Por trás das lentes de um óculos fundo de garrafa, dois olhos fitavam ambas as mulheres com uma curiosidade impactante. Ambas olhavam para todos os lados, assustadas, temendo o que poderia acontecer com suas vidas. Quando atravessaram aquela porta, o homem de vestes brancas sorriu gentilmente, fazendo um gesto com ambas as mãos que explicitava as duas maletas de um cinza fosco sobre uma extensa mesa de madeira. Nenhuma das mulheres estava bem vestida, nenhuma tinha onde cair morta.
E aquela não era a única coisa que tinham em comum.
O homem, que elas julgavam por ser um médico, deu a volta em sua mesa e passou por elas, chamando-as para uma breve caminhada pelas milhares de portas que cercavam sua casa. Depois de uma curta visita, elas se entreolharam e desceram uma escada de madeira velha, congelando os corpos ao notarem que a decoração não era nem de longe semelhante ao resto da propriedade. Estranhas cabines de metal estavam colocadas estrategicamente em um dos cantos. Um armário repleto de caixas dos mais variados medicamentos ao lado esquerdo. Duas mesas de cirurgia, acompanhadas por duas mesinhas metálicas presas a elas. Uma das mulheres levou a mão até a boca instantaneamente ao se aproximar de uma dessas mesas e identificar alguns potes compridos e largos, uma substância amarelada estava dentro, juntamente com algo que ela julgou ser um pequeno ser humano mal formado.
A outra tentou subir as escadas novamente e obrigava seus pés a tirá-la dali, porém não contava que o misterioso homem estava bem atrás de si, com uma seringa preparada para mandá-la para o mundo dos sonhos. Pelo menos por enquanto.
Minutos bastaram para que as duas estivessem deitadas sobre as mesas de cirurgia, desacordadas. Uma risada insanamente empolgada soou por todo o recinto e o suposto médico colocou suas luvas brancas, deslizando suas mãos pelos dois aparentes relevos presentes nos corpos de suas vítimas.
- E que essa longa, cansativa e lucratica experiência comece! - ele disse, dando um largo sorriso.
Capítulo 1 Bad Reputation
Vários anos depois...
Luvas de couro cobriam os dedos de , que congelou o corpo e olhou para cima. O letreiro de cores gritantes refletia nas duas lentes de seus óculos de grau. Ela virou o pescoço, apenas para ter a certeza de que nenhuma surpresinha estava por perto, e então começou a caminhar novamente. O solado gasto de um All Star vermelho se chocava com o chão. Ela ajeitou uma das alças de seu macacão preto, que estava por cima de uma camiseta velha que possuía a estampa de alguma frase memorável de um filme do Tarantino. Para completar aquele visual anos 90, seu cabelo estava feito em duas tranças frouxas, uma caindo em cada lado de seus ombros. Ela retirou o pirulito de coração da boca e lançou um sorrisinho para o primeiro idiota que apareceu na porta do lugar. Como sendo enfeitiçado por um encanto de , ele sorriu de orelha a orelha para ela e lhe deu passagem, permitindo que a moça entrasse no motel. Espelunca era um elogio dos grandes, com certeza. Mas não passava apenas de uma fachada. Ninguém miserável estava lá dentro, muito pelo contrário! não se surpreenderia se encontrasse alguém da máfia circulando pelo local. Ela teve que admitir que o pobre garoto que estava prestes a fazer uma poça de saliva no chão era bonitinho. 17, no máximo 18 anos.
Se pelo menos ela tivesse tempo para alguma diversão...
Depois de subir uma escada de madeira desgastada, que rangeu em sincronia com seus passos, ela deu a volta em um corredor de portas cobertas por palavras desconexas, rabiscos e adesivos colados, batendo em uma delas e enfiando o pirulito na boca novamente. Levou a mão coberta pela luva até um dos bolsos do macacão, deslizando um dos dedos pelo objeto que estava ali dentro. Ela observou atentamente a maçaneta da porta girar e, em seguida, avistou aquele bigode nojento. Não apresentou nenhuma mudança em seu semblante, apenas fez um gesto de cabeça, que indicava um cumprimento, e entrou no quarto. Era como se tivesse algum ser totalmente maquiavélico gargalhando descontroladamente por dentro. Mas apenas por dentro, já que, por fora, ela poderia demonstrar apenas medo, talvez indiferença. Por enquanto.
- Você veio atrás da chave, não é? - Bart, como era chamado na região, falou com ela, que largou o corpo em uma cadeira desconfortável e ficou enrolando um pedaço de sua franja com os dedos. O homem de meia-idade revirou os olhos e deu passos nada discretos até ela, aproximando-se e obrigando a inclinar o pescoço, na tentativa de se afastar. - Com sua inteligência memorável, deve ter sido capaz de deduzir que tudo tem um preço, certo? , ... Quantas vezes vou ter que avisar, princesa? Pare de brincar com fogo! Às vezes, pode parecer só uma faísca, mas quando vir o incêndio te engolir, vai lamentar, e muito! - tirou o pirulito da boca e o passou pelos lábios, atraindo os olhos de Bart, apenas para que ela pudesse pegá-lo de surpresa, com a certeza de que conseguiria empurrá-lo rapidamente e se levantar, caminhando para o outro lado do quarto.
Feito.
Pôde observar a bagunça, o cheiro de alguma bebida forte e muitas porcarias jogadas pelo chão.
- Não é triste quando a boca das pessoas se mexe e você não consegue identificar o som que está saindo? - ela soltou, olhando distraidamente para um quadro na parede. - Fã de Arte, huh? - comentou, soltando um risinho. Não passava de uma fotografia ampliada de uma capa antiga da revista Playboy.
Bart sorrateiramente se aproximou de uma gaveta de madeira e a abriu, tentando não fazer barulho. Puxou o revolver de lá, mas, quando estava pronto para mirá-lo na garota e acabar com aquela palhaçada de uma vez, deixou que o mesmo caísse no chão, devido ao nervosismo. Ele sabia muito bem o que aquele corpo esguio e, aparentemente, inofensivo era capaz. Ela só levaria a tal chave quando ele estivesse morto no chão.
virou bruscamente e sorriu, seus olhos cobertos pelas lentes brilharam. Bart tentou se abaixar para pegar a arma, mas ela foi mais rápida e já estava com a faca em mãos, sem nem mesmo dar chance do homem notar como ela tinha a tirado de seu bolso. A faca era mediana, porém muito afiada, seu cabo era de um vermelho sangue. Com a ponta encostando em sua jugular, o homem engoliu em seco e começou a chorar feito um coitadinho.
- Você não passa de um vira-lata miserável, seu nojento. - ela rosnou com a voz esquisita, já que o doce estava em sua boca. Tirou-o dali, perdendo as contas de quantas vezes já o tinha feito e fez questão de jogá-lo no chão, pisando com força no mesmo, estraçalhando o pequeno coração. Ergueu as sobrancelhas e apontou para o chão, para que o homem pudesse olhar para o pirulito e então, sem pensar duas vezes, lamentar ou questionar, tirou a faca da região de seu pescoço e a desceu, enfiando com maestria no peito de Bart. - Um coração quebrado, dois corações quebrados... Existe um terceiro? - afundou mais a faca contra o peito dele, sentindo o sangue quente escorrer e melar suas luvas. - Vamos, diga logo, existe um terceiro? - aumentou o tom de voz, a faca chegando cada vez mais perto do coração. - Bart, seu desgraçado, me diga onde está a chave! - praticamente gritou, enrugando a testa. - Com quem está a maldita chave?
- Com o Sh-Shane, com o Shane... Por favor, pare! - ele pediu, com a voz baixa e angustiada. lhe lançou um olhar agradecido e finalizou o trabalho, retirando a faca do peito dele e cruzando os braços enquanto o corpo do homem caía no chão. Talvez morto, talvez não. Quem se importava?
- Eu não precisava ter feito isso, mas você também não precisava ter violentado a Jennifer, não é? De qualquer maneira, obrigada pela informação, porco! - ela bateu continência e, após se livrar das luvas sujas, tratou de sair do quarto, batendo a porta. Caminhou destemida de volta pelo corredor, descendo as escadas e voltando até a recepção. O mesmo garoto de antes percebeu que a moça estava ali e voltou a encará-la daquele jeito malicioso. Por que diabos a chave estava com aquele pirralho?
Fácil demais, estava quase se sentindo entediada.
- Seu nome é Shane? - perguntou, recebendo um sorriso e um gesto afirmativo. atravessou o pequeno espaço que a separava do garoto e tomou impulso para se sentar no balcão cujo ele estava sentado atrás. Após ficar bem mais próxima, ela olhou para as coisas ao redor e avistou a preciosa chave, pendurada em um prego no canto da parede com tinta descascada.
- Você quer a chave? Acha que só porque eu aparento ser um garoto vai conseguir arrancá-la tão fácil de mim?
- Watch me. - sorriu angelical e estava pronta para um pouco de ação, mas Shane se levantou, encostando-se no balcão, apoiando uma das mãos no mármore empoeirado, aproximando-a gradativamente da perna de , que não se movia. Ela esperou pacientemente, fazendo Shane acreditar que poderia tocá-la onde quisesse, mantendo-se com a cabeça abaixada. Quando finalmente sentiu os dedos finos do garoto em sua perna, mesmo coberta pelo tecido preto, ergueu a cabeça rapidamente e já estava com a faca em mãos novamente.
Shane arregalou os olhos quando abaixou o olhar e viu a faca enfiada no balcão, no meio de dois de seus dedos.
- Diz uma coisa para mim, Shane, você gosta da sua mão? - a faca saiu do mármore e circulava pelo ar, sendo girava pelos dedos ágeis de . - Gosta dos seus cinco dedinhos inteiros, sem aparentemente nenhum dano? - ela voltou a aproximar a faca da mão que continuava imóvel e segurou o queixo dele com a outra, aproximando seus rostos. - Me responda, garotinho. - ele apenas balançou a cabeça. - Ótimo, isso é bom para ambos de nós. Agora, me dê a chave!
- Eles vão me matar se eu entregá-la... - Shane disse tristemente, de repente amargurado.
- Você é todo cheio de gracinhas perto de uma mulher, mas não tem ferro no sangue o suficiente para fugir desses babacas? Ruim para você, mas isso não me interessa. Me entregue o que eu quero. - ela piscou os olhos de maneira charmosa, realçando seus cílios.
Sem saída, ele a obedeceu.
Minutos depois, já estava do lado de fora do motel, jogando os óculos de grau longe - era um de seus disfarces inúteis - e girando no ar a chave que tinha finalmente conseguido. Com a faca já limpa, ela a aproximou de sua franja, colocando-a para trás com a ponta da lâmina, olhando confiante para frente, com seus olhos felinos e decididos. Encontrou seu Bentley Continental preto estacionado na rua de trás e entrou no mesmo. Sentou seu corpo no banco de couro macio e respirou fundo, fechando os olhos e sentindo a adrenalina que se misturava com excitação cobrir cada mínimo pedacinho de seu corpo. Poder, sentia o poder.
Olhou mais uma vez para a chave e escutou o ronco delicioso do motor de seu carro soar, colocando-o para andar. Enquanto passava em alta velocidade pela paisagem noturna que seus olhos adoravam enxergar, ela colocou uma música qualquer para tocar, apreciando o vento que entrava pela janela e levava os fios de seu cabelo de um lado para o outro.
Estava brincando com fogo? Sim, estava. Corria perigo de vida? Sim, corria. Estava adorando tudo aquilo? Mais do que nunca!
Batidas sedutoras, luzes avermelhadas, fumaça de cigarro.
usou a mão livre para abaixar um pouco a aba de seu chapéu fedora preto, optando por esconder seu olhar. Os dedos da outra mão seguravam um cigarro Marlboro que já estava pela metade. Vez ou outra, ele levantava um pouco o rosto e observava as dançarinas que pareciam determinadas a agradar todos os homens de olhos espertos. Damien não se incomodava com aquele ambiente, mas não conseguia relaxar.
Poderia muito bem deixar que uma loira que estava próxima fizesse aquela tal de lap dance, mas, naquela noite, ele tinha assuntos pendentes. Porém, continuou com o corpo largado no couro preto daquele sofá, fingindo que nenhuma daquelas pessoas existia de fato. Bufou com impaciência e desencostou as costas do sofá, ajeitando seu paletó preto, preparando-se para levantar.
Pego de surpresa, alguém se aproximou. Esperou levantar o rosto e dar de cara com o amigo Jonathan, mas assim que fitou as belas pernas descobertas e o decote, soltou um rápido sorrisinho de canto e voltou a relaxar. A mulher não esperou ser convidada, já foi se sentado ao lado dele, cruzando as pernas. Tinha um cabelo muito vermelho, semelhante ao fogo, cacheado, a pele branca e uma expressão que era capaz de esconder muito bem no que ela estava envolvida.
- Reservaram esse trabalho sujo para você, Palmer? - ele perguntou, olhando para as dançarinas e depois dando toda a sua atenção para a ruiva, que sorriu levemente e ergueu algo, dando a chance de respirar aliviado e se dar conta de que aquela noite não estava totalmente perdida. - Olha só que grande surpresa... - ele estendeu a mão para pegar o objeto dourado da mão delicada e feminina, mas a dona da mesma foi mais rápida e desviou, aproximando seu rosto de , que engoliu em seco e sorriu abertamente.
- Tire esse chapéu, querido, sabe como ele me seduz. E, infelizmente, hoje eu não posso ser seduzida, essa é uma noite séria de trabalho. - Palmer deslizou os dedos pelo tecido negro do chapéu de , que não se movia. Pegando ela de surpresa, ele segurou o braço da mulher e foi descendo a mão, apertando seu pulso e, por fim, deslizando os dedos pela extensão de seu braço. O toque quente manteu a ruiva distraída, sentindo a mão esperta do homem chegar até seu ombro e massageá-lo de maneira lenta, porém precisa.
- Não leve esse trabalho tão a sério, Palmer, esse não. Se levar isso a sério, vai morrer jovem. - Palmer soltou um som inconformado com a boca quando percebeu que conseguiu tomar a chave dourada de sua mão, dando a ela um sorriso de vitória. Um lindo sorriso de vitória. Ah, como ela detestava aquele mulherengo. Como a peste conseguia ser tão charmosa? Só o seu simples ato de se mover já a deixa tensa. E ele tinha muita, mas muita lábia. Um perigo escondido por trás do rosto de barba bem feita, olhos bonitos e lábios sedutores. Só ela sabia o que aquele canalha já tinha aprontado por aí...
- Ok, espertinho, pode ficar com a chave, eu não pretendia demorar muito para entregá-la mesmo. Apenas pensei que seu interesse poderia se voltar para mais de uma coisa... - Palmer voltou a sorrir indecentemente, escorregando a mão pela perna coberta pelo tecido da calça de , que mordeu o lábio e recuou, levantando-se e dando o último gole de sua bebida. Ajeitou o chapéu e guardou a chave em seu bolso. Finalmente estava segura.
- Um homem com uma tarefa desse nível não tem tempo para diversões baratas, Palmer. Eu sou capaz de correr atrás de algo que realmente valha a pena quando estiver afim. - piscou, galante.
- Não precisa magoar, não é? - ela fez beicinho e ele bufou impaciente. - Não acha que eu sou bem superior a essas vadiazinhas que dançam para qualquer um?
- Faça um favor à sociedade e se comporte como uma mulher, por favor. Por mim. - o homem pediu, tentando bancar o cavalheiro. Palmer descruzou as pernas e as cruzou de novo, possibilitando que a saia fina de seu vestido justo ao corpo subisse um pouco.
- E como o que você acha que eu estou me comportando, amor?
- Como uma fedelha desesperada para perder a virgindade. - respondeu rapidamente.
- Mas eu não sou virgem.
- Percebe-se.
- Pensei que você gostasse disso. - ela rebateu.
- Palmer, só lhe falta um pirulito na boca para que você se pareça com uma ninfa completa. Eu não quero ser grosso com você, então vou tomar meu caminho agora. - antes que o homem pudesse dizer mais alguma coisa, Palmer espalmou as duas mãos em seu peitoral e tomou impulso para frente, fazendo com que o corpo de voltasse a se encostar no sofá. Ela aproximou a boca pintada com batom vinho do lóbulo da orelha dele e sussurrou:
- O que você vai fazer se eu me recusar a te deixar ir? Vai enfiar sua espada em mim? - ele gargalhou com as palavras, tendo inúmeros pensamentos proibidos.
- De qual espada estamos falando? - perguntou, malandro.
- Não sei... A que você usa para matar ou a que usa para arrancar gritos das mulheres? - riu de novo, segurando o pescoço de Palmer com uma das mãos e mantendo o contato visual enquanto a afastava de si.
- Espada? Mesmo? Você poderia ter feito uma comparação menos broxante.
Logo ele achou um jeito de mudar o rumo daquela conversa enfadonha. Palmer era entediante. Homens procuram apenas sexo o tempo todo, mas em algum momento ou outro também precisam de um pouco de inteligência em suas parceiras. Palmer parecia mais uma boneca inflável que funcionava através de controle remoto. achava que aquela era a única explicação para ela conseguir falar.
- Tem certeza que essa é a única chave? - o homem perguntou, com a voz forte, lembrando-se daquele pequeno - porém importantíssimo - detalhe.
- Claro que é.
- Tudo bem, obrigado! – deu-se a oportunidade de olhar para as dançarinas mais uma vez e suspirar, balançando a cabeça e erguendo uma sobrancelha. - Divirta-se, Palmer, você encontrou seu habitat natural.
já estava do lado de fora, cruzando um beco escuro e úmido, que dava para a rua onde um Rolls Royce cinza o aguardava. Retirou seu chapéu, revelando completamente seu rosto jovial e másculo. Os lábios bonitos seguravam mais um cigarro. Assim que chegou até o veículo, foi logo entrando e ligando o motor.
Com aquela chave finalmente em mãos, muita coisa estava para mudar. Para melhor...
E para pior também, ele apenas não sabia disso ainda.
saiu do banheiro xingando a maldita água gelada do chuveiro. Jogou longe a toalha que usava para secar o corpo e foi até uma mala mediana que estava sobre uma cama completamente bagunçada. Separou uma calça de couro, um par de botas sem salto, uma blusa preta de mangas longas e justa ao corpo e um sobretudo também preto. Quando ia começar a se vestir, lembrou-se de que o mais importante estava faltando. Voltou a fuçar em sua mala, tirando de lá uma calcinha vermelha de alcinhas finas. Era sua calcinha da sorte, por mais banal que isso possa parecer. Vestiu-a rapidamente e foi até o espelho de corpo inteiro que estava trincado na parte de cima. Virou-se, observando suas costas e a calcinha em seu corpo.
- Gostosa! - segurou um de seus glúteos e riu sozinha, saindo da frente do espelho e terminando de se vestir. Quando já estava pronta, pegou uma peruca de cor negra que se encontrava jogada no chão e ajeitou seu cabelo para que conseguisse colocá-la. Delineou seus olhos de maneira impecável e deixou os lábios na cor natural, olhando-se firme no espelho e franzindo o cenho. Parecia um homem vestido de mulher... Ou uma mulher vestida de homem, não sabia definir precisamente. Talvez uma mistura de ambos.
Minutos mais tarde, já estava dentro de seu carro. Olhou para os lados e fitou a falsa credencial do FBI que havia lhe custado uma boa parte do dinheiro que andava juntando para realizar um determinado desejo, mas não tinha tempo algum para pensar nisso.
- Tiffany Campbell? - ela leu em voz alta o nome que estava escrito. - Nome de atriz pornô e aparência de uma andrógina, que ótimo! - na foto da credencial, ela estava com aquela mesma peruca, exatamente da mesma maneira. Dando de ombros, ligou o carro e tinha apenas um destino em mente. Destino esse que necessitava da chave que demorou tanto para conseguir.
As cinco cadeiras de uma mesa circular feita em vidro estavam ocupadas. Cinco homens. Todos eles trajavam ternos impecáveis, assim como chapéus da mesma cor. Preto. Um deles parecia mais relaxado em sua cadeira, com um dos lados de seu chapéu inclinado para baixo propositalmente, dando-lhe um charme a mais. O sujeito que estava ao seu lado fumava um bom cigarro, só sabia olhar para baixo e prestar atenção no que estava ouvindo. O terceiro parecia o mais nervoso, tamborilava os dedos na mesa, fazendo um barulho que já estava irritando o quarto. Esse, por sua vez, brincava com um canivete, girando-o no ar diversas vezes. Olhou para o lado e o quinto homem apenas revirou os olhos, parecendo mortalmente entediado.
- Ok, deixe-me ver... Temos uma versão feminina de Hannibal Lecter e uma versão magrela de Annie Wilkes? Você só pode estar brincando, ! Não faz sentido algum que as duas partes do microchip estejam com elas. - o homem do cigarro falava enquanto analisava o conteúdo de uma pasta que repousava sobre a mesa.
- Acredite se quiser. Descobri que jogaram as duas nessa penitenciária de segurança máxima há apenas um ano. Ninguém mais quer saber das pobres coitadas, ninguém mais se dá ao luxo de temê-las. Uma cela fica de frente para a outra, dizem as más línguas que elas compartilham uma com a outra histórias sobre os crimes que cometeram. Consegue enxergar, Jonathan? Elas são as hospedeiras perfeitas. - disse, arrancando risinhos dos colegas de mesa, exceto Jonathan, que o contrariava com o olhar. - Rupert, leia em voz alta os nomes dessas damas para nós. - o homem pigarreou e endireitou seu corpo, soltando o ar com calma antes de começar a ler.
- Agnes Fontaine; mentalmente instável. Aqui diz que ela... - Rupert arregalou os olhos castanhos e se esforçou para ler as palavras mais uma vez, não acreditando no que seus olhos enxergavam. Fitou a foto da estranha mulher e engoliu em seco. - Ela comeu partes do corpo de todos os maridos que teve... E o pior de tudo é que todos os casos ocorreram durante a lua de mel!
- Prossiga. - não se deixava impressionar tão fácil.
- Esther Miller; caso grave de esquizofrenia. Relacionava-se apenas com escritores e vivia em constante crise, já que criava um vínculo afetivo muito... Intenso com os personagens criados por seus parceiros. A situação era grotesca ao ponto de ela matar o escritor se algum personagem favorito de alguma de suas obras fosse morto. Inclusive, ela vivia alegando estar sendo perseguida pelas almas desses personagens.
- Gostei mais da Esther. - comentou de bom humor. - A tal Agnes está mais para viúva negra do que Hannibal.
- De qualquer maneira, meu caro, precisamos de ambas hoje. - James, o homem que já havia parado de brincar com o canivete, resolveu se manifestar também. Seu olhar desafiava naturalmente todos a quem encarava. Era irmão gêmeo do quinto homem, compartilhavam uma aparência muito semelhante a de James Dean. O fato curioso é que a mãe dos irmãos resolveu chamar exatamente um de James e o outro de Dean.
- São duas hospedeiras, só temos uma chave. E aí? - Dean lançou aquela dúvida no ar.
- A chave serve para ambas. - Rupert comentou, tentando parecer seguro de suas palavras.
se levantou e fez um gesto com as mãos para que os demais imitassem seus movimentos. Naquele dia, ele era quem estava no comando. Os cinco se posicionaram frente a frente, formando uma roda. Grandes instruções seriam dadas.
- Jonathan, você vai dirigir. E é bom que esteja com seus reflexos funcionando perfeitamente, porque se algo inesperado acontecer, acho bom que aquele carro seja até capaz de rasgar o asfalto. - Jonathan concordou rabugento, coçando a barba de tom ruivo e se afastando, seguindo seu caminho até o poderoso automóvel que os aguardava. - Rupert, você vai nos esperar na saída do lugar, tome isso! - tirou o revólver de um preto reluzente de cima da mesa e entregou para o loiro, que concordou imediatamente com a cabeça, pegando a arma de um jeito medroso e seguindo a mesma direção de Jonathan. - James e Dean... - sempre ria quando mencionava aqueles dois. - Bem, vocês serão meus acompanhantes durante todo o processo. Olhos abertos, eliminem qualquer ameaça que surgir. - os dois trocaram seus chapéus entre si, alegavam que aquele era um gesto que lhes trazia sorte. sorriu abertamente, respirando fundo e estufando o peito, fazendo a típica expressão de vitória. Caminhou até a enorme porta que se abriu sozinha para permitir que os três homens restantes saíssem.
mal conseguia acreditar que tudo daria certo! Muito foi necessário para que aquele plano finalmente estivesse a ponto de ser executado. As proporções grandiosas que aquela ação tomaria não poderiam ser definidas com simples palavras. O destino de todos aqueles homens estava para mudar. Uma vida nova os aguardava... Mesmo que permanecessem marcados em corpo e alma com aquela tatuagem invisível, porém notada a quilômetros de distância: o crime.
Capítulo 2 Smooth Criminal
Exatamente igual ao momento clímax de um típico filme de ação.
O coração de batia enfurecido dentro de seu peito, ela tentava respirar fundo e evitar que fosse notada. Se bem que, àquela hora da noite, ninguém estaria muito interessado em procurá-la por ali. Quando olhou para cima, deu de cara com todas aquelas câmeras. Encostou-se às grades metálicas e procurou por algo nos bolsos do sobretudo, retirando de lá uma pequena bolinha branca, aparentemente inofensiva. Contou até três mentalmente e a jogou no meio de uma espécie de campo de concreto, assistindo a fumaça branca subir e esconder tudo que estava ao redor. Ela tampou seu nariz e boca com a mão e passou correndo, felizmente não sendo notada pelas câmeras que foram temporariamente descartadas.
A primeira parte do plano estava completa, executada com sucesso. No entanto, já que a primeira parte - independente do que seja - é sempre a mais fácil, ela tentou bolar rapidamente algum plano prático em sua mente, caso alguém a descobrisse. Só a credencial do FBI não seria capaz de salvá-la. Cruzou outro longo caminho esburacado e finalmente encontrou o que lhe parecia uma fortaleza. Todas aquelas grades, as correntes que pesavam toneladas, as paredes de cores tão mortas como as plantas que estavam ao redor, as luzes apagadas. Como diabos conseguiria entrar ali?
Suas narinas captaram algo que parecia cheiro de erva, então, cuidadosamente, ela caminhou na direção de onde deveria estar vindo e se surpreendeu ao encontrar apenas um guarda que sustentava o peso de seu corpo em uma parede de tijolos gigantescos. Estava aéreo a tudo aquilo, provavelmente efeito do que estava fumando.
não queria ter que usar sua violência ainda, mas não estava vendo nenhuma outra maneira plausível de dar um fim a toda aquela situação. Para o segurança foi tudo realmente muito rápido, já que ele só teve tempo de piscar os olhos e tragar mais uma vez seu baseado antes de cair no chão, atingido na cabeça por um tijolo que Lauren havia encontrado no chão.
Ela passou pelo portão, correndo como nunca antes, virando o pescoço diversas vezes para trás, esperando não ser pega. Achava que não tinha matado o homem, mas pelo menos conseguiu apagá-lo completamente.
Mais algum tempo de caminhada, obrigando-a a acostumar a visão com a pouquíssima luz. Algo segurou seu braço e a puxou para trás, mas antes que pudesse gritar, reconheceu o rosto envelhecido e magro de imediato. Colocou a mão no peito, respirando aliviada.
- Não precisava ter sido tão cruel com o cara, será que você não possui um lado mais sensível e delicado? - Gerald, um policial, disse, descarado, arrancando apenas uma expressão desinteressada de . - Agora nós podemos fingir que eu me importo com a segurança e integridade desse local, certo? Mostre-me sua credencial falsa do FBI e eu vou permitir que entre. - o homem extremamente alto e com metade da cabeça careca falou baixo e ela concordou com a cabeça, levantando sua credencial e esperando que ele a iluminasse com a lanterna. - Então... Tiffany, você tem exatamente uma hora para fazer seu serviço.
- Não está mesmo interessado em saber o que eu quero com as duas presidiárias?
- Ah, tanto faz. Me siga! - ela sabia que aquele cara não era exatamente o que se podia chamar de honesto e quase sempre promovia visitas clandestinas a vários dos criminosos perigosos que estavam ali dentro. Muitos deles recebiam visitas de mafiosos, outros de assassinos profissionais, ou até mesmo dos próprios agentes e policias, provando que honestidade não combinava com aquela realidade.
Já que estava escuro, ela nem se importava em reparar todo o caminho que estava percorrendo. Só sabia que tudo era bem úmido, frio e... Excitante. Sim! Ela estava louca para se livrar daquele disfarce e até brigar com alguém, tinha certo vício por adrenalina. Várias alas ficaram para trás, mas quando Gerald girou uma grande chave por uma porta monstruosa de metal enferrujado, ela percebeu que tinha chegado ao lugar certo. Um corredor vasto e de piso empoeirado estava a sua frente, teias de aranha pela parede. O curioso em tudo foi que a cada passo que dava, notava que a paisagem ia mudando. De cenário semelhante a um filme de horror, o corredor ia ganhando um ar mais aconchegante, quase como se fosse a residência de alguma família criminosa.
- Aí está. Vá até o final do corredor, não me chame caso precisar. - uniu as sobrancelhas e o xingou mentalmente, concordando brevemente com a cabeça e respirando aliviada quando finalmente não estava mais com a versão masculina da Olívia Palito andando ao seu lado. Ela não dava passos lentos, pelo contrário, quase correu até as duas celas que a esperavam. Eram as únicas daquele lado, estranhamente clareadas com lâmpadas pequenas. Na cela do lado esquerdo, uma cama estava no canto e um sofá no outro, parecia um mini quarto de algum hotel barato. Fotografias em preto e branco cobriam as paredes, os rostos de diversos homens estampados em todas. Na cela do lado direito, a primeira coisa que notou foi uma gigantesca pilha de livros, dos mais grossos aos mais finos. Também contava com uma cama e um sofá.
Será mesmo que o que ela tanto procurava estava com aquelas mulheres? Estranho.
Parada no meio do corredor, de braços cruzados, ela começou a chamar o nome das mulheres em voz alta, esperando pacientemente e verificando se suas coisas estavam nos bolsos do sobretudo. Uma arma, sua faca de cabo vermelho e um pequeno frasco com clorofórmio.
Ela desfez a posição descontraída e respirou fundo, ligando avidamente todos os seus sentidos quando percebeu que os dois seres resolveram presentear com suas presenças de arrepiar. Ela se esforçou para lembrar o nome das duas, mesmo que não importasse muito. A da esquerda se chamava Agnes e a da direita era Esther. A primeira tinha cabelos negros e desgrenhados, com uma mecha branca que caía para um dos lados. A outra era realmente magra demais e seus cabelos eram de um loiro amarelado e artificial. As duas prisioneiras tinham olhos curiosos.
- Olá, garotas, gostando das acomodações? - antes que pudesse parar de jogar conversa fora e pôr em prática o roubo mais importante de sua vida, escutou um estrondo vindo do outro lado do corredor. Como se algo - ou mais precisamente alguém - tivesse sigo golpeado e jogado no chão. Ela fez com os lábios o som de “shhh” para as mulheres e correu, se escondendo do outro lado do corredor, onde uma parede eliminava totalmente os indícios de sua presença. Não poderia permitir que alguém a notasse, não quando estava quase com a mão na massa.
Uma figura masculina se aproximou, Agnes e Esther seguravam nas grades com apenas os dedos de uma das mãos e mostravam seus dentes amarelados, sorrindo como se gostassem do que estavam vendo. Duas outras figuras pararam logo atrás, guardando os dois lados da cela. passou os dedos pelas bordas do chapéu e tirou uma chave do bolso de seu sobretudo, olhando para um dos gêmeos e dando o sinal do que deveria ser feito. De maneira ardilosa e silenciosa, ele abriu a primeira cela e colocou metade de seu corpo para dentro, não se intimidando por estar frente a frente com uma canibal. James e Dean entraram na outra, fazendo graça com os livros de Esther, que começava a se irritar. já estava com uma pequena seringa em mão e injetou rapidamente na veia do braço de Agnes, apagando-a instantaneamente. Os gêmeos fizeram o mesmo com Esther.
Os três não prestavam atenção no que acontecia do lado de fora do cubículo, só se preocupavam em analisar os corpos desacordados das hospedeiras. Elas estavam com blusas de mangas bem longas e usavam luvas bem apertadas em apenas uma das mãos. ergueu uma sobrancelha, segurando o braço de Agnes e erguendo lentamente a manga da blusa.
- Encontramos. - ele disse, olhando para James e Dean, que deitaram o corpo de Esther na cama e aguardavam a chave.
Os dois olharam abismados para algo e se levantaram bruscamente.
- Não, não encontraram. - congelou seus movimentos, sentindo um aroma totalmente diferente, algo que não combinava com uma prisão. Um aroma feminino. Sentiu o cano longo e frio de um revólver na parte de trás de seu crânio. Relaxou os ombros e tentou se virar, mas percebia que a criatura que estava atrás de si não desistiria tão fácil. Mesmo que outras duas armas estivessem apontadas para ela.
- Acho que ela é a responsável pela pequena bagunça que encontramos na entrada. - James comentou imóvel, calculando cada movimento de , totalmente pronto para atirar.
- Ela ou ele? Isso é um homem ou uma mulher? - Dean comentou, analisando o corpo de , mesmo que de longe.
- Seja lá quem for... O que você quer? - perguntou e finalmente sentiu o cano do revólver desencostar de sua cabeça. Virou-se lentamente e deu de cara com , que o olhou intensamente nos olhos, dando o efeito de que poderia até sugar a alma do homem caso achasse de grande utilidade. - Ok, criança, quem deixou você sair da cama a essa hora da noite? O que, diabos, está fazendo aqui?
- Só para responder o babaca ali que perguntou: eu sou uma mulher, caso ele não tenha notado meus seios e minha face feminina. - ela disse simplesmente, virando o rosto e lançando um sorrisinho de canto para , que retribuiu. Sem sentir medo da arma, ele caminhou para perto de mulher e passou os dedos pelos fios curtos da peruca. Ela não se moveu, apenas queria ver do que ele seria capaz. Brincar com o perigo nunca lhe fazia mal. Até aquele momento. - Não é óbvio? Estamos aqui pelo mesmo motivo, só não sei como essa droga de microchip se tornou tão conhecida...
Os três homens de chapéu se entreolharam e James e Dean saíram da cela de Esther, entrando na de Agnes.
- Espere aí. - ergueu um dedo. - Você sabe sobre o microchip?
apenas tirou a chave do bolso e a ergueu, sacudindo no ar. James se aproximou para tomá-la, mas o cano da arma já estava apontado para ele.
- Cuidado, rapaz, você não vai ser capaz de fazer muito com seus miolos espalhados pelo chão.
- Abaixe a arma, vamos conversar. - sugeriu brandamente e hesitou um pouco. - Diga o que você sabe e o que pretende com o microchip.
- Não é óbvio? - Dean disse bem alto. - A chave que ela tem serve para uma prisioneira e a nossa serve para outra. De um jeito ou de outro, essa mulher ter aparecido não foi tão ruim.
- Ah, como você é inteligente! - sorriu falsamente para Dean.
- O que você sabe sobre o microchip? Responda! - elevou seu tom de voz, revelando o quão rouca e deliciosa de se ouvir ela era.
- Sei o que vocês sabem, imagino. Me ofereceram muito, mas muito dinheiro por essa porcariazinha que eu nem sei direito para o que serve.
gargalhou.
- Viu só? Eu disse que não passava de uma criança, ela não tem noção do que tem em mãos. Agora, amor, entregue a chave para mim e nós pegamos leve com você. Talvez apenas fique desacordada por algumas horas, nada que lhe cause danos.
- Não venha bancar o Poderoso Chefão só porque usa esse chapéu ridículo. - soltou um risinho, encostando-se à parede da cela. - Aliás, vocês fazem parte de algum tipo de escola de ladrões?
- Você é uma caçadora de recompensas ou o quê? - retirou seu chapéu, atraindo a atenção de para o mesmo.
- Não gosto de rótulos. E por que resolveu tirar o chapéu agora?
- Um cavalheiro sempre tira seu chapéu para uma dama. - ele disse com a voz sussurrada, de uma maneira que fez com que a mulher a sua frente se esquecesse do olhar audacioso que estavam trocando e piscasse os olhos algumas vezes. Confusa, talvez. Logo se recompôs e voltou a mirar a arma na direção da cabeça do homem.
- Uma dama sempre tira sua arma para um cavalheiro. - respondeu com uma voz baixa, aveludada.
- Dama? - Dean se meteu no meio dos dois, rindo ao olhar de cima a baixo. - Eu já estive com damas e, acredite, você não é uma delas. - a mulher bufou.
- Não gostam da peruca? Tudo bem, que seja. - sem delongas ela se livrou da peruca, jogando-a no chão e colocando os longos cabelos para o lado com as mãos, em uma pose totalmente fatal. não conseguiu evitar de olhá-la com mais atenção. James e Dean também perceberam que o ambiente de repente ficou mais... Quente. - Eu tive uma ideia, garotos! - ela caminhou por eles, passando as mãos pelos ombros dos três. Seus cabelos acompanhavam o movimento de seu corpo. - Por que não nos juntamos, pegamos o microchip e caímos na estrada? E para tornar tudo ainda mais afetuoso, cantamos “Sweet Home Alabama”, que tal? - fazia parecer que se tratava de uma brilhante ideia. - Ok, só estou brincando! Saíam do meu caminho, agora!
respirou fundo e aproveitou que estava parada atrás de si, virando-se com rapidez e segurando o braço da mulher, cuja musculatura apresentou-se tensa, na tentativa desesperada de se soltar. Não suportava a sensação de ter algo lhe impedindo de se mover. Dean foi para perto e depois de uma pequena luta - inútil para - conseguiu tomar sua arma.
- James, agora é com você! - ela olhou para e fogo poderia escapar por seus olhos naquele momento. Ainda lutava para conseguir se soltar. - Sinto muito, mas seu rosto bonito não combina com o crime. - o homem lhe disse, aproximando os lábios dos seus.
- Motherfuckers... - percebeu algo gelado encostar em seu pescoço e logo sentiu algo furar a pele, enxergando de maneira desfocada. Até que apagou, tendo a fala cortada bem no momento em que tentava pronunciar qualquer outro palavrão. Eles levaram seu corpo para o lado de fora da cela e o amarraram no corredor, amordaçando-a. Depois do pequeno imprevisto, caçaram a chave que a mulher carregava, tirando-a de um dos bolsos de seu sobretudo e voltaram a focar suas atenções nas hospedeiras.
Agnes teve a luva removida e a manga da blusa cortada. Não foi pele que eles encontraram, mas sim uma prótese mecânica. Abaixo dos dedos mecânicos, mais precisamente na palma do que deveria ser sua mão, eles encontraram um formato que correspondia a alguma chave. Sorriram, cúmplices. retirou a chave do bolso e a encaixou no pequeno compartimento, girando e puxando para cima uma pequenina peça de metal que se abriu. Lá dentro, ele puxou uma das metades do microchip. O mesmo procedimento foi feito com Esther.
Com as duas partes daquele precioso objeto, eles trataram de arrumar brevemente toda a bagunça que causaram e fecharam ambas as celas.
olhou para o corpo de e inclinou o pescoço para um lado, decidindo o que fazer com a pobre moça indefesa.
- Vamos deixá-la aqui? - os gêmeos perguntaram em uníssono. O homem foi para perto da mulher, se abaixando e passando seus dedos pelos cabelos dela. Estava quase fazendo com que seus companheiros acreditassem que teria pelo menos um pouco de compaixão e a soltaria, até que...
- Esqueceram de o que acontece com quem entra no nosso caminho? Essa mulher tem sorte, não tenho coragem de matá-la. Deixem-na aqui, uma hora ou outra vai acordar. Não é problema nosso. - quando tomou impulso para levantar, enfiou a mão no bolso da calça e puxou um aparelho celular de dentro, jogando-o no chão. Sem dar explicações para os outros, colocou seus pés para trabalhar e já se afastava completamente da cela.
Logo o grupo já estava longe.
No momento em que abriu os olhos, tentou produzir algum som com a boca, todavia, percebeu que algo a impedia. Mexeu-se desconfortável e arregalou os olhos ao dar conta de que estava sozinha de novo, exceto pela companhia das duas prisioneiras. Fez força com os braços, esfregando ambos os pulsos colocados para trás e tentava a qualquer custo soltar o nó forte que fora feito. Tinha captado nos mínimos detalhes o rosto daqueles três. Os três desgraçados. Principalmente o que estava se sentindo o rei da cocada preta. O que tinha os olhos mais bonitos.
Enquanto tinha em mente as mais brilhantes táticas de tortura chinesa, percebeu que estava começando a conseguir soltar seus braços. Mais alguns minutos de esforço esfregando a corda que a prendia em uma barra de ferro e, finalmente, conseguiu se soltar, livrando-se também do que fora amarrado em sua boca. Um pouco tonta, passando uma das mãos pelo pescoço, ela fez força para levantar e procurou por sinal de Agnes ou Esther. Questionou-se se ambas estariam mortas dentro de suas celas.
socou a parede próxima, colocando os cabelos para trás e andando de um lado para o outro. Estava perdida! O que diria ao sujeito que lhe designou para capturar a microchip? Ele a mataria, era uma forte certeza.
Um som semelhante a um lamento a fez parar de andar e se aproximar de uma das celas. Agnes estava acordando, olhando estranhamente para as fotografias ao redor. se aproximou e ficou esperando que a mulher a notasse. Agnes soltou um som agoniado com a boca e voltou a grudar os dedos na grade, olhando nos olhos, abrindo a boca para falar. se encontrava desconcertada demais para notar a manga da blusa rasgada e, principalmente, a prótese mecânica.
- Menina, você sabe o que fizeram com elas? Isso não é justo! - a mulher balançava a cabeça negativamente e só sentia o desespero crescer. - Eu te conheço... - Agnes continuou. - Te vi uma vez enquanto dormia, mas já faz tempo. Sim, eu juro que vi!
- Do que você está falando, maluca? Eu não sabia que existia outro estágio depois da insanidade total.
abaixou o olhar e algo no chão prendeu sua atenção. Um celular. E, não, não era o seu. Sofisticado demais para ser o seu. Foi com muita fome ao pote, segurando o aparelho como se fosse a salvação da humanidade, deslizando os dedos pelas teclas e procurando por algo que a levaria até os homens que arruinaram sua vida...
Era possível arruinar uma vida que já estava arruinada?
Nas mensagens de texto, ela encontrou algo um tanto quanto interessante. E a data e horário coincidiam com aquela fria noite.
“Sem rodeios, Rupert, você sabe onde deve levar aquela porcaria! Nos encontramos nos fundos da fábrica, no centro.”
- Nos fundos da fábrica, no centro... - repetiu as palavras que leu, batendo os dedos na própria cabeça, como se assim conseguisse ativar melhor suas memórias. - Nos fundos da fábrica, no centro... - se lembrava de alguma fábrica no centro daquela cidade? Se sim, como poderia ter certeza de que conseguiria encontrá-los lá? Bem, não custava tentar. - Tchau, Agnes, bom te ver! Mande lembranças para a Esther e comporte-se, mulher, você já passou da idade de se rebelar contra o mundo! - disse, animando-se de repente e se aprontando para sair daquele local sem ser notada, percorrendo todo o mesmo caminho escuro e repleto de armadilhas de antes.
- Espere, menina... Eu conheço você! - Agnes disse mais alto, começando a chorar silenciosamente. Mas já estava longe.
Sim, era uma fábrica. Uma velha e abandonada fábrica. Sua extensão tomava quase o quarteirão inteiro e nenhuma janela era visível. Já era tarde da noite, a criminalidade nas ruas estava em seu auge. Por isso, tratou de preparar todas as suas armas mais uma vez e, apesar do sono que já começava a sentir, manter os olhos bem abertos era obrigatório. Nem se lembrava mais de onde sua peruca estava, mas não importava. Se livrou também do sobretudo, o deixando dentro de seu carro, estrategicamente escondido em um beco. Uma faca em uma mão e uma arma presa em sua coxa. Escalou a primeira grade que encontrou, pulando do outro lado e escutando apenas o barulho de grilos. Olhou para cima, encarando a majestosa lua cheia que brilhava intensamente e voltou a andar pelo caminho repleto de ervas daninhas. Outra grade entrou em sua visão, essa ainda maior. e escalou com mais dificuldade, caindo de joelhos e tomando fôlego. Toda aquela porcaria estava exigindo demais de seu ser! Ainda bem que existia a possível chance de vingança.
Alguns muros repletos de Grafite cercavam o caminho que percorria. Em um deles, ela forçou a vista para ler melhor. Não podia acreditar, talvez ainda estivesse drogada e aquela era apenas uma visão confusa de sua mente.
“Bem vinda, eu sabia que você viria até aqui”
virou o corpo, segurando a faca com força, a apontando para frente, pronta para atacar. Uma armadilha, que ótimo. Ouviu passos que esmagavam grama velha, assim como o cheiro familiar de alguma marca de cigarro. Um perfume masculino também foi notado. Ela quase pulou de susto quando um chapéu preto caiu ao lado de seu corpo, sendo jogado por alguém que ainda não tinha revelado sua identidade.
Uma risada satisfeita perfurou sua audição.
Quando voltou a se virar, deu de cara com ele. O mesmo olhar, os mesmos lábios torcidos em um sorrisinho de canto que lhe dava vontade de torná-lo um homem sem dentes. Os dois se olharam brevemente, sem arriscar que qualquer mínimo movimento fosse dado.
- Você está muito morta, garota. - disse friamente, arriscando o primeiro passo. fez o mesmo. - Não pensei que fosse audaciosa o suficiente para vir até aqui.
- Você não conhece nem um terço da minha audácia, amor.
- Pelo menos é capaz de demonstrar algum afeto durante nosso diálogo. - ele sorriu presunçoso.
- Onde estão seus amiguinhos? Vamos, chame a gangue, eu não vou correr! Não vou me esconder, desafio todos vocês a tentarem algo contra mim. Já tive a oportunidade de comprovar que são covardes o suficiente para amordaçar uma mulher. - ela falava com os braços cruzados. O vento jogava seus cabelos para o lado. observou as roupas justas que usava, a maneira como sempre parecia tão destemida. Que criatura interessante.
- Eu não preciso chamar eles, consigo pegar você sozinho. - ela observou os olhos brilhantes dele, os lábios bem desenhados. Por um curto, muito curto, espaço de tempo, sentiu vontade de beijá-lo. Apenas para distraí-lo e enfiar a faca em seu corpo, é claro.
- Então vem me pegar. - largou os braços no ar, entregando-se em uma bandeja de ouro para . Ele não se aproximou, apenas coçou a nuca, erguendo as sobrancelhas. - Sou toda sua...
- Cuidado, eu posso acreditar em suas palavras.
- Já posso me considerar morta mesmo, não é? Mas não tem jeito, não morrerei feito uma fraca. Por isso, venha me pegar, termine logo com isso. Mas saiba de uma coisa: eu sou uma criminosa, não me ajoelho diante de ninguém. Sou assim, vou morrer assim. Chegarei até o inferno assim. - ele soltou um “wow” com a boca e bateu palmas de maneira irônica. Estava quase ficando fascinado por . Como a coragem que ela deixava exalar podia ser tão tentadora? não sabia explicar, mas sentiu orgulho ao olhar de novo para . Orgulho dela? Não. Orgulho do mundo ao qual pertenciam. Fazia bem saber que uma mulher valente como existia. Agora, sim, ele tinha uma criminosa a sua altura. Não a conhecia, nem mesmo sabia sua idade, de onde vinha ou qual era sua música favorita, mas a coragem que demonstrou aparecendo naquele lugar já era o suficiente.
Foi para mais perto, hesitando por um momento e erguendo um dos braços, segurando o queixo dela com uma mão. Mordeu o lábio inferior com força, capturando toda a atenção de . Depois, ainda mais sem vergonha, colocou uma mecha de seu longo cabelo atrás da orelha.
- Por que morrer se você pode desfrutar do inferno que temos aqui na terra? Ou, se preferir, um paraíso negro.
- Paraíso negro? Eu posso lidar com isso! - ela sorriu abertamente. Perversa, maliciosa, tentada a participar do jogo que, aparentemente, aquele homem misterioso pretendia jogar. Ou já jogava há tempos. Na vida do crime as coisas funcionavam daquele jeito. Não existiam conhecidos, muito menos estranhos. Nem amor, tampouco ódio. Tudo se baseava em momentos. O que era útil ou não. E, sim, ambos encontraram inúmeras utilidades um no outro. Bastou apenas aquela troca de olhares eletrizante.
- Algum problema, garota? - a notou piscando os olhos de forma rápida, como se não conseguisse enxergar perfeitamente. Teve apenas tempo de respirar novamente antes que o corpo dela desabasse, sendo segurado de um jeito desajeitado pelos braços do homem, que não entendia o que, diabos, tinha acabado de acontecer. Um desmaio? - Mentir é feio, sabia? Você não é uma donzela em perigo. - a resposta para o comentário bem humorado de foi apenas o silêncio e o semblante sereno de uma inconsciente.
Capítulo 3 Girl, You'll Be A Woman Soon
sabia que estava acordada, mas por algum motivo desconhecido, não queria abrir os olhos. Sentia o corpo sobre uma superfície macia, deitada em posição fetal. Quando um de seus olhos ameaçou abrir, ela o fechou novamente, se dando conta de que estava em algum ambiente com claridade. Seus ouvidos captavam algum barulho que ela não sabia distinguir, mas percebia que não estava sozinha. Aos poucos, foi virando o corpo, sentindo as pernas um pouco fracas. Depois de mais alguns longos segundos, seu olhos se abriram por completo e ela apoiou os cotovelos no que parecia ser uma cama. Pediu mentalmente para uma força superior - que ela nem sabia direito se existia - fazer com que, quando olhasse para baixo e avistasse seu corpo, não estivesse nua ou com algum terrível ferimento aberto pelo corpo. Respirou aliviada quando sua blusa, assim como a calça de couro e botas, permanecia no mesmo local em que se lembrava. Seu rosto se levantou e, com a visão ainda um pouco embaçada, avistou o resto do lugar.
Avistou sentado despreocupadamente em uma cadeira, de frente para a cama em que ela estava.
Arregalou os olhos e se colocou sentada, levando uma das mãos até a cabeça e a segurando. pareceu acordar de alguns pensamentos e fitou a mulher, notou que uma expressão de pânico começava a se formar em seu rosto.
- O que aconteceu? - ela disse em alto e bom som, desnorteada, virando o rosto em várias direções, como se procurasse por uma explicação. - O que você fez comigo? - ele se levantou pacientemente da cadeira e caminhou até a curta distância da cama, sentando-se e olhando serenamente para Lauren. - O QUE VOCÊ FEZ COMIGO, MALDITO? - o homem colocou os dedos em seu ouvido, como se pedisse para falar baixo e então riu.
- Não se lembra? - soltou aquela questão com uma voz bem... Suspeita. já estava de pé, caminhando para longe dele. Sua cabeça ainda doía.
- Me lembro de você falar de um tal paraíso negro, sei lá a que, diabos, estava se referindo. Depois tudo ficou escuro e... - ela parou de falar e sua expressão se fechou, como se finalmente estivesse assimilando as coisas. Não gostou nada da imagem que veio em sua mente, a suposta ideia do que poderia ter acontecido fez seu sangue ferver imediatamente. - Seu desgraçado! - ela correu até a cama, tentando puxar pelo braço, mas ele se esquivou e levantou também. - Você me estuprou! – acusou, destemida. - Nojento, verme, canalha, vem aqui que eu vou... - sentiu outra tontura e foi obrigada a jogar o corpo na cama novamente. - Ai!
tentava segurar o riso, ajeitando sua gravata e limpando a garganta antes de começar a se explicar.
- Ei, ei, ei... Eu não fiz nada disso, garota.
- Prove!
- Garanto que perceberia se eu tivesse passado dos limites com você... - ela ergueu o braço, em sinal claro para que ele calasse a boca. - Continuando... Nós estávamos conversando pacificamente, até que você começou a ficar esquisita e, de uma hora para a outra... - ele torceu os lábios. - Caiu nos meus braços. Desmaiou, sei lá, deve ter sido por causa da droga que o James te deu. - ficou em silêncio, provavelmente estava arquitetando um plano para arrancar as duas cabeças do homem calmo em excesso ao seu lado. - Eu poderia ter deixado que você caísse no chão, mas te segurei! Te segurei, te peguei no colo, levei você até o meu carro, amarrei seus braços e te trouxe até aqui. Então... De nada! - ele sorriu ironicamente, percebendo que já tinha baixado a guarda e estava sentada de maneira mais relaxada na cama. Voltou a se aproximar mais dela, curioso para saber quais as próximas palavras que aqueles lábios soltariam.
- Por que você fez com que eu fosse até aquela fábrica abandonada? - aborreceu-se, já que esperava por uma pergunta mais interessante, elaborada.
- Você me deixou curioso, por vários motivos.
- E o microchip? Vocês conseguiram pegar, não é? Maldição, eu deveria estar com uma tremenda grana em mãos agora, mas por culpa de...
- Shh, deixe para se preocupar com isso depois. - estava sentado na cama de novo, um lado de seu corpo quase encostado ao dela. Ela não se afastou, fingiu que ele era invisível por um instante.
- Então... Você não me estuprou? - virou o rosto para encará-lo, erguendo uma sobrancelha.
- Não. Eu juro. - ele sorriu abertamente. Ela analisou aquele sorriso por um tempo, subindo o olhar, fitando cada pedaço daquele rosto. Desde os pontos de barba quase imperceptíveis até os cabelos, estranhou o chapéu não estar cobrindo os mesmos.
- Pretende me matar?
- Não... Eu acho.
- Pretende me estuprar em um futuro próximo?
- Cale a boca, eu já disse que não fiz isso e nem pretendo fazer.
- Quer saber? É bem óbvio que você não fez nada com o meu corpo, porque estupradores não são bonitos, na maioria dos casos. Você é bonito demais para se aproveitar desse jeito de uma mulher... Não precisaria forçá-la, se é que me entende. - deu um breve sorrisinho de canto, colocando os cabelos para trás, deixando que os fios logo voltassem e caíssem levemente por um dos lados de seu rosto.
- Tendo em mente o jeito como você falou, arrisco dizer que é uma mulher bem fácil. - comentou, entrando no joguinho. se fez de ofendida, mas já tinha uma resposta na ponta da língua.
- Veja bem, estranho, se eu fosse uma mulher bem fácil... - fez uma pausa estratégica, adotando um semblante superior. - Você já teria arrancado a minha calcinha. - por fim, rebateu, erguendo um dos cantos de seus lábios juntamente com uma sobrancelha e cruzou os braços.
- Quem te garante que ainda não fiz isso? - ela quase se arrepiou com o olhar que recebeu, quase. Mas preferiu ignorar os sinais absurdos de seu corpo e voltou a ficar de pé, fitando-o com fúria.
- Você jurou que não tinha feito nada!
- Foi só uma brincadeira, relaxa.
A mulher passou uma das mãos por sua coxa e finalmente percebeu que o mais importante não estava ali. Suas armas. Sua faca e o revólver presos em sua coxa. Não conhecia aquele cara, não sabia o que ele estava planejando fazer, então não seria nada mal se ela tivesse algo com o que se defender. Poderia usar de sua força física, é claro, mas a sensação de ter algo afiado em mãos era gratificante demais para abrir mão.
- E as minhas armas? Onde estão?
- Guardei elas para você. Não se preocupe, um dia eu devolvo.
- Eu acho bom que você me entregue elas agora... - ela alertou, como se fosse capaz de intimidar . - A menos que curta algo mais hardcore e prefira que antes eu esfregue sua cara no chão. - cansado de ouvir tudo aquilo, mas se sentindo extremamente bem pelo jeito durão de , se levantou e caminhou para perto da porta, assistindo enquanto o ser feminino a sua frente parecia prestes a voar em seu pescoço. - Ah, mas é claro, minha mala também não está por aqui. E presumo que meu carro não esteja lá fora, certo?
- Por que você quer a mala? Acha que vai conseguir pegar suas outras armas e me tirar do caminho? - ela abriu a boca para responder, irritada e ponto de começar a rir, uma risada que assustaria ... Se ele não fosse exatamente como ela, ou pior.
- Ok, pessoa que se sente excitada por ter uma mulher desarmada por perto, não sei se você é capaz de perceber, mas mesmo com tudo isso que acontece ao nosso redor, eu continuo tendo uma vagina. Continuo sendo uma mulher, então preciso de algumas coisas que estão naquela mala! Pode ser?
- Tudo bem, eu vou pegar suas coisas. - deu de ombros, concordando com a cabeça e tirando uma chave de seu bolso. Puxou a maçaneta da porta e percebeu que vinha correndo em sua direção, na tentativa frustrada de sair também. Para o azar da mulher, ele foi mais rápido e já tinha passado a chave pela fechadura quando ela tentou escapar. Ele se divertiu ao escutar o barulho que ela fez ao chocar as duas mãos contra a porta. - Descanse, mais tarde nós temos alguns assuntos a tratar. Você vai conhecer a minha... Como é que disse mais cedo? Ah, sim, vai conhecer a minha gangue. - disse do lado de fora, afastando-se.
Dentro do quarto, esbravejou e amaldiçoou todas as gerações futuras de . O solado de suas botas se chocava com o chão, enquanto ela dava passos pesados até a única janela que encontrou no recinto. Voltou a rir amargamente quando percebeu que a mesma estava devidamente trancada, mas, para uma porcentagem de seu alívio, era de vidro, então pôde observar todo o exterior do lugar. Sua boca se abriu involuntariamente.
- Porra, o que, diabos, é tudo isso? Onde foi que eu me meti? - disse sozinha. Vários carros que ela sonhava em ter estavam estacionados no que parecia um jardim, com fontes ao redor. Um pouco mais para frente, dois homens com chapéus pretos estavam parados próximos a uma resistente porta de aço, como se guardassem o local. - É, , você está morta.
se virou e fitou o teto, respirando fundo. Mais tarde conheceria a tal gangue de ... Ela só não sabia se a animação ou a angústia falavam mais alto quanto a isso.
Bem, pelo menos não estava algemada à cama. Ou no chão, o que seria bem pior.
O som repetitivo dos ponteiros de um relógio se misturava com outro som que vinha de uma lareira. Unhas compridas e pintadas de preto se chocavam com a superfície da mesa, onde uma pequena caixinha prateada repousava. A mulher fazia questão de manter os largos ombros tensos, com as costas completamente eretas na poltrona onde estava sentada. Seu cabelo era de um preto que por vezes aparentava estar azulado, possuía um corte chanel impecável. Tinha olhos negros e fundos, uma pele branca que já sofria com algumas linhas de expressão provocadas pelo tempo. Usava um blazer roxo de mangas compridas e uma saia que terminava em seu joelho, de mesma cor. Sapatos com saltos agulha impressionantemente altos cobriam seus pés. Ela sorriu, revelando seus dentes de um branco surpreendente e contemplou mais uma vez o microchip que era protegido por aquele recipiente quadrado e resistente. Levantou seu olhar e, como se estivesse vendo dobrado, observou com olhos curiosos os gêmeos James e Dean.
- Até que enfim estão sendo capazes de me deixar orgulha. - sua voz grossa e ao mesmo tempo feminina soou, deixando Dean desconfortável. James estava com uma das mãos fechada em punho e tentava manter a respiração regular. - Onde está ? - ela quis saber.
- Onde você acha que ele está, Helena? - James se alterou ainda mais, olhando severamente para a mulher, que já começava a se sentir desafiada. - Cuidando da garota que encontrou, é claro. Ele assume o controle de todos os planos, manda em nós como se fôssemos seus escravos e ainda tem tempo para se divertir com as garotas que encontra pelo caminho. E nós? Nós temos que sentar nessas malditas cadeiras e assistir você nos olhar como se estivéssemos perante o júri.
- Cara, fica calmo... - Dean tentou, mas o irmão gritou para ele calasse a boca.
- Não se preocupe, Dean, se seu irmão não está contente, deixe que desabafe. - Helena era a chefe daquele grupo, o que, por muitas vezes, acabava irritando os mais preconceituosos, os que acreditavam que mulheres não tinham nascido para qualquer mísero tipo de liderança.
- Não tenho nada para desabafar. - James disse de maneira bem baixa, sentindo um estranho peso em sua nuca. Aquela sensação precisava ir embora.
- Essa garota... Como se chama? - Helena questionou, deixando James de lado e dando toda a sua atenção para o outro gêmeo.
- Não sabemos, ela não disse o nome. - a mulher concordou com a cabeça, mas aquela resposta inútil de Dean não fazia diferença, já que ela sabia de quem se tratava. Sim, ela conhecia . Um de seus muitos segredos; era como um livro grosso e escrito em uma linguagem que não pertencia ao tempo atual... Muitos de seus detalhes ficavam ocultos.
De repente, James soltou um grunhido, seu corpo inteiro começava a tremer. Helena enxergou as veias de suas mãos e braços, como estavam alteradas, assim como as de seu pescoço. James sentia uma mistura desconfortável de calor e frio, um enorme peso em sua nuca e os músculos de seu corpo apresentavam constantes espasmos. Notou que algo estava escorrendo de seu nariz, levando os dedos até o local e constatando que se tratava de sangue.
- James... - o irmão o chamou preocupado, já sabia o que lhe aguardava. O outro se levantou com força, prestes a ter um ataque de nervos. Helena apenas piscou os olhos antes que o punho firme e tenso de James se encontrasse com o vidro da mesa, acertando-o em cheio e provocando uma notável rachadura.
- Dean, leve seu irmão até o Noah e faça o combinado. E, por favor, só saiam de lá quando ambos estiverem bem. - Dean aceitou as ordens de Helena, levantando-se e indo ajudar o irmão. Eles saíram da sala e Helena massageou as têmporas, procurando se acalmar enquanto o real resultado não dava as caras.
recebia seis olhares distintos ao mesmo tempo, mas preferia não sustentar nenhum. Permaneceu petrificada, olhando para um ponto qualquer que estava atrás de onde uma mulher - que mais parecia uma versão moderna de bruxa - estava sentada. foi sincero quando lhe disse que iria pegar sua mala em seu carro, e, além disso, ele tinha providenciado algo para que ela comesse e um chuveiro decente para que tomasse banho. Talvez a roupa que escolheu para vestir não fosse uma boa escolha, deveria ter permanecido com seu sobretudo, pelo menos ficava com um ar mais sofisticado. Estava com uma camiseta velha do Led Zeppelin, um surrado short jeans que era segurado por suspensórios e nos pés um par de coturnos. Mas uma meia escura com listras brancas lhe dava um ar... Infantil.
estava encostado em uma das enormes janelas do local, com os braços cruzados. Sorria com os olhos enquanto encarava , como se tivesse capturado algo grandioso e se revelava orgulhoso por estar exibindo.
Uma mesa larga, cinco caras com chapéus e uma mulher ao centro que se portava como se fosse a chefe. pensou e pensou mais algumas vezes... Não foi parar naquele lugar por mera coincidência do destino. Era para ela estar ali.
Seja lá o que eles fossem, talvez ladrões de aluguel ou uma gangue de idiotas que tentava se passar por algo mais grandioso. pouco se importava, ela não queria fugir. Queria atrair a atenção daquelas pessoas para ela, queria descobrir do que tudo aquilo se tratava. Queria ver o microchip outra vez. Então, permanecer próxima deles se tornou atraente demais.
- Vocês sabem o que fazemos com quem invade isso aqui. - o primeiro homem se manifestou. Jonathan. abriu a boca para falar, mas ergueu um dedo e caminhou para perto dela, entrando em sua frente como um escudo.
- Ela não invadiu, eu decidi trazê-la aqui.
- E você tomou essa decisão com base em quê? - Jonathan questionou, já sentia vontade de mandar-lhe o dedo do meio.
- Chega! - Helena ordenou. - , saia da frente da garota. Quero vê-la, olhar nos olhos dela e descobrir se não é apenas uma espiã insignificante.
olhou nos olhos de Helena e recebeu o que pareceu um sincero sorriso amigo, como se estivesse recebendo boas vindas. Ela cruzou os braços, olhando para todos ao redor, encontrando a oportunidade para falar.
- Posso dizer uma coisa? Posso, né? Então... Eu estou me sentindo um peixe fora d'água.
- Por quê? - Rupert deixou sua timidez de lado e lançou a pergunta para ela. Ele a olhava com certo interesse, o que estava divertindo a mulher.
- Porque vocês estão usando esses chapéus e eu não. Sei lá, faz parecer que eu sou uma intrusa.
- Mas você é uma intrusa. - James disse, aparentemente recuperado do estranho acontecimento de mais cedo. Dean também estava bem, pelo menos aparentava isso por fora.
- Sem problemas. - achou uma solução rapidamente e foi para perto de outra vez, ficando de frente para ela. Retirou seu chapéu e o colocou sutilmente na cabeça dela, que lhe olhou instantaneamente. Por frações de segundos, os dois trocaram um olhar cúmplice e sorriu sem mostrar os dentes. - Se sente mais à vontade agora, senhorita? - ele perguntou e ela confirmou com um gesto de cabeça. Jonathan revirou os olhos.
- O que faremos com você, minha jovem? - Helena apoiou a mão em seu queixo, procurando por alguma solução. Queria que aceitasse ficar com eles por enquanto. Precisava que ela se tornasse parte daquele lugar, mas não podia deixar que sua equipe notasse isso tão facilmente.
- Ela deve esconder muitas coisas, deve estar bolando um plano. Não me surpreenderia se matasse a todos nós no meio da noite e, pior, fugisse com o microchip. Afinal, ela estava atrás daquela coisinha mesmo, não estava, ? Vamos amordaçá-la, amarrar seus braços novamente e, dessa vez, deixá-la nua. - olhou seriamente para James, encontrando mais um inimigo para sua listinha. Helena mandou que o homem medisse suas palavras e o olhou com raiva.
- Que ambicioso. - foi tudo que escolheu dizer.
- Você quer ficar aqui? - recuperou o foco principal do debate, lançando a importante questão. Depois voltou a ficar perto da janela que era coberta por uma cortina de cor escura.
- , você não pode sair convidando as pessoas para ficarem aqui como se isso fosse uma pensão nas montanhas. - Jonathan disse, olhando de cima a baixo. - Olhe para ela, é uma menina.
- Não se esqueça, Jonathan, que todos nós começamos aqui dessa maneira. Ninguém era melhor amigo da Helena e fazia parte da equipe desde o início. - Dean ralhou, trocando um olhar de competição com Jonathan.
- Quietos, vocês dois. - Helena trocou outro olhar com . - Você tem algum interesse nessa equipe? Responda rápido.
- Eu... Ahn... Sim! - ela piscou os olhos rapidamente ao soltar as palavras, em dúvida de sua decisão repentina.
- Não é assim tão fácil... Ela vai precisar provar que é de confiança, que presta para o serviço. - lembrou a todos.
- Presta para o serviço? E que serviço vocês vão dar para mim? Ser a prostituta com chapéu? - talvez não devesse ser tão abusada diante daquelas pessoas, mas o impulso sempre falava mais alto. Na verdade, nem estava sentindo tanto medo. Não com por perto, nele ela até poderia pensar em confiar.
- Nós já temos tarefas demais, o vai se virar se essa garota ficar por aqui. - James alertou, de mau humor.
- Claro, afinal, o encontrou a gatinha abandonada, então ele é quem vai dar leite para ela. Ou algo assim. - Dean disse rindo e alguns presentes fizeram o mesmo.
A atenção de todos se desprendeu de , indo parar na porta que se abriu com um barulho estrondoso. Uma garota passou por ela, cantarolando uma música qualquer. Tinha cabelos dourados, olhos verdes e seus passos eram despreocupados. Estava vestida como uma garota de no máximo 15 anos, camiseta de alguma banda e saia jeans, mas sua estatura dizia que tinha alguns anos a mais.
- E aí, ! - ela sorriu ao vê-lo, estendendo a mão para fazer um high five com o homem, que também sorria ao olhar para ela. Mas, não, não era nada sexual. Aliás, notou que a garota trocou um olhar diferente com Dean, que se levantou em um gesto de cavalheirismo.
- Oi, pequena. - Dean pronunciou as palavras. A garota parou de andar e congelou o corpo, piscou os olhos três vezes e respirou fundo, dando meia volta e indo para perto dele. Dean tinha um sorrisinho sacana nos lábios. E então, a garota loira falou pela primeira vez naquela sala:
- Pela milésima vez, Dean... - ela apontou o dedo na direção dele, com um semblante duro. - Não me chame de pequena. EU NÃO SOU PEQUENA! Completei 18 anos semana passava, tenho quase a sua altura e... Ok, eu sei que esse elogio tão inofensivo não tem nada a ver com altura, que é um jeito carinhoso que os homens gostam de chamar as mulheres, mas pode parar! - prestava atenção no pequeno discurso da garota, se divertia muito por dentro. Até que enfim alguém com atitude naquele lugar. Os outros apenas assistiam estáticos, até mesmo Helena não dizia nada. - Vou começar a te encontrar por aí, sabe, te olhar de baixo para cima. Vou começar pelos seus pés e então vou subir, subir bem devagar... - ela foi erguendo o dedo, na mesma altura das pernas do homem, até que parou em uma região intrigante. - Vou parar bem aqui e dizer: oi, pequeno! - não conseguiu evitar e gargalhou alto, assim como , que recebeu um olhar repreensivo de Jonathan e um furioso de James.
- Beverly, chega de gracinhas. Sente-se. - a tal Beverly fez uma reverência, como se estivesse agradecendo a aplausos e mandou um beijo no ar para Dean, que parecia um cão abandonado na chuva.
- Ok, mãe, sem crise. - então aquela garota cuja rebeldia aparentava correr pelas veias era filha de Helena? estava cada vez mais intrigada com todo aquele lugar. - Quem é essa? - Beverly apontou para , medindo seu corpo de cima a baixo com o olhar. - Gostei do estilo, vocês não vão matá-la, né?
- e Jonathan... - Helena os chamou. - Os dois estão encarregados de preparar algumas provas para ela. Decidiremos em breve se pode ficar aqui ou não. Agora, cada um pode procurar uma maneira de não ser inútil, a reunião acabou.
- E o que vocês vão fazer comigo até que essas provas sejam decididas? - quis saber.
- Vamos fazer o que fazemos de melhor, minha cara... - James brincava com seu canivete. - Um lanchinho.
Ela arregalou os olhos e ficou rígido, o olhar levemente escondido pelo chapéu estava prestes a pegar fogo. Estava perto de quebrar alguns dentes de James. Beverly riu e Dean ainda tentava se recuperar da tremenda humilhação pública.
- Lanchinho... - ela olhava para o chão de limpeza impecável, como se refletisse sobre aquela palavra. - Vocês vão me comer? Por acaso são vampiros? - apontou para todos eles, deixando que um pequeno sorriso começasse a se formar. - Porque, se forem, podem me transformar... Isso deve ser muito legal! - puxou a cortina da janela e ergueu a manga de seu paletó, permitindo que a claridade do lado de fora cobrisse a pele de seu braço.
- Não somos vampiros. E eu espero que o James tenha sugerido que uma boa refeição seja feita para a garota. - o ameaçou com o olhar e aquilo fez sentir-se protegida. De um modo bem estranho.
- Mas é claro, , é exatamente disso que eu estou falando. - James sorriu inocentemente, se levantando e olhando a mulher com escárnio.
- Eu estava gozando com a cara dele, . - comentou em voz alta, pronunciando aquele nome pela primeira vez.
Boa coisa não viria.
Dois gumes de duas lâminas de aço se chocaram entre si, provocando um barulho alto e estridente. recuou, depositando mais força no cabo feito de madeira. Jonathan soltou um risinho e limpou o suor da testa, se colocando em posição de ataque mais uma vez. ergueu sua espada, alinhando o corpo e tomando impulso para trás. O golpe foi dado e Jonathan tentou se defender, mas teve que abaixar o corpo ou seria atingido no braço pela ponta terrivelmente afiada. O barulho das duas armas brancas voltou a ecoar pelo local e soltou um grunhido ao esquivar o corpo, abaixá-lo e voltar a se colocar em posição ereta. Desviou da espada de Jonathan e mirou a sua para frente, se virando e o pegando de surpresa. Jonathan congelou seus movimentos e fitou o extenso gume, erguendo o olhar e fitando seu oponente. A ponta da espada estava localizada exatamente em seu pomo de adão.
- E então, você está morto. - disse com a voz rouca, puxando sua espada de volta e a apoiando no chão, com a ponta para baixo, enquanto esperava o parceiro de luta se recompor. Ele estava sem camisa, vestia apenas uma calça preta de pano leve. Seus cabelos estavam bagunçados e levemente molhados, seu rosto estava suado e esse mesmo suor se encontrava também em seu abdômen e braços dotados de uma aparência agradável. Nem muito musculoso, mas completamente longe da magreza.
- Ele é bom, não é? - voltou à realidade e sentiu algo molhado escapar por sua boca, aproximando sua mão e limpando a saliva que estava em um dos cantos. Só então percebeu que babava. Assistia a luta entre e Jonathan com os olhos vidrados, atenta a qualquer movimento do corpo de . Não tinha percebido que outra mulher estava parada ao seu lado, mas essa nem se mostrava lá tão impressionada.
- Hein? - soltou, olhando a ruiva de maneira aérea. - Ah, sim, claro, o outro também é. Na verdade os dois são e... - uma risada irritante cortou a voz de , que achou melhor se calar e voltar a respirar normalmente.
- Você deve ser a mascote do .
“O que essa aprendiz de vadia pin-up está querendo dizer com isso?” pensou.
- Mascote? Esse lugar por acaso é um zoológico? Que animal seria você? - decidiu zombar das palavras da outra, que parou de sorrir imediatamente e virou o pescoço, prestando atenção no que acontecia dentro da sala através do vidro. e Jonathan deram uma pausa, deitou o corpo no chão, fechando os olhos e descansando.
- Meu nome é Palmer. - a ruiva decidiu se apresentar, erguendo uma sobrancelha que era da mesma cor de seu cabelo. pôde perceber que ela vestia apenas um curto vestido branco, com um decote exagerado. Saltos vermelhos, maquiagem carregada e um enfeite com aparência de flor na lateral do cabelo vermelho. Eca.
As duas voltaram a olhar para o vidro da janela quando ouviram alguém bater no mesmo, só que do lado de dentro. estava parado ali, olhando apenas para e fazendo um gesto com a cabeça para que ela entrasse na sala. Depois, ele olhou para Palmer e tudo que fez foi ignorá-la.
- Prazer em te conhecer, Palmer! - disse, sorrindo, dando as costas para ela e procurando a porta. Assim que entrou, encarou todo o lugar. Era um extenso cômodo, sem qualquer tipo de móvel ao redor. O piso era de madeira e vários instrumentos estavam colocados na parede. Espadas, escudos, alvos e um arco e flecha, entre outras coisas. Uma sala de treinamento, talvez.
- Você gosta daqui? - voltou a tomar sua espada em mãos, parando a poucos metros de distância da mulher. Ainda estava ocupada captando os detalhes.
- Como um bando de engomadinhos com seus chapéus impecáveis pode ter um lugar como esse? - ela perguntou e olhou para ele, que estava imóvel, olhava-a distraidamente.
- Estúpida mania de julgar o que não conhece. Por que será que a humanidade ainda sofre desse hábito? - os dedos da mulher deslizavam por uma das armas da parede. Era uma faca semelhante a sua, só que de ponta ainda mais afiada e com um cabo dourado. Era loucura estar fazendo aquela visita, ela estava começando a voltar para a realidade. Tinha quase certeza de que a decisão que fora tomada na reunião de mais cedo era apenas uma invenção boba. Era óbvio que seria morta. Talvez fosse o escolhido para aquele trabalho sujo.
E parado naquela posição com uma arma tão intimidadora, não era nem de longe difícil de acreditar.
Finalmente decidiu abandonar sua análise e virou o corpo para dar de cara com ele. Sentindo um arrepio correr por sua espinha e os músculos ficarem tensos, ela assistiu a espada se aproximar gradativamente e permanecer apontada para sua barriga. A ponta fina encostou-se ao tecido de sua camiseta e ela conseguiu senti-la perfeitamente entrando em contato com sua pele. Levantou o rosto e olhou de maneira questionadora, deixando que um pedido de socorro escapasse através de seu olhar.
- Uma parte de mim meio que já sabia disso... - ela disse com cuidado, percebendo que poderia ter aquela espada atravessando seu corpo a qualquer momento. Soltou o ar com cuidado, mantendo o contato visual com , que tinha olhos intensos e também não se movia. Seus dentes seguraram o lábio inferior e brevemente o morderam. Antes que pudesse se dar conta, a arma já estava jogada no chão.
- Sabia do quê? Que eu sou bom com espadas? Bom, se isso foi um elogio, estou agradecido.
Ela lhe fitou, embasbacada.
- Você não vai me matar? Eu pensei que... - levou os dedos até a região de sua barriga onde ainda era capaz de sentir a ponta do instrumento.
- Claro que não, desista disso. Vou começar a acreditar que esse é um pedido de socorro, que você quer muito ser morta.
- Devolve a minha faca, ! - ela deixou toda a fragilidade de lado e voltou a olhar para ele como tinha feito na noite anterior.
- Não, ainda não.
- Por que não? - o homem deu passos até ela, parando a sua frente e abaixando um pouco a cabeça, ficando com a boca quase encostada ao pé de sua orelha.
- Me diga seu nome. - ele sussurrou, quase permitindo que seus lábios se encostassem ao lóbulo dela. Mas era cuidadoso o suficiente para usar de suas armas apenas quando a hora certa chegasse. E ainda era cedo, muito cedo.
Ela deveria dizer seu nome? Talvez o manter em sigilo fosse melhor, talvez tivesse que fugir daquele lugar a qualquer momento.
- . - mas a palavra escapou antes que ela pudesse fazer algo a respeito.
- Prazer em te conhecer, . É um nome muito bonito, assim como você. - ela sorriu agradecida pelo elogio, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. - Sério, você é linda! Só uma coisa que me atormenta: por que não está por aí sendo modelo, atriz ou uma mulher normal? O que pretende com tudo isso? Alguém já lhe disse que essa vida é traiçoeira?
- Ninguém precisa me dizer, isso é uma coisa que você aprende com o tempo. - respondeu convicta. - Você já andou de trem, ? - ele franziu o cenho, mas concordou. - Já pegou o trem errado e foi apenas se dar conta disso quando estava em uma estação completamente desconhecida? A vida no crime é mais ou menos assim. Do mesmo modo que não escolheu pegar o trem errado, também não escolheu isso aqui. Quando se dá conta, já está envolvido demais, sujo demais, morto demais. - refletia com tudo que ela lhe disse, concordando mentalmente. Desfez a expressão de distração e voltou a deixar seu olhar descarado.
- Fora apontar uma arma para a cabeça das pessoas e se meter em encrenca, o que mais você gosta de fazer, ? - foi corajoso ao arriscar aquele apelido. Poucas pessoas se atreviam a chamá-la daquele jeito. Das duas, uma: alguém tinha que gostar muito da mulher, ou odiá-la ferozmente para referir-se a ela por . parecia odiá-la? Difícil de acreditar. Impossível, na verdade.
- Não sei.
- Como é que não sabe?
- Mas e você, o que gosta de fazer? - decidiu passar o direito de resposta para ele.
exibiu sua espada mais uma vez.
- Tenho essa espada desde que posso me lembrar, aprendi a manuseá-la sozinho e nunca perdi uma luta. E, quer saber? Se Helena permitir que você fique aqui, vou te ensinar como usá-la também.
- Não, obrigada, eu acho que não quero aprender. - ela sorriu desconfortável.
- E vai continuar lutando contra o mundo com aquela espátula de manteiga que você chama de faca?
- Olha como fala... - tentou repreendê-lo, mas já estava rindo.
- Vou te ensinar, sim. É bom aprender coisas, tudo que puder. Não tem graça viver só para respirar e respirar só para viver.
- Sabia que eu não entendo boa parte das coisas que você diz?
- Isso é um bom sinal.
se esqueceu momentaneamente de e passou a brincar com as alças de seu suspensório, andando de um lado para o outro. Perdida em diversos pensamentos, ela se perguntava onde o homem que lhe encomendou o microchip deveria estar. Provavelmente a caçando. Custava admitir, mas secretamente ela respirava aliviada por estar com aquelas pessoas desconhecidas. O homem que lhe encomendou serviços jamais pensaria em procurá-la por ali.
também a deixou de lado e guardou sua espada, pegando uma toalha e a passando pelo rosto, pendurando a mesma em seu pescoço. Mas sem que pudesse evitar, seus olhos grudaram na mulher mais uma vez, mas ela estava de costas. Ele riu sozinho, observando a roupa que estava vestindo. E como ela tinha ficado atraente com seu chapéu! Já conseguia imaginar aquele ser enigmático fazendo parte de sua equipe. As coisas estavam entediantes ultimamente, mas ele sabia que logo melhorariam. Muito.
- Nós vamos sair hoje à noite. Você, eu, Jonathan, os gêmeos...
- Ah, nós vamos?
- Sim, vou tomar um banho e você pode ir se aprontar.
- Não preciso me aprontar, já estou pronta! - apontou para suas roupas e revirou os olhos, fazendo um som negativo com a boca.
- Onde você pensa que vai desse jeito, amor? Visitar um parque de diversões clandestino? Assaltar um supermercado? - alguém estava passando do outro lado da janela e segurou a mão de , puxando-a em direção à porta. Palmer parou de andar e fitou os dois, mascando seu chiclete. soltou a mão de e foi para perto de Palmer, lançando-lhe um olhar canalha em excesso. Mas a ruiva se rendeu aos seus encantos e aproximou-se mais, passando um dos braços pelo ombro dele, depositando alguns beijos pelo seu rosto. Os dois olharam para - que olhava para os lados, temendo qual seria a ideia brilhante do homem - e depois se entreolharam de uma maneira que apenas pessoas que compartilham de muita intimidade têm coragem.
Palmer aproximou seus lábios dos de e os dois se beijaram brevemente, mas ele a afastou, segurando suas mãos.
- Já sei, você quer me pedir alguma coisa. Provavelmente uma coleira para o seu novo bichinho de estimação.
- Se disser isso de novo... - não permitiu que continuasse com a ameaça. Foi para perto dela e apoiou uma mão em suas costas, empurrando o corpo da moça em direção a Palmer, que a olhava com cara de mosca morta.
- Palmer, dê um jeito na nossa convidada. E, por favor, deixe as pernas dela descobertas. - a ruiva concordou de má vontade e estendeu a mão para , que a segurou com mais má vontade ainda, olhando brava para .
- Vem, mascote, vamos ver quais tralhas você tem naquela mala e misturar com as minhas roupas, ver se conseguimos algo satisfatório.
- ... - o chamou, enquanto Palmer tentava puxá-la em direção aos quartos.
- Garota, você vai ser uma mulher em breve. - e com o sorriso de galã de Hollywood, ele deu as costas para ela. perdeu a linha de pensamento nas costas dele, até que quase esbarrou em uma parede, tamanha a velocidade que Palmer a puxava.
Capítulo 4 Driving In Cars With Boys
(Coloque Cigarette Smoke do Arctic Monkeys para carregar e espere o aviso para dar play!)
estava afastado dos outros homens, preferia a solidão quando a necessidade pela nicotina falava mais alto. Observava a enorme porta de aço ao longe, perguntando-se quando ela finalmente abriria. Ele estava vestido como sempre, o terno de cor escura. Aliás, se homens vestirem terno 365 vezes ao ano, continuarão sedutores e tentadores como se fosse a primeira vez. E o chapéu preto, como de praxe, em sua cabeça. Os outros caras permaneciam parados perto de um Aston Martin vermelho, conversando e rindo entre si. Como já era noite, os vários postes de luz foram acionados.
- Onde está a garota do ? - James começou a provocar, aproximando-se um pouco de , que apenas bufou e jogou o cigarro no chão, pisando em cima e caminhando em direção à porta.
- Ela não é a minha garota, James. - respondeu seco. Jonathan olhou em seu relógio de pulso, enquanto Dean já estava dentro do automóvel. Rupert escolheu não se juntar, talvez fosse reservado demais para isso. Os outros nem sabiam por que ele continuava a ser membro da equipe.
- Bullshit, ... - Jonathan começou, sorrindo maliciosamente. - Até agora você ganhou todas que quis, por que decidiu mudar a estratégia com essa? - o sotaque inglês era marcante na voz de Jonathan, assim como algumas curtas mechas do cabelo ruivo que escapavam pelo chapéu.
- Olha só, parece que a Cinderela finalmente está pronta para o baile. - Dean alertou e o restante dos homens só foi entender do que ele falava quando se viraram e notaram que a porta se abria lentamente. Do lado de dentro, duas silhuetas femininas foram surgindo em meio a leve escuridão do jardim. Os quatro congelaram feito estátuas, apreciando as duas mulheres que se aproximavam. Primeiro surgiu Palmer, que sorriu alegremente para todos eles, segurando um chapéu preto em mãos.
- Eu gosto de fazer tudo de maneira bem feita. - ela comentou, trocando um olhar significativo com .
- É, Palmer, eu sei bem disso. - ele respondeu à altura enquanto os outros três riam com muita malícia. Mas todos calaram a boca quando a luz dos postes revelou a identidade da segunda mulher. Como ironia do destino, um leve vento surgiu ao redor, brincando com os cabelos soltos de . Ela parou de andar, com uma mão segurando sua cintura. O olhar baixo, mas apenas por segundos, já que logo ela fez questão de levantá-lo. Seus olhos estavam maquiados no estilo “olhos de gato” e um batom vermelho cobria seus lábios levemente cheios. Os fios dos cabelos compridos caíam pelos ombros e cobriam algumas partes da jaqueta de couro vermelha que usava. Uma blusa preta com decote, que deixava um pedaço de sua barriga à mostra, estava por baixo, juntamente com um tipo de cinta-liga que ficava apenas em um dos lados de seu corpo. Dava uma volta em sua barriga e descia até um pedaço de sua coxa, ficando visível devido à saia preta e curta que usava. Nós pés, saltos altos e vermelhos.
A mulher cruzou os braços, timidez não existia em seu mundo naquele momento, ela não se importava por estar sendo olhada daquela maneira, nenhum mísero pêlo de seu corpo se eriçou. Trocou um olhar vazio com e deu alguns passos em sua direção, simplesmente para deixar que ele apreciasse melhor o belo trabalho de Palmer. Essa, por sua vez, estendeu o chapéu que segurava para , que o pegou imediatamente e levou até sua cabeça.
- Ao que parece, acham que você é quase digna de usar um desse também. - Palmer deu as costas para todos e já caminhava para dentro. - Divirta-se enquanto pode, vadiazinha. - ela disse baixinho, virando o pescoço apenas para observá-los uma última vez antes de voltar a entrar na mansão e as portas se fecharem.
- Gostei da roupa, gatinha do . - Dean começou, de bom humor. já gostava dele, tinha um ar cômico que a fazia sentir vontade de rir. Sua presença não era desconfortável como a de James. E, Jonathan... Ela ainda não havia decidido o que pensava dele.
- Por que os homens elogiam as roupas quando, na verdade, querem o que elas estão escondendo? - disse e riu, virando o pescoço para olhar para as pernas da mulher enquanto ela se afastava.
- Não, , nós não vamos com eles. - a chamou com o dedo, apontando para o seu Rolls Royce estacionado ao lado. - Podem ir, nos encontramos mais tarde naquele lugar. Preciso resolver alguns assuntos com a senhorita aqui primeiro. - James já estava dentro do carro, provavelmente armando um jeito de tornar aquela noite longa. Logo o Aston Martin já tinha deixado o lugar, as rodas provocando um barulho estridente.
se encostou em um dos lados do carro de e cruzou os braços.
- Resolver alguns assuntos? - questionou e ele parou de frente para ela, segurando a mão da mulher e a levando até dentro de seu paletó. sentiu um objeto afiado ali dentro e logo constatou que se tratava de sua faca. - Me devolve ela agora, . Vou pedir com carinho pela última vez. - afastou a mão de do lugar e não disse nada, apenas negou com a cabeça. - Estou falando sério, não sou eu mesma sem essa faca.
- Então seja outra pessoa, não tem problema. - ele deu a volta no carro. entrou também, sem esperar por um gesto de cavalheirismo, não fazia muita questão disso.
Quando os dois estavam dentro do carro, ele a olhou em silêncio novamente e permaneceu daquele jeito por um tempo. Isso a irritou, é claro.
- O que foi? - perguntou com a voz impaciente, ajeitando seu chapéu.
- Posso confiar em você? - a voz masculina soou pelo interior do carro. A mulher olhou para a janela, observando o lado de fora, e depois o olhar voltou para dentro do carro. Primeiro fitou suas pernas descaradamente descobertas e depois o rosto do homem, que procurava por uma resposta nos lábios atraentes de . Ela inclinou o corpo e se aproximou dele, como se quisesse compartilhar um segredo.
- Não. - sussurrou, voltando à posição anterior.
- Vou arriscar mesmo assim.
- Então, para onde vamos?
- Para um dos meus lugares favoritos. - o semblante de ficou brando e feliz quando disse.
- Por favor, diga que não é um bordel. - ele ignorou as palavras de e ligeiramente tirou os dois dali, colocando seu carro para funcionar de maneira potente.
Ela tremia! Onde diabos estava com a cabeça quando aceitou vestir metade da metade de uma saia? olhou para ela, prestes a perguntar se estava com algum problema, mas mandou o frio para o inferno e abriu a porta do carro, saindo rapidamente e fitando a fachada do que lhe aparentava ser um simples restaurante. Só poderia ser uma piada de muitíssimo mau gosto. Como seria possível que um homem que levava a vida de teria um lugar como aquele sendo seu favorito?
Só então ela percebeu que o ser um tanto quanto mais alto que ela estava parado ao seu lado. Os dois caminharam pela calçada de uma rua com pouca iluminação e pouco movimento. Ele abriu a porta de vidro para ela entrar, despertando uma campainha irritante que fez com que todas as pessoas que estavam dentro do pequeno restaurante olhassem para os dois. Alguns grandalhões com cabelos longos presos em rabos de cavalo olhavam indiscretamente para , enquanto palavras de baixo calão escapavam pelas bocas cheias de cerveja.
- Ok, , onde estão as câmeras? Fala sério, aquilo é um Jukebox? - ela apontou incrédula para o aparelho. O chão do lugar era de madeira, as toalhas das mesas quadriculadas e qualquer ser que não fosse ela ou parecia um simples caipira com péssimos modos. - Esse não pode ser o seu lugar favorito.
- O que foi que eu lhe disse mais cedo sobre julgar o que não conhece? Vem comigo! - contrariada, o seguiu, os saltos de seus sapatos travavam uma luta com o chão de madeira, que fazia questão de entregar a todos a direção para onde ela se movia. Atravessaram uma porta estilo faroeste e mais à frente duas mulheres se encontravam atrás de um largo balcão de madeira escura e resistente. Elas não pareciam fazer parte daquele lugar, já que suas vestes eram apresentáveis demais. caminhou à frente de , esquecendo-se da mesma por um tempo e indo ao encontro das duas. Elas sorriram assim que notaram sua presença e percebeu que uma já estava com um estranho cartão dourado em mãos.
- Senhoritas, como estão? - ele perguntou, sorrindo da maneira mais marota de que era capaz. preferiu ficar atrás, batendo um dos saltos de seu sapato vermelho contra o chão. - Hoje não estou sozinho, então seria bom se vocês liberassem mais um desses.
E logo o homem se aproximava de com dois daqueles cartões dourados.
- O que é isso? O convite dourado do Willy Wonka? - ela franziu o cenho e ele, já acostumado com o jeito petulante da mulher, nada fez, apenas sugeriu com o olhar que ela deveria acompanhá-lo ao restante daquele passeio entediante. Após passarem por outra porta, a decoração do ambiente havia mudado da água para o vinho. Um corredor de paredes vermelhas e chão preto os recebia e, ao final, quatro portas com as numerações de 1 a 4 foram notadas. A curiosidade de se revelava cada vez mais aguçada. entregou um dos cartões para ela e se colocou de frente para uma das portas.
- Toda aquela porcaria que você viu é só um disfarce, . Nunca teve um disfarce? Acredite, nada nunca é como você está enxergando. - ela parou de frente para a porta ao lado e repetiu os movimentos do homem, passando a cartão por um compartimento especial. Duas das portas se abriram e um ar gelado os recebeu. Luzes fracas e de tons escuros rodeavam as paredes do extenso esconderijo por trás das portas. - E agora você vai entender porque eu disse que é meu lugar favorito.
colocou seus pés para dentro e virou o corpo bruscamente quando as portas se fecharam no mesmo segundo. lhe disse que estava tudo bem e os dois continuaram o percurso. Várias aberturas apontadas para diversos lados encheram os olhos da mulher, que agradeceu mentalmente por não ser claustrofóbica.
- Isso é um labirinto? - ela perguntou para Damian, mais adiante.
- É um labirinto, de fato. Mas para conseguir sair, você precisa provar que realmente faz parte desse mundo.
Uma luz forte e vermelha piscou e a abertura que pensava em cruzar se fechou. Um painel eletrônico surgiu na parede ao lado e o que a mulher entendeu por ser um grande cofre de cobre se materializou bem em sua frente.
- Deixe-me adivinhar. - ela sorriu. - Temos que abrir esse cofre, não é? - a mulher já o verificava. Não seria tão difícil.
- Pelo visto, você sabe lidar com isso, certo? Ok, as damas primeiro. - encostou-se à parede, deixando todo o serviço para , que o olhou presunçosa, prestando atenção nos compartimentos do cofre, com os olhos espertos procurando por alguma surpresa inesperada que poderia lhe dar um choque, ou coisa pior. Levou a palma da mão até uma tela magnética acima do painel e apertou os dedos no local, identificando um barulho que ecoou através das paredes. A luz vermelha voltou a piscar. a assistiu sem piscar os olhos. Ela repetiu aquele processo e digitou uma sequência rápida de três números, dando uma leve pancada na lateral, digitando mais três números e puxando um fio lateral que não passou despercebido. Como um cientista mergulhado até a cabeça em um de seus experimentos, ela continuou a lutar contra o cofre, que foi cedendo aos poucos. O anúncio de três tentativas foi exibido no painel e então apertou apenas o número “6”, olhando sabiamente para a abertura que instantaneamente se abriu. O ar gélido levou seus cabelos para trás e se aproximou maravilhado.
- Onde foi que você aprendeu a fazer isso? - o homem sorria abertamente, empolgado ao extremo.
- Quando estiver morto e enterrado, continuará esperando por essa resposta. - atravessou a espécie de porta, a seguiu e a que estava atrás se fechou, deixando os dois na total escuridão. Ela ouviu a respiração regular de e sentiu o coração bater mais forte por um momento. Recuou para trás quando sentiu o rosto do homem extremamente próximo do seu e então duas luzes esverdeados surgiram nas laterais.
A segunda etapa daquele labirinto consistia em violar a fechadura de uma porta, cujo um eficaz cadeado fazia sua proteção. foi rápido, movia-se de maneira que perderia algum dos movimentos se apenas piscasse. A terceira porta se abriu e os dois se apresentaram para a próxima missão.
- Essa aqui é a pior, mas também a mais divertida! - a avisou, indo até o canto do que parecia uma enorme caixa, luzes brancas marcavam as paredes com diversos quadrados. Dois pares de algemas pendurados em cada lado dessas paredes. se prendeu em um dos pares, sugerindo, com um aceno de cabeça, que fizesse o mesmo. - O que foi, amor, tem pânico de algemas?
- Só acho injusto dar-lhe o prazer de me ver algemada. - ela acabou fazendo o mesmo, algemando-se e ficando frente a frente com . o olhou brevemente e depois olhou para o teto preto. Notou que o ar gelado escapava de algum jeito, dando lugar a um totalmente quente. Estava prestes a se sentir dentro de uma sauna. Calor, muito calor.
- Entende por que é a minha favorita? Você está algemada e em instantes o suor vai estar presente em sua pele, . Agora, me diga: o que isso é capaz de fazer com a imaginação de um pobre homem?
- Menos palavreado, mais ação. Vamos abrir essas coisas ou eu vou derreter. - encostou-se à parede e começou a esfregar ambas as algemas, uma expressão de descontentamento se formava em seu rosto. riu, ignorando o calor, ria dela. - Qual é a graça, idiota?
- Não é assim que você vai conseguir se soltar. Vamos, tenha mais criatividade. - ela o mandou calar a boca e continuou a roçar uma algema na outra, sabendo que a parte de suas fechaduras estava uma de encontro à outra.
Pegando-a de surpresa, uma porta lateral se abriu e um homem e uma mulher surgiram. A mulher parou na frente de e o homem parou em sua frente. sorriu malicioso ao fitar a lingerie vermelha e ergueu as sobrancelhas quando desceu o olhar e analisou a boxer preta do ser exageradamente forte.
- ... - ela o chamou. - Eu usei minha criatividade, mas ela anda um pouco poluída esses dias. Então, eu espero que nós não tenhamos de fazer o que eu estou imaginando e...
- É exatamente isso, . Mas eu não quero esses dois intrusos nos olhando, não acho que outras pessoas tenham o direito de olhar para você enquanto estiver se contorcendo em meus braços. - soltava as palavras enquanto olhava intensamente para a mulher da lingerie. sentiu seu estômago revirar e o olhou com os olhos arregalados. - Vamos, vamos lá... Não quer sentir os meus dedos deslizando para dentro de você? Não quer sentir meus dentes ferozes segurarem os bicos eretos dos seus seios? É claro que você quer. Mas esteja preparada, porque eu não sou um homem que enxerga limitações. Ir além faz parte de mim, . Eu quero...
- Ei! Eu sugiro que você segure essa língua... - ameaçou, cortando totalmente um clima que, na verdade, não existia, e o cara com boxer continuava parado à sua frente. Como conseguiria olhar de novo para depois de ouvir tudo aquilo? Algum tipo de droga circulava junto com aquele ar quente? Era a única explicação.
- , será que você não percebeu que nós só vamos sair daqui quando convencermos esses dois de que sabemos usar de nossa malícia?
- E qual é o maldito propósito disso? - ela perguntou furiosa.
- Pergunte para quem criou esse labirinto, garota. Anda, diga alguma coisa, se suje um pouco, você vai nos tirar daqui. - ele inclinou o pescoço e a olhou de longe, atraindo sua atenção. - Seja criativa, por favor.
estava incrédula. Não constrangida, mas incrédula. Colocou sua mente para trabalhar rapidamente. Ela era capaz de falar algumas sacanagens, qual era o grande problema disso?
“Que se dane!” ela pensou.
- , tão seguro de si. - a voz da mulher se tornou mais baixa, sedutora, por assim dizer. - Mas será que essa segurança vai continuar existindo quando sua linha de pensamento se esvair ao perceber o quão quente é o meu interior? Será que vai ser capaz de recuperar a sanidade depois que sentir meus quadris se movimentando de um lado para o outro, enquanto os segura ferozmente com suas mãos que já tremem excessivamente? E tem mais... Depois farei questão de permitir que você prove do que a minha boca é capaz.
Por fim, as algemas foram soltas. Os dois retardavam o momento em que trocariam um olhar ou outro. As pernas de estavam bambas e ela sentiu vontade de xingar os céus e a humanidade. a olhou primeiro, começando a rir descaradamente. Logo ela o acompanhou.
- Bom trabalho, , eu quase acreditei em tudo aquilo. - eles passaram pela última porta. Felizmente, o ar frio voltou.
- Não é hora para sonhar, bonitinho! Que palhaçada foi aquela? Por que não colocar uma mini roleta russa ali? Bem mais aproveitável! - livrou-se de seu chapéu, segurando-o e fitando uma pequena bandeja metálica pendurada em uma parede vermelha. Vários copos com um líquido verde fluorescente os aguardavam.
- Última parte e, então, estamos livres! - pegou um dos pequenos copos, já pronto para virá-lo.
- Espera, espera... O que tem nisso aí? É algum tipo de afrodisíaco sinistro? A substância mortal que a madrasta colocou na maça da Branca de Neve?
“Não, ela não está citando um conto de fadas durante essa conversa!” Foi o que ele pensou.
- Até hoje ninguém sabe, mas eu já bebi várias vezes e continuo vivo, então... Ah, só um conselho: não faça careta quando descer pela garganta, tem câmeras aqui e, se você é forte, não se deixa abater por uma simples bebida.
- Tudo bem, que seja. - pegou outro copo e o virou sem cerimônias. As paredes laterais de sua face queimaram instantaneamente. Ela e o homem se entreolharam e ele também tentava se manter inexpressivo. poderia jurar que o conteúdo do que bebeu tinha pimenta e alguma mistura de bebidas bem fortes. Sua garganta estava em chamas.
Porém, logo a sensação ruim foi embora e ambos respiraram aliviados quando as portas finais se abriram e um bar maravilhosamente grande os recebeu com todas as suas luzes, uma decoração de encher os olhos.
- Tem estrutura para o resto da noite, ? - ajeitou seu chapéu. Ele já estava acostumado com toda aquela aventura, mas repeti-la nunca seria demais.
- Sério mesmo que eu ia morrer sem saber da existência disso aqui? - questionou maravilhada. Estava sentindo a adrenalina em seu sistema e era disso que mais gostava.
O ambiente amplo era marcado por luzes nos tons de azul e cinza, proporcionando um clima relaxante e, ainda assim, misterioso. Várias mesas de sinuca colocadas de um lado, onde várias pessoas jogavam e conversavam em voz alta. O chão contava com pisos quadriculados em preto e branco. Nas paredes, diversos quadros gigantescos com a imagem de legítimas lendas, tais como: Marilyn Monroe, Elvis Presley, Frank Sinatra, Freddie Mercury, Michael Jackson e David Bowie.
O balcão do bar era extenso, feito em um tipo de vidro avermelhado. Várias garrafas de bebidas colocadas em prateleiras de cristal com compartimentos especiais, luzes de cores diferentes as iluminavam.
foi notado no lugar. A cada simples passo que ousava dar, mais olhos se prendiam em seu corpo, prendendo-se consequentemente no de também. Nem de longe eram semelhantes aos caipiras da entrada; quase todas as mulheres vestiam algo semelhante à roupa de ; os homens optavam por ternos ou roupas sociais com o auxilio de suspensório. Mesas mais afastadas para aqueles que gostavam de privacidade se encontravam nos fundos, onde percebeu que alguns grupos começaram com burburinhos assim que notaram a presença dos dois.
- Acho que você finalmente solucionou o grande mistério. Agora concorda que esse é um lugar incrível? - parou no balcão, escolhendo o que iria pedir. encostou-se ao mesmo, ainda atônita com o que seus olhos brilhantes contemplavam.
- Pois é, você me surpreendeu. Gostei tanto disso aqui, que sou capaz de subir em uma daquelas mesas de sinuca, fazer um taco de microfone e cantar “Man! I Feel Like a Woman” - apontava na direção das mesas, divertindo .
- O que você quer beber? - a moça pensou por um tempo, olhando para o rosto de e depois para as diversas garrafas coloridas.
- Vamos começar com Martini e talvez depois, se você aguentar, pedimos Absinto. - o barman se aproximou.
- Você não sabe o que eu consigo aguentar, . - pediu dois Martini's e assim que estavam prontos, segurou os dois e chamou para ir até as mesas de sinuca.
Ela voltou a colocar seu chapéu, acostumando-se a ser olhada como se fosse uma celebridade. Com por perto, ela até conseguia se sentir assim mesmo. Depois que tomaram suas bebidas em silêncio, ambos pegaram um taco e se prepararam para começar um jogo casual, porém, teve uma ideia.
- Se eu acertar, você me diz algo sobre você; se eu errar, direi algo sobre mim.
- Fechado! - ela ergueu um pouco o taco e mirou em como se fosse uma arma, ele fez o mesmo e os dois fingiram rapidamente que se tratava de duas espadas. Comportavam-se como dois velhos amigos... Como isso era possível?
posicionou-se corretamente e mirou a ponta do taco em uma bola de cor amarela, atingindo-a em cheio, lançando-a com maestria para dentro de um dos buracos.
- Quantos anos você tem, garota? - ele encostou-se à borda da mesa e a olhou instigante. soltou um risinho pela pergunta.
Uma música envolvente começou a tocar.
Ela não conseguiu se segurar, movimentou os quadris lentamente, seguindo o ritmo da música. Segurou o taco com os dois braços e o apoiou em seus ombros, apenas fazendo charme. se perguntava se ela estava agindo naturalmente ou se segundas intenções estariam sendo demonstradas através do seu insinuante jeito de se mover.
- Tenho 23. - disse, virando um pouco o corpo e aproveitando mais a música. Ele arregalou os olhos de cor bonita e riu, como se ela estivesse contando uma piada.
- Pare de mentir.
- Falo sério, estou nessa merda de mundo há exatos 23 anos. - suspirou derrotado, coçando os pequenos pontos de sua barba.
- Eu passei todo esse tempo te chamando de garota... E pensar que nós temos a mesma idade!
- O quê? Você, com esse jeitão de todo poderoso, tem apenas 23 anos? Não brinca! E eu achando que se tratava de um homem experimente, com os seus 30 e poucos anos. Você fez minha noite com essa revelação, garoto.
- Experiência não tem nada a ver com idade. Não em alguns casos. - e quando ela achava que conseguiria deixá-lo calado por um tempo, lá estava mostrando que tinha sempre uma reposta na ponta da língua.
- Meu Deus, como eu adoro essa música! - desconversou, ainda perdida na batida deliciosa da melodia que ainda continuava a tocar. - Are you the fishy wine that will give me a headache in the morning? - cantou, tornando o tom de sua voz levemente rouco de propósito. Olhava-o nos olhos enquanto fazia isso.
E o jogo continuou, assim como as bebidas.
- Conspirando sem a minha presença? - Palmer comentou, entrando na sala de Helena. A mulher de cabelos azulados e Rupert a olharam. Palmer puxou uma cadeira e, sem pedir permissão para sua superior, largou o corpo na mesma, cruzando as pernas e colocando um dos cotovelos na mesa, segurando seu queixo com a mão.
- Eu acabei de chegar aqui, Palmer. - Rupert disse em um tom baixo, tinha um pedaço de tecido enrolado em uma das mãos. Palmer notou que era semelhante ao que ela também segurava. Encarou Helena, como quem pede por explicações.
- Trouxeram o que eu pedi? - os dois concordaram prontamente e se levantaram, indo até Helena e entregando-lhe os dois tecidos enrolados. A mulher escolheu o primeiro, que era maior, e o abriu, segurando com todo o cuidado do mundo o longo fio de cabelo que seus olhos custavam a enxergar. Pegou um recipiente transparente e retangular e colocou o fio em seu interior, fechando-o. Pegou o segundo tecido, dessa vez tomando ainda mais cuidado pelo fato do fio ser de tamanho muito inferior ao primeiro. Guardou em outro recipiente e os colocou dentro do bolso de seu casaco preto, levantando-se e passando por Palmer e Rupert.
- Como conseguiu um fio de cabelo do ? - Palmer perguntou para o loiro, que sorriu brevemente.
- Ser quieto e invisível tem lá suas vantagens. E você, como conseguiu?
- A protegida do deixou que eu penteasse o cabelo dela... Foi bem fácil. Mas para o que diabos a Helena quer fios de cabelo dos dois? - perguntou, fingindo um tom curioso, percebendo que os passos dos saltos de Helena se aproximavam mais uma vez. Ela e o rapaz decidiram sair dali.
- É uma boa pergunta.
Mal sabiam eles que Beverly os espionava embaixo da mesa.
O Rolls Royce cinza estacionou próximo a grandes grades, do lado de dentro enxergou várias paredes grafitadas e portas de correr em tons de cinza e marrom. Sem esperar por e ignorando o nível mediano de álcool em seu sangue, ela saiu do carro e observou uma gigantesca pista de corrida repleta de curvas e elevações. Ouviu outro carro se aproximar e logo o Aston Martin vermelho parou ao lado. saiu do carro e recebeu os outros com um aceno de cabeça. Jonathan, James e Dean se revelaram. O céu estava agitado, provavelmente choveria mais tarde.
- É agora que a diversão de verdade começa, . - sorriu e colocou seu chapéu, a mulher sentia uma energia estranha no ar. Uma mistura de perigo com aventura. Seguiu os caras, descendo uma rampa de concreto com dificuldade devido aos seus saltos. percebeu e a esperou pacientemente, segurando seu braço como um cavalheiro e ajudando a mulher a descer, mas ela logo dispensou sua ajuda e se virou sozinha.
- Eles já deveriam estar aqui. - James disse, com sua postura de líder, um passo à frente dos outros. Ele e trocaram um olhar carregado.
- E o carro, ? Vai correr com o RR? Péssima escolha! - Jonathan comentou, olhando para a longa extensão da pista e observando que uma pequena multidão de pessoas se aproximava. O barulho feroz de algum poderoso automóvel se aproximava também.
- Relaxa, Jon, essa mania de ter pressa ainda vai te matar! - lhe disse, passando por James e ficando no meio da pista. Fitou as portas de correr que estavam do outro lado e sorriu maquiavélico. permanecia encostada no carro de , perto de Dean, que tentava contar alguma piada sem sentido. - ESTAMOS PRONTOS, MAS, PELO VISTO, VOCÊS NÃO ESTÃO! - berrou. Bastaram poucos segundos para que uma das portas se abrisse rapidamente, sendo empurrada pelas mãos de um grupo de pessoas que pararam e se colocaram em uma posição superior, encarando e o resto de sua equipe.
- Olá, . - um deles disse. Seu visual era mais do que excêntrico. Os cabelos castanhos espetados para cima, um óculos de lentes avermelhadas e uma jaqueta de um tom parecido, com uma camiseta azul por baixo. Era bem alto, aparentemente forte.
“É o Tyler Durden¹ dentro do clipe de Beat It²!” Foi o que Laurie pensou ao esconder um riso.
Os outros três que estavam com ele se tratavam de um homem com os cabelos curtos e descoloridos, cujo rosto possuía várias marcas permanentes de queimadura, vestido tão excentricamente quanto o primeiro. O próximo tinha a pele bem morena, uma bandana vermelha amarrada em sua cabeça e uma tatuagem de dragão em um dos braços descobertos devido à regata preta que usava. O quarto indivíduo era uma garota oriental e com o que aparentava ser um uniforme de colégio no corpo. Os cabelos escuros e na altura da cintura contavam com mechas de um tom rosado.
- Ronnie. - disse apenas, com o rosto erguido, não escondendo seus olhos com a aba do chapéu. O ser de óculos vermelhos se aproximou dele, com um sorrisinho brincando no canto de seus lábios. Parou frente a frente com e lhe estendeu a mão, mas quando percebeu que não estava interessado no cumprimento, abaixou-a e olhou além de , encontrando uma que já havia se desencostado do carro e fitava Ronnie seriamente.
- Mas veja só, parece que hoje trouxe carne fresca. - continuou do mesmo jeito, por mais que o homem se aproximasse em tempo recorde. Olhou em seus olhos e sentiu uma mecha de seu cabelo ir parar em seu rosto devido a uma corrente de vento que passava pelo local. Ronnie ergueu a mão para retirar a mecha dali, mas segurou seu braço com rapidez, empurrando-o para longe.
- É uma pena que você não terá direito a um pedaço... - olhou para a garota oriental, que parecia assustada. - Se contente com a carne habitual, a velha. Da nova você sentirá apenas o cheiro. - sorriu orgulhoso ouvindo tudo aquilo. Ronnie imitou um barulho semelhante a um miado agudo de um gato e se afastou da mulher, voltando a ficar próximo de sua gangue. - Quem são eles? - perguntou discretamente para Dean.
- Uma gangue ridícula, eles pensam que dominam essa região. Costumamos vir aqui e brigar um pouquinho, se é que me entende.
- Ah, eu entendo. - ela assustou-se quando os faróis de um carro atrás de si se acenderam e correu para o lado, olhando com os olhos arregalados um Jaguar prateado ser estacionado com violência em uma distância próxima. A multidão que descia a rampa já tinha se aproximado mais. - E pelo visto vocês têm até platéia, huh?
Ronnie arrancou suspiros quando foi para o outro lado e voltou com um Lamborghini amarelo. foi até o Jaguar e apenas recebeu um tapinha nas costas do homem que o dirigia antes, assumindo o controle do mesmo. Olhou para , apontando para ela com o dedo. Mas a mulher analisou toda aquela situação com o coração acelerado, tentada a fazer uma coisa. Não queria ficar apenas assistindo, é claro que não. Quando olhava para , sentia a estranha necessidade de provocá-lo. Ela olhou para Ronnie, que estava encostado em seu veículo amarelo, e Jonathan parou ao seu lado, provavelmente sacando as intenções da mulher.
- Pelo visto a gatinha do quer brigar hoje. - ele disse e ela ignorou seu sotaque, olhando interessada para a pista.
- Como essa corrida funciona?
- Bom, essa pista é muito grande e daqui a pouco um outro carro vai surgir. Todas as pessoas que você vê ali estão divididas. Umas torcem para nós, e as outras para o circo de horrores, como eu gosto de chamá-los. Enfim, o carro que vai chegar está carregado com diversas coisas que podem interessar a qualquer um. Dinheiro, armas, jóias caríssimas, drogas... Os dois competidores vão perseguir esse carro e o que o alcançar primeiro fica com tudo. Nós sempre damos as drogas e as jóias para os nossos fãs, fazemos mais questão do resto.
- e o tal Ronnie sempre competem?
- Sim, sempre. Uma vez quase se mataram nessa pista, onde você acha que ele conseguiu aquela cicatriz horrenda no supercílio? - virou o rosto para olhar Ronnie e, já que o homem havia tirado os óculos, pôde notar a cicatriz. Jonathan ficou na frente de , olhando-a nos olhos. - é um cavalheiro? Sim, ele é. Mas só com quem ele quer ser. Agora, com quem ele não quer... - o ruivo torceu os lábios com uma expressão malvada. respirou fundo e se afastou, caminhando até Ronnie, que se surpreendeu ao vê-la.
- Mudou de ideia? - ele lhe disse, olhando as pernas descobertas da mulher.
- Quero correr no seu lugar, contra ele. - ela apontou para o Jaguar de do outro lado. Ronnie mordeu o interior de sua bochecha e uniu as sobrancelhas, olhando para sua gangue e sorrindo. Estendeu a chave no ar e fez que ia entregá-la para , afastando-a depois.
Os homens de chapéu olharam incrédulos para a mulher. arregalou os olhos e saiu do carro em fúria, dando passos pesados até e Ronnie.
- Sua carne fresca quer mudar de dono, ! - Ronnie zombou.
- ... - começou, mas ela ficou bem próxima dele e espalmou uma das mãos no peitoral coberto pela camisa branca. Sorriu e passou a língua nos lábios antes de falar.
- Eu quero competir com você, o que há de errado nisso? Não quer perder para uma mulher?
- Não vou perder para ninguém! - ele disse friamente, olhando Ronnie como se fosse matá-lo a qualquer momento e então se afastou. - Você pediu, . - piscou para e estendeu a mão para Ronnie, esperando pela chave de seu precioso carro.
- É todo seu... Se perder, eu mato você. - ela segurou a chave, ignorando as ameaças e entrando no carro. Fechou a porta e tentou se habituar a aquele painel e a tecnologia presente no interior do carro. Um rock anos oitenta tocava. inclinou seu chapéu para o lado e olhou para o Lamborghini que já se dirigia para a área onde o carro de recompensa os esperava com o motor ligado. A generosa platéia vibrava. Ronnie e sua gangue se colocaram em um dos lados da pista, olhando com rivalidade para a equipe de , parada do outro lado.
observava tudo através da janela e segurava com voracidade o volante. Livrou os pés daqueles sapatos e os aproximou do acelerador. Fitou o painel e já conseguia enxergar o medidor de velocidade pirando completamente. Ela sentiu seu corpo inteiro arrepiar-se quando o Jaguar parou ao seu lado, apenas separados por uma curta distância onde uma garota com pouquíssima roupa caminhou até parar na frente de ambos.
(Play!)
e se olharam através das janelas e uma corrente elétrica pareceu surgir entre ambos.
O sinal foi dado, uma bandeira de um laranja gritante foi abaixada, a platéia gritou. O carro que estava à frente saiu cantando pneus, deixando os outros dois para trás. Uma chuva forte e repentina se iniciava.
Ignorando as gotas de água que já cobriam os vidros, deu a partida e acelerou, ouvindo o motor roncar com uma enorme potência, assim como as rodas que produziram um barulho ensurdecedor. O carro ao seu lado lhe passou com fúria, apenas como um vulto amarelado. olhava para a pista a sua frente com os olhos escuros, sua expressão lembrava a de uma psicopata. Seus dedos logo estariam dormentes pela força que depositava ao segurar o volante. Pelo retrovisor ela enxergou o carro de e sorriu convencida, pisando com o pé descalço no acelerador mais uma vez.
Ambos os carros viraram a primeira curva, sentindo as conseqüências da chuva quando ambos pareciam prestes a escorregar na pista. O medidor de velocidade de era frenético, as rodas cromadas arrancavam faíscas pelo chão, que se encontravam com a água e produziam uma espécie de fumaça que cercava todo o local. Ele não permitiria que aquela garota ganhasse, não mesmo. Sentindo o coração na boca e a adrenalina funcionando como um poderoso combustível para seu corpo, bateu com força na traseira do Lamborghini, fazendo com que o corpo de fosse violentamente para frente devido ao impulso provocado. Ela o xingou de todos os nomes que vieram em sua mente e puxou o freio bruscamente ao notar que a primeira inclinação da pista havia chegado. passou perfeitamente por ela, ficando bem mais à frente. A raiva borbulhava por dentro, obrigando-a a voltar a acelerar e correr atrás do outro carro como se sua lamentável vida dependesse disso. A pista estava cada vez mais escorregadia, mas ela não dava a mínima. Jurou ter visto fogo se formar nas rodas do carro de .
- Vai, vai, vai... VAI! - os olhos aflitos fitavam o medidor de velocidade, que já desistia de acompanhar toda aquela loucura. Alcançando o carro de , ela sorriu malvada e jogou o seu de encontro ao dele, que foi empurrado violentamente para o lado, derrapando em mais uma curva.
- PORRA! - ouviu esbravejar, gargalhando o mais alto que conseguia. Feliz por tê-lo ultrapassado, ela se focou no freio outra vez quando uma enorme poça de água surgiu, o encontro das rodas com a mesma fez com que o Lamborghini perdesse o controle, derrapasse, deslizasse e fosse para o caminho da saída da pista. Em pânico, ela inclinou o corpo o máximo que pôde e poderia arrancar o volante do local com as próprias mãos. Ficou tonta quando o automóvel rodopiou três vezes e enfim voltou a se colocar no eixo, driblando uma inclinação ainda maior.
vibrava, enxergando o carro de recompensas e soltando diversos sons com a boca em forma de comemoração. Avistou o carro amarelo se aproximar de novo e fez um som negativo com a boca, colocando rapidamente a cabeça para fora e zombando de , que lhe deu o dedo do meio. Ela ignorou o suor em sua testa e o calor que sentiu por permanecer com a jaqueta, voltando a jogar o carro na direção do de , provocando mais faíscas entre os dois. Com certeza havia danificado muita coisa naquele carro, Ronnie não ficaria tão feliz. Dessa vez, revidou com ainda mais força e assim os dois continuaram, até que o pegou de surpresa e passou sua frente, virando a última curva - a mais perigosa - e passando pela frente do carro de recompensas, bloqueando sua passagem. socou o volante, ouvindo a comemoração e os gritos de revolta da multidão.
gritou em comemoração, abrindo a porta do carro e se esquecendo até de seus sapatos. Levantou os braços e comemorou sozinha, molhando-se totalmente com a chuva. também saiu e a olhou com um misto de emoções. Não estava acostumado a perder.
- Não fique triste, ... - ela começou, colocando os sapatos e acenando para as pessoas que chegavam perto. - A sua gangue ainda é a minha favorita. - aproximou-se do homem e lhe deu um beijo estalado no rosto, tendo a mão segurada quando pensou em se distanciar. O corpo foi puxado rapidamente e ela fechou os olhos, acreditando que ele tomaria mesmo aquela atitude. Já sentia os lábios dele de encontro aos seus antes mesmo de acontecer. Porém...
- Você pediu para conhecer o meu pior lado. Vai ter essa chance a partir de agora. - ele não a beijou, apenas aproximou seus rostos de maneira que as pontas dos narizes roçaram. Ela se soltou e foi de encontro aos outros, que a saudavam como se fosse uma raiva. Ronnie surgiu, olhando com desdém para , fitando os danos em seu carro.
- Sorte a sua, princesa. - disse a .
- Isso não foi sorte, eu não acredito em sorte. Não preciso disso. - lhe respondeu a altura.
se juntou a sua equipe, sendo consolado por tapinhas em suas costas.
- Não seja tão competitivo, ... - Jonathan aconselhou, enquanto os quatro olhavam , que esbanjava alegria.
“Droga, como ela está linda com os cabelos molhados e com aquela roupa ensopada...” não conseguiu evitar de pensar.
- Perder para alguém como ela não tem só um lado ruim. E ela está conosco, não se esqueça. - James riu, contrariado, prestes a começar uma briga com um dos membros da gangue de Ronnie.
- Sim, ela está.
não estava irritado, só... Impressionado.
Ele ignorava as roupas molhadas enquanto manteve o corpo encostado em um muro e fumava tranquilamente um cigarro. Ouviu saltos de encontro com o chão e endireitou seu corpo, soltando a fumaça e sorrindo para a sombra que se aproximava. surgiu com os braços cruzados e uma expressão bem humorada. Encostou-se ao lado dele e ficou brincando com a barra de sua jaqueta.
- Ainda com o orgulho ferido? - perguntou a , que negou com a cabeça e demonstrou indiferença. - Ok, , é o seguinte: eu ganhei a corrida, mas vamos reverter dessa vez... Você tem o direito de escolher algum prêmio. O que quer? - primeiro o homem a olhou sem entender, mas em instantes o olhar intenso e a expressão do canalha que era estavam em seu rosto. não disse mais nada, apenas esperou que ele dissesse o que queria. Tinha em mente que poderia ser algo de grandes proporções, mas era um risco justo a correr.
mordeu os lábios e, sem pensar duas vezes, disse:
- Eu quero sexo com você, assim como muitos por aqui. Mas esse desejo é clichê demais para o momento, então vou pensar em outra coisa e direi em breve. - por fora ela se fingiu de forte e apenas ergueu uma sobrancelha, mas por dentro um estranho desconforto foi notado.
- Existem pessoas sem papas na língua e existe você. - disse, recebendo um dar de ombros de . - Mas é melhor ter calma quando sabe que o caminho é sinuoso... - a ouviu dizer depois de algum tempo, pensando melhor e mudando seus planos.
- Vem aqui, ... - colocou a mão no ombro da mulher e a puxou para um tipo de abraço lateral, abaixando um pouco o rosto para falar perto de seu ouvido. - Sem sexo, como você deve preferir por enquanto, eu imagino. Não vou te levar para a cama até saber seu filme favorito, por exemplo. Então eu quero um beijo em forma de agradecimento por ter salvado sua vida. Duas vezes.
- Duas?
- Eu poderia ter enfiado aquela espada em você, sabia? - recebeu um olhar feio.
- Um beijo?
- Sim. - procurou por algo no corpo de , abaixando o olhar e dando a volta ao seu redor com as mãos na cintura. Riu por dentro ao ter uma ideia e depois voltou a ficar a sua frente.
- Pode me emprestar sua arma? - perguntou calmamente, como se estivesse pedindo um cigarro. negou com a cabeça, estranhando aquele pedido. Ela nem deveria ser tola de perguntar isso a ele, sabia que não teria o que queria. Ele nem conhecia a mulher direito, por que daria sua arma a ela?
- Eu pedi um beijo e não um tiro no peito. - frisou, os olhos bonitos se grudaram nos lábios femininos.
- Anda logo, não vou usá-la contra você. - insistiu, levando a mão até o lado esquerdo de seu peito. - Prometo! Anda, por favor, me empresta sua arma! - tendo em mente que estava com a faca de , decidiu fazer o que ela estava pedindo, mas ficou com os dedos próximos do bolso interno de seu paletó, caso a moça tentasse alguma coisa. Estendeu seu revólver preto para ela, que o segurou sabiamente, analisou-o por um tempo e depois o levou até a boca. O homem deu um passo para trás, os lábios em linha reta e as sobrancelhas unidas. Temeu o que ela estava prestes a fazer.
A língua de passou pelo cano da arma, de maneira lenta. Olhava para ele enquanto continuava com aquele ato estranho, porém ria vez ou outra durante a situação. Guardou sua língua dentro da boca novamente e devolveu a arma para , que a segurou, olhando dela para , mais confuso do que nunca esteve.
- O que foi isso? - perguntou lentamente, com a respiração irregular. balançou a cabeça positivamente, pronta para explicar.
- Agora você pode enfiá-la na boca e fingir que está me beijando! - sorriu sem mostrar os dentes, encolhendo os ombros como se fosse algo óbvio. - Não será muito diferente, , já que a minha saliva está por toda a parte. - ela estendeu apenas um de seus dedos e apontava para o cano da arma, que ainda era segurada de um jeito vago por . Ele olhou para o lado, perguntando-se o que tinha feito para merecer as palhaçadas daquela mulher e se recompôs.
- Vá se foder, garota. - disse, com um sorriso querendo escapar. bateu continência e escutou alguém chamá-la. Afastou-se de , que ficou estagnado olhando para a parte de trás de seu corpo. Abaixou o olhar, fitando sua arma e fechando os olhos, ainda conseguindo ter nitidamente a cena dela deslizando a língua pelo cano. Não deveria estar tendo tantos pensamentos corrompidos, mas queria ter, então que o bom senso fosse para o quinto dos infernos.
- Hey! - levantou o rosto e estava de volta, mas preferindo manter certa distância. - Pulp Fiction. - disse simplesmente.
- O quê? - ela bufou com o raciocínio lento que estava demonstrando naquela noite.
- English, motherfucker, do you speak it? - engrossou propositalmente sua voz ao pronunciar aquela fala. - Pulp Fiction é meu filme favorito. - sorriu esperta, virando-se novamente e começando a caminhar para o outro lado.
- Bom saber. - ele disse, perguntando-se onde tinha deixado a sanidade.
procurava aflita por , um dos membros da equipe ou até mesmo um de seus carros, mas só conseguia encontrar mais e mais daquelas paredes repletas de desenhos desconexos. Sorriu falsamente para algumas pessoas que ainda a cumprimentavam pela vitória de mais cedo e virou uma das curvas da pista, passando por baixo do que parecia ser uma ponte. Escutou alguns resmungos e uma voz masculina soarem, apertando o passo para verificar do que se tratava.
Ronnie pressionava a garota oriental em uma parede, foi capaz de notar que uma das mãos dele estava praticamente dentro da saia xadrez dela. Poderia passar reto e fingir que não tinha notado os dois, mas a garota não estava de acordo com aquilo.
- Ronnie! Para, me deixe em paz... Ronnie, por favor! - ela implorava, tentando empurrá-lo pelo peito.
olhou acima deles, vendo o desenho do planeta Terra dividido em duas metades; um lado da maneira como todos conheciam: bonito, azul e verde; o outro lado era escuro, em chamas, podre. Letras borradas estavam ao lado, com os dizeres:
“Beauty is a curse on the world. It keeps us from seeing who the real monsters are.³”
Ela rolou os olhos, lembrava-se de ter escutado algo parecido em algum seriado de televisão. Caminhou para mais perto das duas pessoas, pigarreando e atraindo a atenção de Ronnie. A garota pareceu respirar aliviada quando percebeu que não estava sozinha com aquele maluco. O homem excêntrico abaixou os óculos para olhar devidamente.
- Deixe a garota em paz, não está vendo que ela não quer nada com você? - disse baixo, quase como um rosnado.
- Vaza daqui! - Ronnie empurrou a garota oriental pelo ombro, que saiu correndo sem medir conseqüências. Ele olhou para a mulher que ainda o encarava e procurou por algo dentro de sua jaqueta. gelou, não estava com arma nenhuma. Por que não podia entregar a droga da faca de uma vez? - Espero, princesa, que você saiba que quando interrompe um homem que está ocupado com uma vadia, deve estar disposta a assumir o papel da mesma. - ajeitou seu cabelo e não fazia nada a não ser encará-lo com asco. Ronnie revelou uma faca de cabo preto, passando-a levemente pelo próprio pescoço, se exibindo. - Ou podemos brincar de algo mais sério, você tem o direito de escolher.
Ela recuou um passo enquanto ele avançava outro. Não havia maneira sensata de ser corajosa naquele momento, ela não estava armada nem com um inofensivo garfo! Não conseguiria correr muito com aqueles saltos e muito menos brigar, já que as roupas eram apertadas e curtas demais. Mas Ronnie não se importava nem um pouco, afinal, bastou dar mais um passo e estava a centímetros de distância de .
- Vá procurar um vagabundo qualquer para atormentar, você não me conhece, não pense que sabe alguma coisa só porque eu usei o seu carro para ganhar aquela corrida. Se encostar essa faca até mesmo no meu dedo mindinho, eu posso cuidar para que você perca a mão e a oportunidade de fazer isso novamente. - permaneceu firme enquanto falava, tinha o dom de esconder qualquer tipo de fraqueza, felizmente.
- Pare de tentar blefar, você não me assusta. Vai chamar quem para te defender? ? Um daqueles idiotas que se sentem os maiores só porque usam chapéus? - Ronnie gargalhou.
- teria te derrotado se não eu assumisse aquele carro, você sabe disso, ele te faria comer poeira!
Ela fechou os olhos em reflexo quando Ronnie levou a faca até seu pescoço. Abriu-os e enxergou apenas um sorriso sacana e as lentes vermelhas. Seus globos oculares mudaram de direção e a estranha sensação na boca do estômago retornou quando ela enxergou caminhar lentamente atrás de Ronnie. Parecia uma aparição, mal produzia barulho qualquer enquanto se movia. A aba do chapéu cobria os olhos, tinha uma faca em mãos.
A faca de .
Ela voltou a olhar para Ronnie, tentando roubar sua atenção e fingiu que estava prestes a chorar, forçando seus olhos a produzirem pelo menos uma lágrima.
- Ele não é diferente de mim, princesa, nós somos mais parecidos do que você imagina. Ninguém presta por aqui, não espere que com ele seja diferente. Vê isso? - Ronnie abaixou um pouco os óculos e lhe mostrou a cicatriz horizontal e alta. - Reze para não ter uma igual um dia desses. era meu amigo e...
Ele parou de falar de repente, olhando nos olhos e caindo de joelhos. levantou o olhar e estava imóvel atrás de Ronnie, segurando a faca banhada por sangue. O homem ferido tentou se segurar na mulher, que acertou o joelho com uma força repentina em seu estômago, acertando o punho em seu rosto em seguida. Quando o corpo de Ronnie tombou para trás, voltou a enfiar a faca em suas costas, só que ainda mais fundo.
Logo o homem caiu morto no chão.
Os dois se olharam da mesma maneira, surpresos. deu alguns passos para o lado e verificou se Ronnie estava mesmo morto. Olhava diversas vezes para e desviava, como se não acreditasse...
- O que foi, ? Duvidava até agora de que eu era capaz de matar alguém? Acha que não tenho alguns nomes em uma lista imaginária? Sim, infelizmente, eu tenho. E não posso esconder a felicidade que sinto por finalmente eliminar esse pedaço de lixo. Nós não éramos amigos! - chutou o rosto de Ronnie, limpando a faca na camiseta azul dele.
- A gangue dele virá atrás de você, sabe disso. - ela avisou.
- É, e eu estou morrendo de medo daquele circo de horrores, como Jonathan diria.
procurou por algum indício de pavor em seu interior, mas não conseguiu encontrar mais nada. Sua ficha também não era limpa, longe disso. Rapidamente se lembrou de Bart, no motel. É, o que tinha acabado de ver não era nada.
- Vamos dar o fora daqui! - ela sugeriu, mais como um pedido desesperado. concordou com a cabeça e voltou a guardar a faca, deixando claro que ainda não era hora de entregá-la. O carro que era dirigido por James passou por eles e seguiu em frente. Os dois deram a volta, passando por baixo da ponte, caminhando solitários pela pista já escura. abraçava os próprios braços e olhava para de vez em quando, que também a olhava, procurando palavras.
- Louco, louco mundo. - ele disse com uma voz forçada, divertindo .
- Triste, triste mundo. - continuou.
- Você não parece triste.
- Eu me diverti hoje... Para falar a verdade, foi uma das melhores noites da minha vida. - ela confessou sincera. Não conseguia mais esconder a afeição que sentia por . Deu-se conta de que o homem não era perigoso, pelo menos não para ela. Se fosse matá-la, já o teria feito. E compartilhava da mesma opinião, por mais que sempre estivesse alerta aos movimentos graciosos daquele ser que ainda o intrigava de maneira sufocante.
- Acredite, foi uma das melhores para mim também. - ela não esperava ouvir aquilo, então lhe deu um olhar debochado, fazendo um gesto com a mão para que ele calasse a boca.
- Fuck off, você deve fazer isso toda santa noite!
- Realmente, mas essa foi a primeira vez que tive alguém como você ao meu lado, . E, acredite, fez muita diferença.
o respondeu com seu silêncio e passou a sua frente, evitando continuar aquela conversa. Falar demais sempre trazia conseqüências inesperadas. E, na maioria dos casos... Ruins.
¹ - Tyler Durden é um notável personagem do filme Fight Club (Clube de Luta)
² - Beat It é uma canção de Michael Jackson, presente no álbum Thriller.
³ - Beauty is a curse on the world. It keeps us from seeing who the real monsters are é uma citação do seriado dramático Nip/Tuck. A tradução seria essa: A beleza é uma maldição no mundo. Ela impede-nos de ver quem os verdadeiros monstros são.
Capítulo 5 Rock You Like a Hurricane
(Coloque Get Some da Lykke Li e One Way or Another da Blondie para carregar. Espere os avisos para dar play em ambas!)
A sensação de um sonho mudando para outro veio repentinamente, sem explicação. A mulher não estava mais dirigindo livremente por uma estrada emoldurada pelo nada. Não conseguia mais enxergar, algo amarrava suas mãos, assim como os pés. Aquela estranha agonia começou, a sensação de que o peito estava para explodir a qualquer momento, a falta de ar. Ela se mexia, tentava rolar o corpo para alguma direção, mas, cada vez que repetia a ação, parecia presa dentro de uma caixa, que ficava menor com o passar do tempo. Ouviu passos e tentou reproduzir algum som, constatando que, para piorar, também se encontrava amordaçada. Lágrimas surgiram em seus olhos instantaneamente, para ela nada era pior do que estar presa, sentir-se impedida. Uma parede à sua direita foi clareada, uma luz se acendeu de repente, ela forçou a vista a encarar o ponto e identificou a sombra de cinco chapéus. Mas é claro, os chapéus. Tentou levar o corpo para o canto quando percebeu que os passos ficavam mais próximos, assim como as sombras.
Um breve momento de total escuridão, como um avanço no tempo.
Estava nos braços de alguém, o coração não batia mais acelerado no peito.
Sua audição não estava funcionando corretamente, mas ela sabia que o barulho que tomou conta do local era de alguma arma, uma lâmina. Exatamente, algo cortante, uma espada.
Tentou se soltar dos braços firmes que a seguravam, sentindo o súbito cheiro de sangue. Não sentiu dor, mas sabia que pequenos jatos de sangue escapavam de alguma parte de seu corpo. Caiu no chão, por fim sentindo a dor. Não estava mais com nenhum membro amarrado, mas a coragem para procurar pelo ferimento não se mostrava presente. Em meio a tudo, ela conseguiu enxergar o rosto de um homem, um rosto sem qualquer tipo de expressão, ela conseguia sentir a frieza que aquele ser exalava. Seu corpo começou a tremer porque o chão estava muito frio. Era uma sala com paredes em aço, congelante demais para evitar que os lábios ficassem roxos, trêmulos. Ela se encolheu em posição fetal, soltando resmungos, implorando por misericórdia.
- Você não teve a intenção de nos trair e isso custou sua vida. Acreditou cegamente em pessoas que não conhecia e, o pior, sabendo que vive em um mundo onde ninguém é confiável... Más notícias, . - a voz do homem estava mais próxima, a mulher sentiu lábios quentes se encostarem na pele de seu rosto. Como era possível o ser estar quente quando ela sentia tanto frio? - Compaixão é uma utopia. E você... Bem, você está morta.
O som da espada voltou a soar e algo quente e molhado caiu sobre o corpo frágil no chão, cobrindo cada mínima parte.
arregalou os olhos e quase deu um pulo para fora da cama, notando que a tal coisa quente que tinha sentido sendo jogada sobre o seu corpo fora um cobertor e a sensação de algo molhado fora devido aos fios molhados de seu cabelo que acabaram caindo em sua face. Mas ela não se lembrava daquele cobertor... E algo estava diferente no ambiente, como se alguém tivesse passado por ali. Ela quase era capaz de sentir um certo perfume. Rapidamente colocou as pernas para fora da cama e se levantou. Vestia uma blusa qualquer de mangas compridas e uma calça jeans bem justa ao corpo, com rasgos na parte das coxas. Calçou seu all star e foi até a porta, verificando se estava aberta. Não, não estava. Continuava tendo que permanecer trancada naquele quarto!
Ela começou a se perguntar onde estava com a cabeça quando disse àquela gente que queria ficar ali e se tornar parte da “equipe”. Teria sido bem mais fácil simplesmente roubar o microchip, dar uns tiros ou facadas em alguém caso fosse necessário e cair fora.
Não sabendo se era devido à sensação que o pesadelo lhe proporcionou, ela estava determinada a escapar daquele quarto e colocar um fim naquela situação ridícula de uma vez por todas. Fazer parte de uma equipe? Usar aquele chapéu? Ridículo. Ela esteve sozinha durante todo aquele tempo, não fazia diferença... A solidão tem lá seus encantos.
Precisava encontrar alguma coisa para violar aquela maldita fechadura, mas o quê? Encarou a roupa que tinha usado mais cedo e um brilho estranho chamou sua atenção. caminhou até as peças de roupa e segurou a cinta-liga, enxergando uma pequena fivela metálica que possuía uma ponta. Sorriu sozinha, arrancando-a da peça com os próprios dentes e se levantando, dando passos espertos até a porta novamente, tentando passar a fivela pela fechadura. Impulsionou a ponta para dentro, fazendo certo esforço, mas tentava fazer o menor barulho possível. Depois de alguns xingamentos e tentativas frustradas, ela finalmente pôde comemorar quando a fechadura acabou cedendo. Respirou aliviada ao sair pela porta e nem se importou com a mala que estava deixando para trás no quarto; no momento, aquilo era irrelevante.
Caminhava a esmo por todos aqueles corredores sombriamente iluminados, não tendo a mínima ideia de onde iria parar. Era um lugar grande demais, e ela ainda tinha que se preocupar com a possibilidade de várias armadilhas a esperarem pelo caminho.
Sonhos são sonhos, eles não se encaixam com a realidade na maioria dos casos, mas não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça. “Você não teve a intenção de nos trair e isso custou sua vida.” Ela bufou irritada, só de considerar a hipótese de acabar caindo em uma furada como aquela. Realmente era estranho a tal Helena não ordenar que cortassem a cabeça de , afinal, ela se intrometeu em um plano dos grandes. E toda a hospitalidade que recebeu? Tudo bem que ficar trancada em um quarto não é ter uma vida de princesa - a menos que ela fosse uma versão modernizada da Rapunzel -, mas eles lhe ofereceram um teto, comida e, aparentemente, a chance de se tornar parte de quem eram. Qual seria o grande propósito?
não gostava de ficar divagando muito, preferia agir de uma vez. Passou para outro corredor, observando as duas enormes escadas que levavam para o andar de baixo. Tinha que encontrar algo para usar como arma o quanto antes; alguém poderia surgir a qualquer momento.
Enquanto manteve essa ideia na cabeça, escutou dois risinhos vindos do final de um dos corredores. Olhou para trás para ter certeza de que não estava sendo seguida e foi até lá, grudando-se à parede e dando passos lentos. Uma das portas estava aberta e o barulho de uma televisão se misturava com as duas vozes, assim como os risos. respirou fundo e colocou um pedaço de sua cabeça para dentro. De repente, sentiu vontade de esmagar alguma coisa com as mãos.
Uma enorme televisão exibia o que aparentava ser o filme “Eyes Wide Shut”, era justamente o momento em que o casal protagonista da trama compartilhava de um momento íntimo ao som de “Baby Did A Bad Bad Thing”.
Se pelo menos fosse apenas na tela que um casal estava prestes a elevar os limites do contato físico...
- Você precisa decidir o que quer, sabia? - a voz feminina soou, mais provocante do que o recomendado.
- Você gosta de ser maltratada de vez em quando, Palmer, eu sei. - e a masculina era debochada, mas carregava uma quantidade generosa de malicia.
Passando pela televisão, seguindo pelo resto da decoração aparentemente luxuosa do quarto e chegando até um chaise vermelho, encontravam-se Palmer e . Ele estava largado no mesmo, com quase todos os botões da camisa desabotoados, sem o chapéu. Palmer era quem estava com ele, sentada em seu colo. Apenas de lingerie.
não sabia o que fazer, mas não conseguia desgrudar os olhos daquela imagem. As mãos do homem correram pelas coxas grossas e brancas da ruiva, aproveitando-as e apertando um pouco. Em seguida subiram, delineando sua cintura e, em tempo recorde, o sutiã estava sendo aberto e arrancado de seu corpo. gostou do que viu, gostou muito. fitou as costas nuas de Palmer e vacilou ao permitir que seu corpo fosse um pouco mais para o lado. Ela teve a impressão de que o olhar de se encontrou com o seu e se forçou a ir para trás, encostando-se à parede de novo, fechando os olhos com força e, sem mais nem menos, disparando a correr.
- Eu vou encontrar o microchip, minha faca, minha arma, meu carro e sumir daqui! Que morram todos eles! - ela dizia para si mesma, em voz alta, enquanto corria, bastante ofegante. Os músculos de suas pernas trabalhavam com dedicação. desceu uma das escadas, indo para o andar de baixo. Obrigou seus movimentos a cessarem quando avistou um sujeito de chapéu ao final de um corredor. Mas, infelizmente, ele se virou e a notou, gritando por ajuda. Ela suspeitou ser James.
levantou o rosto e assistiu - com as roupas devidamente vestidas de novo - descer correndo. Ela procurou desesperada por uma saída, optando por dar meia volta e correr para o outro corredor, onde conseguiu se trancar dentro de um cômodo qualquer. Encostou-se à porta, sentindo o coração na garganta. Esfregou as mãos no rosto, tentando apagar a cena pornográfica de sua mente, olhando para cima e avistando um quadrado de cor e material diferente do restante do teto. Era um compartimento, com certeza levaria a algum lugar. Talvez até para uma saída! Pegou uma cadeira de madeira que fazia companhia para uma mesa aos fundos e a colocou bem abaixo do compartimento, subindo na mesma e puxando a trava, que se soltou. ergueu a porta, segurando e apoiando as mãos na abertura, pegando impulso e saltando da cadeira, ficando com o corpo pendurado. Quase escorregando, ela obrigou as mãos a mantê-la daquele jeito, forçando seu tronco e finalmente conseguindo passar pela abertura. Colocou todo o corpo para dentro e voltou a fechar o compartimento. Estava escuro, mas ela sabia que se tratava de uma espécie de túnel, pois enxergava uma luz ao final. Uma luz para o final daquele problema desnecessário.
Pelo fato do túnel ser baixo demais, ela teve que engatinhar até a luz, desviando de teias de aranha que encontrava pelo caminho. Durante o trajeto, inevitavelmente se lembrou de como tinha sido o começo daquela noite. Não mentiu para quando disse que havia sido uma das melhores de sua vida. Mas ele sim. Ele era um mentiroso desgraçado! Como teve a petulância de dizer algo assim e horas depois ter um projeto de boneca inflável em seu colo? E nua!
Chegando até o final do túnel, ela puxou outra porta quadrada, olhando para baixo e fitando uma outra sala. Não era tão alto, ela conseguiria pular. Depois de ter a certeza de que ninguém estava naquele cômodo, ela se preparou e primeiro soltou as pernas, colocando o corpo para baixo e, segundos depois, já estava no chão. Ignorou a dor nos pés pela queda um pouco violenta e olhou ao redor.
Poderia estar enganada, mas algo naquela sala a fazia apostar todas suas fichas de que se tratava de um dos aposentos de Helena. E ela realmente teve o mistério solucionado quando bisbilhotou um pouco em algumas gavetas e armários, encontrando uma caixa transparente. O que estava dentro só poderia ser o microchip. Um cadeado a protegia, mas era só jogar a caixa no chão com força e pronto, então ela não se preocupou.
Até que enfim um pouco de sorte.
- Certo... - ela dizia, olhando para uma porta, prestes a abrí-la. - Onde aquele maldito pode ter escondido minha faca?
- Quer ajuda para procurar? - se virou bruscamente e quase soltou a caixa quando ouviu aquela voz. Uma garota estava escondida embaixo da larga mesa, um notebook estava sobre o chão e apenas a luz dele iluminava seu rosto. Era Beverly, a filha de Helena. recuou, sem dizer nada, mas Beverly saiu de onde estava e foi para perto da mulher, lançando-lhe um olhar curioso. - Quem comeu sua língua, o ? Anda, quer minha ajuda ou não? - não sabia se estava entendendo direito.
- Você tem consciência de que eu estou tentando fugir? Com o microchip? Que pertence a sua mãe?
- Sim, sim e... Sim! - Beverly sorriu abertamente, tirando os fones dos ouvidos e os deixando pendurados em seu pescoço. Estava de pijama, um pijama de ursinhos coloridos.
- Ok... E como você e seu adorável pijama podem me ajudar? - a loira puxou a mão de sem pensar duas vezes e as colocou para fora do cômodo. Elas correram até a sala que havia estado uma vez. Onde a fez acreditar que a mataria com sua espada. E essa mesma espada estava colocada em um suporte na parede. sentiu vontade de pegá-la, mas a voz de Beverly arrancou sua concentração.
- Eles estão atrás de você? Temos que ser rápidas! - Beverly começou a revirar todo o lugar. - Eu o vi colocando por aqui... - apenas a encarava, ainda decidindo se era certo ou não confiar naquela garota. Mas seus gestos pareciam tão espontâneos! - É uma de cabo vermelho? Encontrei! - sorriu abertamente quando a outra se virou, segurando habilidosamente a faca que lhe pertencia. - Você me deve uma.
tinha a faca, o microchip e sua força de vontade... Poderia deixar o resto para trás. Era só roubar qualquer carro que encontrasse pelo caminho, assaltar uma luxuosa loja de roupas e estava feito. Beverly a levou até onde alegava ser uma saída nos fundos e as duas riam sem motivo pelo caminho, como se fossem duas amigas escapando de casa para uma festa. pulou um portão, sendo seguida pela menor, que passou sua frente e espiou através de alguns arbustos.
- O caminho está livre?
- Corra até aquele muro perto da fonte e o pule... Você estará na rua!
- Tem certeza?
- Claro que tenho!
- Você é nova demais para ter tanta convicção das coisas, Beverly. - uma voz masculina arrancou toda a sensação de vitória do corpo de , que se tornou tenso imediatamente. surgiu próximo a elas, sozinho. - Olá, , o que faz fora da cama a essa hora?
Em um gesto impulsivo, largou a caixa no chão e puxou Beverly pelo braço, aproximando a lâmina de sua faca do pescoço da jovem. estendeu um braço, movendo-se com cautela. Beverly o olhava com medo.
- Qual é a sua? Eu te ajudei! - ela gritou para , cujas mãos tremiam. Olhou da garota loira para , depositando força nos dedos que seguravam aquela arma. Não gostava da maneira como o homem a estava fitando, como se conseguisse enxergar o nervosismo que escapava por seus poros em forma de suor.
- Se afaste e me deixe ir embora, ou a pirralha morre!
- Ei!
- Calada! - ordenou, aproximando mais a parte cortante ao pescoço de Beverly.
- ... - tentou. - Solte ela e se resolva comigo. Prometo que não vou contar para ninguém, vamos lidar com isso juntos... E sozinhos. - uniu as sobrancelhas, talvez enlouquecendo, já que enxergou um suposto tom de malícia no final daquela fala. - Vou fingir que nada aconteceu e...
- Para o inferno com essa tentativa de consertar as coisas! Por quanto tempo achou que eu aceitaria ser a “mascote”, como a sua companheira de reprodução gosta de chamar?
- Companheira de reprodução? - Beverly franziu o cenho, de repente não estava mais com medo da faca de . Olhou para , cujos lábios estavam em linha reta. Ele não sabia o que dizer.
Até que preferiu desprezar as palavras e sacar o revólver. não lhe deu escolha.
- Você não vai escapar daqui, , sinto muito. Pode machucar a Beverly se quiser, mas eu te machucarei em seguida.
- Muito obrigada, , sempre soube que podia contar com você! - Beverly ironizou.
analisou brevemente toda a situação e concluiu que a garota presa em sua ameaça não merecia aquilo. Foi sincera ao tentar ajudá-la. Soltou seu corpo, recebendo um olhar confuso.
- Corra, criança. - disse friamente, sem olhá-la, apenas encarando . Beverly resistiu um pouco antes de empurrar para trás e entrar correndo naquela porta, fechando-a de maneira violenta.
- Eu sei por que você está assim, , eu sei o que você viu... - começou. Um com uma arma apontada para o outro. sabia que a dele era mais mortal, mas isso não a enfraqueceu nem por um segundo. Riu alto na cara do homem, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e balançando a cabeça negativamente, sugerindo que achava aquela suposição lamentável.
- Sabe o que eu realmente vejo? Seu sangue no chão se não me deixar passar. E tem mais, eu não ligo para o que você faz ou deixa de fazer com aquela criatura! O que me irrita de verdade, , é a capacidade nojenta que o ser humano tem de mentir na cara do outro quando o momento lhe convém.
- Do que está falando? - ele perguntou confuso, ainda imóvel.
- Você disse que essa tinha sido uma das melhores noites da sua vida, porque sabia que ia transar com ela quando chegasse aqui, não é? Só fez parecer que era por minha causa porque... porque... - ela continuava apontando a faca, mas não tinha mais certeza das palavras que saíam pela sua boca. Na verdade, tudo que mais queria era se livrar de , pular aquele muro e voltar a ser a de noites antes.
- Já estive com a Palmer tantas vezes, se quer saber. - soltou, insolente e indiferente. - Por que todo esse drama? Por acaso eu devo explicações a você agora, amor? - ergueu as sobrancelhas, pronto para rir. O sangue de ferveu e, quando ela se deu conta, já havia rompido a distância entre os dois e jogado o corpo de no chão, ficando em cima dele. Uma coxa em cada lado do pescoço do homem, que sorriu, como se estivesse adorando a demonstração tão intensa de... Afeto.
inclinou ainda mais seu corpo, aproximando os rostos dos dois e apoiando a faca ao lado da cabeça de , que não deixava de olhá-la nos olhos por um segundo sequer. A mulher sentiu o perfume que emanava do corpo dele... Aquele não era o cheiro que sentiu na pista de corrida, quando ele disse que queria tê-la.
- Você está impregnado com o perfume enjoativo dela. - comentou, com a voz zombeteira. - Vai ficar uma maravilha quando se misturar com o cheiro do seu sangue, eu imagino.
- Isso tudo é culpa sua, sabia? - lançou, evitando ao máximo não erguer as mãos e segurar a cintura da mulher que ainda o dominava totalmente, obrigando-o a permanecer deitado no chão frio de concreto. - O seu cheiro é que deveria estar impregnado em mim, não o da Palmer. - provocou, seguro de si.
- Vá para o inferno! - ela rosnou, a voz tão baixa e ainda assim tão intensa.
- Vem comigo? Ouvi dizer que a dois não é tão ruim... - mordeu os lábios, os olhos brilhavam de uma maneira que irritava ao extremo. - Já entendi que você gosta de ficar por cima, garota, mas não adianta nada ter o controle da situação se não existe situação alguma.
Ela desistiu. Saiu de cima dele, pegando a caixa do microchip e se levantando com agilidade. fez o mesmo, cruzando os braços e esperando pela próxima ação da mulher.
Porém, eles não estavam mais sozinhos.
Jonathan e James encaravam os dois de forma suspeita.
- Mas o que diabos está acontecendo aqui? - o sotaque de Jonathan perfurou a audição de todos. - Como conseguiram pegar o microchip? , explique-se!
se recompôs rapidamente e passou por , pegando a caixa de vidro que, por sorte, não tinha se quebrado, parando ao lado da mulher que ainda não tinha demonstrado nenhuma reação, apenas continuava portando sua faca. Os dois se entreolharam e obrigou o cérebro a pensar em uma saída.
- Eu estava testando ela! - respondeu para os dois, tentando sorrir. James mantinha o olhar congelado em , que fingia não notar.
- A Helena vai te matar se souber que você foi até a sala dela, retirou isso de lá e soltou a gatinha... - Jonathan alertou severamente, mas com um leve tom cômico na voz. não imaginava que aquele apelido se tornaria fixo.
- É, ela até poderia me matar... - voltou a olhar para , dessa vez a repreendendo disfarçadamente. - Se não fosse uma de suas ordens. Sim, meus caros, ela sugeriu que isso fosse feito. Temos que ver do que a novata é capaz, certo?
- Ok, , se você diz... - Jon deu de ombros.
- É mentira! - James começou, dando um passo e desafiando com o olhar, que ficou sério e tomou a faca de antes que ela pudesse perceber e fazer algo, já que a tensão do momento retardou um pouco seus melhores reflexos. - Aposto que ela tentou fugir. - disse, com os ombros tensos.
- Faz o seguinte, James... - se colocou à frente do homem e lhe entregou a caixa, sem hesitar ou fraquejar a voz. - Leve isso de volta à sala da Helena e, caso a encontre pelo caminho, confirme com ela se é uma mentira ou não. - arriscou, aproveitando-se do fato de ser, de certa forma, o “queridinho” de Helena. Resolveria-se com ela no dia seguinte. - Vem, , seu teste acabou. Talvez vença da próxima vez! - percebeu que James continuava a bloquear sua passagem, irritando-se de imediato.
- Importa-se? - ela tentou falar com educação, mas não obteve efeito. - Sai da minha frente! - um de seus punhos foi de encontro ao peito do homem, chocando-se contra o mesmo. sentiu o local latejar e recolheu sua mão, olhando-o com olhos levemente arregalados. O corpo de James estava tremendo, mesmo que ele não permitisse que sua expressão superior desaparecesse.
Transtornada e com dor na mão, foi puxada pelo braço por , cruzando a porta. Sentia-se fraca, muito fraca. Estava voltando para aquela prisão, o quão vergonhoso era admitir isso para si mesma? Não conseguia olhar para , não suportava sentir os dedos da mão grande e forte dele segurando seu braço. Então, em um movimento brusco, soltou-se, tomando certa distância, agradecendo mentalmente pelo corredor ser largo.
- Eu sei andar sozinha! - ralhou, afastando-se cada vez mais, procurando pelo quarto onde teria de continuar até ter um plano melhor.
Chegou até o local que estava chamando de quarto nos últimos dois dias e entrou, sem se importar se ainda a seguia ou não. Jogou-se na cama e ficou encarando o chão, esfregando o punho ainda dolorido no tecido rasgado que cobria uma de suas coxas. adentrou o quarto, olhando brevemente e respirando fundo ao depositar a faca sobre uma mesinha de madeira, próxima a uma pilha de roupas e uma mala.
O rosto da mulher se ergueu e ela olhou da faca para , questionando-o em silêncio. Ele apenas balançou a cabeça de forma positiva, como se dissesse “tudo bem” e passou pela porta, encostando-se ao batente.
- Eu menti lá fora, você venceu. Pode ficar com a sua droga de faca e, meus parabéns, não é mais uma prisioneira. - fez um gesto com as mãos que indicava a porta. - Tem o direito de ir e vir, não vou voltar a trancá-la. Mas, por favor, se pensar em fugir ou matar alguém de novo... - ela mordeu o lábio enquanto ele dava aquela lição de moral, por algum motivo sentiu a necessidade de ouvir até o fim. - Seja mais esperta. E mais rápida, também. Não busque pela ajuda de alguém como a Beverly, ela não sabe o que está fazendo. Você não é tão forte, ? Cuide-se sozinha, lá fora ninguém vai fazer isso por você. - o homem canalha e cheio de piadas inoportunas sumiu durante aquele momento, sentia que ele realmente falava sério. Era um conselho, um grande conselho.
- Então por que você sempre me defende? Eu tentei fugir, deveria ter me entregado. - deu de ombros ao ouvir as palavras que eram pronunciadas com certo receio.
- Não, já deixei bem claro que você não vai sair daqui. - piscou, com direito a um sorrisinho de canto. Afirmava com total certeza, suas palavras não seriam contrariadas. - Boa noite, gatinha, como eu já te disse, não sou um vampiro, então preciso dormir também. Nos vemos amanhã.
Quando não estava mais por perto, deitou na cama e deixou o olhar se perder em um ponto qualquer do teto.
contemplou o sol nada tímido que a fazia se questionar se deveria ter colocado uma roupa mais leve. Felizmente, os cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo. Ter a opção de sair daquele quarto quando bem entendesse estava sendo ótimo. Ela escutou uma estranha agitação pelos arredores do jardim assim que acordou, então decidiu se arrumar um pouco e descer. Toda a equipe parecia envolvida em algum tipo de treinamento. Ela observou algumas das enormes fontes e se dirigiu ao núcleo das atividades, parando e esperando que alguém notasse sua presença. James e Dean lutavam boxe - o segundo parecia estar levando uma surra do irmão. Rupert segurava um livro e alguns aparelhos eletrônicos estavam espalhados pela grama. Deveria estar treinando uma nova maneira de abrir cofres ou coisas parecidas. sentiu um tremendo desconforto quando olhou para a piscina e uma ruiva de maiô se encontrava com o corpo esticado em uma espreguiçadeira. Novamente, as imagens da noite anterior voltaram, mas ela decidiu que perder tempo com isso seria idiotice. Beverly estava sentada abaixo de uma árvore, com os rotineiros fones nos ouvidos. caminhou rápido até ela, que percebeu a nova companhia e fechou a cara.
- Devo correr ou você vai fazer tudo rapidamente para poupar minha dor? - ela perguntou à , desviando o olhar e fingindo que a mulher não estava ali.
- Beverly, eu sinto muito... Foi a adrenalina do momento, eu não sei.
- Você conseguiu acabar com a moral do ? - Beverly soltou um sorriso malvado, olhando para frente, como se procurasse pelo mesmo.
- Consegui, eu acho. Eu o derrubei no chão. - revelou, convencida.
- Então tudo bem, está perdoada.
- Assim tão fácil?
- Olá? Estamos no lado escuro do mundo, ameaçar alguém com uma faca é o mesmo que oferecer um café no “lado iluminado”. - a loira fez aspas com os dedos. sorriu, tendo o gesto retribuído. - Honestamente? Eu não sei se ficar aqui é uma boa ideia... - Beverly tentou dizer sem que soasse estranho, mas pensou em como sua mãe reagiria se descobrisse que ela estava colocando coisas na cabeça de . Todavia, uma coisa era certa: ela sabia o que tinha escutado na sala de reuniões, só precisava decidir quando usar a informação. Ainda não era a hora.
- Por que diz isso?
- Porque os garotos vão pegar pesado com você! - mentiu - mesmo ciente de um suposto fundo de verdade -, voltando a prestar atenção em sua música.
disse que isso não seria problema e deixou Beverly para trás, avistando Jonathan pegar sua espada que fora jogada no chão, correndo para outra direção. Seguiu-o, percebendo que ele e duelavam mais uma vez. Só que dessa vez ao ar livre. A luta parecia mais intensa do que a última, mas os dois sorriam e faziam gracinhas durante os golpes. Ambos sem camisa.
percebeu a figura feminina se aproximando e derrubou a espada de Jon mais uma vez. Mesmo que sem querer, os passos de eram - de uma maneira inexplicável - rítmicos, ela parecia sempre caminhar ao som de alguma música, já que seus quadris iam de um lado para o outro, os ombros relaxados, alguns fios de cabelo que escapavam de seu penteado se chocando com o seu rosto.
- Você consegue ouvir, Jonathan? - ele decidiu ir de encontro com ela, segurando firmemente a espada com uma das mãos. - Na minha mente toca “Pretty Woman” enquanto você se aproxima desse jeito. - apontou para uma de sobrancelhas arqueadas, colocando uma das mãos na cintura e fitando a espada de , tentada a tocá-la. Mesmo que não soubesse o motivo disso. - Bom dia, .
- Bom dia, gatinha. - Jonathan lhe disse amigável, recebendo um aceno de cabeça da mulher.
- Você... Você conseguiu lidar com a Helena? - perguntou discretamente a ele, tentando deixar Jon de fora.
- Não se preocupe com isso, alguém aqui tem tudo sob controle. - estufou o peito, mas Jonathan o desafiou a continuar a luta. Como não resistia a um desafio, deixou de lado e voltou a brincar com sua espada. se sentou próxima e ficou apenas observando os dois, distraindo-se diversas vezes enquanto fitava as costas de .
- Já decidiu o que vai fazer com ela? - Jon perguntou, soltando um grunhido e abaixou o corpo, erguendo-se e tentando atacar , que jogou o corpo para o lado com agilidade, deixando que o outro homem desse de encontro apenas com o ar. Fez Jonathan sentir a lâmina em seu braço e desviou, olhando de relance para , que olhava para o nada.
- Sabe o caso Philip Reynolds? - ele questionou Jon, que desistiu, largando a espada, assim como seu corpo, na grama. o acompanhou e os dois ficaram sentados de maneira despreocupada, pegando garrafas de água e molhando um pouco suas gargantas.
- Em Hamptons? É claro que sei! Estaremos lá semana que vem, Helena já está nos cobrando. Afinal, é uma encomenda de um dos amigos íntimos dela.
- Eu pensei que talvez nós pudéssemos adiantar essa missão... Para, não sei... Hoje? - disse descontraído e Jonathan quase engasgou com sua água.
- Hoje? Mas por que a pressa, ? - o ruivo inglês percebeu que fitava de maneira insinuosa enquanto comentava aquele plano. Não demorou para fazer um emaranhado com o conjunto de ideias que vieram até sua mente inteligente. - Ah, você quer envolver a moça...
- O que acha de ser o primeiro trabalho dela? Não é tão difícil, mas também não será fácil como roubar doce de criança. - os dois chamaram James, Dean e Rupert e se afastaram, indo para a sala onde ideias eram trabalhadas, estratégias calculadas e planos saíam do papel.
Meia hora depois, os cinco pararam de frente para , que treinava com sua faca em uma árvore qualquer. Ela parou de se mover e os olhou com indiferença, não gostava que seus momentos de treino fossem interrompidos. Por fim, acabou desistindo e se virou para os homens, cruzando os braços e esperando um possível veredicto.
- Gatinha, decidimos o que fazer com você. - James foi o primeiro a falar, aproveitando qualquer mísera oportunidade para irritar .
- Às vezes, , o que nós temos que roubar não é um objeto, algo inanimado. Às vezes é uma pessoa.
- Simplificando: um sequestro. - Dean acrescentou, ainda ofegante pela luta com seu gêmeo.
- Eu vou ter que sequestrar alguém? Só isso? - quando lhe disseram que teria que provar sua lealdade, ela imaginou algo infinitamente mais grandioso, com direito a explosões e várias mortes. Mas um sequestro? Ela riu, a sensação de tédio indo de encontro ao seu corpo. What's the big deal? Preferia afogar Palmer naquela enorme e funda piscina. Um estalar de dedos de Rupert a acordou daqueles pensamentos demoníacos.
- Posso terminar de explicar? Então... Tem um garoto em Hamptons, você sabe, um mauricinho desprezível como qualquer outro. Esse garoto é responsável por invadir sistemas de computador, capturando informações preciosas de alguns... Caras perigosos. Bem, um desses caras é amigo da Helena, e ele está furioso. Quer vingança... O nosso trabalho é invadir uma das grandes festas que Philip Reynolds costuma dar todo final de semana e entregá-lo ao sujeito que está sedento por um acerto de contas.
- Meu status de garota impressionada ainda não é grande coisa, mas eu posso lidar com isso. - afirmou, enrolando seu rabo-de-cavalo com a ponta da faca, brincando com o mesmo. - Quando vamos? Hoje? - se a resposta dos homens fosse positiva, já estava totalmente pronta. Iria para Hamptons e capturaria quem quer que fosse.
- Sim, mas... - Jonathan ergueu um dedo, sendo interrompido por .
- Nós escolhemos um disfarce para você. Não pode ir desse jeito... Por mais que eu não me incomode. - ele apontou para o corpo dela, segurando o lábio inferior com os dentes brevemente. - Mas negócios são negócios e, como esse será o seu primeiro crime fazendo parte da nossa gangue, precisa deixar de ser você por um dia.
- Certo, e quem eu serei?
- Vejamos... O seu apelido por aqui é gatinha. No que você pensa quando essa palavra vem em sua mente? - James e Dean começaram a rir maliciosamente, levando socos carregados por força mediana de e Jonathan.
- Eu penso em leite, depois penso que estou com fome. E então penso que fico furiosa quanto estou com fome. Poupem tempo e digam quem eu serei essa noite, para poder guardar a na mala e preparar esse corpinho.
Quatro dos homens não disseram nada, apenas saíram andando. permaneceu a sua frente, dando a volta em seu corpo, parando atrás de si e aproximando a boca do ouvido da mulher. O ar quente que escapou pelos lábios de fez os pêlos da nuca de se arrepiarem sem que ela pudesse controlar.
- O crime te chama, Catwoman.
O homem não deu a chance dela protestar e dizer o quão ridículo seria aquele disfarce, afinal, já estava longe. Só voltariam a se ver à noite, já que teria que criar uma nova personalidade em questão de horas. E, o que mais a frustrou na situação, foi o fato de que receberia o auxílio de Palmer para isso.
Helena deu a ordem para que o carro parasse e fosse estacionado devidamente. Ela retirou seus óculos escuros de lentes grandes e olhou para os dois que a acompanhavam. Rupert era o motorista e Beverly estava no banco do passageiro, portando uma maleta cinza. Os três saíram e, sem olhar para os lados, entraram no prédio, identificando-se de maneira discreta na recepção e pegando um elevador. Quando chegaram ao andar indicado, Helena pegou a maleta com a filha - que não conseguia esconder o semblante repreensivo que dirigia a sua mãe - e pediu que eles a esperassem do lado de fora da sala que estava prestes a entrar.
O prédio era responsável por investigações das mais diversas. Lugar de cientistas, assuntos voltados à medicina legal e peritos em tecnologias variadas, mais precisamente análise de objetos como o microchip que ela estava indo buscar.
Surpreendendo-a totalmente, uma mão se encostou em seu ombro, fazendo-a se virar e descobrir de quem se tratava. Colin. Um homem alto, que tinha um curto rabo-de-cavalo e costeletas.
- Que reunião perfeita, não é mesmo? - ela comentou e ele cruzou os braços. O fato de um sorriso não surgir em seus lábios não significava que estava descontente. Apenas era sério demais, seco demais. E ele não estava tão errado no fim das contas, é melhor tomar cuidado e selecionar corretamente as pessoas que merecem um sorriso. Um sorriso abre portas e muitas delas não devem ser abertas.
- A garota está com você? - Colin perguntou friamente, caminhando brevemente até um bebedouro e molhando a garganta.
- Sim, tudo aconteceu como o planejado. Ela deve estar temendo pela vida agora, acha que você vai matá-la por não aparecer com o microchip.
- Deixe ela pensar que é uma caçadora de recompensas de quinta, não tem problema. - Colin surpreendeu e soltou um risinho, mas algo bem rápido.
Foram recebidos por um homem de estatura inferior a de ambos, cabelos pretos e lisos, óculos de lentes redondas. Coreano, seu nome era Hyun. Ele se sentiu inferior à Helena e a Colin, já que vestia uma camiseta pólo e uma simples calças jeans. A peça de mais valor em seu corpo era um relógio de pulso. Helena estava vestida majestosamente, como sempre. Os cabelos azulados soltos, de um liso impecável. Colin mais parecia um mafioso de outra década.
Outro alguém surgiu na sala, sorrindo largo ao dar de cara com Helena.
- Shane! - ela o cumprimentou, dando a honra do homem se curvar e beijar sua mão. Depois trocou um aperto de mão breve com Colin. Ele se vestia socialmente, com uma camisa preta e calças também pretas, os cabelos penteados para trás. Seus olhos eram uma mistura esquisita de azul com verde e as olheiras destacavam ainda mais aquela cor.
- Helena! Que tremendo prazer te ver... - começou, cumprimentando Hyun com apenas um gesto de cabeça. - Por um triz não estaríamos tendo essa conversa. Ou até estaríamos, mas uma de minhas mãos não estaria aqui para contar a história. - Shane fechou sua mão e a abriu diversas vezes, entortando os lábios.
- Por que diz isso, meu querido? - ela quis saber, erguendo uma de suas sobrancelhas impecáveis.
- Ela quase a arrancou, sabia? É uma garota geniosa! - fez-se de admirado. - Mas um pouco desligada, afinal de contas, eu a fiz acreditar que era um garoto indefeso e imprestável que trabalho em um hotel miserável... Infelizmente, Bart não teve a mesma sorte, está morto.
- Consequências, consequências, não há como se livrar delas. Além de que, Bart era só uma das peças, esqueceu-se? Bart, Agnes, Esther... Peças e mais peças, nada mais. - Shane concordou com a cabeça, sorrindo cúmplice para a mulher.
Hyun se retirou por um momento e voltou em seguida com algumas pastas e uma caixinha prateada. Sentou-se de frente para um extenso painel de controle, no qual uma tela gigantesca de computador era encaixada em cima. Os olhos cobertos pelos óculos se fixaram nas coisas que seus dedos digitavam, enquanto ele fingia não estar intimidado pela presença daqueles dois.
- Como eu disse, Helena... - Hyun começou, coçando a nuca e olhando para seu relógio tensamente. - A zona com células vivas, capazes de fornecer DNA, é o bulbo capilar, então foi um trabalho exaustivo conseguir encontrar isso nos fios de cabelo que você me enviou.
- Poupe sua saliva e nosso tempo, Hyun. Conseguiu ou não? - desafiou-o, com a voz impetuosa de sempre.
- Consegui, é claro. - Hyun revelou o microchip, que fora colocado dentro de um compartimento no painel. - Foi difícil desbloquear, esse microchip deve ser de importância gigantesca. Mas aí está... Encontrei diversas pastas com informações que me custariam horas de explicação, então vou pular essa parte. Temos também as fichas, os procedimentos realizados durante todo o tempo, componentes de pesquisa e experiências. E, é claro, as informações principais. Tipo sanguíneo e essas coisas.
Hyun apertou um botão vermelho e a tela do computador se dividiu, projetando duas imagens. Helena e Shane fitaram os dois rostos e se entreolharam, uma conversa mental parecia estar sendo feita.
- Algo mais, Hyun?
- Sim, sim. Essas informações aqui estão endereçadas exclusivamente a você, venha ler. - a mulher se aproximou e leu rapidamente o conjunto de palavras que entendeu como uma orientação séria e direta. - E quando eu abri os primeiros arquivos, uma data surgiu como um aviso na tela... Correspondente ao mês que vem, dia 26.
- Interessante, muito interessante. Estamos perto. - Colin voltou a permitir que sua presença fosse notada, por um instante Helena se esqueceu de que ele estava presente.
- Meu pai deve estar sorrindo em seu túmulo agora. - Shane soltou as palavras sombriamente.
- A propósito, onde está seu irmão? - Helena se lembrou daquele detalhe, estava curiosa.
- Ah, ocupado, monitorando você-sabe-o-quê.
- Claro, como pude ser tola de esquecer? - ela não se deteve e voltou a olhar para as duas fotos, encarando os olhos das identidades distintas, como se ambas estivessem de fato a sua frente, em carne e osso. - Oh, minhas crianças...
Era uma noite de ventos rigorosos, sorrisos malvados. Perfeita para mais um crime.
sentiu que alguém estava por perto assistindo seus movimentos enquanto esperava impacientemente junto com os outros por . Mas por que as mulheres têm de demorar tanto para se arrumar? Até mesmo as criminosas! Ele pensava.
Algo se chocando repetitivas vezes com o chão atraiu a atenção de todos, que continuavam a procurar pelo dono daqueles sons. Voltaram a se distrair, conversando entre si sobre como imaginavam que seria o sequestro daquela noite.
Uma forma se materializou atrás deles, os movimentos delicados não denunciavam sua presença.
(Play 1!)
levou sua mão até a porta do carro, pensando em abri-la, mas a puxou com determinação para trás quando sentiu algo se chocar com seu braço repentinamente. Depois que a sensação de dor abandonou o local aos poucos, ele levantou os olhos furiosamente, percebendo que o resto da equipe parecia hipnotizada.
- Meow. - a reprodução de um miado de gato soou, deliciosamente rouco. Em uma das mãos cobertas por couro, segurava um chicote, o mesmo que usou para impedir que abrisse a porta do carro. Inevitavelmente, o ar pareceu deixar os pulmões do homem, cujos globos oculares foram vítimas de um feitiço que os paralisou em determinada direção.
- Você levou mesmo a sério a ideia de ser outra pessoa. - Jonathan disse, boquiaberto.
O couro cobria todo o corpo dela, deixando apenas as partes essenciais de sua face à mostra. finalmente conseguiu descer o olhar, medindo as curvas perigosas. Aquela roupa afinava a cintura da mulher, assim como criava a ilusão de que seus seios eram maiores e seus quadris mais largos. Ela não parecia se incomodar, nem sentir calor ou algo do gênero dentro daquela segunda pele reforçada, portava-se de maneira livre, os movimentos mais ardilosos como nunca antes. Perfeitamente idêntica à personagem do filme “Batman Returns”, dirigido por Tim Burton, até as marcas de pontos de costura por toda a extensão do couro se mostravam presentes.
Não era mais que estava ali. Era a Catwoman.
- Tenho meus momentos. - ela respondeu ao homem, passando pomposa pelos outros e distribuindo sorrisinhos malvados. Finalmente, ficou de frente para , que ainda não sabia o que fazer. Obrigou o cérebro a esquecer que uma imagem tão tentadora estava próxima e colocou a máscara de desinteressado, um dos cantos de seus lábios erguido.
- Estou ocupado te desejando furiosamente, caso contrário não deixaria isso barato. - mostrou sua mão, referindo-se ao gesto da mulher com o chicote. Ela piscou os olhos de maneira charmosa, não dando ouvidos às palavras dele. Porque sabia que não era verdade. Nem sequer sentiu o coração acelerar, disse aquilo de maneira descontraída demais. A revelação de um sentimento como aquele não combinava com o semblante rebelde de . - Palmer fazendo um trabalho engenhoso, como sempre. - não aguentou ouvir aquilo e voltou a manusear seu chicote, estalando-o contra o chão, obrigando James - assim como os outros - a se afastar e lançar-lhe um olhar mortal.
- Sim, porque é a Palmer que vai te fazer ficar tonto hoje, estou certa? - Catwoman respondeu ironicamente, ignorando o homem e dando-lhe as costas, entrando no Rolls Royce. James e Dean seguiram em outro carro. Jonathan foi com e , deixando a moça no banco de trás. Ela não disse nada durante todo o caminho e sabia que se tratava de um longo caminho. Hamptons a aguardava.
Quando chegaram àquela zona balnear, não demorou muito para que o endereço da majestosa mansão dos Reynolds fosse devidamente encontrado e vigiado. Luzes decorativas marcavam um caminho até a entrada principal da construção, que era semelhante a um Chateau. Definitivamente, uma das maiores propriedades da região. Uma entrada com pilastras foi notada pela gangue, que já havia se unido novamente e observava tudo próxima ao carro. Todos se prepararam, os movimentos de seus corpos carregados com destreza e leveza ao mesmo tempo. As presenças só seriam notadas de fato quando decidissem o momento. estava próxima de , que, por algum motivo indefinido, fingia que a mulher estava invisível. Ela brincava com o chicote, segurando-o com as duas mãos e pulando ao passá-lo próximo de seus pés, como se pulasse corda. A personagem também fez isso em um dos filmes, ela sabia, já havia assistido. riu daquele gesto e inclinou o chapéu, verificando se seu revólver estava carregado. Os outros três passariam casualmente pela entrada, como se fossem convidados.
- Não é hora de brincar, Catwoman. - alertou solenemente. Os dois conseguiam ouvir a música de batidas frenéticas que ressoava por toda a região. De onde estava, conseguia ver alguns adolescentes desenfreados se jogando dentro de uma piscina. Piscina não, aquilo mais se parecia com a réplica de uma lagoa. - Preparada para entrar de vez no lado escuro da força?
- Já nasci desse lado, . - a voz sussurrada, que não fazia parte da de todos os dias, o respondeu.
Esperaram mais alguns instantes em silêncio, apenas sustentando olhares e os desviando quando a oportunidade surgia. recebeu o sinal e os dois caminharam para os fundos da mansão, infiltrando-se no meio de todo aquele caos adolescente.
- It's showtime!
(Play 2!)
Duas grandes portas de vidro temperado se abriram e, coincidentemente, a música parou de tocar. Todos olharam para o casal que adentrava o ambiente. James, Dean e Jonathan tomavam alguma bebida, esperando o sinal de para acabarem com o disfarce. Naquela noite, não usavam seus chapéus, apenas o líder estava usando.
- Diga ao Batman que a Catwoman chegou! - anunciou em alto e bom som, caminhando lentamente para o centro da festa que no momento estava paralisada. Seus quadris se movimentavam de maneira que os homens do local o analisavam com olhos brilhantes. Ela deu uma checada no recinto, enroscando os dedos pelo chicote de propósito.
Em um piscar de olhos, sua presença se tornou ignorada após uma orquestra de risinhos debochados. A música alta voltou a tocar.
Sorrindo malignamente e deixando uma luxúria criminosa escorrer através do olhar, ela tomou impulso com o chicote e o jogou para cima, acertando em cheio um enorme lustre de cristal, cujos diversos pedacinhos caíram em quem estava por perto.
parou uma garota qualquer que passou perto de si e beijou sua mão, roubando descaradamente sua bebida, assim como um selinho.
gostou de todos os olhares assustados que recebeu.
- Qual é a graça, pessoal? - disse, soltando uma risada aguda. - Compartilhem comigo, quero rir também! - em um gesto mortífero, ela virou o chicote no ar e o estalou no chão, o jogando em um cara que estava próximo, atingindo em cheio o rosto do homem, que começou a gritar de dor.
- Obrigado, amor, mas pode me dar licença agora? - disse, dando o último gole na bebida e fazendo um carinho singelo no rosto da garota que parecia encantada. Sacou sua arma, se colocando ao lado de e assustando os participantes da festa ainda mais. - Presumo que estão pensando que isso se trata de uma brincadeira... - ele apontou a arma para cima, sorrindo fechado e puxando o gatilho. O disparo ecoou e as pessoas se encolheram, procurando desesperadamente por um esconderijo. James barrou uma das portas, empurrando com uma força sobrenatural um garoto que tentou enfrentá-lo. - Bem, se fosse uma brincadeira, eu não faria isso! - outro disparo, um garoto alto e musculoso que tentou dar uma de corajoso caiu no chão, baleado no braço. A multidão estremecia.
- Fiquem todos calmos e respondam antes que eu perca a paciência: Onde está Philip Reynolds? - assumiu o comando da situação, recebendo um olhar encorajador de Jonathan e Dean.
Grande porcentagem de dedos foram apontados para cima. olhou as escadas e soltou um risinho malicioso, ameaçando ferir mais pessoas com o chicote e se dirigindo até a escada. As pessoas se afastavam, olhando-a com pavor.
Terminou de subir todos os degraus e encarou o extenso corredor de portas, ouvindo um rock n' roll alto escapar por uma delas.
- Morno... - driblou a primeira metade do lugar, quebrando outro lustre com sua arma elástica. - Quente... - disse mais alto, segurando a maçaneta da porta por onde e som saia. - Fervendo! - gritou, puxando-a com violência, chutando a porta e dando de cara com o um trio quase sem roupa em uma cama king size. Eles se separaram e olharam com olhos arregalados para a mulher, que não se dava ao luxo de desviar o olhar das partes nuas dos corpos de ambos. - Vocês se queimaram, danos irreparáveis! Agora, as duas mocinhas... - ergueu uma das pernas, dobrando o joelho e a apoiando seu salto fino na cama. - Tirem as patas do meu garoto. - seus olhos espertos fitaram os do garoto de cabelos negros e um pouco cumpridos. Tinha algumas tatuagens nos braços e região do peitoral... Mas nada que pudesse intimidar. Aliás, ele estava se encolhendo como um gato que temia água, mesmo que olhasse vez ou outra para com desejo. Depois de mais algumas ameaças e algumas coisas quebradas pelo chicote, as duas garotas vestiram desajeitadamente suas roupas e saíram correndo.
- Catwoman? Não me lembro de ter comprado uma garota com esse disfarce. - o tom infame de Philip arrancou um som negativo dos lábios rubros de , que subiu na cama, ficando de pé e levando a ponta de sua bota até o queixo do garoto, que não aparentava mais ser tão espertinho.
- Comportado, exatamente como eu gosto. - forçou mais o pé, descendo e deixando Philip imóvel ao forçar a ponta em seu pescoço. Abandonou o chicote e tinha em mãos sua faca, que estava escondida até o momento em um pequeno laço especial em sua coxa. Segurou o rosto do garoto com uma das mãos, pressionando a lâmina do instrumento cortante em sua bochecha e o puxando para baixo, cortando a pele. Só sorriu satisfeita quando viu o sangue. Ainda querendo brincar mais, aproximou a lâmina suja da boca dele, erguendo uma sobrancelha. - Passe a língua pela minha faca, tem gosto de ruína.
- Você é maluca! - a tentativa de ofendê-la foi tão fajuta que arrancou um suspiro da mulher, como se sentisse entediada de repente.
- Pode vir comigo? Eu até poderia sugerir uma caminhada na praia, mas acho que você combina mais com o cativeiro de um dos caras que tirou do sério! Você pode ser muito bom com computadores e roubo de informações, mas com certeza não é com mulheres, isso eu posso afirmar. - o puxou violentamente pelo braço, colocando o garoto de pé e o obrigando a vestir sua calça. Puxou seus dois braços para trás e amarrou seus dois pulsos com o chicote. - Agora, meu garoto, vamos finalizar a festa como se deve.
Antes que pudesse arrastar sua vítima até a porta e cair fora, ouviu um som estrondoso do lado de fora da janela. Empurrou Philip no chão e correu até a mesma, debruçando-se em uma sacada e assistindo com uma expressão surpresa um carro em alta velocidade derrubar um portão dos fundos do jardim e surgir dentro do mesmo. O som estridente do veículo desgovernado apenas cessou quando o controle foi perdido e o mesmo se jogou dentro de uma piscina. riu, mas o semblante se transformou da água para o vinho quando quatro caras com aparência de delinqüentes de rua saíram de dentro, subindo pelas bordas da piscina e olhando para a janela em que ela estava. Escondeu o corpo, ouvindo seu nome ser chamado no andar de baixo. Era o voz de . Fez Philip se levantar e o levou até a porta, mantendo a faca próxima de seu rosto. Os dois passaram pelo corredor e desceram as escadas. Um dos sujeitos invasores travava uma luta com James.
- Philip é famoso, sabia? - Jonathan tentou dizer, olhando dela para o garoto e tentando impedir que um outro cara se aproximasse.
- É ele que nós queremos! - um grandalhão careca correu até , na pura intenção de se livrar do corpo da mulher e raptar Philip, mas outro tiro foi disparado e o homem caiu. passou correndo pela porta, acertando um soco no rosto de outro daquela gangue, fazendo um gesto desesperado com a cabeça para que corresse para fora. Quando tentou, ela percebeu que James exagerava na surra que dava em seu oponente. O sangue escorria livremente pela boca e nariz de um pobre coitado que nem conseguia mais ficar em pé. As veias no pescoço de James estavam alteradas e a pele de seu rosto avermelhada. Dean se aproximou, tentando fazer o irmão parar. Era a segunda reação fora do comum que havia notado em um daqueles gêmeos.
já estava do lado de fora, estranhamente animado, praticamente urrando em comemoração ao derrubar outro dos caras. cruzou a saída com Philip, que tentava se segurar em alguma coisa para não cair. Largou o corpo do garoto no chão ao sentir alguém puxar um de seus braços. E lá estava, o chefe da gangue rival.
- Meow. - o provocou, desviando de um soco e jogando o corpo para trás, se preparando para acertá-lo com um chute certeiro no estômago, seguido por um soco em seu rosto. Ainda com os punhos erguidos, ela voltou a chutá-lo mais uma vez e teve seu pé segurado, cambaleando. O forçou para cima, conseguindo soltá-lo e acertar novamente o ser. Respirou ofegante enquanto o assistia cair no chão, reclamando de dor e jurando-lhe vingança. - Sinta o meu couro, garanhão. - Catwoman provocou, virando-se e caminhando imponente até Philip, o tomando em seus braços novamente e observando o caos por todos os lados. Os freqüentadores da festa ainda se mantinham escondidos do lado de dentro da propriedade.
Com a certeza de que aquela gangue estava liquidada, James - que havia conseguido mais alguns nomes para sua lista de homicídios -, Dean e Jonathan foram para o lado de fora de encontro ao outros dois. pegou um cigarro com Dean e deu uma pausa para se sentar na grama e fumar tranquilamente. Finalmente conseguia respirar com calma.
- Não vou te parabenizar, gatinha, o que fez não foi nada. - ela apenas fez um biquinho e soltou a fumaça em resposta ao comentário grosseiro de James. Suas provocações sem fundamento se tornavam cada vez mais maçantes.
- O que o tem? - Jonathan perguntou, olhando estranhamente para o homem de chapéu que caminhava pelo gramado, enquanto ria sozinho.
- Você nunca esteve em festas como essas, Jon? - Dean questionou, com o tom de voz que sugeria que o que estava acontecendo com era óbvio. - Não duvido que eles misturem drogas com as bebidas.
- Eu só vi o bebendo uma vez hoje... E ele está totalmente bêbado! - ao falar, se levantou, jogou o resto do cigarro no chão e caminhou até , que notou a presença da mulher e sorriu maravilhado, dando passos firmes em sua direção. Praticamente jogou seu corpo em , que tentou segurá-lo, passando o braço por um de seus ombros. Os outros apenas riam. - Vamos tirá-lo daqui e entregar o playboyzinho para o seu cruel destino.
Philip foi deixado em um posto de gasolina abandonado há vários quilômetros de distância de Hamptons. Era o lugar combinado com o tal amigo de Helena, ele logo estaria ali. Dean foi até um bar próximo com Jonathan, James ficou dentro de seu carro fumando um cigarro e encarava uma estrada vazia, brincando distraidamente com seu chicote. Olhou para o carro onde deveria estar e se perguntou mentalmente se queria ficar perto dele ou não. Sempre teve medo de pessoas bêbadas, sabia que elas falavam sempre mais do que o recomendado.
Tinha se divertido mais uma vez, outra noite com indícios memoráveis de diversão para sua lista. Realmente levou a sério toda aquela coisa de Catwoman, se sentiu mesmo dentro do corpo da personagem. Bem, talvez Catwoman fosse seu alter ego. Talvez a vilã existisse mesmo. Mas apenas vilões existem no mundo real, certo? Super heróis, não.
Quando se deu conta, já estava segurando a porta aberta do carro e se preparando para fazer companhia a um totalmente alto, fora de si. não esperava que tivesse a chance de ver o todo poderoso daquele jeito, tão fácil de manipular, uma diversão certa. estava no largo banco de trás, com a cabeça um pouco inclinada para trás, os olhos fechados. Quando ele percebeu que a mulher se aproximou, sorriu um sorriso aberto e impecável. Arrumou o corpo no banco e aproximou um pouco seu rosto de , analisando sua mascara e os olhos maquiados da mulher, que sustentava aquele contato visual. ergueu um dedo para falar, olhando ao redor, como se procurasse por observadores. Ele não queria que ninguém escutasse aquela conversa.
- Você sabe onde a está? - sussurrou para ela, que franziu o cenho e, quando estava prestes a dar um tapa em sua cara e obrigá-lo a voltar a ficar sóbrio, se recordou que aquele era o efeito da droga colocada na bebida que ele inocentemente bebeu. Catwoman negou com a cabeça. - Ainda bem, porque ela não pode ouvir o que eu tenho a dizer! Não pode mesmo! - balançou a cabeça, os olhos levemente arregalados pediam descrição. Ele mordeu o lábio e se questionou se era mesmo verdade ou uma simples encenação. Todavia, resolveu dar corda àquela conversa estranha.
- O que você tem a dizer, ? - ela perguntou, fazendo a mesma voz provocante de antes, quando havia se tornado outra pessoa.
- Seria muito errado e vulgar se eu usasse o adjetivo... Gostosa? - a voz masculina soou baixa e os olhos pareciam os de uma criança curiosa. olhou para baixo, procurando por palavras. Droga.
- Talvez... - começou. fez um bico infantil, brincando com a aba do chapéu que estava totalmente torto em sua cabeça. - Mas pode usar, se quiser. Quem se importa, não é mesmo?
- Ela é tão gostosa! - ele disse alto e de supetão, fazendo o corpo de ficar tenso no banco. - É inteligente, ágil, tem ótimas tiradas... Eu não sei, e ela pisa em cima de mim do jeito que bem entende. Isso deveria me irritar e provocar a vontade de matá-la, certo? - consentiu, com os lábios em linha reta, surpresa demais com tudo que ouvia. Em total estado de negação. - Mas não me irrita... Me deixa, você sabe, louco. Louco em um bom sentido. Oh, merda! - escondeu o rosto com as duas mãos e depois de vários segundos em silêncio começou a rir, mudando totalmente de assunto. - Cara, eu posso estar morto amanhã mesmo, ou talvez daqui a cinco minutos. E sabe a pior parte? I don't give a fuck! - colocou uma mão coberta pelo couro no ombro dele, virando um pouco seu tronco. A subiu, tocando o pescoço, queixo e por fim o rosto de , olhando para os lábios masculinos e passando a língua nos seus. O homem estava congelado. O coração de batia intensamente em seu peito, a vontade de beijá-lo era gritante demais para ignorar. - Vai ficar aqui comigo, não é? Você sempre foi minha heroína favorita.
- Catwoman não é uma heroína... Eu não sou uma heroína.
- O que você não sabe é que o meu conceito de herói pode ser muito diferente. Quem é que aguenta ser benevolente o tempo todo? - revirou os olhos e sentiu a necessidade de calar sua boca.
É sempre bom se aproveitar das oportunidades que surgem pelo caminho.
Ela fechou os olhos e levou o rosto um pouco mais para frente, estremecendo quando seus lábios quentes encontraram os dele, mais quentes ainda. nada fez, aéreo demais para tomar alguma atitude. não sabia por que tinha tomado aquela decisão, mas não havia espaço em seu interior para arrependimentos. Há muito tempo não havia.
Não aprofundou o beijo, apenas segurou os cabelos da nuca de com afinco, abrindo delicadamente seus lábios e provocando o homem com sua língua, a passando sutilmente pelos lábios dele e depois os lambeu de baixo para cima. Fez um carinho sem jeito na região repleta de pequenos pontinhos de barba e, relutante, se afastou minimamente. Queria mais, mas também queria distância. Porque era uma mulher inteligente e aquilo, definitivamente, estava fora de cogitação.
- Só porque você não vai lembrar disso amanhã. - ela soprou as palavras contra os lábios de , sorrindo mais por dentro do que por fora.
voltou a quebrar a curta distância entre os dois, encostando a cabeça no ombro de coberto pelo couro. O gesto afável a deixou incomodada, mas não tentou barrá-lo.
- Obrigado, Catwoman. - ele agradeceu sonolento, irreconhecível.
- Meow. - por falta de palavras, incorporou a heroína de por uma última vez.
Para o conforto interior de , apenas ela carregaria aquela lembrança.
Capítulo 6 Know Your Enemy
Hertfordshire, UK
“Hello There”
Os dizeres piscavam acima de uma porta dupla em madeira trabalhada. Vez ou outra as letras “O” e “T” se queimavam por uma fração de segundo, produzindo uma espécie de chiado, voltando a receber iluminação e se apagando em seguida, como um ciclo vicioso. O homem alto e robusto, que se aproximava com cautela, pôde enxergar a mudança no sentido daquelas duas palavras, notando como faziam sentido.
“Hell Here”
Sem que ele tivesse a oportunidade de puxar uma das maçanetas, uma delas girou automaticamente, possibilitando que um dos lados da porta se abrisse, deixando apenas uma fresta do interior do cômodo exposta. Ele notou, então, que estava escuro; provavelmente, apenas a iluminação da lua chegava até o quarto através da enorme janela de vidro repleta de grades do mais resistente material inquebrável.
Fazia frio, uma temperatura tão baixa que deixava partes do corpo do homem doloridas, mas ele pouco estava se importando com isso. Ouviu um som, mais precisamente um lamento escapando da garganta do ser que estava lá dentro. Aproximou-se mais, com todo o cuidado do mundo para que não fosse notado. Em um momento como aquele, sua presença necessitava ser invisível.
- Eu sei que está aí, Sebastian. - pego de surpresa, ele puxou o corpo para trás e se encostou à parede lateral, virando o rosto e fitando o extenso corredor mal iluminado por um tempo. Toda a propriedade era assim: escura, de aparência abandonada, morta. Muito semelhante às casas de séculos passados, no meio das árvores densas daquela região. O homem engoliu em seco e arriscou colocar metade do corpo para dentro do quarto. Primeiro, tudo que ele enxergou foi o chão coberto por aquele estranho tapete avermelhado; depois, com os olhos mais atentos e acostumados com a leve escuridão, conseguiu definir entre diversas formas o corpo do ser sentado no chão, virado de costas para ele. Parecia distraído, focado em alguma coisa. - Quanto tempo mais vou ter de esperar? - a voz, agora mais firme, soou novamente. Feminina, rouca, carregada de um sotaque forte. - Está doendo. - voltou a lamentar, virando seu pescoço e olhando o homem, que não se intimidou e sustentou o olhar. Não podia negar que sentia algo muito esquisito no corpo toda vez que ela o olhava, mas preferia evitar e fingir que estava acostumada. Ela teve muito tempo para se acostumar. Sebastian percebeu, finalmente, que o passatempo da mulher eram várias e várias peças de dominó espalhadas pelo chão. Algumas pretas, outras vermelhas. Uma vasta carreira daquelas peças estava sendo montada, dando algumas voltas e intercalando entre alguns objetos espalhados pelo chão.
- Eu sei que está, mas você chegou de viagem recentemente, suas forças estão diminuídas e deve esperar por pelo menos uma noite. Só então poderei acabar com a sua dor. - explicou ele, vendo a mulher dar de ombros e voltar a entregar todo o seu foco àqueles dominós. Ela enfileirou mais algumas peças, colocando uma última de frente para um compartimento no canto da parede. Sorriu diabolicamente e se sentou no começo da fila mais uma vez, abaixando um pouco seu tronco e aproximando o dedo - cujas unhas eram cumpridas e vermelhas - da primeira peça, segurando o fôlego e o soltando assim que um leve impulso com o dedo colocou toda aquela carreira em movimento. Um por um, os dominós cederam, derrubando uns aos outros, o barulho produzido soava como uma melodia agradável aos ouvidos dela. Sebastian apenas observava, entediado.
Por fim, a última peça foi de encontro ao compartimento, chocando-se com o mesmo e fazendo com que outro compartimento mais acima da parede se abrisse lentamente. Os olhos de Sebastian não foram capazes de enxergar o objeto rápido e reluzente que escapou por aquele buraco, mas a mulher, sim. Com uma calmaria assustadora e uma agilidade incompreensível, um pedaço de vidro em forma retangular e pontuda foi pego pelos dedos firmes e levemente avermelhados da mão feminina, que, sem exprimir qualquer expressão de esforço, com músculos relaxados, desfez o objeto em inúmeros pedacinhos que caíam por suas mãos e chegavam até o chão. As pontas afiadas não pareciam feri-la.
- Você apreciou a viagem, K2, minha querida? - Sebastian estava maravilhado, até sentia vontade de aplaudi-la depois daquele pequeno espetáculo que já estava tão acostumado a contemplar. Ela abriu a mão e jogou os restos do vidro para longe, levantando-se e virando-se para Sebastian, dando apenas um passo em sua direção. Abriu mais os olhos carregados com as mais incertas intenções e sorriu abertamente, ignorando toda a dor que estava sentindo. O ambiente tornou-se denso.
- Muitíssimo, K1 também. - ela arregalou os olhos, unindo os lábios em linha reta ao ouvir o som estrondoso que vinha de fora do quarto.
- Mais consertos... Pensei que sair um pouco daqui fosse acalmá-lo.
- K1 não gosta de diversões limpas e pacificas como eu, é a mais perfeita personificação da violência. - ela parecia uma garotinha com aquele sorriso angelical, mas ao começar a andar novamente e se aproximar de Sebastian, desviou o corpo e segurou a maçaneta, puxando-a delicadamente, mas conseguindo arrancá-la. - Que diferença faz, não é? Ninguém respeita essa droga de maçaneta mesmo. - o humor havia mudado. Para pior. - Está doendo! - bradou, cerrando as mãos em punhos que fizeram Sebastian engolir em seco. Misturava-se com o som dos golpes ferozes que poderiam colocar a casa abaixo em segundos. Sebastian passou a temer novamente. - Está doendo muito e eu cansei de ficar nesse quarto! Faça alguma coisa!
- Farei, na hora certa. Agora, se me der licença, K1 precisa de uma injeção de paz.
- Injeção de paz? Não se atreva a usar uma dessas em mim... Eu quebro você em pedaços de quantidade semelhante às minhas peças de dominó.
- É só não me dar motivos para usá-la, querida. E então você estará a salvo até o grande dia.
Sebastian sorriu torto para ela e deixou o cômodo, sem se preocupar por a porta estar aberta ou não. Apesar do medo que sentia daqueles dois seres estranhos, também sentia o controle em suas mãos. Porque, apesar da fúria e da necessidade de liberdade que as criaturas possuíam, nenhuma delas seria capaz de tentar algo contra ele. Apenas ele tinha o poder de pará-las, assim como o de soltá-las ao mundo quando fosse oportuno. Elas precisavam dele... Ainda.
O olhar preguiçoso de fitava a alvorada acima de si, notando os primeiros raios de sol que surgiam. Um vento frio e puro passou pelo seu corpo, levando alguns fios de cabelo que estavam soltos para trás. Ela respirou fundo e fechou os olhos por alguns instantes. Sentia-se bem quando acordava cedo, bem cedo. Mas não naquele dia. Parecia que quando uma noite era repleta dos mais variados sonhos, não conseguia obter descanso para o corpo. sentia-se como se tivesse sido atropelada por alguma coisa. Alguma coisa grande. Como a culpa, por exemplo. “Covarde”
Ela emitiu aquela palavra em alto e bom som em sua mente. Dos vários sonhos que teve, estava beijando em todos eles. Todos os beijos possíveis, todas as maneiras imagináveis. Um deles até era bem propício já que, enquanto estava com os lábios unidos aos do homem, os dois seguravam armas e atiravam compulsivamente, para impedir que alguém chegasse perto e quebrasse aquele contato. “Covarde”
A voz dentro de sua cabeça a repreendeu, com ainda mais afinco. Livrou-se do moletom que usava e o jogou no chão do jardim, passando as mãos pelos braços nus e quentes. Socou o ar algumas vezes, apenas para se manter aquecida. Se soubesse que ficaria remoendo aquele estranho sentimento de culpa, não teria feito o que fez na noite anterior. Bem, pelo menos uma coisa estava ao seu favor: ao acordá-la naquele começo de manhã, mantinha a mesma expressão de sempre. Nada havia mudado, pelo menos para ele. Não questionou sobre seu estado drogado, tudo que fez foi obrigá-la a se levantar da cama, insistindo que havia chegado o momento de aprender a usar uma espada. Que momento oportuno, ela pensou. Talvez pudesse enfiar a espada em alguém e transmitir toda a sua culpa para o pobre coitado.
Imóvel, olhando para o sol que já havia dado totalmente o ar de sua graça, ela sentiu alguém parar um pouco atrás de si. Seus olhos desceram para uma garrafa com um líquido vermelho que estava sendo-lhe oferecida. Não precisou se virar, conhecia aquele perfume. Um carregado por uma leve ressaca estava ali, lhe oferecendo nada mais do que um suco.
E ela foi idiota o suficiente para oferecer-lhe um beijo quando o momento fora aproveitável. “Covarde!”
Poderia intitular-se covarde pelo resto dos tempos, mas ele não saberia daquele beijo por ela. Não, não e... Não.
- Por acaso é o horário da educação física no colégio de freiras? - perguntou com a voz debochada, desviando o olhar dos lábios dele e agarrando a garrafa. Recebeu um sorriso meio preguiçoso de , que se colocou a sua frente. Estava com uma calça de moletom com duas listras brancas nas laterais, tênis nos pés e uma camiseta branca polo. olhou para ele dos pés à cabeça, mas o homem a ignorou, como sempre fazia e revelou as duas espadas, cujas lâminas estavam protegidas com capas próprias. - Que tipo de veneno tem nisso aqui? - olhava incerta para o suco dentro do objeto de plástico, o balançando de um lado para o outro.
- Um que elimina a desconfiança e retarda o sarcasmo, . Uma mão na roda para você! - respondeu de imediato, arrancando a capa das espadas e estendendo uma para , sem rodeios. Ela apenas revirou os olhos em resposta e a pegou sem jeito, se esforçando para não parecer ridícula enquanto tentava segurar o cabo de madeira detalhada.
Ela soltou um risinho quando recebeu um olhar sério, endireitando-se e fingindo estar engasgada. A imagem do homem totalmente drogado correndo em sua direção não saia da mente. E, o encarando ali, com sua pose séria e descolada ao mesmo tempo, nem parecia a mesma pessoa.
- Você sempre foi minha heroína favorita... - disse baixinho e ergueu uma sobrancelha.
- O que você disse?
- Eu? Anda se drogando? Eu não disse nada! - ela deu as costas para , apoiando a espada em uma das paredes do lugar e ajeitando o cabelo com os dedos, balançando a cabeça para que pudesse bagunçá-los novamente. Alguns fios ficavam totalmente desordenados e outros arrumados demais, como ela gostava.
Mostrando-se hábil, empunhou sua espada, esperando por . Ela tentou imitar a pose dele, recebendo uma risada como recompensa. balançou a cabeça negativamente e colocou sua arma branca para repousar no chão, indo até e parando atrás dela. Levou uma mão sábia até a barriga da mulher, puxando-a precisamente para trás, enquanto segurou um dos lados dos ombros dela.
- Endireite o corpo. - ele ordenou e ela respirou com dificuldade, implorando mentalmente para que ele tirasse logo a mão de sua barriga. Mas se aproveitou ainda mais dela, ficando com a boca bem próxima de seu ouvido, deslizando os dedos e colocando-os para repousar na cintura coberta pela camiseta justa ao corpo e de tecido fino. tentou falar, mas ele fez um “shhh” que a fez mudar de ideia e deslizou a outra mão pelo braço cuja mão segurava desajeitadamente a espada. Ensinou-a com maestria como segurá-la devidamente e voltou a sussurrar perto de seu ouvido. - Olhe para frente, . - ela o obedeceu, fitando um conjunto de árvores, as folhas dançavam violentas contra o vento. Ele induziu a apontar a arma para frente, aconselhou que os dedos segurassem o cabo com vontade, sem vacilar em momento algum. - Mantenha a boca fechada e a espada apontada para o seu alvo. Sempre. - por que mantinha aquela voz rouca e propositalmente sedutora enquanto a instruía? Era uma incógnita para . - Use os olhos, apenas os olhos, mas esteja alerta. Esconda bem suas emoções, truques e ações, pois um bom lutador é capaz de fazer um raio X de sua mente através dos olhos. - as mãos masculinas não tocavam mais o corpo feminino, que por um momento se sentiu frágil. Logo ela se recompôs, endireitando os ombros e adquirindo a expressão de lutadora durona. - Cuidado. - a voz soprou em seu ouvido uma última vez, antes de se afastar e pegar sua espada no chão. Desafiou com os olhos espertos e penetrantes, preparando-se para poder imitar a posição em que ela se encontrava, sem nem piscar os olhos. Com os dois em posição de ataque, resolveu dar o primeiro golpe. soltou um grunhido e tentou se defender com a espada, mas de um jeito que obrigou o homem a rir alto. Sem esperar que ela assumisse qualquer pose de defesa mais uma vez, ele se dispôs a atacá-la novamente, dessa vez optando por um golpe cuja espada deslizou pelo ar e foi de encontro à barriga da mulher, que se encolheu e deu passos rápidos e desesperados para trás. começava a se irritar, enquanto sentia o suor começando a surgir em sua testa. Por que de repente se sentia tão intimidada?
Ela encheu os pulmões com o ar frio e caminhou disposta a atacá-lo, enquanto um som semelhante a um rosnado escapou pela garganta. sorriu com aquela atitude e bloqueou o golpe, percebendo que parecia não desistir. Os dois gumes pressionados um contra o outro, o barulho das lâminas gritando entre si. O olhar de ambos se alinhou, ninguém queria ceder.
Mas acabou o fazendo.
- Você é muito bruto. - ela disse entre dentes, respirando ofegante.
- E desde quando brutalidade te intimida? Sua memória é uma porcaria mesmo, não é? Já se esqueceu da garota que estava determinada a atirar bem na minha cabeça? - o tom de voz era provocativo. - Tem medo de lutar comigo agora, ? Justo agora? O que mudou, afinal?
- Nada, é claro. Nada mudou, eu ainda posso atirar em você quando quiser. Ou golpeá-lo... - ela respondeu convicta, com um sorrisinho repuxando pelos lábios. O brilho fatal surgiu em seus olhos, e jogou o corpo para trás em um impulso quando foi pego de surpresa por um ataque inesperado da mulher, que parecia não ver mais a espada como um simples brinquedo. E ele estava feliz com aquilo, porque lutar com um instrumento como aquele era algo que deveria ser aprendido de maneira solitária. não queria ficar dando dicas e mais dicas, seria apropriado que aprendesse o máximo que conseguisse sozinha. E ela não estava se saindo tão mal. - Medo é uma invenção pútrida criada por quem desconhece as maneiras de utilizar coragem. - com a ponta da lâmina em linha reta, pronta para atingir o pescoço de , recuou, recolhendo a mesma e apoiando-a no chão, enquanto jogava algumas mechas do cabelo para trás. Com tantas coisas que poderia olhar, ele optava por manter os olhos presos nos fios longos que voltavam e caíam pelo rosto que enganava ser frágil e inocente. E então, jogava a cabeça levemente para trás, livrando-se de seu cabelo.
Ele sorriu ardiloso, encontrando a oportunidade perfeita para revidar. Ela parecia ocupada ainda com os fios desobedientes, então teve apenas tempo de proteger o rosto com as duas mãos e abaixar o corpo quando um ataque grandioso foi executado por . O vento ficou mais forte e ele bufou com a demonstração de covardia dela, mais uma vez.
- Quem você pensa que é para falar de coragem, quando se encolhe no chão feito uma gatinha assustada? - ela se livrou da proteção das mãos e o encarou seriamente. A sensação dos lábios dele unidos aos seus voltou, mas o momento era ridiculamente inoportuno. - Do que você tem tanto medo, ? De se ferir? De sentir dor? De sangrar? - em um gesto rápido, levou a ponta da espada até o braço, a pressionando e deslizando-a pela pele, provocando um corte fino, porém a presença de sangue era notável. apenas arregalou os olhos e se levantou. soltou um leve gemido de dor, respirando fundo, fechando os olhos e sorrindo para ela, como se o ferimento e a dor não fizessem diferença. - Isso não é nada! Dor não é nada, você pode resistir a ela. Sangue não é nada, você vai precisar perder muito até cair derrotada no chão. O mundo é uma guerra, você não merece viver nele se não estiver disposta a ser um soldado.
- Enlouqueceu, ? - percorreu a curta distância entre ambos com determinação, ignorando tudo que estava ouvindo e segurou ternamente o braço com o corte, mantendo os olhos fixos na pequena ferida. Encostou os dedos, sentindo o sangue em contato com sua pele. sentiu dor, mas não tentou se afastar, era gostosa a sensação de alívio quando os dedos gelados dela tocavam sua ferida em um carinho singelo.
- Eu já disse, , isso não é nada. - ela largou o braço dele e foi para trás, limpando o suor da testa. - Para uma primeira lição, você não foi tão ruim. Vou até deixar que você escolha algum prêmio. - já tinha escutado algo semelhante, como quando permitiu que pedisse alguma coisa por ter perdido a corrida. Ele pediu um beijo, e ela negou, é claro.
Mas, por uma ironia do destino, ele havia conseguido o que pediu. Mesmo que não soubesse...
pensou por um tempo, tendo a ideia perfeita.
- Uma mesma pessoa consegue ter várias personalidades, concorda? - ele concordou. - Me mostre alguma das que você esconde.
- Como a senhorita quiser... Talvez mais tarde, certo? - tomou a espada de e se afastou, entrando na mansão.
Cerca de uma hora se passou desde o intenso treinamento com , mas ainda não tinha colocado os pés para dentro da mansão. Continuava do lado de fora, obrigando os músculos de suas pernas a trabalharem enquanto corria ao redor do lugar, exercitando-se. Ofegante o suficiente para jogar o corpo no chão por um momento e descansar, ela fitou a enorme porta de aço, que estava aberta. Alguém parecia se aproximar, e notou que a pessoa cambaleava e se apoiava nas paredes que encontrava pelo caminho. Ela se levantou e voltou a correr, mas com a intenção de ver o que estava acontecendo. Era um dos gêmeos, mas ela não os conhecia tão bem para conseguir distingui-los na aparência.
- Dean? - ela arriscou, mais perto do homem, que parou em uma árvore, tentando respirar fundo. - James? - arriscou de novo, com um tom de voz diferente, desanimada por saber que poderia se tratar do segundo.
- Dean. - ele respondeu com a voz vacilante, jogando o corpo e ficando sentado embaixo da árvore. estranhou vê-lo com aquela simples camiseta e a calça jeans, parecia até outra pessoa sem o terno e o chapéu. Dean fechou os olhos, estava se sentindo muito mal. Sem escolha, abaixou-se ao lado dele, tentando ajudá-lo de alguma forma. Fitou um dos braços do homem e avistou um curativo com uma pequena mancha redonda de sangue no meio.
- Quer que eu vá pedir ajuda? Você deveria ter avisado a Helena... - ela tentou se levantar, mas Dean segurou seu pulso com força, e percebeu que as mãos dele suavam frio.
- Não, não faça isso... Eu vou ficar bem, logo. Não a incomode, ok? - Dean mentia para si mesmo, notando que com o passar do tempo só ficava pior. soltou seu pulso e correu até o outro lado, pegando a garrafa com suco e retornando, oferecendo-a para que o homem pudesse tomar um pouco. E ele o fez, com vontade, como se estivesse sem beber qualquer líquido há dias.
- Efeito de ontem? - ela tentou manter o tom descontraído enquanto falava. Dean negou com a cabeça, desencostando-se da árvore e deitando-se completamente na grama. Apoiou uma das mãos no abdômen e fechou os olhos.
- Quem me dera... Eu não sei se posso continuar a lidar com isso. - ele dizia mais para si mesmo do que para e ela não fazia a mínima ideia do que ele estava falando. E também não fez questão de perguntar, apenas ficou por ali em silêncio, caso o estado de Dean piorasse e ela tivesse que procurar por ajuda. Algum tempo depois, Dean se esforçou para levantar, alegando a ela que estava se sentindo melhor e iria para o quarto.
- Onde está o seu irmão? - quis saber. Dean procurava por alguma resposta.
- Deve estar dormindo. - seu comportamento evasivo atraiu a atenção de , que observou o homem caminhar lentamente para dentro. Ela sentia que algo estava errado, que aquele acontecimento possuía uma explicação mais complexa do que uma simples noite de farra.
Inquieta, ela decidiu entrar também. Cruzou o primeiro corredor e sentiu a raiva correr livre por suas veias quando escutou as duas risadas tão típicas. Não precisou caminhar muito para grudar os olhos do lado de fora de uma janela de vidro e avistar a sala de treinamentos que era ocupada por duas pessoas. estava sentado em uma cadeira enquanto Palmer fazia um curativo no ferimento que ele mesmo causou em seu próprio braço. tentou não ser notada, mas continuava a observar. Seja lá o que a perua estava dizendo, conseguia arrancar sorrisos e risinhos sugestivos do homem. E um dos sorrisos foi tão aberto e espontâneo que ela até se sentiu mal. Não mal pelo sorriso em si, mas mal por saber que não tinha ninguém para fazê-la sorrir daquela maneira.
Sentiu uma mão quente apoiar-se em seu ombro e a tirou imediatamente dali, virando-se e sendo presenteada com mais um dos melhores olhares hostis de James. Ela sabia que não se tratava mais de Dean, porque o semblante daquele era diferente, os olhos eram mais abertos e o corpo levemente mais másculo.
- Pode desistir, ela controla bem a situação. - James apontou para Palmer, que havia sentado descaradamente no colo de . preferiu nem olhar. - Escolha outro chapéu para usar. - o escárnio deslizou para fora de seu tom de voz, de repente James parecia falar mais calmamente, como uma tentativa de seduzi-la. franziu o cenho e deu de ombros, tentando passar por ele e voltar a chutar ou socar alguma coisa do lado de fora, mas seu braço foi segurado com imensa força. Em questão de segundos ela fechou os olhos e soltou um gemido de dor quando seu corpo se chocou bruscamente com a parede ao lado. Quando voltou a abrir os olhos, o rosto de James se revelava próximo demais. Tão perto que estava quase se tornando um crime. Sim, um crime, porque ele seria assassinado se não soltasse logo o corpo de .
- Qual é a porra do seu problema comigo? - ela questionou, com fogo nos olhos. Desprezível era pouco para denominar James, principalmente enquanto tentava segurá-la pela cintura daquela maneira tão suja. Ela esperou, sem tentar se soltar, queria mais motivos para fazer picadinho do homem. Quanto mais, melhor.
- Você por completo. - a resposta escapou segura pelos lábios levemente cheios do homem de cabelos castanhos. teria achado incrível a semelhança com o ator James Dean devido aquele sorrisinho de canto tão característico que recebeu, mas estava ocupada demais odiando o dito cujo.
- Ao seu dispor. - ela apoiou as duas mãos nos ombros dele e já erguia o joelho para chutá-lo impecavelmente em uma região crucial, mas a amarga surpresa não tardou a vir. Lábios se chocaram com os seus, assim como uma língua que tentou atravessá-los. A mulher arregalou os olhos e se contorceu nos braços dele, tentando se soltar a qualquer custo. Seus lábios foram travados, ela não daria qualquer mera chance a ele.
- A linha entre amor e ódio é mesmo tênue como dizem, não é? - James a soltou rapidamente, quase fazendo perder o equilíbrio e cair sentada no chão. Ela se apoiou na parede e levantou o rosto. estava parado próximo aos dois, juntamente com Palmer, que apoiava um braço no ombro dele. Uma típica posição de posse. - Venha, Palmer. - disse, lançando um olhar carregado de diversas misturas para , puxando a ruiva pela cintura e depositando um rápido beijo em sua bochecha. esperou que os dois se afastassem e fitou James com os olhos brilhantes e mortíferos. Passou as costas da mão pelos lábios e estava totalmente pronta para começar uma boa luta com ele, caso fosse necessário, mas o homem apenas balançou a cabeça e saiu andando, como se nada tivesse acontecido. Primeiro um beijo roubado, depois aquela risada que zombava cruelmente da mulher. Quanto ódio se acumulou em seu ser!
Planejar uma super rebeldia não parecia mais uma ideia tão absurda.
Ela vestiu a jaqueta de couro por cima do top vermelho, que deixava uma boa parte de sua barriga à mostra. Deslizou a calça justa pelas pernas, vestindo-a totalmente, deixando suas curvas moldadas. Depois passou um terço por seu pescoço e calçou um par de botas de cano longo que encontrou nos cantos do quarto. Não sabia explicar como podia carregar tantas botas consigo, era uma paixão estranha. Havia acabado de tomar banho, precisava relaxar um pouco. Aquele dia não havia começado bem. bancando o engraçadinho como de praxe, Dean com seu estranho mal estar e James, o desgraçado que se atreveu a beijá-la.
Saiu do quarto, colocando o chapéu na cabeça. Afinal, mesmo que estivesse detestando com todas as suas forças a maioria daquelas pessoas, já podia se considerar parte da equipe. Deu passos firmes pelos corredores, sem nem olhar para quem cruzava com ela.
- Mais cuidado, ou faíscas saíram pelos seus pés. - uma voz a alertou e ela virou o corpo, constando que se tratava de Jonathan.
- Você pretende me tirar do sério também? Porque, se pretende, vá em frente, assim eu posso adicionar mais nomes a minha lista negra. - disse com a voz sombria, arrancando uma risada sincera do ruivo, que negou com a cabeça.
- Não acho que isso vá te tirar do sério, gatinha... Mas preciso que leve um recado até o .
- James matou todos os pombos-correios? Por que você não vai levar o recado até ele? - totalmente mal humorada, ela acabou falando mais alto. - E onde, infernos, está?
- Tomando banho. Vá até lá e diga que Helena marcou uma reunião de última hora, ele deve descer em 15 minutos. Assim como você. - Jonathan analisou a corpo imprudente de e ergueu uma sobrancelha ruiva. - Apesar dos pesares. - comentou por fim, deixando sozinha e com uma missão aparentemente desconfortável. Desconfortável porque Palmer não estava circulando pelos corredores, o que só significava uma coisa: estava no banheiro com .
Ela foi de má vontade até a porta do quarto de , arrastando os pés como uma criança contrariada. Percebendo que estava aberta, entrou sorrateiramente e com agilidade, conseguindo ouvir o barulho da água caindo. Privacidade não era um problema para os dois malditos, ela pensou. As portas sempre estavam abertas quando estavam juntos, como se fosse uma espécie de convite para suas festinhas. Sendo pega de surpresa, deu de cara com uma Palmer que tinha os cabelos molhados e uma toalha enrolada, que escondia seu tronco. A ruiva apenas sorriu falsamente e se afastou, saindo pela porta ao receber um sorriso fingido da outra.
- É todo seu. - ainda pôde ouvi-la mesmo quando já estava do lado de fora. O chuveiro ainda não havia sido desligado, então mandou a boa educação que raramente usava para o inferno e adentrou o banheiro. O box de vidro estava embaçado pelo vapor da água e ela conseguia enxergar apenas algumas partes do corpo molhado de . Encostou-se à larga pia, cruzando os braços e esperando. Do lado de dentro, ele enxergou e sorriu marotamente. Desligou o chuveiro e passou as mãos pelos cabelos molhados que caíam em várias direções.
- Também tem medo de tomar banho sozinha, ? - provocativo ao extremo, ele fez um gesto com os dedos que a chamava para dentro do box. O fato de ter visto ela de lábios colados com James era irrelevante.
- Vá se foder. - ela retrucou, assistindo algo começar a ser escrito no vidro embaçado.
“ogimoc mev”
semicerrou os olhos, se perguntando que idioma poderia ser aquele. Mas seu raciocínio lógico logo se mostrou mais objetivo e acabou por constatar o que ele estava querendo dizer. Eram duas palavras ao contrário, é claro.
- Vem comigo? Você não tem um jeito mais inteligente de seduzir uma mulher? Ah, não deve ter... Eu entendo. Palmer é tão fácil que você não precisa quebrar a cabeça com isso. Qualquer porcaria que disser, ela vai até você de braços abertos. E pernas também. - por que ele não podia pegar a toalha e sair logo daquele box? Parecia que queria prová-la se mantendo ali dentro, ou talvez esperasse mesmo que cogitasse a hipótese de entrar. Mero sonho. Arregalou os olhos mais uma vez quando voltou a se virar e o vapor que começava a se desfazer permitiu que toda a parte de trás do corpo do homem fosse apreciada. - Mas que... - ia dizendo, mas segurou a língua, assim como fingiu que a sensação sugestiva logo abaixo de seu umbigo não existia.
enrolou só a parte necessária de seu corpo com uma toalha e saiu do box com os cabelos pingando, água escorrendo pelos braços, peitoral. Ela o olhava nos olhos, mas vez ou outra os globos oculares escorregavam e mediam o que estava a sua frente como um charmoso monumento.
- O que você quer? - ele passou por ela, inundando as narinas de com o perfume que exalava do corpo masculino.
- Jonathan disse que Helena marcou uma reunião de última hora, que acontecerá em alguns instantes.
- Certo, podemos lidar com isso.
- Sim, e também vamos lidar com uma de suas outras personalidades mais tarde, como prometido.
foi até e em resposta àquela afirmação segurou uma das mãos da mulher, a erguendo um pouco e se curvando para beijá-la. Depois que a soltou, levou as duas mãos até a toalha amarrada em sua cintura, puxando-a e arrancando de seu corpo, começando a se vestir com as roupas penduradas em um canto. apenas viu de relance certas partes.
- Intimidada, ? Essa é uma das outras personalidades que eu tenho... Um cavalheiro nu.
- Tudo bem, procure outra e me mostre depois.
Ela saiu do banheiro, prestes a hiperventilar e seus lábios se movimentaram ao pronunciar as palavras, baixo demais até para ela escutar.
“Seu gostoso maldito!”
Helena levou a xícara até os lábios, apreciando o gosto forte do líquido que descia forte pela garganta. Ainda sozinha em um dos cantos da mesa, ela notou a porta sendo aberta e saltos altos chocando-se com o chão. Cabelos ruivos e lisos surgiram, assim como um vestido preto elegante demais para o momento. Palmer estava diferente, não apenas na aparência, mas também no jeito como encarou Helena.
A mulher de cabelos azulados se mexeu desconfortável em sua cadeira e olhou firme nos olhos de Palmer, que passou reto pela cadeira onde costumava se sentar, parando de frente para Helena. Deu uma conferida na xícara segurada pelos dedos brancos e finos e depois inclinou a cabeça para um lado, sorrindo fechado.
- Aos olhos dos outros, uma velha tomando chá. Aos meus olhos, uma vadia oportunista tomando whisky. - as palavras frias escaparam rudemente pelos lábios vermelhos. - E é whisky mesmo! Só você para ter o hábito de tomar isso em uma xícara. É como cobrir uma aberração com a capa da perfeição. O bom é que é só puxarmos essa capa e... Pronto.
- Deu asas a víbora novamente, Palmer? Não se esqueça de que nesse lugar, quem manda sou eu. Se você está aqui, tem que abaixar a cabeça. Continue com o papel de mosca morta e sente-se, a reunião já vai começar. - Helena tentou intimidá-la, mas a cada palavra que pronunciava, Palmer se mostrava mais confiante. Seu braço esquerdo se dobrou e ela ergueu a mão, balançando os dedos, dando destaque ao seu dedo anelar, onde um anel de ouro de encher os olhos foi avistado pelos olhos negros de Helena.
- Isso prova que você está errada novamente. Isso prova que você não controla essa situação, eu controlo essa situação. - bateu uma das mãos no vidro próximo a xícara, fazendo o pires tremer e o líquido se balançar violentamente. Parecia uma fera prestes a atacar sua presa. - Sabemos desde o início que só fui mandada para cá por ser mais conveniente, por se adequar melhorar a algumas partes do plano. E, agora, a garota está aqui, sob a nossa vigilância... É hora das coisas mudarem, Heleninha. - o nome dito no diminutivo fez Helena soltar o ar com mais força, inflando imperceptivelmente as narinas. Levantou-se, ficando na altura de Palmer.
- Eu sei quem você é, eu sei o que controla... Mas eu não sou como aqueles garotos, eu tenho tanta importância nisso quanto você. Participei mais do que você, que tudo que fez foi se divertir. Não passa de uma criança, assim como os outros.
- Eu cansei de bancar a ajudantezinha burra e superficial, eu cansei de seguir ordens de alguém que é inferior a mim, eu cansei de ser o brinquedinho do . Agora, eu quero o que realmente mereço. Agora, tudo será diferente. Finalmente. A execução do plano está nos eixos... Prepare-se, o paraíso negro é a nossa próxima parada. - Palmer parecia uma rainha em um discurso magistral, as mãos na cintura, os ombros tensos. Preparada para qualquer barreira que entrasse em seu caminho.
- Paraíso negro... Aprendeu isso com o ? - Helena, mesmo se mostrando na defensiva, manteve a voz calma e aveludada, apesar do tom rouco e autoritário insistir em deixar sua marca.
- Na verdade, ele aprendeu comigo. - Palmer virou o rosto e a porta se abriu. e entraram na sala. A ruiva e Helena trocaram um último olhar em chamas e voltaram a suas posições anteriores. Palmer sorriu para e ignorou .
Helena voltou a segurar sua xícara, desejando que o destino daquela mulher fosse tão amargo como a bebida que descia por sua garganta.
Capítulo 7 Trouble
(Coloque You Give Love A Bad Name do Bon Jovi e Bad Things do Jace Everett para carregar e espere os avisos para dar play!)
O couro da jaqueta se ajeitou bem ao corpo de , que terminava de arrumar o cabelo, deixando-o penteado para trás. Raramente se vestia daquele jeito, mas gostava muito. Por baixo da jaqueta negra, uma camiseta branca. Calças de um jeans gasto e um par surrado de all star nos pés. Ignorou o leve cheiro de mofo na roupa - já que não a vestia há um bom tempo - e passou seu perfume por cima. Não contava com o auxílio de um espelho enquanto fazia tudo aquilo, pois não precisava.
Alguém bateu na porta e ele gritou que estava aberta. Beverly surgiu, o olhando como se fosse uma aparição. Realmente, ninguém estava acostumado a vê-lo naqueles trajes tão rebeldes. Uma pena, porque era exatamente daquele jeito de ser que ele sempre fazia questão de se recordar... Antes de ter de colocar aquele chapéu na cabeça.
- Você vai sair com ela? Desse jeito? - a loira perguntou, encostando-se a uma parede e cruzando os braços cobertos por uma jaqueta de couro roxo. Os cabelos estavam soltos, totalmente lisos até as pontas, os olhos bem maquiados. Para acompanhar a jaqueta, ela vestia uma camiseta preta cuja face do Kurt Cobain cobria boa parte do tecido. Uma saia jeans com alguns rasgos na barra, meias arrastão e um par de coturnos. Jovens que se vestiam como se estivessem na década de 80, quando na verdade já contavam com as modernidades do ano 2023. - Parece uma versão moderna do protagonista de Cry Baby. Até te faz parecer membro da minha gangue! - Beverly comentou, sorrindo. deu de ombros. Até parece que ela tinha mesmo uma gangue própria.
- Quer vir também? Chame o Dean! - piscou, mordendo o lábio, assistindo a garota bufar. No fundo sabia que ela iria correndo chamá-lo mesmo.
Não havia problema se os quatro saíssem àquela noite. A reunião sugerida por Helena mais cedo fora totalmente trivial. A mulher apenas disse que seu amigo estava contente pelo fato de que o nerd Philip havia sido capturado e finalmente estava pagando pelos atos insolentes. A única coisa estranha que notou foi o jeito como Palmer estava se portando, desafiando Helena com o olhar diversas vezes.
A voz de Beverly voltou a surgir, animada.
- Fala sério, , por que decidiu se vestir assim hoje? - sua curiosidade se aflorava mais. estava com um comportamento estranho desde que passou a habitar aquele lugar.
- disse que quer ver uma outra personalidade minha. - ele explicou, vendo a garota mais nova rir maliciosamente. Jogou-se de barriga para baixo na cama dele e ficou com os joelhos dobrados, pernas erguidas e cruzadas.
- Ah, então é por isso... Ela vai gostar. Sabe como dizem... There's nothing more dangerous than a boy with charm!¹ - usou de uma voz melodiosa para pronunciar aquela frase. Pouco tempo depois, ela se levantou em um pulo e passou pela porta. - Vou me ajeitar e depois nós vamos, pode ser? Eu preciso sair mesmo, já tenho idade o suficiente! Fora que posso praticar o crime que eu quiser! Sim, não vejo a hora de me tornar uma sombra da noite! - Beverly se mostrou empolgada e apenas riu, pedindo a ela que se controlasse, porque as coisas não eram fáceis daquele jeito. A garota não se importou e saiu saltitante pelo corredor, talvez visse a criminalidade como algo bonito, charmoso. Uma tragédia, por sinal.
A única mudança na aparência de encontrava-se em seus olhos, que estavam delineados perfeitamente, ela até fez questão de esfumaçá-los. Escolheu permanecer com toda a roupa de mais cedo, mesmo que pudesse sentir frio mais tarde.
Outra saída noturna. Até fazia parecer que se tratava de um bando de vampiros perversos que saíam por aí em busca de alguns corpos de inocentes para drenar. Com aquela linha de pensamento, alguém surgiu atrás dela, dando-lhe um susto. Ia xingar alto, mas mudou de ideia quando avistou Beverly e Dean. Estranhou os dois estarem juntos, mas Beverly desmanchou o semblante empolgado quando Dean tentou passar um braço pelo seu ombro. O homem, que já aparentava estar totalmente recuperado, sorriu canalha, no fundo gostava de ser rejeitado, tornava tudo mais interesse.
- Pare de ser tão difícil, Bev! - pediu com a voz baixa. observava o pequeno desentendimento, segurando-se para não fazer alguma piadinha. - Já ouviu falar em diversão entre amigos?
- Já ouviu falar em soco na cara? - ela rebateu e se afastou dele, olhando para e apontando para certa direção com o dedo indicador. A mulher não sabia se arregalava os olhos, continuava a fitá-lo sem expressão ou simplesmente corria para os seus braços.
Correr para os braços dele? Não, mas é claro que não.
vinha caminhando de um jeito largado, os ombros mais relaxados. O olhar de um típico bad boy segurava a atenção de como se fosse algum tipo de mágica. Ela não conseguia evitar, só foi voltar à realidade quando o homem já estava parado a sua frente, sugerindo que todos entrassem no Aston Martin. Beverly e Dean não hesitaram e já foram entrando, enquanto a garota gritava para ele tirar as mãos dela.
O outro casal continuava do lado de fora.
- Por que não me disseram que Dean não era o único que tinha um irmão gêmeo? Onde está o ? Ou melhor, me diga o seu nome, porque acho que vou gostar mais de você do que dele. - disse, segura de suas palavras. Tinha um fraco por homens em jaquetas de couro.
- Você queria outra personalidade, não queria? Aqui está, meu amor, agora vamos! - ele se dirigiu até a porta do carro vermelho e a abriu para a mulher, que se impressionou brevemente e entrou.
- Um rebelde cavalheiro? Arrepios! - brincou e logo já assumia o volante.
“If you're looking for trouble, you came to the right place. If you're looking for trouble, just look right in my face...”
Apesar de a música pertencer ao legendário Elvis Presley, não era sua voz que a cantava. Era outra, longe da perfeita afinação. O que só conseguia torná-la pior era um chiado provocado pelo microfone que a pessoa deveria estar usando para cantar. Karaokê? Brega ao extremo, pensava.
Os quatro caíram fora do carro e olhou exasperada para . Não era possível que tinha levado ela até um ambiente de caipiras mais uma vez. Um típico bar de beira de estrada, com várias letras de um letreiro vagabundo queimadas. Barris grandes de cerveja feitos em madeira sustentavam o corpo de mulheres que se mantinham sentadas sobre os mesmos enquanto enlaçavam suas pernas descobertas nos quadris dos caras que tentavam beijá-las. Ela duvidava que um labirinto absurdamente tecnológico estivesse dentro daquele bar, sentia que a piada daquela vez estava realmente sendo sem graça, sem sentidos ambíguos. Babaca, animal, estúpido, pare de me olhar desse jeito!, ela dizia mentalmente, com os lábios trancados, desejando que pudesse penetrar sua mente e criar conhecimento por aquela prece. poderia estar louca, mas, naquele dia, quase poderia apostar todas as suas fichas imaginárias na atitude que sentia que ele tomaria. Olhou aos arredores e observou a paisagem digna de uma cidade abandonada, com direito a campos cobertos por ervas daninhas e cercas elétricas quebradas. O olhar de sugeria que ambos fossem para aqueles lados, na escuridão, se perder do resto da pequena população daquele bar. Curtir a noite, no sentido mais quente e sujo da expressão.
O que mais atormentava era a ideia de ter que ficar fingindo que seus hormônios não estavam a beira da loucura. Ela não gostava de fingir, de ocultar nada. Quando sentia vontade de fazer algo, simplesmente fazia. Mas com era diferente, porque ele não era apenas “um cara”, ele era . E por enquanto ela só conseguia defini-lo daquela maneira. Não apenas um cara, mas .
começava a perceber que suas olhadinhas nada discretas para pareciam deixá-la encabulada. E esse era o seu combustível para não parar. Gostava de provocar, provocar até o limite. Ousadia era pouco, o olhar que ele dirigia a ela carregava muito mais. Ajeitou a jaqueta de couro e viu Beverly e Dean sumirem de vista, já entrando no bar. Ele os seguiu, deixando plantada próxima ao carro. Ela quase se sentiu inconformada por ele fingir que ela não passava de uma erva daninha no meio da paisagem, mas fechou as mãos em punhos e se colocou para andar na direção da entrada também.
Definitivamente, era um lugar muito maior do que aparentava. As mesas de madeira velha ficavam nos cantos dos lados direito e esquerdo, deixando o centro livre para a circulação das pessoas. Em um dos cantos um balcão simples, e em uma das laterais do mesmo havia um tipo de palco improvisado, onde um homem careca continuava a cantar Elvis. O balcão maior estava na outra ponta, onde Beverly se sentou e pediu um milkshake de baunilha com uma cereja no topo. A questão crucial era: por que diabos milkshake de baunilha era servido em um bar como aquele?
puxou um banco de madeira que estava livre e se sentou ao lado da garota, rindo de sua bebida. Como ela queria ser tratada como adulta se seus modos eram semelhantes aos de uma criança?
e Dean se sentaram em uma das mesas próximas ao palco e pediram duas cervejas. Os dois encararam as duas moças no balcão, com intenções semelhantes. Talvez as de Dean fossem mais puras, bem mais puras que as de .
- Essa não é nem de longe semelhante à imagem de diversão que eu montei em minha mente. - disse, mergulhada no tédio enquanto pedia uma cerveja ao barman. Beverly largou o canudo de sua bebida e olhou para a mulher, concordando com a cabeça. - Essa outra personalidade do é tediante!
- Pegue leve, ele está tentando impressionar você. E sabe o que eu acho? Ele só faz isso porque você é a única, até agora, que mostra ter massa cinzenta. Ele nunca teve que se esforçar muito com garotas, tomava sempre o caminho mais fácil. Mas com você... Garota, ele está fazendo das tripas coração! É até engraçado de se ver... - Beverly completou seu mini discurso e tudo que fez foi molhar os lábios com a cerveja gelada.
- Poderia até ser, mas só se ele estivesse tentando ter algo sério. E ele não quer nada sério comigo, porque eu não quero nada sério com ele. Na verdade, eu não quero nada que seja sério. Seriedade não combina comigo. - ela torceu os lábios ao terminar de falar. Beverly virou-se um pouco no banco e fitou os dois sentados ao fundo, notou que Dean desviou o olhar, mas continuou a sustentar o seu.
- Olhe para trás e reveja seus conceitos. Aquele homem quer alguma coisa com você, sim! E, ao julgar pelo olhar de maníaco sexual, eu diria que é algo bem...
- Ok, Beverly! - a cortou. - Você só está dizendo tudo isso para fugir da conversa que eu estou tentando começar. Então, me diga... Qual é o seu lance com um dos gêmeos? Começou como algo, vejamos... Lolita do crime? - as duas riram e Beverly colocou a mão na testa como se estivesse dizendo a que aquele fora o comentário mais miserável da noite.
- É claro que não! Ele não é tão mais velho do que eu, e nós só nos conhecemos há... - ela fez um bico, tentando lembrar. - Tempo o suficiente para desvendar o que ele quer e o que vai fazer depois que conseguir. Homens são assim. Eles ficam no seu pé e insistem até você ceder... Quando conseguem, nem olham mais na sua cara! Eu sei o que o Dean quer, e ele não vai ter. Não será meu primeiro, nem meu último. - Beverly disse presunçosa e a questionava em silêncio. Palavras sábias aquelas, sábias até demais.
- Está brincando, né? Olhe só para ele... Não se sente no filme Rebel Without A Case? Não na situação do filme, mas pelo fato dele ser igual ao James Dean. Meu Deus, como isso é possível? - suspirou, terminando sua cerveja.
- Não acho tão parecido assim. - a loira olhava para as unhas, fazendo pouco caso da comparação de . – Mas, confesse, mulher, você acha o muito bom.
- Acho, sim, também achava essa cerveja muito boa. - respondeu rápido, para tentar mostrar que não estava intimidada com o rumo da conversa.
- E você bebeu até a última gota! Imagino o que vai fazer com o rapaz... - Beverly lhe deu uma cotovelada, soltando uma risada exagerada.
- Entendi qual é a desse milkshake, deve ser super alcoólico.
Até que para um bar com aparência tão decadente, possuía uma vasta clientela. Mais e mais pessoas chegavam. Dean e estavam em silêncio, encarando as duas figuras femininas no balcão. levou sua cerveja até a boca, dando um gole bem generoso, assistindo colocar os cabelos para trás.
- Maldita. - escapou por seus lábios antes que pudesse impedir. Dean o olhou malandro.
- Por que tanta raiva da gatinha, ? Cansou-se de dar leite a ela e decidiu abandoná-la? - zombou, dando uma boa conferida nas pernas de uma mulher que passava pela mesa dos dois.
- Se ela permitisse que eu lhe desse alguma coisa... - zerou sua bebida. - Cansei de toda essa dificuldade.
- O que você esperava? Ela na sua cama no primeiro dia? Aceite seu destino, cara... Essa vai te deixar exausto, eu posso sentir. E, sinto muito, mas não é exaustão no bom sentido. - Dean olhou de para Beverly, se demorando mais na segunda. - Parecida demais com alguém que eu conheço.
- Não se atreva a comparar Beverly com a !
- Você só diz isso porque vê a Bev como uma irmã. Quanto a mim, bem, eu a vejo como... - ele cortou sua fala e os dois trocaram risos malvados. Pareciam dois canalhas machistas que falavam de mulheres como se todas fossem objetos. - Em todo o caso, ela pediu por uma nova personalidade e você vai ficar sentado aqui olhando para o decote de outras? Você é mesmo um otário. - lhe olhou feio e se colocou de pé, erguendo uma mão e pedindo tempo para Dean. Afastou-se, caminhando na direção do balcão.
Porém, notou que um sujeito havia sido mais rápido e se sentado ao lado de . Era inegável que o homem estava tentando alguma aproximação, principalmente pelo modo como a olhava, apenas esperando para que o notasse.
Beverly arregalou os olhos verdes e cutucou no braço, conseguindo a atenção da mulher e apontando para a sua direita. seguiu a direção e teve que travar bem seus lábios para que eles não se abrissem instantaneamente.
- É o Rick Genest! - Bev sussurrou próximo ao ouvido de , que ergueu uma sobrancelha, medindo as tatuagens daquele ser com muita atenção. - Zombie Boy!
- Oi. - ela disse casualmente ao homem tatuado, que lhe respondeu com um levantar de canto de lábio. - O que faz em um lugar tão rebaixado como esse? Te vi em um clipe da Lady Gaga, achei que curtisse algo mais... Refinado. - os dedos de deslizavam em círculos pelas bordas do copo onde havia tomado sua cerveja. Ela cruzou as pernas de maneira charmosa. Gargalhava por dentro. Beverly só faltava sair correndo atrás de papel e caneta e pegar um autógrafo.
- Ficar longe dos holofotes é melhor do que se imagina. - Rick respondeu, o jeito largado presente até mesmo em seu tom de voz. As pessoas ao redor até poderiam conhecê-lo, mas não faziam tanta questão.
Beverly se virou e viu encarar a cena com olhos... Intensos.
Ou melhor: furiosos. “The boys wanna fight, but the girls are happy to dance all night...”
Uma mulher cantava no karaokê, um tema totalmente propício ao momento. E o flerte entre e Rick continuava, eles pareciam criar um tipo de comunicação mental. O homem acendeu um cigarro e o tragou de maneira sedutora, mesmo que não soubesse de fato adquirir sensualidade com o ato. Ela contemplou o piercing acima do nariz, entre os olhos.
- Zombie Boy... - começou, inclinando a cabeça para um lado sedutoramente. - Você pode comer meu cérebro na hora que quiser! - pela primeira vez conseguiu ver os dentes de Rick. Um sorriso! - Brincadeira! - alertou. Beverly sentia-se a vela mestre de um estupendo bolo de aniversário, então se levantou e foi para perto de . Parou ao lado do homem e cruzou os braços.
- Ao invés de perguntar seu nome, vou perguntar se tem alguma tatuagem... Acho que é mais aproveitável na nossa situação. Situação, mas qual situação?, ela pensou. Virou rapidamente para observar o resto do bar e seus olhos se grudaram aos de . Algo dentro de seu corpo reagiu e ela sentiu vontade de subir em cima daquele balcão, apontar o dedo para ele e rir histericamente. Era como se provocar o homem fizesse bem para seu corpo e alma.
- Não... - virou-se, devolvendo sua atenção para o Zombie Boy. - Não tenho. - deixou os lábios em linha reta, encenando um semblante triste.
- Como vou saber se é verdade? Existem lugares bem escondidos para se ter uma, ninguém notaria aqui.
- Sim, você tem razão, ninguém notaria. Inclusive você! - percebeu que o palco estava vazio. Queria fazer alguma loucura, então largou o flerte fajuto com Rick, que a olhou sem entender e deu passos decididos até o palco. Cruzou com , deslizando os dedos pelos ombros tensos do homem e parou rapidamente para sussurrar próximo ao seu ouvido. - Essa é para você, independente de qual seja. - continuou olhando para frente, digerindo as palavras em tom provocativo que entraram tão deliciosamente pelos seus ouvidos.
Audaciosamente, ela cumpriu o trajeto até o palco, forçando os saltos de suas botas contra a pequena escada de madeira. Os frequentadores do bar notaram a pessoa que havia decidido dividir sua voz. Alguns homens sorriram, contentes com a paisagem que era oferecida. sorriu arteira para Beverly, que soltou um grito em forma de incentivo. girou em seus calcanhares e continuou do mesmo jeito, talvez ansioso para saber qual música começaria a tocar. Afinal, independente de qual fosse, seria dedicada a ele.
segurou o pedestal e aproximou os lábios do microfone. Não sabia cantar, não tinha uma voz bonita para coisas como aquela. Mas eu posso fazer o que eu quiser nesse mundo, pensou e colocou os cabelos para um lado, assumindo uma total pose de rockstar. Ela olhou para uma telinha acima do palco e o nome da música que cantaria surgiu. Sorriu abertamente, feliz por conhecê-la. Nem precisaria ficar encarando aquele monitor. Respirou fundo e fez questão de encarar furtivamente , antes de começar.
(Play!)
- Shot through the heart and you're to blame. Darling, you give love a bad name! - fechou os olhos ao soltar a voz, mordendo o lábio e apreciando o som potente de uma guitarra que penetrou sua audição. As pessoas do bar não a vaiaram logo de primeira, então ela entendeu que poderia continuar. Balançando o corpo no ritmo das batidas, ela segurou o pedestal com ainda mais determinação e engrossou a voz. - An angel's smile is what you sell. You promise me heaven, then put me through hell... - apontou para , movendo os quadris para lá e para cá. Ele segurava um copo com cerveja e balançava a cabeça no ritmo da música. E não é que começava a ganhar fãs tão precocemente? Incluindo o cara tatuado. - Chains of love got a hold on me. When passion's a prison, you can't break free! - sem pensar, ela puxou uma das mangas da jaqueta, fazendo o mesmo com a outra e se livrando da peça pesada de roupa. A pequena multidão animou-se ainda mais ao receber a jaqueta de , que fora segurada por alguém que ela não fazia a mínima ideia. Ficando apenas com o top vermelho, ela passou a mão pela barriga nua e provocou, balançando a cabeça e levando os fios de seu cabelo para um lado e para o outro. Tarde demais, já se sentia livre ao extremo. Ninguém mais poderia segurá-la. Vergonha não existia em seu dicionário. - Whoa! You're a loaded gun, yeah. Whoa! There's nowhere to run. No one can save me... The damage is done! - seu tom de voz soou rouco e impressionantemente afinado na última parte que cantou. Totalmente empolgada, ela já dava leves pulinhos pelo palco cuja madeira reclamava. Oh, céus, não sabia o que estava acontecendo. Se via sendo puxado pela sanidade e ao mesmo tempo pela insanidade, uma guerra. Que criatura mais errada, mais tentadora! Quando foi que ele disse que ela tinha permissão para provocá-lo daquela maneira? E que letra ousada saía pelos lábios femininos. Ele também começava a se sentir daquela maneira, pensou até em subir no palco e cantar junto com ela. Mas isso seria semelhante a um filme musical, então... Não. - Shot through the heart and you're to blame, you give love a bad name! I play my part and you play your game... You give love a bad name, you give love a bad name! - inclinou o corpo e tomou a bebida de um homem que estava a sua frente, virando-a sem pensar no que se tratava. Jogou o copo em sua plateia e limpou o canto dos lábios com as costas da mão. Com astúcia, ela se colocou no canto do palco e subiu em cima do balcão que ali estava, continuando a dançar enquanto seduzia cada vez mais os seres do bar que nunca mais seria o mesmo. Não se preocupava com equilíbrio. Se caísse, alguém poderia segurá-la. Sua vida era daquele jeito, fazer o que quiser. Livre, livre, livre! Tão livre que sentia vontade de morrer, tão livre que se sentia sufocada por toda a liberdade. Aumentou sua voz, como se o efeito de uma droga poderosa começasse a fazer efeito, sentia-se extasiada. Seu corpo já contava com uma fina camada de suor, assim como a testa de , que ergueu seu copo em homenagem a performance de tirar o fôlego que assistia. Na parte seguinte, pediu que os outros cantassem por ela.
- Paint your smile on your lips. Blood red nails on your fingertips. A school boy's dream, you act so shy... - eles obedeceram, mas ela fez um gesto com a mão para que calassem a boca e completou a última parte.
- You're very first kiss was your first kiss goodbye!
Como se chegasse a uma espécie de ápice, ela cantou o que restava da música e caiu de joelhos no chão. Depois desceu daquele balcão. Respirava ofegante, mas sentia-se elétrica. O frio da noite cruel não afetava mais aquela mulher. Beverly e Dean correram até ela, altamente empolgados. Ela apenas distribuiu sorrisos pomposos e foi até , que, de maneira questionável, estava com a jaqueta dela em mãos.
- Consequência ou consequência?
- Acho que você se esqueceu da verdade.
- Quem liga para a verdade? Vamos, escolha.
- Consequência, é óbvio. - fez graça. , que estava com a boca entreaberta para conseguir estabilizar a respiração, e com alguns fios de cabelo grudados no rosto, se aproximou um pouco mais e deixou sua boca a uma distância insignificante da dele.
- Eu desafio você a subir naquele palco e cantar. - poderia negar e sair dali, mas, sinceramente, não queria. Não saberia negar um dos desafios impostos por ela. Se ela o desafiasse a pular de um prédio para o outro, ele o faria. A morte talvez fosse apenas uma provável consequência. Mas sua mente estava desligada para isso, trabalhava apenas para situações que envolviam o ser de roupas tão sinuosos e olhos tão felinos.
- Às ordens, minha rainha. - segurou a cintura de com as duas mãos e colocou o corpo dela para o lado, eliminando-a de sua passagem. Foi para o palco e apenas esperou. Ajeitou a jaqueta de couro e fez charme para as mulheres que comemoravam por finalmente um homem bonito ter decidido subir ali.
Ele não sabia cantar, só fazia isso em seu chuveiro, temia ter uma voz horrorosa, mas, assim como , correr riscos era sua meta. Segurou o pedestal, ainda conseguindo senti-lo quente devido aos dedos de que o seguraram com tanta vontade. Olhou para a tela. Não sabia perfeitamente a letra da canção que surgiu, mas poderia dar um jeito.
(Play 2!)
Assim que a melodia começou, ele assistiu movimentar seu corpo no ritmo, mordendo a própria língua. Um incentivo.
- When you came in the air went out... And every shadow filled up with the doubt. - seu jeito de inclinar um pouco a cabeça enquanto cantava e manter o olhar abaixado, o fazia parecer com um misterioso cantor de rock dos anos 80, principalmente devido àquela roupa que o deixava tão irresistível. - I don't know who you think you are, but before the night is through... - diminuiu seu tom e concentrou todo o ar de sedução que possuía dentro de seu corpo no olhar que lançou a , que já estava sentada em cima de uma das mesas, o desafiando a cumprir aquele trabalhinho. - I wanna do bad things with you! - naquele momento ele não cantou, foi mais como um tipo de sussurro que só seria dado estando entre quatro paredes com alguém. Mas ele podia fingir que apenas os dois estavam ali, certo? Certo, mas só em sua mente obscura e aventureira. - I'm the kind to sit up in his room. Heart sick an' eyes filled up with blue. I don't know what you've done to me, but I know this much is true: I wanna do bad things with you. - imitou e apontou o dedo indicador para um ponto a frente. Ela enxergou e ignorou as provocações de Bev e Dean. Aquela, de fato, era uma personalidade diferente que ele escondia. E a diversão estava garantida, porque a noite era como uma criança. Uma criança precoce que não enxerga limites. Sim, ela podia sentir que muito ainda a aguardava.
terminou de cantar e, recebendo quase a mesma atenção que , desceu do palco.
- Nós deveríamos fazer um dueto qualquer dia desses. - ela sugeriu de bom humor e ele se aproximou, encostando as mãos na mesa, próximas às pernas descobertas dela. Ergueu uma mão e puxou o terço do pescoço de para frente, fitando a cruz e depois fitando os olhos questionadores dela.
- Dueto? Eu não sou um bom cantor, então sugiro que seja um dueto totalmente livre de música.
- Você gosta de ambientes silêncios, então? - entrou na provocação, tomando o terço da mão dele e se levantando. Vestiu a jaqueta e tirou os cabelos que tinham ficado dentro dela.
- Não... Outros sons conseguem ser melhores do que música em alguns casos. - ela sabia de que sons ele estava falando, mas fingiu com uma expressão descontraída que o assunto não lhe interessava.
- É claro que conseguem. - o empurrou pelos ombros, pedindo passagem e saiu com Beverly e Dean ao seu lado, deixando para trás.
- Ok, pessoal, podemos parar com o momento Glee club pornográfico e decidir qual será a próxima parada? - Beverly abanava as mãos, pedindo para que eles parassem com aquilo.
- Parque de diversões. - Dean respondeu, convicto.
- O quê? - os dois seres de sexo feminino elevaram suas vozes, visivelmente descontentes.
- Boa ideia, Dean! - preparou as chaves do carro. - Onde as crianças vêem diversão em uma montanha-russa, nós vemos em uma boa dose de caos.
Não passava das dez da noite, as milhares de luzes coloridas do parque foram avistadas pelos quatro pares de olhos atentos. Eles desceram rapidamente do carro, animados como se tivessem acabado de sair de uma tremenda bebedeira. Principalmente , que se mostrava o mais sorridente. Estava com um braço passado pelo ombro de Dean, que fazia o mesmo. Os dois foram cantando como dois bêbados até a entrada do parque. e Beverly riam sem parar, pulando de propósito nas diversas poças de água que encontravam pelo caminho. Eles simplesmente continuavam a agir como um bando de adolescentes loucos, comemorando o fato de estarem respirando e cantando animadamente. Suas presenças chamativas foram mais do que notadas, mas eles pouco se importavam. Depois que pagaram normalmente pelos quatro ingressos, entraram no lugar infestado de pessoas e atrações diversas, como se fossem os donos dali. Como super-heróis chegando a uma zona ameaçada... Ou como vilões chegando a uma zona até o momento intocada.
caminhou rápido até o primeiro banheiro que encontrou, arrastando Beverly consigo. Enquanto a garota acendia um cigarro, foi até uma das pias velhas e começou a molhar seu cabelo, o colocando totalmente para trás. Pelos fios estarem úmidos, o penteado rebelde se manteve. Olhou-se no espelho repleto de adesivos, rabiscos e outras coisas mais e percebeu a maquiagem borrada em seus olhos. Estava vendo-se como uma simples garota problemática do interior, e não como a criminosa perigosa que foi quando se arriscou a entrar naquela prisão atrás do microchip... O que estava acontecendo, afinal?
Teve os pensamentos interrompidos quando Beverly a puxou pela mão, correndo de volta ao parque. Elas procuravam com os olhos aflitos por e Dean, que desapareceram sem mais nem menos. Trombando em algumas pessoas e desviando dos diversos quiosques que vendiam de tudo, correu até um deles e, sem que fosse notada, pegou um pirulito redondo e colorido, correndo ainda mais quando o vendedor a viu e começou a gritar, ameaçando correr atrás dela. Como uma criança feliz, ela levou o doce até a boca, fingindo que um grupo de rapazes não a paquerava de maneira suja e desajeitada. Beverly também tinha sumido de vista.
Ela continuou com o pirulito, mas apenas o segurava vagamente entre os dedos, já que suas atenções estavam focadas em encontrar sua equipe. Deu a volta pela primeira parte do parque e quando entrou em uma zona mais afastada e escura sentiu alguém puxar seu braço com força. Quase gritou e deixou seu doce cair, mas quando percebeu que se tratava de apenas o estapeou e lhe deu um olhar feio.
- Com tantas coisas que você poderia roubar no mundo, roubou um pirulito, ? - ela concordou, o enfiando em sua boca e balançando os ombros como quem não se importa. pediu silêncio com a mão e a conduziu até o lugar onde um casal se agarrava. Os dois tentaram segurar o riso, mas já era tarde.
- Dean conseguiu? - ela quase se permitiu gritar, boquiaberta. concordou com a cabeça e os dois observavam Beverly e Dean aos amassos. - Holy shit! - os dois começaram a rir feito duas hienas, segurando a mão um do outro, como duas crianças que não pensam em consequêcias impuras mediante aquele simples ato. Quando Dean percebeu a bagunça e se livrou dos lábios da mais nova para mandá-los calar a boca, e dispararam a correr. Ele estava na frente, a obrigando a acompanhar sua velocidade. Paravam de vez em quando, acabavam derrubando os objetos de algum quiosque, depois voltavam a correr. O que havia acontecido com os dois inimigos mortais? Eles tinham aquela estranha maneira de tratar um ao outro. Uma hora compartilhando de um ódio mútuo, mas na outra, agindo como os melhores amigos. A dupla perfeita. - , espera, eu vou cair! - ela implorou, quase não sentia mais seus pés pela velocidade que eles eram obrigados a se movimentar. Nunca tinha visto tão vivo. - PORRA, EU VOU CAIR! - pisou em outra poça de água, molhando seu jeans. O homem parou e tomou o pirulito das mãos dela, o jogando longe. Ela pensou em bater nele outra vez, mas segurou os braços da mulher e olhou para cima, avistando a iluminada e chamativa roda gigante.
- Vem comigo, garota, vou te levar às alturas! - ela não teve tempo para contrariar ou tentar impedi-lo, já estava atravessando a fila, furando-a. Passaram pelo primeiro casal e sorriram cúmplices ao pular a grade de segurança e entrarem na cabine que estava prestes a começar a subir. Mandaram o dedo do meio para o responsável pelo brinquedo e todas as outras pessoas que reclamavam. largou o corpo cansado no banco e fechou os olhos, rindo sozinha. estava ao seu lado, tentando normalizar a respiração.
- E não é que nós conseguimos outra personalidade? Eu passaria todo o tempo disponível com você, porque correr feito louca por um parque nunca foi tão divertido! - empolgada, ela elevava sua voz a cada sequência nova de palavras que saía pelos lábios. A cabine amarela estava quase chegando ao centro e a vista era terrivelmente agradável, docemente assustadora. Grande parte da cidade pôde ser enxergada.
- Está feliz? - ele perguntou, não conseguindo manter as mãos quietas, precisava tocá-la de qualquer jeito. A cor de seus olhos nunca esteve tão bonita, eles nunca brilharam tanto. Realmente, era outra pessoa. O cafajeste e impassível não existia naquela noite.
- Sim! Eu estou muito feliz! - não sabia o motivo da felicidade, mas escolheu senti-la.
- Então, grite!
- O quê?
- GRITE! - fez o que ele mesmo estava mandando ela fazer e colocou a mão em um dos ouvidos, sendo pega de surpresa pela voz grossa tão alta que fora revelada. - Grite, ! - ele colocou a cabeça para fora da janelinha da cabine, sentindo o vento chocar-se com seu rosto. - Grite como se você estivesse em queda livre e soubesse que está há segundos da morte! Como se o mundo fosse acabar amanhã e você não quer morrer em silêncio, você quer que eles escutem sua voz. - ela o assistia, impressionada, confusa e tentada a fazer o que lhe era recomendado. Sem mais nem menos, começou a gritar. Apenas gritar, o som estridente escapando pela garganta. A cabine dos dois balançava mais do que as outras, mas ninguém parecia notar. saiu da janela e gritou com ela, disparando a rir e voltando a ofegar em seguida.
- Você é um idiota perturbado, assim como eu. Nós somos perdidos, totalmente perdidos.
- Sim, nós somos. E eu não me importo, porque sabe, amor, eu gosto de ser assim. Você olha todas essas pessoas lá embaixo... - os dois fitavam os pequenos pontinhos denominados seres humanos a uma altura consideravelmente grande. - E a vida delas é tão parada, tão banal! O que eles podem querer? Entrar em uma boa universidade, achar o amor ideal, casar, ter filhos... Eu quero o mundo, eu quero correr riscos e me ver frente a frente com o perigo.
- O coração acelerado, a adrenalina pulsando livre, correndo pelas veias. A sensação de que você está sozinho no mundo, e é isso que mais aprecia. Fazer o que não deve, fazer o que deve de maneira errada. Brigar com alguém, socar alguma coisa... Gritar! - juntou as palmas das mãos e fingiu estar prestes a começar uma oração. - Deus, muito obrigada pela vida que me deu! Eu não poderia fazer melhor uso dela. Amém!
- Cale a boca! - praticamente ordenou, recebendo um brincalhão tapa em sua face em seguida. O passeio terminou e os dois pularam para fora da cabine, voltando a fugir das pessoas que tinham conseguido enfurecer no parque.
O acontecimento estapafúrdio da noite voltou a ser lembrado quando e finalmente encontrar Dean e Beverly, que já se tratavam como cão e gato novamente. A garota olhou com as bochechas coradas para , e lágrimas queriam surgir em seus olhos verdes. foi para perto dela e lançou um olhar assassino para Dean, como se o questionasse em silêncio o que tinha realmente acontecido. puxou o outro pelo braço, bagunçando seu cabelo, afastando-se delas. Bev respirou fundo e voltou a olhar em pânico para .
- Ele te obrigou? - quis saber, erguendo as mangas da jaqueta, como se estivesse se preparando para socar alguém. Dean, no caso.
- Não... - ela respondeu evasiva, um olhar estranhamente culpado. - Eu o beijei! - e então começou a rir, rir nervosamente.
As duas poderiam continuar estáticas no centro do parque se não fosse por um acontecimento mais do que inesperado. Um homem, de estatura média e jaqueta jeans velha passou por ambas, olhando de maneira suspeita. Afastou-se, mas a mulher percebeu o clima estranho e o seguiu com os olhos, percebendo que ele parou e cochichou algo para outro, que levantou o rosto e deu de cara com a expressão investigativa de . Dois homens encapuzados surgiram do outro lado e Beverly também acabou por perceber, tencionando os ombros e mostrando-se corajosa. Encrenca.
deveria começar a correr enquanto restasse tempo, mas ela não fez nada, apenas sustentava o contato visual com aqueles quatro estranhos que se aproximavam gradativamente. Nenhum carregava um sorriso malicioso nem nada parecido, muito pelo contrário. Quatro faces estampadas com a fúria distribuída em formatos diferentes tomavam toda a sua visão.
- Aí está ela. - o mais alto e de cabelos grandes começou. O rosto magro possibilitava que o contorno dos ossos em suas maças do rosto fosse notado. Beverly e se aproximaram mais e deram as mãos, prontas para agir.
- Devemos dar uma lição na garota aqui mesmo, pelo menos ela vai aprender a não dar uma de engraçadinha e fugir depois de fazer o que fez. - outro sugeriu, o mais baixo e com uma saliente barriga coberta por uma camiseta cinza e velha.
- Não sei quem ela pensa que é para ter feito aquilo, mas agora teremos justiça.
- Você poderia ter pensado melhor antes de agir, boneca.
Ela não tinha tempo para questionamentos internos, mas precisava fazer uma reflexão e entender todas aquelas armas em forma de ameaças verbais apontadas para si. No instante seguinte, conseguiu enxergar melhor, conseguiu achar uma provável explicação.
Era o microchip. O microchip que não entregou para o homem misterioso que havia pagado pelos seus serviços de caçadora de recompensas. Aqueles homens só podiam estar seguindo ela, sendo mandados por Colin. Ela sabia que Colin não deixaria barato... A vingança demorou para surgir, mas, naquele momento, trincando os dentes e não se dando a chance de piscar, ela a assistiu chegar majestosamente. Não queria ser morta ou até mesmo algo pior na frente de todas aquelas pessoas, na frente de Beverly. Era inútil procurar a ajuda de , não restava tempo. Sentindo o vento frio passar pelo rosto, ela encarou alguns veículos estacionados mais a frente e puxou violentamente a mão de Beverly, que soltou um resmungo alto, mas não hesitou em acompanhá-la. Ouvindo as vozes furiosas dos quatro homens, ela largou a mão da garota e empurrou um homem que tentava subir em sua motocicleta. Ele caiu no chão bruscamente e quando pensou em esbravejar, as duas já haviam tomado seu lugar. tentou colocar a maquina em movimento, ouvindo o roncar do motor surgir. Aconselhou Beverly a segurar firme em sua cintura e deu a partida, deixando seus perseguidores para trás. Não sabia o que estava fazendo, não sabia manusear aquela motocicleta, mas continuava a pilotá-la com o máximo de velocidade que sabia, segurando o guidão como se sua vida dependesse disso. O vento nunca fora tão cortante e reconfortante. Com o vento, vinha a sensação de alívio, liberdade. De saber que continuaria viva por mais algum tempo.
Não conseguiu pensar em e Dean as procurando desesperadamente, só conseguiu avançar todos os sinais vermelhos que deixava para trás com um sorrisinho de canto que brotou nos lábios. Não sabia para onde iria.
Uma velha e solitária estação de trem aparentava ser um esconderijo sábio. As duas desceram da motocicleta que finalmente conseguiram notar ser de cor prata com detalhes em preto e revistaram o lugar com os olhos alarmados.
Separando-se, Beverly foi para perto de alguns trilhos enferrujados e sentou-se em um dos bancos do lado de dentro da estação, abaixando a cabeça e esfregando as mãos no rosto. O coração ainda acelerava, assustado. Nunca teve medo de nada, mas estava tendo daquele homem. De Colin.
Beverly esmagou algumas folhas secas com suas botas e se aproximou de alguns cartazes colados de maneira descuidada em uma das grades que separavam a estação de uma rua fria e sem saída. Puxou um com os dedos, afastando alguns fios de cabelo dourado do rosto para conseguir enxergar melhor. Era um desenho, o desenho de um rosto feminino. Um retrato falado. “PROCURA-SE
Beverly conhecia aquele rosto. Conhecia tão bem que não precisou procurar por para ter certeza. Sentindo o celular vibrar dentro do bolso de sua saia, ela simplesmente amassou a folha amarelada e a escondeu dentro de seu sutiã. Não deveria esconder, mas já estava feito.
Atendeu o celular, e parecia aflito do outro lado da linha. A garota explicou por cima onde as duas estavam e foi até , sentando-se ao seu lado no banco. Os trilhos do lado de dentro permaneciam vazios, era um lugar assustador quando ninguém transitava por ali. As luzes brancas piscavam algumas vezes. Beverly disse a que e Dean logo viriam buscá-las e tentava aparentar indiferença. - O que você estava fazendo lá nos trilhos quebrados? Achou alguma coisa? - a loira arregalou os olhos e engoliu em seco.
- Não.
Em toda a sua vida, ela nunca achou que se sentiria feliz por encarar aquela mansão. Pelo menos acreditava que naquele lugar infestado de cobras e segredos tinha alguma segurança. Mesmo que fajuta, mas tinha. Tremia de frio, ter a barriga exposta não parecia mais uma boa ideia. Ela abraçava a si mesma, com os olhos de maquiagem borrada perdidos. O cabelo já estava seco, leves cachos se formavam pelo comprimento. Ela apenas balançou a cabeça em forma de um aceno para Beverly e Dean, que sumiam aos poucos através da abertura da porta de aço. cruzou os braços atrás do corpo e olhou para o céu, alguns passos de distância dela.
Por livre e espontânea vontade, ela se virou e o olhou como uma garotinha curiosa. permaneceu em silêncio, dando à ela a chance de dizer alguma coisa. Mas será que algo deveria ser dito? teve a súbita vontade de contar o que tinha feito uma noite antes, quando agiu por impulso e o beijou, mesmo que o beijo não fora nem de longe algo intenso. Apenas inocente, doce, carregado com sentimentos contraditórios e vontades absurdas. Algo que simplesmente não combinava com ambos.
Custava tanto manter um segredo e, sem mais nem menos, ele acabava escapando como areia da praia pelos dedos.
- Algum problema, ? - resolveu falar, sua língua pressionava as paredes internas da boca. Por algum motivo, longe de explicação plausível, ela achou aquele gesto atraente. - Tenho notado que você está estranha. Desde ontem... Ou de hoje, não sei especificar da maneira que deveria. - ela se xingou mentalmente, porque permitiu que ele percebesse que algo estava errado. O que poderia fazer quando descobrisse que o beijo sem pretensões fora escondido? Provavelmente começaria a rir e diria a a bela criança imatura que ela era. Com tantas coisas para se preocupar naquele mundo, porque ela fazia tanto drama por causa de um beijo?
Bobagem.
- Eu... - tinha a real intenção de dizer, mas respirou aliviada quando a voz do homem a cortou.
- Chega, chega, chega! Jonathan me contou o que aconteceu, ele viu o que aconteceu... Agora, você pode parar de esconder. Respire... Antes que caia morta nessa grama. - o tom leve e agradável de sua voz soava tão estranho. sentiu o estômago revirar. Ele sabia! Ele se fez de desentendido durante todo um longo dia. Assistiu-a com a culpa prestes a domar o corpo e não fez nada. começava a pensar quem realmente era o covarde de toda a situação. Pois bem, o estrago já estava feito. Pelo menos ela sabia que não aconteceria de novo. Não depois da tremenda demonstração de filha da putagem dele.
- Eu... - ela recomeçou, mas a voz não tinha mais aquele filete de inocência. Era crua, indiferente. - Eu só juntei nossos lábios. - completou indiferente, mexendo as sobrancelhas e deixando os braços penderem nas laterais do corpo.
ficou em silêncio por um tempo que não se deu ao luxo de calcular. Coçou sua fina barba e comemorou por dentro. O plano havia dado certo!
- , você me beijou? - encenou estar perplexo, arregalando os olhos brilhantes.
percebeu na velocidade da luz o que havia se passado. Percebeu que, mais uma vez, foi tola. Burra, estúpida, imbecil, língua solta.
- Jonathan não contou nada, não é? Foi uma armadinha! - gritou, apontando o dedo para ele, em uma pose defensiva. Logo depois desistiu, voltando a largar os braços no ar e dar voltas curtas pelo gramado, olhando para cima e xingando-se mentalmente.
- Sim, e você caiu direitinho. - o sorriso de anjo caído retornou mais arrebatador do que nunca. , ... Nada mais do que um desgraçado esperto demais para ser odiado.
- E se nada tivesse acontecido ontem? - a mulher continuava sua busca incessante por pelo menos uma vitória.
- Valeu a pena arriscar! - ele respondeu a altura, convencido. - O importante é que você me beijou. Me. Beijou! - disse pausadamente, provocando-a como se não houvesse amanhã.
- Você tem que ser gay ou muito romântico para considerar aquilo um beijo de verdade.
- Pare de evitar o assunto... Mas a questão agora é que eu estou em dívida com você. - fingiu um olhar triste, lábios trancados em uma linha vacilante, porque queria continuar sorrindo. Mas não podia. - Você me beijou, eu tenho de beijá-la de volta. O problema, é que eu não tenho controle o suficiente para apenas juntar os lábios, se é que me entende. Eu vou ter que ir mais... - procurou a palavra, deslizando o dedo indicador pelo queixo. - Fundo. - a encontrou, estralando a língua dentro da boca. Minhas pernas parecem gelatina sendo cutucada por uma colher, mas eu ainda tenho mãos firmes para arrancar essa língua maldita, ela apenas pensou, mas gostaria tanto de ter dito.
No fim, acabou por torcer os lábios e dar a entender que não via problemas naquele acerto de contas.
- Então manda a ver, . Beije-me de uma vez... O que de tão catastrófico pode acontecer? O fim dos tempos? Eu não ligo.
emitiu um som negativo com a boca e negou com seu dedo indicador, afastando-se alguns passos dela.
- Eu não vou te beijar, apenas disse que tenho de. Você tem de andar na linha, tem de rezar para o seu Deus, tem de saber a hora certa de parar... Mas não cumpre com essas obrigações. Além do mais, eu nunca a beijaria quando sei que é isso que você espera, garota. Vou pegá-la desprevenida um dia, e garanto que vai gostar mais desse jeito.
ia mandá-lo para o quinto dos infernos, mas o som de um motor semelhante ao da motocicleta que tinha roubado mais cedo percorreu toda a extensão daquele jardim. Uma luz forte passou próxima aos corpos dos dois e se afastou. ficou pálida, estagnada, a boca entreaberta. desistiu das brincadeiras e a segurou pelos ombros, tentando trazê-la de volta à realidade. Seus olhos continuavam vidrados no ser de rabo de cavalo que descia de sua maquina e entrava sem dificuldades por uma das portas da mansão.
- Colin. - como se acordasse de um pesadelo, seu corpo se livrou das mãos de e ela deu um impulso para trás. Os lábios começaram a tremer. - É o Colin! - olhou com pânico para , um olhar que implorava por ajuda. - Estou morta, estou morta... É o fim! Ele me encontrou, ele vai dizer a Helena o tipo de golpista que eu sou...
- ! - segurou suas mãos trêmulas, repletas de suor gelado e apertou ambas com força. - Não diga que está morta até realmente estar. Vem comigo, vamos entrar pelos fundos. Se realmente se trata desse tal de Colin, não vou deixar que ele te veja.
entrou correndo em seu quarto, torcendo para que fechasse logo a porta. Caminhou desnorteada de um lado para o outro, não conseguia se abster daquele medo insano e ridículo que varria para longe qualquer resquício de coragem presente em seu interior. trancou a porta, encostando-se à mesma e tentando pensar em um jeito de descer, ter consciência do que o tal Colin queria e livrar de suas garras. Não queria assisti-la recebendo qualquer tipo de punição. Ele tinha o direito de irritá-la, provocá-la, tirá-la do sério. Arrancar xingamentos de sua boca, fazer seus olhos se revirarem em uma clássica demonstração de indiferença. Ele poderia intimidá-la com sua espada, poderia até derrubá-la no chão com um golpe, mas apenas para oferecer-lhe a mão para se levantar em seguida. Colin não a machucaria. era o seu brinquedo, só seu. Ele não tinha outro nome para chamá-la, então ficou com aquele mesmo.
- Acalme-se! - exigiu a ela, que faria um buraco no chão a qualquer momento. Ele se desgrudou da porta e foi até a janela de vidro.
- Eu não vou me acalmar! Ele é perigoso, ele tem muitos contatos, ele queria tanto aquela porcaria de microchip... E deixou tudo em minhas mãos como se me conhecesse há anos e tivesse a certeza de que sou muito confiável. Ele vai me matar, sei que vai achar um jeito de fazer isso. , eu vejo a morte com direito a capa preta e foice bem aqui ao meu lado nesse exato momento! - mesmo em meio ao desespero, ela se permitia fazer brincadeiras como aquela. Talvez fosse seu mecanismo de defesa.
deixou o ar escapar lentamente pela boca, ainda vidrado em algum ponto qualquer do jardim. Suas sobrancelhas se uniram e a tensão que o corpo de exalava era quase capaz de atingir o seu.
- ... - começou, a voz baixa demais, como um alerta. - Não se aproxime da janela, é sério. Eu não acredito no que estou vendo e...
- Porra, pare de me deixar pior do que já estou! O que diabos está vendo? É o Colin?
Satisfeito por conseguir assustá-la e atrair a atenção de para um acontecimento imaginário, seu corpo se virou. Tudo ao redor se tornou desfocado, apenas a sua frente, fragilmente desesperada, era o ponto intacto em sua visão. Seu alvo.
Uma mão determinada sentiu o toque da cintura fina, a outra segurou ligeiramente o rosto tão delicado e infernal ao mesmo tempo. teve apenas tempo de assustar-se com tamanha intensidade que escorreu pelos olhos dele. Os seus se arregalaram, o choque em seu corpo foi intenso demais para que ela pudesse tomar outra atitude a não ser se entregar. Finalmente cedeu e fechou os olhos. Arrepios dos mais desconfortáveis até os mais irresistíveis cobriram cada mínimo pedacinho de seu corpo. O perfume masculino a inebriava o bastante para que a controlasse como um feitiço, fazendo seus lábios se separarem, seguindo a ordem dos dele, que se chocavam gentilmente com os seus. A outra mão de desceu, tendo as duas livres para apertá-la ainda mais contra si. Trouxe o corpo de o mais perto que pôde e começou a deslizar sua língua para dentro dos lábios dela. Era quente, seu hálito era indecifrável, mas bom. Um tormento de tão bom. decidiu deixar a surpresa e a timidez de lado e agarrou a nuca do homem com violência, necessidade selvagem, deixando que um leve gemido escapasse por seus lábios quando ameaçou se afastar minimamente. Mas fez isso apenas para olhá-la nos olhos outra vez antes de beijá-la de verdade. Como andava desejando mais do que qualquer outra coisa no mundo.
O gosto dele, o gosto dele em sua boca. A mais genuína demonstração de desejo que poderia demonstrar, que tinha a permissão de si mesma para demonstrar. O pedido desesperado por mais contato, mesmo quando parecia não ser mais possível. Os dois estavam envolvidos demais para parar, o encaixe das duas bocas era perfeito demais para ser questionado. queria mais, queria mais intensidade, queria apertar aquela cintura cada vez mais forte. Estava tão satisfeito por finalmente tê-la dominado que nada parecia o suficiente para acalmar sua excitação. Acariciou a pele da barriga feminina, subindo, deslizando os dedos pelo ombro e segurando sua bochecha. O toque era tão macio, tão aveludado. De repente sentiu a carência misturada ao sangue que corria feroz pelas veias. Carência de algo tão simples, porém arrebatador como aquilo. A troca de saliva e de sensações cada vez mais aguçadas não parecia ter momento certo para se acabar. Suas línguas dançavam uma dança violenta, confrontando-se. Duas rivais. Rivais como e fingiam ser. Mas rivais não se entregavam um ao outro daquela maneira. Sim, ainda era apenas um beijo, mas ambos desejavam tão secretamente e ferozmente que acabou se tornando muito mais.
nunca pertenceu a lugar algum, mas naquele momento parecia mais do que certo sentir-se aconchegada nos braços dele, como se aquele fosse o lugar onde deveria estar. O lugar onde pertencia. Proteção, uma estranha proteção era transmitida ao seu corpo através dos dois braços que resistiam até o limite para soltar a cintura fina e nua. Ela esfregava lentamente seu corpo ao dele, uma súplica por mais. Arfava toda vez que os lábios se separavam por frações insignificantes de segundo, apenas para que buscassem por algum ar.
nunca havia provado nada como aquilo. Poderia se esforçar para capturar o sabor dos beijos de todas as mulheres que teve, poderia misturá-los, tentar criar algo semelhante àquilo, mas nunca chegaria perto o bastante. Naquele momento ele não passava de um pobre homem deslumbrado, que já deixava a angústia crescer em seu interior enquanto tinha a coragem de questionar a si mesmo quando teria aquela troca de contato com ela novamente. Provavelmente nunca mais.
As duas bocas se separaram, relutantes, tão acostumadas uma a outra como duas crianças que acabam de se conhecer em uma praça de esquina, mas mesmo assim compartilham seus segredos como se contassem com uma amizade de anos. não tinha coragem de abrir os olhos, então fez isso por ela. Primeiro fitou seus olhos fechados, depois as bochechas coradas e por fim os lábios avermelhados. E sentiu-se orgulhoso por ter sido o responsável. Soltou uma mão da cintura dela, depois a outra.
O contato foi totalmente quebrado. Voltaram a pertencer a mundos diferentes, como antes. O elo continuava a existir apenas em suas memórias abaladas.
arriscou-se e devolveu a visão a si mesma. E ele estava parado a sua frente, os olhos presos aos seus, os lábios avermelhados entreabertos. Uma respiração ofegante, cabelos bagunçados. Um peito arfante. A mulher estava prestes a balançar a cabeça freneticamente para ver se acordava de uma vez por todas. A parte mais frágil de seu ser acreditava que não era nada mais do que um mero sonho.
Esqueceu-se de como proferir palavras.
- Eu disse que você não estaria esperando quando acontecesse. - , que já apresentava uma recuperação, falou, todo cheio de si, mordendo o lábio inferior fortemente. Percebeu que estava embasbacada demais para dizer alguma coisa, então decidiu deixá-la sozinha no quarto. Com o novo dia que viria, eles teriam a chance de discutir sobre o acontecimento tão inesperado. - Fique aqui dentro, nem pense em sair. Eu vou dar um jeito de despistar o Colin. - sumiu como um vulto, batendo a porta. Mas seu cheiro ainda infestava cada canto.
, que ainda sentia o toque das mãos frias em sua barriga, levou os dedos já quentes até os lábios, os tocando delicadamente, conseguindo sentir que estavam como se prestes a pegar fogo. Tinha noção de que gritar depois de um momento perturbador era comum e terapêutico. No entanto, se gritasse, Colin escutaria.
Então, ela se jogou de bruços na cama e afogou o rosto no travesseiro, segurando o lençol da cama com tanta força que não se surpreenderia se retalhos do mesmo viessem soltos em seus dedos.
Temia ter perdido a sanidade de uma vez por todas.
Logo dormiu, possuída por um desconhecido efeito calmante que a entorpeceu aos poucos. Torcia para acordar como a de antes, sem danos psicológicos irreversíveis.
¹ - There's nothing more dangerous than a boy with charm é um trecho da música Candyman, interpretada pela cantora Christina Aguilera.
Continua...
Nota da autora: Surpresa! Pois é, falei muito por ai que tinha desistido de Dark, mas andei lendo uns comentários TÃO lindos que uma súbita vontade de não abandoná-la surgiu. Não garanto atualizar com frequência, afinal, 2013 será um ano super corrido pra mim, mas acredito conseguir finalizar essa fic um dia. Não desaninem com esse "um dia", ok? hahaha Fico muito feliz com todos os elogios, mas preciso agradecer principalmente a Ana (pra não confundir, é uma que tinha esse trecho ao lado do nome: I believe in grace and choice. "it's all over now, Baby Blue." Mulher, que comentário foi esse? Um dos melhores conjuntos de palavras que uma autora pode receber, de verdade! Se essa atualização dupla surgiu no site, sinta-se parcialmente responsável. Você me animou muito a continuar Dark! Obrigada, mesmo!
Bom, por enquanto é isso. Perdão pela demora. Beijos!