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Finalizada.

Capítulo Único


Ele não se lembrava de como começou.
Não, de modo algum. Tudo que sabia era que despertou e olhou para baixo, para o próprio corpo, primeiro vendo seus braços estendidos na posição em que se encontrava — deitado, o corpo esparramado. Ainda confuso, levantou-se, estalando as costas e vendo seus arredores. A cama desarrumada, os lençóis novos, o quarto aconchegante e as paredes de vidro, que o deixavam ver a cidade antiga, lotada de arranha-céus e banhada pelo sol da primavera. Mas aquela não era sua morada. Foi o que notou ao caminhar pelos outros dois cômodos que compunham o apartamento, tudo arrumado demais, novo demais, quase como se esperasse hóspedes.
Pegou um cartão que viu em cima de uma pequena mesa e saiu do quarto, usando-o para trancar a porta. Suas suspeitas se confirmaram quando viu os corredores decorados com um tapete macio e um papel de parede cor de creme. Ao descer pelo elevador, viu comunicados em inglês e outros em francês, e ao chegar ao térreo foi cumprimentado por recepcionistas. A placa acima do balcão confirmava que se tratava de uma grande hospedagem para viajantes.
A primeira coisa que notou após dar seus primeiros passos do lado de fora foram muitas pessoas andando pela rua, muitos pareciam estar indo para o trabalho. Havia também um grande tumulto de ônibus, bicicletas e carros, cujo barulho chamou mais sua atenção do que o movimento das pessoas ao se juntar a elas, andando pelas calçadas bem cuidadas. Aquele cenário o fez pensar que deveria estar próximo do centro de uma grande cidade. E de fato, aquilo se provou: após andar por alguns quarteirões, notou pessoas que, por seus sotaques e vestimenta, deveriam ser turistas que se aglomeravam na frente de uma enorme torre, uma construção muito moderna. Ele pôde ver uma espécie de cúpula redonda que estava próxima do topo da torre — um ponto turístico. Os visitantes formavam filas em uma entrada de portas de vidro.
A calça social e a camisa azul que ele usava o ajudavam a se misturar em meio àquela multidão. Porém, enquanto caminhava, um turbilhão de vozes ao seu redor começou a incomodá-lo, como se pudesse ouvir todas aquelas vozes dentro de sua cabeça. Ao olhar para os lados, viu que aquilo não parecia acontecer com mais ninguém devido aos semblantes tranquilos dos transeuntes. Apenas ele parecia se sentir incomodado. Aquela sensação se alastrou quando a primeira fila andou e as pessoas começaram a entrar na torre. Ele se posicionou em uma das filas da frente, querendo entender qual era a expectativa daquelas pessoas. O que estavam esperando?
Algumas pessoas viraram as cabeças, olhando ao longe. Um grupo de pessoas vestidas com roupas tradicionais se aproximavam, sem dúvida para participar de alguma espécie de manifestação cultural. No início ele também olhou na mesma direção, mas logo um mal pressentimento o fez parar. Suas suspeitas se confirmaram: do lado oposto da avenida onde a torre se encontrava, vinha um ônibus desgovernado, à grande velocidade. O homem não saberia explicar por quê, mas correu no momento que a multidão se deu conta do que estava prestes a acontecer. O ônibus se aproximava cada vez mais rápido, e não havia tempo. Como por instinto, o homem se desvencilhou da multidão e correu na direção do ônibus, sem ver as pessoas se afastando atrás dele, de maneira que somente ele estava na mira do veículo. Ele ouviu o barulho de vidro estourando seus tímpanos antes de sentir o impacto.

Ele despertou de novo, sem entender quando viu que não estava no mesmo quarto bem iluminado de antes, nem naquela hospedagem. Pelo contrário, ele agora estava deitado no chão, em um local um pouco escuro, e suas roupas estavam muito amassadas e sujas de sangue, embora ele não sentisse dor, nem tivesse muitos machucados além de alguns cortes nos braços. Ele se sentou com rapidez e tentou compreender o que era aquilo, até que uma voz chamou sua atenção.
— Como foi a sua experiência, ? — Levantando a cabeça, buscou a origem da voz, mas não a encontrou. Ao mesmo tempo, parecia que a voz preenchia o ambiente de penumbra e também entrava em sua mente.
— Esse não é o meu nome. — Respondeu quase sem pensar.
— Como não? — se houvesse um rosto, ele imaginou que teria uma expressão desapontada, embora a voz não mostrasse nenhuma emoção. — A perda de memória é comum após esse tipo de experiência. Você teve de voltar a Toronto para aceitar o que lhe aconteceu.
Ele se levantou para procurar a origem da voz enquanto as palavras começavam a fazer sentido. Quase de modo imediato, muitas cenas inundaram sua mente: uma versão mais nova dele mesmo andando pelas ruas bem iluminadas da cidade, ele discutindo em língua francesa com uma mulher parecida com ele, ele subindo escadas de incêndio de um prédio antigo no centro da cidade, e por fim, ele no terraço de um prédio, olhando a vista dos arranha-céus, vendo a torre ao longe e por fim olhando para baixo. Uma imagem final apareceu, algo que ele não tinha visto antes. Um pedaço de pedra entalhado, onde se lia:

A la memoire de Dubé
1998 - 2008
Ensemble pour toujours


A visão da lápide fez com que os olhos de se enchessem de lágrimas, pensando na dor que havia deixado. Quando as lágrimas escorreram por seus olhos, porém, ele viu que seu corpo mudava, e ele sentia cócegas.
— Não fique triste. Ao salvar aquelas pessoas, você se perdoou e libertou todos aqueles que se lembram de você. Você salvou aquelas vidas para que elas, na verdade, o salvassem. — Foi então que notou que aquela não era uma voz sem rosto. Era sua própria voz, jovem e profunda. A sensação de cócegas se intensificou e logo viu que seu corpo havia mudado e agora ele se parecia com um grande felino com manchas. rumou para a saída do vazio. Por fim, com os segredos e sem nunca esquecer da própria história, ele sabia qual seria sua função. caminhou no escuro, seu corpo iluminando o caminho enquanto ele carregava um lampião na boca.
As manchas de sua pelagem seriam a luz na escuridão, e ele seria o guia dos que não sabiam que estavam perdidos.


Fim.



Nota da autora: Dedico esta história a você, que está perdido (a), sem saber qual caminho trilhar.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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