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Única atualização: 30/05/2020

Capítulo Único

Acordei antes mesmo de tocar o alarme. Vi que lá fora já estava começando a clarear, chequei as horas no relógio e decidi levantar mesmo assim. Teria praticamente uma hora a menos de sono, mas uma hora a mais para me arrumar. Tudo dependia do ponto de vista.
Fiz uma massa para waffles com uma mistura pronta e joguei na máquina que ainda cheirava a nova. Deixei lá e fui pegar o resto de suco de laranja do dia anterior. Comi sem pressa, assistindo o noticiário da manhã. Aparentemente, Boston teria um dia movimentado: dois acidentes nas duas principais vias da cidade e um prédio antigo que caiu sem ninguém saber a causa. Acordar mais cedo até que tinha sido bem esperto da minha parte.
Tomei banho depois do café da manhã. Botei calça preta, blusa social branca, gravata azul marinho e paletó preto. Não tinha como errar com o básico, certo? Eu queria não errar no meu primeiro dia.
O carro havia sido confirmado com o vendedor antes mesmo de eu sair da Inglaterra, queria e precisava que tudo estivesse em ordem quando eu chegasse. Então saí de casa com minha mala em mãos e um destino: a corte. Joguei o endereço no GPS, havia um bom tempo desde que eu passara naquelas ruas pela última vez e não lembrava muito bem de tudo. Mesmo assim, fiz um desvio proposital no meu trajeto.
O apartamento estava todo fechado, mas isso não significava que ela não estava em casa. Juliette gostava de janelas fechadas, cortinas fechadas, portas fechadas... Tudo o mais escuro possível. Mas então uma janela se abriu, revelando uma mulher com uma pequena criança no colo de, no máximo, seis meses. Segurei a respiração, cheguei até a sentir o coração palpitar, mas não era ela. Eu a reconheceria, mesmo depois de tanto tempo longe, o que me fez concluir, de imediato, que Juliette não morava mais naquele endereço. Talvez isso explicasse muita coisa, na verdade.
– Juiz Cavill!
Eu tentei forçar o meu melhor sorriso educado ao ser recebido pelo primeiro colega ao chegar à corte.
– Raymond, é um prazer te rever.
– Ah, que isso, me poupe de formalidade. – Ele me puxou para um abraço e eu me questionei o porquê daquilo. – Seja bem-vindo ao nosso pequeno cantinho de contribuição para a justiça desse país. Vai ser bom ter um britânico por aqui. Às vezes, precisamos de alguém que tenha mais ordem que nós.
– Obrigado, Bender.
– Posso te levar até seu escritório?
– Na verdade, eu já recebi um mapa do local e estou ciente de onde fica.
– Ah, que isso! – Raymond repetiu com a mesma entonação que antes. – Eu faço questão.
Segurei a vontade de revirar os olhos e o segui – ou seria correto o plural? Porque ele e seu falatório certamente não cabiam na descrição de um só ser.
– Bom dia, juiz.
– Bom dia, Betty. – Eu fui até ela e apertei sua mão.
Betty havia sido secretária, por um bom tempo, de um colega de classe, Philip Fields, enquanto ele ainda trabalhava em Nova Iorque. Por motivos familiares, precisou se mudar para Boston e largar o emprego. Quando ficou sabendo que eu estava indo para lá, fez questão de recomendá-la de mil formas diferentes. Eu praticamente não tive escolha que não fosse contactá-la e a contratar como minha secretária.
– Eu sei que o senhor acabou de chegar, deve estar cansado de todo o processo da mudança, mas o senhor já tem uma audiência marcada para amanhã.
– Nunca é cedo demais para trabalhar, não é mesmo?
Podia jurar que ela havia sussurrado um “é sim” enquanto caminhava para dentro da minha sala privada, mas ignorei. Coloquei minha pasta em cima da mesa e dei uma olhada em volta, me perguntando como iria fazer para lotar aquelas prateleiras. Estávamos no século 21, os livros estavam começando a sair do padrão físico para o online e eu estava gostando muito da mudança. Já não tinha mais tantos livros de Direito em mãos, ainda mais porque tinha deixado a grande maioria na Inglaterra, ao menos os que eu tinha a versão digitada no computador.
Minha audiência de estreia não era algo muito difícil. O juiz que eu estava substituindo havia se retirado às pressas por conta de um problema grave de saúde e eu sabia que ia pegar o barco andando. Para isso, seria necessário um bom bocado de dedicação intensa de primeira. Para aquele caso, no entanto, não havia surpresas. O réu era acusado de agredir fisicamente a esposa e os filhos, porém tinha uma amante como álibi. Eu não precisava fazer muito além de ler os testemunhos anteriores e escutar os próximos. Mais do que em diversos outros casos, aquilo se tratava de achar o furo na fala de algum – ou alguns – depoente.
– Ei, Cavill. – Kevin Crawford, um promotor que eu conhecia de longe, colocou a cabeça para dentro do meu escritório. – Tudo bem? Está aproveitando seu primeiro dia?
– Melhor, impossível. – Levantei para ele as folhas que ainda estava lendo.
– Nada novo sob o sol. – Ele riu. – Nós estamos indo para o bar, uma galera daqui. Quer ir junto? Talvez se enturmar...
– Seria uma boa, mas eu precisaria passar em casa pra deixar esses documentos, de qualquer forma.
– Sem problemas, nós te aguardamos lá. Vamos estar no Cask ‘n Flagon a partir das sete, provavelmente.
– Ok, estarei lá. Obrigado pelo convite.
Betty partiu junto comigo. Passei em casa, deixei paletó e gravata, coloquei um pouco de dinheiro vivo na carteira e peguei um táxi para o local indicado. Não precisei me esforçar para encontrar os engravatados reunidos em algumas mesas no canto do estabelecimento.
– Cavill! – Raymond levantou imediatamente e acenou para mim, fazendo imediatamente com que eu me arrependesse de ter aceitado o convite e começasse a pensar em boas desculpas para ir embora em pouco tempo.
– Boa noite, pessoal.
– Olha o novo juiz aí! – Um homem mais alto que eu se levantou e me ofereceu a mão. – Espero que você seja mais legal que o Barnard. Sou George Ash, seja bem-vindo.
– Obrigado.
– O Ray disse que vocês estudaram juntos.
– Ele era de alguma turma mais nova que a minha.
– Entendi. – Ele ponderou. – Esses aqui são Charlie Clement, Arlene Wisdow, Moriah Mobley, Ralph Nguyen, Neil Jones, Kevin Crawford, David Smith e Bradley Thomason. – Conforme ele ia falando o nome, as pessoas me cumprimentavam de alguma forma. – Com excessão de Ray e Kev, somos todos seus colegas.
– Temos um considerável número de juízes para uma corte penal.
– Não é mais a mesma Boston de antes, sabe? – George fez sinal para que eu me sentasse junto a eles.
A conversa fluiu entre os mais diversos assuntos. Pareciam todos receptivos a um estrangeiro, contrastando com a minha experiência junto aos novaiorquinos. Em certa altura, os garçons estavam demorando a passar e eu acabei indo até o bar, sem muita paciência para esperar. Meu sanduíche estava esfriando e eu fazia questão de ter uma bebida para acompanhar.
– Boa noite. – Uma voz feminina falou perto de mim.
Eu olhei para o lado e sorri um pouco.
– Boa noite. – Respondi e me virei de volta para o bar, tentando chamar a atenção dos que estavam atendendo.
– Está sozinho?
Dessa vez, eu não escondi que estava revirando os olhos.
– Desculpa, não estou interessado.
– Hm, britânico... – Ela murmurou.
Quando esticou a mão na direção do meu braço, eu dei um passo para o lado e acabei esbarrando em um cara que não tinha nada a ver com a situação. Pedi desculpas a ele pelo inconveniente e olhei de cara feia para a mulher, que fedia a vodca. Foi o suficiente para me dar por vencido. Desistindo, tirei uma noite de vinte dólares da carteira e coloquei em cima da mesa, era mais que o suficiente para pagar o meu consumo.
– Peço perdão, mas vou precisar ir embora cedo. Esqueci um remédio em casa e não posso perder a hora dele de jeito nenhum.
Raymond, paspalhão e já um pouco alterado, levantou e veio me abraçar, dando dois tapinhas no meu peito.
– Vai levar aquele mulherão que deu em cima de você lá no bar, né?
Eu olhei para ele carrancudo, talvez a cara mais feia do que fiz para a mulher. Pedi que me soltasse, pedi desculpas mais uma vez por já estar indo embora, peguei o sanduíche em meio a folhas de guardanapo e entrei no primeiro táxi, indo para casa.


– Excelência, o senhor deve entender que isso é de suma importância para o julgamento.
– Protesto! – O advogado de defesa gritou. – Não é exatamente o oposto do que a testemunha já disse em outra audiência?
Apoiei os cotovelos na bancada à minha frente e coloquei o rosto entre as mãos. Era o primeiro julgamento que me deixava completamente louco.
– Ok. Os dois, aproximem-se. – Fiz sinal para advogado e promotor, desligando o microfone à minha frente logo em seguida. – Se vocês continuarem transformando isso em um circo pessoal, eu vou ser obrigado a suspender o julgamento até que se acertem. Estamos julgando o réu, não os senhores.
Eles se assentiram e voltaram aos respectivos lugares. Eu voltei a ligar o microfone.
– Reformulando, senhora Michel, para continuarmos com o julgamento... A senhora ouviu o réu no apartamento dele naquela noite?
– Não, senhor.
– E para satisfazer o meu colega... Pode me dizer sobre o que a senhora disse a respeito de sons no apartamento anteriormente?
– Eu disse que ouvi sons, mas que não eram dele.
– Como pode ter certeza?
– Bem... Quando se mora por mais de uma década no apartamento abaixo de alguém, você sabe identificar quando há visitas, e até mesmo sabe que são os passos desse alguém descendo a escada.
– Protesto. – O advogado de defesa voltou a se levantar. – Não há como provar isso de fato.
– Até que se prove o contrário, qualquer testemunho deve ser considerado como fiel à realidade. – O promotor rebateu.
– Protesto indeferido. – Falei e bati o martelo. – Acho que já ouvimos o suficiente por hoje. Nova data de audiência fica marcada para a próxima sexta, às duas da tarde.
– Excelência, o meu cliente vai ficar preso até lá?
– Próxima sexta. – Repeti. – Duas da tarde.
Levantei e deixei a sala imediatamente, prestes a surtar lá dentro. Andei a passos largos na direção da minha sala. Estava quase entrando quando ouvi uma voz me chamar. Marilyn Williams, talvez a mais nova promotora do estado, correu na minha direção.
– Juiz Cavill, perdoe a intromissão, mas gostaria de saber se o senhor teria um tempo livre hoje à tarde para uma breve reunião com os advogados de defesa do caso Adams.
– Veja com minha secretária, por favor.
– Mas, senhor, eu gostaria de...
Ela avançou na minha direção, ficando perto demais a ponto de me deixar desconfortável. Sorriu para mim, cheia de malícia. Eu revirei os olhos em seguida.
– Conduta inapropriada, promotora Williams. – Falei. – Vou pedir que repassem o caso para outro juiz.
– Mas o quê... – Ela ficou de boca aberta enquanto eu abria a minha porta. – Cavill, você é gay, por acaso?
O tom de voz alto e prepotente terminou de acender o meu pavio curto. Mesmo assim, eu tinha uma posição para manter e precisava pensar nisso duas vezes antes de tomar qualquer decisão.
– Eu poderia dar voz de prisão à senhorita por desacato agora. Se acontecer outra vez, não vou hesitar.
Bati a porta com força, assustando Betty.
– Desculpa.
– Problemas, senhor?
– Por favor, ache um colega para me substituir no caso Adams.
– Sob que alegação?
– Conduta inapropriada da promotora com relação a mim.
– Ok, considere feito. – Ela sorriu e já tirou o telefone do gancho.
Deixei alguns documentos no escritório, separei outros para levar embora. Betty saiu junto comigo. Após negar uma carona, eu peguei meu carro e fui direto para casa. O inverno estava um tanto quanto intenso, então decidi acender a lareira com pouca lenha enquanto esperava a pizza que havia pedido chegar. Quando a campainha tocou, eu estava um pouco distraído, mas levantei rápido, peguei o dinheiro que já tinha separado em cima do aparador e fui abrir a porta. Meu coração quase parou.
– Preciso da sua ajuda. – Ela falou antes mesmo de eu abrir a boca.
– Entra, por favor. – Disse, chegando para o lado e abrindo espaço para ela entrar.
– Vou ser rápida. Só preciso que você assine um mandado pra mim.
Mandado?! – Eu levantei uma sobrancelha. – Então quer dizer que a grande Juliette Danté conseguiu virar uma detetive.
– Hoje foi meu primeiro dia. – Ela falou baixinho, se encolhendo em uma timidez que não combinava com ela.
– Entra. – Eu insisti.
– Preciso ser rápida. – Ela ajeitou o cabelo. – Tão me esperando na delegacia.
– De qualquer forma, eu preciso ler os papeis, mesmo que rápido. Então...
Juliette finalmente desistiu de resistir e deu o primeiro passo para dentro. Logo quando chegou na porta que ia para a sala, ela deu um passo para trás.
– Se eu estiver atrapalhando alguma coisa, não precisa me atender.
– Por que você acha que tá atrapalhando? – Perguntei.
– To ouvindo o barulho da lenha crepitando. – Ela falou. – Ninguém acende a lareira para si só.
– Bem... Talvez eu acenda. – Dei de ombros e sorri.
Levei Juliette até a sala de jantar e peguei o papel de sua mão. Li rapidamente, a leitura dinâmica que eu exercitava sempre se fazendo útil. Como não havia motivo algum ou dúvida restante, já que o pedido havia sido muito bem escrito, eu finalizei pegando uma caneta de uma gaveta próxima e assinei.
– Quando precisar de outro, é só me consultar.
Ela assentiu e se levantou com pressa. Estava no meu limite e acabei segurando seu braço como reflexo.
– Sinto sua falta, sabia? – Falei.
– Desculpa, Henry. – Ela respondeu depois de uns segundos.
– Tem certeza de que não pode ficar um pouco?
– Preciso ir. O dono do lugar não é flor que se cheire. Pode ser que ele esteja, de alguma forma, envolvido no assassinato e esconda provas. Quanto mais cedo...
– ... Melhor. – Completei a frase que ela deixou no ar. – Me procura, por favor. Vamos sair pra jantar, conversar...
Juliette só assentiu e saiu da minha casa. Eu fiquei lá na porta, igual um babaca, assistindo enquanto ela se afastava. Então todo o muro que eu construí em volta de mim mesmo ruiu.
Não me entenda mal, eu ainda era uma pessoa de bem, só não queria me envolver com outra pessoa depois dela. Machucá-la foi, de longe, o que mais doeu em mim. Talvez até mais do que a morte da minha mãe, porque isso era esperado. Juliette me deixar? Aquilo me fez mais homem do que antes talvez mas, no momento em que pus os olhos nela de novo, eu vi que estava perdido. Os muros? Eles caíram todos aos pés dela, como se Juliette só precisasse estalar os dedos para destruir toda a proteção que eu criei para mim mesmo durante todo aquele tempo. E ainda assim, eu a queria de volta para mim desesperadamente.
Enquanto ainda estava cursando Direito em Nova Iorque, eu assisti uma palestra de um detetive particular, Matthew Clinton. Joguei o nome dele na internet e as informações de contato apareceram logo. Alguns e-mails – e uma transferência bancária, é claro – depois, recebi as informações que queria. Disquei o número do telefone fixo no e-mail e aguardei. Sua voz veio rápida com a gravação da secretária eletrônica e eu descobri que eu estava mais nervoso do que achava que estava.
– Oi, Juliette, – Eu comecei. – aqui é o Henry. Fiquei esperando você entrar em contato, mas você me conhece e sabe como eu sou ansioso. Meu número é 829-7729. Me liga, por favor.
Estava me coçando sem ter o que fazer. Imaginei que, mediante o mandado que eu tinha assinado, ela provavelmente teria obtido alguma evidência que precisasse ser processada. Fiz tudo o que eu não fazia em um dia de folga, botei minha roupa de trabalho. Saí de casa após verificar em qual unidade Juliette estava servindo. Não levou muito tempo até que eu chegasse na delegacia. Fui recebido por olhares estranhos, mas logo um homem alto veio me receber.
– Boa tarde. Posso ajudar?
– Boa tarde. – Respondi. – Eu procuro por Juliette Danté.
– A detetive Danté está no parque conduzindo uma busca, senhor, e provavelmente não volta aqui ainda hoje. É só com ela que o senhor pode resolver seu assunto?
– É sim.
– Quer deixar algum recado?
Pensei por alguns segundos.
– Não, melhor não. Eu volto outra hora. Obrigado.
Saí de lá com a mesma pressa que cheguei. Dirigindo para casa, sentia o coração ainda apertado. Peguei o celular e liguei de novo para o telefone fixo que haviam me passado. Mais uma vez, a gravação da secretária eletrônica me “atendeu”. Eu desisti e terminei o caminho. Em casa, liguei mais uma vez e não me importei de deixar outro recado.
– Fui até a delegacia hoje e você não estava. Disseram que você tava no parque público, não quis atrapalhar seu serviço, mas queria muito te ver. Por favor, passa aqui em casa hoje à noite.
Fiquei me controlando, tentando distrair a mente, mas acabei pegando o carro de novo. Vi o endereço residencial que Clinton havia me enviado, coloquei no GPS e parti novamente. Estava quase parando quando a vi de longe, saindo de seu carro e entrando correndo no prédio. Eu esperei alguns segundos, então também saí. Subi as escadas nervoso, em partes me perguntando o porquê de estar agindo como um adolescente.
Cheguei a pensar duas vezes quando parei na frente da porta do seu apartamento, mas apertei a campainha mais rápido do que pude pensar. O olho mágico, algum tempo depois, mostrou movimento lá dentro.
– Sei que você tá aí, – Falei. – te vi chegando.
Não consegui me controlar, mais uma vez. Ela estava enrolada em uma toalha branca, me lembrava tudo de bom que eu havia vivido na minha existência. Quando a passagem foi liberada, eu encurtei a distância entre nós e a beijei. Então ela me afastou.
– O que você acha que você tá fazendo? – Juliette gritou.
– Não consegui parar de pensar em você depois que você foi lá em casa e...
– Henry, – Ela me interrompeu. – você é um juiz e eu, uma detetive. Você tá me seguindo?
– Eu só precisava te ver.
Juliette murchou com as minhas palavras e, mais uma vez, eu me senti impotente. O fogo deu lugar à compaixão. Queria puxá-la para um abraço, mas ela se afastou com um passo antes que eu tomasse a decisão.
– Tive outros depois de você, Henry. – Ela murmurou.
– Mas você me amou, não amou?
– Sabe que sim.
Eu pulei dentro de mim mesmo ao ouvir aquela resposta.
– E poderia me amar de novo? – Perguntei.
Ela olhou nos meus olhos e eu senti como se estivesse derretendo. Literalmente.
– Meus últimos dias foram cansativos. – Juliette disse, a voz baixa. – Me deixa descansar, só essa noite. Prometo que vou te procurar e escutar tudo o que você tem pra falar, mas peço pra deixar isso pra lá, só por hoje.
Tentei sorrir. Cheguei mais perto e levantei seu rosto pelo queixo como fiz na primeira vez em que nos beijamos. Queria seus lábios nos meus de novo, mas me contentei com deixar um beijo na testa dela.
– Promete?
Ela assentiu e abriu um pequeno sorriso educado. Tentei responder com um sorriso também e a deixei em paz, prometendo mentalmente para mim mesmo que teria mais paciência e que esperaria por ela. Mesmo assim, ficava me perguntando se aquilo valeria a pena. Eu sabia que, no fundo, estava me achando um otário por estar caindo de joelhos por Juliette quando tinha jurado a mim mesmo que nunca mais iria amar outra mulher. O problema é que eu nunca havia deixado de amá-la.


Eu acordei mais cedo e fiquei olhando para o espaço vazio na cama, pensando em como Juliette ficaria bem deitada ali. A saudade ainda me afetava muito, mesmo que alguns dias já tivessem passado desde que fui embora dos Estados Unidos e deixei um pedaço do meu coração lá. Eu não queria que as coisas tivessem sido daquele jeito, tinha certeza de que eu e ela conseguiríamos sobreviver à distância. Ainda assim, meu coração estava em pedaços.
Levantei e fiz a mesma coisa que havia feito nos últimos dias. Como o fuso horário era um bom tanto diferente e fazer uma ligação internacional não era assim tão simples, a única forma de contato que eu tinha com ela era por mensagem. Então eu sentava pacientemente na ponta da cama e me preparava para digitar um bom texto pelo celular. Pelo menos, as aulas de produção textual serviriam para alguma coisa.
Talvez você esteja dormindo agora, ou talvez esteja indo dormir, se for uma semana de provas por aí. Eu só queria dizer, mais uma vez, que sinto sua falta e queria muito que você estivesse aqui. Se mudar de ideia, Julie, me avisa. Assim que houver uma folga por aqui, pretendo ir até Boston te ver, mas preciso de notícias suas. Estou ficando preocupado. Por favor, diga algo, nem que seja para avisar que não me quer aí. Preciso saber de você. Ainda te amo e não sei se um dia vou deixar de te amar. Pra ser sincero, não é como se eu pretendesse deixar, na verdade. Só quero você de volta.
Digitei e enviei. Deixei o celular de lado então, o grande dia me esperava. Eu me arrumei com pressa e logo desci para a cozinha, encontrando meu pai na bancada tomando uma caneca de café.
– Bom dia, pai.
– Bom dia. – Ele respondeu.
– Hoje é a minha primeira aula com o Palmer. – Senti que falei como um adolescente animado com o primeiro encontro. – Ele é um monstro. Vamos acompanhar uma audiência dele hoje.
– Isso é bom, filho.
– Pai, eu vou a Boston no mês que vem, se tudo der certo.
– Pra quê?
– Ver Juliette.
– Você ainda insiste nisso, Henry? – Ele se levantou e colocou a caneca na pia. – Já te disse que ela não está acrescentando em nada na sua vida profissional.
– Vida profissional não é tudo, pai.
– É sim, é o que paga as contas!
– Você poderia me apoiar no que eu quero ao menos uma vez! – Eu gritei sem perceber.
– Eu te apoiei nessa droga de processo de especialização que você veio fazer aqui, ou se esqueceu de quem conseguiu sua vaga com o Palmer? Não era o seu sonho?
– Isso não desclassifica Juliette.
– Desclassifica sim, porque ela teria te apoiado se fosse boa mulher.
– Não ouse falar dela desse jeito.
Meu pai avançou na minha direção.
– Você está debaixo do meu teto, eu falo de quem eu quiser como eu bem entender aqui. Se você levantar a voz assim pra mim de novo, vai aprender uma lição.
Ele me deixou bufando e saiu de casa para ir trabalhar. Eu estava pegando fogo mas me controlando para não desacatá-lo. Independente de qualquer coisa, ele ainda era meu pai.
O dia foi sensacional. Palmer era exatamente tudo o que descreveram dele para mim no passado. Por mais que a discussão da manhã tivesse me tirado do sério, eu me sentia feliz. Mas ao chegar em casa, vi alguns envelopes para mim na mesinha do hall de entrada. Folheei rapidamente e encontrei o que eu queria: a carta que eu havia enviado para Juliette na semana anterior foi entregue e ela tinha assinado o aviso de recebimento que me foi devolvido.
Tinha pensado que, se as mensagens não surtissem efeito, uma longa carta, escrita à mão, faria um milagre no coração de pedra da mulher da minha vida. Escrevi, em mais de quinze páginas, tudo o que eu sentia por ela e o quanto ela significava para mim. Cada página era um martírio. Mas eu fiz o que podia. Àquela altura, eu a queria demais ali comigo, mas também não iria desistir do maior sonho que tinha. Não achava saudável, tinha medo de Juliette entender aquilo como um passe livre para mandar e desmandar em mim.
Eu me perguntava constantemente o porquê de ela se negar tanto a aceitar. Sabia que eu não estava fazendo nada de errado. Não era justo. Eu tinha raiva dela por isso mas, ao mesmo tempo, meu coração só me fazia pensar em como eu queria que Juliette estivesse por perto. Eu nunca estive tão confuso na minha vida inteira.
E foi assim que eu comecei a fazer crescer muros em volta de mim, consciente de que, se não fosse Juliette, não teria outra mulher na minha vida. Ao menos, dessa forma, eu não sofreria. Não além do que já estava sofrendo.


Fim.



Nota da autora: Olá e obrigada por chegar até aqui! Como eu disse na abertura da fic, esse ficstape é um spin off de Badges and Guns, outra fic minha. Se você gostou e ficou curiosa pra saber mais, o link da fic tá aqui embaixo!





TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Before She's Gone [BTS - Finalizada]
02.Black Swan [BTS - Ficstape BTS: Map of the Soul 7]
05.Dare You to Move [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs]
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
03.Gorilla [Sebastian Stan - Ficstape Bruno Mars: Unorthodox Jukebox]
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
01.I Forget that You Existed [Original - Ficstape Taylor Swift: Lover]
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em andamento]
Just a Heartbeat Away [Louis Tomlinson - Shortfic]
Me Peça para Ficar [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento]
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
13.Something for the Pain [Bon Jovi - Ficstape Bon Jovi: One Wild Night]
01.The Crown [BTS - Ficstape Super Junior: Time Slip]
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Finalizada]
06.Walls [Henry Cavill - Ficstape Louis Tomlinson: Walls]
03.We Were Only Kids [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs]


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