07.Love Drought

Postada: 25/10/2017

Prólogo

- Tem meia hora que eu tento entender, . – ela dizia. O homem continuava com as mãos no rosto, apoiadas no joelho. – Pode me responder? Eu, por acaso, pareço invisível? Você mal me olha.
- , não piora as coisas!
- As coisas já estão na pior, . – Esclareceu, sem conseguir maneirar o tom de voz.
- Exatamente por isso. Você ainda quer reparar algo que não tem conserto!

(...)




#1 If I wasn't me, would you still feel me?

“Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer? Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma alegria além de ti. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei?” – Caio Fernando de Abreu.

Era apenas mais uma noite em quê eles iam dormir na mesma cama, lado a lado, mas com uma distância infinita entre si. Ele sabia que ainda a amava, porém, já tinha tentado mais do que devia. Não que tivesse desistido dos dois, longe disso. Entretanto, todas as noites nos últimos meses em que eles dormiam após uma discussão idiota ou um silêncio exasperante, era clichê demais.
E, naquele dia, havido sido o silêncio. Ele planejava desenvolver uma conversa ao fim do jantar, contudo, ela não havia aparecido. De novo. Tentando entender o porquê de ela não ter ido, a mulher apenas disse que teve clientes até tarde. Era designer de interiores e tinha o próprio escritório, ou seja, trabalhava pra si mesma. Não podia, ao menos, reservar um tempo para o marido? Ou, talvez, ela nem o considerasse isso mais.
Há algum tempo, ele não se sentia amado, ou, ao menos, prazer com tal. Mas não queria só isso – do contrário, não teria se casado. Ele queria uma esposa, uma companheira. Alguém que ele compartilharia de todos os momentos, da forma com que prometeram no casamento.
Viu o abajur do lado esquerdo da cama se apagar e ela virar para o lado oposto, se cobrindo em seguida. Só restou o silêncio, mais uma vez. Fechou os olhos e se lembrou do casamento dos dois. Casaram-se novos, com apenas vinte e dois anos. Entretanto, tinham certeza do que queriam, naquela época ao menos. Seis anos depois, o “até que a morte nos separe” não parecia valer para ela mais.

Flashback – 03 de Abril, St. Patrick's Catholic Church, Toronto – Canadá.

A predominância de tulipas em Toronto na primavera era algo lindo de se ver. Ele cumprimentava os convidados, que chegavam aos poucos. Lucas, ao seu lado, ria de seu nervosismo. A igreja estava ficando cheia, considerando que, quando deram a notícia, várias pessoas da família se assustaram e comentavam coisas do tipo: “São novos demais”, “Não dou um ano” “Ela está grávida?”. Todos que eles amavam estavam presentes na cerimônia, e isso já era suficiente. Lucas o avisou que era hora de entrar, o fazendo respirar fundo pela vigésima vez. Posicionou-se em seu lugar.
Todos os padrinhos entraram ao som de Marry You do Bruno Mars. E, em seguida, todos os convidados se levantaram quando Paradise ao som do Violino começou a soar, e apareceu vestida de noiva, acompanhada do pai. Ela estava inexplicavelmente linda.
O homem não conseguia segurar as lágrimas e, tampouco, a ansiedade em vê-la se aproximar. O sorriso de ambos descrevia o momento, e, quando ela finalmente foi entregue a ele, teve a certeza que a queria para o resto da vida.
- Estamos aqui para a celebração da união de Mendes e Teixeira. É de vossa livre e espontânea vontade; de todo coração, que pretendes fazer tais votos?
- Sim. – Ele a encarou, a fazendo sorrir ao terminar de responder.
- Seguindo todos os passos do matrimônio, prometem se amar e se respeitar, por toda vida?
- Sim, prometemos.
- Então, repita comigo, . – O padre proferiu as falas.
- Eu, Teixeira, recebo- te por minha esposa, a ti , e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. – o homem repetiu, colocando a aliança no dedo da mulher.
- Agora você, .
- Eu, Mendes, recebo-te por meu esposo, a ti , e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. – ela repetiu o ato, colocando a aliança no dedo anelar dele. - O que Deus uniu, o homem não separa. Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
E, ali, diante de toda uma igreja e do mundo, uniram-se. Ele esperava ama-la até o fim de suas vidas.


Fim do Flashback

Ela continuava respirando fortemente ao lado dele. Ele sabia que ela não havia dormido, só estava evitando qualquer tipo de conversa. Como era costume nos últimos meses.
- , está tudo bem?
- Está. Por quê?
- Acho que tínhamos conversar sobre algo.
- , isso não é hora.
- A hora era quando eu desmarquei todos meus compromissos e fiz um jantar em casa para conversarmos, mas você evitou tudo que eu tinha para te falar e ficou trabalhando até mais tarde.
- Eu não vou dispensar clientes por que tenho que conversar com você. Ou diria brigar pela milésima vez nessa semana?!
- Se precisamos conversar tantas vezes, é porque há algo a ser resolvido.
- Ou, talvez, não. – Resmungou, o fazendo respirar fundo. Sabia que a conversa acabava ali.



#2 I have loved you for many years; maybe I am just not enough

Olham-se, mas não se veem. A escuridão não é uma parede, mas o silêncio os imobiliza na busca da palavra maior. – Caio Fernando de Abreu

Acordou, travando os olhos ao ver o sol forte do lado de fora. No Canadá, o calor era raro de aparecer, mas, quando aparecia, beirava o insuportável. Já que o típico era as temperaturas baixas e o frio frequente, o sol, pela primeira vez em anos, o incomodou. O calor inconveniente lá fora, fazia com que ele percebesse que o frio só existia dentro dele. Era terça feira, apesar de ele querer que fosse final de semana, para não ter que enfrentar nada além de toda confusão diária e a situação com .
Olhou o relógio na cabeceira que marcava oito da manhã. Sua mulher provavelmente já havia saído, e ele iria encontrá-la somente à noite. Isso se encontrasse.
Ele agendou todas as consultas que havia desmarcado, da noite passada, para qualquer horário a partir das dez. Amava a profissão que havia escolhido. Pediatria. Adorava crianças e, cuidar delas de forma com que fosse útil de verdade, era gratificante.

(...)


Após tomar seu banho, trocou-se e saiu para o elevador do apartamento. Maldito elevador. Malditas lembranças, aliás. Já tinham vivido cenas quentes demais ali. E lembrar-se delas era torturante, porém, não conseguia evitar.

Flashback – Algum dia não memorizado. Pelo menos, não a data.

- Não vou aguentar até dentro de casa.
- Relaxa, amor. – ele sussurrou; isso só fez a situação esquentar e ficar mais tensa. Desceu as mãos até a barra do vestido e a subiu, deixando na altura das coxas, enquanto a outra mão encarregou-se de apertar o botão que parava o elevador. Acariciou o espaço interno da coxa da mulher, soltando um sorriso ao vê-la suspirar. Sem provocação ou nada do tipo, simplesmente se agachou na frente dela e colocou a calcinha para o lado, passando a língua nos lábios da mulher, fazendo-a gemer. Era prazeroso vê-la gritar o nome dele cada vez que gozava, e pretendia ouvir aquilo. Então, sem precisar de delicadeza, eram os dois. Eles se entendiam. O homem se levantou, abriu a própria calça, e a puxou para si, cruzando as pernas dela ao redor da cintura, preenchendo-a. Com força, carne na carne; o mais puro desejo insano. Ambos sabiam do que gostavam, sabiam que, aquilo, pele na pele, com força, rápido e sem delongas, era o jeito deles. Então, na mesma sintonia, ela gozou, sendo seguida por ele logo depois. – Ainda não acabei com você, mocinha.
- Eu espero que não mesmo. – Torceu, rindo e soltando o resto de ar que lhe restava. Ele só queria ter aquilo para o resto de seus dias.

Fim do flashback

(...)

Desceu do carro, exausto. No estacionamento do condomínio, havia concluído mais uma parte do teu dia, e agora lhe restava enfrentar a outra parte, a que vinha lhe causando dor de cabeça frequente nos últimos meses. Quem lhe trazia tanta felicidade, havia tomado sentido contrário, ficando cada vez mais complicado lidar com os fatos e com a situação. Observou que o carro de já estava na garagem. Foi em direção ao elevador, sabendo que, ou entraria e eles fingiriam não notar a presença um do outro, ou brigariam por algum assunto que resultaria em dormir em quartos separados.
Entrou pela porta do apartamento e notou o silêncio. Então foi até o quarto, disposto a um banho e relaxar. Precisava relaxar, por mais que soubesse ser impossível.
Uma mala.
Duas malas.
Uma bolsa.
A mulher saia do closet com suas peças. Ele não conseguiu controlar o que perguntaria; sabia o que era, entretanto, precisava ouvir dela mesma.
- O que você está fazendo?
- Dando um tempo.
- Fugindo.
- Dando. Um. Tempo. – falou pausadamente, como se explicasse algo para uma criança.
- Um tempo, ? Nós sabemos que isso não funciona.
- E o que diabos funciona, ?
- Conversar, colocar as cartas na mesa e tentar resolver o que nos tornamos.
- Nos tornamos um nada.
- Nós éramos tudo, . Tudo. E, de repente, tudo isso desceu ralo abaixo?
- Não foi de repente, foi uma série de fatores. Eu tento dizer todos os dias.
- Que coisas são essas que me diz sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer? Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de entender o que eu fiz pra isso acontecer. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma alegria em chegar sabendo que, sempre que pisar em casa, vai ser isso. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei?
- Se desequilibrou quando colocou sua base em mim, . A gente se amou demais, mas, agora, não dá mais. Eu preciso de um tempo, só peço isso. – Ela, então, fechou a última mala e saiu do quarto, fechando a porta. Tinha terminado. Porque, alguma coisa dentro de nós, sempre sabe exatamente quando termina. Como o carrinho da montanha-russa, naquele momento, lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção a quê? Depois de subidas e descidas, em direção àquele insuportável ponto seco de agora. Em direção ao incrível tempo que eu, com toda certeza, sabia que seria o fim.



#3 I have loved you for many years; maybe I am just not enough

Esperar dói. Esquecer dói… E, não saber se deve esperar ou esquecer, é a pior das dores. – Caio Fernando de Abreu

A manhã na clínica estava extremamente movimentava, na tentativa de distrair ao máximo a mente dele, para não pensar que, agora, estava oficialmente sozinho naquela casa. Apesar de parecer assim faz um bom tempo. Respirou fundo antes de seu próximo paciente entrar, e assustou-se ao encontrar a sua advogada parada na porta, pedindo licença.
- Doutor .
- Doutora Alice, o que te trás aqui? – A mulher hesitou ao notar que ele não sabia de nada que estava acontecendo, então, ao invés de responder, entregou-lhe um envelope. Ele o encarou e olhou pra mulher, erguendo a sobrancelha e abrindo em seguida.



PEDIDO DE DIVÓRCIO EM CARTÓRIO DOS FATOS E FUNDAMENTO

Rubens Mendes, Designer de Interiores. Natural de Toronto, Canadá, vem respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, com fulcro no artigo 226, parágrafo 6º da Constituição da República de 1988, e nos artigos 1.571 e seguintes da Lei nº 10.402/02 – Código Civil Canadense, assim como nos demais dispositivos legais pertinentes, formular o presente pedido de

DIVÓRCIO DIRETO CONSENSUAL

Os requerentes contraíram matrimonio civil, no dia (02 de abril de 2011), adotando o regime da comunhão parcial de bens (certidão de casamento em anexo).
O casal não possui filhos em comum.
Os requerentes encontram-se separados há três meses, não tendo chance alguma de reconciliação.




E ali, diante de sua advogada, encarou o papel perplexo, tendo em mente que era isso. Tinha acabado ali. Daquela forma; depois de tanto lutar pelo casamento, pelos dois. Ela simplesmente lhe enviava um pedido de divórcio em pleno horário de trabalho. De forma consensual? Depois de todas as brigas, de seis anos, de tudo que viveram. Ela, ao menos, dizia na frente dele que queria separar? No fundo, preferia pensar que tinha feito seu máximo; que a culpa podia ser da rotina, ou dela não querer mais. Afinal, tudo acaba se não é pra ser. A dor doía menos assim, embora não fosse exatamente uma dor. Mais um peso, um calafrio. Uma memória, uma vergonha, uma culpa, um arrependimento em que não se pode dar jeito.
- Doutor , perdão a insensibilidade, porém, preciso que assine, por favor.
- Tudo bem, Alice.
- Eu sinto muito.
- Não há pelo que sentir, está tudo bem. De qualquer forma, aqui está. – ele assinou e a entregou. – Peça para o próximo paciente entrar, por favor. – Independente de tudo que tinha acontecido, ele tinha que aceitar. Que tinha acabado ali. Da forma mais natural possível, da forma que nunca esperava. Havia acabado.
- , a audiência é amanhã.
- Ela quis ser rápida.
- Ela disse que isso pouparia dor. Para você.



#04 Broken trust and broken hearts

Não foi por causa das nossas muitas brigas ou diferenças, foi porque desistimos de ser aquilo que sempre fomos, não querendo estragar o que já tínhamos sido sem erro algum. E se isso vai te fazer feliz, então seja. Mas não vai ser comigo. - Caio Fernando de Abreu.

- Os lugares de assinatura e rubricas estão assinalados. – ele não a encarava. Sabia que ela o olhava, sabia que ela questionava o que ele pensava, ali, diante dela e dos advogados. - Os assinalados em vermelho são assinaturas e os em azul são rubricas. –Finalmente, direcionou os olhos para os dela, vendo que ela o fitava. Lembrou-se da noite passada, a última conversa.

Flashback.

Quando saia da clínica, encontrou parada na recepção. O silêncio permaneceu e ele a encarou, sem saber o que dizer.
- Você recebeu.
- Você pediu o divórcio.
- Eu precisava, . Nós precisávamos.
- E, me entregar um pedido de divórcio no trabalho, era a solução?
- Nós estávamos andando em círculos, sem que isso não nos levasse a nada.
- Então, é isso que você quer?
- Isso é o melhor.

Fim do flashback.

Sabia que aquele olhar era a resposta. Era o que ela queria. Então, ele simplesmente pegou o papel e assinou, em todos os lugares assinalados.
- É só isso? - Sim, . – A advogada respondeu, o fitando com o olhar cheio de pena.
- Tudo bem, obrigado. – Levantou-se e saiu.



#5 Make a change and breakaway

Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. - Caio Fernando de Abreu.

6 meses depois.

observou o dia começar a clarear da janela do apartamento novo e sorriu. Sorriu ao perceber que a felicidade havia batido em sua porta novamente; sorriu ao perceber que, diante de tantos acontecimentos, a felicidade só dependia de si mesmo. E a felicidade tomou conta de si quando se lembrou de ter encontrado ontem. Deram um breve aceno, perguntaram sobre a vida e desejaram-se sorte.
Porque a vida vai seguir, mas o que for bonito fica com toda a força, e, te mostra que, no fim, a felicidade só depende de si mesmo e, às vezes, não adianta insistir, não adianta lutar por algo que não é pra ser. Ele seria cada vez mais feliz, e ela também. Entretanto, não seriam felizes juntos.



Fim...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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