Capítulo Único

O jovem encarou os papeis em cima da cama e suspirou cansado. Eram tantos papeis para ele ler e assinar que já estava ficando cansado. Incrivelmente cansado. Aquela vista de frente para a janela do seu quarto também não estava ajudando em nada a melhorar o seu humor. Se ele estivesse ali, de férias, não tinha dúvidas de que a situação seria outra. Ah, claro que seria! não estaria ali naquele quarto de hotel, lendo contratos e ensaiando para uma futura reunião que teria dentro de algumas horas. Pelo contrário, se a situação fosse outra, estaria na piscina do hotel, tomando um pouco de sol, desfrutando de tudo o que de melhor aquela cidade tinha para oferecer, de preferência, sem ter que se preocupar com qualquer coisa relacionada a trabalho. O rapaz encarou mais uma vez a vista e suspirou só de imaginar como seria se a situação realmente fosse contrária. A realidade parecia bem cruel para ele. No entanto, sabia que aquilo não seria fácil. Imaginava que marcar uma reunião em um hotel de frente para o mar em uma cidade com clima praiano seria difícil, mas, jamais chegou a imaginar que seria torturante. Sim, torturante. A temperatura não devia ser menos que 30 graus. As pessoas pela janela do quarto pareciam se divertir enquanto ele estava ali, preso naquela quarto, vestindo um paletó e extremamente irritado.
passou as mãos pelo cabelo, nervoso. Tirou o paletó e levantou as mangas. Olhou as horas pelo relógio em seu braço e bufou irritado, e quando finalmente iria xingar o atraso dos investidores, o telefone da recepção tocou, atraindo sua atenção. Devagar, imaginando que os tais investidores já teriam chegado, o jovem empresário sorriu, imaginando o que diriam a seguir. Esperava ouvir no mínimo que todos já estivessem à sua espera no saguão, preparados para resolver os tramites legais para aquela transação empresarial. Tudo o que esperava ouvir é um "Estão esperando aqui na recepção, aguardando o senhor."
"Senhor".
riu com o pensamento afinal, que “senhor”, se estava no auge dos seus trinta anos?
? — A recepcionista murmurou do outro lado da linha.
— Sim, é ele. — Murmurou extremamente calmo para quem estava prestes a ter uma crise de stress.
— Sinto lhe informar, mas acabamos de receber uma ligação dos investidores... Eles informam que houve um atrasado no embarque e por esse motivo, a reunião deverá ser marcada para amanhã. Pedimos desculpas pelo ocorrido. Como retração, você poderá desfrutar de tudo o que hotel tem a oferecer...
fechou os olhos sentindo a raiva dominá-lo por completo. Queria xingar a recepcionista, mesmo que ela não tivesse culpa alguma. Queria quebrar todo aquele quarto de hotel, queria extenuar toda sua raiva. Estava irritado com o mundo a sua volta e tudo graças ao seu pai que o havia escolhido para resolver aquela situação. Por que não marcar aquela reunião em São Paulo? Ele era o vice-presidente de uma das maiores empresas de cosméticos do país e não o presidente. Por que seu pai tinha sempre que ser tão rígido com ele? era um bom filho e até um bom empregado, oras!
Desligou o telefone na cara da recepcionista e massageou as têmporas. Cristo! Tudo o que ele mais queria era sair dali e aproveitar o dia. Olhou em direção à janela do quarto mais uma vez e caminhou a passos lentos até que seus olhos captassem a piscina do hotel. Os hóspedes se divertindo e o sol escaldante, não pareciam que iam embora tão cedo. Ah, quanta tortura! Era pedir demais por férias? Por um dia apenas de diversão? Por um momento em que pudesse esquecer o estresse do trabalho? Era pedir demais querer curtir aquela cidade, aquele dia, sem pensar necessariamente em trabalho?
Viver a vida como se fosse o último.
A última vez que curtiu a noite sem se importar com as consequências no dia seguinte, havia sido há mais de quatro anos quando se formara na faculdade. Ok, ele não era mais nenhum adolescente, mas também não podia ser considerado nem um quarentão proibido de curtir, era?
Suspirou dobrando as mangas da camisa social e se jogou na cama encarando o teto. O que faria naquele dia? Queria aproveitar o dia, a estadia. A oportunidade havia surgido, mas como faria aquilo dentro do quarto de um hotel? Talvez pudesse encontrar uma companhia para passar a noite, ou fazer novos amigos, encontrar um velho conhecido...
Não tinha conhecidos no Rio de Janeiro, boa parte de seus colegas viviam em São Paulo ou no Sul do país.
Ele realmente precisava mudar aquilo. Tirar umas férias, conhecer pessoas novas e esquecer que tinha uma empresa pra tocar ao lado do pai.
Mas naquele dia, por hora, não sabia exatamente o que iria fazer, mas tinha certeza de que se divertiria.
Não importa o que faria, ficar preso naquele quarto quando finalmente estava livre, é que ele não iria ficar.
Tomar um banho e tirar aquela roupa era o primeiro passo.
Encarou uma última vez a piscina e o sol escaldante daquele dia e sorriu.
Ele não iria perder aquilo.
Não mesmo.

**

Desceu para a recepção por volta das uma da tarde. Caminhou devagar até a mesma em busca de informações sobre a sua estadia, mas ao notar a agitação que se formava ao redor da moça com uniforme azul, parou imediatamente no meio do caminho.
A recepcionista encarava a mulher de cabelos com uma cara assustada.Ela não sabia ao certo o que fazia, e aquilo fez sentir dó por ter desligado o telefone na cara da recepcionista.
Mas uma para aquela pobre moça?
Um outro funcionário do hotel que também vestia uniforme azul, parecia não saber o que fazer diante do pequeno vexame - ao seu ver - que a moça estava fazendo. Ele deu de ombros de repente, e resolveu se aproximar, afinal, era essa a sua intenção inicial, sentindo-se bastante atraído pela conversa. Bem, então não era só ele que estava e num mau dia aparentemente.
— Você tem certeza? Mas isso é inadmissível! Como vocês ousaram fazer uma barbaridade dessas? — A tal moça de cabelos murmurava com impaciência ao telefone, enquanto dividia sua atenção com a recepcionista que não sabia o que fazer. Aquilo havia chamado a atenção de . Sem ter exatamente o que fazer, resolveu, por mais errado que fosse, ouvir a conversa alheia, se aproximar a fim de obter mais detalhes da confusão que parecia se formar na recepção.
— Senhora...
— Senhora, não, senhorita. — A moça corrigiu o funcionário que ficara extremamente constrangido.
— Claro, senhorita...
.
— Enfim, senhorita , não acho que isso seja possível. O quarto já estava reservado há algumas semanas e não podemos repassar qualquer informação sobre os hóspedes ou quem quer que tenha reservado, sinto muito.
suspirou fundo, dedicando uma atenção maior ao telefone celular. A mulher não sabia o que faria naquele lugar, não sabia nem mesmo porque estava ali, embora tivesse ideia do motivo. Sabia apenas que aquilo não era justo com ela, afinal, que mal tinha se ela era viciada em trabalho? Que mal tinha se ela preferia ficar horas e horas em um estúdio fotografando do que tirar férias? Suas amigas simplesmente não podiam ter a enganado daquela forma, aquilo era imperdoável.
Semanas atrás, Alessandra sua amiga da faculdade, havia lhe dito que Guilherme, seu namorado há cinco anos, havia a pedido em casamento. ficara feliz e então, marcaram a data do casamento, sem antes reservarem uma casa de shows para a tal despedida de solteira.
Alessandra e mais algumas amigas reservaram uma casa de shows na cidade do Rio de Janeiro e repassaram as informações para . A fotografa nunca estivera tão empolgada pra uma festa quanta aquela. Sentira uma pontinha de remorso, pois não pôde ajudá-las nos preparativos para a despedida, pois naquela semana em especial, havia trabalhado em um casamento e estava extremamente atarefada.
E todo mundo que conhecia Smith, sabia que ela era extremamente viciada em trabalho.
Suas amigas haviam a enganado. Para elas, precisava tirar férias e respirar outros ares.
Que fosse sendo enganada então.
— Eu vou acabar com Alessandra.
— Violência não leva ninguém a nada. — murmurou, enquanto aguardava ser atendido.
— Ah, claro. – Disse sem encará-lo. — Experimente ser afrontado ou enganado para ver. Garanto que manter a paz e a ordem é a última coisa que vai vir em sua cabeça. – A fotografa murmurou sem deixar o celular de lado.
— Mas você tem que concordar comigo que causar mais confusão em cima de outra só irá agravar o problema.
— Ah, claro! Chegou o advogado da nação. — Ela enfim o encarou. — Vamos deixar algumas coisas bem claras aqui: Eu não te conheço e você não me conhece. Não sei o porquê de estar aqui e você não nada sobre mim, então, meu caro, não se intrometa em assuntos que não são da sua conta. Faça um favor a si mesmo: Poupe-se do vexame.
— Aqui o cartão. — O recepcionista ofereceu o cartão que dava acesso ao quarto.
— Ah, obrigada. — Guardou o celular na bolsa. A moça encarou uma última vez. — Passar bem.
respirou fundo diante da resposta mal criada da mulher, mas o dia estava bonito demais para ele estressar à toa.
Ele não ia simplesmente deixar as coisas daquele jeito.
— Ah, eu vou passar muito bem, . — Ele disse fazendo a mulher parar no meio do caminho e se virar para encará-lo. Como ele sabia seu nome? — Eu estou exatamente aonde queria estar e convenhamos, o dia está bonito demais para se estressar com problemas pequenos. E não é você quem vai estragar o meu dia. E além do mais, descontar seus problemas em mim não vai resolvê-los, percebe? — Ele sorriu, virando-se para a recepcionista, deixando a moça mais irritada do que já estava.
respirou fundo sentindo uma enorme vontade de revidar, mas resolveu ficar calada. Não iria perder mais tempo discutindo com um desconhecido a troco de nada.

**

Para um dia ensolarado como aquele, era de esperar que as pessoas fossem aproveitá-lo da melhor maneira possível. Tomar banho de sol parecia ser uma ótima opção. fez uma careta ao chegar até a área de lazer do hotel e se deparar com tantas mesas ocupadas. Por que as pessoas não podiam simplesmente ir até a praia?
Respirou fundo. Ok, ele mesmo podia fazer aquilo ao invés de se questionar.
Analisou o ambiente atentamente até se deparar com uma área mais afastada da piscina onde havia algumas mesas. Encontrou uma com dois lugares, ocupado por apenas uma pessoa. Sorriu, tirando os óculos escuros e se aproximou da mulher, afinal, não teria mal algum se ele se aproximasse e lhe fizesse companhia caso ela estivesse sozinha. No entanto, ao chegar mais perto, deparou-se com a tal mulher da recepção e retesou sua postura. Ela certamente não iria deixar a pequena discussão de mais cedo passar.
Por que não ficara calado?
Aquilo não era da sua conta. No entanto, caso os papeis fossem invertidos, sabia que teria feito a mesma coisa.
Se tivesse com sorte, ela certamente não se recordaria do que havia acontecido mais cedo. Caso contrário, poderia imaginar que não seria uma tarefa fácil tentar se aproximar.
— Com licença. – Disse ao chegar mais perto.
bebia um drink, alheia com o mundo a sua volta. Ainda tentava contato com as amigas, mas naquele dia, como obra do destino ou não, todas estavam incomunicáveis. Levantou a cabeça para dar atenção a e quando o reconheceu, revirou os olhos, entediada.
— Você de novo. – Afirmou. – O que é agora, hein, cara?
— Opa, ok. Me desculpe por mais cedo. Eu também não estou aqui porque quero, mas já que aqui estamos... Posso me sentar?
arqueou a sobrancelha. Olhou em volta e sorriu com deboche ao se deparar com o lugar cheio de pessoas.
Ah, agora sim havia encontrado um alvo para ironizar a situação.
O dia poderia não estar perdido no fim das contas. Aquilo seria divertido.
— Ok. Vamos fingir que você não veio até aqui porque o lugar está cheio, mas sim, porque eu sou uma moça legal e bonita, e você, como um bom cavalheiro que é, não achou legal me deixar aqui sozinha. Mas nós sabemos que não é bem assim, não é mesmo? Bem, tirando a parte de que eu sou uma moça bonita, porque é verdade mesmo. – Sorriu, vendo o homem ficar constrangido.
— Certo, você não foi muito com a minha cara, não é? Ok, vamos lá. — Cruzou os braços.
Ela riu.
— Você sabe que eu poderia muito bem colocar a minha bolsa aqui, não sabe? Sabe que eu posso muito bem responder que estou acompanhada esperando uma certa pessoa, não sabe?
se inclinou sobre a mesa.
— Mas nós sabemos que não há pessoa alguma aqui, não é mesmo? Você poderia fingir um pouquinho que gostou de mim, que me achou bonito, porque eu poderia muito bem ser modelo ou tentar a carreira artística em Hollywood.
— Certo, já me diverti demais com você por hoje...
.
— Senta aí, , vamos brindar as nossas desgraças.
— Wow, quanto otimismo!
Rebeca deu de ombros.
— Por que está aqui, afinal?
— Longa história...
— Hum... vejamos... Eu não estou aqui porque quero e você também não, então acho que temos o dia inteiro para afogar as mágoas. Vamos lá... Algum motivo especial?
— Reunião de trabalho não é o que eu chamaria de motivo especial, mas eu não posso reclamar da situação. Eu estava esperando alguns investidores desde ontem à noite para discutirmos alguns assuntos empresarias, mas o atraso no voo em Nova York mudou completamente os planos. Não foi de todo ruim...
— Hum... Empresário então? – Ele afirmou. – Legal. – Bebeu o drink. – Eu estou aqui porque cai numa armadilha muito sem graça das minhas amigas, porque elas se incomodam com a minha rotina de trabalho. Você precisa tirar férias, você precisa largar esse emprego por um tempo, precisa isso, precisa aquilo... Porque aparentemente, se dedicar àquilo que te faz bem, parece ser errado para algumas pessoas.
— Você deveria agradecer as suas amigas. Estamos na mesma situação, mas por motivos diferentes. Tudo o que eu mais desejava era poder tirar férias pelo menos uma vez ao ano. Viajar pelo mundo e me desligar da minha vida por um tempo.
— Eu gosto do que faço e não sinto necessidade de me livrar disso tão cedo. Ser dona do seu próprio negócio me dá essa liberdade. Por mais que a intenção tenha sido a das melhores, eu ainda assim, acho que elas não tinham esse direito. Enfim...
— Apesar do estresse que tive mais cedo, estou feliz. Mas e você? O que pretende fazer pra passar o dia?
deu de ombros.
— Não sei... Talvez assaltar um banco...
se engasgou.
— Hey! – riu. — Eu estou brincando. Não vou fazer isso, até porque é crime. – Riu novamente. – Não posso voltar pra casa, porque elas fizeram questão de sumirem com meu cartão e o dinheiro que tenho, não é suficiente para comprar uma passagem de volta pra casa. — Suspirou. — Eu só queria estar em Nova York, fotografando, apenas isso. Mas me fala de você. Para uma pessoa que parece não gostar de trabalho, você certamente não vai gostar de ouvir sobre mim.
— Não é que eu não goste. Eu gosto, o problema é que eu não sei o que é férias, entende?
— Hum... Não? Quero dizer, eu não quero férias. Logo, não tenho. E você quer isso e, por que não consegue?
— Meu pai é meu chefe.
— Wow! – riu. – Pressão 24 horas por dia?
— Não é muito legal ser filho dos patrões.
— Eu achava que seria exatamente o contrário. Ah, qual é... Você é filho do chefe, deve ter lá suas regalias. Não tem? – negou. – Que triste.
— É exatamente o contrário. Se dependesse do meu pai, eu morava na empresa.
— Você sempre sofreu esse tipo de pressão? Assim, desde criança?
riu com a pergunta, sentindo-se nostálgico.
— Não. Quando eu era criança, tudo era mais fácil.
— Ser criança é mais fácil...
sorriu, balançando a cabeça ao se lembrar da infância. Encarou as janelas do prédio e riu nostálgico mais uma vez.
— Quando eu era criança, eu tinha medo de altura. — Ele riu. — Na verdade, eu ainda tenho, por mais que pareça bobo.
— Quando eu era criança, eu tinha medo de bêbados. — arqueou a sobrancelha — É, pois é. — continuou. — E olha só que ironia, estou bêbada!
— Como fez para superar?
— Eu enfrentei meus medos, . Péssimo conselho, não é? Na verdade, eu tinha medo do meu pai. Ele vivia bebendo, brigava com minha mãe. Era um trauma, sabe? Eu enfrentei meu pai. Quando consegui me estabilizar financeiramente, eu comprei uma casa e trouxe minha mãe para morar comigo. Não foi fácil, mas eu consegui livrá-la do sofrimento. — suspirou. — Me desculpe tocar nesse assunto. Não queria dramatizar, odeio isso. Mas a melhor forma de superar seus medos é enfrentá-los como se fossem um obstáculo a ser vencido. É como se estivéssemos em uma guerra pessoal, com nós mesmos e então, , vencer o medo é dizer a nós mesmos que somos capazes. Somos capazes de tudo.
silenciou-se. O seu medo era de longe, talvez, nada se comparado aos traumas de . Talvez pudesse algum dia vencer o medo de altura.
— Você já pensou em ser psicóloga?
riu.
— Estou tentando ajudar você. Odeio dramatizar, já disse. Na verdade eu acho que sou péssima para dar conselhos, mal sei resolver os meus problemas e olha eu aqui bêbada, te aconselhando a quase pular de altura, já pensou? — Ela riu com a própria piada sem graça.
— Você está mesmo bêbada.
— Acho que é isso mesmo. — Pensou por um instante. — Claro que é isso mesmo. — Empolgou-se, assustando-o de imediato. — Eu vou te ajudar a superar o seu medo de altura. — Riu. — Isso vai ser divertido.
— Eu não quero vencer o medo de altura. — Disse pela primeira vez, com receio da mulher a sua frente.
— Qual é? Você pode usar isso para impressionar as gatinhas. — Você pode dizer, eu saltei de bungee jump com uma louca bêbada!
— Eu acho melhor você parar com isso. Você não já bebeu demais por hoje? — inquiriu, tirando o copo da mesa.
— Ah, ! Isso tudo é medo? Medo de dizer que uma mulher é mais corajosa que você?
— Não é nada disso. — Ajeitou a postura antes desleixado, para ereta. — É só difícil para mim.
suspirou.
— Vou te propor um desafio, que tal?
encarou e não disse nada. Estava seriamente com medo daquela mulher.
— Vamos fazer um desafio. — Afirmou.
— Um desafio? Você acha que eu tenho o quê? Dez anos?
— Qual é, ? Um pouco de adrenalina não faz mal a ninguém. Vamos saltar de bungge jump ou praticar tirolesa, você escolhe.
— Você só pode estar brincando.
— Me diga, . Há quanto tempo você não se diverte? Não era isso que você queria? Tirar férias e curtir? — respirou fundo, sentindo-se estranhamente invadido com a pergunta. — Muito tempo, não? — riu, fazendo-o ficar irritado. — Cara, você irritado é hilário! — Gargalhou, divertindo-se.
— Que tipo de desafio? — Ele disse pela primeira vez considerando a situação. Vencer o medo de altura não estava em seus planos. Nunca esteve. Era um medo de infância e ele não sabia se estava mesmo preparado para lidar com aquilo.
Mas de repente, vencer qualquer coisa proposto por lhe parecera bastante interessante.
sorriu.
— Vem comigo.

**

— Eu vou te ajudar, já disse. Você vai ver como isso vai te fortalecer como pessoa. — Ele a encarou sério. — Eu estou falando sério e não, não estou tão bêbada assim. Ok, talvez só um pouco, mas veja pelo lado bom, se eu perder, você também perde. Estamos quites.
Estavam agora no quarto de onde usava o notebook e mostrava a ele as opções de lazer que tinham à sua disposição na cidade.
voltou a observar o clima pela janela do quarto. O dia continuava o mesmo, o calor ainda insuportável e a sua vontade de sair pelas ruas da cidade também não havia ido embora com as horas. Ainda tinha planos de sair pela cidade e aproveitar o que de melhor o Rio de Janeiro tinha para oferecer. Ainda tinha um dia inteiro pela frente antes de tentar entrar em contato com o pai e resolver a situação com os investidores. Estava com a consciência limpa, afinal, havia feito a sua parte. O rapaz balançou a cabeça, espantando os pensamentos empresarias e observou na cama. Ele tinha quase certeza que aquela mulher era louca! Quem poderia simplesmente não querer férias? Encarou mais uma vez a moça que parecia estar sóbria e dedicava uma atenção minuciosa ao notebook.
— Eu estava pensando aqui...
— ACHEI! — Disse alto, interrompendo-o. — Achei o que eu tanto queria, finalmente! — Ela o encarou. — Olha, não foi fácil, mas acho que temos nossa primeira aventura do dia. — Disse com empolgação.
— Sua aventura. — ressaltou sério.
— Ah, qual é? Vamos tentar pelo menos! Garanto que você não vai se arrepender. E além do mais. — Fechou o notebook. — Temos um acordo, lembra?
fechou os olhos, recordando-se da conversa que tiveram minutos atrás na piscina do hotel. havia ido longe demais em atiçá-lo, e ele não estava nem um pouco a fim de perder aquele desafio.
No entanto, para isso, precisava passar por aquela decisão.
— Você nunca vai se livrar desse medo que você sente se não encará-lo de frente. Já que estamos aqui e temos a oportunidade, por que não tentarmos? Quando você se livrar disso por completo, vai se sentir mais leve e mais livre. Vai parar de sentir esse peso imaginário que você sente e vai perceber o quanto isso só dependia de você.
— Bem... — Andou pelo quarto considerando a proposta. — Você não disse a sua condição.
deixou o notebook por um momento.
— Se você saltar comigo, nós obviamente iremos comemorar. Há diversas opções de baladas espalhadas pela cidade, acha que consegue encarar uma à noite?
— Claro. — deu de ombros.
— Certo. Nós iremos comemorar, mas eu não vou beber nada. Nós vamos ficar até o lugar ser fechado.
sorriu. Parecia ser uma ótima opção.
— Se eu perder?
sorriu.
— Aí... Quem fica sóbrio é você. Já pensou, estar em uma casa noturna e não beber absolutamente nada?
— Nada? Nem um coquetel sem álcool?
— Só água. Topa?
— Parece ser um ótimo desafio para mim que não costumo exagerar na bebida como você. — Ele a provocou.
— Isso, claro, se você conseguir, porque pelo que estou vendo...
— Eu topo. — Ele disse pela primeira vez, decidido a ir adiante com aquilo.
— Que ótimo, porque vai ser um prazer ver você chorar de medo desesperado em uma balada sem poder beber absolutamente nada.
— Veremos.

**

— E então? Acha que consegue? É aqui. — Ela disse ao chegar ao endereço que encontrara pela internet. arqueou a sobrancelha, observando o local com desconfiança. Ele respirou fundo e fechou seus olhos antes de abri-los novamente e encarar a montanha.
Cristo! Por que ele tinha que aceitar aquele desafio?
— Tá com medo? — sussurrou em seu ouvido rindo. a encarou convicto de sua decisão. Uma decisão tomada na base da pressão, é verdade, mas pela primeira vez, ao encarar tão próximo, sentiu-se invadido por uma coragem até então desconhecida.
Ele não estava a fim de perder aquilo, mesmo que para isso tivesse que encarar o medo de altura.
— Não estou com medo. Se vamos fazer isso, então vamos fazer da maneira correta. Vem comigo. — Pegou em sua mão, caminhando a passos rápidos até a entrada do local. — Não esquece que quem vai perder é você. — revirou os olhos. Para a garota, aquilo não seria nada se comparado ao desafio dele.
— Agora sim, estamos falando a mesma língua, gostei.
Ele a encarou.
— Acho bom você se preparar, porque eu não aceitei tudo isso a troco de nada.
— Pago pra ver.

**

— Ah, tudo bem! Estão preparados? — Um dos instrutores perguntou animado para que sorriu em resposta e encarou . O rapaz permaneceu sério, sem demonstrar qualquer reação empolgada, o que fazia soltar alguns risinhos.
— Anda, vamos lá. — Ela incentivou baixinho. a encarou, pois sabia melhor que ninguém que a fotografa não falava aquilo apenas da boca pra fora. Havia aceitado aquele desafio e apesar dos pesares, não estava nem um pouco a fim de perder.
Mesmo que não demonstrasse isso.
Conhecia há apenas algumas horas, mas podia deduzir com plena certeza que a garota estava apenas o provocando.
— Isso é mesmo seguro? — Perguntou, demonstrando certa preocupação.
— Garanto que não há nenhum risco de acidente. É extremamente seguro.
respirou fundo. Ok, ele podia fazer aquilo.
Ele iria fazer aquilo.
Se era um desafio, ele não iria perder.
Ele só precisava de um pouquinho de coragem, coragem essa que parecia ter de sobra. Mas ele podia lidar com aquilo.
— Ok, vamos lá. — Disse por fim.
— Isso, coragem homem!
O instrutor entregou os equipamentos de segurança e explicou para e o que deveriam fazer para descerem à tirolesa.
A fotografa sorria empolgada, diante da possibilidade de praticar a aventura mais uma vez. , por outro lado, apesar da preocupação, sorria de vez ou outra, imaginando o que poderia acontecer caso conseguisse vencer o desafio. Parecia ser legal no fim das contas. As pessoas pareciam se divertir ao chegar a uma velocidade razoavelmente rápida na parte mais baixa do terreno onde se encontrava o ponto final da tirolesa, e o jovem empresário desejou ter coragem suficiente para experimentar sensação parecida.
— Preparado? — perguntou se aproximando. — Nossa vez é a próxima.
— Isso parece ser fantástico, dá uma olhada. — Apontou para o fim.
— E é, realmente.
— Você já fez?
— Uma vez quando era criança. — Deu de ombros.— Faz bastante tempo. É uma sensação maravilhosa, tenho certeza que você vai gostar.
Ele sorriu.
— Dá uma olha pra lá. — indicou com a cabeça para o outro lado do parque. Do ponto onde estavam, podiam ver claramente parte da cidade. — Nós temos um dia lindo pela frente, por que não aproveitar? Que tal esquecer por um instante tudo o que está ao nosso redor e aproveitar o momento? Confia em mim. — Pediu oferecendo a mão. — Preparado para mais um desafio?
— Prepara-se para perder mais uma.
— Veremos.
Para praticar tirolesa, não precisava de nenhum treinamento específico. Bastava apenas coragem para desfrutar da sensação de voar por entre um vale cheio de árvores. Os cabos de aço que ficam presos à ancoragem, proporcionam ao aventureiro a incrível sensação de deslizar com segurança, se permitindo então, sustentar-se pelos cabos até chegar à outra ponta baixa a plataforma.
É uma sensação emocionante no fim das contas.
— Quem vai primeiro?
— Ele. — respondeu prontamente. a encarou rapidamente.
— Eu? — Apontou para si.
— Claro. Vamos ver se você consegue descer sem dar nenhum vexame. Preciso deixar bem claro que não somos nada, porque não quero passar vergonha.
Ele riu.
— Você bem que queria ser minha namorada, não é mesmo?
— Vai. — Empurrou levemente em direção à plataforma de lançamento.
— Não. — Se virou por um momento. — Você vai primeiro. Preciso estudar a adversária.
gargalhou.
— Tudo isso é medo de perder pra mim? Ok. Eu vou, tudo bem.
se preparou. O instrutor a ajudou com os equipamentos e explicou como deveria se mover para que pudesse ter impulso suficiente para descer com a velocidade adequada até a outra ponta. Ela sorriu para e fechou os olhos até se sentir preparada e caminhar em direção à rampa e finalmente deslizar pelo aço.
Do alto, podia ouvir os gritos que soltava e conseguisse alcançar a outra ponta. Não demorou muito para que sua vez finalmente chegasse. O rapaz respirou fundo enquanto as instruções eram dadas a ele até que estivesse preparado junto com os equipamentos de segurança. de longe acenava, e ao observá-la atentamente, o rapaz recordou das palavras ditas por ela anteriormente. Ele realmente precisava se concentrar no presente. Fechou os olhos e caminhou até a ponta da plataforma. Não foi preciso muito esforço para que deslizasse, já que o peso do corpo era o suficiente para levá-lo ao voo.
Foi então que resolveu abrir os olhos.
E a sensação estava lá. Talvez um pequeno desconforto, mas nada que o fizesse se arrepender do que estava fazendo.
Abriu os braços se libertando daquele medo irreal, que não sabia ao certo de onde viera, mas agora também não lhe importava. Ele só conseguia sorrir de olhos fechados, sentindo o vento bater contra o seu rosto e desfrutar da sensação de voar e se entregar a natureza ao seu redor de uma forma dinâmica e bem diferente.
E estar finalmente livre.
Quando finalmente chegou até a plataforma de baixo, sorriu para que fazia o mesmo, feliz por ele.
Ambos sem se lembrarem do que os fizeram chegar até ali.
— Você tem ideia do que acabou de fazer? — Riu, empolgada. — Você conseguiu, percebe?
sorriu.
— Eu preciso fazer isso mais uma vez. Foi fantástico! Obrigado por isso.
— Nada com um empurrãozinho, não é mesmo? — Bateu em seu ombro. — Se você estiver a fim de ir mais uma vez.
E de fato, foram.

**

Andavam sorridentes pela orla da praia de volta ao hotel quando de longe, algo chamou atenção de . A entrada do que parecia ser um parque de diversões se destacava à medida que se aproximavam. A moça encarou que a seguiu com o olhar.
— Tá a fim de ir? — perguntou.
— Você topa? Eu não consigo me lembrar da última vez em que eu estive em um daqueles.
— Nada como mais um desafio, não é mesmo?
Estavam em um parque de diversões e era como se ambos voltassem a ter seis anos de idade. Havia se passado bastante tempo desde que estivera pela última vez em um lugar como aquele. Vinte e quatro anos depois, era como se aquelas lembranças estivessem mais vivas do que nunca. Um senhor de idade vendia próxima à entrada em umas das barraquinhas algodão doce. As crianças corriam agitadas enquanto os pais corriam desesperados atrás delas. Um lugar tipicamente infantil. Aquilo fez o coração de quase saltar do peito, pela tamanha nostalgia que invadira sua mente. Os olhos de brilharam ao encarar aquela barraca próxima da roda gigante. Que irônico, pensou. encarou e foi como se entendesse absolutamente tudo. Ela sorriu diante das pequenas curvas que os lábios dele fizeram e foi como se soubesse exatamente o que tudo aquilo significava.
Seis horas da noite.
O dia ainda não havia acabado.
— Ei, vem. — Puxou a mão dele em direção a barraca. — Vem, . Vamos nos divertir, ainda dá tempo.
Ele não disse nada, apenas se deixou conduzir.
pediu dois algodões doces, oferecendo o azul para . Àquela altura, ele não estava em condição de questionar absolutamente nada. E ele não queria mesmo. estava lhe proporcionando o melhor dia da sua vida e ele não estava nem aí para o que diriam a seu respeito. Estavam se divertindo, isso era o que importava.
— Olha aquilo lá. — ela apontou para cima, em direção à roda gigante e o encarou. — Acha que consegue?
respirou fundo. Ele havia conseguido perder parte do medo de altura. No fim das contas, não havia sido tão tenebroso quanto havia pensado.
— Isso é com você, . Estamos aqui para esquecer os problemas e a última coisa que eu quero é que você saia daqui traumatizado. Vamos fazer desse dia um dia especial. Eu queria muito que fossemos até lá.
respirou fundo. Ele podia fazer aquilo, não podia? O dia havia sido maravilhoso e no fim das contas, tinha razão. Se ele realmente conseguisse encarar aquele medo de frente, seria um dia e tanto para se lembrar pelo resto da vida.
— E então, o que me diz? — Ela encostou em seu ombro.
O homem passou a observar o parque tentando buscar uma resposta plausível para a pergunta da mulher, até que seus olhos captassem algo importante para ele.
— Hey! Aquilo é um carrossel?
seguiu o olhar de .
— Meu Deus, ! Você tem ideia do quanto tempo que eu não vejo um daqueles?
, olha pra você! Quantos anos você acha que eu tenho?
apenas sorriu para a mulher ao seu lado.
— A vida é feita de desafios, não é? Que tal vivê-la 24 horas por dia sem pensar no que os outros vão dizer? — Ele disse sorrindo. — Hoje mais cedo, uma moça disse que eu deveria me concentrar no presente e aproveitá-lo ao máximo sem me importar com nada ao redor. — sorriu — Acho que vou seguir o conselho dela.
— Faz bastante tempo que não vejo um carrossel. — Confidenciou baixinho.v — Decidido então. Vem. Minha vez agora de te desafiar.
Caminharam por entre as pessoas, sem medirem a consequência do que estavam prestes a fazer. Compraram os tickets e rindo, se dirigiram até a entrada do brinquedo, onde uma fila já se formava. tentava lutar contra a vontade, mas aquilo parecia ser muito mais forte do que ela. E daí que eram os únicos adultos da fila? E daí que as crianças olhavam assustadas para eles?
Nada daquilo realmente importava.
Não ligavam se estavam parecendo duas crianças em meio a tantas ao fazerem uso do brinquedo. Riam sem ligarem para nada nem ninguém, porque para eles, nada mais importava quando tudo o que eles faziam não era nada além de se divertirem.

**

— Vou te contar um segredo. — Ela confidenciou baixinho, enquanto deixavam o carrossel. — Faz muito tempo, muito tempo mesmo, que eu não vou a um parque de diversões. — Estava todo mundo olhando pra gente. — Ele sussurrou em seu ouvido, devido ao aglomerado de pessoas.
— Eu sei! — riu, levemente alterada. — Eu vi, meu Deus, que vergonha!
— Mas sabe o que é melhor? — murmurou atraindo a atenção da fotografa pra si. — Eu não ligo. O que são as pessoas quando estou me divertindo? Apenas coadjuvantes.
— Não são ninguém.
sorriu estendendo a mão.
— Vem comigo.
— Pra onde? — parou no meio do parque.
— A noite ainda não terminou. De manhã, eu deixei as coisas em suas mãos. Deixe-me inverter os papeis. — pediu sorrindo para a moça que repetindo o gesto, segurou em sua mão. — Você não vai se arrepender. — Piscou.
Ela sorriu se deixando levar.

**

Passava das duas da madrugada quando finalmente chegaram a um charmoso barzinho que estava prestes a fechar as portas. Haviam ido ao hotel para tomarem banho e combinaram que parte da noite ficaria por conta de . aceitou prontamente. Alguns funcionários ainda serviam bebidas aos poucos clientes que eram atendidos.
— Você já conhecia esse lugar? — perguntou encantada com a decoração local.
— Não. Eu encontrei o endereço na internet. — Riram. — Mas é aconchegante, não é?
— Sim, eu adorei.
Se aproximaram do balcão e pediram um drink, sem se lembrarem que havia um desafio em jogo e que havia ganhado.
Conversaram sobre o dia, sobre fatos do cotidiano. Confidenciaram outros segredos antigos e riram da vida. Viveram aquele pequeno momento como se já fossem velhos amigos.
— Hey. — perguntou para o que parecia ser o gerente do bar. — Aquilo é uma máquina de tocar música? — O homem afirmou com a cabeça enquanto limpava o balcão. sorriu e se levantando, caminhou até o pequeno espaço reservado para os amantes da música.
— O que você vai fazer?
— Vem aqui. Vem cantar comigo, quero ouvir você cantar.
— Eu não acredito nisso. Eu não canto, .
O jovem empresário deu de ombros. O gerente do bar apenas balançou a cabeça negando.
— O que você quer? Tem pop, rock...
— Talvez seja melhor...
— I will survive? Também acho!
— Não! Eu não disse isso, seu bobo.
A introdução da música começou a tocar e começou dublando, atiçando .
— Vem. — Estendeu a mão para a garota que apenas cruzou os braços. — Vem logo, . Vem dançar comigo. Você prefere uma música romântica? Pra dançar? Olha, não acho que seja a melhor opção, concorda?
pensou por um instante. Sabia que no dia seguinte teria ressaca e se arrependeria por completo do vexame que a obrigava passar. Mas ela não ligava nem um pouco, levando em consideração o dia que haviam passado juntos.
— Mais cedo você disse que eu deveria esquecer todos os meus problemas. Me concentrar no presente apenas, no agora, porque isso é o que temos e ele é quem realmente importa. Dança comigo.
— Só danço se você cantar essa música ali no palco.
— Outro desafio?
— Quem sabe... — Deu de ombros sorrindo. — Tenho certeza que vou me arrepender disso amanhã.
— Amanhã é uma outra história.
Estendeu a mão para ela que sem pensar duas vezes, aceitou.

**

— Beber, beber e beber. Eu realmente preciso parar com isso. — murmurou grogue, encostando no ombro de . Estava incrivelmente cansada pelo dia. Já haviam conversado tanto sobre praticamente tudo, que quando o cansaço bateu à sua porta, impossível fora não se entregar.
Ambos estavam sentados à beira do mar, aproveitando a madrugada sem se preocuparem com o horário.
respirou fundo e fechou os olhos. A brisa suave do mar lhe trazia calmaria em meio ao caos daquele dia. Suspirou, bebendo o último gole da vodca da garrafa.
— Eu nunca me diverti tanto na minha vida. — Ele disse mais pra si mesmo do que para ela.
— Eu também não. — murmurou ainda de olhos fechados. — Você bem que gostou.
riu, encarando o céu. Não iria desmentir.
— Vamos lá, confessa, . — A moça pediu, diante do silêncio dele.
E por acaso era alguma mentira? Não.
Praticar tirolesa, passar a tarde inteira em um parque de diversões e ainda ser expulsos de um bar por estarem atrapalhando a ordem ao cantar desafinado. Jamais se esqueceria da bronca que levaram do gerente por cantarem sem parar e sem demonstrarem qualquer vontade de deixar o local. Que dia foi aquele?
Vinte e quatro horas de pura adrenalina.
Ou quase.
Queria repetir aquele dia pelo resto dos seus dias.
Nunca havia se divertido tanto na vida.
Um silêncio se instalou no ambiente. respirou fundo, cansado pelo dia, até que passou a observar . A fotógrafa permanecia com os olhos fechados, aparentemente dormindo.
— Você poderia disfarçar que está me encarando.
— Eu não posso?
abriu os olhos e se afastou.
— Eu tenho namorado.
Ele riu.
— Acho que já vi essa história antes.
riu, encostando em seu ombro mais uma vez.
— É, lá vamos nós de novo.
riu, encarando o mar mais uma vez. Estava apreciando o momento e não estava nem um pouco a fim de voltar para o hotel.
No entanto, sabia que aquilo, uma hora ou outra, iria acontecer.
Mas por hora, se permitiria apenas aproveitar o momento.

**

Passava das onze da manhã quando o telefone do quarto tocou sem parar. abriu os olhos, acordando com o barulho e ao despertar por completo, uma forte tontura o atingiu em cheio, obrigando-o a se deitar novamente. O silêncio se instalou no quarto e se permitiu sorrir, apreciando o momento, no entanto, logo fora quebrado pela insistência do telefone mais uma vez.
Ainda de olhos fechados, tateou a cômoda em busca do aparelho.
— Senhor ?
— Sim. — Murmurou incerto, abrindo os olhos e encarando o teto. — O Sr. Daniel está na recepção.
Ao ouvir o nome do pai, despertara na hora. O que seu pai estava fazendo na recepção? Ou melhor, o que Frederico fazia àquela hora no Rio de Janeiro? Ele deveria estar em São Paulo.
Mas de são Paulo para o Rio de Janeiro era um pulo!
Rapidamente, levantou-se em direção ao banheiro. Não demorou mais que quinze minutos para que estivesse apresentável e encontrasse o pai no saguão. Estava a caminho do corredor quando uma lembrança invadiu a sua mente, obrigando-o a mudar completamente os seus planos.
"E o que acha de viajarmos pelas montanhas do Tibete no próximo mês? — perguntou divertido. o encarou.
— Tá de brincadeira comigo, não é? Qual a parte do "não quero férias" você realmente não entendeu?
Ele a encarou sério pela primeira vez. Não havia esquecido do quanto a garota era viciada em trabalho, mas parando para analisar a questão, o que começara com uma brincadeira apenas, havia o atingido em cheio para que tomasse uma outra decisão.
— Eu estou te propondo uma viagem. Você disse mais cedo que iria me ajudar, que iriamos nos divertir e foi exatamente o que fizemos. — Ela sorriu. — Mas você tem que concordar comigo que temos repetir isso mais uma vez.
— Ah, entendi. Olha, não precisa me pagar, seja lá da forma que preferir. — Ele a interrompeu.
— Não. — Disse sério. — Eu não quero retribuir o que fizemos hoje, . — A fotógrafa o encarou confusa. — Eu quero fazer isso de novo, mas com você.
respirou fundo, cobrindo o rosto com as mãos, sem saber ao certo o que fazer diante da situação.
— Você quer que eu seja mais claro?
Ele disse certo da atitude que iria tomar, mas as palavras ditas por ela logo em seguida, o atingira por completo.
— Eu acho que vou embora amanhã à tarde."

O elevador chegou ao andar em que estava hospedado, mas diante das últimas lembranças, tudo o que ele poderia fazer era exatamente o oposto ao plano inicial. Ao invés de seguir para a recepção, apertou o 3° andar onde estava hospedada. Seu pai teria que esperar pela primeira vez.
Chegou ao andar, tentando buscar na memória mais alguma lembrança que o fizesse recordar o número do quarto onde a moça estava hospedada.
"— Terceiro andar, quarto 435. Entregue. — revirou os olhos ao chegar a porta do quarto.
— Não precisa bancar o cavalheiro, eu ainda estou sóbria e sei cuidar de mim mesma.
— Se eu ainda tinha alguma dúvida, agora eu tenho certeza. Você realmente não foi com a minha cara, não é? Ou me achou bonito demais e é orgulhosa a ponto de não admitir isso.
A moça riu.
— Boa noite, . Passar bem. — Ela disse, se despedindo dele e entrando no quarto, mas ele a impediu, segurando a porta.
— Você não vai mesmo embora amanhã, vai? — Ele perguntou sério.
— Tudo isso é saudade de mim? Eu sei que sou uma boa companhia, confessa vai. — Ela brincou, batendo de leve em seu ombro.
— É sério, .
Ela riu.
— Não, . Eu não vou embora amanhã.
— Então por quê...? — Se referiu ao beijo recusado que tentara dar mais cedo.
— Vamos fazer as coisas certas, da forma certa. Você é bonito demais e amanhã eu quero lembrar do que fizemos hoje. Se eu não lembrar? Quero ter algo pra ostentar para as amigas, sabe? — Ele sorriu diante da confissão. — Nós ainda temos um dia inteiro pela frente amanhã, que eu planejo que seja melhor do que hoje. Confia em mim. — Ela piscou.
— Para ostentar para as amigas? Devo me sentir usado por isso? — Ele arqueou a sobrancelha, divertido. Ela riu.
— E o que temos a perder amanhã? Acho que nada."

chegara ao quarto a passos rápidos. Estranhou a porta estar aberta e entrou apressado. O ambiente estava vazio.
— Algum problema, moço? — A camareira surgiu, saindo do banheiro.
— Tinha alguém nesse quarto há exatamente 10 horas atrás.
— Bem, se tinha, já foi.
— Já foi?
— É. Sinto muito se alguém o enganou, mas quando eu cheguei, já não tinha mais ninguém.
— Ok, obrigada. — Disse melancólico e sem entender ao certo a situação.
Enfiou as mãos no bolso e caminhou a passos lentos até a recepção onde sabia que seu pai o aguardava. Sabia que dentro de alguns minutos tinha assuntos empresariais para tratar com o pai, mas tudo o que sua mente conseguia pensar, era que havia mesmo ido embora.
No fundo, ele devia saber que ela iria na manhã seguinte.

**

Três meses depois.
Os arranjos florais que enfeitavam o ambiente faziam jus à cerimônia matrimonial. O ambiente campestre trazia um ar de leveza e tranquilidade ao casamento. Ele observava tudo com deslumbre, pois nunca estivera em um casamento ao ar livre antes. A cerimônia já havia começado quando chegara ao endereço que Alessandra havia lhe enviado. Resolveu se aproximar devagar e prestar atenção nas palavras do padre. Vez ou outra a procurava com o olhar e quando finalmente a encontrou, um sorriso escapou dos seus lábios. Havia ido ali especialmente para encontrá-la e graças à Alessandra – a noiva – que por obra do acaso havia conhecido, graças ao seu – agora – marido que era um dos acionistas da empresa.
O mundo era realmente um lugar pequeno.
Agora, depois de um certo tempo, ele não iria perder a oportunidade de falar com ela novamente. Assistiu tudo de longe e quando finalmente terminou, esperou que estivesse sozinha e resolveu se aproximar. A garota observava o casal de longe, sorrindo. Na mão, a câmera inseparável que carregava consigo para todos os lugares por onde passava e se tratando do casamento, de uma das melhores amigas, não seria diferente.
— Ouvi dizer que a lua de mel vai ser no Tibete. — Ele sussurrou em seu ouvido baixinho, fazendo a garota se virar imediatamente para encará-lo.
... — Ela começou, observando-o. — Como você...
— Suas amigas? Sim, somos bff’s agora. — Brincou. — É assim que vocês falam, não é?
— Elas sabiam... Eu... Esse tempo todo! — Exclamou surpresa.
— A propósito, Alessandra está olhando pra cá, que tal acenar de volta? — Ele acenou e ainda sem entender, se virou para encarar a amiga.
— Meu Deus! — Ela gargalhou, tampando a boca. — Você está aqui. — Disse encarando-o, sorrindo.
— Se você continuar a me olhar assim, vou deduzir que você realmente me acha bonito, porque convenhamos...
Ela bateu levemente em seu ombro.
— O que você veio fazer aqui? E como você conheceu Alessandra?
— Hum... — sorriu de lado. — Eu acho que ganhei um desafio, lembra?
abriu a boca, batendo em sua própria testa.
— Mentira? — Gargalhou, sem de fato acreditar que esquecera do mais importante naquele dia. — Eu não acredito que a gente esqueceu disso.
— Pois é, e além do mais... — Sussurrou baixinho em seu ouvido. — Acho que agora é um ótimo momento para me ostentar para as amigas. — Se afastou para encará-la.
sorriu e se aproximou, ciente do que recusara meses atrás.
repetiu o gesto da moça, não estava nem um pouco a fim de se afastar.
Queria tanto beijá-la e sabia que ela queria o mesmo. Aproximou seu rosto e fechou os olhos.
— Promete que não vai mais fugir? — Sussurrou a centímetros de distância, sentindo a respiração dela, bater contra seu rosto.
— Eu não vou. — Ele abriu os olhos sorrindo. — Nunca mais.
Ainda sorrindo, finalmente a beijou.
O primeiro beijo de muitos outros.




Fim.




Nota da autora: Oi, genteeee! E aí, gostaram? É a primeira vez que eu me dedico a escrever algo dentro do prazo e publicar então, relevem qualquer erro e sejam legais comigo ou não...
Eu tô muito feliz com o resultado de 24/Seven. Eu tinha dois enredos em mente, no entanto, as coisas não saíram como planejado e o que restou foi essa ideia louca entre esses dois no Rio de Janeiro.(Yep, Brasil uhul \o/)
Enfim, espero que quem quer que tenha lido tenha gostado... Não sei se consegui passar a essência de 24/Seven essa ideia de se divertir ao menos uma vez na vida sem se importar para o que vão ou não dizer. Mas eu tentei, juro! Eu tentei e espero que tenham gostado.
Obrigada por terem chegado até aqui. ;)




Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






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