Última atualização: 01/02/2020

Capítulo Único



Se beber, hoje fosse minha única opção, pra por um curativo no meu coração até te esqueceria por cinco minutos, mas, não pra sempre.



A consulta de Eve no veterinário demorou mais do que eu pensava. Certamente já estava a ponto de pensar que eu sequestrei a nossa Retriever. Coloquei a canina dentro do carro, e no banco da frente. Mais uma razão para surtar comigo, iniciando um discurso longo de “você não deveria” e terminando com “qualquer dia vai acabar em acidente”. Era errado fazer aquilo? Absolutamente sim, mas, Eve era muito grande para um filhote e detestava aquela prisão de locomoção.
Cheguei à casa de e abri o portão automático entrando com o meu carro, estacionando na vaga que era minha. Eve já latia alto o suficiente para anunciar à mãe que havia chegado. E não demorou a se aproximar, abriu a porta puxando a cachorra e a segurando, atenciosa.

— Como ela se comportou?
— Como uma verdadeira mocinha, não é, Eve? – me aproximei acariciando a cadela e recebendo lambidas de volta.

Naquele momento e eu sorríamos. E foi ali que eu havia me esquecido totalmente que nós estávamos separados. Minha mão livre puxou o corpo da mulher e eu a beijei. Ela queria também, uma vez que não se soltou ou brigou comigo. Deixou a cachorrinha no chão e mudou a sua expressão totalmente. Parecia outra personalidade, me encarava nervosa, e falava entredentes:

, qual o seu problema? Para de ficar tentando me dobrar!
— Eu tentando te dobrar? Você é doida? Eu vim buscar a minha cachorra para a consulta!
— Nossa! Não esqueça que a Eve é nossa! – ela falou e eu ri sem humor observando a cadela parada em nossa frente como se soubesse que ela era a razão da discussão.
— Eu vou buscar ela na quarta-feira.
— Não! Você não vai tirar a Eve de mim!

Senti a mão de segurando meu punho e seu olhar se render em súplica.

— Ei, casal. Tchau, casal. Vem, Eve! – Stela, a melhor amiga que morava com entrou no quintal da casa e levou a cachorra para dentro.
, para de ser doida. Eu vou pegar ela para tomar as vacinas que já tinha lhe falado.
— Eu a levo! Não precisa ficar usando a Eve como desculpa pra me ver.
— Seu sonho de todas as noites... – me aproximei ainda mais sentindo a respiração ofegante da minha ex-namorada — é que eu venha aqui só pra te ver todos os dias.

me olhou de modo sarcástico e me soltou. Quando entrei em meu carro e dirigia dando a ré para sair, ela apareceu do meu lado abrindo a minha porta do motorista.

— Mulher, você é louca? – eu gritei freando bruscamente.
— Pelo amor de Deus, , vamos subir.

E ali eu percebi que aquele jogo de recaídas estava totalmente fora do nosso controle. Era a terceira vez que eu ia a casa dela depois de terminarmos o namoro, e nós dois acabarmos na cama.
Como sempre eu descia as escadas puto da vida, não com ela, mas comigo. Eu era total um babaca por ela, e sempre permitia que meu corpo sedento pelo dela, ditasse as regras dos nossos erros. E parecia sentir o mesmo, embora sempre reagisse de uma forma que me fazia perguntar, o motivo de eu ter estado com ela por tanto tempo. Naquele momento eu estava descendo as escadas pisando fundo, vestindo minha camiseta e a ouvindo me culpar pelo o que aconteceu, enquanto Stela observava-nos sobre seus óculos redondos.

, você não podia apenas ter acelerado o carro e partido, né?
— Caralho, eu estava indo embora! Você sempre faz aquela cara de “só hoje” e depois me desce a lenha como se a culpa fosse minha! Eu tô cansado de você !
— Não é o que parece já que se aproveita toda a vez que eu deixo a minha burrice falar mais alto que a razão.
— O nome disso é tensão sexual, e não burrice. – intrometeu-se Stela nos fazendo recobrar a consciência.

Saí batendo a porta da casa dela sem cogitar qualquer falta de educação com Stela. Assim que tirei o carro da garagem à imagem dela sorrindo com malícia enquanto tirávamos a roupa me veio à mente. Eu odiava amar aquela mulher. Imbiquei o carro no acostamento de frente ao primeiro bar que enxerguei. Se eu não esquecesse a aquela noite por amnésia alcóolica permanente, então não esqueceria mais.
Virei a décima dose de uísque e ouvi o telefone tocar. Eu não sabia nem mesmo que nome a tela denunciava.

— Alô? – minha voz saiu trêmula e séria.
— Onde você tá, seu corno?

Era Paulo, o meu melhor amigo e coincidentemente namorado de Stela.

— Não faço ideia, mas estou bêbado.
— Manda a localização, cachorro.


Assim que pedi ajuda ao barman pra enviar minha localização ao Paulo, passaram-se trinta minutos e ele estava chegando. Disse que Stela contou o ocorrido, ligou pedindo a ele para identificar em que bar eu estaria sofrendo e me levasse ara casa. E assim foi feito.



É a primeira vez que eu vou sair sozinho. E o banco do carona hoje tá tão vazio. Até bateu saudade do seu mau humor.



Na segunda-feira tomei uma decisão que me pareceu sensata: eu iria passar um dia na casa de praia que sempre alugamos quando éramos um feliz casal. Não que eu quisesse reviver as memórias, ou talvez quisesse. Mas, a pequena viagem me faria espairecer. Eu precisava espairecer e colocar a cabeça no lugar, saber quais as mudanças que eu necessitava colocar em prática, e lidar da melhor forma com o término.
Dirigi o caminho inteiro concentrado em uma maneira saudável de esquecer . Olhei o banco do carona e me recordei de todas as vezes que ela ficava estressada com a viagem. Dizia que eu parava nos lugares com piores banheiros da estrada e que detestava ter que encarar a madrugada e os faróis altos de outros carros, sobre o meu pretexto de chegar cedo para curtir, mesmo que a gente sempre estendesse um ou dois dias do passeio. Então, liguei o rádio. Hábito comum para não ter que ouvir a voz rabugenta dela toda vez. Hábito comum que também funcionou dessa vez.
Ao chegar, estacionei na garagem da casa e a dona locatária, senhora Mirtes, já ia sair quando falou:

— Por que vieram separados desta vez?
— Como? – aquilo não poderia ser possível.
— A . Chegou há uma hora.

Arregalei os olhos, incrédulo. Porque ela chegou ali? E, aliás, como ela chegou uma hora antes de mim, se sempre reclamava do horário que eu viajava?

— Eu tive que vir um pouco depois dela pra resolver umas coisas.
— Entendo. Bem, aproveite o passeio, meu bonito jovem!

A simpática senhora sorriu e acenou saindo pelo portão, e eu comecei a bagunçar meus cabelos impacientemente. Entrei na casa a procurando e ela descia as escadas dos quartos com a toalha enrolada na cabeça.

— Por que brigava comigo por chegar tão cedo? – perguntei e ela parou.

Estava estática e impaciente.

— Como você me encontrou, ?
— Ih, eu hein. Te manca, minha filha! Eu vim porque eu quis. Aparentemente o destino está tirando uma com a nossa cara.
— Sério, , eu não vou embora. Eu gastei um dinheiro fodido de passagem.
— Não te mandei embora, mandei?
— Até porque você não manda em mim, né! – a voz já carregava estresse e ironia.
— Por que veio tão cedo? – ignorei a perguntando novamente.
— Só tinha este horário na rodoviária.
— Vou fingir que não foi pra lembrar-se de mim. – sorri brincalhão.
— E você? Por que veio?
— Pra te esquecer. Que merda, não?

Deixei o copo de água que eu havia bebido sobre a mesa da cozinha onde estávamos e me direcionei ao andar de cima. Precisava de um banho, precisava de ar.


E quando me chamava de amor respeitei a sua decisão. E quando a gente terminou meu coração não aguentou. Juro!



Terminei o meu banho e saí em direção à praia. estava sentada na varanda da cabana e lia um livro. Passei direto por ela e então me lembrei das compras que eu tinha feito para a casa.

. – chamei-a pelo apelido e imediatamente ela me encarou descontente — Qual é, não posso te chamar assim agora?
— O que você quer, ?
— Suponho que você não fez compras para a despensa, né?
— Óbvio que não. Primeiro porque eu vim de ônibus, segundo porque eu vim sozinha. Eu vou comer na cidade.
— Hm... É que, eu fiz.

O silêncio breve após minha fala foi quebrado por uma risadinha abafada e irônica de . Ela deveria estar no mesmo pensamento que eu: “quem tenta esquecer o ex-namorado fazendo as mesmas coisas que fazia com ele?”.

— E você quer que eu cozinhe para nós dois? – ela perguntou com as sobrancelhas levantadas e o sorriso ladino de quem evita gargalhar.
— Não é para encarar nesses termos, tá sua debochada? Só que eu também vim sozinho, e fiz compras para eu não ter que andar pela cidade e revisitar os mesmos locais que a gente ia.
, você não respondeu a minha pergunta.
— Pega a chave do carro e guarda as compras se você for comer comigo, por favor.
— Eu não vou comer com você, ou cozinhar para você.
— Você que sabe, não faz diferença para mim.

Lá no fundo, naquele lugar obscuro e frio do coração de todo homem, eu sabia que faria muita diferença. Fui até o mar e mesmo após tomar banho, eu precisei me cobrir de sal. Eu queria relaxar dando uma caminhada breve, observando as ondas, mas eu tinha que parar para falar com ela, né? Então tudo o que eu fiz foi mudar o meu percurso de relaxamento para: dar um mergulho na água fria, e voltar para a cabana e guardar as compras.
Eu passei por ela novamente, sem a olhar. Mas o olhar dela estava ali, escondido atrás do livro a observar meu corpo que ela amava. Todas estas verdades que ela pensava poder esconder de mim, mas era em vão. Não havia um segredo sobre ela que eu não soubesse. Infelizmente.
Fui até o carro e guardei as compras que sobraram, já que tudo que era referente à geladeira eu tinha guardado na chegada, quando desci do quarto rapidamente me lembrando das compras e antes mesmo de tomar banho.
E depois de toda a comida alocada nos armários, eu pensei sobre o que eu cozinharia. veio até a cozinha e pegou uma garrafa de água na geladeira, que eu julguei ainda ser da viagem, e enquanto matava sua sede encarava contrariada a pequena poça de água sob meus pés. Eu olhei de volta para ela e sorri.

— Pff... – ela limitou-se a murmurar.
! – chamei de volta quando ela já estava de costas na saída que dava para o corredor da sala.

O corpo dela retesou de um modo que eu sabia que era devido ao pronunciar de seu apelido. Ela, como sempre, não iria facilitar. Olhou-me com tédio e eu sorri travesso.

— Fique a vontade para comer qualquer coisa, não precisa ir à cidade para isso.
— Tá brincando, né? É claro que eu vou comer o que você trouxe, eu não vou é comer com você.

Ela disse saindo com um sorriso mordaz. Vesti o avental pendurado na cozinha e adiantei parte do almoço, como temperar a carne, deixar o arroz pré-cozido e lavar a salada. Depois, eu pude retornar mais calmo ao mar, onde fiquei surfando até sentir meu estômago roncar.
Quando cheguei à varanda o cheiro de alho sendo refogado impregnava o lugar, o que fez meu estômago dar pulos. Deixei minha prancha do lado de fora da casa, ao lado do tanque da varanda de trás. Ali havia uma ducha, e ah... Como eu adorava aquele quintal dos fundos! E a cabana na beira da praia, sem muros, sem vizinhança, completamente deserta e a sensação de liberdade. Retirei minhas roupas e tomei a minha ducha de sempre. Lembrei-me da última vez que eu estive ali com , e nós dois tomamos banho naquela ducha. Quase a gritei implorando para rever seu corpo nu.
Terminei o banho rápido, apenas para tirar o sal da minha pele, e enrolei a toalha na minha cintura entrando pela porta dos fundos que dava para a cozinha. Ela estava finalizando a salada enquanto ouvia uma música pelo seu celular e cantarolava. Parei na soleira da porta a observando em silêncio.

— Eu sei que eu falei que não iria cozinhar... – ela me disse demonstrando que havia me notado ali — Mas... Não tem razão para ficarmos dois dias aqui e não convivermos civilizadamente.
— Não precisa me explicar nada, aliás, quem estava guerreando aqui era você. Eu só estou sendo gentil desde que cheguei.

Ela me olhou com cenho franzido, e alfinetou de modo direto:

— Dizer na minha cara que veio aqui para me esquecer não é nem um pouco gentil, não acha?

Eu que já caminhava rumo à saída da cozinha, girei sobre meus pés lentamente, sorrindo confuso e incrédulo do motivo pelo qual ela havia se chateado:

— Nós terminamos. O certo agora é esquecer você, não?
— Ninguém vai ao mesmo lugar que ia com a ex para esquecê-la, , não seja idiota!
— Então você realmente está aqui pra me manter na sua cabeça? – perguntei me aproximando cauteloso.
— Eu... – ela refletiu sobre o que disse e sacudiu a cabeça impaciente respondendo — Eu vim aqui para me sentir bem, como antes.
— Eu também.
— Não foi o que você falou. Inclusive, não faz diferença eu cozinhar e comer contigo, ou não, né?
— Céus! Caramba, ! Você queria ouvir o quê? Que eu te amo?

Ela ouviu o que eu disse e olhou para os próprios pés, contrariada.

— Porque se for, você vai me desculpar, mas eu não posso ficar repetindo uma coisa que nós dois já sabemos. Não faz parte do processo de “esquecer” a ex.

Ela me encarou e se aproximou, tão cautelosa quanto eu havia feito, e por um momento eu fechei os olhos esperando o beijo dela. Mas, logo percebi que ela não estava mais perto. tinha as mãos no próprio rosto, com os olhos fechados, pensativa. Eu me movimentei para sair dali e ela limitou-se a responder:

— O almoço já está pronto, a propósito.

Não a encontrei em lugar nenhum do térreo da cabana quando fui almoçar. Talvez tivesse subido ao seu quarto. Almocei, um pouco depois limpei e guardei a louça, e mandei uma mensagem para ela:

“Não vai almoçar?”
“Não”
“Onde você está?”


E a resposta não veio. Dei de ombros. Guardei a comida na geladeira e ao terminar de organizar tudo já era uma hora da tarde, e uns minutos quebrados. Eu fui até a sala, e deitei no sofá ligando a televisão. Deixei em um canal de filme qualquer e mal me lembro em que ponto do filme eu dormi.

POV

Era incrível como o destino sempre dava o seu jeitinho. Eu só queria passar o final de semana sozinha, longe do e da sua capacidade natural de me seduzir. Mas, lá estava eu observando as costas nuas e molhadas do homem que eu amava. O perfeito homem que eu amava, e que estupidamente eu perdi. era um espécime raro: bem educado, inteligente e mente aberta, divertido e talentoso. Talentosos em todos os níveis, inclusive nas tarefas domésticas em que eu era um horror.
Ele subiu as escadas depois do nosso quase beijo e eu tinha certeza que ele havia ficado tão frustrado quanto eu. Resistir a ele era o pior exercício da vida.
Depois de dois anos e meio de namoro, aquele era nosso primeiro término. E ao contrário do que as pessoas diziam: “ah, relaxa... A maioria dos casais termina o namoro no mínimo três vezes antes de casar”, daquela vez era realmente como o fim. Seria mais verídico, se nós não ficássemos tendo, recaídas em cima de recaídas.
O fato é que eu não sabia o que estava fazendo, e nem como deveria fazer aquilo. Não era pra ficar perto dele o fim de semana, não é? E não era para criar confusão com o pseudo desprezo dele a mim, quando ele chegou, não é? Aliás, eu deveria ter ido embora, certo? Mas... Eu simplesmente não quis. Assim como não quis relembrar as memórias de nossas vindas à praia, e assim como não quis evitar cozinhar para ele.
Olhei as panelas ainda fumegando sobre o fogão, e puxei minha bolsa no sofá e saí. Fui em direção à cidade para passar o máximo de tempo longe. Acabei almoçando no restaurante favorito de . Como vocês podem ver, eu não preciso de inimigos para me sabotar.

!

Ouvi meu nome sendo chamado quando saía do restaurante, olhei para o lado oposto da calçada e descobri a dona da voz.

— Dona Mirtes!

Aquilo seria problemático, porque com certeza ela iria falar do .

— Tudo bem, querida? Está tudo certinho na casa? – perguntou se aproximando e me cumprimentando pela segunda vez.
— Está tudo bem sim, dona Mirtes.
— E cadê o ? – ela falou observando a vaguidão à minha volta — Ele não veio com você?
— Ah não, eu terminei o almoço e deixei-o tomando banho.
— Almoçou aqui? – ela estranhou ainda mais.
— Ah é... Eu acabei não aguentando esperar pra comer em casa, eu vim comprar umas cervejinhas.
... – dona Mirtes me deu o braço e nos pusemos a caminhar juntas até o carro dela: — Está tudo bem entre vocês? Eu sei que não é da minha conta, mas há dois anos vocês alugam minha casa e hoje ele chegou depois de você, me pareceu surpreso ao saber que você estava lá. E agora eu te encontro almoçando no restaurante da cidade e comprando cerveja sozinha... Eu não vou cobrar dois aluguéis de vocês por me contarem a verdade... Eu sinceramente, mesmo estranhando, aluguei para os dois por achar que vocês tinham combinado de virem juntos. Mas parece que queriam vir separados, e se eu soubesse, teríamos dado um jeito.

— Nós estamos passando por uma fase difícil, dona Mirtes, mas não se preocupe.
— Hmm... Viagem de reconciliação, né?

Eu não ia ficar tentando convencer D. Mirtes de verdades que são mentiras, e nem iria expor a ela as verdades reais entre e eu, por isso eu apenas sorri sem graça. Eu odeio quando as pessoas se metem na minha vida.
Ela perguntou se eu gostaria de carona para voltar à cabana e eu neguei. Fui em direção ao mercado da cidade comprar as bebidas. Álcool era algo que não poderia faltar já que eu teria que ficar aqueles dias na mesma casa com . Uma hora eu precisaria ficar bêbada. E ele também, se não, faríamos o que não deveríamos. E quando bêbados, nós apenas dormimos.
Quando o táxi parou na ruazinha de terra que se aproximava da região onde a cabana estava, eu agradeci ao motorista e paguei. Desci calma até a areia. Preferia caminhar com pés no chão, sentindo aquele quentinho que o sol final das quatro horas deixava na areia, até a casa.
Bati bem os pés na entrada a fim de limpá-los, e ouvi a TV ligada. dormia no sofá com o controle caído ao chão. Deixei as bebidas, depois de lavadas, na geladeira e aqueci a água para um café. Caminhei até a sala e desliguei o televisor. só acordaria se eu esfregasse o cheiro de comida em seu nariz. Fui ao andar de cima e tomei um banho rápido o suficiente, para conseguir coar o café quando desci.
A fumaça cheirosa tomou conta do lugar e eu sorri esperando o momento: virei meu rosto para olhar o sofá e sabia que em poucos minutos acordaria. E ele acordou.
Sentou-se de súbito no sofá esfregando os olhos de modo infantil, com aquele tamanho todo, e novamente eu sorri. Sorri como a tola que eu era. Percebeu que eu estava ali, e caminhou devagar até a cozinha, mas como se tivesse se esquecido de que não éramos mais um casal, ele beijou minha cabeça e tirou meus cabelos úmidos das costas. Deixou meu ombro livre para beijá-lo também e depois me deu às costas indo beber água. Fiquei aguardando o momento em que ele ia se virar, de frente à geladeira e agir como se lembrasse de que não deveria fazer aquilo. Mas não aconteceu. foi tirando várias coisas de dentro da geladeira e colocando na bancada.

— Quer um sanduíche?
— Pode ser... – respondi muito baixo terminando de coar o café.
— Você almoçou?
— Sim.
— Onde estava?
— Eu não...
— Não me deve satisfações. Eu já entendi isso há algum tempo, sabe? – confirmou após me interromper.
— Que bom que entendeu... Eu fui à cidade.
— Hm...

Ele sorriu e entregou meu sanduíche primeiro, e depois se serviu de uma caneca de café. Estava parado ao meu lado prestes a bebê-la quando encarou a parede a sua frente.

— Não vai beber? – perguntei curiosa pelo que ele estaria pensando.
— Eu preciso escovar os dentes? – me perguntou baforando hálito na minha cara.
— Você continua nojento, porra, , eu odeio quando você faz isso!

Enquanto ele ria de mim, e aguardava a resposta, eu me servia de café. Eu odiava quando ele fazia aquilo, mas naquele momento eu queria rir junto com ele. Mas eu não podia, não é?

— Preciso ou não?
— Não, babaca.

Ele continuou risonho e então virou seu gole de café. Foi preparar o próprio sanduíche e eu sentei à bancada para comer o meu.

— A dona Mirtes me perguntou o que houve com a gente.
— Quando? – ele perguntou curioso me encarando surpreso.
— Esbarrei com ela na cidade e ela estranhou algumas coisas...
— Contou a verdade para ela?
— Em partes. Eu não quero ficar dando satisfações para ela, não tem motivo para isso.
— Talvez ela só queira nosso bem, afinal, somos inquilinos antigos.
— Continuo não vendo motivo para expor nossa vida.
— Claro... – ele bufou irritado — Você não vê motivo em tanta coisa.

Suspirei cansada. Eu realmente não queria estar ali com ele, mas já que estava, eu também não queria um clima de indiretas o tempo todo.

. Vamos dar uma trégua?
— Eu estou tentando isso desde o início, . E se tentarmos conversar de novo? Você quer tanto quanto eu acabar com essa situação.
— Já acabou o que tinha para acabar, , eu só não quero que a gente seja o tipo de casal que não pode ao menos ser amigos, sabe?
— Certo... Da minha parte, fica tranquila com isso. E fica tranquila também que eu não vou mais tentar nenhum tipo de diálogo, ok? Como você disse... Acabou.

Ele levantou-se da banqueta, deixou o prato vazio, mas levou a caneca reabastecida de café.

— Aonde vai? – perguntei, mas logo desfiz a pergunta: — Esquece... Você não me deve satisfações...
— Vou procurar um filme bom para a gente assistir.

Observei-o saindo até a sala, e sorri. Quem sabe o final de semana não servisse para voltarmos como bons amigos? Terminei de organizar a cozinha, rapidamente, e fui para a sala. O tempo começava a esfriar, aparentava uma chuva futura e por isso nós dois começamos a fechar a cabana. Quando abriu o sofá cama da sala, eu corri até os quartos para pegar nossos edredons. Desci alegre como sempre ficava nos cinemas caseiros, e com telefone em mãos eu disquei para Stela.

— Ô, garota, vai ligar para quem na hora do filme?
— É rapidinho, eu só quero fazer um facetime com a Eve.

Assim que Stela apareceu na tela do celular, eu sorri e nós conversamos brevemente sobre como cada uma estava. Ela chamou Eve em seu colo, pois sabia que eu estava com saudades. Mexi com a cachorrinha, que latia ainda meio perdida com a origem da minha voz. Então , o sem noção, apareceu do meu lado puxando o aparelho para falar com a cadela também. Stela não entendeu nada, mas também não se pronunciou.

— Eu sinto falta dela. – dizia voltando a atenção ao filme logo que finalizei a chamada.
— Você pode ligar para ver a Eve, ou ir visitá-la quando quiser. Ela é a nossa filha, afinal.
— Não, ela é nosso cachorro de estimação. Ou era.
— Para mim, ela é a nossa filha.
— Você podia ter trazido ela. – ele pigarreou e revirou os olhos.

Certamente estava julgando mentalmente o quanto me achava boba com aquela história de ter a Eve como uma filha. Para , Eve era a nossa animalzinho de estimação.

— De ônibus, gênio?
— Bem, se tivesse me dito que viria aqui, eu teria pegado ela.
— Ahãm, e viria mesmo sabendo que eu estaria aqui?
— Quem sabe... – ele deu de ombros, ingênuo.
— Nós dois aqui com a Eve, só tornariam as coisas mais difíceis. – resumi e me encarou por alguns segundos.

O olhar analítico dele dizia que, ou ele estava prestes a me ignorar, ou prestes a largar tudo de novo e me agarrar ali. Eu torcia para que ele me ignorasse. Sentir o sabor dele, o toque, o beijo é como rasgar a pele a cada vez que acontecia. Eu precisava aceitar que nós dois, não éramos mais um.



Mas foi só te ver, caiu a ficha do quanto eu te quero. Que recaída, eu tô falando sério! Parei, pensei, e não me segurei. Olha eu de novo na estaca zero.



POV


O filme já havia acabado e dormido. Eu tinha pedido algumas pizzas por entrega, mas já passava de quarenta minutos e nada. Zapeei os canais para buscar outro programa que me interessasse e peguei o celular para telefonar e cancelar o pedido. Certamente, não me entregariam mais, o vento lá fora assoviava e o som de chuva ficando forte era ouvido. Eu e nunca estivemos na cabana de praia em épocas como aquela, de chuvas, então eu comecei a me preocupar. Terminei de discar o número da pizzaria, quando se revirou entre as cobertas. Contemplei a imagem dela dormindo. Eu não conseguia entender como eu pude ficar tanto tempo ao lado de uma mulher tão diferente de mim e tão difícil, mas quando observava o rosto dela dormindo, quando encarava o sorriso dela, eu entendia o que me fez amar aquela mulher. Direcionei-me a pegá-la no colo para levar ao seu quarto, quando um forte trovão soou e ela abriu os olhos assustada. Encaramo-nos e eu não suportei manter distância, beijei de novo. Antes que eu pedisse desculpas ou ela começasse suas reclamações, na porta soavam fortes batidas.
Soltei que acordou um pouco mais assustada, e fui abrir a porta. Uma garota encharcada e sorridente com as entregas arrumava os cabelos e ajeitava o boné.

— Desculpe a demora, senhor! Espero que ainda queira o seu pedido. A tempestade se aproxima, e sabe como a cidade fica, não é? – ela falou estendendo as caixas de pizza que havia acabado de retirar da moto.
— Minha filha, tá maluca? Olha esse vendaval, cara! Pelo amor de Deus, entra aqui. – eu peguei os pedidos e a puxando para dentro, falei risonho para ela.

Algo no sorriso dela era contagiante.

— Nossa você veio debaixo dessa chuva? – falou alarmada correndo para pegar uma toalha para a menina.
— Não, , ela veio por baixo da terra. – respondi irônico e tanto eu quanto a garota rimos.

não gostou nem um pouco já que me lançou seu olhar cortante.

— Mas, você falou em tempestade? – eu disse enquanto passava o cartão na máquina.
— Sim, foi anunciada na rádio da cidade essa manhã. Vocês provavelmente não sabem porque são turistas, certo?
— Como sabe? – perguntei
— Esta é a casa de aluguel da Mirtinha.
— Ah... Entendi... você é conhecida da dona Mirtes.
— Quem não a conhece por aqui? – a garota concluiu guardando seu aparelho.
— E tem perigo nessa tempestade? – perguntou aflita a observar o clarão do raio.
— Bem, nossa cidade é praticamente uma fazenda de para raios, as casas da região tem um sistema moderno de descarga elétrica no alicerce. Então, não tem perigo de serem atingidos por descargas elétricas mesmo estando perto da praia. Mas, se acontecer um maremoto toda a cidade vai morrer. Tipo nos filmes. Você sabe como se salvar, moça?

Ela perguntou debochada para que tinha a expressão confusa.

— Eu sei. Já maratonei todos os filmes de desastres naturais que você possa imaginar! – a entregadora continuou dizendo.
— Qual o seu nome? – perguntei simpatizado com ela.
— Todos me conhecem por . – ela estendeu a mão de forma extrovertida.
— Eu sou o , e esta é a . – respondi tão animado com a aura daquela garota quanto ela.



Fui logo pedindo a para fazer qualquer coisa que a tirasse dali. O modo como ela encarava a moça era terrível:

, vai pegar as pizzas pra gente!
— Como é? – ela me encarou contrariada e pelo modo como a ignorei ela saiu sem discussões.
, muito obrigada pela entrega apesar do tempo ruim.
— Nós que agradecemos! Se precisarem de novo... Bem... Vão ter que aguardar até amanhã, logo a energia elétrica da cidade será desligada por protocolo de segurança municipal.

E assim que ela afirmou caminhando para a porta, a energia elétrica da casa inteira acabou. Ouvi pegar as lanternas de emergência que já sabíamos onde ficava e jogando o foco no rosto de a perguntar:

— Você é o que? Algum tipo de bruxa?
— Não, sou apenas uma moradora da região, e você?

A audácia de com estava me deixando bastante animado. Achei interessante a interação entre as duas. agradecia e eu já telefonava de volta à pizzaria.

— Espere um momento, .

Ela me encarou com a mão na maçaneta, confusa. A minha chamada foi atendida e eu dialogava ao telefone, sob o olhar curioso das mulheres presentes:

— Boa noite, eu gostaria de informar que a entregadora acabou de deixar os pedidos aqui na casa da Dona Mirtes, a casa de praia... Sim, sim, está tudo bem, mas a energia foi cortada na região e eu estou ligando para avisar ao chefe dela, que é mais seguro ela aguardar para retornar. Claro... Entendo... Sim... Na...

Eu terminava de falar quando a ligação caiu.

— Caiu, né? – ela falou óbvia.

Eu assenti e a garota digitou uma mensagem no celular e enviou.

— Espero que tenham enviado o e-mail programado e recebido minha mensagem. – ela falava observando a tela do celular e sorrindo de volta para e eu, concluiu: — Bem, obrigada pela preocupação e por ligar pra pizzaria, mas eu tenho que ir. Amanhã cedo eu trabalho.
— De forma alguma! Você vai ficar por aqui hoje, não é, ?

Eu perguntei olhando que já comia seu pedaço de pizza.

— Claro! Não seja maluca, garota, olha este tempo.

Sorri para que deu de ombros e retirou a bolsa que carregava. Fui até a rua e puxei a moto dela para dentro da casa enquanto ela gritava da varanda “Pelo amor de Deus moço, deixa a moto aí, é perigoso, a empresa paga!”. Quando a moto estava na garagem da cabana, ela respirou aliviada.

— Não precisava, obrigada.
— Vamos comer!

Eu sorri para ela batendo em seu ombro e nós dois entramos na casa. me observava com uma expressão estranha. Assim que e eu nos sentamos para comer, foi até seu quarto e desceu com roupas para que a entregadora pudesse se trocar. Gentilezas como àquelas eram raras vindas de .

— Amanhã cedo a pizzaria abre? – perguntei confuso por ela ter dito que trabalharia.
— Não só pela noite, mas eu tenho quatro empregos. Eu promovo também alguns eventos, e por isso amanhã teria que estar cedo no salão. Nós cancelamos devido ao tempo, mas certamente meu colega de trabalho deu conta dos protocolos e dos avisos.
— Hm... Promotora de eventos, entregadora de pizza, e os outros dois?

Perguntei interessado e apenas nos encarava com a expressão demoníaca, o que certamente era efeito da luz fraca da lanterna de emergência.

— Locutora na rádio da cidade e vendedora de automóveis.
— Uau... Isso que eu chamo de pau pra toda obra.
— Eu tive que me virar quando cheguei aqui né... Todos os trabalhos têm horários bem flexíveis.
— De onde você é? – perguntou.
— De Andirá, no Paraná.
— Ei! Eu sou de lá também! Que coincidência! – falei animado e surpreso — A é daqui do Rio mesmo.
— E por que veio para a região dos lagos, ? – falou ignorando meu comentário.
— Mana... Não lembro. Foi depois do meu término, há muito tempo, mas... Não sei o que me fez vir embora exatamente.
— Talvez estivesse buscando um tempo para se reencontrar. Alguns relacionamentos sugam a nossa personalidade. – falei sem a menor pretensão de ferir , mas foi o que aconteceu.
— Pfff... – ela murmurou nervosa — SÉRIO, !?
, eu não quis dizer que...
— Foda-se! – ela me interrompeu — Idiota!

Levantou-se abrupta do sofá e continuava comendo seu pedaço de pizza observando tranquilamente.

, tem um banheiro no andar de baixo e...
— Não se preocupe, , eu conheço a casa. E muito obrigada pelas roupas, de coração. – ela interrompeu .

Ela interrompeu . Da forma mais meiga e doce que alguém já tenha feito. E ao mesmo tempo do modo mais “foda-se” também. não parecia estar provocando, ela apenas agia de um modo natural. Só que o modo natural dela, era o tipo que envergonhava por alguma questão que eu nunca descobri. Talvez se eu soubesse, tivesse sido diferente. subiu calada. Odiava ser interrompida e certamente, se desse para enxergar, ela estaria vermelha como um tomate.
Eu ri discreto. Alguma coisa ali estava fora de ordem, mas de forma natural parecia se reorganizar. Eu e passamos boa parte da noite conversando. Ela era incrível! E tínhamos tantas coisas em comum, que eu já sabia que não sairia daquela viagem sem a amizade dela, no mínimo.

, você me desculpa, mas... Cara... Que porra tá acontecendo aqui? Quem é a na tua vida? Por que vocês estão aqui juntos? E por que parece que vocês são inimigos mortais?
— Parece que somos inimigos mortais? – aquilo me deixou reflexivo e sério, mas apenas sorria divertida esperando a resposta — Bem... Sempre viemos aqui passar os veraneios, mas terminamos há pouco tempo, e coincidentemente estamos aqui.
— Coincidentemente? Ah vá! – ela ria.
— Te juro, cara! Tivemos a mesma ideia e nem sabíamos!
— Na boa? Quem acampa com o ex? Espera... Estamos na gravação do “De Férias com o ex”? – ela perguntou rindo debochada do meu caso.
— Se fosse você não poderia estar aqui. – eu respondi rindo.
— Hm... Quantas ex-namoradas suas vão sair do mar nesse final de semana, ?

perguntou divertida enquanto, deitada no sofá, fazia sombras de bichinhos na parede, com as mãos. Estava concentrada e distraída com aquilo. Então me percebi concentrado e distraído na tranquilidade que o sorriso dela me passava. Pisquei algumas vezes, surpreso com aquela novidade e suspirei fundo. Foi aí que notei a garota se levantando.

— Então... Eu acho melhor dormir. Amanhã cedo tenho que sair. – ela falou e eu me levantei rápido e perdido, concordando.
— Você dorme no meu quarto, e eu durmo no sofá.
— Até parece! – ela falou organizando o sofá e eu puxei a mão dela para que ela parasse.

Aquele toque me arrepiou por inteiro, mas ela não mudou em nada. Não sentiu nada, apenas me olhou derrotada concordando comigo e bagunçou meu cabelo dizendo “boa noite então”, antes de me dar as costas e caminhar como quem conhece a casa como a palma da mão.
A excitação que eu sentia? Provavelmente era culpa da tensão sexual constante entre eu e a . Ajeitei-me no sofá, e olhava para o teto, perdido pela noite atípica.



Na manhã seguinte acordei me sentindo sufocado. O ar que entrava rarefeito em meu nariz era sinal do braço de . O que ela estava fazendo, afinal, deitada do meu lado?
Levantei devagar e olhei em volta da sala. A bagunça da noite anterior não estava presente. Pelo menos, não relacionada à pizza. Caminhei até a cozinha, ainda sonolento e vi que copos e talheres haviam sido limpos, as caixas de pizza recolhidas ao lixo e um bilhete na geladeira dizia:

Vocês realmente estão no “De férias com ex”. Hahaha. Acordei cedo e contribuí da melhor forma para agradecer a vocês. Obrigada por me acolherem, e . Adicionem-me: (21)985555477. Bye, bye, !


Li o bilhete e o guardei em meu bolso. Organizei o café da manhã depois de ter feito a minha higiene diária. Decidi que iria passar a maior parte do dia surfando, logo após ter uma conversa definitiva com . Ela não acordava e então eu fui até o sofá-cama e a cutuquei devagar. No entanto, murmurou e me puxou para si, me abraçando risonha.

— Tinha esquecido como acordar nos seus braços era bom. – ela falou.

E conseguiu me irritar. Eu já estava farto daquilo.

— Se levanta, por favor, vai se arrumar para tomar café. Temos que ter uma conversa.

Assim que eu consegui me soltar dos braços dela, ela me encarou séria e não demorou a fazer o que eu pedi.

POV

Não compreendi a rispidez matutina de embora ele detestasse as nossas recaídas, porém, tínhamos apenas dormido juntos. Eu não consegui suportar o ciúme da entregadora na noite anterior e fui para o quarto, mas só dormi realmente, depois que vi ir para o quarto dele. Na verdade, depois que eu fui constatar se ele havia ficado na sala. Sentei na escada e observei deitado por algum tempo. Repassei as cenas daquela noite. O que teria acontecido depois daquele beijo se a entregadora não tivesse chegado?
Definitivamente, eu o amava. Mas eu me sentia ferida. Estava sentindo que não fazia mais sentido tudo aquilo de “ficar” e “mandar embora” ao qual nosso término vinha se submetendo. E acima de tudo, eu senti que havia perdido para sempre, ainda que nosso sentimento um pelo outro existisse. não era o tipo de cara que depois de tentar de tudo ainda cedia. E eu não era o tipo de mulher que aceitava o próprio erro.
Não resisti e me deitei com ele no sofá. Chorava baixinho observando as linhas do rosto dele, e me aproximei do seu corpo para sentir seu cheiro. Alguma coisa no olhar de aquela noite, me mostrava que era a última vez que ficaríamos juntos daquele jeito. Era a última vez.
Ele me encarava como um irmão mais velho que zoava com a irmã, e tinha o olhar da redescoberta sobre o desconhecido de . Pela manhã, quando eu vi que ele me acordava, agi tão naturalmente que havia me esquecido da situação toda. E novamente o olhar de irmão mais velho que briga com a irmã mais nova por alguma travessura, bateu como faca em meu peito. Eu sabia que ele não queria brigar. Eu sabia que ele queria o ponto final, e eu também queria. Mas, quão doloroso era aceitar algo que no fim, era minha culpa.
estava sentado na bancada da cozinha com apenas uma xícara de café quando eu me aproximei. Ele havia preparado o meu café da manhã, e me servido. Encarei aquele mimo e sorri com os olhos marejados, forçando não deixar caírem lágrimas.

— Não vou comer. Não agora.
, coma. Talvez a gente não consiga comer nada depois.
— Não dá, . Pelo amor de Deus, diz logo o que tem a dizer.
— Eu te amo.

A frase me deixou surpresa, perdida e amada.

— Eu te amo e lamento tanto que tenhamos chegado a este fim. Mas, você sabe que eu fiz de tudo. Eu suportei o máximo da contrariedade nas nossas pequenas coisas, porque acreditei que superaríamos tudo.
— Eu sei. Eu também te amo e me sinto péssima por nós, péssima por ser minha culpa.
— Não tem culpados nisso, . O que rola é que a gente fodeu com o fato de que há mais incompatibilidade entre nós do que afinidade. O sexo? É incrível, e eu nunca tive uma parceira de cama que se conectasse tão bem comigo. Mas... Não podemos levar mais desse jeito. Segurando uma relação porque no final a química é boa e nunca cai na rotina.
— Eu entendo, , de verdade. Sei que você pode achar que eu sou uma completa maluca que destruiu tudo com um ciúme exacerbado, sei que me acha prepotente e até cruel em certos pontos. Fútil em outros... Infantil... Mas, se posso garantir algo é que eu o amei como nunca, e queria muito ser a mulher da sua vida. Aquela que vai contra todos os sinais do universo, mas sempre vai estar do seu lado por uma força maior.
... A gente tentou tudo. Não sinta que não fez esforço pra dar certo porque não é verdade. Você tentou, eu tentei, mas... Só não era para ser.
— Como vai ficar a Eve?

Ele riu desacreditado em minha pergunta aleatória. Aleatória que escondia o quanto eu queria chorar.
— Fica com você. Eu sei que você a ama muito e... Bem, eu vou estar aqui pra cuidar dela quando você quiser, mas se não quiser, pode ficar com ela.
— Seria injusto, ela foi muito mais sua parceira nos últimos meses do que eu. A gente pode manter o revezamento?
— Claro. Se você prometer não fazer alienação parental com ela.

A brincadeira sem graça e o riso contido dele, me enfraqueceram a ponto de deixar a lágrima escorrer. se levantou vindo me abraçar e enxugou-as.

— Eu... – ele se afastou ponderando — Eu vou surfar. Tome café, ok?

Eu concordei e o observei saindo pela porta. De repente não havia mais motivo para estar ali. Não havia espaço, não havia jeito, não havia forças. Tomei café e subi para arrumar minhas coisas. Quando acabei, ainda estava no mar. Não havia como chamá-lo ou ir até ele. Então deixei uma carta sobre a bancada da cozinha. Despedi-me, agradeci e me desculpei, falei que esperava o contato dele avisando que voltou bem da viagem. Pedi para que mantivéssemos algum contato, para sair depois de um tempo, como bons amigos apenas. Não sei que resposta teria, mas conhecendo como conheço, ele seria de novo o ser evoluído que iria me procurar.
Pedi um táxi e partir. Sem olhar pra trás, para não ver o meu coração sangrando.

POV

Quatro meses se passaram desde que as recaídas entre e eu resultaram num término definitivo. Ela estava saindo com um cara, desconhecido por mim. Encontrei-a no aniversário de Paulo, que era meu melhor amigo, namorado da melhor amiga dela e bem... Ela estava acompanhada. Eu achei que não suportaria aquela ideia quando me deparasse com ela, mas eu não senti nada.
E foi ali que eu me vi curado do amor. Provavelmente não teria pique para outra daquelas por um bom tempo. E a vida de solteiro era tão atrativa que eu nem recordava.
Foi numa dessas minhas idas entre solteiros à praia, que eu percebi que o destino é um grande velho, vestido com uma túnica psicodélica, sorriso pervertido e olhar de louco. O rei Gelado de Adventure Time, este era o tal do destino.
Os caras tinham acabado de fincar a prancha na areia e se juntado a um grupo que jogava altinha, e me chamaram insistentemente, mas eu estava a fim de escorar na minha prancha e beber. Assim que o camarada do quiosque veio com meu latão eu coloquei meus óculos e observei o mar. Foi naquele momento que o destino gargalhou estalando os dedos.
Vi o corpo emergindo da água num maldito biquíni preto, pequeno demais para minha sanidade, e a pele bronzeada parecia coberta de óleo. Eu poderia deslizar minhas mãos naquele corpo sem o menor problema. Ela passou as mãos pelos cabelos tirando o excesso de água, e caminhava calma em direção à areia. Bem à minha frente.
O carrinho do vendedor ambulante passou na minha frente, e eu não suportei, tive que me levantar. Ela corria de um modo gracioso e sorridente para o vendedor. Eles trocaram palavras, que me pareciam divertidas ao notar as expressões corporais dos dois. Ele entregou a ela um latão e a moça caminhou até alguns guarda-sóis abaixo de onde eu estava. Pegou uma bolsa agradecendo as meninas que estavam sentadas abaixo dele, e retirou dali algum trocado, eu suponho, já que entregou algo ao vendedor que seguiu seu caminho depois. Ela colocou a bolsa de volta no chão perto das outras moças que conversavam, e abriu seu latão bebendo sedenta.
Eu me aproximei extasiado, como se revivesse as memórias e as sensações que ela me propusera.

— Não vai ter nenhuma tempestade nessa praia hoje, não é? – perguntei parado ao lado dela.

Ela se virou surpresa e sorriu. Estendeu o latão para um brinde, como se tivesse me esperando.

— Não, acho que não, ! – sorria largo e atrativo — Como você está?

Então terminou seu gole de cerveja e me abraçou, e logicamente, eu a abracei de volta.

— Melhor agora. E você? Fazendo o que aqui na capital carioca?
— Eu tive que cobrir um evento, e por mais que eu more na Região dos Lagos, eu não me controlo ao ver a areia e o mar... E você mora aqui perto?
— Não, eu moro na zona Norte, mas gosto de vir à Barra com os amigos.
— Entendo... Como foram os últimos capítulos do seu reality show? – ela falou debochada arqueando a sobrancelha.
— Bem... Você me perguntou naquela noite, quantas ex-namoradas sairiam daquele mar... E vendo você saindo do mar agora a pouco, a minha resposta é: uma. Uma possível futura namorada.
— Iiiih... Olha ele... – ela gargalhava — Fácil assim?
— Por que foi embora sem se despedir direito? – perguntei curioso.
— Por que não respondeu ao meu bilhete? – ela rebateu risonha.
— Não estamos mais juntos.
— Não foi o que eu perguntei, gracinha. – ela respondeu brincalhona.
— Eu... Achei que seria indelicado depois de você ter visto a no sofá comigo de manhã... Sei lá, podia parecer uma canalhice, eu não sei o que você pensou.
— Eu pensei na hora que vi você abrir a porta “se ele não me ligar em seis meses, eu não vou mais esperar”.

Contei mentalmente quanto tempo tinha que ela me deixou seu número, e como se entendesse, ela riu respondendo:

— Você só tem mais dois meses para me chamar para sair.
— Que tal se a gente começar agora? – respondi.
— Legal. – ela respondeu.
— Legal. – concordei analisando o olhar tranquilo dela.
— Na sua canga ou na minha?

Ri com o comentário e a chamei num aceno de cabeça para subir comigo em direção ao quiosque. O senso de humor de era reconfortante. Ela pegou sua bolsa novamente ao lado da menina, e trocou algumas palavras que não ouvi. Eu peguei a minha prancha e acenei para os caras. Enquanto caminhávamos pela areia, rompeu o silêncio:

— A propósito, eu vi a hora que ela desceu para o sofá.
— No fim, ela só dormiu comigo.
— Que pena, perdeu a chance de se despedir direito.
— Você também não é boa em se despedir direito, não é? – rebati e ela riu.
— É... Sou boa na verdade em reencontros.
— Sendo assim, eu preciso saber... – parei de andar a encarando misterioso: — Quantos ex-namorados vão sair daquela água, ?
— Relaxa... Eu disse reencontros, e não remakes.

Ela correu rapidinha até o chuveirão do quiosque, e retirava a areia das panturrilhas enquanto me encarava sorrindo. Eu apenas observava aquela garota, satisfeito com o destino. Apaixonar era algo inevitável por um tempo, mas era uma garota fantástica que eu gostaria de conhecer mais um pouco.

— Ei, ! – chamei e ela me olhou atenta antes de desligar o chuveirão: — Onde você esteve este tempo todo?

Deu de ombros risonha, e se aproximando constatou:

— Levando em consideração a quantidade de vezes que você pediu pizza no último ano... Bem debaixo do seu nariz.


Eu ri incrédulo. Sentia-me leve. Sentia-me livre. Sentia-me certo. caminhou à minha frente rumo ao quiosque, sentou-se à mesa enquanto eu encostava a prancha, e com sua simpatia natural fazia amizade com o garçom já pedindo outra rodada de cerveja.




Fim!



Nota da autora:Olá meninas, que especial participar deste ficstape! Muito obrigada por acompanharem a leitura até aqui. Aguardo ansiosa ao seu comentário. Sigam-me nos links abaixo, e não deixem de entrar no meu grupo de autora no Facebook (Autora Ray Dias). Com afeto, Ray. ♥ <





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