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Última atualização: 04/03/2025

Prólogo

A tarde outonal estava carregada de um tom dourado quando entrou no pequeno café da esquina da 5ª Avenida. O lugar, geralmente um refúgio acolhedor, parece hoje um refúgio de solidão para . O aroma de café fresco e o murmúrio baixo das conversas pareciam distantes, como se o mundo ao seu redor tivesse sido abafado por um manto de tristeza.

hesitou na entrada, os olhos marejados de lágrimas que se esforçava para conter. Seu coração estava pesado com a dor que mal conseguia entender, a traição de Richard , seu marido, revelada apenas algumas horas antes. A notícia tinha chegado como um golpe inesperado, e o silêncio que preenchia sua mente parecia ainda mais ensurdecedor do que qualquer palavra.

Ela escolheu uma mesa isolada, perto da janela, onde poderia observar a movimentação da rua sem ser vista. Sentou-se com um suspiro cansado, retirando o lenço do bolso e secando os olhos. O café, que geralmente era seu lugar de conforto e escape, parecia agora um cenário de perda e desconsolo.

Enquanto esperava, um jovem de olhar atento e uma presença serena entrou no café. , com seu blazer escuro e um olhar inquisitivo, estava ali para uma reunião a fim de conseguir uma vaga como estagiário assistente. Ele estava confiante. Ele se sentou em uma mesa mais ao fundo, bem de frente para a mesa da mulher. Sua atenção desviou-se para , que parecia mergulhada em sua própria tristeza.

A troca de olhares foi breve, mas suficiente para sentir uma conexão. Havia algo na expressão dela, na forma como parecia alheia ao mundo ao seu redor, que o fez querer oferecer um pouco de conforto. Precisava se concentrar em sua reunião, pois queria muito aquele emprego.
Apesar de conseguir manter-se concentrado no homem, o editor chefe, algumas vezes a mulher chamava sua atenção.

A reunião fora ainda melhor do que ele esperava e estava ansioso para o que lhe aguardava. Despediu-se do homem e um forte impulso tomou conta de seu corpo e quando voltou a si, se viu parado em frente a mulher que tanto chamara sua atenção desde o início.

— Oi. Está tudo bem? – disse o homem. – Beba isso, vai te ajudar.

ergueu o olhar, surpresa com a oferta inesperada. Havia algo genuíno na maneira como ele a olhou, algo que a fez sentir que talvez, apenas talvez, pudesse encontrar um pouco de consolo naquela tarde sombria.

— Desculpa. Eu não quis te atrapalhar. – ela disse secando o canto do olho. – Eu já estou indo.

— Não, não. Fica. – ele disse estendendo a xícara de chá dele. – É camomila. É pra acalmar.

— Obrigada. – ela disse tomando um gole devagar.

— Tudo bem com você? Quer conver…– ela suspirou pesado.

— Meu marido tá me traindo com minha cunhada. A mulher do irmão dele. Peguei os dois no escritório dele.

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Capítulo 01



O barulho de pessoas indo e vindo, os inúmeros carros que passavam de um lado para o outro - algumas vezes buzinando demais -, estavam fazendo com que a cabeça de pulsasse ainda mais de dor. Já tomara um comprimido há menos de duas horas, porém estava tentado a tomar novamente já que não estava vendo melhora alguma. Pelo contrário.

Para piorar a situação, seu chefe estava enchendo o saco nos últimos dias, principalmente porque muitos eventos foram marcados em um espaço de tempo relativamente curto e todos estavam sobrecarregados e totalmente exaustos e, se não bastasse, o chefe não deixava ninguém respirar por um minuto se quer.

havia batido o martelo e decidira que não iria mais ficar mais Westward Publishing. Estava exausto das inúmeras cobranças e não havia um retorno positivo, já que trabalhava no local há pouco mais de um ano e o chefe não movia um dedo para falar de promoção, já que o homem ainda se encontrava na função de estagiário.

estava no último ano da faculdade de letras, porém já tinha uma vasta experiência, tendo em vista que desde seu primeiro ano fizera vários estágios em várias editoras. E era exatamente onde trabalhava no momento.

Northbound Publishing era uma editora moderna que já atuava há quase 15 anos na área de editoriais. Já publicaram centenas de livros e revistas desde a fundação e era referência no país inteiro. Sonho de todo estagiário. Também foi o sonho de . Foi. No passado.

O homem estava certo que iria desistir de ser um editor nessa empresa, pois parecia que seus esforços eram em vão. Muitas vezes o estagiário fizera o trabalho de editores e com excelência, diga-se de passagem. Contudo, em nenhum momento, havia recebido uma palavra de agradecimento, ao menos. sabia da sua capacidade e sabia que merecia mais.

Foi com esse pensamento que ele marcara uma entrevista em uma outra grande editora, pois tinha muito desejo de crescimento profissional e talvez em um novo horizonte conseguiria.
Parecia que a sorte estava conspirando à seu favor já que a entrevista com o editor chefe foi marcada no dia de sua folga. Alguns dias antes recebera, por e-mail, detalhes da entrevista como: local, horário e documentos comprovando seu vínculo com a faculdade, além de trabalhos feitos na faculdade.
Colocou seu melhor terno, pois a primeira impressão é a que marcava, bem como seu melhor perfume, sapatos e relógio.

Há uns dois anos, aprendera em uma palestra da faculdade sobre como se portar em entrevistas, principalmente na sua área de atuação. Editores precisavam estar super alinhados, pois precisavam mostrar uma postura séria e ética.

Então, após verificar o seu visual várias vezes, pegou sua pasta e seu celular e saiu de seu apartamento em busca de um táxi.
Apesar da pouca idade, o rapaz morava sozinho desde que começou a faculdade, já que seus pais moravam em outro estado e ficaria praticamente impossível o deslocamento rotineiro. Teve que aprender a se virar sozinho, apesar de que todos os meses sua mãe o visitava e deixava sua geladeira abastecida com muitos pratos deliciosos.

Mais uma vez sentia que estava com muita sorte, já que conseguira um táxi logo quando saiu do edifício e aquela era hora do rush, então sempre perdia muito tempo em busca de um táxi. Não conseguiu segurar o sorriso. Estava sentindo que teria um dia incrível pela frente.

O local escolhido para a entrevista era uma cafeteria na região do centro da cidade e, por sorte, não era tão distante de onde morava. Já havia visitado o local e era um ambiente aconchegante e muito tranquilo, ideal para uma entrevista.

Pelo que o rapaz conhecia da editora, eles tinham o hábito de fazer as seleções em um ambiente externo. Segundo a empresa, isso fazia com que os recrutados ficassem mais à vontade e a entrevista corria de forma mais natural e sem pressão.

chegou no local e viu que chegara um pouco antes do combinado. Isso era ótimo, pois chegar cedo demonstrava respeito para com a empresa. Procurou uma mesa mais reservada e, ao sentar, viu o editor chefe chegando. Reconheceu de imediato, pois o homem tinha dois metros de altura e era impossível não chamar atenção.
Levantou a mão e acenou para que o visse. O gesto deu certo, pois o editor balançou a cabeça e caminhou em direção a mesa.

? – o homem perguntou e acenou com a cabeça confirmando. – Prazer, sr. . Meu nome é Mattew Grant e sou editor chefe da Northbound Publishing.

— Olá, sr. Grant. Um prazer inenarrável conhecê-lo pessoalmente. Sou muito fã do seu trabalho.

— Agradeço por isso. – ele respondeu. Fez um gesto com a mão chamando a garçonete. – Se importa de pedirmos algo para beber enquanto conversamos?

— De forma alguma, senhor.

— Então, que tal um café? – perguntou e acenou concordando. – Vou de expresso duplo com duas gotas de adoçante. – disse para a garçonete.

— Vou querer o mesmo, porém sem açúcar. – respondeu. Após alguns minutos, a garçonete voltou com os cafés. Mattew Grant deu um gole no seu café e voltou a atenção para o outro à sua frente.

— Então, sr. . Poderia falar um pouco de você? Já vi suas atribuições e sei que tem muita capacidade. Mas, queria te conhecer um pouco mais, algo além do que estava no currículo que foi enviado. – aquilo o pegou um pouco de surpresa, porém ele conseguia se expressar bem e rapidamente pensou no que poderia falar.

— Como o senhor sabe, estou finalizando minha graduação em letras e pretendo me especializar em developmental editing e editorial management, inclusive minha extensão foi em copyediting e atualmente é uma de minhas funções no meu emprego atual.

— Interessante.

— Sou apaixonado por livros desde que comecei a ler e já li quase dois mil livros em toda minha vida. Minhas paixões são a literatura francesa e inglesa. – respirou antes de continuar. – Meu hobby é a música, mais precisamente instrumentos musicais. Toco piano desde os 8 anos de idade, foi meu primeiro instrumento, aliás.

— Muito bom, sr. . Acho muito bonito.

— Quando eu tinha 13 anos comecei a aprender também guitarra, violino e flauta transversa. Porém, minha paixão é o piano. Tenho 25 anos e sou poliglota autodidata. – disse e por algum motivo, seu olhar foi além do homem à sua frente e pousou na mesma oposta, onde uma mulher estava sentada, com um olhar triste.

— Sério? – perguntou o homem surpreso. – Mas, por qual motivo escolheu aprender sozinho ao invés de fazer algum curso? – tentava se concentrar no editor, porém algo puxava seu olhar para a mesa do lado extremo.

— Gosto de explorar tudo aquilo que desperta curiosidade em mim e uma dessas coisas são as línguas.

— E quantas línguas você fala atualmente? – naquele momento, a mulher levantou o olhar e seus olhos se encontraram.

— Falo cinco. Inglês, que é minha língua materna, francês, italiano, mandarim e espanhol. Essas eu sou fluente mesmo, porém consigo desenvolver uma conversa em russo e português.

— Sensacional. – ele disse e continuou: – Fiquei sabendo que sua família mora um pouco distante e que você mora aqui desde o início da faculdade.

— Sim, isso mesmo. – pausou antes de continuar. – Bom, não foi fácil no início, mas depois de um tempo me acostumei. Meus pais me visitam com frequência, especialmente minha mãe.

— Isso é muito bom. – o editor respondeu e virou-se o olhar para o balcão e acenou com a mão. – Então, sr. . Eu realmente gostei da nossa conversa e gostaria de convidá-lo para nossa editora. Acredito que você terá muito a somar conosco e também teremos muito o que partilhar com você.

— Agradeço demais a oportunidade. – respondeu e seu olhar foi de encontro a mesa da mulher misteriosa, que no momento conversava com a garçonete.

— Mas, queria te oferecer algo além. – Mattew disse e o olhou atento. – Acredito que você está apto para ser editor assistente. O que me diz?

— Nossa, sr. Grant. Não sei o que dizer.

— Ficaria satisfeito se você aceitar.

— Com certeza aceito.

O editor chefe pagou a conta e logo em seguida passou as orientações para o rapaz e se despediram.
Mattew saiu, mas continuou sentado, olhando para a mesa da mulher que olhava para as mãos naquele momento.
Em seguida uma de suas mãos foi para seus olhos e o homem percebeu que ela estava chorando.

Levantou-se e foi para o balcão, pedindo um chá de camomila. Após o preparo, a garçonete entregou a xícara para ele e o homem caminhou em direção a mesa que tanto chamou sua atenção.

Como se esperasse aquela atitude, a mulher levantou os olhos e encarou o rosto do homem à sua frente, que a lançava um olhar gentil e doce.
não suportava ver uma mulher chorando e apesar de não saber muito o que fazer, achava que aquele chá poderia ajudar de alguma forma.

— Desculpa. Eu não quis te atrapalhar. – ela disse secando o canto do olho. – Eu já estou indo.

— Não, não. Fica. – ele disse estendendo a xícara de chá dele. – É camomila. É pra acalmar.

— Obrigada. – ela disse tomando um gole devagar.

—Tudo bem com você? Quer conver…– ela suspirou pesado.

— Meu marido está me traindo com minha cunhada. A mulher do irmão dele. Peguei os dois no escritório dele.

a olhou atônito e sem saber o que responder. Parecia que tinha tomado um tapa. Nunca encontrara um desconhecido que desabafasse tão rapidamente quanto aquela mulher fez.





Continua...