Capa: Thamy Ventura | Desenho: Burdge-bug
História por Mah Guidella | Revisão por Carol Mello

Don’t cry because it’s over. Smile because it happened.

Capítulo 01

Eu gostava da minha vida. Ela não tinha absolutamente nada fora do comum, era apenas... Como posso explicar? Normal. Eu, meus amigos, minha escola, as festas, um ou outro cara por quem eu me interessava, minha família, e fim. Acho que ainda está bem complicado de entender o que eu quero passar pra você, então vou lhe contar toda a história.
Era uma vez... Brincadeira. Tudo bem, vou começar a falar sério.
Meu nome é , tenho dezessete anos e desde os meus dez anos, não me lembro ao certo, moro na Inglaterra. Mais precisamente, em Londres. Eu sempre amei esse lugar, nunca me causou problema algum, então não tinha por que odiar, certo? Certo. Meus pais até hoje, mesmo depois de trinta anos, continuam casados. Não consigo entender como isso é possível, principalmente porque qualquer um pode enxergar que por mais que tantos anos tenham se passado, eles continuam se amando. Está estampado na cara de ambos! Eu sempre pensei que isso jamais fosse acontecer, sempre levava em conta que todos os meus amigos tinham pais divorciados. Na verdade, pra mim, amor é algo finito. Sabe... Você pode dizer que ama e tal, mas quando perde aquilo que tanto adora, você apenas supera. Não que eu cogite a ideia de algum dia não amar minha família, não é isso. Eu estou falando de outro tipo de amor. Mas quem sou eu pra julgar? Nunca amei alguém de verdade, de toda forma.
Eu estudo no colégio Phillipi’s Kingdown. Uma escola particular que fica a algumas quadras da minha casa, por isso, sou obrigada, de segunda a sexta, acordar às sete da manhã e caminhar. Às vezes, eu queria mudar de casa só pra poder usar um carro pra ir até lá. Mas acho que isso não mudaria muita coisa, pois certamente minha mãe encontraria um colégio novo tão próximo de minha residência quanto o outro. Ela detesta dirigir. Ah, sim, o carro. Há um ano, tirei minha carteira de motorista, mas até hoje não recebi sinal algum de que ganharia um carro de presente. Meus pais são preocupados demais e acreditam friamente de que a filha deles não é responsável o suficiente. Talvez eles estejam certos. Mas eu não ligo muito pra isso, eu não teria dinheiro para abastecê-lo de qualquer jeito.
Tenho duas grandes amigas. As melhores, sabe? Porque de amigos... Amigos comuns, eu quero dizer, todos estamos cheios. Eu, pelo menos, tenho vários amigos. Agora me pergunte se lhes conto alguma coisa relacionada à minha vida? É obvio que não. Não confiaria neles, nem se Deus baixasse na minha frente e dissesse que é meu dever me abrir com os tais. Eu os conheço bem. Sempre querendo passar na frente de qualquer um e usariam qualquer arma pra conseguir o que querem. Falando assim, parece que estou te descrevendo a ala dos populares da escola. Aquele grupo de pessoas que sempre são retratados em filmes como “os que se acham dono de tudo e todos”. E bem... Eu estou. Não, eu não pertenço a esse mundo. Ando com eles, porque eles sempre me chamam e são simpáticos comigo, mas não gosto de entregar-me de corpo e alma. Eles são fúteis demais. Porém, infelizmente, é preciso fazer certos sacrifícios por questão de sobrevivência e pela . Você está me achando patética, estou certa? Uma pena pra você. Ah, sim, minhas duas grandes amigas: e . Para elas, mas só essas, eu conto tudo. Não temos segredos uma com a outra. Assim como eu, e se envolvem com pessoas como Vincent, Pierre, Anala e Katrina só por diversão. Eles são pessoas “legais” em certo ponto, mas... Falsos em excesso. é prima de Katrina, e creio que seja por isso que nos infiltramos nessa área popular. Katrina precisava passar uma boa imagem de sua prima e suas amigas para o resto da população.
Os garotos? Sempre iam e vinham. Soei meio profissional do sexo, mas se você for esperta vai entender exatamente o que eu quis dizer. Phillipi’s Kingdown era um lugar que sempre estava em fase de crescimento. A cada ano, mais e mais alunos novos entravam. Alguns lindos de partir o coração com tamanha beleza e outros... Os outros. Nada demais. Anala e Katrina estavam sempre de olhos abertos para os novatos. Elas tinham a moral de fazer uma lista com o nome de cada um e se serviriam ou não para aumentar suas reputações. Chega a me dar nojo. Mas a lista funcionava. Sempre. Todos os garotos que entravam naquela lista, por algum motivo, acabavam tendo alguma coisa com uma das duas. E, às vezes, até com as duas. Eu não posso mentir, mas acabava dando uma espiada nesse papel. Não porque eu queria meu nome na boca de todo o colégio, mas porque me interessava por algum garoto, que por acaso, se encontrava lá. Eu só queria saber o seu nome, mais nada. Eu me sentia incomodada por estar me rebaixando ao nível delas, mas o que eu posso fazer? A oportunidade pra facilitar a realização do meu desejo estava lá, em minhas mãos, e eu recusaria? E é claro que Vincent e Pierre faziam o mesmo para as novatas.
Hoje, por exemplo, era o nosso primeiro dia de aula. Finalmente eu estaria no terceiro colegial e a um passo da porta da faculdade. Eu me sentia leve e feliz, ao mesmo tempo em que meu coração se remoía ao pensar que ano que vem eu não teria mais a companhia de meus amigos ao meu lado. Liguei para a fim de acordá-la, porque ela sempre dá um jeito de perder os primeiros dias.
- Tô com sono. - Foi a primeira coisa que conseguiu pronunciar.
- Você teve dois meses pra dormir, . - Eu tive que gargalhar.
- Ai, não ri, . Tô morrendo de dor de cabeça. - Reclamou. Também... Queria o que? Ficou acordada até de manhã conversando e bebendo com o seu affair e queria acordar bem? Acho que alguém está precisando de umas aulinhas sobre o mundo real.
- Da próxima vez, não chama o seu caso pra ir até a sua casa um dia antes das aulas voltarem, minha amiga. Você sabe que vai ficar assim. - Seu caso era Vincent. Sim, um dos fúteis que andam conosco. Ele pode ser tudo o que eu falei, mas... Não tem como negar que ele é lindo. Moreno, os olhos castanhos tão escuros e indecifráveis que até incomoda ficar olhando por muito tempo, e cheiroso. Juro, o perfume do Vincent é muito bom. É aquela coisa bem forte e marcante. Cheiro de homem mesmo. é outra que também era linda. Loura, olhos azuis, sorriso que transmitia felicidade pra qualquer um e, é claro, um amor de pessoa. Ela era uma das pessoas mais fofas que eu já conheci. Fofa e esperta. Até hoje, foi a única de nós três, que nunca chorou por um homem. Não que eu vivesse chorando por aí, mas eu ficava sentida, sabe? Nunca é bom terminar com alguém.
- Claro que não. Eu merecia uma despedida das férias decente. - Ela riu maliciosa e eu tive que acompanhar.
- Às vezes, você não presta.
- Sai dessa vida. Te encontro na escola?
- Sim, sim. De nada, viu? - Rimos. - E até daqui quinze minutos.
- Tá bom. - Ela respondeu de um jeito arrastado como se estivesse fazendo tudo contra sua vontade. O que não era mentira. Ela odeia acordar cedo demais.
- ...
- Oi?
- Eu disse: Até daqui quinze minutos. - Dito isso, o som de telefone desligado ressoou. Eu apenas balancei a cabeça em reprovação e fechei meu celular. Algo me diz que eu e ficaríamos sem nossa amiga até a segunda aula.
Enfiei-me dentro do meu uniforme sem muita empolgação. O tempo em Londres até que estava razoavelmente bom. Nem frio, nem quente. Mas sem querer ser chata ou algo do gênero, eu prefiro muito mais o quentinho do meu cobertor do que as minhas roupas escolares. E sim, são aquelas bem típicas de escola londrina. Uma saia cinza, camiseta branca, terninho da mesma cor da saia e uma gravata verde. Eu me sentia em um filme toda vez que vestia essa roupa. E como eu simplesmente detesto ficar parecida com o resto dos alunos, coloquei minha meia que ia até o joelho, cinza e branca, e uma sapatilha também verde. Olhei-me no espelho.
- Bonitinha. – Sorri pra mim mesma e fui pegar minha mochila que devia estar jogada em algum canto do meu quarto. Eu nunca sei ao certo onde eu jogo minhas coisas, mas é bem fácil de achá-las. Se não está jogada ali, só pode estar jogada aqui. Na maioria das vezes, funciona desse jeito. Eu digo na maioria, porque minha mãe tem a maldita mania de entrar no meu quarto e tentar organizá-lo para me ajudar. Mal sabe ela que só piora minha situação.
Escutei minha barriga roncar. Claro, obrigada por me lembrar, eu estava morrendo de fome. Acho que a última vez que comi alguma coisa foi ontem no almoço. Meu Deus, como eu consegui? Não sei você, mas eu fico com um péssimo humor quando não como. É como se uma parte de mim estivesse faltando. Você odeia mulher de TPM? Então é melhor não chegar perto de mim quando eu estiver com fome. Só um pequeno aviso. Corri para cozinha, a fim de encontrar alguma coisa que fosse bem rápida de se comer e que me mantivesse calma, pelo menos, até o meu intervalo na escola. Nada na geladeira, nada nos armários. Quer saber? Vou comer uma maçã mesmo. Tudo bem... Duas. Peguei uma daquelas bem suculentas e avermelhadas estilo capa do Crepúsculo e joguei dentro da minha mochila. A outra, eu obviamente comeria durante o caminho.
- Mas já? – Escutei meu pai chamar minha atenção. Este estava sentado em sua cadeira lendo alguma coisa. Não, não era jornal. Meu pai sempre odiou jornal. Deve ser algum daqueles livros de autores que só você e Deus conhecem, porque isso, ele adora ler.
- Já o que, pai? – Fui lhe dar um beijo no rosto antes de ir embora. – Você sabe como eu fico de estômago vazio melhor do que ninguém. – E essa era a mais pura verdade. Uma vez fomos acampar eu, minha mãe, meu pai e minha prima. No começo, quando tínhamos comida de sobra, tudo estava perfeitamente normal. Mas quando nossos suprimentos acabaram, eu enlouqueci. Minha mãe não queria de jeito nenhum sair do acampamento para comprar alguma coisa decente pra comer, alegando que ainda tínhamos algumas sopas. Eu fiquei tão irritada que fugi da cabana que estávamos. Fui parar na casa de uma velha senhora, amiga da minha mãe, que se ofereceu amorosamente para preparar algo que eu pudesse comer, e quando meus pais apareceram pedindo desculpas e querendo levar-me de lá a todo custo, eu surtei. Uma cena cômica, eu mesma queria ter filmado.
- Nem me lembre. – Ele riu. – Boa aula, filha. – Eu apenas respondi com um aceno de cabeça. Estava ocupada demais mordendo minha maçã pra poder agradecer.
As ruas estavam bem vazias. Alguns carros passavam de vez em quando ao meu lado, mas nada demais. Conseguia enxergar alguns alunos mais à frente, podia ter algum novato, porém não tenho olhos de águia para identificá-los. Assim que terminei de comer minha primeira maçã, joguei o que sobrou na pequena plantação de rosas de alguém. Adubo para suas plantas, querido vizinho. Logo em seguida, já estava com a outra na boca. Por mais incrível que isso vá soar, eu não sou gorda. Pra ser sincera, meu corpo é bem bonito. Nada extraordinário como o de Katrina, Anala, ou , mas era bonito. Eu não tinha problemas com ele. Peguei meu celular e verifiquei as horas. Ainda tinha meia hora antes que minha primeira aula começasse. Tempo de sobra para verificar as novidades. Eu tenho relógio, mas só serve para enfeitar. É tão mais fácil abrir o celular, por que me dar o trabalho de ter que ficar pensando? Odeio pensar. Tá... Eu gosto de pensar. Mas odeio matemática, e horas se incluem nessa categoria.
- ! – Escutei alguém gritar meu nome. Era . Corri até ela e a abracei forte. É incrível, pode fazer apenas um dia que eu não a vejo, mas morro de saudades da minha amiga. era morena, assim como eu, porém tinha os olhos tão azuis que mais pareciam água. Perfeitos. Já avisei que quando menos ela esperar, os arrancarei e os pegarei para mim.
- A ainda não chegou. – Afirmei. Eu nem precisava perguntar, era uma questão bom senso. apenas balançou a cabeça em concordância e seus cabelos, que iam até os seus ombros, se movimentaram junto.
- Alguém interessante? – Eu quis saber. Sempre tinha.
- do céu! – Ela suspirou e se abanou. Eu ri. – Vejamos... – Fez cara de pensativa, enrolou-me um pouco, mas depois desatou a falar. – O que você prefere? O filhinho de papai maravilhoso, os gêmeos da Escócia, o Alemão, ou os quatro músicos? – Conforme falava, ia enumerando em seus dedos.
- Músicos, é? – Eu sorri abobada. Eu tenho uma terrível queda por músicos, você não tem ideia. Principalmente os britânicos. – São britânicos?
- Aparentemente, sim.
- Katrina e Anala? – Por favor, diga que elas ainda não os viram.
- Elas ainda não os viram pra nossa sorte. Assim que chegaram, foram direto para a diretoria e ambas estavam no banheiro. – Ela sorriu vitoriosa. Quem vê, pensa que estamos disputando por garotos. O pior é que estamos mesmo. Quem não se guardar, fica sem. A lei da natureza.
- Quando encontrá-los novamente, por favor, me avise. – Implorei. Eu não sou desesperada. Como disse antes, eu adoro músicos e é muito difícil encontrar músicos bonitos em Phillipi’s Kingdown. O único que um dia já teve foi Rupert, mas desse, eu só quero distância e prefiro não comentar sobre ele por enquanto.
- Prometo. – Ela riu da minha cara. – Qual é a sua aula agora?
- Acho que é Literatura, não tenho certeza. – Peguei minha mochila e procurei pelo papel onde estavam meus horários. – Sim, literatura e você?
- Biologia. – Cruzou os braços e fez um bico enorme. Eu tive vontade de apertá-la, mas me contive. Ela detesta quando faço isso.
- Melhor estudar Anatomia do que Naturalismo pela manhã. – Dei de ombros.
- Fico com a terceira opção: Não estudar. – Rimos.
Continuamos conversando até escutarmos o sinal. Katrina e Anala já começavam a escrever sua lista, mas eu ainda não tinha conversado com elas direito. Nenhum sinal dos músicos, infelizmente. Eu estava curiosa demais pra saber como eram. Por que não aparecem logo? acompanhou-me até minha sala e combinamos de nos encontrar entre a troca das aulas na frente do laboratório de Química. Entrei na sala, cumprimentei algumas pessoas, inclusive minha professora, Sra. Kamille, e fui procurar por algum lugar vago para me sentar. Havia um bem no meio da sala e um grudado na janela, qual eu recusei sem pensar duas vezes. Faz muito frio naquele lugar.
Minhas notas em literatura eram sempre ótimas, então optei por não prestar atenção em Kamille e rabiscar alguma coisa em meu caderno. Alguma coisa lê-se nada. Eu só gostava de rabiscar. Fazia um excelente trabalho distraindo-me. Sra. Kamille falava alguma coisa sobre o Capitalismo Selvagem, quando algo a interrompeu. Eu parei de riscar a última folha do meu caderno no mesmo instante e olhei para frente como quem não quer nada.
Eu queria muito poder explicar o que eu vi, porém não sou boa com essas coisas. Se satisfaça com o meu detalhamento superficial. Um lindo, quando eu digo lindo, eu quero dizer tão maravilhoso que faz você perder o ar, garoto adentrou na sala de aula, pedindo licença educadamente. Sua cabeça estava baixa, mas eu consegui ver muito bem a cor dos seus olhos. Eram azuis. Seus cabelos eram de um tom de louro-escuro e estavam bagunçados, o que só o deixava mais sexy. Kamille sorriu simpaticamente para ele e pediu para que se sentasse no único lugar vago da sala, qual eu havia recusado primeiramente. Eu podia ver de longe que ele estava nervoso. Estava com as mãos nos bolsos, como se quisesse passar uma imagem de despreocupado, porém seus olhos estavam fixos em sua mesa, como se aquilo fosse a coisa mais interessante do mundo. Uma fofura. Adoro quando garotos ficam nervosos. Ele era alto. Não gigantesco estilo jogador de basquete, tinha o tamanho ideal, pelo menos, para mim. Os dois primeiros botões de sua camisa estavam abertos e sua gravata afrouxada. Sua calça era larga, e deixava uma parte de sua cueca aparecer. Eu sentia meu coração batendo de um jeito estranho, ele realmente tinha me atraído. E pelo visto, eu não era a única que tinha sido fisgada. Várias meninas o encaravam com interesse, e eu juro que podia ver o desejo nos olhos de cada uma.
- Continuando... – Pobre Kamille. Grande ilusão da parte dela achar que alguém prestaria atenção em alguma coisa que ela estava explicando. Eu não olhava pra ela desde o momento em que pisei os pés naquela sala, agora que ele chegara é que eu não prestaria de jeito nenhum. Ainda faltava meia hora de aula, quando minha professora finalmente conseguiu prender nossas mentes em duas frases.
- Quero que formem duplas, mas eu as escolherei. – Todos reclamaram, com exceção do garoto novo. – Vocês deverão fazer um resumo sobre o Naturalismo.
- Sr. ? – Ela o chamou. ? Então era esse seu sobrenome... Gostei. Bem incomum, gosto de coisas incomuns. – Pelo que pude ver no histórico da sua última escola, você tinha certa dificuldade com literatura. – Ele lhe respondeu com um sorriso de canto. Deus, até o seu sorriso de canto consegue deixá-lo mais maravilhoso. – Então vou colocá-lo com a minha melhor aluna. Importa-se, ? – O que? Comigo? Obrigada, Senhor. Fico te devendo essa. Nunca fiquei tão feliz por ser obcecada em romances.
- Claro que não. – Sorri verdadeiramente, e ele me encarou pela primeira vez. Senti que minhas mãos ficaram geladas e eu estava suando frio. Como eu odeio essas sensações. Kamille continuou montando as duplas. Eu pude notar que algumas garotas estavam me encarando com... Inveja? Raiva? Não conseguia decifrar, e pouco ligava também, eu queria juntar meu material logo para poder me sentar ao seu lado o mais rápido possível.
- Não precisa se incomodar. – Escutei uma voz grossa e desconhecida se pronunciando ao meu lado. Era dele. Um arrepio percorreu por todo meu corpo e, pra minha sorte, ele pareceu não ter notado. Uma de suas mãos continuava dentro de seu bolso e a outra coçava os fios de cabelo que ficavam em sua nuca, o que dava mais charme para aquele ser. – Pode continuar sentada aí, eu puxo minha carteira pra mais perto de você. – Ele sorriu. Sorriu. Sorriu para mim. E seu sorriso era o mais perfeito de tudo. Era reconfortante. Eu sorri de volta também em agradecimento.
- Meu nome é . E o seu? – Perguntou assim que se sentou ao meu lado.
- . – . Até o seu nome era diferente. Tem alguma coisa nesse garoto que não me atrai? Eu não posso deixar que Katrina e Anala botem aquelas mãos frescurentas nele. Mas por que eu não conseguia parar de sorrir? Alguém me dê um tapa.
- Estuda aqui desde quando? – Dessa vez os seus olhos estavam presos aos meus. Eu quase esqueci como se respirava. Os olhos de sempre foram os meus favoritos. Azuis e chamativos. Mas os deles tinham algo a mais. Eram azuis, brilhantes e penetrantes. Eu não conseguia parar de fitá-los, meus olhos simplesmente não me obedeciam. Eu estava parecendo uma completa idiota.
- É... Desde os meus dez anos. – Coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Sim, eu também estava nervosa.
- Nossa, muito tempo em uma única escola. – Ele riu divertido. A risada dele. Meu Deus, a risada dele também me fazia arrepiar.
- Ah, eu nunca tive problemas aqui. – Ri envergonhada. Eu... Envergonhada... Não, isso não está legal. Respirei fundo e senti o seu perfume invadir minhas narinas. Maldita hora em que eu decidi respirar. Era um dos melhores perfumes que eu já havia sentido. Lembra quando falei do de Vincent? Era ainda melhor. Alguém tira esse menino de perto de mim. Não, mentira, se alguém se atrever, vai descobrir como fica quando está com fome. – Você sempre morou em Londres?
- Sim. – Apoiou seu cotovelo na mesa e encostou sua cabeça em sua mão. Ele ficava tão fofo naquela posição. – Mas, ao contrário de você, eu nunca consegui ficar muito tempo em uma única escola. – Mais uma risada maravilhosa.
- E por quê? – Arqueei uma de minhas sobrancelhas com ar questionador.
- Digamos que os diretores e professores nunca foram com a minha cara. – Ele fez uma careta e, dessa vez, fui eu quem riu.
- Então você já deve estar acostumado com todos esses olhares.
- Que olhares? – Perguntou com sinceridade.
- Olhe à sua volta, caro . – Eu ri. – Todos estão olhando pra você desde que pisou nessa sala de aula. – Ele bagunçou sua franja, envergonhado. – Você chama atenção.
- Chamo? – Ele olhou-me de um jeito diferente, o que me desconcertou um pouco. Ah, não. Eu estava indo tão bem. Eu pude ver quando um sorriso de canto se formou em seus lábios conforme ele fitava minha expressão.
- Chama. – Comecei a escrever. Naturalismo, capitalismo selvagem, questão da sobrevivência do mais forte, zoomorfismo... Quer saber? Foda-se. Sra. Kamille ia ter que aceitar só isso e fim. Não estou com cabeça pra pensar em literatura. Não com a personificação do Apolo sentado logo ao meu lado.
- Posso ler? – Ele colocou sua mão sobre a minha. Pensei que meu coração fosse parar de bater a qualquer momento. Mas o que era tudo isso que eu estava sentindo? É claro que eu já tive todas essas emoções, mas nunca por um único garoto e de uma vez só. Eu apenas sorri e permiti que ele pegasse. Ele ficou um bom tempo lendo as curtas e diretas linhas que eu havia escrito.
- É... Eu não entendi nada. Desculpa. – Rimos. Eu, um pouco mais alto que o permitido, por isso acabei recebendo um olhar de reprovação não só de Kamille, mas como de várias outras garotas. Coloquei as duas mãos na minha boca e voltei a fitá-lo tentando me controlar. – Tentei parecer culto, mas isso não é comigo. – Devolveu-me a folha e voltou a me encarar no mesmo instante. – Só pude ver que sua letra é bonita. – Sorrimos. Eu em agradecimento, obviamente.
- Eu não estou com paciência pra escrever mais, então ficaremos só nisso. Ainda estou acabada por causa do último dia de férias. – Suspirei. As aulas mal tinham começado e parte de mim queria que elas acabassem. Outra, bem maior que a primeira, queria continuar lá, conversando com .
- Posso saber o que você fez pra ficar assim? – E ele ainda era curioso como eu. Por favor, alguém me diz que ele não existe?
- Nada demais. Só uma festa com umas amigas e...
- Muita bebida. – Ele completou a frase comigo. Começamos a rir novamente. Deixei o meu desejo falar mais alto e dei uma pequena olhada em sua boca. Ela parecia me chamar como se pedisse para que a minha se juntasse com a dele. Mordi meu lábio inferior com força ao ter tais pensamentos. Foco, , foco.
- Garanto que você não foi a única que fez isso. Estou com uma ressaca das grandes, não sei como você ainda não percebeu. – Cutucou-me e eu o afastei rindo divertida e quebrando os pensamentos que corriam pela minha mente.
- Você está lin... – Eu ia dizer. Juro que eu ia. Eu nunca fui dessas que tinha medo, ou vergonha de admitir o que sentia pra alguém. Principalmente, quando era uma verdade. Mas pra ele, tudo estava acontecendo de um jeito diferente. A verdade simplesmente não quis sair. – Está legal. – Sorri sem-graça. O sinal tocou. Os alunos começaram a pegar suas coisas e deixar suas determinadas folhas sobre a mesa de Kamille. Eu fiz o mesmo e me seguiu.
- Bom, ... – Ele ia dizendo, mas eu o cortei com um beijo. Brincadeira. Eu, infelizmente, tive que o cortar apenas com palavras.
- Me chama de . é coisa de pai e mãe. – Sorri sincera.
- Bom, ... – Ele riu e enfiou suas mãos em seus bolsos novamente. – Eu vou encontrar uns amigos meus que também estão estudando aqui, se você quiser me acompanhar... – Eu queria. Ah, como eu queria. Eu estava a um passo de aceitar, mas lembrei-me de que tinha dito a que a encontraria na porta do Laboratório de Química. Eu estava com uma enorme vontade de socá-la agora. Mas também... Como eu ia saber que um cara incrível como esse cairia na minha sala de Literatura e me chamaria para procurar seus amigos com ele?
- Desculpa, . – Eu fiz a minha melhor cara de decepção e apertei um de seus braços, que por sinal, era bem fortinho. – Mas eu prometi a uma amiga que a encontraria depois da aula. – Ele balançou de leve a cabeça.
- Então... Nos vemos no intervalo. – Ele deu aquele sorriso maravilhoso só pra mim de novo e eu tive medo de vacilar e tropeçar nas minhas próprias pernas. – Obrigado por me ajudar com o trabalho. Vou precisar da sua ajuda mais vezes. – Espero mesmo que precise. Porque eu estou disposta a passar quanto tempo fosse preciso ao seu lado.
- Até daqui duas aulas. – Mandei um aceno de mão e virei-me com pesar para correr até a porcaria de porta que havia arruinado meus planos.

Capítulo 02

Quando cheguei à porta, um sorriso de ponta-a-ponta estava estampado em minha cara. Sim, eu ainda estava profissional do sexo por não ter conseguido encontrar os amigos do , mas eu precisava contar pras meninas (lê-se e ) sobre tudo o que havia me acontecido. Porém, Katrina estava com elas, o que complicou a ideia inicial. Cheguei um pouco mais perto, e percebi a lista em suas mãos. Não, a lista.
- Oi, meninas. – As cumprimentei e abracei de lado, já que, tanto eu quanto ela, segurávamos livros demais com um braço e não conseguiríamos nos abraçar decentemente.
- Quer ver minha lista, ? – Katrina perguntou animadamente. Eu concordei com grande receio, implorando com todas as minhas forças para que o nome dele não estivesse lá. Era óbvio que uma hora seria colocado.Tanto faz, mais cedo ou mais tarde. Mas eu queria ter, pelo menos, um pequeno tempo para tentar conquistá-lo. Eu realmente tinha gostado do . Alguma coisa me dizia que ele não era igual aos outros que eu já havia conhecido. Você deve estar pensando: “Por que você simplesmente não fala pra ela que se interessou por ele?” Minha amiga... Você precisa interagir um pouco mais com os seres que habitam parte do meu mundo. Se eu dissesse isso, aí é que ela o enfiaria na lista mesmo.
Comecei a lê-la. Josh Hulkack. Brandon Fillipes. Samuel Fillipes. Pascal Hiliwinsky. . Quando terminei, senti como se um peso tivesse sido retirado das minhas costas. Meu coração estava mais leve e eu sentia-me mais feliz do que nunca.
- São bonitos? – Perguntei, mesmo já sabendo da resposta.
- É claro que são. Até parece que você não me conhece. – Ela riu maliciosa. O pior de tudo é que eu conhecia. Pra ser mais exata... Quem não conhecia?
- Esse Josh... – fitou o nome como se tivesse uma vaga lembrança sobre este. – Não é o nome do namorado da Kendra? – Perguntou, mesmo já tendo absoluta certeza da resposta. Kendra era uma antiga amiga nossa que acabou mudando de colégio por conta da separação dos pais. Ela sempre andava conosco e era bem íntima tanto de Katrina quanto de Anala. Pelo menos, era isso o que eu achava.
- Sim. – Respondeu sem mais de longas. Silêncio.
- Que aulas vocês tem agora? – perguntou para quebrar o clima tenso de uma forma tão sonolenta que eu precisei gargalhar.
- A noite foi boa, hein, amiga? – Disse e todas começaram a rir.
- Nem te conto. – Ela brincou. – Mas sério, eu quero saber se vocês terão a mesma aula que eu. Porque assim eu posso me sentar perto de vocês e dormir. Não vou aguentar deixar meus olhos abertos por muito tempo. – Suspirou cansada.
- Eu tenho Química. – Avisei.
- Eu tenho História. – .
- Física. – Katrina.
- Eu tenho História. – suspirou novamente, mas dessa vez aliviada. Não sabia se era por estar indo para aula acompanhada de uma amiga, ou se era por não ter que dividir o mesmo cubículo com Katrina e seus papeis. Já disse que Katrina era legal às vezes, mas não no primeiro dia. Ela conseguia ficar insuportável.
- Onde está Anala? – Perguntei finalmente percebendo que ela não estava lá.
- Com o... – Katrina pensou. Pegou sua lista e passou seu dedo pelos nomes. – Pascal Hiliwinsky. Um alemão. – Sorriu inocentemente. Troquei olhares com a e ela pareceu entender.
- Mas já? – disse de uma forma indignada. Katrina apenas balançou a cabeça em concordância e começou a andar até a sua devida sala de aula.
- Então tá. – Exclamamos juntas e cada uma seguiu o seu caminho.
A aula que se seguiu não teve nada demais. Eu nunca fui muito chegada em Química, por isso minhas notas estavam sempre na média, nada além do normal. Mesmo não tendo tanta facilidade em Química quanto em Literatura, eu optei por gastar meus neurônios pensando em . Lembrei do seu cheiro, ao mesmo tempo forte e suave, lembrei do seu sorriso, da sua voz... A cada lembrança eu sentia como se algo estivesse atravessando o meu corpo. Ele era o tipo de cara que tinha absolutamente tudo pra me seduzir e que não precisava de muito esforço pra conseguir arrancar arrepios e suspiros de mim. Mais cinquenta minutos de aula se passaram e o sinal finalmente decidiu dar o ar da graça. Senti meu celular vibrar. Era uma mensagem de que dizia: “Acho melhor você correr para a quadra se não quiser perder os seus músicos”. Eu sorri. Pra ser sincera, eu não estava me importando tanto com os músicos britânicos agora. É claro que eu estava curiosa a respeito deles, mas outro cara já tinha roubado a minha atenção.
Juntei meu material e fui em direção à quadra caminhando lentamente. Eu não estava a fim de correr. Logo que cheguei, avistei e conversando animadamente perto de um grande pilar ao lado da arquibancada. falava algo sobre Vicent, bebidas, cama, até tarde. Desisti de tentar entender, porque meu dom de leitura labial não estava querendo ajudar. se virou para onde eu estava e encarou-me com uma cara feia apontando para o seu relógio de pulso com pressa. Aumentei um pouco a velocidade dos meus passos até chegar às duas.
- Onde eles estão? – Perguntei já olhando para todos os lados.
- Não mais aqui. – avisou-me. – Ninguém mandou você enrolar. Quando eu disse pra você correr, eu quis dizer no sentido literal da palavra.
- Mas... – Cruzei os braços e fiz bico. O que não durou muito tempo, porque segundos depois um sorriso surgiu delicadamente nos meus lábios.
- Ih... Aconteceu alguma coisa. – fitava-me desconfiada.
- O que aconteceu? – Foi a vez da perguntar.
- Nada. – Dei de ombros, mas não tirando o sorriso do rosto.
- Por favor, me diga onde eu posso achar um pouco desse nada, porque estou precisando sorrir assim em plena segunda-feira às 9 da manhã. – zoou-me e concordou balançando a cabeça freneticamente. – Desembucha.
- Não tem nada demais. – Eu rolei os olhos. Não adiantou. – Tinha um novato na minha sala e eu acabei formando uma dupla com ele e bem... Vocês sabem... – Eu ri de leve e cocei a minha bochecha. – Ele era bem legal. E atraente. – Sussurrei a última frase.
- Sério? – Os olhos de brilhavam. – Qual o nome dele?
- . . – Falei baixo. Não queria ficar espalhando por aí. As paredes dessa escola têm ouvidos.
- E como ele é? – sorria e balançava-me pelos ombros.
- É... – Pensei. Eu poderia descrevê-lo com todos os detalhes que haviam me encantado, mas não seria legal. Eu ainda tinha que parecer meio indiferente, mesmo que elas não acreditassem em mim. – Louro, mas um louro escuro, nada muito alemão. Alto, cheiroso, e os olhos dele... – Minha respiração falhou um pouco. – Conseguiam ser mais bonitos que o seu, .
- Então eles deviam ser perfeitos. – Brincou e nós rimos.
- E por sua culpa, eu tive que me distanciar dele. – Empurrei com força quase fazendo com que ela caísse de bunda no chão.
- O que eu fiz? – Perguntou indignada, se recompondo.
- Ele perguntou se eu não queria ajudá-lo a achar seus amigos durante a troca de aula. Mas eu não podia, porque tinha que encontrar alguém. – Apontei pra ela.
- E por que você simplesmente não foi?
- Porque sou uma amiga com um grande coração e consideração por vocês. – Lancei-lhe um olhar com uma falsa raiva. Segundos depois, desatamos a gargalhar. Precisávamos acelerar o passo da conversa, antes que ficássemos pra fora da sala por chegarmos atrasadas. Ser expulsa da sala de aula, logo no primeiro dia, não é nada divertido. Fica marcado por seus professores pra sempre.
- Não sei vocês, mas eu vou indo pra aula de Geografia. – Avisei já me virando.
- Então espera. – Cada uma se posicionou de um lado do meu corpo. – Temos a mesma aula agora, meu amor. – Sinto que não vou calar a boca a aula inteira. A última página do meu caderno e a minha mente agradecem.
A cena que se seguiu foi bem semelhante as dos filmes água com açúcar para adolescentes. Entrávamos juntas e estávamos prestes a nos sentar, quando nossas cabeças, como se tivessem sido chamadas por algum tipo de magnetismo, viraram-se para um único local em questão. Ele não chegava a ser mais bonito que o , mas estava perto disso. Era bem menos tímido, sempre olhando em volta para saber o que estava se passando. Tinha várias sardas e olhos azuis quase cinzas. Seu cabelo era castanho claro e mais curto, o que o deixava uma gracinha. Ele usava um All Star preto todo rasgado, isso dava um brilho a mais para o seu estilo.
- É um deles. – Escutei suspirar. – Um dos músicos.
Ele havia notado nossa chegada, pois estava claramente nos encarando de volta. Sorrindo. Um sorriso singelo e muito branco por sinal. Eu apenas retribuí e sentei-me em minha cadeira. Se eu não tivesse conhecido o hoje mais cedo, juro que assim como e, principalmente, , eu estaria babando nesse garoto. Mas... Não sei explicar. Eu só preferi permitir que elas apreciassem a paisagem sozinhas, e eu voltei a curtir meus pensamentos encantados.
A aula continuou sem muita novidade. Só se o fato da ter forçado um menino, muito estranho por sinal, que estava sentado atrás do novato, trocar de lugar com ela, contasse. Ela ficou a aula inteira puxando papo com ele, mas ainda não tinha nos dito qual era o seu nome. Estava entretida demais, entenda. Os dois conversavam animadamente, como se mais nada existisse em volta. Senti uma enorme vontade de apertá-los. Como você já deve ter notado, eu adoro apertar as pessoas. Principalmente, quando elas me dão motivos pra isso. O sinal tocou pela quarta vez no dia, nos liberando para comer. Comer! Como eu pude esquecer que estava com fome? Juntei minhas coisas mais rápido do que o normal. Eu queria sair daquela sala, queria procurar por ele enquanto eu ainda tinha tempo. E queria comer também. Não é porque eu me interessei por alguém que eu deixarei de ficar profissional do sexo quando eu estiver faminta.
Esperei no batente da porta e quando ela se aproximou, concordamos em deixar para trás. Era pro bem dela. Começamos a caminhar para o refeitório. distraída como sempre, alheia a tudo e a todos, e eu vasculhando cada pessoa a minha volta em busca de somente uma. Eu estava começando a me juntar ao grupo de , quando escutei uma voz. .
- ! – Ele gritou. Virei-me com uma cara de quem não sabe o que está acontecendo (só encenação) e sorri. Ele me chamou com a mão.
- , vem aqui comigo. É rapidinho. – Menti. Rapidinho... Você acha mesmo? Eu passaria no mínimo o resto do intervalo inteiro com ele. finalmente pareceu acordar e quando viu quem havia me chamado, encarou-me com os olhos arregalados e a boca aberta.
- Você já conhecia os músicos e não me falou nada? – Opa, opa, opa. Para tudo. Que papo é esse de que eu já conhecia os músicos? Espere... O... era o músico? Deus, por que está fazendo isso comigo? Esse menino está se tornando uma tentação cada vez maior para a minha humilde pessoa.
- É o garoto da literatura. – Sussurrei com receio de que ele escutasse, afinal estávamos nos aproximando. sorriu abertamente e me deu um beliscão. Eu gritei, obviamente.
- ... Está decidido. Você é a pessoa mais sortuda que eu já conheci. – Ela riu. – E ainda pegou o que eu mais gostei. – Ela superaria.
- Peguei... Peguei sim. – Disse ironicamente. – Eu conheci o menino há duas horas e meia. Acho que você está me confundindo com alguém. – Rimos. Ele estava rodeado por dois amigos. E sim, os dois eram lindos. Cada um com a sua beleza, nada de semelhante entre si.
- Eu já disse pra me chamar de . – Falei assim que estava próxima suficiente, fingindo que estava brava. Ele riu.
- Desculpa, eu pensei que você não fosse ouvir se eu te chamasse por . – Eu balancei a cabeça como se dissesse: “Tudo bem, vou deixar essa passar”.
- Ah... – Lembrei que minha amiga ainda existia e que estava posta bem ao meu lado, encarando cada um daquele círculo dos pés a cabeça sem nenhuma cara de pau. – Essa é a . Aquela que eu ia encontrar depois da aula. – Sorri. E senti inveja quando ele sorriu pra ela educadamente.
- Prazer, . Eu sou o . E esses são o ... – Apontou para o cara ao seu lado. Os cabelos desse eram mais claros que os do . E cada vez que ele sorria, covinhas surgiam. Covinhas! Eu amo covinhas. Seus olhos eram castanhos muito escuros. – E o . – Apontou para o outro. Esse, por sua vez, parecia ser o mais velho de todos. Havia deixado a barba por fazer e tinha um perfume bem forte. Usava um Ray-Ban, o que o deixava mais sexy, e seu cabelo era o mais escuro. Devido aos óculos, eu não consegui identificar a cor dos seus olhos, infelizmente.
- Qual é a próxima aula de vocês? – Perguntei.
- Eu tenho História. – avisou e eu agradeci a todos os santos existentes. Eu também tinha História.
- Eu também. – Dei um sorriso cúmplice pra ele.
- Que bom, porque eu também tenho problemas com História. – Rimos. – Pra falar a verdade... Eu tenho problema com todas as humanas. – Arqueou os braços e fez uma carinha muito fofa.
- Sorte sua, meu rapaz. – Brinquei. – Conheceu a garota certa.
- Vou torcer para que seja mesmo. – Mas ele não estava brincando, e isso eu pude notar pelo tom da sua voz. Senti minhas bochechas corarem no mesmo instante.
- Eu tenho Matemática. – disse e fez uma cara de nojo, o que fez com que todos os presentes gargalhassem.
- Eu também. – se pronunciou pela primeira vez. Sua voz era bem grossa, mais grossa que a do . Ele sorria de um jeito diferente para a . Preferi ignorar. Eles que se entendam, só quero um pra mim. Esse um que está me encarando desde a hora em que eu cheguei. Posso te morder?
- Sou o único excluído que vai ter Biologia? – Perguntou indignado.
- Você sempre é o excluído, . – brincou.
- Tadinho dele. – Eu ri. – Acho que uma outra amiga minha também vai ter Biologia, . Só não sei aonde ela se enfiou. – Deixei a sua localização pairando no ar. A conversa entre ela e aquele garoto deveria estar ótima.
– Na verdade, ela tá com um amigo de vocês. – avisou.
- O ? – questionou. – Aquele lá não perde nem a primeira oportunidade. – Todos riram. podia ser o que for, mas não se entregava tão fácil para um cara assim. Isso eu tenho certeza.
- Não sei se é o , mas é bem provável. Nem chegamos a falar com ele. – Expliquei.
- Sabe... Nossa querida amiga roubou toda a atenção dele, então não tivemos a chance. – reclamou. Reclamou olhando diretamente para o , como se pudesse ver por trás daquele par de lentes escuras. Desde que chegamos ela estava o encarando em especial. Ela o analisava, o testava com o olhar.
- Não sei vocês, mas eu tô morrendo de fome. – disse. Voltei a encará-lo e nossos olhares se sustentaram por um curto período de tempo.
- Eu... – Gaguejei um pouco. – Eu também. Agora posso te fazer companhia até o refeitório, não tenho nenhuma amiga me esperando. – Rimos. Mal nos conhecíamos e piadinhas internas já rolavam. Ótimo sinal. Mesmo que a piadinha não tivesse absolutamente nada demais e fosse bem sem graça.
- Então aceita? – Ele esticou seu braço e o curvou um pouco.
- Não precisa perguntar duas vezes. – Encaixei o meu braço no seu. Virei um pouco a cabeça olhando para trás. – Tchau pra vocês, vamos matar a vontade.
- Se eu fosse você... Pensaria melhor na hora de falar. As pessoas podem entender mal o que você quis dizer. – lançou-me um olhar malicioso de brincadeira.
- E se elas tiverem entendido certo, ? – pisquei para ele, antes de seguirmos o nosso caminho. Escutei e fazerem sons de chicotes um pouco mais atrás e tive que rir mais uma vez.
- Como foram suas aulas? – indagou ao meu lado, agora que tínhamos conseguido entrar no refeitório e esperávamos na fila. Uma fila bem grandinha por sinal. Essa galera está parecendo eu. Um bando de esfomeados. Minha vontade era a de responder para ele: “Passei as minhas últimas duas aulas pensando em você e em como podia te encontrar de novo. E as suas?” Mas engoli meus pensamentos e menti mais uma vez. Já estava virando uma constante no meu dia.
- Foram boas. – Dei de ombros. – E as suas?
- Pra ser sincero, nem prestei muita atenção. Minha cabeça estava ocupada com outras coisas. – Ele riu de leve e balançou a cabeça lentamente como se quisesse afastar alguma coisa.
- Já conheceu muita gente? – Mudei de assunto.
- Só você e aquela sua amiga. – Riu. – conheceu uma outra também, mas não lembro ao certo do nome dela e, pelo visto, está se dando muito bem com a sua amiga também. – Apontou para a porta por onde havíamos passado. – O ... O foi proibido de se relacionar com o sexo oposto. – Minha vez de rir, com licença. – A namorada dele não permite. E o deve estar se divertindo com a sua outra amiga, porque até agora não deu sinal de vida. – Ele acompanhou-me na risada.
- Só mulher, ? – Perguntei fingindo indignação. Abri um pouco a minha boca e coloquei a minha mão livre sobre a mesma.
- Por enquanto, sim. Parece que os caras daqui não foram com a nossa cara. – Ele sorriu de canto. Eu passei minha mão carinhosamente sobre o seu ombro.
- Eu não sei se você se lembra, mas já lhe disse que chama muito atenção. – Sorri sincera. – As pessoas daqui têm um pequeno complexo com as coisas relacionadas às suas reputações, e bem... Você deve tê-las ameaçado de alguma forma. – Ele não via o óbvio? – O interesse por novatos aqui é gigantesco. – Brinquei.
- E você? Interessou-se pelos novatos? – Ele sussurrou de leve e um pouco mais perto do que o normal. Eu estremeci. Para a minha sorte, a mulher que estava vendendo minha deliciosa comida botou um ponto final naquela conversa. Salva pelo queijo quente. Peguei meu prato e esperei até que ele também pegasse o seu.
Direcionamo-nos silenciosamente até uma mesa qualquer onde pudéssemos nos sentar e comer. Um silêncio reconfortante, nada de constrangedor ou que fosse um incômodo. Era apenas... Um silêncio. Estávamos curtindo a presença um do outro. Comecei a devorar meu lanche, não me importando nem um pouco com o que ele fosse pensar de mim. Por favor... Eu até posso estar agindo um pouquinho diferente com ele, mas não vou deixar de ser normal. De ser quem eu realmente sou.
- Já disse o quanto você é diferente? – Ele riu enquanto me analisava.
- É? – Sorri de boca fechada.
- É... – Ele sorriu de volta. – Ao mesmo tempo em que você é uma nerd em humanas, simpática e linda... – Eu corei. Podia sentir minhas bochechas formigando. - Você também é maliciosa e gosta de comer. – Ele falou a última frase indignado. – Meninas sempre fazem doce pra comer!
- Obrigada? – Não sabia ao certo se deveria ou não agradecer. Optei por ser educada mesmo, qualquer coisa eu simplesmente fingia que foi um “obrigada” irônico. – Acho bom mesmo ser diferente das outras. Não gosto de ser comum, entende?
- Eu também prefiro pessoas incomuns. – Seu sorriso fazia com que meus olhos se fixassem no ponto entre seu nariz e seu queixo. – As outras eu posso encontrar em qualquer lugar. – Passou a mão por seus cabelos fazendo com que eles ficassem mais desajeitados do que nunca. – E eu já estou cansado delas. – Dessa vez ele me encarava da mesma forma que havia encarado . Com interesse. Eu congelei. Alguém poderia, por favor, me ensinar a como se respirar?
No momento em que eu finalmente pude notar um clima sólido se formar entre nós, alguém surgiu para tacar um balde de água fria na cara da sociedade. Sociedade, lê-se eu e . e o suposto vieram nos cumprimentar. Ela exibia um sorriso de ponta a ponta no rosto e eu sabia o que aquilo queria dizer. Pobre, Vincent. Pobre nada, ele estava se fudendo pra ela. Não, não, não. Não me entenda mal, não havia feito nada demais com o ainda. Esse sorriso só queria dizer que ela estava curtindo ele. E muito... Pelo tamanho do sorriso que estampava a sua cara, ela tinha se dado super bem com ele.
- Oi, amor da minha vida. – Ela se sentou no meu colo e me deu um abraço apertado. – Diz que eu não estou sonhando. – Sussurrou quase inaldivelmente no meu ouvido durante o abraço e depois se afastou.
- Não estamos. – Respondi meio alienada e alto.
- Não estamos o que? – e perguntaram ao mesmo tempo, o que fez com que ríssemos.
- Assunto de mulher, não interessa. – Brinquei e concordou. Eles cerraram os olhos para nós como se nos reprovassem.
- Ah, oi, meu nome é . – Ela se apresentou para o estendendo sua mão que logo foi bem recebida pela dele.
- E o meu é . – Sorriu simpático como das outras vezes.
- Eu sei. – Ela avisou rindo. – A já nos disse. – O que ela pensa que está fazendo? Senti uma vontade enorme de enfiar meu braço inteiro dentro da sua boca até matá-la sufocada.
- Disse? – Ele arqueou uma de suas sobrancelhas com um sorrisinho de canto no rosto. Sim, aquele que o deixava triplamente mais sexy. balançou a cabeça freneticamente em concordância. Eu estava mais vermelha que alemão depois de passar um dia na África sem protetor solar. E ela ainda tinha a ousadia de confirmar! Será que ela ainda se lembra da minha presença e de que está sentada no meu colo? , ... Você está correndo risco de vida.
- Meu nome é , mas pode me chamar de . – mudou de assunto. Obrigada, amigo, sou eternamente grata. Ele possuía o mesmo sorriso de quando estávamos na sala de aula algumas horas atrás. – Você deve ser a , certo?
- Exatamente, mas... – Eu ia dizer, mas cortou-me.
- Me chame de . – Ele me imitava de um jeito engraçado, fazendo uma careta. Comecei a gargalhar.
- Bom menino. – Dei leves tapinhas em sua cabeça e ele colocou sua língua para fora como se imitasse um cachorro. Isso só fez com que eu risse mais.
- Onde vocês estavam todo esse tempo? – perguntou curioso. Eu me ajeitei debaixo da , quase a derrubando com tudo no chão. Até que não seria uma má ideia. Ela anda merecendo! Principalmente agora que me deu um tapa no braço por quase tê-la derrubado.
- estava me mostrando o almoxarifado. – Brincou lançando um olhar malicioso pra ela logo em seguida. Eu e gargalhávamos.
- ! – Ela gritou rindo. – Eu estava mostrando a escola pra ele, não ensinando Anatomia. – Explicava com humor até que sua expressão mudou drasticamente. Ela ficou séria de repente olhando para um ponto específico atrás de . Acompanhei seu olhar e gelei. Eu sabia que uma hora ou outra isso aconteceria, mas não poderia ter demorado mais alguns longos e pesarosos dias? Katrina e Anala estavam sentadas acompanhadas por três garotos. Um deles era Vincent e o outro era Pierre, só não conhecia o terceiro. Elas nos fitavam descaradamente e com sorrisos maquiavélicos no rosto. Abaixei meu olhar um pouco mais e pude perceber que Anala carregava um pequeno pedaço de papel nas mãos. Meu coração se encheu de raiva e eu senti uma tremenda vontade de pegar aquela porcaria de lista e picá-la friamente.
- Quem são elas? – , que parecia ter percebido nossa mudança de humor, perguntou.
- Nossas amigas. – Respondi fazendo aspas com as mãos na última palavra.
- Como assim suas amigas? – perguntou sem entender muita coisa.
- Longa história. – E eu não estava a fim de contar.
- Se elas são suas amigas... – repetiu meu gesto ao falar: “Amigas”. – Por que essas caras? – Estava tão visível assim que queríamos socá-las com todas nossas forças? Que bom.
- Porque elas são nossas amigas. – Aspas novamente. – E não são nossas amigas. – Nada de aspas dessa vez. rolou os olhos como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo e tanto quanto nos olharam em confusão. Eles estavam completamente perdidos.
- Tanto faz, ok? – Sorri quebrando o assunto que estava tomando espaço. – Vamos sair daqui? – Perguntei já empurrando do meu colo e levantando-me. Os três me acompanharam até onde , e estavam. Com certeza, estávamos sendo seguidos com o olhar por duas pessoas. Mas eu fingi ignorar. O que era uma mentira. Eu estava com medo, essa era a verdade. Não queria dividir com ninguém, principalmente, com elas. E creio que pensava o mesmo que eu. estava com um de seus braços em volta do pescoço do quando chegamos. Os três conversavam animadamente.
- Então vocês têm mesmo uma banda? – perguntava animada com seus lindos olhos azuis arregalados de um jeito divertido.
- Sério? – Entrei na conversa como quem não quer nada.
- Sério. – confirmou.
- E qual é o nome? – .
- McFLY. – Os quatro responderam em uníssono, o que nos fez rir bastante.
- Mas não somos nada demais por enquanto. – avisou. – Só uma bandinha de garagem como várias por aí. – Deu de ombros.
- Depois vou querer que vocês toquem pra mim. – Avisei. – E eu não estou pedindo. – Brinquei, o que fez com que colocasse as mãos em sua cintura e abrisse a boca de um jeito muito homossexual. E ah, só pra constar, eu não tenho problemas com gays, certo? Sempre deixo isso de aviso, porque, hoje em dia, qualquer brincadeirinha é considerada homofobia ou bullying ou qualquer outro tipo de problema psicológico.
- Só vamos aceitar porque vocês são bonitinhas. – disse e nós rimos.
O tempo passou e o sinal tocou dizendo que era hora de voltar para nossas aulas. Olhei para e como se lhes desejasse boa sorte. Porque íamos precisar. Eu já via a guerra que se formaria entre Katrina, Anala e nós. Eu já passei por isso uma vez, e o resultado não foi nada legal. Maldito Rupert. Eu tinha nojo só de lembrar. Sabe... Certas amizades são boas até um ponto, mas quando há homem envolvido, tudo muda.
- Vamos? – me chamou, o que fez com que eu me desprendesse de imagens nada agradáveis. O encarei com uma cara de quem não sabia do que ele estava falando. - Aula de História, . Teremos juntos. – Sorriu do jeito mais fofo que conseguiu e eu quase o mordi. Eu disse quase. Graças a Deus, eu sei me controlar muito bem.
- Ah, sim. – Sorri meio abobada de volta e o segui. e foram para a sala de Matemática, e , e para a de Biologia. Ondas de calafrios atravessavam o meu corpo a cada passo que eu dava. Por que tudo isso? Ou melhor... Pra que tudo isso?
Novamente, aquele silêncio reconfortante surgiu como um abraço. Era como se eu estivesse em volta por uma camada deliciosa do perfume de e todo o seu carisma do caminho do pátio até a sala. Eu queria que você sentisse o quão maravilhosa era essa sensação. Sabe quando você senta e relaxa, comendo um pouco de pipoca e assistindo o seu filme favorito? É sempre gostoso fazer isso, certo? Pois então... Era assim que eu estava me sentindo, como se eu estivesse comendo e assistindo Tangled. As minhas duas coisas favoritas. Preciso de mais alguma coisa pra ser feliz? Sim, preciso. Afastar aquelas duas sugadoras de perto dele. Pra ser mais exata, de perto de mim. Eu as perdoei uma vez, mas não haverá uma segunda.
Já havíamos chegado à sala e estávamos sentados um ao lado do outro. Minha vontade era a de sair de lá e matar aquela aula, mas a responsabilidade falou mais alto e na hora errada, então optei por calar minha mente e continuar com a bunda grudada naquela estúpida cadeira. Matar aula logo no primeiro dia não é legal. Sr. Kindstoff escrevia com muito ânimo em sua enorme lousa verde ocupando-a quase inteiramente, isso porque não se passara nem dez minutos desde que nos sentamos. E adivinhe só? Exatamente, eu não anotei absolutamente nada. Recuso-me a fazer esforços em plena segunda-feira. Senti algo tocar o meu ombro e olhei para o lado como reflexo. apontava para baixo como se quisesse que eu visse algo. Realmente! Um pequeno pedaço, totalmente amassado, de papel estava jogado no chão bem ao meu lado. O peguei com cuidado para que ninguém notasse, o que foi meio em vão, porque eu quase caí da cadeira. Isso chamou atenção de algumas pessoas atrás de mim, mas nada demais. segurava a risada. O encarei com os olhos cerrados como se mandasse que ele engolisse aquele resíduo de bom-humor.
Abri o papel, e dessa vez, consegui desamassá-lo sem fazer barulho algum. “Que dia?” - Estava escrito com um tipo de garrancho. Tive que fazer um esforço enorme pra tentar entender. Homens... Aula de caligrafia ainda existe! Escrevi: - “Que dia o que? Cheirou livro mofado?” - Respondi jogando de volta para ele, que o pegou no ar bem no estilo like a boss. Ele escreveu rapidamente e devolveu-me. “Que dia você vai querer que eu cante pra você?” - Eu sorri. Ele ia mesmo cantar pra mim? Eu não podia me enxergar, mas eu tinha quase toda a certeza do mundo de que meus olhos estavam brilhando. “Você vai mesmo? Nhaw, seu fofo. O que você acha de sexta?” - Lhe entreguei, mas não joguei ou algo do gênero. Estendi minha mão e ele fez o mesmo para pegá-lo para si. Eu precisava sentir o toque da sua mão na minha. E assim aconteceu, o que me fez suspirar. Se ele percebeu? Não sei, mas pouco me importava. Para me devolver, ele demorou um pouco mais na hora de soltar o papel. Pra que me provocar também? Já faz isso naturalmente, não precisava de muito esforço. O soltou e eu li: - “Quando eu disse que só ia fazer isso porque você era bonitinha eu não estava mentindo. Tudo bem... Só em uma parte: Você é linda. Há. Posso passar na sua casa pra te buscar? E ah, suas amigas estão convidadas.” Eu corei, mas corei com vigor. Minhas bochechas deveriam estar parecendo duas gordas espancadas com ferro quente. “Claro que pode.” - Ele pegou. Preferi ignorar o primeiro comentário. Só lhe escrevi aquilo mais meu endereço e meu celular, que eu prefiro não citar aqui, porque... Loucos ainda existem e sabem ler.
Eu juro que tentei prestar o mínimo de atenção na aula. Mas, como nas outras, foi praticamente impossível. Quando eu achei que conseguiria e tinha aberto meu estojo, senti novamente algo tocar meu ombro. Mas dessa vez eu não olhei para , meu olhar se direcionou por instinto até a ponta do meu pé. Lá repousava o mesmo pedaço de papel, só que agora, todo rabiscado. Li: - “Eu não ia falar, mas é mais forte do que eu. Você quando fica com vergonha consegue ficar mais fofa.” - Obesas em ação. Virei minha cabeça pro lado e vi que ele ria com as mãos na boca. Mostrei-lhe o dedo do meio. O que foi? Tenho tanto direito quanto qualquer um por aí. E virei-me pra frente. Eu queria negar, mas um leve sorriso de canto rasgava a minha falsa expressão séria.
A aula se passou assim... Cheia de troca de olhares. Eu ainda não estava convencida, mas estava torcendo com todas as minhas forças para que ele estivesse tão a fim de mim, quanto eu estava dele. Do fundo do meu coração, eu acho isso meio improvável. Mas quem sou eu pra julgar sem conhecer? Mais um sinal tocando. Como eu odeio o barulho estridente deles.
- Qual a sua aula agora? - Perguntou já com todos os seus livros dentro da mochila pendurada em apenas um de seus ombros. Sua mochila estava bem gasta e vários broches estavam presos na mesma.
- Vou ocupar o lugar da e do ... Matemática. - Bufei.
- Então acho que nos vemos na saída. Tenho Geografia agora. - Adivinhe? É algo que eu venho adorando e sempre falo quando aparece. Isso! Seu sorriso. Meu Deus, porque tão perfeito?
- Então acho melhor você ir logo, porque o Sr. Howard não costuma deixar entrar depois que fecha a porta. - Apontei para o homem gordinho que estava parado no batente da porta com um olhar nada amigável. Logo que disse isso, ele segurou meu rosto com as duas mãos e deu um beijo estalado na minha bochecha. E não, eu não estava brincando dessa vez. Vi ele correndo pra sala em seguida. Um sorriso, idêntico ao da de um pouco mais cedo, se estampou com vontade na minha cara. Entrei para a última aula alienada a tudo e todos. Pelo visto, hoje não seria um dia vanglorioso para os estudos. Acabei de chegar a essa conclusão.
O caminho todo até a sala de Matemática, eu andei alheia ao mundo. Quando digo alheia, quero dizer muito. Praticamente, há quatro horas, eu havia conhecido um garoto maravilhoso e que logo de cara me prendeu com tamanha brutalidade que eu ainda não conseguia entender. E agora, quatro horas depois, eu acabo de passar-lhe o meu endereço e o meu telefone. Isso é coisa que gente normal faça? Sorte que eu sempre tive a consciência de enfiar na minha mente o quão anormal eu sou. As pessoas não podem sair por aí divulgando suas informações pessoais pra qualquer um desse jeito, mas... Ele me passava tanta segurança. Eu não conseguia imaginar que ele pudesse me fazer algum mal. Algum mal, lê-se coisas relacionadas à minha segurança. Não sou estúpida, ok? As pessoas traem e isso machuca tanto quanto qualquer outra coisa. Se bem que eu já ouvira dizer que os psicopatas costumam passar uma segurança assustadora pra vítima, e também podem ser bem atraentes e... não é um psicopata.
Peguei o lugar mais próximo da porta. Eu queria sair logo dali, então um lugar bem perto da saída seria a melhor escolha e facilitaria minha vida afastando-me de muitos empurrões que poderiam aparecer por ventura. Abri meu celular e mandei uma mensagem tanto pra quanto pra : - vai passar na minha casa pra buscar a gente sexta-feira. Sim, vamos pra casa de um deles, . Não, eu não sei qual, . Só me encontrem na portaria quando conseguirem escapar da fuga para a liberdade e eu explico melhor. Ah, amo vocês.” Direta e reta. Tem algo melhor? Odeio rodeios. Pra que enrolar? O que tiver que acontecer, acontecerá no final. Não podemos mudar o presente, mas podemos modificar o fim da história.
O relógio foi girando, e os números do meu celular foram se revezando conforme o tempo passava. Incrível como os segundos resolvem caminhar mais lentamente quando precisamos que eles ajam normalmente. Eu estava quase dormindo, mergulhada em todos os acontecimentos e em todas as coisas boas que estavam se passando no meu dia, quando algo me acordou. Parecia um grito. Ou uma serra sendo afiada, ou talvez um pato sendo morto... Um cavalo sendo morto? Um pássaro? Eu? Não, era só o milagroso último sinal do dia. Acho que nunca fiquei tão agradecida por ter sido acordada com um susto. Joguei, sem jeito ou cuidado algum, minhas coisas dentro da minha mochila e corri para a fora da sala antes que o resto das pessoas que se encontravam no mesmo cubículo que eu, chegassem até a porta, todas ao mesmo tempo. Liquidação da D&G>? Aquilo era fichinha.
- ! - Gritei assim que a avistei um pouco mais à frente sendo levada por um grupo de alunos para algum lugar desconhecido.
- Me salva! - Ela gritou de volta por ajuda.
- Aluna em alto mar! - Eu berrava conforme me aproximava do mar de adolescentes concentrados num mesmo ponto. Corri até ela rindo sem parar, e estiquei meu braço para que o segurasse. Assim que o fez, eu a puxei e a tirei de lá.
- Meu Deus! - Ela suspirou buscando por ar. - Isso não pode ser culpa só dos hormônios. - Ela estava com os olhos arregalados. Eu ia responder alguma coisa de inútil, mas não conseguia parar de rir.
- Queria ver se fosse você... Lá... Morrendo afogada... Num mar de suor juvenil. - Sua cara de nojo era hilária. - Eu me senti jogada no Triângulo das Bermudas. Achei que ninguém jamais fosse me achar. - Agora ela também ria divertida. Eu estava quase chorando e apoiava minhas mãos nos joelhos tentando recuperar o ar perdido. Assim contando pode não ser tão engraçado, mas eu não tenho culpa. Você que tem por não ter parte do meu cérebro e saber como tudo está realmente ocorrendo.
- Agora sem mais distrações. Que papo é esse de sexta?
- Ah... - Respira, inspira. Isso... Agora fala. - nos chamou pra ir até a casa deles. Disse que ia tocar e cantar pra gente. Não é uma gracinha? - Eu sorri e pisquei os olhos diversas vezes seguidamente.
- Sério? - Ela perguntou com os olhos brilhando. Porra, , os seus olhos já são lindos e eu já os invejo, não precisa deixar eles mais brilhantes do que o normal. Eu só balancei a cabeça suavemente em concordância esboçando um sorriso sem mostrar dente algum. - Que horas eu apareço na sua casa então? - Verdade... Que horas ele ia passar na minha casa?
- Não sei. - Dei de ombros. - Almoça lá.
- A já sabe?
- Já sei do que? - surgiu do além. Seus cabelos estavam desgrenhados e ela respirava com dificuldade. Um de seus livros estava quase caindo, então resolvi ajudar e o segurei enquanto ela se ajeitava. Eu disse que era mais fácil e menos desgastante sentar na frente, não disse? Isso aqui fica mais muvuca do que show da Lady Gaga. Eu nunca fui a um, porque eu não gosto das músicas dela, mas deve ser cheio o suficiente pra usar como forma de expressão.
- Você não recebeu a mensagem? - Perguntei.
- Mensagem? - Ela questionou. Abriu seu celular na dúvida e a encontrou. - Ah, eu devia estar dormindo quando você me mandou. - Rimos. - Mas... Sobre o que era?
- Você acabou de abri-la. - Falei indignada apontando para as suas mãos que ainda seguravam o aparelho.
- Isso não significa que eu tenha lido. - Disse como se fosse óbvio. Rolei os olhos e comecei a explicar para ela o que tinha acontecido. A cada palavra que eu soltava, um sorriso maior ainda assumia posição em seus lábios. Não sei como era possível. Já não via mais a hora em que sua boca ia começar a se rasgar, quando , e, é claro, surgiram animados. apoiou um de seus braços sobre os meus ombros.
- Quer dizer que vamos tocar para as garotas? - Perguntou, ou afirmou, ou confirmou, ou... Quer saber? Tanto faz. Decida você.
- Sim. - Respondemos de uma forma doce e arrastada, piscando os olhos repetidamente.
- Mas... , que horas você vai passar lá em casa? - Perguntei inocentemente.
- A hora que você quiser. - Ele respondeu com malícia e eu fui forçada a dar um tapa razoavelmente forte em seu braço. O que quer dizer que foi a mesma coisa que fazer cócegas, se depender da minha brutalidade.
- É sério. - Fiz um bico enorme. Eu podia não estar me vendo, mas qualquer criancinha me confundiria com o Pato Donald tranquilamente.
- Que tal umas 3 horas?
- Excelente. - Sorri.
- Só tentem não atrasar. - Bufou. Ei, eu sou bem pontual. - Mulheres sempre atrasam.
- Falou agora como se nunca tivesse se atrasado. - cruzou os braços e o encarou com um olhar questionador. Ele deu de ombros. - Rá. – Apontou para ele.
- Olha que eu deixo vocês lá. - Ele ameaçou de brincadeira. Pelo menos, eu acho. - Aí vocês vão ficar sem nos ouvir cantar. Ou vão ter que descobrir nosso endereço sozinhas e ir até nossa casa a pé. - Ele demorou um pouco mais ao falar as duas últimas palavras.
- Eu as busco. - se posicionou e nós três, , e eu, pulamos em seu pescoço e começamos a rir. Sendo acompanhadas por todos, ou melhor, quase todos, retire o nosso querido (e lindo) amigo da história.
- Era pra você me apoiar, . - Agora ele voltou para o elenco, e se juntava às nossas risadas. - Vai ter que arrumar outra vadia pra te satisfazer a partir de hoje. - Fez uma voz bem homossexual e botou as duas mãos na cintura, olhando pra cima com desgosto. Imaginem se eu estava gargalhando. Sim ou com toda a certeza?
- A gente o satisfaz. - Falamos em uníssono. nos encarou indignado.
- O que é isso? Um complô? - Perguntou. Corri até ele e o abracei pela cintura.
- Eu fico com você, ok? Se sente menos excluído? - O zoei. Ele prendeu minha cabeça entre seu tórax e seus braços e começou a esfregar suas mãos sobre a minha cabeça com rapidez, bagunçando cada um dos fios que se encontravam no meu couro cabeludo. E eu, obviamente, comecei a gritar e a empurrá-lo, chamando a atenção de várias pessoas. Inclusive daquelas quais eu queria passar por despercebida. Merda!
- Se eu ganhar algum nó novo, ... Já pode começar a se considerar um homem morto. - Avisava conforme passava as mãos no cabelo tentando voltá-los ao normal. Coisa que estava bem complicada de acontecer. Ele ria descaradamente. Olhei para o lado onde Anala e Katrina conversavam com Pierre. Eles nos lançavam olhares de vez em quando, mas sem dar muito na cara. Sem dar muito na cara para as outras pessoas, mas não para mim. Sou observadora demais para quererem me despistar.
- Mas então... Eu tô com fome. - se pronunciou. - Quem vai querer almoçar comigo? - e correram em sua direção e cada um entrelaçou seu devido braço no do . - E vocês, meninas? tem espaço pra todos. - Rimos.
- Desculpa, , a proposta é tentadora, mas hoje eu não posso. - Fiz uma carinha de cachorro sem dono. Eu mesma sentia vontade de me abraçar.
- Por quê? - perguntou parecendo bastante desapontando. Eu corei pela milionésima vez só essa manhã, mas não como das outras vezes. Corei suavemente, quase imperceptível a olho nu. Graças a Deus.
- Prometi pra minha tia que tomaria conta da minha prima. E ela já dispensou a babá, não tenho como voltar atrás. - Cocei meu braço direito de leve. - Ninguém mandou vocês só me conhecerem hoje. - Dei de ombros indiferente. Mas que porcaria! Tanto dia pra eu decidir botar a minha boa ação em prática e eu aceito tomar conta da Sophie logo depois do primeiro dia de aula. Onde eu estava com a cabeça?
- E vocês? - perguntou para e . - Se recusarem como certas pessoas... - Fitou-me com nojo. E eu abri a boca fingindo uma indignação gigantesca. - Perderão o melhor restaurante de suas vidas.
- Ah, não posso deixar essa oportunidade escapar. - brincou, balançando a cabeça para os lados em negação. - Eu vou sim. - Sorriu abertamente e se posicionou ao lado de que a abraçou de lado. Eu não dou nem uma semana pra beijar esse cara.
- Eu também. - completou o grupo. - Mas e o... Como é o nome dele mesmo? - estalava os dedos como se isso fosse fazer com que a palavra perdida surgisse das cinzas dos seus neurônios.
- ? - chutou. E acertou. Mas que cara de pau, .
- Isso, ele mesmo. - Sorriu como havia feito minutos atrás.
- Ele foi fazer umas coisas pra banda, mas eu acho que ele vai passar lá depois. - respondeu sua pergunta subentendida.
- Muito papo e pouca comida. Vamos logo. - reclamou.
- Bom... Eu vou indo pra casa. Pra ser sincera, já tô atrasada. - Sorri sem mostrar os dentes. Despedi-me de , , , e, por último, de . O abracei com força e me permiti respirar outra vez aquele perfume maravilhoso que eles estava usando e que havia me deixado inebriada um pouco mais cedo.
- Eu queria que você fosse também. - Ele sussurrou quase inaldivelmente em meu ouvido e se virou para seguir seus amigos. Antes, lançou-me um último olhar desanimado. Porcaria de senso de responsabilidade. Por que eu não podia ser como aquelas adolescentes rebeldes? Como diria minha mãe: “Não chores pelo leite derramado.” Acho que vou começar a usar mamadeira.

Capítulo 03

Ajeitei minha mochila nas costas, respirei fundo rancorosamente e caminhei em passos largos e rápidos até minha casa. Tia, nunca mais me peça para cuidar da Sophie. Tudo bem que eu quase sempre recuso, mas... Isso não vem ao caso. Na minha cabeça centenas de imagens fantasiadas dançavam animadamente. O que será que eles estavam fazendo? Vai soar bem egoísta, mas eu não queria que eles estivessem se divertindo sem mim. Vai dizer que você nunca se sentiu assim? Eu juro que não costumo agir dessa maneira, mas de vez em quando tenho meus momentos, como qualquer um. Abri a porta de casa com um pouco mais de força do que o normal, fazendo com que ela quase se fundisse à parede por alguns milímetros de distância, porém, por sorte, consegui impedi-la.
- Mãe? - chamei. A casa estava um silêncio que só estando lá para entender. Nem um ventinho, nem um barulho de madeira rangendo. Nada. Só falta eles terem decidido de última hora que não precisariam mais dos meus cuidados. Nem brinca, eu ficaria irritada o suficiente a ponto de fazer uma dancinha grega particular pra cada um. Odeio quando as pessoas mudam de ideia na última badalada do relógio. Pior ainda, quando não me avisam. - Pai? - tentei mais uma vez. Nenhum sinal de vida. - Alguém pode me responder, por favor? - Implorei, rezando para que aquilo fosse só uma piadinha de muito mau gosto. Entrei na cozinha e larguei meu material em cima da bancada.
Senti alguma coisa se embrulhar entre as minhas pernas. Por consequência, dei um berro bem estilo estou sendo exorcizada.
- Achei que você não vinha mais. - escutei Sophie reclamar.
- E eu achei que não tinha ninguém aqui. - coloquei uma das minhas mãos no coração. Respirei e inspirei umas trinta vezes, até ter tomado fôlego suficiente pra perguntar: - Cadê minha mãe, Sophie? - A peguei no colo.
- Ela saiu. - sorriu.
- E o meu pai?
- Também. - Sua expressão continuava intacta.
- Sua mãe? Alguém? - ela negou com a cabeça. - Te largaram aqui sozinha? - gritei indignada. - Não... Depois ainda têm coragem de dizer que eu sou irresponsável demais e que não posso ter um carro. Pelo menos, eu nunca esqueci uma criança em casa. - resmunguei mais pra mim do que para ela. Sophie agora exibia um sorriso sapeca, como se tivesse aprontado alguma coisa. Rolei os olhos e a coloquei sob a pia. - O que você fez? - lancei-lhe um olhar reprovador, mesmo sem saber o que ela tinha aprontado.
- Eu só... - pegou seus dedinhos delicados e começou a roçá-los na ponta de seus cabelos. - Liguei o seu chuveiro e fechei a porta. - Sorriu divertida. - Aí eles pensaram que você tinha chegado. - Balançava os pés, os esbarrando nas laterais do meu corpo. Eu estava de boca aberta, e meus olhos estavam tão arregalados que eu sentia que eles poderiam sair pulando em poucos segundos.
- Como... Como uma criança de cinco anos faz uma coisa dessas? - Minha voz saiu com dificuldade. Ela apenas deu de ombros. Eu ainda tento entender como Sophie faz essas coisas. Sim, não é a primeira vez que ela faz uso de suas ideias mirabolantes. Alguns meses atrás, quando estávamos passando o feriado em Miami, Sophie queria comprar um sorvete. Só que tanto eu, quanto, obviamente, ela, não tínhamos dinheiro e nossos pais haviam saído para algum bar, não me lembro ao certo. Acredite se quiser, mas Sophie saiu na rua dizendo que estava juntando dinheiro para comprar sua passagem de ônibus e a de sua mãe para poderem voltar para seu doce lar. E funcionou. Ela acabou conseguindo dez dólares! Eu demoro uma semana inteira pra conseguir míseros vinte. Isso porque ela só tem cinco anos, pequeno detalhe irrelevante. - Se alguma coisa tivesse acontecido com você... Eu seria a culpada. - passei as mãos pelos cabelos preocupada e, em partes, aliviada por ter chego a tempo de que nada ruim pudesse ter ocorrido.
- Desculpa. - Agora ela estava com a cabeça baixa, olhando seus próprios pés. Eu bufei. Além de eu não conseguir ser uma adolescente rebelde, também tenho coração mole. Preciso de mais alguma coisa? Mais alguma característica na minha personalidade fraca?
- Só prometa nunca mais fazer isso. - Suspirei a colocando no chão novamente.
- Prometo. - Ela continuava fitando os seus pés. Ótimo, agora eu sou a vilã.
- Sophie, não fique assim. - agachei-me até ficar da sua altura. - É só não fazer isso outra vez, e eu não vou ficar brava. - usei meu último resto de calmaria. - Quer ver algum filme? - sorri de canto ao ver que ela finalmente levantara a cabeça e um leve sorriso tentava timidamente surgir em seu rosto. Ela balançou a cabeça em concordância lentamente. - Qual você quer?
- O seu. - Agora ela sorria abertamente novamente e todo seu hiperativismo de antes, retornará. O “meu” queria dizer “Tangled”. Já lhe disse que é o meu filme favorito.
- Vai lá no meu quarto buscar. Eu vou fazer um pouco de pipoca pra nós duas. - levantei-me e fui até o armário onde sacos de pipoca de diversos sabores estavam jogados. Peguei o de manteiga e o joguei no microondas, depois de ter retirado do saco e de ter feito todos aqueles outros procedimentos. Mas que reviravolta, não? Eu podia estar num restaurante, com um dos garotos mais lindos que eu já havia conhecido na vida, conversando e rindo entre amigos, mas não, eu estava aqui... Em casa... Preparando um saco de pipoca pra minha prima prodígio.
- Aqui. - Sophie voltou saltitando. Sophie era uma criança encantadora. Tinha os cabelos castanhos claros e olhos verdes quase azuis. Eu acho que fui a única infeliz da família que não conseguiu ter uma porcaria de olho claro. Eu tinha 75% de chance disso acontecer, mas não... Eu precisava fazer parte da minoria, como sempre. Ela também tinha covinhas e era magrinha. Mas não aquela magreza que te deixa até perplexa de como um monte de ossos pode sair andando por aí. Só um corpinho pequeno, branquinho, normal e muito delicado.
- Vai indo pra sala, eu só vou colocar aqui num pote. - pedi e ela obedeceu dando mais pulinhos. Muita felicidade pra ela e pouca pra mim. Onde ficam os direitos iguais? Não sei você, mas eu não consigo me referir a crianças sem usar o diminutivo em cada palavrinha. Viu? É mais forte do que eu. Assim que tudo estava em seu devido lugar, ou pote, caminhei preguiçosamente até o sofá da sala que estava quase completamente ocupado por Sophie. Não sei por que, mas cheguei a conclusão de que precisamos de um sofá maior. Peguei o DVD que estava ao lado do aparelho e participei de todo um ritual para que o mesmo funcionasse de primeira. Quando o filme começou, pedi para que ela se levantasse um pouco, então me sentei desleixadamente e deixei que Sophie deitasse a cabeça em meu colo. Eu ainda acho que não é uma boa ideia comer deitada, principalmente, pipoca, que deixa aquelas malditas casquinhas que grudam no lugar mais fundo da sua garganta, onde o seu dedo não consegue chegar sem te fazer sentir uma tremenda vontade de vomitar, mas... Quem sou eu pra contrariar? Comecei a mexer em seu cabelo com a ponta dos meus dedos. Naquela hora eles pareciam ser a coisa mais interessante do mundo. Nenhuma ponta dupla, super liso e fino...
Pausa para parágrafo de frustração. Eu, , não estava prestando atenção no casal mais fofo do planeta que estava passando bem a minha frente para dar atenção a um bolo de cabelo.
Mas o que é que deu em mim? Essa não sou eu. Ou é? Será que esse é o meu eu que sempre se manteve escondido no interior das minhas entranhas? Não, não é se não gosta de “Tangled”. Quando acordei dos meus pensamentos que estavam em uma discussão sobre ser ou não ser, olhei para aquele monte de cabelo novamente e reparei que ele possuía um par de olhos. Um par de olhos que me fitavam com preocupação.
- Você tá bem? - Sophie perguntou se remexendo no meu colo até ficar numa posição confortável onde poderia me encarar deitada.
- Claro que sim. - menti. Ok... Eu estava bem, só não estava feliz. Então tecnicamente... Ah, você me entendeu, não me faça explicar. - Por que, meu amor? - sorri de canto.
- Porque você não tá prestando atenção no filme. Nem nas partes do Flynn você olha pra TV! - exclamou de uma forma muito indignada e eu tive de rir. Ela me conhecia muito bem. Às vezes, até melhor do que eu mesma se você quer saber. O que é bem estranho já que ela só tem cinco anos. Você vai cansar de ler a idade dela, mas eu preciso ficar dando ênfase nisso.
- Não é nada, Sophie. - sorri tentando passar segurança, mas não sei se deu muito certo. - Continue vendo o filme. - eu estava implorando por dentro. Não gosto quando as pessoas ficam me encarando por muito tempo. Sei lá, parece que tem alguma coisa de anormal em mim que só eu não posso ver. Uma sujeira no meu rosto, um resto de comida preso entre os dentes... Ou qualquer outra coisa nojenta. Você, provavelmente, já deve ter se sentido assim. E ela continuou com a mesma expressão sem acreditar em absolutamente uma única palavra do que eu havia dito.
- Eu posso ser nova, mas não sou boba. - disse erguendo uma sobrancelha. Crianças fazem isso? - O que aconteceu? Vai, me fala! - Agora ela se sentava ao meu lado. Obriguei a mim mesma a pausar o filme, só porque me incomoda saber que o DVD está rodando e ninguém está lhe dando atenção. Suspirei em alto e bom som quando vi que estava numa encruzilhada e que não adiantava quantas mentiras eu contasse, ela não acreditaria em mim.
- Eu já disse que não é nada demais. - dei de ombros.
- Hoje foi seu primeiro dia, não foi? - perguntou como se estivesse me estudando. Eu apenas balancei a cabeça confirmando a sua primeira especulação. - E você deve ter conhecido alguém... E deve estar muito brava comigo, porque por minha causa você não pôde sair com ele. - cruzou seus bracinhos, aparentemente, finalizando sua teoria. Se a minha boca abrisse mais um pouco, meu queixo certamente encostar-se-ia aos meus pés. Como... Como ela conseguiu descobrir as coisas assim? Alguém, por favor, leva essa menina para um centro espiritual? Eu estou começando a ficar com medo. Mais do que eu já tinha antes.
- Sim. - falei sem pensar. - Quer dizer... Não. - ela suspirou e se voltou para a TV ainda com os braços cruzados. - Olha, Sophie... - puxei seu rostinho para encarar o meu novamente. - Sim, eu conheci um garoto. Sim, eu queria estar lá com ele. Mas não, eu não estou brava com você. Eu disse que ia cuidar de você, e eu não te trocaria nunca por alguém que eu acabei de conhecer. - Admito ter pensado nisso no começo, mas foi só por causa da decepção do momento. Não sou tão espontânea assim ou insensível. E eu amo muito a Sophie, mesmo ela me dando calafrios. - Eu só não quero pensar nisso, certo? - sorri e ela retribuiu com um fraco.
- Você pode ir lá, se quiser. Eu já sei me cuidar. - ri. Desculpa, foi mais forte que eu.
- Sophie, você só tem cinco anos! - Não reclame.
- E...?
- E que eu não vou deixar meu amorzinho sozinho. Fim da discussão. Vamos voltar a assistir o nosso futuro marido, vamos. - eu ainda ria de leve. Meio contra vontade, ela voltou a se deitar no meu colo e botei o filme para rodar novamente. É... Até que não seria nada mal curtir um pouco desse momento infantil e dessa minha paixão pelo Flynn. Vamos lá, Eugene, só você tem o poder de me fazer parar de pensar nas coisas que eu, por enquanto, só quero ignorar. As horas foram passando, assim como a minha lucidez. Eu estava vidrada no filme até que o mesmo acabou e eu senti uma grande vontade de assisti-lo mais uma vez. Nada passava pela minha mente. Nenhum pensamento. Nenhuma suposição. Era só eu e minha brisa, que costumava ser matinal. Depois de alguns longos minutos vendo os créditos finais dançarem na minha frente e eu os fitá-los sem prestar atenção no nome de uma única pessoa como sempre - não sei nem porque as pessoas ainda insistem em colocá-los - resolvi baixar o olhar para as minhas pernas dormentes e que começavam com uma formigação leve. Sophie dormia tranquilamente com metade de seus sedosos fios de cabelo derrubados sobre o seu rosto pequenininho. A levantei tentando deter qualquer movimento brusco possível de ser feito, e a peguei no colo com cuidado, assim que fiquei em pé e firme no chão, porque eu estava parecendo uma bêbada. Os degraus pareciam maiores do que eu me lembrava e tudo parecia mais difícil quando se carrega uma criança de vinte quilos nos braços. Com muito esforço, dedicação e respiração rápida, eu consegui chegar até o último dos meus obstáculos e caminhei lenta e pesadamente até o meu quarto, qual, Graças a Deus, era o mais próximo do final da escada. Pelo menos isso tinha que dar certo hoje, né? Empurrei a porta com um dos meus pés. Afinal se eu usasse os dois eu cairia, vamos usar a lógica. Aproximei-me da cama e repousei Sophie nesta. Ela resmungou um pouco, coçou o rosto, se remexeu e voltou a dormir abraçando a primeira coisa que encontrou na sua frente. Um moletom velho. Eu não tinha doado ele? Acho que além de retardo mental, agora eu também tenho Alzheimer. Olhá-la dormindo, começou a me dar sono. Até que não seria a pior coisa do mundo tirar um cochilo... Além do mais, essa cama cabe até três pessoas. Eu sei bem disso, lembro quando eu, o... Não, não vou dividir certas coisas do meu passado com você. Sinto informar. Eu posso não ser a melhor pessoa com segredos, mas tem coisas que a gente consegue guardar no buraco mais obscuro do cérebro. Porque eu estou te explicando isso? Eu não vou contar e fim. Empurrei Sophie com cuidado para o outro canto da cama, peguei uma blusa que estava jogada em cima da mesa do abajur e me cobri com a tal, porque eu estava em cima do cobertor e daria muito trabalho levantar, puxá-lo e...
Senti alguma coisa cutucar meus ombros. Não consegui identificar a intensidade dos cutucões porque eu ainda estava meio abobada, e meus olhos ainda estavam voltando a focar a realidade. Olhei para o lado meio perturbada por te sido acordada de repente e vi a imagem da minha mãe se formar a minha frente.
- Oi, filha. - Ela sorria carinhosa. - Desculpa te acordar... - Agora que já me acordou não precisa mais se desculpar. Não vai me fazer dormir de novo. - Mas é que eu preciso que você se levante um pouquinho para eu poder pegar a Sophie. - Passou a mão sobre a minha cabeça com delicadeza. Mãe, se esse é o seu plano de me fazer levantar, sinto informar, mas você está fazendo isso extremamente errado. - Vamos, filha, sua tia está com pressa. - Nem ligo, por causa dela eu perdi um almoço maravilhoso. Tenho todo o direito de enrolar pra levantar. Depois de muito esforço e pouco falatório, levantei cambaleando, cocei meus olhos para que eles desembaçassem e dei passagem para que minha mãe pegasse Sophie, que ainda dormia como uma princesa presa ao meu moletom, no colo. Sorri de leve ao perceber que ela o levava embora. Eu já doei tanta coisa, um moletom a menos não vai fazer tanta diferença. Ou vai... Mas deixa a minha prima se divertir um pouco com ele. Peguei meu celular que estava jogado em cima da minha escrivaninha. Como ele foi parar ali mesmo? Arte da minha mãe, quase certeza absoluta. Eram 8 da noite. Eu dormi tanto assim? Pensando bem... Que horas eu tinha ido dormir? Adoro essas confusões que eu causo para o meu fuso horário. Só falta eu passar a noite inteira acordada por falta de sono. Escutei minha barriga roncar. Fome. A última vez que eu havia comido tinha sido no meio do filme, algumas mãos de pipoca. Quantas horas deveriam fazer? Maldição. Tanto faz, eu vou comer de qualquer jeito. Desci as escadas lentamente, quase parando, e fui mexendo no celular conforme eu colocava os pés em um degrau diferente. Uma mensagem nova. Da . - ... Preciso te contar muita coisa, mas não tô a fim de gastar meus créditos. Por favor, me liga logo ou eu vou ser obrigada a te bater amanhã de manhã. Te amo.” - Ligar ou não ligar, eis a questão. Se eu ligar, corro o risco de ouvir que eles se divertiram muito e eu ficarei “mal” por não estar com eles. Se eu não ligar, corro o risco de sofrer espancamento em local público e... Só adiarei a minha “Dor”. “Mal” e “dor”, porque eu não sou tão babaca assim. Eu só ficaria chateada, mas se expressar com mal e dor deixa o texto mais bonito. Eu vou ligar. Depois que eu jantar.
Comecei a andar um pouco mais depressa até a geladeira sentindo um cheiro delicioso de lasanha no ar. Meu Deus, não diga que a minha mãe comprou lasanha... Ah não, ela comprou mesmo. Eu, aqui, tentando não engordar muito, e as pessoas compram lasanha e guardam numa geladeira qual a minha pessoa tem acesso? Vocês não têm noção de perigo? Mãe, você devia me conhecer melhor. Corri os olhos pelas três prateleiras até finalmente encontrar uma forma cheia de queijo, molho de tomate, queijo, mais molho e... Lasanha. O criador do Garfield deve ter se inspirado em mim. Só tenho essa leve impressão. Já podia sentir a baba começar a escorrer pelos cantos da minha boca.
- Nem pense nisso. - Escutei uma voz masculina e autoritária logo atrás de mim. Droga, fui pega no flagra. - Sua mãe comprou para o almoço de amanhã, pode colocando a forma no lugar em que você a encontrou. - Meu pai me dava ordens.
- Ah, pai... Por favor, só um pedacinho. Eu prometo que vai ser pequeno. - o encarei com o olhar, implorando por piedade, mas sua expressão séria continuava a mesma de antes. - Eu estou com muita fome, papai. Por favor, ela nem vai perceber. - fiz bico e falei de um jeito que provavelmente amoleceria seu coração duro e gélido como uma pedra. Brincadeira, meu pai não era ruim. Ele rolou os olhos. Isso aí, pai, bom garoto.
- Só um pedaço. E se ela reclamar, quem vai escutar é você. Não vi nada e nunca estive aqui. - avisou, indo em direção à sala com o seu livro e sua caneca cheia, quase transbordando, de café com leite. É por essas e outras que eu amo meu pai. O único da casa que eu consigo persuadir. Com um pouco de dificuldade às vezes, é claro, mas no final ele sempre acaba abrindo seu coraçãozinho pra mim. Não que ele não bote limites e tudo mais, ele só é mais mão aberta do que a minha mãe. Mãe, qual me mataria após descobrir que eu havia pego um pedaço de lasanha, só pra constar. Ela pode ser muito serial killer quando quer, e não distingue família de culpados. Eu sei que fui avisada, estou consciente dos meus atos... Mas afinal, quem liga? É lasanha! Vale qualquer consequência.
Subi os degraus sorrateiramente, tomando o mínimo cuidado para não ser descoberta e, novamente, agradeci a Deus por meu quarto ficar o mais próximo possível da escada. Tranquei a porta assim que entrei, coloquei meu prato em cima da minha escrivaninha e sentei-me a fim de ligar para enquanto saboreava aquela belezinha. Pelo menos, eu a teria para me consolar. Peguei meu celular um pouco indecisa sobre dever ou não ligar, e quando metade da minha lasanha já havia se juntado a todas as outras coisas existentes no meu estômago, respirei fundo e apertei os botões calmamente, sem pressa alguma. Um toque, dois toques, três toques... Tudo bem, no quinto toque eu desligo e falo com ela amanhã. Atenda logo, , minha vontade e paciência estão indo embora. Quatro toques, cinc...
- Finalmente. - ela falou exasperada.
- Finalmente eu quem digo... Já ia desligar o telefone. - dei uma garfada na minha lasanha e joguei meus dois pés em cima da minha cama.
- A ideia era você ter me ligado logo que eu te mandei a mensagem, mas como nada é como Hollywood nos mostra e amigas não se entendem apenas com indiretas, acabei desistindo de você e largando o celular por aí. - reclamou. - A sua sorte é que eu fiquei com fome e escutei ele vibrar no sofá agora.
- Ah, mil perdões. - ironizei. Eu ainda fiz muito de ter ligado. - Vou desligar então, aí você pode ir comer à vontade e eu posso acabar de desfrutar minha lasanha em paz.
- Não, não. - ela riu, suspirou profundamente e desatou a falar. - ... Foi tão lindo. - Eu podia criar em minha mente a sua imagem com os olhos brilhando feito dois cristais. - Ele é fofo, simpático, engraçado e atencioso e... Ele conseguiu ser tudo isso em apenas um dia. Ele fez em um dia, o que o Vincent levou três anos pra fazer metade. - dizia inconformada e ao mesmo tempo feliz. Eu também estava feliz por ela. Qual é? Eu só estou infeliz comigo mesma.
- Onde vocês foram? - perguntei realmente interessada.
- Eles iam nos levar num bar que fica perto da escola, qual eu nunca soube da existência... - sussurrou a última frase. - Mas estava fechado. Então eles optaram pelo bom e adorado Burger King. - Burger King! Eu amo Burger King. - E ah... Eles conseguem comer mais do que você. - avisou-me.
- Impossível! - exclamei puramente indignada. - Não tem como comparar. Eu sou mulher e eles são homens, nossas alimentações não são proporcionais. - larguei um pouco o prato da lasanha de lado e cruzei os braços assim que terminei o raciocínio.
- E você ainda se orgulha disso. - senti que ela estava rolando os olhos como sempre.
- É claro. É a única coisa que eu faço melhor do que os outros.
- Quanto drama. - riu e eu a acompanhei.
- Mas e então? O foi almoçar com vocês? Porque quando eu estava lá, ele tinha saído.
- Foi, mas eu mal falei com ele. - bufou. - A meio que prendeu ele na sua bolha de ar e os dois só faltavam se comer com os olhos. Sem brin-ca-dei-ra. - disse a última palavra pausadamente. Eu sorri com tal informação. Não disse que ela estava interessada? Não sou louca. - E não foi só eu quem notou. Na verdade, todos notaram. Até a garçonete preferiu ficar um pouco distante deles. - ela provavelmente estava balançando suas mãos freneticamente.
- Eu também notei isso de manhã. - concordei. - Só que antes ela estava só no reconhecimento da carne, parece que agora acabou aprovando. - gargalhamos. - Essa não presta mais. - brinquei. é um amorzinho, está bem? Um pouco mais... Assanhada? É assanhada, mas ainda sim é um amor de pessoa. Assanhada... Que palavra escrota.
- E eu conheci a namorada do . - avisou animadamente. - Ela é tão fofa quanto todos eles. Sério, super gracinha. E ficamos conversando durante muito tempo. Você tinha que ver ela e o juntos. Tão lindos e... - Mais um suspiro. Agora eu sentia uma pequena pontada de vontade de desligar o telefone. Eu havia perdido tanta coisa...
- , acho melhor eu desligar. Eu ainda tenho que levar o prato lá em baixo... - O que era uma mentira, já que o prato ainda possuía metade da metade de um pedaço de lasanha. Qual deveria estar esfriando. - Arrumar minhas coisas, tomar banho, terminar a lição e... Dormir. - Quase 90% de tudo que eu havia falado também era mentira. Mas ela não precisava saber disso, assim como você também não.
- Tudo bem, mas você vai perder a melhor parte. - disse com um tom misterioso em sua voz. - Não quer saber o que aconteceu com o ? - perguntou e só a simples menção de seu nome, fez com que um calafrio vindo do dedão do meu pé percorresse até o meu último fio de cabelo.
- Se for rápido, acho que eu posso escutar. - fingi pouco interesse.
- Então acho melhor eu te contar amanhã, assim temos mais tempo. - Ela já ia desligar o telefone na minha cara como de costume.
- Não! - gritei desesperada. - Fala agora. - Pedi. Mais implorei do que pedi.
- Agora você tem todo o tempo do mundo, né? - brigou comigo. Ah, , vamos lá. Se você estivesse no meu lugar, você entenderia perfeitamente a minha situação. - Só porque eu sou muito boa, vou te contar, porque eu deveria te torturar até a morte depois de você querer se livrar de mim. - fez uma voz afetada. Quem vê, pensa que ela realmente está magoada.
- Não enrola, . - Escutei ela bufar.
- Teve uma hora que estávamos falando de você, não me pergunte o que, porque eu não me lembro. - Porque tanta falta de memória no mundo? - E ... Se você soubesse como ele prestou atenção na conversa! Ele estava muito quieto, todo tempo. De manhã, quando estava perto de você, ele estava de um jeito, no almoço, parecia que ele havia desanimado. - riu de leve. - Eu achei engraçado. Sempre que eu olhava pra ele, eu ria pensando em como você gostaria de estar lá e ele sempre me encarava de um jeito estranho, mas acabava rindo comigo. - A cada palavra um sorriso maior ia tomando conta do meu rosto. - Começou a me perguntar a quanto tempo nos conhecíamos, dizia que era uma pena você não estar lá... - falava aquilo bem calmamente como se soubesse que cada som da sua voz era como um abraço caloroso em mim. - Finalizando: Eu acho que ele está bem interessado em você. - admitiu e eu queria pular de alegria, mas se o fizesse, comida seria grudada no teto do meu quarto. - Não sou expert no assunto, mas... Eu achei.
- Obrigada por me contar, . - agradeci do fundo do meu coração. Estava precisando daquilo.
- Eu é quem tenho que te agradecer.
- Por que? - perguntei confusa.
- Por ter sido meu despertador e me forçado a ir à escola, mesmo sabendo que eu não estava nem um pouco afim. - rimos.
O resto do dia acabou passando quase que despercebido por mim. Assim que terminei de falar com e desliguei o telefone com o coração na ponta da língua de tanta felicidade, tomei um banho demorado. Perdão, mundo, mas eu mereço um banho longo e quente. Nem terminei de comer a metade da metade da lasanha, porque havia esfriado e eu estava com preguiça demais para ir até lá em baixo esquentá-la. Optei por deixar o prato no canto da minha escrivaninha para amanhã descer com ele. Juro que tentei comer a lasanha fria, cheguei a dar duas mordidas, mas, por mais que eu ame comer, ainda tenho língua e ela sente os diversos sabores espalhados pelo universo. E aquela lasanha estava com gosto de borracha. Devia ser a ansiedade. Porcaria, eu devia tê-la comido antes de ter ligado pra . Logo em seguida do banho, e já estava vestida com a minha linda camisola de ovelhinhas, eu fui me deitar numa cama que mais parecia um pedaço de algodão doce gigante. Eu a sentia mais macia, e até o cheiro da colcha me agradava. Um cheirinho doce e suave como a droga do algodão doce. Eu tenho tara por camisolas de bichinhos. Para ser mais exata, eu tenho uma coleção delas. Tenho camisolas de ovelhas, como já descrevi, de cachorrinhos, gatinhos, leões, corujas, zebrinhas, porquinhos... E, acreditem ou não, hipopótamos. E todas seguem o mesmo padrão: Curtas, com apenas alcinhas finas as mantendo em meu corpo e uma renda delicada bem na barra. Elas já fazem parte de mim, não consigo dormir normalmente sem usá-las. É como se todos aqueles bichinhos pequenininhos estivessem me fazendo companhia nas noites escuras. Como se estivessem me protegendo de qualquer ser grotesco que possa existir no submundo da escuridão. Loucuras à parte, após trinta e sete segundos, eu já estava dormindo como um urso no seu período de hibernação. Nada podia me acordar. Eu não estava tão cansada assim para tanto sono, mas eu simplesmente perdi todos os sentidos do corpo e me joguei nos braços de Morfeu assim que fechei meus olhos.

Capítulo 04

O dia amanheceu sem muita animação. O sol subia aos poucos timidamente e uma névoa delicada fazia cócegas no asfalto. Meu despertador tocava ao som de I Wish You Love da Rachael Yamagata. Ainda me pergunto como eu consigo acordar com essa música. Ela é tão relaxante, tão gostosa de ouvir, que qualquer pessoa normal só sentiria uma vontade cada vez maior de se fundir com o colchão. E claramente, esse não é o meu caso. Olhei-me no espelho e, pela primeira vez, depois de muito tempo, achei que eu não precisava de um banho para me sentir melhor antes de ir para a escola. Como o tempo parecia não estar tão agradável quanto o de ontem, sugeri para mim mesma usar um dos meus lindos e amados casacos. Vesti minha camiseta, a saia, a meia calça, a sapatilha, e coloquei uma toca beanie verde. Casaco, meu amor, aonde você se enfiou? Abri o guarda-roupa e o casaco que eu queria usar não estava lá. Abri minha gaveta e nada. Outra gaveta, mesma resposta. Terceira, idem. Desisto! Vou usar aquele meu casaco vermelho mesmo. Vou parecer uma babaca, mas juro que a parte do meu cérebro que normalmente se preocuparia com isso, não está querendo demonstrar opinião. O puxei sem cuidado algum, o que fez com que o cabide e duas blusas caíssem no chão. Agachei desajeitada, os peguei e joguei na cama. Ah, sinto muito, mas não estou a fim de abrir outra vez a porta do guarda roupa, pendurar o cabide e depois ajeitar e dobrar as blusas. Vou deixar na cama mesmo e depois eu arrumo. Ou... A minha mãe arruma, caso eu acidentalmente esqueça. Coloquei o casaco e desprendi o cabelo, que havia ficado preso debaixo do tal, o jogando em cima do meu ombro direito, porque hoje meu lado esquerdo está mais bonito.
Amarrotei uma parcela dos meus livros dentro da bolsa, coloquei-a nas costas e desci a escada, em direção à cozinha, saltitante. Fui até a geladeira, abri uma nova caixa de suco de maçã, porque o de laranja é horrível, e roubei vários biscoitos que ficavam escondidos na dispensa. Um lugar bem patético para esconder biscoitos, só para esclarecer.
- Bom dia, filha. – Escutei a voz doce da minha mãe logo atrás de mim. – Eu sei o que você acabou de fazer na dispensa, mas como acordei de muito bom humor, vou deixar passar. – Avisou se direcionando até a geladeira. Mas, afinal, para que os biscoitos se ninguém pode comê-los? Enfeitar a prateleira dos feijões enlatados? Dei de ombros e roubei uma banana da bacia de frutas.
- ... Você pode me dizer quem foi que comeu um pedaço da minha lasanha? – Minha mãe, antes a eterna pacífica senhora do crochê, agora perguntava como a futura intimidadora senhora lutadora de box.
- Eu. – Disse já a caminho da saída para poder ir à escola sem nenhum tipo de hematoma. – E não adianta reclamar, hoje você está de muito bom humor, lembra? – Dessa vez, minha mão já girava a maçaneta da porta e eu pude escutá-la se xingando tentando de alguma forma me afetar. Mãe, isso só funciona quando pessoas que você não gosta falam, e quando nessas pessoas não se inclui a sua própria mãe.
Como eu tinha suspeitado assim que acordei, o vento estava bem gelado, mesmo que a luz do sol cortasse fortemente o azul do céu. Agradeci-me mentalmente por ter colocado o casaco que estava fazendo com que eu parecesse uma árvore de natal. Conforme eu ia me aproximando da escola, escutava meu coração bater mais e mais rapidamente. Eu jurava poder sentir a vibração da minha pulsação. Eu queria vê-lo. Eu precisava vê-lo. Acelerei os passos com tais pensamentos.
Você deve estar se perguntando: “Porque você não ligou para a hoje?” E eu te respondo: Porque eu esqueci. Mas não jogue toda a culpa em mim. Ela só costuma faltar no primeiro dia de aula, ou seja, eu não tinha uma obrigação tão grande assim. Sem contar que ela ainda devia estar meio alucinada com as coisas que nos aconteceram ontem, e deve estar tão ansiosa quanto eu para reencontrar os pedaços de maus caminhos que começariam a perfurar as paredes frágeis das nossas vidas. Para resumir a história, ela já estava acordada e provavelmente fazendo guarda na porta da escola.
Eu não sabia se meus dedos estavam formigando por causa do frio ou por causa da vontade quase incontrolável que eu estava sentindo de apertá-lo contra o meu corpo. . Era isso que se passava pela minha mente desde o primeiro maldito segundo em que o vi. O que mais me incomoda foi o fato dele não ter aparecido nos meus sonhos. Na verdade, eu nem sonhei, o que acaba sendo mais estranho ainda. Eu costumo sonhar muito... Todas as noites, para ser mais exata. São sonhos sem nexos em sua maioria, mas eu já me acostumei. Estou tão acostumada que me sinto diferente quando eles não me fazem sua visita rotineira. Da mesma forma que eu tenho um grande carinho com os meus pijamas de bichinhos, eu tenho um grande carinho com os meus sonhos sem sentido. Assim que passei por entre os portões, a única coisa que eu queria era os meus ombros trombando sem querer com os dele. Onde ele estava? Meus olhos vagavam por cada corredor, cada porta, cada aluno. Meus ouvidos estavam atentos a todas as conversas procurando alguma pista, algo que pudesse guiar as minhas pernas para um destino certeiro. Minha respiração estava calma, por mais que o meu coração estivesse o oposto. Se eu fosse um beija-flor, eu seria um beija-flor com problemas cardíacos. Escutei o sinal tocar, e nada encontrei. Nem de vislumbre. Nem um mísero vulto. Como eu odeio quando as pessoas que eu quero se perdem no meio do resto da população e eu simplesmente não tenho como entrar em contato de maneira alguma.
A sala de Física estava praticamente vazia, como era de se esperar. Quase 80% dos alunos dessa escola odeiam Física. E ela é sempre a primeira aula, tanto na terça quanto na sexta. Só os otários, como eu e o ser humano com alto índice de autismo que se sentava a minha frente, sempre apareciam nessas aulas. O resto costumava optar pelo doce calor de suas camas, ou até por uma rapidinha. Eu preferia assim. Menos pessoas, mais atenção da minha parte. Afinal, como eu já disse, havia poucas pessoas na sala, o que faria com que o professor redobrasse a atenção sobre os alunos que o faziam companhia. Eu anotava sem humor algum tudo o que ele falava, mas não garanto que estivesse entendendo alguma coisa. Quem sabe eu não conseguiria entender mais tarde, após estudar um pouco? A quem eu quero enganar? Eu sou o Jânio Quadros da Física. Não sei absolutamente nada. E nem me interessa. Os professores sempre fazem palestras tentando nos mostrar o quanto a Física, a Química, a Matemática e seus amigos torturadores de neurônios faziam parte do nosso dia-a-dia, e se querem saber mesmo a minha opinião, aquilo era uma grande perda de tempo. Eu agradeço muito a todos que mexem com essas coisas e resolvem meus problemas do cotidiano, mas... Eu. Odeio. Os. Seus. Trabalhos. Eles podiam ser extintos do meu vocabulário. Sempre estarei do lado dos romanos: X é igual a 10 e não se fala mais nisso.
A aula de Física foi passando e logo pôde ser ouvido o sinal para a minha aula de Geografia ressoando pelo local. Saí o mais rápido que consegui, ainda com esperanças de vê-lo nem que fosse de longe. Mas, assim como antes, nada encontrei. Lembre-me de comprar um GPS.
Joguei meu material em cima de uma mesa qualquer, e segundos depois, senti outra pessoa bem ao meu lado fazer o mesmo. Eu não sabia quem era, mas só de pensar que havia chances de ser ele, o meu coração já estava disparado novamente. Olhei para o lado com a cabeça mais leve do que o comum e me deparei com nada feliz. Parece que ela também havia fracassado na missão de trombar sem querer com o . Maldição. Minhas esperanças estão diminuindo cada vez mais. Afinal... Como a escola consegue esconder uma pessoa tão bem assim?
- Bom dia. - Murmurei jogando minha cabeça sobre os meus livros.
- Só se for pra você. - Murmurou de volta e imitou o meu gesto.
- Também não encontrou o ? - Virei minha cabeça de lado ainda encostada nos livros e sorri.
- Não. - Suspirou. - O que deu na gente? - Ela perguntou com raiva. - Desde quando eu me importo com a vida dos outros? Ainda mais quando esse outro em questão é um homem.
- Não se pode mandar no coração.
- E você parece uma filósofa bêbada. - Me encarou desconfiada. - , você andou bebendo?
- Claro que não, . - Sentei-me corretamente. - Também não é pra tanto. - Ri e ela me acompanhou alguns segundos depois.
- Estamos mais retardadas do que o normal. - Comentou.
- E isso não é legal. Acho que vou bani-los da minha vida enquanto ainda há tempo. - Brinquei, apoiando meu rosto em apenas uma mão.
- Não se pode mandar no coração. - imitou-me de uma forma engraçada, como se tivesse bebido 10 shots. Arqueei-me um pouco e lhe dei um soco fraco no braço.
A aula seguinte era Educação Física. A minha favorita, já aviso. Eu, particularmente, odeio qualquer tipo de esporte. Na verdade, não é uma questão só de odiar, eu simplesmente não me dou bem com eles. Sou péssima em vôlei. Já até tentei fazer algumas aulas, mas decidi parar quando percebi que as pessoas do time estavam ficando com raiva de mim por estar desandando com o jogo. Já experimentei futebol também... Colocaram-me como goleira, eu fugi de todas as bolas, tomamos vários gols e eu fui convidada a me retirar do time. Natação! Se eu não gosto de correr fora da água, imagine dentro. E porque não líder de torcida? Eu ainda tento dar cambalhota sem sentir vontade de vomitar. Então por que Educação Física é minha aula favorita? Porque posso ficar sentada no banco o quanto quiser e mesmo assim ficarei com a nota máxima. O professor sabe que esportes não são muitos chegados à minha pessoa, então sempre me deixa de reserva. Sabe como é... Ele não quer que ninguém se machuque.
Tanto quanto eu estávamos mais atentas do que o normal. Se fôssemos animais naquele exato momento, seríamos corujas. Nossos corpos estavam para frente a caminho do vestiário, mas nossas cabeças estavam prestes a dar um giro de 360 graus. E novamente, nós duas nos desapontamos. Mas onde é que eles se enfiaram? Um calafrio percorreu meu corpo, ao notar que eu também não havia visto Katrina e Anala. Não, não, nem pense nisso.
E para a minha sorte, as encontrei segundos depois de ter tal pensamento aterrorizante. Infelizmente, elas teriam a mesma aula que nós. Felizmente, elas estariam bem distante dos meninos.
- Oi, . Oi, . - Elas nos cumprimentaram e nós sorrimos como resposta. Como eu já disse desde o primeiro capítulo e faço questão de repetir, Katrina e Anala poderiam ser pessoas legais e boas se quisessem. E em algumas partes dos dias, elas até que eram. Mas quando o sexo oposto estava em jogo, tudo mudava. Até a simpatia delas me preocupava. Afinal, se eu as acho simpáticas, quem dirá os outros? Lancei um olhar para que retribuiu respirando profundamente em seguida. entrou no vestiário logo depois delas.
- Oi, meus amores. - Ela sorria de corpo e alma. Sentou-se no banco atrás de nós e ficou nos encarando como se esperasse uma resposta igualmente empolgada.
- Oi. - respondemos em uníssono, a decepcionando.
- O que aconteceu? - cruzou as pernas e tirou sua blusa pronta para vestir a de ginástica.
- Eu que pergunto o que aconteceu. Por que está tão feliz? - quis saber.
- E por que eu deveria estar triste?
- Já falou com o senhor “estou te comendo com os olhos espero que não se importe” hoje? - usou todo o seu sarcasmo e começou a vestir sua calça de lycra preta.
- Não. - Fez um bico. - Mas e daí? Ontem foi ótimo, um dia a mais, um dia a menos, nada vai mudar o passado. - riu divertida e pegou seu shorts azul marinho. Em seguida, fez um pequeno rabo de cavalo, qual sempre ficava uma gracinha nela, já que tinha cabelo bem curto. - Eles devem estar presos na sala da diretora. Vocês sabem muito bem como ela é. Sempre pega os recém chegados e os prende em sua sala para explicar-lhes as regras. - rolou os olhos e enfiou seu braço dentro de sua sacola azul anil, tirando de lá um par de tênis tão brancos que até faziam com que nossos olhos ardessem.
- Talvez. - Pensando por esse lado, até me sentia mais tranquila. Eu teria mais quatro horas para encontrá-lo, pra que a pressa? Balancei a cabeça, tentando desvanecer os pensamentos e sorri sem deixar os dentes à mostra.
- Eu sei que não estou com humor para correr. - , agora completamente vestida, se jogava em cima do banco de frente para ocupando-o quase que por inteiro.
- , você nunca está com humor para correr. - Exclamamos.
- E por que as pessoas ainda me obrigam? - Perguntou indignada.
- Quer virar uma bola? - perguntou brincalhona e a abraçou de lado.
- Não, vou deixar essa missão com a . - Se levantou e me deu um beijo rápido em minha bochecha, correndo de costas até o ginásio.
- Pelo menos os homens vão correr atrás de mim. - Gritei antes que ela sumisse.
O ginásio estava abafado. Também, só faltava ter que ficar com regata no meio do frio que fazia em Londres. Seria suicídio. Várias pessoas iam e vinham e uma certa aglomeração se formava em torno do treinador. Eu não fazia parte de nenhum dos grupos. Apenas ficava sentada, assistindo as atitudes das pessoas. Isso preenchia o meu tempo e ocupava a minha cabeça. Eu ainda agradecia ao santo que havia instalado o aquecedor naquele lugar.
- Guarda meu celular? - pedia para mim conforme saía do meio do amontoado de alunos. Eu apenas balancei a cabeça em concordância e observei-a saindo de perto de mim novamente.
Eu adorava segurar celulares alheios. As pessoas são inocentes demais pra não sacarem de que eu, com certeza, vasculharei cada canto dele. É mais forte do que eu. É como se não conseguisse controlar, antes que pudesse perceber, meus dedos já estavam correndo pelos botões e os pressionando com segurança. Eu simplesmente entrava no embalo e permitia que meus olhos acompanhassem o andamento das coisas. Eu sou como os cleptomaníacos. Só que eu não roubo coisas, as vasculho. Abri as pastas de fotos, as mensagens, os vídeos, as músicas... Já estava desistindo de encontrar alguma coisa interessante, quando meus olhos foram presos por um botão em especial: A agenda. A selecionei e comecei a sibilar os nomes. Anitta, Andy, Antony Rent, Beatrice Kullers, Bonnie Speace, Buck, Caroline, Cyntia, Damian, , Dennys... ? Como assim ? A tem o celular de um deles e simplesmente ignora o fato de mandar uma mensagem? Já que ela não o fez, eu tomei a iniciativa.
! Onde vocês estão?”
Mensagem enviada. E então eu esperei. Esperei. Esperei. Esperei e esperei. A aula já havia acabado, mas eu continuava lá. Estática, quase congelado, só esperando.
- , vamos? - me tirou do meu transe.
- Vamos? - Eu estava confusa.
- Intervalo. Comida. - ia dizendo com calma, como se para que eu entendesse melhor.
- Ah, sim. - ri - , você pode me explicar como você tinha o telefone do aqui e não me disse absolutamente nada? - perguntei com um tom de reprovação.
- Celular do ? Eu acho que a falta de comida no seu organismo já tá afetando o seu sistema visual. - disse enquanto puxava o celular das minhas mãos e vasculhava sua própria agenda. Quando encontrou o que procurava, quase deixou o pobre e indefeso aparelho cair no chão. Seus olhos estavam arregalados e sua boca aperta.
- Como isso veio parar aqui?
- Eu que pergunto. - a empurrei para frente para que ela continuasse a andar até o vestuário.
- Mas... Eu nem pedi... Ele... Só... Meu Deus. - ela parou de repente e me segurou pelos ombros, os chacoalhando seu nenhum pudor. - , ele anotou o número aqui. - Um sorriso gigantesco e quase tão branco quanto o tênis da , qual já havia ido se arrumar, invadiu sua antiga expressão emburrada.
- O que? - perguntei mais confusa do que eu já estava antes.
- Teve uma hora ontem, que eu deixei meu celular jogado na mesa. Ele perguntou se podia mexer nele e eu deixei. Só pode ser isso, ele deve ter anotado sem que eu percebesse. - falava eufórica, e eu sentia uma grande vontade de rir. - Isso é tão bom. - exclamou toda empolgada me dando um abraço suado sem que eu pudesse escapar.
- Vai tomar uma ducha, sua nojenta. - reclamei - Eu mandei uma mensagem pra ele perguntando onde eles estavam, mas até agora nada de resposta.
- Acho que você está enganada. - ela se contrapôs estendendo seu aparelho na minha cara, qual dizia: Uma nova mensagem de . Mais uma vez eu conseguia sentir minha palpitação.
- E então... O que ele respondeu? - perguntei assim que ela havia aberto o celular.
- Eles não vieram hoje. - respondeu-me decepcionada, o que não impediu que seu sorriso de antes, voltasse a sua antiga posição.
Tudo bem, eles faltaram. Tudo se acalmou dentro de mim, e a partir daquele momento, minha nova preocupação era a de quando o veria de novo. Meu coração desacelerou, minha cabeça voltou a ter o peso normal, toda a tensão de antes se esvaía do meu corpo. Os sentimentos foram tomados por outro: Ansiedade com misto de saudades. Parece até estranho falar saudades, afinal eu o conhecera ontem. Mas é que eu não conhecia outra palavra para o que estava sentindo. Saudades era a que melhor se encaixava. Era isso o que meu corpo começa a demonstrar. Eu só queria que o dia terminasse logo para que o amanhã viesse logo também. E meus sentimentos teriam continuado os mesmos de agora, se eles tivessem vindo na quarta. Coisa que não aconteceu.
Eu havia chego à escola com uma sensação tão boa, mas tão frágil. Tudo precisava ter saído conforme o planejado para que eu conseguisse permanecer naquele estado de espírito. Mas não, como é comigo, as coisas tem que dar errado um hora ou outra. Eu não tinha conseguido, mais uma vez, trombar com ele. Esperei a manhã inteira, e só me permiti desistir quando eu puis meus pés pra fora da escola a caminho para casa. É claro que eu havia mandado uma mensagem para o , mas ele só a responderá, de acordo com a sorridente , à tarde, pedindo desculpas e avisando que novamente não tinham conseguido ir a aula. Isso eu pude perceber sozinha, querido . Porque tantas faltas consecutivas e logo no começo do semestre? Preciso começar a sobrecarregar o meu coração mais do que ele já está? A minha mente não podia continuar assim, eu não podia continuar assim. Precisa dar um jeito nos meus sentimentos. Domá-los.
Eu gostava da minha vida. Ela não tinha absolutamente nada fora do comum, era apenas... Como posso explicar? Uma vida normal. Eu, meus amigos, minha escola, as festas, um ou outro cara por quem eu me interessava, minha família e fim. Nada demais, nada de menos. E era assim que ela tinha que permanecer. Por isso, logo que acordei na quinta feira, bloqueei meus pensamentos realizando uma espécie de mantra. Eu respirava e inspirava três vezes calmamente, e sempre que quem não deveria, tentava retomar seu posto nos meus pensamentos, eu forçava-me a encarar qualquer coisa que fosse, fazendo assim como que a vontade insensata de encontrá-lo sumisse temporariamente.

Fiz todo o percurso rotineiro de sempre. Lavei o rosto. Será que eu vou encontr... Escova de dente cor-de-rosa, nunca havia reparado em você. Afinal, por que rosa? Eu odeio rosa. Não que eu odeie rosa com todas as minhas forças, eu só prefiro azul. Porque eu não comprei uma escova de dente azul?
Vesti minha camisa e comecei a abotoá-la. Preciso do celular da pra mandar uma... Meias sujas desde sexta-feira passada. Minha mãe arruma meu quarto todo, contra a minha vontade, e esquece de pegar a porcaria das meias sujas? Vesti minha saia e calcei meu all star. Ele estava usando um all... Vou comprar um Vans da próxima vez. Joguei minha mochila nas costas e desci até a cozinha. Cheiro forte de perfume masculino. Vou começar a fingir que tenho bronquite asmática, quem sabe assim o pessoal dessa casa não desiste de ter bom odor.
Abri a geladeira e senti um cheiro delicioso de bolo de chocolate tomar o lugar do antigo odor. Obrigada, Senhor. Minha mente te deve essa.
Estava sendo torturante, mas até que eu estava me saindo bem. Para facilitar as coisas, decidi desenterrar meu Ipod de algum lugar entre minhas gavetas de “coisas que podem vir a ser úteis no futuro”, encaixei os fones no ouvido, coloquei Heart In A Cage no repeat e deixei que tocasse no máximo quase me deixando surda por um momento. Desculpe, tímpanos, mas foi uma medida necessária. Mergulhei dentro do meu casaco felpudo preto e caminhei até a escola como sempre, cantarolando algumas partes da música. Eu só fitava o chão. A maneira como meu pé direito entrava na frente do esquerdo, e logo em seguida, o esquerdo entrava na frente do direito, ambos se movimentando num ritmo comum. Uma guerra pela liderança. A cada segundo um estava no topo. Assim como a cadeia social do colégio. Uma hora alguns estavam no topo, e em outra, tudo já havia mudado. Todos queriam a dianteira, ficar na frente. Eu estou comparando pés com a classe social escolar mundial, qual é a porra do meu problema? , obrigada por piorar a minha sanidade mental. Merda! Eu não podia pensar em você. Eu ainda estou pensando. Não, não, não, foco, . Merda! Por que tinha que ser tão difícil?
No meio da minha discussão interior, senti alguma coisa acontecer no mundo exterior. Alguma coisa que envolvia a minha pessoa e os meus livros no chão. Isso que dá não prestar atenção no que está fazendo. Quando olhei em volta para ver o que estava acontecendo, percebi que eu tinha esbarrado em alguém, e tanto eu quanto esse alguém estávamos distraídos e lesados o suficiente para deixar que todas as nossas coisas caíssem e se espalhassem pelo chão do corredor. Logo que a minha visão começou a focar a realidade, notei que um dos culpados por tal cena presenciada por um número pequeno e pouco considerável de alunos, era . Sim, , o amiguinho. E por mais que isso me deixe com uma raiva incontrolável, eu senti um alívio tremendo ao saber que eles vieram à aula. É... Eu não nasci para fazer yoga, ou seja lá o que for que deixe sua mente limpa de qualquer tipo de pensamento perturbador ou não. Juntei minhas coisas sem vontade alguma e sorri para o .
- Eu sei que a saudades era enorme, mas não precisava jogar todos os meus livros no chão para chamar a minha atenção, . - eu ri divertida, ajudando-o a organizar suas coisas. Ele riu em seguida.
- Droga. E você só me avisa agora? - ele fingia indignação. - Você não vai ficar surda desse jeito? - apontou para os fones que ainda continuavam grudados ao meu ouvido. Os retirei e comecei a enrolá-los, guardando o aparelho no bolso do casaco logo depois.
- Até que seria bom deixar de ouvir tanta porcaria, mas... Não, obrigada. - levantei-me desengonçadamente quase deixando tudo cair outra vez.
- Pelo menos a música é boa. - disse, agora já de pé ao meu lado, entregando-me uma folha que caíra de dentro de algum dos meus livros. Provavelmente o de Biologia. Eu tenho essa tara de escrever coisinhas em pedaços de papeis grandes demais comparado com o tamanho da informação contida neles, e jogá-los no meio de alguma coisa. Mas sempre acabo me esquecendo. Sorri em agradecimento.
- Se a sua banda seguir o meu gosto musical, acho que chegaremos num bom acordo. - brinquei.
- Se o seu gosto for igual ao das suas amigas nariz toca teto, não sei não. - ele riu e eu lhe dei um beliscão razoavelmente forte, o que fez com que ele massageasse o lugar.
- Graças ao bom senso, eu não sou como elas. - levantei as duas mãos para o céu, como se agradecesse. O que era algo puramente verdadeiro. Katrina gosta de Britney Spears e Lady Gaga. Anala... Também. Não que elas não tenham músicas boas, mas são muito cheias de nove horas e eu detesto isso. Gosto de naturalidade. Sem contar que eu nunca fui do tipo que se sente atraída por pop.
- Mas e então, senhora do bom gosto, que aula você tem agora? - perguntou andando ao meu lado.
- Vejamos... Por que eu odeio quase todas as quintas? Ah sim, eu tenho Álgebra. - fiz cara de nojo e ele riu.
- Não faça essa cara feia. Álgebra até que é legal. - deu de ombros, fazendo com que seu comentário soasse verdadeiramente puro. Eu gargalhei. Depois parei de repente, quando percebi que ele realmente falava sério.
- Em que mundo você vive? Porque no meu, Álgebra só serve pra me fazer sonhar com números correndo atrás de mim como se fossem me jogar num caldeirão de água fervente. - Eu o abordei assustada. Pra mim, as únicas contas que caras de banda precisam saber fazer, é o de quantos shows fizeram ao ano, o valor do cachê e quantas garotas comeram no dia. Meio preconceituoso, eu sei, mas é nisso que a mídia nos faz acreditar.
- Eu só tenho mais facilidade nessas coisas do que as outras pessoas. Qual o problema com isso? - Ele dizia de forma forçadamente indignada, com os dois braços levantados até as laterais de sua cabeça.
- Nenhum, Einstein. - Brinquei assim que chegamos à porta da minha sala. Eu ia me despedir dele, até que notei que ele não iria embora.
- Acho que vou ter um tempinho pra te mostrar que Álgebra pode ser boa. - Sorriu e eu retribuí, só que meio em duvida. Teremos um grande desafio em frente.
- Boa sorte pra você. - Sentei-me na carteira que estava mais perto da saída e a única que tinha um lugar vago bem ao lado também, para que assim ele pudesse se sentar próximo a mim. Qual é? Eu estava pagando pra ver ele conseguir mudar meu ponto de vista. - Porque você vai precisar.
- Nunca subestime . - Ele piscou e eu deixei escapar uma risada.
Ele tentou. Tentou de diversas maneiras. Algumas até bem surpreendentes, outras nem tanto, mas ele tentou. Quase chegou a me fazer acreditar que Álgebra poderia não ser tão péssima assim. Mas não conseguiu chegar lá, pois o sinal o impediu. Pelo menos, ele se esforçou. E confesso que essa foi uma das melhores aulas de Matemática que eu já presenciei. Ele merecia pelo menos um premiozinho de consolação. Um sorvete talvez.
- Boa tentativa, . – Eu disse. – Mas não foi dessa vez. – Encostei de leve minha mão sobre seu ombro esquerdo.
- Olha... Você me surpreendeu. – Admitiu. – Eu achava que era complicado ensinar pro e pro , mas me enganei. – Desabafou, respirou profundamente e me encarou com pesar. – Você consegue vencê-los facilmente.
- Muito obrigada. – Sorri em agradecimento. – Quem sabe numa próxima. – O consolei conforme andávamos sem destino pelos corredores.
- Não, não, eu passo. – Rimos. – O que você tem agora?
- Deixe-me ver. – Abri minha mochila e retirei de lá um pedaço de papel com os meus horários. – Artes. – Sorri, mentalmente, abençoando aquela aula. Depois de Educação Física, essa era a minha favorita. Sem querer me gabar, mas eu tinha dotes especiais para a coisa toda. E essa era a única aula que conseguia prender a minha atenção. Ou seja, adeus, complexo neurótico de . Agora eu estava no meu ponto de paz.
E então, finalmente, tudo correu como o previsto. Para o meu bem, pois eu não aguentava mais ver todos os meus planos fracassados. Não gosto de escapar tanto assim da rotina. Eu disse “tanto assim”, isso não significa que eu deteste. Afinal, todos precisamos de espontaneidade em nossas vidas. O mais inacreditável de tudo é que minha vida começou a desandar há míseros três dias atrás. Creio que seja com isso que eu não me conformo. E deve ser por isso também que ando tão confusa e neurótica. Desde quando eu fico tão paranóica? Novamente, a imagem nojenta do Rupert me veio em mente. Senti um arrepio, ânsia e uma leve dor em minha barriga. Não, não, as coisas não seriam iguais. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Fechei os olhos e tratei de voltar toda a minha concentração para o pequeno pote de argila que eu vinha dando forma a minha frente.
Mas um sinal tocando. É impressão minha ou o dia está passando mais rápido do que o normal? Peguei meu pequeno potinho, onde hieróglifos simples haviam sido desenhados por toda sua volta, e o carreguei cuidadosamente até meu armário. Eu era uma pessoa completamente apaixonada por mitologia. Desde a grega até a egípcia, e costumava demonstrar isso bastante nas aulas de Artes. Algumas meninas tinham queda pelo Justin Timberlake, eu tinha queda por Apolo e Anúbis. Algum problema? Guiei meu corpo até a sala ao lado, onde eu teria aula de Biologia. Sentei-me bem ao fundo e abri meu caderno. Não, dessa vez eu não rabiscaria nada, seria apenas uma boa aluna. Essa era a intenção inicial, até eu descobrir que tanto Katrina quanto Anala se juntariam a mim durante os próximos quarenta e cinco minutos.

Capítulo 05

- Oi, . – elas disseram juntas conforme se aproximavam de mim lentamente. Eu as via como em um filme. Ambas andavam em câmera lenta, e balançavam suas bundas e peitos enormes conforme o faziam - em um gesto de provocação que funcionava na maioria das vezes. Os grandes decotes e as saias encurtadas apenas facilitavam o trabalho. As duas andavam uma do lado da outra e compassadamente. Era como se tivessem ensaiado meses para conseguirem aquilo com tanta naturalidade. Seus longos cabelos compridos e lisos se moviam em um ritmo harmonioso. Concluindo: Duas lindas barbies de coleção limitada.
- Oi. – sorri simpática, mesmo que por dentro eu estivesse chorando. Era chegada a hora. Elas me perguntariam, eu podia sentir no ar. Um cheiro de interesse. Duas cadelas tentando marcar território com seus odores repugnantes. Minhas mãos tremiam, mas elas jamais perceberiam.
- Você anda sumida. – Anala comentou com um sorriso estranho no rosto. Ela estava sentada à minha frente e girara seu corpo de tal forma que conseguisse me fitar e analisar minhas expressões faciais. Katrina estava logo ao meu lado, e puxara sua carteira para um pouco mais perto de mim. Eu estava encurralada. Sentia-me como um pequeno coelho engaiolado por sua inocência.
- Claro que não. – desmenti – A escola que é muito grande. E nossos horários também não batem, por isso não nos trombamos tanto quanto antes. – Tentei inventar qualquer desculpa convincente, mas eu nunca prestei pra essas coisas, e elas sabem disso perfeitamente bem.
- Ou talvez você só esteja ocupada demais com seus novos amiguinhos. – Katrina disse com um sorriso malicioso que me fez estremecer e, internamente, enfurecer. Nem pense em se aproximar deles.
- Ou até mesmo você só esteja os escondendo de nós. – Anala completou e ambas riram. Eu só rolei os olhos. Sim, era exatamente o que eu estava fazendo.
- Por que eu faria isso? – perguntei mesmo que o que elas haviam insinuado não fosse mentira. Eu precisava continuar com a minha péssima atuação.
- Porque você tem medo. – Katrina respondeu como se fosse óbvio. E eu tinha mesmo. Depois do que elas me fizeram ano passado... Eu simplesmente não poderia aceitar que elas repetissem. Elas também sabiam disso. Katrina segurou em minha mão e encarou-me diretamente nos olhos. – Mas não se preocupe, . Não faremos nada. Eu sei que você ainda nos culpa pelo que aconteceu, e sei que deve ser difícil pra você, mas juramos que não vamos fazer de novo. Afinal... Amigos não traem uns aos outros. E eu me arrependo pelo que fiz. – Anala concordou e eu relaxei. Talvez elas estivessem falando a verdade. Tudo bem, eu lhes tinha concedido uma segunda chance e é isso o que eu farei. A chance ainda estava ali e eu precisava permitir que ela continuasse a existir. Não posso deixar que meu medo tome conta das minhas decisões. Todos merecem uma segunda oportunidade.
- Tudo bem. – sorri verdadeiramente.
- Mas então... Eles são tão legais quanto aparentam? – Katrina perguntou, ajeitando-se em seu lugar. O professor já estava na sala dando sua explicação, mas não parecia se incomodar com a nossa conversa.
- São. – suspirei – Eles são uns amores. Divertidos, simpáticos e...
- Bonitos, certamente. – Anala seguiu minha frase. Eu ri.
- Isso. – balancei a cabeça em concordância.
- São eles que têm uma banda, não são? – Anala me lançou um olhar questionador e eu apenas confirmei sua dúvida.
- Conhecemos um deles logo no primeiro dia. – disse Katrina – Ele era realmente muito fofo. Acho que se chamava... – Eu torcia com todas as minhas forças para que não fosse o . – . Acho que era isso. – sorriu.
- Sim, sim, o . – falei. Vagamente, lembrei de já ter visto seu nome escrito na lista. Pobre, ... Estava correndo grandes riscos. Eu sei, eu sei, disse que lhes estava dando a segunda chance, mas isso não significa que eu não fique com um pé atrás em relação às duas. Desconfiança existe em qualquer lugar, convenhamos.
- Ele tem aula de Inglês conosco. – Anala comentou.
- Eu me lembro de tê-lo visto na lista. – eu chutei somente para confirmar aquilo que eu já sabia.
- Exato. – elas sorriram – Falando nisso... Já a fechamos. Quer dar um espiadinha? – Katrina perguntou e eu gelei. É claro que eu queria, precisava me certificar de que ele não estava lá. Quando elas fecham a lista, elas fecham a lista definitivamente. Ninguém entra, ninguém sai.
- Por favor. – eu pedi e Anala me entregou um papel perfumado. Corri meus olhos por ele frente e verso para me certificar. A lista estava com mais pessoas desde a última vez em que a vi, e dois garotos estavam marcados com uma caneta vermelha para mostrar que já tinham sido... Fisgados, mas não havia nenhum sinal de . Para ser mais exata, dos meninos, apenas o se encontrava lá. Eu quase gritei e chorei de felicidade. Meu corpo estava mais leve e eu sorria abertamente para quem quer que fosse. Era como se eu pudesse sair voando a qualquer segundo do dia.
- Só conheço o . – concluí e as devolvi a lista.
- Um dia te apresentamos os outros. – Katrina piscou divertida e eu ri.
- Me sinto honrada. – brinquei e elas riram.
Missão cumprida. Até que não foi tão complicado como eu achei que seria. Elas foram bem... Diretas, do jeito que eu gosto. Só espero que não façam com que eu me arrependa. Eu posso estar muito boa com as duas, mas ainda não confio em nenhuma. Nunca confiei, e depois do que eu passei, a minha desconfiança apenas aumentou drasticamente.
Quando fomos liberadas, me despedi delas e corri até a cantina. Eu não podia enrolar muito, pois tinha certeza que se ficasse, elas me chamariam para ir a algum lugar e eu não estava a fim. Queria achar as meninas, os meninos, achar o mais rápido que conseguisse. Posso estar parecendo tranquila em relação a ele, mas eu continuava tão ansiosa quanto antes. A conversa e a aula de Artes podem ter me separado um pouco desse sentimento angustiante, mas eu não havia esquecido a minha necessidade. Eu ainda queria abraçá-lo e me embebedar com seu cheiro delicioso. Outro motivo por eu estar correndo. Estava praticamente virando em direção à porta que me levaria à cantina quando senti um braço me segurar com uma força razoavelmente grande. - Obrigada, ! – escutei agradecer e ele me soltar aos poucos, lentamente para que eu não desse de cara com o chão. – Meu Deus, , tá fugindo de quem? Da SWAT? – Perguntou interessada.
- Sim, eles descobriram que eu mantenho contatos com mafiosos e agora querem me mandar para a Nigéria, onde poderão me torturar e vingar todas as pobres famílias israelitas que matei. – Respondi rolando os olhos. – Ou eu estava apenas procurando por vocês. – Sorri para o que retribuiu da mesma forma. Tão fofo e sardento... era uma sortuda.
- E por que a pressa? – perguntou e eu pensei. Por que eu estava com pressa mesmo? Ah sim.
- Eu estava fugindo de algo bem pior do que a SWAT. – Fiz suspense e pisquei logo em seguida.
- Falou a menina que vive perigosamente matando israelitas. – brincou.
- Perigosamente? – Ri cheia de deboche. – Eu rio na cara do perigo. – E com esse comentário, recomeçamos a andar – dessa vez sem correria – enquanto ríamos das porcarias que saíam da minha boca. Mais à frente encontramos e . O que é isso? Uma vingança maldosa contra mim? Por que só eu estava sem o meu? Cadê a porcaria do ? Caminhamos até eles. falava alguma coisa sobre o quão melhor nossas vidas seriam se não precisássemos dormir, porque assim poderíamos aproveitar o dia muito mais, porém eu não fazia questão alguma de prestar atenção. Estava ocupada demais reclamando sobre quem quer que fosse que estivesse fazendo aquilo comigo. Maldade, crueldade, tortura da pior parte possível. Eu merecia tudo aquilo?
Com esses pensamentos, cumprimentei e com uma cara meio emburrada. Pelo menos, era assim que deveria estar, pois me fitava de uma forma estranha.
- Tudo bem com você, ? – perguntou meio incerta.
- Por que não estaria? – Respondi com um sorriso forçado olhando em volta em busca de algum sinal. Veja se eu não tenho motivos para estar frustrada: Primeiro não consigo sair com ele aquele dia. Depois, ele falta dois dias consecutivos, e agora que eu finalmente posso matar todo meu desejo acumulado, ele simplesmente desaparece e todas minhas amigas encontram seus respectivos interesses, enquanto eu fico apenas assistindo de camarote. Frustrante, sim ou claro?
- Sei bem o que você tem. – Ela disse de forma certeira e, mais uma vez, rolei os olhos. Daqui a pouco eles já poderão fazer cosplay de planeta Terra, porque não conseguirão mais parar de girar. Ri de leve com meu próprio pensamento. Eu era tão babaca, como as pessoas conseguiam ser minhas amigas? Se eu fosse outra pessoa e me conhecesse, teria medo de mim mesma. Eu sei que a frase ficou meio sem sentido se for analisá-la, mas, uma hora ou outra, você vai conseguir entender o que eu quis dizer. – Onde está o ? – perguntou por mim. Como eu sabia que fora por mim? Oras, ela estava me encarando ao perguntar isso e, logo depois, voltou seu olhar para o . Conheço a amiga que tenho. – E o , é claro. – Completou apenas para não excluí-lo.
- Foram no banheiro retocar a maquiagem. – respondeu brincalhão.
- É isso que mulheres fazem. – entrou na brincadeira. Rimos.
- Olha , eu só não te falo o que nós fazemos no banheiro, porque isso poderia te assustar. – disse provocante. E eu e caímos na gargalhada com a cara que ele fez.
- Estou começando a me assustar com vocês. – Apontou pra mim e para ao mesmo tempo. – Não me desaponte, . Você é a minha única esperança. – Ele a segurou pelos ombros e eu achei que minha amiga poderia desmaiar a qualquer segundo se ela ficasse encarando aqueles olhos azuis e aquelas sardinhas alaranjadas por mais algum tempo.
- Melhor eu me calar, então. – Ela disse por fim e todos voltamos a rir, até que eu senti alguma coisa pressionar a minha cintura com força. Isso fez com que eu desse um grito alto e chamasse a atenção de dezenas de alunos. Em seguida, girei meu corpo assustada para ver quem havia me apertado.
- Bu? – disse incerto e riu.
- Eu vou te matar, . – Comecei a lhe dar socos no peito. Ou comecei a massageá-lo, tanto faz, tudo a mesma coisa. Só parei quando ele segurou meus pulsos com suas mãos fortes e grandes e me puxou para mais perto dele me abraçando. Dessa vez... Quem estava quase desmaiando era eu. Minha perna estava tremendamente mole, minha cabeça latejava um pouco e eu mal conseguia raciocinar direito. Certamente, quando ele soltasse minhas mãos, estas começariam a tremer como se eu tivesse Mal de Parkinson. Também... Ele queria o que? Estava me assustando, abraçando e me envenenando com aquele perfume maravilhoso, tudo ao mesmo tempo. Qualquer outra no meu lugar já estaria morta. (Ou com a calcinha no meio das pernas, dependendo de quem for a outra, obviamente.)
- Quando eu morrer não se esqueça de me avisar, ok? – Ele sussurrou em meu ouvido e eu o empurrei para trás. Idiota! Um idiota maravilhosamente lindo.
- Ah, não se preocupe, você provavelmente nem vai sentir. Só vai acabar morrendo por ter perdido muito sangue no corpo. – Disse intimidadora com uma mão em minha cintura, e a outra apontada para suas partes de baixo. Fechei meus dedos com se estes fossem uma espécie de tesoura. Escutei os outros caçoarem.
- Muito engraçadinha. – Ele riu forçadamente e eu pisquei. Então escutei uma voz diferente que vinha de fora da minha cápsula de proteção. Era .
- O não estava se maquiando... Digo, não estava no banheiro com você? – Ela perguntou curiosa.
- Estava. – Afirmou. – Mas ele disse que precisava falar com a ou algo do tipo. – Deu de ombros. – Daqui a pouco ele aparece.
Eu só conseguia prestar atenção em uma única coisa. Seus olhos. Nada mais, nada menos. Pouco me importava sua aparência, ou o resto do mundo. No momento, o que realmente me interessava eram seus olhos. Eu podia nadar neles tranquilamente. Juro que estava tentando com todas as minhas forças parar de fitá-los para não dar na cara de que eu o estava fazendo, mas eu simplesmente não conseguia. Eu estava presa a ele por um cabo de aço invisível.
- Aonde vocês vão depois daqui? – perguntou.
- História. – respondeu prontamente.
- Geografia. – Agora era a vez de .
- Matemática. – .
- Biologia. – Eu dei o meu melhor, e consegui responder AO , encarando O . Respirei tranquila depois disso.
- Eu também. – disse.
- Eu também o que, genialidade? – perguntou.
- Biologia. – Ele apontou para mim e eu sorri feliz. Adoraria ter uma aula com ele. Assim eu esperava...
- Vem comer comigo. – colocou um de seus braços em volta da minha cintura como se soubesse que aquilo me matava dolorosamente e pediu baixo. Eu estava sem fôlego e forças para responder-lhe o pedido, por isso apenas balancei a cabeça em concordância ainda meio atordoada.
- Vamos comer. – Avisei aos outros assim que nos viramos em direção à cantina. Isso vai soar a coisa mais doentia que eu possa já ter dito em toda a minha pobre existência, mas eu não estava ligando para a comida. Eu só queria poder passar o máximo de tempo com ele. Toda aquela angústia e irritação que eu sentira hoje mais cedo, sumia conforme eu dava curtos passos ao seu lado. E meu coração também ia se acalmando. Ele ia, de forma lenta, se estabilizando.
- Por que vocês faltaram ontem e anteontem? – Tomei coragem e fôlego para não permitir que minha língua se atrapalhasse ao liberar as palavras, e perguntei.
- Coisas da banda. – Respondeu com um sorriso singelo. – Você vai ter a honra de descobrir o que é na sexta-feira, provavelmente. – Piscou para mim sensualmente, e eu estremeci internamente. – Se tudo der certo.
- Nossa, me sinto lisonjeada. – Disse sarcástica, levando minha mão esquerda até minha boca, e a direita até minha cintura. Paramos na fila, onde apenas cinco alunos estavam à nossa frente e esperamos. Cupcakes. Eu podia vê-los dali. Lindos cupcakes de chocolate. – Mesmo assim. Muito feio ficar faltando logo na primeira semana de aula. – Apontei meu dedo indicador e o coloquei bem na frente de seu rosto. – Que péssimo exemplo eu fui arrumar. – Balancei a cabeça e lhe lancei um olhar reprovador.
- Cala a boca. – riu e mordeu a ponta do meu dedo. Eu gritei de leve, e ele se espremeu já prevendo que eu lhe socaria. Aproveitou para ir pegando o que comeria. Eu lhe dei um tapa nas costas, como previsto, e também fui pegar meu lanche. Joguei dois cupcakes na bandeja. Só podia pegar um, mas como a mulher da cozinha não estava vigiando, burlei as regras e matei a minha enorme vontade de comer bolinhos. Estava me sentindo uma vândala.
- Isso é o que eu chamo de menina valente. – me zombou assim que nos sentamos na mesa mais próxima da onde estávamos anteriormente.
- Pelo menos eu tenho dois bolinhos. E você? – Disse enquanto puxava o papel que protegia a base do meu cupcake. – Ah tá, perdão. Você só tem essa miséria. – Ri. Assim que consegui o despir, o levei delicada e calmamente até minha boca, mas quando ia mordê-lo foi mais rápido. Ele se aproximou de mim, e ficou a uma distância que eu considerei altamente arriscada, quase extrapolando o limite da minha sanidade, nossos narizes por pouco não se tocaram, e então mordeu bem mais do que a metade do meu cupcake. Meus olhos estavam arregalados. Eu só não sabia se era pelo fato de ter sua boca tão próxima da minha, ou se era pelo fato de que ele praticamente comera meu delicioso pedaço de chocolate inteiro.
- Quem disse que eu não tinha dois bolinhos? – Ele disse ainda de boca cheia, mastigando os vestígios do meu lanche. Minha boca continuava escancarada e minhas mãos ainda estavam posicionadas como se carregassem alguma coisa comestível.
- Você... – Eu disse incrédula. – Você... Você comeu... Meu cupcake. – , , roubou a comida da pessoa errada.
- Eu? Claro que não. – Se fez de desentendido e ergueu as mãos como se fosse um completo inocente.
- Corre. – Foi a única coisa que eu consegui dizer antes de pegar o cupcake que seria dele, passar minha mão sobre a cobertura e sair correndo atrás dele. Ele não duvidou ao ouvir minha intimidação, por isso quando eu fui me dar conta, ele já estava quase do lado de fora da cantina. Eu levei vários escorregões no meio do caminho, e acabei largando meu sanduíche e todas as outras coisas em cima da mesa. Provavelmente, quando voltássemos – se voltássemos – elas não estariam mais ali. Eu somente me conformei. O que mais eu podia fazer?
Quando o reencontrei ele estava escondido entre e , rindo descontroladamente. Os dois apenas nos encaravam sem saber o que estava se passando. Não só eles, como , e também não.
- Você não queria o bolinho, ? – Perguntei intimidadora. – Agora você conseguiu o que tanto queria. – Sorri maleficamente. Ele tentou me impedir de se aproximar, mas estava cansado demais para correr, por isso apenas esticou seus longos braços para que eu não pudesse tocá-lo. O que foi uma triste ilusão da parte dele, pois no segundo seguinte, eu já estava em cima dele esfregando minha mão melada de cobertura de cupcake em seu lindo rostinho perfeito.
- Você não fez isso... – Ele disse da mesma maneira descrente que eu havia dito há alguns minutos atrás.
- Fiz sim. – Sorri prazerosa, andando lentamente para trás.
- Sua vez de correr. – Ele avisou e eu o fiz sem pestanejar. Mas minha fuga não durou nem míseras três passadas, porque logo ele já estava me abraçando por trás, enquanto eu tentava me desvencilhar. Ele passou a mão por seu rosto, tentando limpar o que eu havia feito e começou a espalhar minha própria sujeira em minha face. Eu gritava e me debatia. Minhas amigas? Essas só sabiam gargalhar de toda aquela cena. Os meninos? Também. O resto da escola? Provavelmente assistiam aquilo como se fosse a coisa mais estúpida do mundo.
- Você é nojento. – Eu disse quando ele finalmente me soltou, e comecei a esfregar meu rosto tirando toda aquela cobertura melosa de mim.
- Você que começou. – Ele rebateu ainda rindo, e me imitando nos gestos de limpeza. Nenhum de nós estava conseguindo progredir no que quer que fosse.
- Você comeu meu bolinho. – Falei indignada.
- Você comeu o bolinho dela? – e perguntaram ao mesmo tempo tão indignadas quanto eu. Ele apenas afirmou com a cabeça, meio em dúvida se deveria dizer que sim ou que não.
- Tem sorte de ainda estar vivo. – disse divertida.

- Realmente! Eu podia ter morrido asfixiado por cobertura de... – Ele parou para pensar. Cobertura de que mesmo? Passou seu dedo na ponta do meu nariz e o lambeu. – Baunilha. – Todos riram, até mesmo eu.
- Você me pegou num bom dia, só isso. – Avisei, o que, em partes, era verdade. Já disse que posso ser meio agressiva em relação à comida.
- Sabe o que eu estava percebendo? – interrompeu o meu momento com a sua chegada. Ele estava com o telefone fechado em mãos e desafrouxava sua gravata conforme ia caminhando até nós. Eu e ainda estávamos com a cara suja, mas esquecemos disso por um instante.
- O que? – perguntou.
- Daqui três meses já é Natal. – Abriu os braços, inconformado.
- E daí? – perguntou sem ver graça nenhuma naquilo.
- Como "e daí"? – quase engasgou com sua própria saliva. – É Natal! O melhor feriado de todos. E eu ainda não tenho absolutamente nada pra fazer além do jantar em família e o jantar na casa da . – Exclamou.
- Faltam três meses, . – avisou o com uma voz terna.
- E você já combinou o jantar em família e o na casa da sua namorada? – Agora estava inconformada. – Eu nem sei o que eu vou querer de presente ainda. Você precisa se tratar!
- tem uma pequena obsessão por Natal. – nos contou. Jura? Ninguém percebeu. E eu tinha que concordar com . Eu não sabia nem o que queria de Natal. É claro, tirando o visco cruzando o meu caminho e o do , eu não sabia o que gostaria de ganhar. Talvez uma roupa? Tanto faz. Ao contrário do , eu tenho até dia vinte e quatro de dezembro para me decidir.
Desde que meus parentes pararam de me presentear, eu não tenho dado tanto valor para o Natal. Sabe... É divertido quando você é criança e vê seu pai entrando em casa vestido de papai Noel lhe entregando dezenas de brinquedos que todos os seus tios e tias compraram especialmente para você. Ai então você pode agradecê-lo com um prato de biscoitos e um copo de leite, até que você percebe que a barba falsa está meio solta, e pergunta a ele se nunca pensara em se barbear, e ele lhe explica dizendo que toda a magia do Natal se encontra lá. Realmente... É divertido. Quando se é criança e acredita nessas coisas. Pelo menos, é assim que eu penso. Minha família nunca foi dessas que se importava com esse tipo de festejo. Acho que é por isso que acabo não me importando tanto. Para ser sincera, o que eu mais gosto no Natal são as luzes. Por isso sempre enfeito a casa inteira com aquelas pequenas luzes natalinas.
- Precisamos pensar em algo. – nos intimou apontando para cada um. Senti-me feliz em saber que eles queriam minha companhia em uma data considerada tão importante. Sorri realizada. – E por que vocês dois tem chocolate até no cabelo? – Perguntou fazendo uma cara de estranhamento muito cômica. Eu tive de rir e me acompanhou.
- É melhor vocês irem se limpar. – nos aconselhou. – Ou eu vou ter que passar uma aula de Biologia inteira solitário. – Reclamou e eu apertei sua bochecha.
- Não se preocupe, não te abandonarei. – Sorri. – Vem comigo, ralé? – Perguntei a fingindo desdém.
- Claro, serial killer. – Rimos e fomos até os banheiros. Obviamente não iríamos ao mesmo, mas não custa nada fazer companhia um ao outro. Custa? Alguns alunos e professores passavam perto de nós e nos olhavam estranho. Provavelmente, estavam pensando: “Eu devo ter entrado no lugar errado. Não sabia que aqui também era metade manicômio.” Bem provavelmente mesmo.
- Já volto. Não morra de saudades, porque eu quero te matar com as minhas próprias mãos. – Brinquei e entrei no banheiro feminino sem esperar uma resposta. Lá lavei meu rosto, sem permitir que o sorriso escapasse deste. Ele estava grudado ali. Nada e nem ninguém poderia arrancá-lo de lá. Repito: Nada e ninguém.
Saí do banheiro e me arrepiei quando senti o vento bater nas pontas do meu cabelo que se molharam no meio do meu processo de retirada de doce. Estremeci de leve e fiz um coque de qualquer jeito só para que os fios não ficassem batendo na parte da minha pele desprotegida. também ressurgiu das cinzas com sua cara completamente limpa. Ou quase isso... Ele havia esquecido um restinho de nada em uma de suas bochechas. Eu me aproximei dele, coloquei minha mão em seu rosto quente e meio molhado ainda e limpei-o com a ponta do meu dedão. Até a pele dele era boa... Tão macia... , isso está ficando cada vez pior. Ele sorriu agradecido e eu retribuí puramente. Como eu me irritaria com uma coisa tão fofinha? O máximo que eu conseguiria seria apertá-lo até sufocar.
- O tá te chamando. – Ele avisou apontando para algo logo atrás de mim com um sorriso e um olhar diferente.
- Então é melhor eu... – Suspirei com tanta beleza. Também suspirei por não querer sair dali. – Ir. – Dei um sorriso fraco. – Até a saída ou próxima aula. – Acenei com a mão e dei meia volta, indo até onde o estava. Este me chamava com urgência.
- Pronto, desesperado, cheguei. – Brinquei e por pouco não consegui finalizar minha frase, pois logo que apareci, ele me puxou com pressa para dentro da sala de Biologia na parte do fundão e me jogou delicadamente - como um lutador de sumô faria - em uma carteira qualquer. Então sentou-se ao meu lado e foi se puxando para mais perto de mim. Meus olhos estavam arregalados ainda. Eu estava achando tudo muito estranho, principalmente, ele. Porque ele está tão desesperado?
- Eu preciso da sua ajuda. – Avisou nervoso.

Capítulo 06

- Reparei a partir do momento em que praticamente fui arremessada em uma cadeira no fundo da sala. – Disse ainda atônita.
- Desculpa por aquilo. – Ele pediu fazendo uma carinha fofa. – Mas você é a única pra quem eu posso perguntar isso. – Ele abaixou o olhar e, por um segundo, eu achei que fosse me perder naquele labirinto de sardas.
- É sobre o que? – Quis saber já ficando curiosa e voltando ao normal.
- É sobre... – Ele olhou para os lados mais nervoso e sem jeito do que antes. Suas mãos estavam fechadas uma com a outra, e seu dedão não parava de se movimentar. Nem se parecia com o que eu vira sentado em seu lugar, completamente descolado, há três dias atrás.
- Sobre o que, ? Desembucha. – Pedi firme, antes que ele desistisse de me contar. Se você começa a falar algo pra mim, chegue ao final. Ou arque com as consequências.
- Sobre a . – Ele desistiu e desabafou frustrado. Eu estremeci. Ele estava interessado na ? Eu... Preciso contar pra ela. E por que ele veio falar justo pra mim? Tem a também e ele já deve ter notado que nós três somos muito ligadas e... Ele está mesmo a fim da ! Ela vai surtar quando descobrir. Isso é tão lindo, tão amor, tão fofo. Eu preciso mordê-lo. Mas ao invés disso, eu apenas fiz a minha melhor cara de quem está achando aquilo a cena mais meiga do universo e lhe apertei as duas bochechas com força. Pela segunda vez no dia.
- Nhaw. – Gemi empolgada. – tá afim da . – Ri feliz e ele rolou os olhos, sem deixar que um sorrisinho tímido e envergonhado lhe irradiasse o rosto. – Mas por que não contou isso a ? – Perguntei desconfiada.
- Não sei ao certo. – Ele deu de ombros sem ver muita importância naquela pergunta. – Só achei que você fosse mais confiável que ela. – Sorriu gentil sem mostrar os dentes e eu, mais uma vez, senti vontade de pressionar aquelas bolas gordas sardentas entre as minhas mãos.
- A pode parecer meio estranha de princípio, mas no final das contas, você vai descobrir que ela pode ser tão amor quanto eu. – Fiz pose de convencida e ele riu divertido. – Mas voltando ao assunto... O que você quer me contar? – Perguntei ainda bastante interessada.
- Primeiro, você tem que me prometer uma coisa. – Ele cruzou os braços e me lançou um olhar desafiador.
- Diga. – Bufei ansiosa.
- Não vai contar nem uma única palavra sobre o que vamos conversar aqui a ninguém. – Ele impôs tal condição. Condição praticamente impossível de cumprir. Eu estava a um ponto de desistir do assunto, mas tomei coragem e prometi. A curiosidade falou mais alto do que qualquer outro senso saudável de sensatez. As chances de eu conseguir guardar um segredo como aquele eram quase nulas, mas eu tentaria. É isso o que dá quando você quer ser boa amiga.
- Eu... Estou interessado nela. – Disse completamente sem jeito e quase inaudivelmente. Eu tive que me esforçar para compreender o que ele havia dito. Mas não o faria repetir. – Não gostando, isso eu já não posso afirmar, já que eu só a conheço fazem míseros três ou quatro dias, mas... – Ele suspirou e passou a mão por seus cabelos, desarrumando-os. – É. Eu tô interessado nela.
- E o que eu posso fazer pra ajudar? – Eu queria muito ser prestativa. Na verdade, eu sentia necessidade em ajudar minha amiga. Eu tinha certeza de que, se ela soubesse como, ela faria o mesmo por mim.
- Não sei. – Ele riu e eu o acompanhei. Pela primeira vez, o professor de Biologia nos lançou um olhar irritado e nós baixamos o volume da conversa. – Preciso de alguma coisa pra sexta. – Pediu. – Como você a conhece bem melhor do que eu... - Ele deu ênfase no “bem” – Achei que pudesse me dizer algo que fosse a agradar.
- O que vocês pretendem fazer sexta? – Perguntei pensativa.
- Cantar... – Ele disse com obviedade e eu rolei os olhos.
- Alguma outra coisa, além disso? – Balancei as mãos com pressa.
- Beber, jogar alguma coisa. Acho que só, não tenho certeza.
- Assim você complica, . Sou um gênio, não vidente. – Reclamei, mesmo brincando. Rimos baixinho dessa vez.
- Que tal... – Pensei e recebi uma luz de repente. Sorri com minha própria ideia. – Que tal cantar alguma música que ela goste?
- Boa ideia. – Ele sorriu animado também. – Mas do que ela gosta? – Perguntou já não tão animado assim. Meio receoso até.
- Ela gosta bastante de “Walking After You”. – Disse depois de pesquisar pela minha mente uma música que ela vivia escutando. Nesses momentos de desespero, tudo simplesmente decide que é o melhor momento de te abandonar. Principalmente as boas ideias e as lembranças importantes. Cérebro... Ele pode ser bem cruel quando quer. Quem nunca passou por aquele momento típico, por exemplo, de quando estamos no carro escutando uma música, e cinco minutos depois da mesma acabar, alguém nos pergunta o que estávamos escutando, e nós simplesmente não conseguimos lembrar o que era? Nem o ritmo, muito menos o cantor ou o nome da canção. É terrível!
- Foo Fighters? – Ele perguntou como se não acreditasse no que está ouvindo.
- Não é só porque ela é loira, gostosa e tudo mais que ela não pode gostar de Foo Fighters. – Alertei-o com apenas uma sobrancelha arqueada. Ainda me pergunto como consigo fazer isso. Já que ele ainda estava muito atônito com a notícia, permiti-me prestar atenção nos últimos minutos da aula. Anotei algumas coisas desnecessárias sobre o corpo humano em meu caderno, e escutei o sinal tocar. Levantei-me da onde estava e comecei a andar. Mas antes de sair, eu tive de dizer:
- Acho melhor você imprimir logo a letra da música, colar em todos os cantos da sua casa e aprender esses acordes. – O alarmei. – Porque você só tem um dia pra tudo isso.
- Obrigada, . – Ele riu completamente animado. Quando eu digo completamente, eu quero que você imagine o mais exagerado possível. Eu podia ver o brilho em seus olhos azuis, e fiquei feliz por isso. Ele se aproximou de mim, me deu um beijo estalado na bochecha – estou começando a ficar mal acostumada, parem com isso. Mentira, não parem - e correu pelo corredor que levava até a sala de informática.
Suspirei. Um suspiro com um misto de alívio, felicidade e preocupação. O que eu faria com agora? Ela sabia que eu tive uma aula só com o hoje, e, certamente, perguntaria sobre o que conversamos. Eu faria isso se fosse ela, pelo menos. E eu detesto mentir. Principalmente, pra ela. Eu não consigo. Não sei se isso é um defeito ou uma qualidade, só sei que eu sou uma péssima mentirosa. As palavras não saem da minha boca, por mais que eu tente. Deve ser por isso que eu jamais conseguira enrolar meus pais com a velha desculpa do “vou dormir na casa de uma amiga, mas, na verdade, estou indo a uma festa para maiores de 18 anos, onde bebida rola solta”. No final das contas, eu contava a verdade, e geralmente eles me deixavam ir, mesmo sabendo da possibilidade de uma filha bêbada voltar de madrugada para casa. Então, nunca fui induzida a mentira. A verdade sempre funcionara pra mim. Mas não é assim que as coisas funcionam no mundo normal... Infelizmente, a mentira é algo necessário para a sobrevivência.
Minha última aula seria de História e eu não fazia ideia de quem partilharia tal momento adorável em minha companhia. Sinceramente? Eu não queria que nenhum de meus amigos fosse. Isso mesmo, nem o . Queria daquela aula algo solitário, como se para que eu pudesse exercer minha limpeza espiritual. Precisava pairar os pensamentos. E, é claro, me preparar para ativar o meu lado de coisas verdadeiras inválidas. Tinha de bolar algo para enrolar . Mas ao mesmo tempo, eu me sentia mal só com a ideia de ter que enrolá-la. Ah! Maldita contradição. Algo que não dê muito na cara? O que eu poderia ter conversado com o durante a aula? Eu pensava nisso quando fui abordada por alguém. Eu já estava sentada em meu lugar alheio na sala de aula quando veio conversar comigo.
- O cupcake tava bom? – Ela perguntou com uma cara surpreendentemente tarada e eu ri descrente.
- Tenho certeza de que não tanto quanto o . – Rebati tão pervertida quanto. Tudo bem, nem tão pervertida assim. – É bom comer as pessoas com os olhos? – Perguntei divertida e provocativa.
- Uma delícia. – Ela respondeu rindo. – Mas eu ainda prefiro o jeito antigo. Bem mais tentador e saboroso. – Passou a língua de leve por seus lábios, os umedecendo, e eu a empurrei para longe de mim.
- Você é muito pornô pra mim.
- Você que tem mente poluída. Eu não disse absolutamente nada. – Ela se inocentou e eu lhe dei um tapa leve no braço.
- Nossas cadeias alimentares à parte, eu preciso da sua ajuda. – Pedi. podia ser uma ótima mentirosa quando queria e muito persuasiva também. Ela sim saberia como me ajudar. E eu tenho absoluta certeza de que não contaria nada a caso eu conseguisse convencê-la, porque, assim como eu, queria ajudá-la.

- Prossiga. – Balançou as mãos para que eu continuasse e se apoiou em um de seus braços para prestar atenção no que eu tinha a dizer.
- Preciso mentir pra . – Ela arregalou os olhos.
- O que você fez? – Perguntou altamente preocupada.
- Nada demais. – Eu a acalmei. – É só que... – Respirei fundo. Por favor, , o jamais pode saber dessa conversa que tivemos. – Prometa que não vai falar sobre isso com ninguém. Nem com o Jeffrey. – Jeffrey era seu peixe azul. Como costumava ser alérgica a quase todos os tipos de animais de estimação, resolveu comprar Jeffrey para não se sentir tão deslocada. Afinal, todos seus amigos, com minha exceção, tinham um bicho de estimação. Sempre que estava triste ou simplesmente não tinha nada para fazer, se sentava ao lado do aquário, e começava a desabafar sobre tudo. Ela dizia que só ele a escutava sem questionar ou argumentar. Ele só a ouvia em silêncio. Eu ria, é claro, e achava aquilo a coisa mais engraçada. Você quer saber por que eu não tenho um bichinho? Minha mãe os detesta. Diz que gatos e cachorros juntam pêlos pela casa inteira e que ela não quer ter que ficar limpando toda hora, que hamsters são nojentos e fedem, e que peixes são inúteis, não fazem nada além de tentar matar o próprio reflexo e comer. Também disse que se eu quiser tanto um cachorro, que eu vá morar sozinha e o coloque em minha própria casa. Acho que já deu para entender o porquê de eu não ter um animal de estimação.
- Agora a porra ficou séria. – Ela até se desencostou de seu braço.
- Nós nunca tivemos segredos uma com a outra e você sabe o quanto eu detesto mentir. – Desabafei. – Mas eu prometi ao e não posso quebrar minha promessa. Na verdade, eu já a estou quebrando. – Comentei inconsolada. – Meu Deus, eu sou tão terrível assim? – Brinquei comigo mesma.
- O que você prometeu a ele? – Perguntou mais preocupada do que antes.
- Que não contaria sobre o que conversamos a ninguém.
- E sobre o que vocês conversaram? – Ela estava receosa. Eu achava que se ela ficasse só mais um pouco preocupada, sua cabeça cresceria e explodiria. Bem estilo cena de desenho animado.
- Ele tá afim dela. – Soltei mais como um espirro.
- O que? – Ela gritou como se não tivesse escutado. Mas eu sabia que tinha. A professora de História, que explicava na lousa sobre a Revolução Industrial e mais parecia aquele monstrinho do “Senhor dos Anéis”, nos lançou um olhar horrível. Até estremecemos. - Ele tá a fim dela? – Ela perguntou para confirmar se havia escutado certo.
- E pediu minha ajuda. – Completei. – E vai cantar uma música pra ela na sexta. – Comentei derretida e com os olhos brilhantes. Ela me imitou, só que mil vezes melhor do que eu tinha feito.
- Ela precisa saber disso. – deduziu.
- Não. – Eu quase gritei, então lembrei-me da professora rainha do cosplay, e baixei o tom rapidamente, mas ainda no desespero. – Ela não pode. Ou o nunca confiará em mim de novo.
- Ele não precisa ficar sabendo. – Ela disse despreocupada.
- Mas ele vai. – Falei rápido. – É sempre isso o que acontece. Eles sempre descobrem o que realmente aconteceu no final. – continuava despreocupada. Agora eu me perguntava se tinha feito certo ao contar sobre aquilo a ela.
- Mas... – Ela ia tentar me convencer do contrário e eu logo a cortei.
- , você prometeu. – Fiz bico e cara de piedade. – A não nos culpará por essa pequena mentira. – Acrescentei.
- Tudo bem. – Ela se deu por vencida. – Mas que seja nosso último segredo. – Condicionou-me e eu concordei freneticamente, aliviada. – O que você quer que eu faça?
- Ela certamente vai me perguntar sobre o que eu e o conversamos na aula, e eu não tenho ideia do que eu posso dizer. Não pode ser nenhuma mentira muito mentirosa, porque eu vou falhar na missão de não parecer que estou mentindo. – Assim que terminei de impor meus desejos, respirei novamente.
- Diga que... – Ela pensou por um curto minuto. – Diga que quando vocês iam começar a conversar, o professor os cortou e disse que vocês teriam que sair da sala caso voltassem a falar. Finja que ele estava em um de seus dias completamente estressado com tudo e todos. Você sabe como o John pode ser... Pior do que mulher bipolar de TPM. – Finalizou e eu a abracei.
- Tudo bem. – A soltei. – Acho que eu consigo dizer isso.
Um pouco mais de aula se passou e eu aproveitei para exercer meu dever como estudante. Estava bem mais tranquila. E tudo só melhorou depois que eu conversei com a . Ao que me parece, ela havia caído direitinho. Graças ao bom Deus. Eu não sei o que faria comigo mesma, se ela descobrisse. Quinta feira acabou e eu não me reencontrei com mais nenhum dos meninos. Eles simplesmente sumiram. Nem eu, ou ou havíamos trombado com eles novamente. Mas eu não estava preocupada. O dia fora tão prazeroso, por que eu me preocuparia com alguma outra coisa?
E novamente, fui trollada pelo destino. Sexta-feira chegou tão rápida quanto táquions. Parecia até que eu tinha esquecido o botão da minha vida pressionado sobre o avançar. Tudo aconteceu extremamente rápido. Eu mal acordei e quando percebi já estava no portão de entrada da escola. Não me lembrava nem ao menos de ter comido. No segundo seguinte, eu já estava sentada em minha carteira sozinha, e logo, eu atravessava a cantina, pois era hora do recreio. Era como se eu estivesse no meu estado alfa. Afinal... Eu estava sonhando? Não, infelizmente, era somente mais um puro lapso de loucura meu. Lembro-me de pouquíssimas coisas que aconteceram até a minha última aula do dia. Vultos de cenas passeavam à minha frente. Aula de Educação Física com , e Katrina. Katrina falando que Anala não tinha vindo à escola, porque estava com gripe – provavelmente contagiada por alguém de sua amorosa lista -, se aproximando de mim e falando que não tinha nem sinal de e o resto de sua gangue, perguntando se eu tinha usado alguma droga, eu respondendo meio incerta que não... Pouquíssimas lembranças. Eu só voltei ao meu estado, razoavelmente, normal, quando o sinal para saída soara estridente pelos corredores.
- Eles não vieram. – Comentei ao me aproximar de .
- Sério? Eu nem tinha percebido. – Ela respondeu-me irritada e sarcástica. – Isso quer dizer que o negócio na casa deles hoje já era, né? – Cruzou os braços.
- Talvez. – Eu disse decepcionada. Internamente, eu estava desolada. Eu realmente queria sair com eles hoje. Queria ver o cantando pra a música que eu escolhera, queria reencontrar e abraçá-lo, queria perturbar o com a minha estupidez em Matemática, e... Bom, o ... Eu não tinha muito o que fazer com ele, mas adoraria vê-lo também. Eu só queria me divertir ao lado deles e de minhas amigas. É pedir demais por isso?
- Boa notícia pra vocês. – Se empolgação pudesse ser solidificada, certamente seria sua personificação.
- Somos todas ouvidos. – Eu disse, retratando o oposto de .
- Acabei de receber uma mensagem do . – Falou balançando seu celular na nossa frente. Desde quando todo mundo tem o celular de todo mundo? – E ele disse que por causa de umas coisas aí, eles não vieram pra aula. Mas... – Continuou, antes que eu e lhe déssemos um soco. – Avisou que o show particular ainda está de pé e que quer muito me ver. – A última frase foi dita com uma voz sedutora e baixa. Eu quase gargalhei. Não sei o que é melhor, a sensação de alívio ou a de adrenalina no corpo. Mas, no momento, eu ficaria com a primeira opção, já que a segunda só serviria pra me deixar ansiosa.
Finalmente. O dia que eu tanto aguardava desde o convite, chegara. Ele iria me buscar em casa e me levaria para a sua. Ele, . Eu mal podia esperar. Se eu já achava sua voz perfeita conversando comigo normalmente, imagina ela sendo cantada? Seria algo... Enlouquecedor. Preciso passar na farmácia e comprar uma caixa de Diasepan e outra de Gardenal antes de sair.
- Vou almoçar na sua casa. – avisou-me de prontidão, logo que terminou de processar a mais nova boa notícia. Se mudança temperamental desse dinheiro, seria a filha única do Steve Jobs. Da depressão para a felicidade suprema, um bom título para um livro de auto-ajuda evangélico.
Saímos da escola e não perdemos tempo. Chegamos à minha casa, e enquanto minha mãe terminava de preparar o almoço, nós subimos para escolher o que vestiríamos. abriu sua bolsa e de lá tirou um casaco de couro preto forrado com algum tipo de pêlo da mesma cor, uma blusa branca que praticamente era um vestido estampado com uma âncora preta, e sua tão adorada meia-calça também preta e rendada. Eu ainda tentava entender como ela conseguia enfiar tanta coisa em uma bolsa tão pequena. Era uma bolsa tipo pasta bege, quase caramelo, e que, se fosse minha, mal entrariam os meus livros.
- , meu coturno ainda tá jogado pelo seu armário? – Perguntou já abrindo a porta deste para procurá-lo. estava vasculhando em outro armário, provavelmente, procurando algo que pudesse vestir. Ela não era do tipo que se preparava para sair e deixava uma muda de roupa na bolsa. Ela sempre costumava pegar as coisas emprestadas de mim, assim como eu fazia com ela ou . E eu, sinceramente, não me importava. Na verdade, eu acabava gostando, porque sempre que eu não encontrava nada que me agradasse no meio das minhas coisas, ia até a casa de uma das duas e me satisfazia.
- Sei lá, vê se não tá no fundo. – Disse e me joguei na cama de braços abertos. Eu não fazia a mínima ideia de como me vestiria.
- Cadê aquele seu colete compridão de pêlo? – perguntou depois de puxar uma bata, super decotada, bege e bem básica, que eu tinha e nem sabia, e um shorts jeans escuro mega curto e de cós alto, que eu também não fazia ideia de possuir. Nem devia ser meu, se você realmente quer saber. Elas mesmas costumavam largar as coisas pelo meu quarto e acabavam nem se lembrando. Eu ainda fazia muito de jogar no meio das minhas para não ficarem estiradas no chão.
- Procura no banheiro. Eu não o usei sábado passado? – Parei para pensar por um momento, mas eu não conseguiria me lembrar de que roupa eu usava no sábado passado nem se me pagassem. Minha memória deleta certas coisas em questão de horas. Se eu uso uma calça verde hoje e me fantasio de melancia, provavelmente, no dia seguinte, eu não saberia informar o que eu estava usando. Alguém precisaria me lembrar. – Se usei, ele deve estar lá ainda. – Informei, mesmo sabendo que havia grandes chances da minha mãe ter passado por lá para fazer a limpa.
- Achei. – Mostrou-me pelo vão da porta, enquanto se agachava dentro do banheiro sentido os variados odores dos meus perfumes.
- O Carpie Diem está proibido pra você, . – Avisei ainda deitada em minha cama, sabendo que ela cogitaria a possibilidade de usar o meu perfume favorito, e o que eu usaria hoje, assim como uso em qualquer ocasião especial.
- Vaca. – Escutei ela me xingar e ri.
- O que você acha? - se aproximou de mim com seu look pronto em mãos e pediu minha opinião. Eu apoiei meus ombros na cama para que pudesse analisá-lo. Ficaria lindo nela, como sempre. Se bem que se vestisse um saco de batatas, ela faria com que todos o achassem maravilhoso.
- vai se apaixonar. – Disse respondendo sua pergunta e voltei a me deitar. Eu estava tentando relaxar e me controlar pra não ficar tão ansiosa, já disse. Mas a única coisa que eu queria aquela hora, era estar sentada onde quer que fosse desde que perto dele.
- Eu não deveria fazer isso, depois de ter sido banida de usar o Carpie Diem, mas... – tentou fazer com que eu me sentisse culpada e jogou um conjunto de peças de roupa em cima de mim. - Pode me agradecer depois. – Finalizou e voltou a buscar coisas para se vestir.
Olhei para o meu colo e comecei a observar-lo atentamente. Imaginei aquelas roupas em mim e em como eu ficaria. Era uma blusa de lã assimétrica de mangas cumpridas e num misto de branco e preto, um shorts de cós alto rosa bem claro, e uma meia calça preta, mas meio transparente. Era uma bela junção. Básica, mas nada que alguns acessórios não complementassem. Sorri sem mostrar os dentes.
- E eu diria que isso ficaria lindo junto. – me entregou meu par de oxfords pretos e eu agradeci com os olhos. Escutamos minha mãe nos chamar.
- Ah, comida. – Eu agradeci aos deuses. – Obrigada, meninas. – Eu joguei um braço em volta do pescoço de e outro no de . As puxei para que descessem comigo. Elas largaram o que estavam fazendo pelos cantos e fomos almoçar.
- E então... O que as garotas pretendem fazer hoje? – Minha mãe perguntou, agora que todos estavam sentados à mesa. estava do lado da minha mãe, que estava sentada à minha frente, ao meu lado, e meu pai, como de costume, estava em uma das pontas concentrado em seu prato e pouco interessado no que estávamos falando já que ele considerava papo de mulher. Papo de mulher era tudo aquilo que não se tratava de política, filmes de ação, Nicole Kidman e músicas antigas. E no caso, não estávamos e nem pretendíamos conversar sobre nada do tipo.
- Eu vou dormir fora. – Já avisei com antecedência.
- Na casa de quem? – Meu pai se deu ao trabalho de parar com o que estava fazendo e levantou os olhos para me encarar.
- Não sei... Na sua ou da ? – Perguntei a .
- Tanto faz por mim. Se for na , aqui ou na minha casa, eu vou junto de toda forma. – Balançou a mão e deu mais uma garfada em seu frango. Todos riram. Sim, inclusive o meu pai. Ele também tem humor, mesmo aparentando ser um pouco sério demais.
- Então... Pode ser na minha. – deu um gole em sua Pepsi. Eu, particularmente, preferia Pepsi à Coca-cola. Não sei... Era mais doce, com mais gás, não sei. Se eu tinha a opção de escolher entre as duas, a Pepsi sempre era a minha escolhida. Mas normalmente, eu não tenho essa chance de optar. Sabe como é... A Coca é praticamente a dona do mercado. Em casa era o único lugar em que eu podia exercer meu poder opcional.
- Tudo bem. – Meu pai disse por fim, voltando a sua comida. – Só não faça nada que me desapontaria. – Pediu.
- Como se eu já tivesse feito isso alguma vez. – Rolei os olhos. E eu já tinha, mas isso nem se passava pela cabeça dele ou da minha mãe. E, geralmente, não deveria passar pela minha, mas agora que eu entrei no assunto, ele voltava à tona. Acho que aquela fora a única mentira grande que eu conseguira realizar com sucesso. Mas por pura necessidade e vergonha de mim mesma. Respirei fundo, enfiei um bolo de arroz em minha boca, e abri as portas do vácuo quase eterno de minha mente para tais memórias passarem.
- Mas vocês ainda não me responderam. – Minha mãe continuou. – O que vão fazer hoje?
- Vamos na casa de um pessoal. – respondeu.
- Pessoal da escola? – Minha mãe quis saber e nós concordamos com a cabeça, pois estávamos com a boca cheia.
- Meninos? – Foi a única palavra que meu pai soltou. Eu concordei novamente e o escutei suspirar. - Só não faça nada que me desapontaria. – Repetiu sua frase anterior.
- Pai! – Reclamei indignada e ele riu em silêncio. Não sei como é possível rir em silêncio, mas em todo caso, foi exatamente isso que ele fez.
Assim que voltamos para o meu quarto, decidiu que o melhor a se fazer era começar a se arrumar. Ela tomaria banho primeiro, e depois eu ou , tanto faz. passaria para nos buscar às três horas e já era uma da tarde. Olhei pela janela e vi que algumas pessoas andavam pela calçada bem agasalhadas. Londrinos costumavam exagerar um pouco, por isso decidi de uma vez que aquela roupa escolhida por me aqueceria o suficiente. Aproveitei que estava compenetrada em sua missão para encontrar o look perfeito e liguei meu notebook para entrar no facebook. Fazia certo tempo que eu não o visitava e cheguei a conclusão de que aquele seria o melhor momento. Havia cinco solicitações de amizades e nove notificações, uma mais escrota que a outra. Aceitei algumas solicitações e abri minhas notificações. Só quatro eram convites de jogos que fazem você começar a jogar, mas logo na segunda fase já tem tudo quanto é coisa pra você comprar com dinheirinho de verdade. E eu sempre os recusava, ou nem chegava a abri-los para recusar. Apenas os ignorava. Tirando esses convites, tinha uma mensagem do Pierre sobre alguma festa, e outra do Vincent perguntado se eu sabia onde a estava. Era o recado mais recente, de ontem, pra ser mais exata. Eu apenas disse que ela estava na minha casa. Aproveitei que ainda estava logada e procurei pelo perfil dos meninos. O primeiro que eu consegui encontrar foi o , depois cliquei em sua lista de amigos e achei os outros três. usava uma foto engraçada, e eu até cheguei a rir baixo quando a vi. Usava uma headband preta e branca, um óculos de mulher – o que não me agradou muito -, fingia ser vesgo e fazia uma careta qualquer. Mas nem assim ele conseguia ficar feio, isso só o deixava mais fofo. Infelizmente ou não.
Seu mural estava aberto para todos, por isso aproveitei para investigá-lo um pouco. Havia dezenas e mais dezenas de recados de menininhas lá. Uns do tipo “Oie. Vou dar uma festa no próximo sábado, o que acha de vir e trazer seus amigos?” e outros “Adorei a noite passada, quero te ver outras vezes. Já estou com saudades.” Isso me fez ficar furiosa. Sim, eu estava com ciúmes, e a única vontade que eu tinha era a de pegar uma por uma daquelas garotas pelo cabelo e arremessá-las de um precipício. O que há de errado comigo? Voltei para a minha timeline com pressa, pois seria tortura demais ficar lendo todas aquelas coisas, mesmo que eu quisesse continuar. Eu precisava parar de ser tão neurótica. Nunca fui assim, e não vai ser agora que eu vou começar com isso.
Depois de passar os olhos por toda extensão da página em busca de algo interessante e que me distraísse, notei que Anala mudara seu relacionamento de “solteira” para “em um relacionamento sério”. Sim, e eu ganhei uma viagem de sete dias paga para as Bahamas pra comemorar o meu casamento com o Johnny Depp. Isso era tão impossível quanto o Michael Jackson ressuscitar e sair por aí cantando thriller. Anala simplesmente não nascera pra namorar. Por isso, eu tive certeza de que provavelmente, daqui uma semana, aquela atualização já estaria de volta ao “solteira”. E principalmente enquanto a lista existir.
- Anala tá namorando. – Eu comentei com ainda mexendo em meu facebook, e postando coisas sem nenhum motivo aparente.
- Entra no site da lotérica pra mim? – Ela pediu calma, experimentando meu casaco de couro preto e se olhando no espelho.
- Pra que? – Perguntei sem entender.
- Porque se ela começou a namorar sério, eu, provavelmente, devo ter ganhado em algum sorteio. – Respondeu-me dando de ombros e eu ri. – E olha que eu nem jogo. – Balançou sua mão de forma debochada.
- Vai que ela resolveu se acertar... – Falei e nós duas gargalhamos alguns segundos depois.
- Eu esqueci meu coturno aqui também? – quis saber enquanto se enfiava nos fundos do meu armário tentando achá-los a todo custo.
- O que você não esquece aqui? – Minha vez de perguntar. – Não são aqueles ali? – Apontei para alguma coisa que eu não conseguia decifrar direito, mas chutei que fossem os coturnos, que estava atrás da porta. Ela os pegou, feliz, e me agradeceu apenas com a movimentação de sua boca, sem emitir som algum.
- Elas já fecharam a lista. – Eu disse, sabendo que ela logo captaria sobre quem eu estava falando.
- Você já viu? – sentou-se na cama ao meu lado.
- Já. – Eu disse sem mais delongas. Precisa contar sobre quem estava lá. Certamente aquilo não a agradaria nem um pouco.
- O tava lá?
- Não. – Agradeci novamente a Deus. – Mas...
- Eu já sei. – Ela disse normalmente. – Eu vi o nome do lá. – Suspirou rapidamente. – Mas quer mesmo saber? Eu não me importo muito. – Deu de ombros, e seus cabelos curtos se balançaram com o gesto. – É claro que eu preferia que ele não estivesse lá, mas ele não é nada meu. Se ele quiser comê-las ou qualquer coisa do tipo, ele que o faça. O pinto não é meu mesmo. – Eu ri com tal pensamento.
- Eu queria muito pensar do mesmo jeito que você. – Deixei o computador de lado, e a encarei. Apoiei meu cotovelo sobre a mesinha, para que eu pudesse descansar minha cabeça sobre a minha mão.
- Eu só acho estranho que elas não tenham colocado os outros meninos lá. Eles são lindos e é exatamente isso o que elas querem. – pensou alto. – Isso é muito estranho. – Concluiu.
- Katrina disse que não quer se meter entre a minha amizade com eles, depois do que... Você sabe. – Fechei os olhos. – Ela disse que não pretende me machucar outra vez. – Passei uma mão pelos meus cabelos os levando para trás.
- Talvez seja por isso. – Ela deu de ombros outra vez e eu me levantei. Eu também não via muito sentido nessa explicação, até porque o estava incluído no “eles” e mesmo assim, continuava na lista. Mas eu não me perturbaria com aquilo. Não vou ficar me remoendo com coisas que nem aconteceram. Só quero aproveitar a porcaria do momento uma vez na minha vida.
- Minha vez no banho. – Avisei, entrando no banheiro assim que abriu a porta, enrolada em sua toalha. Esta quase escapou de suas mãos com meu movimento brusco.
Enquanto eu tomava meu banho, secava seu cabelo e vasculhava em minha maleta alguma maquiagem, já que ela acabara conseguindo encontrar algo para vestir depois de várias tentativas frustradas. De nós, ela era a que mais enrolava nesse requisito. Se ela tivesse três opções de roupas, provavelmente escolheria a quarta. Ela não se decidia fácil, e às vezes, de última hora, quando todos achavam que ela finalmente tinha tomado a decisão, ela mudava tudo. Mas é bem persistente, e só costuma desistir nos últimos segundos, o que nem sempre é algo bom. A quem eu quero enganar? Isso nunca era algo bom. E como sempre, ela foi a última que terminou de se arrumar, mas creio que tenha valido à pena, pois ela estava mais linda do que costumava ser. Seu cabelo curto mantinha uma franja lisa e o resto desajeitado, os fios desordenados. Usava a blusa decotada bege, o shorts de cós alto jeans extremamente curto, mas ao mesmo tempo, tentador, a meia calça preta, seus coturnos também pretos, assim como o casaco de couro e, para finalizar, o meu colete de pêlos que ia até o cumprimento do seu shorts. Seus olhos estavam contornados com um lápis escuro e forte, e isso só realçava mais o azul que eles continham. Malditos olhos azuis! Ela parecia uma boneca frágil de porcelana, eu sentia que ela poderia trincar a qualquer momento, e sua pele branca só fazia com que eu achasse isso cada vez mais.
usava pouca maquiagem. Na verdade, ela só colocara um pouco de blush meio rosado e um batom vermelho que dava aquela diferença no seu visual e só servia para deixá-lo mais surpreendente. E eu... Bom, serei modesta, e direi que eu também estava linda. Pelo menos, as coisas que eu vestia me agradavam. Como eu disse, os acessórios dariam uma levantada no que eu usava, e foi exatamente isso o que eles fizeram. Eu coloquei um colar grosso e prateado sem muitos detalhes, um bracelete da mesma cor e uma bolsa de couro preta escolhida por , qual eu adorava, mas raramente usava. De maquiagem, o que se juntara a minha pele fora apenas o delineador preto e o blush rosado igual o que a usara. E é claro, o meu Carpie Diem que fazia com que qualquer um sentisse meu cheiro a quilômetros de distância. Um bom rastreador, se quer saber. As pessoas vão pensar duas vezes antes de me sequestrarem.
- Que horas são? – perguntou jogada em minha cama. Olhei para o meu relógio de gato grudado na parede. Não faço ideia do porque tenho um relógio de gato, mas é tão bonitinho quando ele balança sua calda que eu não vi problemas em deixá-lo lá desde que esse não me incomodasse. Eram 2:45. disse que chegaria às 3 horas. Senti meu coração dar um pulo, mas eu rapidamente o domei.
- Quase três. – Avisei-a e ela bufou.
- vai se ferrar. – disse esticando os pés e os apoiando em minha parede. – Não eram as mulheres quem se atrasavam? Babacão.
- Mas ele ainda não tá atrasado... – Eu a avisei novamente e ela me lançou um olhar mortal que fez com que eu levantasse minhas mãos inocentemente.
- Você pode estar a fim dele, mas eu ainda fico com a razão.
- Quem sou eu pra discutir com a ? – Brinquei e me joguei em cima dela que se contorceu toda. estava sentada na cadeira do computador e mexia em alguma coisa com atenção.
- O que você tá fazendo? – Perguntei, continuando deitada em cima de que aceitara sua condição e não se mexia, apenas tentava olhar para de cabeça para baixo.
- Só vasculhando. – Disse entediada. – Sabia que sonhar com um elefante te perseguindo significa mau presságio? – Ela estava realmente interessada.
- E você sonhou com um elefante correndo atrás de você? – quis saber, achando aquilo a coisa mais bizarra.
- Não.

Capítulo 07

Quando eram três e alguma coisa da tarde, minha mãe apareceu em meu quarto e nos avisou de que dois lindos meninos nos aguardavam do lado de fora. Eu gelei. Olhamos umas pras outras e fomos em direção à escada calmamente, fingindo que não queríamos sair correndo por ela. Eu pensava até na possibilidade de usar o corrimão como escorregador. Assim que chegamos à porta, eu travei. Precisei que me ajudasse a voltar a andar. Botamos o pé no carro e logo se pronunciou vendo que se preparava para falar alguma coisa:
- Nem comece. – Ele a acusou. – Quem atrasou foi ele. – Apontou para o que estava sentado ao seu lado. Este lhe mostrou o dedo do meio educadamente, depois sorriu simpaticamente para nós.
- Vocês estão lindas. – comentou, mas era nítido que seu olhar estava preso em . Nitidamente nítido. Mas eu agradeci mesmo assim, e as outras também. mal conseguia respirar, mas se esforçou para liberar um “Ah.”. Já era mais do que suficiente pra ele, certamente.
- Tudo bem, não vou culpá-lo... – Ela sorriu cínica. – Amiga. – Fez questão de enfatizar o último “a” da palavra. Todos começaram a rir.
- A gente vai pra casa de quem? – perguntou se apoiando no banco do e no do já que estava sentada no meio de nós duas. Eu não gostava de sentar no meio. Pra começar, eu não me sinto confortável no meio, alguma coisa dentro de mim me diz que o melhor lugar é sempre o assento atrás do motorista. Sem contar que em um acidente de carro, quem senta no meio tem muito mais chance de sair voando pelo pára-brisa, levando em consideração de que não há nenhum banco em sua frente. E finalizando minha teoria de melhor posição dentro de um carro, eu nunca consigo achar o cinto de segurança de lá. Ou está enfiado em algum vão, ou simplesmente não existe.
- Pra minha e do . – respondeu, ligando o carro e virando na primeira esquina que encontrou.
- Vocês moram juntos? – Me interessei. Acho legal quando dois amigos dividem a mesma casa. Eu gostaria de fazer isso com as meninas. Na verdade, desde pequenas, nós sempre cogitamos essa possibilidade. Cada uma teria seu quarto de uma cor diferente, e cada uma poderia escolher um animal para criar. Imagine agora uma casa com três meninas desleixadas, sem o acompanhamento de um adulto, com um Collie, um Golden Retriever e um Spitz Alemão.
- Sim. – Ele disse me olhando pelo retrovisor do carro. Falando no carro, eu nem tinha reparado a sua marca. Estava tão empolgada em estar saindo com eles, que isso não me chamou tanta atenção. Qual era a cor mesmo? Grudei minha cara na janela e tentei enxergar a cor da porta. Era preta. Muito bom, porque eu costumo detestar carro prata ou branco. – A casa é mais minha do que dele, mas ele foi morar comigo pra me fazer companhia. – Explicou e eu fiz um som estranho que simbolizava o quão fofo eu achava aquela atitude.
- E por que você mora sozinho? – Perguntei cada vez mais curiosa.
- Longa história. – Ele suspirou e permitiu que uma de suas mãos que segurava o volante, coçasse sua nuca. Percebi que ele ficara meio desconfortável em tocar no assunto, por isso tratei de não prolongá-lo por enquanto. Eu disse por enquanto, só pra constar. Eu ainda queria saber o motivo. – Mas é bom o morar comigo. – Ele acrescentou, voltando ao normal. – A mãe dele sempre passa lá em casa pra dar uma ajeitada nas coisas. – Ele riu feliz.
- Eu queria poder morar sozinha. – disse pensativa, ainda apoiada entre os bancos, mas com a cabeça descansando em seu braço direito.
- Morar sozinho é um porre. – avisou-a. – Pra você ver meu desespero, eu tive que convidar o a vir morar comigo. – Brincou.
- Coitado do , ele é tão amor. – disse fazendo uma cara de pena que me fez rir de leve. Percebi que o estava meio calado demais, por isso lhe dei um empurrãozinho.
- E você, , por que não foi morar com o ? – Perguntei, acordando-o de seus pensamentos.
- Você é louca? – Ele soltou mais como uma indignação do que uma pergunta. – Já tenho que aturar isso de manhã, você quer também que eu passe o resto do dia com ele? – Entrou no clima brincalhão em que estávamos. – Eu não conseguiria nem tomar banho direito, vivendo com a possibilidade de ele entrar no banheiro às escondidas. – Estremeceu. Nós gargalhamos só em criar a cena em nossas mentes.
- Eu sei que você adora quando eu faço isso. – falou maliciosamente e passou uma mão sobre a coxa do lentamente. Isso só fez com que eu risse mais, principalmente quando o arrancou a mão dele de lá com nojo e depois se abanou.
- Acho que se eu morasse em uma casa sozinha, eu provavelmente a encheria de cachorros. – Minha vez de falar. – Tudo pra compensar meus anos perdidos. – Suspirei pesarosa.
- Você nunca teve um? – perguntou, assim que paramos em um sinal.
- A mãe dela não gosta de animais. – respondeu por mim.
- Não é bem assim... – Eu tentei consertar a frase dela que fez minha mãe parecer uma odiadora da natureza. – Ela só tem alergia à maioria deles. – Dei de ombros, tentando soar normal.
- Ela tem alergia a peixe? – perguntou sarcástica e eu tive que lhe lançar um olhar bem no estilo “cala a boca”. E funcionou.
- O tem um gato, se isso te faz sentir melhor. – avisou-me e eu sorri mais empolgada que antes.
- Eu amo gatos. – Apertei minhas próprias bochechas.
A conversa rolou por mais algumas quadras. Todos estavam bastante enturmados, e continuamos assim mesmo quando o carro parou e estacionou na garagem de uma casa qualquer.
- O e o estão espalhados por aí, por isso não se assustem se trombarem com um dos dois. – avisou em meio às risadas, descendo do carro, assim que o desligara. Com isso, eu finalmente conseguira ver como ele estava vestido. Ele usava uma camiseta branca que estampava aquela coroa do “keep calm”, mas de ponta cabeça, e a seguinte frase: “Now panic and freak out”. Eu acabei não aguentando e rindo, mas ninguém pareceu notar, ou apenas acharam que ainda estava rindo da piada estúpida que o contara. Usava também um casaco preto com pelos no gorro – nada muito gay, pelo contrário -, uma calça da mesma cor, all star azul escuro, e uma toca que deixava alguns fios do seu cabelo à mostra. Pra resumir, ele estava tão perfeito quanto ficava com o uniforme.
Entrei na casa em silêncio, logo depois que todos já tinham entrado. A garagem era simples. Era grande o suficiente para caber um carro, que eu descobrira ser um Uno muito simpático, e mais algumas coisas como ferramentas. Era inteirinha branca, mas creio que por conta do tempo e da sujeira, acabara se tornando meio acinzentada. A portinha que havia lá dava direto pra cozinha. A cozinha também era simples e até um pouco parecida com a da minha casa. Havia duas pequenas bancadas com pia, alguns armários tanto em cima quanto embaixo destas, e uma mesa redonda marrom, que ocupava facilmente oito pessoas. A geladeira branca ficava do lado de outra porta que dava a um lugar desconhecido por mim. A cozinha também era toda branca, e o que dava cor ao local eram as mesas de madeiras e o pequeno fogão prata e preto. Tente falar “prata e preto” várias vezes consecutivas sem se embaralhar. Eu adoro essas palavras que nos complicavam a vida quando juntas.
- Aqui como vocês podem notar é a cozinha. – nos mostrou com obviedade e balançando a mão de qualquer jeito pelo lugar todo. Depois passou pela porta desconhecida e nos apresentou um pequeno corredor que nos levava à porta de entrada, a uma escada que daria até os quartos, e a sala. Também tinha uma mesinha por ali com um telefone e um vaso com flor. Achei fofo e ri. Pensei na hora que a mãe do deveria tê-la posto lá. Espalhados pela parede era possível encontrar vários quadros, alguns com fotos do e sua família e outros com as do . E adivinhe só? O lugar também era branco... Assim como a sala e, provavelmente, o resto da casa. Não sou muito chegada em lugares com poucas cores, mas eu abriria uma exceção, já que aquela casa parecia ser bastante acolhedora.
Uma cabeça surgiu na frente do sofá vinho que estava de costa para nós. Era . Ele nos cumprimentou animado, mas não se deu ao trabalho de levantar. Numa poltrona tão vinho quanto o sofá, cochilava desleixado apoiando os pés sobre uma mesinha de centro. não aguentou a tentação, por isso correu até a parte de trás da poltrona e, com cuidado, empurrou-a para frente sem a deixar tombar, fazendo com que acordasse assustado e quase caísse da tal.
- Filho da puta. – Ele se recompôs e deu um tapa na cabeça do , que saiu correndo para perto de nós. – Ah... – Ele notou nossa presença e sorriu simpático e meio sem jeito por termos o visto dormindo por um curto período de tempo. – Oi, meninas. – Dessa vez ele estava sem óculos para minha felicidade e da , e eu vi que seus olhos eram tão azuis quanto os dela, mas um pouco mais pretensiosos e misteriosos.
- E quando vocês pretendem começar a cantar? – perguntou na cara de pau.
- Quando a chegar. – respondeu se atirando no resto inocupado do sofá onde se encontrava. Eu o segui, mas preferi me sentar no chão, com as costas apoiada na parede. , e fizeram o mesmo que eu, mas foi um pouco mais além e se deitou.
- Ela já chegou. – falou enquanto se espreguiçava de um jeito quase tão contagioso quanto bocejos.
- E onde ela tá? – Ele quis saber.
- Sei lá, no banheiro? – Disse sem ter certeza. – Eu não implantei um rastreador na minha namorada. – Avisou levantando-se e indo na direção da cozinha.
- Ainda. – acrescentou e forçou uma risada.
Então estava na casa. havia me contado um pouco sobre ela, e disse que era super amável e que eu a adoraria. Espero que seja verdade. Se ela fosse parecida com o , eu realmente gostaria dela, porque eu o acho uma gracinha. Logo que retornou para sala, se levantou e perguntou:
- Alguém a fim de beber água? – Eu levantei a mão assim que este terminou de falar e, em seguida, já estava de pé ao seu lado, o acompanhando até a cozinha. Queria aproveitar para perguntar se ele tinha conseguido guardar a letra da música pra . Mal podia esperar pra ver a reação dela. Sorri.
- Qual o andamento das coisas, sargento? – Perguntei divertida quando chegamos à cozinha e ele riu alto.
- Positivo e operante. – Comentou animado. – Consegui aprender a letra bem rápido, e os acordes nem são tão complicados assim... – Conforme ele falava, abria um armário e pegava dois copos. Entregou um a mim, e foi até a geladeira pra ver se encontrava uma garrafa de água. Retirou a tampa e derramou o conteúdo no meu, e depois, no seu copo. – Acho que eu vou me sair bem. – Sorriu e eu dei um gole em minha bebida refrescantemente gelada. O clima estava meio frio, sim, mas eu adoro comer e tomar coisas geladas em dias frios. Quando nevava, eu costumava sempre tomar potes e mais potes de sorvetes até passar mal. Manias de pessoas anormais. Mas que o sorvete ficava mais gostoso no inverno, ficava.
- Você vai tocar no violão? – Aproximei-me dele um pouco e repousei meu copo sobre a bancada, agora que eu já tomara tudo. Ele estava prestes a me responder, quando senti alguma coisa peluda e bem estranha roçando no meu pé. Meus olhos se arregalaram e como impulso, eu gritei alto e me joguei em cima do . Como ele não era a pessoa mais avançada no requisito equilíbrio e reflexo, isso acarretou em uma queda iminente. Eu ainda estava sobre ele com os olhos arregalados, assim que ele resolveu perguntar o que estava acontecendo.
- O que foi isso? – Sua voz saiu em pausas e cautelosa.
- Não tenho ideia. – Eu sussurrei em resposta. Olhamos para o lado ao mesmo tempo e vimos um ser alaranjado nos encarando como se nada tivesse acontecido.
- Marvin. – Ele disse bufando e eu comecei a rir descontroladamente com a cara enfiada em seu peito. Desculpa se eu acho engraçado cenas de pessoas caindo, mesmo que a pessoa em questão seja eu propriamente dita.
- Marvin... – Escutei uma voz feminina e desconhecida acusando o pobre gatinho e o pegando no colo em seguida. Supus que era , e, como em um passe de mágica, acabei acertando. Olhei para cima e vi um rosto surpreendentemente simpático estendendo uma mão em minha direção. Aceitei educada e agradeci após me levantar. – Desculpe por isso, tenho certeza de que ele não quis assustá-la. – Ela dizia encarando o gato e acariciando a cabeça deste que fechava os olhos conforme ela o fazia. tinha uma beleza diferente. Seu rosto era meio oval e ela tinha tudo para ser razoalvemente gordinha, mas não era. Não conseguia ver direito, por causa da roupa, mas era nítido que estava em forma. Não digo com o corpo como da ou , mas um corpo legal. Seu sorriso era acolhedor e seus dentes bem brancos. Sua pele era clara, e tanto seus olhos quanto seus cabelos eram o oposto, bem escuros. O comprimento de seu cabelo ia até os seios, aproximadamente.
- Não queria assustar... Já disse que esse gato me odeia. – também já estava de pé e recomposto e saía de perto do animal que descansava inocente sobre os braços da garota.
- Cala boca, . – Ela mandou, rolando os olhos. – Marvin é um amor. Ah... – Ela sorriu sem graça, mas sem deixar de ser fofa ou simpática por um segundo se quer. Agora entendo o que quis dizer. Não tem como não gostar dessa menina. – Prazer, . Ou , como preferir. – Estendeu sua mão novamente, mas dessa vez, para que pudesse me cumprimentar.
- ou só . – Retribuí o aperto e sorri não tão simpática quanto ela por ser incapaz de tal exuberante ato.
- Ah sim, ouvi muito ao seu respeito. - avisou e agachou-se para repousar no chão frio o gato que quase dormira em seus braços acolhedores. Já viu alguém se agachar de uma maneira elegante usando jeans? Pois então, ela conseguira tal feito.
- Espero que bem. - ri e ela me acompanhou, piscando suavemente. Parecia que as coisas aconteciam com mais calma ao seu lado. Ela era como o ponto ápice do feng shui, o centro do relaxamento, o encontro das boas energias. E o mais incrível é que cheguei a todas essas conclusões em menos de cinco minutos de conversa. Imagino o que os pais dela acham... Devem aparecer no meio da noite, no quarto da menina, pedindo para dormirem ao seu lado.
- Com certeza. - Sorriu. - Os meninos parecem ter gostado de você. Confesso que tenho ciúmes do ... - Aproximou-se de mim e sussurrou perto do meu rosto, como se estivéssemos sendo vigiadas, assim como em filmes policiais. - Mas você e suas amigas parecem ser adoráveis. - completou seu julgamento. - Só não quero ter me enganado. - disse por fim, e eu não saberia dizer se deveria levar a sério ou na brincadeira. Melhor não arriscar.
- Eles são uns amores. - Comentei. - Aquela escola estava precisando de umas pessoas melhores. E não, não se arrependerá. - Levantei meu dedo mindinho – Pinky promise. - Rimos e ela cruzou nossos dedos.
- Vamos? - Ela me chamou indo até a porta e eu a acompanhei.
Quando cheguei à sala, todos conversavam animadamente. com , e , e mostrava alguma coisa em uma gaveta qualquer para o . Estranhei o fato de ter trocado tão poucas palavras com o , mas preferi ignorar, afinal ninguém tem assunto 24 horas por dia. caminhou até seu namorado, o abraçou por trás e cumprimentou a todos no círculo, eu, por outro lado, fui até os meninos da gaveta e fiquei de joelhos ao lado dos dois.
- O que vocês estão fazendo? - perguntei curiosa.
- Não interessa. - respondeu sério. Segundos depois, começou a rir. - Brincadeira.
- Nossa, você é tão engraçado... Jim Carrey deve te invejar. Meu Deus. - falei o mais sarcástica possível, fazendo rir alto e chamar a atenção dos outros.
- Mas e então... - se pronunciou de um jeito estranho, como se quisesse acabar com algum assunto desconfortável. - A já apareceu, não vão tocar, não? - perguntou com certa pressa estampada em sua testa.
- Verdade. - concordou com ela. - Nós vamos lá em cima preparar os instrumentos, e vocês, meninas, esperem aqui na sala. - Avisou assim que desocupou sua poltrona e fez um gesto indefinido que logo foi compreendido pelos outros garotos, já que estes o seguiram até as escadas. Enquanto passava por mim, cutucou-me e eu devolvi com um olhar que lhe refletisse apoio. Eu estava mais ansiosa que qualquer um naquela casa. Queria a cima de tudo, ver minha amiga feliz. E falando em amiga feliz, ela não parecia nem um pouco animada, pelo contrário, estava com cara de bunda, se é que é possível ficar com tal expressão facial.
- , posso falar com você? - Perguntei quando estava próxima o suficiente dela, e acenei com a cabeça até a escada. Ela entendeu e seguiu-me em silêncio. Um silêncio insuportavelmente insuportável. - Aconteceu alguma coisa? - Quis saber assim que toquei o corrimão.
- Não. - Ela disse sem enrolar, mas estava na cara que era mentira.
- Aconteceu sim. O que foi?
- Me diga você. - Falou em um tom acusatório e sarcástico. Cruzou os braços e deixou apenas sua sobrancelha esquerda arqueada. Quando sua sobrancelha esquerda arqueava queria dizer que estava indignada com alguma coisa. Eu só não conseguia entender com o que.
- Como assim? - perguntei sem entender absolutamente nada. Embebedaram a menina durante o tempo em que eu estive na cozinha ou o que?
- Não se faça de boba, . - rolou os olhos e riu cínica.
- Mas o que foi que eu fiz? - quase gritei. Só não o fiz, porque não queria que as outras duas viessem ver o que estava acontecendo. Precisava esclarecer as coisas com .
- O que foi que você fez? - Riu mais uma vez. - Sério, eu esperaria isso de Anala e Katrina, mas de você? - Suspirou irritada. Por um minuto, eu jurava que seus olhos azuis estavam marejados, mas logo após uma piscada, eles já estavam normais. Apenas um pouco avermelhados. - Isso foi escroto. - Finalizou. Meus olhos estavam arregalados. Simplesmente não entendia do que ela estava falando. A única definição sensata que encontrei para aquela situação foi o uso de fortes entorpecentes. Só isso explicava as suas atitudes.
- Larga de ser babaca, . Eu realmente não sei do que você tá falando. - Enfatizei o “realmente”. - Que tal me ajudar já que eu sou tão escrota assim? - Agora quem estava irritada era eu. Desde que pisei o pé aqui, só pensei em como eu queria vê-la feliz e tudo mais, aí, do além, ela começa a me tratar com ignorância? Te amo, , mas nem o meu amor por você vai me deixar com menos raiva.
- Você quer mesmo saber? - Encarou-me cética. - Por que não vai perguntar pro já que vocês estão tão amiguinhos?
- O que tem o ? - Os fatos não se juntavam na minha mente.
- Eu vi quando vocês dois estavam deitados no chão da cozinha, . Eu fui até lá pra pegar água pra e me deparo com aquela cena. Sem contar que toda hora você vai puxar assunto com ele, e ficam nessas de cutucãozinho, sorrisinho... Você acha que eu sou cega? - Suspirou - Eu só queria saber... Por que você não me contou logo? - Balançou a cabeça, incrédula - Eu realmente acreditei que você estava gostando do , mas, pelo visto, foi uma bela encenação. Você deveria seguir carreira. - Terminou de falar e se virou para voltar a sala. E teria conseguido se eu não tivesse a puxado pelo braço.
- Eu não acredito no que eu acabei de ouvir. - Desabafei. - Você acha mesmo que eu faria isso com você? Pelo contrário, , eu estava tentando te ajudar. - Enfatizei o “te”. Como ela podia pensar uma coisa dessas de mim? Eu... Não... Acorda pra vida real, . - Só conversei com ele por você. Eu jamais ficaria com ele, e não, eu nunca menti sobre o que eu sinto, nada foi atuação. Se você realmente me conhecer como diz, vai saber que estou falando a verdade. - Coloquei minhas mãos sobre a minha cabeça. - Mas quer saber? Ache o que quiser. A partir de agora não vou ajudar em mais nada. - Bufei e saí andando para a cozinha, nem esperei um novo argumento vindo dela. Não estava a fim de encarar e escutar mais ninguém. Estava indignada. Completamente indignada.
Eu só não entendia uma coisa: Como ela cogitou a possibilidade de que eu estava afim do ? Se eu estivesse, ela obviamente já estaria sabendo. Sem contar que eu não a trairia de tal forma. Eu sei o quanto ela se interessou por ele, e depois do que me aconteceu alguns anos atrás, eu não teria coragem de traí-la de jeito nenhum. E nem porque era ela, eu não o faria com absolutamente ninguém. Eu sei o quão terrível a sensação de troca pode ser. Assim que cheguei à cozinha, peguei meu antigo copo que estava na pia e o enchi com água até quase transbordar, tentando me acalmar em vão. Eu não julgaria por ela ter pensado aquilo de mim, mas eu estava mesmo magoada. Estava magoada pelo fato dela ter duvidado da sua melhor amiga. Ela era praticamente como uma irmã... Irmãs desconfiam umas das outras dessa maneira? Eu estava com tanta raiva no momento que senti vontade de chorar, mas não o fiz. Apenas respirei fundo, sentindo minha garganta se contrair por causa do nó que havia se formado na mesma. Permiti que a água gelada seguisse seu caminho pelo interior do meu corpo com a condição de que levasse aquele amontoado de palavras amarguradas consigo.
Eu já não me importava mais com o pequeno show particular que me aguardava, e só não voltei para casa, porque queria passar meu tempo com o . E não seria uma infantilidade que me impediria. Repousei o copo em sua antiga posição e notei que uma cabeça me analisava, recostada no batente da porta.
- Oi, . - sorri meio desanimada.
- Estamos todos prontos esperando por você. - avisou-me, enquanto esticava sua mão em minha direção para que eu a segurasse e o acompanhasse. Assim o fiz.
- Desculpe se eu sou um atraso de vida. - brinquei rindo de leve.
- Perdoada. - finalizou rindo e começamos a subir as escadas.
O quarto onde eles, provavelmente, ensaiavam, era razoavelmente pequeno. Não era muito espaçoso, mas tinha tamanho o suficiente para acobertar oito adolescentes, seis instrumentos diferentes - incluindo uma bateria toda equipada -, e um gato. estava com seu baixo em mãos. Um baixista... Quanta graça. Os baixistas costumam ser meus favoritos na maioria das vezes, estou vendo que aqui não seria diferente. Ele ficava tão charmoso quando fitava seu aparelho procurando pela posição mais confortável... e eram guitarristas, e logo descobri que era o baterista. Eles formavam uma bela banda, literalmente. Pedi a Deus para que o tanto de beleza que eles tinham fosse compatível com os seus devidos dons para a música. Olhei para o lado e encontrei , e respectivamente sentadas em puffs coloridos dispostos no canto do cômodo. Fui até elas, mas preferi me sentar o mais longe possível de - a qual começara a me ignorar. Rolei os olhos e passei a dar atenção para quem merecia, como por exemplo, meu baixista. Meu... Já passei para a fase de pocessão. Ele me encarou de volta e sorriu tanto com seus lábios, quanto com os olhos. Como de costume, eu quase desmaiei.
- Primeiro nós vamos tocar duas músicas nossas. - avisou. - All About You pra minha namorada... - Ela sorriu pra ele completamente extasiada e maravilhada. Eu não tive como me conter e acabei sendo contagiada pela tal, sorrindo por achar aquilo tudo a coisa mais fofa do mundo. - E depois... E depois qual mesmo? - perguntou perdido. Todos rimos.
- O bom é que vocês sabem bem o que vão tocar. - brincou.
- Foi apenas um problema técnico. - disse como se fosse muito culto. Eu ri.
- Hypnotised? - disse como quem não quer nada, e estalou os dedos como se tivesse se lembrado de algo surpreendentemente importante.
- Hypnotised. - Concluiu satisfeito. fez questão de levantar só para lhe dar um tapa. Rimos mais uma vez. Meu pequeno problema com a já nem me afetava mais. Eles conseguiam fazer com que eu me desprendesse de minhas preocupações com aquelas brincadeiras idiotas que, normalmente, tinham tudo para serem sem graça.
Cada um se ajeitou em seus respectivos lugares, e eu apoiei minhas costas na parede gelada para poder prestar atenção nos meninos. Meu coração palpitava um pouco mais acelerado do que o costume, e meus olhos só se prendiam a uma única pessoa. De repente, bateu suas baquetas uma na outra três vezes consecutivas, e eu pude escutar a voz do ecoar pelo quarto.
- I... Feel like I’ve been here once before, you threw my bags out through the door and in the road. - Reparei rapidamente que o cantava calmo e sem olhar para frente. Sua voz era a coisa mais maravilhosa que eu já ouvira em toda a minha vida. Eu sei que parece que eu exagero em certas coisas, mas dessa vez eu estava sendo puramente sincera. Era uma voz grossa e gostosa de ouvir, era como se ela fizesse carinho em seus tímpanos ao mesmo tempo em que os arranhava. Não consegui não sorrir com as primeiras frases da música. Eu nem me preocupei em analisar a reação das outras meninas, mas pelo silêncio que acompanhava a canção, julguei que estavam tão encantadas quanto eu. estava muito concentrado e dedilhava em seu baixo com muita precisão. Suspirei.
- And I try to compromise but you kept telling me all these lies, and now I don’t get to say my last goodbyes. - Agora foi a vez da voz do eclodir no local. E eu confesso que fiquei meio indecisa sobre quem tinha a melhor corda vocal. Sua voz ao cantar ficava bem mais fina do que a do , mas a mistura com seu sotaque britânico delicioso deixava tudo uma junção linda. O jeito como cantava alegrava qualquer um por mais triste que a música fosse. Olhei para o lado de relance. estava tão orgulhosa do namorado e sorria para esse com tanta... Admiração, que eu só quis abraçá-los. Eles ficavam tão meigos juntos que chegava a afetar as pessoas em volta. Ao contrário do , o cantava olhando para frente. Para frente lê-se para , é claro. Decidi largar os dois em sua pequena bolha amorosa, e voltei a encarar aquele que me interessava. estava bem menos tenso do que na primeira estrofe, mas ainda não havia tomado coragem para lançar seu olhar curioso para outros lugares diferente do seu baixo. e continuaram nesse revezamento até o final, e suas vozes só se confundiram em alguns pequenos trechos como, por exemplo, no “You had me hypnotised” - frase qual se encaixava muito na minha vida nessa última semana. Eu estava completamente hipnotizada por ele.

Capítulo 08

A música acabou e o silêncio prevaleceu. finalmente achou que fosse hora de reparar no mundo à sua volta e me encarou. Eu sorri abertamente com todos os meu dentes à mostra, e só não saí correndo e pulei em cima dos quatro, porque estava meio desnorteada. A banda deles era divina. A música, o som, a mistura de instrumentos, de vozes, de batidas... Tudo. Irrevogavelmente tudo. foi a primeira que conseguiu exprimir parte dos seus sentimentos.
- Vocês são fodas. - Foi a única coisa que saiu de seus lábios sorridentes.
- Pra caralho. - deixou escapar, e eu tive que me esforçar para conter uma risada. Ela detestava falar palavrão, mesmo que sempre o fizesse quando estava comigo e . Sua expressão era estranha, e eu não conseguia me decidir entre abismada e maravilhada.
- Olha... - recuperei-me de toda aquela empolgação e soltei. - Eu não sei se vocês já fizeram um CD, mas se a resposta for negativa... - balancei a cabeça em reprovação e indignação. - Vocês estão perdendo o maior tempo do mundo e são um bando de imbecis. - concluí e eles gargalharam, assim como eu e as meninas também.
- Nossa, eu achei que vocês não tinham gostado. Sério. - desabafou aliviado.
- Como? - Nós retrucamos ao mesmo tempo. - Vocês são perfeitos juntos. - completou. Parece que ela também havia se desprendido do nosso desentendimento de alguns minutos atrás.
- Sério, eu ainda não acredito que vocês são tão bons e sem fama nenhuma. - balançava a cabeça inconformada. E tinha como não estar? Há tantas bandas péssimas, cheias de efeitos e batidas que falsificam tudo e fazem um super sucesso... O mundo realmente é injusto. Ou as pessoas que vivem nele é que são burras mesmo. Acho que a segunda parte faz muito mais sentido.
- Vocês nunca tocaram em algum lugar fora daqui? - perguntei.
- Já, algumas vezes... - relembrou, meio distante.
- Algumas poucas vezes. - concluiu.
- E vocês não tem um agente, empresário, seja lá como é que o cara que cuida de vocês se chama? - perguntou, apoiando sua cabeça em suas mãos.
- Temos. - respondeu. - Ele é um cara legal, mas... Por enquanto não conseguiu nada demais. - coçou os fios de cabelo da sua nuca. - Em todo caso, foi o único que acreditou em nós desde o começo. - disse e escutei pigarrear. - Ele e a . - rimos e ela sorriu, agradecida.
- Ele nos ligou esses dias... - começou a nos contar. - Marcou uma reunião e tudo mais, dizendo que tinha encontrado nossa oportunidade de ouro, e que se nos déssemos bem na audição, conseguiríamos coisas incríveis. - sorriu de lado. levantou-se e puxou dois violões, entregando um ao . , por outro lado, repousou seu baixo nos fundos do quarto apoiando-o em uma caixa de som. Depois foi até um puff que estava ao lado da bateria do e sentou-se lá, de frente para mim. Sorri para ele, que retribuiu prontamente. - Foi por isso que faltamos uns dias dessa semana. - explicou-nos e tudo se esclareceu repentinamente.
- É, mas até agora nenhuma notícia. - comentou meio decepcionado, e os outros três não estavam muito diferentes.
- Ele ainda não ligou? - perguntou preocupada com seus amigos.
- Não. - respondeu meio sem vontade. - Ele disse que ligaria até amanhã, esse foi o seu prazo, mas até agora... Nada. - abriu suas mãos vazias.
- Não se preocupem, meninos. - tentei os tranquilizar. - Talento vocês já tem, o que precisam é de um pouco de sorte. - sorri singelamente - E uma hora ou outra, ela vem.
- Mudando de assunto... - quebrou o clima meio decepcionante que estava se instalando no quarto. - Vocês ainda tem que tocar All About You. - avisou, e os outros pareceram acordar. A animação voltou como se nunca tivesse sumido de lá. Suspirei aliviada. Não queria vê-los chateados, me importava com eles e imaginava o quanto as coisas deveriam estar difíceis. Não é fácil receber um não aos seus sonhos, principalmente, quando é mais de uma negação. Eu, particularmente, já teria desistido. Mas eles eram fortes, e dava pra ver que continuariam buscando por aquilo que tanto almejavam.
e apoiaram os violões no colo e, dessa vez, quem fez a contagem foi o . e apenas assistiriam como eu e as meninas.
- It’s all about you, it’s all about you, it’s all about you baby... - e cantavam juntos e divertidos. decidiu que brincaria de mímico e começou a fazer gestos com as mãos, conforme os dois iam cantando. Nesse trecho, por exemplo, ele girava seu braço por todos os lados e apontava para a . Ela quase chorava de tanto rir com as caras que ele fazia, assim como eu e todos os outros - isso inclui e que começavam a dar curtos risos no meio da letra. Ele continuou com suas mímicas até onde pôde, mas o que mais me fez rir, foi quando ele levantou e entregou-se para a arte da atuação.
- And I’d answer all your wishes, if you asked me to... - puxou sua carteira do bolso traseiro da calça e de lá tirou algumas notas de dinheiro se aproximando de com elas. - But if you deny me one of your kisses... - chegou perto da mesma e fingiu que a beijaria. A garota, que não conseguia mais parar de rir, o empurrou para trás. Então começou a correr pelo quarto com uma cara de perdido, sendo acompanhado pela voz do : - Don’t know what I’d do. - Depois disso ninguém mais conseguiu cantar. Meus olhos estavam ardendo e minha barriga doía.
resolveu sossegar e sentou-se novamente em seu puff para poder desfrutar de seu momento também. Ficamos rindo por um bom tempo. Sempre que achávamos que finalmente conseguiríamos parar, alguém soltava uma risadinha que contagiava a todos e tudo retornava como num ciclo torturantemente cômico.
- Qual é o problema desse garoto? - perguntou ainda rindo um pouco com as mãos apoiadas na barriga.
- Eu preciso de ar. - implorou tentando ao máximo se controlar.
- E eu, de comida. - avisei. E todos voltaram a rir.
- Espera, espera, espera. - pediu antes que todos se levantassem e descessem. - Eu ainda quero tocar uma última música. - De repente, a fome que eu sentia resolveu tirar um descanso e optou por cooperar com . Eu estava quase me esquecendo disso e sorri de leve ao lembrar.
, e puxaram os puffs para onde nós estávamos sentadas para poder assistir o que o amigo pretendia fazer. ao meu lado, ao lado da , e ... Adivinhe só? Do meu lado é que não era. Pelo visto, o não havia contado pra ninguém mesmo, porque eles pareciam bastante curiosos em descobrir o que ele tramava. Me senti mal por ter contado para , mas a sensação logo se esvaiu de mim quando o ajeitou novamente seu violão, lançou-me uma piscadinha alegre e sapeca e depois começou a dedilhar os primeiros acordes de Walking After You. De princípio, nem notou de qual música se tratava, e eu pude perceber que sua irritação comigo voltara com força por causa da piscada que eu havia recebido. Ela só foi se tocar do que estava acontecendo quando ele começou a cantar.
- Tonight I’m tangled in my blanket of clouds. - Sua voz grossa ressoou como uma nuvem gorda e fofa em volta da minha cabeça. Cheguei até a sentir meus pêlos se arrepiarem suavemente. - Dreaming aloud. Things just won’t do without you, matter of fact. Oh, oh, oh... - Seus olhos se soltaram das cordas e foram direto para os dela, que estava estática sem saber o que fazer. Se ela não voltasse a respirar normalmente, correria grandes riscos de explodir. - I’m on your back. - sorriu e voltou a fitar o movimento dos seus dedos. Ele ficou nessa troca de olhares com ela até o final da canção. Era como se só existissem os dois ali.
me olhou de relance e sorriu sem mostrar os dentes como quem aprovava aquilo que via e escutava. Eu apenas retribuí com os olhos levemente marejados. Eu andava sensível demais pro meu gosto essa semana, não me permitiria chorar agora, nem mesmo depois dessa bela demonstração de afeto por parte do .
- If you walk out on me, I’m walking after you. - dedilhou os últimos acordes e levantou-se para repousar seu violão ao lado do de , como se esse fosse motivo suficiente para não ser forçado a visualizar a reação desencadeada por seu cover em . Eu ainda estava ressentida com a desconfiança dela pra cima de mim, mas não podia mentir... Eu estava feliz por minha amiga. Quem me dera ter um cara daquele cantando só pra mim. - Agora vocês já podem ir comer. - cortou meus pensamentos.
- Isso foi... Lindo. - falou por , já que esta ainda estava atônita. Parecia que estava processando os acontecimentos recentes em sua cabeça, juntando fatos com fatos e passando a compreender toda a verdade que a envolvia. Não era de menos.
- E eu estou ficando cada vez mais orgulhosa de vocês, meninos. - confessou, recebendo como resposta quatro marmanjos grunhindo um “nhaw” ou algo do gênero de uma jeito exageradamente gay. Percebi que começou a ficar meio tenso e preocupado quando viu que não pretendia dizer absolutamente nada e não exibia expressão alguma, pelo contrário, estava com o olhar distante e perdido em pensamentos. Todos nos levantamos - incluindo a alienada - e eu fiz questão de ir até o , apertar sua mão carinhosamente como quem dá os parabéns e sussurrar: - Ela gostou, só não conseguiu acreditar ainda. - ri baixo para que ninguém me notasse. O que foi meio falho, levando em conta de que o não desgrudava os olhos de mim, assim como eu não desgrudava os meus dele.

Saí de perto do , que soltou um sorrisinho feliz, e fui pra perto da pessoa mais adorável daquela casa - tirando a minha própria pessoa, é claro. Brincadeira. Quando eu finalmente fui começar um assunto agradável com o , senti alguma coisa puxar a barra da minha blusa tentando chamar o mínimo de atenção possível. parou por um instante, mas quando viu quem estava atrás de mim, resolveu continuar seu percurso para não nos atrapalhar. , , , e Marvin também seguiram seus caminhos.
- Desculpa. - foi a única coisa que escutei antes que nos enrolasse em um abraço apertado. - Desculpa, desculpa, desculpa. Sério, , eu sou uma estúpida. Me perdoa, pelo amor de Deus. - ela implorava com a cabeça enfiada no meio do meu emaranhado de cabelo. Retribuí o abraço e suspirei.
- Eu já tinha te perdoado antes, , mas isso não muda o fato de que você falou todas aquelas coisas pra mim. - respondi meio decepcionada. - Eu... - suspirei - Você realmente acreditou no que disse? - perguntei a afastando um pouco de mim para poder encará-la.
- Sinceramente? - perguntou e eu balancei a cabeça em concordância. - No meu momento de raiva, acreditei sim. Eu... Estava com ciúmes, você sabe melhor do que ninguém como eu fico. - ela já não conseguia mais me encarar. Seu olhar estava preso nos cruzamentos que as linhas da minha blusa faziam.
- E você deveria saber melhor do que ninguém que eu jamais faria algo como aquilo com qualquer pessoa que seja. - retruquei um pouco irritada. Pra ser honesta, minha irritação era praticamente imperceptível - para quem não me conhece. O que não era o caso da . Ela percebeu, por isso se retraiu um pouco.
- Eu sei, e me sinto horrível por isso. Não sei o que deu em mim, é só que... - suspirou inteiramente culpada. - Eu não sei. - subiu seu olhar novamente de encontro ao meu. - Me desculpa de novo. Eu só fui parar pra analisar a situação quando eu cheguei aqui. Simplesmente não imaginava você, justo você, fazendo aquilo comigo. E eu só fui entender tudo agora. - deixou um sorriso admirado escapar. - Foi você que contou, não foi? - perguntou sobre a música que o havia acabado de cantar.
- Foi. - também sorri, mas sem transparecer muita felicidade. - Olha, , eu vou fingir que nada aconteceu, tudo bem? Mas você vai ter que me prometer uma coisa. - pedi de coração. Não suportaria outra atitude de desconfiança vinda logo dela. Ela não emitiu som algum, como se esperasse que eu prosseguisse. - Você nunca mais vai fazer isso comigo.
- Nunca mais. - ela sorria, dessa vez verdadeiramente alegre, e me abraçou.
- Agora vamos lá embaixo porque eu tô mesmo morrendo de fome. - rimos e eu a puxei pela mão até a porta.
- ... - parou de se locomover por um curto instante. - Obrigada. - sorriu, agradecida.
- Acho que não é exatamente a mim que você tem que agradecer. - dei-lhe uma indireta, qual ela pegou logo de primeira. - Eu sei que a minha voz é maravilhosa... - brinquei e ela riu. - Mas confesso que o sabe usar a dele um pouquinho melhor.
Assim que pisamos no último degrau que nos restava, ela se virou pra mim e pediu que eu avisasse ao de que deveria encontrá-la no pequeno jardim na frente da casa. Entrei na cozinha e ele estava de costas pra mim enquanto procurava alguma coisa na geladeira.
- , tem alguém querendo falar com você lá fora. - apontei pela janela.
- Quem? - perguntou estranhando.
- Não sei... - rolei os olhos com tamanha lerdeza. - Vai lá e descobre. - ri e ele caminhou sossegadamente até o local apontado. conseguia ser mais desleixado do que mendigo em feriado. Saiu e simplesmente largou a porta da geladeira aberta, destruindo aos poucos o mundo, e deixando para que eu tivesse o trabalho de fechar. Antes que eu a fechasse, surgiu atrás de mim e a segurou.
- Você não tava com fome? - perguntou e eu tive que erguer minha cabeça para poder enxerga-lo.
- Eu tô com fome. - enfatizei bem o “tô”, o que fez com que ele risse baixo.
- Então pega alguma coisa pra você comer, porque isso é tudo o que temos. - avisou. Eu parei por um segundo para analisar as minhas opções de sobrevivência. Pão, pão mofado, dois potes com pasta de amendoim comemorando bodas de ouro, geléia de uva, de morango, de fruta não reconhecida cientificamente, manteiga light, queijo, presunto, uma panela com conteúdo não interessante de ser comentado e... Torradas. Não vi cabimento em guardarem torradas na geladeira, mas preferi deixar quieto. Eles não iam ao mercado, não?
- Como vocês sobrevivem assim? - questionei-o pausadamente ainda passando os olhos pelas prateleiras com cuidado só para verificar se não tinha passado nada batido.
- Ah... - coçou a cabeça pensativo - O sempre compra umas coisas pra comer, mas acaba em dois dias ou menos. - riu - Você não é a única que adora comer. - ergueu uma sobrancelha pra mim como se me desafiasse. - Sem contar, que a mãe do sempre nos traz almoço. - respirou fundo.
- Sempre... Sempre? - perguntei sem acreditar muito. Se eu fosse ela, não ficaria levando almocinho pro meu filho e pro seu amigo folgado todos os dias nem pensar. Preferiria gastar meu tempo vago, inscrevendo-me em algum curso de tricô, palavras cruzadas, boliche, ou seja lá o que quarentonas gostam de fazer. Strip e pilates para reavivar o casamento? Ta aí uma boa opção.
- Não sempre, porque tem vezes que almoçamos fora. - explicou melhor - Mas quando isso acontece, sempre liga avisando. A Debbie é uma boa mãe. - sorriu meio distante da realidade, certamente pensando em algo que não o agradava muito, enquanto balançava a cabeça em curtos movimentos para cima e para baixo como se concordasse com alguma coisa.
- O que foi? - quis saber meio preocupada com a sua pequena e repentina mudança de humor.
- Nada demais. - sorriu novamente, mas, dessa vez, com o sorriso que me apaixonava.
- Vocês só tem isso aqui mesmo? - Eu ainda não conseguia acreditar.
- Na verdade... - lançou-me um olhar sapeca - Tem um pacote de pipoca, chocolate em pó e uma caixa de leite na dispensa. - sussurrou com receio de que alguém o escutasse. - Mas ninguém pode saber disso. - completou seu segredo.
- E o que estamos esperando? - o puxei para a única porta que poderia nos levar à dispensa. Olhei em volta e só estávamos os dois ali, os outros quatro deveriam ter ido até a sala assistir ou fazer alguma coisa mais útil do que sair procurando por suprimentos.
e então... Nem se fala. Esses dois já deveriam ter encontrado suprimentos e bem mais interessantes e saborosos do que os meus, diga-se de passagem. Abrimos a tal porta, e se infiltrou no quartinho escuro - sim, eu estava em um quartinho escuro com ele, e não, não me sentei em uma das prateleiras esperando que ele viesse até a mim e começasse a tirar as minhas roupas da forma mais grotesca e sensual possível -, ficou na ponta dos pés, e de trás de um pote em formato de gnomo, retirou as três coisas que dissera existirem.
- Porque o gnomo?
- Eu que sei? - deu de ombros, nos colocando pra fora do apertado habitat de alimentos em condições um pouco menos desfavoráveis à saúde humana e ambiental.
- Tá na sua dispensa, não na minha. - disse em meio a risadas. - Quem compra um pote de gnomos? - falei soando um pouco descrente.
- Gnomaníacos? – retrucou indiferente.
- E você por acaso é um gnomaníaco? – perguntei rindo.
- Não. – respondeu rindo também. – Esqueceu que eu não moro sozinho?
- Além de viciado em Natal, ele também é viciado em gnomos? – quase gritei e gargalhou do meu espanto.
está começando a ficar cada vez mais estranho. Nada contra pessoas extremamente festivas e pagãs, mas tudo tem o seu limite, e quando passam a barreira do comprar objetos místicos como se esses fossem resolver alguma coisa, as coisas entram em outro nível.
- E na namorada. – acrescentou enquanto abria o micro-ondas e colocava o pacote de pipoca dentro, depois foi até o pequeno forno, colocou uma panela em uma das bocas e despejou uma quantidade de leite que julgou ser suficiente para nós dois. Leite com pipoca, a que ponto eu cheguei? Onde vou parar? Rolando morro abaixo, certamente. Ou fazendo teste para bola de futebol americano. – Viu o que eu tenho que aturar? – recostou seu corpo na bancada da pia esperando que tudo ficasse pronto, e voltou-se para mim, podendo fitar meu rosto com mais cuidado. Eu corei suave, mas tentei ficar o menos nervosa possível.
- Mas pelo menos ele é fofo. – fiz uma carinha amável e bico, cruzando os braços sequencialmente.
- E eu não sou? – perguntou erguendo uma sobrancelha. Então me imitou, cruzando os braços da mesma forma que eu acabara de fazer. Dei de ombros, provocativa.
- Não sei. – respondi com uma careta marota, dando curtos passos para trás.
- Ah, não sabe? – ele disse sorrindo tão provocativo quanto eu e se desencostando da pia conforme libertava as palavras que dizia. Ia aproximando-se de mim gradativamente, e foi exatamente essa gradação que fez meu corpo inteiro gelar, e parar de me afastar por impulso, já que eu realmente desejava uma aproximação maior. E assim ele o fez lenta e calmamente, como se soubesse que aquilo me matava aos poucos. Ele parecia curtir meu sofrimento. Era só o que faltava na minha vida; um masoquista, baixista de garagem, charmoso em excesso. – Tem certeza? – perguntou baixando o tom de voz, como se quisesse fazer com que eu passasse a me aproximar dele também, para poder escutá-lo com mais clareza. Mas eu continuei ali, estática. O único sentido que ainda funcionava são em meu corpo, era minha visão – qual estava centrada no rosto escultural a minha frente. Tudo ali me atraía. Sua boca, seus olhos azuis e brilhantes, sua toca disposta em seu cabelo de tal forma que permitia que apenas alguns fios escapassem e ficassem batendo em sua testa, nuca e orelha, seu nariz delicado e proporcional, suas bochechas rosadas consequentes do clima frio... Sim, tudo. Ele sorriu pra mim com a respiração bem próxima. Eu podia sentir o calor da tal soprar em minha testa e isso só fez com que eu sentisse mais vontade de agarrá-lo ali mesmo. Mordi meu lábio inferior, voltando a fitar somente seus globos oculares.
- O leite. – eu soltei inconscientemente. Não acredito, eu simplesmente não acredito. Eu só posso ter retardamento mental, ou algum problema sério com a parte do meu cérebro que controla meu lado responsável. Estou aqui, praticamente fazendo boca-a-boca em um cara lindo e me lembro de tirar a porra do leite do fogo? Qual é a merda do meu problema? Eu aceitaria normalmente morrer incendiada desde que a minha boca estivesse grudada na dele. Por favor, nos carbonize, Senhor.
- O que? – ele parou de se locomover e eu quase chorei de frustração. Queria dar um soco no meu próprio estômago e matar todos os insetos que decidiram criar vida ali. Sua expressão era de completa confusão.
- O leite. – respirei sexualmente malograda e apontei para a panela que borbulhava atrás dele. Ele virou-se e entendera o que eu quis dizer. Consequentemente foi até lá, e voltou a fazer o que estava fazendo antes de quase me beijar.

Capítulo 09

Como eu já havia feito a cagada, inspirei profundamente o ar morno que me rondava e me pus contra a borda da pia bem ao lado da onde ele estava. Analisei atentamente seus movimentos e sorri interiormente - talvez exteriormente também, mas não devo ter percebido se isso ocorreu. Vi quando ele se agachou para pegar o pote com chocolate em pó e em como os músculos do seu pescoço se retraíam com o movimento.
- Tá com um cheiro tão bom. - murmurei dando uma fungadinha no ar e fazendo uma cara de deliciada, o que fez com que ele risse baixo, me olhando de soslaio. Se eu não estivesse prestando muita atenção em cada detalhe do seu corpo e da sua expressão, eu nem teria reparado, já que os fios do seu cabelo cobriam seus olhos um pouco, deixando apenas alguns vãos para que eu pudesse ver por entre estes.
- Isso porque você ainda não provou. - avisou com antecipação, mas sem se desprender do fogão e de todas as outras coisas ali em cima. - Vamos precisar comer lá fora.
- Por que? - perguntei quase gritando em revolta. Não queria sair, estava frio. Se eu ficasse doente como faria pra ficar próxima dele? Não, não, sem condições.
- Ah, não sei. - ele deu de ombros com uma voz irônica e divertida. - Talvez pelo fato de que roubamos todas as coisas do e ele está bem ali na sala conversando com a namorada. A não ser que você seja masoquista e goste de sofrer! Nesse caso nós podemos comer aonde você quiser. - terminou, rindo.
- Mas... Mas... - fiz bico e cruzei os braços. - Tá muito frio. - pendi a cabeça pro lado como aqueles lindos cachorrinhos costumam fazer quando querem algo ou quando você grita com eles.
- Põe um casaco. - disse como se fosse fácil ou como se eu tivesse um.
- Você quer que eu mentalize um casaco e que ele se teletransporte pra minha mão? - o zombei.
- Você não tem um? - perguntou enquanto agachava novamente em busca de sal.
- Tenho, claro que tenho. Não tá vendo? Por isso que eu não estou com frio e fico reclamando que estou. - zombei mais uma vez e ele apertou minha canela, vingativo.
Pulei e dei um gritinho. Ele riu.
- Vai lá em cima no meu quarto e pega um. - falou com simplicidade, agora já de pé novamente, terminando de enfiar a pipoca dentro de um novo recipiente. Eu gelei por um instante. Então o frio que eu sentia antes já nem me perturbava mais. Pelo contrário, meu corpo pegava fogo internamente. Sabe quando você coloca a mão na água gelada e ela está tão gelada que até queima? Pois bem. Era essa a minha sensação no momento. Ir ao seu quarto? Seu quarto? Sozinha? Pra pegar um casaco dele? Dele? E vesti-lo pra me aquecer? Me aquecer? Mas é claro que eu topo.
- Sério? - perguntei meio incerta com uma sobrancelha arqueada e os olhos semi-cerrados.
- Sério. - respondeu minha pergunta meio confuso. - Por que? Você tem medo que eu te tranque lá e faça do meu quarto um cativeiro? - rimos. - Não, eu não perco meu tempo com isso. Não preciso forçar as pessoas a nada, elas vêm por vontade própria. - completou malicioso e eu gargalhei.
- Vai saber. - dei de ombros ainda rindo - Ah, desculpa então, caro “jamais serei estuprador”.
- É o segundo quarto à direita. - avisou-me em meio a risadas. - Tem um placa de não entre na porta, mas você tem a minha permissão.
- Sinto-me lisonjeada. - puxei a barra imaginária de uma saia e me curvei como uma dama, em agradecimento. Em seguida, dei um giro e subi as escadas correndo, quase tropeçando de ansiedade. Meu coração estava levemente disparado e eu morria de curiosidade. Sentia-me como uma criança em época de páscoa, quando os pais escondiam os ovos pela casa e a faziam ficar correndo atrás destes como uma louca... Ou um cão farejador, que seja. Cheguei ao corredor e virei à direita como o que me fora instruído. A porta do primeiro quarto estava entreaberta, e por entre esta notei que havia alguma coisa a impedindo de fechar. Era Marvin.
- Oi, Marvin. - fiz uma voz infantil e me curvei à sua frente, estralando os dedos como se isso fosse fazer com que ele se aproximasse. Eu sempre detestei falar com animais fazendo essas vozes de pessoas com problemas mentais, ou crianças aprendendo a falar, mas sempre fora mais forte que eu. Era incontrolável. Eu prometia a mim mesma que nunca mais falaria com qualquer coisa extremamente meiga novamente usando aquele tom de voz, mas antes mesmo que eu pudesse me punir, já estava cometendo o mesmo erro. E eu sei muito bem que não sou a única que faz coisas do tipo. Acho que é exatamente isso que me tranquiliza. Saber que existem pessoas mais retardadas do que eu. - Aí é o quarto do , né? - perguntei me recompondo, e adivinhe só? Não obtive resposta. Graças a Deus, só me faltava isso mesmo, uma passagem só de ida pro hospício. Cheguei a dar uma bisbilhotada pela fresta, mas logo desisti de recolher mais detalhes. O que realmente me interessava no momento era o que tinha por trás daquele grande e vermelho: “Não entre.”
Segurei a maçaneta ainda meio receosa e com um pé atrás. A girei lentamente como quem não quer nada e empurrei a porta, sentindo um vento morno acariciar minhas bochechas. Entrei no quarto e olhei para trás verificando que estava sendo seguida. Marvin vinha logo depois de mim em passos curtos e calmos, e conforme caminhava, o pequeno guizo em sua coleira azul se remexia emitindo tranquilizadores tilintares.
Olhei em minha volta e comecei a tirar fotos mentais de cada canto daquele cômodo. Era tudo tão confortável, tão bem colocado, tão... Acomodador. Na parede que ficava do lado direito da porta onde eu estava, havia uma outra, levando ao banheiro. Do lado esquerdo da minha porta, um pequeno guarda roupa ficava, e bem à sua frente, uma cama zoneada e com várias roupas espalhadas sobre a mesma. A cama ficava encostada em uma outra parede e no teto estavam colados pôsteres de algumas bandas que eu não conhecia, e outras como Foo Fighters, Blink 182, Nirvana, Michael Jackson e me surpreendi ao encontrar um do Mumford & Sons. Eu adorava M&S, mas a maioria dos meus amigos nunca ouvira falar, infelizmente. Sorri encantada. Também havia um pôster das Tartarugas Ninjas, do Godzilla e do Back To The Future. Mais à frente, uma quarta parede que ficava de cara com a porta do corredor. Nela havia uma pequena janela que expunha parte do quintal e da rua. Também tinha uma espécie de escrivaninha com um monte de papéis jogados em cima e no chão. Papéis por todos os lados, menos no lixo, que era o seu lugar. Ótima pontaria, , você deveria seguir carreira. Do lado tanto desta escrivaninha quanto do banheiro existia um tipo de viveiro. Um viveiro? Sim, um viveiro. Um viveiro com a porta aberta. Porta que por sinal abria pra fora, e não para dentro como era de se esperar. Como estava escancarado, supus que não tinha nada ali dentro, além de alguns galhos secos, muito mato e jornal.
Fui até a cama e comecei a remexer em suas roupas em busca de um casaco. Puxei uma camiseta branca no meio do embolotamento e um ar carregado de perfume cortou minhas vias respiratórias. Fechei os olhos e inspirei profundamente. Segurei a blusa mais próxima do meu rosto e respirei aquele ar perfumado delicioso. Joguei-a de lado novamente e voltei a procurar por um casaco que pudesse me aquecer. Peguei um azul da Hurley que estava todo amassado. Era o bastante pra mim - e comprido o suficiente para me esconder nele junto com todos os gnomos que desejasse. Aproximei-me da escrivaninha mais uma vez e fui passando o dedo pela madeira tentando ler o que estava rabiscado na tal. Sentei na cadeira de rodinhas que tinha logo ali e peguei um pingente que achara jogado na mesa. Era uma cruz prateada muito bonita. Eu estava dedilhando-a quando Marvin surgiu - como sempre - do além e se esfregou nas minhas pernas, assustando-me - como...? Sempre. No meio do meu sobressalto, deixei que o pingentinho fosse arremessado e caísse dentro do viveiro. Marvin ronronava para mim como se quisesse que eu o acariciasse, mas eu não tinha tempo, precisava resgatar a pequena cruz de antes que a perdesse de vista, por isso o ignorei. Entrei no tal retângulo cercado com todo cuidado do mundo e me agachei no meio de todos os jornais em busca do delicado berloque de prata, qual, para não facilitar, confundia-se com a cor e as letras do jornal. Dei uma olhada ligeira para frente e percebi que Marvin me fitava com sua cabecinha meio de lado. Como o podia não gostar de uma criatura tão adorável quanto aquela? Balancei a cabeça, desacreditada, e voltei a minha busca incansável. Não podia de jeito maneira alguma perder aquilo. E se fosse importante pro ? Isso que acontece quando se é uma enxerida. Pra começo de conversa, por que eu o peguei em mãos?
- Eu nunca vou encontrar. - passei a mãos pelos cabelos preocupada, propagando meus olhos por toda a extensão do local. Nada. Apenas notícias e mais notícias. De repente comecei a escutar o barulhinho do guizo de Marvin. Ele provavelmente deveria ter começado a se mexer, devido a intensidade da repercussão. Observei o gato mais uma vez, e vi que esse se aproximara da gaiola e começara a se esfregar na grade como que para se coçar, e conforme o fazia, soltava longos e gostosos ronronares. Chegava a fazer cócegas nos meus tímpanos. Relevei as atitudes do animal e regressei em minha a saga atrás da cruz outra vez. Até o momento em que escutei o som do riscar da dobradiça, e esta trancar a porta que me prendia lá. Direcionei meu olhar para frente pela milionésima vez, e constatei que a porta se fechara. Percebi que fora Marvin quem causou toda a situação conforme ia se esfregando no viveiro, e suspirei. Merda! Empurrei a porta pra frente com força, mas ela não quis saber de cooperar e se manteve intacta. Me reergui com dificuldade por causa do pouco espaço que possuía, e tentei enfiar meu dedo pelos buracos da grade, sem sucesso. Meu dedo era gordo demais, jamais conseguiria alcançar a curta maçaneta. Então, com um baque de desespero, eu me toquei: Estava presa. Grudei minhas mãos na cerca e comecei a chacoalhá-la em agonia. Eu não posso ficar presa aqui! Respirei e inspirei algumas centenas de vezes estimulando um futuro equilíbrio entre meu nível de angústia e de calma. Fechei os olhos tranquilizantemente e quando os abri, pude perceber que algo brilhava aos meus pés. Era a cruz. Será que esse era um sinal de Deus dizendo que tudo vai ficar bem e que ele estava comigo? Uma onda de conforto e alívio talharam a minha alma. Tomei um pouco de força e busquei pelo cubículo uma nova alternativa de escapatória.
- As pessoas não fazem mais saídas de emergência? - bufei, frustrada.
Então tive minha atenção roubada por algo bem à minha direita. Arregalei os olhos em desespero, mas minha boca simplesmente não conseguia se abrir. Era um tipo de bicho pré-histórico gigantesco que antes deveria estar camuflado em seus pertences. Minha cabeça rodou bruscamente quando comecei a cair na real. Eu estava presa num micro retângulo com um réptil de 30 centímetros ou mais de comprimento que me encarava como se quisesse me matar por ter invadido seu tão amado território. Em reflexo, dei um berro esganiçado e escandaloso. Foi tão intenso que até parecia que eu tinha acabado de ter um membro arrancado sem anestesia. Não que eu já tenha sofrido tal dor, mas Jogos Mortais podem nos ensinar muitas coisas pouco úteis, como que para se livrar de uma corrente no tornozelo, o mais sensato, inteligente e fácil, certamente seria cortar seu próprio pé fora com uma serra. Com o impacto do susto, arremessei-me para trás, tentando manter o máximo de distância possível daquele ser. E por ímpeto, joguei o casaco de no animal para que assim ele não pudesse me enxergar ou cogitar a possibilidade de me atacar. Acabei tropeçando e caindo com tudo em cima de uma de suas panela, qual transbordava de água - que logo foi sugada pelo tecido do meu shorts. Comecei a gritar por socorro desesperadamente e me recolhi no cantinho das rações para me proteger. Olhei para Marvin como se esse fosse se tornar meu ponto de conforto, mas acabei vivenciando o contrário. O gato estava... Sorrindo pra mim? Aqueles sons que ele emitia não eram ronronares porcaria nenhuma, era uma risada maléfica. Ele havia me prendido ali propositadamente! Tudo fazia sentido,
sempre esteve certo, e eu, inocente, caí em sua jogada falsa de meiguice. E... Qual é a porra do meu problema? Ele era só um gato laranja. E eu o estava culpando? Pobre, Marvin. Virei-me para o amontoado azul e vi que esse se movimentava com dificuldade e lentamente em minha direção. Fechei os olhos com força, por impulso, e gritei mais alto do que antes, me encolhendo cada vez mais e mais - com um pouco mais de tempo minhas pernas certamente se fundiriam com o meu peitoral. Até que, mágica e milagrosamente, escutei um barulho agudo, como se a dobradiça chorasse implorando por algumas gotas de óleo. Lancei meus olhos arregalados para cima e fitei apavorada o meu grande salvador, que fazia o seu trabalho com muita destreza: Tirava o casaco de cima do animal, o pegava em seu colo, e depois o repousava em um de seus galhos secos, para que esse pudesse voltar com sua vida normal e pacífica se camuflando pelo quarto. E fez tudo isso em meio a gargalhadas e pausas para respirar e não chorar de tanto rir.
Sem nem precisar pensar uma única vez direito, saí correndo da jaula ou como queira chamar aquele pequeno sanatório particular, afobada. Meu coração batia com tanta força que eu cheguei a pensar que explodiria. Sentei-me em sua cama macia e me abanei, sem achar graça alguma, mesmo com ele rindo sem parar, já do lado de fora da casa do seu projeto de dinossauro.
- Você tá bem? - perguntou sem mal conseguir gaguejar.
- Pareço bem? - apontei irritada pra mim mesma para que ele analisasse o meu estado físico e psicológico. Me recompus, e fui até sua mesa, devolver o berloque a sua localização original - qual jamais deveria ter abandonado. Ele nem ao menos se tocou que eu estava colocando algo em sua mesa, estava muito ocupado se curvando para rir de mim. - Quando eu pegar uma pneumonia, quem vai se sentir culpado é você. - o ameacei, cruzando os braços - E qual o seu problema? Quem é que compra um lagarto de estimação? - perguntei cética.
- Ei, não desconta no lagarto. - reclamou se reconstituindo gradativamente - Répteis são legais, você que não teve oportunidade para conhecê-lo apropriadamente. - voltou até o viveiro e trancou a porta com uma pequena chave. - Você teve sorte é de que a vasilha dele já estava vazia. Devia agradecê-lo. - acusou-me de ingratidão. Imaginei todas as coisas nojentas que aquele ser possivelmente comia. Moscas em conserva? Ou quem sabe carne em decomposição? Meu estômago se revirou e embrulhou só com a força do pensamento.
- Pode pegar uma calça minha, se quiser. - ofereceu educadamente, já abrindo seu guarda roupa, percebendo que eu passava frio com as minhas vestes toda ensopada. De lá retirou um agasalho vermelho e uma calça preta de moletom. Aceitei e agradeci com um sorriso sem-graça. Sei lá, me sentia estranha em pegar suas coisas emprestadas. Primeiro um casaco, depois a calça, qual será o próximo passo? Cueca? Camisinha? Se controle, .
- Então... Eu... Vou no... Banheiro. - disse nervosa e sem jeito, apontando para a porta entreaberta mais ao lado. Tentei controlar meus nervos para não tremer a mão com o gesto. Não gostaria de me trocar ali no meio do quarto, pois não me sentiria à vontade rodeada por todos aqueles caras silenciosos que me fitavam seriamente. Se bem que não seria nada mal se o Kurt Cobain realmente estivesse prestando atenção em mim.
- Quando terminar, vai lá pro quintal. - eu assenti e ele se esvaiu do quarto sorrateiramente para que eu pudesse me aprontar em paz.
O banheiro dele era colorido apenas por uma grossa faixa de azulejos azuis em degradê. Encostei a porta e despi-me do meu shorts jogando-o para o lado, perto da privada, mantendo a meia-calça já que eu estava com preguiça demais para puxá-la sem rasgar ou desfiar. Eu provavelmente a esqueceria ali, mas... Seria ótimo ter uma desculpa para voltar até a casa dos meninos futuramente, certo? Pra vestir a calça de eu precisei dobrar o cós umas cinco vezes ou mais, sem brincadeira ou exageros, e mesmo assim ela ficou comprida em mim. Se eu não tomasse certo cuidado, as barras facilmente se misturariam aos meus pés e eu tropeçaria. Com as calças já mantendo o calor em minhas pernas, me enfiei em seu agasalho. Estiquei os braços para baixo e ri ao ver minha imagem refletida no espelho à minha frente. Como era de se esperar, apenas constatei que as mangas iam bem além de onde minhas mãos alcançavam. Eu estava uma graça fantasiada de . Olhei para o pequeno armário ao lado do espelho e senti a ponta dos meus dedos coçarem. Eu precisava vasculhar ali dentro.
Encostei minha barriga coberta na pia de mármore e abri a portinha. Quando eu ia aprender a não xeretar as coisas dos outros? Tá bom, muito engraçado, como estou piadista hoje. Mas também o que custava? Ele não parecia esconder um criadouro de crocodilos em seu boxe ou ao do gênero. Olhei de esguio para os lados, verificando se alguém me observava. Ninguém além do Dave Grohl refletido no alto do espelho. Meus dedos corriam pelas três curtas prateleiras delicadamente, caçando algo interessante. Acabei encontrando um frasco de vidro transparente e sem marca que carregava um conteúdo líquido meio esverdeado. Retirei a tampa com um pouco de esforço, e a atmosfera foi sendo dominada pelo delicioso perfume de . Estremeci ao respirá-lo. Apontei o botão do perfume, qual almejava ser pressionado por mim, para o meu pulso e concretizei minha boa ação do dia, realizando seu desejo. Queria guardar aquele cheiro comigo para sempre - ou pelo menos até o fim da tarde. Qual deveria ser a sensação de dormir com aquele odor bem ao seu lado? Devolvi o frasco para seu antigo posto e baixei o olhar, pulando os potes de gel, as pinças e as tesourinhas - maioria quebrada. Então toquei um pote azul que parecia ser de algum medicamento. Envolvendo este havia um longo pedaço de papel: “Paciente: . Idade: Dezoito anos. Médico: Doutor Achilles Miller. Medicação: Fluoxetina - Daforin. Dose: 20mg por dia. Data de validade: fevereiro/14”
Terminei de ler a inscrição e o abri sem usar muita força. Havia umas vinte ou trinta pílulas verdes com branco. Dei de ombros e botei tudo em seu devido lugar sem problemas algum. Saí do banheiro e passei pelo quarto - obviamente - antes de descer. Marvin estava deitado em cima da mesa tomando sol, já que a janela permitia sua entrada. Aproximei-me dele.
- Desculpa por ter te culpado, Marvin. - pedi realmente ressentida. Eu não gostava de culpar as pessoas, ou os animais - que seja -, sem motivos. E o arrependimento que sentia era descomunal. - Me perdoa? - este se levantou devagar quase parando, e sentou-se para que eu fizesse carinho em sua cabeça. Meus Deus, como ele era fofo. Eu poderia matá-lo sufocado. O peguei no colo e desci com ele até o quintal, acariciando seu pêlo macio durante todo percurso. Antes de chegar ao quintal, dei uma espiada na sala para ver como as coisas funcionavam por ali. estava sentada entre e no chão, e estava de frente para os três. Todos riam de alguma besteira que, provavelmente, falara, já que este estava com uma cara de pura indignação. Sorri ao ver todos tão felizes, e continuei com meu caminho. Vasculhei todo o gramado e nenhum sinal de . Aproximei-me da entrada da garagem e escutei uma voz me chamar.
- Aqui atrás. - estava de pé do lado de fora da garagem, só que bem mais ao fundo. Chamou-me com um gesto qualquer, e desapareceu atrás da parede de concreto bege. Eu e Marvin nos infiltramos no apertado espaço e chegamos na parte de trás da casa. Sorri ao encontrar sentado no chão com um longo cobertor quentinho, segurando uma vasilha lotada de pipoca com manteiga, e uma garrafa térmica com o nosso chocolate quente. Lambi meus lábios só de imaginar o gosto dos... Três. Estava indo me sentar até ser interrompida por ele.
- Calma aí, calma aí, calma aí. - pediu apressado. - Dá uma voltinha pra mim. - disse conforme balançava o dedo divertido, me fazendo rir envergonhada. Girei bem rápido com Marvin ainda em meu colo, sem lhe oferecer muito tempo para me observar. Os pêlos do gato fizeram cócegas em meu braço com a agitação. Fiz uma pose qualquer e pisquei tentando ser engraçada. Pelo menos, ele riu.
- Você fica bem mais gata vestida de mim. - fez graça, variando seu dedo entre nós dois.
- Da próxima vez que eu for fazer compras, te levo junto. - rimos - Então gostou do meu cosplay? - perguntei com uma mão na cintura e a outra abraçando Marvin. Ele balançou a cabeça freneticamente em concordância.
- Marvin deu um toque especial. - acrescentou de forma bem gay e eu gargalhei. Decidi que era hora de me sentar ao seu lado, mas optei por não ficar muito próxima. Sabe como é... Não seria saudável sentar-se super perto de um pecado como aquele e não poder cometê-lo. Enfiei meus pés para dentro da coberta e ajeitei-me da maneira mais confortável possível. Soltei Marvin que pareceu bastante agradecido pela viagem, mas fora se deitar no meio das pernas do .
estava com as costas apoiadas na parede gelada e estendia para mim o pote de pipoca. Enfiei minhas mãos neste, em concha, e peguei uma quantidade boa para me satisfazer por alguns minutos. Logo depois, ele descansou a vasilha bem no meio do espaço que nos separava. De certa forma eu ficara meio... Abrandecida, pois corria menos riscos de cair em tentação. Mas estava um pouco desapontada, porque adoraria se ele forçasse uma aproximação. Queria ficar mais próxima dele. De repente, olhei para ele, e pude ver quando também enfiou a mão no pote, pegou suas pipocas e começou a tacá-las para o alto, pegando-as com a boca agilmente. Isso me surpreendeu o suficiente pra eu soltar um murmúrio de indignação.
- Como? - perguntei, desacreditada. - Também quero. - fiz bico, emburrada por ser incapaz de possuir tanta habilidade. Meu reflexo é muito lento. Sem exageros. Se um jogador de MMA me socasse, eu, provavelmente, só viria a descobrir quando acordasse do coma e procurasse na internet.
- É fácil. - respondeu como se estivesse jogando Paciência Spider no computador.
- É claro, super fácil. - discordei com ironia.
- Presta atenção. - tentou me ensinar - Joga só um pouco pra cima, e não usa muita força... - explicava com calma, enquanto me encarava profundamente para se certificar de que eu captava as informações que me eram cedidas. - Aí é só seguir a pipoca com a cabeça. - finalizou, tacando uma para o alto e a comendo em seguida com muita facilidade. - Viu?
- Vi. - afirmei. - Só não garanto que entendi. - ri e ele me acompanhou.
- Tenta. Uma hora ou outra você pega o jeito. - pensei um pouco e resolvi arriscar. Segui os passos que ele havia me dito perfeitamente, até o momento em que me encolhi, pois acreditei friamente que não conseguiria pegar a bolinha branca que corria em minha direção e esta se chocaria com um dos meus olhos.
- Seria bem mais fácil se você ficasse parada. - avisou-me, mergulhado num mar de sarcasmo enquanto ria da minha falha. “Seria mais fácil se você calasse a boca.” - pensei, mas não disse absolutamente nada, apenas lhe devolvi meu silêncio com uma expressão ameaçadora. Ele levou as mãos até as laterais do seu rosto, inocente.
- Deixa eu te ajudar. - falou, baixando o olhar para o pote ao nosso lado, enchendo as mãos com bolotas brancas salgadas. - Eu jogo, você pega. - exclamou rápido, não me dando tempo para reclamações. Como era de se esperar, não consegui pegar nenhuma, e tive que me proteger com os braços e parte da manta que foi estendida para servir de escudo.
- ! - grunhi frustrada, assim que senti uma pipoca bater na minha testa e quicar no chão junto as outras. As peguei com pressa e revidei, jogando todas de volta para ele, vingativa. Ele abriu a boca tentando pegá-las sequencialmente.
- Para de desperdiçar comida. - reclamou rindo, segurando meu pulso esquerdo impedindo-me de continuar com a brincadeira. Tive medo de que ele conseguisse notar a intensidade com que o meu sangue era bombeado, por isso livrei-me de sua mão forte e voltei a comer, ainda com os olhos semicerrados em sua direção. A pipoca já estava quase no fim, e ele ainda ficava a usando como arma.
- Tá com sede? - perguntou já pegando a garrafa térmica, destampando-a e derramando um pouco do líquido quente em duas canecas: Uma do Star Wars, e a outra com o formato da cabeça do Frajola. Eu nem pedi, apenas agarrei aquele gato encantador e depois lhe lancei um sorriso singelo. Ao , não ao Frajola.
- Você tá usando meu perfume? - perguntou, e no segundo seguinte já estava com o rosto enroscado no meio do meu cabelo. Juro que senti a ponta do seu nariz encostar em meu pescoço e sua respiração fazer cócegas na mesma região. E não tive um infarto, ou se quer um princípio de convulsão. Sem conseguir raciocinar, fechei os olhos com muita força, aproveitando o fato de que ele não podia me ver. Abri a boca e comecei a inspirar e expirar por ela, tentando impedir meu corpo de ceder às tremulações que queriam a todo custo se sobressaírem. - Hein? - reforçou sua pergunta conforme se distanciava de mim e voltava a seu antigo lugar, e eu obrigava a mim mesma a me recompor.
- Perfume? Que perfume? O que? - fiz-me de desentendida, puxando a manga do meu agasalho com a intenção de cobrir minhas mãos e abafar o odor que delas emanava. Mais que de repente, passei a dar maior valor a bebida que estava encaixada entre minhas coxas. A peguei apressada, assoprei rapidamente por puro costume, e bebi. Ou pelo menos tentei. Tentei a pior coisa que eu poderia tentar no momento. O chocolate quente fazia jus ao nome. Não, não... Minto. Ele não estava quente, claro que não. Estava escaldante. Eu cheguei até a cogitar a possibilidade de que aquilo era urina do capeta quando tocou meus lábios. Gemi de dor e repousei, sem delicadeza alguma - mas morrendo de medo de derrubar em meu colo e ter minha pele perfurada pelo semi-ácido -, a caneca na grama a minha esquerda. Meus olhos lacrimejavam por mais que eu tentasse impedi-los, e eu abanava minha boca, provavelmente inchada, em desespero. ficou de joelhos e soltou uma pergunta preocupada:
- O que aconteceu, ? Você tá bem? - eu apenas balancei a cabeça negativamente e frenética, e toquei minha língua com a ponta dos meus dedos pálidos e gélidos. Ela ardia muito, assim como meu lábio superior que teve a infelicidade de ser lavado pelo líquido fervente. Minha língua começava a formigar cada vez mais.
- Deixa eu ver. - pediu sem esperar por uma resposta. Logo mais já estava encostando, com cuidado extremo, seu dedão sobre minha suposta queimadura. Eu gemi baixo ao sentir seu toque sobre a ardência. Ele se levantou apressado, tomando certas precauções para não pisar no Marvin e estendeu o braço para que eu me apoiasse neste.
- Vem comigo. - me chamou e eu aceitei sem questionar, porque aquilo estava doendo bastante.

Capítulo 10

O segui em silêncio até chegarmos na cozinha. me puxou até a geladeira, mas eu preferi me encostar na pia fria e fechar os olhos, passando a língua em minha boca como se isso fosse amenizar alguma coisa. Ele voltou com uma pedra de gelo em mãos. Quem precisa de comida válida quando se tem uma bandeja lotada de cubos de gelo? Calmamente, levou o pequeno cubo até a torneira e permitiu que um pouco de água caísse sobre o líquido congelado. - Vai incomodar um pouco, mas prometo que vai diminuir o inchaço. - avisou e eu concordei, confiante. Lentamente, praticamente grudou seu corpo ao meu e encostou a substância gelada em meu machucado. Eu forcei meus olhos a se fecharem com toda a força que fui capaz de encontrar em mim. Senti-lo tão próxima de mim, mas ao mesmo tempo tão distante... Era horrível. Um pouco pior que a dor que eu estava sentindo. Tudo bem, não exageremos... Aquilo estava feio pra valer.
- Melhorou? - perguntou apreensivo e eu fiz um gesto negativo com a cabeça, já que eu continuava incapaz de falar por “n” motivos. Ele murmurou algum som sem significado e disse: - Então vou tentar outra coisa... - avisou enquanto abria a gaveta ao meu lado e tirava uma faca sem corte de lá. Minha surpresa foi tanta que meu dom da fala rapidamente ressurgiu das cinzas.
- O que? Me matar? - perguntei com os olhos arregalados e ele riu alto.
- É claro, vai amenizar sua agonia, não vai? - brincou - Minha mãe fez isso comigo uma vez quando queimei a boca. Funcionou. - explicou pensativo, provavelmente se lembrando de alguma coisa boa. Então esticou sua mão e faca para o meu rosto, e levou consigo novamente o seu corpo, me deixando sem reação alguma pela segunda vez. Repousou a lateral do objeto cortante em meu lábio ferido e apoiou o dedão no canto deste. Minha respiração só não estava mais falha, porque, caso estivesse, eu não teria como estar contando essa história a você. Meu coração estava em disparada e tudo em mim tremia. Tudo sem exceção alguma. Minha visão estava distorcida e eu não sabia bem o que encarar; seus olhos azuis brilhantes, sua boca rosada e cobiçada, seus dedos longos que acariciavam minha pele irritada, ou a faca, que me pressionava com força. Obriguei mais uma vez minhas pálpebras se encontrarem para botar um ponto final em minha indecisão. Meus ouvidos ficaram mais aguçados por conta disso, por isso escutei com facilidade quando ele mais sussurrou do que perguntou:
- E agora? - eu podia sentir sua respiração tocando a ponta do meu nariz e também o forte cheiro de hortelã que sua boca liberava ao proferir as palavras. Levantei meu olhar extremamente devagar só para dar uma espiada e não pensar que estava ficando louca. E sim, acabei por confirmar minha suposição: Ele estava com a testa muitíssimo próxima a minha. Seu dedão logo começou a deslizar do canto da minha boca para a ponta do meu queixo e então para as minhas bochechas avermelhadas. Segurei a borda da pia com minhas duas mãos, e a pressionei conforme seus toques mudavam de posição. Até que, de repente, meu mundo congelou e eu não sabia o que fazer. A temperatura parecia ter caído para 10 negativo de um segundo a outro. Ele simplesmente espalmou sua mão na lateral do meu rosto, o puxara para frente e... Me beijara. E dessa vez, eu juro que não estou brincando. A boca de realmente estava encostada a minha e eu sentia como se sei lá... A Katy Perry estivesse em meu corpo liberando todos os tipos de fogos de artifícios já criados por minhas entranhas. Delicada e calmamente, ele foi passando, sem fazer força, meu lábio inferior por entre os seus, como se quisesse acariciá-lo, ou estivesse se contendo para começar a me beijar pra valer. Eu não movia um músculo se quer, havia perdido por completo meus sentidos. Apenas permaneci com os olhos fechados e prendi a respiração, achando que aquilo me manteria por mais tempo naquele sonho. Então ele começou a passar a ponta de sua língua no mesmo ponto que acariciava míseros segundos atrás, ao mesmo tempo em que o mordia surpreendentemente de leve. Confesso que por um triz, eu não permiti que um suspiro pesado, satisfeito, e sutilmente sonoro, escapasse.
- Que tal agora? - fez questão de perguntar aquilo com a boca encostada à minha. Voltei a respirar, frustrada. Eu não queria que ele tivesse parado.
- Acho que vou precisar de mais um pouco. - Respondi às pressas, e joguei minhas mãos, que se entrelaçaram atrás de sua nuca morna, e foram acompanhadas por meus lábios sedentos de desejo. Eu nem precisei ordenar que ele continuasse da onde havia parado, ele simplesmente rompeu meu limite de sensatez, permitindo que nossas línguas se conhecessem pela primeira vez.
Aquela troca de toques que estava acontecendo foi como se estivéssemos nos re-conhecendo. Era como se eu tivesse morrido, renascido, e agora estivesse trombando com na rua e jogando uma ótima conversa fora. Sua língua estava quente e úmida, e eu podia jurar que ele tinha gosto de morangos com hortelã. Era tão doce e tão refrescante que eu só pensava no quanto eu o queria. Queria poder beijá-lo o dia inteiro, para nunca perder aquele sabor maravilhoso que eu estava sentindo. Escutei o barulho de algum metal se chocando contra o piso frio da cozinha. A faca foi a única coisa que me veio em mente, mas eu logo já havia esquecido-a. correu sua mão até minha cintura, e me puxou com muita força para frente, nos fundindo perfeitamente. Suspirei contra sua boca assim que ele o fez. Com sua outra mão, reaproximou meu rosto do seu pela nuca, o que fez com que eu levasse uma das minhas mãos até seu rosto também e sentisse sua barba curta e quase imperceptível. Dessa vez quem lhe dava mordidinhas era eu, e eu ri quando ele se afastou de mim aos poucos com os lábios ainda entre os meus dentes. Ele me acompanhou, sorrindo de canto e voltando a me beijar com pouca delicadeza dessa vez. Minha boca latejava, e eu até sentia um pouco de dor, principalmente na região que já estava machucada, mas eu estava me fudendo para isso. Estava adorando aquele momento, e não seria uma dorzinha besta quem mudaria aquilo. Quem diria que uma queimadura com chocolate quente, me levaria até ali?
- E eu acho que não estou ajudando em nada com o seu machucado. - interrompeu nosso adorável beijo com este comentário. Então, quando viu minha cara de insatisfeita por ter parado, começou a rir e me deu um selinho demorado. Eu respirei fundo e aceitei quando ele se afastou de mim por completo.
- Vem comigo até a sala? - Perguntou ao perceber que eu ainda estava meio perdida, e que não falaria algo tão cedo. Apenas balancei a cabeça em concordância, e o segui até o local indicado. Minha ficha ainda não havia caído, mas seria bem engraçado quando acontecesse. Onde ficam as amigas pra fazer vídeos caseiros nessas horas?
A sala de estar se mantinha do mesmo jeito. E quando eu digo do mesmo jeito, eu não exagero. Eu posso estar um pouco aérea por causa da minha recente experiência na cozinha, mas ainda tenho uma memória fotográfica razoável. Tanto , quanto , e continuavam intactos enquanto riam e se divertiam. Nem sequer estranharam quando nos sentamos dentro do semi-círculo, de tão entretidos que estavam. Na verdade, acho que só foram notar nossa presença quando praticamente berrou assustada:
- Meu Deus do céu, , o que é que você fez nessa boca? – expressava centenas de sentimentos ao mesmo tempo. Desde preocupação, a indignação e malícia. Sim, sim, ela já estava pensando besteiras, e eu me senti meio culpada ao lembrar de que ela tinha razão.
- Conseguiu se queimar com chocolate quente. – explicou ao perceber que eu ainda não estava em condições de me defender verbalmente. Eu apenas devolvi com um olhar desastrosamente agradecido.
- E vocês por acaso estavam tomando chocolate quente juntos? – perguntou divertido a , notando que a boca deste também estava avermelhada. Não chegava nem aos pés da minha, como eu pude supor, mas... Já era alguma coisa. Todos gemeram de um jeito provocador.
- Vou te ensinar uma coisa, ... – se ajeitou e começou a fazer uma espécie de mímica com as mãos. – Você pode pegar duas canecas e encher cada uma com o mesmo tanto de leite, sabia? É bem fácil, mas eu entendo se o seu nível intelectual não captar a mensagem. – Riu e foi acompanhado pelo resto do grupo. Até mesmo eu.
- E pra isso ela precisou trocar de roupa com você? – questionou com um tom de voz bastante tarado.
- Eu caí dentro da tigela de água do lagarto. – avisei, tirando a ideia – que não era tão má assim – da cabeça de . Mas parece que a minha informação só serviu pra causar um alvoroço maior ainda.
- Dentro da tigela do Zukie, ? Essa é novidade. – disse gargalhando, provavelmente, imaginando o quão ridícula a cena deveria ser.
- Foi bom, ? – e perguntaram ao mesmo tempo, e eu apenas consegui fuzilá-las com o olhar. Eu tentava ao máximo me manter calma, e não permitir que o nervosismo que eu estava sentindo se esvaísse do meu organismo. Eu precisava contar aquilo a alguém, mas simplesmente não me sentia no direito de atrapalhar o clima tão bom que se fixara entre os amigos no ambiente. Por isso, permaneci calada até o fim. As conversas iam e vinham, e eu ria de uma ou outra, mas minha cabeça não estava presa aquele presente. Ela ainda se centrava na cozinha, em , em seus lábios, em meus lábios, em nossos lábios juntos, e em toda dor e satisfação que eu sentia ao mesmo tempo. Só me livrei desse meu mundo de pensamentos, quando o próprio se aproximou de meu ouvido e sussurrou:
- Vamos até a praça aqui perto comigo? Acho que o e a foram pra lá. – perguntou com os olhos presos aos meus.
- Como você sabe que eles estão lá? – quis saber por curiosidade.
- Intuito. – deu de ombros – E também porque é um dos lugares favoritos do . – sorriu singelo e eu retribuí por impulso.
- Vamos na praça, alguém afim? – levantou-se e perguntou em voz alta para que todos pudessem escutá-lo. Interiormente, senti uma pontada em meu peito, porque queria passar mais um momentinho só com ele. Por isso agradeci mentalmente, quando se pronunciou:
- Ah, que preguiça de levantar daqui. Tá tão gostosinho... – fez bico, se recostando em .
- Nós deixamos vocês irem se divertir com chocolate quente em paz dessa vez. – nos zoou, e eu lhe mostrei meu dedo do meio, o que funcionou para puxar algumas risadas.
- Acho que você quis dizer de novo, . – continuou.
- Vão todos se fuder. – botou um ponto final nas brincadeiras ainda rindo e me puxou pela mão até a porta da sala. Conforme eu saía da casa, o som de vaias caçoadoras também ia reduzindo.

A rua a caminho da praça possuía apenas algumas árvores enfeitando as calçadas, e vários canteiros com rosas e margaridas – os mais extravagantes, se enfeitavam com flores um pouco mais caras. Na verdade, o próprio bairro tinha cara de ser projetado para uma classe social um pouco mais elevada. Não digo para milionários, mas eu, por exemplo, não teria condições de morar ali. As casas eram todas similares, como se alguém tivesse copiado e colado uma ao lado da outra, até o final do segundo quarteirão. Eu andava ao lado de com as mãos mergulhadas no interior do bolso de seu moletom. Meu cabelo, em contato com o vento, se tornava parcialmente indomável, por isso o juntei em uma bolota felpuda e o joguei pra dentro do casaco, fazendo com que somente alguns poucos fios continuassem sambando ao som da brisa gelada que nos rondava. chegou para mais perto de mim até encostar seu braço ao meu, e imitou meu gesto com as mãos, inconsciente. O silêncio entre nós não tinha absolutamente nada demais, mas começava a me incomodar ligeiramente. Não queria que ficássemos sem assunto, sem o que conversar.
- O que faremos agora? – Quebrei o gelo com uma pergunta, pelo visto, inesperada, já que ele não reagiu como eu esperava.
- Como assim? – Perguntou sem entender.
- Bom... Você sabe... Na cozinha. – Tentei explicar da maneira menos constrangedora possível, mas sem obter muito sucesso como de costume. – Quero dizer... Eles já desconfiam, que... Nos beijamos. – Senti um arrepio ao dizer aquilo. Parecia que ao mencionar e escutar aquela verdade com a minha própria voz, fazia com que tudo se tornasse mais verídico. E pra piorar, eu havia gostado.
- Você quer saber como as coisas vão ficar entre a gente?
- Sim. – balancei a cabeça em concordância. – Sabe, eu realmente gostei de ter te conhecido esses dias, , e pelo pouco que eu sei sobre você e os meninos, já consegui sentir que seremos grandes amigos, mas...
- Mas...? – instigou-me para que eu prosseguisse com minha explicação.
- Sei lá se as coisas vão continuar normais entre nós. – ri da minha preocupação boba. Como eu era infantil! – Eu sou meio paranóica com essas coisas, desculpa. – expliquei antes que ele me tachasse.
- Só se você quiser, caso contrário, nada vai mudar. – ele disse também rindo de leve, esbanjando a beleza que seus dentes brancos faziam questão de aumentar quando ele sorria. - Se bem que eu adoraria poder continuar te beijando de vez em quando. – comentou em voz baixa, acompanhado de um sorrisinho de canto.
- Não vejo problemas. – falei depois de alguns segundos, num tom de voz mais inaudível que o dele. Se o vento estivesse só um pouquinho mais forte, ele não teria como me ouvir. passou seu braço esquerdo em volta dos meus ombros, me aquecendo, e beijou minha cabeça, o que eu considerei bem meigo, levando em conta a situação.

Capítulo 11

Ficamos assim, um do lado do outro, até chegarmos à uma pequena e tranquila praça. Não tinha nada demais, pra ser sincera, era até bem simples, mas não deixava de irradiar uma beleza estonteante. Se tinha algo que eu me orgulhava dos britânicos, era a capacidade de cuidar bem dessa natureza tão delicada e manter a tal tão impecavelmente nos eixos. A pracinha conseguia ocupar um quarteirão inteiro e, à sua volta, havia desde residências bem tratadas a outras maltrapilhas. Também havia alguns comércios espalhados por uma longa calçada logo à frente, como a fabulosa sorveteria em cores fortes e letras que imitavam uma bela caligrafia ao escrever o nome do estabelecimento, que homenageava a lenda do Rei Arthur, já que fora nomeado por “Excalibur”. A grande loja era pintada em tons pulsantes de vermelho vivo que se colocava em contraste com o bege que se intercalava com este, formando faixas por toda a extensão da parede. Os detalhes, como as maçanetas ou até mesmo os batentes das janelas, eram todos puxados para o dourado. Não que fossem necessariamente feitos de ouro – só se o dono estivesse implorando para que as pessoas arrancassem-lhe as janelas e fechaduras -, mas era bastante autêntico, e dava um charme a mais ao local. Não estranharia nada se me dissessem que o lugar vinha dos anos 20. Era uma sorveteria aconchegante, por isso, logo de cara, senti-me tentada a conhecê-la melhor.
A praça em si era composta por cinco ou seis árvores de grande porte, os quais – em contato com a luz do sol – proporcionariam grandes e refrescantes sombras. O chão, no entanto, era forrado com flores de variadas espécies, mas todas sempre se baseando numa mesma tonalidade: vermelho. Parecia que fora combinado com a sorveteria, que assistia a toda e qualquer movimentação das folhas que completavam sua paisagem. Haviam cravos, gérberas, rosas, violetas e, até mesmo, ranuncios. Um vasto e encantador tapete florido. Por um segundo, tive uma vontade imensa de puxar pelas mãos e nos jogar naquele colchão macio, mas me contive com esperteza. Meus olhos estavam surpreendentemente atentos, por esse motivo, facilmente notei a presença tanto de quanto de por ali.
- Onde os dois podem estar? – pensou em voz alta, girando sua cabeça para os lados com calma, na intenção de ampliar seu campo de visão.
- Servem aqueles ali? – apontei para ambos, com um sorriso contente no rosto.
A cena em questão não podia ser mais fofa e cômica. corria de um lado para outro, tentando inutilmente fugir de , assim como um louco fugiria de sua camisa de força. Ela chegou a tropeçar em uma ou duas pedras que estavam soltas pelo caminho trilhado por onde as pessoas costumavam ou deveriam caminhar - não se atacarem como estava acontecendo -, porém, não deu muito tempo até que conseguiu imobilizá-la da forma correta e foi capaz de jogá-la em seus ombros, enquanto as pernas delas se debatiam, próximas ao rosto do garoto. Ele a ameaçava divertido com alguma coisa, e ria descontroladamente. e eu apenas nos entreolhamos com sorrisos de ponta-à-ponta, mesmo sem saber o que se passava entre o casal mais à frente, achando graça na cena. Quando chegamos mais perto, pude notar que segurava veemente, sem o propósito de soltar, dois copinhos com sorvete.
- Finalmente alguém vai tomar a iniciativa de interná-la? – perguntei de brincadeira, quando já estávamos próximos o suficiente. – Muito obrigada, .
- Bem que ela merecia. – comentou em meio a gargalhadas.
- Parem de falar pelas minhas costas. – ordenou, enquanto se remexia tentando a todo custo se livrar das mãos fortes de que a seguravam.
- Acho que bunda cai melhor na sentença do que costas, . – a avisou, rindo logo em seguida da cara que ela fez.
- Será que um dos dois pode me explicar o que está acontecendo? – perguntei em busca de algum tipo de informação útil. Se bem que era mais fácil conseguir informação útil de um dos granadiers guards do que daqueles dois.
- Ele é um egoísta. – afirmou, convicta, agora já desistindo de se soltar.
- Eu, né? Quem foi que roubou meu sorvete enquanto eu pagava mesmo? Ah sim. – a acusou, virando sua cabeça para o lado tentando encará-la em vão. A não ser que as nádegas dela tivessem um bom papo.
- Você roubou o sorvete dele? – perguntei rindo para , que apenas esticou os dois braços em minha direção como se me oferecesse um dos dois copos.
- Quer? – ofereceu inocente, e eu aceitei rapidamente sem pestanejar, permitindo assim que ela finalmente conseguisse saborear o seu, e que me lançasse um olhar indignado. Eu comecei a rir mais ainda, mas não deixei de levar uma colherada bem cheia de sorvete de chocolate até minha boca.
- Você também? – ele praticamente gritou, balançando a cabeça de um lado para o outro em reprovação. Eu apenas estiquei minha mais recente aquisição para ele, assim como havia feito comigo há alguns minutos.
- Desculpa, , vai contra os meus princípios recusar comida. – justifiquei-me, forçando meus lábios a se juntarem um ao outro para proibir que mais um riso se libertasse.
- Vamos lá, , a tava precisando do seu sorvete mais do que você, olha só a boca dessa menina. – levantou o olhar até os meus lábios como se os apontasse, o que fez com que e os mirassem ao mesmo tempo. E como num puro ato de harmonia e sincronização, minhas bochechas coraram, quase se misturando com minha boca. Filha da puta! – O que você fez com ela, ? – perguntou puramente maliciosa.
- Mas por que vocês encanaram que fui quem fez isso? – ele rapidamente levou suas mãos até a altura de seus ombros em um gesto de inocência, que era – em partes - verdadeiro.
- Porque ela não é masoquista, e não faria isso sozinha? – o questionou com obviedade.
- Eu me queimei, . – expliquei mais uma vez. Acho que vou escrever a causa do meu beiço inchado em um papel e o amarrarei em meu pescoço, assim não terei que explicar o que aconteceu a cada poste que me olha torto. – Fácil assim.
- Mas pra isso você precisava vestir as roupas dele? – se antecipou, e cortou a frase que, supostamente, diria, enquanto fazia gestos com as mãos como se estas fossem um fantoche, e tentava imitar a voz dela.
- Caí dentro da vasilha de água do lagarto dele. – complementei automaticamente, sem esperar que a se rebelasse com .
- Você tem um lagarto? – ela perguntou com nojo evidente na voz.
- Tenho. – respondeu indiferente. – Olha, eu também quero um sorvete, então, , larga de ser baitola e vem comprar outro comigo.
- Isso! Vai lá. – o incentivou com muita alegria.
- Prometo que eu não deixo ela te seguir. Seu sorvete estará a salvo. – o assegurei, fazendo todos voltarem a rir. – Pelo menos o novo. – sorri como quem tinha aprontado alguma, comendo mais um pouco de sorvete. O contato do geladinho do chocolate realmente aliviava a dor que eu ainda sentia em minha língua, qual, por sinal, começara a formigar intensamente. Até parecia que eu estava com dez aftas em um único canto da boca.
Assim que os meninos saíram, fui puxada por até o banco mais próximo que dava de cara com o parquinho forrado com crianças de todos os tamanhos. Por um segundo, achei que “meu” sorvete voaria até a cabeça de algum recém nascido que passeava com os pais pelo parque, mas consegui segurá-lo com força, impedindo que tal tragédia acontecesse. Eu precisava do meu sorvete.
- Ta bom, o que aconteceu? Sou loira, mas não é pra tanto. – ela disse, já cruzando as pernas e se voltando completamente em minha direção com uma cara de quem estava investigando minha alma atrás de qualquer sinal vacilante.
- Não aconteceu nada demais. – tentei mentir, só porque não me sentia preparada psicologicamente pra tocar no assunto.
- E eu finjo que acredito. – respondeu com um rolar de olhos e uma expressão séria assustadora.
- Tudo bem, tudo bem, aconteceu o que você está pensando. Feliz? – perguntei, dando de ombros e quase dando fim ao conteúdo do copinho em minhas mãos.
- Como você sabe o que eu tô pensando? – me instigou, erguendo uma sobrancelha de forma maliciosa e um sorriso de canto.
- Porque eu sei. – respondi indiferente.
- Então você conheceu mesmo melhor o quarto dele? – continuou provocando. fazia aquilo, porque queria que eu falasse, com minhas próprias palavras, o que tinha acontecido entre mim e .
- Vai se ferrar. – falei, apoiando meus cotovelos em meus joelhos, e ficando em uma posição que eu julgava confortável, mas que não era aprovada por todos os ortopedistas e fisioterapeutas do mundo. Comecei a analisar cada criancinha que ali brincava e, vagamente, passei a me lembrar de quando eu era menor e implorava aos meus pais que me levassem até ali. Eu sentia saudades de meus amigos... Mesmo depois de todos esses anos, eu ainda recordava perfeitamente do rosto de cada um deles. É incrível como a vida, aos poucos, vai tirando as pessoas de você, e você só vai perceber quando já é tarde demais.
- Ou será que ele abusou de você? Eu posso estar pensando em várias coisas, . – ela brincou mais um pouco, cortando meu momento nostalgia.
- Eu beijei o . Satisfeita? Agora vê se cala a boca, antes que eu meta esse copo num buraco que não vai te agradar em nada. – a ameacei, esfregando meu copo, agora vazio, na frente de seu rosto.
- Como você sabe que não vai me agradar? – ela sorriu maliciosa mais uma vez. – Brincadeira! – gritou, chamando a atenção de algumas menininhas que corriam ou fugiam de alguma coisa por ali. A encarei de lado e ri, trocando de papel com ela, e permitindo que um sorriso de canto e cheio de outros sentidos, se manifestasse em meu rosto.
- E você? – voltei a ficar ereta no banco, recostando minhas costas no encosto gelado de concreto.
- Um pouco antes de vocês chegarem. – ela sorriu de ponta-a-ponta, esbanjando dois olhos maravilhosamente claros e brilhantes. Sorri com ela.
- Até quando será que isso vai durar? – perguntei, voltando a ficar pensativa.
- E importa? – rebateu ainda sorrindo, mas dessa vez apertando uma de minhas mãos. Suspirei. – Vamos, , aproveite. Se dê essa chance. – ela pediu, esperançosa por mim. Eu apenas dei mais um sorriso simples e singelo, e voltei a encarar as crianças no balanço, que iam e vinham compassadamente, assim como meu coração.

Quando era umas cinco horas e alguma coisa insignificante, os meninos já haviam voltado, e devorado seus devidos sorvetes – sem furto de outros -, tomamos uma decisão unânime de que estava na hora de voltar para casa, antes que cada membro de nossos corpos congelassem e necrosassem. E, de acordo com o , ele não estava nem um pouco afim de ter que amputar certos membros que são de suprema importância. Pois bem, mas como nada na minha vida tem o direito de agir 100% comum e normal em relação ao resto da população, resolvemos fazer uma brincadeira.
- Sabe, eu tô com muito preguiça de andar. – comentou (ou mandou uma indireta bem direta), fazendo bico e cruzando os braços para se aquecer melhor, enquanto andávamos a curtos passos pela praça.
- Nem me diga. – concordei pensativa, andando espremida entre e .
- Acho que vocês podiam provar serem verdadeiros cavalheiros e nos levarem no colo. - sugeriu com um tom de voz simpático e que costumava convencer as pessoas.
- Ou de cavalinho. – ergui meu dedo indicador timidamente, dando também minha sugestão.
- E desde quando cavalheiro tem que carregar mulher até em casa? – nos questionou, revezando seu olhar entre nós duas, mas no final acabou o mantendo em .
- E desde quando eu preciso provar pra vocês alguma coisa? – arqueou apenas uma sobrancelha, de uma forma irritante e insuportavelmente sexy. Eu apenas dei meu sorrisinho de lado, mais intimidador que consegui, e o olhei de esguio.
- Encare como um desafio.
- Vocês nos carregam e depois a gente faz qualquer coisa que quiserem. – soltou e eu a encarei assustada. Como assim qualquer coisa? Tomou sorvete pelo buraco errado, menina? Ela percebeu o erro e logo deu um jeito de amenizar a situação. – Mas uma única coisa, e com restrições sexuais. – riu quando viu o olhar maroto que os dois trocavam entre si.
- Fechado. – foi o que concluiu, após uma rápida conversa mental com , e uma leve refletida sobre o assunto. se pôs a minha frente prontamente, e arcou-se, possibilitando que eu pulasse em suas costas e enganchasse minhas pernas ao redor de sua cintura. fez o mesmo em . Antes mesmo que eu pudesse respirar, ou abraçar seus ombros para não cair, começou a correr, deixando um – que ainda ajeitava em suas costas - meio atordoado para atrás.
- Esqueci de avisar... Quem chegar por último leva dez socos. – ele gritou, quase tropeçando em seus pés e nos levando de encontro com o chão.
- Ai meu Deus, , cuidado! – gritei e me apertei ainda mais a ele, fechando os olhos e mergulhando minha cabeça na curva de seu pescoço. Eu podia sentir as pontas do meu cabelo, escapando de dentro do casaco, e ricocheteando em minhas costas. Experimentei dar uma espiada para trás e pude ver que tentava ao máximo aumentar sua velocidade e nos alcançar, enquanto ria se divertindo, e, pelo que pude ler em seus lábios, gritava: “Mais rápido, mais rápido.”, tentando motivá-lo.
- Eles estão se aproximando. – avisei meio desesperada. Odeio competições, parece que toda a dose de adrenalina e ansiedade que existem em meu corpo, se liberam em minhas veias por completo e ao mesmo tempo. E odeio mais ainda competições que propõe uma corrida. É como se eu tivesse que fugir de alguém que tenta a todo custo me pegar. Sinto como se estivesse fugindo de um estuprador, sinceramente. Acho que é por isso que desde criança não suporto brincar de esconde-esconde ou pega-pega. Não gosto de ser perseguida pelas pessoas, principalmente quando isso envolve, ganhar, perder e socos.
- Não se preocupe, ele não vai conseguir ganhar. – ele riu, agora se aproximando da casa. Alguns passos depois, senti desacelerando, o que fez com que eu fosse investigar o paradeiro dos meus concorrentes.
ainda corria em nossa direção, mas, dessa vez, com uma cara cansada e bem mais lentamente. parou na entrada da casa e lhes lançou um sorriso.
- Um dia você consegue, . – consolou o garoto, que agora se posicionava ao nosso lado. – Mas agora, se me dá licença... – pediu, antes de começar a socá-lo diversas vezes no braço.
- Epa, epa, epa, a gente ainda tá aqui em cima. – os avisei rapidamente, quando notei que eu começava a escorregar e estava a um passo de cair de bunda no chão. não se encontrava numa situação muito diferente.
- Isso que dá ser lerdo. – o provocou, e riu quando ele ameaçou soltá-la com tudo.
- Quem tá com 80 kg nas costas sou eu, não ele. – disse, também rindo. empurrou sua cabeça para frente, o que fez com que ele cambaleasse. – Se eu cair, você vai junto.
- Vai, agora me bota no chão, porque nem me carregando você conseguiu ser cavalheiro. – ela reclamou, e no mesmo instante soltou seus pés, fazendo com que ela quase desmoronasse, mas, por sorte, suas mãos estavam bem presas a ele. – Viu só? – ela abriu a boca, indignada, apontando para a pessoa a sua frente. e eu apenas riamos da cena, enquanto ele se agachava para que eu pudesse, graciosamente, me desgrudar de seu corpo quentinho.
- Vocês dois tem problemas. – eu disse, revezando meu dedo entre ambos.
- Não reclama e entra, porque você ainda me deve um favor. – exclamou, puxando para casa e caminhando até a sala, onde nossos amigos ainda estavam. Olhei para frente, depois que os dois já haviam entrado, e encontrei um encostado eretamente na lateral da porta. Ele se curvou para mim, como quem faz uma reverência e esticou o braço para me dar passagem. Eu ri e fiz o que ele me sugeriu silenciosamente. Como um verdadeiro cavalheiro.

A sala ficou movimentada durante boa parte do resto da tarde. Conversas animadas e gostosas preencheram nosso ótimo dia, o deixando mais agradável e perfeito do que já estava. contava histórias sobre seus momentos sem os meninos fora da Europa. relatava o quanto cobiçava comprar novas guitarras e gatos. contava piadas e não permitia que parássemos de rir por um segundo sequer. rebatia as piadas do e contava sobre seus gostos bem incomuns – além de permitir que eu contemplasse sua beleza, mesmo que, algumas vezes, de relance. falava sobre sua grande família e seu vício por datas comemorativas (pouco diferente de seu namorado). relembrava nossos momentos constrangedores, abertamente. a socava cada vez que soltava um assunto constrangedor em excesso. E eu... Bem, assistia a tudo com extrema atenção, e me intrometia no meio das conversas como sempre. Só lá pelas sete da noite, é que todos se revoltaram com a falta de alimento, e resolveram deixar de preguiça para fazer uma visita inútil à cozinha.
- A gente pode esquentar essas torradas... – sugeriu , desanimado, após verificar umas quatro vezes a situação deplorável em que sua geladeira se encontrava.
- Se você quiser morrer de intoxicação alimentar. – completei sua ideia. Ou previ o futuro.
- Então a gente podia estourar pipoca, acho que eu devo ter um saco por ali. – tentou resolver nossos problemas, se voltando para a despensa. Olhei desesperada para , que logo deu um jeito de intervir numa quase pendente terceira guerra mundial.
- Eu já enjoei de comer pipoca. – se meteu na frente do garoto das covas, antes que ele fosse capaz de girar a maçaneta. deu de ombros e voltou a abraçar a namorada de lado.
- Por que vocês não fazem umas comprinhas, hein? – perguntou, franzindo a testa.
- Porque o supermercado mais perto fica muito longe. – respondeu com obviedade pelos dois amigos, o que fez a cara de descrença de aumentar.
- E por isso vocês vão viver de torrada mofada pelo resto da vida?
- Não, é só um dos dois terem boa vontade e dinheiro pra ir até lá e comprar algo. – disse, indiferente. – E eu nem moro aqui, nem vem. – ergueu suas mãos, se inocentando.
- E as torradas não estão mofadas, coloquei na geladeira exatamente pra não estragar. – apontou, com seu dedo indicador esticado sabiamente.
- Amor, há quanto tempo elas estão ali? – perguntou a ele, carinhosamente e com certa pena.
- Há três... – ele pensou por um tempo, e continuou, só que desencantado: - Semanas.
- Geladeiras conservam, mas não são mágicas, . – eu expliquei a ele com cautela, o que fez com que todos rissem.
- Por que a gente não pede uma pizza, ou comida japonesa, ou qualquer outra coisa comestível? – perguntou entediado de assistir a saga que se reproduzia na cozinha. Eu quase ergui as mãos pro ar, agradecendo e o glorificando.
- Finalmente uma ideia inteligente. – estiquei a mão ao para parabenizá-lo.
- E já aproveitamos pra pedir alguma coisa pra beber. – acrescentou.
- Vocês não querem um docinho também? – ironizou.
- Eu não tenho nada de dinheiro. – avisou, antes de sair do cômodo para atender o telefone que começara a tocar incessantemente.
- Nem olhem pra nós, viemos de visita, ou seja, sem grana. – respondeu por mim e , com a mais pura verdade. Eu nem sequer cogitara a possibilidade de colocar um pouco de dinheiro dentro da bolsa. Como eu imaginaria que eles não tinham nem uma batata pra fritar?
- Então? Vocês acham que o motoboy vai dar uma passadinha amigável aqui, deixar a comida e ir embora sem nada em troca? – disse e eu tive de rir.
- , você tem cara de ser o segundo mais sensato da casa. – o bajulei – Assim como tem cara de quem esconde dinheiro em baixo do colchão em caso de emergência.
- Na verdade, é na gaveta de cuecas. – o entregou com uma cara marota. e não esperaram nem um segundo a mais antes de correr pelas escadas até o quarto do coitado.
- ! – ele soltou, indignado. – Era pra você me ajudar.
- Desculpa, mas eu tô com fome. – fez bico de uma forma extremamente dócil.

Era incrível como tudo estava indo bem até ali. Nenhum desentendimento (ou quase isso), todos amigos, todos com seus devidos e (bem selecionados) garotos... Até parecia uma piada de mau gosto comigo mesma. Mas e daí, não é mesmo? O que seria de nós sem espírito esportivo? Sentei na grande mesa de madeira e comecei a rir tanto de e , quanto do meu próprio destino.
- Você realmente tem uma boxer de corações, ? - perguntou assim que voltara, com em seu encalço. Esse, por sua vez, carregava um - razoavelmente - gordo bolinho de dinheiro, e o contava com calma.
- Tem, eu que dei. Não é uma graça? - disse toda feliz.
- Sério que você gastou dinheiro com aquilo? - soltou com indignação.
- Ah, para! Tava em liquidação e nem é tão feio assim. - ela argumentou, e depois lançou seu olhar carinhoso ao namorado. - Pelo menos ele gosta. - finalizou, e deu um sorrisinho amarelo, o que fez com que uma expressão preocupada surgisse no rosto da garota. - Não gosta?
- Claro que gosto. - tentou parecer verdadeiro, mas com pouco sucesso.
- Só serve pra esconder dinheiro mesmo. - comentou, terminando suas contas.
- Você esconde dinheiro na boxer de corações? - meio que gritou, parcialmente revoltada com sua nova descoberta.
- Eu... Desculpa, amor, mas... Aquilo é gay demais até pra mim. - desabafou e todos começaram a gargalhar. Até soltou uma risadinha, mesmo que tentasse se manter com pose de emburrada. foi pra mais perto da namorada e lhe deu um beijo na bochecha.
- Mas e então, quanto de dinheiro temos? - perguntou.
- Se meus cálculos estiverem corretos... - ia dizendo até ser interrompido por .
- Tem 350 libras, . - disse, desanimado. - Mas nem em sonho que vocês vão gastar tudo. Eu preciso de uma Gibson, e não é a satisfação de vocês que vai comprar uma pra mim.
- Pelo amor de Deus, . Quanto deve custar uma pizza? Umas dez libras? - perguntei.
- Mais as bebidas e a taxa, talvez fique umas trinta. - chutou e balançou a cabeça, concordando.
- Trinta libras? - ele riu, desacreditado. - Vocês estão pretendendo comprar o que? Um Gold Cuvee?
- Estamos em... - falei, dando uma pausa para contar as pessoas a minha volta. - Oito pessoas, . Levando em conta que só vocês devem beber quatro garrafas sozinhos, vai dar... Uns dois engradados no mínimo. - finalizei.
- Vocês devem ter bebido antes de vir pra cá, não é possível. - murmurava, incrédulo, enquanto tentava avançar em para resgatar seu tão cobiçado dinheiro.
- Eu bebo sete sozinho fácil. - concordou comigo, apenas confirmando minha teoria de que ele era um dos únicos da casa que realmente usava a cabeça certa, se é que me entendem.
- , você tá começando a me envergonhar. - comentou, tentando segurá-lo ao seu lado a todo custo. - São só trinta libras! Você não vai morrer se sua Gibson tiver que esperar mais um mês. - tentou persuadi-lo, mas dessa vez sem resultados muito bons.
- Já fazem dois natais que ela vem esperando! E essa não é a questão. - replicou, o que fez com que e todos os outros da cozinha o encarassem com expressões desconfiadas de quem não acreditava no que havia acabado de escutar. - Tá bem, talvez essa seja a questão. Mas e daí? Você quase não me matou quando eu peguei dez libras das suas economias pra comprar o Zukie? - reclamou, apontando seu dedo ao de forma acusatória.
- Mas estamos falando de um animal, um ser vivo, não um pedaço de madeira com cordas que é praticamente igual ao que você já tem. - rebateu, cruzando os braços. Eles estavam mesmo discutindo por causa de trinta libras? E eu achando que quem estava dura éramos nós.
- Como... - ia continuar até ser interrompido pelo genial , que praticamente arrombou a porta e matou todos de susto, carregando um sorriso enorme que, por pouco, não cortou sua boca.
- McFLY, vocês acabam de ser aprovados!

Capítulo 12

Foi a última coisa que ouvi antes de me deparar com a cena mais linda, porém louca, dos últimos tempos. Assim que os garotos, e nós também, assimilamos a mais recente informação, começamos a gritar freneticamente. correu para os amigos e esses se apertaram num forte abraço grupal.
Eu, por outro lado, não sabia como reagir. Estava meio em choque ainda com a reação de todos, por isso apenas correspondi carinhosamente quando me abraçou o mais forte que conseguiu e meio que me girou em seus braços. Não sei se existe um meio termo para girar, mas foi isso mesmo o que aconteceu. Em seguida, senti minha coluna ser prensada por , depois por , que fez questão de adicionar uma descabelada de cabelo, e, por último, , que veio todo exasperado com os olhos extremamente brilhantes e animados, me abraçar e me presentear com um beijo na bochecha. Quando consegui parar para analisar a situação da cozinha, vi que todos os meninos estavam com os olhos marejados de alegria. Até mesmo , que tentava a todo custo manter sua aparência de forte no campo sentimentalístico da história. , no caso, estava tão contente - senão mais - pelo namorado e os amigos que deixava notável algumas lágrimas escorrendo por seu rosto. não hesitou em se aproximar de , segurar suas duas mãos do jeito mais adorável possível, fazendo com que ela o encarasse , para só então sussurrar um: “Conseguimos!”, dando-lhe um selinho demorado, enquanto limpava a face da menina.
Vou confessar que por um segundo senti um apertado nó em minha garganta se formar e uma vontade enorme de soluçar. Era sempre assim quando eu me deparava com pessoas chorando. É quase mais contagioso que ver pessoas bocejando. Bocejou?
- Acho que isso merece um Gold Cuvee. - disse, depois que todos se acalmaram e foram se apoiar em algum objeto do recinto.
- Um Gold Cuvee? - perguntou, incrédulo. E eu quase lhe dei um soco, achando que ele reiniciaria com a “pão durísse”. - Vocês podem comprar quantos Gold Cuvee o meu dinheiro permitir. Não é todo dia que se tem um motivo tão bom pra comemorar. - afirmou com os olhos arregalados e um sorriso empolgado no rosto.
- Se eu soubesse que era tão fácil arrancar dinheiro do , já teria dito algo do tipo há muito mais tempo. - comentou, fazendo com que todos ríssemos.

- Acho que a gente tem que dar uma festa aqui. - sugeriu, quando já havia voltado do supermercado com todas as bebidas, e ainda aproveitara para passar na Dominos pra comprar quatro pizzas decentes. Eles mereciam comemorar com uma pizza melhor do que as congeladas, convenhamos. ter saído para comprar as coisas, por um instante, deixou mais contente em relação ao seu dinheiro que estava prestes a ser gasto, já que ele não teria que pagar a taxa extra ao motoboy. Mas todo esse contentamento logo tomou outro rumo quando viu a quantidade de coisas que o tinha comprado e se lembrou de que carros também precisavam ser abastecidos. Pela segunda vez, achei que ele fosse voltar a reclamar, mas essa possibilidade logo foi trocada por um enorme sorriso em seu rosto.
- Você ainda tem alguma dúvida? - soltou, com indignação.
- Além de dar a festa, vocês deveriam tocar pelo menos uma música. - disse sem ter que parar pra pensar por um segundo que fosse. Era uma questão de obviedade! Agora que eles tinham sido aprovados no tal teste, as chances para uma suposta alavancada na carreira ainda inexistente deles - pelo que pude notar - estava ali, apenas os aguardando. E o que seria de bandas sem amigos e fãs? Oh, sim, meus queridos, vocês não serão nada sem os fãs.
- Tocar? - perguntou, enquanto coçava a cabeça meio incerto.
- O que foi, , medo de palco? - o provocou.
- Ah, mas é claro. - retrucou com ironia. - É só que eu queria curtir a festa. Não que eu não curta tocar, mas... - ele ia começar a se desenrolar, até ser interrompido por mim.
- Quem conhece a banda de vocês? - os questionei.
- Vocês, nossa família, ou pelo menos boa parte dela, amigos e... Nós mesmos? - pensou um pouco, antes de responder e dar uma risada quase que sem-graça.
- E como é que vocês pretendem sobreviver com a banda? - perguntou, indignada.
- Ou vocês esperam que suas mães comprem todo o estoque de CD por vocês? - a ajudou.
- Claro que não, mas a gente tava pensando em investir mais na banda, depois que as coisas estivessem mais ajeitadas, vulgo nosso contrato assinado. - explicou calmamente.
- Sim, mas não seria mais fácil se as pessoas já conhecessem as músicas de vocês? - tentei persuadi-los da forma mais perspicaz que consegui. - Pensem só, vocês dão uma festa, nós chamamos algumas pessoas, vocês tocam, eles curtem, e quando o futuro CD ficar pronto, pelo menos, alguém certamente vai comprá-lo, além das mamães.
- Concordo, vocês seriam idiotas se não tocassem. - se intrometeu em nosso favor.
- Tô começando a achar que foi uma péssima ideia apresentar você a elas. - disse, fazendo com que todos rissem.
- Eu também concordo. - se pronunciou finalmente.
- Fala isso só pra ter o saco puxado pela . - disse de forma brincalhona, e tanto eu como lhe mostramos o dedo do meio. O que eu podia fazer se ele tinha uma cabeça boa por fora e por dentro?
- Não, mas sério, seria uma boa. A gente pode tocar duas músicas, sem compromisso, e depois bebemos e aproveitamos a noite. Simples. - tentou explicar seu raciocínio, e parecia que os outros começavam a ceder à tentação de um pouco de fama.
- É... O que temos a perder? - murmurou, pensativo.
- Eu topo, mas com uma condição. - cortou o momento reflexivo que se instalara no ambiente com um aviso, que puxou a atenção de todos para si. - Se eu estiver bêbado na hora de cantar, ninguém vai poder me culpar pela desgraça do McFLY. - finalizou, fazendo com que todos voltassem a rir.

Garrafas e mais garrafas, adicionadas a um delicioso bate-papo e gostosas gargalhadas e dores na barriga, depois, o tédio finalmente acertou de frente as cinco pessoas deitadas indiferentemente pelo chão do cômodo. Eu encarava o teto e escutava a respiração pesada dos meus amigos ao meu lado atentamente. Até ouvir uma entristecida, resmungar:
- Acabou o Gold Cuvee. - olhei para ela, de ponta cabeça mesmo por motivos de preguiça, e vi que fazia um bico enorme, abraçada ao vidro, agora vazio. Seu olhar ao recipiente era quase como de desolação.
- Mas já? - disse, bastante surpreso.
- Eu nem consegui provar uma única gota. - voltou a reclamar, depois que o pouco de bebida que havia ingerido fez questão de trazer sua chatice à tona. - Isso porque eu paguei. - quis deixar bem claro, como se fosse motivo de ter mais direito do que todos os outros.
- Eu falei pra vocês não deixarem o Cuvee com a , mas alguém me escuta? Não, não, não, todos ignoram a quando ela dá bons conselhos. - comecei a falar em disparada com uma espécie de sermão ou algo bastante semelhante. Em menos de meio segundo, a mão de - infelizmente apenas a mão -, tapou minha boca, detendo-me de continuar. - Viu só? - tentei dizer, mas tive minha voz abafada, o que não impediu que as pessoas fizessem suas suposições e compreendessem o que eu havia dito, rindo logo em seguida.
- Você fica muito chata bêbada. - brincou, e eu lambi sua mão, fazendo com que ele a afastasse de mim e a balançasse com certo nojo fingido.
- Como se ela fosse muito legal lúcida. - resolveu se juntar a .
- Tenho uma língua e não tenho medo de usá-la, . - o ameacei de longe.
- Não fala isso, . - me repreendeu. - Não tá vendo que assim você magoa o e a ? - os provocou, fazendo com que ambos lhe lançassem olhares de poucos amigos. Eu ri.
- Não é só porque eu puxo seu saco, que eu não posso socá-lo também. - o avisei antecipadamente, arrancando algumas gargalhadas.
- O que é isso? - perguntou, enquanto se aproximava de um grande olho de plástico que estava escondido ao lado da TV.
- Essa eu sei: um olho. - respondeu animada, mas não teve tempo nem de xingá-la, pois logo mais já estava se pronunciando.
- Se vira. - disse por fim, o que fez com que o fuzilasse com o olhar. - É um jogo.
- Meu primo deve ter esquecido por aí. A gente costuma jogar quando ele vem. - se explicou, pensando que já estávamos os julgando por terem um olho de plástico repleto de botões como parte da decoração da casa. E bem... Digamos que eu estava mesmo.
- Você tem um primo? - me interessei de repente, virando meu corpo para poder encará-lo melhor.
- Ele tem oito anos, desencana. - avisou-me de forma extrovertida e eu lhe dei uma outra lambida, só que desta vez em seu braço.
- Você é nojenta. - resmungou, limpando seu braço no tecido do sofá.
- Olha quem fala! O sujo falando do mal lavado. - retruquei, em meio a algumas risadas.
- Futuros casos de pedofilia à parte... - nos interrompeu, voltando a atenção de todos para o globo ocular em suas mãos. - Qual o nome?
- Se vira. - disse mais uma vez, e desta, recebeu um “vai se fuder” da morena à sua frente. Ele levantou as mãos com incredulidade e virou de costas para nós, enterrando seu rosto entre as pernas de , que começara a rir do namorado. - Se vira é o nome do jogo! - ele gritou, parcialmente irritado, e apenas deu de ombros.
- Digamos que ele é bipolar. - resumiu sua reação, passando a acariciar a cabeça de .
- Enfim... Vamos jogar? Parece ser legal. - se pronunciou, já se levantando e ficando ao lado de , enquanto tentava a todo custo arrancar o brinquedo de suas mãos.
- Ah não... - continuou a reclamar, mesmo com seu rosto ainda escondido de todos.
- Isso não se chama bipolaridade, isso se chama medo de perder e ter que pagar os micos mais uma vez. Qualquer um cansaria. - disse, fazendo com que o apenas se desse ao trabalho de esticar a mão e lhe mostrar algo como um “ok”. Ou também podia ser um cu, mas isso não vem muito ao caso e é bem relevante.
- Você conseguiu perder pro Peter. Já é motivo suficiente pra se sentir humilhado. - comentou, se direcionando ao e referindo-se ao primo de , pelo que pude tirar de minhas conclusões. Bom, se não fosse o primo, seria uma das jarras de gnomos?
- Pelo que eu me lembre, , você foi o primeiro a cair. - o lembrou, e murmurou algo como: “Muito obrigado, . , você tem razão”.
- Sim, mas eu só caí porque fui espirrar. Não tenho controle sobre os meus impulsos. - tentou se consertar, mas o rapidamente deu um jeito de se intrometer com suas piadinhas razoavelmente constrangedoras de novo.
- Olha, se toda vez que você for espirrar você cair daquele jeito, terei pena de quem te namorar. - falou, e em seguida foi até onde estava, apenas para lhe dar pequenos tapinhas nos ombros com certa piedade. Mesmo bêbada, conseguiu ficar notavelmente envergonhada, levando em consideração que sua cor quase se confundia com o vermelho do moletom que eu usava.
- Ignorando inconveniências... - tentou nos enrolar, com certo sucesso - Como é que se joga?
- Ah, é bem simples. - começou a nos ensinar. Ou pelo menos, era o que ele esperava que estivesse acontecendo, mas nunca se deve confiar no cérebro de três meninas meio alcoolizadas. - Os botões servem pra escolher o número de participantes, então alguém vem aqui e aperta o botãozinho, aí depois é só cada um escolher seu número, e esperar o olho dar as ordens. Quem cair, perde, e o último, vence. Fim.
- Mas tem uma regrinha no rodapé do nosso jogo. - propôs, e eu tive de me ajeitar em meu lugar, porque sua cara acusava que não viria coisa muito boa pra quem a sofresse. - O primeiro e o penúltimo a caírem, vão ter que pagar um mico. Mas assim... Qualquer mico, sem direito a se recusar. - cruzou o braço de maneira indiferente, como se já soubesse que aquele não seria o seu caso, e se encostou na parede atrás de si. Eu posso ser péssima em Álgebra, mas sei perfeitamente bem que as chances de eu ser uma das escolhidas era quase que eminente.
- Mas por que só o primeiro e o penúltimo? - perguntei, sem entender direito.
- Fica menos comum. - disse sem rodeios, e deu de ombros.
- Eu topo. - foi a primeira a se apresentar, e assim que o fez, lançou um sorriso até que encantador ao que agora estava ao seu lado.
- Eu também. - resolveu aderir. Eu podia apostar que a sua mente não acompanhava os riscos da pequena regra editada pelos meninos. Também... Pra quem disse que faria o que eles quisessem, desde que a levassem no colo, o que mais poderíamos esperar?
- Não precisa me chamar duas vezes. - .
- Vou ganhar como sempre, então tanto faz. - se gabou de uma forma que mexeu com meu estômago ridiculamente, levantando-se e indo se posicionar ao lado de .
- Eu... Também aceito. Mas não sei bem se concordo com os termos de uso. - comentei, meio incerta sobre jogar ou não.
- Ou topa ou não topa. - me repreendeu.
Olhei em volta mais uma vez, antes de dar uma fungada no ar ao meu redor e balançar a cabeça em concordância, exclamando logo em seguida: - Tudo bem, eu topo. - dei-me por vencida.
- E vocês? - perguntou mais a do que ao , já que este estava praticamente morto no colo da menina.
- Acho melhor não. - ela riu, apontando para suas pernas. - Sabe como é... Prefiro não arriscar um traumatismo craniano no meu namorado. - disse, divertido, o que fez com que ríssemos.
- Eu ainda posso te ouvir, . - A voz de saiu mais sonolenta do que o esperado, aumentando a intensidade dos risos.
- Se vocês quiserem, eu fico controlando o brinquedinho. - avisou, esticando seus braços sem pestanejar quando lhe deu o aparelho também sem muitas delongas. Quando ela voltou ao seu lugar, começamos a ajeitar as ordens dos jogadores. seria a número um, seguida do , então da , , e eu. Vou confessar que novamente estava sentindo uma pequena dose de adrenalina fazer um curto tour por meu corpo. Eu realmente não presto para competições. Assim que viu que todos apenas esperavam por uma atitude sua, correu seus dedos pelos botões e selecionou o 6. Aquilo fez com que eu sentisse uma tremenda vontade de ir ao banheiro. É incrível a capacidade que minha bexiga tem de sentir vontade de fazer xixi nos momentos mais inoportunos.
- Coloque sua mão no ombro do jogador a sua esquerda. – E assim o fez.
- Fique de pé apoiado em um só pé. – a máquina ordenou em seguida, e , por um segundo, quase se desequilibrou, sendo o primeiro a perder.
- Mas já, ? – riu.
- Cala a boca. – foi a única frase que ele conseguiu devolver.
- Coloque sua língua para fora da boca. – estranhou, mas o obedeceu. – Que porcaria de ordem foi essa? – disse com certa dificuldade, e de um jeito esquisito, fazendo com que todos rissem.
- Coloque sua mão direita em sua cabeça. – .
- Encoste seu pé esquerdo no pé do jogador a sua direita. – praticamente chutou o pé de , fazendo com que esse cambaleasse um pouco.
- É assim? – fingiu estar ofendido, e deixou que um sorriso maroto lhe escapasse nos lábios pouco depois. Coitada da !
- Segure o joelho do jogador à sua direita. – Sério mesmo que eu vou ter que ficar curvada até a próxima rodada? Desse jeito é claro que nenhuma coluna vertebral vai sobreviver intacta. riu e deu um pulo quando eu pressionei seu joelho.
- Você tem cócegas? – perguntei, divertida, e parcialmente incrédula.
- Não sei... – ele disse me desafiando, e eu o apertei mais uma vez, recebendo o mesmo resultado de antes. – Para com isso. – ele riu um pouco mais alto dessa vez.
- Não, não para não, ele tem que perder. – gritou a mim.
- Imite um galo. – Imagine uma loura bêbada imitando um galo rouco.
- Coloque sua mão direita em sua nuca.
- Cante uma música até o final do jogo. – Essa ordem fez com que , ainda com a língua de fora, balançasse suas mãos com indignação.
- Cantar com a língua de fora? - supus que fora isso que ela tentara dizer, e comecei a gargalhar quando respirou fundo e começou a balbuciar a pior música que conseguiu encontrar em seu cérebro. Sim, teríamos que aguentar “I’m a Barbie Girl” até a hora em que ela fosse eliminada. Não seria nada demais até, se não estivesse com a língua exposta enquanto o fazia.
- Grite por 10 segundos. – Eu quase tirei minha mão das pernas de para o bem dos meus ouvidos.
- Pule fazendo careta. – Nessa hora, senti uma tremenda vontade de socar aquele olho falante que parecia estar contra mim. , por sua vez, pulava animado, como se soubesse que assim, mais cedo ou mais tarde, eu ou desistiríamos. E pode ter certeza que enquanto o pulava, fazia questão de pisotear “sem querer” o pé do indefeso .
- Segure, com sua mão direita, a mão do jogador ao seu lado.
Enfim, o primeiro a cair, como já era de se esperar, foi , que fora obrigado a tocar o pé do jogador ao seu lado ainda apoiado em apenas um pé. Essa frase conteve muitos “pés”, mas acho que você já foi capaz de recriar a cena em sua mente, certo? Ele ainda não se conformava por ter caído, mesmo depois quando sobravam apenas dois jogadores: e, é claro, . Eu resolvi desistir no meio do jogo, pois não queria correr o risco de ser a penúltima eliminada. Não estava nem um pouco a fim de pagar qualquer um dos micos que viriam a ser propostos.
- Isso é muito injusto. Eu peguei as piores ordens. – reclamava, sentado ao meu lado.
- Você diz isso, porque não foi você quem ficou o jogo inteiro curvado. – retruquei, tentando inutilmente estralar minhas costas.
- Do que vocês estão reclamando? – nos repreendeu. – A tá cantando a mesma bosta de música há quase meia hora com a língua de fora. Eu já tô ficando louca e mal abri a boca. – disse, dando ênfase no “eu”. Pensando bem... Preferimos nos calar diante de tal afirmação.
No final das contas, adivinhe só quem acabou ganhando? Não, não, não, tome muito cuidado! Pense muito bem antes de falar, pois nunca nem se passou por sua cabeça este nome. Muito menos pela minha. Quem? ? Mas como você descobriu assim tão fácil? Minha nossa, acho que você deveria procurar um psiquiatra, seu conhecimento e vidência são de níveis anormais. Enfim...
Sim, acabou vencendo, mas somente quando a exaustão de já era tanta, que, quando ela foi girar e pular uma vez, acabou tropeçando em seus próprios pés, caiu com tudo de bunda no chão. Com a língua pra fora. O lado bom? Ninguém mais precisaria ser torturado por seus gemidos ao som de Barbie Girl. O lado ruim? ficaria se vangloriando por mais essa vitória, por um longo, longo tempo.
- Eu disse que sou imbatível nesse jogo. – ele deu de ombros, levando seus braços, de um jeito desleixado, até sua nuca.
- Certeza que você fica treinando quando não tem nada pra fazer. – eu o incriminei.
- Ah, mas é claro. – respondeu com sarcasmo. – Tanto treino que já decorei as 150 frases. – completou, dando uma risada descrente no final.
- Sabe até quantas frases tem. – apontei para ele, acusatoriamente.
- Tá escrito na caixa. – explicou-se, e eu baixei meu dedo, voltando a dar mais atenção para minha amiga que quase engolia um copo inteiro de água.
- Eu quase não sinto minha língua. – comentou, tentando reidratar a tal.
- Pense pelo lado bom... – fingiu a consolar, colocando uma de suas mãos sobre o ombro dela – Você não vai mais babar enquanto dorme. – logo já estava lhe dando um tapa nos dedos, fazendo com que se afastasse.
- Zomba de mim mesmo. Quem ri por último, ri melhor.
- Mas, por enquanto, se não se importa... – a provocou, balançando as mãos para cima, como se pedisse para que todos forçassem risadas. E foi exatamente o que aconteceu.
- E pode ir se preparando, porque você e o ainda têm um desafio a cumprir. – os lembrou, destruindo as esperanças de sobre todos terem se esquecido. Pobrezinho, tão inocente. Isso porque já deve conviver com eles há alguns anos.
- Por favor, só não exagerem. – quase implorou, e balançou a cabeça em concordância freneticamente.
- Vamos fazer o seguinte: as meninas bolam um desafio pro nosso querido , e nós bolamos um desafio pra . – sugeriu, correndo seu dedo indicador entre ele mesmo, e... Parando no meio do caminho, quando foi apontar . – Tudo bem, as meninas bolam um desafio pro . – rimos.
- Eu topo! – berrou, com urgência.
- Ah, mas assim não dá! – contestou. – tá bêbada, não tem criatividade pra desafios, e a parece ser amável demais pra tramar algo muito cruel. Vocês vão me ferrar, e o só vai ter que fazer uma coisinha babaca. – cruzou os braços, sentindo-se injustiçada.
- Prometemos pegar leve. – mentiu, cruzando os dedos na cara dela.
- Ah, , vamos lá, vai ser divertido. – a instiguei.
- Pra você, que só vai assistir. - ela rebateu, emburrada.
- Exatamente. – concordei, e me esquivei de um tapa que eu tinha absoluta certeza de que viria até mim uma hora ou outra. Alguns pensamentos mirabolantes depois, e a constatação de que estava com plena razão sobre nossos dotes maléficos, eu e nos aproximamos dos meninos para contar-lhes nossa não tão terrível ideia.
- O que vocês vão querer fazer comigo? – gritou, sentado um pouco mais além de onde estávamos.
- Você vai ter que pintar as unhas. – resumiu, recebendo um olhar de indignação tanto de e , como de , e um de extremo alívio e felicidade de . – Uma de cada cor.
- Só isso? – e os meninos protestaram.
- Ele vai ter que fazer isso na escola. Com alicatinho e tudo mais. E vai ter que ficar assim por uma semana, pelo menos. – completei, agora não tão certa sobre a justiça de nosso desafio. Era óbvio que os meninos tinham pensado em algo muito pior para minha amiga.
- Beleza, agora vamos falar de desafio de verdade. – deu bastante destaque à última palavra em questão. – A senhorita... – deu um sorriso extremamente sexy, que mexeu até comigo, imagine com – Vai ter que cantar por essa rua até o fim do quarteirão.
- Tá. – concordou, menos hesitante.
- Só em roupas íntimas. – completou, sendo acompanhado dos olhos dela se arregalando incredulamente.
- Vocês ficaram loucos? – ela disse por fim, quase sem acreditar que eles estivessem falando sério. – Vocês... Realmente acham que eu vou fazer isso? Correr cantando, tudo bem, porque sei que minha voz é linda e viciante, mas de roupas íntimas? Eu precisaria estar mais bêbada do que isso. – apontou pra si mesma, balançando a cabeça em reprovação.
- Ou faz, ou vai ter que passar pelo poço. – a intimidou.
- Eu não tenho que fazer nada. Vocês não podem me forçar. – ela o provocou, raivosa.
- Nem vem, , você já tava ciente das consequências desde o começo do jogo. – disse, não permitindo que ela pulasse fora – Se você não fizer nenhum dos dois, nós não jogamos mais nada com você.
- Será que alguém pode me defender? – virou-se para mim e .
- Você aceitou as cláusulas, . – levantei minhas mãos, me inocentando.
- O que é o poço? – perguntou, mais interessada que a vítima.
- A gente venda a pessoa que se recusou a fazer o desafio, faz ela escolher – sem saber quem – alguma pessoa do grupo, aí apontamos pra algumas partes do corpo do escolhido, e o lugar que ela falar “para”, vai ser o lugar que ela beijará. – explicou, calmamente.
- Prefiro fazer isso. – logo se prontificou. – Isso porque vocês disseram que iam pegar leve comigo. Tô vendo mesmo. Muito legal! – ela os acusou.
- E pegamos! – se defendeu. – Você concordaria com isso, se soubesse o que fizemos o pagar da última vez em que perdeu.
- Aquilo foi nojento pra caralho. – se deu ao trabalho de balbuciar, ainda às escondidas.
- E não, não queremos saber o que é. – avancei com a resposta, sem esperar que eles se oferecerem para nos contar toda a história. Qual é? Eu não estava a fim de vomitar pedacinhos de ouro.
- Enfim... Vai fugir pro poço então? – soltou, desanimado.
- Vou. – o respondeu, convicta. – E nem pense em falar um “a”, porque olha que porcaria de desafio você pegou. – ela nos menosprezou.
- Acho que eu merecia isso, depois de ter pego na bosta do gato e... – ia começar a se justificar, quando foi interrompido por minha voz.
- Cala a boca.
acabou mesmo resolvendo pagar de Samara, e correu para o poço mais próximo que encontrou. Logo mais os meninos já haviam providenciado uma gravata velha do para amarrar em volta de sua cabeça, e passaram a rodopiá-la – ideia qual eu achei meio impensada, levando em conta que tinha acabado com seis garrafas de cerveja sozinha. Depois disso, todos nos enfileiramos um ao lado do outro (incluindo e , que resolveram deixar o sedentarismo de lado). Então começou a guiar seus dedos na direção das pessoas, até gritar um “para” preguiçoso, que fez com que ela selecionasse o meu para o seu experimento. Sim, isso mesmo, o meu . Sete pessoas, uma colada na outra, e ela me cai justo com ele. Qual a probabilidade da minha sorte ser menor, querido ?
Pequena crise de ciúmes e descaso à parte, agora seria a vez de apontar o lugar a ser beijado. Cruzei todos os dedos possíveis de serem cruzados para que ela chutasse o lugar menos doloroso de todos, e, por um triz, eu quase não lhe arranquei as roupas e a joguei porta a fora. Eu disse por um triz.
- Opa. – ela soltou um olhar extremamente malicioso, quando descobriu o que seus lábios tocariam, rindo logo em seguida. – Desculpa, . - deu de ombros, impossibilitada. – Mas eu aceitei as cláusulas.

Capítulo 13

Eu apenas dei um sorriso debochado e rolei os olhos, fingindo estar totalmente indiferente - o que não era o caso. Não era uma região extremamente perigosa, mas mesmo assim... Estava perto demais da área proibida a visitação pública. Então se agachou, lenta e cruelmente, como se soubesse que toda aquela lentidão e atitude estivessem me atingindo em cheio. E só o fazia, porque também sabia que eu não teria motivo algum para brigar com ela, já que, além do fato de eu não ter nada com (ainda), ela estava somente pagando o preço de ter recusado o primeiro desafio e vingando-se por eu não tê-la ajudado. Por isso apenas cruzei meus braços e me sentei no sofá ao lado de e , que achavam graça na cena. Achavam graça porque a pimenta não estava caindo nos olhos delas, é claro. estava a um passo de beijar o abdômen dele, até ser interrompida pelo , que acabava de perder o prêmio de único com cabeça boa na casa.
- Por de baixo da camisa. – ele disse, sem hesitar. Inconscientemente, minhas sobrancelhas se arcaram em desprezo, meus olhos alargaram-se um pouco e minha boca se abriu quase que insignificantemente.
- Não faz essa cara, . – me censurou, quando notou que só faltava eu me levantar pra dar um chute na cara do nosso ex-querido baterista.
- Que cara? - perguntei, displicente.
- Cara de quem quer socar a amiga e se colocar no lugar dela. - ela caçoou e eu só pude retribuir com um risinho cético.
Eu podia perceber o quão desconfortável estava, de longe. E esse foi o único motivo que me prendeu ao sofá, impedindo-me de fazer qualquer outra coisa. Conforme levantava sua camisa, deixando aquela região desprotegida, seu corpo ia se contraindo mais e mais, além de seu rosto ganhar uma expressão neutra gradativamente. Assim que os lábios dela tocaram sua pele descoberta, seus olhos rapidamente se comprimiram, e eu tinha quase certeza que ele havia acabado de prender sua respiração como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa. Sua reação até arrancara um pequeno sorriso de mim, principalmente, quando ele abaixou sua blusa instantaneamente ao sentir o rosto de afastando-se do seu corpo. Ela, por sua vez, levantou-se como se nada tivesse acontecido, e foi até onde as bebidas estavam pegar uma para si. Durante todo seu percurso, não desviou seu olhar uma única vez do não mais tão encantador . Ele lhe sorriu de uma forma lasciva e tanto quanto atraente.
Como o pior já havia passado e eu estava, além de bem mais tranquila e semi-embriagada, sem absolutamente nada para fazer - já que todos haviam se acalmado em algum canto do cômodo -, resolvi me levantar e perambular pela casa. Qual é? Eu só tive a oportunidade de visitar algumas áreas da residência, ainda tinha muito a ser desvendado por ali. Eu estava a um passo de sair despercebida, até escutar sussurrar ao meu lado.
- Aonde a senhorita vai? - perguntou, com um sorriso diferente no rosto.
- Andar. - resumi.
- Pra esfriar a cabeça? - provocou-me.
- Por que seria? Tenho algo com que me preocupar? - a alfinetei, recebendo uma risada divertida de volta, e um cutucão na cintura. Depois disso, ela me deu passagem suficiente para prosseguir com minha meta. A primeira coisa que me veio em mente foi a escada. Creio que mais “em mente” do que em mente, porque eu sentia não estar sã o suficiente para ter noção de onde eu estava indo. Na verdade, eu provavelmente teria que redescobrir a casa mais tarde, quando minhas condições estivessem mais aceitáveis. A primeira porta que encontrei foi a do quarto do , que chamara minha atenção um pouco mais cedo. Por esse mesmo motivo, não hesitei em abrir a porta e dar uma espiada mais detalhada no pequeno espaço abarrotado de miniaturas de filmes e instrumentos. Sim, eles tinham uma sala só para instrumentos e coisas do gênero, mas pelo visto, foi preciso ampliar o local. O quarto do até que era bem parecido com o do , a não ser pelo fato de que este não possuía um banheiro. Havia vários pôsteres, um computador, guarda roupa, roupas, guitarras, CDs, e, é claro, uma cama. O quarto tinha o cheiro de , e num outro momento, eu certamente levaria esse pensamento para um campo mais malicioso, o que não era o caso. Dei mais uma rodada pelo quarto, notando uma espécie de playground para o Marvin e resolvi sair, para continuar com minha pesquisa.
Do outro lado, estava o de . Senti vontade de entrar ali de novo, até que me lembrei da existência de um enorme lagarto naquele ambiente, e de que eu estava completamente desacompanhada e desprotegida. Por isso, rapidamente me afastei da maçaneta, seguindo em frente de cabeça erguida.
Em frente ao quarto tão cobiçado por meu olhar, estava a pequena e improvisada sala de música dos meninos. Por isso resolvi dar meia volta e virar o corredor à esquerda, onde haviam mais dois cômodos desconhecidos. Um deles servia quase que de lixão, forrado de caixas de papelão. Umas vazias e outras cheias de entulho ou coisas relevantes, como ursos de pelúcia. Não me demorei muito nesse ambiente, por medo de encontrar alguma coisa que pudesse me assustar. Não que eu acreditasse friamente nessa possibilidade, mas tenho direito de suspeitar se formos analisar alguns filmes de terror. A curiosidade matou o gato, não é mesmo? E no momento, estou fugindo de perigos.
Por fim cheguei ao último quarto do andar. Era o mais normal e sem graça de todos que havia visitado na casa. Era todo branco, sem vida e com poucos móveis. Tinha uma cama de solteiro, com uma coberta de flores, um armário, uma janela e um banheiro. Por um segundo, parei pra tentar entender o porquê do não ter pegado a suíte que sobrava na casa, mas desisti, quando me toquei de quem estávamos falando: . Devia ser mais uma de suas superstições e esquisitices. Como não tinha muito o que investigar, decidi ser uma ideia interessante abrir o armário e ver o que existia ali. E bem... Não muito surpreendentemente, haviam vários papéis jogados de uma forma desorganizada. Eu estava prestes a tocar uma das folhas, quando escutei alguém abrir a porta do quarto.
- O que está fazendo? – questionou-me, ao me encontrar no quarto mais aleatório e abandonado da residência.
- Ah, oi, . – sorri desajeitada, levando um susto com sua presença. – Nada, eu só estava... Zanzando por aí. – expliquei-me, ainda sem graça.
- Você estava era xeretando. – acusou-me, e logo em seguida riu, provavelmente da cara que eu fiz ao ser apontada como criminosa. Eu até pensei em soltar um: “É claro que não”, mas a porta aberta do guarda-roupa e a minha mão ainda paralisada a meio centímetro de um objeto que não era meu, não me ajudaram em nada.
- Enfim... – dei de ombros, já não dando mais a mínima – O que o senhor esta fazendo aqui em cima? – apontei meu dedo para sua cara, dando uma pequena ênfase no “senhor”.
- É minha casa. – disse, sem muita delonga.
- E?
- E que eu me sinto no direito de andar por onde eu quiser na minha casa. – respondeu seco, o que me incomodou mais uma vez. Então voltou a rir, e passou a se aproximar. – Você tem que parar de me levar tão a sério.
- Desculpa, mas eu ainda não te conheço tão bem assim. – avisei-o. – Mas não muda de assunto. Sei bem porque você está aqui em cima... – comentei de uma maneira instigadora, como quem tem um segredo grandioso e não o conta de jeito nenhum.
- Sério? Então me diga. – provocou-me, com um ar de interesse e um sorriso de lado que quase me fez perder a fala.
- Você estava me procurando. – respondi, convencida. Ele gargalhou.
- Modesta. – completou, agora já pouco distante. Eu apenas revirei os olhos e ergui a cabeça esnobemente.
- Vai dizer que não? – o alfinetei, tentando relaxar, mesmo já imaginando o que estava prestes a acontecer. Eu posso não ser um poço pecaminoso, mas não sou a personificação da pureza, meus caros.
- Mas era. – Okay, eu não esperava por essa resposta.
- Oi? – soltei, voltando à estaca zero e sentindo todas aquelas coisas esquisitas que a proximidade com o me causava, quando a situação se esclarecia em minha mente.
E, como sempre, nos momentos mais oportunos, o mundo fora da minha bolha desconfortável de conforto com entrava em ação e resolvia que seria uma ocasião muito apropriada estourá-la. Começamos a ouvir passadas do lado de fora do quarto e altas risadas conhecidas: e . Quando assimilamos quem se aproximava, era óbvio que a primeira ideia que tivemos foi a de se esconder. Afinal, sair do quarto tranquilamente como se nada estivesse acontecendo era uma possibilidade muito surreal para ser cogitada. No segundo seguinte, eu e estávamos jogados no chão do banheiro, com a porta entreaberta, para que assim pudéssemos analisar o que estava acontecendo. Como estava mais perto do nosso ponto de visão, tive que me apoiar em suas costas para também poder analisar a cena pouco mais à frente.
- Vai, me mostra a letra logo, . – pediu, enrolada. Ela estava bem bêbada, se você realmente quer saber.
- Mas calma! Quanta pressa. – reclamava em meio a risadas.
- Você é lerdo. – ela o xingou, lhe dando um beijo na lateral de sua boca, quando ele indicou que faria uma cara de inconformado.
- Relevarei seu comentário.
- Pega logo o papel pra mim? – ela pediu novamente, completamente impaciente, enquanto remexia suas pernas como se estivesse apertada pra ir ao banheiro.
- Como é que se pede? – a provocou.
- Vou te socar. – ela respondeu, irritada.
- Não, não, não. – ele esticou seu dedo e o balançou em negação, com uma expressão engraçada no rosto. – Violência não leva a nada. – riu.
- Por favor. – ela disse por fim, preguiçosa.
- Como se diz?
- Por favorzinho, . – pediu, com uma voz esticada, enquanto pendurava seus braços no pescoço dele. Depois, parou com o rosto bem próximo, o encarou profundamente e fez um bico, o chantageando.
- Como? – repetiu uma última vez, mas dessa, quase como um sussurro.
Então o beijou. Sim, ela o beijou. Não foi um beijo que faz até os outros ao seu redor perderem o fôlego, mas ela o havia beijado. Um beijo delicado e rápido, mas que mesmo assim fez com que eu tivesse um pequeno surto por ela.
- Não faz barulho. – murmurou pra mim, tentando me conter. Estiquei as mãos num pedido rápido de desculpas, e ele sorriu, revirando os olhos e voltando a assistir à novela que ali se passava.
- Tudo bem, agora você merece o papel. – riu, ainda com a boca de encostada à sua. Ela então se afastou, permitindo que ele pudesse buscar o que ela tanto desejava.
foi até o armário que eu fuxicava minutos atrás, e de lá tirou um papel meio amassado, entregando-o à garota inquieta ao seu lado.
- Eu escrevi há muito tempo, por isso não se baseie nisso. – a avisou, indo se sentar ao lado de , que agora se aconchegava na cama. Ela, por sua vez, lia aquilo atentamente e forçava seus olhos, por conta da pouca claridade, para enxergar e compreender melhor, volta e meia soltando risinhos. Por fim, virou-se pra ele, e, com um sorriso que eu julguei meigo, mesmo sem ter como vê-lo com absoluta certeza, disse: - É linda, . De verdade.
- Obrigado. – ele a agradeceu, sincero, permitindo que um curto silêncio se estabelecesse no local. – Você se lembra que ainda está me devendo um favor, certo? – a relembrou de nosso acordo mais cedo, quebrando a temporária falta de assunto.
apenas balançou a cabeça em concordância, meio desconfiada. - Pois bem, já sei o que vou querer.
- O que? – ela perguntou, receosa, mas bastante interessada.
- Quero que você saia comigo. Qualquer dia da semana. – impôs, e começou a rir sem parar. – O que foi? – a questionou, achando graça.
- Você sabe que gastou seu favor à toa, né? – comentou, ainda rindo.
- Se quiser, eu posso voltar atrás e...
- Não, não, é um escolha sem volta. – ela determinou, tocando o rosto dele com delicadeza, para só então o beijar outra vez, com uma pitada a mais de ardência, digamos assim.
Eu me virei para , achando aquilo tudo a coisa mais fofa do momento.
- Vai gastar seu favor assim também? – o questionei, astuta.
- Não preciso. – respondeu mais convencido do que eu.
- Ah não, é? Como pode ter tanta certeza? – perguntei baixíssimo, cruzando os braços.
- Do mesmo modo que você tinha certeza que eu estava te procurando. – murmurou, fazendo com que eu tivesse que me esforçar para entender o que ele dizia.
- Mas aquilo foi uma suposição. – expliquei-me.
- Você não resistiria a um convite meu. – finalizou, aproximando seu rosto do meu. – Por isso, vou gastar meu favor com algo mais útil. – sussurrou, descendo sua boca até o meu pescoço ainda sem tocá-lo. Aproveitei sua deixa para fechar meus olhos e rolá-los, como quem aprovava o que ele estava fazendo.
- Que tipo de coisa? – soltei com dificuldade, quase delirando quando senti seus lábios tocarem a pele descoberta do meu pescoço, que rapidamente se arrepiou. Decidi que seria uma boa ideia deixar que minhas mãos percorressem livres no meio de seus fios de cabelo, e que minhas unhas o acariciassem sem pudor. Sorri com a boca entreaberta quando roçou sua língua naquela região.
- Não vou te contar. – tentou-me, com sua voz abafada pelo meu corpo. Quando é que eu me imaginaria retratando uma cena dessas? Com uma pessoa dessas?
- Então como quer que eu obedeça? – perguntei, desentendida. A boca de , aos poucos, foi subindo da minha mandíbula até a ponta do meu queixo. Tive que baixar meu olhar para poder fitá-lo diretamente.
- Não vou te contar por enquanto. – respondeu simplesmente, reformulando sua antiga frase. Eu estava a um passo de reclamar, quando rápida e sabiamente fui impedida pela boca de , que fez questão de me calar com urgência. Não hesitei um único segundo em dar passagem para que nossas línguas se encontrassem pela segunda vez. E teria permitido sem objeções que elas passassem um pouco mais de tempo juntas, caso meu pé desengonçado não tivesse feito o favor de esbarrar na lixeira do banheiro e feito o maior estardalhaço com a tal, quando foi tentar fundir nossos corpos. Por conta do susto, acabei afastando-o de mim, e passei a tentar ajeitar a bagunça que eu havia feito com medo de ser descoberta por meus outros dois companheiros. O que já era tarde demais para temer.
- Vejam só... – disse em voz alta, quando conseguiu abrir a porta do banheiro e desvendou o que estava havendo ali. – O que vocês dois estão fazendo?
- Tomando mais um pouco de chocolate quente. O que mais eles estariam fazendo? – brincou, fingindo inocência. teve de se esforçar para chutá-lo.
- Agora só falta dizer que tá toda molhada assim, por causa da tigela do lagarto. – me alfinetou com um olhar bastante comprometedor e, por um segundo, precisei parar para encontrar sentido naquela frase.
- Mas eu não estou molha... Vai se fuder, ! – gritei por fim, quando compreendi o que ela quis dizer, fazendo questão de me levantar só pra lhe dar um tapa muito bem dado. E não, se você não pegou ainda, não sou eu quem irá te explicar. Tire suas próprias conclusões.
- A gente não pode nem mais brincar que a plebe já parte pra violência. – reclamou, enquanto alisava o seu braço atingido por minhas unhas.
- Quem são vocês pra falar da gente? – falou, quando começamos a nos tocar de que tudo começou com eles dois. Os sujos falando dos mal lavados.
- É! A moral passa longe de vocês. – completei, reprovadora.
- Enfim... – usou de sua balançadinha indiferente de mão para mudar de assunto. – Agora falando sério, o que vocês vieram fazer aqui? – quis saber, curiosa a ponto de se recostar na lateral da porta impedindo-nos de bolar um plano de fuga.
- Nada, ué. – respondi, recebendo um olhar de desaprovação. – É sério! Eu só estava rodeando pela casa pra ver como ela era. – me inocentei.
- E você, ? – mudou sua atenção, ainda sem engolir por completo minha explicação, para o garoto desleixado ao meu lado.
- Eu o que?
- Não se faça de desentendido. – ela apontou seu dedo para a cara dele.
- Eu tenho que ter motivos pra andar pela minha própria casa? – disse com uma sobrancelha erguida inquisidoramente e um sorriso maroto nos lábios.
- Não se pode combater um argumento desses. – apoiou o amigo, impedindo de bolar algo que pudesse retrucar. Por sorte, ela deu de ombros e resolveu desistir de sua investigação desnecessária, nos devolvendo a passagem antes bloqueada que tanto cobiçávamos.
- O que você estava lendo? – perguntei, aproximando-me da cama, onde voltara a se sentar por pura preguiça.
- Uma música. – ela sorriu.
Eu até pediria pra ler, se eu estivesse com paciência e pouco interessada em voltar para perto do . O caso era que eu também não queria me intrometer. Se o quiser me mostrar um dia, é só me chamar, estarei à disposição.
- Nós vamos descer. Vocês vêm? – soltei como quem não espera por uma resposta, enquanto pulava nas costas de , forçando-o a me carregar - caso não quisesse cair com tudo no chão. Ele não reclamou, muito pelo contrário, até me ajeitou. Por isso, rapidamente, aproveitei-me do momento para abraçar confortavelmente seus ombros.
Se obtive um “sim” ou “não” por parte de e , pra mim tanto faz. O fato era que eu estava cada vez mais fascinada pelo jeito que vinha me tratando. E, no momento, a única coisa que me importava era ele. Era o que ele estaria pensando sobre mim, como ele estava se sentindo, se eu não estava sendo insuportável demais ou quem sabe grudenta... Eu só queria não estar desapontando-o de maneira alguma. Precisava que ele gostasse de mim, para que assim eu não me sentisse tão culpada por estar me sentindo tão ligada a ele. Eu tentava ao máximo me desvincular de qualquer pensamento que fugisse dos meus princípios, como o de não me entregar tão facilmente, mas a cena de seu rosto tão próximo ao meu, e o seu gosto, ficavam se repetindo tantas centenas - senão milhares de vezes dentro de mim - que eu já não sabia mais o que fazer. A única coisa que eu tinha certeza na minha vida naquele momento em que era carregada escada abaixo por aquela pessoa que se demonstrava tão maravilhosa era: Eu o desejava. Eu desejava mais do que qualquer outra coisa que eu já havia desejado na minha vida. Eu desejava até mais do que desejei Rupert. E eu não gostava nem um pouco de me sentir assim.

Depois de chegar à sala, onde e conversavam animadamente, meu cérebro optou por parar de me fornecer informações. Eu simplesmente não conseguia me lembrar de mais nada com certeza. O que sei até agora, é que eu acabava de acordar, e morria de receio de fazer qualquer tipo de movimento brusco e acordar alguém.
Olhei à minha volta, e, com o mínimo de dificuldade, consegui descobrir que eu ainda estava na sala, sendo acompanhada por quase todos meus amigos, que, no momento, estavam desfalecidos no chão frio. No final das contas, todos haviam adormecido por ali mesmo, com exceção de e , que sumiram no meio da noite e, por enquanto, não nos deram o ar da graça. Sorri de leve ao perceber que o peito de me servira de travesseiro e seus braços, de cobertor. E, por um triz, não soltei uma risada alta, ao descobrir que o rosto de fora usado de aquecedor por meus pés. dormia silenciosa e meigamente no colo deste, enquanto e ocupavam os sofás com um rei e uma rainha. Por um instante, quis que minha memória voltasse ao normal e eu fosse capaz, ao menos, de ter pequenos flashes do que se passara por ali ontem à noite. Ou hoje mais cedo, que seja.
Calmamente, sentei e espreguicei-me com a intenção de pegar um pouco de fôlego para, quem sabe futuramente, levantar. Só de me imaginar em pé, eu já voltava a sentir uma preguiça arrebatadora. O que também não ajudava em nada era o fato de que eu sabia que seria inútil sair em busca de um café da manhã naquela casa. Eu acho que nem gelo eles tinham mais, quem dirá ovos ou cereal. Por fim, acabei tomando uma dose de coragem suficiente para me erguer como um gato e me levar até o banheiro mais próximo, que se encontrava no quarto do . Fui até lá, me arrastando por cada degrau, lavei meu rosto e tudo mais que se deve ser feito ao acordar e corri em silêncio até a cozinha inútil. Conformada em não poder me alimentar, apenas enchi um copo d’água, prendi meu cabelo em um coque frouxo e sentei-me na bancada da pia, permitindo que, pela primeira vez em dias, minha mente funcionasse livremente, sem medos ou receios.
Eu estava completamente presa em pensamentos quando surgiu despercebido.
- Bom dia, . – ele disse ainda meio sonolento, me cumprimentando com um beijo na cabeça e um sorriso de canto.
- Excelente, . – sorri em retorno.
- Não tem nada pra comer, né? – perguntou, e eu nem precisei me dar ao trabalho de negar com um balançar de cabeça. – E eu tô com uma larica imensa. – completou em meio a risadas. Eu tive que o acompanhar e concordar. então se sentou e deitou sua cabeça sobre a mesa, como se estivesse pensando em uma possível solução.
- Você tá com preguiça? – dei de ombros.
- Por que?
- Eu tive uma ideia, mas pra isso você não pode estar com preguiça. – explicou-me, enquanto se ajeitava em seu lugar, apoiando seu queixo em seus braços.
- Depende do que você sugere. – respondi, dedilhando a borda de meu copo.
- Como os outros provavelmente vão dormir por... – ele verificou as horas no relógio acima da geladeira, arregalando seus olhos de leve ao constatar que ainda eram nove da manhã, mas sem transpor seus verdadeiros pensamentos. – Mais um bom tempinho, achei que a gente podia passar no mercado, comprar umas coisas e fazer um café da manhã pra eles. - Pra eles... Aham, pra eles. O até pode ser um amigo adorável, mas não digo nada sobre dedicado. Até parece que ele se ofereceria pra sair às nove da manhã em plena ressaca, só para alimentar seus queridos amigos. Eu podia sentir o cheiro de interesse a distância.
- Desde que você me forneça dinheiro, aceito.
- Desde que o permaneça dormindo, assim o farei. – rimos.

- Vamos revisar a teoria. – assumiu uma postura apressada ao entrar na casa, forrado de sacolas pardas, e correr em silêncio até a cozinha comigo em seu encalço. – Temos só uma hora até o acordar, e quando isso acontecer, ele provavelmente vai forçar a se levantar. Nisso eles devem tropeçar no , que vai começar a dar chilique, acordando a . – terminou sua teoria, puxando ar suficiente para si, voltando a respirar.
- , como você pode ter tanta certeza? – perguntei incrédula. Comecei a retirar as coisas que havíamos comprado de dentro de suas determinadas sacolas, espalhando tudo sobre a mesa, para assim facilitar nosso trabalho como mestres cucas.
- Eu não tenho, por isso se chama teoria. – disse a última palavra em pausas, enquanto buscava pelas gavetas por duas frigideiras.
- Acho mais útil revisarmos o plano com isso. – apontei para todos nossos recém ingredientes, ficando de frente para os tais, como se esperasse que eles saíssem andando e se auto-preparassem.
- Enquanto eu faço a omelete, você faz as panquecas. – pontuou o primeiro item. – Depois, eu aproveito a frigideira pra fazer um pouco de bacon e você vai arrumar a mesa. Simples! Não tem o que revisar. – disse, como se eu estivesse pedindo para que ele repassasse comigo a tabuada do dois.
- Então é melhor você correr, porque só temos 45 minutos, de acordo com sua teoria. – o avisei, já misturando a farinha com o leite.
Eu nunca fui de conversar enquanto resolvia fingir ser cozinheira. Mas quando se tem ao seu lado, nem os mudos conseguem ficar sem, pelo menos, emitir um som que seja. Comigo não seria diferente.
- Desculpa por ontem. – pediu, enquanto remexia sem parar os ovos no óleo quente.
- Pelo que? – perguntei, sinceramente desentendida.
- Por atrapalhar você e o . – riu divertido. – E desculpa por essa também, mas eu precisava te deixar com vergonha logo pela manhã. – disse, ao notar que minhas bochechas pareciam dois pedaços de bacon crus.
- Ah, que isso, . Eu quem deveria estar pedindo desculpas, afinal, forcei sua boca a se afastar da . Perdão. – retruquei, vingativa, só que sem grandes sucessos. Ele não parecia nenhum tantinho abalado. Homens... – Você é muito babaca. – soltei, com uma falsa raiva.
- Ah, mas eu também tenho que te agradecer. – continuou.
- Pelo que dessa vez? – suspirei com pesar, já me preparando para mais inconveniências.
- Por me ajudar com ela. – ele disse, balançado sua cabeça para o lado, como se estivesse apontando a porta que nos levava até a sala. Obviamente falava sobre a .
- Quando precisar, estou à disposição. – sorri triunfante.
- Agora, de verdade, fico feliz por vocês estarem se dando tão bem. – comentou sincero, e um tanto quanto sério.
- Como assim? – Arremessei minha primeira panqueca em um prato limpo, voltando a preencher a frigideira com minha massa pronta. começava a fritar os bacons.
- Não sei... É só que é difícil o tratar uma garota como ele vem tratando você. – deu de ombros, se afastando de leve do fogão para não se queimar. Senti meu coração palpitar com força. Ah, por favor, , essa não é uma boa hora para hiperventilação. – Pra ser sincero, acho que só o vi tratando alguém assim, uma vez na minha vida. E eu posso te afirmar que já faz um bom tempo. – riu ao se relembrar de algo.
- Você tá insinuando que ele sempre foi um cachorrão? – nos descontraí.
- Não. – gargalhou. – Digamos que ele nunca ligou muito pra ninguém.
- E ele liga pra mim?
- Não sei, mas é o que parece. – disse, enquanto terminava suas metas, e passava a me ajudar com a arrumação da mesa. O cheiro de comida pronta estava me matando, mas não mais do que aquela ansiedade que eu começara a sentir por culpa do .
- E o que você quer dizer com tudo isso? – o questionei, bastante inquieta.
- Nada. Só queria que você soubesse. – sorriu-me.
E foi a única coisa que eu consegui fazer a partir dali: Sorrir. Até ouvirmos um: - Mas que porra, , você é cego ou o que? – vindo diretamente da sala de estar. Onde tive que substituir meu sorriso puramente alegre e satisfeito, por uma risada alta.
- Eu disse. – ergueu as mãos, vitorioso, como se não quisesse se gabar.
- Quem tava dormindo no chão é você, meu caro. – defendeu-se.
- E por isso você tem que pisar na minha cabeça? – gritou, revoltado.
- Quem tava no caminho do meu pé era a sua cabeça, meu caro.
- Se você repetir “meu caro” mais uma vez, eu quebro a sua cara. – o ameaçou.
- Perdão... – pediu, sem querer ofender. – Meu caro. – Ou talvez ele quisesse.
- Acho que é nessa hora em que você corre até lá pra apartar a briga. – avisei , meio receosa sobre o que estava acontecendo ali.
- Não. – ele balançou a mão indiferente, e despreocupado. – O já deve estar trancado no banheiro nesse exato minuto. E o não vai resistir por muito mais tempo.
- Mas que barulheira toda foi essa? – escutei a voz de , reclamar.
- Como você faz isso? – perguntei incrédula ao . Sério, como?
- Isso se chama: intuição. – respondeu, enquanto estralava os dedos e se sentava à mesa, começando a se servir. Quanta educação, senhor , nem pra esperar o restante da casa... Fiz o mesmo.
- Só eu que tô sentindo esse cheiro bom ou... – perguntou, ainda na sala.
- Verdade. – concordou, provavelmente farejando o ar que a rodeava. – E se não me engano, vem dali.
- Como? – indagou, correndo para onde e eu estávamos. Segundos depois, já era possível ver sua cabeça bisbilhotando dentro da cozinha. – Eu não acredito! – exclamou. – Comida, cara, comida de verdade. – Era possível notar o brilho em seus olhos à distância.
- Supermercado. – expliquei nossa mágica a ele. – E ah... Surpresa! – estiquei meus braços, como aquelas ajudantes de mágicos costumavam fazer após um bom truque. Depois voltei a devorar minha deliciosa omelete.
- Por que vocês não nos chamaram logo? – queixou-se, quando veio descobrir o que estava rolando junto de .
- Porque era surpresa. – respondeu com tom de obviedade.
- E vocês pretendiam comer toda a surpresa, antes que ficássemos sabendo. – supôs, e por pouco acertou.
- Não foi bem assim, mas essa não era uma hipótese descartada. – disse divertida, fazendo com que e rissem.
- Obrigado por me chamarem. – apareceu chiando, mandando um “joinha” com seus dedões para todos que ali já comiam.
- Você tem sorte por ainda ter dentes. – o avisou, provocativo, apontando seu garfo para ele e voltando a comer em seguida. Todos riram.

Capítulo 14

Eu acho que nunca tive um café da manhã tão bom até aquele momento. Não sei se era somente pela comida, ou se a junção de um ambiente tão agradável como aquele tinha algo relacionado também. Só sei que eu estava feliz. Outra coisa que martelava em minha cabeça entre uma garfada e outra era o que havia me dito um pouco antes dos outros aparecerem. – “É difícil o tratar uma garota como ele vem tratando você.” Meus lábios se curvavam pra cima com a mera lembrança daquela frase. Por acaso eu deveria me preocupar sobre estar ligando muito pra ela? Sobre ela estar me fazendo tão bem? Eu simplesmente não quero repetir uma coisa que um dia já me fez tão mal. Pelo menos, não tão rápido. Suspirei, tentando arrancar a alegria de meus lábios. De repente, comecei a ouvir passadas bem rápidas vindas da escada. Segundos depois, uma exasperada e razoavelmente desesperada, adentrou na cozinha e nos chamou com urgência.
- Vamos embora. – ela praticamente implorou.
- Mas por quê? – negou, quase que prontamente.
- Por favor, . Por favor, . – ela pediu, chorosa.
- Eu tô comendo. Preciso de um ótimo motivo pra me fazer parar. – avisei, pouco a fim de deixar aquela casa tão cedo. Mas o que é que havia de errado com a afinal? Some do nada, e quando reaparece, vem querendo tomar o comando. Será que a bebida ainda fazia efeitos em seu pequeno organismo? Acho plausível.
- Meu pai. Ele ligou e vai me matar. Eu tenho um almoço de negócios pra ir com ele e preciso estar em casa em meia hora. Por favor, preciso de vocês. – continuou implorando. Olhei à minha volta. Os meninos assistiam a toda aquela cena bastante atentos, assim como . Ninguém entendia muito bem o que estava acontecendo.
- E por que elas precisam ir com você? – questionou, dando um gole em seu suco de laranja. Parece que eu e não éramos as únicas que não queríamos que fôssemos embora.
- Porque... – ela engoliu em seco, me lançando um olhar arregalado, e bastante ansioso. Tudo bem, ou alguma coisa estava acontecendo com ela, ou tinha usado algum tipo de droga. – Porque sim. Eu sei lá, Jones, porque elas são minhas amigas; porque eu preciso delas; porque eu quero! Por vários motivos. Agora vamos, por favor. – ela pediu novamente, mas dessa vez num tom mais baixo.
- Eu levo vocês. – se candidatou, ao notar que ela não desistiria tão cedo.
- Obrigada. – ela sorriu, verdadeiramente agradecida e aliviada.
Depois dessa pequena situação desconfortável, eu, e , nos despedimos dos outros da casa. Com o menor índice de animação possível. Eu não sabia se ficava preocupada com ou com raiva da mesma. Eu espero que ela tenha uma excelente explicação pra me arrancar de lá. Se bem que... Não seria de todo mal ficar um pouco afastada de . Eu precisava pensar com urgência. Nem que fosse forçadamente. Quando fui me dar conta, já estava sentada no banco do carona, com minhas amigas quietas atrás, e no comando. lhe explicou o caminho até sua casa, e, por sorte, ele tinha uma boa memória, pois ninguém estava disposta a repetir informações. não nos interrogou ou tentou puxar assunto. Apenas permaneceu em silêncio e ligou o rádio, que encheu o automóvel com a voz de Angus Stones.

Não demorou mais do que quinze minutos para chegarmos. nem sequer se despediu direito de , apenas abriu a porta, apressada, gritou um “obrigada” sem nem olhar para trás e sumiu mais uma vez, largando a porta de entrada de sua casa escancarada. Olhei sem entender para , que deu de ombros. Ela deu um beijo na bochecha de , e saiu apreensiva atrás de .
- Ela tá bem? – perguntou meio incerto.
- Não faço ideia do que está acontecendo. – ri nervosa. – Na verdade, preciso ir atrás dela pra descobrir. – avisei.
- Vai lá. – ele disse com simplicidade, e eu suspirei. – O que foi?
- Nada. – sorri singela. – Eu estava gostando de ficar com vocês. – ele riu.
- Também... Quem não gostaria? – brincou, se exaltando. – Mas você sabe que pode aparecer por lá quando quiser. – sorriu.
- Sei, é? – o provoquei, erguendo uma de minhas sobrancelhas.
- Se não sabia, agora ficou sabendo. – ele piscou e eu ri.
- Tchau, .
- Só isso? – ele falou descrente.
- Só isso o que? – o instiguei novamente, enquanto abria a porta do carro e me preparava para descer.
- Você rouba minhas roupas, acaba com a comida da minha casa, quase mata meu lagarto e vai embora sem me falar nada? – soltou, pontuando cada item de sua lista de um jeito brincalhão de descrença.
- Mas eu não tenho o que te falar. – respondi meio confusa.
- Que bom, porque o que eu quero não precisa de falas. – ele sorriu animado e puxou meu rosto para mais perto do seu, me beijando logo em seguida. Eu sorri de volta, no meio de nosso selinho prolongado e afaguei sua nuca.
- Agora preciso ir. – sussurrei, antes de lhe dar um último selinho e sair do carro sem olhar pra trás, porque eu sabia que se o fizesse, voltaria e lhe beijaria com toda a vontade que estava entalada em minha garganta. Pouco depois, escutei o barulho das rodas em contato com o asfalto, levando embora aquele que aos poucos se tornava meu mais novo vício.

O quarto de era todo colorido. E quando eu digo todo colorido, não exagero. Por ser pequeno, as cores acabavam se concentrando muito mais, e se você demorasse para se acostumar com a decoração, poderia até ficar com um pouco de dor de cabeça. Mas venhamos e convenhamos, a mãe de tinha dado total liberdade para que ela escolhesse como seria seu quarto quando ela estava com apenas nove anos. E o que uma garotinha dessa idade gostava mais do que pôneis? Unicórnios, é claro. Hoje em dia, até havia tentando dar uma desbaratinada em toda aquela coloração, e, eu posso afirmar com muita certeza, de que eu não achava que seu quarto fosse feio. Eu gostava dele apesar de todo aquele arco-íris.
A cama era forrada com um edredom rosa bem forte, acompanhado por almofadas roxas e azuis. A parede fazia quase que um degradê, onde uma era azul anil, outra azul turquesa até chegar enfim ao branco. Logo em cima de sua cama, estavam três quadros, um ao lado do outro. Eram todos bastante abstratos, como se alguém tivesse derretido toda a tinta usada para formar os desenhos desejados. O primeiro era um lobo uivando, o segundo, um coelho meio desproporcional, e por último... Adivinhem só? Um unicórnio. A porta, por sua vez, era forrada de fotos pretas e brancas do topo ao seu fim. Todos os tipos de fotos, inclusive as nossas. sempre tirava um tempinho para atualizá-las.
- Cadê ela? – perguntei apreensiva a , ao encontrá-la sentada na cama, mexendo em um Ipad.
- No banheiro. – sinalizou com a cabeça. – Tomando banho.
- Tomando banho? – ela assentiu. – O que será que deu nessa menina?
- Não sei. O que eu sei é que... – suspirou, permitindo que um pequeno sorriso cortasse seus lábios, quando parou para pensar sobre o que ia me contar. Rapidamente largou o aparelho que mexia de lado. – Acho que eu tô apaixonada, . – ela riu.
- Apaixonada? – ergui uma de minhas sobrancelhas, duvidosa, e sorri.
- Sim, apaixonada. – respirou fundo mais uma vez.
- Do mesmo jeito que você estava apaixonada por Vincent há uma semana? – a lembrei, tentando trazer um pouco de lucidez a minha amiga. Apaixonada... Não era cedo demais para se definir um sentimento?
- Mas é claro que não. – ela negou firmemente. – Não que eu não estivesse apaixonada por ele, porque eu estava, mas com o é diferente. É mais... Real. Entende? – ela se virou para mim, com os olhos semi abertos e a testa franzida.
- Não sei se entendo.
- Não é como se eu quisesse matar uma vontade. Eu quero estar com o . Só ficar perto dele, não precisa nem de mais alguma coisa pra fazer com que eu me sinta bem. – Involuntariamente, um suspiro pesado escapou de dentro de mim. – Você me entende sim, , só tem medo de admitir. – ela disse, com um toque de pena.
- É só que... – eu balancei a cabeça, espantando as lembranças desagradáveis e erguendo meu olhar levemente marejado para ela. – É difícil, .
- Você se sente bem com ele? – ela perguntou, tocando minhas mãos com carinho.
- Muito. – confessei. – Bem mais do que eu gostaria.
Silêncio.
- Eu queria saber o que falar, . Mas imagino como tudo deve ser mais complicado pra você. – E sim, infelizmente era. – Você vai ver como tudo vai acabar bem. – apenas sorri, agradecida, deitando em seu colo logo depois. Eu torcia para que esse clichê se comprovasse verdadeiro.

Quando finalmente apareceu, tanto eu, quanto , permanecemos na mais pura quietude. Apenas esperávamos por uma reação da menina que entrava no quarto, enrolada em uma toalha laranja, e com os fios curtos de cabelo ainda úmidos. Ela olhou para nós rapidamente e passou a dar algum tipo de ação para suas mãos, como por exemplo, a cassação de roupas. Mesmo assim continuamos a encará-la sem emitir um único ruído. A única coisa que desejávamos era uma bela de uma explicação pra tanta esquisitice.
- Porque vocês estão me encarando? – disse incomodada, como se nada tivesse acontecido.
- É sério isso? – perguntei irritada.
- Sério o que? – ela se virou para mim, ainda seminua, lançando-me um olhar inquieto.
- Por favor, , fala pra essa menina parar com isso antes que eu levante e dê um tapa no meio da cara dela. – pedi, mirando com urgência. Ela me arranca da outra casa sem mais nem menos, me faz perder umas boas horas que eu poderia estar passando muitíssimo bem acompanhada, e fica fazendo cu docísse pra contar o que está havendo? Ah não, , péssimo momento pra isso.
- , o que aconteceu? – perguntou apreensiva, e eu pude notar que engolira bastante em seco.
- Eu... – Seus lábios se fecharam em uma risca rígida. – Eu fiz uma besteira. – ela disse por fim, sentando no chão e respirando profundamente. – E não é das pequenas.
- Que tipo de besteira? – perguntei, agora mais calma. Mais “calma”, porque do jeito que minha amiga falava eu só pensava do pior pra cima.
- Fiquei com o . – me respondeu, tapando seu rosto com suas duas mãos, como se ela mesma estivesse inconformada com sua própria notícia.
- Até aí, eu fiquei com o , e a com o . O que tem de besteira nisso, ? Ele te agarrou por acaso? – pontuou, sem entender o motivo pra tanto drama. – Sem contar que eu tenho certeza que você estava bastante interessada. – completou.
- Vocês não entenderam... – ela deu uma risadinha cansada e cética.
- Não mesmo. – concordei.
- Eu... Transei com ele.
Tudo bem, eu meio que não esperava por aquilo. Mas... O que?
- Como assim? – perguntamos em uníssono.
- Eu não sei, eu não sei, eu não sei. – ela repetia freneticamente, ainda com seu rosto escondido. – Aconteceu. Simplesmente aconteceu. E eu só fui me dar conta de que tinha acontecido hoje de manhã quando eu acordei. – tentava nos explicar. – Então eu entrei em pânico. Não sabia com que cara olhar pra ele. Imaginem o que ele deve estar pensando de mim! Ou pior... O que ele deve estar contando pros meninos neste minuto. – As palavras de fugiam de sua boca em total desespero. Eu sinceramente não sabia o que falar ou fazer, por isso permaneci em silêncio, e permiti que prolongasse o assunto.
- Pelo menos não foi sua primeira vez. – tentou confortá-la em vão.
- Sim, mas foi a primeira vez que eu fiquei com o cara na minha vida. E logo na primeira vez, eu já vou fácil desse jeito. – balançou a cabeça, com pena de si mesma. – Sabe quando você se sente suja? – soltou com certa repugnância.
- Você queria, ? – eu a questionei, o que fez com que ela parasse para refletir. Não demorou muito para que ela continuasse a falar.
- Eu queria beijar ele, isso é claro, mas... Transar? Eu o conheço há o que? Uma semana? Juro, a única coisa que se passa pela minha cabeça é o quão vagabunda e fácil eu sou. – ela desabafou, com a voz chorosa.
- Não acho que é pra tanto, . – a consolou com sua voz terna e doce. – Não que eu ache certo, mas não foi algo que você sempre fez na vida. Você só foi muito... – ela tentava procurar pela palavra certa, mas eu já a tinha na ponta de minha língua.
- Impulsiva. – completei, e me agradeceu.
- Sem contar que você bebeu um pouco demais. – avisei.
- Eu só não quero que ele pense coisas erradas sobre mim. – ela disse por fim, se jogando no chão. – Não sei nem se vou voltar a falar com ele. No momento, só sinto vergonha por ser tão babaca.
- Você ao menos gostou? – perguntou, razoavelmente interessada. Eu tive de conter um riso teimoso. Dessa vez, a resposta demorou um pouco para ser dita.
- Muito. – sorriu de lado, mesmo sem pretender. – Muito mesmo.
- Você tem a consciência de que vai contar cada mínimo detalhe pra gente, se sentindo péssima ou não, certo? – falei e ela gargalhou.
- Eu conto, já fiz a cagada mesmo, o que mais tenho a perder?
Lembra daquela hora em que eu trombei com você, ? Pois bem. Foi um pouquinho depois dessa nossa curta troca de palavras que eu deixei a bebida, digamos assim, me libertar. Eu sabia que já tinha conseguido te irritar o suficiente por um dia, então resolvi beber mais uma garrafinha. Ou duas, mas isso é quase relevante. Assim que deixei a passar e ir “espairecer os pensamentos”, fui direto pro cantinho da parede, onde as garrafas estavam encostadas. Não tive tempo nem de terminar o que estava fazendo, quando ele surgiu pra meter a opinião onde não foi exigida.
- Você não acha que já bebeu demais? – perguntou, arrancando a garrafa de minha mão e levantando-a contra luz, pra conseguir ver o quanto de líquido restava.
- E desde quando isso é da sua conta? – perguntei maldosa.
- Nossa, que arisca. – ele me zoou, e eu peguei de volta o que já era meu.
- Ainda inconformada? - prosseguiu.
- Com o que? - perguntei verdadeiramente confusa.
- Com os desafios. - ele riu cínico, e encostou-se à parede com os braços cruzados e a cabeça meio erguida, com seu ar de superior para cima de mim.
Ah, como eu adorava aquilo.
- Ah, você quis dizer com o fato de que eu praticamente fui obrigada a molestar alguém com a boca, enquanto outras pessoas passarão uma semana inteira com as unhas bem feitas? Não, imagina. Costumo me irritar com coisas mais significantes. - dei um gole em minha cerveja.
- Bom... Eu estou inconformado.
- Por que?
- Achei o seu castigo por ter pulado fora do desafio muito fraco.
- Oi? - Agora sim eu estava inconformada.
- Por isso ele ainda não acabou. - completou, por fim.
- E desde quando você pode fazer isso? - perguntei insolente.
- Desde que eu invento as regras. - respondeu como se qualquer um fosse aceitar aquela pequena observação. se afastou da parede e caminhou em minha direção, me puxando pelas mãos em direção a escada.
- Ei, ei, ei. Quem disse que eu vou com você? - tentei pará-lo no meio do caminho, mas foi em vão. - Eu já fiz o que vocês me pediram. Me solta, . - Como era impossível desgrudar minhas mãos das suas, eu apenas fiquei reclamando sem parar na tentativa falha de que ele fosse ficar de saco cheio suficiente pra me largar no meio do caminho. No entanto, a única coisa que ele fez, foi me levar aos tropeços até o quarto de música dos meninos, enquanto eu derrubava o restante da bebida que eu ainda tentava ingerir.
- Pronto. O que você quer? Eu ainda quero beber. - eu disse, arquitetando um meio de sair de lá e correr até o meu cantinho especial no andar de baixo.
- Apenas quero que você termine o que começou. - ele deu de ombros, parando bem na frente da porta de entrada e saída.
- Mas eu já beijei tudo que tinha pra beijar. Me deixe sair. - o avisei, aproximando-me involuntariamente de seu corpo para tentar tocar a maçaneta que seus braços bloqueavam, enquanto minha cabeça se apoiava em seus ombros com uma patética expectativa de que aquilo fosse me dar um melhor campo de visão. E bem... Não sei quanto ao campo de visão, mas consegui coisas maravilhosas por conta daquele ombro.

N/A: Quem estiver com vontade de escutar uma músiquinha enquanto lê, total sugiro abrir esse link (http://www.youtube.com/watch?v=RPb2Biqk1eQ), porque foi essa aqui que me inspirou.

- Ah, já? - ele sussurrou no pé do meu ouvido, fazendo com que meu corpo inteiro ficasse mole e minha vontade de me embebedar cessasse aos poucos. - Eu acho que não. - disse por fim, segurando minha mandíbula com força, fazendo com que nossos lábios se tocassem por mais que eu estivesse fingindo não querer que aquilo acontecesse. Mas eu queria, oh, como eu queria. Por isso, antes mesmo que ele conseguisse pensar, joguei minhas unhas contra sua pele desprotegida da nuca, as fincando de leve por ali, para só então passar a ponta de minha língua em seus lábios secos. Mais do que rapidamente ele girou nossos corpos, jogando minhas costas contra a porta que antes eu tentava alcançar com tanta dificuldade. Lentamente ele sugou meu lábio inferior e perguntou: - Não queria sair?
- Já encontrei outra coisa pra me embebedar. - respondi com um sorriso malicioso no rosto, jogando minhas duas mãos pra trás de seu pescoço e permitindo que ele aproximasse mais ainda - se é que era possível - seu corpo do meu. Mesmo com o jeans que usávamos, consegui sentir perfeitamente bem certa protuberância vinda de sua parte.
Suas mãos ossudas não perderam tempo, e antes mesmo que eu conseguisse puxar um pouco de ar para os meus pulmões, ele já estava com as mãos dentro do tecido da minha blusa, pressionando minha cintura com grande desejo e finalmente pedindo passagem para que nossas línguas se encontrassem pela primeira vez. E quando o fizeram, sentia como se minha cabeça estivesse entrando em combustão. Eu podia apostar que alguém havia acabado de jogar um palito de fósforo aceso em todo álcool que se encontrava no meu organismo. O beijo era bem mais do que eu esperava. Vocês sabem bem o quanto eu gosto de... Situações um pouco mais animadoras, mas aquilo havia ultrapassado todas as barreiras que havia conhecido. Era o inferno transformado em um beijo. Era quente, era cheio de vontade, era surreal. Enquanto sua boca brincava com a minha do jeito mais incrível de todos, suas mãos deslizavam desde as minhas costas até o cós do meu shorts. Eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Estava me testando. Testando o quanto eu queria que ele prosseguisse. E o que eu queria era mais do que eu mesma podia acreditar. Quando fui me dar conta, minhas mãos já estavam dando um jeito de puxar a camisa dele para cima, e , obviamente, havia facilitado meu trabalho, arrancando ele mesmo de si próprio. Antes que ele pudesse se voltar ao meu pescoço para distribuir uma trilha de carícias, eu o afastei com uma das mãos, a espalmando em seu peito, e apoiei um de meus pés na porta, fazendo com que minha perna tocasse a coxa - ainda vestida - de . Lancei um olhar demorado por todo seu abdômen aprovando completamente o que meus olhos viam e minha mão, lentamente, acariciava. Ele deu uma risada curta e continuou com o que pretendia fazer. Meu corpo inteiro se arrepiou quando senti seus lábios tocarem aquela região e eu não pude controlar revirar os olhos quando sua língua quente tocou de uma forma gentil a minha mandíbula. Antes que eu pudesse entrar em convulsão, arqueei meu corpo um pouco para frente, e prendi minha perna entre as suas por trás, voltando a lhe beijar com o mais puro desejo. As coisas iam de um jeito tão bom e delicioso que eu mal notei quando ele ergueu meus dois braços, sem separar nossas bocas, e começou a erguer minha blusa sem nem sequer desabotoá-la. E eu permiti, sem nem ao menos pestanejar, apenas permiti, enquanto continuava me entretendo com aquela boca macia chamada . Quando finalmente se desfez da minha peça, deslizou aos poucos suas mãos, desde as minhas próprias, passando por meus braços, seios, cintura, até chegar as minhas coxas e pressionar a que estava em volta de si com força. Eu soprei um gemido alegre dentro de sua boca e ele sorriu enquanto me beijava.
Mas tudo que eu vinha sentindo e toda a vontade que eu vinha tentando controlar com determinação para não ultrapassar os meus limites pessoais explodiram, quando senti sua mão habilmente deslizar até meu seio e pressioná-lo com vigor. Precisei fechar os olhos com força e respirar pesadamente, forçando minha testa contra sua. Nossos corpos começavam a suar. Sua boca se aproximou da minha mais uma vez, e então ele correu suas duas mãos para as minhas costas afim de desprender meu sutiã. Mas foi apenas quando senti sua língua úmida tocar meu mamilo que eu tive plena consciência de que eu estava pouco me importando com as consequências do que eu queria fazer com ele. Pelo menos, naquele momento, eu não estava ligando para mais nada. Um gemido sonoro escapou da minha boca, o que só fez com que ele desse mais intensidade no que fazia. Minhas mãos tremiam de prazer, e eu as pressionei contra suas costas definidas, arranhando sua pele sem dó alguma. Por um segundo, precisei lançar minha cabeça para trás e morder meu próprio lábio numa tentativa de cessar qualquer som que tentasse escapar de minha garganta. Ainda com bastante dificuldade, desci minhas mãos trêmulas até o cós de sua calça e tentei desabotoá-la com pressa. Ele logo percebeu o que eu estava fazendo, por isso tratou de fazer o mesmo comigo. Como se tivéssemos combinado, nos desabotoamos ao mesmo tempo, o que nos arrancou uma risada. Ele me beijou com calma e só então tirou tanto o meu shorts, como sua própria calça em seguida. Quando seu corpo voltou a se fundir com o meu, apenas se tornou mais claro todo o desejo que sentia por mim acumulado em seu corpo, o que apenas me deixou mais realizada do que eu já estava. Antes que eu pudesse protestar, já havia se afastado minimamente de mim para alcançar uma pequena chave que estava enfiada na fechadura da porta, trancando-a. Em seguida, nos rolou pela parede até que minhas costas estivessem novamente em contato com algo - desta vez, a pintura gelada. Eu me arqueei por puro reflexo, sentindo-o em minha intimidade mais uma vez. O beijei, levando minhas mãos novamente em direção ao cós de sua última veste. Ele parou por um segundo com o que estava fazendo, para então descansar sua cabeça na minha, e, com os olhos fechados, perguntar: - Tem certeza? Você be... - Mas eu não permiti que ele terminasse, apenas assenti com a cabeça ainda colada a dele e sorri sem malícia alguma pela primeira vez.
- Eu quero. - respondi da maneira mais sóbria que consegui, levando minhas mãos em volta de seu rosto molhado, para só então lhe dar um selinho prolongado. O pior de tudo era que eu sabia perfeitamente bem o que eu estava me sujeitando a fazer. Eu sabia. E mesmo assim eu quis. Senti todo o calor de meu corpo se esvair quando afastou-se por completo de mim para poder alcançar suas calças. Quando encontrou o que procurava, voltou-se para mim ainda meio incerto sobre confiar em meu estado psicológico ou não. Eu o puxei pela mão para próximo de mim mais uma vez e a coloquei em volta da minha cintura. Depois peguei sua outra mão que segurava um pequeno saquinho preto e a levei até um pouco abaixo de meu ventre. Depois estiquei meus pés para alcançar seu rosto com mais facilidade e puxar sua boca para junta da minha como antes. Ele pareceu entender meu recado, pois logo em seguida já estava abrindo o pacote e ajeitando tudo, enquanto voltava a me beijar sem usar qualquer tipo de contato físico com as mãos. E mesmo assim... A sensação incrível que eu sentia ao ter minha pele pressionada pela dele continuava intacta. De repente, senti uma de suas mãos tocando minha cintura, enquanto a outra se escondia por de baixo dos meus curtos fios de cabelo da nuca. Seus dedos começaram a brincar com o borda de minha calcinha e eu fui obrigada a deslizar minha mão por todo seu peitoral até chegar em sua boxer, qual eu começava a abaixar antes mesmo que ele pudesse mudar de ideia. O beijo acabou se intensificando, e conforme ele nos fundia mais e mais, seus dedos habilidosos desciam cada vez mais a última peça que cobria meu corpo. E eu não me sentia nem um pouco exposta pensando dessa maneira. Muito pelo contrário, eu estava com mais confiança do que nunca. v Como num piscar de olhos, tanto eu como estávamos completamente nus e agora eu podia senti-lo verdadeiramente. Minha boca estava entreaberta, e minha perna voltava a ficar em volta de seu corpo macio. Eu tremia levemente dos pés à cabeça, pois sabia que estava a apenas um passo de alcançar o ápice de minha excitação.
- Você já imaginava, não é? - ele me perguntou em um sussurro, e por pouco a falta de ar não permitiu que eu lhe devolvesse uma resposta.
- O que? - Minha respiração estava acelerada e meu coração saltava para todos os lados do meu peito. Levei minhas mãos em volta de seus ombros largos e repousei minha cabeça por ali também.
- Que eu te quis desde a primeira vez que coloquei meus olhos em você. - Mas eu não tive tempo para responder, pois fui inundada por um prazer extremo no mesmo segundo em que ele terminou sua frase, fazendo com que eu mordesse a curva de seu pescoço, para impedir que qualquer gemido escapasse mais alto do que o permitido.

Capítulo 15

E então, depois de tudo que havia acontecido em um espaço de tempo tão curto, não vi outra escapatória a não ser voltar para minha casa. Fazia um tempo que eu não vivenciava um domingo tão agitado quanto aquele. E confesso que, por mais que a história da com o tivesse me surpreendido, eu daria tudo para repetir todas aquelas incríveis horas. Sim, incríveis. A estava se culpando, mas era só temporariamente, então... Sinto-me no direito de incluir as suas horas no meio dessas horas incríveis. Mas apesar de tudo, de todos os momentos diferentes, de tudo que me aconteceu, a única maldita coisa que vinha na minha cabeça, chutando o meu cérebro como se quisesse ter certeza de que eu não pararia de pensar sobre, era o .
O beijo do , o cheiro do , o gosto do , o jeito do , as roupas do , o rosto do , o sorriso do , as palavras do , o som da voz do . Minha mente se resumia em .
- Boa noite, meu amor. - Minha mãe surgiu do além no meu campo de visão, beijando minha cabeça e caminhando com animação até a cozinha, destruindo por um segundo a parede que meu cérebro construía com o nome do pichado entre os tijolos. - Que roupas são essas? - ela parou no meio do caminho, girando o corpo para me encarar. Eu estiquei os braços, fazendo com que as mangas cobrissem minhas mãos.
- É de um amigo. Eu meio que molhei a minha.
- Amigo? - ela ergueu uma de suas sobrancelhas como se estivesse me testando.
- Sim, mãe, amigo. - confirmei, rolando os olhos.
- Achei que fosse alguma novidade da moda. - ela disse rindo com uma cara desgostosa.
- Ainda não, mas eu esperava lançar a tendência. - comentei de brincadeira.
- São do Rupert? - ela perguntou, voltando a andar até seu antigo destino. Senti meu estômago dar uma cambalhota ao escutar a menção daquele nome e meus ouvidos latejarem.
- Não. - respondi sem demonstrar qualquer tipo de emoção.
- Falando nisso, por que ele não tem vindo mais aqui? - ela questionou, começando a cortar algumas batatas em várias tiras. Por um longo segundo, desejei que minha mão fosse uma daquelas batatas.
- Não sei, mãe, vou dormir. - declarei, botando um fim na história o mais rápido que consegui.
- Mas você não vai jantar? Vou fazer fritas com cheddar, do jeito que você gosta. - ela tentou me agradar, provavelmente notando que eu parecia incomodada com alguma coisa. Na verdade, querida mamãe, eu estava bem, até você começar com seus questionários inconvenientes. Suspirei com pesar.
- Você só fez por minha causa? - perguntei meio contra vontade.
- Se o seu pai não tivesse intolerância a lactose, não.
- Tudo bem, acho que eu posso me segurar. - respondi com pouca animação, me jogando na cadeira mais próxima. No sentido literal. Sabe quando você dá aquela empurrada na cadeira pra trás com plena certeza de que nada pode dar errado, mas aí você acaba caindo de costas igualzinho uma tartaruga? Pois bem, meu caso não chegou a tal ponto, mas minha cadeira balançou o suficiente para ativar meu reflexo com um pulo e fazer meu coração disparar na mais pura adrenalina.
Admito que aquelas batatinhas tinham me acalmado um pouco e que até conversar normalmente com meus pais, como uma boa filha costuma fazer, eu havia conseguido. Mas todo aquele alívio e calmaria não passavam de um manto de ilusão. Assim que meu corpo se chocou pesadamente contra meu colchão macio, todos os pensamentos de antes ressurgiram das cinzas, acompanhados de um amiguinho novo para me infernizar. Um amiguinho que eu gostaria de ser capaz de pegar e jogar num triturador de carne para depois alimentar qualquer animal faminto por aí. Antes mesmo que eu pudesse sequer voltar a bolar planos sobre maneiras dolorosas e torturantes de se assassinar alguém, o sono bateu a minha porta e eu fiquei redondamente agradecida em dar-lhe a passagem. Pelo menos, uma momentânea gratidão, porque se eu soubesse quais eram suas verdadeiras intenções, eu teria trancado minha porta com cadeado e tudo mais.

Era noite e eu estava parada no meio de um grande quintal cercada por mais e mais adolescentes, todos entusiasmados com alguma coisa. Drogas, álcool, putas - ou algo do gênero -, mas aquilo não interessava realmente. A música soava alto o suficiente para manter dois quarteirões inteiros acordados, mas a batida fazia com que eu quisesse dançar - ou quase isso - mesmo que contra minha vontade. Meus ombros e minha cabeça começavam a se mover no ritmo da mixagem até que eu resolvi procurar por algum conhecido. Bem, eu não poderia estar numa casa qualquer, sem conhecer uma única alma, certo? Infelizmente, certo.
Como quem não quer nada, fui caminhando tranquilamente até o interior da casa, desviando-me de uma pessoa ou outra no meio do caminho, que estavam animadas o suficiente para não se importarem se machucariam alguém ou não. A porta estava escancarada permitindo que todos entrassem e saíssem com mais rapidez e facilidade, por isso não vacilei ao atravessar até a sala abarrotada de pessoas dançantes. As luzes principais estavam apagadas e as poucas coisas que davam uma coloração ao ambiente eram abajures cobertos com tecidos de diversas cores e bem finos, permitindo que o cômodo se inundasse num tom de azul e verde. Haviam bexigas prateadas flutuando pelo teto, e o corredor que levava até uma pequena cozinha estava simplesmente lotado, com uma fila até a geladeira. Um cara vestindo apenas uma bermuda cáqui e vans, com alguma espécie de colar de penas - eu pelo menos acho (e espero) que seja - em volta do pescoço que ia até o seu umbigo, sorriu ao me notar e me entregou um copo comprido com alguma bebida vermelha. Eu aceitei e ele se foi. Geralmente, eu simplesmente deixaria a bebida de lado, porque nunca se sabe o que podem ter jogado ali enquanto você não estava por perto, mas eu não tinha visto perigo algum no homem das penas, por isso arrisquei-me a dar um gole. Era bom! Alguma coisa bem doce, mas ao mesmo tempo azedinha e forte. Provavelmente vodca com morango e mais alguma coisa... Talvez limão? Dei de ombros sozinha e continuei a me deliciar com meu novo drinque. De repente senti alguma coisa me puxar, e percebi que era com um vestido esmeralda.
- Nossa, achei que você nunca fosse aparecer. Onde você tava? - ela perguntou, mas não tive tempo de responder, pois ela logo fez questão de me interromper. - Não importa. Vem! - resumiu, me puxando pela mão até um circulo com várias pessoas que eu aparentemente conhecia, já que todos pareciam saber meu nome de cor. Não consegui identificar muitos que estavam ali, pois minha visão só focava o essencial, mas eu sabia que , Steve e... , com certeza estavam lá.
- Eu que sou a princesa e você quem demora. - me zoou fazendo uma careta gay, quando as pessoas pararam de me recepcionar. Eu ri divertida, dando mais um gole em minha bebida que já estava no fim.
- Não sei bem por que eu demorei, mas não tive culpa. - ergui as mãos até a altura da minha cabeça em inocência, e ele me presenteou com um sorriso adorável que fez meu coração se aquecer instantaneamente. Eu queria poder pular em seu pescoço e beijar seu rosto inteiro, mas não o fiz.
- O que é isso? - ele perguntou, tocando meu copo vazio com a ponta do dedo.
- Um cara me deu, mas não faço ideia do que era. Alguma coisa com morango, álcool e algo azedo. - dei de ombros, voltando meu olhar para ele. - Por que?
- Parece ser bom. - ele respondeu pensativo, em seguida olhando por trás de mim. Eu apenas balancei a cabeça, confirmando. - Vou buscar mais uma pra você. - disse, arrancando o copo gelado de minhas mãos e esbarrando seus braços em meu ombro conforme saía com um olhar perdido. Eu me virei para tentar encontrá-lo, mas ele já havia se perdido no meio das outras pessoas.
Olhei em volta novamente, procurando por , ou até mesmo Steve, um amigo da escola, mas não encontrei nenhum ou qualquer outra pessoa conhecida. Sem mais o que segurar para me distrair, encontrei uma poltrona, e resolvi que ali seria meu ponto de espera até que retornasse. No entanto, um pouco mais a frente, comecei a ver uma pessoa que eu parecia conhecer. E por sinal, parecia conhecer muito bem. Inclinei meu dorso, na tentativa de melhorar o foco da minha visão, mas de nada adiantou. Fui obrigada a me levantar pra ter certeza. Quando cheguei perto o suficiente do sofá, onde dois corpos estavam exprimidos, enquanto se tocavam e se beijavam como se estivessem sozinhos por ali, o tempo ao meu redor simplesmente parou. A música ainda podia ser ouvida, mas não havia mais ninguém no local além daqueles dois e eu. Meu coração estava totalmente descompassado e cada vez que ele ia sendo mais e mais esmagado, minha cabeça ia ficando mais pesada e meus olhos carregados. Aquele no sofá... Aquele que beijava a mulher em seu colo com a mesma vontade que demonstrava ao estar comigo. Aquele era Rupert. Rupert. Minhas pernas bambearam pra o lado, e precisei levar minhas mãos ao peito como se aquilo fosse amenizar a dor que eu estava sentido.
- Eu te amo, . - ele dizia com os olhos fechados em prazer, sem se separar da garota.
- Eu te amo. - Ela puxava seus cabelos com considerável força e lhe dava diversos beijos de sua mandíbula até sua orelha. - Eu te amo. - ele continuou com dificuldade. Eu fechei os olhos com força, implorando pra que aquilo acabasse. Porém, quando retornei a enxergar meu mundo com a visão totalmente embaçada por conta das lágrimas, eu simplesmente desabei de joelhos no chão, chorando como uma criança perdida.
- Eu te amo, . - a voz disse. Mas não era Rupert quem estava ali agora. tomava seu lugar, e a dor que eu senti ao ver a mesma garota, beijando os lábios que foram meus, fez com que eu me contorcesse e chorasse baixo e inconsolavelmente, desesperada. A cada movimento entre os corpos sedentos, o rosto de e Rupert revezava, rasgando meu peito com mais intensidade a cada troca. “Eu te amo, , eu te amo” ressoava no interior do meu cérebro, fazendo com que eu levasse as duas mãos até meus ouvidos, na intenção de esquecer tudo que eu via. Encolhi-me no chão com os olhos fortemente fechados até sentir alguém tocar minha mão, me puxar e me levar para longe dali. Eu não sabia quem era, muito menos seria capaz de conseguir enxergá-lo, mas notei que era um garoto com cabelos claros, que sussurrava ao tentar me acalmar: - Eu estou aqui.
E então, tudo voltou ao normal.

A quem eu quero enganar? Eu gostava da minha vida sim. Mas ela tinha várias coisas fora do comum. Pelo menos, foi assim que ela ficou depois que o Rupert me aconteceu.

Outubro já estava pela metade. Mais quinze dias, e um mês e meio de novas amizades, sentimentos e experiências já estaria em seu fim a caminho de seguir adiante, é claro. É incrível o quão rápido o tempo pode correr. Parecia que ontem mesmo eu estava entrando naquela escola e percorrendo os corredores de um lado pro outro com , atrás dos caras que ela dizia valer a pena. E não é que ela tinha razão? Pode parecer clichê ou o que for, mas eu estava feliz por mim e minhas amigas termos nos dado tão bem e com pessoas de um mesmo grupo. Esse pequeno detalhe apenas fortalecia a amizade que aquela união inesperada vinha criando. e , mesmo depois do acontecido, se falavam normalmente, como bons amigos particularmente íntimos. teve uma conversa com ela no dia seguinte a casa do e , e eles pareceram se entender bem. Eles continuavam a se ver, mas não deixavam aquilo muito claro para as outras pessoas, com nossa exceção. e , no entanto, andavam pra cima e pra baixo como um casal de namorados, e bem... Era o que 90% da nossa escola estava dizendo sobre ambos. O novo casal. estava verdadeiramente feliz, como eu não a via há um bom tempo, e não tirava o sorriso encantador do rosto por um segundo sequer, mas eles ainda não estavam juntos. Não oficialmente. Eu não dou nem um mês até um certo pedido surgir, mas quem sou eu pra dizer alguma coisa, não é mesmo? Quanto a mim... se tornava cada vez mais próximo, e eu já começava a entrar no estágio do: Como seria minha vida se eu nunca o tivesse conhecido. Eu gostava tanto daquele menino, que só de cogitar a possibilidade de nunca tê-lo por perto, fazia todo meu corpo murchar, na mais pura desanimação. Ele me fazia bem, de verdade. E por mais que lembranças antigas cortassem minha realidade sempre que eu pensasse sobre possivelmente estar sentido algo mais forte por ele, ou que aquele maldito sonho voltasse à tona como um tapa em meu rosto, eu já deixava de me importar tanto. Eu estava tentando me dar aquela chance, e não importa quanto tempo leve, eu vou conseguir.
Sempre que tínhamos tempo, dávamos um jeito de escapar entre uma aula e outra só para nos ver. E era bom. Era muito bom. As trocas de aulas eram os minutos que tínhamos para nos beijar, sem que ninguém nos importunasse. Sim, tentávamos fazer aquilo o mais sutilmente possível, porque quanto menos pessoas soubessem o que estava acontecendo, mais chance de darmos certo, teríamos. E mesmo com todo aquele cuidado, aos poucos, rumores e mais rumores foram surgindo.
- ? - chegou despercebido na biblioteca, sentando-se ao meu lado, vendo que eu estava sozinha, me esforçando para entender alguma coisa das várias sem sentido da Geometria.
- Oi, . - sorri feliz em vê-lo. Coloquei uma caneta no vão entre as páginas do meu livro e o fechei, puxando a folha de exercícios que havia recebido um pouco mais cedo.
- Posso te perguntar uma coisa? - ele parecia meio inquieto.
- Claro que pode.
- Quem é Rupert? - perguntou, e eu senti meus olhos se arregalarem por impulso.
- Por que a pergunta? - Minhas mãos estavam com uma grande tendência de começarem a tremer, por isso tratei de pegar um lápis e batucar sobre uma conta quilométrica que eu não havia conseguido resolver, na intenção de não aparentar estar a um passo de começar a ficar sem ar.
- Bem, eu... Estava aqui na biblioteca mais cedo e meio que escutei uma conversa. Eram umas meninas, não me pergunte quem, porque eu não faço ideia, mas elas estavam comentando...
- Comentando o que? - o interrompi, começando a ficar irritada internamente.
- Comentando sobre você, e . - ele coçou a nuca, pensativo. - Algo como: “Você viu só? Agora todas as outras resolveram seguir o exemplo da , inclusive a mesma, e cada uma arranjou um Rupert próprio.” E então começaram a rir baixo.
- Elas falaram isso? - o questionei, com um nó se formando em minha garganta. Comecei a fitar minhas contas como se eu realmente as entendesse. Ele assentiu.
- Eu não sei se quero falar sobre ele, . - o avisei com sinceridade e muito frustrada.
- Tudo bem. - ele sorriu, como se me compreendesse e tocou com a ponta do dedo o final da minha resposta que não batia com um valor exato. - É seis.
- O que? - fiz uma careta confusa.
- Aqui. - ele pegou minha borracha e apagou onde eu havia errado. - É nove sob três, que dá três. Com mais esses três, que você esqueceu, fica seis. - explicou-me com simplicidade, me obrigando a dar um tapa em minha própria cabeça. Tanto Pitágoras, Baskara ou sei lá o que pra eu errar, e me confundo na soma? É sério isso? Ri nervosa. - Tô vendo que terei mais serviço do que eu imaginava. - ele me zoou e eu lhe fuzilei com o olhar, me esquecendo completamente de nossa conversa de poucos minutos atrás.
Eu tentei não me importar com nada que falavam de mim ou do que estava acontecendo comigo. Eu estava feliz, não estava? E era isso o que importava, não era? Sim, era. E foram com esses pensamentos que segui todos os dias, sorrindo, na companhia das melhores pessoas que eu já havia conhecido em toda a minha vida.

Continua...

Nota da Autora: : Tudo bem... Demorei um pouquinha pra mandar esse (20 dias pra ser mais exata), mas dessa vez foi por pura preguiça mesmo. E cada vocês comentando? Ultima att, só teve um comentário novo, assim eu não aprovo :/ VOLTEM AQUI! Enfim... Espero que vocês gostem desse aqui. Pequeno, porém importante. Criei um face pra Smiles! Na verdade, eu fui obrigada a criar, porque todos os links que eu colocava aqui na fic pelo twitpic, não funcionavam, então fiz isso pra facilitar. Quem quiser adicionar:http://www.facebook.com/smiles.ffobs E quer falar comigo por twitter? @mahguidella ou @jamiel3ower


Nota da Beta: Qualquer tipo de erro encontrado nessa atualização, contacte-me por e-mail. Fique por dentro das fanfics que foram enviadas e as que ainda estão pendentes por aqui. Obrigada, espero que gostem da fic. XX

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