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Única atualização: 30/08/2020

Capítulo Único

– Vocês não são mais crianças, devem deixar a juventude pra quem pode gastá-la.
– Blá blá blá... – Resmunguei e revirei os olhos.
– E se eu ver você falando com aquele tal de Dean Winchester de novo, eu juro que mato ele! – Meu pai esbravejou e bateu a porta do meu quarto com força.
Eu não me deixei abalar. Não chorei, não gritei de volta, não soquei parede nem sequer elevei a minha frequência cardíaca. Aquela era a última vez em que aquilo aconteceria. Ele poderia até não me querer novamente perto de Dean Winchester, mas minha vontade era outra. Então, de acordo com o que tínhamos combinado mais cedo, peguei um pedaço de papel em um dos meus cadernos e comecei a escrever um breve bilhete.

Por favor, não me odeiem
Vocês me ensinaram a ir atrás dos meus sonhos
É isso que estou fazendo
Vou ficar bem
Mando notícias quando puder
E por favor, não odeiem o Dean
Ele é tudo o que eu sempre quis pra mim
Espero que possam me perdoar
Eu volto no dia que o aceitarem e me aceitarem de volta


Peguei uma das minhas maiores bolsas e joguei algumas peças de roupa lá, assim como materiais valiosos como minha câmera profissional e meu notebook. Sabia onde meu pai guardava uma boa quantia de dinheiro vivo em casa e, enquanto ele tomava banho e minha mãe finalizava a louça da janta, eu fui até lá e peguei uns maços. Às dez horas da noite, meu pai não iria contar dinheiro.
Enfiei o dinheiro em uma pochete, que escondi por dentro da blusa larga de moletom que estava vestindo. Juntei alguns calçados em uma mochila e arrumei para que o bilhete fosse a primeira coisa que vissem ao entrar no meu quarto. Às onze horas em ponto, eu ouvi o sinal que havíamos combinado. Olhei pela janela e Dean estava logo abaixo.
– Pode jogar a bolsa. – Ele murmurou.
– Tem certeza?
– Tenho sim.
Desci a bolsa até onde não podia mais, limitada pelo peitoril da minha janela. Ele esticou os braços para cima e eu soltei a alça. Dean, felizmente, a pegou. Deixou de lado e ergueu as mãos de novo.
– Mais o quê?
– Minha mochila, mas ela pode cair no chão.
– Vai fazer barulho.
– A gente já não tá fazendo barulho o suficiente?
Ele segurou a risada e manteve os braços esticados.
– Joga e depois vem.
– Tem certeza, Dean?
– Nunca vou te deixar cair, meu amor.
Ele abriu um dos sorrisos que me cativavam de longe e eu me preparei. Conferi os bolsos, joguei a mochila – que fez um considerável som abafado – e sentei no peitoril.
– Vem. – Dean me chamou mais uma vez. – Eles já me odeiam mesmo.
Quando ele deu de ombros, ouvi a porta do meu quarto sendo aberta.
, o que você fez com seu pai hoje...
Minha mãe perdeu a fala quando me viu na posição em que estava. Arregalei os olhos e acabei me jogando de qualquer forma. Eu caí por cima de Dean e nós dois fomos ao chão.
– Bill, do lado de fora, agora. – Minha mãe gritou da janela do meu quarto.
– Vamos. – Dean disse para mim, já ajeitando minhas bolsas em seus ombros e me oferecendo sua mão.
Nós corremos até seu Impala, jogamos tudo no banco de trás de qualquer jeito e, logo depois do meu pai irromper pela porta principal da casa, praguejando todo o possível e impossível, Dean arrancou com o carro, com minha mãe, em pânico, observando da mesma janela.
– Feliz aniversário, bebê. – Ele disse ainda na minha rua, se esticando rapidamente para me dar um beijo.
Andamos umas boas cento e cinquenta milhas, Dean não resistiu ao cansaço e encostamos em um motel de beira de estrada. O registro foi feito apenas em seu nome e usando o sobrenome do meio, que meu pai desconhecia e dificultaria o trabalho no caso de tentarem nos encontrar. Àquela altura do campeonato, pouco me importava. Aos meus vinte e sete anos, não havia muito que meus pais pudessem fazer para me impedir.
– Puta que pariu...
– O que houve?
– Essa merda tá enferrujada. – Ele me mostrou a chave do quarto.
– Deixa eu tentar.
Abaixei no corredor, abri um dos compartimentos da mala e puxei minha necessaire, pegando o óleo que usava para hidratar minha pele. Pinguei duas gotas na chave e encaixei na fechadura, forçando um pouco. Logo, a porta de abriu e Dean puxou eu e minhas malas para dentro, se virando para mim assim que fechei de novo a porta e prensando-me contra ela.
– Finalmente sós. – Ele disse com um sorriso e me beijou.
– Você não tinha que ir ver alguma coisa do carburador do carro?
Dean revirou os olhos mas não se afastou.
– Você sabe bem como arruinar o clima. – Ele riu. – Me ajuda?
– Claro. – Segurei sua mão e descemos novamente até o estacionamento.
Eu sentei no meio fio enquanto Dean, após pendurar uma lanterna na tampa do capô, examinava algumas peças. Fiquei olhando para a entrada do hotel, com medo de aparecer a polícia ou pior: meus pais. Não estava muito movimentado, mas a estrada estava, o que me dava a sensação constante de que alguém ia entrar por ali.
– Você tá com sono, , deveria descansar.
– Eu to bem. – Murmurei.
– Vem cá. – Ele fez um gesto de cabeça e, com a mão suja, abriu a porta dos bancos traseiros para mim. – Deita aqui. Já achei o problema, dá pra resolver. Vou só levar mais uns minutos e a gente já vai dormir, tá bem?
– Mas, Dean...
– Nada disso, você precisa descansar. – Ele insistiu.
Peguei um casaco dele que estava por ali e usei como almofada, apoiando a cabeça no vidro para relaxar e, ainda assim, ficar de olho nele pelo pouco que eu podia observar. O carro era grande e luxuoso, então eu tirei meus sapatos e botei os pés para cima. Os olhos foram pesando, fechando aos poucos, tornando a imagem cada vez mais escura, até que senti um vento frio nos meus pés. Dean havia aberto a porta.
– Vamos subir, minha garota?
– Você terminou?
– Terminei sim, tá novinho em folha. – Dean limpou as mãos em um pedaço de flanela. – Fiquei surpreso que você não acordou com o barulho da mala fechando.
– Devo estar com sono mesmo.
– Eu disse...
– Até onde você acha que dá pra rodar amanhã?
– Queria tentar andar, pelo menos, umas seiscentas milhas. Talvez até mais, não sei, depende de muitos fatores. Mas quanto mais rápido nos afastarmos daqui, melhor vai ser.
– Você acha mesmo que isso vai dar certo?
– O quê?
– Nós dois, Dean. – Eu respondi baixinho.
– Se você estiver arrependida, vou te levar pra casa. Sem mágoas. Não quero te obrigar a nada.
– Você não está obrigando, só não quero te trazer problemas.
– E você não está trazendo problemas para mim.
Chegamos à porta do quarto novamente e, dessa vez, ele que abriu. Assim que entramos, ele passou as mãos pela minha cintura e me puxou para perto.
– Onde é que a gente tava mais cedo? – Ele começou a me puxar na direção da cama.
– Dean, estamos sujos!
– A gente pede pra trocarem os lençóis.
No meio da nossa brincadeira, enquanto gargalhávamos, ele tropeçou no carpete e nós fomos cambaleando até a beira da cama, rindo como se não fossemos dois adolescentes em fuga. Bem... ‘Em fuga’, tudo bem, nós até éramos. Mas adolescentes? Na idade, não. No espírito? Talvez.
Fui acordada com leves beijos na manhã seguinte. Dean tocava em mim com cautela, como se eu fosse de vidro e precisasse ser segurada com firmeza. Ele me levou até o banheiro e me apertou contra a pia, ainda me beijando. A necessaire aberta sobre a bancada mostrava o batom, que eu retirei dela e fiz questão de escrever nossos nomes no espelho, desenhando um coração em volta dele. Quando Dean viu, abriu um sorriso quase felino e me levou para o chuveiro. Cerca de vinte minutos depois, me despedi da cama onde havia sonhado com uma vida sem problemas e nós partimos.



Trocamos os sonhos na cama pelo confortável não tão confortável assim banco do Impala na segunda noite. Podia até ser largo, mas nós precisávamos andar o mais rápido possível. Eu era filha do chefe de polícia do distrito em que morava, não ia demorar muito até colocarem o mundo atrás de mim. Quanto mais tempo nós passássemos em movimento, melhor seria. O trunfo que tínhamos era ninguém ter registro nenhum de Dean, informação alguma que pudesse indicar sua conexão com Bobby Singer, seu segundo pai e nosso destino final da Dakota do Sul. De Bangor, no Maine, minha cidade natal, até Sioux Falls, já levaríamos mais de longas vinte e sete horas. Desviando dos grandes centros e de possíveis bloqueios policiais, o trajeto levaria mais que o dobro do tempo e da distância.
, preciso de você descansada.
– Não vou dormir, Dean.
– Mas deveria. Não vai me ajudar de nada você aí piscando o olho.
– Tenho que garantir que você não vai dormir também.
– Eu estou bem, não se preocupe. Dormi o suficiente por nós dois.
– Dean...
– Vem cá. – Ele estendeu o braço por cima do encosto do banco e eu cheguei mais perto dele, apoiando a cabeça no seu ombro, gesto que ele aproveitou para deixar um beijo no topo da minha cabeça. – Não é tão confortável quanto a cama da noite passada, mas dá pra você dormir um pouco.
Você é mais confortável. – Eu murmurei.
Não adormeci, mas fiquei ali quietinha, sem perturbá-lo e prestando atenção na estrada. Estava até com sono, mas queria guardar para quando pudesse deitar ao lado dele em paz, nem que aquilo fosse demorar.
– Dean? – Chamei baixinho, ainda em seu ombro.
– Sim, meu amor.
– Jura nunca desistir da gente?
– Como assim?
Eu não estava observando, mas podia jurar qual era a sua expressão facial com aquela pergunta, a testa franzida e as sobrancelhas confusas.
– Da vida que estamos escolhendo com essa fuga. Do que nós vamos nos tornar daqui pra frente.
Ele deu uma risada baixa, confortante, e apertou o abraço em mim.
– Eu juro nunca desistir de você, bebê.
Beijei seu pescoço na área que estava alcançável para mim e nós continuamos por mais algumas horas. Em um posto que pareceu amigável o suficiente, ele encostou para abastecer e, logo, pegamos a estrada de novo, seguindo por uma via expressa pela primeira vez na viagem. O caminho se resumia a cintos de segurança, luzes vermelhas e faróis. Estávamos perto de um feriado grande, que provocava uma alta movimentação nas estradas, explicando o padrão que estávamos vendo. Ao menos, éramos só mais um carro no meio de centenas de outros.
Ok, não éramos só mais um carro. Éramos um Chevy Impala 67. Poucos carros faziam mais barulho que nós. Meu pai sabia que Dean tinha um Impala. Localizar nós dois seria mais fácil do que o previsto, mas demorar um século para chegar à Dakota do Sul também não era exatamente bom. E se Dean sequer imaginasse que eu pensei em tratar sua baby como ‘só mais um carro’, ele me mataria.
Ao lado, um SUV de luxo estava com um motorista ao menos cinco anos mais novo que eu, outro homem da mesma idade no passageiro e, no banco de trás, três garotas claramente mais velhas com rostos montados na ponta do bisturi. Eu me perguntei, silenciosamente, se eram “acompanhantes de luxo”. Ri sozinha com o pensamento, Dean me pegou no flagra.
– O que houve?
– A galera aí. – Apontei com o dedão para o lado. – Meu pai disse que nós não somos mais crianças e que deveríamos deixar a juventude pra quem podia vivê-la, ou qualquer coisa assim.
– Seu pai disse que nós não somos mais crianças ou que não somos mais jovens?
– Acho que os dois.
– Nós não vamos provar que ele tá certo, né?
Olhei para ele com um sorriso no rosto. No meio do tráfego intenso, Dean se esticou até a manivela do meu vidro e abriu a janela. Ligou o som e deixou que Born to Run, do Bruce Springsteen. Eu coloquei a cabeça para fora e, mesmo nas nossas trinta milhas por hora, deixei que o vento mexesse com o meu cabelo. Dean olhava para mim o quanto podia sem perder a atenção no que estava à sua frente com um sorriso no rosto.
In the day we sweat it out on the streets of a runaway American dream, at night we ride through the mansions of glory in suicide machines... – Puxei fôlego, não me importando com chamar a atenção de quem estava passando por nós. – Sprung from cages on Highway 9 chrome wheeled, fuel injected and stepping out over the line. Canta, Dean. – Pedi rápido, já seguindo com a letra da minha parte favorita. – Oh, baby, this town rips the bones from your back, it’s a dead trap, it’s a suicide rap, we gotta get out while we’re young...
... ‘cause tramps like us... – Dean entoou a plenos pulmões, me acompanhando, o que me fez abrir um sorriso enorme e aumentar ainda mais o volume da minha voz. – ... baby, we were born to run!
Eu gargalhei enquanto sentia como se estivesse tirando um peso das minhas costas. Ele não fazia ideia do quanto eu achava linda a sua voz. Dean me puxou de volta para dentro ainda no bom clima, mas com cautela.
– Eu espero que você esteja viva amanhã pra gente poder desperdiçar nossa não-juventude juntos, então vamos com calma na felicidade.
– Tudo bem. – Eu concordei, rindo.
– E quanto ao seu pai... – Dean travou os olhos na pista. – Pode dizer a ele para enterrar minha cama porque eu só vou descansar quando estiver morto.
– Isso parece letra do Bon Jovi.
– Talvez seja, talvez não seja... Você nunca saberá. – Ele deu de ombros e riu.
Dean me puxou de volta para bem perto dele e passou o braço direito por cima dos meus ombros novamente, apoiando no encosto do banco.
– O que importa é que estamos juntos e que nada do que ele falou é verdade. O seu beijo é suficiente pra me fazer criança de novo.
Eu sorri com a declaração e estalei os lábios na bochecha dele, que abriu o sorriso bobo apaixonado característico de Dean Winchester. Fiquei encarando aquela visão, inebriada com o que eu considerava um espetáculo, quando sua expressão se transformou em puro terror e o carro parou lentamente. Preocupada, olhei para frente, na direção que retinha sua atenção.
– Não, não, não, não, não... – Eu me pus a repetir. – Nós estamos quase chegando.
– Merda! – Dean disse e socou o volante.
O bloqueio policial logo à frente revistava carro por carro. De repente, a atenção deles foi direcionada ao nosso carro, provavelmente a lenta do Impala estava mais alta que qualquer outro som ali por perto. Lanternas e armas foram direcionadas a nós. Eu sentia como se meu coração fosse saltar do peito, quebrar minhas costelas e rasgar minha pele a qualquer momento. Dean segurava o volante com força enquanto gritavam para que nós deixássemos o veículo. Os policiais citavam especificamente o meu nome. Sua respiração estava pesada, mais do que eu tinha visto na vida.
– Nunca desistir da gente? – Ele falou, ao que eu arqueei uma sobrancelha.
– Nunca. – Respondi.
– Você confia em mim?
Eu apenas assenti quando ele me olhou nos olhos. De repente, ele manobrou o carro na velocidade da luz e jogou na contramão, pelo acostamento. Alguns tiros foram disparados e um deles claramente acertou um dos pneus. Saí de perto dele, indo para o lado oposto do banco, assustada ao tentar ver alguma coisa pelo retrovisor. Por cima, um helicóptero fez um som mais alto do que o carro e jogaram uma luz forte bem em cima do carro.
Dean Winchester, aqui é a polícia do estado do Iowa. Ordenamos que você pare o carro imediatamente e garantimos que levaremos isso em consideração durante o seu julgamento.
– Não. – Disse, firme, repousando minha mão em seu ombro direito.
Meu ato só intensificou sua reação. Dean reduziu a marcha e afundou o pé no acelerador.
, – Uma nova voz soou pelo autofalante do helicóptero e eu a reconheci imediatamente. – eu juro que eu e sua mãe vamos te receber de braços abertos em casa. Não precisa se preocupar, filha. Todo mundo erra e nós estamos dispostos a te perdoar.
Mesmo na correria, Dean olhou para mim. As palavras quase me convenceram, mas os anos convivendo com a violência verbal praticada pelos meus pais me contavam outra história. Eu olhei para a frente e engoli em seco.
Nós retiraremos qualquer possível acusação contra ele se for da sua vontade.
Os filhos da puta conheciam meu ponto fraco. Senti a minha pressão aumentando aos poucos enquanto a estrada passava rápida na janela.
– Dean, para o carro. – Ordenei.
– O quê?!
– Você precisa sair dessa, precisa se livrar disso.
– O que aconteceu com o “nunca desistir da gente”?
– Não posso permitir que você viva uma vida de foragido por minha causa.
, mas eu...
– Por favor, não.
O carro começava a perder força, o pneu demonstrando que já estava completamente anulado.
– Olha, me escuta. – Dean disse, ainda tentando fazer o carro andar enquanto, na nossa traseira, algumas viaturas vinham em alta velocidade. – Eu sabia de todos esses riscos quando insisti em ficar com você, ok? Se você não quiser, tudo bem, eu nunca vou te julgar por isso, mas não tem nada no mundo que eu queira mais do que começar a minha vida ao seu lado, tirar você da miséria em que você vive e te fazer a mulher mais feliz do mundo. Só precisa confiar em mim, ok?
– Vão nos pegar e vai ser pior pra você, Dean.
– Não vão nos pegar. Eu não vou deixar.
– Como vou viver sabendo que você tá preso por minha culpa?
– Se eu dissesse que tem uma chance de tudo dar certo... Você gostaria que fosse assim? Eu e você, daqui pra frente?
– Não tem mais essa chance, nós vamos ser cercados.
– Você gostaria, ? – Ele insistiu.
– Claro que gostaria!
Dean desligou todas as luzes do carro e forçou a velocidade mais ainda. Em um certo ponto, havia um retorno disponível para a pista que seguia no sentido oposto ao nosso. O tráfego não parou só por conta da perseguição, mas Dean jogou o carro naquela direção assim mesmo. O Impala resvalou no carro que vinha parando e a viatura, logo atrás, acabou ficando presa e sem passagem. As buzinas, provavelmente vindo da viatura, foram ficando mais lentas, e a luz do helicóptero saiu da nossa cola.
– Eu juro que vi um posto de gasolina por aqui... – Dean olhava fixo para a frente.
– Você tem certeza do que está fazendo?
– Não é a primeira vez que eu fujo da polícia.
– Mas é a primeira vez em que você foge do meu pai.
– Se não fosse pelo seu pai, a gente nem se conheceria.
Meu estômago embrulhou. A adrenalina circulante estava me deixando completamente enjoada. Lembrei da noite em que pus os olhos em Dean pela primeira vez. Meu pai o apresentou como agente Collins, suposto grandão do FBI, e eu devia me comportar durante o jantar em que ele o receberia. Estava com vinte e três anos ainda e Dean já estava beirando trinta, mas quem disse que meus hormônios se seguraram?
Ainda naquela noite, eu me estressei com o meu pai por qualquer motivo aleatório – que era suficiente para que eu escutasse coisas desnecessariamente rudes – e saí de casa. Fui para o Jude’s, o único bar com sinuca da cidade. Liguei para uma amiga e nos encontramos lá, direto para o balcão e para uma boa quantidade de long necks. Quando decidi ir para a mesa, reconheci o homem, que trocara o terno e gravata de mais cedo por uma camisa de flanela, passando giz na ponta do seu taco. Eu o cumprimentei e pedi para entrar na próxima. Recebi um sorriso atravessado e uma negativa, complementada por uma explicação simplória sobre como aquilo era um jogo para adultos e blá blá blá. Eu bati o pé. Linda, a dona do bar, riu da bancada e disse que ele estava com medo de uma menininha. Dean mudou o sorriso para uma expressão desafiadora. Venci Dean três vezes seguidas.
Até aquele instante, na verdade, eu ainda achava que ele era mesmo o agente Collins, do FBI, que estava presente para investigar os crescentes sequestros na área. Nem sonhava que Sam seria seu irmão, o conheci como agente Richards e só. Tudo mudou quando, duas noites depois, eu fui pega. Eu não sabia quem ou o quê havia me levado, mas sabia onde estava: a velha loja dos Miller, ou seja, no mesmo lugar onde o último corpo da série de desaparecimentos fora encontrado.
Eu chamei por ajuda diversas vezes, até sentir a garganta queimar com o esforço. Demorei um bom tempo ali, não saberia dizer exatamente quanto, mas o primeiro e único barulho que eu escutei foi uma sequência de sons secos seguidos por um disparo. Momentos depois, Dean apareceu onde eu estava. Só soube que havia sido capturada por um vetala quando já estava com os irmãos, então fiquei sabendo de coisas demais e Dean deixou um número para que eu entrasse em contato se houvesse qualquer emergência. Felizmente, ou não, houve, e nós acabamos dando de cara em um caso que tinha por culpado um ser humano. Nós bebemos juntos e... Como ia dar certo? Eu acordei antes, ele tentou não deixar as coisas estranhas, mas eu liguei para ele novamente. Dessa vez, não era uma emergência. Então eu liguei de novo, e de novo, e de novo, e Dean atendeu em todas elas. A culpada, afinal de contas, não era só eu.
Quando soube que eu estava me encontrando com o “agente Collins”, o sexto sentido do meu pai apitou. Bem, errado ele não estava. Mas meu coração já estava perdidamente apaixonado e eu não tinha mais jeito. Não demorou muito, na verdade, até que a real identidade de Dean Winchester chegasse ao conhecimento dele. Isso tudo transformou a minha vida em um inferno três vezes pior do que já era antes, até eu ligar para Dean e contar o que estava acontecendo. Três anos depois, nós já tínhamos muito sentimento um pelo outro e planos para o futuro. Decidir, de uma vez por todas, que Dean iria largar aquela vida e que eu ia fugir com ele para Deus sabe onde foi mais fácil do que pensei.
– Eu disse que tinha visto! – Dean comemorou e entrou com o carro, parando embaixo da marquise da loja de conveniência. – Me ajuda a trocar o pneu e a gente corre pra longe, pode ser?
Eu assenti. Nós saímos do carro às pressas e Dean trocou o pneu correndo, levando menos de dez minutos para tirar o velho e recolocar o novo. Partimos logo, tentando manter um ritmo tranquilo para não chamar nenhuma atenção indesejada. Cerca de cinco minutos depois, Dean me esticou o celular.
– Busca pelo contato ‘Supervisor Willis’.
– Ok, e o que eu devo fazer?
– Liga pra ele e coloca no viva-voz.
– Ok. – Eu disse e apertei os botões necessários. – Quem é?
– Você vai saber.
O que houve, agente Trish?
– Bobby, – Dean disse. – preciso de ajuda.
Onde vocês estão?
– Perto da fronteira, quase atravessando, mas quase ficamos de vez em um bloqueio policial.
Que merda...
– É, eu sei. Agora eu preciso de um atalho seguro com chance baixa de dar de cara com os tiras. Tem um helicóptero sobrevoando a área.
Puta que pariu, Dean!
– Eu sei, Bobby, eu sei.
Exatamente onde você está?
– Na I-90, sentido oeste, mais ou menos na altura de Tomah.
A está com você?
Dean olhou para mim e respirou fundo.
– Estou sim, Bobby.
Ah! Oi, criança. Não se preocupe, vamos resolver isso. Só me deixe checar... Vocês já passaram pela entrada pra Sparta?
– Ainda não.
Ok, entrem na cidade. Tem um contato meu por lá. Dean, deixe seu carro e venha com outro. O Impala já foi reconhecido, vocês precisam disfarçar.
– Qual o endereço?
Harbor Road, 15401.
– Ok, eu te ligo quando tiver alguma resposta.



– Ei, ...
– O que foi? – Murmurei, ainda sem abrir os olhos.
– Nós chegamos.
A claridade forte me atingiu em cheio, a vista demorando a se acostumar. Era irônico que houvesse tanto Sol, mas nós finalmente havíamos chegado à propriedade de Robert Singer. O Nissan Murano que Dean havia trocado temporariamente no Impala estava entre os destroços de diversos outros carros. Olhei para o banco de trás e minhas bolsas estavam ali. Quando olhei para frente, Sam saía da casa quase correndo na nossa direção.
– Estava preocupado com vocês.
– Até então, deu tudo certo. – Dean disse, tirando minha bolsa.
Sam veio até mim e me deu um abraço.
– Como foi a viagem?
– Podia ter sido mais calma.
Ele deu de ombros e abriu um sorriso.
– Você está bem?
– Dentro do possível, sim. E você?
– Estamos felizes que você chegou bem, só isso.
, venha para dentro. – Bobby me gritou da porta e eu corri até ele, puxando o senhor em um abraço apertado. – Não precisava disso tudo.
– Senti saudades. – Respondi com um sorriso.
– Sinta-se em casa. – Ele me deu passagem. – Arrumei um quarto para você. Não é grandes coisas, mas espero que fique confortável. Se precisar de qualquer coisa...
– É o suficiente, Bobby.
– E os policiais? – Ele perguntou diretamente a Dean.
– Nós vimos a confusão pelo noticiário. – Sam falou.
– Acho que conseguimos despistar.
– Helicóptero, Dean? Onde você foi se meter?
– Acho que me apaixonei pela pessoa errada. – Ele brincou e me puxou para um abraço de lado. – Vamos, vou te mostrar seu quarto.
– Decência, vocês dois. Pelo amor de Deus.
Nós dois rimos e subimos a escada. Já havia estado naquela casa antes, cheguei de surpresa na primeira visita e depois fui até lá mais duas vezes. Definitivamente, tinha mudado. Novos papeis de parede foram instalados e as cortinas agora estavam abertas. Tudo bem, os papeis de parede foram muito mal colocados, mas havia boa intenção naquilo e eu me sentia lisonjeada. O quarto que seria meu – e de Dean também, eu acreditava – era do filho de Bobby e estava com mobília nova. Eu me senti mais bem recebida que em minha própria casa.
Duas semanas depois, eu comecei a trabalhar no escritório da xerife Jody Mills, amiga de Bobby. Era um trabalho maçante na maior parte do tempo, mas eu sempre havia admirado secretamente a posição do meu pai como chefe de polícia e até que gostava um pouco do ambiente do serviço. O povo de Sioux Falls era, em sua grande parte, bem receptivo com novos moradores. Eu me tornei mais uma na multidão em pouco tempo.
Bobby fazia aniversário em um dia em que eu tive que passar tempo extra no trabalho e Dean queria fazer uma surpresa. Eu imaginava que ele não gostaria, mas fui convencida a planejar algo. Passei na mercearia principal da cidade e comprei alguns ingredientes para fazer uma lasanha e uma torta de maçã para a sobremesa. Bobby, Dean, Sam e eu, quando o tempo livre me permitia, havíamos restaurado um Camaro 68 para que eu utilizasse, e foi nele que levei a compra para casa. No entanto, estranhei o silêncio e a falta do Impala e do Chevelle no estacionamento assim que cheguei.
– Dean? – Eu chamei ao entrar na casa. – Bobby?
Fui até a cozinha, depositei as compras em cima da bancada e lavei a mão para tirar a poeira da rua. Peguei um copo de água e, enquanto estava bebendo, senti uma estranha presença atrás de mim. Virei de uma vez, tendo visão da sala. Dois homens do escritório do meu pai apontavam armas, uma para a cabeça de Sam e uma para a de Bobby. Dean estava na mira do homem que havia me colocado no mundo e me criado até ali.
– Você achou mesmo que ia poder viver um conto de fadas, ?
– Pai, solta ele.
– Não vê o perigo que esse homem traz pra você? – Ele apertou a ponta da arma na cabeça de Dean. – Eu tentei te proteger disso tudo por bem, , mas estou vendo que não adiantou de nada.
– Você não tinha que ter vindo até aqui, eu deixei o recado.
– E queria o quê? Que eu e sua mãe aceitássemos essa loucura? Vamos, o carro está te esperando pra te levar pra casa.
– Eu não vou.
– Não ouse me responder.
– Eu disse que eu não vou e ponto final. – Falei, firme, trocando um olhar rápido com Dean, que quase sorriu com a minha insistência, e dei um passo na direção do meu pai. – Você fez da minha vida um inferno enquanto prezava pela imagem de família feliz pra todo mundo. Será que seus coleguinhas sabem do péssimo marido que você sempre foi? – Falei e apontei para seus ajudantes.
, estes homens são criminosos fora da lei. Fizeram a sua cabeça. Eu te perdoo por ter caído na armadilha deles, agora vamos para casa te trazer de volta ao mundo real.
– Eu já disse que...
! – Ele gritou.
– Ela já disse que não vai. – Outra voz se fez presente e eu reconheci imediatamente a tonalidade autoritária da xerife. – Abaixem as armas agora.
– Você tem ideia de com quem está falando?
– Não me importa quem você seja. Aqui, quem manda sou eu. Abaixem as armas e saiam da minha cidade antes que se arrependam.
– Isso é uma ameaça, xerife?
– Se é assim que você quer ver, pode ser.
– Eu vim buscar minha filha e não vou embora sem ela.
– Ela já disse que não vai. – Dean repetiu a fala da xerife e, em um milésimo de segundo, contornou a situação, acertando meu pai com uma cotovelada e tomando sua arma.
Eu achei que Dean fosse apontar para ele, mas a pistola foi jogada para mim. Peguei no ar com dificuldade e fiquei olhando para as minhas mãos, me perguntando o que fazer. Foram segundos que pareceram horas até eu tomar a decisão de entregar na mão da xerife. Logo depois, os subordinados do meu pai liberaram Bobby e Sam da ameaça.
– Me mantenho na minha decisão. – Eu disse. – Perdeu sua viagem.
– Você ainda é a minha filha.
– Aos vinte e sete, com um livre arbítrio que posso usar pro que bem entender.
– Esse homem vai te matar.
Dean andou até mim e me puxou para perto dele.
– A escolha é minha e está feita.
– Vocês são duas crianças inconsequentes! – Ele esbravejou.
– Não foi o senhor que me disse que nós não éramos mais crianças? – Provoquei.
– Eu disse que nós não íamos provar que ele estava certo. – Dean completou, rindo.
Isso tudo só serviu para deixar meu pai mais enfurecido ainda, mas o alívio era grande em mim só de imaginar não viver mais sobre as circunstâncias que ele me impusera no passado.
– Vamos, fora da minha cidade. E se pisarem aqui de novo, vou prender vocês três.
– Você deve estar maluca... – Meu pai murmurou. – Sob que acusação?
– Eu invento, se precisar. Afinal de contas, tenho uma boa assistente, não é mesmo, ?
Meu pai olhou enfurecido para mim.
– Saiam da minha propriedade ou eu estouro os miolos de cada um de vocês!
Quando demos conta, Bobby estava apontando uma carabina para eles. A xerife Mills revirou os olhos e abaixou sua própria arma. Meu pai e os dois moleques foram embora logo depois.
– Obrigada, xerife.
– Não há de quê.
– Quer ficar para o jantar, Jody? – Bobby perguntou espontaneamente.
Nós seguimos o resto do dia como se não houvesse nada acontecendo. Com os meses, eu consegui juntar dinheiro suficiente com meu trabalho e Dean, com o serviço de mecânico com Bobby. Nós compramos um terreno e começamos a construir uma casa simples para nós, a fim de deixar Bobby em paz na solidão da qual ele tanto gostava. Jody, que já sabia o que eles realmente eram, conseguiu arrumar novas identidades. Seguimos nossa vida.
Não éramos mais crianças, definitivamente, mas isso nunca ia significar que não tínhamos mais juventude correndo nas nossas veias. Um amor que começou despretensiosamente era o suficiente para manter a juventude ali, onde ela devia estar. Afinal de contas, nós seríamos jovens enquanto quiséssemos ser. Se me dissessem que me apaixonar por um caçador de monstros aos vinte e três anos me renderia uma história cheia de aventuras, talvez eu riria. Mas eu nunca havia estado tão satisfeita na minha vida e tinha certeza de que era ali que eu queria estar.


Fim.



Nota da autora: Mas uma com Dean Winchester porque as duas que eu já tenho não eram suficientes!





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Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Before She's Gone [BTS - Finalizada]
02.Black Swan [BTS - Ficstape BTS: Map of the Soul 7]
05.Dare You to Move [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
03.Gorilla [Sebastian Stan - Ficstape Bruno Mars: Unorthodox Jukebox]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
01.I Forget that You Existed [Original - Ficstape Taylor Swift: Lover]
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em andamento]
Just a Heartbeat Away [Louis Tomlinson - Shortfic]
Me Peça para Ficar [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
13.Something for the Pain [Bon Jovi - Ficstape Bon Jovi: One Wild Night]
01.The Crown [BTS - Ficstape Super Junior: Time Slip]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Finalizada]
06.Walls [Henry Cavill - Ficstape Louis Tomlinson: Walls]
03.We Were Only Kids [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs]


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