Capítulo Único

Minhas mãos chegavam a tremer, a adrenalina ainda preenchia meus vasos sanguíneos, era quase um crime tirar do lutador seu saco de pancadas, antes que ele extravasasse toda sua raiva. Por um lado, estava curioso para saber quem era o lutador de quem ele tão bem falava, mas, por outro, algo naquele ser já me irritava; não era medo der perder minha posição no time, sempre fui e continuaria sendo o melhor. Insuperável.
- Hoje mais um membro entra para a nossa família e como parte dela, deve ser bem tratado e principalmente respeitado. E quem se colocar contra ele, estará se colocando contra toda a família. Estamos entendidos?
- Sim, mestre. – Respondemos em coro.
- Boa sorte. – Disse por fim.
- BOOMBONES FIGHT! – Gritamos juntos, nos cumprimentando em seguida.
O cheiro de suor ao qual já estava acostumado adentrou minhas narinas. Cada vez que um novo lutador se juntava a equipe, fazíamos uma espécie de um ritual; já era tão acostumado com isso, que os meus passos pareciam sair no automático. Subimos ao ringue, após a pronúncia do locutor. Luzes apagadas e um holofote ao fim de todos os corredores que davam no octógono eram os únicos responsáveis por toda a iluminação do lugar. Conforme nossos nomes eram anunciados, nos dirigíamos até o palco.
Um a um, os onze lutadores se posicionaram. Os nomes anunciados vinham com uma agitação gigante da plateia, eram gritos, assovios, números que se misturavam. Não conseguia diferir os xingamentos dos gritos de apoio, mas sabia que você sentia uma energia inexplicável, algo incentivador, como se cada som se transformasse em adrenalina e fizesse o coração disparar.
Então meu nome se fez ouvir, os gritos foram mais intensos, fazendo com que eu sorrisse largamente. O capuz do roupão continuava a cobrir parte dos meus olhos, tornando algo mais misterioso, bati uma luva contra a outra e acelerei os passos, parando apenas quando já estava no ringue com os braços abertos; puxando a torcida.
Ao perceber a expressão de meu treinador, me contive, sabia que hoje não era o meu dia de brilhar, então me coloquei para dentro, pulando alternando os pés, apenas esperando, pelo que viria a seguir. As luzes se apagaram e pelo corredor principal, ele surgiu, parecia ser muito magro, quis rir, mas sabia que um lutador não era feito apenas da força, então me segurei. Seu capuz cobria toda a extensão de seu rosto.
- Hoje, temos um novo integrante. Com vocês, diretamente de São Paolo, ele que vem se tornando um mito... !
O cara era tão incompetente que não tinha sequer capacidade para pensar em um nome que não fosse tão... feminino! Vários de meus companheiros de time também gargalharam.
A apresentação começou, um cumprimento. Então ambos demonstravam alguns golpes. Tecnicamente falando, era bom, seus chutes eram altos, o reflexo rápido; não esperava menos de um integrante dos bonés. A plateia delirava com os movimentos que pareciam ter sido combinados.
Para cada um de seus desafiantes, mostrou golpes novos, dominando técnicas das mais diversas lutas, era bom de chão, os socos rápidos. Não podia negar que estava impressionado. Infelizmente, ou não, sua estatura era baixa e parecia ser muito leve, por isso não deveria competir conosco. Chegou a minha vez, abri meio sorriso. Por um momento, os olhos daquele mascarado, sob o capuz, se encontraram aos meus.
Tão desafiadores quanto.
Cheguei aplicando uma série de socos, mas sequer passaram de raspão. Foi sua vez de atacar, também desviei. Apliquei uma sequência de chutes, mas sua guarda estava alta. Nossas luvas se tocaram, declarando fim das apresentações.
O momento pelo qual tanto esperei estava prestes a chegar. Com uma luz direta sobre si, abaixou seu capuz, mas foi quando puxou a máscara e seus cabelos caíram sobre suas costas, que meus olhos se arregalaram. Ouvi os risos incessantes dos meus companheiros e não pude evitar fazer o mesmo.
- Uma garota? – Perguntei arqueando a sobrancelha. – Qual é? Já não está meio tarde para um 1° de abril?
Podia ver nos olhos dela que estava com raiva. Fiz uma careta, tentando segurar a risada. Não podia ser verdade. Nunca em toda a história da academia, uma garota fez parte do time principal. E por que com ela seria diferente? Apesar de sua técnica ser apurada, não tinha nada que a fizesse, extraordinária o suficiente.
- UOU! Acho que por essa nenhum de nós esperava! – O locutor comentou. Meu olhar girou pela plateia, muitos estavam atônitos, outros gargalhavam alto e tinha os que assoviavam.
- Algum problema, ? – Perguntou, armando a posição de ataque.
- Nenhum, doce. – Soltei mais um riso.
Então percebi a seriedade de toda a situação; não era uma brincadeira, o mestre não brincaria com isso. Imaginei o esporro que levaríamos no dia seguinte e sabia que teríamos mais um daqueles treinos exaustivos. O mais incrível daquilo tudo era que o seu rosto não me era estranho.
Talvez tivesse esbarrado com ela na academia ou em alguma balada. Se bem que, ela não me parecia uma das meninas que eu encontraria em uma balada.

No dia seguinte...
O mestre nos esperava. Já tinha me preparado psicologicamente para ouvir um sermão daqueles intermináveis, meu corpo também já esperava pelas centenas de abdominais e flexões.
Assim que cheguei, todos treinavam normalmente, a não ser pela companhia da menina. Não era uma questão de preconceito, simplesmente era desconfortável, não sei. Estávamos acostumados a fazer piadas machistas, falar sobre sexo, então teria uma menina ali, atrapalhando tudo.
Joguei minha mochila junto as outras, tirei os sapatos e me dirigi ao tatame. Comecei a sequência rotineira pulando corda, mas fui interrompido pela voz do treinador:
- , assim que terminar, venha ajudar a com o treino. – Falou simplesmente.
- Ótimo. – Ela falou virando a cara e voltando a socar o saco de pancadas.
- Ótimo. – Imitei, revirando os olhos.
Não tinha pressa alguma para acabar, mas sabia que em algum momento teria que finalizar o aquecimento. Então fiz meu último abdominal e caminhei de encontro à garota. Me coloquei atrás do saco de pancadas e fiquei segurando.
- Se eu fosse você não faria isso. – Comentou ofegante.
A olhei com descaso. Com certeza faria, seu chute mais forte não chegava nem a metade do chute de um dos dez outros rapazes da academia. Mesmo com a blusa larga da academia, seus seios se destacavam. Fiquei pensando em como ela os conseguiu esconder sob o roupão no dia anterior.
- Você perdeu alguma coisa aqui? – Perguntou impaciente, parando e dando um passo para trás.
- Então... É legal ter peitos? – Sabe quando as palavras escapam da sua boca, levantei o olhar um pouco constrangido e pude ver que ela corou.
- Não sei. É legal ter um pau? – Falou retoricamente, voltando a chutar, com ainda mais força.
- Incrível! Você não faz ideia do que é possível fazer com esse menino. – A encarei, estava formulando uma resposta boa o suficiente, mas fui mais rápido. – Quer descobrir?
- Não.
Soltei uma gargalhada alta. Percebi que irritar a / seria mais divertido do que eu imaginava.
- Por que, ? – Perguntei simplesmente.
- Você realmente não sabe quem eu sou, não é? – Arqueou a sobrancelha, sem parar a sequência de socos.
Apenas neguei com a cabeça.
- , estudei com você quase a minha vida inteira.
- Sabia que seu rosto era familiar! – Estalei os dedos, afirmando mais para mim do que para ela. – Desculpa, sou péssimo com nomes.
- Mas é ótimo com bucetas. – Comentou para si mesma, tão baixo que era quase inaudível, mas eu ouvi e meus olhos chegaram a se encher de água, de tanto que eu ri com essa frase.
- Você não faz ideia de como eu sou bom com isso. – ri mais uma vez, satisfeito.
Ela parou, então invertemos as posições. A fitei por mais alguns segundos: estava suada, seu rosto corado pelo calor, os cabelos presos em um rabo de cavalo. Voltei a olhar para a região de seus seios, realmente não conseguia entender como ela fez para os esconder ontem. Balancei a cabeça.
- Agora é sua vez. Quero ver se me aguenta!


Semanas depois...

Por incrível que pareça ela estava adaptada, sua presença não atrapalhava em nada nossas conversas, nem mesmo quando tirávamos a camisa; isso não a afetava. Era praticamente um de nós, a não ser pelos seios, que ela fazia questão de esconder.
A avistei sentada com um amigo na escola, então resolvi ir conversar. Fazia tempo que eu não me sentia tão à vontade para me aproximar de uma menina. Geralmente não passava de cantadas baratas que me rendiam uma foda. Com ela era diferente, podia falar sobre garotas, entendia minha relação com o esporte e passava pela mesma situação.
E apesar das roupas largas, os cabelos bagunçados, o jeito ogro era uma garota, então entendia anatômica e psicologicamente as demais.
Arremessei a bandeja para a mesa e ela subiu o olhar para me encarar.
- Qual é, ? Quer brigar? – Fechou a cara, mas em seguida riu.
- Quero ver me alcançar, . – Fiz uma pausa, enquanto ela rolava os olhos, - Aliás, falando em me alcançar... Eu tô de carro hoje, quer carona pra academia?
- Pode ser. Desde que não me jogue em um beco por aí. – riu.
- Isso eu já não posso prometer. – deu um soco em meu ombro.
- Veio aqui só para me provocar ou tem algo de importante para me contar? – Arrancou um pedaço do hambúrguer. Não se importava nem um pouco com a minha presença continuava a comer, como se nada estivesse acontecendo.
- Você devia comer menos, vai engordar. – Provoquei.
- Quem disse que eu me importo? – Rolou os olhos.
- Não se importa porque você é gostosa, quero ver se engordar. – Nossos olhares se cruzaram por um momento.
- O corpo é meu e eu faço o que eu quiser com ele, . E se eu engordar vou ficar ainda mais gostosa. Por que se importa?
- O mestre se importa, então eu também. – Sou muito bom com desculpas inventadas prontamente.
- Você não respondeu a minha pergunta. Tem algo para me contar?
- Sabe aquelas gatas, nível ring girls da MTV?
- Aham.
- Então vou em um evento com elas, preciso decidir uma ordem de em quem investir, me ajuda?

Na Semana Seguinte...

Eu e chegamos juntos a academia. O mestre passou um aquecimento rápido, em seguida nos separou em duplas. Como não era surpresa para ninguém, me colocou com ela.
Peguei as manoplas e coloquei em minhas mãos. Estávamos no ringue, guarda alta, nos olhávamos quase em um desafio, então passamos a uma sequência básica.
Fiquei fitando-a por dentre suas luvas, apesar de estar suada, com os cabelos presos, tão diferente das meninas com as quais eu estava acostumado, percebi o quanto era bonita. Seus traços eram delicados apesar de não combinarem em nada com sua personalidade. Sua boca entreaberta era tão sexy, mas ela não sabia disso.
Enquanto estava perdido em meus pensamentos, não percebi o soco que deu com a outra mão e acabou me atingindo. Impulsionei o corpo para trás caindo no chão. Ela me olhou preocupada e abaixou para olhar.
- Ai meu Deus, você tá bem? – Perguntou se aproximando.
Então eu girei por cima de seu corpo, não me importava com as roupas largas, eu queria beijá-la. Estava louco por aquela menina, mesmo que não quisesse admitir.
- Eu sou louco por você.
- Meu Deus, você está delirando. O soco foi assim tão forte? – Tentou me empurrar com as mãos.
Meu corpo sobre o dela, seus olhos arregalados como quem diz não estar pronta para o que viria a seguir. Me aproximei, mesmo sabendo que poderia levar um soco no meio da cara. Eu era louco o suficiente para correr mais aquele risco.
Então meus lábios encontraram os dela, sua boca era macia, seu toque era doce, mas era o cheiro de suor que adentrava minhas narinas que me fazia lembrar que ela era especial, minha língua pediu passagem e, mesmo que com certa resistência, ela cedeu. Então nos encontramos. Elas se entrelaçaram fazendo movimentos contínuos, de velocidade alternada, mas sempre em sincronia. Por um momento não estavam guerreando como tudo que faziamos, apenas seguindo movimentos juntas. Nós tínhamos fôlego para continuar ali uma vida toda.
- EI OS POMBINHOS PODEM VOLTAR AO TREINO? – O mestre gritou, mas pude vê-lo rir.
Suas bochechas estavam ainda mais rosadas, mas seus olhos brilhavam e ela mantinha um sorriso estampado. Me deu outro soco no braço, se levantando.
- O que você viu em mim?
- Você é linda, mesmo de rabo de cavalo e suando muito. Não importa o que faça, suas roupas largas, seu jeito de comer hambúrguer, você é linda. E o mais incrível é que mesmo sendo linda por fora, você é ainda mais bonita por dentro.
- E as garotas da MTV? – Ela perguntou simplesmente.
- Olhando agora, elas nem me parecem tão bonitas assim.
Voltei a segurar as manoplas, esperando por seus golpes e assim ela fez.
- Eu não faço o seu tipo, .
- Qual é o meu tipo, ? – Perguntei arqueando a sobrancelha.
- Você sabe, meninas lindas, com rostos bonitos que ficam falando bobagens e vão ao shopping. – Rolou os olhos.
- Você é linda, .
- Estou falando sério, !
- Eu também! Você é tão linda que se eu fosse piloto escreveria seu nome no céu, mas, como não sou, você vai ter que se contentar com seu nome no meu próximo calção. E quem sabe uma homenagem depois da luta.
- Mas se lutar comigo, você vai perder!
- Sem chances. – Retruquei e dei um selinho rápido nela. – Eu consigo tudo o que eu quero, .
E sem dúvidas a provação entre nós dois contribuía para que de todos os beijos que eu dei, de todas as garotas que já passaram para a minha vida a ser a única que merecia o meu 10.
- Você é 10, . – Decidi revelar meu pensamento.
- Isso é uma nota em que escala? – Perguntou rindo.
- Na escala meninas lindas por .
- Você é louco.
- Sou, eu sou louco por você.



Fim



Nota da autora: Lavínia Mitiko.



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