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Finalizada em: 20/03/2020

Maybe the way that I’m living is killing me


Hoje
O chão improvisado treme debaixo dos meus pés. Estou totalmente suada, como sempre, e ainda consigo ouvir os milhares de gritos abafados que vêm do outro lado da porta que o holding acaba de fechar atrás de mim. Sempre gostei dessa sensação. O primeiro segundo após um show. Descer as escadas para o camarim com os ouvidos ainda tampados escutando restos de sons, escutar os parabéns e ver os sorrisos recebidos de cada rosto que eu admirava tanto na produção, sentir a gratidão e o sentimento de realização por tudo ter dado certo ou pelo menos não ter dado tão errado. Até o gosto do primeiro gole de água fora de um palco era diferente. Uma daquelas sensações impossíveis de serem resumidas em palavras, tipo abraçar alguém que você ama depois de ficar muito tempo sem vê-la. Não tem como descrever.
Hoje, porém, enquanto desço as escadas e começo a ver o pessoal da produção, eu consigo descrever muito bem o que eu estou sentindo. Sabe quando você é criança e sem querer engole um chiclete depois de mastigá-lo por alguns segundos? Parece que ele continua preso em alguma parte da garganta por horas, mesmo depois de já ter seguido seu destino pelo esôfago. Fica difícil respirar e dói engolir qualquer coisa, até mesmo a própria saliva.
Tem um chiclete entalado na minha garganta hoje. Pelo menos, essa é a sensação exata de não ver o sorriso dele entre os rostos orgulhosos no backstage.

Há quase 8 meses
— Ótimo, ! Perfeito! — Rick, da mixagem, falou enquanto levantava a mão para um high-five.
Soltei um risinho enquanto batia em sua mão estendida. Ainda estava energizada do show, a garrafa de água em minha mão tremia no compasso do meu coração agitado. O sorriso estava congelado no meu rosto suado enquanto eu passava por entre as pessoas da produção.
— Obrigada, Rick! Parabéns! — agradeci, elogiando também seu trabalho com a mixagem de som.
— Sensacional, querida! — disse minha figurinista, Thelma, me puxando para um abraço.
— Estou suada, Thelma, que nojo. — me afastei dela, sorrindo. — Obrigada. — ela riu e deu um tapa no meu braço.
— O que foi isso, ? 10! — meu agente, Marc Finnegan, parecia estar com o sorriso mais largo que o meu. — A plateia estava louca. — ele gesticulava com as mãos, balançando os braços e fazendo movimentos engraçados.
— Graças a você, Finnegan. — eu ri de seus gestos.
— Graças a você, ! Graças a você! — ele falou, animado, dando um beijo em minha testa e seguindo seu caminho para resolver algo provavelmente importante.
Balancei a cabeça e sorri involuntariamente quando me vi sozinha, ainda empolgada e realizada. Eu não analisava os dados, muito menos tinha alguma imparcialidade sobre isso, mas tinha certeza de que esse tinha sido um dos melhores shows da minha carreira. Tudo tinha sido simplesmente perfeito e ocorrido da maneira que tinha que ocorrer. A setlist havia fluído com perfeição nas quase vinte mil bocas que lotaram a casa de shows. Eu não estava aguentando de felicidade. Tudo parecia um sonho.
— Psiu. — ouvi alguém chamar e só então percebi que estava apoiado em uma parede à minha frente com os braços cruzados, me observando esse tempo todo.
Sorri largamente ao ver seu rosto e corri em direção a ele, abraçando-o.
— Eca, , você tá fedendo. — ele falou, se desvencilhando do abraço e fazendo uma careta.
Abri a boca e coloquei as mãos na cintura, fingindo estar ofendida.
— Bem, Thelma não reclamou do meu fedor. — tirei as mãos da cintura e as cruzei na altura do peito, levantando as sobrancelhas e o encarando.
— Acontece que Thelma é obrigada a aguentar o seu fedor. — ele falou, gesticulando e balançando a cabeça de forma engraçada, mas com a cara extremamente séria.
— Ora, senhor , sendo assim, você também é obrigado a aguentar o meu fedor, pois recebe exatamente o mesmo salário que ela. — falei, levantando os braços e indo novamente em sua direção.
Ele escondeu o riso que queria surgir antes de fingir um vômito e retornar a olhar para mim, segurando meus pulsos à sua frente.
— Acontece, senhorita , que eu te amo e não mereço esse tratamento. — ele soltou e eu arregalei os olhos involuntariamente, parando de andar em sua direção e recolhendo os braços de suas mãos timidamente enquanto soltava um sorriso extremamente amarelo. Ele percebeu o desconforto e continuou. — Ouvi dizer que esse foi o melhor show da temporada.
— Ouviu dizer de quem? — perguntei, com a sobrancelha erguida, tentando me recompor e fingindo que a frase que saíra de sua boca não tinha feito meu estômago dar três voltas na minha barriga.
— Bem, de mim. — ele balançou a cabeça e soltou um som com os lábios, como se fosse óbvio.
— Credibilidade duvidosa. — falei, rindo, e voltando as mãos para a cintura.
— Eu sei. — ele fez uma careta antes de me olhar, sério. — Mas você mandou bem mesmo, independente da minha credibilidade. — ele deu de ombros, mantendo a expressão séria e soltando um sorrisinho sincero antes de se apoiar na parede novamente.
Essa era uma das coisas que eu mais adorava em meu melhor amigo . O olhar dele. Ele era a pessoa mais engraçada do mundo inteiro, me fazia rir o dia todo, me animava mesmo que eu estivesse cem por cento para baixo e deixava todos ao seu redor felizes. Apesar de todas as gracinhas e todas as palhaçadas, porém, ele tinha o olhar. Esse olhar mesmo que ele me acabara de me lançar, antes de dizer “Mas você mandou bem mesmo”. O olhar mais sincero que eu já tinha visto na minha vida. Um olhar que me faria acreditar que eu realmente teria mandado bem mesmo se eu tivesse vomitado no meio do palco e errado a letra de todas as canções. Eu confiava em e nos seus olhos mais do que tudo nesse mundo.
— Obrigada, . — sorri, envergonhada de repente, sem saber onde colocar as mãos, como estivesse nua na frente dele.
Ele sorriu de volta com o olhar, que sinceramente parecia querer dizer algo a mais.

Hoje
Depois de um ótimo show sempre há ótimas comemorações. Hoje, de alguma forma, eu pensava que conseguiria tirar o nó que permanecia na minha garganta se ingerisse uma boa quantidade de álcool.
No bar mais próximo ao hotel em que estou hospedada, eu tento de toda maneira me esquecer de . Não fazia ideia que seria tão difícil. Esqueço do meu nome, de que sou uma pessoa pública e do caminho de volta para o hotel, mas continua no fundo da minha mente como uma tatuagem. E seu olhar me tortura como se estivesse sentado no banco à minha frente.
Talvez por efeito de uma garrafa quase inteira de whisky, eu consigo ver perfeitamente, a alguns passos de mim, o semblante envergonhado e abatido que estava em seu rosto no último dia em que o vi.
— Me desculpe, , minha cabeça está confusa. — as palavras saem de minha boca sem que eu perceba, assim como as lágrimas que caem livremente do canto dos meus olhos.
Eu queria que ele estivesse ali. Eu queria mais do que tudo que suas mãos estivessem me segurando pelos ombros e me guiando de volta ao hotel. Eu queria ver seu rosto sorridente e extrovertido, não aquele rosto acanhado que me perseguia e que parecia que ficaria marcado para sempre na minha mente.
Não há ninguém por perto além do barman que enche meu copo periodicamente e reclama das cinzas que estão caindo fora do cinzeiro. Sem pensar nas consequências, fecho a mão em punho e bato com força no balcão de madeira do bar, permitindo-me soluçar ao sentir a dor inesperada. Abaixo o rosto, encostando-o à mão que lateja devagar no balcão. As lágrimas salgadas fazem com que os nódulos levemente feridos dos meus dedos ardam e eu chore mais ainda. Pelo menos a dor física me tira momentaneamente dos pensamentos que fazem doer meu peito quando eu respiro.
sempre falava que era preciso aprender a lidar com a dor, que ela sempre estaria presente na nossa vida, nos momentos felizes e tristes, independentemente da nossa vontade. Eu geralmente ria da cara dele e falava que ele deveria ter tirado essas frases motivacionais de algum livro de autoajuda que roubara da estante de sua avó ou de algum programa que ele assistia escondido no domingo à tarde. Mas, agora, sentada sozinha em um banco frio de madeira enquanto choro sobre minha mão dolorida, vendo um rosto que nem está ali, falando sozinha e querendo mais do que tudo um ombro amigo para chorar, eu entendo exatamente o que quis dizer.
Levanto o rosto molhado devagar, observando algumas pessoas de longe e vendo o rosto de em todas elas. Minha mão ainda lateja devagar e eu começo a ficar sem ar pela dor no peito, tentando não soluçar enquanto a outra mão apaga o cigarro fora do cinzeiro e tenta alcançar o copo que está à minha frente. Viro o resto de whisky antes de fechar o punho novamente, e soco o quanto consigo o balcão duro de madeira, incansavelmente, sem sentir nada além de adrenalina percorrendo por todo meu corpo e as mãos firmes do barman que me afastam do local.

Há 4 meses e 1 dia
Era o último show da semana e eu insisti para que fosse comigo a algum pub para que pudéssemos comemorar, mesmo sabendo que ele não era muito fã de bares. Ele até bebeu um pouco comigo enquanto conversávamos sobre tudo e qualquer coisa, como sempre fazíamos, mas parou assim que percebeu que eu estava passando dos limites.
Era algo comum em mim passar do limite, querer ficar sempre mais alta, mesmo já estando alta demais. Eu gostava de sentir tudo em dobro, as emoções à flor da pele, e não conseguia me controlar em relação ao álcool e muito menos em relação a coisas mais fortes.
— Ei, , está bom, não acha? — repetia a cada quinze minutos perto do meu ouvido, devido à música alta, sempre que me via encostar algum copo à boca ou levar a mão ao nariz. — Que tal voltarmos para o hotel?
, acabamos de chegar. — eu respondia sempre, mesmo sabendo que não havíamos acabado de chegar depois da terceira vez.
Eu ria dele tentando acompanhar a música que tocava enquanto eu me mexia freneticamente no ritmo, tentando entender o olhar dele. Estava preocupado, era óbvio, pois seus olhos estavam arregalados e conferiam os meus a cada dez segundos, mas havia algo a mais que eu não conseguia decifrar fazia tempo, e que estava sempre o acompanhando quando olhava para mim.
, vamos? — ele perguntou alto perto do meu meu ouvido, fazendo com que eu sentisse cócegas e risse. — Eu peço uma pizza e assistimos alguma coisa.
Sua proposta era boa, mas meu cérebro não conseguia focar em nada além do ritmo da música eletrônica que tocava e nos arrepios que a mistura de líquidos em minhas veias proporcionava no meu corpo. Quando eu estava alta, eu precisava sempre ficar mais alta, e esse sempre era o meu erro. , embora estivesse extremamente preocupado comigo, não me impedia, e até tentava entrar no meu ritmo. Embora estivesse 87% sóbrio, pelos meus cálculos, ele se balançava e dançava, tentando me deixar calma e tentando se divertir comigo.
Quando eu levei a mão ao nariz novamente, porém, ele segurou meus ombros. Parada depois de tanto tempo pulando e me mexendo, vi tudo se retorcer à minha frente. Tudo girava e eu apertei os olhos tentando focar em alguma coisa. O rosto de estava tão próximo que eu não conseguia enxergá-lo, estava embaçado, e eu ria tentando localizá-lo no meio da fumaça, mesmo suas mãos ainda estando coladas em meus ombros.
, vamos! — ouvi sua voz distante e me perguntei se era realmente ele que estava à minha frente.
Dessa vez ele não estava perguntando, então fechei a cara, mas não consegui formular uma frase para protestar. Senti meu nariz arder e via rostos disformes passando por mim, mas não sentia meus pés, nem minhas pernas, e não fazia ideia de como estava andando. De alguma forma, atravessei todo o pub e me vi na entrada de repente, sem sentir nada no corpo além das mãos que eu sabia que eram de segurando meus ombros e algo saindo das minhas narinas. Sorri, pensando em , antes de passar a mão embaixo do nariz e conseguir ver indistinguivelmente o sangue pingando da mão que agora eu segurava à minha frente.
, não tô bem. — consegui formular, encarando a minha mão vermelha e querendo mais que tudo ver o rosto dele.
— Eu sei, , estamos voltando pro hotel. — ouvi sua voz e sorri involuntariamente, mesmo com meu estômago revirando e meu nariz provavelmente jorrando sangue. Procurei pelo rosto dele, queria ver seus olhos e seu semblante calmo, mas não conseguia, já estava tudo preto. Eu conseguia apenas ouvir sua voz calma repetindo sempre “Estou aqui” e “Vai ficar tudo bem”, e sentir seu cheiro doce, que me confortava inexplicavelmente. Senti algo macio sob minha cabeça e tive certeza que estava apoiada em seu ombro, pois apertei algo frio com a textura que eu sabia ser a da sua jaqueta antes de abrir a boca e colocar tudo o que eu havia ingerido para fora.


Wish that you would hold me or just say that you were mine


Hoje
Eu realmente não tenho ideia de como cheguei ao hotel na noite anterior. A última lembrança que tenho é de estar em um hospital, totalmente alcoolizada, soltando milhões de palavrões enquanto dois enfermeiros tentavam tirar um raio X da minha mão. Devem ter me dado algum tipo de sedativo por lá, pois não lembro de absolutamente nada depois e, no momento, estou perfeitamente embalada pelos cobertores grossos do meu quarto de hotel, embora esteja com a mesma roupa do dia anterior, que contém algumas manchas de sangue, e a mão direita enfaixada.
Me desenrolo dos cobertores e levanto o corpo devagar, sentindo tudo girar à minha volta. Tento tirar a blusa manchada com algum esforço, procurando entender como devo lidar com a mão imobilizada e sentindo dores absurdas na cabeça e no estômago.
Embora esteja curiosa para saber como havia sido meu caminho para o hotel, minha mente se concentra apenas em tentar lembrar do sonho que tive na noite anterior. Havia sonhado com o , claro. Ele estava lindo na Califórnia, o vento da praia soprando o cabelo dele, e a luz do sol fazendo com que ele apertasse os olhos e suas sardinhas ficassem à mostra no seu nariz enrugado. Ele acenava para mim de longe, mas eu não conseguia me mexer para ir para perto dele. Eu conseguia ver com definição o sorriso dele, mesmo estando a uns duzentos metros de distância. Eu até conseguia sentir o cheiro das ondas salgadas misturadas com o perfume doce dele.
Inflo os pulmões na tentativa de encontrar o cheiro, que estava na minha mente, mas não sinto nada além da essência de limão industrializada que se propaga pelo quarto e o cheiro forte de álcool na blusa em minha mão. Engulo o choro que sobe pela minha garganta quando penso que talvez nunca mais sinta o perfume de e tenho medo de começar a esquecê-lo.
O sonho volta à minha mente quando encosto os pés descalços no chão de carpete. ficava cada vez mais longe, junto com o mar e com o sol da Califórnia. Eu tentava ir atrás dele, mas não conseguia sair do lugar e tudo começava a ficar escuro e frio. Quando eu olhava para baixo, meus pés estavam enterrados na areia dura e gelada de Brighton, e eu não conseguia tirá-los de lá.
Deixo a blusa suja cair no chão de carpete e levo a mão à boca, sabendo o que estou sentindo no fundo do peito e tentando segurar o soluço que está preso enquanto lágrimas descem involuntariamente pelo meu rosto. Eu quero ir para casa.

Há quase 2 meses
Os shows na América tinham acabado e eu só retornaria aos palcos em janeiro do ano seguinte, para a perna européia da turnê, que duraria apenas um mês e terminaria em casa, no Reino Unido. Estávamos naquele período bom, de férias tanto de apresentações quanto de estúdio, e inventava algo para fazermos todos os dias, mesmo estando no frio e na calmaria de Brighton. Estava me divertindo como achei que não me divertiria mais desde que me tornei uma adulta com responsabilidades, prazos e preocupações. sempre fazia eu me sentir leve. Só de estar ao meu lado, ele exalava calma e conforto, e eu estava descobrindo e amando isso cada vez mais.
Apertei duas vezes a buzina assim que cheguei em frente à sua casa. Naquele dia, disse que iríamos à praia. Ele estava com saudade das praias da Califórnia e insistiu para que fôssemos ao litoral de Brighton, mesmo que o clima não estivesse muito favorável para isso.
Ri quando ele desceu os degraus em frente à porta de sua casa, depois de trancá-la, e veio em direção ao carro com uma bermuda de praia e um óculos de sol no rosto.
— Você tá louco? Devem estar fazendo menos de cinco graus. — eu falei rindo quando ele abriu a porta, se abraçando por conta do frio ao sentar no banco do passageiro.
— Vamos à praia, mademoiselle. — ele disse como se fosse óbvio, soprando ar quente nas mãos juntas e esfregando-as. — Você que está vestida demais. — olhou para a minha calça de moletom e para o gorro na minha cabeça.
— Não estamos mais na América. — balancei a cabeça, ainda rindo, e virei-me para dar a partida no carro.
— Infelizmente. — ele falou, ligando o aquecedor do meu carro enquanto eu começava a dirigir. — Aquilo que é vida, . — ele continuou e pude ter certeza que colocava os braços atrás da cabeça, embora meus olhos estivessem na pista. — Aquele sol, a areia macia. A areia lá é macia, ! — ele falava e eu ria, mesmo não fazendo ideia da diferença entre a areia daqui e de lá. — As pessoas realmente tomam banho de mar, não vão de moletom pra praia.
— Ei, eu tenho que sobreviver, ok? — eu disse com a sobrancelha arqueada, tentando me defender.
Ele riu, levantando os óculos de sol para o topo da cabeça.
— Sonhei com você hoje. — mudou de assunto e eu pude sentir seu olhar, agora desprotegido dos óculos de sol, queimando em mim.
— Mesmo? O que eu fiz? — perguntei, realmente curiosa, olhando rapidamente para ele antes de voltar os olhos para a pista.
— Você tava na Califórnia. — ele respondeu, rindo. — Acho que eu tava lá também. — ficou em silêncio por um tempo, como se estivesse lembrando de todos os detalhes do sonho. — Você tava com aquele maiô amarelo que eu acho bonito, a gente tava naquele píer da praia de Venice. É, eu tava lá também. — confirmou e eu ri.
— Aquele maiô é horroroso. — balancei a cabeça. — Podia pelo menos ter me sonhado com um biquíni estampado, bonito.
— Você tava linda com o maiô. — ele afirmou e eu sorri, envergonhada, sem saber o que responder. Ele continuou: — Você tava linda com o maiô amarelo e o sol da Califórnia fazia seu cabelo brilhar muito.
Eu sorri. nunca tinha ido à América antes da turnê, e tinha simplesmente se apaixonado pela Califórnia, principalmente pela praia de Venice.
— E o que aconteceu? — aproveitei que a pista estava sem carros para olhar para ele.
Ele estava olhando para mim. Parte de mim sabia exatamente o que tinha acontecido no sonho, e os olhos azuis de tentavam confirmar isso enquanto transmitiam aquele único sentimento que eu ainda não havia conseguido decifrar. Pela primeira vez, ele ficou calado. Senti um calafrio descer do início da minha nuca até o fim da minha espinha. Seus olhos pareciam pedir socorro aos meus, parecia que precisavam imediatamente serem decifrados, que não aguentariam continuar escondidos por muito tempo. Queriam contar o que tinha acontecido no sonho e pediam desesperadamente a ajuda dos meus, procurando neles algum sinal ou algum resquício de vontade.
Eu balancei a cabeça antes de voltar os olhos para frente. Meus olhos estavam quase dando o que os dele queriam, mas a minha mente não estava pronta para isso. Ele virou a cabeça para o lado contrário, provavelmente olhando alguma coisa pela janela.
— Nada. — ele respondeu por fim, com a voz baixa. — Não aconteceu nada.
— Que coisa. — falei, depois de um tempo, fingindo certo desapontamento, mas no fundo sabendo que não estava preparada para ouvir o resto do sonho. — Desliga esse aquecedor. — pedi. — Tô começando a ficar com calor.
— Ah, o calor! — ele respondeu, retornando ao seu tom normal e brincalhão. — Eu ainda vou morar no calor, . — ele disse enquanto apertava em algum botão no painel do meu carro. — Vou morar na Califórnia. — ele afirmou.
Juntei as sobrancelhas imperceptivelmente. Ele havia falado com tanta certeza que meu coração apertou repentinamente com a ideia de não tê-lo por perto. Desde que vi o brilho no seu olhar no píer da praia de Venice, enquanto observávamos o mar que tinha a cor exata dos seus olhos, soube que aquele era o lugar de , e até fiquei surpresa com o fato de ele ter voltado para Brighton comigo. Apesar disso, doía um pouco ter que admitir que a vida iria nos separar em algum momento. Ele sempre estava ali. E meu coração ficou pequeno ao ouvir as palavras saírem de sua boca com tanta convicção. Pelo jeito, a separação estava mais próxima do que eu imaginava e temia.
Balancei a cabeça, afastando o pensamento e soltando uma risadinha sem graça. Nunca pensei que ia ter ele ao meu lado para sempre, afinal. Ele pareceu ter percebido meu desconforto. Ele sempre percebia quando algo estava errado comigo.
— Vamos morar na Califórnia, . — ele corrigiu e eu ouvi seu sorriso, se é que isso era possível. — De frente pro mar, sem esse frio de Brighton, sem preocupações. — senti sua mão encostar na minha, no volante.
Minha mão deveria estar extremamente fria, pois a dele estava pelando. Arregalei os olhos, apertando o volante com força e tentando não me contorcer no banco. O que estava acontecendo comigo?
De repente tudo ficou muito quente, embora já tivesse desligado o aquecedor. Eu sentia minhas costas suarem e parecia muito mais difícil respirar. Eu estava com muito calor e tentava inspirar a maior quantidade ar, que parecia simplesmente ter evaporado do carro e queimava as minhas narinas. Eu estava passando mal, sufocada pelo mormaço repentino e pela aparente falta de ar, e a mão quente de espalhava calor por todo o meu corpo. Meu coração batia num ritmo mais rápido que a minha respiração e eu tinha certeza que eu implodiria ou entraria em combustão a qualquer momento. Sem contar com os milhares de pensamentos que passavam pela minha cabeça.
Tirei rapidamente a mão debaixo da dele, deixando a direção vacilar por um momento e ouvindo uma buzinada atrás de mim. Permaneci com a mão direita no volante enquanto apertava fortemente com a esquerda a calça de moletom, sem saber o que fazer e sentindo ela queimar e continuar espalhando calor para o resto do meu corpo. Eu definitivamente não sabia lidar com o que estava sentindo no momento, por isso fiquei calada, me concentrando na pista e morrendo de vergonha por minha respiração estar descompassada e alta como se eu tivesse acabado de correr duas maratonas.
Graças a Deus, ele não falou nada. Ele nunca falava. Eu sabia que sua mente deveria estar como a minha, bagunçada, e me senti egoísta por sempre reprimi-lo.
— Eu estou bem, aqui. — respondi, soando mais seca do que gostaria. — A Califórnia é só um estado de espírito, . — disse, firme, retornando a mão esquerda para o volante e apertando-o. — Pra qualquer lugar que você for, você vai continuar levando você mesmo. E você mesmo é quem define onde você está e como se sente. — terminei, tentando normalizar a minha respiração e tentando segurar o choro que ardia meu nariz e subia pela minha garganta.
Eu simplesmente não era programada para lidar com emoções. Meu cérebro parecia estar em pane enquanto meu coração bombardeava muito mais sangue do que o necessário para as extremidades do meu corpo. Eu não sabia o que estava sentindo e, sinceramente, tinha muito medo de saber. Era ali, meu melhor amigo. Eu preferia continuar afastando-o sempre que ele cruzasse a linha, mesmo que isso significasse ferir a ele e a mim.
Depois de alguns longos minutos de silêncio, ele ligou o rádio e eu o agradeci mentalmente milhares de vezes por quebrar o clima esquisito que minha última fala, despropositadamente rude, tinha criado. Blinding Lights, do The Weeknd, começou a tocar e começou a balançar a cabeça, do jeito que ele sempre fazia quando estava rodeado de pessoas desconhecidas e com vergonha de dançar. Sorri de lado, olhando de canto de olho para ele e recebendo um olhar que claramente dizia “me desculpe por isso, está tudo bem”. Sorri abertamente quando seus movimentos foram ficando mais intensos e seus braços começaram a se mexer também, iniciando uma dança engraçada que ele fazia apenas quando estávamos só nós dois. Comecei a balançar os ombros e a cabeça no ritmo da música, tentando imitá-lo, e começamos a rir muito. Mesmo rindo e me balançando, sem prestar muita atenção em nada além da estrada à minha frente e da melodia agitada da música, ouvi claramente quando The Weeknd cantou I'm drowning in the night; Oh, when I'm like this, you're the one I trust (Estou me afogando na noite; Oh, quando estou assim, é em você que eu confio) e engoli em seco. Era em , unicamente em , que eu sempre confiava e sempre iria confiar.
A batida do meu coração voltou a acelerar quando eu olhei de soslaio para ele, que se divertia enquanto dançava animadamente no banco do passageiro, perdido dentro de um mundo que era só dele e sorrindo consigo mesmo.
Merda.
Voltei a atenção para frente e tive uma vontade enorme de chorar. Eu sabia muito bem o que estava acontecendo dentro de mim, embora não quisesse aceitar.

Hoje
Não havia sido difícil convencer meu agente, Marc Finnegan, de que eu precisava urgentemente ir para casa. As lágrimas que molhavam desesperadamente e sem esforço o meu rosto fizeram boa parte do trabalho. A turnê havia acabado oficialmente ontem, com o último show em Liverpool, que fica a mais ou menos quatro horas de Brighton. Marc, porém, havia definido mais alguns dias na cidade após o término dos shows para a gravação de um videoclipe.
Graças a Deus, Marc é, acima de tudo, uma pessoa muito boa, e percebeu, assim como todas as outras pessoas da equipe, que minha saúde mental ia de mal a pior no último mês. Além de tudo, a mão enfaixada que eu havia ganhado na noite anterior não era exatamente o figurino ideal para um clipe.
O destino, afinal, havia decidido ser legal comigo depois do pior mês da minha vida inteira e até faz alguns sinais ficarem verdes enquanto eu me dirijo até o aeroporto de Liverpool. Eu preciso, mais do que tudo, ir para casa.

Há 1 mês
A perna européia da turnê tinha começado fazia dois dias. As coisas estavam andando maravilhosamente e tudo ia muito bem, exceto .
estava estranho desde que eu havia voltado aos palcos. Parecia ter sempre algo para dizer entalado na garganta, embora quase não conversasse comigo e me evitasse depois de algumas palavras trocadas. Ele estava distante e parecia estar extremamente preocupado com alguma coisa, algo o corroía por dentro e estava fazendo com que ele sofresse. Eu sentia isso. Ele estava sofrendo e, o pior de tudo, sozinho e calado.
Estávamos em Madri quando eu o vi chorar pela primeira vez. Eu tinha acabado de tomar banho depois do show e estava analisando mentalmente os últimos dias, pensando se eu havia magoado de alguma forma ou feito algo que pudesse ter o deixado dessa maneira.
Estava de pijamas e saí na varanda apenas para fumar um cigarro antes de dormir, quando ouvi soluços vindos da varanda ao lado, que era de . Não pensei duas vezes antes de apagar o cigarro recém acesso na sacada e correr através do meu quarto em direção ao dele.
Bati duas vezes na porta, ouvindo o barulho de choro, quase imperceptível no corredor, parar imediatamente. Mais de vinte segundos sem resposta e eu tinha certeza de que ele estava limpando o rosto para tirar qualquer vestígio de fraqueza.
Quando ele abriu a porta, porém, seus olhos inchados e seu rosto vermelho o denunciaram, apesar do meio sorriso presente no canto de seus lábios. Poderia jurar que meu coração havia se partido ao meio, pois meu peito ardeu quando meus olhos encontraram os seus, tristes pela primeira vez.
Sem convite para entrar, abracei-o com a maior força que consegui, com a saudade que estava entalada em mim desde que ele havia parado de conversar direito comigo, e com a esperança fútil de que tudo que estivesse doendo nele passasse para mim.
De alguma forma, eu sabia que, seja o que fosse que ele estivesse sentindo, tinha a ver comigo, e apertei com mais força meus braços ao redor dele antes de começar a chorar também, sem saber exatamente o porquê. Ele me abraçou de volta, eu conseguia sentir os soluços contidos em seu peito.
Olhei para cima para encontrar seus olhos, que derramavam lágrimas agora silenciosas e lançavam seu último apelo aos meus.
— O que foi, ? — perguntei finalmente, cansada de não saber decifrar seus olhos.
Ele ficou em silêncio e fechou a porta atrás de mim antes de me segurar pelos ombros e me sentar na cama bagunçada. Ficou por um bom tempo em pé, me olhando, sem falar nada, provavelmente procurando as palavras antes de soltá-las rapidamente, quase sem respirar:
— Ganhei uma bolsa de estudos na Universidade da Califórnia.
— Isso é maravilhoso, . — respondi, animada, secando as lágrimas na minha bochecha e levantando para abraçá-lo, querendo acreditar que aquela era a única notícia que ele tinha para me dar.
— É. Produção Musical. — ele falou e eu soube que isso não era um problema, e tive certeza que a coisa que o incomodava tinha a ver comigo.
— O que foi, ? — repeti, olhando no fundo de seus olhos azuis e sinceramente pedindo para eles a verdade, depois de todos esses meses sem coragem de percebê-la.
— Não vai sentir saudades de mim? — ele encarou os próprios pés, soltando uma risada fraca e nasalada. — Não vou poder acompanhar o seu trabalho de perto.
— Claro que vou, . — respondi, tentando encontrar seus olhos. — Você é meu melhor amigo. — ele sorriu, balançando a cabeça e fazendo de tudo para que seus olhos não encontrassem os meus. E então eu percebi. Percebi o que no fundo já sabia e que tentava ao máximo me convencer do contrário. me amava muito mais do que como uma amiga, desde o primeiro momento. E eu com certeza havia escolhido a pior expressão para designá-lo naquela hora. — … — tentei concertar minha fala, mas não fazia ideia de como, então fiquei calada.
— Tudo bem, . — ele respondeu, virando de costas para mim. — Eu só precisava de uma confirmação. — disse antes de começar a caminhar pelo quarto, provavelmente tentando prestar atenção em outras coisas para que o choro não o atingisse de novo.
Bem, o que eu poderia falar naquela hora? Sobre meus sentimentos 100% confusos? Sobre partes de mim que eu havia evitado conhecer até o momento? Sobre algo que eu não tinha certeza e tinha medo de descobrir? Não sabia. Fiquei calada, como sempre, odiando cada parte de mim por não saber como agir, mas com a certeza de que me odiaria muito mais se submetesse a entrar na minha confusão. Ele iria para Califórnia, para o lugar que ele queria ir e que havia sido feito para ele. Não seria difícil conhecer alguém que se apaixonasse por ele lá, todo mundo sempre o adorava em qualquer lugar. Ele conheceria alguém que o mereceria e que fosse boa para ele, não alguém como eu.
Fechei os olhos e senti lágrimas finas descerem pelas minhas bochechas.
Que merda.
Ele estava encostado na sacada quando virou para mim uma última vez. Seus olhos ainda estavam úmidos e inchados e seu cabelo estava sendo bagunçado pelo vento da noite de Madri. Nos encaramos em silêncio e à distância. Nenhum de nós ousava falar nem se mexer. Era possível ouvir o barulho dos carros e a conversa de pessoas que passavam na rua.
— Por que você não me ama, ? — ele finalmente perguntou, e eu consegui entender pela primeira vez completamente os olhos azuis. Era isso que eles queriam me perguntar desde o primeiro momento.
Merda. Foi a última coisa que pensei antes de sair do quarto dele às pressas em direção ao meu e passar a noite inteira sentada no chão do banheiro, vomitando tudo o que eu sentia.


It turns out California's more than just a state of mind


Hoje
Está bastante ensolarado quando eu saio do aeroporto. Eu não faço ideia de onde está minha casa, mas sei que, em algum momento do dia, ela aparecerá pela praia de Venice. E é para lá que eu me dirijo, carregando duas malas e uma sensação estranha e nova no pé da barriga.
Enquanto desço do táxi na rua em frente à praia, penso em como fui estúpida, rude e principalmente medrosa por tanto tempo. Eu tinha medo da dor de barriga e dos calafrios que me proporcionava, tinha medo de descobrir o que aquilo significava, e, mais do que tudo, eu tinha muito medo de magoar o meu melhor amigo com as confusões da minha cabeça. Por isso, em incontáveis momentos e circunstâncias, e às vezes até involuntariamente, como um modo de defesa ou algo do tipo, eu o reprimi e reprimi a mim mesma, deixando de aproveitar o tempo com ele.
sempre dizia que a única forma de sermos felizes era arriscando estarmos completamente abertos, inclusive para a dor e para o erro. Demorou muito tempo para que eu entendesse que realmente sabia do que estava falando. Demorou mais ainda para que eu descobrisse que, além de estar fechando a mim mesma, eu estava tentando fechá-lo, e esse era o maior pecado que eu podia cometer contra uma pessoa tão única e especial quanto .
Finalmente, pela primeira vez na vida, eu estou completamente aberta enquanto tento com muito custo puxar minhas malas pela areia da Califórnia com uma das mãos enfaixada. tinha razão, ela é bem mais macia do que a da Inglaterra. Portanto, não é um sacrifício sentar nela, encostada nas malas perto do píer em que nós havíamos passado a noite em claro no ano anterior, enquanto espero e rezo para que ele apareça.

Há mais de 9 meses
Já passava da meia noite quando adentramos o píer da praia de Venice naquele dia. disse que havia encontrado esse lugar durante minha passagem de som, pela manhã, e que apostaria 100 pratas comigo de que era uma melhor comemoração pós-show do que ir a bares lotados de gente desconhecida. Concordei com ele mais pelo dinheiro, que eu estava certa de que ia ganhar, mas minha percepção foi mudando ao longo da noite.
Tirando nós dois, um cobertor e os engradados de cerveja que havíamos levado, o píer estava completamente deserto. Conseguíamos ouvir de longe as músicas que tocavam nas baladas perto da orla e nossos pelos se eriçavam com o vento que as ondas calmas traziam.
Foi a primeira vez que senti algo diferente no pé da barriga.
— Você já se apaixonou, ? — perguntei depois de um momento em silêncio, com os olhos fixados ao mar e os pés balançando na borda do píer. — Digo, já gostou de alguém de verdade mesmo? A ponto de doer, ou sei lá. — terminei a segunda garrafa de cerveja e virei-me para pegar outra no engradado e para olhar para .
— Tudo dói, . — ele respondeu, intercalando seu olhar entre mim e a garrafa em sua mão. — Se você não sente seu peito doer quando olha para alguém que você gosta, não acho que você ame essa pessoa.
Entreguei a garrafa que havia acabado de pegar para que ele abrisse e depositei a vazia no canto onde já haviam outras três. Ele levantou minimamente a blusa branca que vestia para retirar a tampinha e eu tentei ignorar o calor que percorreu o meu corpo ao ver parte do seu abdômen.
— Isso é um sim, então? — perguntei quando ele me entregou a garrafa aberta e olhei rapidamente para o chão de madeira.
— Acho que sim, . — eu teria visto os olhos dele fixos em mim se não estivesse tentando de qualquer forma esconder minhas bochechas, que queimavam. — Não tenho como te responder se não tenho com o que comparar. — virei-me novamente para o mar enquanto ouvia o corpo dele deitar no píer. — Não acha isso estranho? — ele perguntou, já deitado. — Como vamos saber responder quando estivermos apaixonados, se nunca estivemos antes?
— Eu não sei. — me contentei em responder, suando, enquanto tentava pensar em qualquer outra coisa que não fosse deitado atrás de mim e sentia todos os músculos do meu corpo se contraírem.
Abri alguns botões do meu vestido, deixando à mostra o maiô amarelo que eu usava por baixo. Eu com certeza pularia no mar se o píer não fosse tão alto. Cruzei as pernas, tentando conter o calor que rapidamente se aflorava e odiando cada centímetro do meu corpo por estar sentindo isso pelo meu melhor amigo.
Por conta das medicações que eu estava tomando, minha libido estava quase inexistente nos últimos meses, o que arruinou quase todos os meus últimos pseudo relacionamentos. Eu nunca imaginaria que, depois de todo esse tempo, embora eu tentasse evitar a todo custo, minha mente estivesse projetando os mais absurdos desejos justo por .
Mordi o lábio, querendo que essas sensações e calores passassem logo.
— Olha esse céu, . — ele falou e eu levantei a cabeça, olhando para o céu escuro e pensando que ele nem imaginaria o que estava se passando na minha mente e no meu corpo. — Não se vêem essas estrelas em Brighton.
— Teoricamente, é o mesmo céu. — eu ri, tentando esconder o quão nervosa eu estava.
— Ah, eu tenho certeza de que na prática não é, não. — ele disse e eu ouvi seu corpo se levantar rapidamente. — Vem cá. — eu tive certeza de que meu coração estava saindo pela boca quando sua mão pegou no meu braço, que estava apoiado no chão.
Ele me puxou delicadamente e eu consegui sentir cada membro do meu corpo pulsar numa vibração diferente. Que merda. Rezei para todos os santos que eu consegui lembrar para que me controlassem enquanto ele voltava a se deitar e me puxava para deitar com ele, seu braço direito logo abaixo da minha nuca totalmente arrepiada. Seu perfume doce misturado ao cheiro que só ele tinha não estava ajudando, e eu prendi o máximo que pude a respiração.
Eu nunca tive tanto autocontrole na vida, mas me deixei vacilar quando ele voltou a falar.
— Eu nunca vi aquela estrela na vida. — ele disse, levantando o braço esquerdo e apontando para alguma estrela que eu não enxerguei.
Meu rosto estava completamente virado para o dele, que olhava fixamente para a estrela, e eu senti, no pé da barriga, algo além do tesão acumulado nos outros músculos do meu corpo. As pintinhas na sua bochecha rosada me hipnotizavam enquanto meu estômago revirava.
Ele virou o rosto para mim depois que parou de apontar para estrela e sorriu, deixando à mostra suas covinhas e as ruguinhas no seu nariz. Nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância e, se minha boca estivesse aberta, uma cachoeira de saliva saíria entre meus lábios. Ele analisava cada detalhe do meu rosto e eu analisava cada detalhe dos seus olhos azuis, que tinham suas próprias constelações.
— Eu também não. — concordei, sem deixar de olhar para ele, enquanto sentia meu peito doer.

Hoje
Está quase escurecendo quando vejo uma silhueta alta andar pelo píer. Felizmente, os últimos raios de sol batem no rosto que olha para o mar e me fazem enxergar seus cabelos sendo soprados pelo vento, como no meu sonho.
Meu corpo inteiro arrepia, apesar do calor de quase trinta graus, e uma lágrima escapa do canto do meu olho esquerdo. Como num surto de coragem, deixo minhas malas e minhas sandálias na areia onde estava sentada, me levanto e corro o mais rápido que posso em sua direção, com o vento cortando meu corpo e deixando ainda mais largo o sorriso no meu rosto.
O píer está vazio, por isso ele percebe rapidamente o barulho que meus pés fazem na madeira velha assim que eu o adentro e olha em minha direção. Aperta os olhos várias vezes, deixando enrugado o nariz coberto por sardas, como que para ter certeza do que vê, antes de correr também para me encontrar.
— Oi, . — falo pausadamente quando já estamos próximos um do outro, finalmente parando e apoiando as mãos nas coxas, tentando puxar a respiração e procurando algum resquício de saliva que molhe minha garganta completamente seca.
Sua feição está completamente aterrorizada.
— O que houve, ? — ele fala preocupado, se aproximando rapidamente de mim e segurando minha mão enfaixada. — Você tá bem? O que houve? Aconteceu alguma coisa? O que aconteceu? — ele levanta meus braços e parece analisar cada centímetro do meu corpo para se certificar se há algo de errado comigo.
Eu ainda tento respirar, e meu estômago, devido ao efeito e às horas sem comida, implora para que eu coloque o almoço do avião para fora. Agora que ele está na minha frente e que seus olhos azuis olham diretamente os meus, toda a coragem que eu havia acumulado parece simplesmente se jogar do píer na minha frente e evaporar na água do mar, me deixando completamente sozinha e desprotegida. Meus lábios tremem e eu tenho certeza de que vou desmaiar a qualquer hora, pois milhares de possibilidades que não haviam passado pela minha cabeça parecem agora fazer total sentido.
É óbvio que já havia conhecido alguém melhor do que eu. É óbvio, meu Deus, como eu sou burra. Ele estava na Califórnia há um mês, e havia um mês que não nos falávamos. É impossível que ninguém tenha se apaixonado por ele. Meu coração dispara e meu nariz começa a arder, e eu tenho vontade de refazer todo o caminho de volta para a Inglaterra.
, pelo amor de Deus, fala alguma coisa. — ele se aproxima de mim, segura minhas bochechas geladas de suor, olha no fundo dos meus olhos, procura por meus batimentos no meu pulso e depois repete tudo de novo. Seus olhos estão marejados e eu teria rido da situação e da sua preocupação se não estivesse quase à beira de um colapso. — , pelo amor de Deus…
Eu fecho os olhos e respiro fundo, apertando fortemente as suas mãos que estão segurando as minhas. A coragem parece subir de volta pela superfície dos olhos azuis que imagino neste instante em minha mente, que têm a exata cor do mar. Aqueles olhos que me confortam e sempre me confortaram, e que, independente de qualquer coisa no mundo, eu tinha certeza, em qualquer situação e em qualquer circunstância, sempre iriam me confortar. Como uma mosca que bate várias vezes em uma janela de vidro até que encontre, depois de tonta e machucada, a saída, os olhos de brilham azuis no fundo da minha mente e parecem me sacudir e bater de frente contra o meu medo, me lembrando do que eu já tinha certeza. De que ele é a minha casa.
— Eu amo você. — solto de repente, com os olhos ainda fechados, morrendo de medo de enxergar sua reação e de vomitar novamente em seus pés. — Eu amo você, . É isso, amo você. — fico calada por um momento, talvez esperando que ele fale alguma coisa, mas ele permanece calado, então eu balanço a cabeça e continuo. — Tá tudo bem se você não sentir mais o mesmo por mim, tudo bem se você tiver alguém aqui na Califórnia. Tudo bem. — respiro fundo e não ouço nada além do vento que sopra no meu ouvido e das ondas que morrem no píer. — Eu só precisava dizer que esse último mês foi um inferno sem você. — não consigo segurar as lágrimas, que descem livremente pelos meus olhos fechados. — Foi horrível, , eu pensava em você todo santo dia e você não tava lá. Não tinha seus abraços, suas frases motivacionais, suas piadas, suas risadas. Não tinha você, , e juro que isso doeu mais do que eu pensei que algo fosse doer na minha vida. — balanço a cabeça e meu peito aperta com as lembranças ruins. — Eu fui uma idiota por não perceber como eu me sentia antes. Fui uma idiota pelo jeito que te tratei. Fui uma idiota por não ter vindo pra Califórnia com você. — suas mãos continuam junto às minhas e eu permaneço sem coragem para abrir os olhos. — Eu juro que não quis te magoar. Nunca. Naquele dia, quando você me perguntou por que eu não te amava, eu passei a noite inteira vomitando porque você tocou no único ponto que eu não sabia responder, nem pra você, nem pra mim mesma. Porquê eu não te amava. Porquê eu tinha medo de te amar, . Eu tinha tanto medo. Qual é, eu tô me cagando aqui. — ouço sua risada fraca se misturar ao barulho mar como se fossem um só e respiro aliviada. — Mas, porra, agora eu sei, . Agora eu sei o que eu sinto e tô tentando não ter medo. Tô tentando me abrir pra encontrar a felicidade, igual você falou. — sinto suas mãos apertarem suavemente as minhas, como que me encorajando, e imagino seus olhos azuis sorrindo para mim. Finalmente tenho forças para abrir os olhos, balançando a cabeça e encarando seus olhos marejados e as lágrimas que descem para o sorriso bobo em seus lábios. — Não tenho mais medo, . Foda-se, eu te amo.
O vejo chorar pela segunda vez na praia de Venice, enquanto me olha com uma admiração que eu nunca receberei de outra pessoa e sorri o sorriso mais bonito que eu verei na minha vida.
Ele começa a rir, ainda chorando, e levanta os ombros, indicando que não sabe o que falar. Eu sei bem como é isso e rio também, pois seus olhos azuis já dizem tudo enquanto brilham marejados.
— Desculpa não ter ligado antes. — eu rio antes de soltar suas mãos e abraçá-lo o mais forte que consigo, sentindo seus músculos se contraírem antes de seus braços enrolaram minha cintura. — Desculpa por não ter te ligado e por não ter atendido as suas ligações. — meu nariz está no seu pescoço e seu cheiro doce me inebria, me deixando completamente relaxada, como se eu estivesse mais alta do que já estive com todas as drogas que já havia usado. — Eu não tenho mais medo, . — meus olhos quase fecham antes de eu tirar o rosto de seu pescoço e olhá-lo nos olhos. — Eu me mudo pra Califórnia se você quiser.
Ele ri e tira os braços da minha cintura para segurar meu rosto entre suas mãos, e eu sei que poderia passar a vida inteira olhando para ele.
— Foda-se a Califórnia, . — ele fala sorrindo, os olhos ainda vermelhos. — Foda-se a porra da Califórnia. Eu venho todos os dias pra esse píer porque ele me lembra você.
Nos beijamos pela primeira vez na praia de Venice. O sol já havia sumido, mas meu corpo inteiro emana calor enquanto o vento sopra nossos cabelos e as luzes artificiais do píer nos iluminam. Eu estou eletrizada. parece me passar energia enquanto suas mãos passeiam pelas minhas costas e eu o aperto o máximo que consigo contra mim. Minha mente não consegue se concentrar em nada. Eu o amo. Sempre amei. O sorriso dele, o jeito que ele dança, como me faz rir quando ninguém mais consegue, os olhos que falam sozinhos e, principalmente, o fato de ele não ter desistido do que sempre quis. Nossos corações se encostam e parecem fazer amor no ritmo frenético e incrivelmente igual em que batem através de nossos peitos.
Quando nos separamos e olhamos para o mar escuro e para o céu repleto de estrelas, exatamente como fizemos há um ano, e quando o cheiro salgado das ondas se mistura ao perfume doce que se aproxima novamente de mim, tenho certeza de que a Califórnia é bem mais que um estado de espírito. Enquanto tiro o vestido que me cobre da temperatura agradável de Venice e minha pele se arrepia ao sentir o olhar carinhoso de , eu sei que estou, enfim, em casa.


Fim.



Nota da autora: Oi pra quem chegou até o final!! O que acharam?
Eu amei muito escrever essa história, acabei me apaixonando por esses personagens depois de uma quarentena com eles, hahahaha, então espero muito que tenham gostado!! <3


Outras Fanfics:
05. Used To Be


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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