To The Limit
Autora: Lary
Beta-reader: Bia


Capítulo 1

Aquela sensação que eu tinha era horrível. Eu sabia que não deveria ter saído de casa naquela manhã, mas não havia nada que eu pudesse fazer, o trabalho me chamava.
Os olhares de piedade pairavam sobre mim. Fora mais uma missão mal sucedida, mais uma vez eu falhei, porém, dessa vez, as consequências foram bem mais sérias. Carlos acabou sendo ferido e corre um grave risco de vida.
Entrei na sala, meu braço ainda doía pelo tiro de raspão e minha cabeça latejava bem nos pontos na minha testa.
- O que foi aquilo? – entrou na sala, extremamente bravo.
- Agora não, . – respondi, massageando minhas têmporas.
- Agora sim. – ele parecia uma criança birrenta. – Você errou o tempo!
- Todo mundo erra na vida! – respondi.
- Mas dessa vez você devia ter feito as coisas certas! – gritou.
- Eu estou ciente das consequências. – levantei, olhando-o olho a olho. – E eu também sei que você não é meu chefe!
- Mas eu sou seu parceiro!
- E onde você estava ontem à noite ? Provavelmente em um bar, dançando com uma vadia, estou certa? – eu o olhei com nojo. - SAI DESSA SALA!
Ele pareceu entender e saiu da sala, deixando-me novamente sozinha com meus pensamentos culpados.
- ? – James entrou na sala.
- Senhor. – eu me levantei em sinal de respeito.
- Eu soube o que aconteceu ontem...
- Eu sinto muito, senhor. – interrompi-o.
- Eles estavam realmente atrás de você? – ele parecia entender meu lado.
- Sim, senhor. – eu olhei para baixo.
- O que aconteceu, eu digo, no final das contas?
- Eles fugiram, mas antes atiraram em mim e no Carlos.
- E onde o estava?
Por um momento cogitei a possibilidade de contar a verdade, mas eu não podia causar duas tragédias em menos de 24h.
- Ele estava na sua casa. – eu parei por um momento. – Procurando um nome que eu havia pedido.
- Eu irei verificar essa história. Por enquanto, você está afastada desse caso.
- Isso não é justo, senhor! – exaltei-me. – Eu arrisquei minha vida nesse caso!
- Todos nós arriscamos nossas vidas nesse trabalho. Até segunda ordem, você não irá saber nada sobre isso.
Aquela vontade de socar a cara do meu chefe precisou ser guardada para que eu não fosse demitida. Tudo que eu mais queria nesse momento era me vingar, matar aquele desgraçado que atirou em mim e em um amigo querido.
- Por que você fez isso? – entrou na nossa sala rapidamente.
- Porque, apesar de eu te odiar, somos parceiros e um protege o outro.
- Você sabe que, se fosse o contrário, eu não lhe daria cobertura, certo? – eu balancei a cabeça pensativa.
- Eu sei. – eu olhei em seus olhos. – Mas ainda bem que eu não sou você.
Eu me retirei da sala, com um aperto no coração e uma esperança dele me chamar e tudo ficar bem novamente, mas parece que a vida está começando a se mostrar injusta. Agradeço todo dia que eu não seja esse tipo de pessoa, que aceita tudo calada. A vida vai se arrepender disso, aquele ser humano vai se arrepender do momento que puxou o gatilho.
Certifiquei-me que minha arma estava na minha cintura, como de costume. Coloquei meu distintivo do outro lado do meu cinto e saí do prédio onde a delegacia se localizava.
Como eu disse, aquele não era meu dia. Uma van preta parou, bruscamente, na minha frente, enquanto eu atravessava a rua. Dois homens encapuzados saíram e seguraram meus braços com força.
Tive tempo de apenas gritar o nome do e vê-lo sair do prédio correndo. Infelizmente, os sequestradores foram mais rápidos e me jogaram dentro daquele maldito carro. CARALHO! Eu não deveria ter saído de casa.

1 ano antes...


Eu me sentia como uma criança em seu primeiro dia de aula em uma escola nova. Aquele modo intimidador de como as pessoas olham para você, como se você estivesse dentro de um aquário.
Um grupo de amigos conversavam em um canto isolado, ou melhor, em um canto qualquer, já que eu era a integrante isolada. Batia meus pés freneticamente contra o assoalho de madeira, causando aquele barulho irritante.

Eu andava pela rua escura de Boston, pronta para ser pega pelo nosso suspeito. Não era normal eu estar tão nervosa, já que fui preparada para esse momento.
Era bem simples. Eu deveria andar pelas ruas como uma mulher qualquer, um pouco perdida e procurando por ajuda. Ele provavelmente apenas tentaria me guiar até um endereço qualquer, que eu inventaria na hora, e assim Carlos apareceria e o pegaria.
- e ela fará parte da equipe a partir de agora.
- Ela parece uma criança. – aquele mesmo homem disse, fazendo-me encolher na cadeira.
- Regra número um. – James disse alto. – Nunca, em hipótese alguma, devemos ofender nossos companheiros de trabalho.
- Desculpa, chefe. – ele disse, rindo.
- Hoje o está se achando muito engraçado. – outro homem disse. – Eu sou o Ian Clark.
Eu apenas sorri em resposta, ainda um pouco constrangida da maneira que fui tratada.
- Camille Jones. – aquela mulher que me ofendera anteriormente. – Especialista em tecnologia.
- Eu já disse que sou craque em qualquer assunto? – Ian disse, fazendo-me rir. – Porém, eu estou trabalhando na narcóticos nesse caso.
- Você ainda não me disse sobre o caso, James. – disse.
- Ao que tudo indica, nosso assassino anda se inspirando nas obras de Tess Gerritsen. – James disse.
- O Cirurgião. – pensei alto.
- Exatamente, . – ele sorriu. – O Cirurgião ficou conhecido por invadir as casas das mulheres durante a noite e investir bruscamente contra elas, porém o fato mais marcante durante esse livro é a marca que o Cirurgião deixa, arrancando o útero das vítimas, o que sugere que o assassino seja um médico formado.
- Quantas foram as vítimas até agora? – Ian perguntou enquanto anotava todas as informações em um caderno.

FLASHBACK

- Fique quietinha. – ele dizia, com um bisturi em meu pescoço. – Não queremos que nada dê errado.
O medo dominava meu corpo e mente. A sensação de que tudo iria acabar em tão pouco tempo era predominante e o calafrio percorria a solto. Eu não podia tremer, eu não poderia demonstrar nenhuma reação ou era morte na certa.
- É uma pena eu ter que te matar, . – Gordon sussurrava em meu ouvido. – Eu poderia me aproveitar mais de você, pena que a senhorita seja tão impaciente.
- Você não vai ganhar, Gordon. – eu tentava controlar a dor que sentia na minha mão direita.
- Eu não contaria com isso. – disse, traçando um pequeno corte no meu pescoço.
Engoli o grito que iria sair pela minha boca. O corte latejava e um líquido quente escorria pela lateral do meu pescoço até o chão, onde ele tinha me jogado.
- Eu disse para ficar quieta, . – ele dizia, com aquela voz arrepiante. – Você poderia ter me ouvido.
Ele saiu pela porta, deixando-me naquele lugar sujo e úmido para a morte. Virei-me para o corte na minha mão, aquele filho da puta tinha enfiado alguma coisa na minha mão, que estava presa ao chão agora. Eu não podia morrer! Eu não quero morrer! CARALHO! Eu tenho só 18 anos!
Ele voltou com uma maleta. A famosa maleta que carrega todas as ferramentas que ele precisa para torturar suas vítimas.
- Espero que você abra a boca e diga o que eu quero saber. – disse, limpando uma faca com um pano.
Andou em minha direção e, bruscamente, retirou aquela estaca da minha mão e aquele grito, que eu tanto segurei, escapou, sem dar aviso.
- Sente-se. – ordenou e eu fiz.
Ele se agachou até ficar na minha altura, passou a mão levemente pela minha barriga, sorrindo maliciosamente.
- Agora as coisas vão ficar mais interessantes. – eu apenas fechei meus olhos, tentando fazer com que todas aquelas pontadas de dor fossem embora e me deixassem em paz.

FIM DO FLASHBACK


- No total foram 5. – ele pausou. – A última tinha sido há dois anos atrás, mas parece que ele voltou à ativa agora.
Eu queria sumir. Eu não tinha entendido porque eles haviam me chamado, até agora. Eles precisavam de todas as informações que eu tinha, eles precisavam saber o modo como ele agia, o modo como ele falava, eles queriam que eu fosse a isca.
- Qual foi o final da vítima de dois anos atrás? – Camille perguntou.
- Ela sofreu diversas torturas, quase morreu, porém, quando ele foi fazer a incisão em sua barriga, perto do útero, o parceiro dela entrou e disparou dois tiros em direção ao acusado. – eu respondi pelo James.
- Parceiro? Ela era da polícia? – perguntou, curioso.
- Ela estava disfarçada, porém as coisas deram um pouco errado. – eu respondi.
- Eu achava que o Cirurgião apenas atacavas as mais jovens... – Camille questionou.
- Ela tinha 18 anos... – eu disse, mas fui interrompida.
- E ela era você. – deduziu.
Em silêncio, balancei a cabeça positivamente, preparando-me para a possível cena de constrangimento que eu passaria.
- Por que você entrou na polícia tão jovem? – Ian perguntou.
- Meus pais morreram quando eu era muito jovem. Fui criada pelos meus avós e meu avô trabalhava na polícia, cresci nesse mundo e acabei me apaixonando pelo trabalho. Quando o Cirurgião apareceu, eles precisavam de uma isca... – expliquei, com calma.
- está aqui por um tempo limitado. – James explicou. – Ela apenas nos ajudará nesse caso e depois irá embora, já que está afastada após esses acontecimentos.
- Ainda não entendo o objetivo disso! – se levantou. – Ela é praticamente uma criança!
- Comporte-se, ! – James gritou. – Ela é apenas alguns anos mais nova que você!
- Você considera seis anos pouco? – ele perguntou, irritado, e fazendo o meu sangue borbulhar.
- Idade não significa maturidade. – eu disse, ainda sentada, enquanto ele sentava.
- No meu vocabulário sim. – respondeu com o peito estufado.
- Ainda bem que seu vocabulário não é internacional – eu sorri para irritá-lo. – e não é usado pela maioria da população.
- Bom, crianças, parem! – James disse, rindo. – Quem quiser me acompanhar para ver o corpo, fique à vontade.
Eu e o nos levantamos ao mesmo tempo e nos olhamos irritados. Andamos em sincronia e nos esbarramos ao sair da sala.
- Olhe por onde anda. – respondi, andando em sua frente.
Eu apenas o ouvi bufar. James nos guiou até o necrotério, onde um homem de no máximo quarenta anos estava trabalhando em um corpo.
- Marcos – James disse, entrando no local. – Essa é a nova integrante temporária, .
- Muito prazer, . – ele sorriu. – Eu estenderia minha mão, porém, como pode ver, elas estão um pouco sujas... De qualquer maneira, eu sou o Marcos.
- Muito prazer, Marcos. – eu sorri, aproximando-me do corpo na mesa de metal.
- Nossa vítima é Norah Heart, 23 anos, estudante. – apresentou a mulher de cabelos negros. – Múltiplas fraturas espalhadas pelo crânio, dessa vez o suspeito perdeu a cabeça.
A vítima perdeu a maior parte dos cabelos, portanto era possível ver os diversos cortes espalhados pelo couro cabeludo. Um corte pequeno no lado direito do seu pescoço ainda estava avermelhado e seu tom de pele não estava tão branco, o que indicava que não estava morta há tantas horas. Porém, a incisão à barriga, para a retirada do útero, era irregular, como se a pessoa estivesse insegura em relação ao local.
O Cirurgião era formado em medicina. Não tinha medo de nada, não temia ninguém, nem a si mesmo. Ele era frio e calculista, cada decisão que tomava era...
- Esse não é um trabalho do Cirurgião. – eu disse, perplexa.
- O que quer dizer com isso? – perguntou, confuso.
- O verdadeiro Cirurgião tem um aprendiz. – concluí, com os olhos arregalados. – E além do mais, ele está morto.
- . – James disse, receoso. – Ele não morreu naquele dia.

***

- Eu sinto muito, Gordon. – o homem suplicava. – Eu não queria a matar daquela maneira.
- Entenda uma coisa. – Gordon o olhava assustadoramente. – O Cirurgião tem uma marca registrada. Todos sabem como ele age. Agora TODOS saberão que não foi um trabalho do Cirurgião.
- Ela gritava e gritava o tempo inteiro! – ele tentava se explicar. – Eu precisava fazê-la parar! EU PRECISAVA!
O homem começou a ficar nervoso e agitado. A culpa o dominava e ele queria o quanto antes acabar com todo o sofrimento. Ele errara mais uma vez, ele decepcionou seu ídolo mais uma vez.
Não aguentou a culpa e saiu para andar um pouco pelas ruas calmas de Boston. Várias pessoas andavam animadas por ser uma sexta feira à noite.
- Ocupado? – uma mulher perguntou, com voz sedutora.
- Na verdade não. – ele sorriu, já planejando o que faria.
Ele iria acertar dessa vez.

***

Mudanças são boas, na maioria das vezes. Os acontecimentos que a seguem são muitas vezes complicados e drásticos. Os bons, por sua vez, trazem alegria para nossas vidas.
Não desista das mudanças, porque apesar de todos os males que ela possa trazer, saiba que os benefícios podem ser muito melhores...

Continua...

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