Fanfics finalizada

Prólogo: Passado – Hong Kong

- Eu falhei com seu pai, não posso falhar com você também... po-por-fa-vor. – Stephen Strange não estava em si. Arrogante, jamais deixava transparecer seus sentimentos, jamais pedia por favor. Mas o peso do mundo caia sobre seus ombros enquanto ele agarrava a mão da sobrinha, a única família que tinha, a única família que o suportava. O corpo dela permanecia desacordado.
Para ela, tudo era escuridão e distância. Não conseguia comandar o corpo, sequer podia sentir seu corpo. A vozes grossas ainda ecoavam em sua mente... Eu vim barganhar... Veio morrer... Dormammu...
Sufocada, sentiu a queimação se alastrar. Queria abrir os olhos, queria acordar, queria fazer tudo passar...
- Por favor, . – Ouviu a voz mais clara. Claridade... era isso que conseguia ver?
- Eu... não... sabia... que... você... chorava... – Disse fraca.
O tio a envolveu em um abraço, provavelmente o primeiro que ganhava dele.


1 – Hades e Persefóne

- E como você pode fazer isso? – Foi a primeira coisa que ele disse diretamente para mim. Não parecia ser rude de propósito, mas seu desconforto era tão óbvio que ele poderia se esconder atrás do melhor amigo a qualquer momento. Sua descrença e culpa me inundaram no momento em que entrei na sala, mesmo que eu não estivesse receptiva as emoções no momento, elas foram tão intensas que tive dificuldades em bloqueá-las. O rei T’challa me lançou um olhar discreto.
- Obrigado, Nakia. Podemos continuar bem daqui. – O Pantera Negra dispensou a líder das Dora Milaje, ele mantinha a estadia do Soldado Invernal em seu reino da forma mais sigilosa o possível. A Guerreira fez um cumprimento respeitoso e se retirou.
- Eu tenho alguns dons. – Respondi agora que estava sozinha com os três homens. O rei T’challa, Bucky Barnes e Steve Rogers. - Eles vão me ajudar a entender o seu subconsciente, assim podemos tentar encontrar o que controla a sua mente.
- Bucky, Hades é a nossa melhor chance.– Steve disse baixo, colocando a mão de modo afável no único braço do amigo. – Hades, o Deus Grego do mundo inferior... ainda achava estranho ser chamada assim, mas não podia negar que sua capa e capuz preto combinavam com o codinome. Bem, isso e a sua ligação com o mundo dos mortos, de fato.
- Isso faz com que eu seja Perséfone? – Bucky soltou com um sorriso tímido, me fazendo rir também.
- Sua prisão é por sua vontade. – T’challa disse imponente. – Pode sair quando quiser.
- Não posso até que consiga confiar em minha própria mente. – Bucky respondeu, esfregando os olhos fundos. Para alguém que estava hibernando, ele parecia cansado demais.
- É por isso que estou aqui. – Eu respondi. – Acredite ou não, mentes perturbadas são minha especialidade.
- Se não der certo - Steve interviu. – Você pode escolher voltar a hibernar, Bucky, mas precisamos tentar.
- Certo. – Bucky aceitou. – Se você confia nela, eu também confio.

***


Retirei a capa e o capuz, se eu estava disposta a tratá-lo, não precisava ter medo de mostrar quem eu realmente era, sem identidades secretas. Toquei a pedra azul em minha testa assim que deixei meu manto de lado, procurando me sentir mais confiante.
- Estou feliz de te conhecer. – Disse, tentando ser simpática ao me sentar de frente para ele. Eu sequer precisava da empatia para dizer o quão ele estava abalado.
- Você sabe o que eu sou? – Respondeu como se achasse graça do meu comentário.
- Eu sei quem você é. – Respondi séria – James Buchanan Barnes, mas seus amigos te chamam de Bucky, certo?
- É só um amigo, na verdade. – Ele disse. – Os outros morreram uns cinquenta anos atrás.
- Um amigo verdadeiro já vale muito.
- Certo. – Bucky disse desconfortável. Esta, na verdade, era a palavra que o descreveria na maior parte do tempo. Talvez fosse o peso das vidas que tirou em seus ombros.
- Então, você prefere que eu te chame de Bucky ou de James? – Tentei evitar que caíssemos em um silêncio desconfortável.
- Bucky. – Murmurou.
- Certo, Bucky, meu nome é . – Disse, estendendo a mão em um cumprimento, Bucky ficou encarando a ponta de meus dedos.
- Pensei que era Hades. – Ele disse quando aceitou meu aperto de mãos, mesmo hesitante e sem firmeza, pude sentir o calor se sua palma na minha. – Deus grego, certo? Pelo menos essa referência eu consigo entender. – Eu ri do comentário.
- Um homem fora de seu tempo. – Disse. – Bem, para a maioria das pessoas, é mais seguro que eu seja apenas Hades, mas, se vamos nos ajudar, precisamos confiar um no outro.
- Não sou confiável, . Não posso ajudar.
- Bem, Persefóne, não vamos desistir de você. – Ele sorriu. Senti um pouco se esperança se aflorar dentro de mim, queria que ele partilhasse desse sentimento, mas me contive. Ainda não tinha sua autorização.
- Eu te contei algo sobre mim, que tal se me contar algo sobre você? – Arrisquei.
- , desculpe... Não acho que conversar vai conseguir desligar essa coisa que colocaram em minha cabeça. Se você não tiver certeza, olha, tudo bem, eu volto a hibernar. – Sua mão correu pelo seu cabelo, retirando os fios compridos dos olhos para que ele me encarasse. – Eu não posso arriscar machucar mais pessoas.
- Bucky. – Sustentei seu olhar, ele estava tão na defensiva, com a cabeça baixa, que só agora consegui observar que seus olhos eram claros. – Eu estou aqui para te ajudar...
- Eu entendo que é o que o Steve quer, até entendo que o T’challa sente que me deve alguma coisa - Ele me interrompeu, as emoções começaram a pesar de novo. Toquei a pedra buscando forças para bloqueá-las. – Mesmo não merecendo, eles querem me ajudar, mas eu não queria envolver mais pessoas nisso. Você realmente sabe o que eu sou, o que eu fiz? – Meu coração começou a bater acelerado, acredito que no mesmo ritmo do de Bucky. A voz dele falhou, mas ele manteve o olhar fixo em mim - Eu me lembro de cada pessoa que eu matei. Eu sou o Soldado Invernal. Não há conversa no mundo que mude isso, eu sinto muito, eu devia voltar para a hibernação.... – Subitamente ele parou de falar. Senti meus músculos relaxarem e a calmaria tomar conta da sala. Não queria fazer isso, mas as emoções dele estavam intensas demais e me atingiam com força. Ele soltou um suspiro de alívio, mostrando que minha intervenção fazia efeito.
- Eu posso intervir nos sentimentos dos outros. – Comecei a explicar. - Mas não gostaria de fazer isso sem a sua permissão de novo, então preciso que entenda que não vou te culpar por nada, Bucky, eu estou aqui para te ajudar a melhorar. Acredite ou não, já passei por algo parecido.
- Parecido com lavagem cerebral? – Ele perguntou. Não estava mais bravo ou angustiado, mas eu sabia que assim que parasse de emitir a calmaria, ele voltaria para o seu estado meio catatônico. Por enquanto, concentrei-me em lhe dar um pouco de paz para que pudesse explicar o que estava fazendo. Era mais fácil manter o elo vendo como a aparência mais relaxada o mudava completamente.
- Mais parecido do que você imagina. – Admiti. – Talvez eu te conte a história um dia, se você confiar suas histórias para mim também. – Ele riu, de verdade dessa vez, sem o tom de deboche ou amargura. Espero que isso se torne frequente.
- Já que você ainda não se sente seguro, eu vou te explicar um pouco mais sobre mim. – Sorri amigavelmente. - Mas vou bloquear as emoções, então, quero propor um acordo.
- Estou ouvindo
- Tente pelo menos por essa semana, tudo bem? Vamos nos encontrar para sua terapia todos os dias, então que quero que você me prometa que vai tentar se abrir comigo. Se no fim dessa semana ainda estiver tão descrente e quiser voltar a hibernar, nós vamos respeitar a sua decisão, mas me dê uma chance de tentar te ajudar.
Bucky ficou em silêncio. Aos poucos, fui fechando o canal que lhe transmitia calma. Sua postura foi endurecendo, voltando a ficar na defensiva. Um homem relaxado e charmoso dando lugar a culpa novamente.
- Uma semana, se nada ruim acontecer até lá. – Concordou por fim. Ele queria melhorar, isso já valia muito.
- Eu sequer me lembrava da última vez em que havia sentindo paz. – Resmungou baixinho – Acho que devo te agradecer.
- Podemos fazer isso quando for necessário e você estiver de acordo, Bucky. Na verdade, é isso que quero explicar para você antes de tudo.
- Bom, sou o melhor amigo do Capitão América, acho que vou conseguir entender.
- Um dos meus dons é o controle das emoções humanas, eu posso dosar e manipular, mas não criar. Imagine que eu tenho um canal, que eu posso abrir e fechar para compartilhar coisas como calma, raiva, tristeza ou amor. Agora pouco, eu usei minha própria calma para intensificar o sentimento e dividir com você, mas o canal é uma via de mão dupla, então também posso sentir o que você sente, principalmente porque você é muito... hnn... intenso eu diria. Há muitos sentimentos acumulados.
- Disso não tenho dúvidas. – Ele disse.
- Geralmente eu consigo abrir e fechar esse canal de acordo com a minha vontade, mas quanto mais intensa for a emoção perto de mim, mais difícil é. Por isso precisamos trabalhar juntos, então, quando você achar que devo intervir, me avise.
- Certo – Concordou.

O tempo passou rápido. Logo Nakia, a guerreira de confiança do rei de Wakanda, bateu a porta, acompanhada de Steve Rogers. O capitão sorria amigável enquanto ela permaneceu na entrada. Recoloquei minha capa.
- Nós viemos para acompanhar vocês até os aposentos. – O Capitão sorriu charmoso.
- Aposentos? – Bucky perguntou.
- Mesmo que secretos, ainda são hóspedes do rei. – A voz cordial veio da porta. – Sou Nakia, guarda-costas real.
- Prazer em conhecê-la formalmente, Nakia. – Respondi.
Os quartos – ou aposentos, como Steve havia chamado - ficavam no mesmo corredor da sala onde eu havia consultado Bucky, onde estava sua câmara de hibernação.
- Teremos guardas sempre por perto, se algo acontecer, vocês podem contatar uma de nós a qualquer hora. – Nakia disse. – Vou deixar que se instalem e se despeçam agora. – Moveu a cabeça em um leve cumprimento antes de se retirar.
- Despedir? – Bucky olhou para Steve.
- Ainda estou investigando sobre o perigo que Thor nos alertou.
- E quanto a parte de ser um foragido? – Barnes sorriu, a presença de Steve fazia bem a ele.
- Também. – O melhor amigo riu.
- Se me dão licença, vou para o meu quarto. – Era melhor dar um pouco de tempo aos dois, além de que, estava realmente cansada.
- Obrigado por tudo, Hades. – Aceitei o aperto de mão firme do capitão.
– Te vejo amanhã. – Lancei uma olhadela para Bucky e ele concordou com um aceno.


2 – Hóspedes

O quarto era uma confortável suíte, espaçoso o suficiente, mas não exageradamente grande. Mesmo nascendo em uma família privilegiada financeiramente, depois que só ficamos o tio Stephen e eu, acabei passando mais tempo nos colégios internos do que em uma casa. Por consequência, dividindo o quarto com outras estudantes... mesmo depois de anos, um banheiro exclusivo era um luxo que não estava acostumada, por isso, me permiti tomar um banho longo e relaxante.
Pensei em Bucky e em como poderia abordar seus traumas. Mesmo com toda a loucura envolvendo a Hydra e o controle mental, essa era a chance de recuperar também um pouco da vida que eu havia perdido desde Hong Kong.
Com o soldado ainda em minha mente, sai do banheiro e tomei um dos meus remédios para dormir, tentando espantar outros pensamentos.

Eu podia sentir o chão frio sob meus pés. Meu cérebro se partia em diversos pedaços.
Eu ouvia as palavras bem longe... as palavras se partiam também, junto com os meus miolos...
- ... se pode me ouvir... – Doutor Estranho dizia... doutor... tio?
- Ela não pode. – Meus lábios responderam.
Meus?

Nakia estava pronta para guerra quando eu acordei no meio da noite.
- O que aconteceu? Eu estava fazendo a ronda e ouvi um grito. – Ela disse.
- Foi um pesadelo, sinto muito, tenho um sono conturbado. – Respondi sem graça.
- Ah... – Ainda parecia desconfiada. – Tudo bem, então?
- Sim.
Na manhã seguinte, Nakia voltou para o meu quarto, e dessa vez estava acompanhada pelo rei.
- Bom dia. - T’challa cumprimentou. – Vim convidá-la para o café da manhã. Barnes já está a caminho.
- Certo. – Respondi. – Obrigada por tudo, majestade.
- Um rei sabe o valor de um bom aliado. – Ele sorriu. – Você está segura aqui, Hades, sei do peso que um manto pode trazer, espero que saiba que seus segredos estarão bem guardados conosco.
- Claro. – Respondi, percebendo que ele se referia ao meu capuz, fiz menção de retirá-lo. O rei levantou a mãe, para que eu esperasse.
- Faça o que se sentir mais confortável. – Ele disse. – Nakia vai leva-la até a sala quando estiver pronta. Infelizmente, não posso ficar, mas quero que saiba que é bem-vinda em Wakanda.
- Obrigada. – Agradeci novamente.
Quando T’challa e Nakia se retiraram, decidi trocar meu capuz por uma de minhas roupas comuns. Se o propósito de tudo isso é ter um pouco de normalidade, então farei por completo.
Bucky pareceu pensar o mesmo. Usava jeans e camiseta, o cabelo preso para trás e a barba feita. Sorri ao vê-lo em pé ao lado da mesa.
- Preciso acompanhar o rei em uma missão. – Nakia começou a se despedir. – Espero que tenham um bom dia.
- Deve ser difícil para uma guerreira ficar bancando a nossa babá. – Bucky resmungou assim que Nakia se retirou.
- Ela e T’challa estão sendo receptivos. – Disse. – Somos hóspedes, afinal!
- Hóspedes escondidos, mas hóspedes. – Ele respondeu enquanto puxava uma das cadeiras na mesa repleta de comida. Não pude evitar rir quando ele foi para a outra cadeira no lugar de se sentar.
- O que foi? – Me olhou curioso.
- Nada, é só... bem, você puxou a cadeira para mim. – Sentei-me ao seu lado.
- Não fazem mais isso?
- Não com frequência. – Respondi. Sempre achei esses tipos de cavalheirismos meio exagerados e desnecessários, mas ele fez de forma tão intuitiva que me fez sentir acolhida. Talvez esse fosse o primeiro passo para nos aproximarmos.
- Eu queria ser gentil, sabe, é uma coisa que o Bucky de antes faria, eu sei que não posso voltar a ser aquele homem... mas...
- Tudo bem, Bucky! – Interrompi. – Foi gentil da sua parte.
Puxei a jarra de suco e enchi meu copo. Encarei os pães, as frutas, a torta, as panquecas, com certeza exageram demais para um café da manhã para apenas duas pessoas! Sorte nossa que tudo parecia muito gostoso.
- Como você passou a noite? – Bucky me surpreendeu puxando assunto. Lembrei-me da noite passada, talvez eu devesse começar a considerar a possibilidade de aumentar a dose dos remédios para dormir.
- Foi tudo bem. – Amenizei. – E você? Parece que acordou de bom humor! – Sorri, observando Bucky. O cabelo preso deixava os seus olhos claros mais visíveis, uma das mangas da camiseta branca caia para o vazio enquanto a outra marcava os músculos de seu único braço. Acabei prestando um pouco mais de atenção nessa parte. Os músculos.
- Um dia depois do outro. – Disse baixinho.
- Hoje eu acho que vai ser um dia bom! – Completei. – Você parece ótimo, ficou bonito sem barba.
- Obrigado. - Ele respondeu sem jeito. – Você também fica bonita sem a capa. – Continuou antes de enfiar um pãozinho na boca.

Estávamos no jardim da ala oeste do palácio de Wakanda. Uma das guerreiras Dora Milaje veio nos informar que todo o corredor de nossos quartos e o jardim para que ele dava estavam isolados dos outros, para que nós pudéssemos transitar livremente. T’Challa realmente estava nos tratando da melhor forma possível.
- Foi quando decidi me formar em psicologia, sabe, sempre vi meu tio preocupado com a rotina do hospital e tratando de doenças físicas, quis me concentrar em doenças mentais. – Continuei contando. – Embora nunca tenha tido a chance de exercer.
- Você é muito apegada ao seu tio? – Perguntou.
- Na medida do possível. – Respondi. – Ele é uma pessoa complicada, egocêntrico e arrogante são as palavras melhores, na verdade. – Ri – mas é minha única família, e sempre me ajudou quando eu precisei.
- Essa coroa foi um presente dele? Uma joia de família?
- Não combina muito quando estou sem a capa para completar. - Ri – É como um amuleto, tem a ver com a história que disse que iria te contar um dia. Sobre como nós somos mais parecidos do que você imagina. – Toquei de leve a pedra que estava presa em minha testa, tentando preencher minha cabeça com os dilemas de Bucky e espantar os meus.
- É por isso que você está aqui? Para exercer a profissão? – Ele perguntou com receio.
- Não exatamente, sabe, não estamos nem um pouco perto do que seria a situação e relacionamento ideal de paciente e psicólogo. Eu estou tentando ser sua amiga. – Disse – Por um lado, é sim o mais parecido possível com o que eu sonhava antes... bem, antes de ter minhas habilidades, por outro, eu tenho de ser honesta e dizer que não sei exatamente como lidar com o seu caso. Não são doenças mentais comuns, mas quando Steve me conheceu e soube sobre o que passei, ele teve esperança.
- Steve tem muita fé em mim. Ele não merece ser decepcionado de novo.
- Ele não vai. – Eu afirmei tentando encorajar Bucky e manter a confiança em si mesmo. – Vem comigo. – Disse enquanto o conduzia para um dos bancos de pedra do jardim. Sentamos lado a lado e eu segurei firme a sua mão.
- Quero compartilhar um sentimento com você. Posso? – Perguntei. Ele ficou encarando nossas mãos antes de balançar a cabeça positivamente.
Pensei na esperança e na fé de Steve, pensei na fé que meu tio teve em mim quando Hong Kong aconteceu, pensei na esperança que eu tinha em Bucky. Exalei tudo da forma mais forte que consegui.
- O que é isso? – Ele sorriu.
- Sentimentos são complicados de definir, não é? – Acompanhei seu sorriso. – Fé, esperança, amor próprio, vontade de viver. Eu quero que você acredite em si mesmo tanto quanto Steve acredita. Tanto quanto eu acredito.
- É difícil.


3 – I've got a feeling that I'm falling

De dentro para fora, de fora para dentro.
Eu via os fios grossos de meu cabelo sujo caindo sob meus olhos, mas eu não os sentia.
- Dormammu?
- Hades.
O rosto severo de Nakia foi novamente a primeira coisa que vi.
- Desculpe. - Disse sem graça, ainda um pouco ofegante.
- Tudo bem? Você está bem? - Ela perguntou.
- Vou ficar. Obrigada por tudo. - Disse, sem graça, pensando como as pessoas acreditariam que eu podia ajudar alguém se não conseguia sequer ajudar a mim mesma.

***


- Minhas memórias ainda ficam confusas as vezes. - Bucky estava deitado, o cabelo espalhado pelo estofado branco e os pés descalços. A testa franzida mostrava que ele estava preocupado mais em fingir para mim que estava sereno do que em tentar relaxar de verdade, como eu havia pedido no começo da sessão.
- Suas memórias começaram a voltar quando você confrontou Steve em Washington, certo?
- Sim, conforme as lembranças iam voltando, eu recuperava um pouco mais o controle. Ao menos até alguém dizer as palavras e me ativar como a arma que eu sou.
- Que o Soldado Invernal era. - Intervi. - Me conte alguma coisa boa que você se lembre, qualquer coisa.
Ele se remexeu no sofá. Abriu os olhos para me encarar.
- Isso realmente vai ajudar? - Perguntou.
- Só vamos descobrir se você tentar. - Rebati. Bucky desviou o olhar, tentando disfarçar um suspiro.
- Dançar. - Ele disse.
- Você gosta de dançar! - Exclamei – Por que não faz isso no seu tempo livre?
- Não era como hoje. - Falou baixinho. - Eram os anos 40, dançar era a chance de nos divertir e esquecer a guerra, a chance de conhecer uma garota...
- É uma das coisas que você sente falta? Deixou um amor nos anos 40?
- Não... Eu sinto falta de ter tudo, a chance de encontrar alguém, eu me lembro de esperar o fim da guerra e de me imaginar voltando para casa, lembro de imaginar que havia uma família me esperando, mas isso nunca aconteceu, a guerra nunca acabou. Eu sinto essa guerra de uma forma que nem você poderia sentir, porque eu me tornei a guerra. – O silêncio se instaurava conforme sua voz ia ficando mais fraca.
- Levante. - Estendi minha mão para ele, seus olhos indo da ponta dos meus dedos para o meu rosto sem entender. - Vamos! – Insisti.
Com uma das mãos puxando Bucky e outra ligando a internet no celular que eu usava basicamente para falar com Tio Stephen e Christine.
- Me diga uma música que você se lembra! – Disse.
- O que? – Ele perguntou.
- Se você não escolher, eu vou ter que buscar alguma aleatória online. – Sorri, puxando Bucky para longe do sofá, onde teríamos um pouco mais de espaço. – Quero dançar com você. – Disse.
- De novo. O quê?
- Nós vamos dançar! – Reafirmei, digitando no celular. – Hnnn... Ella Fitzgerald é da sua época?
- Era. – Respondeu seco. Apertei o player na primeira música que apareceu. I’ve got a feeling that I’m falling.
- Por favor. – Estendi a mão enquanto os sons das primeiras notas em um piano começavam a ecoar pela sala. Para minha felicidade, Bucky aceitou.
Seu braço pousou tímido em minha cintura, enquanto eu apoiei minhas mãos em seus ombros. Ele conduziu um primeiro passo tímido e desajeitado, que eu acompanhei.
- É assim que você se lembra? – Encarei seus olhos claros.
- Parecido – Ele esboçou um sorriso. – Na minha época, o homem era quem costumava convidar.
- Nessa parte, prefiro a minha época. – Respondi enquanto rodopiávamos em sincronia.
- Eu também. – Ele respondeu. – Mas haviam muitas mulheres incríveis nos anos 40 também, Steve já te contou sobre Peggy Carter?
- Não tivemos oportunidade, era alguém que você gostava?
- Não! – Ele respondeu arregalando os olhos. – Era a garota do Steve. Mas acho que vocês se dariam bem, ela também tinha personalidade forte.
- Você acha que tenho personalidade forte? - Arqueei a sobrancelha.
- Me convenceu a tentar viver, não foi?
- Nosso acordo de uma semana ainda não acabou. – Disse, mordendo o lábio. – Você já decidiu que quer ficar?
- Eu não sei se é o certo, mas eu quero. – Ele admitiu. Encostei minha cabeça em seu peito, balançando calmamente até a música chegar ao fim.

***

Eu me sentia sufocada, tudo era escuridão e distância novamente.
Chame todas as suas armas e os seus amigos cósmicos. Eu estou voltando. Eu vou te pegar de novo.
A maior surpresa não foi mais uma noite perturbada, mas a pessoa que veio ao meu socorro desta vez. Não era Nakia, mas outro rosto familiar. Bucky me encarava preocupado, ainda com a mão na maçaneta. A luz do corredor evidenciando sua silhueta contra meu quarto escuro.
- Posso entrar? – Perguntou.
- Sim, tudo bem. – Respondi enquanto ele acendia a luz e encostava a porta atrás de si.
- Você ouviu? – Indaguei.
- Sim. – Ele respondeu. – Ouvi todas as noites.
- E ainda confia que eu posso te ajudar?
- Foi o que me convenceu que podia, na verdade, saber que você também tem seus fantasmas. – Ele sentou-se na beirada da cama de casal. – Eu não consigo dormir à noite, toda vez que fecho os olhos é como se visse o rosto de alguém que eu... que o Soldado Invernal matou. Eu não sei com o que você sonha, mas quero te ajudar. Então, eu pensei que talvez pudéssemos fazer companhia um ao outro até espantar nossos fantasmas... fico melhor quando converso com você.
- Fico feliz em ouvir isso. – Disse enquanto dava espaço para que Bucky se sentasse ao meu lado na cama de casal. Sentou-se na beirada receoso, um homem fora de seu tempo. Estendi meus dedos até tocar os deles, passando confiança necessária para que ele se deitasse, ainda deixado uma boa distância entre nós. A cama enorme possibilitava isso.
Em silêncio, nossas mãos se encaixaram, fazendo com que o tempo parecesse congelar. Não sei ao certo quanto demorou para que adormecesse de novo, mas os pesadelos não voltaram mais naquela noite.

Seu perfume foi a primeira cosia que senti na manhã seguinte. Mais próximos do que quando pegamos no sono, eu podia sentir o calor de seu corpo perto do meu, sentia o ritmo de sua respiração calma. Os cabelos caiam em seus olhos fechados, imaginei como seria afundar minhas mãos em seus cabelos sentindo minhas bochechas esquentarem com os pensamentos que inundaram minha mente.
Com as pontas dos dedos, receosa, afastei as mechas de seus olhos, que se abriram lentamente. Bucky fez a última coisa que eu esperava, sorriu. Um sorriso verdadeiro, feliz, sem culpa.
- Bom dia. – Disse com a voz um pouco rouca.
- Bom dia. – Respondi baixinho. – Precisamos levantar.
- Fica mais um pouquinho. – Ele pediu, se aproximando.
- Bucky... nós... – Havia muita tensão ali, do tipo que não poderia haver jamais entre um psicólogo e um paciente. Mesmo não exercendo a profissão, me senti culpada por desejar Bucky daquela forma. Eu não estive com ninguém desde Hong Kong, e tê-lo ali tão próximo era difícil.
- Eu sei. – Ele disse, mordendo o lábio. – Eu só quero ser o cara normal que acorda do lado da garota bonita mais um pouco.
Coloquei a mão delicadamente em seu rosto, reprimindo o desejo que senti, nossos dilemas eram importantes demais para serem complicados com sexo. Em apenas quatro dias, eu senti que estava sim construindo aquilo que era mais importante, a nossa cumplicidade. Ele só tinha Steve, eu só tinha o Tio Stephen e Christine, nós merecíamos mais alguém em quem confiar. Merecíamos novos amigos.


4 – Brooklyn

- Talvez você devesse esquecer um pouco os problemas dele e se concentrar em você. – Stephen me encarava através da tela do celular.
- É claro que você acha isso. – Respondi amargurada. Doutor Stephen Strange era o mestre em pensar que o seu umbigo era o centro do universo. Ele bufou com a minha resposta.
- Esse sou eu tentando dizer que estou preocupado, tudo bem? Se essa pedra te deixar perder o controle...
- Eu não estou perdendo o controle. – Toquei a joia azul presa em minha testa. – A pedra é só um amuleto, eu sou o centro. E ele pode ser também.
- Já faz quase um mês que você está aí reclusa e...
- Nós vamos discutir isso? Realmente? A pessoa que fugiu com a tal anciã e me deixou sem saber se estava vivo ou morto? – Reclamei.
- Eu só não quero te perder de novo. – Disse. – Não como da primeira vez e não como perdi seu pai.
- Não pode me prender em uma bolha, tio. – Respondi. – Se eu não correr riscos, não vou viver.
- Por isso que Christine diz que você é a mais esperta da família! – Sorriu. – Só me ligue se precisar de algo, vou estar aí em um piscar de olhos. Literalmente.
- Tudo bem, diz pra Christine que eu mandei oi. – Pedi antes de desligar e jogar o celular para o lado. Estiquei-me na cama, ouvindo meu corpo estalar em diversos pontos. Para alguém que não queria viver em uma bolha, tio Stephen estava certo em dizer que estava reclusa. Não podia negar que seria legal sair de Wakanda um pouco. Ou ao menos, sair do palácio.
- ? – Ouvi a voz familiar a porta.
- Pode entrar. – Respondi.
- Oi! – Bucky cumprimentou. – Você nunca vai adivinhar o que T’challa me contou.
- Tem alguma coisa a ver com uma prótese? – Mordi o lábio e ele riu.
- Existe alguma forma no mundo de surpreender você? – Deitou-se ao meu lado, os cabelos espalhando na colcha da cama.
- Bem... talvez eu ainda tenha uma forma de surpreender você. - Bucky me encarou. – Se eu te levar para um lugar, promete guardar segredo?
- Prometo. – Respondeu.
- Me abraça, não importa o que você sinta, não me solte até eu pedir, e fique de olhos fechados.
- Essa já é a surpresa? – Perguntou, envolvendo minha cintura com o seu braço.
- Não, pervertido. – Envolvi seu corpo, nos aproximando e o segurando o mais firme que podia. – Fique de olhos fechados. – Reforcei.
Visualizei a lembrança mais vívida que tinha de casa. Nova York. Logo senti a familiar sensação do frio sobre nós.
- Pode abrir. – Disse. Os olhos de Bucky se arregalaram.
- Nós estamos... como... – Ele começou, olhando ao redor, levando os braços a cabeça em sinal de surpresa. Só para lhe dar um segundo choque. – MAS COMO? – Ele encarou as duas mãos. Duas.
- Se chama projeção Astral. Posso nos levar para qualquer lugar, mas nossos corpos ficam para trás.
- Estamos mortos?
- Não, nossos corpos continuam saudáveis, só estão desacordados. Você tem o seu segundo braço porque assumimos nossa forma mais saudável.
- Hades realmente combina com você. – Segurei sua mão, sorrindo.
- Ainda posso sentir seu toque.
- Sentimentos são ligados aos nossos espíritos, por isso posso acessá-los.
- Incrível. – Ele disse, colocando as duas mãos em meu rosto.
- Me conte sobre a prótese, você parecia empolgado. – Perguntei, quebrando o nosso contato visual. Aconteceu bastante no último mês, toda vez que eu sentia que cruzaríamos a linha, procurava alguma distração.
- Depois disso parece uma novidade sem graça. – Ele riu. – Metal, revestido com Vibranium. Não sei quando vai ficar pronto, mas T’Challa disse que está desenvolvendo. Acho que foi ideia de Steve, no telefone ele disse que vou poder usar para lutar do lado certo desta vez. Não sei bem o que eles estão pensando em me dar uma arma, acho que confiam no seu trabalho. – Sorriu.
- Eles confiam em você, Bucky. Habilidades requerem responsabilidade, você provou que merece.
- Obrigado.
- Eu confio em você, por isso, acho que chegou a hora de tentarmos uma coisa nova.
- O que?
- Testar o seu controle sobre si.


5 – Teste

- Vou manipular a sua raiva, criar uma atmosfera violenta, quero que você tente resistir as influências. – Expliquei. Bucky e eu estávamos na sala de tratamento acompanhados por uma Nakia silenciosa e atenta. – Vou te influenciar a querer me machucar, quero que você resista. – Admiti sem rodeios.
- Não é uma boa ideia. – Bucky estalava os dedos da única mão, visivelmente nervoso. – Não estou pronto, não podemos...
- Eu confio em você. – Disse firme, segurando sua mão. – Passamos um mês trabalhando suas lembranças, criando laços, fortalecendo sua mente. Precisamos tomar mais um passo.
- Eu não quero te machucar. – Ele disse. – Não quero.
- Não vai, eu posso te acalmar se as coisas saírem do controle e, além disso, Nakia está aqui.
- Não vou deixar você encostar em um fio de cabelo dela. - Assegurou.
- Não é uma boa ideia. – Ele repetiu. – Eu não suportaria te machucar.
- É por isso que você vai resistir.

Com a promessa de que ninguém sairia ferido, tomamos nossas posições. Bucky e eu nos encarávamos com vários passos de distância entre nós, Nakia observava um pouco mais longe, mas na direção certa para correr até mim se fosse preciso. O que não seria, tinha de acreditar que não.
Respirei fundo, tentando puxar as duas emoções opostas para controlar o canal que estabeleceria com Bucky a partir de agora. Precisava encontra raiva e calma dentro de mim. Meu coração acelerou com a angústia que comecei a sugar de Bucky, ele me encarou com os olhos marejados.
Tudo o que tiraram dele... tudo o que fizeram com seu corpo sem seu consentimento... tanto ódio por essas lembranças, tanto ódio por ser lembrado como um instrumento e não como uma pessoa.
Meu estômago revirou. Respirei fundo novamente e toquei o amuleto, não posso perder o foco! Esse teste não era só para Bucky, mas também para mim. Nós seriamos o centro. Ele deu alguns passos em minha direção.
- Não é sua culpa, não vou te machucar. – Ele soluçou, deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. – Eu odeio o que fizeram comigo, mas não posso me odiar mais. Não sou mais aquilo.
Meu coração bateu tão forte que achei que todos em Wakanda poderiam ouvir. Aquelas palavras significavam muito, mas ainda havia uma coisa que precisava ser testada e eu espero que ele me perdoe por isso. Precisávamos forçar o controle da Hydra, até que ele quebrasse completamente.
- Saudade. – Sussurrei em russo.
- O que? – Ele interrompeu.
- Enferrujado. Dezessete. Aurora.
- Não, não, não... – Ele caiu de joelhos a mão fechado em um punho tão cerrado que os nós de seus dedos estavam quase brancos.
- Forno. Nove. Benigno. – Continuei.
- Por favor.... – Sua mão voou para o chão, socando o piso com força.
- Volta para casa. – Ele estava sofrendo. Batia no chão porque estava completamente perdido, talvez eu estivesse forçando demais, sentia que estava forçando demais. Ao mesmo tempo que sua mão começou a sangrar, senti pontadas de dor em minha cabeça.
- Um... – Minha voz começava a embargar, eu estava ofegante, tentando me manter de pé enquanto tentava minimizar o canal de emoções. Bucky chorava enquanto a mãos pingava sangue contra o piso branco. Tentei dissipar a raiva, tentei encontrar calmaria. Trôpega, aproximei-me de Bucky.
Seus olhos se levantaram para mim, cheios de mágoa. Seu corpo todo tremia, sua mão ferida agarrou meu braço, firme, mas não com força o suficiente para machucar. Ele ainda estava consciente. Nakia começou a vir em nossa direção, mas eu fiz um sinal para que ela esperasse mais um pouco.
- Vagão de carga. – Dei a última cartada. – Soldado?
- Nãã... – Bucky desmaiou antes de terminar a palavra.

Nakia praticamente carregou nós dois para o sofá. Bucky ainda estava desacordado, eu me sentia tonta e enjoada, sentei no chão ao lado dele, buscando todas as forças para ficar acordada.
- Será que um médico pode examiná-lo? – Perguntei.
- Vou falar com o rei, traremos alguém o mais rápido possível para examinar os dois. – Nakia respondeu enquanto já corria para a porta. Outra guerreira Dora Milage apareceu.
- Fique de olho, vou chamar um médico. – A chefe instruiu rapidamente antes de sair.
Pousei minha cabeça delicadamente sobre o peito de Bucky, tomando cuidado para não encostar em sua mão ferida. A probabilidade de que algum osso estivesse quebrado era bem alta e eu não queria causar mais dor ao meu amigo. Trabalhei a sensação de calma dentro de mim e exalei o mais forte que conseguia. Sua respiração era tranquila e ritmada. Com a manga da minha blusa, comecei a secar o suor e as lágrimas de seu rosto.
- Você consegue me ouvir? Bucky, acorda... por favor... – Pedi para ele e para os céus.
- Fiquei órfã quando eu tinha doze anos. – Falei baixinho, ouvindo seu coração bater. – A minha mãe era professora de literatura e gostava desse poema “A segunda vinda”, lembro dela recitando o tempo todo enquanto preparava as aulas: “Tudo se parte, o centro não aguenta” – Fechei os olhos, me sentia tão esgotada – Quando acordei no hospital depois do acidente de carro, Tio Stephen ainda era um dos médicos residentes, ele estava lá comigo e me disse “Você é o centro agora, precisa aguentar”. Meio rude, não é? Ele é quase sempre assim. – Ri fraco. – Seja o centro, Bucky, aguenta, acorda, Bucky...
Aos poucos, fui tomada pela escuridão também.


6 – Completo

- Você não ligou. – A voz grossa foi a primeira coisa que ouvi. Pisquei os olhos algumas vezes antes de focar minha visão na figura excêntrica do Doutor Estranho, o meu tio.
- Onde está o Bucky? – Perguntei.
- Essa é a primeira coisa que você me diz? – Stephen cruzou os braços e eu revirei os olhos.
- Ele está bem? – Insisti.
- Estável, o Capitão América está com ele. – Percebi que meu tio se esforçava para segurar uma risadinha.
- Vai, pode dizer! – Exclamei
- Está tentando uma vaga de estagiária nos Vingadores?
- Você já parece estar usando o uniforme. – Rebati, revirando os olhos.
- Vamos falar sobre onde está sua capa de gótica. – Desafiou. Não consegui segurar o riso.
- Foi legal você ter vindo, mas eu estou bem. – Disse. – Como você soube, aliás?
- Como acha que Steve chegou aqui tão rápido? – Meu tio perguntou enquanto apontava para si mesmo.
Como que invocado, o Capitão América bateu a porta de meu quarto naquele momento. Ele parecia mais cansado, como se tivesse envelhecido muito mais do que um mês desde a última vez que o vi.
- Ele quer te ver. – O rosto que agora carregava uma barba por fazer, sorriu.

***


Ver Bucky deitado, pálido e cansado, partiu meu coração.
- Como você está? – Perguntei, entrando receosa em seu quarto e fechando a porta atrás de mim.
- Exausto. – Respondeu baixinho.
- Estou feliz que quis me ver, sabe, eu sei que forcei além do que você esperava, mas você conseguiu Bucky, você resistiu. – Disse, mordendo o lábio. Eu estava orgulhosa dele, mas não estava orgulhosa de minha atitude. As faixas que envolviam sua única mão estavam ali para provar que não havia sido um sucesso absoluto.
- Vem cá. – Ele abriu espaço na cama. Nossa proximidade já era constante, embora eu ainda não houvesse me acostumado com a sensação. Ele me envolveu com o braço, mas sem forçar muito por causa de seus ferimentos, encostou sua testa na minha e suspirou.
- Eu queria poder te abraçar direito. – Resmungou.
- O seu abraço é o melhor de todos. – Aninhei-me em seu corpo.
- Você sentiu tudo? – Perguntou.
- Suas emoções são intensas. – Admiti. – Mas eu acho que elas também são a chave para te libertar. A quebra do controle começou com o seu confronto com Steve, então a cada memória recuperada, a cada laço criado, sua mente fica mais forte.
- Eu resisti. – Ele abriu o sorriso que continha todos os mistérios do mundo.
- Estou orgulhosa de você, nós podemos ir para o Brooklyn de verdade agora! Ou qualquer outro lugar que você quiser ir!
- Nós? – Questionou, me fazendo engolir em seco.
- Hnnn... você... – Comecei a reformular.
- Não, eu gosto de “nós”! – Ele me interrompeu. – É que Steve disse que seu tio estava aqui, achei que você iria embora com ele.
Encarei seus olhos claros. Ir embora nem havia se passado pela minha cabeça, mesmo que isso fosse algo que eu sempre fazia. Vivia nos colégios internos, passava as férias viajando, via meu tio quando ele encontrava tempo, me mudava de país em busca de novos cursos e novas pessoas e depois de Hong Kong, mudava o tempo inteiro porque simplesmente não conseguia encontrar nada que parecesse um lar.
- Eu pensei que ainda deveria acompanhar você, só para garantir que você continuaria fortalecendo sua mente... e... eu não queria ir embora. – Fui diminuindo a voz. Não queria perder Bucky, era besteira tentar pensar que eu não estava completamente envolvida por ele, mesmo que evitando que qualquer coisa física acontecesse, não queria evitar para sempre.
Bucky mordeu o lábio, se aproximando mais ainda de mim. Sua respiração quente batia contra meu rosto.
- Me sinta. – Sussurrou. Eu abri a conexão, embora talvez nem fosse preciso, com toda a energia que emanava dele. Desejo, carinho, paixão... amor?
- Eu não quero mais ser uma arma. – Começou a falar em tom urgente, passando as pontas dos dedos que estavam para fora de seu curativo em meus cabelos. – Eu não podia machucar você, não só pelo respeito que devo a todas as pessoas, mas porque você é importante para mim, , eu entendo se você não me querer tanto quanto eu te quero, mas você me fez ser capaz de sentir novamente, você me salvou.
- Como sabe que eu não te quero? Pensei que era óbvio o quanto eu lutava internamente para não prejudicar o seu tratamento com os meus sentimentos... – Não tinha sentido fingir mais.
- Você... – Ele riu. – Você sempre recuava, e eu, bem, eu sempre me sentia incompleto. Sem braço, sem memória, sem ser capaz de oferecer segurança...
- Bucky – Afundei minhas mãos em seu cabelo, como sempre quis fazer. – Seu braço não diminui quem você é! Nunca pense nisso, certo? Isso não faz diferença nenhuma, você não é incompleto.
Sua resposta foi, finalmente, unir nossos lábios.


7 – Moonage Daydream

Vi aquele desconhecido se contorcer de dor em minha frente. Sua dor se transformava em meu prazer, e tudo o que eu sentia era tão intenso que poderia explodir minha pele em mil pedaços.
- ! ! – Ouvi a voz distante.
Eu estava explodindo.
- !
Quando abri os olhos Bucky me encarava assustado com os olhos marejados.
- O que aconteceu? – Perguntei.
- Você não acordava. – Ele disse. – Ouvi seu grito e vim te acordar, mas você não acordava. – Falava tão rápido que atropelava as palavras.
Estiquei a mão para tocar o amuleto na escrivaninha ao lado da cama, coloquei a tiara na testa e esfreguei a pedra azul.
- Preciso te contar uma coisa. – Disse, encarando Bucky.

***


- Dormammu é uma espécie de demônio que governa a dimensão negra, ele usou Kaecilius para tentar conquistar nosso planeta e tornar parte de seu reino basicamente, meu tio impediu isso usando uma joia do infinito. Acontece que eu também estava em Hong Kong quando isso aconteceu, acredite ou não, estava lá para um seminário de psicologia e não por nenhum motivo místico. Até que um acidente aconteceu.
- Que acidente? – Bucky se ajeitou ao meu lado.
- Eu... eu... – Mordi o lábio.
- Pode falar.
- Eu morri. – Bucky arregalou os olhos e apertou minha mão. - Tio Stephen me contou que enquanto Hong Kong era invadida pela dimensão negra, eu corria pelas ruas tentando ajudar outras pessoas, então, tio Stephen tentou me fazer parar de bancar a heroína e me colocar em segurança, mas aí Kaecilius percebeu que eu era importante para ele e fez uma haste atravessar meu estômago.
Bucky olhou institivamente para minha barriga coberta pelo tecido fino da blusa.
- Não tenho cicatriz. – Disse. – Eu não me lembro disso, na verdade, porque meu tio usou a joia do infinito para voltar no tempo e impedir que isso acontecesse. E nós achamos que estaria tudo bem, afinal, tecnicamente aquilo nunca teria acontecido. Mas Kaecilius, e consequentemente Dormammu estavam perto de mim quando eu morri, e de algum forma isso me fez ser suscetível ao demônio. Não demorou muito.
- Não demorou para que? – Bucky me incentivou.
- Começou com alucinações e foi ficando mais frequente, até que Dormammu descobriu que estava conectado a mim e podia usar meu corpo como receptáculo. Ele tomou o controle e me fez fazer coisas horríveis.
- Eu sinto muito. - Bucky envolveu seu braço em minha cintura, beijando o topo de minha cabeça.
- A pedra azul é uma espécie de amuleto mágico que me tio me deu para ajudar no controle. Mas enquanto estava possuída as coisas que eu fiz chamaram a atenção dos Vingadores, foi como conhecemos Steve. Conseguiram mandar Dormammu de volta para a dimensão dele, eu recuperei meu corpo, mas ainda estava conectada a alma das pessoas, podia sentir o que elas sentiam. Comecei a trabalhar com meu tio e aprender magia, a projeção astral vem daí, não sou poderosa como ele porque na verdade nunca quis chegar ao final do treinamento, queria tentar voltar a ser comum, mesmo que no fundo já soubesse que isso nunca ia acontecer. Pouco depois houve o tratado de Sokovia e Steve nos encontrou de novo para falar sobre você.
- Então, estamos aqui. – Ele completou.
- Sim.
- Vai ficar tudo bem. – Bucky me confortou.
- Sim. – Queria que nós dois acreditássemos naquilo.

***


- Hades, está ficando pior. – Ouvi a voz assim que fechei a porta de meu quarto, virei-me bruscamente para encarar o homem familiar. Tio Stephen estava com uma expressão que não era usual.
- Você voltou? Disse que depois de levar Steve de volta tinha de resolver umas coisas com Christine. – Perguntei incerta, revisando mentalmente a conversa de despedida que havíamos tido depois da recuperação de Bucky.
- Hades, está ficando pior. - Ele disse, caminhando em minha direção.
- O quê? – Perguntei, temendo a resposta. – O que está acontecendo?
- Você sabe o quê. Todos sabem.
- Está tudo bem? – Bucky saiu de seu próprio quarto ao lado do meu, me encarando preocupado. Mordo sorriu aguardando minha resposta.
- Está. Eu só estou tentando entender o que aconteceu, tio? – Perguntei.
- , com quem você está falando? – Bucky perguntou receoso. Arregalei meus olhos para ele, como se fosse óbvio o que estava acontecendo.
- Não tem ninguém aqui. – Ele disse como se fosse óbvio também.
- Ah. – Disse. – Certo, eu, eu, eu... preciso resolver uma coisa.
- , eu posso te aju... – Não esperei que Bucky terminasse a frase antes de fechar a porta e puxar meu celular do bolso. Isso não podia estar acontecendo.
Meu coração saltava contra meu peito enquanto a tela do celular discava para o Dr. Estranho.
- Que saudade! – Foi o rosto de Christine que apareceu na tela.
- Oi! – Dei o melhor sorriso que consegui. – Como vai, Chris?
- Um dia de aventura depois do outro – Ele riu - e você?
- Também. Escuta, meu tio está com você?
- Está sim, mas acabou de entrar no banho. – Ela disse apontando para a porta. – Está tudo bem? Quer que eu o chame?
- Não, não! Tive um tempinho extra e queria saber como vocês estavam. Ele esteve o tempo todo aí com você? O tempo todo?
- Sim. – Percebi pelo seu rosto corado o que os dois deveriam estar fazendo.
- Certo, eu retorno depois, não era nada, obrigada, Chris!
- Beijo! – Ela se despediu.
Não estava tudo bem.
Eu estava alucinando de novo.

Durante os próximos dias, reduzi o tempo que passava com Bucky, concentrei-me em meditar durante o máximo de tempo que conseguia. Eu praticamente só via ele em nossas sessões e a noite, quando ele me acordava e tentava me trazer de volta a realidade. Meus pesadelos estavam ficando piores também.
- Você sabe que eu estou aqui por você, não é? – Ele começou enquanto minha respiração voltava ao normal. – Pode confiar em mim.
- Eu confio em você, Bucky, eu só estou com medo. Não posso baixar a guarda agora.
- Vai ficar tudo bem. – Me confortou, beijando o topo de minha testa.
No fundo, eu sabia que aquilo ia acontecer mais cedo ou mais tarde, só não queria acreditar. Não havia meditação ou amuleto no mundo que conteria a fúria de um demônio.


8 – O centro

Acho que começou como um sonho, do qual eu não consegui acordar. Eu abri meus olhos, mas não acordei. Eu vi o rosto de Bucky, mas não sei se o reconheci.
Havia uma espécie de penumbra que em envolvia, sufocava, impedia que eu me movesse. Tudo estava denso e pesado, eu via o que acontecia, mas meu cérebro não processa a informação.
Acorde, ... Acorde... ... Hades.
Dormammu.
- ! – Bucky estava me chamando em meu quarto, mas apesar poder ver seu rosto e ouvir sua voz, eu não conseguia alcançá-lo. Meu braço se ergueu no ar e ele foi arremessado para trás.
Não... não..
- Ajuda! – Bucky pediu.
- Ninguém pode ajudar. – Meus lábios disseram. – Ela é minha deusa do mundo inferior, a porta de entrada para a dimensão negra na terra, minha Hades.
- Dormammu? – Bucky perguntou.
- Uma parte. – Sorri. – Mas o show completo logo vai chegar.
- O que está acontecendo? – Nakia entrou no quarto em posição de combate.
- Ela não é a . – Bastou aquelas palavras para que Nakia puxasse um punhal e assumisse posição de combate. Rápida, ela acertou um golpe no meu rosto. Empunhava a arma de forma ameaçadora, mas preferiu me atacar com um soco.
Queria sentir a dor de seu golpe, queria rasgar a penumbra e assumir o controle, mas tudo era tão denso.
Bucky aproveitou a distração do golpe para correr até meu criado mudo, pegando meu celular e o amuleto de concentração. Minhas mãos se ergueram mais uma vez, fazendo com que Nakia fosse içada para o ar e deixasse eu punhal cair.
- ! - Ela gritou antes de ser lançado contra a parede, causando um estrondo.
- está tirando um cochilo. – Meus lábios disseram. – Eu digo que vocês passaram por aqui.
Comecei a andar para a porta. Não, Dormammu não pode sair desse quarto, não pode atacar Wakanda.
Eu passava pelo corpo desacordado de Nakia. Me impeça, por favor, por favor...
Uma luz dourada chamou minha atenção pouco antes de ser atingida por outro golpe.
- Quando eu disse para me ligar, era antes de chegarmos a esse ponto. – O rosto familiar me fez tocar a densidade mais uma vez. Se eu pudesse romper a escuridão, se conseguisse chegar até eles...
- Dr. Estranho! – Minha voz saiu baixa e ameaçadora.
- Dormammu, eu vim barganhar. Deixe minha sobrinha em paz e volte para sua dimensão por vontade própria.
- Ou? – Minha voz provocou.
- Eu vou chutar você até ela. – Ele respondeu.
- Não podemos machucar o corpo! – Bucky interviu. – Ainda é a .
- Você acha que eu não sei disso, desmemoriado? É minha sobrinha.
Três guerreiras Dora Milage apareceram no quarto, iniciaram um combate corporal contra mim. Uma a uma, Dormammu usava os poderes para derrubá-las.
- Avise o rei. – Bucky gritou enquanto ajudava uma das guerreiras a se levantar. Dormammu lutava contra outra e eu via seu rosto se contrair em dor.
Pare com isso, não use meu corpo para isso...
- ! – Bucky gritou de novo.
As barras de ferro da cama se soltaram e voaram em minha direção, Dr. Estranho as controlava, fazendo com que elas se contorcessem contra meu corpo tentando me imobilizar.
- , por favor, volte. – Bucky gritou.
- Ela não pode ouvir você. – Minha voz disse, mas Dormammu, ou a parte de Dormammu que me possuía, estava errado. Eu podia ouvir Bucky, eu via o que estava acontecendo, eu ainda estava aqui.
Bucky se jogou em cima de mim enquanto as barras ainda me seguravam e colocou a coroa em minha testa. Eu pude sentir o metal frio que carregava a pedra azul. Eu pude sentir!
E Dormammu também, o que não deixou a criatura feliz.
As barras de ferros se romperam. Meu corpo começou a levitar, voando por cima de Bucky e indo até o corredor. T’challa vinha na direção oposta cercado de guerreiras.
- Não deixem que ela saia do castelo. – O rei ordenou e todas as guerreiras puxaram suas armas. Minha mão se levantou mais uma vez na direção do punhal de Nakia, fazendo com que a arma levitasse e viesse até mim.
- Estou cansado de ser subjugado por humanos. – Dormammu disse através de mim, as guerreiras soltaram um grito com a onda de energia e dor que foi emitida por mim.
Não, você não vai machucar o povo de Wakanda!
- E eu estou cansado de perder as pessoas que eu amo. – A próxima coisa que senti foi o corpo de Bucky colidir contra o meu.
Sentir.
- , volta para mim. – Bucky pediu.
Meu braço agarrou sua garganta, imobilizando o soldado. O punhal de Nakia se ergueu no ar, mas Bucky não desviou os olhos.
- O centro vai resistir. – Sua voz saiu fraca com o meu aperto.
O punhal desceu com toda a força contra o corpo, mas não o de Bucky.
- Nós somos o centro. – Consegui dizer antes que a escuridão me engolisse por completo.


9 – Consciente

Falling for nobody else, but you... A melodia doce do jazz foi a primeira coisa que ouvi.
- O que aconteceu? – Perguntei com voz fraca.
- Você acordou! - Bucky correu para o lado de minha cama e me abraçou.
- Você tem dois braços. – Um trazia o toque carinhoso e quente que eu estava acostumada, o outro era gelado e metálico.
- T’challa conseguiu isso. – Contou mexendo os dedos do braço de metal. – Revestido em Vibranium, acredita? – Ergueu as sobrancelhas se gabando.
- Onde está T’challa? E Nakia? Eu feri alguém?
- Estão todos bem. – Bucky me acalmou. – Nakia teve algumas costelas quebradas, mas ela sabe que não foi você. Está se recuperando muito rápido, aquela mulher é uma guerreira nata.
- O que eu fiz... AH! – Senti uma dor aguda em minha barriga quando tentei me sentar.
- Assustou todos nós. Seu tio transportou aquela médica, Christine, para cá a tempo de conter o sangramento. Mas o ferimento que você fez com o punhal foi bem profundo, achei que ia te perder.
- Mas foi o suficiente para impedir que Dormammu conseguisse abrir o portal da dimensão negra.
- Você quase tirou sua própria vida. – Bucky exasperou.
- Estou aqui. – Apertei sua mão.
- Ainda bem que está aqui. – Tio Stephen abriu a porta abruptamente. – Quer me dar mais cabelos brancos? – Perguntou.
- Talvez. – Admiti.
- Nós precisamos ter uma longa conversa. – Tio Stephen disse, sério.
- Sei que tenho que ir com você e aprender a lidar com todo esse universo cósmico.
- Talvez não seja tão longa assim. - O semblante sério deu lugar a um sorriso.
- O que? – Bucky interrompeu. – Mas você disse que queria ficar.
- Isso foi a algumas semanas atrás, Bucky, quando eu acreditava que meditação e amuletos simples seriam o bastante para manter Dormammu longe. A verdade, é que eu acho que sempre terei uma conexão com a dimensão das sombras. Preciso entender isso completamente para controlar.
- Vou avisar Christine que você acordou. - Tio Stephen interrompeu. – Vamos partir assim que ela achar que o seu ferimento aguenta atravessar um portal.
- Não é uma despedida. – Comecei, entendendo o olhar de Bucky.
- Parece uma. – Ele mordeu o lábio. – Mas eu entendo.
- Vou vir te visitar assim que puder, mas preciso fortalecer minha própria mente agora. Nós dois precisamos.
- Eu espero o quanto for preciso. – Disse, acariciando minha bochecha.
- Ah é? – Arqueei a sobrancelha tentando parecer desafiadora. – Como vou saber que não cansou de esperar?
- Porque nós somos o centro. – Ele respondeu antes de unir nossos lábios.




Fim...?



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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