Dear Past


Escrita por: Mi G.
Betada por: Ebonny



Dear Past


7 anos atrás

, não dá mais. – pronunciou admirando as pessoas tão pequenininhas lá em baixo pela janela enquanto tragava um cigarro, seu hábito recém adquirido e que eu já odiava.
– O que? O que não dá mais? – meu tom de voz já assumia algumas oitavas mais altas.
– Nós. – disse simplesmente, ainda sem me encarar.
– Para, ! Isso não tem graça! – presumi que ele estava exagerando, como das outras vezes. Isso não podia ser verdade. Já sentia lágrimas em meus olhos mesmo sem serem convidadas.
– Você sabe que eu estou falando sério, . – finalmente virou seu corpo para me encarar – Nós dois já não damos certo faz muito tempo. – exclamou, despejando as cinzas de seu cigarro no cinzeiro e então tragou profundamente mais uma vez. Depois de soltar a fumaça, disse: – Eu adoro você, mas minha vida agora é outra e você sabe!
, só porque você assinou um contrato não quer dizer que sua vida seja outra! – comecei a me exaltar.
– Estamos perto de ser a banda iniciante a chegar mais rápido ao topo da Billboard, . E se isso não é mudança, eu não sei o que é! – também se exaltou.
– Só porque está fazendo sucesso, não quer dizer que é preciso deixar de lado suas raízes, as coisas que ama, . Por Deus! – ele riu.
– Que amo? Diga as coisas que eu amo, . – disse meu apelido com um desprezo que eu jamais havia escutado em sua voz.
– Eu. – minha voz saiu tão baixa quase inaudível.
– Você. – disse como se considerasse a ideia e eu nunca me senti tão pequena. – Não é possível que você ainda acredite nisso, ... O que tínhamos... O que tínhamos já não existe mais.
– NÃO. – minha voz não ousou em falhar no momento que eu mais precisava dela. Não deixaria meu relacionamento acabar ali por um momento “reizinho” de . Já havíamos tido essa discussão outras vezes e tudo ficava bem depois. Eu não deixaria o meu amor partir. – , eu sei que você tem inúmeras oportunidades, querido, mas...
– Mas o que ? – me interrompeu – Diga-me? – ele estava com o rosto vermelho e eu via as veias dilatadas em seu pescoço – Vai me dizer que você é o meu porto seguro? Que é só uma fase que logo vai passar? Que em breve eu verei o quanto o nosso relacionamento é importante? E todas essas baboseiras mais que vocês sempre me dizem? – ele já gritava. E eu desconfiava que não era só eu quem escutava seus gritos, mas também todos os 20 andares do edifício onde eu e do McFly morávamos. – Novidades pra você : eu já não te amo mais, isso é, se algum dia te amei.
pronunciando aquela frase com todas as letras doeu. Doeu muito.
Eu e namorávamos desde o ensino médio. Éramos o casal “queridinho” de todos. Quando concluímos a escola viemos para Londres – eu para cursar a faculdade e ele para tentar a sorte na música. Por sorte, depois de um pouco mais de um ano e algumas audições, , junto com alguns amigos, conseguiu um contrato para a banda que decidiram nomear McFly. Não poderíamos estar mais felizes. finalmente havia conseguido seu contrato, em breve eu me formaria na faculdade e então as coisas começariam a se desenvolver mais facilmente para nós. Ledo engano.
Após assinarem o contrato e gravarem o CD, os meninos da banda tiveram muito trabalho para divulgá-lo. E esse trabalho incluía noitadas em casas noturnas, festas com celebridades e turnês e viagens intermináveis. e eu nos distanciamos cada vez mais. Após todo o esforço para a divulgação do álbum, realmente acreditei que as coisas se ajeitariam entre nós e que voltaríamos a ser aquele casal “invejável” que éramos, ou até algo melhor. Mais uma vez, ledo engano.
voltara tão mudado, cada vez mais frio, mais distante. Já não era mais o meu . Meu melhor amigo, namorado e o futuro pai dos meus filhos. Aquele que estava ali comigo não era o cara pelo qual eu havia me apaixonado. Era um desconhecido ignorante e arrogante, mas eu ainda podia ver aquele rapaz brincalhão, amável e apaixonado por mim naqueles olhos cristalinos. Eu sabia que ele estava ali em algum lugar. Provavelmente aquilo era apenas uma fase. “Era o choque que a fama causou” dizia para mim mesma.
Mas após escutar essas palavras percebi que o meu jamais voltaria. Não era apenas uma fase.
– Ok, , mestre da maravilhosa McFly. Se é isso que o senhor deseja, estou indo embora. – disse com o máximo de sarcasmo que a minha voz podia produzir, mas não sem deixar as lágrimas rolarem por meu rosto. Contê-las foi impossível.
Vi o rosto de se suavizar – um pouco –, mas logo ele retomou a face esnobe, a única, que costumava sustentar ultimamente.
– Vou pra casa de Olivia, amanhã passo aqui pra pegar as minhas coisas. – disse enquanto vestia meu casaco e apanhava a bolsa.
– Nem se incomode – disse e já não olhava mais para mim, voltara a encarar a janela – Peço para Judith, a faxineira, empacotar suas coisas e então algum funcionário da gravadora as entregará na casa da Olivia.
Tão impessoal. Tão frio. Tão nojento.
– Adeus, .
– Adeus, . – se despediu sem se incomodar em me encarar.
Nunca mais vi .

Tempos atuais

Estava em Londres mais uma vez. havia acabado se casar, então estamos parcialmente de férias enquanto ele aproveitava a lua de mel com a sua senhora . E os outros caras estavam curtindo a folga com suas respectivas namoradas. Eu estava solteiro, como sempre.
Todos sempre diziam que eu seria o primeiro a casar. Também, e eu tínhamos um relacionamento sério desde os 15 anos de idade. . Fazia tanto tempo que eu não ouvia falar dela, aliás, eu não ouvia nada sobre desde que terminamos. E com toda essa coisa de casamento, tivemos que escolher fotos antigas para o cerimonial do casamento de para confeccionar um vídeo – muito brega – intitulado: “Antes de ser um só: Sr. & Sra. . Eu quis morrer, mas ajudei. E enquanto admirava nossas fotos antigas, encontrei não uma, mas muitas fotos de . Não que eu tenha me esquecido dela, muito pelo contrário, o fantasma de nosso namoro me assombrava sempre que aparecia uma oportunidade, mas ao ver nossas velhas fotos juntos recentemente me fez pensar em como ela deve estar hoje. era uma pessoa maravilhosa, só por ter me aguentado por anos é uma prova do quão maravilhosa essa garota era. E eu fui muito cafajeste com ela. Irei me arrepender pra sempre de ter rompido nosso relacionamento, ainda mais usando palavras tão duras. Eu era um garoto babaca deslumbrado com o mundo das celebridades, achei que ia me encontrar ali no meio de toda aquela gente fútil e mesquinha. No início era maravilhoso. Todas aquelas festas, garotas maravilhosas, viagens e bebidas. Experimentava tudo de melhor que há nesse mundo. Mas quando eu voltava para casa, eu dormia em uma cama vazia. Nos fins de semana eu tinha sexo, claro, mas não tinha alguém para conversar de verdade. A cada novo prêmio que ganhávamos eu não tinha com quem festejar; alguém para agradecer ou dedicar. Claro que ainda possuía meus amigos, mas logo eles começaram a engatar namoros sérios, e os namoros evoluíram à noivados e casamentos; e finalmente me percebi sozinho, perdido num mundo fútil. Óbvio que eu tive várias namoradas ao decorrer da minha vida, mas nenhuma delas foi tão significativa quanto . era o amor da minha vida e eu a deixei ir. A mandei ir, por seu um moleque idiota e mimado.
Eu só queria voltar para aquela noite em que disse que não amava , e sim dizer que a amava muito, que eu só estava confuso com todas as informações que aquele mundo novo me trouxera. Que estava perdido e precisava da sua ajuda. Que não queria que ela se fosse.
Ou então de ter a oportunidade de reparar todas as besteiras que eu fiz à ela.
Me peguei imaginando em como devia estar agora, onde ela estaria e com quem estaria. Se havia concluído a faculdade de literatura inglesa, se havia escrito um livro, se havia se voluntariado na África, se havia superado seu medo por cachorros... Eram tantas perguntas. E eu queria tanto as respostas. Eu queria encontrá-la, então decidi procurar por seu nome na lista telefônica. Pré-histórico, eu sei, mas minhas ideias momentâneas nunca eram geniais.
Eu sabia que tinha pelo menos umas duas listas telefônicas no armário do corredor de entrada, aquele onde ficava um dos telefones da minha casa. Então me dirigi até o tal armário. Retirei as listas e me pus a procurar por seu nome. Me dirigi a letra W e encontrei pelo menos 4 páginas de inúmeros Watson’s. A busca ficou mais fácil quando cheguei aos Watson’s seguidos pela primeira letra de seu nome. Então seu nome.

Anne Watson.

Havia exatamente sete s Anne Watson.
Aquela sensação de alegria e ansiedade cresceu em mim. Eu reencontraria . Um sorriso tão grande apareceu em minha face que comecei a rir, imaginando o quão bobo eu devia estar parecendo para um espectador que estivesse assistindo essa cena. Sorte a minha que não havia nenhum espectador.
Peguei o telefone e liguei para a primeira . Três toques e uma voz feminina atendeu...
- Alô? – percebi que eu não tinha pensado o que falaria. Não havia ensaiado nenhuma conversa... Nada.
- ? – resolvi por fim.
- Sim, é a . Quem está falando? – óbvio que era . Todas elas seriam s, seu idiota.
- É o , seu namorado do ensino médio. – decidi que se eu queria encontrar , deveria falar algo que minha saberia e as outras não.
- Nunca tive nenhum namorado . E sorte a sua que foi eu e não meu marido quem atendeu, porque se tivesse sido ele você estaria com sérios problemas agora, . – dito isso, desligou.
Ok, errada.
muito errada.
Parti para a próxima.
Liguei para todas as s. Conversei com desde uma de 78 anos, que conversou comigo por quase uma hora ao telefone, à uma estudante que cursava a universidade de Londres que reconheceu minha voz e era fã da banda e me manteve por longos 90 minutos ao telefone. Conversei com todas as s das listas, mas nenhuma era a com a qual eu queria conversar.
Estava decepcionado e cansado. Resolvi ligar o computador para tweetar um ‘boa noite’ aos fãs no Twitter. Mas antes de me despedir, resolvi desabafar aquilo que estava sentindo, e nada melhor que no Twitter. Ninguém entenderia nada mesmo, então digitei:
“Como faço para achar algo?”
Subjetivo. Indecifrável. Então, enviei.
Em seguida desejei um boa noite para todos. Porém antes de deslogar do site, acabei por ler as respostas ao meu pequeno “desabafo”. Ademais das piadinhas, havia uma resposta que chamou a minha atenção:
“Se quer achar algo, use o Google” um deles dizia.
O google.
Claro.
Digitei Anne Watson no google e várias imagens de s apareceram, provavelmente muitas daquelas que conversei por horas hoje ao telefone. Passei por páginas e páginas do site de busca até que a encontrei.
Era uma página da escola onde ela trabalhava. Tinha algumas pesquisas às quais ela havia colaborado, fotos com os alunos e o corpo docente. Anotei o endereço e o telefone da escola, decidi que iria até lá amanhã. Queria reencontrar e não perderia mais tempo.

***

Naquela manhã de quinta-feira acordei bem cedo, algo bem incomum para mim, na realidade, mal consegui dormir. Beberiquei um café que fiz na cafeteira. Fraco. Eu era terrível na cozinha, mas aquele café estava intragável. Dispensei o café, peguei uma maçã e me encaminhei para o elevador que me levaria ao estacionamento do prédio no subsolo. Eu estava nervoso. Não, ansioso seria o sentimento certo. Chegava a ser engraçado. Eu sou mesmo um idiota.
Entrei no meu carro e programei o GPS com destino à escola onde trabalhava. Eu parecia estar no automático, mal me dei conta quando o aparelho indicou que eu havia chegado ao meu destino. Estacionei o carro em uma das muitas vagas que haviam ali. A escola tinha uma fachada bonita, um tanto sombria, mas ainda assim bonita. Era perceptível a inspiração na arquitetura gótica. Se eu tivesse tempo e fosse um pouco mais interessado em arte, provavelmente gastaria bons minutos admirando a fachada do prédio. Alguns alunos estavam ali fora, talvez não tivessem aula ou estavam matando aula – como muitas vezes fiz. O tempo estava favorável para um banho de sol pela manhã, eu não os culpava por terem optado por um descanso ao sol ao invés de uma deliciosa aula de álgebra.
Entrei no estabelecimento e a lembrança dos meus anos de colégio foi inevitável, toda escola deve ter algo que remete a sua escola. E aquela não era diferente. Dispensei os pensamentos saudosistas e me dirigi à secretaria, onde eu pretendia conseguir as informações pelas quais eu estava buscando. A secretaria estava vazia, a não se por duas secretárias: uma aparentava ter por volta de uns 60 anos, já a outra sequer 20. Fui até o balcão. A menina, a secretária que parecia nem ter 20 anos, adiantou-se para me atender – devia saber quem eu era –, mas não tinha tempo para tietagem então fui direto ao ponto:
– Estou procurando pela professora Watson.
Watson? – indagou – Temos uma professora Watson, Isabel? – Comecei a me preocupar, como assim ela não sabia se havia uma professora com esse nome ou não? A senhora, que agora eu sabia se chamar Isabel, se aproximou.
– Hmm... Com o nome de eu conheço somente a Senhora Lowe. – disse olhando para mim.
– Não, eu tenho certeza que é uma senhorita, senhorita Watson. – exclamei já sentindo o sangue ferver. Eu tinha certeza, não tinha? era jovem demais, nem havia passado dos trinta. Era nova demais para já ter se tornado uma senhora. Nova demais para ter se casado. Com certeza não era ela.
– Bom... Senhor? – olhou pra mim em tom de dúvida esperando eu dizer meu nome
. . – respondeu sorridente a jovem que dividia o balcão com Isabel, que agora eu conseguia enxergar em seu crachá seu nome, Sophie Rice. Isabel encarou Sophie com um olhar engraçado e então voltou-se à mim.
– Como eu dizia, senhor . – exagerou em sua formalidade no senhor e em seu tom de voz ao dizer , como que um aviso à menina que estava ali com ela. – Com o nome de , apenas a senhora Lowe. – disse à mim com um tom de compaixão na sua voz.
– Mas eu tenho certeza que trabalha aqui, eu vi fotos suas no site da escola!
Watson? É claro! A professora ! – vociferou a menina – A professora , Isabel! – disse com obviedade e então se dirigiu à mim – Ela está de licença! Ela está fazendo umas pesquisas malucas. – fez sinais esquisitos com as mãos – Eu posso te passar o endereço dela! – tentou prestativa.
– Sophie! – reclamou Isabel – Não podemos passar contatos pessoais dos docentes para estranhos!
– Mas ele não é um estranho Isabel, ele é o do McFly!
– Ele pode ser até a rainha, Sophie! – resolvi intervir na discussão que se iniciava ali.
– Olha, senhora Isabel... Hardy – chequei em seu crachá – Eu jamais faria mal a alguém, ainda mais para essa garota. Principalmente se ela for quem procuro. Éramos amigos até um tempo atrás e por desencontros da vida perdemos o contato. Só quero...
– Ele quer reencontrá-la, Isabel! – exclamou a garota – Eles devem ter uma linda história de amor. – disse sonhadora – E você está impedindo!
– Sophie – disse a senhora enquanto balançava a cabeça negativamente. Devia ser a décima vez que via Isabel ralhar com Sophie e eu não estava ali não fazia nem trinta minutos, pobre Sophie.
– Por favor, senhora Hardy! – fiz minha melhor cara de cachorrinho pidão. Isabel direcionou seu olhar para mim e então para sua colega de trabalho que havia tomado o meu partido e também fazia beicinho para convencê-la. Soltou o ar pesadamente e derrubou os ombros vencida.
– Ok! Ok! Vou dar o endereço dela e peço a Deus que você seja alguém de bem, rapaz. Mas... – interrompeu minha comemoração que era seguida por Sophie, minha mais nova melhor amiga, e apontou o dedo indicador para mim, me advertindo – Se você fizer algum mal à ela, eu sei seu nome e eu tenho dois filhos que lutam taekwondo. – disse em tom de ameaça.

***


Fiquei tão feliz por ter conseguido o endereço de que sequer me dei conta da situação. E se ela não quiser falar comigo? Fui tão rude com ela na última vez que nos vimos. E todas as esperanças que alimentei nos últimos foram sucumbidas pelas duvidas. Respirei fundo e decidi ir em frente. Ao menos eu poderia me desculpar com . Dirigi até o endereço que as secretárias, doidinhas, mas amigáveis da escola, me deram.
Cheguei em frente a uma casa grande, dois andares, paredes de tijolos claros, grama bem verde e o jardim bem cuidado. Era uma bela casa. Tomei uma respiração longa, desliguei o carro e desci. Caminhei pela calçada que levava a porta principal da casa, toquei a campainha. E esperei.
Estava nervoso. Eu veria ela depois de tanto tempo, depois de eu tê-la dispensado da pior maneira possível. Eu nem sabia se ela iria me receber ou se ela era a certa. Então a porta se abriu.
? – disse surpresa a moça que abriu a porta. .
? – dispensei todas as formalidades.
– O que você ta fazendo aqui, astro do rock? – exclamou sorrindo.
Eu não sabia o que eu estava fazendo ali. Até sabia, eu queria desamarrar os nós do passado, o problema era que eu não sabia como iria fazer isso.
– Ah, e-eu... – gaguejei como um bobo. Não conseguia completar a frase que pretendia externar. – Oh, por favor, . Entre! –
disse saudosa – Eu estava esperando um colega que prometeu me trazer uns arquivos agora pela manhã, jamais adivinharia que era você quem tocava a campainha – riu. Ao menos ela não estava sendo hostil como eu tanto temia.
Entrei em sua casa, o hall era amplo, muito limpo e com obras de arte de bom gosto. Tudo ali dentro era de muito bom gosto. Ela me levou até a sala de estar, que era ampla e muito iluminada. Me ofereceu um lugar para sentar e eu aceitei prontamente. Também me ofereceu algo para beber, o que eu recusei, já que sentia um tamanho embrulho no estômago.
. – disse demoradamente instigando que eu continuasse... Eu gostei do som do meu nome em sua voz. Sentia saudade do som do meu nome em sua voz. estava muito diferente. Ainda mantinha a sua essência, mas já não era a garota com quem namorei há tantos anos. Mais adulta, independente, madura. Fisicamente também era notável a sua mudança. Agora ela ostentava cabelos mais curtos, na altura dos ombros, um corpo mais delgado, olhos maquiados perfeitamente, os anos haviam lhe feito muito bem. Além das roupas mais sérias, nada parecidas com o estilo “boho-hippie” que costumava desfilar. O vestido de corte reto que ia até aos seus joelhos combinava perfeitamente com os brincos de pérolas em suas orelhas. Clássica. Lembrei-me que provavelmente ela estava esperando que eu falasse com ela. Encontrei minha voz e soltei o que prendi dentro do meu coração por tanto tempo:
– Senti sua falta, – disse simplesmente. E ela sorriu.
– Oh, . – soltou uma risadinha – Como me encontrou?
Contei a ela toda a saga que vivenciei para conseguir encontrá-la e então a saga parte dois para conseguir seu endereço na escola. Ela ria de cada detalhe em que eu fazia questão de lhe contar exageradamente. A conversa fluía maravilhosamente, como sempre aconteceu conosco.
– Isabel é realmente muito responsável, nem acredito que você conseguiu arrancar meu contato com ela!
– Foi a garota, Sophie, que me ajudou! Devo muito à ela!
– Sophie é uma graça, era minha aluna até o ano passado, se formou na última turma. – disse sorridente.
– Sim, ela é. Mas foi terrível, eu perguntava por Watson e elas me diziam que havia apenas uma tal de Lowe! Mas no fim Sophie, perceptiva que era, disse que havia sim uma professora , você! – a indiquei teatralmente.
– Sophie é realmente muito perceptiva, tanto que percebeu que eu era a que você procurava, porque eu já não sou Senhorita Watson há uns bons anos, . – exclamou rindo, enquanto o meu sorriso desaparecia.
– Como assim não é mais senhorita Watson? – disse num só fôlego.
– Ora, . Agora sou a Senhora Lowe, a que elas tanto insistiam. – esclareceu docemente com um sorriso meigo nos lábios.
Senhora. Lowe.
Meu olhar se dirigiu com a velocidade da luz para seu dedo anelar esquerdo. Um belo anel de diamantes descansava ali.
Casada.
Senhora Lowe.
Engoli seco. E olhei para os meus pés. , ou senhora Lowe, não deixou de perceber a minha mudança de humor.
... Por favor não em diga que veio aqui com segundas intenções. – disse com um tom de voz que beirava a compaixão. Eu não conseguia levantar o meu olhar para encará-la. As palavras “Senhora Lowe” ecoavam na minha mente. – , olhe para mim. – golpe baixo. Me chamar pelo apelido. Não resisti e levantei meu olhar até ela. Sua face ostentava algo que eu não poderia classificar como outra coisa, a não ser, pena.
– Mas , e o que tivemos não significou nada? – eu já não tinha argumentos, me sentia desolado.
– sorriu – Mas é claro que significou, e muito. – dizia cada palavra como se estivesse conversando com uma criança, ela devia ter o tato de lidar com crianças/adolescentes problemáticos, porque o seu tom de voz me acalmou e senti que devia escutá-la. Confiar nela. se aproximou de mim e acariciou o meu rosto com as pontas dos dedos. – Mas não demos certo, querido, a vida me apresentou outras oportunidades, e à você também. – encerrou com um sorriso confortador.
– Mas eu te amo. – exclamei sem nem ao menos filtrar as palavras. A mulher ao meu lado riu. – Agora os meus sentimentos são engraçados pra você? – gritei e ameacei me levantar, mas segurou as minhas mãos e as acariciou e o seu sorriso me acalmou.
– Seus sentimentos jamais seriam motivo de graça para mim, querido. Mas, ... Já se foram tantos anos.
– Mas eu ainda te amo...
– Não, querido, você ama a ideia do que poderia ter sido. Do que aconteceria com e de sete anos atrás. Não do que somos agora. Veja você. – me indicou com as duas mãos. – Tão bonito, bem sucedido... Devem haver milhares de garotas atrás de você. – disse me dando uma piscadela.
– Mas de que adianta se a que eu quero não me quer, está casada. – cuspi a última palavra, como se fosse uma palavra nojenta e proibida. voltou a sorrir, seu sorriso tranquilizador.
– Quantos “mas”. – riu – , você sequer sabe quem eu sou hoje. Como pode saber que eu sou “a” garota pra você?
Bufei irritado, ela não entendia. E também não parecia fazer questão de entender o turbilhão de sentimentos que eu sentia.
– Então me conte. – pedi alto – Me conte quem é ele, o que ele faz, como se conheceram. – meu tom de voz foi perdendo umas oitavas – E se sente algo mais forte por ele do que sentia por mim. – desafiei.
apenas riu.
– Eu conto, mas só se você me contar da sua vida também. Termos iguais. – levantou o dedo mínimo, pedindo para que eu selasse a promessa.
– Promessa de mindinho? – eu ri.
– A promessa mais honesta existente!
Enganchei meu dedo no dela, selando aquela promessa ridícula.
– Você primeiro.
– Por que eu? – reclamei.
– Porque, com certeza, sua vida é muito mais emocionante que a minha! – conclui – Vai !
– Tá, tá. Bom... Muitas coisas que vivenciei esteve estampado nos tablóides e revistas, então talvez não haja muitas supressas...
– Bom, mas quero saber a sua versão dos fatos. – arqueou uma sobrancelha.
Contei para ela os fatos que eu tinha orgulho de ter vivido. Como a tour pela América do Sul, o filme que participamos, a modelo com a qual namorei por alguns meses – nesse momento lancei um olhar questionador a ela, mas sua feição sequer se alterou –, contei também sobre coisas das quais eu não me orgulhava, ela riu algumas vezes, exclamou alguma coisa em outras, mas não me julgou em momento algum. Ela parecia ter gostado de saber os fatos interessantes da minha vida. Mas eu não ousei comentar sobre como o fim do nosso relacionamento me assombrou durante todos os anos que se passaram, nosso romance que acabou tão drasticamente. Me senti bem pondo – quase – tudo pra fora, eu era um livro aberto que podia ler claramente. era uma amiga formidável.
– Ok, agora, é sua vez mocinha... – olhei-a com curiosidade. Eu devo ser extremamente masoquista porque estava ansioso em escutar a historia de , minha ex-namorada e amor da minha vida. A vida que ele teve, aliás, tem, com outra pessoa. Eu podia sentir a dor, já estava doendo, seus olhos brilhavam apenas ao pensamento do que ela tinha para me contar. Eu sou mesmo um masoquista daqueles.
– Ahhh, eu realmente não sei por onde começar...
– Então, acho que deve começar pelo começo. Conte-me o que fez quando... quando terminamos.
– Hmm, quando você... – ela frisou bem a palavra – Eu fui para a casa de Olívia e chorei... muito. A semana que se segui não foi nada fácil, esperei por uma ligação sua, eu não saía do lado do telefone, – riu – mas então eu percebi que você não ligaria, que não me procuraria mais e foi aí que eu aceitei que o que tínhamos havia acabado. Que o nosso pra sempre havia acabado. E voltei a frequentar as aulas, me inscrevi para me voluntariar na África. – sorriu para mim e eu devolvi o sorriso prontamente – Foram meses maravilhosos, – disse sonhadora, como se lembrasse de memórias muito queridas – e na África do Sul eu conheci Patrick. – seu sorriso aumentou e junto a ele o aperto no meu peito. Ela respirou fundo e me lançou um olhar condescendente – Se quiser, posso não falar sobre Patrick, .
– Não! Por favor, continue... Ele é o seu marido? – ela sorriu e prosseguiu.
– Sim, ele é. Ele é médico e estava lá se voluntariando também. Sei que parece um pouco egoísta estar se doando para ajudar as pessoas e acabar se apaixonando alguém. Mas acredito em destino, karma talvez... Então talvez a minha boa ação tenha resultado em uma boa ação para eu mesma, entende? – riu – Estou muito espiritual, não? Perdoe-me.
– Eu gosto de ouvir você falar sobre as suas convicções. – admiti – Talvez você não tenha mudado tanto quanto eu pensei que havia.
– Eu ainda acredito que todos temos que acreditar em algo maior, seja ele Deus, Buda ou Elvis – rimos.
– Então, quando voltamos para Inglaterra, não demorou muito para noivarmos. Simplesmente sabíamos que éramos a pessoa certa um para o outro. Como se fôssemos predestinados. Casamos logo após eu me formar na faculdade – indicou o anel em seu anelar esquerdo – Dois anos depois, nasceu Noah. – ela se levantou e ao voltar me entregou um portarretrato em que três pessoas muito sorridentes posavam. Noah era o seu filho. Seria ridículo dizer que segurei as lágrimas? Sendo ou não, tive que segurá-las, agradecendo por ter sucesso no feito. pigarreou chamando a minha atenção. – Acredito que não esteja tão interessado na minha vida profissional, mas eu leciono e dirijo pesquisas na escola onde você me procurou.
Voltei a observar a foto que me entregou. Os três pareciam muito conectados, tão felizes. Noah se parecia com o pai. Cabelos loiros e olhos da mesma cor. Mas ainda assim ostentava os traços gentis e suaves da mãe. Era uma criança linda. Já Patrick tinha um ar de intelectual, mas, lamentei concordar, suas feições aparentavam um ar de uma pessoa bem sucedida, de um pai de família. E ele era. O pai de uma linda família que ele desejava que fosse sua. Ele devia estar encarando a foto por uns bons longos minutos porque mal escutou lhe chamar.
. – levantou o olhar para ela.
– Me desculpe, eu...
– Tudo bem. – sorriu – , eu sinto muito por tudo. Sinto muito por termos acabado como acabamos, mas hoje eu percebo que tudo acontece com um propósito. Talvez nosso fim não precisasse ser tão duro, mas de alguma forma, em algum momento iríamos precisar ter um fim.
– Por que?
– O porquê eu não sei, mas algumas coisas têm de acontecer para que outras coisas aconteçam. Talvez coisas ruins, mas muitas coisas maravilhosas também fazem parte da jornada. – sorriu e então tomou uma longa respiração – Eu lamento muito o nosso fim, , não pense que não, e vendo você aqui hoje eu ainda sinto uma faísca daquele sentimento tão doloroso que senti quando dissemos adeus, mas veja... – seus olhos estavam marejados – E a nossa separação foi necessária para que coisas fantásticas acontecessem em minha vida e também, na sua. – sorriu radiante – Hoje eu tenho uma pessoa que eu amo ao meu lado e um filho incrível, e você... Você tem a sua banda! Conheceu o mundo, tem milhares de pessoas que te amam pelo seu talento, teve uma namorada modelo da Victoria Secret’s. – ela riu e eu também não pude deixar de rir. – E tenho certeza que algum lugar do mundo deve ter alguém esperando para te amar como eu amo Patrick.
Suspirei. Não conseguia dizer uma sequer palavra. Apenas recebia as palavras de e tentava digeri-las.
– Eu te amei muito, . E talvez ainda te ame, como um amigo, é claro. E eu quero o melhor para você. O que vivemos foi... Indescritível. Lindo. Mas, por favor, não se apegue a ideia do que poderia ter sido, como você está agora. Deixe-me ir. Encontre o seu “Patrick” lá fora, e seja feliz. Infelizmente, ou felizmente, o seu “feliz para sempre” não é comigo, mas eu tenho certeza que há um feliz para sempre para você. Vá buscar a sua felicidade, . – finalizou com o seu tão conhecido sorriso confortador.
Respirei fundo e não pude evitar deixar as lágrimas rolarem por meu rosto. Aquele era o nosso fim definitivo, não era? era melhor que eu até para terminar. Usou as palavras certas, palavras bonitas, mas elas doeram da mesma forma. Segurei a risada ao perceber o meu pensamento: não estava terminando comigo, já que não tínhamos mais nada há anos. limpou minhas lágrimas delicadamente com as pontas dos dedos.
, me desculpe. Eu não devia ter vindo...
– Não, , eu fico muito feliz que tenha vindo. Eu sinto muito que eu não possa mais te dar o amor pelo qual você veio buscar, mas eu posso lhe conceder a minha amizade, o meu amor de amiga.
E se era só isso que eu teria dela, eu aceitaria de bom grado. E quem sabe algum dia, como disse , eu encontraria o meu “felizes para sempre” lá fora? Mas por hora eu usaria as melhores memórias que eu tinha para construir a melhor ilusão daquilo que poderia ter sido.


FIM



Nota da autora: 22.10.2014 -
Olá pessoas, obrigada por terem gasto preciosos minutos da sua vida lendo minha história. Me perdoem pelo fim não tão feliz, mas eu sempre quis escrever um dramazinho à la novela mexicana e here it is! Eu não sei mais o que dizer, então, espero que gostem e se possível comentem. Hum, é isso... estudem, comam legumes e não façam nada que eu não faria xx mi.

Leia também: Never Had (/ffobs/n/neverhad.html)

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