Postada em: 15/01/2018

Capítulo Único

There you go
You're always so right
It's all a big show
It's all about you

Ele sentia-se preso em um ciclo vicioso que durava dois anos da sua vida, ou melhor, do seu relacionamento. Lutava todo santo dia, usava toda sua força ou até mesmo quando estava próximo de chutar o balde, mantinha-se firme enrolado no último fiapo de esperança.
Acreditava que o amor era apenas para os míopes e não para si. Sua teoria era que os míopes conseguiriam amar, fazer um relacionamento dar certo com facilidade já que não conseguiam enxergar um palmo na frente do nariz, ou seja, não enxergavam os defeitos do seu parceiro.
Muitas das vezes, se questionava sobre o amor, sua própria felicidade e se o fato de conviver com as brigas era realmente a sua culpa. Talvez realmente fosse. Talvez a sua namorada realmente tivesse razão, mais uma vez – como sempre.
Ele era uma merda por não compreender suas vontades, não lhe dar flores nos dias de tristeza, não saber ler seus pensamentos quando ela diz que não tem problema ele fazer algo, quando na verdade ela não quer que ele faça.
Sabia que lhe faltariam dedos nas mãos e nos pés para enumerar todas as razões que Isabella lhe dava com tamanha facilidade a cada vez que tinham uma discussão, na maioria das vezes por motivos idiotas. Foram incontáveis as vezes em que ouvia sua namorada criticá-lo, não dar ouvidos as suas opiniões sobre diversos temas e, o pior de tudo, ela sempre dizia o que ele deveria fazer.
Resumindo: ele era o pior namorado da história.

You think you know
What everyone needs
You always take time
To criticize me

It seems like everyday
I make mistakes
I just can't get it right

Agora, encontrava-se sentado à mesa do seu rodízio de massas favorito, numa noite de quinta-feira, acompanhado de sua namorada Isabella. Não se sentia satisfeito de estar ali, mas ainda que não conseguisse suportar o relacionamento deles, Pedro ainda usava os últimos resquícios de esperança e apego como forma de tentar manter um relacionamento que já escorrera pelo ralo.
Na noite anterior, haviam discutido sobre Pedro fazer ou não um intercâmbio de seis meses na Austrália. Isabella achava que ainda não era hora de estarem longe um do outro, de que por enquanto ele não tem motivos suficientes para justificar essa viagem. Discutiram por horas, a menina sempre alegando que ele não tinha maturidade suficiente para ficar tanto tempo longe da família, não conseguiria seguir por esse caminho agora.
O restaurante tinha suas paredes pintadas de um tom pastel, as paredes da entrada eram vidraças que permitiam que os clientes que estivessem passando pela calçada pudessem ver o lugar por dentro. Havia várias mesas de madeiras espalhadas pelo local, garçons com seus uniformes imaculados visitando todas as mesas, oferecendo uma saborosa fatia de pizza.

— Já desistiu da ideia absurda do intercâmbio? - Perguntou Isabella num tom irritado enquanto cortava um pedaço da sua pizza quatro queijos e enfiava na boca.

— Sério que você não vai me dar uma força? - Questionou ele, demonstrando sua decepção enquanto começava a mastigar um novo pedaço de pizza calabresa.

Ela deu de ombros, respondendo: - Você ainda não está pronto para viver uma experiência dessas e eu não entendo o motivo de ficar tanto tempo fora. - Disse, em seguida enfiando mais um pedaço de pizza.

— Pizza australiana com bacon, ovos, pimenta. - Interrompeu o garçom enquanto os observava pacientemente.

— Sim, por favor! - Pediu dando espaço para que colocasse a fatia no seu prato e continuou quando o garçom se afastou — Por que não consegue apenas me dar o seu apoio? - Perguntou ele irritado, enquanto colocava seus talheres de volta a mesa e a encarava, esperando alguma resposta para sua reação.

— Porque eu sei o que é o melhor para você. - Respondeu ela, sorrindo docemente enquanto soltava o garfo e a faca e estendeu a mão, cobrindo a dele com a sua.

— Você só sabe me criticar e agora… -

— Com licença, pizza marguerita – Interrompeu outro garçom. O casal encarou o homem com irritação e confirmaram com um aceno de cabeça, em total silêncio. Quando o garçom se afastou, Pedro tentou continuar: — Você só sabe me criticar e agora vem dizer que sabe o que é melhor para mim? Está de brincadeira, né? - Falou num tom de deboche enquanto afastava a sua mão.

— Pedro, eu amo você e por isso sou sincera. Você não consegue passar seis meses do outro lado do mundo sem mim ou sua mãe para fazer as coisas. - Sussurrou num tom irritado enquanto forçava uma expressão feliz, tentando não demonstrar para os outros que estavam discutindo.

Era sempre dessa forma, tentando disfarçar que eram um casal perfeito. Fingiam não brigar para os outros, mas a verdade é que se desentendiam tanto que quando Isabella agia dessa forma, Pedro só sentia vontade de xingar alto o suficiente para toda a cidade ouvir.

It's like I'm the one
You love to hate
But not today

— Isa, preciso que seja sincera. - Pediu num tom calmo enquanto segurava a mão direita dela, interrompendo o corte da pizza, atraindo a atenção da menina. Olhou no fundo dos olhos castanhos dela e tomou coragem para pronunciar o que vinha frequentemente o enlouquecendo. — Você me ama? - Questionou sem desviar o olhar.

— Com licença, Yakisoba de carne – Interrompeu o garçom, assustando-os. Isabella afastou a mão e desviou o olhar, encarando seu prato que ainda tinha uma fatia de pizza calabresa.

Pedro respirou fundo tentando manter a calma e negou com um gesto de cabeça. O garçom sorriu sem graça, percebendo que havia interrompido um momento tenso entre o casal.

— Você tem razão. Eles precisam fazer aquelas plaquinhas de “sim ou não”. - Ele comentou dando de ombros e sorrindo em seguida. O silêncio permaneceu por alguns instantes, até que Pedro perdeu a paciência.

— Então, vai responder minha pergunta ou vamos continuar mais dez anos da nossa vida brigando? - Perguntou irritado encarando Isabella friamente. Continuou: — Você está feliz assim? Está feliz comigo ou eu sou apenas um estepe até você encontrar alguém melhor? - Perguntou sorrindo debochadamente ao deixar escapar a última pergunta. Seu coração batia dolorosamente ao se lembrar da conversa que leu no celular da namorada. Ela dizia para a amiga que só estava com Pedro ainda por falta de opção.

Isabella fingiu não ter ouvido o que o namorado disse, apenas fez uma expressão tranquila e recomeçou a saborear a sua pizza, agora fria. Sabia que se respondesse qualquer coisa, Pedro faria um escândalo e ela não queria ser humilhada por ele.

— Então? Não vai dizer nada ou cansou de chutar o meu rabo? - Perguntou Pedro, estressado, aumentando o seu tom de voz, atraindo a atenção de outras pessoas nas mesas próximas.

— Pedro! - Repreendeu Isabella elevando um pouco a voz, perdendo a paciência com a atitude do garoto, sorriu sem graça ao ver as pessoas olharem com curiosidade para eles. Só conseguia pensar que tudo era mais fácil quando o namorado apenas ficava quieto e tocava a vida normalmente, como se nada tivesse acontecido. Se questionava sobre ser errado da parte dela pensar assim, mas lembrava todas as vezes que o jovem brincara com seus sentimentos e sentia um desejo de se vingar.

— Você me ama ou não, Isabella? - Perguntou mais uma vez, estressado.

— Claro que te amo! Ou você acha que aturaria você de graça? - Falou revirando os olhos enquanto enfiava mais um pedaço de pizza, mastigando com indignação.

— ME ATURAR? - Gritou ele perdendo a paciência, levantou-se da cadeira, empurrando-a para trás, arrastando no chão. Todos os presentes no restaurante observavam a cena numa mistura de surpresa, curiosidade e divertimento. Pedro tentou ignorar as pessoas ao seu redor. Sentia que aquele era o momento exato de resolver toda essa merda e ser feliz. Não suportava mais viver daquela forma.

— Pedro, dá para se acalmar e sentar a bunda nessa cadeira? Eu sei que você adora ser o centro das atenções, mas eu não. - Falou Isabella num tom sério, ainda sentada em sua cadeira, o encarou por alguns segundos e voltou sua atenção para a pizza como se nada estivesse acontecendo.

Sua vontade era quebrar tudo que estivesse bem na sua frente para descontar toda a raiva que a namorada o estava fazendo sentir. Sentia-se preso numa confusão de emoções, mas que não fazia bem para si. Na verdade, não fazia bem já faz tempo.

So shut up, shut up, shut up
Don't wanna hear it
Get out, get out, get out
Get out of my way
Step up, step up, step up
You'll never stop me
Nothing you say today
Is gonna bring me down

There you go
You never ask why
It's all a big lie
Whatever you do

— CALA A BOCA! - Gritou ele, irado, batendo com as palmas das mãos na mesa, fazendo com que balançasse. O silêncio reinou no restaurante, as pessoas encaravam-no como se fosse um louco, crianças começaram a chorar. Se arrependeu segundos depois, sentindo-se envergonhado e sentou novamente, respirando fundo algumas vezes tentando se acalmar.

— Está satisfeito? Você sempre tem que ser o centro das atenções, o senhor “sou um bom namorado e tenho uma namorada megera!” - Resmungou Isabella magoada e com lágrimas nos olhos, parecendo envergonhada enquanto o encarava.

— Mas você é uma megera! - Retrucou Pedro revirando os olhos, agora mais calmo.

— Eu? Tem certeza disso? Faço tudo pensando em você, querendo o seu bem. Digo o que deve ser feito porque você é um idiota irresponsável que não sabe fazer porra nenhuma! - Falou ela, irada, secando algumas lágrimas que rolavam pelo seu rosto.

As pessoas que estavam próximas observavam em silêncio sem qualquer coragem ou vontade de interromper a cena típica de novela e romances baratos.

You think you're special
But I know, and I know
And I know, and we know
That you're not

You're always there to point
Out my mistakes
And shove them in my face

— Você não tem que me dizer o que devo fazer e nem o que é bom para mim. Sabe o motivo de ser tão difícil esse relacionamento? Porque você se acha a senhorita especial e perfeitinha. Adora dizer o que deve ser feito, o que acha ser bom para os outros, mas só que ninguém te suporta mais! - Confessou Pedro friamente enquanto olhava seriamente para a menina que ainda secava algumas lágrimas. Continuou: - Você nunca me incentivou, sempre que abre a boca é para tentar me derrubar, esfregar todos os meus erros na minha cara. Eu sei que errei com você algumas vezes, mas tentei consertar as coisas e você passou a agir assim. - Falou ele num tom triste, seus olhos repletos de lágrimas querendo escorrer.

— Eu pensei que poderia te perdoar, mas eu não consigo. Eu te amava, caralho! E você me faz o quê? Come a primeira que aparece… - Confessou Isabella sentindo a dor da mágoa, todo o peso que vivia dentro de si durante esses anos em que tentou perdoá-lo, mas falhou.

— Era só ter desistido de nós, me deixado seguir a minha vida e não me tratar como se eu fosse um nada para você! - Falou ele magoado enquanto secava algumas lágrimas.

— Pedro, só cala a sua boca e me deixa em paz. Chega! Já deu! - Pediu ela em meio às soluções enquanto se levantava da cadeira e caminhava para fora do restaurante sentindo a humilhação, a vergonha do espetáculo que acontecera. Sentia os olhares nas suas costas enquanto abria as portas e saía para a noite abafada de verão.

Enquanto ambos se afastavam, Pedro ainda atordoado dentro do restaurante, sentindo o peso das palavras que havia dito para a namorada. Isabella permitiu sentir toda a raiva, mágoa que carregou durante todos esses anos, todas as vezes que tentou forçar o relacionamento deles dar certo quando na verdade estavam destinados ao fracasso.
Ambos haviam se tornado inimigos enquanto acreditavam ainda serem apaixonados um pelo outro, mas, na verdade, a cada momento que passavam juntos tentavam se derrubar, esfregar na cara um do outro o que deveriam aprender a lidar. Talvez esse ciclo nunca fosse parar.

Bring me down
{shut up, shut up, shut up}
Won't bring me down
{shut up, shut up, shut up}
Bring me down
{shut up, shut up, shut up}
Won't bring me down

Shut up, shut up, shut up


Fim.



Nota da autora: Sem nota.



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