Capítulo Único

”Assim que a foca estava claramente fora da agua, ergueu-se e escorregou sua pele pela areia. O que antes era uma foca, agora era uma garota de pele branca”
George Mackay Brown - Pictures in the Cave (adaptado&traduzido)

(Disponível em http://www.orkneyjar.com/folklore/selkiefolk/, acesso em 03.11.2015, às 14:43)

“ “Eu sabia que você viria”, a voz dele soou rouca, ríspida, grossa e em sua totalidade, imponente como sempre – como se quisesse cortar a noite com um punhal prateado. Ele havia virado um grande mentiroso, constatou com a facilidade como as palavras pronunciadas mascararam muito bem sua intenção. Suas mãos estavam suadas e geladas ao mesmo tempo, como se seu corpo robusto e másculo, naquele momento, atendesse a dois tipos de temperaturas diferentes, oscilando entre a combustão e a ausência total de calor. Ele sabia muito bem o que era aquilo. Era a adrenalina correndo cada nervo de seu corpo, atiçando cada terminação nervosa de seu ser. Ele cerrou seus punhos, sentindo as unhas um pouco grandes por causa da falta de asseio recente machucarem a palma de sua mão.
“Você sempre me faz parecer previsível, como se eu nunca fosse capaz de te surpreender”, ela disse com sua habitual voz baixa e suave, como se suas palavras estivessem sempre embebidas no néctar mais puro da mais doce fruta.
Ele riu nervoso em resposta, respirando fundo e tentando conter a euforia que a situação lhe proporcionava. Euforia essa a qual sua menina estava totalmente alheia, como se fosse uma festa a qual ela não tivesse sido convidada, apesar de ser a atração principal. Como uma surpresa.

S u r p r e s a.

Essa fora a palavra chave que seu tio lhe dera ao lhe passar as instruções do que deveria ser feito. Os dois passaram quase um mês planejando aquele momento, aquele dia. Nunca fora próximo de Shehu, seu tio, era verdade, mas sentia que podia confiar nele. E que, confiando no velho, não teria um destino tão trágico novamente. Sabia que confiando nele, jamais poderia ser abandonado por uma mulher de novo. Sua traqueia fechou-se diante do vislumbre da lembrança de sua mãe lhe dando as costas quando tinha apenas cinco anos de idade. Não conseguia contabilizar as noites que passara chorando por aquilo. Não sabia localizar, em uma breve linha do tempo de sua vida, quando a saudade se tornou rancor, quando o amor se transformou em ódio e quando ele havia começado a nutrir aquela fobia compreensível, até, de ser abandonado de novo.
“Você tem que pegá-la de surpresa. Você tem que ser forte e não pode, em nenhum momento, vacilar. Se ela souber o que você planeja, rapaz, você estará morto. Esse tipo de mulher não é confiável. Nenhuma é, de fato. Mas elas, em especial...” Shehu deixou no ar, transparecendo em sua voz todo o nojo e rancor que carregava em seu ser, entregando a um punhal prateado, que reluzia a lua com um torpor imenso, como se tivesse acabado de ser polido e afiado, como se tivesse sido preparado para aquela ocasião em especial.
Ele não queria mata-la. Como ele ia matar alguém que ele amava? Como poderia ele, filho de pescador, criado sem mãe, de vida simples e naturalidade humilde, matar alguém? A saliva pareceu incomoda ao descer por sua garganta, como se fosse uma bola de sal sendo engolida a força, ou algo do tipo. Seu coração doeu, pesado, como se cada batida fosse uma martelada em seu peito. Ele fechou os olhos e, involuntariamente, a primeira coisa que veio a sua mente foi ela.
Ela se aproximou, esguia e lânguida como sempre, e pousou a frente dele, olhando-o curiosa. “Você está bem, ?”, perguntou, unindo suas sobrancelhas e deixando alguns sulcos formarem-se em sua testa. Sua voz era tão doce, tão suave, tão calma. Ah, se ela soubesse. fechou seus olhos com força e sacudiu seu rosto de um lado para o outro, buscando concentrar-se. Não poderia entregar o jogo ali, agora. Era a sua liberdade que estava em jogo. Sua vida. Sua sanidade. Era ele que importava, não ela. Ela era fria, manipuladora. Uma aberração da natureza, talvez. Ou, quem sabe, uma benção de Odin – mas, pelo que ele tinha ouvido, estava mais para maldição do que qualquer outra coisa. Ela estava fadada ao fracasso e ele, com certeza, não iria ser arrastado junto. Ele se recusava a isso.
“Eu estou...” ele pigarreou, buscando clarear sua garganta e deixar a rouquidão em sua voz pra trás. “Eu estou ótimo. E com saudades. Achei que você não viria.”, sorriu para a mulher à sua frente sem mostrar os dentes, abraçando-a. Seu corpo nu e pequeno, gelado e ainda úmido cheirava a maresia. Seus cabelos, compridos e volumosos, levemente ondulados e tão escuros quanto a noite que começara a cair, cobriam parte de suas costas e seus seios, nada mais que isso. Ela sempre fora tão exposta quanto. Era parte de sua natureza. esticou seu braço e perpassou-o pelos ombros de sua garota, puxando-a mais para si, sentindo seu peitoral rígido e retesado amassarem os seios dela contra seu próprio tórax. Rapidamente, esquecendo-se da recém desconfiança sobre o comportamento do rapaz, ela envolveu-o pela cintura com seus braços finos e delicados, apertando-o contra si. Sentira saudade do seu rapaz. Sentira saudade do calor do corpo dele contra o seu. Sentira saudade de seu cheiro, sua voz, seu silêncio. Até sua respiração causava um vazio, fazia falta.
As mãos grandes do rapaz foram até o ponto estratégico logo abaixo de sua orelha, firmando-se na pele macia do pescoço da garota e ele fixou seu olhar no dela, tragando seco e prometendo a si mesmo, de forma silenciosa, de que ali seria a despedida. Seus lábios logo capturaram a boca carnuda de Iris, arrebatando-a de forma calorosa. Sua língua, grossa e quente, pontilhou os lábios da mulher que, prontamente, entreabriram-se em uma fenda tímida. O encaixe das bocas era perfeito, sincronizado e complacente. Como se tivessem sido moldadas uma para a outra, esculpidas em uma forma compartilhada, com algum tipo de fórmula ou magia.
M a g i a

“Magia”, começou Shehu, alterando sua voz para um tom sério, apesar das garrafas de vinho que ele já havia entonado naquela noite. Era ele e ali, já que os outros tinham ido dormir. Não havia momento mais propicio pr’aquela conversa do que agora, ali, sentados sob o luar, de frente à uma lareira quase apagada. “Elas usam magia. E das boas. Uma feitiçaria pura e única.” O mais velho continuou, atraindo totalmente a atenção do mais novo. “Elas devem ter alguma coisa com esse ponto da praia. Acho que algum santuário ou... Não sei. Mas a sua selkie não é a primeira que eu tenho notícias. E, ao que tudo indica, não será a ultima.”
não podia acreditar no termo que seu tio tinha usado. Selkie era algo mitológico. Ninguém tinha visto uma, pra valer. Eram apenas historias passadas de mãe pra filha, contadas pelas anciãs do vilarejo. Lendas. Mitos. Algo irreal. Certo?
Errado.
Eles eram a prova viva de que não se passava de apenas uma lenda envolvendo lindas mulheres. Elas existiam. Elas iam a praia todos os dias, abandonavam suas peles de foca em algum lugar escondido e seguro, seduziam os homens e iam embora, levando consigo, um coração partido. Há quem diga que era daí que elas tiravam sua longevidade. Quanto mais homens elas hipnotizavam, mais elas viveriam.
“Eu já tive uma, meu rapaz” a voz do mais velho soou novamente, atraindo a atenção de por completo. Ele bebeu mais um pouco de vinho e endireitou sua postura, a fim de prestar atenção no que o seu tio tinha a dizer. “Conheci-a quando tinha a sua idade, ou um pouco mais. Era linda. Nua, curvilínea, com os olhos mais verdes que uma floresta. E a voz... Parecia cantar toda vez que abria a boca pra falar algo. Parecia tão inocente. Sempre vinha me ver a noite. Aparecia na minha cabana, debruçava-se sobre mim e deixava com que eu me deleitasse em seu corpo, provando seu gosto e afundando-me nela. Eu não estava vivo até ela chegar e se encaixar em mim. Eu não estava vivo até derramar sobre ela o melhor de mim. Nenhuma mulher tinha aquele efeito sobre mim. Até que ela me contou quem era.” Ele deu uma pausa, bebericando mais um pouco de seu vinho, como se precisasse de coragem pra continuar a contar algo que quase ninguém sabia; “Eu fiquei em polvorosa, . Elas existiam mesmo, então! E uma tinha vindo diretamente até mim. Eu era muito sortudo. Eu só podia estar sendo abençoado por Odin!”
De novo, fora tragado por seus pensamentos. O velho continuava falando, contando sobre a sua
selkie e todas as safadezas que ela lhe provera durante os três longos meses do verão – ele, de fato, não se importava com aquilo, com os detalhes sórdidos e tudo o mais. Shehu pintava sua menina como um belo monstro. Como uma pessoa ruim, como uma mulher manipuladora, fria e, acima de tudo, uma feiticeira – alguém que não seguiria Odin jamais. Mas a menina de não era assim. Ao menos, ele precisava acreditar que não.
“Não sei por que você veio”, ele suspirou contra seus cabelos, inalando o perfume natural que vinha dos fios molhados, assumindo, parcialmente, sua derrota. O mundo parecia pesar sobre seus ombros, dificultando sua respiração. “Não é sua lua nova ainda, Iris”, ele emendou, consertando seu lampejo de fraqueza momentânea.
“Não preciso vir só na lua nova, . Você sabe.” Ela confidenciou, deixando seus lábios numa fina linha. O seu peito queimava diante de uma sensação estranha, algo que ela não conhecia. Ela não era a melhor pessoa pra falar de sensações tipicamente humanas, por mais que, naquele momento, em terra firme, ela fosse uma mulher completa – tanto anatomicamente, quanto psicologicamente. Mas, por mais que ela fosse humana, algumas coisas ela jamais tinha sentido – não era como se ela vivesse naquele estado pra sempre. Algumas sensações eram desconhecidas ao seu corpo, sua mente ou seu coração. Ele lhe ensinara a maioria, mas, mesmo assim... envolveu-a em seu abraço apertado e másculo mais uma vez, levando uma de suas mãos ao topo da cabeça da mulher e fazendo um afago em seus cabelos, pressionando-a contra seu corpo enrijecido. Ela fechou os olhos e o apertou contra si, aspirando o cheiro da pele dele, soltando um suspiro logo em seguida. Ela gostava tanto de estar com ele, de ficar com ele. Gostava do calor que ele emanava, gostava da fragrância que ele tinha, gostava do tom de sua voz, gostava do efeito que surtia sobre ele, em como a pele dele se arrepiava a cada toque, a cada movimento, a cada beijo. Era tão bom saber que tinha aquele poder sobre alguém, mas era melhor ainda saber que era sobre ele que aquilo era exercido.
Não que ela tivesse usado algum tipo de magia contra ele, como Shehu acusava-a. Ela nunca precisou disso. Iris sabia que as selkies, se quisessem, poderiam hipnotizar os homens, desfrutar de sua masculinidade de forma integral, despojando-se sobre eles da forma mais carnal possível e partir de volta ao oceano, sem peso algum na consciência. Mas ela não era assim. Ela não queria ser assim. tinha a capturado de forma incomum. Era como se ele surtisse aquele efeito sobre ela. Era como se, ali, a magia estivesse do lado dele e ela fosse uma simples vítima de seu torpor.
T o r p o r
O vocabulário de não era muito variado e complexo, afinal, era a primeira vez que ela tinha contato, de fato, com aquela língua saxônica em específico. Tudo o que aprendera fora escutando, esgueirada e escondida, no vilarejo conforme era pequena e com as selkies que compartilhavam sua curiosidade – como um intercambio, uma troca. O que elas sabiam, elas ensinavam à e vice-versa.
Mas se tinha uma palavra que parecia se encaixar naquele momento, essa era torpor. Que, em sua veia mais literal, significava algum tipo de entorpecimento. Entorpecimento causado pelo deleite do que sentia naquele momento. Seus lábios estavam entreabertos, numa tentativa rasa e, praticamente vã, de ajudar suas vias aéreas com a respiração. Seu coração parecia estar a ponto de explodir, de tão rápido que batia. Suas mãos estavam confusas e perdidas entre decidir-se acariciar o couro cabelo do rapaz ou apertar e puxar os lençóis que acomodavam seu corpo. Ela fez as duas coisas ao mesmo tempo, buscando aliviar o espiral de sensações que corriam por seu corpo, eletrocutando seus sentidos e entorpecendo-a de forma surreal. Era conhecido de sua comunidade, no mar, que os homens podiam fazer aquelas coisas, que eles tinham a capacidade de trazer aqueles sentimentos à tona, junto com as sensações que pareciam não se esvair do corpo, por mais que ela gemesse e se remexesse sob os comandos do rapaz, mas ela não sabia que tudo aquilo que ela sempre ouvira – quase como uma história mitológica – era assim. Daquele jeito. Com aquela intensidade. Era como se ela estivesse visitando o paraíso. Como se ele tivesse levando-a tão alto que as estrelas tornar-se-iam alcançáveis para a ponta de seus dedos. Ela gemeu, um pouco mais alto, recebendo um olhar lascivo de seu parceiro, que continuava beijando-a lá. Ele sequer tinha encostado-se a ela em sua totalidade ainda, ele sequer tinha penetrado-a com sua masculinidade e já estava a ponto de explodir num enlevo de sensações majestosas e demasiadamente boas.
“Mais”, ela pediu, com a voz fraca e rouca. Ele estalou a língua no clitóris dela, inchado e pulsante, denunciando a excitação que ele mesmo tinha provocado. A intimidade da garota formigava sob a boca de . Ele circundou sua entrada jamais violada com o dedo médio, provocando-a e lambuzando-a mais, deixando-a lubrificada. Sugou a vulva com uma performance impecável, deleitando-se no mel que a garota lhe provinha. Sem aviso prévio, ele subiu seu rosto pelo corpo de , lambendo cada centímetro da pele de sua barriga, mordiscando em alguns pontos e seus lábios logo encontraram a boca dela, tomando-a para si com uma propriedade não declarada, mas real. Compartilhou com sua menina o gosto dela, enquanto ela fincava as unhas em seus ombros, marcando-o como seu e envolvendo a cintura dele com suas pernas, recepcionando-o em sua intimidade.
A glande do pau de roçou, de forma certeira e automática, na entrada de , como se o encaixe fosse o mais certo possível. Ela fechou os olhos e arqueou sua coluna, entregando-se para ele que, com vontade, tomou-a para si de uma vez só, enterrando por completo seu membro na cavidade apertada que pulsou diante do tamanho e grossura. guinchou, franzindo o cenho e se sentindo dolorida. Em resposta a investida do homem, ela apertou ainda mais o afinco de suas unhas em sua pele, tragando seco e abrindo os olhos, encontrando os dele ali, tão perto, tão brilhosos, tão... Fascinados. Havia uma conexão ali, isso é inegável. Ele roçou os lábios pelos dela, sugando a parte de baixo da boca da menina e soprou, afim de acalmá-la. Recuou com seu quadril por alguns centímetros, tornando a situação confortável pra ela, tentando deixa-la o mais calma possível, o menos dolorida possível. Não queria machuca-la; não faria nada pra machucar sua menina, sua preciosidade. retribuiu o beijo de forma doce e suave e, como reprovação pelo recuo, rebolou sua bunda contra a pélvis do homem, investindo contra o membro duro. voltou a investir, afundando-se nela de forma lenta, porém firme. Os músculos de sua boceta logo se acostumaram com a situação nova, contraindo-se contra a ereção do pescador, mastigando-o literalmente. Ele investiu de novo. E de novo. E mais uma vez. E outra. Poderia ficar ali, assim, pra sempre, se aguentasse. As gotas de suor escorriam por seu rosto já avermelhado e, hora ou outra, pingavam sobre os lábios de , que não continha os gemidos que a peculiar sensação lhe roubava. Era como morrer. O ar faltava, o coração errava algumas batidas, mas ela continuava viva. O ato, em si, estava destinado à essa ambiguidade. Era como morrer, permanecendo viva.
Se morrer fosse assim, ela queria morrer todos os dias.


Ao contrário de , não fechou os olhos diante do abraço. Ele manteve-os abertos para capturar o movimento de Shehu por entre as árvores. Sabia muito bem o que seu tio iria fazer. Era tudo parte do plano, tudo conforme combinado. Ele não podia vacilar. Não podia voltar atrás. Era o seu destino que estava em jogo, era a si mesmo que precisava salvar. Faria aquilo pra se vingar por seu tio. E pra salvar o resto de sua sanidade. Era por ele mesmo que faria aquele sacrifício.
S a c r i f í c i o
A palavra tinha entrado pelos ouvidos de Rodríguez como um veneno tóxico e letal e ficado engasgada em sua garganta. Então, tudo era sobre aquilo? Sacrifício?
“Claro que não.”, respondeu Shehu, dando a confirmação de que a duvida fora externada em voz alta e não tinha ficado no pensamento. “É uma forma de vingança, também. Aquela mulh... Aquela
selkie.” o mais velho se auto censurou, como se a comparação com uma mulher fosse algo pecaminoso. “Aquela coisa... Acabou com a minha vida, . Acabou com a vida de todos desse vilarejo. Ela foi amaldiçoou a nossa família, eu tenho certeza. Por causa dela, a sua mãe foi embora. Por causa dela, minha esposa faleceu. Por causa dela-“
“Tá, tá.”, o ódio corroeu o mais novo, inflando suas narinas e inchando as veias de seu pescoço. A simples menção à sua mãe o deixara assim. Era certeiro. Ele não havia superado, não havia perdoado. Aquela seria pra sempre uma veia aberta pra ele. “Qual é o plano?”
“Matá-la. Não vale a pena prendê-la, vende-la, disseca-la. Não queremos isso. Vamos mata-la e devolver ao mar, mas morta. A maldição tem de acabar no momento em que a lâmina cortar sua pele, sua carne e atravessar seu coração, parando-o.” os olhos de Shehu brilharam de forma diabólica. Era o plano perfeito. Assim, estariam todos a salvo. Assim, teria chances de encontrar alguém e formar uma família com uma mulher de verdade.
O jovem pescador, no entanto, não partilhava da mesma visão. Matar. Ele nunca matara ninguém na vida! O mais perto da morte que chegou era a morte dos peixes que pescava, que agonizavam sem oxigênio nas redes de pesca. Mas isso fazia parte da cadeia alimentar, era parte da sobrevivência. Matar sua menina não era parte de sua sobrevivência. Ao menos, ele ainda não acreditava.
“Ela o enfeitiçou, Rodríguez! Você está prometido a danação eterna, porra! Você NUNCA MAIS será um homem de verdade. Você viverá preso à ela enquanto ela viver. Você não pode querer isso. Você tem de mata-la.”, seu tio completou, como uma bronca. Sabia que o pescador ia fraquejar, ele também fraquejaria se estivesse na mesma situação, mas, naquele momento, era ele a racionalidade do mais novo. Era como a consciência que a magia da
selkie tinha roubado. Era sua obrigação cuidar de seu sobrinho. “Se ela for embora igual Eggda foi, você sofrerá tanto. Eu sei porque eu sofri. Eu fui condenado a essa maldição, mas você não. É meu dever livrá-lo disso, filho. Confie em mim”
“Eu confio, tio.”, ele soprou, com a voz baixa, quase inaudível. Seu coração doía tanto. Seus pulmões pesavam o triplo do normal. Seus olhos embaçaram por causa das lágrimas que ele tentou, em vão, conter. E lá estava, sua garganta presa a um nó irremediável. O veredito de sua amada acabava de ser dado e ele, que lhe jurara amor eterno, era seu juiz e seu algoz.
Nos momentos seguintes, Shehu disse como o plano teria de ser executado. distrairia a moça, agindo como se nada fosse acontecer, como se aquele fosse um encontro casual e então ele esconderia a pele de foca que ela usava como proteção e disfarce – a passagem de volta aos mares. A pele deveria ser enterrada, conforme dizia a lenda e assim ela não teria escapatória: estaria presa entre os humanos. Uma vez sem sua pele, ela seria morta. E ele seria, enfim, livre.

Livre do abraço dela, postado de frente a seu corpo pequeno e delicado, ele ocupou-se em fita-la fixamente. Ela devolveu o olhar dele, mordendo seu lábio inferior que insistia em tremer. Seu instinto tentava, a todo momento, avisá-la do perigo, alertá-la de alguma forma. Algo estava errado. Ela sabia disso, ela podia sentir isso.
O rapaz, no entanto, travava uma batalha consigo mesmo. Ele a amava, mas não queria ser uma aberração entre os homens. Queria uma família normal, filhos normais. Não queria estar disposto a um abandono que ele sabia que ela faria, mais cedo ou mais tarde. Ela voltaria ao mar e o deixaria ali, abandonando-o com, talvez, seu filho e fazendo o sofrimento que ele fora submetido ao ver sua mãe indo embora se perpetuar. Era sua responsabilidade acabar com isso e se livrar daquela maldição.
Mas ele a amava tanto.
Seu coração doía. Batia pequeno, apertado. Como se fosse parar a qualquer momento. Em um ímpeto, ele segurou-a pelo rosto, puxou-a para si e tomou-a em seus lábios mais uma vez, pela ultima vez. Inseriu sua língua na boca dela com urgência e voracidade, sentindo seus órgãos internos sucumbirem a um congelamento irracional. A língua dela o envolvia com destreza e ela o abraçou, enlaçando-o em seus braços. Era tão bom beijá-lo. Ela nunca se cansaria de tê-lo ali, daquela forma. Nunca se cansaria de repetir os movimentos com sua língua, em um deja-vu prazeroso. Era como se ele aproveitasse aquele beijo como o último, decorando e detalhando cada movimento, cada gosto, cada troca em sua memória, sabendo que não se esqueceria daquele momento tão cedo – talvez, nunca.
O beijo foi perdendo o ritmo e a intensidade até se transformar num singelo tocar de lábios, num doce encostar de bocas. Ambos abriram os olhos ao mesmo tempo, transformando o olhar numa conexão quase tangível.
“Eu te amo, .”, ele confidenciou, sentindo uma lágrima ficar presa na linha de seu olho. Sua voz trêmula denunciou sua fraqueza e ele sabia que seu tio estava a espreita no bosque, escondido por trás de qualquer árvore, esperando qualquer vacilo. “Eu te amo, te amo, te amo. Nunca se esqueça disso. Vou te amar além da vida, além da mitologia. Você promete que não vai esquecer? Promete pra mim, .” o desespero foi tomando seu ser, transparecendo na sua voz trêmula. As lágrimas já escorriam pelo seu rosto, queimando sua pele e salgando o gosto amargo em sua boca.
encostou a testa na sua, segurando-o pelo rosto, sem entender nada. Ele sempre dizia que a amava e ela sempre retribuía, mas nunca era naquelas circunstancias. Por que ele estava chorando? Por que parecia estar em dor? “Shhh... Está tudo bem, . Eu te amo também! Eu te amo tanto. Te amo com todo o meu espírito.”, ela confidenciou, selando a boca dele mais uma vez.
Ele não ia conseguir mata-la. Ela era tão frágil, tão pequena. Ele não se importava em ficar preso a uma maldição, subjugado a danação eterna, portanto que estivesse com ela. Ele não se importava se ela fosse a maldição em pessoa, ele a queria por perto. Se fosse pra se perder, que se perdesse com sua menina, então. Ele abraçou-a, apertado, afundando o rosto na curva do seu ombro e derramando-se em um pranto inesperado e, para , incompreensível. Ela queria tanto saber o que estava acontecendo, o que estava atormentando-o. A ideia de tê-lo em dor era horrível, era como se doesse nela, também. A selkie levou sua mão direita aos cabelos dele, afagando-os e acarinhando-os. Queria confortá-lo, queria-o bem. Ela precisava que ele estivesse em paz, para que ela estivesse em paz também.

Um rosnado raivoso e violento cortou a noite.
Um grito dolorido e dois pares de olhos arregalados.
Foi tudo tão rápido que, durante alguns segundos, e não compreenderam o que tinha acabado de acontecer. O corpo da menina, que até então permanecera tão firme e sólido, dando-lhe apoio pela redenção silenciosa que ele havia acabado de proclamar, amolecera e, se não fosse por ele, teria caído ao chão imediatamente.
Era inevitável cair ao chão, de joelhos, segurando sua menina em seu colo e assistir a vida deixa-la pouco a pouco. O sangue jorrava quente por suas costas, enquanto sua boca despejava o líquido avermelhado e viscoso, também. Ela agonizava em seus braços, com o punhal de Shehu fincado em suas costas, de forma trágica e mortífera. pensou que fosse desfalecer tamanha a dor que sentia. O ar não chegava em seus pulmões e seu coração parecia ter parado de bater, enquanto o momento parecia uma cena parada no tempo. Seu tio, ofegante, estava agachado com as mãos nos joelhos. Ele sabia que o moleque seria covarde e não mataria a foca. O feitiço fazia isso com os homens. Então ele mesmo o faria. Ele precisava se vingar.
“O QUE VOCÊ FEZ?”, gritou, em prantos, olhando para o mais velho. Seu rosto estava vermelho e contorcido na expressão e personificação da dor que corria todo seu corpo, doendo em cada musculo, matando cada célula. “, fica comigo. Por favor, fica comigo.”, ele falou baixo para sua menina, que piscava os olhos de forma sonolenta. Ela não queria, mas iria se entregar aquele sono – o sono eterno. Era queria manter seus olhos azuis abertos por mais tempo, queria olhar para o seu menino por mais tempo. Ela queria ter tido mais tempo com ele. Queria ter tido mais tempo pra senti-lo, beija-lo, amá-lo. “, não fecha os olhos, por favor, fica comigo.”, ele implorou, afastando os cabelos da face da menina e beijando-lhe a testa. Não podia fazer nada, não tinha o poder de fazer algo. Aquela seria a sua penitencia: assisti-la agonizar e morrer em seus braços.
“Eu...”, ela tento falar, cuspindo um bolo de sangue. Seus dentes estavam manchados de vermelho, bem como toda sua boca, queixo e pescoço, numa pintura enfadonhamente cruel. “Ah, ...” ela tossiu, tremendo no colo do rapaz. Ele, por sua vez, gritava, espiralando de dor e sofrimento. Não podia ser. Aquilo não podia estar acontecendo. Não com ele, não com sua menina. “... Eu queria ter tido mais tempo com você.”, ela confessou, fechando os olhos e abandonando o sofrimento. Não tossia mais, não tremia, não cuspia mais sangue. Sua cabeça pesou e pendeu pra trás, anunciando a invalidez de seu corpo sem vida. Como um animal selvagem, urrou de dor. Seu corpo queimava como um inferno, como se estivesse em brasa. Como se tivesse sido jogado em um poço de adagas, onde cada ponta perfurava cada centímetro quadrado de sua pele. Ele abraçou-a, implorando que ela sobrevivesse de alguma forma. “Eu te amo, . Perdoa-me, por favor.”, ele disse, beijando-lhe a bochecha, sem se importar em se sujar de sangue. “Me perdoa, pequena, me perdoa, me perdoa.”, disse, abraçando-a, segurando-a em seus braços, como se pudesse trazê-la à vida de alguma forma. Estava tão arrependido, tão perdido. E agora?
Sentiu o punhal ainda cravado em sua menina daquela maneira tão mórbida – o atestado da morte de sua amada. Com a visão e os pensamentos enevoados, ele retirou-o dos músculos da mulher morta em seu colo e apertou-o em seus dedos, sentindo o fel arder em seu esôfago e queimar em sua boca. Ele enxergava em vermelho, tomado pela ira e pela raiva que a dor tinha gerado. Levantou-se, abandonando o corpo de no chão e caminhou, obstinado, em direção ao seu tio. O mais velho se ergueu do chão, arregalando os olhos.
“Acabou, . Ponha no chão, sim?”, ele ergueu as mãos, tentando acalmar Rodríguez de alguma forma. Ato inútil. Seu sobrinho não agia por si. Queria que ele sentisse a dor que ele sentia, mas fisicamente e de forma mortal. sabia que não tinha morrido fisicamente, mas era como se o tivesse. Era como se tivesse quebrado de tal forma que não teria conserto. Sabia que passaria o resto de seus dias sentindo a dor da perda, morrendo mais um pouco a cada nascer do sol. Todos os dias seriam embebidos em dor, saudade e culpa. Ele tinha morrido ali, junto com , por mais que continuasse respirando. “Você está livre agora, filho.”, Shehu tentou sorrir, mas estava apreensivo.
“Você não tinha o direito. E eu o amaldiçoo”, Rodriguez decretou, com a voz firme. Largou o punhal aos pés do velho e voltou para onde o corpo da selkie jazia, tomando-o em seus braços de novo. “Onde você escondeu?”, ele perguntou, olhando-o. O velho franziu o cenho, imaculado com o que estava acontecendo. “ME RESPONDE, PORRA!”, gritou, sentindo sua garganta arder. “Onde você escondeu?”, repetiu a indagação.
“Aos pés da colina, perto da nascente do riacho.”
não esperou complemento para a afirmativa de Shehu. Esperava que o velho não tivesse mentido. Levantou-se, com o corpo de em seus braços e adentrou a floresta que conhecia tão bem, carregando-a em um cortejo solitário, guiado por apenas uma estrela, já que as outras pareciam ter se apagado em condolência à morte da jovem mulher-foca. Caminhou por apenas alguns minutos, encontrando o relevo da paisagem ali, parecendo inóspito daquela vez. O cheiro de terra molhada, o barulho calmo da água doce... Tudo o que ele sempre adorou naquele lugar pareceu inexistente, alheio a realidade dolorosa que ele enfrentava agora.
Avistou a pequena cova recém cavada e acelerou seus passos. Aquilo tinha que dar certo. Não por ele – ele não tinha direito de mais nada –, mas por ela. Ela precisava que aquilo desse certo. repousou o corpo da garota no chão, deitando-a da forma mais confortável possível e, com suas próprias mãos, cavou cerca de três palmos de terra. Suas unhas pareciam queimar e as lágrimas escapavam de seus olhos sem o menor pudor. “Por favor, Odin. Não me abandone. Não a abandone. Ela não merece isso. Dê-lhe outra chance”, ele pediu, em uma prece baixa e solitária, mirando o céu escuro.
Sentiu a pele de foca, molhada com sua mucosa recorrente, sob seus dedos e puxou-a, livrando-o do enterro. Não parecia morta, ainda. Talvez...
Aquilo tinha que dar certo!
Ele limpou, da melhor forma, a terra da pele e arrastou-se até o corpo de sua donataria. Vestiu-a lentamente, fazendo a pele cobrir, pouco a pouco, o corpo sem vida da mulher que usava-a para se esconder e voltar ao mar. “Faça funcionar, Odin. Por favor. Por favor. Eu não sou merecedor, mas ela... Sua criatura mais perfeita. Prova de sua existência. Por favor.”, ele suplicou, novamente, enquanto terminava de vesti-la.
A aparência de mulher, humana e esbelta, tinha ficado para trás. Ela estava ali em sua forma animista, a congruência com a mitologia. Não estava viva, tampouco. suspirou, desiludido. Não, não, não.
Tomou o corpo do – agora – animal no colo e caminhou por dentro da floresta, refazendo o caminho até a praia.
Do mar viestes, para o mar voltaria.
O vento estava forte, fazendo as vestes do pescador ondularem em seu corpo sujo e molhado. Tinha parado de chorar há algum tempo, mas ainda soluçava. Ainda doía.
Doeria pra sempre.
Sentiu a água gelada do mar molhar seus pés e pernas, banhando-o em um batizado solidário, igualmente triste. O ondular da água era melancólico, como se estivesse pronto pra recepcionar o corpo naquele funeral. beijou o topo da cabeça da foca em seu colo e, quando a água atingia sua cintura, ele soltou-a no mar, deixando com que ela boiasse. O oceano, por sua vez, movimentou-se para trás, para longe da orla, levando o corpo do amor de alguém embora pra sempre. O pescador tinha voltado a chorar, sentindo a perda mais intensamente agora. Ficara parado ali, esperando que a foca se perdesse de vista. Sua alma estava indo junto. Sua vontade de amar, de viver também. Ele estava perdido.
Ao dar meia volta em direção à praia, ele ouviu o grunhido característico daquele animal. Um grunhido melancólico e triste, até mesmo chorou. Ele parou, sem se virar, rendendo-se ao pranto novamente. Ela estava viva. Ela estava lá. Tinha funcionado, de alguma forma.
“Obrigada, Odin.”, agradeceu, chorando de dor e de felicidade, preso na ambiguidade do sentimento de saber que ela sobreviveu, como foca, mas que ele tinha perdido sua amada pra sempre.




Epílogo

Dez anos.
Uma década.
Um décimo de século.
Dez anos se passaram desde aquele dia. O dia em que Rodríguez perdera seu único e verdadeiro amor. Logo depois de entregar sua selkie ao mar, deixando sua pequena aos cuidados de Odin, o jovem pescador resolveu sair da cidade. Permanecer no vilarejo, dormir naquela cama... Isso tudo o enlouqueceria. Ele havia decidido, e prometido a si mesmo, reconstruir sua vida, sua imagem, mas algo permanecera intocável – seus sentimentos. Ele a amou e ainda amava mais que tudo. O peso de sua perda parecia um fardo a ser carregado pelo resto de seus dias, mas ele sabia que era a penitencia a qual ele tinha se condicionado. Não falara com Shehu desde aquela noite, não sabia se ele estava vivo ou morto, lúcido ou louco. Tanto fazia. Dane-se. Fora o velho que tinha lhe tirado tudo o que era mais precioso, responsável pela morte de metade do jovem pescador. Ele não merecia nenhuma pena ou condolência.
não tinha conhecido outra pessoa. Até tinha conhecido mulheres dos mais variados tipos, mas nenhuma lhe capturava como . Os olhos dela, azuis como o oceano, permaneceriam vivos em sua mente pelo resto de seus dias e, se existisse outra vida, ele continuaria procurando por eles. Sua pele só se aqueceria no abraço dela, no colo dela e ele sabia que seu coração só bateria de novo quando pudesse se compassar às batidas do coração dela. Ele percorria, ano após ano, estação após estação, o litoral nórdico e suas bacias em busca de sua foca, de sua mulher, de sua menina, mas sempre fora em vão. Ele nunca mais a encontrara, nunca mais tinha visto. Não sabia se ela tinha sido condenada a viver como foca ou se voltara à forma de mulher – ele esperava que Odin tivesse lhe dado a segunda opção, também. Tudo o que ele tinha era, durante a noite, independente de onde esteja, o guinchar triste de uma foca, como se ela o espreitasse, o guiasse, o guardasse, mesmo sem ser encontrada. Eles jamais seriam o mesmo, independente dos caminhos e escolhas que foram obrigados a tomar – ele, guiado pelo medo e pelo trauma.
“Vou te amar além da vida, além da mitologia” ele repetiu uma de suas ultimas palavras à ela. Ele guardava aquela promessa consigo a sete chaves, como seu maior tesouro.
Além da vida.
Além da mitologia.

So you were never a saint
And I've loved in shades of wrong
We learn to live with the pain
Mosaic broken hearts
But this love is brave and wild
And I never saw you coming
And I’ll never be the same





Fim.




Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic e reclamações somente no e-mail.






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