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Finalizada em: 07/10/2020

Capítulo Um

— Corre, idiota!
A sirene da viatura gritava alto atrás do grupo.
Os amigos corriam tanto quanto podiam, tentando alcançar os outros que fugiram primeiro. A garota apressava o irmão mais novo, que tentava decidir se usava o ar dos pulmões para se mexer ou para rir.
— Não ri, babaca! Se pegarem a gente, a mãe me mata por ter te deixado ir para a cadeia — gritou com o irmão mais uma vez, e o garoto e os outros gargalharam, arrancando uma risada da jovem.
Verdade seja dita, nenhum deles estava realmente preocupado. O risco de serem pegos era parte da diversão quando faziam suas famosas festas clandestinas nas casas granfinas ou galpões abandonados que invadiam, mas eram bons e discretos, e pouquíssimas vezes tiveram que se entender com as autoridades.
Quando viram que a polícia tinha desistido deles, se enfiaram na estação de metrô e começaram a atravessar a cidade, de volta para casa.


desligou o chuveiro e vestiu o pijama. assistia ao jornal enquanto esperava a irmã desocupar o banheiro.
“O Senador Callum McKenner foi visto pelas nossas câmeras, hoje, em um momento de intimidade com Deus e a família, a esposa Joanne e a filha Victória. Após as orações, o Senador gentilmente nos cedeu uma breve entrevista:
— Nós acreditamos que nosso bom trabalho, um trabalho íntegro e responsável, durante os últimos anos tenha trazido vários benefícios para nossa nação e, quem sabe, nós possamos continuar nos próximos oito anos também.
— Foi por isso que o senhor veio aqui hoje, Senador? Pedir pelas eleições?
— Eu e as minhas duas mulheres maravilhosas viemos agradecer por todo o caminho até aqui. Sabe, enfrentamos muitos desafios e sempre fomos abençoados.
Agora, rezamos para que o Nosso Senhor me ache merecedor de mais uma bênção.
O Senador McKenner concorre novamente nas eleições deste ano, e as pesquisas mostram que ele é um dos candidatos mais considerados pelo povo.”
— Engraçado como todo político vira religioso e altruísta perto das eleições, né? — comentou, rindo sem humor.
— Engraçado digo eu. Podia jurar que o McKenner era budista na última eleição.
terminou de secar o cabelo e se levantou, indo para o quarto que dividia com o irmão.
— Fala sério, televisão aberta é palco para cada figura... Bom mesmo seria ter um canal decente de gastronomia disponível.


O portão da bela mansão se abria para os convidados entrarem. O caminho muito bem iluminado era reflexo dos moradores exigentes e detalhistas, o que muito agradou ao casal que passaria as próximas noites ali. Assim que pararam na frente da porta, foram recebidos por um valet e pela governanta, que os guiou até os anfitriões, na sala de estar.
— Arthur, Amelia! Que bom que chegaram. Como foi a viagem?
— Viemos bem, Callum. As estradas que você mandou arrumar realmente ficaram muito boas.
Os homens se cumprimentaram e riram, e Callum ofereceu um charuto a Arthur.
— Adoraria aceitar, Senador McKenner, mas se eu fumar antes do jantar, Amelia pede o divórcio.
— Que bom que sabe, querido — a mulher respondeu, em tom de brincadeira, e deu um beijo na bochecha do marido. — Joanne, que trabalho fantástico vocês fizeram na casa. Está lindíssima, elegante e requintada como você.
— Ah, Amelia, querida, muito obrigada. Devo os créditos a você, se quer saber. O decorador que me indicou era excelente.
Antes que pudessem continuar os elogios de praxe, a governanta interrompeu a conversa para anunciar que o jantar estava servido e os pertences de Arthur e Amelia já haviam sido acomodados em um dos quartos. Os dois casais se dirigiram à sala de jantar e se puseram à mesa.
— Victória irá se juntar a nós hoje, Joanne?
— Não, Amelia, infelizmente. Victória foi participar de um evento beneficente para arrecadar fundos para organizações protetoras dos animais. Ficará em Nova Iorque toda a semana, mas, nas palavras dela, nos deu carta branca para planejar o jantar de noivado.
— Uma grande mulher sua filha está se tornando, Callum. Fico feliz de tê-la como parte da família, agora.
— Ora, Arthur, somos todos família, agora. Victória é realmente uma menina de ouro, com um coração enorme. Não fiquei surpreso em vê-la tão envolvida com essas causas, sempre participando de eventos como esse por todo o país. No semestre passado, passou um mês inteiro na África acompanhando ações humanitárias para crianças.
— Callum, assim você me faz acreditar que não tenho mais capacidade de fazer meu trabalho direito. Como não ficamos sabendo disso? Nenhum de nossos jornais noticiou esse trabalho maravilhoso.
— Victória tem sua própria maneira de fazer as coisas, Arthur. Ela prefere se manter anônima, diz que faz o que faz por amor. É realmente uma menina como nenhuma outra.
A noite seguiu com conversas sobre negócios e comentários sobre os filhos. Faltava aproximadamente um mês para o jantar de noivado de Victória McKenner, filha do senador e Joanne, e , filho de Arthur e Amelia, e herdeiro da rede de comunicações . Amelia e Joanne cuidavam para que tudo fosse perfeito.


A luz baixa do fim de tarde de um dia nublado tornava o grupo praticamente invisível. Andavam colados ao muro da casa que tinha passado a tarde toda observando, e quando se certificaram de que não havia nenhum movimento por ali, decidiram entrar.
Conheciam algumas casas da região, mas nunca tinham se aventurado por aquele lado do bairro. Perderam as contas de quantos carros viram por ali cujos nomes mal conseguiam pronunciar, e acreditavam ter esbarrados em umas três ou quatro celebridades, também.
— Queria ver a cara daqueles policiais, agora.
— Cala a boca, Mark. Você foi o primeiro a sair correndo quando ouviu a sirene. Todo mundo sabe que você não aguentaria dois minutos na cadeia.
— Maltrata mais que ele apaixona, .
— Cala a boca você também, Dean. , tem alguma ideia de como a gente vai entrar nessa casa? Estou vendo câmeras por todos os lados.
— De que adianta ter câmeras se os donos não estão na casa?
respondeu antes de e se lançou sobre muro. Do outro lado, gritou para os amigos avisando que o caminho estava limpo.

O interior da casa era quase mais surpreendente do que o lado de fora. Mármore, cristais, detalhes em ouro e etiquetas de grife por todos os cantos. A adega guardava garrafas mais velhas que a própria casa, e os quadros nas paredes eram assinados por artistas renomados. Onde não se via quadros, havia prêmios, troféus, medalhas, certificados e cartazes de campanhas publicitárias antigas, tão obras de arte quanto os óleos sobre tela.
Cada porta que abriam revelava uma nova definição de luxo e ostentação, e se não fossem os porta-retratos com fotos da família de três membros, poderiam jurar que a casa abrigava uma comunidade inteira.
, Dean, olhem só. Acho que eu encontrei a sala de jogos.
Mark chamou e os meninos desaparecera escada abaixo. Seguindo o sentido oposto, e subiram para o segundo andar.
, já imaginou morar numa casa onde cabe o nosso bairro inteiro?
— Está brincando? Isso aqui mal dá para a minha família. Já viu o tanto de primos que eu tenho?
Rindo, as meninas começaram a explorar os cômodos. Encontraram uma enorme sala de cinema, um banheiro digno de spa, o segundo piso, mais intimista, da biblioteca que viram no térreo, e finalmente, alguns quartos de hóspedes vazios, antes de chegar ao quarto principal.
— Olha, talvez a casa não seja grande o suficiente para a minha família toda, mas nessa cama caberia eu, meus pais e meus irmãos e ainda sobraria espaço.
— Espera até você ver quantas tias você vestiria com esse closet.
foi até , que estava parada na porta de um closet que parecia ser maior do que o seu próprio quarto — e provavelmente era, mesmo.
— Minha filha, com isso aqui dava para vestir minhas tias, minhas primas, as vizinhas fofoqueiras e fazia umas doações para o bazar da igreja do bairro.
— Acho que elas iriam gostar de saber o que tem aqui, primeiro — andou pelo closet, passando as mãos pelas intermináveis peças de seda e cetim. — Sabe, talvez a gente tenha que fazer um desfile e tirar algumas fotos, só para elas verem as roupas, mesmo. Não que eu queira experimentar qualquer uma dessas peças maravilhosas e assinadas por estilistas de quem eu nunca ouvi falar, credo, mas pelo bem das suas tias, primas e vizinhas fofoqueiras, acho que a gente devia fazer esse sacrifício.
— Você devia cursar artes cênicas, .
— Ah, cala a boca e me passa aquele vestido.

Depois de muitas roupas experimentadas e fotos tiradas, o closet parecia novamente organizado. Essa era uma das regras fundamentais do grupo: não deixar vestígios. Brincavam dizendo que se mais nada desse certo, eles podiam abrir uma empresa de organização e limpeza. Quando chegaram à parede do fundo, notou uma maçaneta pequena que abria uma porta secreta.
— O que você acha? São os corpos dos vinte e oito maridos anteriores?
— Pode ser. Ou pode ser um quarto fetichista, também.
As amigas se entreolharam, pensativas.
— Que sejam os corpos.
Para a sorte das meninas, ambas estavam erradas. O quarto nada mais era que uma extensão do closet, onde ficavam as joias e acessórios de linhas exclusivas e raras. A parede direita estava forrada de bolsas, a esquerda, de sapatos; na parede do fundo ficavam o grande espelho com luzes de camarim e a coleção de perfumes importados, e no centro do quarto havia um belo busto de veludo, que acomodava um colar que poderia ter adornado Audrey Hepburn ou Elizabeth Taylor, cercado por outros mostruários elegantes com Rolex, Cartiers, Chanéis e outros relógios, pulseiras e o que mais fosse possível imaginar.
— Eu não estava totalmente errada sobre os corpos, . O tanto de cobra e jacaré morto nessa sala é insano.
— Desculpa, , o que você disse? Eu estava hipnotizada por esses diamantes e não te ouvi.
— Engraçadinha — as meninas se aproximaram do mostruário e observaram o colar com atenção. — Isso aí deve ter o meu peso em diamantes. Daria para comprar o que? Mais umas três casas dessa?
— Acho que sim. Você viu algum par de luvas no closet?
— Vi, sim. Acho que na segunda gaveta do meio do armário.
correu até o closet e voltou calçando luvas brancas de pelica. Prendeu a respiração e, com cuidado, tirou o colar do mostruário e colocou em si mesma.
Admirando a peça, foi até o espelho no fundo do quarto.
— Isso merece uma foto.
Já sacando o celular do bolso, ajudou a prender o cabelo, pegou mais alguns anéis e brincos, acendeu as luzes do espelho e apagou a iluminação principal.
— Olha para o espelho, . Vira um pouco de lado, desse ângulo eu só consigo ver essa sua bochecha amassada — riu, e mandou um gesto indelicado para a amiga. — Levanta o rosto. Isso. Só mais uma, agora.
— Eu estou ficando com dor no pescoç—
A luz do quarto se acendeu, pegando as amigas de surpresa. Imaginando que fossem os meninos voltando da sala de jogos, sentiram o coração pular uma batida quando perceberam que não era.
— Atrapalho alguma coisa, meninas? — O rapaz parado na porta olhava para elas intrigado, consultando o celular com frequência. Deixou que elas tentassem se justificar por alguns segundos, antes de voltar a falar. — Olha, tudo bem. Só coloquem as coisas no lugar, por favor. O alarme do colar disparou, então vocês devem ter dez minutos para sair antes da polícia chegar aqui. Sejam rápidas.
O rapaz virou a tela do celular para a dupla, mostrando a notificação do sistema de alarme. Colocando as coisas de volta nos mostruários com pressa, o encarava confusa e irritada. Desceram o mais rápido que puderam e chamaram os amigos para irem embora.
— VOCÊ GARANTIU QUE A CASA ESTAVA VAZIA, IDIOTA! QUE DROGA, A GENTE PODIA TER SIDO PEGO, E SERIA MUITO PIOR DO QUE NO OUTRO DIA — gritava com o irmão, enquanto voltavam para a estação de metrô.
— Para de gritar, . Todo mundo aqui confirmou que não tinha ninguém e concordou em entrar. Agradece que o cara deixou a gente sair, se não fosse por ele a gente realmente estaria com problemas, agora.

Dentro da casa, o jovem morador terminava de arrumar as joias quando ouviu o telefone tocar.
— Oi, mãe. Como estão as coisas por aí?
— Me diga, você, . O alarme do meu armário de joias disparou. Está tudo bem? Estávamos jantando e eu não consegui verificar as câmeras. Você está bem? Está em perigo?
respirou fundo e pensou um pouco.
— Está tudo bem, mãe, pode ficar calma. Vim ver se um cinto meu ficou entre as suas coisas e esbarrei no mostruário sem querer. Sempre te disse que esse negócio toma muito espaço.
— Ora, , eu nunca reclamei das suas estantes de livros ilustrados, então não reclame das minhas coisas.
revirou os olhos, já acostumado com o jeito da mãe.
— Meus “livros ilustrados” se chamam quadrinhos, mãe, HQs, comic books, o que preferir. São clássicos, a senhora devia ler.
— Não acho que seja possível um gibi sobre um milionário que se fantasia de morcego ser considerado um clássico da literatura, . Enfim, não importa. Preciso desligar, estou discutindo os detalhes do jantar com Joanne. Voltamos em uma semana, tudo bem?
— Sim, senhora. Boa noite para vocês dois.
— Boa noite, . Cuidado com os diamantes.
— A senhora também.


, acorda, mané. Vai se atrasar para a aula.
— Larga de ser insuportável, . Nem a mãe me enche tanto assim.
Já haviam se passado alguns dias desde o incidente na mansão dos , e os dois ainda estavam em pé de guerra. Mas, por mais que quisesse matar o irmão mais novo, não perdia o instinto de cuidar do, nas palavras dela, pirralho idiota.
— Acha que eu estou enchendo o seu saco? Como você vai assinar contrato com uma gravadora se não for para a escola para deixar de ser tonto? Eles escrevem qualquer coisa lá, você assina e quando vê, está pagando pelos direitos das suas próprias músicas.
Decidindo ignorar o falatório da irmã e o fato de que, secretamente, concordava com ela, finalmente se levantou. Terminou de se arrumar e saiu com o pai, deixando e a mãe sozinhas.
— Dona Isabelle, o perfume dessas tortas está simplesmente fantástico. Você se superou hoje, mãe — entrou na cozinha e deu um beijo na mãe.
— É resultado da sua alteração na receita, . As amoras deram o toque que faltava.
Isabelle retribuiu o beijo da filha, que colocava o avental para começar mais um dia de trabalho.
As possuíam uma pequena confeitaria caseira, idealizada por Isabelle e impulsionada pelo amor pela cozinha, compartilhado pelas duas. gerenciava a loja e as encomendas via redes sociais, fazia entregas, cozinhava e fazia o que mais fosse necessário. Com o fluxo de trabalho aumentando, em breve precisariam contratar mais uma pessoa e poderia se dedicar exclusivamente ao preparo dos doces e bolos junto à mãe.
— Que bom que gostou, mãe. Lembrei das tarteletes da vovó e quis incorporar as amoras na sua torta — sorriu, orgulhosa, sentindo o cheiro vindo do forno. — Como estamos hoje?
— Estou trabalhando nos docinhos para o chá de bebê de amanhã, mas não vou poder contar com você por aqui. Preciso que leve essas tortas para a cliente, quando ficarem prontas, junto com o bolo que está na geladeira — Isabelle indicou a geladeira com a cabeça, enquanto mexia a panela. — Se eu não soubesse que você e seu irmão vivem perambulando pelo outro lado da cidade, até lamentaria a distância que você vai ter que percorrer hoje.
A filha soltou um muxoxo de sofrimento fingido, rindo em seguida. Gostaria de não precisar cruzar a cidade com caixas de doces frágeis no metrô, é claro, mas ver o sucesso da confeitaria era mais importante. Esperavam conseguir abrir uma loja física no ano seguinte, e se tudo continuasse seguindo no rumo que estava, talvez fosse possível antes do imaginado.

Era meio da tarde quando terminou as entregas. Seguiu em direção ao metrô com uma última caixa de torta, que foi feita além do pedido. Já perto da estação, reparou que estava novamente no lado mais nobre do bairro, que já era suficientemente abastado. Relutou um pouco com a ideia, mas cedeu à tentação de fazer uma última visita.
Tocou a campainha da mansão e esperou.
Tocou novamente e não foi atendida, então resolveu entrar.
— Oi. Tem alguém em casa? — chamou, e percebeu que não era ideal anunciar uma invasão daquela forma. — A porta estava aberta, então eu entrei. Tem alguém aí?
Explorou mais um pouco o andar térreo a procura de algum morador. Passou pela cozinha e parou para tomar um copo de água, quando ouviu um barulho vindo dos fundos da casa. Cruzando um corredor, saiu em uma grande área esportiva, onde encontrou o rapaz que procurava atravessando uma piscina semiolímpica.
— Oi.
— Caramba!
tomou um susto com a garota parada na beira da piscina e engoliu água. Levou uns instantes para se recuperar, e encarou a visitante inusitada.
— Como você entrou aqui?
— Seu sistema de segurança pode ser bom para as joias, mas qualquer malandro bem treinado passaria despercebido pelas câmeras da entrada.
Saindo da piscina, alcançou uma toalha e se sentou na pequena arquibancada, confuso.
— E o que você está fazendo aqui?
— Bom — se sentou ao lado dele, cruzando as pernas em cima do banco —, eu fiquei curiosa e quis entender por que você deixou a gente sair, na outra noite.
— E você achou que a melhor forma de descobrir seria invadindo a minha casa de novo?
— Eu precisava falar com você de algum jeito, não é?
coçou a testa e secou a água que escorria nos olhos. Havia sido pego completamente desprevenido.
— Por que vocês vieram aqui na outra noite?
encarou como se fosse um alien.
— Sério que você não sabe por que alguém entraria nessa casa?
— Não, droga, não é disso que eu estou falando. Vocês entraram aqui e não levaram nada, só ficaram brincando de Fashion Week com as joias da minha mãe.
— Quem te garante que a gente não teria levado nada se você não tivesse aparecido?
— E teriam levado?
— Tenho cara de bandida, por acaso?
— Olha…
— Não, cara, a gente não rouba nada. Bom, exceto a comida da geladeira — se levantou do banco, tirou os sapatos e se sentou novamente, na beira da piscina, colocando os pés na água. assistia a tudo aquilo, indignado. — Nosso negócio é diversão, só. Quantas vezes você já ouviu falar de festas clandestinas acontecendo nas casas da região?
— Festas clandestinas? Que festas clandestinas?
— Exatamente! A gente já entrou em várias casas por aqui, e normalmente somos muitos bons em limpar nossos rastros. Se não fosse aquele alarme estúpido que não faz barulho, você nunca saberia que nós estivemos na casa.
— Se eu não estivesse aqui, vocês teriam sido pegos pela polícia, e eu tenho certeza de que eles não perguntariam o motivo da visita.
— É, ouvi coisa parecida — se levantou mais uma vez, pegou uma toalha seca no armário e colocou os sapatos. — Vem cá, tem comida nessa espelunca? Eu estou varada de fome, andei o dia todo.
Saiu em direção à cozinha, deixando para trás. O rapaz se vestiu e seguiu a criatura mais estranha que ele já havia conhecido.
— Se eu vou te alimentar, posso saber seu nome, pelo menos? Já é a segunda vez que você entra na minha casa, acho que é o mínimo de informação que me deve.
Segurando uma maçã e um pote de granola, a invasora agora procurava prato e talheres.
— Sou . Você é , não é? — concordou com a cabeça, indicando o armário onde estavam os copos. — Estava bordado na sua toalha. Bem estiloso. Quer suco de laranja ou melancia?
— Eu… de laranja. Isso aqui é seu? — apontou para a sacola estampada com o logotipo da confeitaria.
— Ah, sim. Eu e a minha mãe temos uma confeitaria. Vim fazer umas entregas por aqui e decidi te falar um “oi”.
— Você também foi arrastada para o negócio da família? — riu de leve, compreensivo, porém sem muito humor.
— Não, eu escolhi entrar. Minha mãe e minha avó sempre trabalharam com cozinha, e eu ajudava com o que podia até ter idade para assumir o fogão.
observou a salada de frutas que preparou, pensativo. Experimentou e precisou conter o som esquisito que sua garganta produziu involuntariamente. Estava delicioso.
— Você queria saber por que eu deixei vocês irem, não é?
— Ah, com certeza. Nenhum playboy teria deixado a gente sair ileso.
Franziu o rosto ao ser chamado de playboy, mas decidiu ignorar.
— Acredite, eu teria deixado a polícia vir se achasse que vocês representavam algum risco, mas o único risco que eu vi ali era o desastre de moda que vocês estavam causando.
— Ei! Se você não entende de invasão-wear, não atrapalhe nossos negócios. Nós somos especialista, Stacy London fica no chinelo.
riu alto.
— Você sabe que até os chinelos dela devem ser Prada ou coisa do tipo, não é? — mastigou mais uma porção da salada de frutas, que já estava no final. Pediu que fizesse mais. — A verdade é que eu não me importo. Não ligaria mesmo que vocês levassem todo o closet da minha mãe, exceto pela dor de cabeça que eu teria que aguentar com polícia e tabloides.
— Uau! Temos aqui mais um caso do pobre jovem da elite, que não precisa se preocupar com absolutamente nada, mas vive infeliz do mesmo jeito?
deu de ombros, menos incomodado com o comentário do que acreditava que devia estar.
— Pode ser, eu acho. De qualquer jeito, as joias não eram minhas. Eu provavelmente deixaria a polícia vir se vocês estivessem mexendo nas minhas HQs.
— AI, PARA! VOCÊ É NERD! — deu um grito e bateu a mão na mesa, com força, assustando mais uma vez. — Nunca achei que eu veria um engomadinho com bom gosto.
— Jura? Eu também nunca pensei que veria uma criminosa com bom gosto.
— Já falei que eu não sou bandida — riu, e se levantou, alongando os braços. — Você é uma caixinha de surpresas, sabia?
— E olha que você nem viu a biblioteca.
— Bom, vai ficar para outro dia. Agora eu preciso ir, quero chegar em casa antes de escurecer.
seguiu a garota em direção à porta de entrada.
— Calma aí, calma aí. Vocês deram sorte de entrar enquanto meus pais estão viajando, mas não acho que eles gostariam de ver uma estranha por aqui.
— Sorte não, meu amor, foi competência. A gente sabia que eles não estavam na casa.
cruzou os braços e encarou nos olhos, com desdém.
— Se fossem competentes, mesmo, saberiam que eu estava aqui. Se você for tão boa cozinheira quanto invasora, acho melhor repensar a carreira.
— Quanto a isso pode ficar tranquilo, playboy. Não fui eu quem repetiu a salada de frutas, mesmo com aquela granola horrorosa, não é? Aliás, se vocês acham que estão sendo “saudáveis” comendo aquilo, melhor prestar atenção na quantidade de xaropes industrializados que tem lá.
— Quem faz a granola é a personal trainer da minha mãe.
— E me deixa adivinhar, os exames da sua mãe continuam obrigando ela a continuar em constante acompanhamento médico e com a personal? — abriu a boca para responder, mas desistiu. — Imaginei. Talvez seja a hora dela procurar uma profissional mais honesta, conheço algumas nutricionistas excelentes para indicar.
abriu o portão e saiu.
— Muito bom conversar com você, . Quem sabe a gente se encontre quando seus pais viajarem de novo.
Com um último aceno, a garota seguiu seu caminho, deixando o rapaz pensativo para trás.

lia a descrição dos ingredientes da granola quando ouviu a porta da casa se abrindo. Imaginava que teria o resto do dia para si, sabendo que Amelia normalmente passava as tardes no escritório de Arthur quando voltavam de viagem pela manhã, mas foi pego de surpresa pela mãe entrando na sala de jantar.
, bom dia, querido — Amelia olhou em volta, e estranhou ao ver o café da manhã modesto do filho. — O que aconteceu, ? Rosa resolveu deixar você morrer de fome enquanto eu estava fora?
— Oi, mãe. Como foi a viagem? Aproveitaram a estadia? O pai está bem? — fez o melhor que pôde para disfarçar a irritação com a postura da mãe logo pela manhã. — Eu dispensei a equipe por esses dias. Queria a casa inteira para mim — achou melhor mentir do que dizer para a mãe que achava estúpida a quantidade de pessoas que viviam em função daquela casa, e que Rosa, que era cozinheira, babá, faxineira e companheira do garoto desde a infância, merecia uma folga muito bem remunerada.
— Ah, , é exatamente por isso que nós saímos tão pouco. Você parece ter dez anos. A casa precisa de manutenção constante, e é para isso que nós pagamos, e muito bem, cada um de nossos funcionários. Francamente, aos vinte e cinco anos eu esperava mais de você, um administrador formado com honras.
Amelia entrou na cozinha, irritada. Voltou alguns minutos depois, com um copo de suco em uma mão, e a sacola da confeitaria de na outra.
— De onde surgiu isso, ?
O rapaz engoliu em seco antes de responder.
— Eu, ahn, comprei para a senhora. Imaginei que depois de uma semana inteira focada nos preparativos do casamento, a senhora merecia um presente.
— Hm — encarou a sacola e leu atentamente as informações estampadas ali. Nunca tinha ouvido falar daquela confeitaria, e quando leu o endereço, entendeu o motivo. — E como você descobriu esse lugar?
— Ouvi falarem sobre a loja, no campus da faculdade. Parece que é um negócio familiar, muito bem recomendado, e considerando que vocês estão bem próximos do senador, agora, achei que seria legal conhecer melhor os pequenos empreendedores locais.
Amelia encarou o filho e abriu o pacote. Encontrou uma bela torta de maçã que podia ter sido usada em um filme, de tão bonita e característica. Se rendeu ao aroma e cortou um pedaço. Naquele momento, soube que precisaria ter uma torta de maçã por perto sempre que a mãe ficasse estressada.
, isso está absolutamente fantástico. Pegue, experimente um pedaço — passou a torta e a faca para o filho, enquanto dava mais uma mordida. — Onde será que a cozinheira estudou? Ah, que pergunta! Com certeza foi na França. Mas por que será que alguém desse porte abriria uma confeitaria nessa região da cidade? Claramente teria clientes mais, bom, apropriados, se o ateliê fosse por aqui.
aproveitou que estava mastigando para evitar responder a mãe. Desgostar do tom dos comentários era apenas a ponta do iceberg, quando ele sabia a verdade por trás da bela torta.
— Querido, verifique o horário de atendimento deles, por favor. Quero marcar uma degustação. Em uma apresentação mais sofisticada, essa torta comporia uma belíssima mesa de café para o encerramento do jantar, e como você disse, apoiar o negócio local será bom para o senador. Quero ir o mais rápido possível, e você será meu motorista, já que dispensou Alfred.

A batida na porta obrigou e Isabelle a interromperem o trabalho. Esperavam a cliente para uma degustação de última hora, e organizaram da melhor forma o pequeno quartinho da casa que tinham transformado em escritório. Isabelle gostava de alugar uma sala comunitária um pouco mais no centro da cidade para as degustações, e lamentava não ter tido tempo para se programar para o atendimento.
Respirando fundo, Isabelle abriu a porta para receber a cliente.
— Boa tarde, sejam bem-vindos. Amelia, certo?
Amelia tentava disfarçar a confusão. Quando marcou a reunião, não imaginava que aquele seria o local onde seria recebida. Se segurou para não torcer o nariz ainda no carro, quando percebeu o olhar de , repreendendo-a.
— Olá. Sim, sou Amelia , e esse é meu filho, .
— Entrem, por favor. Essa é , minha filha e parceira de negócios. Querida, pode preparar um café para nós, por favor? — , ainda de olhos arregalados e segurando a risada, deu um aceno com a cabeça e saiu rumo à cozinha. — Vocês podem me acompanhar até o escritório, por gentileza.
— Ah, senhora, será que eu poderia usar o seu banheiro, antes?
— Claro, . É a segunda porta à esquerda, no corredor.
— Obrigado.
seguiu as instruções, e desviou a rota quando viu as duas mulheres desaparecerem na extremidade oposta do corredor. Atravessou a sala e encontrou na cozinha.
, então, não é? — A garota perguntou, retórica, ao perceber o rapaz ali. — Imaginei que nós só nos veríamos de novo quando seus pais viajassem.
— Como você disse, eu sou uma caixinha de surpresas — respondeu nervoso, passando a mão pelos cabelos. — , posso te pedir um favor?
— Segunda porta do corredor, à esquerda.
— Não, não o banheiro, sua mãe já me explicou onde fica. É só que... seria bom se a minha mãe não soubesse que a gente se conhece.
olhou para , com uma das mãos na cintura e uma cara que diz “está achando que eu sou idiota?”.
— Você não achou mesmo que eu fosse chegar lá falando sobre como a coleção de joias dela é linda, mas que talvez ela tivesse alguma coisa a ver com a possível extinção de várias espécies de répteis, achou?
A chaleira apitou, indicando que a água do café estava quente, e salvou de precisar responder aquela pergunta.
— Olha, você deixou uma torta de maçã em casa, ontem, e ela achou e eu tive que dizer que ouvi uns colegas da faculdade falando sobre a confeitaria e comprei de presente para ela.
— Ai, meu Deus, garoto — respirou fundo, pensando. — Ok. Você disse como comprou?
— O que? Não. Por quê?
— Diga que eu estava passando de porta e porta oferecendo os doces e você quis comprar. Minha mãe fez uma torta a mais para a encomenda que eu fui entregar, e eu não avisei a ela para não ter que explicar que esqueci a bendita na casa que eu e meu irmão invadimos alguns dias atrás. Posso dizer que vendi no caminho e esqueci de comentar a respeito, e nós dois nos livramos dessa história.
piscou algumas vezes.
— Já pensou em cursar artes cênicas, ? Ou escrever um livro, talvez. E, espera, irmão?
— Ah, cala a boca — terminou de colocar as xícaras de café numa bandeja de madeira entalhada à mão. — Vem, antes que pensem que você desmaiou no banheiro.

Amelia abocanhava o quarto docinho quando e entraram no escritório. Pela expressão de Isabelle, sentia que a reunião havia começado bem.
— Vejam só quem eu achei perdido pelo corredor — a garota serviu as xícaras de café.
— Ah, querida, perderia a cabeça mesmo estando presa ao pescoço se fizesse um esforcinho — Amelia brincou, e o filho ficou surpreso em ver a mãe tão relaxada. — Experimente os doces, , venha. Que bela peça rústica, essa bandeja. Isabelle, se me permite perguntar, onde você a comprou?
— Essa é uma peça exclusiva, e me custou vários corações partidos na adolescência, até aprender a escolher um bom namorado — Isabelle riu, divertida. — Luke, meu marido, é marceneiro, e quando não está trabalhando na gráfica, faz essas obras de arte.
— Gostaria de fazer um orçamento com ele para alguns itens, quando for possível. Estamos redecorando a casa, e o estilo rústico está em alta.

Ao final da reunião, depois de vários docinhos, biscoitos e o café, Amelia e Isabelle resolveram fechar contrato.
, conforme conversei com Amelia no início da reunião, vamos precisar do serviço de barista no jantar de noivado que ela está organizando. Aliás, Amelia, me desculpe, nos empolgamos com os biscoitinhos e eu esqueci de perguntar os nomes dos noivos.
— Sinto muito, Isabelle, mas temos um código de confidencialidade para esse evento. Alguns dos envolvidos são pessoas públicas e nós gostaríamos de manter seus nomes preservados até o jantar.
respirou fundo e soltou o ar devagar, e pensou se deveria contar a verdade a .
— Ah, não tem problema. Nós gostamos de manter os registros com os nomes dos clientes finais, mas sendo assim, tudo bem. Bom, , acredito que seja necessário levar para a montagem da mesa, já que você estará ocupada, mas pela quantidade de convidados imagino que não precisaremos de outra barista.
Amelia sorriu, impressionada.
— Sua filha é barista? Tão jovem?
é meu braço direito, esquerdo e as duas pernas na confeitaria — Isabelle respondeu, orgulhosa. — Além de cuidar da loja online e fazer entregas, é uma confeiteira de mão cheia e talentosíssima como barista. Foi convidada para o curso quando trabalhava em uma cafeteria, durante o colegial, e atendeu o dono de uma escola, que virou cliente fiel.
— Mas que maravilha! , que mina de ouro você encontrou aqui, querido.

Isabelle e a filha guiaram os clientes até a porta.
— Foi um prazer recebê-los, Amelia. vai enviar o que conversamos por e-mail, e assim que você nos confirmar que está tudo certo, montamos o contrato.
— O prazer foi meu, querida. Aqueles doces estavam divinos. , foi um prazer conhecê-la. O café também estava excelente.
— Obrigada, senhora . Aliás, se não for muita intromissão da minha parte, posso perguntar qual é o modelo do seu carro? Meu irmão é um entusiasta, e acredito que vocês tenham percebido que nós não vemos muitos carros assim aqui na região.
— Ora, pergunte à vontade. , qual o modelo do seu carro, mesmo? Eu não entendo nada de carros. Não sei distinguir uma caminhonete de um carrinho de pipoca.
— Não seja exagerada, mãe. É um Maybach G650 Landaulet.
— Um Maybach? vai ficar doido quando souber.
Se despediram finalmente, e e a mãe voltaram para o escritório.
Isabelle parecia intrigada.
, seu irmão nunca se interessou sequer por um carrinho de brinquedo na infância. Que pergunta foi aquela?
— Ah, fiquei curiosa. Quis saber o que o herdeiro da maior rede de comunicações do país dirige.


“Oi, playboy. Tudo bem?”
analisava a mensagem recebida de um número desconhecido há alguns minutos. Ele não tinha dúvidas de quem a teria enviado, mas não se lembrava de ter passado seu número à garota.
“Prefiro não perguntar como vc conseguiu meu número, . Estou bem, e vc?”
“Estou ótima :)
Sua mãe passou seu telefone como opção de contato pro jantar.
Vai estar ocupado hj à noite?”
“Acho que não. Vc quer invadir a minha casa de novo?”
“Você tem uma péssima ideia de mim, garoto, credo.

Me encontra no parque perto da sua casa, na portaria 2, às 20h. Nós temos uma festa pra ir ;)”
“Festa? , que festa?”
“Ah! Melhor usar uma camiseta branca velha, viu?”
Esperou mais alguns minutos, mas não deu mais nenhuma explicação sobre a festa misteriosa. Imaginou se seria mais uma festa clandestina que e os amigos organizavam, e se teria que invadir alguma casa da região.

Era definitivo.
podia tatuar “capacho” na testa sem nenhum peso na consciência, com total comprometimento com a verdade, bem ao gosto do pai jornalista.
Eram 19h55 e lá estava ele, no parque, vestindo uma camiseta branca velha, sem ter a menor ideia de para onde estava indo, como estava indo e quando (e como, para não dizer “se”) voltaria, esperando a garota mais louca que ele conheceu em vinte e cinco anos de vida.
— PLAYBOY!
Olhou para a saída do parque e viu acenando, junto à outra garota que estava brincando com as roupas de Amelia, mais de uma semana atrás. As duas usavam camisetas brancas e penteados espalhafatosos. analisou os acessórios que as amigas usavam, e quase o faziam acreditar que as roupas de gala da mãe eram discretas.
— Não é justo que você me chame de playboy o tempo todo sem que eu tenha um apelido idiota para você, também.
— Aí já é problema seu, meu querido. Não posso escolher meu próprio apelido, mas já adianto que se me chamar de bandida, eu não respondo — arqueou uma das sobrancelhas, e revirou os olhos, rindo. — Playboy, essa é a , a melhor fotógrafa de gambiarra que eu já vi. Pode deixar um Motorola V3 antigão na mão dela que a menina faz milagre.
— Claro que eu faço milagre, aprendi a tirar foto fotografando essa sua cara de sonsa. Prazer, playboy. A falou bastante de você e do seu, como é o nome, mesmo? Malbec?
— Maybach, .
— Foi o que eu disse — conferiu o relógio no pulso. — Vamos? A festa hoje começa cedo, e a gente tem chão para andar.
— Vocês estacionaram onde?
e olharam para , inexpressivas.
— Estacionamos no subsolo, mas acho que o manobrista já levou o carro para a próxima estação.
Percebendo a confusão de , se explicou.
— A gente vai de metrô, mané. Fala sério, esse playboy…

Depois de quarenta minutos amassados em uma lata de sardinha (ou, pelo menos, essa foi a sensação de durante toda a viagem; e pareciam bem), o trio finalmente chegou ao destino final. Caminharam por mais uns quarteirões e entraram em um galpão velho, com estilo industrial tradicional — o que queria dizer que ali realmente funcionava uma fábrica, nos seus dias dourados, mas os encanamentos e ferragens ainda estavam no local — e grandes panos envidraçados tampados por tecidos pretos.
Na entrada, dois caras grandes e fortes, com os rostos sérios e vestidos de preto conferiam as identidades e distribuíam pulseiras de cores diferentes para maiores e menores de idade.
— Fala, Steve! Devin! Não sabia que vocês iam trabalhar aqui, hoje. Como vocês estão? Temos bastante movimento?
— A casa está cheia, . O DJ Hemingway tem atraído cada vez mais público.
— Acho que está na hora de começar a tirar fotos com ele e publicar com a legenda “conheci antes da fama”, porque o garoto vai longe.
— Ah, não deixem ele ouvir isso — riu, e abraçou os seguranças, acompanhando para dentro da festa. — Pegou sua pulseira, playboy? Esse aqui é o , meu amigo mauricinho.
— Se não estivesse com você, , o cara não entrava, viu? Não gosto dessa gente se metendo aqui na nossa área.
— Fica tranquilo, Devin, que esse aqui é inofensivo. Lembra aquele Maybach que estava na porta da minha casa, no outro dia? Aquele jipe azul bonitão que você gostou? É dele.
olhou de para o segurança, tentando se localizar na conversa. Por que raios falavam tanto do carro dele?
Devin, por outro lado, abriu um sorriso e deu um tapa amigável, porém nocauteador, no ombro do rapaz.
— Se o cara tem bom gosto para garotas e carros, então eu perdoo. Aproveita a festa, maninho, o DJ é muito bom — piscou para , que sorriu e puxou para dentro.
— Puxa saco! Vou nessa, rapazes. Vocês fecham as portas que horas?
— Hoje é matinê, , fechamos às 23h.
— Beleza. Encontrem a gente perto do bar quando entrarem, então.

À esquerda, na direção da porta de entrada, ocupando quase toda a parede, ficava o palco com a cabine do DJ, agora ocupada pelo ascendente DJ Hemingway. Em outros eventos, ali se apresentariam bandas completas, pequenas orquestras compostas por músicos e estudantes da região, grupos de dança e toda sorte de talentos que pudessem ser encontrados na área. arrastou para a direita, onde encontraram esperando por eles com um pote de tinta e o rosto pintado.
— Vira essa fuça para cá, . Deixa eu te deixar bonita em neon.
Finalmente a camiseta branca fez sentido para . Para onde quer que olhasse, via diferentes estampas e maquiagens criadas com a tinta neon, que brilhava sob o jogo de luzes negras.
terminou o trabalho e entregou o pote de tinta para .
— Vem cá, playboy. Fecha os olhos.
obedeceu. Ficou desconfortável com a sensação da tinta gelada na pele, mas podia se acostumar com o toque de . Imaginou se as mãos da garota seriam delicadas por causa dos anos dedicados à confeitaria, ou se seria boa confeiteira por conta da suavidade de suas mãos. Qualquer uma das opções parecia válida para ele, e explicavam a expressão “mãos de fada”.
— Pronto, . Já pode entrar para o elenco do próximo Avatar. Vem, vamos encontrar os outros.
O trio andou pelo espaço, cumprimentando alguns conhecidos e desviando de outros, até avistar duas figuras masculinas num canto menos movimentado, acenando para eles. Conforme se aproximavam, ouviram o DJ anunciar uma pausa, dando espaço para outros se apresentarem.
— Mark! Dean! O Steve deixou vocês entrarem?
— Larga de ser chata, . Ele sabe que foi um acidente, não tem motivo para ficar bravo com a gente.
— Acidente, Mark? Vocês acenderam fogos de artifício dentro do galpão! O Steve teve um trabalhão para explicar o que aconteceu para o pessoal do seguro.
— Mas foi um acidente! A gente não sabia que aquele fiozinho era um pavio.
— A partir de agora, eu só chamo vocês de Merry e Pippin.
riu, concordando com os apelidos.
— Vocês estão assustando meu convidado. Esse aqui é o , o cara que salvou a gente da polícia. Playboy, esses são Mark e Dean. Eles estavam dando um uso decente para a sua sala de jogos junto com o , enquanto eu e a brincávamos de Gisele.
— Quem está falando meu nome em vão, aqui? — se juntou ao grupo, passando um braço pelo pescoço de e outro pelo de , e dando um beijo em cada uma das garotas. — Quem é esse cara?
— Seu irmão é o DJ Hemingway, Stacy?
— Pois é, somos uma família cheia de artistas. , esse é o cara do Maybach. E quem diabos é Stacy?
— O que diabos é um Maybach? — discretamente pisou com toda a força que tinha no pé do irmão, que tentou corrigir o que tinha dito, lembrando da história que tinha combinado com ele. — Digo, um carro daqueles? O que é aquilo, né? Um absurdo, mesmo.
— É, imagino que para um entusiasta, ele seja interessante, mesmo. Eu entendo pouco de carros, para ser sincero — coçou a cabeça, desconcertado. Sempre se sentia assim quando outras pessoas se empolgavam com coisas da sua vida em que ele próprio nunca tinha prestado atenção. — Ah, Stacy é de Stacy London. Acho que é um bom apelido para você, já que “bandida” você recusou.
Mark, Dean, e se entreolharam, sentindo que não faziam parte daquela conversa. Usaram a desculpa de pegar bebidas para o grupo, no bar, e saíram dali, deixando a dupla sozinha.
— Stacy também é um apelido péssimo, mas como você não parece ter o mesmo talento que eu para esse tipo de coisa, vou dar um desconto.
— Quando eu descobrir que tipo de nerd você é, por que eu sei que você é!, eu arrumo um apelido melhor.
— Justo — riram, como já estava virando hábito fazer, quando estavam juntos. — O que está achando? Muita farofa perto dos jantares elegantes e eventos beneficentes lá em Upper East Side?
começou a observar as pessoas dançando, bebendo, se beijando, discutindo, falando e rindo alto, sem vergonha, sem etiqueta, sem sobrenome de família pesando nos ombros.
— Por um lado, não é muito diferente das festas que eu costumava ir durante o ensino médio e faculdade. Os Chucks, Blairs e Serenas são bem mais comuns na vida real do que parece, mas os filhos da mãe sabem disfarçar. Já os jantares são o que realmente me incomoda. Não existe uma única vez em que aquelas pessoas se juntem sem passar o tempo todo falando de negócios, política, investimentos e quais foram as últimas conquistas, quem tem o filho ou filha mais exemplar, qual esposa é mais dedicada, quem recebeu mais homenagens pelos feitos dos funcionários que eles nunca souberam sequer o nome.
Respirou fundo, e fechou os olhos por alguns segundos. Nunca tinha falado nada daquilo em voz alta, muito menos cogitado compartilhar com alguém. Talvez conversar com alguém de fora daquele mundo fosse exatamente o que ele precisava, e ele tinha muita coisa para tirar do peito.
— A hipocrisia é enorme, sabe? As bebedeiras, as drogas, as traições, os desvios de dinheiro, os filhos em clínicas de reabilitação ou engravidando na adolescência, as brigas, é tudo velado. Eles se vestem bem, e falam difícil para mostrar que são a tal “elite” que meu pai ajuda a promover, mas aquilo lá é um ninho de cobras. Então posso te dizer que eu estou achando isso aqui maravilhoso — riu, fazendo sorrir também, solidária. — Não é ofensivo se divertir aqui.
Foi a vez de olhar ao redor. O foco da festa era o público jovem, claro, com música eletrônica e luzes estroboscópicas no palco, mas ela via famílias, adolescentes, amigos, pessoas com quem ela cresceu, que ela considerava extensões da própria família. Estavam rindo, brincando, se divertindo juntas, se ajudando, tomando conta uns dos outros. Ali soube que nunca se esqueceria do contraste das palavras duras de com o momento leve que viviam, e se sentiu grata pela vida que tinha. Ouviu suspirar mais uma vez, e tomar fôlego para continuar a falar.
— Sabe o que eu invejo em você, ? Em todos vocês? A liberdade. Você pode achar que ter dinheiro e contatos me dá acesso a muitas oportunidades, lugares novos, facilidades e tudo mais, mas não funciona sempre assim — a garota levantou uma sobrancelha, questionadora, quase sarcástica. — Não sou idiota, , sei que ser filho das pessoas certas me colocou em vantagem desde o berço. Só não sei se a vantagem realmente foi para mim. Passei a vida toda abrindo mão do que eu queria e concordando com os planos dos meus pais para mim. O noivo do jantar em que você vai trabalhar sou eu, e a minha querida noiva é a filha de um senador que prometeu um acordo sem prazo de validade determinado ao meu pai. Para manter tudo tão legal quanto for possível, eles precisam de um vínculo familiar e herdeiros que possam assumir as propriedades e as contas milionárias que fazem parte do combinado deles.
não sabia como reagir. Como processar aquela torrente de informações e emoções contidas por tanto tempo? Como lidar com o fato de que o filho de um dos homens mais poderosos do país tinha acabado de desabafar suas dores mais profundas com ela, no meio de uma festa em um galpão abandonado, coberto de tinta neon e luz negra?
Foram tirados de suas respectivas linhas de pensamento quando o restante do grupo voltou do bar.
— Credo, gente. Vocês estão com aquela cara de quem fala sobre coisas sérias e profundas, e normalmente tem mais de cinquenta anos. Toma, álcool. Vai ajudar.
deu um drink para cada um, e eles decidiram tentar aproveitar a festa.


Dez pessoas estavam sentadas à mesa, naquele dia. O almoço seria a última conversa que teriam a respeito dos detalhes do grande jantar de noivado de e Victória McKenner, devido à agenda conturbada do pai da noiva. Também devido a esse fato, Amelia e Joanne estavam à beira de um ataque de nervos, pois teriam que improvisar o ensaio do jantar durante o almoço. Contavam com a presença das secretárias diretas de Arthur e Callum, a assessora de eventos que gerenciava os planos de Amelia e Joanne, e sua assistente.
e Victória também estavam presentes, embora um deles estivesse mais em corpo do que espírito.
— Depois que o buffet retirar a louça e a prataria do jantar, você vai se levantar, dar dois toques com a faca na taça com champagne que o maître deixará na mesa, e fará o anúncio do noivado conforme o roteiro que eu te passei para ensaiar, certo, ? ? !
— Oi! — O rapaz deu um pulo na cadeira com o susto que tomou. Amelia não era de elevar o tom de voz, então a situação devia ser séria. — Desculpe, o que? Não ouvi o que você disse, mãe, sinto muito.
— Francamente, , em que você estava prestando atenção?
— Desculpe. Era um e-mail de um professor da pós, eu precisava responder a respeito de um projeto paralelo que ele quer desenv—
— Tenha dó, responder e-mails durante o ensaio do seu jantar de noivado? — Amelia cerrou os punhos e pegou a taça de vinho que tomava. Respirou fundo, contando até dez, e desistiu do vinho. Arthur lançou ao filho seu olhar mais severo, que havia sido motivo de traumas de infância que o rapaz ainda carregava.
— Termine logo isso. Quando eu voltar a falar com você, é bom que tenha cada palavra do seu discurso na ponta da língua. Vamos repassar a sua parte, Victória, querida. Sinto muito pela postura do seu futuro marido.
sentiu o telefone vibrar e parou de prestar atenção na conversa que acontecia na mesa, mais uma vez.
“E aí, funcionou?”
“Ela acreditou que vc é meu professor, mas acho que eu tenho que me concentrar no que eles estão falando. Já ouviu falar de filicídio? Minha mãe está prestes a perder o réu primário dela comigo”
, sua mãe tem a estatura da Madre Teresa, um pouco bombada do pilates, talvez. Deixa de drama. Vc ensaiou aquele discurso?
“Não D:

E apaguei a foto do texto que eu te mandei. Consegue mandar de volta para mim?”
*Stacy enviou uma foto*
“Aqui, seu administrador de araque. Agora decora esse negócio e coloca o celular pra gravar um áudio quando for recitar o poeminha. Quero fazer parte desse momento :))”
“Só não fico bravo com vc por rir da minha cara pq vc salvou a minha pele.
Preciso ir. Quando me livrar disso aqui, te aviso, oh, anjo salvador.”
“Olha só, achou um apelido decente pra mim, finalmente :D
Aguardo notícias suas ou da prisão da sua mãe, o que vier primeiro”
Focado no celular, não percebeu que havia deixado escapar um sorriso, discreto, mas não invisível. Também não percebeu que Victória analisava atentamente o comportamento do noivo.


No outro canto da sala, afastados da mesa e da discussão fútil sobre garfos de peixe e serviço à francesa, Arthur e Callum tratavam outro assunto importante.
— Você me prometeu que estava tudo resolvido com o garoto, Arthur. Esse jantar é fundamental para que tudo corra como planejamos, e se não estiver com a cabeça no lugar, não vai adiantar de nada.
— Pode ficar tranquilo, Callum, eu eduquei bem o meu filho. Ele pode estar distraído agora, mas sabe muito bem o que acontece se alguma coisa der errado nesse jantar.


O grave do contrabaixo ressoava no quarto, prolongando o último acorde por alguns segundos. O programa no computador indicava o fim da gravação. Pegando o microfone e a folha com a letra da música escrita à mão, iniciou a gravação novamente. Com algumas tentativas, conseguiu o resultado que queria. Guardou o equipamento e começou a editar o que seria a versão final daquela música.
Tinha que admitir, adorava ser o DJ Hemingway nas horas vagas. Conseguia bons trabalhos e, com eles, pagava os equipamentos que precisava para produzir as músicas que compunha, comprava instrumentos novos e melhorava o estúdio de filmagem amador que usava para gravar seus vídeos para o Youtube, onde fazia a maior parte da divulgação do seu trabalho. Mas sonhava em ser Noel Gallagher, e não Alok.
Enquanto o programa salvava o arquivo finalizado, começou a ajustar a câmera e limpar o cenário para gravar o vídeo de si cantando um trecho da música, que seria postada em algumas plataformas. Estava prestes a dar o primeiro acorde quando seu telefone tocou.
— Alô?
Boa tarde. Meu nome é Elizabeth. Gostaria de falar com , por favor.
Sou eu. Do que se trata?
Senhor , eu falo da Crystal Clear Studios. Nossos caça-talentos viram alguns vídeos do senhor e do “DJ Hemingway”, e nós gostaríamos de convidá-lo para uma conversa na próxima semana. Acreditamos que possa ser o início de uma grande parceria.
derrubou o celular, e tentou pegá-lo de volta, antes que caísse no chão e fizesse um barulho bem estranho do outro lado da linha, completamente sem sucesso. Queria gritar, chamar a mãe, o pai e a insuportável da irmã, mas colocou o telefone de volta na orelha e agiu como adulto.
— Si-iIM — droga, fim de puberdade! E “sim”? Sim o quê, ? Limpou a garganta. — Sim, tenho agenda livre semana que vem.
Podia sentir sua consciência se estapeando de vergonha.
Havia enviado alguns vídeos seus, tanto como quanto como Hemingway, para algumas gravadoras, algumas semanas antes, mas o máximo que conseguiu como resposta foi um e-mail automático agradecendo o contato e dizendo que analisariam as submissões. Ninguém retornou, até agora.
Crystal Clear era o estúdio que produzia alguns dos nomes mais populares das rádios atuais, incluindo, mas não limitado a Drake, Billie Eilish, Post Malone, YUNGBLUD e vários outros artistas em que também se inspirava, como Mumford & Sons e Kings of Leon. Tinham destronado a Sony Music alguns anos antes e lideravam o mercado musical.
Fico feliz em ouvir isso, Senhor . Se sua agenda estiver livre, podemos marcar para quarta-feira, às 14h?
— Podemos. É, podemos, sim.
Perfeito! Aguardamos o senhor para uma conversa, então, Senhor . Até breve.
— A-até.
Os próximos quarenta segundos foram passados com exaurindo o ar dos pulmões numa nota só contra o travesseiro. Queria ter gritado sem o travesseiro, mas Isabelle estava assando suflês, e tinha regras rígidas quanto a barulho na casa enquanto essas belezinhas estivessem no forno.


Finalmente era sábado.
e terminaram de descarregar a mini-van emprestada do tio nos fundos da casa do Senador McKenner. Sabiam que o homem era influente, mas não se surpreenderam ao reparar que a casa dos era ainda mais luxuosa. Ao que parece, ser dono de toda fonte de informação e cultura de um país concedia a Arthur mais poder e dinheiro do que a vida inteiramente dedicada à política de Callum.
começou a montar a mesa de café no local indicado pela equipe de assessoria, enquanto se arrumava para o trabalho. Amelia havia passado algumas instruções bastante rigorosas quanto à etiqueta, código de vestimenta e maquiagem, entre outras coisas que teria que se preocupar. Ajudou o irmão a finalizar a mesa e repassou todo o cronograma do jantar com a assistente da organizadora. Em sua própria prancheta, destacou alguns acontecimentos importantes (o discurso mal ensaiado de definitivamente era um deles) e o momento em que ligaria as cafeteiras para se preparar para o serviço, que começaria somente no final do evento. Acompanhou até uma antessala reservada para a equipe, onde ficaria até a hora certa.

O início do segundo discurso do senador indicava também o início do trabalho. entrou no salão principal e começou a fazer sua mágica. Conforme o político (agora, pai da noiva) falava, o cheiro de café fresco começava a perfumar o local. olhou para o fundo do salão, procurando a amiga, e abriu o primeiro sorriso genuíno do dia quando a viu. Por baixo da mesa, sentiu o tapa da mãe em seu braço, reprovando a atitude do garoto.
Quando Callum finalmente terminou de falar, o café foi anunciado, marcando a última meia hora do evento, para alívio de . Levantou-se apressado e foi até .
— Boa noite, senhor. Minhas felicitações aos noivos. Como posso servi-lo hoje?
— Vai se danar, . Preciso de um café forte e muito açúcar. Me passa aqueles biscoitinhos, por favor.
A garota encarou , se divertindo com o jeito do amigo, mas conhecendo a situação em que ele se encontrava, se compadeceu. Preparou uma bela xícara de café e entregou a , com uma porção dos melhores biscoitos amanteigados que tinha na mesa.
— Sabe, Stacy, é muito bom que você esteja aqui, hoje. Acho que eu teria surtado sem um rosto familiar por perto, mesmo que seja o de uma doida varrida.
sorriu para o senhorzinho a quem entregava um cappuccino e cumprimentou o convidado seguinte. Se abaixou para pegar os ingredientes que precisava e sussurrou para :
— Meu anjo, não sei se você se lembra, mas tecnicamente a gente não se conhece, então para de falar comigo como se eu fosse sua velha amiga de escola! E toma tento na vida, rapaz, você vai acabar com os meus biscoitos. Devolve isso aqui.
pegou o potinho de biscoitos e colocou de volta na mesa. , insatisfeito, pegou o pote de volta.
— Eu sou o noivo, tenho direitos aqui.
— E responsabilidades, também. Principalmente, responsabilidades — Amelia se aproximou, e ralhou com o filho, por entre os dentes. — , se comporte. Volte para o salão, vá ficar com a sua noiva, e deixe a garota trabalhar, antes que eu precise conversar com o seu pai. Daqui a pouco os convidados vão achar que você está flertando com a barista no meio do seu jantar de noivado.
Parecendo sentir algo entre vergonha e medo, abaixou o olhar, e voltou para a mesa principal, reservada para os noivos e suas famílias. observou a postura de Amelia se contrair e seu peito inflar na tentativa de se recompor. Direcionou um sorriso diplomático à garota, murmurou algo para um garçom e entrou em uma sala reservada. A garota assistiu o garçom entrar na cozinha, voltar com uma bandeja tampada por uma cloche e entrar na mesma sala reservada, seguido por um Arthur bravo. Viu também e Victória conversando, posando para fotos e aceitando cumprimentos e presentes de diversos políticos e figurões do jornalismo e do entretenimento.
Enquanto preparava a bebida de outra convidada, percebeu que havia muito tempo desde a última vez que tinha se sentido completamente inapropriada em algum lugar, e não gostava da sensação.


mexeu nos fones de ouvido mais uma vez. Já tinha checado todas as redes sociais que possuía, e não encontrava mais nada para se distrair do nervosismo crescente que sentia. Ajeitou-se mais uma vez na grande e confortável poltrona da sala de espera da Crystal Clear Studios, e continuou aguardando até que seu nome fosse chamado. Ainda se perguntava se não mencionar a reunião aos pais e à irmã era a melhor decisão que ele poderia ter tomado, mas não queria criar expectativas. Ouviu a porta da sala de reuniões se abrir, e se levantou, dando de cara com o homem que saía de lá.
? O que você está fazendo aqui?
? Eu que te pergunto. Você é músico, também? Estava em reunião?
— Não, estava só conversando com o meu pai. Você tem uma reunião com ele?
— Tenho, eu acho. Seu pai trabalha aqui?
— É, é o dono.
detestava dizer isso, mas a única coisa que expressava era esclarecimento.
— Não sabia que a Crystal Clear era do grupo . Até que faz sentido — mexeu nos fones mais uma vez, e tomou um susto quando ouviu Arthur chamar seu nome. — Olha, eu preciso ir. Foi bom ver você. Excelente buffet no jantar, aliás.
— Obrigado, eu acho. Boa sorte na reunião, ele está de bom humor, hoje.
— Obrigado.
Sorriram gentilmente e viraram as costas um para o outro, seguindo em direções opostas. parou no meio do caminho e deu meia volta, chamando que já estava quase batendo na porta.
? — Recebeu um olhar confuso em resposta, e continuou. — A está bem? Ela saiu sem se despedir, no sábado, e eu não tive notícias dela desde então. Não respondeu nenhuma das minhas mensagens.
suspirou. Pensou muito bem em como responder aquela pergunta.
— Está, está sim. Acho que voltou do jantar cheia de ideias, ou coisas na cabeça. Honestamente, eu nunca sei diferenciar os surtos criativos da , dos surtos normais. Disse que precisava de um tempo para ela. Coisa de mulher, eu acho.
— Ah, tudo bem, então. Diz para ela que eu falei oi, por favor.
— Pode deixar. Agora eu preciso ir — apontou para a porta e sorriu, sem graça.
— Claro, claro. Boa reunião.
— Obrigado.

Sentada na calçada, aproveitando o sol do fim de tarde, folheava o livro que tentava terminar há dias. Depois do terceiro cochilo involuntário, achou melhor deixar a leitura para depois. Fechou o livro no mesmo instante em que viu o jipe azul petróleo, ostentando o logotipo da Mercedes-Maybach, virar a esquina.
— Mas que droga, playboy…
estacionou na frente da casa dos , atraindo a atenção dos vizinhos. Desceu do carro, e ao ver a expressão no rosto da garota, se sentiu mal por estar ali. O sorriso dela era educado, mas não aberto como costumava ser. disse que ela queria tempo para ficar sozinha, e imediatamente se arrependeu de não ter respeitado isso.
— Oi — arriscou, inseguro.
— Oi, .
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
— Você está bem?
— Estou sim, obrigada. Você está?
— Sim, também — o rapaz calculava cada palavra com muita cautela. — Stacy, aconteceu alguma coisa no jantar? Você saiu sem se despedir, e não me respondeu mais. A minha mãe fez alguma coisa?
— Não, playboy, não aconteceu nada. Eu… eu não vi suas mensagens, meu celular deve estar com algum problema, só isso.
, se tem uma coisa que eu aprendi vivendo no meu mundo foi a ler as pessoas, e você é transparente como a água da piscina olímpica das olimpíadas gregas, na Grécia.
— Que droga de referência foi essa? — não resistiu, e riu.
— Desculpa, eu gosto de piscinas, e olimpíadas, e da Grécia.
sentiu o peso no peito diminuir ao ver a amiga animada, de novo.
— Me conta o que aconteceu, . Por favor.
— Mas não aconteceu nada, . Eu só entendi melhor como as coisas funcionam do seu lado da cerca branca, e fiquei pensando… — Ficou pensando em que?
— Se a nossa amizade faz sentido, playboy — a onda de frio que passou pelo corpo de ao ouvir dizer isso era mortificante. — Por Deus, você vai se casar, . O herdeiro do grupo e a filha do senador McKenner. E você ouviu a sua mãe, você tem responsabilidades e compromissos com coisas que passam muito longe de mim. E, por mais que a distância entre as nossas realidades não seja um problema, e não tenha sido um problema até agora, eu acho que, daqui para frente, esse contato vai ser cada vez mais inviável.
, você sabe que não precisa ser assim. Esse casamento, essas responsabilidades, não são escolha minha. Eu não posso mudar isso, mas não significa que não possa ser seu amigo, também.
— Mesmo que seja de fachada, playboy, você sabe o que um casamento exige? Comprometimento. Todo mundo acredita que vocês são um jovem casal apaixonado, e vocês precisam manter o teatro. Já te caiu a ficha de que você vai ter uma família, ? Vocês vão aos compromissos públicos juntos, vão viajar juntos, vão aos clubes de campo e de esqui juntos. Em qual desses cenários você consegue me imaginar, ? O que nós temos em comum? Você traria Victória para uma das nossas festas no galpão?
, por favor, não faz isso.
abaixou a cabeça e passou a mão no rosto, enxugando a lágrima que esperava ter passado despercebida pelo rapaz.
— Eu sou péssima com despedidas, , então, se você puder entrar de volta no carro e ir embora, eu acho que é mais fácil para nós dois. Não pense que eu fico feliz em fazer isso, mas espero que entenda que eu só estou tentando evitar mais dor no futuro.
— É isso que você acha que está fazendo? — A garota desviou o olhar. — Eu entendo, só… não concordo. Se você acha que vai ser melhor assim, se vai se sentir melhor desse jeito, tudo bem.
abriu a porta do carro, e brincou com as chaves.
— Obrigado pelas últimas semanas, Stacy. Fica bem.
Entrou no jipe, relutante, e deu a partida sem pensar muito. Qualquer minuto de reflexão poderia levá-lo a tomar decisões das quais provavelmente se arrependeria no futuro.

Naquele momento, cada um debatia com as próprias conclusões precipitadas a respeito de uma amizade totalmente inusitada, que deixaria marcas que eles só perceberiam no futuro. Mas como eles poderiam saber? O futuro nos reserva surpresas que o presente sequer pode imaginar.



Fim... (?)



Nota da autora:Oiê, Abelhas Rainhas!

Obrigada do fundo do meu turu-turu por terem lido Royals.
Nossos pps não sabem o que o futuro aguarda para eles, mas eu sei! HAHAHAH E em breve vocês vão saber, também. Royals é o prólogo de Lícito, que está no forninho e deve chegar por aqui nos próximos meses.
Deixo aqui meu agradecimento às meninas MARAVILHOSAS dessa equipe
incrível. Já disse, e reforço: vocês são anjos ♥

We’re bigger than we’ve ever dreamed
And I’m in love with being queen

Se quiserem ler mais produtos da minha imaginação destrambelhada e me acompanhar, a minha página de autora e outras redes estão todas aqui embaixo!




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