03. Pienso En Tu Mirá – Cap.3: Celos

Última atualização: Fanfic Finalizada

Capítulo Único

A pequena cidade do interior mexicano era pacata e fria, pois apesar de ser extremamente ensolarada, suas cores opacas e acinzentadas apagavam tudo de melhor que a luz solar tentava destacar. O padre havia chego há pouco mais de 2 horas e já sentia uma sensação estranha em estômago. Ele não deveria estar ali.
Já havia virado assunto na cidadezinha. Ouvira-se que um novo Padre chegara para substituir o velho Casares, e pobre Casares! Era delgado, do estilo magricela, de nariz alongado e torto, com grandes entradas laterais no cabelo. Diziam as más bocas que ele estava ficando careca de tanto trabalho que o povo local o dava. Também diziam que essa fora a razão de sua repentina morte. Tivera uma parada cardíaca tão forte, mas tão forte, que acabou por dar três pulos para trás antes de cair mortinho no altar, em meio a missa.
, que agora estava para substituir, saíra do monastério a pouco. Não era do tipo magricela, tinha todos os cabelos na cabeça e era jovem. Jovem e cheio de vida. Mas esse fato não o impedia de preocupar-se com a possibilidade da comunidade o matar de estresse.
Se ele soubesse!
A paróquia era pequena, dissera o Bispo, mesmo tendo como fiéis mais da metade da população local. Ele ficaria responsável não só pela igreja, mas pelo seu povo também, dissera o Bispo, teria grande responsabilidade em suas mãos.
Ele aceitara tal responsabilidade de braços, e coração, abertos. Faria de tudo em seu alcance para ajudar as pessoas com a graça de Deus. E ajudar ele fizera.
Dois meses depois, no exato dia de 09 de março, sob a vigília de Nossa Senhora Mãe de Deus, sentou-se do lado de dentro do confessionário e esperara mais de trinta minutos por alguém buscando confessar-se. Contava com a máxima de que alguém sempre precisava do perdão de Deus, afinal havia pecadores por toda a parte.
Ouvira passos apressados, saltos batendo contra o chão da igreja, ecoando pelo lugar. Sentara-se do outro lado da madeira antiga do confessionário, uma pecadora.
- Me perdoe, Padre, pois pequei – começara.
reconhecera a voz. Sua dona era , filha de Dona Ana, detentora dos olhos castanhos mais encantadores já havia visto. Tinha 22 anos e era uma fiel assídua, frequentava todas as missas, incluindo as de Domingo pela manhã. Ensinava a catequese para as crianças e ajudava pela igreja no que precisasse. Durante uma das jantas aos pobres, Padre comentara com como seu nome era único. Significava beleza adorada, ela dissera, e ele rebatera dizendo-a que seu nome o lembrava de obras de arte, algo que estaria em exposição no Louvre.
tinha só 22 anos e já estava noiva, quase para casar. Sua mãe era piamente contra. A mulher não gostava nem um pouco do rapaz, que se apresentava rude para com todos em sua volta. Um rapaz assim nunca seria bom para sua filha, pensara.
- Pois me conte de seus pecados.
- Penso excessivamente, Padre, e diariamente, em quebrar uma promessa que fiz a Deus.
- Uma promessa é algo sério, uma promessa a Deus é algo seríssimo! – suspirou – Há algum motivo específico do porque você pensa em quebrar essa tal promessa?
- Ela me faz sofrer, Padre! Me faz sofrer demais!
- Não desista, pois todos os filhos de Deus passam por provações – franziu os lábios – Reze três Pai Nosso e persista! Persista!
Ouviu soluços baixinhos, quase como sussurros, vindo do outro lado. Não poderia deixa-la sair da casa de Deus sem nenhum tipo de consolo.
- Não chore, por favor. Deus irá lhe perdoar.
Em um período de um mês, voltara mais 5 vezes e sua insistente confissão embaralhou-se por entre outras tantas confissões que ouvira.
Durante a noite ele se pegara pensando no que seria essa tal promessa que a garota fizera a Deus. E por que ela era tão ruim? Não conseguia deixar de pensar o porquê de alguém prometer algo que o machuca. Estava curioso para saber a resposta, mas não curioso o suficiente para pergunta-la.
voltou, novamente, em um final de tarde ensolarado, assim como o qual chegou a cidade. Regressou a pedir perdão pela promessa não quebrada em realidade, mas em pensamentos.
- Me perdoe, Padre, pois pequei.
- E qual é o seu pecado, ?
Começara a chama-la de quando se iniciou um certo nível de amizade entre os dois, quando juntos começaram a ensinar nas novas turmas da catequese e faziam conversa rápida nos pequenos intervalos para banheiro. faria algum comentário sobre o cachorro da Senhora Rodrigues, que teimava em persegui-lo por todo o caminho entre a praça da cidade e a casa onde estava ficando. Ela riria, como sempre fazia, e apontaria para o fato de que sempre quisera ter um cão.
- Retornei a pensar em quebrar minha promessa a Ele.
deixou o ar sair de seus pulmões de modo cansado, suspirando.
- , porque essa promessa é tão importante para você?
Há 3 anos Ana, mãe de , descobriu um câncer no útero. Era avançado e depois do tratamento intensivo não ter dado certo, o médico já não tinha certeza se ela sobreviveria. Passados 7 meses, depois de perder todas as esperanças, o inesperado ocorreu: Ana estava curada! O que para muitos havia sido um milagre da medicina, para fora sua promessa. A promessa de casar-se com um homem devoto a Deus.
- , porque sua promessa estar quase sendo cumprida é uma má coisa?
- Porque ele é cruel comigo. Temo que se a quebrar, algo de muito ruim acometerá minha mãe e eu a amo demais.
Pela primeira vez em sua vida eclesiástica ele ficara sem palavras, e em choque a respondeu:
- Deus irá lhe perdoar!
- Por qual razão sempre me afirma que Ele irá me perdoar? Como pode ter tanta certeza?
- Tenho certeza pois sei que todos os filhos de Deus merecem perdão.
Naquela mesma noite, com a lua grande e fria, e vento gelado balançando as árvores, uma única batida forte na porta interrompeu o Padre quando se punha a dormir. O homem abriu a porta revelando a figura frágil de , e a luz lunar expôs seu segredo, que agora estava espalhado por todo o seu rosto machucado de cor púrpura e lábios cortados. Segurava sua bondosa mão fortemente com a oposta e lágrimas desenhavam-na a face.
sentiu seu coração pular algumas batidas. E por ironia do destino achou que iria falecer como o seu antecessor. Como alguém poderia machucar tanto outra pessoa?
- , por Deus! Entre, entre! – pegou rapidamente um cobertor e pôs delicadamente sobre os ombros de
- Me desculpe! Não sabia para onde ir.
- Fico feliz que tenha pensado em mim como alguém a confiar, mas você precisa ir a um hospital, seu rosto está machucado e sua mão – ele deu rápida conferida – está certamente quebrada.
- Pensei que talvez você conseguisse me ajudar, pois não posso mais continuar com minha promessa.
- Deus poupará sua mãe. O Senhor é bondoso e não gostaria de ver você sofrendo por uma promessa.
- Você parece estar sempre certo, de alguma forma.
- Não, eu estava errado em uma coisa. Há alguns filhos de Deus que não merecessem perdão.
pareceu entender precisamente o que ele quis dizer. Ela merecia perdão, pois era uma pessoa generosa e de bom coração. Aquele que fizera a passar por tanta dor não merecia.
O Padre a envolveu num abraço aconchegante e tentou ser o mais acolhedor possível, afinal, ela confiara nele. E foi nesse ato de confiança que ele sentiu o despertar, no seu mais profundo íntimo, do sentimento mais nobre que um homem pode ter: o amor. Amor por ela e por sua força, amor que ficou tanto tempo reprimido por ser confundido com pecado.
Agora ele entendia, a ânsia de vê-la sentada em todas as missas, de ouvi-la falar sobre seus sentimentos em confissão e de a fazer sorrir contando-a sobre o pequeno cão atrevido. Da vontade de ouvir sua voz e avistar o vestido florido vindo em direção a igreja.
Aquilo não era pecado. Ah! Estava longe de ser pecado. Aquilo que ele estava sentindo era divino.
Afastou-se minimamente e beijou-lhe a testa.
- Você precisa ir à polícia – falou em tom baixo.
- Eu sei que sim – suspirou – Só estou tentando reunir coragem. Você iria comigo?
- Vou sim – sorriu-lhe, encorajando-a.
Recordou do momento em que chegara na cidade, ainda não completara seis meses, apesar de sentir estar ali por tanto tempo. Lembrou-se de como sentiu um gosto amargo vindo do seu estômago a subindo-o a garganta. Quando desceu do ônibus, não soubera o motivo de tanta angustia e rezou para Deus lhe responder suas perguntas com algum sinal. E um sinal Ele lhe dera.
Quando rezou sua primeira missa, o sinal que Deus lhe enviara estava sentado na primeira fileira, com olhos marrons redondos e um vestido florido azul. Quando ela o olhou e sorriu bondosamente, soubera que estava destinado a amá-la, porém quando ele a entregou a óstia, soubera que precisaria a amar de um modo diferente. Teria que amá-la com todo o seu ser e existência, ou então simplesmente não amá-la.


Fim



Nota da autora: Quando eu ouço El Mal Querer, sinto essa vibe religiosa então resolvi fazer uma fic nesse estilo. Sei que ela aborda um tema bem polêmico e difícil de se trabalhar, mas resolvi que valeria apena simplesmente por trazer uma mensagem que quero muito passar: amor não machuca. Então se você sofre algum tipo de violência por parte do(a) seu/sua companheiro(a), procure ajuda! Sei que é algo difícil de se fazer e que é um caminho de muita luta, mas você vale a pena! Beijos!!


Nota da scripter: Oi! O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.

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