Finalizada em: 20/09/2021

Capítulo Único

Meu corpo parecia estar em chamas. O calor pinicava meus braços, uma camada leve de suor cobria meu pescoço e escorria pelo decote do vestido muito caro que eu tinha escolhido para essa noite e que não combinava com a boate. Minha jaqueta havia sido esquecida em algum lugar e eu estava totalmente focada na música, na dança e em como a bebida tinha me deixado tão mais leve depois do dia que eu nem ao menos conseguia me importar agora. Eu estava flutuando, rindo e me sentindo tão bem que nada mais importava enquanto meu copo continuasse cheio.
Era bom não sentir nada. Era bom silenciar a mente, esquecer as dores e fingir que meus problemas não estariam ali quando o efeito do álcool passasse, e eu estava me segurando fortemente a essa ilusão o tanto quanto podia. Tinha ignorado ligações, fugido dos meus amigos e de qualquer coisa que me trouxesse de volta à racionalidade. Beatrice estava a ponto de me estrangular a última vez que a vi e Ethan e eu fizemos um show de gritos quando ele tentou me levar para casa.
Essa noite eu não queria ajuda, nem que tomassem conta de mim. Eu só queria deixar o gelo do meu coração me consumir por completo.
- Vou ao banheiro! – gritei para Sabine, uma das conhecidas que estavam comigo essa noite.
Ela nem sequer ouviu, ocupada demais em flertar com o dono da boate e garantir que a nossa conta fosse deixada na conta dele. Eu ri, pois era exatamente o tipo de coisa que eu também fazia. Respirei fundo, olhando ao meu redor para conseguir me situar e meu olhar desfocado avistou as placas neons que sinalizavam o banheiro do outro lado da festa. Me espremi entre a multidão de pessoas que dançavam e riam, acotovelando alguém sempre que precisava abrir meu caminho ou era empurrada. Levei uns bons minutos até chegar nos letreiros de neon rosa e, como eu já esperava, a fila estava quilométrica no banheiro feminino. O banheiro masculino, por outro lado, estava vazio. Sem pensar duas vezes, empurrei a porta do banheiro masculino e entrei na primeira cabine disponível.
Com a bexiga vazia e muito mais relaxada por isso, fui lavar as mãos e finalmente me olhei no espelho depois de uma noite turbulenta. A luz dourada do banheiro ficava ainda mais escura pelas paredes de mármore preto, amenizando o meu estado. Só que ainda era bem perceptível que eu estava uma imensa bagunça. Os cachos que eu tinha feito para o jantar beneficente já tinham caído e só as ondas bagunçadas tinham sobrado do penteado elaborado. Minha maquiagem estava quase intacta e não havia mais sinal algum de que eu tinha chorado no táxi até aqui, a não ser manchas secas quase imperceptíveis de lágrimas na minha bochecha. Meu vestido longo e chique estava precariamente amarrado em um nó que faria Donatella Versace ter um infarto se visse o que eu tinha feito com sua obra. Meus olhos estavam vazios e inexpressivos, dignos da rainha do gelo que eu era.
Só que rainhas do gelo não quebravam como eu tinha feito mais cedo.
- Acho que você está no banheiro errado.
Pelo espelho, olhei para a pessoa na porta atrás de mim e meu coração parou por um momento. Eu esqueci de respirar ao encarar o reflexo daquele rosto familiar e dos únicos olhos que conseguiam me enxergar de verdade. Assim como eu, ele estava usando roupa de gala, provavelmente vindo do jantar beneficente. Um sobretudo cobria seu smoking caro e um cachecol grosso envolvia seu pescoço para fugir do frio do inverno de Nova York. Não fazia o menor sentido a presença dele aqui e a minha surpresa estava estampada na minha cara.
- E acho que você está no lugar errado. – respondi, forçando minha voz a parecer mais firme do que estava. – O Lotte Palace é bem longe daqui, .
me deu um sorriso pequeno, passou a chave na porta atrás de si e enfiou as mãos nos bolsos, caminhando lentamente até mim. Eu odiava o frio na barriga que sua proximidade me dava, mas continuei impassível quando ele parou na minha frente.
- Ah, eu estava no Lotte Palace. Meu voo atrasou e eu cheguei na metade do jantar, minutos depois da sua saída, pelo que me disseram. – ele falou calmamente. – Mas seu primo Ethan me ligou pedindo para que eu viesse tentar controlar uma fugitiva bêbada e possivelmente autodestrutiva, então precisei sair mais cedo do que pretendia.
- Idiota. – revirei os olhos, me referindo a Ethan.
- Eu sei, foi o que eu disse. – ele umedeceu os lábios, arqueando uma sobrancelha. – Ninguém controla .
- Então por que você está aqui?
Por um momento pareceu que não sabia realmente o que estava fazendo aqui. Nosso relacionamento era complicado para dizer o mínimo. Na verdade, não havia relacionamento, não mais, pelo menos. Mas ainda existia alguma coisa e nós dois sabíamos e sentíamos isso, então era por isso que ele estava aqui.
- Porque é você, . – suspirou. – E eu sempre vou largar tudo e correr até você quando for preciso.
Meu coração apertou, o gelo incrustado nele derreteu um pouco. também era o único que tinha esse efeito sobre mim, o que era uma grande bosta, já que nós éramos basicamente uma versão moderna de Romeu e Julieta.
- Hoje foi um dia cheio e uma noite... – pensei na melhor forma de descrever o jantar beneficente, mas nada pareceu descrever direito o ódio e a dor que eu senti, então desisti. – Eu só queria fugir, Beatrice e Ethan não tinham nada que ter te acionado. Eu vou ficar bem, não preciso ser resgatada, .
- Mas eu vim te resgatar. – deu de ombros, indiferente. – Eu passei os últimos anos te vendo afundar lentamente e sozinha por escolha própria, . Mas eu estou farto de ver você se machucar e esconder o coração que eu sei que você tem.
Um sorriso sombrio cruzou os meus lábios.
- Um coração de gelo, pelo que eu sei. – arqueei uma sobrancelha. – Na boa, , volta para o jantar. Não sou responsabilidade sua para que você venha fazer a contenção de danos.
Tentei passar por ele, mas segurou o meu braço com delicadeza, me fazendo parar no lugar e ficar muito perto dele. Meu corpo reagiu inconscientemente ao seu toque e um calor confortável se espalhou pelo meu corpo. Seu olhar estava inabalável, fixo no meu.
- Você não tem um coração de gelo, . – disse tão firme que eu quase acreditei. – Nós dois sabemos que a Princesa de Gelo que te pintam é um personagem seu, mas nem de longe é quem você é de verdade.
Pisquei lentamente, não acreditando que depois de tudo ele ainda insistia em ver o melhor de mim. Eu, a pessoa que tinha partido o coração dele anos antes porque não consegui me deixar ser amada. Eu, que desisti de nós dois quando ele nunca desistiu. Eu, que o excluí da minha vida só para que ele não entrasse no caos que me acompanhava.
- Por que você continua insistindo em mim depois de tudo? – minha voz saiu em um sussurro que só não foi abafado pela música porque estávamos trancados aqui.
- Porque eu conheço a verdadeira . – segurou meu queixo com suavidade, me fazendo encará-lo. – E eu sei que você sente muito mais do que demonstra, só porque tem medo de se machucar e machucar alguém. E como você deve ter percebido, eu não tenho medo de me queimar por você.
Eu não conseguia me olhar no espelho e ver a pessoa que via em mim. O que eu via era uma mulher problemática demais que se apaixonou por uma pessoa incrível a qual com certeza não merecia. Os anos de terapia tinham me ajudado a melhorar a forma como eu me via e como eu lidava com meus sentimentos, mas ainda parecia surreal que mais alguém visse a verdade em mim. Fechei os olhos por um momento, incapaz de lidar com a luta travada no meu peito entre me esquivar mais uma vez e fazer o que eu realmente queria.
- Você disse que queria fugir dessa noite. – ele continuou, percebendo que eu estava muito perto de ceder. – Mas se for para fugir, que seja uma fuga digna de , não mal escondida e enchendo a cara em uma simples boate de Manhattan. Quer fugir comigo?
Abri os olhos e olhei diretamente para os olhos claros e sinceros que me fitavam com calma e paciência. Eu sabia que queria me ajudar e que mesmo depois de ter acabado de chegar de viagem e estar muito cansado, ele me levaria pra longe se fosse necessário. Também sabia que se eu dissesse que preferia ficar aqui e continuar enchendo a cara, ele iria ficar por perto para garantir que eu teria uma carona para chegar em casa segura. Eu não merecia de forma alguma esse homem, mas ele me amava mesmo assim e eu não sabia o porquê.
Eu estava tonta demais e bêbada demais, mas me senti completamente sóbria e consciente ao colocar minha mão em cima da dele. sorriu e beijou o interior do meu pulso com suavidade, provocando arrepios que desceram da minha nuca até a coluna, me fazendo sorrir verdadeiramente pela primeira vez no dia.
- Para onde você vai me levar? – perguntei.
- Pede para a Beatrice arrumar uma bolsa com seu passaporte. – sorriu enviesado, provavelmente pegando o meu olhar incrédulo.
- Passaporte?!
- Eu disse que seria uma fuga digna de , amor.
Alguns telefonemas e duas horas depois, eu estava enroscada na poltrona confortável do jato particular de , indo para só-Deus-sabe-onde. Beatrice tinha separado algumas roupas junto com meu passaporte e eu troquei o vestido chique por um conjunto de inverno extremamente confortável. não perdeu a pose e só tirou a gravata quando chegamos ao jato. Depois de muita água e comida, o efeito do álcool foi lentamente passando. Felizmente eu não era do tipo que vomitava as tripas em uma ressaca.
- Quer conversar agora? – perguntou depois de minutos em um silêncio confortável.
Puxei as pernas para junto do corpo e me virei o suficiente para ficar encostada na parede do avião, meio de frente para que estava na poltrona ao meu lado. Eu tinha tido um dia difícil e estava emocionalmente exausta, mas uma parte minha queria realmente falar sobre tudo que eu estava sentindo. A terapia tinha me feito perceber que sufocar e guardar só para mim o que eu sentia era um péssimo hábito e esse tinha sido um dos motivos pelos quais e eu não demos certo no passado. Traumas de antigos relacionamentos, daddy issues e uma tremenda dificuldade em expor meus sentimentos tinham me deixado uma vadia fria.
- Hoje era um jantar beneficente para arrecadar fundos para o tratamento de pessoas com câncer do Hospital St. Mary, como você já sabe. – enrosquei o dedo na corrente do meu colar, mexendo o pingente de um lado para o outro como sempre fazia quando precisava me distrair. – Uma forma de homenagear a minha mãe. Era o aniversário de 1 ano da morte dela, . Você sabe muito bem como o último ano foi difícil e eu acordei hoje só querendo que o dia acabasse, que fosse só mais um dia, mas tudo me lembrou ela.
Mordi o lábio para segurar as lágrimas que encheram meus olhos com a simples menção da minha mãe. Depois de anos na luta contra o câncer de mama, ela morreu em seu quarto na casa de Hamptons com o barulho do mar a acalmando e o sol brilhando forte apesar de ser inverno. Eu segurei sua mão o tempo todo e sei que ela morreu em paz, aceitou o seu destino e viveu cada segundo da sua vida. Tendo presenciado todo seu sofrimento ao longo dos anos e sem expectativa de melhora, eu tinha sentido um alívio horrível com sua morte. Seu sofrimento tinha acabado, era tudo que eu pensava. Mas mesmo assim eu me sentia culpada por sentir alívio por ela ter morrido. Esse sentimento de culpa me esmagava até hoje.
- E como se não fosse ruim o suficiente ter que lidar com esse dia, eu ainda precisei fazer um discurso para centenas de pessoas. Eu sei que organizei o evento e estou feliz que o dinheiro arrecadado vá ajudar muitas pessoas a não terem o destino que ela teve, mas foi extremamente difícil ver as fotos dela em todo lugar e não chorar enquanto falava tudo aquilo, . Eu pensei que estava pronta, mas não acho que algum dia isso vá se tornar mais fácil. – minha voz tremeu no final quando a fisgada de dor ficou mais intensa no meu peito.
puxou minha mão e entrelaçou nossos dedos, apertando forte como forma de me confortar. Seu polegar continuou a fazer carinho nas costas da minha mão e por um momento eu me concentrei só naquilo.
- Eu nem imagino como isso foi difícil para você, . – me encarou. – Vocês duas tinham um laço lindo e profundo, eu vi isso durante os anos que sou amigo do seu pai. E tenho certeza que sua mãe deve estar extremamente orgulhosa por você ter ido lá e discursado apesar de toda a dor que essa data te causa. Você foi muito forte e está sendo muito forte.
Tentei sorrir, mas não consegui. Ele devia imaginar que o motivo da minha fuga da festa que eu organizei não tinha sido só isso. Eu tinha conseguido lidar bem, tinha discursado sem chorar e estava pronta para passar o resto da noite cumprimentando as pessoas, agradecendo e sendo extremamente educada, não deixando transparecer nada que eu sentia. Meu apelido nas colunas socialites de Nova York era de Princesa do Gelo e eu era muito boa em honrar esse apelido.
- Estava tudo bem até que meu pai resolveu que hoje era a noite perfeita para apresentar a nova namorada para a sociedade. – a frase saiu amarga da minha boca. – Por que ele tinha que manchar essa noite levando a mulher que foi amante dele durante os últimos anos? A vadia com quem ele fodia enquanto minha mãe estava definhando em uma cama, esperando que seu marido saísse das supostas reuniões de trabalho para ir visitá-la!
Cerrei os punhos com raiva e dessa vez não contive as lágrimas de puro ódio que escorreram pelo meu rosto. Meu pai era um homem bom para quem o via de fora, era respeitável, caridoso e construiu um império do nada. O que ninguém sabia era que ele era um filho da puta que destruiu a mulher que o ajudou a construiu seu império.
- Eu a vi. – murmurou, apertando minha mão com mais força. – E imediatamente soube que esse tinha sido o motivo da sua fuga. Seu pai foi um canalha por levá-la para o memorial e mais canalha ainda por te fazer passar por isso.
Um sorriso maldoso curvou meus lábios para cima.
- Ele é seu amigo e sócio, . Xingar seus amigos não combina com você. – zombei, mesmo que não fosse engraçado.
revirou os olhos.
- Joseph deixou de ser um amigo quando eu descobri a verdade sobre quem ele era, . – sua voz tinha ficado gelada ao se referir ao meu pai. – E descobrir o mal que ele causou a você e a sua mãe. Agora somos apenas sócios.
- O fim da amizade de vocês não tem nada a ver com o fato de você ter fodido a filha dele? – provoquei, precisando desesperadamente fugir da conversa séria agora. Eu estava farta de chorar.
- Isso poderia ter sido um problema, mas felizmente eu e a filha dele somos muito bons em esconder. – respondeu, não se surpreendendo nem um pouco com a mudada de assunto, pois ele me conhecia o bastante para saber que eu fugia de qualquer coisa que me deixasse emocional demais.
Conheci em um coquetel, quatro anos atrás, assim que me f