FFOBS - 06. I'm Fine, por Queen of Sun

Finalizada em: 22/09/2019

Capítulo Único

O dia brilhava nos últimos tons de dourado antes de dar espaço aos tons róseos alaranjados do fim de tarde - os últimos suspiros do dia antes de chegar a noite.
abriu os olhos com preguiça, alongando os braços assim que encontrou as cores do céu na janela em frente à poltrona em que estava. Tinha um livro apoiado na barriga e os óculos escorriam pela ponte do nariz.
Constatando o que tinha acontecido, ele sorriu: havia cochilado durante a tarde enquanto tentava ler seu livro.
O tempo passava com calma. Os pássaros dançavam pelo céu e iam adormecer em seus ninhos nas árvores. Poucos passos caminhavam pela rua. E ele se encontrava em paz.
Levantando com a energia de um cochilo bem dado, marcou a página na qual adormecera e deixou o livro sobre a poltrona, indo até a cozinha para pegar um copo d’água - e foi nesse momento que o telefone começou a tocar.
- Alô...? - Ele atendeu de maneira até um pouco preguiçosa, segurando o aparelho entre a orelha e o ombro para poder pegar sua água.
- Uaaaaaau, a mamãe tinha razão! Você estava mesmo dormindo!
O sorriso de ao ouvir a voz de Hoshi, sua pequena e animada filha, do outro lado da ligação era o suficiente para iluminar o resto do dia.
- Você sabe, minha linda. Sua mãe me conhece melhor que qualquer um. - A voz de ainda estava meio rouca de sono, mas tinha um contentamento que ele não conseguia esconder.
- Conhece mesmo! Um dia eu quero ser que nem ela! - Hoshi parecia sonhadora e conseguiu ouvir a esposa murmurando alguma coisa do outro lado da linha. - Ela pediu para te ligar pra pedir um favor!
- Qualquer coisa pelas minhas criaturas preciosas. - Ele comentou de maneira contente, sentando-se no braço do sofá para ouvir com calma. Podia conversar com elas por telefone para sempre.
- Ela teve a idéia de fazermos... Tambores, por favor... - A garota fez suspense do outro lado da linha e conseguiu ouvir batucando de maneira ritmada em algum lugar que parecia um tambor. Ele não conseguia deixar de rir com aquelas duas. - NOITE DO FONDUE!
Ambas riam e riu junto. Se falassem para ele que aquela era a vida que o aguardava quando ficasse mais velho, provavelmente não acreditaria. Há muitos anos, antes até de conhecer , já não tinha mais esperanças e acreditava que seu futuro era sozinho, trancado em uma sala de produção de música, vivendo para sempre com a mídia como uma estrela intocável e inalcançável.
Mas lá estava ele: em um final de tarde calmo, conversando com sua família.
- Tá no viva voz, mãe! Pode falar! - Hoshi comentou entre as risadas e comemorações, colocando o celular perto da mãe.
- Oi, meu amor! Dormiu bem? - perguntou com carinho e ele quase podia vê-la sorrindo.
- Dormi sim, raio de sol. E vocês? Como foi o passeio? - conteve o suspiro ao ouvir a voz da esposa. Não queria parecer sempre um bobo apaixonado, mas gostava do som da voz de .
- Foi ótimo, pai! Você precisa vir pra cá com a gente quando não estiver tão cansado! - Hoshi imeditamente comentou, fazendo rir. - A mamãe conhece tanta coisa! Ela me ensinou a desenhar as casas, as pessoas, me levou pra ver as flores e os lugares secretos da cidade...
- Ei, ei, vai com calma, estrelinha! - riu, fazendo Hoshi parar de falar. - Se você me contar tudo agora, não vai poder me contar quando voltar!
- Aaaah, é verdade! Ok, ok... - E a menina parecia estar pensando. - Mamãe, pode falar com o papai!
- Antes que você passe cinco horas com ele no telefone, não é mesmo? - sorriu de volta, afagando os cabelos da filha. - Estamos na estação de trem esperando para voltar pra casa, . Estava conversando com a Hoshi e tivemos a idéia de fazer uma noite de fondue, jogar conversa fora e assistirmos a algum filme legal. O que você acha?
- Eu acho que você tem as melhores idéias, como sempre. - respondeu com sua voz séria e carinhosa, fazendo corar do outro lado da linha. Hoshi somente sorriu: adorava ver como os pais se gostavam, como a mãe sempre corava com os elogios do pai e vice versa. Esperava que um dia se apaixonasse da maneira que eles tinham se apaixonado. - Precisa que eu compre as coisas para quando vocês chegarem?
- Exatamente. É só fondue, pão, vinho branco e limonada pra Hoshi. - Ela sorriu de volta, suspirando em seguida. - Talvez um doce?
- Pode deixar, tenho tudo sob controle. - E levantou do sofá para colocar os sapatos a fim de sair de casa. - Pode voltar a desenhar a estação de trem com a Hoshi.
As duas ficaram em silêncio: com as sobrancelhas franzidas e Hoshi com um enorme sorriso no rosto.
- Espera... Como você...?
- Eu te conheço melhor do que qualquer um, meu amor. - piscou e Hoshi imediatamente começou a surtar ao lado da mãe, enquanto somente corava e sorria como nunca.
jamais teria esperado ter o que tinha. Esperava fama, sucesso mundial, câmeras insistentes em seu rosto quando estivesse fazendo qualquer coisa mundana, gritos histéricos de fãs ao conhecê-lo e a solidão que vinha com tudo aquilo. Mas não esperava aquela preciosidade que vivia com elas: que após anos vivendo como um ídolo intocável, fosse aprender a viver como um ser humano normal - graças à ajuda de sua esposa.

****


A primeira vez que viu em sua frente, quase perdeu o ar.
Ela não acreditava que ele estava lá - que era real e estava a poucos metros de distância do alcance dela. brilhou como o próprio sol e o coração de acelerou, os pulmões perdendo todo o ar. Em meio às fãs que gritavam e a esmagavam na multidão, o mundo dela parou e podia se dar por feliz de tê-lo visto tão perto ao menos uma vez na vida.
Quando ele se aproximou demais, porém, ela praticamente se escondeu no mar de pessoas. Ele estava em cima do palco, agindo como o ídolo que era, com uma presença avassaladora, enquanto ela era somente um ser humano comum, uma fã que aproveitava toda a música que ele colocava no mundo.
Mas essa era a questão: até aquele momento, não tinha pensado naquilo, porém se fosse para notar a existência dela, não queria que acontecesse daquela maneira. Não queria que fosse a persona de ídolo dele vendo-a somente como uma persona de fã.
Era um sentimento estranho, para falar a verdade. Mas a presença de palco dele, seus olhos... Havia algo de diferente. percebia claramente que aquela era a persona que vestia para se apresentar, para fazer seus shows - uma bem diferente da que ele era na verdade.
Enquanto ele cantava e dançava embaixo do escuro céu noturno da cidade dela, olhou para as estrelas, fechou os olhos e fez um pedido: que um dia ela conhecesse da maneira que ele realmente era, sem as milhares de personas que ele tinha que vestir, sem as máscaras que ele trocava tão facilmente quanto trocava de roupa. queria conhecê-lo, não vê-lo interpretar mais um de seus quinhentos papéis que o fazia para sobreviver.
Ela não viu, mas, no mesmo momento, olhou para as estrelas naquele céu e pensou em como aquela cidade era bela - por mais que não pudesse andar muito por ela livremente sem ser assediado. Um dia queria ser ele mesmo, a pessoa por trás das máscaras que sempre tinha que colocar desde o momento em que acordava até o momento em que fechava os olhos para dormir.

- Para onde vamos mesmo...? - perguntou com as sobrancelhas franzidas, enquanto tirava a roupa do show que tinha acabado de dar e procurava o pijama. Já colocaria algo fácil de enfiar em outra mochila, pois estava para arrumar as malas para ir à próxima cidade.
- Paris, França. - comentou com um suspiro, arrumando a própria mala. - O show lá é daqui uma semana. Chegaremos lá, faremos a passagem de som e depois...
- Depois começa tudo de novo, eu sei, eu sei. - murmurou, procurando pelos sapatos que tinha usado para sair do estádio e voltar ao hotel. - E depois vamos pra Londres?
- Isso. Não esquece seu livro que você quase esqueceu em Nova York. - respondeu casualmente, sem prestar muita atenção no que estava fazendo.
- Como se eu tivesse tempo de ler alguma coisa. - O amigo respondeu de maneira amarga, jogando o livro na própria mala com displicência enquanto dava uma risada de escárnio. franziu as sobrancelhas e começou a observar enquanto ia de um lado para o outro, enfiando as coisas na mala, arrumando a bolsa com escova de dentes e giletes para barbear, procurando os cremes e mais cremes que tinham que passar diariamente para ter uma aparência perfeita e tudo mais que precisavam levar para todas as cidades que passassem.
- Tá tudo bem?
parou de se mover e observou com as sobrancelhas franzidas. Após alguns segundos, simplesmente sorriu.
- Tudo sim. Eu estou bem. - E parecia menos perturbado que antes. , por outro lado, somente suspirou: lá estava uma das máscaras que sabia usar tão bem, a que falava sempre que tudo estava bem. - Mas estou com a impressão de que estou esquecendo alguma coisa. Não sei o que é.
- Dá uma olhada de novo pelo quarto. Quem sabe você encontra. - sugeriu, voltando a se ocupar com a própria mala. - Quando eu terminar aqui, posso te ajudar.
- Ok... - murmurou, começando a falar consigo mesmo e fazendo rir. Não importava qual persona usasse, resmungar com ele mesmo era algo que todas faziam. - Mas ainda parece que estou esquecendo de levar algo comigo...

Enquanto isso, sentadas em uma mureta na rua lotada no local onde ocorreu o show, as amigas de ainda surtavam com o que tinha acabado de acontecer enquanto a moça somente olhava as estrelas no céu com um sorriso contente no rosto - como se toda a vida finalmente fizesse sentido.
- Ô ... - Uma delas chamou e somente resmungou de volta, ainda observando o céu. - Eles vão embora daqui. Por que você tá sorrindo toda felizona desse jeito...?
- Porque ele sabe que me esqueceu aqui. - E finalmente virou para a amiga, dando uma breve risada. - E eu sei que um dia ele vai me encontrar.

****


As grandes aventuras de ir ao mercado.
se lembrava claramente de quando não conseguia nem pisar na rua sem precisar de pelo menos dois seguranças e, por mais que a empresa dele pedisse encarecidamente para que as pessoas que o reconhecessem o deixassem em paz, não era sempre que aquilo acontecia.
Agora ele caminhava calmamente pela rua, aproveitando os tons arroxeados do fim de tarde que davam boas vindas ao início da noite. pintara aqueles céus diversas vezes e fizera questão de carregar um daqueles desenhos em sua carteira desde que vira a maneira como ela usava as cores. Pedira para que ela fizesse algo que ele sempre pudesse levar junto com ele, para qualquer lado do mundo, e pintara o céu do dia em que se conheceram.
Com as mãos nos bolsos da calça, somente sorriu enquanto caminhava placidamente pela rua. Não diria que acreditava em destino, mas também não negaria - as circunstâncias nas quais eles se conheceram realmente foi obra de algo maior do que eles mesmos.
Ao caminhar, uma senhora passou por e o cumprimentou com um sorriso e um aceno de cabeça. Ele fez o mesmo com um “olá” animado, ganhando uma risada dela de volta. O tipo de interação que ele tinha agora era aquele, com vizinhos e conhecidos dos arredores, que sabiam quem ele era por encontrarem muito na vizinhança.
Não que não soubessem que era um músico mundialmente famoso. Sabiam, porém os dias de ouro e fanatismo desenfreado dele já estavam para trás. Agora, era um produtor na agência à qual dedicara tantos anos e tanto trabalho, ajudando jovens, que uma vez foram que nem ele, a fazer suas próprias músicas e espalhar seu talento para o mundo. Ele continuava a fazer suas músicas e a lançar seus próprios álbuns e álbuns com seu grupo - mas agora não parecia que estava correndo contra o tempo para aproveitar o máximo de sua juventude.
A juventude havia passado. O tempo fora aproveitado. E agora ele estava em uma nova fase, aproveitando novas experiências e uma vida normal - quase como uma aposentadoria, para alguém como ele.
Se fosse considerar a idade de , provavelmente era muito jovem para se aposentar. Mas, se considerasse a carreira e o desempenho dele durante todos aqueles longos anos, a aposentadoria naquele momento era algo lógico e necessário.
Além de que ele queria aproveitar seus momentos ao lado da própria família.
Chegando ao supermercado, imediatamente pegou uma cesta verde ao lado dos carrinhos logo na entrada e passou a procurar pelo que a esposa havia pedido. Anotara no celular para não esquecer nada, mas a lista de compras era fácil para aquela noite.
Caminhando sem pressa pelos corredores, se lembrava claramente de todas as vezes que tinha ido no supermercado com .
Os melhores limões são aqueles com a casca lisa. Olha só. Ela dizia enquanto colocava uma das frutas nas mãos dele e o fazia acariciar a casca.
A diferença entre os achocolatados é que um tem açúcar e o outro não. piscou para ele no dia que o ensinara aquilo. Ah, e Ovomaltine tem coisinhas crocantes no meio.
- Coisinhas crocantes... - riu consigo mesmo, murmurando enquanto ia para o freezer com os fondues. Hoshi falava do mesmo jeito que a mãe, às vezes pedindo para o “achocolatado das coisinhas crocantes” e ele tinha certeza que a ensinara daquela maneira.
O freezer tinha várias opções de pacotes de fondue. De maneira praticamente automática, buscou pela “marca da caixinha verde” e pegou duas de uma vez, colocando em sua cesta. Mais alguns passos e estava na adega do supermercado, buscando pelo vinho. sempre comprava dois vinhos - um para colocar no fondue e outro para eles.
buscou por um vinho branco do fondue, encontrando um com um belo dourado pálido transparente. Em seguida, colocou-se em busca do vinho para tomar com a esposa - passou reto por todos os europeus, lembrando-se claramente da preferência dela por vinhos chilenos de tom dourado mais escuro, levemente adocicados. começou a apreciar aquele tipo de vinho por causa dela, sempre se recordando de como comprava um diferente por semana para que ele pudesse experimentar todos e decidir qual era seu preferido.
Dois vinhos chilenos, dois pacotes de fondue, agora precisava de pão, a limonada de Hoshi e um doce que escolheria para elas.
- Boa noite! Posso ajudar? - Uma moça simpática perguntou do outro lado do balcão. sorriu de volta.
- Boa noite! Vou precisar de... Hmmm... - Ele franziu as sobrancelhas por alguns segundos, fazendo as contas de quanto comeriam. - Duas baguetes e seis pãezinhos, por favor.
- Ok, só um momentinho!
sorria contente consigo mesmo. A primeira vez que ele fora a um supermercado fazer compras como um ser humano normal e funcional, fora um completo desastre. Se não tivesse paciência para ensiná-lo, ele provavelmente dependeria eternamente de ajuda de assistentes e afins.
Ela o ensinara a ser normal.

****


- ...? - A voz de parecia completamente derrotada do outro lado da linha.
- ? - imediatamente franziu as sobrancelhas. - O que houve? Tá tudo bem?
- Eu... É bom, eu... - Ele balançou a cabeça e suspirou, colocando a mão livre na cintura. - Eu não sei fazer supermercado, . Preciso de ajuda.
deu um pequeno sorriso triste - achava preciosa a maneira como ele ligara pedindo ajuda à ela, porém a voz de parecia angustiada. Ele estava à beira de voltar para casa e chorar de pura vergonha de não saber fazer algo tão comum completamente sozinho, pedindo ajuda à ela.
- Segura as pontas aí, . Só vou colocar um sapato e chego aí em dez minutos, ok? - Ela perguntou de volta e ele somente confirmou com um murmúrio. - Me espera no café? Vou querer um chá gelado como pagamento por te ajudar!
- Ok, ok. Vou te esperar aqui! - Ele respondeu com uma risada rápida, enquanto sorria, feliz com o fato de que o tinha feito sorrir.
Ela demorou por volta de quinze minutos para chegar. Encontrou vestindo suas roupas largas e confortáveis que gostava de colocar quando não tinha um estilista escolhendo por ele. Uma xícara de café descansava na mesa enquanto ele tinha as mãos nos bolsos, os ombros levemente desanimados.
parou atrás dele, descansando as mãos nos ombros do namorado e sentindo como o corpo dele imediatamente reagiu ao toque dela. Sentindo se mexer para recebê-la, o abraçou por trás, plantando um beijo no topo dos cabelos dele.
- Sua super heroína chegou, ! - brincou ao pé do ouvido dele, fazendo-o rir imediatamente.
- Senta. Eu vou pedir seu chá, do que você quer hoje? - Ele perguntou, recebendo-a com um beijo nos lábios enquanto se levantava.
- Hmmm... Pêssego. Vou mudar um pouco. - piscou para ele, sentando-se na cadeira em frente à de .
Não demorou muito para que ele tivesse mais uma xícara de café na mesa e entregasse o chá gelado de , sentando-se em silêncio com ela. Apesar disso, estava mais calmo e sentia-se mais seguro de tê-la perto de si.
- O que houve, ? - Ela perguntou com um pequeno sorriso compreensivo nos lábios.
teve um pequeno momento de epifania - pensando em como seria uma mãe maravilhosa quando precisasse perguntar aos filhos se havia algo de errado. Ele se sentia seguro e sabia que qualquer criança sentiria o mesmo ao redor dela, por mais que a namorada falasse que não levava jeito com mini seres humanos.
- Eu não sei fazer compras. - suspirou, deixando a listinha que ela tinha dado mais cedo em cima da mesa. - Você pediu pão, mas não sei quantos comprar para nós dois. Além disso, existem quatro marcas de manteiga diferente, sem contar na margarina. Você não especificou qual o sabor da geléia nem a marca que prefere... Eu não sei escolher maçãs, nem sei quais limões estão bons pra levar pra casa. Além disso, existem tantas marcas de achocolatado que parecem todas iguais pra mim. Ah, e carne... O moço me perguntou qual corte eu queria, mas não tenho idéia nem disso nem da quantidade...
- . - chamou, colocando a mão sobre a dele. imediatamente voltou os olhos para os dela, o coração voltando a bater na frequência normal. Ele respirou fundo enquanto os dedos de acariciavam a mão dele. - Não tem problema não saber disso. Eu vou te ajudar e, aos poucos, você vai pegando o jeito.
- Olha a minha idade, . Eu já devia saber fazer isso sozinho, não sou uma criança. - Ele abaixou a cabeça, suspirando. - Que droga de adulto funcional eu sou. Não sei nem como comprar comida sem ajuda de alguém, isso é ridículo.
- Ei, não faça isso com você mesmo. - disse de maneira estrita, chamando a atenção de novamente. - Você viveu durante anos em uma existência intensa que eu ou qualquer outro ser humano que não passou por isso não vai entender. Você viveu por muito tempo quase como um deus intocável e agora finalmente está começando a ter uma experiência de como é ser mortal, mundano. Não podia sequer sair de casa sem alguém te acompanhando por medo de fazerem alguma coisa a você, sempre dependeu de um time de pessoas para atender às suas necessidades básicas de ser humano. Se eu precisar te ensinar a fazer compras, se eu precisar te ensinar como pagar contas e pegar dinheiro no banco, se eu precisar te ensinar como cuidar das suas finanças... Eu faço, sem problemas. Nunca vou ficar brava e quero que você aprenda. Eu tive anos para aprender a ser uma adulta... Digamos semi funcional, porque não acho que conseguimos ser 100% independentes nas nossas vidas. Mas se tivesse que levar a vida de artista que você levou por tanto tempo, entraria em crise e nem saberia por onde começar.
suspirou, fechando os olhos e sorrindo para ela, de maneira até um pouco envergonhada. continuou a acariciar a mão dele - que antes estava gélida, mas agora começava a se esquentar. Quando ele abriu os olhos novamente, ela notou que somente os fechara para não derramar o que ele chama de “lágrimas inconvenientes” - que surgiam quando ela falava algo que ele achava muito bonito e involuntariamente escorriam pelo rosto de .
- Que sorte a minha de ter te encontrado. - Ele murmurou, fazendo-a corar, como sempre.
- Pois é, eu também acho. - deu uma breve risada de volta, levantando-se da cadeira. - Vamos às compras, ?
- Vamos, vamos. Está na hora de aprender, não?

****


- Senhor, aqui estão seus pães!
foi trazido de volta de suas memórias quando a moça da padaria estendeu a sacola de papel pardo para ele. sorriu de volta, agradecendo e sentindo o aroma de pães quentinhos.
- Ah, que pena que a Hoshi não está aqui... - Ele murmurou consigo mesmo enquanto começava a caminhar, tão acostumado a ter câmeras filmando cada passo que ele dava e ter que conversar com os espectadores. - Ela adora pães quentinhos.
Apesar de que, pelo que falara, aquilo era um maneirismo dele desde que se conheceram.
não demorou muito para escolher limões e seguir para o caixa, caminhando de volta para casa em seguida. Parou no caminho somente para encontrar a doceria que eles amavam quase fechando - mas, logo que acenou para a dona, a mulher acenou de volta enquanto sorria, terminando de anotar os pedidos dos últimos clientes.
- Boa noite, ! - Ela disse logo que ele entrou na loja lilás, um lugar tão bonitinho no qual e Hoshi já tinham tirado diversas fotos. - Como estão a e a Hoshi?
- Bem, obrigado! Foram visitar uma cidade próxima e estão voltando, fiquei encarregado de providenciar o jantar. - Ele comentou com um sorriso orgulhoso, mostrando a sacola que carregava para a mulher.
- E agora está procurando uma sobremesa? - Ela perguntou de volta com um olhar inteligente e ele confirmou com a cabeça.
- Tem o bolo favorito da Hoshi? - Ele procurava na vitrine e a mulher deu uma breve risada.
- Claro! Guardei os últimos pedaços, pois sei que ela gosta de vir aqui de finais de semana. Vou lá dentro buscar para você!
agradeceu com um aceno da cabeça e continuou a observar a vitrine, tão bem organizada. Naquele dia, a loja tinha um aroma de flor de laranjeira, devido a um doce que estava em destaque. sempre se lembrava de ao sentir aquele cheiro - quando estava grávida, a mulher ficara com um desejo incessante de comer doces de flor de laranjeira, principalmente de madrugada. Achar aquilo no meio da noite, em seu pijama, era o maior desafio de durante uma época.
Desafio esse que ele resolveu comprando garrafas de água de flor de laranjeira e aprendendo a fazer os doces.
- Mãe... - Ele ouviu uma adolescente repentinamente comentando com uma mulher que tomava um café junto com ela, de maneira quase sussurrada. - Aquele não é o do grupo...?
- É sim. - A mulher respondeu com um breve sorriso nos lábios. A garota estava prestes a surtar quando a mãe segurou a mão dela de maneira compreensiva. - Mas vamos deixá-lo em paz. Ele merece um pouco de descanso, não?
não podia estar mais agradecido àquela mulher. Não que ele não gostasse de ser reconhecido ou não quisesse conversar com as fãs, mas aquilo quase acabara com ele. Tudo que ele queria era a paz da sua vida normal, algo que ele tinha enquanto pegava as fatias do bolo de Hoshi, pagava e colocava-se de volta para casa.
Elas logo chegariam e queria recebê-las em seus braços - talvez o tempo pudesse parar e ele pudesse viver aquilo para sempre.

****


finalmente estava voltando para seu país, a fim de tirar as merecidas férias depois de praticamente um ano se apresentando em diversas cidades diferentes. Ele já perdera a noção de tempo e de quantos dias haviam se passado - por várias vezes, tinha certeza que passara de dois a três dias sem comer nem dormir direito, simplesmente por perder a noção do tempo passando. Tudo parecia um dia inteiro sem fim, com noites que nunca chegavam conforme ele ia de um país para o outro.
- Muito bem, tudo preparado? - Um dos seguranças perguntou enquanto ele e seus amigos do grupo colocavam as mochilas nas costas e máscaras no rosto para fazer a caminhada pelo aeroporto.
- Tudo certo. - O outro segurança confirmou de maneira séria. - Podemos ir.
- Ok, garotos. Vamos! - Um terceiro segurança finalmente deu a deixa para que pudessem começar a andar.
Porque não podiam fazer um movimento que fosse sem a autorização dos seguranças ou do pessoal do staff que sempre os acompanhava.
permaneceu sério, de cabeça baixa, caminhando decididamente até chegar ao portão de desembarque. Imediatamente, começou a ouvir gritos histéricos, empurrões, flashes e passos desesperados correndo ao redor dele.
Um homem com uma câmera quase a tinha grudada no rosto de . Ele tentou se distanciar um pouco, incomodado com aquela invasão à própria imagem. Por que ele não podia andar pelo aeroporto como uma pessoa normal? Um dos seguranças se colocou entre ele e a câmera e não podia ficar mais agradecido.
Ele se sentia sufocado. Como se tivesse sido jogado em um enorme tanque d’água com vários espectadores do outro lado do aquário, enquanto ele fazia gracinhas para ganhar recompensas de seus treinadores. Aquele sentimento tomou o peito dele e fechou a garganta de , tornando difícil de respirar. Ele queria sair de lá, ele precisava sair de lá.
Queria paz. Queria silêncio. Queria fechar os olhos e saber que ele ainda era ele mesmo - mas quem diabos era ele?
Enquanto fazia o percurso até a van que estava aguardando na rua para levá-lo para casa, sentiu algo atingindo os próprios pés. Aparentemente, um caderno se perdera na multidão e fora chutado por vários pés até chegar nele.
se abaixou e pegou o pequeno caderno de capa prateada e azul nas mãos. Olhou em volta, mas não parecia ter ninguém procurando pelo objeto. Quando abriu, viu que havia algo escrito na contracapa, com um telefone e, ao folhear, viu vários desenhos.
Muitos desenhos.
- Vamos, ! - Um dos seguranças tocou o braço dele e confirmou com a cabeça, voltando a caminhar em seu passo decidido e apressado.
Quando finalmente chegou em casa, porém, jogou a mochila no chão ao pé da cama e deitou-se - extenuado de todo aquele sufoco que passara somente para se trancar de volta no apartamento, como um animal enjaulado.
Lembrando-se do misterioso caderno, o pegou novamente e leu a contracapa, escrita com uma bela caligrafia em inglês.
Esse sketchbook pertence à . Se eu perder e você o encontrar, pode me devolver, por favor? Te pago um café e um doce! Meu telefone é...
sorriu, feliz com aquela descoberta. Lá estava o telefone da pessoa que perdera o caderno e, aparentemente, era importante para ela.
E ele conseguia entender o porque: aquela pessoa, , fazia os desenhos mais caprichados que ele já tinha visto, com alguns comentários engraçados aqui ou ali, lápis de cor com combinações improváveis em outras páginas, realismo e testes de estilo. Algo que ficou muito feliz de ter encontrado ao acaso.

- Eu até agora não acredito que fui idiota o suficiente para perder meu sketchbook! - jogou a cabeça para trás, suspirando enquanto tinha que aguentar a própria estupidez.
- Você não foi idiota, . - , a amiga que a acompanhara na viagem àquele país tão distante para discutir possibilidades de uma carreira que nem tinha mais esperança de seguir, respondeu com um suspiro. - Deve ter derrubado embaixo da mala e agora tá fazendo todo esse drama.
- Para a sua informação, eu já chequei em todos os arredores da minha mala. - respondeu de maneira analítica, sentindo o celular vibrar no bolso. - Eu perdi todos os meus desenhos. E não só isso: as idéias para músicas, anotações de vídeos, edições, mixagens... Minha vida estava naquele caderno.
- Já disse que você não deve ter perdido, mulher. - A amiga comentou sem ligar muito. A cidade em que estavam era linda, o dia estava ensolarado e pequenas pétalas cor de rosa esvoaçavam em volta delas. estava mais ocupada em aproveitar o dia e a vista do que focar no drama desnecessário de . - Quando você menos esperar, vai aparecer. Você vai ver.
- Claro, porque as fadas vão me trazer de volta. - rolou os olhos, pegando o celular e checando as mensagens.
Número desconhecido: Olá! Tudo bem?
Número desconhecido: Eu encontrei o seu sketchbook no aeroporto ontem. Como tinha o seu número de celular, achei melhor entrar em contato para devolver!
Número desconhecido: Não sei como vamos fazer para nos encontrar, mas acho que deve ser importante pra você
Número desconhecido: [Foto]
E lá estava uma foto do caderno de , aberto em uma das páginas com desenhos coloridos e letras de músicas escritas por ela.
- Eu não acredito! - A moça praticamente gritou na rua, parando exatamente onde estava. Sentia que o coração ia sair pela boca.
: Eu não sei quem você é
: Nem onde você está
: MAS EU JÁ TE AMO, SEU DESCONHECIDO MARAVILHOSO
: De verdade, eu tô quase chorando, achei que nunca mais veria meu livro T.T
almoçava com quando o celular começou a vibrar com a resposta. Enquanto segurava os hashis com uma das mãos, desbloqueou a tela e imediatamente começou a sorrir ao ver as mensagens daquela desconhecida - as bochechas corando imediatamente ao ver como ela ficara feliz.
- É a pessoa do caderno? - perguntou casualmente, interessando-se imediatamente quando concordou com a cabeça. - Ela respondeu? É o quê? Um homem ou uma mulher?
- Mulher. - respondeu, abrindo a foto que ela tinha como perfil no Whatsapp e mostrando para .
- Ah, nossa... - O amigo parecia até um pouco desconcertado. - Ela é bonita também.
- Bonita, né? - E somente sorriu, começando a digitar uma resposta. - Vou ver se consigo marcar com ela para devolver o caderno...
- Ei, ei! - chamou a atenção do amigo, segurando a mão dele imediatamente. o observou com as sobrancelhas franzidas, claramente incomodado com aquela reação. - Você não pode marcar nada em público sem conversar com a segurança e o pessoal do staff antes. Precisamos ver de reservar um lugar e fechar só pra você conseguir ir sem ser assediado, checar a segurança...
- Eu tinha esquecido disso. - Os ombros de imediatamente despencaram e a cabeça se abaixou. até sentiu um peso no coração por ter desanimado tanto o amigo.
Número desconhecido: Podemos marcar para eu te devolver? Conheço um
: Um...?
: Café? Na minha contracapa eu prometo um café para quem achar!
- É sério que essa sua idéia doida funcionou?! - não conseguia acreditar. - Alguém realmente achou o seu sketchbook?!
- Achou! A pessoa até me mandou uma foto de uma das páginas! - mostrou para a amiga. - E essa eu não postei em nenhum lugar, não tem como ninguém ter essa foto sem ter tirado no momento.
- Isso é ótimo! Nunca achei que ia funcionar! - A amiga riu, principalmente ao notar a animação de . - Você vai marcar o café?
- Ah, sim! Estou esperando a pessoa responder!
: Se você quiser, podemos nos encontrar naquela Starbucks grande na avenida perto do shopping, o que acha?
: Os muffins de banana de lá são realmente gostosos!
riu sem humor algum. Starbucks, shopping, avenida, muffins de banana. Há anos ele não sabia mais o que aquilo significava. Se queria ir à alguma Starbucks, tinha que avisar a equipe e provavelmente fechariam o lugar para ele. Fãs estariam em volta, filmando, tirando fotos, gritando, como no dia em que ele chegara no aeroporto e se sentira tão sufocado.
Ele conseguira tudo que sempre quisera. Mas a vida dele tinha uma condição ridícula que a cada dia se tornava cada vez mais insuportável - às vezes, queria desistir de tudo. A existência dele era vazia, como um objeto de entretenimento que somente podia sair de casa se estivesse em sua persona de palco para divertir os outros, para dançar de maneira sexy e se tornar a fantasia que sempre quiseram, para fazê-los sorrir e preencher o vazio que tinham em suas existências.
Mas quem preenchia o vazio que ele tinha naquela existência sem sentido?
se sentia algemado pela própria condição, preso em um aquário que ele mesmo tinha construído e agora precisava sorrir para todos que passavam em volta - até mesmo nos dias em que ele só queria se sentar em um cantinho e chorar.
- Eu vou pedir para alguém do staff devolver o caderno a ela. - disse em um tom de voz sem vida e sem entusiasmo, completamente apagado do que realmente era. - É a melhor coisa a se fazer.
- ... - chamou, as sobrancelhas franzidas. Porém somente o ignorou, focando no próprio prato de comida e voltando a pegar os hashis entre os dedos. estava cada vez mais preocupado. - Você está bem, ?
- Sim. Tudo bem. - deu de ombros, voltando a comer em silêncio, sem olhar para .
O amigo somente suspirou. Sabia que fazia aquilo. Mesmo quando estava destruído por dentro, somente dizia que estava tudo bem - dava de ombros ou sorria, continuava com os afazeres como se nada fosse demais - e ainda cuidava dos outros quando estavam para baixo. tinha um humor inabalável, mas por trás disso escondia todas as suas frustrações e desânimos. notara que nos últimos meses, parecia sobrecarregado mais do que o normal e efetivamente precisava daquelas férias.
- Vamos dar um jeito. - respondeu de maneira resoluta, voltando a comer e sem olhar para . Não queria que o amigo notasse o quão irritado ele estava com aquela condição de passarinhos enjaulados que eles tinham. - Vamos arranjar uma maneira. Diga a ela que vocês vão se encontrar... Que tal naquele café ao lado do estúdio que fica aberto de madrugada para nós e a nossa equipe? Ninguém vai lá quando estiver muito tarde, vocês podem se encontrar em paz!
Quando finalmente levantou os olhos, viu sorrindo. Ele estava sentindo esperança novamente.
Número desconhecido: Não consigo te encontrar na Starbucks
Número desconhecido: Mas tem um café perto de onde eu trabalho, consigo te encontrar mais ou menos umas 22h! O que você acha?
- Dez da noite?! Esse ser humano tá doido?! - perguntou imediatamente, cuidando para não derrubar seu sorvete.
Afinal, demorara tanto para responder, que elas tiveram tempo de comprar sorvetes e tentar descobrir mais sobre aquele ser desconhecido - mas não encontraram informação alguma, fossem fotos, número ou indicativo de quem ele, ou ela, poderia ser.
- É... É meio suspeito... - torceu o nariz.
- Meio?! , até onde sabemos, isso aí pode ser um serial killer pronto pra te esfaquear todinha! - E a amiga estava exasperada, fazendo lhe lançar um olhar de morte.
- Obrigada pela imagem mental, querida. - Ela rolou os olhos, suspirando. - Mas quero meu sketchbook de volta! Vou tentar outra coisa...
: Não acha isso aí meio suspeito, não?
: Até onde sei, você pode ser um serial killer
: Na verdade, não ter nenhuma foto no seu perfil, pedir para me encontrar em um café que só você conhece, do lado do seu trabalho, às 22h é definitivamente algo de um serial killer
observava a tela do celular boquiaberto.
- O que foi? O que ela disse? - E estava na expectativa.
- Ela acha que eu sou um serial killer. - respondeu seriamente, mostrando as mensagens ao amigo.
Ambos se olharam durante um tempo. Ela tinha razão.
- Ok. Foi uma péssima sugestão... - suspirou, passando a mão pela testa.
- E aparentemente todas as opções que eu tenho vão me fazer parecer um serial killer. - comentou de maneira derrotada, deixando o celular sobre a mesa. - O mais fácil é dar para alguém do staff e não ficar enrolando para devolver. Ela já deve ter ficado um bom tempo sem o caderno e deve estar sentindo falta.
coçou a cabeça, tentando achar alguma solução. Devia haver algo que eles podiam fazer. A existência deles não precisava ser tão ridícula sempre... Devia haver alguma opção sem ser a “parecer um serial killer”.
De repente, teve uma iluminação momentânea, pegando o celular imediatamente e digitando antes mesmo que pudesse falar alguma coisa. O amigo franziu as sobrancelhas e ficou olhando sem entender até mostrar o celular para ele.
Número desconhecido: O que você acha de ir almoçar comigo então? Aí pode pagar o café depois
somente olhou para o amigo e ambos começaram a sorrir.
- Podemos tentar marcar em um lugar mais reservado no restaurante dos meus tios e você pode devolver pessoalmente. - se animava conforme o sorriso de aumentava.
- . Você é um gênio. - E não conseguia parar de sorrir.

: Se precisar de alguma coisa me avisa
: Eu vou correndo aí na hora
: Ok, pode deixar. Qualquer coisa, eu viro um soco na fuça dele e saio correndo fazendo escândalo
: Ok, minha querida. Boa sorte!
somente sorriu de volta enquanto chegava ao restaurante que passara o endereço. Ele não dissera o próprio nome, mas, por algum motivo, ela acreditava que ele não seria esquisito - nem um serial killer.
Ao chegar, deparou-se com uma construção consideravelmente tradicional do país e imediatamente sorriu - ao menos ele tinha bom gosto. Conforme havia orientado, era para ela pedir à mulher que ficava na recepção para encontrar com ele.
- Olá! - cumprimentou com um sorriso simpático ao ver a mulher. - Vim para cá para encontrar com um cara com um caderno prateado e azul... Ele falou que deixaria avisado a você que eu viria.
- Ah, sim! Então é você! - A mulher sorriu de volta, parecendo extremamente contente. - Vem comigo! Ele está lá fora!
- Lá fora? Vocês têm outros ambientes aqui? O restaurante parece tão pequeno! - A moça comentou, observando a decoração tradicional enquanto passavam pelo burburinho dos clientes almoçando.
- O nosso jardim é grande. Colocamos algumas mesas mais reservadas por lá. - A mulher sorriu, parecendo controlar-se para não abrir um sorriso grande demais.
estranhou, mas, pelo menos, o local era movimentado. Portanto, se tivesse problemas, seria fácil de se fazer notar.
Caminhando com a mulher por um jardim de grama verdejante e caminhos de pedra negra, seguiu enquanto ouvia pequenos cristais pendurados à porta do que seria um dos quartinhos reservados. Parecia o tipo de música que ela ouvia nos cristais pendurados na varanda de sua casa quando pequena e aquilo a fez sorrir - além de se sentir segura.
Quando se aproximaram da porta de madeira e folhas de papel de arroz entreaberta, a mulher abriu o resto da mesma e fez sinal para que entrasse. Havia uma enorme mesa de madeira no chão, flores e plantas colorindo todos os cantos e almofadas para que ela se sentasse. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, porém, ela ouviu outra voz.
- ...? - A voz que a chamou parecia incerta e a moça imediatamente se virou. Mal notou as pétalas de cerejeira adentrando a pequena sala com o vento que batera para cumprimentá-los, como se aquilo estivesse programado para acontecer. sorria para ela, o sketchbook em mãos. - Eu encontrei o seu caderno! Lembra?
- Ah, sim! Olá! - Ela não sabia muito bem o que fazer, sentindo o coração acelerar no peito. - Muito obrigada!
- Ah, meu nome é ! - Ele comentou imediatamente, como se tivesse se esquecido, finalmente entregando o caderno para ela. - Prazer em conhecê-la!
- Prazer em conhecê-lo também, ! - sorriu de maneira desajeitada em seguida, sentindo as pernas formigando com o que estava acontecendo.
- Desculpe pela confusão e por parecer um serial killer antes... - Ele comentou um pouco envergonhado, ainda em pé. - Eu não posso ir para muitos lugares sem um monte de regras e pessoas me acompanhando, então precisei procurar uma alternativa.
- Tudo bem, não tem problema. Eu realmente não me importo. - A moça riu em seguida. Não sabia o motivo, só sabia que queria rir. - Além de que esse restaurante é realmente lindo, eu adorei!
- Ah, fico feliz que você gostou! Um amigo que deu a idéia! - se sentia mais aliviado ao ver o sorriso entusiasmado dela. - Aliás, quer se sentar?
- Ah, sim, sim...! - confirmou com a cabeça, sentando-se de um lado da mesa enquanto se sentava do outro lado. - Seu amigo tem um ótimo gosto!
- Isso tem mesmo! O cardápio aqui é ótimo também, quer dar uma olhada? - Ele estendeu um dos menus para ela, ficando com um nas próprias mãos. imediatamente o abriu, as mãos levemente trêmulas. - Você já comeu em um restaurante tradicional assim?
- Sendo bem sincera... Não. - Ela respondeu meio perdida, fazendo-o rir imediatamente. - E não sei nem por onde começar! São tantas opções e tantas coisas para experimentar que não faço idéia do que pedir...
- Você se importa se eu sugerir algo? Afinal, moro aqui desde sempre. - brincou, piscando para ela. imediatamente corou e ele viu algo de precioso na maneira como as bochechas dela se tornaram róseas.
- À vontade! Confio em você, !
Claro, ele notou a maneira como ela usara o apelido dele sem nem ao menos ter perguntado antes. Apesar disso, não comentou nada: continuou conversando com ela como se fosse alguém normal e o tratou como uma pessoa normal. Assim como ele estava interessado em saber sobre ela, estava interessada em saber sobre . Ela perguntava coisas simples sobre a família dele e gostos pessoais - coisas que qualquer fã saberia - e ouvia com interesse, querendo realmente conhecê-lo melhor.
Ele sentia que estava falando com ela como , a pessoa que era de verdade, não o que incorporava como persona quando estava em público.
Portanto, ele só fez a pergunta que queria quando terminaram o almoço e estavam prestes a pedir aquele café e doces prometidos por .
- Você gosta das minhas músicas?
A pergunta dele a pegou de surpresa, não ia negar. Ficou observando por alguns segundos com grandes olhos pegos de surpresa, porém, em seguida, começou a sorrir - de maneira calma, que o fez se sentir em casa.
- Gosto. Bastante. - admitiu e, por algum motivo, aquilo o fez sorrir.
- E por que você está me tratando...
- Como uma pessoa normal? - Ela completou com um pequeno riso e concordou com a cabeça, ainda sorrindo, completamente fascinado. - Porque você é uma pessoa normal. Tratá-lo de maneira diferente seria... Estranho.
gostava de pensar que fora naquele momento que a primeira faísca dos sentimentos que tinha por surgiram em seu coração.

****


No início, limonadas eram complexas para ele, tinha que admitir.
Agora que já conseguia fazer até supermercado sozinho, não tinha problema em espremer alguns limões. Sabia que tinha dito para que ele trouxesse limonada do supermercado para Hoshi, mas também sabia como a filha gostava do suco recém espremido. Ele não tinha muito o que fazer naquele começo de noite, portanto ocupara-se em colocar músicas para aproveitar o momento, fazer o suco de Hoshi e começar a preparar o jantar.
- Hmmm, o papai está escutando música! Acho que mais alguém está empolgado com a nossa noite do fondue, não? - Ele ouviu a voz de caminhando calmamente pela calçada, de maneira um tanto distante, entrando pela janela. imediatamente começou a sorrir.
- Eba! Vou falar oi pro papai! - E nisso, passinhos apressados começaram a correr pelo pequeno jardim da frente, subindo rapidamente as escadas e entrando em casa com um estrondo. Nesse meio de tempo, limpou as mãos e foi até a porta, a fim de receber a filha. Portanto, assim que entrou em casa, Hoshi viu a imagem do pai e já se jogou nos braços dele. - Oi, papai!
- Olá, minha estrelinha! Fizeram um bom passeio?! - perguntou enquanto a girava no ar, apertando-a o máximo que podia contra si. Hoshi era uma das coisas mais preciosas na vida de e ele nunca deixava de lado uma oportunidade de abraçá-la.
- Foi ótimo! Papai, você devia ter ido! Não sabe as coisas que vimos hoje! - A empolgação de Hoshi era a mesma que a dele, todos diziam sempre que ela herdara aquilo do pai. - A mamãe fez cada desenho lindo! Me ensinou tantas coisas!
- Ah, é? Vou querer ver todos os desenhos de vocês. - comentou enquanto a colocava no chão, olhando para a porta e encontrando entrando em casa e fechando a entrada.
Ela o observou com a filha durante alguns momentos, sorrindo enquanto e Hoshi conversavam animadamente. Sempre ficava contente ao ver que encontrara sua paz nelas - a família que ele precisava em sua vida. merecia todo o descanso que tinha e nunca ia perturbá-lo durante o sono ou roubar um daqueles momentos que ele amava. Sempre deixaria que os aproveitasse ao máximo - assim como ele aproveitara a intensidade de uma juventude exposta à mídia anos antes.
- Olá, meu amor. - finalmente disse a ela, sorrindo para a esposa. sorriu de volta de maneira calma, aproximando-se de .
- Olá. Espero que tenha descansado bastante com o seu cochilo. - Dizendo isso, fechou os braços em volta do pescoço do marido, recebendo um beijo longo nos lábios logo em seguida.
- Ah, vocês dois são tão apaixonados! - Hoshi imediatamente apitou ao lado dos dois, fazendo-os rir.
- E permaneceremos assim durante toda a vida. - piscou para a filha.
- Toda a vida, não. Toda a eternidade. - corrigiu com propriedade, beijando-a novamente nos lábios quando se virou para comentar algo. Ela tentou falar mais algumas vezes, mas sempre era interrompida por beijos de , fazendo não só ela rir, como Hoshi também. - Sem vir me falar que eu sou brega demais, porque eu sei que você gosta, dona !
- Afinal, o papai te conhece melhor do que qualquer um! - Hoshi levantou os pequenos braços como se estivesse comemorando, fazendo-os rir imediatamente.
- Ouça a sabedoria da sua filha, . - piscou para a esposa enquanto a soltava do abraço. - Agora vamos para a cozinha preparar o fondue?
- Eba! Eu posso ajudar dessa vez? - Hoshi era a própria personificação da empolgação e ambos já previam o escândalo quando concordaram com as cabeças. - EBAAAA! QUERO ACENDER O FOGO!
- Vamos antes que a nossa filha coloque fogo na cozinha. - comentou com uma preocupação engraçada, segurando a mão de para guiá-lo até o cômodo. Entretanto, sentiu-se sendo puxada até ficar de frente para ele.
Aproveitando que Hoshi não estava olhando, se aproximou ao máximo de , descansando uma das mãos na base do pescoço dela e mordendo o lábio inferior da esposa, somente para seguir de um beijo. Separando-se dos lábios dela, mais ainda perto o suficiente para roçar na pele de , deu um pequeno sorriso.
- Eu te conheço tão bem e você já devia saber que não me escapa, . Em situação nenhuma. - murmurou o mais baixo que podia, sentindo a respiração levemente alterada de nos próprios lábios.
imediatamente começou a rir - afinal, aquela era uma pequena piada interna que ambos tinham de uma das suas diversas aventuras como pais de primeira viagem. Assim que ela começou a rir, encostou a própria testa na dela e riu junto com , como se aquele pequeno segredo fizesse da vida deles algo muito mais especial.
- Ei, vocês dois! - Hoshi surgiu da cozinha com as mãos na cintura, chamando a atenção dos pais. - Vocês vão ficar aí namorando ou vão me ajudar a cozinhar?
- Pode deixar que estamos à caminho! - bateu uma pequena continência para a filha, fazendo-a sorrir de alegria e correr de volta para a cozinha.
- Ok, já sei. Para a cozinha antes que a Hoshi coloque fogo em tudo. - retribuiu o olhar cúmplice da esposa e, segurando a mão dela, foram até a cozinha impedir que Hoshi despejasse todo o fondue de uma vez na panela mais velha que tinha encontrado.

****


empurrou até a escrivaninha do quarto, sem desgrudar os lábios do beijo urgente que aproveitava cada sabor dela. Os dois cuidavam para não fazer barulhos muito altos, a porta do quarto fechada enquanto subia uma das pernas para prendê-la em volta da cintura do marido. Percorrendo o pescoço dele com as mãos, chegou aos cabelos de , puxando-os com mais força quando ele agarrou a coxa dela com força, puxando-a mais para perto de si e fazendo com que a camisola que ela usava se levantasse cada vez mais.
grunhiu ao sentir os fios forçando a cabeça dele para trás, sorrindo entre os lábios da esposa.
- Hmmm... Parece que alguém está um pouco saidinha essa noite, huh...? - Os beijos de trilharam a mandíbula de , subindo até a orelha e fazendo-o diminuir o tom de voz para somente um murmúrio grave. - Acho que vou ter que te lembrar de algumas coisas, não...?
- Você sabe que eu sou terrivelmente esquecida, . - respondeu com um sussurro no ouvido dele que fez descer calafrios pela espinha do marido.
Ela notou como se afetou por conta da diferença na respiração dele. Tentando se controlar, respirou fundo e desceu as mãos para a própria calça, desfazendo o cinto que usava e tirando-o com facilidade. mordeu os lábios em expectativa, sorrindo levemente quando ele a ajudou a se sentar na escrivaninha - o tampo gelado em contraste com a pele quente da mulher.
- Mãos para trás, minha linda. - Os olhos dele ardiam como o fogo e ela não tinha como contrariar. sorriu ao ver como estava contente com tudo aquilo, cruzando os pulsos nas costas diligentemente e sem questionar. - Você gosta disso, não? Você está brilhando, .
- Gosto tanto quanto você. - Ela respondeu com uma piscadela e a beijou novamente, de maneira rápida para concluir o que se dispusera a fazer.
Em menos de um minuto, os pulsos dela estavam firmemente amarrados às costas com o cinto de , após a checagem cuidadosa de sempre de que a restrição não estava impedindo os movimentos dos dedos nem a circulação sanguínea.
- Agora sim, eu tenho você só pra mim... - murmurou, fazendo-a sorrir antes de voltar a beijá-la de maneira calma e lenta, segurando pela cintura para dá-la estabilidade e impedir que ela caísse da escrivaninha, além de puxá-la mais para perto de si.
Não havia muitos tecidos entre eles. Fazia algum tempo que não se aventuravam daquela maneira e estava tarde o suficiente para não correrem muitos riscos, portanto resolveram tentar. As mãos dele a seguravam fortemente enquanto os quadris dela começavam a tentar se mover, as coxas nuas sentindo o tecido fino da calça que usava para dormir. Ele começou a aventurar uma das mãos pela barra da calcinha da esposa, ouvindo um leve gemido na base do ouvido - baixo o suficiente para que somente ouvisse, dizendo para ele que a expectativa de era tão grande quanto a do marido.
Nesse momento, porém, ouviram algumas batidas na porta.
e imediatamente congelaram no lugar, arregalando os olhos.
- Mãe? Pai...? - A voz de Hoshi ecoou de maneira incerta. - Vocês estão acordados...?
- Rápido, ...! - tentou falar alguma coisa, mas ele imediatamente se sentou à cadeira da escrivaninha e ela, entendendo o que o marido resolveu fazer, virou-se para a porta a fim de esconder as mãos amarradas pelo cinto. - Sim, meu amor! Pode entrar!
A pequena Hoshi abriu a porta do quarto de maneira incerta, encontrando o ambiente iluminado somente pelo abajur ao lado da grande cama de casal enquanto o pai estava sentado na cadeira e a mãe em cima da escrivaninha, ao lado do laptop fechado.
- O que foi, meu anjo? Tá tudo bem? - estendeu os braços para ela e Hoshi se aproximou sem medo, quase correndo para abraçá-lo. Mal percebeu a mãe se virando na mesa de maneira desajeitada para manter os braços diligentemente escondidos. Vendo-a daquela maneira, parecia que estava somente apoiada nas mãos enquanto sentada.
- Eu tive um pesadelo... - Hoshi murmurou, olhando para baixo enquanto afagava a cabeça dela. - Não consigo dormir.
- Quer dormir conosco? - imediatamente sugeriu e o rosto da menina se iluminou. Ela jamais negaria segurança à própria filha.
- Vocês não acham que eu estou muito velha para isso? - Apesar da pergunta, havia esperança nas palavras da garota.
- Você só vai ser velha para algo quando achar que está velha. - piscou para a filha, fazendo-a sorrir enquanto dava uma pequena batida com o indicador na ponta do nariz dela. - Vai lá pegar seu travesseiro que abriremos um espaço para você na cama.
- Ok! - E, com animação, Hoshi deixou o quarto, sentindo-se mais segura somente de ter a compreensão dos pais.
Enquanto isso, e somente suspiravam em alívio.
- Então... Você vai me soltar? - finalmente perguntou com uma sobrancelha erguida, fazendo cair na gargalhada.
- Não sei, você fica tão bonita assim, meu amor. - Ele respondeu claramente para provocá-la, apesar de já se levantar para soltar os braços de .
- Ah, sim. Queria ver você explicando para a sua filha o porque de ter amarrado os braços da mãe dela com o seu cinto. - A mulher tinha uma expressão óbvia no rosto, fazendo-o rir mais ainda.
Com os pulsos finalmente livres, ela suspirou e massageou levemente, observando as marcas avermelhadas contra a pele. enroscou os próprios dedos nos pulsos da esposa, sabendo do quanto ela gostava de quando ele fazia massagens nela.
- Amanhã quando a Hoshi for pra escola, você não me escapa. - sussurrou perto dos lábios da esposa, beijando-a logo em seguida.
E, quando Hoshi voltou para o quarto, encontrou os pais dando pequenos beijos entre risadas, enquanto massageava os pulsos de . Ela não entendia o contexto de tudo aquilo, mas eles pareciam felizes. E Hoshi desejava um dia ser tão feliz quanto os pais quando estavam juntos.

****


- Então, Hoshi, primeira coisa... E essa eu aprendi com a sua mãe. - Hosok piscou para a filha, colocando uma cadeira ao lado do fogão e ajudando-a a subir para que Hoshi conseguisse enxergar dentro da panela e ajudá-lo. - Precisamos colocar um alho na panela.
- Alho...? - E a menina franziu o nariz, fazendo cara de nojo. surgiu atrás de ambos com dois gomos de alho descascados, estendendo-os para .
- Eu sei que você não gosta, mas é isso que dá o gostinho diferente no fondue da mamãe. - A mulher piscou para a filha, plantando um beijo carinhoso na bochecha de Hoshi. - Você viu, ? Em cima da cadeira assim, ela está quase do seu tamanho!
- Nossa Hoshi já está virando uma mulher, meu amor! - respondeu com um sorriso orgulhoso para , piscando para ela ao ver o sorriso orgulhoso nos lábios de Hoshi. Ambos sabiam como a filha ficava feliz com aquele tipo de brincadeira. - O que vamos fazer quando a nossa pequena Hoshi já estiver grandona?
- Ah, eu não quero a minha pitiquinha saindo de casa tão cedo assim...! - comentou de maneira manhosa, abraçando a filha e apoiando a cabeça no pequeno ombro da menina. - Minha estrelinha vai aproveitar enquanto ainda é pequenina aqui conosco, não?
- Claro que vou, mamãe! Eu amo vocês dois um montão! - Hoshi segurou as mãos da mãe e só conseguia sorrir enquanto observava as duas.
Era engraçado. Anos antes, ele tinha um vazio dentro do peito que não conseguia preencher com nada. Era como se algo faltasse, como se a própria existência dele fosse vazia e sem significado para ele mesmo - tendo somente um significado para os fãs que o idolatravam muitas vezes como se fosse uma divindade na terra. Observando a esposa e a filha abraçadas daquela maneira, conversando com nada além de amor e cumplicidade, aquele vazio se preenchia com algo morno e aconchegante, algo que dava um sentindo maior para . Ele as amava incondicionalmente, até morreria por elas se fosse preciso. Durante sua trajetória como artista, sempre cantara sobre o amor, mas somente naquele momento entendia o que de fato era aquele sentimento que sempre tentara decifrar em versos cobertos de melodia.
- Papai...? - Hoshi chamou e saiu de seus pensamentos, olhando-a com atenção. - Você vai ficar passando o alho na panela por quanto tempo...?
E ele finalmente percebeu que estava fazendo aquilo por mais tempo do que o recomendável. e Hoshi imediatamente desataram a rir enquanto o telefone começava a tocar. deu um beijo no topo da cabeça da filha e foi atender o aparelho, deixando que ambos aproveitassem o momento juntos - afinal, ela sabia que quando desligava daquela maneira era porque estava pensando em algo muito importante, provavelmente relacionado à fama incomparável que ele vivera um dia.
- Alô? Ah, Lia! Sim, é a , tudo bem com você?
No que mencionou o nome da mulher, porém, Hoshi imediatamente parou de sorrir e olhou para a mãe com preocupação, praticamente se encolhendo em sua cadeira. estranhou a reação, lavando as mãos enquanto observava a filha prestando atenção na conversa da mãe.
- Não, não, estamos fazendo o jantar. Tenho um tempinho para falar sim, o que houve?
Hoshi abaixou a cabeça, fazendo franzir as sobrancelhas imediatamente. Com as mãos secas, ele parou em frente a filha e segurou gentilmente o queixo dela, fazendo a menina olhar em seus olhos novamente. Para a surpresa de , parecia que os olhos de Hoshi brilhavam mais do que o normal - como se estivesse tentando segurar uma série de lágrimas.
- O que houve, Hoshi? - Ele perguntou em uma voz afável, claramente preocupada. - Por que a minha estrelinha parou de brilhar tão de repente?
- Nada... - Hoshi respondeu silenciosamente, tentando abaixar a cabeça. Porém a fez levantar novamente, sempre de maneira gentil.
- Eu sou seu pai, minha querida. Você sabe que sempre pode contar comigo, não...? - Ele afagou carinhosamente os cabelos da filha, ganhando um pequeno sorriso de Hoshi. Aquilo fez com que ele mesmo sorrisse e, consequentemente, a filha sentiu a segurança que sempre tinha ao estar nos braços do pai.
- Tem um menino na escola, é o filho da tia Lia... - Hoshi suspirou, olhando por cima dos ombros do pai somente para ver a mãe em uma pose séria, quase como uma leoa pronta para atacar sua presa. - Ele fica me zoando durante as aulas. Começou a roubar meus cadernos, rabiscar as folhas, rasgar algumas páginas... Ele rasgou os desenhinhos bonitinhos que a mamãe fez nas páginas pra me manter companhia quando eu fosse estudar, sabe? Quando ela prende meu cabelo com fitinhas, ele fica desfazendo, jogando as fitas pra todos os lados, fica fazendo com que todos riam da minha cara, falando que eu não tenho talento algum... Fala que eu canto bem, mas ninguém vai querer me ouvir, porque... Porque eu não sou bonita.
Aquela confissão atingiu como uma tonelada de tijolos. Ele sabia muito bem como era não se sentir amado por uma multidão, como aquilo podia acabar com a própria auto estima. De todas as pessoas no mundo, a última que ele desejaria algo como aquilo era Hoshi. Queria poder protegê-la de tudo que fosse ruim - e queria ensiná-la a ser forte quando a vida exigisse aquilo dela.
- Minha pequena... Lembra que uma vez estávamos assistindo um vídeo de uma das minhas apresentações em um estádio enorme quando eu era mais novo? - perguntou, acariciando a bochecha de Hoshi. A menina se segurava para não chorar, concordando com a cabeça. - Naquela apresentação, no final, eu conversei com a platéia e todo mundo me ignorou. Todo mundo. Um estádio inteiro, Hoshi. Foi um dos piores sentimentos da minha vida. Uma semana depois, eu estava quase me matando de ensaiar e sorrir para sempre ser perfeito e talvez fazer com que as pessoas gostassem um pouco mais de mim. Sabe o que aconteceu?
Hoshi somente negou com a cabeça, no que deu um sorriso triste.
- Sua mãe apareceu no estúdio para me dar uma bronca fenomenal por ter sumido da vida dela por uma semana e cuidar de mim. E ela me ensinou que eu não preciso ser perfeito o tempo todo. Sabe o motivo? - No que ele perguntou, novamente Hoshi negou e, dessa vez, os olhos de se encheram de carinho. - Porque ela me ama. E isso é suficiente.
- Eu achei que todo mundo sempre te amou, papai. - Ela comentou baixinho, enquanto desligava o telefone e suspirava.
- O amor de uma multidão é muito diferente do amor de uma pessoa só. - Ele respondeu com um sorriso compreensivo. - E posso te dizer que nada se compara ao amor de uma pessoa. Todo o resto é trivial.
- Bom, a Lia me ligou para falar do que aconteceu... - comentou suspirando enquanto entrava na cozinha com as mãos na cintura. - Ela conversou com o filho hoje e ele contou tudo, depois que a orientadora da escola a chamou para discutir o comportamento dele. Ela me disse que ele queria vir aqui pedir desculpas.
No mesmo momento, um par de grandes olhos assustados se voltou para , como se implorassem à mãe para não ver o menino. A mulher sentiu o coração afundando no peito, porém sorriu para a filha.
- Eu disse que ia ver com você. Afinal, quem tem que conversar são vocês dois, não eu e um pequeno menino da sua idade. - Dizendo isso, se aproximou e segurou uma das mãos da filha. - Eu nunca vou te colocar em uma situação que você se sinta desconfortável, meu amor. Nunca vou te obrigar a fazer algo que você não quer. Quem tem que me dar autorização é você. Falei para a Lia que conversaria com você e depois diria o que você quer fazer, ok?
- Obrigada, mãe. - Hoshi deu um pequeno sorriso de volta. - Mas... Agora, eu queria...
E a menina caiu em silêncio. Sem que ela visse, segurou uma das mãos de , apreensiva com a situação. Ele sabia que ela estava abalada e não conseguiria lidar muito bem - bullying era um assunto muito sério e pessoal na vida da esposa e sabia que teria que tomar à frente naquele aspecto.
Mas faria o que fosse preciso pelas duas.
- Pode dizer o que você quer, Hoshi. Se quiser ir lá agora conversar com o menino, nós vamos. Se não quiser, vamos ficar aqui em casa aproveitando nossos filmes e depois lidamos com isso. - assegurou, afagando a mão de que apertou a dele como se agradecesse. - Não ficaremos desapontados com nenhuma das suas escolhas. Não há certo ou errado aqui.
- Eu queria... - E Hoshi levantou os olhos para ambos. - Eu queria aproveitar a noite com vocês, comer o fondue e esquecer um pouco disso, tudo bem?
- Tudo bem. - sorriu de volta, de maneira compreensiva. - Vamos conversar eventualmente. Mas não precisa ser agora, se você não está confortável.
- Ok. - Hoshi disse de maneira mais animada, sorrindo para ambos enquanto eles se colocavam um de cada lado da filha. Aquilo a fez franzir as sobrancelhas. - O que vocês estão fazendo...?
- Sanduíche de beijo! - anunciou e logo Hoshi estava sendo atacada pelos pais, cada um beijando uma bochecha da garota, enquanto tentavam abraçá-la da melhor maneira possível.
E aquilo a fez rir novamente.

****


parecia que tinha sido amassado e jogado dentro de um cesto de roupa suja somente para ser retirado de lá pela manhã. Os amigos do grupo o observavam preocupado enquanto ele se aproximava descabelado e mal podendo abrir os olhos, incomodado com a luz da manhã.
Sem prestar muita atenção neles, começou a procurar por algo pela cozinha toda. Em seguida, tentou buscar na sala de jantar, onde os outros tomavam seus cafés da manhã. Eles trocaram olhares enquanto andava sem rumo, parecendo somente uma casca de si mesmo.
- . - chamou, fazendo-o se virar confuso para o amigo. - Tá tudo bem? O que você precisa?
- Você viu meus analgésicos por aí...? - perguntou de maneira arrastada, quase ininteligível.
- Analgésicos? Mas você não tomou ontem à noite? - se levantou para checar o amigo, porém continuou sua busca sem rumo.
- Tomei, mas já deu o horário... - murmurou de volta. - Meus músculos das pernas estão me matando.
- Você devia pegar mais leve no treino hoje. - sugeriu, fazendo finalmente parar quieto.
Todos permaneceram em silêncio, trocando olhares. Fazia uma semana que fora ignorado pelos fãs no show quando pediu para que eles lhe respondessem e sabiam como aquilo o afetara. entrou em uma espiral de auto cobrança, vendo os comentários sobre ele no Twitter e Instagram, começando a ficar com neura de coisas simples e até impossíveis de se alterar - como a própria aparência.
- Eu vou tomar banho e vou pro estúdio. Compro o analgésico no caminho. - respondeu decididamente, parecendo mais acordado que antes.
- . - segurou o pulso do amigo, fazendo-o se virar. - Faz uma semana que você não vê a sua namorada, que você só fica enfurnado no estúdio ensaiando sem fim. Quantas horas você dormiu essa noite? Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa? Quando foi que você ligou para ela? A me mandou uma mensagem preocupada falando que você não está respondendo.
- Eu tô bem, . - se soltou do amigo. - Licença.

chegou ao estúdio de às dez horas da noite, no mesmo horário em que ele tentara marcar com ela quando se conheceram a primeira vez. Esperava que ele estivesse livre, porém o namorado nem respondera às mensagens dela.
De maneira resoluta, a moça comprara o jantar para ambos, pedir apara embalar para viagem e levou até o estúdio. descansaria e comeria junto com ela, por bem ou por mal.
- Boa noite, ! Não sabia que a senhorita vinha hoje! - O segurança a cumprimentou, liberando a catraca imediatamente para a moça.
- Ah, não? O não avisou? - Ela franziu as sobrancelhas quando ele confirmou que não. - Bom, pelo menos vai dar para eu fazer uma surpresa. Obrigada!
Mesmo assim, ela subia as escadas até o andar da sala de dança em silêncio, afundada nos próprios pensamentos. Mesmo quando não respondia às mensagens, deixava avisado para os seguranças liberarem a entrada de . Ela sabia que ele estava abalado com os acontecimentos dos últimos dias, mas começava a se preocupar cada vez mais. nunca se comportara daquela maneira e ela se perguntava até onde ele iria com aquilo.
- Ok! Vamos passar mais uma vez! - Ela ouviu a voz dele gritando de maneira animada na sala.
- Professor! Não é melhor darmos uma pausa? - perguntou enquanto ela caminhava pelo corredor, aproximando-se da porta. - O não come nada desde hoje de manhã.
- Eu consigo continuar, vamos! - Hosoek deu de ombros, retomando sua posição na sala.
Qualquer reclamação que pudessem fazer foi abafado pelo som da música sendo colocada novamente para ensaiarem. entrou furtivamente, colocando-se perto da porta para assistir ao ensaio e não atrapalhá-los. De fato, a apresentação estava perfeita. Eles estavam coordenados como sempre, perfeitamente colocados, com os movimentos executados sem defeito algum. Todo o esforço de dava para ser visto na maneira dedicada e apaixonada que ele dançava.
Entretanto, no meio da coreografia, a visão de começou a escurecer.
Ele não sabia o que estava acontecendo direito. Balançou a cabeça como se para espantar um pensamento ruim e continuou ensaiando, sem perder o ritmo. A visão, porém, começou a piorar - o tom negro tomando mais e mais o que conseguia enxergar. As pernas começaram a formigar e logo não estava sentindo direito as extremidades. Com movimentos cada vez mais lentos, não demorou um oito para que ele despencasse, sem força alguma para ajudá-lo a se manter em pé.
- ! - levou uma das mãos à boca enquanto os amigos paravam o ensaio e tentavam levantá-lo do chão.
mal tinha os olhos abertos, o corpo completamente mole e a boca tentando falar alguma coisa, porém sem conseguir formar frase alguma. deixou o pacote com o jantar em cima de uma cadeira e correu até eles.
- ! O que você tá fazendo aqui?! - E não sabia se tirava da comoção, se ajudava , se chamava um médico ou se ia se sentar em um canto tentando não incomodar quem efetivamente poderia ajudar naquela situação.
- Eu trouxe comida pra esse cabeça dura! - Ela parecia irritada, porém perceberam a preocupação da moça enquanto tentavam colocar sentado em um banco. Quando o acomodaram da melhor maneira que conseguiram, segurou o rosto dele com ambas as mãos. - !
E a voz dela o fez abrir os olhos, lentamente focando no rosto da namorada. ficou chocado em encontrá-la lá, porém não tinha forças suficientes para reagir de acordo, somente murmurando o nome dela.
- Não faça isso com você mesmo por pessoas que dizem que te amam, porém querem somente a sua persona perfeita em cima do palco! Você ficou louco? - O tom de voz dela demonstrava que estava sofrendo, apesar das palavras duras. focou nela novamente e viu uma lágrima escorrendo no rosto de . - Não gosto de te ver assim, ...! Não gosto de te ver sofrendo por gente que não vale a pena...!
- Desculpa. - Foi a única palavra que ele conseguiu murmurar, enquanto limpava a lágrima do rosto da namorada com mãos trêmulas. - Desculpa, meu amor.
E assim, apagou de uma vez.

Quando abriu os olhos novamente, sentia dedos delicados passando por seus cabelos, afagando-os calmamente. Conseguia ouvir a melodia suave de algumas músicas e, em seguida, alguém tomando um gole de algo. Ao olhar para frente, encontrou o rosto calmo de aproveitando a leitura de algum livro, enquanto a cabeça dele estava apoiada nas coxas da namorada.
- ...? - Ele perguntou de maneira cansada e rouca. finalmente voltou a atenção para ele e deu um pequeno sorriso.
- Oi, . - Ela tirou alguns fios de cabelo rebeldes da testa dele, voltando a fazer carinho na cabeça de . - Como você tá se sentindo?
- Melhor. - E ele fechou os olhos, aproveitando o toque dela. - Não 100%. Mas melhor.
- Ótimo. Você me deu um susto enorme. - Apesar das palavras, ele a encontrou sorrindo quando decidiu olhar novamente para .
- Desculpa... - Mas, antes que ele pudesse continuar a falar, levou o dedo indicador aos lábios de para silenciá-lo.
- Você já disse isso, . E eu te desculpo. Não precisa ficar repetindo, eu entendo o que te levou a fazer isso. - Com isso, se abaixou de maneira desajeitada para dar um beijo na testa dele, fazendo-o dar uma breve risada. - Vamos jantar? Você precisa comer um pouco.
- Ah, você trouxe comida? - se levantou vagarosamente, observando enquanto ia buscar as embalagens. - O que é?
- Comida chinesa, daquele restaurante que você gosta. - Ela entregou a embalagem de , deixando o hashi em cima da mesma e se sentando ao lado do namorado.
pensava em como ela era atenciosa enquanto abria o pacote. A comida ainda estava morna e ele não via a hora de comer algo - somente quando sentiu o aroma de comida chinesa é que notou como estava com fome. Comendo os primeiros pedaços de frango em tanto tempo sem colocar nada na boca, suspirou, olhando para a embalagem e descansando o braço no sofá.
- É muito difícil lidar com tudo isso. - Ele finalmente comentou, chamando a atenção da namorada. - Eu quero ser perfeito e fazer tudo direito, quero que os fãs apreciem meu trabalho e que eu seja reconhecido por isso. Ter que ficar no estádio sem ouvir nada... Se não fossem os outros caras começando a falar e rir em seguida como se nada tivesse acontecido, eu não sei se teria continuado a sorrir. Vi muitos comentários falando que eu não tenho habilidade alguma e outros falando que eu não sou bonito o suficiente para estar no palco. Várias vezes já não falaram comigo, porque não sou o “favorito” do grupo e cheguei a não receber nenhum presente em encontros com fãs... Eu sempre continuo sorrindo, mas a verdade é que... Sabe... Machuca.
- Eu sei, . - A mão de imediatamente encontrou a nuca dele, começando a massageá-lo. Ela conseguia sentir a tensão nos músculos de como se ele não descansasse há uma semana. - É difícil. Não consigo entender completamente, porque nunca levei essa vida maluca que você tem. Mas entendo um pouco e sei que é difícil pra você. Sei também que tudo que você fez essa semana foi para “compensar” qualquer falha que você pudesse ter, mas não acho que tenha nenhuma falha grave dessa maneira. Você é perfeito exatamente do seu próprio jeito, . E eu não queria que você fosse de alguma maneira diferente... Eu te amo por quem você é e por quem um dia você será. Meu amor só irá crescer e te acompanhar aonde quer que for.
observou durante alguns segundos, abaixando a cabeça em seguida e fechando os olhos. Ele não queria chorar, mas ficava feliz em ouvir aquelas palavras. Ele finalmente percebera que estivera se esforçando de maneira não saudável pelos motivos errados - e para as pessoas erradas. Não que suas fãs não merecessem seu melhor, muito pelo contrário. Porém, a pessoa que trazia o melhor de era - enquanto estivesse com ela, não devia temer ser alguém minimamente abaixo do perfeito, pois ela estaria lá de qualquer jeito para acompanhá-lo naquela jornada maluca que era a própria vida.
- Eu te amo, . - Ele finalmente disse, olhando para ela com os olhos laminados de lágrimas e um sorriso cansado nos lábios.
- Eu também te amo, . Aconteça o que acontecer. - E retribuiu o sorriso antes de beijá-lo calmamente.

****


- Não. Definitivamente não. Nós não vamos assistir filmes de terror! - não se demoveria daquela posição.
Já tinham arrumado o jantar em frente à televisão e estavam escolhendo qual filme assistir. A sugestão de um filme de terror viera de Hoshi e a mãe imediatamente vetara a idéia.
- Ah, mas é tão legal! Eu nunca assisti a um filme de terror de verdade! - A menina praticamente pulava no sofá ao lado da mãe. - Por que não?
- Porque depois quem vai ter que cuidar de você e do seu pai com medo, sou eu! - ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. - E eu também não sou a pessoa mais destemida dessa vida com filmes de terror!
- Eu sou corajosa! - Hoshi respondeu fazendo biquinho e olhando para os pais de maneira apelativa.
- Podemos assistir A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. - sugeriu, procurando pelo filme na televisão. Sabia que adorava aquele filme e ele mesmo já tinha assistido algumas vezes com ela, portanto já não tinha medo. - Vi algumas críticas falando que é realmente assustador. Acha que a Hoshi aguentaria...?
- Hmmm, não sei... - considerou, sabendo exatamente o que o marido estava fazendo. - Nunca assisti, então pode ser bem assustador para a idade dela.
- Ah, eu quero assistir! Por favor! - A menina se animou entre os pais, dando pulinhos no sofá.
- Ok. - finalmente cedeu, ganhando comemorações tanto de quanto de Hoshi. - Então vamos todos dormir na nossa cama de casal hoje?
- Você vai ver, mãe! Não precisarei dormir com vocês! - Hoshi comentou de maneira animada enquanto o filme começava com sua música espectral na televisão.
e somente trocaram olhares por cima da cabeça de Hoshi, reprimindo as risadas que queriam dar. Continuaram falando durante o filme e comentando tudo que viam de errado na produção para acalmar a filha quando percebiam que ela estava apreensiva - mesmo assim, Hoshi não se demoveu de assistir ao filme, aguentando até o fim.
- Viu? Não é tão assustador assim! - comentou ao final do filme, porém notou o olhar um tanto ansioso de Hoshi. Sem pestanejar, ele abraçou a filha, trazendo-a mais para perto de si e aninhando-a contra o peito enquanto ela fechava os pequenos braços em volta da cintura dele. - Não se preocupa que eu estou aqui pra te proteger de qualquer coisa ruim, Hoshi.
- Principalmente cavaleiros com cabeça de abóbora. - piscou para a filha, pegando o controle da televisão. - Devemos assistir outra coisa agora para descontrair um pouco? Acho bom.
- Ah, a cabeça de abóbora não foi tão assustadora... - Hoshi suspirou, apesar de se aconchegar mais contra . Ele começou a afagar a cabeça da filha com carinho, enquanto ela sorria com a idéia genial que acabara de ter. - Mas acho que sei o que podemos assistir agora!
- Pode falar que eu procuro aqui. - respondeu já em prontidão para buscar o que quer que Hoshi sugerisse. Se a menina quisesse assistir desenhos animados durante uma hora, nenhum dos dois iria reclamar.
- Um dos shows antigos do papai! - E ela se sentou toda animada enquanto começava a comemorar a escolha maravilhosa junto com a filha e rolava os olhos, um sorriso envergonhado nos lábios.
- Vocês não querem realmente...
- Queremos! - As duas responderam juntas, praticamente pulando no sofá, somente para trocarem olharem cúmplices e dar risada.
- Lembre-se que eu sou sua fã número um! - Hoshi ergueu os braços, enquanto buscava por um dos shows de na televisão.
- E a sua mãe é o quê? - Ele tinha um sorriso brincalhão nos lábios enquanto se levantava do sofá.
- Ah, ela já é outra categoria, pai. Ela casou com você! - No que a menina comentou, imediatamente sentiu as bochechas corando enquanto colocava o show e ouvia a multidão gritando com a introdução. - Ei! Aonde você vai?
- Buscar as sobremesas! Ou alguém não quer comer o seu bolo favorito? - Ele piscou para a filha, fazendo-a ficar radiante.
- Você é o melhor pai do mundo! - Hoshi praticamente gritou enquanto ia até a cozinha, rindo com a animação da menina.
já tinha separado os pratos para levar à sala. Enquanto pegava a sacola e os talheres, equilibrando tudo para levar até elas, ouviu uma de suas músicas começando de maneira estrondosa, uma abertura grandiosa para um show igualmente grandioso - uma maratona que ele se acostumara tanto a fazer. fechou os olhos durante alguns segundos, respirando fundo: lembrava-se claramente do sentimento antes de entrar no palco, os momentos de frio na barriga, a euforia de ir às luzes dos holofotes e ouvir uma multidão gritando seu nome enquanto ele fazia o que mais gostava.
era eternamente agradecido por ter vivido aquilo, nunca iria negar. Atingira todos seus sonhos - e voou até muito mais alto do que tinha imaginado. Conquistara o mundo, vivera como um deus no mundo de mortais. Se sentia falta daquilo? Daquele sentimento todo de adrenalina, de subir em um palco e cantar com a maior facilidade do mundo? Sim. Sentia. Mas nada substituía a paz e a vida que tinha no momento: a vida era feita de fases. Aquela passara na vida de , e ele estava extremamente agradecido por tê-la vivido. Agora, precisava aproveitar outra.
Chegando na sala, porém, não pôde deixar de começar a sorrir: estava em pé, com Hoshi batendo palmas animadas, enquanto cantava a música apaixonadamente e imitava todos os passos que ele fazia na televisão.
- Mãe! Você é incrível! - A menina torcia enquanto a mulher dançava animadamente. - Não sei como o papai não te encontrou no primeiro show! Você é perfeita!
- É muito difícil enxergar o rosto das pessoas de cima do palco. A luz é muito forte e quase te cega. - analisou enquanto deixava todas as coisas em cima da mesa. imediatamente parou de dançar, colocando as mãos na cintura e observando o marido com um sorriso. - Mas eu senti que estava esquecendo de algo quando fui embora do país dela.
- E depois ele me achou. - comentou com uma paz que Hoshi somente notava na voz dela quando contavam aquela história. - Eu sabia que eventualmente ele ia me encontrar.
- Estava escrito nas estrelas, meu amor. - respondeu de maneira dramática, piscando para ela, da mesma maneira que fazia quando estava na frente das câmeras e precisava ter reações exageradas. Naquele momento da sua vida, era mais raro fazer brincadeiras como aquela, mas Hoshi ficava imediatamente hipnotizada pelo pai, divertindo-se como nunca... Exatamente como os fãs ficavam na época em que ele tinha câmeras por todos os lados captando cada reação.
nunca perderia seu charme, sabia daquilo. Era algo com o qual ele crescera e se tornara um homem, algo que ele jamais conseguiria deixar de lado - e algo naquilo a fazia ter um carinho ainda maior por ele.
- Vocês podem dançar juntos? - Hoshi perguntou em expectativa e ambos ficaram encarando a filha durante alguns segundos sem saber bem o que responder. - Meus amigos da escola não acreditam que vocês realmente fazem tudo isso, principalmente que é o papai em todos esses vídeos! Queria mostrar pra eles que é verdade!
considerou durante alguns momentos, lembrando-se do que descobrira sobre o bullying que a filha sofria. Ele normalmente era uma pessoa calma e falava que ela tinha que resolver os problemas com calma, objetividade e sem ser agressiva com os coleguinhas.
Mas era o mesmo homem que havia escrito mais de quatro músicas somente para calar a boca dos haters em relação ao sucesso dele. Se um vídeo dele dançando seria o suficiente para fazer Hoshi ser mais respeitada entre seus colegas, era exatamente isso que ele daria.
- Ok, vamos lá...! - Ele comentou com uma breve risada enquanto Hoshi comemorava alegremente no sofá, pegando o celular da mãe para começar a filmar.
- Mas assim de repente, ? Faz tempo que eu não ensaio... - A mulher começou a dizer de maneira insegura, mas, no mesmo momento, o marido parou ao lado dela, jogando os cabelos para trás e piscando para .
- Não se preocupa, amor. Eu estou junto, então nada vai dar errado, ok? - Ele perguntou com um meio sorriso convencido nos lábios, dando um peteleco brincalhão no nariz da esposa.
Era incrível. A maneira como mudava da própria personalidade para a sua persona pública, algo que ele fazia com maestria e tão rapidamente. Repentinamente, ele ficou duas vezes mais intimidador, com uma energia completamente diferente da aura aconchegante de sempre. O olhar dele queimava como o fogo, a postura era altiva e ele segurava o controle da televisão como um microfone, dando um para . Ela mesma respirou fundo, lembrando-se das poucas vezes que cantara com e das mais raras ainda que se apresentara com ele. Sorrindo, olhou para o celular da mesma maneira que olharia para uma câmera em um programa de televisão.
Hoshi estava boquiaberta. A menina não conseguia se mexer, somente assistir ao show que ambos davam, cantando juntos, dançando de maneira completamente sincronizada, como se realmente estivessem em um palco. Havia um sentimento de cumplicidade, como se ambos estivessem em um lugar que viveram durante muito tempo, revisitando-o com alegria após tantos anos. e cantaram um para o outro, para Hoshi e para uma platéia imaginária.
E, quando terminaram, estavam suados e ofegantes.
- Vocês dois são incríveis! - Hoshi terminou de gravar, batendo palmas em seguida e correndo para abraçá-los. - Por que não fazem isso quando os pais se reúnem para falar dos trabalhos e fazer demonstrações nos dias dos pais? Seria muito mais interessante do que passar horas ouvindo sobre contabilidade aplicada!
- Seria injusto com os outros pais, não é mesmo? - perguntou enquanto abraçava a filha, fazendo-a dar uma risadinha sapeca. - Mas não vejo problema em mostrar esse vídeo para os seus amigos.
- Ah, vai ser tão legal! - Hoshi imediatamente deu um beijo estalado na bochecha do pai. - Obrigada! E obrigada, mamãe!
Dizendo isso, a menina ficou na ponta dos pés, no que abaixou para que ela a beijasse. Correndo para o sofá a fim de mandar o vídeo para o próprio e-mail, Hoshi se ocupou do aparelho - e em repetir o vídeo várias vezes - enquanto os pais arrumavam a bagunça na sala para ficar mais fácil de lavar os pratos no dia seguinte.
E, quando terminaram tudo, Hoshi estava adormecida no sofá com o celular em mãos.
- Eu a levo pro nosso quarto. - comentou enquanto tirava o celular da menina com cuidado e devolvia para . - Já volto.
A mulher somente concordou com a cabeça, observando pegar Hoshi no colo como um pequeno cristal que poderia quebrar se não fosse manuseada com extremo cuidado. Suspirando, ela pegou seu copo de vinho e foi para a varanda, apreciar o ar levemente gelado da madrugada. Era engraçado como sua vida tinha mudado e tudo passara a ser o que ela podia considerar como perfeito. Claro, tinha seus altos e baixos, mas, pesando tudo, a vida que levava naquele momento não podia ser melhor - se fosse, provavelmente seria tão bom que começaria a ser ruim, em um estranho paradoxo que intelectualmente nem ela entendia direito, mas o coração sabia ser verdade.
- Aproveitando o fim do dia...? - perguntou de maneira preguiçosa, apoiando-se na varanda ao lado da esposa, o próprio copo de vinho em mãos.
- Sim, sim... - respirou fundo, fechando os olhos e deixando um breve sorriso surgir no canto dos lábios. - A vida é boa.
- Sim, a vida é boa... - Ele deu uma breve risada, contente ao ouvir aquele comentário. Em seguida, enlaçou um dos braços na cintura de , puxando-a mais para perto de si. - E é melhor com você aqui.
Ambos permaneceram em silêncio durante algum tempo, observando as luzes da cidade que cintilavam como milhares de estrelas no escuro firmamento. Era uma bela visão e palavras somente estragariam o momento. Ficaram por lá provavelmente mais do que o recomendável, mas nenhum dos dois sentia vontade de se mover. Talvez o tempo realmente tivesse parado por alguns momentos e puderam aproveitar um pouquinho do que seria a eternidade.
- ... - finalmente chamou, no que ele somente resmungou de volta. - Queria te pedir uma coisa muito importante...
- O que foi, ? - olhou para a esposa, segurando-a em seus braços de frente para ele, sabendo que o assunto era importante. - O que você precisa?
- Esse problema da Hoshi com bullying... Preciso que você dê bastante suporte para ela. - suspirou, franzindo um pouco as sobrancelhas. - Não que eu não consiga dar, muito pelo contrário. Vou fazer o meu melhor e ser o que ela precisa que eu seja, mas sinceramente... Eu passei pelo mesmo, então é algo muito próximo para mim. Fico angustiada de saber que minha filha tem o mesmo problema e, de verdade, quero orientá-la a virar um belo soco no nariz do coleguinha idiota que a maltrata, mas não posso fazer isso.
- Provavelmente quem seria enviada à orientadora seria você, minha pequena briguenta. - respondeu com um leve sorriso nos lábios, fazendo-a imitar a reação apesar de rolar os olhos.
- Exatamente. Eu tenho que dar um exemplo melhor para a minha filha. - suspirou, balançando a cabeça. - Preciso de você. Preciso que você me dê apoio e seja o suporte da Hoshi quando eu não puder ser. Desculpe por isso...
- Ei, ei... - a cortou imediatamente, dando rápidos beijos na testa da esposa. - Sem ficar pedindo desculpas por algo que não é sua culpa, ok? Eu entendo, . Além disso, a Hoshi é nossa filha, não é exclusiva de um só. Eu tenho que dar apoio a ela e, quando você estiver mal, tenho que fazer o mesmo pela minha esposa. É isso que é ser uma família, não?
- Acho que sim. - Ela deu um pequeno sorriso, enlaçando os braços na cintura de . - Não tenho as respostas para tudo.
- Ninguém tem. Tudo que temos é fazer o melhor com o que nos foi dado. - Ele desceu os lábios para plantar um beijo na ponta do nariz de , fazendo-a dar uma breve risada antes de descer aos lábios dela.
Era um beijo calmo, sem pressa. Sem precisarem se esconder, sem necessidade de correr. Algo que aprenderam a apreciar depois de tanto tempo juntos. Algo que lhes trazia paz.
- Eu vou sempre cuidar de vocês, meu amor. - murmurou para , sem desgrudar completamente os lábios da esposa. - Sempre. Não importa o que aconteça.
- E eu sempre estarei aqui para vocês. - respondeu com um breve sorriso, entrelaçando os dedos com os de . - Vamos dormir? A Hoshi vai se assustar se acordar e não estivermos lá.
- Claro. Vamos dormir. - Ele concordou com um sorriso cansado, porém satisfeito.

****


- Você algum dia já imaginou como será sua vida daqui dez anos? - perguntou repentinamente, brincando com os dedos de .
Ele franziu as sobrancelhas, ainda observando o teto branco do hotel de luxo em que se encontravam. finalmente fora autorizado a tirar férias e, sinceramente, marcar aquela viagem com fora pior que um parto.
Não podiam saber que eles estavam namorando - seria melhor até que o mundo nem desconfiasse que passavam qualquer tipo de tempo juntos quando estavam a sós - então os problemas deles já começaram aí. quase tivera uma síncope nervosa quando começaram a empilhar vedações atrás de vedações somente porque ele dissera que queria “passar um tempo legal com a namorada dele em alguma cidade da Europa para descansar”.
Dor de cabeça foi apelido comparado ao que ele sentiu. Tiveram que pesquisar cidades em que provavelmente não sabiam da existência dele, em que fãs não o veriam andando pela rua com , checar a segurança quinhentas vezes, contratar membros de staff e seguranças para segui-los a uma distância razoável, comprar passagens em um vôo de maneira sigilosa e pagar mais caro para que não alardeassem que ele estaria naquele vôo e - provavelmente o mais desgastante de todos - tiveram que ouvir praticamente uma cartilha do que poderiam fazer em público ou não.
Beijos, abraços e toques de qualquer espécie estavam terminantemente proibidos. Não podiam correr o risco: se alguém os visse juntos, se alguma foto ou vídeo vazasse, pelo menos estariam andando um ao lado do outro e podiam dizer que eram amigos. Tinham que tomar cuidado no hotel também e evitar dormir no mesmo quarto.
Regra essa que quebraram no primeiro dia.
Portanto, lá estavam e , deitados na cama do quarto dele, com a cobertura somente do lençol em seus corpos, apreciando o teto com olhares distantes e, por muitas vezes, observando o céu estrelado pela janela que deixaram aberta para sentir a brisa do verão resfriando o quarto.
- Dez anos? - perguntou de volta um tanto surpreso. - Ah, ! Essa é uma pergunta difícil!
- E aparentemente muito comum em entrevistas de emprego. - Ela deu uma pequena risada de volta, aconchegando-se contra o corpo morno de . Não sabia dizer exatamente o motivo, mas ser abraçada por ele a fazia se sentir segura. - De alguma maneira, com a nossa idade, você deve ter um plano delineado para os seus próximos dez anos e saber exatamente o que quer da vida.
- Mas eu não sei nem o que quero comer no meu café da manhã...! - Apesar da exclamação, a voz dele estava séria. não conseguia deixar de achar engraçado. - Entrevistas de emprego não fazem muito sentido.
- Nem um pouco. Você tem sorte de não ter que passar por isso... - Ela suspirou, como se estivesse cansada. Imediatamente, começou a afagar os cabelos da namorada.- Eu sempre tinha dificuldade de responder. Sabia que, em dez anos, queria ser feliz, bem sucedida, com uma fonte de renda estável, um namorado carinhoso... Mas, em geral, queria ser feliz.
- E essa não é a melhor resposta? - Ele estava confuso. Parecia óbvio que qualquer ser humano no mundo só quer ser feliz.
- Não sei. Aparentemente não. - deu de ombros, suspirando. - Existem tantas possibilidades. É engraçado como conseguem definir o certo ou o errado em uma pergunta que não tem nenhum desses pontos absolutos.
- Provavelmente esperam que você siga um padrão pré-definido. Você só não se encaixou no padrão exigido pela sociedade. - comentou de maneira displicente. Não via nenhum problema na resposta de e achava que era a melhor que podia dar. Afinal, quem não queria ser feliz em dez anos? - Mas você sempre foi muito segura, . Você sempre é dessa maneira, não?
jamais poderia ter previsto que começaria a chorar com aquela pergunta. Silenciosamente no começo, até ele sentir as lágrimas que escorriam do rosto dela até a própria pele.
- Eu tomei muitas decisões que ninguém apóia, . Segui um caminho que a minha família discorda e estou tentando provar todos errados enquanto monto a minha própria vida, nos meus próprios termos. Eu não tenho segurança de nada. - fez uma pequena pausa, como se ela mesma precisasse absorver aquelas palavras. - Absolutamente nada. Não tenho certeza das minhas escolhas e tenho muito medo de fazer algo errado. Mas, né... Se eu não tiver segurança nas minhas próprias atitudes, quem mais terá? Preciso pelo menos fingir para me respeitarem um pouco... É isso. - Ela suspirou, secando um pouco as lágrimas. - Essa é a minha segurança.
- Ei, é muito mais do que a de muitas pessoas. - chamou a atenção dela, abraçando-a com carinho contra o próprio corpo. respirou fundo enquanto continuava a derramar algumas tímidas lágrimas. - Eu também tenho muito medo de fazer algo errado. Qualquer passo em falso que eu der pode acabar com a minha carreira. Vir aqui com você foi muito arriscado e não sei se foi a melhor coisa a se fazer. Mas é o que você disse: eu estou feliz... E quero continuar dessa maneira. Vou fazer de tudo para não termos problemas na viagem e não sei o que acontecerá com nós dois... Mas na vida temos que tomar certos riscos, não?
- Temos, temos sim... - suspirou, abraçando com mais força, a respiração mais calma. - Ou eu não teria me arriscado a conhecer você.
- Afinal, eu podia ser um serial killer qualquer, não é mesmo? - Ele perguntou de volta, fazendo-a rir imediatamente.
Apesar da calma que se seguiu, aquele momento ficou marcado na memória de . Era a primeira vez que ele via chorando com tanta sinceridade - e ele queria protegê-la. Da mesma maneira que ela cuidava de todos os aspectos obscuros da alma dele, queria fazer o mesmo por . Queria tê-la em seus braços e garantir que tudo estaria bem.
Foi a primeira vez em toda a sua juventude que se imaginou dez anos mais velho, com alguns filhos pequenos, ao seu lado e uma vida sem holofotes.
Era algo diferente, inesperado e completamente assustador. Mas uma visão confortável com a qual ele poderia se acostumar.

****


Quando voltou do banheiro, já em seu pijama, encontrou acabando de colocar as meias nos pés de Hoshi para que a filha ficasse quentinha. A própria mulher estava de pijama, pronta para dormir - o vinho começava a mostrar seu efeito na maneira em que ela bocejava enquanto terminava a tarefa de trocar a roupa da filha.
- Tudo pronto? - perguntou e somente confirmou com a cabeça. Ele apagou a luz de um do abajur principal, deixando acesa somente a luz do criado mudo ao lado da cama dele.
Enquanto dobrava as roupas que usara para sair e as deixava em cima da cadeira de roupas para lavar, observava enquanto se enfiava embaixo dos cobertores cuidadosamente, abraçando Hoshi como um bichinho de pelúcia. Ele sorriu: desde que a conhecera, não conseguia dormir sem abraçar alguma coisa e, durante muitos anos, fora abraçado toda noite por ela. Quando tiveram Hoshi, vira e mexe a menina ia até a cama deles e imediatamente a abraçava, ambas parecendo dois ursinhos aconchegados um no outro.
Ele lembrava muito bem de uma vez em que fizera alguns shows depois de Hoshi já ficar um pouco maior e assegurar que conseguia lidar bem em cuidar da filha sozinha por algum tempo. ficara meses sem ver as duas pessoalmente, conversando somente por ligações de vídeo. Quando chegou em casa, durante uma madrugada, encontrou dormindo com uma blusa dele como pijama e Hoshi nos braços, além do celular nas mãos. As duas estavam esperando por ele - e não conseguiu se sentir mais completo do que quando constatou aquilo.
- Posso apagar as luzes hoje, mamãe urso? - perguntou com uma leve brincadeira na voz, fazendo sorrir de olhos fechados enquanto Hoshi se aninhava contra o peito da mãe.
- Pode. Mas só se você me abraçar, papai urso. - Ela respondeu de maneira sonolenta, suspirando em seguida enquanto se deitava ao lado dela, estudando como a abraçaria sem machucar Hoshi. - Hmmm... Prometo não te acordar no meio da noite pedindo para que você me faça doces.
- E por que você faria isso? - Ele deu uma breve risada enquanto ela se aconchegava com Hoshi contra o corpo do marido. afagou os cabelos de como podia quando estava confortavelmente embaixo dos cobertores quentinhos. - Você tá com desejos de novo, é isso?
- Hmmm, não sei... - respondeu sonolenta, as mãos fazendo carinho na filha cada vez mais lentamente. - Talvez...
Com isso, fechou os olhos, tentando não se animar muito com a perspectiva do que aquilo poderia significar. Afinal, talvez ela só estivesse com a simples vontade de comer algo e nada de mais.

****


A primeira vez que resolvera cozinhar qualquer coisa para que não fosse um miojo fora um completo desastre.
Era engraçado até. Ele participara de diversos programas de cozinha, até que fizera algumas coisas boas para os amigos, mas parecia que agora - morando junto com ela, com a própria casa, os próprios utensílios, sem o auxílio de uma equipe para tirar as dúvidas dele em um piscar de olhos - não sabia nem qual tipo de colher tinha que usar para colocar a farinha na batedeira.
Sim. Eram três da manhã e ele estava colocando farinha na batedeira.
Provavelmente seria uma boa idéia dar chocolate para os vizinhos com um recadinho de “desculpe pelo barulho” no dia seguinte.
Mas aquela era a melhor solução, sinceramente. A primeira vez que acordara no meio da noite com desejos incessantes de doces, não acordara . Ficou com dó do marido e queria que ele dormisse em paz, portanto seguiu para a sala e ficou assistindo uma maratona de reprise de uma novela famosa na juventude deles enquanto comia colheres e mais colheres de sorvete. Direto do pote.
não sabia se dava bronca por ela colocar a mesma colher que colocava na boca dentro do pote de sorvete inteiro, se perguntava se estava tudo bem, se dava bronca porque aquilo certamente não devia ser saudável para uma mulher grávida, se sentava ao lado dela para aproveitar a novela e tomar sorvete ou se voltava a dormir. No final, os dois acabaram rindo, conversando em seguida sobre aquela maluquice noturna.
Doces com calda de flor de laranjeira. Era esse o desejo de - mais exótico impossível - e tinha certeza que não conseguiria achar nada no meio da madrugada.
E ainda tiveram que acabar com o pote inteiro de sorvete.
Duas semanas depois, ela ficou com a mesma vontade perto das onze e meia da noite. Sem nem se dar ao trabalho de tirar o pijama, foi ao supermercado mais próximo só para constatar o óbvio: não havia nada com aquela especificação. Infelizmente, ela teria que se contentar com um bolo simples e, como sempre, sorriu e não reclamou - comendo quase metade do bolo em uma noite.
Mas resolveu se preparar. Da terceira vez, ela acordara uma hora da manhã e foi para a sala. Já acostumado com os sumiços da esposa durante a gravidez, também acordou e a seguiu para checar se estava tudo bem.
- Ah, eu te acordei...? Desculpa. - comentou com expressão de sono, embrulhando-se em um cobertor no sofá.
- Não tem problema. - somente deu um pequeno sorriso de volta. - Tá tudo bem? Alguma coisa que eu posso fazer...?
- Bom... Eu não sei... Tô me sentindo meio estranha... - Ela franziu as sobrancelhas enquanto ele se abaixava ao lado da esposa. - Meio com fome... E enjôo. Não conseguia dormir direito.
- Fome? - ergueu uma sobrancelha, fazendo-a rir imediatamente.
- A minha estranha vontade de comer doces de flor de laranjeira em horários inconvenientes. Desculpa, . - deu de ombros, fechando um pouco os olhos ao rir por causa da cara de sono.
- Não tem que se desculpar. - E ele deu um beijo na testa dela, sorrindo junto com a esposa enquanto se levantava. - Hoje eu posso resolver o seu problema. Da última vez, cacei a tal da água de flor de laranjeira e estoquei. Pode deixar que hoje você mata a sua vontade.
- Nossa filha não vai nascer com cara de flor de laranjeira?! - perguntou em expectativa, apoiando-se nas costas do sofá para observá-lo enquanto ele ia até a cozinha. Aquilo fez dar uma alta risada.
- Não! Ela vai nascer linda que nem você!
E lá estava ele.
Três e meia e a casa estava cheirando a bolo recém assado. ficou preparando a calda da maneira que vira que tinha que ser feita no youtube para ficar com o gosto que ela queria, tomando cuidado para não abusar dos ingredientes. Não queria que ficasse com desejos, mas também não queria dar algo que pudesse fazer mal à saúde dela.
A verdade, é que não tinha idéia do que estava fazendo. Não sabia como cuidar de grávida, não sabia se seria um bom pai e, às vezes, acordava ansioso no meio da noite. Ele era um artista, vivera a vida inteira por aquilo. teve que ensiná-lo a pagar um boleto, porque da primeira vez que ela pedira aquele favor, teve tanta dificuldade de descobrir por onde pagar que atrasou dois dias até ela finalmente perguntar da conta e mostrar para ele as diversas possibilidades de pagamento de boletos.
Além de que contas diferentes tinham especificações diferentes, podiam ser pagas em locais diversos, algumas não eram aceitas por aplicativos e estava ficando louco enquanto explicava tudo aquilo como se fosse a coisa mais simples. Era simples, mas ele nunca tivera que fazer aquilo.
Quando ele tentou fazer a sua primeira planilha de contas e planejamento de orçamento familiar, entrou em síncope. ficou sentada com ele explicando tudo de maneira extremamente paciente durante duas semanas, só para mostrar que já tinha feito uma em menos de quatro horas e ele não precisava se preocupar.
Se ele não conseguia fazer aquilo, como poderia ser um bom pai? estava tentando, queria se esforçar ao máximo para ser um cara normal, uma boa pessoa para ter se casado e escolhido para começar uma família - mas, na opinião dele, até aquele ponto, havia sido um desastre.
Pelo menos o bolo e a calda ficaram bons, apesar da demora.
- Hmmm, tá com um cheirinho bom, ...! - Ele ouviu se manifestando enquanto levava as coisas para a sala. A mulher estava praticamente dormindo já, porém ficou mais atenta assim que começou a farejar a comida. - Você cuida tão bem de mim...
- Ah, imagina... - suspirou, começando a corar enquanto deixava as coisas na mesa de centro e a esposa se ajeitava no sofá. - Só espero conseguir cuidar de vocês duas direitinho mais pra frente.
observou o marido durante algum tempo enquanto ele servia o bolo e a cobertura para ela. Pendendo a cabeça para o lado, ela notou que tinha a mesma expressão de preocupação que tinha quando estava prestes a apresentar algo novo que nunca tinha tentado antes e não sabia como ia ser a recepção dos fãs. Aquilo a fez escorregar no sofá até se encontrar sentada no chão ao lado de , chamando a atenção dele - que logo já ia falar para que ela subisse de volta no sofá.
- . - Mas segurou o rosto dele com ambas as mãos, de modo que ele não conseguia fugir do olhar da mulher. - Eu também estou com medo. Nunca tive esse tipo de vida e, apesar de escolher casar com você e começar essa aventura, não sei muito bem o que estou fazendo. Talvez eu seja uma boa mãe, talvez eu não seja, mas vou me esforçar ao máximo para que seja boa. E você... De verdade, são o quê? Três e meia da manhã e você me fez bolo com calda de flor de laranjeira pra acabar com o meu desejo insuportável de comer isso daí nos horários mais remotos? Imagino o que você vai fazer pela nossa pequena! Ninguém nasce preparado para ser pai e ser responsável por uma criança, mas pelo que conheço de você... Acho que vai fazer um bom trabalho. Não perfeito. Mas muito bom.
imediatamente começou a sorrir, envolvendo nos braços e dando um longo abraço na mulher. Ela fechou os olhos, somente aproveitando o cheirinho de bolo que estava impregnado nos cabelos do marido após aquela aventura da madrugada. Jurava que podia dormir exatamente daquela maneira e teria uma ótima noite de sono.
- Ei. Você não queria bolo...? - perguntou para provocá-la assim que percebeu que estava relaxada demais em seus braços.
- Ainda quero. Mas no momento estou aproveitando algo muito mais gostoso que bolo. - E ela respondeu sem se soltar.

****


Na manhã seguinte, acordou antes que a esposa e a filha. Encontrou-as dormindo abraçadinhas, em um sono tranquilo. Sem querer incomodá-las, fez o máximo para se levantar com cuidado para que permanecessem naquele estado, fechando a porta do quarto assim que saiu.
Na cozinha, começou a preparar seu café, questionando-se o motivo de não ter lavado a louça na noite anterior. Ele e disseram que lavariam no dia seguinte para não ter que fazer aquilo no momento - mas, agora que o outro dia tinha chegado, ele estava levemente inclinado a deixar a louça acumular para depois do almoço.
Com o aroma de café quente se espalhando pela cozinha, fechou os olhos durante alguns segundos, aproveitando a calmaria da manhã. Não podia se esquecer de anotar em algum lugar que tinha que falar com no dia seguinte sobre a música nova que estavam produzindo, além do outro grupo que a empresa decidira investir e estavam dando todo o suporte necessário. Sim, era fim de semana, mas ele se acostumara a não ter dias definidos na própria semana, sendo todo dia um dia de trabalho.
dera diversas broncas nele por causa daquilo. Ela mesma quase acabara internada no hospital por dedicar-se demais ao próprio trabalho e aprendera que saber balancear a vida pessoal e a vida profissional era algo necessário. não tinha aquilo quando a conhecera - a vida dele era a vida profissional. Ele mesmo se confundia com a sua persona pública e sentia que não havia nada que pudesse salvá-lo daquilo.
Durante muito tempo, dependera da ajuda de para manter-se são naquele mundo intenso no qual ele vivia - agora, muitos anos depois, aprendera a caminhar com os próprios pés e sem precisar segurar a mão dela para permanecer estável. conseguia andar ao lado de , de maneira decidida.
Pegando sua xícara de café, sorria ao pensar naquilo. Apesar de tudo, era o que ela tinha dito na noite anterior: a vida era boa. Com seus altos e baixos - pensamentos de trabalho nos fins de semana - mas, em geral, boa. Distraidamente, ele procurava um bloco de notas que sempre deixavam na cozinha para não esquecer o que precisava fazer no começo da semana - mas não tinha muita pressa.
Quando se virou, porém, deu de cara com Hoshi e sentadas à bancada no centro da cozinha, olhando para ele de maneira sonolenta e atenta. somente ergueu uma sobrancelha.
- Queremos o achocolatado das coisinhas crocantes. - Hoshi comentou e ambas imediatamente começaram a sorrir, da mesma maneira, perfeitamente coordenadas.
- E posso saber por que eu tenho que fazer? - colocou uma mão na cintura, apesar de sorrir para as duas.
- Porque o jeito que você faz é o melhor de todos. - apoiou a cabeça em uma das mãos, fechando os olhos enquanto aumentava o sorriso. Hoshi concordou com o máximo de animação que podia em sua sonolência.
- Ok, então, dois chocolates pras minhas coisas mais lindas! - Ele se virou animado para a geladeira a fim de pegar o leite enquanto ambas comemoravam atrás de .
Após alguns minutos, com os chocolates em mãos e apoiado na bancada da cozinha tomando seu café, Hoshi comentava animadamente sobre o show deles na noite anterior enquanto contava alguns feitos dela e de antes da menina nascer.
Observando-as naquela manhã, o dourado do sol matinal colorindo a casa e a família que ele prezava tanto, mal ouvia o assunto enquanto sorria e deixava seu peito ser tomado por um sentimento de agradecimento que ele não tinha há muito tempo. Ele aprendera a caminhar e continuar a vida de maneira independente graças àquela mulher que agora brincava com a filha deles, como se nada no mundo importasse mais do que aquilo - nem o próprio tempo. Ela o ajudara a se recuperar e a encontrar a si mesmo - já tão perdido na persona que construíra e fundira à sua real personalidade durante tanto tempo. Ela ajudara a dizer “está tudo bem” de coração, a perceber que o sol brilha de maneira mais forte após os dias mais escuros.
- Ah, ... - disse repentinamente, fazendo-o prestar atenção novamente no assunto. - Eu preciso que você vá até a farmácia comprar algo para mim mais tarde.
- Por quê? - Ele imediatamente se preocupou, deixando a xícara de café em cima da bancada e se aproximando da mulher. Hoshi apoiou as duas mãos nas coxas da mãe, ansiosa para saber o motivo, afinal morria de medo que algo acontecesse com os pais.
Porém somente sorriu.
- Eu estou com vontade de comer doce de flor de laranjeira.
No que ela comentou, a expressão de mudou para completo choque. Ele sentiu as pernas bambas durante um tempo, arregalando os olhos. somente começou a rir. E, no que ela o fez, imediatamente abriu um enorme sorriso, abraçando-a enquanto a fazia se levantar do banquinho. Hoshi levantou-se no banco e tentava cutucar os pais.
- O quê houve?! Eu não entendi! A mamãe está bem?!
começou a rir, sentindo pequenas lágrimas se formando nos olhos, enquanto o abraçava com carinho. O sol realmente brilhava de maneira mais forte.
- Sim, Hoshi! - Ele respondeu, sentindo a primeira lágrima escorrendo pela face. - Está tudo bem!


Fim



Nota da autora: Primeiro ficstape que peguei um pouquinho no susto. Espero que tenham gostado desse casal e das aventuras deles durante a vida - escrevi com muito carinho e me apeguei aos dois.
A idéia é de que não importa a dificuldade, o sol brilhará mais forte. Você pode dividir suas dificuldades com as pessoas e pedir apoio quando precisar, mas nunca desista.
Espero que gostem tanto da fic quanto eu aproveitei enquanto estava escrevendo! Muito obrigada pela leitura e, se quiser deixar um comentário, lerei e responderei com carinho!
Para quem quiser ficar a par dos meus próximos projetos e fics no FFObs, segue a minha página de autora no facebook. Lá, postarei todas as minhas novas histórias e aventuras enquanto escrevo: https://www.facebook.com/AutoraQueenOfSun/
Beijos!
Queen of Sun
AVISO: Essa é uma história original minha, qualquer cópia ou publicação sem a minha autorização é CRIME. Se quiser postar/publicar em outro lugar, estou aberta para conversarmos! Pode me mandar uma mensagem/e-mail!



Eu estou APAIXONADA por essa história, socorro! ♥
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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