Capítulo Único

Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou.
Mas tenho muito tempo,
temos todo tempo do mundo.

– Meu filho deixe essa história de lado. – Pedia minha mãe. Se eu tivesse ouvido ela naquele exato momento, se eu não tivesse saído de casa naquele dia, eu não estaria com essa bala cravada em meu tórax, todo esse sangue manchando minha blusa branca, vozes ficando cada vez mais distantes com uma visão completamente turva. Se...

Quinze de agosto de mil novecentos e oitenta e quatro.

Negros, pobres, mulheres, homens e crianças todos aprisionados dentro de casa com medo dos militares, lutar por direitos ou expressar sua opinião chegava a ser uma idiotice a suicídio. Um país regido por uma ditadura que não nos dava nenhum direito, nenhum apoio. A fome, A! ela estava presente em muitos lares brasileiros. Operários fazendo greves, estudante com suas passeatas. Onde eu me encaixava ali, eu era um estudante negro de família classe média, algo um pouco incomum nesses tempos.
– O pessoal fez cartazes e faixas enormes para manifestação. – , minha namorada, comentava com a bochecha suja de tinta.
– Eu acho um tanto quanto perigoso. – Meu irmão mais novo se intrometia. – A opressão está forte lá fora.
– Não podemos deixar que eles desenhem como vai ser nosso futuro, que a liberdade de expressão vá até onde os agradam.
– Eu não falo de não lutarmos por nossos direitos. – Me olhou. – , a mamãe não vai gostar nada de saber que você vai as ruas.
– Eu preciso fazer algo. – Respondi. – Eu não quero que meus filhos nasçam nesses tempos.
– Então quer dizer que você pensa em ter uma família comigo. – se aproximou.
– É claro que penso. – Roubei um selinho. – Penso também em você vestida de noiva entrando pela porta da igreja toda linda. – A Beijei.
– O que mais você pensa sobre nós? – Perguntou.
– Eu vou embora, é muito doce para uma pessoa só ver. – A voz de meu irmão Ethan ecoou.
– Vai embora, seu chato. – respondeu colocando língua para o mesmo.
– Deixa eu ver sua faixa. – Falei.
– Não muda de assunto, .
– Eu tenho que ir para casa. – Peguei meu casaco, lhe dando um beijo na testa e me despedindo.
. – Chamou minha atenção.
– Velhinhos, com nossos filhos criados, longe de tudo isso. – Sorri e fechei a porta.

Casa dos .

– Ethan, eu te pedi para não contar para mamãe. – Ralei.
– Quer dizer que você não ia me dizer onde ia? – Perguntou brava.
– Não é isso, mãe. – Tentei contornar a situação. – A senhora não deixaria.
– E não vou deixar mesmo vocês irem. – Falou terminado de colocar a mesa.
– Mãe, eu irei, todo o pessoal estará lá com faixas, será pacifico.
– Pacifico para quem? – Perguntou. – Sabemos que não será.
– Preciso ir, combinei com a de encontrá-la. – Falei terminando de engolir um pedaço de pão.
– Outra sem juízo. – Resmungou.
– Mãe.
– Deixe o garoto, Barbara, ele é jovem, precisa fazer algo. – Meu pai se intrometeu.
– Estou indo nessa. – Avisei saindo da cozinha com minha mãe em meu encalço.
– Filho, por favor, não vai. – Segurou meu braço. – Ouça sua mãe.
– Logo estarei de volta. – Beijei sua testa.

Mais tarde.

– Acho que não foi uma boa ideia. – Carl dizia.
– O que exatamente? – Perguntei.
– Está tudo pacifico de mais, guardas parados em seus postos. – Falou analisando. – Com armas em frente o peito, isso não está me cheirando bem.
– Calma cara.
– Isso parece emboscada.
– Alguém está lendo muito livros de ação. – Zombou .
– NÃO, POR FAVOR, MISERICORDIA. – Alguém gritava.
, onde você vai? – Não respondi, tentando achar de onde vinha aquela voz. Segui com dificuldade, até ver uma moça negra caída no chão, segurando seu filho como se o protegesse, enquanto um dos guardas apontava a arma para criança.
– Deixe-a em paz. – Pedi me colocando na frente.
– Olha só, é só você ameaçar um que todo o bando aparece. – Debochou. – Irei fazer um favor para sociedade. – Destravou a arma. – Saia da frente moleque. – Tentou me empurrar. Tentei tirar aquela arma dele, entrando em uma luta de quem ficaria com a arma. – Solta essa arma. Rosnou.
– Fuja. – Gritei para mulher. E então, no meio daquela confusão, puxando aquela arma em minha direção, tendo apontá-la para o alto, um tiro foi solto. O guarda que o acompanhava me olhou assustando atirando em seguida. Então, sem entender nada, minhas pernas ficaram bambas, minha pele queimava.
Os minutos seguintes pareceram uma cena de filme em câmera lenta desde o momento que entrei na frente daquela mulher com a criança no colo. Em meio a todo aquele barulho, tiros, gritaria eu só sentia o gosto de sangue em meus lábios.
. – No fundo o berro de . – Fala comigo, por favor. – Me arrastei cambaleando até me apoiar em uma parede. Meu tórax queimava e minha mão estava ensanguentada. – , me responda, por favor. – Pedia desesperada. – ALGUÉM ME AJUDA.
– Eu não estou sentindo minhas pernas. – O gosto forte de sangue impregnava minha língua.
– Shi! Não fala nada. – Pediu.
Não chore esta noite, eu ainda amo você, querida. – Passei os dedos em seu rosto.
– Alguém me ajuda. – Soluçava. – Eu vou te salvar, , confie em mim.
. – Ethan berrava. – Ai meu Deus. – Segurou minha mão.
– Eu quero que você fale para mamãe que eu a amo muito, agradeço tudo que eles fizeram por mim. – Cuspi sangue.
– Ei, olha para mim. – Segurou meu rosto. – Você não vai morrer, você não vai a lugar algum, aguente firme. – Chorava. – UM MÉDICO POR FAVOR, ALGUÉM.
– Me desculpa. – Olhei para . – Eu não vou conseguir cumprir todo aquele sonho, e por favor, lembre-se que eu nunca menti, para sempre vou te amar. – Tossi.
– Não fale assim.
– Eu estou cada vez mais distante, meus braços estão dormentes, meus ouvidos estão com dificuldade e eu só enxergo turvo, me dê um sorriso. – Pedi. – Um sorriso de que tudo irá ficar bem. Existe um paraíso acima de você, querida e não chore esta noite.
– Eu te amo e para sempre irei te amar. – Falou. – Continuarei pensando em você e nos momentos que tivemos.
Dê-me um beijo antes de me dizer adeus. – Supliquei, logo em seguida sentindo seus lábios nos meus. E então tudo ficou turvo e escuro, todo aquele peso se tornou leve, eu estava indo embora, meu coração batia lentamente, batida por batida silenciosa. E então toda aquela luz branca apareceu me puxando para longe, dali só pude escutar o grito de minha mãe sem fazer nada.
, NÃO MEU FILHO NÃO. – O corpo caído ali naquele chão manchado por sangue, sangue de inúmeras pessoas, abraçado por aquela mulher que sempre o amou, desde o primeiro dia de vida.
– Adeus, . – E assim fechou seus olhos.

Nosso suor sagrado.
É bem mais belo que esse sangue amargo.






Fim.



Nota da autora: Sem nota.





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