A Última Filha do Sol


Challenge #18

Nota: 8,5

Colocação:




Nas montanhas do norte, existe um amigo

Ela pousou com suavidade no pico da montanha próxima de seu primeiro destino.
A neve surgiu com ela.
Estava ali... Foi um voo difícil, cansativo, complexo. Alcançar as montanhas rochosas naquele ponto do Canadá, nunca era tarefa fácil, mesmo para uma fênix. E ela comprovou o que sua vó lhe dizia ano após ano, se quiser voar para longe, esteja preparada para o cansaço extremo. Nunca pensou que quando finalmente alçasse voo para além de suas terras, fosse por obrigação e necessidade, não por prazer.
Sua vida podia ser irônica, se analisasse profundamente, mas não faria, ela tinha um propósito, uma missão e a cumpriria, concordasse ou não. Precisava salvar a avó da agonia, não podia deixá-la partir para sempre.
Suspirou e fez o restante do caminho a pé até o pequeno conjunto de cabanas na montanha à frente. Tinha que ir para o outro lado do mundo, seu destino a esperava em outra terra isolada, mas sua avó pedira que antes, fosse até o alfa daquelas montanhas entregar-lhe uma carta.
Aquele desvio lhe roubaria mais de uma semana, do fundo da alma não queria perder tempo indo até aquele lugar ermo habitado por lycans selvagens, mas ele era amigo da sua avó e ela não tinha muito tempo sobrando... Como dizer não aquela mulher que cuidou dela por toda a sua vida? Como ignorar que podia salvá-la daquele destino?
Alcançou a entrada da matilha quase ao mesmo tempo em que um garoto surgiu a sua frente. Ela estacou, ele também.
Nunca tinha visto um lycan de verdade na vida, mas sabia reconhecer um, por que sua natureza mágica tinha seus meios próprios de identificar outros seres mágicos. Havia todo um mundo de seres diferentes, além dos humanos que pensavam dominar o planeta que viviam. Ele era alto, esguio, um rosto oriental e um olhar escuro e curioso. E dos dois, foi o que fez o primeiro movimento.
- A bruxa da matilha disse que a neta da grande fênix viria quando caísse a última neve do ano. Achei que fosse mais alta.
- E eu achei que um lobo selvagem seria menos rude.
- Gostei de você – E ele estendeu a mão cordial – Me chamo Zitao, e você, pequena fênix?
- Trina... Eu vim em nome da minha avó, tenho algo para ao alfa... - Ela falou meio sem jeito, afinal o garoto não desgrudava os olhos de cima dela – Algum problema?
- Seu cabelo é mesmo vermelho fogo... Todas você são assim?
- Não, temos tonalidades diferentes...
- As filhas do sol...
- Você sabe bastante sobre nós...
- Sou um curioso, sei que existem outras terras e gentes, e raças fora dessas montanhas e um dia verei todas, um dia irei para a terra natal da minha mãe, do outro lado do oceano, Pisarei na China e viverei lá por um tempo, então voltarei mais sábio, e para que isso ocorra preciso saber sobre o mundo que existe fora daqui e todas as suas coisas, correto?
- Um lobo erudito, gostei.
Ele riu, o que soou muito bem-vindo e então lhe mostrou o caminho até a cabana do alfa.
Trina pensou que nunca iria gostar de alguém à primeira vista, mas aconteceu. Agora estava explicado por que sua avó, quando moça viajava todo ano para visitar seu amigo naquelas montanhas, eram pessoas gentis, se fosse pesar os demais pelo porteiro.
Ela nunca cruzou o continente, sempre viajou pelas terras em volta da floresta Amazônica, seu lar e seu esconderijo, lar das últimas fênix e definitivamente nunca foi bem tratada, por que os outros temiam o poder de uma ave que podia renascer das cinzas, como se todas escolhessem fazer aquilo ou como se todas realmente voltassem da morte, às vezes ser um mito era um grande problema, em sua opinião. Sina pior só as dos unicórnios mesmo...
- Chegamos!
E para sua surpresa, o garoto abriu a porta da casa do alfa.
Aquilo só podia significar que era da família, pois ninguém podia entrar em um lar de um alfa sem ser convidado. Era falta grave e risco de morte.
Mais violentos do que os lycans, só os tigres asiáticos, precisamente a raça que em breve faria parte da sua vida.
Trina entrou e se deparou com uma cena doce e caseira.
Uma mulher que já devia estar nos últimos estágios da gravidez, estava sentada de frente a uma lareira enquanto um homem massageava seus pés.
Quando ela entrou, ambos a olharam e sorriram. Trina soube que eles sabiam quem era. Nossa, estavam mesmo a esperando?
- Oi.
E se curvou educadamente. O garoto ao se lado riu.
- Esses são meus pais, mamãe, pai, essa é a Trina, neta da...
- ...Minha velha e saudosa amiga Soledad!
E outro homem surgiu na sala vindo de fora e com toras de madeira no braço.
Era o alfa, impossível não sentir a força daquele lobo emanar de seu corpo. Alfas eram únicos e muito fortes.
Trina se curvou de novo e recebeu um tapinha no ombro.
- Seja bem vinda em minha matilha, pequena fênix. Estávamos te esperando. Como anda minha velha amiga?
- Meu marido, deixe a pequena comer primeiro, ela deve ter viajado até aqui sem parar estou certa? - E a mulher a encarou carinhosa e depois para o filho – Leve Trina para a cozinha Zitao e lhe sirva sopa – E ela se voltou para o homem aos seus pés – Busque a bolsa de lã no nosso quarto, Suho e dê a garota, ela vai precisar.
- Sim!
Responderam ambos. Trina sorriu.
Nossa, quem era de fato aquela fêmea? Sua avó nunca falou da esposa do alfa e do beta daquela matilha. Contudo, Trina já gostava dela.
Meia hora depois, já alimentada e quente com o casaco de lã, ela entregou a carta ao alfa na ponta da mesa. Ele sorriu suave.
- Como está Soledad? Eu queria muito ir até ela, mas não posso me ausentar da matilha pelo tempo que dura a viagem... Eu lamento muito.
- Ela entende, alfa, por isso me mandou trazer a carta. Ela te quer bem e disse que nunca vai esquecer de você! Minha avó tem boa memória.
E o alfa sorriu. A esposa, agora a lado dele tocou em suas mãos carinhosamente.
- Ela vai ficar bem, Yifan, confie em sua amiga – E então ela se voltou para Trina - Está em missão para o reino dos tigres, estou certa?
Trina respirou fundo. Era tão óbvio? Claro que seria, para onde mais uma fênix desesperada iria se não, tentar salvar sua espécie e principalmente a vida da sua última família? Fênix eram solitárias, mas fieis ao amor familiar e sua avó estava deixando esse mundo por tristeza, a única coisa que Trina podia fazer era lhe dar um motivo para ficar mais tempo e esse motivo dependia do filho do líder dos tigres. Kim Minseok. O protetor do Vale vermelho.
- Sim, estou indo até ele.
A mão dela que estava sobre as do alfa, veio pousar sobre as de Trina.
- Seu sangue é forte, Trina, e sua linhagem brava, não se deixe entristecer por causa do que precisa ser feito, apenas veja pelo lado bom, existe amor em todos os seres, até nos mais improváveis, permita que seu coração encontre essas pequenas alegrias e encare seu dever como oportunidade. Eu vejo felicidade em seu futuro. Mas precisa enxergar além do óbvio...
- Mamãe! Vai assustar a fênix desse jeito!
E Trina saiu do quase transe que aquele olhar negro a aprisionou por alguns instantes. Bruxa... Aquela fêmea era uma bruxa.
Então sentiu sua mão ser agarrada e viu com certo atraso Zitao levá-la para a parte superior da cabana, só parou quando entrou em um quarto e ele fechou a porta.
- Vai ficar aqui essa noite e descasar antes de atravessar o oceano, certo?
- S-sim...
- Então temos tempo, me ensine o que sabe sobre as ervas medicinais do seu povo, preciso anotar e eu te ensino o que quiser saber sobre o que ainda não sabe. Bem, se vai para o Butão precisa ter certeza que seu sistema de direção migratório está ok.
- Eu sei como chegar lá, lobo, não sou desorientada.
- Claro que não... Tanto que está pensando em cruzar ao Atlântico, ao invés do Pacífico e cortar caminho...
- Eu tenho que ir até a Irlanda, essa pode ser minha última viagem sozinha, eu quero ir até a terra dos meus antepassados. Por isso vou pelo Atlântico... Mas como sabe disso?
- Seu olhar está a toda hora fugindo para a direção daquele oceano, deduzi assim, que faria essa travessia então.
Trina o encarou com um novo olhar, como um lycan caipira que nunca saiu da sua terra tinha aquele poder de observação? Se sentiu curiosa e desejosa de testar o jovem lupino.
- Combinado. Eu te ensino sobre as ervas que conheço, você me ensina sobre todas as formas de orientação marítima para um voo mais proveitoso, eu não tenho tempo a perder, logo será lua cheia e eu não vou controlar minha transformação.
- Eu sei, isso é um saco!
Trina riu, todas as criaturas mágicas sofriam em algum grau a influência da lua cheia.
E naquela noite, ela fez um amigo incrível, embora não contasse a ele sua conclusão.
Quando o dia nasceu, despertou envolvida em pesadas peles e com Tao aos pés da cama sorrindo.
- Se por uma eventualidade de mudança de rumo, rota ou uma tempestade te pegar no caminho... Acho que vai precisar de um desses.
E o lobo tirou do bolso um chaveirinho bonito de bússola! Trina riu mesmo sonolenta.
- Isso é irônico, fênix não deveriam precisar de bússolas! Me sinto uma cegonha agora!
- Desde quando cegonhas usam bússola, Aishii, mas que passarinho sem noção!
- Nunca ouviu a musiquinha da cegonha distraída? Que quadrúpede caipira! É assim...
E Trina respirou fundo e cantou a canção de ninar engraçada:

Era uma cegonha, distraída, distraída, distraída
Se perdia sempre que voava, que voava, que voava,
Ganhou então uma bonita bússola, bonita bússola, bonita bússola
E nunca mais ficou atrasada, atrasada, atrasada!


- Isso é sério ou você acabou e inventar?
- Ei! Eu cantava isso quando era criança, seu chato!
- Uma música irritante sem pé nem cabeça, em minha opinião.
- Sério Tao, cala a boca!
Eles riram e o lobo jogou sua mochila sobre ela.
- Não vai perder a bagagem enquanto voa por ai, passarinho. Bem, eu preciso ir, sabe, ser filho do alfa e do beta de uma matilha exige muito de mim, tenho que fazer essas coisas de quadrúpedes que seres penados não sabem fazer, desculpe.
- Eu voltarei e lhe mostrarei o ser penado inútil, garoto!
- Vou esperar vermelhinha, de verdade! - E ele piscou para mim – Vê se não esquece tudo o que te ensinei de orientação e navegação hein! Quero minha amiga inteira em uma visita futura! E pare nas ilhas para descansar, você também é filha dos deuses! Boa viagem!
Tao se foi do quarto e ela pensou que provavelmente sentiria falta dele, como se gosta de uma pessoa em tão pouco tempo?
Ele lhe chamou de amiga e aquilo aqueceu seu coração.
A voz da mãe dele voltou a sua mente... “Precisa enxergar além do óbvio...”
Sim, bruxa, eu trabalhei nisso!
Pensou sorrindo encorajada.

No deserto escaldante, existe um amor

Dois dias depois, pousou em uma ilha rochosa desconhecida.
Sua primeira irritação foi ver o que os humanos faziam com seu próprio lar, além de jogar lixo pelo mar e que iam acabar nas ilhas desabitadas, ainda matavam suas amigas aves que comiam aquele lixo todo sem entender que fazia mal. Sua segunda irritação foram as tempestades marítimas incessantes que a atrasavam, olhou para o céu esperando que alguma divindade colaborasse, qual é gente! Ela tinha que chegar na Europa, pelos deuses!
A terceira e não menos importante foi ter a plena noção que sua mochila pesava muito, o que não fazia absolutamente nenhum sentido, era uma bolsa mágica que ganhou da avó. Quando estava em corpo humano, ela virava uma mochila de viagem ou mala se fosse necessário, quando estava em corpo de ave, ela se transformava em uma pequena sacolinha que carregava no pescoço e sinceramente ela estava vendo a hora em que ia perder o membro que segurava sua cabeça em breve por causa do peso.
Sentou-se sobre uma pedra e sacudiu suas penas douradas. Estava encharcada e salgada e nunca quis tanto um rio doce como agora.
- Veja pelo lado bom, Trina, você não tinha expectativa nenhuma nas montanhas dos lobos e adorou o lugar, imagine só como será na Irlanda, tudo valerá a pena!
Disse a si mesma tentando manter o espírito positivo. Pensou em inclusive, ir pescar antes de prosseguir, quando notou algo estranho vindo em uma onda mais forte.
Se preparou para alçar voo e fugir do banho espumoso, mas seu cansaço levou o melhor e cinco segundos depois, estava encharcada de novo e com um guarda-chuva colorido atravessado na pedra a sua frente.
Trina bufou e jogaria o objeto longe, se nele não estivesse enroscado algo que lhe chamou a atenção. Eram uma série de espirais de plástico colorido formando um arco que fazia barulho conforme ela o movia com as garras da pata. Seria um brinquedo? Que coisa estranha... Era bem colorido... Ela gostou.
Uma mola colorida... Interessante. Desenroscou o objeto do guarda-chuva e o jogou na sua bolsa que fez o objeto diminuir quase que instantemente. Nunca se sabe quando vai precisar de uma mola né?
Deixou para pescar outra hora e voltou para o céu desejando que o mal tempo desse uma trégua. Mas não foi o que aconteceu e três dias depois se viu em uma tempestade furiosa que mesmo acima das nuvens a desorientou.
A última coisa que enxergou foi um ponto de terra ao longe onde voou com todas as suas forças, mas que perdeu os sentidos antes de saber se tinha alcançado a segurança de um solo seco.

Uma brisa forte a despertou.
Trina abriu os olhos e se viu em uma cama larga de um quarto tipicamente árabe. Se sentiu perdida, onde estava? Olhou para si mesma e viu que estava banhada, vestida em trajes típicos e sem sua mochila. Olhou ao redor, mas estava sozinha. Pelos deuses!
Saiu da cama e caminhou para a varanda que levava a um jardim interno.
Um homem estava sentado lá, a beira de um chafariz e se voltou para ela quando se aproximou temerosa do estranho e da estranha situação em que se via. Por alguns segundos perdeu o ar. Ele era lindo...
- Finalmente despertou, habib.
Ele falava inglês, ela suspirou aliviada, ao menos poderia se comunicar.
Abriu a boca, mas não sabia o que dizer, eram tantas perguntas e ainda assim estava temerosa, o que aconteceu?
- Está se perguntando quem sou eu e como veio parar aqui? Está surpresa habib? Então imagina a minha surpresa ao encontrar uma bela ave dourada, rara e exótica no deserto escaldante, à beira da morte, trazê-la para casa para tentar curá-la, pois todas as criaturas vivas são abençoadas por Alá e merecem viver, e me deparar com uma bela mulher no dia seguinte e assim descobrir que como meus antepassados disseram, uma fênix veio a minha porta e eu a trouxe para minha casa. Uma criatura mágica sagrada ao sol! Uma criatura mística!
- E-eu... Eu posso explicar e...
- Seu segredo morrerá comigo, habib, não se preocupe – Ele bateu palmas, logo uma mulher surgiu com uma bandeja cheia de frutas, colocou na mesinha de ferro próxima ao homem alto e depois saiu de cabeça baixa – Venha, sei que está com fome, dormiu por longos dias...
- Dormi?
Trina estremeceu.
A lua... Sabia que sentia algo estranho, estava na lua cheia... Por isso se transformara, óbvio, não tinha controle sobre seu corpo na semana da lua brilhante, e não poderia seguir viagem, pois corria o risco de estar voando e de repente se transformar em humana e cair do céu. O que faria?
- Venha se alimentar, lidaremos com seus conflitos após a refeição.
- Por que me ajuda?
Perguntou desconfiada, olhou mais uma vez para si, alguém tinha trocado suas roupas... Tocado em seu corpo...
- Não tem razão de temer a mim, habib, sou um mulçumano temente a Alá, e respeito todas as mulheres que vem a minha porta, mesmo ela sendo uma ave mágica. Minha empregada pessoal a banhou e trocou, apenas a mantive em meus aposentos por que esse palácio não pertence apenas a mim, mas a minha família e se a colocasse em outro local fariam perguntas, como trouxe uma ave e agora possuo uma mulher? Seu segredo ficaria comprometido. Venha, coma e me conte sua história, estou curioso.
Trina o encarou, ele era definitivamente um completo humano, como acreditaria nele? E como não fazer? Não podia alçar voo, e nem ao menos tinha suas coisas consigo.
- Onde está minha bolsa? - Perguntou indo até a mesa e se sentando com cuidado, sentia de fato seu corpo doer, a tempestade tinha machucado seus músculos. Onde estava? - Onde estamos?
- Sua bolsa está dentro do meu armário e estamos em um oásis próximo a Marrakesh, veio do oceano, presumo?
- Sim, estava indo para a Europa.
- Entendo... A propósito, sou o príncipe Kai, do reinado de Ménara. O terceiro sheik de Sidi Brahim. E você, filha do sol? Como se chama?
- Trina.
- Trina de que?
- Só Trina.
Respondeu comendo as frutas da bandeja, estava com fome, muita, sabia que não devia comer na mesa de estranhos, mas era comer ou ficar ainda mais sem forças. Embora fosse uma ave da luz solar, não vivia de luz e definitivamente não fazia fotossíntese.
Ele guardou silêncio, mas seu olhar era tão intenso sobre ela que não pode ignorá-lo por muito tempo.
- Faça suas perguntas, alteza, responderei o que puder.
- É estrangeira, tem