Postada em: 27/06/2017

Capítulo Único

O barulho da porta de metal do armário ecoou por todo o vestiário. Lizzie no mesmo instante sentiu o sangue escorrer por seu pulso e grunhiu de dor ao notar que havia socado a fechadura de seu armário. Permitiu que o sangue escuro percorresse por toda a extensão de seu braço, deixando chegar até seu cotovelo, e tomar o caminho até o chão.
- Quando acho que não posso ser mais idiota... - resmungou apoiando sua mão esquerda em seu cotovelo e caminhou até a pia mais próxima, abriu a torneira e estendeu seu braço machucado debaixo da água corrente, lavando todo o sangue que escorrera pelo local, até chegar ao seu pulso, fazendo-a morder os lábios com força para evitar que sua garganta deixasse lhe escapar um grito doloroso. Deixou a água lavar todo o machucado, porém, notando que o corte em seu pulso aparentava ser mais profundo do que imaginaria que fosse. Olhou atentamente para o machucado, notando que o corte atingira camadas mais profundas - Droga! - bufou, irritada, fechando a torneira e passou a procurar por algum tecido em que pudesse cobrir seu machucado, no entanto, encontrou apenas papéis toalha. - Isso deve servir por alguns minutos. - disse puxando alguns pedaços dos papéis, colocando em cima de seu machucado, notando que a cada camada de papel toalha era imediato a mudança de cor de branco para vermelho.
Caminhou em direção à saída do vestiário e seguiu até o elevador mais próximo, e tão logo o elevador chegou, Lizzie entrou e apertou o número 06, indicando o andar para o qual desejaria seguir. Assim que o elevador parou no terceiro andar, Lizzie se recostou na lateral, dando espaço para uma maca e mais três pessoas adentrarem. Pelas roupas, podia-se notar que as duas pessoas usando azul escuro eram enfermeiros, enquanto a terceira pessoa que usava roupa verde, mesma cor de roupa que a jovem usava, era médico. Lizzie abaixou seu olhar em direção ao paciente deitado na maca, notando a quantidade de aparelhos e tubos que o envolviam. Sonda nasogástrica, traqueostomia, soros... Além dos enormes curativos em seus braços e parte do rosto, imaginando que aquele rapaz desacordado sofrera algum grave acidente de trânsito, possivelmente de moto. O elevador parou mais uma vez. Lizzie chegara ao andar que desejara e caminhou até o posto de Enfermagem o mais breve que pôde.
- Thomas? - ela disse assim que avistou o rapaz vestido de azul escuro separando alguns medicamentos que daria para alguns dos pacientes internados naquela ala da neurologia - Por um acaso você sabe onde a Charlotte está? - antes que o rapaz pudesse dar-lhe uma resposta, Lizzie ouviu uma voz feminina e familiar ecoar em seus ouvidos, fazendo-a sorrir, aliviada.
- O que você quer, Liz? - a jovem se virou para a colega de trabalho, que há cerca de dois anos já se consideravam como amigas, fazendo um bico e estendendo o pulso machucado, envolvido pelos papéis toalhas já completamente manchados de sangue, para Charlotte - Meu Deus! - ela disse espantada, chamando até mesmo a atenção de Thomas, que desviara sua atenção dos medicamentos para as duas amigas, vendo Charlotte se aproximar e segurar o pulso de Lizzie com cuidado - O que aconteceu?
- Dr. Michael Olsen! - ela respondeu baixo, respirando fundo e lentamente, fazendo Charlotte sentir o sangue ferver e percorrer mais rapidamente por seu corpo.
- Eu não acredito que ele pôde ser tão baixo! - ela bufou, segurando o braço de Lizzie, retirando os papéis toalha com cuidado. - O que ele fez com você?
- Me fez dar um soco na porta do meu armário. Mas bati na fechadura e abri o pulso. - respondeu, retirando o último papel toalha com o máximo de cuidado que pudera, porém não foi possível conter um grunhido de dor ao retirar o papel de cima da feria aberta - Estou precisando de pontos.
- Você está precisando de pontos e aquele babaca precisa de uns tapas. - Charlotte fez uma careta ao notar a profundidade da ferida no pulso da jovem médica - Vou pegar os materiais e já resolveremos isso aqui. - Charlotte se afastou de Lizzie, caminhando em direção aos armários do posto de enfermagem, retirando embalagens de gaze, faixas crepe e demais materiais para que pudesse realizar a sutura. Organizou-as todas em uma bandeja metálica, higienizou as mãos e logo em seguida indicou um banco, próximo a uma das bancadas do posto de enfermagem, para que Lizzie pudesse ficar mais confortável e se sentar. - A melhor decisão da sua vida dentro deste hospital foi terminar seu relacionamento com aquele babaca. - Charlotte disse assim que se sentou ao lado da jovem - Quem poderia imaginar que aquele médico, neurologista, assistente e o supervisor dos estudantes de medicina, pudesse ser um machista de quinta? Que bom que você conseguiu descobrir isso a tempo.
- Olha... Às vezes me pergunto o quanto eu pude ter sido tão cega em não perceber isso antes! - Lizzie respondeu, com os olhos bem atentos a cada etapa do processo de sutura de seu pulso - Nunca me senti tão humilhada por ser neurologista e mulher como eu fui hoje de manhã. - a jovem fechou os olhos com força, já sentindo as lágrimas se formarem no canto de seus olhos - Como ele pôde dizer aquelas coisas para mim? - sem que a jovem pudesse perceber as lágrimas já percorriam por seu rosto, fazendo-a respirar fundo e limpar o rosto assim que notara que começara a chorar - E, além disso, teve a coragem em dizer isso após um dos momentos mais importantes da minha vida dentro deste hospital!

(Flashback On)

Lizzie notara algo de diferente naquela manhã chuvosa de segunda-feira. Notara que havia estudantes de medicina além do esperado naquela enfermaria, a qual ela era uma das médicas neurologistas responsáveis. Alguns dos estudantes ali presentes, encerraram suas atividades de internato naquela enfermaria há alguns meses, não fazendo o menor sentido para a médica a presença deles ali. A presença daqueles estudantes se mostrava ainda mais estranha, pois todos apresentavam um sorriso misterioso em seus rostos, e ela sentia que tudo aquilo era relacionado a ela, no entanto, não conseguia compreender o motivo. Não compreendeu até o momento em que um estudante, segurando uma rosa vermelha, junto de um envelope branco, caminhou em sua direção, acompanhado dos demais estudantes, que pela conta da médica havia cerca de vinte estudantes ali. Os sorrisos ainda misteriosos pareciam acolhê-la com o olhar, fazendo-a se sentir abraçada por todos de uma maneira confortável.
- Bom dia, Dra. Reid. - o rapaz que segurava a rosa vermelha e o envelope branco disse, mantendo o mesmo sorriso no rosto. Lizzie sorriu nervosa e desviou seu olhar do jovem a sua frente, passando a olhar para os demais estudantes, que ainda mantinham o mesmo sorriso para ela - Eu, Charles, e todos da turma de medicina de 2017, gostaríamos de convidá-la para nossa formatura e que você seja uma das médicas homenageadas por nós. Você nos daria a honra de sua presença? – Lizzie sentiu os olhos marejarem e as lágrimas percorrerem por seu rosto, enquanto tentava absorver e compreender o que acabara de ouvir daquele estudante a sua frente. Pousou as mãos em seus próprios lábios, admirando o olhar de cada estudante que lhe sorriam, na expectativa da resposta da jovem médica.
- Meu Deus! - respondeu, secando o rosto marcado pelas lágrimas que percorriam seu rosto - Nem sei como agradecer tamanho reconhecimento.
- Seu agradecimento seria aceitando o nosso convite. - um estudante, o qual ela não conseguiu reconhecer devido ao embaçamento causado pelas lágrimas, disse.
- Mas é claro que eu aceito! - uma salva de palmas, assovios e agradecimentos ecoaram pelo corredor, fazendo-os rir ao ouvir um enfermeiro pedir silêncio, mas sorrir, pois sabia do que o assunto se tratava, já que este enfermeiro também era um profissional homenageado pelos estudantes de medicina. Assim que Lizzie recebeu os abraços e agradecimentos de todos os estudantes, correu até à sala de repouso dos médicos, pois sabia que Michael estaria lá, descansando. Ao abrir a porta, devagar, observou o local, percebendo os vários sofás e puffs vazios, exceto um, onde Michael estava deitado assistindo algum vídeo no celular. - Hey! - ela disse com parte do seu corpo para dentro da sala, chamando a atenção do médico, que logo lhe encarou.
- Liz. - ele sorriu ao notar a presença da jovem, e indicou que a mesma entrasse na sala - Nossa! Que felicidade é essa? - o rapaz franziu o cenho, não vá me dizer que está grávida?! - Michael pareceu preocupado por alguns segundos, até ouvir Ana soltar um riso pelos lábios e mover a cabeça em negação.
- Não! Olhe isso! - ela disse, estendendo o envelope branco para o namorado, que franzira o cenho ao notar que, além do envelope branco, ela também segurava uma rosa vermelha.
- O que é isso? - perguntou, abrindo o envelope devagar. Leu atentamente cada linha, enquanto Lizzie aguardava ansiosa pela resposta do namorado. - É sério isso? - Michael fechou o envelope devagar, com um sorriso estranho nos lábios, fazendo Lizzie estranhar a feição do namorado.
- Sim. É sério! - respondeu, pegando o envelope de volta, vendo o namorado tornar sua atenção para o celular, como estava fazendo antes da chegada da namorada na sala - Mike? Você não vai me dizer nada?
- Dizer o quê? - perguntou sem muita paciência em seu tom de voz, fazendo Ana revirar os olhos. A jovem começava a ficar nervosa. - Não sei. Talvez um "parabéns!" "Que legal, Lizzie!" "Estou feliz por você!"... Algo do tipo? - Lizzie arqueou uma das sobrancelhas, ao mesmo tempo em que fazia gestos com as mãos.
- Só por causa de uma homenagem de uma formatura idiota? - ele disse em tom de deboche, fazendo com que o queixo de Lizzie praticamente tocasse o chão.
- Como é que é? "Homenagem de uma formatura idiota"? - Lizzie elevou o tom, tomando o celular de Michael em suas mãos, fazendo-o reclamar de maneira incompreensível para a jovem - Você tem ideia do quanto foi importante ver aqueles estudantes de medicina na enfermaria, com um sorriso aberto, felizes por me escolherem como uma das homenageadas para um dos momentos mais importantes da vida deles?
- É incrível o quanto você fica feliz com tão pouco. - Michael se levantou, caminhando em direção da jovem, estendendo a mão direita para ela - Agora devolva meu celular. Quero terminar de assistir ao episódio desta série antes do meu horário de descanso acabar.
- IDIOTA!!! - Lizzie gritou, apertando o celular com força em sua mão direita - Bem que as pessoas sempre disseram que você era um idiota. Você acha que pode desrespeitar e julgar as pessoas da forma como faz sem saber que pode ferir os sentimentos delas? - a jovem deu um passo para trás ao notar o namorado caminhar em sua direção.
- Eu não desrespeito e não julgo, minha princesa. - ele sorriu sarcástico, tocando sua mão direita no rosto da jovem, acariciando a bochecha esquerda dela - Apenas falo as verdades que ninguém tem coragem de dizer.
- Você é um babaca! - respondeu entredentes e os olhos fechados, se afastando da mão que acariciava seu rosto - Você não é o primeiro, e sei que não será o último babaca que passará por minha vida. Mas tenho que dizer que você é o pior deles até o momento. Você se acha o perfeito, o melhor. Mas saiba que você não é tudo isso, não.
- Mas você está comigo. É minha namorada. Ou esqueceu disso, linda? - Michael tornou a acariciar o rosto da jovem, que se esquivou rapidamente, dando um novo passo para trás.
- É como você disse... "É incrível o quanto eu fico feliz com tão pouco". - Lizzie revirou os olhos, sorrindo de maneira irônica para o rapaz a sua frente - Você pode se achar o melhor em tudo, o perfeito... Mas não passa de um idiota. Que ao invés de ficar feliz pelas pequenas conquistas da sua namorada, você simplesmente faz deboche, ironiza, faz piadas... Sempre tentando me colocar pra baixo.
- Se está tão insatisfeita comigo, tente achar alguém melhor que eu. - Michael arqueou a sobrancelha direita, em um tom desafiador - Quero ver se você tem a capacidade de encontrar alguém melhor do que o neurologista aqui.
- Você está achando que eu terminando com você, não conseguirei encontrar outra pessoa melhor? - o rapaz deu de ombros, fazendo Lizzie revirar os olhos e sorrir para o rapaz em sua frente de maneira irônica - Não me subestime, meu querido. Você não sabe do que sou capaz.
- Você é apenas uma jovem mulher que acha que pode fazer isso ou qualquer outra coisa. Você não tem capacidade para encontrar alguém melhor que eu para suportar você na vida. - Lizzie sentiu aquelas palavras como se dessem um soco em seu peito, o que fez com que seus olhos lacrimejassem pela primeira vez, desde o momento em que entrou naquela sala de descanso. E em um impulso, Lizzie acertou o celular de Michael no rosto do rapaz, fazendo-o gritar de dor.
- VOCÊ É MALUCA??? - ele esbravejou, segurando os ombros da jovem com força.
- Estou cansada das suas humilhações gratuitas comigo!!! - Lizzie respondeu, tentando se soltar das mãos de Michael - Tudo o que eu faço não parece ser bom o suficiente para você! Você quer sempre ser o melhor de nós dois, ao invés de caminharmos e lutarmos juntos.
- "Caminharmos e lutarmos juntos"... Isso pra mim é papinho de feminista sem ter o que fazer. - Lizzie deixou o queixo cair mais uma vez, fechando os olhos em seguida por alguns segundos.
- Eu não acredito nisso! Quer saber? - a jovem secou as lágrimas que percebera percorrer por seu rosto, caminhando de costas até a porta - Pra mim chega! Eu vim aqui compartilhar algo com você que me deixou super feliz, mas estou saindo daqui completamente decepcionada com você. Estou cansada dessa nossa relação. De você. Acabou, entendeu bem? - Michael franziu o cenho, como se notasse a besteira que havia feito, e do quanto suas palavras haviam tocado e machucado a jovem a sua frente. Ele havia ultrapassado todos os limites de sua arrogância e sabia disso. Caminhou rapidamente em direção à jovem, que se esquivou novamente, impedindo que ele a tocasse - Saia de perto de mim. Acabou! Acabou! Não vou mais atrapalhar sua série. Muito menos a sua vida. - disse, mantendo o tom de voz firme, e em um último impulso, jogou o celular do rapaz com força no chão, vendo o aparelho se espalhar em diversos pedaços, e bateu a porta da sala logo em seguida.

(Flashback Off)

Seis anos e meio depois...

- Estamos muito satisfeitos com o trabalho que você vem desempenhando tanto com os estudantes, como com os outros médicos e pacientes deste hospital. - Dra. Christine Lawson, diretora geral do Mercy Hospital disse, sentada ao centro da mesa, cercada por alguns neurologistas e psiquiatras que a ouviam atentamente - Confesso que, quando me disseram que você seria a pessoa perfeita a chefiar a disciplina de neurologia, eu tive minhas dúvidas, pois muitos de vocês, neurologistas deste hospital, são muito novos. No entanto, quando o Dr. Thomas Morgan, nosso antigo chefe de neurologia me disse que você era a pessoa certa para assumir o cargo do qual ele foi chefe durante vinte e sete anos neste hospital, eu tinha certeza de que ele sabia da sua real capacidade em assumir um cargo tão importante como este em nossa instituição. Passaram-se quatro anos desde o dia em que você assumiu esta chefia e em forma de reconhecimento e agradecimento pelos seus ótimos serviços prestados à nossa instituição, gostaríamos de te convidar a ser parte da coordenação do conselho institucional, coordenação esta que é responsável pelas decisões das intervenções de trabalho desta instituição, a fim de melhorar cada dia mais nosso serviço.
- Eu confesso que não sei o que dizer.
- Esta é uma oportunidade fantástica em sua vida. Apenas aceite. Você merece. - Dra. Lawson respondeu, com um sorriso encorajador em seus lábios, notando a pessoa responsável pela chefia da neurologia sorrir de volta.
- Eu aceito!
- Parabéns! - Dra. Lawson disse, estendendo a mão - Chefe de disciplina de neurologia e integrante do conselho institucional. Você só tende a crescer dentro desta instituição, devido ao seu incrível empenho e dedicação, Dra. Reid.
- Muito obrigada, Dra. Lawson.
- Você deveria fazer um discurso, Reid. - Paul, um dos psiquiatras do hospital e conselheiro institucional, disse, levantando sua xícara de café, fazendo os demais integrantes à mesa rirem.
- Discurso? - todos concordaram com sorrisos encorajadores e risos, fazendo a jovem respirar fundo. Apenas uma pessoa se mantinha sério dentro daquela sala - Bem... Primeiramente gostaria de agradecer o convite em ser conselheira institucional. Muito obrigada pela confiança para que eu fizesse parte disto. Segundo, gostaria de agradecer ao Dr. Michael Olsen por ter sido tão sincero quanto ao que ele achava sobre minha capacidade alguns anos atrás. Aquilo apenas me motivou a ser o que sou hoje. - um sorriso irônico surgiu nos lábios da jovem, fazendo com que Michael sorrisse sem graça, sem que as outras pessoas à mesa pudessem percebem, exceto por Charlotte, que sabia de tudo o que ocorrera cerca de seis anos e meio atrás. Poucas pessoas sabiam do antigo relacionamento entre Lizzie e Michael, visto que vários médicos naquela sala foram contratados tempos e anos depois do fim do relacionamento dos dois médicos - E é por conta de suas opiniões e seu apoio, que estou aqui... então eu dedico este convite que recebi da Dra. Lawson a você. Muito obrigada. E muito obrigada a todos.


Fim!



Nota da autora: Sem nota!



Ficstape TOFTT


Nota da Beta: YOU GO, GIIIRRL!! Destruidora essa PP, amei, to vendo todas minhas amigas de medicina chorando de orgulho e de inveja da PP hahaha Mas nem precisava dedicar a conquista ao lixo não miga, nem isso ele merece, mas enfim. Espero que todas que leram essa fic tenham gostado e que deixem um comentário aqui embaixo pra Aninha. Ah e não se esqueçam de ler as outras fics desse ficstape maravilhoso, okay?! Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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