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Última atualização: 01/05/2025

Prólogo - Ecos no Silêncio

A noite estava pesada, como se o ar tivesse engolido a cidade. Nova York parecia mais silenciosa do que o habitual — não o silêncio comum das madrugadas, mas algo mais denso, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.

recebeu a notificação enquanto ainda finalizava o relatório de um roubo em um subdistrito industrial. O telefone vibrou três vezes com insistência. Uma ocorrência em Highstone, setor residencial classe A. Homicídio. Código vermelho.

-— Highstone, setor residencial classe A. — murmurou, lendo o endereço no visor do painel. — Às duas e quarenta e sete da manhã. Tem que ser brincadeira.


O edifício onde a vítima morava erguia-se como um espelho polido contra o céu sem estrelas. Os corredores eram silenciosos, limpos demais. Perfume artificial de lavanda circulava pelo sistema de ventilação. Quando saiu do elevador no 47º andar, foi recebido por uma jovem oficial pálida, que imediatamente apontou para a porta aberta à direita.

— Esposa encontrou o corpo por volta das 2h43. Chamou emergência. Parâmetros vitais nulos. Nada foi tocado.

entrou no apartamento com passos lentos. Era moderno, meticulosamente organizado — móveis de madeira clara, iluminação indireta, quadros com padrões geométricos. Mas o que mais chamava atenção era o silêncio.

No centro da sala de estar, sobre o tapete bege, estava o corpo. Jorge Mendes. Deitado de lado, olhos arregalados, expressão congelada em algo que parecia mais horror do que dor. Nenhum ferimento visível. Nenhuma gota de sangue.

mostrou o distintivo a um dos agentes da divisão tática que segurava uma prancheta holográfica.

— Detetive . O que temos?
— Um corpo. Sozinho. Porta trancada por dentro, nenhuma entrada lateral, apartamento em andar alto, nenhuma fuga. É... estranho, senhor.

A perita forense, Camila Diaz, já estava no local. Agachada, analisava o corpo com seu scanner portátil. Ela levantou os olhos ao perceber a presença de .

— Estranho — foi a primeira coisa que disse.
— Me diga algo que eu ainda não ouvi. — respondeu , se ajoelhando ao lado do corpo.

Camila suspirou.
Ela se afastou um pouco, dando espaço para que ele observasse o corpo. A vítima estava deitada de costas, olhos abertos, boca entreaberta. Nenhum ferimento visível, nenhuma gota de sangue. Parecia simplesmente... morto.

— Não há sinais de violência. Nada visível, nenhuma fratura. Os órgãos parecem intactos. Mas há uma sobrecarga neural absurda. Como se o cérebro tivesse sido... forçado a parar.
— Um AVC?
— Mais como um colapso sistemático. Todos os centros de processamento neural entraram em pane ao mesmo tempo. E veja isso...

Ela apontou para o lobo temporal esquerdo no visor do scanner.

— Frequência de pulsos anômalos. Como se o cérebro tivesse captado algum tipo de sinal. Mas não foi uma frequência sonora nem visual. Foi algo interno. Uma transmissão direta, talvez.

franziu a testa.

— Ataque neural?
— Se fosse um ataque, teria sinais de inflamação, ruptura de sinapses, ou pelo menos uma sobrecarga. Mas não tem nada. É como se alguém tivesse apertado um botão de “desligar”.

se levantou e olhou ao redor. A esposa da vítima, uma mulher morena de trinta e poucos anos, tremia sentada no sofá da varanda. Dois paramédicos tentavam acalmá-la. Ela segurava um dos chinelos do marido como se aquilo a mantivesse ancorada à realidade.

— Disse algo? — perguntou , ao se aproximar.
— Disse que encontrou ele assim.
— Algo estranho antes disso?
— Ela só repetia que ele vinha tendo pesadelos. Acordava suando, falando sozinho. Como se estivesse ouvindo vozes.
— Onde ela estava no momento?
— Estava viajando a trabalho. O esposo não foi buscá-la no aeroporto, ela achava que ele havia dormido e não acordou.
— É, realmente ele não acordou.

passou a mão no queixo.

andou até a porta principal. Uma única entrada, sem sinais de arrombamento, e com o sistema de tranca ainda ativo. Ele se virou de volta para Diaz.

— Então me diz, como alguém entra num lugar selado, mata alguém sem encostar nele, e desaparece sem deixar vestígios?

Ela apenas o encarou, silenciosa.


●●●


Quarenta minutos depois, estava na sala de vigilância, junto a dois analistas e Diaz. A tela principal exibia os registros das câmeras internas do galpão. A filmagem, datada daquela madrugada, mostrava a vítima entrando sozinha pela porta principal às 02h08, utilizando um cartão de acesso, provavelmente de uso pessoal.

apertou os olhos, estudando cada movimento.

— Ele entra sozinho... Tranca a porta atrás de si... — murmurou. A câmera externa mostrava o homem andando pelo corredor. Ele parava diante de um dos alarmes de incêndio e parecia falar algo — mas o vídeo não tinha áudio. Ele então vai até a porta e introduz o cartão magnético. Do lado de dentro, havia uma câmera que mostra o homem entrando. Logo depois, a luz piscava. Quando voltava, o homem já estava caído no chão.

esfregou a mandíbula.

— Rebobina. Devagar.

O analista obedeceu. Eles assistiram à cena novamente. E foi então que notou algo.

— Espera. Para. Agora volta dois segundos... e pausa.

A imagem congelou em um frame com ruído digital. Mas, por um instante, algo aparecia ao fundo. Uma silhueta.

— Ali! — exclamou . — Tem alguém ali. No fundo, próximo a estante.

O analista aumentou o zoom, aplicando filtros de contraste e definição. Aos poucos, a imagem ficou mais nítida. A silhueta tomou forma. Um homem de estatura média, vestindo um casaco escuro, com parte do rosto parcialmente voltada para a câmera. A expressão era neutra, quase apática. O rosto parecia... humano. Vivo.

— Consegue rodar reconhecimento facial? — perguntou .
— Claro, senhor. Levando ao sistema agora...

A sala mergulhou em silêncio enquanto o sistema processava a imagem. A análise durou menos de trinta segundos. O nome apareceu na tela, junto com um histórico resumido.

IDENTIFICAÇÃO: ELLIOT GRAVES
STATUS: MORTO — 2045
PROFISSÃO: CIENTISTA (NEUROTECNOLOGIA / PROJETO ORION)


ficou imóvel. Diaz prendeu a respiração.

— Isso... isso é impossível — sussurrou ela.

olhou para o visor, depois para Diaz.

— Como alguém morto há cinco anos aparece nas câmeras de um condomínio, trancado por dentro, minutos antes de um homem cair morto sem explicação?
— Você tem certeza de que isso não foi falsificado?
— Absoluta. O prédio tem sistema fechado. Não houve invasão digital. Os dados são autênticos.
— A identificação facial bateu com 99,8% de precisão. É ele.
— Mas ele está morto. Enterrado. Desde 2045, de acordo com o que diz aí.
— Pois é. E, ainda assim, ele esteve aqui esta noite.

olhou para a imagem congelada do rosto de Elliot. Ele parecia calmo. Determinado. Quase... melancólico.

— Você sabe quem ele era? — perguntou , ainda chocada.

Diaz deu um passo para trás.

— Elliot Graves. O primeiro nome vinculado ao Projeto ORION. Sumiu após um acidente de laboratório. Diziam que ele tinha se sacrificado durante um experimento. Mas... houve rumores. Boatos de que ele não morreu. De que o experimento foi longe demais. Porém, falaram que ele foi enterrado.

A imagem congelada na tela parecia encará-los. O olhar sem vida. A figura fantasmagórica de um homem que, teoricamente, não existia mais.

— Diaz — disse , com a voz mais baixa —, acho que a gente acabou de abrir uma porta que devia ter permanecido fechada.


Na saída da sala, já do lado de fora do galpão, acendeu um cigarro eletrônico, algo que ele prometera abandonar desde o último infarto.
O céu estava encoberto por nuvens de fuligem. Em algum ponto da cidade, um alarme disparava em eco.

Diaz se juntou a ele, calada por alguns segundos antes de falar.

— Você acha que é real?
— O quê?
— O que vimos. Elliot. Você acha que era mesmo ele?

soprou uma nuvem de vapor e observou as partículas se dissiparem.

— Eu não acredito em fantasmas. Mas também não acredito em coincidências. E se isso for o começo... então a gente tá em apuros.

Ela cruzou os braços, olhando de volta para o galpão.

— E o governo? Vai nos deixar investigar isso?
— Se for como os casos antigos ligados ao ORION... vão tentar enterrar a verdade. Como sempre. Mas não dessa vez.
— O que vai fazer?

jogou o cigarro no chão e o apagou com a bota.

— Vou seguir o fantasma.




Continua...