Finalizada em: 04/06/2020

Capítulo Único

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“El viento cesó. La lluvia se fué. Se fué con el brillo del sol en tu piel, Y fue en este instante que yo te crucé”.
(O vento parou. A chuva se foi. Se foi com o brilho do sol na sua pele, e foi nesse instante em que eu cruzei com você).


As cestas de verdura caíram todas de uma vez só, como se não bastasse eu estar estressada o suficiente com a briga que tive aquela manhã. Eu amava o meu trabalho, ao contrário do que algumas pessoas poderiam pensar ao verem uma jovem empilhar organizadamente tomates, cebolas, batatas ou verduras na quitanda do avô. Mas, se havia algo que eu detestava era trabalhar com a cabeça cheia.
Alfonso chegava com seus fones de ouvido, seus óculos milimetricamente impecáveis assim como o seu cabelo e com um sorriso sereno e paciente, se aproximou cauteloso.
— Nem vem, Poncho. Eu não vou. Minha cabeça está zunindo de dor e como você pode ver nada está dando muito certo hoje.
Eu me adiantei em dizer antes que ele pudesse falar qualquer coisa, enquanto pegava os repolhos caídos ao chão.
Poncho nada falou, apenas sorriu e retirou seu blazer erguendo as mangas de sua camisa social. Abaixou-se para me ajudar a pegar os repolhos e tomou a dianteira pegando os caixotes com as verduras, os levando ao fundo da quitanda. Ele sabia que era ali que nós tratávamos a higienização e armazenamento dos alimentos.
Maldito homem. Aliás, bendito. Muy bendito. Eu sempre fui fã de Alfonso Herrera, desde que me lembro de assisti-lo em Rebelde. E quando ainda era uma adolescente, eu sonhava com o dia em que iria morar com meus avós na Cidade do México. Vovô Gê sempre foi um homem aventureiro e até bastante maluco. Quando meu pai decidiu que iria largar o trabalho comum em nossa cidade, para ir para o campo se tornar um agricultor orgânico, o único que vibrou positivamente com a notícia foi o vovô. Ele não só apoiou ao meu pai, como decidiu também dar um grande passo: três semanas depois do anúncio, ele e a vovó Maria já estavam pegando todas as suas economias e se mudando para o México.
Eu tinha apenas quinze anos, um desejo absurdo de ir junto com eles – primeiro por achar que eu encontraria o Poncho em qualquer esquina, e depois por também haver um espírito de aventureira maluca no meu coração –, e nenhuma condição de que meus pais apoiassem aquilo. Então, eu continuei sendo uma adolescente comum no Brasil, que aprendeu e ajudou aos pais a se tornarem agricultores orgânicos, num país que liga o foda-se total para a sustentabilidade. Mas, como vovô Gê costuma dizer: não há uma única pessoa no mundo inteiro que não tenha guardada nas linhas do seu destino, uma mísera aventura se quer. E eu também tinha a minha.
Quando atingi a maioridade eu planejava fazer faculdade, e como qualquer pessoa alcançar uma independência financeira, levando a vida mais confortável possível para os meus padrões. E fiquei naquela até os meus vinte e quatro anos, quando por fim, eu surtei. Surtei mesmo! Depois de comer uma bacia de beterrabas cozidas, para aliviar a frustração que eu nem sabia de onde vinha, e passar três dias numa diarreia que me permitiu tempo demais para refletir sobre a minha vida, eu tomei uma decisão séria. Eu iria morar com o vovô!
Meus pais poderiam até negar, e achar aquilo absurdo, mas duas coisas os influenciaram a me apoiar: primeiro, porque vovó Maria havia falecido há pouco mais de sete meses, e eles preocupavam-se com o vovô. Segundo, porque eu não estava feliz. Todos os planos que eu havia feito estavam lá acontecendo, mas nenhuma gota de entusiasmo na minha alma. Por isso, aos vinte quatro anos eu decidi recomeçar a vida, que eu mal havia começado, no México.
Vovô se tornou um homem renovado com a minha chegada, e só por isso eu acho que aquela foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Toquei com ele a sua quitanda de verduras e legumes, e me espantei ao descobrir que vovô morava num condomínio de Condesa, na Cidade do México, bom o suficiente para dizer que as pessoas dali “eram de outro nível”. Eu ainda não queria fazer faculdade, ou algo do tipo quando cheguei. E para o vovô bastava que eu o ajudasse na quitanda e fizesse o que eu bem entendesse da minha vida.
Eu havia recém-chegado, com meus vinte quatro para vinte cinco anos, e nem se passava pela minha cabeça que eu finalmente estava morando no lugar, no qual, a minha eu adolescente sonhava encontrar o seu ídolo. Até o dia em que decidi ficar na quitanda pela parte da manhã para que, o vovô fosse plantar as suas sementes na pequena fazendinha que ele havia adquirido. Naquele dia, eu conheci o Poncho.
Eu estava organizando as bancadas com alimentos, e ele entrou assobiando e com roupas de alguém que havia acordado e do jeito que estava saído de casa. Simplesmente.

FLASHBACK

— Buenos días, señor Gê!

A voz do homem que denotava tanta simpatia me fez sorrir antes mesmo de me virar para ele.

— Buenos días!
Mas, quando o olhei e recebi o olhar dele de volta... Não só espanto havia em nossas expressões. Ele, certamente por estranhar a mulher na quitanda no lugar do habitual senhor, e eu... Bem, eu, por estar finalmente frente a frente de Alfonso Herrera. Meu eterno Miguel. Mas, além do espanto, algo a mais estava ali naquela troca de olhares. Eu vi o sol fraco da manhã que adentrava a quitanda, reluzir na pele dele e aos poucos um sorriso nascer no canto dos seus lábios.
— Eu... Posso ajudar? – perguntei finalmente dando início às apresentações e ao atendimento.

FIM DO FLASHBACK


Era comum que ele ou sua esposa, fossem buscar seus alimentos ali na nossa quitanda, e vovô mal pôde acreditar quando eu o contei quem era o vizinho fiel e sempre gentil a ele. Vovô Gê ria animado da minha surpresa, e da maneira como eu gesticulava e falava desesperada, enquanto mordia uma pequena cenoura crua.
Alfonso e eu nos tornamos amigos tão naturalmente quanto eu jamais poderia imaginar. No início pelo dia a dia de compras e vendas na quitanda, e depois aos poucos, entre um convite e outro de jantares da família Herrera para nós. Poncho é mais velho do que eu dez anos. E ele não demorou a descobrir, graças ao vovô, que eu era mais uma fã de RBD e mais fã ainda dele. E assim, ele também descobriu, o meu amor platônico por ele na adolescência.
Eu levava uma vida pacata, mas, depois do meu primeiro ano ali, eu percebi que precisava fazer alguma coisa diferente. Não fazia ideia do quê, mas precisava. Então eu fui trabalhar num escritório do centro da cidade e me dividi em dois turnos, entre o escritório e a quitanda, e já estava naquela há dois anos. E foi neste último ano no escritório que as coisas começaram dar um pouco errado, porque eu passei a lidar com o assédio do meu novo chefe.
— Quer que eu olhe a venda enquanto você higieniza os repolhos? – Poncho perguntou no batente da porta dos fundos.
— Por favor, já que está aqui... É coisa rápida.
— Que bom, se não vamos nos atrasar. – ele respondeu e saiu sorrindo.
Eu revirei os olhos por ter que explicar para ele os motivos pelos quais eu não iria ao tal encontro que, semanas antes, Alfonso havia agendado para mim.
Coloquei os repolhos no tonel com água, vinagre, e sal, ao qual dávamos uma última higienizada nas verduras, retirei e os coloquei para escorrer novamente sob o tecido mosquiteiro. Adentrei a quitanda, e Poncho estava escorado na parte de dentro do balcão lendo o jornal do meu avô, ainda com as mangas da camisa estendidas e mostrando seus antebraços fortes o suficiente para me fazer pensar o que não deveria.
— Poncho... – chamei sua atenção, mas ele me interrompeu:
— Onde está o vovô Gê?
— Em casa. Ele não estava se sentindo muito bem esta manhã.
— Por isso está assim tão... Estressada? – perguntou com cautela e um sorriso de “sabe-tudo”.
— Não é só isso, mas... Você tem que ir para a sua reunião e...
— Nós temos que ir.
Ele falou se aproximando com as mãos nos bolsos da calça e me olhando diretamente nos olhos. Certamente, não seria nada fácil convencê-lo de que eu não iria.
— Poncho, eu já disse que não vou.
— Sabe que vai me deixar numa situação muito desconfortável, não é?
— Eu não tenho o mínimo de cabeça para lidar com isso agora, Poncho. Desculpe.
— Então me conta. O que aconteceu?
A voz preocupada dele e a maneira como ele me olhava analisando cada parte do meu rosto me fez abrir o jogo:
— Pedi demissão do escritório, e o atrevido do Gonçalo não quer aceitar! — Bom isso significa que você é uma excelente funcionária, não? Por que é que você não gosta do Gonçalo?
— Por que... Ele complica a minha vida, só isso.
, você não acha que isso é normal numa situação de trabalho? Digo... o chefe apertar um pouco o trabalho?
— Não é isso, Poncho!
Falei me exaltando e só então ele desfez a expressão calma, para uma mais séria.
— Certo... O que é então? Por que ele não quer aceitar a demissão, aliás, por que você quer se demitir, ?
— Porque o Gonçalo me assedia desde que entrou ali, mas essa semana ele passou dos limites, e eu decidi não continuar lá. É isso! Ele me trancou na sala dele e tentou me beijar. Satisfeito?
Eu perguntei com os braços cruzados e um tom impaciente para Alfonso, que passou a mão sobre seus olhos, e em seguida me encarou com os olhos arregalados.
Ele foi até o fundo da quitanda, puxou a porta, pegou seu blazer que havia deixado no balcão e me guiou pela mão.
— O que está fazendo? – perguntei o vendo fechar a quitanda e me dar as chaves.
— O que um irmão mais velho faria! Você vai até a sua casa falar com o vovô que vai à reunião que tínhamos marcado e em seguida, eu vou pessoalmente tratar deste assunto.
— Poncho, você enlouqueceu ou o quê? Você não pode...
— Não posso o quê? – ele me interrompeu: — Defender uma mulher de um abusador?
Eu não me lembro de tê-lo visto daquele jeito desde que o conheci.
Eu fui até a minha casa, avisei ao vovô de minha saída, me arrumei rápida e encontrei o Poncho que me aguardava na sala, enquanto conversava com o vovô qualquer coisa que os fazia sorrirem alegres.
Vovô nos encarou com seu semblante risonho e depois de beijar minha testa nós fomos à reunião que Alfonso havia marcado.
Chegamos atrasados, mas no fim, Poncho conseguiu me apresentar ao seu preparador de elenco. Passei pela pequena entrevista rápida, e logo fiz um teste rápido de palco. Eu não era atriz. Não fazia a menor ideia de como uma atriz deveria agir, mas Poncho havia cismado que eu poderia compor uma personagem de seu novo filme. E como ele era o produtor, e eu não tinha lá “os melhores planos de futuro”, na verdade nem planos eu tinha, ele me convenceu de que abrir a minha cabeça para novas oportunidades poderia ser uma boa ideia. Saí dali com um compromisso acordado: faria parte da preparação de elenco não oficial e depois de certo tempo, saberia se Alfonso me selecionaria ou não entre os novatos.
Para ser bem sincera, eu não estava nada preocupada ou ansiosa com aquilo porque se não desse certo, ao menos seria uma experiência nova. Eu estava mesmo era curiosa, com o homem que conversava com outros em uma mesa grande do galpão em que funcionava a produtora onde ele trabalhava. Fiquei sentada numa poltrona próxima, observando-o gesticular, conversar com seus olhos de empolgação, e vez ou outra me fazendo sorrir. Quando Poncho finalmente acabou, eu estava cochilando e foi ele quem me acordou. Sua expressão não era a mesma de antes, pelo contrário, parecia até que ele iria causar um grande tumulto.
Acompanhei de forma ainda preguiçosa seus passos firmes até o carro e depois de entrarmos, eu questionei o que ele faria.
— Poncho, o que você vai fazer?
— Nós vamos até o Gonçalo. Vou fazê-lo assinar a sua demissão senão quiser ser denunciado por assédio.
— Poncho! É a minha palavra contra a dele, o que te faz pensar que ele vai se amedrontar com isso? Pelo contrário, ele pode ficar ainda mais sedento por...
— Ele vai parar! – Poncho me interrompeu revoltado: — Ter uma pessoa influente fazendo a sua caveira com um caso como assédio não é uma escolha inteligente, se é que Gonçalo entende isso.
— Poncho... Por que você está fazendo isso?
— Como assim por quê? Porque o que ele fez é errado! É errado com qualquer pessoa, mas é ainda pior saber que há um ano você está suportando tudo isso quieta.
— Mas eu não quero que você me defenda por mais que seja errado!
— O quê? Você não quer?
— Claro que não! Você vai se expor por uma situação, que ele não vai conseguir segurar muito tempo! Se ele não aceitar a minha demissão, eu paro de ir ao trabalho e simplesmente não haverá outra maneira... Sei lá, eu dou o meu jeito, só...
— Eu vou te ajudar! Eu quero. E depois, é melhor que esse cara tenha uma correção de alguém.
— Você não tem que fazer isso! Será que você não entende?
— Não se preocupe com a visibilidade que isso possa atrair para mim, . O importante é parar este sujeito!
— Poncho... Só vamos para casa, você não tem a menor responsabilidade nisso.
Não adiantou nada falar com ele. Quando me dei conta, Poncho estava na sala de Gonçalo sendo educado o suficiente para que meu chefe não o levasse a sério. Em seguida, impaciente, Poncho foi hostil, e quando não houve alternativa, lá estavam os dois se encarando face a face, um ameaçando o outro. Gonçalo assinou o papel e o entregou para mim. Debochou de mim por uma última vez, o que me fez ter que segurar Alfonso e ouvirmos algumas insinuações de Gonçalo sobre o ocorrido. No retorno para o condomínio, Diana o telefonou.
Sí, mi amor! – Poncho atendeu. — Estou com a sim, estamos voltando já. Está tudo bem?... Claro, vou transferir para o alto-falante do carro.
Ele apertou um botão no painel do seu carro e me olhou indicando que Diana queria falar comigo.
— Oi, Diana!
! Estou falando com o Poncho para trazê-la para almoçar conosco, e ao vovô Gê se quiser!
— Ah, obrigada Diana, mas...
— Sem “mas”, ! – ela me interrompeu. — Já faz algum tempo que não almoçam ou jantam conosco! E nós adoramos receber vocês.
Poncho ria e eu o olhei sabendo que não teria como fugir da esposa dele.
— Ah... Tudo bem, mas vovô não estava muito disposto hoje, então não garanto que ele vá.
— Certo... Dan e eu estamos os esperando. Besos, queridos.
Poncho estacionou em sua garagem assim que chegamos, e eu o acompanhei pela casa. Vovô realmente não queria ir segundo me disse ao telefone, e eu estava preocupada com ele. Não só com ele, me preocupava também com os rumores que aquela atitude de Poncho com Gonçalo, poderia gerar. Por isso, decidi não demorar muito ali, e na melhor oportunidade, sair à francesa.
Logo que almoçamos, Daniel – filho do casal – quis brincar e Poncho foi acompanhá-lo, enquanto eu retirava a louça da mesa. Diana ficou um tempo breve a sós com o marido, e eu pensei que aquele era o melhor momento de sair, mas logo que terminei de limpar a mesa, ela reapareceu.
, como foi sua reunião?
— Ah! Foi ótima. Na verdade... Eu não tenho certeza. Não sou atriz né, mas se estou no elenco de preparação, devo ter ido bem.
— Com certeza! Eu acho que Poncho vê algo muito especial em você para apostar assim. Por mais gentil que ele seja, e por maior que seja o coração dele, Poncho leva o trabalho na unha e não é de apostar errado em alguém.
— Bem... Eu não tenho tanta certeza disso tudo e encaro como uma experiência absurdamente nova, mas eu vou confiar no que vocês dizem.
Diana riu e percebeu o meu desconforto, porque logo ela se aproximou tocando o meu ombro.
... Ele me contou o que aconteceu com o Gonçalo também. Você está bem?
— Ah não... Eu... Sinceramente não queria que ele se envolvesse Diana!
— Poncho e eu nos importamos muito com você e com o Gê. Sempre iremos ajudar, afinal, de toda a vizinhança somos os mais próximos e amigos!
— Mesmo assim. Não tinha nada a ver ele se envolver daquele jeito. Eu disse para ele que eu estava bem, e que tudo iria ficar bem, que não precisava se expor e...
— Calma, ... – Diana sorria falando tranquila. — Ele não iria ficar parado, qualquer que fosse a situação. Fique tranquila, tudo foi resolvido não foi?
— É... Vamos ver o que vai acontecer agora. Não foi o seu Juan da padaria que me defendeu, foi Alfonso Herrera. Um produtor e ator famoso que nada tem a ver comigo.
Diana ponderou compreendendo minha fala e iria dizer algo se não fosse Poncho a surgir na cozinha se metendo em nossa conversa:
— Nada tem a ver contigo? Como não? Você é como uma irmãzinha para mim.
Eu queria realmente dizer bem alto na cara dele: “irmãzinhas não desejam seus irmãos”. Mas, eu não poderia. Até o meu sentimento de paixão era pecaminoso demais para eu explanar para um padre. E aquele Poncho que eu desejava nada mais era do que uma fantasia adolescente na minha cabeça, o Poncho real que estava ali, nada mais era do que um vizinho amigo.
— Bem... Eu agradeço em todo caso. – sorri fraca e peguei o meu celular sobre a mesa da cozinha: — Mas, eu preciso ir. Estou preocupada com o vovô.
Despedi-me rápida de ambos, mas Poncho fez questão de me levar até a calçada. E quando estávamos sós, ele perguntou preocupado:
— Está realmente chateada pelo o que eu fiz hoje?
— Só acho que não deveria. Você não é nada meu para justificar aquilo, Poncho. Não da maneira que foi.
— Eu já disse que eu tenho você como uma irmã caçula.
— É eu sei. – minha paciência estava no ralo, e eu não poderia engolir aquilo de novo: — Mas, se você não percebeu, eu sou apenas dez anos mais nova e dez anos não é muita coisa.
— Quando penso no meu filho, dez anos é muita coisa. – ele falou apertando os olhos como se estivesse tentando decifrar algo.
— Eu não sou sua filha. Não sou uma garotinha. Você tem 36 e eu 26, e até onde me pesa, eu poderia muito bem me relacionar com um homem da sua idade.
— O que você quer dizer com isso?
Olhei para o chão percebendo a quantidade desnecessária, de rodeios que Alfonso fazia. Era nítido que não precisava de mais explicações ali.
— Por acaso é a de quinze anos, apaixonada por mim falando aí? – ele perguntou brincalhão ao encarar o meu silêncio.
— Não. É uma mulher de vinte e seis tentando fazer você entender que não quer ser tratada como uma garotinha indefesa, porque já tem idade o suficiente para se defender de um homem que a deseja sexualmente. Aliás, a sua forma de me tratar como criança só me faz me sentir menos sexy. Seria muito bom se você pudesse não ser um “paizão” comigo.
Explodi. Explodi com consciência o suficiente para saber que aquele desarranjo de palavras não só confundiriam a minha relação com Poncho, quanto deixariam claras, coisas que eu achava que deveriam morrer comigo.
— Você é bem mais sexy do que imagina, sabe...
Ele respondeu como se estivesse na obrigação de fazer a filha adolescente compreender o quão bonita é apesar do próprio bullying. Comecei a notar que havia feito uma grande merda. Dei as costas a ele, que me olhava sério e sem jeito.
— Espera, , eu te levo.
— Não precisa obrigada, já faz tempo que não caminho pelo condomínio. – o respondi e rapidamente me pus a sair sem jeito.
— Mas, está muito quente...
— Eu estou acostumada com o calor.
Caminhei com os braços cruzados a fim de evitar olhar para trás. Depois de alguns metros distantes meu celular vibrava em meu bolso e eu pude ver que eram mensagens preocupadas de Alfonso. Ignorei-as, mas logo que meu celular vibrou de novo, eu o peguei parando na rua para ponderar se respondia ou não. Quando decidi que seria educado responder numa boa e fingir que nada daquilo teve alguma importância, eu só pude observar meu telefone voando para longe assim como o meu corpo caindo ao chão, com um homem desconhecido e sua bicicleta sobre mim.
— Caramba! Desculpe-me, me desculpe señorita, mas, eu achei que você estava ouvindo a buzina e não consegui desviar na última hora.
— O quê? – eu estava atordoada tentando me levantar.
— Eu te ajudo. Desculpe-me.
Depois que me coloquei de pé, limpando minha calça com as mãos e descansando o peso do corpo em uma perna, eu procurei meu telefone o recebendo da mão do homem que acabara de me atropelar.
. – ele se apresentou me entregando o celular: — Eu pago o conserto ou o aparelho novo.
— Imagina! Eu quem estava em pé no meio da rua...
— Como é seu nome?
.
— Prazer, você... Está bem?
— Acho que sim... E você? E a sua bicicleta?
— Tudo certo. Não se preocupe. – ele pegou a bike caída ao chão e retornou o olhar para mim: — Eu vi você saindo da casa do Herrera. Vocês são parentes?
— Ah, não. Não somos.
— Você trabalha lá?
— Também não.
— Então onde você mora? Eu posso te levar.
— Ah não obrigada, eu posso ir andando.
Mencionei caminhar, mas no mesmo instante senti meu tornozelo e segurou meu cotovelo. Aquele mísero toque fez com que eu encarasse seu rosto e os nossos olhares penetrassem um ao olhar do outro. Eu não havia sentido nada como aquilo até então, foi como se fosse alguém que eu conhecia a vida inteira.
— Suba, eu te deixo em casa, pelo visto você torceu o tornozelo.
se recompôs tentando me fazer sentar na bicicleta, mas eu segurei seu antebraço que me segurava, de forma a resistir e negar. Mas, a insistência dele não venceu a minha.

— Pare com isso, não é como se eu fosse te pedir para subir na bicicleta e te jogar no meio da rua.
— Desculpe, não foi o que eu quis dizer. Só, não quero incomodar.
— Na verdade é o mínimo que eu posso fazer já que te atropelei. Aliás, não será melhor irmos ao hospital?
— Não é necessário. – sorri subindo na bike e deixando-o guiar a pé o guidão.
e eu fomos conversando pouca coisa no curto caminho de onde eu estava até a minha casa. Ele era um homem divertido e preocupou-se bastante comigo pelo meu tornozelo. Assim que entrei à casa, vovô estava sentado no sofá assistindo televisão.
— Quem era o senhor que te trouxe, ? – perguntou preocupado quando me viu mancando.
— Um vizinho que eu não conhecia. .
— Hm... Não me lembro do nome, e não reconheci pelo rosto... Mas, não era com Poncho que você estava? E o que houve com o seu pé?
— Ah... Eu estava sim almoçando com o Herrera, mas decidi voltar andando então me distraí com a rua e o bateu com a bicicleta em mim... Mas, eu estou bem, vovô. Vou colocar um gelo no tornozelo e tomar uma medicação antes de dormir um pouco.
— Por que voltou a pé? Poncho sempre faz questão de deixá-la aqui!
— Ah... Eu, só quis vir andando vovô. O senhor almoçou?
Vovô sacou a minha mudança de assunto e antes de começar o seu diálogo seguinte, apenas aceitou desconversar o meu. Disse ter almoçado e preparado uma sobremesa a qual ele foi buscar logo que eu mencionei me levantar para ir até a cozinha.
— Está delicioso, vovô! – sorri saboreando o pudim.
— Como foi na reunião?
— Foi bem, eu acho. Fui admitida para um pré-elenco e isso significa que eu vou estudar para ter chances reais de atuar na produção nova do Poncho.
— Ah! Que maravilha! Uma nova aventura! – vovô se entusiasmou com um sorriso grande e percebeu meu pouco entusiasmo com preocupação: — Mas por que você não está tão animada?
— Eu só não quero criar expectativas, vô. Eu não tenho experiências e pode ser que no final, nada dê muito certo.
— Mas o que importa não é a chegada, é o caminho.
— É... O senhor tem razão. – sorri de volta e observei o meu velho retornar sua atenção ao programa que assistia, e dei-me conta de que deveria contar a ele sobre a minha demissão: — Vô. Eu pedi demissão do escritório.
— O que aconteceu? – ele perguntou atencioso.
— Eu não quero que se preocupe com isso, mas, Gonçalo não estava me respeitando muito e depois de tentar dificultar a minha saída, finalmente ele assinou hoje os papéis.
— Hoje? Dificultar a sua saída? O que eu não estou sabendo? Como ele te desrespeitou?
— Tudo bem, vovô, já está resolvido.
— Hm... – ele desviou os olhos e sorriu afetuoso: — Poncho havia mesmo me dito que ia resolver.
— O quê? O senhor sabia?
— Poncho me contou antes de vocês saírem, mas eu achei que você fosse me dizer a verdade.
— Desculpe vô. Eu não queria chateá-lo com algo que, como o senhor mesmo disse o Poncho já se meteu a resolver.
— E por que eu tenho a impressão de que você não gostou dele ter se metido?
— Eu preciso mesmo explicar? Vovô! Ele não tinha nada que ter se metido num assunto pessoal meu! Ele não tem essa responsabilidade, afinal, somos só amigos.
— E você queria ser mais do que isso, não é?
Eu calei surpresa.
... Poncho se importa com você. Talvez de uma maneira diferente da sua, mas... Se você o ama, seja sincera.
— Ele é casado e muito bem casado, com uma família bonita e eu não tenho nada que falar dos meus sentimentos, vovô. São só, ilusões de garotinha.
— Não tenho tanta certeza já que ele se mostrou preocupado o suficiente para espancar Gonçalo se fosse preciso só para te proteger.
— Vovô! O que o senhor está dizendo! Poncho ama Diana, assim como o senhor amou a vovó.
— Bom, se ele a ama como eu amei a sua avó, então talvez seja melhor você se afastar um pouco dele, minha filha. Pelo seu bem.
— E por que o senhor acha que eu vim andando?
— Diana sabe do que aconteceu?
— Sim. Foi tão amorosa e compreensiva comigo, que eu só queria sair correndo dali. E eu faria isso se Poncho não atrapalhasse tudo... Acredita que ele perguntou se os meus sentimentos adolescentes haviam voltado?
Vovô Gê me encarou como se analisasse a situação em silêncio.
— Ele só me vê como uma garotinha, vô. E ele está mais do que certo, e é por isso que eu odeio tanto me sentir atraída por ele. Ele é realmente, um homem maravilhoso.
Beijei o rosto de meu avô e fui em direção ao meu quarto, tomar banho e cuidar minimamente da torção do meu tornozelo, o qual já estava do tamanho de uma bola.
No dia seguinte, enquanto eu andava na rua de casa, com dificuldade devido à torção do tornozelo, ouvi uma sutil buzinada de um carro aproximando. Olhei para trás e era o Poncho. Tudo o que eu não queria.
? Está tudo bem? – ele perguntou baixando o vidro. — Você não atende as minhas ligações desde ontem, fiquei preocupado que a tenha chateado.
— Ah, é... Não, não, tá tudo ok.
Poncho vincou sua testa, desconfiado, e estacionou logo à minha frente. Deixei um suspiro pesado sair de mim, como se eu soubesse que deveria inventar alguma desculpa. Ele se aproximou de mim, observando-me da face até os pés.
— Por que saiu daquele jeito ontem?
— Eu só estava voltando para casa.
— Tem certeza? Eu acho que eu falei alguma coisa que...
— Poncho! Relaxa. Eu fiquei um pouco chateada sim, em como você fez questão de resolver a situação com o Gonçalo. Eu fico muito agradecida, mas é que... Você não é nada meu, não é? Mesmo que me considere uma irmã e aquilo tudo o que você disse... Eu acho que era o tipo de problema que eu deveria resolver, e não outro homem. Até por uma questão de combater ao machismo do Gonçalo. Mas, enfim... Desculpe-me se eu fui grosseira.
Poncho me encarou com um semblante esclarecido e me puxou para um abraço.
— Desculpe, , eu fui bem insensível a este ponto. Entendo agora, que a última coisa que você ia querer era um homem te defendendo dos abusos de outro homem.
— Relaxe, eu já falei que está tudo ok.
— Então vai voltar a atender as minhas ligações? Ou eu ainda vou levar um gelo por um tempo? Porque Diana e eu queremos acompanhar de perto a sua experiência de preparação para o elenco e...
— Eu estou sem celular. – falei interrompendo-o e apontando a tela quebrada do meu aparelho — Estava indo consertar, ou ver se tem conserto. E quanto ao elenco... A gente vai se falando. Eu preciso pensar um pouco mais na oportunidade.
Na mesma hora em que falei ele deu um passo para trás, compreendendo que havia alguma coisa, muito errada ali.
— O que houve com o seu celular?
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, apareceu de carro também, perto de nós.
— Ei, ! Olá, Poncho! – cumprimentou-nos com um aceno e desceu do carro.
— Você conhece o ? – Poncho me perguntou surpreso.
— Brevemente.
O homem atravessou a rua do condomínio bem rapidinho, e sorrindo chegou cumprimentando-nos. Colocou a mão em meu braço e encarou o meu pé.
, você foi ao médico?
— Médico? Por quê? – Poncho se mostrou confuso e eu não consegui responder, já que tomou a frente.
— Eu a atropelei de bike ontem à tarde, e ela torceu o tornozelo. E então, ?
— Ah, eu estava a caminho, .
— Não ia consertar o celular? – Poncho perguntou confuso.
— Também. – respondi somente.
— Vamos então! Eu te levo. E eu já comprei um celular novo para você: – respondeu me pegando pelos ombros de forma gentil a me guiar.
— Eu a levo, , pode seguir.
Poncho declarou gentil e cortês, sorrindo e pegando minha mão.
Aquilo estava enlouquecendo-me um pouco. Então eu decidi aproveitar as deixas do destino e me afastar de Alfonso Herrera o quanto pudesse.
— Obrigada, Poncho, mas eu sei que você está indo ao trabalho e provavelmente atrasado. Eu sigo com o . – falei sorrindo e olhei para em seguida me certificando: — Se não for te atrapalhar, é claro.
— De forma alguma.
Dei um beijo leve no rosto de Poncho, mas meu olhar triste deve ter me denunciado já que a expressão dele não era de contentamento. Entrei ao carro de , e fomos o percurso todo conversando. Ele me entregou um celular novo, que eu rejeitei até que a insistência dele me vencesse. Ele me fez perguntas sobre qual a minha relação com Alfonso, e quando eu lhe contei que era só amizade, ele sorriu com dúvida.
— Tem certeza? Não me pareceu só isso.
— Por quê?
— Ele estava bem preocupado e incomodado de você vir comigo.
— Ah é só que... Para o Poncho eu sou como a irmã caçula que ele tem que superproteger.
— Ah, entendo. Bem, então nesse caso, é melhor eu cuidar bem de você, não é?
Eu apenas sorri. No hospital realmente foi atencioso e quando eu o disse que podia ir embora, já que eu provavelmente estaria o fazendo perder algum compromisso, ele riu afirmando que só sairia dali comigo. trabalhava em casa, e por isso havia uma flexibilidade de horários na sua rotina.
Conversamos bastante durante toda aquela manhã que estivemos juntos, e depois de me deixar em casa, vovô Gê o agradeceu sincero, e convidou para almoçar conosco. Eu não estranhei o convite, porque o vô Gê era exatamente aquele tipo de pessoa, mas estranhei o fato de que em seu primeiro dia em nossa casa, já parecia ter estado entre nós por uma eternidade.

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“Fué en tu mirada que volví a nacer, desde tus brazos todo alrededor se ve distinto. Cambias el color en cada rincón de mi corazón, te necesito"
(Foi no seu olhar que nasci de novo, desde os seus braços tudo ao redor se vê diferente. Você muda a cor em cada espaço do meu coração, preciso de você)

Três dias se passaram e eu continuava evitando ver, estar ou falar com Alfonso e Diana. Eu precisava daquele tempo. E como era de se imaginar, Poncho queria esclarecer as coisas.
Ele surgiu em minha casa, numa noite em que vovô e eu estávamos observando as estrelas, de nossa varanda. Não demorou para vovô entender que aquela presença de Alfonso tinha a ver com o fato de eu, o estar ignorando, então ele nos deixou a sós sem que Poncho desconfiasse de sua ação.
— Podemos conversar, ?
Ele me perguntou preocupado, erguendo um pouco sua calça e sentando-se ao meu lado no banco. Apenas o olhei e sorri, assentindo um sinal silencioso de “sim”.
— O que está acontecendo, ? Você está se afastando de propósito, e eu posso perceber. Até Diana está preocupada contigo.
— Agradeço a preocupação dos dois. Eu devo mesmo ser sincera com você Poncho... Eu... Não vou continuar na preparação de elenco.
— O quê? Mas, por quê?
— Eu sei que você aposta em mim. E eu nunca poderei agradecer sua oportunidade e confiança, mas... Neste momento eu não poderia trabalhar com você.
— Por que não? O que eu fiz que a esteja fazendo tomar esta decisão?
— Eu achava que era coisa da minha cabeça e uma ilusão adolescente, mas... A verdade é que, este tempo todo de convivência com você e sua família só tem me mostrado cada vez mais, que ser humano maravilhoso você é, Poncho. E por isso, foi inevitável não me apaixonar de verdade.
Ele ficou um breve tempo em silêncio me olhando sem desviar.
— Eu estou me afastando de você, da Diana, e de tudo que tem relação contigo, justamente porque eu não quero alimentar este tipo de sentimento. Quero que isso permaneça numa amizade bonita e grata por vocês, então... Espero que me entenda agora.
, eu... Eu não sei o que te dizer.
— Não tem nada que você tenha que dizer.
— Eu fiz alguma coisa que te deu esperanças, ou...?
— Não. – o interrompi. — Você nunca fez absolutamente nada, você sempre foi bem claro em seus sentimentos. O problema é que até o fato de você ser tão correto me faz transformar essa admiração em amor, desejo... Enfim, Poncho... Era isso, não vamos estender esse assunto, eu...
! – ele pegou a minha mão de maneira forte: — Obrigado por contar, por ser sincera. E saiba que eu lamento demais estar te fazendo passar por isso, e desejo que... Que fiquemos bem.
Sorri e assenti. Levantei-me rápida e o abracei como uma breve despedida, afinal, nós iríamos dar um tempo um do outro e convivência com o que nos relacionasse um ao outro, segundo Poncho. Mas, para mim, seria definitivo. Eu não conseguiria encarar Diana. Ela saberia, com certeza Poncho iria contar à esposa, e eu não teria mais coragem de me direcionar a ela, como antes.
Assim que entrei em casa, a lágrima quente que escorreu do meu olho pesava como nunca antes. Ele fez o certo. Eu fiz o certo. Mas, por que eu desejava tanto que as coisas tivessem seguido erradas?
Vovô Gê me abraçou e me consolou naquela e em todas as noites seguidas até que a ferida cicatrizasse. E por incrível que pareça, um dia ela cicatrizou.
Com o tempo, eu e nos aproximamos devido ao fato de que ele era um ativista ambiental cujas ideias e ideais eram muito parecidos com os meus e de vovô. nos levou em vários eventos agrícolas, em vários eventos alternativos, porque ele era lá um cara bem alternativo dentro do seu estereótipo de beleza atlética.
E eu me divertia muito com o . Vovô Gê também. Um dia, chegou à quitanda com meu avô, ambos manchados de alguma tinta avermelhada.
— O que aconteceu? – perguntei alarmada os vendo risonhos e sujos.
! Você não sabe que evento bacana o e eu fomos! – vovô falava animado como criança: — Nós estávamos lá no meio do protesto contra o uso dos agrotóxicos no estado, e de repente começou uma confusão dos diabos! Uns jovenzinhos atrevidos que foram lá para fazer confusão tiraram totalmente o foco da nossa causa! E então...
— Vovô, se acalme! – o interrompi o fazendo sentar-se: — Beba este copo de água.
Ofereci a água para os dois que após beberem, se olharam e caíram na gargalhada!
— Mas valeu a pena! – vovô falou um pouco atrevido e piscando para que gargalhou um pouco mais.
— O que aconteceu? – eu perguntei confusa.
— No meio da confusão, eu e íamos nos escafeder, mas aí ele ouviu de uma senhora conhecida dele... Aliás, tem muita amizade com a velharada, ! Você tem que ver as vovozinhas babando no rapagão.
— Ah, mas elas babaram é num certo senhor! – Romeu falou divertido numa cumplicidade com vovô Gê, que os levou a novas gargalhadas.
— Gente... – eu ri contagiada pela alegria deles. — Será que podem me explicar o que aconteceu, afinal?
— A senhora Montez, muito formosa, aliás, nos convidou para sair dali e ir com seu grupo ao “Seminário do vinho de beterraba”. E como nós não tínhamos nada a fazer, nós fomos. Um evento incrível, ! Nós aprendemos tudo sobre as beterrabas e fabricamos o tal vinho, que assim como as uvas, também é extraído pelo pisoteio, só que aí...
Vovô Gê começou a gargalhar de novo acompanhado por , e continuou a contar sua história abaixo de risos:
— Eu me desequilibrei, e e eu caímos na tina em que estavam as nossas beterrabas. Infelizmente, perdemos o vinho, por que esterilizamos só os pés, e passamos grande vexame no meio de todos, mas pelo menos, eles disseram que iriam usar as beterrabas para ferver e fazer ração animal.
— E sabe, , depois que caiu na tina, seu avô foi muito bem amparado pelo grupo de senhoras, em especial, a senhora Montez.
— Ah, minha neta! – vovô dizia com voz de encanto: — Este velho que aqui lhe fala, sentiu-se novamente um menino!
— Ih... – zombei risonha: — Será possível que o vovô já se apaixonou?
— O amor não tem hora para acontecer, não é? – afirmou encarando-me de modo diferente.
Senti minhas maçãs do rosto ficarem rubras e quentes, e até vovô Gê sorriu para mim, como se soubesse de algo.
Desde que eu e Poncho decidimos apenas nos falar quando nos encontrávamos eventualmente, haviam se passado cinco meses. E eu já sentia que podia me aliviar quanto a ele, afinal, certo deslumbre e uma segurança nova nascia em mim, a cada vez que estava perto. Eu não queria me jogar, ou fantasiar coisas. Apenas deixei que o tempo se encarregasse de tudo.
Desde o dia em que e o vovô chegaram banhados à beterraba, semanas se passaram, fechando dois meses. Vovô Gê e a senhora Montez, estavam flertando. Não demorou a começarem um namoro, já que na época deles as coisas tomavam proporções mais sérias, tão cedo quanto, a idade avançada os fazia crer ser necessário agora. Eu estava feliz por vovô.
e eu continuávamos indo a vários lugares, entre o trabalho dele, o voluntariado como ativista, e alguns passeios nossos como amigos. Em um destes passeios, eu revelei a ele que havia decidido o que faria da vida: queria fazer faculdade de engenharia florestal e assim trabalhar com a preservação do meio ambiente. E tanto ele, quanto vovô ficou muito feliz por mim. Estávamos jantando em minha casa, com e a senhora Montez, quando um anúncio feito por meu novo amigo, me pegou de surpresa.
— Então, você será engenheira florestal! – vovô bradou entre uma colherada e outra na mesa, fazendo com que todos nós o encarássemos com alegria: — Seus pais vão ficar muito felizes, !
— Eu vou contar a eles logo amanhã, vovô!
— Sabe, , dentro da Save the Green (SG) há um projeto onde, a organização banca os estudos dos seus voluntários e parceiros, em troca de que eles façam alguns trabalhos para eles. Você poderia tentar. Além de iniciar seus estudos sem despesas já teria uma ótima rede de contatos.
— Nossa, , que ótimo! Eu quero tentar sim!
— É... Só tem um problema, você teria que morar onde eles te indicassem, pelos anos de curso. E geralmente, você não fica em um lugar só por mais de um ano e meio.
— Entendo... Eu teria que deixar o vovô. – falei triste encarando meu velho.
— Ora, ora! E onde isso é impedimento, ? Você vai para onde for preciso! Não vou deixar que se prenda ao seu velho avô! – ele bronqueou, mas eu ainda não estava tranquila.
e eu nos olhamos preocupados e então meu amigo sorriu para mim como se me passasse a confiança de que tudo ficaria bem.
— Sabe, ... Eu sei que cheguei nesta casa e nesta família a bem pouco tempo, mas... Acredite em mim quando digo que eu cuidarei do Gê com todo o meu amor e cuidado, se você quiser e permitir.
A senhora Montez se manifestou e eu sorri. Percebi pelos olhares do meu avô e dela, que ele realmente estaria muito bem.
— Certo! Então eu vou contar aos meus pais amanhã, sobre minha nova decisão!
Nós sorrimos animados e me deu um abraço de lado.
— Fico feliz em ajudar. – ele disse: — E quero aproveitar o ensejo para agradecer a vocês. Durante estes quase seis meses juntos, eu fui muito acolhido nesta casa. Como vocês sabem, eu sou um homem só, então valorizo muito isso tudo.
— Ora, , nós quem agradecemos por nos proporcionar tantos momentos bons! – vovô disse.
— E eu te agradeço por tudo que vivemos, e por você ter alegrado tanto ao meu avô. – falei pegando a mão dele que estava sobre a mesa num gesto automático.
Na mesma hora uma corrente elétrica passou por minha mão e os olhos de fixaram-se em nossas mãos dadas. Como despertando de um transe, ele me encarou os olhos, e sorriu.
— Não por isso. – respondeu.
— Ora, mas o que é isso, !? – vovô perguntou alarmado após silenciosamente nos observar, assim como a senhora Montez: — Isto até parece uma despedida!
— É que... Na verdade, realmente é vô Gê.
— O quê? – perguntei surpresa.
— Estou indo para alguns dos países de atuação da SG, ficarei lá por algum tempo atuando numa pesquisa importante. Por isso, eu não sei quando poderei retornar, mas... Com certeza, quando houver brechas eu farei o possível para visitá-los!
— Está indo embora? – perguntei novamente surpresa, e visivelmente descontente.
— Temporariamente. E você, ... Se nós não pudermos nos ver, mande-me notícias! Quero acompanhar tudo o que você fizer!
sorriu, vovô Gê lamentou desejando felicitações, a senhora Montez também, e eu apenas me silenciei. Durante o restante do jantar e até a despedida de , eu fiquei em estado hipnótico.
— Quando você vai? – pronunciei finalmente, quando o acompanhei até a porta.
— Daqui três semanas ainda.
— Uau... Eu estou um pouco... Enfim.
— Bem, em todo caso, você parece que vai partir também. Então, eu queria muito prometer cuidar do seu avô, mas... Acho que é aqui que as nossas linhas do destino se descruzam. Temporariamente, espero.
— Eu nunca poderia ser mais grata por ter sido atropelada do que sou hoje, . Você foi uma companhia incrível todos estes meses, e o vovô... Cara, graças a você ele conheceu uma namorada, e eu não sei como não ser grata por isso. Você realmente é um amigo que eu quero levar para vida.
— Hm... – ele murmurou com uma expressão divertida de dor: — É... Um amigo para vida... Eu acho que consigo conviver com isso.
— Como assim? – perguntei em dúvida.
— Você é uma jovem moça, mas com certeza, também é uma grande mulher. E vai ser muito feliz, , basta, como o vovô diz deixar-se aventurar.
Nós rimos e beijou minha testa se despedindo e indo para a sua casa. Eu fiquei ali na porta, do lado de fora da varanda, um tempo em pé e recostada sentindo um vazio novo no peito.
— Não vai contar a ele? – ouvi a voz de vovô e olhei para o lado.
Ele e a senhora Montez estavam dentro de casa, escorados na janela da varanda nos espiando.
— Contar o quê? – me aproximei com as mãos na cintura, divertida.
— Que está apaixonada por ele, é claro! Ou nem você sabia?
— Vovô...
— Eu conheço uma mocinha de olhos brilhantes por causa de amor, quando vejo uma, ... E você tinha razão... O que sentia pelo Poncho era fogo adolescente. Esse homem não, você está amando-o, e eu vi esse sentimento nascer em todos os dias desde que ele surgiu em sua vida. E quer saber? Eu gosto dele! se parece muito comigo quando era um rapazinho.
— Querida... – a senhora Montez me falou delicada: — Vá com ele. Eu conheço o trabalho da Save the Green, e você pode escolher ir para qualquer projeto. Vá com , mas antes... Fale o que sente para ele.
— Eu não acho que... – parei de falar observando os velhinhos risonhos ao meu lado. — Eu não sei se o iria querer que eu fosse com ele e...
— Ah, pelo amor dos anjos, ! – vovô ralhou comigo: — Ele acabou de deixar bem claro que queria ser mais do que seu amigo!
Eu não conseguia saber se o que o vovô dizia era real, mas a expressão confiante dos dois me fazia notar que realmente eu não conhecia os meus sentimentos até ali. Porque de repente, eu queria muito fazer a coisa certa daquela vez, e a coisa certa era ir com o .
— Vá atrás dele, querida. – Senhora Montez falou abraçada ao meu avô.
Observei o caminho que ele fazia e já despontava distante, então eu corri. Saí correndo até ele, pelas ruas do condomínio, e quando me aproximei mais da figura cabisbaixa daquele homem, eu o gritei e parei, ofegante.
!
Ele olhou para trás, e ao me ver se pôs a correr ao meu encontro preocupado.
! O que houve?
— Eu quero ir com você! – falei finalmente sentindo-o me apoiar segurando meus braços.
— O quê? – perguntou confuso.
— Me escuta... Eu... Eu não percebi antes, por que... Sei lá por quê! Mas, eu quero ir com você, . O pouco tempo que você entrou na minha vida, você me permitiu mais coisas do que eu mesma queria ter me permitido desde que vim embora para cá. Eu cheguei ao México perdida, e muito tempo eu permaneci assim, mas... Quando meus olhos encontraram verdadeiramente os seus... Eu senti uma conexão tão... Antiga... Eu deixei de ser só uma menina, e me tornei uma mulher firme, decidida, ativista ambiental – parei o meu discurso para rir – e que agora sabe que futuro quer. Eu quero você na minha vida inteira não como meu amigo! Eu quero você! Eu preciso de você e não havia me dado conta disso até te ouvir falar que ia embora.
... – ele começou a rir e pegou minha mão a beijando. — Eu sempre tive o meu trabalho e só. Eu não tenho família há muito tempo, e eu... Eu não pude construir uma vida com filhos e esposa, até agora, mas... Aquele dia que em que te levei ao hospital, eu sabia que ia querer ficar perto de você, por muito, muito tempo. Mas, eu também não quero atrapalhar a sua vida, você é nova e...
— Por favor, não! – pedi suplicante: — Nossa diferença de idade não tem nada a ver com sentimentos, e eu não estou escolhendo ir atrás de você para viver a sua vida. Mas, se existe a possibilidade de vivermos juntos as nossas vidas, e vivermos tudo de bom que vivemos aqui, em outro lugar, juntos, por que não? Por que eu não posso ser a sua esposa no futuro? A mãe de seus filhos? Por que eu não posso ser tudo isso e ainda ser a , ser as minhas escolhas?
— Tem certeza que é isso o que você quer?
— Não sei. Espera. – falei respirando fundo fingindo confusão e o fazendo me encarar estranho. — Deixe-me testar uma coisa.
Encenei em dúvida e me joguei nos braços de , num beijo cheio de vontade dos dois lados, e que terminou num abraço quentinho e confortável.
— E então, é isso o que você quer? Vir comigo e construir uma vida de viajantes ativistas e amantes, juntos? – ele perguntou.
— Isso tem cara da mais louca aventura que o vovô Gê poderia me dizer para viver.
, mas... Entende que eu não sei quando esse trabalho vai acabar? Você tem certeza de que...
tinha medo. Medo porque finalmente não estaria mais só. Então as decisões envolveriam a nós dois a partir de agora.
. – interrompi suas falas preocupadas: — Eu não quero que você haja como se eu fosse sua irmãzinha ou sei lá o quê.
— Se eu tivesse uma irmãzinha que eu pudesse beijar como te beijei certamente eu seria preso.
Ele brincou me puxando em outro abraço apertado e novo beijo. Quando nos separamos, eu passei o indicador pelo rosto dele, e enquanto o observava eu fiz questão de deixar bem claro que eu não iria me arrepender.
Un poco de ti me basta para despertar, de la realidad porque nada se cerca de lo que tu me das. Toma un poco de mí y dejate llevar sin pensar. Sin mirar que hay un mundo detrás... – cantarolei e ele sorriu, e não, ele não conhecia a música, então apenas deixei a música de lado para explicá-lo o necessário: — Eu nunca me arrependi de nenhuma das minhas aventuras até hoje, por mais que elas não tenham saído como eu planejava, . E eu também não vou me arrepender de você. Me leve com você? Por favor!

E então, eu fui com para Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, e Panamá. era quinze anos, mais velho do que eu, e aquilo não o fazia me tratar como alguém mais frágil e por isso alguém que “ele devesse cuidar”. Na verdade, esse sentimento de proteção existia, mas se admirava por mim, independente de nossas idades. Ele é um homem maravilhoso e sempre foi assim comigo, em todos os lugares por onde passamos. Eu completei a minha faculdade e me formei engenheira florestal. Meus pais se mudaram para o México para viver mais perto do vovô Gê, e agora a família toda tinha mais terras de cultivo de orgânicos, uma vez que se uniram em trabalho. Vovô se casou de novo, com a senhora Montez, que também é responsável pelo crescente sucesso dos “Organicos Del Gê”.
Ah! O Poncho e eu voltamos a nos falar com mais frequência, ao que nossos trabalhos permitiam. Ele ainda me tratava como uma irmã caçula, mas agora eu gostava da ideia de ter um irmão mais velho. E Diana foi, como sempre, um doce de pessoa comigo e muito compreensiva. Agradeceu-me por ter sido sincera com ele, e até se desculpou por não ter percebido o meu sentimento pelo seu marido antes, mas... Águas passadas.
Nossas famílias voltaram a conviver, antes mesmo de e eu, retornarmos ao México cinco anos depois. E retornamos, pelos seguintes motivos: a pesquisa tinha chegado ao fim, eu havia me formado, e eu queríamos nos casar, e... Bem, eu estava grávida e sacudir uma barriga entre salvar golfinhos e florestas mundo a fora, seria bastante complicado. Então, nós iríamos continuar nossos trabalhos de casa, com a família e amigos, no México.
E sabe como fomos recebidos de volta? Isso mesmo, com o vovô Gê dentro de uma tina fazendo vinho de beterraba, enquanto a família inteira cantarolava canções de retorno, com sombreiros, tacos e muita guacamole.
Eu havia enfim encontrado a maior de todas as aventuras da minha vida, e quer saber? Vovô Gê tinha razão: “não há uma única pessoa no mundo inteiro que não tenha guardada nas linhas do seu destino, uma mísera aventura se quer.” E eu também tinha a minha, que não acabaria até que eu me desse por feliz e satisfeita, e sem arrependimentos ao olhar para trás.





FIM.



Nota da autora: Obrigada a equipe deste ficstape, por me possibilitar mais esta participação! ♥ Abraços a todxs, e aguardo comentários!





Outras Fanfics: (Todos os links estão na página de autora)
Até a data desta fanfic constam postadas:

Longfics

○ No Coração da Fazenda
○ Linger
○ Entre Lobos e Homens: Killiam Mark
○ Western Love
Shortfics

○ A garota da Jaqueta
○ All I Wanna Do
○ Cidade Vizinha
○ Coletâneas de Amor
○ Conversas de Varanda
○ Entre Lobos e Homens
○ Deixe-me Ir
○ F.R.I.E.N.D.S
○ Intro: Singularity
○ Mais Que Um Verão
○ Nothing Breaks Like a Heart
○ O cara do meu time
○ O modo mais insano de amar é saber esperar
○ O teu ciúme acabou com o nosso amor
○ Pretend
○ Semiapagados
○ With You

Music Video

○ MV: Drive
○ MV: Me Like Yuh
○ MV: You Know
○ MV: Take Me To Church
Ficstapes

Nick Jonas – Nick Jonas #08607. Take Over BTS – Young Forever #10304. House Of Cards
Camp Rock 2: The Final Jam #12509. Tear It Down
Descendants of the Sun #130 – 05. Once Again
Descendants of the Sun #13006. Say It
Taemin – Move #14802. Love
Paramore – Riot #16009. We Are Broken


Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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