo bem. Se cuida, irmã. — Ela me abraçou e se virou para . — Você também.
— Pode deixar. — Ele sorriu.
me ajudou a arrumar minhas coisas e saímos alguns minutos depois. Felizmente, eu havia voltado no tempo para um momento antes de fazer minha mudança completa, então não havia muitos pertences ali.
Quando chegamos em casa, encontrei o quarto exatamente como o tinha deixado. Se não fosse pelo cesto de roupa suja no banheiro, eu diria que nem sequer tinha entrado ali. Não era do feitio dele arrumar a cama ao se levantar, mas talvez tivesse feito isso.
Não dei muita importância. Troquei de roupa, vestindo um baby doll azul e branco, e notei que havia recolocado os sapatinhos vermelhos dentro da caixa, que agora estava em cima do móvel onde ele guardava seus acessórios.
Encarei a caixa com um misto de carinho e tristeza e me virei para sair do closet. Encontrei colocando uma pilha de lençóis na cama. Ele também havia trocado de roupa e agora estava sem camisa, vestindo apenas uma calça preta larga.
— Você lavou isso? — perguntei.
— O quê? — Ele me olhou e seguiu meu olhar até os lençóis. — Ah... os lençóis? Não.
— E o que você tava fazendo com eles?
soltou um suspiro resignado.
— Tava trazendo do quarto de hóspedes.
— Como assim? Você tava dormindo lá?
Ele assentiu, devagar.
— Por quê?
— Por que você acha, ? — Ele me encarou, a voz baixa, firme. — Você foi embora pra fugir das nossas lembranças… mas pra onde eu iria, se eu te vejo em cada canto desse apartamento?
— Você... Tava tentando me esquecer?
— Não. Eu tava tentando não pensar em você — ele confessou. — Não deu muito certo, por sinal. Passei umas noites no estúdio antes de resolver ir pro outro quarto.
— Ah… certo.
Na outra linha do tempo, mesmo quando viajamos juntos, nunca me contou isso. Não que ele tivesse que fazer isso, é claro. Estávamos separados. Eu não sabia muito bem como assimilar aquela informação sem me sentir culpada, e acho que minha expressão deixou isso óbvio, já que ele se apressou em esclarecer.
— Não tô dizendo isso pra você se sentir culpada, . Foi só o que aconteceu. Passou. Mas não pense em me deixar de novo, ou acho que vou ter que me mudar de apartamento.
Uma risada escapou de mim ao ouvi-lo, e pensei em como era dramático da parte dele dizer aquilo, embora soubesse que provavelmente faria mesmo algo do tipo. Ou reformaria o apartamento inteiro.
— Não vou sair de perto de você, eu prometo. E prometo não quebrar essa promessa — declarei. — Pensando bem, vou virar sua sombra.
riu e me puxou pela cintura.
— Vou levar isso a sério e te arrastar comigo pra todo lugar — ele brincou.
Em seguida, levantou uma das minhas mãos e a beijou enquanto me olhava nos olhos.
O encarei, completamente abobalhada, me sentindo em paz. Mas, embora soubesse que era a escolha certa, eu também sabia que isso não o isentava de correr perigo, nem a mim. O stalker ainda estava solto e, em breve, eu esqueceria de tudo o que tinha acontecido antes, então precisava dar um jeito de fazer algo a respeito antes de perder minhas lembranças, já que não fazia ideia de quanto tempo elas durariam. Seriam dias, semanas? Talvez meses, se eu tivesse sorte? De um jeito ou de outro, Jace ainda estava solto, assim como Roy, o cara que ele contratou para me atacar. Eu não sabia como ainda, mas daria um jeito neles.
Respirei fundo, absorvendo a tranquilidade que me trazia ver vivo e bem, e envolvi meus braços ao redor de sua cintura, abraçando-o apertado. Eu precisava protegê-lo da melhor forma possível, não me distanciando dessa vez, mas permanecendo ao seu lado. Jace Keller ia ver só a próxima vez que eu o encontrasse.
Nós seríamos felizes. E eu me agarraria com unhas e dentes à nova chance que me foi dada.
— ...
— Não me olhe com essa cara, me deixou entrar. Ela me deu a senha da porta e vim garantir que você tá pelo menos se alimentando, porque ela disse que você não saiu do quarto.
Eu não sabia com que cara eu tinha olhado para ele, a não ser alívio. Porque era assim que eu estava me sentindo ao vê-lo ali parado na minha frente, vivo e bem. Tive que fazer um esforço gigantesco para não cair no choro e me agarrar a ele.
Eu tinha voltado no tempo, não tinha? Era a única explicação.
se virou em direção à cozinha e eu o segui em silêncio, respirando fundo para conter meu nervosismo. Me perguntei se íamos ter o mesmo diálogo de antes, mas logo descartei a possibilidade.
Aquele era meu corpo. Eu tinha o controle. Se eu realmente tinha voltado no tempo, aquela linha do tempo provavelmente seria diferente. Eu faria com que fosse. Se antes interferi na nossa história ao escolher ficar longe dele, agora seria o contrário. Eu deixaria as coisas acontecerem seguindo o que meu coração mandava.
— Eu fiz bibimbap pra você jantar — disse, tirando uma marmita quadriculada de uma sacola. Eram três andares e ele abriu um por um, revelando acompanhamentos típicos da culinária asiática. — Vem comer.
Sem hesitar, fui até ele e me sentei ao seu lado em frente ao balcão. Encarei a comida e meus olhos arderam. Quanto tempo fazia que eu não comia nada que ele havia cozinhado? Aquela tinha sido a última vez. Mas eu estava determinada a fazer com que fosse apenas mais uma, que se repetiria por muito mais tempo.
— Tá com uma cara muito boa — elogiei, ganhando um vislumbre de sorriso no canto dos seus lábios.
Comecei a comer com vontade, só então me dando conta do quão faminta eu estava. O molho apimentado provocou uma dor bem-vinda na minha boca, algo que me distrairia em vez de ficar relembrando o que tinha acontecido antes. não tinha vivenciado nada daquilo e eu não o faria sofrer mais.
E quando chegasse a hora, eu o escolheria. O escolheria quantas vezes fosse possível.
me observou comer como se fosse a coisa mais interessante do mundo e contive um sorriso. Percebendo isso, ele sorriu abertamente.
— O quê?
— Nada. — Ele deu de ombros.
— A comida tá uma delícia. Você não quer? — Ofereci uma colherada para ele, que a encarou por um instante antes de se inclinar e comer.
Sorri, satisfeita, não me contendo mais. Havia comida suficiente para duas pessoas e, mesmo que ainda fosse cedo, comemos tudo mesmo assim. Quando acabamos, me levantei para pegar duas latas de Coca Zero na geladeira e coloquei uma em frente a ele.
— Tem certeza de que você devia tomar isso? — perguntou, e eu o encarei, confusa.
— Você esqueceu uma coisa, — acrescentou ele.
Então tirou algo do bolso e colocou em cima do balcão.
Eu já sabia o que era e como ele tinha encontrado, então não me surpreendi. Decidi ser sincera e evitar uma discussão.
— , eu... Tive uma suspeita.
— E quando pretendia me contar?
— Acabei esquecendo disso, desculpa. Fiquei com a cabeça cheia. Eu tenho quase certeza de que não tô grávida. Não tô sentindo nada. Comprei só pra ter confirmar. Não queria te preocupar com isso também.
— , não importa se é uma suspeita ou não, eu tinha o direito de saber.
— Tudo bem, desculpa. — Peguei a minha lata de refrigerante com a intenção de abrir, mas ele a afastou de mim.
— Nada disso. Tenho certeza de que faz mal pro bebê.
Eu o encarei, incrédula. Tentei pegar a lata de volta, mas ele se levantou. Fui atrás, mas foi em vão.
— ! — reclamei, quando ele se esgueirou mais uma vez para o lado oposto do balcão.
— Acho melhor você tomar um suco.
Grunhi, irritada, e andei um pouco de um lado para o outro, com as mãos na cintura.
— Você fala como se o bebê realmente existisse.
— E se existir? — Ele deu a volta no balcão, parando na minha frente.
Respirei fundo uma vez, então resolvi dizer o que eu já sabia.
— ... Eu não tô grávida.
— Você não sabe disso ainda.
Por um instante, quase discuti com ele, mas me lembrei, mais uma vez, de que ele ainda não tinha vivenciado aquele momento.
— Eu...
— . — Ele me puxou para perto, me fazendo esbarrar em seu corpo. — Por que você não para de ser teimosa e volta logo pra mim?
Meu coração errou uma batida.
Talvez aquele fosse o momento.
— ... — sussurrei seu nome, mas soou mais como uma súplica.
— Eu sei que você é tão obcecada por mim quanto eu sou por você, . — Ele roçou o nariz no meu, tão próximo que se eu me inclinasse um pouquinho para frente, nossos lábios se tocariam.
Senti os olhos arderem e meu corpo clamar por ele, mas dessa vez não era porque eu sabia que tinha que me afastar, e sim porque eu estava morrendo de saudades. A proximidade era agonizante e embora para fizesse apenas alguns dias que estávamos separados, para mim eram mais de dois meses, somados à dor de lidar com sua morte, ainda fresca na memória.
— Eu te amo demais. Não posso te deixar ir — ele sussurrou, roçando os lábios nos meus, sem realmente me beijar. Ele fez isso uma, duas vezes. Na terceira, pressionei minha boca contra a dele e ele correspondeu de imediato.
Foi quase desajeitado, assim como da outra vez. Mas eu estava desesperada por seu toque e, quando encaixou nossas bocas perfeitamente e nossas línguas se entrelaçaram, tive certeza de que ele era a minha escolha mais certa, não só naquele momento, mas desde que o vi pela primeira vez, sete anos atrás, quando eu era apenas uma fã.
Eu o queria tanto… E, daquela vez, estava decidida a não me segurar.
me pressionou contra a parede ao nosso lado e, no instante seguinte, minhas pernas já estavam ao redor de sua cintura. Interrompi o beijo por falta de ar e ofeguei, com a respiração e o coração acelerados. Ele levou a boca ao meu pescoço e me beijou ali, enquanto eu me agarrava a ele como se fosse a última gota de água em um deserto. Meu corpo estava quente, e senti o calor se concentrar no centro dele, onde eu mais o queria.
— ... o quarto — consegui dizer. Embora a ideia de terminar o que começamos ali mesmo fosse tentadora, podia chegar a qualquer momento.
Sem pestanejar e ainda comigo no colo, ele entrou pela porta a um metro de onde estávamos e a fechou com o pé. Em seguida, dirigiu-se até a cama, onde me colocou com cuidado, e se afastou para tirar a jaqueta e a camisa.
Havia uma intensidade no seu olhar que provavelmente me deixaria de pernas bambas. Ainda bem que eu já estava na cama. Mas, por mais que apreciar o momento fosse bom, eu estava faminta por ele. Assim, não perdi tempo e me levantei também, livrando-me de todas as minhas roupas, uma a uma. Quando percebeu o que eu estava fazendo, continuou a se despir enquanto me encarava.
Então nos atracamos outra vez, tropeçando e caindo na cama. Rimos juntos do nosso desajeito, mas no instante seguinte, seus lábios encontraram os meus outra vez e sua mão deslizou entre nossos corpos, alcançando o meu centro úmido. deslizou um dedo em mim com facilidade, e eu sabia que ele queria ter certeza de que eu estava pronta, e a resposta era: sim, eu estava.
Aquela parte de mim estava literalmente doendo por ele.
Eu estava impaciente e morrendo de saudades. Poderíamos nos apreciar devidamente em outro momento, mas não naquele. Com isso em mente, empurrei para que se deitasse e, em seguida, subi em seu colo.
— ... — ele murmurou meu nome, um segundo antes de eu o beijar.
— Eu quero você, . Agora, depois e pra sempre — esclareci.
Deslizei meus lábios pelo seu pescoço e rocei os dentes na tatuagem que ele tinha do lado esquerdo, notando sua pele se arrepiar. De baixo de mim, sua rigidez cutucava minha barriga. Me afastei e o segurei com uma mão, guiando-o até minha entrada. Então, lentamente abaixei os quadris, envolvendo-o aos poucos enquanto sentia meu corpo se esticar e se adequar ao seu redor para recebê-lo. Suspirei com a sensação de estar completamente preenchida e apoiei as duas mãos em seu peito antes de começar a me mover para cima e para baixo.
Um gemido baixo escapou de nossos lábios em uníssono, e me segurou firmemente pelos quadris, me guiando nos movimentos.
Um instante depois, havíamos encontrado um ritmo, e eu só conseguia pensar quão magnífico era conhecermos tão bem o corpo um do outro.
O clímax me atingiu de repente, e vacilei um pouco sobre ele. aproveitou a oportunidade para inverter nossas posições e, um segundo depois, estava dentro de mim novamente. Ofeguei ao sentir aquela sensação crescendo em mim outra vez. Meus músculos se tensionaram e apertei minhas pernas ao redor de sua cintura, sentindo uma fina camada de suor se formar em nossos corpos. enfiou a mão entre nós novamente e me tocou, provocando um estímulo extra que me fez cravar as unhas em seus ombros. A tensão aumentou e, quando menos esperei, estremeci embaixo dele, um instante antes dele me acompanhar, se derramando em mim enquanto eu o abraçava com toda a força que tinha.
Estávamos ofegantes e cansados, e eu senti que estava recuperando minha felicidade aos poucos. Meus olhos arderam e eu funguei, sentindo as lágrimas que segurei mais cedo caírem.
Ao ouvir o som, se afastou e me encarou, preocupado.
— Ei, o que foi? — perguntou, suavemente. — Por que você tá chorando?
— Porque eu tô feliz — respondi, sincera. — Sinto muito por fugir e por ter magoado você. Eu não devia ter feito isso. Não queria ter feito.
se moveu para o meu lado na cama, puxando-me para que eu me aconchegasse em seu peito. Em seguida, acariciou meu rosto com uma das mãos e limpou minhas lágrimas. Então, inclinou-se, beijando meu rosto molhado.
— Tá tudo bem, amor. Vai ficar tudo bem, vamos enfrentar isso juntos.
— Eu te amo, . Muito mesmo. Não quero ficar longe de você nunca mais.
— Então não fique. — Ele sorriu. — Eu sou todo seu.
— E eu sou toda sua. — Afastei uma mecha de cabelo de sua testa, e ele segurou a minha mão, beijando a palma.
Pela primeira vez em meses, senti que finalmente estava no lugar certo.
chegou pouco depois das seis. e eu tínhamos acabado de tomar banho havia poucos minutos quando ouvimos a porta da frente abrir.
Saímos do quarto logo em seguida, e pareceu surpresa por ainda o encontrar ali. segurou minha mão e sorriu para ela, que entendeu tudo no mesmo instante.
— Eita, isso é o que eu tô pensando? — ela perguntou, olhando de para mim.
— Vou voltar pra casa. Desculpa te preocupar. — Encolhi os ombros, me sentindo meio desconcertada.
assentiu e andou até mim.
— Vai ficar tudo bem. Se cuida, irmã. — Ela me abraçou e se virou para . — Você também.
— Pode deixar. — Ele sorriu.
me ajudou a arrumar minhas coisas e saímos alguns minutos depois. Felizmente, eu havia voltado no tempo para um momento antes de fazer minha mudança completa, então não havia muitos pertences ali.
Quando chegamos em casa, encontrei o quarto exatamente como o tinha deixado. Se não fosse pelo cesto de roupa suja no banheiro, eu diria que nem sequer tinha entrado ali. Não era do feitio dele arrumar a cama ao se levantar, mas talvez tivesse feito isso.
Não dei muita importância. Troquei de roupa, vestindo um baby doll azul e branco, e notei que havia recolocado os sapatinhos vermelhos dentro da caixa, que agora estava em cima do móvel onde ele guardava seus acessórios.
Encarei a caixa com um misto de carinho e tristeza e me virei para sair do closet. Encontrei colocando uma pilha de lençóis na cama. Ele também havia trocado de roupa e agora estava sem camisa, vestindo apenas uma calça preta larga.
— Você lavou isso? — perguntei.
— O quê? — Ele me olhou e seguiu meu olhar até os lençóis. — Ah... os lençóis? Não.
— E o que você tava fazendo com eles?
soltou um suspiro resignado.
— Tava trazendo do quarto de hóspedes.
— Como assim? Você tava dormindo lá?
Ele assentiu, devagar.
— Por quê?
— Por que você acha, ? — Ele me encarou, a voz baixa, firme. — Você foi embora pra fugir das nossas lembranças… mas pra onde eu iria, se eu te vejo em cada canto desse apartamento?
— Você... Tava tentando me esquecer?
— Não. Eu tava tentando não pensar em você — ele confessou. — Não deu muito certo, por sinal. Passei umas noites no estúdio antes de resolver ir pro outro quarto.
— Ah… certo.
Na outra linha do tempo, mesmo quando viajamos juntos, nunca me contou isso. Não que ele tivesse que fazer isso, é claro. Estávamos separados. Eu não sabia muito bem como assimilar aquela informação sem me sentir culpada, e acho que minha expressão deixou isso óbvio, já que ele se apressou em esclarecer.
— Não tô dizendo isso pra você se sentir culpada, . Foi só o que aconteceu. Passou. Mas não pense em me deixar de novo, ou acho que vou ter que me mudar de apartamento.
Uma risada escapou de mim ao ouvi-lo, e pensei em como era dramático da parte dele dizer aquilo, embora soubesse que provavelmente faria mesmo algo do tipo. Ou reformaria o apartamento inteiro.
— Não vou sair de perto de você, eu prometo. E prometo não quebrar essa promessa — declarei. — Pensando bem, vou virar sua sombra.
riu e me puxou pela cintura.
— Vou levar isso a sério e te arrastar comigo pra todo lugar — ele brincou.
Em seguida, levantou uma das minhas mãos e a beijou enquanto me olhava nos olhos.
O encarei, completamente abobalhada, me sentindo em paz. Mas, embora soubesse que era a escolha certa, eu também sabia que isso não o isentava de correr perigo, nem a mim. O stalker ainda estava solto e, em breve, eu esqueceria de tudo o que tinha acontecido antes, então precisava dar um jeito de fazer algo a respeito antes de perder minhas lembranças, já que não fazia ideia de quanto tempo elas durariam. Seriam dias, semanas? Talvez meses, se eu tivesse sorte? De um jeito ou de outro, Jace ainda estava solto, assim como Roy, o cara que ele contratou para me atacar. Eu não sabia como ainda, mas daria um jeito neles.
Respirei fundo, absorvendo a tranquilidade que me trazia ver vivo e bem, e envolvi meus braços ao redor de sua cintura, abraçando-o apertado. Eu precisava protegê-lo da melhor forma possível, não me distanciando dessa vez, mas permanecendo ao seu lado. Jace Keller ia ver só a próxima vez que eu o encontrasse.
Nós seríamos felizes. E eu me agarraria com unhas e dentes à nova chance que me foi dada.
Capítulo 40
Assim como da última vez, depois de alguns dias após me visitar no apartamento de , ele recebeu informações sobre o suposto stalker.
Roy Basset era só um bode expiatório e eu sabia disso, mas não podia falar nada enquanto ele não fosse pego. E considerando que e eu estávamos juntos novamente, era provável que Jace o mandasse me atacar mais uma vez, especialmente agora que eu tinha voltado a morar com ele.
Um dia após voltar para casa, movida pelo medo de esquecer das informações que eu tinha na minha nova linha de tempo, escrevi uma lista de coisas enquanto trabalhava, lembretes que li repetidamente no intuito de fixar aquelas informações ao menos no meu subconsciente, apenas para o caso de acontecer algo e eu esquecer de tudo repentinamente.
A primeira delas era: Roy Basset não é o stalker. Ele tem uma avó doente que está internada.
Os outros itens variavam em coisas aleatórias sobre Jace, sobre o meu próximo acidente e o que poderia acontecer com . Ele me contou sobre a apresentação em Los Angeles e prometi acompanhá-lo naquela viagem. De jeito nenhum eu o deixaria sozinho perto daquele idiota Jace, ainda mais sabendo que na linha do tempo anterior ele havia surtado bem ali.
Deixei a lista colada na minha mesa, em um local suficientemente visível para que eu pudesse consultá-la sempre. Eu estava trabalhando novamente e já havia relido a lista três vezes naquela manhã. estava trancado no estúdio, mas, na hora do meu intervalo de almoço, ele apareceu para avisar que nossa comida havia chegado. Eu ainda estava proibida de tomar refrigerante por causa da minha suposta gravidez, então não me surpreendi quando ele tirou uma jarra de suco de laranja da geladeira. Tínhamos voltado para nossa dinâmica e rotinas habituais, e ele agia como se nada tivesse acontecido.
— Vou fazer o teste hoje — anunciei, enquanto comíamos. — Mas tô te falando, eu não tô grávida.
— Vamos ver, então. — Ele deu de ombros.
Quase parecia que estava me desafiando. Mas eu sabia que o teste seria negativo porque já tinha feito ele antes. Só que mesmo sabendo disso, quando entrei no banheiro com ele em mãos, logo após o almoço, não deixei de me sentir um pouquinho nervosa.
ficou esperando do lado de fora e parecia um pouco ansioso também. Quando terminei, coloquei o teste de volta na caixa e o deixei entrar. Esperamos o tempo do resultado e, quando isso aconteceu, fui puxando lentamente o teste da caixa até o visor estar completamente descoberto.
Como eu esperava, havia apenas uma linha, e ainda assim senti uma pontada de decepção. Aparentemente, também, já que suspirou, pegou o teste e o jogou no lixo.
— Viu? Eu disse que não tava grávida — falei, bem humorada, mas ele nem mesmo sorriu.
— É, você disse.
— Você tá decepcionado? — Segurei o rosto dele com uma mão. se inclinou ao toque e beijou a palma da minha mão.
— Não, só... desiludido, eu acho. Já tinha pensado em um zilhão de coisas pra fazer caso você estivesse grávida.
— Ah... Mas é melhor assim, né? Você vai lançar um álbum em breve. O público não precisa de uma fofoca dessas.
— É, talvez.
não parecia acreditar nisso, mas imaginei que ele não queria prolongar o assunto. Da última vez que engravidei, não foi planejado. Eu fiquei muito ansiosa quando descobri, mas, no fundo, sabia que ficaria feliz. Tínhamos conversado apenas uma vez sobre filhos e ele deixou claro que gostaria de ter ao menos um, mas que a escolha seria sempre minha, já que o corpo era meu. E se não tivéssemos nenhum, tudo bem também.
Aquilo tinha acontecido há mais de um ano e não tínhamos tocado no assunto desde então, mas acho que o aborto mexeu com e talvez comigo também, embora agora eu soubesse — e aceitasse — que perder o bebê não fora minha culpa.
Alguns minutos depois, me arrastou até o estúdio, ansioso para me mostrar algo. Eu nem mesmo hesitei, embora já tivesse ouvido seu álbum novo inteiro antes, na outra linha de tempo. No entanto, assim que pensei nisso, percebi que a única música de que me lembrava com clareza era "Red Shoes". Franzi o cenho, assimilando aos poucos a constatação da minha memória falha. Não que fosse algo extremamente importante, mas eu havia ouvido o álbum dezenas de vezes na semana de sua morte, em um esforço desesperado para me agarrar a alguma coisa. Além disso, a cena dele aparecendo para mim e me puxando para dançar ainda estava fresca na minha mente. Era doloroso lembrar daquilo e só de pensar nisso, eu já me sentia ansiosa e com vontade de chorar.
Felizmente, me distraiu quando os primeiros acordes de “Red Shoes” começaram a tocar. Sorri para ele, sentindo os olhos arderem e a visão embaçar instantaneamente enquanto eu ouvia a música. entrelaçou nossas mãos e sorriu com carinho. Seus olhos também brilhavam com emoção, e quando minhas lágrimas começaram a cair, ele se juntou a mim. “Red Shoes” era, ao mesmo tempo, triste e reconfortante, mas ouvi-la daquela forma, ao lado dele, me trazia uma sensação diferente. me puxou para um abraço e, mesmo quando a música acabou, continuamos assim, chorando em silêncio. Havia algo de reconfortante em fazer aquilo com ele, em dividir aquela dor.
— Você podia ter me contado antes, sabe? Sobre o aborto — murmurei, afastando-me para encará-lo, ainda abraçada a ele. — Você lidou com isso sozinho enquanto eu era a maluca que tinha acabado de descobrir que namorava seu cantor favorito.
— Eu não podia te sobrecarregar. Você lembrou de uma parte da noite em que nos conhecemos e desmaiou por uns segundos. Você sabe que eu não podia contar, .
Suspirei, desanimada.
— Me sinto mal por você ter descoberto assim. Eu queria fazer uma surpresa.
— Eu sei. Mas vou guardar aqueles sapatinhos com carinho. Podemos ter perdido um bebê, mas não quero esquecer que, por um tempo, ele esteve lá.
— Talvez não fosse pra ser — comentei, lembrando da maldição.
assentiu.
— Talvez não fosse o momento, assim como hoje.
Enterrei o rosto no seu pescoço e respirei fundo, sentindo o cheiro do seu perfume. Senti um nó se formar na minha garganta e o abracei um pouquinho mais forte. Se havia uma memória que eu gostaria de esquecer, era a de quando descobri que ele não estava mais aqui e os dias que se seguiram depois.
— Obrigada pela música, . É reconfortante, espero que seja assim pra você também.
— Agora é — ele admitiu, esfregando minhas costas suavemente.
— Vai ficar tudo bem agora. Nós vamos ficar bem, vou garantir isso — prometi.
— Vamos sim, amor.
***
— Quer dizer que sua mãe vai dar uma festa à fantasia? — perguntei, alguns dias depois.
Eu estava me arrumando para ir ao trabalho, agora que tinha resolvido voltar a trabalhar presencialmente, e tinha acabado de receber uma ligação da mãe, confirmando nossa presença.
— Preciso comprar um presente. Você pode ir comigo?
— Que tal amanhã? O aniversário dela já é na sexta, a gente devia ter ido antes — comentei, incomodada.
Era igual da outra vez, a gente fazendo as coisas em cima da hora. O que significava que alguma coisa também se aproximava. Mas o quê? Tentei lembrar se havia alguma data importante após o aniversário da mãe dele, mas nada. Tinha a impressão de ter anotado algo em uma lista, mas revirei o celular, o tablet, minha mesa e não encontrei nada.
O que eu estava esquecendo?
Será que eu havia sonhado com aquilo?
Se bem que, ultimamente, eu não vinha sonhando com mais nada de que eu me lembrasse depois. Nem mesmo com Tenaz. Depois que voltei para casa com , tudo parou. Achei uma pena, porque eu queria presenciar Cora , a mãe de Ayla, prendendo James Nam, o pai de Dean. Além de todo o resto do romance, é claro. E o casamento de Tiana! Parecia tão real...
— A gente pode comprar algo que ela goste e viajar na quinta. Vou comprar as passagens hoje mesmo — disse, interrompendo meu devaneio.
— Sua mãe gosta de bolsas — comentei, enquanto passava o batom. — Vou dar uma pesquisada na internet e depois a gente pode ir comprar em algum shopping.
— Sim. Ah, já ia esquecendo de falar, contratei dois guarda-costas pra você.
— O quê? — Me virei para ele. Aquela informação era nova para mim, mas, ao mesmo tempo, era como se não fosse. Eu não tinha ideia do porquê.
— Por causa daquele garoto. Ele te atropelou uma vez, . E se ele for atrás de você de novo?
— Se ele vier, espero que esteja a pé pra eu poder dar um chute nas bolas dele. — Levantei uma perna, mostrando exatamente como faria, e riu, divertido.
— Você tá rindo, mas sabe que eu faria isso mesmo.
— Ah, eu tenho certeza. Mas vou te poupar desse trabalho e deixar isso pra Carter e Louis.
Dei de ombros, não me importando muito.
— Peça pra que eles sejam discretos. Mas eu gostaria de ao menos saber quem são.
— Eu tenho fotos, vou te mostrar.
***
Conheci Carter e Louis brevemente na fila da cafeteria onde eu costumava passar antes do trabalho. Eram enormes e tinham uma aparência meio intimidadora, mas foram bastante gentis. Querendo ou não, era um alívio saber que eles estariam por perto, caso eu precisasse. Pelo menos, enquanto eu estivesse fora de casa.
No edifício onde morávamos, a segurança era pesada e não costumávamos receber ninguém estranho. Na verdade, as únicas pessoas que tinham passe livre para entrar eram Kate, Andrew e . Mesmo assim, ninguém nunca aparecia sem avisar. Até os entregadores tinham um acesso controlado e sempre tínhamos que confirmar que estávamos esperando alguma entrega.
Embora trabalhasse a maior parte do tempo em casa, não gostava de trazer colegas de trabalho para seu lar. Ele era o oposto de mim, mas eu sabia que a amizade que eu havia desenvolvido com Kate e Andy não se comparava nem um pouquinho com o relacionamento estritamente profissional que mantinha com sua equipe. Ele saía com Jace e o restante do pessoal às vezes, mas eles nunca visitaram nossa casa. Por causa disso, foram raras as vezes que encontrei algum um deles.
Não que eu estivesse reclamando, é claro. Especialmente sobre o idiota do Jace Keller. Eu não queria aquele cara na minha casa de jeito nenhum, principalmente quando descobri que ele nem estava fazendo seu trabalho direito como gerente de . E minha antipatia por ele piorou mais ainda quando me contou o que ele tinha dito no telefone sobre mim e o nosso término. Babaca. Mas eu também só soube disso quando me disse que queria trocar de gerente após o lançamento do álbum. Deduzi que aquela não tinha sido a única vez que Jace tinha falado alguma besteira sem pensar, disfarçada de brincadeira.
— Não me sinto confortável trabalhando com alguém que menospreza a minha mulher — comentou.
Tínhamos acabado de almoçar e estávamos a caminho de um shopping, em busca de um presente para a mãe dele.
— Eu teria demitido ele desde quando ele te negligenciou com a história do stalker. Você aguentou muito e ainda foi simpático.
riu pelo nariz.
— Bem, agora minha simpatia se esgotou. Vou pra LA no sábado pra resolver isso e volto no domingo.
— Quer que eu vá junto?
— Não, vai ser muito cansativo pra você. Além disso, você vai pra comigo na próxima semana.
— Tudo bem — assenti, sem discutir.
Não tinha muito o que fazer lá mesmo. E eu ainda teria que trabalhar na segunda.
Quando chegamos no estacionamento do shopping, me senti um pouco ansiosa antes de sair do carro.
— Tá tudo bem? — quis saber.
— Sim, é só que... Eu não vou a um shopping desde o acidente.
— Quer tentar outro lugar?
— Não, eu tô bem. Vamos. — Saí do carro, ainda um pouco ansiosa, mas isso amenizou quando segurou minha mão.
Ele não se preocupou em usar um disfarce naquele dia. Usou apenas um boné preto, sem máscara ou óculos escuros e fomos parados cerca de três vezes por fãs pedindo autógrafos e fotos até finalmente chegarmos à loja. Não demoramos muito; saímos de lá depois que cada um comprou uma bolsa para a mãe dele — insistiu que eu não precisava, mas eu quis mesmo assim — e paramos em um quiosque para comprar gelato.
Fui gulosa e peguei um tamanho grande, que era maior do que eu pensava. Quando cheguei à metade, já não queria mais e fiquei enrolando até revirar os olhos e pegar o gelato da minha mão para terminar de comer. Sorri quando ele fez isso e enrosquei o braço no dele, enquanto caminhávamos até a saída. Tive a impressão de que estávamos sendo seguidos e, quando olhei para trás, não muito longe de nós, estavam Carter e Louis, andando lado a lado.
— Seus guarda-costas são bem legais — comentei com . — Embora Carter seja mais fechado e tenha aquela cara de assustador. Onde você encontrou eles?
— Eles costumam me acompanhar em turnê, mas quando tô aqui eu dou uma folga a eles, já que mal saio de casa. A não ser que tenha algum evento que exija proteção.
— Tipo a apresentação de Los Angeles?
— É, tipo isso. — Ele deu de ombros.
Passamos em frente a uma joalheria e parou de repente.
— O que foi? Achou alguma coisa legal? — perguntei. Não era raro ele comprar acessórios. adorava correntes discretas e anéis, embora só os usasse quando ia se apresentar, com exceção da nossa aliança.
— Olha só. Ficaria lindo no seu dedo. — Ele apontou para a imagem de um anel de platina com uma pedra azul-clara e pequenos diamantes ao redor.
Era lindo.
— Eu já tenho uma aliança. Não preciso disso.
— E se eu quiser te dar? — Ele me encarou. — Você vai negar?
— Por que isso de repente? — Eu ri. — Se eu aparecer com um anel desses, as pessoas vão pensar que noivamos.
— Então vamos comprar alianças novas e trocar de dedo, assim elas vão pensar que casamos.
— Ei, eu gosto da nossa aliança atual. Tenho apego emocional a ela. Por que você quer trocar?
— Não sei. Acho que queria algo que marcasse o nosso recomeço ou algo assim. Podemos usar as antigas como colares. Eu fico com a sua e você com a minha — ele sugeriu.
Não sei por que, mas a ideia de ficar com a aliança de me trouxe um aperto no coração. Não fazia sentido, mas mesmo assim fiquei relutante.
— Tem certeza? Acho que você nem devia gastar dinheiro com isso.
Ele suspirou, rolando os olhos de forma dramática.
— Tudo bem, você venceu. É só um item material mesmo, o que importa é você estar comigo.
Sorri, satisfeita, e voltamos a andar.
— Faça uma doação com esse dinheiro. Você pode encontrar uma boa causa ao invés de comprar anéis novos.
— Eu vou. — Ele sorriu, meio tímido. — Planejo doar a monetização do vídeo de “Red Shoes” pra um orfanato aqui na cidade. Nenhuma daquelas crianças pediu pra vir ao mundo, e não tiveram nem a chance de ter pais, já que foram abandonadas.
— É uma pena. Mas tenho certeza de que uma doação vai ser bom pra elas. Isso me deixa mais feliz do que alianças novas.
riu baixinho e se inclinou, me dando um beijo no rosto.
— Eu ainda vou te convencer, não se preocupe.
— Tente na semana que vem de novo. Quem sabe um dia você consegue — brinquei.
— Ou quando você tiver bêbada no aniversário da minha mãe. Assim é mais fácil.
Foi minha vez de rir, mas no fundo eu sabia que ele tinha razão. Eu teria que manter a mente de ferro ou conseguiria me convencer a casar com ele no dia seguinte àquele aniversário. E como eu tinha prometido não quebrar mais nenhuma promessa, não teria escapatória. Seria sim ou sim.
Mas a ideia até parecia divertida.
Roy Basset era só um bode expiatório e eu sabia disso, mas não podia falar nada enquanto ele não fosse pego. E considerando que e eu estávamos juntos novamente, era provável que Jace o mandasse me atacar mais uma vez, especialmente agora que eu tinha voltado a morar com ele.
Um dia após voltar para casa, movida pelo medo de esquecer das informações que eu tinha na minha nova linha de tempo, escrevi uma lista de coisas enquanto trabalhava, lembretes que li repetidamente no intuito de fixar aquelas informações ao menos no meu subconsciente, apenas para o caso de acontecer algo e eu esquecer de tudo repentinamente.
A primeira delas era: Roy Basset não é o stalker. Ele tem uma avó doente que está internada.
Os outros itens variavam em coisas aleatórias sobre Jace, sobre o meu próximo acidente e o que poderia acontecer com . Ele me contou sobre a apresentação em Los Angeles e prometi acompanhá-lo naquela viagem. De jeito nenhum eu o deixaria sozinho perto daquele idiota Jace, ainda mais sabendo que na linha do tempo anterior ele havia surtado bem ali.
Deixei a lista colada na minha mesa, em um local suficientemente visível para que eu pudesse consultá-la sempre. Eu estava trabalhando novamente e já havia relido a lista três vezes naquela manhã. estava trancado no estúdio, mas, na hora do meu intervalo de almoço, ele apareceu para avisar que nossa comida havia chegado. Eu ainda estava proibida de tomar refrigerante por causa da minha suposta gravidez, então não me surpreendi quando ele tirou uma jarra de suco de laranja da geladeira. Tínhamos voltado para nossa dinâmica e rotinas habituais, e ele agia como se nada tivesse acontecido.
— Vou fazer o teste hoje — anunciei, enquanto comíamos. — Mas tô te falando, eu não tô grávida.
— Vamos ver, então. — Ele deu de ombros.
Quase parecia que estava me desafiando. Mas eu sabia que o teste seria negativo porque já tinha feito ele antes. Só que mesmo sabendo disso, quando entrei no banheiro com ele em mãos, logo após o almoço, não deixei de me sentir um pouquinho nervosa.
ficou esperando do lado de fora e parecia um pouco ansioso também. Quando terminei, coloquei o teste de volta na caixa e o deixei entrar. Esperamos o tempo do resultado e, quando isso aconteceu, fui puxando lentamente o teste da caixa até o visor estar completamente descoberto.
Como eu esperava, havia apenas uma linha, e ainda assim senti uma pontada de decepção. Aparentemente, também, já que suspirou, pegou o teste e o jogou no lixo.
— Viu? Eu disse que não tava grávida — falei, bem humorada, mas ele nem mesmo sorriu.
— É, você disse.
— Você tá decepcionado? — Segurei o rosto dele com uma mão. se inclinou ao toque e beijou a palma da minha mão.
— Não, só... desiludido, eu acho. Já tinha pensado em um zilhão de coisas pra fazer caso você estivesse grávida.
— Ah... Mas é melhor assim, né? Você vai lançar um álbum em breve. O público não precisa de uma fofoca dessas.
— É, talvez.
não parecia acreditar nisso, mas imaginei que ele não queria prolongar o assunto. Da última vez que engravidei, não foi planejado. Eu fiquei muito ansiosa quando descobri, mas, no fundo, sabia que ficaria feliz. Tínhamos conversado apenas uma vez sobre filhos e ele deixou claro que gostaria de ter ao menos um, mas que a escolha seria sempre minha, já que o corpo era meu. E se não tivéssemos nenhum, tudo bem também.
Aquilo tinha acontecido há mais de um ano e não tínhamos tocado no assunto desde então, mas acho que o aborto mexeu com e talvez comigo também, embora agora eu soubesse — e aceitasse — que perder o bebê não fora minha culpa.
Alguns minutos depois, me arrastou até o estúdio, ansioso para me mostrar algo. Eu nem mesmo hesitei, embora já tivesse ouvido seu álbum novo inteiro antes, na outra linha de tempo. No entanto, assim que pensei nisso, percebi que a única música de que me lembrava com clareza era "Red Shoes". Franzi o cenho, assimilando aos poucos a constatação da minha memória falha. Não que fosse algo extremamente importante, mas eu havia ouvido o álbum dezenas de vezes na semana de sua morte, em um esforço desesperado para me agarrar a alguma coisa. Além disso, a cena dele aparecendo para mim e me puxando para dançar ainda estava fresca na minha mente. Era doloroso lembrar daquilo e só de pensar nisso, eu já me sentia ansiosa e com vontade de chorar.
Felizmente, me distraiu quando os primeiros acordes de “Red Shoes” começaram a tocar. Sorri para ele, sentindo os olhos arderem e a visão embaçar instantaneamente enquanto eu ouvia a música. entrelaçou nossas mãos e sorriu com carinho. Seus olhos também brilhavam com emoção, e quando minhas lágrimas começaram a cair, ele se juntou a mim. “Red Shoes” era, ao mesmo tempo, triste e reconfortante, mas ouvi-la daquela forma, ao lado dele, me trazia uma sensação diferente. me puxou para um abraço e, mesmo quando a música acabou, continuamos assim, chorando em silêncio. Havia algo de reconfortante em fazer aquilo com ele, em dividir aquela dor.
— Você podia ter me contado antes, sabe? Sobre o aborto — murmurei, afastando-me para encará-lo, ainda abraçada a ele. — Você lidou com isso sozinho enquanto eu era a maluca que tinha acabado de descobrir que namorava seu cantor favorito.
— Eu não podia te sobrecarregar. Você lembrou de uma parte da noite em que nos conhecemos e desmaiou por uns segundos. Você sabe que eu não podia contar, .
Suspirei, desanimada.
— Me sinto mal por você ter descoberto assim. Eu queria fazer uma surpresa.
— Eu sei. Mas vou guardar aqueles sapatinhos com carinho. Podemos ter perdido um bebê, mas não quero esquecer que, por um tempo, ele esteve lá.
— Talvez não fosse pra ser — comentei, lembrando da maldição.
assentiu.
— Talvez não fosse o momento, assim como hoje.
Enterrei o rosto no seu pescoço e respirei fundo, sentindo o cheiro do seu perfume. Senti um nó se formar na minha garganta e o abracei um pouquinho mais forte. Se havia uma memória que eu gostaria de esquecer, era a de quando descobri que ele não estava mais aqui e os dias que se seguiram depois.
— Obrigada pela música, . É reconfortante, espero que seja assim pra você também.
— Agora é — ele admitiu, esfregando minhas costas suavemente.
— Vai ficar tudo bem agora. Nós vamos ficar bem, vou garantir isso — prometi.
— Vamos sim, amor.
— Quer dizer que sua mãe vai dar uma festa à fantasia? — perguntei, alguns dias depois.
Eu estava me arrumando para ir ao trabalho, agora que tinha resolvido voltar a trabalhar presencialmente, e tinha acabado de receber uma ligação da mãe, confirmando nossa presença.
— Preciso comprar um presente. Você pode ir comigo?
— Que tal amanhã? O aniversário dela já é na sexta, a gente devia ter ido antes — comentei, incomodada.
Era igual da outra vez, a gente fazendo as coisas em cima da hora. O que significava que alguma coisa também se aproximava. Mas o quê? Tentei lembrar se havia alguma data importante após o aniversário da mãe dele, mas nada. Tinha a impressão de ter anotado algo em uma lista, mas revirei o celular, o tablet, minha mesa e não encontrei nada.
O que eu estava esquecendo?
Será que eu havia sonhado com aquilo?
Se bem que, ultimamente, eu não vinha sonhando com mais nada de que eu me lembrasse depois. Nem mesmo com Tenaz. Depois que voltei para casa com , tudo parou. Achei uma pena, porque eu queria presenciar Cora , a mãe de Ayla, prendendo James Nam, o pai de Dean. Além de todo o resto do romance, é claro. E o casamento de Tiana! Parecia tão real...
— A gente pode comprar algo que ela goste e viajar na quinta. Vou comprar as passagens hoje mesmo — disse, interrompendo meu devaneio.
— Sua mãe gosta de bolsas — comentei, enquanto passava o batom. — Vou dar uma pesquisada na internet e depois a gente pode ir comprar em algum shopping.
— Sim. Ah, já ia esquecendo de falar, contratei dois guarda-costas pra você.
— O quê? — Me virei para ele. Aquela informação era nova para mim, mas, ao mesmo tempo, era como se não fosse. Eu não tinha ideia do porquê.
— Por causa daquele garoto. Ele te atropelou uma vez, . E se ele for atrás de você de novo?
— Se ele vier, espero que esteja a pé pra eu poder dar um chute nas bolas dele. — Levantei uma perna, mostrando exatamente como faria, e riu, divertido.
— Você tá rindo, mas sabe que eu faria isso mesmo.
— Ah, eu tenho certeza. Mas vou te poupar desse trabalho e deixar isso pra Carter e Louis.
Dei de ombros, não me importando muito.
— Peça pra que eles sejam discretos. Mas eu gostaria de ao menos saber quem são.
— Eu tenho fotos, vou te mostrar.
Conheci Carter e Louis brevemente na fila da cafeteria onde eu costumava passar antes do trabalho. Eram enormes e tinham uma aparência meio intimidadora, mas foram bastante gentis. Querendo ou não, era um alívio saber que eles estariam por perto, caso eu precisasse. Pelo menos, enquanto eu estivesse fora de casa.
No edifício onde morávamos, a segurança era pesada e não costumávamos receber ninguém estranho. Na verdade, as únicas pessoas que tinham passe livre para entrar eram Kate, Andrew e . Mesmo assim, ninguém nunca aparecia sem avisar. Até os entregadores tinham um acesso controlado e sempre tínhamos que confirmar que estávamos esperando alguma entrega.
Embora trabalhasse a maior parte do tempo em casa, não gostava de trazer colegas de trabalho para seu lar. Ele era o oposto de mim, mas eu sabia que a amizade que eu havia desenvolvido com Kate e Andy não se comparava nem um pouquinho com o relacionamento estritamente profissional que mantinha com sua equipe. Ele saía com Jace e o restante do pessoal às vezes, mas eles nunca visitaram nossa casa. Por causa disso, foram raras as vezes que encontrei algum um deles.
Não que eu estivesse reclamando, é claro. Especialmente sobre o idiota do Jace Keller. Eu não queria aquele cara na minha casa de jeito nenhum, principalmente quando descobri que ele nem estava fazendo seu trabalho direito como gerente de . E minha antipatia por ele piorou mais ainda quando me contou o que ele tinha dito no telefone sobre mim e o nosso término. Babaca. Mas eu também só soube disso quando me disse que queria trocar de gerente após o lançamento do álbum. Deduzi que aquela não tinha sido a única vez que Jace tinha falado alguma besteira sem pensar, disfarçada de brincadeira.
— Não me sinto confortável trabalhando com alguém que menospreza a minha mulher — comentou.
Tínhamos acabado de almoçar e estávamos a caminho de um shopping, em busca de um presente para a mãe dele.
— Eu teria demitido ele desde quando ele te negligenciou com a história do stalker. Você aguentou muito e ainda foi simpático.
riu pelo nariz.
— Bem, agora minha simpatia se esgotou. Vou pra LA no sábado pra resolver isso e volto no domingo.
— Quer que eu vá junto?
— Não, vai ser muito cansativo pra você. Além disso, você vai pra comigo na próxima semana.
— Tudo bem — assenti, sem discutir.
Não tinha muito o que fazer lá mesmo. E eu ainda teria que trabalhar na segunda.
Quando chegamos no estacionamento do shopping, me senti um pouco ansiosa antes de sair do carro.
— Tá tudo bem? — quis saber.
— Sim, é só que... Eu não vou a um shopping desde o acidente.
— Quer tentar outro lugar?
— Não, eu tô bem. Vamos. — Saí do carro, ainda um pouco ansiosa, mas isso amenizou quando segurou minha mão.
Ele não se preocupou em usar um disfarce naquele dia. Usou apenas um boné preto, sem máscara ou óculos escuros e fomos parados cerca de três vezes por fãs pedindo autógrafos e fotos até finalmente chegarmos à loja. Não demoramos muito; saímos de lá depois que cada um comprou uma bolsa para a mãe dele — insistiu que eu não precisava, mas eu quis mesmo assim — e paramos em um quiosque para comprar gelato.
Fui gulosa e peguei um tamanho grande, que era maior do que eu pensava. Quando cheguei à metade, já não queria mais e fiquei enrolando até revirar os olhos e pegar o gelato da minha mão para terminar de comer. Sorri quando ele fez isso e enrosquei o braço no dele, enquanto caminhávamos até a saída. Tive a impressão de que estávamos sendo seguidos e, quando olhei para trás, não muito longe de nós, estavam Carter e Louis, andando lado a lado.
— Seus guarda-costas são bem legais — comentei com . — Embora Carter seja mais fechado e tenha aquela cara de assustador. Onde você encontrou eles?
— Eles costumam me acompanhar em turnê, mas quando tô aqui eu dou uma folga a eles, já que mal saio de casa. A não ser que tenha algum evento que exija proteção.
— Tipo a apresentação de Los Angeles?
— É, tipo isso. — Ele deu de ombros.
Passamos em frente a uma joalheria e parou de repente.
— O que foi? Achou alguma coisa legal? — perguntei. Não era raro ele comprar acessórios. adorava correntes discretas e anéis, embora só os usasse quando ia se apresentar, com exceção da nossa aliança.
— Olha só. Ficaria lindo no seu dedo. — Ele apontou para a imagem de um anel de platina com uma pedra azul-clara e pequenos diamantes ao redor.
Era lindo.
— Eu já tenho uma aliança. Não preciso disso.
— E se eu quiser te dar? — Ele me encarou. — Você vai negar?
— Por que isso de repente? — Eu ri. — Se eu aparecer com um anel desses, as pessoas vão pensar que noivamos.
— Então vamos comprar alianças novas e trocar de dedo, assim elas vão pensar que casamos.
— Ei, eu gosto da nossa aliança atual. Tenho apego emocional a ela. Por que você quer trocar?
— Não sei. Acho que queria algo que marcasse o nosso recomeço ou algo assim. Podemos usar as antigas como colares. Eu fico com a sua e você com a minha — ele sugeriu.
Não sei por que, mas a ideia de ficar com a aliança de me trouxe um aperto no coração. Não fazia sentido, mas mesmo assim fiquei relutante.
— Tem certeza? Acho que você nem devia gastar dinheiro com isso.
Ele suspirou, rolando os olhos de forma dramática.
— Tudo bem, você venceu. É só um item material mesmo, o que importa é você estar comigo.
Sorri, satisfeita, e voltamos a andar.
— Faça uma doação com esse dinheiro. Você pode encontrar uma boa causa ao invés de comprar anéis novos.
— Eu vou. — Ele sorriu, meio tímido. — Planejo doar a monetização do vídeo de “Red Shoes” pra um orfanato aqui na cidade. Nenhuma daquelas crianças pediu pra vir ao mundo, e não tiveram nem a chance de ter pais, já que foram abandonadas.
— É uma pena. Mas tenho certeza de que uma doação vai ser bom pra elas. Isso me deixa mais feliz do que alianças novas.
riu baixinho e se inclinou, me dando um beijo no rosto.
— Eu ainda vou te convencer, não se preocupe.
— Tente na semana que vem de novo. Quem sabe um dia você consegue — brinquei.
— Ou quando você tiver bêbada no aniversário da minha mãe. Assim é mais fácil.
Foi minha vez de rir, mas no fundo eu sabia que ele tinha razão. Eu teria que manter a mente de ferro ou conseguiria me convencer a casar com ele no dia seguinte àquele aniversário. E como eu tinha prometido não quebrar mais nenhuma promessa, não teria escapatória. Seria sim ou sim.
Mas a ideia até parecia divertida.
Capítulo 41
No dia da viagem para o aniversário da Sra. , consegui sair um pouco mais cedo do trabalho para tomar um banho rápido em casa antes de pegarmos um táxi até o aeroporto. O trajeto foi tranquilo e passei a maior parte do tempo tagarelando com sobre o novo livro de Kate.
— Lembra daquele drama que a gente viu, Taxi Driver? O Sean meio que tem o temperamento daquele cara, só que mais bem-humorado. Acho que Kim Do Ki é uma mistura dos irmãos Lee, meio taciturno como o Yeong, mas com o pavio curto como o Sean...
ouvia tudo atentamente e concordava com a cabeça de vez em quando. Às vezes, o taxista puxava assunto com nós também. Quando enfim chegamos ao aeroporto, saí do táxi primeiro enquanto colocava uma máscara preta, da mesma cor do boné que usava.
Ainda tínhamos algum tempo até o voo, então ficamos fazendo hora e comprei café pra nós dois.
— Você confirmou o horário com a sua mãe? — perguntei, fazendo barulho com o canudo em seguida, só para garantir que tinha tomado tudo. Eu amava café com leite gelado.
— Sim. Ela disse que ia esperar a gente acordada. — respondeu distraidamente, tirando a tampa do copo para pegar um cubo de gelo que estalou assim que ele o mordeu.
— Ela deve andar bem ocupada com os preparativos da festa. Mas adorei ser à fantasia. Sempre quis me vestir de Anastasia.
abriu um sorrisinho arteiro.
— Eu devia ir de Dimitri só pra combinar com você.
— Nada disso, você vai ficar um ótimo Clark Kent gostosão. E depois da festa, vou revelar sua identidade. — Fiz um movimento com as mãos em frente ao peito dele, fingindo abrir uma camisa imaginária.
— Só se eu puder tirar o seu vestido também... — ele murmurou no meu ouvido, me fazendo rir.
— Vou pensar no seu caso.
No avião, assim que tivemos um momento de privacidade, finalmente tirou a máscara e o boné. O voo até Nova Orleans levaria cerca de três horas e mais alguns minutos de táxi até a casa da mãe dele.
Peguei meu tablet e conectei nossos fones bluetooth para assistirmos os episódios novos de um drama em lançamento que havíamos começado naquela semana. Se chamava Uma Advogada Extraordinária e contava a história de uma advogada autista em seu primeiro emprego em um grande escritório de advocacia. Era doce e envolvente, com diferentes casos judiciais a cada semana.
Dois episódios depois, me recostei no ombro de e ficamos conversando baixinho.
— Minha mãe disse que meus primos Percy e Wanda estão hospedados lá — ele comentou de repente.
— Percy e Wanda? Você nunca me falou deles.
— Não tem muito o que falar. Eu passo a maior parte do tempo fingindo que eles não existem.
— Quanto amor... — brinquei. — Qual o motivo?
— Eles faziam bullying comigo.
Me afastei no mesmo instante para encará-lo.
— Como é?
riu pelo nariz, como se a informação tivesse alguma graça, mas seu olhar dizia o contrário.
— Isso durou até uns anos atrás, antes de eu te conhecer. Eu já tinha estreado como cantor, mas eles não levavam isso a sério. Na verdade, acho que todo mundo achava que não ia dar certo. Ninguém entendia por que eu tinha escolhido seguir carreira na música.
— Que idiotas. Mas olha onde você tá agora. Pode esfregar seu sucesso na cara daqueles dois.
No mesmo instante em que eu disse isso, tive uma sensação de déjà vu.
— Ah, não. A família deles é bem rica e influente na Inglaterra. Eles debocham porque são arrogantes. Não importa se eu tô ganhando dinheiro com isso ou não. Meu estilo de música definitivamente não é o que eles apreciam, principalmente as letras.
— Por que são sexy pra cacete? — brinquei. — Só sei que eu nunca vou deixar de gostar, ainda mais com essa voz maravilhosa que você tem. — Segurei o rosto dele e dei um beijo em sua bochecha.
riu, divertido, e devolveu um beijo na minha.
— Bom saber disso.
— Se eles insinuarem qualquer coisa sobre você, deixa que eu respondo.
— Faz uns anos que não os vejo. A última vez foi um ano antes de te conhecer. Nem sei como eles tão agora. Não acompanho ninguém nas redes sociais.
— Que bom que você arrumou uma namorada meio maluca então. Como aqueles idiotas ousam fazer bullying com você? Um bolinho de arroz desse? — Apertei as bochechas dele, o fazendo rir. — Eles vão ver só uma coisa...
Cerca de uma hora e meia depois, finalmente chegamos à casa da Sra. . Ela nos recebeu como sempre: com um sorriso brilhante e um abraço apertado.
Depois disso, e eu fomos direto para o quarto. Troquei de roupa, vestindo uma camisola azul-marinho, enquanto ele ia ao banheiro. Um momento depois, ouvi um gemido de reclamação, um "ah, não", vindo de trás de mim.
Me virei e encontrei me encarando com uma careta.
— O que foi? — perguntei, sem entender. — Esqueceu alguma coisa? Sua escova de dente?
— Não. É só você decidindo usar essa camisola.
— O que tem ela? — Dei uma risada, olhando para meu próprio corpo.
— Sério, ? Você sabe que é a minha favorita. Não vem se fazer de inocente agora. — Ele revirou os olhos. — Se a gente não tivesse cansado, eu não ia conseguir manter minhas mãos longe de você.
— E quem disse que você precisa? — provoquei. — Eu ainda pretendo te fazer de travesseiro gigante.
sorriu e veio até mim, me abraçando pela cintura e me tirando do chão por um instante para me beijar.
— Vamos logo pra cama antes que eu desista de ser seu travesseiro, então. Essa viagem me deixou morrendo de sono.
Eu que o diga. Eu gostava de conhecer novos lugares e viajar, mas o percurso da viagem era bem cansativo para mim, fosse de carro ou avião.
Assim, nos deitamos e nem demorou muito até cairmos no sono.
***
Acordei toda enrolada em . Minha cabeça estava em seu ombro e eu tinha uma perna e um braço em cima dele, que tinha uma mão repousando na minha coxa.
Ele ainda estava dormindo profundamente e eu o observei por alguns minutos, uma vez que minha visão se habituou à escuridão do quarto. Acho que caí no sono de novo, porque o que lembro depois foi de abrir os olhos quando tentou se levantar, enquanto eu rolava para o outro lado da cama, deitando de bruços.
— , acorda... — Ouvi ele me chamar depois de... Eu não tinha ideia de que horas eram. — Vem tomar café da manhã comigo. — Ele pôs a mão no meu braço e depositou um beijo entre as minhas omoplatas.
— Hm... Que horas são? — consegui resmungar, sem forças para abrir os olhos.
— Umas oito e pouquinho. Vem, a gente tá sem comer desde o lanche no avião.
Rolei para o lado, finalmente abrindo os olhos, e encarei o teto por alguns segundos antes de voltar a atenção para e estender um braço para que ele me ajudasse a levantar.
Peguei uma roupa na mala e, em seguida, fui até o banheiro para recuperar minha dignidade e me tornar apresentável outra vez após um rápido banho quente.
Quando chegamos à sala, a mãe dele nos cumprimentou junto de uma de suas irmãs, mas estavam de saída para resolver algo sobre a festa. Viramos em direção à cozinha, onde havia mais duas pessoas.
Uma mulher mais magra, que parecia estranhamente familiar, estava fazendo algo no liquidificador e um cara meio calvo, com uma barriguinha de cerveja, enchia uma xícara de café.
Bastou olhar uma vez para para perceber que aqueles eram Percy e Wanda.
— ! E aí! — O cara veio em direção a ele, dando uns tapinhas em seu ombro. — Como você tá?
— Bem, e você, Percy? — devolveu, por educação, se afastando discretamente de seu toque.
— Ótimo, na verdade. — Ele se virou para mim, em seguida. — E você... Deve ser .
— Isso mesmo. — Sorri, simpática, e trocamos um aperto de mão.
— Eu sou Percy. Minha tia falou muito sobre você. Vocês formam um belo casal — ele elogiou, voltando-se para mais uma vez. — Mas você anda malhando, ? Olha esses braços. Ainda bem que sua namorada te conheceu depois da puberdade. Esse cara aqui era só pele e osso — disse para mim, enquanto ria.
— Você devia se exercitar também, Percy — comentou Wanda, chegando ao nosso lado. — Oi, sou Wanda. Irmã do Percy.
— Oi, Wanda. — Sorri educadamente e me voltei para Percy. — Eu tenho certeza de que teria ficado caidinha por , mesmo na adolescência.
— Que nada — Percy debochou.
— Que isso, olha só pra essa carinha de neném. — Apertei as bochechas de com uma mão. — Eu ia ficar caidinha.
— Ah, claro. Ele sempre foi bonito. Mas era o esquisitão excluído e nem conseguia fazer amigos. Mas agora mudou, né, ? — Ele colocou uma mão no ombro dele novamente e se afastou novamente, dessa vez sem disfarçar seu desconforto.
— Pois é, tá no passado, Percy.
— Se bem que sua mãe me disse que você ainda não tem muitos amigos, mesmo agora — continuou ele. Que cara chato. — O que é estranho, já que você tem tipo, um milhão de fãs.
— não é esquisito, Percy — falei firme, disfarçando com um sorriso. Senti a mão de na minha cintura. Ele já tinha percebido que eu tinha me irritado. — Mas me conta, você é o irmão caçula da senhora ?
— Irmão? Não, sou sobrinho dela. Sou um ano mais velho que . — Ele sorriu.
— Só isso? — Abri a boca em choque. — Pela sua cara, achei que você uns dez anos mais velho. Acho que você também não é muito fã de exercícios, né?
O sorriso de Percy murchou na mesma hora e ele pigarreou. Ao nosso lado, Wanda, que até então só observava, riu.
— Tá vendo, Percy? Largue a cerveja e abrace o suco verde. É o que eu sempre digo. — Ela levantou o copo enorme de gororoba verde que quase me deu ânsia só de ver.
— Prefiro fazer caminhadas, dizem que faz bem ao coração — Percy declarou. — Além disso, a empresa ocupa muito do meu tempo.
— Que nada. Quem quer, dá seus pulos — retruquei. — é super ocupado também e mesmo quando tá em turnê, dá um jeito de se exercitar.
— E vocês dois se exercitam juntos quando você tá em casa, ? — Wanda perguntou.
— Isso aí — respondeu. — Cinco vezes na semana. vai pra academia sozinha quando tô em turnê também.
— Que legal. Eu me exercito todos os dias, como três refeições diárias e, em alguns dias da semana, só consumo sucos caseiros com frango. São nutricionalmente eficazes para mim.
— Incrível, você deve ter muita disposição — comentei. — Mas não sou muito fã desses sucos. Eu malho pra comer.
— Deu pra notar. — Wanda me encarou de cima a baixo. — Quanto você usa de calça? Um quarenta e quatro?
— Trinta e oito, por incrível que pareça. — Sorri, ainda fingindo simpatia. — Mas prefiro comprar tamanho quarenta pra não apertar na bunda, sabe como é...
— Na verdade, não sei, não. Nunca passei de um tamanho trinta e quatro.
— E você tá orgulhosa disso? — perguntei sem pensar.
Wanda riu pelo nariz e me encarou de cima a baixo outra vez.
— Não acho que eu teria uma... bunda desse tamanho nem se eu comesse toda a comida do mundo. Mas tenho sorte que a minha genética impede que isso aconteça.
Sorte? Aquela vaca tinha acabado de me chamar de gorda?
Tudo bem que eu praticamente tinha feito o mesmo com o irmão dela, mas ele estava insultando meu namorado.
— Ainda bem que tenho sorte de ter um namorado bonitão que prefere essa versão de mim. — Encarei , que sorriu com malícia.
— Ah, com certeza. — Ele deu um tapa na minha bunda, me pegando de surpresa.
— ! Não na frente da sua família — cochichei, alto o suficiente para que Wanda também ouvisse. Ele deu uma risadinha e me beijou no rosto, antes de me afastar para fazer seu prato. Wanda tinha uma expressão de nojo no rosto, e sorri para ela mais uma vez.
— Eu costumava ser bem magra, sabe? Mas prefiro essa versão atual de mim mesma — acrescentei, antes de me afastar.
Felizmente, aquela conversa não se estendeu.
***
de Clark Kent era uma delicinha.
Precisei me esforçar para desviar o olhar dele algumas vezes durante a noite, porque ele parecia mais bonito que o normal. Felizmente, acabei me distraindo dançando e tomando drinks com a Sra. e suas irmãs, o que me impediu de arrastar até o quarto e desistir da festa.
Ele ficou sentado numa mesa atrás de um arbusto e eu sabia que estava evitando muito contato social depois de falar com dezenas de pessoas, desde parentes a amigos de sua mãe. Depois de um tempo, dei uma corridinha animada até ele e me sentei em seu colo, dando um beijinho em sua bochecha que o fez rir.
Eu estava beeeem alegre depois de uns drinks.
— Você não vai dançar comigo? — perguntei, ajeitando uma mecha de cabelo dele. Estava maior, de um jeito que o deixava sexy. Tipo aqueles caras que você já acha bonito, mas aí ele aparece com algo diferente que você não sabe o que é, até perceber que era só um corte ou penteado diferente.
— Que tal a gente ir beber um pouco de água primeiro? — ele sugeriu.
— Tem razão. Aí vamos pegar mais uns drinks. Quanto você bebeu?
— Umas duas doses de whisky.
— Você precisa experimentar uns drinks então. Aquele barman é ótimo — comentei.
— Ótimo, é? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ele faz umas bebidas legais. Falei que ia voltar com meu namorado. — Pisquei para ele, que estreitou os olhos para mim.
com ciúmes de pessoas aleatórias era uma gracinha.
Depois de um pouco de água, arrastei ele de volta ao quiosque de bebidas e tomamos dois drinks cada antes de irmos para a pista de dança. Ele não era do tipo que dançava, a menos que estivéssemos sozinhos, mas acho que o álcool o tinha animado o suficiente para se soltar.
De repente, me girou e eu tive outro déjà vu.
Eu estava em um parque, dançando com ele na chuva, mas quando eu virava ele não estava mais lá. Aquilo me deu um susto, mas quando me dei conta, estava me puxando de volta de encontro a seu peito, rindo e me balançando de um lado para o outro numa versão improvisada e nada a ver com a coreografia original de “The Time of My Life” de Dirty Dancing, que tocava naquele momento.
Sua risada me contagiou e logo esqueci o que estava pensando. A música encerrou e eu passei meus braços ao redor de seu pescoço, puxando-o para um beijo suave.
Cantamos “Feliz Aniversário” para a mãe dele com os convidados alguns minutos depois e, mesmo bêbada, não deixei de aproveitar a oportunidade de encher dois pratos com salgados e docinhos, além do bolo de chocolate delicioso que a Sra. havia encomendado. Me senti no céu e eu nem me lembrava da última vez que tinha comido tanto assim.
Em nossa própria bolha, e eu começamos uma degustação dos docinhos da festa como se fôssemos especialistas naquilo. De longe, avistei Wanda em sua fantasia de Tinker Bell olhando para nós com espanto enquanto nos enchíamos de comida e, quando eu disse a , ele deu uma risada alta, jogando a cabeça para trás.
Meia hora mais tarde, nos despedimos da mãe dele e subimos para o quarto.
Tirei os sapatos, grata pelo alívio que senti nos meus pés após horas dançando, e comecei a desfazer meu cabelo, que estava no estilo de Anastasia, combinando com seu vestido azul-marinho brilhante.
se livrou das próprias roupas rapidamente, ficando apenas de cueca, e pedi ajuda com o vestido quando o zíper emperrou. Logo ele caiu aos meus pés como um mar brilhante, e eu fiquei só de calcinha.
Me virei para , com uma mão em seu peito.
— Banho?
— Que tal depois? — Ele sugeriu e me jogou na cama, vindo para cima de mim como um predador atrás de sua presa. Eu ri alto, achando aquilo engraçado e quando ele chegou perto o suficiente, usei minhas pernas para jogá-lo para o lado, invertendo nossas posições.
— Quem disse que você tá no comando, gatinho? — Dei um beijo em seu pescoço, bem onde a tatuagem começava.
— Que mandona... Quer que eu fique de joelhos por você? — Ofereceu, suas mãos passeando lentamente pelo meu corpo, parando em meus seios.
— Que tentador... Mas não, quero brincar um pouquinho com você antes. — Deslizei minha mão até sua cueca, puxando seu membro para fora.
— ...
— O quê? Gostaria de alguma coisa, Sr. ? Aproveita que hoje eu tô boazinha — brinquei, movimentando a mão em seu comprimento.
— Sua boca — ele falou, sem pestanejar. — E depois quero enfiar a cara no meio das suas pernas.
— Que generoso... — Sorri. — Algumas palavrinhas mágicas?
— Vai logo, gostosa. — Ele deu um tapa na minha bunda, me fazendo rir.
Não eram as palavras que eu estava esperando, mas funcionou mesmo assim. O tomei com a boca no momento seguinte e fiquei satisfeita com os suspiros que arranquei dele. colocou uma mão no meu cabelo e o agarrou, mas não puxou nem tentou controlar meus movimentos. No entanto, quando foi demais para ele, ele me fez parar.
— Eu não acabei ainda — reclamei.
— Eu sei, mas quero prolongar — esclareceu, levantando-se rapidamente para se livrar de sua cueca e então da minha calcinha, que logo foi parar em algum lugar qualquer do quarto.
Lá fora, no jardim, a música estava alta o suficiente para que ninguém nos ouvisse. se inclinou sobre mim e me beijou por um instante antes de descer com a boca até meus seios, dedicando-se um pouco ali, enquanto uma de suas mãos seguia até o meio das minhas pernas. Não durou muito, no entanto. Quando senti o calor em meu corpo começar a crescer, ele se afastou e substituiu a mão pela boca entre minhas pernas. Involuntariamente, tentei me encolher, mas segurou firme em meus joelhos, me deixando completamente a sua mercê.
Me derramei em sua boca pouco depois e senti minhas pernas virarem gelatina, cada parte do meu corpo parecendo mais sensível que o normal. deu uma risadinha vitoriosa e se posicionou contra mim, aproveitando a onda de sensibilidade que ele sabia que havia provocado. Não havia outra pessoa no mundo que conhecesse meu corpo tão bem quanto ele.
Ele deslizou para dentro de mim de uma vez só e dei boas-vindas à pressão entre nossos corpos.
Já tínhamos feito aquilo centenas de vezes, mas sempre parecia diferente, mesmo com toda a familiaridade que tínhamos. Nossos corpos se movimentaram em sincronia e senti minha respiração falhar algumas vezes até que, enfim, viemos juntos.
beijou meu pescoço algumas vezes, sua respiração também ofegante, e um sorriso se formou em meu rosto. Ele saiu de mim um instante depois e passamos alguns minutos enrolando na cama até finalmente seguirmos para tomar um banho.
A ideia inicial era apenas tomar banho, mas no fim não foi só isso que aconteceu.
Quando dei por mim, eu estava com as mãos apoiadas na parede do banheiro enquanto me penetrava por trás. Pelo visto, a quantidade de açúcar que tínhamos comigo havíamos nos dado alguma energia.
Nada como um pouco de cardio para fazer bem ao coração.
Depois que acabamos o banho — um banho de verdade, dessa vez — nos vestimos e fomos direto para a cama.
Senti meus músculos doerem de um jeito bom, e a cama macia de foi um alívio. Assim como quando me aconcheguei ao meu travesseiro gigante favorito, vulgo ele.
Caí no sono alguns minutos depois, me sentindo feliz e tranquila como nunca.
tinha esse efeito em mim.
— Lembra daquele drama que a gente viu, Taxi Driver? O Sean meio que tem o temperamento daquele cara, só que mais bem-humorado. Acho que Kim Do Ki é uma mistura dos irmãos Lee, meio taciturno como o Yeong, mas com o pavio curto como o Sean...
ouvia tudo atentamente e concordava com a cabeça de vez em quando. Às vezes, o taxista puxava assunto com nós também. Quando enfim chegamos ao aeroporto, saí do táxi primeiro enquanto colocava uma máscara preta, da mesma cor do boné que usava.
Ainda tínhamos algum tempo até o voo, então ficamos fazendo hora e comprei café pra nós dois.
— Você confirmou o horário com a sua mãe? — perguntei, fazendo barulho com o canudo em seguida, só para garantir que tinha tomado tudo. Eu amava café com leite gelado.
— Sim. Ela disse que ia esperar a gente acordada. — respondeu distraidamente, tirando a tampa do copo para pegar um cubo de gelo que estalou assim que ele o mordeu.
— Ela deve andar bem ocupada com os preparativos da festa. Mas adorei ser à fantasia. Sempre quis me vestir de Anastasia.
abriu um sorrisinho arteiro.
— Eu devia ir de Dimitri só pra combinar com você.
— Nada disso, você vai ficar um ótimo Clark Kent gostosão. E depois da festa, vou revelar sua identidade. — Fiz um movimento com as mãos em frente ao peito dele, fingindo abrir uma camisa imaginária.
— Só se eu puder tirar o seu vestido também... — ele murmurou no meu ouvido, me fazendo rir.
— Vou pensar no seu caso.
No avião, assim que tivemos um momento de privacidade, finalmente tirou a máscara e o boné. O voo até Nova Orleans levaria cerca de três horas e mais alguns minutos de táxi até a casa da mãe dele.
Peguei meu tablet e conectei nossos fones bluetooth para assistirmos os episódios novos de um drama em lançamento que havíamos começado naquela semana. Se chamava Uma Advogada Extraordinária e contava a história de uma advogada autista em seu primeiro emprego em um grande escritório de advocacia. Era doce e envolvente, com diferentes casos judiciais a cada semana.
Dois episódios depois, me recostei no ombro de e ficamos conversando baixinho.
— Minha mãe disse que meus primos Percy e Wanda estão hospedados lá — ele comentou de repente.
— Percy e Wanda? Você nunca me falou deles.
— Não tem muito o que falar. Eu passo a maior parte do tempo fingindo que eles não existem.
— Quanto amor... — brinquei. — Qual o motivo?
— Eles faziam bullying comigo.
Me afastei no mesmo instante para encará-lo.
— Como é?
riu pelo nariz, como se a informação tivesse alguma graça, mas seu olhar dizia o contrário.
— Isso durou até uns anos atrás, antes de eu te conhecer. Eu já tinha estreado como cantor, mas eles não levavam isso a sério. Na verdade, acho que todo mundo achava que não ia dar certo. Ninguém entendia por que eu tinha escolhido seguir carreira na música.
— Que idiotas. Mas olha onde você tá agora. Pode esfregar seu sucesso na cara daqueles dois.
No mesmo instante em que eu disse isso, tive uma sensação de déjà vu.
— Ah, não. A família deles é bem rica e influente na Inglaterra. Eles debocham porque são arrogantes. Não importa se eu tô ganhando dinheiro com isso ou não. Meu estilo de música definitivamente não é o que eles apreciam, principalmente as letras.
— Por que são sexy pra cacete? — brinquei. — Só sei que eu nunca vou deixar de gostar, ainda mais com essa voz maravilhosa que você tem. — Segurei o rosto dele e dei um beijo em sua bochecha.
riu, divertido, e devolveu um beijo na minha.
— Bom saber disso.
— Se eles insinuarem qualquer coisa sobre você, deixa que eu respondo.
— Faz uns anos que não os vejo. A última vez foi um ano antes de te conhecer. Nem sei como eles tão agora. Não acompanho ninguém nas redes sociais.
— Que bom que você arrumou uma namorada meio maluca então. Como aqueles idiotas ousam fazer bullying com você? Um bolinho de arroz desse? — Apertei as bochechas dele, o fazendo rir. — Eles vão ver só uma coisa...
Cerca de uma hora e meia depois, finalmente chegamos à casa da Sra. . Ela nos recebeu como sempre: com um sorriso brilhante e um abraço apertado.
Depois disso, e eu fomos direto para o quarto. Troquei de roupa, vestindo uma camisola azul-marinho, enquanto ele ia ao banheiro. Um momento depois, ouvi um gemido de reclamação, um "ah, não", vindo de trás de mim.
Me virei e encontrei me encarando com uma careta.
— O que foi? — perguntei, sem entender. — Esqueceu alguma coisa? Sua escova de dente?
— Não. É só você decidindo usar essa camisola.
— O que tem ela? — Dei uma risada, olhando para meu próprio corpo.
— Sério, ? Você sabe que é a minha favorita. Não vem se fazer de inocente agora. — Ele revirou os olhos. — Se a gente não tivesse cansado, eu não ia conseguir manter minhas mãos longe de você.
— E quem disse que você precisa? — provoquei. — Eu ainda pretendo te fazer de travesseiro gigante.
sorriu e veio até mim, me abraçando pela cintura e me tirando do chão por um instante para me beijar.
— Vamos logo pra cama antes que eu desista de ser seu travesseiro, então. Essa viagem me deixou morrendo de sono.
Eu que o diga. Eu gostava de conhecer novos lugares e viajar, mas o percurso da viagem era bem cansativo para mim, fosse de carro ou avião.
Assim, nos deitamos e nem demorou muito até cairmos no sono.
Acordei toda enrolada em . Minha cabeça estava em seu ombro e eu tinha uma perna e um braço em cima dele, que tinha uma mão repousando na minha coxa.
Ele ainda estava dormindo profundamente e eu o observei por alguns minutos, uma vez que minha visão se habituou à escuridão do quarto. Acho que caí no sono de novo, porque o que lembro depois foi de abrir os olhos quando tentou se levantar, enquanto eu rolava para o outro lado da cama, deitando de bruços.
— , acorda... — Ouvi ele me chamar depois de... Eu não tinha ideia de que horas eram. — Vem tomar café da manhã comigo. — Ele pôs a mão no meu braço e depositou um beijo entre as minhas omoplatas.
— Hm... Que horas são? — consegui resmungar, sem forças para abrir os olhos.
— Umas oito e pouquinho. Vem, a gente tá sem comer desde o lanche no avião.
Rolei para o lado, finalmente abrindo os olhos, e encarei o teto por alguns segundos antes de voltar a atenção para e estender um braço para que ele me ajudasse a levantar.
Peguei uma roupa na mala e, em seguida, fui até o banheiro para recuperar minha dignidade e me tornar apresentável outra vez após um rápido banho quente.
Quando chegamos à sala, a mãe dele nos cumprimentou junto de uma de suas irmãs, mas estavam de saída para resolver algo sobre a festa. Viramos em direção à cozinha, onde havia mais duas pessoas.
Uma mulher mais magra, que parecia estranhamente familiar, estava fazendo algo no liquidificador e um cara meio calvo, com uma barriguinha de cerveja, enchia uma xícara de café.
Bastou olhar uma vez para para perceber que aqueles eram Percy e Wanda.
— ! E aí! — O cara veio em direção a ele, dando uns tapinhas em seu ombro. — Como você tá?
— Bem, e você, Percy? — devolveu, por educação, se afastando discretamente de seu toque.
— Ótimo, na verdade. — Ele se virou para mim, em seguida. — E você... Deve ser .
— Isso mesmo. — Sorri, simpática, e trocamos um aperto de mão.
— Eu sou Percy. Minha tia falou muito sobre você. Vocês formam um belo casal — ele elogiou, voltando-se para mais uma vez. — Mas você anda malhando, ? Olha esses braços. Ainda bem que sua namorada te conheceu depois da puberdade. Esse cara aqui era só pele e osso — disse para mim, enquanto ria.
— Você devia se exercitar também, Percy — comentou Wanda, chegando ao nosso lado. — Oi, sou Wanda. Irmã do Percy.
— Oi, Wanda. — Sorri educadamente e me voltei para Percy. — Eu tenho certeza de que teria ficado caidinha por , mesmo na adolescência.
— Que nada — Percy debochou.
— Que isso, olha só pra essa carinha de neném. — Apertei as bochechas de com uma mão. — Eu ia ficar caidinha.
— Ah, claro. Ele sempre foi bonito. Mas era o esquisitão excluído e nem conseguia fazer amigos. Mas agora mudou, né, ? — Ele colocou uma mão no ombro dele novamente e se afastou novamente, dessa vez sem disfarçar seu desconforto.
— Pois é, tá no passado, Percy.
— Se bem que sua mãe me disse que você ainda não tem muitos amigos, mesmo agora — continuou ele. Que cara chato. — O que é estranho, já que você tem tipo, um milhão de fãs.
— não é esquisito, Percy — falei firme, disfarçando com um sorriso. Senti a mão de na minha cintura. Ele já tinha percebido que eu tinha me irritado. — Mas me conta, você é o irmão caçula da senhora ?
— Irmão? Não, sou sobrinho dela. Sou um ano mais velho que . — Ele sorriu.
— Só isso? — Abri a boca em choque. — Pela sua cara, achei que você uns dez anos mais velho. Acho que você também não é muito fã de exercícios, né?
O sorriso de Percy murchou na mesma hora e ele pigarreou. Ao nosso lado, Wanda, que até então só observava, riu.
— Tá vendo, Percy? Largue a cerveja e abrace o suco verde. É o que eu sempre digo. — Ela levantou o copo enorme de gororoba verde que quase me deu ânsia só de ver.
— Prefiro fazer caminhadas, dizem que faz bem ao coração — Percy declarou. — Além disso, a empresa ocupa muito do meu tempo.
— Que nada. Quem quer, dá seus pulos — retruquei. — é super ocupado também e mesmo quando tá em turnê, dá um jeito de se exercitar.
— E vocês dois se exercitam juntos quando você tá em casa, ? — Wanda perguntou.
— Isso aí — respondeu. — Cinco vezes na semana. vai pra academia sozinha quando tô em turnê também.
— Que legal. Eu me exercito todos os dias, como três refeições diárias e, em alguns dias da semana, só consumo sucos caseiros com frango. São nutricionalmente eficazes para mim.
— Incrível, você deve ter muita disposição — comentei. — Mas não sou muito fã desses sucos. Eu malho pra comer.
— Deu pra notar. — Wanda me encarou de cima a baixo. — Quanto você usa de calça? Um quarenta e quatro?
— Trinta e oito, por incrível que pareça. — Sorri, ainda fingindo simpatia. — Mas prefiro comprar tamanho quarenta pra não apertar na bunda, sabe como é...
— Na verdade, não sei, não. Nunca passei de um tamanho trinta e quatro.
— E você tá orgulhosa disso? — perguntei sem pensar.
Wanda riu pelo nariz e me encarou de cima a baixo outra vez.
— Não acho que eu teria uma... bunda desse tamanho nem se eu comesse toda a comida do mundo. Mas tenho sorte que a minha genética impede que isso aconteça.
Sorte? Aquela vaca tinha acabado de me chamar de gorda?
Tudo bem que eu praticamente tinha feito o mesmo com o irmão dela, mas ele estava insultando meu namorado.
— Ainda bem que tenho sorte de ter um namorado bonitão que prefere essa versão de mim. — Encarei , que sorriu com malícia.
— Ah, com certeza. — Ele deu um tapa na minha bunda, me pegando de surpresa.
— ! Não na frente da sua família — cochichei, alto o suficiente para que Wanda também ouvisse. Ele deu uma risadinha e me beijou no rosto, antes de me afastar para fazer seu prato. Wanda tinha uma expressão de nojo no rosto, e sorri para ela mais uma vez.
— Eu costumava ser bem magra, sabe? Mas prefiro essa versão atual de mim mesma — acrescentei, antes de me afastar.
Felizmente, aquela conversa não se estendeu.
de Clark Kent era uma delicinha.
Precisei me esforçar para desviar o olhar dele algumas vezes durante a noite, porque ele parecia mais bonito que o normal. Felizmente, acabei me distraindo dançando e tomando drinks com a Sra. e suas irmãs, o que me impediu de arrastar até o quarto e desistir da festa.
Ele ficou sentado numa mesa atrás de um arbusto e eu sabia que estava evitando muito contato social depois de falar com dezenas de pessoas, desde parentes a amigos de sua mãe. Depois de um tempo, dei uma corridinha animada até ele e me sentei em seu colo, dando um beijinho em sua bochecha que o fez rir.
Eu estava beeeem alegre depois de uns drinks.
— Você não vai dançar comigo? — perguntei, ajeitando uma mecha de cabelo dele. Estava maior, de um jeito que o deixava sexy. Tipo aqueles caras que você já acha bonito, mas aí ele aparece com algo diferente que você não sabe o que é, até perceber que era só um corte ou penteado diferente.
— Que tal a gente ir beber um pouco de água primeiro? — ele sugeriu.
— Tem razão. Aí vamos pegar mais uns drinks. Quanto você bebeu?
— Umas duas doses de whisky.
— Você precisa experimentar uns drinks então. Aquele barman é ótimo — comentei.
— Ótimo, é? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ele faz umas bebidas legais. Falei que ia voltar com meu namorado. — Pisquei para ele, que estreitou os olhos para mim.
com ciúmes de pessoas aleatórias era uma gracinha.
Depois de um pouco de água, arrastei ele de volta ao quiosque de bebidas e tomamos dois drinks cada antes de irmos para a pista de dança. Ele não era do tipo que dançava, a menos que estivéssemos sozinhos, mas acho que o álcool o tinha animado o suficiente para se soltar.
De repente, me girou e eu tive outro déjà vu.
Eu estava em um parque, dançando com ele na chuva, mas quando eu virava ele não estava mais lá. Aquilo me deu um susto, mas quando me dei conta, estava me puxando de volta de encontro a seu peito, rindo e me balançando de um lado para o outro numa versão improvisada e nada a ver com a coreografia original de “The Time of My Life” de Dirty Dancing, que tocava naquele momento.
Sua risada me contagiou e logo esqueci o que estava pensando. A música encerrou e eu passei meus braços ao redor de seu pescoço, puxando-o para um beijo suave.
Cantamos “Feliz Aniversário” para a mãe dele com os convidados alguns minutos depois e, mesmo bêbada, não deixei de aproveitar a oportunidade de encher dois pratos com salgados e docinhos, além do bolo de chocolate delicioso que a Sra. havia encomendado. Me senti no céu e eu nem me lembrava da última vez que tinha comido tanto assim.
Em nossa própria bolha, e eu começamos uma degustação dos docinhos da festa como se fôssemos especialistas naquilo. De longe, avistei Wanda em sua fantasia de Tinker Bell olhando para nós com espanto enquanto nos enchíamos de comida e, quando eu disse a , ele deu uma risada alta, jogando a cabeça para trás.
Meia hora mais tarde, nos despedimos da mãe dele e subimos para o quarto.
Tirei os sapatos, grata pelo alívio que senti nos meus pés após horas dançando, e comecei a desfazer meu cabelo, que estava no estilo de Anastasia, combinando com seu vestido azul-marinho brilhante.
se livrou das próprias roupas rapidamente, ficando apenas de cueca, e pedi ajuda com o vestido quando o zíper emperrou. Logo ele caiu aos meus pés como um mar brilhante, e eu fiquei só de calcinha.
Me virei para , com uma mão em seu peito.
— Banho?
— Que tal depois? — Ele sugeriu e me jogou na cama, vindo para cima de mim como um predador atrás de sua presa. Eu ri alto, achando aquilo engraçado e quando ele chegou perto o suficiente, usei minhas pernas para jogá-lo para o lado, invertendo nossas posições.
— Quem disse que você tá no comando, gatinho? — Dei um beijo em seu pescoço, bem onde a tatuagem começava.
— Que mandona... Quer que eu fique de joelhos por você? — Ofereceu, suas mãos passeando lentamente pelo meu corpo, parando em meus seios.
— Que tentador... Mas não, quero brincar um pouquinho com você antes. — Deslizei minha mão até sua cueca, puxando seu membro para fora.
— ...
— O quê? Gostaria de alguma coisa, Sr. ? Aproveita que hoje eu tô boazinha — brinquei, movimentando a mão em seu comprimento.
— Sua boca — ele falou, sem pestanejar. — E depois quero enfiar a cara no meio das suas pernas.
— Que generoso... — Sorri. — Algumas palavrinhas mágicas?
— Vai logo, gostosa. — Ele deu um tapa na minha bunda, me fazendo rir.
Não eram as palavras que eu estava esperando, mas funcionou mesmo assim. O tomei com a boca no momento seguinte e fiquei satisfeita com os suspiros que arranquei dele. colocou uma mão no meu cabelo e o agarrou, mas não puxou nem tentou controlar meus movimentos. No entanto, quando foi demais para ele, ele me fez parar.
— Eu não acabei ainda — reclamei.
— Eu sei, mas quero prolongar — esclareceu, levantando-se rapidamente para se livrar de sua cueca e então da minha calcinha, que logo foi parar em algum lugar qualquer do quarto.
Lá fora, no jardim, a música estava alta o suficiente para que ninguém nos ouvisse. se inclinou sobre mim e me beijou por um instante antes de descer com a boca até meus seios, dedicando-se um pouco ali, enquanto uma de suas mãos seguia até o meio das minhas pernas. Não durou muito, no entanto. Quando senti o calor em meu corpo começar a crescer, ele se afastou e substituiu a mão pela boca entre minhas pernas. Involuntariamente, tentei me encolher, mas segurou firme em meus joelhos, me deixando completamente a sua mercê.
Me derramei em sua boca pouco depois e senti minhas pernas virarem gelatina, cada parte do meu corpo parecendo mais sensível que o normal. deu uma risadinha vitoriosa e se posicionou contra mim, aproveitando a onda de sensibilidade que ele sabia que havia provocado. Não havia outra pessoa no mundo que conhecesse meu corpo tão bem quanto ele.
Ele deslizou para dentro de mim de uma vez só e dei boas-vindas à pressão entre nossos corpos.
Já tínhamos feito aquilo centenas de vezes, mas sempre parecia diferente, mesmo com toda a familiaridade que tínhamos. Nossos corpos se movimentaram em sincronia e senti minha respiração falhar algumas vezes até que, enfim, viemos juntos.
beijou meu pescoço algumas vezes, sua respiração também ofegante, e um sorriso se formou em meu rosto. Ele saiu de mim um instante depois e passamos alguns minutos enrolando na cama até finalmente seguirmos para tomar um banho.
A ideia inicial era apenas tomar banho, mas no fim não foi só isso que aconteceu.
Quando dei por mim, eu estava com as mãos apoiadas na parede do banheiro enquanto me penetrava por trás. Pelo visto, a quantidade de açúcar que tínhamos comigo havíamos nos dado alguma energia.
Nada como um pouco de cardio para fazer bem ao coração.
Depois que acabamos o banho — um banho de verdade, dessa vez — nos vestimos e fomos direto para a cama.
Senti meus músculos doerem de um jeito bom, e a cama macia de foi um alívio. Assim como quando me aconcheguei ao meu travesseiro gigante favorito, vulgo ele.
Caí no sono alguns minutos depois, me sentindo feliz e tranquila como nunca.
tinha esse efeito em mim.
Capítulo 42
— Oi. — Ela sorriu, bem-humorada. — Como foi a viagem?
— Tranquila, mas um pouco longa. — Deixei a mala para trás e fui até ela. — Eu tava doido pra chegar em casa.
— Ah, é? E por que a pressa?
— Porque você tá aqui. — A abracei por trás, dando um beijo em seu pescoço.
colocou o último rolinho de kimbap na pilha e se virou para mim.
— E como foi lá?
— Bem. Poderia ter sido resolvido online se eu não tivesse que assinar uma papelada. A reunião em si foi rápida, mas meu voo só saía depois de meio-dia.
assentiu, mas já sabia daquilo. Eu vinha dando notícias a ela por mensagens, mas sem detalhes.
— Eu assisti três episódios de Taxi Driver no avião porque fiquei entediada. Você vai ter que me acompanhar depois.
— Que bom que já tem todos então. — Sorri. — Vou assistir hoje à noite.
— Ótimo, porque Kate enviou três capítulos novos de Oblíquo pra mim e preciso ler.
— Hoje é domingo, .
— E daí? Meu cérebro não aguenta de curiosidade.
Deixei uma risadinha escapar e selei nossos lábios.
— Vou tomar banho e depois venho jantar.
— Tá bom. Não esquece de levar a mala pro quarto.
— Sim, senhora.
No nosso quarto, deixei a mala no closet para desfazer depois e segui para o banheiro. Encarei meu próprio reflexo, notando que ainda havia um sorriso idiota no rosto. Era bom voltar a uma rotina, especialmente uma que envolvia . Meu coração estava um pouquinho mais cheio de felicidade desde o momento em que ela decidiu voltar para casa comigo, alguns dias atrás.
Além disso, era um alívio ver superando a perda do bebê da forma como deveria ser: comigo.
Os poucos dias que fiquei sem ela foram angustiantes e só me fez ter ainda mais certeza de nunca querer perdê-la outra vez.
Nós éramos um só. Éramos parceiros. Uma dupla, que funcionava perfeitamente. Ficar sem era como arrancar um pedaço de mim; sua ausência era como um membro fantasma. Eu sabia que ela não estava lá, mas aquele era o nosso lar, e cada cantinho guardava um registro dela.
Eu era um idiota apaixonado mesmo após três anos de relacionamento e dois morando juntos. Honestamente, nossa dinâmica como casal funcionava tão bem que eu acho que me apaixonava um pouco mais a cada dia. Era óbvio que tínhamos nossos momentos de briga, mas eu não conseguia me lembrar de nenhum, já que sempre virava algo sem importância depois.
Não era da nossa natureza ultrapassar os limites do outro, tampouco desrespeitar. E quando decidimos morar juntos, propôs que sempre falássemos se algo nos incomodava, fosse em relação aos outros ou a nós mesmos.
Eu sabia exatamente de onde vinha aquilo. Seus pais tiveram um divórcio terrível quando ela ainda era adolescente e, às vezes, pareciam estranhos dentro de casa. tinha problemas com os dois e fazia anos que ela e haviam cortado relações com eles.
Eu também tinha problemas com meu pai e, embora ainda falasse com ele algumas vezes por ano, éramos definitivamente distantes. Mas assim era mais saudável. Eu não tinha paciência nem disposição para lidar com as atitudes dele e, certamente, não havia esquecido que ele havia traído a minha mãe, mesmo ela tendo superado isso há muito tempo.
Felizmente, ele também morava do outro lado do país e todo o contato que tínhamos se resumia a uma ligação diplomática em datas comemorativas. nem mesmo o conhecia, e eu acho que preferia que continuasse assim. Ele não era o tipo de pessoa que ela — muito menos eu — gostava de ter por perto.
Assim, em nosso relacionamento, tentávamos nos comunicar ao máximo para evitar possíveis conflitos. A única vez em que omiti algo que ela deveria saber foi durante sua amnésia pós-acidente, e as consequências foram graves: um término e a perspectiva de perdê-la para sempre.
Eu não queria reviver essa experiência nunca mais.
Na segunda-feira de manhã, me ofereceu seu carro.
— Fica com ele, pro caso de você precisar. Vou almoçar com Andy e Kate hoje e não vou usar ele.
Eu havia levado o meu para a oficina antes de viajarmos, mas ainda não estava pronto. Honestamente, acho que a culpa era minha, já que falei pro mecânico que ia viajar e não mencionei quando voltaria. Quando entrei em contato, ele disse que o consertaria hoje e ficaria pronto no fim da tarde.
No entanto, eu tinha uma reunião no trabalho e minha opções eram o carro de ou pegar um táxi sempre que precisasse me locomover.
Felizmente, era prática por nós dois.
— Vou te levar pro trabalho, então. Me avisa quando for pra te buscar.
— Tá. Mas vamos passar naquela cafeteria que eu costumo ir, preciso comprar umas coisas.
Dito e feito, algum tempo depois saímos da cafeteria com meia dúzia de bebidas e então estávamos de volta na estrada. me indicou um atalho e nós o pegamos, no entanto, notei algo estranho no retrovisor. Um carro branco, de vidros escuros, nos seguia. Pensei que fosse só coincidência, mas para testar, dei a voltar em um quarteirão duas vezes.
Abri um sorriso irônico quando ele continuou nos seguindo e, um instante depois, meu celular tocou com uma ligação de Louis. atendeu e colocou no viva-voz.
— Senhor, localizamos Roy Basset e ele está seguindo vocês.
— Como é? — ela perguntou, olhando imediatamente para trás. — É o carro branco?
— Sim — Louis e eu respondemos ao mesmo tempo.
— Foi por isso que você passou pelo mesmo quarteirão duas vezes?
— Sim, vou tentar despistar ele. Vocês estão perto?
— Logo atrás, senhor — Louis respondeu.
— Certo. — Desliguei. — Vamos lá.
Acelerei o carro e agradeci mentalmente por não haver muito trânsito naquele momento.
— Toma cuidado, — comentou. — A gente tá perto da editora, tenta virar à direita e então à esquerda, dois quarteirões depois.
— Beleza. — Acelerei mais, sempre de olho no retrovisor. — Liga pra polícia, . Vou tentar levar esse idiota até a editora.
Ela assentiu e entrou em contato enquanto eu continuava a desviar do carro. Estávamos chegando perto da editora e eu já conseguia avistar meus guarda-costas atrás do carro branco, quando, de repente, ele acelerou de uma vez e conseguiu bater na traseira do carro. Foi quando entendi sua intenção e tive uma ideia.
— , vou tentar um coisa, então não surta — falei, logo após ela gritar e xingar Roy pela batida no carro.
— Como assim, não surtar? O que você tá pensando, ?
Roy estava tentando bater em nós propositalmente para provocar um acidente e não havia muitas opções para mim.
— Segura firme — foi tudo o que eu disse.
Então fingi perder o controle do carro em direção a um poste e, no último segundo, girei o volante de uma vez, parando o carro na posição contrária.
A batida veio logo depois. Não em nós, mas nele.
— Meu Deus! — arregalou os olhos ao ver a cena, e notei que ela tremia.
O carro de Roy estava completamente destruído na frente, mas ele estava acordado e tentando sair do veículo. Desci para ajudar o idiota e pedi a que chamasse uma ambulância. Havia um corte em sua testa e ele reclamou de dor no ombro, mas permaneceu consciente até meus guarda-costas e a polícia chegarem logo depois.
Roy desmaiou por alguns minutos quando um policial se aproximou, mas retomou a consciência e gemeu de dor quando os socorristas apareceram. Seguimos para o hospital e, enquanto ele era examinado, e eu demos nosso depoimento à polícia, contando o que havia acontecido.
Consegui convencê-la a voltar para o trabalho logo após o policial nos dispensar. Roy ficaria sob vigilância no hospital antes de ser liberado para ir à delegacia. Ele tinha que quebrado uma clavícula e duas costelas, e precisaria ficar mais algumas horas em observação.
Deixei no trabalho e segui para a minha reunião, já um pouco atrasado.
— Você demorou. Achei que não ia vir. Aconteceu alguma coisa? — Jace perguntou, assim que entrei na sala onde ele e o resto da equipe estavam.
— Tive um pequeno imprevisto no trânsito — foi tudo o que falei. — Desculpem o atraso.
A reunião durou cerca de quarenta minutos e serviu basicamente para acertar os últimos detalhes do meu álbum digital, que seria lançado no final da semana, e da gravação do videoclipe de “Red Shoes”, que aconteceria no dia seguinte. Minha equipe teria um dia para editar e liberar o vídeo. A filmagem era para ser simples, sem grandes efeitos especiais, e seria gravada em poucos ângulos de uma vez só, então meu objetivo era fazer tudo em um take.
— Então a cor do álbum será verde e vamos ter mais duas faixas? — a designer da equipe perguntou.
— Isso aí — confirmei.
Quando tudo terminou, voltei para casa e, algumas horas depois, recebi uma ligação do detetive responsável pelo caso de Roy. Ele havia confessado no hospital que a intenção era atacar , mas ainda seria interrogado sobre os outros atos que cometeu como stalker, incluindo os vídeos obscenos que enviou para ela.
Antes de ir para a delegacia, passei na editora para buscá-la e, alguns minutos mais tarde, nós dois estávamos assistindo ao interrogatório de Roy através de uma salinha de observação.
— Tem algo estranho — comentou, após alguns minutos. — O que é aquilo na mão dele?
— Parece que ele tem uma cicatriz na mão direita — falei, e franziu o cenho. — O que foi?
Em resposta, ela se dirigiu ao policial que também estava na sala e solicitou permissão para entrar.
— , o que você tá-
Mas ela saiu antes que eu terminasse a pergunta. Um segundo depois, apareceu na sala de interrogatório. Sem mais delongas, pediu para Roy assinar seu nome em um papel.
— Não posso fazer isso.
— Por que não?
— Não consigo escrever com o braço imobilizado. — Ele apontou com a cabeça.
— Tá dizendo que é canhoto? — perguntou, trocando um olhar com o detetive.
— Sim, mas o que isso tem a ver? Veio aqui só pra me perguntar isso?
— Onde conseguiu essa cicatriz? — Ela apontou para a mão livre dele. — Parece antiga.
— Foi uma queimadura, quando eu era adolescente — Roy respondeu, parecendo meio confuso com a pergunta repentina.
— Você não é o stalker, né? — sorriu e eu arregalei os olhos. — Alguém te contratou. — Em seguida, ela se virou par ao profissional ao seu lado. — Detetive, a pessoa dos vídeos que recebi parecia ser destra e não tinha uma cicatriz. Não acho que seja esse garoto.
— Não, eu sou sim! — Roy rebateu, agitado. — Sou eu, já confessei. Do que você tá falando? Eu usei um filtro!
O detetive arqueou uma sobrancelha e o encarou com descrença. Não parecia surpreso com o que havia dito.
— Obrigado pela dica, Srta. . Vamos continuar o interrogatório e a investigação. Pode ser que demore, então você e o Sr. podem ir caso queiram. Já pegamos todas as informações necessárias com vocês.
assentiu e agradeceu, pouco antes de se retirar e voltar para a salinha.
— Vamos?
— Que papo foi aquele? — eu quis saber, assim que saímos pelo corredor. — Como você sabe que o stalker é destro?
— Como você acha que eu sei? Ele usou a mão direita nos vídeos. E, embora eu queira deletar essas memórias da minha cabeça, tenho certeza de que não havia cicatriz nenhuma. E aquele papo de filtro? Quem usa filtro no pau?
— ! — Ri pelo nariz, incapaz de me segurar, mesmo sabendo que a situação era séria.
— O quê? Vai dizer que faz sentido?
— Óbvio que não. Só não esperava que você fosse reparar nessas coisas. É muito aleatório.
— Que nada, você que é lerdo demais, . — rolou os olhos e eu ri de novo, incapaz de retrucar.
Ela meio que tinha razão. Meu senso de observação era bem seletivo, já o dela… Bem, literalmente trabalhava com isso sempre que revisava um texto.
— Vamos esperar e ver se o detetive consegue descobrir algo sobre aquele garoto. Se for como você diz, então...
— O stalker ainda tá à solta — ela concluiu.
— É.
E não tínhamos ideia de quem poderia ser, a menos que Roy confessasse. Era isso ou voltar à estaca zero.
Capítulo 43
— Olha pelo lado bom, foi o carro e não você — lembrou.
— Nem você — acrescentei, satisfeita. — Aliás, desde quando você sabe dirigir daquele jeito? Me senti em Taxi Driver com o Kim Do Ki.
deu uma risadinha, claramente se divertindo ao lembrar.
— Se eu disser que nem eu sei, você acredita?
Rolei os olhos, contendo um sorriso.
— Aposto que aquele idiota do Roy nem conhece alguma música sua e tá só fingindo ser fã. Tenho quase certeza disso.
— Se for assim, então vamos descobrir em breve.
Suspirei, me sentindo um pouco ansiosa.
— Tomara que o detetive consiga encontrar quem tá por trás dele.
Alguns minutos depois, fomos embora, deixando o meu para trás, na oficina.
— Você vai ter que me deixar no trabalho amanhã de novo — avisei. Então lembrei de algo. — A reunião deu certo?
— Sim, vou filmar o vídeo amanhã. E depois vamos pra LA. Seu chefe já sabe que você vai comigo?
— Por que você acha que trabalhei no fim de semana?
sorriu de lado, ainda com os olhos na estrada.
— Você devia escrever também, . Você tem ótimas ideias e acho que se daria bem.
— Não sei. — Dei de ombros. — Sou feliz sendo agente e leitora beta da Kate. Mas quem sabe um dia? Talvez eu acorde um dia com vontade de contar uma história ao mundo.
— Se isso acontecer, quero ser o primeiro leitor.
— Diz o cara que não me dá nenhum spoiler das músicas.
— Pelo menos eu te deixo ouvir antes quando elas ficam prontas — rebateu prontamente e nós rimos.
Quando chegamos em casa, foi como se um peso tivesse saído dos meus ombros. Nada era melhor do que nosso lar após um dia longo e cansativo. Depois de tomar banho e jantar, não demorei muito para cair na cama naquela noite.
O problema veio mais tarde.
De repente, me vi na cozinha de , tomando café da manhã. Ela estava fazendo o mesmo na sala, sentada em frente à TV ligada.
Eu estava entretida lendo um livro, mas então ouvi algo que chamou minha atenção, me fazendo gelar dos pés à cabeça.
— "E agora voltamos com a notícia que deixou muitos fãs abalados. Na noite passada, pouco depois da meia-noite, o cantor foi assassinado por seu gerente, Jace Keller..."
Senti o corpo inteiro gelar e, no mesmo instante, corri para a frente da TV.
— ... — disse em um sussurro, mas meus olhos estavam vidrados na televisão, uma sensação de peso me atingindo a cada palavra que eu ouvia.
— "Foi descoberto que Keller era um stalker anônimo que vinha incomodando e sua namorada há alguns meses. Policiais que estavam no local informaram que encontraram os dois no meio de uma briga e o gerente quebrou o vidro de proteção da varanda do vigésimo andar e se jogou com pouco depois. Os dois morreram antes que pudessem ser levados ao hospital. Voltaremos com mais notícias breve, mas até lá oferecemos nossos pêsames à família do Sr. , sua namorada, amigos e fãs..."
— Isso deve ser mentira. se apresentou ontem, ele tava bem! Vou ligar pra ele, deve ser alguma notícia sensacionalista — comentei e saí em direção ao quarto para pegar meu celular. Disquei o número dele e voltei para a sala com o celular no ouvido, andando de um lado para outro apressadamente. A ligação caiu na caixa postal e eu tentei mais duas vezes, em vão.
— Não pode ser, ... Eu vou tentar ligar pra mãe dele.
Achei o contato da Sra. na agenda e liguei. A primeira vez caiu na caixa postal e eu tentei outra vez. Ela atendeu no terceiro toque.
Parei de andar.
— Sra. .
— , querida... — ela murmurou com a voz chorosa e aquilo foi o suficiente para que eu entendesse. No instante seguinte, o celular escorregou na minha mão, a realidade me atingindo com tudo. Caí no chão, perdendo as forças nas minhas próprias pernas e de repente respirar se tornou difícil. Puxei o ar, mas havia uma angústia que me impedia de expandir o peito por completo.
— ... — me chamou, se colocando ao meu lado um momento depois. Minha irmã me abraçou e eu senti lágrimas quentes jorrando dos meus olhos sem parar enquanto engasgava com a falta de ar e o aperto em meu peito. — Eu sinto muito, sinto muito, irmã — ela acrescentou, com a própria voz embargada.
Solucei em seus braços, ainda absorvendo aquela notícia. Como aquilo tinha acontecido? estava tão bem da última vez que eu o tinha visto. E Jace? Ele era o stalker? Por que ele matou ? Por quê? Por quê?
De repente, senti meus ombros serem sacudidos bruscamente e abri os olhos, me deparando com um rosto familiar.
— — murmurei, com a voz chorosa.
— . Você tava tendo um pesadelo — disse ele, com a voz firme. — Tá tudo bem.
— Você... Tinha morrido e eu- — Solucei, sem conseguir terminar a frase.
— Shh, tá tudo bem, amor. Eu tô aqui. Nada aconteceu — ele garantiu. — Foi só um sonho ruim.
Me sentei na cama e segurei seu rosto com as duas mãos. Já era de manhã, então eu conseguia enxergar suas feições mesmo na escuridão do quarto.
— Eu fiquei com medo. Muito medo. No meu sonho, Jace era o stalker e...
— Jace? — Ele franziu o cenho, confuso. — Que estranho.
— Foi horrível. Eu não tava com você e então veio a notícia — solucei novamente, incapaz de segurar o choro. me abraçou forte. — Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Tô com medo, . Se algo acontecer com você, eu não vou suportar.
apertou os braços ao meu redor e esfregou minhas costas com uma mão, me balançando levemente de um lado para o outro, como se eu fosse uma criança.
— Não vou a lugar nenhum, amor. Vai ficar tudo bem. Nós vamos pegar o stalker e vamos ficar bem.
Solucei outra vez, mas, depois de alguns minutos, finalmente consegui parar de chorar. Eu não sabia por que tinha sonhado com aquilo. Talvez minha mente tivesse começado a criar peças.
— Que horas são? — perguntei, após um tempo.
— Umas cinco da manhã. Podemos dormir mais um pouco, vem. — Ele me puxou e nos deitamos juntos.
Deitei a cabeça em seu ombro esquerdo, com um braço ao seu redor.
estava quente e respirando e constatar isso me acalmava. Tinha sido só um sonho ruim.
Só um sonho ruim.
Mas então, quando eu estava prestes a adormecer, pude jurar ter ouvido uma voz na minha cabeça.
Fique com .
Fique com .
Fique com .
Dois dias depois, assisti ao videoclipe de Red Shoes assim que recebeu a versão oficial, algumas horas antes de ser lançado. Choramos juntos mais uma vez, mas agora eu sentia o peito mais leve, aliviada por ter escolhido voltar.
Ele tinha razão o tempo todo.
A perda do nosso bebê era algo que deveríamos enfrentar juntos e nos apoiar um no outro trazia certo consolo.
Quando viajamos para Los Angeles, fiz questão de acompanhá-lo em todos os compromissos, mesmo nos ensaios de apresentação que ele dizia serem chatos.
Às vezes, acho que esquecia que eu ainda era uma fã dele. Ensaios nunca eram chatos para nós, pelo contrário. Eu amava conhecer os processos criativos e bastidores dos artistas que eu admirava, e com ele não era diferente.
Mantive minha distância para não atrapalhar nada, mas nossos olhares frequentemente se encontravam, quando ele desviava a atenção de quem estava falando com ele e me encarava com um sorrisinho no canto dos lábios. Em outra ocasião, talvez eu tivesse ficado um pouco envergonhada com aquilo, já que ele não fazia nem questão de disfarçar, mas saber que não conseguia tirar os olhos de mim — assim como eu não conseguia tirar os olhos dele — me trazia uma sensação agradável.
Vez ou outra, eu ainda escutava aquela voz na minha cabeça.
Fique com .
Ah, eu iria. Com toda a certeza do mundo. Eu tinha que cumprir minha promessa de virar sua sombra. Lembrei disso no avião, antes de chegarmos, mas acho que estava se divertindo com aquilo já que não acontecia sempre. Raramente eu o acompanhava em compromissos porque tinha os meus próprios para dar de conta.
Só que daquela vez era diferente.
Horas mais tarde, estávamos em uma pequena reunião de jantar com a equipe de , no restaurante do hotel onde estávamos hospedados.
— O videoclipe é um sucesso — Jace comentou. — As visualizações não param de aumentar. Confesso que nunca achei que um vídeo tão simples fosse ter tanto sucesso.
— Isso é porque a música foi um sucesso — comentou Erika, uma das produtoras executivas. — Devemos tudo a , que nunca decepciona em suas composições. Um brinde a isso! — Ela levantou o copo e todos brindaram com suas bebidas.
O público tinha aceitado bem a música nova, mas todos sabiam que havia certa curiosidade quanto à escolha do tema. Nele, estava sentado no chão, com brinquedos infantis ao redor, um berço e os sapatinhos vermelhos que eu tinha comprado.
Na edição, havia alguns cortes de fotos sem os nossos rostos passando em um loop rápido, como se fosse uma espécie de falha na imagem, e o bilhete que eu tinha colocado junto com os sapatinhos.
Ele estava de pijama, cantarolando a música com um toque de violão ao fundo, enquanto olhava com carinho para o parzinho minúsculo de sapatinhos de crochê.
O vídeo era inteiramente preto e branco, com exceção deles.
Era mais do que óbvio o que aquilo significava, mas ainda que o clipe estivesse relacionado a um bebê, a letra da música falava apenas sobre uma pessoa que se foi e deixou sapatos vermelhos para trás.
Poderia ser qualquer um.
A capa do novo álbum também havia sido divulgada e os fãs estavam ansiosos pelo lançamento, que estava programado para sair à meia-noite, após a apresentação dele em Los Angeles, no dia seguinte.
— É bom saber que as pessoas gostaram da música tanto quanto eu — falei baixinho para e ele sorriu.
— Vamos subir pro quarto? Quero descansar mais um pouco pra amanhã.
Assenti e terminei de tomar o meu refrigerante enquanto ele se despedia. Uma série de reclamações veio, mas os convenceu de que precisava descansar a voz para o dia seguinte. Senti um olhar em mim enquanto pegava minha bolsa e, um segundo depois, encontrei Jace me encarando com um sorrisinho no rosto e ele levantou o próprio copo em um cumprimento, antes de sairmos.
Não sorri de volta. Eu ainda não tinha esquecido do meu pesadelo nem do que ele tinha feito com nele. E claro, eu tinha plena consciência de que podia parecer coisa de gente doida desconfiar de alguém assim por causa de um sonho, mas, de certa forma, eu me sentia aliviada em saber que a relação daquele cara com acabaria logo.
Jace podia aproveitar os últimos dias como gerente dele o quanto quisesse, mas um aviso de demissão chegaria em breve. Provavelmente naquele fim de semana, segundo o que disse.
Nunca gostei daquele cara e o próprio Jace sabia disso. Provavelmente todos da equipe sabiam, já que nem fazíamos questão de falar um com o outro.
Honestamente, eu não estava nem aí.
A apresentação de passou voando.
Assisti de um lugar nos bastidores e estava perto de algumas fãs, então pude ter a sensação de estar em um show e gritar e surtar por ele tanto quanto elas. Foi incrivelmente engraçado e divertido. Em certo momento, desceu do palco e veio até mim com um sorrisinho no rosto enquanto cantava. Segurei sua mão e o direcionei para as fãs, que gritaram quando ele segurou suas mãos também.
Me senti feliz por elas e até tirei algumas fotos, que postei algumas horas depois que a apresentação acabou. se despediu cantando Red Shoes e depois voltamos para o hotel. Já se passava das onze horas quando chegamos e eu estava morrendo de fome. Dali a uma hora o álbum novo seria lançado e planejava abrir uma live em breve, para acompanhar o lançamento com os fãs.
Pedimos serviço de quarto e estávamos esperando chegar depois do banho. Saí do banheiro antes para receber e já tinha preparado uma garrafa de vinho para comemorarmos.
O quarto de era como um pequeno apartamento de luxo. Além da suíte, tinha cozinha, uma sala bem espaçosa e uma varanda.
Eu estava na sala terminando de abrir a garrafa de vinho quando ele saiu do banho, vestindo uma calça de pijama e uma camiseta branca sem estampas, ainda secando o cabelo com uma toalha.
— Tô morrendo de fome — declarou, me puxando para um abraço. — Será que o jantar chega antes da eu abrir a live?
— Se chegar depois, você pode dizer que é um date com os fãs.
No mesmo instante, o celular de tocou e ele o tirou do bolso da calça.
— É o detetive.
Um segundo depois, ele atendeu, colocando no viva-voz.
— Boa noite, Sr. . Desculpe ligar nesse horário, mas é urgente. Eu soube que o senhor está em Los Angeles agora e creio que seu gerente, Jace Keller, também. Estou certo?
— Sim, detetive. Algum problema?
— Descobrimos que Roy Basset tem uma avó doente que está internada no hospital. As contas estavam se acumulando, no entanto, foram quitadas pouco antes do acidente por alguém de sobrenome Keller.
— O quê? — perguntei, alarmada.
me encarou, surpreso.
— Srta. , é você?
— Sim, detetive. Boa noite. Roy disse alguma coisa ao senhor?
— Pressionei o garoto e ele confessou ter aceitado dinheiro em troca de provocar os acidentes. Ele se recusou a falar o nome do mandante, mas Jace Keller é meu palpite. É próximo o suficiente do Sr. e pode ter certas motivações.
— Jace e nunca se deram bem, detetive — contou. — Acha que pode ser por isso que ele tentou atacá-la?
— Pelo histórico de mensagens, suponho que ele seja obcecado mais por você do que por ela. Onde estão agora?
— No quarto do hotel, estamos sozinhos. Mas Jace também está-
Uma batida na porta nos interrompeu.
Corri para ver quem era enquanto continuava a falar com o detetive e gelei quando vi Jace pelo olho mágico.
Voltei correndo até .
— Jace tá aqui e não parece muito feliz. Vou chamar os seguranças — falei, já pegando o telefone para ligar para a recepção.
— Vou comunicar a polícia local também, tentem fingir que não sabem de nada — o detetive aconselhou. — Ele não vai ser idiota de tentar algo.
Desligamos pouco depois e fui em direção à porta, enquanto digitava algo no celular.
— — ele me chamou antes de eu abrir a porta e apontou para o celular, apoiado atrás de uma decoração em cima de uma prateleira na parede.
Assenti e abri a porta, tentando parecer calma.
— Cadê o ? — Jace empurrou a porta e tropecei para o lado. Um instante depois, ele estava em frente a , empurrando uma folha de papel no peito dele. — Que porra é essa? Você tá me demitindo agora?
encarou o documento por um momento, antes de desviar o olhar para ele.
— Estou — respondeu ele, calmamente.
— E por quê? Eu não fiz um bom trabalho te gerenciando?
Cruzei os braços e andei até o sofá enquanto os dois discutiam.
— Fez. Mas eu não quero mais trabalhar com você, Jace.
Coloquei um pouco de vinho em uma taça e bebi de uma vez, antes de devolvê-la para a mesinha de centro. Eu tinha que agir com normalidade, certo?
— E por que não? Estamos juntos há cinco anos!
riu pelo nariz e eu engasguei quando ouvi. Àquela altura, eu já tinha certeza de que Jace era o maldito stalker.
— Você fala como se a gente tivesse em um relacionamento — zombou. — Você faz um bom trabalho, Jace, mas temos diferenças de personalidade que estão me incomodando há um tempo. Sinto muito.
— Diferenças de personalidade? Como assim? O que eu fiz pra você pensar isso?
Meus olhos automaticamente se dirigiram para a varanda até que ouvi respirar fundo, antes de responder.
— Pra começar... Você vive querendo se intrometer na minha vida pessoal, mesmo sabendo que detesto isso. E eu não gostei das coisas que você falou sobre a quando a gente terminou.
Sorri ao ouvir. Tinha um gostinho especial ser defendida pela pessoa que te amava.
— É sobre ela, então? Eu tava tentando te ajudar a superar — Jace justificou.
— Falando mal da mulher que eu amo?
— Você é um capacho dela, ! Não percebe? Essa mulher te controla! — Ele praticamente gritou, apontando para mim.
— Eu controlo ele? — Coloquei a mão no peito, fingindo surpresa.
Mas então voltou a falar.
— pode até mandar em mim se ela quiser, Jace. — Então ele me encarou, antes de acrescentar. — Se ela me pedir pra ajoelhar diante dos pés dela, eu o farei de bom grado.
Jace riu, sem humor.
— Vai beijar os pés dela também? — ele debochou.
— Eu começaria pelos pés — retrucou com um sorriso que fez Jace travar a mandíbula de desgosto.
— , pense direito. Você não está sendo profissional. Vai mesmo me demitir por causa de uma mulher? O que você pensa que eu sou?
— Além de um idiota doente e obcecado? Não faço ideia — disse, perdendo a paciência.
O olhar de Jace endureceu, perdendo o ar de inocência que ele fingia.
— . — Lancei um olhar significativo para ele se acalmar.
— Isso é culpa sua! — Jace se virou para mim. — Ele nunca deveria ter se envolvido com você. Eu cheguei primeiro! Devia ser apenas nós dois!
— Do que você tá falando? — perguntei, fingindo não saber de nada.
— Devia ter acabado no atropelamento, mas você sobreviveu. E mesmo sem memória, ele insistiu em cuidar de você!
— Quer dizer que você admite que era o stalker esse tempo todo e contratou Roy Basset pra tentar me matar? — indaguei, deixando cair a minha própria máscara de fingimento.
— Tudo teria dado certo se aquele moleque tivesse feito o trabalho direito — Jace disse, parecendo não se importar em admitir tudo aquilo. — Mas você... Ele continuou atrás de você feito um cachorrinho. Só que eu amei ele primeiro!
— Não seja idiota, Jace. O que pensou que poderia acontecer entre vocês? — debochei. — Perdemos o nosso bebê por sua causa e você ainda quer ter direito de exigir alguma coisa?
— Sua vadia! Você nunca devia ter aparecido. Ele me ignora por sua causa! — Ele avançou em mim, me dando um tapa no rosto antes mesmo que eu pudesse reagir.
Minha pele queimou com o golpe, mas ignorei a dor, sentindo o sangue ferver de raiva. Sem pensar, agarrei a garrafa de vinho em cima da mesinha e a quebrei na cara dele. Nem eu sei de onde tirei tanta força, mas cacos de vidro se espalharam por toda a sala e Jace gritou. Em seguida, colocou uma mão no rosto e notou que sua bochecha sangrava.
— Sua louca! Podia ter me cegado! — ele gritou novamente, a voz transbordando ódio. — Eu vou matar você!
— Ah, não vai, não! — puxou ele pela gola da camisa e lhe deu um soco, fazendo-o cair no chão.
— Devíamos ser casados — ele murmurou, feito um lunático. — Se ela não tivesse aparecido...
riu, incrédulo.
— Você só pode estar delirando em vir com esse papo de casamento pra cima de mim. Você tentou matar minha mulher, seu imbecil! Duas vezes! — Ele se aproximou de Jace mais uma vez, exalando raiva por cada poro.
Uma batida na porta surgiu naquele instante. Corri para atender e me deparei com dois seguranças do hotel, seguido de dois policiais.
— Por aqui. — Indiquei, apontando para Jace, que agora se levantava do chão.
Corri para o lado de e me agarrei em seu braço.
— Acabou, Jace. É melhor você sair agora.
— Sr. Keller, o senhor está preso sob suspeita de homicídio e perseguição. Por favor, venha conosco.
— Não! Eu me recuso! — Ele deu um passo para trás, em direção à varanda. Apertei o braço de , garantindo que ele continuasse perto de mim. — Você tem que pensar, . Seu lugar não é com essa puta!
— Jace, já deu — falei, irritada. — Me xingar e repetir essas merdas não vai adiantar de nada. Não vamos nos separar só porque você quer, seu lunático idiota!
— Não, não devia ser assim... Ele devia ser meu, meu... — Ele começou a murmurar, delirante, e lágrimas escorreram pelo seu rosto. — Por que isso continua se repetindo? Vai ser sempre assim? Eu nunca vou conseguir?
e eu nos encaramos, sem ter ideia do que diabos ele estava falando.
— Se eu não posso ter ele, então você também não vai! — Ele gritou, pegando um caco de vidro antes de vir ao meu encontro, tentando me atacar.
Me separei de para desviar e, no instante seguinte, me vi parada na porta da varanda com Jace agarrado a mim, pressionando um caco de vidro contra meu pescoço.
Engoli em seco, sentindo uma onda de medo, adrenalina e raiva ao mesmo tempo.
— Sr. Keller, ordeno que pare agora mesmo! — Um policial gritou, apontando uma arma para ele.
Jace riu como um maníaco.
— Você não vai conseguir o que quer — falei para ele.
— E nem você — ele murmurou no meu ouvido, me puxando em direção à varanda de vidro.
Eu sabia o que ele planejava. Era como se o meu sonho estivesse acontecendo, mas em vez de , Jace se agarrava a mim.
E eu também sabia que os policiais e os seguranças estavam hesitando em se aproximar por minha causa. Mas se fosse como no sonho... Se eu ia morrer de um jeito ou de outro, então que fosse ao menos tentando me livrar daquilo.
— ... — me chamou, com sua voz cheia de preocupação e eu sorri, determinada.
Então, em um surto repentino de coragem, pisei no pé de Jace em uma tentativa de distraí-lo e forcei todo o peso do meu corpo para frente, tal como havia aprendido em uma aula de defesa pessoal que frequentei com Kate. Bati com o cotovelo direto em suas costelas e enfim consegui me soltar dele.
Imediatamente, os policiais me cercaram e se colocou ao meu lado. Respirei fundo, ofegante, meus olhos ainda presos no homem que tentou me matar não uma ou duas, mas três vezes.
— Eu não vou ser preso! — Jace gritou para os policiais. — Não vou passar por essa humilhação depois de tudo que fiz por ele!
E então Jace apontou o caco de vidro para o próprio pescoço, pegando todos de surpresa.
— Sr. Keller, se acalme e venha conosco. — Um dos policiais tentou convencê-lo.
Jace negou com a cabeça e lágrimas rolaram por seu rosto. Com a mão livre, ele pegou um pequeno vaso de planta em cima da mesa que havia ali e jogou no policial, que felizmente conseguiu desviar.
Um segundo depois, ele jogou o caco de vidro no outro policial, subiu em uma das cadeiras e pulou.
De repente, foi como se tudo estivesse em câmera lenta. O barulho de seu corpo batendo no chão veio logo depois, como um som grave e alto.
e eu estremecemos ao ouvir, ambos em choque. Me agachei instintivamente, assustada com tudo aquilo. me abraçou forte e eu me agarrei a ele, então comecei a chorar. Por mais trágico que tenha sido aquele fim, uma parte de mim estava aliviada por não ter ido junto, como no meu sonho. Ele estava vivo e bem, me abraçando forte enquanto eu soluçava em seus braços.
A noite tinha sido um completo caos, mas tive a sensação de que algo importante havia finalmente terminado, embora eu não soubesse o quê.
Os policiais e os seguranças saíram correndo do quarto e e eu nos levantamos para fazer o mesmo. Ele me puxou pela mão e passei a mão no rosto, me livrando das lágrimas.
Ainda estávamos saindo da varanda, quando ouvi uma voz no meu ouvido, como se alguém tivesse acabado de sussurrar.
Vocês estão livres agora.
Me virei rápido, mas não havia nada.
Capítulo 44
Com o caos da noite em que Jace Keller cometeu suicídio, foi impossível impedir que a história do Stalker de se tornasse pública, especialmente quando era alguém tão próximo a e que gerenciou sua carreira por anos.
Ele não precisava de nenhum escândalo naquele momento, logo após o lançamento de um álbum, mas sabíamos que era apenas uma questão de tempo até todos saberem. Em pouco tempo, fãs começaram a desenterrar informações e pistas de que Jace pudesse ser um stalker e eu descobri que tinha até teorias sobre isso no TikTok.
Era como se eu tivesse encontrado as minhas próprias teorias da conspiração, considerando que todas envolviam Jace, e eu. Até mesmo leituras de tarô haviam sido feitas em relação ao que poderia ter acontecido e algumas até mencionavam uma ligação de séculos que havia sido encerrada. Nelas, Jace era frequentemente citado como alguém que tinha uma obsessão doentia por . Houve uma pessoa que sugeriu que eu poderia ser a amante dele, enquanto Jace seria uma esposa vingativa que reencarnou e lembrou de sua vida passada em algum momento enquanto crescia, algo que estaria atrelado diretamente a algum tipo de maldição que ela mesma poderia ter jogado.
Senti minha pele arrepiar quando ouvi sobre isso. Uma parte de mim queria apenas acreditar que Jace era só um idiota obcecado pelo meu namorado, mas a outra, que tendia a acreditar em coisas esotéricas, estava aliviada de que essa supostamente ligação de séculos já não existia mais — e até um pouco chocada também com a possibilidade de eu ter sido a amante.
ficou bem estressado com tudo o que aconteceu e durante horas prestamos depoimento para a polícia de Los Angeles. Felizmente, ele havia posicionado o celular em um ângulo que captava toda a sala de estar, então a parte da discussão antes da chegada dos policiais estava toda gravada. Nossas ações foram consideradas legítima defesa, visto que Jace nos atacou primeiro.
Quanto ao resto... Bem, havia quatro testemunhas além de e eu.
Voltamos para Nova York dois dias depois.
Mesmo com parte de sua vida privada exposta ao mundo, o escândalo acabou atraindo muita gente a conhecer e sua música, de modo que parte da atenção indesejada acabou se convertendo em algo bem-vindo. De todo modo, eu estava confiante de que era apenas uma questão de tempo até que as pessoas começassem a deixar aquele assunto de lado, e isso começou a acontecer cerca de um mês depois.
decidiu tirar uma folga da música após o lançamento do novo álbum e pareceu bem feliz com a expectativa de passar alguns meses como dono de casa, enquanto eu saía para trabalhar.
Infelizmente, eu não ganhava dinheiro com royalties, sem precisar fazer absolutamente nada. Felizmente, ele ganhava o suficiente para sobreviver apenas com isso por anos, se quisesse, sem contar as campanhas publicitárias das quais fazia parte.
Quando o inverno chegou, já se encontrava novamente enfurnado no próprio estúdio, incapaz de passar muito tempo sem fazer música, mesmo que não fosse usar nada depois. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes ele havia trabalhado até tarde da noite com a desculpa de que aquele era o horário que mais lhe trazia inspiração.
Foi naquele mês que decidi fazer uma surpresa para ele, mais especificamente na véspera de seu aniversário. Quando deu meia-noite e o calendário virou para 10 de novembro, surpreendi com um bolinho de aniversário grande o suficiente para duas pessoas. Era de seu sabor favorito e estava personalizado, mas eu também não via a hora de comer.
O presente dele, escolhido com a ajuda de e Kate, estava em uma caixinha azul envolta de um laço prateado.
Acendi uma velinha antes de bater na porta do estúdio — certas coisas nunca mudam e eu ainda não podia tentar espiar à procura de spoilers de músicas novas — e esperei aparecer.
Ele tomou um leve susto quando viu o bolo que eu coloquei na altura de seu rosto, mas um sorriso tímido, de canto, logo surgiu em seus lábios.
— Feliz aniversário! — Abaixei o bolo e ele riu ao ler a frase que havia nele.
Há 32 anos sendo um grande gostoso, com direito a um bonequinho exibindo o bíceps musculoso.
Ele se afastou para que eu pudesse entrar e fui direto para o sofá, com o bolo em uma mão e a caixinha de presente na outra.
— O que é isso aí? — ele perguntou, curioso, e se sentou ao meu lado.
— Uma coisa que acho que você vai gostar.
arqueou uma sobrancelha, desconfiado, e sem mais delongas, desfez o laço da caixa. Havia outra caixa menor, de veludo preto. Quando ele abriu, encontrou duas correntes e um novo par de alianças de compromisso.
— ... — Ele sorriu, bobo, parecendo genuinamente feliz, e então seus olhos encontraram os meus. — Você disse que não queria que eu gastasse dinheiro com isso.
— Mas não falei nada sobre mim. Podemos colocar as antigas nas correntes, como você sugeriu.
No mesmo instante, pegou as correntes, tirou a própria aliança e a enfiou em uma delas, antes de pedir para eu virar e ele colocá-la em mim. Fiz o mesmo com ele e, em seguida, peguei sua nova aliança. Ele estendeu a mão esquerda ao invés da direita.
Eu ri, divertida, e por algum motivo, senti os olhos arderem de emoção.
— Isso é praticamente uma renovação de votos e a gente nem é casado — brinquei.
— Podemos resolver isso facilmente assinando um papel. Mas pra mim, você se tornou minha esposa desde o momento em que aceitou morar comigo — ele disse, e então segurou minha mão esquerda e deslizou a aliança no meu dedo, selando com um beijo.
Senti outro sorriso se abrir no meu rosto e um par de lágrimas escapar dos meus olhos. riu baixinho e as secou por mim, antes de me puxar para um beijo suave. Era tão bom estar assim com ele que, às vezes, era difícil acreditar que eu podia sentir tanta felicidade.
— Então... — comecei, assim que nos afastamos. — Tô ansiosa por esse bolo. O que acha de partirmos logo?
— Ei, eu sou o aniversariante e você é quem tá ansiosa?
— Tô morrendo de vontade de comer ele o dia todo. Quase passei o dedo na cobertura antes de vir pra cá.
— Achei que a gente ia comemorar só mais tarde, à noite, com minha mãe, e nossos amigos — ele lembrou.
— E vamos. Mas eu queria um tempo sozinha com você antes. Uma comemoração só nossa... — expliquei. sorriu e tentou se aproximar de novo, mas o empurrei, rindo. — Só que o bolo vem primeiro.
Ele rolou os olhos e pegou a faca que eu havia apoiado ao lado do bolo, então o cortou bem no meio do bonequinho. Em seguida, me entregou o primeiro pedaço e eu o enfiei na boca como se não comesse há dias, gemendo de satisfação com o sabor delicioso antes de engolir.
Então veio o problema. Um enjoo instantâneo se instalou no meu estômago e o que eu tinha acabado de engolir pareceu voltar com tudo. Corri para o banheiro do estúdio e despejei tudo o que havia comido, não apenas o bolo, mas também o jantar de algumas horas antes. Tossi e engasguei, e em um segundo, já estava ao meu lado, esfregando minhas costas. Eu o expulsei do banheiro um minuto depois, quando me vi forte o suficiente, então lavei o rosto e escovei os dentes com uma escova reserva que havia ali.
Encarei meu próprio reflexo e fiz uma careta. Era incrível como vomitar era exaustivo. Num momento você está bem, e no outro parece que acordou de ressaca.
— . — deu duas batidinhas na porta. — Tá tudo bem?
— Sim. Agora tô melhor. — Abri a porta, e o encontrei parado com um olhar de preocupação no rosto. — Não sei o que houve. Foi só eu comer o bolo e... Puff!
— E se você estiver grávida? — ele perguntou como se não fosse nada.
Arregalei os olhos.
— Não, de jeito nenhum — descartei a ideia. — Minha menstruação nem tá atrasada... Ou tá? — Franzi o cenho, sem ter ideia.
— Por que você não compra um teste e faz amanhã? Só pra descartar.
Fiz uma careta ao ouvir. Eu estava tomando anticoncepcional desde que voltamos para Nova York e minha ginecologista me fez fazer um teste para garantir que não havia nenhum bebê. Eu sempre ficava nervosa antes de fazer um, mas deu negativo. Não disse nada a porque sabia que era protocolo, mas agora era diferente. Seria como da última vez. E eu tinha quase certeza de que não tava grávida.
Bem, na verdade, eu não tinha certeza de nada... Mas a ideia me apavorava. Acho que mesmo que eu quisesse um bebê, continuaria sendo assustador. Aposto que as mães modelo apenas fingiam que eram tudo às mil maravilhas.
— Tá, de manhã eu faço — concordei. — E lá se vai a nossa comemoração...
riu, divertido.
— Vamos ver como você vai estar de manhã.
***
Exatamente como da última vez, fiz o teste de gravidez e o enfiei dentro da caixa enquanto esperávamos o tempo necessário para conferir.
estava encostado na pia do banheiro, de braços cruzados, parecendo um poço de tranquilidade, o contrário de mim.
— E se der positivo? — perguntei, aflita.
— Se der positivo, vamos ter um bebê e é isso. — Ele deu de ombros.
— Jura? Eu podia jurar que seria um cachorro que ia sair de dentro de mim.
Ele riu pelo nariz, mas não achei graça.
— Tudo bem, eu me expressei mal. O que quero dizer é que vai ficar tudo bem. Não é o fim do mundo. E você não tá sozinha nessa.
Respirei fundo, tentando me acalmar, e chequei a hora.
— Tá na hora. Você olha. — Entreguei a caixa para ele e coloquei as duas mãos no rosto, sentindo meu coração bater tão forte que parecia que ia sair pela boca.
— Relaxa, amor. Vai ficar tudo bem. Independentemente de qual for o-
De repente, se calou.
— O que foi? — Tirei as mãos do rosto e o vi encarando o teste, atônito. — ?
Lentamente, ele virou o teste para mim e eu prendi a respiração ao ver o resultado.
Duas linhas vermelhas. Positivo.
Íamos ser pais.
Senti minhas pernas falharem naquele momento e me apoiei na pia, respirando com certa dificuldade.
— ? Tá tudo bem?
— Sim — falei, após um momento, quando finalmente consegui puxar o ar decentemente para os meus pulmões. — Acho que vou encarar isso como algo que deveria ter acontecido antes.
Nosso primeiro bebê teria nascido naquele mês se não fosse pelo acidente, mas mantive esse pensamento para mim. Então, pensei comigo mesma que talvez fosse assim que as coisas deveriam ser.
— Nesse caso... — se aproximou e me envolveu em um abraço. — Posso dizer que tô muito feliz?
— Uhum — murmurei, apertando meus braços ao redor dele, com uma bochecha colada em seu ombro. Meus olhos arderam, e me perguntei naquele instante se era resultado da minha apreensão ou do famoso turbilhão de sentimentos imprevisíveis da gravidez. Talvez fosse um pouco dos dois.
se afastou, segurou meu rosto entre as mãos e foi então que notei seus olhos marejados.
— Eu te amo, . Muito mesmo. Obrigado por fazer eu me sentir o homem mais sortudo do mundo, amor.
— Vamos ter um bebê... — sussurrei, meio chocada, sentindo as lágrimas começarem a escorrer.
— Sim, vamos ter um bebê. — riu, e eu o acompanhei. De repente, estávamos chorando juntos, mas agora era um misto de felicidade, nervosismo e esperança pela nova vida que crescia dentro de mim.
— Vamos contar a todo mundo hoje?
— Com certeza, não vou conseguir esconder isso por muito tempo — ele brincou. — Temos que escolher os nomes.
— Ainda temos tempo, não é como se o bebê fosse nascer amanhã — lembrei. — Nem sabemos o sexo ainda.
Algo me dizia que seria uma menina, mas talvez fosse apenas uma impressão maluca. Pelo menos, eu não estava mais enjoada, embora provavelmente não conseguisse ver aquele bolinho de aniversário — que mal comemos — na minha frente nos próximos dias.
Um desperdício, pois estava uma delícia.
— Vamos comemorar, então? — se aproximou, roçando o nariz no meu.
— Sua mãe vai chegar a qualquer momento.
— Minha mãe vai levar pelo menos mais duas horas para chegar aqui; o avião dela nem pousou ainda — ele retrucou com um sorriso.
— Parece que temos tempo de sobra, então. — Sorri de volta, mordendo o lábio inferior de empolgação.
— Ah, temos sim.
Sem mais nem menos, ele me colocou sobre o ombro, me fazendo rir alto, e seguiu em direção à nossa cama.
Hora de comemorar.
A vida dele, a minha e a que crescia dentro de mim. Em meio à felicidade, amor e roupas jogadas no chão, senti o amor expandir entre nós e que as coisas finalmente estavam como deveriam estar.
E com isso, tive a certeza de que mais momentos assim viriam.
Ele não precisava de nenhum escândalo naquele momento, logo após o lançamento de um álbum, mas sabíamos que era apenas uma questão de tempo até todos saberem. Em pouco tempo, fãs começaram a desenterrar informações e pistas de que Jace pudesse ser um stalker e eu descobri que tinha até teorias sobre isso no TikTok.
Era como se eu tivesse encontrado as minhas próprias teorias da conspiração, considerando que todas envolviam Jace, e eu. Até mesmo leituras de tarô haviam sido feitas em relação ao que poderia ter acontecido e algumas até mencionavam uma ligação de séculos que havia sido encerrada. Nelas, Jace era frequentemente citado como alguém que tinha uma obsessão doentia por . Houve uma pessoa que sugeriu que eu poderia ser a amante dele, enquanto Jace seria uma esposa vingativa que reencarnou e lembrou de sua vida passada em algum momento enquanto crescia, algo que estaria atrelado diretamente a algum tipo de maldição que ela mesma poderia ter jogado.
Senti minha pele arrepiar quando ouvi sobre isso. Uma parte de mim queria apenas acreditar que Jace era só um idiota obcecado pelo meu namorado, mas a outra, que tendia a acreditar em coisas esotéricas, estava aliviada de que essa supostamente ligação de séculos já não existia mais — e até um pouco chocada também com a possibilidade de eu ter sido a amante.
ficou bem estressado com tudo o que aconteceu e durante horas prestamos depoimento para a polícia de Los Angeles. Felizmente, ele havia posicionado o celular em um ângulo que captava toda a sala de estar, então a parte da discussão antes da chegada dos policiais estava toda gravada. Nossas ações foram consideradas legítima defesa, visto que Jace nos atacou primeiro.
Quanto ao resto... Bem, havia quatro testemunhas além de e eu.
Voltamos para Nova York dois dias depois.
Mesmo com parte de sua vida privada exposta ao mundo, o escândalo acabou atraindo muita gente a conhecer e sua música, de modo que parte da atenção indesejada acabou se convertendo em algo bem-vindo. De todo modo, eu estava confiante de que era apenas uma questão de tempo até que as pessoas começassem a deixar aquele assunto de lado, e isso começou a acontecer cerca de um mês depois.
decidiu tirar uma folga da música após o lançamento do novo álbum e pareceu bem feliz com a expectativa de passar alguns meses como dono de casa, enquanto eu saía para trabalhar.
Infelizmente, eu não ganhava dinheiro com royalties, sem precisar fazer absolutamente nada. Felizmente, ele ganhava o suficiente para sobreviver apenas com isso por anos, se quisesse, sem contar as campanhas publicitárias das quais fazia parte.
Quando o inverno chegou, já se encontrava novamente enfurnado no próprio estúdio, incapaz de passar muito tempo sem fazer música, mesmo que não fosse usar nada depois. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes ele havia trabalhado até tarde da noite com a desculpa de que aquele era o horário que mais lhe trazia inspiração.
Foi naquele mês que decidi fazer uma surpresa para ele, mais especificamente na véspera de seu aniversário. Quando deu meia-noite e o calendário virou para 10 de novembro, surpreendi com um bolinho de aniversário grande o suficiente para duas pessoas. Era de seu sabor favorito e estava personalizado, mas eu também não via a hora de comer.
O presente dele, escolhido com a ajuda de e Kate, estava em uma caixinha azul envolta de um laço prateado.
Acendi uma velinha antes de bater na porta do estúdio — certas coisas nunca mudam e eu ainda não podia tentar espiar à procura de spoilers de músicas novas — e esperei aparecer.
Ele tomou um leve susto quando viu o bolo que eu coloquei na altura de seu rosto, mas um sorriso tímido, de canto, logo surgiu em seus lábios.
— Feliz aniversário! — Abaixei o bolo e ele riu ao ler a frase que havia nele.
Há 32 anos sendo um grande gostoso, com direito a um bonequinho exibindo o bíceps musculoso.
Ele se afastou para que eu pudesse entrar e fui direto para o sofá, com o bolo em uma mão e a caixinha de presente na outra.
— O que é isso aí? — ele perguntou, curioso, e se sentou ao meu lado.
— Uma coisa que acho que você vai gostar.
arqueou uma sobrancelha, desconfiado, e sem mais delongas, desfez o laço da caixa. Havia outra caixa menor, de veludo preto. Quando ele abriu, encontrou duas correntes e um novo par de alianças de compromisso.
— ... — Ele sorriu, bobo, parecendo genuinamente feliz, e então seus olhos encontraram os meus. — Você disse que não queria que eu gastasse dinheiro com isso.
— Mas não falei nada sobre mim. Podemos colocar as antigas nas correntes, como você sugeriu.
No mesmo instante, pegou as correntes, tirou a própria aliança e a enfiou em uma delas, antes de pedir para eu virar e ele colocá-la em mim. Fiz o mesmo com ele e, em seguida, peguei sua nova aliança. Ele estendeu a mão esquerda ao invés da direita.
Eu ri, divertida, e por algum motivo, senti os olhos arderem de emoção.
— Isso é praticamente uma renovação de votos e a gente nem é casado — brinquei.
— Podemos resolver isso facilmente assinando um papel. Mas pra mim, você se tornou minha esposa desde o momento em que aceitou morar comigo — ele disse, e então segurou minha mão esquerda e deslizou a aliança no meu dedo, selando com um beijo.
Senti outro sorriso se abrir no meu rosto e um par de lágrimas escapar dos meus olhos. riu baixinho e as secou por mim, antes de me puxar para um beijo suave. Era tão bom estar assim com ele que, às vezes, era difícil acreditar que eu podia sentir tanta felicidade.
— Então... — comecei, assim que nos afastamos. — Tô ansiosa por esse bolo. O que acha de partirmos logo?
— Ei, eu sou o aniversariante e você é quem tá ansiosa?
— Tô morrendo de vontade de comer ele o dia todo. Quase passei o dedo na cobertura antes de vir pra cá.
— Achei que a gente ia comemorar só mais tarde, à noite, com minha mãe, e nossos amigos — ele lembrou.
— E vamos. Mas eu queria um tempo sozinha com você antes. Uma comemoração só nossa... — expliquei. sorriu e tentou se aproximar de novo, mas o empurrei, rindo. — Só que o bolo vem primeiro.
Ele rolou os olhos e pegou a faca que eu havia apoiado ao lado do bolo, então o cortou bem no meio do bonequinho. Em seguida, me entregou o primeiro pedaço e eu o enfiei na boca como se não comesse há dias, gemendo de satisfação com o sabor delicioso antes de engolir.
Então veio o problema. Um enjoo instantâneo se instalou no meu estômago e o que eu tinha acabado de engolir pareceu voltar com tudo. Corri para o banheiro do estúdio e despejei tudo o que havia comido, não apenas o bolo, mas também o jantar de algumas horas antes. Tossi e engasguei, e em um segundo, já estava ao meu lado, esfregando minhas costas. Eu o expulsei do banheiro um minuto depois, quando me vi forte o suficiente, então lavei o rosto e escovei os dentes com uma escova reserva que havia ali.
Encarei meu próprio reflexo e fiz uma careta. Era incrível como vomitar era exaustivo. Num momento você está bem, e no outro parece que acordou de ressaca.
— . — deu duas batidinhas na porta. — Tá tudo bem?
— Sim. Agora tô melhor. — Abri a porta, e o encontrei parado com um olhar de preocupação no rosto. — Não sei o que houve. Foi só eu comer o bolo e... Puff!
— E se você estiver grávida? — ele perguntou como se não fosse nada.
Arregalei os olhos.
— Não, de jeito nenhum — descartei a ideia. — Minha menstruação nem tá atrasada... Ou tá? — Franzi o cenho, sem ter ideia.
— Por que você não compra um teste e faz amanhã? Só pra descartar.
Fiz uma careta ao ouvir. Eu estava tomando anticoncepcional desde que voltamos para Nova York e minha ginecologista me fez fazer um teste para garantir que não havia nenhum bebê. Eu sempre ficava nervosa antes de fazer um, mas deu negativo. Não disse nada a porque sabia que era protocolo, mas agora era diferente. Seria como da última vez. E eu tinha quase certeza de que não tava grávida.
Bem, na verdade, eu não tinha certeza de nada... Mas a ideia me apavorava. Acho que mesmo que eu quisesse um bebê, continuaria sendo assustador. Aposto que as mães modelo apenas fingiam que eram tudo às mil maravilhas.
— Tá, de manhã eu faço — concordei. — E lá se vai a nossa comemoração...
riu, divertido.
— Vamos ver como você vai estar de manhã.
Exatamente como da última vez, fiz o teste de gravidez e o enfiei dentro da caixa enquanto esperávamos o tempo necessário para conferir.
estava encostado na pia do banheiro, de braços cruzados, parecendo um poço de tranquilidade, o contrário de mim.
— E se der positivo? — perguntei, aflita.
— Se der positivo, vamos ter um bebê e é isso. — Ele deu de ombros.
— Jura? Eu podia jurar que seria um cachorro que ia sair de dentro de mim.
Ele riu pelo nariz, mas não achei graça.
— Tudo bem, eu me expressei mal. O que quero dizer é que vai ficar tudo bem. Não é o fim do mundo. E você não tá sozinha nessa.
Respirei fundo, tentando me acalmar, e chequei a hora.
— Tá na hora. Você olha. — Entreguei a caixa para ele e coloquei as duas mãos no rosto, sentindo meu coração bater tão forte que parecia que ia sair pela boca.
— Relaxa, amor. Vai ficar tudo bem. Independentemente de qual for o-
De repente, se calou.
— O que foi? — Tirei as mãos do rosto e o vi encarando o teste, atônito. — ?
Lentamente, ele virou o teste para mim e eu prendi a respiração ao ver o resultado.
Duas linhas vermelhas. Positivo.
Íamos ser pais.
Senti minhas pernas falharem naquele momento e me apoiei na pia, respirando com certa dificuldade.
— ? Tá tudo bem?
— Sim — falei, após um momento, quando finalmente consegui puxar o ar decentemente para os meus pulmões. — Acho que vou encarar isso como algo que deveria ter acontecido antes.
Nosso primeiro bebê teria nascido naquele mês se não fosse pelo acidente, mas mantive esse pensamento para mim. Então, pensei comigo mesma que talvez fosse assim que as coisas deveriam ser.
— Nesse caso... — se aproximou e me envolveu em um abraço. — Posso dizer que tô muito feliz?
— Uhum — murmurei, apertando meus braços ao redor dele, com uma bochecha colada em seu ombro. Meus olhos arderam, e me perguntei naquele instante se era resultado da minha apreensão ou do famoso turbilhão de sentimentos imprevisíveis da gravidez. Talvez fosse um pouco dos dois.
se afastou, segurou meu rosto entre as mãos e foi então que notei seus olhos marejados.
— Eu te amo, . Muito mesmo. Obrigado por fazer eu me sentir o homem mais sortudo do mundo, amor.
— Vamos ter um bebê... — sussurrei, meio chocada, sentindo as lágrimas começarem a escorrer.
— Sim, vamos ter um bebê. — riu, e eu o acompanhei. De repente, estávamos chorando juntos, mas agora era um misto de felicidade, nervosismo e esperança pela nova vida que crescia dentro de mim.
— Vamos contar a todo mundo hoje?
— Com certeza, não vou conseguir esconder isso por muito tempo — ele brincou. — Temos que escolher os nomes.
— Ainda temos tempo, não é como se o bebê fosse nascer amanhã — lembrei. — Nem sabemos o sexo ainda.
Algo me dizia que seria uma menina, mas talvez fosse apenas uma impressão maluca. Pelo menos, eu não estava mais enjoada, embora provavelmente não conseguisse ver aquele bolinho de aniversário — que mal comemos — na minha frente nos próximos dias.
Um desperdício, pois estava uma delícia.
— Vamos comemorar, então? — se aproximou, roçando o nariz no meu.
— Sua mãe vai chegar a qualquer momento.
— Minha mãe vai levar pelo menos mais duas horas para chegar aqui; o avião dela nem pousou ainda — ele retrucou com um sorriso.
— Parece que temos tempo de sobra, então. — Sorri de volta, mordendo o lábio inferior de empolgação.
— Ah, temos sim.
Sem mais nem menos, ele me colocou sobre o ombro, me fazendo rir alto, e seguiu em direção à nossa cama.
Hora de comemorar.
A vida dele, a minha e a que crescia dentro de mim. Em meio à felicidade, amor e roupas jogadas no chão, senti o amor expandir entre nós e que as coisas finalmente estavam como deveriam estar.
E com isso, tive a certeza de que mais momentos assim viriam.
Epílogo
Dois anos depois...
Ajustei os óculos no rosto e continuei a digitar rapidamente, sem tirar os olhos da tela do computador no meu colo.
Quando cheguei ao último parágrafo, respirei fundo antes de continuar e testei algumas frases que apaguei cerca de cinco vezes.
— Não, assim não... — Tentei digitar novamente, mas parei no meio quando ouvi um gritinho agudo ecoando no corredor, seguido de passos rápidos, alguns bem mais pesados.
— Mamãe!
— Que mamãe, o quê! Volta aqui, sua pestinha! — Ouvi a voz de dizer no instante em que ela alcançou o sofá, parando em minha frente.
Ele parou do outro lado do sofá e colocou as duas mãos na cintura, uma delas segurando um par de sapatinhos vermelhos no estilo boneca.
— Que barulho é esse enquanto eu tô trabalhando? — Fingi brigar e então encarei a menininha ao meu lado. Nossa filha. — Ayla , obedeça ao papai e deixe ele colocar seus sapatos.
Ela me encarou com seus olhos cinza enormes e, em um gesto dramático demais para uma menina de quinze meses, passou as duas mãos pelo cabelo preto, idêntico ao de , e cruzou os braços antes de levantar um pé.
— Quer dizer que eu é que tenho que ir até você, sua espertinha? — ele resmungou, dando a volta no sofá.
— A culpa é sua por mimar ela como se fosse uma princesa — rebati. — Eu avisei.
— Isso porque ela é a princesa do papai, não é, sua pestinha? — Ele ajoelhou em frente a ela e apertou uma de suas bochechas, deixando-a irritada de propósito. Ayla deixou que ele calçasse os sapatinhos e depois veio até mim e bateu um calcanhar no outro de forma desajeitada.
— Ó, mamãe. — Ela bateu novamente.
— Agora sim, minha Dorothy tá completa. Vamos tirar uma foto? — tirou o celular do bolso do short e Ayla segurou o vestido com uma mão de cada lado, em uma pose que tínhamos ensinado a ela duas semanas antes.
Depois que o papai babão tirou algumas dezenas de fotos, ela subiu no sofá e sentou ao meu lado, olhando com curiosidade para a tela do computador. Ela não tinha permissão para mexer em coisas eletrônicas sem supervisão e e eu meio que evitávamos isso e oferecíamos outros estímulos de entretenimento para ela. Não tínhamos crescido com smartphones fritando nosso cérebro e preferíamos que Ayla não tivesse nenhum estímulo excessivo que pudesse afetar seu desenvolvimento.
— Vou tomar banho agora e volto pra ficar com ela pra você poder ir — informou, antes de sair.
Era seu aniversário de 34 anos e faríamos uma festa à fantasia. Era a terceira vez que Ayla vestia uma, levando em conta o Halloween do ano passado e o de algumas semanas antes. Quando perguntamos de qual personagem ela queria se fantasiar para o aniversário do papai, sua resposta foi buscar O Mágico de Oz na sua estante de livros infantis e apontar para a Dorothy na capa. Bem inteligente para uma criança da idade dela, mas a Sra. havia me dito que também era assim.
— Mamãe tá terminando uma coisa — cochichei, como se fosse um segredo, e ela assentiu, ficando quieta, enquanto eu terminava de digitar.
Quando acabei, encarei a tela por alguns segundos, incapaz de acreditar que finalmente havia terminado de escrever meu primeiro livro.
Quando contei a Kate, Diana e Andy que eu queria escrever um romance com elementos de fantasia no mundo contemporâneo sobre uma protagonista que esquecia que namorava seu ator favorito há anos e ia constantemente parar dentro de seu livro favorito quando adormecia, enquanto no mundo real ele tentava fazer com que ela se lembrasse deles, a resposta foi unânime: você tem que escrever isso.
Mencionei a ideia há cerca de um ano e fiz os primeiros rascunhos algumas semanas depois, antes de realmente começar a escrever.
não tinha brincado quando disse que queria ser o primeiro leitor, mas ele e enfrentaram um embate, pois ela também queria. Acabei decidindo enviar os novos capítulos para o e-mail dos dois ao mesmo tempo e, desde então, os dois viviam numa espécie de competição para ver quem lia primeiro. Como autora, eu achava extremamente divertido e mal podia esperar para que eles lessem o último capítulo e o epílogo que eu tinha acabado de escrever.
Enviei o arquivo por e-mail e então respirei fundo.
— Cabô? — Ayla perguntou ao meu lado.
— Acabou. Vamos fazer o penteado agora? — Fechei o computador e o coloquei de lado antes de me levantar e pegá-la nos braços. Fomos até o seu quarto, ao lado do quarto de hóspedes, e a coloquei sentada em sua mini penteadeira.
Então eu amarrei seu cabelo em duas partes com um elástico e uma fita azul de cada lado, da mesma cor do vestido que ela usava. Quando terminei, Ayla me entregou um pote de brilho labial rosado para que eu passasse nela.
— Agora sim, uma bonequinha! — Sorri, dando uns últimos ajustes nas mangas bufantes de seu vestido, enquanto ela me encarava com seus olhos cinza enormes.
Quando ela nasceu, eu não esperava aquela cor, mas então me contou que na família dele havia alguns parentes com olhos daquela cor. No fim, acho que ela puxou mais a ele do que a mim, ao menos na aparência. Nós dois sabíamos que Ayla teria um temperamento forte quando adulta, pois, naquela idade, já expressava o que queria com assertividade. Ela havia nascido em 17 de julho, exatamente um ano após e eu reatarmos nosso relacionamento. Felizmente, tive uma gestação tranquila, mas no fim dela e mesmo sabendo de todos os prós de um parto normal, optei por uma cesariana, já que eu não queria passar por aquele tipo de trauma de jeito nenhum.
Ser mãe era assustador na maioria das vezes, mas felizmente eu tinha uma válvula de segurança em casa com tranquilidade suficiente por nós dois. Quando eu surtava, era que segurava as pontas, o que aconteceu com certa frequência no primeiro ano de vida de Ayla.
Felizmente, quase todas as vezes era apenas uma tempestade em um copo d'água.
— Voltei! — apareceu novamente, já vestido em sua fantasia nada criativa de O Fantasma da Ópera. Tudo o que ele precisou fazer foi colocar um smoking e uma máscara.
Contudo, meus olhos não tinham do que reclamar.
— Minha vez — falei e corri para o banheiro. Voltei quarenta minutos depois, vestida com a fantasia de Jenna de De Repente 30.
Eu sei, também não era lá muito criativa, mas eu não tinha tempo para algo mais elaborado e precisava de uma fantasia com maquiagem e penteado fáceis, especialmente quando ainda tínhamos que sair de casa para ir ao local da festa.
— Que linda — disse , segurando minha mão e me fazendo dar uma voltinha. — Vai dançar “Thriller” também?
— Só se você for comigo. — Sorri.
— Quem sabe? Mas agora... Hora da foto em família. — Ele pegou Ayla no colo e fomos até a sala, onde nos sentamos no sofá com nossa garotinha no meio, algo que virou tradição quando decidimos registrar o crescimento dela.
Em seguida, selecionou o tempo na câmera que já havia deixado na mesinha de centro mais cedo e esperamos com um sorriso no rosto. No entanto, nos últimos segundos, resolvi mudar a pose e, pelo visto, nossa filha quis fazer o mesmo.
Sem avisar, puxei pela camisa, beijando-o no rosto, e Ayla colocou as mãozinhas nas bochechas, ainda sorrindo para a câmera.
Um instante depois, tínhamos mais um registro de felicidade.
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Ajustei os óculos no rosto e continuei a digitar rapidamente, sem tirar os olhos da tela do computador no meu colo.
Quando cheguei ao último parágrafo, respirei fundo antes de continuar e testei algumas frases que apaguei cerca de cinco vezes.
— Não, assim não... — Tentei digitar novamente, mas parei no meio quando ouvi um gritinho agudo ecoando no corredor, seguido de passos rápidos, alguns bem mais pesados.
— Mamãe!
— Que mamãe, o quê! Volta aqui, sua pestinha! — Ouvi a voz de dizer no instante em que ela alcançou o sofá, parando em minha frente.
Ele parou do outro lado do sofá e colocou as duas mãos na cintura, uma delas segurando um par de sapatinhos vermelhos no estilo boneca.
— Que barulho é esse enquanto eu tô trabalhando? — Fingi brigar e então encarei a menininha ao meu lado. Nossa filha. — Ayla , obedeça ao papai e deixe ele colocar seus sapatos.
Ela me encarou com seus olhos cinza enormes e, em um gesto dramático demais para uma menina de quinze meses, passou as duas mãos pelo cabelo preto, idêntico ao de , e cruzou os braços antes de levantar um pé.
— Quer dizer que eu é que tenho que ir até você, sua espertinha? — ele resmungou, dando a volta no sofá.
— A culpa é sua por mimar ela como se fosse uma princesa — rebati. — Eu avisei.
— Isso porque ela é a princesa do papai, não é, sua pestinha? — Ele ajoelhou em frente a ela e apertou uma de suas bochechas, deixando-a irritada de propósito. Ayla deixou que ele calçasse os sapatinhos e depois veio até mim e bateu um calcanhar no outro de forma desajeitada.
— Ó, mamãe. — Ela bateu novamente.
— Agora sim, minha Dorothy tá completa. Vamos tirar uma foto? — tirou o celular do bolso do short e Ayla segurou o vestido com uma mão de cada lado, em uma pose que tínhamos ensinado a ela duas semanas antes.
Depois que o papai babão tirou algumas dezenas de fotos, ela subiu no sofá e sentou ao meu lado, olhando com curiosidade para a tela do computador. Ela não tinha permissão para mexer em coisas eletrônicas sem supervisão e e eu meio que evitávamos isso e oferecíamos outros estímulos de entretenimento para ela. Não tínhamos crescido com smartphones fritando nosso cérebro e preferíamos que Ayla não tivesse nenhum estímulo excessivo que pudesse afetar seu desenvolvimento.
— Vou tomar banho agora e volto pra ficar com ela pra você poder ir — informou, antes de sair.
Era seu aniversário de 34 anos e faríamos uma festa à fantasia. Era a terceira vez que Ayla vestia uma, levando em conta o Halloween do ano passado e o de algumas semanas antes. Quando perguntamos de qual personagem ela queria se fantasiar para o aniversário do papai, sua resposta foi buscar O Mágico de Oz na sua estante de livros infantis e apontar para a Dorothy na capa. Bem inteligente para uma criança da idade dela, mas a Sra. havia me dito que também era assim.
— Mamãe tá terminando uma coisa — cochichei, como se fosse um segredo, e ela assentiu, ficando quieta, enquanto eu terminava de digitar.
Quando acabei, encarei a tela por alguns segundos, incapaz de acreditar que finalmente havia terminado de escrever meu primeiro livro.
Quando contei a Kate, Diana e Andy que eu queria escrever um romance com elementos de fantasia no mundo contemporâneo sobre uma protagonista que esquecia que namorava seu ator favorito há anos e ia constantemente parar dentro de seu livro favorito quando adormecia, enquanto no mundo real ele tentava fazer com que ela se lembrasse deles, a resposta foi unânime: você tem que escrever isso.
Mencionei a ideia há cerca de um ano e fiz os primeiros rascunhos algumas semanas depois, antes de realmente começar a escrever.
não tinha brincado quando disse que queria ser o primeiro leitor, mas ele e enfrentaram um embate, pois ela também queria. Acabei decidindo enviar os novos capítulos para o e-mail dos dois ao mesmo tempo e, desde então, os dois viviam numa espécie de competição para ver quem lia primeiro. Como autora, eu achava extremamente divertido e mal podia esperar para que eles lessem o último capítulo e o epílogo que eu tinha acabado de escrever.
Enviei o arquivo por e-mail e então respirei fundo.
— Cabô? — Ayla perguntou ao meu lado.
— Acabou. Vamos fazer o penteado agora? — Fechei o computador e o coloquei de lado antes de me levantar e pegá-la nos braços. Fomos até o seu quarto, ao lado do quarto de hóspedes, e a coloquei sentada em sua mini penteadeira.
Então eu amarrei seu cabelo em duas partes com um elástico e uma fita azul de cada lado, da mesma cor do vestido que ela usava. Quando terminei, Ayla me entregou um pote de brilho labial rosado para que eu passasse nela.
— Agora sim, uma bonequinha! — Sorri, dando uns últimos ajustes nas mangas bufantes de seu vestido, enquanto ela me encarava com seus olhos cinza enormes.
Quando ela nasceu, eu não esperava aquela cor, mas então me contou que na família dele havia alguns parentes com olhos daquela cor. No fim, acho que ela puxou mais a ele do que a mim, ao menos na aparência. Nós dois sabíamos que Ayla teria um temperamento forte quando adulta, pois, naquela idade, já expressava o que queria com assertividade. Ela havia nascido em 17 de julho, exatamente um ano após e eu reatarmos nosso relacionamento. Felizmente, tive uma gestação tranquila, mas no fim dela e mesmo sabendo de todos os prós de um parto normal, optei por uma cesariana, já que eu não queria passar por aquele tipo de trauma de jeito nenhum.
Ser mãe era assustador na maioria das vezes, mas felizmente eu tinha uma válvula de segurança em casa com tranquilidade suficiente por nós dois. Quando eu surtava, era que segurava as pontas, o que aconteceu com certa frequência no primeiro ano de vida de Ayla.
Felizmente, quase todas as vezes era apenas uma tempestade em um copo d'água.
— Voltei! — apareceu novamente, já vestido em sua fantasia nada criativa de O Fantasma da Ópera. Tudo o que ele precisou fazer foi colocar um smoking e uma máscara.
Contudo, meus olhos não tinham do que reclamar.
— Minha vez — falei e corri para o banheiro. Voltei quarenta minutos depois, vestida com a fantasia de Jenna de De Repente 30.
Eu sei, também não era lá muito criativa, mas eu não tinha tempo para algo mais elaborado e precisava de uma fantasia com maquiagem e penteado fáceis, especialmente quando ainda tínhamos que sair de casa para ir ao local da festa.
— Que linda — disse , segurando minha mão e me fazendo dar uma voltinha. — Vai dançar “Thriller” também?
— Só se você for comigo. — Sorri.
— Quem sabe? Mas agora... Hora da foto em família. — Ele pegou Ayla no colo e fomos até a sala, onde nos sentamos no sofá com nossa garotinha no meio, algo que virou tradição quando decidimos registrar o crescimento dela.
Em seguida, selecionou o tempo na câmera que já havia deixado na mesinha de centro mais cedo e esperamos com um sorriso no rosto. No entanto, nos últimos segundos, resolvi mudar a pose e, pelo visto, nossa filha quis fazer o mesmo.
Sem avisar, puxei pela camisa, beijando-o no rosto, e Ayla colocou as mãozinhas nas bochechas, ainda sorrindo para a câmera.
Um instante depois, tínhamos mais um registro de felicidade.
Fim.
Nota da autora: Quem aí confiou no processo????? HAHAHAHA! Eu disse que ia dar tudo certo no fim, né? Aos trancos e barrancos, mas deu! Essa história é o meu xodózinho e tenho uma ligação especial com ela desde o momento em que comecei a escrever. Foi como se eu tivesse vivendo junto com a Lexi tudo o que ela tava sentindo e quando acabou, senti aquela sensação de coração quentinho e final fechado.
Agora, quem entendeu o verdadeiro motivo dos olhos da Ayla serem cinza??? Uma balinha pra quem adivinhar! hahahaha Espero que vocês tenham se divertido com essa história tanto quanto eu. Finalizei ela em junho de 2024 e desde então, queria MUITO compartilhar ela com mais pessoas. Agora que finalmente concluí as atts (e as revisões), acho que posso diagramar e mandar imprimir uma cópia para mim mesma em livro físico. A capa eu já tenho e é essa aqui xD
Obrigada a cada uma que acompanhou essa história até o fim ♥ Até a próxima! XxAlly
PS. Se você chegou aqui, provavelmente leu HERO, RIVER ou caiu de paraquedas. De toda forma, seja bem-vinda <3 Essa história já está finalizada e os pps são personagens mencionados no universo da CAVE PANTHERS, mas a história deles se passa anos depois~ Dou as boas-vindas a você que chegou até aqui e espero que você se divirta. Essa fic é o meu xodózinho ♥
Para mais informações sobre mim ou meus outros livros em e-book já publicados, visite meu Instagram (@aquelally) ou meu grupo de leitores no WhatsApp pelos links nos ícones abaixo. Podem interagir comigo, tá? xD PPS. Como TENAZ anda sendo mencionado, vou deixar a playlist desse livro nos links abaixo pra vocês também se sentirem um pouquinho na pele da Ayla haha ♥
PS. Se você chegou aqui, provavelmente leu HERO, RIVER ou caiu de paraquedas. De toda forma, seja bem-vinda <3 Essa história já está finalizada e os pps são personagens mencionados no universo da CAVE PANTHERS, mas a história deles se passa anos depois~ Dou as boas-vindas a você que chegou até aqui e espero que você se divirta. Essa fic é o meu xodózinho ♥
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