Última atualização: 02/10/2018

Capítulo 1

Serei capaz de te ver outra vez? Estou enfrentando o destino que vai passando diante de mim. Isso é um sonho que não conseguimos acordar?


Novembro


deveria se preocupar com as compras para as festividades do fim de ano, mas a única festividade que importava era o seu casamento. Faltavam alguns meses, mas desde o pedido de ela não conseguia pensar em outra coisa. O amava de uma forma que estava oculta em seu coração por todo o tempo que estiveram longe um do outro.
Ambas as famílias estavam muito felizes pelo casal. Já sabiam, ainda na infância dos filhos, que eles eram destinados um ao outro. E aquilo se comprovou no momento em que a vida os reuniu. compreendendo a euforia da noiva tomou para si a responsabilidade pelo Seongtanjeol*. Ele estava saindo de casa para buscar as decorações natalinas e sentada à mesa da sala fazendo cálculos do casamento, quando levou a mão ao peito e respirou fundo.

*Seongtanjeol: Natal

Jagi*? Está se sentindo bem? – perguntou preocupada levantando-se e caminhando até o noivo.
— Sim, apenas estou um pouco cansado.
Embora o sorriso falso de fosse convincente, não se tranquilizou.
— Então, descanse, Sarana’h*.
–– Vou às compras do Seongtanjeol. Não se preocupe.
Ele beijou a testa de e sorriu, saiu em direção à porta, mas a mulher o impediu:
! Espere! – caminhou até ele o abraçando.
— Oh, Sarana’h… Por favor, não se preocupe. Estou bem.
— O que você me esconde, ? Há algum tempo você tem se sentido estranho…
— Isto é preocupação demasiada da minha Yochin*.

* Jagi: Querido
*Sarana’h: Meu amor
*Yochin: noiva/namorada


beijou e saiu tranquilo. A mulher não conseguia se concentrar por todo o tempo em que ele não voltava. Algo estava errado. caminhava de um lado ao outro na sala e havia largado a mesa com todos os papéis e planejamentos anteriores. Telefonou à sua amiga, Hyun. Sentia que ela poderia acalmá-la ou contar-lhe alguma coisa que ela ainda não sabia sobre , mas Hyun nada falou. Nada que ela, noiva de , não soubesse. O celular de tocou e ela imediatamente atendeu:
— Senhora ?
O que a sua sogra lhe dissera a fez correr, ainda ao telefone. Pegou a bolsa, fechou a casa e correu pelas ruas pedindo o táxi pelo aplicativo.
Cada segundo dentro daquele automóvel parecia uma eternidade. sentia medo. Não sabia o que esperar quando chegasse ao hospital. E quando chegou, ela correu apressada pelos corredores até que uma enfermeira a parou.
— Senhora, não pode correr desse jeito aqui! O que houve?
–– Por favor! ! Deram entrada com ele aqui! – ela dizia eufórica aos prantos.
–– O sobrenome do paciente, qual é?
–– ! A senhora está aqui!
–– Você é da família?
–– Eu sou a noiva dele! Por favor, enfermeira! Não demore, eu…
–– Calma, calma… Me acompanhe, por favor.
seguiu a enfermeira e ao encontrar a sogra, as duas se abraçaram imediatamente. tentava falar de maneira menos desesperada, porém, a voz embargada pelo choro assustado não lhe permitia.
–– Ajumma*! O que houve?
–– Ele… Teve uma parada cardíaca, honi*.

*Ajumma: pronome de tratamento para se referir à uma mulher muito mais velha.
*Honi: Querida/Querido (como Honey em inglês)

não compreendia. A sogra lhe encarava com brandura, até que notou a feição confusa de . Enxugou as próprias lágrimas e a perguntou:
–– , não te contou?
–– O que ele escondia, ajumma?
–– Oh, honi… Meu filho sofre do coração. Há alguns anos ele transplantou e eu achava que tudo estava bem, mas hoje…
A sogra suspirou pesadamente e , atônita, buscava em suas lembranças quaisquer sinais que poderiam lhe dizer que, seu noivo estava doente. O médico surgiu e as duas mulheres voltaram suas atenções a ele.
–– As senhoras são familiares do paciente ?
–– Eu sou a mãe dele! Doutor, como está o meu filho?
segurava o braço de sua sogra, a fim de lhe dar algum equilíbrio e segurança. Embora ela mesma, não tivesse.
–– Acalme-se, senhora . Eu sou o doutor , cardiologista do hospital. sofreu uma parada cardíaca que foi revertida ainda no atendimento de socorro, porém, ao verificar o prontuário dele descobrimos que o paciente é um transplantado. Certo?
–– Certo! Certo! Ele sofria de uma doença crônica, e ainda jovem precisou de um transplante de coração. O que aconteceu?
–– O corpo de não se adaptou totalmente ao órgão, e sinceramente, o rapaz resistiu o quanto pôde. Não é comum que demore tanto tempo para o organismo rejeitar um órgão. Bem… Eu pedi alguns exames novos, que estão sendo feitos. E ele está sedado, infelizmente vocês não podem vê-lo agora.
–– Entendo, doutor… Mas o que vai ser feito? O coração dele…?
–– Outro transplante sim, senhora . Embora seja uma situação de extrema ansiedade e a senhora já passou por isso, felizmente é a opção que há para . Não se preocupe demasiadamente, tudo bem? Estamos fazendo todo o possível.
–– Quanto tempo ele pode esperar por um novo órgão, doutor ?
abraçava firme sua sogra, esperando a resposta de sua pergunta.
–– Não posso estimar tempo ainda. Precisamos dos resultados dos exames. Mas se tratando de transplante, senhorita…?
–– .
–– Senhorita … Se tratando de transplante, o quanto antes melhor.
Elas assentiram ao médico e ele as deixou a sós. sentou-se no banco de espera e iniciou um choro silencioso e contínuo. Por mais que sua sogra a pedisse para não desesperar-se e que tudo daria certo como da última vez, não conseguia.
–– Ajumma… Por que não me contaram isso? Eu tinha o direito de saber.
–– Não achei que não soubesse. deveria tê-la contado.
A sogra falou compassiva, segurando a mão da nora. Ela respirou profundamente, e olhou para o lado sentindo a presença de alguém. Era o senhor , pai de que acabara de chegar. A mulher se levantou e abraçou o marido, contava-lhe baixinho o que ouviu do médico. encontrava-se em estado de choque, mal dando conta da presença recém-chegada do sogro.
–– ?
Ouviu uma voz que não chamou apenas a sua atenção, quanto à de seus sogros.
–– Você está doente, ? É por isso que a melhor moça da senhora Na-Young deixou seus acompanhantes?
–– Senhor Mokoto…
sussurrou de olhos arregalados. Não era possível que um ex-cliente revelaria seu passado daquela maneira.
–– Sinto sua falta, . Você não deu explicações! Eu exijo que se desculpe por abandonar seu trabalho sem ao menos falar comigo!
–– Senhora Na-Young? – a sogra de aproximou-se mais dos dois e perguntou ao homem.
–– O que? Sim! Senhora Na-Young! A receptora de moças. – o homem respondeu grosseiro para a sogra de .
Imediatamente um tapa no rosto de se fez ouvir. Mokoto ao perceber o que acontecia, olhou raivoso para e saiu dali. A senhora chorava nervosamente, sendo segurada por seu marido que também se encontrava nervoso.
–– Prostituta! Meu filho iria se casar com uma prostituta!
–– Senhora
–– Cale a boca! – ela gritou batendo o outro lado da face de e novamente o senhor se pôs a segurar a esposa: –– Saia daqui, sua kaejasik*! Como você pôde fazer isso com o meu filho!?
–– Ele sabia! – gritou: –– Ele me salvou e por ele eu mudei! Ele me aceitou!
–– Eu soube da sua gravidez na adolescência! Eu soube que a desonra em sua família não foi sua culpa, você foi uma vítima! Como seus pais puderam permitir tamanha desonra ao meu filho?
–– Meus pais nunca souberam, senhora … Por favor, eu…
–– SAIA!
A senhora gritou, e algumas enfermeiras se aproximavam. Ela olhou diretamente nos olhos de e entre dentes proferiu:
–– Você nunca mais chegará perto do meu filho! Saia imediatamente daqui! Kolle*! Saia!
olhou de sua sogra para seu sogro, e o repúdio era iminente nos dois. Ela pegou sua bolsa ainda em lágrimas e saiu extremamente envergonhada do hospital.

*kaejasik e kolle: palavrões referente à pir*nha.


Capítulo 2

Você está ficando mais longe e eu não pude te falar, mais uma vez. Eu te amo do fundo do meu coração…

Já fazia dois dias que não ia ao hospital. Hyun retornou de Paris para dar apoio à amiga naquele momento. Ela havia chegado há poucas horas e não acreditava que estava naquele estado deplorável. A casa toda fechada, suja, escura, abafada. As roupas de eram as mesmas de quando fora ao hospital. E tudo o que ela fazia era chorar. Os papéis do casamento, ainda se mantinham sobre a mesa.
Hyun tentou animar a amiga pedindo para ela reagir. Disse que iria ao hospital ver o amigo , e que ela deveria ir também, afinal ela era a noiva dele.
Hyun tentava deixar claro para que o assunto de sua antiga vida, não dizia respeito à sua sogra, mas sim, a e se ele já havia a perdoado e a aceitado, ninguém mais deveria tratá-la daquela forma. não queria ir, mas a preocupação por extrapolava a qualquer medo ou vergonha.
Quando as duas amigas chegaram ao hospital, o pai de estava sozinho no corredor e assim que viu a noiva do filho se aproximar, ele a retaliou. Impediu de ver o noivo. E também Hyun, por estar “mal acompanhada”. E além de não deixá-las verem seu filho, ele impediu de voltar ao hospital. Ameaçou contar à família dela toda a verdade, se ela não sumisse da vida de .
Hyun se exaltava, e avançou com palavras rudes para o pai de seu amigo, mas estava envergonhada demais para permitir aquela situação. Pediu que ao menos ele deixasse Hyun ver o amigo. Ela havia vindo da França para aquilo, e não tinha nada a ver com aquela situação. E o senhor permitiu, desde que aguardasse do lado de fora do hospital e a noiva de obedeceu com coração aflito.
Quando Hyun se aproximou emocionada, pulou em seu colo num abraço apertado.
–– Ele está desacordado, e fraco… Ainda sob observação.
–– Não posso ir contra a vontade deles, Hyun. Eu não posso deixar que minha família descubra.
–– E não pode abandonar seu noivo, o homem que ama!
–– Mas não há alternativa, Hyun! No momento, eu não tenho alternativa!
–– Em pensar que a família sempre lhe tratou tão bem... Eles conhecem você desde criança, ! Eu estou decepcionada com eles, principalmente porque a sua família sempre ajudou a eles.
–– Vamos embora, Hyun. Eu não consigo ficar aqui sem poder olhar e tocar o meu .
A semana passou e as notícias de não vinham, nem mesmo por Hyun. A família sabia que ela contaria à o que acontecia e evitou as visitas da garota. Antes de retornar à Paris, Hyun aconselhou a forçar o encontro com . Mas não conseguiu.
Ela estava mais um dia em sua casa olhando os papéis sobre a mesa e discando o número de sua sogra. As ligações não eram atendidas. chorou de novo, e de novo, e quando pensou que não tinha mais o que chorar decidiu que precisaria enfrentar seus sogros e ir até seu noivo. Joong-Ki tocou a campainha tirando-a de seus pensamentos.
–– Ki?
–– ! – ele abraçou a amiga, ansioso: –– Como está? Eu soube hoje, na empresa…
chorou mais uma vez, abraçada ao amigo. Devagar, ele foi empurrando em seu abraço, para dentro da casa. Eles sentaram-se no sofá e quando ela contou o ocorrido a ele, Joong-Ki não aceitou a maneira como ela foi tratada.
Obrigou a se arrumar para ir ao hospital, e enquanto ela tomava seu banho, ele organizava minimamente a casa. Foi à mesa juntar os papéis espalhados e sentiu o coração apertado ao ler, do que se tratavam.
Quando Joong-Ki e chegaram ao hospital, a mulher nervosa foi até onde seu noivo estava em observação, e não viu ninguém da família o esperando ali ao lado de fora. Entrou no quarto, eufórica, mas estava vazio. Ela olhou desesperada para Joong-Ki. O rapaz imediatamente foi até a recepção do andar, atrás das informações. novamente telefonou para a sogra. Não entendia o que poderia ter ocorrido e seu coração batia ainda mais forte, por ver aquele quarto vazio. A ligação novamente não era atendida. correu até Joong-Ki, e no exato momento em que ela chegou a enfermeira da recepção cedia às informações para Ki.
–– Senhor, o paciente foi removido deste leito na data de ontem.
–– Removido? Por quê? – debruçou-se aflita no balcão.
–– Desculpe, eu não posso ceder mais informação alguma. Apenas para parentes autorizados.
–– Eu sou a noiva dele! – ela se exaltou.
Ki segurou os braços da amiga passando as mãos por eles, a fim de acalmá-la. Desculpou-se com a funcionária e pediu gentilmente:
–– Ela é noiva e está sem notícias há algum tempo. Desculpe por nosso nervosismo. Você pode verificar se ela está autorizada às notícias?
–– Um momento, por favor.
A enfermeira paciente verificou os registros. E disse não haver menção à noiva alguma.
–– . Não há nada? – Joong-Ki perguntou enquanto chorava baixinho por entender o que acontecia.
–– Na verdade, neste nome há sim… Uma restrição. Desculpem, mas a família do paciente não permite nenhuma informação à senhorita.
A enfermeira a olhou com pena e aquilo doeu bem menos do que saber que jamais teria notícias novamente.
Joong-Ki agradeceu e afastou-se levando a amiga até as poltronas de espera.
–– Ki… Eu nunca mais o verei…
–– Acalme-se, . Nós vamos conseguir informações. Eu ainda posso tentar pela empresa…
–– E se… Joong-Ki, e se ele…! – levantou-se exaltada não conseguindo terminar a frase devido ao choro.
–– Ei, ei! Acalme-se, . está bem, ele não… Ele não se foi!
–– Mas…
–– ! – Joong-Ki foi mais enérgico com a amiga, e a interrompeu: –– Se estivesse morto, a família dele, ao menos isso, lhe informaria.
Enquanto Joong-Ki e conversavam, e a mulher era consolada pelo amigo, o médico que tratou de havia se aproximado da recepção para pegar outro prontuário. Ele percebeu a presença um pouco próxima dos amigos ali, e observando-os reconheceu . Ela era a noiva do ex-paciente, que ele havia recordado de receber o pedido dos pais dele, a não deixá-la se aproximar.
–– Com licença? – ele se aproximou dos amigos.
–– Doutor ! – soltou-se desesperada de Joong-Ki: –– Por favor, doutor! O que houve com meu ?
–– Por favor, se acalme senhorita. Primeiramente, eu gostaria de perguntar por que a senhorita não voltou?
–– Minha sogra me impediu. Tivemos um desentendimento. E eu não consegui ir contra a ordem dela…
–– Bem, eu não sei o que houve entre vocês, mas ainda não posso lhe ceder informações. Só posso dizer que, o paciente foi transferido de unidade ontem. Agora, se me dão licença…
O médico saiu apressado e discreto antes que as lágrimas de o forçasse a falar mais. Algo na maneira como ela desapareceu antes, aquele choro desesperado e os olhos numa profunda esperança a lhe encarar, fizeram com que soubesse que o melhor, seria afastar-se dela imediatamente. Joong-Ki continuou com a amiga por aquela tarde. Eles saíram do hospital e foram até o café de sempre. insistia nos telefonemas sem obter nenhum sucesso. E por mais que sua cabeça estivesse à mil, Joong-Ki a convenceu a retomar o passo a passo de sua vida. E a primeira coisa seria: arrumar um emprego. Ela vinha sendo “sustentada” por num combinado íntimo entre os dois, e que duraria até o casamento.

Não me deixe chorar. Você é um sonho que vai desaparecer quando eu te tocar, como a neve que derrete. Sinto falta da sua presença. Quero ter você de volta…


sabia que não poderia continuar chorando pelo ocorrido. Era necessário retomar seus passos, encontrar ou ter notícias dele. Mantinha em seu coração a esperança de que, ele também a procuraria quando possível e então casariam. Seriam felizes. Qualquer hipótese fora disso, não era aceitável.
Hyun mantinha contato com sua amiga, mesmo em Paris sem poder fazer muito, não conseguiria não ajudá-la. Joong-Ki também estava sendo prestativo. Aliás, desde o passado conturbado em que conheceu , ele era o esteio da mulher. Era o irmão que ela não tivera.
Ao voltarem do kombini* que haviam ido, após saírem do hospital, Joong-Ki auxiliou a reorganizar a casa. A primeira coisa que ele fizera: guardar todos os papéis e modelo de convite de casamento, que empoeiravam sobre a mesa durante aquela confusão toda, numa caixa. Em seguida, ele levou a caixa para o armário da estante da sala. Sabia que se não soubesse onde ele guardou, ela não ficaria pensando em retomar aquelas lembranças. Não que ela tivesse de esquecer o casamento que planejava junto ao seu noivo, mas não adiantaria ficar revivendo aquilo. Um passo de cada vez era o necessário para saberem, ambos, como agiriam para reencontrar .
Joong-Ki dormiu na casa da amiga aquela noite, e saiu no dia seguinte bem cedo, não sem antes deixar uma mesa de café da manhã posta para ela. Era engraçado que, em todos os anos de amizade, ele jamais entrara na casa dela, e no momento que se fez oportuno era como se ele sempre estivera andando por aqueles cômodos. A história de era pesada demais para uma mulher tão leve.
Ela estava caminhando pela praça, encolhida em seu casaco pesado a observar as árvores secas cobertas de neve. O olhar vazio em seu rosto tão bonito era de dar pena. Joong-Ki respirou fundo e saiu do carro estacionado rapidamente. Esfregou as mãos, pelo frio e parou próximo a um carrinho de bebidas quentes. Comprou dois copos de chá quente e foi atrás da amiga, que não o percebia se aproximar.

*kombini: espécie de lanchonete com a versatilidade de uma loja de conveniências.

–– Você não deveria ficar andando ao relento. Pedi que me aguardasse em algum lugar aquecido. – ele disse entregando a ela um dos copos.
–– Obrigada. – ela respondeu apenas pegando a bebida da mão dele, e bebeu silenciosa e cabisbaixa.
–– Está mesmo preparada?
–– Sim, Ki. Desculpe-me! Eu sei que deu trabalho para conseguir esta entrevista de emprego para mim, eu prometo não decepcioná-lo.
–– Não me importo, . Sinceramente, só quero que passe a sorrir. Por mais falso que seja seu sorriso, o rosto que cria o hábito de sorrir atrai mudanças positivas.
Ela sorriu fracamente e o amigo bateu palmas com uma cara infantil a fim de fazê-la sorrir mais. E deu certo. Ela se pôs a andar na direção onde ele indicou que seu carro estava, e estufou o peito adquirindo uma postura mais positiva. Joong-Ki caminhou um pouco mais lento atrás e observou-a com seriedade. Ele mesmo fingia que estava tudo bem, mas sabia que não estava. A empresa não cedeu informações diferentes do que eles sabiam: “o funcionário foi afastado temporariamente por questões de saúde”. E aquilo poderia tanto ser uma informação fiel e positiva quanto, uma incógnita mentira. Ainda sem notícias de e com consumindo-se por uma depressão silenciosa, Ki preocupava-se com o momento em que tudo seria esclarecido. Não queria nem imaginar o que estava ocorrendo ao amigo desaparecido por sua própria família. E não tinha como ajudar mais, uma vez que sua amizade com era ligada pelo fio de e da empresa. Não tinha contato algum com a família do homem e nem mesmo imaginava como se aproximar. A tal “questão de tempo” era a pior das respostas. Ele não sabia lidar com ela e o pior de tudo: entregava-se a tal resposta aos poucos, por isso, Joong-Ki mantinha-se atento a cada passo da amiga. Temia que por dentro, ela estivesse desistindo de tudo.
–– Você está bem mesmo, ? Sabe que não precisa mentir para mim. – ele perguntou assim que deu partida com o carro.
–– Eu já passei por tanta rasteira, Ki… Não se preocupe. É a segunda vez que perco . Sei lidar com isso.
–– É isso que me preocupa: você está aceitando que o perdeu.
–– E não perdi? – ela encarou-o com mágoa.
–– Não. Ele te ama, onde quer que esteja. Antes de desistir dele, você vai se reerguer e nós iremos procurar por ele, até que não tenhamos mais que procurar.
sorriu agradecida pela injeção de ânimo que o amigo lhe dava. Ele deixou-a na porta da loja de roupas, na qual conseguiu uma entrevista de emprego à amiga. Ela entrou e pendurou seu casaco no porta-casacos presente ali, revelando sua figura impecavelmente bem vestida. A figura maravilhosa por fora, nem de longe transmitia a figura melancólica por dentro. Apenas quem reparasse bem no olhar daquela mulher, entenderia que seu exterior era um personagem. E como conseguia? Ela havia fingido ser aquela mulher por anos, enquanto trabalhou para a senhora Na-Young. Não era difícil fingir mais uma vez, para a gerente da loja de roupas grã-fina.
Tudo ocorreu bem, e das duas candidatas que concorriam com , ela foi a melhor. Não apenas detinha informações claras, precisas e bastantes, acerca da alta moda, quanto sua beleza e postura eram de um magnetismo impressionante. A aparência singular de traços próprios desde a infância chamava atenção para , sem falar em sua natural sensualidade. era o tipo de mulher que, mesmo quando acordava e saía despenteada, causava acidentes de trânsito moderados.
Ela foi contratada e logo que saiu da entrevista com felicidade comedida pensou: “Por que eu tentei o caminho mais fácil, no passado?”. Telefonou para Hyun a fim de contar a novidade.
–– Unni*! Que bom receber tua ligação!
–– Hyun-Ah! Estou feliz de ouvir tua voz.
–– Verdade?
–– Verdade. Estou melhorando, Hyun-Ah. Joong-Ki mais uma vez tem sido meu porto seguro no momento de mar revolto.
–– Joong-Ki é adorável. Eu fico feliz que ele esteja por perto.
–– Ele conseguiu uma entrevista de emprego para mim, em uma loja de roupas. E eu consegui o emprego.
–– Oh, !!! Eu estou tão feliz por você! Céus! Joong-Ki…! Ah, eu nem sei o que dizer sobre ele! Mas a você eu sei: estou orgulhosa, unni! Muito orgulhosa por vê-la seguir em frente, meus parabéns!
–– Obrigada, Hyun-Ah… Saí da loja pensando em porquê não segui o caminho que todos seguem, antes…
–– Não pense nisso, . Você era muito nova, e passou por muitos momentos difíceis. Todos nós fazemos escolhas das quais nos arrependemos, em algum momento de nossas vidas.
–– É… Tem razão.

*Unni: forma de tratamento de uma moça nova para uma moça mais velha.

As duas silenciaram-se por um minuto e não conseguia deixar de perguntar:
–– Hyun. Você teve alguma notícia?
–– Não. Não tive, unni… Estou pensando em voltar e ir até Anyang*. Procurar por até encontrá-lo.
–– Hyun, eles não foram para lá. Eu falei com meus pais, depois de algum tempo sem notícias. Menti dizendo que ele estaria para chegar à cidade e visitar alguns parentes e eles informaram que não havia notícias de nenhum dos na cidade. Preocuparam-se, e então eu menti de novo. Mas é isso: eles não retornaram para a cidade. A senhora desapareceu com meu noivo, e o pior é que eu nem sei por onde procurar…
A voz de começava a embargar, então Hyun desconversou sentindo uma lágrima escorrer solitária em seu rosto.
–– Unni! Foque em seu novo trabalho! Foque em estar bem para logo partirmos atrás de ! Eu te prometo que estarei aí, em breve!
–– Como assim?
–– Estou voltando para Seoul.
–– O quê? Por quê? E seu Namchin*?
–– Não somos mais noivos, . Longa história…
–– Hyun-Ah! Por que não me contou? Desculpe-me por ser uma amiga tão ruim!
–– Unni! Não é culpa sua! Não faz muito tempo, também. Eu não tive tempo de avisar. Mas agora eu tenho que ir… Eu te telefono em breve, tudo bem?
respondeu afirmativo, com um muxoxo.
–– Anime-se, ! E saia com Joong-Ki para comemorar seu emprego!
–– Como se ele fosse me deixar em casa…
As amigas riram baixo e despediram-se. enviou uma mensagem a Joong-Ki contando a novidade. Pegou um ônibus para casa, e sorriu ao ler a mensagem de resposta do amigo.

“Jal haesseo*! Te pego as oito para comemorarmos, hubae*! Esteja pronta.”

*Anyang: cidade sul-coreana.
*Namchin: noivo/namorado.
*Jal haesseo: “muito bem”, “bom trabalho!”.
*Hubae: pronome de tratamento usado para referir-se a alguém num grau mais baixo.

Às oito horas em ponto, como havia dito a campainha da casa de tocava. Ela terminava de ajeitar seu blazer, deu dois tapinhas em suas bochechas com intuito de forçar um sorriso. Atendeu a porta e Joong-Ki invadiu a casa como um jogador de futebol americano. Abraçou , levantando-a do chão, rodopiando ela enquanto gritava em comemoração e a mulher gritava surpresa entre risos.
–– Babo*! Olha o que fez com minha roupa!
Ela fingia braveza reclamando por Ki tê-la amarrotado. Ele sorriu largo para aquele fato. Nos últimos tempos a vaidade de havia desaparecido junto a , e notar que naquele momento ela importava-se em sair amarrotada o passava certa calma.
–– Do que está rindo? – ela olhava-o curiosa.
–– De como você está linda, .
–– Chugŭlle*?
–– Não seja mal educada, estou elogiando você!

*Babo: tonto, idiota, bobo.
*Chugŭlle: “quer morrer?”.


Ele riu e puxou a amiga pela mão. Desajeitada, ela pegou sua bolsa no sofá antes de ser totalmente arrastada para fora de casa, com Joong-Ki.
Eles estacionaram em frente à praça que Joong-Ki havia pegado-a mais cedo. Ela olhou para ele, de forma confusa.
–– Merecemos uma comemoração especial pelo início de sua nova fase, mas eu sei que ainda não está preparada para bagunças.
–– Achei que iríamos jantar em algum lugar.
–– E vamos.
Ainda sem entender, ela encarou-o com um sorriso ladino, discreto e curioso. Joong-Ki desceu do carro num sorriso largo, e deu a volta abrindo a porta para . Assim que ela desceu, ele pegou o braço da amiga entrelaçando-o ao dele e os dois caminharam pela praça, até que no meio do parque da praça, refletores de luzes revelavam a grande decoração ao jardim. Uma espécie de redoma de vidro moldava um espaço cheio de mesas, com uma banda de jazz tocando lá dentro. Garçons de um lado a outro servindo.
–– É um festival itinerante de inverno. Noite do jazz.
–– É lindo, Ki… – ela falou deslumbrada e sorriu para o amigo encostando sua cabeça no ombro dele.
A neve caía deixando a redoma de vidro embaçada por dentro, uma vez que aquecedores eram postos ali dentro para amenizar o frio que do lado de fora chacoalhava as copas das árvores do parque.
e Joong-Ki jantaram, e ao seu jeito leve de serem amigos curtiram a noite de músicas e conversaram amenidades. Uma das coisas que faziam com que nunca havia deixado Joong-Ki entrar em sua casa era o medo. Ele sempre cuidara dela como um irmão, era sensível e adorável. Sabia de toda a história suja da mulher e mesmo assim a respeitava como poucos. , sem a hipótese de um dia ter em sua vida, tinha medo de apaixonar-se por seu melhor amigo e perdê-lo também. Por isso, as tardes de café, algumas noites de drinques no bar da senhora Na-Young – aonde Ki ia quando precisava beber em silêncio – era o máximo de programas entre eles. E mais uma vez, Ki estava ali com ela cuidando-a como um irmão. sorriu com uma lágrima que lhe escorreu a face, e pegou a mão do amigo. Ele olhou-a confuso por ver a lágrima.
–– ?
–– Obrigada.
–– Pelo quê? – ele respondeu sorrindo.
–– Por tudo e por sempre.
–– Eu só quero vê-la bem. Por favor, fique forte, . Eu vou sempre estar aqui.
Ela apertou a mão dele agradecida e limpou discretamente outra lágrima. Logo os dois voltaram sua atenção aos músicos.
Joong-Ki deixou em casa e entregou a ela um pequeno embrulho, antes de sair.
–– O que é isso?
–– Um presente por sua conquista.
–– Ki, você sabe que foi você quem arrumou este emprego para mim.
–– Anyo*! Eu só arrumei uma entrevista, o resto é mérito seu.
–– Obrigada, mais uma vez.
Ela agradeceu olhando o embrulho. E ao abrir deparou-se com um lindo relógio. Encarou o amigo, boquiaberta, e ele sorriu travesso por ter conseguido mais uma vez surpreender a amiga. Não era algo comum. Ela o abraçou e após despedirem-se, Joong-Ki retornou ao seu carro e ao quarto. Ela olhou sua cama vazia e pela primeira vez depois de todo aquele tempo, voltaria a dormir nela. Trocou de roupa e deitou-se abraçando o travesseiro de enquanto o choro encharcou as fronhas.

*Anyo: “não”.

–– x ––


Havia se passado uma semana desde que iniciara no trabalho e, sentir-se útil de alguma maneira permitia o início de retomada para . Havia pensado muito no que Joong-Ki e Hyun vinham lhe dizendo. E tomou uma decisão importante: fortalecer e enfrentar seu passado. Enfrentaria o medo da verdade, enfrentaria seus sogros e os acharia onde quer que eles estejam. Encontraria .
Hyun também tinha tomado muitas decisões em sua vida, do outro lado do mundo informou a que estava a caminho da Ásia. Joong-Ki encarava de modo curioso. Ela atendeu a ligação calma, mas encontrava-se num misto de indagações e surpresa falando com alguém ao telefone.
–– Hyun-Ah! Você tem certeza?
–– Sim, unni! Eu já estou chegando!
–– Céus! Quanto tempo?
–– Mais uma hora, acredito. Estou a caminho do ponto de táxi.
–– Não, não! Vai pegar muito trânsito agora! Pegue a linha C do metrô, Joong-Ki e eu a encontraremos.
–– Tudo bem, kkeuno*!
Joong-Ki encarou com olhos indagativos.
–– Ahyu*! Quem é que vai a algum lugar com você?
–– Jebal*, Joong-Ki! Hyun acaba de chegar a Seoul.
–– Chŏnmallyo*?
–– Sim! Parece que as coisas com o noivado dela, não tiveram jeito.
–– Wae*?
–– Acabou o noivado, Ki.

*Kkeuno: “tchau”, “vou desligar”. Expressão usada ao telefone somente quando a pessoa for íntima.
*Ahyu: expressão usada quando alguém fala alguma bobagem.
*Jebal: “por favor”.
*Chŏnmallyo: “é sério?”, “fala sério?”.
*Wae: “por que?”.

Joong-Ki arregalou os olhos surpreso e terminou de beber seu suco. já estava a caminho do caixa, quando ele a alcançou e pagou a conta antes dela. A mulher estranhou e olhou reprovadora para ele. Certamente, ele a faria gastar o dobro para compensar depois. Ele apenas sorriu debochado. Saíram rapidamente a fim de dirigir até a estação mais próxima de metrô.

Flashback


Paris.

–– Jacques… Eu preciso retornar a Seoul.
–– É assim, Hyun? Vai mesmo acabar com tudo o que construímos?
–– Não fui eu quem acabou com tudo. – a mulher respondeu cabisbaixa.
–– Ora, Hyun. Não acha que está sendo muito radical?
–– Até mesmo e vão se casar antes de nós! Admita que não quer se casar comigo, Jacques. Admita que me enrolou todo este tempo!
–– Eu enrolei? Eu encontro um bolo de cartas suas escritas para outro homem, e você diz que a culpa é minha?
–– Aquilo é coisa de adolescência, Jacques!
–– Me convença que a sua partida não tem nada a ver com a sua adolescência.
–– Eu já disse que eles vão se casar.
–– Não é o que parece. está sem notícias de há um bom tempo, e pelo que sabemos não vai encontrá-lo tão cedo! Mas você sim, não é, Hyun?
–– Não diga bobagens! Eles são meus amigos!
–– Como você dorme, Hyun? Sabendo que escondeu o amor pelo noivo de sua melhor amiga por tanto tempo e agora que “o caminho está livre” vai ao encontro dele, para apunhalar pelas costas?
O som do tapa na face de Jacques e o olhar assustado de Hyun para o que havia feito demonstrou o fim do noivado. Jacques saiu enfurecido e Hyun caiu ao chão, aos prantos.

Fim do Flashback


Joong-Ki tamborilava os dedos sobre os braços cruzados, enquanto esperava o metrô denunciar a chegada de Hyun. Assim que correu na direção oposta a que estava encostado na pilastra, ele virou-se indo de encontro às amigas abraçadas.
–– Hyun! Este é Joong-Ki.
apresentou os dois amigos um ao outro. Nunca haviam se visto pessoalmente, mas se conheciam de tanto ouvirem falar um no outro. Antes de pegar a mão em cumprimento de Joong-Ki, Hyun abaixou-se em respeitosa reverência e o agradeceu:
–– Quero agradecer-lhe por cuidar de minha amiga, enquanto eu não pude.
Joong-Ki olhou assustado e desconcertado na direção de . Ela riu baixo.
–– Ora… Não há por que agradecer, ela é minha amiga também. Mas de nada…
A confusão da resposta de Joong-Ki fizera Hyun levantar-se e cumprimentá-lo normalmente, sob alguns risos.
–– Talvez as coisas por aqui não estejam mais tão tradicionais quanto à época em que parti.
–– Só um pouco menos, Hyun-Ah. Estou feliz de tê-la aqui!
As amigas se abraçaram novamente, Ki pegou a bagagens de Hyun e as chamou para segui-lo. abriu o porta-malas e auxiliou Ki a guardar as bagagens da amiga. Ele abriu a porta para Hyun e após entrar no carro, ela iniciou um modo minucioso de observação. Observou as expressões mais leves no rosto de , a sincronia de Joong-Ki e ela nos gestos. Será que eram tão amigos ao ponto de terem o “timing” dos melhores amigos? Como, saber o que o outro vai dizer apenas pelo olhar? Ela ficou feliz em ver que a amiga estava mais corada, e menos melancólica. Joong-Ki olhou para o banco de trás, junto com e os dois sorriram para Hyun ao mesmo tempo. Entreolharam-se e partiram com o carro para a casa de . Durante o percurso, Hyun conversava e respondia aos dois, mas não deixou de analisar a paisagem da cidade ao lado de fora com certo receio e nostalgia. Ela havia voltado para casa. Ela estava de volta. Assim como vinha tentando fazer, agora era Hyun quem deveria recomeçar.
–– Eu quero aproveitar este momento, onde meus dois melhores amigos estão reunidos comigo para fazer um importante anúncio.
disse após bebericar um gole de seu vinho. Eles haviam decidido fazer uma jantar caseiro na casa de , já que Hyun se encontrava cansada da viagem. Os dois tiraram os olhos de seus respectivos pratos para encarar a mulher, num claro sinal para que ela prosseguisse com a fala.
–– Eu vou atrás de .
Joong-Ki vincou a testa, em rugas de preocupação. Hyun o encarou, mas ele não tirara os olhos preocupados de após ouvi-la.
–– Você tem certeza que já se sente preparada para isso, ? Não que eu ache que não deva, mas me preocupo se terá emocional para iniciar a procura.
–– Você disse que estaria comigo. E agora tenho Hyun aqui também. Eu estarei forte, Joong-Ki. E vou começar pelo hospital, amanhã.
Os dois amigos entreolharam-se e Hyun ainda sem expressão aguardou uma reação de Joong-Ki. Ele sorriu sereno para :
–– Então vamos atrás do seu .
Ele respondeu confiante pegando a mão de e Hyun sorriu o acompanhando.
Na manhã daquele sábado, pisou no hospital revivendo as memórias do momento em que descobriu que havia sido internado e depois desaparecido. Chacoalhou a cabeça e respirou fundo. A caminho da recepção, perguntou pelo Doutor .
–– Chamkkanmanyo*. – respondeu a enfermeira.
balançou a cabeça em afirmação e sentou-se no banco de espera.

*Chamkkanmanyo: “espere um pouco”.

–– Ele virá assim que terminar de atender um paciente, senhorita. – respondeu a enfermeira que havia reaproximado.
sorriu agradecida. Vinte minutos depois o médico surgiu à recepção caminhando de cabeça baixa e visivelmente preocupado. levantou-se e ficou de frente para ele. A face em notória expectativa. Ele ergueu o rosto e assim que a percebeu ali, seu semblante preocupado tornou-se confuso. A enfermeira aproximou-se dizendo que a moça o aguardava e ele sorriu assentindo-a.
Colocou as mãos no bolso do jaleco e suavizou a face, aproximando-se dela.
–– Bom dia, Dr. .
–– Bom dia. Como vai?
–– Vou bem, o senhor recorda-se de mim?
–– Claro. A noiva do paciente transferido há pouco mais de algumas semanas.
–– Eu poderia conversar com o senhor, por alguns momentos?
–– Olha… Senhorita…
–– .
–– . Isso. – ele assentiu olhando-a como se soubesse que não conseguiria evitar aqueles olhos.
–– Por favor, Dr. … Eu só peço que me ouça por alguns minutos.
Ele olhou para os lados, notando os corredores vazios daquela manhã de hospital. Estava pronto para sair de seu plantão, e cansado. Encarou novamente o rosto cheio de expectativa à sua frente e expirou uma grande quantidade de ar, e sorriu:
–– Tudo bem, me acompanhe ao refeitório, por favor. Preciso apenas me trocar. Pode aguardar?
–– Claro, claro!
sorriu animada e voltou a sentar-se no banco de espera. Um pouco depois, o médico surgiu com suas vestes comuns, o jaleco nos braços e uma bolsa atravessada no corpo. Desceram ao refeitório, calados e só iniciaram novo diálogo após ele ter feito um pedido de café da manhã.
–– O que a senhorita deseja? – perguntou olhando referindo-se ao cardápio.
–– Ah, eu já fiz o meu desjejum. Por hora só um café, por favor. – ela respondeu ao atendente em pé ao lado da mesa.
O médico cumprimentou o rapaz e entregou o cardápio, e pigarreou encarando novamente a mulher a sua frente.
–– Bem, senhorita . O que a senhora tem a me informar?
–– Eu preciso contar-lhe o que aconteceu no dia que foi internado. – falou um pouco cabisbaixa e nostálgica.
–– Desculpe, senhorita . Eu não entendo no quê isso implicaria.
–– Por favor, Dr. . Apenas me escute, sim?
O homem consentiu tímido e ajeitou-se para ouvir . Ela contou o motivo por ter desaparecido, e antes que o médico a julgasse ela contou o motivo para ter chegado até a senhora Na-Young. Contou desde o término confuso de namoro com ainda na adolescência, o estupro sofrido na faculdade que acarretou uma gravidez conturbada. A maneira como encarou sua própria vida após perder seu bebê, chegando enfim a ser uma das melhores moças, mais requintadas e caras da senhora Na-Young. Depois contou como ela e haviam se reencontrado e reconciliado ao ponto dele esquecer o passado dela, deles, e pedi-la em casamento. lhe explicou que não conhecia o histórico cardiopata de , e a maneira rude e cruel como fora afastada e ameaçada pela família. E por fim, numa súplica sob lágrimas contidas pediu ao médico que nem conseguia mais engolir seu lanche, que apenas lhe desse uma informação que pudesse confortar seu coração.
engoliu parte de sua refeição matutina com um grande embargo na garganta.
–– Por favor, Dr. ! Diga-me apenas se meu noivo saiu daqui vivo ou morto!?
As lágrimas se fizeram mais fortes, embora sua voz fosse um sussurro. encontrou-se desconcertado com a cena e puxou uma quantidade desastrada de guardanapos sobre a mesa, e entregou a mulher. Olhou em volta percebendo que a cantina se encontrava um pouco mais cheia que a recepção.
–– Ouça, senhorita … – a mulher o olhou após secar suas lágrimas –– Há um sigilo médico profissional que me impossibilita de passar informações dos pacientes. E no caso de é ainda mais complicado, uma vez que há uma restrição institucional sobre informações cedidas sem autorização… Não é que eu não acredite em tudo o que me disse, mas…
suspirou pesadamente e desfez o contato visual com , olhando para suas próprias mãos entrelaçadas sobre seu colo. O médico silenciou-se analisando a mulher mais uma vez. Ela estava desesperada, se expôs a um estranho confiando em sua compaixão.
–– Veja… Eu verei o que eu posso fazer tudo bem?
O rosto de se iluminou novamente em esperança. Ela assentiu silenciosa e sorriu.
–– Retorne no meu próximo plantão, daqui há… – ele olhou o relógio –– Quarenta e oito horas.
sorriu minimamente e o correspondeu aliviada. Ela levantou-se e o médico acompanhou o gesto, cumprimentando-a curvando o tronco, e ela fez o mesmo.
–– Obrigada, Dr. . Muito obrigada.
–– Não me agradeça ainda. Não sei o que farei. – ele falou sinceramente e visivelmente confuso e abaixou a cabeça com um sorriso sutil.
–– De qualquer forma, obrigada.
–– Até o Natal, senhorita .
Ela encarou-o de modo vazio, dando-se conta que o Natal aproximava-se. Despediu-se e virou as costas caminhando lentamente à saída. a observou sair e sentou-se exausto em sua cadeira. Encarou seu café da manhã, e tombou a cabeça para trás. Havia perdido a fome, pegou suas coisas e pagou a cantina deixando o lugar em seguida.
caminhava mais astuta às decorações natalinas por onde passava. Ela havia auxiliado as meninas a enfeitar toda a loja, e não era distraída a ponto de não perceber a época, entretanto não havia se tocado que já era a semana de Natal. Aquela data, mais do que o habitual, indicava a ela um momento delicado. estava animado com os preparativos para o Seongtanjeol, saía para comprar as decorações e naquele momento ela não o vira mais. As lágrimas surgiram automáticas em seu rosto e nem as crianças alegres brincando com a neve eram capazes de confortar o aperto que eu coração sentia.
Ao chegar em casa, flagrou Joong-Ki e Hyun enfeitando a sua casa. Eles encararam-na apreensivos por não saberem se aquela informação seria bem recebida. apenas indicou que continuassem, para ela era indiferente que houvesse enfeites natalinos em sua casa. Nada amenizaria a dor sentida. E não eram as luzes, ou a época que a fariam aumentar. A falta de produzia um desconforto extremo.
–– Como foi lá, unni? Fiquei arrependida de não tê-la acompanhado.
–– Eu também.
Joong-Ki e Hyun aproximaram-se cautelosos.
–– O Dr. disse que verá o que é possível fazer.
Ela sorriu fraco para os amigos.
–– Isto é bom, . Mostra que ele ao menos considera ajudar…
–– Sim, Ki. Pediu para eu voltar no próximo plantão dele.
–– E eu irei com você, quando é?
–– Na noite de Natal.
Joong-Ki analisou a resposta e confirmou que iria com ela. Envolveu num abraço apertado e beijou o topo de sua cabeça. Hyun sorria para ambos.

–– x ––


Hyun escondia sua ansiedade enquanto terminava de preparar as coisas para a Ceia de Natal. Joong-Ki havia acompanhado até o hospital. E por mais que ela quisesse ter os acompanhado, alguém necessitava ficar. Ela tomou seu banho, vestiu-se simples com um conjunto de moletom natalino. Terminou de organizar a sala com uma “sessão de cinema” própria para a época. E aguardava notícias dos amigos voltando, para servir a mesa com as comidas da Ceia.
Joong-Ki segurava pelos ombros enquanto adentravam à recepção do hospital. Eles pediram para falar com o Dr. , mas a enfermeira informou que seria impossível. Insistiram um pouco mais, e mesmo assim, ela não permitiu. estava em uma cirurgia de emergência, e após a enfermeira indicar a família aflita pela cirurgia de vida ou morte, do paciente em plena noite de Natal, Joong-Ki desculpou-se, agradeceu e olhando confiante para guiaram-se de volta ao carro.
–– Vamos aproveitar a noite e por hora esquecer a frustração. É uma noite agitada e como vimos, há famílias em aflição maior do que a nossa, .
–– Eu diria tão aflitos quanto.
–– Entendo, são os seus sentimentos, mas amanhã retornamos, que tal?
–– Tem razão. Vou avisar Hyun que estamos voltando.
–– Pelo menos não há tanto trânsito, chegaremos rápido. – Joong-Ki constatou ao encarar as ruas e estranhando aquilo.
–– É o milagre de Natal. – zombou sem muito humor.
Ele olhou-a e sentiu-se péssimo por não poder fazer nada.
Chegaram em casa e Hyun terminava de servir a mesa. Ela os olhou, apreensiva, e apenas negou com a cabeça. Hyun abaixou seu olhar, sem saber como reagir com sua amiga. deixava suas chaves sob a mesinha de centro visivelmente desanimada. Joong-Ki observou a cena melancólica, e em busca de distração encarou Hyun dos pés a cabeça:
–– Hyun, sei que nos conhecemos pouco, mas…
As duas mulheres encararam o homem, e ele mordia o lábio com o cenho analítico. Como alguém que pensa no que dizer.
–– O que foi? – Hyun perguntou inexpressiva.
–– Sei que somos apenas nós três, mas pijama de moletom natalino?
não conseguiu ficar séria, ela levou a mão à boca segurando um sorriso debochado. De fato ela havia pensado o mesmo. Hyun ia responder-lhe mal até perceber que Joong-Ki conseguira distrair .
–– Oras! Nós iremos maratonar os melhores filmes natalinos aqui!
–– Me recuso a comer contigo vestida assim. Nada contra, é apenas… Ridículo.
–– Ah é? Pois saiba que há um pijama para cada um lá em cima! Comprei especialmente para hoje.
Os amigos encararam Hyun de olhos arregalados e incrédulos. Joong-Ki sorriu debochado e contrariado, e antes que reclamasse, Hyun empurrou os dois a subirem ao segundo andar para se trocarem.
Ela empurrou Joong-Ki ao banheiro com o pijama nos braços dele, e fez o mesmo com para seu quarto.
Os dois saíram ao mesmo tempo, e Hyun que os aguardava no corredor ao vê-los encarando um ao outro com imensa vontade de rir, iniciou a gargalhada, primeiro:
–– Tem razão, Joong-Ki. É ridículo. – disse Hyun.
–– Eu vou tirar isso… – ele disse dando meia-volta, mas o segurou pela mão o impedindo:
–– Anyo! Vamos nos divertir um pouco. E Hyun planejou isso para nós três, não vai fazer esta desfeita, Ki.
Ele concordou, apenas porque a amiga estava distraída de novo.
Os três ceiaram e maratonaram os filmes que Hyun escolhera, e adormeceram sobre o sofá cama, cheio de almofadas.

Capítulo 3

Não posso ficar quieto, quero ter você de volta. Eu não te segurei porque eu pensei que voltaríamos. Eu pensei que te veria novamente se continuasse com saudades de você...


Na manhã seguinte, foi a primeira a acordar. Saiu de casa sem nem tomar café da manhã, deixando apenas um bilhete na geladeira informando seu paradeiro. Entrou no hospital e encontrou o médico que procurava chegando exausto na recepção para entrega de um prontuário. Ficou calada o observando. Seria muito abuso aparecer após a Noite de Natal? Estava claro que a noite fora agitada para ele. fechou os olhos em dúvida, e encostou-se à parede do corredor coçando a cabeça. Roía uma unha pensando no que faria, e quando olhou para direção onde o médico estava, viu que ele já se encaminhava até ela. Ajeitou a postura e franziu o cenho, envergonhada.
–– Bom dia, senhorita .
–– Bom dia. Desculpe-me, Dr. . Eu não deveria ter vindo… Digo… Foi insensível da minha…
–– Eu soube que veio ontem. – ele cortou a fala dela, fazendo a mulher encará-lo calada.
–– Como havíamos marcado…
–– Peço desculpas, eu tive uma cirurgia emergencial.
–– Tudo bem... Imagine. Conseguiu salvar o paciente? – ela perguntou solidária.
O médico negou silencioso.
–– Acabo de assinar o prontuário de óbito. Após uma noite longa de esforço, uma madrugada com os familiares todos em volta da cama do paciente…
bufou pesaroso com as mãos na cintura.
–– Lamento… – sentiu-se ainda pior por ter ido ali naquele momento.
–– Tomou café? – o médico perguntou de repente, e negou ainda mais envergonhada. Ele sorriu discreto, imaginando o quanto ela não havia ficado ansiosa. –– Me acompanha?
Ela aceitou e o seguiu à cantina. Como da primeira vez, sentaram, fizeram os pedidos e logo iniciaram o diálogo.
–– Como foi seu Natal, senhorita ?
–– Pode me chamar de , Dr. .
–– Pode dispensar o Dr. Me chame de ou se preferir.
–– Ne*. Meu Natal foi… Tranquilo, com poucos amigos.

*Ne: “Sim” formal.

O médico acenou afirmativo e silencioso analisando a expressão no rosto da mulher. “Com poucos amigos”, ele refletia como uma mulher linda e livre como ela passaria a noite de Natal com poucos amigos, e ele, que tinha tantos amigos não pode ao menos telefonar à sua família, devido ao seu plantão médico.
–– Bem… . – ele sorriu simpático ao pronunciar –– Eu sugiro que telefone à sua sogra. Eu não posso lhe passar nenhuma informação. Entretanto… Sinto-me no dever, após uma noite conturbada perdendo um paciente, de confortar seu coração.
manteve sua expressão aflita.
–– Quando foi transferido daqui, ele estava com vida.
–– Estava?
–– É, como eu disse… A senhorita só terá mais informações a partir de sua sogra. Quando um paciente é transferido para outra unidade, como no caso de , o prontuário desce com ele. Eu não sou mais o médico responsável a partir do momento que ele sai daqui, então eu não tenho mais informações.
–– Dr. ! – ele sorriu compreensivo para ela –– … Não pode ao menos dizer para qual hospital ele foi levado?
–– Lamento . Somente a sua sogra pode lhe dizer.
–– Ela nunca fará isso… Estou há semanas telefonando-lhe e ela nem mesmo atende.
pensou um pouco sobre aquilo. Observou o rosto cansado de e algo naquele olhar o fazia ter uma imensa vontade de burlar as regras. respirou fundo, olhou à sua volta e debruçou-se na mesa delicadamente, a fim de aproximar-se para que só o ouvisse.
–– Não há algum amigo dele, que possa telefonar para ela? Ou para o número do próprio . Ele trabalhava certo? Provavelmente alguém teria de cuidar das licenças médicas dele.
–– Joong-Ki! Eles eram colegas de empresa! Talvez, a senhora atenda-o.
–– Tente isso. Pode dar certo.
–– Obrigada, ! – pegou as mãos do médico segurando-as apertadamente –– Só em saber que ele saiu daqui com vida, eu já sou imensamente grata a ti!
ficou surpreso e atônito observando a mulher pegar suas coisas apressada e despedir-se após curvar em agradecimento. Ele pegou a caneta no bolso de seu jaleco, um guardanapo e a chamou antes que ela se afastasse mais. parou vendo-o aproximar-se e pegou o papel que ele lhe estendia.
–– Este é meu telefone, caso eu possa ajudar de alguma outra maneira.
Ele sabia que se dispor a ajudar era como apontar uma arma para sua cabeça e outra para seu crachá dentro daquela instituição. Mas havia uma ética pessoal que o impedia de ser racional.
esboçou um amplo sorriso grato, e praguejou mentalmente pelo que havia acabado de fazer. Suspirou pesadamente, observando ela pagar seu café da manhã na cantina e sair apressada em seguida. Sentou-se em sua mesa, terminou seu café e retornou para seu último dia de plantão.
Quando atravessou correndo os portões do hospital, Hyun e Joong-Ki a avistaram e correram atrás a chamando. Ela comentou tudo o que o médico disse e como num lampejo a face de Hyun também se animou a encarar Joong-Ki.
–– Desculpe, . Eu já fiz isso e o telefone dele se encontra fora de área. Provavelmente, os pais dele deixaram outro contato na empresa.
–– Não importa, Ki! – bradava sorrindo e reclamando gesticulando muito:— Como não pensei nisso antes? Joong-Ki, você telefone à sogra do seu telefone, e se apresente como um amigo da empresa.
–– É, Joong-Ki! Pode dar certo! – Hyun felicitou-se.
Ele encarou as duas e tentou fazer o que elas diziam. Mas a chamada não completava.
Embora não tivessem conseguido, manteve-se num ânimo diferente. Ela sabia que uma hora, a senhora atenderia a chamada de Joong-Ki.
Durante todo o dia, Joong-Ki tentou telefonar, sem obter nenhum sucesso. havia acabado de falar com ele ao telefone, ela estava deitada em seu sofá. Hyun havia saído. E Joong-Ki entrando em sua banheira, em sua casa pediu que se acalmasse e esperasse. Ela bufou após desligar a chamada com o amigo e encarou o visor do próprio celular.
“E se ela tiver mudado o número?”, “Mas por que chegaria a tanto?”...

Esses pensamentos permeavam a mente de . Ela levantou-se de súbito e discou o número da sogra. A chamada em espera, já era o habitual para ela, mas quando ouviu a voz da sogra ao outro lado, sorriu exasperada.
–– Ajumma?
–– Eu disse para você esquecer o meu filho!
–– Desculpe senhora, mas eu não posso. Eu o amo! Ele é a minha vida! Ajumma… Quão cruel é não ter notícias dele. A senhora sempre aprovou nosso relacionamento, me conhece desde criança… A senhora não sabe o que eu passei para ter que…
–– Chega! – a mulher bradou do outro lado da linha fazendo emudecer –– Agora é tarde demais!
–– O quê? O que… O que a senhora quer dizer com isso?
–– Acabou, . Não existe mais para você.
A sogra respondeu e desligou a chamada sem dar o direito de resposta. segurava o aparelho em suas mãos trêmulas, os olhos sobressaltados e grossas lágrimas que caiam.
Abriu a boca numa expressão muda de dor, e deixou-se cair de joelhos. Apertava o próprio corpo contra si, num choro desesperado. Sua dor mesclava entre o torpor e o desespero. Num desses momentos de falta de norte, ela discou o número de Joong-Ki e a chamada foi para a caixa postal. Com o celular em mãos, e o coração sangrando pôs-se a caminhar a ermo. Andou a pé, até chegar ao hospital da cidade.
estalava o pescoço na porta do hospital aliviado por poder ir embora. Olhou à frente sorridente, até perceber a imagem de uma mulher desnorteada, chorando desesperada e vindo de encontro ao hospital. Ainda afastada alguns metros, a mulher caiu ao chão numa entrega depressiva ao sentimento que mais lhe parecia, o puro desespero da perda. Já havia visto inúmeras famílias que perderam seus familiares daquele mesmo modo. Caminhou analítico até aproximar-se, enfim reconhecendo-a. Era ! Ele apressou-se e tocou o ombro dela, encarando-a de modo preocupado. O olhar sem brilho denunciava para ele, que a dor que ela sentia era irreparável. Abraçou-a de modo respeitoso e compassivo.
agarrou o colarinho da camisa amarrotada dele, e puxava-o para si como se fosse encontrar qualquer tipo de conforto para o que sentia.
–– … – ele sussurrou –– O que houve?
A falta de vocábulo, e o choro em urros soluçado pela mulher respondia ao que ele não queria acreditar.
–– Vamos… Eu te levo até a sua casa. – ele respondeu sem aguardar confirmação.
Apenas pegou-a pelos braços a fim de erguê-la sobre o pés. Pegou o celular caído ao lado da mulher e colocou em seu próprio bolso. Guiou até seu carro e a colocou sentada no banco do carona, com as pernas ainda para fora. Ela recostou a cabeça no banco, encarava o chão com olhar vazio. pegou uma garrafa de água que tinha ao lado de seu banco de motorista. Não estava fresca, mas era o que ele tinha de mais imediato. Retirou um calmante de sua bolsa e entregou a mulher. bebeu sem nem mesmo ligar-se ao que fazia.
agachou-se à frente dela, com uma de suas mãos segurou a mão de massageando-a, a fim de consolá-la. Tirou os cabelos bagunçados da mulher que lhe cobriam o rosto, e encarou a expressão desnorteada dela.
–– Consegue me dizer onde mora?
olhou para ele, pela primeira vez. E acenou positivo. Respondeu o nome de sua rua, num sussurro quase inaudível. digitou-o em seu celular em busca de um caminho pelo GPS. Identificou a rota, ele sabia onde era. Desligou o aparelho telefônico e o colocou sobre o painel do carro. Ajudou a posicionar-se, passando as pernas dela para dentro do carro e afivelando o cinto de segurança. Deu a volta pela frente do carro, sem desgrudar o olhar dela. Retirou a bolsa de seu corpo e após colocá-la no banco de trás, ele sentou-se no banco do motorista rumando até o endereço da mulher.
Durante o trajeto, encarava o vidro da porta. Não chorava mais, não esboçava reação alguma, o que demonstrava o efeito do calmante. alternava olhares entre ela e o caminho. Assim que chegou à rua, pediu que ela lhe dissesse onde era a casa. não respondeu nada, manteve-se inerte até avistar sua casa e apontar fracamente. observou as luzes acesas e imaginou que haveria alguém. Ele desceu do carro, pegou seus pertences e ajudou a sair do carro. A mulher não conseguia andar, sentia-se mole. Ele pegou-a no colo e com certa dificuldade ativou a trava e alarme do veículo. Caminhou até a casa, e embora as luzes estivessem acesas havia muito silêncio. Ao aproximar da porta, notou-a entreaberta. Preocupou-se e com cuidado avançou pela sala. adormecera em seu colo. Ele a deitou no sofá com zelo, e resolveu analisar o local. Estava vazia a casa. Não sabia dizer se fora arrombada, mas tudo parecia em ordem. Menos a dona da casa.
Mordeu os lábios, pensativo olhando à sua volta. E bufou confuso. Encarou a face adormecida de e abaixou-se até ela, mais uma vez ajeitou os cabelos que caíam em seu rosto e contemplou-a com curiosidade. O que realmente teria acontecido?
Recordou-se do celular dela, que ele havia pegado e colocado em seu bolso. Retirou-o e pela falta de senha, foi possível mexer nas ligações recentes dela. Avistou um nome: “Joong-Ki”. Apertou os olhos observando o nome. Não lhe era estranho.
Num flashback se lembrou de pronunciando aquele nome. Discou o número, mas antes que fosse atendido, outra mulher entrou pela porta da sala. Ela encarou confuso.
–– Por favor, acalme-se. – ele disse defensivo antes que Hyun assustasse-se mais–– Eu sou o Dr. , encontrei
–– ? – Hyun o interrompeu assustada –– Onde ela está? O que houve?
–– Não sei. Encontrei-a chorando desesperadamente na porta do hospital, no momento em que eu saía do meu turno.
Hyun aproximou-se preocupada de onde ele estava e assustou-se a ver deitada desacordada no sofá.
–– Não se preocupe. Eu tive que dar a ela um calmante.
–– Mas o que aconteceu afinal?
–– Não sei. Ela me pareceu muito abalada. Segurava o telefone e chorava muito.
Hyun pensou um pouco sobre aquilo e pegou o telefone que lhe estendia. Procurou nas chamadas recentes, e viu que há uma hora ela havia feito uma ligação para a senhora .
–– Ela atendeu! – Hyun constatou num sussurro surpreso e mais preocupado.
–– O quê disse?
–– A senhora atendeu a chamada.
–– A sogra dela? – perguntou curioso.
Hyun sentou-se no chão, ao lado de e pensava sobre aquilo. também se encontrava pensativo e sentou-se numa poltrona próxima. Colocou as mãos às têmporas sentindo-se extremamente culpado. Havia instigado a ligar, e pelo visto não recebera boas notícias.
–– Você é parente dela? – ele perguntou após um breve momento de silêncio.
–– Amiga. Obrigada… Por trazê-la.
Ele negou com um sorriso discreto denunciando que não havia motivos a ser agradecido.
–– Como sabia onde ela morava?
–– Ah, ela me falou após acalmar um pouco. E a porta estava aberta quando cheguei, e as luzes acesas… Revistei a casa, me parece tudo normal, mas veja depois se não há nada faltando.
–– Certo. Obrigada.
levantou-se delicadamente e deu um último olhar na direção de .
–– Eu tenho que ir. Vocês ficarão bem?
–– Sim, sim. Obrigada novamente.
–– Ela vai acordar apenas amanhã. Quer que eu a deixe no quarto?
–– Ne! Por favor, se não for incomodar.
sorriu, pegando-a novamente no colo e seguindo Hyun pelas escadas. Ao entrar no quarto de , após deitá-la em sua cama, Hyun a cobriu e percorreu os olhos rapidamente pelo local avistando ainda algumas fotos de .
Ele saiu do quarto e logo Hyun seguiu-o. Ela o agradeceu mais uma vez, ele entregou novamente o telefone dele em um cartão caso Hyun precisasse ligar e despediu-se cortês. Hyun sentou-se no sofá, extremamente confusa e preocupada quando o celular de sobre a mesa de centro tocou. Era Joong-Ki. Ela atendeu e contou-lhe o ocorrido. Ele queria seguir para lá, mas Hyun disse que não era necessário.

–– x ––


Quando amanheceu, acordou sob os olhares curiosos de Joong-Ki e Hyun. Eles conversavam baixo e calaram-se ao percebê-la despertar.
–– Bom dia, maeum*. – disse Joong-Ki.

*Maeum: coração.

Ela olhou para o teto do quarto, fechou os olhos com pesar.
–– Você se lembra de ontem à noite, unni?
Acenou afirmativa sentindo a lágrima descer pela lateral de seu rosto.
–– Ele morreu.
–– Como? – Hyun perguntou assustada.
–– Foi o que a ajumma disse.
–– Ela, ela falou com estas palavras, ? – Joong-Ki perguntou desconfiado.
–– Não. Mas foi o que ela quis dizer.
–– Unni. Então ela pode ter dito no sentido figurado.
–– Não. Não foi.
Os dois amigos se olharam silenciosos e Joong-Ki percebeu que permitir a atmosfera do luto se instaurar era a coisa mais errada no momento.
–– … Não saia mais daquele jeito, ok?
–– Desculpem.
–– Sorte que o Dr. encontrou você.
–– Onde ele está?
–– Foi embora ontem, mesmo. – disse Hyun –– Ele foi muito atencioso conosco.
–– Preciso me desculpar com ele. Estive sonolenta por um tempo, mas me lembro de tudo.
–– Você vai desculpar-se sim, mas agora Hyun vai ajudá-la a tomar banho, e se preparar para o café da manhã.
não esboçou reação contrária. Não esboçava reação alguma. Joong-Ki desceu as escadas, pensativo bufando alto. A campainha tocou e ele foi atender.
–– Dr. ?
–– Ah, bom dia. Aqui é a casa da senhorita ? – perguntou confuso.
–– Ne. Ne. Eu sou Joong-Ki, lembra-se de mim? Do hospital...
–– Ah, claro. Agora eu me lembro… Bem, eu apenas passei para saber como ela está se sentindo.
–– Por favor, entre.
Joong-Ki deu espaço para que ele passasse.
–– Ela acabou de acordar. Está se arrumando com a ajuda de Hyun.
–– Ah… E vocês já descobriram o que houve?
–– Ao que parece ela conseguiu falar com a mãe de , que lhe deu a entender que o filho morreu.
vincou a testa pensativo, sem tirar os olhos da face de Joong-Ki.
–– Dr.
–– apenas, por favor.
–– Claro, … Era possível que falecesse?
–– Eu não sei que procedimentos foram tomados com após sua transferência, mas o quadro dele era crítico sim.
Joong-Ki suspirou pesadamente e encarou o topo da escada, como se pensasse no que diria a seguir para .
–– Já tomou café?
–– Sim, obrigada. Eu estava indo para a academia. Só queria mesmo, ter certeza que não precisavam de nada.
–– Ela não deve demorar.
Aguardaram mais um tempo, entre uma conversa despretensiosa e outra, até que Hyun e desceram. Ao encontrar o médico na cozinha, curvou-se num pedido contido de desculpas e o agradeceu em seguida. Eles conversaram minimamente, e Hyun auxiliava Joong-Ki com a mesa de café da manhã. Enquanto sentou-se à mesa sendo servida pelos amigos, ela narrou o telefonema. Joong-Ki tentava aliviá-la sobre o que dissera sua sogra.
–– Se não disse que ele faleceu, com as palavras exatas, então não se desespere . Às vezes você interpretou mal.
Hyun ouviu a frase de Joong-Ki e levantou-se bruscamente da mesa retirando-se chorosa do ambiente. Os dois homens encaravam a cena confusos.
–– Eles eram muito amigos, desde a infância. Hyun conhece a ajumma tão bem quanto eu para saber que ela não disse nada, entrelinhas.
Os dois assentiram confusos, percebendo deixar mais lágrimas inexpressivas caírem. Havia algo estranho naquela história para a percepção dos dois. Mas não podiam dizer exatamente o quê.
–– Eu tenho que ir. Tenho pouco tempo fora do hospital, e só passei mesmo para saber se tudo estava bem.
–– Certo, Dr. . Obrigada por ontem.
–– Não se preocupe, . Eu farei o possível para ter certeza do que ocorreu com . Mesmo não sendo o cardiologista responsável por ele, eu vou procurar saber o que aconteceu a ele depois que saiu do hospital.
–– E o protocolo?
–– Deixemos tudo como um segredo nosso.
Ele sorriu ameno e agradeceu balançando a cabeça afirmativamente. Ele despediu-se educadamente de Joong-Ki que o acompanhou à porta.
A semana do Seongtanjeol passou, e a cidade continuava enfeitada, mas agora com as luzes de novo ano. arrumava a vitrine da loja, com as manequins vestidas de novo look. Quando a senhora Tomoyo surgiu dos fundos da loja a chamando discretamente para receber seu salário e abono de final de ano. Ela agradeceu gentil e antes de sair, a mulher lhe perguntou:
–– . Tens bom gosto, ótima aparência, uma beleza hipnotizante… Mas seus olhos não mentem. Por que tão tristes?
–– Desculpe, senhora, me esforçarei para que nenhuma cliente perceba.
–– Não é pelas clientes que falo. Elas estão sempre preocupadas com as futilidades que mal enxergam a ponta de seus próprios narizes.
–– Entendo… – sorriu discreta –– Eu não tenho notícias do meu noivo há algum tempo e estou apenas preocupada, senhora.
–– Ah… – Tomoyo sorriu-lhe como se estivesse vendo uma criança preocupada com bobagens à sua frente –– Não se preocupe, honi. Ele certamente está bem!
acenou positivamente e sorriu falso. Engoliu o bolo de choro em sua garganta, enquanto a senhora Tomoyo tocou seu queixo fazendo-a erguer a face e saiu elegante e tranquila do recinto.
terminou suas tarefas, trocou seu uniforme e despediu-se da senhora. Enquanto saía da loja, uma cliente entrou e observando o, sobretudo azul que vestia perguntou à senhora Tomoyo que se adiantava à cliente.
–– Quero aquela peça. – a cliente apontou que atravessava a rua enquanto a observava pelo vidro, e concluiu: –– Quero a elegância daquela mulher.
A senhora Tomoyo encarou a imagem de afastando-se e andando tranquilamente, sorriu de lado e voltando sua atenção à cliente lhe respondeu:
–– Lamento, não são peças da nossa loja. Mas, certamente, eu tenho aquela elegância disponível por aqui. Acompanhe-me, por favor.
A senhora Tomoyo levou a cliente até uma de suas araras, e lhe entregou um, sobretudo vermelho, bem diferente do que usava, mas tão lindo quanto. Enquanto outra atendente se aproximou da cliente, a senhora Tomoyo saiu discretamente de perto das mulheres retornando pensativa às suas atividades.
Passou por sua cabeça que deveria andar com as roupas da loja, uma maneira perfeita de fazer marketing.
Hyun telefonou para um pouco depois que a mulher havia saído da loja e pediu que a encontrasse no kombini, o mesmo que ela e Joong-Ki sempre iam. Ao chegar ao local, a sineta da porta só tornou a cena de Hyun cabisbaixa à mesa ainda mais melancólica. encarou a amiga com dúvida e aproximou-se devagar. Sentou-se à mesa, a outra mulher não a olhou, e por fim pegou a mão da amiga.
–– Hyun-Ah… O que houve?
–– Jacques. Ele está com outra pessoa.
–– Mwo*?

*Mwo: “O quê?”.

–– Ele postou fotos em seu instagram, com uma moça. E ficou claro pela legenda, que ela não é apenas uma amiga.
–– Assim tão rápido? – refletia de boca aberta sobre o que acabara de ouvir –– Tueso*, Hyun. Você não deveria pensar nisso. A menos que queira voltar com ele.

*Tueso: “Esqueça!”.

–– Jacques e eu não temos volta. E não é o que eu quero, também. Mas eu só imaginei que seria doloroso para ele também.
–– Hyun-Ah. Não podemos falar como o outro se sente. Cada um lida como pode com suas dores, e às vezes o inesperado pode acontecer.
–– É. Eu sei, unni.
–– Hyun… Por que vocês acabaram?
A amiga havia explicado superficialmente, mas para era tão estranho que Jacques desconfiasse de uma paixão platônica de adolescência. Certamente, Hyun nem teria mais contato com este rapaz. E além do mais, é um motivo muito raso para se jogar ao alto um noivado.
–– Eu não quero falar mais nisso, unni. Prefiro esquecer.
–– Certo. Está certa. O tal “tempo” se encarrega de tudo.
O tom de melancolia na voz de emitiu um alerta à Hyun. Ambas pareciam aquelas atrizes sofridas de dorama. A mais nova riu e apertou a mão da amiga, que segurava a sua.

–– Chega de tristeza! Vamos tomar sorvete!
olhou surpresa para Hyun e riu com ela.
As duas falavam sobre seu dia enquanto devoravam um enorme sundae e o celular de denunciou a ligação de Joong-Ki. Ele queria saber como ela estava. Não se viam há alguns dias. Hyun mudou sua feição após a ligação de Joong-Ki, e observava atenta à amiga ao telefone.
–– Popo*, Ki.

*Popo: beijinho, beijo.

Retornou seu olhar e atenção ao sundae e a Hyun.
–– O que o Joong-Ki queria?
–– Saber como eu estou. – revirou os olhos com um sorriso leve.
–– Ele é muito atencioso.
–– Ye*. Ki, é um anjo para mim.

*Ye: “Sim” informal.

–– Ele é assim com todo mundo?
–– Não sei. Não conheço os amigos dele. Na verdade, sempre fomos amigos casuais. Até pouco tempo, Ki nunca havia entrado em minha casa.
–– Por quê?
–– Era como nossa amizade se fazia… Eu não sei, Hyun-Ah. Mas por que a pergunta?
–– Nada. Fiquei curiosa.
–– Sobre Joong-Ki? – sorriu travessa avaliando a amiga que não lhe encarava.
–– Sobre a forma como ele trata você.
–– O que quer dizer?
–– Nada. Só queria saber se ele é atencioso e cuidadoso com todo mundo, como é com você.
–– Acredito que não. Até porque Ki só é assim comigo, porque sempre está por perto nos piores momentos da minha vida. Quando as coisas estavam tipicamente normais… Antes de vir para Seoul… – parou de falar recordando-se da época, e após sacudir a cabeça continuou: –– Joong-Ki não precisava cuidar de mim. Éramos até implicantes um com o outro.
sorriu recordando-se.
–– Entendo…
–– Acaso está interessada em Ki, Hyun-Ah?
perguntou despreocupada fazendo a amiga engasgar. Hyun a olhou assustada e sacudiu rapidamente a cabeça de forma negativa, riu da reação de sua amiga.

–– x ––


Último dia do ano. As pessoas caminhavam animadas pelas ruas cheias. Crianças corriam pelo parque. O lago congelado do parque estava repleto de patinadores cautelosos. caminhava lentamente observando a tudo com um sorriso fraco. O fraco sol entre nuvens, não era o suficiente para iluminar as copas das árvores naquela manhã de dezembro.
pagou seu chá quente ao senhor de carrinho estacionado na praça. Agradeceu e apertou-se mais sob o casaco pesado, virou a bebida e por descuido queimou a língua. Fazia uma careta e sussurrava pela dor, quando seus olhos se depararam com a figura da mulher bem vestida e distraída com as crianças que patinavam com os pais no lago. Ele ficou observando distante, o rosto de . Buscava vestígios de algum sorriso ou lágrima. Ela era uma mulher intrigante para ele. Não sabia explicar o que acontecia que o fazia sentir a necessidade de ajudar , de ampará-la. Talvez a maneira como a atendeu desesperada após o noivo ser internado, e depois fora afastada tão cruelmente. não sabia, mas era como se estivesse na expectativa do momento em que veria o rosto belo, mas triste, de iluminar-se numa total feição de felicidade. Certamente seria uma cena formidável.
A mulher pressentindo olhares sobre si virou o rosto para o lado, e deparou-se com numa expressão contemplativa. Ela sustentou o olhar dele, e não sorriu. Caminhou até ele, ainda sustentando o olhar do homem. Quando percebeu que ela vinha ao seu encontro, pigarreou e caminhou ao encontro dela também. Pararam frente a frente, e só então sorriram.
–– Dr. . Um prazer revê-lo. – ela falou em tom educado.
–– … Igualmente. Como vai?
–– Bem. Eu acho.
–– O lago está animado, huh? – ele falou desconcertado pela falta de assunto, encarando o lugar onde antes os olhares de percorriam distraídos.
–– Elas esperam o ano todo por isso, não é? – ela respondeu num brando sorriso a referir-se às crianças que voltou a observar.
analisava discretamente a expressão de , e parou de observá-la furtivamente quando a mulher retornou o olhar para ele.
–– Está de folga?
–– Ah! Férias! Pelo menos por alguns dias.
–– Merecido. – ela sorriu aberto.
E mesmo com aquele sorriso nos lábios, percebia que o olhar dela ainda era triste.
–– Aceita um chá? – perguntou a ela erguendo a bebida em sua mão.
–– Obrigada, Dr…
–– Por favor, – ele interrompeu –– me chame de .
Ela assentiu recordando-se de já ter sido avisada sobre aquilo.
–– Obrigada, , eu estou bem.
–– É bom se aquecer. – ele falou não ligando para a resposta dela.
Retornou ao carrinho de bebidas quentes, do senhor que havia acabado de lhe vender e comprou uma bebida para ela. Retornou com o olhar contrariado de sobre si. Ela pegou o copo da mão dele e os dois puseram-se a caminhar para a direção onde seguia.
–– O que fará hoje? – ele perguntou despreocupado a ela.
–– Não sei. Joong-Ki viajou e me pediu para ir com ele, mas era um momento familiar. E Hyun também foi para Anyang, para a casa dos pais. Eu não fui porque não teria “cara” de olhar para os meus pais e explicar o que houve com . Inventei uma desculpa qualquer... E você?
–– Minha família mora longe, então eu não estarei com eles. E a maioria dos meus amigos estará de plantão ou viajaram.
–– Deveria fazer algo! Não é sempre que você pode aproveitar um feriado sem plantão, eu suponho. – falou tentando o animar.
–– Talvez eu saia no portão para assistir a queima de fogos.
–– É, eu também.
Eles sorriram e continuaram o caminho em silêncio. Quando se aproximavam do carro de , apontou o veículo o perguntando se era o carro dele. Ele afirmou e quando despedia-se ele perguntou se ela gostaria de uma carona. Ela negou sob a desculpa de não atrapalhá-lo. Ele riu fraco e disse que não seria incômodo. aceitou e seguiram o percurso entre uma conversa casual e outra.
–– Está entregue. – ele falou após parar em frente à casa dela.
–– Obrigada, .
–– Até mais tarde.
–– Como? – ela perguntou confusa.
–– Você disse que também iria assistir os fogos pela sua rua.
Ela o olhou em dúvida e sorrindo ele apontou a ela uma casa grande, localizada poucos metros após a sua, do outro lado da rua.
–– Você mora ali?
–– Sim. Eu também fiquei surpreso pela coincidência no dia que te trouxe.
–– Daebak*!
–– Mas não me espanta o fato de não termos nos visto antes. O hospital é onde passo a maior parte do meu tempo.
assentiu compreensiva e sorriu novamente se despedindo. Desceu do carro e acenou para ele, através da janela. Deu as costas caminhando para sua casa, e estacionou o carro em sua garagem, logo entrando também.

*Daebak: “Que bacana!”.


Capítulo 4

Eu estou parado no início e no final. Como uma luz de emergência, eu sou o único com a luz acesa na escuridão. Não importa o quanto eu pense a resposta continua sendo você, mas escrevo a resposta errada no meu coração. Tento te empurrar para fora, mas você permanece no mesmo lugar. E agora você está dentro dos meus sonhos…


As vozes das pessoas pela rua, a fazerem a contagem e o burburinho longínquo do show de bandas no centro da cidade, também a fazerem a contagem regressiva anunciavam sob o silêncio da casa de que faltavam alguns segundos para o novo ano. Ela olhou à sua volta a casa fria, escura e silenciosa. Secou as lágrimas que escorriam. Apertou-se em seu casaco de lã e pôs-se à varanda de sua casa. Aproximou-se lentamente da beira da rua, onde as famílias vizinhas aguardavam e contavam ansiosas. estava por ali, e levantou uma mão simpática acenando para ela. Ele se aproximou dela e ela foi de encontro a ele. Os dois pararam no meio da rua e olharam para o céu. As pessoas contavam:

Cinco…

–– . – ele chamou-a fazendo a mulher encará-lo.

Quatro…


–– Há registros de um paciente que foi transferido para um hospital de especialização em cardiopatia, que receberia um implante. Na mesma época que .

Três…


–– Então ele foi ser transplantado?

Dois…


–– Quando um paciente morre durante o transplante, o hospital que o transferiu é avisado, para saber se há outro paciente de urgência para receber o órgão rejeitado. Não há retorno negativo sobre este paciente, .

Um!
Feliz Ano Novo!


–– Ele pode estar vivo?
encarava com uma expressão indecifrável. Ele acenou positivamente com a cabeça, e as mãos no bolso. As pessoas pela rua se abraçavam e felicitavam-se enquanto os fogos de artifício eram estourados. pulou sobre abraçando de surpresa. O choro contido tornou-se um riso. De um riso, uma gargalhada e ela o abraçava mais forte. Ele assustou-se com a mulher, mas lentamente retirou as mãos do bolso do casaco e abraçou-a de volta. Confortou-se naquele abraço e sorriu ao notar que os soluços de eram de alívio.
Após aquele momento, ela beijou o rosto do médico e o agradeceu. corou e pigarreou negando com a cabeça, como se não tivesse feito nada demais. encarou a figura tímida do homem e riu. Ela pegou seu celular e atendeu as ligações de sua mãe, falou com os familiares e com os amigos em seguida. tocou o braço da mulher e sibilou um sussurro: “Feliz Ano Novo, . Ela sorriu e o cumprimentou de volta. acenou dando-lhe as costas a caminho de sua casa, novamente. continuou falando ao telefone observando o médico que se afastava.

Janeiro. Quinto dia do novo ano.

Joong-Ki dizia a ela que voltaria logo e tentava o convencer de que estava ótima, e que ele poderia aproveitar suas semanas de descanso tranquilamente. No horário do almoço, ela não se sentia disposta a almoçar em casa, por isso havia ido ao centro da cidade almoçar fora. Tentava desligar a chamada, mas Joong-Ki continuava sondando-a a fim de ter certeza de que ela estava bem.
–– Joong-Ki, eu preciso desligar. Fique calmo, eu estou bem, ok?
–– Eu não me sinto muito confiante com sua resposta.
–– acabou de chegar aqui, então eu tenho que desligar.
–– ? O Dr. ? – Ki perguntou surpreso.
–– Ne! Eu o convidei para almoçar comigo hoje.
Após perceber o silêncio por parte de Joong-Ki, despediu-se novamente e desligou. Ela cumprimentou que se aproximava da porta do restaurante e entraram juntos. Fizeram os pedidos, conversaram sobre seu dia, e quando ela falou a ele que havia decidido ir até o hospital de especialização cardiológica, surpreendeu-a com mais informações.
–– Havia dois pacientes aquele dia no hospital, com a mesma situação. e algum outro. O paciente quando transferido para um transplante, é enviado por número de registro. Não tem como eu saber aqui, se foi mesmo o a receber o transplante. Esta informação fica retida lá no outro hospital.
–– … Eu não sei nem como lhe agradecer. Obrigada pelo que tem feito, por mim.
–– Eu só estou fazendo o que acho correto.
–– E se arriscando por isso.
Os dois olharam-se silenciosos e amedrontados.
–– Bem, ! O que importa é que, agora precisamos descobrir se o paciente foi . Há duas hipóteses: a primeira, que seja ele o receptor do transplante. E a segunda…
hesitou e desviou o olhar. debruçou-se delicadamente sobre a mesa de almoço, a fim de intimidar a resposta de :
–– A segunda? – ela perguntou desconfiada.
–– A segunda hipótese é de que tenha sido o paciente transferido não para outro hospital, mas…
–– Como assim? Do que está falando?
–– Como eu disse, dois pacientes em carácter de urgência necessitavam do transplante. E aquele que ficasse, poderia não aguentar esperar outro órgão. Um foi transferido e o outro foi dado à baixa de transferência para o necrotério do hospital. Eu acompanhei o caso de e do senhor Masasaki. Mas no dia em que as transferências foram assinadas pelo cardiologista chefe, não era eu o médico de plantão.
encarava com uma vaga expressão de quem nada entendia.
–– Então, a transferência que a enfermeira informou na recepção… Pode ter sido tanto uma quanto a outra… – ela constatou recordando-se a fala da enfermeira.
afirmou silencioso.
–– Ottŏke*?

* Ottŏke: “o que eu faço?”.

–– ... – ele pegou a mão da mulher sobre a mesa –– Eu assumi te ajudar, não foi?
Ela fez que sim com a cabeça.
–– Então, não se preocupe. Nós iremos juntos ao Hospital e eu farei o possível para ter acesso aos dados.
Ele sorriu e olhava-o de forma vazia e perdida. Estava pensativa. Encarou suas mãos, e olhando para moveu-se rapidamente:
–– Agora! Vamos, lá!
Ela levantou-se rápida pegando sua bolsa e casaco e deixando confuso de cenho franzido. Ele deixou algumas notas na cartilha de pagamento, e após chamar o garçom entregou-lhe. já havia saído disparada. Ela nem se tocara que era necessário pagar pelo almoço que ambos mal comeram.
foi atrás da mulher em passos rápidos, e ela já estava prestes a atravessar a rua quando a mão dele alcançou o punho dela.
–– O que está fazendo?
–– Indo atrás das respostas. – olhou para ele em súplica.
Suk arregalou os olhos, e expirou todo o ar de seus pulmões de forma paciente. Encarou o olhar impávido da mulher a fitar os seus olhos também.
–– Meu carro está para lá. – ele afirmou num claro ato de desistência.
Faria o que queria, e antes de dar partida ao outro lado da cidade, conferiu se todos seus documentos estavam ali. Inclusive sua maleta médica, com o seu número de registro.
Dirigiu silencioso todo o caminho. Espantava-o como de repente ele não conseguia mais dizer “não” a . E ainda mais espantado ficava com a maneira como a mulher mudava sua figura, postura e todo o seu humor quando o assunto referia-se ao seu noivo desaparecido. encarava a paisagem correr através da janela, aflita, até que se deu conta do que fizera:
–– Aigoo*, ! Perdão! Eu saí feito uma louca, nem terminamos de almoçar! Oh não! Desculpe-me, me desculpe! Eu o fiz pagar sozinho! Estou tão envergonhada!

*Aigo: “Meu Deus!”, “Céus!”.

à medida que percebia recobrando a consciência do que tinha feito, sorria mais largo até que começou a rir.
–– … Pague-me um jantar, e ficaremos quites.
Ela riu junto com ele, tampando o próprio rosto e negando com a cabeça.
Ao chegarem à frente do hospital que já sabia ser o lugar do transplante, ele respirou fundo e pegou sua maleta saindo do carro. pôs-se a segui-lo um pouco atrás dele, como uma criança assustada.
encaminhou-se à recepção e trocou algumas palavras com a atendente. Ela chamou a enfermeira chefe, ele novamente dialogou com a mulher. mantinha-se distante observando a tudo. A mulher o guiou por um corredor, e antes de sair ele olhou para e fez sinal para que ela esperasse.
Ela passou quarenta minutos aguardando o retorno de . Quando o homem ressurgiu, estava acompanhado de outro médico ao qual dialogava com ele, e o cumprimentou com aperto de mãos. passou a mão por seus cabelos e expirou pesadamente. Encarou os olhos aflitos de , e aproximou-se sem falar nada. Fez sinal com a cabeça para que a mulher saísse junto a ele. Ela não entendia nada, e sentia que não traria boas notícias. Percebeu a mão dele em suas costas a guiá-la para fora do hospital e olhava de segundo-a-segundo para ele, como se implorasse por uma resposta. Eles entraram no carro, e ela mal afivelou o cinto. Apenas virou-se de frente para ele, sentada no banco do carona. jogou sua cabeça no encosto do banco e fechou os olhos respirando pausadamente. Passou a língua pelos lábios, e engoliu sua saliva de forma forçada.
––
–– Não minta, por favor, . – falou categórica antes que ele terminasse.
–– O paciente que viera receber o transplante, fora o senhor Masasaki. Eu lamento, muito.
abriu a boca de forma surpresa, sua respiração começou a falhar. ajeitou-se no banco e esticou a mão para tocar o braço dela, mas ela foi mais rápida. Virou-se contra ele, e abrindo a porta do carro pôs-se a correr em direção ao hospital. automaticamente saiu do carro correndo atrás da mulher. Alcançou ela antes que a mulher entrasse no hospital, prendendo-a em seu abraço.
estava pior do que o dia que ele a encontrou cambaleante na rua. Seu choro era ainda mais doloroso. E o coração de apertava-se numa culpa dilacerante. Ele havia instigado ela a ligar para a sogra, quando ela recebeu a pseudonotícia da morte de . Ele a deu esperança de que ele estaria vivo. E novamente ele estava ali, vendo a mulher sofrer com a notícia que ela já havia “aceitado minimamente”. apertava em seu abraço de forma desesperada. A mulher debatia-se a fim de soltar-se dele e ouvir da boca de outra pessoa, que era o seu quem recebera o transplante e não o tal, senhor Masasaki. Num ato descontrolado, segurou a face de com suas mãos e puxou-a para um beijo. Naquele momento, a mulher que se debatia desesperada em lágrimas arregalou os olhos vendo o médico beijando-a e correspondendo-o. Alguns minutos depois, separava os lábios dos dela. Ambos confusos e assustados.
–– Desculpe. Eu só queria fazer você parar.
Ela não falou nada apenas assentiu calada, retomando as lágrimas que caiam.
–– Por favor, . Vamos embora? Chega de se maltratar assim.
Ela continuou calada e chorosa. Deixou-se ser guiada por de volta ao carro e como um flashback da noite em que levara ela para casa, observou a mulher em estado de choque. O frio que fazia do lado de fora do carro não se comparava ao frio que havia se colocado dentro.
Durante todo o caminho, eles não trocaram nenhuma palavra. Vez ou outra espiava se estava acordada. Quando chegaram à frente da casa dela, ela desceu do carro sem nem mesmo o olhar. Ele não sabia se ia atrás dela ou a deixava caminhar sozinha para dentro de casa. Decidiu segui-la. entrou e foi diretamente para a cozinha. observou-a beber água, em modo automático. Ele não entendia se ela estava sã de seus atos.
–– … – ele proferiu quando ela ia subir as escadas.
A mulher parou e o olhou vagamente.
–– Me desculpe pelo que fiz. Eu não queria causar ainda mais mágoa a você.
–– Obrigada, . Obrigada por toda a ajuda.
Ela respondeu apenas e subiu as escadas o deixando sozinho.
Suk sentou-se no sofá e apertou a cabeça entre suas mãos. Hyun chegou naquele momento, abarrotada com suas malas e espantou-se por vê-lo ali. Ele a cumprimentou e ajudou-a com as bagagens e logo se despediu. A garota viu o homem sair pela porta da sala, e ficou ali com a expressão de quem havia pulado uma temporada inteira de uma série que acompanha.

Eu não quero te perder, ficar sem você nunca mais. Nem sequer posso pensar em como viver sem você. Serei capaz de te ver outra vez? Estou enfrentando, o destino que vai passando. Isso é um sonho que não conseguimos acordar?


FIM



Nota da autora: A segunda parte dessa trama dramática! O que vocês acharam dessa “morte” que na verdade é um mistério? E esse beijo do médico com a pp? A fanfic tem uma continuação hein! É só clicar lá em baixo no link de “With You”!
O início desse romance está na música 06 deste ficstape!
E gente, muito obrigada por lerem, estou ansiosa pelos comentários! Preciso saber se a história agrada ao público do ffobs, para que eu possa me dedicar em agradar vocês, mais e mais!
Apreciem! Com afeto, Ray.





Outras Fanfics:
(Links na página de autora)
Até a data desta fanfic constam postadas:

Longfics

○ No Coração da Fazenda
○ Linger
○ Entre Lobos e Homens: Killiam Mark
○ Western Love

Shortfics

○ A garota da Jaqueta
○ All I Wanna Do
○ Cidade Vizinha
○ Coletâneas de Amor
○ Conversas de Varanda
○ Entre Lobos e Homens
○ Deixe-me Ir
○ F.R.I.E.N.D.S
○ Intro: Singularity
○ Mais Que Um Verão
○ Nothing Breaks Like a Heart
○ O cara do meu time
○ O modo mais insano de amar é saber esperar
○ O teu ciúme acabou com o nosso amor
○ Pretend
○ Semiapagados
○ With You

Music Video

○ MV: Drive
○ MV: Me Like Yuh
○ MV: You Know
○ MV: Take Me To Church

Ficstapes

Nick Jonas – Nick Jonas #086 – 07. Take Over
BTS – Young Forever #103 – 04. House Of Cards Camp Rock 2: The Final Jam #125 – 09. Tear It DownDescendants of the Sun #130 – 05. Once Again Descendants of the Sun #130 – 06. Say ItTaemin – Move #148 – 02. LoveParamore – Riot #160 – 09. We Are Broken

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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