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Última atualização: 05/12/2020

#1 Doing It Wrong - Drake

O sol estava alto no céu e adentrava pela janela do quarto quando senti um braço recair pesado sobre os meus seios e alguém agarrar meu corpo enquanto dormia, o que significava que eu não tinha dormido em casa. Abri os olhos com dificuldade, piscando várias vezes, tentando me acostumar com a claridade. Olhei para o lado, dando de cara com John, um veterano que cursava música.
Tirando seu braço de cima de mim, procurei pelo meu celular, encontrando-o no chão, sem bateria. Olhando ao meu redor, procurei por algo que pudesse me indicar as horas. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, dei a volta ao redor da cama, catando minhas roupas do chão e indo em direção ao celular de John para ver as horas. OITO HORAS DA MANHÃ DE UMA SEGUNDA-FEIRA!
Isso só podia me indicar uma coisa: atrasada pra cacete!
Vesti minhas roupas o mais rápido que pude, visto que teria que passar em casa para buscar minha mochila e meu carregador de celular. ) e eu seríamos a quarta dupla a apresentar um seminário sobre cores complementares e eu nem mesmo conseguia me lembrar quais eram as partes que deveria falar. Provavelmente, se o professor não me comesse viva hoje, se encarregaria da tarefa.
― Onde você pensa que vai? ― John disse em um tom de voz sonolento quando eu estava prestes a voar porta a fora.
― Preciso muito ir embora. Estou completamente atrasada pra aula.
― Mas hoje é segunda. ― coçou os olhos.
― Exatamente. Dia de autorizar um professor a comer meu rabo em público. ― dei um sorriso irônico. ― John, obrigada pela noite.
― Posso te ligar mais tarde? ― Não! ― respondi rápido demais, fazendo-o franzir as sobrancelhas. ― Eu te ligo, ok? ― assentiu e eu saí.
Dei graças a Deus por ele não morar com os pais e, sim, em uma república, pois seria constrangedor demais ver um casal de meia idade, cujo o sobrenome eu não fazia ideia qual era, achando que eu poderia ser a nova namorada do filho deles.
Do lado de fora da casa, tentei me localizar e, mais uma vez, dei graças ao ser imortal que regia o universo por estar perto de casa. Se começasse a correr agora, conseguiria chegar em casa em, no máximo, dez minutos. Continuaria atrasada, mas chegaria menos atrasada.
Corri o mais rápido que pude e agradeci por ter insistido tanto para que praticássemos alguns minutos de corrida ao longo da semana. Acho que ele estava pensando em nossos possíveis atrasos que seriam resolvidos apenas na base da corrida. Apesar dos treinos, após três minutos de corrida intensa, minhas pernas já começavam a cansar e meus pés doíam pelo impacto a cada passo dado, afinal, correr de sandálias não havia sido a melhor das minhas ideias. Por não estar olhando para o chão, trupiquei em uma parte um pouco levantada da calçada, quase caindo de cara. Porém, o preço por ter conseguido salvar meu corpo de um tombo era espatifar meu celular.
Juntando-o, percebi que a tela estava destruída, entretanto, não havia tempo para chorar ou me lamentar a respeito. Precisava continuar correndo, faltavam apenas duas quadras para chegar em casa.
Foi só quando parei em frente à porta de casa que percebi que não estava com a chave para entrar. Não havia tempo a perder pensando em como arrombar a porta sem parecer suspeita, me restando somente duas opções: entrar pela janela e correr o risco de ser presa por supostamente estar invadindo uma casa ou correr direto para a aula. Escolhi a segunda opção, visto que tinha gasto meu dinheiro da semana em cerveja na noite anterior e não poderia pagar minha fiança.
Na velocidade que eu estava conseguiria chegar em aproximadamente sete minutos. Queria de alguma forma conseguir avisar para distrair o professor caso chegasse nossa vez de apresentar. Não havendo essa possibilidade, continuei a correr.
Considerando que havia uma fila imensa para usar o elevador devido ao encerramento do primeiro período de aulas, subi as escadas correndo, eram apenas dois andares. O que eram quatro lances de escada para quem já tinha corrido quase duas dezenas de quadras antes das dez da manhã?
Chegando no corredor, vi o professor saindo de dentro da sala, caminhando rumo ao banheiro dos professores ao lado da secretaria. Esperei-o fechar a porta para correr para a sala de aula. Parada na porta, meus olhos deram uma geral em busca de , estacionando em uma figura toda de preto mexendo no computador ao lado da mesa do professor.
Já era nossa vez de apresentar.
Aproximei-me dele, como se estivesse ali o tempo todo.
― Graças a Deus cheguei a tempo. ― falei ao seu lado com a voz ofegante.
― Por onde andou? ― cochichou sem tirar os olhos da tela do computador à sua frente.
― Esse não é o assunto mais apropriado para o momento. Quais são as minhas partes? ― perguntei, olhando sua folha de planejamento.
― Onde está a sua cópia? ― mesmo que sua feição ainda tivesse aquele ar calmo, sua voz soou ríspida.
― Não consegui entrar em casa. ― respondi baixinho e eu pude ouvir um suspiro de sua parte.
Ele não iria mais me responder e, ao ver a porta da sala se abrir, quase suspirei de novo, só que, desta vez, de alívio ao me deparar com o professor.
― Olha só quem decidiu se juntar a nós. ― brincou, sorrindo.
― Tive um pequeno problema com o meu celular. ― respondi, sem graça.
― Ok, garotos. Vamos começar. ― sentou-se em uma cadeira vazia à frente de toda a turma.
Olhando a apresentação que havíamos montado na semana anterior conforme passava os slides, minhas anotações sobre o que eu deveria falar começaram a pipocar na minha memória e, só de saber que a ressaca não tinha detonado o meu cérebro, já ficava feliz.
Era um seminário relativamente curto e simples, tanto que nos custou apenas dez minutos para apresentá-lo. O professor fez alguns comentários positivos e exemplos que poderiam ser incluídos. Ao término de sua fala, fomos nos sentar para assistir as últimas três apresentações.
continuava emburrado.
― Você vai embora depois da aula?
― Por quê? ― ele fingia prestar atenção na apresentação só para não ter que me olhar.
― Preciso da chave de casa. ― não me respondeu mais, porém continuei encarando-o até o final da aula, quando levantou-se colocando sua bolsa sobre o ombro e saindo sem me esperar.
, posso falar com você? ― Vincent, nosso professor, me chamou enquanto eu seguia para fora da sala.
― Pode ser outro dia? Preciso…
― É rápido. O que está acontecendo? Você é uma ótima aluna, mas se continuar faltando tanto, vai reprovar. ― seu tom era sério. Sua testa franzida, demonstrando preocupação.
― Não é nada demais. Eu só… tenho tido problemas para dormir. ― menti.
― Se estiver precisando de ajuda, sabe que sempre pode recorrer ao nosso apoio pedagógico, não é? ― assenti.
― Claro, sei. Obrigada. Posso ir? ― respondi rápido.
― Por favor. Até semana que vem. ― sorri, saindo.
Teria que correr mais do que já havia feito se quisesse alcançar .
Descendo as escadas apressada como se não houvesse amanhã, vi-o parado conversando com June ao pé do primeiro lance no térreo. Alguns centímetros mais baixa que ele, June tinha longos cabelos escuros e era a personificação do sonho de qualquer homem sexualmente ativo. Os seios fartos sempre cobertos por blusas que os avantajassem ainda mais, fazendo parecer que pulariam a qualquer momento em que os olhasse de perto, os olhos grandes e um sorriso amigável perfeitamente alinhado, capaz de derreter o coração de qualquer um.
June estava um semestre a nossa frente e tinha muito interesse em , que parecia não corresponder, seja porque não havia captado todos os sinais, seja por não ter interesse. Jamais entenderia o que se passava na cabeça daquele homem.
Com um sorriso simpático nos lábios, pôs uma mão sobre o ombro da colega e, somente quem os observava de fora, conseguia ver que a garota estremeceu por dentro com aquele simples contato.
Desci o último lance de escadas, pondo um dos braços sobre o ombro de meu amigo quando os alcancei.
― E aí, June? Qual a boa de hoje? ― provoquei.
― Ah, oi, . ― seu sorriso havia se fechado um pouco, cumprimentando-me muito mais por educação do que por qualquer outro motivo.
olhou-me de soslaio, como se perguntasse por que eu estava agindo como se nada estivesse rolando entre nós.
― Bom, eu preciso ir. ― June se manifestou depois de alguns segundos de silêncio.
― Se precisar de ajuda com seu projeto, pode me falar, ok? ― sorriu, vendo-a assentir e sair acenando.
― Você sabe que ela tá doidinha pra dar pra você, né? ― falei enquanto observávamos as costas da garota se afastando.
― É coisa da sua cabeça. ― tirou meu braço de cima de seus ombros, direcionando-se para a saída.
Dei uma corridinha para alcançá-la.
― Se você não vê isso, é porque é tapado. Mas ela tá só esperando você tomar a iniciativa.
, para. June não tem nenhum interesse em mim. Ela só veio me perguntar sobre um projeto de uma matéria que estamos fazendo juntos, nada demais.
― Ok, se você diz. ― dei de ombros.
Calados, caminhamos lado a lado por alguns minutos.
― Por onde você andou? ― questionou novamente. ― Fiquei preocupado. Te liguei várias vezes.
― Eu estava e continuo bem, ok?
― Sua mãe ligou ontem à noite, dizendo que você não atendia e aí eu tive que inventar que você estava muito cansada de um trabalho que passou o dia fazendo e foi dormir cedo, mas que ligaria quando acordasse. E adivinha só? Você também não me atendeu.
― Meu celular descarregou.
Parando de caminhar, virou-se para mim, com um sorriso debochado no rosto, dizendo:
― Então, quer dizer que no seu planeta não existe aquela tecnologia avançada… com se chama mesmo? Isso, carregador de celular. Você pluga no aparelho e na tomada, espera algumas horas e pronto. Em um passe de mágica, seu celular tem bateria de novo! ― falou a última parte entre dentes.
― Por favor, , me poupe do seu showzinho. ― voltei a caminhar, deixando-o para trás.
Seguimos assim até em casa.
Ao adentrarmos, fui direto para o meu quarto. Não demorou até que aparecesse, encostando-se no batente.
― Desculpe, eu… fico preocupado, ok? Não sabia onde você estava. Você simplesmente sumiu. Não custava nada ter avisado.
― Puta que me pariu, hein? Você é chato pra porra, né? Eu sei me cuidar, não preciso de uma babá. Estamos na faculdade, ok? Saí de casa porque queria me livrar de uma pessoa controladora, não preciso de outra na minha cola! ― despejei sobre ele, segurando-me para não gritar.
Assentiu, mordendo a parte interna de sua bochecha.
― Tudo bem. Sinta-se livre para fazer o que quiser. Nunca foi minha intenção te incomodar ou te atrapalhar. ― franziu os lábios, saindo.
Vendo-o se afastar, senti algo pesar dentro de mim. Talvez minha reação tivesse sido desmedida e eu devesse me desculpar, entretanto, também sabia que precisávamos restabelecer limites entre nós, pois tudo havia desandado depois de termos decidido fazer algo idiota.


#2 Leave The Bourbon On The Shelf - The Killers

Na quinta-feira, e eu ainda não havíamos trocado uma única palavra. Nem “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”. Nem mesmo um simples “oizinho”. Cansada daquele silêncio ridículo, fui até a porta de seu quarto, fitando-o terminar de arrumar sua bolsa por alguns minutos.
― Então, é assim? Vai ficar sem falar comigo pro resto da vida? ― questionei-o, recebendo uma rápida olhada enquanto ele juntava um livro do chão.
― Não se esqueça que foi você quem começou isso.
― Pelo amor de Deus, ! ― revirei os olhos. ― Você sempre exagera. Só não entendo por que disso tudo.
― Porque eu me importo! ― respondeu mais alto, suspirando com os olhos fechados, tentando se acalmar. ― Não quero controlar sua vida, mas eu fico preocupado porque você simplesmente some e não fala nada.
― E o que você espera que eu diga? querido, estou indo dar pra um veterano gostoso que faz música. Se for ruim volto hoje, se não, pode ser que me case com ele. ― debochei.
― Qualquer coisa é melhor do que não saber se você está bem ou não.
― Cacete, você é emocionado demais! A gente transou uma vez e você ficou assim, imagina se vira uma coisa recorrente? ― debochei de novo.
― Você não consegue falar sério uma única vez na sua vida? Caralho, é muito difícil conversar com você. ― passou uma das mãos pelo rosto. ― Não tem a ver com ter transado com você ou não. Caso não se lembre, você é minha melhor amiga e mora comigo, por isso, eu me importo com você. Mas acho que sou só eu, né? ― pegou a bolsa de cima da cama, colocando-a sobre o ombro e saindo. ― Dá licença. ― passou por mim, saindo da casa, trancando a porta da frente.
― Ótimo. Agora preciso achar minha chave. ― bufei, falando comigo mesma, segurando as lágrimas.
Revirei meu quarto inteiro, fingindo para mim mesma que estava preocupada com o sumiço de minha chave. No fundo, eu sabia que estava tentando manter minha mente ocupada só para não pensar nele. Quando cansei de procurar e decidi apenas arrumar minha mochila, encontrei-a sobre a vasilha onde guardávamos todas as chaves comuns, próxima à TV na sala. Puta pelo tempo que perdi, controlei-me para não jogar o chaveiro inteiro pela janela.


Por ser quinta-feira, era dia de almoçar com e , talvez as duas únicas amigas que eu havia feito desde que entrara na universidade. era a mais extrovertida de nós. Sempre atenta às tendências da moda, arriscaria dizer que era a que se vestia melhor também, isso tudo sem gastar um mísero centavo, visto que ela e sua máquina de costura eram melhores amigas dia e noite. era a mais silenciosa de nós, não de um jeito tímido, apenas não gostava de fazer interações desnecessárias. Com uma postura espectadora, quase nenhum detalhe fugia aos olhos dela, que dificilmente se surpreendia com os acontecimentos.
― Nós vamos no karaokê e você vai junto. ― anunciou assim que sentei à sua frente na mesa.
― Karaokê? ― franzi as sobrancelhas. ― Onde?
― Ferris vai comemorar a vitória no primeiro jogo do time colocando karaokê livre hoje. ― Ferris era um bar ao lado do campus, cujo o dono era um egresso do curso de administração que não entendia sobre muitas coisas além de álcool, festa e futebol.
― Não sei se tô na vibe. ― dei a primeira garfada em meus vegetais.
vai estar lá. ― rebateu com um ar sugestivo. era um veterano de engenharia mecânica com quem eu havia saído duas vezes, uma no final do mês anterior e outra no último fim de semana. Tudo sobre ele parecia ser perfeito. As sobrancelhas e o sorriso eram perfeitamente alinhados, era cerca de 20 centímetros mais alto que eu e estava sempre perfumado como se tivesse acabado de sair do banho.
― Você tá tentando me convencer se utilizando da presença de um homem bonito com quem eu já fiquei?
― Isso mesmo. ― concordou sorridente.
― Pois está conseguindo. Eu vou mesmo. ― rimos.
― Você poderia nos fazer o favor de fazer o dar o ar da graça dele também? ― mordeu o lábio inferior, ainda sorrindo, ao terminar de falar.
― Vai ter que você mesma perguntar, meu anjo. Nossa amizade tá abalada essa semana. ― dei mais uma garfada em meu almoço, sentindo os dois pares de olhos sobre mim enquanto eu me concentrava em meu prato.
― Tá mesmo ou você tá tentando guardar ele só pra você? ― inclinou-se sobre a mesa com os braços cruzados sobre a mesma. Os olhos de alternavam entre nós duas, acompanhando o debate que estava prestes a se formar entre nós.
, já parou para pensar que talvez ele só não esteja interessado? ― questionei-a, olhando-a nos olhos. ― Ou talvez você ainda não tenha deixado explícito que tá afim dele. é meio lento pra essas coisas.
― E como é que você sabe? ― provocou.
― Somos melhores amigos, lembra? ― devolvi o mais rápido que pude antes que ficasse nervosa demais para fazê-lo.
― Vai dizer que você nunca tentou nada com ele?
― Não o vejo assim. ― procurei pela minha carteira dentro da minha mochila. Achando-a, mostrei a elas a fotos 3x4 que carregava ao lado de uma foto de minha mãe. ― Eu o conheci quando era assim, então, na minha cabeça, sua versão mais bonita não existe. ― ri, tentando disfarçar minha agitação interna por estar mentindo de novo.
― Como é que ele deixou de ser o tipo ‘você poderia, por gentileza, sair comigo?’ e se tornou o tipo ‘89 mensagens não lidas’? Ele nem mesmo parece a mesma pessoa. ― devolveu-me a carteira, que guardei rindo e dando de ombros.
Depois de alguns segundos quietas, foi a vez de se manifestar pela primeira vez desde que sentara com elas:
― Me desculpe, mas eu duvido muito que você não o veja assim ou que nunca tenha acontecido nada entre vocês. ― tentando não engasgar, engoli com um pouco de dificuldade a comida que tinha posto na boca.
― Por quê?
― Vocês se conhecem há um tempo, moram juntos, sem mais ninguém e, cá entre nós, você não é o maior exemplo de puritanismo que já conhecemos na vida, né?
― Garota! ― quase gritei, rindo.
, sinceramente, eu acho que, pelo jeito como ele te olha, aí tem, viu? ― deu uma mordida em sua maçã.
― Que jeito?
― Pega o exemplo da June: toda gostosa e já tentou de todas as formas se aproximar dele e ele fica lá, com aquela carinha de ‘nossa, que querida a minha colega, né?’. Mas em você, ele repara cada detalhe, tudo o que você fala, como você anda. Tudo. E você pode até lançar essa de melhores amigos de novo pra mim, mas não me convence. ― encerrou, voltando sua atenção para sua maçã, como se não tivesse acabado de me jogar um monte de fatos que eu só ignorava bem no meio da minhas fuça.
― Enfim, independente do que vocês acham, somos apenas amigos e vai continuar assim. ― respondi, voltando a me concentrar em meu almoço.
― Então, você não vai se importar se eu chamar ele pra sair, né? ― arriscou uma última vez.
― Vai em frente. ― dei de ombros. ― Acho que ele precisa mesmo relaxar. ― dei mais uma garfada, sorrindo para ambas.
A verdade era que eu só queria dar aquele assunto por encerrado.


#3 SLOW DANCING IN THE DARK - Joji

À noite, encontrei com do lado de fora do bar e, ao entrar, dei de cara com o que eu sabia que havia a possibilidade de acontecer, porém não esperava: sentado, bebendo e rindo ao lado de . Não que eu tivesse algo contra, todavia, não esperava que tivéssemos que nos manter próximos durante um período de tempo que poderia ser longo ― ou curto, a depender do meu humor ― logo após nosso desentendimento matinal.
Antes de nos encaminharmos para a mesa, passamos pelo balcão para pegar duas garrafas de cerveja a mais.
― Você tá bem? ― perguntou enquanto esperávamos pelas garrafas.
― Tô. Por que não estaria? ― dei um meio sorriso.
― Você pôs os olhos naqueles dois e sua cara deu uma tremida bem engraçada. ― deu uma risadinha. ― , tá tudo bem. Comigo você não precisa fingir, ok? ― pôs a mão sobre meu ombro, seus dedos fazendo uma pressão reconfortante. ― Aconteceu alguma coisa entre vocês dois?
― Bom, como eu disse, não estamos nos falando por esses dias e digamos que disse a ele coisas das quais não me orgulho nem um pouco, então, esse não é momento mais confortável para encontrá-lo.
― Se você quiser, posso inventar uma desculpa para os dois e…
― Não, não. Tudo bem. ― a interrompi. ― Ia ficar muito na cara que não tô ok com nada do que aconteceu e não quero ter que lidar com esse assunto agora. Então, vou apenas encher a cara, esquecer que eu tenho um monte de encomendas pra entregar amanhã no final da tarde e cantar qualquer música brega que aparecer por aqui. ― suspirei e peguei ambas as garrafas do homem do outro lado do balcão.
Cada passo que dávamos em direção a mesa parecia que eu ficava mais próxima de ter um colapso.
e estavam tão envolvidos em uma conversa sobre política e arte que mal perceberam nossa presença quando nos aproximamos. Contrariando todas as minhas expectativas, o homem me cumprimentou como se não tivesse me dado as costas mais cedo. Cumprimentei-o de volta, sentindo-me incomoda de ter que fingir. Percebendo meu descontentamento, puxou um assunto qualquer comigo enquanto bebíamos quase que sozinha as garrafas que havíamos trazido para a mesa.
― Você devia ir cantar uma. ― , pela primeira vez se dirigindo à mim, sugeriu.
― Estou bem aqui. Deviam ir vocês que me convidaram para vir. ― bebi o último gole de cerveja no meu copo.
― Mas de nós todos aqui, você é a que canta melhor, . ― incentivou.
― Que cisma comigo é essa?
― Amiga, vai. ― lancei um olhar repreensivo para , que continuava a fazer gestos para me incentivar.
Quieto, apenas sorria, como quem estava se divertindo muito com aquela situação.
Revirei os olhos, me levantando do assento. Os três bateram palmas alegres e todos ao redor pareciam me observar, o que me dava calafrios na espinha.
Ao subir no pequeno palco, peguei o microfone com o cara que estava cuidando da mesa de som e dos vídeos com as letras das músicas.
― Que música você quer?
― Tem como pegar no aleatório? Sou péssima escolhendo. ― assentiu, apertando um botão, iniciando ao fundo o instrumental de I Don’t Love You.
Ótimo, uma música triste era tudo que eu precisava.
Mesmo sentindo como se tivesse engolido um pacote inteiro de bolas de algodão e um mal estar se formando na boca do meu estômago, não iria embora sem cantar aquela.
Olhando em direção à nossa mesa, e imitavam o som da guitarra a plenos pulmões, honrando as adolescentes emos que, muito provavelmente, haviam sido. era o único que estava sério. Seus olhos não desgrudavam de mim e eu podia senti-lo lendo minha alma através dos meus olhos, o que certamente não era uma das sensações mais agradáveis do mundo. Não quando tínhamos tanto a dizer um ao outro.
Por mais que sentisse que deveria fazê-lo entender que deveríamos, sim, manter uma distância segura entre nós para que não nos machucássemos, ainda assim, me arrependia da forma como tinha falado. Achei que a situação não poderia piorar, afinal, já estávamos há dias sem trocar uma palavra sequer.
No entanto, verbalizar em alto e bom som todas aquelas palavras, no fim das contas, era para que eu ouvisse, para que eu me convencesse de tudo que estava proferindo. Acusei-o de estar envolvendo sentimentos onde não deveria haver quando, na realidade, quem o estava fazendo desde o início era eu. Nunca havia contado a ele a respeito de como me sentia quando ele me olhava, como sorria para mim e como meu corpo inteiro estremecia quando o ouvia pronunciar meu nome naquele tom de voz baixo e rouco todas as manhãs.
Seu olhar parecia me queimar e, independente de estar com meus olhos abertos ou fechados, tudo o que vinha a minha mente era seu rosto com aquele mesma expressão entristecida e magoada. Acho que, quando o quesito era tristeza, com toda a certeza estávamos na mesma página.
Meus olhos e minha garganta ardiam, anunciando um possível choro a ser liberado quando eu menos esperasse. Tentei afogar aquelas emoções dentro do meu peito enquanto ainda não era tarde.
e cantavam a música junto com quase todos os presentes ali.
Cada palavra cantada era uma adaga que me rasgava de dentro para fora. Estava derramando tudo que ainda me restava de sentimentos ali, como se só houvessem eu e aquele belo par de olhos angustiados e mal iluminados pelas luzes coloridas acesas no local. Se fosse menos orgulhosa, certamente já teria saído correndo dali, porém não me dar por vencida era sempre uma questão de honra, por pior que as circunstâncias fossem.
Mantendo contato visual com ele, relembrei tudo o que havíamos passado até chegarmos ao presente momento. Todas as nossas raras brigas; as muitas vezes que cedera apenas para não gerar atritos entre nós; o dia em que nos conhecemos; quando nosso professor de biologia nos designou como dupla para a feira de ciências e sua mão tremia ao anotar meu número em um pequeno espaço de seu caderno. Nossa primeira noite de filmes em sua casa. A primeira vez que ficamos bêbados juntos. Quando arrumamos nossas malas juntos para nos mudarmos para perto da faculdade. Quando nos beijamos pela primeira vez em um bar próximo de nossa casa após o término da semana de provas…
Todos os flashes corriam rápidos pela minha mente, deixando-me desorientada. Quase conseguia sentir seus dedos me tocando, sentindo minha pele, seu braços ao meu redor. Por um segundo, de olhos fechados, desejei que pudéssemos voltar a ser como éramos aos 16 anos, onde nada era complicado, nem mesmo esses sentimentos que me preenchiam e transbordavam, querendo vazar em todas as direções para fora de mim.
Minha cabeça latejava, parte pela iluminação sobre mim, parte pelo pensamento acelerado que não me deixava em paz. Meus dedos se apertavam ao redor do microfone à medida que a música chegava mais próxima do final. Não chorar estava se tornando uma das tarefas mais custosas daquele dia. Maldita hora que me levantara para vir até o palco e deixara o aleatório escolher o que deveria ser uma música divertida para dar um bom início em nossa noite de pura diversão.
Como a própria música colocava em questão, se eu queria tanto negar aqueles sentimentos, teria coragem de recusá-los em voz alta, dizendo a ele que eu não merecia o que quer que tivesse a me oferecer? Esperava que sim, pois não poderia continuar carregando aquele peso dentro do meu peito e muito menos alimentar qualquer ponto de esperança que pudesse haver de que nós dois seríamos algo futuramente.
Mas, antes que pudesse dizer a ele tudo que estava rodeando meus pensamentos, precisava me convencer de que aquilo era o melhor a se fazer.
Eu não o amo.
Eu não o mereço.
Ele não é meu.
Eu não o amo.
Eu não o mereço.
Ele não é meu.
Eu não o amo.
Eu não o mereço.
Ele não é meu.
Eu não o amo.
Eu não o mereço.
Ele não é meu.
Repetia aquelas palavras incessantemente em minha mente como se fosse um mantra. Talvez assim eu conseguisse internalizar algo.
Ouvindo os aplausos, os berros e os assobios, entreguei o microfone para o homem na mesa de som, descendo do palco e, antes de poder retomar meu caminho de volta para minha mesa, senti uma mão envolver meu pulso. Virando-me na direção de quem quer que fosse, sorri ao descobrir de quem se tratava.
― Imaginei que te veria por aqui hoje. ― disse mais próximo de mim para que eu o ouvisse com clareza. ― Aliás, bela voz.
― Obrigada, mas você anda me caçando por aí, ? ― brinquei.
― Não colocaria dessa forma, mas queria te encontrar em algum lugar, já que as minhas mensagens você não responde. ― franzi os cantos dos lábios, fingindo que havia sido pega em flagrante.
― Culpada. Estraguei meu celular no início da semana.
― Uh, espero que não seja muito caro para consertar porque eu gosto de conversar com você.
― Bom, eu sou adepta do cara a cara, então… ― deixei no ar.
― Você tá acompanhada?
― Vim com as minhas amigas.
― Será que ela se importariam se nós dois fôssemos pra um rolê só nosso? ― olhei na direção da minha mesa, vendo que acompanhava tudo com olhos atentos, dando uma piscadela, incentivando-me.
― Tenho certeza que não. ― sorri para ele.
Colocou-me à sua frente, guiando-me para fora pelos ombros.
morava em um apartamento há duas quadras da universidade e, como geralmente encontrávamos pessoas bêbadas ou situações inusitadas pelo caminho, era difícil não termos assunto naquele pequeno trajeto.
Entrando em sua casa, sentei-me sofá, olhando-o fechar a porta da frente e sentar-se ao meu lado. Com as mãos em meu rosto, aproximou nossos lábios, iniciando um beijo lento que se intensificou rapidamente. Uma de suas mãos deslizou para minha cintura e, alguns segundos depois, se encaminhou para a minha coxa, os dedos brincando a barra de meu vestido.
e eu já tínhamos passado da fase em que precisávamos ter um diálogo antes de chegarmos ao momento em que começávamos tirar nossas roupas, por isso, não me importava que sua mão estivesse erguendo meu vestido até a altura do meu quadril, apertando minha coxa com seus dedos compridos e firmes.
Entretanto, o tópico recorrente daquela noite continuava circulando pela minha cabeça e, mesmo que transar com pudesse me fazer esquecer isso por um período de tempo, não conseguiria chegar até o instante que não conseguiria mais formular pensamentos.
… ― pus a mão em seu peito, afastando-o delicadamente. ― Desculpa. ― pressionei minhas pálpebras uma contra a outra, tentando organizar as palavras que diria.
― Você tá bem? Fui muito rápido? ― seu tom era baixo e exprimia certa preocupação.
― Não, não. Não é nada disso. ― meneei a cabeça negativamente. ― Eu achei que focar aqui me ajudaria a parar de pensar em outras coisas, mas não acho justo te usar pra isso. ― dei um sorriso sem graça.
acariciou meu rosto, dando um beijo em minha bochecha.
― Se quiser conversar sobre…
― Se você não se importar, acho melhor não. É algo pessoal. ― cocei a nuca, disfarçando o desconforto.
Não podia simplesmente chegar para o cara com quem eu tinha saído somente duas vezes e dizer “puts, não vamos poder transar porque não consigo parar de pensar que sou apaixonada pelo meu melhor amigo”.
― Sabe, , você é o tipo de garota que eu apresentaria para os meus pais. ― sorriu e eu fiquei atônita, sentindo um mal estar no estômago.
― Como assim? ― minha voz quase sumiu quando tentei falar aquela frase.
― Estive pensando desde a última vez que saímos e queria te chamar para um encontro de verdade.
― E nós já não tivemos dois? ― ri nervosa, sabendo os rumos que aquela conversa estava tomando.
― Convenhamos que nós saímos e estávamos interessados apenas no que vinha depois. ― ri, concordando. ― Quero te chamar pra sair mesmo, pra gente se conhecer, sem se preocupar se vai ter sexo depois ou não. ― segurou minha mão entre as suas, o rosto assumindo uma feição de quem espera uma resposta.
, olha… ― suspirei. ― Você é um cara maravilhoso e tudo sobre você é perfeito. Você se veste bem, parece que sempre acabou de sair do banho, é muito educado, tem um papo legal e tudo o mais…
― Mas… ― me interrompeu. ― Mas isso não é pra mim. ― relaxei meus ombros, como se estivesse tirando um peso dos meus ombros falando aquilo para ele. ― Não é nada com você. Na verdade, eu te adoro. Você é incrível e é justamente por isso que acho que você merece outra pessoa melhor do que eu. Alguém que goste de você do jeito que você quer e merece. ― dei de ombros.
― Sua sinceridade é uma das coisas que eu mais aprecio em você. ― sorriu.― Você não tem medo de falar o que pensa, na hora que pensa, o que é bem raro. ― por fora, eu apenas sorria, por dentro, estava aliviada por não ter sido mal-interpretada e sua reação ser positiva. ― Tenho certeza de que, se alguém algum dia conquistar esse coração, vai ser uma das pessoas mais sortudas do mundo. ― acariciou meu rosto com uma de suas mãos novamente, ainda mantendo a outra segurando a minha sobre seu colo. ― Bom, já que eu levei um fora, podemos assistir a um filme ou dar uma volta… ― deu de ombros, rindo. ― Se você quiser, também posso te levar pra casa.
― Acho que, por hoje, prefiro ir para casa. ― assentiu, levantando-se do sofá, estendendo a mão para mim.
― Você tem medo de moto? ― neguei com a cabeça, segurando sua mão para me levantar.
― Então, vamos. ― disse, pegando uma chave sobre a estante da sala e me entregando um capacete, que estava guardado em um armário ao lado da porta.
Na garagem do prédio, coloquei o capacete na cabeça, vendo-o fazer o mesmo. Assim que subiu no veículo, fiz o mesmo, abraçando-o pela cintura. Acelerando, partiu em direção a minha casa, que não ficava a uma distância tão longa dali.
Em velocidade média, demoramos quatro minutos até que ele estacionasse em frente a minha casa, pois boa parte dos semáforos no caminho estavam fechados. Desci do veículo, tirando o capacete, entregando-o de volta para o homem.
― Obrigada pela carona.
― Você vai responder minhas mensagens um dia?
― Eu disse que não quero nada sério, não que não podemos mais sair. ― respondi, fazendo-o rir.
― Ótimo. Me chame quando estiver livre de novo. ― assenti, acenando ao vê-lo tirar a moto do ponto morto e partir.
Entrei em casa, me surpreendendo ao ver sentado no sofá, zapeando canais na TV, que era a única responsável por iluminar o cômodo. Sentei-me ao seu lado, em silêncio nos primeiros segundos, decidindo mentalmente se deveria falar sobre tudo que estive pensando quase a noite toda.
― Achei que você fosse demorar. ― falou sem me olhar.
― Também achei que você não fosse vir pra casa tão cedo. Você e pareciam estar se entendendo.
― Por que você sempre leva as coisas pra esse lado? ― largou o controle remoto, sobre o assento ao seu lado, me olhando com as sobrancelhas franzidas.
― Porque quer que você leve as coisas pra esse lado com ela e, dessa vez, nem são as vozes da minha cabeça falando. Ela mesma me disse isso na hora do almoço. ― sentei-me de lado no sofá, com uma perna dobrada sobre o assento, recostando a cabeça no encosto ao meu lado. ― Desculpa, eu fui muito babaca hoje de manhã. Passei o dia todo pensando nisso e eu sei que você só tava preocupado comigo porque a gente sempre cuidou um do outro e minha mãe meio que depositou essa expectativa em você. ― franzi os lábios. ― Sei que não devia ter agido daquela forma em nenhuma circunstância.
Seu rosto ainda sustentava aquela feição séria, agora, com as sobrancelhas relaxadas.
― Em qualquer outra situação, eu diria que não sei o que deu em mim pra agir daquele jeito, mas eu tô tão cansada de mentir e fingir que não sinto nada. ― minha garganta se fechou, como se uma reação alérgica estivesse atacando meu sistema imunológico. Era só a vontade de chorar que havia reprimido durante a noite inteira. ― A verdade é que eu sou apaixonada por você desde a primeira vez que conversamos e, às vezes, sinto que esses sentimentos dentro de mim são como órgãos vitais dos quais eu não consigo me desfazer. ― seu rosto se aproximou do meu, selando meus lábios vagarosamente.
Meu corpo inteiro formigava e meu estômago parecia liberar borboletas que voavam nas mais diversas direções dentro de mim.
Desvencilhando sua boca da minha só o suficiente para nos olharmos nos olhos, seus olhos aparentavam tão ternos e afetuosos quanto sempre foram.
― Que bom que eu não sou o único escondendo como se sente por aqui. ― deu um meio sorriso tímido.
… ― passei a mão por seu rosto, prestando atenção no caminho que meus dedos percorriam. ― Eu te amo tanto que, às vezes, sinto dores físicas quando vejo que outras também notam você. ― meus olhos se marejaram e minha voz se embargou. ― Eu amo você, mas não quero gostar de você assim. Eu não posso arriscar te perder. ― limpei uma lágrima que se formava no meu olho antes que escorresse. ― O que aconteceu nesses últimos dias foi só uma amostra do que vai acontecer se um relacionamento entre nós não der certo. E eu tenho certeza que não vai. ― funguei baixinho. ― Você nunca foi minha alma gêmea, você é o irmão da minha alma e eu não quero te magoar.
― Pra mim, seria uma honra ser magoado por você. ― segurou meu rosto entre suas mãos. ― Eu não quero ser só seu amigo.
― E você não é só isso. Você é tudo que eu tenho. ― selou nossos lábio outra vez, porém de forma mais rápida.
Não muito depois dele se afastar, avancei minha boca sobre a sua, começando um beijo urgente, desesperado e carente. De repente, todo o vazio que havia em mim há anos foi preenchido pela sensação de seus lábios nos meus, a língua roçando devagar na minha, suas mãos sobre minha pele. Inclinei-me sobre ele, fazendo com que caíssemos deitados no sofá sem nos desgrudar. Impaciente, parou de me beijar para tirar sua camiseta, os sapatos e as meias. Aproveitei a deixa para tirar o vestido, jogando-o no chão junto com sua camiseta. Voltando a se pôr sobre mim, agarrou um de meus seios com a mão, espalhando beijos quentes em meu pescoço, aquecendo meu corpo por inteiro.
Sentia minha pele arder em chamas sob seu toque e ansiava por mais daquilo. Beijando e mordicando a pele exposta, sua boca desceu até alcançar meu outro seio descoberto, envolvendo o mamilo nos movimentos que sua língua fazia ao redor. Segurei maços de seus cabelos entre meus dedos, apertando-os, pressionando seu rosto contra meu corpo.
Levantou-se brevemente para tirar as parte de baixo das roupas, deixando-as jogadas juntos das outras peças no chão, colocando-se entre minhas pernas.
Seus dedos deslizaram pela minha calcinha úmida, fazendo-me soltar um suspiro sonoro com os olhos fechados. Beijou-me lentamente, roçando a língua no céu da minha boca, deixando meu corpo todo eriçado e ainda mais excitada. Fazendo movimentos circulares sobre o tecido, fitava meu rosto contorcido de prazer.
Pondo o tecido da minha última peça de roupa de lado, introduziu um dedo em mim a fim de umedecê-lo e deslizá-lo sobre toda a extensão de minha vagina, acariciando-a vagarosamente. Com a respiração pesada, meu tórax se retesava todas as vezes que sentia seu toque passar suavemente sobre meu clitóris. Era como falecer aos poucos. Uma morte lenta e deliciosa.
Deslizou dois dedos para dentro de mim, mantendo a palma da mão sobre minha intimidade. Ao mexer os dedos, consequentemente, a palma atritava com meu clitóris. Apertei meus lábios um contra o outro para evitar gemer alto.
À medida que ficava mais excitada e molhada, minha respiração começou a entrecortar e, por vezes, tranquei-a inconscientemente. Quando um orgasmo começou a formar dentro de meu corpo, senti seus dedos se arrastarem para fora do meu corpo. Com uma mão de cada lado da peça, deslizou minha calcinha pelas minhas pernas, afastando-se do meu corpo para conseguir tirá-la por completo, fazendo-a juntar-se as outras roupas no chão.
Segurando seu membro, passou a glande algumas vezes sobre meu clitóris antes de finalmente me penetrar, começando a entrar e sair devagar.
Puxei-o para perto de mim, as mãos emaranhadas em seus cabelos, apertando-os com mais força do que deveria. Beijei seu pescoço, sentindo seu corpo se arrepiar sobre o meu. Lambi o lóbulo de sua orelha, descendo minhas mãos de seu cabelo para sua nuca e, em seguida para suas costas, arranhando-as.
Percebendo que aumentava a velocidade de seus movimentos, enlacei uma das pernas em sua cintura para lhe dar um pouco mais de espaço para se mexer. Erguendo um pouco o tórax, apoiado nos braços ao lado meu corpo, seu rosto ficou semi-iluminado pelas luzes que entravam pela janela atrás do sofá. A testa estava levemente suada com pequenas mechas de cabelo grudadas em volta dela.
Tirando uma das mãos de suas costas, direcionei-a para meu clitóris, começando movimentos circulares sobre ele, aumentando a velocidade aos poucos. Arqueei as costas, o ar faltando em meus pulmões, sem conseguir manter os olhos aberto por muito tempo, apertei as pálpebras uma contra a outra, permitindo-me gemer alto pela primeira vez.
De novo, um orgasmo começou a se formar em meu ventre. Meus membros superiores e inferiores formigavam devido a tensão. Vez ou outra, apertei seu corpo entre minhas pernas com mais força, visto que já estava perdendo o controle dos meus músculos, passando a ter espasmos mais intensos e frequentes.
Nossas intimidades de chocavam cada vez mais rápido e mais forte. Eu ouvia seus gemidos roucos, que soavam como a canção mais sensual que ouvira durante toda a minha vida.
Não suportando mais me segurar, me desmanchei em um orgamos intenso. Ainda sentindo-o se movimentar dentro de mim, não conseguia fazer meus corpo relaxar. Meus olhos estavam completamente revirados e todo o ar parecia ter sido roubado do mundo, pois não conseguia respirar direito.
Cerca de dois minuto depois, tirou o pênis de dentro de mim ao também alcançar o orgasmo, deitando-se sobre meu peito, com uma mão sobre um dos meus seios.
Emaranhei meus dedos entre suas madeixas, acariciando seu couro cabelo. Nossas peles estavam grudadas uma na outra devido suor e o ambiente ainda parecia queimar sob um sol de 40 graus.
Ao mesmo tempo em que pensava que o resultado daquela noite tinha sido melhor do se eu tivesse ficado com , sentia o arrependimento me atingir em cheio, pois havia começado bem, dizendo a ele tudo o que precisava ser dito, porém, precisava afastá-lo de mim e da ideia de um relacionamento, não nutrir isso com uma boa foda.
? ― chamei-o baixinho, hesitando.
― Hm? ― murmurou.
― Sabe que não podemos mais fazer isso, né? Que essa foi a última vez?
― Pelo menos, tivemos uma despedida em grande estilo, hein? ― brincou, depositando um beijo entre meus seios.
Falava todas aquelas coisas, mas nem eu era capaz de afirmar com certeza absoluta de que aquela seria a última vez. Só de pensar sobre, meu estômago se comprimia e se revirava de tal forma que ficava por um triz de ter ânsia de vômito.
Sem querer ponderar mais sobre o assunto, ali, nua e abraçada ao seu corpo, me concedi o direito repousar uma última vez no conforto de seus braços.


#4 Hold On ‘Till May - Pierce The Veil

Quando o mês seguinte se iniciou, os trabalhos da faculdade e as encomendas de trabalhos que eu fazia como freelancer começaram a se acumular aos montes, esgotando minhas forças vitais até a última gota. Havia saído da casa que e eu dividíamos, mudando-me para o dormitório da universidade. Não me sentia mais confortável de estar sob o mesmo teto que ele sabendo que poderíamos cair na tentação a qualquer momento. Todavia, minha saída me rendeu um celular novo de presente porque ele ainda “gostaria de saber como eu estava”.
Mesmo sem ninguém para me vigiar, não conseguia mais sair aos fins de semana e passava a maior parte do meu tempo livre comendo uma quantidade absurda de porcarias, as quais eu chegava a salivar ao imaginar o gosto que se espalharia por todo o meu paladar quando mastigasse.
Por mais que financiasse a maioria dos meus surtos alimentares, observava tudo sempre com um olhar preocupado enquanto continuava a se desviar das investidas de e June, que entenderam o fato de eu não estar mais por perto como um sinal de que estavam livres para atacar.
Naquele dia em especial, meus seios estavam especialmente doloridos e meu estômago embrulhado como nunca antes havia acontecido. Sem querer deixar meu amigo superprotetor receoso, avisei-o do mal-estar e o pedi que, se possível, comprasse algum remédio que resolvesse aquela situação.
Apressado, pois estava em um intervalo entre aulas, apareceu apenas para entregar alguns remédios e pacotes de chá. Agradeci-o, despedindo-me e indo até a cozinha comunitária para preparar uma das doses de uma bomba efervescente para meu estômago.
Despejando o pó dentro de um copo e misturando-o com água, lembrei de não ter tomado o anticoncepcional e que talvez fosse melhor tomá-lo algumas horas depois de tomar algo para o estômago. Bebi todo o líquido fazendo careta e voltei para meu dormitório para deitar.
Horas mais tarde, acordei com o barulho do despertador que anunciava que já havia se passado tempo suficiente e que poderia tomar meu anticoncepcional. Procurando pela cartela dentro da bolsa, me surpreendi ao ver que haviam mais comprimidos intactos do que deveria.
Fiz mentalmente as contas e percebi que já era hora da minha menstruação ter dado as caras. Entretanto, considerando o caos, o estresse e o cansaço constante que estavam sendo os meus dias, provavelmente, quando menos esperasse, ela apareceria. Portanto, antes de me desesperar, tomei o comprimido do dia e resolvi esperar até o fim da semana para tomar alguma atitude.


Na segunda-feira de manhã, eu ainda não tinha ficado menstruada e só conseguia pensar que haviam duas possibilidades: ou eu incharia, me transformaria em uma grande bola de sangue e explodiria pelos ares; ou eu estava grávida. Tendo em conta que era apenas uma caloura de 18 anos que mal podia se sustentar direito com os trabalhos autônomos que arranjava, esperava que a primeira opção fosse a correta.
Sem coragem alguma para sair do quarto para ir à aula ou comprar o que precisava para acabar com a dúvida, mandei mensagem para perguntando se poderia passar pelo meu dormitório munida de com três testes de gravidez de marcas diferentes. Como era do seu feitio, respondeu com um “ok”, questionar nada.
Quase 30 minutos depois, alguém bateu na porta e eu atendi. entregou-me à sacola e fomos até o banheiro que ficava ao final do corredor.
Bebi um litro de água em aproximadamente dois minutos e entrei em uma das cabines com as três caixas de teste. Abrindo uma por uma, li as instruções, constatando que eram as mesmas em todos os três: xixi na ponta; o resultado saía em um espaço de tempo de um minuto e meio a dois minutos; um traço era negativo, dois, positivo.
Fiz um de cada vez e cronometrei o tempo no relógio. Não iria olhar um de cada vez, pois acabaria ficando mais ansiosa do que já estava. Quando o alarme acionou, olhei os três ao mesmo tempo e senti o chão ser tirado dos meus pés. Em choque, caí sentada sobre a privada e fiquei imóvel pelo que pareceu uma eternidade.
Minhas retinas queimavam e não conseguia focar em mais nada. Queria desaparecer.
Juntando o restinho de forças dentro de mim, levantei-me e saí de dentro da cabine, encontrando encostada na pia da área comum do banheiro. Não foi preciso que dissesse qualquer coisa, a garota me envolveu em seu braços. Encostei a testa em seu ombro e me permiti chorar.
Como se já não houvessem problemas suficientes para que eu resolvesse, a vida veio como um rolo compressor e me atropelou. Enquanto me segurava em seus braços, não me disse que tudo ficaria bem, pois eu e ela sabíamos que esta era uma situação complicada demais para que afirmássemos isso.
Alguns minutos depois, disse a ela que iria voltar para meu dormitório e pedi que não contasse a ninguém sobre o assunto, nem mesmo para , cujo qual a reação era uma incógnita e, talvez, eu não estivesse pronta para lidar com um possível surto da parte dele.
Contudo, horas mais tarde, ouvi alguém bater na porta de novo. Poderia ignorar e esperar que a pessoa fosse embora, mas, se fosse, , passaria as próximas horas do lado de fora me ligando e enchendo meu celular de mensagens até me encontrar.
Levantei-me da cama, tendo certeza absoluta que a minha aparência era a pior de todas e abri a porta, vendo-o de pé, dirigindo um olhar preocupado para mim. Querendo me sentir um pouco de aconchego, abracei-o pela cintura, deitando minha cabeça em seu ombro e nem mesmo o desconforto que se formou em minha nuca devido ao fato de ser mais baixo que eu foi capaz de me fazer desgrudar de seu corpo.
― O que aconteceu? Te liguei um milhão de vezes. ― disse baixinho, mexendo em meus cabelos.
Ainda não conseguia formular aquela frase em voz alta, então, desvencilhando-me de seu corpo, fui até a cabeceira da minha cama, peguei um dos testes feitos, que estava dentro da caixa com as instruções de uso, de cima da mesinha e entreguei a ele. O homem examinou o bastão como se esperasse que a resposta pulasse diante de seus olhos. Revirando a caixa em todas as direções, achou o texto que descrevia a interpretação dos resultados e, cerca de um minuto depois, seus olhos se voltaram para mim, mais preocupados que antes.
― Por favor, me ajuda. ― foi tudo o que consegui sussurrar antes de sentir seus braços ao meu redor novamente. Por pior que a situação fosse, sentir seu calor e aquele cheiro de sabonete de bebê misturado com a quantidade absurda de cigarros que havia fumado ao longo do dia me consolou muito mais do que qualquer palavras que tivesse me dito.
Guiando-me para a cama, fez com que eu me deitasse e deitou-se atrás de mim, abraçando-me pela cintura. Desde que começamos a criar certa intimidade e confiança, sempre que um dia nós estava triste, costumávamos deitar de conchinha até que o outro se sentisse melhor.
― Preciso ir em um lugar amanhã. Você pode ir comigo? ― cochichei.
― Posso. ― respondeu no mesmo tom.
― Pode ficar comigo até eu dormir? ― senti-o concordar com a cabeça, dando-me um beijo no rosto.
Continuei sentindo-o ao meu redor até perder a consciência.


No outro dia, me arrumei bem cedo e telefonei para , pedindo que me esperasse na entrada do campus. Havia pesquisado no dia anterior um clínica não me muito longe dali que realizava abortos. Parte do caminho fomos de metrô e outra parte caminhando.
Apesar de calado, segurou minha mão durante todo o trajeto e, mesmo não verbalizando, estava grata por isso.
Ao entrarmos no local, haviam somente duas mulheres sozinha sentadas nas cadeiras vagas da recepção. Fui até o balcão para pegar a ficha de atendimento e me sentei ao lado do homem na última fileira, começando a preencher as lacunas na folha a minha frente.
Em um lapso de consciência, avaliei o que havia me levado até ali. Não sabia quanto tempo eu estava grávida, não sabia quem poderia ser o pai, nunca havia pensado sobre ser mãe, logo, também não sabia como sê-lo, mas não tinha certeza se aquela era a minha melhor e única opção. Aquela não era uma decisão que eu poderia tomar do dia para noite movida pelo desespero de ter minha rotina de farra e de estudante alterada.
Talvez abortar fosse a opção mais sensata se pensasse no quanto minha vida mudaria tendo uma criança a tira a colo em tudo que eu fosse fazer, no entanto, não podia decidir não tê-la sem pensar direito nas consequências que aquilo me traria física e psicologicamente.
Em um surto de coragem, ou de extrema burrice, com apenas metade da folha preenchida, entreguei-a a recepcionista, pedindo-a que jogasse fora, pois não iria ficar para ser atendida. Sinalizei para e voltamos para meu dormitório em silêncio.
Ao chegarmos, me joguei na cama. Meus olhos ardidos agora se derretiam em lágrimas grossas, molhando a camiseta do homem, que me aconchegara em seu peito ao se deitar ao meu lado. Ora chorava de desespero por não saber o que faria dali por diante, ora de alívio por tê-lo ali comigo e não precisar passar por isso completamente só.
A última coisa que me recordo antes de dormir é de suas mãos me fazendo cafuné e de sua respiração tranquila.
Acordei algumas horas depois, sendo a primeira coisa nas quais meus olhos focaram. Ainda estava acordado e atento, caso eu precisasse de algo.
― Eu vou ter o bebê. ― falei baixo.
acariciou meu rosto, assentindo.
― Talvez você não queira falar sobre isso agora, mas… eu sou o pai? ― indagou, o rosto com aquela feição terna e calma.
Assenti.
― Mas, se meus cálculos estiverem certos, pode ser de outras duas pessoas. ― senti minhas bochechas queimarem, afinal, não imaginava ter de contar isso para ele. Ainda assim, de todas as pessoas, sabia que ele seria uma das únicas que não me julgaria. ― Não se preocupe. Assim como não quero criar problemas pra você, também não quero para eles. ― franzi os lábios. ― Isso é algo que preciso fazer sozinha. Eu e essa criança. ― senti seus lábios tocarem minha testa. ― Vou para casa este fim de semana. Acho que eu e minha mãe temos muito o que conversar.
― Se quiser, posso ir junto.
― Seria ótimo. ― dei um meio sorriso.
Abraçou-me novamente e perdi a noção de quanto tempo se passou depois disso.


O sol estava alto e fazia um calor bem mais intenso do que a estação pedia no sábado a tarde. e eu não havíamos arrumado malas, pois não estávamos indo para passar um tempo agradável em família. Conhecendo minhas mãe do jeito que a conhecia, em breve, aquele dia estaria longe de ser um bom dia para qualquer um de nós.
Sabendo que o filho estava voltando na companhia da melhor amiga, Denise, mãe de , havia se reunido com minha mãe para que fizéssemos um chá da tarde juntos. Mal sabia ela a surpresa que ambas teriam quando chegássemos.
Tensa, eu só sabia calcular as palavras que usaria para abordar o assunto. Não foram poucas as vezes que depositara a mão sobre meu joelho ou segurara minha mão durante a viagem para me consolar e encorajar. Em todas elas, eu apenas o respondia com um sorriso.
Quando chegamos em frente a casa, o homem pôs um dos braços sobre meus ombros sussurrando um “eu estou aqui” e beijando a lateral da minha cabeça. Ao entrarmos, fomos recebidos por ambas as mulheres, que pareciam infinitamente animadas de nos ter ali nem que fosse apenas pelas poucas horas seguintes.
Cerca de 20 minutos mais tarde, era quem mais interagia com as duas. Eu apenas dava meios sorrisos e apertava pedaços do tecido da minha calça em minhas mãos. Sentia uma gota de suor escorrer pelas minhas costas e meus dedos dos pés amortecidos.
― Filha, tá tudo bem com você? ― minha mãe, assim como eu e minha falecida avó, era uma mulher negra, alta, de cabelos enrolados, porém, diferente de nós, Regina quase sempre sustentava um semblante sisudo no rosto. Às vezes, me perguntava o que de fato havia acontecido para que ela tivesse endurecido tanto com o passar dos anos.
― Eu preciso contar algo. Na realidade, é por isso que eu vim aqui. ― agora que havia começado, não poderia hesitar, tremer, me calar ou fugir. O que me restava era falar e esperar pelas consequências. ― Eu tô grávida. ― soltei como quem soltava uma banana de dinamite prestes a explodir.
Denise franziu os lábios e minha mãe arregalou os olhos, assumindo, primeiramente, uma expressão de pura surpresa e, milésimos de segundo depois, voltou a vestir aquela máscara carrancuda que me dizia exatamente o que viria a seguir.
― O que? , como você me faz uma coisa dessas? ― indagou, incisivamente. ― Não faz nem seis meses que você saiu de casa e você já tá me arranjando mais problema, garota?
― Regina. ― Denise pôs a mão sobre o joelho de minha mãe.
― Não, Denise, eu não vou aguentar essa garota aprontando de novo. ― disse, olhando séria para amiga. Correndo os olhos dela para mim, disse ríspida: ― Você vai abortar.
― Não vou. ― respondi, firma. ― Eu vou ter essa criança.
, você não está pensando. Você é uma criança e está estragando a sua própria vida! ― bradou, levantando-se de seu assento. ― Eu não dei tanto duro pra você acabar com o seu futuro.
― Mas eu tenho o direito de decidir sobre o que quero, não tenho? E, nesse momento, eu decido isso! ― rebati.
― Só que este é o problema. Essa não é uma decisão que você pode tomar agora e daqui alguns anos desistir. É uma criança, ! Como você pretende cuidar dela? Você não tem emprego, não tem casa e ainda estuda. ― apesar de não estar gritando, seu tom de voz era uma mistura de raiva e indignação.
― Eu vou dar o meu jeito. ― respondi, sentindo minha garganta se fechar.
― Quem é o pai dessa criança? ― calada, fiquei encarando-a. ― Só o que me falta é você não saber também. ― ironizou.
― Sou eu. ― levantou-se, pondo-se entre nós duas. ― Eu sou o pai do bebê.
― Eu tinha certeza de que você era problema desde o primeiro dia que coloquei meus olhos em você, garoto. ― com uma voz baixa e ríspida, Regina se aproximou dele. ― Não sei como eu pude confiar em você. ― bateu com o indicador no peito do homem. ― Você destruiu a vida da minha filha! ― gritou e, rapidamente, Denise colocou-se entre o filho e a amiga.
― Chega, Regina! ― esbravejou. ― Não vou deixar que você fale com eles dessa forma.
― Foi homem o suficiente para engravidar a minha filha e não é para se defender? Precisa da mamãe pra isso? ― debochou.
― Regina, você está fora de si. Não ouse falar assim com meu filho ou com a . ― Denise interveio outra vez. ― Eles vieram aqui nos contar porque somos as mães deles, deveríamos ser o porto seguro dos dois, não condená-los.
― Não falei nada antes porque sabia que a gostaria de falar sobre isso com você, mas eu jamais deixaria de assumir a responsabilidade dos meus atos. Sim, vamos ter um filho juntos e eu farei tudo que estiver ao meu alcance para manter os dois bem. Custe o que custar. ― suspirou, passando uma das mãos pelo rosto. ― Me decepciona muito que esta seja a sua reação e que esta era a imagem que você tinha de mim o tempo todo. Eu amo a sua filha e nunca faria nada para magoá-la, muito menos destruiria a vida dela. ― deu um sorriso amargo.
― Só espero que vocês dois sejam o suficiente e não se cansem dela porque, a partir de agora, serão a única coisa que ela tem. ― deu as costas para nós, seguindo para as escadas. ― Saiam todos da minha casa.
― Mãe… ― murmurei com a voz embargada.
Olhando-me uma última vez nos olhos, proferiu:
― Você não é mais minha filha. ― e subiu os degraus, desaparecendo de nossos campos de visão.
Denise abaixou-se, depositando as mãos sobre meus joelhos. Lágrimas escorreram dos meus olhos, rolando pelo meu rosto, molhando suas mãos.
― Não precisa chorar, querida. Nós estamos aqui por você, ok? ― sua voz soava tão terna e afetuosa quanto a do filho. ― Vamos lá para casa, sim? ― ajudou-me a levantar e fomos embora.
À uma quadra de distância da minha casa, ficava a de Denise. Entrando pela porta da frente, lembrei-me de como gostava de passar minhas tardes lá, como gostava de conversar com ela, que, normalmente, era totalmente aberta em relação a maioria dos assuntos e, como nos últimos tempos, ia visitá-la mesmo que não estivesse por lá. Denise era uma versão mais divertida e compreensiva de minha mãe.
Sentadas lado a lado no sofá, Denise segurava minha mão. havia ido para seu quarto enquanto conversávamos à sós.
― Sei que parece assustador agora, mas tenho certeza que tudo vai dar certo, querida. Você será uma mãe extraordinária. ― trocamos um meio sorriso.
― Denise, tem algo que preciso dizer a você. Não me sinto bem sabendo que você não está a par de todos os detalhes. ― passei a língua pelos lábios, umedecendo-os.
― Eu sei o que você vai me dizer. ― olhei-a, esperando que me contasse. ― não é o pai dessa criança, não é? ― arregalei os olhos, fazendo-a dar uma risadinha baixa. ― Eu sabia.
― Como?
― Eu tinha minhas dúvidas, mas você acabou de confirmar. ― passou a mão pelo meu rosto. ― O coração de uma mãe nunca se engana e, em breve, você vai descobrir isso também. ― sorrindo, acariciou minha mão. ― me conta quase tudo e, mesmo que ele não tenha me contado, eu sei o quanto você mexe com aquele coraçãozinho. E, por isso, também sei que ele faria qualquer coisa por você. ― dando dois tapinhas delicados em minha mão, falou: ― Se quiser ir lá pra cima, descansar um pouco. Vou fazer o verdadeiro chá da tarde para nós. ― riu.
― Eu te ajudo.
― Não, querida. Acho que você dois precisam conversar. ― dei um meio sorriso tímido, concordando com um aceno de cabeça. ― Fique à vontade. Essa sempre será sua casa. ― levantou-se, encaminhando-se para a cozinha.
Também me levantei, porém tomei o rumo das escadas, virando a primeira porta à direita, adentrando em seu quarto. Ainda tinha o mesmo aroma de lavandas de sempre, agora, misturado com o cheiro do cigarro que fumava, sentado no parapeito da janela.
Sentei-me no estofado localizado abaixo da janela, encostando minha cabeça em sua coxa. pôs a mão em meu rosto, acariciando-o.
― Que dia, hein? ― assenti, sentindo seu dedão em minha bochecha.
― Acho que só não foi pior porque Denise estava lá. ― murmurei. ― Você não precisava ter feito aquilo.
― Sim, precisava. Considerando que existe a possibilidade de ser meu filho e eu sei que você não vai atrás dos outros dois caras, não fiz mais que a minha obrigação de estar lá. ― ergui os olhos a tempo de vê-lo dar de ombros e uma última tragada no cigarro, apagando-o no cinzeiro à sua frente em seguida e soprando a fumaça pela janela. ― O que eu disse sobre assumir a responsabilidade é verdade, . ― abaixou a cabeça, olhando-me nos olhos. ― Não vou te deixar sozinha nessa.
― Por quê? Quer dizer, nem você nem eu temos certeza, sem contar que isso vai atrapalhar sua vida.
― Porque você é minha melhor amiga, eu amo você e não existe nada no mundo que eu não faria pra aliviar a sua dor. ― com os olhos marejados, sua mão que estava depositada em meu rosto, abraçando-me a sua perna.
― Amo você e a nossa pequena família. ― sorri, sentindo lágrimas quentes descerem pelo meu rosto.
Não haviam palavras no mundo para descrever o amor que eu sentia por cada pequena parte daquele homem e como me sentia feliz por tê-lo encontrado tão de repente em um final de tarde, há duas primaveras.




FIM.



Nota da autora: Escrevi essa no intuito de explanar sobre algumas coisas que podem não ter ficado tão explícitas na long. Espero que tenha rolado de entender um pouco melhor a relação da nossa amada Antonella (ou o nome que você pôs aqui) e do pp. Quem não leu Girl on the screen, ela vai tá linkada aqui embaixo junto do outro spin-off que eu lancei em dezembro.
Até o próximo surto da autora que não larga o osso ;*





Outras Fanfics:
Girl on the screen
Wandress
nothing revealed, everything denied


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