Finally, a Good Christmas
por Lary P. Oliveira


Challenge: #008
Nota: 8,4
Colocação:




Droga, só me faltava essa. Já passava de duas da manhã e meu remédio tinha acabado. Ótimo, seria uma madrugada passada em claro, mas nenhuma novidade pra mim. Joguei o frasco de compridos vazio fora e fui até a cozinha beber um copo d’água.
Seria uma questão de tempo até que a coceira começasse a se manifestar, assim como as dores. O medicamento era a única coisa que me mantinha longe daqueles sintomas. Aqueles comprimidos eram meus fiéis companheiros desde... quase sempre, e agora eles tinham me abandonado.
Suspirei, resignada, e fiquei andando pelo pequeno apartamento. Parei em frente à estante onde jaziam algumas fotos. Em uma eu me pendurava no pescoço de meu pai, que me segurava pela cintura.Nessa época eu devia ter uns doze anos, um pouco antes da doença ser descoberta.
Eu tinha a síndrome de Ekbom. Tinha sido diagnosticada quando ainda era bem nova, aproximadamente com meus quatorze anos. Na época meus pais ficaram bem assustados, eu tinha ataques constantes, alucinações onde eu achava que insetos estavam subindo pelo meu corpo e as consequências eram péssimas, eu gritava, me debatia, me coçava até não aguentar mais, muitas vezes causando feridas. Felizmente tinha tratamento, eu não podia deixar de tomar os remédios, caso contrário os sintomas voltavam. Como eu já estava pressentindo acontecer.


- Amiga, por favor, meu remédio acabou. – os soluços tomaram conta de mim de novo e me permiti chorar novamente, como já tinha feito tantas vezes naquela noite. Eu havia passado a noite toda acordada, com aquelas sensações horríveis, aquele desespero que tomou conta de mim e quando deu seis e meia da manhã não me segurei e liguei pra primeira pessoa que passou pela minha cabeça que não me mataria se eu a acordasse na manhã de um sábado. Minha amiga de infância, .
- , você é maluca? Tenta ficar calma, eu já estou indo. – desliguei o celular e abracei os joelhos, enquanto deitava de lado no tapete felpudo da sala. Não sei quanto tempo tinha se passado até que a porta da sala, a alguns metros de mim de abriu e entrou, correndo até mim.
- Sua doida, como assim você deixa o remédio acabar? – ela enfiou o comprimido, que não era tão grande, na minha boca e eu o engoli, sentando logo em seguida, ficando de frente pra minha amiga. – Você é tão irresponsável, até parece que nunca passou por esse tormento! Já não sabe que quando o frasco estiver acabando é pra comprar outro?!
- O dinheiro esta na minha carteira, em cima do balcão da cozinha. – me fuzilou com os olhos, e se eu não estivesse tão abalada teria rido.
- Eu não quero porcaria de dinheiro nenhum, só queria que você tivesse um pingo a mais de responsabilidade, coisa que você tem até demais com o trabalho. Por que não pode ser assim consigo mesma também?
Ela sentou do meu lado e eu repousei a cabeça no seu ombro.
- , você sabe que eu amo o que eu faço, engenharia de alimentos é minha paixão, não me vejo fazendo outra coisa e não é que eu deixe de tomar os remédios por querer, eu só esqueço.
- Então trate de não esquecer. Vou ter que vir aqui toda semana pra saber se seu remédio está acabando ou não?
- Não, pode deixar que eu tomo conta, você aqui em casa toda semana não.
Ela riu e saiu do meu lado, me olhando com uma expressão falsamente ofendida. Ri de leve e fui - lê-se me arrastei - até ela, abraçando-a com a força que pude.
- O que eu seria sem você, hein? – perguntei, sentindo afagar meus cabelos.
- Nada, eu sou indispensável na vida de todos. – ri e me afastei.
- Convencida nem é também, né?!
- Eu posso. – seu sorriso murchou um pouco e eu percebi que ela queria falar alguma coisa.
- Manda, despeja a bomba. – cruzei os braços e esperei.
- É que... – ela parecia sem graça e coçou a cabeça, olhando pro tapete. – Só faltam algumas semanas pro natal e minhas férias começam essa semana e... o Victor quer muito que eu vá passar essas semanas na casa dos pais dele na Espanha. – seu olhar me pedia desculpas e eu percebi o quanto havia sido dependente de todos esses anos.
Meus pais haviam morrido alguns anos atrás em um acidente de carro e desde então ela tinha se tornado meu porto seguro. Mas agora ela precisava que eu a deixasse ir. Victor e tinham se conhecido na faculdade de arquivologia e como a Espanha era um país muito histórico, a profissão havia passado de geração em geração na família de Victor. O casamento estava marcado para dali a alguns meses e não podia continuar cuidando de mim como se eu fosse um bebê, ela agora teria sua própria família para se preocupar.
- A Espanha é... um pouco longe daqui. Vou sentir saudades de você. Vê se liga e me conta todos os detalhes. – falei, abrindo um sorriso sincero. Ela sorriu aliviada e me abraçou mais uma vez.
- Pode deixar que eu ligo, e se prepara porque você ainda vai comigo pra lá, algum dia.
- Sim, senhora. – falei, me levantando.
De repente, o celular de começou a tocar e eu comecei a dançar como pude, apesar das dores do ataque que ainda estavam presentes. O toque do celular dela era The Rock Show, do Blink-182, uma das minhas bandas favoritas.
- Louca – falou ela, rindo baixinho, antes de atender. – Oi, amor. – disse, com a voz toda melosa. Era Victor, fato. Ri internamente e fui até o banheiro, pondo um pouco de creme dental na escova e escovando os dentes, já que estava desde o dia anterior sem escová-los.
Meia hora depois já tinha ido embora, já que eu estava melhor. Resolvi tomar um banho e sair pra tomar café da manhã. Depois de um longo banho, resolvi passar um pouco de hidratante no corpo. Pus uma roupa confortável e meus inseparáveis brincos de ouro, que haviam pertencido à minha mãe.
Andando pelas ruas de Tribeca, meu bairro natal, fui admirando a paisagem. Ri de mim mesma quando me peguei fazendo isso, já que em Manhattan não havia muito o que se admirar, além dos gigantescos prédios. Andei mais algumas ruas e então parei em uma Starbucks. Perfeito. Isso sim era um ótimo jeito de começar o dia, um delicioso muffin acompanhado de um frappuccino.
Terminei de tomar meu café tranquilamente e depois de deixar a cafeteria, que começava a encher, resolvi andar mais um pouco. Mesmo depois da noite péssima não me sentia com sono, pelo contrário, estava afim de passear.
Com uma certa nostalgia, percebi que muitas entradas de prédios já estavam enfeitadas para o natal com pisca-pisca, guirlanda e tudo mais. Refleti sobre como seria meu natal esse ano e suspirei, resignada em pensar que seria um natal mais solitário do que o de costume.
Vi um pet shop já aberto do outro lado da rua e resolvi entrar, achando que alguns filhotinhos de labrador com certeza deixariam meu dia melhor, mas de primeira acabei me frustrando.
Aquele pet shop não era uma loja de animais qualquer onde se vende passarinhos, gatinhos e cachorrinhos. Ao meu lado esquerdo havia um tanque fechado com uma cobra verde pequena, que descansava preguiçosamente em um galho fino de árvore. Dei mais alguns passos, parando em frente a uma gaiola com alguns porcos espinhos. A loja tinha um aspecto exótico, com as paredes verdes e apenas algumas luminárias coloridas que iluminavam o local, além de uns quadros de pinturas de bichos. Num deles uma zebra bebia água em um lago. Observei melhor os cantos e vi desde aranhas, sapos até um caramujo. Apesar de estreito o lugar era comprido e eu fui adentrando a loja, admirada com as novidades dali. Tinha um homem de costas, olhando pra algo que estava em um tanque. Me aproximei, curiosa pra ver o que ele tanto admirava, até que obviamente ele sentiu a minha presença e se virou assustado.
- Desculpa, não queria te assustar. – falei, com vergonha.
- Não, tudo bem – ele sorriu e então eu pude prestar mais atenção nele. Um pouco mais alto que eu, a pele de um branco parecido com leite, cabelos loiros caindo em frente aos olhos, olhos azuis e um sorriso bem fofo.
- Você é dono daqui? – perguntei.
- Não. Embora fosse o tipo de loja que eu gostaria de ter. Adoro animais exóticos, principalmente os lagartos.
- Lagartos? – cada louco com a sua mania, mas não pude deixar de confirmar.
- É. Eu to pensando em comprar essa fêmea – apontou para o que estava dentro do tanque, o qual ele estava olhando antes. O lagarto olhou na nossa direção, mas logo desviou o olhar, como se não estivesse nem aí pra nós.
- Ela é bem legal – falei, meio incerta.
- Eu já tenho um, o Zukie, mas ele anda triste, acho que é falta de companhia de alguém da sua espécie. – explicou, como se fosse a coisa mais normal do mundo alguém ter dois lagartos em casa.
- Entendi. Umas semanas atrás eu pensei em comprar um gatinho. – falei, me arrependendo logo depois pela frase tosca.
- Gatos não são pra mim, quem gosta deles é meu amigo Tom, se pudesse ele teria um... – ele pareceu pensar por um alguns segundos – gatil? – perguntou incerto.
- Acho que sim – sorri de leve. Ele apenas me olhou por mais alguns segundos, até estender a mão.
- Dougie, mas pode me chamar de Doug.
- , mas pode me chamar de . – Doug sorriu.
Um silêncio se instalou enquanto nos encarávamos. Mordi o lábio, sentindo o rosto queimar gostosamente pela maneira que ele me olhava de maneira intensa, mas fofa. Desviei os olhos dos dele e consultei meu relógio. Marcava quase onze da manhã e por mais que eu não tivesse absolutamente nada pra fazer o resto do dia resolvi voltar pra casa.
- Bom, já vou embora. Boa sorte com o Zukie e a nova companheira – sorri, sendo acompanhada por Doug.
- Obrigado, tenho certeza que eles vão se dar bem.
Dei um ultimo sorriso de despedida e me virei pra sair da loja. Quando já estava saindo ouvi Doug me chamar de volta. Ele veio até a porta da loja, onde eu havia parado e mordeu o lábio inferior.
- , eu sei que a gente acabou de se conhecer, mas eu queria saber se você não queria sair qualquer dia pra tomar um café, ou jantar, sei lá. – sua expressão era ansiosa e eu minhas bochechas queimaram novamente.
- Ér... claro, por que não?
- Me passa seu telefone, então, pra que eu possa te ligar. – ele me estendeu o próprio celular e eu anotei ali meu número. Números trocados, nos despedimos e eu fui andando novamente pra casa, rindo comigo mesma, da manhã estranha que eu havia tido.
Voltei pra casa e tomei um copo de leite, sentindo o sono finalmente chegar. Coloquei uma roupa mais confortável e deitei na cama, me entregando ao sono, que embora necessário, nunca seria tranquilo.
Acordei só quando o sol já estava se pondo, com uma terrível dormência nas pernas. Tomei mais um comprimido que servia de tratamento. Fui até a janela e fiquei admirando o sol se pôr, pensando em como seria a minha vida se eu não tivesse esses ataques frequentes e se meus pais não tivessem morrido tão cedo. Eu tinha apenas vinte e quatro anos, mas carregava uma bagagem imensa de vida e aquilo às vezes realmente cansava e era exatamente por isso que eu trabalhava tanto. O trabalho compensava todas as noites mal dormidas, todo o trabalho que eu já havia dado aos meus pais e à . Era através dele que eu me sentia útil.
Coloquei um cd do Maroon 5 pra tocar e fui dar uma arrumada no apartamento, que estava realmente necessitado. Como era um lugar pequeno não deu muito trabalho, e pouco tempo depois eu já tinha terminado e tomado banho. Enquanto saia do banheiro meu celular começou a tocar e não me impedi de sorrir quando li no visor ‘Doug’.
- Oi, Doug.
- Oi, . Tudo bem?
- Sim, você e o Zukie estão bem? – comecei a andar pelo quarto, numa mania de andar enquanto falava no telefone.
- Ótimo. O Zukie adorou a nova companheira dele.
- Que bom, só espero que ele me convide pro casamento. – escutei a risada de Doug do outro lado da linha e ri junto.
- Com certeza ele vai. – ficamos em silêncio alguns segundos. Mordi o lábio, esperando que ele falasse alguma coisa e me joguei pra trás, caindo deitada na cama com o telefone ainda no ouvido. - ?
- Oi?
- Ér... nada não, é que... bem... – eu podia sentir o quanto Doug estava nervoso por algo que ele queria dizer e aquilo estava começando a me deixar nervosa.
- Desembucha, Doug.
- Desculpa, é que eu não tenho o mínimo jeito pra essas coisas – ele riu desconcertado e então eu pude ouvir o som da respiração dele, como se ele estivesse respirando fundo e soltando o ar algumas vezes – quer iraoMarketParkcomigo?
- Eu... não entendi, Doug.
- Você quer ir ao Market Park comigo? – falou ele, mais pausadamente e repentinamente eu me senti nervosa.
- Ham... claro, adoraria.
- Ah, ta. – sorri. Ele parecia aliviado e eu podia apostar que estava sorrindo também. - Passo ai em duas horas?
- Ok.
Passei meu endereço pra ele e desliguei o celular. E então bateu o desespero. Eu tinha que fazer o milagre de achar uma roupa decente na loucura do meu guarda-roupa. Pulei da cama e corri até o armário, jogando todas as roupas pra fora na esperança de achar alguma coisa que prestasse. Não que eu fosse totalmente desprovida de vaidade, eu passava rímel e lápis de olho pra ir pro trabalho, mas não via porque de comprar roupas, o que acabou se mostrando um erro em um momento de necessidade como esse.
Com uma óbvia ajudinha do divino, pois eu nem sabia que eu tinha aquele vestido, fiquei pronta meia hora antes do combinado, ainda dando tempo de fazer alguma coisa no cabelo, mas resolvi deixa-lo apenas em um coque frouxo perto da nuca, agradecendo por ter um cabelo bom e só ter tido o trabalho de fazer uma trança embutida rápida nele.


Já fazia uma hora que estávamos no parque, andando, conversando, vendo as criancinhas se lambuzarem com sorvete e a mãe sair gritando atrás delas enquanto elas corriam rindo. Eu e Doug nos sentamos em um banco mais afastado, da onde dava pra ver perfeitamente a lua lá em cima, brilhar naquele início de noite.
- Faz sentido você ter escolhido uma profissão de laboratório. – ele falou, me olhando de um jeito engraçado, que fazia com que parecesse que tinha borboletas em meu estômago.
- Exato. Eu pesquisei uma vez, se chama glossofobia. A partir do diagnóstico, meu sonho de carreira pop star foi por água abaixo. – Doug riu, jogando o cabelo loiro pro lado. - As pessoas sempre riem quando eu conto sobre as minhas doenças malucas. - dei de ombros.
- Desculpa, eu não posso rir, sou professor de matemática, amo lagartos, musica clássica e tenho coimetrofobia. Estamos empatados.
- Música clássica? – perguntei, depois de alguns segundos refletindo, o que o fez soltar uma gargalhada gostosa. Malditas borboletas no estômago.
Ele deu de ombros e ficamos em silêncio, mas era um silêncio bom. A noite de Nova York estava particularmente estrelada e fiquei admirando as estrelas por algum tempo, até que eu senti aquela estranha sensação de estar sendo observada.
Virei a cabeça pro lado e então meu coração disparou de uma maneira descontrolada. Dougie me olhava de uma maneira quase íntima e seu rosto estava mais perto do que eu imaginava do meu. Céus, o que eu estava fazendo? Eu conhecia aqueles sintomas dos quais os filmes tanto falavam. Mãos soando? Confirmado. Respiração descompassada? Confirmado. Coração batendo na velocidade da luz? Confirmado. Eu estava ferrada? Confirmado.
Seus olhos azuis brilhavam e a minha vontade era de nunca mais desviar os olhos. Doug segurou meu rosto com uma mão, acariciando minha bochecha com o polegar e eu me segurei pra não fechar os olhos ao seu toque. Era como se meu cérebro gritasse dizendo pra eu acabar com aquilo, mas meu corpo simplesmente não respondia. Seu rosto aproximou-se lentamente do meu e senti Doug chegar o corpo mais pra perto de mim no banco, praticamente me deixando prensada entre ele e as costas do banco. Sua bochecha roçou na minha, fazendo cócegas com sua barba mal feita. Que por sinal o deixava sexy demais. Doug depositou um beijo no canto da minha boca, apenas pra me provocar, antes de beijar de leve meus lábios, quase apenas um roçar.
- Sabe, antes, na minha cabeça, professores, principalmente os de matemática deviam ser gordos, calvos e com cara de nerd. Mas agora vejo que preciso mudar alguns conceitos. – sussurrei. Doug riu de leve e finalmente, acabando com a minha tortura, me beijou.
WHAT THE HELL? Por que aquilo tinha que ser tão bom? Era uma coisa tão nova, eu me sentia uma menininha que beijava pela primeira vez. Doug levou a mão ate meu pescoço e me puxou, dando mais intensidade ao beijo. Geralmente eu ficava com os caras apenas pra me divertir, nunca senti nada além de simpatia por eles, mas apenas olhar pra Doug, sentir o olhar dele em mim era o suficiente pra que meu estômago desse cambalhotas e minhas bochechas corassem. Seus toques eram tão certos, eu não tinha vontade nenhuma de sair dali, dos braços dele.
Quando quebramos o beijo ele me olhou assustado, mas não se afastou, apenas me olhou daquele jeito fofo que só ele conseguia fazer, me dando aquele friozinho na barriga.
- O que é isso? – perguntei.
- Não tenho a mínima ideia. Mas eu gosto. Você não?
- Bastante. – Doug encostou seus lábios nos meus e levantou, puxando minha mão.
Só quando levantei percebi que estávamos sentados há muito tempo e em nenhuma vez, desde que sentei não senti coceira, nenhuma dor... nada. E já estava de noite, a parte do dia quando os sintomas costumavam a atacar mais. Extasiada com aquela sensação diferente, de pela primeira vez em anos não me preocupar de sentir dor.
Mas outra coisa martelava na minha cabeça. Depois do meu último namorado eu havia prometido pra mim mesma que não teria mais nenhum relacionamento sério onde o cara precisasse me conhecer mais do que o necessário e estava quebrando aquela regra naquele momento. Não que eu fosse coração de pedra e ficasse bem com a ideia de morrer sozinha, mas eu não precisava ouvir de outro o que ouvi de Lex. Ele não suportou mais de dois meses dormindo ao meu lado, com toda a inquietação em que eu ficava. Disse que sentia muito por eu ser doente, que sabia que não era uma coisa que eu fazia de propósito, mas que não podia continuar daquele jeito. Eu chorei? Me esperneei pedindo desculpas e prometendo me comportar? Fiquei em depressão? Não. O mandei ir à merda. Admito que aquilo me magoou bastante, eu estava criando expectativas quanto à Lex, sem contar que era perto do natal, e desde que meus pais morreram eu passava o natal ou sozinha ou com e a família. Embora eles me adorassem, eu me sentia uma intrusa.
Tomei um susto quando Doug estalou os dedos na frente do meu rosto, percebendo que eu estava completamente alheia. Sorri pra ele. Ainda não tinha contado a ele sobre a minha doença. Podia ser que ele não se importasse, mas eu não queria correr o risco de perde-lo tão cedo. Admirei as árvores do parque enfeitadas com pisca-piscas coloridos e aquela nostalgia de um natal alegre com a família e os amigos abateu-me de novo.
- Você ta bem, ? – perguntou Doug, visivelmente preocupado com o meu silêncio.
- To, eu só estava pensando. – nos andávamos lentamente. Enfiei minhas mãos nos bolsos do casaco pra me aquecer. A neve agora caia fina. Senti que Doug continuava a me olhar, então o olhei de volta com a sobrancelha erguida. – o que foi?
- Nada não – ele sorriu de leve e desviou o olhar. Notei que suas bochechas coraram levemente.
Continuamos andando mais alguns metros em silêncio. Fiquei brincando com a fumaça que saia da minha boca quando eu respirava, soltando baforadas de tempos em tempos. Doug me deixou em frente ao meu prédio poucos minutos depois, depositando um selinho em meus lábios, com um sorriso.
Enquanto ele ia embora meus olhos continuavam fixos nele, talvez pra ter certeza de que ele não evaporaria e eu não acordaria naquele momento.
O resto da semana foi bem corrido. Eu estava no meio e várias pesquisas importantes e com a proximidade do natal eu tinha que deixar tudo adiantado. Na quarta e na quinta Doug me ligou, pouco depois de eu ter chegado em casa depois do trabalho, completamente exausta. Ficamos conversando até eu perder a noção da hora e acabar adormecendo no sofá enquanto ele cantava pra mim.


As pessoas corriam de um lado para o outro pela cidade em busca de presentes de natal, enfeites de natal, comida para o natal. E eu? Continuei com a minha rotina, embora me pegasse várias vezes ao dia relembrando as conversas com Doug, o quanto ele era tão diferente. Na sexta feira recebi uma ligação dele perguntando se eu não queria jantar com ele. Aceitei na hora, antes mesmo de Doug terminar de falar, e me senti estúpida logo em seguida, escutando a risada dele. Embora estivesse cansada, o tempo que passávamos juntos ou apenas conversando pelo telefone era a única coisa que me alegrava ultimamente.
Aquela com certeza era uma situação na qual eu precisava de ao meu lado. Ou não. Eu parecia uma garotinha de dez anos, que ama rosa, quando fica afim do garoto popular da escola. não deixaria isso passar e tiraria uma com a minha cara até o fim dos meus dias. É, é bom que ela continue desavisada. O problema é que estava tudo acontecendo tão rápido bem debaixo do meu nariz e eu nem estava percebendo porque... bem, porque eu estava adorando.
Era uma sexta feira e eu terminava de me arrumar. Me olhei no espelho de corpo todo que eu tinha no meu quarto e alisei o vestido. Aquela tarde eu tinha ido ate o shopping e comprado essa roupa , com exceção do brinco, e agora eu terminava de pôr as pulseiras, com as mãos tremendo ligeiramente. As lembranças de algumas horas antes passaram pela minha mente, me deixando mais ansiosa ainda.

Algumas horas antes...

- Oi, – falou Doug, com uma voz animada, assim que eu atendi o celular.
- Hey, Doug. – e quando dei por mim já estava sorrindo de novo.
- Tudo bem?
- Ótima, e você?
- Ótimo. Liguei pra avisar que a senhorita vai jantar no meu humilde apartamento, hoje. E sim, isso é uma intimação.
- Bom, já que é assim eu vou. Até a noite, Doug.
- Até, .
Desliguei o celular, voltando a atenção pra fila. Estava no horário de almoço e enquanto a fila andava a ficha foi caindo... ELE ME CHAMOU PRA JANTAR NA CASA DELE! Ou seja, eu tinha que tomar providências, e a primeira delas era comprar uma roupa decente. Droga, nem eu estava reconhecendo a mim mesma. Nem preciso dizer de quem é a culpa, né?! Isso é no que dá quando você se impõe a regra de não saber nem o nome dos caras com que fica.
Na mesma hora, fui até meu chefe e pedi dispensa do resto daquele dia, tendo em vista que eu tinha algumas – muitas – horas extras e fui correndo ao shopping.


Chegando a frente do prédio tive a ligeira noção de que meu queixo havia caído. Era um condomínio enorme, vermelho e com um jardim perfeitamente cuidado. Algum tempo depois eu já estava no elevador, tendo o porteiro super simpático interfonado pra avisar que eu já havia chegado.
Alguns andares acima, Doug me recebeu apenas de calça jeans e avental. Morri? Não, imagina. Dando aquele sorriso que me deixava mais lerda do que o normal, Doug deu espaço pra que eu passasse. Entrei, tentando esconder a vergonha que sentia mexendo nervosamente na alça da bolsa.
- Fica a vontade, , o jantar ta quase pronto. – Doug se adiantou e eu prendi a respiração quando seus lábios tocaram minha bochecha demoradamente. Me deixando atônita, ele se afastou e voltou pra cozinha.
Ainda meio acanhada, comecei a andar pelo apartamento, espaçoso e aconchegante, com tons quentes, contrastando com o clima de NY. Deixei minha bolsa em cima do sofá e sentei. A cozinha era acoplada com a sala, então deixei minha bolsa ali e sentei de lado, não resistindo ao ver Doug lutar contra a travessa de macarronada que estava cheirando perigosamente bem. Fui até o balcão da cozinha e me escorei nele, observando as costas de Doug do outro lado, de costas pra mim, dando os últimos retoques no que seria nossa janta. Meus olhos percorreram por suas costas, seus ombros, até a barra da sua jeans, que estava tão abaixo da cintura que dava pra ver metade da sua cueca azul marinho. Eu nem queria saber como as pobres meninas que tinham aula com Doug conseguiam prestar atenção na aula. Se é que prestavam.
- Espero que goste, você vai ser a cobaia que vai experimentar a primeira macarronada que eu faço na vida. – Doug se virou pra mim, com a travessa de macarrão nos braços, sorrindo de um jeito fofo.
- E você viveu até hoje de que?
- Quando não da comida da minha mãe, de comida congelada. – eu ri, vendo-o fazer uma careta envergonhada.
Doug foi até a mesinha de jantar e pôs a travessa em cima, e só naquela hora eu percebi que já estava arrumada com talheres, copos e uma garrafa de vinho. Ele foi até o sofá da sala e pegou uma blusa azul clara social, tirou o avental e pôs a blusa, de costas pra mim. Estava tão distraída com seus movimentos que tomei um susto quando ele me olhou e automaticamente minhas bochechas queimaram.
- Ham... vamos ver o que você escuta. – fui até o aparelho de som, a alguns passos de mim, encostado à parede, de modo que eu podia esconder o rosto por estar de costas pra ele. Liguei o aparelho e o som calmo de um piano preencheu o ambiente. Depois de alguns segundos olhei pra Doug, já esquecida do momento embaraçoso que havia acontecido e segurei uma risada, vendo-o corar e coçar a nuca. - É... Beethoven. – falou ele, como se precisasse explicar.
- Você realmente gosta de música clássica. É... estranho. Mas é lindo. – reconheci. A música passava uma calma, uma paz e ao mesmo um sentimento tão enormes... Sentei no sofá e apenas e fechei os olhos, prestando maior atenção na melodia.
- É por isso que eu amo música clássica. Principalmente Beethoven, é meu favorito. – falou Doug, assim que eu senti o sofá afundar ao meu lado. – muitas vezes eu faço o mesmo que você está fazendo agora e parece que todos os problemas desaparecem.
Olhei pra ele, que tinha os olhos fechados, com a cabeça escorada no encosto do sofá. Seu rosto parecia tão sereno, era quase palpável a sua absorção das notas musicais. Ajeitei-me no sofá de lado, de modo que ficasse com o corpo de frente pro dele. Parecia que a minha vida antes de conhecer Doug havia acontecido há muito tempo e não apenas algumas semanas.
Os últimos acordes da música foram tocados e de repente Doug pulou do sofá me puxando junto pela mão.
- Vamos jantar, minha barriga tá roncando. – falou, me levando até a mesa de jantar, puxando uma cadeira pra que eu sentasse e a empurrando pra frente assim que eu o fiz. Ele se sentou à minha frente e nos serviu do macarrão que cheirava bem demais pro bem da minha forma física.
Doug não era o tipo de cara fechado, era tímido de início e logo se soltava. Depois de jantarmos ele contou sobre a sua infância e de como tinha sido difícil quando o pai abandonou o lar quando ele era apenas um adolescente. Não que eu estivesse criando expectativas, eu procurava não criar expectativas a respeito de nada, mas olhando de maneira realista pra mim e Doug juntos, nós éramos um casal perfeito. Dois problemáticos com fobias, traumas e gostos estranhos. Muito romântico.
Estávamos no sofá vendo o que passava na tevê, eu sentada e ele deitado com a cabeça no meu colo enquanto eu enrolava os dedos nas mechas do seu cabelo. Um filme me chamou a atenção e eu pedi pra Doug deixar onde estava.
- Senhor e senhora Smith, ? – perguntou ele.
- Claro, esse filme é ótimo, o Brad Pitt fica extremamente sexy com uma arma na mão.
- Fala sério, como alguém pode ficar sexy com uma arma na mão? – ele me olhava assustado.
- Vai falar que a Angelina não fica?
- Ela não precisa disso e além do mais, armas me dão calafrios, se dependesse de mim não existiria nenhum tipo de arma – ele ergueu o controle remoto e trocou de canal novamente, deixando em um programa de culinária.
- Eu sempre fui apaixonada, meu avô paterno tinha uma coleção, desde armas clássicas até automática. Meus pais o proibiram de me ensinar a atirar, mas mesmo assim ele me ensinou.
- E hoje você é engenheira de alimentos. – Doug sentou no sofá, olhando pra mim com um sorriso divertido e eu ri com a ironia. Levantei e fui até a grande janela do apartamento. Deixei que o vento fresco batesse no meu rosto, enquanto olhava o mundo de luzes que era NY, ainda mais à noite. Um par de braços circundou minha cintura e então senti o corpo de Doug colar ao meu por trás, sua respiração quente contra a minha nuca contrastando com o vento gelado que vinha de fora. Estremeci de leve, e fechei os olhos, aproveitando melhor a sensação dos lábios dele que agora encostavam de leve no meu pescoço.
Ficamos apenas abraçados por um tempo, quando virei meu rosto pra poder olhá-lo.
- Por que não decorou o apartamento pro natal? – perguntei, só naquela hora percebendo que não havia nada ali que lembrasse de que o natal era na realidade no próximo final de semana.
- Não senti necessidade de decorar. – ele deu de ombros, desviando o olhar do meu e voltando a olhar pro céu estrelado. Apenas assenti com a cabeça. – o que você pediria, se pudesse pedir qualquer coisa? Um presente de natal? – perguntou ele, ainda olhando pro céu.
O olhei de lado. Coincidentemente eu já havia parado pra pensar naquilo.
- Eu pediria pra ir no show do Michael Jackson. – Doug virou a cabeça na minha direção de uma forma cômica, enquanto sua boca se abria, formando um ‘o’.
- Ta brincando? – perguntou ele, ainda me olhando daquele jeito esquisito.
- Não. Sou apaixonada por ele desde sempre. E você? O que pediria? – Doug estava com o olhar perdido, e com a minha pergunta pareceu despertar.
- Também sou fã dele. Eu pediria... – suas bochechas coraram levemente, me fazendo franzir o cenho. – Esquece, vem.
Doug me soltou e me puxou pela mão até o meio da sala, de frente pra tevê. Me deixando ali parada, ele foi até o balcão da cozinha e pegou duas colheres grandes de madeira, jogou uma pra mim e ficou com a outra. Ele foi até o quarto e poucos segundos depois voltou com um cd nas mãos. Após pôr o cd no dvd, ligou a tevê e se virou pra mim sorrindo.
- Não é o próprio, mas...
Olhei desconfiada pra tevê e de repente surgiram as primeiras imagens de The Way You Make Me Feel, do meu amado Michael Jackson. Como assim o Doug tinha um dvd do Michael? É, isso mesmo, nos tratamos pelo nome, embora agora ele só se comunique comigo do Além. Dá pra deixar eu sonhar um pouquinho? Obrigada.
Encarei Doug, sentindo um sorriso nascer no meu rosto antes que eu pudesse me conter. O clipe mostrava a parte em que Michael vai até a garota e ao mesmo tempo que ele começou a falar tomei um susto ao ouvir a ao voz de Doug ao meu lado, usando a colher como microfone e cantando em sincronia com o Michael.

You knock me off of my feet, baby (Você me tira do sério, querida)

A música começou a tocar e Doug começou a andar pela sala, como se estivesse imitando os passos do vídeo. Continuei parada estática, segurando a vontade de rir.

Hey pretty baby with the high heels on (Ei gata, você de salto alto)
You gave fever like I’ve never, ever known (Você me deu febre como eu nunca, nunca senti antes)
You’re just a product of loneliness (Você é um produto de graça)
I like the groove of your walk, (Eu gusto do ritmo no qual você anda)
Your talk, your dress (Sua fala, seu vestido)
I feel your fever from miles around (Eu sinto seu calor a milhas de distância)
I’ll pick you up in my car (Vou pegar você com meu carro)
And we’ll paint the town (E nós vamos pintar a cidade)
Just kiss me baby and tell me twice (Apenas me beije e me diga duas vezes)
That you’re the one for me (Que você é a certa pra mim)

Doug passou a me rondar, assim como no clipe, e entrando na brincadeira eu o olhei de cima abaixo com um olhar de deboche, colocando a mão no quadril, já que não tinha como ignorá-lo e andar pelo espaço limitado do apartamento.

The way you make me feel (O jeito que você faze eu me sentir)
(The way you make me feel) (O jeito que você faze eu me sentir)
You really turn me on (Você me excita pra valer)
(You really turn me on) (Você me excita pra valer)
You knock me off of my feet (Você me tira do sério)
(You knock me off of my feet) (Você me tira do sério)
My lonely days are gone (Meus dias de solidão acabaram)
(My lonely days are gone) (Meus dias de solidão acabaram)

Ele começou a cantar o refrão e eu o acompanhei como segunda voz, mas ainda mantendo a pose da garota. Comecei a andar, dando a volta no sofá e Doug veio atrás, cantando.

I like the feeling you’re giving me (Eu gusto da sensação que você me causa)
Just hold me baby and I’m in (Apenas me abrace e eu entro en êxtase)
Oh I’ll be working from nine to five (Eu estarei trabalhando das nove às cinco)
To buy you things to keep you by my side (Para comprar pra você coisas que a mantenham do meu lado)
I never felt so in love before (Nunca me senti tão apaixonado antes)
Just promise me baby, you’ll love me forever more (Apenas me prometa que me amará pra sempre)
I swear I’m keeping you satisfied (Eu juro que a manterei satisfeita)
‘Cause you’re the one for me (Porque você é a certa pra mim)

Sentei no braço do sofá, enquanto Doug encenava a música. Eu me segurava pra não rir. Doug apontava pra mim, como se estivesse realmente falando comigo e eu não pude deixar de deixar que meus pensamentos flutuassem um pouco com aquela possibilidade. Na parte “I swear i’m keeping you satisfied” ele me lançou um conjunto de olhar e sorriso nada santo. Instantaneamente senti minhas bochechas arderem.
A música continuou rolando, com Doug fazendo a imitação, que se não fosse propositalmente engraçada seria muito boa.
Eu acompanhava pela segunda voz, gargalhando sempre que Doug tentava cantar com a voz aguda. Antes do final da música Doug se aproximou de mim, deixando nossos rostos separados por milímetros de distância.

(You really turn me on)(Você me excita de verdade)
(You knock me off of my feet)(Você me tira do sério)
(My lonely days are gone)(Meus dias solitários acabaram)

Seu olhar caiu na direção da minha boca e instintivamente eu mordi o lábio, fazendo-o dar um sorriso de lado. Embora eu pensasse que ele fosse me beijar (não que eu quisesse isso desesperadamente) ele apenas se afastou e começou a dançar, assim como no clipe, claro que de uma forma mais desajeitada, unicamente Doug. Se eu já estava rindo desde o início, quando ele deitou no chão e começou a subir e descer o quadril eu não me aguentei. Minha barriga doía de tanto rir e as lágrimas escorriam pelo canto dos meus olhos.
Quando a música acabou Doug permaneceu deitado no chão, de barriga pra baixo enquanto eu tentava me acalmar.
Permanecemos em silêncio durante alguns segundos, enquanto nossas respirações se acalmavam, até que outra começou a tocar, dessa vez bem mais calma. Fechei os olhos, me deixando tomar pela melodia calma e perfeita. Senti algo tocar minha bochecha e quando abri os olhos Doug estava em pé diante de mim. Sua mão estava estendida na minha direção e um sorriso discreto pendia em seus lábios.
- A senhorita me daria a honra dessa dança?
Segurei em sua mão e me levantei, deixando um sorriso escapar. O que era estranho. Eu não tinha que me obrigar a sorrir quando estava perto de Doug, era tudo tão natural, chegava a ser patético, às vezes, o modo como eu estava sempre querendo sorrir diante a mera lembrança dos momentos com ele.

Tell the angels no, I don’t wanna leave my baby alone (Diga aos anjos que não, eu não quero deixar meu amor sozinho)
I don’t want nobody else to hold you (Não quero que mais ninguém a abrace)
That’s a chance I’ll take (É uma chance que eu agarrarei)
Baby i’ll stay, heaven can wait (Querida, eu vou ficar, o céu pode esperar)
No, if the angels took me from this earth (Não, se os anjos me levassem deste mundo)
I would tell them bring me back to her (Eu diria a eles pra me trazerem de volta pra ela)
It's a chance I'll take, maybe I'll stay (É uma chance que eu vou agarrar, talvez eu fique)
Heaven can wait (O céu pode esperar)

Nos aproximamos e eu passei os braços ao redor do pescoço dele, que repousou as mãos na minha cintura, envolvendo-a completamente, de modo a não deixar nenhum espaço entre nós. Começamos a nos mexer pra lá e pra cá, quase não saindo do lugar.

You're beautiful, you're wonderful, incredible I love you so (Você é linda, você é maravilhosa, incrível e eu te amo tanto)
You're beautiful (Você é linda)
Each moment spent with you is simply wonderful (Cada momento que eu passo com você é simplesmente maravilhoso)
This love I have for you girl it's incredible (Esse amor que eu tenho por você, garota, é incrível)
And I don't know what I'd do, if I can't be with you (E eu não sei o que faria se eu não pudesse ficar com você)
The world could not go on so every night I pray (O mundo não poderia seguir em frente e então eu rezo toda noite)
If the Lord should come for me before I wake (Se o Senhor deve vir pra mim antes que eu acorde)
I wouldn't wanna go if I can't see your face, can't hold you close (Eu não iria querer ir se eu não pudesse ver seu rosto, não pudesse te abraçar)
What good would Heaven be If the angels came for me I'd tell them no (Que bom seria o céu se os anjos viessem pra mim e eu diria a eles não)

Ergui meus olhos e me deparei com os dele, tão próximos, tão doces, transparentes. Era como se eu pudesse ver sua alma por ali e eu amava o que via. Embrenhei meus dedos no cabelos macio dele, fazendo um carinho sutil. Seu sorriso aumentou e por alguns segundos Doug fechou os olhos, como um sinal de que estava gostando do carinho.

Tell the angels no, I don't wanna leave my baby alone (Diga aos anjos que não, eu não quero deixar meu amor sozinho)
I don't want nobody else to hold you (Eu não quero que mais ninguém a abrace)
That's a chance I'll take (É uma chance que eu agarrarei)
Baby I'll stay, Heaven can wait (Querida, eu vou ficar, o céu pode esperar)
No, if the angels took me from this earth (Não, se os anjos me levassem desse mundo)
I would tell them bring me back to her (Eu os diria pra me trazer de volta pra ela)
It's a chance I'll take, maybe I'll stay (É uma chance que eu agarrarei, talvez eu fique)
Heaven can wait (O céu pode esperar)
Unthinkable (Impensável)
Me sitting up in the clouds and you are all alone (Eu sentado nas nuvens e você sozinha)
The time might come around when you'd be moving on (O tempo poderia voltar quando você fosse embora)
I'd turn it all around and try to get back down to my baby girl (Eu viraria e tentaria voltar pra ter minha linda de volta)
Can't stand to see nobody kissing, touching her (Não aguento ver ninguém beijando-a, tocando-a)
Couldn't take nobody loving you the way we were (Não aguentaria ter alguém amando-a do jeito que nós nos amávamos)
What good would Heaven be If the angels come for me I’d tell them no (Como o céu seria bom se os anjos viessem por mim, eu diria pra eles que não)

Doug aproximou e boca do meu ouvido e passou a sussurrar a música. Os arrepios que percorriam minha espinha eram constantes, mas deliciosos. Enterrei meu rosto na curva do seu pescoço, inalando seu perfume. Quando a ponta do meu nariz roçou na pele dele, o senti se arrepiar e meu peito inflou com aquele sentimento se tê-lo ali em meus braços se arrepiando por um singelo toque meu. Era bom saber que eu era correspondida.

Tell the angels no, I don't wanna leave my baby alone (Diga aos anjos que não, eu não quero deixar meu amor sozinho)
I don't want nobody else to hold you (Não quero deixar que ninguém mais te abrace)
That's a chance I'll take (É uma chance que eu agarrarei)
Baby I'll stay, Heaven can wait (Querida, eu vou ficar, o céu pode esperar)
No, if the angels took me from this earth (Não, se os anjos me levarem desse mundo)
I would tell them bring me back to her (Eu diria a eles para me trazerem de volta pra ela)
It's a chance I'll take, maybe I'll stay (Essa é uma chance que eu vou me agarrar, talvez eu fique)
Heaven can wait (O céu pode esperar)

Nossos corpos continuavam se movimentando. Com a cabeça encostada no ombro de Doug eu podia sentir as batidas rápidas e fortes do seu coração, refletindo o estado do meu próprio. Seus braços me envolviam em um abraço gostoso. Seus polegares acariciavam minha pele por cima do vestido. Senti os lábios sob a pele descoberta do meu pescoço e reprimi um suspiro. Seus lábios continuaram avançando, desde a base do meu pescoço até atrás da minha orelha.

Oh no, can't be without my baby (Oh, não, não posso ficar sem meu amor)
Won't go, without her I'd go crazy (Não vou, sem ela ficaria louco)
Oh no, guess Heaven will be waiting (Oh, não, acho que o céu vai ficar esperando)
Ooh
Oh no, can't be without my baby (Oh não, não posso sem meu amor)
Won't go, without her I'd go crazy (Não vou, sem ela ficaria louco)
Oh no, guess Heaven will be waiting (Oh não, acho que o céu vai ficar esperando)
Ooh

Meu coração acelerava de uma maneira assustadora. Meus dedos se apertaram no cabelo de Doug ao senti-lo brincar com o lóbulo da minha orelha delicadamente. Me afastei alguns centímetros dele, apenas o suficiente para poder buscar seus lábios com os meus, acabando com aquela vontade que me consumia. Era um beijo calmo, mas intenso. Suas mãos apertavam minha cintura. Uma delas deslizou até a frente do meu vestido e começou a brincar com o laço que o prendia.

Tell the angels no, I don't wanna leave my baby alone (Diga aos anjos que não, eu não quero deixar meu amor sozinho)
I don't want nobody else to hold you (Não quero que ninguém mais te abrace)
That's a chance I'll take (Essa é uma chance que eu agarrarei)
Baby I'll stay, Heaven can wait (Querida, eu vou ficar, o céu pode esperar)
No, if the angels took me from this earth (Não, se os anjos me levarem desse mundo)
I would tell them bring me back to her (Eu diria a eles pra me trazerem de volta)
It's a chance I'll take, maybe I'll stay (Essa é uma chance que eu agarrarei)
Heaven can wait (O céu pode esperar)

Com um puxão rápido, Doug desfez o laço do meu vestido, o deixando solto, mas ainda cobrindo meu corpo. Deslizei minhas unhas pela nuca de Doug, sentindo-o arfar. Ele deslizava as mãos desde meus ombros até meu quadril, enquanto eu me deliciava deixando-o completamente descabelado. Em um movimento ousado, Doug desceu as mãos até a parte de trás das minhas pernas descobertas, quebrando o beijo apenas pra passar a distribuir beijos pelo meu pescoço.

Just leave us alone, leave us alone (Apenas nos deixe sozinhos, nos deixe sozinhos)
Please leave us alone (Por favor, nos deixe sozinhos)

Como se sincronizado, apoiei meus braços ao redor do pescoço de Doug ao mesmo tempo que ele puxava minhas pernas pra cima. Firmei minhas pernas ao redor da cintura dele. Doug passou a distribuir mordidinhas pelo meu pescoço e minha respiração se tornou perigosamente escassa. Comecei a arranhar a nuca de Doug sem reparar muito na força que estava usando. Doug começou a andar, ainda comigo no colo, nos levando para o quarto, enquanto os últimos acordes da música eram tocados.


A respiração quente e compassada de Doug na minha nuca foi a primeira coisa que eu senti naquela manhã quando acordei.
Fiquei alguns segundos parada, olhando-o dormir. Se algumas semanas atrás tivessem me perguntado se eu achava possível que minha vida desse uma volta dessas eu teria dito que certamente não. Me levantei e catei meu vestido e minha lingerie no chão do quarto, vestindo-os. Voltei meu olhar pra Doug, que dormia de bruços, tomando quase todo o espaço da cama. Meu coração se apertou quando senti minhas pernas coçarem, me lembrando de que eu ainda não tinha contado pra ele sobre minha doença. Fui até minha bolsa que estava na sala e tomei meu remédio. Fiquei parada alguns instantes, refletindo sobre o que eu deveria fazer. Eu tinha que contar, mais cedo ou mais tarde ele iria reparar que tem alguma coisa de errada comigo. Mas e se ele não quiser passar por isso? Se achar que não vale a pena? Eu não podia deixar isso acontecer.
- ? – perguntou uma voz atrás de mim. - Me virei, vendo Doug na porta do quarto, apenas com uma boxer preta, cabelo desgrenhado e esfregando os olhos. Adorável. Facilitava bastante meu dilema. – Te chamei duas vezes e você não escutou. Ta pensando em quê? – perguntou ele, vindo na minha direção, abrindo um sorriso.
- Eu... – mordi o lábio, tentando ignorar o nó em minha garganta, que crescia junto com a vontade de chorar. Doug chegou na minha frente e então franziu o cenho, quando viu meus olhos marejados.
- O que foi, ?
- Desculpa, Doug... – não consegui impedir que uma lágrima caísse. Doug agora parecia realmente preocupado e se eu continuasse olhando pra ele não aguentaria. Me virei, ficando de costas pra ele. Fui até o quarto e calcei meus sapatos. Quando voltei pra sala Doug ainda permanecia no mesmo lugar, e olhava pra mim como se esperasse uma explicação. – olha eu sei que você não tá entendendo, mas vai ser melhor pra nós dois acabar com... seja lá o que a gente tenha, antes que seja tarde demais.
Ele continuava me olhando, com a boca ligeiramente aberta, como se eu estivesse falando japonês.
Antes que eu desabasse e não tivesse mais coragem de fazer o que eu precisava fazer, peguei minha bolsa e ajeitei no ombro. Quando já estava quase na porta do apartamento, Doug me segurou pelos ombros, me fazendo virar e ficar de frente pra ele.
- , pára e me escuta. V-você... o que é isso? Por que você ta falando essas coisas todas? Eu fiz alguma coisa? É isso?
As lágrimas agora rolavam soltas pelo meu rosto. Eu tinha que faze-lo entender que a culpa era toda minha, que ele não podia ter sido mais perfeito, mas talvez não fosse meu destino ser feliz.
- Não é você, Doug, sou eu!
- Ah, claro – ele riu sarcástico, soltando meus ombros e cruzando os braços. – por favor, , me poupa, essa história não cola comigo.
- Não é história, Doug...
- Então me fala de uma vez o que aconteceu!
- Eu sou doente! Eu tenho uma porcaria de síndrome de Elkbom! Já perdi a conta de quantos caras me deixaram por causa dela, Doug, e eu não vou esperar que você entre nessa lista, não depois de eu ter me apaixonado por você! – gritei.
Silêncio. Ele ficou me olhando, como se esperasse que eu dissesse em seguida que estava brincando. Suspirei e quebrei nosso contato visual, sem aguentar olhar mais nenhum segundo nos olhos dele. Ajeitei a alça da minha bolsa que tinha deslizado no ombro e sai do apartamento o mais rápido que pude.


Olhei pra árvore de natal montada no canto do meu apartamento. havia me ligado há algumas horas e me tinha feito montar a árvore a todo custo, tive que tirar uma foto e enviá-la, ainda por cima, pra comprovar que eu tinha montado. Seria tão fácil se eu realmente acreditasse em espírito natalino, ou em qualquer uma dessas histórias que as pessoas contam todo ano.
Acreditar que alguém, ou alguma coisa olha por você e pelo menos uma vez por ano transforma um desejo seu em realidade seria maravilhoso. Infelizmente eu era racional até demais. Mas e se eu fingisse acreditar? Seria bom também, pelo menos eu fugiria um pouco daquela vida sufocante, maçante e nostálgica na qual eu vivia.
Sacudi a cabeça, espantando aqueles pensamentos bobos e fui tomar um banho, pa ver se dava uma relaxada.
Tentei esvaziar a mente, deixar meu corpo menos tenso, mas era impossível. Há oito dias eu não sabia o que era ter um minuto em que eu não me sentisse mal. Por mais que eu esquecesse o motivo, a tristeza, a culpa, sempre estavam lá. Eu dizia pra mim mesma que ia ficar tudo bem, que com o tempo eu me recuperaria, assim como ele, mas um lado de mim sabia que isso era apenas uma desculpa. Nada ia ficar bem, eu apenas teria que conviver com a dor. Mais uma pra minha lista. E por falar nisso, minhas crises haviam piorado. Esqueci de tomar o comprimido duas vezes e foi o inferno. Mas tinha sido minha escolha, não tinha? Ele estava ali, fazendo de tudo por mim, me fazendo feliz e eu o afastei. Sem nem mesmo pergunta-lo o que ele queria. Agora isso não importava mais, o que tinha sido feito estava feito.
E para me deixar ainda mais naquele clima deprimente, naquela manhã de sábado o céu parecia ter sido pintado de cinza e o frio era intenso. Acordei mais cedo do que pretendia e depois de buscar meu café da manhã na Starbucks, passei o resto da manhã morgando em casa, já tendo um gostinho de como seria o resto daquele fim de semana. De como seria o meu natal.
Coloquei uma roupa confortável e coloquei um saco de pipoca no micro-ondas, já tendo separado P.S.: Eu Te Amo pra assistir pela milésima vez. A lindeza do Gerard Butler teria de animar.
Fiquei pacientemente olhando as pipocas estourando dentro do saco e quando estava pronta, despejei-as em uma vasilha qualquer. Quando me preparei pra me jogar deitada no sofá e permanecer aqui o resto do dia a campainha começou a tocar, ao mesmo tempo que socavam a porta. Meu coração disparou. Estavam tentando arrombar meu apartamento. As porradas continuaram, assim como o toque da campainha.
- ! – gritou uma voz do outro lado da porta e eu soltei a respiração que havia prendido. Corri até a porta e abri.
- Mas que merda, Doug, quer me matar do cor...
- Shhh, cala a boca e escuta antes que eu esqueça o que eu ensaiei pra falar tantas vezes. – Ele entrou rapidamente, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa e pôs o dedo indicador em cima dos meus lábios, num pedido de silêncio. Fechou a porta atrás de mim e me encostou na mesma, ainda me impedindo de falar. Doug respirou fundo uma vez, olhando nos meus olhos e disparou a falar - Quando meu pai abandonou a minha mãe eu ainda era muito novo, só depois eu vim saber que tinha sido por causa de uma mulher mais nova. Eu vi de perto o sofrimento da minha mãe, da minha irmã mais nova e o meu próprio. Depois desse dia eu jurei que nunca, nunca faria isso com mulher nenhuma, nunca faria ninguém sofrer, se eu pudesse evitar. – ele ergueu a mão e acariciou minha bochecha. Apenas continue fincada no lugar que estava, sem conseguir reagir. – Quando você me perguntou o que eu pediria se pudesse eu já sabia a resposta. Eu pediria pra encontrar a mulher da minha vida, e que quando a achasse soubesse dar valor, que sempre houvesse fidelidade, carinho, companheirismo entre a gente, amor. Não quero acabar seguido os passos do meu pai. E sabe por que eu não falei isso naquele dia? – balancei levemente a cabeça em negação. – Porque na verdade eu já tinha conhecido essa mulher algumas semanas atrás. Enquanto, ironicamente eu arranjava a vida amorosa do meu lagarto. Eu posso ser o cara mais prosaico que existe, , mas eu vou fazer o possível e o impossível pra te fazer feliz, com ou sem doença. Eu te amo.
Senti um gosto salgado no canto da minha boca e passei a mão pelo rosto. Eu já devia estar chorando há tempos e não havia percebido.
Depois de algumas tentativas falhas de falar alguma coisa, Doug riu. Ele se agachou na minha frente e ficando de joelhos falou.
- , quer passar seu primeiro natal como minha namorada comigo? – soltei uma risada anasalada e joguei meus braços em torno do pescoço dele. Me agachei de modo a ficar da mesma altura que ele e depositei um selinho demorado em seus lábios.
- Esse é o melhor presente de natal que eu já ganhei. – falei, deixando um sorriso tomar conta do meu rosto.



FIM





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