Escrita por: Jow Poynter
Betada por: Taaci




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"O amor é, sem sombra de dúvida, um sentimento realmente inexplicável. Quando aparece, não quer saber que estragos irá causar ou a quem irá atingir. Ele apenas quer pulsar em um coração que se sente solitário, vazio ou que foi destruído por circunstâncias diversas. Este sentimento é totalmente contraditório: pode fazer as pessoas sofrerem quando as expectativas não são correspondidas. Porém, quando correspondido, o amor pode fazer os indivíduos felizes. E a felicidade que esta dádiva divina trás, ah... Esta dura para todo o sempre. E nada nem ninguém pode acabar com isto."
Joyce S., a autora que vos escreve.


Capítulo Primeiro – À primeira vista


's Point Of View: On.

Eu estava realmente feliz e consequentemente animada. Eu havia acabado de chegar à Londres. Era uma bela cidade, a qual eu sempre sonhei em morar um dia. Não deixava nenhum cantinho sequer fora do meu campo de visão, mesmo que eu ainda estivesse no aeroporto; queria que tudo aquilo ficasse cravado em minha mente, para que eu pudesse com ricos detalhes contar aos meus futuros filhos que consegui um dia realizar um dos meus grandes sonhos.
Uma prima minha de segundo grau, que se chamava Mariana, morava na cidade há algum tempo, uns quatro anos mais ou menos. Eu ficaria hospedada em sua casa até que estivesse independente o suficiente para arrumar um lugar para eu residir. Não que eu quisesse ficar em sua casa, pois eu tinha a ligeira impressão de que ela era meio falsa comigo, mas sim porque minha mãe e minha tia concordaram que seria melhor que eu ficasse perto de pessoas que eu conhecia, já que estaria num lugar em que todos eram estranhamente desconhecidos para mim. Fui obrigada a concordar com as duas, pois estavam com razão.
Esta minha prima estava noiva de um cara chamado . Eu não o conhecia, mas ela havia me falado um pouco dele, que ele fazia parte de uma banda de sucesso e tudo mais. Parecia que o cara era bem famoso pelo local.
Se ela disse para me impressionar, não deu certo. Eu não me interessava muito por essas coisas.

Eu tinha acabado de desembarcar do avião, e estava no aeroporto esperando pelo tal noivo da minha prima. Ele me buscaria lá, pois Mariana não poderia fazer isso, já que estava presa em seu trabalho e não tinha como ela sair para me pegar. Ela era fotógrafa profissional e seu trabalho era um tanto conhecido.
Mariana dissera para mim que seu noivo estaria segurando uma placa com meu nome, e que eu rapidamente o reconheceria levando em conta algumas características físicas bem peculiares dele.
Assim que eu atravessei o portão de desembarque, passei meus olhos por todo o local para ver se encontrava a placa com o meu nome, e por consequência o tal . Eu estava meio distraída por estar escutando música pelos fones de ouvido, e, por este motivo, acabei esbarrando em alguém. Com isso, as bolsas que eu levava em mãos caíram no chão, e por pouco não se abriram. Quando eu olhei para a pessoa que esbarrou em mim, reparei que ele tinha um belo par de olhos , e que eles tinham um brilho todo especial. Por um instante, me senti hipnotizada por eles. Seu rosto parecia mais o de um bebê. Ele era simplesmente lindo, parecia ter saído de uma capa de revista. Usava uma jaqueta preta sobre sua blusa branca e uma calça da mesma cor da jaqueta. Seus cabelos eram meio bagunçados, o que davam certo ar de charme ao tal.
- Erm, me desculpe, e-eu estava meio distraída... - Falei, meio encabulada, me abaixando ligeiramente para pegar as minhas bolsas.
- Não se preocupe. Você se machucou? - Ele disse, meio frio e sem olhar para mim, me ajudando a pegar meus pertences.
- Não... - Eu disse, soltando um risinho. - Você está bem?
- Sim, estou sim. - Ele indagou, fitando meus olhos, sorrindo torto e passando a mão nos cabelos. Acho que não precisa dizer que naquele momento eu perdi totalmente minha capacidade de respirar, pois ele tinha um charme irresistível demais para ser verdade.
Agradeci quando ele me entregou uma malinha que pertencia a mim e sorri meio abobalhada. Era melhor eu nem ter imaginado a cara idiota que eu tinha feito naquele instante.
Vi que ele deixara cair no chão um pedaço grande de papel que segurava. Antes que ele se agachasse para pegá-lo, percebi que na folha branca estava escrito " " em vermelho. Aquele era meu nome. Então aquilo só podia significar uma coisa.
- Espera... Você que é o ? - Falei, encarando-o com uma interrogação no olhar.
- Eu não ouço essa pergunta com muita frequência, mas sou sim. Por quê? - Ele falou, franzindo o cenho.
- Porque eu sou a " " do seu papel, prima da sua noiva, a Mariana. - Eu disse, arqueando minha sobrancelha direita.
- Ah, sério? - Disse ele, rindo.
- Sim! - Soltei um sorriso. - Prazer em te conhecer. - Indaguei, estendendo minha mão, sorrindo mais uma vez.
- Igualmente, . - falou, estendendo a mão dele e apertando a minha.
- Me chame apenas de . - Eu disse, pondo minha franja atrás da orelha.
- Tudo bem, . Mas só se você me chamar apenas de . - Ele piscou para mim.
- Haha, okay, . - Cerrei meus olhos para o lado, meio envergonhada, soltando um sorriso de canto de boca um tanto meigo.
- Então... Vamos?
- Sim, vamos!
Sorri, e então começamos a andar para fora dali. Ele me ajudou a carregar algumas malas até sairmos do local e irmos para o estacionamento.
Chegamos ao seu carro rapidamente. Entramos nele, e ele girou as chaves, mexeu nas marchas e pisou no acelerador, dando partida no veículo.
Mas que coincidência eu esbarrar justamente com . Ainda estava desacreditada. E também estava pensando no quanto a minha prima tinha bom gosto para arrumar namorados.

***


Capítulo Segundo – Perigosamente Pert


's Point Of View: On.

Eu não estava acreditando que tinha esbarrado justamente com a prima de Mariana. Era coincidência demais para ser verdade. Foi até bom isto ter acontecido, pois assim eu não precisei me dar ao trabalho de procurá-la. Confesso que achei a situação muito inusitada, e que, com certeza, coisa parecida não iria acontecer nunca mais.
Por mais que eu lutasse internamente para não ter feito aquilo, era involuntário: eu havia reparado com uma pitada de malícia que era uma bela mulher, assim como Mariana e as outras diversas brasileiras com quem eu já havia me encontrado. Qual era a fórmula que elas usavam para serem tão bonitas e me tirarem tanto do sério?
A prima da minha noiva tinha cabelos longos e ondulados, eram castanhos e loiros nas pontas. Tinha olhos também castanhos, uma boca rosada, pequena e, digamos, carnuda, nada de muito exagerado. Não era magérrima como as garotas inglesas; apesar de ela ser magra, seu corpo fazia algumas curvas. Um corpo legitimamente brasileiro.
Eu estava quase me matando por ter reparado estas coisas, mas era impossível não fazer isto. Ela era bela demais para passar despercebida por meus olhos.

Nós chegamos rapidamente à minha casa. Assim que estacionei o carro na garagem, eu a ajudei a tirar suas bagagens do porta-malas. Eu poderia dizer que aquelas malas pareciam ter pedregulhos em seu interior de tão pesadas.
- Hey, , como você conseguiu carregar essas bolsas sozinha antes de embarcar? - Falei, fazendo força para pegar a última mala.
- Não carreguei sozinha. Meu pai e meu irmão mais velho me ajudaram. - Ela indagou, dando um sorriso de meia boca, arqueando a sobrancelha esquerda.
- Eles são algum tipo de super-homens? Porque, porra, que malas pesadas! - Com a minha fala ela riu, o que fez com que eu risse também.
- Eles são quase isso... Meu pai é ex-jogador e técnico de um time de futebol, e meu irmão joga como atacante nesse time. Os dois pegam pesado nos treinos.
- Que legal! Eu jogo um pouco de futebol também. Nada de muito fantástico, só para me divertir mesmo... - Falei, coçando a cabeça, fazendo careta, e ela soltou um risinho, balançando a cabeça de um lado para o outro.
- A gente podia jogar um dia desses, eu jogo um pouco de futebol também... - Ela piscou.
- Podíamos mesmo, estou precisando me movimentar um pouco. - Retribuí para ela a piscadela, que sorriu.
Fechei o porta-malas e tranquei o carro. Após isso, nós levamos as malas para dentro de casa, colocando-as no hall da sala. Deixamos as coisas por um instante no local e subimos para que eu mostrasse o quarto em que ela ficaria hospedada. Deixei com que ela se acomodasse lá e desci para a cozinha. Tirei minha jaqueta de couro e joguei em uma das cadeiras. Abri a geladeira e de lá peguei uma maçã verde. Logo encostei-me a uma das bancadas do armário; antes que eu conseguisse morder o fruto, senti meu telefone celular vibrar. Peguei-o do bolso de trás da minha calça e sem olhar no visor apertei o botão "call" para atender quem me ligara.
- , quem é a gostosa que chegou aí com você agora pouco? - Pela voz, percebi que era , que começou a falar sem me dar a chance de dizer "alô".
- Está me espionando de novo, ? Caralho, seu stalker!
- Não foge do assunto, . Quem é ela?
- É a , a prima da Mari que eu disse que ia buscar no aeroporto hoje. - Dei uma mordida na maçã, mastigando o pedaço que acabara de ir para a minha boca.
- Hm... Acho que eu vou aí para conhecê-la... - Senti malícia na sua fala. Ri com isso.
- Deixa a garota descansar antes de cair em cima dela, seu tarado! - Falei, ainda com a boca cheia.
- Eu não sou tarado, okay? Só quero conhecer a , oras...
- Sei muito bem como você quer conhecê-la, se é que você me entende. - Falei, tentando fazer um tom de voz sexy, me segurando para não rir.
- Vai se foder, ! - Ele quase gritou, o que me fez gargalhar.
- Cara, deixa para babar na amanhã, ta? Lembra que ela fez uma longa viagem do Brasil para cá...
- Ah, qual é, , você não quer que eu vá aí ou o quê? Quer todas as mulheres gostosas só para você?
- Não vem com esse papinho não, . Eu só quero que a menina descanse, ela acabou de chegar aqui. Daí amanhã você a conhece e ela é toda sua. Que tal? - Mordi a maçã mais uma vez.
- Hm... Tudo bem, . Você venceu. Amanhã. - Ele falou, e eu vibrei, o que fez o rir.
- Agora para de stalkear os outros e vai arrumar o que fazer, Mr. Taradone! - Eu disse, finalizando a ligação sem dar a chance de falar mais alguma coisa. Joguei o telefone em cima da mesa, e sentei numa das cadeiras dali, me pondo a apreciar a fruta que eu tinha em mãos. Comecei a rir sozinho da conversa que eu acabara de ter com . Ele era uma comédia mesmo.

Mari havia dito para mim que não gostava muito de . Pelo jeito que Mari me falara dela, eu havia pensado que a tal era uma pessoa má que só fazia coisas ruins para as pessoas, mas ela era o contrário. era uma ótima pessoa, tinha um bom papo, era carismática, simpática e legal. Eu não via motivos para não gostar de uma pessoa como ela. Mas também resolvi deixar tudo quieto.

***


Capítulo Terceiro – Sentimento Proibido


's Point Of View: On.

Hey, Ed!
Bom, mano, eu só queria dizer que eu cheguei em Londres há mais ou menos uma hora e meia. Eu estou realmente feliz de estar aqui. Você já pode tranquilizar a mamãe e o papai dizendo que eu cheguei super bem, que graças a Deus o voo foi tranquilo, e que encontrei com o noivo da Mari no aeroporto sem nenhum problema. Já estou na casa deles, que é uma bela casa por sinal. Ah, se não for um incômodo... Você pode avisar para a ver os e-mails dela? Eu mandei um e-mail para ela, mas até agora não me respondeu. Não deve ter aberto a caixa de mensagens, e eu ainda avisei a ela para dar uma olhadinha lá. Essa minha melhor amiga é muito lerda mesmo.
Beijos e abraços para todos aí. Eu já estou morrendo de saudades e esperando notícias!
.


Assim que terminei de escrever o e-mail, apertei em "enviar" e assim foi feito. Fechei meu notebook e o coloquei em cima da cama. Levantei dali e fui para o banheiro, que ficava ali no quarto mesmo. Era um cômodo enorme e muito bem arrumado e decorado, eu não estava acreditando que era só um quarto de hóspedes.
No banheiro, eu tomei um banho quente e um tanto demorado. Aquilo me deixou bastante relaxada, já que eu estava super cansada e quebrada por causa da longa viagem que havia feito de avião. Logo, vesti roupas leves e confortáveis e saí do quarto. Desci as escadas que levavam ao hall da casa, e fui para a sala do local. estava assistindo televisão por lá. Seus belos olhos eram atentos ao programa que passava. Eu não conseguia tirar meus olhos dele, e me perguntava se sua imagem não era uma mera ilusão. Ele era lindo demais para ser uma pessoa de verdade.
- , você está aí! - Ele falou, olhando para mim, sorrindo, me tirando do estado de transe em que eu me encontrava antes de ele perceber minha presença no local. Ou piorando a minha situação, me deixando mais hipnotizada. Ainda mais com aquele sorriso.
- Pensei que você estava dormindo...
- Que nada, eu estava mandando um e-mail para o Ed. - Indaguei, indo na direção do sofá em que ele estava, sentando ao seu lado.
- Ed... Quem é Ed? - Ele disse, franzindo o cenho.
- Meu irmão mais velho! - Exclamei, sorrindo.
- Ah, o super forte que te ajudou a carregar suas malas pesadas... - Ele disse, sorrindo de volta de modo engraçado, o que me fez rir.
- Amn... O que você está vendo? - Eu falei, olhando para a televisão.
- É um programa que o está participando.
- Quem é ?
- É um dos integrantes do McFLY...
- Ah... Ta. - Falei meio confusa, fazendo careta.
- Você não conhece a banda, né?
Balancei a cabeça para um lado e para o outro em sinal de negação, um tanto envergonhada.
- Bem... Já ouvi falar muito da banda, mas não conheço profundamente. - Com a minha fala, ele balançou a cabeça para cima e para baixo, em sinal de afirmação. - Cadê o ?
- Está sentado bem ali, de azul... - falou, apontando para onde o tal estava.
- Nossa, que lindo ele, hein. Caramba! - Citei, boquiaberta.
- Pois é. Eu sempre digo que, se eu fosse mulher, abriria as pernas fácil para ele.
Sua fala fez com que eu risse sem parar.
- Ai, meu... Minha barriga! - E eu continuava a rir.
- Respira, menina! Desse jeito você morre! - Ele falou de forma engraçada, sorrindo torto por causa da minha reação.
- Você é sempre engraçado assim? - Citei, conseguindo finalmente parar de gargalhar. Minha barriga e minha mandíbula já estavam doendo, e eu já estava quase chorando de rir.
- É, quase sempre... - Ele falou, piscando para mim. - Ih, olha lá, é a vez do ! Vai lá, amigo, mostra que você é o melhor!
Nós começamos a prestar atenção no programa de perguntas e respostas. Era engraçado ver torcendo pelo seu amigo. Ele estava parecendo uma verdadeira criança. Vibrava a cada acerto do tal, e dava cada pulo do sofá... Eu estava me segurando para não rir dele.
O tal acertara mais uma questão, e vibrou dando mais um pulo do sofá. Estava tão preso ao programa que, quando foi voltar ao seu lugar, não prestou atenção e acabou sentando de lado bem em cima do meu colo. Olhamos-nos um tanto assustados por causa do incidente. Nossos rostos se encontravam muito próximos um do outro. Seus olhos praticamente penetraram minha alma, e aquele tão profundos estavam me prendendo a ele. Eu pude parar para perceber que seu perfume estava entrando e saindo pelas minhas narinas; era um perfume muito cheiroso por sinal. Também pude perceber que ele estava meio nervoso, assim como eu.
- Erm, me desculpe... - Falou, se levantando, passando a mão direita pelos cabelos, respirando com dificuldade.
- Que nada... - Eu disse, sorrindo sem mostrar os dentes, envergonhada. Tentava recompassar minha respiração. Àquele ponto, presumia que meu rosto tinha ficado tão vermelho quanto um tomate. Um breve silêncio – muito constrangedor por sinal – surgiu entre nós.
- B-bem, você está com fome? Gosta de doces?
- Amn, mais ou menos e eu não gosto de doces, eu amo. Por quê? - Com a minha fala, ele soltou uma risadinha.
- Eu vou preparar alguma coisa doce para comermos... - Ele falou, passando a mão esquerda pela nuca, fazendo careta.
- Ah, sim. - Falei, balançando a cabeça para cima e para baixo, enquanto ele dava passos lentos até a cozinha. Então eu tive uma ideia.
- Hey!
- O quê? - Ele falou, se virando para mim.
- Se você quiser, eu posso preparar brigadeiro...
- Briga... Brigad... O quê? - falou, encarando-me com uma interrogação em seu olhar.
- Brigadeiro! É um doce muito famoso lá no Brasil. É muito gostoso também. A Mari nunca fez para você?
- Não. Se sim, eu me lembraria, até porque, esse nome é muito estranho.
Eu ri da sua fala.
- Lá no Brasil não é! Enfim, eu vou te ensinar a fazer brigadeiro e a falar brigadeiro também!
riu, e eu levantei do sofá e caminhei até ele. Então nós nos direcionarmos à cozinha.
Enquanto eu mexia o doce na panela com uma colher de pau, estava me divertindo tentando fazer falar brigadeiro. Ele falava tudo, menos a palavra correta. Eu não entendia o porquê de tanta dificuldade para dizer uma palavrinha tão simples.
Depois que o alimento atingiu o ponto certo e ficou um pouco menos quente, nós voltamos a sala e levamos conosco o brigadeiro.
- Cara... Isso é bom mesmo! - Ele falou, colocando mais uma porção do doce na boca.
- Eu disse para você! - Indaguei, fazendo o mesmo que ele. - E tem tantas outras coisas gostosas lá do Brasil! Pena que a Mari não sabe cozinhar...
- Mas já que você sabe cozinhar... Por favor, depois você faça essas outras coisas para mim, porque poxa vida! Todas as comidas devem ser uma delícia! - falou, ainda com a boca cheia. Comia o doce desesperadamente. Eu ria daquilo.
- Quem vai gostar disso é o . Vou ligar para ele. - citou, tirando o seu celular do bolso. Rapidamente digitou um número e levou o aparelho para o ouvido.
- E o é...
- Sim, ele também é do McFLY. - Ele disse, interrompendo-me. Eu apenas concordei com a cabeça. - Alô, ? Você precisa vir aqui. Não me pergunte nada, somente venha. Okay. Até. - Desligou o celular e o colocou em cima do braço do sofá. Ficamos em silêncio por um instante, apenas prestando atenção na televisão.
- A Mari já deveria ter chegado... - Ele disse, olhando no relógio dele.
- Que horas ela chega?
- Umas sete horas, e já são quase oito. Se não for por ela estar fazendo hora extra... - Ele respirou fundo. - Acho que é porque ela está meio chateada comigo. - Sussurrou ele, tão baixo que eu quase não pude ouvi-lo.
- Sério que ela está chateada com você? Por quê? - Encarei com o cenho franzido.
- Ah... - Ele me olhou meio assustado. - Nada de muito sério.
Pela feição de desconforto e nervosismo que ele havia feito, não era bem assim. Antes que eu pudesse conseguir comentar algo, a campainha da casa tocou. foi atendê-la, então. Voltou para o local junto com um cara, muito bonito por sinal. Se todos os garotos britânicos fossem bonitos que nem aqueles que eu já tinha conhecido, eu não iria querer voltar para o Brasil nunca, só para ficar admirando a beleza deles.
- , esse é o , meu amigo e companheiro de banda. , essa é a , a prima da Mariana...
- Oi, , prazer em te conhecer. - O Tal disse, mostrando sua arcada dentária para mim, estendendo o braço em minha direção.
- Igualmente, . - Falei, sorrindo, estendendo meu braço, apertando sua mão.
- Vocês estão vendo o programa do ... Ele está indo muito bem. - Indagou, olhando para a TV. - Então, , por que você me chamou aqui? - disse, sentando-se no sofá junto com .
- Você precisa experimentar isso. É um doce do Brasil. - O disse, pegando um pouco do brigadeiro que se encontrava numa travessa quadrada. Deu a colher para ele. - Como eu sei que você ama comer e adora o Brasil...
colocou a colher na boca.
- Velho... Que negócio gostoso! Qual o nome disso?!
- Brigadeiro. - Eu disse, pegando um pouco na travessa, levando a minha boca.
- Briga o quê? - Fitou-me com uma interrogação no olhar.
- Brigadeiro! - e eu falamos, ao mesmo tempo, o que me fez rir.
- Será que eu vou ter que ensinar todo mundo a falar brigadeiro? - Ainda com a boca cheia, eu falei.
- É, , acho que sim. - disse, em tom de brincadeira. Murmurei de sua fala.

***


Capítulo Quarto – Inevitável Atração


's Point Of View: On.

~ Flashback: On.

- Ai, , você não entende! Eu não quero a morando aqui com a gente! - Mari falou, alterando o tom de voz, levantando do sofá. Prendeu os cabelos em um coque frouxo, soltando uma respiração pesada dos pulmões.
- Mas, por que, Mari? Não é temporário? - Eu disse, franzindo o cenho.
- Sim, é temporário sim. Mas eu não suporto aquela garota desde que a gente era pequena e na frente dos nossos pais eu fingia que gostava dela. Imagina só que saco que vai ser ela morando aqui! - Citou ela, revirando os olhos.
- Ela te fez alguma coisa para você não gostar dela? - Com a minha fala, ela fechou os olhos e respirou pesadamente.
- Olha, amor, ela não fez nada não. Eu só não a quero aqui por não gostar dela! Ai, droga, mãe... Maldita ideia a sua! - Ela indagou, sentando no sofá novamente, cruzando os braços, emburrando a face.
- Mariana, para com isso. No país inteiro, você é a única pessoa que ela conhece desde sempre. Porra, a garota vai ficar em uma cidade enorme que nem Londres, sozinha, sem conhecer nada e ninguém? Isso é perigoso, Mari, para pra pensar!
- Você está defendendo a ?! - Olhou para mim, incrédula. - Não acredito que até você está do lado daquela vadia. - Mari falou, se pondo de pé, caminhando para fora da sala.
- Eu não estou do lado de ninguém! - Levantei do sofá em que eu estava, e caminhei até o pé da escada, onde pude ver Mariana terminando de subir os últimos degraus. Em seguida ouvi passos fortes caminhando pelo andar de cima e a porta do quarto fechando com força.
- Ah, Mari, qual é, vai ficar chateada comigo porque eu falei a verdade? Pelo amor de Deus, para de palhaçada! - Eu gritei, usando um tom de voz nervoso. Não ouvi uma resposta. Inspirei e expirei pesadamente, e em seguida fui para a cozinha, onde eu peguei uma lata de refrigerante e um pacote de batatas fritas. Voltei para a sala, então.


~ Flashback: Off.

Eu não poderia revelar à que era ela o motivo de Mariana estar chateada comigo. Ela com certeza ficaria triste e se sentiria desconfortável sabendo que estava dividindo teto com alguém que não queria sua presença ali. Aquela era uma situação bastante chata. E eu ainda não entendia porque minha noiva não gostava de sua prima. Elas eram da mesma família! Eu hein, cada coisa.

Da minha mente não estava saindo aquela cena. Seus olhos estavam tão pertos dos meus, assim como sua boca. Seu perfume doce penetrara minhas narinas, tão pouca a distância que estávamos um do outro; aquele aroma ficara marcado em minha memória. Eu não queria que aquilo invadisse meus pensamentos, mas eu não estava conseguindo evitar. Não queria me sentir atraído por ela, pois eu não queria mais ter outras mulheres em minha mente. Mas não se sentir atraído por era quase que uma missão impossível. Eu esperava que aquilo fosse passageiro.

Mariana ainda não havia chegado em casa. Ela estava incomunicável desde o começo do dia, eu ligava para o seu celular a todo instante e as ligações caíam sempre na caixa de mensagens. Eu já estava ficando preocupado com isso.
Cansada de esperar por ela, se retirou para dormir, pois ela havia chegado ao seu limite e estava precisando descansar.
ainda estava em minha casa. Assim que o programa que havia participado acabara, nós fomos para a cozinha beber um pouco e conversar. Adorávamos falar um monte de merda e também fazer confissões um para o outro, acompanhados de uma boa bebida. Quando o e o se juntavam conosco então... Coisa boa não saía da conversa.
- Vai, , pode confessar. Você está se sentindo atraído pela prima da Mari. - disse, levando sua garrafa de cerveja à boca, dando um gole.
- Que bobagem é essa, ? Você mal pode beber umas garrafinhas de cerveja que já começa a falar besteira!
- Besteira? Eu vi o jeito que você estava olhando para ela. Nem adianta mentir, caro amigo. Eu te conheço muito bem, ou você se esqueceu de que a gente se conhece há anos? - Indagou ele, empurrando minha cabeça para frente, soltando um risinho.
- Nossa, você me conhece mesmo, hein. - Falei, empurrando a cabeça dele para trás com uma tapa de leve em sua testa. - Olha só, eu não tenho culpa, okay. Ela é muito bonita, e... Ai, velho, que merda. - Abaixei minha cabeça na mesa, levantando-a logo.
- Sim, ela é bonita. E como é. Mas você tem que sossegar o facho, vai casar daqui a um tempo. Ou você se esqueceu disso também?
- Não, cara, eu não esqueci. Eu estou tentando mudar por isso. Não quero magoar a Mari de novo, muito menos voltar a ser o canalha que eu era. Eu amo a Mari. - Eu disse, dando um gole na minha garrafa de cerveja. Ele assentiu.
- Ah. O estava me stalkeando de novo hoje. Ele está ficando bom nisso, eu acho que ele deveria entrar para o serviço secreto... - Minha fala fez com que risse.
- Ele deveria fazer isso mesmo, daria um bom agente 007. Vamos ligar para lá e inscrever o no serviço secreto.
- Imagina ele se apresentando: "Meu nome é . ".
e eu soltamos gargalhadas altas, logo abaixadas por termos lembrado que tinha gente dormindo na casa.
- Ele viu quando eu cheguei com a aqui. Ficou todo alegrinho por causa dela.
- Não vai me dizer que ele já quer pegá-la?
- Sim, ele quer.
- Meu Deus, esse não para quieto! Ele mal conheceu a menina!
- Pois é. Mas ele só está assim porque terminou com a namorada... - Entre risos eu disse.
Ouvimos um celular tocar, e era o de . Ele atendeu, então.
- Gi? Oi, meu amor! Estou na casa do ainda... Okay, estou indo. Até. - Desligou o telefone. - A Gi disse que a minha mãe acabou de chegar lá em casa. Vou lá falar com ela e acomodá-la para ela descansar.
- Tudo bem, .
- Até mais! - Ele falou, levantando da cadeira em que estava sentado, dando duas tapas de leve em meu ombro.
- Até...
Logo, caminhou até a porta da cozinha que dava para o quintal, e por lá deixou minha casa. Voltei para a sala, então. Sentei no sofá e com o controle remoto que se encontrava em cima da mesinha de centro liguei a TV. Passava um programa qualquer no canal.
Meu celular ainda estava em cima do braço do sofá. Tomei-o em minhas mãos, e vi que no seu visor dizia que uma mensagem de texto havia sido enviada a mim. Abri o documento e me pus a lê-lo, então.

"Amor, eu não vou dormir em casa hoje. Não se preocupe, eu estou na casa da Livia. Nós fomos pra um pub depois do trabalho e ficou tarde demais para eu voltar para aí sozinha. A já deve ter chegado, estou certa? Ai, ai. Te vejo amanhã de manhã. Tenha uma boa noite de sono.
Beijos, Mari xx"


Eu tentava ligar para ela, mas as ligações para seu celular continuavam a cair na caixa de mensagens. Mariana estava fazendo aquilo tudo de propósito, não era possível. Ela sabia que eu não gostava que ela só avisasse que iria dormir fora em cima da hora. Aquilo me irritava bastante.
O pior era que eu sabia o motivo da provocação. E não estava gostando nada daquela palhaçada dela. Não entendia o porquê de ela ter ficado tão brava comigo por eu ter dito a verdade. Deveria aceitar, e não dar chiliques de patricinha. Também deveria aceitar que nem tudo poderia ser do jeito que ela achava melhor.
Eu já estava irritado demais para continuar acordado. Então eu desliguei a televisão e subi para meu quarto. No banheiro dos meus aposentos, tomei um banho quente para ver se eu conseguia relaxar pelo menos um pouco. Saí do banho sentindo como se minha alma tivesse sido renovada. Coloquei apenas uma boxer e caí na cama. Depois de minutos rolando de um lado para o outro da cama, tentando procurar uma posição confortável para meu corpo – este que carregava uma alma inquieta –, fui transportado da realidade para a terra onde tudo era possível, a terra dos sonhos.

***


Capítulo Quinto – Paixão


's Point Of View: On.

Um novo dia havia nascido e com ele, uma nova eu disposta a recomeçar a vida despertava.
Olhei no relógio digital que ficava em cima de um criado-mudo que se encontrava do lado da cama, e nele estava marcando nove horas da manhã em ponto. Levantei da cama e me espreguicei, soltando um bocejo em seguida; caminhei em direção à janela do quarto, então. Lá, abri uma fresta em suas cortinas e olhei para fora. Avistei o Big Ben, por mais que ele estivesse um pouco longe dali. Eu tinha me certificado de que aquilo tudo era real, graças a Deus meus olhos não estavam me enganando, não era mais um sonho distante. Eu estava mesmo em Londres.
Observei que o céu era cinzento, e os raios solares eram cobertos por nuvens meio carregadas e um pouco densas. Parecia que iria chover mais cedo ou mais tarde. Tão diferente do radiante céu azul do Rio de Janeiro, que era quase sempre limpo, mesmo em alguns dias de frio. Tudo era muito diferente do meu lar. Mas eu estava gostando daquilo tudo. E não tinha me arrependido de sair de meu país para morar em outro, queria coisas novas. Se fosse para refazer minha vida, que fosse em outro lugar distante das coisas e lembranças ruins que insistiam em me perseguir. Se fosse possível, eu permitiria que fizessem uma lavagem cerebral em mim, para eu esquecer apenas o necessário e simplesmente recomeçar.
Assim que fechei as cortinas da janela, inspirei e expirei profundamente; peguei meu notebook que se encontrava em cima de uma escrivaninha que ficava ao lado da janela e o abri, andando em direção à cama, sentando-me nela com as pernas cruzadas sob meu corpo. Diretamente coloquei em minha caixa de e-mails.

Maninha!
Nós estamos muito felizes por você estar feliz. Papai e mamãe estão muito aliviados em saberem que você chegou à Inglaterra sem nenhum arranhão e por você não ter se perdido nessa cidade enorme que você desembarcou. Como você está? Deve estar sendo difícil viver sem seu irmão mais velho te perturbando o tempo todo... Eu sei disso. Agora mesmo eu fui ao seu quarto para te acordar do jeito que eu sei que você ama (duvido que você não goste de acordar com a girafa magrela do seu irmão mais velho pulando em cima de você), mas lembrei de que você não estava lá. Fiquei chateado, ta? Mas isso passa.
A ficou fula da vida porque você a chamou de lerda em um de seus e-mails, mas disse que irá te responder. Ai, vocês duas... Haha.
Nós já estamos morrendo de saudade de você também, toquinho. Assim que eu puder e você já estiver devidamente instalada no país, vou te visitar. Mande notícias logo, viu?
Beijos e abraços do seu irmão predileto,
Ed.


Sorri comigo mesma ao ler aquelas palavras. Como aquele girafão magrelo era convencido! Mas eu amava o meu irmão do mesmo jeito.
Logo, abri o e-mail que vinha logo depois do que eu tinha acabado de ler.

, sua vadiaaaaaaaa!
Olha só, eu não gostei nada de você ter me chamado de lerda, ta? u.ú Já era para eu ter me acostumado com isso depois de tantos anos sendo chamada assim, eu sei.
Mil perdões por não te responder antes, eu estava com outras coisas na cabeça e me esqueci de entrar na internet. Enfim, eu estou tão feliz por nós termos finalmente realizado a primeira parte do nosso sonho! Estou louca para poder me mudar para aí também... Assim que você achar um emprego e uma casa para a gente, me avisa que eu corro para aí! Claro, depois que eu terminar meu curso de inglês; falta pouca coisa, graças a Deus!
Você está bem? E a sua prima chata e metida, como te recebeu? Se ela te recebeu mal eu quebro a cara dela, hein! Hehehe. Quero saber de tudo o que aconteceu por aí até agora.
Já estou morrendo de saudades de você; assim que puder, me liga ou me chama no Skype pra gente fazer vídeo conferência!
.


Eu estava feliz em ler aqueles e-mails e ver que eu estava sendo apoiada por minha família e minha melhor amiga, que tinha o mesmo sonho que eu. Todo aquele apoio me motivava mais a perseguir meus sonhos e fazia com que eu me sentisse mais forte. Decidi que mais tarde eu responderia os e-mails, pois naquele momento eu estava morrendo de fome e precisava comer algo. Com fome e com sono, meu cérebro não funcionaria direito, sendo assim, não sairiam coisas boas nas respostas.
Fui para o banheiro, onde fiz minha higiene matinal e minhas necessidades fisiológicas. Logo troquei as roupas de dormir por roupas mais casuais, fiz um coque frouxo nos cabelos e saí do quarto, descendo as escadas que davam no hall da casa praticamente me arrastando. Eu estava cansada, como se eu tivesse dormido poucas horas de sono. Talvez fosse pela diferença de fusos horários entre Brasil e Inglaterra. Eu demoraria a me acostumar com aquilo, mas estava valendo.
Fui caminhando para a sala, mas ninguém estava lá. Então fui andando para a cozinha. Lá, se encontrava.
- Bom dia, ... - Eu disse, entre um bocejo, caminhando até a mesa, sentando numa das cadeiras.
- Bom dia, ! - falou, sorrindo, enquanto colocava café em uma xícara.
- Alguma notícia da Mari? - Falei, coçando os olhos, tentando mantê-los abertos.
- Ontem ela me mandou um sms avisando que dormiria na casa de uma colega de trabalho dela. Daqui a pouco ela chega aí, hoje é sábado e ela não precisa ir direto para o trabalho já que é o dia de folga dela. - Balancei a cabeça, concordando com ele. Ficamos um tempo em silêncio, já que nenhum assunto interessante vinha à minha mente. Era difícil raciocinar qualquer coisa de manhã.
- Que tipo de pessoa eu sou... Você quer café? - Encarou-me, sorrindo, meio sem graça.
- Sim, quero sim. - Indaguei, sorrindo sem mostrar os dentes. Ele então levantou da sua cadeira e foi até um armário, onde pegou mais uma xícara. Agradeci quando ele me entregou a peça de porcelana decorada por algumas cores neutras. Peguei a garrafa térmica preta e joguei um pouco de café na caneca.
- Você dormiu bem? - Ele perguntou, mordendo uma torrada com margarina em seguida.
- Feito um bebê. Só que agora eu estou um pouco cansada, mas deve ser por causa da diferença de fusos horários. - Citei, levando a xícara de café à boca, tomando um gole do líquido negro. Ele concordou com a cabeça e esboçou um sorriso sem mostrar os dentes, e eu retribuí simultaneamente. Continuamos a comer em silêncio, quando de repente, vi um cara entrando pela porta da cozinha como se a casa fosse dele. Levantei a sobrancelha esquerda sem comentar nada, apenas continuei comendo.
- Bom dia, ! - O tal disse, sorrindo, demonstrando felicidade e bom humor, indo até o .
- Fala aê, . - Os dois apertaram as mãos, e o cara que eu não conhecia sentou em uma das cadeiras vagas dali. Esta ficava do lado do assento em que eu estava.
- Cadê a Mari? - Ele perguntou, olhando em volta.
- Ela não dormiu aqui. Deve estar chegando aí. - disse, um tanto frio, levando um último pedaço de torrada à boca. O outro cara soltou um “Hm”, movimentando a cabeça para cima e para baixo. Pelo o que eu havia percebido, estava realmente incomodado com o fato de Mariana não ter dormido em casa.
- Hey, eu não conheço você... Qual é o seu nome? - O cara disse, olhando para mim com o cenho franzido. Senti que seu olhar sobre mim era um tanto analisador.
- Eu sou a , mas pode me chamar de ... - Sorri sem mostrar os dentes.
- Bom dia, , eu me chamo , mas me chame de . - Ele piscou para mim, o que me fez abaixar o olhar, um tanto envergonhada.
- Amn... Você é do McFLY também? - Perguntei, apontando para ele, franzindo o cenho.
- Sou sim. - Ele falou, estampando um sorriso no rosto, orgulhoso.
Qual é. Essa tal de McFLY só tinha garoto bonito. Por que eu nunca me interessei pela banda mesmo, hein?
- Você é a prima da Mari, né?
- Sim... - Balancei minha cabeça para cima e para baixo, em sinal de afirmação.
- Ah. - Ele fez uma cara fofa, o que automaticamente me fez sorrir.
Ouvimos a campainha tocar, e então foi atender quem estava do lado de fora da casa, o que deixou e eu sozinhos. Com os olhos, ele acompanhava cada movimento meu. Senti meu rosto arder, pois o jeito que o tal me olhava estava me envergonhando.
- Amn... Você gostaria de sair comigo hoje? - Ele disse, quebrando o silêncio constrangedor que entre nós havia se instalado. O olhei, meio assustada com sua proposta.
- Quer dizer, a gente podia fazer um tour pela cidade, presumo que você tem em mente fazer isso. - Balancei a cabeça para cima e para baixo. - Também presumo que não tem ninguém para ir com você, então... - Ele falou, esboçando um sorriso fofo e infantil, o que me fez sorrir de volta, boba.
- Eu adoraria passear por aqui, conhecer a London Eye e o Big Ben! Desde que eu pisei na cidade, ou melhor, mesmo antes de eu receber a notícia que viria para cá, pra ser sincera. - Falei, com os olhos brilhantes, sorrindo mais uma vez. - Você parece ser um bom guia turístico, então... Por que não, né? - Minha fala fez com que ele abrisse um largo sorriso, muito encantador por sinal.
- Então... Depois do almoço eu posso vir te buscar? - indagou, levantando da cadeira, quase a deixando cair no chão, passando a mão nos cabelos em seguida. Soltei um risinho abafado por minhas mãos vendo aquele ser lindo todo desajeitado e sem graça na minha frente.
- Sim, pode ser. - Falei, concordando com a cabeça, abaixando o olhar, meio envergonhada.
- Então... Até mais! - Ele disse, acenando timidamente, se pondo a andar para fora dali. Andava de costas para o caminho, me encarando com um olhar abobado, o que com certeza tinha me feito corar.
- Até mais... - Sorri, encarando minha xícara, bebendo o último gole de café que nela estava. Então ele saiu pela porta. Ri baixo comigo mesma, balançando minha cabeça de um lado para o outro.
- Ué... Cadê o ? - apareceu na cozinha novamente, e parou em minha frente.
- Ele acabou de ir embora. - Falei, me levantando, indo em direção da pia, me pondo a ensaboar as louças que eu tinha sujado.
- Mas já? Nossa, eu pensei que ele vinha tomar café aqui. - Ele disse, dando ombros, encarando o nada. - Deixe-me adivinhar: ele te chamou pra sair. - caminhou até a bancada que ficava próxima à pia, e lá se encostou e cruzou os braços. Reparei que a camisa branca estampada que ele usava tinha se apertado um pouco a seu corpo, e que sua respiração a movimentava para cima e para baixo, de forma calma e compassada. Parar para perceber isto fez com que eu perdesse um pouco o foco. E me perguntasse uma coisa: mas por que diabos eu estava reparando naquelas coisas?
- Erm... S-sim, ele me chamou sim. - Eu disse, tentando me reestabilizar, enxaguando um pequeno prato de porcelana. - Depois do almoço ele vem me buscar, e a gente vai fazer um tour pela cidade. Mas me diz uma coisa... Como você sabe que ele me chamou para sair? - Falei, franzindo o cenho.
- Não... Nada não. - Ele balançou a cabeça em sinal de negação, rindo baixinho com ele mesmo. - Hm... A Mari chegou aí. Ela foi tomar um banho e já vem falar com você. - Ele disse, me encarando meio sério. Parecia perdido em seus próprios pensamentos.
- Okay. - Voltei minha atenção para as louças que estava lavando, sentindo que ainda estava sendo observada por ele. Eu estava começando a achar que tinha alguma coisa de errado comigo, que fazia com que as pessoas me olhassem sem parar. Eu odiava ter olhos me encarando o tempo todo, fazia com que eu me sentisse desconfortável em fazer qualquer coisa naturalmente.
- E então, o que te trouxe a Londres? - Ele perguntou, desviando um pouco os olhos de mim.
- Muitos motivos. - Eu disse, abaixando a cabeça, fechando os olhos e respirando fundo.
- Ruins? - Indagou ele, expressando dúvida com a testa estriada.
- A maioria sim. Mas acho que eu não estou preparada para falar disso ainda. - Eu disse, sentindo-me fraca.
- Disso o quê? - Ele perguntou, inocente. Tudo aquilo que eu estava lutando para esquecer veio à tona com toda a força. Aquelas imagens horríveis ficaram mais nítidas do que nunca na minha mente. Passei uma das mãos pelo rosto e olhei para em seguida, que me fitava com os olhos preocupados.
- Você ficou pálida de repente... Está bem? - Ele disse, se aproximando de mim. Eu estava me sentindo cada vez mais fraca, e ele parecia realmente preocupado comigo.
- Eu... Eu estou bem... Só estou um pouco... Tonta... - Senti meu corpo cambalear de um lado para o outro, e meus olhos quererem se fechar involuntariamente. Eu tentava mantê-los abertos, mas quase não conseguia fazer isto. Ameacei cair, mas me segurou pela cintura, e não me deixou tombar.
- , você está bem?! - Eu tentava respondê-lo, mas suas palavras estavam cada vez mais distantes, embaralhadas demais em minha mente para eu conseguir entender. Meus olhos enxergavam tudo embaçado, e o seu rosto eu já não conseguia mais focalizar.
- Hey amor, cadê a v... ! O que houve?! - Ouvi de longe uma voz que parecia ser a de Mariana, seguida de passos fortes no chão.
- , acorda! - A voz de me chamando foi a última coisa que eu consegui ouvir antes de fechar meus olhos e ficar inconsciente.

***


Capítulo Sexto – Lembranças Fantasmas


Lentamente, tentei abrir minhas pálpebras, que pareciam estar pesando uma tonelada cada uma. Um vulto embaçado do que parecia ser uma pessoa surgiu na minha frente antes que eu pudesse abrir meus olhos completamente. Assim que por fim eu consegui abrir meus olhos, olhei em volta e percebi que estava em meu quarto, deitada em minha cama. Como eu tinha parado ali? Eu hein. Notei que o vulto que eu tinha visto minutos antes era , que estava sentado na ponta da cama, com extrema preocupação em seu olhar, que era apontado para uma parede qualquer do quarto.
- ... - Eu disse baixinho, me mexendo um pouco na cama, e ele voltou seus olhos preocupados para mim.
- , você acordou! - Ele falou, aumentando o tom de voz, dando um pulo da cama. Correu até a porta e a abriu, pondo metade de seu corpo para fora. - Mari, a acordou! - Ele gritou, e logo voltou correndo para a cama, sentando nela novamente, desta vez mais perto de meu tronco.
- O que aconteceu, ? - Eu disse, com a voz falha e rouca, coçando os olhos com as mãos.
- Pelo o que o disse para mim, você desmaiou. - Ele disse, me olhando ainda preocupado. Fiquei em silêncio, e uma breve tontura tomou conta de mim ao lembrar-me do que tinha acontecido.
- Que horas são? Você está aí há muito tempo? - Eu disse, ainda com a voz rouca, tentando sentar na cama. Tentativa falha, pois eu ficava tonta a cada vez que tentava levantar. Estava com uma dor de cabeça terrível, parecia que a qualquer momento minha cabeça iria explodir feito uma bomba-relógio.
- Eu acabei de chegar. - Ele sorriu de forma meiga. - São duas e meia da tarde. Como você está se sentindo?
- Eu estou meio tonta ainda, e morrendo de dor de cabeça. Estou aqui desde nove e meia? - Ele afirmou com a cabeça. - Caramba. Ai, , o nosso passeio... - Escondi meu rosto com as duas mãos, o que fez rir. - Me desculpe.
- Que nada, fica para amanhã. - falou, pegando na minha mão, dando um beijo na parte de cima nela. Em seguida deu o sorriso mais lindo e sincero que eu já tinha visto. Logo, ouvi a porta abrir, e era Mari, que estava acompanhada de . Os dois se aproximaram da cama praticamente voando de tão rápido que chegaram.
- Oi, Mari... Quanto tempo, prima! - Eu disse, sorrindo, ou tentando sorrir.
- Hey, ! Que maneira de encontrar sua prima depois de tanto tempo, hein! - Mari disse, colocando as mãos na cintura e fazendo uma cara de fingir estar brava, o que fez todos que estavam ali rirem. - Está se sentindo melhor? - Fiz que "mais ou menos" com a mão, e ela se aproximou da cama, sentando-se nela. - Vou medir sua pressão, tudo bem? - Indagou, olhando para mim, que afirmei. Então ela pegou meu braço, prendendo a meu pulso um aparelho de pressão portátil.
- Fica com o braço quietinho, okay? - Concordei com um "okay" baixo e fraco.
- Cara, pra quê você tem isso em casa? - perguntou, olhando incrédulo para Mariana, enquanto ela mexia no pequeno aparelho. Logo ele fez um bip e começou a inchar, apertando meu pulso, deixando-o "sufocado".
- Eu fiz um ano de faculdade de medicina, mas larguei. Eu tenho um monte de aparelhos médicos guardados até hoje, inclusive esse.
- Ah é, eu tinha me esquecido da sua faculdade... - falou, fazendo careta, coçando a cabeça.
- Você se esquece de muitas coisas, . - disse, fazendo cara de criança inocente; o deu o dedo do meio para ele, e isso o fez cair na gargalhada.
- Hm... , a sua pressão está baixa demais! - Mari falou, tirando o aparelho do meu pulso, olhando para o seu visor. - Amor, pega um punhado de sal para mim, por favor? - Ela disse, olhando para , que afirmou com a cabeça e se pôs a andar para fora do quarto.
- Ah, trás remédio para dor de cabeça também. - Eu disse, de forma dengosa, o que fez parar e olhar para mim. - Por favoooooooor! - Supliquei, fazendo bico de bebê chorão. Ele sorriu e disse que sim, saindo do quarto em seguida. Logo ele voltou com uma colher cheia de sal, um copo de água e um comprimido branco. Entregou tudo a minha prima.
- Vai me salgar, Mari? - Eu falei, fazendo careta, o que a fez rir.
- Não, eu vou colocar só um pouquinho de sal debaixo da sua língua para a sua pressão subir pelo menos um pouco. - Ela disse, pegando uma pitada de sal com os dedos. Pediu para eu abrir a boca com a língua apontada para o céu da boca, e assim eu fiz; o conteúdo de seus dedos logo foi parar debaixo da minha língua. Depois, ela me deu o comprimido e eu o coloquei na minha boca; peguei o copo e levantei um pouco a cabeça, tomando a água até que o comprimido descesse goela abaixo.
- Mais tarde eu vou medir a sua pressão de novo. Agora você vai descansar, ta? Vamos meninos, vamos deixar a dormir mais um pouco.
- Ah, mas eu queria ficar mais um pouquinho com ela para a gente conversar... - disse, com a voz manhosa, fazendo um bico. Fiquei um tanto envergonhada, e senti meu rosto arder. Ele insistia tanto em ficar junto de mim, mesmo tendo me conhecendo naquele mesmo dia.
- Awn, ... Quando eu já estiver me sentindo melhor, o te liga e você vem para cá... - Falei, sorrindo sem utilizar os dentes, piscando para ele.
- Ah, então tudo bem! - Ele exclamou, sorrindo largamente, pegando minha mão e beijando sua parte de cima mais uma vez, fazendo carinho com o dedão nela. A gente nem se conhecia direito e ele já estava me tratando tão bem. Que fofo.
- Vamos, , para de babar na ... - disse, puxando a mão de , que largou a minha mão e levantou da cama. A fala de fez com que eu soltasse uma risadinha.
- Deixa de ser chato, ! - falou, dando um soquinho no braço do , que riu. Ele continuou resmungando algumas coisas, e o falava algo engraçado e ria da cara do .
- Eu tenho que aturar isso desde que comecei a namorar o . Todos os quatro só têm tamanho. Ninguém merece! - A fala de minha prima me fez rir. - Ai, seus dois crianções, vamos! - Mariana disse, se pondo de pé, puxando pelo braço os dois que continuavam fazendo arruaça, o que me fez gargalhar. Ela estava parecendo mãe deles.
- Tchau, ! - disse, acenando, enquanto era empurrado para fora do quarto por Mariana. Logo, ela apagou a luz do local e fechou a porta. Ri comigo mesma.
Respirei fundo e olhei para o teto. Fiquei inerte a qualquer coisa por vários minutos, apenas olhando para o alto. Quanto silêncio. Era capaz de eu começar escutar meus pensamentos em alta voz com tanto silêncio. Nem as vozes das pessoas que estavam na casa eu conseguia ouvir. Eu só escutava o zunido do ar condicionado, que quase não fazia barulho. Inspirei e expirei pesadamente mais uma vez.
Eu queria muito conseguir controlar minhas emoções. Todas as vezes que me lembrava daqueles acontecimentos, eu ficava da mesma forma. Quando eu pensava que já estava bem, tudo vinha à tona de novo, as lembranças mal-assombradas ficavam terrivelmente nítidas em minha mente; e eu acabava ficando mal, como se tudo estivesse acontecendo por mais uma vez, e eu estivesse vivendo tudo novamente. Já fazia quase um ano, mas eu não conseguia esquecer. Talvez não esquecesse nunca.
Tentava afastar os maus pensamentos lembrando que em breve minha melhor amiga estaria ali comigo. Sorria sozinha só imaginando o quão bom seria tê-la do meu lado, e pensava em quantas situações nós estaríamos juntas naquela grande e linda cidade.
Logo eu senti minhas pálpebras pesadas novamente. O remédio para dor de cabeça era tão forte que estava me deixando meio dopada e com muito sono. Não lutei para ficar acordada. Queria mesmo era dormir e esquecer por algumas horas aquelas cenas que me perturbavam tanto. Então eu fechei meus olhos e deixei com que minha alma entrasse num sono calmo e profundo.

- Calma, gatinha, eu não vou fazer nada de mais com você... - Aquela voz assustadora sussurrou em meu ouvido, de uma forma controlada, num misto de malícia e frieza, que fazia com que até meus ossos e meu espírito tremessem. Ele prendia meus pulsos com uma força tão absurda que eu não conseguia soltá-los de suas mãos grandes e ásperas.
- Me solta, seu monstro nojento, sai de cima de mim! - Entre meu choro desesperado eu disse, me mexendo ao máximo para tentar esquivar a minha boca da boca daquele imundo. Ele parecia não se incomodar com o meu desespero em me ver livre dele.
- Ah, para, princesa... - Sentir seus lábios tocando minha nuca só me fazia sentir repulsa. Repulsa por ele e por mim mesma. - Eu não vou te machucar, muito menos te fazer mal...
- Me solta, pelo amor de Deus! - E eu chorava alto, mal conseguia controlar o volume dos meus soluços. Minhas súplicas não foram atendidas. Ele parecia estar surdo e cego. Meu corpo negava seus toques, mas ele não parecia ligar.
Largou umas das minhas mãos e desceu a dele para tirar minha calça jeans. Eu dava socos com força em seu ombro, mas pareciam cócegas, pois ele nem se incomodava.
- Sai! - Eu gritei, mais desesperada do que nunca, quando vi que estava praticamente nua, e ele estava tirando sua calça. Eu não podia ousar em fugir, pois uma arma carregada estava do seu lado.
Meus gritos de pavor ecoavam pelo silêncio ensurdecedor daquele local que parecia não existir no mapa. Parecia que era inútil gritar, ninguém me tiraria das garras daquele bandido. Eu estava me sentindo mais indefesa do que nunca.
- Não, não faz isso, por favor... Não... NÃO!

Num impulso, levantei meu tronco e acordei com meu próprio grito, ofegante. Notei que eu estava suando, e que estava trêmula também. Olhei em volta, para me certificar de que aquilo era só mais um pesadelo. O mesmo de sempre. Passei as mãos pelo rosto e respirei fundo, soltando o ar pela boca. Logo trouxe minhas pernas para perto e as abracei, enterrando minha cabeça no espaço entre meu tronco e meus joelhos. Lágrimas pesadas começaram a descer de meus olhos e escorrerem por meu rosto. Eu não fazia questão de segurá-las. Talvez chorar fizesse eu me sentir um pouco melhor. Eu precisava esquecer aquilo, por mais que fosse quase impossível. Precisava.
Depois de longos minutos chorando sem parar, senti como se minhas lágrimas tivessem secado por completo. Então eu me levantei da cama – por mais que estivesse sentido meu corpo extremamente pesado – e caminhei para o banheiro. Olhei-me no espelho, e vi que meus olhos estavam vermelhos e inchados; meu nariz também estava vermelho. Fiz careta, reprovando o que tinha acabado de ver, e me pus a tirar minhas vestes. Logo, fui para o box, onde abri a torneira do chuveiro e entrei debaixo da água quente.
Fiquei durante minutos parada ali, sem ao menos conseguir me mexer, apenas deixando com que a água caísse sobre mim. Minha pele estava enrugara. Eu já tinha perdido noção de tempo de tão absorta em meus pensamentos que eu me encontrava. Quando finalmente consegui despertar, decidi sair dali. No quarto, eu peguei uma enorme blusa branca de manga que ainda estava em uma de minhas malas que não tinham sido desfeitas. Ela era de Ed. Era, porque eu tinha tomado-a para mim; eu amava aquela blusa, principalmente pelo fato dela ter a bandeira mais linda do mundo estampada na frente, e por cima dela ter escrita a seguinte frase: Keep Calm And Carry On. Ele só tinha aquela blusa para me fazer inveja. Nunca me disse onde tinha comprado, então eu simplesmente a roubei dele.
Na mala eu também peguei um short jeans claro que tinha sua barra desfiada. Vesti aquelas roupas e corri para o banheiro novamente. Ainda estava com cara de choro.
- Que se dane, eu estava dormindo antes, não vão perguntar se eu estava chorando. - Falei para mim mesma, ainda encarando minha imagem refletida no espelho, notando que minha voz estava rouca. Dei ombros e saí de lá; deixei o quarto, desci as escadas em seguida e andei em direção à sala. A televisão estava desligada, mas minha prima e seu noivo estavam deitados no sofá, sussurrando coisas e fazendo carícias um no outro.
- Estou interrompendo algo? - Perguntei, estampando um sorriso sacana nos lábios, encostando-me ao batente da porta do local. Eles tomaram um susto e olharam para mim, rindo.
- Não se preocupa, , a gente não estava fazendo nada. Não ainda. - disse, fazendo cara de safado, o que me fez rir. Mariana dava leves tapas no ombro dele e resmungava, o que o fazia rir.
- Ainda está cedo para essas coisas, ... - Eu falei, apontando para o relógio redondo que ficava pendurado em uma das paredes dali, me pondo a andar até o sofá vazio, sentando-me nele. Os dois se sentaram, então. Vi que o rosto de Mariana estava tão vermelho quanto um camarão.
- Ih, tem dia que nem saímos do quarto, a gente fica o dia todo só...
- Porra, , cala a boca! - Mari disse, interrompendo , dando uma tapa em seu ombro que até barulho fez. Ele gemeu de dor entre uma gargalhada. Eu me segurava para não rir.
- Eu só ia dizer que a gente fica o dia todo dormindo! Pensou que eu ia falar o quê? - Ele mordeu o lábio inferior e fez cara de safado mais uma vez; ela deu mais uma tapa no mesmo lugar e cruzou os braços com a cara emburrada, se segurando para não rir.
- Mari, acho que você esquece o quanto sua mão é pesada, né? Ai, meu ombro está ardendo pra caramba! E você ainda bate no mesmo lugar, sua má! - falou, passando a mão no local que tinha sido batido, expressando dor na face.
- Machucou muito? - Mariana disse, descruzando os braços, olhando para ele preocupada.
- Machucou! - disse, fazendo bico.
- Ai, me desculpe... Eu vou pegar um pouco de gelo para você... - Ela falou, se levantando do sofá, fazendo cara de culpa. concordou com a cabeça, e ela se pôs a andar até a cozinha. Ri comigo mesma daquela situação.
- Hey, essa blusa não é um pouco grande para você? - falou, olhando para mim com o cenho franzido. Soltei uma risadinha e balancei minha cabeça de um lado para o outro.
- É que eu roubei do meu irmão... - Eu falei, e nós rimos. - Eu adoro essa blusa, acho que é a minha preferida. - Olhei para a roupa e logo passei meus braços por meu tronco, abraçando a mim mesma. Isso fez rir. Ficamos em silêncio por alguns minutos.
- Você se sente melhor? - Ele perguntou, encarando-me com preocupação no olhar.
- Erm, sim. - Falei, encarando minhas mãos, que estavam em cima do meu colo. - Olha, eu queria te pedir desculpas se por um acaso falei algo que fez você se sentir mal, eu...
- Hey! Não precisa se desculpar, , é sério. - Eu disse, interrompendo , sorrindo da forma mais calma e doce possível. - Eu sou uma fraca mesmo...
- Que isso, , não diz uma coisa dessas! - Ele falou, me repreendendo, o que me fez abaixar a cabeça. Olhei para ele e sorri mais uma vez, concordando em silêncio. Logo vi um sorriso surgir nos lábios rosados dele, o que fez meu coração parar por um momento e voltar a bater com mais intensidade. Por que ele tinha que ter um sorriso tão perfeito?

***


Capítulo Sétimo – Invasor


's Point Of View: On.

Eu sentia que muitos segredos rondavam a vida de . Por que ela não estava preparada para tratar do tal assunto? Será que eram coisas tão ruins assim? Pelo que percebi, sim. Ela desmaiou só de lembrar. Eu precisava saber o que tinha acontecido. Talvez eu pudesse ajudá-la de alguma forma. Eu não sabia por que, mas eu sentia que precisava ajudá-la. Respeitava o fato dela não querer falar, mas eu estava curioso em saber mais sobre ela. E depois o que era o stalker, pensei comigo mesmo.
e eu ficamos mais uns poucos minutos sozinhos na sala, simplesmente calados; foram minutos tão longos. Eu ainda pensei em tocar no assunto "quais foram os motivos que te trouxeram a Londres" mais uma vez, mas resolvi não fazer isto, porque seria bem capaz de acontecer tudo de novo. Ainda sim, eu queria que aquilo acabasse, pois para mim, o pior de todos os barulhos é o som do silêncio. De vez em quando era bom, mas naquele caso, a falta de assunto estava me constrangendo.
Para acabar com aquele silêncio ensurdecedor, peguei o controle remoto da televisão e a liguei. Nós, então, começamos a prestar atenção no filme que estava passando, era uma comédia. Quando não estava dando sua risada alta e contagiante, eu percebia que seus pensamentos não estavam ali; pareciam estar bem longe, como se ela só estivesse presente de corpo. Ela talvez não tivesse percebido, mas eu não conseguia tirar meus olhos dela. Além de estar preocupado com seu estado de saúde, eu não conseguia parar de olhar para ela por outro motivo; estava sem maquiagem nenhuma, entretanto, sua beleza não tinha ido embora juntamente com ela. Era bom ver um pouco de beleza natural de vez em quando.
Depois de mais uns poucos minutos que pareciam uma eternidade, Mariana então voltou para a sala, segurando em suas mãos uma compressa de borracha que aparentava estar bastante cheia.
- Demorei? - Ela perguntou, sorrindo torto, vindo em minha direção, sentando-se ao meu lado.
- Demorou! - Eu disse, emburrando a face, fingindo estar bravo. Ela fechou a cara, e eu ri. Logo pôs a compressa em meu ombro esquerdo; este estava meio vermelho e ainda ardia um pouco. Na verdade muito, mas tudo bem.
- Fica de graça e eu bato no seu ombro com o triplo da força que bati antes. - Mari falou, séria, o que me fez engolir a seco. Então ela riu da minha face, satisfeita. Eu ainda me assustava um pouco quando ela demonstrava agressividade.
- Nossa... Vocês são sempre assim, amorosos um com o outro? - disse, em tom de ironia, olhando para mim e para a Mari, arqueando a sobrancelha esquerda.
- Sempre. .- Citei, também em tom de ironia, sorrindo sarcasticamente.
- Percebe-se... - Ela falou, olhando para o lado, segurando o riso. Eu comecei a rir, o que induziu a ela e a Mari a fazerem o mesmo. Logo, nós nos calamos e voltamos a prestar atenção no filme, enquanto recebia em meus cabelos carinhos das mãos macias de minha noiva.
Como eu amava Mariana. Mas não entendia o porquê dela ter que ser tão falsa com a . Eu continuava sem ver motivos para não gostar dela.
Minha noiva de curta data sabia dissimular tão bem que eu não sabia se ficava assustado, triste, ou a inscrevia num teste para atriz de novela das oito. Por um momento, coloquei a confiança que tinha nela em uma corda bamba, fiquei até com medo do amor dela por mim, ser uma farsa, tamanho o talento que ela tinha para mentir. Mas eu sabia que aquilo era apenas uma cogitação, não significava que era real; ela demonstrava o que sentia por mim através de seus gestos, e eu podia confiar nela cegamente.
- Hey, , você não vai ligar para o , não? Eu já me sinto melhor... - disse, quebrando o silêncio que só era preenchido pelo barulho da TV, tirando-me do estado de inércia que eu me encontrava. Olhei para ela com a sobrancelha esquerda arqueada.
- Não basta o estar babando em você, agora você está babando nele também?! Como assim, dude! - Eu disse, rindo em seguida. Percebi que seu rosto estava levemente corado, demonstrando que ela estava envergonhada. Ela ficava linda quando seu rosto ficava tão vermelho quanto um tomate maduro.
- Não cai na lábia daquele lá não, , vai por mim. - Eu falei, em tom de brincadeira, entre um riso.
- Ah, o foi tão fofo comigo sem ao menos me conhecer, poxa... Ele parece ser uma pessoa legal. - disse, de uma forma dengosa, mirando seus olhos em suas mãos, que se encontravam em cima de seu colo.
- Não ouve o , . O é uma ótima pessoa, pode ter certeza. - Mariana falou, sorrindo sem mostrar os dentes, e retribuiu.
- Está contra mim, Mari? Era só o que me faltava agora. - Falei, revirando os olhos, cruzando os braços em seguida, o que fez as duas rirem.
- Liga logo para o menino, amor, ele já te ligou um monte de vezes! - Mariana disse, dando uma tapa de leve na minha perna.
- Ai, virei saco de pancada agora! - Falei, fazendo voz de choro, encenando feito uma drama queen, o que a fez rir. - Está bem, vou ligar para ele, então, madame do UFC! - Eu disse, pegando o meu celular, que se encontrava dentro do bolso de trás da minha calça. Mari riu.
Disquei o tão conhecido número do celular do e apertei o botão "call". Levantei do sofá e andei para um canto qualquer da sala, me afastando das duas faladeiras que ali estavam.
- Fala, ! - Ouvi falar do outro lado da linha. Estava meio ofegante, talvez tivesse corrido que nem um desesperado para atender ao telefone.
- , a acordou e se sente melhor, você já pode voltar para cá. - Eu disse, esperando uma reação alegre dele. já tinha me ligado tanto pedindo para eu retornar assim que a tivesse acordada que eu tinha perdido as contas do número de ligações dele.
- Sério?! Até que enfim! Eu já estou indo para aí! - Ele disse, frenético, praticamente desligando o telefone na minha cara. Ri baixinho comigo mesmo, balançando a cabeça de um lado para o outro, voltando ao meu lugar em seguida.
Poucos minutos depois, eu ouvi a campainha tocar; levantei-me e andei em direção à porta de entrada.
- E aí, dude, como ela está? - falou, entrando na minha casa com as mãos no bolso da calça jeans.
- Ela está muito melhor do que antes, não se preocupe. - Falei, fechando a porta de madeira, caminhando até ele. - Dormir fez bem para ela.
- Graças a Deus, né. .- Ele falou, soltando um sorriso aliviado. Então nós nos pomos a seguir caminho até a sala, conversando sobre assuntos aleatórios.
- Pronto, , está entregue o seu pacote... - Falei, apontando com a cabeça para , encostando meu cotovelo no ombro de , que me fitou praticamente fuzilando-me com os olhos. Ele odiava quando eu o fazia de apoio. E... Ah. Quem se importava? Era legal irritar os outros fazendo o que elas não gostavam.
- Oi, ... - disse, voltando seus olhos para ela, acenando de forma tímida. Ele estava parecendo mais um pré-adolescente agindo daquela forma. E se eu conhecia bem o meu amigo, eu diria que ele já estava se apaixonando; principalmente pelo fato dele se apaixonar facilmente. Mas era cedo para afirmar uma coisa como essa.
- Hey, . - respondeu, sorrindo sem mostrar os dentes. Os dois ficaram uns segundos se olhando, sem dizer uma palavra sequer, até que eu discretamente empurrei para que ele andasse até . Eu sabia que ele iria ficar fulo comigo, mas eu já estava agoniado em vê-lo parado com aquela cara de idiota no meio da minha sala.
- Eu estou com fome, , cozinha para mim? - Mariana falou, passando a mão na barriga, fazendo careta. - Hein, amor! Por favorzinho! - Ela fez bico e encarou-me com um olhar pidão.
- Ta, eu cozinho. - Eu disse, sorrindo de forma amigável. Logo, fui até ela, pegando em sua mão, ajudando-a a ficar de pé. - Mas você vai me ajudar.
- Ah, eu tenho mesmo que ajudar? - Ela disse, manhosa, cruzando os braços.
- Claro, sua preguiçosa! - Minha fala fez com que ela me mostrasse o dedo do meio. Ri com isso. Então nos pomos a andar até a cozinha.
- Toma cuidado com ele, hein, . - Falei, olhando para trás, piscando para ela. Logo olhei para , estampando um sorriso sapeca nos lábios.
- Já mandei você ir se foder hoje, ? - falou, olhando para mim com cara de tédio. apenas segurava seu riso.
- Não, mas obrigado, eu não quero não. - Minha fala fez com que ele mandasse o dedo do meio para mim. Dei uma risada alta, em seguida Mariana e eu terminamos o nosso percurso, o que deixou e sozinhos na sala.

Eu gostava de cozinhar. A maioria das pessoas achava isso muito gay – principalmente os meus companheiros de banda –, mas eu não achava, até porque, os melhores cheffs de cozinha eram homens. Eu não entendia o preconceito das pessoas por homens que gostam de cozinhar. Qual é. Tem coisa mais romântica que um homem cozinhando para a mulher que ama?
No fogão, eu havia deixado uma panela de vidro com água e macarrão para cozinhar. Estava preparando o prato preferido de Mariana, já que ela tinha me pedido. Eu não sabia como ela não era gorda, pois comia tanta massa que chegava a me superar.
Enquanto conversávamos e ela cortava em quadradinhos uns tomates e um pouco de cebola para o molho, escutávamos de vez em quando risadas distantes de e ecoando pela casa. Eles aparentavam não estar mais na sala, mas riam tão alto que acho que daria para se escutar o som daquelas gargalhadas a quilômetros de distância.
- A sempre ri alto assim? - Perguntei, fazendo careta, o que fez Mari soltar um risinho.
- Sim. Desde que a gente era criança. Meus pais ficavam putos quando a gente estava vendo desenho e ela começava a rir e acordava meu irmão. Na época ele era um bebê, e sempre se assustava com a risada da . Coitadinho dele. - Mariana disse, balançando a cabeça de um lado para o outro, rindo com ela mesma. Soltei um risinho.
- Quem olha assim para ela, toda alegre, nem tem noção do que ela já passou... - Falou, tão baixo que quase não pude ouvir. Talvez não fosse para eu escutar.
- Aconteceram coisas muito graves com ela? - Eu falei, encarando-a com uma interrogação no olhar, o que a fez olhar para mim, meio assustada.
- Amn... Sim. Mas acho que ela tem que falar sobre isso, não eu. Eu não quero ficar fofocando sobre a vida dela. A única coisa que eu posso dizer é que foi um caso de polícia. - Com a sua fala, eu arregalei os olhos. - Eu fiquei bastante preocupada na época. - Mari indagou, olhando para o vazio. Como eu gostaria se conseguir ler mentes naquele momento.
- Ué... Pensei que você não gostasse dela. - Eu disse, dando ombros.
- E não gosto. Mas ainda sim eu me preocupo com ela, afinal, a é da minha família, né. - Concordei movimentando minha cabeça para cima e para baixo, em silêncio.
Mas que diabo tinha acontecido com a prima da Mari? Eu estava mais do que curioso para saber.

***


Capítulo Oitavo – Impulso


's Point Of View: On.

Aquela já era a milésima vez que eu trocava de roupa. Eu estava indecisa em qual traje usar para passear por Londres. Parecia que nenhuma roupa minha era boa o bastante para sair andando por aquela cidade perfeita em que todos se vestiam tão bem. Eu nunca sabia o que vestir para sair em Londres, então era sempre a mesma coisa para escolher uma roupa.
Eu fazia careta enquanto me encarava no espelho da porta do armário, reprovando a roupa que tinha acabado de vestir. Era um vestido rosa claro, tomara que caia, que tinha uma renda por cima do pano que dava certo ar romântico a ele; usava um cinto fino em minha cintura, o que a deixava um pouco mais marcada. Ele não era nem tão longo nem tão curto, seu comprimento ia até mais ou menos um pouco abaixo da metade da minha coxa. Em meus pés estavam um par de botas de couro marrom cujo cano era curto, que combinava bem aquele modelo de vestido.
- , o já está... - do nada apareceu no meu quarto, e ao me ver, ficou estático no lugar dele, fitando-me boquiaberto, sem terminar sua fala. - Caramba, , você está linda! - Ele disse, esboçando um pequeno sorriso, que eu diria que era um tanto malicioso.
- Você acha? - Eu disse, meio envergonhada, olhando-me no espelho mais uma vez. Senti que ele ainda estava olhando para mim, e isso me fez corar. - Acho que essa roupa não ficou muito legal.
- Claro que ficou , para de graça! - Olhei para ele, e soltei um sorriso. - Acho que é demais para o , mas tudo bem. - Joguei uma peça de roupa qualquer na direção dele e mostrei a língua para ele, que retribuiu e começou a rir, o que me contagiou a fazer o mesmo. Quando as risadas cessaram, ficamos nos olhando por uns poucos segundos, sem trocar nenhuma palavra. Por mais uma vez, me senti presa a seus olhos, não conseguia parar de olhar para eles. É, eu realmente estava ficando hipnotizada. Contra a minha vontade, mas estava.
- O já está aí há muito tempo? - Eu disse, quebrando o silêncio, saindo daquele estado de transe. Caminhei até a cama, onde se encontrava meu celular. Tomei-o em minhas mãos, coloquei no bolso do vestido e andei para o banheiro, onde eu me pus a pentear meus cabelos rapidamente. Isso tudo só para disfarçar o quanto eu estava sem graça.
- Não, não tem nem cinco minutos que ele chegou. - falou, parando no batente da porta do banheiro, cruzando os braços. Olhando para a direção dele pelo espelho, eu percebi que ele acompanhava cada movimento meu. Será que ele não se cansava de me deixar sem graça?
- Para de me olhar, . - Eu disse, enquanto passava a máscara preta em meus cílios.
- Por quê? Deus me deu olhos para olhar. - Ele indagou, soltando um sorriso cínico, continuando a me encarar. Revirei os olhos, o que o fez soltar um risinho. Com duas semanas de convivência, já tinha virado um especialista em me irritar. Acho que ele estava conseguindo ser pior que o Ed.
- Eu não entendo por que vocês mulheres têm que passar essas coisas todas no rosto. - Citou, balançando a cabeça para o lado e para o outro, murmurando.
- Para ficarmos bonitas, oras. - Eu disse, depois de ter feito linhas finas de delineador nas duas pálpebras. - Algumas mulheres só ficam bonitas com maquiagem, e eu sou uma delas.
- Você não é esse tipo de mulher, . - Com a sua fala, eu parei o que estava fazendo e o encarei, arqueando a sobrancelha.
- Fumou o quê, ? Andou bebendo demais? - Eu indaguei, pondo uma interrogação no olhar. - Você só pode estar brincando.
- O que é? Não acredita que você é bonita sem maquiagem? - Ele falou, cruzando os braços.
- Claro que não!
- Eu não costumo mentir sobre o que eu acho das pessoas. - Com a sua fala, voltei meu rosto para o espelho, tentando esconder que por mais uma vez eu tinha ficado vermelha de vergonha.
- Amn, vamos, eu já estou pronta... .- Eu disse, espalhando o gloss nos lábios, verificando se não estava borrando. Em seguida, virei para sair do banheiro. Não esperava que esbarrasse em , pois pensei que ele já tinha saído de onde estava, mas não; continuou parado na mesma posição. Encarou-me assustado, e eu olhei para ele da mesma forma. Senti meu coração se acelerar involuntariamente, pois nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir sua respiração arfante batendo em minha pele. Seu perfume cheiroso invadiu minhas narinas por mais uma vez, o que me deixou com vontade de me enterrar em seu pescoço, só para ficar sentindo aquele cheiro tão viciante. Minha respiração começou a ficar falha e meu corpo a estremecer, principalmente quando notei que a distância entre nossas bocas estava ficando praticamente nula. Era como se fôssemos ímãs de polos diferentes e estivéssemos nos atraindo para cada vez mais perto, sem que aquilo fosse evitado.
Antes que nossos lábios pudessem se tocar, me afastei um pouco dele, encarando o chão.
- V-vamos, , o já deve estar cansado de esperar. - Falei, andando para fora do banheiro.
- E-erm, vamos sim. - Ele indagou, se pondo a andar de forma rápida para fora do quarto. Então eu o segui.
Tentava recompassar as batidas do meu coração, que estavam tão rápidas como os passos de . Eu mal conseguia alcançá-lo. O incidente que tinha acabado de ocorrer tinha deixado visivelmente constrangido, assim como eu. Eu estava tão sem graça que não sabia nem o que falar para me desculpar pelo acontecido.
Rapidamente, nós descemos as escadas e caminhamos para a varanda, onde o se encontrava conversando com a Mari. A varanda ficava na parte de trás da casa, e dava para um amplo quintal. Mari e estavam sentados nas cadeiras de madeira, que faziam conjunto com uma mesa redonda do mesmo material.
- Hey, ! - Eu disse, acenando, sorrindo largamente para ele.
- Olá, ! - Ele falou, soltando um belo sorriso, se levantando do seu lugar. - Vamos? - Ele caminhou até mim, entrelaçando meu braço no dele.
- Claro! - Olhei para ele e sorri, bagunçando seus cabelos.
- Cuida bem da minha prima, hein, ! - Ouvi Mariana falar, num tom de voz brincalhão, enquanto nós caminhávamos para dentro da casa.
- Pode deixar, Mari! - falou, esboçando um sorriso. Então nós passamos para a sala.
- Ai, , eu esqueci a minha jaqueta... Você me espera aqui enquanto eu vou lá pegar? Eu não demoro... - Indaguei, fazendo careta, coçando a nuca.
- Espero sim. - Ele disse, pondo as mãos nos bolsos da calça preta, sorrindo sem mostrar os dentes. Então eu joguei um beijo no ar e praticamente corri até as escadas que me levariam até o segundo andar, caminhando rápida até meu quarto. Peguei a jaqueta jeans clara que se encontrava em cima da cama, e a vesti, me virando para andar para fora do quarto. Não esperava que fosse encontrar ali.
- Merda, , que susto! Está parecendo até um fantasma aparecendo assim, do nada, eu hein! - Eu falei, pondo a mão no peito, respirando fundo. Ele não riu nem nada. Só continuou parado no mesmo lugar, encarando-me de uma forma esquisita.
- O que foi, ? Está tudo bem? - Perguntei, pondo as mãos na cintura, olhando para ele meio preocupada. Sem pronunciar uma palavra sequer, ele se aproximou de mim e me puxou pela cintura contra seu corpo, e antes que eu pudesse me soltar dele para perguntar o que estava havendo, senti seus lábios macios e úmidos tocando os meus. A única opção que me restou foi retribuir o beijo, mesmo que eu ainda estivesse assustada com aquela atitude. Prensava-me ainda mais contra seu corpo, caminhando uma de suas mãos em minhas costas de um jeito suave, que fazia a minha pele se arrepiar por inteiro, enquanto eu puxava os cabelos dele, de forma delicada; passava lenta e calmamente sua língua quente entre a minha, fazendo com que ao mesmo tempo em que o beijo fosse terno, fosse também cheio de desejo. Aquilo me fez esquecer por um momento que ele era o noivo da minha prima. E que ele estava beijando a outra pessoa que não era ela. E que aquela pessoa justamente era... Eu.
- O que deu em você? Está ficando louco?! - Eu disse, quebrando o beijo, dando uma tapa forte em seu rosto, andando para longe dele. Ouvi seus gemidos de dor, mas não me importei. Senti que ele estava se aproximando de mim, pois passos ecoavam seu som pelo quarto. Tocou então com uma das mãos o meu ombro, e a desceu lentamente até a minha mão; logo se pôs a brincar com meus dedos. Isso me fez fechar os olhos e segurar a respiração, enquanto eu sentia meu coração se acelerar cada vez mais, e uma sensação que eu não sabia explicar tomar conta de mim como um todo.
- Você está me deixando louco. - Ele sussurrou, bem perto da minha orelha, dando beijos de leve ali, o que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Deixei-me ser dominada pelo o que eu estava sentindo naquele momento; a vontade de beijá-lo por mais uma vez era muita, mas eu não podia fazer aquilo.
Só depois de uns segundos eu assimilei completamente o que tinha acabado de dizer. Virei-me e olhei para ele, sem esboçar nenhuma reação, de tão pasma que eu estava. Ficamos nos olhando por um curto período de tempo, até que eu finalmente consegui andar para fora dali. Tive que tomar cuidado para não cair nos degraus da escada, de tão desgovernada que eu estava descendo.
- Vamos, . - Falei, caminhando até ele, cabisbaixa. Logo ele entrelaçou seu braço no meu, e nós nos pomos a andar para o hall da casa. se encontrava descendo as escadas. Nossos olhares então se encontraram, e eu senti meu coração quase querer sair pela boca de tão ligeiro que estava trabalhando.
- Até mais, gente! - Ele disse, sorrindo, acenando para nós.
- Até! - disse, retribuindo os gestos. Limitei-me a sorrir sem mostrar os dentes, fechando a cara em seguida. Estava com tanta raiva do que se ele continuasse me olhando, quebraria a cara dele em vários pedacinhos.
então abriu a porta, abrindo passagem para eu sair. Logo ele saiu e fechou a entrada da casa. E nós nos pomos a andar até o carro dele.
- Ué, você vai dirigir? - Ele perguntou, levantando a sobrancelha.
- Não, por quê? - Eu disse, olhando incrédula para ele.
- Porque você está do lado do motorista... - Ele falou, abrindo a porta, apontando para o volante, coçando a nuca em seguida.
- Ah... - Fiz cara de criança inocente, e ele riu. - Eu realmente tinha me esquecido desse detalhe. - Bati minha mão na testa, o que o estimulou a rir ainda mais. Rolei os olhos dentro de minhas pálpebras e balancei minha cabeça em sinal de negação, caminhando para o outro lado do carro. Nós entramos nele, então.
- Lá no Brasil, o volante é do lado esquerdo, não é? - falou, enquanto colocávamos os cintos de segurança. Afirmei com a cabeça. - Que estranho!
- Claro que não é estranho. Estranho é o volante ser do lado direito... - Falei, indiferente, olhando para as minhas unhas, estas que estavam pintadas de preto. Ele apenas murmurou, negando com a cabeça.
- Alou, , o resto do mundo tem carros com volantes do lado esquerdo! - Estalei os dedos, cruzando os braços logo depois.
- Verdade. Mas eu ainda acho estranho. - Sua fala fez com que eu revirasse os olhos, e ele por mais uma vez soltasse um risinho. Então ele deu partida com o carro.
Durante metade do percurso, a única coisa que preenchia o silêncio de nossas vozes era o rádio ligado em uma estação qualquer. De vez em quando tocava alguma música que eu conhecia e gostava. Até uma do McFLY tocou, o que fez os olhos de brilharem e sua boca sorrir orgulhosamente, enquanto cantava a própria música juntamente com o rádio.
Eu não estava conseguindo tirar da minha cabeça aquela cena. Por mais que eu estivesse com raiva de , me pegava pensando no quão bom tinha sido aquele beijo. Eu não podia negar que tinha sido bom, não mesmo. Fechava meus olhos para sentir aquelas sensações que tinha sentido ao beijar aquela boca tão macia, e despertava ao lembrar que não podia ter acontecido nada entre nós. Aquilo realmente estava me atormentando.
- Aconteceu alguma coisa, ? - disse, quebrando o silêncio, sem tirar os olhos da estrada. Confesso que levei um susto, de tão concentrada em meus pensamentos que eu estava.
- Por quê? - Eu disse, olhando para ele com a testa estriada, me fazendo de desentendida.
- Sei lá, acho que você está muito calada. Quase não falou até agora. Você não é assim. - Disfarçadamente, engoli a seco. Agora o lema era: falar ou não para que o havia me beijado. Eu não queria causar confusão, porém, não queria mentir para ele. Mas já tinha na ponta da língua a resposta clássica.
- Não aconteceu nada. - Eu falei, olhando para a janela, observando o movimento da rua, já que estávamos parados em um sinal de trânsito vermelho.
- Você tem certeza? - Ele citou, olhando para mim, pegando em minha mão. Encarei a sua mão em cima da minha e subi meus olhos até que nossos olhares se encontrassem. Fitava-me preocupado.
- Só bateu saudade da minha família. - Indaguei, sorrindo forçadamente, fazendo carinho na parte de cima da mão dele com o dedo polegar. Então ele levou minha mão para perto de sua boca e a beijou, sorrindo sem mostrar os dentes em seguida.
- A gente já está chegando, né? - Perguntei, olhando para frente, avistando pela gigantesca roda.
- Aham. Mais alguns minutos e já estamos lá. - disse, acelerando o carro, já que o sinal tinha ficado verde novamente. Vibrei feito uma criança, o que o fez rir.
Eu tinha mudado completamente de assunto, mas era para não ficar um clima chato entre nós. Talvez o meu argumento não tivesse convencido .

- Eu estava louca para vir aqui. - Eu disse, olhando para o alto, deixando que surgisse um sorriso bobo em meus lábios. Notei que o céu estava incrivelmente azul, sem nenhuma nuvem impedindo os raios de sol de transmitirem sua luz. - O dia está lindo. - Pensei em voz alta, enquanto uma leve brisa corria por meu rosto e balançava meus cabelos.
- Realmente está um belo dia. Mas parece que você nunca andou em uma roda gigante. - indagou, tirando os óculos de sol Ray-ban preto que usava.
- Ai, seu bobão. Não é uma roda gigante qualquer. É a London Eye. London. Eye. Entendeu? - Eu disse, ainda olhando para o alto, sorrindo mais uma vez.
- Ah, tanto faz, , é só mais uma roda gigante no mundo. - Ele falou, bagunçando meus cabelos.
- Cala a boca, ! Tanto faz nada! - Falei, dando uma tapa em seu ombro, cruzando os braços. Comecei a arrumar os meus cabelos, até que eles voltassem a ficar no lugar.
- , mas é verdade! - Citou, bagunçando meu cabelo mais uma vez. Encarei-o praticamente o fuzilando com os olhos, com raiva arrumando mais uma vez minhas madeixas, enquanto ele ria da minha cara.
- Ah, , não fica assim, bebê, você sabe que eu estou brincando... - Concluiu, passando a mão por minha face, fazendo bico de bebê chorão ao fim de sua fala. Sorri fraco, imaginando o quão vermelho meu rosto poderia estar naquele momento, só pelo fato de ele ter me chamado de bebê.
Nós nos direcionamos para uma pequena fila que antecedia a nossa entrada para uma das cabines da London Eye. Eu estava me sentindo uma formiga perto daquele monumento tão alto.
- A vista da cidade é incrivelmente linda lá de cima. Ainda mais de noite. - disse, olhando para o alto. - Quando a gente vir aqui de novo vai ser de noite... - Ele falou, voltando os olhos para mim, passando seu braço por meus ombros.
- Nossa, você já está planejando a próxima vez que a gente vai vir aqui... Que progresso! - Citei, batendo palminhas, sorrindo largamente. Ele apenas balançou a cabeça em sinal de negação, rindo com ele mesmo.
e eu estávamos saindo juntos pela segunda vez desde que nos conhecemos. Nós conversávamos quase todos os dias, mas pedidos para sair eram raros.
Ele era uma ótima pessoa, muito engraçado, fofo e legal. O tipo de cara perfeito, daqueles que se procura para passar uma vida inteira. Talvez ele quisesse alguma coisa comigo, mas eu ainda não estava preparada para um relacionamento. Principalmente pelo trauma que eu carregava comigo, o qual eu não conseguia vencer.

***


Capítulo Nono– Regressão


's Point Of View: On.

Talvez a tivesse se assustado com a minha atitude. Mas eu não estava mais conseguindo aguentar ficar tão perto, me sentindo tão atraído por ela. O que eu pensei que iria passar depois de uns poucos dias de convivência, acabou tomando a ordem inversa e aumentando cada vez mais, até eu chegar ao ponto em que cheguei. Eu me esforcei para fazer aquilo sumir, mas a cada dia que passava, eu descobria novas qualidades na , e percebia que nós tínhamos mais pontos em comum do que eu imaginava. Parecia que eu nunca tinha me sentido tão atraído por alguém.
Eu ainda sentia os seus doces lábios tocando os meus como se eu estivesse a beijando por mais uma vez. Seu perfume ficara impregnado em minha pele, e em minha memória. A sua pele era tão macia quanto seda. Eu não conseguia esquecer aquele incidente por nenhum minuto sequer, por mais que eu quisesse.

e tinham chegado do passeio que tinham marcado. Ela dizia o quanto estava impressionada com a vista que a London Eye proporcionava. Também dizia que andar naquela roda gigante tinha sido a melhor coisa que tinha acontecido naquele dia, que tudo era lindo e que queria repetir a dose o mais breve possível. Logo subiu para mandar e-mails contando sobre aquilo para a família dela, o que deixou e eu conversando sozinhos na varanda, já que Mariana tinha acabado de sair para trabalhar.
- ...
- Fala, cara.
- Você sabe se aconteceu alguma coisa com a ? - perguntou, pondo uma interrogação no olhar. - Ela estava meio estranha quando a gente saiu daqui...
- E-estranha, como assim? - Falei, olhando para o lado, engolindo a seco.
- Sei lá. Ela estava muito calada e pensativa. E você sabe que ela fala pelos cotovelos. Eu perguntei e ela disse que estava com saudades da família, mas eu não me convenci muito não. Eu fiquei meio preocupado, mas deixei para lá. - Ele falou, encarando o vazio, passando a mão em sua nuca. Parecia desconfortado.
- Ah, , não fica assim não. Ela deveria estar assim por estar sentindo falta da família mesmo. - Indaguei, sorrindo sem mostrar os dentes, e retribuiu.
- Deve ser. Bom, eu vou para casa. - Ele disse, levantando-se da cadeira em que estava sentado. - Até mais, .
- Até depois. - e eu apertamos nossas mãos.
- Manda um abraço para a . - Ele citou, e eu apenas sorri sem mostrar os dentes. Então ele se pôs a andar para dentro da casa, e com certeza para a saída dela. Se a quiser olhar na minha cara, eu mando o seu abraço seria a perfeita resposta que eu daria para se ele estivesse sabendo do ocorrido.
Fiquei pensando se a tinha contado para o que eu tinha a beijado. Se sim, ele tinha disfarçado muito bem passando aquele tempo todo comigo sem ter mencionado nada sobre o assunto. Se não, eu me sentiria muito mais aliviado em saber que meu "instinto impulsivo masculino" que atacou feito um cão atrás de uma cadela no cio tinha sido guardado a sete chaves na boca de .
Poucos minutos depois de ter ido embora, levantei-me e entrei em casa, andando para a cozinha. Lá, peguei um pacote de biscoitos, caminhei até a sala e me sentei no chão, que era coberto por um tapete branco. Assim eu me pus a apreciar os biscoitos de leite recheados com chocolate – os meus preferidos –, e a pensar que o motivo de ter ficado estranha de uma hora para outra podia ter sido o que tinha ocorrido entre nós. Eu ficava imaginando o que tinha se passado pela cabeça dela. Talvez eu tivesse bagunçado seus pensamentos, talvez ela tivesse pensado que eu era louco. Mas eu não era. Ela estava me levando à loucura. E loucura mais insana que a do desejo terminantemente não existe.
Àquela altura, eu me sentia culpado e arrependido, mas ao mesmo tempo, não me sentia assim. Eu estava meio confuso sobre os meus próprios sentimentos. O fato era que eu estava com outra pessoa que não era Mariana em minha mente, por mais uma vez. Será que eu não conseguiria deixar de ser um canalha nunca? Eu me esforçava para mudar, mas parecia que meu lado garanhão nunca me deixava, e pelo o que parecia, nunca me deixaria.
Depois de tanto queimar neurônios e de terminar de comer os biscoitos, coloquei em minha cabeça que precisava me desculpar com a pela minha atitude; ela ainda não tinha descido, então eu levantei-me e me pus a andar até as escadas que me levariam até o segundo andar, onde comecei a subir os degraus rapidamente, antes que eu desistisse de me desculpar com ela. Chegando à porta do seu quarto, dei três soquinhos de leve, porém, não obtive um "entre" ou "pode entrar", nem uma resposta dela.
- ! , você está aí? - Em alto tom de voz, eu disse, dando mais três socos de leve na porta, mas ainda sim não tive uma resposta. Então passei a mão na maçaneta e lentamente fui abrindo a porta.
- ? - Eu disse, pondo a minha cabeça dentro do quarto, passando meus olhos em volta dele. Não avistei por ela. Então eu entrei no cômodo e sentei na cama dela. Decidi que esperaria ali mesmo, porque se eu não me desculpasse com ela naquele momento, talvez eu não me desculpasse nunca, e ela nunca mais iria olhar na minha cara. Aquilo era tudo que eu não queria, até porque eu gostava muito da companhia dela. Fiquei encarando o nada, pensando no que falaria, quando de repente, eu escutei a voz dela se aproximar.
- Nevermind, I’ll find someone like you, I wish nothing but the best for you two...
Quando olhei para o lado, vi que ela estava saindo do banheiro dali do quarto, e enquanto cantava desafinando propositalmente, secava seus cabelos com uma toalha branca, completamente distraída; tinha acabado de sair do banho – concluí isso depois que vi o monte de fumaça formada pelo chuveiro quente dentro do banheiro –, e eu notei que ela estava apenas de peças íntimas. Eu até poderia achar a cena um bocado sexy, se eu não tivesse ficado surpreso. Ao me ver ali, uma feição assustada surgiu em seu rosto, e eu levantei da cama, também assustado.
- ! O que você está fazendo aqui?! - Ela gritou, se enrolando à toalha que tinha em mãos, ou tentando fazer isso. - Você não sabe bater na porta não?
- E-eu bati na porta, mas você...
- Sai daqui, ! Você não está vendo que eu estou quase nua?! - Ela disse, cortando minha fala, olhando-me incrédula.
- Mas, , e-eu quero muito me desculpar com você... - Falei, me aproximando um pouco dela, enquanto ela dava passos para trás, amedrontada. Ao perceber isto, parei de andar em sua direção, notando que ela respirava com dificuldade, e que seu rosto estava completamente corado, como se ela tivesse acabado de tirar uma toalha quentíssima e úmida da face.
- Se desculpar pelo quê? - indagou, encarando-me ainda assustada.
- Erm... Bom... Eu queria pedir desculpas por eu ter te beijado mais cedo, eu não deveria ter feito aquilo. - Retruquei, andando para o outro lado do quarto, encostando minha cabeça na parede, respirando pesadamente.
- Você não deveria ter feito mesmo. , eu sou a prima da sua noiva! Você perdeu a noção das coisas? - Ela disse, um pouco mais calma.
- Não, eu não perdi a noção das coisas, é que eu... - Virei-me para ela e interrompi minha própria fala, só para ter certeza do que eu iria acabar de dizer. Fiquei instantes em silêncio, para ter o privilégio de conseguir organizar meus pensamentos, coisa que não obtive com muito sucesso.
- Você o quê, ? - disse, aproximando-se de mim, fitando seus olhos nos meus; sua testa encontrava-se estriada, e seu olhar um pouco confuso, esperando uma resposta que acabasse com aquilo.
- Eu... E-eu estou... Ah, esquece, não é importante. - Eu disse, caminhando para fora do quarto, sem a chance de dar ouvidos para a voz de chamando meu nome, praticamente me ordenando para voltar e terminar o que eu iria dizer. Então eu fui para o meu quarto e lá deitei em minha cama. Eu realmente precisava colocar meus pensamentos em ordem.
Será que eu estava sendo enganado por meus próprios sentimentos? Ou será que eu estava certo sobre eles?

***


Capítulo Décimo – Ponta Do Iceberg


(Dica: vá colocando para carregar: The Heart Never Lies - McFLY)

's Point Of View: On.

Eu não podia negar que queria muito saber o que falaria se não tivesse interrompido suas próprias palavras. Eu não sabia se ficava assustada por ele ter entrado no meu quarto sem minha prévia permissão, ou se me enterrava debaixo de sete palmos de terra por ele ter me visto apenas de roupas íntimas. Eu estava com tanta vergonha que estava com medo de encarar a face de por mais uma vez.
Eu fiquei tão absorta em meus próprios pensamentos por tanto tempo que, por este motivo, não notei quando um novo e-mail chegou para mim. Então coloquei o notebook em meu colo e cruzei as pernas sob meu corpo; logo abri a mensagem de resposta que eu estava esperando durante dias.

Hey, cachorrona!
Bom, você vai se mudar na próxima segunda-feira, certo? Eu tenho uma ótima notícia para te dar. Meu passaporte ficou pronto, minhas documentações certas, meu curso de inglês devidamente terminado, minhas malas feitas... E adivinha só? Eu chego à Inglaterra na terça à noite! Sim, pode surtar com isso e gritar bastante. Ai, eu estou com tanta saudade de você! Estou louca para apertar você de novo, e não vejo a hora disso acontecer.
Ah. O que são aquelas fotos que você tirou na London Eye! Quanta lindeza! Fiquei até com água na boca... Hehe.
Eu estou literalmente contando os minutos para estar aí com você, . Principalmente porque nós estaremos juntas em L O N D R E S!
Beijos,
.


Aquela notícia com certeza tinha enchido meu dia de alegria. Era realmente muito bom saber que em poucos dias eu teria minha melhor amiga ao meu lado na cidade dos nossos sonhos. Seríamos duas brasileiras fingindo serem legítimas inglesas, falando com sotaque britânico e tudo, já que nos julgávamos como nascidas na Terra Da Rainha.
Era sexta-feira. Na terça, eu tinha recebido a notícia de que eu conseguira uma vaga para trabalhar em uma loja de música a qual eu mandara um currículo. Ela pagaria o suficiente para eu viver bem ali. Com a confirmação de que eu ganharia meu próprio dinheiro, me pus a procurar um apartamento, e logo achei um. Não era grande coisa, porém era um bom começo. Eu me mudaria na segunda-feira, e começaria a trabalhar na terça; meu expediente iria de nove da manhã às quatro da tarde. Eu estava muito ansiosa para que aqueles dois dias do fim de semana passassem logo, para que eu finalmente pudesse começar a refazer minha vida de fato. Meus dias de turista naquele país se acabariam e eu aos poucos me tornaria uma cidadã britânica, e eu estava alegre por isso.

Imagine uma pessoa com fome. Agora multiplique por vinte e some com cem. Aquela do resultado era eu. Eu estava com muita fome. Mas se eu descesse para pegar alguma coisa, com certeza eu daria de cara com o , e querendo ou não, eu estava com um pouco de medo de cruzar com ele, ainda mais depois de tudo o que tinha acontecido naquele único dia; nós estávamos sozinhos naquela casa, o que aumentava meu temor. Eu sabia que uma hora ou outra eu teria que esbarrar com o , principalmente porque eu não poderia ficar dentro daquele quarto o resto do dia, mesmo que eu quisesse muito. Eu também não podia ficar com medo de tentar alguma coisa comigo, afinal, ele não era um maníaco psicopata, era uma ótima pessoa. E de um jeito ou de outro, eu confiava nele.
Depois de eu ter-me "reconvencido" disto, resolvi sair do quarto. Cheguei rapidamente às escadas, e desci seus degraus de forma ligeira, enquanto me encontrava distraída, assobiando notas de Someone Like You da magnífica Adele, música que estava na minha cabeça desde que eu tinha chegado ali, pois ela tocara em uma rádio que e eu estávamos ouvindo no carro na volta para casa. Por estar distraída, ao chegar ao último degrau, esbarrei em algum par perdido de chinelo de e quase me esborrachei no chão; com certeza eu teria caído, se não estivesse se preparando para subir, na ponta da escada, no exato momento da minha queda, como um anjo protetor que sempre aparece nas horas certas. Segurou-me firmemente pela cintura, e eu me agarrei em seus ombros na tentativa de me manter de pé. Talvez eu tivesse o machucado com as minhas unhas, pela força que usei para agarrar-me a ele, mas não o ouvi reclamando de dor. Logo olhei para os olhos dele, que me encarava preocupado e meio assustado, enquanto eu estava completamente descabelada e esbaforida em seus braços.
- Você está bem? - Ele falou, quase que num sussurro, sem tirar seus olhos de mim, colocando-me em segurança no chão. Ainda sim nos encontrávamos muito próximos um do outro.
- Estou... - Proferi, sem desviar meus olhar dos olhos dele, sorrindo fraco, o que o fez retribuir, enquanto nos encarávamos como se nada existisse ao nosso redor. De repente, senti uma vontade súbita de beijar aqueles lábios que conseguiam serem macios mesmo estando completamente secos – mas é claro que esta vontade não foi atendida. Ainda sim, ela existia. Com isto, em fração de segundos minha respiração começou a faltar nos pulmões, minhas pernas começaram a tremer, meu coração passou a pulsar com mais intensidade que o normal. Eram coisas que eu não conseguia domar. O que estava acontecendo comigo, afinal?
- Amn... Eu vou para a sala, qualquer coisa, pode me gritar que eu venho correndo para ver o que está acontecendo. - Ele disse, passando a mão na nuca, sorrindo fraco por mais uma vez, desaparecendo da minha frente em questões de segundos, sem me dar a chance de pelo menos concordar com a cabeça. Passei a mão em meus cabelos e mordi meu lábio inferior, respirando pesadamente em seguida. Fiquei alguns poucos segundos processando aquele ocorrido, e logo me direcionei para a cozinha. Lá, abri a geladeira – que tinha se tornado minha bff das madrugadas –, peguei uns ovos e o recipiente em que o açúcar ficava. Em uma tigela qualquer que estava em cima da pia, separei clara de gema de cada um dos ovos, e logo me pus a batê-los com um garfo até que elas virassem clara em neve. Depois acrescentei colheres generosas de açúcar e despejei o preparado em um tabuleiro pequeno fazendo vários montinhos separados com a colher, levando-o ao forno em seguida. Em poucos minutos aquilo virariam suspiros crocantes por fora e suculentos por dentro.
Depois de ter lavado tudo o que eu tinha sujado, direcionei-me para a sala, torcendo mentalmente para que não estivesse por lá. Chegando ao local, agradeci a Deus por minhas preces terem sido atendidas. Um pouco mais relaxada, sentei no sofá e liguei a tv, soltando um suspiro em seguida.
(Pode colocar a música para tocar!).

Some people laugh
(Algumas pessoas riem)
Some people cry
(Algumas pessoas choram)
Some people live
(Algumas pessoas vivem)
Some people die
(Algumas pessoas morrem)

- Ih, olha só... Um clipe do McFLY! Que feliz. - Pensei em voz alta, sem desgrudar os olhos da televisão e sem mudar minha feição séria. Percebi que aquele era um clipe um tanto velho, pois a aparência física dos garotos estava completamente diferente do que a que eles se encontravam nos dias atuais.

Some people run
(Algumas pessoas correm)
Right to the fire
(Direto para o fogo)
Some people hide
(Algumas pessoas escondem)
Their every desire
(Todos os desejos)
But we are the lovers
(Mas nós somos amantes)
If you don't believe me
(Se você não acredita em mim)
Then just look into my eyes
(Então olhe dentro dos meus olhos)
‘Cause the heart never lies
(Porque o coração nunca mente)

Eu estava completamente mergulhada naquela música. Tanto que não notei quando entrou na sala, vindo da varanda, e no outro sofá se sentou. Voltei meus olhos à sua direção, e por isso, nossos olhares se encontraram, e ele soltou um sorriso sem mostrar os dentes. Eu retribuí e retornei minha atenção à televisão, sentindo que ele continuava a me observar. E por mais uma vez eu estava completamente sem graça diante dos olhos de .

Some people fight
(Algumas pessoas lutam)
Some people fall
(Algumas pessoas caem)
Others pretend
(Outras fingem)
They don't care at all
(Não ligar para nada)

Voltei meus olhos para mais uma vez, e ele não estava mais olhando para mim. Soltei um suspiro, notando que ele respirava calmamente, enquanto estava de braços cruzados e olhos grudados na tv. Soltava um sorriso de vez em quando, orgulhoso de estar vendo seu próprio clipe passando naquele canal. Voltei meu olhar para a televisão quando ele olhou rapidamente para mim, e não voltei mais a encará-lo.

If you want to fight
(Se você quiser lutar)
I'll stand right beside you
(Eu ficarei bem ao seu lado)
The day that you fall
(O dia em que você cair)
I'll be right behind you
(Eu vou estar bem atrás de você)
To pick up the pieces
(Para recolher os pedaços)
If you don't believe me
(Se você não acredita em mim)
Just look into my eyes
(Apenas olhe dentro dos meus olhos)
'Cause the heart never lies
(Porque o coração nunca mente)

Meus olhos se encheram de água, e sem que eu pudesse controlar as lágrimas, em alguns poucos segundos me pus a prantear. Eu não sabia ao certo por que estava chorando, mas quando me dei por mim, estava derramando lágrimas feito uma criança desamparada, sem conseguir controlar direito o volume dos meus soluços. Então eu levei minhas mãos ao rosto, na tentativa de esconder de que eu estava chorando, mas é claro que ele notaria, principalmente por eu estar deixando escapar soluços um bocado altos. Logo, eu senti um braço me envolvendo, e sem me importar e tirar as mãos do rosto, encostei-me em seu peitoral e me encolhi no sofá, dobrando minhas pernas bem perto do meu tronco, finalmente me desabando em chorar. Pela primeira vez, ele estava me consolando. Ficamos minutos ali abraçados, ele sem dizer uma palavra sequer, apenas acarinhando minha cabeça, passando seus dedos por meus cabelos, e eu chorando tão alto que chegava a ser constrangedor.
Quando finalmente o silêncio tomou conta do lugar de novo e eu já não ouvia mais nem o som de televisão ligada, levantei minha cabeça e respirei fundo, secando meu rosto com as mãos, fungando com o nariz. Talvez eu estivesse toda descabelada, meu rosto estivesse inchado e meus olhos bem vermelhos. Eu devia estar horrível.
- Você aí ficou chorando um tempão. - disse, tocando meu rosto com uma das mãos, acariciando minha bochecha com o dedo polegar.
- Desculpe, perdi a noção do tempo. - Envergonhada, mirei meus olhos em minhas mãos, que se encontravam em cima de meu colo.
- Não precisa se desculpar. - O silêncio se instalou entre nossas bocas. - O que houve, ? - sussurrou, pegando minha mão, fazendo carinho com seu dedão na parte de cima dela. Parei para perceber que sua blusa estava praticamente inundada por eu ter passado alguns minutos chorando encostada ali. Senti uma profunda vergonha de mim mesma por ter molhado grande parte da blusa preta de .
- Não houve nada. - Indaguei, com a voz embargada, passando o polegar na parte de cima da mão dele. Ele olhou para nossas mãos juntas e sorriu, e aquilo fez meu coração se desmanchar feito manteiga derretida. Logo ele olhou para mim e uma feição séria tomou conta de seu rosto.
- ... - ele parou para respirar fundo - Por favor, diz para mim por que você estava chorando. Não vê? Eu estou preocupado com você... - Ele disse, sereno, parecendo estar tomando cautela em escolher que palavras dizer.
Eu já estava cansada. Cansada de fingir que eu estava sempre bem, cansada de ter que esconder a profunda dor que eu sentia, e que a cada dia só aumentava. E também estava cansada de mentir para mim mesma sobre como eu me sentia em relação ao . Querendo ou não... Eu tinha me apaixonado por quem agora se encontrava bem ali na minha frente, desde a primeira vez em que nos encontramos, e estava me fingindo de cega para não enxergar aquilo, porque eu sabia que eu não podia sentir nada a mais por ele.
Então eu me acheguei a , e sem hesitar, fechei os olhos com força, aproximei meus lábios dos dele e o beijei, esperando que ele me chamasse de louca. De primeira, ele se demonstrou assustado, mas logo depois retribuiu o ato, pedindo permissão para sua língua se entrelaçar a minha e o beijo ser aprofundado, o que foi concedido. Passei minhas mãos de seu rosto para sua nuca, e ele entrelaçou seus braços em minha cintura, o que fez nossos corpos ficarem bem próximos, enquanto nos beijávamos como um casal apaixonado, sem pressa, nem desespero.
Por breve um momento, senti um cheiro de queimado tomando conta do ambiente aos poucos, mas não hesitei. Logo lembrei que tinha algo no forno, e que o cheiro de queimado poderia ter sido causado pelos meus suspiros que estavam no fogo.
- Ai, meu Deus, os suspiros! - Eu disse, partindo o beijo, levantando do sofá e praticamente correndo até a cozinha. ficou me olhando sem entender muita coisa, mas se levantou e me seguiu, dando passos lentos e calmos, diferentemente de mim. Chegando ao local, eu calcei uma luva de cozinheiro e desesperada eu abri o forno; dele muita fumaça saiu, o que me fez tossir. Abanei a fumaça com as mãos, e então eu tirei o tabuleiro do forno e o coloquei na bancada da pia, e vi os suspiros totalmente tostados, emanando fumaça e cheiro de queimado.
- Que droga! - Exclamei nervosa, batendo com a mão na testa e o pé no chão, enquanto olhava para a cena e ria discretamente. - O que é? - Eu disse, o encarando e franzindo o cenho, pondo as mãos na cintura.
- Eu pensei que o cheiro de fumaça estava vindo da gente... Mas é disso aí... - Ele retrucou, se encostando ao batente da porta da cozinha, se segurando para não rir.
- Cala a boca, seu idiota! - Falei indignada, jogando com força a luva que cobria minha mão na direção dele, o que o fez rir enquanto eu o olhava com os olhos semicerrados, séria.
- Ah, , não fica brava comigo, poxa. - Ele falou, se aproximando de mim, agarrando-me pela cintura, encostando-me a bancada da pia. Encarou-me com um olhar pidão, e eu mirei meus olhos para uma parede qualquer atrás dele, fingindo estar brava. Ele tentou me beijar, mas eu me esquivei; soltou um suspiro, meio decepcionado, e eu soltei um risinho, satisfeita. Então nossos olhares se encontraram, e eu desci meu dedo indicador pelo nariz dele feito uma criança em um escorregador, o que o fez sorrir sem mostrar os dentes. Então ele me deu um selinho demorado e me abraçou de modo acolhedor, encostando seu queixo em meu ombro, carinhosamente. Deixei com que meu corpo fosse dominado pela sensação que eu sentia naquele momento, sem medo, sem reprimir nada em meu coração; logo me vi totalmente amolecida naqueles braços que me seguravam tão firmes que parecia que a qualquer momento eu me quebraria ao meio. Minhas mãos se puseram a afagar seus cabelos da nuca, e eu os passava por meus dedos de forma delicada. Então ele encheu os pulmões de ar e se pôs a sussurrar aquela música em meu ouvido:

Another year over
(Outro ano acabou)
And we're still together
(E nós ainda estamos juntos)
It's not always easy
(Isso nem sempre é fácil)
But I'm here forever
(Mas eu estou aqui para sempre)

Eu sorri boba, continuando a acarinhar seus cabelos que exalavam um shampoo de camomila, enquanto ele me conduzia a dançar pelos pisos claros e frios da cozinha.
- Qual é o nome dessa música? - Falei, interrompendo o murmurinho.
- The Heart Never Lies. Mas me deixa terminar de cantar, porra. - Ele disse, um tanto indignado, o que me fez rir. Então ele voltou a sussurrar:

'Cause we are the lovers
(Porque nós somos amantes)
I know you believe me
(Eu sei que você acredita em mim)
When you look into my eyes
(Quando você olha para meus olhos)
'Cause the heart never lies
(Porque o coração nunca mente)
'Cause the heart never lies
(Porque o coração nunca mente)

Sua voz se calou e o silêncio tomou conta do lugar, enquanto nos embalávamos lentamente de um lado para o outro sem ao menos ter uma música para isto.
- Você não sabe o quanto eu gosto de você. - Ele disse, quase num murmúrio, passando sua mão por meus cabelos, sorrindo sem mostrar dentes; então ele encostou sua testa na minha e me olhou diretamente nos olhos de um jeito tão intenso que eu fiquei com medo de ele estar conseguindo ler meus pensamentos.
- E nem você sabe o quanto eu gosto de você. - Falei, beijando a bochecha dele, encostando minha cabeça em seu peitoral logo depois. Então ficamos os dois nos balançando que nem dois idiotas como se houvesse uma música para se dançar, apenas apreciando a presença um do outro. Eu ouvia som constante do seu coração batendo bravamente, sentia seu perfume penetrando minha respiração, e boba eu sorria sem que ele visse, porque eu amava sentir aquele cheiro que sempre anunciava a sua presença e fazia com que meu coração se acelerasse, e isso eu não podia negar.

Because the heart never lies
(Porque o coração nunca mente)

***


Capítulo Onze – Mergulhando De Cabeça


's Point Of View: On.

Eu, definitivamente, não estava acreditando no que tinha acontecido. Também não deixava de pensar no quanto a frase dita por tinha mudado o rumo das coisas na minha cabeça. "E nem você sabe o quanto eu gosto de você." Eu ficava repetindo aquelas palavras na minha mente, e sorria sozinho ao me lembrar de nós dois na cozinha nos embalando ao som do silêncio. Eu estava estranhamente feliz por ter ouvido aquelas palavras, ainda mais vindo dela. Significava que era recíproco o que eu sentia por ela, e que eu finalmente poderia afirmar que sim, eu estava gostando da .
Eu não podia parar de pensar no quanto eu estava sendo canalha – por mais uma vez. Aliás, esta afirmação não me saía de minha cabeça. Mas, por mais que eu tentasse, não conseguia evitar. Não conseguia controlar meus sentimentos, nem que os amarrassem em correntes de aço indestrutíveis. Às vezes, eu gostaria de me ver isolado do mundo, para conseguir colocar-me em ordem e me perguntar qual era o caminho certo a seguir.

Era um domingo de meados da primavera. O sol brilhava pelo céu ciano claro, radiando entre algumas nuvens tão brancas como chumaços de algodão, que não indicavam que iria chover, só estavam ali ao acaso. Era um belo começo de tarde para ir ao parque, fazer piquenique e se divertir ao ar livre. Eu estaria com vontade de fazer isso, se não estivesse tão triste, porque no dia seguinte, se mudaria para um apartamento que ficava meio longe de minha casa. A partir daquele dia, a casa se encheria de solidão novamente, e eu passaria o dia sem ninguém para conversar, nem mesmo Mariana, já que ela trabalhava praticamente o dia inteiro. E eu já tinha me acostumado com a presença da ali todos os dias comigo, com o som alto da sua risada, com o seu perfume tomando conta do ambiente. Seria difícil me reacostumar a ficar sozinho em casa de novo.
Mariana e tinham saído juntas para fazer coisas de mulheres, como uma delas havia dito. Eu ainda não conseguia aceitar a falsidade da Mari com a prima. Se uma pessoa não gosta de outra, não tem nada que fingir o contrário, mas sim demonstrar o que realmente sente.
Como a namorada do e a do tinham ido junto com as outras duas, nós resolvemos todos irmos para a casa do para conversarmos um pouco sobre a banda e sobre coisas aleatórias. Já estávamos juntos ali há algum tempo.
- Hey, pessoal, eu vou pegar umas cervejas, volto já. - Eu falei, e eles concordaram. Então eu levantei do sofá, e assim fui me direcionando à cozinha, onde abri a geladeira e me agachei um pouco, já que as garrafas de cerveja estavam numa prateleira da parte de baixo do eletrodoméstico.
- Não sei pra quê colocar isso tão lá em baixo. - Murmurinhei para mim mesmo, enquanto pegava as garrafas de cor escura e colocava em cima da mesa, que ficava ali em frente. Logo eu fechei a geladeira e dei de cara com encostado na bancada, que ficava ao lado da geladeira, encarando-me com um olhar semicerrado um bocado desconfiado.
- Caralho, cara, qual é a sua de chegar sem avisar?! - Falei, indignado, dando uma tapa no ombro dele, que apenas riu baixo, satisfeito. - Porra, que susto!
- Ai, , só você mesmo pra se assustar à toa. - Antes de se aproximar de mim, ele abriu a gaveta da bancada e pegou um abridor de garrafas de dentro dela. Então eu peguei as quatro garrafas.
- À toa. - Ironizei, balançando a cabeça de um lado para o outro, soltando um risinho murmurador. - Hm, vamos...
- Não, cara, espera. Eu quero conversar a sós com você. - Parei no meu lugar quando ele falou aquilo. Meu coração quase foi parar na garganta. Ele tinha notado algo diferente em mim. O que eu queria, eram anos de convivência, é claro que ele notaria que eu estava carregando alguma coisa na minha mente que me atormentava.
- O que foi, , o que aconteceu? - Eu disse, franzindo as sobrancelhas, tentando ao máximo me fazer de desentendido.
- Eu é que pergunto. Você está estranho desde que chegou aqui. Quase não falou nada. O que aconteceu pra você estar assim? - Ele indagou, olhando para mim com as sobrancelhas franzidas, expressando dúvida.
Eu respirei fundo e permaneci um tempo em silêncio.
- Hein, ! Pelo visto, coisa boa não foi.
- Ai, dude... - Respirei fundo por mais uma vez. - A e eu... Nós nos beijamos duas vezes no mesmo dia. - Falei, prendendo a respiração, fechando minhas pálpebras com força, já esperando por gritarias e indignações.
- Mas como é que é? - quase gritou e por conta disso, sua voz se desafinou, ficando primeiro aguda e depois grave. Seus olhos se encontravam arregalados em cima de mim, enquanto eu fazia cara de uma profunda culpa. - Cara, você prometeu para mim e pros caras que...
- Que eu não iria mais trair a Mariana. Eu sei disso. Mas... Eu sinto algo pela , e não consigo evitar nem me controlar. Quando eu estou perto dela... É como se o mundo parasse e só ela existisse. Meu coração acelera quando ela sorri, ou quando ela se aproxima de mim e eu sinto o cheiro do perfume dela. E eu sinto uma vontade imensa de protegê-la, sabe? Eu sei que não deveria sentir essas coisas, principalmente por ela ser prima da minha noiva, mas quando eu me dei por mim, eu já estava completamente... - Parei minha fala e sem dar continuidade a ela, expirei pesadamente.
- Ai, meu Deus, . Você se apaixonou por ela? - Ele disse, olhando apreensivo para mim.
- É, , eu acho que... Sim.
Com a minha fala, arregalou os olhos. Um silêncio pesou sobre nós.
- Então eu só tenho uma coisa para falar: você está ferrado, meu velho. - disse, dando duas tapinhas no meu ombro. Eu apenas concordei com a cabeça. – Agora, vamos, antes que a cerveja fique quente e a gente apanhe por isso. Depois nós conversamos direito sobre esse assunto. - Ele continuou, pegando duas das quatro garrafas. Eu acenei com a cabeça e então eu peguei as outras duas, e nós caminhamos juntos de volta à sala; chegamos lá sob os olhares malévolos e os turbilhões de falas engraçadas de e .
De certa forma, a breve conversa que eu acabara de ter com o tinha tirado grande parte do peso que eu carregava dentro de mim. Ficar sem contar sobre algo que tinha acontecido comigo para qualquer um dos meus melhores amigos fazia com que eu me sentisse culpado. Nesse ponto, parecíamos mais mulheres que homens, como Mari sempre me dizia. Mas não nos importávamos com esse fato – que querendo ou não, era verdadeiro.
Eu já estava me divertindo um pouco mais, mas nos breves momentos de silêncio, minha mente viajava para uma só pessoa. E esta se chamava . Eu já estava começando a ficar irritado com o fato de ela não sair dos meus pensamentos por um minuto sequer. Mesmo que eu não quisesse, eu me pegava pensando em seu sorriso que era tão iluminado como uma noite de luar. Pensava em seu rosto angelical, em cada traço dele, e por fim, em seus lábios tocando os meus. Eu queria expulsar esses tais pensamentos da minha mente, mas por mais que eu me esforçasse, eles não saíam do lugar. É, meu velho, pensei comigo mesmo, você realmente está ferrado.

***


Capítulo Doze – Segredos


's Point Of View: On.

Aquela seria um dia de segunda-feira chato e entediante como outro qualquer. Se não fosse o dia que eu finalmente me mudaria para meu próprio lugar pra morar. Minhas malas já estavam todas arrumadas, juntas num canto ao pé da escada; Mariana e tinham me ajudado a carregar minhas coisas para fora do quarto, antes de saírem juntos para resolverem coisas que diziam respeito ao casamento deles, ou alguma coisa do gênero. se ofereceu para me ajudar a levar meus pertences ao meu novo apartamento, que era alugado, onde eu ficaria até conseguir outro lugar definitivo.
Eu não sabia o porquê, mas eu estava um tanto, digamos triste, por estar saindo daquela casa. Eu tinha me acostumado a ficar lá com minha prima e seu noivo, e despedidas eram sempre difíceis para mim, por mais que eu fosse me mudar para não tão longe das pessoas.
Eu esperava que, com o meu deslocamento para longe de , meus sentimentos proibidos em relação a ele sumiriam. Talvez eles tivessem aparecido devido à nossa convivência diária. Eu não sabia dizer se era passageiro, mas eu queria muito que fosse, pois não tem nada mais incômodo que se interessar por uma pessoa comprometida. Ao mesmo tempo em que tinha a consciência deste fato, nadava contra a correnteza, pois queria estar próxima daquele tal de que semanas atrás eu negligenciava a existência.
- ... - A voz de se aproximando de mim, me tirou de um estado de inércia profunda que eu me encontrava enquanto eu olhava pela janela do quarto, alternando meus olhos entre o Big Ben e o céu carregado de nuvens cinzentas, perdida em meus vários pensamentos que vinham ao mesmo tempo na minha mente, fazendo com que eu ficasse totalmente confusa.
- Ai, que susto, ! - Eu disse, virando para ele, pondo a mão no peito, respirando fundo. Ele riu baixo da minha reação.
- Você está pronta para ir? - Ele falou, se aproximando de mim, beijando o topo da minha cabeça. Logo se pôs a acariciar minha bochecha com sua mão gélida, que parecia acabado de ter sido exposta à água.
- Sim. Vamos, antes que comece a chover. - Indaguei, e ele concordou com a cabeça. Então me abraçou, passou o braço pela minha cintura, e nós nos pomos a caminhar para fora do quarto, enquanto eu apoiava meu cotovelo em seu ombro e mexia em seus cabelos com a mão, entrelaçando entre meus dedos algumas mechas. Na saída, fechei a porta dos aposentos com a chave dele, e depois continuamos o trajeto. Parei para deixar a chave pendurada em algum lugar da casa.
Logo estávamos levando as malas para fora da casa, acomodando-as no porta-malas do carro de – que como , reclamou que minhas malas eram pesadas demais. Enquanto isso, gotas geladas e finas de chuva começavam a cair do céu. Por sorte, nós conseguimos entrar no carro e sair dali antes que a chuva começasse a apertar.
- Você está calada demais, . O que foi dessa vez? - disse, quebrando o silêncio, sem tirar os olhos da estrada, o que me fez olhar para ele e soltar um suspiro pesado.
- É que eu odeio despedidas. - Eu disse, abaixando o olhar triste que eu carregava, cruzando os braços.
- Hey, , não precisa ficar assim. Você só vai mudar de casa, não de país. - Ele falou, olhando para mim, sorrindo sem mostrar os dentes, logo voltando seus olhos para a estrada. - Além do mais, você não vai ficar tão longe assim da gente, ainda pode nos visitar quando quiser, ou a gente pode visitar você! - Continuou, num tom superanimado, que me fez rir.
- Você tem razão. Tolice minha ficar triste, de acordo? - Eu disse, enquanto prendia meus cabelos em um rabo de cavalo alto.
- Super de acordo. - Olhou para mim e piscou, em seguida voltando seus olhos para o caminho. – Nossa, essa chuva está forte, hein.
- Dê graças a Deus por não ficar preso no trânsito por conta disso. Lá no Rio, toda vez que chove muito forte, um engarrafamento enorme se forma. É um saco. - Falei, enquanto observava a chuva tocar o vidro da janela do carro com um pouco de violência.
- Credo, que horror. - Seu tom de voz engraçado, fez com que eu risse baixinho. Logo, o silêncio voltou a se instalar no carro, e só o barulho da chuva forte o preenchia. Parecia que aquilo já não era mais um incômodo para já que eu tinha me esclarecido com ele, o que com certeza me confortou.
Com isso, mergulhei em meus pensamentos por mais uma vez. Chuvas fortes me traziam lembranças boas e ruins. Na maior parte, lembranças ruins vinham à minha mente. Sem perceber, fui teletransportada para aquele dia. Aquele dia em que minha vida foi arruinada, que eu queria que nunca tivesse existido, e que eu aprendi realmente que quem vê cara, não vê coração.

~ Flashback: On.

Estava chovendo tão forte que parecia que o céu, a qualquer momento, iria desabar sobre as nossas cabeças. e eu tivemos muita dificuldade para chegarmos ao shopping em que fazíamos nosso curso de inglês, por mais que este ficasse bem perto do prédio de apartamento em que residíamos. Eu estava no último ano do curso. Ela, no penúltimo. Óbvio que não ficávamos na mesma classe, mas a gente frequentava o lugar nos mesmos dias.
Quando nossas aulas do dia se acabaram, nos encontramos no corredor que dava acesso à saída do local, como de costume. Ficamos perambulando um pouco pelo shopping, já que era uma sexta-feira e estávamos o resto da tarde, desocupadas. Passamos por uma livraria, onde comprei os livros da trilogia O Livro Das Estrelas de Erik L'Homme, uma das minhas preferidas, se não a minha preferida.
- , você já leu esse livro umas trezentas vezes, pelo amor de Deus. - silabou, num tom de voz arrastado, revirando os olhos ao ver as capas dos livros.
- Foi pela internet, lembra? Eu não tinha achado nenhum exemplar por aqui ainda. - Ela deu ombros. - Você sabe, quanto mais eu leio, mais eu me interesso pelas aventuras dos personagens no País de Ys. Ai... Como eu amo. - Falei, enquanto olhava para um deles, com os olhos brilhando, cheirando as páginas novinhas do livro. - Ai, esse cheiro de livro por alguma razão me lembra de Starbucks. Vamos até lá, ?
- Com certeza, eu estou louca por um frappuccino com muffin! - Ela indagou, pondo um sorriso enorme entre os dentes.
- E eu, idem. - Sorri de volta, guardando os livros de volta na sacolinha. Então nos colocamos a andar em direção à cafeteria.
Tínhamos sorte de ter um shopping perto de casa com uma Starbucks. Era raro encontrar uma naquela cidade. Demos gritos de felicidade quando soubemos que uma Starbucks seria aberta tão perto de nós. Aquele cheirinho de café que eu sempre sentia ao entrar na loja era realmente agradável e relaxante...
- Vou pedir o de sempre para nós. Para você, muffin de chocolate e cappuccino, né? - me viu acenar alegremente que sim com a cabeça. - Tudo bem. Vou lá. Procura um lugar aí pra gente! - Ela falou, jogando beijos no ar, se direcionando para o balcão do local, enquanto eu me dirigia a uma mesinha com dois lugares que ficava próxima de uma das janelas dali. Sentei em uma das cadeiras e deixei minha bolsa em cima do colo, enquanto folheava um de meus livros novinhos.
- O Livro Das Estrelas, é? - Ao ouvir aquela voz que eu não conhecia de nenhum lugar, levantei meus olhos para o alto. Deparei-me com um cara que aparentava ser só um pouco mais velhos que eu, alto de cabelos negros e topete, com seu belo par de olhos verdes-esmeralda me encarando. Parecia que ele conseguia ler meus pensamentos, ou até enxergar minha alma com eles.
- S-sim. - Falei, sorrindo desajeitada, fechando o livro e colocando-o em cima da mesinha.
- Eu adoro esses livros. Pensei que não vendiam por aqui... Onde você os comprou? - O cara disse, sentando-se à cadeira defronte à minha.
- Numa lojinha aqui do shopping! Eu também pensei que não vendiam, fiquei surpresa quando vi lá na loja. - Eu disse, passando a mão nos cabelos e colocando minha franja atrás da orelha, nervosa. Então o silêncio pairou sobre nós, enquanto eu mirava meus olhos no chão, sem ao menos saber o porquê de que aquele cara que eu mal conhecia estar puxando papo comigo.
- Ah, eu saio falando com você sem, ao menos, me apresentar. Meu nome é Bruno. - O tal falou, estendendo sua mão. Confesso que me assustei, pois eu estava justamente pensando naquele fato. Será que ele conseguia mesmo ler mentes?
- Eu me chamo ... - Eu disse, estendendo minha mão, apertando a dele.
- Então, ... - Ele disse, dando um leve sorriso ao dizer o meu nome; com isso, senti meu rosto arder, enquanto ele se levantava. - Eu tenho que ir. Mas... Será que eu, erm, posso pedir seu telefone? Pra gente marcar de sair para, sei lá, falar do livro, se conhecer melhor... - Ele coçou a nuca, meio sem graça. E eu sorri o mais docemente possível; meu rosto parecia estar pegando fogo.
- Tudo bem. - Sorri mais uma vez, enquanto pegava uma caneta dentro da minha bolsa e escrevia com ela em um pedaço de guardanapo que tinha pegado ali na mesa mesmo. - Aqui está.
- A-ah, obrigado... Então... Até a próxima! - Ele sorriu tímido, se pondo a caminhar de costas para fora do local, eu apenas acenei e sorri sem mostrar os dentes. Assim que ele saiu da loja, minha melhor amiga apareceu com seu frappuccino de morango e seu muffin de baunilha, acompanhados de meu cappuccino e meu muffin de chocolate. Ela parecia estar fazendo malabarismo para conseguir segurar aquilo tudo ao mesmo tempo, além da bolsa, cuja alça caíra de seu ombro; era uma cena engraçada de se ver. Tive que ajudá-la a colocar as coisas em cima da mesa para não serem derrubadas no chão.
- Quem era aquele garoto, amiga? Conhece? - Ela disse, dando uma primeira garfada no muffin.
- Não. Mas se chama Bruno. Ele veio me pedir meu telefone. - Silabei, dando um gole no copo de cappuccino.
- E pelo o que eu vi, você deu, não é? - falou, com um olhar fumegante em malícia pousada em mim. Concordei silenciosamente. - Hmmmm, arranjou para hoje, hein, ! - Minha melhor amiga indagou, num tom brincalhão, cutucando-me com o cotovelo.
- Fica quieta aí, ! Ninguém merece. - Eu disse, revirando os olhos, levando à boca um pedaço do meu muffin, enquanto ela ria da minha face, que provavelmente estava vermelha de vergonha.
Olhei pela janela e vi a chuva cair. Como aquilo me causava uma boa sensação – exceto pelo fato de que eu precisaria me locomover debaixo daquela água toda.

~ Flashback: Off.

- ! - A voz de quase gritando me tirou de meus pensamentos. Então eu olhei para ele, assustada. - Você estava longe, hein. É esse o prédio? - Ele disse, apontando para o lado. Então eu acompanhei seu dedo com meus olhos.
- Sim, é sim. - Falei, e então ele sorriu.
- Então chegamos.
Notei que a chuva tinha cessado. Incrível como eu não tinha notado isso antes. No céu, algumas nuvens ainda cobriam o azul radiante e um belo arco-íris cortava o grande tapete azul-claro límpido, deixando alguns raios de sol transparecer por nuvens que ainda se encontravam ali. Sorri ao ver aquele feito de Deus.
estacionou o carro no estacionamento do local, enquanto eu passei pela recepção para informar que eu já estava ocupando o apartamento; eu o ajudei a tirar as malas do porta-malas, e ele me ajudou a levá-las ao elevador, que nos levaria para o sétimo andar, onde o apartamento ficava. Foi meio difícil fazer isso, principalmente porque a toda hora alguém abordava o do McFLY e nos atrapalhava.

- Então... É isso. - Eu disse, parando no meio da sala, admirando as coisas dela com o olhar.
- Esse lugar é bonito. - falou, olhando em volta. - Então, nos vemos amanhã? Para buscar a sua amiga?
- , não precisa se dar ao luxo de...
- Mas eu insisto. - Ele interrompeu minha fala.
- Você já me ajudou o bastante por hoje, e eu não quero explorar você mais, muito menos te transformar no meu motorista. Eu me viro sozinha daqui para frente. Tudo bem? - Sorri sincera, e ele fez o mesmo.
- Tudo bem, então. - Aproximou-se de mim, e me abraçou, beijando minha testa em seguida. Acho que ele entendeu o que eu quis dizer. - Até.
- Até. - Falei, passando a mão nos cabelos dele, que concordou com a cabeça.
- Caso precise de ajuda... É só ligar. - Então ele beijou a minha bochecha, foi se afastando e logo ele saiu do apartamento. Sentei-me no sofá e olhei em volta; soltei um suspiro, satisfeita, e logo me larguei no estofado, que era bastante confortável.

Passei a tarde inteira arrumando as coisas naquele local, e um pouco da noite. No fim, eu estava morta de cansada e com uma fome de leão. Então tomei um banho e, logo que saí, telefonei para uma pizzaria, pedindo uma pizza de mussarela. Depois que eu tinha comido, me acomodei à minha mais nova cama, e quando eram dez e meia da noite, eu já estava dormindo a sono solto, de tão esgotada que eu estava.

***


Capítulo Treze – Insônia


's Point Of View: On.

- ? , você ainda está aí? - Em alto tom falou Mariana, ao chegarmos a casa, procurando algum indício de uma alma viva naquela casa. Mas o que ela obteve como resposta foi o silêncio. Silêncio este que significava que a já tinha ido embora. Mari foi até a cozinha, voltando de lá com uma chave e um papel na mão.
- Ela já foi. Deixou a chave do quarto ali no suporte da cozinha e até um bilhete avisando que já tinha ido. Poxa, e a gente nem se despediu... - Indagou, sentando-se ao meu lado no sofá, suspirando, expressando falsa tristeza.
- Você deveria parar de ser tão falsa com a . - Eu disse, ríspido, encarando o vazio, tentando ao máximo conter a minha cólera. Olhei para o lado, e vi que o rosto de Mari estava fechado. Seus olhos fumegavam dentro de suas pálpebras, só faltava sair raios deles.
- O que é? - Silabei, ignorando a raiva que ela parecia expressar, franzindo a testa.
- Nada, , nada. - Ela disse, irritada, levantando do sofá, caminhando a passos largos em direção à escada. Logo ouvi os baques dos passos fortes de Mariana subindo os degraus. Soltei um suspiro pesado, olhando para o lugar que havia acabado de ser desocupado. Vi que um pedaço de papel tinha sido deixado ali, então olhei novamente, e, intrigado, o peguei. Deparei-me com a caligrafia caprichada que eu tinha visto poucas vezes, mas sabia de quem era: aquela era a letra da . Ajeitando-me no sofá, pigarreei e me pus a ler, com uma voz praticamente inaudível soprando por meus lábios:

Hey, prima, se você estiver lendo este bilhete, significa que eu já não estou mais aí. Eu queria muito agradecer por você ter aberto as portas da sua casa para mim; quero que saiba que eu sou muito grata por você e terem me acolhido e que, um dia ou outro, irei recompensar a generosidade que vocês tiveram comigo. O meu endereço está no verso da folha – caso precise de alguma coisa.
.

Olhei no verso da folha, e lá estava o endereço. Admirei-me e fiquei surpreso em conhecê-lo, e ela nem mencionou aquele endereço perto de mim. Fiquei pensando no motivo pelo qual ela não falara para mim seu endereço. Será que ela estava achando que eu era algum maníaco que iria atrás dela sem mais nem menos?

Eu estava esgotado. Tinha ficado a metade do dia fora de casa andando com Mariana no shopping, depois que nós tínhamos ido à casa de minha mãe. Como algumas mulheres conseguem ter paciência em ficar perambulando para lá e para cá dentro de um mesmo lugar fechado, eu não sabia. O que eu sabia era que eu estava bastante cansado. Só percebi isto depois de algumas horas, quando meus pés começaram a latejar e minha batata da perna direita ficou dormente por longos minutos, fazendo com que eu sentisse dor ao pisar no chão. Então eu desliguei meu videogame e subi para o quarto, onde Mariana estava lendo um livro que tinha comprado naquele dia. Quando ela notou a minha presença e eu mirei meus olhos nela, fechou a cara e colocou o livro na frente do rosto, de modo que eu não conseguia vê-lo completamente.
- Vai realmente ficar sem falar comigo? - Falei, irritado, quebrando aquele silêncio incômodo, enquanto me livrava das roupas e ficava só de boxer; logo me pus a deitar na cama. - Hein, Mari? - Indaguei, num tom mais suave e dengoso, dando um beijo afetuoso no pescoço dela.
- Boa noite, . - Ela disse, secamente, fechando o livro com força e apagando o abajur do criado-mudo que ficava ao lado dela, se deitando, com as costas viradas para mim. Então eu respirei fundo e balancei minha cabeça negativamente.
- Tudo bem, Mari, se você não quer falar comigo, eu vou te deixar em paz. Boa noite. - Citei, sério e seco, me cobrindo com o edredom, sem obter uma resposta de Mariana. Fiquei um bom tempo olhando para o teto, com os olhos perdidos na escuridão. Nem senti os minutos passarem, tanto que quando eu olhei no relógio digital que ficava em cima do criado-mudo ao meu lado tomei um grande susto, pois eram quase meia-noite e meia, sendo que eu tinha ido me deitar onze e quarenta da noite. Àquela hora, Mariana já estava dormindo a sono solto, e já que eu não estava conseguindo dormir, me levantei sem fazer o mínimo de barulho e me encaminhei para a cozinha. Lá, abri a geladeira e peguei uma tigela com brigadeiro que, por um acaso, a tinha deixado ali. Sentei numa cadeira da mesa com tampo de granito e me pus a apreciar o doce com a mão mesmo. Quando eu acabei, fiquei mais um pouco ali embaixo, mas nada do sono chegar. Nem mesmo ver televisão estava fazendo meus olhos pesarem. Então eu desliguei-a e voltei à cozinha; peguei uma chave do suporte e caminhei até a escada, subindo e fazendo o mínimo de ruído até o segundo andar. Passei reto pelo meu quarto e me direcionei ao de hóspedes. Passei a chave na sua fechadura e o abri, atravessando a passagem. O cheiro doce e agradável do perfume de penetrou minhas narinas, anunciando-me que ficara impregnado naquela atmosfera. "Ótimo", subitamente eu pensei, "já tenho um lugar para vir quando estiver com saudade dela". Suspirei, caminhando para a outra ponta do cômodo escuro. Então eu abri uma das cortinas e a luz perolada da lua invadiu o ambiente. Olhei para o alto, e vi que o céu estava límpido, a lua na sua fase cheia e as estrelas pontilhando aquele tapete azul escuro que cobria toda a cidade. Logo direcionei meus olhos para o horizonte, e lá estava o Big Ben, com seus ponteiros informando que era tarde demais para estar acordado, fato que eu ignorei completamente.
Enquanto admirava a lua e as estrelas – ato que sempre me trazia uma paz interior, o que não era o caso naquela noite –, senti um nome latejar em minha cabeça, que fazia com que meu coração batesse tão forte que parecia que a qualquer momento iria explodir. era o motivo da minha insônia. Não consegui me ver livre de pensar nela o dia todo, e agora estava ali, parado, encarando o céu no quarto que me dava melhor ângulo para isto, tentando achar alguma forma de conseguir dormir, e principalmente de tirar de minha mente. Então eu fechei a cortina grossa e deitei de bruços na cama, que ficava ali a centímetros da janela. O travesseiro firme e confortável continha o cheiro da antiga dona; um breve sorriso dançou em minha boca ao perceber isto. Deixei meu braço ficar pendurado fora da cama, balançando para lá e para cá enquanto eu encarava o vazio da escuridão do quarto com os olhos entreabertos; então senti um pano tocar minha mão, o que foi bem intrigante, porque não havia nenhum tecido guardado embaixo da cama, apenas o piso claro e frio. Apalpei-o e peguei-o do chão, o esticando no ar. Mesmo no escuro, eu consegui ler a frase "Keep Calm And Carry On" sobre a bandeira do Reino Unido, e constatei que aquela era a blusa preferida da , que reclamara que esta estava sumida alguns dias atrás. Sorri levemente, pondo a blusa entre o travesseiro e a minha cabeça; sem que eu percebesse, minhas pálpebras foram ficando pesadas, e eu finalmente consegui dormir, quase que num passe de mágica.

No dia seguinte, lentamente abri meus olhos, sentindo a fragrância doce que tomava conta do lugar subir por minhas narinas por mais uma vez. Então me lembrei de onde eu estava, e constatei que passei a noite ali. Levantei-me, preguiçosamente, sonolento, e, ainda de olhos fechados, fui caminhando para o meu quarto. Logo me vi deitado na cama. Mariana devia estar dormindo pesadamente, pois mal se mexeu quando a cama se afundou com o peso do meu corpo cansado. Eu não sabia que horas eram, mas parecia ser bem cedo. Nem me dei ao trabalho de olhar no relógio – logo voltei a imergir em um sono profundo.

***


Capítulo Quatorze – Uma visita Inesperada


's Point Of View: On.

Aquele tinha sido um dia cansativo, mas, ao mesmo tempo, excitante, principalmente por ter sido o meu primeiro dia no novo emprego. Eu estava superansiosa para chegar a hora de desembarcar no aeroporto da cidade; ela chegaria sete horas da noite.
Meu expediente no trabalho tinha terminado e eu já estava em casa; tomei um banho gelado, pois estava fazendo um baita calor, e logo depois comi uma coisinha rápida que eu mesma tinha preparado, e, para passar o tempo, me pus a assistir um pouco de televisão, enquanto relaxava bem à vontade no sofá da sala.

As horas passaram rapidamente, e logo eu me vi sentada no banco de trás de um dos famosos táxis londrinos, e este era dirigido por um senhor que aparentava ter seus sessenta e poucos anos, tinha cabelos ralos e tão brancos que chegavam a ser prateados, meio rechonchudo e belos olhos azuis bem claros. Enquanto nós andávamos pelas ruas movimentadas de Londres, ele me fazia várias perguntas sobre o Brasil, sobre as praias do Rio De Janeiro e sobre o desejo dele de um dia conhecê-las.

- Então, querida, chegamos ao seu destino. - Ele falou, parando o carro lentamente.
- E quanto deu a corrida? - Eu disse, mexendo na minha bolsa, pegando minha carteira.
- Quarenta libras.
- Hm... Aqui está. Muito obrigada, Sr. Wood, foi um prazer conhecer o senhor. - Indaguei, abrindo a porta do pequeno carro preto, sorrindo largamente.
- Foi um prazer conhecer você também, senhorita... - Ele pausou a fala, como se quisesse que eu a completasse.
- .
- Senhorita . Boa sorte com a sua amiga. - Ele mostrou um sorriso sem dentes, e eu retribuí e agradeci, saindo do carro em seguida. Logo eu entrei no aeroporto, e fui até o balcão para pedir informações para encontrar o portão de desembarque. Também fiquei sabendo que faltavam cinco minutos para o voo da chegar ao local. Então era bom eu me apressar, porque o lugar era grande e ela, provavelmente, se perderia de mim se eu não estivesse esperando por ela no tal local. Então eu me aproximei do portão e fiquei bem na frente, colada a uma grade que barrava o caminho; uns poucos minutos depois, vi uma silhueta conhecida e inconfundível se aproximar. Sorri de orelha a orelha quando ela me viu, e então rapidamente caminhou para a minha direção. Abraçamos-nos tão forte que uma tirava o ar dos pulmões da outra.
- , sua vadia, que saudade! - Ela disse, com a voz embargada, ainda abraçada a mim.
- Ai, minha lerdinha, como eu senti a sua falta... - Eu falei, passando a mão nos cabelos dela. Logo nós nos separamos e ela passou, carinhosamente, a mão por meu rosto.
- Cara! Eu não acredito que você cortou mesmo o cabelo, ele estava enorme! - gritou, dando uma tapa no meu ombro direito, o que com certeza me assustou, pois aquela atitude veio meio que do nada.
- Não precisa me agredir! - Indaguei, fingindo incredulidade. - Eu acho que ele fica melhor curto, e você sabe que eu amo cabelos curtos.
- Verdade. Mas, deixando esse papo de lado... Vamos lá pra saber aonde as minhas malas vão exatamente serem descarregadas. Estou com medo de me perder aqui.
Eu concordei e então ela atravessou a grade depois de ter mostrado o passaporte a uma comissária, e nós caminhamos até acharmos um segurança que nos informou onde as malas seriam descarregadas. Então nós agradecemos a ele e nos direcionamos ao local, onde uma enorme esteira em meio círculo, que estava abarrotado de gente à sua frente, e malas passando por ela; esta fazia dois buracos na parede, um para entrar e outro para sair bagagens. Demorou um pouquinho, mas logo voltou com suas malas grandes e aparentemente pesadas. Nós a colocamos em um carrinho e assim nos direcionamos para fora do aeroporto.

Conversávamos, alegremente, enquanto tomávamos o táxi para o nosso destino; contei a ela sobre o meu primeiro dia no trabalho, sobre como o nosso novo apartamento era lindo e tudo mais. Ela olhava pela janela do carro, apontando impressionada para o Big Ben, já que nós passamos bem perto dele. Prometi-a que no fim de semana a levaria para ver aquele e os outros pontos turísticos espalhados pela cidade.
- Senhoritas... - A fala do motorista que aparentava ter seus quarenta e poucos anos, cabelos meio grisalhos e lisos jogados para trás, fez com que nós parássemos nossa conversa animada em nossa língua nacional: o português. - Chegamos ao endereço.
- Ah... E a corrida, quanto deu? - Eu disse, tornando a falar em inglês, meio envergonhada, vendo que o motorista nos olhava curioso, talvez tentando decifrar em que língua nós conversávamos.
- Trinta e cinco libras. - Após sua fala, eu peguei minha carteira e dei o valor correspondente à corrida. Então nós – inclusive o motorista – saímos do carro; ele abriu o porta-malas e tirou as bagagens da minha amiga, enquanto nós levávamos e caminhávamos para dentro do prédio. Passei na recepção para avisar que aquela que me acompanhava era a minha amiga que eu havia dito que moraria comigo em breve, então subimos para o andar pelo elevador. "Uau!" exclamou, "esse lugar é lindo mesmo!" ela disse, ao entrar no lugar e caminhar por todos os cômodos. Aquilo fez reforçar a ideia de que, mesmo sendo temporário, aquele era o lugar perfeito para nós duas.
Depois que a se acomodou no lugar, nós nos pomos a assistir um filme na tv. Era realmente interessante, e chamou bastante a nossa atenção. Não tardou muito, ouvimos a campainha tocar.
- Pediu algo, ? - falou, olhando para mim com a testa franzida.
- Que eu lembre... Não... E você?
- Também não pedi nada, não...
- Ah... Então eu vou ver o que é. - Indaguei, levantando do sofá, com a mesma expressão de curiosidade que minha amiga mostrava. Então eu me direcionei até a porta e abri-a. Quando meus olhos reconheceram quem estava ali, se arregalaram, e eu senti como se as palavras tivessem sido cuspidas de minha boca, juntamente com a minha capacidade de respirar. Meu coração parou e voltou a bater com tanta intensidade entre as minhas costelas que meu peito chegava a doer.
- Oi, . - Ele falou, sereno, sorrindo sem mostrar os dentes, me encarando com seus olhos de modo penetrante.
- ... O q-que você está fazendo aqui? Q-quer dizer...
- Eu vim trazer aquela blusa sua que estava perdida... Eu achei ontem, estava embaixo da sua... Quer dizer, da cama de hóspedes. - Ele estendeu a blusa branca de manga, e eu a recolhi em minhas mãos.
- Obrigada por tê-la encontrado. - Sorri sem mostrar os dentes, com a voz serena, mas o peito explodindo, inflamado de adrenalina. Eu estava tentando ao máximo me manter controlada para não abraçar . - Você não quer en...
- , quem es... Ai, meu Deus! É o do McFLY! - Minha fala foi interrompida pelo grito de , que irrompeu apartamento afora. Então nós olhamos para ela, que se encontrava de olhos arregalados, enquanto se aproximava de mim rapidamente.
- Bem, essa é a ...
- , por que você não me disse que o conhecia? - Ela disse, parando atrás de mim, segurando meus ombros com as mãos, ainda com os olhos grudados em .
- Porque...
- Entra, ! - Alegremente disse, interrompendo minha fala antes mesmo de eu começá-la. Ele a encarava com uma expressão engraçada no rosto, eu diria que era uma mistura de susto, curiosidade e um pouco de medo, principalmente porque a se mostrou uma maluca fazendo aquele estardalhaço.
- Amn... Bem que eu gostaria, mas a Mariana está me esperando lá no carro, então, erm, eu tenho que ir... Mas na próxima eu aceito o convite. - falou, sorrindo meio sem jeito, levando a mão aos cabelos, passando os olhos em e pousando-os em mim. - Então... Tchau! - Ele disse, dando um breve aceno, logo se ponto a caminhar corredor afora.
- Tchau... - disse, num tom de voz triste, enquanto eu fechava a porta. Antes de fechá-la totalmente, eu olhei para o corredor que caminhava, e na mesma hora, ele olhou para trás e nossos olhares se encontraram. Senti uma pontada no coração quando ele sorriu daquele jeito fofo que me fazia derreter por inteiro. Sorri de volta e logo fechei a porta, sentindo meu rosto arder de vergonha. E eu que pensava que iria ficar muito tempo sem ver o .
- Desde quando você conhece o McFLY? - Perguntei, enquanto me direcionava à janela e abria uma brecha entre a cortina e o vidro fumê. Olhei para baixo, e assim eu pude ver o carro do parado na calçada, que ficava de frente ao prédio de apartamentos.
- Faz mais ou menos um mês... Mas essa não é a questão aqui. É ele o tal noivo da sua prima? - Ela disse, pondo as mãos na cintura, apertando os olhos.
- É ele sim.
- E como você não me conta uma coisa dessas?!
- Eu te disse o primeiro nome dele, era só você ligar uma coisa a outra. Mas como você é lerda, não soube fazer isso. - Indaguei, dando ombros, voltando a olhar pela janela, ignorando o olhar de censura de . Desta vez eu vi atravessando a rua e abrindo a porta do carro para entrar. Quando ele entrou e o carro se pôs em movimento, fechei a cortina e encarei minha melhor amiga, que me fitava praticamente me fuzilando com o olhar.
- O que você queria, eu estou falando a verdade. - Eu disse, dando uma risadinha, voltando a sentar no meu lugar, enquanto ela continuava parada, olhando para mim. Logo ela balançou negativamente e voltou a sentar ao meu lado.

***


Capítulo Quinze – Encontro Ao Acaso


's Point Of View: On.

Já tinha feito quase uma semana que deixara de hospedar minha casa. Desde então, eu ia à casa de um dos meus amigos ou chamava-os para visitar a minha residência, como eu sempre fazia para não passar o dia sozinho quando eu não tinha o que fazer de interessante.
O que aconteceu na noite de terça-feira foi o suficiente para alegrar o resto da minha semana; ter ido ao apartamento da inesperadamente, ver o sorriso dela brilhando para mim, até conhecer aquela amiga de quem ela falava tanto, foi realmente bom. Definitivamente, eu tinha desistido de expulsar do meu coração o que eu sentia a mais por ela. Mas a única coisa que eu queria me ver livre era da situação embaraçosa à qual eu tinha me metido. Eu estava precisando de um tempo para colocar meus pensamentos em ordem, e decidir o que eu queria afinal.

Os dias que faziam parte do fim de semana eram os únicos que eu estava safo dos compromissos da banda, que não eram poucos. Eles iam de ensaios a entrevistas em programas de televisão, e eram coisas bastante cansativas. Passar dois dias sem esses compromissos era muito bom.
O dia estava ensolarado. O céu estava num azul vivo, sem nenhum vestígio de nuvem para manchá-lo de branco. Corria uma brisa bastante gelada, que forçava as pessoas a sair de casa pelo menos de jaqueta. Mariana e eu estávamos nos direcionando para uma Starbucks que ficava bem perto da London Eye, após termos feito o nosso passeio. Nós já tínhamos visitado a roda-gigante diversas vezes, mas ainda, sim, gostávamos de andar nela e ver a cidade bem do topo. Em dias que o verão estava mais perto de se iniciar, a vista ficava ainda mais bonita.
Enquanto andávamos para a cafeteria, avistei por uma silhueta familiar andando na nossa frente e entrando no local, mas achei que ou era coisa da minha cabeça ou era alguém muito parecida. Não era possível eu encontrá-la ali, a cidade não era tão pequena assim. Só quando entramos na Starbucks que eu pude confirmar que não estava ficando louco: realmente estava ali. E estava acompanhada da amiga dela que era recém-chegada ao país, também brasileira. As duas conversavam alegremente enquanto esperavam encostadas num canto da bancada os pedidos delas ficarem prontos.
- Ai, não acredito, a está aqui! - Mariana disse, entre os dentes, olhando para os lados. Nesse meio tempo, a tinha notado a nossa presença, então seus olhos demasiado surpresos passaram por mim e pousaram em Mariana. Ela acenou e meio que tentou sorrir. Então eu acenei de volta e sorri largamente, e apontei com a cabeça para uma mesa de quatro cadeiras vazia que se encontrava ali, onde Mariana e eu estávamos nos direcionando.
- , você vai chamá-las para se sentarem com a gente? - Mari sussurrou, enquanto se sentava.
- Sim, mas vê se não reclama! - Sussurrei, num tom de voz firme. - Vou fazer os nossos pedidos. - Falei, olhando para Mari; vi sua cabeça se mexer para cima e para baixo, e logo fui andando em direção ao balcão. - Hey, , hey, ...
- Oi! - Elas falaram, quase que ao mesmo tempo.
- Que coincidência a gente se encontrar aqui! - disse, sorrindo abertamente.
- Com certeza! - Retribuí o sorriso. - Então, vocês se importam de se sentarem com a Mari e eu? Tem lugar sobrando lá...
- Imagina, . Vai ser bom para a gente poder conversar um pouco. - disse, deixando um sorriso doce brincar em seus lábios; tal ato fez cada fio de cabelo do meu corpo ficar arrepiado. "Eu tenho que me controlar", pensei. "Tenho que me controlar para não fazer merda", pensei de novo.
Fiz os pedidos para a atendente, paguei-os e fiquei esperando juntamente com a e a amiga dela no canto do balcão em que elas estavam. Depois que todos os pedidos ficaram prontos, nos direcionamos para a mesa em que Mariana se encontrava, e lá nos acomodamos. Senti certa repulsa entre e ela quando as duas se cumprimentaram; vi o sorriso desdenhoso de Mariana ao olhar para , e apesar disso, sorriu suavemente, como se não tivesse visto o sorriso de Mari. Pelo o que eu me lembrava, havia me dito que as duas nunca se deram muito bem. Parecia que Mariana não era de muitos amigos no Brasil.
Mariana, , e eu embarcamos numa conversa animada, em que nos contou sobre o seu novo emprego e tudo mais. Ela parecia realmente feliz. Eu podia ver isto no seu olhar, que brilhava mais do que nunca. Seu ar de felicidade dava um toque a mais de beleza em seu rosto... Eu queria conseguir desviar meus olhos dela, mas quase não conseguia fazer isto, e estava aproveitando o fato de ela não parar de falar um só minuto para observá-la. O jeito que ela pousava os dedos sob os cabelos, que agora estavam curtos à altura do pescoço. Como o rosto dela corava levemente quando nossos olhares se encontravam. A forma desengonçada que ela comia o muffin dela, disparando farelos por todo o seu rosto; parecia mais uma criança comendo. Mas não que eu achasse inadequado, achava até fofo. Não era possível que eu estava me deixando pensar nela com a minha noiva ao meu lado. A prima dela. Minha noiva. Prima. Noiva. Minha cabeça estava a ponto de explodir. Então uma coisa vibrando no meu bolso detrás fez com que eu despertasse dos meus pensamentos. Meu celular estava tocando. Eu o peguei e apertei o botão verde, levando-o a minha orelha.
- Alô? - Murmurei. - Quem é?
- ? É o !
- Ah, fala, cara.
- Você se esqueceu? A gente marcou um ensaio hoje! - A voz dele parecia zangada.
- Ensaio? Hoje? Mas, espera... - Parei de falar por um momento, como se um pensamento tivesse acertado meu cérebro como um meteoro, e então me lembrei. - Caracas! É verdade! Daqui a pouco eu estou aí, então.
- Vê se anda logo! - Disse , e desligou na minha cara.
- Nossa, quanto amor. - Falei, olhando para o telefone com a testa franzida, logo o coloquei de volta em meu bolso.
- Quem era? - Perguntou Mari.
- . - Respondi. - Eu me esqueci de que tinha ensaio hoje e ele me ligou para me lembrar. Acho que a gente vai ter que ir. - Eu disse, mirando meus olhos nas duas que se encontravam na nossa frente.
- A gente tem que ir também... - disse, se levantando, seguida de sua simpática amiga. Então Mariana e eu nos levantamos também.
- Então, tchau! - Falei, estendendo a mão; então apertou, e logo em seguida. se despediu da prima encostando suas bochechas nas de Mari e foi-se, acompanhada de . Então Mariana e eu deixamos a cafeteria e caminhamos em silêncio até o carro. Ela estava emburrada. E como eu queria saber o que estava se passando na cabeça dela.
- O que foi, Mari? – Cautelosamente, eu perguntei, levantando meus olhos para ela. Não ouvi uma resposta. - Mari...?
- O quê? - Ela disse, irritada.
- O que aconteceu?
- Nada, . - Ela suspirou. - Nada mesmo. - Continuou, ainda num tom irritado. Então entramos no carro; colocamos os cintos de segurança e eu dei partida com o veículo. Seguimos a viagem inteira, calados.
Quando chegamos a casa, coloquei o carro na garagem e me direcionei para a casa do , que ficava ali, na mesma rua da minha. Disse a Mariana que o ensaio não demoraria a acabar, mas ela continuou a não falar comigo. Assenti e continuei o meu caminho.

O ensaio não durou mais de duas horas e meia. Logo eu já estava indo para casa, acompanhado de e , que também moravam naquela rua. Eu vivia me perguntando o porquê das nossas casas serem tão próximas umas das outras, talvez fosse porque facilitava o nosso trabalho, ou simplesmente porque nós éramos unidos demais para morarmos muito longe uns dos outros. Despedi-me de e , e logo entrei em casa. Tirei a jaqueta e me direcionei para o quarto. Descalcei meu All Star azul-marinho dos pés e deitei na cama, fechando os olhos, respirando fundo. Mariana estava tomando banho na suíte, concluí isto depois que ouvi um barulho abafado de água caindo. Depois ouvi barulho de porta se abrindo, e passos ecoaram pelo quarto.
- Ah. Você chegou. - Mariana disse, usando um tom frio. Então eu abri os olhos e procurei pelo quarto, que estava meio escuro, pois a luz estava em sua intensidade fraca. Ela estava de frente ao guarda-roupa, enrolada na grande toalha rosa escuro dela.
- Mari... - Quebrei o silêncio que entre nós havia se instalado. - Mari, o q...
- O que é, ? Vai perguntar se aconteceu alguma coisa comigo? - Ela explodiu, interrompendo-me e virando-se para mim, encarando-me com uma expressão que eu nunca tinha visto antes no rosto angelical dela. Uma expressão de ódio. Seu rosto estava contorcido de raiva, totalmente vermelho. Fiquei olhando para ela, sem saber o que dizer. – Aconteceu, sim, . Eu, finalmente, percebi uma coisa e estou me perguntando como eu pude ser tão idiota em acreditar em você de novo. Bem debaixo do meu nariz! Eu sou uma babaca mesmo! Você deve ficar dando risadas de mim!
- Mariana...? Sobre o que você está falando? - Eu disse, sentando-me na cama, pondo uma interrogação no olhar.
- E você ainda pergunta! Eu vi, ! Eu vi o jeito que você estava olhando para ela! E você fica aí a defendendo o tempo todo como se... Argh! - Ela soltou um grito de fúria, jogando alguma coisa na minha direção. Não tive tempo de ver o que era, apenas desviei minha cabeça do objeto; só depois que eu ouvi um baque surdo e barulho de vidro quebrando e um aroma cheiroso subir, que eu vi que era um frasco de perfume que eu havia dado de presente de aniversário à Mariana que voara em minha direção.
- Mari, fica calma...
- Como eu posso ficar calma?! Eu não acredito, , é sério! Como eu pude ser tão tola!
- Dá para você dizer sobre o que você está falando?! - Gritei, me colocando de pé, agora muito nervoso com a ausência de uma explicação da parte dela.
- Você... Você se... Apaixonou por... Ela! Pela ! - Então eu entrei em estado de choque. Não sabia o que dizer. Meus pulmões pareciam que tinham parado de trabalhar, e meu coração batia com toda a intensidade. - E-então, o que você diz a respeito disso?
- Mariana, você está ficando louca! Como isso poderia acontecer?! - Falei, tentando não fazer cara de culpado, procurando não olhá-la nos olhos.
- Olha para mim, . - Ela disse, com a voz embargada, se aproximando de mim. Então olhei para ela, com os olhos embaçados de lágrimas, tentando segurá-las dentro de meus olhos.
- Você... Você se apaixonou por ela, sim... , eu conheço você... - Silabou ela, quase que num sussurro desafinado, se afastando de mim, sentando na ponta da cama. Então eu andei até ela.
- M-Mariana, e-eu realmente não...
- Não chega perto de mim! - Então eu parei e engoli a seco quando percebi que ela estava chorando calada. - Quer saber? Eu vou dar um tempo pra você pensar. - Tirou o anel de noivado do dedo, aquele belo brilhante de ouro com diamantes que eu tinha escolhido com tanto carinho e cuidado, e o colocou em cima da cama. - A gente não pode ficar junto nessas condições. Vou sair dessa casa. - Ela falou, se levantando, caminhando em direção do guarda-roupa, onde pegou uma mala, colocou-a em cima da cama e começou a atirar roupas dela para dentro da mala.
- Não faz isso, Mari, não se precipite desse jeito!
- Precipitar? Eu estou cansada disso! E eu já disse, vou dar um tempo para você. Pense se realmente quer continuar comigo.
Minutos depois, ela estava vestida e com a mala feita. Não tinha me dito para onde iria, apesar de eu ter certeza de que iria para a casa de Livia, uma amiga e colega de trabalho dela. Assisti-a deixar o quarto sem ao menos se despedir de mim. Eu tinha vontade de quebrar tudo naquele cômodo.
- Merda! Maldita situação! - Exclamei, dando um soco na parede para ver se conseguia aliviar minha raiva, mas a única coisa que eu consegui foi uma dor desgraçada na mão e na articulação que a ligava ao pulso. O que eu faria a partir dali? Mariana acabara de me deixar. E eu tinha medo de ser definitivamente. Mas também estava, por mais que minimamente, satisfeito. Sim, eu teria meu tempo para colocar minha cabeça no lugar. Porque aquela situação certamente estava me deixando louco.

***


Capítulo Dezesseis – De Corpo, Alma... E Coração


's Point Of View: On.

Já fazia quase um mês que eu havia me mudado e que estava trabalhando. Minha rotina no trabalho só não era ruim porque agora trabalhava comigo. Não no mesmo setor, mas nós sempre dávamos um jeito de nos encontrarmos para dar uma conversadinha, e almoçávamos juntas. Tê-la comigo revigorou minhas energias.
Aquele dia seria um dia agitado. A loja teria uma tarde de autógrafos com ninguém menos do que os caras do McFLY. Quase tive um infarto quando soube que ficaria encarregada de arrumar o camarim da banda e ficar com eles o tempo necessário. Não porque eu estaria com o McFLY em si. Mas porque estaria com , pois ele também era da banda. Não nos falávamos desde o dia em que nós nos encontramos por acaso na Starbucks que ficava próxima à London Eye. Eu não sabia como iria agir com ele, ou como ele iria agir comigo.
Eu estava, particularmente, nervosa, acho que mais do que qualquer funcionário da loja. Toda hora pousava os olhos no relógio, perguntando-me se as horas não demorariam menos para passar. Alisava minha roupa de minuto em minuto, e procurava saber como estavam meus cabelos quase que toda hora.
- , para com isso, você está me deixando louca! Era para eu estar assim, não você. - disse, enquanto almoçávamos e eu olhava no relógio de pulso dourado pela milésima vez.
- Eu sei... Mas sei lá. Faz tempo que eu não vejo os guys. - Menti, levando o garfo cheio de arroz à minha boca. Na verdade, eu estava nervosa por causa de .
- Ah... Mas pelo menos você os conhece, e o melhor, é amiga deles. E eu? - falou, ainda com a boca cheia.
- Eles conhecem muita gente. Não devem se lembrar de mim. - Indaguei, dando ombros, olhando tristemente para a comida, levando o garfo cheio à boca.
Eles chegariam a qualquer momento. A fila de pessoas que iriam entrar para vê-los dava voltas no quarteirão. Pessoas alegres e excitadas se encontravam nela. Estas não paravam de falar e cantar.
Tudo estava perfeito dentro da sala que seria feita de camarim. Eu já estava ouvindo vozes se aproximarem. Vozes masculinas e conhecidas. "Ah, qual é, não fique nervosa", pensei, "você os conhece. Não tem por que ficar nervosa!"; eu esperava ficar um pouco mais calma com esse pensamento, mas não fiquei. Então ouvi a maçaneta se mexer e a porta se abrir em seguida. Levantei de onde estava sentada, ajeitei mais uma vez minha roupa e direcionei meus olhos à porta. O primeiro a irromper na sala foi justamente , que parou de conversar quando viu que eu estava ali. Sorri sem mostrar os dentes, enquanto sentia meu rosto se esquentar, e imaginei que ele poderia estar totalmente escarlate. Meu coração batia a toda velocidade, e eu queria muito que minhas pernas parassem de bambear enquanto eu era observada pelo .
- ! Que prazer em te ver aqui! - Ouvi dizer, se aproximando de mim, abraçando-me forte. - Que saudade...
Logo foi a vez de me abraçar, e depois . E por último, . Sentir o perfume dele penetrando minhas narinas depois de tanto tempo foi como um sopro de vida.
- Ah... Vocês já se conhecem? - Ouvi a gerente – que se chamava Luna – perguntar, olhando desdenhosa para mim, depois encarando os rapazes. Eu estava tão ocupada conversando com eles que não notei a presença dela. Acho que era meio óbvio que aquela loura de farmácia não gostava de mim, só que eu não sabia exatamente por quê. Só sabia que ela tinha um motivo a mais para gostar menos de mim.
- Sim. Nós nos conhecemos sim. - disse, olhando para mim, sorrindo largamente. Retribuí o gesto, e olhei para Luna, ainda sorrindo com o máximo de vontade. Vi-a prender a respiração nas narinas e olhar de esguelha para mim. Tive que controlar o riso.
- Então... Eu vou lá para anunciar vocês. - Ela indagou, naquele tom doce que chegava a enjoar, olhando para os caras, se pondo para fora da sala em seguida. Quando tive certeza de que ela não estava perto, gargalhei.
- Vocês viram a cara dela quando o disse que nos conhecíamos? Ai, cara! - Falei, pondo as mãos na barriga e me encurvando um pouco, rindo demais.
- Ela não gosta de você, é? - perguntou, olhando para mim meio confuso.
- Pelo jeito que ela me trata, não. Mas então, como vocês estão? Já viram o tamanho da fila lá fora? - Eu disse, parando de rir, olhando atentamente para eles, com um ar alegre.
Eu não sabia quanto tempo havia se passado desde que a tarde de autógrafos havia começado. Eu só imaginava o quanto eu deveria ter ficado vermelha de vergonha com os olhares significativos e demorados que lançava para mim, os quais eu, dificilmente, conseguia me esquivar. Ainda era difícil me manter sã sob a observação daqueles olhos tão perfeitos. Na verdade, eu sempre estremecia quando ele me olhava.
- , por que o não para de olhar para você daquele jeito? - sussurrou em meu ouvido, enquanto eu procurava outra caneta para , já que a dele havia acabado a carga. chegou tão de repente que eu me sobressaltei com sua presença.
- O quê? - Perguntei, levando a mão ao peito. Ela me encarava com os olhos entrecerrados e os braços cruzados, esperando uma resposta.
- Eu perguntei por que o está olhando tanto para você. - Ergueu a sobrancelha esquerda, parecendo realmente intrigada.
- Quer mesmo conversar sobre isso? Eu vou ter que contar isso a você agora?
- Espera aí... Então isso quer dizer que... ! Você não me contou isso! Não creio!
- Claro que não contei. O que você iria pensar de mim? Mas não se preocupe, já que você matou a charada, eu vou te contar tudo detalhadamente. Só que não agora. - E com essa fala como ponto final ao assunto, saí andando em direção à mesa onde a banda se encontrava sentada, apinhada de gente em volta. Passei por um caminho menos tumultuado e cheguei a , entregando a caneta esferográfica a ele, que agradeceu e sorriu largamente.
Eu estava precisando ir ao banheiro, e, ao mesmo tempo, me esquivar do olhar severo de em cima de mim. Então eu me direcionei ao banheiro feminino dali, que ficava na ala permitida somente para funcionários. Lá, depois de ter urinado, encarei meu reflexo no espelho e em seguida reuni um pouco de água nas mãos e joguei em meu rosto. Sequei com um papel-toalha e saí do local. Quando me virei depois de fechar a porta, me surpreendi com na minha frente. Ele saía da sala-camarim. O corredor de teto e paredes brancas era tão estreito que nós quase estávamos colados um no outro.
- Ah, oi, ... - Eu disse, sem graça, tentando sorrir. Eu mal conseguia repirar direito, quem dirá sorrir.
- Oi... - Ele falou, sorrindo fraco, passando a mão nos cabelos.
Ficamos em silêncio por segundos que pareciam horas, apenas olhando um ao outro.
- Bom, é melhor irmos andando. - Eu falei, já me colocando para andar corredor afora.
- Não, , espera... - Ele pegou em minha mão e eu parei, virando-me para ele, com o coração na mão. - Será que, hm, você não gostaria de ir lá a casa hoje à noite? Depois daqui? A gente poderia jantar juntos...
- , eu não acho que seja uma boa ideia, porque...
- Se você iria se referir à Mariana, pode ficar tranquila. Nós estamos separados há quase um mês. - Ele disse, pondo a mão nos bolsos da calça jeans clara. Pisquei meus olhos várias vezes para me verificar se aquilo era real. - Então... Você aceita? - Sorriu meio sem jeito, olhando-me quase tão pidão quanto um cão sem dono. Aquilo foi o suficiente para eu me decidir.
- Ah... Por que não, não é? - Falei, timidamente, encolhendo os ombros. Vi um sorriso realmente belo iluminar o rosto de . Sorri e logo voltei a caminhar, um pouco mais depressa, ainda com o coração batendo acelerado. Eu não podia acreditar. Não estava conseguindo processar direito. tinha me convidado para jantar na casa dele. Mariana e ele estavam separados. Separados. Como assim? Não que eu quisesse que a separação deles acontecesse, nunca quis na verdade. Mas era bom demais para ser verdade, bom demais para a minha mente entorpecida de paixão conseguir assimilar sonho de realidade.
Considerei-me mais disposta a arrumar a bagunça da loja tempos depois desse acontecimento. Na volta para casa – que tinha acontecido uma hora mais cedo –, quando contei à , ela não acreditou, e ficou com muita raiva de eu não ter contado antes o que tinha rolado entre mim e . Mas acabou relevando, se colocando em meu lugar. Com certeza, não iria gostar de ser chamada de piranha ou de outros nomes ruins pela melhor amiga, mas adorou saber que minha prima era uma chifruda, já que elas duas não se gostavam muito. Senti-me culpada quando pensei nisso, mas não por muito tempo. Pela primeira vez, estava preocupada com o que vestir para ver . Revirei o meu guarda-roupa inteiro à procura de uma roupa, perguntando-me por que estava fazendo aquilo, já que não era a primeira vez que jantaria com .
- , o que você acha desse vestido? - Eu indaguei, aproximando-o do meu corpo, virando para , que estava sentada na minha cama.
- Simples e realmente lindo. Onde você comprou? - Ela perguntou, pegando-o de minhas mãos. Ele era preto e reto, com um cinto fino vermelho à altura da cintura. Não tinha decotes na frente, de modo que todo o meu colo ficava coberto. Não era nem tão curto, nem tão longo, mas na medida certa, como a maioria dos meus vestidos.
- Numa lojinha daqui. Precisamos ir lá juntas, tem muita roupa linda, você vai amar. Vou usar esse vestido, então. Dá pra usar com All Star ou Vans? - Olhei para o vestido como se estivesse imaginando se ficaria bem com as opções que eu havia apresentando.
- Amn... Acho que não. - Minha melhor amiga disse, olhando para a peça de roupa, parecendo fazer o mesmo que eu. - Com sapatilha ou sapato alto fica melhor. Vai por mim. - Ela falou e eu assenti. Logo peguei uma sapatilha preta que tinha alguns detalhes prata e coloquei-a ao pé do guarda-roupa. Peguei o vestido e pendurei na porta embaixo do calçado. Nada mal, pensei. Então parti para o banho. Não demorei nada. Logo já estava vestida. Não passei nenhuma maquiagem em especial, só o de sempre – tirando o batom vermelho que eu não usava sempre –, já que eu sabia que não era muito a favor de maquiagem excessiva. Peguei as chaves, minha carteira e o celular, pus numa bolsinha, me despedi de e parti. Tomei um táxi até o local em que morava. Logo cheguei. Respirei fundo e me pus a andar em direção a casa. Arrependi-me de não ter colocado um casaco, pois o ar estava úmido e gélido. Toquei a campainha da casa. Esperei um pouco para tocar de novo. Logo abriu a porta.
- Hey, ! Entra! - Falou ele, alegremente, abrindo passagem para eu entrar, e então eu entrei, e nós caminhamos juntos até a sala. Ele pediu para eu esperar um pouco e direcionou-se à cozinha. Notei que, na mesinha de centro da sala, uma garrafa de vinho, duas taças de bocas largas, dois pratos e talheres para duas pessoas se encontravam cuidadosamente arrumados, juntamente com guardanapos brancos de pano e duas taças azuis de sobremesa uma sobre a outra. Não demorou muito e voltou à sala, com uma bandeja de prata tampada nas mãos e um pano de prato branco no ombro. Ele colocou a bandeja em cima da mesinha e sentou-se no chão. Então eu fiz o mesmo. Ele estava lindo. Usava uma blusa social azul-escura, com as mangas dobradas à altura dos cotovelos, uma calça preta e um sapato fechado também preto. Os cabelos estavam penteados para trás, embora algumas mechas caíssem sobre sua testa.
- Então, para você se sentir mais em casa, eu pesquisei um pouco e achei umas receitas brasileiras que encheram meus olhos, e que talvez você goste. - Ele disse, abrindo a tampa da grande peça de prata, deixando que um aroma incrível tomasse conta do ambiente. Então olhei para o prato.
- ! Você fez risoto! Eu amo risoto! - Silabei, olhando para ele.
- Hm, então eu acertei. - Ele disse, e nós rimos. - Tem mais coisas além do risoto. Mas primeiro vamos comer isso, parece estar realmente bom. - Ele falou, pegando uma colher grande, servindo o risoto de frango para mim e para ele.
- , eu sei que seria indelicado perguntar, mas... Você está separado da Mariana, certo? - O vi concordar com a cabeça. - Então... Por que você quis que eu viesse aqui? - Perguntei, cautelosa, depois que tínhamos terminado o jantar excelente preparado por e ele teimosamente estava lavando toda a louça que eu me ofereci para lavar e ele não deixou, alegando que naquela noite eu era uma convidada. Ele não respondeu minha pergunta de imediato. Terminou de enxaguar uma taça e a colocou para escorrer a água. Secou as mãos, puxou uma cadeira e sentou-se perto de mim.
- Então, ... Eu precisava dizer a você essas coisas, e queria que nós falássemos sobre isso a sós. - Fez uma breve pausa, suspirou pesadamente, limpou a garganta e continuou. - Há algum tempo eu venho me confrontando, tentando fingir que não existe nada que nos ligue mais profundamente... Mas não dá. Eu não consigo. Eu sinto algo por você além da amizade, , e a cada dia cresce mais; já está fora de cogitação eu tentar te esquecer. E eu queria que você soubesse disso. - Terminou sua fala pegando com as suas gélidas mãos, as minhas. Apertei-as nas dele, acarinhando o dorso de uma delas com o dedão. Então respirei fundo.
- Sabe... Eu me sinto exatamente da mesma forma. - Eu disse, abaixando o olhar, prendendo meu lábio inferior nos dentes superiores. Então ele chegou mais perto de mim, e levantou com uma das mãos o meu rosto, de modo que eu pudesse encará-lo nos olhos. Senti que a proximidade de nossos rostos estava aumentando, até eu conseguir sentir sua respiração quente tocando minha pele. Não tardou muito, fechei meus olhos e delicadamente senti nossos lábios se tocarem. Senti uma corrente elétrica passar por todo o meu corpo quando nossas bocas entraram em contato. Pediu permissão para a sua língua se entrelaçar a minha, o que foi concedido. Senti uma sensação de formigamento engraçada no estômago enquanto beijava . Mas não era uma sensação ruim, era bom senti-la.
Levantamos-nos, e nos direcionamos para sala. Eu ia à frente, segurando a mão dele; então me agarrou por trás, prensando meu corpo ao dele com força; começou a dar beijos em meu pescoço, deixando rastros de sua respiração arfante em minha pele. Quando nós chegamos à sala, eu me virei, envolvi a nuca dele com meus braços e o beijei intensamente, sentindo seus braços apertando meu corpo para mais perto dele pela cintura. Conduziu-me lentamente para o sofá que se encontrava atrás de mim, e nele deitamos. Ele era tão grande que cabia mais de duas pessoas deitadas ali. Fui desabotoando a blusa dele até que a minha mão pudesse passar, então toquei em seu abdômen com a ponta dos dedos delicadamente, que se contraiu com o meu toque. Isso o fez gemer de impaciência. Crispei meus lábios num sorrisinho presunçoso quando vi que minha provocação surtira efeito. Logo senti sua mão ir para trás do meu vestido, tentar abrir o fecho dele, mas ele encontrava dificuldade para isso.
- Droga! Abre! - Sussurrou, indignado, ainda tentando abrir o fecho.
- Eu faço isso. - Indaguei, sorrindo maliciosa, enquanto abria o vestido. Ele se encarregou de tirá-lo, jogá-lo em um lugar qualquer da sala e de deixar à mostra minhas roupas íntimas rendadas, que tinham a mesma cor do vestido. Logo suas roupas voaram para longe, junto com os nossos sapatos, enquanto conhecíamos um o corpo do outro expressando desejo e até curiosidade.
- , espera. - Sussurrei, afastando-o um pouco de mim, ofegante.
- O quê? - Ele me olhou, também ofegante.
- Cadê a camisinha?
- Está... - Ele pegou a carteira da calça. Vasculhou um pouco. Pegou-a. - Aqui. - Depois jogou a carteira longe e voltou a me beijar. Entrelacei minhas pernas em seu quadril, e quando ele se sentou, eu fiquei em seu colo.
Em questão de segundos as nossas peças íntimas sumiram. E eu me entreguei totalmente a . Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo. Tinha medo de estar ouvindo também. A adrenalina corria em doses cada vez mais altas em minha corrente sanguínea. Meu corpo respondia a cada mínimo toque de , mas eu não me importava com isso.
Naquela noite, eu me esqueci de tudo. Pela primeira vez em um ano, eu havia me esquecido daquele trauma. Daquele trauma horrível. Trauma este que só fora capaz de repelir para fora de mim.

***


Capítulo Dezessete – Constrangimento


No dia seguinte, acordei tão cedo e de forma tão espontânea que me assustei comigo mesma. Às sete da manhã eu já estava bem acordada, deitada ao lado de na cama dele; fiquei uns minutos olhando o teto do quarto escuro, lembrando-me de cada acontecimento da noite passada. Olhei para o lado, e lá estava , com sua respiração profunda e compassada, dormindo tão tranquilamente que dava vontade de ficar olhando-o dormir para sempre. Estava deitado de bruços, o edredom cobrindo apenas parte das pernas, o rosto virado para mim e um dos braços envolvendo minha cintura. Os cabelos desgrenhados cobriam um pouco os seus olhos. Aproximei-me e dei um selinho de leve em sua boca, acarinhando seu rosto com delicadeza e cuidado para não acordá-lo. Eu ficaria ali o dia todo deitada ao lado dele, sentindo sua respiração calma e sua pele em contato com a minha.
Com todo o cuidado, tirei o braço dele de cima de mim e levantei-me da cama, me enrolando no lençol branco que se encontrava no chão. Fui até o banheiro da suíte, onde eu lavei o rosto e ajeitei meus cabelos – numa tentativa desesperada de tirar minha cara de sono –, e então eu saí do quarto. Ao chegar à sala, catei do chão a blusa que usava na noite anterior e a vesti, abotoando seus botões; depois caminhei para a cozinha. Enquanto eu andava, sentia o perfume de , que vinha da blusa, subir para minhas narinas. Senti-me muito aérea quando me lembrei de que eu tinha passado uma noite com o dono daquele perfume.
Na cozinha, eu preparei um café bem forte e suco de laranja, pus frutas à mesa, fatias de torradas recém-feitas e leite. Também coloquei à mesa um queijo branco que tinha o sabor muito parecido com o do queijo minas (que eu não sabia como tinha achado em algum mercado dali), presunto e manteiga, e tornei a subir para o quarto de . Liguei a luz em intensidade fraca, caminhei até a cama e deitei nela com todo o cuidado para não me mover bruscamente.
- ... - Sussurrei, assoprando de leve no ouvido dele, passando a mão em seu rosto carinhosamente. - , meu lindo, acorda...
- Hm... - Resmungou, se mexendo um pouco na cama, abrindo lentamente os olhos, tornando a fechá-los. Logo os abriu de novo, como se estivesse emergindo de vez do sono, e sorriu para mim.
- Bom dia, ! - Eu disse, sorrindo, dando um selinho em sua boca com todo o carinho.
- Dia. - Ele falou, com a voz rouca e sonolenta, dando mais um selinho em mim.
- Vem tomar café comigo? Eu preparei umas coisas para comer. Hein? Você vem? - Indaguei, num tom pidão, passando a mão nos cabelos dele, de modo que eu pudesse ver seus olhos cheios de sono me fitando com atenção.
- Claro. - Ele bocejou e se espreguiçou. - Mas antes... - Ele me puxou pela cintura e deitou-se em cima de mim, encaixando suas pernas entre meus quadris. Seus lábios encostaram-se aos meus, e quando menos percebi sua língua já estava dentro da minha boca. Minha única opção foi retribuir ao beijo.
- Espera... - Afastei-me dele com um leve empurrão em seu peito nu. - Você não acha que está cedo demais para isso? - Com a minha fala, surgiu um sorrisinho malévolo nos lábios muito vermelhos de .
- Não se tem hora certa para amar. - Disse, com um brilho malicioso nos olhos, ainda com aquele sorriso de canto de boca, beijando-me outra vez. Que ótima hora para filosofar, pensei. - Aliás, eu tenho vontade de fazer isso com você o dia todo... Sem parar... - Sussurrou, ao pé do meu ouvido, voltando a me beijar. Pensei em fugir dele, mas desisti da ideia. Que boca para beijar bem. Eu poderia beijá-la pelo resto do dia.
Enquanto nos beijávamos lenta e calmamente, me pus a brincar com o elástico da única peça que cobria seu belo corpo, forçando-o a ficar cada vez mais ofegante nos intervalos dos beijos; ele teve que segurar minha mão e sussurrar para com isso, mas eu persisti, indo ainda mais longe, fingindo que iria tirar a peça de roupa do corpo dele; como eu adorava provocar. Depois de uns minutos, ele, do nada, parou de me beijar e ficou me encarando diretamente nos olhos durante um tempo, sem desviar os olhos de mim por nenhum segundo sequer. Senti-me corar de leve, como sempre corava quando ele me encarava por muito tempo.
- Por que toda vez que eu olho você nos olhos, você fica vermelha? - Indagou ele, franzindo o cenho, encarando-me como se estivesse me estudando. A pergunta fez com que eu sentisse como se minha face ardesse em chamas. Escondi meu rosto com as mãos, e ele deu um risinho, encostando sua testa na minha. Eu queria responder que era como se eu estivesse vendo a mim mesma dentro da alma dele todas as vezes que eu o olhava profundamente, tamanha a nossa semelhança, e que eu sempre lembrava que era preciso apenas olhá-lo nos olhos para perceber que o coração nunca mentia; eu sentia que ele era sincero comigo, mas eu tinha vergonha até mesmo de falar estas coisas para ele, e só de pensar meu rosto enrubescia.
- Já podemos ir tomar café? Vai tudo esfriar lá. - Eu disse, revirando os olhos, fazendo-o rir um pouco mais.
- Tudo bem, tudo bem. Você me deixou morrendo de fome, preciso comer algo. - Com um inspiro longo como rendimento, ele apoiou as mãos na cama e se levantou, mostrando a boxer preta que usava e que se ajustava perfeitamente ao seu corpo. Meu rosto ainda estava quente, ainda mais depois da fala dele. Então eu levantei e ele me abraçou por trás, fungando em meu pescoço, dando beijinhos na área. E assim nós nos direcionamos para a cozinha. Sentamos em lugares que faziam diagonal na mesa redonda e começamos a tomar café em silêncio. De vez em quando trocávamos olhares, alguns do tipo "me belisca que eu não acredito que isso está acontecendo de verdade", mas sem dizer uma única palavra. Quando ele terminou, levantou-se e se sentou ao meu lado, pondo as mãos na minha cintura e me puxando, fazendo com que eu sentasse em uma de suas pernas; então eu apoiei minhas pernas na outra dele. Sorri fraco, passando a mão por seu rosto, estudando cada precioso traço dele; uma de suas mãos passeava livre por minha perna, passando pela camisa larga que cobria meu corpo, indo parar na minha cintura e voltando. Então nos beijamos sem nenhuma cerimônia, acaloradamente. Sentia cada parte do meu corpo se arrepiar ao toque de , e meu coração batia tão intensamente que eu podia ouvir o sangue sendo bombeado. se levantou e eu fiz o mesmo, sem que o beijo intenso demais fosse interrompido. Fui conduzida por ele a uma das bancadas de granito; pôs as mãos por volta da minha cintura e me ergueu do chão, de modo que eu sentasse na bancada. Então eu entrelacei minhas pernas em sua cintura e voltei a beijá-lo. Ficou evidente para mim aonde queria chegar por diversos motivos.
Logo ouvi barulhos de folhas secas crepitando vindo do quintal da casa. Não me importei, deveria ser algum bicho passando por ali para chegar a alguma árvore. Depois, barulho de porta se abrindo, mas eu estava concentrada demais em , não me importei. E por último...
- Bom dia... ! - Começou a cumprimentar de forma alegre, mas acabou me anunciando com uma ponta de incredulidade na voz. Era . Com o susto por causa do quase grito dele, afastei bruscamente o de mim e desci da bancada que era encostada à parede. Aí eu lembrei que estava com as pernas à mostra, e tentei abaixar a blusa azul-escura de para cobri-las pelo menos um pouco. Meu rosto ardia tanto que parecia envolto em chamas. também estava assustado, e olhou de para mim, encarando nós dois de cima a baixo, com os olhos arregalados, parecendo prender a respiração. Era realmente constrangedora a situação em que se encontrava. Constatei isto quando vi a incredulidade no rosto de quando olhou para baixo. Acompanhei o olhar dele e entendi muito bem por quê.
- A-acho que eu estou atrapalhando algo. - E com essa fala, ele andou para fora da casa com a mesma rapidez com que entrou.
- , espera! Não é o que você... - se pôs a correr em direção da porta, mas subitamente parou. Deveria ter lembrado que estava quase nu. - Ah, é claro que é o que ele está pensando. Droga. - Sussurrou, tão baixo que quase não pude ouvi-lo.
- O que foi isso, ? - Eu disse, enquanto assistia a se sentar e esfregar o rosto com as mãos.
- É que... O . Ele gosta muito de você. Aí ele nos vê nesse estado... - Interrompeu-se, respirando pesadamente. - Que tipo de amigo eu sou?
- , olha... - Comecei, aproximando-me dele, sentando na cadeira mais próxima. - Talvez ele entenda. Talvez ele tenha percebido que, sei lá, nós tínhamos alguma coisa... Não precisa se preocupar com isso. E se ele tocar no assunto com você, conte a verdade. Se não, não precisa falar nada e nem se explicar para ele. Vai ser melhor assim. Acredite. - Falei, pegando uma das mãos dele, sorrindo docemente. Então ele entrelaçou-as, acariciou o meu rosto com a outra mão e beijou o topo da minha cabeça.
- Tudo bem, você tem razão. - Falou e deu um selinho em meus lábios, passando a mão em meus cabelos carinhosamente. Ficamos uns tempos calados, absortos em nossos pensamentos que talvez estivessem interligados.
- Olha... Acho melhor eu ir embora. Se eu demorar mais aqui, a vai pensar que você me sequestrou.
- Hm... Tem certeza de que quer ir? - Ele disse, num tom dengoso, encarando-me com um olhar pidão. Logo me puxou de novo para seu colo, dando beijos em todo o meu rosto.
- Ô ! É sério! - Falei, entre risadas histéricas, enquanto ele fazia cócegas em minha cintura.
- Tudo bem. Mas só se você me deixar levar você em casa. - Olhei para ele com a sobrancelha arqueada. - É. Aí eu esclareço toda a situação para a . - Ele disse, olhando-me maldosamente, movendo os lábios em um sorrisinho de meia boca.
- Ha. Ha. Ha. Você é realmente engraçado. - Falei, desarrumando os cabelos dele, que soltou um risinho. - Tudo bem, eu deixo você me levar pra casa, mas não precisa esclarecer nada para ninguém não. - Concluí, levantando-me e cruzando os braços, rolando os olhos dentro de minhas pálpebras, o que fez rir.
Então, depois de muita dificuldade para me desgrudar dos braços – e lábios – de , tomei um banho rápido e coloquei novamente em meu corpo o vestido preto com um cinto fino à altura da cintura que eu usava noite passada, seguido de minhas sapatilhas pretas com detalhes em prata. Esperei se banhar e se vestir, e assim que isso foi terminado, nós nos direcionamos para fora da casa, onde fomos para o estacionamento dela, cujo carro de estava parado. Enquanto entrávamos no automóvel, dei uma rápida olhada em volta, e atrás de nós, do outro lado da rua, de uma fresta entre cortina e janela do segundo andar de uma casa, um par de olhos nos espionava. Assim que eu entrei no carro, olhei pelo retrovisor, e vi sumir da janela e fechar a cortina dela. Suspirei pesadamente, e logo deu ré com o carro e dirigiu condomínio afora. Parecia não ter percebido aquilo.
Quando chegamos ao prédio de apartamentos que eu residia, ele pôs um boné preto e óculos Ray-Ban preto, para não ser reconhecido por ninguém, ou pelo menos tentar passar despercebido enquanto me levava até meu apartamento. Eu disse a ele que não precisava me levar, mas ele insistiu. Uma coisa era certa: era mais teimoso que uma criança contrariada pelos pais. Porém, essa era uma das coisas que me atraíam nele, o fato de ser persistente, de não desistir fácil.
Quando chegamos ao número 703 do sétimo andar, peguei minhas chaves na bolsinha que carregava comigo e com elas, abri a porta do apartamento.
- , cheguei! ? - Eu disse, entrando, franzindo o cenho ao notar que a televisão estava desligada e o lugar estava morbidamente silencioso. - Entra, . - Indaguei, rapidamente lançando meu olhar a ele – que tinha se livrado dos óculos escuros e do boné –, logo voltando a examinar o apartamento. Então encontrei um papel rosado em cima da mesinha do telefone, com a escrita de em preto. Este dizia:

Caso você não me encontre quando chegar, não se preocupe, não fui longe. Fui dar uma voltinha num parque aqui perto, dar uma caminhada, só para não perder a forma. Talvez eu demore umas duas horinhas, nada demais.
.


- A não está aqui? - A voz de ressoou pela sala, num tom de quem quer aprontar, enquanto ele se aproximava de mim.
- Não... - Respondi, dando ombros, jogando a folha rosa em cima da mesinha novamente.
- Então... - Ele contornou minha cintura com seus braços, e eu entrelacei os meus braços por sua nuca. - Que tal você me levar para conhecer seu apartamento? Ainda não tive essa oportunidade... - Ele disse, tentando parecer inocente, fitando-me com os olhos brilhando como estrelas cadentes.
- Você quer que eu te leve para conhecer meu apartamento... Ou meu quarto...? - Falei, erguendo a sobrancelha esquerda, notando a feição de ficar num aspecto zombeteiro.
- Exatamente isso. - Sussurrou, ao pé do meu ouvido, deixando rastros de sua respiração na área.
- Você é um canalha. - Eu disse, em tom de brincadeira, observando os olhos de .
- Mas sou completamente louco por você. - Falou, crispando um sorriso fraco em seus lábios, dando-me um selinho.
Com esta fala, senti meu rosto começar a arder, certamente a corar também. Então, antes que ele começasse a zombar de meu rosto enrubescido de vergonha, peguei a mão dele e assim me pus a andar em sua frente; atravessamos um corredor, e eu mostrei cada cômodo a ele até que chegamos à porta do meu quarto, que ficava ao fim deste. Abri-a e liguei a luz. Ele olhou em volta do local de paredes verde-água.
- Não é lá essas coisas, mas eu gosto bastante dele.
- Ele é lindo. Só espero que não quebremos nada por aqui. - Falou, agarrando-me e me aproximando de seu corpo, fazendo que um impacto surgisse entre nós. Sem perder tempo me beijou, empurrando a porta atrás de nós para ser fechada e conduzindo nossos corpos até a cama. Lá deitamos, e ele encaixou suas pernas entre meus quadris, beijando cada parte do meu pescoço e do meu colo.
Que droga, esse só pensa em sexo, pensei comigo mesma, enquanto percebia nossas roupas sumirem de nossos corpos. Não que isso fosse ruim. Era bom até demais. E como.

***


Capítulo Dezoito – A Notícia


's Point Of View: On.

Enquanto sentia o cheiro de seus cabelos misturado com a fragrância de seu perfume que tomava conta daquele cômodo arrumado e organizado – que agora não se encontrava tão arrumado e organizado assim –, me peguei pensando sobre o que estaria se passando pela cabeça de naquele momento. Como eu gostaria de conseguir ler a sua mente, pena que isto não era possível.
Ficar abraçado a era uma das coisas que eu mais gostava. Sentir o seu corpo transmitindo calor ao meu dava-me uma sensação de paz que eu só encontrava nela. Fazia com que eu me sentisse vivo de um jeito o qual eu nunca havia me sentido antes. Desde que nós começamos a sair – há mais ou menos um mês e meio –, eu sentia como se a minha vida tivesse voltado a fazer sentido.
- Quando a gente fica assim, agarradinho, eu tenho vontade de não te largar nunca mais, sabia? - Ela disse, num sussurro, virando-se para mim, olhando-me diretamente nos olhos enquanto acarinhava minha face, o que me fez sorrir. Apertei mais sua cintura em meus braços, sentindo sua pele delicada colada à minha, enquanto ela entrelaçava seus braços em minha nuca.
- Andou invadindo meus pensamentos? - Murmurinhei, dando vários beijos na boca dela. - Eu estava pensando nisso neste exato momento. - Falei, afastando seus cabelos de seu rosto, de modo que eu pudesse enxergar melhor seus olhos.
- Sério? Que coincidência. - Ela disse, aninhando carinhosamente sua cabeça em meu peito. Senti sua respiração calma e compassada batendo na pele.
- Coincidência até demais. É o destiiiino! - Eu falei, em tom etéreo, e ela riu baixinho do que eu havia dito, selando demoradamente nossos lábios. - Eu te... Eu te gosto muito.
- Eu também... Te gosto demais.
Eu não entendia a minha dificuldade de dizer "eu te amo" para . Não era o que eu sentia? Então por que eu tinha tanta dificuldade em dizer? Será que eu tinha medo da reação dela ao ouvir de minha boca que eu a amava? Ou será que era cedo demais para revelar meus reais sentimentos a ela? Essas perguntas me atormentavam de uma maneira que eu não conseguia entender.
Logo, um barulho forte de porta batendo chegou aos meus ouvidos, o que me tirou de meus devaneios sobre meus sentimentos.
- Acho que a e o chegaram... Só acho. - indagou, com sarcasmo, a voz meio abafada por estar com a cabeça encostada em meu peito, segurando o riso.
e tinham começado a sair quase que na mesma época que e eu. Eles se conheceram no dia em que o McFLY tinha participado da tarde de autógrafos na loja que as duas – e – trabalhavam, e uma semana depois já estavam combinando o primeiro encontro.
- Também acho. Eles estão quebrando alguma coisa lá? - Perguntei referindo-me ao quarto ao lado, franzindo as sobrancelhas, também segurando o riso.
- Parece que sim. - disse, soltando uma risadinha abafada, o que me induziu a fazer o mesmo.
- Como vocês dois fazem barulho, hein, ! - Gritei, rindo baixinho, enquanto se controlava para não rir alto. Ouviu-se o som de vozes abafadas: uma feminina e outra, masculina; não dava para se entender sobre o que conversavam. Então no apartamento reinou o silêncio, que logo se quebrou com a risada alta de , acompanhada da minha. A porta do quarto se abriu, e uma com as roupas amarrotadas, cabelos desarrumados e batom borrado, acompanhada de um sem blusa, cabelos desgrenhados e marcas de batom pelo rosto e pescoço surgiram na entrada do quarto. Isto foi o suficiente para fazer com que e eu tivéssemos um ataque de risos histéricos.
- Meu Deus! Esse apartamento virou um motel! - indagou, secando as lágrimas que caíram de seus olhos, de tanto que ela estava rindo.
- Cala a boca, ! - disse, emburrada, puxando pela mão, fechando a porta com força. Continuamos a rir.
- Você viu a cara que a fez? E a cor do rosto dela? Supervermelho! - Proferiu, levantando-se da cama, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo baixo.
- Foi a cena mais engraçada que eu já vi na vida. - Eu disse, rindo, passando a mão por meus cabelos para ajeitá-los.
- Você não viu metade das coisas que a já fez. Acredite, ela paga cada mico inacreditável... - indagou, soltando uma risadinha, balançando a cabeça em sinal de negação. Então um breve silêncio tomou conta do quarto.
- Hey, hoje você vai comigo na festa de aniversário do , não é? - Falei, sentando-me na cama, observando-a enquanto ela se olhava no espelho da porta do guarda-roupa. Vestia sua blusa preferida, e suas pernas estavam à mostra.
- Ora bolas, claro que sim! Você realmente acha que eu iria perder a festa do ? - Ela falou, virando-se para mim, pondo as mãos na cintura.
- Não. Eu só estava mesmo confirmando o que eu já sabia. - Eu disse, num tom quase que de superioridade, tentando parecer sexy.
- Haha... Seu bobinho. - Ela falou, se aproximando de mim, ficando de joelhos no colchão da cama bem na minha frente, agarrando meu rosto com as duas mãos. Então deu-me um selinho demorado e em seguida parou para me olhar diretamente nos olhos, com um sorriso sem mostrar a arcada dentária em seus lábios rosados. Envolvi meus braços em sua cintura e deitei com ela na cama, encaixando minhas pernas em seus quadris, sentindo meu coração quase explodir de tão forte que estava batendo, o que sempre ocorria quando ficávamos demasiado próximos. Então encostei meu rosto no dela e nós ficamos de narizes e testas grudadas. "Vai, diz eu te amo para ela, seu idiota!" eram as palavras que rondavam repetidamente em minha mente. Eu fazia força para falar, mas nada saía de minha boca. Respirei fundo, admirando cada traço daquele rosto que eu tanto gostava de olhar por horas seguidas enquanto ela dormia tranquilamente.
Palavras além daquelas três conhecidas vinham à minha cabeça.
- I don't ever want to spend another day without you, without you… - Cantarolei, acariciando sua face. Vi o rosto dela tomar a cor vermelha; seus olhos puseram-se a brilhar feito diamantes. Um sorriso doce brincou em seus lábios. Meu coração bateu mais forte, se é que era possível ele bater mais forte. Aquele sorriso. Aqueles olhos. Eu não conseguiria mais viver sem eles. A letra da música dizia exatamente o que eu sentia.
- Ai, ... - Sussurrou, fechando os olhos, mordendo a parte inferior da boca.
- Sim. - Murmurinhei, olhando mais intensamente para ela.
- Você é o cara mais incrível que eu já conheci em toda a minha vida. - Falou, baixinho, sorrindo fraco. Retribuí o seu sorriso e descansei meu corpo sobre o dela, soltando e acarinhando seus belos cabelos. Ela passou seus braços por meu pescoço e eu a apertei mais ainda em meus braços, encostando meu queixo em seu ombro direito, sentindo seu perfume invadir minhas narinas com mais intensidade. Fechei meus olhos, sentindo tomar a minha alma aquela sensação inexplicável que eu só sentia quando estava com .
- Eu te amo. - Silabei espontaneamente, baixinho, só para ela ouvir. Se eu não estava enganado, estava sentindo dois corações batendo aceleradamente descompassados: o meu e o dela.

A noite estava começando a se instalar pela bela e movimentada Londres. Eu via o céu mudar gradualmente do azul claro típico do dia para o azul escuro noturno, formando um degradê no céu juntamente com algumas nuvens finíssimas em locais aleatórios do tapete azul que se encontrava em cima de minha cabeça; as cores iam ficando mais escuras a partir do momento em que o sol se afastava mais e as estrelas começavam a aparecer, intensificando aquela noite sem lua.
A hora da festa do se aproximava. , , e eu resolvemos ir juntos para a casa do , já que nós estávamos no mesmo lugar. Iríamos ao carro do , já que o meu não funcionava de jeito nenhum e eu não imaginava por quê. Talvez estivesse sem gasolina ou algo do tipo.
estava incrivelmente linda dentro do vestido balonê tomara que caia rosa claro que tinha posto sobre o corpo. Rosa definitivamente não tinha muito a ver com a personalidade dela, mas a cor lhe caía muito bem. Usava um sapato preto de salto alto. Seus cabelos estavam livres de amarras, um pouco maiores desde que ela cortara; já estavam quase à altura dos ombros. Fiquei parado ali, a admirando por vários minutos enquanto ela se olhava no espelho do lado de fora da porta do guarda-roupa, imaginando se algum dia eu encontraria alguém como ela na face da Terra.
- O que é, ? - Ela perguntou, intrigada, olhando-me pelo reflexo do espelho enquanto passava gloss nos lábios; eu estava sentado na cama. Foi aí que eu voltei meus pensamentos ao mundo real.
- Não... Nada não. - Falei, encolhendo os ombros, levantando-me do lugar e caminhando até ela. Abracei-a por trás, beijando sua bochecha. Encostei meu queixo no ombro dela e fiquei olhando para seu rosto através do espelho.
- , agora não, eu estou me maquiando! Vai borrar tudinho... - Ela disse, olhando-me com censura, mas sem fazer nada para se soltar de mim.
- Eu já disse. Você é linda naturalmente. Não precisa usar maquiagem. - Eu disse, lentamente fazendo círculos com o meu nariz pelo pescoço dela, os olhos fechados, sentindo mais do que nunca seu perfume doce chegando ao meu nariz.
- , por favor, agora não... - Sussurrou ela, meio ofegante, a voz ligeiramente trêmula, parando o que estava fazendo e virando-se para mim. Continuei a fungar seu pescoço, até chegar com meus lábios à sua boca sem que ela hesitasse. Com um pouco de força, a encostei no armário, passando minha mão em uma de suas coxas, levantando sua perna à altura do meu quadril.
- ... Agora... Não é uma boa hora... - Ofegou, enquanto eu me desvencilhara da boca dela e descia para o pescoço. Reclamava, mas não me afastava dela. Acho que até estava gostando.
Então um inconfundível barulho de telefone tocando irrompeu pelo quarto.
- Vá atender, é o seu celular... - Sussurrou ela, dando duas tapinhas de leve em minha face.
- Merda. - Eu murmurinhei, meio ofegante, parado de cabeça baixa na frente dela, tentando recuperar o fôlego. Daí, eu caminhei para perto da escrivaninha no quarto, onde escrevia seus futuros livros até tarde da noite – também onde meu celular se encontrava, ainda tocando nervosamente, informando no visor que me ligava. Atendi e tivemos uma breve conversa em que ele me perguntou onde estava e se já estávamos aprontados para nos encaminharmos do apartamento de e para a casa de , porque ele já estava na casa de nosso amigo aniversariante e precisava de nossa ajuda para carregar os nossos instrumentos para o quintal da casa. voltou a se olhar no espelho para retocar a maquiagem.
- , você já está se arrumando? Se você não for logo, a gente vai se atrasar! A e o já estão arrumados e estão nos esperando! - Ela disse, pondo as mãos na cintura, olhando-me com um olhar severo, que me lembrou terrivelmente a minha mãe. Soltei uma risadinha.
- Já estou indo! - Falei, me contendo para não rir alto.
- Acho muito bom. - Ela disse, num tom autoritário, o que me fez explodir em risos. - Anda logo, !
- Tá bom! Ah... - Aproximei-me dela. - Quer terminar a nossa... Hm... Breve conversinha... Mais tarde? - Eu disse, chegando perigosamente perto de seu rosto, sorrindo maliciosamente.
- Adoraria. - Ela mordeu o lábio inferior e lascou-me um selinho. Sorri, beijando-a mais uma vez e, triunfante, saí do quarto com mudas de roupas limpas que eu havia deixado no apartamento, indo para o banheiro, que estava desocupado. Rapidamente me lavei, e quando terminei de me vestir, logo saímos de casa, nos dirigindo ao local, ao volante. e conversavam animadamente no banco de trás do carro. De vez em quando, os comentários delas arrancavam gargalhadas de mim, e risos contidos de , que se concentrava em guiar o carro.
Não demorando muito, chegamos à casa de . Alguns carros estavam parados no gramado da entrada, e um pequeno murmúrio chegava aos nossos ouvidos. estacionou o carro na casa dele – que ficava a poucos metros dali – e assim nós caminhamos de volta à casa de . Toquei a campainha, e a mãe dele nos atendeu.
- Olá, meus queridos! Os rapazes estão lá no quintal... - Ela disse, simpática como sempre, com um enorme sorriso estampado no rosto, abrindo passagem para entrarmos na casa. e eu cumprimentamos nossos conhecidos e nos direcionamos ao quintal. e tinham ficado conversando com a namorada de e a namorada de , que estavam ajudando a mãe do na cozinha.
- Demoramos? - disse, enquanto nós nos aproximávamos dos dois, que estavam sentados num banco que era protegido por uma pequena varanda que ficava do lado de trás da casa.
- Nem um pouco. - disse, em tom de ironia.
- A culpa não foi minha. - indagou, com ar de riso, olhando para mim.
- Hey! Eu não tenho nada a ver com isso! - Eu disse, também em tom de riso. me olhou com os olhos entrecerrados. - Tá, foi culpa minha. - Admiti, revirando os olhos, encolhendo os ombros. Todos nós caímos na risada.
- Cara, eu tenho que te falar uma coisa. - disse, com a voz tensa, se aproximando de mim depois de passar por um monte de gente que estava desejando feliz aniversário a ele.
- Pode falar.
- Eu... Bom. Eu convidei a Mariana. Ela vai estar aqui daqui a pouquinho.
Senti meu coração parar de bater por um breve momento. Engoli a seco.
- Não tem problema, né? - Ele disse, fazendo careta, coçando a nuca.
- Não... Você convida quem quiser. A festa é sua, correto? - Falei, tentando parecer casual, dando uma tapinha no ombro dele.
- Claro. Então, eu já volto. - Ele disse, e saiu andando para atender os convidados recém-chegados.
Na verdade, a aparição de Mariana na festa seria um grande problema para mim. Principalmente porque estava comigo. Eu poderia mentir, mas sabia que se fizesse isso, um desastre maior aconteceria. E o que eu menos queria era estragar a festa de meu amigo.
Depois da minha breve conversa com , senti-me apreensivo pelo resto da festa, olhando para os lados, procurando algum sinal de Mariana. percebeu que tinha algo de errado comigo, mas mesmo assim não perguntou nada.
O tempo passou, e nada dela aparecer. No fim da festa, nós tocamos algumas músicas. Nenhum sinal da presença de Mariana. Se ela estivesse ali, estava muito bem misturada à multidão. Entre as pessoas que estavam na festa, vi o rosto de bem ali na frente, sorrindo para mim. Retribuí o sorriso e logo que terminamos de tocar as músicas a casa já estava bem vazia, pois já estava bem tarde; fui ao encontro dela, e a agarrei pela cintura, beijando sua testa.
- Você vai voltar lá para o apartamento? - Ela disse, no meu ouvido, olhando para mim em seguida.
- Vou sim. Mas antes eu vou ter que passar lá em casa para pegar umas roupas limpas pra deixar no apartamento, ok? - Falei, beijando o topo de sua cabeça, sorrindo em seguida.
- Ok. Olha, eu acho melhor você voltar dirigindo, acho que o bebeu um pouquinho demais para dirigir. - Concordei com a sua fala e a beijei nos lábios, dizendo que já voltaria. Saí daquela casa e caminhei uns poucos metros até a minha. Entrei nela e fui diretamente ao quarto, onde acendi a luz. Quando olhei em volta ao quarto, senti meu coração parar com o grande susto que tomei. Mariana se encontrava sentada na cama, ereta, encarando-me com um olhar penetrante.
- Ma-Mariana?! - Eu disse, arfante, levando a mão ao peito. - O que você... Estava fazendo no escuro?
- Esperando por você. - Ela disse, num tom frio, levantando-se e indo até minha direção. - Quero falar uma coisa para você. - Continuou, depois de um tempo, ainda naquele tom tão frio que chegava a ser cortante como o vento de inverno.
- Você estava na festa do ? Eu não vi você lá. - Indaguei, andando até o armário, abrindo-o e pegando umas peças de roupas limpas e uma pequena bolsa, colocando as roupas dentro dela.
- Não fiquei lá por muito tempo. Porque eu vi uma coisa que... - Interrompeu-se, respirando pesadamente. - Você está saindo com a , estou certa? - Ela disse, quebrando um pouco a frieza de sua voz, suavizando-a de um jeito que me fez engolir a seco. Permaneci calado, como se a minha voz tivesse ido embora de minha garganta. - É, estou certa. Olha, , eu só quero que você saiba de uma coisa antes de voltar correndo para os braços imundos daquela vadia.
- Pode dizer. - Eu disse, virando-me para ela, fitando-a num misto de apreensão e raiva, ignorando – ou tentando ignorar – o fato dela ter se referido de uma forma tão ruim à .
- Eu estou esperando um filho seu. - E com esta fala, saiu do quarto de braços cruzados, deixando-me boquiaberto, a respiração falha, sem mover um único músculo.
Será que eu tinha ouvido direito? Mariana estava... Grávida? De um filho meu? Eu não conseguia acreditar no que acabara de ser informado.

***


Capítulo Dezenove – Pesadelos


's Point Of View: On.

- , você esteve vendo coisas! Eu não estava dando em cima da ! - Bruno indagou ferozmente, sem tirar os olhos da estrada.
- Bruno, eu não estive vendo coisas, eu vi muito bem, e, aliás, por pouco presenciei o que você fez. E a confirmou! Eu não estou louca! Você tentou agarrá-la à força! - Gritei, num tom de voz agressivo, encarando Bruno com toda a raiva do mundo. Bruno falou alguma coisa para que a discussão se encerrasse porque ele estava dirigindo e um silêncio pesado e tenso se instalou entre nós. Meus nervos estavam à flor da pele. Eu podia sentir meu sangue pulsando violentamente, e meu coração praticamente amassando minhas costelas. Eu mal conseguia respirar direito de tão encolerizada.
De repente, Bruno freou o carro, e este derrapou para o lado antes de parar. Dois veículos pretos estavam parados à nossa frente. Como Bruno e eu passamos metade do percurso discutindo, eu não havia percebido que ele tinha nos levado a um caminho diferente, e que nos encontrávamos num beco sem saída. Tentei abrir a porta para sair do carro, mas esta estava trancada e eu não conseguia de jeito nenhum destrancar. Senti o desespero tomar conta de mim, e o meu coração continuando a bater demasiado forte.
- Bruno, abre esse carro! Eu quero sair! Mas que p...? - Antes que eu pudesse terminar a fala, ele abafou meu nariz com um pano encharcado de um líquido de cheiro tão forte que chegava a fazer minhas narinas arderem. Tentei me livrar, mas não consegui, a força de Bruno era relativamente maior que a minha, e por mais que eu me debatesse, não conseguia me soltar dele. Meus pedidos para que ele parasse não foram ouvidos. Logo, senti meus músculos moles e minhas pálpebras se fecharem involuntariamente.


Num sobressalto, eu acordei, com o coração batendo violentamente descompassado. Olhei em volta, segura de que o que eu acabara de reviver era apenas mais um sonho, que eu tinha sonhado com aquele dia aterrorizante de novo. Eu tinha aquele mesmo pesadelo – que tinha de fato acontecido – diversas vezes; queria muito me ver livre daquelas imagens que tanto me atormentavam.
O relógio digital que brilhava com uma luz verde e fraca na escuridão dizia que eram três da manhã no momento. Ao meu lado, a cama se encontrava vazia, pois não estava lá. Estranhando um pouco, levantei da cama, pus meu robe de seda azul claro, calcei meus chinelos e caminhei para fora do quarto, fazendo o mínimo de barulho. Na cozinha, não havia ninguém. Bati à porta do banheiro, mas ninguém respondeu. Então eu fui para a sala, que estava com a luz acesa fracamente. Lá, encontrei sentado no sofá de pernas cruzadas; com as pontas dos dedos juntas e as mãos próximas ao rosto, ele contemplava o céu pela janela aberta, com o olhar perdido nas estrelas.
- ... Você está acordado... - Eu disse, num tom baixo, me aproximando dele com os braços cruzados. Como se tivesse saindo de uma profunda meditação, ele se sobressaltou e olhou para mim. Sentei-me ao lado dele e me pus a encará-lo atentamente.
- ... - Ele falou, beijando minha testa, alisando meus cabelos. Logo, seus braços me envolveram num abraço apertado, repleto de carinho. - Perdeu o sono?
- Aham, eu tive um pesadelo. Está acordado aqui há muito tempo?
- Hm... Mais ou menos. - Ele disse, num tom de voz estranho, voltando seu olhar para o céu escuro da madrugada.
- Por que você não volta para a cama comigo? - Aquiesci, sorrindo, fitando diretamente seus olhos que se voltaram para mim novamente. - Você não está com sono?
- Não muito. Mas eu volto para lá com você. - Ele disse, beijando meus lábios. Concordei com a cabeça, sorrindo sem mostrar os dentes. Então nós nos levantamos e voltamos ao quarto, nos preocupando em fazer pouco barulho para não acordamos e , que estavam dormindo. Ele se deitou e eu em seguida, me abraçando a ele e encostando minha cabeça em seu peitoral despido. então se pôs a mexer em meus cabelos.
- Você teve aquele sonho de novo? - perguntou.
- Erm, sim. - Respondi, respirando fundo em seguida.
- Você não quer mesmo conversar sobre isso comigo? - Ele falou docemente, beijando o topo da minha cabeça.
- Não é que eu não queira... Apenas não consigo. - Falei, mordendo meu lábio inferior, prendendo a respiração. Ele ficou muito quieto e não me respondeu. Então eu me sentei na cama e tentei encarar seus olhos mesmo na escuridão. Percebi que eles cintilavam; seu rosto estava iluminado pela luz do relógio, mesmo que apenas um pouco.
- , não é que eu não confie em você, eu confio. Mas você precisa me entender. As coisas que eu passei me atormentam até hoje, e eu não consigo simplesmente sair falando...
- Tudo bem, . - Ele disse, num tom tranquilo. Pude ver que sorria, apesar do quarto estar envolto em trevas. - Mas quando você sentir que consegue falar sem se incomodar, eu estarei aqui para ouvir. - Indagou, acariciando meu rosto. - O que eu mais quero é tentar fazer com que essa ferida que foi feita em seu coração seja cicatrizada... - Sussurrou, continuando a passar sua mão em meu rosto.
- Você me ajuda a cicatrizar as feridas do meu coração todos os dias, mesmo que não perceba. - Eu disse, abaixando o olhar, sentindo meu rosto esquentar. Ouvi a cama ranger levemente e logo me vi envolta nos braços aconchegantes de . Inspirei a fragrância de seu perfume viciante, que me atraía a ficar sempre mais perto dele.
Com o coração pesando menos, tornei a deitar no peitoral dele, que beijou o topo da minha cabeça e voltou a mexer em meus cabelos. Era engraçado pensar no quanto eu me sentia protegida das aflições externas quando estava próxima a . Poderia até ser infantil, mas eu não conseguia negar que sim, eu me sentia segura quando estava com ele. Também sentia como se no meu interior uma tempestade fosse acalmada todas as vezes que olhava nos olhos. Uma das melhores coisas havia acontecido: eu tinha encontrado o meu ponto de paz, e este se chamava .
Embalada pelas carícias, o calor do corpo de e seu perfume, logo fui vencida pelo sono e voltei a dormir em poucos minutos.

No dia seguinte, quando eu abri meus olhos, eu ainda estava abraçada a . Tornei a sentir seu perfume invadir minhas narinas. Eu sentia sua respiração fazer a sua caixa torácica ir para cima e para baixo num ritmo compassado. Sorri sem mostrar os dentes ao perceber isto, e rocei carinhosamente a minha cabeça em sua pele, beijando-a de leve.
- ... - Chamei, com a voz ainda rouca, levantando a cabeça para olhar para ele. Vi que já estava acordado.
- Ah, você acordou... - Ele falou, sorrindo sem mostrar os dentes. - Bom dia. - Aquiesceu serenamente, mexendo em meus cabelos para ajeitá-los.
- Bom dia, meu lindo. - Eu disse, beijando-lhe a bochecha. - Está acordado há muito tempo?
- Não, eu acordei faz pouco. Só não levantei para não te acordar. Você fica linda dormindo, parece até um anjinho. Eu até te prefiro dormindo... - Ele disse, com ar zombeteiro, deixando com que um sorriso presunçoso lhe viesse à boca.
- Como assim você me prefere dormindo? - Eu disse, em tom de brincadeira, erguendo as sobrancelhas.
- Eu prefiro mesmo. Pelo menos dormindo você não fala. - Indagou, aumentando o sorriso presunçoso nos lábios, se segurando para não rir.
- ! Cala a boca! - Falei, rindo-me, dando uma tapa no ombro dele. - Até parece que eu sou a Emília!
- E quem é essa?
- É uma boneca falante de pano de uma história infantil muito famosa lá no Brasil. Mostro pra você mais tarde.
- Então ok, minha Emília de carne e osso... - Ele começou a rir e a fazer cócegas em mim; eu ria escandalosamente e pedia para ele parar. Continuei a rir quando ele parou. Não tinha maneira melhor de despertar se não rindo e brincado, e com ele eu sabia que era sempre assim. Nesse aspecto, ele até me lembrava meu irmão Ed, que já acordava fazendo piada.
- Na verdade, , você fala dormindo! Está vendo? Até dormindo você fala! Não consegue parar de falar um só minuto... - Ele disse, entre um riso; eu joguei nele uma almofada que estava próxima a mim. Ele jogou de volta, e isso foi uma alavanca para se iniciar uma guerra de travesseiros.
- Hey, para, ! - disse, entre um riso, enquanto ele me acertava com o travesseiro.
- Você quem começou! - Indaguei, jogando outra almofada nele, também rindo. Quando todos os travesseiros e almofadas estavam no chão, nós caímos no riso.
- Eu falo dormindo, é? E o que eu falo? - Eu disse, em tom de desafio, cruzando os braços.
- Amn... Você fala que me ama... - Ele disse, com ar pensativo, alisando o próprio queixo com a mão enquanto mirava os olhos para o alto.
- Convencido! - Indaguei, dando língua.
- É sério, ! - Ele confirmou, rindo-se. - E você fala também coisas do tipo "não, Bruno, não...". Quem é Bruno? - proferiu, ficando sério de repente, fitando-me com seus olhos penetrantes.
Senti meu estômago dar solavancos e o meu pulso disparar de repente. Era como se a minha voz tivesse sumido de minha garganta. Eu falava durante o sono. E o pior: chamava pelo crápula do meu ex-namorado, que tinha me feito tão mal e tinha me enganado.
- , você está bem? Você está pálida! , me responde... - dizia, preocupado, sentando na minha frente na cama, mas eu escutava sua voz muito longe, porque meu ouvido zunia e parecia que eu desmaiaria a qualquer momento; encarava-me com a testa estriada.
- , eu... Eu definitivamente preciso te contar o que me trouxe a Londres. Você tem o direito de saber. - Eu finalmente disse, olhando para ele e abaixando o olhar em seguida.
- Eu sou todo ouvidos. - Depois de me abraçar, ele disse carinhosamente. Senti lágrimas em meus olhos, mas segurei-as até que secassem. Então ouviu-se o barulho de campainha tocando irromper pelo apartamento, chegando abafado aos nossos ouvidos porque a porta do quarto estava fechada. Então me desvencilhei dos braços de e o encarei com as sobrancelhas franzidas. A campainha continuava a ser tocada.
- Está esperando alguém ou alguma coisa? - perguntou.
- Não que eu me lembre.
- Então eu acho melhor você ir atender e ver o que é... A e o não estão em casa. Vieram aqui para avisar que sairiam. - Ele disse, sorrindo de forma doce, beijando minha bochecha. Franzindo a testa, eu levantei da cama, pus o meu robe de seda e caminhei até a porta de entrada do lar, passando pelo corredor que era iluminado pelos raios do sol de meio-dia que saíam da janela do fim do corredor. tinha saído do quarto em seguida; ele se encontrava encostado na entrada do corredor do apartamento quando cheguei à porta, e estava de braços cruzados e a cabeça encostada no batente. Olhei-o de esguelha e depois abri a porta. Tive uma surpresa depois que a entrada foi aberta. Do lado de fora, encontrava-se Mariana. Ela esperava impacientemente para que abrissem a porta. Estava de braços cruzados e o rosto muito sério.
- Oi. - Ela cumprimentou, friamente, olhando para mim de cima a baixo. Então entrou no meu lar provisório. Pude ver a surpresa estampada no rosto de quando viu Mari irromper pela sala. Ela sorriu de um modo tão assustador que fez meus pelos se arrepiarem. - Então vocês estão juntos mesmo. Mas isso é realmente interessante! - Ela disse ironicamente, pondo as mãos na cintura, olhando para mim e depois para o . Seus olhos brilhavam de malícia.
- Mari, por favor, não começa com insultos...
- E então, , você contou a ela que eu estou grávida de um filho seu? - Interrompendo , Mariana indagou, num tom jovial, como se ficar grávida fosse uma coisa que acontece todos os dias. Depois se sentou num dos sofás.
- O quê? - Gritei, arregalando os olhos, olhando de Mariana para . Ele tinha ficado tão branco quanto as paredes da sala. - , o que...?
- Isso mesmo, priminha. Eu estou esperando um filho do , que, aliás, era meu noivo antes de você aparecer. - Mariana disse, soltando um suspiro de falso contentamento, encarando o nada. - Bom, eu só vim aqui para constatar se você já sabia dessa, hm, notícia, . Já estou indo. Se cuida. - Ela continuou, crispando os lábios num sorriso, pondo-se a caminhar para fora do lugar. - Ah, ... Eu te ligo quando marcar alguma ultrassonografia ou consulta no obstetra. Toma, , a prova de que eu estou grávida mesmo, caso tenha duvidado. - Ela falou, entregando a mim um envelope com o nome de um laboratório. Eu o abri e li: ela de fato estava grávida. Depois, ela deixou o apartamento, instalando um silêncio pesado entre mim e . Então ele olhou para mim, como se estivesse suplicando desculpas.
- Desde quando você sabe disso, ? - Eu disse com a voz embargada, quebrando o silêncio, me aproximando e olhando diretamente nos olhos.
- ...
- , desde quando? - Eu disse, cruzando os braços, batendo o pé no chão com força. Ele então respirou profundamente.
- Desde a festa do Tom. Quando eu passei lá em casa, ela estava lá. E me disse que estava...
- A festa do Tom foi há uma semana e você não me contou isso, ! Por quê? - Perguntei, aumentando o tom de voz, sentindo lágrimas manchando meu rosto.
- Eu não queria te preocupar, queria te proteger!
- Tá, , está bem, finjo que acredito! - Indaguei, andando corredor adentro com passos fortes.
- Como você acha que eu me sinto quando eu peço e você não me conta o que de tão terrível aconteceu com você e você me diz que não me conta porque não quer me preocupar? - De repente ele disse, o que me fez virar para ele quando eu já estava entrando no quarto. Então ele se virou para mim. Seus olhos estavam lacrimejando. Fiquei um tempo olhando para ele, escolhendo as palavras que iria dizer.
- Eu tenho a plena certeza de que você se preocuparia menos se não soubesse nunca que eu fui enganada e sequestrada por um cara que eu confiei e pensei que era uma coisa, quando era outra. Eu pensava que ele era legal, mas não passava de um bandido dissimulado que me usou para conseguir dinheiro. Você não sabe o que eu passei nas mãos dele e dos comparsas dele quando estive em cativeiro. Eu preferiria morrer a ter as lembranças horríveis que eu tenho de tudo o que eu passei. - Eu disse, entre lágrimas grossas e pesadas, a voz falhando ligeiramente, abaixando a cabeça. - , e-eu fui estuprada! Tratada como um objeto, forçada a fazer coisas que você nem imagina, porque se eu não fizesse, morreria! Eles me mantiveram amarrada e sem a mínima possibilidade de fugir até que meu pai pagasse o resgate, e se ele não pagasse, eles também me matariam ou me venderiam pra ser escrava em outro país. Como você acha que eu me sinto por isso? Você não sabe como eu me sinto! Não sabe! - Olhei para ele, e vi que ele me encarava boquiaberto, com ar surpreso e ao mesmo tempo aterrorizado. Ao seu lado, e – que chegaram e eu não havia percebido antes – me encaravam do mesmo jeito. Então eu entrei no quarto e bati a porta ao entrar. Deixei-me jogar de barriga para baixo na cama. Chorava feito criança, sem controlar o volume dos meus soluços. Sentia-me como um castelo de areia frágil que desmoronara por conta de uma ventania.
Depois de uns poucos minutos – que para mim pareciam horas intermináveis – ouvi barulho da porta do quarto batendo, mas ignorei. Alguém se sentou na cama. Rapidamente olhei e vi que era . Ela me abraçou e eu deitei em seu colo, chorando mais do que nunca, enquanto ela me consolava sussurrado palavras otimistas.
- Tudo vai ficar bem, , você vai superar isto.
Mas eu sabia que nada ficaria bem, e que nunca superaria a dor daquele trauma, que pulsava dentro de mim todos os dias.

***


Capítulo Vinte – Beco Sem Saída


's Point Of View: On.

Eu senti um vazio enorme no peito enquanto ouvia os soluços altos e abafados de vindos do quarto. Respirei profundamente imaginando como ela estava se sentindo. Queria muito acolhê-la em meus braços, mas naquele momento, talvez ela não quisesse me ver nem pintado a ouro.
Eu não sabia como reagir ao que eu tinha acabado de ouvir de . Queria entender como ela conseguira guardar aquelas coisas tão ruins só para ela por tanto tempo; imaginava a pressão que ela se sentia para dizer para ela mesma que estava todos os dias bem quando não estava. E eu sempre disse que a ajudaria em qualquer coisa que a tivesse incomodando. Será que não confiava em mim? Ou simplesmente não acreditava que eu faria de tudo por ela? Eu estava realmente confuso...

e eu estávamos sentados no sofá da sala há um bom tempo; minutos tão longos que pareciam horas. Depois que os soluços de cessaram, um silêncio mortal pôs-se a rondar o ambiente. Eu não sabia o que dizer, e também não conseguia falar. Parecia que a minha garganta tinha se secado totalmente e, se eu tentasse falar, ela se arranharia como se houvesse um emaranhado de arame farpado no lugar das cordas vocais.
se encontrava ao meu lado, batucando os pés no chão, da mesma forma tensa que eu (parecia que nós estávamos aguardando o nascimento de alguma criança). Então surgiu na sala, o que chamou a nossa atenção para fitar nossos olhos nela, que estava com um ar tristonho. Caminhou desajeitada até o outro sofá e se esparramou nele, soltando ar pela boca. levantou-se e se sentou ao lado de , passando o braço dele pelos ombros dela.
- E então, , como a está? - Eu disse, com a voz rouca, sem desgrudar meus olhos dela.
- Ela está dormindo. Eu dei um calmante a ela, não estava conseguindo se acalmar. - falou, respirando fundo em seguida, massageando as têmporas com as mãos. - Tem sido muito difícil para ela ficar bem depois do que aconteceu, e é muito difícil para mim, ver a minha melhor amiga nesse estado. - Continuou, com a voz embargada, fungando com o nariz.
- Então o que ela disse é verdade? - Eu disse.
- É sim, . A mais pura verdade. - Respondeu, soltando um suspiro em seguida. - Pensei que ela já tivesse contado a você.
- Ela ia... Hoje mais cedo, antes de tudo isso acontecer.
- Mas... O que exatamente aconteceu com a ? Você pode nos explicar? - disse, com a voz mansa, acarinhando os cabelos de .
- Sim, mas algumas coisas que aconteceram ela não me contou, então eu só vou contar até onde eu sei. O resto... Só ela pode esclarecer. - indagou, se ajeitando no sofá, pondo os cabelos atrás da orelha e encarando as mãos. Olhei mais atentamente para ela, que suspirou antes de começar. - Então. Há mais ou menos dois anos, a conheceu um cara muito, mas muito bonito; ele era fofo, legal, inteligente, gostava das mesmas coisas que a e tudo mais. O nome dele era Bruno. Eu estava até junto quando ela o conheceu. Os dois viraram amigos e começaram a se relacionar como namorados dois meses depois. Tudo estava indo muito bem entre eles até que um dia, o Bruno resolveu dar em cima de mim quando a gente estava em uma festa de uma conhecida nossa e a o viu me agarrando à força; eu nunca pensei que ele faria aquilo, sinceramente. Depois que isso aconteceu, eles tiveram uma discussão horrível, que chamou a atenção de metade da festa. Eles foram embora muito antes de todo mundo – ainda discutindo –, e sozinhos, no carro dele; desde então, a não apareceu em casa, não retornou as ligações dos pais e as minhas. Ficou desaparecida. Ninguém sabia para onde ela tinha ido, mas só sabíamos que ela fora vista pela última vez com o namorado e que eles tinham discutido. Só podiam estar um com o outro, já que o Bruno também não aparecia em casa há dias. Então resolvemos ligar para ele, já pensando numa tragédia. Foi aí que se descobriu que ele fazia parte de uma quadrilha de sequestradores, e que esta tinha sequestrado a e estavam pedindo uma recompensa de mais de dois milhões de reais. O sequestro foi notícia no país todo, porque o pai dela é técnico de futebol de um time famoso e tudo mais. Eu me lembro como se fosse hoje de quando eles colocaram a para falar com a gente quando ela estava em cativeiro. Ela estava muito aterrorizada, parecia chorar o tempo todo, porque a voz era muito trêmula e fraca. - fez uma pausa e ficou encarando o nada, os olhos inexpressivos. Respirou fundo e continuou. - Os pais dela ficaram arrasados quando souberam que o Bruno, namorado da filha que eles gostavam tanto, na verdade era um bandido que tinha planejado meticulosamente um plano para se aproximar dela e sequestrá-la. Mas concordaram em pagar a quantia. Claro que eles resolveram envolver a polícia e quando a quadrilha descobriu, informou que eles iriam fazer coisas com a , porque disseram desde o começo que não queriam polícia no meio, que era só entregar o dinheiro que ficava tudo certo. E fizeram coisas horríveis com ela. Eles a torturaram e abusaram dela, e como ela mesma disse, trataram-na como se ela fosse uma coisa qualquer, um objeto sexual. Só que... Ela nunca me disse o que fizeram com ela; também espero que ela nunca me diga, porque só o fato de ser estuprada é horripilante demais sem detalhes. No dia em que o dinheiro do pagamento foi levado para eles, também foi levado um rastreador escondido na maleta em que o dinheiro estava, e assim a polícia descobriu o cativeiro. Então os policiais esperaram um pouco e logo seguiram caminho até o lugar. Todos foram mortos pelos policiais numa troca de tiros, menos Bruno; ele tinha saído do casebre para fazer alguma coisa, mas quando voltou se deparou com uma tropa especial e foi preso. Eu cheguei a saber que ele era um dos chefe da quadrilha. Ainda estão investigando para saber quem foi o mandante do sequestro. Eles encontraram a muito fraca e machucada, ela passou um bom tempo em um hospital para se recuperar. Depois disso, ela resolveu vir para Londres para recomeçar a vida, e, como morar aqui era um sonho nosso muito antigo, eu vim logo depois, pra ficar junto dela e tudo mais. Resumidamente, foi isso o que ocorreu. - concluiu, abaixando os olhos.
- E esse tal Bruno? - Perguntei.
- Não se preocupe, ele continua trancafiado numa cadeia, e eu espero que fique para sempre por lá. - proferiu, a voz trêmula ligeiramente enraivecida. Levantei-me do sofá e me pus a andar de um lado para o outro da sala, os punhos tão fechados de cólera que eu sentia minhas unhas ferirem as palmas das minhas mãos. Senti vários sentimentos aflorarem em meu peito, mas o que predominava era a raiva. Como alguém conseguira fazer mal a uma pessoa tão amável como a ? Eu tinha vontade de quebrar a cara do tal de Bruno, da quadrilha já morta e do mandante ainda desconhecido.
Agora eu sabia o porquê do sono de ser quase sempre tão agitado, e também porque às vezes ela chamava pelo tal Bruno. E isso só fazia a minha cólera aumentar. Ela ficaria marcada a vida inteira por aquele episódio horripilante, e não havia nada que eu pudesse fazer para apagar aquilo da memória de . Ela não merecia ter passado por tantas provações.
- Por que ela nunca contou isso? - Murmurinhei, respirando pesadamente. - Por quê? Meu Deus...
- Bom... Talvez por medo de que você a deixasse. - falou, dando ombros, como se não tivesse uma resposta melhor para a minha pergunta. ficara calado desde que começara a contar os acontecimentos que giravam em torno de . Ele parecia realmente pensativo, mergulhando e nadando em suas próprias meditações.
- ... A Mari está grávida mesmo? - Ele disse de repente, quebrando o pesado silêncio que havia se estendido. arregalou os olhos, olhando de para mim. Senti meu estômago afundar como se eu tivesse engolido uma pedra muito pesada. Com toda aquela história, eu havia me esquecido de que Mariana tinha nos visitado e feito e eu discutirmos.
- Está. - Balbuciei, sentando no sofá vazio, encarando o nada. O silêncio tomou conta do lugar mais uma vez.
- Antes de chegarmos, nós a vimos sair do prédio e achamos estranho ela estar por aqui. - Daneil indagou, indiferente.
- Essa vadia sempre no caminho... Eu deveria imaginar. - sussurrou com raiva, tão baixo que eu mal pude ouvir.
- Que foi, ? - Eu disse, franzindo as sobrancelhas.
- Não... Nada. - Ela disse, corando levemente, parecendo constrangida.
Passado uns minutos, eu levantei do sofá e caminhei a passos largos até o quarto da , deixando e sozinhos, se entreolhando sem entenderem a minha atitude inesperada. Abri a porta do cômodo com muita cautela e pus minha cabeça dentro do aposento. Entre cobertas, se encontrava deitada de lado, o rosto ainda muito molhado de lágrimas, respirando profunda e ruidosamente. Passei o resto do meu corpo para dentro do quarto iluminado fracamente pelo sol e caminhei sem fazer barulho até a cama. Sentei-me e fiquei observando-a por um momento: dormia feito um bebê. Soltei um suspiro pesado enquanto acarinhava seus cabelos, que estavam esparramados para todas as direções no travesseiro. Depois de um tempo, eu fui me deitando até ficar face a face com ela. Beijei-lhe a bochecha, encostei minha testa na dela e fechei os olhos. Nossas mãos eu entrelacei, dando um beijo no dorso da dela e abaixando as duas em seguida.
- Eu não vou querer te abandonar jamais... Jamais, minha princesa... - Sussurrei, passando carinhosamente a mão pelo rosto gélido e molhado de . Então fechei os olhos mais uma vez. Sem que eu percebesse, acabei pegando no sono.
Nesse meio cochilo, eu tive um sonho estranho. Eu caminhava pelo o que parecia uma trilha de trem, daí eu entrava em um túnel. E depois de caminhar no que pareciam horas dentro desse túnel, eu escutava pedidos suplicantes de socorro vindos do lado de fora, na outra extremidade, a qual eu estava me direcionando; aquela voz era estranhamente conhecida... Eu corria para socorrer quem gritava, mas nunca conseguia enxergar a luz no fim do túnel e chegar à saída...
Então eu acordei num sobressalto, abrindo os olhos assustado; meu coração batia muito acelerado, e minha testa estava suada. Quando me reestabilizei, vi que estava com os olhos abertos olhando para mim.
- Que é que você estava fazendo deitado do meu lado? - Ela perguntou.
- Eu estava vigiando você dormir. Mas acabei pegando no sono e cochilei. - Eu disse calmamente, sorrindo ao final da minha fala; percebi que ela reprimia a vontade de sorrir de volta.
- Você não está... Chateado comigo? - Ela disse, com cautela e serena, prendendo o lábio inferior entre os dentes superiores.
- Nem um pouco. Eu compreendo perfeitamente como você se sente por eu não ter contado sobre a gravidez da Mariana. Desculpe-me, eu fui um idiota.
- Eu é que devo desculpas a você, meu lindo. - Ela disse, com a voz embargada, abraçando-me. - Desculpe-me por não ter te contado... Aquilo... Antes... - Continuou, já entre lágrimas que eu senti caindo sobre meu ombro.
- Não chora, pequena... Não precisa se preocupar com isso.
- Mas, ... Eu não fui cem por cento sincera com você...
- , olha. Você tinha suas razões para me esconder isso, e eu reconheço que elas eram de fato reais. Eu fiquei muito chocado e realmente preocupado com o que ouvi. A contou tudo o que aconteceu. Confesso que a minha vontade de te proteger triplicou. - Eu disse, passando a mão nos cabelos dela, que parecia perplexa.
- Você vai querer continuar comigo? - Ela falou, franzindo o cenho.
- Sim, claro que sim. - Eu disse, sorrindo em seguida. Ela secou os olhos com as mãos e fungou o nariz.
- Sente pena de mim? Vai continuar comigo por pena? - Ela falou, a voz voltando a embargar.
- Não! Que absurdo, . - Eu disse mansamente, soltando uma risadinha. - Eu não sinto pena de você e não vou continuar com você por isso. Eu vou prosseguir o que eu tenho com você porque... Porque eu te amo, . Eu amo você. - Continuei, muito sério, atento a cada traço do rosto de .
- Ah, ! - Ela exclamou com a voz muito aguda, voltando a me abraçar e a chorar. - Eu te amo! Você não sabe o quanto! - Ela falou, ainda abraçada a mim, molhando-me com suas lágrimas. No meu íntimo, eu tive um momento de choque e surpresa. Aquela era a primeira vez que ela dizia que me amava.
- Eu te amo, minha pequena. Não pretendo deixar você. - Sussurrei no ouvido dela. Ela me olhou nos olhos. Por entre as suas lágrimas, pude ver que ela sorria. Então ela aninhou sua cabeça em meu peitoral, e eu fiquei imergido no cheiro de seus cabelos.
~*~


Encontre-me hoje às quatro tarde naquela Starbucks perto da sua casa. Eu quero tratar de um assunto com você, mas tem que ser pessoalmente.
Mari


Ao olhar a mensagem que Mariana havia me mandado na manhã daquele dia, um milhão de coisas se passaram em minha mente. Sobre o que ela queria falar comigo? Eu estava começando a ficar apreensivo. Principalmente porque eu não sabia mais o que estava se passando pela mente dela. Estava agindo estranhamente desde que descobrira a verdade sobre e eu; eu tinha medo de que Mariana tramasse alguma besteira ou fizesse mal a alguém por conta disto, porque, sinceramente, eu estava começando a achar que ela era capaz de tudo.

Eu estava em minha casa, olhando pela janela do antigo quarto da os primeiros sinais de que o inverno se aproximava. O céu estava carregado de nuvens cinza-prateado, dando um tom muito neutro à cidade, que só o azul do céu quebrava. As pessoas que andavam pelas ruas estavam agasalhadas dos pés à cabeça, e o vento balançava suas roupas e cabelos. Logo, logo, o clima ameno e agradável do outono se tornaria a gélida monotonia do inverno.
Eram três e cinquenta da tarde. Ainda absorto em muitos pensamentos, eu respirei fundo e fechei as cortinas da janela, deixando aquele cômodo e andando em direção ao meu quarto.
Eu calcei minhas botas de cano curto, pus um sobretudo preto e um gorro, peguei minha carteira e meu celular e deixei o quarto, direcionando-me à saída da minha casa. Como o local do encontro com Mariana era bem próximo da minha residência, eu fui andando para lá, de cabeça baixa, para proteger meu rosto daquele vento cortante. O que me mantinha aquecido e protegido do frio, além das roupas, eram os muitos pensamentos rondavam minha cabeça naquela caminhada; os que predominavam eram os que se tratavam de . Sorri ao me lembrar do sorriso caloroso que era a marca registrada dela. A recordação do perfume dos seus cabelos me fazia estremecer, e a lembrança de seus beijos era doce como o mel. Era difícil para mim, ficar um dia sequer sem ela. Eu iria pedi-la em namoro quando tivesse uma oportunidade; era engraçado: nós vivíamos como um casal de namorados, mas não éramos um, ou pelo menos não oficialmente. Quase nunca discutíamos sobre isso, porém seria bom oficializar nosso relacionamento.
Quando cheguei à cafeteria, tirei meu gorro e o sobretudo, levei os olhos ao meu relógio de pulso e vi que eram quatro horas exatas. Em uma das mesas afastadas da janela, avistei por Mariana. Pontualidade era um dos seus pontos fortes. Ela sorriu e acenou a me ver parado na entrada. Então, com o coração ligeiramente descompassado, eu me aproximei dela.
- Oi. - Cumprimentei, sentando-me de frente para ela, pendurando meu agasalho nas costas da cadeira.
- Oi. - Ela respondeu, sorrindo mais uma vez. - Você chegou na hora, muito bem. - Indagou, mostrando o polegar em sinal de aprovação. Sorri forçadamente, sem mostrar meus dentes.
Então olhei em volta e reparei que o local estava quase vazio, o que era bom, pois evitaria assédios.
Uma garçonete que parecia muito nervosa veio anotar nossos pedidos e logo se foi.
- Então, sobre o que você quer falar comigo? - Indaguei, olhando atentamente para Mariana.
- Uma coisa de cada vez, . Paciência! Conversemos primeiro! - Ela disse sarcasticamente, fazendo um gesto largo com os braços. - Então, como você está?
- Bem. E você?
- Eu estou bem. E aí, como vão as coisas com a minha querida prima? Vocês ainda estão juntos? - Mariana indagou, olhando fixamente para mim, encostando os braços cruzados na mesa. Resolvi não responder àquela pergunta demasiado audaciosa.
- Você me chamou aqui para isso? Olha, Mariana, se você continuar, eu vou embora. - Falei, já sem paciência, desafiando o olhar dela.
- Uh! Então tudo bem, parei. - Ela falou, levantando os braços em sinal de rendimento. A mesma garçonete que tinha nos atendido voltou com os nossos pedidos, corando completamente quando sorri para ela em agradecimento. Então Mari e eu nos pomos a degustar nosso café da tarde.

- Então, ... Eu tenho uma proposta pra te fazer. - Mariana indagou observando-me atentamente, depois que nós tínhamos terminado de comer em silêncio.
- Que tipo de proposta? - Falei, mantendo a calma, olhando para ela da mesma forma que me olhava.
Ela limpou a voz antes de começar.
- Bem. Eu estava aqui pensando comigo mesma, analisando as coisas... Sabe, eu sei e admito que a e você se gostam. Mas, ainda assim, eu estou esperando um filho seu. E você trocou a mãe do seu futuro filho pela prima dela. Como será que reagiriam se soubessem disso? - Proferiu, crispando um sorriso malévolo nos lábios, enrolando uma mexa de cabelo nos dedos.
- Desculpe, mas o que você quis dizer com "como será que reagiriam se soubessem disso", Mariana? - Eu disse, ainda mantendo a calma, pelo menos externamente; dentro de mim, eu estava sentindo meu coração se acelerar a ponto de explodir e o meu estômago se contorcer demais.
- Você quer que eu seja ainda mais clara? Então tá, tudo bem. Com isso, eu quis dizer que seria horrível se a mídia soubesse que você, que sempre se demonstrou um bom menino, esteve dando uma de canalha e largou uma mulher grávida por outra e, que por um acaso, as duas são primas de sangue. Seria um escândalo se soubessem da historinha de vocês dois, imagina, a seria nomeada a vadia do ano! Iria ser um fato interessante, até. Mas...
- Mariana, você está...
- ...como eu sou muito, mas muito legal, eu te faço uma proposta. Você volta comigo, a gente casa, criamos juntos o nosso filho e eu fico de bico calado, tudo fica bem. Caso contrário... Todos ficarão sabendo da sua história de amor meio, hm, inusitada. A escolha é toda sua.
Quando ela terminou de falar, sorriu de forma doce e inocente, como se não tivesse dito nada de mais. Eu a encarei incredulamente, boquiaberto. Como ela teve a coragem de me propor uma coisa daquele escalão? Aquela que estava à minha frente não era a Mariana que eu tinha conhecido há dois anos. Eu já não conseguia reconhecê-la.
- Pensa, . Se isso se espalhar, vai ser muito ruim para a imagem da banda e para a imagem da . Ela não vai conseguir começar a vender os tais livros dela se for conhecida no mundo inteiro como ladra de namorados. - Mariana falou, sorrindo em seguida. Eu não encontrava palavras para descrever a coisa horrível que eu tinha acabado de ouvir.
- Você está completamente louca. Eu vou embora, Mariana. - Eu disse, sério. Então eu me levantei da cadeira em que estive sentado, pegando o sobretudo que estava pendurado, colocando-o em meu corpo.
- Louca? Não, eu não estou, obrigada. Então... Depois você me liga para dizer qual é a sua decisão. Pensa bem, meu amor. - Mariana indagou, piscando um olho. - Até mais. - Ela sussurrou, jogando-me um beijo. Balancei a cabeça em sinal de negação e caminhei para longe da mesa. Paguei o que tinha comido e fui embora para minha casa.
Mariana só podia estar fora de si. Como ela teve a coragem de propor a mim uma coisa tão absurda? Eu não conseguia entender como alguém usa o filho como arma engatilhada, que a qualquer momento pode ser usada se não se obedece às exigências feitas.
Porém, por um lado, Mariana tinha razão. Se soubessem tudo sobre mim e , a imagem dela seria degradada e a grande maioria das pessoas a odiariam. Aquilo não seria justo com ela; ela não era uma qualquer, muito menos uma ladra de namorados, então não merecia ser conhecida com a reputação de uma. Mas... Será que valeria a pena aceitar a proposta de Mariana para proteger ? Eu não sabia o que pensar sobre isto. Eu estava muito confuso, e não via uma luz no fim do túnel. A única coisa que eu sabia era que eu não media esforços para proteger a . Mas a amava muito para querer ficar distante dela.

***


Capítulo Vinte e Um – O Fim


"Em algumas ocasiões, os nossos medos podem se resumir em uma palavra: fim. Fim de uma amizade, de um amor, de coisas realmente importantes para nós... Às vezes, ele chega tão de repente quanto uma tempestade de verão, varrendo todos os sentimentos bons da alma, deixando-nos num estado de devastação que pode ser extremamente difícil de reconstruir. As feridas ocasionadas por algo que não se esperava acabar podem ser permanentes, e podem assombrar o coração pelo resto da vida". – Joyce S.

's Point Of View: On.

- , o vai me pegar depois do expediente, hoje a gente vai dar um passeio, mas ele não me disse aonde vamos. Está cheio de mistérios. - sorriu ansiosa. - Você quer uma carona até o prédio? Eu vou passar lá pra me trocar. - , minha melhor amiga, disse, enquanto nós nos acomodávamos para começarmos o nosso almoço num restaurante modesto que ficava próximo ao nosso local de trabalho.
- Pode ser, assim eu economizo dinheiro da passagem de ônibus... - Falei, piscando o olho, o que fez rir. Um garçom foi ao nosso encontro e anotou nossos pedidos. Conversávamos animadamente quando nossos pratos de comida chegaram, e o atendente posicionou-os de acordo com que tínhamos pedido. Eu comeria strogonoff de frango e comeria espaguete ao molho branco e carne moída.
- E então, como estão as coisas entre você e o ? - Ela perguntou, enrolando a massa no garfo e levando à boca.
- Ah... Na mesma, você sabe. - Eu disse, encolhendo os ombros e olhando para o meu prato, mexendo nele desanimadamente com o garfo, sentindo que o meu rosto tinha corado. Eu já sabia o que viria pela minha frente.
- Ele ainda não pediu você em namoro? Vocês estão há quase dois meses juntos! Mas o que...? , por que você não o pede em namoro?! - protestou, com a voz aguda, franzindo as sobrancelhas ao me fitar.
- Eu não. Ele é quem tem que me pedir em namoro. Imagina, eu! Pedindo o em namoro! Seria uma cena muito engraçada. - Indaguei, deixando a minha mente vagar em uma cena em que eu me ajoelhava diante de , colocava um anel de compromisso no dedo dele e o pedia em namoro.
- Mas é melhor tomar a iniciativa a ficar nesse relacionamento indefinido de vocês dois.
- Hum... - Terminei de mastigar e engoli a comida antes de começar a falar. - Você tem razão. Mas você me conhece, sabe que em questão de iniciar relacionamentos, eu não sou de tomar a iniciativa. - Eu disse, encolhendo os ombros mais uma vez. olhou para mim com as sobrancelhas erguidas e voltou sua atenção ao prato de comida.
Assim que terminamos nossas refeições, fizemos a higiene bucal e voltamos para a loja; ainda tínhamos uns minutos de horário de almoço, então ficamos caminhando juntas pelo local.
De relance, vi duas adolescentes que pareciam ter uns dezesseis anos paradas na prateleira "M" da seção de CDs. Elas conversavam animadamente, segurando cópias do Radio:Active, um dos álbuns do McFLY, que tinha se tornado o meu preferido. O rosto de sorrindo para mim se tornou visível em minha mente. Olhando para a capa do CD que uma das adolescentes segurava, lembrei-me vagamente da vez em que e eu dançamos na cozinha da casa dele sem ao menos ter uma melodia para isto, e que ele cantou para mim uma das músicas pertencentes àquele álbum. Um sorriso se espalhou em meu rosto quando me lembrei daquele dia; tive vontade de voltar no tempo.
Um esbarrão com Luna, a gerente da loja, me fez acordar de meus devaneios. Ela prendeu a respiração e mostrou a mim uma expressão facial tão feia que era digna de filme de terror.
- Você deveria olhar por onde anda, . - Ela disse, ríspida, passando as mãos na roupa, ajeitando o crachá que ficava preso ao seu peito, que era cor de ouro e dizia seu nome e o cargo.
- Desculpe-me, Luna. Isso não vai acontecer novamente. - Eu disse, realmente envergonhada, passando a mão pelos cabelos. Ao meu lado, fazia esforço para não cair na risada. Luna olhou com desdém de para mim e tornou a andar, seus saltos fazendo um barulho abafado no carpete do local. Quando ela já estava longe, riu.
- A cara que ela faz quando vê você é ótima! - Ela falou, cruzando seu braço ao meu quando voltamos a andar. - Acho que até hoje ela não aceita o fato de que somos amigas dos caras do McFLY. Invejoooosa... - A fala de minha amiga fez com que eu caísse na risada juntamente com ela.
O horário do almoço havia terminado naquele exato momento. Disse um "até mais tarde" para , beijei-lhe a bochecha e me encaminhei para o meu setor.
Eu estava me sentindo tão bem comigo mesma que estava ignorando completamente as provocações da gerente implicante há dias. Eu não me sentia assim há meses, e sabia muito bem o porquê.
Aquele dia em que ficou sabendo sobre o sequestro tinha tirado um grande peso de minhas costas; meu relacionamento com ele tinha melhorado muito depois que ele ficou ciente de meu segredo. Eu já não conseguia manter aquilo dentro de mim, e mesmo do jeito que tudo aconteceu, tinha me deixado tão leve como uma pluma.

Quando o horário do término do expediente de trabalho estava próximo, eu senti meu celular vibrar no bolso do meu casaco. Peguei o aparelho, e vi que no visor dizia que uma mensagem de texto de tinha sido enviada a mim. Olhei para os lados para estar certa de que Luna não estava ali e abri a mensagem, com um sorriso de orelha a orelha no rosto, os olhos brilhando.

Minha pequena, eu estava pensando se a gente poderia dar uma saída hoje para jantar fora.
Aceita o meu convite?

Sair para jantar com você? Nossa, eu adoraria! Aceito sim o seu convite. Que horas você vai me buscar e para onde você quer me levar?

Eu vou buscar você às sete horas; vou te levar ao cinema e depois vamos jantar num restaurante de comida grega, dizem que é muito boa a comida da Grécia. Então, até mais tarde.

Estarei pronta às sete. Até mais, meu lindo. Estou ansiosa para te ver.


Depois que e eu encerramos nossa curta conversa via sms, eu guardei apressadamente o meu celular de volta no bolso do meu casaco, porque Luna estava chegando perto de onde eu estava e olhava diretamente para mim.
- O que você estava fazendo com celular na mão? - Ela disse assim que estava de frente para mim, cruzando os braços, batendo um dos pés no chão como se fosse a minha mãe prestes a me dar uma bronca. Naquela pose, ela nem parecia ter quase a mesma idade que eu.
- Vendo as horas. Aliás, o meu expediente acaba agora, querida. Sendo assim... Até segunda-feira. - Eu disse, num tom sarcástico, jogando beijos no ar, deixando para trás uma Luna parada ainda de braços cruzados. Então, antes que ela me fuzilasse ou usasse visão de laser em mim, eu caminhei para o pequeno vestiário feminino da loja, peguei minha bolsa no armário que eu dividia com a e saí à procura dela. Encontrei-a próxima da saída. Então contei a ela que tinha me convidado para ir ao cinema e jantar em um restaurante grego e ela já foi me dando dicas de quais roupas eu deveria usar. Logo, encontramos o carro de parado na parte de trás da loja; ele estacionava ali quando ia buscar na loja, para não chamar a atenção de fãs e/ou papparazzi de plantão.
Nós então nos aproximamos e entramos no veículo, sentando no banco de passageiro da frente e eu no de trás, atrás do banco do motorista. beijou o namorado nos lábios, e eu beijei na bochecha.
Era o cúmulo para mim, ficar de vela – ou melhor, para aquele caso, castiçal. Não tem coisa pior do que ficar assistindo um casal sendo meloso e fofinho enquanto você está junta com eles e sozinha ao mesmo tempo. Mas eu não podia reclamar, pois eu também fazia a segurar vela quando eu estava com . Era até engraçada a cara que ela fazia quando a gente resolvia se beijar na frente dela de propósito.

Seguindo o trânsito intenso de Londres, chegamos ao prédio em que morávamos. Nós então subimos os andares pelo elevador e andamos apressadamente em direção do apartamento, com ao nosso lado. Quando entramos no lugar, e eu fomos direto para o quarto dela, deixando esperando na sala. Eu a ajudei a escolher uma roupa e quando ela se direcionou ao banheiro, fui para onde o estava e me sentei ao lado dele.
- A não está aqui, , então pode dizer para mim. Aonde você vai levá-la? - Eu disse, cruzando os braços, com ar de brincadeira. Ele olhou para o corredor de forma apreensiva.
- Eu vou levá-la a casa da minha família pra apresentá-la como minha namorada. Minha mãe e minha irmã prepararam um jantar para comemorar o feito. - Ele sussurrou, ansioso olhando de novo para o corredor, sorrindo ao fim de sua fala.
- Awn, que fofo, ! Ela vai ficar realmente feliz com isso! - Indaguei, sorrindo abertamente.
- E eu também ficarei feliz. - Ele suspirou e sorriu. Parecia nervosamente excitado. - Ah, se ela não voltar hoje pra cá, não precisa se preocupar, a gente vai dormir lá na casa da minha mãe. Mas eu estou muito ansioso pra saber se a minha família vai gostar dela. - Falou, respirando fundo.
- Mas é claro que sua família vai gostar dela, óbvio que sim! Eu tenho certeza absoluta. - Eu falei, beijando na bochecha, bagunçando seus cabelos fraternamente.
- Do que você tem tanta certeza, ? - disse, irrompendo na sala como se fosse uma top model em uma passarela.
- De que você ficou linda nesse vestido. - Eu disse, trocando um olhar cúmplice com , em seguida sorrindo para . Ele se levantou e foi ao encontro da minha melhor amiga; abraçou-a e deu um selinho nela. Achei aquela cena fofa demais.
- Estamos indo, . Tenha um bom jantar com o , e até mais. - falou, jogando beijos no ar para mim.
- Até. - Indaguei, fazendo o mesmo que ela, vendo os dois saírem do apartamento. Eu olhei no meu relógio de pulso e constatei que eram cinco e meia da tarde. Então eu me levantei do sofá e fui até o meu quarto; lá eu separei um vestido roxo que tinha as mangas rendadas que iam até o cotovelo e fazia cintura média, um sobretudo branco que abotoava-se dos lados e um sapato preto de salto. Coloquei as roupas em cima da cama e fui para a cozinha, onde fiz um lanche, já que eu estava morrendo de fome. Quando terminei de comer, voltei ao quarto para modelar meus cabelos. Depois que eu tinha terminado de aprontar minhas madeixas, pus uma touca de plástico nelas e fui para o banho, onde meus pensamentos corriam tão soltos quanto a água que caía sobre o meu corpo despido. Sorri involuntariamente quando disse para mim mesma que iria estar com o em menos de uma hora, depois de uma longa semana sem ele.

Eu escutei o som da campainha tocando no exato momento em que eu tinha terminado de me aprontar. Guardei rapidamente as maquiagens na bolsinha e corri para a porta, pegando meu sobretudo no caminho e colocando-o sem fechá-lo; quando abri a entrada, vi que era . Sorrimos um para o outro largamente.
- Você está linda, como sempre. - Ele disse, me puxando pela cintura contra o seu corpo, beijando-me em seguida.
- Obrigada. - Falei, sorrindo mais uma vez, me afastando dele para fechar a porta. Depois nós entrelaçamos nossas mãos e caminhamos até os elevadores do andar. Enquanto esperávamos pelo elevador, vi que usava uma jaqueta preta de couro sobre uma blusa branca estampada, seguidos de uma calça jeans clara e um par de Vans pretos nos pés; seu habitual perfume viciante estava impregnado em sua pele, e chegava continuamente em minhas narinas; como eu amava aquele cheiro.
As portas pratas do elevador selecionado se abriram, e então entramos, enquanto discutíamos qual filme disponível iríamos ver. Logo deixamos o prédio e entramos no carro do , que estava estacionado do lado de fora do edifício.

A noite estava sendo perfeita. e eu tínhamos visto um filme de ação/aventura, os gêneros de filme que nós dois mais gostávamos de assistir, ainda mais juntos. Fizemos guerrinha de pipoca no fim do filme, e nas horas mais chatas, nos beijávamos até perdemos o fôlego. A sorte era que a sala em que estávamos não estava tão cheia.
O jantar fora realmente agradável e engraçado; no meio da nossa refeição, um homem abordou para dizer que a filha dele gostava muito do McFLY e que queria que ele autografasse um pedaço de guardanapo para levar para a menina; o homem, que era meio careca e um pouco mais baixo que , se atrapalhou na hora de dizer o nome da menina, e acabou revelando não tinha filha e que queria o autógrafo para ele mesmo, porque era muito fã da banda. Eu tive que me conter para não rir na frente dele. Depois disto, nosso jantar seguiu tranquilamente. A comida grega era muito gostosa. Eu nunca tinha comido da culinária da Grécia, mas de súbito me apaixonei quando terminamos nossas refeições.
Depois que relutou em pagar a conta sozinho, alegando que eu era convidada dele e não precisava pagar nada, nós deixamos o restaurante e pegamos estrada; ele tinha tomado um caminho diferente do trajeto que fizemos para chegar ao local.
- Para onde você está me levando, meu lindo? - Perguntei, cheia de manha, passando a mão pelos cabelos de carinhosamente, enrolando algumas mechas entre meus dedos.
- Para um lugar que eu acho válido visitar quando a noite está tão bonita. Você vai ver. - Ele respondeu, olhando de esguelha para mim, deixando um leve sorriso cheio de mistério aparecer em seus belos lábios. Resolvi não insistir, pois percebi que ele queria que tudo fosse uma surpresa para mim. Mas minha curiosidade estava aguçada e tive que me conter para não perguntar que lugar era esse que me levaria, e por que este valia tanto ser visitado.
Então nós seguimos o percurso sem trocar muitas palavras. Estava tão silencioso que eu podia ouvir o barulho da respiração de entrando e saindo de seus pulmões. De vez em quando eu sentia o olhar dele furtivamente em cima de mim, olhar este que sempre fazia uma onda de arrepios surgir em meu corpo involuntariamente.
Eu olhei pela janela e só vi uma coisa: mato; as casas existentes ali eram mais afastadas umas das outras, e tinham jardins muito maiores. Tínhamos nos afastado da parte movimentada da cidade, e parecia que nós ainda não tínhamos chegado ao tal lugar que queria me levar. Quando eu já ia perguntar de novo para onde ele estava me levando, o carro virou à direita, seguiu reto numa estrada de terra e foi reduzindo de velocidade até parar e travar o freio de mão.
- Então... Chegamos. - disse, pegando minha mão e beijando-a, olhando para mim, sorrindo. Então ele saiu do carro e deu a volta pela frente dele para abrir a porta do meu lado; estendeu a mão para mim e eu a agarrei para deixar o veículo. Quando olhei em volta do local que eu tinha acabado de chegar, eu notei que estávamos em um lugar digno de ser pintado em um quadro. Logo eu entendi porque disse a mim que aquele era um lugar para se visitar em uma noite como a que estava fazendo.
À nossa frente, um lago de águas imperturbáveis se encontrava banhado pela luz perolada da lua crescente. O céu estava com muito mais estrelas do que eu me lembrava, brigando por espaço, fazendo uma espécie de manto de diamantes brilhantes que cobria o azul noturno. A margem oposta a que nós estávamos era coberta por árvores que eram iluminadas pela lua, assim como o lago. O cheiro de mato misturado com o de terra molhada subia ao meu olfato, dando a sensação de estar caminhando em uma trilha molhada por chuva.
- ... Que lugar divino! - Exclamei, ainda olhando em volta, impressionada.
- Eu morava aqui perto, e passava a maior parte do tempo aqui quando era mais novo e queria ficar sozinho, pensando, às vezes escrevendo músicas... Eu ficava horas aqui, sem perceber que o tempo passara. Era tipo que o meu cantinho secreto, sabe, meu refúgio. - Ele disse, de um jeito delicado me abraçando pela cintura e encostando-me no carro com ele, também olhando em volta, com ar nostálgico. - Acho que ninguém nunca soube que isto existe – fico até admirado –, e eu nunca trouxe ninguém aqui também. Você é a primeira pessoa que eu trago aqui, que conhece esse lugar junto comigo. - Continuou, voltando seus olhos cintilantes para mim, sorrindo. Senti meu rosto corar. Eu estava me sentindo lisonjeada porque estava partilhando comigo um lugar que fora tão importante para ele – e pelo o que parecia, ainda era.
Então eu abracei-o pela cintura e encostei minha cabeça em seu peito, beijando carinhosamente seu pescoço.
- Eu não mereço alguém feito você. Obrigada por ser assim comigo. - Sussurrei, fechando os olhos, deixando-me levar pelo momento e pelo cheiro de .
- Eu é quem não mereço ter alguém feito você ao meu lado. - Ele indagou, tão baixo quanto eu, levantando minha cabeça pelo queixo, beijando minha testa. Ele foi beijando lentamente cada parte do meu rosto, enquanto eu sentia meu coração acelerar a ponto de explodir, incandescendo meu peito; então nossos lábios finalmente se encontraram em um beijo lento e calmo que só ele sabia dar, fazendo com que parecesse que gatinhos dançavam Tarantella em meu estômago (n/a: Tarantella é uma dança típica da Itália). Senti seus braços apertarem minha cintura por baixo do meu casaco, a tal ponto que eu senti algumas das minhas costelas estalarem. Depois de poucos minutos, então abriu a porta de trás do carro e entrou, seguido por mim. Ele se sentou no banco e eu sentei em cima do colo dele; tirei meu sobretudo – eu já não sentia tanto frio assim –, taquei-o na frente do carro e voltei a beijar , que já estava sem sua jaqueta de couro. Agora nos beijávamos com mais intensidade do que antes. Logo meu vestido foi tirado de mim pelas mãos habilidosas dele, que faziam agora livre percurso pelo meu corpo seminu. Ele sorriu maliciosamente para mim enquanto se livrava de suas próprias roupas e as jogava para a parte de frente do carro. Eu senti sua respiração arfante deixando rastros no meu colo antes de voltar a me beijar com mais vontade do que nunca.
Minha respiração arfou mais do que nunca quando segurou-me pela cintura, deitou-me no banco e se protegeu para o que estávamos prestes a fazer; meu coração parou e disparou quando ele se deitou em cima de mim.
***


- Eu amo olhar as estrelas, e aqui têm tantas. - Eu disse, enquanto olhava através do teto-solar do carro de , que tinha sido aberto por ele para contemplarmos o céu de começo de madrugada. Eu estava deitada sobre de barriga para cima, e ele me agarrava pela cintura; eu sentia sua respiração movendo-me levemente para cima e para baixo. À nossa volta, um silêncio ensurdecedor reinava, e era quebrado apenas pelo barulho de grilos cantando. Estava tudo tão quieto que eu tinha medo de que meus pensamentos fossem escutados.
- É tão bonito isso. - Aquiesceu ele depois de muitos minutos calado, suspirando fundo. - Pena que não pode ser para sempre assim.
- O quê? O céu? - Eu falei, me virando de barriga para baixo para encarar , curiosa ao ouvir o tom estranho com qual ele havia falado.
- Nós dois. Eu amo estar com você. Ah, ... Eu queria que fôssemos para sempre. - falou, passando a mão nos meus cabelos, lançando a mim um olhar tristonho e perfurante que eu pude jurar que atravessou minha alma.
- O que você quis dizer com isso? - Falei, sentindo meu rosto esquentar por causa do olhar insistente dele em mim.
- Eu quero dizer que... Que eu... - Ele começou, com a voz meio trêmula, engolindo a seco, desviando o olhar dele do meu quase o tempo todo. - Preciso dar um tempo, . Para nós. - Indagou ele, parecendo que cada palavra dita lhe exigia um esforço enorme, voltando a olhar para mim, temeroso. Eu apenas fiquei olhando para ele, surpresa demais para expressar qualquer emoção.
- Você está de brincadeira comigo, não é? - Eu finalmente indaguei, em tom cético, sentando e cruzando os braços, arqueando as sobrancelhas. - Vai, pode dizer que é brincadeira. - Continuei, sorrindo, dando um selinho nele, que apenas ficou calado e sem olhar para mim, parecendo prender a respiração; foi aí que eu percebi que ele não estava brincando.
- , como assim... Por quê? - Falei, a voz tremulando, arregalando os olhos. Senti meus ouvidos zunirem e uma náusea terrível tomar conta de mim.
- Eu estou confuso; esse negócio da gravidez da Mari mexeu muito comigo... Preciso de tempo pra pensar. - Ele disse, se sentando também, se encostando à porta fechada do veículo.
- Pensar em quê? Nós já conversamos sobre isso, e estamos tão bem juntos! - Proferi, sentindo um formigamento tomar conta de meus olhos, o desespero crescer em meu peito descontroladamente.
- Eu sei, mas... Mas não poderemos ficar juntos por mais muito tempo.
- Por quê? - Perguntei com veemência, mas ele se recusava a dizer. Parecia prestes a cair aos prantos. - Você deixou de me amar?
- Não! Eu não deixei de amar você.
- Então por que está terminando comigo?
- Você não merece um canalha como eu, . Tem tantos caras legais pela cidade. Você não pode se ligar a um tolo feito eu.
- Como assim? ! Eu te amo, cara! Como você pode dizer isso para mim depois de tudo o que a gente viveu?!
Ele apenas ficou calado, encarando o chão do carro. Eu sentia que aquele não era o motivo pelo qual nós estávamos tendo aquela conversa, a que eu nunca pensei que teríamos.
- Leve-me pra casa, . Eu quero ir embora. - Falei com a voz rouca, a garganta ardendo por eu estar engolindo a vontade de chorar. Ele recolheu as roupas dele do chão em silêncio e se mudou para o banco da frente; eu peguei minhas peças e as coloquei, passando para o banco da frente também, esbarrando de propósito no braço de . Eu sentia as lágrimas obedecerem às leis da gravidade, descendo pelo meu rosto muito silenciosamente, sem avisar.
Passamos o caminho de volta inteiramente calados. Por várias vezes eu notei que queria falar alguma coisa: inspirava fundo, abria a boca, mas tornava a fechá-la, parecendo perder a coragem de aquiescer algo. Mas parecia que bolas de tênis invisíveis tinham se entalado em nossas gargantas, fazendo-nos perder nossas vozes. E as lágrimas continuavam a manchar minha face, por mais que eu quisesse que isso não acontecesse. Eu só queria entender por que estava querendo um tempo longe de mim. Será que eu tinha feito algo errado com ele? Se sim, onde eu tinha errado? Eu não conseguia encontrar defeitos no nosso relacionamento, muito menos entender a atitude do . Talvez ele só tivesse se cansado de mim. O fato era que ele tinha deixado o meu coração novamente em pedaços, pedaços que eu custei tanto para juntar e colar...
- Chegamos, . - disse, parando gradualmente a velocidade do carro. Eu limpei o rosto de forma rápida, abri a porta sem olhar para ele nem dizer palavra, não queria fitá-lo diretamente nos olhos. Queria apenas sumir da frente dele. Então eu deixei o veículo e atravessei a rua sem olhar para trás, os braços cruzados. Quando eu estava prestes a entrar no prédio em que eu residia, um ofegante apareceu em minha frente, os cabelos desgrenhados pelo vento, e me sobressaltou.
- Deixa eu passar, ! - Indaguei, com a voz fraca, tentando seguir caminho, mas ele ainda estava no meu caminho.
- , não fica assim. Você vai entender por que eu estou fazendo isso. - Ele disse, também com a voz fraca, o rosto vermelho, o peito arfando fortemente. Sorri amargurada.
- Quando? - Falei, deixando de lado a vergonha de chorar na frente dele. - Quando eu vou entender, ? - Fiquei olhando para ele uns segundos que nossos olhares se encontraram, e logo deixei o lugar, caminhando para os elevadores. Tomei um e fui cambaleando até chegar ao apartamento 703; fui diretamente para o meu quarto, onde me derramei na cama e me pus a chorar realmente alto, sem me preocupar em incomodar alguém, já que não estava lá.

***


Capítulo Vinte e Dois – Corações partidos


This is critical
Now I'm feeling helpless
So hysterical
And this can't be healthy
I can't eat or sleep when you're not with me
You're the air I breathe
This is critical, yeah
So stuck on you.

(Critical – Jonas Brothers)

(Dica: vá colocando para carregar: Into Your Arms – The Maine).
's Point Of View: On.

Olhar para aquele lago de águas cristalinas tão imperturbáveis quanto um espelho não fazia com que a minha alma se aquietasse. Não depois do olhar cheio de dor e rancor que tinha lançado a mim depois de eu tê-la deixado em seu apartamento. Aquela sensação de paz que aquele lugar em que eu passei boa parte da minha vida transmitia, de repente, não surtia efeito em mim, porque eu era tomado pela dor daquele olhar que antes era cheio de ternura e carinho.
Depois daquele episódio, eu entrei no carro e fiquei sentado, em estado catatônico, com os pensamentos em . Como eu tive vontade de subir até o apartamento dela, abraçá-la forte, contar o que estava acontecendo e dizer que tudo iria ficar bem. Mas aquelas fantasias foram substituídas pela realidade: talvez ela não quisesse me ver nunca mais. E só de pensar nisto, minhas entranhas se contorciam de desespero.
Juntamente com os pensamentos do término do meu relacionamento com , Mariana veio assombrar minha mente. Eu tinha sérias dúvidas sobre se queria mesmo me casar com ela. No meio tempo em eu tinha conhecido , descobri que nunca tinha amado Mariana de verdade, mas eu havia pensado que sim; eu tinha enganado a mim mesmo. Amor de verdade só se sente uma vez na vida. E eu tinha experimentado esse sentimento com .
Eu tinha conhecido um lado de Mariana que não gostava nada, nada. Talvez nunca fosse gostar. Ela estava agindo de uma forma que me assustava; eu estava começando a achar que ela era capaz de tudo, tanto que estava usando um filho como uma flecha em chamas armada em um arco, e esta pode ser largada a qualquer momento se ordens não são cumpridas, perfurando e queimando as vítimas.

À minha frente, era anunciado que o sol estava prestes a nascer. O céu tinha se tornado azul cor-de-gelo, que antecedia o início do dia e dava adeus à madrugada. As nuvens ganhavam tons de rosa dourado, e o grande sol dava seu ar da graça ao leste, acariciando com delicadeza a vasta área celeste, dando a impressão de sair das entranhas de sua mãe. Era uma bela cena, pensei. Talvez gostasse de vê-la.
Olhei no relógio do rádio desligado do veículo, e eram quase seis da manhã. Foi aí que eu finalmente me mexi, depois de horas parado: engrenei as chaves do automóvel e liguei-o, destravei o freio de mão, pisei levemente no acelerador, pus na macha ré; manobrei até ficar de frente para a estrada de terra batida emoldurada de árvores nas suas margens. Logo eu estava na estrada de asfalto, que estava meio vazia por estar cedo demais.
Liguei o aparelho de rádio, pois aquele silêncio estava se tornando uma tortura para mim. Fui passando as rádios até chegar numa que estava tocando Yesterday, dos Beatles. Estava quase no fim. Xinguei-me mentalmente por não ter ligado o rádio antes. Então eu cantarolei os últimos versos e a música terminou. Tocaram duas músicas do Queen, duas do Blink-182 e duas do Guns N' Roses. Quando Sweet Child O' Mine terminou, o locutor anunciou outra canção, e os primeiros acordes começaram a encher o silêncio mortal do carro.
(Pode colocar a música para tocar! :D)

There was a new girl in town
(Tinha uma garota nova na cidade)
She had it all figured out (Had it all figure out)
(Ela tinha tudo decidido)
Well I'll sate something rash
(Bem, eu vou dizer uma coisa imprudente)
She had the most amazing... Smile
(Ela tinha o mais maravilhoso... Sorriso)

A primeira coisa em que pensei quando o cantor melodiou as primeiras palavras da música foi no rosto de . Só que ele não era carregado de rancor. Ele sorria para mim, daquele jeito radiante que só ela sabia sorrir. Era uma visão linda como uma pintura à óleo exposta em uma galeria de arte. Suspirei pesadamente porque ela não estava ali comigo.

I bet you didn't expect that
(Eu aposto que você não esperava isso)
She made me change my ways (She made me change my ways)
(Ela me fez mudar meu jeito)
With eyes like sunsets, baby
(Com olhos como o pôr do sol, baby)
And legs that went on for days
(E pernas que andam por dias)

I'm falling in love
(Eu estou me apaixonando)
But it's falling apart
(Mas estou caindo aos pedaços)
I need to find my way back to the start
(Eu preciso achar meu caminho, voltar ao começo)
When we were in love
(Quando estávamos apaixonados)
Things were better than they are
(As coisas eram melhores do que estão)
Let me back into...
(Deixe-me voltar para...)
Into your arms
(Para seus braços)
Into your arms
(Para seus braços)

Eu estava com a cabeça longe, e isto fazia com que eu estivesse presente no carro só de corpo. Por isto, reduzi a velocidade do carro e parei no acostamento da estrada, pois eu estava com medo de causar algum acidente pela minha falta de atenção. Assim que parei, encostei minha cabeça no volante e levei minhas mãos às têmporas, massageando-as, tentando afastar a dor de cabeça porque eu tinha deixado no prédio em que ela residia. Eu pensava tanto que estava com a cabeça explodindo. Aquelas meditações pesavam em meu corpo todo.
Eu estava cansado física e mentalmente, e isto fazia com que eu chegasse a um estado de exaustão que eu dificilmente me encontrava. Eu precisava me recuperar, descansar. Mas, para isto, precisava esvaziar minha mente totalmente, e eu sabia que isto não aconteceria. Eu não conseguia parar de pensar por nem um segundo sequer em , no quanto o coração da mulher da minha vida estava partido. Eu não acreditava no covarde que eu tinha sido; que eu tinha me deixado vencer tão facilmente.
Decididamente, eu precisava voltar para casa. Então levantei a cabeça e respirei fundo, soltando o ar pela boca. Liguei o carro e coloquei-o na estrada mais uma vez, e agora eu estava mais atento ao caminho. Ou tentando ficar mais atento.

[...]
Oh she's slipping away
(Oh, ela está escorregando)
I always freeze when I'm thinking of words to say
(Eu sempre congelo quando eu estou pensando em palavras para dizer)
All the things she does
(Todas as coisas que ela faz)
Make it seem like love
(Fazem isto parecer amor)
If it's just a game (Just a game)
(Se isto for só um jogo)
I like the way that we play
(Eu gosto do jeito que jogamos)

I'm falling in love
(Eu estou me apaixonado)
But it's falling apart
(Mas estou caindo aos pedaços)
I need to find my way back to the start
(Eu preciso achar meu caminho, voltar ao começo)

I'm falling in love
(Eu estou me apaixonando)
But it's falling apart
(Mas estou caindo aos pedaços)
I need to find my way back to the start
(Eu preciso achar meu caminho, voltar ao começo)
When we were in love
(Quando nós estávamos apaixonados)
Things were better than they are
(As coisas eram melhores do que estão)
Let me back into...
(Deixe-me voltar para...)
Into your arms
(Para os seus braços)
Into your arms
(Para os seus braços)

Into your arms
(Para os seus braços)
Into your arms
(Para os seus braços)

Assim que aquela música terminou de tocar e outra que eu não conhecia deu lugar a ela, eu desliguei o rádio. Agora, o silêncio já não era uma tortura, e sim um bom e velho amigo que me amparava. Olhei à minha frente, e o sol, aquela grande bola de fogo amarela avermelhada, estava saindo de trás de algumas montanhas distantes de mim. Lembrei-me que amava assistir ao nascer do sol. Aquilo, de certa forma, me deixava mais perto dela.
Quando cheguei em casa, fui me arrastando diretamente para o quarto, ignorando totalmente meu estômago que roncava de fome, se contorcia feito louco, como se eu não comesse há dias. Chegando ao cômodo, esparramei-me de bruços na cama sem ao menos tirar os sapatos, porque eu estava cansado demais até para isto.

Como um despertador desagradável, os raios de sol batendo em meus olhos me tiraram da fantástica terra do sono. Eu continuei com as pálpebras fechadas, forçando-as ao máximo para voltar a dormir. Mas a luz passava pela barreira formada por mim, fazendo com que eu enxergasse manchas vermelhas, o que me impedia de voltar ao sono. Então eu cobri minha cabeça com o edredom e me encolhi na cama. Não consegui voltar a dormir, mesmo estando com os olhos fechados e muito sono. Desvencilhei a coberta grossa de minha cabeça e olhei para o teto. Maldita hora para o sol aparecer e me acordar, eu pensei.
Por um momento, eu me perguntei por que estava me sentindo tão cansado. Aí, de súbito, o incidente da madrugada passada veio à minha mente, chocando-se ao meu cérebro, como se fosse um banho de água fria em um dia de inverno. Desistindo de voltar a dormir, eu joguei meu travesseiro para longe de mim e me sentei na cama. Esfreguei meus olhos com as mãos e tirei os sapatos em seguida. Levantei-me e fui para o banheiro adjunto, onde urinei, lavei meu rosto e escovei os dentes.
Enquanto isso, a música que eu tinha ouvido na noite passada estava impregnada em minha mente. Eu ficava cantarolando sem parar.

I'm falling in love
But it's falling apart
I need to find my way back to the start...


Olhando no espelho, notei que olheiras haviam se formado debaixo dos meus olhos. Suspirei fundo e deixei o cômodo, descendo as escadas e me direcionando à cozinha. Liguei a cafeteira e sentei em uma das cadeiras da mesa.
- Até que enfim você acordou, cara! - A voz de irrompeu pela cozinha, quebrando o silêncio mórbido de minha casa.
- Bom dia para você também, . - Eu disse, com a voz rouca e sonolenta, quase fechando os olhos. Eu já não me assustava com a presença de na minha residência; eu também aparecia na casa dele como se fosse a minha.
- Bom dia? Boa tarde, meu chapa! - Ele disse, sentando-se ao meu lado.
- Que horas são? - Falei, encostando meus cotovelos no tampo de granizo da mesa e escondendo meu rosto entre minhas mãos, bocejando logo depois.
- São duas da tarde. Cara, você está ótimo. - O disse, em tom de ironia.
- Eu não consegui dormir a noite toda.
- Sério? Por quê?
Então eu contei a ele o incidente da noite passada; contei como tinha levado para jantar, e que depois tinha terminado com ela, ocultando o que tinha me levado ao fim do relacionamento. Preferi não contar aquilo para ninguém.
pareceu perplexo, e ficou me encarando boquiaberto.
- Como assim, ? Por que você fez isso? Você vive dizendo que ama a !
Um longo silêncio preencheu a cozinha depois da fala de . Eu não sabia o que dizer. Mas sabia o que eu queria falar.
Então o telefone tocou. Uma, duas, três vezes, o barulho do toque chegando abafado aos nossos ouvidos. Eu fiz menção de levantar, mas o espalmou a mão em meu peito de leve, me impedindo de ficar de pé.
- Deixa que eu atendo para você. - Ele disse, levantando-se de seu lugar, caminhando para a sala. Logo, os toques do telefone foram substituídos pela voz de , que chegava distorcida aos meus ouvidos, me impedindo de saber o que ele estava dizendo. Então ele voltou à cozinha. Estendeu o telefone para mim, e eu peguei.
- Quem é? - Sussurrei, olhando para ele – que tinha se encostado à bancada do armário –, enrugando a testa. Ele permaneceu mudo. Apenas apontou com o olhar para o aparelho que estava em minhas mãos, indicando que eu atendesse logo. Então eu levei o telefone ao ouvido.
- Alô? - Eu disse.
- ? É você? - Uma voz conhecida e estranhamente rouca disse do outro lado da linha. Fiquei estático; senti minha boca se abrir.
- ? - Falei, com a garganta ardendo porque nela pouco ar passava, o coração acelerado com a descarga de adrenalina que chegou de repente ao meu sangue.
- Sim, sou eu. - Um breve silêncio se estendeu após sua fala.
- V-você está bem?
- Isso não importa agora. Eu liguei para outra coisa. Eu liguei porque...
- , por favor, não insista...
-...a Mariana veio aqui em casa mais cedo. Ela disse que sentia muito pelo fim do nosso relacionamento, que sabia que não iria durar muito. Porque você só queria se divertir comigo. E ela disse que isso tinha saído da sua boca.
Fiquei atônito com o que eu tinha ouvido. Além de querer mandar na minha vida, agora Mariana inventava mentiras sobre mim? Aquilo era inacreditável.
- Ela disse o quê?!
- Eu só quero que você me responda uma coisa, . Você só queria se divertir comigo?
- Não! Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.
- Ah, sim, sei.
“Você estava comigo e com a Mari ao mesmo tempo? Porque hoje cedo, ela fez parecer que sim. E você fez parecer que sim terminando comigo por nada.”
- Não, !
- Então por que você terminou comigo?
O silêncio voltou a se instalar entre as duas linhas. Pensei em dizer uma coisa. Abri a boca e tornei a fechá-la. Mas aquilo era necessário. Talvez doesse mais em mim do que nela.
- Porque... Eu não te amo, . Nunca amei você. - Falei, sentindo o olhar de se intensificar em cima de mim ao mesmo tempo em que eu sentia as minhas entranhas se contorcerem de arrependimento por ter contado aquela mentira.
- Mas, ...
- Por favor, não torne a me ligar. Adeus. - E, muito dolorosamente, eu desliguei o telefone. Tive o desejo de tacá-lo longe para vê-lo se quebrar, mas reprimi essa vontade. Olhei para o , que balançou a cabeça negativamente, desencostando-se da bancada; então ele caminhou para fora da casa usando a saída da cozinha para o quintal. Encostei minha cabeça na mesa, machucando a minha testa quando ela bateu no granito escuro.
Eu tinha acabado com todas as minhas chances de ver por mais uma vez. Eu tinha acabado com qualquer esperança. Tinha destruído o amor verdadeiro que tínhamos construído com tanto esmero.

Eu não conseguia dormir, por mais que eu estivesse super cansado. Não conseguia comer nada. Parecia que a minha garganta estava preenchida com uma substância invisível e desconhecida, que impedia qualquer coisa de passar por ela. Minha cabeça parecia uma bomba prestes a explodir (de dor e pensamentos). Eu tinha praticamente virado um zumbi que assistia televisão sem mexer um músculo. Se eu estava mal antes, não se comparava como eu estava naquele momento.
Então, o toque da campainha tirou-me dos meus devaneios. Levantei com dificuldade do sofá e caminhei preguiçosamente até a entrada da casa. Quando abri a porta, tive uma surpresa desagradável.
- Olá, meu amor! - Mariana disse, sorrindo, entrando em minha casa, direcionando-se à sala.
- O que você está fazendo aqui? - Eu disse, erguendo as sobrancelhas. Ela parou de andar e se virou para mim.
- Eu não posso mais visitar o pai do meu filho? - Indagou ela, sorrindo sonsamente. Revirei os olhos de tédio e ela soltou uma risadinha, voltando a andar. Caminhei penosamente até a sala, como se estivesse indo para o caminho da sentença de morte. Quando chegamos ao cômodo, ela sentou em um sofá e eu sentei em outro. Ela olhou em volta, e seus olhos pousaram demoradamente em um porta-retratos que decorava a estante. Nele, havia uma foto de e eu; nós estávamos em uma praia do sul da Inglaterra. Eu envolvia sua cintura com o braço, e ela tinha o seu braço sobre meus ombros. Ela me beijava no rosto e eu sorria, nossos cabelos eram esvoaçados pelo vento forte.
- Então... Você e a terminaram mesmo? Porque pelo o que eu vi hoje... Você precisa ver como ela está péssima. - Mariana disse num tom de quem quer conversa, desviando os olhos do porta-retratos de moldura prata para olhar para mim, seus olhos brilhando de malícia.
- Você não tem um pingo de sensibilidade, não é? - Indaguei, indignado pela atitude dela.
- Não é isso, . É que eu cansei de perder as coisas para a . E você eu não perco para ela! - Ela falou, enraivecendo-se por um momento, seus olhos faiscando como brasas de uma fogueira. - Enfim, eu não vim aqui para falar sobre isso, e sim sobre o nosso casamento.
"Eu estava pensando. Eu quero que seja um casamento simples, e depois uma reunião íntima, nada de muito exagerado. E se a cerimônia for depois das Festas, está perfeito. Tipo em Janeiro. A família e os amigos ainda estarão por perto."
Depois que ela terminou de falar, cruzou as pernas cobertas por uma meia-calça grossa e recostou-se no sofá; pôs-se a mexer em seus cabelos lisos.
- Mas as Festas são daqui a dois meses. É muito pouco tempo para se organizar um casamento. - Eu disse, o coração acelerando de repente só de eu pensar na hipótese de estar casado depois de dois meses. Eu, decididamente, tinha caminhado para a minha sentença de morte.
- Pouco tempo? , daqui a mais uns meses, a minha barriga vai estar enorme. E tudo o que eu menos quero é casar de barrigão. E, além do mais, eu disse que vai ser uma coisa pequena. Claro que vai dar tempo de organizar.
- Maravilha. - Eu disse ironicamente, apoiando os cotovelos nas coxas e escondendo meu rosto em minhas mãos. Minha dor de cabeça tinha se intensificado ainda mais.
- É bom você cumprir com a sua parte, porque...
- Ah, eu já sei. Você tem uma bala no gatilho pronta para ser atirada se eu não fizer o que você quer. - Interrompi a fala dela e a encarei, fazendo a analogia entre um tiro e uma informação. Ela se fez de ofendida e sorriu satisfeita em seguida. Eu respirei fundo e permaneci em silêncio por um bom tempo.
- Marque a data do casamento. Eu não me importo mais. - E com esta fala, eu levantei do sofá e tomei o caminho para o corredor que dava paras as escadas que levavam aos quartos. Antes de deixar a sala, parei em frente à estante e peguei o porta-foto com a foto minha e da .
- Eu só te peço para você não fazer nenhum mal a ela. - Eu falei sem me virar, encarando o rosto de traços suaves – porém decididos – de através do vidro do porta-retratos. Mariana soltou uma risadinha.
- Não se preocupe. Eu já fiz o suficiente. Bom... Eu acho. - Ela disse, num tom de voz estranho, que percorreu até meus ouvidos como um dardo venenoso. Eu olhei para trás com as sobrancelhas franzidas e vi que ela tinha se levantado. Ela caminhou para fora do alcance do tapete da sala, e os seus saltos começaram a batucar no piso claro da casa, até que o barulho desaparecesse, indicando que Mariana tinha deixado minha residência.
Então eu continuei meu caminho. Quando cheguei ao meu quarto, tirei a foto do porta-retratos e guardei-a dentro de uma de minhas gavetas de roupa, escondida entre as peças. Arrastei-me até a cama e deixei com que o meu corpo se escorregasse para o colchão.
Decididamente, eu estava acabado. Eu tinha assinado um contrato sem ler as cláusulas que ficam no rodapé da folha em letras miúdas. Ninguém me informou sobre o que elas diziam. Mas agora eu sabia: elas diziam que eu nunca mais seria feliz na vida.

***


Capítulo Vinte e Três – Fora De Alcance


's Point Of View: On.

Diferenciar os dias da semana? Era uma tarefa que tinha se tornado muito difícil para mim, porque todos os dias eram iguais, e eu já não sabia mais se era segunda, sexta ou terça-feira.
Eu já não conseguia comer direito, muito menos dormir. Tinha perdido peso e ganhado olheiras que cada vez ficavam mais escuras. Eu acordava no meio da madrugada e ficava um bom tempo com os olhos abertos na escuridão, olhando para o teto, pensando em todas as circunstâncias que me levaram a ficar parecida com um zumbi. Então, sem mais nem menos, eu fechava os olhos, o sono me assaltava, tirando minha vontade de ficar acordada, e eu voltava a meu estado de cansaço físico e mental e me punha a dormir profundamente.
Eu sonhava constantemente com , por mais que eu quisesse expulsá-lo de minha mente o mais rápido possível. Todas as vezes que eu fechava os olhos, a profundidade dos olhos dele surgia em minha mente; eu sentia como se ele estivesse ao meu lado me tocando com todo o carinho que ele podia reunir dentro de si.
As lembranças boas que eu tinha com ele ficaram mais vivas do que nunca em minha mente, como num passe de mágica, e não queriam morrer nem que eu atirasse nelas com uma metralhadora de última geração.
Estas lembranças faziam com que eu ficasse perplexa. O sempre me fitou com aquele brilho nos olhos, que sempre dá as caras em nosso olhar quando amamos alguém. Como ele nunca me amou? Se uma coisa não entrava na minha cabeça era pensar que eu tinha sido enganada mais uma vez, sem me dar conta de nada. Não fora tão grave quanto da última vez, mas o impacto tinha sido o mesmo.

passava o dia preocupada comigo. De hora em hora ela ia ao meu setor no trabalho para ver se eu estava bem, se eu tinha comido alguma coisa. Eu dava um sorriso amarelo e mentia que sim, eu tinha comido, mas ela insistia em querer me dar comida e doces, porque sabia que eu não tinha dito a verdade. Até mesmo Luna estava sendo legal comigo, o que um dia pareceria improvável. Estava falando com mansidão e até com doçura comigo, não mais com desdém; passara a me oferecer sua ajuda para executar algumas tarefas pesadas que eu já não conseguia fazer por estar fraca demais, e eu aceitava aquela ajuda, pois via que era uma coisa sincera. Mas nenhuma atitude legal me tiraria daquele estado que eu não conseguia sair. Eu já não vivia, apenas existia; era só mais um corpo inabitado de alma ocupando espaço na humanidade.

- , você tem certeza de que vai ficar bem aqui, sozinha? - disse, abaixando-se para ficar com o rosto perto do meu enquanto eu estava deitada na cama, enrolada em um monte de cobertores.
- Tenho, . Pode sair com o , você precisa se distrair um pouco. Pode ir, eu ficarei bem. - Eu falei, fazendo esforço para sorrir, acariciando o rosto dela com a mão.
- , você está com febre, não é certo eu deixar você sozinha nesse estado! - Ela indagou, franzindo as sobrancelhas.
- Olha, . Eu já disse que vou ficar bem. Eu não mais criança, okay? Sei me cuidar. Por favor, vai se divertir, se não eu vou ficar ressentida depois.
Depois de uns minutos me fitando, as duas sobrancelhas levantadas, concordou e ficou de pé. Beijou-me a testa e foi-se, apagando a luz do quarto quando saiu. veio me ver, então. Falou que eles não demorariam e que, se qualquer coisa acontecesse, era pra ligar para o celular dele, que eles viriam correndo. Eu repeti o que disse para ; ele olhou para mim como um pai olha para uma filha que se acha mais velha do que é, se despediu e se foi. Eu ouvi barulho de passos e logo de porta abrindo e batendo para ser fechada. Então eu me virei para o outro lado da cama e fechei meus olhos.

Mal eu dormi e escutei o barulho que o notebook fazia para anunciar que alguém me chamava no Skype para ter uma conversa de vídeo. Eu bufei, tirei os cobertores de cima de mim e levantei da cama, direcionando-me à escrivaninha, onde o aparelho estava. Então eu vi que a chamada era de Ed. Fiquei um pouco mais animada.
Na maior parte, era Ed que me mantinha naqueles dias horríveis que se arrastavam à minha volta. Nós conversávamos quase todos os dias, e ele sempre me fazia rir. Eu sempre ficava de bom humor quando estava com o meu irmão mais velho. Mas, quando nós terminávamos a nossa conferência, eu voltava ao meu estado normal.
Sentei-me na cama e abri o notebook no colo, aceitando a vídeo conferência.
- ? Oi! - Ed disse alegremente, dando um sorriso aberto e sincero, a marca registrada dele.
- Olá, girafão. - Eu falei, rindo de mim mesma e da careta que ele fazia sempre que eu o chamava de "girafão".
- Como você está, toquinho? - Ele disse, anormalmente sério depois que tinha parado de rir; o rosto dele ficara tomado pela preocupação.
- Eu estou... Indo. - Indaguei, desviando o olhar. - Como estão as coisas aí no Brasil?
- Nada de mais aconteceu por aqui, não, está tudo normal. - Ele olhou para um ponto acima da câmera e respirou fundo. - Olha, o papai e a mamãe querem falar com você.
- Ed, não acredito que você contou a eles o que aconteceu...
-... eles estão preocupados com você. Querem ter uma conversinha. E eu também estou preocupado com você. Estou com muita vontade de ir até aí e quebrar a cara desse tal que te deixou assim, tão triste. - Ed indagou, agora com um pouco de raiva, suspirando pesadamente. - Por que você não diz quem é?
- Porque não vale à pena, eu já disse. - Indaguei apressadamente, sentindo um rubor subir ao meu rosto.
- Tudo bem, então, . Você deve ter seus motivos. - Ele respondeu, meio irritado. - Bom, eu vou chamar o pai e a mãe, já volto.
Então ele se levantou da cadeira do computador do quarto dele, e a única coisa que eu vi foi o cômodo, que estava com a janela aberta. O vento tremulava as cortinas claras, a cama estava feita, e os livros e coisas de Ed estavam devidamente arrumadas em seus lugares respectivos. Meu irmão, arrumando o quarto dele? Nossa, isso era tão estranho quanto uma pessoa usando casaco estando na praia em um dia de verão do Rio De Janeiro.
Um pouco depois de Eduardo ter deixado o cômodo que pertencia a ele, eu comecei a ouvir as vozes de meus pais encherem o quarto vazio de meu irmão, e elas ficavam cada vez mais próximas. Mamãe apareceu primeiro e se sentou na cadeira, sorrindo, mas com os olhos tomados pela preocupação. Papai parou atrás dela e se abaixou um pouco para que eu pudesse vê-lo. Eles são tão lindos juntos, pensei, e um sorriso surgiu em meus lábios.
- Oi, mãe. Oi, pai. - Eu disse, sorrindo mais uma vez, tentando parecer serena.
- Filha, você está com uma aparência tão cansada... Você está magrinha demais... Tem se alimentado direito? O Ed nos contou sobre o que aconteceu, que seu namorado terminou com você... Você está bem? Quer que a gente vá para aí para ficarmos um pouco com você? - Minha mãe disse, sem me dar tempo de responder suas várias perguntas de mamãe preocupada.
- Mãe! Calma! - Eu disse, dando uma risadinha. - Eu vou superar isso, não se preocupe assim. É só uma questão de... Tempo.
- Quem é o canalha que te deixou assim? Diz para mim, filha, eu arranco as bolas dele em um só chute. - Meu pai disse, fechando os punhos, batendo-os na mesa do computador do meu irmão. Eu tive que rir e muito da fala dele. Ouvi bravos e vivas de aprovação de Ed. Mamãe repreendeu-os com apenas um olhar e um pigarreio.
- Vamos mudar de assunto... E o seu livro? A editora já publicou? - Mamãe disse.
- Ainda não. A publicação está marcada para semana que vem! Assim eu espero que aconteça. Eu aviso quando o livro for publicado.
- E... Será um sucesso! Eu sei, eu sinto isso, querida maninha... Eu consultei a minha bola de cristal hoje! Ela me mostrou que seu livro será um sucesso de vendas! - A figura alta do meu irmão surgiu atrás de meus pais, abraçando-os. Ele tinha um pano enrolado na cabeça, e fingia ser um daqueles ciganos que veem o futuro. Eu quase caí da cama de tanto rir com a cara de susto que meus pais fizeram quando ele apareceu do nada, como se tivesse se materializado do chão. Eduardo não crescia mesmo, quer dizer, crescia só em estatura.
- Deus te ouça, Ed. Eu estou muito ansiosa para que esse livro seja publicado logo. - Eu disse, suspirando fundo.
- Não se preocupe, querida. Vai dar tudo certo. - Papai indagou, sorrindo serenamente. Aquele sorriso sempre me acalmava.
- Eu sei, pai. - Indaguei, retribuindo o sorriso, sentindo diminuir a tempestade que meu estômago enfrentava.

Nós quatro ficamos um bom tempo conversando sobre assuntos aleatórios. Era bom manter a minha mente ocupada com outras coisas que não diziam respeito a . Aquilo me fazia bem. Fazia com que eu parecesse a que eu era antes do fim do meu relacionamento com ele.
- Querida, por que você não vai dormir um pouquinho? Deve ser tarde da noite aí. - Minha mãe falou, num tom manso; eu senti como se ela estivesse do meu lado, acariciando meus cabelos e me enchendo de carinhos e beijos.
- Tudo bem, mãe. Aqui está meio tarde mesmo, e eu estou morrendo de sono. Quando eu vou poder falar com vocês de novo?
- Em breve. Ed mandará um e-mail para você avisando.
- Okay, então. Bom... Até, família. Boa noite. Eu amo vocês.
- Boa noite, nós amamos você, também. - Minha família disse, quase em uníssono, mandando-me acenos e beijos que eu fiz questão de acomodar em meu coração com todo o cuidado e carinho. Então eles desapareceram da tela do computador. Eu fechei a janela da vídeo conferência e a tela mostrou o papel de parede que eu costumava usar: uma foto minha com em frente ao Big Ben. Eu não entendia porque ainda usava aquela foto como papel de parede do meu notebook, talvez fosse porque eu gostasse muito da imagem (ou porque eu amava a pessoa que estava comigo na foto). Eu fechei o computador o mais rápido possível, coloquei-o de volta na escrivaninha, e voltei a deitar na cama. Tive trabalho para me cobrir, porque os edredons estavam todos embolados entre si, quase como irmãos siameses. Depois que minha luta com os cobertores terminou, eu relaxei sobre a cama.

E, por mais uma vez, eu mal fechei os olhos e ouvi um barulho que me despertou do breve sono. Agora era a campainha tocando. Talvez fosse , que tinha esquecido a chave dela e agora estava trancada do lado de fora do nosso apartamento. Respirei profundamente, maldizendo por ser tão esquecida, levantei com dificuldade da cama e me arrastei até a sala. Sem olhar no olho mágico, abri a porta.
- Já sei, , você esqueceu a ch...
Parei abruptamente de falar quando olhei para frente. Senti que meu rosto tinha ficado lívido. Minha pressão sanguínea talvez tivesse abaixado em um piscar de olhos. Talvez eu fosse desmaiar ali mesmo. Meus olhos não podiam acreditar no que estavam enxergando, como se eu estivesse em um deserto e avistasse por uma miragem de um oásis.
Então, como que para tentar afastar possíveis alucinações da minha cabeça, eu tornei a fechar a porta. Mas ele não deixou com que a porta fechasse totalmente, pois colocou seu peso sobre ela. Ficamos travando uma batalha silenciosa para saber quem abriria ou fecharia a porta.
- Deixa eu passar, ... Abre essa porta!
- Vai embora daqui, ! - Eu disse, sem fôlego. - O que você está fazendo aqui, ? O que você quer comigo? Já não destruiu a minha vida o bastante?
- , eu tenho que falar com você! - Ele disse, respirando fundo, parando de aplicar o seu peso na porta. Então eu a fechei.
- Eu não aguento mais ficar longe de você, . - Indagou ele, a voz abafada atrás da porta de madeira.
- Você deveria ter pensado nisso antes de terminar comigo. - Eu falei, um pouco mais alto, para que ele pudesse me ouvir.
- , eu...
- Você o quê, ? - Indaguei, com a voz embargada, abrindo a porta. Então nós nos olhamos nos olhos depois de três semanas sem fazermos isto. Tive que me controlar para não chorar.
- Eu estou arrependido de tudo o que eu te disse. Eu estava de cabeça quente. Mas a Mariana, e-ela me...
- ... - Soltei um risinho amargurado. - Eu já entendi. Eu já entendi, cara. Não tem como eu competir com ela, com o filho de vocês. Olha, não precisa se explicar mais, eu já entendi tudo. - Eu falei, abaixando o olhar, sentindo meu peito arder por conta de meu coração estar praticamente correndo em Fórmula Um.
- Agora, por favor, vai embora daqui, ok? Deixe-me soz...
Então, sem mais nem menos, como se não tivesse ouvido uma palavra sequer do que eu tinha dito, ele me puxou pela cintura e, sem que eu pudesse reagir, encostou seus lábios nos meus. Eu tinha que me afastar, mas não conseguia. Eu queria. Precisava. Necessitava dele. Aquilo ardia em mim como fogo, incomodava e queimava totalmente meu ser. Eu não aguentava mais aquela situação, aquele afastamento. O fato era que eu não conseguia ficar longe dele, não conseguia viver sem ele.
Ele pediu permissão para a língua dele passar para a minha boca, o que foi muito bem aceito por mim; então sua língua úmida e quente se entrelaçou com a minha, com paixão, como se fosse a última coisa que tivéssemos que fazer. Era como se, depois de muito tempo, nós tivéssemos encontrado aquilo que procurávamos e precisávamos.
Nós nos beijávamos com tanta ferocidade que eu tinha medo de que eu o machucasse, ou que ele me machucasse. Eu sentia a paixão transpirar de nossos corpos como se tivesse substituído nosso suor, o calor emanando de nós como se fôssemos feitos de brasas incandescentes. Ele foi me guiando até que entrou no apartamento sem se desgrudar de mim, e, quando passou, empurrou a porta sem prestar muita atenção no que estava fazendo, e ela fechou com estrondo. Virou-me contra ela com um pouco de força, encostou as duas mãos na parede, fazendo um tipo de cerco que me prendia, e desceu sua boca para minha nuca. Abracei-o, passando meus braços por seus ombros, de modo que nossos corpos ficassem mais juntos, aumentando nosso contato. Talvez os beijos que ele distribuía por minha nuca fossem deixar marcas em minha pele, mas eu não me importava, na verdade eu queria mais era que ele continuasse.
- ... Por que... Você faz isso comigo? - Indaguei, entre um gemido e outro que eu soltava cada vez que mordia de leve meu pescoço. Ele encostou sua testa na parte lateral da minha cabeça e mordeu a ponta da cartilagem da minha orelha.
- Porque eu não consigo ficar longe de você nem por um minuto... - Ele falou num sussurro, despejando seu hálito quente e fresco perto do meu ouvido. - Nem por um minuto sequer... Eu preciso te ter... - Sussurrou ele, apertando seu quadril contra o meu, soltando um gemido baixo que fez cada pelo do meu corpo se arrepiar, voltando a me beijar nos lábios.
Então eu parei de beijá-lo e encarei-o nos olhos.
- , naquele telefonema, você disse que n...
- Esquece o que eu disse naquele telefonema. Por favor. Era mentira, a mais lavada de todas que eu já contei na vida. Eu te amo, , sempre vou te amar. - Ele disse, com uma ponta de urgência na voz, encarando-me nos olhos com uma intensidade fora do normal. Alguma coisa me dizia que ele estava sendo sincero.
- Eu te amo, . Eu te amo com todo o meu ser. - Falei, passando a mão no rosto dele, retribuindo seu olhar intenso.
Então nossas cabeças se mexeram na mesma hora e em direções opostas, e a sua boca voltou a se encontrar com a minha, com muito mais paixão que antes, se é que isto era possível. Suas mãos procuravam desesperadamente pelo fecho do meu sutiã, debaixo da minha blusa. Quando conseguiu se livrar da minha peça íntima, ele apertou suas mãos sobre meus seios por debaixo da blusa, modelando-os perfeitamente em suas palmas. O contato da sua mão quente com minha pele causaram-me arrepios que percorriam todo o meu corpo.
Eu passei minhas mãos por debaixo da blusa dele e tirei a sua peça de roupa de mangas longas, e ele fez o mesmo com a minha camiseta branca muito maior que eu, e acariciei e beijei cada pequena parte do peitoral dele, sentindo seu perfume penetrando minhas narinas.
Eu entrelacei minhas pernas em seu quadril e ele me sustentou, segurando-me pela parte interna das minhas coxas. Então ele nos conduziu até o meu quarto, que estava completamente desarrumado; eu negligenciava o fato de que ele precisava de uma arrumação geral, até porque, naqueles últimos dias, eu não tinha vontade de deixar tudo em ordem como sempre.
Quando chegamos ao cômodo, ele me deitou na cama e depositou seu corpo por cima do meu; beijou todo o meu colo até voltar para a minha boca e eu arranhei com minhas unhas as suas costas em resposta.
- Você é sensacional, sabia? - Murmurinhou ele, afastando um pouco seus lábios dos meus, olhando-me de cima a baixo, mordendo o lábio inferior. - Muito gostosa.
- Sou, é? - Falei, no mesmo tom baixo que ele, sorrindo maliciosamente. - Bem que eu suspeitei. - Indaguei, sorrindo mais uma vez, passando a língua no pescoço de , o que o fez soltar um gemido e apertar uma de suas mãos na parte interna de minha coxa.
De pouco em pouco, nossas roupas foram sumindo, sem que percebêssemos que elas não estavam mais no lugar, e sim misturadas à bagunça do meu quarto. Não demorou muito e nós já estávamos consumando o ato com toda a vontade e paixão que tínhamos um pelo outro.

***


- Ai, ... Como eu senti sua falta. Como eu sinto a sua falta. Você é incrível. - sussurrou, tirando uma mecha de cabelo do meu rosto, me dando um selinho. Ele ainda estava em cima de mim. Então eu o beijei com toda a vontade que encontrei em mim. Sentir o gosto da boca dele por mais uma vez foi como remédio para um doente. Apertamos nossos corpos nus um contra o outro, como se fôssemos fundi-lo para virar apenas um.
- Eu não queria que a gente terminasse nunca, nunca... - Ele indagou, encostando sua testa na minha, fechando os olhos. Fiquei em silêncio, como se estivesse pedindo para que ele continuasse a falar. Mas ele não disse mais nada, só abriu os olhos e ficou me encarando, os olhos brilhando, nos lábios um sorriso sem mostrar os dentes.
- Eu quero muito, mas muito voltar com você. - Ele sussurrou, dando um beijo na minha testa, depois na minha boca. Aquilo me quebrava completamente, fazia meu coração amolecer feito manteiga sobre a influência do fogo.
- , não... - Eu disse, com a voz fraca. - Isso não estará certo. - Finalmente agindo por razão, e não por emoção, eu me afastei dele, caminhando para o outro lado do quarto. - Já aconteceu uma vez, e... Eu não quero que aconteça de novo. Nós dois vamos sofrer mais do que já estamos.
- Mas, ...
- Por favor... Vai embora. - Indaguei com a voz fraca de novo, coçando os olhos com as costas das mãos. Sem nenhuma palavra, insistência ou qualquer reação, se levantou da cama. Vestiu as roupas no corpo e logo pôs os sapatos nos pés. Senti que ele se aproximava de mim. Então ele passou seu braço por minha cintura e a testa ele encostou-se a meu ombro; eu prendi a minha respiração.
- , eu te amo. Nunca vou desistir de você, de nós. - Ele indagou, passando seu nariz em minha nuca, beijando de leve a área. Ficamos uns minutos somente abraçados. Eu tinha vontade de fazê-lo ficar comigo para sempre. Mas, antes de permitir minha boca de falar sem que eu pensasse, ele se afastou de mim e logo eu ouvi barulho de porta batendo, indicando que ele deixara o apartamento.
Eu me perguntava: por que, por que ele fica fazendo isso comigo?
Por mais que eu quisesse por mais uma vez ter , eu não podia. Nós não podíamos mais ter um ao outro, e a culpa não era minha se isso tinha acontecido.
Depois que eu me notifiquei que eu estava sozinha de novo, deixei que a minha dor desse livre curso em minhas lágrimas.
Ele estava fora do meu alcance agora. Na verdade, sempre esteve. Ele nunca seria meu, nem um dia foi, e minha mente sabia disso. Só que meu coração insistia em dizer o contrário, correr contra a correnteza, fazendo-me ficar cada dia mais confusa.

Capítulo Vinte e Quatro – Desesperança


's Point Of View: On.

Eu não podia deixar aquilo do jeito que estava. Precisava voltar ao apartamento de para tentar persuadi-la. Eu precisava dela mais do que para satisfazer minhas vontades carnais. Meu espírito necessitava estar perto dela, sentir seu amor sendo transmitido para mim do jeito que só ela sabia; no jeito que ela me olhava, quando sorria para mim, ou até mesmo quando mandava tomar banho exatamente como minha mãe fazia. Eu sentia falta de , de estar com ela; até mesmo das conversas idiotas que tínhamos depois de fazermos amor, eu sentia falta. Minha vida não seria a mesma sem ela. Não teria um brilho especial, muito menos sentido.

Então, muito decidido, eu estava me direcionando ao prédio em que o apartamento que ela morava se encontrava. Estava muito decidido em fazê-la minha para sempre, acontecesse o que acontecesse.
Quando cheguei, estacionei o carro na calçada do prédio e entrei nele; dei graças a Deus porque a recepção estava vazia, então não haveria assédios nem algo do gênero. E também agradeci por ter escolhido para visitá-la um horário em que o movimento não era tão intenso, porque a maioria das pessoas estava em suas casas, assistindo alguma coisa nas suas televisões de seus quartos, deitadas em suas camas de solteiro ou casal.

Eu ligava direto para , mandava sms, mas ela não atendia o celular; só que eu não sabia se era porque ela não estava perto do aparelho ou simplesmente porque não queria me atender ou responder as minhas mensagens, queria evitar falar comigo. Por isto, pelo elevador, eu subi até o andar que ela morava sem ser anunciado, para que ela não me barrasse antes mesmo de eu subir ao seu andar e aparecer em sua porta. Toquei a campainha uma vez e esperei por um momento. Ela então apareceu no espaço que antes era preenchido pela porta. Meus batimentos cardíacos aumentaram quando eu a vi ali, na minha frente; tentei sorrir, mas estava nervoso demais para isso.
Quando ela me encarou, eu li a surpresa em seu olhar; logo em seguida ela fitou profundamente meus olhos e eu retribuí o gesto. Estava tão pálida quanto um vampiro. Os olhos estavam inchados e o cabelo preso em um coque frouxo, que se desprenderia a qualquer momento. Mas, mesmo daquela maneira, ela continuava sendo a mulher mais linda que eu já tinha visto e conhecido em toda a minha vida. E ela não era bonita só por fora, era por dentro também. Ela tinha uma bela alma, doce como fagos de mel.
- Quem é, ? - Ouvi falar de longe, em português.
- Engano! - respondeu também em português, virando a cabeça para a direção do corredor do apartamento. - Por que você voltou aqui, está louco? - Ela sussurrou com a voz rouca, olhando para dentro da sala com cautela, voltando sua atenção para mim novamente. Então saiu do apartamento e encostou a porta.
- Porque nós não terminamos bem como eu queria o que tínhamos começado ontem. - Falei em tom baixo, passando a mão nos cabelos dela.
- ...
- Shiu! - Encostei meu dedo indicador em sua boca, que agora estava seca e ressecada por conta do frio, e dei um passo à frente; entrelacei meus braços em sua cintura e beijei seus doces lábios com ternura e amor, o que ela retribuiu da mesma forma.
- , vai embora, porra! A está em casa! Ela vai te matar se te ver aqui... - sussurrou, afastando um pouco sua boca da minha, dando-me selinhos em seguida.
- Não faz mal, eu não me importo... - Murmurinhei, encostando minha testa na dela, um pouco ofegante.
- Você não se lembra daquele dia em que ela quase te espancou por você ter vindo me procurar? - Ela falou, ainda sussurrando.
- Ah, nem me lembre. Os tapas dela doem até hoje em mim. - Indaguei, esfregando meu braço com a mão, e ela riu baixinho de minha fala. - Podemos ir para outro lugar. - Eu disse, também em um sussurro, esfregando carinhosamente meu nariz no do dela, pondo as mãos no bolso de seu casaco de moletom cinza.
- Que outro lugar? Fora de cogitação ir para o seu carro, porque se eu sair a essa hora e descer, a vai desconfiar. Só tem o terraço aqui...
- Ótimo. Vamos para lá, então.
- Ok. Mas espera. - Ela deu um selinho em minha boca e correu para o quarto de . Não demorou e ela voltou, indicando com o olhar que eu saísse dali. - Calma, , eu só vou dar uma olhadinha na noite. Está realmente bela. Não precisa se preocupar, cara, olha para mim. Eu estou toda agasalhada. Agora, por favor, pare de agir como a minha mãe.
- Tudo bem, então, , você quem sabe. Eu sei que você adora ficar olhando estrelas, ainda mais hoje que o céu está limpinho... - Ouvi a voz de dizer abafada. então falou para mais alguma coisa que eu não consegui escutar e disse para a amiga que logo voltaria; fechou a porta do quarto dela e andou até mim, empurrou-me para frente com as mãos espalmadas no meu peito; nós nos direcionamos, sem a necessidade de correr, para as escadas que levavam ao terraço sem cobertura, que ficava a dois andares dali. Enquanto subíamos os degraus aos risos e de mãos dadas, senti-me como um adolescente que sai escondido da casa dos pais para beber com os amigos.
Quando chegamos ao topo da escadaria e caminhamos dela para o terraço, deparamo-nos com uma bela noite de quase inverno. O céu estava sem lua, mas as estrelas predominavam e brilhavam mais do que nunca, não se importando nem um pouco com as luzes da grande Londres, que tentavam ofuscar o brilho dos astros luminosos. Encostamo-nos a um dos muros médios que envolviam o lugar e ficamos uns tempos abraçados, admirando as estrelas, dando nomes a elas, como costumávamos fazer sempre que parávamos para admirar a noite; ela tinha um grande conhecimento sobre aqueles astros luminosos, e sempre os passava para mim.

Enquanto conversávamos sobre diversos assuntos diferentes e aleatórios que iam e vinham sem que percebêssemos, o cheiro dos seus cabelos era levado a minhas narinas pela brisa gélida que percorria de vez em quando pelo local. Por debaixo da super larga blusa de frio dela, sua pele quente era macia e muito convidativa, e eu não conseguia parar de tocá-la para sentir o seu calor passando para minhas mãos, para meu corpo inteiro.
- Eu tinha me esquecido. - Depois de um breve tempo de silêncio, ela disse, virando-se para mim, acariciando meu rosto. Suspirou pesadamente.
- De quê? - Perguntei, beijando a ponta do nariz dela, passando minha língua por seus lábios logo em seguida.
- De como eu amo estar com você. - Murmurinhou ela, passando seus dez dedos por dentro dos meus cabelos e agarrando os fios sem utilizar força, fazendo com que minha cabeça se inclinasse para ela gentilmente. Então nossos lábios se encontraram.
Enquanto a beijava, eu andei um pouco, às cegas, conduzindo-a até chegarmos a pequena laje que ficava no meio do terraço; eu a encostei lá, ela se sentou no chão da laje e eu me encaixei entre as suas pernas. Ela começou a brincar com os dedos, passando-os por dentro da minha boxer e retirando-os, o que sempre me fazia ofegar, ficar desesperado por mais do que aquilo.
- ... Por favor... - Sussurrei, parando a mão dela. Ela olhou para mim e sorriu maliciosamente, como sempre fazia quando sabia que marcara um ponto; então ela enfiou a mão por dentro da minha boxer, e eu gemi de prazer.
- Eu sinto muita falta das noites com você. - disse, arranhando minhas costas com suas unhas escarlates por sob minha blusa e meu casaco. Não me machucava, mas também não me fazia cócegas, e sim aplicava a pressão perfeita em suas unhas.
Nós paramos de nos beijar e nos abraçamos bem apertado, simplesmente para curtir a respiração superficial um do outro. Não existia coisa mais excitante do que ter a respiração arfante dela batendo em meu ouvido.
Mordiscou de leve a cartilagem da minha orelha, e em seguida foi fazendo o caminho de volta à minha boca.

A situação já estava ficando crítica. Eu já não conseguia nem queria mais esperar por aquilo; nem ela queria mais esperar, porque foi ela quem abriu o cinto e a minha calça, em seguida abaixou a calça de moletom enorme que usava. Eu me protegi e o ato foi consumado sob o céu estrelado e o ar denso e frio da noite, sendo estes os únicos testemunhos do nosso amor.

***


- Volta amanhã? - Sussurrou ela, enquanto descíamos as escadas que nos levou para o terraço e que nos levariam de volta ao sétimo andar.
- Farei o possível para voltar. - Murmurinhei, olhando para ela e sorrindo. Ela retribuiu o gesto.
Paramos nos degraus finais do último lance de escadas e eu encostei com ela na parede; acarinhei seus cabelos, beijei sua testa e olhei-a nos olhos. Ela passou a mão por meu rosto e me abraçou, passando seus braços em volta do meu tórax, encostando sua cabeça em meu ombro, com o nariz voltado para meu pescoço.
- Eu queria passar o resto da noite com você. - Ela disse, respirando pesadamente em seguida, sua respiração quente batendo em meu pescoço. Então levantou sua cabeça e fitou seus olhos nos meus. Os dela estavam lacrimejando, como uma nuvem carregada que a qualquer momento derramaria chuva sobre a terra seca.
- Eu também, minha linda. Eu também. - Indaguei com tristeza, selando meus lábios nos dela. Então nossas línguas se encontraram em um beijo apaixonado, cheio de sentimentos. Abraçamo-nos uma última vez, muito demoradamente, e tornamos a descer as escadas de mãos dadas.
- Eu te amo muito. - Falei, quando chegamos ao fim dos degraus, antes de atravessarmos a porta.
- Eu também. Eu te amo muito. - Ela respondeu, passando o dedão no dorso da minha mão, sorrindo sem mostrar os dentes. Beijamo-nos uma última vez e dolorosamente, e contra nosso desejo nos separamos, cada um seguindo por um caminho oposto ao do outro. Antes de ela entrar no apartamento e eu virar o corredor, olhamos para trás com uma sincronia incrível e sorrimos um para o outro. Senti meu coração palpitar mais rápido. Aquele sorriso fazia meu mundo girar.
Ela jogou um beijo no ar e formou com os lábios "eu te amo". Sorri e formei com os meus "eu te amo mais". Ela balançou a cabeça negativamente, sorrindo, e entrou no apartamento. Então virei o corredor e logo apertei o botão para selecionar o elevador, e o que descia logo chegou. Apertei o botão do andar térreo quando entrei no transportador. Um silêncio que chegava a ser incômodo estava instalado dentro do cubículo prateado. Isso fazia com que eu ficasse meio nervoso, porque não gostava muito quando as coisas ficavam silenciosas demais.
O elevador foi parando suavemente e logo suas portas se abriram, indicando que eu havia chegado ao andar térreo. Então eu saí de lá, atravessei a recepção do prédio, andei até o meu carro e entrei nele. Liguei-o e coloquei-o na estrada, tomando o caminho para casa. Apenas um pensamento preenchia meu cérebro: ela ainda me amava e ainda me desejava. Por conta disto, eu estava disposto a enfrentar tudo e todos. Porque era com ela que eu queria passar o resto da minha vida, era a ela que meu coração pertencia.

Quando cheguei à minha casa, dei uma olhada na secretária eletrônica só pela força do hábito, mas não havia nenhuma mensagem de voz gravada no aparelho. Perguntei-me por que tinha feito aquilo, já era tarde da noite, ninguém ligaria para mim àquela hora. Fui até a cozinha e peguei um pacote de biscoitos de chocolate, devorando a metade em questão de pouquíssimos minutos, pois eu estava morto de fome e só havia percebido no momento em que pisei em casa.
Depois que tinha acabado minha pequena "refeição", subi para o meu quarto e tomei um banho quente e demorado na suíte. De vez em quando, eu fechava os olhos e sorria para o nada, porque a lembrança mais recente de e eu juntos vinha à minha mente agradavelmente, como um bom amigo que eu não via há muito tempo.
Assim que saí do banho, vesti-me fui direto para a cama, e lá, logo adormeci, com o cheiro dela ainda impregnado em minha pele, mesmo depois de eu ter me lavado.

~ Algumas semanas depois.

- Amor, a vai para a casa do hoje e vai passar uns dois dias lá. Vem me fazer companhia? - disse, quase num sussurro dengoso do outro lado da linha telefônica.
Para mim, viver perigosamente se definia em uma coisa: encontrar-me escondido com a pessoa que me fazia feliz. Era a maneira que eu estava vivendo nas últimas semanas que haviam se passado. A adrenalina pulsava em minha corrente sanguínea todas as vezes que eu marcava de me encontrar com , sem que ninguém – nem mesmo nossos melhores amigos – soubessem que nós estávamos nos vendo novamente. De certo ângulo, a situação era até divertida, eu me sentia na adolescência de novo.

Aqueles encontros secretos estavam fazendo muito bem para mim. Eu até conseguia suportar coisas chatíssimas, pensando que quando aquilo terminasse, eu ligaria para ou a veria, sendo pessoalmente ou por vídeo conferência. O ruim era que tínhamos que fingir que nada estava acontecendo, que estávamos na mesma situação em que todos sabiam que estávamos desde que o nosso relacionamento tinha sido terminado, com a desagradável interferência de Mariana. Depois ficávamos rindo daquilo tudo, de fingir uma coisa e as pessoas acreditarem. Estávamos nos considerando dissimuladores tão bons que merecíamos um Oscar de melhor atuação.
- Se eu vou? Hm... É claro que eu sim, minha linda... - Respondi, sorrindo para mim mesmo; e mesmo não a vendo, imaginei um sorriso enorme em seus lábios.
- Já posso ir para aí?
- Eu vou ver aqui. Deixarei o celular no quarto, então espere um pouquinho. Já volto.
- Okay. - Então a linha ficou silenciosa por uns minutos.
- Hm, eles acabaram de sair daqui.
- Então tudo bem. Daqui a pouco estarei com você.
- Mal posso esperar para te ver.
- Nem eu. Até. Eu te amo.
- Até. Eu te amo mais.
Depois de sua fala, soltei uma risadinha e desliguei o telefone. Então eu me levantei da cama e me direcionei à suíte do meu quarto, onde eu me despi e tomei um banho mais rápido que a velocidade da luz. Vesti roupas de frio e passei perfume, calcei meus sapatos, peguei as chaves do carro e da casa e meu aparelho celular. Então eu deixei o cômodo, desci para o outro andar e deixei a casa pelos fundos, para não chamar a atenção de ninguém, em especial, dos meus amigos. Entrei no carro e o liguei tentando fazer o mínimo de barulho, e cautelosamente deixei a casa.
Poucos minutos depois, no portão do condomínio, encontrei entrando no lugar com o carro dele. Meu coração acelerou fortemente. Será que ele me perguntaria o que eu iria fazer? Ou pior... Aonde eu iria? Ele parou e eu, contra a vontade, parei também, abrindo o vidro do carro, assim como ele estava fazendo.
- E aí, dude. - Ele disse.
- Hey, . - Eu falei, e então ele atravessou a mão pela janela aberta do carro dele, e eu fiz o mesmo e apertei a sua mão. se encontrava no banco do passageiro, ao lado de . - Hey, ...
- Oi, . - Ela respondeu um tanto seca.
- A vai passar uns dias aqui comigo... Vai até acompanhar uma gravação nossa no estúdio!
- Sério? - Fingi surpresa, olhando para . Ela concordou com a cabeça. - Você vai adorar nos ver no estúdio, , tenho certeza. Só não sei se você vai conseguir ficar naquela bagunça da casa do ... - Indaguei, e riu, mesmo que contra a vontade.
- ! É mentira dele, amor, minha casa é mega arrumada, você verá. - falou, olhando para ela, fazendo cara de inocente.
- Aham, claro que é. - Eu disse, em tom de ironia, e o me mandou o dedo do meio, o que me fez rir. - Bom, gente, eu preciso ir, tenho algumas coisinhas importantes para fazer...
- Tipo ver a Mariranha? - indagou num tom baixo, mas que eu pude ouvir.
- ! - a repreendeu com um olhar. O rosto dela tomara a cor vermelha, quase num tom de púrpura. E eu até que tinha gostado do apelido, mas resolvi não dizer nada e fazer papel de pessoa-quase-chocada-com-o-que-acabou-de-ouvir.
- Bem, estou indo. Até mais!
- Até!
Bem mais aliviado do que antes, eu pisei no acelerador e atravessei o portão, deixando o condomínio residencial.
No caminho para o lar de , passei em uma floricultura e comprei um ramo de rosas brancas para ela. Também passei em um lugar em que comprei uma garrafa de champanhe, chocolate e morangos. Queria fazer algo de especial para minha amada.
Quando cheguei a seu apartamento, fui muito bem recebido com um abraço muito apertado e vários beijos, principalmente depois que eu tinha dado a ela o ramo de rosas e mostrado a sacola de papel com as coisas que eu tinha comprado.
- Eu já estava com tantas saudades de você... - Ela murmurinhou em meu ouvido, beijando delicadamente minha bochecha em seguida.
- Mas nós nos vimos anteontem! - Indaguei, passando a mão em seus cabelos.
- Eu sei. Mas eu já estava com saudades. - Ela disse, olhando em meus olhos, passando a mão em meu rosto. Então sorriu fraco.
- A quem eu quero enganar... - Falei, beijando a boca dela em seguida. - Eu já estava morrendo de saudades de você, também. - Eu disse, encostando minha testa na dela, ainda acariciando seus cabelos. Então nos abraçamos, ela com a cabeça encostada no meu ombro, sua respiração suave batendo em minha pele.
- Não consigo ficar longe de você... - Sussurrei, e ela levantou a cabeça para me encarar com seus olhos ternos. Eu não tinha vontade de largá-la nunca, no sentido figurado e literal.
- E eu muito menos. - Murmurinhou, roçando delicadamente seu nariz no meu.

Nós abrimos a champanhe que eu tinha comprado, bebemos algumas taças e fizemos amor...
Naquele dia, passamos as demais horas juntos, fazendo programinhas clichês de casal, mas que eu sempre gostava, por incrível que parecesse. Sentir o atrito dos cabelos dela na pele do meu pescoço, enquanto abraçados assistíamos um filme, causava-me sensações inexplicáveis, que eu só experimentava quando estava perto dela, abraçado a ela, sentindo seus dedos gélidos passarem por entre meus cabelos e entrelaçarem-se à minha mão.

A única parte chata foi ir embora ao fim do dia, porque eu queria passar o resto da noite abraçado a ela, com o calor do corpo dela aquecendo-me e protegendo-me do frio do inverno.

***


THE SUN

FINALMENTE, O CASAMENTO.

Ontem, às cinco horas da tarde, um dos nossos representantes nos revelou uma notícia que abalará o mundo das celebridades, e que, talvez, entristecerá muitas fãs da banda McFLY.
O rapaz , que é tão amado no mundo inteiro e agrada muito a todos – principalmente as mulheres – resolveu sossegar das noitadas da vida de solteiro e pensar seriamente em construir uma família, seguir com sua própria vida.

Nosso enviado nos conta que ontem, por volta das três da tarde, foi visto saindo de uma singela catedral que se localiza no coração de Londres (confira as fotos na página seguinte) juntamente com a até então noiva, Mariana Santos, a brasileira que é uma das mais renomadas fotógrafas artísticas da cidade.
"Eu perguntei a eles o que foram fazer ali, e a Mari sorriu abertamente e disse que eles finalmente marcaram a data do casamento, depois de um ano de noivado e dois de namoro" nosso enviado contou-nos em uma pequena entrevista. "Eles pareciam satisfeitos com isto" completou ele.
Pelo o que parece, será uma reunião simples e só para amigos íntimos e família. Segundo os noivos, a cerimônia está marcada para o dia dezoito de Janeiro, e começará por volta das dez e trinta e cinco da manhã; após a cerimônia, uma recepção para uma pequena lista de convidados será feita na casa onde mora.

É inacreditável, mas nosso querido , que ontem era só um adolescente "ingênuo", tornou-se adulto, e vai realmente se casar, ter filhos... Ser um homem de família.
Só não fiquem tristes, fãs, pois, por mais que agora esteja seriamente comprometido, Mariana terá que dividi-lo com vocês, querendo ou não.


***


Capítulo Vinte e Cinco – Um Mau Presságio


Maldito jornal. Maldita foto que tiraram de Mariana e eu saindo daquela catedral. Deixaram para fotografar-nos justamente na hora em que eu estava sorrindo ironicamente para ela, e justamente era esta a foto principal da matéria, que quase enchia uma página inteira do jornal, e que eu não tive coragem de ler o resto. Malditos, apenas malditos. Como tiveram a audácia de publicar uma coisa como aquela?
Ler aquela manchete sobre Mariana e eu no The Sun fez meu estômago se corroer como se tivessem trocado o ácido clorídrico produzido no órgão por ácido sulfúrico; meus outros órgãos internos se remexiam tanto que pareciam estar dançando um ritmo frenético. Será que já tinha visto aquilo? Eu esperava que não. Não depois do que tinha acontecido entre nós nas duas noites em que eu a visitei, e que resultaram em novos encontros às escondidas, porque eu não aguentava mais ficar longe dela. E com certeza, nunca aguentaria isto. Era uma tortura para mim, não tê-la ao meu lado, e quando ela não estava por perto, eu sempre sentia como se uma parte importante de um grande quebra-cabeça estivesse faltando.
Talvez, depois do que o jornal tinha publicado, ela nunca mais – desta vez de verdade – olharia na minha cara, nem que eu me pintasse de ouro. Porque a minha sentença tinha sido anunciada. E agora todos sabiam disto. Isto fazia com que eu tivesse vontade de bater minha cabeça na parede até que ela se quebrasse. Estava morto de raiva, não só do jornal e da matéria, mas também de Mariana. Agora, sempre que tinha uma oportunidade, ela infernizava minha vida, e isso estava quase fazendo com que eu entrasse em colapso físico e mental.
Como uma abelha zunindo de muito longe, ouvi o telefone cantar desesperadamente, como se estivesse sendo atacado por alguma coisa ou alguém. Com o toque, eu acordei de meus devaneios, ou quase isto. Parecia que eu tinha acabado de emergir de um pesadelo terrível, e, quando acordei, finalmente, percebi que, na verdade, aquilo, de fato, estava acontecendo. Levantei-me do sofá, respirei fundo e tirei o telefone do gancho, apertando o botão verde que dizia "call".
– Alô.
– Filho? É mamãe.
– Ah! Oi, mãe.
– Está tudo bem, meu amor?
– Sim, mãe, está tudo ótimo. – Indaguei, sem deixar transparecer muito o sarcasmo da minha fala. Tanto que ela mal percebera.
– Eu acabei de ler a manchete do The Sun sobre o casamento. Isso que está escrito é verdade? Você realmente vai se casar com a Mariana? – Minha mãe disse, parecendo bem preocupada.
– É verdade sim, mãe. Marcamos a data do casamento, eu disse que faria isso.
Depois do que eu disse, mamãe respirou fundo do outro lado da linha.
– Você me disse e eu nem levei a sério...
– Pois é, mãe, mas era verdade.
... Olhe, querido, eu sei que ela está esperando um filho seu... Mas você não é obrigado a casar com ela por isso! Hoje em dia essas coisas não são necessárias...
– Eu sei, mãe, mas... – Respirei pesadamente. – É uma situação realmente complicada de explicar.
Um longo silêncio percorreu entre as linhas. Eu queria muito revelar o real motivo da situação, mas não podia fazer isto de jeito nenhum. Pelo bem estar de .
– Você parecia, e parece, realmente apaixonado por aquela outra moça que você estava namorando, a ... Tão simpática e atenciosa, a menina. Eu não entendo o porquê que você a deixou, muito menos entendo o motivo do seu casamento com a Mariana. Eu realmente não entendo.
Mais um silêncio correu entre nossas línguas. Eu estava com um nó preso na garganta. Parecia que eu tinha esquecido como se usava a boca para falar.
?
– Sim.
– Quer que eu passe aí para gente conversar sobre isso com mais calma? – Minha mãe disse, com carinho.
– Não, não precisa, mãe. Eu vou ficar bem. – Falei, massageando os olhos fechados com as pontas dos dedos.
– Tem certeza, meu amor?
– Absoluta. – Com minha fala, ela soltou um muxoxo de desaprovação.
– Hm. Então está tudo ok. – Mamãe indagou, com uma ponta de ceticismo na voz. – Até mais, ligo para aí depois. Amo você.
– Até, mãe. Amo você também.
Sentei-me no sofá e fechei os olhos, massageando as têmporas com as mãos. Minha cabeça explodiria a qualquer momento. Isso porque o dia nem tinha começado direito, e já estava sendo tão ruim.
Senti-me mais angustiado do que pretendia quando minha mãe finalizou a chamada e eu coloquei o aparelho telefônico sem fio de volta ao carregador. Eu queria muito que ela estivesse ali comigo, abraçada a mim até que eu me sentisse melhor, como fazia quando eu era pequeno e sentia medo de alguma coisa. Mas também não queria que ela me cobrisse de perguntas a respeito do casamento. Porque eu não queria tratar daquele assunto com a minha mãe; pelo menos não ainda.
Mal eu sentei no sofá de novo e a campainha tocou, ressoando seu som por toda a casa. Respirei, pesadamente, perguntando-me quem seria àquela hora da manhã, daí eu lembrei que poderia ser um dos caras querendo saber se a notícia era realmente verdadeira; levantei-me do estofado mais uma vez e, meio emburrado, andei até o lugar onde a porta se situava. Meu mau-humor só piorou quando abri a entrada principal da casa e me deparei com Mariana do lado de fora. Ela sorriu triunfante quando me viu. Pedi desculpas ao meu instinto masculino, pensando no quanto seria melhor se, do outro lado da porta, estivesse , ou .
– Você leu o que publicaram aqui? – Ela disse num tom de voz bastante alegre, mostrando-me outro exemplar do The Sun daquele dia que ela carregava em mãos. Estava tão próximo do meu rosto que eu conseguia sentir o cheiro das folhas do jornal.
– Aham. – Resmunguei, abrindo passagem para ela entrar.
– Não é interessante?
– Ah, é, claro. Isso é bastante interessante. – Falei ironicamente, andando junto com ela pelo caminho que levava à cozinha.
– Ah, qual é, . Anime-se, dude! A data finalmente foi marcada. Nós vamos nos casar. – Mari disse, com um sorriso mau nos lábios. Seus olhos faiscavam em grande satisfação. Fiquei olhando para ela por um tempo sem conseguir falar, não acreditando na disposição que ela estava tendo em me deixar totalmente estressado e mal-humorado.
– O que você quer aqui, Mariana, me atazanar mais ainda? Já não basta o que você está fazendo comigo? – Eu disse muito sério, me segurando ao máximo para não gritar.
– Nossa, eu não acredito que você pensa que eu só venho até aqui para te irritar! Estou arrasada. – Ela falou, se fingindo de ofendida, simulando um "segurar de choro". Ela realmente daria uma ótima atriz.
– Eu vim até aqui para lhe informar sobre a primeira consulta que eu marquei na ginecologista obstetra que vai acompanhar minha gravidez. – Continuou ela, sentando-se ema uma cadeira da mesa da cozinha enquanto eu vasculhava na geladeira e nos armários, pegando algumas coisas.
– E não poderia dizer isto fazendo uma ligação?
– Poder eu até poderia... Mas preferi vir até aqui para te ver, tomar café da manhã com você... Conversar um pouco.
– Tem certeza de que foi só para isso, Mariana? – Indaguei enquanto cortava queijo branco em cubinhos, sem me virar para ela.
Ela ficou um tempo em silêncio, de modo que só se ouvia o barulho da faca batendo freneticamente no vidro do prato raso.
– Bom... – Quebrou o silêncio. – Eu estava pensando e... Já que, finalmente, marcamos a data do nosso casamento, eu vou voltar a morar com você.
– Você estava pensando em fazer o que...?! – Eu disse me voltando para ela em um giro de calcanhares. – Não! Você não voltará para cá!
– Ah, qual é, . Nós morávamos juntos antes de você resolver se esfregar na minha querida prima e me chifrar, acabando com nosso noivado. Além do mais, estou esperando um filho seu. Como bom pai, você tem que acompanhar a gravidez de perto. Sem contar que nós vamos...
– Eu já sei, porra! Não precisa repetir o tempo todo! – Eu gritei, batendo com a mão na mesa, o que a fez se encolher um pouco na cadeira.
– Se você já sabe disso tudo, então eu vou voltar para cá assim que puder. – Ela falou, arqueando as sobrancelhas. Fiquei sem reação depois daquela fala. – Bom, e esse café não sai? Nosso filho e eu estamos com fome! – Ela disse, sorrindo como se não tivesse dito nada de mais antes de perguntar sobre o café.
Com aquilo de querer voltar a morar comigo, mesmo sem saber – mas, provavelmente, sabia –, ela tinha destruído tudo o que eu tinha planejado para que o casamento fosse cancelado. E, com isto, a minha esperança de que um dia aquilo acabaria tinha se desmoronado.

***


's Point Of View: On.

Mais um dia surgia e, com isso, uma esperança renovada tomava conta de minha alma, do meu espírito.
Tudo estava ocorrendo como o desejado. Bem... Quase tudo. Mas, como nem tudo na vida é um mar de rosas, eu tinha que relevar algumas situações, como, por exemplo, meu relacionamento amoroso com o tal de . Tirando a dor de cabeça de ter que me encontrar escondido com ele, estávamos indo muito bem, até melhor do que antes.
Outra coisa que estava me deixando muito feliz era que o livro, o qual eu tinha terminado de escrever, tinha sido enviado a uma editora, e seria levado para as prateleiras das livrarias naquele dia; eu acompanharia aquilo de perto, desde o empacotamento dos primeiro exemplares até seu transporte para as primeiras lojas que o receberiam. Estava realmente eufórica por conta disto, era a realização de um grande sonho; eu mal sabia que roupa vestiria para a ocasião, tinha revirado todo o meu guarda-roupa à procura da peça perfeita, mas parecia que todas tinham se transformado em monstros e que eu tinha tomado enorme horror a elas. Por isto, deixei esta tarefa por último e resolvi dar conta de maquiagem e cabelo.
Peguei-me distraída olhando para o anel que estava em meu dedo anelar esquerdo enquanto eu passava delineador na pálpebra esquerda. Parei por um momento o que estava fazendo para admirar a joia, como ela brilhava a cada mínima partícula de luz que refletia nela. Olhei para frente e sorri para mim mesma; logo voltei a me maquiar.
Fiquei imaginando como estaria naquele momento, por saber que eu estava muito feliz por estar com ele de novo, mesmo que fosse escondido de tudo e todos; definitivamente tínhamos voltado à nossa situação inicial, mas, por mais que aquilo não fosse cem por cento favorável, já era um grande avanço estarmos juntos novamente. A adrenalina ocasionada pelos encontros secretos até deixavam a relação mais emocionante, mais engraçada... Mais apaixonante do que nunca.
Eu já não me sentia tão doente como eu estava me sentindo desde aquele dia que ele havia dito que nunca me amara, o que era uma mentira que eu ainda queria saber por que ele tinha contado.
Parecia que, finalmente, tinha encontrado a cura para um mal incurável, para uma dor que parecia não ter fim. Eu não conseguia achar palavras para explicar meus sentimentos por ... Quando eu estava com ele, eu sentia como se estivesse em casa. Era como se todos os problemas do mundo desaparecessem em um estalar de dedos, como se, no mais profundo dos olhos dele, eu encontrasse a solução para enigmas sem respostas. Eu amava nossas conversas, até as mais nerds ou inúteis possíveis. Amava nossos momentos engraçados, fofos, bobos, até mesmo nossos momentos de desentendimento. Meu amor pelo não tinha fim. Acho que isto provava o que eu já não tinha mais dúvida: era ele que eu queria para construir uma vida e vivê-la comigo até quando Deus quisesse.


Em algum lugar do apartamento, falava ao telefone com alguém. Eu não sabia com quem ela estava falando e sobre qual assunto era – porque não dava para ouvir sobre o que ela conversava –, mas ela parecia bem nervosa e indignada, e indicava isto pelo seu tom de voz agudo, que não era o normal da voz dela. Queria muito saber o que e quem tinha a deixado daquele jeito. E também queria saber quando ela largaria o telefone para se arrumar, já que ela acompanharia a minha estada na editora, aproveitando o fato de que estávamos de folga naquele dia cinzento e frio de inverno.
Depois de mais umas indistinguíveis falas nervosas de minha melhor amiga, o silêncio reinou no apartamento, quebrado apenas por passos nervosos e pesados aproximando-se cada vez mais, que faziam parecer que tudo estava estremecendo. E então ela irrompeu no quarto, com umas folhas amassadas de jornal em uma mão e o telefone sem fio na outra.
! Você já leu o The Sun de hoje? – quase gritou, entrando esbaforida no meu quarto, o rosto vermelho e contorcido de raiva, enquanto eu estava me arrumando na frente do espelho da porta do guarda-roupa para o dia mais esperado de todos. Notei que ela ainda estava usando seu pijama, com cara de sono e descabelada.
– Não. O que tem no The Sun para não deixar você se aprontar, ? – Indaguei, parando de pentear os cabelos e olhando para ela, com a testa franzida.
– Olha isso aqui! – Ela disse, entregando o jornal para mim. Então, ainda sem entender muito bem, eu larguei o pente, peguei o jornal e sentei-me na cama, onde eu me pus a ler o exemplar, bem na página que estava marcada.
– Você quer que eu leia tirinhas? , por favor! – Falei, olhando-a e fazendo cara feia para ela.
– Não é isso, não... – Ela falou, corando de leve, pegando o jornal da minha mão. Folheou um pouco até que parou em uma página. – Pronto, , essa é a página certa. Agora lê. – Ela disse, entregando-me o tablete e cruzando os braços; olhei para e balancei a cabeça de um lado para o outro. E então comecei a ler a notícia, assustando-me, de cara, com o título.

FINALMENTE, O CASAMENTO.

Ontem, às cinco horas da tarde, um dos nossos representantes nos revelou uma notícia que abalará o mundo das celebridades, e que, talvez, entristecerá muitas fãs da banda McFLY.
O rapaz , que é tão amado no mundo inteiro e agrada muito a todos – principalmente as mulheres – resolveu sossegar das noitadas da vida de solteiro e pensar seriamente em construir uma família, seguir com sua própria vida.

Nosso enviado nos conta que ontem, por volta das três da tarde, foi visto saindo de uma singela catedral que se localiza no coração de Londres (confira as fotos na página seguinte) juntamente com a até então noiva, Mariana Santos, a brasileira que é uma das mais renomadas fotógrafas artísticas da cidade.
"Eu perguntei a eles o que foram fazer ali, e a Mari sorriu abertamente e disse que eles finalmente marcaram a data do casamento, depois de um ano de noivado e dois de namoro" nosso enviado contou-nos em uma pequena entrevista. "Eles pareciam satisfeitos com isto" completou ele.
Pelo o que parece, será uma reunião simples e só para amigos íntimos e família. Segundo os noivos, a cerimônia está marcada para o dia dezoito de Janeiro, e começará por volta das dez e trinta e cinco da manhã; após a cerimônia, uma recepção para uma pequena lista de convidados será feita na casa onde mora.

É inacreditável, mas nosso querido , que ontem era só um adolescente "ingênuo", tornou-se adulto, e vai realmente se casar, ter filhos... Ser um homem de família.
Só não fiquem tristes, fãs, pois, por mais que agora esteja seriamente comprometido, Mariana terá que dividi-lo com vocês, querendo ou não.


– Mas o que...?! – Falei, assim que terminei de ler aquilo, arregalando os olhos e direcionando-os para .
– Isso mesmo que você leu. Eu liguei para o agora pouco, e ele me confirmou que isso aí é verdade. – falou, parecendo bastante irritada com aquela informação. E eu fiquei sem reação. Eu estava chocada demais para esboçar qualquer coisa.
Por um momento, senti como se meus órgãos internos tivessem parado nos meus intestinos. Meu coração parecia que tinha parado de funcionar. Senti-me tonta de uma hora para outra, a minha visão ficara meio opaca. E apenas uma coisa vinha à minha mente, martelando-a tanto que chegava a doer em meus neurônios: tinha mentido para mim por mais uma vez.

~ Flashback: On.

Fazia um dia de sol, mas estava bem frio. Eu gostava de dias como aquele, quando bate aquela brisa tão fria que chega a congelar o sangue, e o sol te mantém devidamente aquecido e protegido de morrer de hipotermia. Em dias como aquele, eu gostava de ficar ao lado da janela do meu quarto, deixando que os raios de sol invadissem o cômodo para esquentar meu corpo juntamente com meus edredons.
Aproveitando o fato de que eu tinha saído para entregar algumas documentações minhas que estavam pendentes na Embaixada Brasileira, que se situava na grande Londres, resolvi que, quando saísse de lá, passaria na casa de para passarmos um tempo juntos. Depois eu inventaria uma desculpa qualquer para , caso eu demorasse na casa dele.
Assim que saí da embaixada, mandei uma mensagem para ele avisando que passaria lá, e ele respondeu que estava tudo ok, que até estava pensando em me chamar para ir para a casa dele, mas eu fui mais rápida e me autoconvidei. Revirei os olhos, mas não pude deixar de soltar uma risadinha. Ele só pediu para que eu entrasse pelos fundos da residência, lá ele estaria me esperando sentado debaixo de uma das árvores do quintal do imóvel.
Peguei um pouquinho de trânsito, mas logo cheguei ao condomínio, tomando o cuidado de cobrir meus olhos com os óculos escuros e meu rosto com o cachecol branco que eu usava no pescoço. E foi bom eu ter feito isso, porque passei por no meio do caminho; ele passeava com o cachorro de estimação dele andando na mesma calçada que eu me encontrava, só que na minha oposta direção. olhou para mim (eu estava de cabeça baixa, mas pude ver quando ele fez isso), franziu a testa e parou de andar por um momento: parecia que tinha me reconhecido. Depois que passei por ele nem ousei em olhar para trás, pois sabia que ele estaria me olhando e se eu devolvesse o olhar, ele me chamaria e tudo estaria perdido. Dobrei em uma rua qualquer e o esperei se afastar bastante antes de entrar na rua da casa de e para isto precisei atravessar para a outra calçada da rua principal e andar reto. Segui o caminho inteiro até o fim da rua olhando para trás, para ter a certeza de que ninguém estava me espionando ou algo do tipo. Então, eu passei o caminho estreito entre a casa do e a casa vizinha até que cheguei ao portão de madeira do quintal da residência dele e atravessei este. Olhei em volta e estava deitado de barriga pra cima em uma toalha quadriculada em branco e vermelho, debaixo de uma macieira, a mais escondida e a maior. Ele mantinha suas mãos atrás da cabeça e os olhos perdidos e sonhadores voltados para o céu.
? – Indaguei, deixando que o cachecol não cobrisse mais minha boca. Ele então levantou o tronco, olhou para minha direção e sorriu docemente para mim; retribuí o gesto. Seus cabelos estavam desgrenhados, e o casaco quadriculado estava amarrotado. Chamou-me para ele com a cabeça, e logo eu fui sem hesitar. Larguei minha bolsa em um canto da toalha, descalcei meu salto alto e, antes que eu pudesse sentar, ele me deu uma rasteira que fez com que eu caísse no colo dele. Segurou-me firmemente, para que eu não me machucasse.
! Quer me matar do coração? Você poderia ter me machucado! – Falei, indignada, dando tapinhas no ombro dele, que ria horrores de mim.
– Ai, ai, minha linda... Quando você vai aprender que eu amo te pegar de surpresa? – Ele disse, retirando meus óculos escuros e fitando seus olhos nos meus, acarinhando minha nuca; estremeci com o contado dos dedos frios dele em minha pele quente.
– Amo quando você me surpreende. – Eu disse, encostando minha testa na dele, sorrindo fraco antes de nos beijarmos lenta e calmamente, sem o mínimo de pressa. Depois eu passei meus braços por sua nuca e o abracei. O calor do seu corpo passava para o meu, e a sua respiração quente batia em meu ouvido.
– Já disse que eu te amo hoje? – Falou ele quase que num sussurro.
– Sim. Mas eu nem me importo de ouvir de novo. – Respondi no mesmo tom de voz dele. Ele riu baixinho.
– Pois eu... – Beijou uma parte descoberta da minha nuca. – Amo... – Beijou minha bochecha. – Muito... – Minha outra bochecha. – Muito... – Meu nariz. – Muito... – Minha testa. – Muito... – Minha boca. – Você.
– Suspeitei desde o princípio. – Eu falei, e ele riu. Ri junto com ele. – E então, o que tem ali naquela cesta? – Eu disse, olhando para a tal, que eu tinha reparado a presença naquele momento.
– Tem umas coisinhas... Pega para você ver.
– E por que eu tenho que pegar? – Perguntei, cruzando os braços e olhando para .
– Porque eu quero que você pegue. – Ele disse, dando um sorriso de meia boca muito sedutor.
– Nossa, que preguiçoso você é, nem pra me deixar descansar. – Eu disse, revirando os olhos, levantando do colo dele, que piscou para mim e riu; caminhei até a cesta de palha, então, que estava coberta por um pano branco, e peguei-a pela alça. Voltei para o lado de e me sentei.
– Não tem nada que vai pular em cima de mim não, né?
– Não, bobinha. Abre logo isso, está me deixando nervoso. – Ele disse, corando de leve, desviando o olhar de mim por um momento. Franzi a testa e direcionei meu olhar para a cesta oval. Retirei o pano de cima dela, então. Em seu interior, havia muitas margaridas cobrindo o fundo, todas elas de cores diferentes; no meio daquelas flores, encontravam-se pequenos corações de papel rosa escritos "I Love You" em preto, e um ursinho de pelúcia branco que segurava um papel-cartão vermelho dobrado ao meio. Ao lado deste, estava uma pequena caixa de veludo preta, em cima de um dos corações de papel. Encarei com os olhos arregalados e ele sorriu para mim.
– Vai... Pega o cartão. Não é nenhum berrador não. – Ele disse quase num sussurro, sorrindo fraco. Como um holofote, o sol do fim de manhã iluminava seus olhos, e eles brilhavam tanto quanto diamantes. Ele encostou a cabeça em meu ombro e beijou minha nuca; senti arrepios percorrerem minhas costelas.
Então eu voltei meus olhos para a cesta e peguei o ursinho com o papel-cartão vermelho; retirei o papel da mãozinha dele, desdobrei e me pus a ler. A caligrafia em preto era a do meu amado.

'Cause we are lovers, I know you believe me, when you look into my eyes, 'cause the heart never lies... Desde o momento em que a conheci, esta música sempre me transporta a você (eu sei, eu nunca te disse, mas é verdade).
Ah... Este trecho te lembra de alguma coisa? Pois bem, espero que sim. Aquele dia foi tão marcante para nós...


Parei de ler, olhei para ele e sorri; sim, eu me lembrava como se fosse ontem daquele dia em que demos nosso primeiro beijo, que ele me consolou enquanto eu chorava feito bebê, que ele me segurou em seus braços de um modo tão aconchegante que me fez derreter por dentro.

Aquele foi um dos momentos pelo qual eu prezo em deixar vivo em minha memória, porque foi uma das confirmações de que é você que eu quero para passar o resto da vida comigo. Espero que você aceite. Retire a caixinha preta da cesta, você entenderá do que eu estou falando.

Então eu segui as instruções do bilhete: peguei a caixinha aveludada, que permanecera intocável até eu pegá-la e abri-la. Meu coração ficou muito mais acelerado quando o que tinha no interior dela se revelou. Era um anel de ouro branco, que tinha uma pequena pedra na ponta; esta brilhava tanto que eu pensei que era a luz do sol.
, o q-que isso significa? – Perguntei, olhando cautelosamente para ele.
– Isso mesmo que você está pensando. – Ele disse, sorrindo, pegando em minha mão, beijando a parte externa dela. Pegou uma margarida da cesta e colocou-a entre meus cabelos. Respirou pesadamente.
– M-mas...
– Eu sei, parece impossível um pedido de casamento agora, na nossa situação, mas se eu não fizesse isso neste exato momento, talvez não fizesse nunca. – Ele falou, respirando fundo mais uma vez. Pegou em minha mão; a dele estava molhada de suor. – , eu quero que você seja só minha, para todo o sempre. Quero ter filhos com você, muitos pequenos s e pequenas s... Você é a dona do meu coração, e eu tenho certeza de que será dona dele para sempre. Você me complementa, me dá sustentação e apoio. Sabe quando tem que falar e quando tem que se calar; ok, nem tanto, mas isso não vem ao caso agora. – Ele disse, dando uma risadinha, fazendo com que eu revirasse os olhos. Depois tornou a ficar sério. – Eu amo cada parte do seu corpo, cada parte de você, que a cada dia se impregna mais a mim, que me torna um homem melhor a cada dia que passa. O que eu sinto por você vai muito além de uma simples paixão, é amor, sincero e puro. Quero partilhar minha vida com você. E que nem a morte nos separe. Você aceita se casar comigo? – Disse ele, olhando diretamente nos meus olhos, que àquela altura do campeonato estavam inundados de lágrimas que teimavam em deixar meus olhos embaçados, fazendo virar um borrão de cores na minha frente.
– Claro que sim, . – Indaguei com a voz rouca de emoção, abraçando-o, ainda não acreditando no que ele estava fazendo, sem pensar nas consequências. Depois de um tempo naquele abraço forte, nos separamos, e ele acariciou meu rosto com a sua mão macia, e deu-me um selinho demorado.
– Eu... Darei um jeito para que possamos viver sem preocupações, sem ninguém para atrapalhar nosso amor. Nem que tenhamos que fugir daqui.
– Tudo isso significa que você terá de largar uma mulher grávida.
– Eu não me importo mais com isso. Olha, eu serei um bom pai para a criança, estando com a Mari ou não! Eu só quero estar com você, , em todos os dias da minha vida, não importa o que isto venha a acarretar. – disse ao que parecia atento a cada traço do meu rosto; beijou meus lábios com doçura, voltando seus braços calorosos em minha cintura.
Então ele separou seus lábios dos meus e sorriu do jeito mais lindo, mais sincero. Tirou o anel com a pedra solitária da caixinha e o colocou em meu dedo anelar direito. Disse que me amava mais que tudo, abraçou-me forte e me derrubou com ele no chão, e nós rolamos até chegarmos à grama descoberta, que estava gélida e úmida do orvalho da noite anterior. Nós ríamos daquilo como se estivéssemos assistindo a um programa engraçado na TV.
Olhamos um para o outro apaixonadamente, como da primeira vez que nos vimos. Entrelaçamos as nossas mãos de pouco em pouco, de uma forma tão tímida quanto a de namorados de curta data. Senti o calor dele sendo transportado para mim, e notei que a mão dele já não estava tão suada como antes. Talvez estivesse porque ele estava nervoso. Depois de um tempo em silêncio, sem executar nenhum movimento a não ser olhar para o céu, ele levou as nossas mãos à altura da boca dele e beijou o meu dedo anelar que estava com o anel que eu acabara de ganhar, o que chamou minha atenção a olhar para ele, sorrindo abobalhada. Eu cheguei mais perto dele e aninhei minha cabeça em seu peitoral. Seu inconfundível cheiro passou a tomar conta do ar que eu respirava.
Meu coração saltitava a cada vez que eu pensava que tinha me pedido em casamento.
A partir daquele momento, a vida tornara-se quase bela para mim. Quase.

~ Flashback: Off.

– Caralho. Acorda, ! Você está chorando? Por quê?! Pensei que você já tinha superado essa história do voltar com a Mariana! – Thabita disse, quase que gritando, pondo as mãos na cintura.
, você não entende?! Ele é o amor da minha vida, esse cafajeste é o amor da minha vida! – Indaguei, com a voz embargada por conta do meu choro calado. Então eu olhei para ela e meus olhos se encheram de novas lágrimas involuntárias, fazendo com que eu apoiasse os cotovelos nas pernas e escondesse o meu rosto com as mãos; ela franziu a testa e sentou-se ao meu lado, abraçando-me forte.
– Desculpe-me, ... Eu não quis dizer isso. – Ela falou, usando de um tom manso, confortante.
– Tudo bem, amiga.
Depois da minha fala, um longo silêncio perdurou em nossas bocas. Ouvia-se o barulho de carros passando na rua, buzinas tocando, o Big Ben anunciando que eram oito da manhã em ponto, pessoas caminhando no andar de cima, o telefone alto do vizinho da direita tocando... E eu sentia a necessidade de revelar tudo à minha melhor amiga. Aquilo pulsava em mim como sangue em minhas artérias, entrava e saía de minhas narinas como o ar que eu respirava. Eu precisava fazer aquilo, ela tinha o direito de saber o que estava acontecendo. Não havia mais como esconder, não depois do que eu acabara de ler no The Sun. Eu queria que soubesse como eu estava me sentindo de verdade.
Então, engoli a seco, respirei pesadamente e, enchendo-me de coragem, disse:
... Eu preciso te contar uma coisa. Uma coisa que eu deveria ter dito a você há tempos.

***


's Point Of View: Off.

Rio de Janeiro, Brasil.


Pessoas falavam a todo instante. O vai-e-vem corrido delas chegava a ser irritante. Sirenes soavam sem parar, entrando e saindo do estacionamento, jogando suas luzes e vermelhas para dentro da delegacia. Telefones tocavam sem parar; aquele lugar estava tão agitado naquele dia... E o delegado precisava de silêncio para pensar, mas parecia que isso não era possível ali, mesmo estando relativamente afastado da baderna. Parecia que, justamente, no dia daquele interrogatório tão importante, o Departamento de Polícia resolvera ficar muito mais cheio e barulhento que normalmente era. Aquilo só podia ser uma conspiração contra o caso, pensou o detetive.
Aquele interrogatório estava sendo cansativo demorado e o pior de tudo: sem resultados. A pessoa que estava sendo interrogada parecia que não queria colaborar com a investigação, e sabia esconder fatos muito bem, mesmo sob grande pressão. Estava sendo dureza lidar com ele, porque parecia que ele não daria bandeira branca nunca, sempre se esconderia em uma armadura, guardando dentro dela tudo o que sabia e que era tão crucial para a conclusão do caso e a prisão de quem merecia, mas que ainda estava à solta.
Dr. Alcântara, o detetive recém-doutor em Psicologia que ficara encarregado de desvendar o mistério do sequestro de , já estava ficando com raiva daquele joguinho de Bruno – acusado de ser o líder da quadrilha que fizera atrocidades com –, tanto que estava com vontade de esbofetear a cara daquele debochado que estava na frente dele de braços cruzados, olhar sempre zombeteiro e falas completamente sarcásticas. Estava se controlando ao máximo para não pular em cima do pescoço do rapaz e estrangula-lo até que ele dissesse o que era necessário para as coisas serem tocadas pra frente.
Passando a mão nos cabelos escuros e ondulados, ele levantou seu corpo magro, porém com músculos definidos da cadeira de ferro e andou de um lado pelo outro no cubículo mal iluminado que servia de sala de interrogatório, com as mãos atrás das costas, os olhos negros como besouros atentos a tudo. Depois voltou ao seu lugar, e lá se sentou preguiçosamente, respirando fundo, tamborilando os dedos na mesa fria de granito; parou e olhou diretamente nos olhos do interrogado, e sustentou aquele contato visual tempo o suficiente para notar que as pupilas verdes do acusado estavam dilatadas.
– Ora, vamos, Bruno, nós sabemos que há um mandante do sequestro da Srta. , e há indícios de que você o conhece. Se você disser quem é, sua pena será reduzida em alguns anos. Todo mundo sai no lucro. – Dr. Alcântara disse, tentando usar de um tom suave, não agressivo. Porém Bruno olhou para ele e riu baixinho.
– Você acha mesmo que eu acredito nisso de "forneça-me as informações que quero e eu reduzirei sua pena"? Faça-me um favor! – Ele disse, mostrando total desprezo em sua face. – E se você espera que eu vá te dizer quem foi o mandante, espere sentado, doutorzinho. – Continuou, lascando nos lábios um sorriso de meia boca. O delegado respirou fundo.
– Bruno, saiba que você estará ajudando a você mesmo se contribuir com a investigação. Pense, meu caro. Você está enrolado até o pescoço de acusações graves: sequestro, estupro, tentativa de homicídio, falsificação de documentos, formação de quadrilha e tantas outras coisas... Você pegará quase que uma prisão perpétua se sua pena não for reduzida, o que de fato não será concedido pelo juiz. Isso se você não concordar em ajudar com a investigação. – Dr. Alcântara indagou, levantando da cadeira e se encostando à parede mais próxima, apoiando um pé e cruzando os braços; logo depois ele começou a caminhar pela saleta.
– Senhor detetive, quero lhe lembrar de que estamos no Brasil. Leis aqui não funcionam direito. De um jeito ou de outro, contribuindo ou não, eu serei solto antes de cumprir toda a pena. Isso é fato. – O interrogado falou todo cheio de si, soltando uma risadinha no fim de sua fala. Ele já estava passando dos limites, pensou o detetive. Mas ele conhecia bem aquele joguinho. Como psicólogo, ele sabia que aquilo que Bruno estava fazendo era montar uma estratégia para tentar tirar sua calma e fazer com que o interrogatório fosse descarrilado, terminando mal. Tudo o que Dr. Carlos Alcântara sabia era que precisava se manter – ou tentar se manter – são para não cair em cima de Bruno, ainda mais sabendo da tática que ele estava tentando usar.
– Você realmente acha que um crápula como você, que muitos aprenderam a desgostar e bateram palmas quando foi preso, será solto assim, tão cedo? – Carlos disse, soltando uma risadinha. – Sabe, Bruno. Eu invejo a sua autoconfiança. Apesar de sua situação ser demasiadamente complicada, você tem certeza de que será solto num estalar de dedos. Isso é lamentável.
– Lamentável? – Bruno riu, debochado. – Lamentável é essa sua pose de superior porque é doutor em Psicologia. Por favor, né, cara, você não é nem lá isso tudo, só finge que sabe alguma coisa e quer ficar se mostrando por aí. Sua família é rica, não é? Aposto que você conseguiu esse diploma de doutorado porque seus pais deviam favores a alg...
Bruno não chegou a terminar a frase, porque Carlos dera um soco em seu nariz e este começara a sangrar quase que imediatamente. Dr. Alcântara suportava muita coisa, menos que falassem de uma coisa tão importante e que custara tanto suor dele como se o seu doutorado recém-conquistado fosse uma troca de favores. Tudo bem, a família dele tinha uma situação financeira muito boa, conhecia gente importantíssima, mas Carlos nunca pensou em se aproveitar disto para "facilitar" a sua vida, muito pelo contrário. Queria provar a tudo e todos que podia andar muito bem com as próprias pernas.
– Tire-o daqui agora, esse insolente! – Gritou ele ao policial que estava na saleta com interrogador e interrogado, e este levantou um Bruno histérico e raivoso, e, antes de ele pular em cima de Dr. Alcântara, algemou-o com suas mãos voltadas para as costas.
– Seu filho da puta, quem você pensa que é para me esmurrar? Você me paga, seu verme, detetive de merda! – Ele gritava, enquanto o sangue jorrava de suas narinas, sujando toda a uniforme laranja da penitenciária em que ele estava preso. Ainda agitado, este foi retirado da sala de interrogatório, e, assim que a porta tornou a se fechar, Carlos liberou sua raiva batendo com os punhos cerrados na mesa de ferro.
Ficou um tempo lá dentro, acalmando seus ânimos e sua respiração ofegante, e depois voltou para sua sala, onde se sentou com raiva na sua cadeira acolchoada e suspirou pesadamente. Retirou seu paletó preto, jogou-o em cima do pequeno sofá que ficava perto da janela e desapertou a gravata vermelha, passando seus dez dedos nos cabelos em seguida.
Um pouco depois ele ouviu alguém bater a sua porta suavemente. Resmungou um "entra", e então a porta rangeu e uma mulher de cabelos castanhos e olhos claros adentrou no local.
– Ah, é você, mana. – Carlos disse, apontando com a cabeça para a cadeira à sua frente, desviando o olhar da recém-chegada e olhando para o vazio.
– Não acredito que vi você perder o controle, Carlos! Isso não acontece com frequência. A propósito, isso nunca acontece. Estou chocada. – Ela disse ironicamente, se aproximando da mesa de Dr. Alcântara, sentando na outra cadeira.
– Por favor, Luísa, sem brincadeiras. Não estou com cabeça para isso. – Carlos falou sem paciência, passando as mãos no rosto e massageando as têmporas com os dedos.
– Hm, ok, desculpe-me pelo inconveniente. – Ela disse, enrolando nos dedos uma mexa de cabelo, enrugando a testa.
Luísa era uma das investigadoras que trabalhava no caso juntamente com Carlos e, além disso, era irmã mais nova dele. Ela acompanhara o interrogatório de uma sala adjunta à saleta que ele estava com Bruno, vendo tudo através de um vidro especial, e realmente se surpreendeu com a atitude de seu colega de trabalho e irmão de sangue, já que ele era a pessoa mais calma e controlada que ela conhecia.
– Eu perdi o controle, Isa...
– Eu pude ver.
– Estou com medo de isso interferir com a investigação.
– Não vai, maninho. Esse tal Bruno vai acabar cedendo, você vai ver. – Com a fala da irmã, Carlos respirou fundo.
– Não sei mais o que fazer para fazer Bruno falar. Meu Deus, que cara insolente! Se eu pudesse, faria mais do que dar um simples soco naquela cara debochada dele.
– Até eu fiquei com raiva. Nossa, eu não teria tanta paciência como você, mano, já partiria pra porrada na segunda fala irônica dele. Você tinha que ver como eu estava assistindo àquilo pelo vidro.
O silêncio percorreu as bocas dos dois por um longo tempo. A cabeça de ambos maquinava tanto que se podia ouvir o barulho de seus cérebros processando as informações.
– Eu estou curiosa pra saber quem foi o mandante do sequestro da Srta. , e o motivo também.
– Eu também, Isa. Eu também. Espero que nós descubramos isso logo.

***


Londres, Inglaterra.


's Point Of View: On.

– Você e o o quê?! – disse, arregalando os olhos desacreditados para mim. – Vocês... Ele... Ele pediu sua mão em casamento? Ele é louco?! Aliás... Você é louca? Você aceitou, sabendo que ele estava com a Mariana, !
– Ele disse que daria um jeito... – Eu disse com a voz fraca, tentando acreditar nas minhas próprias palavras, mas eu não conseguia mais fazer isto.
– E você acreditou? – disse e eu balancei a cabeça positivamente, mordendo o lábio inferior sem olhar para minha melhor amiga, que estava claramente desacreditada. – Eu achei que você fosse menos ingênua, ...
– Mas, , você não entende!
– E você, entende? Entende a situação em que está metida, ? – Depois dessa fala, deixou o meu quarto batendo os pés com força no chão, xingando da primeira geração da família até a futura.
E eu só sentia vontade de sumir. Não queria mais viver, nem via motivos para isto. Só queria dormir até não poder mais, até todos os maus sentimentos desaparecessem do meu coração. Por mais que eu arrancasse-os de mim, estes sempre arranjavam um jeito de voltar para me atormentar de alguma forma. O que eu teria que fazer para me ver livre daquela angústia excruciante?
Muito de longe, escutei meu telefone celular tocar, anunciando uma nova chamada. Com dificuldade, levantei da cama, caminhei até a escrivaninha e peguei o aparelho, olhando no visor. Era . Respirei pesadamente antes de apertar o botão "call" e atender.
? , é você? , fala comigo, pelo amor de Deus! – Ele disse desesperado, sem me dar a chance de dizer "alô".
, eu estou bem aqui.
, por favor, deixa eu me explicar, meu amor, e-eu não sei o que aconteceu, eu perdi o controle da situação e agora...
– Mariana e você estão de casamento marcado. Pois é, eu sei. Todo mundo sabe.
Silêncio reinou entre as linhas.
– Eu não queria que isso acontecesse. Você sabe que é a única mulher com quem eu quero me casar. E-eu te amo, , mais do que tudo nessa vida! Eu não imagino minha vida sem você... E não entendo como me deixei levar pela situação.
... Você está mentindo para mim de novo? – Indaguei com a voz rouca, segurando a vontade de chorar ao telefone.
– Não, amor, eu juro que estou falando a verdade... Preciso esclarecer algumas coisas com você, mas não dá para fazer isso pelo telefone. Podemos nos encontrar hoje, mais tarde?
– Eu não sei se seria certo...
– Por favor, . Nós precisamos mais do que conversar, você sabe disso tanto quanto eu. Não diga que não, por favor.
Fechei os olhos e respirei fundo várias vezes antes de responder.
– Aonde devemos nos encontrar? – Eu disse, massageando uma das têmporas e fechando os olhos. Ouvi vibrar brevemente do outro lado da linha e não pude conter um sorrisinho chegar aos meus lábios.
– Naquela lanchonete próxima à sua casa, às seis da tarde. Tudo bem para você?
– Tudo sim. Então, até mais tarde.
– Até mais tarde. – Então eu finalizei a chamada e me deixei cair na cama, onde fechei os olhos e prendi a respiração.
Eu não sabia ao certo se queria mesmo ver , mas aceitei o convite dele porque queria saber o que ele tinha a dizer sobre aquela situação. Queria entender o que estava se passando pela cabeça dele, e principalmente: queria saber o que o tinha levado a cometer aquele ato. Eu estava confusa demais para pensar naquilo sozinha.
Depois de longos minutos pensando em tudo o que acabara de ocorrer naquele curto período de tempo, eu sequei as lágrimas que, literalmente, manchavam meu rosto (porque a maquiagem não era à prova de choros intensos) e levantei da cama, deixando o quarto em seguida. Quando eu passei pelo corredor e olhei para a cozinha, vi que estava por lá, encostada na bancada. estava ali também, de frente para ela; eles conversavam sobre qualquer coisa que eu não consegui ouvir, mas com certeza eles falavam do assunto do dia: o casamento do .
Quando eu transitei perto da entrada da cozinha, ambos olharam para mim e me chamou pelo apelido, o que me fez parar e voltar uns passos. Ele trazia consigo um ar de preocupação no rosto.
– Hey, ... – Ele disse, beijando minha testa.
– Olá, ... – Indaguei tentando sorrir, beijando a bochecha dele.
– Vamos para a sala? Quero ter uma conversa com você... Se não for um incômodo, claro. – Falou, sorrindo, sem mostrar os dentes, olhando para e em seguida voltando a me encarar.
– Não será incômodo nenhum, , você sabe disso. – Eu disse bagunçando os cabelos de , que sorriu docemente. Então ele e eu seguimos em silêncio pelo corredor até chegarmos à sala de estar do apartamento. Sentamo-nos no sofá e ele fitou o nada por um momento, respirando fundo em seguida.
, você ficou sabendo sobre o casamento do , correto? – Ele disse, quebrando o silêncio, olhando sério para mim.
– Bem... Sim. – Eu disse, abaixando a cabeça, segurando a vontade de chorar novamente.
– A me contou o que aconteceu entre vocês dois nessas últimas semanas. Eu juro que estou com vontade de arrancar fora o pinto do . Como ele pôde fazer isso com você? Com você, que sempre fez de tudo pra fazê-lo feliz! – O lugar ficou silencioso por um momento.
, olha... – Respirei pesadamente. – A culpa disso tudo é minha. Eu não deveria nutrir esperanças de que ele largaria uma mulher grávida de um filho dele pra ficar comigo.
, pelo amor de Deus, mulher.
– É verdade, ok, . Eu não quero me fazer de coitadinha nem de sofrida, mas essa é a verdade, você sabe. Eu devia ter me afastado do , não me aproximado mais dele... Mas parece que ele tem um ímã que faz com que eu me atraia a ele cada vez mais... Eu não consigo ficar longe dele, e não sei explicar por quê.
Silêncio de novo.
– Bem eu... Terei uma conversa séria sobre isso de casamento com o . Porque não é possível isso, dude. Ele ama você! Sempre dizia para a gente que um dia queria se casar com você, viajar o mundo inteiro contigo e essas coisas, daí ele vai e faz isso, não dá para acreditar...
Eu parei de escutar o que dizia quando ele disse "ele ama você". Eu me pus a pensar em todas as vezes que tinha falado que me amava. E por isso continuava sem achar um motivo concreto para ele casar com outra a não ser, claro, o fato de ela estar grávida.
–... eu só quero que você me prometa que vai esquecê-lo logo, que não vai procurá-lo mais. Você ficará bem, ?
– Hã? Ah sim... Claro. Eu espero que sim.
, eu só quero que você não fique mal com isso, ok? Eu quero o seu bem. O foi um filho da puta com você, demonstrou que não te merece. E você merece alguém muito melhor que ele. – disse, sorrindo sem mostrar os dentes e eu forcei um sorriso. Eu sabia que ele estava certo, mas não queria confirmar aquilo dentro de mim; isto fazia com que eu entrasse em um grande conflito interno, fazia com que eu me sentisse pior do que já estava.
, que estava de tocaia no fim do corredor o tempo todo, apareceu na sala e se sentou ao meu lado; sorriu docemente para mim e beijou minha testa.
– Escuta o , . Eu sei que você gosta muito do , mas ele está certo. Ele não te merece. E você, com certeza, merece um cara melhor.
Abaixei a cabeça e se abraçou a mim, enquanto afagava meus cabelos carinhosamente. No meio daqueles dois sendo tão atenciosos comigo, eu estava me sentindo filha deles.


Eram dez para as seis da noite e eu ainda não tinha decidido se ir ver no lugar marcado era a coisa certa a se fazer. Eu não queria vê-lo tão cedo, mas ainda sim queria ouvir o que ele tinha a dizer.
Com este pensamento maquinando em minha cabeça e impregnando-se à minha alma juntamente com uma descarga de adrenalina liberada em meu sangue, eu levantei de repente da minha cama e vesti um calça jeans qualquer, seguida de um sobretudo preto e uma bota de cano alto e sem salto. Fui ao banheiro e ajeitei rapidamente o cabelo e lavei o rosto antes de deixar o local. Quando eu passei pela sala, vi que estava deitada no sofá menor, assistindo a um programa de calouros na TV, o favorito dela.
– Aonde você vai, ? – Ela disse assim que viu que eu estava abrindo a porta para sair do apartamento.
– Eu vou... Amn... Eu vou ao... Ao mercado! É, eu vou ao mercado comprar umas barras de chocolate, as daqui acabaram e eu estou doida pra comer... – Falei, sentindo meu rosto esquentar levemente. Maldita falta de habilidade para mentir, ainda mais para minha melhor amiga.
– Ah... Sei. – Ela disse intrigada, levantando as sobrancelhas, aparentemente desconfiada.
– Bom, erm... Daqui a pouco eu volto, . – E com essa fala eu deixei o apartamento, antes que ela me fizesse mais perguntas que eu não pudesse responder a verdade.
Dali eu andei rapidamente ao corredor dos elevadores e, por sorte, um deles estava aberto e pronto para descer, porque eu já estava uns minutos atrasada e sabia que era bastante pontual, como a maioria dos britânicos; passei pela recepção do prédio, cumprimentei o porteiro e deixei o lugar. O céu estava cheio de nuvens tão carregadas que, ao invés de serem cinza, eram roxas, dando um aspecto sinistro à cidade, como se o mundo fosse acabar a qualquer momento. Uma neve fina e tímida caía daquelas nuvens, indicando que aquilo era apenas o começo de uma verdadeira tempestade de neve, que pintaria toda a cidade de branco. Percebendo isto, eu apertei o passo e logo virei a esquina, que dava diretamente para a lanchonete que havia marcado o encontro.
Através do vidro claro que tinha o logo da lanchonete, eu vi a cabeça de e meu estômago deu um grande salto antes de afundar um bocado. Ele estava sentando em uma mesa para dois bem do lado da vitrine, mas seu olhar estava tão perdido que ele não percebeu que eu tinha passado pela calçada.
Antes de entrar no local, eu respirei pesadamente. Meu coração batia descompassado dentro de mim, parecia que, a qualquer momento, ele rasgaria meu peito e fugiria para longe de meu corpo. Tentei controlar as batidas, mas não consegui. Então eu abri a porta do local e entrei de uma vez, limpando a neve que tinha grudado em minha roupa e meus cabelos. Olhei em volta e logo avistei pelo , que já tinha visto que eu tinha chegado e mantinha o olhar fixo em mim; senti meu estômago dar mais um salto quando nossos olhares se encontraram. Eu não tomei consciência de quando eu comecei a caminhar na direção da mesa de , pois minhas pernas começaram a me levar involuntariamente até ele, como se ele as comandasse, não mais eu. Só percebi que tinha andado o bastante quando eu já estava perto dele, quando nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir a respiração falha do batendo em minha pele, quando sua mão passou de meus cabelos a meu rosto. Foi aí que eu, finalmente, acordei e me afastei dele. Eu estava tão inconsciente da realidade que mal percebi quando ele se levantou, muito menos que todos à nossa volta estavam nos encarando. Senti meu rosto arder como se estivesse em chamas quando olhei para de novo. Ele se afastou constrangido de mim e se sentou, eu fazendo o mesmo. Ficamos um tempo em silêncio, encarando um ao outro. Aquilo estava me deixando mais constrangida do que eu já estava.
– Erm, , por que você se deu o trabalho de...
, por favor, eu só quero que você me escute. – Ele disse, juntando suas mãos às minhas. Eu olhei para as nossas mãos unidas e ele, notando que eu tinha achado aquilo estranho, separou-as. – Erm, então, eu... Eu quero te contar uma coisa. Mas, antes de tudo, eu quero que você acredite em mim. Parece meio improvável o que aconteceu, mas é a mais pura verdade. Eu deveria ter te contado antes, mas não tive coragem o suficiente para isso... Eu estou sendo chantageado.
– O quê? Por quem?!
– Pela...
Um grito pelo meu nome completo ecoou pelo lugar, fazendo com que parasse de falar e olhasse para frente. Eu não precisei me virar para saber que estava ali. Droga, ela tinha me seguido.
! Eu não acredito que você veio ver esse filho da puta! – disse, caminhando até mim feito um furacão, parando na minha frente de braços cruzados.
, eu...
– Não se mete, ! – Ela lançou um olhar raivoso a ele. – Porra, , por que você fez isso? E ainda mentiu pra mim dizendo que ia ao mercado! Vamos pra casa agora!
– Mas...
– Mas o caralho, vamos!
Vendo que não aceitaria um não como resposta, eu lancei um último olhar a e levantei da cadeira, caminhando junto com ela sob os olhares assustados das pessoas que ali se encontravam.
, por que você saiu gritando? Precisava daquilo tudo?!
– Precisava! Cara, você mentiu pra mim, dizendo que ia a um lugar pra ir a outro, e ainda por cima pra encontrar o !
– Ele ia me dizer o motivo de tudo o que está acontecendo e você atrapalhou!
... – Ela deu uma risada fraca e parou de andar, me forçando a fazer o mesmo. – Amiga, por favor, para de ser ingênua! Por que você ainda acredita nele? Para com isso! Você não é assim! – E depois disso, saiu andando quase correndo na minha frente. Fiquei parada a vendo se afastar rapidamente, até chegar ao prédio em que morávamos e entrar nele. Respirei pesadamente e voltei a caminhar, só que bem devagar, pois estava com medo de ir para casa e dar de cara com o furacão .
E o pior era que ela tinha razão. Eu estava sendo, de fato, muito ingênua. E eu realmente não era daquela forma.

***


Capítulo Vinte e Sete –Inferno Mental


(Dica: coloque para carregar Do Watcha – McFLY)

's Point Of View: On.

Ver naquela noite fora um choque para mim. Eu realmente não esperava que ela iria à festa na casa de , porque e chegaram sem ela; bom, eu não podia mentir. A verdade era que eu mantinha acesa em meu peito uma chama de esperança de que ela apareceria na casa de meu amigo. Estava ansioso para vê-la, por mais que eu tentasse dizer que não para aquilo, que crescia cada vez mais dentro de mim. Então, quando eu menos esperava, ela estava lá, literalmente na minha frente, acompanhada de . Meu coração parou e voltou a bater tão rápido que fazia meu peito arder violentamente quando reconheci os traços daquele rosto tão delicado e conhecido por mim, que, no momento do nosso encontro, adquirira uma expressão tão assustada quanto a minha. Ficamos tão próximos que eu pude sentir seu perfume de sempre invadindo meu ar e sendo transmitido ao meu cérebro.

Ela estava simplesmente linda, como sempre fora desde a primeira vez que a vi. O vermelho de seu vestido realçava toda aquela beleza deslumbrante e agradável a meus olhos. Só que a expressão cansada não era aquela que sempre vinha à minha mente quando eu pensava nela. Eu não sabia exatamente por que, mas aquela expressão facial trazia consigo algo que eu nunca tinha visto nela... Algo diferente, que eu não sabia naquele momento o que era, mas queria muito descobrir.
Fazia semanas que eu não a via – pelo menos não pessoalmente –, mas meu coração ainda acelerava quando ela olhava para mim ou eu olhava para ela. Eu realmente queria saber como ela estava, como estava a vida dela e tudo mais. Andava preocupado com o que eu andava ouvindo sobre ela estar trabalhando tanto que mal via a luz do sol. Nós poderíamos pelo menos sermos amigos... Sentia falta dela, de vê-la todos os dias. Sentia falta do sorriso dela, de seus abraços. Era uma tortura estar perto de , mas, ao mesmo tempo, tão distante. A vida não era a mesma desde que a conheci, e certamente não seria mais a mesma sem ela.

Aquele olhar. Aquele toque. Aquele beijo. Minha cabeça parecia que explodiria a qualquer momento. Eu não conseguia parar de pensar no que tinha ocorrido e no poder de magnetismo que ela exercia sobre mim. Sempre que eu a via, sentia a necessidade de chegar mais perto para tocar seus lábios, acariciar seus cabelos... Tê-la. Sentia vontade de fazê-la minha, de amá-la como se nada nem ninguém pudessem impedir-me de fazer isso.
Parecia que o esforço que eu tinha feito para me esquecer de não tinha valido de nada. Bastava ela aparecer na minha frente que tudo voltava à tona, todos os sentimentos, as sensações provocadas, as lembranças... Tudo. O fato era que parecia que eu nunca conseguiria esquecê-la, que ela permaneceria para sempre em meu coração.
Para ser bem sincero, eu não queria que ela desse adeus à minha mente, muito menos ao grande lugar que ocupava em meu coração. tinha sido um dos melhores acontecimentos de toda a minha vida, e eu tinha certeza de que ela continuaria impregnada ao meu ser para todo o sempre, porque o que eu sentia por ela se assemelhava às pontes de Hidrogênio: bem difíceis de partir.

O dia do casamento se aproximava cada vez mais. Eu não me conformava por ter concordado com aquilo, nunca me conformaria. O que eu ganharia me casando com alguém que eu não amava? A parte "boa" daquilo era que, pelo menos, estava a salvo dos planos de Mariana. Só que isso nos custou um preço alto demais.
O fato era que eu tinha sido covarde ao extremo; não me cansava de pegar meus pensamentos vagando para esta afirmativa todas as vezes que Mariana falava alguma coisa a respeito do casamento. Aquilo martelava tanto em minha mente que, a qualquer momento, eu poderia enlouquecer, como se estivessem me torturando, fazendo com que eu sentisse uma terrível e insuportável dor. Também ficava pensando qual seria o resultado daquela covardia. O que aconteceria a partir dali? Eu estava receoso sobre presente, e mais ainda do futuro, que era próximo. Não gostava nem de pensar no que me aguardaria dali a algum tempo; era tanta coisa, tanta pressão em cima de mim... Às vezes, eu pensava seriamente em cometer suicídio, mas sabia que era uma ideia idiota. Havia outras formas de se resolverem um problema.
Se por um lado eu sentia uma vaga vontade de acabar com minha própria vida, por outro eu estava feliz, pode-se dizer. O motivo era o bebê que Mariana carregava dentro dela e que crescia a cada dia mais. A barriga de aproximadamente três meses e algumas semanas – ela me contara sobre a gravidez nas pouquíssimas semanas dela – já estava começando a ficar visível. Eu estava louco para saber o sexo da criança. O que Deus enviasse estava de bom tamanho, mas eu queria mesmo era ser pai de uma menina. Estava torcendo para que fosse uma.
A paternidade era uma coisa engraçada para se parar pra pensar. Era estranho constatar que uma parte nano métrica de mim estava crescendo e tomando a forma humana. Que estava se formando os seus pés e mãos, os vinte dedos, o rosto, o coração, pulmões, rins, cérebro... Era impossível de explicar as coisas que eu sentia quando via as ultrassonografias, ia à obstetra com Mariana, passava em lojas de artigos de bebê e queria comprar tudo para começar a decoração do quartinho da criança... Meu coração revirava dentro do peito quando eu pensava que dali a alguns meses eu teria meu filho ou filha nos braços. Tudo o que eu mais queria no momento era segurar meu bebê, niná-lo, cantar para ele... Ser, de fato, seu pai, não simplesmente a pessoa que o concebeu. Muitas coisas me colocavam para baixo, mas só aquilo me mantinha de pé naqueles dias. Aquela criança viria para salvar minha vida daqueles dias ruins. Seria meu suporte. Uma irresponsabilidade nunca gerara – literalmente – tanta responsabilidade sobre minha vida.

Era tarde da noite e eu ainda não tinha conseguido dormir. Fazia tempo que eu estava deitado na cama daquele quarto de hóspedes da casa de , mas não consegui cair no sono. Não com aquelas imagens martelando na minha cabeça. Imagens não só daquela noite, mas também outras de um passado recente.
Era impressionante: antigamente, as coisas que eu vivi com não me incomodavam tanto quando vinham à memória; era como se algo doce fosse posto ao meu paladar; agora, era como se o doce tivesse, de repente e desagradavelmente, se tornado tão amargo quanto café sem açúcar, ou pior. Era como se alguma criatura maligna tivesse passado perto de mim e sugado toda a minha felicidade.

Várias lembranças me atingiram naquela noite, mas uma, em especial, permanecera diante dos meus olhos; naquela noite, enquanto eu observava com discrição de longe, notei que ela usava o cordão que eu tinha dado a ela quando tínhamos completado os exatos um mês que estávamos juntos. Eu o reconheceria até de olhos fechados, porque no dia em que o comprei, fiquei o observando por um bom tempo, perguntando-me se iria gostar do presente. E ver que ela estava usando aquele tal cordão me fez lembrar perfeitamente do dia em que eu o tinha presenteado a ela.

~ Flashback: On.

Era bom tê-la ao meu lado. Sua presença me acalmava como se ela fosse meu único ponto de paz em todo mundo. E de fato, ela era. Sempre me dava apoio quando eu precisava, sempre me dizia palavras de carinho quando eu não estava bem, sempre estava lá para ser minha. Ela era tão... Perfeita. Como tinha se interessado por um cara feito eu, que era um completo idiota? Eu não entendia. Mas também não reclamava da boa sorte que tive em encontrá-la. Nosso relacionamento era tão harmonioso... Parecia que, de fato, tínhamos nascido um para o outro, como duas peças que se encaixam perfeitamente em um quebra-cabeça, todas essas coisinhas clichês. A verdade era que eu estava completamente apaixonado por aquela mulher maravilhosa que aparecera na minha vida de forma tão espontânea.

Naquele dia completava um mês que e eu estávamos saindo. Para comemorar, fui até o trabalho dela um dia para convencer a sua chefa a deixar com que ela pegasse folga e, por incrível que pareça, ela deixou. Senti-me muito satisfeito comigo mesmo por ter convencido a tal Luna, que alegava que tinha certa antipatia por ela, de tê-la liberado um dia a mais de folga.
Na manhã seguinte, eu passei no prédio dela na hora em que ela costumava se levantar para se aprontar e frequentar o local em que trabalhava; ela me recebeu como sempre: abraçou-me forte, beijou-me inúmeras vezes no rosto e nos lábios e sorriu; assustou-se quando disse que não precisaria trabalhar naquele dia e praticamente a mandei se arrumar para sairmos. tomara um banho rápido, maquiara-se e vestira um vestido meio largo de linho branco com um cinto fino na cintura; nos pés tinha uma sapatilha cinza. Estava tão angelical que eu me perguntava se tinha morrido e estava no céu. Era clichê, mas o rosto de corou quando disse isso a ela.
A partir do prédio de apartamentos o qual ela residia, seguimos caminho para o Hyde Park, um dos parques públicos de Londres, onde sentamos embaixo de uma árvore grande e fresca e tomamos nosso café da manhã, que eu havia preparado e guardado em uma cesta de piquenique que trazia conosco. Depois de comermos e termos nossa fome saciada, ficamos um tempo ali, curtindo um ao outro entre carícias, beijos e tapas – quando eu fazia alguma brincadeirinha de costume –, observando as outras pessoas e crianças com seus pais, outros casais passeando por ali... Apenas deixamos o tempo passar como se tivéssemos tirado folga das nossas vidas normais para vivermos da companhia que eu fazia para ela e vice-versa.
Quando o Big Ben anunciara sonoramente que eram onze da manhã em ponto, nós seguimos caminho de volta ao apartamento de , antes passando em um mercado próximo para que eu comprasse alguns mantimentos que precisaria para aprontar o nosso almoço especial. Dissera que eu não precisava me incomodar que ela cozinharia, mas eu insisti que não, até porque, ela quase sempre cozinhava quando ia a minha casa mesmo que eu discordasse.
, você já pensou em abrir um restaurante? Você cozinha tão bem... – disse enquanto comíamos o salmão frito acompanhado de legumes que eu havia preparado como prato principal e bebíamos um bom vinho.
– Eu sinceramente já pensei nisso, mas... Como eu teria tempo de cozinhar só pra você? – Murmurinhei sorrindo ao fim da fala, e ela me encarou com seus olhos brilhando como as estrelas ou até mesmo o sol, a maior de todas e a mais radiante estrela das galáxias. Dei um selinho em sua boca e voltamos a comer.
Após o almoço, passamos a tarde assistindo filmes de animação como os três Toy Story, Monstros S.A., Rei Leão... Sem contar os filmes 101 e 102 Dálmatas; na verdade, acabamos fazendo uma sessão de filmes da Disney, que eu era fã desde quando eu era bem pequeno e ela idem. Por mais que soubéssemos todas as falas de todos os personagens daqueles filmes, e por mais que já soubéssemos o que aconteceria, sentíamos como se estivéssemos assistindo aquilo pela primeira vez.
Depois dos filmes da Disney, partimos para os de comédia com Jim Carey e os de ação com Jack Chan.

Quando a noite chegou, nós nos arrumamos e saímos para jantar fora em um restaurante chique, o qual eu tinha feito a reserva dias antes, pelo telefone. Eu já tinha frequentado o lugar algumas vezes, mas sempre me impressionava com sua grandiosidade e elegância.
Foi engraçado ver a cara de espanto e surpresa de quando nós entramos no local. Ela estava impressionada com tudo ali: desde o simples talher de prata à grande luminária de cristais brilhantes que ficava no centro do salão.
Era bom saber que, com meus gestos, eu podia impressioná-la, porque era o que eu queria fazer pelo resto da vida, se fosse possível.

– Sabe, , você me avisou que faria algo especial hoje... Mas eu realmente não esperava que você fosse fazer isso tudo porque comemoramos um mês de “namoro”. – disse enquanto eu dirigia de volta para o prédio residencial. Ela olhava para mim com a cabeça descansada no banco do carro e passava a mão por meus cabelos.
– Ah, ... Você merece isso e muito mais, sabe disso. – Falei, parando em um sinal vermelho. Tirei minha mão do volante, levei-a a direção dela e acarinhei sua face.
– Não, nada disso. Aliás, já tenho muito mais do que mereço, sabia? – Sussurrou sorrindo tímida.
– Ah é? O que você tem a mais, então?
– Você. – Ela falou, murmurinhando, segurando o lábio inferior com os dentes de cima. Então me aproximei dela e segurei seu rosto pelo queixo, juntando nossos lábios em um beijo terno. Senti meu coração pulsar violentamente dentro do meu peito enquanto nossas bocas se entrelaçavam naquele gesto tão perfeito, tão único, tão nosso. Fui descendo lentamente para seu pescoço, fazendo-a suspirar impacientemente perto do meu ouvido. Só nos separamos porque buzinas tocavam às nossas costas: o sinal de trânsito havia sido aberto e nós nem percebemos. Ela soltou uma risadinha e balançou a cabeça negativamente enquanto eu trocava a marcha e pisava no acelerador do veículo.
Graças a Deus – e a mim – o apartamento ficara vazio durante o dia inteiro, porque eu tinha pedido a que levasse para a casa dele para isso acontecer. Não queria que fôssemos interrompidos em um momento... Bem... Íntimo. Assim que chegamos lá, dei a ela o presente que eu tinha comprado. Era um cordão de ouro com um pingente em forma de coração que se abria em duas partes. No interior de uma delas, encontrava-se cravada a frase Forever In My Heart – ela ficou realmente emocionada quando leu aquele dito; na outra parte do interior do pequeno coração dourado encontrava-se um espaço para se colocar uma fotografia.
– Isso é tão lindo... Obrigada, . – Ela disse beijando minha bochecha, voltando a fitar o cordão.
– Quer que eu te ajude a colocar? – Perguntei e a vi dizendo que sim, acenando com a cabeça.
Então eu tirei o colar da caixinha retangular e abri o fecho dele; parei atrás de e ela afastou os cabelos da nuca e fez um coque frouxo nele; passei o fio de ouro na frente do rosto dela até que chegasse à altura de seu pescoço, e, quando isso aconteceu, fechei o cordão e ela o acertou.
As pontas dos meus dedos tocaram levemente a pele da nuca dela; como seu queixo estava encostado em seu ombro, pude ver quando ela fechou os olhos e sorriu sem mostrar os dentes, demonstrando que tinha gostado daquilo, daquele toque. Sorri de canto de boca e me aproximei um pouco mais dela. Beijei sua nuca de forma delicada, roçando meus lábios na área em seguida, o que fez a pele de se arrepiar. Fiquei satisfeito ao ver o efeito que eu causava nela. Comecei então a distribuir mais daqueles beijos até o seu ombro desocupado e ela jogou a cabeça para trás, levando sua mão para meus cabelos e se aproximando mais ainda de mim, de modo que nossos corpos ficassem bem colados um no outro; a alça do sutiã vermelho que ela usava tinha caído um pouco para o lado e estava à mostra, então eu puxei-a com os dentes e mordi de leve a área que estava antes, enquanto ela suspirava um tanto alto, um tanto urgente.
Ela, então, se virara para mim, puxara-me pelo colarinho da blusa branca que eu usava e me beijou com vontade, mostrando o que ela queria. Parti o beijo e fitei seus olhos. Sorri de canto e a impulsionei para meu colo, segurando-a por baixo de suas pernas, enquanto ela mordia e beijava meu pescoço, fazendo minha pele se arrepiar. Eu adorava aquele efeito que ela tinha sobre mim. Fazia com que eu ficasse mais voraz do que já era.
Comecei a caminhar com ela pelo apartamento, e como não estava vendo o caminho direito porque estava muito preocupado em fazer se livrar de sua saia de cintura alta e sua blusa, esbarramos em várias coisas e em várias paredes, enquanto lutávamos para tirarmos as malditas roupas que nos atrapalhavam e jogávamos as peças pelo apartamento.
Estávamos fazendo uma bagunça enorme naquele lugar, mas não estávamos ligando nem um pouco para aquilo.
Então, meio que às cegas, abri a porta de um quarto que não conhecia e sabia que não era o dela; mas que se dane, entramos naquele mesmo.
, esse é o quarto da ! – Ela disse, sussurrando e ofegando, enquanto eu beijava todo o seu colo.
– Não me importo. – Murmurinhei, colando minha testa na dela, apertando-a contra meu corpo. Ela gemeu fraco e sorriu maliciosa quando nossas intimidades entraram em contato breve, impedidas de se encontrarem pelas peças que ainda cobriam nossos corpos. Ela, então, desceu de meu colo e foi distribuindo leves chupões por meu peitoral. As marcas com certeza apareceriam no dia seguinte, mas quem realmente se importava com aquilo? Eu que não.
– Não acredito que faremos isso no quarto da . – Ela disse rindo alto, afrouxando meu cinto e desabotoando minha calça, fazendo com que esta caísse no chão.
– Nem eu. – Falei e nós paramos por um instante, olhando um para o outro com ar de riso. Então gargalhamos, colamos nossos corpos novamente e unimos nossas bocas em um beijo com mais desejo do que era possível se sentir.
Ela me empurrou e eu fui para trás, sentando meio sem jeito na cama enquanto ela me observava carregando aquele sorrisinho sacana que eu tanto gostava e que tanto me excitava. A visão daquele corpo, do corpo que pertencia a mim, era sensacional, principalmente porque o escarlate das suas peças íntimas era tão quente quanto seus olhos ardentes em paixão, que me miravam sem deixar escapar nada.
foi se aproximando lenta e sensualmente até mim, o que me fez ofegar como se meus pulmões estivessem em chamas; quando chegou bem perto, apoiou as mãos abertas em minhas pernas e aproximou seu rosto do meu e aconchegou nossas bocas em um beijo quase terno de tão lento, e depois desceu os lábios para o meu pescoço. Em seguida subiu na cama e ficou de pé no colchão, abrindo um vão entre meu corpo e suas pernas; apoiando as mãos nos meus ombros, abaixou-se lentamente. Então se sentou em meu colo e entrelaçou as pernas em minha cintura; olhava-me nos olhos enquanto desabotoava seu sutiã e jogava-o em uma parte qualquer daquele local, fazendo-me ficar no dilema entre partir aquele contato visual ou olhar para seus seios tão bem delineados. Ela entrelaçou os braços na minha nuca e aproximou seu rosto do meu, fazendo com que nos fitássemos por alguns segundos enquanto nossas peles quentes entravam em contato, fazendo-me arrepiar quase que imediatamente. Ambos os olhares faiscavam em paixão, e isso contribuiu para que aquele joguinho acabasse logo: nenhum dos dois queria mais esperar.

***


Na madrugada de sexta-feira para sábado, eu abri meus olhos para o teto do quarto, que estava iluminado fracamente por um feixe de luz vindo do corredor do apartamento, que crescia à medida que se afastava do seu ponto máximo, dispersando-se pela escuridão do cômodo em que eu me encontrava. Eu estava com uma dor de cabeça que prometia piorar de manhã; claro, depois de fazer amor, e eu tínhamos bebido o mesmo vinho do almoço já que tinha sobrado mais da metade; bebemos até que nenhum dos dois aguentou e caiu no colchão para dormir. Não tínhamos ânimo nem para repetir pela terceira vez a dose de carícias e beijos, estávamos cansados demais.
Olhei para o relógio digital e constatei que este marcava três horas da manhã; olhei também para o lado direito da cama e notei que ela não estava deitada lá. Talvez fosse por isso que eu tivesse acordado, por perceber inconscientemente que ela não estava deitada ao meu lado. Sendo assim, sentei-me na cama e levantei-me dali, vesti minha cueca boxer que estava no chão ao lado da cama e deixei o quarto. Do corredor, vi que a luz da cozinha estava acesa, então segui a "trilha" até chegar ao local. Como imaginei, estava ali. Ela estava de frente à geladeira e estava muito interessada em analisá-la, tanto que não percebeu minha presença. Fui me aproximando dela sem fazer barulho nem movimentos bruscos, até que, quando eu estava bem perto, sussurrei em seu ouvido:
– O que está fazendo acordada a essa hora, ?
Ela deu um salto e segurou um grito, virando-se para mim assustada; eu mostrava um dos meus sorrisos brincalhões de criança que acabou de fazer alguma "arte".
– Filho da puta, quer me matar do coração ou o quê? – Ela disse com a voz oscilando, dando um tapa fraco no meu rosto, segurando o riso.
– Não, quero que você volte para a cama comigo. Mas parece que a geladeira está mais interessante... – Falei, fingindo-me de coitadinho, fazendo bico.
– E está mesmo. – Ela murmurou, segurando o riso mais uma vez.
– Ah, é? – Retruquei, arqueando a sobrancelha. Ela segurou o riso pela terceira vez.
Então aproximei-me do corpo dela e envolvi meu braço em sua cintura, fechei a geladeira e a encostei na bancada ao lado do eletrodoméstico, colando nossas testas em seguida. Ela fechou os olhos e mordeu o lábio inferior, suspirando um pouco depois. Beijei a nuca dela várias vezes, mordendo-a de vez em quando, enquanto ela passava seus dez dedos em meus cabelos e puxava gentilmente para a direção dela, induzindo-me a continuar.
– A geladeira ainda continua mais interessante que eu? – Sussurrei, passando a mão em uma das pernas dela, que estavam descobertas, já que ela usava minha blusa social branca que eu estava antes, sem nada por baixo, a não ser sua roupa íntima. Eu adorava quando ela vestia minhas blusas, porque simplesmente ficava sensacional dentro delas; mas ficava mais sensacional ainda sem roupa nenhuma.
Ela olhou para mim expressando desejo, sorrindo maliciosamente.
– A geladeira me refresca. – Falou num fio de voz, passando as mãos por meu peitoral, ainda com aquele meio sorriso nos maravilhosos lábios.
– Eu te deixo quente. E você simplesmente adora. – Murmurinhei, distribuindo mais uma vez beijos pelo pescoço dela, que agora respirava de forma falha perto do meu ouvido.
– Quem disse? – Ela falou num tom irônico quase inaudível.
– Eu disse.
– E desde quando você está certo?
– Desde o momento em que você não consegue resistir a mim.
me olhou por um momento, parecendo me analisar.
– Você não toma jeito, seu canalha. – Murmurinhou, puxando-me pela nuca para um beijo intenso.

~ Flashback: Off.

Consciente de que eu não conseguiria dormir de um jeito ou de outro, retirei o edredom de cima de mim com um pouco de raiva e sentei-me na cama. Apoiei meus cotovelos nas pernas e esfreguei as mãos no rosto, respirando pesadamente em seguida. Malditas lembranças que me assombravam feito fantasmas. Por que eu não podia simplesmente apagá-las de minha memória? Lembrar-me daquelas coisas se tornara tão doloroso quanto levar uma facada na cabeça. Não que eu já tivesse levado uma facada, mas tinha a plena consciência de que doía, e muito.
Fiquei um tempo ali, naquela mesma posição, até decidir deixar o quarto para pegar uma taça de vinho na cozinha e, quem sabe, um pedaço da torta de maçã maravilhosa que a namorada de havia feito; talvez umas rabanadas também. Então eu levantei daquela cama e finalmente caminhei para fora do cômodo, tomando cuidado para não fazer muito barulho.
Durante o caminho para a escada que me levaria para a parte de baixo da casa, eu vi uma coisa que chamou a minha atenção: uma das portas do corredor estava entreaberta e a luz do quarto estava fracamente acesa, meio que tremeluzindo sobre o cômodo. Tomado pela curiosidade de saber quem além de mim estava acordado, fazendo o mínimo de barulho com os pés, aproximei-me do local até chegar à porta. Lá, encostei de leve meu corpo e com um dos olhos espiei pela brecha. Meu coração disparou e bateu forte de encontro às minhas costelas quando reconheci a silhueta de parada em frente à janela que ficava próxima à cama do quarto. Ali, observava a neve cair pela cidade, parecendo bem absorta em seus pensamentos, que eu desconhecia, mas queria ter a habilidade de ler mentes para saber do que se tratavam. Fiquei ali por tanto tempo, que consegui enxergar o reflexo do rosto dela pelo vidro escuro da janela. Ela era tão... Linda. Simplesmente linda. Eu não sabia explicar o que sentia quando encarava os traços daquele rosto; era como se meu coração fosse explodir a qualquer momento. Quando ela sorria... Era como se uma flor de beleza particular estivesse desabrochando finalmente.
Antes que eu entrasse naquele quarto para beijá-la por mais uma vez naquela noite, afastei-me da porta e já ia saindo para tornar a seguir meu caminho, quando ouvi a sua voz, sussurrante e urgente, chamar-me pelo nome. Então, com o coração batendo mais forte do que estava antes – como se fosse possível –, eu voltei para onde estava e enfiei a cabeça na mesma brecha em que antes estive espionando-a.
.
.
Um silêncio instalou-se sobre nós enquanto eu encarava o reflexo do vidro da janela. Eu estava meio constrangido e ela tentando esconder o que sentia.
Ela deu um suspiro cansado e fechou os olhos, abrindo-os em seguida.
– O que estava fazendo ali? – Ela sussurrou, sem se virar para minha direção. Fiquei sem saber o que dizer por alguns segundos. Estava pasmo demais, porque jurava que ela não havia me visto.
– Eu estava passando, vi a porta encostada e a luz acesa... Queria saber quem além de mim estava acordado. – Finalmente eu disse, dando ombros, e ela se virou para a minha direção, olhando-me nos olhos. Eu não sabia exatamente o que se passava pela minha mente, mas tantas coisas me rodeavam que eu estava demasiado confuso para entender o que os olhos dela queriam me dizer.

(Pode colocar a música pra tocar!).

– Tem certeza que foi só isso? Não veio fazer com que eu... Torturasse a mim mesma mais uma vez? – indagou, aproximando-se um pouco de mim. Carregava em sua face uma expressão de dor. Não de dor física, mas sim dor da alma e eu sabia muito bem o porquê. Aquilo me deixava tão angustiado, tão incomodado... Sentia-me um tremendo idiota. Como pude me deixar levar para tão longe dela? Não existia um dia sequer que eu não pensasse nisso.
– Como assim torturar a você mesma? – Proferi, franzindo as sobrancelhas.
Então ela se sentou na cama e encarou o chão, suspirando pesadamente em seguida.
– Você sabe do que eu estou falando, . Não se faça de desentendido. – Ela disse revirando os olhos, levantando-se da cama para novamente ficar de frente para a janela do quarto.

Crash into the room
(Acidente no cômodo)
Scared to turn the lights on
(Com medo de ligar as luzes)
Like a ticking time bomb
(Como uma bomba-relógio)
She's got a fuse
(Ela tem um fusível)
Living in a rush
(Vivendo em uma tormenta)
That slowly kills the passion
(Que mata lentamente a paixão)
What's a boy to do?
(O que um garoto pode fazer?)
I swore I'd never come back
(Jurei que eu nunca voltaria)
To this place of combat
(Para esse lugar de combate)
Timing knows
(Está tudo nas noticias)
When you turn the heart strings
(Morto e chorando pelas cordas do coração)
Music in the dark sings
(Cantando musicas na escuridão)
Dark things
(Coisas obscuras)

– Não, eu não sei sobre o que você está dizendo. Que diabos você quis dizer com aquilo, ? – Perguntei, enrugando a testa, chegando um pouco mais perto dela. Ela deu uma risada fraca e amarga e balançou a cabeça negativamente.
– Eu quis dizer que se tornou uma tortura pra mim ficar perto de você. Eu simplesmente não consigo te olhar sem sentir meu peito doer... Não consigo.
, eu...
– Não precisa falar nada, . É só que eu... – E ela deixou a frase morrer naquele ponto. Era como se lutasse por uma vontade imensa de chorar e faria isso a qualquer momento, como um vulcão ativo pode entrar em erupção a qualquer minuto. E isso não melhorava em nada o meu estado. Eu me sentia cada vez pior, como se estivesse afundando em um vale de areia movediça, lenta e desesperadoramente. Sufocando meu ar, matando-me aos poucos.

Do what you want
(Faça o que quiser)
Do what you want to me
(Faça o que quiser comigo)
Do what you want
Do what you want to me
Do what you want
Do what you want to me
Do what you want
Do what you want to me

Frozen to the bone
(Congelando até o osso)
I cannot remember much from that December
(Eu não consigo me lembrar muito daquele Dezembro)
Bruised and alone
(Machucado e sozinho)
Pushing through the rough tide
(Empurrando contra a maré forte)
Keep it on the inside
(Guarde isso para você)
This time
(Dessa vez)

Então eu me aproximei mais dela, na intenção de tocar em seus cabelos e acariciá-los. Ela ficou um tempo ali aceitando meu toque suave, mas logo respirou fundo e se afastou de mim, caminhando para o outro lado do cômodo, o tempo todo de costas.
– Sabe, , eu não entendo. Por que isso? Deixe-me em paz! Já é doloroso demais conviver com as sombras das nossas lembranças, não preciso de você me assombrando também! – falou com a voz oscilando entre um sussurro e um tom normal; foi aí que eu tive a plena certeza de que ela estava pranteando, mesmo que calada.
– Você acha que é fácil pra mim? Que só você quem sofre na história? , eu amo...
– Não, você não ama! – Ela disse em um tom mais alto, interrompendo-me; então se virou bruscamente para olhar para mim. Seus olhos estavam vermelhos e o rosto manchado de lágrimas pesadas e grossas. Aquilo fez meu coração doer como se milhares de alfinetes afiados estivessem usando-o como almofada para espetá-lo. Eu não gostava de vê-la chorando, não gostava de vê-la daquele jeito.
Parecia que a alteração de sua voz havia provocado certa agitação no quarto ao lado. Por isso congelamos em nossos lugares e escutamos atentamente. Mas fora só um ronco muito alto, que se repetira várias vezes. Então ela caminhou até a porta e a fechou por precaução, voltando, em seguida, para onde estava antes.
– O que te faz pensar que eu não amo você? – Perguntei, murmurinhando um tanto desesperado. Ela ficou em silêncio por um momento e abaixou o olhar; cruzou os braços e andou até a janela, tornando a observar a noite fria por ela.
– Tudo. – Ela sussurrou com a voz embargada, voltando a ficar com o olhar apontando para o chão.
Tudo? – Repeti em tom de indagação. Levantei meus olhos para o teto e passei as mãos no rosto, entrelaçando-as em meus cabelos em seguida. Então soltei uma risadinha amargurada e balancei a cabeça, em negação. – Você só pode estar de brincadeira comigo.
, o que você quer que eu pense? Você... Abandonou-me. Deixou-me. E sem dar nenhuma explicação coerente! – disse com a voz fraca, olhando para mim através do reflexo do vidro. – Tudo o que eu tenho a pensar é que... – E mais uma vez, ela deixara a frase morrer aos poucos.

Take me to the girl who put the hole in my heart
(Olhando para a garota com um buraco no coração)
And drag me through the town by my soul in the car
(E dirigindo através da cidade comigo mesmo no carro)
Hug me in the night like a wolf in the dark
(Apanhado na noite como um lobo na escuridão)
But watch out for that bitch called Karma
(Mas cuidado com a vadia chamada carma)

Muitas coisas se passaram pela minha cabeça enquanto nossos olhares se encontraram por aquele reflexo. E uma delas foi que aquela era a chance perfeita para eu contar a ela o que estava acontecendo, o motivo pelo qual estávamos separados. Mas será que ela acreditaria em mim?
Respirei fundo para tentar parar a arritmia cardíaca que tomara conta de mim com mais força e fui caminhando em direção de , dando passos cuidadosos, como se o chão estivesse repleto de ovos e eu tivesse que me desviar deles para não quebrá-los. Quando cheguei ao destino, ela se virou e ficou de frente para mim. Eu respirei fundo mais uma vez e olhei para a janela. A neve caía dos céus com intensidade.
... Você se lembra de que eu te disse que estava sendo chantageado? – Indaguei, olhando para ela em seguida, que desviou seu olhar para um ponto qualquer atrás de mim. Então movimentou a cabeça para cima e para baixo, afirmando que se lembrava.
– Isso é verdade? – Ela perguntou baixinho, pondo a franja atrás da orelha e cruzando os braços, ainda evitando olhar para mim.
– É. É verdade sim. – Aquiesci, olhando para a janela novamente, respirando de forma cansada no vidro, o que o fez ficar com uma mancha de embaço. Um silêncio tenso se instalou no cômodo enquanto eu caminhava em direção da cama e sentava na ponta dela; apoiei meus cotovelos nas pernas e enfiei minhas mãos dentro dos cabelos, desarrumando-os mais do que estavam.
– E... Quem está fazendo isso com você? – Indagou, chegando perto de mim, cruzando os braços. Deixei o ar escapar dos pulmões fortemente antes de responder.
– A Mariana. – Minha afirmação soou mais como um balbucio do que uma fala. Então eu olhei para , que me encarava de olhos arregalados. Sustentamos o olhar por um instante. Então ela riu de forma forçada e balançou a cabeça negativamente, caminhando para longe.
– Você está brincando comigo, ? Por que ela faria isso?! – Ela disse tentando conter o riso forçado. É, eu sabia que aquilo poderia acontecer. Não sei por que me dei ao trabalho de contar-lhe quem andava infernizando minha vida com uma maldita chantagem. – É mais uma das suas invenções?
– Mas que merda... Por que eu inventaria uma coisa dessas? – Indaguei, levantando um pouco o tom de voz.
– Não sei, . Sou eu quem pergunta isso a você. Por que inventaria uma coisa dessas?
– Eu não estou inventando, que porra! – Eu disse impaciente, levantando da cama.
– Ah, sim, então se você não está inventando, diga-me: por que a Mariana te chantagearia? Por quais motivos? – Ela falou em tom cético, voltando a cruzar os braços.
– Para me ver longe de você!
– E por que ela iria querer isso?
– Não é óbvio? – Falei e ela se virou para mim com um olhar de dúvida, a testa franzida. Revirei os olhos e caminhei para a saída do quarto, bufando. Ela estava se fazendo de desentendida ou será que realmente não tinha entendido o que eu havia dito?
Saindo do quarto com os nervos à flor da pele, eu caminhei até chegar à cozinha, agora sem me preocupar se estava ou não fazendo muito barulho com meus passos pesados, sem me importar se acordaria alguém.
No armário de portas de vidro transparente, eu procurei por uma taça de boca larga limpa e depois procurei pelo vinho na geladeira, enchendo a taça de cristal totalmente. Engoli o líquido cor de sangue de uma vez, ignorando a sensação de queimação na garganta por conta do álcool contido na bebida, que parecia bem mais forte porque eu estava de estômago vazio. Então enchi a taça novamente e bebi de um gole só como da outra vez, ignorando, de novo, aquela mesma sensação de queimação na garganta.
O que eu estava pensando? Que depois de revelar a quem andava me chantageando, ela me abraçaria forte e diria que tudo ficaria bem, que daríamos um jeito daquele joguinho sujo da Mariana acabar e nós ficaríamos felizes para sempre? Que ela acreditaria em mim? Tolo fui eu de pensar que ela acreditaria e que, ainda por cima, ajudaria-me e voltaria para mim. Ainda mais tolo eu era por ter uma fantasia de contos de fadas, onde todos conseguem o que querem, não importa o que seja.
.
***


's Point Of View: On.

Aquela poderia ser considerada a maior piada do século. Ou a maior dissimulação. Eu ficava me perguntando o tempo todo o que se passara na cabeça de para dizer pra mim que a minha própria prima, mãe do filho dele, o estava chantageando. Será que ele estava tão desesperado assim que agora estava inventando coisas? Ou será que ele estava ficando louco? Porque era impossível de acreditar no que ele me dissera. Eu conhecia Mariana de uma vida inteira, sabia que ela não faria aquilo.
Apesar de achar que o comportamento de Mariana comigo havia mudado bastante, eu não achava que ela seria capaz de chantagear alguém. Por que faria isso? Ela nem precisava. Até porque, estava grávida, e só isso já era o suficiente para afastar de mim. E eu até entendia porque ela havia mudado comigo, não era para menos: ela havia feito o favor de me hospedar em sua casa quando eu não tinha ninguém em um país desconhecido e como eu agradeci? Roubando o noivo dela. Não havia sido proposital ou premeditado, mas eu também ficaria uma fera no lugar dela e, com certeza, desprezaria-me se fosse comigo. Se ao menos eu tivesse me esforçado mais para o meu "rolo" com o não acontecesse de jeito nenhum... Mas nem isso eu tinha me dado ao trabalho de fazer. Porque fazia me esquecer de tudo quando eu estava com ele.
Eu não culpava Mariana por não demonstrar mais nenhum tipo de carinho por mim. Mas não havia como resistir a , não havia como não desejá-lo, ainda mais quando a vontade partia de ambos, mesmo que aquilo fosse proibido.
Respirando pesadamente, fechei as cortinas da janela do quarto de hóspedes e fui até a porta, trancando-a. Aproveitei que estava perto do disjuntor e desliguei a luz do quarto, voltando à cama em seguida. Deitei-me nela e me cobri com o edredom grosso e quente, pondo-me a encarar o teto. Logo fechei os olhos e permaneci daquele jeito poucos minutos, porque tornei a abri-los. Estava completamente sem sono.
Será que eu conseguiria dormir com as lembranças da minha mais recente discussão com ainda frescas em minha memória?
Porque todas as vezes que eu fechava os olhos, o rosto dele aparecia para mim, como se alguém tivesse colado fotos dele no interior de minhas pálpebras. E... Bem. Eu já estava naquele estado há horas. Mesmo antes da briga.
Eu sabia que seria difícil para mim, ficar perto dele, principalmente porque eu não havia conseguido esquecê-lo, e parecia que isso nunca aconteceria. E ele parecia ainda sentir algo por mim. É, talvez sentisse mesmo, eu não deveria duvidar disso. Acho que não ousaria querer me beijar quase todas as vezes que nos encontrávamos e ficávamos sozinhos, à toa, só por diversão.
Ah... É claro. O beijo.
Mais uma vez, vi-me enroscada naqueles braços, nossas bocas coladas e nossas línguas fazendo a mesma e harmoniosa dança do desejo. Todas às vezes – e não foram poucas – que as imagens do nosso último beijo chegavam aos meus pensamentos involuntariamente, eu sentia um grande aperto no peito, uma vontade louca de gritar e xingar, como se uma flecha tivesse sido atirada no meu coração e o fizesse doer tanto a ponto de eu não conseguir aguentar, ou sobreviver. Às vezes eu me perguntava se não era adepta ao masoquismo quando se tratava de relacionamentos amorosos porque, de um jeito ou de outro, da pior e/ou mais horripilante maneira, eu sempre acabava machucada.

Quando consegui parar de pensar naquelas coisas, caí quase que imediatamente no sono. Com aquilo tudo, eu não havia percebido o quanto estava cansada, o quanto eu precisava relaxar e dormir. Relaxar; acho que a palavra não se encaixava no meu dicionário naquele momento, porque muitas coisas me impediam de fazer isso. era só mais uma delas e que tinha grande peso em minha mente. Quanto a dormir... Bem, fiz isso em poucos minutos, depois que a minha mente estava vazia de pensamentos sobre qualquer coisa da noite que havia se passado, porque eu ainda estava sob o efeito do álcool em excesso que eu não estava acostumada a ingerir.

Dormir foi o termo que usei para apelidar as pouquíssimas horas de sono que tive.
Considerando o fato de que fechei meus olhos para tentar descansar quando eram altas horas da madrugada, eu diria que apenas cochilei. Todo o meu corpo estava tomado por um alto teor de cansaço, fazendo parecer que cada simples osso do meu esqueleto pesava uma tonelada. Minha cabeça doía tanto que chegava a fazer meus ouvidos zunirem. Eu estava tão enjoada que parecia que a qualquer hora iria por não só meu estômago, mas também meus outros órgãos internos pra fora em um único momento de vômito.
Aquelas sensações eram horríveis! E a ressaca era um dos motivos pelo qual eu preferia não beber em excesso. Eu só queria voltar a dormir até aquilo passar... Mas eu não podia. Porque sussurrava para eu acordar e me sacudia levemente para isso acontecer. E, bem, aquilo não melhorava meu estado.
– Que foi, ? – Perguntei impaciente, com a voz rouca e falha, os olhos meio embaçados e a cabeça doendo tanto que parecia estar sendo pisada por trasgos pesados e grandes.
Passei as mãos nos olhos e olhei para como se fosse fuzilá-la a qualquer momento.
– Eu estou indo pra casa agora. Vai comigo ou depois? – Ela murmurou, ficando de joelhos ao lado da cama para que eu conseguisse ver seu rosto.
– Estou com cara de quem quer voltar pra casa agora? Deixe-me dormir! – Eu disse revirando os olhos, cobrindo a cabeça com o edredom em seguida.
fez o favor de me tirar do meu "campo de proteção", descobrindo minha cabeça, o que me fez bufar.
– Não precisa ser grossa comigo porque está de ressaca, ok? Eu também estou e nem por isso estou distribuindo coices como se fosse um cavalo. – Ela ralhou e eu fiquei em silêncio, mas ainda a encarava emburrada. – Enfim, cadê a chave do seu carro? – Perguntou.
– Dentro da minha bolsa; ela está ali em cima. – Apontei para a pequena estante do quarto e fechei os olhos em seguida, enquanto se levantava do meu lado e caminhava em direção a minha bolsa.
– Eu vou voltar com o seu carro, ok? Qualquer coisa liga que eu venho te buscar, ou fala pro te levar pra casa.
– Tá, .
– Até mais.
– Até.
– Ah... E vê se não dá uma de cavalo com mais ninguém. – Ela disse, dando uma risadinha, o que me fez tacar uma almofada em sua direção, e isso a fez rir mais alto. Então deixou o quarto e assim pude retornar ao meu silêncio. Assim eu pude voltar a fechar os olhos para dormir mais um pouquinho.


Muito preguiçosamente, movimentei-me na cama e abri minhas pálpebras, emergindo do sono aos poucos. Demorei um tempo para assimilar que eu não estava na minha casa, mas, sim, na de . Uma dor de cabeça muito chatinha me atingiu – não era tão forte, mas também não era tão fraca; era só... Chata. E, que droga, eu odiava aquilo de ficar no meio termo.
Fiquei uns minutos encarando o teto antes de, de fato, acordar. Espreguicei-me e tirei o edredom de cima de mim, sentando na cama em seguida. Ignorei totalmente a sensação de frio que tomou conta do meu corpo e levantei, caminhando sem rumo e com pouco senso de direção para o banheiro adjunto do cômodo. Neste, eu fiz minha higiene matinal, prendi meus cabelos em um coque frouxo e lavei meu rosto com a água da torneira quente. Encarei-me uns segundos no espelho do pequeno armário do banheiro e cheguei a uma conclusão: eu estava um trapo. Não era nenhuma surpresa para mim encontrar olheiras escuras acumuladas debaixo dos meus olhos, mas aquilo me chocou um pouco naqueles poucos segundos em que vi minha imagem refletida.
Suspirei pesadamente e deixei o banheiro; de volta ao quarto direcionei-me ao pequeno guarda-roupa de duas portas, branco com alguns detalhes pretos; neste, encontrei um par de roupas de moletom, ambas cinzas, dobradas em cima de lençóis e fronhas brancos, todos muito bem passados e engomados. Tomei as peças em minhas mãos e fechei o armário, trocando imediatamente meu vestido vermelho da outra noite pelas roupas quentinhas que eu tinha encontrado. Pus o vestido perto da minha bolsa e deixei o quarto, finalmente.
Enquanto eu andava em direção à escada que desembocava no hall da casa, um barulho abafado de pessoas conversando chegava aos meus ouvidos, fazendo-me ficar apreensiva com quem eu encontraria quando chegasse ao lugar em que aquelas pessoas estavam. Dar de cara com apenas uma das que poderiam estar lá embaixo me deixava meio desorientada (mais do que eu já estava); o fato de ter aquele ser em minha mente não ajudava em nada. Ainda assim, eu segui meu caminho, sendo guiada pelos meus ouvidos, que cada vez capitavam sons mais altos; até que eu cheguei ao local da falação: na cozinha da casa. Encontrei , e sentados à mesa, conversando e bebendo de canecas pretas um líquido amarronzado, espesso e fumegante. Chocolate quente! Despertei de verdade quando senti o cheiro tomar conta de minhas narinas.
– Hey, ! – disse olhando em minha direção, sorrindo.
– Olá, rapazes! – Falei sorrindo de volta, aproximando-me da mesa e me sentando na cadeira desocupada. – Cadê a ?
– Ela já foi... – disse, olhando para mim com uma interrogação no olhar. Enruguei minha testa ao olhar para ele.
– Foi? – Perguntei.
– Foi! Ela passou no seu quarto antes pra perguntar se você ia e pegar a chave do seu carro... Você não se lembra? – indagou.
– Não. Se bem que eu me lembro muito vagamente... Acho que pensei que fosse um sonho. – Eu disse dando de ombros.
– Isso que dá beber muito. – disse, desfazendo o coque do meu cabelo.
– O sujo falando do mal lavado! Até parece que você não entornou o copo ontem, !
– Ah, qual é, , a ocasião pedia...
– Ah, qual é, e blablabla... – Falei imitando a voz de , o que o fez rir. – Corta essa e me passa uma caneca de chocolate quente! – Continuei, fazendo todos ali rirem.
Então levantou de sua cadeira e pegou uma caneca preta de porcelana, serviu um pouco do chocolate quente – que estava dentro de um bule de porcelana branco – e pôs o copo em minhas mãos. Tomei um gole e peguei um dos cookies de coco que estavam dispostos em uma bandeja de prata em cima da mesa.
– Papai Noel ficou sem lanchinho este ano. – citou, também pegando um biscoito, o que nos fez gargalhar.
– Cadê o resto da casa? – Indaguei.
– Dormindo, obviamente. – respondeu. – Ah, , a me perguntou se eu podia levar você pra casa e eu disse que sim, então quando você quiser ir, é só...
não chegou a terminar a frase, porque esta morrera na hora em que entrou na cozinha.
Ele estava com os cabelos desgrenhados e o rosto inchado, os olhos meio vermelhos, como se tivesse chorado por um bom tempo; suas roupas estavam amarrotadas e os pés descalços, como se tivesse retirado apenas os sapatos para dormir.
Encaramo-nos por um curto período de tempo, até ele virar a face, murmurar “boa tarde” para ninguém especificamente e caminhar em direção à geladeira. Parecia que a sua aparição havia paralisado todos ali, fazendo até as respirações serem suspensas, como se tivessem virado pedra. Então ele pegou uma garrafa de água, deixou o lugar e foi para fora da cozinha, jogando-se no sofá da sala – de onde eu estava, tinha uma visão parcial daquele cômodo, então pude ver quando ele praticamente esmurrou o estofado com o corpo.
havia deixado à cozinha, mas o clima permanecera tenso mesmo assim. Ninguém sabia exatamente o que fazer, para falar a verdade, estavam todos muito quietos e sérios.
– Ah, qual é, gente, não precisam ficar assim todas as vezes que e eu ficamos no mesmo cômodo, por favor! – Exclamei, revirando os olhos. Os rapazes olharam meio assustados para mim e meio que relaxaram em suas cadeiras. Dei-lhes um pequeno sorriso e mordisquei meu cookie.
Eu não sabia se , ou sabiam alguma coisa da discussão que tive com o naquela madrugada, ou se havia ouvido alguma coisa, porque nossas tentativas de sussurrar as palavras falharam um bocado; também não sabia se eles souberam do beijo da noite passada, se o havia dito alguma palavra sobre isso. Mas uma coisa era certa: eu podia disfarçar o quanto eu me sentia desconfortável para eles, porém não podia me dar ao luxo de fazer isso perto dele. Ele sabia, e eu também sentia que ele não ficava muito confortável quando eu estava por perto. O porquê disso todos já estão cansados de saber.
Então, depois que o constrangimento passara, nós retomamos o rumo da conversa que estávamos tendo antes e voltamos a comer e beber aquelas coisas deliciosas que estavam a nossa frente.
Enquanto eu estava com aqueles caras, era como se eu estivesse de volta a minha casa no Brasil, conversando com meus velhos amigos enquanto ouvíamos alguma boa música e comíamos o bolo de cenoura com cobertura de chocolate que mamãe sempre fazia para Ed, eu, nossos amigos e primos.
Depois que nós terminamos de fazer nosso lanchinho, caminhamos para a sala, lá sentamos nos sofás e ligamos a TV em um programa de humor. Não fiquei nem um pouco tensa ali, porque já havia ido para a casa dele. Só significava que a minha tortura finalmente havia acabado e ainda bem, porque eu já não estava aguentando mais; principalmente depois do beijo e da briga.
Passei o restinho da tarde conversando com , e , comentando sobre o programa de humor, até que meu telefone celular anunciara que eu havia acabado de receber um e-mail na minha caixa de entrada. Como eu esperava, era de Eduardo.
.
Hey, ,

Bom, como você sabe, o casamento da Mari está chegando. Ela nos mandou um convite e ele chegou aqui hoje; o tal incluiu um individual pra você (eu não entendi isso. Vocês moram uma perto da outra, por que ela não mandou diretamente pra você? Eu hein?). Como não moramos aí, estamos programando nossa viagem para a Inglaterra e chegamos aí no próximo dia 28. Aí vamos poder dar um passeio pela cidade tendo você como nossa guia turística, haha. E também para passar o Ano Novo com você, já que não passamos o Natal.
Enfim, nosso desembarque em Londres está previsto para às 14hrs, então é bom você estar lá para nos buscar e nos levar para sua casa. Não vejo a hora de ir pra aí e te ver! Estou morrendo de saudade de te apertar, toquinho.

Ed.


Depois de ler o e-mail, senti como se minhas entranhas houvessem se entrelaçado em um nó e nunca mais voltariam ao estado normal. De alegria e tristeza. Ao mesmo tempo em que eu comemorava o fato de que veria minha família dali a três dias, uma coisa que eu pensei que não aconteceria de jeito nenhum, iria acontecer: Mariana havia feito questão de direcionar um dos convites do casamento dela com para mim. O que ela pretendia com aquilo, fazer-me sofrer mais do que eu já estava? Zombar da minha cara? Eu não sabia ao certo o que pensar sobre aquilo, mas de uma coisa eu sabia: eu seria obrigada a ir ao casamento, porque minha família não sabia do que havia acontecido entre mim e e eu não pretendia contar.
– Erm... , está ficando tarde, será que você pode me levar pra casa? – Indaguei com a voz meio instável, segurando-me ao máximo para não desabar e chorar ali mesmo. Ele me encarou com as sobrancelhas franzidas, notando minha instabilidade, mas não comentou nada.
– Tudo bem, eu te levo. – Ele disse sorrindo, sem mostrar os dentes.
– Erm... Eu vou trocar de roupa e nós vamos. – Falei, fazendo esforço para sorrir e ele concordou com a cabeça.
Então eu me levantei do sofá e caminhei em direção do hall da casa, onde encontrei a escada e subi para o outro andar; direcionei-me para o quarto de hóspedes que eu havia dormido e lá troquei as roupas de moletom pelo meu vestido vermelho, enquanto lágrimas teimosas e caladas desciam pelo meu rosto. Eu não podia evitá-las, mas precisava.
Depois que calcei meus sapatos, dobrei a roupa que estava em meu corpo antes e a guardei no local que eu as havia encontrado; peguei minha bolsa, sequei meu rosto e saí do cômodo, obrigando-me a parar de chorar no caminho.
Assim que reapareci na sala, se levantou e foi até mim. Despedi-me com um aceno para os demais que estavam ali e nós dois caminhamos para a saída da casa, pegando nossos sobretudos no porta-casaco onde eu havia deixado o meu na noite anterior. Depois nós colocamos nossos casacos e deixamos a casa.

***


Capítulo Vinte e Oito – Wedding Bells


No, I don't wanna love
If it's not you
I don't wanna hear
The wedding bells bloom
Maybe we can try
One last time
But I don't wanna hear
The wedding bells chime…


(Dica: coloque pra carregar: Best Thing I Never Had – Beyoncé)

Enquanto e eu fazíamos o trajeto para a minha casa no carro dele, peguei-me pensando na vida. Em como nós somos jogados no mundo sem ao menos ter a opção de negar isso; em como passamos a infância inteira sendo iludidos em teias tecidas pelas aranhas gigantes que a sociedade é; em como quebramos a cara quando a fase adulta chega e nada é como esperávamos; em como nos decepcionamos tanto a ponto de não querer mais viver, nem ser ajudado por ninguém.
O que é a vida, afinal? Uma irônica encenação de coisa boa, que ri às nossas custas quando algo que decepciona nossos corações? Ou uma "amiga" completamente paradoxal, que ama e odeia, dá e retira, fere e trata... Ao mesmo tempo? Era difícil de explicar o que é exatamente a vida, mas o fato era que ela não era nem um pouco justa. Tudo bem, ninguém disse que seria fácil, porém nunca disseram que era tão complicado.

Fui despertada de meus devaneios quando o carro passou em um quebra-molas em alta velocidade, sem frear em nenhum momento. Talvez não o tivesse visto, o que era meio difícil, porque os quebra-molas eram pintados com listras bem brancas e visíveis; não tinha como não ver.
Por causa do impacto, minha cabeça bateu violentamente contra o vidro da janela do meu lado. Isso causou uma dor de cabeça muito forte e, provavelmente, um calo na testa.
– Ai, meu Deus, , foi mal! – falou, olhando meio desesperado para mim.
– Não foi nada, ... Mas minha cabeça está doendo muito! – Eu disse, massageando as têmporas com as pontas dos dedos. Então rimos. – Você deveria usar óculos, ou ser proibido de dirigir.
– Cala a boca, . – Ele disse, franzindo as sobrancelhas, o que me fez rir. Então se fez silêncio, em que ele soltou uma risadinha e mexeu a cabeça negativamente.
Prosseguimos o resto do percurso sem muitas trocas de palavras, até que chegamos à rua a qual eu morava. O veículo diminuiu a velocidade aos poucos, até que parou em frente a uma residência pintada de verde água bem clarinho, muros baixos e portão da frente feito de grades, que tinha um jardim muito bem tratado na frente, uma pequena varanda que antecipava a entrada e a porta da frente de madeira envernizada. Não era a casa mais bonita da rua, mas eu gostava muito dela. Pelo menos podia chamá-la de minha.
Inclinei-me um pouco para lascar um beijo na bochecha gelada de e saltei do carro; abri o portão e caminhei jardim adentro, até chegar à varanda. Acenei para o – que não saiu do lugar enquanto eu não tinha chegado à porta da minha casa – e ele acenou de volta da sua janela aberta. Então entrei na residência e da janela observei quando o carro de deixou de vez o lugar.
? – Chamei, enquanto jogava minha bolsa em cima do sofá e me livrava das minhas botas de cano baixo e abria meu sobretudo, tudo ao mesmo tempo.
, é você aí? – apareceu na sala, então; usava um enorme moletom com a estampa do Mickey na frente e uma touca com orelhas de coelho – isso mesmo, coelho. Ri daquilo, porque era cômico e fofo ao mesmo tempo. – Ah, é sim.
– Que porra é essa na sua cabeça, ? – Perguntei, rindo, enquanto me sentava, vulgo, deitava, no sofá e ligava a TV com o controle remoto, já que este estava ao meu alcance.
– Um presente da irmã do . E não é uma porra, é muito fofo. – Ela disse, revirando os olhos. Então caminhou para a minha direção e levantou minhas pernas, sentando no lugar que elas estavam antes e deitando-as em seu colo. – Enfim, o me ligou avisando que estava trazendo você e... O que é isso na sua testa? – Indagou de repente, fazendo-me levar a mão à testa. Senti uma área inchada e dolorida no lado esquerdo.
– Ah... É que eu bati a cabeça no vidro do carro quando o passou por um quebra-molas. Mas, calma, está tudo bem com ele, foi só uma desatenção. – Falei tranquilizando-a antes que ela começasse a falar descontroladamente.
– O é muito barbeiro no trânsito. Como que ele nunca sofreu nenhum acidente grave?
– Não sei. Mas eu já disse que ele deveria ser proibido de dirigir. – Citei e nós rimos.
Então nos calamos e prestamos atenção na televisão; estava passando um dos filmes da saga Harry Potter, que e eu amávamos incondicionalmente desde sempre.

Foi bom ela não ter comentado nada sobre a festa da noite anterior, porque eu não queria falar dela tão cedo. Mas, com certeza, tinha notado que eu estava estranha desde que tinha chegado. Não falava as falas dos personagens do filme antes dos próprios falarem como eu sempre fazia, ou ria com antecedência por uma cena engraçada que estava por vir. Para falar a verdade, eu nem estava prestando atenção no filme. Estava tão longe... Ela certamente associou àquilo ao fato de eu ter visto , e bem, era por isso mesmo que eu estava daquela forma.
Pensar em , naquele momento, fez me lembrar de uma coisa.
... Meus pais e o Ed virão pra cá. – Falei com um fio de voz, fechando os olhos e cobrindo-os com o antebraço.
– Ah, é? Chegam quando? – Ela indagou animadamente.
– Eles chegam dia 28. Vou buscá-los no aeroporto na parte da tarde.
– E eles vêm pra quê, pra passar o Ano Novo?
– Também. – E após essa fala, retirei minhas pernas do colo de minha amiga e sentei muito reta no estofado, pousando as mãos nas coxas, olhando diretamente para elas.
–... Como assim? – perguntou depois de um longo silêncio.
– Eles virão para o casamento. Da Mariana.
– E você...
– Eu vou ter que ir.

Eu não sabia exatamente o que a longa pausa de minha melhor amiga significava, mas boa coisa não era.


***



Rio de Janeiro – Brasil.


's Point Of View: Off.

Luísa Alcântara estava há horas sentada defronte a seu microscópio, analisando cada detalhe do fio de cabelo que haviam encontrado no cativeiro de , mas que até então estava lá parado, escondido dentro da caixa de provas e evidências de dentro do local em que a vítima fora encontrada. Por ser um fio longo, decididamente era cabelo de mulher, mas não era o da vítima, porque as características não batiam. Os da vítima eram lisos, castanhos escuros, com bastante queratina e não quebradiços. O coletado do cativeiro era ruivo, coberto por tinta preta, originalmente encaracolado e frágil, com tantas pontas duplas que indicava que a dona com certeza abusava dos produtos químicos e altas temperaturas para alisar os cabelos. Pontas duplas podem ser disfarçadas a olho nu, mas ao olho do microscópio... Sem contar que o DNA encontrado no bulbo capilar não batia com o de , e era desconhecido até então. Também não batia com nada que havia no sistema de DNA’s, o que dificultava bastante o trabalho. De quem poderia ser aquele material genético? Será que valia a pena investigar uma coisa que ninguém tinha dado muita importância até então? Porque, Luísa pensara em determinado momento, aquele fio poderia ter sido muito bem transferido “inocentemente” de uma pessoa que não tinha nada a ver para algum dos capangas participantes do sequestro, e de um dos caras para a o local do cativeiro. Mas alguma coisa dizia a ela que valia a pena sim investigar aquilo um pouco mais afundo. Quem sabe ela não conseguisse alguma coisa?
Só esperava que aquilo não fosse um tiro no escuro.

Ela levantou a cabeça das oculares do microscópio óptico por um momento e deu uma espiada em sua sala, com seus olhos cansados, meio desfocados e cansados. Como ela conseguia ficar tanto tempo olhando aquelas estruturas através daquelas lentes sem sofrer danos à visão, ela não sabia. Espreguiçou-se na cadeira e bocejou, dando uma olhada em seu relógio de parede prateado, de ponteiros. Era hora do almoço.
Luísa não se preocupou muito com o tamanho que poderia estar à fila no refeitório do Departamento, até porque a grande maioria dos policiais e demais funcionários estavam de folga devido às Festas de fim de ano, e tinham com certeza emendado o Natal com o Ano Novo. Brasileiros... Sempre arranjando uma desculpa para faltar o trabalho, principalmente em intervalos entre feriados. E quem se fodia por causa disso? Isso mesmo, ela. Porque, diferente da maioria de seus colegas de trabalho, ela não gostava daquele tipo de coisa, por mais que trabalhar fosse cansativo e estressante.
A mulher deu mais uma olhada nas oculares, fez mais anotações em um caderninho que costumava usar para aquilo e desligou a luz do microscópio; colocou da objetiva maior para a de menor visualização, tirou a lâmina que continha o fio capilar do local que estava antes e guardou no saquinho de provas; depois de cobrir cuidadosamente o microscópio, ela devolveu a evidência à sua caixa e pegou o casaco para sair de sua sala. Sim, estava frio, o que era muito anormal em pleno fim de Dezembro no Brasil, mas Isa não reclamou. Preferia aquilo ao calor insuportável que andava fazendo nas últimas semanas.

No meio do caminho, ela passou pela porta da sala do irmão e colega de trabalho, Detetive Carlos Alcântara, que murmurou um audível “pode entrar”; então Luísa entrara no local e encontrara o irmão no meio de uma pilha de papéis, usando seus óculos de leitura.
– Isa... – Ele murmurou sem tirar os olhos dos papéis que lia e riscava com fervor, enquanto a irmã se aproximava e se sentava à cadeira do lado oposto ao que ele estava sentado.
– Você não vem almoçar, Carlos? Está assim há horas. Precisa descansar um pouco. – Ela falou pegando em um dos papéis, lendo rapidamente algumas palavras e frases riscadas e circundadas e anotações que não fizeram muito sentido pra ela.
Estava com sono e com fome. E muito sobrecarregada naqueles últimos dias, porque tinha que lidar com vários casos em aberto ao mesmo tempo, e como só tinha ela trabalhando no laboratório nas últimas semanas... Pois é, ela não entenderia aquilo. Não no estado em que se encontrava.
– Preciso terminar isso aqui imediatamente, ou você se esqueceu de que tem um louco à solta, matando gente por aí como se fosse brincadeira de criança? Que o pessoal das Especiais precisa de uma resolução desses anagramas que ele deixou? – Ele indagou, erguendo os olhos para encarar a irmã. Seus óculos escorregaram para a base do nariz.
– Eu sei disso, mano; mas não dá pra fazer uma pausa pelo menos para me acompanhar no almoço?
– Não estou com fome, Isa.
– Ah, você está sim. Posso ver em seus olhos. – Ela disse num sussurro misterioso, sorrindo marotamente, e o irmão riu. – Ah, vai, Carlos, uma pequena pausa, nem se for de cinco minutinhos, não vai fazer mal! Você não larga desses anagramas desde que lhe entregaram e... Ah, Carlos, por favor! Não estou pedindo para você parar de trabalhar, sim pra me acompanhar no almoço!
– Tá, Isa, tudo bem, conseguiu me convencer. Eu vou com você. Cinco minutos. – Carlos falou e Luísa sorriu satisfeita.
O detetive deu um suspiro pesado e largou a caneta vermelha em cima do papel que estava trabalhando, rezando para que não se esquecesse de onde tinha parado nos cinco merecidos minutos de pausa. Tirou os óculos e largou ao lado da caneta, levantando-se em seguida de sua cadeira. Ajeitou a arma no coldre amarrado ao suspensório e vestiu o paletó. Luísa já tinha levantado e esperava ao lado da porta. Assim que Dr. Alcântara se aproximou, ela abriu o espaço e os dois deixaram o lugar, caminhando em direção do refeitório. Como previa a Alcântara mais nova, o local estava bem vazio do que costumava ser em um dia normal.
– Esse cara está te deixando louco, não é? Esse tal serial killer que surgiu de repente. – Luísa comentou, enquanto pegava uma bandeja e se servia de risoto de frango com queijo ralado em cima.
– Quase. Esses anagramas que ele monta são bem complicados. Deve ser bem inteligente, esse cara. – Carlos falou, servindo-se da mesma coisa que a irmã.
E assim eles foram se sentar a uma mesa, comentando que aquele tipo de crime, assassinatos em série, estava se tornando cada vez mais frequente nos últimos anos.
Não passados nem dois minutos que tinha começado a comer e um policial, que parecia doente e cansado, abordara os dois, alegando que alguém que ele não conhecia queria vê-los. Carlos e Luísa se entreolharam e ele perguntou:
– Mas, assim... É homem ou mulher?
– Mulher. – O policial respondeu, encolhendo os ombros. – Disse que quer conversar com você sobre o tal Bruno. – Ele continuou. Carlos e Luísa se entreolharam mais uma vez.
– Mande-a ir para a minha sala e diga que já estou indo atendê-la, por favor. – O detetive respondeu e o policial assentiu com a cabeça, deixando a cena logo em seguida.
Os irmãos Alcântara terminaram suas refeições rapidamente e se levantaram; deixaram as bandejas sujas num balcão e lavaram as bocas, deixando o local em seguida, em direção à sala de Carlos.
Quando chegaram lá, a tal mulher que o policial informou que queria conversar com ele se levantou do pequeno sofá da sala, e os irmãos ficaram surpresos com o que viram. Primeiramente, pelas roupas dela.
A mulher usava uma combinação de vestido com estampa de onça, curto, justo e decotado. Os saltos em seus pés eram enormes e a plataforma era transparente. E usava uma jaqueta curta de couro e argolas de ouro penduradas nas orelhas. Os longos cabelos encaracolados por um babyliss estavam jogados no ombro direito, e a boca pintada de vermelho parecia um morango perdido em seu rosto.
Ok, aquela era uma combinação bem... Chamativa.
A segunda coisa que surpreendeu Luísa e Carlos foram os traços do rosto da mulher.
Ela era muito, muito parecida com Luísa. Se não fosse pela roupa e maquiagem extravagantes, diriam que elas eram irmãs, até gêmeas. Quando as duas se encararam, era como se estivessem olhando para um espelho, só que a imagem refletida nele mudava completamente suas roupas e atitudes.
– Nossa... Como ela é parecida com você... – Carlos sussurrou à irmã, que olhou para ele com a sobrancelha erguida, claramente achando o comentário uma ofensa enorme.
– Erm... Sou Silvia. – A mulher se apresentou, estendendo a mão.
– Sou Detetive Alcântara, e essa é minha irmã, Luísa Alcântara, investigadora forense. – O detetive disse, apertando a mão de Silvia, ainda impressionado com a semelhança que ela tinha com Isa. Como duas pessoas podiam ser tão parecidas?
Depois de um longo silêncio, Carlos disse:
– Sente-se, Silvia. – e apontou com a cabeça para a cadeira que ficava em frente à sua mesa, a para visitantes. Silvia fez um aceno de cabeça e se sentou no local que a tinham indicado. Então ele ocupou o seu lugar, e Luísa foi para onde a sua “cópia vestida de puta” estava antes. Cruzou as pernas e encarou o irmão, que olhava o decote da mulher à sua frente. Revirou os olhos e pigarreou, chamando a atenção do detetive, finalmente. Ele corou e limpou a voz, antes de começar a falar.
– Então, erm... Você quer conversar sobre o Bruno, certo? – O detetive disse claramente envergonhado por ter se distraído com o corpo de Silvia, olhando-a diretamente nos olhos para evitar que aquilo acontecesse de novo.
– Sim. Eu fiquei sabendo que... Bem... Houve uma confusão na última vez que ele foi interrogado. – Silvia disse meio tímida. Não que ela fosse, até porque, por conta de sua "profissão", ela precisava ser bem ousada. Estava mesmo era intimidada com a presença dos dois. O que eles diriam se ela dissesse que era prostituta?
Não sou prostituta, ela pensou consigo mesma, sou acompanhante.

Após ouvir a fala de Silvia, Carlos sentiu o sangue subir mais uma vez para o seu rosto, até que este tomasse a cor vermelha. Ainda se envergonhava de sua atitude de ter esmurrado um interrogado. Ah, se não fosse por aquilo... Talvez tivesse ganhado a confiança do acusado.
Como ninguém se pronunciou, Silvia decidiu continuar a falar.
– Eu sei que o Bruno não se abre com ninguém, principalmente para a polícia, mas... Acho que pra mim, ele pode falar qualquer coisa.
– Ele confia inteiramente em você? – Carlos perguntou. Ela disse que sim com a cabeça.
– Você quer dizer que... Está dizendo que...
– Isso mesmo, Srta. Luísa. Quero ajudar com a investigação. Posso ser bem persuasiva quando quero. – A mulher disse, juntando os lábios pintados de vermelho em um sorriso.
Eles pensaram por um momento, e não se pronunciaram. Mas a mente de ambos trabalhava a todo vapor.
– E-eu acho que o Bruno não quer me ver, faz tanto tempo que eu não o visito... Mas eu posso tentar ser amigável com ele.
– Ele costuma te agredir? – Carlos Alcântara perguntou.
– Não é sempre... Só quando está nervoso. E, bem, eu não apareço no presídio que ele está preso há um bom tempo. Ele deve estar nervoso comigo.
– Se for assim... Não precisa se expor a ele, Silvia. Acho que eu sei exatamente o que fazer. – Luísa disse sorrindo levemente, com um brilho no olhar que Carlos conhecia bem. Queria dizer que ela tinha acabado de ter uma ideia brilhante.

***



Londres, Inglaterra – Três dias depois.


's Point Of View: On.

É engraçada a maneira que o tempo encontra para nos torturar. Quando queremos que ele passe o mais rápido que puder, demora séculos para fazê-lo. E quando imploramos para que o tempo se demore o quanto quiser, ele corre como se tivesse a capacidade de um leopardo para atingir altas velocidades.
E lá estava eu, praguejando silenciosamente porque o tempo estava voando diante de meus olhos, enquanto eu pedia para que ele não passasse, que ficasse suspenso por alguns meses, pelo menos só para mim.
Não, eu não queria passar por aquilo. Era demais para mim. E não estava falando do fato de ter que ir buscar meus pais e meu irmão no aeroporto. E sim de um dos piores dias da minha vida, que se aproximava cada vez mais. Eu não podia acreditar que aquilo era mesmo real. Como eu queria que fosse apenas um sonho ruim, que logo, logo eu acordaria, levantaria da cama e seguiria com a minha rotina normal... Mas aquilo não era um sonho. A mais brutal realidade estava diante dos meus olhos, e eu não podia fazer nada para detê-la.


No dia 28 de Dezembro, acordei bem cedo. Levantei-me da cama e sentei em sua beirada, com as mãos apoiadas ao colchão e os pés sem tocar o chão, balançando de um lado para o outro; fiquei um bom tempo lá, com o olhar distante, a cabeça vagando em tantos pensamentos impossíveis de conter. Coisas que eu havia enterrado no interior da mente e que agora voltavam a nadar na superfície do meu cérebro. Dores que tentei esconder por tanto tempo que tinham se encrustado ao meu coração. Sentimentos que eu não suportava mais retornarem à minha alma. Até quando eu aguentaria viver daquele jeito?
Assim que consegui me desprender do mundo de minha mente, vi que tinham passado mais de duas horas. Fiquei mesmo aquele tempo todo em estado vegetativo?
Levantei-me na cama e me arrastei até o quarto de , que já devia estar acordada àquela hora. Notei isso porque, minutos antes, escutei algumas exclamações abafadas pela parede que dividia nossos aposentos. Bati à porta e ela murmurou para que eu entrasse no cômodo. Encontrei-a deitada em sua cama, com olheiras leves e roxas embaixo dos olhos meio vermelhos, lendo algum livro novo que tinha comprado. Provavelmente tinha passado a noite em claro fazendo aquilo, e nem percebera que o dia já raiara. vivia fazendo aquilo, como se dormir não fosse importante quando tinha um livro em suas mãos.
Ela desviou o olhar do livro e deu uma boa olhada para mim, enquanto eu me dirigia à sua cama e deitava ao seu lado em posição fetal. Tendo o cuidado de colocar um marcador de páginas para não perder a parte que estava lendo, ela deixou o livro em cima de um criado-mudo ao lado da cama; pôs-se, então, a acarinhar meus cabelos soltos.
Ficamos ali algum tempo, sem pronunciar nenhuma frase, as mãos de minha melhor amiga percorrendo meus cabelos.
, eu não quero ir... – Sussurrei com a voz falha, enquanto sentia um formigamento tomar conta dos cantos dos meus olhos e minha visão se tornava cada vez mais embaçada. – Não quero ir... Não quero... – Sabendo que eu não aguentaria segurar meu pranto, deixei que as lágrimas caíssem de encontro aos lençóis estampados que cobriam a cama.
Ela sabia do que eu estava falando, aonde eu não queria ir. Não tinha nada a ver com o aeroporto. E sim... Com o casamento que os jornais e revistas estavam adorando falar e especular. Chatice. Chatice e tolice. Idiotice.
aninhou minha cabeça em suas coxas enquanto ainda mexia em meus cabelos, e eu chorava até não poder mais, até que minha alma fosse completamente lavada.
– Não se preocupe, zinha, eu vou estar lá com você... – Ela sussurrou com a voz falha, como se segurasse a vontade de chorar.
– Mas, ... Tem certeza? – Indaguei olhando para ela.
– Tenho! Eu não vou te deixar sozinha naquele casamento, você sabe. – Ela confirmou, sorrindo sem mostrar os dentes. Então se aproximou e beijou a minha testa. – Além do mais... Eu serei a madrinha junto com o , né? Vou ter que ir de um jeito ou de outro. – Falou, com um fio de voz.
Depois de sua fala, ficamos um bom tempo em silêncio, em que parou de acariciar meus cabelos depois de longos minutos. Olhei para ela e vi que tinha caído no sono. Minha suposição de que ela tinha passado a noite acordada estava certa. Balancei a cabeça negativamente e soltei uma risada nasal.
Levantei-me da cama dela e apaguei a luz do abajur do criado-mudo ao lado, cobrindo-a com o seu edredom e ajeitando seus travesseiros. Então deixei o quarto e fui para a cozinha, onde preparei um café na cafeteira e peguei umas torradas no armário. Sentei-me à mesa e fiz minha refeição matinal enquanto meus pensamentos voavam em volta de minha mente, como se fossem um avião.
Eu até podia me livrar de ir ao casamento de , mas o que eu diria aos meus pais? Ah, eu não vou porque o homem da minha vida está casando. E, como eu queria evitar perguntas constrangedoras que tinham respostas mais constrangedoras, resolvi que tinha que ir para acompanhá-los; isso fez com que eu me sentisse sim, obrigada a ir. Não tinha nada a fazer a não ser fingir que estava feliz. Uma coisa que eu sabia muito bem como dissimular.




Quando a hora de ir ao aeroporto chegou, peguei as chaves do meu carro e da casa, meu celular e minha carteira. Deixei um bilhete para , que ainda estava dormindo, em cima do criado-mudo de seu quarto; dei uma última verificada na casa para ver se estava tudo em ordem e deixei o lugar, andando em direção do meu carro, que ficava parado em frente à residência. Rapidamente, movimentei o veículo para fora dali, encaminhando-me ao trânsito agitado da grande Londres.

Como o caminho estava meio engarrafado e eu estava um tanto nervosa, liguei o rádio numa rádio qualquer, e, para minha surpresa e desagrado, escutei uma voz conhecida tamborilando em meus ouvidos: a voz de .
Ele dava uma entrevista pra essa tal rádio, em que o locutor era uma mulher de voz suave e animada. Pensei em trocar para outra estação, mas uma pergunta chamou minha atenção, e eu resolvi deixar para ouvir.

Então, , todos nós sabemos que a Mari, sua futura esposa daqui a uns dias, ficou um tempo fora da casa em que vocês moram. Qual foi o motivo?

ficou calado por uns segundos. O que ele responderia? Meu coração parou e acelerou com vontade dentro da minha caixa torácica.

Nessa época, nós nos desentendemos por um motivo qualquer, mas, assim que esfriamos a cabeça, conversamos e ela voltou a morar comigo. Estamos juntos há muito tempo, não se deve acabar uma relação de anos por qualquer coisa.

Motivo qualquer? Qualquer coisa? Quem aquele filho da puta pensava que era para tratar nosso relacionamento como uma coisa qualquer?
Decididamente, aquilo fez meus nervos irem à loucura, e meu sague subir tanto que se estivesse em um termômetro, ele com certeza se explodiria, tamanha a pressão. Então eu desliguei o rádio e não ousei ligá-lo até o sinal fechado abrir. E nem depois de ter ultrapassado o semáforo eu mexi no aparelho. Aquelas palavras atingiram meu cérebro com tanta força que ainda estavam ecoando em meus ouvidos.


Depois de longos minutos presa ao trânsito, sem ligar o rádio novamente (eu ainda estava morta de raiva com o que eu tinha ouvido, apesar de não ser culpa do aparelho), finalmente cheguei ao chamado Aeroporto de Heathrow, onde o voo da minha família posaria. Deixei o carro em uma das vagas do estacionamento e me caminhei para dentro do enorme local.
Procurei informações do voo Rio de Janeiro-Londres, e uma comissária me informou que o desembarque do tal seria no portão nove. Sendo assim, fui para o local mais próximo do tal portão e me sentei em uma das cadeiras, pondo-me a esperar, já que ainda faltavam vinte minutos para o avião que eu esperava ainda não tinha chegado ao destino.

Aquele lugar me trazia lembranças.
Fora o aeroporto que eu desembarquei para começar a minha jornada em Londres. Onde conheci o cara que eu consideraria o amor da minha vida. Lembrava-me daquele dia como se fosse ontem, de como eu me sentia em relação àquela mudança de vida, das inseguranças e incertezas que me atingiram desde que pus o pé no avião que sairia da minha terra natal para um lugar desconhecido para mim.
Também me lembrei de como foi me encontrar com . Inconscientemente, um sorriso surgiu em meus lábios quando revi aquela cena diante dos meus olhos.

~ Flashback: On.

Assim que eu atravessei o portão de desembarque, passei meus olhos por todo o local para ver se encontrava a placa com o meu nome, e, por consequência, o tal . Eu estava meio distraída por estar escutando música pelos fones de ouvido, e, por este motivo, acabei esbarrando em alguém. Com isso, as bolsas que eu levava em mãos caíram no chão, e por pouco não se abriram. Quando eu olhei para a pessoa que esbarrou em mim, reparei que ele tinha um belo par de olhos , e que eles tinham um brilho todo especial. Por um instante, me senti hipnotizada por eles. Seu rosto parecia mais o de um bebê. Ele era simplesmente lindo, parecia ter saído de uma capa de revista. Usava uma jaqueta preta sobre sua blusa branca e uma calça da mesma cor da jaqueta. Seus cabelos eram meio bagunçados, o que davam certo ar de charme ao tal.
– Erm, me desculpe, e-eu estava meio distraída... – Falei meio encabulada, me abaixando ligeiramente para pegar as minhas bolsas.
– Não se preocupe. Você se machucou? – Ele disse meio frio e sem olhar para mim, me ajudando a pegar meus pertences.
– Não... – Eu disse, soltando um risinho. – Você está bem?
– Sim, estou sim. – Ele indagou, fitando meus olhos, sorrindo torto e passando a mão nos cabelos. Acho que não precisa dizer que naquele momento eu perdi totalmente minha capacidade de respirar, pois ele tinha um charme irresistível demais para ser verdade.
Agradeci quando ele me entregou uma malinha que pertencia a mim e sorri meio abobalhada. Era melhor eu nem ter imaginado a cara idiota que eu tinha feito naquele instante.
Vi que ele deixara cair no chão um pedaço grande de papel que segurava. Antes que ele se agachasse para pegá-lo, percebi que na folha branca estava escrito " " em vermelho. Aquele era meu nome. Então aquilo só podia significar uma coisa.
– Espera... Você que é o ? – Falei, encarando-o com uma interrogação no olhar.
– Eu não ouço essa pergunta com muita frequência, mas sou sim. Por quê? – Ele falou, franzindo o cenho.
– Porque eu sou a " " do seu papel, prima da sua noiva, a Mariana. - Eu disse, arqueando minha sobrancelha direita.
– Ah, sério? - Disse ele, rindo.
– Sim! - Soltei um sorriso. – Prazer em te conhecer. – Falei, estendendo minha mão, sorrindo mais uma vez.
– Igualmente, . – falou, estendendo a mão dele e apertando a minha.
– Me chame apenas de . – Eu disse, pondo minha franja atrás da orelha.
– Tudo bem, . Mas só se você me chamar apenas de . – Ele piscou para mim.
– Haha, ok, . – Cerrei meus olhos para o lado, meio envergonhada, soltando um sorriso de canto de boca um tanto meigo.
– Então... Vamos?
– Sim, vamos!
Sorri, e então começamos a andar para fora dali. Ele me ajudou a carregar algumas malas até sairmos do local e irmos para o estacionamento.
Chegamos ao seu carro rapidamente. Entramos nele, e ele girou as chaves, mexeu nas marchas e pisou no acelerador, dando partida no veículo.

~ Flashback: Off.

E pensar que tudo tinha começado ali, naquele lugar. Quando eu não sabia o que a Inglaterra poderia oferecer a mim, o que eu encontraria quando chegasse ao país.
E pensar que, naquele momento, minha vida mudaria completamente. Que meu coração daria a prova de que às vezes, um amor precisa superar barreiras difíceis de ultrapassar para ser feliz, e que nem sempre o esforço vale à pena. Porque ele se engana de vez em quando. Mas, se não errássemos, não seríamos humanos.
– Voo A347, Brasil-Inglaterra, acaba de chegar à pista de pouso. Voo A347, Brasil-Inglaterra, acaba de chegar à pista de pouso. – O anúncio na voz da comissária de bordo, calma e suave, chegara aos meus ouvidos e me despertara de meus devaneios: o voo que eu esperava acabara de descer do céu para o aeroporto.
Levantei-me de onde estava sentada, ajeitei minha roupa, levei a alça da bolsa ao ombro e respirei fundo. Então andei em linha reta até o portão de desembarque, os olhos atentos a qualquer rosto que me fosse familiar.
Depois de cinco minutos, eu o avistei. Meu irmão, mais alto que todos, como uma girafa na selva, caminhava em direção à saída, com um carrinho para colocar malas. Ao lado dele, meus pais andavam com o mesmo tipo de carrinho.
Notei o quanto eles estavam diferentes: mamãe estava mais magra, papai com os cabelos um pouco mais grisalhos, e meu irmão estava bronzeado e com os cabelos mais claros. Com certeza, estava indo mundo à praia.
Ed procurou por uns segundos e me viu. Sorri e acenei. Ele sorriu largamente e disse alguma coisa para nossos pais, que olharam na minha direção. Quando eles sorriram, meus olhos se encheram de lágrimas. A vontade de abraçá-los era tanta que chegava a doer. Parecia que um ano longe deles valia por um século!
À medida que eles se aproximavam, meu sorriso se alargava mais, e novas lágrimas eram fabricadas por meus olhos. Até que finalmente eles chegaram perto de mim. Meu pai chorava, minha mãe tentava não chorar, e meu irmão sorria tanto quanto eu.
, minha filhinha, que saudade... – Papai falou, me acolhendo em um forte abraço. Mamãe nos abraçou, e Eduardo seguiu o exemplo dela. E ficamos lá, durante minutos juntos, como se tivéssemos nascido daquele jeito.
– Vocês estão tão... Lindos! – Exclamei, olhando de Ed à minha mãe.
– Querida, você está maravilhosa também. Olha esse rostinho, como está lindo! – Minha mãe falou, beijando minha bochecha.
– Ah, que nada, mãe. – Respondi, sorrindo. – Então, vamos pra minha casa?
– Vamos, estou louco pra conhecer seu apê, maninha. – Ed disse, beijando o cocuruto da minha cabeça, passando o braço por meus ombros.
– Nós só vamos resolver as coisas dos passaportes, pegar as nossas bagagens e já vamos, filha. – Meu pai informou, e eu concordei com a cabeça.

's Point Of View: On.

16 de Janeiro – dois dias antes do casamento.

Dois dias. Apenas dois dias para o que era uma longa caminhada de tortura começar em uma nova fase.

Ver notícias sobre o casamento em canais de TV, revistas, jornais e sites na internet já tinha se tornado “normal” para mim. Mas eu ainda não tinha me acostumado com a ideia de que estaria com uma aliança no dedo dali a alguns poucos dias. Nunca me acostumaria com isso.
À medida que o tempo passava, a vida ficava mais corrida do que o normal; tínhamos que resolver muitas coisas em um curto período, como ligar para o bufê, a loja de aluguel de roupas, etc. Essas coisas ocupavam mais o meu tempo do que os compromissos com a banda. Eu queria mesmo era que aquilo tudo passasse logo, que a minha vida voltasse ao normal o mais rápido possível. Sabia que nada seria igual à antes, mas aquele desejo ardia em meu peito, como se eu tivesse tomado um cálice cheio de fogo. Chegava a ser insuportável.

Mas a pior coisa era ter Mariana no meu pé sempre.
Parecia que ela tinha ficado sabendo do que houve no Natal, na casa de . E, depois daquele dia, ela se tornou mais irritante do que podia ser: não me deixava sair sozinho de jeito nenhum, ligava-me de cinco em cinco minutos, e cheirava a minhas roupas à procura de algum perfume que não fosse o meu. Como se eu fosse atrás de .
Eu ainda estava enfurecido com o que ela tinha me dito, como se fosse falso o que eu sentia por ela por ela não ter acreditado no que eu tinha dito. Será que ela não queria enxergar o que estava diante de seus olhos? Ou já tinha enxergado e fingia que não? Queria muito saber o que se passava pela cabeça de . Mas ela tinha se tornado impossível de decifrar. Ainda mais com a distância que tomamos um do outro, como se um vale enorme nos separasse.
Também estava enfurecido com as atitudes de Mariana e de meus companheiros de banda, que viviam me olhando estranho desde que eu tinha dito que casaria, mais ou menos dois meses atrás. Sim, eu estava com raiva de todo mundo. Porque todos resolveram agir de maneira esquisita comigo. Mas eu não podia culpá-los, principalmente porque não sabiam o motivo que me levara a tomar decisões tão... Ridículas. E eu preferia que continuassem sem saber. Não sabia o que Mari faria comigo se descobrissem; eu tinha certeza de que ela era capaz de fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo.




Aquele era um daqueles dias em que eu tinha tantos milhares de coisas pra fazer que nem tinha tempo para me alimentar. Não que comer fosse grande coisa, eu não fazia uma refeição decente há semanas, porque eu não tinha ânimo nem vontade para isso.
Assim que eu levantei, entrei debaixo do chuveiro pelando de quente e deixei a água cair por meu corpo, deixando-o acostumar com a temperatura aos poucos. Eu tinha que aproveitar que não estava tão frio para tomar um banho decente. Dez minutos depois, deixei o banheiro adjunto ao meu quarto e me vesti com roupas quentes. Peguei a chave do carro, meu celular, minha carteira e deixei a casa. Graças a Deus, Mariana tinha saído mais cedo para resolver as pendências dela.
Tomei meu carro e logo deixei o condomínio onde eu morava, direcionando-me ao trânsito da cidade. No caminho, dei uma passada rápida em uma Starbucks e comprei um cappuccino e um pedaço de brownie, já que eu tinha saído de casa tão rápido que nem tinha tomado café. Até porque, eu já estava atrasado para a última prova de roupas. Se eu não tivesse ficado acordado até altas horas, talvez eu não tivesse dormido até mais tarde depois que o despertador tocou.
Mas desde quando eu estava ligando para aquela porra de casamento? Nunca me importei de verdade com ele, e não seria naquele momento que eu me importaria.

Quando, finalmente, cheguei ao local onde seria a prova de roupas, estacionei o carro e não saí dele até terminar de tomar meu café da manhã improvisado. Assim que acabei, deixei o veículo e o tranquei; joguei os restos dentro de uma lixeira de lixo reciclável e segui reto até a loja, sorrindo de vez em quando para alguma pessoa que me acenava.
Quando cheguei ao meu destino, encontrei a mulher que era dona do estabelecimento e ela me levou ao local que eu deveria estar. Era uma sala que tinha um espelho enorme preso a uma parede, e várias roupas dentro de sacos pretos ficavam penduradas em cabides dispostos em varões de cabide de ferro, com rodas.
Naquela sala, outra mulher me esperava; aquela era a costureira. Assim que me viu ali, ela sorriu para mim e entregou o pacote com minhas roupas. Então entrei no trocador e lá mudei as peças. Dei uma olhada no espelho que tinha atrás da porta do trocador para checar como eu estava. Nada mal. Aquele frack preto até que caía bem em mim. Cheguei até a sorrir ao imaginar o significado do preto das minhas veste, para mim: o luto.
Saí do provador e a costureira, uma mulher baixinha com os cabelos grisalhos presos em um coque alto, pôs seus óculos de grau e deu uma boa olhada em mim, de cima a baixo, rodeando meu corpo. Pegou uns alfinetes de cabeça colorida que estavam presos em uma almofada segura no pulso dela e os prendeu nas bainhas da calça e dos pulsos do terno. Também colocou alfinetes na barra da calça.
– Você emagreceu muito desde a última prova, rapaz. – Ela disse em tom descontraído, colocando uns alfinetes nos lados do meu corpo.
– É... Quase não consigo comer mais. – Respondi.
– Está nervoso pelo grande dia? – Ela perguntou, sorrindo.
– Pois é. – Falei, tentando não transparecer meu desagrado por estar falando daquilo. Mas parece que não tive êxito, porque o sorriso dela foi murchando aos poucos, enquanto me media com uma fita métrica de costura.
– Você não parece animado com o casamento. – Ela comentou, indo para a pequena mesa que estava disposta vários pedaços de pano, um caderno aberto, alfinetes e carreteis de linha de várias cores. A mulher se sentou à cadeira e fez algumas anotações no tal caderno, e eu guardava silêncio.
– Não precisa se constranger, rapaz. Já vi muitos homens na mesma situação que a sua. É mais comum do que você pensa. – Ela falou, sorrindo amigavelmente para mim.
– É que... Eu me senti obrigado a casar, e...
– Você estava apaixonado por outra moça? – Confirmei com a cabeça. –Compreensível... Bem compreensível. Já entendi o que te levou a isso, meu querido. Mas eu ainda não sei por que essa história sempre se repete... Se eu fosse vocês, diria um dane-se para o mundo e correria atrás da minha felicidade.
Seguiu-se silêncio pesado após aquelas palavras. Era tão fácil para ela falar! Queria ver se estivesse em meu lugar, tendo que ser obrigado a casar porque a noiva estava me chantageando.

Fiquei em silêncio até o fim da prova das roupas. A costureira dissera que no outro dia mesmo o frack estaria ajustado, e que eu poderia buscá-lo na parte da tarde. Após me despedir dela, deixei a loja e fui ao estacionamento pegar meu carro. De lá, peguei o trânsito para a confeitaria, que não ficava tão longe dali, para ver se os detalhes do bolo e dos docinhos estavam certos. Era pra Mariana fazer isso, mas como ela não poderia, pediu para que eu fosse.
Enquanto eu estava parado em um semáforo fechado, sussurrando a letra de alguma música do Artic Monkeys que tocava no rádio, eu a avistei. Isso mesmo, eu avistei por .
Não sabia se era mesmo ela, mas, se não fosse, era alguém idêntica a ela.
– ou a mulher que eu achava que era ela – andava pela calçada com alguém que era muito parecida com ao seu lado, enquanto vasculhava sua bolsa à procura de alguma coisa que achou rapidamente: a chave de um carro. A suposta deu umas sacolas a ela e as duas pararam no sinal vermelho que eu me encontrava, esperando um carro que vinha na direção oposta à minha passar.
Quando as duas atravessaram, uma delas olhou bem na minha direção e congelou. Era mesmo .
E era só o que me faltava.
Eu não sabia se ela tinha conseguido me ver, porque os vidros do carro não era cem por cento claros, mas, provavelmente, tinha me reconhecido. a puxou pela mão e as duas prosseguiram a caminhada até o outro lado da rua, sem ousar a olhar para a direção do meu carro novamente.
O choque de vê-la foi tão grande que eu não percebi quando o semáforo mudou de vermelho para verde; então os carros atrás do meu começou a buzinar para que eu me movimentasse, já que eu era um dos primeiros da “fila”. Segui caminho enquanto uma música do The Killers dava lugar a do Artic Monkeys.

Será que eu tinha mesmo avistado por ela? Porque os olhos podem mentir.
Mas o coração... Ah, esse não pode mentir.

's Point Of View: Off.

***



Os últimos dois dias tinham se passado. Finalmente o casamento havia chegado.
Aquilo não significava que o nervosismo e arrependimento de havia o abandonado, pelo contrário. Ao ver o triunfo no rosto de Mariana no dia anterior, ele se sentiu pior do que estava nos últimos dois meses, como se a dor de uma ferida há muito tempo aberta tivesse chegado ao auge.

Como a tradição manda, os noivos não podem se vir até a cerimônia para não dar azar ao matrimônio. achava aquilo uma grande palhaçada, porque ele já entrara naquele relacionamento azarado. Mas, como sua amada noiva queria manter aquela tolice, ele teve que concordar. E dormiu na casa de , um de seus padrinhos.
O infeliz noivo despertou muito cedo naquele dia em que mal tinha conseguido dormir direito. Estava completamente dolorido e zonzo. Talvez fosse pelas bebidas que havia tomado no dia anterior na esperança de acordar no outro dia ao lado da mulher que verdadeiramente amava, pensando que toda aquela situação em que estava metido era apenas um pesadelo que se confundia com a realidade. Mas, bem... Aquilo era real, por mais que parecesse que um pesadelo que ele não conseguia acordar.

acordou na mesma hora que ele, e os dois tomaram café juntos, em completo silêncio. não sabia o que dizer para o amigo desolado, mas queria muito que ele não estivesse daquele jeito. Ele não costumava ser assim. Mas entendia que a vida tinha se tornado muito amarga para , então ele tinha um motivo para mudar o comportamento alegre e brincalhão para o de um velho ranzinza.

, por sua vez, pedia desculpas mentalmente para seus amigos sempre que os tratava mal por coisas mínimas; mas ele tinha se tornado um campo minado que explodia por qualquer coisa, quer fosse uma pena, quer fosse uma pedra. Sabia que não podia agir daquela forma com pessoas que não tinham culpa de nada, mas, simplesmente, não conseguia. Não quando sua cabeça era atingida por vários pensamentos que diziam que ele tinha perdido uma coisa muito preciosa em sua vida.

Ele e se arrumaram e esperaram pela madrinha que faria par com , para que eles pudessem ir para a igreja onde aconteceria a cerimônia. Nesse meio tempo, recebeu uma ligação da mãe.
– Mãe?
Sim, , sou eu. Está tudo bem, querido?
– Sim, mãe... Eu acho.
Hm... E então, como estão as coisas por aí?
– Está tudo correndo bem. Só estamos esperando a namorada do chegar para podermos ir para a igreja.
Ah, tudo certo. Eu já estou aqui na igreja. Quando estiver a caminho, me liga. Ok?
– Tudo bem, mãe. Até mais.
Até mais, filho. E boa sorte.
– Obrigado.
Após isto, ouviu o “tum, tum ,tum” que indicava o fim da chamada, e devolveu o celular ao bolso. Respirou pesadamente e deu uma olhada na janela do quarto em que dormira aquela noite, acendendo um cigarro e dando uma tragada nele. O dia estava ensolarado e frio, com resquícios de orvalho congelado cobrindo as árvores, dando a elas a aparência de serem feitas de gelo tingido de verde. O sol congelava aquelas finas camadas de gelo aos poucos, e elas iam caindo ao chão pacientemente...
Ele não soube quanto tempo ficou observando a rua pela janela, mas só acordou quando ouviu a voz de dizendo:
, ela chegou. Podemos ir.
Respirou pesadamente mais uma vez e abaixou a cabeça. Soltou a fumaça que estava presa em sua boca e apagou o cigarro. Deu uma última olhada no cabelo e na roupa. Estava perfeitamente vestido.
Perfeitamente vestido para caminhar para a morte.



No outro lado da cidade, não tão longe do condomínio em que os caras do McFLY moravam, uma cabeleireira dava os últimos retoques no penteado que tinha feito no cabelo de Mariana, que, ao contrário do seu noivo, estava tão radiante quanto o sol. Nunca esteve tão feliz na vida. Finalmente se casaria com o homem que sonhara!
Tudo bem que ela teve que chantageá-lo para conseguir o que queria, mas o que realmente importava era que eles estariam juntos, querendo ou não, para sempre. Principalmente porque ela esperava um filho dele. Mesmo que não se casassem, eles seriam obrigados a conviver. Mas ela queria mesmo se aproveitar daquela oportunidade que a vida lhe deu e brincar um pouco com aquilo, dispor as cartas do jeito dela. E não é que tinha dado certo?

Ela não pôde dormir em sua casa porque ela estava sendo arrumada para a festa que aconteceria depois da cerimônia de casamento; então, teve que passar a noite na casa de sua amiga, Livia. Ela ajudou a montar o “plano” para que a querida prima, como as duas costumavam chamar , de sua amiga desgrudasse do homem que pertencia a ela. Não que ela conhecesse , mas não podia deixar de ajudar Mariana a achar um jeito de destruir aquele romancezinho barato. E, bem, jogar a gravidez na cara de era o jeito perfeito. E ele sempre deixava claro o quanto não gostava do caráter de Livia quando as pessoas diziam como ela era boa... Ele tinha razão em sempre duvidar dela.

– Querida, terminei com o seu cabelo. – A cabelereira disse a Mariana, que, ao ouvir isso, levantou-se da cadeira que estava sentada há quase duas horas para se olhar no espelho. Seus cabelos estavam presos em um coque elaborado e alto, com algumas mexas caindo ao rosto. O coque tinha uns pequeninos enfeites brancos e segurava uma tiara discreta e brilhante no topo da cabeça dela. O penteado estava perfeitamente deslumbrante. Ela sorriu com ao fitar sua imagem no espelho, e logo depois deixou a maquiadora terminar o seu trabalho, que fora interrompido de maneira brusca quando a noiva levantou sem avisar. Por sorte, não tinha borrado tudo.
A maquiagem de Mariana estava leve naquele dia, já que era um casamento diurno. Os olhos estavam cobertos por uma sombra iluminadora e linhas finas de delineador; a boca estava pintada por um gloss rosa cremoso, e as maçãs do rosto levemente coradas por um blush também claro. Estava sim, linda.
Depois que a maquiagem estava feita, Mariana a dispensou juntamente com a cabelereira, agradecendo-as por tudo. Elas desejaram boa sorte e se foram.
– Chegou a hora do vestido, Livia... Chama a minha mãe pra me ajudar, por favor? – Ela disse à amiga, que fez que sim com a cabeça e deixou o quarto à procura da mãe de Mari. Logo, as duas apareceram no local.
– Meu Deus, filha, como você ficou linda! Quando colocar o vestido, será a noiva mais bonita da face da Terra. – A mãe disse, beijando a filha na testa, enquanto esta alisava o vestido branco sem parar.
– Obrigada pelo elogio, mãe, mas acho que foi meio exagerado. – Ela disse, rindo.
– Eu só disse a verdade, querida. Mas vamos, vamos colocar esse vestido logo, você não pode se atrasar muito. Na Inglaterra não é nada elegante a noiva se atrasar.
Dito isso, Mariana despiu o roupão de seda que usava e vestiu o vestido; depois a mãe a ajudou a vestir as duas anáguas, enquanto Livia segurava a saia do vestido. Depois que o preenchimento da saia estava no lugar, o pano do vestido foi posto no lugar e foi ajustado para ficar perfeito. E o vestido foi apertado um pouco mais.
Mariana foi se olhar no espelho novamente. Talvez a mãe dela estivesse certa sobre ela ser a noiva mais bonita da face da Terra. O vestido branco tomara-que-caia, com brilhantes no corpete e liso na saia, ficara lindo em seu corpo. Nem dava para perceber muito a barriga de quase quatro meses de gravidez. Ela tinha sorte em ser magra, porque tudo que ela menos queria era casar de barrigão. Principalmente porque ninguém na mídia sabia de sua gravidez.
Ela vestiu o bolero branco de mangas longas e rendado e calçou os sapatos. E esperou até a mãe voltar ao quarto e dizer que tudo estava pronto para elas irem para a igreja.




não acreditava no que estava fazendo.
Ela estava mesmo indo assistir o casamento do cara que um dia a prometeu seu amor? Que um dia jurou a ela que a faria feliz eternamente? Que... Disse que a amava? Era impossível de acreditar. Mas ela tinha se manter forte. Aquele cara não merecia suas lágrimas, e acima de tudo: não a merecia.
Ela esperava os pais e o irmão ficarem prontos, já que, inesperadamente, ela tinha sido a primeira a ficar pronta. não estava ali, porque como era madrinha, tinha que estar na igreja um pouco mais cedo do que o resto dos convidados.
ainda não tinha entendido bem essa história de ser madrinha do casamento de Mariana com . Tudo bem, ela e Mari eram grandes amigas anos atrás, quando ainda eram adolescentes; mas depois do que supostamente aconteceu... Elas tiveram uma briga feia e deixaram de se falar. Então não tinha motivos para Mariana convidar para ser sua madrinha de casamento, tinha? não via explicação para tal coisa. Mas também não resolveu questionar nada. Tinha medo do que ouviria como resposta.
Também tinha medo de chorar na frente dos pais, na hora da cerimônia. Ela poderia dizer que estava chorando de alegria, mas não conseguiria enganar ninguém. Seu pai e sua mãe sabiam muito bem quando um choro dela era de alegria, tristeza, ou até quando era um choro falso. Chegava a ser assustador o jeito que eles a conheciam tão bem. Tudo vai dar certo, ela pensou, tudo vai dar certo. Mas aí ela lembrou que, quando se tratava de sentimentos, as coisas pararam de dar certo para ela há alguns meses. Então deu ombros e torceu internamente para que não chorasse.

Em algum lugar da casa, o celular de tocava, anunciando que alguém estava ligando para ela. Ela correu até o quarto de sua melhor amiga e encontrou o aparelho em cima da cama dela. Ele estava ali porque ela estava dormindo naquele cômodo para que a família tivesse um lugar para dormir, já que a casa só tinha dois quartos.
Pegou o celular e atendeu: era a própria que ligava para ela.
? indagou.
– Oi, , sou eu. – disse, aliviada por ouvir a voz da amiga.
Vocês já estão vindo?
– Ainda não... – Ela disse, desanimada. – Daqui a pouco estamos saindo.
Você avisou aos seus pais...
– Que aqui o pessoal não admite atrasos? Eles já estão carecas de saber. Falta pouca coisa, já estamos indo para a igreja, . – falou, rindo.
Ah, sim. suspirou aliviada. riu. – Olha, , eu sei que você deve estar com medo do que está por vir, mas não precisa temer nada, ok? Eu estarei lá pra te encorajar. Tudo bem?
– Tudo bem, . Então, eu tenho que desligar aqui, mamãe está me chamando.
Ok. Até mais, .
– Até.
Após ter desligado o celular, foi para sala, para saber o que a mãe queria. E quando chegou lá, encontrou todos devidamente arrumados, prontos para sair.
– Vamos, ? Estamos todos prontos. – Ed disse, sorrindo, passando a mão no terno preto que usava, com a blusa social por baixo também negra. Estava muito elegante.
– Vamos, sim. Podem ir saindo, vou pegar as chaves do carro. – Ela disse e eles concordaram, deixando a casa para esperar por ela perto de seu veículo.
foi até seu quarto e pegou o que precisava. Deu uma última olhada no espelho para ver se estava tudo em ordem; o vestido azul escuro de mangas longas tinha combinado bem com o sobretudo branco, a meia-calça preta e o sapato de salto da mesma cor. Deixara os cabelos soltos mesmo, e não passara muita maquiagem no rosto.
Respirou pesadamente e deixou o quarto, passando na sala para pegar a bolsinha de festa e sair da casa.




, finalmente, tinha chegado à igreja, e não via a hora de sair dali logo. As pessoas passavam por ele sempre o congratulando, fotógrafos tiravam fotos dos convidados e dele, jornalistas queriam saber de tudo que estava acontecendo por ali. Era tão irritante... Será que ele não poderia ter privacidade nem no próprio casamento? Ele já estava irritado demais para passar por aquilo.

Faltavam dez minutos para o início da cerimônia, quando viu uma coisa – ou melhor, uma pessoa – que fez seu coração bater tão acelerado que parecia que explodiria a qualquer momento. Do alto da escada que de entrada da capela, ele a viu se aproximar cada vez mais; ela usava um sobretudo branco por debaixo de um vestido azul e meia-calça preta. Levava em seu rosto uma expressão séria e apreensiva ao mesmo tempo, como se ameaçasse fugir daquele lugar a qualquer momento. não tinha acreditado que ela estava ali mesmo. Mariana não podia ter chegado tão longe. Sua boca se boquiabriu e seus olhos fitaram fixamente a pessoa que ele não esperava que aparecesse ali, para testemunhar uma coisa que fez os dois se distanciarem.
Ele viu que estava acompanhada de um cara alto, uma mulher e um homem um pouco mais velho. Como já tinha visto algumas fotos daquelas pessoas, ele logo deduziu que eram os pais e irmão dela.
não soube quanto tempo levou até que os quatro chegassem até ele, porque ele mantinha os olhos fixos em o tempo todo, com aquela cara assustada e ligeiramente pálida.
– Aqui está o noivo! falou muito de você... – O pai de disse, sorrindo, o que fez despertar e olhar para ele, encabulado. Os dois se apertaram as mãos.
– Falou? – Ele perguntou, olhando de esguelha para , que encarava o chão como se fosse a coisa mais interessante do mundo, enquanto ele, já um pouco recuperado do choque, apertava a mão da mãe dela e até dava um pequeno sorrisinho.
– Sim! Ela disse que você foi muito gentil em acolhê-la em sua casa quando ela chegou aqui... E nós só temos que agradecer por isso.
– Não foi nada... Eu faria tudo de novo, se me pedissem. – Ele disse, estendendo a mão para , que a apertou hesitante. Então eles se olharam por uns poucos segundos, mas que pareciam ter durado horas, e desgrudaram as mãos, como se tivessem se queimado executando aquele simples ato. – Eu, erm... Espero que vocês aproveitem a cerimônia. – Falou, apertando a mão do irmão dela.
Ed deu um aceno com a cabeça e saiu atrás da irmã, que tinha saído andando sem esperar os pais, que continuaram fazendo perguntas ao noivo. Não sabia o que tinha dado em , mas ela terminantemente não queria estar ali, mesmo que não tenha dito nada a ninguém.

Eram exatamente dez e trinta e dois da manhã, quando entrou para a capela e não saiu mais. A grande maioria dos convidados estava lá dentro, e a falação era muita, enquanto ele caminhava em direção do altar. Quando chegou lá, seu olhar se encontrou imediatamente com o de . Ele desviou, e não ousou mais olhar para a direção dela. Aquilo era doloroso demais.
Ele viu sua mãe na porta da igreja, ajeitando o vestido de uma das daminhas. Ela disse alguma coisa para os padrinhos – , e – e para os seus pares e saiu quase correndo em direção do filho.
, ela chegou... – A mãe do noivo disse, sorrindo para o filho e lhe beijando a bochecha. Ajeitou uma mexa rebelde que tinha fugido do penteado dele e foi avisar ao padre que a noiva tinha chegado. Então este se colocou em seu lugar, e a mãe de fez o mesmo.

A música da marcha nupcial começou a tocar, tímida e suave, o que fez todos os presentes parar de falar e olharem para a entrada da igreja. Quase em uníssono, os convidados se levantaram para ter uma visão melhor do que estava acontecendo.
(Pode colocar a música para tocar).

What goes around comes back around (hey my baby)
(O que vai, volta (é meu bem))
What goes around comes back around (hey my baby)
What goes around comes back around (hey my baby)
What goes around comes back around

Quando a primeira daminha pôs o pé no tapete vermelho estendido até o altar, e , como se estivessem em sintonia, sentiram os corações doerem. Estava mesmo acontecendo. Eles nunca mais poderiam ficar juntos.
A daminha sorria, enquanto jogava pétalas de rosa branca e cor-de-rosa pelo caminho, encantando a todos. se segurava a todo custo para não chorar, e a assistia desolado, torcendo para ninguém perceber seu estado.

There was a time
(Houve um tempo)
I thought, that you did everything right
(Eu pensei que você fazia tudo certo)
No lies, no wrong
(Sem mentiras, sem erros)
Boy I, must've been outta my mind
(Garoto, eu deveria estar louca)
So when I think of the time that I almost loved you
(Então, quando penso na época em que eu quase te amei)
You showed you ass and I saw the real you
(Você se mostrou um idiota e eu vi quem você era de verdade)
Thank God you blew it
(Graças a Deus que você estragou tudo)
Thank God I dodged the bullet
(Graças a Deus eu me esquivei da bala)
I'm so over you
(Já superei você)
So baby good lookin' out
(Então amor, é melhor cair fora)

Parecia que tudo estava acontecendo em câmera lenta, como se alguém tivesse apertado o botão “slow” de um controle remoto. O que aumentava ainda mais a angústia de . O tempo estava brincando com ela mais uma vez: quando devia passar rápido, estava passando tão devagar quanto uma tartaruga.
Ela não sabia exatamente o que pensar. Só queria sair dali logo. Já não bastava o que estava sofrendo por ter perdido o homem que amava? Ela teria mesmo que presenciar o casamento dele com outra mulher? Ela não acreditava que estava mesmo ali, que aquilo não era um pesadelo que ela não via a hora de acordar.

tentava se mantiver são diante dos olhares da igreja e dos fotógrafos, como se estivesse feliz por aquele momento. Bem, ele não estava. Então, tentar parecer alegre com aquilo tudo era muito difícil para ele, já que não conseguia esconder muito bem o que sentia.

I wanted you bad
(Eu te queria tanto)
I'm so through with it
(Estava tão certa disso)
Cuz honestly you turned out to be the best thing I never had
(Porque honestamente, você acabou por ser a melhor coisa que eu nunca tive)
You turned out to be the best thing I never had
(Você acabou por ser a melhor coisa que eu nunca tive)
And I'm gon' always be the best thing you never had
(E eu sempre vou ser sempre a melhor coisa que você nunca teve)
I bet it sucks to be you right now
(Aposto que é uma droga ser você agora)

So sad, you're hurt
(Tão triste você está mal)
Boo hoo, oh, did you expect me to care?
(Você esperava que eu me importasse?)
You don't deserve my tears
(Você não merece as minhas lágrimas)
I guess that's why they ain't there
(Acho que é por isso que elas nem estão aqui)
When I think that there was a time that I almost loved you
(Quando penso na época em que eu quase te amei)
You showed you ass and I saw the real you
(Você se mostrou um idiota e eu vi quem você era de verdade)
Thank God you blew it
(Graças a Deus que você estragou tudo)
Thank God I dodged the bullet
(Graças a Deus eu me esquivei da bala)
I'm so over you
(Já superei você)
So baby good lookin' out
(Então amor, é melhor cair fora)

Depois que todos os padrinhos e madrinhas entraram e se posicionaram em seus lugares, todos os olhos da pequena catedral se voltaram para a entrada novamente: a noiva começava a sua caminhada, ao lado do seu pai, que tinha o braço dado com o da filha. Ela sorria radiante, vitoriosa, seus olhos alegres acenando para algumas pessoas e olhando o altar. estava tão lindo naquele frack...
Mariana não pôde deixar de notar que, de toda, a igreja o único que não a olhava era seu futuro marido. Na verdade, ele era quem mostrava menos interesse nela. Ele estava mais interessado mesmo em olhar para a direita; ela olhou naquela direção e notou que ele estava olhando para a sua querida prima, que tinha um olhar triste e parecia travar uma horrível batalha com seus olhos aguados, que ela preferia que não chorassem. Um sentimento de ódio tomou conta de todo o corpo de Mariana, mas ela manteve a pose e não parou de sorrir.
Ele nunca foi seu de verdade. Agora é menos ainda. Este pensamento acalmou um pouco a raiva que a consumia.

I wanted you bad
I'm so through with it
Cuz honestly you turned out to be the best thing I never had
I said, you turned out to be the best thing I never had
And I'll never be the best thing you never had
Oh baby I bet sucks to be you right now


I know you want me back
(Eu sei que você me quer de volta)
It's time to face the facts
(É hora de enfrentar os fatos)
That I'm the one that's got away
(Que eu sou a única que foi embora)
Lord knows that it would take another place, another time, another world, another life
(Deus sabe que seria preciso outro lugar, outra época, outro mundo, outra vida)
Thank God I found the good in goodbye
(Graças a Deus eu encontrei o bem indo embora)

Quando Mariana e o pai chegaram ao destino, e o pai dela apertaram as mãos e ele a entregou a filha. sorriu falsamente, chegou perto dela e a abraçou, como desculpa para falar com ela.
– O que você pretendia convidando a para o casamento sem me consultar? – Ele sussurrou rapidamente.
– Queria me divertir um pouco. – Ela sussurrou de volta, também rápida; então os dois se desgrudaram e se ajoelharam no altar, enquanto o padre dava início à cerimônia matrimonial.

I used to want you so bad
I'm so through it that
Cuz honestly you turned out to be the best thing I never had
You turned out to be the best thing I never had
And I will always be the, best thing you never had.
Best thing you never had!


A cada palavra que o padre dizia, o coração de pesava mais. Era como se elas fossem tiros letais que o atingiam sem cessar, e a dor causada por eles era tão forte que chegava a ser insuportável.
O mesmo para .
Só estava conseguindo segurar a vontade de chorar porque prometera pra si mesma que não daria esse gostinho ao . Ele não merecia. Também não queria que ninguém a visse no estado devastador que ela deveria estar. Não gostava de chorar na frente de desconhecidos.

Depois de uma longa falação, o padre pediu aos noivos para se levantarem e também pediu as alianças à daminha que ficara encarregada de trazê-las. Ele disse para eles se darem as mãos e pediu para repetir suas palavras:
– Eu, , te tomo, Mariana Santos, como minha esposa. – E repetiu, olhando-a nos olhos com todo o desprezo que conseguiu juntar dentro de si.
– Prometo te amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias da minha vida, até que a morte nos separe. – O padre ditou e tornou a repeti-lo, como um papagaio. Então pegou a aliança de ouro, que tinha seu nome e sobrenome cravado no interior, e o pôs no dedo anelar esquerdo de Mariana, que sorriu mais radiante do que nunca.
Agora era a vez dela de dizer os votos.
– Eu, Mariana Santos, te tomo, , como meu esposo. Prometo te amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias da minha vida, até que a morte nos separe. – Depois de dito, ela pegou a aliança que tinha seu nome e novo sobrenome cravado no interior, e a pôs no dedo anelar esquerdo de .
O padre disse mais algumas coisas e anunciou que eles eram marido e mulher.
Estava consumado. agora era um homem casado.


Epílogo


Epílogo


's Point Of View: On.

Uma semana depois do casamento, eu ainda não acreditava mesmo que tinha acontecido. A dor era tão intensa, tão constante... Não tinha como fazê-la passar, nem que eu morresse.

Fiquei dias e dias com as imagens daquele momento na minha cabeça; e elas só diziam e confirmavam uma coisa: eu tinha o perdido para sempre. Eu tinha me metido num jogo que sabia que não sairia vencedora. Então por que comecei a jogá-lo?



Depois de levar meus pais e meus irmãos para o aeroporto para que eles pudessem voltar ao Brasil, uma ideia martelou na minha cabeça e fez com que eu tomasse uma decisão: eu precisava deixar Londres por uns tempos. Não que eu fosse deixar a Inglaterra, mas... Eu tinha que deixar aquela cidade.
Então eu pensei: qual lugar da Inglaterra eu gostava mais do que Londres?
A resposta veio depois que eu ouvi uma música dos Beatles. Eu me mudaria para Liverpool.
e tentaram mudar minha cabeça, mas eles sabiam tanto quanto eu que aquilo era necessário para que eu colocasse as coisas no lugar, para que eu esquecesse de vez de . Ela queria ir comigo, mas eu não deixei. Não podia arrastá-la a todos os lugares que eu ia. E também não podia permitir que ela ficasse longe de , já que os dois estavam bem juntos.

Passei mais uns dias procurando casas para vender em qualquer lugar de Liverpool, e achei uma, não tão grande, em Knotty Ash. Não precisava ser enorme, era só pra mim...
A residência tinha um quarto com suíte, sala, cozinha, banheiro e varanda. Ficava mais ou menos próxima do mar. Não tinha exatamente a vista para o mar, mas ficava bem perto.

Depois que a compra fora confirmada, juntei minhas coisas, coloquei-as no carro e me despedi de , , e . E parti para uma viagem de duas horas e meia.
Uma nova vida me esperava... De novo.


Fim... Ou não.




Nota da autora: This is the end, but baby, don’t cry... E acaba aqui a fic que surgiu através de um sonho – literalmente – que eu tive meses atrás. Enquanto eu escrevia as últimas linhas da história, as lágrimas se formaram nos meus olhos e caíram. Por que é sempre tão difícil finalizar uma coisa que se começou? Eu sempre me pergunto isso quando chegou ao fim de uma fic.
Eu só tenho a agradecer a todo mundo que acompanhou Conspiracy, que criticaram positiva e negativamente, que me incentivaram a tornar a história cada dia melhor. É uma honra pra mim, ter tantos admiradores, eu nunca pensei que isso aconteceria algum dia kdjsfdskfdks Se eu cheguei até aqui, foi graças a vocês, leitoras, que tiveram a paciência de esperar por cada capítulo gerado, por cada palavra escrita. Amo muito todas, desde as que eu converso no twitter até as que eu nem conheço... Vocês são demais <3333

Enfim gente, eu não quero enrolar muito nessa nota, porque, como vocês sabem (ou não -q) ainda tem muita coisa pra acontecer. “Mas como, Jow, a fic acabou de acabar!” Conspiracy II já está pra vir, pessoal! Vai ser cheia de descobertas surpreendentes, prometo a vocês. Agora estou indo, e aguardem: o melhor está por vir. Beijos! Xx




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