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Última atualização: 25/06/2020

Capítulo Único

I


girou o pulso direito, que segurava firmemente a espada. A lâmina refletiu as tochas que iluminavam o salão. Cortou o ar através de movimentos habilidosos, o corpo seguindo o ritmo tão familiar e que acalmava os seus nervos, a mente tranquila o suficiente para analisar a melhor forma de acabar com o oponente. Manteve-se no seu treino diário, alternando os golpes com as pernas e a espada, até os membros queimarem.
Ouviu uma batida na pesada porta de madeira e alguém entrou. Ignorou-lhe, permanecendo concentrada.
- Com licença, Alteza.
Reconheceu a voz de Alaunus. O homem estava acostumado a lidar com a sua rainha e por isso, continuou.
- O Rei deseja um minuto de seu tempo. - O tom era de deboche.
Ela grunhiu, irritada, e continuou alternando os golpes com a pesada espada, repetindo mentalmente “esquerda, direita, esquerda…”. Não queria se permitir pensar no homem que abandonou cinco anos atrás e que, mais uma vez, ousou procurá-la.
- Mande-o embora, Alaunus. - Lançou um rápido olhar para o serviçal, mas o suficiente para soar ameaçador e, em seguida, fez um rolamento e ergueu-se num pulo.
Sentia muito calor. O ambiente estava abafado e o suor escorria por seu corpo, empapando suas roupas. O longo cabelo estava trançado e balançava com os movimentos. Vestia uma camisa e calças largas, roupas geralmente usadas pelos guerreiros do reino, mas escolheu por ser confortável.
- Como quiser, Alteza. - Fez uma mesura e saiu, fechando a porta atrás de si.
Finalmente, parou. O coração batia agitado e a respiração ofegante. Olhou para a única e pequena janela que permitia a entrada de luz e ar no quarto de pedras acinzentadas. Percebeu que o sol havia nascido e, milagrosamente, o céu estava livre das nuvens carregadas de chuva. Puxou a barra da camisa e secou o suor da testa, a boca estava seca e sedenta por água. Guardou a espada e mexeu os braços, sentindo-os doloridos.
Havia passado do limite, treinado umas boas horas numa tentativa de esquecer o pesadelo que a acordou no meio da noite e lhe roubou o sono. Lutava para não relembrá-lo, mas se ousasse fechar os olhos, surgia em sua mente. Sabia que não era fruto de sua imaginação, mas uma visão e isso a assustava profundamente. Deveria seguir até Kassi para contar, mas não conseguia. Tinha esperanças de que continuar fingindo ser apenas um sonho, impediria-o de se tornar realidade, uma realidade muito, muito sangrenta.
- Não…
- Sai da frente!
Vozes masculinas soaram abafadas pela porta e ela virou-se, viu abri-la com violência, a expressão obstinada.
Launus veio em seguida, indignado.
- Quando vai parar de me ignorar? - O homem parou a poucos metros de distância, os braços cruzados na frente do corpo.
- Desculpe, Alteza. - O serviçal cruzou as mãos na frente do corpo e inclinou a cabeça, um gesto de pesar.
- Tudo bem, a culpa não é sua e sim desse idiota. – Falou, irritada, mas manteve uma expressão doce direcionada ao criado.
Viu-o erguer novamente a cabeça ao ouvir as palavras da rainha. Sua expressão estava tranquila, mas os olhos revelavam a raiva direcionada ao guerreiro.
- Não me olhe assim. Eu teria sido o seu rei! - soltou num tom ofendido e fez um gesto com a cabeça em direção à rainha. - Se ela não tivesse me chutado feito um saco de lixo.
A mulher encarou-o diretamente, atenta feito um falcão prestes a abocanhar a sua presa e viu o homem imitá-la, numa guerra silenciosa. A tensão era palpável o suficiente para que o serviçal saísse dali sem qualquer ordem imediata, deixando-os a sós.
- Se eu te chutei feito um saco de lixo, - deu ênfase debochadamente - por que está aqui? - A voz fria, esforçando-se para manter a aparência inabalável, livre de qualquer ressentimento.
Observou-o apertar os dentes tão forte que a linha do maxilar se destacou. Mantinha-se na posição: braços cruzados, os pés separados. Ela não queria se permitir olhá-lo tão abertamente, pois sabia que o sentimento estava bem escondido dentro do seu coração. O homem estava guardado dentro da sua própria caixa de Pandora junto com o seu passado. Quando decidiu terminar o relacionamento, jurou para si mesma que iria esquecê-lo e vinha lutando bravamente para tornar realidade, mas o problema é que ele reaparecia sempre que a fogueira estava transformando-se em brasa e, com isso, parecia jogar combustível e explodia tudo novamente.
Ele tinha trinta e cinco sóis de vida, mas os problemas pareciam pesar em seus ombros. O cabelo estava muito maior, alcançando os ombros e menos brilhosos do que ela se recordava. Marcas escuras estavam presentes abaixo dos seus olhos e linhas de expressão desenhavam em sua testa e bochechas. O rei e forte guerreiro parecia ter perdido o seu brilho, aparentava ser um homem repleto de problemas e que parecia não os ter resolvido. Isso foi o que a assustou, pois o mesmo homem por quem era apaixonada havia desaparecido. Ou teria sido sua mente apaixonada que salpicou-o de brilho e o esculpiu em perfeição? Tornando-o o forte e destemido guerreiro , filho de da terra de Kadinah, a quem foi prometida no nascimento e a quem amou desde a infância, até que rejeitou-o horas antes do casamento que selaria a união de ambos os reinos.
- Porque eu preciso da sua ajuda. - Deu de ombros e deixou os braços musculosos descansarem ao lado do corpo, a postura mais relaxada.
- Você sabe que não posso. - Xingou mentalmente por ter soado sentimental, esforçou-se para manter a indiferença em seu rosto. Cruzou os braços nas costas numa tentativa de esconder as mãos e não revelar o quanto estava agitada. Começou a abrir e fechá-las de forma repetitiva, ainda escondendo-as ou o homem reconheceria o gesto de nervosismo.
-
Ouviu-o pronunciar o seu nome num tom carregado de intensidade, que atingiu-a, trazendo a tona o desejo de seguir até ele para envolvê-lo em seus braços. Sentiu-se arrepiar por completo e o coração bateu mais forte. Molhou os lábios com a língua, a sensação esquisita subindo através do estômago.
- Não. – Soltou, firme, ao vê-lo dar um passo em sua direção.
Deixou os braços caírem ao lado do corpo.
Ela não queria imaginar a expressão de seu próprio rosto, pois sabia que tinha deixado a máscara de indiferença escorregar. Tinha que recuperar o controle das suas emoções. Respirou fundo e ficou com a postura reta, o queixo levemente elevado, a rainha em pessoa. Havia aprendido isso na infância e fazia uso quando era necessário.
- Não ouse dar mais um passo.
O guerreiro estava a menos de um metro de distância.
- Ou o quê? - Ele desafiou, num sussurro. Parou a um braço de distância da mulher.
- Ou serei obrigada a enxotá-lo junto com o lixo. - Ameaçou friamente.
Manteve a postura imponente e que havia sido ensinada por seu pai, sacou sua espada e ergueu a sua frente, a ponta afiada tocando a parte de baixo do pescoço do homem.
Estava empenhada em vencer os próprios sentimentos e não ceder às sensações de tê-lo tão próximo. Frente à frente, um obstinado a vencer o outro, o desafio escapando pelos poros e tornando aquela cena comum. Uma fisgada conhecida atingiu o seu coração ao reconhecer o quanto fez falta estar com ele. Lamentava saber que seria por poucos minutos, pois precisavam se afastar e seguir com suas vidas. Não eram mais crianças ou jovens apaixonados repletos de sonhos. Ela não era a mesma de cinco anos atrás, assim como ele. Havia feito sua escolha e carregava o fardo todos os segundos de sua vida. Continuar ali, significaria sofrer e não poderia se dar ao luxo de pensar em si mesma. Ela tinha um reino para cuidar e proteger. Esse era o seu papel.
Continuou a encará-lo obstinadamente. O movimento foi mínimo, mas a rainha viu o canto da boca dele mexer e dar lugar a um sorriso provocante.
Ela prendeu a respiração para controlar os batimentos e a raiva que começava a deslizar por sua pele. Esforçou-se para permanecer com a espada no lugar, sem ousar desviar ou demonstrar fraqueza. Ele tinha uma escolha, mas sempre foi cabeça-dura e gostava de provocá-la até o limite. Jamais iria machucá-lo, mas não poderia recuar e mostrar o quanto ele a afetava.
Observou-o levantar a perna esquerda e dar um passo à frente, pressionando a pele abaixo do queixo na ponta afiada da espada. Ele não ousou desviar o olhar provocativo.
Logo, um fio de sangue escorreu pelo pescoço e desapareceu dentro da gola da camisa.
Ambos encarando-se, num confronto que ninguém queria ceder. A rainha sabia que o rei não tinha fama de ser paciente e, por isso, apostou com todas as forças nesse traço da personalidade. Pareceram horas, mas deveriam ter sido minutos até que, finalmente, ele se deu por vencido.
- Você é muito teimosa, mulher! - Resmungou e agarrou a lâmina com uma das mãos, afastando-a gentilmente.
- E você continua o mesmo idiota impaciente. – Sorriu, debochada, e abaixou a espada. Fez um gesto com a cabeça indicando o pequeno corte. - Melhor estancar o sangramento ou vai morrer seco.
Ele revirou os olhos e puxou a gola esfarrapada da roupa em direção ao corte, apertando.
- Parece que a minha morte está sempre em seus pensamentos. - Provocou e largou a camisa, um sorriso atrevido percorreu seu rosto enquanto cruzava os braços na frente do corpo.
A rainha revirou os olhos e descansou a lâmina da espada em cima do seu ombro direito.
- Quer que eu torne realidade? - Imitou o sorriso do outro.
Ele mordeu o lábio inferior, numa expressão de divertimento, e fez um gesto de pouco caso com as mãos, mesmo que sua atenção estivesse inteiramente nela.

And weightless, breathless, restitute
E sem peso, sem fôlego, restituído
Motionless and absolute
Imóvel e absolute
You cut me open and sucked the poison from an aging wound
Você me abriu e sugou o veneno de uma antiga ferida

- Não precisa se dar ao trabalho, Urd o fará em breve. - A diversão sumiu, a postura tensa.
Os olhos dela arregalaram-se, a boca abriu levemente e a sua pulsação acelerou, as mãos suando frio. Todos os moradores de seu reino consideravam esse nome um insulto, algo proibido e sujo, por isso escolhiam perder a língua ao invés de pronunciá-lo. Ashna sentiu o medo penetrando em suas veias, o pesadelo criando forma em sua mente. A guerra, a morte de seu pai, um reino destruído e a promessa de não se vingar, tudo atingindo-a feito um soco no estômago.
- Saia daqui. – Ordenou, lutando para manter o tom controlado, a espada erguida em direção à saída, a mão tremendo levemente.
- Nós podemos destruí-lo e vingar a morte de seu pai. - Olhou-a, determinado. Tentou tocá-la no ombro, mas afastou a mão quando ela colocou a lâmina trêmula na lateral do pescoço dele.
Sentia-se prestes a perder o controle.
- Vá embora, . - Insistiu com a voz trêmula, a visão tornando-se borrada.
Não iria perder o controle bem ali, diante do homem que amava e que havia abandonado por acreditar em seus próprios ideais.
- Ele está ameaçando o meu povo e a mim. - Evidenciou o desespero em sua voz. - Morreremos em uma semana.
Lutou para permanecer com as pernas firmes ao ouvir as palavras do homem, o seu pesadelo tornou-se realidade. Ela sonhou com , o campo de batalha sangrento e Urd gargalhando com sua taça de vinho. Ela viu o sangue, a destruição.
- Eu preciso de você. – Insistiu, o tom baixo. - O meu povo precisa de você. - Ele tocou a mão que segurava a espada, sem afastá-la de si.
Sentir o contato da mão quente na sua foi como o paraíso, uma sensação há muito tempo esquecida. Ela prendeu a respiração, lutando contra a avalanche de sentimentos que queria enterrá-la a todo custo.
Afastou a espada e sentiu tristeza quando a mão largou a sua.
- Eu sinto muito. - Sussurrou com intensidade, depositando todo o seu sofrimento e pesar e em seguida, esforçou-se para levantar as barreiras, o rosto frio.
- Até quando vai continuar sofrendo dentro das paredes geladas desse castelo?
- Isso não te interessa. - Rebateu friamente e largou a espada no chão. A pulsação continuava acelerada, as mãos suando frio e toda a agonia embrulhando o seu estômago.
- Você me rejeitou e eu me conformei, mas não aceito vê-la sofrendo sem fazer nada.
- Deveria estar preocupado com as vidas do seu reino. - Engoliu em seco enquanto mantinha a voz fria. - E a sua. - Doeu com todas as forças o golpe ao pronunciar aquelas palavras.
- Estamos sentenciados sem a sua ajuda, então prefiro cuidar da sua vida. - Deu de ombros, mas era palpável a tensão em seu corpo.
O tsunami de sentimentos, a noite mal dormida, a concretização do pesadelo e as horas de treinos estavam cobrando o seu preço. Sentiu a necessidade de sentar, mas não queria ceder e mostrar o quanto estava vulnerável com a situação. Eram apenas os dois naquele quarto vazio, iluminado pelas tochas penduradas nas paredes de pedras cinzas e nada além disso.
- Eu fiz uma promessa.
- Promessas podem ser quebradas.
- E o que seria de um homem sem a sua palavra? – Perguntou, abalada.
O homem aproximou-se novamente e segurou-a pelos ombros. Ela tremeu ao toque inesperado, encarou-o muito próximo. Sentiu a respiração quente atingir sua boca, a expressão no rosto dele era determinada.
- Ele se foi.
Ela permaneceu em silêncio, sentia-se prestes a desmoronar. Falar sobre o pai e a morte dele era tocar em uma ferida que jamais cicatrizará.
- Jure, . - O homem estava em pé na porta do quarto da filha, vestindo a sua armadura prateada.
- Você não vai morrer. - Falou num tom determinado.
- Jure que não irá vingar a minha morte e protegerá o nosso povo. - Insistiu, a expressão séria.
A jovem suspirou resignada, fechou as mãos em punho. Sabia que o pai não sairia até ouvir a promessa, mas prometer só tornava o medo da morte ainda mais palpável. Não queria e não iria cogitar a hipótese de perdê-lo.
- Eu posso te ajudar, papai.
Viu o olhar carinhoso do homem.
- Você é a minha única herdeira. Se morrermos, o que será de nosso povo? - Abriu a porta, a mão descansando na maçaneta, a sobrancelha erguida em sua melhor expressão de sabedoria.
- Terão que aceitar o próprio destino. - Deu de ombros. - Apenas não quero viver em uma realidade em que você não esteja, papai. - Confessou com a voz embargada, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo.
O mais velho, falou alguma coisa para um dos guardas e entrou novamente, aproximou-se da jovem e abraçou-a o melhor que a armadura fria permitiu.
- Eu te amo.
- Eu também te amo, pai. - Ela escondeu o rosto no ombro do homem, a voz embargada.
- Agora, jure.
Ela soltou um suspiro derrotado.
- Eu juro.
Soltou-a e lançou um último sorriso que evidenciou as marcas de expressão em seu rosto. Acenou para a filha e partiu, fechando a porta atrás de si.
A jovem caiu sentada na cama, o rosto molhado pelas lágrimas e, horas depois, chegou a notícia da morte do pai.

- Eu sei que dói. - Ele colocou ambas as mãos no rosto da mulher, acariciou as bochechas com os polegares. - E nunca vai parar.
As lágrimas venceram a batalha e jorraram. Ela afastou as mãos do homem e virou-se de costas, secando o rosto com as palmas das mãos, mas o choro não parava.
- Ele amava você e o povo, deu a vida para protegê-los, fez o que julgava ser certo. - Ouviu-o soltar um suspiro de cansaço.
- Urd virá atrás de destruição e eu sei que não estaria aqui para ajudá-la. - Suspirou novamente. - Eu sonhei e sei que estou fadado à morte.
Ela ofegou e virou-se, o rosto vermelho pelo choro.
- Você também sonhou?
Ele confirmou com um gesto de cabeça.
- Eu pensei que tivéssemos quebrado a conexão. - Sussurrou e secou mais uma lágrima.
Viu-o passar as mãos no cabelo e encará-la, a expressão entristecida.
- Estamos conectados desde o nascimento e o amor ainda existe. - Apontou para o próprio peito em direção ao coração. - Você me rejeitou, mas não arrancou o que eu sinto. - Sorriu tristemente.
- O meu reino está em suas mãos, .
- Não. - Sussurrou e cobriu o rosto com as mãos.
- Eu sonhei.
Ele virou-se e partiu, deixando-a sozinha, mergulhada em seu próprio sofrimento.

II


- O que eu faço, papai? - A mulher sussurrou, enquanto encarava a pintura de seu pai que estava posicionada na galeria dos ancestrais da família.
O lugar era um corredor iluminado por tochas e várias pinturas penduradas retratavam os seus antepassados.
Depois da visita de e a conversa que tiveram, passou os dias refletindo e avaliando os seus sentimentos. Passou horas encarando o retrato do pai e andando de uma ponta a outra da galeria. Momentos antes, foi informada que os guerreiros de Urd estavam marchando para Kadinah e eram centenas, muito mais do que tinha reunido. Não tinha entrado em contato com ele, mas não conseguia afastá-lo de sua mente. Amava-o com todas as forças, mas a promessa que fez ao seu pai tinha um peso maior para si mesma.
Ouviu passos apressados ecoando pelas pedras e virou-se, viu a conhecida senhora aproximar-se.
- Me dói vê-la sofrer, minha criança. - A voz carinhosa de Kassi soou através do capuz. Ela tocou o antebraço da jovem e olhou-a preocupada.
- Eu dei minha palavra. - Contou com a voz embargada.
Ambas voltaram a atenção para a pintura de moldura dourada, as expressões angustiadas.
- Pregam que a vingança não traz felicidade, mas existem aqueles que encontram conforto nela. – Apertou, num gesto de conforto, o antebraço da mais jovem.
- Se eu tivesse matado aquele infeliz, não estaria destinado à morte e seu povo à destruição. - Colocou a mão livre sobre o toque da senhora e suspirou. - Todos esses anos, eu tenho cuidado do meu povo e sei que meu pai estaria orgulhoso, mas dói acordar todos os dias e não vê-lo. - A voz tornou-se embargada, o olhar preso ao quadro.
- Essa dor nunca vai sumir.
- Eu sei. - Abriu um pequeno sorriso. - Me disseram a mesma coisa.
- Tive a visão dessa batalha e eles precisam de você.
- Nós sonhamos. - A jovem suspirou e sabia que não precisaria especificar de quem estava falando.
- Eu sei, minha criança. A ligação entre vocês continua forte e ainda é o destino estarem juntos.
- Mas ele vai morrer.
Ela confirmou com o gesto de cabeça e abriu um sorriso bondoso.
- As visões não são o futuro definitivo e sim, possibilidades que podem ser alteradas, caso mude alguma coisa.
franziu a testa, pensativa, a boca levemente aberta. A senhora afastou as mãos quentes e deu alguns passos, distanciando-se.
- O seu pai está morto e isso não vai mudar. Promessas podem ser quebradas e devem, quando motivos nobres estão em jogo. - Suspirou. - O amor da sua vida está prestes a sofrer o mesmo destino de seu pai. Até quando vai aceitar que Urd lhe tire o que você ama? - Olhou-a uma última vez e saiu.

But love built, God built provinces
Mas o amor construiu, Deus construiu províncias
Build calluses, break promises
Crie calos, quebre promessas
'Cause I could never hold a perfect thing and not demolish it
Porque eu nunca poderia segurar uma coisa perfeita e não destruí-la

encarou o chão e, em seguida, o quadro novamente. Descansou a palma da mão na pintura, acreditando que o toque poderia acalmá-la com a sensação da presença do pai, mas o que sentiu foi o gelado de algo sem vida. O seu pai não estava ali, a alma dele não estava ali e jamais se encontrariam em vida.
Ele criou-a para ocupar o seu trono e cuidar do seu povo e ela o fez, mesmo que sofrendo em silêncio.
Jurou não vingar a morte do pai e realmente, não faria aquilo. Lutar ao lado de significava defender o povo e derrotar de uma vez por todas, um inimigo. Não estava indo atrás de Urd querendo vingança, ele estava vindo até um de seus aliados e queria destruição. Defendê-los não era vingança. E com esse pensamento tardio, mas melhor que nunca, percebeu que não estaria quebrando um juramento feito para o seu pai.
Soltou um suspiro de alívio e sentiu como se um peso tivesse sido arrancado de suas costas.
Ouviu passos novamente e virou-se, um Alaunus esbaforido aproximou-se.
- As tropas e os cavalos estão preparados, Alteza. - Fez uma mesura.
Ela franziu a testa em confusão e afastou-se da pintura, logo compreendeu o que Kassi havia feito.
No final das contas, ela foi empurrada para uma única escolha.
Aguente firme, .

III


A batalha do reino de Urd e Kadinah estava acontecendo em um campo aberto que ficava a vários quilômetros de distância de cada reino, uma espécie de zona neutra. Quem ganhasse a batalha, poderia seguir viagem e tomar o restante dos inimigos.
Quando a rainha aproximou-se com a sua tropa, era uma confusão de guerreiros feridos e mortos. Muitos esforçaram-se para manter-se de pé, mas a tropa de Urd tinha a maior parte intacta.
Passou os comandos para os líderes de cada batalhão e deixou-os agir, o objetivo era derrotar o inimigo e salvar o máximo de aliados possível. Em cima da colina, viu os seus guerreiros atirando flechas, golpeando com espadas e entrando em combates corpo-a-corpo. Forçou a visão em busca de e torcia para que não fosse tarde demais.
Agitou as rédeas de seu cavalo e galopou a todo vapor colina abaixo com uma pequena escolta. Quando pisou no campo de batalha, o mensageiro aproximou-se correndo enquanto desviava de corpos e golpes, falou algo para um dos membros de sua guarda e partiu para fora do confronto.
Viu o homem apontar para o lado esquerdo do campo e ela forçou a visão, mas a confusão de corpos se estendia por tantos metros que tornava difícil enxergar. Seguiria na direção até que o encontrasse.
- Não venham atrás de mim., ajudem os outros. - Ordenou, a expressão séria.
- Mas, Alteza…
- É uma ordem.
Desembainhou sua espada e encarou o céu de nuvens acinzentadas, uma chuva estava próxima. A batalha deveria ser encerrada o quanto antes, pois o lugar ficaria cheio de lama e tornaria as coisas mais difíceis. Respirou fundo e agitou as rédeas com uma das mãos, o cavalo galopou à toda velocidade.

IV


Ela puxou a espada de um corpo morto e respirou fundo, tentando recuperar o fôlego. Havia sido derrubada do seu cavalo e viu-o ser morto, mas também havia feito estrago em muitos. Estava coberta de suor e sangue, alguns cortes em seu corpo, mas seguia focada em alcançar . O jogo havia virado e agora, Kadinah com Dhrid estavam massacrando Urd.
Forçou a visão enquanto lutava com outros guerreiros, golpeando fortemente com sua espada e também, ferindo-se. Avistou os reis num duelo e correu o máximo que conseguia, aliados ajudando-a a alcançá-los.
Quando aproximou-se, o desespero atingiu-a friamente. estava caído ao chão, a espada longe de suas mãos e Urd, o enorme e musculoso, estava prestes a atingi-lo no peito com seu machado. Vermelho tingiu a sua visão e agarrou a sua espada com força, um grito escapou de sua boca e chamou a atenção de ambos.
O inimigo gargalhou e afastou-se de , que esforçava-se para se levantar. A rainha ignorou e focou em Urd. Atacava e defendia-se dos golpes de machado, concentrada em acabar com aquilo. Esqueceu-se de todos e manteve-se compenetrada no duelo, qualquer deslize e estaria morta.
- O seu reinado acaba hoje. - Ela falou com a voz firme e alta, tentando vencer os ruídos da batalha atrás deles.
Ouviu-o gargalhar, arrepiando-a da cabeça aos pés.
Firmou o corpo novamente e partiu para cima, desferindo golpes.

XXX


A espada da rainha atravessou o peito de Urd e o rei caiu de joelho, depois o corpo tombou no chão. Ela estava ofegante, os braços trêmulos pela força desferida em seus golpes e por empunhar o peso da espada, o corpo coberto de sangue. Desviou o olhar do cadáver de seu inimigo à sua frente e encarou o campo de batalha. Ergueu a espada para o alto, a expressão fria. Um sinal de que o inimigo havia caído. Urros em comemoração foram ouvidos e em seguida, o restante do exército inimigo foi dizimado.
Urd estava morto.

V
ocupava a cadeira ao lado da cama de . O homem continuava desacordado desde a luta que havia sido vencida três dias antes. Haviam trazido-o para o castelo e desde então, não havia saído do seu lado. Acariciava os cabelos dele e passou o dedo indicador levemente nas feridas que estavam cicatrizando em seu rosto.
- Nós vencemos, Cad. - Sussurrou mais uma vez, assim como nos outros dias. Acreditava que de alguma forma, ele podia ouvi-la.
Bocejou pelo cansaço e acomodou-se melhor na poltrona, fechou os olhos.
- Hash…
Ela abriu os olhos, o coração aos pulos e viu o homem de olhos abertos, a expressão sonolenta. Debruçou-se sobre ele e escondeu o rosto no pescoço, as lágrimas de alívio escaparam, molhando-o.
- Nós vencemos, Cad. - Repetiu diversas vezes.
- Obrigado. - Ele sussurrou e adormeceu novamente.

VI


- Eu vos declaro marido e mulher, rei e rainha de Dhrid e Kadinah. - O bispo finalizou com um sorriso.
Gritos em comemoração ecoaram pelo enorme salão.
sorriu para e uniram os seus lábios em um beijo apaixonado.




Fim



Nota da autora: Oi, jovem!!! Mais um ficstape s2 Eu amei a história dessa rainha e foi um plot muito diferente do que estou acostumada a escrever. Espero que tenham gostado! Obrigada por ter dado a oportunidade! s2

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Nota de Beta: Thaay! Como isso, menina! Eu quero uma continuação ou um spin off na minha mesa para ontem! Eu adorei!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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